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PRA_LER_20

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Jornal laboratório do curso de jornalismo da UPF
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02/08/2013

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OUTUBRO

FABIO TOMBINI

entrevistas

“(...) Usando drogas eu me sentia extremamente feliz, criava-se uma felicidade imediata que era proporcional a todas as outras pessoas que estavam junto comigo e que eram usuárias de drogas como eu.”

u PÁG 9 e 10

José Vargas O maior entre todos os festivais musicais fincou os pés na história mundial deixando marcas nos sonhos da juventude que se seguiu aos pedidos de paz e amor.

u PÁG 11
música

Miles Davis

A profusão de improvisos que mudou o curso do Jazz completa cinquenta anos

+++ crônicas +++

Felizes para quando
“Agora ela vive rodeada de unguentos Renovare, poções Avonus, olhos de lagartixa, pelo de camelo, intestinos de rato e outros ingredientes estranhos (...)”

...e outras

+

u PÁG 19

“Pequenas coisas” simplesmente surgem a nossa frente, carregando em si a possibilidade de levar boas novas aos corações, apenas por sua bela existência.”

Sinal de tempo bom

Mapa da Mídia Faro Fotojornalismo

+
MAIS

Mateus Rodighero

“A gente misturava esterco de cavalo com pimenta, só de sacanagem, pra zoar com os caras. Eles compravam. A gente fechava, enrolava como um baseadinho: colocava fumo, a pimenta preta e o esterco de cavalo. Eles pensavam que aquilo era droga.”

página 2
FALE COM O PRALER

PRALER
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Críticas ou Sugestões: agenciaj@upf.br

agenda
Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo
Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo O Instituto Ayrton Senna promove o 10º GP Ayrton Senna de Jornalismo. A iniciativa, em parceria com a Maxpress e a TV1 Comunicação e Marketing, tem como objetivo reconhecer e estimular jornalistas e veículos de comunicação que desenvolvem produtos jornalísticos que evidenciam a importância da educação na construção da sociedade. De abrangência nacional, a premiação contempla trabalhos que: - colocam em evidência os problemas e desafios da educação; - descrevem experiências e iniciativas bem sucedidas no campo da educação; - demonstram o impacto, a longo prazo, da educação em áreas como política, economia, saúde, cultura, meio ambiente e cidadania. Nesta edição, o GP de Jornalismo distribuirá prêmios no valor total bruto de cem mil reais (dividido em cinco) categorias Jornal, Revista, Televisão, Rádio e Internet. Poderão ser submetidos ao Grande Prêmio trabalhos realizados por jornalistas. Nas categorias Jornal, Revista, Televisão e Rádio só serão aceitos trabalhos publicados e/ou transmitidos por veículos afiliados às entidades representantes destas categorias. As inscrições podem ser realizadas até 31 de dezembro de 2009. Para mais informações, acesse: http://senna.globo.com/ institutoayrtonsenna/br/default.asp

editorial
Mudança de pauta
O primeiro PraLer/Zer que deixa a gráfica neste segundo semestre de 2009 traz como principal ingrediente de seu recheio a profusão de sons, cores, formas e personalidades em congregação que compôs o maior entre todos os festivais musicais: Woodstock. Marcando com um imenso ponto de exclamação aquele 1969 – e por que não as revolucionárias décadas de 50 e 60, que numa convergência de amadurecimento social e revolta, desbravaram os caminhos para a oposição aos dogmas tradicionais; para igualdade civil perante a lei; para a arte marginal; para o antibelicismo; para a liberação sexual; para a expansão da consciência;... que culminariam com a reunião pacífica de meio milhão nas pastagens da fazenda de Max Yasgur, em Bethel, Nova York –, o festival seria o maior ícone de uma juventude libertariamente sonhadora, transviada aos acordes do rock’n’roll, instigada pelas palavras de ordem/ protesto dos astros folk, maravilhada pela beleza poética das ruas, entorpecida pelas cores cintilantes dos alucinógenos. Nesta 20ª edição do PraLer/ Zer celebramos estes jovens, estes marcos de uma (r)evolução cujos respingos ainda resvalam na atualidade, propondo, justamente, realizar um paralelo entre passado e presente. Conservando as evidentes diferenças, a juventude ainda mantém os mesmos interesses dessa geração que já foi para os anais da história e hoje rememora seus belos tempos de rebeldia juvenil do conforto do sofá da sala de estar decorada com os proventos de trabalhador da sociedade de classes? Música, liberdade, igualdade, amor, paz, sexo e transgressão ainda povoam o imaginário. O sonho não acabou, mesmo assim, pode ser relembrado – até mesmo por aqueles que não o viveram. Adentre a um fantástico mundo de tons psicodélicos vibrantes num Especial realmente especial, com o perdão da redundância, sobre estes três dias de paz e música. Ainda complementam o PraLer/Zer 20 um Faro caprichado, com dicas de livros capazes de tirar o fôlego a cada novo vocábulo desvendado; filmes imperdíveis e discos de extremo bom gosto. Além disso, para os futuros e jornalistas de plantão, as páginas 02 e 03 reservam espaço para informações sobre o mundo midiático, questões em pauta, lançamentos e oportunidades para estudantes. Completam este periódico da Faculdade de Artes e Comunicação suas já tradicionais e plurais crônicas e duas entrevistas: uma revela o perfil de um ex-hippie que na lucidez do amadurecimento defende a busca pela abertura das portas da percepção sem o uso de drogas, a outra paradoxalmente desvenda a submersão nesse universo das drogas sem censura ou exacerbação de seus efeitos encantatórios, através do relato literalmente ácido de uma juventude transviada. Agradecemos a todos os alunos e ex-alunos que colaboraram com suas produções textuais, sugestões, dicas, críticas e elogios. Aguardamos esperançosamente sua colaboração, através do e-mail agenciaj@upf.br! O PraLer/Zer está de páginas abertas - para aqueles ávidos por histórias e para receber em tinta mais histórias. Boa Leitura Equipe AgexJ

OUTUBRO 2009 Nº20

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Prêmio Unimed – Edição Especial Federação PR
O Prêmio Unimed de Jornalismo tem como propósito estimular profissionais e acadêmicos a produzirem reportagens sobre a saúde pública. Serão premiados os primeiros lugares nas categorias: profissional (R$ 4 mil) e acadêmico (R$ 1 mil) - nas subcategorias TV, Rádio e Jornal/ Revista. As inscrições vão até 1º de novembro. Mais informações em http://www.unimed. com.br/premiounimeddejornalismopr ou pelo telefone 41 3219-1488.

nestaedição Falando de jornalismo Crônicas

Prêmio financia pauta proposta por estudantes
O “Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão”, promovido pelo Instituto Vladimir Herzog, está selecionando a melhor pauta acerca do tema “Garantir o Direito à Justiça e o Direito à Vida”. A proposta selecionada terá sua execução custeada pelo instituto, além de receber a indicação de um profissional como tutor e ser veiculada em veículos apoiadores do projeto. O período de inscrições vai até o dia 02/10, através do site: http://www. vladimirherzog.org/Instituto_Vladimir_ Herzog/jovemjornalista.html

02 a 03

Woodstock: 40 anos depois
Especial comemora os 40 anos do maior festival de rock.

Entrevista

09 e 10

Música Faro

04 a 08

12 a 18

19 e 20

Remontando os anos 60 sob as lentes da experiência...
Entrevista com José Vargas

21 e 23 24

Fotojornalismo

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Pra Ler/Zer é uma publicação mensal do curso de Jornalismo da FAC Editor: João Carlos Tiburski (RP 662628-36), Editor Gráfico: Luis A. Hofmann, Conselho Editorial: João Carlos Tiburski, César A.A. dos Santos, Luis A. Hofmann, Cassiano Del Ré, Sônia Bertol, Olmiro Cristiano Lara Schaeffer, Bibiana de Paula Friderichs, Otávio Klein, Fábio Rockenbach, Cássia Paula Colla, Maria Teresa Weidlich, Júlia Fedrigo de Albuquerque, Pablo Tavares e Renato Brito. Projeto gráfico-editorial: João Carlos Tiburski, Luis Hofmann e Fábio Rockenbach. Editoração gráfica/Agência Experimental de Jornalismo: Fábio Rockenbach / Cássia Paula Colla Revisão: Sabino Gallon Universidade de Passo Fundo: Reitor: Rui Getúlio Soares; vice-reitora de Graduação: Eliane Colussi; vice-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação: Hugo Tourinho Filho; vice-reitora de Extensão e Assuntos Comunitários: Adil de Oliveira Pacheco; vice-reitor administrativo: Nelson Germano Beck, diretor da FAC: César A.A. dos Santos, coordenadora do curso de jornalismo: Sônia Bertol. Agência Experimental de Jornalismo, Faculdade de Artes e Comunicação, Campus I, Bairro São José, Fone (54) 33168489, CEP 99001-970, Passo Fundo, RS, Brasil. Colaborações pelo e-mail agenciaj@upf.br. Somente publicamos trabalhos inéditos. Os conteúdos dos textos publicados são de inteira responsabilidade dos autores.

mapadamídia
COLABORE

JORNALISMO

Na TV, no rádio, jornal ou revista: fique de olho na mídia e envie sua colaboração para agenciaj@upf.br

da redação

CEnsurA no EstAdão
O conceito geral de censura remete à ditadura, tempos sombrios onde o AI-5 prendia e fechava redações por todo território nacional. Acreditamos que ela não irá voltar, certo? Errado. Infelizmente a censura ainda dá sinais de vida e assombra a liberdade de expressão, tão exaltada e ardorosamente defendida há poucas semanas pelos magistrados que votaram contra a exigência de diploma ao jornalismo. No mês de julho, o jornal Estado de São Paulo foi proibido, conforme ordem judicial impelida pelo desembargador Dácio Vieira, de transcrever qualquer trecho das gravações da Operação Boi Barrica. Orquestrada pela Polícia Federal, ela investiga as contas e negócios de Fernando Sarney, filho de José Sarney, sob a alegação de que o processo corre em segredo da justiça. A decisão não afeta somente ao Estadão, estende-se a qualquer veículo que publicar as conversas obtidas nas escutas telefônicas, instalando dessa forma uma censura prévia. Bem, vou exercitar o meu pleno direito de liberdade de expressão e listar alguns fatos. Primeiro: essa “chuva” de denúncias aos Sarneys instalou uma crise, não somente no Senado como em todo cenário político nacional. Segundo: a inusitada candidatura de José Sarney para a presidência do Senado, já prevendo a “tempestade”, facilitaria o encobrimento dos negócios do filho. Terceiro: sabe-se que o desembargador Vieira era consultor jurídico do Senado e teve sua nomeação para o Tribunal de Justiça do Distrito Federal pleiteada com o apoio de vários senadores e políticos. Esse episódio chega a ser uma afronta à inteligência de toda a nação, mais um

Religião é discussão: a opinião de uma leitora à crônica “Deus do Nada” (PraLer 19)
Prezados membros do Conselho Editorial e Sr. Gilberto Bernardi Jr.! Há um mês, aproximadamente, recebi a edição de junho do jornal PRALER. Como faço todos os meses, fiz a leitura quase integral da edição, motivo pelo qual quero parabenizá-los pelo trabalho feito, não só neste mês como nos anteriores. Desde que conheço o jornal, foram muitos os momentos de agradável leitura, absorção de conhecimentos, opiniões, entretenimento e reflexões que experimentei. Meus parabéns e continuem com esse trabalho. Com certeza eu deveria ter escrito antes, mas temos o mau hábito de nos manifestarmos apenas quando algo não nos agrada, ao invés de valorizarmos e elogiarmos as experiências positivas que os outros nos proporcionam. Eu não sou diferente! Me perdoem por isso. Resolvi escrever justamente porque, pessoalmente (e é importante que isso fique bem claro), considerei muito equivocada a inclusão da crônica O DEUS DO NADA na edição do mês de junho. Desde que a li, fiquei me questionando: - isso é liberdade de expressão? Se eu disser que achei absurda a forma como o autor se refere à Deus, estarei indo contra esse direito (de se expressar livremente)? - por que tanta agressividade com as outras pessoas? Afinal, o texto não está agredindo a Deus e, sim, os milhões de indivíduos espalhados pelo mundo e que acreditam em Deus, seja ele quem for e de que origem for... O Sr. Gilberto Bernardi Jr, ao escrever, critica tanto a Deus por sua imponência, imposição, despreocupação com os homens, incapacidade de fazer as coisas boas (para ele, Deus só fala e obriga-nos a obedecer) e, surpreendentemente, o próprio Gilberto assume a mesma postura, investido do poder que o meio de comunicação lhe proporciona. O seu texto, Sr Gilberto Bernardi Jr., é a prova de que nós decidimos por nossa própria consciência, que nós agimos por nossa própria cabeça, mãos e braços. E o que fazemos pode atingir, para o bem ou para o mal, muitas pessoas que estão ao nosso redor. Mas, ao invés de assumirmos essa condição e essa responsabilidade, é mais simples terceirizarmos para outros, principalmente para Deus, que, como você disse, não tem voz, não responde, não aparece. Por isso sugiro que não espere por Deus para que as coias boas aconteçam no nosso mundo. Elas dependem infinitamente mais de nós do que Dele. Não acho que as pessoas devem ser reprimidas do seu direito de se manifestar, de reclamar, de criticar. Mas vejo que o alvo, dessa vez, foi o errado. Há muito que se questionar sobre as igrejas, as instituições, suas histórias, algumas de suas invenções e ritos e, principalmente, os homens que delas fazem parte e que, por vezes, as manipulam ao seu bel prazer. Criticar a Deus, levianamente e com aparente desconhecimento, não constrói nada de positivo, ao meu ver, pois o que ganharemos com um povo descrente, desesperançoso e sem fé? Uma boa semana a todos e obrigado por esse espaço para que eu, leitor assíduo do PRALER, possa me manifestar. Um abraço, Giezi Schneider Respondemos na ocasião à Giezi salientando que liberdade de expressão podia ser reconhecida, justamente pelo fato de o sr. Gilberto Bernardi poder se pronunciar, independentemente de suas crenças ou das de outrem - e, igualmente, pelo poder dela própria de poder manfiestar sua opinião. Giezi Schneider faz o certo: contesta e pede pelo espaço para ser lida. No fundo, todo texto publicado em meio impresso parece ser uma voz sem oposição, porque não permite réplica imediata e isso nos frustra. Nós também já nos frustramos quando o sr. Gilmar Mendes afirmou que jornalista e chefe de cozinha não tinham muita diferença, e que não era preciso formação para ser jornalista porque é uma profissão que não provoca celeumas na estrutura social. Que grande falta de conhecimento da história do país achar que o jornalismo não influencia na sociedade, ou de outro lado, que grande hipocrisia... É da troca de opiniões que é feita a formação de ideias baseada em argumentos e posições de lados contrários. Pretendo dar voz a ambos os lados, antes de querer convencer este ou aquele de que seu ponto de vista é correto. Essa atitude, nós já aprendemos, não rende frutos numa discussão envolvendo crenças pessoais.

acontecimento de oportunismo político, um claro caso de protecionismo. Quais são os critérios? Se a Polícia Federal liberou trechos das gravações à imprensa, por que a Justiça não liberou que publicassem? Será que os culpados serão realmente julgados? Será que realmente irá valer a imparcialidade dos puros e idôneos responsáveis pela punição? Mesmo que deva valer a Constituição, que a democracia esteja instalada há anos no país, a impressão é de que tudo irá acabar em pizza novamente. Mas não podemos parar de lutar. A função primordial do jornalismo é mostrar os fatos à opinião pública, sem que nada seja censurado. Não podemos deixar que eles, no alto de suas prepotências e blindados por suas togas e demagogias, abalem com nossa crença. Se isso não aconteceu nos sombrios anos da ditadura, não será agora. uMarcus Vinícius Freitas Acadêmico de Jornalismo II Nível

"70 Lições de Jornalismo"
do ex-ombudsman da Folha da Tarde
Roberto Hirao, ombudsman do periódico Folha da Tarde entre os anos de 1992 e 1994, está lançando o livro 70 Lições de Jornalismo: Colunas do ombudsman da Folha da Tarde, pela editora Publifolha. A coletânea de textos, publicados durante esses dois anos de trabalho no jornal vespertino do Grupo Folha, com observações críticas e rigorosas sobre o seu conteúdo jornalístico, registra episódios marcantes da recente história nacional: o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, o caso da Escola Base, a morte do piloto Ayrton Senna e a campanha do tetracampeonato mundial da seleção brasileira de futebol, entre outros. Ilustrada com manchetes e charges que ocuparam as páginas da publicação, a obra do experiente jornalista, cuja carreira foi iniciada no jornal Última Hora e se consolidou nos diversos veículos da Folha, recorre ao panorama histórico para reafirmar a importância da atividade do ombudsman para a boa informação. uLivro: 70 Lições de Jornalismo: Colunas do Ombudsman da Folha da Tarde Autor: Roberto Hirao Nº de páginas: 216 Editora: Publifolha

Apesar de decisão do STF, concursos públicos exigem diploma
O fim da exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão ainda não atingiu a maioria dos órgãos públicos. Dos oito concursos abertos atualmente, todos exigem graduação específica. Os valores pagos estão entre R$ 1.090,46 e R$ 6.611,39. Os órgãos com inscrições abertas são: Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região (CE), Prefeitura de Caucaia (CE), Agência de Fomento do Estado do Amazonas, Câmara de Vereadores de Lajes (SC), Conselho Regional de Nutricionistas – 1ª Região, Companhia Pernambucana de Saneamento, Prefeitura de Santo Antônio do Monte, Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia. No total os concursos oferecem 20 vagas, oito efetivas e 12 para cadastro de reserva. O concurso que oferece a maior remuneração é o do Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região, no Ceará. Para o cargo de Analista Judiciário, especializado em Comunicação Social, o salário é de R$ 6.611,39. Em julho, logo após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o edital da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), empresa vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, foi alterado e passou a não exigir diploma para o cargo de analista em Comunicação Social. Iniciativa contrária à da FINEP foi adotada pela Câmara Municipal de Maceió. No início desta semana, a Casa aprovou a obrigatoriedade da graduação em Jornalismo para a contratação de servidores pelos poderes Executivo e Legislativo da cidade. A lei se aplica aos cargos de comissão, jornalismo, publicidade e relações públicas, e espera apenas a sanção do prefeito para entrar em vigor.

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CRÔNICA

Felizes para quando?
O que não se publica nos contos de fada
Bruno Philipsen u Acadêmico de Jornalismo II Nível

oi lentamente que os dois se transformaram. Uma risadinha maligna dela aqui, uma respiração mais quente dele ali; uma verruguinha que surgiu no nariz dela, umas escaminhas nos braços dele; um gosto exagerado por vassouras que ela começou a desenvolver, um gosto exagerado por espadas que ele começou a perder; um vestido que já não mais entrava nela, uma armadura que já estava pequena para ele; a transformação dos lindos passarinhos dela em macacos alados, a transformação do nobre cavalo dele em almoço, e assim por diante. Dessa maneira, anos depois do início da felicidade, a princesa acordou em um belo dia e teve de pedir a um espelho se ela ainda era a mais bela do reino e o príncipe, depois de muita dificuldade para sair do quarto, queimou toda a mobília com um simples bocejo. Ao mesmo tempo em que iam se tornando bruxa e dragão, os desentendimentos aumentavam. Desde que ele devorou as criadas, o castelo tornou-se obscuro e sujo. A bruxa, cansada de ter de fazer todo o serviço do castelo - incluindo recolher a pele dele

F

“Agora ela vive rodeada de unguentos Renovare, poções Avonus, olhos de lagartixa, pelo de camelo, intestinos de rato e outros ingredientes estranhos (...). Ele amontoou seu tesouro no calabouço e dorme rodeado de ouro, com a grande barriga para cima, sonhando com cavaleiros bem passados e cavalos torradinhos”

que agora trocava mensalmente e não era capaz nem de recolher do chão, ou os fêmures humanos com que ele vivia no canto da boca e usava para palitar os dentes e fazer estalos desagradáveis - decidiu mudar-se para a torre mais alta do castelo. O dragão procurou, então, o calabouço mais profundo e lá se aninhou. Agora ela vive rodeada de unguentos Renovare, poções Avonus, olhos de lagartixa, pelo de camelo, intestinos de rato e outros ingredientes estranhos, como máscaras faciais de pepino, cremes redutores de expressão de babosa, ou contra celulite com cafeína, etc., sonhando com a princesa que fora, enquanto trama planos malignos envolvendo maçãs, rocas e venenos. Ele amontoou seu tesouro no calabouço e dorme rodeado de ouro, com a grande barriga para cima, sonhando com cavaleiros bem passados e cavalos torradinhos, nem ligando para o seu colesterol alto, que já lhe rendeu cinco pontes de safena. Mas essas informações não estão nos contos de fada, devido a uma política editorial muito conservadora nesse gênero. Está tudo na Condigo! do mês de agosto, onde você pode conferir também o escândalo envolvendo o Lobo-Mau e vídeos pornográficos infantis encontrados em sua toca.

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CRÔNICA

Sinal de tempo bom!
A beleza da vida trazida pelo ar
Júlia Fedrigo de Albuquerque u Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da AgexJ

raminho no bico. Estava a poucos centímetros. Caminhava de um lado para o outro numa paz sem igual. Não se incomodava com a intrusa que o admirava sem cerimônias. Apenas continuava a dar seus passinhos saltitantes. Definitivamente, sinal de tempo bom! É clichê, mas, realmente, é preciso valorizar as pequenas coisas. Aquele momento singelo, aquela “pequena coisa” aproveitada em sua beleza me deu ânimo. De modo entusiasmado

reiniciei o dia com espantosa alegria. Mas não sem pensar acerca de quantas vezes essas “pequenas coisas” simplesmente surgem à nossa frente, carregando em si a possibilidade de levar boas novas aos corações, apenas por sua bela existência, e não somos capazes de enxergá-las, passamos por elas egoístas, imersos em nossos mundos, às vezes nem tão “grande coisa” assim. Essa beleza nos rodeia, e percebê-la nos faz bem, mas quão difícil não é fazê-lo?

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o torpor de uma manhã, que há pouco iniciava com o abrir dos olhos relutantes em encontrar a luz, a preguiça tomava conta. Todo o ambiente estimulava uma nova acolhida ao travesseiro. Entretanto, por um instante de lucidez responsável a ecoar na cabeça um reticente ‘acorde, levante, vá fazer algo de útil!’, todo o peso do corpo dormente é jogado para fora do aconchego dos lençóis para o novo dia. Nesse momento, em que a incapacidade de raciocinar domina, algo como a sensação do corpo desligado da mente, enquanto um executa movimentos aprendidos com o exercício diário e mecanicamente repetidos, o outro aguarda a, por vezes dolorosa, sensação dos raios luminosos encontrando diretamente o olhar, sem pálpebras, cortinas ou persianas para evitálos, para definitivamente soar o despertador interior. Nesta manhã, essa sensação era ainda mais pungente que o comum, um provável fruto de uma noite insone que despejou sobre o amanhecer a responsabilidade de embalar os sonhos. Um misto de mau humor, sono e preguiça dominam. Abro a persiana, enquanto o barulho parece ensurdecedor, o sol se revela aos poucos. Brilhava magistral em um tom dourado no límpido céu azul, como havia dias que não fazia. O cansaço me arremessa contra o colchão novamente. Sinto o aquecimento do rosto, fecho os olhos e tons avermelhados dão lugar à escuridão habitual provocada por este ato. Permaneço ali, inerte. Não mais que de repente, ouço o canto de um pássaro. Mas este tinha algo de especial. Soava mais nítido, mais alto, enfim, mais próximo. Ele me tira da viagem pelo nada e me traz de volta para o aqui, para o agora. Olho, através da janela, o pequeno ser de penas marromacinzentadas que carregava um

N

‘pequenas coisas’ simplesmente surgem a nossa frente, carregando em si a possibilidade de levar boas novas aos corações, apenas por sua bela existência

Ela está na menina que com sorriso indiscretamente encantador se senta ao lado num velho ônibus para o destino habitual e lhe pergunta qual o seu nome, elogiando-o na sua simplicidade pueril e emendando o seu a espera de um “mas que nome lindo!”. Está nos malabares que cortam o céu negro com sua chama inabalável apesar das gotículas de chuva que caem durante os poucos segundos do sinal vermelho. Está no carinho espontâneo de um abraço apertado. Está no olhar revelador que precede o beijo. Porém, existem barreiras. E, também, criam-se barreiras. Há as que não limitam. E, também, aquelas que o fazem. Naquela manhã, o vidro pelo qual olhava para o pássaro não limitava em nada a percepção da beleza daquele momento, nem seus efeitos sobre a privilegiada espectadora. Talvez até lhe conferisse ainda mais especialidade, afinal sua presença dava ao serzinho um valor sagrado, era algo intocável. Transpor esta barreira era fácil, mas isso denotaria um fim prematuro, pois o faria bater as asas tão logo percebesse a movimentação. Já, as barreiras que impomos no nosso vai-e-vem atribulado são muralhas que bloqueiam a visão, tornando o mundo uma sucessão de microcosmos impenetráveis de “eus”, das preocupações, dos problemas, das dúvidas, das dores, das aflições. Nunca se pode saber quando ou onde algo vai aparecer para tirar a sisudez do rosto e emprestar a ele um sorriso. Logo, estes limites criados tornam o ato de viver uma experiência menos repleta de cores, sons, carinhos, amores,... enfim, de BELEZA pura e genuína! Cabe a cada um, na ânsia por mais ALEGRIA, AVENTURARSE mais, ABRIR-SE mais, SENTIR mais, ARRISCAR-SE mais, INSPIRAR-SE mais,... enfim, PERMITIR-SE mais! Permitir-se enxergar os clichês “pequenas e valiosas coisas da vida”!

CRÔNICA

Não há lugar para todos
Por que algumas profissões são de sucesso e outras não?
Bruno Philipsen u Acadêmico de Jornalismo II Nível

O

que você pensa quando ouve alguém dizer que fulano está feito na vida? Você imagina que o tal fulano faz o quê? Seja franco. Provavelmente ele passou em um concurso público daqueles em que o que se trabalha é inversamente proporcional ao que se ganha e o salário é alto, não é? Ou ele é um médico, engenheiro, administrador, etc. Por que será que dificilmente se dirá a um pedreiro que ele está feito na vida? Ou a um policial militar, a um professor, a um jornalista? Outro exemplo simples e bem visual. Imagine uma propaganda de banco, de seguro de vida ou de marca automotiva. Um homem sai do trabalho, pega o carro e vai buscar seu filhinho em uma escola. Enredo simples. Seja franco novamente. Você imaginou um bonito homem, de terno, saindo do escritório, pegando seu carro do ano e indo a uma escola particular, pegando seu igualmente bonito filho, não é? Por que você não imaginou um pedreiro saindo da construção? Ou um policial saindo de seu plantão para pegar seu filho? Você evocou a imagem bem fresquinha que a mídia produziu, depois de milhares (ou milhões) de propagandas assistidas, em seu inconsciente do trabalhador de sucesso. Por que algumas profissões são de sucesso e outras não? Ser um profissional da construção civil, por exemplo, é inferior a ser, por exemplo novamente, um gerente administrativo? Observe que fato curioso: as profissões com maior remuneração são as com maior tradição política no Brasil. Médicos, engenheiros, advogados, administradores e concursados (são exemplos), desde o império ocupam cargos legislativos, que entre outras coisas definem remunerações, como o salário mínimo, e quais profissões devem ganhá-lo. Estranho que nenhuma dessas profissões ganha o mínimo... Pense comigo: e se todos os jovens no Brasil quisessem

estar feitos na vida e fizessem faculdade para se tornarem médicos, advogados, engenheiros, administradores; ou fizessem concurso público? Quem iria empilhar tijolos, recolher o lixo das ruas, empacotar compras no mercado, organizar depósitos, entregar frutas? Não é maldade, mas é evidente que não há lugar para todos. É simples: alguém tem de estar nessas funções, assim os que as exercem (maioria esmagadora no país) necessitam mais do que urgentemente de melhor remuneração. Concordo que pelo tempo de estudo, um médico deve ser mais valorizado do que alguém que não tem preparo nenhum. Mas e quanto às outras atividades de nível superior? Um jornalista não estudou tanto quanto um engenheiro? Mas qual ganha mais? O ponto central de todo o problema de distribuição de renda no Brasil é este: a super e a infravalorização de atividades. Se um trabalhador braçal ganhasse um salário realmente "capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social", como diz a Constituição Brasileira de 1988, provavelmente o crime não seria uma profissão de tanto sucesso quanto atualmente é.

OUTUBRO 2009 Nº20

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Todos desenvolvem através de suas íntimas peculiaridades uma pequena importância, extremamente significativa, nesse imenso planeta comprimido pelo desejo do ter e do poder. Sempre procuramos um lugar de destaque, mas encontrálo está sendo uma tarefa árdua e escassa.

CRÔNICA

La Dolce Vita!
Pensa-se, de uma forma simples, o cotidiano aqui pincelado com gotículas minuciosas
Maria Teresa Weidlich u Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da AgexJ

realidade remete a imaginação a uma rua qualquer, inundada de pessoas muito preocupadas com o seu ir e vir. Não muito distante dali, um grupo de pessoas é facilmente identificado entre a passagem habitual diária, uma comunidade, uma junção de amigos, uma tribo... Como um lastro de bala que deixa fagulhas no caminho o tempo se encarrega de resgatar para a atualidade aquilo que outrora era chamado de moderno e que hoje

é tratado como objeto de coleção, ou simplesmente velharia, coisas que por um período curto de tempo ficaram para trás e agora são resgatadas com unhas e dentes para profanar em altos brados um elo entre os mortos e os vivos, os objetos motumbos ressuscitam! Ao revirar um destes baús urbanos, um lugar específico, um ponto de encontro onde amigos sentam e tomam cerveja trocando farpas sobre os times de futebol para que torcem ou

ndar pelas ruas hoje em dia significa perambular numa profusão de ofertas e cores que desnorteiam a caminhada... Certa manhã, o vento gritante dos pampas ecoava na face um som estridente que balançava até mesmo os galhos maciços das árvores na praça do outro lado da rua, bagunçando os cabelos, jogando-os para trás. Pessoas caminham apressadas nas primeiras horas da manhã ao tempo que se abrem as portas de correr das lojas revelando as vitrines polvilhadas de artigos mil. O homem de terno, a empregada doméstica, a jovem estudante, o papeleiro, a senhora que passeia com seu cão e o motorista que esbraveja sozinho, estático no sinal. Ambos contracenam em um cenário habitual que pode ser contemplado em qualquer cidade, ou especificamente nesta que estou a retratar. Estão por demais preocupados com suas tarefas diárias que, inevitavelmente, não param para pensar, ou apenas observar o fluxo sutil de informações a que estão expostos. A rota para o trabalho é interceptada por uma visita à revendedora de celulares, passando pela boutique e, enfim, chega-se ao destino. Há um homem pintado de colorido enfeitando o trânsito. E ele não é sinaleira, nem mesmo outdoor, não é panfleto, nem placa de sinalização, mas, sim, um palhaço malabarista, um guerreiro preso ao divã do capital, que cedo inventa uma maneira de sobreviver a mais um dia e, como os personagens anteriores, atua como se estivesse vendado, balançando sobre a corda bamba do asfalto, onde pode a qualquer momento deslizar e cair. Pensa-se, de uma forma simples, o cotidiano aqui pincelado com gotículas minuciosas de tinta fresca antes que ela seque e vire uma moldura bonita para uma parede destemperada. Esta

A

Inspirar-se é como abrir uma janela, abrir os compartimentos de si mesmo e deixar com que as coisas ao nosso redor entrem por entre os orifícios da nossa pele, invadam a corrente sanguínea e provoquem um estrondo dentro de si...

simplesmente apreciando um belo momento em uma conversa casual brindando La dolce vita! Pois bem, dentro desses baús cobertos de colagens, pôsteres, recordações, fotografias reais de pessoas vivas, podemos constatar que apesar das décadas trocarem no calendário muita coisa passa pelas ruas e, ao contrário da informação que a gente vê com os olhos invisíveis e escuta com os ouvidos do inconsciente, elas ficam, permanecem nos modismos das pessoas que transitam, no supermercado, na padaria, no posto de gasolina, dentro dos carros, nas “baladas”, no burburinho onde as coisas acontecem... O fim do mês de julho significa o prenúncio do fim do inverno, igualmente as lojas liquidam seus estoques na disputa acirrada do quem vende mais, as pessoas contam os dias para adentrarem à nova estação com cortes de cabelos novos, roupas novas, espírito renovado e, quem dera, as contas pagas e, até mesmo, os bichos aclimatizam-se ao ambiente que deixa de lado o cinza-azulado dos dias de inverno para dourar-se com o sol em temperaturas um pouco mais elevadas. Torna-se mais compreensível a ideia dos povos celtas de criarem a roda do ano e comemorarem o Sabatt, o ano novo no início de uma nova estação. Pois visualmente tudo se renova, se reinventa, o que está em falta no mercado, digase de passagem, é a ousadia. E esses transeuntes insones, que não se cansam de perambular todo dia pela cidade, estão muito preocupados em combinar o sapato com a bolsa e vice versa e não percebem que isto está fora de moda. Deveriam procurar um meio de inspirarem-se. Inspirar-se é como abrir uma janela, abrir os compartimentos de si mesmo e deixar com que as coisas ao nosso redor entrem por entre os orifícios da nossa pele, invadam a corrente sanguínea e provoquem um estrondo dentro de si, pelos se arrepiam, coração bate em ritmo acelerado, boca quase sem ar, como apaixonar-se por si, dentro de si e, então, refletir no espelho do mundo todas essas sensações que respingam um alívio estarrecedor.

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CRÔNICA

Curta-metragem
Maria Teresa Weidlich uAcadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da AgexJ

Porquês surgem a cada segundo Espelhos

acordadas
Demitem-se

Correm as estações;...

Flores

murcham,

pessoas

nascem

se em pedaços Belezas são construídas

estilhaçam-

Casam-se

Marcas são consagradas

Rompem-se preconceitos
Criam-se conceitos
Reatam-se relações...
Perde-se

Separam-se

Alguns partem para jamais voltar...

Outros voltam de viagem

Festeja-se
Chora-se

Carros são vendidos Cidades são assaltadas
Lixo é produzido E a natureza devastada

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Brinca-se
Soam barulhos na rua

Lembra-se
Esquece-se

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Fotografias isoladas e Caminho guardadas em uma caixa no Sorriso amigos onde tempo eles estão?

Coração

Abusa-se
Inunda-se
Cometem excessos...

Corações se partem
Pessoas se encontram Pestes se dissipam

Aviões caem
Crianças nascem novamente,
Sem pais, com pais, Sem registro ou documento

Não há mapa para achá-los
Não há cifras para tocá-los

telefonam
Viaja-se

Não mais mandam cartas,

Tempo.
Se esvai

Abriga-se Cria-se e então
Evolui-se

Jornais são jogados no em algum canil

Ou servem de adorno

Constrói, lixo desconstrói...
Fala, mente

Idealiza-se Um mundo onde não haja fatalidade
Tristeza, dor ou opressão Grandes morrem

Com casa, comida, amor...

Pacifistas são mortos
Ditadores constroem nações

Pensa, dissimula
Aprende...

Incoerente
Descontente
Infeliz Intransigente

E o homem da rua

Sobrevive...
de fogo

Empunha nas mãos tochas

Amigo, aonde você
quer chegar?

A televisão é ligada
O rádio é O ouvido é surdo

Fracos passam pelos dias

Que dançam ao vento no frio gelado
E não se apagam

sintonizado

Caem no chão
Trabalho, meio de sobrevivência
Bancos quebram

O cavalo é manco
A moça é ingênua

Quando ousei falar de amor
Perdi-me por entre as linhas...

O velho sonhador...

Vencem as hipotecas Pessoas dormem
Em camas, no chão, em carros

Sonham

ENTREVISTA

Uma mente sem limites...
...O “felizes para sempre“, dura o tempo necessário para o efeito da droga se esvair...
u Maria Teresa Weidlich Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da AgexJ

A

s paredes listradas expressam o colorido moderno e antenado, que divide o espaço com móveis estrategicamente posicionados numa pequena sala. A tarde lá fora está daquelas em que os dias de inverno dizem adeus. Muita luz irradiando na cidade. O presságio de uma nova estação é o tema perfeito para uma imersão num universo igualmente vivo. Entretanto, povoado por uma química, neste mundo, denominada “droga” e alucinado com doses excessivas a serem saciadas por um desejo sombrio. Como a decoração do ambiente, o ar vanguardista convivendo com móveis retro, a história que ouço oscila entre o velho e o novo, entre o ontem e o agora e revela uma corda bamba entre a vida e a morte, fazendo a imaginação povoar lugares escuros, onde a consciência se dissolve nas batidas eloquentes da caixa de som e os impulsos nervosos de um coração, que bate uma marcha arrítmica, se desvanecem transfigurando-se na pauta perfeita para descrever uma viagem ao submundo de um inconsciente, onde um transe na vida pode ser facilmente um mote para o além. Nosso entrevistado, Fábio Tombini, tem 27 anos, dos quais dez viveu sob o efeito das drogas. A linha tênue que se apresenta entre o mundo real e o imaginário de uma mente deturpada pelo uso de substâncias químicas pode ser apresentada como parte de uma narrativa que perpassa a história das fugas da humanidade. Fugas estas que não se trata de estratégias engendradas por exércitos de batalha, mas que se baseiam na própria necessidade humana de adentrar em universos perceptivos que a razão desconhece ou, simplesmente, fantasiar uma realidade mais cômoda e alegre, como aquela apresentada no seriado da televisão. Onde um “felizes para sempre” dura o tempo necessário para o efeito da droga se esvair e deixar o corpo como numa casa onde acontece uma festa, quando todos vão embora restam o lixo e a bagunça. Fragmentos de uma ruína

Tem coisas que eu realmente não sei explicar são umas viagens muito loucas.
de si mesmo compõem um quebracabeça entrecortado por memórias provindas de experiências que marcam, desgastam, expandem ou detonam uma mente sem limites, que aos poucos junta cada peça para tentar se reconstruir. outra atmosfera, como se fôssemos superiores ao resto do mundo. Tudo realmente virava uma festa. Nós frequentávamos lugares onde as pessoas iam para usar drogas, principalmente o ecstasy, dançar e se divertir. Eu não conseguia ficar 15 minutos em casa de tanta paranoia (...) Usando drogas eu me sentia decorrente do uso de cocaína extremamente feliz, criava-se injetável. A primeira dosagem eu uma felicidade imediata que era já ficava paranóico, achando que proporcional a todas as outras meus amigos iam chegar e me ver, pessoas que estavam junto comigo e pois eu usava escondido. Eles não que eram usuárias de drogas como aceitavam, achavam muito punk. eu. Sentíamos vontade de nos tocar Um dia eu e um amigo estávamos e éramos transportados para uma usando e resolvemos na loucura ir

de Florianópolis para Camboriu. Pegamos um ônibus, loucos, logo que chegamos fomos direto para um hotel e a primeira pergunta que fazíamos na recepção era o quarto tinha som? O recepcionista disse que não, e assim foi sucessivamente. Saímos à procura de um hotel que tivesse som no quarto. Rodamos a cidade inteira e nenhum tinha. Então, resolvemos pagar um motel, porque sempre que eu usava drogas a primeira reação que eu tinha era ir direto para perto de um som. Chegamos no motel, usamos, e eu passei a noite inteira fora do quarto, olhando para o telhado achando que alguém iria chegar lá e nos pegar de surpresa. Enquanto meu amigo se injetava no quarto, eu estava lá fora, paralisado. Só entrava para usar novamente e logo voltava pra fora tentando achar alguém em cima do telhado. Eu via vultos verdes de pessoas e fantasmas... Uma vez eu estava sentado na cama e quando eu olhei para a porta vi uma multidão de fantasmas, e na frente liderando, uma criança. Todos eles vinham ao meu encontro dançando. E então, eu comecei a dançar e pular junto com eles. Eu passei quatro meses vendo fantasmas. Quando passava o efeito da droga, eu lembrava deles, mas sabia diferenciar o que era alucinação e o que era realidade. Eu sempre levava um ursinho Puff junto comigo. Um dia eu resolvi ser o ursinho Puff. Nós estávamos numa reuniãozinha na casa de uns amigos, eu fui para o banheiro do quarto e utilizei a droga. Quando voltei para a sala, eu estava vestido de Puff, a camiseta que eu usava era vermelha, fiz dela uma regata e escrevi Puff com canetinha, arranquei a cabeça do urso que eu tinha, tirei toda a espuma de dentro e fiz uma máscara. Eu era o Puff mais esquelético que todo mundo já viu na vida. Quando eu cheguei na sala, o pessoal se jogou no chão. Algumas vezes eu me vestia de Amy Whinehouse, com peruca e tudo. O dia mais feliz da minha vida foi quando chegou de Londres o irmão de uma amiga que morava comigo. E ele trouxe MDMA, e nós tomamos. Eram oito horas, eu a namorada dele, que era inglesa, e ele. Passamos a noite inteira conversando, eu não falava

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ENTREVISTA
inglês e ela não falava português, mas a gente super se entendia. Às 9 horas da manhã do outro dia lá estava eu na beira da praia. Acordei todo mundo para ir pra lá. Com ácido, teve uma vez que nós tomamos um doce inteiro. Estávamos em umas seis pessoas e fomos para o melhor lugar para se dançar house, em Floripa. Todos nós viajamos na mesma coisa, que era a maldade. Nós vimos toda podridão do lugar, enxergávamos todas as pessoas completamente diferentes. Víamos que elas não estavam ali para se divertir, todos pareciam demoníacos. Tinha um menino de olhos azuis que eu sentia muita vontade de queimar os olhos dele de tão demoníacos que me pareciam. Foi uma energia completamente ruim. Depois disso eu nunca mais voltei lá. Nós ficamos a noite inteira nessa viagem. Depois que voltamos ao normal, comentamos sobre e realmente todo mundo viajava na mesma coisa. Uma hora eu estava na pista de dança e tinha uma menina que conversava comigo, mas eu não conseguia enxergar o rosto dela só o corpo, era macabro. Tem coisas que eu realmente não sei explicar, são umas viagens muito loucas. Uma vez, eu entrei no banheiro desse mesmo lugar, eu tinha tomado bala, essa viagem é bem transpotting. Fechei a porta do mictório e fui me alongar, alongava as pernas, e enquanto eu olhava para baixo e não as tinha, no lugar das pernas aparecia um relógio azul em forma de alga marinha. Eu tenho a impressão que eu fiquei ali paralisado horas olhando aquele relógio no lugar das minhas pernas. Não tenho ideia de quanto tempo foi. Toda vez que eu voltava das festas, meu quarto era nos fundos da casa, perto da lavanderia, eu e meu amigo nós sempre escutávamos um som e ficávamos balançando a cabeça. Um dia, nós fomos descobrir que era a máquina de lavar roupa que estava sempre ligada. No pós-festa, quando eu comecei a me injetar, eu ficava três dias virado. Eu ia fazer alguma coisa, automaticamente eu ligava o som, eu não conseguia ficar parado, sempre arrumava algo pra fazer. Eu também tinha a ideia fixa na cabeça de que tinha perdido algo e precisava encontrar. Aí eu bagunçava tudo pra achar algo que eu nem sabia o que era. Também adorava ficar na janela observando o ir e vir das pessoas na rua, assim a convenção do tempo se misturava ao movimento ininterrupto que eu via através

Quando passava o efeito da droga eu lembrava deles mas sabia diferenciar o que era alucinação e o que era realidade.

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PraLer: Quais são seus principais ícones musicais. PraLer: Qual é a relação que Eles usam drogas? você faz das drogas com a F.t: Sim, um dos exemplos mais sociedade. na sua opinião, recentes é a Amy Whinehouse. que papel elas possuem neste Geralmente quem usa droga é uma cenário? pessoa muito inteligente, que não F.t: Eu acho que é cultural. sabe aproveitar o seu potencial e Ensinam às pessoas a beberem geralmente não consegue lidar comemorações e fora delas com isso, seja ela estrela ou pessoa também. E o álcool nada mais é que que vive no anonimato, acabando, um gatilho para todo o resto das assim, se boicotando com o uso drogas. E a sociedade que temos de drogas. Hoje eu me sinto

dos meus olhos extremamente alucinados... Desde meu primeiro contato com as drogas se passaram 13 anos. Eu cheguei ao ponto em que nada mais me satisfazia. Abusava das drogas, e comecei a utilizá-las juntas. Misturava cocaína, ecstasy, maconha e LSD. A certa altura minha vida girava em torno da droga. Eu trabalhava para gastar o dinheiro em festas e abusar delas, ocasionando até mesmo a venda de bens familiares para o uso. Então, eu passei a esquematizar meu suicídio, pois a droga se tornou uma obsessão. Perdi o controle de tudo na minha vida. Graças a Deus esse suicídio não deu certo e, então, eu resolvi pedir ajuda à minha família que até então não sabia de nada, e também contei com a assistência profissional.

Quando tu começa a usar drogas, tu cria um mundo à parte, então tu perde a confiança da família, a confiança dos amigos e principalmente da sociedade. Perde completamente a autoestima e a vontade de viver por causa das depressões frequentes causadas após o uso, sem falar na perda de controle total da vida, que não é mais você quem manda na droga, a droga manda em você.”

hoje em função dessa globalização e dessa pressa, todas as pessoas veem no uso de drogas uma saída para os problemas do cotidiado. Uma fuga, uma válvula de escape para as cobranças normais que todo mundo tem que enfrentar.

uma pessoa muito especial por ter conhecido o lado ruim e agora ter a possibilidade de enxergar o caminho certo a seguir. PraLer:Você imagina sua vida sem a experiência com as drogas? F.t: Eu imagino que eu não teria toda essa quantidade de informações e de experiências. Não me arrependo hoje em nenhum momento, apenas de ter machucado algumas pessoas. Mas foi uma época incrível e de grandes experiências pessoais. PraLer: Atualmente, você acredita que as drogas tenham poder sobre os jovens a ponto de roubar-lhes a individualidade? F.t: Com certeza. Mais ou menos como eu coloquei no início, aquela história de perder o controle da vida. É a questão da cultura de que temos que estar no meio de algo, temos que fazer parte de algo; então, alguns jovens acabam fazendo o uso de determinadas substâncias porque o grupo em que se identificam usa. PraLer:Percebe-se que ao longo da história as drogas sempre estiveram presentes. nos anos 70 os jovens utilizavam buscando abrir as portas da percepção, e hoje? F.t: O uso de substâncias desse tempo pra cá cresceu e muito. Acho que também isso está relacionado à ansiedade. As pessoas estão ansiosas, a sociedade está doente. Tem que se ter tudo agora, inclusive a felicidade, esta encontrada (falsamente) nas drogas. PraLer: Qual a sua opinião a respeito dos eventos que permeiam a história das drogas como o Woodstock. Você vê alguma relação com as rAVEs atuais? F.t: Woodstock é um grande marco histórico da juventude. Foi um evento que as pessoas estavam em busca dessa felicidade e estavam dispostas conquistála a qualquer custo. A diferença para as RAVES de hoje é que as pessoas frequentam estas festas em que a felicidade termina ao amanhecer. Em Woodstock os jovens realmente tinham o firme propósito de se criar um mundo mais feliz e melhor para se viver, e compartilhavam ideais comuns. Atualmente as pessoas vão nas RAVES em busca de uma satisfação momentânea e individualista, a felicidade dos outros é consequência. Não existem ideais comuns, nem mesmo experiências que buscam mudar o mundo. Apenas a satisfação individual.

ENTREVISTA

Sob as lentes da experiência...
“...A gente fechava, enrolava como um baseadinho: colocava fumo, a pimenta preta e o esterco de cavalo. Eles pensavam que aquilo era droga.”
Maria Teresa Weidlich u Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da AgexJ

U

m dia de sol primaveril, brisa leve e folhas caídas na estrada, campos coloridos de um verde intenso sob a luz das primeiras horas da tarde. Uma travessia aos recantos longínquos do mundo em meio a pensamentos acelerados, pauta, tempo, pressa, quilômetros rodados e trilha sonora impecável: alegre e um tanto histérica. Clima ideal para fazer nascer, a partir dali, uma entrevista. Estou a caminho da cidade onde as pessoas não são tocadas... Imagine uma história sendo contada por alguém que viveu no auge da cultura hippie. Que viu seus amigos serem tragados pelo repuxo impiedoso da adicção, sendo que alguns deles passaram pelo mundo como os flashes luminosos disparados por uma câmera e hoje são criaturas que navegam na correnteza dos dias desconhecendo o norte de suas vidas, pois estão sedados demais para encontrar a direção. Sentado no sofá da sala de seu apartamento, José Vargas, jornalista e radialista há mais de 40 anos, remonta pedaços da juventude com uma pitada de humor e reflexão, buscando no armário fotos amareladas na tentativa, falha, de remontar as imagens que vinham à cabeça durante a narrativa. Infelizmente, não haviam fotos mas a imagem dos personagens era revelada aos poucos... Para ele a juventude sempre será motivo de boas recordações, porém algumas, aquelas relembradas com um certo pesar, são provas vivas de que as drogas sobrevivem através do tempo e as pessoas não. Os olhos lúcidos do entrevistado escondidos atrás de uma armação de óculos de metal, que lhe concedem um ar intelectualizado, comprovam que se trata de “um sobrevivente”, que pode afirmar, em outras palavras, que as drogas passaram por ele, mas ele não passou pelas drogas: “A gente misturava esterco de cavalo com pimenta, só de sacanagem, pra zoar com os caras. Eles compravam. A gente fechava, enrolava como um baseadinho:

como um ato de protesto contra os próprios pais que queriam botar cabresto - “Ah, meu filho vai ser isso, meu filho vai ser aquilo...”, eles fugiam e saíam para o mundo. PraLer: nesta época, tu te recordas qual era o principal meio de comunicação utilizado para atingir o público jovem? Quais eram as formas de entretenimento disponíveis? J.V: O meio de comunicação era o rádio. Mas não existia rádio FM, por exemplo. Naquela época eu já trabalhava em rádio, comecei com 16 anos. O boom da televisão aqui no interior se deu mais na década de 70.

PraLer:Em meio ao turbilhão da contracultura, era quase impossível ser jovem e não se influenciar de certa forma pelos conceitos ovacionados pelo movimento. Você passou pelos anos 60 sem consumir drogas? J.V:Droga, assim, eu nunca experimentei. As pessoas até me ofereciam, tentavam me forçar a consumir e eu dizia que não. Se eu já sou louco ao natural, pra que preciso de drogas? Quando nós íamos jogar futebol de salão, muitos se drogavam pra ficar mais fortes e ágeis, mas eu nunca fiz. PraLer: Atualmente percebe-se uma banalização no universo das drogas, existe muita facilidade de acesso. naquela época o consumo privilegiava os grandes centros? J.V: Era mais nos grandes centros, mas em Carazinho, por exemplo, tinha gente lá colegas, amigos antigos – que curtia maconha. Naquela época era escondido e a polícia não estava muito preocupada com isso. Foi na década de 70 que começaram a dar mais atenção ao assunto. Aqui em Não-Me-Toque era muito forte o consumo de maconha. Mas não existia tanta variedade de drogas. O acesso à cocaína, por exemplo, era muito difícil. Era mais o pessoal de posses que conseguia, mas o povão, a rapaziada em geral consumia maconha. Em Porto Alegre, onde morei por um tempo, existiam

PraLer: Existia um padrão global a ser seguido tratandoPraLer: Qual é a sua opinião se de estilo? pessoal sobre o contexto social J.V: Não existia uma uniformidade que o mundo presenciava na de atitudes. Via-se em revistas ou época? jornais: “O hippie se veste assim, J.V: O mundo estava em um então vou me vestir assim...” processo de aceleração de cultura. Aqui no Brasil era período de PraLer: Qual é a lembrança ditadura militar, repressão. mais impactante dessa época? O movimento hippie era um J.V: Eu lembro de um rapaz que movimento que desejava a liberdade, estava no meu apartamento em mas por muitas pessoas ele não era Carazinho com uma seringa de bem visto, diziam: “Ah, esses caras vidro. E ele queria se picar, mas não cortam o cabelo, não tomam estava tão mal, tão fraco, que nem banho, são sujos...”. Em 1967 eu apareciam as veias dele. Ele picou tinha o cabelo comprido e quando os dois braços e não conseguiu vinha para o interior todo mundo acertaR as veias, picou a perna se apavorava. Mas assumir uma atrás e também não conseguiu. Aí atitude de vida hippie nunca passou ele ficou tão fissurado que apertou a pela minha cabeça. Eu gostava das seringa com tanta força que quebrou músicas da Janis Joplin, do Bob e cortou toda a mão. Ele entrou Dylan, Creedence e todo esse pessoal em estado de choque por causa que tocou em Woodstock. O evento daquela vontade desenfreada de se não teve muita repercussão aqui drogar. Ele usava um comprimido porque pouca gente tinha televisão, comprado na farmácia que eles as novidades vinham através do esmagavam, diluíam e colocavam rádio. na seringa, chamado Desbutal. PraLer: Então o estilo hippie não pegou no Brasil? J.V: Pegou, mas nas grandes cidades. Um hippie aqui na região era motivo de admiração e o pessoal também aliava muito ao andarilho. Naquela época surgiu uma onda de comunidades: eles iam para o interior, compravam uma área, tinha até médicos e advogados que abandonavam a cidade e iam viver no isolamento, plantando o que eles consumiam e vivendo em comunidade. Muitos viravam hippie PraLer: 40 anos depois, como você avalia essa vivência? J.V: Em relação às drogas, a minha cabeça mudou um pouco, até em função da religião, de estudar a Bíblia. Eu sempre tive vontade de ser uma pessoa da religião. Eu fui seminarista e agora que abracei a Igreja Adventista eu me sinto melhor. A gente fez muita coisa errada, e não quero que ninguém repita o que fizemos. Eu sinto saudade daquele tempo, não sei se é porque as coisas eram mais calmas.

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colocava fumo, a pimenta preta e o esterco de cavalo. Eles pensavam que aquilo era droga.”

grupos que consumiam mais variedade. O buraco era mais em baixo.

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“A paz guiara os planetas e o amor governará as estrelas... Harmonia e compreensão, solidariedade e confiança, sem falsidade e preconceito, sonhos de visões. Revelações místicas e liberação da mente...”
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Age of Aquarius- Musical HAIR uma premissa sensual e ousada, mistério, aventura, futebol, cerveja e mulher, coisas que muito identificam os leitores com o autor, citou em uma de suas crônicas o filósofo Charles Baudelaire, um teórico boêmio francês que destilava na inspiração de seus poemas doses elevadas de álcool em estado febril. Na tentativa de relacionar Baudelaire, criar uma ponte entre ele e o leitor atual, o cronista deixa transparecer nas entrelinhas sua afeição para com o consumo de álcool. Coincidentemente Baudelaire é um dos primeiros nomes que nos vem à mente quando trata-se do uso de drogas, a prova viva disto é seu livro Paraísos Artificiais. Trata-se de uma relação paradoxal esta das drogas com a sociedade, a comprovação é de que muitas pessoas não se dão conta que remédios, por exemplo, álcool e cigarros, são drogas poderosíssimas capazes de alterar nosso estado de consciência. Marco da contracultura, o Woodstock trouxe à tona esta relação. Enquanto a sociedade americana avançava em termos de força e tecnologia, enquanto Neil Armstrong punha seus pés na lua, e enquanto as frentes de combate no Vietnã permaneciam atacando, as drogas, religiões exóticas, o amor livre, a música e a dança eram o estopim do maior festival de música de todos os tempos. A mídia por sua vez, não poderia deixar de contracenar neste cenário, e nele eis que se desenrola

Texto: Júlia Fedrigo de Albuquerque Maria Teresa Weidlich Arte: Cássia Paula Colla u Estagiárias da AgexJ

esfilando pelas ruas, zapeando na TV, ilustrando os espaços nobres dos portais na internet, nos bares, nos pubs, nos parques, na moda, no cinema e também na música que toca no mp3. Onde estão os expoentes da nossa geração? Vemos que com o passar dos anos, com as mudanças socioculturais e econômicas, nos condicionamos

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a um protótipo comum no decorrer das décadas. Anteriormente, os jovens buscavam abrir as portas da percepção através de experiências com drogas, como LSD e MDMA. Atualmente, os mesmos são embalados pelo ECXTASY em festas que duram até 24 horas. Qual é a relação deles com as drogas? Por que elas insistem em se fazerem presentes em quase todas as manifestações culturais e de expressão da juventude ontem, hoje e provavelmente no futuro? Estes dias David Coimbra, cronista da Zero Hora, que muito faz sucesso com o pessoal mais jovem, por conduzir na narrativa de seus textos além de

ESPECIAL

uma trama de como o LSD se tornou uma droga patenteada por Timothy Leary. Uma receita que se valia de um ingrediente perfeito para criar uma fusão poderosa que mudaria os contornos da sociedade americana. Leary se valeu daqueles anos rebeldes, daquela juventude cheia de desejos e aspirações e principalmente contagiada pela contestação dos valores, do consumo e enlouquecidamente curiosa por experimentar novas maneiras de perceber o mundo, para fazer do LSD um dos principais agentes da contracultura. Ao formular uma estratégia de comunicação a fim de fisgar seu público, impulsionou a Indústria Cultural a vender produtos para os jovens e fazer da contracultura um evento além de histórico, midiático. Transpondo essa realidade novamente para os dias atuais, é clara a influência das diferentes vertentes culturais no comportamento dos jovens, como se estes estivessem envolvidos em uma teia que interliga todas as formas de pensamento e possibilita que cada um possa se adequar ao espaço que melhor lhe agrada, formando

um círculo de relações e influências nunca antes visto. Na pós-modernidade não apenas os sentidos se ampliam, como também a capacidade de perceber o mundo envolto em diferentes formas de comunicação. Mídias ressurgem e insurgem no cotidiano de cada um de nós, agrupando pessoas, questionando valores, derrubando mitos e criando conceitos que se refletem nas ruas, nas roupas, nos cabelos, nos rostos que estampam sorrisos diferentes, mas que explicitam, acima de tudo, um sentimento único, proveniente de uma experiência igualmente única, que bem ou mal, pode mudar o mundo, para daqui décadas ou para a eternidade, a juventude!

“Quando as portas da percepção se abrirem, tudo aparecerá como realmente é, infinito!” (Willian Blake)
Atualmente, para se alcançar o êxtase, presume-se o uso do ECSTASY. A droga sintetizada em laboratório trata-se de um composto poderoso a base de MDMA (metilenodioximetanfetamina), que age alterando a função das substâncias que ligam as células nervosas aos neurotransmissores. O resultado disso, é um corpo em estado de ebulição, os órgãos “fritam”, literalmente, relacionando a expressão àqueles que utilizam a droga frequentemente nas pistas de dança em busca da euforia e do aumento da percepção. O imediatismo das sensações proporcionadas pelas drogas é igualmente proporcional à necessidade de doses cada vez mais fortes do usuário. Embaralhamse as personalidades e, como em um jogo de cartas, as faces se ocultam atrás do baralho. Não existem guias para esta desenfreada rota em busca de satisfação. Ao pensarmos o problema das drogas atualmente, dificilmente as relacionamos ao passado, botamos a culpa no sistema, nos políticos, nos pais, nas escolas, na marginalização, na periferia, nos transtornos psicológicos e, assim, a sociedade encontra-se

vendada, não sendo capaz de questionar de que forma as drogas tomaram uma proporção tão grande em nossas vidas, impregnando desde os leitos de hospitais psiquiátricos às salas de cinemas que exibem filmes abordando o tema, de forma que, incrivelmente, os ambientes de lazer associam-se diretamente ao consumo de drogas. Mesmo há quarenta anos, quando o panorama sociocultural dos indivíduos era visivelmente diferente, os jovens buscavam um mundo novo, mergulhados em realidades psicodélicas remetidas ao consumo da maconha e do LSD. É inquestionável o poder de influência da mídia e do mercado nesta relação que figura no decorrer dos anos influenciando dezenas de jovens por meio da literatura, da moda, da música, enfim, da cultura. Constatar que muitos dos ícones musicais da chamada pós-modernidade, assim como os da geração beat e hippie, possuem problemas com as drogas e inserem em seu profile artístico uma série de experiências com substâncias químicas. Tratase de uma verdade da qual não podemos fugir e que nos faz pensar que as coisas não mudaram, apenas tomaram formas e proporções distintas. Os movimentos se repetem ao longo da história, apenas invertem-se o cenário e os personagens, e conseqüentemente o modo como estes se configuram em dada época. A produção cultural inspirada em tudo menos lucidez, atrai apreciadores de diferentes gerações, jovens e velhos dialogam tranquilamente no fluxo de informação disponibilizado pelo acesso fácil aos meios de comunicação atuais. Experiências são relatadas como um despejo de um grande balde de água fria naqueles que permanecem ilesos a essas vertentes de conhecimento alternativas. A própria música quebrou paradigmas e reinventou conceitos trocando as velhas guitarras por samplers, as notas dão lugar aos bits e mais uma revolução está feita, mesmo para aqueles que insistem em ignorar que os movimentos culturais dos jovens continuam os mesmos, resta saber se estes ainda são capazes de mudar o mundo. Pelo menos no que se referem às músicas, estes, móveis e quentes como uma criança em estado febril continuam dançando freneticamente, idealizando a PAZ e o AMOR.

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crítica a o estabele uso de armas ci n livre, le dos pela socie ucleares, a co dade, u ve e solt ntestaç as ruas m ão extr a das pa no final em ntalona a negação exp dos ano social lícita ao a dos valores s, batas s 60 -, a represe e vest sistema lém nt pílula a ,am nticonc ando seu novo do apogeu da idos florais - q ue inva oda epciona imagem posicion da cont dira l- re da ra amento e liberd mulher no cen m revoluc cultura surge, configuraram a a ion no iníci á o dos an forma de pens de através do u rio uma no ando a forma ar o mu so da os de va ndo. O influênc perspectiva p pensar e intro cinquenta, com ara se v jetando ias na li o movim embrião islu na te geração ao que ratura, música mbrar o mun percepção juv ento Beat, en do. O m viria a s , moda Bob Dy e arte d er cham lan, Th ovimen il da época a ép eB to ad de Jimi eatles, Allen G a: “contracult oca, condicio teve claras nando a ura”. N Hendri isberg, om xe qu Jac do temp o, inscr Janis Joplin, p k Kerouac, en es pungentes c ela everam tre outr or uma o sairem. os, sepa mo cur sua E rados inquiet stes ícones refl s iniciais na h ta questão de açõ an ist et se ao ot es e questiona iram, cada um ória para de lá os na linha imismo mentos a sua m nunca m pó do an pregand a o o lem s-guerra e os va s jovens de sua eira, as princ is a “paz e ipais lores as busca in época. S am so finda pe e la liberd or”, ambos at ciados ao cons ja opondouaram s u ade. ob o me mismo, seja smo vér tice: a

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Ban the

bomb!

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the expression of the Young generation!

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m meio à atmosfera de contestação, os meios de comunicação de massa, como o rádio e a TV foram a válvula propulsora para a disseminação dos movimentos e possibilitaram uma mobilização em larga escala de jovens que batiam de frente com os padrões sociais. A música “Imagine”, de John Lennon, traduz bem o alvoroço que a contracultura causou no mundo:

Imagine não existir países, não é difícil de fazê-lo. Nada pelo que lutar ou morrer, e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Talvez você diga que eu sou um sonhador, mas não sou o único. Desejo que um dia você se junte a nós e o mundo então será como um só.
O local, antes centrado na tradição religiosa e familiar, se expande, tomando conta da juventude de todo o globo e proporcionando uma integração universal. A forma como a música dos Beatles soava nos ouvidos dos beatniks com certeza não é a mesma que embalou os hippies, extasiados

com a mistura sinérgica do folk, do rock e do blues no Woodstock. Os ruidosos anos 60 se despediam nos formatos psicodélicos de tons estroboscópicos que transbordavam das mentes alucinadas para as ruas que fervilhavam em manifestações de paz. Do som encantatório de mantras e do rock psicodélico vinha à inspiração para uma nova forma de vida em comunidade, numa perfeita integração com o outro e com a natureza. Das canções folk saía a motivação para contestar, para se rebelar contra o sistema prosaico e conservador. Um movimento cedeu espaço ao outro à medida que o termo hippie se popularizava, incorporava algumas características e ideais do Beat e ao mesmo tempo rompia com tudo que já fora visto até então. Se o “American Way of Life” já era chato na década anterior, a aversão se amplificava à medida que se introduziam a liberação sexual e as drogas psicodélicas na contracultura, quebrando alguns paradigmas. Como uma roda gigante

colorida iluminando um parque de diversão à noite, o estilo hippie se tornou o predileto dos jovens da época. As ideologias anticapital nunca tiveram tanto respaldo e o mundo das drogas era como uma porta para um jardim repleto de flores que se multiplicavam num caleidoscópio multicolorido à medida que os artistas recriavam suas experiências com as drogas na música. Embalada por músicas como “Like a Rolling Stone” uma atmosfera surreal e divertida era criada. Ela se refletia nas formas e cores das roupas que possuíam um tom delicado e também artesanal. As vestimentas repletas de acessórios orgânicos, como peles, colares de sementes e bolsas de

couro com franjas, eram a deixa para que os jovens criassem suas próprias fantasias ao invés de copiá-las de um padrão imposto. Transpirava-se criatividade! A sinceridade, acima de tudo, deixava transparecer o cuidado que tinham uns com os outros. Era o momento propício para as pessoas se reinventarem, romperem consigo mesmas. Não pertencerem a nenhum herói e, sim, serem o herói, pois o sonho americano que antes parecia intocável acabava de ser questionado ou, de certa forma, destruído, pois nenhum conto de fadas continua eterno a partir do momento em que surgem dúvidas.

ESPECIAL

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Os rádios to cavam: “Se de usar flo você for a S res no seu an Francisc cabelo”. E o não deix possuía a c não havia e uriosidade jovem que de experim para ir à S não entação e v an Francisc ontade sufi o, a capital manifestaç ciente do mundo! ões pela pa Todas aque z que perco culminaram rriam o terr las n itório amer música e ao o Monterey Pop Fes icano ti s ideais hip pie. Em clim val: uma celebração seria uma p à a de paz e a rév mor, o festi tempos, o W ia do que viria a ser o m val ood aior festiva l de todos o Monterey fo stock de 1969. s i responsáv com o púb el pelo len lico da ban dário prim da Jimi He eiro contato palco, tudo ndrix Expe que eles fi rience. Naq zeram foi de psicode uele representar lia, conduz um alto gr indo as pe semelhante ssoas a um au . estágio me ntal

Era prim poético p avera, o cenário ara pe aconteciam a realização de fe rfeito e aparentem stivais e m ente a simultane por todos os arre amente. E dores dos nifestações que m E conflito en tre as trop contrapartida, a te stados Unidos as america levisão na furor caus rrava o nas e ado 1 milhão d pela Guerra do Vietn vietcongues. Em m eio ao e mortos, entre civis ã que contabilizou m de mutilad ais de e os e ferido s, uma ma militares, e o dobr conta das o disso ssa gigante ruas e inc de or a atitude hippie. Tr porava a elas os to jovens tomava azendo flo ns, as pala de cerca d res vr e 300 mil pessoas re nas mãos, uma m as e popular d ultidão alizou a m atada nos aio Estados U no Vietnã nidos: A “ r manifestação ”. Passeata pela paz

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a flor!

o verão do

AMor!

A revolução psicodélic a se tornou especial para a mídia
As drogas se espalharam na cultura americana ma is do que o movimento hippie. A indústria cultural transmi tia os valores psicodélicos através de mú sicas, filmes, revistas de mo da e anúncios publicitários. Enfim, todas as mídias traduziram o esp írito dos anos 60, e nelas as drogas estav am presentes, de forma qu e o movimento invadiu até mesmo as casas dos mais conservadores. De finitivamente a mídia descobriu um bom filã o de mercado para vender seus produtos, prova disso são os ícones cinematográficos dessa époc a, como “Easy rider” e o musical “Hair”. Tempos de flower-power. Tempos em que as balas da vam lugar às flores. Tempos em que o am or às causas perdidas fazia valer o perigo. Tempos de união. Tempos de igualdade. Tempos de comu nhão. Tempos de amor livre. Tempos de prazer. Tempos de liberd ade. Tempos de revolução. Tempos de ard or nos vasos sanguíneos. Te mpos de torpor. Tempos de criatividade pu lsante. Tempos de rebelião . Tempos de arte. Tempos de música. Temp os de poesia. Tempos de paz. Tempos de amor. Tempos de Paz e Am or. Tempos que se foram. Tempo que pode ser o hoje.

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ESPECIAL

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O mais famoso evento da história do rock, a “Feira de Arte e Música de Woodstock”, representa mais do que a pacífica reunião de cerca de 500.000 pessoas para prestigiar 32 inebriantes performanc es musicais. Woodstock se tornou um ideal que permeia nossa cultur a, política e socialmente, além de, é claro, musicalmente. O ápice dos revolucionários anos 60 foi uma faísca de incomparável beleza da consciência de se fazer parte de um imenso organismo pulsante. Esse é, talvez, o maior significado do festival: o sentimento de união com o próximo sentido por cada um que esteve direta ou indiretamente envolvido com ele: idealizadores, trabalhador es, público e todos os demais que apesar de não estarem reunidos em Bethel, puderam ser tocados pela atmosfera de paz, solidariedad e, cooperação e amor! Toda a vibração de Aquário que emanava de Woodstock exprim ia a atualidade da América repugnada por uma guerra insensata, pela discriminação que ainda permeava seu território e profundam ente inspirada pela não-violência. Aqueles três dias de paz, amor e músic a se tornaram um adjetivo imediato que denota o poder dos joven s sessentistas.

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Mas nem tudo são flores...
Sob o mote de ser “Uma Exposição Aquariana”, o evento, ocorrido entre 15 e 18 de agosto de 1969, foi iniciado através dos esforços de Michael Lang, John Roberts, Joel Rosenman e Artie Kornfeld. Roberts e Rosenman eram “jovens com capital ilimitado a procura de interessantes oportunidades de investimento e propostas de negócios”, como dizia o anúncio publicado por eles no The New York Times e Wall Street Journal. Lang e Kornfeld responderam a este com a proposta de instalação de um estúdio de gravação na cidade de Woodstock, terra que acolhia astros, como Bob Dylan, Janis Joplin e Jimi Hendrix. Porém, a ideia evoluiu para um festival musical e artístico ao ar livre. Juntos, eles fundaram a Woodstock Ventures, realizadora do evento. Rastreando a zona rural para encontrar o espaço que acolheria o mais famoso festival de todos os tempos, encontraram o Mills Industrial Park, em Wallkill. Os 300 acres do local tinham um acesso perfeito: a menos de 2 km da Rota 17 que dava na autoestrada do estado de Nova Iorque e saía direto da Rota 211, uma estrada principal. Além disso, o local tinha o essencial: eletricidade e água encanada. Mas as vibrações do parque industrial não eram as desejadas, estava faltando o ambiente de “volta à terra” que se pretendia. Uma grande oposição ao Woodstock foi feita pelos conservadores residentes da pequena cidade. Nas mentes de muitas pessoas, o cabelo longo e as roupas descuidadas de quem iria a Woodstock eram associados com a política de esquerda e o consumo de drogas. Woodstock foi oficialmente banido de Walkill em 15 de julho de 1969. Sob o aplauso de residentes, membros do conselho municipal disseram que os planos dos organizadores eram incompletos; que banheiros ao ar livre, como os que seriam usados no concerto, eram ilegais em Wallkill. Duas semanas antes, o conselho da cidade já tinha aprovado uma lei requerendo licença para qualquer ajuntamento de mais de 5.000 pessoas. Esta decisão do conselho, apesar de seu lado trágico, fez um favor à Woodstock Ventures. As notícias sobre o que tinha acontecido fez chover interesse sobre o festival.
Casualmente, Elliot Tiber, dono de um hotel em White Lake, o El Monaco, que tinha 80 quartos quase todos eles vazios, procurou os empreendedores. Tiber possuía algo de imensa valia: uma permissão da cidade de Bethel para fazer um festival musical. Já o local... A área oferecida por Tiber para Woodstock eram 15 acres pantanosos atrás do hotel. Isso não era, nem de longe, o suficiente para o público até então esperado – cerca de 50.000 pessoas. Elliot indicou a propriedade do seu amigo Max Yasgur. O lugar era mágico, perfeito! O campo em forma de bacia se inclinando, uma pequena subida para o palco, um lago ao fundo. O negócio foi fechado ali mesmo sobre as pastagens que em breve abrigariam uma multidão em comunhão.

ESPECIAL

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de av gratuito entura lucrativa … a um co ncerto

Propag negócio anda também era a al ... ma do Na atm os prom osfera polít ico o a impo tores Kornfeld -cultural de rt 1 indepen ância de rel e Lang perce 969, acionar dência d beram e um acon Woodst o tecimen sua geração. P revendo ck à to emble história -o como mático q , o sloga n- “Três ue entra literal d Dias ria p efi circular nição do que se de Paz e Música ara a na ria o fes ” tival, co - uma como a V imprensa unde meçou a rg il em abril lage Voice e a re round, em publ vista Ro i . Um mê lling Sto cações s lançado ne, aind s també após, anúncios a m começar Times H am a ser erald-Re no The New Yo rk Time cord. s e The

Cerca de 18 porém tod 6.000 ingressos fora m vendido a a mística s an criada em ondas de torno de W tecipadamente, hippies à Bethel. O oodstock a um imenso fluxo rras engarrafam trânsito da ento capaz de pessoas à cidade tou de interrom cr autoestrad a do estad per totalm iou A multidã o de Nova ente o o que cheg York. cercas que av demarcava a à fazenda de Max m a àrea obrigou a e derrubav org pa a as este é um c anização a anunciar ra realização do fe stival oncerto gr o óbvio: “A atuito partir de a A reunião gora, de meio m ”. final de se ilhão de p mana teria essoas naq tudo para u não era a ser caótica ele memorável fundamen . A infraes tal para ta condições trutura manha m sanitárias ultidão: p e de prime de comida recárias iros socorr in os, além d chuva insis suficiente, configur e estoque avam o am tiu em pres tigiar quas biente. Alé e nenhum e todo o fes a convergê tival. Mas e m disso, a ncia de ad brilho. ra Woodsto versidades c seria capa z de tirar o k seu

É hora de música…
Trinta e dois dos mais conhecidos músicos da época, entre eles Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jefferson Airplane, The Who, Creedence Clearwater Revival e Greatful Dead, se apresentaram em frente àquela massa amorfa vibrando na mesma sintonia. Os três dias de música começaram precisamente às 17:07, do dia 15 de agosto de 1969, uma sextafeira dedicada ao folk. Entre as atrações do primeiro daqueles dias de celebração ao espírito hippie estavam Tim Hardin, Arlo Guthrie, The Incredible String Band e a grande estrela Joan Baez. A largada para Woodstock estava planejada para acontecer uma hora antes, mas como os artistas estavam espalhados pelos hotéis da região – a quilômetros da propriedade de Yasgur e o engarrafamento não permitia sua chegada ao ambiente daquela congregação -, os promotores estavam contratando helicópteros para trazer os artistas e materiais, contudo, o primeiro chegou atrasado e só pôde trazer poucas pessoas, não bandas – haviam duas opções para a abertura: Hardin, que já perambulava alterado pelos bastidores, e Richie Havens, que parecia pronto. A escolha era evidente. Toda vez que Havens tentava parar de tocar, como as outras atrações ainda não tinham chegado, ele prosseguia. Finalmente, depois de quase três horas de show, soavam seus acordes derradeiros, os improvisados de Freedom, a lendária música que repercutia os anseios e a realidade vislumbrada ao vivo e a cores – e que cores -, de quinhentos mil jovens. No sábado, a lama produzida pelo contato da água que despencava do céu com a terra pisoteada por aquela multidão desprendida de “valores” moralistas cheirava a haxixe, enquanto o palco vibrava com rock’n’roll de explodir os tímpanos de gigantes, como The Who, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival, Grateful Dead e Santana. O sol surgia da escuridão num amanhecer não dormido de domingo, enquanto a voz de Grace Slick, vocalista do Jefferson Airplane, propagava no ar as palavras: “uma pílula o faz maior, e uma pílula o faz pequeno…” Era mais um dia de veneração ao rock. The Band, Joe Cocker, Crosby, Stills & Nash, Ten Years After, Johnny Winter e Jimi Hendrix ainda subiriam ao palco.

Eram quase 9 horas de segundafeira quando Jimi Hendrix, a maior entre todas as estrelas de Woodstock, fez soar o hino norte-americano distorcido pelo inigualável encontro dos seus dedos à guitarra. A execução durou apenas três minutos: três minutos suficientes para entrar de sola na eternidade; três minutos que resumem o espírito do maior evento musical do mundo: a desconstrução de paradigmas!

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ESPECIAL

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um olhar presente...
Nada é tão diferente quando tudo pode se ao mesmo tempo volta r recriado. Trata-se apen no tempo para resgatar as de olhar o que já valores foi que hoje são vistos com feito sob uma perspect o monumentos que so iva ambígua, consideran brevivem à ação do tempo contan do todos os vértices. A do história e também na forma de linkarmos rrando o presente. a contracultura - referent e exponencial dos jove ns Os acordes não são de outras décadas - co mais os mesmos, ga m os movimentos cultu nham rais novas releituras. O es atuais, é vermos aque tilo hippie de ser e ve la como uma árvore stir tornaque se chique ou bohemia se ramificou e gerou m, estampa as roupas frutos distintos, uns bo de grifes ns, famosas, acompanha outros nem tanto. as tendências de mod a e revive a era nos aquários de A contracultura fora o vidro onde as lojas expõ solo onde germinaram em seus produtos. diferentes vertentes da quilo que podemos cham ar Mesmo nos festivais de tribos, foram lá qu de música eletrônica e as expressões dos jo atuais, vens onde imensas caixas ganharam um amplifi de som e luzes estrobo cador para suas voze scópicas s, e acoplados a grandes es isso ecoa em forma de truturas de ferro que música, arte e ideologi destoam da paisagem natural, pr a em pleno século XXI. ópria do lugar onde ac ontecem estes eventos, ainda po de-se perceber vestígios Muitos são os movim de uma entos contracultura que outro organizados com o in ra era sinônimo de lib tuito de ertação. Eles estão na psicode juntar multidões em lia das cores impressa torno de s na decoração, nas camise eventos musicais atua tas dos jovens estam lmente, pando deuses indianos que remetem às religiões a diferença gritante orientais, é que nos acessórios orgânico s feitos de materiais ec hoje em dia as facilid ológicos, ades de peles, couros e sem entes presentes tam comunicação se to bém nas rnaram roupas dos frequenta dores deste tipo de muito maiores, a inform evento, ação que invariavelmente buscam acima de tudo que antes era restrita fugir da a um mesmice do cotidiano , abrir a veneziana da determinado público janela que diária e dar de cara co m um paraíso artificia era ouvinte de rádio l que, não ganha raras vezes, ganha fo rmato graças ao cons uma conotação unive umo de rsal drogas sintéticas. Trat a-se de um paradoxo, nos dias atuais. Po um pouco de-se de inferno, um pouco de céu. estar ligado a tudo e ao Nitidamente conceitos e valores sobrevivem at mesmo tempo, de certa ravés da ação do tempo pelo simples fato de sermos forma aquele espí sempre rito humanos. Seremos se mpre jovens ou sempr revolucionário da déca e velhos, que na tentativa de cria da r uma realidade remon de 60 e 70, está presen taremos outra, buscando re te ferenciais já existen na forma de influên tes ou cia inventando-os. Cultuan do e reverenciando di (nas formas) como ferentes deuses, que acabam os sendo sempre os mes jovens veem e sentem mos, pois acreditamos em utopia o s. mundo atualmente. As rupturas do human o ao longo da história A premissa do faça ao mesmo tempo um são rompimento consigo você mesmo ganh mesmo, com partes reaprove a itáveis de um corpo contornos modernos universal, que agora toma forma, e possui cara, gesticula palavras e expressa gestos, qu e mesmo invisíveis, po is agora agem através de nós di gitais, podem mudar o mundo não por inteiro, mas por partes, justamente porque não somos omnividen tes.

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MÚSICA

De 1959 para a eternidade
A profusão de improvisos que mudou o curso do Jazz completa cinquenta anos
Júlia Fedrigo de Albuquerque u Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da AgexJ

virtuoso experimento de Miles Davis e seu sexteto dos sonhos composto por Julian “Cannonball” Adderley, no sax alto; John Coltrane no sax tenor; Bill Evans e Wynton Kelly, nos pianos, Paul Chambers, no contrabaixo e Jimmy Cobb, na bateria Kind of Blue, o álbum mais vendido na história do charmoso estilo, há meio século encanta pela irretocável beleza de suas composições. Este revolucionário exemplar de êxtase musical, lançado originalmente em 17 de agosto de 1959, consolida a modalidade como modelo de compor Jazz. Em contraste com o estilo hard bop, explorado até então por Davis, nesta que é considerada por muitos a sua obra-prima, o trompetista especialista em retirar de seu instrumento um som delicado, que já flertava com combinações harmônicas mais livres desde o ano anterior, em faixas de Milestones e ’58 Sessions, se dedica completamente aos acordes improvisados da progressão modal. O sonho musical de Miles começa a se configurar ainda em 1958, quando ele emprega uma das melhores bandas de hard bop como apoio fixo. O grupo, formado por “Cannonball”, Coltrane, Evans, Kelly, Chambers e Cobb, costumava tocar um misto de pop e bebop de nomes como Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Thelonious Monk. Entretanto, seguindo a tendência de outros tantos grupos de jazz, eles costumavam improvisar mudanças de acordes nas canções. Além do ímpeto criativo da banda, um Davis insatisfeito com o bebop – que considerava sua complexa técnica como um empecilho para a inventividade musical – e influenciado pelas ideias e conceitos do pianista George Russel que oferecia uma alternativa ao improviso baseado em acordes, com uma nova fórmula que usava escalas em seu lugar – fizeram soar algumas das primeiras notas de um novo Jazz: o modal, ainda em 58. A liberdade criativa da modalidade foi considerada por Davis “um retorno à melodia” (como declarou em entrevista a Nat Hentoff para The Jazz Review, em 1958), pois com ela não são necessárias preocupações com as

O

‘Em poucos takes o maior álbum da história deste ritmo instigante e envolvente era gravado no acetato que permitiria sua reprodução e apreciação por amantes do estilo musical da época, do presente e, certamente, do futuro’

mudanças rítmicas e pode-se lapidar mais a linha melódica. Segundo o genial Miles, “se torna um desafio ver o quão melodicamente inovador você pode ser”. Entusiasmado com o resultado satisfatório de suas primeiras composições em modalidade, Miles dedicou-se à preparação de um álbum completamente destinado ao conceito: o memorável Kind of Blue. Gravado inteiramente em duas sessões, no 30th Street Studio de Nova Iorque, em 2 de março e 22 de abril, o maior disco de Jazz de todos os tempos, foi concebido em clima de reunião de virtuos. Seguindo o desejo do trompetista de quase nenhum ensaio, poucas instruções sobre o que seria executado foram dadas ao sexteto. Pouco a pouco, a fusão de harmonias improvisadas tornava-se impressionante. Em poucos takes, com exceção da faixa Flamenco Sketches a única que dá razão à lenda do disco ter sido gravado apenas em primeiras tentativas – o maior álbum da história deste ritmo instigante e envolvente era gravado no acetato que permitiria sua reprodução e apreciação por amantes do estilo musical da época, do presente e, certamente, do futuro. São apenas cinco as canções que integram o álbum definitivo do Jazz: “So What”, “Freddie Freeloader”, “Blue in Green”, “All Blues” e

“Flamenco Sketches”, além de uma segunda versão desta última como faixa bônus. Composições que demarcaram um padrão de excelência no Modal Jazz, com suas concepções apenas horas antes das sessões de gravação, fator que justifica o elevadíssimo nível de virtuosismo instrumental. Não há melhor definição para esta apoteose sonora eterna que a de Ashley Kahn, autor de Kind of Blue: The Making of the Miles Davis Masterpiece: “Kind of Blue” é uma verdadeira declaração criativa”. Um novo sopro de vida dado ao estilo por um jazzista já agraciado pelo reconhecimento que, ao invés do conforto, optou pelo risco da inovação.

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MÚSICA

A Bela e a Tristeza
Falando sobre amor, Rachael comove o coroção de quem ouve.

N

ão é música para quem se sente bem. Não é uma música para ficar legal ou colocar numa festa com amigos. Definitivamente não é um tipo de música alegre. Muito longe disso. Apesar de uma agradável e suave voz, Rachael Yamagata faz um som para se acabar, bem de fossa mesmo. A cantora americana com descendências japonesa, alemã e italiana faz músicas para pessoas que estão vivendo um amor complicado ou para aqueles que ainda não conseguiram esquecer alguém e, consequentemente, estão com o coração em pedaços. Mas como uma hora ou outra todos nós passamos por situação semelhante, aí está o motivo de suas canções tocarem tão profundamente quem escuta. Sua introdução no mundo da música foi no mínimo inusitada, se comparada com o restante de sua carreira. Em Chicago ela participou como backing vocal da banda Bumpus, que tocava um misto de funk, soul e hip-hop. Mas antes disso ela aprendeu sozinha a tocar piano e não demorou muito para perceber que iria trilhar um caminho bem diferente do Bumpus. Cresceu ouvindo James Taylor, Cat Stevens, Stevie Nicks e Simon & Garfunkel no rádio de casa. Outra grande e até óbvia influência foi Joni Mitchell, a qual se assemelha muito na temática melancólica. E nesse contexto seu primeiro álbum até que não pega tão pesado. Lançado

em 2004, “Happenstance” contém entre suas faixas verdadeiras obras da dor-de-amor, porém tem coisa mais animada. Seu hit foi “Be Be Your Love”, que deu maior reconhecimento à cantora e serviu de trilha para vários seriados e filmes, como “The OC” e “Quatro Amigas e um Jeans Viajante”. “Worn me Down”, que tem um estiloso clipe, “1963”, “Letter Read” possuem ritmos mais entusiasmados, devidamente acompanhadas de uma batida pop. Mas a principal característica da nossa querida Rachael é saber ser triste, o que faz de uma maneira esplendorosa. Músicas depressivas e tristonhas como “I’ll Find a Way”, “Quiet” e Even So’ fecham o setlist. Mas música, assim como qualquer outra forma de expressão artística, é algo extremamente relacionado com o lado pessoal, cada um interpreta o que vê ou ouve de acordo com os seus sentimentos. Por isso não seria precipitado dizer que “Reason Why” é a música mais forte e a mais visceral de todas as faixas do álbum. Sua letra fala sobre querer ficar com alguém e não poder, de procurar seu rosto em todos os lugares, de exaltar como o amor nunca morre até terminar de modo perfeito com o singelo e certeiro verso: “but you and I know the reason why”. Já no seu último trabalho lançado, o furo foi muito mais embaixo. O álbum, que saiu em outubro de 2008, se divide em duas partes: “Elephants” e “Teeth Sinking Into Heart”. O primeiro segmento começa com música de título homônimo. Lentos acordes do piano acompanhados de violinos e versos como “você está me forçando a lembrar quando tudo que eu quero é te esquecer” já dão uma mostra do clima para todo o resto. E é este álbum que tem, provavelmente, sua faixa mais bonita e depressiva: “Sunday Afternoon”. Certamente biográfica, ela abandona uma pessoa por motivos não

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explicados, mesmo ainda gostando dela. Fora lançada no EP “Live at the Loft” em 2005, mas somente anos depois foi lançada oficialmente em um álbum de estúdio. “Duet” e “Over and Over” são canções que merecem destaque pelos mesmos motivos. Em “Teeth Sinking Into Heart” é onde estão as mais pauleiras. Essa é a diferença básica entre os dois CD’s. Enquanto o primeiro é triste, arrastado e melancólico, o segundo é quase que uma espécie de redenção disso tudo. Passado o choro você se recupera do processo todo, saí quebrando tudo e mandando o universo inteiro a merda. Todas as músicas são mais rápidas pesando bastante para o lado do pop rock (exceto “Don’t”) e com letras mais irônicas, deixando meio de fora o sentimentalismo. Mas não se engane, isto é somente um pequeno estalo se comparado ao geral. Rachael Yamagata é a tristeza amorosa na sua essência, acompanhada de uma doçura melódica que faz sua música ser obrigatória para todos os apaixonados, desapaixonados e também para os que apenas pretendem ouvir um bom som. Vale a pena ouvir essa bela morena e sua visão poética do sentimento mais necessário, imprevisível, sofrido e nobre que um ser humano pode ter em sua vida, também conhecido como amor.
Marcus Vinícius Freitas

u DISCOGRAFIA
- Happenstance (2004) - Live at the Loft & More (2005) - Loose Ends (2008) - Elephants… Teeth Sinking Into Heart (2008)

FARO

LIRISMO, TRANGReSSãO, LIBeRTAçãO... A POeSIA De ALLeN GINSBeRG

A

s bombas estrondosas que incandesciam os céus já não eram mais lançadas. A crueldade que exterminava seres humanos em série já era apenas uma dolorosa lembrança na memória. As paisagens devastadas pelo horror já estavam sendo substituídas por novas construções erguidas em cimento e tijolos... Enquanto isso, a nação que mudara o curso do segundo conflito bélico em escala mundial vivia a aparente tranquilidade oferecida pelo bem-estar da sociedade de consumo, às sombras do preconceito excludente que relegava aos negros a subserviência; do inconformismo com o moralista e hipócrita conservadorismo puritano que cerceava a cultura e a conduta social; e da caça às bruxas vestidas de vermelho que enfeitiçavam com foice e martelo. No coração desta nação de filhos sorridentes o anseio calado de libertação. Na década de 50, ele se deixaria expressar, fosse nos compassos do Rock’n’roll que rompia barreiras entre negros e brancos e fazia com

que os corpos se movimentassem no ritmo de uma sexualidade até então comportadamente adormecida, fosse na literatura Beat de personagens rotos e esfarrapados, liberais, que não negariam uma dose de qualquer coisa que os fizesse transcender o corpo e/ou a mente num bar aos acordes virtuosos do Jazz. Inspirada nos rostos pouco heróicos de desconhecidos que vagam na escuridão, faces, por muitas vezes, vistas no espelho, o movimento literário sacudiu a poeira da quadrada literatura norteamericana ao adicionar a ela a força do improviso jazzístico, criando obras-símbolo da liberdade, com furor, radicalismo e ousadia criativa e existencial. Na poesia beat, o nome de Allen Ginsberg ressoa misticamente. O maior dos poetas-anarquistas contemporâneos testemunhou o seu próprio tempo: tempo de ruptura, de evolução, de revolução! De modo feroz e verborrágico, revelou a obscuridade do desencanto com o sonho americano, com pitadas de lirismo surreal. A leitura de Ginsberg pode-se

revelar uma experiência tensa, difícil e por vezes traumática, torturante, extasiante, nauseante, cínica..., mas sempre esperançosa. Uma incursão por este mundo de sensações é oferecido por “O Uivo, Kaddish e Outros Poemas”, uma compilação de obras-primas do autor. Desde os primeiros versos de “O Uivo”:

Longa poesia que abre as portas para essa América dos que se “perderam do caminho” em doses

Júlia Fedrigo de Albuquerque

“A SANGUe FRIO” - O ReLATO PeRFeITO De UM CRIMe
ruman Capote inaugura o gênero literário “Romance de não-ficção” com A sangue frio. O livro narra um fato real que chocou os Estados Unidos, o brutal assassinato de quatro membros da família Clutter, em uma pequena cidade do Kansas, e dá uma lição de jornalismo ao fazer uma análise completa da chacina e da vida dos “personagens” envolvidos na trama, através de depoimentos coletados pelo escritor em seu árduo trabalho de pesquisa.

T

A narrativa inicia ambientando o leitor à típica pequena cidade de interior, onde a paz, a amizade e a fraternidade reinam soberanas. Neste lugar vive a família de um próspero fazendeiro, Herb Clutter, membro da Igreja Metodista local, muito respeitado e querido pelos munícipes. Todas as atividades dos membros da família, Bonnie (Sra. Clutter), Nancy e Kennon (filhos do casal) e do próprio Sr. Clutter no dia 14 de novembro (dia anterior ao crime) são relatas com riqueza de detalhes, o que faz com que o leitor se sinta próximo, como um conhecido, dos bondosos personagens. O livro apresenta uma característica muito marcante, a narrativa não linear. Ao mesmo tempo em que conta como as vítimas viviam seus derradeiros momentos, narra o tenso dia dos assassinos, Perry e Dick, e a frieza com que acertavam os últimos detalhes para “o crime perfeito”. Capote poderia ter narrado detalhado e cruamente o assassinato. Mas em prol do suspense, e com a finalidade de atrair a atenção do leitor,

guarda elementos como. Como o crime foi executado, qual a razão que levou os bandidos a executarem uma família inteira,... para contá-los no decorrer da narrativa. Outra grande particularidade do texto de Truman Capote é o seu poder de descrição, por exemplo, a descoberta da chacina é descrita de tal maneira que o leitor é capaz de “sentir” a tristeza e indignação presentes em cada um dos moradores da pequena cidade. Esta riqueza de detalhes também permite percebermos uma certa dose de arrependimento, culpa e apreensão nos pensamentos de Perry. Outra descrição impecável feita por Truman Capote é a de Perry Smith, ela faz com que sintamos pena de um dos responsáveis por este crime bárbaro. Perry tem uma trajetória de vida difícil, ainda criança foi separado do pai, a mãe era alcoólatra, começou a apresentar características agressivas, era mandado para reformatórios onde apanhava quase diariamente. Algum tempo depois, o pai retomou a sua guarda e com o pai viveu em inúmeros lugares

e trabalhou em diversos ramos. No entanto, a infância traumática já havia lhe causado sérios danos psicológicos que foram agravados por um acidente, que deixou como cicatriz uma pequena deficiência motora, mas que lhe deixava envergonhado, pois pensava que as pessoas sentiam asco ao vê-lo. A narração segue contando as peripécias de Perry e Dick após o crime, uma mal fadada viagem para o México, o paraíso por eles imaginado, o retorno aos E.U.A... E descreve as investigações, o abalo que a falta de provas e de suspeitos causou nos policiais destinados a averiguar o caso e os meios pelos quais conseguiram chegar aos assassinos. Obviamente, não vou contar o desfecho desta incrível narrativa de Truman Capote. Fica a dica para todos aqueles que apreciam a boa literatura. A sangue frio, o perfeito relato de um crime com todas as suas nuances e versões.
Júlia Fedrigo de Albuquerque

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Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa “hipsters” com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz (...),

de alucinógenos ou na loucura, de fantasmas às margens de sua sociedade, a leitura da poesia ginsbergiana é surpreendente e plural: passando do inferno familiar assombrado pela insanidade materna em Kaddish; pelo sarcasmo crítico de “América”, ao lirismo de “Transcrição de Música de Órgão”. Ao fim, este experimentalismo sensorial promovido pela leitura de “O Uivo, Kaddish e Outros Poemas” reitera o amor como o princípio e o fim de tudo. Apesar do horror e da dor que transbordam de algumas de suas páginas, o sentimento impera como o redentor do males, uma inegável e incontrolável procura de todos.

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FARO

eRA UMA VeZ NA AMÉRICA
arecia, no início, um projeto ousado demais: fazer um filme épico sobre gangsteres judeus em Nova Iorque. Com quatro horas de duração então, era algo que certamente seria recusado pelos grandes estúdios. Assim, o longa-metragem foi realizado com pouco mais de duas horas de duração. O diretor, Sérgio Leone, fez de Era Uma Vez na América, uma das grandes obras primas do cinema. Com cenários e figurinos de três épocas e com Robert De Niro e James Woods nos papéis principais, o filme não teve sucesso de bilheteria nos EUA. Em compensação teve sucesso consagrador na Europa. A trama está centrada em Noodles (Robert De Niro nas versões “adulto” e “velho”). No início cronológico da história, ele é um menino judeu sem qualquer

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perspectiva de vida, vivendo numa comunidade de imigrantes do leste europeu em Nova Iorque. Ao encontrar Max (James Woods), outro judeu, igualmente sem futuro, formam a espinha dorsal de um bando tão violento quanto arrivista, que usará de todos os meios para conseguir dinheiro, belas roupas e belas mulheres. A inteligência de Noodles, aliada à total falta de caráter de Max, trarão sucesso ao pequeno grupo, apesar da oposição de outros criminosos do bairro. Até aí, pode-se classificar como clichê de filme de máfia. O que Sérgio Leone oferece de diferente nesta obra é o elemento humano. Os personagens, quando adolescentes, crescendo no submundo nova-iorquino, têm aventuras amorosas e lutas com grupos rivais. Uma vez adultos, envolvem-se em chantagens durante a Lei Seca, além de

sangrentas disputas com outros mafiosos, desaguando nos anos 60, quando Max e Noodles se reencontram, depois de tomarem rumos diferentes. A música de Ennio Morricone é praticamente um personagem do filme. A fotografia é outro ponto alto de Era Uma Vez na América, além dos atores secundários como Tuesday Weld e Treat Williams. Leone criou o seu estilo de narrar, que exige grande preocupação com a imagem, sempre forte, sempre épica. O cineasta, que dirigiu westerns spaghettis, entre os quais se destaca Era Uma Vez no Oeste, e sempre ficava insatisfeito com seus filmes, deve ter sofrido muito com a mutilação e o fracasso iniciais de seu último filme. Mas, quando uma obra tem tantas qualidades, sempre acaba vencendo. Foi o que aconteceu para o épico monumental deste diretor criativo e inovador.

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Jean Dutra Berthier - Jornalista

MISTÉRIOS e PAIXÕeS
omo seria interessante um filme que lembrasse Franz Kafka escrevendo um livro sobre Salvador Dali e este pintar um quadro retratando Kafka. Mistérios e Paixões é tudo isso e não é nada disso ao mesmo tempo. É Dali porque é surrealismo nato. E é Kafka porque o enredo com os insetos remete quase que diretamente à obra A metamorfose. O que chama a atenção no filme é a quantidade de citações no decorrer da história que o diretor

C

praticamente faz saltar aos olhos do espectador mais atento. A trilha sonora jazzística, a indumentária e os cenários muitas vezes remetem aos anos 40; a atmosfera de mistério e exotismo reforça ainda mais a impressão de distanciamento da atualidade, enquanto o uso de drogas, administradas à granel, se encarrega de ser o elemento responsável pela certeza de distanciamento da realidade. Conhecendo a vida de Burroughs, intui-se que o roteiro

seja autoral, baseado nas experiências do autor com drogas alucinógenas. Realmente, o filme é recheado de situações inverossímeis e surreais, fruto da mente criativa de Burroughs. David Cronenberg conseguiu filmar o infilmável romance de William Burroughs, O almoço nu (Naked Lunch), transplantando-o para um contexto biográfico. O texto, um dos marcos literários do século XX, é tratado como tal e o que vemos é a própria vida do escritor, partindo do período narrado no anterior Junky, o assassinato à la Guilherme Tell de sua esposa, a vida toxicômana em Tanger e, para os iniciados em literatura beat, seu relacionamento congelado com colegas escritores como Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Paul e Jane Bowles. Nada disso suaviza o teor de Burroughs, muito pelo contrário. Traduzindo o delírio do livro em imagens, Cronenberg nos mergulha visceralmente na conexão entre drogas, paranoia e criatividade. Os diálogos entre o autor (Peter Weller, de Robocop) e máquina de escrever estão entre os grandes momentos da crítica literária, e, talvez, só quem tenha lido O almoço nu possa perceber o quanto

o diretor ilumina o livro ao invés de simplesmente adaptá-lo. De lamentar é o título que foi dado no Brasil para Naked Lunch.
Jean Dutra Berthier - Jornalista

u MISTÉRIOS e PAIXÕeS

(Naked Lunch) Direção: David Cronenberg Elenco: Peter Weller, Judy Davis, Ian Holm, Roy Scheider. Duração: 111 minutos

FARO

NA SeLVAGeM NATUReZA
ocê que está lendo esse texto: “Até aonde iria por uma causa?” Timothy Treadwell foi até o fim, as últimas e extremas consequências. No documentário “O Homem-Urso” o diretor alemão Werner Herzog presta um tributo à vida e morte do ecologista que dedicou sua vida aos ursos. Treadwell passou 13 anos acampando durante os verões numa reserva florestal do Alasca, estudando, protegendo e lutando em prol dos ursos pardos. Mas veio a falecer, juntamente com a namorada, devorado por um dos animais, em outubro de 2003. Ele praticamente largou tudo, incluindo o alcoolismo e uma vida problemática na adolescência para poder ficar perto dos bichos e da natureza, sua verdadeira paixão. Um ato nobre, mas também uma fuga da realidade, uma fuga da civilização a qual não se encaixava e tanto repudiava. Por outro lado, sua tristeza era mais que evidente cada vez que ele precisava sair da reserva, abandonando temporariamente seus “vizinhos”. Com intensidade que lhe era característica, entrou de corpo e alma e foi a fundo na causa, passava mais tempo com

O HOmem-UrsO

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os animais do que qualquer outra coisa. Na verdade era uma relação recíproca, pois da mesma forma que Treadwell protegia os ursos, os mesmos lhe deram um abrigo da humanidade que tanto abalou sua fé. Encontrou neles uma saída para sua vida desregrada e sem rumo. Encontrou, enfim, uma razão de viver. Alguns indagam se era necessário proteger os ursos, afinal eles estavam dentro de uma reserva protegida pelo governo. Mas se os caçadores respeitassem as leis de proteção várias carcaças de ursos não apareceriam nela, fato omitido no filme e mostrado apenas no making of. O próprio diretor faz o contraponto do protagonista. Numa passagem de sua narração ele diz: “Ele parece ignorar que na natureza há predadores. Eu acredito que os denominadores comuns do universo são: o caos, a hostilidade e o assassinato”. Em outra diz o seguinte: “O que me assombra é que, em todas as caras de todos os

ursos filmados por Treadwell, eu não descobri nenhuma simpatia, compreensão ou piedade. Vi apenas a impressionante indiferença da Natureza. Este olhar vazio revela apenas um interesse entediado por comida”. Herzog não compartilha da mesma visão romântica sobre a natureza de Treadwell e deixa isso bem claro. Os depoimentos do médico-legista, da ex-namorada, de amigos e de pessoas que acharam que “ele teve o que merecia”, completam as opiniões. Outra coisa que fica clara é a admiração de Herzog pelo

cinegrafista Timothy, visto que ele deixou centenas de horas de vídeo com imagens, tomadas e sequências deslumbrantes (uma briga de ursos, por exemplo), esquecendo momentaneamente sua justificativa ecológica. Talvez tenha faltado prudência, mas são ações dedicadas como a sua que transformam o mundo em um lugar melhor. Timothy Treadwell dedicou grande parte de sua vida a proteger os ursos, quando na realidade foram eles que o salvaram. Por ironia do destino veio a ser morto por um deles. Um trabalho com o olhar dedicado, obsessivo e delicado, Herzog, ao mesmo tempo em que explora a forte e instável personalidade do ecólogo, questiona a relação entre o ser humano e a natureza, sendo a última tão importante quanto impiedosa.
Marcus Vinícius Freitas

(Grizzly Man) Direção: Werner Herzog Elenco: Werner Herzog, Larry Van Dale, Warren Queeney, Katheleen Parker Duração: 103 minutos

u O Homem urso

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FOTOGRAFIA

O momento decisivo
“Tirar uma foto é como reconhecer um evento. Naquele exato momento e numa fração de segundo, você organiza as formas que vê para expressar e dar sentido ao evento. Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração. É uma forma de viver.” HCB

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Hyères, França, 1932 u Aqui a simetria entre as linhas dos elementos, o enquadramento perfeito e o momento decisivo com a bicicleta passando.

Behind the Gare St. Lazare, 1932 u O homem pulando sobre a água há poucos centímetros da superfície é o perfeito exemplo do “momento decisivo”. Detalhe para a analogia com o cartaz da bailarina ao fundo.

On the Banks of the Marne, França, 1938 uUm dos assuntos favoritos do Bresson eram os acontecimentos simples do cotidiano. No caso, uma família almoça tranquilamente à beira de um rio.

m dos maiores mestres da fotografia, o francês Henri Cartier-Bresson revolucionou o fotojornalismo moderno. Seu conceito era que deveria esperar o “momento decisivo” para tirar uma foto, isto é, o segundo exato entre o acontecimento e o apertar do disparador. Ele tinha sensibilidade e talento de sobra para saber distinguir esta fração de tempo.

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Viajou pelo mundo munido de uma discreta Leica captando grandes momentos da história como a morte de Gandhi, o começo da era Mao Tse Tung e a Guerra Civil Espanhola. Trabalhou para revistas como “Vogue” e “Life”, fundou a agência de fotojornalismo “Magnum” e fotografou nomes como Albert Camus, Coco Chanel, William Faulkner, entre outros. Porém seu tema preferido era a reportagem fotográfica, que

estabelece uma ponte entre o ser humano e o mundo. Jamais utilizou qualquer forma ou ferramentas para alterações em suas fotos, incluindo o flash, além de ser totalmente contra as montagens com atores. Costumava dizer que a fotografia era um presente do acaso e que devíamos tirar proveito disso, visto que o ofício é uma constante briga contra o tempo. Bresson faleceu no dia 3 de agosto de 2004 em Provence, poucos dias

antes de completar 90 anos, mas sua obra ficou eternizada. Quem deu a melhor definição para o que ele representou no mundo do fotojornalismo e das artes foi seu amigo e biógrafo, Pierre Assouline: “Se o século XX foi o século da imagem, Cartier-Bresson foi o olho desse século.”

Marcus Vinícius Freitas Jornalismo do II nível

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