História da Fotografia

por Maurício Falavigna

Introdução

Daguerreótipo - 1843 Daguerreótipo de 1843. De autor desconhecido, vemos Hogg fotografando no estúdio de Richard Beard. Apenas quatro anos depois da novidade de Daguerre, os estúdios já adquiriam muita importância nas maiores capitais européias.

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Ambição burguesa
O desejo de expressar em imagens aquilo que os olhos percebem certamente acompanhou o homem desde os primórdios de sua existência. Mas o desejo de representar a realidade visível de uma maneira específica - sonhando em reproduzir com perfeição a visão humana (como veremos, uma determinada visão humana) - é uma ambição localizada. Uma ambição ocidental, de uma civilização urbana e burguesa. A fotografia nasceu de conhecimentos esparsos, que abrangem várias áreas do saber e foram adquiridos em diversos pontos do planeta, em diferentes épocas. Mas foi na parte mais urbana e industrializada da Europa do século XIX que eles se agruparam em torno de um meio mecânico de registrar a imagem. Um feito que, visto com mais de um século e meio de distância, parece-nos natural e inevitável. Tão natural que, por vezes, nos faz esquecer os anseios dos homens sob a deslumbrante história da técnica. O sonho da ciência e da arte capturarem a realidade com a maior objetividade possível começou a se formar na mente dos homens da Renascença. Foi no mundo urbano do século XIV que o ser humano começou a transformar seus sentidos, a maneira de abarcar a realidade. O domínio crescente das leis da natureza, proporcionado pelos homens de ciência, lentamente foi se correspondendo com os desejos dos artistas. Nasciam assim o homem e o olhar modernos, que passariam mais cinco séculos em busca de uma representação objetiva e verdadeira. Em 1839, quando surgiram as máquinas de Talbot e Daguerre, a notícia espalhada aos quatro ventos soou fantástica para os ouvidos de então, a ponto de muitos ficarem incrédulos. Dizia-se que a natureza reproduzia-se a si mesma, eliminando o papel do homem como intérprete e reduzindo-o ao intermediário que apenas acionava a máquina. Outros, mais afoitos, proclamavam o fim da pintura. Mas logo se percebeu que o invento não prescindiria da subjetividade, do olho de cada ser humano. E uma nova maneira de expressar o mundo começava a construir sua história.

O Renascimento

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as regras de proporção e perspectiva sugerem volume e profundidade. Não havia 3 . frontalidade (rostos retratados de frente). basta lembrarmos alguns postulados da arte medieval: o hieratismo (tamanho e disposição das figuras no espaço obedecendo a uma ordem decrescente. Tomemos como exemplo as regras de pintura medieval acima descritas . o fundo chapado e quase sempre dourado. e essa vida estava presente na comunicação visual. ele certamente não “leria” aquela imagem com clareza. do mais para o menos sagrado). sentimos uma espécie de falta de consideração com a realidade visível. Se viajássemos no tempo e mostrássemos ao homem daquela época uma fotografia de sua própria família.. não reconheceria qualquer mérito estético. não consta que algum contemporâneo dos mosaicos bizantinos.. 1506-08. aproximando-se da ilusão tridimensional. volumes e dimensões uniformes. Na Alta Renascença. pelo mesmo hieratismo. isocefalia (o mesmo tamanho de todas as cabeças presentes na cena) e isodactilia (dedos da mão sempre com o mesmo tamanho). as expressões invariáveis. até o século XIV... Para o nosso olhar contemporâneo. O olhar medieval Para se ter uma idéia do que era a representação nas artes visuais no início dos Trecento.Virgem dos rochedos Leonardo da Vinci A virgem dos rochedos. na arte daquele tempo.a vida daquele tempo também era dominada pelos mesmos simbolismos. sendo ele um camponês analfabeto ou um cardeal ilustrado. Principalmente. Isso é um código cultural: essa era a maneira de se comunicar visualmente com sucesso. das iluminuras medievais ou das pinturas chinesas tenha levantado a voz para afirmar que não compreendia a representação que se desenhava ante os seus olhos. No entanto. figuras estáticas.

A Perspectiva A maneira de ver e compreender o mundo era. 4 . segunda metade do século XIII. é dada pela caverna ao fundo.a necessidade de uma imagem tão naturalista . até então.a partir de uma certa fidelidade ao olho humano. O mundo deixava aos poucos de ser observado com olhos reverentes. as artes visuais sempre fizeram isso. Na verdade. Um milagre de São Bento (detalhe). Tratava-se de compreender essa realidade de outra maneira. A natureza. As estilizações são tradicionais da arte gótica. estar se removendo toda a magia do olhar. conseguida através de um artifício: a racionalização do espaço de acordo com as leis matemáticas. realismo ou objetividade. à qual resolveu se dar o estatuto de veracidade e o nome de naturalismo. inovadora para a época. a figura humana e toda a realidade sensível começou a ser vista de um novo modo . desta forma. não era assim que aquele homem via o mundo e. impregnados de crenças. A única sensação de profundidade. A veracidade alcançada pela arte também era simbólica. pois acreditava-se. desnudando a natureza através do entendimento de suas leis. Arte gótica Milagre de São Bento Mestre Consolus. Foi essa postura que começou a ser profundamente alterada pelo homem do Renascimento. o que é importante: ele não consideraria aquela imagem como uma representação realista da sua família. Não basta pensar que havia o desejo de se capturar a realidade tal como ela se mostra. superstições e explicações mágicas.não fazia parte de seu código cultural. simbólica e hierática. religião.

a luz atravessa um pequeno orifício na parede frontal e projeta uma imagem invertida da vista exterior numa parede ou numa tela ao fundo do quarto. criando as regras da perspectiva e um novo código cultural para interpretar o mundo. Foi utilizando as regras geométricas de Euclides que os homens da Renascença refinaram a sugestão de profundidade em suas pinturas. Por isso a palavra perspectiva: “ver através”. Mais do que nunca. Na arte ocidental.escolhia-se o motivo principal. O ponto de vista do pintor gerou um olhar fixo. ao observar um eclipse solar refletido no solo através de um minúsculo furo de uma folha. a cor. sua posição no quadro e reorganizava-se os outros objetos com dimensões proporcionais à sua distância em relação à figura principal. Esse mecanismo foi seguidamente utilizado e readaptado até a Idade Moderna. Ainda faltava conquistar (além do espaço) a forma. Giovanni della Porta. como um auxílio ao desenho e à pintura. o movimento. As descrições mais antigas mostram o seguinte método: num quarto escuro. a objetividade da representação passou a ser o grande desejo da arte visual. que comandava a feitura do quadro e o olhar do espectador .Estudo de perspectiva do século XV. artefato baseado num fenômeno conhecido desde os gregos.. A antiga técnica utilizada para observar os eclipses solares passou a ser utilizada. artista e cientista napolitano. de acordo com suas medidas reais. quando o grande interesse pelas leis ópticas iria gerar um sem número de câmeras escuras. com constância cada vez maior. lançando em 1558 um 5 . foi o primeiro a recomendar seu uso para o desenho. dando a ilusão de profundidade numa tela plana. a expressão dos sentimentos humanos. A solução era matemática: o cenário e as figuras retratadas eram reduzidos proporcionalmente. A câmera escura A busca dessa objetividade incentivou o uso da câmera escura.. Aristóteles descreveu seu mecanismo intuitivamente. regras de proporção e perspectiva para a representação do homem e do espaço eram elaboradas e reelaboradas desde os gregos. Esse foi o ponto de partida. de diversas formas e tamanhos. apreendendo o espaço tridimensional numa tela bidimensional.

Apenas dez anos após o lançamento do livro de Giovanni della Porta. Todo nobre.) Isto se consegue projetando uma imagem sobre uma mesa de desenho com um papel". “endireitando” a imagem invertida. o veneziano Bárbaro instalou um espelho côncavo. Giovanni della Porta Aos poucos. câmera escura "Se não sabes pintar. vários incrementos tornaram a câmera escura menor. No século seguinte. e havia até mesmo artefatos de bolso que auxiliavam o desenho. (. facilitando o trabalho dos artistas. 6 . com lentes ou diafragmas. posicionando os modelos em frente ao orifício da parede frontal. o artista recomendava seu uso inclusive para os retratos. um instrumento básico de sua educação: através dela ele podia se dedicar à observação da natureza e ao desenho.. móvel e portátil.. Livro? Não. mais tarde.. seu uso foi extremamente difundido. Numa segunda edição do livro. tendo como finalidade a pesquisa científica ou as belas-artes..livro que descrevia a montagem e o funcionamento da câmera escura (ver abaixo). melhoramentos foram feitos para tornar a imagem mais nítida. No século XVIII. clérigo ou burguês culto mantinha a sua própria câmera. com este procedimento pode desenhar o contorno das imagens com um lápis.

mas a fixação de suas 7 .Câmera escura com formato de escrivaninha Duas curiosas câmeras escuras. A imagem efêmera . bastante usadas por artistas plásticos do século XVIII. Lanterna Mágica Charles Amédée Philippe Van Loo. A câmera escura já era usual entre os artistas. em formatos de livro e de escrivaninha. A Lanterna Mágica. Óleo do século XVIII.

um bibliotecário de Genebra. Johann Heinrich Shulze. Ela era apreendida. Faltava descobrir como aprisioná-la. expondo essa base ao calor e à luz. Chamou aquela pasta com sais de prata de Scotophorus. pesquisava um meio de obter fósforo (“pedras luminosas”. e não devido à temperatura ou a outros efeitos da atmosfera. como as chamava) artificialmente. continuou as experiências de Schulze e publicou em 1782 o resultado de seus experimentos: ele pesquisou a velocidade com que as cores do espectro atuavam sobre o cloreto de prata. o auxílio da câmera escura limitava-se à cópia da realidade. o que traz a escuridão. Os sais de prata Até então. concluiu que a alteração se dava em função dos raios solares. o elemento básico fotossensível utilizado pela indústria fotográfica é o Bromureto de Prata.imagens ainda era um sonho. assimilada e reproduzida pelo desenho. um professor de anatomia que vivia perto de Nuremberg. alternadamente. Exposta à luz solar. Outra descoberta química que 8 . Mas ele acreditava que suas experiências poderiam “revelar ainda outras utilidades de aplicação aos naturalistas”. E foi no século XVIII que se realizaram as primeiras tentativas de fixação da imagem produzida na câmera escura. enquanto o resto da massa permanecia claro. a massa adquiriu uma tonalidade escura. Jean Senebier. menos uma solução para a questão da fixação da imagem refletida. ele encharcou uma porção de cal com nitrato de prata e colocou-a dentro de uma garrafa. Em 1727 ele publicou sua tese com um título bem-humorado: De como descobri o portador da escuridão ao tentar descobrir o portador da luz. Em seguida. Numa de suas experiências. Mas é em 1725 que se constatou o porquê do enegrecimento dos sais de prata. o anti-fósforo. e empreendeu outros experimentos sobre a atuação da luz solar em resinas. do violeta ao vermelho. Acabaria sendo o pai da fotoquímica: até os nossos dias. A primeira grande contribuição foi dada por um homem que buscava tudo. Há séculos que se conhecia o escurecimento progressivo da prata. O seu espírito investigativo fez com que repetisse a experiência até o ponto de verificar. primeiro. obtido através da reação química entre o Nitrato de Prata e um Bromureto de Sódio ou Potássio. que o que enegrecia era uma base de grada e nitrato de prata.

Faltou pouco para que Wedgwood e Davy conseguissem as primeiras fotografias permanentes. registros de objetos transparentes por contato: asas de insetos. Mas ela teria de esperar até o século seguinte para se tornar uma realidade. Conseguiram ainda algumas reproduções por contato. por um “tempo muito moderado”. fazendo com que a luz incidisse sobre um couro branco revestido de nitrato de prata. a dupla anunciou que conseguira fixar as imagens. com as quais decorava aparelhos de chá e vasilhas elaboradas na cerâmica de seu pai. Em junho de 1802. em local escuro. e mesmo assim iam enegrecendo. De volta à câmera escura Um cientista amador. tentou fixar as imagens da câmera escura. Niépce Joseph Nicéphore Niépce 9 . infelizmente. Junto com seu amigo Humphry Davy. Mas as imagens só podiam ser observadas à luz de velas.teria importância futura passou quase desapercebida: o químico sueco Carl Scheele demonstrou que os sais de prata afetados pela luz se tornavam insolúveis após um banho de amoníaco. O estágio do conhecimento humano já permitia a solução fotográfica. filho de um afamado ceramista inglês. mas elas só podiam ser vistas. folhas e pinturas sobre vidro. utilizava-se da câmera escura para desenhar grandes casas de campo. e ele havia tomado conhecimento do livro de Schulze. Seu nome era Thomas Wedgwood.

E. observou que as partes que deveriam ser claras apareciam escuras. obtendo bons resultados (perfeitos. A solução que encontrava para essa inaptidão era a câmera escura. Em 1816. Embora essa não fosse a preocupação de Niépce.Retrato a óleo de Niépce. Muitos artistas medianos chegavam a ganhar um bom dinheiro com isso. e batizou o processo de heliografia. embora isso abrisse uma senda clara para a fotografia. homem ilustrado e de bom cabedal. Começou em 1793 a realizar alguns experimentos químicos com materiais sensíveis à luz. Mas por que Niépce insistia em fixar aquelas imagens? Seu interesse era artístico: ele demonstrava grande interesse por litografias. Nos anos seguintes. poderia transpô-la como uma gravura. colocada sobre uma chapa de cristal recoberta com betume da Judéia (que era usado em gravações por causa de sua resistência à corrosão). se ele conseguisse fixar a imagem sobre a pedra litográfica sensibilizada. para sua decepção. um oficial do exército francês. conseguiu fixar parcialmente a imagem do pátio de sua casa sobre um papel sensibilizado com cloreto de prata. o conhecimento da natureza originado da investigação científica viria somar-se aos anseios artísticos. mas somente após sua aposentadoria empenhou-se nessa tarefa. Niépce passou a experimentar novos materiais. 10 . Ele queria um positivo.uma gravação em chapa de cobre exposta ao sol e. muito populares na França do início do século XIX. Mas. desde o final do século XVIII empreendeu tentativas de fixar a imagem da câmera escura. usando como fixador o ácido nítrico. Joseph Nicéphore Niépce. sob o ponto de vista estético da época) sem saber desenhar. ele substituiu a chapa de vidro por zinco. o seu espírito de investigação uni-se a um frustrado desejo artístico alimentado durante a mocidade: ele nunca demonstrou habilidade para o desenho. Mais uma vez. Em julho de 1822 conseguiu sua primeira fotocópia . Eram negativos e. pintado no final de sua vida por Léonard-François Berger. em seguida.

Cardeal D'Amboise Heliografia do Cardeal D'Amboise. A Primeira Fotografia Vista do quarto de Niépce 11 . feita por Niépce em 1826 e impressa sobre uma placa de zinco pelo gravador parisiense Lemaître.

É uma vista da janela de seu quarto. e alcançou uma sensível melhoria de contrastes enegrecendo com vapor de iodo as partes que não sofreram impressão. Ela seria aperfeiçoada. Ele abandonou o peltre por esse motivo: era um material muito brando para se transformar numa placa de impressão. inventor e empresário do ramo de espetáculos. Ele morreu em 1833.Esta é a primeira fotografia realizada com êxito por Niépce. em 1826. procurou um homem chamado Louis Jacques Mandé Daguerre. Século XIX Boulevard du Temple 12 . em 1829. Mas o tempo de exposição continuava sendo muito longo. por isso. Firmaram um convênio com um único objetivo: aperfeiçoar a heliografia. Niépce queria aperfeiçoar esse método e. aos 68 anos. mas o tempo de Niépce chegava ao fim. Note que ambos os lados do pátio estão iluminados pelo sol: resultado de uma exposição de oito horas num dia de verão. pintor. Mas vale lembrar que o objetivo de Niépce continuava sendo o de elaborar uma placa de impressão para litografia. Passou a utilizar lâminas de cobre prateadas.

topografias. Um dos primeiros testes de Daguerre antes de anunciar seu sucesso. afirmava que "a pintura é uma ciência e deve ser apreendida através de um inquérito junto às leis da 13 . não permitia a absorção completa dessa realidade. a ordem dos fatos. se todas as condições necessárias já eram conhecidas.por exemplo. Na verdade.e isso é importante . tratado depois quimicamente para ser revertido. o invento de Talbot seria mais importante para o desenvolvimento da fotografia nos anos seguintes: uma imagem monocromática fixada em papel.um negativo. 1838.Boulevard du Temple. Paris. pois os tempos de exposição eram muito longos e movimentos não eram registrados. o progresso através do conhecimento e transformação da natureza. de certa forma. o inglês e o francês chegaram a resultados um tanto diferentes. 1839. que alcançou grande popularidade em seu tempo. que via com olhos mágicos a realidade e. a sociedade industrial européia estava pronta cultural e economicamente para isso. O novo sentido do olhar tornava-se adulto . com sua única e não-duplicável imagem invertida sobre uma placa de metal. por que só em 1839 estes métodos alcançaram um desenvolvimento reconhecido? Como ressalta novamente Naomi Rosemblum e outros historiadores. Em meados do século XIX. John Constable. os homens de engenho e arte viviam mais do que nunca o anseio de reproduzir "fielmente" a natureza. Fox Talbot e Daguerre anunciavam a fixação de imagens captadas pela câmera escura. pintor inglês. uma cena urbana. previsto pelo destino. assim. Proporções corretas . Provavelmente este é o primeiro registro de um anônimo (na esquina). Mas. de uma avenida alargada e remodelada pouco tempo antes dessa imagem ser captada. ano I No ano de 1839. e conhecidos há tempos. nem mesmo a imaginação ou as limitações do artista. A secularização da sociedade industrial era definitiva. invertida em sua posição e em seus tons . da religião. dos preconceitos arraigados no vulgo. Os dois sistemas envolviam os princípios químicos e ópticos descritos no capítulo anterior.eram o complemento ideal de uma nova forma de ver o mundo. vale ressaltar que a inovação técnica não nasceu por si própria. essa resposta inverte.e nada podia nublar a imagem "correta". Como sublinha Naomi Rosemblum. No entanto. e a fixação das imagens tornava-se uma questão de conhecimento . objetiva. Significativamente. arquitetura. em construções. Vivia-se então o período realista (o naturalismo artístico) e o otimismo provocado pelos progressos científicos da Revolução Industrial. Mais uma vez. o daguerreótipo. Mas foi Daguerre. como um fato inevitável. o sonho que teve início no Renascimento. liberta do jugo das superstições.

Gustave Courbet. grande pintor realista francês. busca da iluminação própria de cada estação. marketing e do gosto popular.. Não foi difícil para a fotografia nascente ocupar esse espaço de preferências. os burgueses preferiam expressões mais simples. paisagens idílicas. Daguerre era mais famoso como um empresário do ramo de entretenimento.. Entre o público das grandes cidades. Menos instruídos que os aristocratas. cenas e retratos familiares. Era o co-inventor e o proprietário do Diorama. o seu tempo e sua maravilhosa capacidade de compreender e transformar a natureza eram os principais objetos da arte.. sintetizava as mudanças na pintura: rejeição de temas históricos e antigos. retratado em daguerreótipo tirado por Jean Baptiste Sabatier-Blot em 1844. Niépce era um investigador insaciável e discreto.gravuras e litografias com cenas anedóticas. Era o co-inventor e o proprietário do Diorama. de fácil entendimento . Daguerre era mais famoso como um empresário do ramo de entretenimento. captação de momentos não formais da expressão humana. Quando da sociedade firmada com Niépce.natureza".. surgia uma enorme audiência para as imagens pictóricas. Quando da sociedade firmada com Niépce. o homem contemporâneo. cada clima ou cada hora. e certamente deu um 14 . uma atração que reunia grande público nas ruas de Paris e das cidades por onde passava em exibição. Agora. Daguerre Louis Jacques Mandé Daguerre Daguerre. uma atração que reunia grande público nas ruas de Paris e das cidades por onde passava em exibição. mas Daguerre daria uma nova dimensão ao invento: ele entendia de promoção. A classe média era cada vez mais influente após a crescente perda de poder da igreja e da nobreza.

eletrizar o ambiente. Surgiu mais uma forma de promover e popularizar seu invento (além de mais uma fonte de renda): lançou um manual em que descrevia seu método: Historique et description des procédés du Daguerreótype et du Diorama. a primeira edição do manual de Daguerre. publicado logo no mês seguinte. em discursos e entrevistas. A natureza se reproduziria por si mesma. e do cientista e também deputado Gay-Lussac. Arago. No ano seguinte. com a proteção do astrônomo e deputado Arago. reduzindo o tempo de exposição para 20 ou 30 minutos. Daguerre conseguiu. Leipziger Stadtanzeiger O anúncio do governo francês sobre a nova máquina causou uma ebulição pública. o primeiro manual fotográfico do mundo. Mas só em 1837 encontrou o fixador necessário: uma solução de sal comum. À direita. provavelmente por Karl von Frankstein em Graz. Não perdeu tempo: batizou-o de Daguerreotipia. conseguiu que o governo francês comprasse o invento. proclamou o pintor Paul Delaroche.rumo diferente do que Niépce imaginou para a o seu invento. Dois anos depois da morte de Niepce. Manual de Daguerre À esquerda. como a do jornal alemão Leipziger Stadtanzeiger. dizia o burburinho geral. lançado na Alemanha em julho de 1839. afirmava que o método não requeria nenhum conhecimento de desenho ou habilidade manual: "qualquer um poderia obter sucesso e manejá-lo tão bem como o inventor" (Arago). "A partir de hoje a pintura está morta!". Reações bem menos entusiastas surgiram. com seus métodos publicitários. Daguerre descobriu que uma imagem latente poderia ser revelada com vapor de mercúrio. 15 .

e sua superfície era tão delicada que tinha de ser protegida com um cristal e hermeticamente fechada. 16 . um homem apaixonado pelo entretenimento e capaz de transformar uma inovação técnica em um evento urbano. A imprensa européia só falava na "daguerreotipomania". protestando contra a proeminência dada a Daguerre: o que só vem comprovar o anseio pelo fato. Uma exibição do processo fotográfico. Vários escritores reclamaram em juízo já ter alcançado a fixação das imagens em suas investigações. Músicas e vaudevilles tendo a daguerreotipia como tema eram executados nos teatros de Paris e Londres. A novidade era cantada em prosa e verso. era sensibilizada com vapor de iodo. seu manual teve quarenta edições publicadas em vários idiomas (nove mil exemplares vendidos nos três primeiros meses). Em menos de um ano. um homem apaixonado pelo entretenimento e capaz de transformar uma inovação técnica em um evento urbano. Em menos de um ano. O fixador era uma solução de hipossulfito de sódio e. além da capacidade de promoção de Daguerre. comprada pronta. provocando uma verdadeira febre coletiva. evitando o contato com o ar. além da capacidade de promoção de Daguerre. O mercúrio aderia às partes do iodeto de prata afetadas pela luz. formando iodeto de prata sobre a lâmina. O resultado era um positivo ricamente detalhado. Cartaz de teatro A canção da daguerreotipia. encantando a platéia londrina. a nova febre dos franceses. Uma exibição do processo fotográfico. percorreu cidades da França e atravessou o canal. executada por Daguerre. após sua aplicação. obtinha-se uma imagem latente que podia ser revelada pelo vapor de mercúrio. espetáculo teatral de 1839. a lâmina era lavada. Vários escritores reclamaram em juízo já ter alcançado a fixação das imagens em suas investigações.O Daguerreótipo Vamos a um resumo do método daguerreótipo: uma lâmina de cobre prateada. Expondo por cerca de 20 a 30 minutos essa lâmina na câmera escura. protestando contra a proeminência dada a Daguerre: o que só vem comprovar o anseio pelo fato. seu manual teve quarenta edições publicadas em vários idiomas (nove mil exemplares vendidos nos três primeiros meses).

um gravador suíço. iniciando um gênero temático que iria ser dominante entre 1850 e 1880. percorreu cidades da França e atravessou o canal. daguerreótipo de 1841. O material era caro (isso não era dito pelo manual). e os usos do novo invento foram de descobrindo aos poucos.executada por Daguerre. Logo as lentes necessárias. Ponte e barcos no Tâmisa Paisagem de inverno À esquerda: Ponte e barcos no Tâmisa. À direita: de Anton Martins. Músicas e vaudevilles tendo a daguerreotipia como tema eram executados nos teatros de Paris e Londres. Alemanha. mas atraiu admiradores de primeira hora. bibliotecário do Instituto Politécnico de Viena. em 1840. Insering. a nova febre dos franceses. A imprensa européia só falava na "daguerreotipomania". de 1851. daguerreótipo de Jean Baptiste Louis Gros. 17 . acromáticas e não-distorsivas. começaram a ser manufaturadas na Inglaterra. registrou vistas de várias cidades e coloriu daguerreótipos a mão. O primeiro a ultrapassar os limites das cenas urbanas ou campestres foi o Barão Louis Gros. Começava a se perceber o valor documental e memorial do invento. A expansão e primeiros usos As primeiras câmeras eram fabricadas por Alphonse Giroux em Paris. Paisagem de inverno. o paisagismo. encantando a platéia londrina. que tirou daguerreótipos do Parthenon numa missão diplomática. Áustria e Estados Unidos. começou a organizar seus daguerreótipos de Viena como um verdadeiro documentário da cidade. na França e noutras partes do mundo. Anton Martin.

a daguerreotipia também iria causar um frenesi. tentou expor os daguerreótipos à luz artificial. e os americanos proclamavam sua diferença e sua juventude valorizando a "divina mão da natureza". Enquanto na Europa o progresso do invento era associado ao retrato. que seria importante para os desenvolvimentos fotográficos posteriores. editada já em 1877 por J. um cientista e empresário de Boston. já em 1840. como a albumina. foi um dos principais entusiastas da novidade. autor desconhecido. Era a época de Emerson. já em 1840. Mostrar aquela paisagem bruta a ser desbravada era a grande ambição norte-americana. como dizia o filósofo. ainda impossível devido ao longo tempo de exposição. Samuel B. John Wipple. Mas não ficaram só nisso. que seria importante em desenvolvimentos fotográficos posteriores. o pintor e cientista que inventou o telégrafo. tentou expor os daguerreótipos à luz artificial. O fotógrafo de paisagem. 18 .Estados Unidos Na América. o paisagismo era o grande tema americano. Vários artistas e cientistas também buscaram maneiras de aperfeiçoar o invento. John Wipple. de 1865. ainda impossível devido ao longo tempo de exposição. Na América. por exemplo. Morse. e pesquisou outras emulsões para a chapa. Enquanto na Europa o progresso do invento era associado ao retrato. Vários artistas e cientistas também buscaram maneiras de aperfeiçoar o invento. Morse. um cientista e empresário de Boston. como dizia o filósofo. Fotógrafo de paisagem Gravura em madeira. o pintor e cientista que inventou o telégrafo. mas é um retrato fiel da tendência americana de partir em busca da conquista da sua "paisagem nacional". o paisagismo era o grande tema americano. e pesquisou outras emulsões para a chapa. A gravura é européia. Era a época de Emerson. foi um dos principais entusiastas da novidade. Vista na primeira história da fotografia. Samuel B. Mas não ficaram só nisso. como a albumina. Mostrar aquela paisagem bruta a ser desbravada era a grande ambição norte-americana. Thompson. a daguerreotipia também causou um frenesi. e os americanos proclamavam sua diferença e sua juventude valorizando a "divina mão da natureza". por exemplo.

às línguas orientais. passando pela física e pela química. Fotogênicos 19 . chamado "Alguns informes sobre a arte do Desenho Fotogênico. restringida aos colegas cientistas da Academia. o processo mediante o qual pode-se conseguir que os objetos naturais reproduzam-se por si só". seus conhecimentos se estendiam da matemática.Fox Talbot Fox Talbot Daguerreótipo de William Henry Fox Talbot tirado por Antoine Claudet em 1844. Logo após o governo francês ter anunciado o invento de Daguerre. com múltiplos interesses investigativos. área em que era especialista. Ao contrário de Daguerre. Extremamente erudito. Ele vinha pesquisando a fixação da imagem da câmera escura há tempos. a publicação desse informe foi privada e limitadíssima. Talbot reclamou a prioridade de seu invento num informe à Royal Society. William Henry Fox Talbot era um homem bem mais discreto e recolhido que Daguerre.

plumas. a imagem latente era revelada com nova aplicação de galo-nitrato de prata.plumas e rendas obtidas com a superposição dos objetos sobre papel sensibilizado. Em 1835 construiu câmeras de 6. A cópia positiva era feita em novo papel de "desenho fotogênico" por sobreposição. e lavado com água. O negativo era fixado com bromureto ou hipossulfito de potássio. rendas e bordados) diretamente sobre papel recoberto por nitrato de prata e cloreto de prata. Embora Talbot preferisse o nome "Desenho Fotogênico". Após a exposição. O processo de Talbot consistia no seguinte: um papel de boa qualidade era recoberto sucessivamente com soluções de nitrato de prata e iodeto de potássio. fixadas com sal comum. ainda mais em comparação com os brilhantes daguerreótipos. às vezes.3cm e. Em seguida era sensibilizado com soluções de ácido gálico e nitrato de prata. utilizando galo-nitrato de prata. formando assim iodeto de prata. Eram fixadas (não muito bem) com amoníaco e. sua invenção seria mais conhecida como Calótipo ou Talbotipo. descobriu como revelar uma imagem latente. tirou fotos de 2.Fotogênicos Os desenhos fotogênicos de Talbot. com uma exposição muito mais curta. Talbot começou seus experimentos fazendo contatos fotográficos (plantas.3 x 6. com exposição de meia hora. Em 1840. como uma gravura. com iodeto de potássio. e não era revelada. Eram negativos ou contatos que não atraíram o público.5cm quadrados. e esquentava-se o papel perto do fogo por 1 ou 2 minutos. 20 .

ele percebia as vantagens de seu processo. Mas o gosto popular (categoria estética que jamais entraria sob a cartola de Talbot) preferia a facilidade da cópia única e brilhante de Daguerre. ao não conseguir maiores resultados. tentando traduzi-la pela primeira vez.afinal de contas. O calótipo poderia ser inserido em livros. Talbot não esperava remunerações altas ou pensões vitalícias. calótipo de Talbot. ser colado em documentos. 21 . álbuns. Queria apenas o reconhecimento da comunidade científica .A porta aberta. E o dom para a comunicação de massa que o francês possuía estava há anos-luz de distância do comportamento circunspecto de Talbot. Porém. que iriam impulsionar esse novo meio de expressão: o suporte (papel) e a capacidade de reprodução (negativo). ele não teve o apoio governamental esperado. como o francês. acabou transferindo sua dedicação à ciência para outro campo: foi estudar a escrita cuneiforme assíria. talvez Talbot nem tenha imaginado. O inglês continuou se inteirando dos avanços feitos por outros investigadores. 1843 As dificuldades que Talbot enfrentou para difundir o seu processo fotográfico chegou a decepcioná-lo: ao contrário de Daguerre. Tentou patentear o invento e ver seus direitos reconhecidos e apoiados pelo governo inglês. mas abria caminho para as imagens serem futuramente impressas em livros e jornais. enviado por carta e.

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