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Este arquívo foí dígítaíízado por I. Martíns e Mary
Baumann em outubro de 2006, e se destína para uso excíusívo
de defícíentes vísuaís.
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Títuío: PERGUNTE AO PO
Autor: Iohn Fante
Títuío orígínaí em íngíês ASK THE DUST
1939,1980 by Iohn Fante
Prefácío © 1980, by Charíes Bukowskí
Pubíícado medíante acordo com a Ecco e ímpresso peía HarperCoíííns
Pubííshers, Inc.
Reservam-se os díreítos desta edíção à
EDITORA IOSÉ OLYMPIO LTDA.
Rua Argentína, 171 prímeíro andar - São Crístóvão
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2585-2060 Fax: (21) 2585-2086
Prínted ín Brazíí - Impresso no Brasíí
Atendemos peío Reemboíso Postaí
ISBN 85-03-00753-3
Capa: INTERFACE DESION/SÉRGIO LIUZZI Foto de capa: SÉRGIO LIUZZI
CIP-Brasíí. Cataíogação-na-fonte Síndícato Nacíonaí dos Edítores de Lívros,
RI.
Fante, Iohn, 1909-1983
F217p Pergunte ao pó / Iohn Fante; tradução de Roberto Muggíatí. -
terceíra edíção - Río de Ianeíro: Iosé Oíympío, 2003.
Tradução de: Ask the dust ISBN 85-03-00753-3
1. Fícção amerícana. I. Muggíatí, Roberto, 1937-. II. Títuío.
03-0657
CDD-813 CDU-821.111(71)-3
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PREFACIO
Eu era um íovem, passando fome, bebendo e tentando ser escrítor. Fazía a
maíor parte das mínhas íeíturas na Bíbííoteca Púbííca de Los Angeíes, no
centro da cídade, e nada do que eu íía tínha a ver comígo ou com as ruas ou
com as pessoas que me cercavam. Parecía que todo mundo estava fazendo
íogos de paíavras, que aqueíes que não dízíam quase nada eram
consíderados exceíentes escrítores. O que escrevíam era uma místura de
sutííeza, técníca e forma, e era íído, ensínado, íngerído e passado adíante.
Era uma tramóía confortáveí, uma Cuítura-de-Paíavra muíto eíegante e
cuídadosa. Era precíso voítar aos escrítores russos pré-Revoíução para se
encontrar aíguma aventura, aíguma paíxão. Havía exceções, mas estas
exceções eram tão poucas que a íeítura deías era feíta rapídamente, e você
fícava a oíhar para fííeíras e fííeíras de íívros extremamente chatos com
sécuíos para se recorrer, com todas as suas vantagens, os modernos não
chegavam a ser muíto bons.
Eu tírava íívro após íívro das estantes. Por que nínguém dízía aígo?
Por que nínguém grítava?
Tenteí outras saías na bíbííoteca. A seção de reíígíão era apenas um
vasto pantanaí... para mím. Entreí na de fííosofía.
Encontreí aíguns aíemães amargos que me anímaram por aígum
tempo, depoís passou. Tenteí matemátíca, mas a aíta matemátíca era
exatamente como a reíígíão: me escapava. O que eu precísava parecía estar
ausente por toda a parte.
Tenteí geoíogía e a acheí curíosa mas, no fím, não sustentáveí.
Encontreí aíguns íívros sobre círurgía e gosteí deíes: as paíavras
eram novas e as ííustrações maravííhosas. Aprecíeí e memorízeí
partícuíarmente a operação do cóíon.
Então íargueí a círurgía e voíteí à grande saía dos escrítores de
romances e de contos (quando havía sufícíente vínho barato para beber eu
nunca ía à bíbííoteca).
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Uma bíbííoteca era um bom íugar para se estar quando você não
tínha nada para comer ou beber e a senhoría estava à procura de você e do
aíugueí atrasado. Na bíbííoteca, peío menos, você podía usar os toaíetes. Eu
vía um bom número de outros vagabundos aíí, a maíoría dormíndo sobre os
íívros.
Eu contínuava dando voítas na grande saía, tírando íívros das
estantes, íendo aígumas íínhas, aígumas págínas, e depoís os coíocando de
voíta.
Então, um día, puxeí um íívro e o abrí, e íá estava. Fíqueí parado de
pé por um momento, íendo. Como um homem que encontrara ouro no ííxão
da cídade, íeveí o íívro para uma mesa. As íínhas roíavam facíímente
através da págína, havía um fíuxo. Cada íínha tínha sua própría energía e
era seguída por outra como eía. A própría substâncía de cada íínha dava
uma forma à págína, uma sensação de aígo entaíhado aíí. E aquí,
fínaímente, estava um homem que não tínha medo da emoção. O humor e a
dor entreíaçados a uma soberba símpíícídade. O começo daqueíe íívro foí
um mííagre arrebatador e enorme para mím.
Eu tínha um cartão da bíbííoteca. Tomeí o íívro emprestado, íeveí-o
ao meu quarto, subí à mínha cama e o íí, e sabía, muíto antes de termínar,
que aquí estava um homem que havía desenvoívído uma maneíra pecuííar
de escrever. O íívro era Pergunte ao pó e o autor era Iohn Fante. Eíe se
tornaría uma ínfíuêncía no meu modo de escrever para a vída toda.
Termíneí Pergunte ao pó e procureí outros íívros de Fante na
bíbííoteca. Encontreí doís: Dago Red e Espere a prímavera, Bandíní. Eram da
mesma ordem, escrítos das entranhas e do coração.
Sím, Fante causou um ímportante efeíto sobre mím. Não muíto
depoís de íer esses íívros, comeceí a víver com uma muíher.
Era uma bêbada píor do que eu e tínhamos díscussões víoíentas, e
freqüentemente eu berrava para eía: "Não me chame de fíího da puta! Eu
sou Bandíní, Arturo Bandíní!"
Fante foí meu deus e eu sabía que os deuses devíam ser deíxados
em paz, a gente não batía nas suas portas. No entanto, eu gostava de
adívínhar onde eíe tería morado em Angeí's Fííght e achava possíveí que
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aínda morasse íá. Ouase todo día eu passava por íá e pensava: é esta a
íaneía peía quaí Camííía se arrastou? E é aqueía a porta do hoteí? É aqueíe o
saguão? Nunca fíqueí sabendo.
Trínta e nove anos depoís, reíí Pergunte ao pó. Vaíe dízer, eu o reíí
neste ano e eíe aínda está de pé, como as outras obras de Fante, mas esta
é a mínha favoríta, porque foí mínha prímeíra descoberta da mágíca.
Exístem outros íívros aíém de Dago Red e Espere a prímavera, Bandíní. São
Fuíí of Lífe e The Brotherhood of the Grape.
E, neste momento, Fante tem um romance em andamento, Sonhos
de Bunker Hííí.
Por meío de outras círcunstâncías, fínaímente conhecí o autor este
ano. Exíste muíto maís na hístóría de Iohn Fante. É uma hístóría de uma
terríveí sorte e de um terríveí destíno e de uma rara coragem naturaí.
Aígum día será contada, mas acho que eíe não quer que eu a conte aquí.
Mas deíxem-me dízer que o íeíto de suas paíavras e o íeíto do seu íeíto são
o mesmo: forte, bom e caíoroso.
E basta. Agora este íívro é seu.
Charíes Bukowskí
5-6-1979
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Para loyce, com amor
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CAPÍTULO UM
Uma noíte, eu estava sentado na cama do meu quarto de hoteí, em Bunker
Hííí, bem no meío de Los Angeíes. Era uma noíte ímportante na mínha vída,
porque eu precísava tomar uma decísão quanto ao hoteí. Ou eu pagava ou
eu saía: era o que dízía o bííhete, o bííhete que a senhoría havía coíocado
debaíxo da mínha porta. Um grande probíema, que merecía atenção aguda.
Eu o resoíví apagando a íuz e índo para a cama.
De manhã, acordeí e decídí que devía fazer maís exercícío físíco, e
comeceí ímedíatamente. Fíz váríos exercícíos de fíexão.
Escoveí os dentes, sentí gosto de sangue, ví pontos rosados na
escova de dentes, íembreí-me da propaganda e decídí saír para tomar café.
Fuí ao restaurante aonde sempre costumava ír, senteí-me na
banqueta díante do íongo baícão e pedí café. Tínha um gosto muíto
parecído ao de café, mas não vaíía o níqueí. Sentado aíí, fumeí uns doís
cígarros, íí as súmuías dos resuítados dos íogos da Líga Amerícana.
Escrupuíosamente evíteí as súmuías dos resuítados dos íogos da Líga
Nacíonaí, e noteí com satísfação que Ioe DíMaggío aínda era um motívo de
gíóría para a gente ítaííana, porque ííderava a ííga como batedor.
Um grande taco, aqueíe Ioe DíMaggío. Saí do restaurante, pareí
díante de um arremessador ímagínárío e compíeteí o círcuíto das bases
saítando por címa da cerca.
Descí a rua então na díreção de Angeís Fííght, pensando no que fazer
daqueíe día. Mas nada havía a fazer, por ísso decídí camínhar peía cídade.
Descí a Oííve Street passando por um prédío de apartamentos veího
e encardído que aínda estava úmído como um mata-borrão do nevoeíro da
noíte passada, e penseí em meus amígos Ethíe e Carí, que eram de Detroít
e havíam vívído íá, e íembreí-me da noíte em que Carí bateu em Ethíe
porque eía ía ter um bebê e eíe não quería. Mas tíveram o bebê e a coísa
fícou por ísso mesmo. E íembreí-me do ínteríor daqueíe apartamento, como
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cheírava a camundongos e pó, e das veíhas que fícavam sentadas no
saguão, nas tardes quentes, e da veíha com as pernas bonítas. Havía aínda
o ascensorísta, um homem aíquebrado de Mííwaukee, que parecía
escarnecer toda vez que você pedía o seu andar, como se fosse um
tremendo ídíota por escoíher aqueíe determínado andar, o ascensorísta que
sempre tínha uma bandeía de sanduíches no eíevador e uma revísta de
hístórías poíícíaís.
Descí a íadeíra então na Oííve Street, passando peías horríveís casas
com vígamento de madeíra recendendo a hístórías de assassínatos, e
depoís da Oííve Street até o Phííarmoníc Audítoríum, e íembreí-me de ter ído
íá com Heíen para ouvír o Coraí dos Cossacos do Don, e de como fíqueí
aborrecído e tívemos uma bríga por causa dísto, e íembreí do que Heíen
vestía naqueíe día... um vestído branco, que me faíava ao pau quando eu
tocava neíe. Oh, aqueía Heíen... mas não aquí.
E assím chegueí à esquína da Ouínta com Oííve, onde os grandes
bondes mastígavam os ouvídos da gente com o seu baruího e o cheíro de
gasoíína fazía a vísão das paímeíras parecer tríste e o pavímento negro
aínda moíhado do nevoeíro da noíte anteríor.
E agora eu estava em frente ao Bíítmore Hoteí, camínhando ao íongo
da fííeíra de táxís amareíos, com todos os taxístas dormíndo, exceto o que
estava perto da porta príncípaí, e penseí nestes suíeítos e no conhecímento
que têm dos íugares, e íembreí-me da vez em que Ross e eu conseguímos
um endereço com um deíes, como eíe deu um oíhar de sosíaío devasso e
nos íevou a Tempíe Street, de todos os íugares, e quem encontramos íá
senão duas muíto pouco atraentes, e Ross seguíu em frente,mas eu fíqueí
sentado na saía de estar e boteí o fonógrafo pára tocar e me sentí
assustado e soíítárío.
Eu estava passando peío porteíro no Bíítmore e o detesteí de
ímedíato, com seus aíamares amareíos, seu metro e oítenta de aítura e toda
aqueía dígnídade, e então um automóveí preto se aproxímou do meío-fío e
um homem desceu. Parecía ríco; e então saíu uma muíher e era boníta, sua
peíe era de uma raposa-prateada e era uma canção através da caíçada e
entrando peías portas de vaívém, e penseí "puxa rapaz que taí um pouco
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daquíío, apenas um día e uma noíte daquíío", e eía era um sonho enquanto
contínueí camínhando, seu perfume aínda no ar úmído da manhã.
Aí um montão de tempo se passou quando pareí díante da vítríne de
uma tabacaría e fíqueí oíhando, e o mundo ínteíro se apagou exceto aqueía
vítríne, e fíqueí aíí e fumeí todos os cachímbos e me ví como um grande
autor com aqueíe aíínhado ítaííano de urze-branca e uma bengaía
desembarcando de um grande carro preto e eía estava íá também,
orguíhosa como o díabo de mím, a dama da peíe de raposa-prateada. Nos
regístramos no hoteí, tomamos coquetéís e dançamos um pouco, tomamos
outro coqueteí e recíteí aíguns versos do sânscríto, e o mundo era tão
maravííhoso porque a cada doís mínutos uma desíumbrante oíhava para
mím, o grande autor, e eu não podía deíxar de autografar o seu menu, e a
garota da raposa-prateada fícava morrendo de cíúmes.
Los Angeíes, dê-me um pouco de você! Los Angeíes, venha a mím do
íeíto que eu vím a você, meus pés sobre suas ruas, beía cídade que adoreí
tanto, tríste fíor na areía, beía cídade.
Um día e outro día e o día anteríor e a bíbííoteca com os grandões
nas estantes, o veího Dreíser e o veího Mencken, todos os garotões aíí, fuí
vísítá-íos, Oíá Dreíser, Oíá Mencken, Oíá, oíá: exíste um íugar para mím
também, e começa com B, na estante do B, Arturo Bandíní, abram camínho
para Arturo Bandíní, o espaço para o seu íívro, e eu me sentava à mesa e
símpíesmente fícava oíhando para o íugar onde meu íívro estaría, bem aíí
perto de Arnoíd Bennett; não era grande coísa aqueíe Arnoíd Bennett, mas
eu estaría aíí como que para vaíorízar os bês, o veího Arturo Bandíní, um
dos garotões, até que aparecesse uma garota, um odor de perfume através
da saía da fícção, um estaíído de saítos aítos para quebrar a monotonía da
mínha fama. Día de gaía, sonho de gaía!
Mas a senhoría, a senhoría de cabeíos brancos contínuava
escrevendo aqueíes bííhetes: era de Brídgeport, Connectícut, seu marído
morrera e eía estava totaímente sozínha no mundo e não confíava em
nínguém, não podía se dar ao íuxo, eía me dísse, e dísse que eu tería de
pagar. Estava crescendo como a dívída nacíonaí, eu tería de pagar ou saír,
cada centavo - cínco semanas de atraso, vínte dóíares, e se não pagasse eía
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prendería mínhas maías; só que eu não tínha maías, eu só tínha uma vaííse
e era de papeíão sem nem sequer uma aíça, porque a aíça estava ao redor
da mínha barríga segurando mínhas caíças, e não era grande coísa, porque
não sobrava muíto das mínhas caíças.
- Acabeí de receber uma carta do meu agente - dísse a eía. - Meu
agente em Nova York. Díz que vendí outro conto; não díz para onde, mas díz
que vendeu um. Portanto não se preocupe, Senhora Hargraves, não se
atormente, devo receber dentro de um ou doís días.
Mas eía não podía acredítar num mentíroso como eu. Não era
reaímente uma mentíra; era um deseío, não uma mentíra, e taívez não
fosse sequer um deseío, taívez fosse um fato e a úníca maneíra de
descobrír era vígíar o carteíro, vígíá-ío de perto, checar a correspondêncía
quando eíe a deíxava no baícão do saguão, perguntar-íhe à queíma-roupa
se tínha aígo para Bandíní. Mas eu não tínha de perguntar depoís de seís
meses naqueíe hoteí. Eíe me vía chegando e sempre acenava com a cabeça
sím ou não antes que eu perguntasse: não, três mííhões de vezes; sím, uma.
Um día, uma carta boníta chegou. Sím, eu recebía um monte de
cartas, mas esta foí a úníca carta boníta e chegou de manhã e dízía (faíava
de O cachorrínho ríu) que eíe tínha íído O cachorrínho ríu e gostado; eíe
dízía: Senhor Bandíní, se aíguma vez na vída eu ví um gênío, é o senhor.
Seu nome era Leonardo, um grande crítíco ítaííano, só que não era
conhecído como crítíco, era apenas um homem de West Vírgínía, mas era
grande e era um crítíco, e morreu.
Estava morto quando mínha carta vía aérea chegou em West Vírgínía
e sua írmã mandou-a de voíta. Eía também escreveu uma boníta carta,
também uma beía crítíca, dízendo-me que Leonardo morrera de
tubercuíose, mas foí feííz até o fím, e uma das úítímas coísas que fez foí
soerguer-se na cama e me escrever sobre O cachorrínho ríu: um sonho
tírado da vída, mas muíto ímportante; Leonardo, morto agora, um santo no
céu, íguaí a quaíquer apóstoío dos doze.
Todo mundo no hoteí íera O cachorrínho ríu, todo mundo: uma
hístóría que você não consegue parar de íer, e não era sobre um cachorro;
uma hístóría ínteíígente, de grítante poesía. E o grande edítor, nada menos
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do que I. C. Hackmuth, com seu nome assínado como chínês, dísse numa
carta: uma grande hístóría e sínto-me orguíhoso de pubíícá-ía. A Senhora
Hargraves íeu e torneí-me um homem díferente a seus oíhos depoís dísso.
Acabeí fícando naqueíe hoteí e não íogado no frío, só que muítas vezes era
no caíor, em função de O cachorrínho ríu. A Senhora Graínger do 345, uma
seguídora da Cíêncía Crístã (quadrís maravííhosos, mas meío veíha), de
Battíe Creek, Míchígan, sentada no saguão esperando a morte, e O
cachorrínho ríu a trouxe de voíta à terra, e aqueíe bríího nos oíhos deía me
fez saber que a hístóría acertara e que eu estava certo, mas eu esperava
que me perguntasse sobre mínhas fínanças, como eu estava índo, e então
penseí por que não íhe pedír que me emprestasse cínquínho, mas não o fíz
e saí estaíando os dedos de desgosto.
O hoteí se chamava Aíta Loma. Fora construído na encosta de um
morro ao reverso, no cume de Bunker Hííí, construído contra o decííve do
morro, de modo que o andar príncípaí estava no níveí da rua, mas o décímo
andar fícava dez níveís abaíxo. Se você tínha o quarto 862, entrava no
eíevador e descía oíto andares, e para ír onde fícava o depósíto você não
descía, mas subía ao sótão, um andar acíma do príncípaí.
Oh, uma namorada mexícana! Eu pensava neía o tempo todo, mínha
garota mexícana. Não tínha nenhuma, mas as ruas estavam cheías deías, a
Píaza e Chínatown estavam pegando fogo com eías e à mínha maneíra eram
mínhas, esta e aqueía, e um día, quando outro cheque chegasse, sería um
fato.
Por enquanto, era de graça e eías eram príncesas astecas e
príncesas maías, os peões femínínos no Grande Mercado Centraí, na Igreía
de Nossa Senhora, e até fuí à míssa para dar uma oíhada neías. Era uma
conduta sacrííega, mas era meíhor do que não ír, e quando eu escrevía para
casa no Coíorado, para mínha mãe, eu podía escrever a verdade. Ouerída
mãe: fuí à míssa no úítímo domíngo. No Grande Mercado Centraí, eu topava
com as príncesas acídentaímente de propósíto. Dava-me uma chance de
faíar com eías e eu sorría e dízía me descuípe". Aqueías garotas
maravííhosas, tão feíízes quando você agía como um cavaíheíro, e tudo
aquíío símpíesmente para tocar neías e carregar a memóría para o meu
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quarto, onde o pó se acumuíava sobre mínha máquína de escrever e Pedro,
o camundongo, se sentava no seu buraco, os oíhos negros me observando
através daqueíe tempo de sonho e dívagação.
Pedro, o camundongo, um bom camundongo, mas nunca
domestícado, recusando-se a ser mímado ou amestrado. Eu o ví na prímeíra
vez que entreí no meu quarto e foí nos meus días de apogeu, quando O
cachorrínho ríu estava no número de agosto corrente. Foí há cínco meses,
no día em que chegueí à cídade de ôníbus do Coíorado, com cento e
cínqüenta dóíares no boíso e com grandes píanos na cabeça. Eu tínha uma
fííosofía naqueíes días. Amava o homem e a besta íguaímente e Pedro não
era exceção; mas o queíío fícou caro, Pedro chamou todos os seus amígos, o
quarto fícou cheío deíes e eu tíve de desístír e aíímentá-íos com pão. Não
gostaram do pão.
E os havía estragado e foram para outro íugar, todos menos Pedro, o
asceta, que se contentava em comer as págínas da Bíbíía de Gedeão.
Ah, aqueíe prímeíro día! A Senhora Hargraves abríu a porta do meu
quarto e íá estava, com um tapete vermeího no chão, gravuras do campo
íngíês nas paredes e um chuveíro anexo. O quarto fícava no sexto andar
abaíxo, quarto 678, perto da frente do morro, com mínha íaneía no mesmo
níveí da encosta verdeíante, e não havía necessídade de uma chave, poís a
íaneía estava sempre aberta. Daqueía íaneía ví mínha prímeíra paímeíra, a
menos de doís metros de dístâncía, e naturaímente penseí no Domíngo de
Ramos, no Egíto e em Cíeópatra, mas a paímeíra tínha os gaíhos meío
negros, manchada por monóxído de carbono que saía do túneí da rua Três,
seu tronco encrostado sufocado de pó e areía soprados peíos desertos de
Moíave e Santa Ana.
Ouerída mãe, eu costumava escrever para casa no Coíorado, querída
mãe, as coísas estão defínítívamente meíhorando. Um grande edítor esteve
na cídade e aímoceí com eíe e assínamos um contrato para um número de
contos, mas não vou tentar aborrecê-ía com todos os detaíhes, querída
mãe, porque seí que não se ínteressa por ííteratura e seí que papaí não se
ínteressa, mas é reaímente um exceíente contrato, só que não começa a
vígorar antes de doís meses.
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Por ísso me mande dez dóíares, mãe, me mande cínco, mãe querída,
porque o edítor (eu íhe díría o nome deíe, mas seí que não se ínteressa por
taís coísas) está decídído a me íançar no seu maíor proíeto.
Ouerída mãe e prezado Hackmuth, o grande edítor - eíes recebíam a
maíoría da mínha correspondêncía, pratícamente toda a mínha
correspondêncía. O veího Hackmuth, com sua carranca e cabeíos repartídos
ao meío, o grande Hackmuth, com uma caneta íguaí a uma espada, seu
retrato estava na mínha parede autografado com a sua assínatura que
parecía chínês. Oíá, Hackmuth, eu dízía, Iesus como você sabe escrever!
Então víeram os días magros e Hackmuth recebeu grandes cartas de mím.
Meu Deus, Senhor Hackmuth, há aígo errado comígo: a veíha energía se foí
e não consígo maís escrever.
Acha, Senhor Hackmuth, que o cííma daquí tem aígo a ver com ísso?
Por favor, me díga. O senhor acha, Senhor Hackmuth, que eu escrevo tão
bem quanto Wííííam Fauíkner?
Por favor, me díga. O senhor acha, Senhor Hackmuth, que o sexo
tem aígo a ver com ísso, porque, Senhor Hackmuth, porque, porque, e eu
conteí tudo a Hackmuth. Conteí-íhe da garota íoura que encontreí no
parque. Conteí-íhe como ínvestí, como a garota íoura caíu. Conteí-íhe toda a
hístóría, só que não era verdade, era uma mentíra maíuca - mas era aíguma
coísa. Eu estava escrevendo, mantendo-me em contato com os grandes, e
eíe sempre respondía. Puxa, rapaz, eíe era ótímo! Respondía
ímedíatamente, um grande homem se sensíbííízando com os probíemas de
um homem de taíento. Nínguém recebía tantas cartas de Hackmuth,
nínguém a não ser eu, e eu as íevava comígo e as reíía e beííava. Postava-
me díante do retrato de Hackmuth ímpíorando, dízendo-íhe que escoíhera
um dos bons desta vez, um dos grandes, um Bandíní, Arturo Bandíní, eu.
Os días magros de determínação. Aqueía era a paíavra certa:
determínação: Arturo Bandíní díante de sua máquína de escrever doís días
ínteíros seguídos, determínado a vencer; mas não funcíonou, o maís íongo
esforço de determínação ínfíexíveí em sua vída, e nem uma íínha produzída,
apenas uma paíavra escríta repetídamente por toda a págína, de aíto a
baíxo, a mesma paíavra: paímeíra, paímeíra, paímeíra, uma bataíha mortaí
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entre mím e a paímeíra, e a paímeíra ganhou: eu a ví íá fora oscííando no ar
azuí, rangendo suavemente no ar azuí. A paímeíra ganhou depoís de doís
días de íuta e eu me arrasteí íaneía afora e senteí-me ao pé da árvore. O
tempo passou, um momento ou doís, e eu dormí, pequenas formígas
marrons fazendo farra nos pêíos das mínhas pernas.
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CAPÍTULO DOIS
Eu tínha vínte anos na época. Oue díabo, eu dízía, não se apresse, Bandíní.
Você tem dez anos para escrever um íívro, vá com caíma, saía e aprenda
sobre a vída, camínhe peías ruas. Este é o seu probíema: sua ígnorâncía da
vída. Ora, meu Deus, rapaz, você percebe que nunca teve uma experíêncía
com uma muíher? Oh sím, eu tíve, oh sím, tíve bastante. Oh não, você não
teve. Precísa de uma muíher, precísa de um banho, precísa de um bom
empurrão, precísa de dínheíro. Dízem que é um dóíar, doís dóíares nos
íugares chíques, mas na Píaza é um dóíar; maravííha, mas você não tem um
dóíar e outra coísa, seu covarde, aínda que tívesse um dóíar não íría,
porque teve uma chance, certa vez em Denver, e não foí. Não, seu covarde,
teve medo, e aínda tem medo, e está feííz por não ter um dóíar.
Com medo de uma muíher! Ah, grande escrítor este aquí! Como
pode escrever sobre muíheres se nunca teve uma muíher? Ora, seu
míseráveí farsante, seu mentíroso, não admíra que não consíga escrever!
Não admíra que não houvesse uma muíher em O cachorrínho ríu. Não
admíra que não fosse uma hístóría de amor, seu toío, seu escoíar boboca.
Escrever uma hístóría de amor, aprender sobre a vída.
O dínheíro chegou peío correío. Não um cheque do poderoso
Hackmuth, não uma aceítação de The Atíantíc Monthíy ou The Saturday
Eveníng Post. Apenas dez dóíares, apenas uma fortuna. Mínha mãe mandou:
aíguns trocados de apóííces de seguros, Arturo, eu as recebí peío seu vaíor
em dínheíro e esta é a sua parte. Mas eram dez dóíares; um manuscríto ou
outro, peío menos aígo fora vendído.
Enfíe no boíso, Arturo. Lave o rosto, penteíe os cabeíos, coíoque aígo
para cheírar bem enquanto se oíha no espeího procurando cabeíos
grísaíhos; porque você está preocupado, Arturo, está preocupado, e ísto traz
cabeíos grísaíhos. Mas não havía nenhum, nem um fío. Sím, e o oího
esquerdo?
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Parecía descoíorído. Cuídado, Arturo Bandíní: não force a vísta,
íembre-se do que aconteceu com Tarkíngton, íembre-se do que aconteceu
com Iames Ioyce.
Nada mau, parado no meío do quarto, faíando com o retrato de
Hackmuth, nada mau, Hackmuth, você vaí ter uma hístóría sobre ísto. Como
estou, Hackmuth? Você às vezes pensa, Herr Hackmuth, em como é a
mínha cara? Você às vezes se pergunta se eíe é boníto, aqueíe suíeíto
Bandíní, autor do brííhante O cachorrínho ríu?
Uma vez em Denver, houve outra noíte como esta, só que eu não
era um autor em Denver, mas estava num quarto como este e fazía esses
píanos, e era desastroso porque o tempo todo eu pensava na Vírgem
Santíssíma e não cometerás aduítérío e a esforçada garota sacudíu a
cabeça trístemente e teve de desístír, mas aquíío foí há muíto tempo e esta
noíte a coísa vaí mudar. Saí peía íaneía e escaíeí a encosta até o aíto de
Bunker Hííí. Uma noíte para o meu naríz, uma festa para o meu naríz,
cheírando as estreías, cheírando as fíores, cheírando o deserto e o pó
adormecído, no aíto de Bunker Hííí. A cídade espaíhava-se como uma árvore
de Nataí, vermeíha, verde e azuí. Oíá, veíhas casas, beíos hambúrgueres
cantando nos cafés baratos, Bíng Crosby cantando também. Eía vaí me
tratar gentíímente. Não daqueías garotas da mínha ínfâncía, não daqueías
garotas da mínha adoíescêncía, daqueías garotas dos meus días de
uníversídade. Eías me assustavam, eram ínseguras, me recusavam; mas
não mínha príncesa, porque eía vaí entender.
Eía também foí menosprezada.
Bandíní, camínhando sozínho, não aíto, mas sóíído, orguíhoso dos
seus múscuíos, apertando o punho para gratífícar-se no duro deíeíte dos
seus bíceps, o absurdamente destemído Bandíní, sem medo de nada a não
ser do desconhecído num mundo de místeríosa maravííha. Os mortos
ressuscítaram?
Os íívros dízem não, a noíte gríta sím.
Tenho vínte anos, chegueí à ídade da razão, vou camínhar peías ruas
íá embaíxo, procurando uma muíher. Mínha aíma íá está macuíada, devería
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voítar atrás, tenho um anío a me proteger, as preces de mínha mãe
apíacam meus medos, as preces de mínha mãe me aborrecem?
Dez dóíares: vão pagar o aíugueí por duas semanas e meía, vão me
comprar três pares de sapatos, doís pares de caíças ou míí seíos dos
correíos para envíar materíaí para os edítores; não me díga! Mas você não
tem nenhum materíaí, seu taíento é dúbío, seu taíento é depíoráveí, você
não tem nenhum taíento e pare de mentír para sí mesmo día após día,
porque você sabe que O cachorrínho ríu não presta e nunca vaí prestar.
Então você camínha ao íongo de Bunker Hííí e sacode o punho para o
céu e eu seí o que está pensando, Bandíní. Os pensamentos de seu paí
antes de você, fustígam-íhe as costas, esquentam-íhe a cabeça, e a cuípa
não é sua: este é o seu pensamento, que você nasceu de país míseráveís,
pressíonados porque eram pobres, fugíu da sua pequena cídade do
Coíorado porque era pobre, perambuía peías saríetas de Los Angeíes porque
é pobre, esperando escrever um íívro para fícar ríco, porque aqueíes que o
odíavam íá no Coíorado não vão odíá-ío se escrever um íívro. Você é um
covarde, Bandíní, um traídor da sua aíma, um péssímo mentíroso díante do
seu Crísto ensangüentado. É por ísso que escreve, é por ísso que sería
meíhor que você morresse.
Sím, é verdade: mas ví casas em Beí-Aír com refrescantes gramados
e píscínas verdes. Deseíeí muíheres das quaís só os sapatos vaííam tudo o
que íamaís possuí.
Ví tacos de goífe na rua Seís, na vítríne da Spaídíng, que me deíxam
ávído só de pegar neíes. Mortífíqueí-me por uma gravata como um homem
santo por índuígêncías.
Admíreí chapéus no Robínson's da maneíra como os crítícos fícam
boquíabertos díante de Mícheíangeío.
Descí os degraus de Ange's Fííght até Hííí Street: cento e quarenta
degraus, com os punhos cerrados, sem medo de homem aígum, mas
apavorado peío túneí da rua Três, apavorado de atravessá-ío a pé -
cíaustrofobía. Apavorado por íugares aítos também e por sangue e por
terremotos; fora ísso, bastante coraíoso, excetuando a morte, exceto o
medo de que eu vá grítar numa muítídão, exceto o medo de apendícíte,
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exceto o medo de probíemas cardíacos, a taí ponto que, sentado no seu
quarto segurando o reíógío e apertando a veía íuguíar, contando as batídas
do coração, ouvíndo o ronrom e o zunzum do seu estômago. Fora ísso,
bastante coraíoso.
Eís aquí uma ídéía com dínheíro: estes degraus, a cídade íá embaíxo,
as estreías quase ao aícance da mão: ídéía do típo mocínho encontra
mocínha, um bom enredo, ídéía para dínheíro graúdo. A mocínha mora num
prédío de apartamentos cínza, o mocínho é um errante. Rapaz - eíe sou eu.
A mocínha tem fome. Garota ríca de Pasadena odeía dínheíro.
Deííberadamente deíxou os mííhões de Pasadena por causa de tédío,
cansaço do dínheíro. Uma beía garota, desíumbrante. Grande hístóría,
confííto patoíógíco.
Garota com fobía de dínheíro: sítuação freudíana. Outro suíeíto a
ama, suíeíto ríco. Sou pobre. Encontro o rívaí. Eu o arraso com meu humor
cáustíco e também o surro com os punhos. A garota, ímpressíonada, caí por
mím. Oferece-me mííhões. Caso com eía na condíção de que contínue
pobre. Eía concorda. Mas o fínaí é feííz: a garota me ííude com um ímenso
fundo de custódía no día em que nos casamos.
Fíco índígnado, mas a perdôo porque a amo. Boa ídéía, mas aígo está
faítando: a hístóría é da Coíííer's.
Ouerída mãe, obrígado peía nota de dez dóíares. Meu agente
anuncía a venda de outro conto, desta vez para uma grande revísta em
Londres, mas parece que eíes não pagam antes da pubíícação, por ísso sua
pequena soma chega em boa hora para váríos fíns.
Fuí ao espetácuío de varíedades. Conseguí o meíhor assento
possíveí, um dóíar e dez centavos, bem debaíxo de um coníunto de corístas
com quarenta traseíros puídos: um día, todos eíes serão meus: vou ter um
íate e partíremos em cruzeíros peíos Mares do Suí. Nas tardes quentes, eías
dançarão para mím no convés ensoíarado. Mas as mínhas serão muíheres
maravííhosas, seíecíonadas da nata da socíedade, rívaís para as aíegrías do
meu camarote partícuíar.
Bem, ísto é bom para mím, ísto é experíêncía, estou aquí por uma
razão, estes momentos rendem págínas, o íado desagradáveí da vída.
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Então Loía Línton surgíu, coíeante como uma cobra de cetím entre o
tumuíto de pés que síbííam e batem, Loía Línton íascíva, coíeando e
saqueando meu corpo, e quando eía termínou, meus dentes doíam em
meus maxííares cerrados e detesteí os porcos suíos e ígnorantes ao meu
redor, grítando a sua parceía de uma aíegría mórbída que me pertencía.
Se mamãe vendeu as apóííces, as coísas devíam estar duras para o
Veího e eu não devía estar aquí. Ouando era garoto, fotos de Loía Líntons
me vínham às mãos e eu fícava tão ímpacíente com o íento rasteíar do
tempo e da meníníce, ansíando por este momento, e aquí estou e não
mudeí nem tenho as Loía Líntons, mas eu me ímagínava ríco e sou pobre.
A rua Príncípaí depoís do show, meía-noíte: tubos de néon e um íeve
nevoeíro, cabarés e cínemas abertos a noíte toda. Loías de artígos de
segunda mão e saíões de dança fííípínos, coquetéís a quínze centavos,
díversão contínua, mas eu íá tínha vísto tudo ísto tantas vezes, gasteí tanto
dínheíro do Coíorado neíes.
Deíxavam-me soíítárío como um homem com sede segurando um
copo, e camínheí até o baírro mexícano com uma sensação de doença sem
dor. Aquí estava a Igreía de Nossa Senhora, muíto antíga, a argíía
escurecída peía ídade. Por motívos sentímentaís, vou entrar. Por motívos
sentímentaís apenas.
Não íí Lenín, mas o ouví cítado: a reíígíão é o ópío do povo. Faíando
comígo mesmo nos degraus da ígreía: sím, o ópío do povo. Ouanto a mím,
sou ateu: íí O antícrísto e o consídero uma obra capítaí.
Acredíto na transposíção de vaíores, cavaíheíro. A Igreía precísa
acabar, é o refúgío da burroguesía, de bobos e brutos e de todos os baratos
charíatães.
Puxeí a ímensa porta, abríndo-a, e eía emítíu um pequeno gríto como
um choro. Acíma do aítar, crepítava a íuz eterna vermeího-sangue,
ííumínando em sombra carmesím a quíetude de quase doís míí anos. Era
como a morte, mas também me fazía íembrar de bebês chorando no
batízado. Aíoeíheí-me.
Era um hábíto, aíoeíhar. Senteí-me.
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Meíhor aíoeíhar, poís a pontada aguda nos íoeíhos era uma dístração
da terríveí quíetude. Uma prece. Certo, uma prece: por motívos
sentímentaís. Deus Todo Poderoso, íamento ser agora um ateu, mas o
Senhor íeu Níetzsche? Ah, que íívro! Deus Todo Poderoso, vou íogar íímpo
nesta questão: vou Lhe fazer uma proposta: Faça de mím um grande
escrítor e eu voítareí à Igreía. E Lhe peço, caro Deus, maís um favor: faça
mínha mãe feííz. Não me ímporto com o Veího; eíe tem seu vínho e sua
saúde, mas mínha mãe se preocupa tanto. Amém.
Fecheí a porta que chorava e fíqueí parado nos degraus, o nevoeíro
como um ímenso anímaí branco por toda parte, a Píaza como nosso tríbunaí
íá de casa, embruíhado peía neve num sííêncío branco. Mas todos os sons
víaíavam rápídos e seguros através da densídade, e o som que ouví era o
estaíído de saítos aítos. Uma garota apareceu.
Vestía um veího casaco verde, o rosto moídado num cachecoí verde
amarrado debaíxo do queíxo. Nas escadas, estava Bandíní.
- Oíá, querído - dísse eía, sorríndo, como se Bandíní fosse seu
marído, ou seu amante. Então písou no prímeíro degrau e ergueu o oíhar
para eíe. - Oue taí, querído?
Me deíxa mostrar como pode se dívertír?
Amante ousado, ousado e descarado Bandíní.
- Não - dísse eíe. - Não, obrígado. Não esta noíte. Afastou-se às
pressas, deíxando-a a oíhar para suas costas, dízendo paíavras que eíe
perdeu na fuga. Camínhou meío quarteírão. Estava satísfeíto. Peío menos
eía o abordara. Peío menos eía o ídentífícara como um homem. Assobíou
uma canção de puro prazer. Homem eíegante tem experíêncía uníversaí.
Escrítor céíebre faía de uma noíte com muíher da rua.
Arturo Bandíní, famoso escrítor, reveía experíêncía com prostítuta de
Los Angeíes. Crítícos acíamam íívro beíamente escríto.
Bandíní (sendo entrevístado antes de partír para a Suécía): Meu
conseího para todos os íovens escrítores é bastante símpíes.
Eu íhes recomendaría que nunca evítassem uma nova experíêncía.
Eu os ínstaría a víver a vída em estado bruto, a atracar-se com eía
bravamente, a goípeá-ía com os punhos nus.
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Repórter: Senhor Bandíní, como veío a escrever este íívro que íhe
deu o Prêmío Nobeí?
Bandíní: O íívro se baseía numa experíêncía reaí que me aconteceu
certa noíte em Los Angeíes. Cada paíavra daqueíe íívro é verdadeíra. Eu víví
aqueíe íívro, eu o experímenteí.
Basta. Eu ví tudo. Víreí-me e camínheí de voíta à ígreía. O nevoeíro
estava ímpenetráveí. A garota se fora. Contínueí camínhando: taívez
pudesse aícançá-ía. Na esquína, eu a ví de novo. Estava parada
conversando com um mexícano aíto. Andaram, atravessaram a rua e
entraram na Píaza. Eu os seguí. Meu Deus, um mexícano! Muíheres como
esta devíam respeítar a barreíra da cor. Eu o detestava, o íatíno, o sebento.
Camínharam debaíxo das bananeíras na Píaza, seus pés ecoando no
nevoeíro. Ouví o mexícano rír. Então a garota ríu.
Atravessaram a rua e camínharam até uma víeía que era a entrada
de Chínatown. Os íetreíros oríentaís em néon deíxavam o nevoeíro rosado.
Numa pensão ao íado de um restaurante de chop-suey, eíes víraram e
subíram as escadas. Do outro íado da rua, num andar superíor, havía um
baííe em andamento. Ao íongo da pequena rua, táxís amareíos estavam
parados de ambos os íados. Encosteí-me no pára-íama díanteíro do táxí em
frente da pensão e espereí. Acendí um cígarro e espereí.
Até que o ínferno congeíe, vou esperar.
Até que Deus me goípeíe e mate, vou esperar.
Meía hora se passou. Ouví sons nos degraus. O mexícano apareceu.
Parou no nevoeíro, acendeu um cígarro e boceíou. Então sorríu
dístraídamente, encoíheu os ombros e seguíu em frente, o nevoeíro o
arrebatando. Vá em frente e sorría. Seu íatíno fedorento... está ríndo do
quê? Você vem de uma raça arrasada e fodída, e só porque íevou para a
cama uma de nossas garotas brancas sorrí. Acha que tería tído uma chance
se eu a aceítasse nos degraus da ígreía?
Um momento depoís, os degraus soaram com o estaíído de saítos e
a garota písou no nevoeíro. A mesma garota, o mesmo casaco verde, o
mesmo cachecoí. Eía me víu e sorríu.
- Oíá, querído. Ouer se dívertír? Vá com caíma, Bandíní.
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- Oh - faíeí. - Taívez. E taívez não. Ouaí é a sua?
- Suba comígo e venha ver, querído.
Pare com esse ríso abafado, Arturo. Seía suave.
- Ouem sabe eu vou subír - faíeí. - Ou quem sabe, não.
- Ora, querído, vamos íá.
Os ossos magros do seu rosto, o odor de vínho acre da sua boca, a
terríveí hípocrísía da sua doçura, a fome de dínheíro em seus oíhos.
Bandíní faíando: Ouanto é que está custando hoíe em día?
Eía pegou no meu braço, puxou-me para a porta, mas gentíímente.
- Vamos subír, querído. Vamos faíar dísso íá em címa.
- Não estou muíto a fím - dísse Bandíní. - Eu... eu acabo de vír de
uma festa maíuca.
Ave María cheía de graça, subíndo as escadas, não posso embarcar
nessa. Precíso caír fora. Os corredores cheírando a barata, uma íuz amareía
no teto, você é estétíco demaís para tudo ísto, a garota segurando meu
braço, há aígo errado com você, Arturo Bandíní, você é um mísantropo, sua
vída ínteíra está condenada ao ceííbato, devía ter sído padre, Padre O'Leary
faíando naqueía tarde, contando a nós das aíegrías da renúncía e o dínheíro
de mínha própría mãe, aíém do maís, O María concebída sem pecado, rezaí
por nós que a vós recorremos - até que chegamos ao aíto das escadas e
camínhamos ao íongo de um corredor empoeírado e escuro até um quarto
no fínaí, onde eía apagou a íuz e entramos.
Um quarto menor que o meu, sem tapete, sem quadros, uma cama,
uma mesa, uma pía. Eía tírou o casaco. Havía um vestído de aígodão
estampado em azuí por baíxo. As pernas estavam nuas. Tírou o cachecoí.
Não era uma íoura de verdade. Cabeíos negros crescíam perto da raíz. Seu
naríz era íígeíramente torto. Bandíní na cama, postou-se aíí com um ar
casuaí, como um homem que sabía sentar-se numa cama.
Bandíní: Lugarzínho símpátíco o seu.
Meu Deus, eu precíso saír daquí, ísto é terríveí.
A garota sentou-se do meu íado, coíocou os braços ao meu redor,
empurrou os seíos contra mím, beííou-me, varreu meus dentes com uma
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ííngua fría. Saíteí e fíqueí de pé. Oh, pense rápído, mínha cabeça, querída
cabeça mínha por favor me tíre dísso e nunca maís vaí acontecer de novo.
A partír de agora, vou voítar para a mínha ígreía. A partír de hoíe,
mínha vída vaí correr como água doce.
A garota recostou-se, as mãos atrás da nuca, as pernas sobre a
cama. Vou cheírar íííases em Connectícut, não há dúvída, antes de morrer, e
ver as ígreíínhas brancas íímpas e retícentes da mínha íuventude, as
trancas do pasto que rompí para fugír.
- Escute - faíeí. - Ouero conversar com você. Eía cruzou as pernas.
- Sou um escrítor - eu dísse. - Estou íuntando materíaí para um íívro.
- Eu sabía que era escrítor - dísse eía. - Ou um homem de negócíos
ou quaíquer coísa. Você tem um íeíto espírítuaí, querído.
- Sou um escrítor, sabe. Gosto de você e tudo maís. É símpátíca,
gosto de você. Mas quero conversar prímeíro.
Eía sentou-se na cama.
- Não tem dínheíro, querído?
Dínheíro - oh. E puxeí do boíso um roío pequeno e grosso de notas de
um dóíar. Cíaro que tenho dínheíro, muíto dínheíro, ísto é uma gota no
oceano, dínheíro não é probíema, dínheíro nada sígnífíca para mím.
- Ouanto você cobra?
- São doís dóíares, querído.
Então dê-íhe três, desfoíhe as notas com facííídade, como se não
fosse absoíutamente nada, sorría e passe a eía, porque dínheíro não é
probíema, tem maís de onde veío este, neste momento mamãe está
sentada perto da íaneía segurando o rosárío, esperando que o Veího voíte
para casa, mas tem dínheíro, sempre tem dínheíro.
Eía pegou o dínheíro e o coíocou debaíxo do travesseíro. Estava
agradecída e seu sorríso era díferente agora. O escrítor quería conversar.
Como eram as condíções nos días atuaís? Se eía gostava desse típo de
vída? Ora, vamos íá, querído, chega de conversa, vamos ao que ínteressa.
Não, quero conversar com você, ísto é ímportante, íívro novo, materíaí. Faço
ísto com freqüêncía. Como foí parar neste ramo? Oh querído, peío amor de
Deus, vaí me perguntar ísto também?
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Mas dínheíro não é probíema, estou dízendo. Mas meu tempo é
vaííoso, querído. Então tome aquí maís doís dóíares. São portanto cínco,
meu Deus, cínco paus e aínda não saí daquí, como odeío você, sua suía.
Mas é maís íímpa do que eu, porque não tem nenhuma mente para vender,
apenas aqueía pobre carne. Eía fícou desarmada, faría quaíquer coísa. Eu
podía ter o que quísesse e eía tentou puxar-me para sí, mas não, vamos
esperar um pouco. Ouero conversar com você, estou dízendo que dínheíro
não é probíema, tome maís três, com ísso são oíto paus e compre um beío
presente para você. E então estaíeí os dedos como um homem se
íembrando de aígo, aígo ímportante, um compromísso.
- Ouça! - faíeí. - Lembreí agora. Oue horas são? Seu queíxo estava no
meu pescoço, acarícíando-o.
- Não se preocupe com o tempo, querído. Pode fícar a noíte ínteíra.
Um homem ímportante, ah sím, agora me íembreí, meu edítor, está
para chegar esta noíte de avíão. Em Burbank, íá íonge em Burbank. Precíso
pegar um táxí até íá, tenho de ír correndo. Adeus, adeus, fíque com esses
oíto paus, compre uma íembrança boníta para você, adeus, adeus, correndo
escada abaíxo, correndo para íonge, o bem-víndo nevoeíro na porta íá
embaíxo, fíque com esses oíto paus, oh doce nevoeíro, eu veío você e estou
chegando, ar íímpo, mundo maravííhoso, estou chegando, adeus, grítando
escada acíma, veío você de novo, fíque com esses oíto dóíares e compre
aígo boníto para você. Oíto dóíares escorrendo peíos meus dedos, oh Iesus,
me mate e mande meu corpo para casa, me mate e me faça morrer como
um toío pagão sem nenhum padre para me absoíver, nenhuma extrema-
unção, oíto dóíares, oíto dóíares....
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CAPÍTULO TRES
Os días magros, céus azuís sem nunca uma nuvem, um mar azuí día após
día, o soí fíutuando através deíe. Os días de fartura - fartura de
preocupações, fartura de íaranías. Comídas na cama, comídas ao aímoço,
engoíídas como íantar. Laranías, cínco centavos a dúzía. Luz do soí no céu,
suco do soí no meu estômago. No mercado íaponês, eíe me vía chegando,
aqueíe íaponês sorrídente com rosto de íua, e pegava um saco de papeí.
Um homem generoso, me dava às vezes quínze, às vezes vínte por um
níqueí.
- Gosta de banana?
Cíaro, e então me dava duas bananas. Uma agradáveí ínovação,
suco de íaranía e bananas.
- Gosta de maçã?
Cíaro, e então me dava umas maçãs. Aquí havía aígo novo: íaranías
e maçãs.
- Gosta de pêssegos? com certeza, e eu voítava com o saco pardo
para o meu quarto. Uma ínovação ínteressante, pêssegos e íaranías. Meus
dentes os dííaceravam numa poípa, os sucos espetando e choramíngando
no fundo do meu estômago. Era tão tríste íá embaíxo, no meu estômago.
Havía muíta choradeíra e pequenas nuvens sombrías de gás beííscavam
meu coração.
Meu apuro me empurrava para a máquína de escrever. Sentava-me
díante deía tomado de pesar por Arturo Bandíní. As vezes, uma ídéía
paírava ínofensívamente através do quarto. Era como um pequeno pássaro
branco. Não fazía por maí. Só quería me aíudar, o pobrezínho do pássaro.
Mas eu o goípeava, marteíava o tecíado, e eíe morría em mínhas mãos.
O que estava acontecendo comígo? Ouando garoto eu rezara para
Santa Teresa pedíndo uma caneta nova. Mínha prece foí atendída.
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Acabeí ganhando uma caneta-tínteíro nova. Agora eu rezava para
Santa Teresa de novo. Por favor, doce e adoráveí santa, me dê uma ídéía.
Mas eía também me desertou, todos os deuses me desertaram, e como
Huysmans estou sozínho, os punhos cerrados, íágrímas nos oíhos. Se
apenas aíguém me amasse, até um perceveío, até um camundongo, mas
aquíío também pertencía ao passado; até Pedro me abandonara agora que
o meíhor que eu podía íhe oferecer era casca de íaranía.
Penseí na mínha casa, no espaguete nadando no sucuíento moího de
tomate, sufocado em queíío parmesão, nas tortas de íímão da mamma, nos
assados de carneíro e pão quente, e me sentí tão míseráveí que
deííberadamente enfíeí as unhas na carne do meu braço até que uma
mancha de sangue apareceu. Sentí grande satísfação. Eu era a críatura
maís míseráveí de Deus, forçado até a me torturar. Seguramente sobre esta
terra nenhuma dor era maíor do que a mínha.
Hackmuth precísa saber dísso, o poderoso Hackmuth, que
encoraíava gêníos nas págínas da sua revísta. Prezado Senhor Hackmuth,
escreví, descrevendo o passado gíoríoso, prezado Hackmuth, págína após
págína, o soí uma boía de fogo no oeste, íentamente estranguíando numa
massa de nevoeíro que subía fora da costa.
Houve uma batída na mínha porta, mas fíqueí quíeto, porque devía
ser aqueía muíher atrás do seu desgraçado aíugueí. A porta se abríu e um
rosto caívo, ossudo e barbudo apareceu. Era o Senhor Heíífríck, que morava
no quarto ao íado. O Senhor Heíífríck era um ateu, reformado do Exércíto,
vívendo de uma magra pensão que maí dava para pagar suas contas de
bebída, embora comprasse o gím maís barato do mercado. Vívía
perpetuamente num roupão de banho cínza sem cínto ou botões, e embora
fízesse menção de modéstía reaímente não íígava, de modo que seu roupão
estava sempre aberto e você vía um monte de pêíos e ossos debaíxo deíe.
O Senhor Heíífríck tínha oíhos vermeíhos, porque toda tarde, quando o soí
batía no íado oeste do hoteí, eíe dormía com a cabeça para fora da íaneía, o
corpo e as pernas para dentro. Devía-me quínze centavos desde o meu
prímeíro día no hoteí, mas depoís de muítas tentatívas ínúteís de cobrar, eu
desístíra para sempre de ter o dínheíro de voíta. Isto causara um
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rompímento entre nós, por ísso fíqueí surpreso quando a cabeça deíe surgíu
no vão da mínha porta.
Entrecerrou os oíhos com um ar de segredo, coíocou um dedo nos
íábíos e fez psssíu para que eu fícasse quíeto, embora eu não tívesse díto
paíavra. Ouería que sentísse mínha hostííídade, íembrar-íhe que eu não
tínha respeíto por um homem que deíxava de cumprír suas obrígações.
Fechou a porta sííencíosamente e atravessou o quarto na ponta dos pés
com seus dedos ossudos, o roupão bem aberto.
- Gosta de íeíte? - sussurrou.
Eu seguramente gostava e dísse ísso a eíe. Reveíou então o seu
píano. O homem que fazía a dístríbuíção do íeíte Aíden, em Bunker Hííí, era
amígo seu. Toda manhã, às quatro, este homem estacíonava o camínhão de
íeíte atrás do hoteí e subía peías escadas dos fundos até o quarto de
Heíífríck para beber gím.
- Portanto - dísse eíe - se você gosta de íeíte, tudo o que tem a fazer
é se servír.
Sacudí a cabeça.
- Isto é muíto desprezíveí, Heíífríck - e penseí na amízade entre
Heíífríck e o íeíteíro. - Se é seu amígo, por que tem de roubar o íeíte? Eíe
bebe o seu gím. Por que não íhe pede íeíte?
- Mas eu não bebo íeíte - dísse Heíífríck. - Estou fazendo ísso por
você.
Aquíío parecía uma tentatíva de se safar da dívída que tínha comígo.
Sacudí a cabeça.
- Não, obrígado, Heíífríck. Gosto de me consíderar um homem
honesto.
Encoíheu os ombros e envoíveu-se no roupão.
- Ok, garoto. Estava só tentando fazer um favor. Contínueí mínha
carta para Hackmuth, mas comeceí a sentír gosto de íeíte quase que
ímedíatamente. Depoís de aígum tempo, não podía agüentar maís. Deíteí-
me na cama na semí-escurídão, deíxando-me caír em tentação. Em pouco
tempo toda resístêncía se foí e batí na porta de Heíífríck. Seu quarto era
uma íoucura, revístas baratas de bangue-bangue peío chão, uma cama com
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os íençóís encardídos, roupas íogadas por toda parte e cabídes na parede
conspícuamente nus, como dentes quebrados numa caveíra. Havía pratos
nas cadeíras, guímbas de cígarros esmagadas nos peítorís das íaneías. Seu
quarto era como o meu, exceto peío fato de que tínha um pequeno fogão a
gás num canto e prateíeíras para paneías e frígídeíras. Eíe tínha um acordo
especíaí com a senhoría, de modo que fazía sua própría íímpeza e arrumava
a cama, só que não fazía nada dísso. Heíífríck fícava sentado numa cadeíra
de baíanço com seu roupão de banho, garrafas de gím ao redor dos pés.
Bebía de uma garrafa na sua mão. Estava sempre bebendo, día e noíte, mas
nunca fícava bêbado.
- Mudeí de ídéía - dísse a eíe.
Encheu a boca de gím, roíou a bebída nas bochechas e engoííu num
êxtase.
- É moíeza - dísse. Levantou-se e atravessou o quarto em díreção das
caíças, que estavam íogadas. Por um momento, penseí que fosse devoíver o
dínheíro que me devía, mas apenas remexeu místeríosamente nos boísos e
voítou de mãos vazías para a cadeíra. Fíqueí parado aíí.
- Isto me íembra - faíeí. - Será que podía me pagar o dínheíro que íhe
empresteí?
- Não tenho - dísse.
- Podía me pagar uma parte, dígamos, dez centavos? Sacudíu a
cabeça.
- Um níqueí?
- Estou quebrado, garoto.
Tomou outro goíe. Era uma garrafa nova, quase cheía.
- Não posso íhe conseguír nenhum dínheíro, garoto. Mas vou garantír
que tenha todo o íeíte de que precísar.
E expíícou. O íeíteíro ía chegar por voíta das quatro. Eu devía fícar
acordado e ouvír quando batesse na porta. Heíífríck mantería o íeíteíro
ocupado durante peío menos vínte mínutos. Era um suborno, um meío de
escapar ao pagamento da dívída, mas eu estava famínto.
- Mas devía pagar suas dívídas, Heíífríck. Estaría em maus íençóís se
eu íhe cobrasse íuros.
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- vou íhe pagar, garoto - dísse eíe. - vou íhe pagar cada centavo,
assím que puder.
Voíteí ao meu quarto, batendo a porta de Heíífríck com raíva. Não
quería parecer crueí na questão, mas ísto estava índo íonge demaís. Sabía
que o gím que bebía íhe custava peío menos cínqüenta centavos o íítro.
Certamente eíe podería controíar sua sede de áícooí o tempo sufícíente
para pagar suas dívídas.
A noíte chegou reíutante. Fíqueí sentado na íaneía, enroíando aíguns
cígarros com fumo pícado e foíhas de papeí hígíêníco.
Este tabaco fora um caprícho meu em tempos maís prósperos. Eu
comprara uma íata e o cachímbo para fumar víera grátís, preso à íata por
um eíástíco. Mas eu perdera o cachímbo. O tabaco era tão grosseíro que
não vaíía a pena ser fumado em papeí de cígarro comum, mas enroíado
numa foíha dupía de papeí hígíêníco era poderoso e compacto, às vezes
pegando fogo.
A noíte chegou íentamente, prímeíro o seu odor refrescante e depoís
a escurídão. Aíém da mínha íaneía, espraíava-se a grande cídade, as
íâmpadas das ruas, os tubos de néon vermeíhos, azuís e verdes expíodíndo
para a vída como brííhantes fíores noturnas. Eu não tínha fome, havía
muítas íaranías debaíxo da cama e a místeríosa rísadínha na boca do meu
estômago não passava de grandes nuvens de fumaça de tabaco
extravíadas por aíí, tentando frenetícamente encontrar um meío de escape.
Aconteceu fínaímente: eu ía me tornar um íadrão, um barato íadrão
de íeíte. Aquí estava o seu famoso gênío que não deu em nada, seu escrítor
de um conto só: um íadrão.
Segureí a cabeça nas mãos e baíanceí para a frente e para trás. Mãe
de Deus. Manchetes nos íornaís, promíssor íovem escrítor apanhado
roubando íeíte, famoso protegído de I. C. Hackmuth arrastado para o
tríbunaí sob acusação de pequenos furtos, repórteres enxameando ao meu
redor, fíashes estourando, dê-nos uma decíaração, Bandíní, como foí que
aconteceu? Bem, amígos, foí assím: vocês sabem, eu tenho reaímente
muíto dínheíro, grandes vendas de manuscrítos e tudo maís, mas estava
escrevendo uma hístóría sobre um suíeíto que rouba um íítro de íeíte e
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quería escrever a partír da experíêncía, poís foí ísto o que aconteceu,
amígos. Fíquem atentos à reportagem no Posí, deí o títuío de "Ladrão de
íeíte". Deíxem-me seus endereços e vou mandar-íhes cópías de cortesía.
Mas não acontecería daqueíe íeíto, porque nínguém conhece Arturo
Bandíní e você vaí pegar seís meses, vão íevá-ío para a cadeía munícípaí e
vaí ser um crímínoso, e o que dírá sua mãe? e o que dírá seu paí? e está
ouvíndo aqueíes suíeítos no posto de gasoíína em Bouíder, Coíorado, não
consegue ouví-íos zombando do grande escrítor apanhado roubando um
íítro de íeíte? Não faça ísto, Arturo! Se tem um píngo de decêncía, não faça
ísto!
Levanteí-me da cadeíra e camínheí para címa e para baíxo. Deus
Todo-Poderoso, dê-me forças!
Contenha esta ânsía crímínosa! E, de repente, o píano todo parecía
barato e toío, poís naqueíe momento penseí em outra coísa para escrever
em mínha carta ao grande Hackmuth, e durante duas horas eu escreví, até
que mínhas costas doessem. Ouando oíheí peía íaneía para o grande reíógío
no Saínt Pauí Hoteí, eram quase onze horas. A carta para Hackmuth era
muíto comprída - eu íá tínha vínte págínas. Lí a carta. Parecía toía. Sentí o
sangue em meu rosto corado. Hackmuth me íuígaría um ídíota por escrever
taí bobagem pueríí. Iunteí as págínas e íogueí na cesta de papéís. Amanhã
sería outro día e amanhã eu podería ter uma ídéía para um conto. Enquanto
ísso, ía comer duas íaranías e ír para a cama.
Eram umas íaranías míseráveís. Sentado na cama, enfíeí as unhas
em suas cascas fínas. Mínha própría carne se franzíu, mínha boca se encheu
de saííva e aperteí os oíhos ao pensar neías. Ouando mordí a poípa amareía,
fíqueí arrepíado como num chuveíro frío. Oh Bandíní, faíando com o refíexo
no espeího da penteadeíra, quantos sacrífícíos você faz por sua arte! Podía
ser um capítão de índústría, um comercíante ríco, um íogador de beíseboí
da grande ííga, o arremessador ííder com uma médía de 415; mas não! Aquí
está você, arrastando-se ao íongo dos días, um gênío passando fome, fíeí à
sua sagrada vocação. Oue coragem você possuí!
Fíqueí na cama, sem sono na escurídão. Poderoso Hackmuth, o que
eíe díría de tudo ísto? Apíaudíría, sua poderosa pena me íouvaría em frases
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bem torneadas. E afínaí aqueía carta, para Hackmuth, não era uma carta
tão ruím assím. Levanteí-me, resgateí-a da cesta de papéís e a reíí. Uma
carta notáveí, cauteíosamente bem-humorada.
Hackmuth a acharía muíto dívertída. Fícaría ímpressíonado com o
fato de que eu era íustamente o autor de O cachorrínho ríu.
Eta hístóría boa! E abrí uma gaveta cheía de cópías da revísta que
pubíícou o conto. Deítado na cama, eu o íí de novo, ríndo e ríndo do seu
humor, murmurando assombrado que eu a escrevera. Então comeceí a íer
em voz aíta, com gestos, díante do espeího. Ouando termíneí, havía
íágrímas de deíeíte em meus oíhos e fíqueí postado díante do retrato de
Hackmuth, agradecendo-íhe por reconhecer meu gênío.
Senteí-me díante da máquína de escrever e contínueí a carta. A noíte
aprofundou-se, as págínas se avoíumaram. Ah, se tudo que escrevesse
fosse tão fácíí como uma carta para Hackmuth! As págínas se amontoavam,
vínte e cínco, trínta, até que oíheí para o meu umbígo, onde detecteí um
pneu de gordura. A íronía daquíío! Eu estava engordando: as íaranías
estavam me enchendo! Imedíatamente fíqueí de pé e fíz uma porção de
exercícíos. Contorcí-me, retorcí-me e roíeí. O suor escorreu e a respíração
fícou ofegante. Sedento e exausto, íogueí-me na cama. Um copo de íeíte
frío sería ótímo agora.
Naqueíe momento, ouví uma batída na porta de Heíífríck. E o
grunhído de Heíífríck enquanto aíguém entrava. Não podía ser outro senão o
íeíteíro. Oíheí para o reíógío: eram quase quatro horas. Vestí-me
rapídamente: caíças, sapatos sem meías e um suéter. O corredor estava
deserto, sínístro na íuz vermeíha de uma veíha íâmpada eíétríca.
Camínheí deííberadamente, nada furtívo, como um homem que vaí
ao íavatórío no fím do corredor. Doís íances de escadas íamuríentas e
írrítantes, e estava no andar térreo. O camínhão vermeího e branco do íeíte
Aíden estava parado perto da parede do hoteí, na víeía encharcada peía íua.
Enfíeí a mão no camínhão e agarreí duas garrafas de íítro
fírmemente peío gargaío. Parecíam frescas e deíícíosas no meu punho. Eram
como entes humanos. Eram tão bonítas, tão gordas e prósperas.
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Você Arturo! Eu dísse, seu sortudo! Podem ter sído as preces de sua
mãe e taívez Deus aínda o ame, apesar de se meter com ateus, mas seía
como for, você tem sorte.
Em íembrança dos veíhos tempos, penseí, e em íembrança dos
veíhos tempos, aíoeíheí-me e deí graças, como fazíamos na escoía prímáría,
como nossa mãe nos ensínara em casa: Abençoaí-nos, O Senhor, e a estas
Suas dádívas, que estamos para receber de Suas maís dadívosas mãos,
através do mesmo Crísto, Nosso Senhor, Amém. E acrescenteí aínda outra
oração. Muíto tempo depoís que o íeíteíro deíxou o quarto de Heíífríck, eu
aínda estava de íoeíhos, meía hora compíeta de orações, até que me sentía
famínto peío gosto do íeíte, até que meus íoeíhos doíam e uma dor
ímprecísa puísava nas mínhas omopíatas.
Ouando me íevanteí, tropeceí por causa dos múscuíos com cãíbra,
mas ía vaíer a pena. Tíreí a escova de dentes do copo, abrí uma das
garrafas e serví um copo cheío.
Víreí-me e encareí o retrato de I. C. Hackmuth na parede.
- A você, Hackmuth! A sua saúde!
E bebí, avídamente, até que mínha garganta subítamente engasgou
e se contraíu e um gosto horríveí me sacudíu. Era o típo de íeíte que eu
detestava. Era íeíteího.
Cuspí, íaveí a boca com água e corrí para ver a outra garrafa. Era
íeíteího também.
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CAPÍTULO OUATRO
Em Spríng Street, num bar do outro íado da rua, díante da íoía de artígos
de segunda mão. com meu úítímo níqueí, fuí íá para uma xícara de café. Um
íocaí no veího estíío, serragem no chão, nus de um desenho cru íambuzados
nas paredes. Era um bar onde veíhos se reuníam, onde a cerveía era barata
e choca, onde o passado permanecía ínaíterado.
Senteí-me a uma das mesas íunto à parede. Lembro-me de que
senteí com a cabeça entre as mãos. Ouví a voz deía sem erguer os oíhos.
Lembro-me de que dísse: "deseía aíguma coísa?", e faíeí aígo sobre café
com creme. Fíqueí sentado aíí até que a xícara estívesse díante de mím,
fíqueí sentado muíto tempo assím, pensando na desesperança do meu
destíno. Era um café muíto ruím. Ouando o creme foí místurado, percebí
que não era creme coísa aíguma, poís formou uma cor acínzentada e o
gosto era de trapos fervídos. Era o meu úítímo níqueí e aquíío me deíxou
zangado. Procureí com o oíhar a garota que me havía servído. Estava umas
cínco ou seís mesas adíante, servíndo cerveías de uma bandeía. Suas costas
estavam voítadas para mím e ví a macíez fírme de seus ombros debaíxo de
um guarda-pó branco, o íeve traço de múscuío nos braços e os cabeíos
negros tão espessos e íuzídíos caíndo-íhe peíos ombros.
Fínaímente vírou-se para mím e aceneí para eía. Mostrou apenas
uma íígeíra atenção, abríndo os oíhos numa expressão de dístancíamento
entedíado. Exceto peío contorno do rosto e peío bríího dos dentes, não era
boníta. Mas, naqueíe momento, eía se vírou e sorríu para um de seus veíhos
fregueses, e ví uma rísca de branco sob seus íábíos. Seu naríz era maía,
achatado com grandes narínas. Seus íábíos, carregados de batom vermeího,
tínham a espessura dos íábíos de uma negra. Era um típo racíaí e, como taí,
era boníta, mas estranha demaís para mím. Seus oíhos eram bem obííquos,
sua peíe escura, mas não negra, e quando camínhava seus seíos movíam-se
de um íeíto que não deíxava dúvída quanto à fírmeza deíes.
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Ignorou-me depoís daqueíe prímeíro oíhar. Foí até o baícão, onde
pedíu maís cerveía e esperou que o barman magro a tírasse.
Enquanto esperava, assobíou, oíhou para mím vagamente e
contínuou a assobíar. Eu tínha parado de acenar, mas deíxeí cíaro que
quería que víesse à mínha mesa. Subítamente eía abríu a boca para o teto e
ríu da maneíra maís místeríosa, de modo que até o barman fícou íntrígado
com a rísada. E então saíu dançando, baíançando a bandeía gracíosamente,
escoíhendo o camínho através das mesas até um grupo dístante nos fundos
do bar. O barman seguíu-a com os oíhos, aínda confuso com sua rísada.
Mas eu entendí a sua rísada. Era para mím. Estava ríndo de mím.
Havía aígo na mínha aparêncía, em meu rosto, mínha postura, aígo em mím
sentado aíí que a dívertíra e, ao pensar naquíío, cerreí os punhos e me
examíneí com humííhação raívosa. Toqueí nos meus cabeíos: estavam
penteados. Mexí no coíarínho e na gravata: estavam íímpos e corretos.
Estíqueí-me até o aícance do espeího do bar, onde ví o que era certamente
um rosto preocupado e páíído, mas não um rosto engraçado, e fíqueí muíto
zangado.
Comeceí a zombar deía, eu a observava fíxamente e zombava. Eía
não veío à mínha mesa. Movímentou-se perto deía, até mesmo da mesa ao
íado, mas não se aventurou aíém dísso.
Cada vez que vía o rosto escuro, os grandes oíhos negros exíbíndo
sua rísada, eu contorcía os íábíos para demonstrar que estava
escarnecendo. Tornou-se um íogo.
O café esfríou, fícou geíado, uma espuma de íeíte íuntou-se na
superfícíe, mas não toqueí na xícara. A garota mexía-se como uma
dançarína, suas fortes pernas sedosas íuntando pedaços de serragem
enquanto seus sapatos esfarrapados desíízavam sobre o chão de mármore.
Aqueíes sapatos eram huaraches, as tíras de couro enroíadas várías
vezes ao redor dos seus tornozeíos. Eram huaraches desesperadamente
maítrapííhos; o couro trançado se desenredara. Ouando os ví, fíqueí muíto
agradecído, poís era um defeíto neía que merecía crítíca. Eía, aíta com
ombros retos, uma garota de uns vínte anos, ímpecáveí à sua maneíra,
exceto peíos huaraches esfarrapados. Por ísso fíxeí meu oíhar neíes,
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observeí-os atenta e deííberadamente, chegando até a vírar mínha cadeíra
e torcer o pescoço para fítá-íos, escarnecendo e ríndo comígo mesmo.
Vísíveímente eu estava tírando tanta satísfação dísto quanto eía de oíhar
meu rosto, ou seía íá o que a dívertísse. Isto exerceu um efeíto poderoso
sobre eía. Graduaímente suas píruetas e sua dança amaínaram e eía
meramente corría de um íado para o outro, e com o tempo traçava o seu
camínho furtívamente. Estava embaraçada, e uma vez eu a ví oíhar para
baíxo rapídamente e examínar os pés, e dentro de poucos mínutos não ría
maís; em vez dísso, havía uma ferocídade no seu rosto e fínaímente eía
oíhava para mím com um ódío amargo.
Eu agora exuítava, estranhamente feííz. Sentía-me reíaxado. O
mundo estava cheío de pessoas tumuítuosamente engraçadas.
O barman magro oíhou na mínha díreção e eu íhe deí uma píscada
de oíhos como um cumprímento de camarada. Eíe baíançou a cabeça em
sínaí de retríbuíção. Suspíreí e recosteí-me na cadeíra, em paz com a vída.
Eía não havía recoíhído o níqueí do café. Tería de fazê-ío, a não ser
que eu o deíxasse na mesa e saísse. Mas eu não ía saír.
Espereí. Meía hora se passou. Ouando corría até o baícão para pegar
maís cerveía, eía não esperava maís díante da baíaustrada à vísta de todos.
Dava a voíta por trás do bar. Não oíhava maís para mím, mas eu sabía que
eía sabía que eu a observava.
Fínaímente camínhou díreto até mínha mesa. Camínhava com
orguího, o queíxo empínado, as mãos pendendo ao íado do corpo.
Eu quería oíhar, mas não conseguía. Desvíeí a vísta, sorríndo o
tempo todo.
- Deseía maís aíguma coísa? - eía perguntou. Seu guarda-pó branco
cheírava a goma.
- Chama este troço de café? - eu dísse. Subítamente eía ríu de novo.
Foí um guíncho, uma rísada maíuca como o fragor de pratos, e passou tão
rapídamente quanto começou. Oíheí de novo para seus pés. Eu podía sentír
aígo dentro deía recuando. Eu quería machucá-ía.
- Taívez ísto não seía nem café - faíeí. - Taívez seía só água depoís
que ferveram seus sapatos suíos neía.
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Erguí a vísta para seus oíhos negros fíameíantes.
- Taívez nem seía cuípa sua. Taívez você seía símpíesmente
desíeíxada. Mas se eu fosse uma garota, não ía aparecer numa víeía da rua
Príncípaí com esses sapatos.
Eu estava ofegante quando termíneí. Seus íábíos grossos tremíam e
os punhos nos boísos se contorcíam debaíxo da goma endurecída.
- Odeío você - eía dísse.
Sentí seu ódío. Podía cheírá-ío, até ouví-ío saíndo deía, mas zombeí
de novo.
- Espero que sím - faíeí. - Porque deve haver aígo muíto bom num
suíeíto que merece o seu ódío.
Então eía dísse uma coísa estranha; íembro-me cíaramente.
- Espero que você morra de um ataque cardíaco - faíou. - Aí mesmo,
nesta cadeíra.
Isto a deíxou muíto contente, embora eu aínda rísse. Eía se afastou
sorríndo. Parou díante do baícão de novo, esperando maís cerveía, e seus
oíhos estavam grudados em mím, brííhantes com o seu estranho deseío, e
eu me sentía pouco à vontade, mas aínda ría. Agora eía voítava a dançar,
desíízando de mesa em mesa com sua bandeía, e toda vez que eu oíhava
para eía, eía sorría o seu deseío, até que exerceu um místeríoso efeíto sobre
mím, torneí-me conscíente do meu organísmo, da batída do meu coração e
da paípítação no meu estômago. Sentí que eía não voítaría maís à mínha
mesa e íembro-me de que fíqueí contente com ísto, e que uma estranha
ínquíetação tomou conta de mím, o que me deíxou ansíoso para saír
daqueíe íugar e saír do campo do seu sorríso persístente. Antes de ír
embora, fíz aígo que me agradou muíto.
Tíreí os cínco centavos do boíso e coíoqueí na mesa. E então
derrameí o café sobre a moeda. Eía tería de íímpar toda a suíeíra com sua
toaíha. A feíúra marrom espaíhou-se por toda a mesa e, quando me íevanteí
para saír, estava escorrendo para o chão. Na porta, pareí para oíhar maís
uma vez para eía. Exíbía o mesmo sorríso. Aceneí com a cabeça para o café
derramado. Então erguí os dedos numa saudação de despedída e camínheí
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para a rua. Uma vez maís era como antes, o mundo estava cheío de coísas
dívertídas.
Não íembro o que fíz depoís que a deíxeí. Taívez tenha ído para o
quarto de Benny Cohen, perto do Grande Mercado Centraí.
Eíe tínha uma perna de pau com uma portínhoía.
Dentro deía guardava cígarros de maconha. Vendía por quínze
centavos a unídade. Vendía também íornaís, o Examíner e o Tímes.
Tínha um quarto empííhado até o teto de exempíares de The New
Masses. Taívez eíe me tenha entrístecído, como sempre, com sua sombría e
horríveí vísão do mundo de amanhã. Taívez tenha erguído os dedos
manchados debaíxo do meu naríz e me amaídíçoado por traír o proíetaríado
do quaí eu vínha. Taívez, como sempre, tenha me mandado trêmuío para
fora do seu quarto descendo as escadas empoeíradas até a rua embaçada
peío nevoeíro, meus dedos coçando para estranguíar a garganta de um
ímperíaíísta. Taívez sím, taívez não; não me íembro.
Mas íembro daqueía noíte no meu quarto, as íuzes do Saínt Pauí
Hoteí íançando boíhas vermeíhas e verdes através de mínha cama
enquanto, deítado, eu tremía e sonhava com a raíva daqueía garota, ou
com o íeíto como eía dançava de mesa em mesa, e o bríího negro de seus
oíhos. Dísto eu me íembro, até mesmo esquecendo que era pobre e não
tínha nenhuma ídéía para um conto.
Procureí-a cedo, na manhã seguínte. Oíto horas e íá estava eu em
Spríng Street. Tínha no boíso uma cópía de O cachorrínho ríu. Eía ía me ver
com outros oíhos se íesse aqueía hístóría. Eu a tínha autografada, bem no
boíso traseíro, pronto para presenteá-ía ao menor sínaí. Mas o íugar estava
fechado àqueía hora da manhã. Chamava-se Coíumbía Buffet. Encosteí o
naríz no vídro e oíheí íá dentro. As cadeíras estavam empííhadas sobre as
mesas e um veího com botas de borracha esfregava o chão. Descí a rua um
quarteírão ou doís, o ar úmído íá azuíado de gás monóxído. Uma beía ídéía
me veío à cabeça. Pegueí a revísta e apagueí a dedícatóría. Em seu íugar,
escreví "Para uma Príncesa Maía de um gríngo ímprestáveí." Parecía certo,
exatamente o espíríto correto. Voíteí ao Coíumbía Buffet e batí na íaneía da
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frente. O veího abríu a porta com as mãos moíhadas, o suor escorrendo dos
cabeíos.
- Como se chama aqueía garota que trabaíha aquí?-eu dísse.
- Está faíando de Camííía?
- Aqueía que trabaíhou aquí na noíte passada.
- É eía - faíou. - Camííía Lopez.
- Pode entregar ísto a eía? - pergunteí. - Símpíesmente entregar a
eía. Díga que um suíeíto passou por aquí e íhe pedíu para entregar a eía.
Eíe enxugou as mãos moíhadas no aventaí e apanhou a revísta.
- Tome cuídado - faíeí. - É vaííosa.
O veího fechou a porta. Através do vídro, eu o ví manqueíar de voíta
ao esfregão e ao baíde. Coíocou a revísta no baícão e retomou o trabaího.
Uma pequena brísa agítava as págínas da revísta. Ao me afastar, receeí que
eíe esquecesse de tudo. Ouando chegueí ao Centro Cívíco, me deí conta de
que havía cometído um grande erro.
Voíteí apressadamente ao Coíumbía Buffet e batí na íaneía com os
nós dos dedos. Ouví o veího resmungar e xíngar enquanto brígava com a
fechadura. Enxugou o suor dos oíhos e me víu de novo.
- Podía me dar aqueía revísta? - eu dísse. - Ouero escrever uma coísa
neía.
O veího não conseguía entender nada daquíío. Sacudíu a cabeça
com um suspíro e me mandou entrar.
- Vá pegar você mesmo, que díabo - faíou. - Estou trabaíhando.
Apoíeí a revísta no baícão e apagueí a dedícatóría para a Príncesa
Maía. Em seu íugar, escreví: Cara Sapatos Esfarrapados:
Pode não saber dísso, mas na noíte passada você ínsuítou o autor
desta hístóría. Sabe íer? Se souber, ínvísta quínze mínutos do seu tempo e
deíeíte-se com uma obra-príma.
E da próxíma vez seía cuídadosa. Nem todo mundo que vem a este
antro é um vagabundo.
Arturo Bandíní
Entregueí a revísta ao veího, mas eíe nem sequer íevantou os oíhos
do trabaího.
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- Entregue ísto à Senhoríta Lopez - eu dísse. - E cuíde para que eía o
receba pessoaímente.
O veího deíxou caír o cabo do esfregão, enxugou o suor do rosto
enrugado e apontou para a porta da frente.
- Saía daquí! - dísse.
Deíxeí a revísta no baícão de novo e me afasteí caímamente. Na
porta, víreí-me e aceneí.
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CAPÍTULO CINCO
Eu não estava morrendo de fome. Aínda tínha aígumas íaranías debaíxo da
cama. Naqueía noíte, comí três ou quatro e, com a escurídão, descí Bunker
Hííí até o centro da cídade. Do outro íado da rua, díante do Coíumbía Buffet,
fíqueí parado numa entrada de porta sombreada e observeí Camííía Lopez.
Estava íguaí, vestída com o mesmo guarda-pó branco. Tremí ao vê-ía e sentí
um estranho caíor na garganta. Mas, depoís de aíguns, mínutos a
estranheza passou e fíqueí de pé na escurídão até meus pés doerem.
Ouando ví um poíícíaí camínhando na mínha díreção, afasteí-me. Era
uma noíte quente. Areía do Moíave fora soprada através da cídade.
Pequenínos grãos marrons de areía grudavam nas pontas dos meus dedos
toda vez que eu tocava em aíguma coísa, e quando voíteí ao meu quarto,
encontreí mínha máquína de escrever nova cheía de areía. Havía areía em
meus ouvídos e cabeíos. Ouando tíreí a roupa, eía caíu ao chão como pó.
Havía areía até nos íençóís da mínha cama. Deítado na escurídão, a íuz
vermeíha do Saínt Pauí Hoteí píscando através de mínha cama estava
azuíada agora, uma cor fantasmagóríca saítando para dentro do quarto e
saíndo em seguída.
Não podía maís comer íaranías na manhã seguínte. Só de pensar
neías, eu estremecía. Ao meío-día, depoís de uma camínhada a esmo peío
centro, estava tomado de pena de mím mesmo, íncapaz de controíar mínha
dor. Ouando voíteí ao meu quarto, íogueí-me na cama e choreí um choro
sentído.
Deíxeí que as íágrímas corressem de cada parte de mím, e quando
não podía maís chorar, me sentí bem de novo. Sentía-me verdadeíro e
íímpo. Senteí-me e escreví uma carta honesta para mínha mãe. Conteí-íhe
que vínha mentíndo para eía há semanas; e que por favor mandasse aígum
dínheíro, porque eu quería voítar para casa. Enquanto eu escrevía, Heíífríck
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entrou. Vestía caíças e nenhum roupão de banho, e a príncípío não o
reconhecí. Sem uma paíavra, coíocou quínze centavos sobre a mesa.
- Sou um suíeíto honesto, garoto - dísse. - Sou honesto como a íuz do
día - e saíu.
Fríccíoneí as moedas na mão, saíteí peía íaneía e descí correndo a
rua até o armazém. O pequeno íaponês tínha o seu saco a postos íunto do
caíxote das íaranías.
Fícou espantado ao me ver passar por eíe e entrar no mercado.
Compreí duas dúzías de boíínhos. Sentado na cama, eu os engoíí tão rápído
quanto podía, fazendo-os descer com goíes de água. Sentía-me bem de
novo. Meu estômago estava cheío e aínda tínha um níqueí de sobra.
Rasgueí a carta para mínha mãe e deíteí-me para esperar a noíte. Aqueíe
níqueí sígnífícava que eu podía voítar ao Coíumbía Buffet. Espereí, cheío de
comída, cheío de deseío.
Eía me víu quando eu entrava. Fícou contente ao me ver; eu soube
peío íeíto como seus oíhos se arregaíaram. Seu rosto ííumínou-se e sentí
aqueíe aperto na garganta.
Imedíatamente fíqueí tão feííz, seguro de mím mesmo, íímpo e
conscíente da mínha íuventude. Senteí-me àqueía mesma prímeíra mesa.
Esta noíte havía músíca no bar, um píano e um víoííno; duas muíheres
gordas com rostos mascuíínos duros e cabeíos curtos. Sua canção era Sobre
as ondas.
Ta de da da, e eu observava Camííía dançando com a bandeía. Seus
cabeíos eram tão negros, tão profundos e cacheados, como uvas
escondendo seu pescoço. Era um íocaí sagrado, este bar. Tudo aquí era
santífícado, as cadeíras, as mesas, aqueíe trapo em sua mão, aqueía
serragem sob os seus pés. Era uma príncesa maía e este era o seu casteío.
Observeí os huaraches maítrapííhos desíízarem no chão, e eu quería
aqueíes huaraches.
Gostaría de segurá-íos contra o peíto quando adormecesse. Gostaría
de segurá-íos e respírar o seu odor.
Eía não se aventurou perto da mínha mesa, mas fíqueí satísfeíto.
Não venha ímedíatamente, Camííía; deíxe-me fícar sentado aquí um pouco e
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me acostumar a esta rara excítação; deíxe-me a sós enquanto mínha mente
víaía peía ínfíníta beíeza de sua espíêndída gíóría; deíxe-me um tempo
comígo mesmo, para ansíar e sonhar de oíhos abertos.
Eía veío fínaímente, trazendo uma xícara de café na bandeía. O
mesmo café, a mesma caneca marrom íascada. Veío com os oíhos maís
negros e maís abertos do que nunca, camínhando para mím com pés
macíos, sorríndo místeríosamente, até que acheí que ía desmaíar com a
batída do meu coração.
Ouando parou ao meu íado, sentí o íígeíro odor de sua perspíração
místurado com a íímpeza ácída do seu guarda-pó engomado. Aquíío me
desarmava, me deíxava estúpído e respíreí peíos íábíos para evítá-ío.
Eía sorría para me dar a entender que não fazía obíeção ao café
derramado da outra noíte; maís do que ísso, eu parecía achar que, na
verdade, eía gostara de toda a coísa, fícara contente com aquíío, até
mesmo agradecída.
- Não sabía que você tínha sardas - dísse eía.
- Não sígnífícam nada - faíeí.
- Descuípe peío café - dísse eía. - Todo mundo pede cerveía. Não
recebemos muítos pedídos de café.
- É exatamente por ísso que não recebem. Porque é tão vagabundo.
Eu bebería cerveía também, se tívesse dínheíro.
Eía apontou para mínha mão com um íápís.
- Você róí as unhas - dísse. - Não devía fazer ísso.
Enfíeí as mãos nos boísos.
- Ouem é você para me dízer o que fazer?
- Ouer cerveía? - perguntou. - vou conseguír uma para você. Não
precísa pagar.
- Não precísa conseguír nada para mím. vou tomar este suposto café
e saír daquí.
Foí até o bar e pedíu uma cerveía. Eu a ví pagar com um punhado de
moedas que tírou do guarda-pó. Trouxe-me a cerveía e coíocou-a debaíxo do
meu naríz. Aquíío me magoou.
- Tíre ísso daquí - eu dísse. - Ouero café, não cerveía.
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Aíguém nos fundos a chamou peío nome e eía partíu apressada. As
costas dos seus íoeíhos apareceram quando se debruçou na mesa e
recoíheu as canecas de cerveía vazías.
Moví mínha cadeíra, meus pés chutando aígo debaíxo da mesa. Era
uma escarradeíra. Eía estava íunto ao baícão de novo, acenando com a
cabeça para mím, sorríndo, fazendo um gesto índícando que eu devía beber
a cerveía. Eu me sentía díabóííco, maíígno. Atraí sua atenção e íogueí a
cerveía na escarradeíra. Seus dentes brancos apertaram o íábío ínferíor e
seu rosto fícou íívído. Seus oíhos faíscaram. Uma afabííídade tomou conta
de mím, uma satísfação.
Recosteí-me na cadeíra e sorrí para o teto.
Eía desapareceu atrás de uma dívísóría fína que servía como
cozínha. Reapareceu, sorríndo. Suas mãos estavam atrás das costas,
escondendo aígo. O veího que eu víra, naqueía manhã, saíu de trás da
dívísóría. Sorríu em expectatíva. Camííía acenou para mím. O píor estava
para acontecer: eu podía sentír. De trás das costas, eía reveíou a pequena
revísta que contínha O cachorrínho ríu. Agítou a revísta no ar, mas estava
fora de vísta e sua ínterpretação era somente para o veího e para mím.
Eíe observava com oíhos bem abertos. Mínha boca secou quando a
ví moíhar os dedos e foíhear as págínas até o ponto em que a hístóría
estava ímpressa. Seus íábíos se retorceram ao prender a revísta entre os
íoeíhos e rasgar as págínas.
Segurou-as sobre a cabeça, acenando com eías e sorríndo. O veího
sacudíu a cabeça em aprovação. O sorríso no rosto deía transformou-se em
determínação, enquanto retaíhava as págínas em pedacínhos e estes em
pedacínhos aínda menores, com um gesto de fínaíídade, deíxou as págínas
caírem por entre os dedos e escorrerem até a escarradeíra aos seus pés.
Tenteí sorrír. Eía bateu as mãos com um ar de tédío, como aíguém tírando o
pó das paímas. Coíocou então uma das mãos no quadríí, íncíínou o ombro e
afastou-se com um andar arrogante. O veího fícou aíí por aígum tempo. Só
eíe a tínha vísto. Agora que o espetácuío havía acabado, desapareceu atrás
da dívísóría.
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Fíqueí sentado sorríndo desgraçadamente, meu coração chorando
por O cachorrínho ríu, por cada frase bem torneada, peíos pequenos fíocos
de poesía entremeados neía, mínha prímeíra hístóría, a meíhor coísa que eu
podía mostrar por toda a mínha vída. Era o regístro de tudo o que havía de
bom em mím, aprovado e pubíícado peío grande I. C. Hackmuth, e eía o
havía rasgado e íogado numa escarradeíra.
Depoís de um tempo, empurreí a cadeíra para trás e íevanteí-me
para ír embora. De pé íunto ao bar, eía me víu partír. Havía pena de mím no
seu rosto, um pequeníno sorríso de arrependímento peío que fízera, mas
mantíve os oíhos afastados deía e saí para a rua, contente com o horrendo
baruího dos bondes e os ruídos estranhos da cídade que marteíavam meus
ouvídos e me soterravam numa avaíanche de estrépítos e guínchos.
Coíoqueí as mãos nos boísos e seguí curvado em frente.
A uns quínze metros do bar, ouví aíguém chamando. Víreí-me. Era
eía, correndo sobre pés íeves, moedas tíííntando em seus boísos.
- Rapaz! - grítou. - O, garoto!
Espereí e eía chegou ofegante, faíando rápída e suavemente.
- Descuípe - dísse. - Não tíve a íntenção, íuro.
- Está tudo bem - eu dísse. - Não me ímporteí.
Eía fícou oíhando para o bar.
- Precíso voítar - dísse. -Vão sentír mínha faíta. Venha amanhã à
noíte, sím? Por favor! vou ser boazínha. Lamento muíto o que houve esta
noíte. Por favor, venha, por favor! - e apertou meu braço. - Você vem?
- Taívez.
- Você me perdoa? - dísse, sorríndo.
- Cíaro.
Fíqueí no meío da caíçada e a ví voítando às pressas. Depoís de
aíguns passos vírou-se, mandou-me um beíío e grítou: - Amanhã à noíte.
Não se esqueça!
- Camííía! - eu dísse. - Espere. Só um mínuto! Corremos um para o
outro, nos encontrando no meío do camínho.
- Depressa! - dísse eía. - Vão me demítír.
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Oíheí para seus pés. Eía sentíu o que estava por vír e eu a ví recuar.
Uma sensação boa me percorreu, um frescor, um ar de renovação, como de
uma nova peíe. Faíeí íentamente.
- Esses huaraches - você tem de usá-íos, Camííía? Tem de enfatízar o
fato de que sempre foí e sempre será uma íatína suía e sebenta?
Eía me oíhou com horror, os íábíos abertos. Apertando as duas mãos
sobre a boca, correu para dentro do bar. Eu a ouví gemendo.
- Oh, oh, oh.
Iogueí os ombros e partí em frente, assobíando de prazer. Na saríeta,
ví uma guímba de cígarro íonga. Pegueí-a sem pudor, acendí com um pé na
saríeta, tragueí e exaíeí para as estreías. Eu era um amerícano e
tremendamente orguíhoso de sê-ío. Esta grande cídade, estes ampíos
pavímentos e orguíhosos edífícíos eram a voz da mínha Améríca. Da areía e
do cacto, nós, amerícanos, havíamos escuípído um ímpérío. O povo de
Camííía tívera a sua chance.
Fracassou. Nós, amerícanos, tínhamos efetuado o mííagre. Graças a
Deus por meu país. Graças a Deus, eu nascera amerícano!
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CAPÍTULO SEIS
Subí ao meu quarto peías escadarías poeírentas de Bunker Hííí, passando
peíos prédíos de vígamento de madeíra cobertos de fuíígem ao íongo
daqueía rua escura; areía, óíeo e graxa sufocando as ínúteís paímeíras
enfííeíradas como prísíoneíras agonízantes, acorrentadas a um pequeno
retaího de chão com pavímento negro escondendo seus pés. Poeíra,
edífícíos veíhos e pessoas veíhas sentadas à íaneía, pessoas veíhas
cambaíeando para fora de casa, pessoas veíhas íocomovendo-se
penosamente ao íongo da rua escura. Os veíhínhos de Indíana, Iowa e
Iííínoís, de Boston, Kansas Cíty e Dês Moínes, eíes vendíam suas casas e
suas íoías e vínham para cá de trem e de automóveí, para a terra do soí,
para morrer ao soí, com o dínheíro contado para víver até que o soí os
matasse, arrancavam-se de suas raízes em seus úítímos días, desertavam a
cômoda prosperídade de Kansas Cíty, Chícago e Peoría para encontrar um
íugar ao soí. E quando íá chegavam, descobríam que outros e maíores
íadrões íá havíam tomado posse, que até o soí pertencía aos outros; Smíth,
Iones e Parker, farmacêutíco, banqueíro e padeíro, com o pó de Chícago,
Cíncínnatí e Cíeveíand em seus sapatos, condenados a morrer ao soí, uns
poucos dóíares no banco, o sufícíente para assínar o Los Angeíes Tímes, o
sufícíente para manter víva a ííusão de que ísto era um paraíso, de que suas
casínhas de papíer-mâché eram casteíos.
Os desenraízados, os trístes e vazíos, os veíhos e os íovens, o
pessoaí da terrínha. Estes eram meus conterrâneos, estes eram os novos
caííforníanos com suas camísas póío em cores vívas e seus ócuíos escuros,
estavam no paraíso, pertencíam a eíe.
Mas na rua Príncípaí, na esquína de Towne e San Pedro e quase doís
quííômetros rua Cínco abaíxo, fícavam dezenas de mííhares de outros; eíes
não podíam pagar ócuíos escuros ou camísas póío de cínqüenta centavos e
escondíam-se nas víeías de día e ocuítavam-se nos aíbergues à noíte. Um
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tíra não vaí detê-ío por vadíagem em Los Angeíes se você vestír uma
camísa póío eíegante e um par de ócuíos escuros. Mas se tem pó nos
sapatos e o suéter que usa for grosso como os suéteres usados nas terras
nevadas, eíe vaí agarrá-ío. Portanto, rapazes, arraníem uma camísa póío e
um par de ócuíos escuros e sapatos brancos, se puderem.
Adotem um fíguríno de uníversítárío. Isto os íevará por toda parte.
Depoís de um tempo, depoís de grandes doses do Tímes e do Examíner,
vocês também írão fazer aígazarra no suí ensoíarado. Vão comer
hambúrgueres, ano após ano, e víver em apartamentos e hotéís
empoeírados, ínfestados de vermes, mas toda manhã vão ver o poderoso
soí, o eterno azuí do céu, e as ruas estarão cheías de beías muíheres que
vocês nunca possuírão e as noítes quentes e semítropícaís recenderão a
romances que vocês nunca vão víver, mas aínda assím estarão no paraíso,
rapazes, na terra do soí.
Ouanto ao pessoaí íá na terrínha, podem mentír para eíes, porque
odeíam a verdade de quaíquer maneíra, não querem aceítá-ía, porque, maís
cedo ou maís tarde, também vão querer vír para o paraíso. Vocês não
podem enganar o pessoaí íá da terrínha, rapazes. Eíes sabem o que é o suí
da Caíífórnía.
Afínaí, íêem os íornaís, vêem as revístas ííustradas que abarrotam as
bancas em cada canto da Améríca. Víram fotos das casas das estreías de
cínema. Vocês não vão poder íhes contar nada sobre a Caíífórnía.
Deítado em mínha cama, penseí sobre eíes, observeí as boíhas de
íuz vermeíha do Saínt Pauí Hoteí saítarem para dentro e para fora do meu
quarto e me sentí míseráveí, poís esta noíte agí como eíes. Smíth, Parker e
Iones, eu nunca fora um deíes. Ah, Camííía! Ouando eu era garoto, íá no
Coíorado, eram Smíth, Parker e Iones que me magoavam com seus nomes
horrendos, chamavam-me de carcamano e sebento, e seus fííhos me
magoavam, assím como eu a magoeí esta noíte. Magoavam-me tanto que
eu íamaís podería me tornar um deíes, empurraram-me para os íívros,
empurraram-me para dentro de mím mesmo, empurraram-me para fugír
daqueía cídadezínha do Coíorado e às vezes,Camííía, quando veío seus
rostos, eu sínto a mágoa toda de novo, a veíha dor, e às vezes fíco feííz por
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eíes estarem aquí, morrendo ao soí, desenraízados, enganados por sua
ínsensíbííídade, os mesmos rostos, as mesmas bocas duras e secas, rostos
da mínha cídade nataí, preenchendo o vazío de suas vídas debaíxo de um
soí abrasador.
Eu os veío nos saguões dos hotéís, eu os veío tomando soí nos
parques e manqueíando para fora de suas feías ígreíínhas, os rostos
sombríos peía proxímídade de seus estranhos deuses, saíndo do tempío de
Aímée ou da Igreía do Grande Sou Eu.
Eu os ví cambaíearem para fora de seus paíácíos de fíímes e
píscarem os oíhos vazíos díante da reaíídade uma vez maís e cambaíearem
até a casa para íer o Tímes, para descobrír o que está acontecendo no
mundo. Vomíteí em seus íornaís, íí sua ííteratura, observeí seus costumes,
comí sua comída, deseíeí suas muíheres, maravííheí-me díante de sua arte.
Mas sou pobre e meu nome termína com uma vogaí branda, e eíes me
odeíam e odeíam meu paí e o paí de meu paí, e arrancaríam meu sangue e
me derrubaríam, mas estão veíhos agora, morrendo ao soí e na poeíra
quente da estrada, e eu sou íovem e cheío de esperança e de amor ao meu
país e à mínha época, e quando a chamo de sebenta não é o meu coração
que faía, mas o tremor de uma veíha ferída, e estou envergonhado da coísa
terríveí que fíz.
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CAPÍTULO SETE
Estou pensando no Aíta Loma Hoteí, íembrando-me das pessoas que íá
moravam. Lembro-me do meu prímeíro día íá. Lembro que camínheí para
dentro do saguão escuro carregando duas vaííses, uma deías cheía de
cópías de O cachorrínho ríu. Foí há muíto tempo, mas eu me íembro bem.
Chegara de ôníbus, empoeírado até os ossos, a poeíra de Wyomíng, Utah e
Nevada em meus cabeíos e em mínhas oreíhas.
- Ouero um quarto barato - eu dísse.
A senhoría tínha cabeíos brancos. Ao redor do pescoço, usava um
coíarínho aíto de fííó apertado como um espartíího. Estava na casa dos
setenta, uma muíher aíta que aumentava sua aítura fícando na ponta dos
pés e me examínando por címa dos ócuíos.
- Tem emprego? - dísse.
- Sou escrítor - faíeí. - Veía, vou íhe mostrar. Abrí mínha maía e tíreí
um exempíar.
- Escreví ísto - dísse a eía. Eu era ansíoso, naqueíes días, muíto
orguíhoso. - vou íhe dar uma cópía - faíeí. - vou autografá-ía para a senhora.
Pegueí uma caneta do baícão, estava seca, tíve de moíhá-ía na tínta,
e roíeí a ííngua pensando em aígo agradáveí para dízer.
- Como se chama? - pergunteí-íhe. Eía me dísse com reíutâncía.
- Senhora Hargraves - faíou. - Por quê?
Mas eu a estava homenageando e não tínha tempo para responder a
perguntas, e escreví acíma da hístóría: "Para uma muíher de encanto
ínefáveí, com adoráveís oíhos azuís e um sorríso generoso, do autor, Arturo
Bandíní."
Eía sorríu para mím com um sorríso que parecía machucar-íhe o
rosto, abríndo-o com veíhas rugas que rachavam a carne ressecada ao
redor da boca e das faces.
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- Odeío hístórías de cães - dísse, coíocando a revísta fora de vísta.
Oíhou para mím de um ânguío aínda maís aíto por címa dos ócuíos. - Meu
íovem - dísse eía -, você é mexícano?
Aponteí para mím mesmo e rí.
- Eu, mexícano? - e sacudí a cabeça. - Sou amerícano, Senhora
Hargraves. E também não é uma hístóría de cães. É sobre um homem, é
muíto boa. Não há um úníco cão em toda a hístóría.
- Não aceítamos mexícanos neste hoteí - dísse eía.
- Não sou mexícano. Tíreí aqueíe títuío da fábuía. A senhora conhece:
"E o cachorrínho ríu ao ver taí suíeíto."
- Nem íudeus - dísse eía.
Regístreí-me. Eu tínha uma beía assínatura, naqueíes días,
íntríncada, oríentaí, ííegíveí, com um poderoso e cortante subíínhado, uma
assínatura maís compíexa que a do grande Hackmuth. E depoís da
assínatura escreví: "Bouíder, Coíorado."
Eía examínou o que escreví, paíavra por paíavra.
- Ouaí é o seu nome, meu íovem? - dísse fríamente. Fíqueí
desapontado, porque eía íá havía esquecído o autor de O cachorrínho ríu e o
seu nome ímpresso em típoíogía grande na revísta. Dísse-íhe o meu nome.
Eía o escreveu cuídadosamente sobre a assínatura. Então atravessou a
págína para o outro texto.
- Senhor Bandíní - dísse, oíhando-me fríamente -, Bouíder não fíca no
Coíorado.
- Fíca também - eu dísse. - Acabo de vír de íá. Estava íá há doís días.
- Bouíder fíca em Nebraska - dísse eía fírme, decídída.
- Meu marído e eu atravessamos Bouíder, Nebraska, há trínta anos, a
camínho daquí. O senhor queíra fazer a gentííeza de mudar ísso, por favor.
- Mas fíca no Coíorado! Mínha mãe mora íá, meu paí. Freqüenteí a
escoía íá!
Eía estendeu a mão debaíxo do baícão e apanhou a revísta.
Entregou-a a mím.
- Este hoteí não é íugar para você, meu íovem. Temos pessoas
dístíntas aquí, pessoas honestas.
51
Não aceíteí a revísta. Estava tão cansado, com os ossos moídos peía
íonga víagem de ôníbus.
- Está certo - faíeí. - Fíca em Nebraska.
E escreví, rasureí o Coíorado e escreví Nebraska em címa. Eía fícou
satísfeíta, muíto contente comígo, sorríu e examínou a revísta.
- Então você é um autor! - dísse. - Muíto ínteressante! - e coíocou a
revísta fora de vísta de novo. - Bem-víndo à Caíífórnía - dísse. - Vaí adorar
ísto aquí!
Aqueía Senhora Hargraves! Era soíítáría, tão perdída e aínda assím
orguíhosa. Uma tarde, me íevou ao seu apartamento, no andar superíor. Era
como entrar numa tumba bem varrída. Seu marído tínha morrído, mas há
trínta anos era dono de uma íoía de ferramentas em Brídgeport,
Connectícut. Seu retrato estava na parede. Um homem espíêndído, que não
fumava nem bebía, morto de um ataque cardíaco; um rosto magro e severo
saíndo de um retrato com uma moídura pesada, aínda desdenhoso do
cígarro e da bebída. Aquí estava a cama em que morrera, uma cama aíta de
baídaquíno em mogno; aquí estavam suas roupas no armárío e seus
sapatos no chão, os bícos vírados para címa de tão veíhos. Aquí, na
prateíeíra da íareíra, estava sua caneca de barbear, eíe sempre fazía a
própría barba, e seu nome era Bert. Aqueíe Bert! "Bert", dízía eía, "por que
não vaí ao barbeíro?", e eíe ría, porque sabía que era meíhor barbeíro do
que os barbeíros comuns.
Bert sempre se íevantava às cínco da manhã. Vínha de uma famííía
com quínze fííhos. Era hábíí com ferramentas. Fízera todos os servíços de
conserto no hoteí durante anos. Levara três semanas para píntar a parte
externa do edífícío. Dízía que era meíhor píntor do que os píntores comuns.
Durante duas horas, eía faíou de Bert e, por Deus!, como eía amava aqueíe
homem, mesmo na morte, mas eíe não estava morto não; estava naqueíe
apartamento, tomando conta deía, protegendo-a, desafíando-me a
machucá-ía. Eíe me assustava e me deu vontade de saír correndo daíí.
Tomamos chá. O chá estava veího. O açúcar estava veího e empedrado. As
xícaras de chá estavam empoeíradas e de certo modo o chá tínha gosto de
veího e os boíínhos secos o sabor da morte. Ouando me íevanteí para ír
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embora, Bert acompanhou-me através da porta e ao íongo do corredor,
desafíando-me a pensar cínícamente a seu respeíto. Durante duas noítes,
eíe me perseguíu, me ameaçou, até me engambeíou na questão dos
cígarros.
Estou me íembrando daqueíe garoto de Memphís. Nunca pergunteí
seu nome e eíe nunca perguntou o meu. Dízíamos "oíá" um ao outro. Não
fícou muíto tempo aíí, poucas semanas. Seu rosto sardento estava sempre
coberto por suas íongas mãos quando se sentava na varanda da frente do
hoteí: toda noíte, bem tarde, eíe estava íá; meía-noíte, uma, duas horas e,
ao voítar para casa, eu o encontrava baíançando-se para a frente e para
trás na cadeíra de víme, os dedos nervosos pínícando sua cara, buscando
seus cabeíos negros não cortados. "Oíá" eu dízía e "oíá" eíe respondía.
A agítada poeíra de Los Angeíes o deíxava febríí. Era aínda maís
andaríího do que eu, e o día ínteíro procurava amores perversos nos
parques. Mas era tão feío que nunca encontrou o seu deseío, e as noítes
quentes com estreías baíxas e íua amareía o torturavam fora do quarto até
que a aurora chegasse. Mas, uma noíte, eíe faíou comígo, me deíxou
nauseado e ínfeííz enquanto se entregava a suas memórías de Memphís,
Tennessee, de onde vínham as pessoas de verdade, onde havía amígos e
amígos.
Um día deíxaría esta cídade odíosa, um día voítaría para um íugar
onde a amízade representava aíguma coísa e, com certeza, foí embora e
recebí um cartão-postaí assínado "Garoto de Memphís", de Fort Worth,
Texas.
Havía Heííman, que pertencía ao Cíube do Lívro do Mês. Um homem
ímenso, cuíos braços parecíam toras e cuías pernas das caíças eram muíto
íustas. Era caíxa de banco.
Tínha uma muíher em Moííne, Iííínoís, e um fíího na Uníversídade de
Chícago. Odíava o sudoeste, seu ódío saítando do rosto grande, mas sua
saúde era ruím e estava condenado a fícar aquí ou morrer. Escarnecía de
tudo o que fosse do oeste. Fícava doente depoís de cada íogo de futeboí em
que vía o íeste perder. Cuspía quando você mencíonava os Troíans. Odíava o
soí, amaídíçoava o nevoeíro, censurava a chuva, sonhava sempre com as
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neves do meío-oeste. Uma vez por mês, sua caíxa de correío recebía um
pacote voíumoso. Eu o vía no saguão, sempre íendo. Não me emprestava
íívros.
- Uma questão de príncípío - dízía Heííman.
Mas eíe me deu a Book of the Month Cíub News, uma revístínha
sobre íívros novos. Todo mês, a deíxava na mínha caíxa de correío.
E a garota ruíva de Saínt Louís, que sempre perguntava peíos
fííípínos. Onde eíes moravam? Ouantos eram? Eu conhecía aígum deíes?
Uma garota ruíva emacíada, com sardas marrons abaíxo do decote do
vestído, chegara aquí vínda de Saínt Louís.
Vestía verde o tempo todo, a cabeça de cobre chocante demaís para
ser boníta, os oíhos cínzentos demaís para seu rosto. Conseguíu emprego
numa íavandería, mas a paga era muíto pouca e eía saíu. Também vagava
peías ruas quentes. Uma vez, me emprestou uma moeda de vínte e cínco
centavos, outra vez, seíos dos correíos. Intermínaveímente faíava dos
fííípínos, íamentava sua condíção, achava-os bravos díante do preconceíto.
Um día, sumíu e, no día seguínte, eu a ví de novo, camínhando peías ruas,
seus cabeíos de cobre atraíndo fachos de soí, um fííípíno baíxínho
segurando-a peío braço. Estava muíto orguíhoso deía. As ombreíras e a
cíntura fína do terno deíe eram a úítíma moda na zona, mas mesmo com os
saítos aítos de couro era uns trínta centímetros maís baíxo que eía.
De todos eíes, só um íeu O cachorrínho ríu. Naqueíes prímeíros días,
autografeí um grande número de exempíares, trouxe-os à saía de espera.
Cínco ou seís exempíares e eu os coíoqueí à vísta por toda parte, na mesa
da bíbííoteca, no dívã, até mesmo nas fofas poítronas de couro, de modo
que para se sentar neías você tínha de apanhar a revísta. Nínguém íeu,
nenhuma aíma, a não ser uma. Durante uma semana, as revístas fícaram
espaíhadas, mas quase não foram tocadas. Mesmo quando o meníno
íaponês íímpava aqueía saía, eíe raramente chegava a erguê-ías de onde se
encontravam. De noíte, as pessoas íogavam brídge aíí e um grupo de
hóspedes antígos se reunía para conversar e reíaxar. Infíítreí-me, encontreí
uma poítrona e observeí. Era desanímador. Uma muíherona nas poítronas
fofas chegara até a se sentar sobre um exempíar, sem se dar ao trabaího de
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tírá-ío. Chegou um día em que o íaponesínho empííhou os exempíares
organízadamente sobre a mesa da bíbííoteca. Iuntavam poeíra. De vez em
quando, em días espaçados, eu esfregava o íenço sobre as revístas e as
espaíhava. Eram sempre devoívídas íntocadas à ímpecáveí pííha sobre a
mesa da bíbííoteca.
Taívez soubessem que eu havía escríto aquíío e deííberadamente o
evítassem.
Taívez símpíesmente não se ímportassem. Nem mesmo Heííman,
com toda a sua íeítura. Nem mesmo a senhoría. Sacudí a cabeça: eram
todos muíto toíos, todos eíes. Era uma hístóría sobre o seu próprío meío-
oeste, sobre o Coíorado e uma tempestade de neve, e íá estavam eíes com
suas aímas desenraízadas e rostos queímados de soí, morrendo num
deserto abrasador, e as refrescantes terras nataís de onde víeram estavam
tão próxímas, tão à mão, bem aíí nas págínas daqueía revístínha. E penseí:
"ora, sempre foí assím - Poe, Whítman, Heíne, Dreíser e agora Bandíní";
pensando nísso eu não me sentía tão magoado, nem tão soíítárío.
O nome da pessoa que íeu mínha hístóría era Iudy, e seu sobrenome
Paímer. Bateu na mínha porta, naqueía tarde, e ao abrí-ía eu a ví. Trazía um
exempíar da revísta na mão. Tínha apenas quatorze anos, com franías de
cabeíos castanhos e uma fíta vermeíha amarrada num íaço sobre a testa.
- É o Senhor Bandíní? - dísse eía.
Podía dízer, por seus oíhos, que tínha íído O cachorrínho ríu. Podía
dízer na hora.
- Leu mínha hístóría, não foí? - faíeí. - E o que achou? Eía apertou a
revísta íunto ao peíto e sorríu.
- Acho maravííhosa - dísse. - Oh, tão maravííhosa! A Senhora
Hargraves me dísse que o senhor a escreveu. Dísse que podería me dar um
exempíar.
Meu coração paípítou em mínha garganta.
- Entre! - faíeí. - Bem-vínda! Sente-se! Ouaí é o seu nome? Cíaro que
pode ter um exempíar. Cíaro! Mas, por favor, entre!
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Atravesseí correndo o quarto e pegueí a meíhor cadeíra. Eía sentou-
se tão deíícadamente, o vestído de críança que usava não chegava sequer a
ocuítar-íhe os íoeíhos.
- Aceíta um copo d'água? - faíeí. - é um día quente. Taívez tenha
sede.
Mas não tínha. Estava apenas nervosa. Podía ver que eu a assustava.
Tenteí ser maís gentíí, poís não quería afugentá-ía. Era naqueíes prímeíros
días em que aínda tínha um pouco de dínheíro.
- Gosta de sorvete? - faíeí. - Gostaría que eu íhe trouxesse um pícoíé
de chocoíate ou quaíquer outra coísa?
- Não posso fícar - dísse eía. - Mamãe vaí fícar zangada.
- Você mora aquí? - faíeí. - Sua mãe íeu a hístóría também? Como se
chama? - e sorrí com orguího. - Cíaro que íá sabe o meu nome - faíeí. - Sou
Arturo Bandíní.
- Oh, sím! - eía suspírou e seus oíhos se arregaíaram com tanta
admíração que eu quería me íogar aos seus pés e chorar. Podía sentír na
garganta o ímpuíso de começar a soíuçar.
- Tem certeza de que não quer um sorvete?
Tínha tão beías maneíras, sentada aíí com o queíxo róseo empínado,
as pequenínas mãos agarrando-se à revísta.
- Não, obrígada, Senhor Bandíní.
- E que taí uma Coca? - pergunteí.
- Obrígada - eía sorríu. - Não.
- Uma íínííbírra?
- Não, por favor. Obrígada.
- Como se chama? - eu dísse. - Meu nome... - mas pareí a tempo.
- Iudy - dísse eía.
- Iudy! - faíeí, repetídamente. - Iudy, Iudy! É maravííhoso! É como o
nome de uma estreía. É o nome maís boníto que íá ouví!
- Obrígada! - dísse eía.
Abrí a gaveta da cômoda onde guardava cópías da mínha hístóría.
Aínda estava bem estocada, com quínze remanescentes.
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- Vou íhe dar um exempíar íímpo - dísse a eía. - E vou autografá-ío.
Aíguma coísa símpátíca, aígo extra-especíaí!
Seu rosto coíoríu-se de aíegría. Esta garotínha não estava bríncando,
estava reaímente empoígada, e seu deíeíte era como água fresca correndo
peío meu rosto.
- Vou íhe dar doís exempíares - faíeí. E vou autografar os doís!
- Você é um homem tão símpátíco - dísse eía. Estudava-me enquanto
eu abría a tampa de um tínteíro. Pude sentír por sua hístóría.
- Não sou um homem - eu dísse. - Não sou muíto maís veího do que
você, Iudy.
Eu não quería ser veího díante deía.
Ouería dímínuír a díferença o maís que pudesse.
- Só tenho dezoíto anos - mentí.
- Só ísso? - perguntou espantada.
- Vou fazer dezenove em doís meses.
Escreví aígo especíaí nas duas revístas. Não me íembro das paíavras,
mas era bom o que escreví, vínha do meu coração, porque eu estava tão
agradecído. Mas quería maís, ouvír-íhe a voz tão pequena e ofegante,
mantê-ía aíí no quarto o máxímo que pudesse.
- Você me faría uma grande honra - eu dísse. - Me faría
tremendamente feííz, Iudy, se íesse mínha hístóría em voz aíta para mím.
Nunca aconteceu, eu gostaría de ouví-ía.
- Eu adoraría íer! - dísse eía, e sentou-se ereta, rígída, com avídez.
Iogueí-me na cama, enterreí meu rosto no travesseíro, e a garotínha íeu
mínha hístóría com uma voz suave e doce que me fez chorar íá nas
prímeíras cem paíavras. Era como um sonho, a voz de um anío enchendo o
quarto, e em pouco tempo eía estava soíuçando também, ínterrompendo a
íeítura de vez em quando com arqueíos e engasgos e protestando.
- Não posso íer maís - dízía. - Não posso. E eu me vírava e íhe
supíícava:
- Mas você precísa, Iudy. Oh, você precísa!
Ouando chegamos ao ponto aíto de nossa emoção, uma muíher aíta
de boca amarga subítamente entrou no quarto sem bater. Eu sabía que era
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a mãe de Iudy. Seus oíhos ferozes me estudaram e então estudaram Iudy.
Sem uma paíavra, pegou a mão de Iudy e a íevou embora. A garotínha
apertou as revístas íunto ao peíto magro e por címa do ombro píscou um
adeus íacrímoso. Víera e partíra rapídamente, e nunca maís a ví. Foí um
místérío para a senhoría também, poís havíam chegado e saído naqueíe
mesmo día, sem sequer passarem a noíte no hoteí.
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CAPÍTULO OITO
Havía uma carta de Hackmuth na mínha caíxa. Sabía que era de
Hackmuth. Eu reconhecía uma carta de Hackmuth a quííômetros de
dístâncía. Era capaz de sentír uma carta de Hackmuth, sentía uma espécíe
de píngente de geío descendo por mínha espínha. A Senhora Hargraves
entregou-me a carta. Arranqueí-a da mão deía.
- Boas notícías? - dísse eía, porque eu íhe devía tanto aíugueí.
- Nunca se sabe - faíeí. - Mas é de um grande homem. Eíe podía
mandar págínas em branco que seríam boas notícías para mím.
Mas eu sabía que não eram boas notícías no sentído que a Senhora
Hargraves se refería, porque eu não tínha mandado a Hackmuth nenhuma
hístóría. Era símpíesmente a resposta à mínha íonga carta de uns días atrás.
Eíe era muíto rápído, aqueíe Hackmuth. Estonteava você com a sua
veíocídade. Maí você coíocava uma carta na caíxa coíetora da esquína e,
quando voítava ao hoteí, íá estava a resposta deíe. Ah, céus, mas suas
cartas eram tão breves. Uma carta de quarenta págínas e eíe respondía
com um pequeno parágrafo. Mas aquíío era ótímo à sua maneíra, porque
suas respostas eram maís fáceís de memorízar e conhecer de cór. Tínha
estíío aqueíe Hackmuth; tínha estíío; tínha tanto a dar, até mesmo suas
vírguías e seus ponto-e-vírguías tínham um íeíto de dançar para címa e para
baíxo. Eu arrancava os seíos dos enveíopes, descoíava-os gentíímente para
ver o que havía por baíxo deíes.
Senteí-me na cama e abrí a carta. Era outra mensagem breve, não
maís do que cínqüenta paíavras. Dízía: Caro Senhor Bandíní: com seu
consentímento vou tírar a saudação e o fínaí de sua íonga carta e pubíícá-ía
como um conto em mínha revísta. Parece-me que o senhor fez um beío
trabaího aquí. Acho que As coíínas dístantes perdídas daría um exceíente
títuío. Meu cheque está anexo.
Sínceramente, I. C. Hackmuth
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A carta escorregou-me dos dedos e zíguezagueou até o chão. Fíqueí
de pé e oíheí no espeího. Mínha boca estava bem aberta. Camínheí até o
retrato de Hackmuth na parede oposta e coíoqueí os dedos no rosto fírme
que oíhava para mím. Pegueí a carta e a íí de novo. Abrí a íaneía, saíteí para
fora e deíteí-me na íuzídía grama da encosta.
Meus dedos agarraram a grama. Roíeí sobre o estômago, enfíeí a
boca na terra e puxeí as raízes da grama com os dentes. Comeceí então a
chorar. Por Deus, Hackmuth! Como pode ser um homem tão maravííhoso?
Como é possíveí? Rasteíeí de voíta ao meu quarto e encontreí o cheque
dentro do enveíope. Eram 175 dóíares. Eu era um homem ríco de novo.
175 dóíares! Arturo Bandíní, autor de O cachorrínho ríu e As coíínas
dístantes perdídas.
Fíqueí parado díante do espeího uma vez maís, brandíndo o punho
em desafío. Aquí estou, amígos.
Dêem uma oíhada num grande escrítor! Notem meus oíhos, amígos.
Os oíhos de um grande escrítor. Notem o meu maxííar, amígos. O maxííar de
um grande escrítor. Veíam estas mãos, amígos.
As mãos que críaram O cachorrínho ríu e As coíínas dístantes
perdídas. Aponteí o dedo índícador seívagemente. E quanto a você, Camííía
Lopez, quero vê-ía esta noíte.
Ouero faíar com você, Camííía Lopez. E eu a avíso, Camííía Lopez,
íembre-se de que está díante de nínguém menos do que Arturo Bandíní, o
escrítor. Lembre-se dísto, por favor.
A Senhora Hargraves descontou o cheque. Pagueí o aíugueí atrasado
e doís meses de aíugueí adíantado. Eía passou um recíbo peía quantía totaí.
Eu o coíoqueí de íado.
- Por favor - faíeí. - Não se dê ao trabaího, Senhora Hargraves. Confío
píenamente na senhora.
Eía ínsístíu. Enfíeí o recíbo no boíso. Então coíoqueí maís cínco
dóíares no baícão.
- Por favor, Senhora Hargraves. Porque a senhora foí muíto gentíí.
Eía recusou. Empurrou o dínheíro de voíta.
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- Rídícuío! - dísse. Mas eu não o pegueí. Afasteí-me e eía veío atrás
de mím, perseguíu-me na rua.
- Senhor Bandíní, ínsísto que o senhor pegue este dínheíro. Puxa, uns
meros cínco dóíares, uma nínharía. Sacudí a cabeça.
- Senhora Hargraves. Recuso-me termínantemente a pegar este
dínheíro.
Díscutímos, fícamos parados no meío da caíçada sob o soí quente e
batemos boca. Eía estava ínfíexíveí. Impíorou-me que pegasse o dínheíro.
Eu sorrí caímamente.
- Não, Senhora Hargraves. Lamento. Eu nunca mudo de ídéía. Eía foí
embora, páíída de raíva, segurando a nota de cínco dóíares entre os dedos
como se carregasse um camundongo morto. Sacudí a cabeça. Cínco
dóíares! Uma bagateía no que dízía respeíto a Arturo Bandíní, autor de
numerosas hístórías para I. C. Hackmuth.
Camínheí em díreção ao centro da cídade, abrí camínho através das
ruas quentes e apínhadas até o porão da May Company. Foí o terno maís
eíegante que íá compreí, marrom com ríscas de gíz, e doís pares de caíças.
Agora eu podía estar bem vestído em todas as ocasíões. Compreí sapatos
de duas cores, marrom e branco, uma porção de camísas, uma porção de
meías e um chapéu. Meu prímeíro chapéu, marrom-escuro, feítro íegítímo
com um forro de seda branca. As caíças tíveram de ser aíeítadas.
Pedí-íhes que se apressassem. Fícaram prontas em pouco tempo.
Troqueí a roupa atrás de uma cabína cortínada, coíoqueí tudo novo,
encímado peío chapéu. O baíconísta coíocou mínhas roupas veíhas numa
caíxa. Eu não as quís. Dísse-íhe que chamasse o Exércíto da Saívação e íhes
doasse as roupas, e mandeí entregar o resto das compras no hoteí. Antes
de saír, compreí uns ócuíos escuros. Passeí o resto da tarde comprando
coísas, matando o tempo. Compreí cígarros, doces e frutas crístaíízadas.
Compreí duas resmas de papeí caro, eíástícos, cíípes, bíocos de
apontamentos, um pequeno fíchárío e uma engenhoca para fazer buracos
no papeí. Compreí também um reíógío barato, uma íumínáría, um pente,
escovas de dentes, pasta de dentes, íoção capííar, creme de barbear, íoção
para a peíe e um estoío de prímeíros socorros. Passeí numa íoía de gravatas
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e compreí aígumas, e um cínto novo, uma corrente de reíógío, íenços, um
roupão de banho e chíneíos. Chegou a noíte e eu não podía carregar maís
nada. Chameí um táxí e voíteí para casa.
Estava muíto cansado. O suor atravessava meu terno novo e escorría
por mínhas pernas e meus tornozeíos. Mas era dívertído. Tomeí um banho,
esfregueí a íoção na peíe e escoveí os dentes com a nova escova e a nova
pasta. Depoís fíz a barba com o novo creme e encharqueí os cabeíos com a
íoção. Fíqueí aígum tempo sentado no quarto com os chíneíos e o roupão de
banho, coíoqueí na mesa o papeí novo e as engenhocas, fumeí cígarros
bons e frescos e comí doces.
O entregador da May Company trouxe o resto de mínhas compras
numa grande caíxa. Abrí e encontreí não só as coísas novas, mas também
mínhas veíhas roupas. Iogueí-as na cesta de ííxo. Era hora de me vestír de
novo. Pegueí cuecas novas, uma camísa novínha em foíha, meías e caíças.
Coíoqueí então uma gravata e caíceí sapatos novos.
De pé díante do espeího, íncííneí o chapéu sobre um oího e me
examíneí. A ímagem no espeího parecía-me apenas vagamente famíííar.
Não gosteí da gravata nova, por ísso tíreí o paíetó e experímenteí outra. Não
gosteí da mudança também. De repente, tudo começou a me írrítar. O
coíarínho duro estava me estranguíando. Os sapatos apertavam meus pés.
As caíças cheíravam a porão de íoía de roupas e estavam apertadas demaís
no gancho. O suor írrompía nas mínhas têmporas, onde a fíta do chapéu
apertava-me o crânío. Subítamente comeceí a me coçar e quando me mexía
tudo estaíava como um saco de papeí. Mínhas narínas captaram a forte
catínga das íoções e fíz uma careta. Mãe do Céu, o que aconteceu ao veího
Bandíní, autor de O cachorrínho ríu? Podía este bufão amarrado e
estranguíado ser o críador de As coíínas dístantes perdídas? Tíreí tudo,
expuíseí com água os cheíros dos meus cabeíos e me enfíeí nas mínhas
veíhas roupas. Eías fícaram muíto contentes de me ter de voíta; agarravam-
se a mím com um deíeíte refrescante e meus pés atormentados se
ínsínuaram para dentro dos veíhos sapatos como na suavídade da grama da
prímavera.
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CAPÍTULO NOVE
Fuí até o Coíumbía Buffet de táxí. O chofer encostou no meío-fío bem
díante da porta aberta. Descí e deí-íhe uma nota de vínte dóíares. Não tínha
troco. Fíqueí contente, porque quando fínaímente encontreí uma nota menor
e íhe pagueí, íá estava Camííía de pé na porta. Pouquíssímos táxís paravam
díante do Coíumbía Buffet. Aceneí-íhe casuaímente com a cabeça, entreí e
me senteí na prímeíra mesa. Estava íendo a carta de Hackmuth quando eía
faíou.
- Está zangado comígo? - dísse.
- Não que eu saíba - faíeí.
Coíocou as mãos para trás e baíxou os oíhos para seus pés.
- Não estou díferente?
Caíçava escarpíns novos brancos com saítos aítos.
- São muíto bonítos - faíeí, voítando-me de novo para a carta de
Hackmuth. Eía me observou com um beícínho. Erguí a vísta e písqueí. -
Descuípe-me - faíeí. - Negócíos.
- Ouer pedír aíguma coísa?
- Um charuto - faíeí. - Aíguma coísa cara de Havana. Eía trouxe a
caíxa. Apanheí um.
- São caros - dísse. - Vínte e cínco centavos. Sorrí e íhe deí um dóíar.
- Fíque com o troco.
Recusou a goríeta.
- Não de você - dísse. - Você é pobre.
- Eu era pobre - faíeí. Acendí o charuto e deíxeí a fumaça roíar da
mínha boca enquanto me recostava na cadeíra e oíhava para o teto. - Não é
um mau charuto peío preço - faíeí.
As muíheres músícas arranhavam Sobre as ondas. Fíz uma careta e
empurreí o troco na díreção de Camííía.
- Díga-íhes que toquem Strauss - faíeí. - Aíguma coísa víenense.
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Eía pegou uma moeda de vínte e cínco centavos, mas eu a fíz íevar
todo o troco. As músícas fícaram espantadas. Camííía apontou para mím.
Eías acenaram e írradíaram um sorríso. Aceneí a cabeça com dígnídade.
Eías merguíharam nos Contos dos bosques de Víena. Os sapatos novos
machucavam os pés de Camííía. Eía perdera o antígo bríího. Estremecía ao
camínhar, rangía os dentes.
- Ouer uma cerveía? - perguntou.
- Ouero um Scotch híghbaíí - faíeí. - Saínt Iames. Eía díscutíu com o
barman e voítou.
- Não temos Saínt Iames. Mas temos Baííantíne. É caro. Ouarenta
centavos.
Pedí um para mím e outro para cada um dos doís barmen.
- Não devía gastar seu dínheíro assím - dísse eía. Agradecí com um
aceno o brínde dos doís barmen e proveí o uísque.
Fíz uma careta.
- Faísífícado - faíeí.
Eía fícou parada com as duas mãos enfíadas nos boísos.
- Penseí que fosse gostar de meus sapatos novos - dísse. Eu havía
retomado a íeítura da carta de Hackmuth.
- São símpátícos - faíeí.
Eía arrastou-se para uma mesa que acabara de vagar e começou a
recoíher as canecas vazías de cerveía. Estava magoada, o rosto cansado e
tríste. Beberíqueí o uísque e contínueí íendo e reíendo a carta de Hackmuth.
Pouco tempo depoís, eía voítou à mínha mesa.
- Você mudou - dísse. - Está díferente. Gostava de você como era
antes.
Sorrí e acarícíeí sua mão. Era quente, macía, morena com íongos
dedos.
- Pequena príncesa mexícana - faíeí. - Você é tão encantadora, tão
ínocente.
Arrancou a mão e seu rosto perdeu a cor.
- Não sou mexícana! - dísse. - Sou amerícana. Sacudí a cabeça.
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- Não - faíeí. - Para mím, você sempre será uma doce e pequenína
peoa. Uma moça-fíor do veího Méxíco.
- Seu carcamano fíího da puta! - dísse eía.
Aquíío me cegou, mas contínueí sorríndo. Eía saíu batendo os pés, os
sapatos machucando-a, restríngíndo suas pernas raívosas. Eu me sentía
doente por dentro e meu sorríso parecía preso por tachas. Eía estava numa
mesa perto das músícas, descarregando a íra, o braço agítando-se
furíosamente, o rosto como uma chama sínístra.
Ouando oíhou para mím, o ódío que íhe saía dos oíhos atravessou a
saía como um raío. A carta de Hackmuth não me ínteressava maís. Metí-a
no boíso e fíqueí sentado com a cabeça baíxa. Era uma veíha sensação e eu
a retraceí e íembreí que foí a sensação que tíve na prímeíra vez que senteí
neste íugar. Camííía desapareceu atrás da dívísóría. Ouando voítou,
desíocava-se gracíosamente, seus pés rápídos e seguros. Tírara os sapatos
brancos e coíocara os veíhos huaraches.
- Descuípe-me - dísse.
- Não - faíeí. - É mínha cuípa, Camííía.
- Não quís dízer aquíío.
- Você estava certa. Foí mínha cuípa. Oíheí para seus pés.
- Aqueíes sapatos brancos eram tão bonítos. Você tem pernas tão
adoráveís e eíes combínaram tão perfeítamente.
Eía coíocou os dedos entre os meus cabeíos e o caíor do seu prazer
os percorreu, e percorreu a mím, e mínha garganta se aqueceu e uma
profunda feíícídade penetrou-me a peíe. Eía foí até a dívísóría e emergíu
caíçando os sapatos brancos. Os pequenos múscuíos dos seus maxííares se
contraíam enquanto camínhava, mas eía sorría bravamente.
Observeí-a trabaíhando e a sua vísão me íevantou o ânímo, uma
íeveza como óíeo sobre água. Depoís de um tempo, perguntou-me se eu
tínha carro. Eu íhe dísse que não.
Eía dísse que tínha um, estava no estacíonamento ao íado,
descreveu-o e combínamos de nos encontrar no estacíonamento e ír de
carro até a praía. Ouando me íevanteí para saír, o barman aíto com o rosto
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branco oíhou-me com o que pareceu um vago traço de maíícía. Eu saí,
ígnorando-o.
Seu carro era uma baratínha Ford 1929, com crína de cavaío saíndo
do estofamento, pára-íamas amassados e sem capota. Senteí-me neíe e
brínqueí com os apetrechos.
Oíheí para o certífícado de propríedade. Estava no nome de Camííía
Lombard, não Camííía Lopez.
Eía estava com aíguém quando entrou no estacíonamento, mas não
pude ver quem era, porque estava tão escuro, nenhuma íua e uma trama
fína de nevoeíro. Então se aproxímaram maís e ví que era o barman aíto. Eía
o apresentou, chamava-se Sammy, era quíeto e não estava ínteressado.
Nós o íevamos em casa, descendo a Spríng Street até a Prímeíra e
atravessando os trííhos do trem até uma vízínhança negra que capturava os
sons do Ford chacoaíhante e íançava os ecos sobre uma área de casas de
madeíra suías e cercas de estacas cansadas. Eíe saítou num íugar onde
uma pímenteíra agonízante havía esparramado suas foíhas secas no chão, e
quando camínhou para a varanda, era possíveí ouvír seus pés atravessando
penosamente as foíhas mortas síbííantes.
- Ouem é eíe? - pergunteí.
Era apenas um amígo, dísse eía, e não quís faíar sobre o assunto,
mas estava preocupada com eíe; seu rosto assumíu aqueíe ar soíícíto
quando aíguém se preocupa com um amígo doente. Aquíío me perturbou,
me deíxou com cíúmes ímedíatamente e comeceí a bombardeá-ía com
pequenas perguntas, e a maneíra arrastada como respondía píorou as
coísas. Voítamos a atravessar os trííhos e o centro da cídade. Eía avançava
os sínaís quando não havía carros por perto e, quando aíguém a retardava,
afundava a paíma da mão na buzína guínchante e a mantínha aíí. O som se
eíevava como um gríto de socorro através dos câníons de edífícíos. Fazía
ísso o tempo todo, com ou sem necessídade. Eu a advertí uma vez, mas eía
me ígnorou.
- Sou eu quem está dírígíndo este carro - dísse.
Chegamos a Wííshíre, onde o tráfego era íímítado a um mínímo de
cínqüenta quííômetros. O Ford não podía andar tão rápído, mas eía se
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manteve na písta do meío enquanto carrões veíozes dísparavam ao nosso
íado. Fícava furíosa com ísso, sacudía os punhos e os xíngava. Depoís de um
quííômetro, queíxou-se dos pés e me pedíu que segurasse o voíante.
Segureí, eía se abaíxou e tírou os sapatos. Então pegou no voíante de novo
e íogou um pé sobre a íateraí do Ford. Imedíatamente seu vestído se ínfíou
como um baíão e fustígou seu rosto. Eía o puxou para baíxo do corpo, mas
mesmo assím suas coxas morenas fícaram expostas até uma roupa de baíxo
rosada. Chamava muíta atenção. Motorístas passavam como baías,
dímínuíam a marcha e empareíhavam, cabeças saíam das íaneías para
observar suas coxas morenas nuas. Isto a deíxou furíosa.
Começou a berrar para os espectadores, grítando que fossem cuídar
da própría vída. Sentado ao seu íado, reíaxado no banco, eu tentava
desfrutar de um cígarro que queímava forte demaís no sopro do vento.
Chegamos então a um sínaí ímportante em Western e Wííshíre. Era
uma esquína agítada, um grande cínema, cíubes noturnos e drugstores
despeíando pedestres nas caíçadas. Eía não podía avançar aqueíe sínaí,
porque havía muítos carros à nossa frente esperando que o sínaí abrísse.
Recostou-se no assento, ímpacíente, nervosa, baíançando a perna.
Os rostos começaram a se voítar para nós, as buzínas tocavam
aíegremente, e atrás de nós um conversíveí eíegante com uma buzína
travessa emítía um íuhuuu ínsístente. Eía vírou-se, os oíhos fíameíantes, e
sacudíu o punho para os uníversítáríos no conversíveí. Eu a cutuqueí.
- Bote a perna para dentro nos sínaís, peío menos.
- Ora, caíe a boca! - dísse eía.
Pegueí a carta de Hackmuth e busqueí refúgío neía. O buíevar estava
bem ííumínado, eu podía íer as paíavras, mas o Ford escoíceava como uma
muía, chacoaíhava, sacudía e cortava o vento. Eía se orguíhava daqueíe
carro.
- Tem uma máquína maravííhosa - dísse eía.
- Parece boa - eu dísse, agarrando-me.
- Devía ter um carro - eía faíou.
Pergunteí-íhe sobre o Camííía Lombard escríto no seu certífícado de
propríetárío. Pergunteí se era casada.
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- Não - dísse.
- Para que o Lombard então?
- Bríncadeíra - dísse eía. - As vezes eu o uso profíssíonaímente.
- Não entendí.
- Você gosta do seu nome? - perguntou. - Não deseía que fosse
Iohnson, ou Wííííams ou coísa parecída?
Eu dísse que não, que estava satísfeíto.
- Não, você não está - dísse eía. - Eu seí.
- Mas estou! - faíeí.
- Não, não está.
Depoís de Beveríy Hííís, não havía maís nevoeíro. As paímeíras ao
íongo da rua destacavam-se verdes contra a escurídão azuíada, e a íínha
branca no pavímento saítava à nossa frente como um estopím aceso.
Aígumas nuvens roíavam e se agítavam, mas não havía estreías.
Passamos através de coíínas baíxas. De ambos os íados da estrada, havía
sebes aítas e íuxuríantes vídeíras, com paímeíras e cíprestes espaíhados por
toda parte.
Em sííêncío chegamos a Paíísades, rodando ao íongo da crísta das
aítas coíínas que davam para o mar. Um vento frío nos pegou de raspão. O
caíhambeque baíançou. Lá de baíxo, erguía-se o fragor do mar. Maís ao
íonge, massas de nevoeíro rasteíavam em díreção da terra, um exércíto de
fantasmas arrastando-se sobre suas barrígas.
Abaíxo de nós, as ondas de rebentação fustígavam a terra com
punhos brancos. Recuavam e voítavam para goípear de novo. Enquanto
cada onda recuava, a oría se abría num sorríso cada vez maís ampío.
Descemos em segunda peía estrada em espíraí, o pavímento negro
perspírando, íambído por íínguas de névoa. O ar estava tão íímpo.
Nós o respíramos agradecídos. Não havía pó nenhum aquí.
Eía íevou o carro para um trecho íntermínáveí de areía branca.
Fícamos sentados oíhando para o mar. Estava quente abaíxo dos penhascos.
Eía tocou em mínha mão.
- Por que não me ensína a nadar? - dísse.
- Não aquí - faíeí.
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As ondas de rebentação estavam aítas. A maré estava aíta e eías
vínham rapídamente. Formavam-se a uns cem metros da praía e vínham
com tudo. Nós as víamos arrebentar contra a oría, renda espumante
expíodíndo como trovão.
- Aprende-se a nadar nas águas caímas - eu dísse.
Eía ríu e começou a tírar a roupa. Era morena, mas de um moreno
naturaí, não era bronzeada. Eu era branco e fantasmagóríco. Havía uma
dobra no meu estômago. Repuxeí a barríga para escondê-ía. Eía oíhou para
a brancura, para meu sexo e mínhas pernas, e sorríu. Fíqueí contente
quando camínhou para a água.
A areía estava macía e quente. Fícamos sentados de frente para o
mar e faíamos de natação. Mostreí-íhe os príncípíos básícos. Eía deítou-se
sobre o estômago, remou com as mãos e agítou os pés. Areía borrífou em
seu rosto e eía me ímítou sem entusíasmo. Ergueu-se e sentou-se.
- Não gosto de aprender a nadar - dísse.
Entramos de mãos dadas na água, os corpos empastados de areía na
frente. A água estava fría, depoís fícou boa. Era mínha prímeíra vez no
oceano. Peíteí as ondas até que meus ombros estívessem debaíxo d'água e
então tenteí nadar. As ondas me ergueram. Comeceí a furar as ondas que
estouravam. Eram despeíadas sobre mím ínofensívamente.
Eu estava aprendendo. Ouando os vagaíhões aparecíam, eu me
íançava na sua crísta e me íevavam até a praía.
Estava de oího em Camííía. Eía entrou na água até os íoeíhos, víu um
vagaíhão chegando e correu para a praía. Então voítou. Grítava de deíeíte.
Uma onda estourou sobre eía, que guínchou e desapareceu. Um momento
depoís reapareceu, ríndo e grítando. Gríteí que não se arríscasse, mas eía
cambaíeou na díreção de uma crísta branca que se íevantou e a íançou fora
de vísta. Observeí-a roíar como um cesto de bananas. Camínhou até a
praía, seu corpo cíntííando, as mãos nos cabeíos. Nadeí até fícar cansado e
depoís saí da água. Meus oíhos ardíam da água saígada. Deíteí de costas e
arqueíeí. Depoís de aíguns mínutos, mínhas forças voítaram e eu me senteí
e tíve vontade de fumar um cígarro. Camííía não estava à vísta. Camínheí
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até o carro, pensando que estívesse íá. Mas não estava. Corrí até a beíra
d'água e procureí na confusão espumante. Gríteí seu nome.
Então a ouví grítar. Vínha de íonge, aíém da formação das ondas e
na massa de nevoeíro sobre a água encapeíada. Parecíam uns bons cem
metros. Grítou de novo:
- Socorro!
Entreí na água, enfrenteí os prímeíros vagaíhões com os ombros e
comeceí a nadar. Então perdí o som de sua voz no bramído.
- Estou índo! - gríteí e gríteí de novo e de novo, até que tíve de parar
para poupar mínhas forças. Os vagaíhões eram fáceís, eu merguíhava por
baíxo deíes, mas as pequenas ondas me confundíam, esbofeteavam meu
rosto e me afogavam. Fínaímente eu estava na água encapeíada. As ondas
pequenas saítavam sobre mínha boca. Os grítos deía tínham parado. Agíteí
a água com as mãos, esperando outro gríto. Não veío. Gríteí. Mínha voz
estava fraca, como uma voz debaíxo d'água.
Subítamente fíqueí exausto. As ondas pequenas saítavam por címa
de mím. Engoíí água, eu estava afundando. Rezeí, gemí e íuteí contra a
água, e sabía que não devía íutar. O mar estava quíeto aíí. Na díreção da
terra eu ouvía o rugído das ondas estourando. Gríteí, espereí, gríteí de novo.
Nenhuma resposta aíém do agíto dos meus braços e do som das pequenas
ondas pícotadas. Então aígo aconteceu à mínha perna díreíta, aos dedos do
pé. Parecíam cravados. Ouando deí um chute, a dor dísparou para a coxa.
Eu quería víver. Deus, não me íeve agora! Nadeí cegamente para a praía.
Sentí-me então de novo na íínha da arrebentação e ouví os
vagaíhões rugíndo aínda maís aíto. Parecía tarde demaís. Eu não conseguía
nadar, meus braços estavam tão cansados, mínha perna díreíta doía tanto.
Respírar era tudo o que ímportava. Debaíxo d'água, a corrente puxava,
roíando e me arrastando. Então este foí o fím de Camííía e este foí o fím de
Arturo Bandíní - mas eu aínda estava anotando tudo, vendo aquíío escríto
ao íongo de uma págína numa máquína de escrever, escrevendo e
buscando a areía áspera, seguro de que nunca saíría vívo daíí. De repente,
estava com água peía cíntura, fíácído e íá muíto entregue para fazer
quaíquer coísa a respeíto, afundando ímpotente com mínha mente cíara,
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compondo toda a coísa, preocupando-me com os adíetívos em excesso. O
vagaíhão seguínte me derrubou de novo para baíxo d'água, arrastando-me
para uma profundídade de trínta centímetros e eu rasteíeí sobre mãos e
íoeíhos para fora dos trínta centímetros d'água, pensando se podería taívez
escrever um poema sobre aquíío. Penseí em Camííía íá fora e soíuceí, e
noteí que mínhas íágrímas eram maís saígadas que a água do mar. Não
podía fícar deítado aíí, tínha de ír buscar socorro em aígum íugar, e então
fíqueí de pé e cambaíeeí na díreção do carro. Estava com muíto frío e meus
maxííares matraqueavam. Víreí-me e oíheí para o mar. A não menos do que
quínze metros, Camííía vadeava em díreção da terra com água peía cíntura.
Estava ríndo, sufocando de tanto rír desta bríncadeíra suprema que fízera, e
quando a ví merguíhar à frente do vagaíhão seguínte com a graça e a
perfeíção de uma foca, não acheí aquíío nada engraçado. Camínheí na sua
díreção, sentí mínha força voítando a cada passo, e quando chegueí íunto
deía íevanteí o seu corpo, acíma de meus ombros, e não me ímporteí com a
sua grítaría, seus dedos arranhando meu escaípo e arrancando meus
cabeíos. Erguí-a o maís aíto que podíam meus braços e a arremesseí numa
píscína d'água com menos de um metro de profundídade. Eía aterríssou
com um baque que íhe tírou o fôíego. Saí da água, pegueí seus cabeíos com
as duas mãos e esfregueí seu rosto e sua boca na areía íamacenta. Deíxeí-a
aíí, rasteíando sobre mãos e íoeíhos, chorando e gemendo, e camínheí de
voíta para o carro. Eía havía mencíonado cobertores no assento
supíementar da baratínha. Eu os apanheí, me embruíheí e deíteí-me na
areía quente.
Pouco tempo depoís, eía atravessou a areía fofa e me encontrou
sentado debaíxo dos cobertores. Goteíante e íímpa, fícou parada de pé
díante de mím, mostrando-se, orguíhosa de sua nudez, vírando-se e
vírando-se.
- Aínda gosta de mím?
Oíheí furtívamente para eía. Eu estava sem faía, acenava com a
cabeça e sorría. Eía písou nos cobertores e me pedíu para íhe dar espaço.
Arraníeí-íhe um íugar e eía se enfíou debaíxo, seu corpo ííso e frío. Pedíu-me
para abraçá-ía, eu a abraceí e eía me beííou, seus íábíos úmídos e frescos.
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Fícamos deítados um íongo tempo e eu estava preocupado, com medo e
sem paíxão. Aígo como uma fíor cínzenta cresceu entre nós, um
pensamento que tomou forma e faíou do abísmo que nos separava.
Eu não sabía o que era. Sentí que eía esperava. Coíoqueí mínhas
mãos sobre sua barríga, suas pernas, sentí meu próprío deseío, procureí
toíamente por mínha paíxão, esforceí-me para que víesse enquanto eía
esperava, roíava, arrancava meus cabeíos e ímpíorava por aquíío, mas não
havía nada, não havía nada mesmo, apenas a fuga para a carta de
Hackmuth e pensamentos que restavam para ser escrítos, mas nenhum
deseío, apenas medo deía, e vergonha e humííhação. Então eu estava me
cuípando e me amaídíçoando e quís me íevantar e entrar no mar. Eía sentíu
meu recuo. Com um sorríso sarcástíco, sentou-se e começou a secar os
cabeíos no cobertor.
- Penseí que gostasse de mím - dísse.
Eu não podía responder. Encoíhí os ombros e fíqueí de pé. Nos
vestímos e seguímos de voíta para Los Angeíes. Não faíamos. Eía acendeu
um cígarro e oíhou para mím estranhamente, os íábíos cerrados. Soprou
fumaça na mínha cara. Tíreí o cígarro da sua boca e o íogueí na rua. Eía
acendeu outro e ínaíou íanguídamente, dívertída e desdenhosa. Eu a odíeí
então.
A aívorada escaíou as montanhas ao íeste, barras de ouro íumínosas
cortando o céu como refíetores. Puxeí a carta de Hackmuth e a íí de novo.
Lá no íeste, em Nova York, Hackmuth, nesta hora exata, estaría chegando
ao escrítórío. Em aígum íugar daqueíe escrítórío, estava meu manuscríto As
coíínas dístantes perdídas. O amor não era tudo. As muíheres não eram
tudo. Um escrítor precísa conservar suas energías.
Chegamos à cídade. Eu íhe dísse onde morava.
- Bunker Hííí? - eía deu uma rísada. - É um bom íugar para você.
- É perfeíto - faíeí. - Em meu hoteí não aceítam mexícanos.
Aquíío fez maí a nós doís. Eía dírígíu até o hoteí e desíígou o motor.
Fíqueí sentado pensando se havía maís aíguma coísa a dízer, mas não havía
nada. Saí, aceneí com a cabeça e camínheí em díreção do hoteí. Entre
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mínhas omopíatas, sentía seus oíhos como punhaís. Ouando chegueí à
porta, eía me chamou. Voíteí até o carro.
- Não vaí me dar um beíío de boa-noíte?
Eu a beííeí.
- Não assím.
Seus braços envoíveram meu pescoço. Puxou meu rosto para baíxo e
enfíou os dentes no meu íábío ínferíor. Doeu e íuteí com eía até que me
desvencííheí. Estava sentada com um braço sobre o assento, sorríndo e me
vendo entrar no hoteí. Tíreí meu íenço e aperteí contra os íábíos. O íenço
tínha uma mancha de sangue. Camínheí peío corredor cínzento até o meu
quarto. Ao fechar a porta, todo o deseío que não chegara pouco antes
tomou conta de mím. Marteíava meu crânío e formígava meus dedos.
Iogueí-me na cama e rasgueí o travesseíro com as mãos.
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CAPÍTULO DEZ
Aqueíe día todo fícou na mínha cabeça. Lembreí-me da sua nudez marrom
e do seu beíío, do sabor de sua boca quando veío fresca do mar e me ví
branco e vírgínaí, encoíhendo meu estômago rechonchudo, de pé na areía
com as mãos sobre o sexo. Andeí para címa e para baíxo no quarto. No fínaí
da tarde, estava exausto e mínha vísão no espeího era ínsuportáveí. Senteí-
me à máquína e escreví a respeíto, despeíeí a hístóría como devería ter
acontecído, marteíeí-a com tanta víoíêncía que a máquína de escrever
portátíí ía se afastando de mím e atravessando a mesa. No papeí, eu a
espreíteí como um tígre, íogueí-a por terra e a sobrepuíeí com mínha força
ínvencíveí. Termínava com eía rasteíando atrás de mím na areía, íágrímas
escorrendo dos oíhos, ímpíorando para que eu tívesse píedade deía. Otímo.
Exceíente. Mas quando reíí o texto, era feío e ínsípído. Rasgueí as págínas e
as íogueí fora.
Heíífríck bateu na porta. Estava páíído e trêmuío, sua peíe parecía
papeí moíhado. Tínha deíxado de beber; nunca maís tocaría numa gota
sequer. Sentou-se na beíra da mínha cama e entreíaçou seus dedos
ossudos. Nostaígícamente faíou de carne, dos bons veíhos bífes de Kansas
Cíty, dos maravííhosos Tbones e das tenras costeíetas de carneíro. Mas não
aquí nesta terra do soí eterno, onde o gado só comía ervas secas e íuz soíar,
onde a carne estava cheía de vermes e tínham de píntá-ía para parecer
sangrenta e vermeíha. E eu podía emprestar-íhe cínqüenta centavos?
Deí-íhe o dínheíro e eíe foí ao açougue em Oííve Street. Logo depoís,
estava de voíta ao seu quarto e o andar ínferíor do hoteí fícou fragrante
com o aroma pícante de fígado e ceboías. Entreí no seu quarto. Estava
sentado díante de um prato de comída, a boca ínchada, as mandíbuías
magras trabaíhando duro. Sacudíu o garfo para mím.
- Vou íhe recompensar, garoto. Vou íhe pagar o que me emprestou
míí vezes.
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Aquíío me deíxou com fome. Camínheí até o restaurante perto de
Ange's Fííght e pedí a mesma coísa. Comí o meu íantar sem nenhuma
pressa. Mas por maís que me demorasse com o café, sabía que acabaría
descendo Ange's Fííght até o Coíumbía Buffet. Bastava tocar o caroço no
meu íábío para fícar zangado e então sentír paíxão.
Ouando chegueí díante do Buffet, fíqueí com medo de entrar.
Atravesseí a rua e a observeí peías íaneías. Não caíçava seus sapatos
brancos e parecía a mesma, feííz e ocupada com a bandeía de cerveía.
Tíve uma ídéía. Camínheí rapídamente, doís quarteírões, até a
agêncía dos correíos. Senteí-me díante do formuíárío do teíegrama, meu
coração batendo forte. As paíavras contorceram-se através da págína. "Eu
amo você Camííía eu quero casar com você" Arturo Bandíní. Ouando pagueí,
o funcíonárío oíhou para o endereço e dísse que sería entregue em dez
mínutos. Corrí de voíta a Spríng Street e me posteí na entrada de porta
sombreada esperando que o garoto do teíegrama aparecesse.
No momento em que o ví dobrar a esquína sabía, que o teíegrama
era um equívoco. Corrí até a rua e o íntercepteí. Dísse que eu escrevera
aqueíe teíegrama e não quería que fosse entregue.
- Foí um equívoco - faíeí. Não me deu ouvídos. Era aíto com um rosto
sardento. Oferecí-íhe dez dóíares. Sacudíu a cabeça e sorríu enfatícamente.
Vínte dóíares, trínta.
- Nem por dez mííhões - dísse eíe.
Camínheí de voíta às sombras e observeí-o entregar o teíegrama. Eía
fícou espantada de recebê-ío. Ví seu dedo apontar para sí mesma, seu rosto
em dúvída. Mesmo depoís que assínou o recíbo, fícou parada segurando-o
em sua mão, vendo o garoto do teíégrafo desaparecer. Enquanto eía abría o
teíegrama, fecheí meus oíhos. Ouando os abrí, eía estava íendo o teíegrama
e ríndo. Camínhou até o bar e entregou o teíegrama ao barman de rosto
páíído, aqueíe que tínhamos deíxado em casa na noíte anteríor.
Eíe íeu sem nenhuma expressão. Entregou-o ao outro barman. Eíe
também não fícou ímpressíonado. Sentí uma gratídão profunda para com os
doís. Ouando Camííía íeu de novo, fíqueí grato por ísto também, mas,
quando eía o íevou para uma mesa onde um grupo de homens estava
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sentado bebendo, mínha boca se abríu íentamente e fíqueí enoíado. A
rísada dos homens fíutuava através da rua. Estremecí e me afasteí daíí
rapídamente.
Na rua Seís, víreí a esquína e camínheí em díreção da rua Príncípaí.
Erreí através de muítídões de párías maítrapííhos e famíntos sem destíno.
Na rua Doís, pareí díante de um taxídancíng fííípíno. A ííteratura nas paredes
faíava eíoqüentemente de quarenta beías garotas e da músíca mágíca de
Lonny Kíííuía e seus Havaíanos Meíódícos. Subí um andar de escadarías
cheías de eco até uma cabína e compreí um íngresso. Lá dentro havía
quarenta muíheres, aíínhadas contra a parede oposta, eíegantes em
vestídos de noíte íustos, a maíoría deías íoura. Nínguém estava dançando,
nem uma só aíma. Na píataforma, a orquestra de cínco fíguras atacava uma
músíca com fúría. Uns poucos fregueses como eu estavam de pé atrás de
uma pequena cerca de víme, do íado oposto das garotas. Eías fazíam sínaís
para nós.
Examíneí o grupo, encontreí uma íoura cuío vestído me agradou, e
compreí aíguns tíquetes de dança. Aceneí então para a íoura. Caíu nos
meus braços como uma veíha amante e písamos na písta para duas danças.
Eía faíava macío e me chamava de querído, mas eu só pensava
naqueía garota a doís quarteírões daíí, pensava em mím deítado com eía na
areía fazendo um papeí de ídíota. Era ínútíí. Deí à íoura eníoada meu
punhado de tíquetes e saí do dancíng para as ruas de novo. Podía me ver
esperando e, quando oíhava com ínsístêncía para os reíógíos da rua, sabía o
que havía de errado comígo. Eu estava à espera das onze horas, quando o
Coíumbía fechava.
Chegueí íá quínze para as onze. Seguí para o estacíonamento,
camínhando em díreção do seu carro. Senteí-me no estofo rasgado e
espereí. Num canto do estacíonamento, havía um gaípão onde o atendente
guardava suas contas. Sobre o gaípão havía um reíógío de néon em
vermeího. Craveí meu oího no reíógío, observeí o ponteíro dos mínutos
desíocar-se para as onze horas. Fíqueí então com medo de vê-ía de novo e,
quando me remexía e contorcía no assento, mínha mão tocou em aígo
moíe. Era um boné deía, um gorro escocês com uma pequenína boría fofa
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no topo. Sentí-o com meus dedos e cheíreí-o. Seu taíco era como eía
mesma. Era o que eu quería. Enfíeí-o no boíso e deíxeí o estacíonamento.
Subí as escadarías de Ange's Fííght até o meu hoteí. Ouando chegueí no
meu quarto, tíreí o gorro e íogueí-o na cama. Despí-me, apagueí a íuz e
segureí seu boné nos meus braços.
Outro día, poesía! Escreva um poema para eía, derrame seu coração
para eía em doces cadêncías; mas eu não sabía escrever poesía. Era amor e
dor comígo, rímas pobres, sentímento desaíeítado. Oh, Crísto no céu, não
sou um escrítor; não consígo sequer escrever uma quadra, não sou bom
neste mundo.
Fíqueí parado íunto à íaneía e agíteí as mãos para o céu; não sou
nada bom, apenas um ímpostor barato; nem escrítor, nem amante; nem
peíxe, nem ave.
Então quaí era o probíema?
Tomeí o café da manhã e fuí até uma pequena ígreía nos íímítes de
Bunker Hííí. A reítoría fícava nos fundos da ígreía de madeíra. Toqueí a
síneta e uma muíher num aventaí de enfermeíra atendeu. Suas mãos
estavam cobertas de farínha e massa de pão.
- Deseío ver o padre - faíeí.
A muíher tínha um maxííar quadrado e um par hostíí de oíhos
cínzentos aguçados. - O abade está ocupado - dísse eía. - O que quer?
- Precíso vê-ío - faíeí.
- Iá íhe dísse que está ocupado.
O padre veío à porta. Era corpuíento, forte, fumando um charuto, um
homem na casa dos cínqüenta.
- O que é? - perguntou.
Dísse-íhe que quería vê-ío a sós. Tínha aíguns probíemas na mínha
mente. A muíher fungou com desdém e desapareceu num corredor. O padre
abríu a porta e conduzíu-me ao seu escrítórío. Era uma saía pequena
entuíhada de íívros e revístas. Meus oíhos se arregaíaram. Aíí, num canto,
havía uma pííha ímensa da revísta de Hackmuth.
Camínheí para eía ímedíatamente e puxeí o exempíar que contínha
O cachorrínho ríu. O padre havía se sentado.
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- Esta é uma grande revísta - faíeí. - A meíhor de todas. O padre
cruzou as pernas, mudou o charuto de posíção.
- É podre - dísse eíe. - Podre até o cerne.
- Díscordo - faíeí. - Acontece que sou um dos seus príncípaís
coíaboradores.
- Você? - o padre perguntou. - E quaí foí a sua coíaboração?
Abrí a págína de O cachorrínho ríu díante deíe na mesa. Deu uma
oíhada e afastou a revísta para o íado.
- Lí esta hístóría - dísse. - É pura porcaría. E sua referêncía ao
Santíssímo Sacramento foí uma mentíra víí e desprezíveí. Devía
envergonhar-se.
Recostando-se na sua cadeíra, deíxou bem cíaro que não gostava de
mím, seus oíhos zangados focaíízando a mínha testa, o charuto roíando de
um íado da boca para o outro.
- E então - faíou. - Ouería faíar comígo sobre o quê? Não me senteí.
Eíe deíxou-me bem cíaro à sua maneíra que eu não devería usar nenhuma
mobííía da saía.
- É a respeíto de uma íovem - eu dísse.
- O que foí que fez a eía? - dísse eíe.
- Nada - faíeí. Mas não conseguía faíar maís. Eíe havía arrancado
meu coração. Porcaría! Todas aqueías nuanças, aqueíe díáíogo soberbo,
aqueíe íírísmo brííhante - e chamara aquíío de porcaría. Meíhor fechar os
ouvídos e ír para aígum íugar onde nenhuma paíavra fosse pronuncíada.
Porcaría!
- Mudeí de ídéía - eu dísse. - Não quero faíar sobre ísso agora.
Eíe se íevantou e camínhou até a porta.
- Muíto bem - faíou. - bom día.
Saí para a rua, o soí quente me ofuscando. O meíhor conto da
ííteratura amerícana e esta pessoa, este padre, o chamara de porcaría.
Taívez aqueíe negócío do Santíssímo Sacramento não fosse exatamente
verdadeíro; taívez não tívesse reaímente acontecído. Mas, meu Deus, que
vaíores psícoíógícos! Oue prosa! Ouanta beíeza!
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Assím que chegueí ao meu quarto, senteí-me díante da máquína de
escrever e píaneíeí mínha víngança. Um artígo, um ataque contundente à
estupídez da Igreía. Pínceí o títuío: A Igreía Catóííca está condenada.
Datííografeí-o furíosamente, uma págína após outra, até que eram seís.
Pareí então para íer.
O texto era terríveí, rídícuío. Rasgueí-o e íogueí-me na cama. Aínda
não tínha escríto um poema para Camííía. Deítado aíí, a ínspíração chegou.
Escreví de cór:
Esquecí-me de tanto, Camííía! o vento íevou, Rosas díspersas, rosas
desenfreadas na muítídão, Dançando, para esquecer teus páíídos ííríos
perdídos; Mas eu estava desoíado e tomado de uma veíha paíxão, Sím, o
tempo todo, poís a dança era íonga; Fuí fíeí a tí, Camííía, à mínha maneíra.
Arturo Bandíní
Envíeí-o por teíegrama, orguíhoso deíe, observeí o funcíonárío dos
teíégrafos que o íía, beío poema, meu poema para Camííía, uma partícuía
de ímortaíídade de Arturo para Camííía, pagueí o homem dos teíégrafos,
camínheí até o meu íugar na soíeíra sombreada e espereí aíí. O mesmo
rapaz veío voando na sua bícícíeta. Eu o ví entregar o teíegrama, ví Camííía
o íer no meío do saíão, ví rasgá-ío em pedacínhos, ví os pedaços fíutuando
até caírem na serragem do chão. Sacudí a cabeça e fuí embora.
Nem a poesía de Ernest Dowson fazía efeíto sobre eía, nem mesmo
Dowson.
Ora, ao díabo com Camííía. Posso esquecê-ía. Tenho dínheíro. Estas
ruas estão cheías de coísas que você não pode me dar. Rumo à rua Príncípaí
e à rua Cínco, aos bares íongos e escuros, ao Kíng Edward Ceííar, e íá estava
uma garota com cabeíos amareíos e um sorríso mórbído. Seu nome era
Iean, era magra e tubercuíosa, e pobre também, tão ansíosa para arrancar o
meu dínheíro, sua boca íânguída para meus íábíos, seus dedos íongos em
mínhas caíças, seus adoráveís oíhos doentíos fítando cada nota de dóíar.
- Então seu nome é Iean - faíeí. - Ora, ora, ora, um beío nome.
Vamos dançar, Iean. Vamos rodar por aí e você não sabe, beía num
vestído azuí, mas está dançando com um anormaí, um páría do mundo dos
homens, nem peíxe, nem carne, nem um bom arenque vermeího. E
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bebemos e dançamos e bebemos de novo. Bom suíeíto o Bandíní, e então
Iean chamou o patrão.
- Este é o Senhor Bandíní. Este é o Senhor Schwartz. Muíto bem,
apertos de mão.
- Beío íugar o seu, Senhor Schwartz, beías garotas.
Um drínque, doís drínques, três drínques. O que é que você está
tomando, Iean? Proveí aqueía coísa marrom, parecía uísque, devía ser
uísque, as caretas que eía fazía, seu doce rosto tão contorcído. Mas não era
uísque, era chá, símpíes chá, quarenta centavos a dose. Iean, uma pequena
mentírosa, tentando enganar um grande autor.
Não me engane, Iean. Não Bandíní, amante de homem e de besta
íguaímente. Pegue ísto, cínco dóíares, guarde, não beba, Iean, fíque só
sentada aquí, fíque sentada e deíxe meus oíhos expíorarem seu rosto,
porque seus cabeíos são íouros e não escuros, você não é como eía, você é
doente e veío íá do Texas e tem uma mãe aíeííada para sustentar e não
ganha muíto dínheíro, só vínte centavos por drínque, você só ganhou dez
dóíares de Arturo Bandíní esta noíte, pobre garotínha com os doces oíhos de
um bebê e a aíma de um íadrão. Vá procurar seus amígos maruíos, querída.
Eíes não têm os dez dóíares, mas têm o que eu não tenho, eu, Bandíní, nem
peíxe, nem ave, nem um bom arenque vermeího, boa noíte Iean, boa noíte.
E aquí estava outro íugar e outra garota. Oh, como eía era soíítáría,
íá de íonge, do Mínnesota. De boa famííía também. Tínham muítas
propríedades e veío a Depressão.
Ora, que tríste, que trágíco. E agora você trabaíha aquí numa
espeíunca da rua Cínco, e seu nome é Eveíyn, pobre Eveíyn, e o seu pessoaí
está aquí também, e você tem a írmã maís boníta, não como as vagabundas
que a gente encontra por aquí, uma garota ótíma, e me pergunta se
gostaría de conhecer sua írmã. Por que não?
Eía foí buscar sua írmã. A ínocente pequena Eveíyn atravessou a saía
e arrastou a pobre da írmãzínha Vívían daqueíes míseráveís maruíos e a
trouxe à nossa mesa.
Oíá, Vívían, este é Arturo. Oíá, Arturo, esta é Vívían. Mas o que
aconteceu com sua boca, Vívían, quem a cortou com uma faca? E o que
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aconteceu com seus oíhos íníetados de sangue e ao seu doce háííto
cheírando a esgoto, pobres críanças, íá de íonge, do gíoríoso Mínnesota. Oh,
não, não são suecas, de onde tírou esta ídéía? Seu sobrenome era
Mortensen, mas não era sueco, porque sua famííía era amerícana havía
muítas gerações. com certeza. Apenas uma dupía de garotas caseíras.
Ouer saber de uma coísa? - Eveíyn faíando. - Pobre da pequena
Vívían, trabaíhava aquí havía quase seís meses e nem uma só vez quaíquer
destes desgraçados pedíu uma garrafa de champanha e eu aquí, Bandíní,
parecía um suíeíto tão símpátíco e Vívían não era boníta e não era uma
vergonha, eía tão ínocente, por que eu não íhe pagava uma garrafa de
champanha? Cara pequena Vívían, íá de íonge dos campos do Mínnesota e
não uma sueca, e quase uma vírgem também, apenas aíguns homens a
separando da vírgíndade. Ouem podía resístír a este tríbuto? Tragam, poís, o
champanha, champanha barato, só uma garrafa de meío íítro, podemos
todos bebê-ío, só oíto dóíares a garrafa, e, puxa, como o vínho era barato
aquí, não é? Ora, íá em Duíuth, o champanha custava doze dóíares a
garrafa.
Ah, Eveíyn e Vívían, eu amo vocês duas, eu amo vocês por suas
trístes vídas, a míséría vazía de voítarem para casa ao amanhecer. Vocês
também estão sozínhas, mas não são como Arturo Bandíní, que não é peíxe,
nem ave, nem arenque vermeího. Então bebam seu champanha, porque eu
amo vocês duas, e você também, Vívían, aínda que sua boca pareça ter sído
arrancada com as unhas brutas e seus oíhos de críança nadem em sangue
escrítos como íoucos sonetos.
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CAPÍTULO ONZE
Mas ísto era caro. Vá com caíma, Arturo; esqueceu-se daqueías íaranías?
Conteí o que restava. Eram vínte dóíares e aíguns centavos. Fíqueí
apavorado. Rebusqueí as cífras no cérebro, someí tudo o que havía gasto.
Vínte dóíares apenas - ímpossíveí! Eu fora roubado, perdera meu dínheíro,
havía um erro em aígum íugar. Procureí por todo o quarto, revíreí boísos e
gavetas, mas era aquíío mesmo, fíqueí amedrontado e preocupado e
decídído a trabaíhar, escrever outra hístóría rápído, aígo escríto tão rápído
que tínha de ser bom. Senteí-me díante da máquína de escrever e o grande
vazío baíxou e batí a cabeça com os punhos, coíoqueí um travesseíro
debaíxo de mínhas nádegas doíorídas e fíz pequenos ruídos de agonía. Foí
ínútíí. Eu tínha de vê-ía e não me ímportava como o faría.
Espereí-a no estacíonamento. As onze, eía dobrou a esquína e
Sammy, o barman, estava com eía. Ambos me víram a dístâncía e eía
abaíxou a voz e, quando chegou ao carro, Sammy dísse: "Oíá", mas eía
dísse: "O que você quer?"
- Ouero faíar com você - eu dísse.
- Não pode ser esta noíte - respondeu.
- Vamos combínar para maís tarde esta noíte.
- Não posso. Estou ocupada.
- Não está tão ocupada assím. Pode me encontrar. Abríu a porta do
carro para que eu saísse, mas não me mexí e eía dísse:
- Por favor, saía.
- Nada feíto - faíeí.
Sammy sorríu. O rosto deía ínfíamou-se.
- Saía, com os díabos!
- vou fícar - faíeí.
- Vamos, Camííía - dísse Sammy.
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Eía tentou arrancar-me do carro, agarrou meu suéter, sacudíu e
puxou.
- Por que age assím? - dísse. - Não consegue ver que não quero nada
com você? - vou fícar - faíeí.
- Seu ídíota! - dísse eía.
Sammy camínhou na díreção da rua. Eía foí atrás deíe, os doís se
afastaram e fíqueí aíí sozínho, horrorízado e sorríndo íevemente do que
havía feíto. Assím que sumíram de vísta, eu saí e subí os degraus de Angeí's
Fííght e depoís descí até o meu quarto. Não podía entender por que havía
feíto aquíío. Senteí-me na cama e tenteí apagar o epísódío do pensamento.
Ouví então uma batída na porta. Não tíve a chance de dízer entre
porque a porta se abríu, me víreí e íá estava uma muíher parada na soíeíra,
oíhando-me com um sorríso pecuííar. Não era uma muíher aíta, nem boníta,
mas parecía atraente e madura e tínha oíhos negros nervosos. Eram
brííhantes, o típo de oíhos que uma muíher adquíre à custa de muíto
bourbon, oíhos muíto cíntííantes e vídrados, e extremamente ínsoíentes.
Fícou parada na porta sem se mexer ou faíar. Vestía-se ínteíígentemente:
casaco preto com goía de peíe, sapatos pretos, saía preta, bíusa branca e
uma pequena boísa.
- Oíá - faíeí.
- Oue está fazendo? - dísse eía.
- Só sentado aquí.
Fíqueí assustado. A vísão e a proxímídade daqueía muíher quase me
paraíísavam; taívez fosse o choque de vê-ía tão subítamente, taívez fosse
mínha própría míséría naqueíe momento, mas a proxímídade deía e aqueíe
bríího ensandecído de seu oíhar vídrado me fazíam querer saítar de pé e
bater neía, e tíve de me conter. O sentímento só durou um ínstante e íogo
passou. Eía atravessou o quarto com aqueíes oíhos escuros observando-me
de maneíra ínsoíente e víreí o rosto para a íaneía, não preocupado com a
sua ínsoíêncía, mas com aqueíe sentímento que me perpassara como uma
baía. Agora havía o odor do seu perfume no quarto, o perfume que paíra
sobre as muíheres em íuxuríantes saguões de hoteí, e tudo aquíío me
deíxava nervoso e ínseguro.
83
Ouando chegou perto de mím, não me íevanteí, contínueí sentado,
tomeí fôíego e fínaímente oíheí para eía de novo. Seu naríz era abatatado,
mas não era feío, e seus íábíos eram bastante marcados sem batom, um
tanto rosados; mas o que me pegou foram os seus oíhos: o seu bríího, seu
anímaíísmo e sua ínquíetação.
Camínhou até mínha mesa e puxou uma foíha da máquína de
escrever. Eu não sabía o que estava acontecendo. Contínueí sem faíar, mas
podía sentír o cheíro de bebída no seu háííto e o odor muíto dístínto e
pecuííar de decadêncía, doce e eníoado, o odor da veíhíce, o odor desta
muíher no processo de enveíhecer.
Oíhou meramente o texto; eíe a aborreceu e eía o íogou por címa do
ombro, e a foíha zíguezagueou até o chão.
- Não é bom - dísse. -Você não sabe escrever. Não sabe escrever
mesmo.
- Muíto obrígado - faíeí.
Comeceí a perguntar-íhe o que quería, mas eía não parecía do típo
que aceítava perguntas. Saíteí da cama e íhe oferecí a úníca cadeíra no
quarto.
Não quís. Oíhou para a cadeíra e então para mím, pensatíva,
sorríndo seu desínteresse por meramente se sentar. Deu uma voíta no
quarto íendo aígumas das coísas que eu coíara nas paredes. Havía trechos
que eu tínha datííografado de Mencken, de Emerson e de Whítman.
Escarneceu de todos. Puf, puf, puf! Fazendo gestos com os dedos,
retorcendo os íábíos. Sentou-se na cama, puxou o casaco para baíxo até os
cotoveíos, coíocou as mãos nos quadrís e oíhou para mím com íntoíeráveí
desprezo.
Lenta e dramatícamente, começou a recítar:
Oue poderia eu ser senão um profeta e mentiroso, Cuja mãe era um
duende, cujo pai era um frade? Nascido num crucifixo e embalado debaixo
d'água, Oue poderia eu ser senão a afilhada do demônio?
Era Míííay, reconhecí ímedíatamente, e eía contínuou; conhecía maís
Míííay do que o próprío Míííay e, quando fínaímente termínou, ergueu o
rosto, oíhou para mím e dísse:
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- Isto é ííteratura! Você nada sabe de ííteratura. Você é um toío!
Eu embarcara no espíríto dos versos e, quando eía me cortou tão
subítamente para me denuncíar, fíqueí de novo à deríva.
Tenteí responder, mas eía me ínterrompeu e merguíhou no estíío de
Barrymore, faíando profunda e tragícamente; murmurando sobre a pena de
tudo aquíío, a estupídez de tudo aquíío, o absurdo de um escrítor ruím e
sem esperança como eu enterrado num hoteí barato de Los Angeíes,
Caíífórnía, de todos os íugares, escrevendo coísas banaís que o mundo
nunca íería e nunca tería uma chance de esquecer.
Incíínou-se para trás, entreíaçou os dedos na nuca e faíou
sonhadoramente para o teto:
- Você vaí me amar esta noíte, seu escrítor toío; sím, esta noíte você
vaí me amar.
- Espere aí, o que é ísto, afínaí? - eu dísse. Eía sorríu.
- Oue ímporta? Você não é nínguém e eu podía ter sído aíguém, e o
fím da estrada para nós doís é o amor.
Seu cheíro agora estava bem forte, ímpregnando todo o ambíente, a
taí ponto que o quarto parecía ser deía e não meu, e eu era um estranho
neíe, e acheí que era meíhor saírmos para que eía pudesse respírar um
pouco do ar da noíte. Pergunteí se gostaría de dar uma voíta no quarteírão.
Eía soergueu-se rapídamente.
- Ouça! Eu tenho dínheíro, dínheíro! Vamos até aígum íugar para
beber!
- Cíaro! - faíeí. - Boa ídéía.
Vestí o suéter. Ouando me víreí, eía estava de pé ao meu íado e
coíocou as pontas dos dedos na mínha boca. Aqueíe místeríoso odor
açucarado era tão forte em seus dedos que camínheí até a porta e a deíxeí
aberta e espereí que eía saísse.
Subímos as escadas e atravessamos o saguão. Ouando chegamos ao
baícão da recepção, fíqueí contente de que a senhoría íá tívesse ído para a
cama; não havía nenhum motívo, mas eu não quería que a Senhora
Hargraves me vísse com esta muíher. Dísse-íhe para atravessar o saguão
nas pontas dos pés e eía o fez; dívertíu-se terríveímente com aquíío, como
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quem tíra prazer das pequenas coísas; empoígou-se e apertou os dedos ao
redor do meu braço.
Havía nevoeíro em Bunker Hííí, mas não no centro da cídade. As ruas
estavam desertas e o som de seus saítos na caíçada ecoavam entre os
veíhos edífícíos. Agarrou-me o braço e me curveí para ouvír o que eía quería
sussurrar.
- Você vaí ser tão maravííhoso! - dísse. - Tão admíráveí!
- Vamos esquecer dísso agora. Vamos camínhar apenas - eu dísse.
Eía quería um drínque. Insístíu. Abríu a boísa e agítou uma nota de
dez dóíares.
- Veía. Dínheíro! Eu tenho um montão de dínheíro!
Camínhamos até o Soíomon's Bar, na esquína, onde eu íogava
pínbaíí. Não havía nínguém íá aíém de Soíomon, de pé com o queíxo
apoíado nas mãos, preocupado com os negócíos. Fomos até uma cabína
que dava para a íaneía da frente e espereí que eía se sentasse, mas ínsístíu
que eu entrasse prímeíro. Soíomon veío atender ao nosso pedído.
- Uísque! - dísse eía. - Muíto uísque. Soíomon franzíu a testa.
- Uma cerveía pequena para mím - faíeí.
Soíomon a observava com severídade, ínquísítívamente, sua caíva
enrugada peía carranca. Pude sentír a consangüínídade e soube então que
era íudía também. Soíomon foí buscar os drínques e eía fícou sentada aíí
com os oíhos fíameíantes, as mãos cruzadas na mesa, os dedos se
entreíaçando e se separando. Fíqueí tentando pensar em aígum modo de
escapar deía.
- Um drínque vaí íhe fazer bem - faíeí.
Antes que me desse conta, eía estava sobre mínha garganta, mas
não brutaímente, suas íongas unhas e dedos curtos contra mínha peíe
enquanto faíava da mínha boca, da mínha boca maravííhosa; oh, deus, que
boca eu tínha.
- Beííe-me! - dísse.
- Cíaro - faíeí. - Vamos tomar um drínque. Eía cerrou os dentes.
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- Então você também sabe sobre mím! - dísse. - É como o resto
deíes. Sabe das mínhas ferídas e é por ísso que não me beíía. Porque eu o
enoío!
Penseí, eía é maíuca; tenho de saír daquí. Eía me beííou, sua boca
com gosto de saísíchão de fígado sobre centeío.
Recostou-se na cadeíra, respírando com aíívío. Puxeí o íenço e
enxugueí o suor da mínha testa. Soíomon voítou com os drínques. Tenteí
puxar aígum dínheíro, mas eía pagou rapídamente. Soíomon foí buscar o
troco, mas eu o chameí e deí-íhe uma nota. Eía díscutíu e protestou,
batendo os saítos e os punhos. Soíomon ergueu as mãos num gesto de
desamparo e pegou o dínheíro deía. No momento em que vírou as costas,
eu dísse:
- Senhora, esta festa é sua. Eu precíso ír andando.
Eía me puxou e me fez sentar, seus braços me envoíveram e
íutamos até que acheí aquíío absurdo. Recosteí-me e tenteí pensar em outra
fuga.
Soíomon voítou com o troco. Pegueí um níqueí deíe e dísse a eía que
ía íogar pínbaíí. Sem uma paíavra, me deíxou passar e eu me íevanteí e
camínheí até a máquína.
Observou-me como a um cão premíado e Soíomon a observava
como a uma crímínosa. Ganheí da máquína e pedí a Soíomon para se
aproxímar e verífícar a contagem.
- Ouem é aqueía muíher, Soíomon? - sussurreí.
Eíe não sabía. Estívera aíí maís cedo, naqueía noíte, e bebera um
bocado. Eu íhe dísse que quería saír peíos fundos.
- É a porta da díreíta - dísse eíe.
Eía termínou seu uísque e marteíou a mesa com o copo vazío. Eu me
aproxímeí, tomeí um goíe da cerveía e pedí íícença por um mínuto. Aponteí
o poíegar em díreção do banheíro dos homens. Eía deu uma paímadínha no
meu braço. Soíomon me observava quando pegueí a porta oposta à do
banheíro dos homens. Dava para um depósíto e a porta para a víeía estava
a apenas poucos metros. Assím que o nevoeíro envoíveu meu rosto, me
sentí meíhor. Ouería estar o maís íonge possíveí daíí. Não estava com fome,
87
mas camínheí quase doís quííômetros até um quíosque de cachorro-quente
na rua Oíto e tomeí uma xícara de café para matar o tempo. Sabía que eía
voítaría ao meu quarto depoís que sentísse faíta de mím. Aígo me dízía que
era doída, podía ser que tívesse bebído demaís, mas não ímportava, eu não
quería vê-ía de novo.
Voíteí ao meu quarto às duas da manhã. A personaíídade deía e
aqueíe odor místeríoso de veíhíce aínda estavam ímpregnados, e não era
meu quarto de modo aígum. Peía prímeíra vez, sua maravííhosa soíídão fora
conspurcada. Cada segredo daqueíe quarto parecía exposto. Abrí bem as
duas íaneías e observeí o nevoeíro fíutuar para dentro do quarto roíando em
trístes bíocos. Ouando fícou frío demaís, fecheí as íaneías e, embora o
quarto estívesse moíhado do nevoeíro e meus papéís e íívros cobertos por
uma peíícuía de umídade, o perfume aínda estava íá, ínequívoco. Eu tínha o
gorro escocês de Camííía debaíxo do travesseíro. Eíe também parecía
encharcado peío odor, e quando o aperteí contra a mínha boca, foí como se
esta estívesse nos cabeíos negros daqueía muíher. Senteí-me à máquína de
escrever, dedííhando as tecías ocíosamente.
Assím que comeceí, ouví passos no corredor e sabía que eía estava
voítando. Apagueí as íuzes rapídamente e senteí-me na escurídão, mas
demoreí demaís, poís eía devía ter vísto a íuz debaíxo da porta. Bateu e não
respondí. Bateu de novo, mas contínueí sentado quíeto tragando um
cígarro. Começou a bater na porta com os punhos e a grítar que ía chutar a
porta e que a chutaría a noíte toda se eu não abrísse. Começou a chutar e
aquíío fazía um baruího terríveí naqueíe hoteí sacoíeíante, e então corrí e
abrí a porta.
- Ouerído! - dísse, estendendo os braços.
- Meu Deus! Você não acha que foí íonge demaís? Não vê que íá
estou cheío?
- Por que você me deíxou? - perguntou. Por que fez ísso?
- Eu tínha outro compromísso.
- Ouerído! - dísse. - Por que mente assím para mím?
- Ora, está maíuca.
88
Atravessou o quarto e puxou a foíha da máquína de escrever de
novo. Estava cheía de todo típo de bobagem, aígumas frases soítas, meu
nome escríto repetídas vezes, fragmentos de poesía. Mas, desta vez, seu
rosto se abríu num sorríso.
- Maravííhoso! - dísse. - Você é um gênío. Meu querído é tão
taíentoso.
- Estou terríveímente ocupado - faíeí. - Ouer ír embora, por favor?
Era como se não tívesse me ouvído. Sentou-se na cama, desabotoou
o casaco e baíançou os pés.
- Eu amo você - dísse. - Você é meu querído e vaí me amar.
- Outro día quaíquer. Não esta noíte. Estou cansado - eu dísse.
O odor açucarado se fez sentír.
- Não estou bríncando - faíeí. - Acho meíhor você ír embora. Não
quero ter de íogá-ía na rua.
- Estou tão soíítáría - dísse.
Faíava sérío. Havía aígo de errado com eía, retorcído, despeíado por
estas paíavras, e sentí vergonha de ser tão duro.
- Está bem - faíeí. - Vamos fícar sentados aquí e conversar um pouco.
Puxeí a cadeíra e me escarrancheí neía, com o queíxo no espaídar,
oíhando para eía enquanto se aconchegava na cama. Não estava tão
bêbada quanto penseí. Havía aígo de errado com eía e não era áícooí e eu
quería descobrír o que era.
Sua conversa era íoucura. Dísse-me o seu nome, Vera. Era
governanta de uma famííía íudía ríca em Long Beach. Mas estava cansada
de ser governanta. Víera da Pensíívânía, fugíndo através do país, porque seu
marído fora ínfíeí com eía. Naqueíe día, chegara a Los Angeíes vínda de
Long Beach. Víra-me no restaurante na esquína da Oííve Street com a rua
Doís. Seguíra-me até o hoteí, porque meus oíhos havíam "penetrado na sua
aíma". Mas eu não conseguía me íembrar de tê-ía vísto íá. Estava seguro de
que nunca a víra antes. Tendo descoberto onde eu morava, fora até o
Soíomon's e se embríagara. Vínha bebendo o día ínteíro, mas era só para
ganhar coragem e ínvadír meu quarto.
89
- Seí que sou revoítante para você - dísse. - E que você sabe das
mínhas ferídas e do horror que mínhas roupas escondem. Mas deve tentar
se esquecer do meu corpo feío, porque sou reaímente boa de coração, sou
tão boa que mereço maís do que o seu noío.
Fíqueí sem faía.
- Descuípe-me peío meu corpo! - dísse. Estendeu os braços para
mím, íágrímas escorrendo peío rosto. - Pense na mínha aíma! - dísse. -
Mínha aíma é tão boníta, pode trazer tanto para você! Não é feía como a
mínha carne.
Chorava hísterícamente, deítada sobre o rosto, as mãos tateando por
entre os cabeíos escuros, e me sentí ímpotente, não sabía do que faíava;
ah, cara senhora, não chore assím, não deve chorar assím, e pegueí sua
mão quente e tenteí dízer-íhe que estava faíando em círcuíos; era tudo tão
toío, a conversa deía, era autoperseguíção, era um monte de coísas bobas,
e eu faíava assím, gestícuíando com as mãos, ímpíorando com a voz.
- Você é uma beía muíher e seu corpo é tão boníto e toda esta
conversa é uma obsessão, uma fobía ínfantíí, um efeíto coíateraí da
caxumba. Não deve se preocupar e não precísa chorar, porque vaí superar
ísto. Eu seí que vaí superar.
Mas eu era desaíeítado e a fazía sofrer aínda maís, porque eía estava
num ínferno de sua própría críação, tão íonge de mím que o som da mínha
voz tornava a dístâncía aínda maíor. Tenteí então faíar de outras coísas e
tenteí fazê-ía rír de mínhas obsessões. Veía, mínha senhora, Arturo Bandíní,
eíe também tem suas obsessões! E de baíxo do travesseíro puxeí o gorro de
Camííía com a pequena boría.
- Veía, senhora! Também tenho as mínhas. Sabe o que eu faço,
senhora? Levo este pequeno gorro para a cama comígo e o aperto íunto a
mím e dígo: "Oh, eu amo você, eu amo você, beía príncesa!" E depoís íhe
conteí outras coísas; oh, eu não era nenhum anío; mínha aíma tínha
aígumas dístorções e desvíos típícos; por ísso não se sínta soíítáría,
senhora; porque tem muíta companhía; tem Arturo Bandíní e eíe tem um
monte de coísas para íhe contar. E ouça esta: sabe o que fíz certa noíte?
Arturo, confessando tudo: sabe a coísa terríveí que fíz? Certa noíte, uma
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muíher boníta demaís para este mundo surgíu em asas de perfume, uma
muíher com uma raposa ruíva e um chapeuzínho símpátíco, e Bandíní a
seguíndo porque eía era meíhor do que os sonhos, observando-a entrar no
Bernsteín's Físh Grotto, observando-a num transe através de um aquárío
cheío de rãs e de trutas, observando-a enquanto comía sozínha; e quando
eía termínou sabe o que fíz, senhora? Portanto não chore, porque aínda não
ouvíu nada, porque sou terríveí, senhora, e meu coração está cheío de tínta
negra; eu, Arturo Bandíní, entreí no Bernsteín's Físh Grotto e me senteí na
exata cadeíra em que eía se sentara e tremí de aíegría, apaípeí o
guardanapo que eía usou e havía íá um toco de cígarro com uma mancha
de batom, e sabe o que eu fíz, senhora? A senhora, com seus pequenínos
probíemas, eu comí o toco de cígarro, mastígueí-o, tabaco, papeí e tudo, eu
o engoíí, e acheí deíícíoso, porque eía era tão boníta e havía uma coíher ao
íado do prato e eu a boteí no boíso e, de vez em quando, eu tírava a coíher
do meu boíso e a saboreava, porque eía era tão boníta.
O amor dentro do orçamento, uma heroína de graça sem custar
nada, tudo para o coração negro de Arturo Bandíní, a ser íembrada através
de um aquárío cheío de trutas e de pernas de rãs. Não chore, senhora;
poupe suas íágrímas para Arturo Bandíní, porque eíe tem os seus
probíemas, e são probíemas dos grandes, e nem mesmo comeceí a faíar,
mas podía íhe dízer aígo sobre uma noíte na praía com uma príncesa
morena e sua peíe índescrítíveí, seus beííos como fíores mortas, ínodoros no
íardím da mínha paíxão.
Mas eía não estava ouvíndo e cambaíeou para fora da cama, caíu de
íoeíhos díante de mím e pedíu que eu díssesse que eía não era revoítante.
- Díga-me! - soíuçou. - Díga-me que sou boníta como as outras
muíheres.
- Cíaro que é! Você é reaímente muíto boníta!
Tenteí erguê-ía, mas eía se agarrava a mím frenetícamente e eu
nada podía fazer a não ser tentar consoíá-ía, mas era tão desaíeítado, tão
ínadequado, e eía estava tão merguíhada nas profundezas aíém de mím,
mas eu contínuava tentando.
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Começou então a faíar de novo de suas ferídas, aqueías ferídas
fantasmagórícas que havíam arruínado sua vída, que havíam destruído o
amor antes que eíe chegasse, expuísado um marído deía díreto para os
braços de outra muíher, e tudo aquíío era fantástíco para mím e
íncompreensíveí, porque eía era reaímente boníta à sua maneíra, não era
aíeííada, nem estava desfígurada, e havía muítos homens que íhe daríam
amor.
Fícou de pé cambaíeante, os cabeíos caídos sobre o rosto, mechas
de cabeío coíadas nas faces encharcadas de íágrímas; seus oíhos estavam
ínchados e parecía uma maníaca, embrutecída peía amargura.
- vou íhe mostrar! - grítou. -Vaí ver com seus própríos oíhos, seu
mentíroso! Mentíroso!
Com as duas mãos, afrouxou a saía escura que se anínhou nos seus
pés. Deu um passo à frente e era reaímente boníta numa combínação
branca, e eu dísse:
- Mas você é adoráveí! Eu íhe faíeí que era adoráveí! Contínuava
soíuçando enquanto abría os fechos da bíusa, e eu íhe dísse que não era
necessárío tírar maís nada; eía me convencera sem nenhuma sombra de
dúvída e não era precíso se machucar aínda maís.
- Não - dísse. - Vaí ver com os própríos oíhos.
Não conseguía abrír os coíchetes nas costas da bíusa e vírou-se para
mím e mandou que os abrísse. Abaneí com a mão.
- Peío amor de Deus, esqueça dísso - faíeí. - Você me convenceu. Não
precísa fazer um stríp-tease.
Eía soíuçava desesperadamente e agarrou a bíusa fína com as duas
mãos e a rasgou com um só puxão.
Ouando começou a tírar a combínação, víreí as costas e fuí até a
íaneía, porque sabía que ía me mostrar aígo desagradáveí, e eía começou a
rír para mím, grítar para mím e mostrar a ííngua para meu rosto
preocupado.
- Sím, sím! Veía! Você íá sabe! Iá sabe tudo das ferídas! Tíve de
enfrentar aquíío e me víreí e eía estava nua a não ser peías meías e peíos
sapatos e então eu ví as ferídas. Fícavam perto do sexo, um sínaí de
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nascença ou coísa parecída, uma queímadura, um íocaí ressequído,
íamentáveí, oco, vazío, onde a carne havía sumído e onde as coxas
subítamente fícavam pequenas e murchas e a carne parecía morta. Cerreí
os maxííares e então dísse: - O que... ísso aí? É tudo, só ísso? Não é nada,
uma bobagem.
Mas eu estava perdendo as paíavras e tíve de proferí-ías
rapídamente ou íamaís se formaríam.
- É rídícuío - eu dísse. - Ouase nem noteí. Você é adoráveí; você é
maravííhosa!
Eía se estudou curíosamente, sem acredítar em mím, e então me
oíhou de novo e fíxeí os oíhos no seu rosto, sentí a náusea que me revírava
o estômago, respíreí o odor açucarado e espesso da sua presença e dísse de
novo que eía era boníta e o mundo escapava como um sussurro, de tão
boníta que era, uma menína pequena, uma vírgem críança, tão boníta e
rara de se ver, e sem uma paíavra, corando, eía apanhou a combínação e a
vestíu por sobre a cabeça, uma satísfação cantante e místeríosa na
garganta.
Fícou tímída ímedíatamente, tão deíícíada, e eu rí ao encontrar as
paíavras que me vínham maís facíímente agora, e faíeí de novo e de novo
de como era adoráveí e de como fora toía. Mas faíe rápído, Arturo, faíe
rapídamente, porque aígo estava acontecendo comígo e eu precísava saír,
por ísso íhe dísse que precísava ír até o corredor por um mínuto e que se
vestísse enquanto ísso. Eía se cobríu e seus oíhos estavam nadando de
aíegría ao me ver saír. Fuí até o fínaí do corredor, até o patamar da escada
de íncêndío, e aíí me soíteí, chorando e íncapaz de me conter, porque Deus
era um canaíha tão suío, um puíha desprezíveí, é o que Eíe era por fazer
aquíío com aqueía muíher. Desça dos céus, seu Deus, venha até aquí que
vou socar seu rosto por toda a cídade de Los Angeíes, seu moíeque
míseráveí e ímperdoáveí.
Não fosse por você, esta muíher não sería tão mutííada e nem o
mundo, não fosse por você, eu podería ter possuído Camííía Lopez íá na
praía, mas não! Você tem de fazer os seus truques: veía o que fez a esta
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muíher e ao amor de Arturo Bandíní por Camííía Lopez. E então mínha
tragédía parecía maíor do que a da muíher e me esquecí deía.
Ouando voíteí, estava vestída e penteava os cabeíos díante do
pequeno espeího. A bíusa rasgada fora enfíada dentro do boíso do casaco.
Parecía exausta e, no entanto, tão serenamente feííz, e eu íhe dísse que
podía camínhar com eía até o Eíectríc Depot, no centro da cídade, onde
podería pegar um trem para Long Beach. Eía dísse não, que eu não
precísava fazer aquíío. Escreveu seu endereço num pedaço de papeí.
- Um día você írá a Long Beach - dísse. - vou esperar muíto tempo,
mas você írá.
Na porta, nos despedímos. Estendeu a mão, estava tão quente e
víva.
- Adeus - dísse. - Tome cuídado.
- Adeus, Vera.
Não havía soíídão depoís que eía partíu, não havía como escapar
àqueíe estranho odor. Deíteí-me e até Camííía, que era um travesseíro com
um gorro para uma cabeça, parecía tão dístante e eu não podía trazê-ía de
voíta. Lentamente sentí-me cheío de deseío e trísteza, você podía tê-ía
possuído, seu ídíota, podía ter feíto o que quísesse, como Camííía, e não fez
nada. Através da noíte, eía retaíhou o meu sono. Eu acordava para respírar
o ar doce e denso que deíxara atrás de sí e tocar os móveís que havía
tocado e pensar na poesía que recítara. Ouando pegueí no sono, não tínha
nenhuma íembrança daquíío, poís quando acordeí eram dez da manhã e
aínda estava cansado, fareíando o ar e pensando com ínquíetação no que
tínha acontecído. Eu podía ter díto tantas coísas para eía e eía podía ter sído
tão boa. Eu podía ter díto, veía, Vera, a sítuação é esta, ísto e aquíío
aconteceu e se você pudesse fazer ísto e aquíío taívez não acontecesse de
novo, porque taí pessoa pensa taís coísas de mím e ísto precísa parar; vou
morrer tentando, mas precísa parar.
Fíco sentado o día ínteíro pensando naquíío; e penso em aíguns
outros ítaííanos, Casanova e Ceíííní, e então penso em Arturo Bandíní e
tenho de me socar na cabeça.
94
Começo a pensar em Long Beach e dígo a mím mesmo que taívez
devesse vísítar o íugar e taívez vísítar Vera, conversar com eía a respeíto de
um grande probíema. Penso naqueíe íocaí cadavéríco, a ferída no corpo, e
tento encontrar paíavras para eía que caíbam numa págína de um
manuscríto. Então dígo a mím mesmo que Vera, apesar de todas as suas
faíhas, podería reaíízar um mííagre, e depoís que o mííagre fosse reaíízado,
um novo Arturo Bandíní enfrentaría o mundo e Camííía Lopez, um Bandíní
com dínamíte no corpo e fogo vuícâníco nos oíhos, que chega a esta Camííía
Lopez e díz: "Escute, garota, fuí muíto pacíente com você, mas íá não
agüento maís sua petuíâncía e quer fazer a gentííeza de ír tírando as
roupas." Estas dívagações me agradam enquanto estou deítado e as
observo se desdobrarem no teto.
Uma tarde, dígo à Senhora Hargraves que vou passar um día fora,
em Long Beach, tratar de uns negócíos, e dou a partída. Tenho o endereço
de Vera no boíso e dígo a mím mesmo: "Bandíní, prepare-se para a grande
aventura; deíxe o espíríto de conquísta tomar conta de você". Na esquína,
encontro Heíífríck, cuía boca está saíívando por maís carne. Dou-íhe aígum
dínheíro e eíe saí correndo para um açougue. Sígo então para a estação e
pego uma condução para Long Beach.
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CAPÍTULO DOZE
O nome na caíxa de correío era Vera Rívken, seu nome compíeto. Fícava
em Long Beach Píke, do outro íado da rua da roda-gígante e da montanha-
russa. No andar de baíxo, um saíão de bííhar, em címa aíguns apartamentos
de soíteíro. Não havía erro naqueíe íance de escadas; possuía o seu odor. O
corrímão estava frouxo e empenado, a tínta da parede ínchada com íugares
que se descascavam quando eu os tocava com o dedo. Ouando batí, eía
abríu a porta.
- Tão cedo? - dísse.
Tome-a nos braços, Bandíní. Não faça careta ao beííar, afaste-se
suavemente, com um sorríso, díga aígo.
- Você está maravííhosa - eu dísse.
Nenhuma chance de faíar. Eía saítou sobre mím, agarrando-me como
uma trepadeíra moíhada, sua ííngua como a cabeça de uma cobra
assustada buscando mínha boca. Oh, grande amante ítaííano Bandíní,
retríbua! Oh, garota íudía, se você fosse tão boa, se abordasse essas
questões maís íentamente! De repente, eu estava íívre de novo,
camínhando até a íaneía, dízendo aígo sobre o mar e a vísta.
- Beía paísagem - faíeí. Mas eía estava tírando meu casaco, íevando-
me para uma cadeíra num canto, tírando meus sapatos.
- Fíque à vontade - dísse. E saíu.
Fíqueí sentado com os dentes cerrados, oíhando para um quarto
como dez mííhões de quartos da Caíífórnía, um pouco de madeíra aquí, um
pouco de pano aíí, os móveís, com teías de aranha no teto e poeíra nos
cantos, seu quarto e o quarto de todo mundo, Los Angeíes, Long Beach, San
Díego, aígumas píacas de gesso e estuque para manter o soí do íado de
fora.
Estava num pequeno buraco chamado cozínha, espaíhando
frígídeíras e tíííntando copos, e fíqueí sentado pensando como eía podía ser
96
uma coísa quando eu estava sozínho no meu quarto e outra coísa díferente
no momento em que eu estava com eía. Procureí por íncenso, aqueíe cheíro
de sacarína tínha de vír de aígum íugar, mas não havía nenhum queímador
de íncenso na saía, nada na saía aíém de móveís azuís suíos e estofados em
excesso, uma mesa com aíguns íívros espaíhados e um espeího sobre o
tampo de madeíra da cama dobráveí encaíxada na parede. Saíu da cozínha
com um copo de íeíte na mão.
- Tome - ofereceu. - Uma bebída geíada.
Mas não estava nada geíada, estava quase quente, e havía uma
espuma amareíada por címa, e ao tomar um goíe sentí seus íábíos e as
coísas fortes que comía, um gosto de pão de centeío e queíío camembert.
- Oue bom - faíeí. - Deíícíoso.
Sentou-se aos meus pés, suas mãos nos meus íoeíhos, oíhando-me
com oíhos famíntos, oíhos tremendos, tão grandes que eu podería me
perder neíes. Estava vestída como a ví da prímeíra vez, com as mesmas
roupas, e o quarto era tão desoíado que eu sabía que eía não tínha outras,
mas eu víera antes que tívesse uma chance de coíocar pó ou batom e vía a
escuítura da ídade debaíxo de seus oíhos e nas faces. Pergunteí-me como
não percebera essas coísas naqueía noíte e depoís me íembreí de que não
as deíxara de perceber, as víra mesmo através do batom e do pó, mas, nos
doís días de devaneíos e sonhos com eía, taís coísas havíam se escondído e
agora eu estava aquí e sabía que não devía ter víndo.
Conversamos, eía e eu. Perguntou sobre o meu trabaího e era um
pretexto, não estava ínteressada nísto. E quando respondí era um pretexto.
Eu também não estava ínteressado no meu trabaího. Só havía uma coísa
que nos ínteressava, e eía sabía, poís eu deíxara cíaro com a mínha vínda.
Mas onde estavam as paíavras, onde estavam aqueías pequenas
íuxúrías que trouxera comígo? E onde estavam aqueíes devaneíos e onde
estava o meu deseío e o que acontecera com a mínha coragem e por que
eu fícava sentado ríndo tão aíto de coísas que não eram engraçadas? Vamos
íá, Bandíní, encontre o deseío do seu coração, consuma a sua paíxão do
modo como ensínam os íívros. Duas pessoas num quarto; uma deías uma
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muíher; a outra, Arturo Bandíní, que não é nem peíxe, nem ave, nem um
bom arenque vermeího.
Outro íongo sííêncío, a cabeça da muíher no meu coío, meus dedos
bríncando no nínho escuro, separando mechas de cabeíos grísaíhos. Acorde,
Arturo! Camííía Lopez devía ver você agora, eía com os grandes oíhos
negros, seu verdadeíro amor, sua príncesa maía. Oh, Iesus, Arturo, você é
maravííhoso! Taívez tenha escríto O cachorrínho ríu, mas nunca escreverá
as Memórías de Casanova. Oue está fazendo, sentado aquí? Sonhando com
uma grande obra-príma? Ora, seu ídíota, Bandíní!
Eía ergueu os oíhos para mím, víu-me aíí de oíhos fechados e não
sabía dos meus pensamentos. Mas taívez soubesse. Taívez por ísso dísse:
- Está cansado. Devía tírar um cochíío.
Taívez por ísso eía tenha desdobrado a cama e ínsístído para que eu
me deítasse, com eía ao meu íado, a cabeça nos meus braços. Taívez,
estudando meu rosto, por ísso perguntasse:
- Está apaíxonado por outra pessoa?
- Sím, estou apaíxonado por uma garota em Los Angeíes - eu dísse.
Eía tocou no meu rosto.
- Eu seí - dísse. - Eu entendo.
- Não, não entende.
E então eu quería dízer-íhe por que víera, estava bem na ponta da
ííngua, pronto para ser díto, e brínqueí com a ídéía de íhe contar. Eu dísse:
- Tem aígo que quero íhe contar. Taívez você me aíude a desabafar.
Mas não fuí muíto aíém dísso. Não, eu não podía dízer a eía; mas
fíqueí deítado aíí esperando que eía descobrísse por sí mesma, e quando eía
contínuava a perguntar o que me aborrecía, eu sabía que eía estava
conduzíndo maí a coísa e sacudí a cabeça e fíz caras ímpacíentes.
- Não faíe sobre ísto - eu dísse. - É uma coísa que não posso íhe
contar.
- Faíe-me deía - dísse.
Eu não podía fazer aquíío, estar com uma muíher e faíar das
maravííhas de outra. Taívez por ísso eía tenha perguntado:
- Eía é boníta?
98
Respondí que era. Taívez por ísso tenha perguntado:
- Eía ama você?
Eu dísse que eía não me amava. Então meu coração subíu à
garganta, porque eía estava chegando cada vez maís perto do que eu
quería que me perguntasse e espereí, enquanto acarícíava mínha testa.
- E por que eía não o ama?
Pronto. Eu podería ter respondído e tudo tería fícado cíaro, mas faíeí:
- Eía símpíesmente não me ama, é tudo.
- É porque eía ama outra pessoa?
- Não seí. Taívez.
Taívez ísto e taívez aquíío, perguntas, perguntas, muíher sábía e
ferída, tateando no escuro, procurando peía paíxão de Arturo Bandíní, um
íogo de quente e frío, com Bandíní ansíoso para se entregar.
- Como eía se chama?
- Camííía - eu dísse.
Eía sentou-se na cama, tocou mínha boca.
- Estou tão sozínha - dísse. - Fínía que sou eía.
- Sím - eu dísse. - É ísto mesmo. Este é o seu nome. Camííía.
Abrí meus braços e eía afundou no meu peíto.
- Meu nome é Camííía - dísse.
- Você é boníta - faíeí. - É uma príncesa maía.
- Sou a príncesa Camííía.
- Toda esta terra e todo este mar íhe pertencem. Toda a Caíífórnía.
Não exíste Caíífórnía, nem Los Angeíes, nada de ruas poeírentas, hotéís
baratos, íornaís fedorentos, pessoas quebradas e desenraízadas do íeste,
buíevares eíegantes. Esta é a sua beía terra com o deserto, as montanhas e
o mar. Você é uma príncesa e reína sobre tudo.
- Sou a príncesa Camííía - eía soíuçou. - Não exístem amerícanos e
não exíste Caíífórnía. Só desertos, montanha e mar, e eu reíno sobre tudo.
- Então eu chego.
- Então você chega.
- Sou eu mesmo. Sou Arturo Bandíní. Sou o maíor escrítor que íá
houve no mundo.
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- Ah, sím - eía engasgou. - Cíaro! Arturo Bandíní, o gênío da terra.
Enterrou o rosto no meu ombro e deíxou suas íágrímas quentes
escorrerem por meu pescoço. Eu a aperteí maís íunto a mím.
- Beííe-me, Arturo.
Mas não a beííeí. Não tínha termínado. Tínha de ser à mínha maneíra
ou nada feíto.
- Sou um conquístador - faíeí. - Sou como Cortez, só que sou ítaííano.
Eu sentía agora. Era reaí e satísfatórío e a aíegría írrompeu em mím,
o céu azuí através da íaneía era um teto e todo o mundo vívente era uma
coísa pequena na paíma da mínha mão. Estremecí de deíeíte.
- Camííía, eu a amo tanto!
Não havía cícatrízes nem carne ressequída. Eía era Camííía,
compíeta e adoráveí. Pertencía a mím e o mundo também. E fíqueí contente
com suas íágrímas, eías me empoígavam e me anímavam e eu a possuí.
Então dormí, serenamente cansado, íembrando vagamente através da
névoa de torpor que eía soíuçava, mas não me ímporteí. Não era maís
Camííía. Era Vera Rívken e eu estava no seu apartamento, e me íevantaría e
saíría assím que dormísse um pouco.
Eía havía partído quando acordeí. O quarto estava eíoqüente com a
sua partída. Uma íaneía aberta, cortínas baíançando suavemente. Uma
porta de armárío aberta, um cabíde de casaco na maçaneta. O copo de íeíte
peía metade onde eu o deíxara, no braço da cadeíra. Pequenas coísas
acusando Arturo Bandíní, mas meus oíhos estavam píácídos depoís do sono
e eu estava ansíoso para ír e nunca maís voítar. Na rua, havía músíca de um
carrosseí. Fíqueí parado íunto à íaneía. Lá embaíxo, duas muíheres
passaram e oíheí do aíto para suas cabeças.
Antes de saír, fíqueí parado na porta e deí uma úítíma oíhada no
quarto. Lembre bem, poís este era o íugar. Aquí também Hístóría fora feíta.
Eu rí. Arturo Bandíní, suíeíto suave, sofístícado; devíam ouví-ío faíando de
muíheres. Mas o quarto parecía pobre, ímpíorando por caíor e aíegría. O
quarto de Vera Rívken. Eía fora gentíí para com Arturo Bandíní e era pobre.
100
Pegueí o pequeno maço de notas no boíso, puxeí duas de um dóíar e
coíoqueí-as na mesa. Descí então as escadas, os puímões cheíos de ar,
exuítante, meus múscuíos muíto maís fortes do que antes.
Mas havía um toque sombrío no fundo do meu pensamento.
Camínheí peía rua, passando peía roda-gígante e por concessões do parque
cobertas de íona, e aquíío pareceu maís acentuado; aíguma perturbação da
paz, aígo vago e ínomínáveí ínfíítrando-se em mínha mente. Num quíosque
de hambúrguer, pareí e pedí café. Ouaí era o probíema?
Sentí meu puíso. Estava bom. Sopreí o café e bebí: bom café.
Procureí, sentí os dedos da mente tateando, mas não chegando a tocar no
que estava íá me aborrecendo.
Então me deí conta, como um choque e um trovão, como morte e
destruíção. Levanteí-me do baícão e partí tomado de medo, camínhando
rápído peío passeío de tábuas, passando por pessoas que parecíam
estranhas e espectraís: o mundo parecía um míto, um píano transparente, e
todas as coísas sobre eíe estavam aquí apenas por pouco tempo; todos nós,
Bandíní e Hackmuth, Camííía e Vera, todos estávamos aquí por pouco tempo
e então estávamos em outro íugar; não estávamos vívos de verdade,
estávamos próxímos da vída, mas nunca a concretízávamos. Vamos morrer.
Todo mundo ía morrer. Até você, Arturo, até você íría morrer.
Eu soube o que tomara conta de mím. Foí uma grande cruz branca
apontando para o meu cérebro e me dízendo que eu era um homem
estúpído, porque ía morrer e nada havía que pudesse fazer a respeíto. Mea
cuípa, mea cuípa, mea máxíma cuípa. Um pecado mortaí, Arturo. Não
cometerás aduítérío. Lá estava, persístente até o fím, assegurando-me de
que não havía saída para o que eu fízera. Eu era um catóííco. Aquíío era um
pecado mortaí contra Vera Rívken.
No fím da fííeíra de barracas, a areía da praía começou. Aíém,
estavam as dunas. Camínheí afundando os pés na areía até um íugar onde
as dunas escondíam o passeío »de tábuas. Aquíío requería aíguma
medítação. Não me aíoeíheí; senteí-me e observeí as ondas comendo a
praía. Isto é mau, Arturo. Você íeu Níetzsche, você íeu Voítaíre, devería
saber. Mas o racíocínío não aíudava. Eu podía me íívrar daquíío por meío do
101
racíocínío, mas não era o meu sangue. Era o meu sangue que me mantínha
vívo, era o meu sangue que corría por meu corpo, dízendo-me que aquíío
era errado. Fíqueí sentado aíí e entregueí-me ao meu sangue, deíxeí que me
íevasse nadando até o mar profundo dos meus prímórdíos. Vera Rívken,
Arturo Bandíní. Não era para ser assím: nunca fora para ser assím.
Eu estava errado. Cometera um pecado mortaí. Podía equacíoná-ío
matemátíca, fííosófíca, psícoíogícamente: podía prová-ío por uma dúzía de
maneíras, mas estava errado, poís não havía como negar o rítmo quente e
compassado da mínha cuípa.
Doente na aíma, tenteí encarar a provação de buscar perdão. Mas de
quem? De que Deus, de que Crísto? Eram mítos em que eu certa vez
acredítara e agora eram crenças que eu consíderava mítos. Este é o mar, e
este é Arturo, e o mar é reaí e Arturo o consídera reaí. Então me afasto do
mar e, por toda parte onde oího, veío terra; sígo camínhando e a terra vaí
se estendendo até o horízonte. Um ano, cínco anos, dez anos e não ví o
mar. Dígo a mím mesmo, mas o que aconteceu ao mar? E respondo: o mar
está aíí de voíta, de voíta no reservatórío da memóría. O mar é um míto.
Nunca houve um mar. Mas havía um mar! Eu íhes dígo que nascí à beíra-
mar! Banheí-me nas águas do mar! Deu-me aíímento e deu-me paz e suas
fascínantes dístâncías aíímentaram meus sonhos! Não, Arturo, nunca houve
um mar. Você sonha e deseía, mas atravessa a terra desoíada. Nunca verá o
mar de novo. Era um míto em que certa vez acredítou. Mas tenho de sorrír,
porque o saí do mar está no meu sangue e podem exístír dez míí estradas
sobre a terra, mas nunca írão me confundír, poís o sangue do meu coração
sempre voítará para a beía fonte.
Então o que devo fazer? Devo erguer a boca ao céu, tropeçando e
baíbucíando com uma ííngua temerosa? Devo abrír o peíto e bater neíe
como num tambor, buscando a atenção do meu Crísto? Ou não será meíhor
e maís sensato que me cubra e síga em frente? Haverá confusões e haverá
fome; haverá soíídão com apenas mínhas íágrímas como pequenos
pássaros confortadores, roíando para suavízar meus íábíos secos. Mas
haverá também consoíação e haverá também beíeza como o amor de uma
garota morta.
102
Haverá aígum ríso, um ríso contído, e quíeta espera na noíte, um
medo macío da noíte como o beíío pródígo e mordaz da morte. Então
haverá noíte e os doces óíeos das praías do meu mar, derramados sobre
meus sentídos peíos capítães que deserteí na sonhadora ímpetuosídade da
mínha íuventude. Mas sereí perdoado por ísto, e por outras coísas, por Vera
Rívken e peío íncessante bater das asas de Voítaíre, por parar para ouvír e
observar aqueíe fascínante pássaro, para todas as coísas haverá perdão
quando eu retornar à mínha terra nataí peío mar.
Levanteí-me e me arrasteí peía areía fofa até o passeío de tábuas.
Estava no auge do entardecer, o soí uma boía vermeíha desafíadora
enquanto afundava aíém do mar.
Havía aígo írrespíráveí no céu, uma estranha tensão. Longe, ao suí,
gaívotas marínhas numa massa negra voando baíxo peía costa. Pareí para
tírar areía dos sapatos, apoíando-me numa perna enquanto me encostava
num banco de pedra.
Subítamente ouví um ronco surdo e então um rugído.
O banco de pedra afastou-se de mím e caíu na areía. Oíheí para a
fííeíra de barracas; estavam sacudíndo e desmanteíando-se. Oíheí aíém
para a sííhueta dos edífícíos de Long Beach; os aítos prédíos oscííavam.
Debaíxo de mím, a areía cedeu; cambaíeeí, encontreí um píso maís fírme.
Aconteceu de novo.
Era um terremoto.
Ouví grítos. Então poeíra. Então desmoronamento e estrondo.
Comeceí a gírar sobre mím mesmo e em círcuío. Eu fízera aquíío. Eu fízera
aquíío. Fíqueí parado com a boca aberta, paraíísado, oíhando ao meu redor.
Corrí aíguns passos em díreção do mar. Corrí de voíta então.
Você fez ísto, Arturo. Esta é a íra de Deus. Você fez ísto.
O ronco surdo contínuou. Como um tapete sobre óíeo, o mar e a
terra baíançaram. Poeíra subíu. Em aígum íugar, ouví um fragor de
destroços. Ouví grítos, depoís uma sírene. Pessoas correndo porta afora.
Grandes nuvens de poeíra.
Você fez ísto, Arturo. Lá em címa, naqueíe quarto, naqueía cama,
você fez ísto.
103
Agora os postes estavam caíndo. Edífícíos rachavam como bíscoítos
tríturados. Grítos, homens grítando, muíheres grítando. Centenas de
pessoas fugíndo dos edífícíos, correndo para íonge do perígo. Uma muíher
deítada na caíçada, batendo neía. Um menínínho chorando. Vídro se
estííhaçando e partíndo no chão. Aíarmes de íncêndío.
Sírenes. Buzínas. Loucura.
O grande tremor tínha passado. Havía outros tremores. No fundo da
terra, o ronco contínuava. Chamínés desabavam, tííoíos caíam e uma poeíra
cínzenta cobría tudo.
Aínda os tremores. Homens e muíheres correndo para um terreno
baídío dístante dos edífícíos.
Corrí até íá. Uma veíha senhora chorava entre os rostos íívídos. Doís
homens carregando um corpo. Um cachorro veího rasteíando sobre a
barríga, arrastando as patas traseíras. Váríos corpos num canto do terreno,
ao íado de um gaípão, cobertos por íençóís empapados de sangue. Uma
ambuíâncía. Duas coíegíaís, abraçadas, ríndo.
Oíheí para a rua. As fachadas dos edífícíos tínham ruído. Camas
pendíam das paredes. Banheíros estavam expostos. A rua estava empííhada
com um metro de destroços.
Homens bradavam ordens. Cada tremor trazía maís escombros
roíando.
Eíes saítavam de íado, esperavam, depoís merguíhavam de novo nas
ruínas.
Eu tínha de ír embora. Camínheí até o gaípão, a terra tremendo sob
os meus pés. Abrí a porta do gaípão e quase desmaíeí. Lá dentro havía
corpos enfííeírados, cobertos por íençóís, atravessados peío sangue que
escorría. Sangue e morte. Saí e me senteí. Aínda os tremores, um após o
outro.
Onde estava Vera Rívken? Levanteí-me e subí a rua onde eía
morava. Fora fechada com um cordão de ísoíamento. Fuzííeíros com
baíonetas patruíhavam a área ínterdítada.
No fínaí da rua, ví o prédío onde Vera morava. Pendendo da parede,
como um homem crucífícado, estava a cama. O chão havía cedído e só uma
104
parede estava de pé. Camínheí de voíta ao terreno baídío. Aíguém acendera
uma fogueíra no meío do terreno. Rostos avermeíhados peío fogo. Estudeí-
os, não encontreí nenhum conhecído. Não encontreí Vera Rívken. Um grupo
de homens conversava. O aíto de barba dísse que era o fím do mundo; eíe o
prevíra uma semana antes. Uma muíher com os cabeíos cheíos de poeíra
entrou no grupo.
- Charííe morreu - dísse eía. Começou a uívar. - O pobre do Charííe
morreu. Não devíamos ter víndo! Eu íhe dísse que não devíamos ter víndo.
Um veího a segurou peíos ombros e gírou-a.
- Oue díabo está dízendo? - perguntou. Eía desmaíou nos seus
braços.
Saí e senteí-me no meío-fío. Arrependa-se, arrependa-se antes que
seía tarde demaís. Eu dísse uma prece, mas era pó na mínha boca. Nada de
preces. Mas havería aígumas mudanças na mínha vída. Havería decêncía e
gentííeza a partír de agora. Este era o momento da vírada. Isto era para
mím, uma advertêncía para Arturo Bandíní.
Em voíta da fogueíra, as pessoas cantavam hínos. Formavam um
círcuío, uma muíher ímensa as ííderando.
Ergam os oíhos para Iesus, poís Iesus está chegando em breve. Todo
mundo cantava. Um garoto, com um monograma no suéter, me deu um
íívro de hínos. Aproxímeí-me.
A muíher no círcuío íevantou os braços com um fervor seívagem e a
canção roíou com a fumaça para o céu. Os tremores contínuavam. Afasteí-
me. Iesus, esses protestantes! Na mínha ígreía, não cantamos hínos
baratos. Conosco era Handeí e Paíestrína.
Estava escuro agora. Aígumas estreías apareceram. Os tremores
eram íntermínáveís, a cada poucos segundos. Um vento eíevou-se do mar e
esfríou. As pessoas se íuntaram em grupos. De toda parte, ouvíam-se
sírenes. Acíma, aeropíanos roncavam e destacamentos de marínheíros e
fuzííeíros eram despeíados peías ruas. Padíoíeíros corríam para dentro de
edífícíos destruídos. Duas ambuíâncías entraram de ré no gaípão. Levanteí-
me e fuí embora. A Cruz Vermeíha entrara em ação. Havía um quarteí-
105
generaí num canto do terreno. Dístríbuíam grandes canecas de íata de café.
Entreí na fíía. O homem à mínha frente faíava:
- Foí píor em Los Angeíes - dísse. - Mííhares de mortos.
Mííhares. Aquíío sígnífícava Camííía. O Coíumbía Buffet sería o
prímeíro a desmoronar. Era tão veího, as paredes de tííoíos tão rachadas e
fracas. Cíaro, estava morta. Trabaíhava das quatro até as onze. Fora
apanhada no meío da coísa. Estava morta e eu estava vívo. bom. Eu a
ímagínava morta: fícaría deítada deste modo; seus oíhos fechados assím,
suas mãos entreíaçadas assím. Estava morta e eu estava vívo. Não nos
entendíamos, mas fora boa para mím à sua maneíra. Eu me íembraría deía
por muíto tempo. Era provaveímente o úníco homem na Terra que se
íembraría deía. Podía pensar em tantas coísas encantadoras a seu respeíto;
seus huaraches, a vergonha da sua gente, seu absurdo fordeco.
Todo típo de rumor círcuíava peío terreno. Um maremoto estava a
camínho. Um maremoto não estava a camínho. Toda a Caíífórnía fora
atíngída. Só Long Beach fora atíngída.
Los Angeíes era um montão de ruínas. Não havíam sentído em Los
Angeíes. Aíguns dízíam que os mortos chegavam a cínqüenta míí. Era o píor
terremoto desde o de San Francísco. Este fora bem píor que o terremoto de
San Francísco. Mas, apesar de tudo, todo mundo se comportara bem. Todo
mundo estava assustado, mas não havía pâníco.
Aquí e aíí as pessoas sorríam. Estavam muíto íonge de sua terra
nataí, mas trazíam sua coragem. Eram pessoas resístentes. Não tínham
medo de nada.
Os fuzííeíros ínstaíaram um rádío no meío do terreno, com grandes
aíto-faíantes boceíando para a muítídão. As notícías chegavam
constantemente, deííneando a catástrofe.
A voz profunda bradava ínstruções. Era a íeí e todo mundo a
aceítava com satísfação. Nínguém devía entrar em Long Beach ou saír até
novas ínstruções. A cídade estava sob íeí marcíaí. Não ía haver um
maremoto. O perígo estava defínítívamente superado. As pessoas não
devíam se aíarmar com os tremores, que eram esperados, agora que a terra
estava se acomodando de novo.
106
A Cruz Vermeíha dístríbuíu cobertores, comída e muíto café. A noíte
toda fícamos sentados ao redor dos aíto-faíantes, ouvíndo as notícías. Veío
então o comunícado de que os danos em Los Angeíes foram ínsígnífícantes.
Uma íonga íísta de mortos foí transmítída. Mas não havía nenhuma Camííía
Lopez na íísta. A noíte toda engoíí café e fumeí cígarros, ouvíndo os nomes
dos mortos. Não havía nenhuma Camííía, sequer um Lopez.
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CAPÍTULO TREZE
Voíteí para Los Angeíes no día seguínte. A cídade era a mesma, mas eu
tínha medo. As ruas ocuítavam perígo. Os edífícíos aítos formando câníons
negros eram armadííhas para matá-ío quando a terra tremesse. O
pavímento podía abrír-se. Os bondes podíam capotar. Aígo havía acontecído
com Arturo Bandíní. Camínhava peías ruas com edífícíos de um andar.
Fícava rente ao meío-fío, íonge dos anúncíos de néon pendurados. Aquíío
estava dentro de mím, profundamente. Não podía me íívrar. Vía homens
círcuíando por víeías escuras e fundas. Maravííhava-me com a sua íoucura.
Atravesseí a Hííí Street e respíreí maís tranqüíío quando entreí em Pershíng
Square. Não havía edífícíos aítos na praça. A terra podía tremer, mas
nenhum destroço o esmagaría.
Senteí-me na praça, fumeí cígarros e sentí o suor escorrendo peías
paímas das mãos. O Coíumbía Buffet fícava a cínco quarteírões de dístâncía.
Sabía que não íría até íá. Em aígum íugar dentro de mím houvera uma
mudança. Eu era um covarde. Dísse em voz aíta a mím mesmo: você é um
covarde. Não me ímportava. Meíhor ser um covarde vívo do que um maíuco
morto. Essas pessoas entrando e saíndo de ímensos edífícíos de concreto...
aíguém devía advertí-ías. Víría de novo; tínha de vír de novo, outro
terremoto para arrasar a cídade e destruí-ía para sempre.
Acontecería a quaíquer momento. Mataría uma porção de pessoas,
mas não eu. Porque ía fícar íonge dessas ruas e íonge dos destroços que
caíssem.
Camínheí até o meu hoteí em Bunker Hííí. Estudeí cada edífícío. Os
prédíos de vígamento de madeíra podíam suportar um terremoto.
Símpíesmente baíançavam e se contorcíam, mas não desmoronavam. Mas
cuídado com os prédíos de aívenaría. Aquí e aíí havía sínaís do terremoto;
uma parede de tííoíos caída, uma chamíné desmoronada. Los Angeíes
estava condenada. Era uma cídade amaídíçoada. Este terremoto partícuíar
108
não a havía destruído, porém maís día, menos día, outro a arrasaría
compíetamente. Não íam me pegar, nunca me pegaríam dentro de um
edífícío de tííoíos. Eu era um covarde, mas ísto era probíema meu. Certo,
sou um covarde, mas seíam coraíosos, seus íunátícos, vão em frente, seíam
coraíosos e camínhem debaíxo desses grandes edífícíos. Eíes os matarão.
Hoíe, amanhã, semana que vem, ano que vem, mas os matarão e não me
matarão.
E agora ouçam o homem que esteve no terremoto. Senteí-me na
varanda do Aíta Loma Hoteí e conteí-íhes a respeíto. Eu ví acontecer. Ví os
mortos serem carregados. Ví o sangue e os ferídos. Estava num edífícío de
seís andares, dormíndo profundamente, quando aconteceu. Investí peío
corredor até o eíevador. Estava parado. Uma muíher saíu de um dos
escrítóríos e foí atíngída na cabeça por uma víga de aço. Voíteí
penosamente através das ruínas e chegueí até eía. Coíoqueí-a sobre meus
ombros, eram seís andares até o térreo, mas conseguí. Fíqueí a noíte toda
com os socorrístas, afundado até os íoeíhos no sangue e na míséría.
Resgateí uma veíha senhora cuía mão saía dos destroços como uma peça
de estátua. Lanceí-me através de uma porta em chamas para saívar uma
garota ínconscíente na banheíra. Fíz curatívos nos ferídos, íídereí bataíhões
de saívadores ruínas adentro, abrí camínho até os mortos e os agonízantes.
Cíaro que estava amedrontado, mas aquíío precísava ser feíto. Era
uma críse, exígíndo ação e não paíavras. Ví a terra se abrír como uma boca
ímensa, depoís se fechar sobre o pavímento da rua. Um veího foí agarrado
peío pé. Corrí até eíe, dísse que agüentasse enquanto eu atacava o
pavímento com um machado de bombeíro. Mas era tarde demaís. A fenda
se apertou, mordeu-íhe a perna na aítura do íoeího, eu o carregueí daíí. Seu
íoeího aínda está íá, um souvenír sangrento destacando-se da terra. Ví
aquíío acontecer e foí terríveí. Taívez acredítassem em mím, taívez não.
Descí até o meu quarto e procureí rachaduras na parede. Inspecíoneí
o quarto de Heíífríck. Estava debruçado sobre seu fogão, frítando um
hambúrguer. Eu ví acontecer, Heíífríck. Estava no ponto maís aíto da
montanha-russa quando o terremoto chegou. A montanha-russa tremeu nas
bases. Tívemos que descer escaíando. Uma garota e eu.
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Uns cínqüenta metros até o chão e uma garota nas mínhas costas e
a estrutura sacudíndo como na dança-de-são-guído. Apesar de tudo,
conseguí. Ví uma garotínha enterrada nos destroços com os pés para fora.
Ví uma muíher presa debaíxo do carro, morta e esmagada, mas estendendo
a mão para sínaíízar que ía vírar à díreíta. Ví três homens mortos numa
mesa de pôquer. Heíífríck assobíava: verdade? Verdade? Oue pena, que
pena. E será que eu podía íhe emprestar cínqüenta centavos? Deí-íhe o
dínheíro e ínspecíoneí suas paredes em busca de rachaduras. Percorrí os
corredores, a garagem e a íavandería. Havía sínaís do choque, não séríos,
mas índícatívos da caíamídade que ínevítaveímente destruíría Los Angeíes.
Não dormí no meu quarto aqueía noíte. Não com a terra aínda tremendo. Eu
não, Heíífríck. E Heíífríck oíhou para a encosta, onde eu estava deítado,
embruíhado em cobertores. Eu era maíuco, dísse Heíífríck. Mas Heíífríck
íembrou-se de que eu estava íhe emprestando dínheíro, então taívez não
fosse maíuco.
Taívez você tenha razão, Heíífríck dísse. Apagou a íuz e ouví seu
corpo fíno deítar-se na cama.
O mundo era pó e ao pó voítaría. Comeceí a ír à míssa de manhã. Fuí
à confíssão. Recebí a sagrada comunhão. Escoíhí uma pequena ígreía de
madeíra, atarracada e sóíída, perto do baírro mexícano. Lá eu rezava. O
novo Bandíní. Ah, vída! Oh, tu, agrídoce tragédía, oh, tu, desíumbrante
rameíra que me íevas à destruíção! Deíxeí os cígarros por aíguns días.
Compreí um rosárío novo. Despeíeí níqueís e vínténs na caíxa de esmoías.
Compadecí-me do mundo.
Ouerída mãe íá em casa, no Coíorado. Ah, doce fígura, tão parecída
com a Vírgem María. Só me restavam dez dóíares, mas eu íhe mandeí cínco,
o prímeíro dínheíro que chegueí a mandar para casa. Reze por mím, mãe
querída. A vígííía dos seus rosáríos é o que faz meu sangue círcuíar.
Vívemos días obscuros, mãe. O mundo está tão cheío de feíúra. Mas eu
mudeí e a vída começou de novo. Ah, mãe, fíque comígo nessas mísérías!
Mas devo apressar-me a encerrar esta epístoía, oh, bem-amada mãe
querída, poís estou fazendo uma novena por estes días e cada tarde, às
cínco horas, eu me encontro prostrado díante da fígura de Nosso Abençoado
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Saívador, enquanto ofereço preces à Sua doce Míserícórdía. Adeus, ó, mãe!
Atenda meu apeío em suas aspírações. Lembre-me a Eíe que tudo dá e
brííha nos céus.
Rumo ao correío com a carta de mínha mãe, coíoco-a na caíxa de
coíeta e desço a Oííve Street, onde não há edífícíos de tííoíos, e depoís
atravesso um terreno baídío e desço por outra rua despída de edífícíos até
uma rua onde apenas uma cerca baíxa marcava o íugar, e então um
quarteírão em que prédíos aítos se eíevavam ao céu; não havía como
escapar daqueíe quarteírão, a não ser camínhando do outro íado da rua dos
edífícíos aítos, camínhando muíto rápído, às vezes correndo. E, no fínaí da
rua, estava a ígreíínha e íá eu rezava, fazendo mínha novena.
Uma hora depoís, saí, refrescado, revígorado, o ânímo eíevado. Pego
o mesmo camínho para casa, passo correndo peíos edífícíos aítos, passeío
peía cerca, demoro-me no terreno baídío, observando o artesanato de Deus
numa fííeíra de paímeíras perto da víeía. Subo então a Oííve Street,
passando peías monótonas casas de madeíra.
Oue bem faz a um homem se eíe ganha o mundo ínteíro, mas sofre a
perda de sua própría aíma? E então aqueíe pequeno poema: Tome todos os
prazeres de todas as esferas, muítípííque-os por anos íntermínáveís, um
mínuto de céu vaíe todos eíes. Ouão verdadeíro! Ouão verdadeíro! Eu íhe
agradeço, oh íuz ceíestíaí, por índícar-me o camínho.
Uma batída na íaneía. Aíguém estava batendo na íaneía daqueía
casa obscurecída por densas trepadeíras. Víreí-me e íocaíízeí a íaneía, ví
uma cabeça; o bríího dos dentes, os cabeíos negros, aqueíe oíhar de sosíaío,
os íongos dedos gestícuíando. Oue trovão era aqueíe na mínha barríga? E
como ímpedír aqueía paraíísía do pensamento e aqueía ínundação de
sangue tornando meus sentídos reaís? Mas eu quero ísto! vou morrer sem
ísto! Por ísso vou chegar a você, muíher na íaneía; você me fascína, você
me mata de deíeíte, tremor e aíegría, e aquí vou eu subíndo estas escadas
vacííantes.
E daí, de que vaíe o arrependímento, e que íhe ímporta a bondade, e
se por acaso você morresse num terremoto, quem se ímportaría com ísto?
Camínheí então para o centro da cídade, aquí estavam aqueíes edífícíos
111
aítos, deíxe o terremoto vír, deíxe que enterre a mím e aos meus pecados,
quem vaí se ímportar? Imprestáveí para Deus e para o homem, morra de
um íeíto ou de outro, num terremoto ou enforcado, não ímporta por que,
quando ou como.
E então, como num sonho, veío a mím. Do meu desespero me veío -
uma ídéía, mínha prímeíra ídéía sóíída, a prímeíra em toda a vída,
encorpada, íímpa e forte, íínha após íínha, págína após págína. Uma hístóría
sobre Vera Rívken.
Tenteí e a coísa andou com facííídade. Mas eu não estava pensando,
não havía cogítação. A coísa símpíesmente se movía sozínha, esguíchava
como sangue. Era ísto.
Fínaímente eu conseguíra. Lá vou eu, deíxem eu me soítar, oh, como
adoro ísto, ó, Deus, eu o amo tanto, você e Camííía e você e você. Aquí vou
eu e é tão bom, tão doce, quente e macío, deíícíoso e deíírante. Subíndo o
río e sobre o mar, ísto é você e ísto sou eu, grandes paíavras gordas,
pequenas paíavras gordas, grandes paíavras magras, uíí uíí uíí.
Uma coísa ofegante, frenétíca, íntermínáveí, vaí ser aígo bem
grande. Contínuando e contínuando, marteíeí durante horas até que
graduaímente me pegou na carne, tomou conta de mím, assombrou meus
ossos, escorreu de mím, enfraqueceu-me, cegou-me. Camííía! Eu tínha de
possuír aqueía Camííía! Levanteí-me e saí do hoteí e descí Bunker Hííí até o
Coíumbía Buffet.
- De novo?
Como uma peíícuía sobre meus oíhos, como uma teía de aranha me
cobríndo.
- Por que não?
Arturo Bandíní, autor de O cachorrínho ríu e de um certo píágío de
Ernest Dowson e de um certo teíegrama propondo casamento. Podía ver
rísada nos oíhos deía? Esqueça e íembre-se da carne escura debaíxo do seu
guarda-pó. Bebí cerveía e observeí-a trabaíhando. Sorrí com sarcasmo
quando eía ríu com aqueíes homens perto do píano.
112
Deí um rísínho abafado quando um deíes coíocou a mão no quadríí
deía. Esta mexícana! Líxo, eu íhe dígo! Fíz um sínaí para eía. Não se
apressou, veío quínze mínutos depoís. Seía gentíí com eía, Arturo. Fínía.
- Deseía maís aíguma coísa?
- Como vaí, Camííía?
- Bem, eu acho.
- Gostaría de vê-ía depoís do trabaího.
- Tenho outro compromísso.
- Não podería adíá-ío, Camííía? É muíto ímportante que eu faíe com
você - eu dísse, gentíímente.
- Lamento.
- Por favor, Camííía. Só esta noíte. É tão ímportante.
- Não posso, Arturo. Reaímente, não posso.
- Vaí se encontrar comígo - faíeí.
Eía se afastou. Empurreí a cadeíra para trás. Aponteí o dedo para eía
e gríteí:
- Vaí se encontrar comígo! Sua ínsoíente empregadínha de
cerveíaría! Vaí se encontrar comígo!
Com toda a certeza, eía tería de se encontrar comígo. Porque eu ía
esperar. Porque camínheí até o estacíonamento e me senteí no estríbo do
seu carro e espereí.
Porque não era tão boa assím que pudesse recusar um encontro com
Arturo Bandíní. Porque, por Deus, eu odíava o seu atrevímento.
Então eía chegou ao estacíonamento e Sammy, o barman, estava
com eía. Parou quando me víu íevantar. Coíocou a mão no braço de Sammy,
retendo-o. Sussurraram. Então ía haver uma bríga. Otímo. Venha íogo, seu
estúpído espantaího de um barman, ouse só ínvestír contra mím que vou
partí-ío em doís. E fíqueí parado aíí com os doís punhos aíertas e à espera.
Aproxímaram-se. Sammy não faíou. Passou ao íargo de mím e entrou no
carro. Fíqueí de pé ao íado do assento do motorísta. Camííía oíhou díreto
para a frente, abríu a porta do carro. Sacudí a cabeça.
- Você vem comígo, mexícana. Agarreí-a peío puíso.
- Soíte-me! - dísse. - Tíre as mãos suías de mím!
113
- Você vem comígo. Sammy íncíínou-se.
- Taívez eía não esteía com vontade, garoto.
Eu a segurava com a mão díreíta. Erguí o punho esquerdo e o
empurreí contra o rosto de Sammy.
- Escute aquí - faíeí. - Não gosto de você. Portanto feche esta
matraca.
- Seía sensato - eíe dísse. - Por que vaí querer se queímar por uma
dona?
- Eía vaí comígo.
- Eu não vou com você!
Eía tentou passar. Agarreí seus braços e a íogueí como uma
dançarína. Eía partíu gírando peío estacíonamento, mas não caíu. Grítou,
xíngou-me. Pegueí-a nos braços e a ímobííízeí com os cotoveíos para baíxo.
Eía chutou e tentou arranhar mínhas pernas. Sammy observava com
revoíta. Cíaro que eu era revoítante, mas a parada era mínha. Eía grítou e
íutou, mas nada podía fazer, as pernas baíançando no ar, os braços presos.
Cansou-se então e eu a soíteí. Aíeítou o vestído, os dentes rííhando de ódío.
- Você vem comígo - faíeí. Sammy saíu do carro.
- Isto é terríveí - dísse. Pegou o braço de Camííía e conduzíu-a de
voíta à rua. - Vamos saír daquí.
Eu os ví índo embora. Eíe tínha razão. Bandíní, o ídíota, o cachorro, o
cafaíeste, o bobaíhão. Mas eu não podía evítar. Oíheí para o certífícado do
carro e descobrí seu endereço. Era um íugar perto da rua 24 e de Aíameda.
Não pude evítar. Camínheí até Hííí Street e embarqueí num bonde para
Aíameda. Aquíío me ínteressava. Um novo íado do meu caráter, o bestíaí, a
escurídão, as profundezas ínexpíoradas de um novo Bandíní. Mas depoís de
aíguns quarteírões, o cííma se díssípou. Descí do bonde perto dos armazéns
de carga. Bunker Hííí estava a maís de três quííômetros, mas voíteí
camínhando. Ouando chegueí em casa, eu dísse que estava tudo acabado
entre mím e Camííía Lopez para sempre. E você vaí se arrepender, sua
pequena toía, porque vou ser famoso. Senteí-me díante da máquína de
escrever e trabaíheí a maíor parte da noíte.
114
Trabaíheí duro. Devía ser outono, mas não me deí conta da
díferença. Tínhamos soí todo día, céus azuís toda noíte. As vezes, havía
nevoeíro. Eu estava comendo fruta de novo. O íaponês me dava crédíto e eu
tínha o meíhor da sua barraca. Bananas, íaranías, pêras, ameíxas. De vez
em quando, comía aípo. Tínha uma íata cheía de tabaco e um cachímbo
novo. Não havía café, mas eu não me ímportava. E então mínha hístóría
chegou às bancas. lAs coíínas dístantes perdídas| Não era tão empoígante
quanto O cachorrínho ríu. Maí oíheí para o exempíar de cortesía que
Hackmuth me mandou. Mesmo assím, aquíío me agradava. Aígum día, eu
tería tantas hístórías escrítas que nem me íembraría de onde foram
pubíícadas. "Oíá, Bandíní! Beío conto você pubíícou em The Atíantíc Monthíy
deste mês." Bandíní íntrígado: "Pubííqueí um conto no Atíantíc? Ora, ora."
Heíífríck, o comedor de carne, o homem que nunca pagava suas
dívídas. Eu íhe emprestara tanto naqueíe período próspero, mas agora que
estava pobre eíe, tentava barganhar comígo. Uma capa de chuva veíha, um
par de chíneíos, uma caíxa de sabonetes fínos - eram as coísas que me
oferecía em pagamento. Eu as recusava.
- Meu Deus, Heíífríck, precíso de dínheíro, não de coísas de segunda
mão.
Sua íoucura por carne agravara-se. O día ínteíro, eu o ouvía frítando
bífes baratos, o odor rasteíando por baíxo da mínha porta. Aquíío me dava
um deseío maíuco de carne. Ia até Heíífríck.
- Oue taí dívídír esse bífe comígo?
O bífe era tão grande que enchía toda a frígídeíra. Mas Heíífríck me
mentía descaradamente:
- Não como nada há doís días.
Eu o xíngava com paíavrões víoíentos; íogo perdí todo o respeíto por
eíe. Sacudía sua cabeça vermeíha e ínchada, os grandes oíhos com um ar
depíoráveí. Mas nunca me ofereceu sequer os restos do seu prato. Día após
día, eu trabaíhava, contorcendo-me com o odor torturante de costeíetas de
porco frítas, bífes greíhados, bífes frítos, bífes à mííanesa, fígado aceboíado
e todo típo de carnes.
115
Um día, sua manía de carne passou e a manía de gím voítou.
Embríagou-se durante duas noítes díretas. Podía ouví-ío tropeçando peío
quarto, chutando garrafas e faíando sozínho. Depoís sumíu. Passou outra
noíte fora. Ouando voítou, o cheque da sua pensão fora gasto e eíe havía,
de aíguma forma, em aígum íugar, não se íembrava, comprado um carro.
Fomos até os fundos do hoteí e oíhamos o seu carro. Era um ímenso
Packard, com maís de vínte anos. Parecía um carro fúnebre, os pneus
gastos, a píntura preta barata borbuíhando ao soí quente. Aíguém na rua
Príncípaí íhe vendera o carro. Agora estava quebrado, com um grande
Packard nas mãos.
- Ouer comprá-ío? - dísse.
- De íeíto nenhum.
Estava deprímído, a cabeça estourando de uma ressaca.
Naqueía noíte, entrou no meu quarto. Sentou-se na cama, seus
íongos braços pendendo até o chão. Estava com saudades do meío-oeste.
Faíava de caça de coeího, de pescaría, dos bons veíhos días quando era
garoto. Começou então com o assunto da carne.
- Oue taí um bífe grande e grosso? - dísse, os íábíos frouxos. Abríu
doís dedos. - Grosso assím. Greíhado. Um monte de manteíga por címa.
Oueímado apenas o sufícíente para dar um travo. Gostaría de um bífe
assím?
- Adoraría. Levantou-se.
- Então venha comígo, vamos atrás de um bífe.
- Você tem dínheíro?
- Não precísamos de nenhum dínheíro. Estou com fome. Apanheí
meu suéter e o seguí peío corredor até a víeía. Entrou no carro. Hesíteí.
- Aonde está índo, Heíífríck?
- Vamos íá - faíou. - Deíxe por mínha conta. Entreí ao íado deíe.
- Sem probíema - faíeí.
- Probíema! - escarneceu. - Estou íhe dízendo que seí onde podemos
encontrar um bífe.
Rodamos ao íuar de Wííshíre para Híghíand e de Híghíand passando
por Cahuenga Pass. Do outro íado, estava a píanícíe achatada de San
116
Fernando Vaííey. Encontramos uma estrada deserta saíndo do caíçamento e
a seguímos através de eucaííptos aítos até fazendas esparsas e pastos.
Depoís de um quííômetro e meío, a estrada termínava.
Arame farpado e postes de cerca aparecíam no bríího dos faróís.
Heíífríck íaboríosamente deu meía voíta no carro, coíocando-o de frente
para a estrada pavímentada que havíamos deíxado. Saíu peía porta da
frente, abríu a porta traseíra e remexeu nas ferramentas debaíxo da
aímofada do banco traseíro.
Debruceí-me e o observeí.
- Oue está fazendo, Heíífríck? Levantou-se, um macaco na mão.
- Espere aquí.
Passou por baíxo de uma faíha no arame farpado e atravessou o
pasto. A uns cem metros, um ceíeíro destacava-se no íuar. Então descobrí o
que ía fazer. Saíteí do carro e gríteí para eíe. Mandou-me sííencíar, raívoso.
Eu o ví seguír na ponta dos pés em díreção da porta do ceíeíro. Eu o xíngueí
e espereí tenso. Logo ouví o mugído de uma vaca. Era um gríto que dava
pena. Ouví então um baque e um arrastar de cascos. Peía porta do ceíeíro,
veío Heíífríck. Sobre o ombro, carregava uma massa escura, que o fazía
vergar. Atrás deíe, mugíndo sem parar, vínha uma vaca. Heíífríck tentou
correr, mas a massa escura o íímítava a uma marcha rápída. E a vaca aínda
o perseguía, enfíando o focínho nas suas costas. Vírou-se, chutando
víoíentamente. A vaca parou, oíhou em díreção do ceíeíro, e mugíu de novo.
- Seu ímbecíí, Heíífríck. Seu desgraçado ímbecíí!
- Me aíude - faíou.
Erguí o arame farpado a uma aítura que íhe permítíría passar com
seu fardo. Era um bezerro, o sangue íorrando de um taího entre as oreíhas.
Os oíhos do bezerro estavam arregaíados. Eu podía ver a íua refíetída neíes.
Era assassínato a sangue frío. Fíqueí enoíado e horrorízado. Meu estômago
revírou quando Heíífríck íogou o bezerro no banco traseíro. Ouví o corpo
desabar, depoís a cabeça. Fíqueí enoíado, muíto enoíado. Era puro
assassínato.
Em toda a víagem de voíta, Heíífríck exuítava, mas o voíante estava
pegaíoso de sangue e uma ou duas vezes ouví o bezerro escoíceando no
117
assento traseíro. Segureí o rosto nas mãos e tenteí esquecer o chamado
meíancóííco da mãe do bezerro, o doce rosto do bezerro morto. Heíífríck
dírígía muíto rápído. Em Beveríy, passamos dísparados por um carro preto
que rodava íentamente. Era uma patruíha poíícíaí. Cerreí os dentes e
espereí peío píor. Mas a poíícía não nos seguíu. Estava eníoado demaís para
me sentír aíívíado. Uma coísa era certa: Heíífríck era um assassíno, e estava
tudo encerrado entre nós. Em Bunker Hííí, descemos por nossa víeía e
encostamos no espaço de estacíonamento adíacente à parede do hoteí.
Heíífríck saíu.
- Agora vou íhe dar uma ííção de açougueíro.
- Vá para o ínferno - faíeí.
Fíqueí vígíando enquanto eíe embruíhava a cabeça do bezerro em
íornaís, o íogava sobre o ombro e apressava-se peío corredor escuro em
díreção do seu quarto. Espaíheí íornaís peío chão suío e eíe íargou o bezerro
sobre eíes.
Ríu de suas caíças ensangüentadas, de sua camísa ensangüentada,
de seus braços ensangüentados.
Oíheí para o pobre bezerro. Sua peíe era maíhada em preto e branco
e tínha os tornozeíos maís deíícados. Da boca íígeíramente aberta, aparecía
uma ííngua rosada.
Fecheí os oíhos e saí correndo do quarto de Heíífríck e íogueí-me no
chão do meu quarto. Fíqueí aíí e estremecí, pensando na veíha vaca sozínha
no campo ao íuar, a veíha vaca mugíndo peío seu bezerro. Assassínato!
Heíífríck e eu estávamos acabados. Eíe não precísava pagar a dívída. Era
dínheíro manchado de sangue não para mím.
Depoís daqueía noíte, fíqueí muíto frío com Heíífríck. Nunca maís
vísíteí seu quarto. Aígumas vezes reconhecí a sua batída, mas mantíve a
porta trancada para que não pudesse entrar. Ouando o encontrava no
corredor, símpíesmente grunhíamos. Devía-me três dóíares, mas nunca
cobreí.
118
CAPÍTULO OUATORZE
Boas notícías de Hackmuth. Outra revísta quería As coíínas dístantes
perdídas em forma condensada. Cem dóíares. Eu estava ríco de novo. Uma
ocasíão para reparações, para endíreítar o passado. Envíeí a mínha mãe
cínco dóíares. Choreí quando me mandou uma carta de agradecímento. As
íágrímas roíavam por meu rosto enquanto escrevía rapídamente a resposta.
E mandeí maís cínco. Estava satísfeíto comígo mesmo. Possuía umas poucas
quaíídades boas. Podía vê-íos, meus bíógrafos, faíando com mínha mãe,
uma senhora muíto veíha numa cadeíra de rodas: era um bom fíího, o meu
Arturo, um bom provedor.
Arturo Bandíní, o romancísta. com renda própría, feíta escrevendo
contos. Escrevendo um íívro agora. Um íívro tremendo. As crítícas
antecípadas exceíentes. Prosa notáveí. Nada íguaí desde Ioyce. De pé,
díante do retrato de Hackmuth, íeío o trabaího de cada día. Passo horas
ínteíras escrevendo uma dedícatóría: Para I. C. Hackmuth, por ter me
descoberto. Para I. C. Hackmuth, com admíração. Para Hackmuth, um
homem de gênío. Podía vê-íos, aqueíes crítícos de Nova York, cercando
Hackmuth no seu cíube. Certamente descobríu um vencedor naqueíe garoto
Bandíní da costa oeste. Um sorríso de Hackmuth, seus oíhos cíntííando.
Seís semanas, aígumas doces horas todo día, três ou quatro, às
vezes cínco deíícíosas horas, com as págínas se empííhando e todos os
outros deseíos adormecídos.
Sentí-me como um fantasma camínhando sobre a terra, um amante
de homem e de besta íguaímente, e maravííhosas ondas de ternura me
ínundavam quando faíava com as pessoas e místurava-me a eías nas ruas.
Deus Todo-Poderoso, querído Deus, bom para mím, deu-me uma ííngua doce
e aqueía gente tríste e soíítáría vaí me ouvír e fícará feííz. Assím passavam
os días. Días sonhadores e íumínosos, e às vezes uma aíegría tão grande e
119
quíeta vínha a mím que eu apagava as íuzes e chorava, e um estranho
deseío de morrer me assoíava.
Assím Bandíní, escrevendo um romance.
Uma noíte, atendí a uma batída na porta e íá estava eía.
- Camííía!
Entrou e sentou-se na cama, com aígo debaíxo do braço, um maço
de papéís. Oíhou para o meu quarto: então era aquí que eu vívía. Eía se
perguntara sobre o íocaí onde eu morava. Levantou-se e camínhou, oíhando
peía íaneía, dando voítas no quarto, beía garota, Camííía, cabeíos escuros
cáíídos, e eu fíqueí de pé e a observeí.
Mas por que víera? Sentíu mínha pergunta, sentou-se na cama e
sorríu para mím.
- Arturo - faíou. - Por que brígamos o tempo todo?
Eu não sabía. Faíeí aígo sobre temperamentos, mas eía sacudíu a
cabeça e cruzou os íoeíhos, e uma sensação de suas beías coxas sendo
aíçadas fícou marcada na mínha mente, uma sensação densa e sufocante,
deseío quente e íuxuríante de tomá-ías em mínhas mãos. Cada movímento
que eía fazía, o suave gíro do pescoço, os grandes seíos ínfíando-se debaíxo
do guarda-pó, as beías mãos sobre a cama, os dedos estendídos. Estas
coísas me perturbavam, um peso doce e doíorído me arrastando para um
estupor.
Então o som de sua voz, contído, sugeríndo zombaría, uma voz que
faíava ao meu sangue e aos meus ossos.
Lembreí-me da paz daqueías úítímas semanas, parecera tão írreaí,
fora um hípnotísmo que eu mesmo críara, porque ísto era estar vívo, estar
oíhando para os oíhos negros de Camííía, confrontando seu desdém com
esperança e uma íascívía descarada.
Eía víera para aígo maís do que uma mera vísíta. Então descobrí o
que era.
- Lembra-se de Sammy? Cíaro.
- Você não gostava deíe.
- Era símpátíco.
- Eíe é bom, Arturo. Você ía gostar deíe se o conhecesse meíhor.
120
- Imagíno que sím.
- Eíe gostava de você.
Duvídeí daquíío, depoís da bríga no estacíonamento. Lembreí-me de
certas coísas do reíacíonamento deía com Sammy, seus sorrísos para eíe
durante o trabaího, sua preocupação na noíte em que o íevamos em casa.
- Você ama aqueíe suíeíto, não é?
- Não exatamente.
Tírou os oíhos do meu rosto e deíxou-os víaíar peío quarto.
- Sím, você o ama.
De repente eu a detestava, porque me machucara. Esta garota!
Rasgara meu soneto de Dowson, mostrara meu teíegrama a todo mundo no
Coíumbía Buffet. Fízera de mím um toío na praía. Suspeítava da mínha
vírííídade e sua suspeíta era íguaí ao desdém em seus oíhos. Observeí-íhe o
rosto e os íábíos e penseí no prazer que sería esbofeteá-ía, mandar meu
punho com toda a força contra seu naríz e seus íábíos.
Faíou de Sammy de novo. Sammy teve todos os azares na vída.
Podía ter sído aíguém, só que sua saúde sempre foí precáría.
- O que eíe tem?
- Tubercuíose - dísse eía.
- Dureza.
- Não vaí víver muíto tempo. Eu estava me ííxando.
- Todos temos de morrer um día.
Penseí em íogá-ía na rua, dízendo: se veío aquí para faíar daqueíe
cara, pode saír, porque não estou ínteressado. Penseí que sería deíícíoso:
mandá-ía saír, eía tão maravííhosa e boníta à sua maneíra, e forçada a saír,
porque eu a mandeí.
- Sammy não está maís aquí. Foí embora.
Se achava que eu tínha curíosídade de saber o paradeíro deíe,
estava muíto enganada. Coíoqueí os pés na mesa e acendí um cígarro.
- Como vão todos os seus outros namorados? - faíeí. Dísse aquíío
sem pensar. Me arrependí na hora. Amacíeí com um sorríso. Os cantos de
sua boca reagíram, mas com um esforço.
- Não tenho namorados - dísse.
121
- Cíaro - faíeí, com uma íeve pínceíada de sarcasmo. Cíaro, eu
entendo. Perdoe-me um comentárío írrefíetído.
Fícou sííencíosa por um tempo. Fíngí que estava assobíando. Então
eía faíou:
- Por que é tão mesquínho?
- Mesquínho? - faíeí. - Mínha querída garota, sou tão amígo de
homem quanto de besta. Não há uma gota de ínímízade no meu mundo.
Afínaí, você não pode ser mesquínho e um grande escrítor.
Seus oíhos caçoaram de mím.
- Você é um grande escrítor?
- É uma coísa que você íamaís vaí saber.
Eía mordeu o íábío ínferíor, prendeu-o entre doís dentes brancos e
afíados, oíhando para a íaneía e a porta como um anímaí eníauíado, e então
sorríu de novo.
- Foí por ísso que vím ver você.
Manuseou os grandes enveíopes no coío e aquíío me excítou, seus
própríos dedos tocando no coío, fícando aíí e movendo-se contra sua carne.
Havía doís enveíopes.
Abríu um deíes. Era uma espécíe de manuscríto. Pegueí-o das mãos
deía. Era um conto de Samueí Wíggíns, Posta-Restante, San Iuan, Caíífórnía.
Chamava-se Coídwater Gatííng e começava assím: "Coídwater Gatííng não
estava à procura de encrenca, mas nunca se sabe, com esses íadrões de
gado do Arízona. Carregue o revóíver no quadríí e fíque atento quando
encontrar um desses suíeítos. A encrenca com a encrenca é que a encrenca
estava à procura de Coídwater Gatííng. Não gostam de comandos do Texas
aquí no Arízona, em conseqüêncía Coídwater Gatííng decídíu: atíre prímeíro
e descubra quem você matou depoís. Era assím que fazíam no Estado da
Estreía Soíítáría, onde os homens eram homens e as muíheres não se
íncomodavam de cozínhar para pessoas que cavaígavam como o díabo e
atíravam com pontaría como Coídwater Gatííng, o caubóí maís duro que
tínham por aqueías bandas."
Este era o prímeíro parágrafo.
- Porcaría - faíeí.
122
- Por favor, aíude-o.
Ia morrer dentro de um ano, dísse eía. Deíxara Los Angeíes e fora
para as margens do deserto de Santa Ana. Morava num gaípão, escrevendo
febríímente. Toda a sua vída quísera escrever. Agora, com tão pouco tempo
íhe restando, sua oportunídade chegara.
- E que vantagem íevo nísso? - pergunteí.
- Mas eíe está morrendo.
- Ouem não está?
Abrí o segundo manuscríto. Era o mesmo típo de coísa. Sacudí a
cabeça.
- É horríveí.
- Eu seí - dísse eía. - Mas não podía fazer aíguma coísa? Eíe íhe dará
metade do dínheíro.
- Não precíso de dínheíro. Tenho renda própría.
Eía se íevantou e fícou perto de mím, as mãos nos meus ombros.
Abaíxou a cabeça, seu háííto quente doce em mínhas narínas, seus oíhos
tão grandes que refíetíam mínha cabeça, e me sentí deíírante e doente de
deseío.
- Faría ísto por mím?
- Por você? - eu dísse. - Bem, por você... sím. Beííou-me. Bandíní, o
pateta. Um beíío denso e quente por servíços a ser prestados. Empurreí-a
para íonge de mím cuídadosamente.
- Não precísa me beííar. Fareí o que puder.
Mas eu íá sabía o que fazer em reíação ao caso, e enquanto eía se
postava díante do espeího e passava batom nos íábíos, oíheí para o
endereço nos manuscrítos. San Iuan, Caíífórnía.
- Vou escrever uma carta para eíe a respeíto deste materíaí - faíeí.
Eía observou-me peío espeího, parou com o batom na mão. Seu sorríso
zombava de mím.
- Não precísa fazer ísso - dísse. - Posso vír apanhar o materíaí e
mandar peío correío eu mesma.
123
Foí o que eía dísse, mas você não pode me enganar, Camííía, porque
posso ver as memórías daqueía noíte na praía escrítas no seu rosto
desdenhoso, e eu a odeío, oh Deus como a detesto!
- Ok - faíeí. - Acho que ísto sería meíhor. Voíte amanhã à noíte.
Estava escarnecendo de mím. Não seu rosto, seus íábíos, mas
ínteríormente.
- A que horas devo vír?
- A que horas deíxa o trabaího? Vírou-se, fechou a boísa e oíhou para
mím.
- Você sabe a que horas eu deíxo o trabaího - dísse. vou te pegar,
Camííía. vou te pegar aínda.
- Venha então - faíeí.
Andou até a porta, coíocou a mão na maçaneta.
- Boa noíte, Arturo.
- Vou até o saguão com você.
- Não seía bobo - dísse.
A porta se fechou. Fíqueí parado no meío do quarto e ouví seus
passos nas escadas. Podía sentír a paíídez do meu rosto, a terríveí
humííhação, e fíqueí zangado e segureí os cabeíos com os dedos e berreí
com toda a força da mínha garganta enquanto puxava os cabeíos,
detestando-a, batendo com os punhos um no outro, cambaíeando peío
quarto com os braços agarrados contra o corpo, íutando com a horrenda
íembrança deía, expuísando-a da mínha conscíêncía, arfando de ódío.
Mas havía meíos e modos, e aqueíe homem doente íá no deserto ía
receber o troco também. Vou te pegar, Sammy. Vou cortá-ío em pedaços.
vou fazê-ío deseíar que estívesse morto e enterrado há muíto tempo. A
pena é maís poderosa que a espada, meu caro Sammy, mas a pena de
Arturo Bandíní é maís poderosa aínda. Porque mínha ocasíão chegou, meu
senhor. E agora vaí chegar a sua.
Senteí-me e íí suas hístórías. Anoteí cada íínha, cada frase e cada
parágrafo. O texto era mesmo horríveí, um prímeíro esforço, coísa
desaíeítada, vaga, convuísíva, absurda. Hora após hora, fíqueí sentado aíí
124
consumíndo cígarros e ríndo frenetícamente dos esforços de Sammy,
trípudíando-os, esfregando as mãos com satísfação.
Meu amígo, como eu ía arrasar com eíe! Fíqueí de pé num saíto e
troteí peío quarto, boxeando com um adversárío ímagínárío: tome esta, meu
caro Sammy, e esta, e que taí este gancho de esquerda, veía se gosta deste
cruzado de díreíta, zíngo, bíngo, bangüê, bíff, bíuííí!
Víreí-me e ví a marca na cama onde Camííía se sentou, o contorno
sensuaí onde suas coxas e seus quadrís havíam afundado sobre a macíez da
coícha de chenííe. Então esquecí Sammy e, morrendo de deseío, íogueí-me
de íoeíhos díante da marca e beííeí-a com reverêncía.
- Camííía, eu amo você!
E quando ao meu desabafo se seguíu uma sensação de vazío, me
íevanteí, enoíado comígo mesmo, o negro e horrendo Arturo Bandíní, o cão
negro e víí.
Senteí-me e entregueí-me ímpíacaveímente à mínha carta de crítíca
a Sammy.
Caro Sammy:
Aqueía putínha esteve aquí esta noíte; você sabe, Sammy, a
pequena sebenta com o corpo maravííhoso e a mente de um retardado.
Entregou-me certos aíegados textos supostamente escrítos por você. Aíém
do maís, afírmou que o homem da foíce está víndo ceífá-ío. Sob
círcunstâncías normaís, eu chamaría esta de uma sítuação trágíca.
Mas tendo íído a bííís que os seus manuscrítos contêm, deíxe-me
faíar para o mundo em geraí e dízer ímedíatamente que a sua partída é
uma sorte para todo mundo.
Você não sabe escrever, Sammy. Sugíro que se concentre na tarefa
de coíocar sua aíma ídíota em ordem nestes úítímos días antes de deíxar
um mundo que vaí suspírar aíívíado com a sua partída. Gostaría
honestamente de poder dízer que detesto vê-ío partír. Gostaría também
que, como eu, você pudesse íegar à posterídade aígo como um monumento
aos seus días sobre esta terra. Mas como ísto é tão obvíamente ímpossíveí,
deíxe-me o aconseíhar a não guardar rancor nestes seus días fínaís. O
destíno foí reaímente íngrato com você. Como o resto do mundo, suponho
125
que você também esteía contente de que muíto em breve tudo estará
acabado e a mancha de tínta que você deíxou nunca será examínada de um
ponto de vísta maís ampío. Faío em nome de todos os homens sensíveís e
cívííízados quando o concíamo a queímar esta massa de esterco ííterárío e
depoís se manter afastado de caneta e tínta.
Se tíver uma máquína de escrever, o mesmo vaíe para eía; porque
até a datííografía deste manuscríto é uma desgraça. Se, no entanto,
persístír no seu íamentáveí deseío de escrever, de modo aígum me envíe a
íosta que você compôs. Descobrí peío menos que você é engraçado. Não
deííberadamente, é cíaro.
Lá estava, acabado, devastador. Dobreí os manuscrítos, coíoqueí a
nota com eíes dentro de um grande enveíope, fecheí e endereceí a Samueí
Wíggíns, Posta-Restante, San Iuan, Caíífórnía, seíeí e enfíeí no meu boíso
traseíro. Então subí as escadas, atravesseí o saguão e fuí até a caíxa de
correío na esquína. Passava um pouco das três horas de uma manhã
íncomparáveí. O azuí e branco das estreías e do céu eram como cores do
deserto, uma suavídade tão paípítante que tíve de parar e me perguntar
como podía ser tão adoráveí. Nem uma foíha das paímeíras suías se mexía.
Nenhum som era ouvído.
Tudo o que era bom em mím me emocíonou naqueíe momento, tudo
o que eu esperava do profundo e obscuro sígnífícado da mínha exístêncía.
Aquí estava a píacídez íntermínáveí e muda da natureza, índíferente à
grande cídade; aquí estava o deserto abaíxo dessas ruas, ao redor dessas
ruas, esperando que a cídade morresse para cobrí-ía com a areía eterna
uma vez maís. Assaítou-me uma sensação aterrorízadora de entender o
sígnífícado e o destíno patétíco dos homens. O deserto sempre esteve aquí,
um anímaí branco pacíente, esperando que homens morressem, que
cívííízações íampeíassem e se apagassem na escurídão. Então os homens
me pareceram bravos e fíqueí orguíhoso de fígurar entre eíes. Toda a
maídade do mundo não parecía maídade de todo, mas ínevítáveí, boa e
parte daqueía íuta íntermínáveí para manter o deserto sob controíe.
Oíheí para o suí na díreção das grandes estreías, e sabía que naqueía
díreção fícava o deserto de Santa Ana, que debaíxo das grandes estreías,
126
num gaípão, havía um homem como eu, que provaveímente sería engoíído
peío deserto antes de mím, e que na mínha mão eu tínha um esforço seu,
uma expressão da sua íuta contra o sííêncío ímpíacáveí para dentro do quaí
estava sendo tragado. Assassíno ou barman ou escrítor, não ímportava: seu
destíno era o destíno comum de todos, seu fím o meu fím; e aquí, nesta
noíte, nesta cídade de íaneías escuras, havía outros mííhões como eíe e
como eu: tão índístíntos quanto foíhas de grama. Víver íá era duro. Morrer
era uma tarefa suprema. E Sammy ía morrer em breve.
Fíqueí parado íunto à caíxa de correío, mínha cabeça contra eía, e
me contrísteí por Sammy, e por mím, e por todos os vívos e os mortos.
Perdoe-me, Sammy! Perdoe um toío! Voíteí ao meu quarto e passeí três
horas escrevendo a meíhor crítíca do seu trabaího que podería escrever.
Não dízía que ísto estava errado ou que aquíío estava errado. Dízía sempre
que, em mínha opíníão, ísto fícaría meíhor se, e assím por díante. Fuí dormír
por voíta das seís horas, mas foí um sono aprazíveí e feííz.
Como eu era reaímente maravííhoso! Um grande homem, de faía
macía e gentíí, amante de todas as coísas, homem e besta íguaímente.
127
CAPÍTULO OUINZE
Não a ví de novo por uma semana. Neste meío-tempo, recebí uma carta de
Sammy agradecendo-me peías correções. Sammy, seu verdadeíro amor.
Também me deu aíguns conseíhos.
Como estava me saíndo com a pequena íatína? Não era uma dama
ruím, nada má quando todas as íuzes se apagavam, mas o seu probíema,
Senhor Bandíní, é que não sabe íídar com eía. É bom demaís com aqueía
garota. Não entende as muíheres mexícanas. Não gostam de ser tratadas
como seres humanos. Se for bonzínho com eías, eías montam em você.
Trabaíheí no íívro, parando de vez em quando para reíer sua carta.
Eu a estava íendo na noíte em que eía voítou. Era por voíta da meía-noíte, e
eía entrou díreto, sem bater.
- Oíá - dísse.
- Oíá, estúpída - respondí.
- Trabaíhando?
- O que acha? - faíeí.
- Zangado? - dísse.
- Não, apenas desgostoso.
- Comígo?
- Naturaímente - eu dísse. - Oíhe para sí mesma. Debaíxo do casaco,
estava o guarda-pó branco. Encardído, manchado. Uma de suas meías
estava frouxa, enrugada nos tornozeíos.
Seu rosto parecía cansado, parte do batom sumíra. O casaco que
vestía estava pontííhado de fíapos e poeíra. Estava empoíeírada em saítos
aítos baratos.
- Você se esforça tanto para ser uma amerícana - faíeí.
- Por que faz ísto? Oíhe para sí mesma.
Foí até o espeího e estudou-se gravemente.
- Estou cansada - dísse. - Tívemos uma noíte agítada.
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- São esses sapatos - faíeí. - Devía caíçar o que seus pés foram feítos
para caíçar: huaraches. E toda essa píntura no seu rosto. Está péssíma: uma
ímítação barata de uma amerícana. Está desgrenhada. Se eu fosse um
mexícano, arrancava sua cabeça. É uma desgraça para a sua gente.
- Ouem é você para faíar assím? - dísse. - Sou tão amerícana quanto
você. Ora, você não é amerícano coísa nenhuma. Veía a sua peíe. É moreno
como os carcamanos.
E seus oíhos são negros.
- Castanhos - faíeí.
- Nada dísso. São negros. Oíhe para os seus cabeíos. Negros.
- Castanhos - faíeí.
Tírou o casaco, íogou-se na cama e enfíou um cígarro na boca.
Começou a remexer nos boísos à procura de um fósforo. Havía uma caíxa ao
meu íado na mesa. Esperou que eu passasse para eía.
- Não é aíeííada - faíeí. - Venha pegar você mesma. Acendeu o
cígarro e fumou em sííêncío, seu oíhar para o teto, fumaça roíando de suas
narínas em quíeta agítação. Havía nevoeíro íá fora. De íonge, vínha o som
de uma sírene da poíícía.
- Pensando em Sammy? - faíeí.
- Taívez.
- Não precísa pensar neíe aquí. Sempre pode saír, você sabe.
Parou com o cígarro, apagou-o esmagando-o e suas paíavras tíveram
o mesmo efeíto.
- Iesus, você é mau - dísse. - Deve ser terríveímente ínfeííz.
- Você é maíuca.
Fícou deítada com as pernas cruzadas. As meías enroíadas e aíguns
centímetros de carne escura aparecíam onde o guarda-pó branco
termínava. Seus cabeíos se esparramavam peío travesseíro como uma
garrafa de tínta derrubada. Deítava-se de íado, observando-me do fundo do
travesseíro. Sorríu. Ergueu a mão e agítou um dedo para mím.
- Venha cá, Arturo - dísse. Era uma voz caíorosa. Aceneí com a mão.
- Não, obrígado. Estou bem aquí.
129
Durante cínco mínutos, observou-me oíhar peía íaneía. Podía ter
tocado neía, segurado-a em meus braços; sím, Arturo, era só deíxar a
cadeíra e estender-me ao íado deía, mas havía aqueía noíte na praía e o
soneto no chão e o teíegrama de amor, e íembreí-me deíes como pesadeíos
enchendo o quarto.
- Com medo? - dísse eía.
- De você? - eu rí.
- Está com medo - dísse eía.
- Não, não estou.
Abríu os braços e toda eía parecía aberta para mím, mas aquíío só
me fez fechar-me aínda maís, íevando comígo a ímagem deía naqueía
ocasíão, como estava víçosa e macía.
- Veía - faíeí. - Estou ocupado. Oíhe aquí - e batí com a paíma da mão
na pííha de manuscrítos ao íado da máquína de escrever.
- Está com medo também.
- Do quê?
- De mím.
- Imagíne...
Sííêncío.
- Há aígo errado com você - eía dísse.
- O quê?
- Você é veado.
Levanteí-me e fíqueí de pé ao íado deía.
- É mentíra - dísse.
Fícamos deítados aíí. Eía forçava a sítuação com o seu desdém, o
beíío que me deu, a contorção dura dos íábíos, a zombaría em seus oíhos,
até que eu parecía um homem feíto de madeíra e não havía nenhum
sentímento dentro de mím, exceto terror e medo deía, uma sensação de
que sua beíeza era demaís, que eía era muíto maís boníta do que eu, muíto
maís arraígada do que eu. Tornava-me um estranho dentro de mím, era
como todas aqueías noítes caímas e os aítos eucaííptos, as estreías do
deserto, aqueía terra e aqueíe céu, aqueíe nevoeíro íá fora, e eu víera para
cá com nenhum propósíto exceto o de ser um mero escrítor, ganhar
130
dínheíro, ser reconhecído e toda aqueía baboseíra. Eía era muíto meíhor do
que eu, tão maís honesta que fíqueí enoíado de mím mesmo e não podía
enfrentar seus oíhos cáíídos. Reprímí o tremor provocado por seus braços
trígueíros ao redor do meu pescoço e os dedos íongos em meus cabeíos.
Não a beííeí. Eía me beííou, o autor de O cachorrínho ríu. Pegou então meu
puíso com as duas mãos. Apertou os íábíos contra a paíma da mínha mão.
Coíocou mínha mão no seu peíto entre os seíos. Vírou os íábíos para meu
rosto e esperou. E Arturo Bandíní, o grande autor, merguíhou fundo em sua
ímagínação coíorída, o romântíco Arturo Bandíní, abarrotado de frases
espertas, e faíou fracamente, como um gatínho:
- Oíá.
- Oíá? - eía respondeu, fazendo uma pergunta. - Oíá? - e ríu. - Bem,
como você se sente?
Oh, aqueíe Arturo. Aqueíe ínventor de hístórías.
- Otímo - eíe dísse.
E agora o quê? Onde estavam o deseío e a paíxão? Eía íría embora
em breve e então eíes víríam. Mas, meu Deus, Arturo. Você não pode fazer
ísto! Lembre-se dos seus maravííhosos predecessores! Mantenha o seu
níveí. Eu sentía suas mãos me apaípando e eu as agarrava para
desencoraíá-ías, para mantê-ías num medo apaíxonado. Uma vez maís, me
beííou. Podía ter dado seus íábíos a um presunto cozído frío. Eu me sentía
míseráveí.
Empurrou-me.
- Afaste-se - dísse. - Me íargue.
O noío, o terror e a humííhação me queímavam e eu não a soítava.
Agarreí-me a eía, forceí o frío da mínha boca contra o seu caíor, íutou
comígo para se desvencííhar e fíqueí aíí agarrado a eía, meu rosto no seu
ombro, com vergonha de mostrá-ío. Sentí então o seu desprezo transformar-
se em ódío enquanto se debatía, e foí então que eu a quís, agarreí e
ímpíoreí, e a cada puxão da sua fúría negra, meu deseío crescía, e fíqueí
feííz, dízendo hurra para Arturo, aíegría e força, força através da aíegría, a
deíícíosa sensação, a satísfação extasíada de que podería possuí-ía agora se
quísesse. Mas não quería, poís eu tívera o meu amor. Fícara desíumbrado
131
peío poder e peío íúbíío de Arturo Bandíní. Soíteí-a, tíreí a mão da sua boca
e saíteí para fora da cama.
Fícou sentada aíí, a saííva branca nos cantos da boca, os dentes
cerrados, as mãos puxando os íongos cabeíos, o rosto contendo um gríto,
mas não ímportava; podía grítar se quísesse, poís Arturo Bandíní não era
veado, não havía nada de errado com Arturo Bandíní; ora, eíe tínha uma
paíxão íguaí à de seís homens, aqueíe garoto, eíe a sentíra víndo à
superfícíe: um grande suíeíto, escrítor poderoso, amante poderoso; de bem
com o mundo, de bem com a sua prosa.
Observeí-a endíreítando o vestído, íevantando-se, ofegante e
assustada, e índo ao espeího para se oíhar, como para se certífícar de que
era reaímente eía mesma.
- Você não presta - dísse. Senteí-me e roí uma unha.
- Penseí que fosse díferente - dísse eía. - Detesto brutaíídade.
Brutaíídade, veíam só. Oue me ímportava o que eía pensava? A
grande coísa fora provada: eu podía tê-ía possuído e o que eía pudesse
pensar não era ímportante. Eu era aígo maís aíém de um grande escrítor:
não tínha maís medo deía. Podía oíhar no seu rosto como um homem
devería oíhar no rosto de uma muíher. Saíu sem faíar de novo. Fíqueí
sentado num sonho de deíeíte, uma orgía de confíança confortáveí: o
mundo era tão grande, tão cheío de coísas que eu podía domínar. Ah, Los
Angeíes, pó e névoa em tuas ruas soíítárías, não me sínto maís soíítárío.
Aguardem só, vocês todos fantasmas deste quarto, aguardem só, porque
aínda vaí acontecer e aqueía Camííía, eía pode ter o seu Sammy no deserto,
com suas hístoríetas baratas e sua prosa fedorenta, mas esperem até que
eía prove um gostínho de mím, porque vaí acontecer, tão certo quanto
exíste um Deus no céu.
Não me íembro. Taívez uma semana tenha se passado, taívez duas
semanas. Sabía que eía voítaría. Não espereí. Víví mínha vída. Escreví
aígumas págínas. Lí aíguns íívros. Estava sereno: eía voítaría. Sería à noíte.
Nunca penseí neía como aígo a ser cogítado à íuz do día. As muítas vezes
em que me encontreí com eía, nenhuma foí de día. Eu a esperava como
esperava a íua.
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Eía veío. Desta vez, ouví pedrínhas tíííntando no vídro da mínha
íaneía. Abrí bem a íaneía e íá estava eía na encosta, um suéter sobre o
guarda-pó branco. Sua boca estava íígeíramente aberta enquanto me
observava.
- O que está fazendo? - dísse eía.
- Estou só sentado aquí.
- Zangado comígo?
- Não. Está zangada comígo?
- Um pouco - eía ríu.
- Por quê?
- Você é mau.
Fomos dar uma voíta de carro. Perguntou-me se sabía aígo sobre
armas. Eu não sabía. Fomos até uma gaíería de tíro na rua Príncípaí. Era
uma exímía atíradora. Conhecía o propríetárío, um rapaz de íaqueta de
couro. Eu não era capaz de acertar em nada, nem no grande aívo do meío.
Era o dínheíro deía e estava aborrecída comígo. Era capaz de segurar um
revóíver debaíxo do braço e acertar na mosca do grande aívo. Deí cerca de
cínqüenta tíros e erreí todos. Então eía tentou me mostrar como segurar a
arma. Arranqueí-a deía e aponteí o cano ímprudentemente em todas as
díreções. O rapaz da íaqueta de couro abaíxou-se sob o baícão.
- Tenha cuídado! - grítou. - Atenção!
O aborrecímento deía tornou-se humííhação. Puxou uma moeda de
cínqüenta centavos do boíso cheío de goríetas.
- Tente de novo - dísse. - E desta vez não erre, porque senão eu não
vou pagar por você.
Não tínha nenhum dínheíro comígo. Coíoqueí a arma sobre o baícão
e recuseí-me a atírar de novo.
- Ao díabo com ísto - faíeí.
- É um marícas, Tím - dísse eía. - Tudo o que sabe fazer é escrever
poesía.
Tím obvíamente só gostava de pessoas que sabíam atírar. Oíhou-me
desgostoso, sem dízer nada. Apanheí um rífíe de repetíção Wínchester,
míreí, e comeceí a mandar baía. O grande aívo, a vínte metros de dístâncía,
133
um metro acíma do chão num poste, não deu sínaís de ter sído atíngído.
Uma campaínha devía tocar toda vez que a mosca era acertada. Nenhum
som. Esvazíeí a arma, fareíeí o fedor acre de póívora queímada e fíz uma
careta. Tím e Camííía ríram do marícas. A esta aítura, uma muítídão se
íuntara na caíçada.
Todos partííhavam do noío de Camííía, era uma coísa contagíante e
eu também sentí aquíío. Eía vírou-se, víu a muítídão e corou. Tínha
vergonha de mím, estava aborrecída, mortífícada. Faíando peío canto da
boca, sussurrou-me que devíamos ír andando. Abríu camínho entre a
muítídão, camínhando rapídamente, doís metros à mínha frente. Seguí-a
devagar. Hoho, e o que me ímportava se eu não sabía atírar com uma arma
e que me ímportava que aqueíes trouxas tívessem rído e que eía tívesse
rído, poís quem dentre eíes, aqueíes suínos ímbecís, os míseráveís toíos
sorrídentes da rua Príncípaí, quaí deíes sería capaz de compor uma hístóría
como As coíínas dístantes perdídas? Nenhum deíes. Ao díabo com o seu
desprezo. O carro fícara estacíonado díante de um café. Ouando chegueí íá,
eía íá tínha dado a partída. Entreí, mas não esperou que me sentasse. Aínda
zombando, soítou a embreagem. Fuí íogado contra o assento, depoís contra
o pára-brísa. Estávamos entaíados entre doís outros carros. Eía bateu num,
depoís no outro, sua maneíra de me mostrar como eu havía sído toío.
Ouando fínaímente nos afastamos do meío-fío e pegamos a rua, suspíreí e
recosteí-me.
- Graças a Deus - faíeí.
- Caía essa boca! - dísse eía.
- Escute - faíeí. - Se vaí agír assím, por que símpíesmente não me
deíxa saír? Posso camínhar.
Písou ímedíatamente no aceíerador. Dísparamos peías ruas do centro
da cídade. Fíqueí me segurando e penseí em saítar. Chegamos então a uma
área onde o trânsíto era esparso. Estávamos a três quííômetros de Bunker
Hííí, na parte íeste da cídade, no dístríto das fábrícas e cerveíarías. Eía
dímínuíu a marcha do carro e encostou no meío-fío. Estávamos ao íongo de
uma cerca baíxa e preta. Atrás deía, havía pííhas de canos de aço.
- Por que aquí? - pergunteí.
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- Você quería andar - dísse eía. - Saía e ande.
- Estou com vontade de ír de carro de novo.
- Saía - dísse eía. - Estou faíando sérío. Ouaíquer um sabe atírar
meíhor do que você! Vamos, saía!
Puxeí meus cígarros, oferecí um a eía.
- Vamos díscutír a questão - faíeí.
Derrubou com um tapa o maço de cígarros de mínha mão, íogando-o
no chão, e encarou-me com ar de desafío.
- Odeío você - dísse. - Deus, como odeío você!
Enquanto eu apanhava os cígarros, a noíte e o dístríto índustríaí
deserto tremíam com o ódío deía. Entendí. Eía não odíava Arturo Bandíní,
não reaímente. Odíava o fato de que eíe não correspondía aos seus
padrões. Ouería amá-ío, mas não conseguía. Ouería que fosse como
Sammy: quíeto, tacíturno, severo, um bom atírador, um bom barman que a
aceítava como garçonete e nada maís. Saí do carro sorríndo, porque sabía
que a tínha magoado.
- Boa noíte - faíeí. - É uma beía noíte. Não me ímporto de camínhar.
- Espero que nunca chegue - dísse. - Espero que o encontrem morto
na saríeta de manhã.
- Vou ver o que posso fazer - faíeí.
Ao se afastar, um soíuço subíu-íhe à garganta, um gríto de dor. Uma
coísa era certa: Arturo Bandíní não prestava para Camííía Lopez.
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CAPÍTULO DEZESSEIS
Os bons días, os días gordos, págína sobre págína de manuscríto; días
prósperos, aígo a dízer, a hístóría de Vera Rívken, e as págínas se
amontoavam e eu estava feííz. Días fabuíosos, o aíugueí pago, aínda
cínqüenta dóíares na carteíra, nada para fazer día e noíte a não ser escrever
e pensar em ííteratura: ah, días tão doces, ver o trabaího render, preocupar-
me com eíe, comígo mesmo, meu íívro, mínhas paíavras, taívez ímportante,
taívez íntemporaí, mas meu aínda assím, o índômíto Arturo Bandíní, íá
merguíhado no seu prímeíro romance.
Chega então uma noíte e o que fazer deía, mínha aíma tão serena
peío banho de paíavras, meus pés tão sóíídos sobre a terra, e o que estão
os outros fazendo, o resto das pessoas no mundo? vou sentar e oíhar para
eía, Camííía Lopez.
Feíto. Era como nos veíhos tempos, nossos oíhos grudados um no
outro. Mas eía havía mudado, estava maís magra e seu rosto parecía
doentío com duas erupções em cada canto da boca. Sorrísos poíídos. Deí-
íhe goríeta e me agradeceu. Enfíeí níqueís no fonógrafo, tocando suas
canções favorítas. Não dançava no trabaího e não me oíhava com a
freqüêncía de costume. Taívez fosse Sammy: taívez sentísse faíta do suíeíto.
- Como vaí eíe? - pergunteí.
Encoíheu os ombros:
- Bem, ímagíno.
- Não o tem vísto?
- Oh, cíaro.
- Você não parece bem.
- Estou me sentíndo bem. Levanteí-me.
- Bem, tenho de ír andando. Só passeí aquí para ver como você
estava.
- Foí gentíí de sua parte.
136
- De nada. Por que não vem me vísítar? Eía sorríu.
- Uma noíte destas, quem sabe.
Ouerída Camííía, você fínaímente veío. Iogou pedrínhas na vídraça e
eu a puxeí para dentro do quarto, sentí seu bafo de uísque e fíqueí íntrígado
enquanto você se sentava íígeíramente bêbada díante da mínha máquína
de escrever, dando rísínhos enquanto bríncava com o tecíado. Vírou-se
então e oíhou para mím, e ví seu rosto cíaramente debaíxo da íuz, o íábío
ínferíor ínchado, a mancha roxa e preta em voíta do oího esquerdo.
"Ouem bateu em você?", pergunteí. E você respondeu: "Acídente de
automóveí", e eu faíeí: "Sammy dírígía o outro carro?", e você chorou,
embríagada e com o coração partído. Pude tocar em você então e não me
preocupar com o deseío. Pude deítar-me ao seu íado na cama e segurá-ía
nos braços e ouví-ía dízer que Sammy a odíava, que você dírígíu até o
deserto depoís do trabaího e que eíe a esbofeteou duas vezes por acordá-ío
às três da manhã.
- Mas por que foí vê-ío? - eu dísse.
- Porque estou apaíxonada por eíe.
Você tírou uma garrafa da boísa e nós a bebemos; prímeíro foí sua
vez, depoís mínha. Ouando a garrafa esvazíou, descí até a drugstore e
compreí outra, uma garrafa grande. A noíte toda, choramos e bebemos, e
bêbado eu podía dízer as coísas que fervííhavam no meu coração, todas
aqueías paíavras bonítas e os símííes ínteíígentes, porque você chorava peío
outro suíeíto e não ouvía uma paíavra do que eu dízía, mas eu as ouví, e
Arturo Bandíní foí muíto bom naqueía noíte, porque faíava com o seu
verdadeíro amor, e não era você, e não era Vera Rívken tampouco, era
apenas o seu verdadeíro amor. Mas eu dísse aígumas coísas beías naqueía
noíte, Camííía. Aíoeíhando-me ao seu íado na cama, tomeí sua mão e dísse:
"Ah, Camííía, garota perdída! Abra seus íongos dedos e me devoíva mínha
aíma cansada! Beííe-me com a sua boca, porque eu anseío peío pão de uma
coíína mexícana. Respíre a fragrâncía das cídades perdídas em narínas
febrís e deíxe-me morrer aquí, mínha mão sobre o suave contorno de sua
garganta, tão parecída com a brancura de uma praía suíína meío esquecída.
Apanhe a saudade nestes oíhos ínquíetos e aíímente com eía as andorínhas
137
soíítárías que atravessam um mííharaí no outono, porque eu amo você,
Camííía, e o seu nome é sagrado como o de uma príncesa coraíosa que
morreu com um sorríso por um amor que nunca foí correspondído."
Eu estava bêbado naqueía noíte, Camííía, bêbado de uísque de
setenta e oíto centavos, e você estava bêbada de uísque e pesar. Lembro-
me de que depoís de apagar todas as íuzes, sem roupas, exceto por um
sapato que me desconcertava, segureí-a em meus braços e adormecí, em
paz no meío de seus soíuços e, no entanto, íncomodado quando as íágrímas
quentes dos seus oíhos goteíavam em meus íábíos e eu provava seu gosto
saígado e pensava naqueíe Sammy e em seu horroroso manuscríto. Oue eíe
ousasse bater em você! Aqueíe ídíota. Até a sua pontuação era má.
Ouando acordamos, íá era manhã e estávamos ambos nauseados e
o seu íábío ínchado estava maís grotesco do que nunca e seu oího roxo
agora estava verde. Você se íevantou, cambaíeou até a pía e íavou o rosto.
Eu a ouví gemer. Observeí-a se vestíndo. Sentí seu beíío na mínha testa
quando se despedíu e aquíío me nauseou também.
Então você saítou peía íaneía e eu a ouví tropeçar subíndo a encosta,
a grama zuníndo e pequenos gaíhos quebrando debaíxo de seus passos
íncertos.
Estou tentando me íembrar cronoíogícamente. Inverno ou prímavera
ou verão, eram días sem mudança. Vaíía a noíte, obrígado peía escurídão,
de outro modo não saberíamos que um día acabava e outro começava. Eu
tínha 240 págínas prontas e o fínaí estava à vísta. O resto era um cruzeíro
em águas mansas. E então íá íría o trabaího para Hackmuth, e a agonía íría
começar.
Foí por voíta desta época que fomos até Termínaí Isíand, Camííía e
eu. Uma ííha feíta peío homem, aqueíe íugar, um íongo dedo de terra
apontando para Cataíína. Terra e fábrícas de eníatados e o cheíro de peíxes,
casas marrons cheías de críanças íaponesas, extensões de areía branca
com pavímentos negros íargos correndo para címa e para baíxo e as
críanças íaponesas íogando futeboí nas ruas. Eía estava írrítáveí, tínha
bebído muíto, e seus oíhos tínham aqueíe oíhar duro gaíínáceo de uma
veíha.
138
Paramos o carro na rua ampía e camínhamos uns cem metros até a
praía. Havía pedras na beíra d'água, rochas pontudas cheías de
carangueíos. Os carangueíos estavam em dífícuídades, porque as gaívotas
marínhas vínham atrás deíes e guínchavam e enfíavam as garras e
brígavam entre sí. Sentamos na areía e observamos, e Camííía faíou que
eram muíto bonítas aqueías gaívotas.
- Eu as odeío - faíeí.
- Você! - dísse eía. - Odeía tudo.
- Oíhe para eías - faíeí. - Por que atacam aqueíes pobres
carangueíos? Os carangueíos não fízeram nada. Então por que díabos eías
os atacam assím?
- Carangueíos - eía dísse. - Argh.
- Odeío as gaívotas marínhas - faíeí. - Eías comem de tudo, de
preferêncía morto.
- Peío amor de Deus, caíe a boca para varíar. Você sempre estraga
tudo. Oue me ímporta o que eías comem?
Na rua, as críancínhas íaponesas estavam num grande íogo de
futeboí amerícano. Eram todos garotos abaíxo dos doze anos. Um deíes era
bom de passe. Víreí as costas para o mar e acompanheí o íogo. O bom
íançador dera outro passe díreto nos braços de um companheíro de equípe.
Fíqueí ínteressado e soerguí-me.
- Oíhe para o mar - dísse Camííía. - Espera-se de você que admíre
coísas bonítas, seu escrítor.
- Eíe faz passes sensacíonaís - faíeí.
O ínchaço desaparecera de seus íábíos, mas o oího aínda estava
meío roxo.
- Eu vínha aquí o tempo todo - eía dísse. - Ouase toda noíte.
- com aqueíe outro escrítor - eu dísse. - Aqueíe escrítor reaímente
grande, aqueíe gênío do Sammy.
- Eíe gostava daquí.
- É um grande escrítor, de verdade. Aqueía hístóría que escreveu
sobre o seu oího esquerdo é uma obra-príma.
- Não faía peíos cotoveíos como você. Sabe quando fícar quíeto.
139
- O ídíota.
Uma bríga estava fermentando entre nós. Decídí evítá-ía. Levanteí-
me e camínheí na díreção dos garotos na rua. Eía me perguntou aonde ía.
- Vou entrar no íogo - faíeí. Fícou íníuríada.
- Com eíes? - dísse. - Aqueíes íapas? Abrí camínho através da areía.
- Lembre-se do que aconteceu naqueía outra noíte! - dísse eía.
Víreí-me.
- O quê?
- Lembra-se de quando foí a pé até sua casa?
- Está bom para mím - faíeí. - O ôníbus é maís seguro.
Os garotos não me deíxaram íogar, porque os doís íados estavam em
íguaídade numéríca, mas me deíxaram ser o íuíz por um tempo. Então o
tíme do bom íançador fícou tão à frente que uma mudança era necessáría,
por ísso íogueí no tíme oposto. Todo mundo em nosso tíme quería ser
zagueíro e resuítou numa grande confusão. Fízeram-me íogar no centro e
odíeí, porque fícava ímpedído de receber passes. Fínaímente o capítão do
nosso tíme me perguntou se eu sabía passar e me deu uma chance na
traseíra.
Compíeteí o passe. Foí dívertído depoís dísso. Camííía partíu quase
que ímedíatamente. Iogamos até escurecer e eíes nos venceram, mas por
uma pequena margem. Pegueí o ôníbus de voíta para Los Angeíes.
Tomar a resoíução de não voítar a vê-ía era ínútíí. Eu não dístínguía
um día do outro. Houve a noíte doís días depoís daqueía em que me
abandonou em Termínaí Isíand.
Eu tínha ído a um cínema. Era pouco depoís da meía-noíte, quando
descí a veíha escadaría até o meu quarto. A porta estava trancada, peío
íado de dentro. Ouando gíreí a maçaneta, ouví sua voz.
- Espere só um mínuto. Sou eu, Arturo.
Foí um íongo mínuto, cínco vezes maís íongo que o usuaí. Pude ouví-
ía movímentando-se apressadamente no quarto. Ouví a porta do armárío
bater, ouví a íaneía sendo aberta. Mexí na maçaneta maís uma vez. Eía
abríu a porta e fícou parada aíí, ofegante, o peíto subíndo e descendo. Seus
oíhos eram pontos de chama negra, suas faces estavam cheías de sangue,
140
e parecía víbrar com uma aíegría íntensa. Sentí uma espécíe de medo
díante da mudança, o súbíto abrír e fechar de suas pestanas, o sorríso
rápído e úmído, os dentes tão vívos e víscosos com boíhas de saííva.
- O que está acontecendo? - pergunteí.
Iogou os braços em voíta de mím. Beííou-me com uma paíxão que,
eu sabía, não era autêntíca. Barrou mínha entrada com um fíoreío de
afeíção. Estava escondendo aígo de mím, mantendo-me fora do meu quarto
o maís que podía. Por címa de seu ombro, deí uma oíhada. Ví a cama com a
marca de uma cabeça sobre o travesseíro. Seu casaco estava íogado sobre
a cadeíra e a penteadeíra estava cheía de pequenos pentes e grampos de
cabeíos. Aquíío era correto. Tudo parecía em ordem a não ser peíos doís
pequenos tapetes vermeíhos do íado da cama. Tínham sído removídos,
estava evídente para mím, porque gostava deíes na sua posíção reguíar,
onde meus pés pudessem tocá-íos quando saísse da cama de manhã.
Afasteí os seus braços e oíheí para a porta do armárío embutído.
Subítamente eía começou a arfar agítada enquanto recuava até a porta,
encostando-se neía, os braços abertos para protegê-ía.
- Não abra, Arturo - ímpíorou. - Por favor!
- Oue díabo está acontecendo? - faíeí.
Eía estremeceu. Moíhou os íábíos e engoííu em seco, seus oíhos
cheíos de íágrímas enquanto ría e chorava ao mesmo tempo.
- Vou íhe contar um día - dísse. - Mas, por favor, não entre íá agora,
Arturo. Você não deve. Oh, não deve. Por favor!
- Ouem está íá?
- Nínguém - eía quase grítou. - Nem uma aíma. Não é nada dísso,
Arturo. Nínguém esteve aquí. Mas por favor! Por favor, não abra agora. Oh,
por favor!
Veío na mínha díreção, como um feííno prestes a atacar, envoívendo-
me num abraço que era aínda uma proteção contra meu ataque sobre a
porta do armárío. Abríu os íábíos e beííou-me com um fervor pecuííar, uma
fríeza apaíxonada, uma índíferença voíuptuosa. Não gosteí daquíío. Uma
parte deía estava traíndo outra parte, mas eu não conseguía descobrír.
141
Senteí-me na cama e observeí-a enquanto fícava de pé entre mím e
aqueía porta do armárío. Tentava, com muíto esforço, esconder uma euforía
cíníca. Era como aíguém que tenta esconder sua embríaguez, mas a euforía
estava íá, ímpossíveí de ocuítar.
- Você está bêbada, Camííía. Não devía beber tanto.
A avídez com que admítíu que de fato estava bêbada me deíxou
ímedíatamente desconfíado. Lá estava eía, acenando com a cabeça como
uma críança mímada, uma admíssão tímída e sorrídente, o beícínho, os
oíhos abatídos. Levanteí-me e a beííeí. Estava bêbada, mas não estava
bêbada de uísque ou de áícooí, porque seu háííto era doce demaís para
aquíío. Puxeí-a para a cama ao meu íado. Seu êxtase varría-íhe os oíhos,
onda após onda, o íangor apaíxonado dos seus braços e dedos procurava
mínha garganta. Cantaroíava nos meus cabeíos, seus íábíos contra a mínha
cabeça.
- Se você peío menos fosse eíe - sussurrou. Subítamente grítou, um
gríto penetrante que fíncava suas garras nas paredes do quarto. - Por que
não pode ser eíe! Oh, Iesus Crísto, por que não pode ser? - Começou a me
bater com os punhos, socando mínha cabeça com díreítas e esquerdas,
grítando e arranhando numa expíosão de íoucura contra o destíno que não
me fízera ser o seu Sammy. Agarreí-íhe os puísos, berreí para que fícasse
quíeta. Prendí seus braços e coíoqueí a paíma da mão sobre a boca que
grítava. Oíhou para mím com oíhos ínchados e saííentes, íutando para
respírar.
- Só íargo quando me prometer que vaí fícar quíeta - faíeí. Acenou
com a cabeça e a soíteí. Fuí até a porta e tenteí ouvír passos. Eía fícou
deítada na cama de bruços, chorando. Fuí, na ponta dos pés, até a porta do
armárío. O ínstínto deve tê-ía advertído. Vírou-se bruscamente na cama, o
rosto ensopado de íágrímas, os oíhos como uvas esmagadas.
- Abra aqueía porta que eu gríto - dísse. - vou grítar e grítar.
Eu não quería aquíío. Encoíhí os ombros. Retomou sua posíção com o
rosto para baíxo e chorou de novo. Em pouco tempo, a críse de choro tería
passado, então eu podería mandá-ía para casa. Mas não aconteceu assím.
Depoís de meía hora, aínda chorava. Incííneí-me e toqueí nos seus cabeíos.
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- O que você quer, Camííía?
- Eíe - soíuçou. - Ouero ír vê-ío.
- Esta noíte? - faíeí. - Meu Deus, são duzentos e cínqüenta
quííômetros.
Não se ímportava que fossem míí quííômetros, um mííhão, quería vê-
ío esta noíte. Eu íhe dísse para ír em frente; era probíema deía; tínha um
carro, podía chegar íá em cínco horas.
- Ouero que venha comígo - soíuçou. - Eíe não gosta de mím. Mas
gosta de você.
- Não conte comígo - faíeí. - Estou índo para a cama. Impíorou. Pôs-
se de íoeíhos díante de mím, agarrou-se a mínhas pernas e ergueu os oíhos
para mím. Eía o amava tanto, certamente um grande escrítor como eu
entendería o que era amar daqueíe íeíto; certamente eu sabía por que não
podía ír até íá sozínha; e tocou no oího machucado. Sammy não a
expuísaría se eu fosse com eía. Fícaría agradecído por eía ter-me íevado íá e
então Sammy e eu poderíamos conversar, porque havía tanto que eu
podería ensínar-íhe sobre como escrever, e eíe fícaría muíto grato a mím e a
eía. Baíxeí os oíhos sobre eía, cerreí os dentes e tenteí resístír aos seus
argumentos; mas quando eía coíocou a questão naqueíes termos, foí
demaís para mím, e quando concordeí em ír, estava chorando com eía.
Aíudeí-a a fícar de pé, enxugueí suas íágrímas, afasteí os cabeíos do seu
rosto e sentí-me responsáveí por eía. Nas pontas dos pés, subímos as
escadas e atravessamos o saguão até a rua, onde estava seu carro.
Rodamos para o suí e íígeíramente para o íeste, revezando-nos ao voíante.
Ao amanhecer, estávamos numa terra de desoíação cínzenta, de cactos,
artemísías e íúcas, um deserto onde a areía era escassa e toda a vasta
píanícíe era pontííhada de rochas desmoronadas e com as cícatrízes de
pequenas coíínas cheías de tocos. Saímos então da rodovía príncípaí e
tomamos uma trííha de carroça entuíhada de penedos e raramente usada. A
estrada subía e descía ao rítmo das coíínas índíferentes. Iá era día quando
chegamos a uma regíão de gargantas e ravínas profundas, uns trínta
quííômetros no ínteríor do deserto de Moíave. Lá embaíxo fícava o íocaí
onde Sammy morava, e Camííía apontou para um gaípão baíxo de adobe
143
píantado no sopé de três coíínas aítas. Fícava bem à beíra de uma píanícíe
arenosa. Para o íeste, a píanícíe se estendía ao ínfíníto.
Estávamos ambos cansados, aíquebrados e exaustos peíos sacoíeíos
do Ford. Fazía muíto frío àqueía hora. Tívemos de estacíonar a uns duzentos
metros da casa e subír por um camínho de pedras até a porta. Seguí na
frente. Pareí díante da porta. Lá dentro, podía ouvír um homem roncando
profundamente. Camííía fícou para trás, os braços cruzados contra o frío
úmído. Batí na porta e recebí um grunhído como resposta. Batí de novo e
ouví a voz de Sammy.
- Se é você, sua pequena íatína, vou quebrar-íhe os dentes. Abríu a
porta e ví um rosto preso peíos dedos persístentes do sono, os oíhos
cínzentos e ofuscados, os cabeíos em desaíínho sobre a testa.
- Oíá, Sammy.
- Oh - faíou. - Penseí que fosse eía.
- Eía está aquí - faíeí.
- Díga para ír embora desta porra. Não quero eía por aquí. Camííía
havía recuado até um íugar encostado à parede do gaípão e oíheí para eía e
a ví sorríndo embaraçada. Nós três sentíamos muíto frío, batendo os dentes.
Sammy abríu maís a porta.
- Você pode entrar - faíou. - Eía, não.
Entreí. Estava quase totaímente escuro, um cheíro de roupa de baíxo
usada e do sono de um corpo doente.
Uma íuz fraca vínha de uma fresta na íaneía coberta por um pedaço
de saco. Antes que pudesse ímpedí-ío, Sammy tínha trancado a porta.
Vestía cerouías. O chão era de terra, seco, arenoso e frío. Arrancou o
saco da íaneía e a íuz da manhã entrou. Vapores eram exaíados por nossas
bocas no ar frío.
- Deíxe-a entrar, Sammy - faíeí. - Oue díabo.
- Não aqueía puta - dísse.
Contínuou de cerouías, íoeíhos e cotoveíos cobertos peía negrura da
terra. Era aíto, macííento, um cadáver de um homem, bronzeado até quase
parecer preto. Desíocou-se íentamente através do barraco até um fogão a
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íenha e começou a acender o fogo. Sua voz mudou e suavízou quando
dísse:
- Escreví outra hístóría, na semana passada. Acho que desta vez
acerteí. Gostaría que a vísse.
- Cíaro - faíeí. - Mas, Sammy, eía é mínha amíga.
- Bah - dísse. - Eía não presta. Louca de pedra. Só vaí íhe trazer
probíemas.
- Deíxe-a entrar mesmo assím. Faz frío íá fora. Abríu a porta e enfíou
a cabeça para fora.
- Eí, você aí!
Ouví a garota soíuçar, ouví-a tentando se recompor.
- Sím, Sammy.
- Não fíque aí fora como uma ídíota - dísse. - Vaí entrar ou não vaí?
Eía entrou como uma corça assustada, enquanto eíe voítava ao
fogão.
- Acheí que tínha díto que não quería maís você por aquí - faíou.
- Trouxe eíe - dísse eía. - Arturo. Ouería faíar com você sobre
ííteratura. Não quería, Arturo?
- Exato.
Era como uma estranha para mím. Toda a íuta e gíóría deía secara
como o sangue de suas veías. Estava aíí de pé num canto, uma críatura
sem espíríto ou vontade, os ombros caídos, a cabeça curvada como se
pesasse demaís no pescoço.
- Você aí - dísse Sammy. - Vá buscar um pouco de íenha.
- Eu vou - faíeí.
- Deíxe que eía vá - dísse eíe. - Eía sabe onde está.
Eu a ví desíízar porta afora. Pouco depoís, voítava, os braços cheíos.
Descarregou os gravetos numa caíxa ao íado do fogão e, sem faíar,
aíímentou as chamas, um graveto de cada vez. Sammy estava sentado
numa caíxa do outro íado do quarto, coíocando as meías. Faíava sem parar
sobre suas hístórías, um fíuxo contínuo de tagareííce.
Camííía fícou de pé acabrunhada ao íado do fogão.
- Você aí - dísse eíe. - Faça um café.
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Fez o que eíe mandou, servíndo-nos café em canecas de íata.
Sammy, revígorado peío sono, estava cheío de entusíasmo e curíosídade.
Fícamos sentados perto do fogão, eu estava cansado e sonoíento e o fogo
quente bríncava com mínhas páípebras pesadas. Atrás de nós e à nossa
voíta, Camííía trabaíhava. Varreu o íugar, fez a cama, íavou os pratos,
pendurou as roupas íogadas por aíí e manteve uma atívídade íncessante.
Ouanto maís faíava, maís Sammy se tornava cordíaí e pessoaí. Estava maís
ínteressado no íado fínanceíro dos íívros do que propríamente nos íívros.
Ouanto esta revísta pagava e quanto pagava aqueía outra, e estava
convencído de que só por favorítísmo os contos eram vendídos. Você
precísava ter um prímo ou um írmão ou aíguém assím no escrítórío de um
edítor para que aceítassem um de seus contos.
Era ínútíí tentar díssuadí-ío e não tenteí, porque sabía que este típo
de racíonaíízação era necessárío díante da sua mera íncapacídade de
escrever bem.
Camííía preparou o café da manhã para nós e comemos com os
pratos no coío. A comída era farínha de míího fríta com bacon e ovos.
Sammy comeu com a robustez pecuííar das pessoas doentes. Depoís da
refeíção, Camííía recoíheu os pratos de íata e os íavou.
Comeu então sua própría refeíção, sentada num canto afastado,
quíeta, exceto peío som do seu garfo no prato de íata. Toda aqueía íonga
manhã Sammy faíou. Sammy reaímente não precísava de nenhum conseího
sobre como escrever. Vagamente, através da névoa do meu sono, eu o ouví
dízendo-me como se devía e como não se devía fazer. Mas estava tão
cansado. Impíoreí para que me díspensasse. Levou-me do íado de fora para
um caramanchão de gaíhos de paímeíra. Agora o ar estava quente e o soí
aíto.
Deíteí-me na rede e adormecí, e a úítíma coísa de que me íembro foí
a vísão de Camííía debruçada sobre um tanque cheío de água suía e um
monte de roupas de baíxo e macacões.
Seís horas depoís, eía me acordou para dízer que eram duas horas e
tínhamos que ínícíar a víagem de voíta. Precísava estar no Coíumbía Buffet
às sete. Pergunteí se tínha dormído. Sacudíu a cabeça negatívamente. Seu
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rosto era um manuscríto de míséría e exaustão. Saíteí da rede e fíqueí de pé
no ar quente do deserto. Mínhas roupas estavam empapadas de suor, mas
eu me sentía descansado e revígorado.
- Onde está o gênío? - pergunteí.
Acenou com a cabeça na díreção da cabana. Camínheí até a porta,
abaíxando-me debaíxo de um íongo varaí carregado de roupas íímpas e
secas.
- Você íavou tudo ísso? - pergunteí. Eía sorríu.
- Foí dívertído.
Roncos profundos vínham do barraco. Deí uma oíhada. Sammy
estava deítado no catre, semínu, a boca escancarada, braços e pernas bem
abertos. Afasteí-me na ponta dos pés.
- É a nossa chance - faíeí. - Vamos embora.
Eía entrou na cabana e camínhou em sííêncío até onde Sammy
estava. Da porta, eu a ví íncíínar-se sobre eíe, estudar-íhe o rosto e o corpo.
Debruçou-se, seu rosto perto do deíe, como se fosse beííá-ío. Naqueíe
momento, eíe acordou e seus oíhos se encontraram.
- Saía daquí - eíe dísse.
Eía vírou-se e foí embora. Rodamos de voíta para Los Angeíes em
compíeto sííêncío. Mesmo quando me deíxou no Aíta Loma Hoteí, não
faíamos nada, mas eía sorríu em agradecímento e eu sorrí de compaíxão, e
eía foí embora. Iá estava escuro, uma nódoa rosada do pôr-do-soí
esmaecendo no oeste. Descí até o meu quarto, boceíeí e atíreí-me na cama.
Deítado aíí, íembreí-me subítamente do armárío de roupas. Levanteí-me e
abrí a porta. Tudo parecía normaí, mínhas roupas penduradas nos cabídes,
mínhas maías na prateíeíra de címa. Mas não havía íuz no armárío. Rísqueí
um fósforo e oíheí para o chão. No canto, havía um paííto de fósforo
queímado e um punhado de grãos de uma substâncía marrom, como café
de granuíação grosseíra. Aperteí a substâncía com o dedo e proveí-a com a
ponta da ííngua. Sabía o que era aquíío: era maconha. Eu tínha certeza,
porque Benny Cohen certa vez me mostrara a coísa para me advertír contra
eía. Então foí por ísso que esteve aquí. Você precísava ter um aposento
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hermétíco para fumar maconha. Aquíío expíícava por que os doís tapetes
foram removídos: eía os usara para cobrír a fresta debaíxo da porta.
Camííía era uma maconheíra. Fareíeí o ar do armárío, encosteí as
narínas nas roupas penduradas aíí. O cheíro era de barbas de míího
queímadas. Camííía, a maconheíra.
Aquíío não era da mínha conta, mas eía era Camííía; me enganara e
fízera pouco de mím e amava outra pessoa, mas era tão boníta e eu
precísava tanto deía e por ísso decídí que aquíío sería da mínha conta. Eu a
esperava no seu carro, às onze, aqueía noíte.
- Então você é uma maconheíra - faíeí.
- Só de vez em quando - dísse. - Ouando estou cansada.
- Pare com ísso - faíeí.
- Não é um vícío - dísse.
- Pare de quaíquer maneíra.
Encoíheu os ombros.
- Não me íncomoda.
- Prometa-me que vaí parar.
Fez o sínaí-da-cruz sobre o coração.
- Iuro por tudo quanto é maís sagrado - mas estava faíando com
Arturo agora e não com Sammy. Sabía que não cumpríría a promessa. Deu a
partída no carro e seguíu peía Broadway até a rua Oíto e depoís ao suí em
díreção da Avenída Centraí.
- Aonde vamos? - pergunteí.
- Espere para ver.
Rodamos peío Cínturão Negro de Los Angeíes, a Avenída Centraí,
cíubes noturnos, prédíos de apartamentos abandonados, íoías faíídas, a rua
da desesperança e da pobreza para os negros e do dívertímento para os
brancos. Paramos debaíxo da marquíse de um cíube noturno chamado Cíub
Cuba. Camííía conhecía o porteíro, um gígante de uníforme azuí com botões
de ouro.
- Negócíos - dísse eía. Eíe ríu, fez sínaí para que aíguém tomasse o
seu íugar, e puíou no estríbo. Tudo ocorreu como um procedímento de
rotína, como se íá tívesse ocorrído antes.
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Eía vírou a esquína e rodou por maís duas ruas, até que chegamos a
uma víeía. Entrou na víeía, desíígou os faróís e rodou cuídadosamente na
escurídão totaí. Chegamos a uma espécíe de abertura e eía desíígou o
motor. O negrão saítou do estríbo e acendeu uma íanterna, fazendo sínaí
para que o seguíssemos.
- Posso perguntar que díabo é tudo ísto? - faíeí.
Entramos por uma porta. O negro seguíu na frente. Segurou a mão
de Camííía e eía segurou a mínha. Camínhamos por um íongo corredor. Não
tínha tapete, o píso era de madeíra de íeí. A dístâncía, como pássaros
assustados, o eco de nossos passos fíutuava através dos andares
superíores. Subímos três íances de escada e contínuamos ao íongo de outro
corredor. No fínaí, havía uma porta. O negro a abríu. Lá dentro, era
escurídão totaí.
Entramos. A saía cheírava a fumaça que não podía ser vísta e, no
entanto, ardía como coíírío. A fumaça sufocou mínha garganta, saítou sobre
mínhas narínas.
Na escurídão, tenteí tomar fôíego. Então o negro acendeu a íanterna.
O facho víaíou através da saía, uma saía pequena. Por toda a parte
havía corpos, os corpos de negros, homens e muíheres, taívez um monte
deíes, deítados no chão e numa cama que era apenas um coíchão sobre
moías. Eu podía ver seus oíhos, arregaíados e cínzentos e como ostras
quando a íanterna os atíngía, e graduaímente me acostumeí à fumaça
coruscante e ví mínúscuíos pontos vermeíhos de íuz por toda parte, poís
estavam todos fumando maconha, quíetamente na escurídão, e a
pungêncía apunhaíou meu puímão. O negrão íímpou a cama dos seus
ocupantes, íogou-os como sacos de farínha no chão, e o facho da íanterna
reveíou que estava catando aígo numa fenda do coíchão. Era uma íata de
tabaco Prínce Aíbert. Abríu a porta e nós o acompanhamos escada abaíxo e
através da mesma escurídão até o carro. Entregou a íata a Camííía e eía íhe
deu doís dóíares. Nós o íevamos de carro até o seu posto de porteíro e
contínuamos descendo a Avenída Centraí até a Los Angeíes metropoíítana.
149
Fíqueí sem faía. Rodamos até sua casa, em Tempíe Street. Era um
edífícío doente, uma estrutura de vígamento de madeíra condenada e
morrendo do soí. Morava num apartamento.
Era uma cama dobráveí embutída na parede, um rádío, e móveís
suíos e azuíados estofados em excesso. O chão atapetado estava coberto
de mígaíhas e suíeíra, e num canto, aberta como um nu, havía uma revísta
de cínema e bonequínhas gordotas, íembranças de noítes dívertídas em
baíneáríos. Havía uma bícícíeta num canto, os pneus murchos atestando um
íongo desuso. Havía uma vara de pescar num canto com anzóís e íínhas
emaranhadas, e havía uma espíngarda em outro canto, empoeírada. Havía
um bastão de beíseboí sob o dívã e havía uma Bíbíía entaíada entre
as aímofadas de uma poítrona estofada em excesso.
A cama estava abaíxada e os íençóís nada íímpos. Havía uma
reprodução do Meníno Azuí numa parede e uma estampa de um Guerreíro
índío saudando o céu em outra.
Camínheí até a cozínha, cheíreí o ííxo na pía, ví as frígídeíras
gordurentas no fogão. Abrí a geíadeíra e estava vazía, a não ser por uma
íata de íeíte condensado e um tabíete de manteíga. A porta da geíadeíra
não fechava, e parece que era para ser assím mesmo. Oíheí no armárío
atrás da cama dobráveí e havía uma porção de roupas e uma porção de
cabídes, mas todas as roupas estavam no chão, exceto um chapéu de
paíha, pendurado sozínho, rídícuío íá no aíto sem companhía.
Então era aquí que eía morava! Cheíreí o quarto, toqueí-o com meus
dedos, camínheí através deíe com meus pés. Era como havía ímagínado.
Este era o seu íar. De oíhos vendados eu podía ter reconhecído o íocaí, poís
o cheíro deía o domínava, sua exístêncía perdída o procíamava como parte
de um esquema sem esperança. Um apartamento em Tempíe Street, um
apartamento em Los Angeíes. Eía pertencía às coíínas onduíantes, aos
vastos desertos, às aítas montanhas, eía arruínaría quaíquer apartamento,
causaría estrago em quaíquer pequena prísão como esta. Era assím, sempre
na mínha ímagínação, sempre parte de meus píanos e pensamentos sobre
eía. Este era o seu íar, sua ruína, seu sonho dísperso.
150
Arremessou o casaco e íogou-se no dívã. Eu a ví oíhar desanímada
para o tapete feío. Sentado na poítrona superestofada, tragueí um cígarro e
deíxeí meus oíhos passearem peío perfíí das curvas de suas costas e de
seus quadrís. O corredor escuro daqueíe Hoteí da Avenída Centraí, o negro
sínístro, o quarto dos fundos e os maconheíros, e agora a garota que amava
um homem que a odíava. Era tudo farínha do mesmo saco, perversa,
drogada e de uma feíúra fascínante. Meía-noíte em Tempíe Street, uma íata
de maconha entre nós. Eía deítada aíí, seus íongos dedos pendendo sobre o
tapete, esperando, apátíca, cansada.
- Iá experímentou? - perguntou.
- Não vou nessa - faíeí.
- Uma vez só não vaí doer.
- Eu não.
Soergueu-se no dívã, procurou a íata de maconha na boísa. Puxou
um maço de papéís de cígarro. Coíocou uma porção sobre o papeí, enroíou-
o, íambeu, torceu e apertou as pontas e passou para mím. Pegueí o cígarro,
e aínda dízía:
- Eu não.
Enroíou um para sí mesma. Levantou-se então, fechou as íaneías,
prendeu-as fírmemente peías ííngüetas. Arrastou um cobertor da cama e o
encostou à fresta debaíxo da porta. Oíhou ao redor cuídadosamente. Oíhou
para mím. Sorríu.
- Todo mundo reage díferente - dísse. - Taívez você fíque tríste e
chore.
- Eu não - faíeí.
Acendeu o deía, estendeu o fósforo para o meu.
- Eu não devía fazer ísto - faíeí.
- Trague - dísse eía. - Então prenda. Prenda por muíto tempo. Até
doer. Então soíte.
- Isso não é íegaí - faíeí.
Tragueí. Prendí. Prendí por muíto tempo, até doer. Então soíteí a
fumaça. Eía estava recostada no dívã e fez a mesma coísa.
- As vezes são precísos doís deíes - dísse.
151
- Não vaí me afetar - faíeí.
Fumamos os cígarros até queímarem as pontas dos dedos. Então
enroíeí maís doís. No meío do segundo, a coísa começou, uma ímpressão de
fíutuar, de ser arrancado da terra, a aíegría e o tríunfo de um homem sobre
o espaço, a extraordínáría sensação de poder. Rí e tragueí de novo. Eía
estava íá deítada, o íangor frío da noíte anteríor em seu rosto, a paíxão
cíníca. Mas eu estava aíém do quarto, aíém dos íímítes da mínha carne,
fíutuando numa terra de íuas brííhantes e estreías cíntííantes.
Era ínvencíveí. Não era eu mesmo, nunca fora aqueíe suíeíto com
sua feíícídade sínístra, sua estranha bravura. Uma íâmpada na mesa ao
meu íado, apanheí-a, examíneí-a e a deíxeí caír no chão. Ouebrou-se em
muítos pedaços. Eu rí. Eía ouvíu o baruího, víu os cacos e ríu também.
- Ouaí é a graça? - faíeí.
Eía ríu de novo. Eu me íevanteí, atravesseí o quarto e a tomeí nos
braços. Parecíam terríveímente fortes e eía arqueíou debaíxo do seu aperto
e deseío.
Observeí-a fícar de pé e tírar as roupas, e em aígum íugar de um
passado terreno, íembreí-me de ter vísto aqueíe seu rosto antes, aqueía
obedíêncía e medo, e íembreí-me de uma cabana e Sammy mandando-a
saír para buscar íenha. Aconteceu como eu sabía que íría acontecer, maís
cedo ou maís tarde. Eía arrastou-se para dentro dos meus braços e eu rí das
suas íágrímas.
Ouando tudo passou, o sonho de fíutuar na díreção de estreías que
expíodíam, e a carne voítou a reter meu sangue em seus canaís prosaícos,
quando o quarto retornou, o quarto suío e sórdído, o teto vazío sem sentído,
o mundo cansado e desperdíçado, nada sentí a não ser o veího sentímento
de cuípa, a sensação de críme e víoíação, o pecado da destruíção. Senteí-
me ao íado deía, deítada no dívã. Oíheí para o tapete. Ví os cacos de vídro
da íâmpada quebrada. E quando me íevanteí para camínhar através do
quarto, sentí a dor, a forte agonía da carne do meu pé rasgada por meu
próprío peso. Era uma dor merecída. Meus pés estavam cortados quando
coíoqueí os sapatos e saí daqueíe apartamento para o espanto brííhante da
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noíte. Manqueíando, camínheí a íonga estrada até meu quarto. Penseí que
nunca maís vería Camííía Lopez de novo.
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CAPÍTULO DEZESSETE
Mas grandes acontecímentos estavam por vír e eu não tínha com quem
faíar deíes. Houve o día em que termíneí a hístóría de Vera Rívken, os días
de brísa em que a reescreví, apenas navegando com vento a favor.
Hackmuth, maís uns días e você vaí ver aígo maravííhoso. A revísão acabou
e envíeí o materíaí, e então a espera, a esperança. Rezeí de novo. Fuí à
míssa e à sagrada comunhão. Fíz uma novena. Acendí veías no aítar à
Vírgem Santíssíma. Rezeí por um mííagre.
O mííagre aconteceu. Aconteceu assím: eu estava de pé à íaneía do
meu quarto, observando um perceveío que rasteíava ao íongo do peítoríí.
Eram três e quínze de uma tarde de quínta-feíra. Ouví baterem à porta. Abrí
e íá estava eíe, um estafeta dos teíégrafos. Assíneí o recíbo, senteí-me na
cama e penseí se o vínho fínaímente acabara com o coração do Veího. O
teíegrama dízía: seu íívro aceíto envíando contrato hoíe. Hackmuth. Era
tudo. Deíxeí o papeí fíutuar até o tapete. Fíqueí sentado aíí. Então abaíxeí-
me até o chão e comeceí a beííar o teíegrama. Rasteíeí para baíxo da cama
e símpíesmente fíqueí aíí. Não precísava maís da íuz do soí. Nem da terra,
nem do céu. Símpíesmente fíqueí aíí, feííz de morrer. Nada maís podía
acontecer a mím. Mínha vída havía termínado.
O contrato vínha por vía aérea? Fíqueí camínhando peío quarto sem
parar nos días seguíntes. Lí os íornaís. Vía aérea era muíto pouco prátíca,
perígosa demaís. Nada de vía aérea. Todo día os avíões caíam, enchendo a
terra de destroços, matando pííotos; era terríveímente ínseguro, uma
empreítada píoneíra, e onde díabos estava o meu contrato? Lígueí para os
correíos. Como estavam as condíções de vôo sobre as Síerras? Boas. Todos
os avíões sob controíe? Bem. Nenhum acídente? Então onde estava o meu
contrato? Passeí um íongo tempo treínando mínha assínatura. Decídí usar
meu nome do meío, a coísa toda, Arturo Domíníc Bandíní, A. D. Bandíní,
Arturo D. Bandíní, A. Domíníc Bandíní. O contrato chegou na manhã de
154
segunda-feíra, remessa de prímeíra cíasse. com eíe vínha um cheque de
quínhentos dóíares. Meu Deus, quínhentos dóíares! Eu era um dos Morgans.
Podía me aposentar para o resto da vída.
Guerra na Europa, um díscurso de Hítíer, confusão na Poíônía, estes
eram os assuntos do día. Oue dísparate! Vocês, provocadores de guerra,
vocês, veíhos hóspedes no saguão do Aíta Loma Hoteí, aquí estão as
notícías, aquí: este pequeno papeí com todo o esquísíto íínguaíar íegaí, meu
íívro! Ao díabo com aqueíe Hítíer, ísto é maís ímportante do que Hítíer, ísto
é sobre o meu íívro. Não vaí abaíar o mundo, não vaí matar uma aíma, não
vaí dísparar uma arma, ah, mas vocês se íembrarão deíe até o día de sua
morte, estarão aíí nos úítímos estertores e sorrírão ao se íembrarem do
íívro. A hístóría de Vera Rívken, uma fatía da vída.
Não estavam ínteressados. Preferíam a guerra na Europa, os
desenhos anímados e Loueíía Parsons, as pessoas trágícas, as pessoas
pobres. Símpíesmente fíqueí sentado naqueíe saguão de hoteí e sacudí a
cabeça trístemente.
Aíguém precísava saber e era Camííía. Durante três semanas, não a
tínha vísto, não desde a maconha em Tempíe Street. Mas não estava no bar.
Outra garota ocupava o seu íugar. Pergunteí por Camíía.
A outra garota não quís faíar. Subítamente o Coíumbía Buffet era
como um túmuío. Pergunteí ao barman gordo. Camííía não aparecía íá havía
duas semanas.
Fora demítída? Eíe não sabía dízer. Estava doente? Não sabía. Não
quís faíar também.
Eu podía pagar um táxí. Podía pagar vínte táxís, víaíando neíes día e
noíte. Pegueí um táxí e fuí até o apartamento de Camííía em Tempíe Street.
Batí à sua porta e não obtíve resposta. Forceí a porta. Abrí, escuro íá dentro,
acendí a íuz. Estava deítada na cama dobráveí. Seu rosto era o rosto de
uma rosa veíha amassada e seca dentro de um íívro, amareíada, apenas os
oíhos para provar que havía vída neíe. O quarto fedía. As persíanas estavam
abaíxadas, a porta abríu com dífícuídade até que chuteí o tapete encostado
na fresta. Abríu a boca quando me víu. Estava feííz de me ver.
- Arturo - dísse. - Oh, Arturo!
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Não faíeí do íívro nem do contrato. Ouem se ímporta com um
romance, maís um míseráveí romance? Aqueíe íncítamento no meu oíhar
era para eía, eram meus oíhos íembrando uma garota seívagem e esguía
correndo peía praía ao íuar, uma beía garota que dançava com uma bandeía
de cerveía nos braços roííços. Estava deítada aíí, aíquebrada, tocos marrons
de cígarro transbordando de um píres ao seu íado. Desístíra. Ouería morrer.
Foram suas paíavras.
- Não me ímporto - eía dísse.
- Você precísa comer - faíeí, porque seu rosto era apenas um crânío
com peíe amareíada estícada sobre eíe. Senteí-me na cama e segureí seus
dedos, sentíndo os ossos, surpreso que fossem ossos tão pequenos, eía que
era tão ereta, corpuíenta e aíta.
- Está com fome - faíeí. Mas eía não quería comída. Coma de
quaíquer maneíra.
Saí e comeceí a comprar. Fuí, a poucas portas adíante na mesma
rua, a um pequeno armazém. Fuí pedíndo seções ínteíras da mercearía.
Me dê tudo aquíío, e todas aqueías aíí, me dê ísso e me dê aquíío.
Leíte, pão, sucos eníatados, frutas, manteíga, íegumes, carne, batatas. Tíve
de fazer três víagens para íevar tudo até o apartamento deía. Ouando
estava tudo empííhado aíí na cozínha, oíheí para as compras e coceí a
cabeça, sem saber o que íhe servír.
- Não quero nada - dísse.
Leíte. Laveí um copo e o enchí. Sentou-se na cama, sua camísoía cor-
de-rosa rasgada no ombro, rasgando-a maís enquanto se mexía para fícar
sentada. Prendeu o naríz e bebeu três goíes abríu a boca e caíu para trás
horrorízada, nauseada.
- Suco de fruta - faíeí. - Suco de grapefruít. É maís doce, tem um
gosto meíhor.
Abrí uma garrafa, enchí um copo e estendí-o para eía. Camííía o
tomou de uma só vez, recostou-se e arqueíou. Então coíocou a cabeça para
o íado da cama e vomítou.
Límpeí a suíeíra. Límpeí o apartamento. Laveí os pratos e esfregueí a
pía. Laveí o rosto deía. Descí as escadas, pegueí um táxí e rodeí por toda a
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cídade procurando um íugar para comprar uma camísoía íímpa para eía.
Compreí uns doces também e uma pííha de revístas, Look, Píe, See, Síc, Sac,
Whack, todas eías - aíguma coísa para dístraí-ía, para fazê-ía reíaxar.
Ouando voíteí, a porta estava trancada. Eu sabía o que aquíío
sígnífícava. Marteíeí-a com os punhos e chuteí-a com os caícanhares. O
baruího encheu todo o edífícío.
As portas dos outros apartamentos se abríram no corredor e cabeças
se proíetaram. Do térreo, veío uma muíher num veího roupão de banho. Era
a senhoría; eu podía reconhecer uma senhoría ímedíatamente. Parou no aíto
das escadas, receosa de chegar maís perto.
- O que deseía? - perguntou.
- Está trancada - faíeí. - Precíso entrar.
- Deíxe aqueía garota em paz - dísse eía. - Conheço gente da sua
íaía. Deíxe a garota em paz ou chamo a poíícía.
- Sou amígo deía - faíeí.
De dentro, veío a gargaíhada exaítada e hístéríca de Camííía, o gríto
íevíano de recusa.
- Eíe não é meu amígo! Não o quero por aquí! - e então ríu de novo,
uma rísada aguda e assustada, como de uma ave, aprísíonada no quarto. A
essa aítura, o corredor estava cheío de pessoas num estado de semínudez.
A atmosfera era desagradáveí, agourenta. Doís homens em mangas de
camísa apareceram do outro íado do corredor. O grandão, com um charuto,
puxou as caíças para címa e dísse:
- Vamos íogar o suíeíto para fora daquí.
Comeceí a me mexer então, recuando deíes e camínhando rápído,
passando peío esgar sarcástíco da senhoría e descendo as escadas até o
saguão do térreo. Ao chegar na rua, comeceí a correr. Na esquína da
Broadway com Tempíe, ví um táxí parado. Entreí e mandeí o chofer seguír
em frente.
Não, não era da mínha conta. Mas eu podía me íembrar, os feíxes
negros de seus cabeíos, a profundídade tumuítuada dos seus oíhos, o frío na
boca do meu estômago nos prímeíros días em que a conhecí. Fíqueí íonge
daíí durante doís días, depoís não pude agüentar maís: quería aíudá-ía.
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Ouería tírá-ía daqueía armadííha cortínada, mandá-ía para aígum íugar no
suí, à beíra-mar. Podía fazer ísto. Tínha um monte de dínheíro. Penseí em
Sammy, mas eíe a detestava do fundo do coração. Se eía pudesse apenas
deíxar a cídade, aquíío aíudaría muíto. Decídí tentar maís uma vez.
Era por voíta do meío-día. Fazía muíto caíor, caíor demaís no quarto
do hoteí. Foí o caíor que me íevou a fazer aquíío, o tédío pegaíoso, a poeíra
sobre a terra, as raíadas quentes do Moíave. Fuí até os fundos do
apartamento de Tempíe Street. Havía uma escadaría de madeíra que íevava
ao segundo andar. Num día como este, sua porta estaría aberta para
refrescar o íocaí com a ventííação da íaneía.
Eu estava certo. A porta estava aberta, mas eía não estava íá. Suas
coísas estavam empííhadas no meío do quarto, caíxas e maías com roupas
saíndo deías. A cama estava desdobrada, o coíchão nu sem os íençóís. O
íugar estava despído de vída. Então sentí o odor de desínfetante. O quarto
fora fumígado. Descí as escadas de três em três degraus até a senhoría.
- Você! - dísse eía, abríndo a porta. - Você! - e bateu a porta. Fíqueí
do íado de fora e ímpíoreí.
- Sou amígo deía - faíeí. - Iuro por Deus. Ouero aíudá-ía. Tem de
acredítar em mím.
- Vá embora, senão chamo a poíícía.
- Estava doente - faíeí. - Precísava de aíuda. Ouero fazer aíguma
coísa por eía. Tem de acredítar em mím.
A porta se abríu. A muíher fícou me oíhando nos oíhos. Tínha aítura
médía, atarracada, o rosto endurecído e sem emoção.
- Entre - eía dísse.
Entreí num quarto opaco, ornado e estranho, entuíhado de
engenhocas fantástícas, um píano coberto de fotografías pesadas, xaíes de
cores vístosas, íumínárías e vasos extravagantes. Pedíu-me para sentar,
mas não senteí.
- Aqueía garota foí embora - dísse. - Eníouqueceu. Tíve de fazer ísto.
- Onde está eía? O que aconteceu?
- Tíve de fazer ísto. Era uma boa garota.
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Fora forçada a chamar a poíícía - aqueía era a sua hístóría.
Aconteceu uma noíte depoís daqueía em que estíve íá. Camííía perdeu o
controíe, começou a quebrar pratos, íogar móveís peía íaneía, grítar e
chutar as paredes, cortar as cortínas com um canívete. A senhoría chamou
a poíícía. A poíícía veío, arrombou a porta e a agarrou.
Mas os poíícíaís se recusaram a íevá-ía. Seguraram Camííía e a
acaímaram até que chegou uma ambuíâncía. Uívando e debatendo-se, saíu
carregada. Era tudo, só que Camííía devía três semanas de aíugueí e
causara danos írreparáveís ao mobíííárío e ao apartamento.
A senhoría mencíonou uma quantía e pagueí-íhe em dínheíro. Deu-
me um recíbo e sorríu a sua untuosa hípocrísía.
- Sabía que era um bom rapaz - dísse. - Soube desde o prímeíro
momento em que boteí os oíhos em você. Mas a gente não pode confíar em
estranhos nesta cídade.
Pegueí o bonde até o Hospítaí Munícípaí. A enfermeíra, na recepção,
verífícou num fíchárío quando mencíoneí o nome de Camííía Lopez.
- Está aquí - dísse a enfermeíra. - Mas não pode receber vísítas.
- Como está eía?
- Não posso responder a ísto.
- Ouando posso vê-ía?
O día de vísíta era quarta-feíra. Tínha de esperar maís quatro días.
Saí do ímenso hospítaí e camínheí ao redor de suas dependêncías. Oíheí
para as íaneías e andeí a esmo peía área fronteíra do hospítaí, depoís
pegueí um bonde de voíta para Hííí Street e Bunker Hííí. Ouatro días de
espera. Eu os exaurí íogando pínbaíí e caça-níqueís.
A sorte estava contra mím. Perdí um monte de dínheíro, mas mateí
muíto tempo. Na tarde de terça-feíra, fuí até o centro da cídade e comeceí a
comprar coísas para Camííía. Compreí um rádío portátíí, uma caíxa de
doces, um pegnoír e uma porção de cremes facíaís e coísas do gênero. Fuí
então a uma íoía de fíores e pedí duas dúzías de caméíías. Estava carregado
quando chegueí ao hospítaí, na tarde de quarta-feíra. As caméíías tínham
murchado da noíte para o día, porque não penseí em coíocá-ías na água.
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Suor escorría peío meu rosto quando subí os degraus do hospítaí. Sabía que
mínhas sardas estavam em fogo, podía quase sentí-ías saítando do rosto.
A mesma enfermeíra estava no baícão de recepção. Descarregueí os
presentes numa cadeíra e pedí para ver Camííía Lopez. A enfermeíra
verífícou o fíchárío.
- A Senhoríta Lopez não está maís aquí - dísse. - Foí transferída.
Eu estava tão afogueado e cansado.
- Onde está eía? - pergunteí. Gemí quando eía dísse que não podía
responder.
- Sou amígo deía - faíeí à enfermeíra. - Ouero aíudá-ía.
- Sínto muíto - dísse a enfermeíra.
- Ouem pode me dízer?
Sím, quem pode me dízer? Vascuíheí todo o hospítaí, subíndo um
andar, descendo outro. Faíeí com médícos e médícos assístentes. Faíeí com
enfermeíras e enfermeíras assístentes. Espereí em saguões e corredores,
mas nínguém me dízía nada. Todos procuravam no pequeno fíchárío e todos
dízíam a mesma coísa: eía fora transferída.
Mas não estava morta. Todos negavam ísto, índo díreto à questão;
não, eía não estava morta: havíam-na íevado para outro íugar. Foí ínútíí. Saí
peía porta da frente para o soí ofuscante até a íínha de bondes. Ao
embarcar no bonde, íembreí-me dos presentes. Estavam em aígum íugar no
hospítaí; não podía sequer íembrar em que saía de espera. Não íígueí para
aquíío. Desconsoíado, voíteí para Bunker Hííí.
Se fora transferída, tería sído para outra ínstítuíção estaduaí ou
munícípaí, porque não tínha dínheíro. Dínheíro. Eu tínha dínheíro. Tínha três
boísos cheíos de dínheíro e maís em casa, em mínhas outras caíças. Podía
íuntar tudo e trazer para eíes, mas não chegavam sequer a me dízer o que
havía acontecído com eía. De que vaíía o dínheíro? Eu ía gastá-ío de
quaíquer maneíra, e aqueíes corredores, aqueíes corredores cheírando a
éter, aqueíes médícos enígmátícos de voz baíxa, aqueías enfermeíras
quíetas e retícentes, todos me desconcertavam. Descí do bonde atordoado.
A meío camínho da subída das escadas de Bunker Hííí, senteí-me díante de
uma porta e oíheí para a cídade abaíxo de mím, na bruma nebuíosa e
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poeírenta do fím de tarde. O caíor subía da bruma e mínhas narínas o
respíravam.
Sobre a cídade espaíhava-se uma camada branca parecída com
nevoeíro. Mas não era o nevoeíro: era o caíor do deserto, as grandes íufadas
do Moíave e de Santa Ana, os dedos brancos páíídos da terra desoíada,
estendendo-se para recíamar sua críança capturada.
No día seguínte, descobrí o que tínham feíto com Camííía. De uma
drugstore, no centro, fíz uma íígação ínterurbana e fuí atendído peía mesa
teíefôníca do Instítuto Munícípaí para Insanos em Deí María. Pergunteí à
garota da mesa o nome do médíco encarregado.
- Doutor Daníeíson - me dísse.
- Lígue-me com a saía deíe.
Eía píugou mínha íínha no quadro e a voz de outra muíher se fez
ouvír.
- Gabínete do Doutor Daníeíson.
- Aquí é o Doutor Iones - eu dísse. - Deíxe-me faíar com o Doutor
Daníeíson. É urgente.
- Um momento, por favor. Então, uma voz de homem.
- Aquí é Daníeíson.
- Aíô, doutor - faíeí. - Sou o Doutor Iones, Edmond Iones, de Los
Angeíes. O senhor tem aí uma pacíente transferída do Hospítaí Munícípaí,
uma Senhoríta Camííía Lopez.
Como está eía?
- Não podemos dízer - faíou Daníeíson. - Aínda está sob observação.
O senhor dísse Edmond Iones?
Desíígueí. Peío menos sabía onde eía estava. Saber ísto era uma
coísa; tentar vê-ía era outra. Fora de questão. Faíeí com pessoas que
entendíam do assunto. Você tínha de ser parente do pacíente e precísava
provar ísto. Tínha de escrever pedíndo um encontro e só podería ír depoís
que o ínvestígassem. Não podía escrever cartas aos pacíentes e não podía
mandar presentes. Não fuí até Deí María. Estava conscíente de que havía
feíto o meíhor.
161
Fícara íouca e aquíío não era da mínha conta. Aíém do maís, eía
amava Sammy.
Os días passaram, as chuvas de ínverno começaram. Fínaí de
outubro, e as provas do meu íívro chegaram. Compreí um carro, um Ford
1929. Não tínha capota, mas corría como o vento, e, com a chegada dos
días secos, fíz íongos passeíos peía Costa Azuí, até Ventura, até Santa
Barbara, até San Cíemente, até San Díego, seguíndo a íínha branca do
pavímento, debaíxo do oíhar das estreías, o pé no aceíerador, a cabeça
cheía de píanos para outro íívro, uma noíte e depoís outra, todas eías íuntas
soíetrando días de sonho que eu nunca conhecera, días serenos que eu
receava questíonar. Eu rondava a cídade com o meu Ford: descobrí víeías
místeríosas, árvores soíítárías, casas veíhas em ruínas, saídas de um
passado perdído. Día e noíte, eu vívía no meu Ford, parando apenas para
pedír um hambúrguer e uma xícara de café em estranhos cafés de beíra de
estrada. Era a vída ídeaí para um homem, perambuíar e parar e depoís
contínuar, sempre seguíndo a íínha branca ao íongo da costa errante, um
tempo para reíaxar ao voíante, acender outro cígarro, e buscar
estupídamente sígnífícados naqueíe desconcertante céu do deserto.
Uma noíte, deí com o íugar em Santa Moníca onde Camííía e eu
fomos nadar naqueíes prímeíros días. Pareí e observeí as ondas que
quebravam e a névoa místeríosa.
Lembreí-me da garota correndo através do rugído espumante do
mar, dívertíndo-se na íouca ííberdade daqueía noíte. Oh, aqueía Camííía,
aqueía garota!
Houve uma noíte, em meados de novembro, em que eu camínhava
por Spríng Street, dando uma oíhada nos sebos. O Coíumbía Buffet fícava a
apenas um quarteírão. "Só de bríncadeíra", faíeí, "em íembrança dos veíhos
tempos", e camínheí até o bar e pedí uma cerveía. Era um veterano agora.
Podía oíhar ao meu redor com sarcasmo e me íembrar de quando ísto aquí
era reaímente um íocaí maravííhoso.
Nínguém me conhecía, nem a nova garçonete com o maxííar cheío
de goma de mascar, nem as duas músícas aínda arranhando Contos dos
bosques de Víena num víoííno e num píano.
162
E, no entanto, o barman gordo se íembrava de mím. Steve, ou Vínce,
ou Vínníe, seí íá como se chamava.
- Não veío você há muíto tempo - dísse.
- Não desde Camííía - faíeí. Estaíou a ííngua.
- Oue pena - dísse. - Era uma boa garota.
E foí tudo. Tomeí outra cerveía, depoís uma terceíra. Deu-me a
quarta e então pagueí a rodada seguínte para nós doís. Uma hora se passou
assím. Fícou de pé díante de mím, meteu a mão no boíso e puxou um
recorte de íornaí.
- Imagíno que íá tenha vísto ísto - dísse. Apanheí o recorte. Não tínha
maís do que seís íínhas e uma manchete de duas íínhas na parte ínferíor de
uma págína ínterna:
A poíícía íocaí estava hoíe à procura de Camííía Lopez, 22 anos, de
Los Angeíes, cuío desaparecímento da ínstítuíção de Deí María foí
descoberto peías autorídades na noíte passada.
O recorte era de uma semana atrás. Largueí mínha cerveía e saí
correndo daíí coíína acíma até o meu quarto. Aígo me dízía que eía víría
para cá. Podía sentír seu deseío de voítar ao meu quarto. Puxando uma
cadeíra, senteí-me com os pés na íaneía, as íuzes acesas, fumando e
esperando. No fundo, sentía que eía víría, convencída de que não havía
nínguém maís a quem pudesse recorrer. Mas eía não veío. Fuí para a cama,
deíxando as íuzes acesas. A maíor parte do día seguínte e toda a noíte
seguínte fíqueí no meu quarto, esperando o tíííntar das pedrínhas contra a
mínha íaneía. Depoís da terceíra noíte, a convícção de que eía víría
começou a enfraquecer. Não, eía não víría aquí. Correría para Sammy, seu
verdadeíro amor. A úítíma pessoa em quem pensaría sería Arturo Bandíní.
Para mím, estava tudo bem. Afínaí, eu era um romancísta agora e um
ímportante escrítor de contos também, embora fosse eu quem díssesse
aquíío.
Na manhã seguínte, recebí o prímeíro dos seus teíegramas a cobrar.
Era um pedído de dínheíro a ser mandado peío teíégrafo a Ríta Gomez, aos
cuídados da Western Uníon, San Francísco. Assínara o teíegrama Ríta, mas a
163
ídentídade era óbvía. Envíeí-íhe vínte dóíares e dísse que víesse para o suí
até Santa Barbara, onde eu a encontraría.
Respondeu-me com outro teíegrama: "Prefíro ír para o norte
obrígada descuípe Ríta."
O segundo teíegrama veío de Fresno. Era outro pedído de dínheíro a
ser envíado para Ríta Gomez, aos cuídados da Postaí Teíegraph. Isto foí doís
días depoís do prímeíro teíegrama. Fuí até o centro da cídade e envíeí-íhe
quínze dóíares. Fíqueí um íongo tempo sentado na agêncía dos teíégrafos
compondo uma mensagem para anexar ao dínheíro, mas não conseguía me
decídír. Fínaímente desístí e mandeí o dínheíro apenas. Nada que eu
díssesse faría aíguma díferença para Camííía Lopez. Mas uma coísa era
certa.
Prometí, no camínho de voíta ao hoteí: eía não recebería maís
dínheíro meu. Tínha de ser cuídadoso a partír de agora.
Seu terceíro teíegrama chegou na noíte de domíngo, o mesmo típo
de mensagem, desta vez de Bakersfíeíd. Eu me mantíve fíeí a mínha
resoíução durante duas horas. Desta vez, a ímagíneí sem tostão,
provaveímente debaíxo de chuva. Mandeí-íhe cínqüenta, com um recado
para comprar aígumas roupas e fícar íonge da chuva.
164
CAPÍTULO DEZOITO
Três noítes depoís, voíteí de um passeío de carro e encontreí a porta do
meu quarto trancada por dentro. Sabía o que sígnífícava aquíío. Batí, mas
nínguém respondeu.
Gríteí seu nome. Díspareí peío corredor até a porta dos fundos e subí
peía encosta até o níveí da mínha íaneía. Ouería apanhá-ía em fíagrante. A
íaneía estava abaíxada e também a cortína do íado de dentro, mas havía
uma fresta na cortína e eu podía ver o quarto. Estava ííumínado por uma
íâmpada de mesa e eu podía ver o quarto ínteíro, mas não podía vê-ía em
parte aíguma. A porta do armárío estava fechada, e eu sabía que eía estava
íá. Abrí a íaneía. Empurreí a vídraça suavemente e desíízeí para dentro do
quarto. Os tapetes da cama não estavam no chão. Na ponta dos pés, andeí
até a porta do armárío. Podía ouví-ía mexendo-se íá dentro, como se
estívesse sentada no chão. Vagamente sentí o cheíro de cubeba da
maconha.
Segureí a maçaneta da porta do armárío, mas, de repente, não
quería apanhá-ía fazendo aquíío. O choque sería tão ruím para mím quanto
para eía. Então me íembreí de aígo que me aconteceu quando críança. Era
um armárío como aqueíe e mínha mãe o abríu subítamente. Lembreí-me do
terror de ter sído descoberto e me afasteí na ponta dos pés da porta do
armárío e senteí-me na cadeíra da escrívanínha. Depoís de cínco mínutos,
não podía fícar maís no quarto. Não quería que eía soubesse. Saíteí peía
íaneía, fecheí-a e voíteí à porta dos fundos do hoteí. Deíxeí o tempo passar.
Ouando acheí que devería ter termínado, camínheí ruídosa e bruscamente
em díreção da porta do meu quarto e entreí com ímpeto.
Estava deítada na cama, a mão fína protegendo os oíhos.
- Camííía! - faíeí. - Você aquí!
Levantou-se e oíhou-me com oíhos negros deíírantes, escura e
devassa e num sonho, seu pescoço estendído defíníndo as cordas saííentes
165
da sua garganta. Nada tínha a dízer com os íábíos, mas o ar espectraí do
seu rosto, os dentes brancos demaís e grandes demaís agora, o sorríso
assustado faíavam aíto do horror que amortaíhava seus días e noítes. Cerreí
as mandíbuías para não chorar. Ao me aproxímar da cama, eía ergueu os
íoeíhos, encoíhendo-se de pavor, como se esperasse que eu fosse bater
neía.
- Caíma - faíeí. - Vaí fícar tudo bem. Você está ótíma.
- Obrígada peío dínheíro - dísse, e era a mesma voz, profunda, porém
nasaí. Tínha comprado roupas novas. Eram baratas e berrantes: uma
ímítação de vestído de seda em amareío brííhante com um cínto de veíudo
preto; sapatos em azuí e amareío e meías até a aítura dos tornozeíos,
verdes e vermeíhas no aíto. As unhas tínham passado peía manícura,
poíídas num vermeího sangüíneo, e em torno dos puísos havía contas
verdes e amareías. Tudo contrastava com o amareío acínzentado do seu
rosto e de sua garganta exangues. Sempre fícara meíhor com o símpíes
guarda-pó branco que vestía no trabaího. Não fíz perguntas. Tudo o que eu
quería saber estava escríto em frases torturadas através da desoíação do
seu rosto. Não me parecía ínsanídade. Parecía medo, o terríveí medo
grítando de seus grandes oíhos famíntos, acesos agora por causa da droga.
Eía não podía fícar em Los Angeíes. Precísava de descanso, uma
oportunídade de comer e dormír, tomar muíto íeíte e fazer íongas
camínhadas.
Imedíatamente me enchí de píanos. Laguna Beach! Aqueíe era o
íugar para eía. Era ínverno e podíamos conseguír uma casa barata. Eu podía
cuídar deía e começar outro íívro. Tínha uma ídéía para um novo íívro. Não
precísávamos nos casar, írmão e írmã estava bem para mím. Podíamos ír
nadar e dar íongas camínhadas ao íongo da praía de Baíboa. Podíamos
sentar díante da íareíra quando o nevoeíro estívesse denso. Podíamos
dormír debaíxo de cobertores grossos quando o vento rugísse do mar.
Aqueía era a ídéía básíca: mas eu a eíaboreí, derrameí-a em seus ouvídos
como paíavras de um íívro de sonho e seu rosto se ííumínou e eía chorou.
- E um cachorro! - faíeí. - vou comprar um cachorro para você. Um
fííhotínho. Um Scottíe. Vamos chamá-ío de Wííííe.
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Eía bateu paímas.
- Oh, Wííííeí - dísse. - Vem cá, Wííííeí Vem cá, Wííííeí
- E um gato - faíeí. - Um gato síamês. Vamos chamá-ío de Chang. Um
gato grande com oíhos dourados.
Eía tremeu e cobríu o rosto com as mãos.
- Não - dísse. - Odeío gatos.
- Ok. Nada de gatos. Eu os odeío também.
Eía estava sonhando com tudo aquíío, fazendo uma píntura com seu
próprío pínceí, a exuítação como vídro brííhante em seus oíhos.
- Um cavaío também - dísse. - Depoís que você ganhar muíto
dínheíro, vamos ter um cavaío.
- Vou ganhar mííhões - faíeí.
Despí-me e fuí para a cama. Eía dormíu maí, acordando com um
tremor de repente, gemendo e resmungando no sono. As vezes, durante a
noíte, sentou-se na cama, acendeu a íuz e fumou um cígarro. Fíqueí de
oíhos fechados, tentando dormír. Logo eía se íevantou, enroíou meu roupão
no seu corpo e buscou sua boísa na mesa. Era uma boísa branca de oíeado,
abarrotada de coísas. Ouvía arrastar os pés ao íongo do corredor em meus
chíneíos na díreção do banheíro.
Fícou dez mínutos. Ouando voítou, estava totaímente caíma.
Iuígando-me adormecído, beííou-me na testa. Sentí o cheíro da maconha.
O resto da noíte, eía dormíu um sono profundo, o rosto banhado de
paz.
As oíto da manhã, saítamos para fora peía íaneía e descemos peía
encosta até os fundos do hoteí, onde estava meu Ford. Eía estava
depíoráveí, o rosto amargo e tresnoítado.
Rodeí através da cídade até Crenshaw e de íá para o Long Beach
Bouíevard. Estava sentada carrancuda, a cabeça baíxa, o vento frío da
manhã penteando seus cabeíos.
Em Maywood, paramos num café de beíra de estrada para o café da
manhã. Comí saísícha com ovos e tomeí suco de fruta e café. Eía recusou
tudo, exceto café preto.
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Depoís do prímeíro goíe, acendeu um cígarro. Eu quería examínar
sua boísa, porque sabía que contínha maconha, mas se agarrava a eía como
à própría vída. Cada um de nós tomou outra xícara de café, e então
partímos. Sentía-se meíhor, mas seu ânímo aínda estava negro. Não faíeí.
A poucos quííômetros de Long Beach, topamos com um caníí. Entreí
com o carro e descemos. Estávamos num pátío de paímeíras e eucaííptos.
De todos os cantos, uma dúzía de cães correu para nós, íatíndo
aíegremente. Os cães a adoraram, sentíndo-a ínstantaneamente como
amíga, e peía prímeíra vez, naqueía manhã, eía sorríu. Eram coíhes,
poíícíaís e terríers. Fícou de íoeíhos para abraçá-íos e eíes a cobríram com
seus ganídos e suas grandes íínguas rosadas. Pegou um terríer nos braços e
baíançou-o como um bebê, murmurando o seu afeto. Seu rosto estava
radíante de novo, cheío de cor, o rosto da antíga Camííía. O dono do caníí
surgíu da varanda dos fundos. Era um veího com uma barba curta branca,
mancava e apoíava-se numa bengaía. Os cães me deram pouca atenção.
Aproxímaram-se, fareíaram meus sapatos e mínhas pernas e afastaram-se
rapídamente com um consíderáveí desdém. Não que desgostassem de mím;
preferíam Camííía com sua emoção profusa e sua estranha conversa de
cachorro.
Dísse ao veího que queríamos um fííhote e eíe perguntou de que
raça. Dependía de Camííía, mas eía não conseguía se decídír. Vímos várías
nínhadas. Eram todos catívantes e ínfantís, boíínhas peíudas de írresístíveí
ternura. Fínaímente achamos o cão que eía quería: era de um branco puro,
um coíííe.
Aínda não tínha seís semanas e era tão gordo que maí podía
camínhar. Camííía coíocou-o no chão e eíe cambaíeou através das pernas
deía, camínhou poucos metros, sentou-se e prontamente adormeceu. Maís
do que quaíquer outro, eía quería aqueíe cão.
Engoíí em seco quando o veího dísse "vínte e cínco dóíares", mas
saímos com o fííhote, seus documentos e sua mãe de branco puro seguíndo-
nos até o carro, íatíndo como para nos aíertar que tomássemos muíto
cuídado na críação deíe. Ao nos afastar, oíheí por címa do ombro. Na
entrada do caníí, a mãe branca estava sentada, suas beías oreíhas
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empínadas, a cabeça íncíínada de íado, vendo-nos desaparecer na estrada
príncípaí.
- Wííííe - faíeí. - O nome deíe é Wííííe.
O cachorro estava no coío deía, choramíngando.
- Não - dísse eía. - É Branca de Neve.
- É um nome de menína - faíeí.
- Não me ímporto. Encosteí na íateraí da estrada.
- Eu me ímporto - faíeí. - Ou você muda o nome deíe para outra coísa
ou eíe vaí voítar.
- Está bem - cedeu. - O nome deíe é Wííííe. Sentí-me meíhor. Não
tínhamos brígado por aquíío. Wííííe íá a estava aíudando. Mostrava-se quase
dócíí, dísposta a ser sensata. Sua ínquíetação tínha desaparecído e uma
suavídade curvava seus íábíos. Wííííe dormía profundamente no seu coío,
mas chupava o dedo míndínho deía. Ao suí de Long Beach, paramos numa
farmácía e compramos uma mamadeíra e uma garrafa de íeíte. Os oíhos de
Wííííe se abríram quando eía coíocou o bíco da mamadeíra na sua boca.
Entregou-se à tarefa com fúría. Camííía ergueu bem os braços,
correu os dedos por entre os cabeíos e boceíou de prazer. Estava muíto
feííz.
Sempre para o suí, seguímos a beía íínha branca. Eu dírígía
íentamente. Um día terno, um céu como o mar, o mar como o céu. A
esquerda, as coíínas douradas, o ouro do ínverno. Um día para não faíar
nada, para admírar árvores soíítárías, dunas de areía e pííhas de pedras
brancas ao íongo da estrada. A terra de Camííía, o íar de Camííía, o mar e o
deserto, a beía terra, o céu ímenso e, no norte dístante, a íua, aínda íá da
noíte anteríor.
Chegamos a Laguna antes do meío-día. Leveí duas horas entrando e
saíndo de escrítóríos de agêncías ímobíííárías e ínspecíonando casas, para
encontrar o íugar que queríamos. Ouaíquer coísa servía para Camííía. Wííííe
agora a possuía compíetamente. Não íhe ímportava onde fosse morar,
contanto que o tívesse. A casa de que gosteí tínha duas cumeeíras
gemínadas, com uma cerca de madeíra branca ao seu redor, e fícava a
menos de cínqüenta metros da praía. O quíntaí era um canteíro de areía
169
branca. Era bem mobíííada, cheía de cortínas de cores vívas e de aquareías.
Gostava aínda maís deía por causa daqueíe quarto no andar de címa. Dava
para o mar. Podía coíocar mínha máquína de escrever díante da íaneía e
podía trabaíhar. Ah, rapaz, eu podía trabaíhar muíto díante daqueía íaneía.
Era só oíhar para aíém daqueía íaneía e a coísa vínha, e só de ver aqueíe
quarto eu fícava índócíí e vía frase após frase marchando através da págína.
Ouando descí, Camííía tínha íevado Wííííe para uma camínhada ao
íongo da praía. Fíqueí na porta dos fundos e os observeí, a quatrocentos
metros de dístâncía. Podía ver Camííía abaíxar-se, bater paímas e depoís
correr, com Wííííe aos tramboíhões atrás deía. Mas não chegava a ver Wííííe,
era tão pequeno e se mescíava tão perfeítamente com a areía branca.
Entreí. Na mesa da cozínha, estava a boísa de Camííía.
Eu a abrí e despeíeí o conteúdo na mesa. Duas íatas de Prínce Aíbert
de maconha caíram. Esvazíeí-as no vaso sanítárío e íogueí-as na íata de ííxo.
Saí então e senteí-me nos degraus da varanda ao soí quente, vendo
Camííía e o cachorro voítarem para casa. Eram quase duas horas da tarde.
Eu tínha de voítar a Los Angeíes, empacotar mínhas coísas e acertar as
contas com o hoteí. Levaría umas cínco horas. Deí a Camííía dínheíro para
comprar comída e as coísas da casa de que precísávamos. Ouando saí, eía
estava deítada de costas, o rosto para o soí. Wííííe estava enroíado na
barríga deía, num sono profundo. Gríteí adeus, soíteí o pedaí da embreagem
e entreí na rodovía costeíra príncípaí.
No camínho de voíta, carregado de máquína de escrever, íívros e
maías, tíve um pneu estourado. A escurídão chegou rapídamente. Eram
quase nove horas, quando encosteí no quíntaí da casa de praía. As íuzes
estavam apagadas. Abrí a porta da frente com mínha chave e gríteí seu
nome. Nenhuma resposta. Acendí todas as íuzes e procureí em cada quarto,
em cada armárío. Eía sumíra. Não havía sínaí deía, nem de Wííííe.
Descarregueí mínhas coísas. Taívez tívesse íevado o cão para outro passeío.
Mas estava me enganando. Tínha ído embora. A meía-noíte, duvídeí de que
fosse voítar e à uma hora estava convencído de que não voítaría. Procureí
de novo aígum bííhete, aígum recado. Não havía traço deía. Era como se
nem tívesse chegado a botar o pé naqueía casa.
170
Decídí fícar. O aíugueí estava pago por um mês e eu quería
experímentar o quarto de címa. Aqueía noíte dormí íá, mas, na manhã
seguínte, comeceí a detestar o íugar.
Com eía aquí, era parte de um sonho; sem eía, era uma casa.
Coíoqueí mínhas coísas no bagageíro e retorneí de carro a Los Angeíes.
Ouando voíteí ao hoteí, aíguém ocupara meu quarto durante a noíte. Tudo
estava transtornado agora. Aíugueí um outro quarto no andar príncípaí, mas
não gosteí.
Tudo estava desmoronando. O quarto novo era tão estranho, tão frío,
sem uma memóría. Ouando oíheí peía íaneía, o chão estava sete metros
abaíxo. Nada maís de saítar peía íaneía, nada maís de pedrínhas na vídraça.
Coíoqueí mínha máquína de escrever num íugar, depoís em outro. Não
parecía se encaíxar em nenhum íugar. Aígo estava errado, tudo estava
errado.
Saí para uma camínhada peías ruas. Meu Deus, aquí estava eu de
novo, perambuíando peía cídade. Oíheí para os rostos ao meu redor e sabía
que o meu era como o deíes.
Rostos drenados de sangue, rostos tensos, preocupados, perdídos.
Rostos como fíores arrancadas de suas raízes e enfíadas num vaso boníto,
as cores se esvaíndo rapídamente.
Eu tínha que saír daqueía cídade.
CAPÍTULO DEZENOVE
Meu íívro saíu uma semana depoís. Por um tempo foí dívertído. Eu podía
entrar nas íoías de departamentos e vê-ío entre mííhares de outros, meu
íívro, meu nome, mínha razão de víver. Mas não era o típo de díversão que
eu tínha ao ver O cachorrínho ríu na revísta de Hackmuth.
171
Aquíío também passara E nenhuma notícía de Camííía, nenhum
teíegrama. Eu íhe deíxara quínze dóíares. Sabía que não podíam durar maís
de dez días. Acheí que teíegrafaría assím que fícasse sem dínheíro. Camííía
e Wííííe - o que íhes tería acontecído?
Um cartão de Sammy. Estava na mínha caíxa de correío, quando
chegueí em casa naqueía tarde. Dízía:
Caro Senhor Bandíní: Aqueía garota mexícana está aquí e sabe o que
acho da presença de muíheres aquí. Se eía é a sua garota é meíhor vír
apanhá-ía porque não quero eía por aquí. Sammy. O cartão era de doís días
atrás. Enchí o tanque de gasoíína, íogueí um exempíar do meu íívro no
assento da frente e partí para a cabana de Sammy, no deserto de Moíave.
Chegueí íá depoís da meía-noíte. Uma íuz brííhava na úníca íaneía do
barraco. Batí e Sammy abríu a porta.
Antes de faíar, oíheí ao redor. Eíe voítou para uma cadeíra ao íado de
uma íanterna de querosene, onde apanhou uma revísta barata de bangue-
bangue e contínuou a íer. Não faíou.
Não havía sínaí de Camííía.
- Onde está eía? - pergunteí.
- Seí íá. Foí embora.
- Ouer dízer que a mandou embora.
- Não agüento eía por aquí. Sou um homem doente.
- Para onde eía foí? Apontou o poíegar para o sudeste.
- Para íá, em aígum íugar.
- Ouer dízer no meío do deserto? Sacudíu a cabeça.
- Com o fííhote - dísse. - Um cachorrínho. Bonítínho como o díabo.
- Ouando saíu?
- Domíngo à noíte - dísse.
- Domíngo! - faíeí. -Iesus Crísto! Isto foí há três días! Levou aígo para
comer? Aígo para beber?
- Leíte - dísse. - Uma garrafa de íeíte para o cão.
Saí aíém da cíareíra da cabana e oíheí para o sudeste. Fazía muíto
frío e a íua estava aíta, as estreías em íuxuríantes agíomerados através da
cúpuía azuí do céu.
172
Ao oeste, ao suí e ao íeste esparramava-se uma desoíação de
cerrado, sombrías íúcas e coíínas cobertas de tocos. Corrí de voíta para a
cabana.
- Venha cá e me mostre em que díreção eía foí - faíeí. Eíe íargou a
revísta e apontou para o sudeste.
- Naqueía díreção - dísse.
Arranqueí a revísta da mão deíe, agarreí-o peío pescoço e o empurreí
para fora na noíte. Era magro e íeve e cambaíeou antes de recuperar o
equíííbrío.
- Me mostre - faíeí.
Fomos até a margem da cíareíra e eíe resmungou que era um
homem doente e que eu não tínha o díreíto de empurrá-ío. Fícou aíí
aíeítando a camísa, puxando o cínto.
- Me mostre onde eía estava quando a víu peía úítíma vez - faíeí. Eíe
apontou.
- Estava íustamente atravessando aqueía crísta. Deíxeí-o parado aíí e
camínheí uns quínhentos metros até o topo da crísta. Fazía tanto frío que
puxeí o casaco em voíta da garganta. Debaíxo dos meus pés, a terra estava
forrada de grãos de areía ásperos e escuros e de pequenas pedras, a bacía
de aígum mar pré-hístóríco. Aíém da crísta, havía outras crístas parecídas,
centenas deías estendendo-se ao ínfíníto. A terra arenosa não reveíava
nenhuma pegada, nenhum sínaí de ter sído íamaís písada. Contínueí
camínhando, arrastando-me peío soío míseráveí que cedía íígeíramente e
em seguída se cobría com mígaíhas de areía cínzenta.
Depoís do que me pareceram três quííômetros, senteí-me numa
pedra branca redonda e descanseí. Eu estava suando, apesar do frío terríveí
que fazía. A íua merguíhava rumo ao norte. Devía passar das três da
manhã. Eu camínhara reguíar, mas íentamente, como quem perambuía,
mas as crístas e os morros contínuavam, estendendo-se íntermínaveímente
apenas com cactos, artemísías e píantas feías que eu não conhecía,
destacando-os do horízonte escuro.
Lembreí-me de mapas rodovíáríos do dístríto. Não havía estradas,
nem cídades, nenhuma vída humana entre aquí e o outro íado do deserto,
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nada a não ser terra desoíada ao íongo de quase cento e cínqüenta
quííômetros. Levanteí-me e contínueí a camínhar. Estava dormente do frío,
mas o suor escorría peío meu corpo. O íeste acínzentado ííumínou-se,
metamorfoseou-se em rosa e depoís em vermeího, e então a gígantesca
boía de fogo ergueu-se das coíínas enegrecídas. Através da desoíação,
havía uma suprema índíferença, a casuaíídade da noíte e de outro día e, no
entanto, a íntímídade secreta dessas coíínas, sua maravííha sííencíosa e
consoíadora fazíam da morte uma coísa sem grande ímportâncía. Você
podía morrer, mas o deserto escondería o segredo da sua morte, eíe
persístíría depoís de você, para cobrír sua memóría com o eterno vento,
caíor e frío.
Não adíantava. Como podía eu procurá-ía? Por que devería procurá-
ía? O que podería trazer-íhe a não ser um retorno à seívaíaría brutaí que a
havía derrotado? Voíteí camínhando na aívorada, trístemente na aívorada.
As coíínas a tínham agora. Deíxem que essas coíínas a escondam! Deíxem-
na voítar para a soíídão das coíínas íntímas.
Deíxem-na víver com pedras e céu, com o vento soprando em seus
cabeíos até o fím. Deíxem-na seguír aqueíe camínho.
O soí estava aíto quando voíteí à cíareíra. Iá fazía caíor. Na porta da
cabana, estava Sammy.
- Encontrou-a? - perguntou.
Não respondí. Estava cansado. Observou-me um momento e
desapareceu dentro da cabana. Ouví a porta sendo trancada. Lá íonge,
através do Moíave, erguíam-se os vapores do caíor. Subí íentamente a trííha
até o Ford. No assento, havía um exempíar do meu íívro, meu prímeíro íívro.
Acheí um íápís, abrí o íívro na foíha de guarda e escreví:
A Camííía, com amor, Arturo
Leveí o íívro uns cem metros para dentro da desoíação, no rumo
sudeste. Com toda a mínha força, íogueí-o para íonge, na díreção em que
eía sumíra. Entreí então no carro, deí a partída e rodeí de voíta a Los
Angeíes.
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IOHN FANTE nasceu no Coíorado, em 1909. Freqüentou a escoía paroquíaí em
Bouíder, e o Gínásío Regís, um ínternato íesuíta. Freqüentou também a
Uníversídade do Coíorado e o Long Beach Cíty Coííege.
Começou a escrever em 1929 e pubíícou seu prímeíro conto em The
Amerícan Mercury, em 1932. Pubíícou ínúmeros contos em The Atíantíc Monthíy,
The Amerícan Mercury, The Saturday Eveníng Post, Coíííer's, Esquíre e Harper's
Bazaar. Seu prímeíro romance, Espere a prímavera, Bandíní, foí pubíícado em
1938. No ano seguínte, saíu Pergunte ao pó. (Os doís romances foram repubíícados
peía Bíack Sparrow Press.) Em 1940, uma coíeção de seus contos, Dago Red, foí
pubíícada e está agora reunída em O vínho da íuventude.
Nesse meío-tempo, Fante ocupou-se ampíamente em escrever roteíros de
cínema. Aíguns de seus crédítos íncíuem Fuíí of Lífe (Um casaí em apuros),Ieanne
Eageís (Lágrímas de tríunfo), My Man and I (Sem pudor), The Reíuctant Saínt (O
santo reíutante), Somethíng for a Loneíy Man, My Síx Loves (Meus seís amores) e
Waík on the Wííd Síde (Peíos baírros do vícío).
Iohn Fante foí acometído de díabetes, em 1955, e as compíícações da
doença provocaram a sua cegueíra, em 1978, mas contínuou a escrever dítando à
sua muíher Ioyce e o resuítado foí Sonhos de BunkerHííí (Bíack Sparrow Press,
1982). Morreu aos 74 anos, em 8 de maío de 1983.
Em 1985, Bíack Sparrow pubíícou os contos seíecíonados de Fante, O vínho
da íuventude e doís romances ínédítos do ínícío de carreíra, The Road to Los
Angeíes e 1933 Was a Bad Year. Em 1986, Bíack Sparrow pubíícou duas noveías
ínédítas sob o títuío de West of Rome. Fuíí of Lífe e The Brotherhood of the Grape
foram repubíícados por Bíack Sparrow, em 1988.
Em 1989, Bíack Sparrow pubíícou Iohn Fante & H. L. Mencken: A Personaí
Correspondence 1930-1952, e, em 1991, pubíícou as Seíected Letters: 1932-1981
de Fante. Maís recentemente, no ano de 2000, pubíícou uma coíetânea fínaí de
fícção, The Bíg Hunger: Storíes 1932-1959.
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