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HOBSBAWM, Eric J.

, A era das revoluções, Paz e Terra, 10 edição,1997

INTRODUÇÃO

- As palavras seguintes foram criadas, ou ganharam seu sentido moderno, entre 1789 e 1848:
- capitalismo, socialismo, ideologia, jornalismo;
- classe média, classe trabalhadora; proletariado;
- Liberal, conservador, nacionalidade;
- aristocracia, cientista, engenheiro;
- crise(econômica), greve;
- As revoluções industrial e francesas tiveram como conseqüência mais notável o estabelecimento
de um domínio do globo por uns poucos regimes ocidentais ( a Índia tornou-se uma província
administrada pelos inglês, Os estados islâmicos entraram em crise, África partilhada, O grande
império chinês teve que abrir suas fronteiras em 1839-42;19

1 - O MUNDO NA DÉCADA DE 1780

final do século XVIII na Europa:


- Período de prosperidade e expansão econômica;
- pessoas menores e mais magras que hoje;24
- aperfeiçoamento de estradas e correios( predomínio entre grandes centros);
- grande maioria analfabeta;
- transporte por água era mais fácil e barato, (Portos distantes estavam mais próximos que
regiões próximas separadas por terra);
- Notícias chegavam por viajantes ou canais oficiais do estado e da Igreja;
- vida essencialmente rural; Rússia, Escandinávia e Balcãs 95% rural. Na Inglaterra,
população urbana ultrapassou a rural apenas em 1851;
- Londres tinha 1 milhão, Paris meio milhão e 20 outras com mais de 100.000;
- mas grande parte das cidades eram de província. Que apesar dos habitantes desprezarem
o campo e vestirem-se diferente e serem mais letrados, eram quase tão ignorantes do que se
passava fora quanto os habitantes das aldeias;28
- Na Europa ocidental, ainda que o elo entre a posse de terras e o status de classe
dominante continuasse de pé, a sociedade rural era muito diferente. Unidade típica tinha se
tornado uma forma de arrendamento, mas ainda se devia provavelmente ao senhor local
algumas obrigações(como enviar o trigo para o moinho do senhor) além do dízimo para
Igreja, e impostos para o príncipe;
- A agricultura européia ainda era assustadoramente ineficiente e destinada ao
consumo local(exceto talvez o açúcar importado dos trópicos). Seus produtos eram ainda os
tradicionais: trigo, cevada, aveia, centeio, gado de corte, cabra e seus laticínios, porcos, aves,
frutas, legumes, vinho. As novas culturas importadas da América ou de outras regiões tropicais
tinham feito algum progresso: Milho, batata ( a mais importante das novas colheitas, mas ainda
começando seu caminho, exceto talvez na Irlanda), fumo, o arroz( estavam penetrando na Europa
mais eram de menor importância);34
- Poucas áreas desenvolveram rumo a uma agricultura capitalista. A Inglaterra era a
principal . Onde havia: grande concentração de terras dividida em arrendatários médios,
controlando uma mão-de-obra contratada;33
- As atividades comerciais e industriais floresciam de forma exuberante;
- A monarquia absoluta nunca conseguiu libertar-se da hierarquia dos nobres
proprietários, a qual pertencia;40
- O que aboliu as relações agrárias feudais em toda a Europa ocidental e central foi a
Revolução Francesa, por ação direta, reação ou exemplo, e a revolução de 1848;
- Havia um conflito latente, que não podia ser resolvido dentro da estrutura dos regimes
políticos existentes, exceto, é claro, onde estes regimes já incorporassem o triunfo burguês, como
na Grã-Bretanha;
- O que deixou os regimes absolutismos ainda mais vulneráveis foi que eles estavam

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sujeitos a pressões de três lados: novas forças, aristocracia que cada vez aumentava mais a
resistência na preservação de seus privilégios, e dos inimigos estrangeiros;40
- Os estados colonizadores enfrentaram movimentos de dissidência provincial(Bélgica), e
colonial(América), mas essa dissidência não foi fatal, em si mesma. As velhas monarquias podiam
sobreviver a perda de uma província ou duas;40
- O que tornou a situação explosiva foi a rivalidade internacional, assim mesmo porque a
guerra testava os recursos do estado. E quando não conseguiam suportar os estados caíam;

2 - A Revolução industrial

Desta vala imunda a maior corrente da indústria humana flui para fertilizar o mundo
todo. Deste esgoto imundo jorra ouro puro. Aqui a humanidade atinge o seu mais completo
desenvolvimento e sua maior brutalidade aqui a civilização faz milagres e o homem civilizado
torna-se quase um selvagem.
(A. De Tocqueville a respeito de Manchester em 1835)

Foi somente na década de 1830 que os efeitos da Revolução industrial começaram a


ser sentidos fora da Inglaterra, a tal ponto que a literatura e as artes ficaram obsedadas pela
ascensão do capitalismo;43
A certa altura da década de 1780(quando os índices estatísticos deram uma guinada
repentina), a revolução industrial explodiu, pela primeira vez na história da humanidade, foram
retirados os grilhões do poder produtivo(estrutura social pré-industrial, tecnologia e ciências
deficientes) das sociedades humanas, que daí em diante se tornaram capazes da multiplicação
rápida, constante, e até o presente ilimitada, de homens, mercadorias e serviços. Hoje os
economistas chamam isto de partida para o crescimento auto-sustentável.
Essa partida terminou com a construção das ferrovias e da indústria pesada na Grã-
Bretanha na década de 1840;45
Em ciências naturais os franceses estavam seguramente a frente dos ingleses, então o
avanço britânico não se deveu a superioridade tecnológica britânica;45
Os franceses produziram inventos mais originais, como o tear de Jacquard de 1804 e
melhores navios. Os alemães tinham instituições de treinamento técnicos mais avançados;46
A educação inglesa era uma piada de mau gosto, embora fosse compensada pelas
universidades escocesas calvinistas( onde vieram jovens brilhantes como James Watt,
Thomas Telford);
Oxford e Cambridge, as duas únicas universidades inglesas, eram intelectualmente
nulas, como eram também as escolas públicas, exceto as criadas pelos dissidentes que foram
excluídos do sistema educacional (anglicano). Programa de alfabetização de massa na
Inglaterra foi lançado somente no início do século XIX;
Para se fazer a Revolução Industrial, não foi necessário grandes invenções. Nem mesmo a
máquina cientificamente mais sofisticada, a máquina a vapor rotativa de James Watt(1784)
(NÃO) necessitava de mais conhecimentos de física do que os disponíveis então há quase um
século - teoria adequada das máquinas a vapor só foi desenvolvida ex post facto pelo francês
Carnot na década de 1820;46(rever no livro)
Mas as condições adequadas estavam visivelmente presentes na Grã-Bretanha:
- Revolução Burguesa;
- Manufaturas;
- Frota mercante;
- melhoria dos portos e vias navegáveis;
- estradas;
- lucro privado e desenvolvimento econômico tinham sido aceitos como supremos
objetivos do governo;
- Proprietários com espírito comercial já quase monopolizavam a terra, que era
cultivada por arrendatários empregando camponeses;
- Não se podia falar em um campesinato britânico da mesma maneira que se podia
falar em um campesinato francês, alemão ou russo;
- atividades agrícolas dirigiam-se predominantemente para o comércio;
- Agricultura estava preparada para realizar as 3 funções fundamentais numa
era de industrialização:
- Aumentar a produtividade para alimentar uma população não agrícola
em crescimento;
- fornecer mão-de-obra;
- conseguir acumular capital para direcioná-lo a atividades mais
modernas;
- 2 outras funções eram menos importantes na Grã-Bretanha: mercado
consumidor e auferir rendas de exportação para garantir importação de capital;
O crescimento industrial foi comandado por fabricantes de produtos de consumo de
massa( principalmente, mas não só, têxteis), pois mercado para esses produtos já
existia(doméstico e principalmente colonial). Mas a expansão industrial britânica foi capaz de
demonstrar que a criação de um sistema fabril que produzisse em grande escala e custos
decrescentes poderia criar seu próprio mercado. Rompendo com a idéia que se tinha que o
grande lucro estava nas atividades comerciais.
O sucesso das indústrias inglesas logo foi estendido para a Europa e a América, as quais
entre 1789 e 1848 foram inundadas pelas máquinas, especialistas e investimentos vindos da Grã-
Bretanha;49
A indústria algodoeira britânica (cuja matéria-prima vinha das colônias) inicialmente não
conseguiu tomar o mercado dos tecidos indianos de algodão, chita. Mas o poderoso interesse do
comércio lanífero impôs restrições aos tecidos de algodão indiano. E como o algodão era mais
barato que a lã, essa indústria conseguiu conquistar o mercado doméstico pequeno porém útil.
Para depois conseguir expandir-se no ultramar.
A indústria algodoeira desenvolveu-se subordinada ao comércio colonial. E a escravidão
e o algodão marcharam juntos. Os escravos eram inicialmente trocados por tecidos indianos,
mas quando este faltava devido a guerra ou revolta na Índia, a região de Lancashire para
comprar os escravos produzia tecidos, cujo algodão vinha da mesma região onde os escravos
eram capturados. Depois da década de 1790, as plantações escravistas do Sul dos EUA foram
aumentadas para atender as fábricas de Lancashire, a qual pagou seu preço com a escravidão
estimulando-a;
Entre 1750 e 1769, a exportação de tecidos britânicos de algodão aumentou mais de
dez vezes. Em 1814 a exportação desses tecidos era maior que o consumo interno e em 1850
era já quase o dobro.
Em 1820 a Europa, mais uma vez aberta as importações britânicas, importou mais que as
áreas subdesenvolvidas. Contudo em 1840 a América, fora os EUA, África e Ásia importaram
mais que o dobro que a Europa;51
América Latina tornou-se quase totalmente dependente da economia britânica a partir das
guerras napoleônicas;
A Índia foi sistematicamente desindustrializada e passou de exportadora a importadora
de tecidos britânicos. E pela primeira vez o oriente passou a ter sua balança comercial
deficitária em relação ao ocidente;

(Bruit. Imperialismo:
A Índia, muito antes da chegada dos ingleses havia desenvolvido
uma manufatura têxtil a que satisfazia às necessidades internas. Mais
tarde, já em contanto com os europeus, essa manufatura exportava um
excedente que concorria com os tecidos europeus até que os ingleses e
franceses proibiram a exportação. E a importação maciça e o consumo
forçado de tecidos e produtos ingleses arruinaram as manufaturas do país
e desarticularam totalmente a economia agrária.61)

Somente a China mantinha-se fechada, até que, entre 1815 e 1842, comerciantes
ocidentais, auxiliados pelas canhoneiras, descobrissem uma mercadoria ideal que podia ser

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exportada em massa da Índia para o extremo Oriente: o ópio;52
A indústria do algodão também beneficiou-se da relativa facilidade que o sistema colonial
proporcionava para aumentar a área cultivada e prover-se de mão-de-obra, devido às terras
disponíveis nas colônias e a possibilidade de compra de escravos;52
A partir de 1790, o algodão britânico encontrou seu suprimento nas colônias sulistas
dos EUA;53
O processo natural de aumento de produção, até mesmo na Inglaterra, era o sistema
doméstico, e esse método foi utilizado inicialmente na indústria algodoeira, mas como não foi
possível encontrar mão-de-obra suficiente, partiu-se para a mecanização;
Até a década de 1830, a fábrica no sentindo moderno ainda restringia-se quase que
exclusivamente as áreas algodoeiras do Reino Unido. As outras indústrias empregavam muito
menos pessoas, tinham uma capacidade de impulsionar a economia muito menor e seu peso no
comércio exterior não se comparava com a indústria algodoeira;54
As cervejarias, que eram em muitos aspectos um negócio técnica e cientificamente
muito mais avançado e mecanizado, e que se revolucionou muito antes da indústria algodoeira,
pouco afetou a economia a sua volta, como pode ser provado pela grande cervejaria Guinness em
Dublin; 54
A indústria algodoeira era quase que exclusivamente a única indústria britânica em que
predominava a fábrica;54
Mas com a expansão da indústria algodoeira, essa primeira fase for marcada por muita
agitação revolucionária(entre 1811 e 1816 grupos de trabalhadores ingleses destruíram
máquinas, liderados por Ludd);
Crises periódicas na economia eram bem conhecidas, nos século XVIII, geralmente
refletiam uma catástrofe agrária, depois das guerras napoleônicas, períodos de boom e depressão -
1825-6;1836-7;1839-42;1846-8 - dominou a vida econômica da Grã-Bretanha.
E por volta de 1830 e princípios de 1840 ocorrem grandes problemas de crescimento
refletindo-se numa acentuada desaceleração da economia e uma queda na renda nacional
britânica. Essa primeira crise geral do capitalismo não foi puramente britânica;55
Com a crise a revolução social eclodiu na forma de levantes espontâneos dos
trabalhadores da indústria e das populações pobres das cidades, produzindo as revoluções de 1848
no continente e os amplos movimentos cartistas na Grã-Bretânha;55
Pequenos comerciantes e fazendeiros, excluídos pelos grandes financistas, reclamavam
por crédito fácil;
Depois de 1815, a margem de lucros começou a diminuir na indústria algodoeira. Para
compensar a queda diminui-se o único custo possível de compressão: os salários( um tecelão
manual em Bolton ganhava em média por semana 33 shillings em 1795; 14 em 1815 e 6
em1829;
Mais de 500 mil tecelões manuais morreram em decorrência da fome;58
Os fabricantes de algodão concordaram que o custo de vida era alto devido ao monopólio
fundiário, piorado pelo protecionismo amparado pelas Leis de Trigo , aprovada pelo
parlamento de proprietários de terras após as guerras;
os fabricante ainda consideravam que tais tarifas protecionistas também dificultavam suas
exportações, na medida que os outros países estavam impedidos de adquirir renda exportando seus
produtos;58
O mundo de Manchester tornou-se o centro da oposição a essas leis, as quais foram
abolidas em 1846;
A indústria estava assim pressionada para mecanizar(diminuindo a mão-de-obra) e
aumentar a produção. Mas embora a produção por trabalhador tivesse aumentado após o
período pós-napoleônico, isto não se deu em uma escala revolucionária. O que ocorreria
apenas na segunda metade do século;59
A indústria de base havia desenvolvido razoavelmente devido às guerras de 1756 a 1815 e
alguns avanços tecnológicos. Mas depois de Waterloo começou a diminuir, pois o retorno nesse
setor era lento e não interessava aos homens de negócio;59
A extração do carvão na Grã-Bretanha correspondia a cerca de aproximadamente a
90% da produção mundial. Essa dianteira inglesa decorria em grande parte de ser esse
produto um importante combustível doméstico, devido a escassez de florestas na Grã-
Bretanha;60
a ferrovia é filha das minas de carvão. Nas minas desenvolveram trilhos para extrair o
carvão do fundo, máquinas foram sendo desenvolvendo para movimentar esses pequenos carros.
E como o transporte a longa distância deste carvão era muito oneroso, os donos de minas
provavelmente perceberam que poderiam utilizar esse sistema de transporte a longa distância. E
na década de 1830, os trens já podiam atingir a velocidade de 96 Km/h;60
A primeira linha das modernas ferrovias ligava uma mina ao litoral;61
Nas duas primeiras décadas da ferrovia, a produção de ferro aumentou 4 vezes e a de
carvão 3 vezes, o que beneficiou o desenvolvimento da indústria;62
A razão para esta expansão rápida, imensa e de fato essencial das ferrovias estava na
paixão aparentemente irracional com que os homens de negócios e os investidores atiraram-se na
construção de ferrovias, cuja rentabilidade estava bem abaixo de outras atividades;62
O lucro que as indústrias renderam excedia as possibilidades de investimento na própria
Inglaterra, parte então foi emprestada a governos estrangeiros, mostrando-se um péssimo
negócio devido à moratória e calote;
Então em vez de canalizar o capital acumulado em empréstimos exteriores e minas em
outros países. Investiu-se intensamente nas ferrovias;64
Antes da era da ferrovia e do navio a vapor era difícil importar grande quantidade de
alimentos, apesar da Grã-Bretanha ter se tornado um livre importador de alimentos a partir da
década de 1780;
A revolução agrícola que precedeu a revolução industrial tornou possível o aumento
populacional e urbanização. Mas essa revolução não foi tecnológica e sim social: com o fim das
terras comunais, cultura de subsistência e da velhas atitudes não comerciais em relação a
terra, o que fez da Grã-Bretanha um país de poucos proprietários rurais, um número
moderado de arrendatários comerciais e um grande número de trabalhadores contratados.
No máximo houve uma racionalização e uso de conhecimentos já conhecidos no início do
século XVIII. Tecnologicamente avanços na engenharia agrícola foram vistos apenas na década
de 1840;65
As leis do Trigo, posteriores a crise de 1815, era um manifesto contra a tendência de tratar
a agricultura como uma indústria igual a qualquer outra, mas foram derrotadas na onda do avanço
radical da classe média depois de 1830, pelo decreto dos pobres de 1834 e pela abolição das leis
do trigo em 1846;65
Em termos de produtividade econômica, esta transformação social foi um imenso sucesso;
em termos de sofrimento humano, uma tragédia, aprofundada pela depressão agrícola depois de
1815, que reduziu os camponeses a uma massa destituída e desmoralizada. Mas para a
industrialização essas transformações eram desejadas, pois forneciam mão-de-obra;
Mas os homens se mostravam relutantes em abandonar seu modo de vida tradicional. Foi
necessária uma catástrofe gigantesca como a fome irlandesa para produzir o tipo de emigração
em massa (um milhão e meio, de uma população total de 8,5 milhões em 1835-50).
O desenvolvimento industrial francês foi dificultado pela estabilidade e relativo conforto
de seu campesinato e de sua pequena burguesia;66
Esses trabalhadores rurais tinham enormes dificuldades para adaptar-se ao trabalho fabril:
- Ritmo de trabalho contínuo;
- Patrões reclamavam que os trabalhadores tendiam a trabalhar até
conseguir a renda suficiente para a subsistência semanal, sem preocupar-se em uma renda extra.
A resposta foram leis draconianas em favor do empregador para disciplinar a mão-de-obra.
Mas acima de tudo pagar tão pouco obrigando o operário trabalhar incansavelmente para
conseguir a renda mínima para a semana;67
- Nas fábrica em que a disciplina era fundamental, empregava-se dóceis mulheres
e crianças: nos engenhos ingleses em 1834-47, apenas 25% eram homens adultos;

Na Grã-Bretanha, antes de 1789, havia se desenvolvido um reservatório considerável de


trabalhadores acostumados com a produção de têxteis e metais, o que tornou mais fácil o
desenvolvimento fabril. Mas também levou a uma negligência na educação técnica e geral neste

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país, cujo preço seria pago mais tarde;68
Na Grã-Bretanha no século XVIII, ao contrário dos outros países, não havia escassez
de capital. Mas os seus portadores: proprietários de terras, mercadores, armadores, financistas,
etc. - relutavam em investi-lo nas novas indústrias, que portanto freqüentemente tinham que
ser iniciadas com pequenas economias ou empréstimos e desenvolvidas pela lavra dos
lucros;68
A escassez de capital fez com que os primeiros industriais - especialmente os homens que
se fizeram por si mesmos - fossem mais duros, mais ávidos e seus trabalhadores mais
explorados;68
Deste modo empírico, não planificado e acidental, construiu-se a primeira economia
industrial de vulto. E a Revolução industrial lançada nesta ilha estava transformando o mundo.
Nada poderia detê-la. Os deuses e os reis do passado eram impotentes diante dos homens de
negócios e das máquinas a vapor do presente;69

3 - A REVOLUÇÃO FRANCESA

A França deu o conceito do nacionalismo, os códigos legais, inspirados no napoleônico(


fundamental para o desenvolvimento econômico posterior), o modelo de organização técnico e
cientifica e o sistema métrico de medidas para a maioria dos países, fez suas revoluções e deu
suas idéias;71
Os efeitos da revolução francesa foram muito mais profundos que qualquer outro
fenômeno contemporâneo por três motivos:
- Em 1789, A França era o país mais populoso da Europa;
- Ela foi uma revolução social de massa, e incomensuravelmente mais radical
do que qualquer levante comparável;
- Seus exércitos partiram para revolucionar o mundo, suas idéias de fato
revolucionaram;
A influência da Revolução Francesa foi mundial, foi o primeiro movimento da
cristandade ocidental que influenciou o mundo islâmico. Em meados do século XIX, a palavra
turca Vatan, que antes significava apenas o lugar de nascimento ou de residência, passa a ter um
sentido parecido com pátria. A palavra que designava liberdade passa a expressar algo mais
do que o oposto da escravidão;73
No século XVIII, a França foi a maior rival política e econômica da Grã-Bretanha, seu
comércio externo multiplicou por quatro entre 1720 e 1780; seu sistema colonial foi em certas
áreas (como nas Índias Ocidentais) mais dinâmico que o britânico(PAZZINATO DIZ QUE O
COMÉRCIO EXTERNO FRANCÊS ENTROU EM DECLÍNIO NO SÉCULO XVIII EM
VIRTUDE DA PERDA DE COLÔNIAS- COMO AS ANTILHAS, O CANADÁ E AS ÍNDIAS.
MAS LOGO EM SEGUIDA, AO FALAR SOBRE A CRISE ECONÔMICA ÀS VÉSPERAS DA
REVOLUÇÃO, PAZZINATO AFIRMA QUE A FRANÇA HAVIA PASSADO POR QUASE
MEIO SÉCULO DE PROSPERIDADE, COM MELHORAS NA AGRICULTURA, COMÉRCIO
INTERNO E O COMÉRCIO EXTERNO. EXPERIMENTARA UM GRANDE PROGRESSO,
MAS QUE ESSE PROGRESSO NAO HAVIA BENEFICIADO A GRANDE MASSA); mas
ainda não era uma potência como a Grã-Bretanha, cuja política externa era substancialmente
voltada aos interesses capitalistas. Em outras palavras, o conflito entre a estrutura oficial e os
interesses estabelecidos do velho regime e as novas forças sociais ascendentes era mais agudo na
França do que em outras partes;73
As propostas de racionalização e abolição de privilégios já tinham similares
aprovadas nos despotismos esclarecidos, contudo tais reformas praticamente não tiveram efeitos
práticos devido aos interesses estabelecidos. Agora na França tais propostas fracassaram muito
mais rapidamente. E as forças da mudança burguesa eram fortes demais para cair na inatividade.
Elas simplesmente transferiram suas esperanças de uma monarquia esclarecida para o povo ou a
nação;74
Foi a reação feudal que forneceu a centelha que fez explodir o barril de pólvora da
revolução francesa;74
Nobreza 400 mil, 2%,(entre os 23 milhões de franceses) tinha isenção de vários
impostos( mas o clero tinha ainda mais) e recebiam tributos feudais. Mas a monarquia
absolutista, apesar de ser feudal no seu ethos, tinha destituído os nobres de sua independência
política e reduzido ao mínimo suas instituições “estados” e “ parlements” . E como eram
guerreiros e não profissionais ou comerciantes estavam impedidos de ter uma profissão -
dependiam da renda de suas propriedades ou, se pertencem a minoria ainda menor da
grande nobreza recebiam pensões, presentes ou sinecura (emprego que quase não obriga ao
trabalho) da corte. Mas como seus gastos para manter seu status eram muito altos e suas rendas
caíam e sua situação econômica deteriorava-se.75
Diante disso durante o século XVIII, eles invadiram os cargos que a monarquia
preferia preencher com a classe média (mais competente e menos perigosa). Na década de 1780
dominavam completamente a administração pública. Ou ainda, principalmente a nobreza
provinciana mais pobre, extorquia mais dinheiro(ou mais raramente serviço) do campesinato,
chegando-se a criar uma profissão a dos feudistas, especialistas que tentam reimplantar os direitos
feudais que haviam caído em desuso, o mais famoso deles, Babeuf, viria a se tornar o líder da
primeira revolta comunista da história moderna, a conspiração dos iguais em 1796.;75
Campesinato:
- 80% da população;
- em geral livres e 40% das terras já lhes pertenciam, mas a grande maioria não
tinha terras ou tinha insuficientemente, situação piorada pelo atraso técnico;
- tributos feudais, os dízimos e as taxas aumentavam e inflação tirava o resto;
- apenas uma minoria tinha um constante excedente para as vendas;
- Situação havia agravado nos últimos 20 anos;

Bancarrota causada pela guerra de independência americana foi a causa direta da


Revolução Francesa;
Apesar das extravagâncias de Versailles tenham sido constantemente responsabilizadas
pela crise, em 1788, os gastos de corte representavam apenas 6% do total(PAZZINATO: 12%
COBRIA A CORTE E MAIS AS PENSOES DOS NOBRES). A guerra americana e sua dívida,
a qual consumia 50% do total da receita,(SEGUNDO PAZZINATO A DIVIDA FOI
CONTRAIDA EM BANCOS ESTRANGEIROS) partiram a espinha dorsal da monarquia, o
déficit chegou a 20%;76
A Revolução começou como uma tentativa aristocrática de recapturar o Estado, eles se
recusavam a pagar pela crise se seus privilégios não fossem estendidos. A primeira brecha do
absolutismo foi uma assembléia de notáveis, mas estes foram rebeldes a monarquia, em 1787. A
segunda foi a convocação dos Estados Gerais, a velha assembléia feudal do reino, enterrada desde
1614;76
A revolução Francesa não teve lideranças claras, nem um programa estruturado. O
que existiu foi um consenso de idéias gerais entre a burguesias, formuladas pelos filósofos e
economistas sintetizadas no liberalismo clássico e difundidas pela maçonaria e associações
informais;77
A revolução teria ocorrido sem os filósofos, mas eles constituíram a diferença entre
um simples colapso de um velho regime e a sua substituição rápida e efetiva por um novo;77
A Declaração dos Direitos do homem e do cidadão de 1789 reflete as exigências
burguesas, contrapõe-se contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não é um
manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária. E a assembléia representativa
que ela vislumbrava como o órgão fundamental de governo não era necessariamente uma
assembléia democraticamente eleita, nem o regime nela implícito pretendia eliminar os reis.
Uma monarquia constitucional baseada em uma oligarquia possuidora de terras era mais
adequada a maioria dos liberais burgueses do que a república democrática que poderia ter
parecido uma expressão mais lógica de suas aspirações teóricas, embora alguns também
advogassem esta causa;
Mas uma concepção fortemente revolucionária foi a identificação do povo como nação .
Não existia mais um rei da França, mas sim um rei dos franceses. Sem dúvida, a nação
francesa não concebeu inicialmente que seus interesses pudessem se chocar com os de outros
povos, mas, pelo contrário, via a si mesma como inauguradora ou participante de um

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movimento de libertação geral dos povos contra a tirania. Mas de fato a rivalidade nacional
(por exemplo, com os comerciantes ingleses) e a subordinação de outros povos estavam
implícitas no nacionalismo ao qual a burguesia de 1789 deu sua primeira expressão oficial;78
O terceiro estado (95%) tinha lutado para conseguir uma representação igual a da nobreza
e do clero juntos. Agora eles lutavam para que o voto fosse individual e não por estados;
Quando o terceiro estado declarou-se em assembléia nacional com o direito de reformar a
constituição, o absolutismo vacilava, conforme Mirabeau, um brilhante e desacreditado ex-
nobre, disse ao rei: Majestade, vós sois um estranho nesta assembléia e não tendes o direito de se
pronunciar aqui.

[Voltaire(didático). Mirabeau:
Quanto a Mirabeau, mais tarde confirmaram-se uma série de
suspeitas nas quais ele teria se vendido aos interesses da Corte. Marat,
num artigo premonitório no seu jornal O Amigo do Povo, em maio de 1790,
dissera dele: "reduzido à prostituição para viver (em certa época da sua vida,
Mirabeau ganhara uns trocados escrevendo literatura licenciosa), ele
venderá a sua consciência ao o que oferecer mais. Que se pode esperar de um
homem sem princípios, sem costumes, sem honra? Alma dos gangrenados, dos
conjurados e dos conspiradores".]

[BARSA. Mirabeau:
O conde de Mirabeau usou seus dotes de político, escritor e orador
admirável para desempenhar o papel de moderador ante as tendências
extremistas na revolução francesa, mas morreu antes de conseguir implantar a
monarquia constitucional que almejava.
Rejeitado pelo pai, pela esposa e pela sociedade, levou vida errante e
empregou-se como redator e agente secreto. em 1791, foi eleito presidente da
Assembléia Nacional, apesar da oposição da extrema esquerda. Pretendeu
conciliar a manutenção de alguns privilégios da nobreza com as demandas
populares num projeto de monarquia constitucional. Morreu em 2 de abril de
1791. Foi sepultado com todas as honras de um herói nacional.]

O terceiro estado obteve sucesso porque representava não apenas as opiniões de uma
minoria militante e instruída, mas também forças bem mais poderosas: os trabalhadores pobres
das cidades, e especialmente de Paris, e em suma, também o campesinato revolucionário. O que
transformou uma limitada agitação reformista em uma revolução foi o fato de que a
conclamação dos Estados Gerais coincidiu com uma profunda crise sócio-econômica. Má
safra em 1788 e 1789 e um inverno muito difícil tornaram aguda a crise;
A Bastilha era uma prisão estatal que simbolizava a autoridade real e onde os
revolucionários esperavam encontrar armas. Em tempos de revolução, nada é mais poderoso do
que a queda de símbolos.79
As revoluções camponesas são movimentos vastos, disformes, anônimos, mas
irresistíveis. O que transformou uma epidemia de inquietação camponesa em uma convulsão
irreversível foi a combinação dos levantes das cidades provincianas com uma onda de pânico
de massa, que se espalhou de forma obscura mais rapidamente por grandes regiões do país: o
chamado Grande Medo, de fins de Julho e princípio de Agosto de 1789;
Três semanas após o 14 de Julho, a estrutura social do feudalismo rural francês e a
máquina estatal da França real ruíam em pedaços. Os privilégios feudais foram oficialmente
abolidos embora, quando a situação política se acalmou, foi fixado um preço rígido para o
abandono dos privilégios. O feudalismo, de fato, foi finalmente abolido em 1793;
Setores revolucionários da classe média, amedrontados com o levante social começaram
então a pensar que era hora do conservadorismo;80
Então ai inicia-se uma mecânica que marcou todas as revoluções burguesas que se
seguiram:
1- classe média moderada mobilizando as massas contra os grupos conservadores;
2- As massas passando dos objetivos da classe média moderada, rumo as suas
próprias revoluções sociais;
3-Moderados se dividindo em dois grupos antagônicos:
- um aproximando-se dos conservadores para conter as massas.;
- E outro de esquerda para tentar completar os ideais perseguidos
inicialmente pelos moderados e não alcançados, com o auxílio das massas, mesmo com o risco de
perder o controle sobre elas.
4 - E assim por diante, com os moderados sucessivamente se dividindo, até que o
grosso da classe média ligue-se ao grupo reacionário (hipótese predominante), ou esse seja
derrotado pela revolução popular. 80
No século XIX, vemos de modo crescente (notadamente na Alemanha) como os liberais
moderados tornaram-se relutantes em começar uma revolução, preferindo um compromisso com o
rei e a aristocracia;
A peculiaridade da Revolução Francesa é que uma facção da classe média liberal
estava pronta a continuar revolucionária até o, e mesmo além do, limiar da revolução
antiburguesa: eram os jacobinos ;81
Os liberais posteriores tornaram-se ainda mais receosos das massas, pois carregavam a
memória dos extremos da revolução francesa;81
Os jacobinos podiam sustentar seu radicalismo porque ainda não havia uma classe que
pudesse fornecer uma solução alternativa para a solução social, a qual apenas surgiria com a
revolução industrial, com o proletariado, ou, mais precisamente, com as ideologias baseadas
nele;81
A única alternativa real na época para o radicalismo burguês eram os sansculotes, um
movimento disforme, sobretudo urbano, de trabalhadores pobres, pequenos artesãos e
empresários, lojistas, etc. Através de jornalistas como Marat, eles também formularam uma
política, por trás da qual estava um ideal social contraditório e vagamente definido, que
combinava respeito a pequena propriedade, com hostilidade aos ricos, direitos aos pobres,
uma democracia extremada, de igualdade e liberdade, localizada e direta;81
Na verdade os sanscullotes expressavam uma universal categoria política que defendia o
interesse da massa de pequenos homens que fica em uma posição intermediária entre a
burguesia e o proletariado, freqüentemente mais próximo deste porque são pobres;81
Mas seu ideal de pequenos fazendeiros e artífices não perturbados por banqueiros e
milionários era irrealizável;
Entre 1789 e 1791, a burguesia moderada vitoriosa, através da Assembléia constituinte,
tomou providencias para a racionalização da França, a maioria dos empreendimentos
duradouros da revolução datam desse período. Suas perspectivas eram inteiramente liberais,
relegando as massas populares, a única medida popular foi a venda das terras da igreja (e
da nobreza emigrada)
A constituição de 1791:
- rechaçou a democracia;
- monarquia constitucional;
- voto censitário(cidadãos ativos);82
A partir da tentativa de fuga do rei, o republicanismo tornou-se um movimento de massas;
O aumento do preço do pão foi acompanhado da agitação e militância das massas;
Cerca de 300 mil membros do clero e nobreza haviam emigrado e trabalhavam para
instigar as outras monarquias contra a revolução. A guerra levou a uma segunda revolução em
1792. 4 meses após ter sido declarada, a monarquia foi derrubada, a república estabelecida
( primeira república, segunda em 1848) e uma nova era da história humana proclamada, com a
instituição do ano I do calendário revolucionário, pela ação armada das massas sansculottes em
Paris;83
Havia entre os revolucionários, moderados e extremistas, uma paixão generosa e

9
genuinamente exaltada em difundir a liberdade aos outros países;
A Guerra revolucionária de 1792-4 foi um episódio excepcional. Somente métodos
revolucionários sem precedentes poderiam vencer uma guerra dessas. No decorrer da crise, a
jovem república francesa descobriu a guerra total: a total mobilização dos recursos para uma
economia de guerra, a virtual abolição da distinção entre soldados e civis;85
A república jacobina e o Terror de 1793-4 somente fazem sentido nos termos de um
moderno esforço de guerra total;
A expansão da guerra, principalmente quando ela ia mal, somente fortaleceu a esquerda, a
única que poderia vencê-la. Um rápido golpe dos sansculotes derrubou a Gironda em Junho
de 1793;86
As imagens, reforçadas pelos conservadores, que se tem normalmente, quando se pensa na
Revolução Francesa, referem-se da ditadura e da histérica sanguinolência do terror jacobino e seus
líderes radicais. Os próprios nomes dos revolucionários moderados que surgiram entre Mirabeau
e Lafayette(1789) e os líderes Jacobinos(1793) desapareceram da memória geral. Mas pelos
padrões do século XX, e mesmo pelos padrões das repressões conservadoras contra as
revoluções sociais, tais como os massacres que se seguiram a Comuna de Paris de 1871, suas
matanças em massa foram relativamente modestas (17 mil execuções oficiais em 14 meses);
Em Junho de 1793, 60 do 80 departamentos franceses estavam em revolta contra Paris. O
exército alemão invadia o Norte e o Leste; os britânicos pelo Sul e pelo Oeste, o país achava-se
desamparado e falido. Mas ainda assim a República Jacobina conseguiu o empreendimento sobre-
humano de preservar o país. 14 meses mais tarde, os invasores haviam sido expulsos e a moeda
francesa encontrava-se razoavelmente estável, em contraste com o passado e o futuro. Para
estes homens somente havia duas opções: ou o Terror, ou a destruição da revolução, e talvez
até como havia acontecido com a Polônia, o desaparecimento do país;
A queda de Robespierre levou a uma epidemia de descontrole econômico, fraudes e
corrupção que incidentalmente culminou numa inflação galopante e na bancarrota nacional de
1797;
Os jacobinos:
- Aboliram sem indenização os direitos feudais remanescentes;
- aumentaram a possibilidade do pequeno comprador comprar as terras
confiscadas dos emigrantes;
- aboliram a escravidão nas colônias francesas;
- aprovaram a primeira constituição genuinamente democrática, todavia
acadêmica, de um estado moderno: sufrágio universal, trabalho ou subsistência;87
O estabelecimento de um maciço grupo de pequenos e médios proprietários camponeses e
pequenos artesãos e lojistas durante a Revolução, retardou a transformação capitalista da
agricultura e da pequena empresa, a condição essencial para um rápido desenvolvimento
econômico, retardando também a urbanização e a expansão do mercado doméstico;88
O jovem Saint-Just não foi também um grande homem, e sim muitas vezes limitado. Mas
é o único indivíduo da Revolução sobre o qual se desenvolveu um culto (com exceção de
Napoleão);
O regime jacobino era uma aliança entre a classe média e as massas trabalhadoras, mas
voltado para a classe média. Por fim, as necessidades econômicas da guerra afastaram o apoio
popular: Nas cidades, o controle de preços e o racionamento beneficiavam as massas, mas o
correspondente congelamento dos salários as prejudicava. No campo, o confisco sistemáticos
de alimentos afastou os camponeses;89
Por volta de Abril de 1794, tanto a direita quanto a esquerda(Hebertistas) tinham ido
para a guilhotina, e os seguidores de Robespierre estavam portanto politicamente isolados,
somente a crise de guerra os mantinha no poder, em Julho de 1794, um mês após a vitoria sobre a
Áustria, ocorre o golpe nono Termidor, e no dia seguinte, Robespierre, Saint Just e seus
companheiros são executados;90
As rápidas alternâncias de regime que se seguiram:
- Diretório(1795-9);
- consulado(1799-1804);
- Império(1804-14);
- a restaurada monarquia bourbon(1815-30);
- monarquia constitucional de Luís Felipe(1830-1848);
- República(1848-51);
- império(1852-70)
Foram todas tentativas para se manter uma sociedade burguesa evitando ao mesmo tempo
o duplo perigo da república democrática jacobina e do velho regime;91
O exército napoleônico( herança agora profissionalizada do exército revolucionário
jacobino, com todo seu impulso nacionalista) era marcado por uma coragem ofensiva ilimitada,
mas seus comandantes, com exceção de Napoleão e pouquíssimos outros, eram pobres(em geral
os oficiais de Napoleão eram pessoas que haviam sido promovidos mais pela bravura que
pela inteligência, aproximando-se da imbecilidade). Mas o exército tornou-se uma carreira
como qualquer outra aberta com a Revolução burguesa, e os que neles tiveram sucesso
interessavam-se na estabilidade interna. Foi o que fez do exército, apesar do jacobinismo
embutido, em um dos pilares do governo Termidoriano, e de sue líder Bonaparte a pessoa
ideal para concluir a revolução burguesa;92
Em pouco tempo, Napoleão, que havia apoiado firmemente a ditadura jacobina,
conseguiu estabilizar a situação na França: código civil, concordata com a Igreja e banco
nacional;93
Seu mito não pode ser adequadamente explicado nem por suas vitórias, nem por sua
propaganda e tampouco por seu gênio indubitável;
Pois o mito de Napoleão se explica menos nos seus méritos do que nos fatos de sua
carreira, sem paralelo:
- Origem humilde, contrário dos outros homens que abalaram o mundo,
ascendeu pelo seu talento pessoal.(isto não foi estritamente verdadeiro), tornando-se um modelo
para todos que queriam ascender;
- Foi ainda um homem civilizado, racionalista, mas também discípulo de
Rousseau o suficiente para ser também um homem romântico do século XIX;
- O homem que trouxe estabilidade para a revolução e estabeleceu ou
restabeleceu os mecanismos das instituições francesas como existem até hoje:
- Código napoleônico virou modelo para todo o mundo burguês, exceto o
anglo-saxão;
- A hierarquia dos funcionários;
- o exército, o funcionalismo público, a educação e o direito ainda têm
formas napoleônicas;
Talvez todas suas idéias já haviam sido idealizadas no Diretório ou pela revolução,
sua contribuição foi fazê-las um pouco mais conservadoras, hierárquicas e autoritárias, mas os
seus predecessores apenas as previram, ele conseguiu realizá-las;
Napoleão trouxe estabilidade e prosperidade para todos, exceto para os 250 mil que
morreram nas guerras, mas aos seus parentes trouxe a glória;
Em 1815 a maioria dos ingleses era mais pobre do que fora em 1800, enquanto a
maioria dos franceses era quase certamente mais rica, embora a guerra civil da década de 1790
tenha provocado um significativo retrocesso econômico.
Mas a eliminação temporária dos seus rivais e o virtual monopólio do mercado colonial
tornaram possível a Grã-Bretanha tornar-se a oficina do mundo durante duas gerações
Napoleão destruíra apenas uma coisa: A Revolução Jacobina, o sonho de igualdade,
liberdade e fraternidade, do povo se erguendo na sua grandiosidade para derrubar a opressão. Este
foi um mito mais poderoso do que o dele, pois, após sua queda, foi isto e não a sua memória que
inspirou as revoluções do século XIX, inclusive no seu próprio país;94

4 - A GUERRA

De 1792 a 1815, houve guerra quase que ininterrupta na Europa;95


Os EUA eram o único país com simpatias a ideologia da revolução francesa, mas
tenderam a neutralidade. De resto, os aliados ideológicos da França eram grupos dentro de
outros estados e não poderes estatais. Em geral em toda a Europa (inclusive Inglaterra),

11
praticamente todas as pessoas instruídas, esclarecidas e de talento simpatizavam com a
revolução, pelo menos até a ditadura jacobina, e muitas vezes bem depois dela;96
Em termos amplos, portanto, o valor militar do filo-jacobinismo estrangeiro foi
principalmente o de um auxílio para a conquista francesa e uma fonte de administradores
politicamente confiáveis para os territórios conquistados. Mas em compensação grupos
revolucionários mobilizaram-se espontaneamente contra as tropas francesas;
Nenhuma área fora das fronteiras da própria França manteve um governo jacobino
por um momento sequer após a derrota ou retirada das tropas francesas;
A hostilidade francesa a Grã-Bretanha era um pouco mais complexa, mas a ascensão de
uma burguesia com a revolução intensificou o desejo de uma vitória final. O único breve período
de paz entre os dois foi entre1802-3.
As outras potências antifrancesas não estavam engajadas em um tipo de luta tão assassina.
A Áustria era a principal rival, pois se somavam laços familiares com os Bourbons e a ameaça
francesa em sua área de influência na Itália e Alemanha (príncipes germânicos apoiaram
Napoleão contra a Áustria). Rússia foi intermitentemente antifrancesa. A Prússia ao mesmo
tempo simpatizava com o grupo contra-revolucionário, relutava em se aproximar da Áustria, além
de ter interesses na Alemanha e Polônia, beneficiando-se de uma iniciativa francesa;
Mesmo levando em conta as divisões do lado antifrancês e o potencial de aliados que os
franceses poderiam atrair, no papel as coalizões antifrancesas eram invariavelmente mais fortes,
pelo menos no início;
Para todos os fins práticos, a lista de batalhas terrestres entre 1794 e 1812 é uma lista
de triunfos franceses praticamente ininterruptos;
Tecnicamente os velhos exércitos eram mais bem treinados e disciplinados, e onde estas
qualidades eram decisivas, como na guerra naval, os franceses foram sensivelmente inferiores.
Mas no que tange a organização improvisada, mobilidade, flexibilidade e acima de tudo
pura coragem ofensiva e moral de luta, os franceses não tinham rivais, e isso mesmo antes de
Napoleão;104
Durante esse período de guerras, as fronteiras políticas da Europa foram redesenhadas
várias vezes. Em termos de geografia política, a revolução francesa pôs fim a Idade Média
(enclaves estrangeiros que se achavam enraizados em alguns territórios de certos estados
foram suprimidos). O mapa italiano e alemão foram significativamente racionalizados,
mantendo-se divididos, mas agora em um número de territórios muito menor, diminuindo a
fragmentação;
Fora da Europa, a conseqüência foi a total anexação britânica das colônias de outros
povos, assim como dos movimentos de libertação colonial inspirados pela revolução Francesa
(São Domingos);
Igualmente importantes foram as mudanças institucionais introduzidas direta ou
indiretamente pela conquista francesa. Uma parte considerável da Europa foi governada
diretamente pela França e as instituições da Revolução Francesa e do Império napoleônico
foram introduzidas: o feudalismo foi formalmente abolido, os códigos legais franceses foram
aplicados. Estas mudanças tiveram uma força de continuidade muito maior do que as alterações
de fronteiras, onde o feudalismo foi abolido, não mais se restabeleceu;108
Nenhum estado europeu ao Sul da Escandinávia e a Oeste da Rússia emergiu dessas
duas décadas de guerras com suas instituições inteiramente inalteradas;108
Mas as alterações de fronteiras e instituições tiveram um efeito menor do que a mudança
da atmosfera política. Depois da Revolução francesa, sabia-se que as nações existiam
independentemente dos Estados, e os povos, independentemente dos governantes, sabia-se que a
revolução social era possível e que a partir de então era mais difícil dominar o povo. A
revolução de um país podia transformar-se em um fenômeno europeu;109
Nas guerras de 1792-1815, nem mesmo na península Ibérica, onde a selvageria foi maior,
houve tanta devastação (apesar de seu custo financeiro ter sido demasiadamente alto) como na
Europa central e oriental durante a Guerra dos 30 anos, ou na Suécia e Polônia no início do século
XVIII;
Papel moeda era raro antes do final do século XVIII;112
Depois da bancarrota de 1797, os franceses tornaram-se preconceituosos em relação
a qualquer cédula por mais de 50 anos, já entre os britânicos havia mais confiança, apesar de
que em 1817 a libra ter se desvalorizado em torno de 30 %, mas posteriormente revalorizou-
se;113

5 - A PAZ

Após os 20 anos de guerra, os governantes tomaram consciência que mais um período


assim poderia por fim aos velhos regimes. Tanto que, apesar de um período de rebeliões e tensão,
não houve nem um conflito entre mais de duas potências de 1815 até 1914, exceto em 1854-6
a Guerra da Criméia, Ucrânia,(Rússia x Inglaterra, França, Turquia e Piemonte, em virtude da
disputa por santos lugares entre ortodoxos, apoiados pelos russos, e católicos), resultado ainda da
“ Questão Oriental “( explosivos problemas internacionais após as guerras napoleônicas,
relacionados às disputas entre ingleses e russos – aliados com os ortodoxos, mas que acima de
tudo almejavam uma saída para o Mediterrâneo - desde 1820 para dominar o império turco que se
dissolvia);
Para manter a paz não se tentou aproveitar da derrota francesa, que saiu com um território
ainda um pouco maior que de 1789, os Bourbons foram reconduzidos, mas as principais
mudanças da revolução foram mantidas, inclusive a constituição;119
O mapa da Europa foi redelineado tendo em vista o equilíbrio das 5 grandes potências:
Rússia, Grã-Bretanha, França, Áustria e Prússica, esses dois últimos eram reconhecidamente
muito mais fracos. A Prússia foi a que mais lucrou, devido às disputas entre a Rússia e Grã-
Bretanha e à busca do equilíbrio, e se tornou pela primeira vez uma grande potência européia em
termos de recursos reais;121
Fome de 1816-7 e depressões dos negócios mantiveram um vivo, mas injustificável temor
de revolução social em toda parte;121
Para manter a paz, as potências decidiram realizar congressos regulares, mas, no primeiro
ataque de instabilidade e insurreição em 1820, as divergências entre os interesses das
potências ficaram patentes, somente a Áustria agarrou-se ao princípio de que todos estes
movimentos deveriam ser imediata e automaticamente suprimidos em nome dos interesses da
ordem social;
Se algo protegeu a independência dos latino-americanos foi a marinha britânica, não
a doutrina Monroe de 1823;
A expansão britânica conscientizou-se agora que economicamente era mais
interessante a exploração das regiões sem os custos de uma ocupação direta, exceção feita à
Índia. Ela era chave para a abertura do extremo oriente, para o tráfico de drogas e outras
atividades lucrativas. Assim, a China foi aberta na Guerra do Ópio de 1839-42;
Uma cláusula do acordo de paz internacional desse período era a abolição do tráfico de
escravos, por razões econômicas e humanitárias. Do ponto de vista inglês, principais defensores, a
economia não dependia mais da venda de homens e açúcar;
Os britânicos aboliram a escravidão em suas colônias em 1834;
Os franceses não a aboliram a escravidão oficialmente até a revolução de 1848;126

6 - AS REVOLUÇÕES

Nunca o revolucionarismo foi tão endêmico e contagiante como no pós-1815, durante


esse período o objetivo supremo de todas as potências européias era evitar uma segunda revolução
francesa, ou ainda a catástrofe pior de uma revolução européia generalizada;
A Escandinávia e a Holanda apesar de pertencerem a zona não absolutista passaram um
período de relativa tranqüilidade fora dos dramáticos acontecimentos que se desenrolaram no
resto da Europa;136(revisar o livro)
3 ondas revolucionárias no mundo ocidental de 1815-1848:
1ª onda revolucionária(1820-4):
- Limitada ao Mediterrâneo;
- Epicentro: Espanha, Nápoles, Grécia, única não sufocada;
Em 1822, a América espanhola estava livre, San Martin, um homem moderado, de

13
grande visão e rara abnegação pessoal, deixou a tarefa a Bolívar e ao republicanismo e retirou-se
para a Europa;128
2ª onda revolucionária (1829-34):
- Marca a derrota definitiva dos aristocratas pelo poder burguês na Europa
Ocidental(apenas),
- A classe governante nos próximos 50 anos seria a grande burguesia, aceita pela
aristocracia que se apagou, mas ainda sem sufrágio universal;
- Embora molestada por agitações externas causadas por negociantes insatisfeitos
ou de menor importância, pela pequena burguesia e pelos primeiros movimentos trabalhistas;
(revisar no livro)
- Na Grã-Bretanha, França e Bélgica, instituições liberais antidemocráticas.
Contudo nos EUA a democracia, imposta durante o governo de Andrew Jackson(1829-37), após
50 anos de hesitação e hostilidade, chama a atenção dos liberais da Europa para essa espantosa
inovação;129
- Mas 1830 determina o aparecimento da classe operaria como uma força
política independente na Grã-Bretanha, com grande mobilização, e na França(embora até 1848
sejam movimentos isolados, sem domínio sobre as massas), e dos movimentos nacionalistas em
grande número de países da Europa;
- De todas as datas entre 1789 e 1848, o ano de 1830 é o mais notável, por trás
destas grandes mudanças políticas estavam grande mudanças econômicas e sociais. 1830
determina o início daquelas décadas de crise no desenvolvimento da nova sociedade que se
concluem com a derrota das revoluções de 1848, e do gigantesco salto econômico depois de 1851;
- Grandes mudanças nas artes, ideologia, industrialização, urbanização,
migrações, etc.
- Toda Europa e EUA;
- França, queda dos Bourbons estimula outras insurreições;
- Bélgica conquista independência da Holanda;
- Polônia, Alemanha e Itália agitam-se;
- Prevalece o liberalismo na Suíça, país bem menos pacífico naquela época;
- Guerras endêmicas na Espanha e em Portugal;
- Na Irlanda(única vez que acontecimentos europeus foram acompanhados na
Grã-Bretanha) garantiu-se a Emancipação Católica(direito dos católicos de participarem do
parlamento), independência de fato apenas em 1921. Além de o governo britânico punir com
selvageria um tumulto de quebra de máquinas que rapidamente se espalhou entre esfomeados do
campo;
3ª onda revolucionária(1848), a maior :
- produto da crise iniciada em 1830;
- Nunca houve nada tão próximo da revolução mundial com que sonhavam os
insurretos do que esta conflagração espontânea e geral na Europa;
- 1789 foi o levante de uma nação, agora parecia a primavera dos povos de todo
um continente;130

Ao contrário das revoluções do final do século XVIII, as do período pós-napoleônico


foram intencionais ou mesmo planejadas, pois já tinham o conjunto de modelos da
Revolução Francesa;
A história de 1815 a 1848 é a história da desintegração da frente unida, que reunia
todos os que tinham ódio pelos regimes de 1815 e a monarquia absolutista, a Igreja e a
aristocracia. Essa frente correspondia a três tendências: o liberal moderado(classe média superior
e a aristocracia liberal), o democrata radical(classe média inferior e pequena nobreza) e a
socialista,131
Durante o período da Restauração(1815-30), não existiam socialistas ou
revolucionários conscientes, os dissidentes, quer fossem bonapartistas, moderados ou radicais,
mal podiam ser diferenciados;
Exceto na Grã-Bretanha, onde a tendência proletária independente na política e na
ideologia surgiu com o coopertivismo de Roberto Owen por volta de 1830(mas ainda não era
dominante) :
- começou de forma impressionante por volta de 1830 atraindo o grosso dos
militantes da classe operária para suas doutrinas(que já vinham sendo difundidas desde 1820)
- desejavam criar sindicatos gerais nacionais;
- tentaram até estabelecer uma economia geral cooperativista às margens do
capitalismo;
- As ofensivas sistemáticas dos empregadores e do governo destruíram o
movimento por volta de 1835;

Mas o clímax do movimento de massa revolucionário da Grã-Bretanha foi a Carta do


povo que atingiu o clímax por volta de 1840, mas seu paradoxo era que ele era ideologicamente
mais atrasado, embora politicamente mais amadurecido que o coopertivismo de Owen, em
substância, esse programa era compatível com o radicalismo de reformadores da classe média
com Betham e James Mill , ao basear suas reivindicações em:
- sufrágio universal;
- voto secreto;
- direito de representação parlamentar;132
- Mas, ao contrário do continente, já era um movimento eminentemente da classe
trabalhadora e preferiam ouvir o programa de pessoas que falavam a mesma língua como Tom
Paine;132 (Thomas Paine foi quem redigiu o panfleto do “common sense” antes da independência
dos EUA);
- consideravam os liberais seus prováveis traidores e os capitalistas seus
inimigos;
- Mas apesar de vasto, não conseguiu perturbar a ordem pública( o governo
britânico sofreu um pânico momentâneo apenas em uma onda de quebra de máquinas por
camponeses esfomeados em 1830);
- Fracassou pela falta de habilidade para ação nacional e pela divisão, exceto para
fazer grades petições;
Fora da Grã-Bretanha, com algumas exceções, a oposição política no continente estava
limitada a um minúsculo grupo de ricos e pessoas cultas. Os pobres que estavam conscientemente
na esquerda aceitavam os slogans revolucionários da classe média, ainda que da ala mais
radical democrata próxima ao jacobinismo.;132
Enfim, durante o período da restauração (1815-30), em toda Europa (exceto Grã-
Bretanha, onde já havia uma política de massa), as perspectivas políticas dos oposicionistas, e os
métodos para alcançar a revolução eram quase os mesmos. Todos eles viam-se em luta contra
um único inimigo, a união dos príncipes absolutistas. Todos também tendiam a adotar o mesmo
tipo de organização: as irmandades insurrecionais que floresceram no final do período
napoleônico, copiadas dos modelos maçônicos, como os carbonari; o que caracterizava a
tendência restritiva, dominada por uma elite revolucionária, com o povo afastado da
preparação;133
Insurreições do tipo carbonário ocorreram em 1820-1. Fracassaram totalmente na França,
pois não tinham a única alavanca eficaz de insurreição, um exército descontente. O exército
francês, naquela época e durante todo o século XIX, era uma parte do funcionalismo
público, o que quer dizer que ele cumpria as ordens de qualquer que fosse o governo
oficial;134

As revoluções de 1830 mudaram a situação inteiramente. Como vimos, elas foram os


primeiros produtos de um período geral de aguda e disseminada intranqüilidade econômica e
social e de rápidas mudanças. Marcaram-se devido:
- Revoluções de massa, como 1789, voltaram a tornar-se possíveis, diminuindo a
dependência das irmandades(Bourbons são derrubados devido crise política e econômica, Paris
permanentemente agitada, as barricadas tornaram-se os símbolos da insurreição popular em
1830, em 1789-94 não tiveram papel importante );
- o povo que se rebelava podia cada vez mais ser identificado com os proletários,
começando a existir o movimento revolucionário proletário-socialista apesar de incipiente e fraco,

15
Na França de 1830-48, não existia nenhum movimento significativo de massa dos trabalhadores
pobres da indústria. Os vários ramos do novo socialismo utópico(seguidores de Saint-simon,
Fourier, etc.)não estavam interessados em agitação política, apesar de terem mobilizado ação de
massa no início das revoluções de 1848;135
- Na França, as tendência vindas do jacobinos e de Babeuf depois de 1830
tornaram-se comunistas, seu principal líder foi Blanqui, mas era fraco como o próprio operariado
e incapaz de um movimento de massa, freqüentemente fracassando como no levante de 1839;140
- Revoluções de 1830 separaram os moderados(classe média superior) dos
radicais(classe média inferior), dividindo o movimento não somente em vários segmentos
sociais mas também nacionais;
- Início da divisão entre os inimigos dos aliados do rei e da aristocracia, que
apenas tomaria uma forma mais clara em 1848, na Grã-Bretanha esta divisão já ocorreu
com o cartismo por volta de 1840;
- Únicas revoluções vitoriosas: França, Grã-Bretanha e Bélgica, triunfo do
liberalismo;
- Península Ibérica(que distanciou-se das ondas revolucionárias, em face de suas
endêmicas guerras civis) e Suíça: o liberalismo não triunfou completamente, oscilando com o
conservadorismo;
- Manteve-se o conservadorismo de antes de 1830 na Itália e Alemanha, devido
intervenção austríaca, e na Polônia, devido intervenção russa;
- No Oeste da Europa os liberais moderados, ao alcançarem o poder em 1830
pelos esforços dos radicais, que eram quem lutava nas barricadas, imediatamente os
traíam(começando até a perseguir a esquerda radical), marcando o rompimento entre liberais e
radicais;
- No resto da Europa, nenhuma revolução venceu. Com a divisão entre os
radicais e os moderados e o surgimento de uma nova tendência social revolucionária, os
moderados depositavam suas esperanças em um governo reformista ou no apoio das novas
potências liberais( Na Alemanha alguns moderados olharam para a Prússica, na Itália olharam
para a Savóia);137
Os radicais da classe média, ainda descontentes com os governos liberais moderados de
1830, dividiram-se ante a ameaça da revolução social, cujo perigo era considerável devido o
descontentamento dos pobres ser visível em toda Europa. Na Grã-Bretanha os radicais dividiram-
se acerca do apoio ao movimento cartista e a liga contra a lei do trigo.142
O rompimento entre os radicais da classe média com a extrema esquerda ocorreria na
França somente após a revolução de 1848;142
No resto da Europa revolucionária onde a baixa nobreza rural e os intelectuais
descontentes eram o centro do radicalismo, o problema com as massas era mais sério. Pois as
massas eram o campesinato, e normalmente um campesinato que pertencia a uma nação deferente
da de seus senhores. A servidão ainda persistia na Áustria(1848), Rússia(1861) e Turquia, o
que tornava necessário concessões para atrair as massas. A situação tornava-se ainda mais
delicada em razão dos camponeses tradicionalistas confiarem mais nos imperadores e nas
Igrejas que nos próprios senhores de terra;143
Havia ainda uma extrema esquerda que concebia francamente a luta revolucionária de
massas contra os governos estrangeiros e os exploradores domésticos, mas essa corrente era
relativamente fraca;
Os radicais da Europa subdesenvolvida, portanto, nunca resolveram eficazmente o seu
problema, em parte em razão da relutância dos que os apoiavam em fazer adequadas concessões
ao campesinato, em parte por causa da imaturidade política dos camponeses. Na Itália , nas
revoluções de 1848 a população camponesa ficou inativa. E na maior parte da Europa
oriental os camponeses subjugaram os revolucionários magiares(húngaros) e alemães;144

O internacionalismo unificado a que aspiravam os revolucionários durante a restauração


foi despedaçado(em 1848 as nações sublevaram-se separadamente) em razão de:
- Perda da confiança na França como a libertadora internacional;
- Ao crescente nacionalismo na década de 1830;
- consciência das diferenças nos aspectos revolucionários em cada país;
- Uma onda nacionalista que se encaixava no romantismo que tomou grande
parte da esquerda após 1830 manifesta-se nos movimentos: Jovem Itália, Jovem Alemanha,
Jovem Polônia, etc.:138
- As revoluções de 1848 ocorreram separadamente de forma espontânea, mas o
estimulo ainda veio da França;
Todavia, embora agora divididos pelas nacionalidades e as classes, os movimentos
revolucionários entre 1830-48 continuaram tendo muito em comum, continuaram :
- Mantendo um padrão comum de procedimento político;
- com um forte sentido internacionalista;
- Predominância de organizações de classe média e intelectuais(quando elas
estouravam o povo comum vinha a cena por si mesmo). Isto devido a:
- falta de tradição de organização de massas;
- falta de jornais de grande circulação(exceto na Inglaterra);
- em países como a França e a Bélgica organizações de massa eram
ilegais;
Chegaria o momento, na Grã-Bretanha já havia chegado com o cartismo, em que os
antigos aliados contra o rei e a aristocracia voltariam-se uns contra os outros, e conflito
fundamental seria entre burgueses e trabalhadores. Mas antes de 1848 este momento ainda
não tinha chegado em nenhum outro lugar. Mesmo os mais conscientes comunistas proletários
normalmente consideravam o empreendimento da república democrático-burguesa a preliminar
para o avanço posterior do socialismo. O manifesto comunista de Marx e Engels é uma
declaração de guerra futura contra a burguesia mas - ao menos para a Alemanha - de aliança
presente;
A esquerda em geral na Europa partilhava uma visão comum de como seria a revolução,
inspirando-se nas revoluções de 1789 e 1830:
- Crise nos estados leva a insurreição;
- através de barricadas toma-se as capitais;
- Organizaria-se uma guarda nacional;
- eleições democráticas par uma assembléia constituinte;
- novo governo daria auxílio fraterno para as outras revoluções, no resto da
Europa;
Entre os movimentos nacionalistas este internacionalismo tendeu a decrescer em
importância, à medida que se conseguia a independência;
Mas entre os movimentos revolucionários que aceitavam cada vez mais a orientação
proletária, o internacionalismo aumentou sua força. A internacional viria a se transformar
em parte integrante dos movimentos socialistas já para o final do século;148
Exílio de militantes de esquerda aumentou o internacionalismo entre 1830-48. Poucas
zonas de refúgio: França, Suíça, Grã-Bretanha e a Bélgica. Garibaldi lutou pela liberdade de
vários países latino-americanos;
Nesses refúgios, os exilados que nem sempre se aprovavam, mas se conheciam e sabiam
que seu destino era o mesmo, preparavam-se e esperavam a revolução européia, que veio - e
fracassou - em 1848;149
7 - O NACIONALISMO

Após a Revolução Francesa, acreditava-se que a França seria o motor da libertação


do mundo. Confiava-se que de Paris irradiaria o movimento revolucionário, confiar em uma Itália
ou Polônia, somente seria possível para os italianos ou para os poloneses;152
Em 1830, iniciam-se movimentos nacionalistas independentes, simbolizados pelos
movimentos jovens, inspirados por Giuseppe Mazzini: Jovem Itália, Jovem Polônia, Jovem
Alemanha, Jovem França e jovem Irlanda, ( apesar de sua importância ser mais simbólica, um
marco, do que real);151
Contudo ainda eram muito semelhantes, até as bandeiras normalmente eram
tricolores. E ainda tendiam a uma fraternidade entre si, justificando sua preocupação
primordial com sua própria nação, com a identificação dela como um messias de todos;152

17
Esse nacionalismo em parte refletia o surgimento de uma classe média e o
descontentamento dos pequenos proprietários(Polônia e Hungria, nacionalismo contra
dominação da Rússia e da Áustria, devido a desejo de ocupar cargos, grandes proprietários
estavam ligados a Rússia e a Áustria);152
Quase somente na Bélgica os interesses empresariais(contra o domínio holandês)
foram o fator fundamental para o nacionalismo;154
O nacionalismo nessa época fortalecia-se com o desenvolvimento educacional da classe
média, foi o progresso(surpreendente, apesar de restrito a uma minoria) das escolas e
universidades que dimensionou o nacionalismo.;154
A formação de um mercado unificado na Alemanha e Itália era logicamente vantajoso
para o comércio, a união aduaneira deu um senso de unidade nacional na Alemanha. Mas os
armadores de Gênova(mais tarde principal apoio financeiro de Garibaldi) estavam mais
interessados no mercado geral do Mediterrâneo;
A proeminência revolucionária dos estudantes no período de 1848 torna difícil lembrar
que em toda a Europa havia apenas 40 mil universitários, apesar do número estar
aumentando(em 1789, havia cerca de 6 mil estudantes na Universidade de Paris, que não tiveram
papel independente na revolução);154
Depois de 1830, publicações em língua nacional tenderam a aumentar(húngaro,
alemão, romeno);155
Grã-Bretanha, França e Bélgica tinham cerca de 50% de analfabetos em 1840,
Portugal, Espanha e Itália(exceto Piemonte e Lombardia) quase toda analfabeta;
Mais alfabetizados eram EUA, Holanda, Escandinávia e Suíça;155
Para as massas em geral a nacionalidade estava ligada a religião, o povo
normalmente nem falava o idioma nacional e sim dialetos, quase incompreensíveis. Além
disso o fato de o nacionalismo era representado pela classe média e pela pequena nobreza era
suficiente para fazer o pobre ficar desconfiado;156
O desenraizamento(emigrações especialmente para os EUA), que toma força depois da
década de 1830, talvez seja o mais importante fenômeno do século XIX;156
Fora do moderno mundo burguês houve, entretanto, movimentos de revolta popular
contra o domínio estrangeiro(i.e. Normalmente entendido como significando o domínio de uma
religião diferente em vez de uma nacionalidade diferente), que as vezes parecem antecipar os
movimentos nacionais posteriores;158
Na Luta de independência grega(1821-30), foi a primeira vez que a luta dos pastores
de ovelhas contra qualquer governo fundiu-se com as idéias do nacionalismo da classe média
e da Revolução Francesa. Portanto a Grécia se tornou o mito inspirador dos nacionalistas e
liberais de todo mundo;159
Fora da Europa, é difícil falar de nacionalismo. As revoluções latino-americanas foram
obra de pequenos grupos de aristocratas, soldados e elites afrancesadas “ evoluídas” , deixando a
massa passiva da população branca, católica e pobre, e dos índios indiferentes ou
hostil;161(revisar o livro)
Apenas no México a independência foi conquistada pela iniciativa de um movimento
de massa agrário, isto é, indígena; e por isso o México trilhou um caminho politicamente mais
avançado que o resto da América Latina;
O nacionalismo na Ásia, nos países islâmicos e, mais tarde na África foi desenvolvido
por uma classe média que, para se desenvolver, foi, paradoxalmente, ocidentalizando-se e
afastando-se das massas, apesar da mitologia nacionalista freqüentemente tente obscurecer esse
divórcio;163
O nacionalismo no Oriente foi portanto um produto, enfim, da influência e da
conquista ocidental. O que fica evidente no país plenamente oriental que viria a tornar-se o
primeiro movimento nacionalista moderno das colônias: o Egito. Napoleão introduziu as idéias,
os métodos e as técnicas ocidentais, que foram reconhecidos por um ambicioso soldado local,
Mohammed Ali, o qual iniciou um despotismo eficiente, não sem crueldade, e ocidentalizante
com a ajuda técnica estrangeira(principalmente francesa). Com a construção do Canal de
Suez iniciou-se a dependência fatal dos governantes egípcios a grandes empréstimos negociados
por grupos competidores de trapaceiros europeus, que transformaram o Egito em um centro de
rivalidade imperialista e, mais tarde, de rebelião antiimperialista. Foi a ocidentalização de
Mohammed Ali, não suas aspirações ou as de seu povo, que lançou base para o nacionalismo
posterior;
O nacionalismo, como tantas outras características do mundo moderno, é filho da
revolução dupla;

(TEXTO DO DARNTON)
CONTRADIÇÃO ENTRE AMAR A TODOS(OU TODO LUGAR), PARA
NÃO AMAR A NADA.
O cosmopolita abrangia a Europa toda em sua visão do mundo, às
vezes até mesmo a humanidade toda. O termo podia ser usado
pejorativamente, conforme indicado pelo dicionário da Academia Francesa:
"Cosmopolita: alguém que não adota nenhuma pátria. Um cosmopolita não é
um bom cidadão". Mesmo a "Encyclopédie" observava que "às vezes se usa
esse termo em tom jocoso, para indicar um homem que não tem residência
fixa ou que não é estrangeiro em parte nenhuma". Aventureiros como
Casanova, Cagliostro e Mesmer conferiram má fama ao termo, pois fizeram
grandes viagens nas quais sobreviveram de sua astúcia e da credulidade
ingênua de suas vítimas. Tendo percorrido a Europa a pé, em sua juventude,
na companhia desses "chevaliers d'industrie", Rousseau (1712-1778)
condenou o cosmopolita, em "O Contrato Social" (1762), como alguém
que "faz de conta que ama o mundo inteiro para poder ter o direito de
não amar ninguém". Contrastando com ele nesse ponto, assim como em
tantos outros, Voltaire personificava o cosmopolitismo de tipo positivo. Sua
mansão em Ferney, na fronteira entre França e Genebra, era a parada
mais grandiosa em toda a grande tour. Ladeado por bustos de Locke e
Newton, ele recebia visitantes vindos de todos os pontos do continente -e
pelo menos 300 da Grã-Bretanha-, peregrinos seculares com fome de uma
refeição ou de um "bon mot", tanto assim que ele se descrevia como "o
estalajadeiro da Europa". Ele foi descrito, por outros, como o "rei não
coroado da Europa", porque exercia um tipo novo de poder: a
capacidade de influenciar a opinião pública em escala européia.
(São Paulo, Folha de são Paulo, 21 de julho de 2002
FRONTEIRAS IMAGINÁRIAS
por Roberto Darnton)
ARQUIVO: “DARNTON, nacionalismo”

Parte II
RESULTADOS

8 - A TERRA

19
O que acontecia a terra entre 1789 a 1848 determinava a vida ou a morte da maioria dos
seres humanos;167
Para a primeira escola de economia, a fisiocracia, a terra era a única fonte de riqueza,
e cuja transformação revolucionária todos concordavam era a pré-condição e conseqüência
necessária da sociedade burguesa. Três mudanças eram necessárias:
- A terra tinha que transformar-se em mercadoria;
- deveria pertencer a homens com espírito empreendedor, dispostos a desenvolver
sua capacidade produtiva;
- a massa da população rural deveria transformar-se em alguma forma de
trabalhadores assalariados, com liberdade de movimento, para as necessidades urbanas;
Então fazia-se necessário quebrar os vínculos e outras proibições de venda ou dispersão
que se aplicavam as propriedades nobres e, portanto, o proprietário tinha que estar sujeito a
penalidade salutar da bancarrota em caso de incompetência econômica, o que permitiria os
compradores economicamente mais competentes assumir a situação. Ante a resistência dos
camponeses e proprietários tradicionais a uma adequação ao padrão capitalista, uma
revolução político-legal dirigida contra os proprietários e os camponeses tradicionais era
necessário;170
Nos países católicos e muçulmanos(nos protestantes já havia sido feito há muito tempo),
as terras eclesiásticas tinham que ser tomadas e abertas ao mercado(na Espanha os governos
liberais intermitentes conseguiram por volta de 1845 vender mais da metade das terras da
Igreja), bem como com as terras coletivas. E não poderia haver dúvida que os compradores
seriam os empresários fortes e sóbrios;170
Era indispensável que qualquer tradição feudal remanescente fosse abolida. E entre
1789-1848, isso foi alcançado do Gilbaltrar a Prússica Oriental. Na Rússia e na Romênia na
década de 1860;171
Na Grã-Bretanha, não era necessário expropriar as grandes propriedades, já integradas aos
princípios burgueses;
A Lei dos pobres de 1834, na Grã-Bretanha, foi projetada para tornar a vida tão
intolerável para os pobres do campo que eles se vissem forçados a abandonar a terra em busca de
qualquer emprego que lhes fosse oferecido;172
Mas, mesmo onde os camponeses realmente receberam a terra ou tiveram confirmada a
sua posse, como na França, em partes da Alemanha ou na Escandinávia, eles não se
transformaram automaticamente, como se esperava, na classe empreendedora de pequenos
fazendeiros;176
As soluções mais radicais para o problema agrário foram as:
- Britânica: grande concentração;
- americana: fazenda comercial cujo ocupante era o próprio proprietário, que
compensava com mecanização intensiva a falta de mão-de-obra(solução essa devido à condição
única de: disponibilidade ilimitada de terras e ausência de tradições feudais, tendo como único
obstáculo os indígenas) ;
Na Prússia, a solução não foi a menos revolucionária, transformou-se os proprietários
feudais em fazendeiros capitalistas e os servos em trabalhadores contratados;169
Na segunda metade do século XIX, a miséria dos camponeses que não encontravam
empregos na Noruega, Suécia e, menos, na Dinamarca(depois da eliminação das terras
comunais e a divisão da terras entre os arrendatários com técnicas mais avançadas) levou ao
que foi proporcionalmente o maior movimento de emigração do século(principalmente para o
meio-oeste americano);172
Na França, a abolição do feudalismo foi obra da revolução. A pressão camponesa e o
jacobinismo levaram a reforma agrário além do ponto ideal segundo os princípios burgueses. A
França tornou-se em grande parte de vários tipos de proprietários camponeses sem espírito
comercial, o que retardou o desenvolvimento industrial na França;173
Na Alemanha Ocidental, Países baixos, Suíça e na maior parte da Europa latina a
abolição do feudalismo foi obra dos exércitos franceses(ou de liberais nativos que cooperaram
com eles) dispostos a proclamar imediatamente a abolição dos dízimos, do feudalismo e dos
direitos senhoriais;173
Entretanto, a Revolução Francesa não foi a única força que impulsionava por uma
revolução total das relações agrárias, o uso racional da terra e o aumento da produtividade já
havia impressionado os déspotas esclarecidos. José II em 1780 já havia abolido a servidão e
secularizado as terras(contudo na Áustria o vínculo legal do camponês a gleba foi abolida
definitivamente apenas em 1848);
Durante a primeira metade do século XIX, a área cultivada cresceu em bem mais de um-
terço e a produtividade em 50%. A população rural excedente cresceu rapidamente, e já que as
condições rurais eram bem ruins - a fome de 1846-8 foi provavelmente pior na Alemanha do
que em qualquer outra parte, exceto na Irlanda e na Bélgica -, esse excedente teve bastante
incentivo para emigrar;175
Os passos legais para os sistemas burgueses de propriedade da terra avançavam com as
vitórias do liberalismo e eram retardados com a recuperação dos velhos regimes. Na Espanha, o
triunfo temporário da revolução liberal em 1820 trouxe uma nova lei de desvinculação que
permitiu aos nobres vender suas terras livremente; a restauração do absolutismo anulou-a em
1823; a nova vitória do liberalismo reafirmou-a em 1836, e assim por diante;
No antigo sistema tradicional, havia fomes periódicas e o peso do trabalho fazia com
que os homens se tornarem velhos aos 40 anos de idade e as mulheres aos 30, mas isto eram
entendidos como atos de Deus e ainda havia ao menos uma certeza social. A revolução legal
não deu ao camponês nada exceto alguns direitos. Por exemplo na Prússia, com a emancipação
os camponeses conseguiram:
- um pouco mais da metade da terra que ele já cultivava;
- libertação do trabalho forçado e de outras obrigações;
mas formalmente lhe tomou:
- Direito de usar as terras do senhor como pasto;
- Direito de retirar ou comprar combustível barato nas terras do senhor;
- Possibilidade de reivindicar assistência ao senhor feudal em tempos de colheita
ruim e mais direitos consuetudinários( passando a ser explorados por empresários rurais, muito
mais insensíveis e descompromissados com os camponeses);
O mercado livre de terras significava que ele provavelmente teria de vender sua terra;
Exceto a revolução camponesa na França de 1789( e nem toda ela foi anticlerical ou
antimonárquica), virtualmente todos os movimentos camponeses importantes nesse período que
não foram dirigidos contra um rei ou igreja estrangeiros o foram ostensivamente a favor do
sacerdote e do governante em defesa do velho sistema consuetudinário;177
...as propriedades eclesiásticas eram, às vezes, senhores mais tolerantes do que o
leigo ávido...178
Foram os padres que lideraram os camponeses espanhóis em sua guerra de guerrilha
contra Napoleão;178
Tudo o que os camponeses precisavam para passar de uma agitação formalmente legalista
para uma formalmente esquerdista era a consciência de que o rei e a Igreja tinham-se passado para
o lado dos ricos locais, além de um movimento revolucionários de homens como eles, que
falassem sua própria linguagem. O radicalismo populista de Garibaldi foi talvez o primeiro destes
movimentos. O marxismo e o bakuninismo seriam ainda mais eficazes, a passagem da rebelião
camponesa da direita para esquerda apenas tomaria força depois de 1848, a falta de apoio
dos camponeses aos jacobinos e liberais condenou o fracasso os movimentos de 1848;
Na Índia as terras pertenciam a uma coletividade autogovernada(tribos, clãs etc.), e o
governo recebia uma porcentagem da produção, não havia colonos britânicos desejando terras na
Índia, então a alteração no sistema de posse visava a coleta de tributos. Foi sua combinação de
ganância e individualismo legal do liberalismo que produziu a catástrofe. A benção da
propriedade privada foi concedida ao campesinato indiano. Os britânicos levaram a Índia a
paz, grande desenvolvimento nos serviços públicos, um governo sem corrupção nos altos
escalões. Mas, economicamente, epidemias de fome gigantescas e mortíferas, cada vez
piores. Para essa mudança agrícola levou-se a Índia a uma desindustrialização. Entre 1815 e
1832, as exportações de produtos de algodão da Índia caiu em mais de 90%;183
De 1787 a 1848, a invasão do mercado mundial no setor agrário foi incompleta, como se
pode medir pelas modestíssimas taxas de emigração. A criação de um mercado mundial

21
agrícola apenas começaria a se formar com as ferrovias e navios a vapor no final do século
XIX.
Os novos métodos agrícolas eram lentos para penetrar em aldeias. Apesar do açúcar de
beterraba, o milho e a batata fizessem surpreendentes avanços;
A Irlanda havia sido desindustrializada pela política colonialista britânica. As terras
eram administradas por arrendatários, que pagavam rendas a proprietários de terras que
na maioria viviam no exterior. A batata possibilitou um aumento da população, mas que vivia
ainda em condições miseráveis. As más colheitas da década de 1840 apenas vieram executar um
povo já condenado. A grande fome irlandesa de 1847, que foi, de longe, a maior catástrofe
humana da história européia do período que focalizamos. Por volta de 1 milhão(de um total de
7 milhões) morreu de fome e outro tanto emigrou da ilha entre 1846 e 1851;
Mas a situação dos trabalhadores nas fazendas na Inglaterra também era péssima. Tendo
piorado depois da década de 1790. Varias manifestações do trabalhadores ocorreram desde 1820,
em fins de 1830, uma epidemia de rebelião se difundiu por inúmeros condados e foi selvagemente
reprimida. O liberalismo econômico para solucionar o problema dos trabalhadores forçou-os a
encontrar trabalho a um salário vil ou a emigrar. A nova lei dos pobres de 1834 deu aos
trabalhadores o auxílio pobreza somente dentro das novas Workhouses(uma casa quase de
detenção, onde eram abrigados os desempregados separados de sua família para evitar a
procriação);186
A situação do trabalhador auto-suficiente era bem melhor que o contratado. Um país
camponês como a França foi menos afetado que qualquer outro pela depressão da agricultura
depois de 1815;

9 - RUMO A UM MUNDO INDUSTRIAL

Em 1848, apenas Inglaterra efetivamente industrializada, por isso dominava o mundo;


na década de 1840, EUA e uma boa parte da Europa Ocidental já estavam começando a
tornar-se industrializados;187
A crise de 1857 foi a primeira crise econômica mundial, não decorrente de fatores
agrários, indicando o avanço na industrialização;
De 1789 a 1848, as mudanças econômicas foram pequenas comparadas com os padrões
posteriores, mas as mudanças fundamentais estavam acontecendo:
Mudança demográfica:
- A população dos EUA passou de 4 para 23 milhões entre 1790 a 1850;189
- O extraordinário aumento populacional desde 1750 naturalmente estimulou
muito a economia, mas, ao mesmo tempo, foi uma conseqüência do desenvolvimento econômico,
pois sem ele esse crescimento demográfico não poderia ser mantido por um período tão longo( por
exemplo, na Irlanda, onde não foi suplementado por uma revolução econômica, não foi
mantido);189
mudança das comunicações:
- As estradas foram mais do que duplicadas na Europa principalmente entre 1830
- 1850(nos EUA como de costume mais gigantesco, as estradas foram multiplicadas por 8);
- Em 1822, navios a vapor já ligavam a Grã-Bretanha a França;
- Em 1848, as ferrovias ainda estavam na infância, embora já tivessem
considerável importância pratica na Grã-Bretanha, EUA, Bélgica, França e Alemanha;189
- Multiplicaram-se os correios;
mudança no volume do comércio e na emigração:
- Entre 1816 e 1850, 5 milhões de europeus emigraram(80% para a América);
- as migrações internas também aumentaram muito;
- entre 1780 1840, o comércio internacional multiplicou-se mais de 4 vezes, o que
era extraordinário para época, embora para os padrões posteriores esse número fosse modesto;191
O que é mais relevante é que depois de 1830 o ritmo de mudança social e econômica
acelerou-se visível e rapidamente;191
Durante o período da revolução e suas guerras, apenas a Grã-Bretanha e EUA avançaram.
O navio a vapor, o descaroçador de algodão e o desenvolvimento da produção em série com
esteira são avanços americanos desse período;191
De 1815 a 1830 foi um período de lenta recuperação e até reveses, até 1828 a população
cresceu no mesmo ritmo da urbana, poucos julgariam que outro país além dos EUA e a Grã-
Bretanha estivessem no portal da Revolução Industrial;192(revisar no livro)
Depois de 1830 a situação mudou rápida e dramaticamente. Entre 1830 a 1848 nasceram
as áreas industriais que até hoje tem força, mas elas ainda estavam apenas no seu começo(exceto a
Bélgica e, talvez, a França que conseguiram já nesse período uma industrialização maciça);
Na Grã-Bretanha, têxteis e às vezes alimentos, deflagaram a 1 revolução industrial, mas
ferro, aço e carvão já eram mais importantes em 1846;
Tanto na Grã-Bretanha como no continente, o típico centro industrial era uma cidade
provinciana pequena ou de tamanho médio;194
No continente, diferentemente da Grã-Bretanha, o governo tinha um controle muito maior
sobre a indústria, não apenas porque estava acostumado, mas também porque tinha que fazê-
lo(ausência de acumulação primitiva de capital, as guildas ainda eram um obstáculo). Grã-
Bretanha é até hoje o único país em que as ferrovias foram construídas totalmente por
particulares;195
O desenvolvimento econômico deste período contém um gigantesco paradoxo, A França
possuía:
- Instituições adequadas ao desenvolvimento do capitalismo;
- empresários mais inventivos, primeiros a desenvolver as grandes lojas de
departamento e a propaganda;
- Supremacia nas ciências, inventaram: a fotografia e outras inovações;
- Reservas de capital e financistas mais inventivos;
Ainda assim o desenvolvimento econômico francês era mais lento do que o de outros
países. No final da década de 1840, detinha o maior poderio industrial da Europa, mas estava para
perder terreno para a Alemanha;
Esse lento desenvolvimento deu-se devido à estabilidade do campesinato que tinha terras
e vinha muito lentamente para as cidades, não havendo mercado para os produtos baratos que
iniciaram o desenvolvimento industrial. Havia reserva de capital mas essa destinava-se a produção
de artigos de luxo ou indústrias no exterior;197
No extremo oposta da França estava os EUA que:
- não possuía capital, mas importava-o na maioria da Grã-Bretanha;
- possuía pouca mão-de-obra, mas da Grã-Bretanha e da Alemanha emigravam
milhões, após a grande fome de meados de 1840;
- Não possuíam trabalhadores técnicos, mais importavam-nos;
Toda instituição da nova república incitava a acumulação, a engenhosidade e a iniciativa
privada. Uma vasta população nova exigia bens e invenções, sendo atendidas pelos inventores
americanos do:
- Navio a vapor(1813);
- Revólver (1835);
- máquina de fazer parafusos(1809);
- máquinas agrícolas, de costura, de escrever, etc.;
Nenhuma economia expandiu-se tanto nessa época como a do EUA, apesar de a
arrancada decisiva apenas ocorrer após 1860;
Somente havia um obstáculo para os EUA, o conflito entre:
o norte industrial que:
- beneficiava-se do capital, mão-de-obra e técnicas, notadamente
britânicas;
- mas como uma economia independente;
- Protecionista;
Sul semi-colonial, dependente da Grã-Bretanha e a favor do livre comércio, para
importar mercadorias baratas da Grã-Bretanha;198
O Norte e o Sul ainda competiam pelas terras do Oeste. O Sul para estender as
plantações escravocratas e o Norte para matadouros de grande porte;199
O Sul da Europa teve seu desenvolvimento industrial retardado pela escassez de

23
carvão;199
Uma parte do mundo saltou na dianteira do poderio industrial, enquanto outra ficava para
trás, até mesmo porque era muito difícil competir com as indústrias daqueles;
Onde a economia estava nas mãos dos grandes proprietários de terra, tornava-se natural
essa divisão internacional que lhes encarregava de produzir alimentos ou minérios e importar
industrializados, mas onde os donos da manufatura tinham influência resistia-se com
protecionismo, como fez a Alemanha e os EUA;
Onde não havia independência política, não havia como optar pela industrialização, como
nas colônias. A Índia estava sendo desindustrializada. O Egito que passava por um processo de
transformação numa economia moderna e industrial, com Mohammed Ali. Foi obrigado pela
convenção Anglo-turca de 1838 a acabar com o seu monopólio no comércio externo e a
reduzir seu exército, desincentivando a industrialização. E esta não foi a primeira nem a última
vez que as canhoneiras do Ocidente abriram um país ao comércio;200
De todas as conseqüências econômicas da época da revolução dupla, esta divisão
entre os países adiantados e os subdesenvolvidos provou ser a mais profunda e duradoura. E
esses atrasados ficaram sob a pressão militar das canhoneiras e dependência econômica do
Ocidente. Até que os russos tivessem desenvolvido, na década de 1930, meios de transpor este
fosso entre atrasado e adiantado, ele permaneceria imóvel. Nenhum outro fato determinou a
história do século XX de maneira mais firme;201

10 - A CARREIRA ABERTA AO TALENTO

A Revolução Francesa pôs fim a sociedade aristocrática, mas não a aristocracia, nem a sua
influência, a cultura aristocrática foi assimilada pela classe ascendente. Como a Revolução
russa preservou o bale clássico;
Mas a restauração dos Bourbons não restaurou o velho regime, ou melhor, quando Carlos
X tentou fazê-lo foi deposto. A sociedade da França pós-revolucionária era burguesa em sua
estrutura e em seus valores. A sociedade do período da restauração foi a dos capitalistas e
carreiristas de Balzac e não a dos duques emigrantes que retornaram. Metade da nobreza
francesa em 1840 tinha sido gente do povo em 1789;205
A realização crucial das duas revoluções foi, assim, o fato de que elas abriram carreiras
para o talento ou, pelo menos, para a energia, a sagacidade, o trabalho duro e a ganância.
Mas sem um recurso inicial era difícil entrar na auto-estrada do sucesso. Até nos países que
adquiriram um sistema público de ensino, a educação primária era negligenciada; e, mesmo onde
ela existisse, estava confinada, por razões políticas, a um mínimo de alfabetização, obediência
moral e aritmética. Mas seria de grande orgulho para uma família pobre ter um padre, um clérigo,
bem como um funcionário público, professor e nos casos mais maravilhosos, um advogado ou
médico;211
A ascensão através dos negócios era ainda menos freqüente, pois havia ainda a
barreira cultural para as famílias tradicionais. Uma sede geral de educação era muito mais
fácil de ser criada do que uma sede geral de sucesso individual os negócios. O homem
instruído não se voltaria automaticamente para dilacerar seu semelhante da mesma forma
desavergonhada e egoísta com que o faria o comerciante;212
A revolução francesa criou os exames admissionais, colocando a educação nos
moldes da competição individualista, própria da sociedade burguesa;
Os serviços públicos também adotaram seleção por exames, tendo grande aceitação
exceto em sociedades mais arcaicas ou mais democráticas como os EUA, preferindo a eleição;
Grupos antes proibidos de ascender socialmente, não somente por não serem bem-
nascidos, mas por sofrerem uma discriminação saudaram a abertura das carreiras. Os
protestantes franceses atiraram-se a vida pública. Antes os judeus que enriquecessem ainda
tinham que ficar restritos a guetos e evitar a celebridade. Agora eles podiam ser vistos como
ricos. E se antes eles estavam restritos aos negócios, agora era surpreendente seu
florescimento nas artes, ciências e nas profissões, apesar de ainda modesto para os padrões
do século XX;218
Mas essa sociedade não facilitava o ajustamento, os que aceitavam as evidentes bênçãos
da civilização da classe média e das maneiras da classe média podiam gozar de seus benefícios
livremente; os que as recusavam ou não eram capazes de obtê-las simplesmente não
contavam;219
O período que culminou por volta da metade do século foi, portanto, uma época de
insensibilidade sem igual, não só porque a pobreza que rodeava a respeitabilidade, sem igual, da
classe média era tão chocante que o homem rico preferia não vê-la, deixando que seus horrores
provocassem impacto apenas sobre os visitantes estrangeiros, mas também porque os pobres,
como os bárbaros do exterior, eram tratados como se não fossem seres humanos. Se seu
destino era o de se tornarem trabalhadores industriais, eles eram simplesmente massa que deveria
ser modelada pela disciplina através da pura coerção, sendo a draconiana disciplina fabril
suplementada pelo Estado(o Código britânico de Patrões e Empregados, de 1823, punia os
trabalhadores com a prisão por quebra de contrato e os empregadores com modestas
multas, se tanto);

XI - OS TRABALHADORES POBRES

O alcoolismo em massa, companheiro invariável de uma industrialização e de uma


urbanização bruscas e incontroláveis, disseminou uma peste de embriaguez em toda Europa;
O crescimento desordenado das cidades gerava uma falta de limpeza nas ruas,
fornecimento de água, serviços sanitários, para não mencionarmos as péssimas condições
habitacionais da classe trabalhadora, sua conseqüência mais patente foi o reaparecimento de
epidemias, como a cólera e a tifo. Cidades européias dividiam-se em Oeste, para os ricos, e
Leste, para os pobres. Apenas depois de 1848, quando as epidemias começaram a chegar nos
bairros ricos e a ameaça da revolução social começou a assustar tomou-se providencias para uma
reconstrução urbana sistemática;225
Além do alcoolismo havia outros sinais dessa desmoralização: infanticídio, prostituição,
suicídio, demência, criminalidade, difusão de seitas apocalipticas e violência despropositada
que era uma espécie de ação pessoal cega contra as forças que ameaçavam engolir os
elementos passivos; 225
A revolução de 1848 era conseqüência direta e inevitável da condição miserável dos
pobres; que os levaria aos movimentos trabalhistas e socialistas;
A pobreza verdadeira era ainda pior nos campos, e especialmente entre os
trabalhadores assalariados que não tinham propriedades e entre os camponeses pobres ou os que
viviam da terra infértil. Uma má colheita trazia a verdadeira fome;226
Mas, de fato, a miséria que chamava a atenção, tão próxima da catástrofe total como a
miséria irlandesa, era a das cidades e das zonas industriais onde os pobres morriam de fome de
uma maneira menos passiva e menos oculta;227
A partir de 1815, os salários começaram a cair, enquanto os ricos tornavam-se mais
ricos;
A pior alimentação e péssimas condições de trabalho tornavam a qualidade de vida
dos operários muito pior que a dos trabalhadores rurais. A expectativa de vida em
Manchester e Liverpool era a metade das zonas rurais;
Na primeira fase da revolução industrial havia ainda poucos setores mecanizados em
grande escala, multiplicaram-se os trabalhadores domésticos e os artesãos pré-industriais,
freqüentemente melhorando suas condições, especialmente no período de escassez de mão-de-
obra das guerras;228
Nas décadas de 1820-30, o avanço poderoso das máquinas e do mercado começou
deixá-los de lado, tornando-os dependentes e criando multidões de desclassificados;
O proletariado fabril tinha provavelmente melhores condições que os artesãos que
persistiam ou dos desempregados, mas à custa de uma disciplina cruel;229
A palavra socialismo nasceu na década de 1820, entre a Grã-Bretanha e França, e foi
imediatamente adotada em pequena escala na França e em escala bem maior pelos britânicos, que
logo teriam Roberto Owen como líder de um vasto movimento de massas, para o qual ele
estava singularmente despreparado;

25
[BARSA, Robert Owen:
Autodidata, começou a trabalhar aos dez anos, como auxiliar de alfaiate, e em 1800 já
era sócio da algodoaria, na Escócia, onde a maioria das pessoas trabalhava e vivia em péssimas
condições de higiene e moradia. Owen melhorou as casas, criou um armazém em que se podiam
comprar mercadorias a preço módico e em 1816 fundou a primeira escola maternal britânica.
O estrito controle das bebidas alcoólicas reduziu o vício e o crime. Embora prosperassem os
negócios, as despesas com o bem-estar dos operários pareciam extravagantes aos demais sócios
da fábrica, e Owen desligou-se deles para fundar sua própria firma, de que foram acionistas
Jeremy Bentham e o quacre William Allen.
A repercussão de sua obra ultrapassou as fronteiras do país, e chamaram a atenção
sobretudo suas inovações pedagógicas: jardim de infância, escola ativa e cursos noturnos. Owen
empenhou-se junto aos poderes públicos para melhorar as condições de trabalho, reduzir a
jornada e regulamentar o trabalho de menores. Embora rico e influente, o radicalismo de sua
crítica social custou-lhe as simpatias que de início despertara nos governantes. Em 1817 passou
a pregar a formação de cidades-cooperativas, ou comunidades autônomas de trabalhadores,
como solução para a questão social.
Em 1824 Owen transferiu-se para os Estados Unidos a fim de pôr à prova suas idéias.
A efêmera comunidade de New Harmony devorou o que restava de sua fortuna. Após tentar
sem sucesso um programa de colonização no norte do México, voltou ao Reino Unido, onde em
1829 se pôs à frente de uma rede de cooperativas, depois de um sistema de bolsas de trabalho e,
por fim, em 1834, de uma vasta união sindical, o primeiro sindicato operário britânico, de vida
breve.
Até os últimos anos, Owen lutou pelo "socialismo", como chamava sua doutrina (foi o
primeiro a usar a palavra).]

Por volta do início da década de 1830, apenas na Inglaterra e na França, já existiam


a consciência de classe proletária. Mas a própria novidade e a rapidez da mudança social que os
envolvia, encorajava os trabalhadores a pensar em termos de uma sociedade totalmente diversa,
baseada na sua experiência e em suas idéias em oposição as de seus opressores. Seria cooperativa
e não competitiva, coletivista e não individualista. Essa consciência era quase certamente débil,
mas existia;231
A Revolução Francesa havia imbuído os pobres da consciência de que eles estavam
no palco da História como atores não como simples vítimas;231
Uma tentativa de união, não apenas para receber melhores salários para grupos
organizados de trabalhadores, mas para derrotar toda uma sociedade existente e estabelecer uma
nova sociedade, foi feita na Grã-Bretanha entre 1829-34, e depois outra vez durante o
cartismo( CREIO QUE HOBSBAWM DEVA PROVAVELMENTE REFERIR-SE A ALGUM
MOVIMENTO OU INSURREICAO NA ESTEIRA DO CARTISMO, MAS NAO O
MOVIMENTO EM SI MESMO, POIS ELE ANTERIORMENTE HAVIA DITO QUE O
CARTISMO FOI UM MOVIMENTO IDEOLOGICAMENTE ATRASADO E QUE SUAS
REIVINDICACOES NAO DIFERIAM DO JACOBINISMO). A tentativa fracassou e este
fracasso destroçou um movimento socialista e proletário precoce mas impressionantemente
maduro durante 50 anos;(revisar no livro)
A formação de sindicatos e greves gerais mostraram-se inviáveis nessa época devido a
falta de disciplina e união. Mostrando-se mais eficiente as agitações próprias do jacobinismo e
do radicalismo em geral. A campanha política em uma frente mais limitada era efetiva, sem ela,
não teria havido emancipação católica em 1829, um decreto reformista em 1832, e certamente
não teria havido um controle legislativo modesto mas eficiente das condições fabris das horas
de trabalho. Assim vemos uma classe trabalhadora debilmente organizada que compensava sua
fraqueza com radicalismo;233
O movimento trabalhista deste período tinha sua unidade na ideologia proletária, mas não
era integralmente proletário, nem em composição nem em sua ideologia, ele representava todos os
trabalhadores pobres, principalmente urbanos, a novidade da situação depois de 1815 era que esse
movimento já era contra a classe média liberal;
Os trabalhadores pobres mais ativos, militantes e politicamente conscientes não eram
os novos proletários fabris(mesmo na Grã-Bretanha), mas os artífices qualificados, os artesãos
independentes e outros que viviam e trabalhavam substancialmente da mesma forma que antes da
revolução industrial , mas sob pressão bem maior;235
Havia apenas uma exceção, somente na Grã-Bretanha, os novos proletários tinham
começado a se organizar e, até mesmo, a criar seus próprios líderes, fora da Grã-Bretanha os
operários fabris eram ainda mais vítimas que agentes. Apenas depois da segunda metade do século
eles começariam a participar efetivamente da formação de seus destinos;
Para os trabalhadores os movimentos trabalhistas eram mais do que um instrumento de
luta: era também um modo de vida. O movimento tinha a ver com um modo de vida alternativo ao
que lhes era imposto, a vida que eles mesmos criaram para si e que era coletiva, comunal,
combativa, idealista. O mito liberal supunha que os sindicatos eram compostos de trabalhadores
imprestáveis instigados por agitadores sem consciência, mas na realidade os imprestáveis eram os
menos sindicalizados, enquanto que os mais inteligentes e competentes eram os mais firmes em
seu apoio aos sindicatos. Mas essa espécie de organização ainda predominava nas velhas
indústrias domésticas e não com os proletários;236
Neste período, esse protesto dos trabalhadores em toda Europa era mais um movimento
que um organização. Estavam unidos apenas pela fome, miséria, ódio e esperança, além de alguns
slogans comuns(mesmo no cartismo, as manifestações mais sólidas e amplas). Havia pouca
liderança e organização. A tentativa mais ambiciosa de transformar o movimento em
organização, o “ sindicato geral “ de 1834, fracassou rápida e miseravelmente(revisar no
livro)
O que derrotou o cartismo britânico e as revoluções de 1848 no continente foi a falta
de organização e a maturidade;237
Mas o novo proletariado foi unindo-se e a solidariedade e lealdade começaram a
caracterizá-lo;233
XII - A IDEOLOGIA RELIGIOSA

Durante grande parte da História e na maior parte do mundo(sendo a China a principal


exceção), os termos em que os homens, exceto um punhado de pessoas emancipadas e
instruídas, pensavam o mundo eram os termos da religião tradicional, e tanto isto é verdade
que há países nos quais a palavra cristão é simplesmente o sinônimo de camponês ou mesmo
homem. Em alguma época anterior a 1848, isto deixou de ser verdade em certas partes da
Europa;239
O que não tinha precedentes era a secularização das massas. No final do século XVIII,
o ateísmo declarado era raro, mas entre os eruditos, escritores e cavalheiros que ditavam a
moda intelectual, o cristianismo franco era ainda mais raro. Se havia uma religião florescente
entre a elite do final do século XVIII, esta era a maçonaria racionalista, iluminista e
anticlerical;240
A descristianização dos homens nas classes instruídas data do início do século XVIII;
Mas as massas populares mantiveram-se profundamente supersticiosa e devotas. E
mesmo entre a classe média, a aberta hostilidade a religião não era popular, embora a ideologia
iluminista, antitradicional, progressista e racionalista se encaixasse perfeitamente com a sociedade
capitalista;
Mas apesar de que no meio burguês os cristãos predominassem, os livres pensadores eram
mais dinâmicos. Não há dúvida que a grande massa dos EUA acreditassem em alguma
religião(principalmente protestante), mas a constituição da república continuou sendo
agnóstica. Também não há dúvida que a classe média britânica em nosso período era
predominantemente protestante, mas um Bentham moldou as verdadeiras instituições de sua
época bem mais do que um Wilberforce;242
A prova da vitória da ideologia secular sobre a religiosa esta na secularização da
principais transformações políticas e sociais que seguiram-se as revoluções americana e
francesa( as revoluções inglesa e holandesa foram discutidas na linguagem tradicional do
cristianismo). Nas ideologias dos americanos e franceses, pela primeira vez na história da
Europa, o cristianismo foi deixado de lado;242
O triunfo burguês imbuiu a ideologia moral-secular ou agnóstica do iluminismo na

27
Revolução Francesa, e como os movimentos subsequentes inspiraram-se na revolução esse
racionalismo também lhes foi transmitido;242
A ideologia da nova classe trabalhadora e dos movimentos socialistas do século XIX
foi predominantemente secular desde o princípio;242
Havia e há socialistas religiosos, mas a ideologia predominante dos modernos
movimentos socialistas e trabalhistas se baseia no racionalismo de século XVIII;243
As massas continuaram predominantemente religiosas, mas entre as massas urbanas
a indiferença religiosa tendia a aumentar. Os pregadores das aldeias agrícolas não serviam
como guias para a cura das almas em uma cidade industrial;
A tendência geral do período desde 1789 até 1848 foi, portanto, de uma enfática
secularização. A ciência se achava em constante conflito com as Escrituras. A erudição histórica,
aplicada a Bíblia em doses sem precedentes, dissolvia-a em uma coleção de documentos
históricos de vários períodos, com todos os defeitos da documentação humana. Por volta de 1848,
a Europa instruída estava quase madura para o choque de Charles Darwin;244
Duas religiões expandiram-se mais em nosso período: o Islamismo e as seitas
protestantes. As décadas napoleônicas e revolucionárias viram o início da sistemática atividade
missionária protestante executada em sua maior parte pelos anglo-saxões;245
O islamismo continuava sua expansão silenciosa, sem o apoio do esforço missionário
organizado ou da conversão forçada, o que é uma característica desta religião. Os comerciantes
muçulmanos, que realmente monopolizavam o comércio do interior da África com o mundo,
expandiram-se e ajudaram a chamar a atenção desses povos para o islamismo, que se mostrava um
poderoso instrumento para reorganização desta sociedade desestruturada pela escravidão;246
Nosso período foi de uma crescente secularização e de indiferença religiosa(na
Europa), combatidas pelo despertar da religião em suas formas mais intransigentes,
irracionais e emocionalmente compulsivas;251
O retorno a religião militante tinha três aspectos:
Para as massas:
- Um método de luta contra a sociedade cada vez mais fria, desumana e tirânica
do liberalismo da classe média;
- Criar instituições sociais, educacionais e políticas em um ambiente ausente
delas;
- seu emocionalismo e superstição tanto protestavam contra toda uma sociedade
em que dominava o cálculo racional, como contra as classes superiores que deformavam a
religião;
Para as classes médias :
- A religião dava a seus lucros um título moral maior do que o do mero interesse
próprio racional;
- legitimava sua aspereza em relação aos oprimidos;
- justificava sua existência social contra o desprezo e o ódio da sociedade
tradicional;
para as monarquias:
- A religião fornecia estabilidade social;
- Depois de 1815, para os governos conservadores(praticamente todos) o
encorajamento da religião era parte indispensável a política. (O sacerdote, o policial e o censor
eram agora os três principais apoios da reação contra a revolução);

Mesmo dentro da religião organizada - ao menos dentro da católica romana, da


protestante e da judaica - o liberalismo ganhava espaço. Na igreja romana, seu principal campo de
ação foi a França. Seu autor não demorou para ser condenado por Roma, os governos não
esperavam uma punhalada do catolicismo, algo que lhes garantia o status quo. Entretanto o
catolicismo liberal sobreviveu na França;254
As seitas protestantes estavam naturalmente mais próximas do liberalismo, sobretudo em
termos políticos: ser um hunguenote francês eqüivalia a ser um liberal moderno;
As igrejas estatais protestantes, como a anglicana e a luterana, eram politicamente
mais conservadoras;
Os judeus, naturalmente, estavam expostos a toda a força da corrente liberal. Afinal de
contas, eles deviam sua emancipação política e social inteiramente a ela;

XIII - A IDEOLOGIA SECULAR

Praticamente todos os pensadores de importância em nosso período falavam o


idioma secular, quaisquer que fossem suas crenças religiosas;
Havia basicamente duas divisões de opiniões: as do que concordavam com a direção que
o mundo estava seguindo(vinculados ao iluminismo) e os contrários;
iluminismo:
- humanista, Racionalista, secular;
- triunfante do século XVIII
- Inclinado ao materialismo ou ao empirismo;
Os defensores do iluminismo acreditavam que:
- história humana era um avanço;
- controle sobre a natureza aumentava;
- a sociedade humana e o homem podiam ser aperfeiçoado pela razão;
- Com isto concordavam os liberais burgueses e os revolucionários socialistas;
Até 1789, essa idéia de progresso iluministas era mais poderosa e adiantada no clássico
liberalismo burguês:
- Rigorosamente racionalista e secular;
- Razão poderia compreender e resolver todos os problemas;
- tradição e religião tinham uma tendência obscurantista;
- Cientificista;
- Individualista, premissa fundada em uma análise psicológica(apesar da palavra
ainda não existir) do homem, como sendo um comportamento inerente;
- Humanidade composta de átomos individuais com certas paixões e necessidades
e, na busca da realização dos próprios desejos, achava vantajoso ou inevitável relacionar-se com
outros indivíduos, fazendo um complexo de acordos, contrato , o qual dava forma a sociedade, a
qual então restringiria(sentido negativo) o seu direito natural e ilimitado de fazer o que lhe
agradasse;257
- Não haveria um ideal coletivo, os objetivos sociais eram a soma dos objetivos
individuais. A felicidade era o supremo objetivo de cada indivíduo e o objetivo da sociedade
deveria ser proporcionar a felicidade do maior número de pessoas possível
Mas o utilitarismo puro(questionamento de tudo para saber se é útil para a felicidade
geral) ficou limitado no século XVII a filósofos como Hobbes cujas obras serviam de monumento
a, ou a escola dos seguidores de Betham e James Mill e acima de tudo aos economistas políticos
clássicos. Pois poderia ser demonstrado que o próprio interesse racional bem poderia justificar
uma interferência consideravelmente maior na liberdade natural do indivíduo.(Hobbes, cujas
obras os utilitaristas britânicos devotavam, demonstrava que o poder estatal deveria ser ilimitado
para que fossem satisfeitos os interesses individuais, e os próprios bethamitas foram paladinos que
o poder estatal podia proporcionar mais felicidade que o laissez-faire)(revisar no livro)
As obras de Hobbes , junto com a economia política, eram uma monumento para a
ideologia liberal, isto porque a classe média ainda não tinha tanta confiança na supremacia
burguesa sobre o absolutismo, como tinha na vitoria do capitalismo no aspecto econômico;258
Mas a ideologia da classe média liberal nunca levou ao extremo essa visão racional e
utilitarista. Se de um lado ela proporcionou a quebra de instituições tradicionais que não poderiam
responder as perguntas. É racional? É útil? Contribui para a felicidade geral? Do outro lado, os
que procuravam defender a propriedade privada, liberdade individual e de empresa fazia
por meio da concepção metafísica do direito natural em vez do vulnerável direito de
utilidade. Contudo os pensadores liberais mais lógicos preferissem não colocar isto na
linguagem dos direitos natural;257
O filosoficamente débil John Locke, mais que o soberbo Thomas Hobbes, continuou
sendo o pensador favorito do liberalismo vulgar, pois, ao menos, ele colocava a propriedade
privada além do alcance da interferência e do ataque, como o mais fundamental dos direitos

29
naturais ;258
Os liberais estavam inicialmente divididos entre os que defendiam um governo
democrático popular(James Mill) e outro grupo mais generalizado que defendia um governo
de elite. E depois de 1793-4, o liberalismo e a democracia pareciam mais adversários que
aliados;262
O liberalismo clássico inicia-se com a publicação da A Riqueza das nações(1776) e
atinge seu apogeu com Princípios de Economia Política(1817) de David Ricardo e o ano de
1830 assinala o início do seu declínio. A economia política ainda foi suplementada pelas idéias de
Malthus, cujos defensores acreditavam que alguém provara que os pobres deviam permanecer
sempre pobres, e que a generosidade e a benevolência podiam faze-los ainda mais pobres.
O argumento social da economia política de Adam Smith(1723-1790) era tanto elegante
quanto confortador:
- Humanidade composta de homens que buscam seus próprios interesses através
da competição;
- mas quando deixasse os homens com o máximo de liberdade possível, levaria:
- uma ordem social natural;
- o mais rápido aumento possível da riqueza das nações, quer dizer do
conforto do bem estar, portanto da felicidade de todos os homens;
- base da ordem estaria na divisão social do trabalho;
- Existência de uma classe de capitalistas beneficiava a todos, inclusive aos
trabalhadores, com a aceleração da economia, que melhoraria a vida até dos mais pobres;
- Esta ideologia era fundada não apenas em teoremas alcançados através de
raciocínio dedutivo, mas também no evidente progresso da civilização e do capitalismo no século
XVIII. Reciprocamente, começou a tropeçar não só porque Ricardo descobrira contradições
dentro do sistema que Smith preconizara, mas porque a pobreza era muito maior que tinha sido
previsto;
Enquanto a ideologia liberal perdia assim sua confiança original, uma nova ideologia, o
socialismo, voltava a formular os velhos axiomas do século XVIII. A razão, a ciência e o
progresso eram suas bases firmes;262
O que distinguia os socialistas do nosso período dos paladinos anteriores de uma
sociedade perfeita de propriedade comum era a aceitação incondicional da revolução industrial
que criava a verdadeira possibilidade do socialismo moderno;262
Saint-Simon, que é por tradição reconhecido como o primeiro socialista utópico, foi
antes de tudo um apostolo do industrialismo;
Robert Owen foi um pioneiro muito bem sucedido da indústria algodoeira. E acreditava
em uma sociedade melhor não só na crença do aperfeiçoamento humano através da sociedade,
mas também no potencial de produção da revolução industrial;263
Embora ele se sentisse constrangido em relação as conclusões de sua teoria, Ricardo já
havia demonstrado o princípio da mais-valia. O que levou os economistas da classe média
posteriores a 1830 a ver Ricardo com alarme, e até mesmo a considerá-lo, como o fez o
americano Carey, como fonte de inspiração de agitadores e destruidores da sociedade;263
No período de formação do socialismo, isto é, entre a publicação da Nova Visão da
Sociedade de Robert Owen(1813) e o Manifesto Comunista, de 1848, a depressão , os salários
decrescentes, o pesado desemprego tecnológico e as dúvidas sobre as futuras possibilidades de
expansão da economia eram simplesmente inoportunas;
Um mundo no qual todos fossem felizes e no qual todo indivíduo realizasse livre e
plenamente suas potencialidades, no qual reinasse a liberdade e do qual desaparecesse o
governo coercitivo era o objetivo máximo de liberais e socialistas;
O que distinguia os vários membros da família ideológica descendente do
humanismo e do iluminismo - liberais, socialistas, comunistas ou anarquistas - não era a
amável anarquia mais ou menos utópica de todos eles, mas sim os métodos para alcançá-la.
Para o socialismo:
- O homem é naturalmente comunitário, e a sociedade não é um mero agregado de
átomos individuais, cuja força motriz estava no interesse próprio e na competição;
- A idéia smithiana de que o intercâmbio de mercadorias equivalentes no mercado
garantia de alguma forma a justiça social lhes chocava;
- Antes da instituição da sociedade de classes e da propriedade os homens
tinham, de uma forma ou de outra, vivido em harmonia, conceito este expresso por Rosseau
através da idealização do homem primitivo;265

Para os liberais clássicos e os socialistas utópicos bastava que se mostrasse ao mundo o


que era racional e retirar os obstáculos e a sociedade desenvolveria-se. De fato os socialistas
Utópicos tratavam de mostrar-se tão firmemente convencidos de que a verdade bastava ser
proclamada pra ser instantaneamente adotada por todos os homens sensatos e de instrução, que
inicialmente limitaram seus esforços para realizar o socialismo a uma propaganda endereçada em
primeiro lugar as classes influentes;265
Tanto com os liberais como com os utópicos já havia uma idéia de evolução nesta
visões racionalistas para construção de uma boa sociedade, já que a idéia de progresso implica
uma idéia de evolução;
Mas Marx(baseado na economia política inglesa, no socialismo francês e na filosofia
alemã) substituiu uma argumentação baseada na racionalidade e desejabilidade para
condição de inevitabilidade.
Para Marx o comunismo primitivo foi divido em uma sociedade de classes, o que era
fundamental para seu desenvolvimento. Cada sociedade classista, que apesar de injusta era
progressista a seu tempo, desenvolvia-se até que suas contradições internas chegavam a um
limite, gerando uma nova sociedade de classes, e assim por diante até que chegasse a última das
sociedade de classes, O Capitalismo. Essa também teria suas contradições que lhe poriam um fim.
E o capitalismo também criava seu próprio coveiro, o proletariado. O qual, diante da crescente
concentração do poder econômico, faria a revolução proletária e derrubaria o capitalismo. O
socialismo era um filho do capitalismo e não teria sido possível ter sido implantado antes;266
O capitalismo triunfou sobre o feudalismo pois era mais racional e a burguesia era mais
forte. Da mesma forma o socialismo triunfaria pela vitória dos trabalhadores;266
Rosseau(1712-78) ficava em um meio termo entre todas as correntes:
- Entre o individualismo e a idéia que o homem é comunitário;
- entre a razão e o sentimento;
- Reconhecia que o progresso era inevitável e a certeza de que destruiria a
harmonia do primitivo homem natural;
- não houve nenhuma escola que seguiu suas idéias, exceto Robespierre e os
Jacobinos do ano II e o próprio Napoleão;
- mas sua influência foi grande, mas não através de sistemas;
O pensamento alemão diferia do liberalismo clássico em importantes aspectos:
- Idealista e rejeitava o materialismo, abstrato;
- A unidade básica do pensamento de Kant é o indivíduo, mas já para Hegel é o
coletivo;
Essa diferença decorria possivelmente por um nacionalismo alemão. Mas provavelmente,
a persistência da atmosfera intelectual da última época em que a Alemanha tinha sido econômica,
intelectual e, até certo ponto, politicamente predominante era responsável por isto, pois o declínio
do período entre a Reforma e o final do século XVIII tinha preservado o arcaísmo da tradição
intelectual alemã da mesma forma que mantido inalterada a aparência das pequenas cidades
alemãs do século XVI. Em todo caso, a atmosfera fundamental do pensamento alemão - fosse na
filosofia, nas ciências ou nas artes - diferia marcantemente da principal tradição do século XVIII
na Europa Ocidental;271
A filosofia clássica e a literatura alemã, que estava intimamente ligada a própria filosofia,
foram suas maiores expressões. O poeta Goethe era um cientista e um filósofo natural. Kant(1724-
1804) e Hegel(1770-1831) são seus dois luminares.
A filosofia clássica alemã foi um fenômeno burguês, todos saudaram a Revolução
Francesa. O iluminismo foi a estrutura do pensamento de Kant e ponto de partida de
Hegel(defendeu Napoleão até 1806), a filosofia de ambos era impregnada da idéia de
progresso. É razoável que Kant e Hegel teriam-se considerado persuadidos por Adam Smith.273
O período da revolução dupla viu o triunfo e a mais elaborada expressão das radicais

31
ideologias da classe média liberal e da pequena burguesia, e sua desintegração sob o impacto dos
Estados e das sociedades que haviam contribuído para criar, ou pelo menos recebido de braços
abertos. Marx foi, em estatura e enfoque, o herdeiro dos economistas e filósofos clássicos. Mas a
sociedade da qual ele esperava se tornar profeta e arquiteto era muito diferente da deles.

XIV - AS ARTES

Surpreende o extraordinário florescimento das artes no período da revolução dupla;


A Revolução Francesa inspirava com o seu exemplo e a revolução industrial com seu
horror;278
Mozart, 1756-91(não romântico) escreveu a Flauta Mágica como propaganda para a
Maçonaria;278
Beethoven(1770-1827) dedicou a Eróica a Napoleão como herdeiro da revolução;
Goethe(1749-1832) foi, pelo menos, um homem de estado;
Dickens escreveu romances para atacar os abusos sociais;
Dostoievsky foi condenado à morte em 1849 por atividades revolucionárias;
Wagner e Goya foram para o exílio político;
Pushkin foi punido por envolver-se com os dezembristas;
Toda comédia humana de Balzac é um monumento de consciência social;
A arte dos artistas não comprometidos definhou;278
Com provável exceção da ópera italiana, das reproduções gráficas da arte plástica, e de
alguns pequenos poemas e canções, nenhuma das grandes realizações artísticas deste período
estavam ao alcance dos analfabetos ou dos pobres. A maioria dos habitantes da Europa as
desconheciam por completo, até que o nacionalismo de massa ou os movimentos políticos as
convertessem em símbolos coletivos;279
A literatura, é claro, teria maior circulação, embora principalmente entre as crescentes
e novas classes médias, que proporcionavam um mercado particularmente vasto(especialmente
entre as mulheres desocupadas). Os autores bem sucedidos raramente gozaram de uma maior
prosperidade relativa;
E ainda assim, embora escape a uma classificação, já que suas origens e conclusão se
dissolvem à medida em que se tente datá-las, e que o critério mais agudo se perca em
generalidades tão logo tente-se defini-lo, ninguém duvida seriamente da existência do romantismo
ou de nossa capacidade em reconhecê-lo;280
O Romantismo nasceu na Grã-Bretanha, França e Alemanha(espalhando-se depois) por
volta de 1800. Foi precedido pelo pré-romantismo de Rousseau. Entre 1830-48 seu auge;
A Revolução Francesa, apesar de assimilar alguns elementos de Rousseau, seu hábito era
romano, racionalista e neoclássico. David foi seu pintor, a razão seu ser supremo. Os elementos
românticos ficaram subordinados;
Balzac, Beethoven, Goya e Goethe são cruciais para a grandeza do romantismo,
apesar de não serem plenamente, nem considerarem-se românticos(poucos grupos se
consideravam)
romantismo:
- Nasceu em oposição ao classicismo;
- era o enfoque da classe média;
- Extremista, contra o termo médio;
- em geral fazem parte da extrema-esquerda ou extrema-direita,(os moderados e
os liberais racionalistas defendiam o classicismo);
- Seria demasiado chamá-lo antiburguês;
- Napoleão, Shakespeare e outros pecadores que se colocavam mais além do
limite da vida tornaram-se seus heróis;
- A busca ilimitada de mais, além da razão, os extremos do luxo, tudo isso
encantava;
- os bucaneiros de Balzac compartilhavam sua insaciável ganância com Fausto e
Dom Juan;281
- predominava na juventude, foi o melhor período para jovens artistas;
- Um mundo aberto ao talento e, na prática, com cósmica injustiça;
- Tinham uma apaixonada, confusa, porém profunda revolta contra a sociedade
burguesa;
- Compromisso social, grande engajamento político;
- Tendia-se a produzir coisas sem preocupação de ser comercial, o que os
levava a considerarem-se gênios, sendo a maioria pobres e revolucionários;
- ligavam-se ao submundo, gostavam da loucura ou coisas censuradas;
- aparecimento da mulher no mundo artístico;
- Buscavam a unidade perdida do homem com a natureza;
- desconfiavam do raciocínio mecânico e materialista do século XVIII, a qual
relacionavam com a sociedade burguesa;
- Mas a crítica que fizeram da sociedade burguesa aproximava-se da metafísica,
ou relâmpagos visionários próximos da excentricidade ou mesmo da loucura;

Uma crítica eficaz a sociedade burguesa viria não daqueles que a rejeitavam, mas
sim daqueles que levaram as tradições do pensamento clássico burguês a suas conclusões
antiburguesas. O socialismo de Owen não tinha nada de romântico, seus elementos eram
racionais e da mais burguesa da ciências, a economia política;285
A crítica romântica do mundo, embora mal definida, não era portanto desprezível. As
razões do coração que a própria razão desconhece. Os poetas se encontravam sobrepujados
mas não só viam mais profundamente que os economistas e os físicos, como também, às
vezes, com mais clareza. Com algumas exceções, os melhores comentários sobre os problemas
da urbanização na Inglaterra se deveram aos escritores criativos;285
O ano de 1789 havia sido saudado por praticamente todo artista e intelectual da Europa,
mas embora alguns tivessem conservado seu entusiasmo durante a guerra, o terror, a corrupção
burguesa e o império, seus sonhos não eram facilmente comunicáveis. Mesmo na Grã-Bretanha,
onde a primeira geração do romantismo fora totalmente jacobina, os desiludidos e os
neoconservadores ainda prevaleciam em 1805. Na França e na Alemanha, de fato, a palavra
romântico fora realmente inventada como um slogan anti-revolucionário pelos
conservadores antiburgueses do final da década de 1790(freqüentemente antigos
esquerdistas desiludidos);290
A união do romantismo com a visão de uma nova e mais elevada Revolução Francesa foi
o predomínio da arte política entre 1830-48. Raramente houve um período em que os artistas
fossem tão partidários, freqüentemente considerando-se a serviço da política;291
O estilo do império napoleônico, que foi de impressionante feiura e pretensão, era
herdeiro da arte aristocrática, embora consideravelmente vulgarizado pela adesão de novos
ricos enobrecidos;293
A vida da classe média era não romântica, inspirada pelo classicismo ou o rococó do
século XVIII, exceto na busca do lucro e na lógica, a vida da classe média era uma vida de
emoção controlada e de perspectivas limitadas. O puritanismo, a religiosidade católica ou
evangélica encorajavam a moderação, a poupança e uma sobriedade espartana;294
As novas cidades industriais continuavam sendo um lugar desolado, cujos poucos
atrativos - espaços abertos, festas - iam gradativamente diminuindo pela febre das construções,
pela fumaça que empestiava a natureza, e pela obrigatoriedade do trabalho incessante.
Os aspectos culturais nessas cidades em grande parte procediam do século XVIII, as
lutas de boxe, corridas de cavalos, a versão democratizada das touradas espanholas, a
literatura de cordel, o teatro popular de subúrbio de Viena. As formas genuinamente novas de
diversão urbana na grande cidade eram subprodutos da taberna ou da loja de bebidas. A criação da
grande cidade moderna e dos modernos estilos urbanos de vida popular teriam que esperar a
segunda metade do século XIX.

XV - A CIÊNCIA

Na Grã-Bretanha, as principais indústrias de nosso período foram as têxteis de algodão, as


do carvão, do ferro, das ferrovias e da construção de navios mercantes. Os conhecimentos que

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revolucionaram estas indústrias foram os de homens empíricos, talvez demasiadamente
empíricos. O herói da revolução da ferrovia britânica foi George Stephenson, que não era
culto do ponto de vista cientifico, mas um intuitivo que adivinhava as possibilidades de uma
máquina;302
A ciência se beneficiou do surpreendente estímulo dado a educação científica e
técnica;
A supremacia francesa deu-se em virtude da importantes fundações que reportam a
reforma geral da educação secundária e superior de Napoleão, especialmente a Politécnica;
A era revolucionária, portanto, fez crescer o número de cientistas e eruditos e estendeu a
ciência em todos os seus aspectos;304
As clássicas ciências físicas não foram revolucionadas, isto é, permaneceram
substancialmente dentro dos termos de referência estabelecidos por Newton, expandindo as
antigas descobertas e coordenados em sistemas teóricos mais amplos. Assim, o mais importante
dos novos campos abertos, e o único que teve imediatas conseqüências tecnológicas, foi o da
eletricidade, ou melhor, o do eletro-magnetismo;305
No século XIX, a química viria a ser umas das mais vigorosas de todas as ciências,
apesar de seus métodos continuarem sendo em grande parte os do século XVIII;306
O marxismo, a mais abrangente síntese das ciências sociais, vem de duas revoluções:
- A primeira: a inovação dos racionalistas clássicos que haviam demonstrado que
algo como leis logicamente compulsórias era aplicável a consciência e ao livre arbítrio
humano( por exemplo: lei da oferta e procura), cujo primeiro triunfo foi a economia política;
- A segunda: que está ligada ao romantismo foi a descoberta da evolução
histórica( que estava inserida na idéia de progresso dos socialistas e dos liberais clássicos);
As ciências sociais tiveram algo inteiramente novo: a descoberta da história como
um processo de evolução lógica, e não simplesmente como uma sucessão cronológica de
acontecimentos. Assim, o que veio a se chamar sociologia nasceu diretamente da crítica ao
capitalismo. (a palavra sociologia foi inventada por volta de 1830 por Augusto Comte, que
começou sua carreira como secretário de Saint Simon- cujas idéias Hobsbawm considera não
fáceis de classificar, mas que seria pedante de sua parte em face da tradição não considerá-lo
socialista utópico);308
A criação da História como uma matéria acadêmica talvez seja o aspecto menos
importante desta historiografia das ciências sociais. Uma epidemia de historiadores surgiu na
primeira metade do século XIX;309
Em 1809, Lamarck, da França, propôs a primeira teoria moderna e sistemática da
evolução, baseada na herança de caracteres adquiridos, mas todas as teorias evolucionistas da
época obtiveram triunfo, logo enfrentaram a apaixonada resistência, baseada em causas
religiosas, dos Tories( membros partido conservador na Inglaterra)312
Com a famosa obra de Lyell, Princípios de Geologia(1830-33), as amadurecidas teorias
da evolução irromperam na geologia, pondo fim a resistência dos netunistas, que
sustentavam, com a Bíblia, que todos os minerais haviam surgido das soluções aquosas que
em certa época cobriram a terra(cf. Gênesis I, 7-9) e dos catastrofistas, que seguiam a desesperada
linha de argumentação de Cuvier, fundador do estudo sistemático dos fósseis, que rejeitava a
evolução em nome da Providência Divina. Seria melhor até mesmo imaginar uma série de
catástrofes na história geológica, seguida por uma série de recriações divinas - era difícil
considerar a mudança geológica como distinta da mudança biológica - do que intrometer-se com a
rigidez da Sagrada Escritura e de Aristoteles;312
O período da revolução dupla pertence a pré-história de todas as ciências sociais, com
exceção da economia política, da lingüistica e talvez da estatística. A firme construção de
bases cientificas para o estudo da sociedade humana, e também com a antropologia, da pré-
história, da sociologia e da psicologia, ocorreria apenas após 1850, apesar destes campos terem
sido batizados em nosso período;314
Nessa época também aprofundou-se o estudo e teorias para compreender as diversas
raças. Dividiu-se em dois grupos: um defensor de uma origem única, o outro que incluía não
só cientistas de boa fé, mas também racistas escravistas provenientes dos EUA. Houve uma
explosão de estudos coletando, medindo e classificando crânios;314
Também introduziu-se tópicos igualmente perigosos relativos às características raciais ou
nacionais na sociedade. Na década de 1820, os irmãos Tierry, historiadores e revolucionários
franceses lançaram estudos defendendo que o povo francês descendia dos gauleses. O que se
adequava perfeitamente em uma época em que os homens pretendiam descobrir a
romântica e misteriosa individualidade de suas nações para reivindicar missões messiânicas
para elas se fossem revolucionários, ou para justificar sua riqueza e poderio como decorrente
de uma superioridade inata. Mas os piores abusos das teorias racistas ocorreram após o final
de nosso período;315
Com isto não queremos dizer que, na França ou em outros países, os cientistas fossem
particularmente revolucionários. Alguns deles o eram. Por outro lado, em comparação com os
artistas e filósofos, os cientistas especialmente os cientistas naturais - demonstravam um
grau muito baixo de consciência política, a menos que seus estudos exigissem outra coisa;316
No todo, o caminho romântico serviu como um estímulo para novas idéias e pontos de
partida, que foram posteriormente e mais uma vez abandonados pela ciência. Sua consciência de
que a visão racionalista proporcionou grandes empreendimentos na ciência e na sociedade, mas
ainda era limitada. Estar consciente destes limites e buscar, freqüentemente através da intuição
e não da análise, os termos com que se poderia construir um quadro mais satisfatório do
mundo não era realmente construí-lo. Nem as visões de um universo evolutivo, interligado e
dialético, que os filósofos naturais expressavam, eram provas ou mesmo formulações adequadas.
Mas em nosso período não pode ser desprezado, pois antecipavam as transformações e ampliações
do mundo das ciências que vieram a produzir nosso moderno universo cientifico;319
Marx e Engels reconheceram ter francamente um débito com a filosofia natural;319
Não podemos subestimar um movimento que captou e influenciou homens do mais alto
calibre intelectual, como Goethe, Hegel e o jovem Marx;

XVI - CONCLUSAO: RUMO A 1848

Esses 50 anos foram os mais revolucionários da História:


- A área em intercomunicação no mundo era incomparável;
- A comunicação era incrivelmente mais rápida;
- A população aumentou enormemente;
- Cidades de grande tamanho multiplicaram-se;
- A produção industrial atingiu cifras astronômicas;
- O comércio internacional multiplicara 4 vezes;
- As ciências nunca fora tão vitoriosa;
- Mais de 4 mil jornais no mundo;
- Centenas de milhares de livros publicados anualmente na Grã-Bretanha, França,
Alemanha e EUA;
- Ferrovias, serviços regulares de navio a vapor entre América, Europa e
Índias;322

Apesar das mudanças, na década de 1840:


- Maioria da população continuava sendo camponesa, mesmo na Grã-Bretanha
população urbana ultrapassou a rural apenas em 1851
- Proporcionalmente menos escravos, pois seu comércio internacional fora
oficialmente abolido em 1815, e a escravidão nas colônias britânicas fora abolida em 1834 e,
nas colônias francesas e espanholas, durante a Revolução Francesa. Mas a escravidão
continuava a expandir-se nos EUA e no Brasil;323
- Servidão ou vínculo legal dos camponeses a gleba fora abolida na maior parte
da Europa. Entretanto a servidão persistia nas principais fortalezas, apesar de estar em declínio.
Na Áustria foi abolida na revolução de 1848 e na Rússia em 1861;
- Exceto em países de revolução camponesa direta, como França e EUA, a
posição da aristocracia proprietária de terras mudou muito menos do que se poderia pensar. Na
Grã-Bretanha, na década de 1840, as maiores concentrações de riqueza ainda eram
certamente as dos nobres.

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- Mas os rendimentos dos nobres dependiam cada vez mais da indústria, dos
valores e das ações, e do desenvolvimento das fortunas da desprezada burguesia;324
- A monarquia ainda continuava sendo avassaladoramente o modo mais
comum de governo, com exceção do continente americano;
- E a monarquia absoluta continuava a prevalecer em toda a parte; apesar de
vários países terem implantado uma monarquia constitucional;325
A revolução de 1830 introduziu constituições moderadamente liberais e
antidemocráticas mas também claramente antiaristocráticas - nos principais estados da Europa
Ocidental. Na Grã-Bretanha, o receio da classe média de uma revolta de massa levou-a a
transigir que o governo ficasse super-representado pelos proprietários de terras, mas estes
sabiam que estavam na defensiva, tanto que os industriais conseguiram aprovar o que queriam
depois de 1832; a capacidade de abolir as leis do trigo(1846) em defesa do livre comércio valia
a renúncia de propostas republicanas mais extremadas;326
Não havia dúvidas de que a classe média na Europa Ocidental estivesse em ascensão;
Apenas na política internacional é que se tinha havido uma revolução na aparência e
virtualmente total. O mundo da década de 1840 era completamente dominado pelas potências
européias e mais o EUA, política e economicamente. A Guerra do Ópio de 1840 demonstrava
que a única grande potência não européia sobrevivente, o Império da China, estava inerte em face
de uma agressão econômica do Ocidente;326(revisar no livro)
A supremacia britânica era tão absoluta que mal necessitava de um controle político
para funcionar, não restavam quaisquer outras potências coloniais, exceto com a conivência
britânica. Nunca, em toda a História do mundo, uma única potência havia exercido uma
hegemonia mundial como a dos britânicos na metade do século XIX, pois mesmo os maiores
impérios do passado tinham sido meramente regionais - como no caso dos chineses, dos
maometanos e dos romanos;327
Contudo, o futuro declínio da Grã-Bretanha já era visível. Observadores inteligentes,
mesmo na década de 1830 e 1840, como Tocqueville e Haxthausen, já previam que o tamanho e
os recursos potenciais dos EUA e da Rússia viriam a transformá-los nos gêmeos gigantes do
mundo;
Dentro da Europa, a Alemanha(como previu Engels em 1844) logo viria também entrar na
competição em termos iguais. Apenas a França havia decisivamente se retirado da competição
pela hegemonia internacional;327
O mundo da década de 1840 se achava fora de equilíbrio. As forças de mudança
econômica, técnica e social desencadeadas nos últimos 50 anos não tinham paralelo. Tinha a
consciência generalizada que estava por haver uma revolução social iminente;327(revisar no
livro)
A crise da década de 1840 gerou receio nos próprios capitalistas acerca do futuro e
possibilidade de continua expansão do capitalismo. Os próprios teóricos do capitalismo eram
perseguidos pela possibilidade do estado estacionário, do estancamento da força motriz que
levava a economia a adiante, e que(ao contrário dos teóricos do século XVIII e os do período
subsequente) acreditavam ser algo iminente. Contudo o que se seguiu foi o mais rápido período
de expansão e vitória do capitalismo;329
Quanto ao povo sua condição nas grandes cidades empurrava-os inevitavelmente em
direção a uma revolução social. Seu ódio aos ricos e aos nobres e daquele mundo amargo que
viviam, somado aos ensinamentos da Revolução Francesa de que os homens comuns não
necessitavam sofrer injustiças e se calar, davam ao seu desespero um propósito;329
A revolução de 1848 foi o insurgimento dos trabalhadores pobres nas cidades,
especialmente nas capitais, da Europa Ocidental e Central. Foi unicamente a sua força que fez
cair os antigos regimes desde Palermo até as fronteiras da Rússia. Quando a poeira se assentou
sobre suas urinas, os trabalhadores - na França, de fato, trabalhadores socialistas - eram vistos de
pé sobre elas, exigindo não só pão e emprego, mas também uma nova sociedade e um novo
Estado;329(revisar no livro)
Na Inglaterra e Na Bélgica, onde as transformações de 1830-2 haviam dado
supremacia para os industriais, e ainda que tenham havido vários conflitos entre industriais e
agrários, estas puderam ser resolvidas sem a necessidade de uma revolução, o que deveria ser
evitado a qualquer custo. E, por isso, embora a região de Flandres estivesse em muito piores
condições em termos de sofrimento humano que o resto da Europa Ocidental, exceto a
Irlanda, na Bélgica não houve revolução, como também não houve na Inglaterra;330
Mas, na Europa absolutista, a rigidez dos regimes políticos de 1815, que foram
projetados para rechaçar toda mudança de teor nacionalista ou liberal, não deixaram
qualquer escolha até mesmo para o mais moderado dos oposicionistas, a não ser a do status
quo ou da revolução. Mas ao contrário dos países liberais, os conflitos políticos relativamente
menores dentro dos regimes absolutistas se transformaram em vibrações políticas importantes;
Teoricamente, a França de Luís Felipe devia ter partilhado da flexibilidade política da
Grã-Bretanha, da Bélgica, da Holanda e dos países escandinavos. Na prática, isto não aconteceu,
pois:
- classe governante da França - os banqueiros, financistas e um ou dois grandes
industriais;
- industriais mais dinâmicos excluídos;
- Receio de aumentar o direito de voto, devido perigo jacobino;
- Guizot preferiu deixar que o natural aumento de proprietários(condição para
voto), aumentasse o número de eleitores;
- Oposição inicia campanha política pública, por meio de discursos em
banquetes;
- A partir de 1840, péssimas colheitas em toda Europa(Na Irlanda, Flandres e
Silesia morre-se de fome), preço de alimentos sobe;
- recessão leva a demissão e desemprego nas cidades;
- operários do Norte da França vingavam-se de seu desespero nos igualmente
desesperados imigrantes belgas que invadiam aquelas região, em vez de se vingarem contra
o governo ou mesmo os empregadores;
- cataclismo econômico europeu coincidiu com a visível corrosão dos antigos
regimes;
Raras vezes a revolução foi prevista com tamanha certeza, embora não fosse
prevista em relação aos países certos ou as datas certas;
- Em 1831, Victor Hugo escrevera que já ouvia o “ ronco sonoro da revolução,
ainda profundamente encravado nas entranhas da terra, estendendo por baixo de cada reino da
Europa suas galerias subterrâneas a partir do eixo central da mina, que é Paris “ .
- Em 1847, o barulho se fazia claro e próximo, em 1848, a explosão eclodiu;

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