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EM BUSCA DE UM ENSINO PRODUTIVO DA GRAMÁTICA

EM BUSCA DE UM ENSINO PRODUTIVO DA GRAMÁTICA

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  • INTRODUÇÃO
  • 1 A LINGÜÍSTICA E A GRAMÁTICA
  • 1.1 HISTÓRICO DA LINGÜÍSTICA
  • 1.2 LINGUÍSTICA E NORMA
  • 1.3 O ESTRUTURALISMO
  • 1.4 O GERATIVISMO
  • 1.6 A ANÁLISE LINGÜÍSTICA
  • 1.7 O FUNCIONALISMO
  • 1.8 CONCEPÇÕES DE GRAMÁTICA
  • 1.9 INTERACIONISMO SOCIODISCURSIVO
  • 2 DIFICULDADES DO ENSINO DE GRAMÁTICA
  • 2.1 CAUSAS DO FRACASSO ESCOLAR
  • 2.2 TIPOS DE GRAMÁTICA
  • 2.3 O TRABALHO PEDAGÓGICO DO PROFESSOR
  • 2.4 FALHAS NO ENSINO DA GRAMÁTICA
  • 2.4.1 Considerações sobre os objetivos da disciplina de Português
  • 2.4.2 Metodologia inadequada
  • 2.4.3 Ausência de organização lógica
  • 3 CONCEPÇÕES DE ENSINO E MODOS DE ATUAÇÃO DO DOCENTE
  • 3.1 ENTREVISTAS COM OS PROFESSORES:
  • 3.2 ENTREVISTAS COM OS ALUNOS:
  • 3.3 O PERFIL DO PROFESSOR
  • GRAMÁTICA PARA OS DIAS ATUAIS
  • 4.1 TIPOS DE ENSINO
  • 4.2 ESCRITA E LEITURA
  • 4.5 GRAMÁTICA E ENSINO
  • 4.6.1 O texto do aluno como ponto de partida
  • 4.6.2 Trabalhar o texto do aluno em todos os aspectos
  • 4.6.4 Propostas de leituras
  • 4.6.5 A aula de gramática, laboratório de leitura e escrita
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS
  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MARTA MARIA DA SILVA PASCHOAL

EM BUSCA DE UM ENSINO PRODUTIVO DA GRAMÁTICA

Dissertação apresentada ao Programa de pós-graduação em Lingüística da Universidade de Franca, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Lingüística. Orientador: Pernambuco. Prof. Dr. Juscelino

FRANCA 2009

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MARTA MARIA DA SILVA PASCHOAL

EM BUSCA DE UM ENSINO PRODUTIVO DA GRAMÁTICA

COMISSÃO JULGADORA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM LINGUÍSTICA

Presidente: ___________________________________ Prof. Dr. Juscelino Pernambuco UNIFRAN

Titular 1: ______________________________________ Profa. Dra. Simone Abrahão UNESP

Titular 2: ______________________________________ Profa. Dra. Ana Cristina Carmelino UNIFRAN

Franca, 13/03 /2009

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DEDICO este trabalho à Clotildes, minha mãe, por todo amor e incentivos que em vida a mim dedicou.

pela dedicação e paciência. alunos e funcionários da EMEF “Prof. Juscelino Pernambuco.4 AGRADECIMENTOS Aos meus familiares. Anacleto Cruz” que contribuíram para a efetivação deste trabalho. meu orientador. . à direção. Dr. na competente atribuição de balizar meu caminhar na elaboração desta dissertação. colegas. principalmente ao meu esposo Sérgio. aos professores e amigas do curso de Lingüística que muito me auxiliaram nesta longa caminhada. ao Prof. pelo apoio durante esta caminhada e pela compreensão nas horas de ausência.

José Paulo Paes . Quanto mais as crianças usam palavras.5 Palavras são um brinquedo que não fica velho. mais elas se renovam.

ainda há a necessidade de um ensino mais produtivo. proposta. Após um estudo comparativo entre os diferentes tipos de gramática. Palavras-chave: Gramática. Franca. Esta dissertação teve como tema a busca de um ensino produtivo para a gramática nos dias atuais. Esses dados foram comparados com outros de pesquisas anteriores e percebeu-se que pouco mudou. A colocação da gramática no seu devido lugar de auxiliar do texto. ensino produtivo. . Estabeleceu-se uma análise comparativa entre o ensino tradicional da gramática normativa e o atual em nossas escolas e comprovou que. Marta Maria da Silva. Dissertação (Mestrado em Lingüística) – Universidade de Franca.embora o ensino tenha evoluído.6 RESUMO PASCHOAL. 2009. Em busca de um ensino produtivo de gramática. Esta pesquisa procurou apresentar alguns princípios para a prática de um ensino mais produtivo e atraente para os alunos. tomando o texto produzido por eles como ponto de partida. foram feitas entrevistas com professores e alunos de escolas da rede pública e particular para que fossem apresentados dados mais concretos sobre o seu trabalho. a conscientização do professor sobre a busca de inovação do seu trabalho no ensino da gramática foram os objetivos desta pesquisa. lingüística. 133f.

It was established a comparative analysis between the traditional teaching of the normative grammar and the actual one in our schools and it proved that. . there is still the necessity of a more productive teaching. linguistic. After a comparative study between the different types of grammar. Key Words: Grammar. 2009. taking the text produced for them as a departure point. Marta Maria da Silva. The placing of grammar on its proper place as text auxiliary. This dissertation possessed as theme the search of a productive teaching in Grammar in current days. Em busca de um ensino produtivo de gramática. This research looked for presenting some rudiments in the practical of a more productive teaching to the students. These data were compared with other ones of previous researches and it was understood that a little has changed. proposal. 133f. interviews were done with teachers and students from public and private schools so that more concrete data about teacher´s work were shown. Franca. productive teaching.7 ABSTRACT PASCHOAL. Dissertação (Mestrado em Lingüística) – Universidade de Franca. although the teaching has evolved. the teacher´s consciousness above search in the innovation of his/her work in grammar teaching were the objective of the research.

......................................................................................................................................14 LINGÜÍSTICA E NORMA ...........3 ESCRITA E LEITURA...................................................................................................66 Considerações sobre os objetivos da disciplina de Português ............7 1............................................................................................3 1.........................................109 ............4.....................................59 FALHAS NO ENSINO DA GRAMÁTICA .......................4..........................85 O PERFIL DO PROFESSOR .................................................3 A LINGÜÍSTICA E A GRAMÁTICA ..24 A LINGÜÍSTICA TEXTUAL...70 Ausência de organização lógica .................................................1 TIPOS DE ENSINO ................................55 O TRABALHO PEDAGÓGICO DO PROFESSOR .................................2 2....22 O ESTRUTURALISMO................................4 1.....................8 1.............1 3...............................................................5 1.99 4................................................52 CAUSAS DO FRACASSO ESCOLAR......3 2.66 Metodologia inadequada ...............................................................78 ENTREVISTAS COM OS ALUNOS.................................3 3 3...1 2........27 A ANÁLISE LINGÜÍSTICA.....73 CONCEPÇÕES DE ENSINO E MODOS DE ATUAÇÃO DO DOCENTE .............52 TIPOS DE GRAMÁTICA...........................10 1 1........................................................................92 4 PRINCÍPIOS PARA UMA PROPOSTA DE ENSINO PRODUTIVO DA GRAMATICA PARA OS DIAS ATUAIS .............. 43 DIFICULDADES DO ENSINO DA GRAMÁTICA ...........35 INTERACIONISMO SOCIODISCURSIVO ...........................4 2..........................2 3..................33 CONCEPÇÕES DE GRAMÁTICA ....2 2.................................................................................................30 O FUNCIONALISMO ...................................1 2..........................................2 4........4............................................................................99 4...................23 O GERATIVISMO .........9 2 2....8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ....................6 1.......................................................................................................................................1 1....77 ENTREVISTAS COM OS PROFESSORES ...........................2 1........14 HISTÓRICO DA LINGÜÍSTICA ......................................106 PROPOSTA CURRICULAR DO ESTADO DE SÃO PAULO...

....................9 4....................122 A aula de gramática.....................6 4................3 4..1 4.................6..........5 GRAMÁTICA E ENSINO .......................................................................................125 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................121 Selecionar as dificuldades apresentadas pelos alunos ...129 ............2 4..............123 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................4 SISTEMA DE AVALIAÇÃO DO RENDIMENTO ESCOLAR DO ESTADO DE SÃO PAULO (SARESP)...............121 Propostas de leitura.........6.....................6...........................................110 4.............................4 4..............115 EM BUSCA DE PRINCÍPIOS PARA UMA PROPOSTA DE ENSINO .....................................119 Trabalhar o texto do aluno em todos os aspectos ...6...................................5 4............................ laboratório de leitura e escrita.......117 O texto do aluno como ponto de partida.......6......

10 INTRODUÇÃO Pratiquem com o espírito de criança! Mais livres. Luft (2006). a disciplina de Língua Portuguesa pode centrar-se no conjunto de regras que nos leva a produzir frases e dali chegar Os Parâmetros Curriculares Nacionais foram lançados em 1998 e depois em 2002 pelo Ministério de Educação e Cultura com o objetivo de inovar para melhorar o ensino no Brasil. na seleção de conteúdos da análise lingüística que a referência não pode ser a gramática tradicional. De acordo com esta proposta. Consta também desse texto a informação da inexistência de justificativa para tratar o ensino gramatical desarticulado das práticas de linguagem e que quando a gramática é ensinada de forma descontextualizada torna-se emblemática de um conteúdo estritamente escolar. possíveis caminhos para um ensino mais produtivo. Bronckart (2007). de uma prática pedagógica que vai da metalíngua para a língua por meio de exemplificação. Trata-se. Tem como ponto de partida afirmações dos Parâmetros Curriculares Nacionais1 (PCNs 1998) de Língua Portuguesa. suas dificuldades e conseqüências e apresenta com base em autores como Pernambuco (1993). exercícios de reconhecimento e memorização de terminologia. A atual proposta curricular do Estado de São Paulo demonstra preocupação com o ensino de Língua Portuguesa como objeto e como meio para o conhecimento. que quando foram divulgados pelo MEC. Hermógenes Esta pesquisa trata da situação atual do ensino de gramática de quinta à oitava série. então. Os PCNs de Língua Portuguesa de quinta a oitava série preconizam em “Reflexão gramatical na prática pedagógica” que se deve ter claro. do tipo que só serve para ir bem nas provas e passar de ano. com poucos julgamentos. motivaram várias discussões sobre o ensino da língua materna em todos os níveis. observando tudo com encantamento. Neves (2006). 1 .

são verdadeiros crivos para a entrada dos alunos no campo de trabalho. Também que a língua deve ser considerada como um duplo sistema. a necessidade de se descobrir o que esta acontecendo realmente em nossas escolas. Esse trabalho concentra-se na investigação do ensino de gramática nos dias de hoje e na busca de alternativas para um ensino mais produtivo. Sabemos que estas críticas da imprensa estão ligadas a falar bem em português e ao uso da língua baseado na norma culta. Observamos. O trabalho do professor ainda hoje está muito ligado ao ensino da gramática normativa. Pernambuco (1993.1995). Baseados em reflexões dos trabalhos de Franchi (1988).. daí a necessidade de pesquisarmos as causas. O ensino de gramática tem deixado muito a desejar nas escolas. ou nos enunciados que circulam efetivamente no cotidiano e que seguem regras específicas as quais permitem a comunicação. O ensino de Língua Portuguesa é motivo de preocupação para grande parte da nossa sociedade. para que e como ensiná-la. Bechara (2006) e Luft (2006) observamos questões fundamentais relativas à natureza da gramática e ao modo de conduzir seu ensino. Antunes (2003). Um dos principais objetivos desta pesquisa é a conscientização dos professores de que o domínio efetivo e ativo de uma língua dispensa o domínio de uma metalinguagem e conhecer uma língua é uma coisa e conhecer gramática é outra.11 aos enunciados. hoje. portanto. A discussão sobre se há ou não necessidade de ensiná-la é considerada falsa. um de . Esses exames. atualmente. Perini (2002). tendo-se como verdadeira o que. Isso acontece devido ao grande fracasso dos alunos principalmente em se tratando de alguns concursos que ainda usam a gramática normativa. as dificuldades e as possíveis conseqüências do insucesso do ensino de Português. atitudes para eliminar o problema. Existe aí uma preocupação quanto ao direcionamento do ensino da gramática considerando que ensiná-la não é reconstruir o quadro descritivo dos manuais de gramática escolar com seus alunos. É de grande importância a opinião da mídia principalmente porque ela manifesta-se quase sempre vinculando o professor a tudo que acontece na educação relacionado a fracasso e é isto que muitas vezes leva a sociedade a cobrar do docente.

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sinais e outro de combinação destes sinais que constituem a gramática e não há língua sem gramática, mas que gramática não é sinônimo de língua. Através desta pesquisa pretendemos colocar a gramática em seu devido lugar de auxiliar de construção dos textos e não razão de ser do ensino de língua materna. Analisar o ensino atual de gramática e o que pode ser feito pela sua renovação é uma meta a ser atingida. Tão importante como este objetivo é o de despertar no professor momentos de reflexão a fim de que ele decida inovar-se no ensino de gramática para maior aproveitamento, pelos alunos, do conteúdo desenvolvido por ele em suas aulas. Partindo da afirmação de que todo falante, independentemente da modalidade da linguagem que usa, domina uma gramática interna de natureza biológica e psicológica que interioriza em tenra idade, dependendo de suas experiências lingüísticas, e que não existem livros dessa gramática. Ela deveria ser o ponto de partida do ensino da língua materna, é muito preocupante a maneira que se usa para ensinar a língua materna. Em conseqüência disso, há necessidade de se acabar com a compreensão deturpada que se tem de gramática, da língua e de seu estudo. Esse é o fator que tem funcionado como obstáculo à ampliação da competência dos alunos para a fala, a escrita, a leitura e a escrita de textos adequados e relevantes. Acreditamos que o professor se convencerá de que há necessidade de mudanças radicais quanto ao ensino de gramática nas escolas. A rejeição tanto dos alunos como dos professores pela gramática, provocada pela renovação ou inconseqüência de uma prática dos mesmos exercícios antigos sob outras roupagens, deverá mudar a partir do momento da conscientização deles. As ciências lingüísticas têm provado que a gramática aprendida de forma natural e espontânea no meio familiar tem de ser o ponto de partida para o ensino da norma chamada de culta. Esta pesquisa será desenvolvida em quatro capítulos. No primeiro capítulo, devido ao fato de a pesquisa analisar contribuições lingüísticas para o ensino da gramática, consideramos importante estudar um pouco da evolução histórica da lingüística e dos conceitos gramaticais. Nesta evolução histórica constará a citação das correntes lingüísticas desde Panini até nossos dias, a lingüística no Brasil e os diferentes tipos de gramática. O prestígio dado à língua

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escrita em nossa sociedade, muitas vezes é obstáculo para os principiantes nos estudos da Lingüística devido a dificuldade de considerar a língua falada independentemente de sua representação gráfica. No segundo capítulo, trataremos do atual ensino de gramática, suas dificuldades e conseqüências e, sobretudo sobre as dificuldades encontradas pelos professores no seu trabalho. Para melhor discorrermos sobre o assunto, subdividimos este capítulo em quatro itens: causas do fracasso escolar, a sociedade e a lingüística, o pedagógico do professor e falhas no ensino da gramática. Procuramos neste capitulo colocar o professor a par das contribuições lingüísticas para esse ensino, pois muitos deles atribuem à intromissão da lingüística na sala de aula, os fracassos atuais. Na verdade eles ignoram que a lingüística não é um método de ensino e que seu objetivo é o estudo da linguagem. No terceiro capitulo serão apresentadas as entrevistas feitas com professores e alunos de escolas públicas e privadas, as perguntas e seus objetivos. Será estabelecida uma relação entre as respostas dos professores e dos alunos para que assim se possa alcançar os objetivos fixados pelas perguntas. Também dentro das possibilidades foi feito uma comparação entre as respostas dadas a perguntas comuns de uma pesquisa desenvolvida por Pernambuco (1993) e esta, completando com os comentários de Neves que fez uma pesquisa parecida em 2005. Após a seleção da bibliografia, alicerce dos dados teóricos, será estabelecida uma análise comparativa entre o ensino tradicional da gramática normativa e o atual em nossas escolas. Através das entrevistas e também dos dados apresentados nas pesquisas feitas por Pernambuco (1993) e por Neves (2005), obtivemos dados mais concretos quanto à postura do professor de português na sala de aula em relação ao ensino de gramática e o ponto de vista dos alunos quanto ao uso e a aprendizagem da mesma. O quarto capítulo analisará as contribuições da teoria lingüística para uma renovação no ensino de gramática nas escolas atuais e trará alguns princípios para uma proposta de ensino mais produtivo da gramática nos dias atuais. Esperamos com esta pesquisa, baseada no trabalho do professor de português, motivar maiores discussões entre professores e sociedade.

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1 A LINGÜÍSTICA E A GRAMÁTICA

“Nem tudo tinham os antigos, nem tudo temos os modernos, com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum”. (Machado de Assis)

1.1 HISTÓRICO DA LINGÜÍSTICA Neste capítulo, trataremos das relações entre a lingüística e a gramática. Para tanto faremos um histórico do surgimento dos estudos gramaticais e da teoria lingüística. Segundo Leroy (1967, p. 15), o impulso e o desenvolvimento da Lingüística Geral datam da primeira metade do século XX e sua origem encontra-se na renovação dos estudos sobre a linguagem, que resultou na constituição da gramática comparada a qual nasceu no momento em que, em todos os domínios, desenvolvia-se um novo método científico que atingiu favoravelmente as línguas indo-européias e forneceu, assim, à lingüística, fundamentos técnicos

indispensáveis. A diversidade dos dialetos falados já tinha sido alvo de pesquisas de alguns estudiosos, mas na maioria das vezes tratava-se de perspectivas particulares sem nenhuma visão de conjunto. As pesquisas foram aperfeiçoando-se e os primeiros comparatistas não foram mais que os herdeiros, ou mesmo prisioneiros de um passado, pois o interesse pela linguagem é muito antigo e, geralmente, era expresso através de lendas, mitos, cantos e rituais. De acordo com Leroy (1967), os hindus começaram a estudar sua língua por motivos religiosos. Para eles, era de suma importância que os textos reunidos no “Veda” não sofressem alteração alguma, ao serem cantados ou recitados durante os sacrifícios, e fossem conservados na sua pureza primitiva. Os gramáticos hindus, sendo o mais célebre deles Panini (século IV a.C), dedicaram-se ao estudo do valor, do emprego das palavras e fizeram de sua língua descrições

Heródoto citou. sem trazer consigo a revelação do sânscrito. algumas teses (relação do significante com o . próprios da Índia. Platão discute esta questão no Crátilo. concluir a favor de uma ou de outra. Isso aconteceu devido ao fato de os helenos serem imbuídos de suas tradições e convencidos de sua supremacia intelectual. o termo “bárbaro” que significa pipilar dos pássaros era aplicado por eles ao se dirigirem a qualquer língua estrangeira considerando-as tão ininteligíveis quanto os gorjeios dos alados. O principal problema colocado entre os filósofos preocupados com a elaboração de uma teoria do conhecimento era definir as relações entre a noção e a palavra que a designa. Marinheiros. Os gregos. Esse termo logo recebeu. este diálogo teve como conseqüência o fato de os mais modernos darem demasiada importância à parte central: “etimologias”. Do ponto de vista da história do pensamento lingüístico. Os gregos ignoraram os idiomas “bárbaros”. sua preferência era a teoria pela exatidão natural das palavras. não nos deixaram de sua língua quaisquer informações válidas sobre os falares das populações com as quais estiveram em contato. o principal deve ser procurado no início e na conclusão do diálogo: encontram-se aí entrevistas. mas dedicaram-se muito ao estudo de sua própria língua no plano estético (estilo) ou no plano filosófico (adequação da linguagem do pensamento). isto é. uma palavra meda no livro I de suas Histórias. no entanto. uma palavra egípcia no livro II e mais uma no livro IV. O exército de Alexandre Magno voltou das fronteiras da Índia. embora sejam amantes de histórias. tornando-se uma constante a antítese heleno/bárbaro que fez passarem despercebidas as semelhanças evidentes entre os idiomas vizinhos e o grego. mas seus conhecimentos transmitidos se perderam. que se limitaram a classificar os fatos sem procurar explicação para isso. entre os gregos. sobrevivendo apenas indicações recolhidas sem ordem nem método por alguns escoliastas ou lexicógrafos. como que acidentalmente. valor pejorativo. Estes estudos foram desenvolvidos sobre o sânscrito e efetuados por homens totalmente desprovidos de senso histórico. entre o significante e o significado. colonos e soldados gregos aprenderam muitas línguas. quando não esboçadas. em seguimento a muitos outros expõe as teses antagônicas sem. queriam saber se havia uma relação necessária entre as palavras e a sua significação. essas descrições foram descobertas por sábios ocidentais nos fins do século XVIII constituindo o ponto de partida para a criação da gramática comparada. Esquecidas por muito tempo.15 fonéticas e gramaticais que são modelares no gênero.

etc. ao contrário do esperado. A nossa terminologia lingüística é composta em grande parte de termos adotados diretamente do grego ou de sua tradução latina. pelo contrário. destacou-se Varrão que se esforçou para definir a Gramática como ciência e como arte ao mesmo tempo. Ele elaborou como aplicação da teoria das proposições e dos juízos: uma teoria das frases. Aristóteles desenvolveu suas pesquisas dando margem a reflexões sobre linguagem em outras direções. a distinção entre as partes do discurso e a enumeração das categorias gramaticais. Isso faz de Aristóteles e seus discípulos iniciadores de uma longa tradição. verbo. Na Idade Média. Foi muito bem observado pelos antigos o fato de existirem na língua fatos contraditórios e tal observação foi utilizada num sentido doutrinário. Os alexandrinos (egípcios) aperfeiçoaram as teorias gramaticais e as agruparam num corpo coerente de doutrinas que se tornou. 18). a observação dos falares vizinhos. pois ainda exercem influência sobre a pedagogia e a metodologia de nossos estudos. As categorias que instauraram: nome. a tradução da Bíblia em gótico no século IV. Ele vislumbrou. tentando proceder a uma análise precisa da estrutura lingüística: a constituição da gramática. Os filósofos e gramáticos latinos discípulos dos gregos. enquanto os anomalistas se apresentavam antes como letrados ciosos de respeitar o uso” (LEROY. p. em armênio no século V. Em Roma. em eslavo no século IX. durante séculos. o contato do Cristianismo com os povos de língua “bárbara”. para opor aos que queriam construir um sistema gramatical fundado nas analogias aos que. Tudo proclama a filiação da lingüística ocidental à filosofia grega. na maioria. Dentre os latinos. também não tiveram consciência do que poderia representar para o estudo da sua própria língua. o modelo. e os analogistas professavam uma doutrina essencialmente normativa. têm sempre uma base filosófica. O interesse dos gregos pela língua era exclusivamente filosófico. a sociedade culta era. os latinos esforçavam-se por adaptar o estudo de sua língua às “regras” formuladas pelos teóricos gregos. não criou problema de relação entre . com mais lucidez que os gregos. se baseavam nas anomalias: “o resultado foi uma série de disputas estéreis entre os defensores das duas doutrinas. valor social da linguagem) que constituem posições essenciais da Lingüística Contemporânea. gênero gramatical.16 significado. o valor da oposição de aspectos do verbo. bilíngüe. arbitrariedade do signo.

Dante. No início da pesquisa. os nomes foram dados arbitrariamente às coisas. O desprezo por longo tempo direcionado às línguas “vulgares” diminuiu e desapareceu diante do desenvolvimento de ricas e vigorosas literaturas nacionais. devido às controvérsias teológicas tornou-se necessário o conhecimento do hebraico. considerou quatorze formas de dialetos italianos. Em 1502 surge o mais antigo dicionário poliglota. enquanto a Escolástica faz reviver no estudo da gramática a controvérsia sobre a exatidão das palavras. sob a forma de oposição entre realistas e nominalistas. p. Neste período medieval surgiu na Itália. a religiosidade ativada pela reforma fez com que surgisse um clima mais favorável a um estudo lingüístico. pois os evangelizadores consideraram a língua dos gentios como instrumentos de propaganda e não como assunto de reflexão e de estudo. de suas experiências no estrangeiro.17 as línguas. no entanto. p. de língua vulgar. o conhecimento de idiomas até então desconhecidos. ele foi um caso isolado e suas idéias não tiveram eco (LEROY. língua semítica de uma estrutura diferente da das línguas européias. um homem excepcional. Viajantes. “Um dialeto. neste século. as regras da gramática são independentes das línguas em que se realizam. define-se por um conjunto de particularidades tais que o seu agrupamento dá a impressão dum falar distinto dos falares vizinhos. mas também o fato de terem sido um dos primeiros povos a discutir sobre os conceitos de dialeto. Dante no seu “De vulgari eloquentia”. o que motivou forçosamente comparações de ordem lingüística. do italiano Ambrósio Calepino que devido seu grande êxito foi por várias vezes refeito e enriquecido. surgiu um princípio de método que deveria racionalizar o estudo da relação entre os dialetos: o da comunidade de . 20). conseqüentemente. Os modistas (modistae). 19. Além disso. Para os realistas as palavras eram apenas o reflexo das idéias enquanto para os nominalistas. consideraram que a estrutura gramatical das línguas é una e universal e. O prestígio do latim foi mantido e permaneceu intacto o quadro gramatical de Dionísio de Trácia. diz Marouzeau. comerciantes e diplomatas trazem. a despeito do parentesco que os une” (1933. Os italianos devem a ele não somente a unidade de sua língua. 26). apud COUTINHO. muito avançado para o seu tempo. escrito em 1903. então. No século XVI. de língua literária. 1978.

Com base nos princípios metodológicos que preconizavam a análise dos fatos observados é que se formou o pensamento lingüístico contemporâneo. Franz Bopp é o estudioso que se destaca nessa época. funda-se na Razão e que os princípios de análise estabelecidos não se prendem a uma língua particular. As reflexões sobre a natureza da linguagem a partir do século XVII e XVIII e as tentativas de analisar a estrutura lingüística nada mais são do que a continuação das preocupações dos Antigos. comparado ao grego. É nesse período que se desenvolve um método histórico. Em 1660. Dentre os primeiros comparatistas. imagem do pensamento.18 origem que permitia classificar as línguas em famílias. provocando um interesse pelas línguas vivas. ao persa e ao germânico. Em 1816. ao latim. com ilustração notável do prestígio aristotélico. como a língua primitiva a partir da qual convinha explicar todas as outras. independentemente da vontade dos homens. mas servem a toda e qualquer língua. esta gramática quer explicar os fatos. modelo para outras gramáticas do século XVII. sem base séria. a publicação da sua obra sobre o sistema de conjugação do sânscrito. somente no século XIX é que esses raciocínios de tipo abstrato desaparecem pouco a pouco diante do alargamento de horizontes resultante de um conhecimento de um número maior de línguas. a Grammaire Générale et Raisonée de Port Royal. da América e da África derivavam de um protótipo comum. um sistema genealógico no qual as línguas da Europa. O estudo comparativo das línguas evidenciará o fato de que elas se transformam com o tempo. instrumento importante para o florescimento das gramáticas comparadas e da lingüística histórica. No começo do século XVIII. pelo estudo comparativo dos falares. Os eruditos que se dedicavam a classificar as línguas partiam não de exames de documentos. é considerada o marco do surgimento da Lingüística Histórica e criador do verdadeiro método do estudo da ciência da linguagem. seguindo uma necessidade própria da língua. A ele coube reunir as provas indiscutíveis do parentesco das línguas indo-européias e fundar ao mesmo tempo a gramática comparada delas. da Ásia. de Lancelot e Arnaud. seguindo assim uma tradição cristã. demonstrar que a linguagem. mas sim da preeminência do hebraico. consideravam-na por ser a língua do Velho Testamento. A esta obra seguiu-se a “Gramática comparada das línguas . ele construiu ao mesmo tempo. Leibniz combateu essa hipótese de origem hebraica. Segundo Leroy (1967).

o indo-europeu. elas constituem uma família: a indoeuropéia. do latim.H. dois anos após o de Bopp. Outro promotor da gramática comparada foi Jacob Grimm (1822) que. cujos membros têm uma origem comum. empolgados com as suas pesquisas. mas somente publicado em 1818. ao qual se pode chegar através do método histórico-comparativo. terminado em 1814. do báltico e do eslavo com mais rigor que Bopp. Bredsdorff em 1821. Bopp foi precedido pelo dinamarquês Rasmus Rask que teve seu estudo. a publicação desse trabalho começou em 1833 e só foi terminada em 1852. A febre da ressurreição do passado conquistou rapidamente adeptos para a nova ciência. Segundo Leroy (1967. se pronunciavam sobre questões de gramática grega e latina. Também observou que Rask demonstrava a identidade original das línguas germânicas.19 indo-germânicas” onde o pesquisador ampliou o plano dos estudos anteriores e acrescentou outros idiomas. isto é. aplicou-se aos estudos dos dialetos germânicos e pesquisas pormenorizadas sobre as histórias fonéticas dos falares germânicos. A descoberta das semelhanças entre essas línguas evidenciou entre elas uma relação de parentesco. pecaram por vezes pela imprecisão e construíram teorias em fatos insuficientemente controlados. Leroy destaca que a lei que leva o seu nome (“a lei de Grimm”) já tinha sido indicada por Rask em 1818 e por J. Seu ponto de vista consistiu em considerar as línguas como elementos naturais tais como as plantas: nascem. do grego. pois este se revelou um grande mestre e exerceu influência profunda no desenvolvimento da ciência lingüística. Curiosamente. afirma Leroy (1965). ao introduzir em Lingüística a noção de perspectiva histórica. intitulado Pesquisas sobre a origem da antiga língua norueguesa ou islandesa. A Lingüística aparece desde então como ciência natural e Schleicher quis ... crescem. muitos eruditos se entregaram ao levantamento das línguas indo-européias e ao estudo sistemático de todas as suas manifestações. Esta hostilidade aumentou ainda mais devido ao fato de que certos comparatistas. Ele destaca como parte de uma segunda geração dos comparatistas. esses estudiosos foram vistos com maus olhos pelos filólogos clássicos que estavam no apogeu. eles os consideravam intrusos que auxiliados pela apresentação de línguas desconhecidas e em nome de um método que não podiam dominar. Augusto Schleicher. 31). mas ao mesmo tempo se inferiorizava por não saber sânscrito e que o livro de Rask também não poderia ter a mesma repercussão que o de Bopp devido ao fato de ele ter sido escrito em dinamarquês. p.

Desde então se falou da vida e da morte das línguas. baseou-se em critérios propriamente lingüísticos. as línguas sem nenhuma estrutura gramatical. de 1856. pois há uma unificação de interesses. o francês. pois cada língua conhecida no mundo estaria em um desses estádios. p. ainda é consultada por especialistas em línguas bálticas. aglutinantes e flexivas e. dividem-se em três classes. Popularizada por Max Muller. São consideradas línguas vivas as que estão servindo como meio de comunicação diário entre os elementos de uma comunidade. por outro. afirmou-se que a Lingüística é a ciência do homem e não da natureza daí a impossibilidade de . O nome de Schleicher está intimamente ligado a duas empresas bem aceitas pelo público culto: de um lado. como o português. a de estabelecer um método de classificação das línguas do mundo. preparando assim o caminho para os neogramáticos. 37) essa idéia de tripartição é anterior a Schleicher e parece remontar a Guilherme Schlegel: “As línguas que são faladas ainda hoje e que foram faladas por diferentes povos de nosso globo. Sua descrição foi tão bem ordenada e tão completa. Línguas mortas são as que já não são faladas.20 definir-lhe as leis com o mesmo rigor das leis físicas e químicas. aplicando-lhe as teorias de Darwin. a de determinar as relações que unem as várias línguas da família indo-européia e. para tal classificação. Essa teoria. a teoria da tripartição das línguas do mundo destacou-se: ela fornecia um fio condutor a quem quisesse desmanchar este emaranhado dos inumeráveis falares humanos. com certeza não está ausente de nenhuma especulação a esse respeito. conforme o momento de evolução em que é conhecida. Uma língua só se conserva uniforme quando é falada por um pequeno agrupamento humano. De acordo com Leroy (1967. diz-nos ele. e explicar-lhe a evolução. quando não se encontra modificada nas obras posteriores de Lingüística. as línguas que empregam afixos e as línguas de inflexões” . Ele classificou as línguas do mundo em três classes: línguas isolantes. etc. que sua “Litauische Grammatik”. mas deixaram documentos que comprovam sua existência. Schleicher dedicou-se ao lituano. como o latim e o grego. na estrutura morfológica das línguas consideradas. A concepção naturalista fez com que muitos lingüistas da época abandonassem as preocupações românticas dos pioneiros de Gramática Comparada e se esforçassem para introduzir em suas pesquisas um rigor e uma precisão irrepreensíveis. o espanhol. Neste momento.

poderá chegar a resultados construtivos. O mérito dessa escola foi colocar em perspectiva histórica todos os resultados da comparação e não se viu mais na língua um organismo que se desenvolve por si. O método científico supõe que a observação dos fatos seja anterior ao estabelecimento de uma hipótese e que os fatos observados sejam examinados sistematicamente mediante experimentação e uma teoria . Quando morreu. Daí Hermann Paul (1920) afirmar: “que não há outro estudo científico da língua senão o histórico” e que o que se entende por estudo não-histórico. 1967. o Memoire. A investigação sobre a linguagem feita por Saussure – a Lingüística – passa a ser reconhecida como estudo científico. em 1913. das línguas “não é mais. de um material falho” (apud CÂMARA JUNIOR. se bem científico. que. XV). em segundo lugar é que esse diálogo atravessa toda a obra saussuriana como uma conversão entre a unidade (identidade) e a diferença. com auxílio de notas pessoais e de cadernos de estudantes publicaram um “Cours de linguistique générale” – “Curso de lingüística geral”. Schleicher e Max Muller deram à Gramática comparada um impulso. Em 1916. com seus novos estudos centrados na observação dos fatos. Albert Sechehaye e Riedlinger. a retórica ou à crítica literária. em primeiro lugar. a grande descoberta de Saussure é “o caráter dialógico da linguagem”. surgiu uma nova escola: a dos neogramáticos. mais um impulso foi dado. de Ferdinand de Saussure. Foi neste século que a Lingüística começou a ser estudada com um caráter científico. dissipados certos erros de perspectivas. obra fundadora da nova ciência. O século XX operou uma mudança central e total quanto às atitudes dos estudiosos da época. Em 1878. do que deficiência histórica. Seus fundadores eram todos alemães. 39). Em 1875. norte-americano autor de A vida da linguagem. três alunos dele: Charles Bally. a filosofia. por Whitney. os quais submetiam a Lingüística às exigências de outros estudos como a lógica. a história. não tinha publicado uma linha sobre os problemas que tinham absorvido grande parte de suas reflexões e de suas atividades. crítico português. em parte. mostrou novos caminhos para a Gramática Comparada e esteve nas fontes do desenvolvimento desta disciplina pelos neogramáticos. mas um produto do espírito coletivo dos grupos lingüísticos. por culpa. em suma. p. Logo após. Para Eduardo Prado Coelho (1968. em parte do observador e. p.21 reduzir-se a quadros sinóticos como os das ciências exatas.

a classe favorecida. não é fácil mesmo para pessoas afeitas pelos fenômenos da língua estabelecer os limites entre ciências tão afins quanto a Lingüística. p. Qualquer utilização da língua por um falante tem que ser por ele planejada para que atinja seus objetivos. Daí ser possível que para o mesmo fenômeno haja diferentes descrições e explicações. de grandes centros. . O problema da gramaticalidade. Aquele busca encontrar num texto antigo (um documento escrito) o seu significado. (LOPES. igualmente ao estudo do significado. o lingüista aproxima-se dos fatos orientado por um quadro teórico específico. a investigação exclusiva da forma de expressão desse idioma. 26) 1. 2006. 13). De modo análogo.2 LINGUÍSTICA E NORMA De acordo com Lopes (2001). o lingüista não vê por que deva estudar com a exclusividade do gramático a norma culta de uma única língua. de onde derivam as regras para que haja comunicação. não cabe ao lingüista ser contra ou a favor da normatividade. Mas se ambas as disciplinas se interessam pelo mesmo “objeto material”. e do ponto de vista social. p. O trabalho científico consiste em observar e descrever os fatos a partir de determinados pressupostos teóricos formulados pela Lingüística. pois as línguas são um produto das convenções e dos valores sociais. a Filologia e a Gramática. da norma culta de uma língua é. Sob um certo prisma podemos dizer que a filologia constitui uma modalidade e uma etapa histórica da lingüística (Lingüística Diacrônica). (PETTER. cada uma delas se distingue da outra pela especificidade do seu “objeto formal”. apenas o falar próprio de uma região. ou seja. do ponto de vista histórico-geográfico. pelo seu particular ângulo de enfoque. o que lhe compete é insistir no fato de que a problemática da gramaticalidade é matéria puramente lingüística. 25.22 adequada. Se é fácil para pessoas medianamente esclarecidas delimitar os territórios entre a pintura e a literatura. isto é. dependendo do referencial teórico escolhido pelo pesquisador. Mas o lingüista antepõe ao estudo da modalidade escrita de um idioma o estudo da sua modalidade oral e (embora julguemos mais do que discutível a legitimidade desse desideratum) pode antepor. 2001. O primeiro interesse do filólogo não coincide com o primeiro interesse do lingüista. é apenas o falar de um grupo. As regras lingüísticas são regras do comportamento social dos indivíduos e por isso são transmitidas de uma geração a outra. à luz dos conhecimentos daquela etapa cultural. a linguagem.

p. A fala é universal. As concepções de Saussure foram a mola propulsora do estruturalismo europeu. mas há muitos que desconhecem a escrita.23 A Lingüística. 28) . 94. não há um só exemplo de algum povo que não fala. A palavra “estruturalismo” designa algumas correntes da Lingüística moderna a qual surgiu após Saussure. o estruturalismo provou ser uma excelente “hipótese de trabalho”. p. pois é na crítica a que se submetem que está a razão de ser do alcance transcendental da própria ciência do homem. não visa somente a uma língua. ela é uma ciência descritiva e explicativa. Há duas modalidades de expressão lingüística. a falada e a escrita e comparando-as veremos que a escrita é bastante recente dada a antiguidade da fala. e uma metodologia dotada de rigor científico. o Círculo Lingüístico de Copenhague. ao contrário da Gramática. p. mais do que uma escola. 169 e BENVENISTE 1966. Segundo Lopes (2001). quem melhor definiu estrutura foi Hjelmslev (1971. mas se interessa por todas.3 O ESTRUTURALISMO Para Saussure a Lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma.p. numa das teses dos russos Jakobson. quando corretamente empregado. entre as duas Grandes Guerras: a Escola de Genebra. 1. não é prescritiva. Karcevsky e Trubetzkoj (cf. Este é o motivo da advertência de Saussure (1972. O termo “estrutura” foi empregado pala primeira vez em Lingüística no 1º Congresso dos Filólogos Eslavos (Praga. p. FAGES 1968. a qual tinha Jakobson como mentor. Nenhuma escola. na América do Norte. 1928). 45): a única razão de ser da escrita é o seu caráter de representação da fala. O espécime mais puro do estruturalismo é o representado pela Escola Binária. nenhuma hipótese ou doutrina monopoliza a verdade. o Círculo Lingüístico de Praga. e a Escola Mecanicista de Leonard Bloomfield. na Europa. vivas ou mortas. nem normativa. apud LOPES 2001. 39). As melhores teorias são as que trazem a possibilidade de serem contestadas.

afirma: “Doravante considerarei a Linguagem como um conjunto (finito ou infinito) de sentenças. sobretudo.24 Compreende-se por Lingüística Estrutural um conjunto de pesquisa que repousa sobre a hipótese de que é cientificamente legítimo descrever a linguagem como sendo essencialmente uma entidade autônoma de dependências internas. 1. transmitida geneticamente e própria da espécie humana. seguindo os métodos da lógica formal. A análise dessa entidade permite constantemente isolar partes que se condicionam reciprocamente. mais tarde. do papel nela representado pela sintaxe. A revolução chomskyana foi um retorno consciente a estágios mais antigos dos pensamentos lingüísticos.). Implícita ou explicitamente. p.. sendo inconcebível e indefinível sem essas outras partes.. cada uma delas dependendo de algumas outras. se for escrita. insiste muito na distinção saussuriana: “a língua é uma forma e não uma substância”. 104) afirma que Hjelmslev ao considerar a língua como uma totalidade que se basta a si própria e possuidora de uma estrutura sui generis. Esta contraposição iniciou-se em meados do século XX. 13). em uma palavra. cada sentença só pode ser representada como uma seqüência finita desses sons ou letras. uma estrutura (. cada uma finita em comprimento e construída a partir de um conjunto finito de elementos”. Para ele a linguagem é uma capacidade inata e específica da espécie. o estruturalismo relegou a sintaxe a uma obscura posição. Em seu livro “Syntactic Structures” (1957. As idéias que pareceram mais originais na . Maurice Leroy (1967. toda língua natural possui um número finito de sons e um número finito de sinais gráficos que os representam. quando o norte-americano Noam Chomsky procurando uma formalização dos níveis lingüísticos. procedeu a uma análise bem aprofundada da estrutura gramatical. Na definição de linguagem de Chomsky. mesmo que as sentenças distintas da língua sejam em número infinito. p.4 O GERATIVISMO Segundo Petter (2006) o que contrapõe o estruturalismo clássico à teoria gerativo-transformacional é uma diferente concepção dos fins da teoria lingüística. propôs a seguinte definição: É estrutura uma entidade autônoma de dependências internas. define-a como uma trama de funções. Quanto à estrutura.

provêm da gramática tradicional dos séculos XVI e XVII (Port-Royal. estabelecemos a sociedade. é um conjunto de regras guardadas em sua mente durante a infância que lhe permitem a aquisição da linguagem. ele afirma que a contribuição de Saussure consiste no dito: “A linguagem é forma. resultante não somente da competência lingüística do falante. O . São homens adultos. (BENVENISTE. Mas descobre também que ela mesma tem um nome e que por meio dele se comunica com os que a cercam. pressupostos sobre as atitudes do interlocutor. na criança. A aquisição da linguagem é uma experiência que vai a par. Competência lingüística é o conhecimento que o falante tem do seu sistema lingüístico e que lhe permite produzir um conjunto de sentenças. Huarte e Humboldt). As teorias lingüísticas elaboradas dentro de um espírito sociológico e atento às relações que unem linguagem e sociedade. pelo intermédio da linguagem. levando sempre à consideração da linguagem como um fato social. descobre que tudo tem um nome e que aprender os nomes lhe dá a disposição das coisas. mas também de outros fatores não lingüísticos como convenções sociais. imbuída do espírito sociológico. Segundo Benveniste: Estabelecendo o homem na sua relação com a natureza ou na sua relação com o homem. Língua e sociedade não se conhecem uma sem a outra. p. que lhe inculcam o uso da palavra. que não lhes possui o conhecimento inato. A criança nasce e desenvolve-se na sociedade dos homens. Ela aprende as coisas pelo seu nome. seus pais.25 sua teoria: as concepções de produtividade. Em entrevista concedida por Benveniste a Guy Damur (1968) traduzida por Eduardo Guimarães. Chomsky distingue competência de desempenho da mesma maneira que Saussure separa língua de fala. Toda a teoria de Saussure estava. Não há nada de substancial na linguagem. competência / performance “atuação”. integra-se na cultura que a rodeia. Uma e outra são dadas. À medida que se torna capaz de operações intelectuais mais complexas. a linguagem se realiza sempre dentro de uma língua. De fato. Descartes. Isso não é coincidência histórica. 31). 2005. etc. Mas também uma e outra são aprendidas pelo ser humano. com a formação do símbolo e a construção do objeto. e também do funcionamento dos mecanismos psicológicos envolvidos na produção dos enunciados. de uma estrutura lingüística definida e particular. Assim desperta nela a consciência do meio social onde está mergulhada e que moldará pouco a pouco o seu espírito por intermédio da linguagem. e a dos universais lingüísticos. não substância”. sem dúvida alguma. O desempenho corresponde ao comportamento lingüístico. crenças. fizeram com que muitos pesquisadores se afastassem da teoria inicial. mas encadeamento necessário. atitudes emocionais do falante em relação ao que diz.

p. de abstração. de vogal. (SAPIR. A lingüística se ocupa do fenômeno que constitui a linguagem sem negligenciar a escrita. O vocabulário da metalinguagem só encontra aplicação na língua. um contrato coletivo. não é substância. e fisiologicamente arbitrária. elaborada pelo homem. fisiológicos e psíquicos. entre todos os elementos de nossa experiência. mas que é forma. p. só se ocupa do teor dos textos. executada por meio de órgãos biologicamente a elas destinados”.35). Lopes (2001) afirma que Saussure parte do conceito de que a linguagem humana é uma abstração. J. pois consiste numa relação simbólica toda peculiar. de adjetivo. do cérebro e do sistema nervoso”. 9). mas de um esforço criador da humanidade. 1921. em particular. motriz. etc. a língua preexiste a todos os seus falantes. que se pode construir línguas sobre línguas. (1967.26 que diferencia a lingüística de qualquer outra disciplina científica é que elas encontram seu objeto constituído enquanto a lingüística se ocupa de algo que não é objeto. uma capacidade: consiste na capacidade humana de comunicar-se entre eles através de signos verbais. etc. Sapir conclui que a linguagem em si mesma não é e nem pode ser localizada de maneira definida. línguas que servem para descrever uma língua como única função. Nas sociedades há uma capacidade de distanciamento. A língua é imposta pela sociedade como um código a ser usado caso queiram ser entendidos.. o homem. da sua transmissão através dos tempos. ao nascer. como uma Arte. abrangendo assim fatores físicos. 19) destaca o norte-americano Edward Sapir e acentua sua declaração sobre linguagem que ”não se trata de uma atividade simples. e de outro lado. já encontra formada e funcionando a língua que deverá falar. localizados nas regiões auditiva. A Gramática que descreve o uso das formas da língua é uma metalinguagem: falar de substantivo. . 2006. (BENVENISTE. 31. Mattoso Câmara Jr. de consoante. p. de um lado. Por ser um bem social. metalínguas. a linguagem não foge à concepção de que é elaborada pelo esforço criador do homem. de afastamento entre as línguas e os objetos concretos. Mattoso Câmara (1967) observa que quer do ponto de vista mental ou vocal. certos elementos selecionados. A filologia.

2007.. -. já que o significante não guarda nenhum vínculo do tipo natural com o significado. na revista “Língua Portuguesa”. não precisa ter relação com o “nomado”. nenhuma. Na mesma direção. neste caso é imotivado. franzindo a testa. “Sendo a língua um conjunto de possibilidades – explica Borba (1970. 80). 67) -. p.Mas que relação há entre o nome Quindim. Reinações de Narizinho (1931). Quindim? – perguntou Emília. Inácia. o personagem já aparecia. O diálogo que dá registro a Quindim acompanha um conceito caro ao lingüista suíço Ferdinand de Saussure: a arbitrariedade do signo. -. in LÍNGUA PORTUGUESA no 27.” (PEREIRA JR. e escreve. Hilda ou Cunegundes. mas o que equivale melhor.5 A LINGUISTICA TEXTUAL . Quindim? Não havia ali ninguém com semelhante nome. Eugênio Coseriu propôs um conceito afim entre langue e parole: o conceito de norma. Arbitrário pode significar coisas diferentes. -. e a palavra Pedro – isto é. em Emília no País da Gramática. sem nome. que trata do relançamento da obra de Monteiro Lobato: “A gramática de Emília” com revisão. ainda surpreso.A mesma que há entre a sua pessoa. p. tão mimoso. Essa tese é bem exemplificada na reportagem de Luiz Costa Pereira Junior.” (LOPES.Que tantas cidades são aquelas. A norma precisa ser comprovada concretamente – é aquela que seguimos por fazermos parte de um grupo. 2001. Pedrinho. separadamente. -. viam-se outras cidades do mesmo tipo.Quindim – explicou Emília – é o nome que resolvi botar no rinoceronte. como podia ser Teodora. p. e um paquiderme cascudo destes? – perguntou o menino. o seguinte: EM SINTONIA COM SAUSSURE O batismo do rinoceronte Quindim é uma das traquinagens da boneca de pano criada por Monteiro Lobato. Em livro anterior. Eu sou Emília. “Nisto dobraram uma curva do caminho e avistaram ao longe o casario duma cidade.27 A língua em ação por um falante em cada uma de suas situações comunicativas concretas foi chamada por Saussure de parole (língua ou discurso). Nome é nome. 36). uma das teses mais controvertidas de Saussure é a que afirma ser o signo lingüístico arbitrário.. Para Lopes. Todos olharam para a boneca. 1. a norma aparece como um conjunto de realizações dela. mais para além.

p. e procuraram elaborar gramáticas que dêem conta dos problemas de coerência textual e que sejam adequadas para caracterizar os diferentes aspectos dos diferentes tipos de textos e produção de textos elaboradas de acordo com determinada língua. visa a elaborar uma teoria. A gramática gerativa de Chomsky. para a verificação de suas hipóteses. afirma Van Dijk (1973. (NEIS. 15) questiona sobre a possibilidade de se poder descrever qualquer texto por meio de uma só gramática. 24). foi a gramática gerativo-transformacional a que melhor realizou uma teorização de acordo com os critérios metodológicos da lingüística textual. p. mas não pode ser reduzida a ela. para suas conclusões e generalizações. 185) “que uma gramática literária pode basear-se numa gramática textual. orientaram as aplicações da lingüística ao ensino de línguas e a traduções. Syntactic Structures (1957) que havia sido essencialmente sintática e morfofonológica. tanto da lingüística estrutural quanto da gerativo-transformacional. sofreu sua primeira evolução . 179) que. p. Chabrol (1973. p. Greimas. Chabrol. uma revolução metodológica.28 Neis (1981) afirma que as descrições. entre eles Barthes. Seguindo a metodologia científica. além de uma descrição explícita de sistema de línguas e de seu conhecimento ideal (a competência). Segundo Neis (1981) pode-se afirmar com Van Dijk (1973. Neste sentido. lingüistas modernos passaram a estabelecer princípios de novos modelos de descrição lingüística ultrapassando o âmbito frasal. que sempre se ativeram a pesquisar problemas relativos à frase ou aos componentes frasais. Constatando a existência de relações específicas interfrasais e a possibilidade de se definir um texto como um todo coerente. Van Dijk. procura estabelecer um número finito de regras que possam escrever ou gerar o conjunto infinito dos textos possíveis de uma língua. pelo fato de orientar as pesquisas desta área para a utilização de métodos hipotético-dedutivos. A Lingüística de Texto busca uma fundamentação sólida para suas pesquisas. entre as teorias lingüísticas. 1981. Schimdt. propuseram uma integração dos estudos sobre a narrativa na gramática textual. porque possui termos interpretados e regras ausentes de uma gramática textual não literária”. A lingüística gerativa legou-nos. Os teóricos de literatura ou da lingüística textual.

de ênfase. de tematização. Em decorrência da introdução da semântica na gramática pelo modelo standard. Segundo Schmidt (1978. em suma. 12. através da integração de itens lexicais sob a forma dos traços marcadores e distintivos propostos por Katz e Fodor (CHABROL. p. alguns lingüistas passaram a atribuir à semântica um papel primordial iniciando assim nova fase na evolução da lingüística gerativa. considerando-as como semânticas ou semântico-lógicas. in NEIS. e que está na base da teoria do texto. só pode extrair seus objetos dos “integrais comunicativos”. ligeiras modificações no modelo standard. (in NEIS. denominadas “regras interpretativas”. Segundo Van Dijk (1973). pós transformacional. A pragmática lingüística estuda aspectos da linguagem do ponto de vista do seu uso. cuja função é a de converter as estruturas profundas sintáticas em conjuntos de leituras. A semântica gerativa parecia ser um modelo de descrição mais adequado do que o modelo standard: explicaria melhor muitas categorias tradicionalmente introduzidas na estrutura sintática para poderem desencadear transformações particulares. Tal componente. integrando a semântica sob a forma de componente destinado a interpretar a estrutura profunda. quanto à situação de fala/comunicação. descreve o ato da fala ou enunciações comunicativas. 25). 1981). (NEIS. teórica e metodologicamente. resultaram no reconhecimento de que a estrutura superficial. Para verificá-lo basta considerar fenômenos de contraste. ou entorno verbal. pode contribuir para o sentido da frase. postulado de sentido. Outra modificação importante introduzida na lingüística. 1981. 1973. produziria um modelo melhor para a competência lingüística. de foco. relaciona a linguagem com seus usuários. e . ou a inserção do domínio não verbal. são as regras semânticas de projeção. 1981. É na Lingüística Gerativa que se encontra um conjunto de procedimentos metodológicos e de descrições empíricas que servirão de base sólida para se proceder à extensão da gramática frasal para a gramática textual.29 com Aspects of the Theory of Syntax (1965). teria um tratamento mais produtivo para noções como pressuposição. p. tema/rema. 25). in NEIS p. 27) a lingüística do texto. é a pragmática. p. levando em consideração tanto o contexto. definiria melhor problemas de relações funcionais entre as categorias de uma frase. no chamado modelo standard. lógica natural. concretizada através do esboço da teoria semântica gerativa. mundos possíveis.

entre outras. 1. Deverá compreender também uma semântica no sentido lógico-semiótico. Grande parte da gramática do texto basear-se-á nas teorias pragmáticas relacionadas com os atos de fala.30 para que não se esqueça dos aspectos pragmáticos fazendo falsas abstrações nas análises ou descrições. a qual. que são a forma de comunicação mais altamente desenvolvida e de maior uso. são sistemas de signos usados para a comunicação. as propriedades de flexibilidade e adaptabilidade. sem avaliar aquele uso em termos de um outro padrão: moral.6 A ANÁLISE LINGÜÍSTICA A lingüística não se compara ao estudo tradicional da gramática. . A metodologia da análise lingüística focaliza. À ciência que estuda todo e qualquer sistema de signos. a fala das comunidades e. principalmente. afirma que se supõe nos falantes uma espécie de “competência comunicativa” que lhes permite servir-se efetivamente da faculdade de fala de acordo com os objetivos que têm em mente e com as diferentes situações de comunicação. Peirce chamou-a de Semiótica. As línguas naturais possuem. Essa prioridade dada à língua falada é devido à necessidade de corrigir os procedimentos de análise da gramática tradicional que usava a língua literária como modelo único. Há a necessidade de evidenciar-se que a lingüística detém-se somente na investigação científica da linguagem verbal humana. ao observar a língua em uso o lingüista procura descrever e explicar os fatos: os padrões sonoros. o ponto de partida da teoria do texto deve situar-se em “entidades complexas de comunicação lingüístico-social”. como todas as linguagens. A lingüística pragmática relaciona a gramática/competência com o uso direto e concreto do sistema lingüístico para fins de comunicação. ou teoria da referência. gramaticais e lexicais que estão sendo usados. estético ou crítico. a escrita. Saussure denominou Semiologia. Neis (1978. A lingüística estuda a principal modalidade dos sistemas sígnicos. cuja tarefa será a de especificar quais são as regras que relacionam a apresentação semântica (no sentido lingüístico) e as estruturas referenciais. 27-28. as línguas naturais. em segunda instância. p.

. a sociolingüística (interação entre língua e sociedade). Como muitas áreas de estudo se interessam pela linguagem. Os resultados obtidos através de coletas. A lingüística como qualquer ciência descreve seu objeto como ele é. sintaxe ou léxico. Ao comparar as línguas em qualquer que seja o aspecto observado. a lingüística descritiva fornece os dados que confirmam ou refutam as teorias formuladas pela lingüística geral. Segundo Petter (2006) a lingüística geral oferece os conceitos e os modelos que fundamentarão a análise das línguas. a psicolingüística que estuda o comportamento do indivíduo em relação ao processo de aquisição da linguagem ou da aprendizagem de outra língua. muitas vezes é obstáculo para os principiantes nos estudos da Lingüística devido à dificuldade de considerar a língua falada independente de sua representação gráfica. não especula e nem faz afirmações de como a lingüística deveria ser. são correlacionados às informações disponíveis sobre outras línguas com o objetivo de elaborar uma teoria geral da linguagem. organização. Não pode haver lingüística geral ou teórica sem a base empírica da lingüística descritiva. entretanto. mostrou que as mudanças lingüísticas. pode ter outros objetivos como: o trabalho de descrição de uma língua. fonologia. Distinguem-se dois campos de estudos: a lingüística geral e a descritiva. estudando profundamente as transformações da linguagem. o lingüista constata que elas não são melhores nem piores. A lingüística histórica. a produção de uma gramática ou um dicionário com o objetivo de dotá-la de instrumentos para a sua difusão na forma escrita. seleção e análise dos dados lingüísticos. o estudo do fenômeno lingüístico na interface com outras disciplinas criou várias áreas interdisciplinares: a etnolingüística (relação entre língua e cultura). freqüentemente. são simplesmente diferentes. como no caso de línguas indígenas. Uma descrição lingüística. A abordagem descritiva da lingüística entende que as linguagens não padrão do português caracterizam-se por um conjunto de regras gramaticais que simplesmente diferem do português padrão. africanas ou outras que ainda não circulem no meio escrito.31 O prestígio dado à língua escrita em nossa sociedade. têm sua origem na fala popular: muitas vezes o errado de uma época passa a ser consagrado como a forma correta da época seguinte.

pretende tão somente depreender a estrutura das frases. é objetiva porque examina a língua livre dos preconceitos sociais ou culturais. também inclui as expressões “erradas”. . A teoria da gramática trata de todas as frases gramaticais que pertencem à língua. Os gerativistas preocupam-se em depreender na análise das línguas propriedades comuns. julgavam que somente a descrição dos fatos era suficiente para explicá-los (teoria descritiva). apenas explica as frases. mas também as que potencialmente seriam produzidas pelo falante. feitas pelos seguidores de Saussure (Europa) e de Bloomfield e Harris (norte-americanos). para ele um fenômeno só é explicado quando se pode deduzí-lo de leis gerais: teoria da gramática.32 De acordo com Petter (in FIORIN. As análises lingüísticas até 1950. a partir de 1950. a Lingüística desenvolveu uma metodologia que visa analisar as frases efetivamente realizadas reunidas num corpus representativo (conjunto de dados reunidos com a finalidade de investigação). Petter (2006) afirma que para Chomsky. não é suficiente observar e classificar os dados. A descrição dos fatos assim organizados não tem nenhuma intenção normativa ou histórica. dos fonemas e as regras que permitem a combinação destes. Desta postura decorre o caráter científico da Lingüística que se fundamenta em dois princípios: o empirismo e a objetividade. universais da linguagem. não se confunde com a gramática normativa porque não dita regras. a gramaticalidade e a agramaticalidade das mesmas. A Lingüística é empírica porque reúne dados verificáveis por meio da observação. O corpus não é constituído apenas pelas frases “corretas” (como a gramática normativa). desde que apareçam na fala dos interlocutores nativos da língua sob análise. 21): Com o objetivo de descrever a língua. p. que constituem a gramática universal (GU). A gramaticalidade é competência do falante. A gramática é gerativa porque de um número limitado de regras permite gerar um número infinito de sentenças. 2006. dos morfemas. há a necessidade de uma teoria explicativa que preceda os dados e que possa explicar não só as frases realizadas.

rejeitavam as barreiras intransponíveis entre diacronia e sincronia e preconizavam uma relação dialética entre sistema e uso”. inclui na análise da estrutura gramatical toda a situação comunicativa: fala. Esta gramática leva em consideração o uso das expressões lingüísticas na interação verbal. Neves (1997) considera pontos centrais numa gramática funcionalista: o uso (em relação ao sistema). O funcionalismo liga-se historicamente às propostas da Escola Lingüística de Praga. Rejeita a preocupação com a pura competência para a organização gramatical de frases.p. que é a noção de “função”. A Sociolingüística inclui o comportamento lingüístico na noção mais ampla de interação social aproximando-se assim do ponto de vista do funcionalismo. representa a explicitação do próprio funcionamento da linguagem. o significado (em relação à forma) e o social (em relação ao individual). 18). que não separa o sistema lingüístico das funções que seus elementos preenchem. tanto os que constituem uma organização de entidades metalingüísticas alheias aos processos reais do funcionamento quanto os que representam modelos para submissão escrita e normas lingüísticas sem legitimidade instituídas. a reflexão se dirige para a multifuncionalidade dos itens. “concebiam a linguagem articulada como um sistema de comunicação. (NEVES. p.33 1. A explicação de uma língua particular historicamente inserida. antes de tudo. 2006. O funcionalismo ocupa-se das funções dos meios lingüísticos de expressão e a linguagem destaca-se como um centro condutor de reflexão. in NEVES. fundamentada nos princípios do funcionalismo. preocupavam-se com os seus usos e funções. (1997.7 O FUNCIONALISMO Outra proposta de explicação do fato lingüístico é apresentada pela gramática funcional. instrumento de interação social. usada para estabelecer relações comunicativas entre os usuários. Isso exclui qualquer atividade de encaixamentos em moldes pré-fabricados. 16). Essas abordagens . 2005. participantes e o contexto discursivo. Os diversos desdobramentos do funcionalismo na atualidade redundam na concordância de que a língua é. feita com base em reflexões sobre dados. que segundo Neves et al.

p. a gramática natural. segundo Celso Pedro Luft (2002. necessita comunicar-se com seus semelhantes. construir no espírito o que vai exteriorizar. abstrato) e as normas (particulares. os estudos de lingüística eram muito pouco desenvolvidos. abertos a variações no tempo e no espaço. A língua só existe de verdade na cabeça de cada falante e este partilha esse bem com os seus semelhantes: a língua é um bem comum. evolução histórica e assim por diante. daí o fato de ele possuir a faculdade de recriar e manipular sistemas de comunicação. a sociedade. base invariante. sem variantes. hoje se faz lingüística de bom nível: lançam-se bases para uma descrição coerente. Através de novas descobertas e da reinterpretação das velhas. para sobreviver. mas também para estruturar seu mundo interior (pensar e conhecer). de seu uso. No Brasil. A língua evolui junto com o homem. variação. O sistema de regras nos quais os falantes se baseiam para construírem frases. 17).34 lingüísticas contribuem para outras abordagens que consideram o contexto. . Toda comunicação realiza-se por meio de um sistema de sinais convencionados (língua). a história. é o suporte que permite que as línguas evoluam sem se autodestruírem. Todas as línguas têm seu próprio sistema lingüístico (amplo. concretas) no seu uso. sobre a realidade lingüística do país e sobre a linguagem em geral. Toda língua é um sistema para propiciar a comunicação entre as pessoas. o próprio saber lingüístico ou competência idiomática de cada falante. em 1960. Nas línguas artificiais esses sistemas são fixos. atrás do eventual ou do novo há um seguro esquema de referências. A adaptação do esquema lingüística-norma bifurca-se em coletiva e individual. O homem. aquisição. é um saber intuitivo. O esquema. por ser social. “Toda língua é uma unidade (esquema) na variedade (normas)”. O homem é um ser de linguagem e esta lhe serve não somente para comunicação. empiricamente adequada e teoricamente sofisticada de todos os aspectos da língua. houve um aprendizado maior sobre a nossa língua. nas línguas naturais eles são mais flexíveis.

p. seja baseado no “uso” legitimado por algum critério (FRANCHI. A gramática normativa é concebida como um manual com regras de bom uso da língua a serem seguidas por aqueles que querem se expressar adequadamente. primeiramente. João de Barros: Gramática da Língua Portuguesa. gramática moderna. Segundo os gramáticos normativos. com base no uso da língua consagrado pelos bons escritores. Segundo Franchi (1991). e à que a ela se contrasta. a descrição desse saber lingüístico e. Dizer que alguém “sabe gramática” significa dizer que esse alguém “conhece essas normas e as domina tanto nocionalmente quanto operacionalmente”. secundariamente. o que capacita o falante a construir ou interpretar quaisquer frases da língua é a gramática. Um bom gramático seria aquele que diz como se deve escrever. manual onde se registra essa descrição. de acordo com cada concepção. 1540. mas . cujas bases é herança greco-latina.Fernão de Oliveira: Gramática da Linguagem Portuguesa. estabelecidas pelos especialistas. fruto dos progressos da ciência lingüística. o que seria saber gramática e o que é ser gramatical. mais gramáticas foram escritas posteriormente com o intuito de formar fidalgos para o convívio da corte e preparar para o estudo do latim. À gramática.8 CONCEPÇÕES DE GRAMÁTICA A gramática artificial é. Franchi escreve sobre gramática normativa: Gramática é o conjunto sistemático de normas para bem falar e escrever. A gramática tradicional tem duas orientações: normativa e descritiva conforme a preocupação dominante de: impor as regras de um padrão lingüístico considerado modelo (uso culto formal. sobretudo escrito) e expor os fatos da linguagem. os primeiros tratados de gramática escritos em língua portuguesa datam do século XVI . uma obra. aparece explicitada desde as gramáticas do século XVI.35 1. 1536. chamamos gramática tradicional. A preocupação de fazer da gramática do português uma preparação para o ensino do latim. É muito importante ao tratar-se de gramática saber o que se entende por gramática e. 16. 1991. seja baseado numa certa “lógica”. 17).

e na sintaxe o uso geral dos casos. Os gramáticos que tomaram para si essa tarefa contribuíram para a uniformidade da língua e para frear suas mudanças (noções de construções corretas ou viciosas). Já. o de Bento José de Oliveira: O sistema que em nossa gramática seguimos na exposição das doutrinas é quase o mesmo da Gramática Latina do Sr. porque. Tudo o que foge a esse padrão é “errado” (agramatical). tão indecente é sair da boca de um homem de alto lugar e nobre criação ua palavra rústica e mau composta. na dedicatória da Origem da Língua Portuguesa. as regras gerais da linguagem. o que atende é “certo” (gramatical). 205). Nessa concepção. muito forte.. que segue as regras do bom uso da língua. p. saber. 2006. gramatical é o que obedece. p. para a qual esses elementos poderão servir de introdução. procuram sempre os princípios que a avantagem que no estudo e na grandeza levam os homens baixos e plebeus se enxergasse na polícia e estilo de seu falar. basta-lhes para entrar na tradução latina. Alves de Souza. como de ua bainha de ouro ou rico esmalte arrancar ua espada ferrugenta. é a língua padrão ou língua culta. a preocupação de formar as elites numa linguagem castiça é reafirmada em Verdadeiro método de estudar (1746). E com isto entendemos haver prestado serviço aos que. porque aprendidas primeiro no próprio idioma. depois do exame de português.(ILARI e BASSO. 206). configurando o falar e o escrever bem. 2006.. Essa representação gramatical está presente até hoje nas expectativas da sociedade quanto aos profissionais de linguagem: a concepção de gramática normativa ou prescritiva.36 no século XIX era ainda. na etmologia declinar e conjugar bem. o conhecimento de gramática era capaz de distinguir as pessoas bem criadas das mais “baixas”. obra pedagógica do iluminismo português. (ILARI e BASSO. No século XVIII. é demonstrada a preocupação de formar linguisticamente os fidalgos no bom uso da linguagem: Como a maior demonstração que os homens de si dão e de seu entendimento são as palavras porque exprimem seus conceitos e suas vidraças por que se transluzem e vêem seus ânimos. de Luís Antônio de Verney. No domínio da nossa língua. . de Dante Nunes de Leão (1604). passaram a estudar o latim. Esta afirmação é comprovada através de uma passagem que consta na introdução de um compêndio que teve grande circulação na época.

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Nessa concepção de gramática há vários modos de perceber e definir “norma culta” mobilizando argumentos de diferentes ordens. Esses argumentos, segundo Travaglia (2006, p. 26, 27), são sobretudo de natureza: a) estética: as formas e usos são incluídos ou excluídos da norma culta por critérios tais como: elegância, colorido, beleza, finura, expressividade, eufonia, harmonia; evitando vícios com a cacofonia, a colisão, o pleonasmo vicioso, o eco; b) elitista ou aristocrática: contraposição do uso da língua que é feito pela classe de prestígio ao uso das classes populares. Castilho (1988, p. 55), diz “há um forte sentimento de estratificação social, e, sobretudo de diferença social”. Isto acontece quando as gramáticas registram usos da linguagem popular condenandoos e não registrando como uma variedade. O plebeísmo (como vício de linguagem) ocorre desta oposição, em contraposição à elite (como qualidade de boa linguagem) (cf. CEGALLA, 1976; p. 410 - 412). Há também o critério de autoridade (gramáticos e bons escritores) que devido ao prestígio cultural estabelece as regras do bom uso da língua; c) comunicacional: nesse caso, os critérios se referem ao efeito comunicacional, à facilidade de compreensão. Há necessidade de que as construções e o léxico escolhido resultem na “expressão do pensamento” com clareza, precisão e concisão, pois a gramática normativa no seu caráter prescritivo foi construída segundo a concepção de linguagem como expressão de pensamento. d) histórica: o critério para excluir formas e usos da norma culta é a tradição. Esse critério leva a exigências absurdas e não há nada de objetivo que defina quando ele se aplica ou não. Inclui-se também neste caso a concepção naturalista de língua, que a considera um organismo vivo que nasce, se desenvolve e, junto com a sociedade que dele não cuida adequadamente pode entrar em decadência, deteriorar-se; e) política: os critérios são, basicamente, o purismo e a vernaculidade. Pretende-se excluir da Língua Portuguesa tudo que não seja de origem grega, latina ou vinda de épocas remotas da língua. Caçam-se e condenam-se todos os estrangeirismos: os galicismos (formas do francês), anglicismos (do inglês), germanismos (do alemão), etc. a preocupação, neste caso, é com a dominação cultural e com a ameaça à nacionalidade: o fato de uma nação não manter sua língua (marca de identidade), tornar-se-á facilmente dominada. Há, portanto, a necessidade de muito critério quanto ao julgamento do estrangeirismo como

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necessário e bem vindo ou como ameaçador da nacionalidade, por ser desnecessário. Às vezes, os países chegam a editar leis relacionadas a esta questão. O trabalho dos normativistas é a produção de tratados: “gramáticas”, nos quais sistematizam o conjunto de preceitos que devem ser seguidos para falar e escrever corretamente. A gramática tradicional não contém somente “normas”: ela possui também um componente descritivo, esta é a segunda concepção de gramática: a gramática descritiva. Bem diferente da gramática normativa e a que se dedica à descrição da estrutura e funcionamento da língua, de sua forma e ação. A gramática seria então “um conjunto de regras que o cientista encontra nos dados, à luz de determinada teoria e método”. Essas regras seriam as “utilizadas pelos falantes na construção real de enunciados”. (NEDER, 1992, p. 49; apud TRAVAGLIA, 2006, p. 27). A gramática descritiva é uma disciplina científica que registra e descreve (daí o ser descritiva, por isso não lhe cabe definir) um sistema lingüístico em todos os seus aspectos (fonético-fonológico, morfossintático e léxico). (BECHARA, 2001, p. 52). Para construir esse componente descritivo da gramática, segundo Franchi, os estudiosos analisam as estruturas das expressões de uma língua (ou mais) dividindo-a em unidades simples e associando cada uma dessas unidades por diferentes critérios categoriais, a diferentes classes; organizam essas diferentes classes em subclasses; verificam quais as relações (os modos de conexão) que se estabelecem entre essas diferentes unidades e classes, possibilitando a construção de unidades complexas; definem os papéis específicos que essas unidades desempenham ao entrar nas construções complexas em que se relacionam; por último, consultam como se emprega na língua considerada, as diferentes palavras, locuções, formas, paradigmas, construções, funções, estabelecendo a partir desse uso um conjunto de regras de boa formação ou de bom uso das expressões. Aqui, não se trata mais de um conjunto de regras para falar e escrever bem, mas sim de todo um processo descritivo. A definição de gramática corresponde, aproximadamente, a:

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Gramática é um sistema de noções mediante as quais se descrevem os fatos de uma língua, permitindo associar a cada expressão dessa língua uma descrição estrutural e estabelecer suas regras de uso, de modo a separar o que é gramatical do que não é gramatical. “Saber gramática” significa, no caso, ser capaz de distinguir, nas expressões de uma língua, as categorias, as funções e as relações que entram em sua construção, descrevendo com elas sua estrutura interna e avaliando sua gramaticalidade. (FRANCHI, 1991, p. 52-53; 2006, p. 22-23)

Embora a gramática descritiva pareça mais neutra, mais científica, o ponto de vista normativo pode introduzir-se na gramática descritiva. Isso pode acontecer quando quem está descrevendo uma língua, desconsidera a linguagem coloquial. O gramático, também, pode reintroduzir os conceitos sociais de uso para excluir todas as expressões que não correspondem ao uso “consagrado”. Assim, a gramática descritiva se transforma em um instrumento da gramática normativa. Sendo o objetivo desta gramática estudar a estrutura da língua portuguesa, é indispensável que se estudem certos pontos teóricos, pois de acordo com Mario Perini (2006) “o estudo da gramática de uma língua não pode dispensar o estudo da teoria e da metodologia lingüísticas”. A gramática descritiva se reveste de várias formas segundo o que examina mediante uma metodologia empregada. Dessa concepção fazem parte as gramáticas baseadas nas teorias estruturalistas que privilegiam a descrição da língua oral e as gramáticas feitas segundo a teoria gerativa-transformacional que trabalha com ideais, produzidas por um falante-ouvinte ideal. O que essas correntes lingüísticas têm em comum é o fato de proporem uma homogeneidade do sistema lingüístico, abstraindo a língua de seu contexto, elas trabalham com um sistema formal abstrato que regularia o uso que se tem em cada variedade lingüística (ILARI e BASSO, 2006). A partir da década de 60 sobressaíram-se várias correntes do estudo da língua: Lingüística Textual, Análise do Discurso, Análise da Conversação, Semântica Argumentativa, Sociolingüística em diferentes correntes, Pragmática que podem ser agrupadas sob o título Lingüística da Enunciação ou do Discurso, e não tratam somente do sistema formal, mas também se dedicam a uma lingüística que considera a variação lingüística, bem como a relação da língua com a situação de comunicação. Nas últimas décadas do século XX, foram elaboradas sobre a Língua Portuguesa algumas gramáticas diferentes, numa perspectiva descritiva. As gramáticas descritivas foram escritas por um só autor como a Gramática descritiva

também são novas. sobre os atos de fala. e isso tem efeitos importantes na superação de alguns impasses que remontam às origens da gramática portuguesa e a influencia da gramática latina. mas mais comuns foram os trabalhos produzidos em equipe onde se encontram capítulos escritos por diversos autores. Embora as boas gramáticas normativas produzidas no século XX. de situação econômica. editada em 2003. considerando a língua um conjunto de variedades utilizadas por uma sociedade de acordo com o exigido pela situação de interação comunicativa em que o usuário da língua está engajado. por exemplo.40 do português. adotam o mesmo “roteiro padrão”: as classes de palavra. lançada em 2001. hoje. concordariam que uma perspectiva normativa ou descritiva está muito distante de dar conta da natureza da gramática. Cunha e Cintra (1987) sejam mais ricas e mais interessantes que as anteriores. de raça. Esse roteiro vem sendo ultrapassado. Qualquer criança que tenha acesso à linguagem. a concordância. p. de circunstancias de nascimento ou de diferentes modos de fazer-se parte de uma sociedade. domina-a . de temas distintos e. Todos os lingüistas. as mais recentes gramáticas. percebe a gramática como um conjunto de regras que o falante de fato aprendeu e das quais lança mão ao falar (TRAVAGLIA. a sintaxe da oração e a sintaxe do período. por exemplo. em vários sentidos pelas gramáticas descritivas. de Mario Villela e Ingedore Koch. Não podemos esquecer que a linguagem é um patrimônio da humanidade e que independe de fatores sociais. das regras gramaticais e do modo pelo qual as crianças as dominam. É assim a Gramática da língua portuguesa de Maria Helena Mira Mateus e outros. para a descrição. Contrapondo-se às concepções anteriores de gramática temos uma noção mais contemporânea: a terceira concepção de gramática. pela inclusão de capítulos sobre os mecanismos de coesão e coerência textual. em Lisboa. de cultura. muitas vezes. etc. como. 2006. e a Gramática do português culto falado no Brasil de Ataliba Teixeira de Castilho e outros. até com enfoques diferentes. em Portugal. essa ampliação é um dos pontos altos da Gramática da língua portuguesa. de Mario Perini (1995).. 28). espera-se ganhar muito em comunicabilidade. É a que. As noções de que se valem. a morfologia flexional e derivacional. Deixando de lado o rigor dessas gramáticas.

a interioriza já em tenra idade. “Saber gramática” não depende. domina todo um sistema de regras que lhe permite ativar ou construir a gramática de sua língua. possui uma gramática interna de natureza biológica e psicológica que. pois ela é o elemento de descrição. 2006. Esta concepção tem bases humanistas: “todo homem. Não existem livros dessa gramática. ganham sentidos diferentes nessa concepção: Gramática corresponde ao saber lingüístico que o falante de uma língua desenvolve dentro de certos limites impostos sobre a sua própria dotação genética humana. pois. independente da modalidade de linguagem que usa. em condições apropriadas de natureza social e antropológica. 24). Estar em desacordo com a regra gramatical não significa. da escolarização. pelo menos. Conclui-se. o que exclui qualquer forma de discriminação preconceituosa da modalidade popular. A linguagem não é algo que se aprende ou algo que se faz: é algo que desabrocha e se desenvolve como uma flor (na bonita metáfora de Noam Chomsky). ou de quaisquer processos de aprendizado sistemático. “saber gramática”. Ela não ignora os problemas de variação lingüística. desde que se assegurem à criança mínimas condições de acesso às manifestações lingüísticas de seus pais e de sua comunidade lingüística ( FRANCHI. como parte de sua própria capacidade e dignidade humana”. O mesmo acontece . 54. p. portanto. ser uma expressão excluída por uma “norma padrão”. de hipóteses sobre o que seja a linguagem e de seus princípios e regras ( FRANCHI. 25). 1991. p. pois. sejam quais forem suas condições. segundo Franchi (1991). p. Todo falante. Os termos “gramática”. Todo o nosso comportamento social está regido por normas a que devemos obedecer se quisermos ser considerados “corretos”. mas da ativação e amadurecimento progressivo (ou da construção progressiva). mas a sua inadequação da variedade lingüística usada em uma determinada situação de interação comunicativa. mas ser excluída pela gramática lingüística do falar próprio de uma comunidade. nasce dotado de uma faculdade de linguagem. que amadurece no curso dos anos. daí ser chamada de gramática internalizada. 54. ou seja. Nessa concepção de gramática não há o erro lingüístico. 2006. dependendo de suas experiências lingüísticas. de natureza social.41 nos primeiros anos de vida. “regra gramatical”. na própria atividade lingüística. em principio. p. 1991. que todas as crianças desenvolvem uma gramática interna.

a construção de sua estrutura para “modelo” e de seu funcionamento: é uma atividade metalingüística. mas também o é o da unidade. 1985. que corresponde à expressão individual. tais como os princípios de construção. e existem “línguas” como entidades históricas e como sistema e normas ideais. Gramática é um trabalho analítico e reflexivo sobre a linguagem. mas expressa também o seu ambiente social e nacional. senão também comunicação. (apud CUNHA&CINTRA. a que constitui e dá forma ao que se chama de competência gramatical ou lingüística do usuário da língua é a que permite ao mesmo construir um número infinito de frases e julgar sua gramaticalidade no ensino da gramática descritiva. sem relação alguma com o valor interno das palavras ou formas”. (COSERIU. 6) Na linguagem é importante o pólo da variedade. Jespersen (1947) define o “linguisticamente correto” como aquilo que é exigido pela comunidade lingüística a que se pertence. no entanto. e erro em linguagem significa o desvio dessa norma. 1956. A linguagem expressa o individuo por seu caráter de criação. p. porque a linguagem não é só expressão. considerar a gramática internalizada somente o nível de frase ignorando assim os elementos constitutivos da gramática da língua em outros âmbitos como os princípios que nos permitem fazer uso da língua através dos textos. que corresponde à comunicação interindividual e é garantia de intercompreensão. com suas palavras: “falar correto significa o falar que a comunidade espera. apud CUNHA&CINTRA. p. os princípios que regem a conversação. etc. Ou. 1985. de aceitação de uma norma. muito mais do que as regras de construção de frases para ter uma competência comunicativa e que faz parte da gramática da língua. expressão para outro. Gramática interna é um sistema de princípios e regras que correspondem ao próprio saber lingüístico do falante: ele se constrói e se desenvolve na atividade lingüística. O que difere é o “linguisticamente incorreto”. finalidade em si mesma. Essa gramática internalizada. por seu caráter de repetição. que é ao mesmo tempo histórica e sincrônica: existe o falar porque existem indivíduos que pensam e sentem. e sabe. cultura objetivada historicamente e que transcende ao indivíduo. Para simplificar. interpretação e uso de textos em conformidade com situações diferentes de interação comunicativa. Com esta afirmação pretende-se esclarecer que o usuário da língua precisa saber. Não podemos. 7) Há necessidade de distinguir entre “gramática interna” do sentido de “gramática”. finalidade instrumental. muito mais do que a teoria lingüística trata ao estudar os elementos da fonologia e a .42 com a linguagem apesar de suas normas serem mais complexas.

quer em termos de leitura. a que possibilita a competência comunicativa. Apesar da discussão sobre a necessidade de reorganização do ensino fundamental no Brasil ser muito antiga. 1. A gramática internalizada é a que constitui não só a competência gramatical. Foi através dela que o ensino de gramática. da morfologia e da sintaxe. Isto aconteceu quando as pesquisas produzidas por uma lingüística independente de uma tradição normativa e filológica e os estudos desenvolvidos em variação lingüística e psicolingüística possibilitaram avanços na área da educação e psicologia da aprendizagem. que era concentrado em uma metalinguagem. Todo avanço nos estudos de gramática deveu-se aos progressos da ciência lingüística. quer em termos de produção. é desenvolver a competência comunicativa do aluno. motivou várias discussões sobre o ensino da língua materna em todos os seus níveis. Nesse contexto a unidade de ensino só pode ser o texto.43 fonética. Existe aí uma preocupação quanto ao direcionamento do ensino da gramática considerando que o ensino a respeito dela não é reconstruir o quadro descritivo dos . Essa gramática interna. mas também sua competência textual e sua competência discursiva e. para que e como ensiná-la. no caso a normativa. A afirmação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Portuguesa quando foram divulgados pelo MEC. passou a respeitar também o conjunto de regras dominadas pelos falantes. A discussão sobre se há ou não necessidade de ensinar gramática é considerada falsa tendo-se como verdadeira é o que. portanto. de natureza biológica e psicológica.9 INTERACIONISMO SOCIODISCURSIVO O objetivo do ensino de língua materna como forma de interação. propulsor da reflexão critica e imaginativa dele como leitor e produtor. Essa é uma das principais contribuições da lingüística para o ensino de gramática. Segundo Koch (2005) a postulação básica deste documento é o ensino centrado no texto. somente nos anos 80 tornou-se mais consistente. levando-o a adequar a língua às mais diversas situações. é também objeto de estudo da gramática moderna e exclui qualquer forma de preconceito baseado na gramática normativa.

enunciação. isto é. (BAKHTIN. A mediação do professor é fundamental no ensino da língua e no ensino da gramática. século XIX. acima de tudo. por sua construção composicional. leitura e escrita de textos”. Ele postula uma concepção de linguagem. pelas seleções dos recursos lexicais. texto. fraseológicos e gramaticais da língua. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo de linguagem. pois para ele a linguagem não pode ser vista apenas como sistema. Vossler colocou em primeiro plano a chamada função expressiva. independente da comunicação. Aprender a falar significa aprender a construir enunciações. sendo fundamental a presença do outro. reduzindo-a a criação espiritual do indivíduo. embora na obra de Bakhtin (1995) não haja uma definição do conceito de texto. . toda palavra. no qual “a palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial”. colocou-a em segundo plano. Cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados. em primeiro plano promoveu a função da formação do pensamento. mas aos aspectos que precisam ser tematizados em função das necessidades apresentadas pelos alunos nas atividades de produção. não negou a função comunicativa da linguagem. A partir da premissa de interação verbal há uma visão inovadora quanto à prática de produção textual nas escolas. 271) Humboldt. baseada na interação comunicativa. Afirma que a verdadeira essência da linguagem é a interação verbal. proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. O modo de ensinar deverá corresponder a uma prática que parte de uma reflexão produzida pelos alunos que pela mediação do professor deverá passar de uma terminologia simples e se aproximar do conhecimento gramatical produzido. dialógica. realizada pela enunciação. p.44 manuais. possui um caráter de duplicidade. histórico e ideológico. resumindo sua essência à expressão do mundo individual do falante. “O que deve ser ensinado não responde às imposições de organização clássica de conteúdos na gramática escolar. Os estudos e reflexões de Bakhtin (2003) trouxeram nova luz ao problema. Para ele a língua é vista como um fenômeno social. ou seja. mas. cujo contexto social não pode ser ignorado. O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados ( orais e escritos) concretos e únicos.

45 Em sua reflexão.. O discurso só pode existir de fato na forma de enunciações concretas de determinados falantes. mas uma unidade real. é de natureza diferente e assume formas várias. O enunciado não é uma unidade convencional. 274-5). (BAKHTIN.) O diálogo é a forma clássica da comunicação discursiva. considerando as experiências acumuladas e a interação dessas experiências. O ouvinte na sua contribuição passiva (parceiro do falante) não corresponde ao participante real da comunicação discursiva.. elas possuem como unidades da comunicação discursiva peculiaridades estruturais comuns. Considerando a oração como unidade da língua há a necessidade de abordar sua distinção em face do enunciado como unidade de comunicação discursiva. Bakhtin tem por objetivo conhecer o homem de uma forma abrangente. É a partir dessa interação que tudo se agiliza e que há a internalização de um saber construído por outro. sujeitos do discurso. que se organizam as idéias e procura-se tirar o melhor proveito sobre elas. pela construção composicional. no concreto de suas relações sociais. O discurso sempre está fundido em forma de enunciado pertencente a um determinado sujeito do discurso. experiências individuais que interagem em um mesmo contexto social.. e fora dessa forma não pode existir. Por mais diferentes que sejam as enunciações pelo seu volume. (. (. e antes de tudo absolutamente precisas.) O falante termina seu enunciado para passar a palavra ao outro ou dar lugar à sua compreensão altamente responsiva. criando as próprias idéias.... pelo conteúdo. Isso é aplicado em qualquer situação da vida.) ao falante não são dadas apenas as formas da língua nacional (a composição . ou seja. p. Bakhtin explica: Muitas pessoas que dominam magnificamente uma língua sentem amiúde total impotência em alguns campos de comunicação precisamente porque não dominam na prática as formas de gênero de dadas esferas. A oração é um pensamento relativamente acabado. precisamente delimitada da alternância dos sujeitos do discurso ao qual termina com a transmissão da palavra ao outro. dependendo das diversas funções da linguagem e das diferentes condições e situações de comunicação. em uma sala de aula em que professor e aluno são sujeitos que encerram em si dialogicidade. Pode-se dizer que é através da fala de outro com quem se compartilha aprendizados. depois delas espera-se uma resposta ou uma compreensão responsiva de outro falante. (.) Essa alternância dos sujeitos do discurso que cria limites precisos do enunciado nos diversos campos da atividade humana e da vida.. pois o falante faz uma pausa para passar em seguida ao seu pensamento subseqüente.. Em seu livro. (. As pausas entre as enunciações não são de natureza gramatical e sim real.

Culioli (1973. p. Luciene Fontão em seu artigo “Texto. Segundo a visão bakhtiniana. A linguagem é. (BAKHTIN. (GERALDI. é um eterno processo ininterrupto. Por conseguinte. de acordo com o contexto em que ela surge. nem discursos totalmente não comprometidos. existem sempre maneiras diferentes de se falar e linguagens diversas. p. e. não há textos totalmente inéditos. mas dados a ele. que justifica que sejam chamadas de sociais. refletindo as múltiplas experiências sociais. Por isso. p. não o escolhemos apenas para uma oração. p. além do mais. isto é. flexíveis e plásticos. 284-5-6). um processo vivo de interação. Linguagem e Ensino” comenta: O estudo e o ensino de uma língua não podem deixar de considerar as diferentes instâncias sociais.46 vocabular e a estrutura gramatical) obrigatórias para ele. entretanto. cuja função maior é de ordem comunicativa ou pragmática. 86) afirma que “um texto não tem sentido fora da atividade significante dos enunciadores” ( apud INDURSKI. Os gêneros do discurso. (. A linguagem confere às organizações e atividades humanas uma dimensão particular. Sempre há o que dizer ou o que escrever e maneiras diferentes de fazê-los. no sentido estrito do termo. 54).. pois os processos interlocutivos se dão no interior das múltiplas e complexas instituições de dada formação social. portanto. 28). Tanto a atividade social como a atividade de linguagem pode ser tomada sob o ângulo psicológico da ação.. não o fazemos por considerarmos o que queremos exprimir com determinada oração. comparados às formas da língua. que se transforma e ganha diferentes significados. os gêneros do discurso: estes são tão indispensáveis para a compreensão mútua quanto as formas da língua. escolhemos um tipo de oração do ponto de vista do enunciado inteiro que se apresenta à nossa imaginação discursiva e determina a nossa escolha. O Interacionismo Sociodiscursivo (doravante ISD) permite o acesso aos textos disponíveis no inventário sociohistórico para serem atualizados à medida que o usuário da língua entre em interação por meio de uma atividade de linguagem. uma característica da atividade social humana. a língua não é um produto acabado. é no fluxo da interação verbal que a palavra se concretiza como signo ideológico. 1996. como .) Quando escolhemos um tipo de oração. não são criados por ele. para o indivíduo falante eles têm significado normativo. com base na história discursiva de cada sujeito envolvido no processo de interação. mas também as formas de enunciado para ele obrigatórias. A língua enquanto produto desta história e enquanto condição de produção da história presente vem marcada por usos e pelos espaços sociais destes usos. são bem mais mutáveis.

e que se materializa na entidade empírica que é o texto singular. principalmente por serem articuladas a situações de comunicação muito diferentes. para depois se centrar em capacidades de leitura e de interpretação. A utilidade dos conhecimentos gramaticais para o de maestria textual não pode ser demonstrada até hoje. que tem como objetivo estabelecer uma compreensão do contexto e das propriedades das atividades em geral. que possibilita a intercompreensão no seio de uma comunidade verbal.47 ação de linguagem. gerada por uma ação de linguagem. (BRONCKART.) Uma língua natural só pode ser apreendida através de produções verbais efetivas. mas não provocou o questionamento da tese do primado do sistema sobre o funcionamento textual. Bronckart (2007) afirma: o que em uma língua “constitui sistema” não pode ser considerado senão como produto de um procedimento de abstração operado sobre essas entidades funcionais e empiricamente observáveis que são os textos:os textos são primeiros e o sistema da língua é um construto secundário. composto de regras fonológicas. acumulada historicamente “no mundo das obras humanas”. Pensavam que assim os alunos desenvolveriam uma maestria textual tanto em relação aos aspectos de produção quanto aos de compreensão-interpretação. que os indivíduos utilizam para interagirem nos diferentes ambientes discursivos da sociedade (BALTAR. imputável a um agente. primeiramente. 69) A noção de texto utilizada pelo ISD assemelha-se à noção bakhtiniana de enunciado/texto/discurso. apoiadas em um posicionamento epistemológico.. A conceitualização das categorias e das regras gramaticais foi modernizada. Houve uma revalorização do ensino textual visando a desenvolver no aluno. trata-se da unidade comunicativa verbal: oral ou escrita. capacidades sólidas de produção. 2004). lexicais e sintáticas relativamente estáveis. São essas formas empíricas diversas que chamamos de textos. a cuja elaboração se consagraram gerações de gramáticos. Segundo Bronckart (2007). O ISD define atividade de linguagem como um fenômeno coletivo de elaboração e prática de circulação de textos. (. foram elaboradas abordagens e métodos tradicionais de ensino de línguas que preconizavam em primeiro lugar a realização de uma abordagem gramatical destinada a dotar os alunos de uma consciência explícita das principais categorias e estruturas do sistema da língua. Toda língua natural apresenta-se como estando baseada em um código ou um sistema.. que assumem aspectos muito diversos. p. Baseando nessa .

que consistiria em iniciar o ensino da língua pelas atividades de leitura e de produção de textos e somente depois articularia atividades de inferência e codificação das regularidades observadas no corpus de textos mobilizado.48 modificação radical de perspectiva teórica visualiza-se uma abordagem didática ideal. ou nos enunciados que circulam efetivamente no cotidiano e que seguem regras específicas as quais permitem a comunicação. desconsiderando as experiências de vida de seus interlocutores. Eu vô chega tardi in casa ogi pruque o patrãum aviso qui vo percisá fase hora eistra. a disciplina de Língua Portuguesa pode centrar-se no conjunto de regras que nos leva a produzir frases e dali chegar aos enunciados. quanto ao ensino de Língua Portuguesa. Texto 3 . descontextualizando o ensino no exercício mecânico e repetitivo. De acordo com essa proposta. No intuito de deixar mais claro. Provavelmente chegarei tarde à casa hoje porque fui informado de que precisarei fazer hora extra. Por esse motivo não poderia ser pensada de modo fragmentado. como mera decodificação de conteúdos e reprodução de idéias. sobre algumas regras restritivas da morfossintaxe. 42). A atividade de inferência e codificação incidiria sobre a organização das frases e as categorias de unidades disponíveis na língua. proporcionaria ao sujeito a construção e compreensão de conhecimentos do mundo. cujo conhecimento é necessário para o domínio da ortografia gramatical. exemplifica: Texto 1 Maria. Esse esquema ideal de ensino da língua não parece aplicável como tal. Texto 2 Maria. Na mesma medida em que se deveria apresentar como matéria a ser analisada. A atual Proposta Curricular do estado de São Paulo (2008 p. demonstra uma preocupação com o ensino da língua como objeto e como meio para o conhecimento. desvirtuando a gramática ao valorizar regras específicas em detrimento de muitas outras existentes.

de acordo com Fontão. mas ao circularem na sociedade. Para eles essa habilidade de interagir linguisticamente por meio de textos. Os textos verbais fazem uso de estruturas gramaticais e muitos desses textos necessitam da gramática para a sua correta organização na sociedade. identificam-se as intenções do texto porque ele segue regras próprias da língua portuguesa. Essa proposta observa que mesmo com as dificuldades no uso da norma padrão no texto 1. é instaurar o elo entre o sujeito e o mundo onde vive através da intertextualidade e da intersubjetividade. A proposta de estudar a língua considerada como uma atividade social. espaço de interação entre pessoas. provocam reações diferentes. num determinado contexto de comunicação. O nível de letramento é determinado pela variedade de gêneros textuais que a criança ou adulto reconhecem. implica a compreensão da enunciação como o eixo central de todo o sistema lingüístico e a importância do letramento. A concepção interacionista da linguagem confirma que o texto é um instrumento fundamental de se adquirir conhecimento. permite a construção de sentidos. pois produzir um texto seja oral ou escrito. . está no 3. Todos os textos surgem na sociedade pertencendo a diversas categorias ou gêneros textuais que relacionam os enunciadores com atividades sociais específicas. em função das relações que cada sujeito mantém em seu meio. diante das possibilidades de interpretação dos outros. nas situações de produção e recepção em que circulam socialmente. capacidade produtiva.49 patrão. do ponto de vista da comunicação. O problema. é dialogar com outrem. podre no Maria extra informado à precisarei today porque fui pelo boss chez moi de que temprano fazer hora chegar. estabelecendo a ponte entre a linguagem e a vida. comunicativa de estruturação gramatical tendo em vista sua ampla possibilidade de fazer o ser social assimilar e compreender a partir das palavras. desenvolve a competência e promove o letramento. Apontam a necessidade de se saber lidar com os textos nas diversas situações de interação social. Os autores da Proposta Curricular de São Paulo explicam que os textos 1 e 2 comunicam.

tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo contexto). futuro do diálogo. usará na sua prática de sala de aula uma visão voltada para os postulados de uma incessante interação verbal. O grande filósofo russo disse nas suas reflexões finais: Não existe a primeira nem a última palavra. nascidos no diálogo dos séculos passados. Questão do grande tempo. p. De acordo com Pernambuco (2007). pois coloca o ensino gramatical a serviço do aprimoramento da habilidade de interação sociodiscursiva do aluno. A prática pedagógica de ensino da gramática deve ter como objetivo alcançar o envolvimento existencial dos alunos. 410). em seu curso. a vida do texto não está no apego a regras do sistema lingüístico. estará mais interessado em ditar regras e normas para o ensino da língua e estará mais familiarizado com a concepção de língua como instrumento de comunicação. (1995. Na visão sóciointeracionista essa não pode ser a preocupação. na experiência de serem autores e de serem leitores participantes ativos do infindável diálogo cultural. na sua Estética da criação verbal. a vida do texto está mesmo é nas relações dialógicas que ele condensa e no diálogo que ele suscita diálogo que não tem fim. isto é. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos. Se for um tradicionalista. Segundo Bakhtin.50 Se o professor for um estruturalista. Nem os sentidos do passado. Interessa é o jogo dialógico da interação. estará mais propenso a desenvolver suas atividades a partir da visão de língua como expressão do pensamento. Alguns professores dizem ser necessário aprender as regras da gramática normativa para se escrever bem. acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subseqüente. conforme Pernambuco (2007). . o ensino de Língua Portuguesa tem como objetivo levar o aluno a usar a língua expressando o seu próprio mundo. Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. e se optar por uma linha de trabalho interacionista. e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo. mas suas reflexões servem para fundamentar um trabalho produtivo com o ensino da gramática. podem jamais ser estáveis (concluídos. com os discursos/ textos se construindo na troca de visões de mundo de uns e outros. como pessoas concretas. Bakhtin não pretendeu ser teórico do ensino.

Pernambuco (2007) diz: “a gramática não é rainha. A língua não se resume ao conhecimento gramatical. estamos nos referindo à gramática normativa com suas normas e conceitos nem sempre lógicos. Neste caso. mas não pode ser o foco central dele. gramática é meio.51 fazendo dela o seu instrumento de ação. ela deve ser tratada como uma serva do uso da língua”. O ensino de língua materna deve ter como objetivo a apropriação pelos alunos dos recursos lingüísticos por conta própria para a sua vivência social. tem de ser o que ela pretende ser: serva do uso da língua. Ela também não tem culpa pelo que com ela fazem. Ela. a gramática prescritiva precisa deixar de ser a parte mais importante no estudo da nossa língua materna. quando a colocam no centro do ensino da língua. não fim. A vantagem do Interacionismo Sociodiscursivo é exatamente tentar mudar o foco do ensino para a interação humana pelo domínio dos recursos que a língua dispõe para todos os seus usuários. ela é necessária. a gramática. . O caminho para se atingir esse objetivo é o texto. Não se ensina gramática como um fim em si mesma. Nessa fala o professor sintetiza o que até agora foi exposto neste capítulo.

posição social ou escola de origem. pois os alunos. sobretudo. Pernambuco (1993). cita o fato de a Fundação Carlos Chagas ter publicado em dois de seus Cadernos Pesquisa (1977. 19 e 23). idade. lexicais. independente de qualquer variável extralingüística como sexo. têm uma verdadeira aversão pela disciplina de Português em todos os graus de ensino.” (Millôr Fernandes) Neste capítulo trataremos do atual ensino de gramática. Essas pesquisas constataram o fraco desempenho dos estudantes quanto à escrita da língua. duas seções especiais sobre redações nos exames vestibulares com cerca de doze trabalhos a respeito de pesquisas realizadas sobre os mais diferentes aspectos: morfológicos. em seu artigo Situação atual do ensino de Língua Portuguesa nas escolas brasileiras. geralmente.52 2 DIFICULDADES DO ENSINO DE GRAMÁTICA “Entre o porquê e o por quê há mais bobagem gramatical do que sabedoria semântica. sintáticos.1 CAUSAS DO FRACASSO ESCOLAR Os fatos relacionados ao fracasso escolar têm sido alvo de discussões e de críticas da sociedade brasileira e grande parte da culpa é atribuída ao ensino de Língua Portuguesa. Essas críticas aparecem constantemente nos meios de comunicação e suscitam pesquisas e estudos direcionados à prática pedagógica do ensino de gramática. p. suas dificuldades e conseqüências e. 2. . os problemas encontrados pelos professores no seu trabalho. semânticos e sociolingüísticos das dissertações elaboradas por milhares de vestibulandos.

de que nunca se escreveu e falou tão mal o idioma de Rui Barbosa... 21). língua de “matutos”. quase como se aqueles se orgulhassem de sua própria ignorância e estes quisessem voltar atrás no tempo. pois. de “caipiras infelizes”. . apud PERNAMBUCO. existe na escola um conflito entre a variedade dialetal e a norma lingüística que a escola exige que todos os estudantes dominem como sendo a única. apesar de estarem na faixa etária de 19 a 23 anos. e a indigência vocabular tomou conta da juventude e dos não tão jovens assim. mas através da própria linguagem oral do professor. de algo que deve ser corrigido. chegou à conclusão de que há uma crise no desempenho lingüístico escrito. levá-lo a perceber que há diferentes maneiras de se falar e que cada uma corresponde ao local em que a pessoa se encontra. Arnaldo Niskier. Segundo Bagno (2002) não é difícil encontrarmos intelectuais renomados que lamentam a “corrupção” do português falado no Brasil.] pode-se registrar o fato. 1993) em seu artigo “Heterogeneidade dialetal: um apelo à pesquisa” destaca: “Nunca é demais frisar: o objetivo a ser proposto não é aprenda a norma culta em vez do português que você fala e sim aprenda a norma culta além do português que você fala e utilize um ou outro segundo as circunstâncias”. ou à chamada língua padrão. 2002. baseada na pesquisa de mais de 1500 redações de vestibulandos. e àqueles brasileiros que porventura não se adaptam a ele. Segundo Camacho (1987). Miriam Lemle (1979. arremedo tosco da língua de Camões. apud PERNAMBUCO. Isso significa que a escola deve aceitar a língua que o aluno usa. [. Esses intelectuais são pessoas que ainda se prendem ao português arcaico. facilmente comprovável. necessidade de que as escolas abandonem esse mito da “unidade” do português no Brasil e passem a reconhecer a verdadeira diversidade lingüística de nosso país. não como exemplo de fala errada.. portanto.. (apud BAGNO. presidente da Academia Brasileira de Letras. p.] A classe dita culta mostra-se displicente em relação à língua nacional.53 Rocco (1981. dãolhes títulos depreciativos como estes. Há. 1993) em “Crise na linguagem: A redação no vestibular”. num artigo publicado na Folha de São Paulo (15/01/98) declara: [. apresentam redações que demonstram o nível de organização mental na faixa de 9 a 12 anos.

simples refrações fortuitas ou mesmo deformações das formas normativas. As leis da língua são essencialmente leis lingüísticas específicas. A associação entre uma determinada variedade lingüística e a escrita é o resultado de oposições entre grupos sociais “usuários” das diferentes variedades.54 Declarações desse tipo baseiam-se em posturas preconceituosas. nem vínculo artístico. o que foi um passo fundamental no processo de “legitimação” de normas lingüísticas. A partir de uma determinada tradição cultural. a mudança é. 3. não em análises científicas acuradas dos fatos lingüísticos. A maioria dos cidadãos têm uma possibilidade reduzida de acesso ao código da escrita usada pelo poder. Eles são estranhos entre si. Mas são justamente estes atos individuais de fala que explicam a mudança histórica das formas da língua. e esta área da produção lingüística dificilmente é apagada pela instituição. p. Entre o sistema da língua e a sua historia não existe nem vínculo nem afinidade de motivos. Bakhtin e V. p. 2002. O fator da pronúncia é considerado como uma marca da proveniência regional. A língua é um sistema estável. Volóshinov (1929. 2. constituída pela escola e pela “norma pedagógica” ali ensinada. Escrever nunca será igual ao falar. 10) apontavam quatro princípios orientadores de uma típica visão “oficial” e conservadora da linguagem dentro da tendência que ele chamava de “objetivismo abstrato”: 1. enquanto tal. de formas lingüísticas submetidas a uma norma fornecida tal qual à consciência individual e peremptória para esta. M. Os atos individuais de fala constituem do ponto de vista da língua. nenhum motor ideológico. (1979. Não se encontra. imutável. Entre a palavra e seu sentido não existe vinculo natural e compreensível para a consciência. Esta variedade foi reproposta como algo de central na identidade nacional como portadora de uma tradição e de uma cultura. a fixação de uma variedade na escrita precedeu de alguns séculos a associação de tal variedade com a tradição gramatical grecoromana. apud GNERRE. 68). que estabelecem ligações entre os signos lingüísticos no interior de um sistema fechado. do ponto de vista do sistema. na base dos fatos lingüísticos. Estas leis são objetivas relativamente a toda consciência subjetiva. foi definida uma variedade lingüística usadas em grupos de poder. 4. irracional e mesmo desprovida de sentido. e às vezes social. . As ligações lingüísticas específicas nada têm a ver com valores ideológicos (artísticos cognitivos e outros).

e assistimos estarrecidos ao divorcio crescente entre a norma gramatical canônica e a criação literária viva” (in CASTILHO.2 TIPOS DE GRAMÁTICA A posição antinormativa dos lingüistas foi estabelecida como uma visão abstrata segundo a qual todos os dialetos têm um valor intrínseco igual em termos lingüísticos. torna-se necessário um amplo aparato de conhecimentos sócio-políticos para poder ter acesso à compreensão e principalmente à produção de mensagens de nível sócio-político. é inventariada nos dicionários e é a portadora de uma tradição cultural e de uma identidade nacional. a norma presente nas gramáticas é um conjunto de opiniões sobre como a língua deveria ser. implícita e explicitamente. No Brasil. A difusão da educação e do conhecimento da variedade lingüística visa a reduzir a distância entre grupos sociais para uma sociedade de oportunidades . A gramática normativa escrita é um resto de época em que as organizações dos estados eram explicitamente autoritárias e centralizadas. O que Bakhtin/Voloshinov (1929) chamou de “objetivismo abstrato”. Mas convenhamos que nas sociedades complexas como a nossa. malgrado o numero ponderável de estudos gramaticais. a idéia de língua “brasileira”. 1973). 2. sobretudo no Brasil. Segundo ele a língua “brasileira” deveria se adequar à “simplicidade” de pensamento e de expressão do índio e do sertanejo.55 A variedade considerada culta é associada à escrita e também à tradição gramatical. não sabemos efetivamente o que é e como é a língua portuguesa. segundo os gramáticos. aprofundou a distância entre os lingüistas e os professores de língua. nos seus escritos. O autor ainda lembra que talvez José de Alencar tenha sido o intelectual mais conhecido que defendeu. Antonio Houaiss observa: “a realidade nua e crua é que.

in GNERRE p. como os gramáticos pretendem impor que seja. Mesmo visando a uma homogeneidade . A importância disto está no fato de que as habilidades lingüísticas. Para Gramsci (1975. (GNERRE. 32). A discriminação social começa no texto da Constituição. 1998). pois este se serve exclusivamente da língua padrão. 1998 p. O professor tem que ter um realismo lingüístico. A estratificação sócio-cultural se espelha numa estratificação lingüística. Em sociedades econômica e culturalmente heterogêneas. 1979 (apud GNERRE. Filhos de pais analfabetos aprendem com eles a sua linguagem e é com esse material que o professor terá que começar. a tendência das gramáticas normativas escritas é abraçar todo um território nacional e todo o “volume lingüístico” com a finalidade de criar um conformismo lingüístico unitário porque cria um esqueleto mais forte e homogêneo para o organismo lingüístico nacional. Segundo Lo Piparo. mas essa mesma lei é redigida numa língua que só uma parcela pequena de brasileiros consegue entender. é inevitável a heterogeneidade no campo da linguagem. pois a língua é como é. Os falantes das variedades desprestigiadas deixam de usufruir diversos serviços a que têm direito por não compreenderem a linguagem empregada pelos órgãos públicos.56 iguais para todos. Muitos pesquisadores têm mostrado em seus estudos que os falantes das variedades lingüísticas desprestigiadas têm sérias dificuldades para compreenderem as mensagens enviadas pelo poder público. não como deveria ser. às vezes. do qual cada indivíduo é o reflexo e o interprete. só ascendendo o nível sócio-cultural crescerá o nível de linguagem do individuo. Gnerre não quis dizer que a Constituição deveria ser escrita em língua não-padrão. 32) a realidade lingüística nacional é formada pela junção destes dois tipos de gramática: gramática normativa escrita e gramática normativa oral. como o professor queria que fosse. mas sim que todos os brasileiros deveriam ter acesso mais amplo e democrático a essa “língua oficial”. são fatores de discriminação. presos a modelos do passado. A gramática normativa é a expressão da sociedade civil em um momento de consenso das normas lingüísticas de grupos sociais homogêneos. A Constituição Brasileira afirma que todos os indivíduos são iguais perante a lei.

mas também atual. portanto aos professores competia somente fornecer meios para esses alunos expandirem o uso da sua linguagem. abriu suas portas para as camadas populares que dominam uma forma diferente da que é prestigiada pela sociedade. Para Possenti (1996) é interessante sabermos que na realidade são os gramáticos que consultam os escritores para saberem as regras que devem seguir e não. etc. consoantes. Por ensino de gramática entende-se a soma de duas atividades que se relacionam. Do ponto de vista do ensino da língua padrão a primeira atividade evidencia o tentar consolidar o uso de uma variedade de prestígio e a segunda só se justifica por critérios independentes do ensino da língua. Até a década de 90. a escola tem que trabalhar a partir da realidade gramatical heterogênea dos alunos. Em conseqüência disto. não obrigatoriamente. ensinar gramática é a mesma coisa que ensinar língua. eram bem menores. A escola. Ele afirma também que para muitas pessoas ensinar língua é ensinar gramática ou. as dificuldades enfrentadas pelos alunos e professores nas escolas. pois embora tivesse ocorrido muita mudança de discurso. etc. Ele destaca três maneiras de entender a . regência. segundo o mesmo autor. conforme Pernambuco (1993). os escritores que consultam os gramáticos. A escola não se adaptou ou mesmo não conseguiu adaptar-se a essa circunstância. pois a maioria do corpo discente era formada por alunos de camadas sociais mais favorecidas sócio-economicamente. Esses alunos já traziam de seu ambiente familiar uma variedade lingüística muito próxima da variedade prestigiada pela escola. análise sintática da oração. de concordância.57 lingüística culta. não faz sentido ensinar nomenclaturas a quem não domina habilidades de utilização corrente e não traumática da língua. Incompetente para tal. a prática escolar continua a mesma. a escola passou a estigmatizar as manifestações orais e escritas desses alunos provenientes das classes mais pobres.) e a análise mais ou menos explícitas de determinadas construções (vogais. A discussão sobre língua e gramática é muito antiga. Possenti admite a necessidade de saber o que é gramática embora a noção de gramática seja controvertida: nem todos os que se dedicam a esse estudo a definem da mesma maneira. quanto ao processo ensino-aprendizagem. há o domínio da variedade inculta contrapondo-se ao “falar culto” da classe dominante. Essas atividades são: estudos de regras de construção de palavras ou frases (regras ortográficas. diferentemente.).

as regras de colocação de pronomes átonos encontradas nas gramáticas e ensinadas na escola como desejáveis são decorrentes de uma visão equivocada da língua. pois é a definição encontrada nas gramáticas pedagógicas e nos livros didáticos. inglês. Caracteriza essas noções em três tipos de gramática: a normativa. “vós iríeis”. Essas gramáticas também recebem o nome de gramáticas prescritivas e são as mais conhecidas. às vezes. pois as formas mais usadas na oralidade são: vocês foram. é a mais conhecida dos professores de primeiro e segundo graus. As gramáticas normativas correspondem à noção de que gramática é o conjunto de regras que devem ser seguidas. Há muitas diferenças quando se trata do sistema pronominal: quando as formas pronominais de terceira pessoa estão em posição de objeto direto “o/a/os/as” quase não se ouvem mais. Na oralidade. Exemplificando: algumas formas verbais como “vós fostes”. conjunta de regras que são seguidas e conjunto de regras que o falante da língua domina. não espanhol. Quando se fala de pronomes em português do Brasil. como: “Os meninos apanham as goiabas” ou “Os menino (a)panha as goiaba”. Essa gramática orienta os trabalhos dos lingüistas para descreverem e/ou explicarem as línguas tais como são faladas. só existem na escrita.58 definição de gramática: como “conjunto de regras”: conjunto de regras que devem ser seguidas. Nas duas primeiras maneiras as regras se referem à organização das expressões utilizadas por um membro de uma comunidade linguística. vocês iriam. . onde apresentam como objetivo da gramática: levar o leitor a “falar e escrever corretamente. São hipóteses sobre os conhecimentos que habilitam o falante a produzir frases ou seqüências de palavras compreensíveis e reconhecidas como pertencendo a uma língua. aparecem na escrita.etc. etc. a descritiva e a internalizada. apesar de parecer um escândalo a certos ouvidos. A gramática internalizada é a da terceira definição de gramática: conjunto de regras que o falante domina.. é “ele/ela/eles/elas”. quem fala português sabe que são frases em português. Estes livros apresentam regras para a variedade padrão escrita e oral. As gramáticas descritivas são as relacionadas à definição de gramática como conjunto de regras que são seguidas. a terceira refere-se à hipóteses sobre aspectos da realidade mental dos mesmos falantes. o que ocorre em seu lugar.

talvez mais exatamente. complemento de outro tipo. há necessidade de que entendamos que devemos trabalhar o ensino de Língua Portuguesa convencidos de que o domínio efetivo e ativo de uma língua dispensa o domínio de uma metalinguagem. ou colocar-se em outro mundo. Lexical quanto à capacidade de empregar as palavras adequadas. “ele iu”. “eu fazi”. o de criar condições para que ele seja aprendido”. Uma gramática descritiva é tanto melhor quanto mais ela for capaz de explicitar o que os falantes sabem. é o resultado da aplicação de regras conhecidas. ou quanto mais ela for o retrato da internalizada. embora saber o que ela significa exige que esse verbo tenha um sujeito de tal tipo. falamos o que ouvimos.3 O TRABALHO PEDAGÓGICO DO PROFESSOR O problema do fracasso escolar de Língua Portuguesa não se atém só ao âmbito da variação lingüística. etc. ou. Na sentença “E a raposa disse para o corvo. Uma versão sobre a aquisição do conhecimento gramatical diz que aprendemos por repetição. eles se completam e há uma grande necessidade de saber-se usá-los. sintático-semântico tem a ver com a distribuição das palavras na sentença para que tenham sentido. Nenhum dos dois conhecimentos isolados serve como base de aprendizagem.. A escola tem falhado para ensinar a variedade . À medida que as palavras têm exigências em relação ao outro nível. “eu cabo”. tipicamente não regularizadoras de formas irregulares como: “eu sabo”. A ineficiência quanto ao conhecimento da relação de dependência existente entre língua e gramática pode levar-nos a fracassar no ensino da língua materna. internalizadas.. a palavra “dizer” para empregá-la. Há a necessidade de saber-se o que significa.59 Estes conhecimentos podem ser de dois tipos: lexical e sintáticosemântico. Também devemos levar em consideração que conhecer uma língua é uma coisa e conhecer gramática é outra. por exemplo. o léxico tem implicações na sintaxe-semântica. Possenti (1996) afirma: se “o objetivo da escola é ensinar o português padrão. etc.” o falante pode achar a frase estranha já que raposas não falam. Isto acontece porque as crianças aprenderam regras de conjugação verbal. 2. As crianças produzem algumas formas nunca ouvidas.

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padrão da língua: partindo da concepção da linguagem como instrumento de comunicação, adota práticas pedagógicas que exigem do aluno uma assimilação do conteúdo ministrado, criando atitudes mecânicas e passivas responsáveis pelo desinteresse diante do processo ensino-aprendizagem. O modelo de trabalho do professor de Língua Portuguesa na escola brasileira consiste numa repetição de atividades desinteressantes para o aluno e improdutivas no sentido de promover a expansão da habilidade lingüística de que ele já é possuidor quando entra para a escola. Uma criança com sete anos de idade que entra na escola para se alfabetizar, já entende e fala a língua portuguesa nas diversas circunstâncias apresentadas pela vida. Afirmação esta facilmente comprovada ao observar-se os diálogos mantidos entre as crianças na hora do recreio. Neste caso, trata-se de crianças normais. Segundo Cagliari (2002), as dificuldades específicas de aquisição de linguagem só ocorrem quando a criança apresenta problemas biológicos seríssimos. Para uma criança aprender uma linguagem não há necessidade de organizar esta linguagem em ordem alfabética. A criança não entra para o mundo da linguagem da mesma forma que um adulto inicia-se no aprendizado. “Quando se diz que uma criança já é um falante nativo de uma língua, significa que ela dispõe de um vocabulário e de regras gramaticais”. (CAGLIARI. 2002, p. 18). “Mas o que é ensinar português para pessoas que já sabem falar o português?” indaga Cagliari, após afirmar que “ensinar português é ensinar português e não fazer disso um campo de prova de teorias ou hipóteses psicológicas, pedagógicas, ou seja, lá o que for”. (CAGLIARI, 2002, p. 22) No início do ano letivo o professor faz seu planejamento e traça objetivos a serem alcançados como resultado do seu trabalho e enumera itens do conteúdo programático a ser desenvolvido, não se atém, não se preocupa com os conhecimentos que os alunos já tenham adquiridos quer em casa ou na escola. Ainda hoje, a concepção de gramática predominante na maioria das práticas escolares em nossas escolas é a da gramática tradicional apenas com alguns termos substituídos. Outras finalidades como a de preservar a língua original de determinadas comunidades fez com que a gramática assumisse uma feição mais prescritiva e perdura até hoje.

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Os manuais de gramática passaram a ditar a língua, como se ela não fosse anterior à gramática. Embora se saiba que a língua é extensa demais, seus usos são complexos e plurais e não caberiam em nenhum manual, sempre aventura-se pela consulta a eles. Sendo a linguagem um patrimônio característico de toda a

humanidade, qualquer criança tendo acesso a ela, domina-a nos primeiros anos de vida com todos os seus sistemas de princípios e regras que lhe permitem ativar ou construir inteiramente a gramática de sua língua. Segundo Antunes (2007, p. 36) “Qualquer pessoa que fala uma língua fala essa língua porque sabe a sua gramática, mesmo que não tenha consciência disso”, ela ilustra essa afirmação com o relato do fato:
Uma criança de dois anos e quatro meses, ao ser interrogada se queria falar pelo telefone com a avó, respondeu prontamente: -- Quero. Observemos que essa criança não disse “queremos”, “quis”, “querem”, nem outra coisa qualquer que não fizesse sentido nessa situação específica. Pelo contrário, usou o verbo nas flexões de tempo, modo, pessoa e número adequados, omitiu o pronome sujeito, omitiu o complemento do verbo, uma vez que esses elementos estavam contidos no contexto da interação. Certamente se a pergunta tivesse sido: -- Quem quer falar com a vovó? – o garoto não teria omitido o pronome e teria respondido: -- Eu quero! – ou, simplesmente: -- Eu.

Neste exemplo, ela demonstra como a gramática da língua, nesse sentido de “gramática interiorizada” faz parte do conjunto de saberes que as pessoas desenvolvem desde cedo. Scherre (in ANTUNES, 2007, p. 27), afirma: ”com três anos de idade, qualquer criança de qualquer parte do mundo se comunica com estruturas lingüísticas complexas”. Toda língua em qualquer condição de uso é regulada por uma gramática, afirmação que contradiz a idéia de que somente a norma culta segue uma gramática. Quando é exigido pelo professor o aprendizado puro e simplesmente da gramática normativa, causa frustração de ambos os lados, no professor e no aluno. O aprendiz por não conseguir dominar e usar todas as regras gramaticais passa sua dificuldade para a disciplina achando-a muito difícil. Embora haja outras disciplinas tanto ou até mais difíceis que gramática (matemática e química para alguns, história para outros, etc.), nenhuma delas tem o

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alto índice de rejeição obtido pela gramática. Pode-se observar claramente que alguns professores, alunos e pais de alunos defendem a supressão do ensino gramatical e que há também os que radicalizam: uns consideram que a gramática “não serve para nada”, enquanto outros afirmam que “sem gramática não é possível aprender português”. Tudo isso reflete que há algo errado quanto ao ensino de gramática. Existe neste aprendizado, sofrimento de alunos e professores, pois ambos sentem-se frustrados. O primeiro por achar que não consegue ensinar e o outro por não se sentir capacitado a aprender. Se perguntarmos aos jovens que freqüentam o segundo grau e já estão fazendo planos para o futuro qual faculdade pretendem cursar, com certeza, alguns responderão que pretendem cursar direito, outros geologia, outros engenharia, mas dificilmente encontraremos algum que pretende ser gramático. Uma observação importante é de que ao aluno de matemática exige-se que tenha pré-requisitos para uma determinada série, já um professor de português não pode entrar na sala esperando que seus alunos dominem análise sintática, distingam as classes gramaticais, embora este conteúdo faça parte do desenvolvido nas séries anteriores, pois isto será motivo para decepção por parte do professor. Se os alunos estudam o assunto há oito anos ou mais e não o sabem, conclui-se que alguma coisa está errada. É muita preocupante a maneira usada para ensinar-se a língua materna. Considerando-se a língua um duplo sistema, sendo: um sistema de sinais (vocábulos, expressões) e outro de combinação desses sinais ao que chamamos “gramática”, notaremos que não há língua sem gramática, “Amar uma língua é amar sua gramática” (LUFT, 2006, p. 11). A obsessão gramaticalista, a idéia de que ensinar uma língua seja ensinar a escrever “certo” relegando-se a prática da língua, e a postura opressora e repressiva desse ensino origina o desânimo dos professores dessa matéria, pois o malogro desse ensino é comprovado em concursos, em testes falados e escritos dos nossos diplomados universitários. Atualmente, no Brasil, o aluno passa 8 (oito) anos no Ensino Fundamental, 3 (três) no Ensino Médio, freqüenta cursinho, cursa até quatro anos de faculdade e se um especialista fizer uma pesquisa séria para saber o que este aluno aprendeu em todos esses anos, ficará decepcionado. Nestes anos todos, o que o aluno aprendeu na escola? Para Cagliari (2002), o aluno não aprende porque a

É a concepção de gramática normativa. muito antiga. 24) sobre o que a escola ensina: . a escrita. em geral. importante. devido ao modo usado para ensinar-se gramática ser baseado na gramática tradicional. Na verdade. estes livros são tentativas de registros da autêntica gramática. Com a finalidade de conservar o ensino de gramática no currículo. citarmos os exemplos de Cagliari (2002. Antunes (2007) coloca como subtítulo de sua obra Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho e inicia seu livro com o poema de Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho”. de todo o nosso ensino em qualquer nível ou disciplina. muitos professores dizem e acreditam que a gramática leva o aluno a ler e escrever melhor. a postura opressora e repressiva. A preocupação é a maneira de se ensinar a língua materna. a verdadeira: conjunto de regras que sustentam o sistema de qualquer língua. que ainda está muito presente nas escolas.63 escola não ensina e não sabe ensinar e os que aprendem o fazem. p. evoluem e morrem. Luft (2006) observa: se perguntarmos a pessoas não especializadas ainda que cultas: o que é gramática? Todas responderão “É um livro onde se aprende a escrever certo” ou “são regras que ensinam a falar e a escrever corretamente”. É bastante verossímil e. alienada e alienante desse ensino. isso faz com que os alunos a considerem uma verdadeira pedra no caminho. as noções falsas da língua e gramática. A compreensão deturpada que se tem da gramática da língua e de seu estudo tem funcionado como um obstáculo à ampliação da competência dos alunos para a fala. em grande parte. a vital. a leitura e escrita de textos adequados e relevantes. Desta definição parte o conceito de mau e bom uso da língua sendo que o “mau uso” da língua é formado pelo maior número de pessoas e o “bom uso” corresponde à elite. a um domínio adequado da linguagem padrão escrita. portanto. ou seja. um bom gramático seria aquele que diz como se deve escrever. à maneira de falar da parte mais sadia da corte e à maneira de escrever de acordo com os escritores da época. Neste caso. Não há língua sem gramática. apesar do que a escola ensina. 23. a obsessão gramaticalista. em relação às suas funções e às suas limitações. Há um grande equívoco em relação à dimensão da gramática de uma língua. com ela nascem. como.

o vinculo entre norma culta e tradição escrita. e o que aprende? Sempre as mesmas coisas: o que significa a palavra. lobo? Qual é o sujeito das orações. extenso e estender? Qual o plural de. e o porquê de um preconceito lingüístico tão violento apesar dos vários trabalhos desenvolvidos em lingüística. mas como um subterfúgio para lhe dizer que nada sabe e os que sabem são os professores. com certeza.. p. qual é o comportamento da sociedade e dos indivíduos em relação aos usos lingüísticos... o autor.. diariamente. ou como teorias que se fazem sobre a língua no nível da frase.64 O aluno passa anos e anos. Os candidatos. ”Caiu no jardim a bola”.. a escola. 2002.. vestibulares e os materiais didáticos). exceção. Britto (1997) afastou-se da sala de aula para que melhor pudesse analisar esta questão.. achariam que era brincadeira ou então se sentiriam ofendidos. abstrato? Qual o coletivo de.. em aulas de português. telúrico? Como se escrevem as palavras.... Na tentativa de saber o motivo pelo qual a gramática normativa tem tanta força a ponto de se manter como padrão de ensino. quais as propriedades e usos que ela realmente tem. nas mais variadas situações da vida”....] Após afirmar que é isso que acontece nas escolas e em muitos cursos superiores de Letras. Nesta análise. a imprecisão quanto ao conceito de gramática como expressão de norma. seu idiota? [. concreto.. A análise desenvolvida levou-o a concluir: . Muitas vezes este tipo de avaliação não é usado para avaliar o desenvolvimento intelectual do aluno. cidadão? a que categorias gramaticais pertencem as palavras. (CAGLIARI. descobriu vários fatores que sustentam a tradição normativa e entre eles destaca: o ensimesmamento da escola que se define da própria tradição escolar. ou como um conhecimento lingüístico nato. “O professor de português deve ensinar aos alunos o que é uma língua. as escolas têm se apegado às regras estabelecidas pela gramática normativa e à metodologia que visa preparar o aluno para ser promovido em concursos que só levam isso em consideração. Cagliari (2002) faz uma comparação entre as perguntas citadas e uns testes para motoristas de ônibus urbanos em que se perguntasse aos candidatos se sabem distinguir uma rua de uma calçada. 28) Infelizmente.. “Há vidros na grama”? O que o autor quis dizer com a expressão. a confusão entre padrão lingüístico e norma canônica e a forte influência de estância de poder que atuam como formadores de opinião sobre o senso comum (mídia.mal e mau? O que é substantivo.

presentes no orgulho de pais e professores com crianças alfabetizadas aos cinco anos. com base em critérios subjetivos. o que no entanto ainda não foi suficiente para romper com o preconceito lingüístico. A superespecialização camufla as deficiências do sistema educacional e transfere suas dificuldades para a criança: é ela que não aprende. 1997. uma norma canônica que serve de referência de correção para textos escritos e fala de pessoas “cultas”. Ainda. de modo que há erros (erro aqui entendido como a realização de uma forma não admitida pela norma canônica) admissíveis __ aqueles próprios da classe média. ou de matemática. O pesquisador declara também que não faz sentido insistir que o objetivo da escola é ensinar o chamado português padrão e afirma que “o papel da escola deve ser o de garantir ao aluno a acesso à escrita e aos discursos que se organizam a partir dela”. se limita historicamente ao nível da frase. problemas de adaptação. ou seja. segundo Britto. p. O mito da precocidade traz a idéia da velocidade e competitividade. resultado do fascínio da informação. A confusão entre preceptismo e descritivismo sempre esteve presente nos estudos de linguagem e na prática pedagógica e só passou a ser realmente questionada a partir do advento da lingüística moderna. Essa opção é sustentada por dois mitos: o da precocidade e o da superespecialização. A partir do terceiro ano as matérias são divididas e os professores passam a especializar-se nos ensinos de português. não dando conta de muitas questões relativas à linguagem. entendida como uma teoria sobre a língua. nem todas as formas são avaliadas da mesma maneira. cabendo aos especialistas as soluções. __ Do ponto de vista do uso real da linguagem. o mito da superespecialização (quanto mais especializado melhor) invade as escolas em todos os graus. e erros inadmissíveis __ aqueles identificados como próprios de segmentos sociais menos favorecidos (BRITTO. ela que tem problemas fonatórios. Cada matéria acaba sendo um mundo encerrado em si mesmo e jogando no aluno um excesso de informação. 13). Isto faz com que se confunda “norma culta” com “padrão de escrita”. É cada . __ A chamada gramática tradicional estabelece. Apoiado no mito da precocidade.65 __ A gramática. a escola tem optado a um programa enciclopédico e uma perspectiva conteudística. essa criança é vista como mais capaz e mais inteligente que as outras. Essa precocidade é interpretada como prova de inteligência. a escola que começa mais cedo a ensinar o conteúdo é melhor que as outras. “quanto antes melhor”. o que leva muitas pessoas a defender que é preciso ensinar a norma culta na escola. etc.

Para o senso comum. Todas as evidências existentes sobre este assunto somente servem para comprovar o contrário. mesmo ele não sabendo praticamente nada de gramática. Perini (2001). observa. abandonado a escola e não ter cursado curso de letras. 2. o que é preciso aprender já está estabelecido pela ciência. psicopedagogo. p.4. Este “não saber gramática” não impede que escrevamos razoavelmente bem ou mesmo. Os mitos da precocidade e da superespecialização realimentam o ensino informativo e reforçam o espírito competitivo e anticriativo. sabe gramática. afirma que ninguém escreve melhor que ele. Se é preciso saber gramática para escrever bem. . 49). etc. logicamente. Veríssimo não sabe nada de gramática porque ninguém sabe gramática. para exemplificar e obviamente comprovar que esta afirmação não é verdadeira. ou que através dela terão um domínio adequado da língua padrão. fonoaudiólogo.1 Considerações sobre os objetivos da disciplina de Português. Luft (2006) comenta que com a preocupação de que os professores entendam que a língua deve ser vista. analisada e ensinada como entidade viva.. muito bem. acreditam ser a gramática um dos principais instrumentos para levar o aluno a ler e a escrever melhor.66 vez maior o número de crianças indicadas para acompanhamento especial de psicólogo. Os objetivos da disciplina estão mal colocados: há muitos professores que. cita Luís Fernando Veríssimo. ter sido um mau aluno. como Veríssimo. 2. metodologia inadequada e a necessidade de organização lógica da matéria.4 FALHAS NO ENSINO DA GRAMÁTICA De acordo com Perini (2001. sendo em maior número nas escolas de classe média. de fato. quem escreve bem. o ensino escolar da gramática apresenta três defeitos e estes o inutilizam como disciplina: objetivos mal colocados.

não necessariamente certo. apesar da minha total inocência na matéria. interior.. mas também uma critica desfavorável e preocupada entre os estudiosos da língua mais conservadores. qualquer linguagem. Este livro de Bordini recebeu muitos elogios. não de princípios. E quando possível surpreender. as quais eram trabalhadas em suas salas de aulas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. gente em geral pouco comunicativa. (VERÍSSIMO.. a intimidade com a Gramática é tão dispensável que eu ganho a vida escrevendo. [. Respeitada algumas regras básicas da gramática. .as redações dos alunos deveriam ser julgadas tendo como objetivo a comunicação e não as regras normativas da gramática.67 Maria Glória Bordini (1982) publicou uma seleção de crônicas de Luis Fernando Veríssimo com o título de “O gigolô das palavras” (L&PM Editores). A crônica “Gigolô” publicada no jornal “Zero Hora” de Porto Alegre surgiu como resposta à pergunta feita durante uma entrevista (destas que muitos professores mandam seus alunos fazerem com os autores): — Considera o estudo de gramática indispensável para aprender a nossa ou qualquer outra língua? Veríssimo narra o fato e comenta-o na referida crônica: O gigolô das palavras [. divertir.] A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda. para evitar os vexames mais gritantes.] Respondi que a linguagem. 2006. mas estas são naturais. que também não tem nada a ver com Gramática. iluminar. Luft considerou que o cronista tinha suas idéias afinadas com as dele. Só predomina nas línguas mortas.. Luís Fernando. Mas aí entramos na área do talento. Sempre fui péssimo em Português. da gramática natural. Nessa ocasião. certo? O importante é comunicar.qualquer ato de comunicação obedece a regras. Todas as regras que não . dos falantes. as outras são dispensáveis.o mais importante em uma língua é a comunicação e não como pensam alguns estudiosos que transformam a língua em gramática. . A Gramática é o esqueleto da língua.. 14). [..] E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia a minha pouca intimidade com ela. Mas __ isto eu disse __ vejam vocês.. p. Considerando as afirmações de Luft concluímos que essa crônica mostra-nos que: . e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim. comover. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro. Escrever bem é escrever claro. apud LUFT.. A sintaxe é uma questão de uso.. é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal.

pois raros são os escritores familiarizados com regras de Gramática e raros são os familiarizados com a Gramática que sejam escritores. sente-se incapaz da mais simples produção. não regras de gramática. .todos nós falamos com a intenção de comunicarmos algo. Ao começar os estudos a criança é levada a lidar com a língua.68 contribuem para que haja uma comunicação eficiente dão ao aluno a idéia de que “aula de Português é uma chateação”. que possa expandir-se através de sua criatividade lingüística. As correções baseadas na gramática normativa. muitas vezes. desencanta-o. tolhem o aluno. sua linguagem é censurada e submetida a normas gramaticais e como conseqüência ela perde a espontaneidade. murcha. praticar. seus escritos ficam cheios de correções. É muito importante ao ensino da língua materna que no seu desenvolver. . Segundo Cagliari (2002) “é preciso não corrigir demais as crianças: deve-se dar tempo para que aprendam e incentivar a autocorreção. . expressão escrita com “fazer redação” tornando assim espinhoso o caminho do ensino da língua materna. e geralmente em vermelho.o “uso” brasileiro consagrou um novo princípio. autoridade. gera aversão ao estudo do idioma e medo à liberdade de expressão. deixa-o frustrado. ele perde o prazer de escrever e.o talento não está ligado ao domínio da gramática. . a ler e contar histórias oralmente ou escritas (textos espontâneos). . lógica.é indispensável aprendermos a língua que contém a gramática e não estudar gramática simplesmente. uma nova regra. . . não serve para nada. desenvolver a língua. . o importante é que isto seja feito com a maior clareza possível. fica tolhida. isso desde o início. o aluno aprenda a lidar com a língua com os poderes de expressão. não por outros critérios como origem.a língua é sempre uma questão de uso. O importante é estudar.um ensino gramaticalista abafa os talentos naturais.a norma de uma língua é determinada pelo costume. um princípio usual contra um princípio lógico. somente o costume pode determinar o que é certo ou errado e não gramáticos em evidência. Muitos professores confundem estudar a língua com estudar Gramática. torna-os inseguros quanto à linguagem. a autocrítica”. Mais tarde.

23): Era eu diretor de instrução e queria imprimir ao estudo de Português da Escola Normal. todos os professores faziam descambar o ensino para a aprendizagem de gramática [grifos meus]. um cunho essencialmente prático. mandei convidá-lo. Valentim julgou que eu gracejava. com certeza. por comodidade. então. por outro lado de aproveitar Valentim Magalhães. dias antes. um pouco formalizado. crases. a gramática de um sobrinho. Entre vários casos. Outro escritor com dificuldades em gramática: Monteiro Lobato. Machado exclamou sorrindo: “Por que V. Luft (2006) declara que sua experiência como professor ensinou-o que os alunos mais talentosos em linguagem. não entendera nada de gramática. portanto a profissão de revisor exercida pelos que em suas aulas aprenderam que saber Português é colocar acentos. fazer corretamente as concordâncias. não conhecia toda a rebarbativa e complicada tecnologia gramatical. vírgulas. Expliquei-lhe que não. À tarde. E referiu-me que abrira. 1981. e ficara assombrado da própria ignorância: não entendera nada! Podemos concluir após a leitura desse texto que se Machado. o narrado por Medeiros e Albuquerque (Quando eu era vivo. Confessou-me que tal era a sua situação. encontrando Machado de Assis. não podia fazer isso. escreverá textos melhores que os de Machado. . não me nomeou? Eu servia perfeitamente”. por não possuírem desenvoltura necessária para o uso da língua. Não foi Veríssimo o primeiro escritor a confessar sua pouca familiaridade com a Gramática. que sabe tudo ou quase tudo de gramática. Que engano! Muitos dos nossos professores só entendem de regras. um clássico da nossa língua. contei-lhe o fato. Ele que não a conhecia. não o fazem bem. na Rua do Ouvidor. Existe. segundo os puristas. quase nunca escrevem e quando o fazem. E nomeei-o.69 que a meta a ser atingida seja o desenvolvimento e o aperfeiçoamento crescente da sua gramática de comunicação. são os mais avessos às aulas de gramática. À queima-roupa desfechei-lhe esta pergunta: __ Você sabe gramática? Valentim empertigou-se. Precisava de um professor que soubesse escrever e ensinasse a escrever. p. geralmente. o nosso professor de português. futuros escritores. etc. RJ. apud LUFT . Expliquei então o que eu queria dizer: que ele. decerto. 2006. Tendo. Record. mas que não ensinasse gramática ora. __ Nesse caso __ disse-lhe eu __ aceite a cadeira de Português dos dois primeiros anos da Escola Normal. foi reprovado em Português! Há muitos escritores que mandam seus textos para a redação cheios de erros. nomenclaturas. Isso acontece normalmente com professores que se esquecem que ensinar a língua é fazer falar e escrever com clareza e eficiência.

O professor precisa entender que a sua função é fazer com que o aluno some conhecimentos e não que anule o que já sabe considerando o famoso “certo e errado". produz como único resultado a resistência que assume como real o papel que lhe é atribuído por preconceito. Mas. em escavações arqueológicas.70 Tudo isso acontece porque muitos professores desvirtuam o verdadeiro objetiva do ensino da língua materna que é desenvolver no aluno a capacidade de escrever com precisão e clareza e que para isso ele não pode desvalorizar a gramática interiorizada que o aluno traz para a escola. Por mais distante que a linguagem do aluno esteja da padrão. Se a escola desconsiderar essa riqueza lingüística que a criança sempre traz.. estará pecando pela base (ILARI / POSSENTI. assim “devemos” (ou deveríamos) dizer quando eu te vir amanhã. A única resposta a uma indagação do aluno sobre a forma quando eu vir será é assim que é .2 Metodologia inadequada Segundo Perini (2001. Comparando o ensino de gramática com o de outras disciplinas ele demonstra a coerência de sua afirmação: um professor de história poderá explicar a um aluno como ficou sabendo o conteúdo que ensina. O professor diz que o futuro do subjuntivo do verbo ver é quando eu vir. p. é diferente. Considera esses usos inadequados. 51). em vez de metodologia deveria falar de “atitude diante da matéria”. 1985). O segundo tipo de “erro escolar” decorre do fato de o aluno estar aprendendo uma variante nova. ocorrem dois tipos de “erros escolares”: o aluno usa a linguagem não padrão em situações em que a padrão é exigida. ou seja. a metodologia é inadequada. Na escola onde o aluno deverá aprender uma variante que não domina. articulada sem ser um falar rudimentar e pobre. etc. em documentos da época dita. pois todos dizemos: quando eu te ver..4. ela é complexa. o que o professor está ensinando não bate com a realidade. não há formas nem expressões intrinsecamente erradas. marcas de incompetência ou “burrice”. etc. O aluno sabe que ninguém fala assim. Considerando-se a língua uma realidade essencialmente variável. em gramática. Como uma variante nova só se aprende pela formulação de hipóteses pode ser que uma delas formuladas pelos alunos sejam inadequadas. 2.

Sua opinião. dos amigos. Completa: é evidente que as crianças gostam da escola por causa da sociabilidade. pode ter interesse em dígrafos? – e responde: Nenhum. o que encontrou foram professoras solícitas em ensinar o verbo to be. Esta ansiedade foi duplamente frustrada quando. elas são necessárias. para logo poder ler as obras de poetas ingleses a que ela tivera acesso. do recreio. Não podemos ignorar sobre este assunto a opinião de Rubem Alves (1999): educador. 39-40) um exemplo de uso de metodologia inadequada no ensino de línguas descrito por Cecília Meireles em uma crônica. professor emérito da Universidade Estadual de Campinas. Explica que na escola a criança está vivenciando problemas que não tem nada a ver com os assuntos das aulas e que os professores se justificam dizendo que o programa afirma que é aquilo que deve ser ensinado. as regras de gramática não são suficientes para que haja comunicação. Crianças fazem perguntas incríveis. que leva o aluno a estudar. Também encontramos em Antunes (2007. A rejeição pode ser conseqüência da renovação ou inconseqüência de uma prática dos mesmos exercícios antigos sob outras capas. Isso acontece porque a renovação de uma concepção de gramática não é feita de um momento para o outro. é inadequada. por duas vezes sucessivas. O acesso à língua para ler os poemas foi adiado. mas não suficientes.Você acha que um adolescente. Essa resposta não tem fundamento racional. exposta em uma entrevista concedida à revista Época (1999) é que: o problema da escola é que ela não leva em consideração o desejo de aprender das crianças e está respondendo às perguntas que somente os adultos acham importantes. Ele declara que não é de hoje que a escola é “chata”. p. escritor e psicanalista. trata-se somente de uma ordem: faça assim. que sempre foi assim e isso acontece porque as coisas são impostas às crianças. vivendo na periferia.71 certo. Nela Cecília descreve toda a sua ansiedade por entrar em um curso de inglês. Deste exemplo podemos concluir que para aprender-se uma língua. É essa situação que Perini tinha em mente quando afirmou que a atitude diante da matéria. mas essa curiosidade investigativa. É bem conhecida a rejeição pela gramática até de professores e educadores. está longe dos programas escolares. importantes. . Rubem pergunta: -. um crítico do sistema de ensino brasileiro.

o MEC distribuiu para todo o Brasil. Sírio Possenti (1996). cita em “Reflexão gramatical na prática pedagógica” a inexistência de justificativa para tratar o ensino gramatical desarticulado das práticas de linguagem e que quando a gramática é ensinada de forma descontextualizada torna-se emblemática de um conteúdo estritamente escolar. muitas vezes ensinada fora do texto como principal parte da língua. já citados nesta pesquisa. ouvir. observando e descrevendo ocorrências gramaticais. à página 28. Estes trabalhos foram publicados nas Propostas Curriculares para o ensino de Língua Portuguesa do Centro de Estudos e Normas Pedagógicas do estado de São Paulo. Em 1993 o trabalho Repensando o ensino-aprendizagem da gramática no 1º grau desenvolvido por Zuleica de Felice Murrie já demonstrava uma grande preocupação a esse respeito e destacava a importância de se repensar o processo de ensino de gramática com finalidade de levar o aluno a interagir com a linguagem criando descrições coincidentes ou não com a gramática tradicional.72 Perante tal afirmativa há necessidade de que nos remetamos a trabalhos que antecedem esta crônica. Certamente. os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Os . o aluno adquire mecanismos de articulação da língua e esses conhecimentos lingüísticos não devem nunca ser esquecidos pelo professor. usou uma prática pedagógica não recomendada por especialistas da época. nem sempre devidamente compreendidas ou aplicadas. Através de atividades de linguagem como falar. Para isso propõe a reflexão sobre os fatos da língua oral e escrita. a professora citada “mascarou” o dito. Há uma grande preocupação por parte dos estudiosos dos problemas existentes no ensino da Língua Portuguesa e recebe uma atenção especial por parte deles o ensino da gramática. O ensino de gramática sugerido na Proposta Curricular é um complemento às ações de aprendizagem da língua. os estudos de lingüística começaram a visitar o ensino da língua materna e esses estudos começam a pressionar a escola rumo a mudanças significativas. como o de Carlos Franchi (1988). fingiu obedecer. Em 1998. do tipo que só serve para ir bem nas provas e passar de ano. através da intuição de falante nativo. Desde os anos 70. escrever. Trata-se de uma prática pedagógica que vai da metalingua para a língua por meio de exemplificação. O PCN de Língua Portuguesa de 5ª a 8ª série. exercícios de reconhecimento e memorização de terminologia. ler.

ou por não haver interesse no seu desenvolvimento. encontra-se a frase: Quem disse isso? Nesta frase o pronome quem vem marcado como sujeito. sobre quem se faz a declaração. 2. ou não se quer dizer. Ele explica que não está dizendo que a gramática não tem lógica. Essa pergunta não contém uma declaração. Dizemos então que o sujeito é indeterminado. Comprova esta afirmação usando exemplos da gramática de Celso Cunha e Cintra. pois à pagina 125 dizem: Algumas vezes o verbo não se refere a uma pessoa determinada. Se ela não . Na página 122. (p. que fala da matéria que se ensina na escola com o nome de “gramática” e não da gramática enquanto disciplina racional. Se o sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração. mas completa declarando que poderia usar qualquer das gramáticas atualmente utilizadas nas escolas. Considera os autores de gramáticas vítimas de uma tradição. a fim de possibilitar um ensino de língua em qualquer nível de escolarização. nada tem a ver com quem pratica a ação. 119) A própria gramática não respeita essa definição. À pagina 126. 52) observa: a matéria carece de organização lógica. O autor desrespeita a própria definição. portanto não deveria ter sujeito. teríamos sujeito indeterminado quando não se sabe. Exemplifica o dito anteriormente com a definição de sujeito: Sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração. No caso. encontramos a frase: Na sala havia ainda três quadros do pintor. pois todas apresentam os mesmos defeitos. ou por se desconhecer quem executa a ação.3 Ausência de organização lógica. Essa frase contém uma declaração sobre nada ou sobre a sala e também sobre seus quadros. sem deixar transparecer sua prática. p.73 postulados ficam no campo meramente teórico.4. Essa frase é classificada como sem sujeito. Perini (2001. Os gramáticos não se atêm a esse detalhe e pulam para outra concepção de sujeito.

Segundo Cagliari (2002. precisamos nos conscientizar dos problemas da gramática.74 tem sujeito. Perini (2001. como qualquer língua. não existe o certo e o errado linguisticamente. nós. é que não são organizadas de maneira lógica. 34). (CAGLIARI. isso indica que são falantes normais capazes de se adaptarem às circunstancias. será que há outros termos na oração sobre os quais se faz uma declaração? A esta altura existe uma impossibilidade de se usar a gramática para aprender-se sobre a estrutura da língua. Se os professores observassem sua própria linguagem em situações diversas perceberia o quanto ela varia. que somos os amigos. pois: o que é realmente o sujeito? O problema das gramáticas escolares. psicológico ou mesmo metodológico que soam como palavras bonitas e sensatas. as pessoas que ensinam português ou acatam velhas tradições ou apóiam-se em concepções inadequadas de linguagem. Isto não é sinônimo de incompetência profissional. um pouco de capacidade de observação e disposição para abrir mão de atitudes puristas em relação à língua. não só neste ponto. “A Língua Portuguesa. pois não consideram o seu funcionamento e seus usos. Sua execução depende apenas do bom senso. tem o certo e o errado somente em relação à sua estrutura. p. O objetivo é fazer com que o ensino de português deixe de ser visto como a transmissão de conteúdos prontos e passe a ser uma tarefa de construção de conhecimentos. Isto faz com que ninguém tenha segurança nessa matéria e ninguém goste dela. Ele exemplifica: se um falante da língua portuguesa diz “Carta eu longa escrevi uma” em vez de “Eu escrevi uma longa carta” é um erro porque o . mas o diferente”. há muitas considerações baseadas em palavreados de cunho pedagógico. mas inadequadas ao ensino de língua portuguesa. Com relação a seu uso pelas comunidades falantes. p. Ele completa esta afirmação observando que sem uma base lingüística verdadeira. 2002). antes que os inimigos o façam”. 54) indigna-se ao ver a que ponto o ensino da língua portuguesa chegou e apela ”dada a necessidade urgente de resgatá-la do poço. É importantíssimo que o professor se conscientize de que o material prioritário de trabalho é a produção lingüística do aluno. Em momento algum se propõe um roteiro metodológico podendo somente ser executados por pessoas altamente especializados.

É assim que Perini sugere que seja reformulado o objetivo da gramática na escola. os fracassos atuais. a escola não entende esses fatos corretamente e por isso comete grandes injustiças com os alunos. Muitos professores atribuíram à intromissão da lingüística na sala de aula. Deve-se estudar gramática para saber mais sobre o mundo e não para solucionar problemas práticos como ler e escrever. p. deve conhecer as teorias e conscientizar-se de que elas não são uma metodologia de ensino.75 sistema da língua não permite que as palavras fiquem nessa ordem. Já. Esses erros não são comuns aos falantes nativos. “os gramáticos devem observar e registrar os fatos da língua e deles depreenderem as regras que os explicam. mas não foi feita para ensinar português na escola. regras ou receitas de como deveríamos falar ou escrever. São erros porque vão contra o sistema. Para a escola a variação lingüística é vista como uma questão gramatical de certo ou errado. a estrutura da própria língua. por exemplo. O professor competente. então. que a teoria chomskiana representa um enorme avanço nos estudos de linguagem. a geografia leva o aluno a conhecer o planeta onde vive. esse maravilhoso e complexo mecanismo que lhe permite comunicar-se com seus semelhantes. regras que geraram os fatos (como diria um lingüista moderno)”. A gente aprende a escrever escrevendo. Se o português. isso porque eles ignoram que a lingüística não é um método de ensino e que seu objetivo é o estudo da linguagem. pelo uso diferente no tempo e nos diversos grupos sociais a língua começa a existir como um conjunto de falares diferente. conhecedor do trabalho que realiza. 32). Precisamos reconhecer que estudar gramática não é um dos meios de se chegar a ler e escrever melhor. necessitamos de melhores gramáticas atualizadas com o saber lingüístico das pessoas e não imposições. os professores que foram aplicando as ultimas novidades da Lingüística . Deve-se considerar. Assim como a biologia revela alguns aspectos da estrutura e do funcionamento dos seres vivos. lendo. normas. a gramática traz conhecimentos de linguagem. O diferente não tem lugar em sua avaliação. relatando e reescrevendo. como qualquer língua. Também há erro lingüístico quando em vez de cavalo alguém diz panela. Segundo Luft (2006. Para que se possa alcançar novos objetivos propostos. é um fenômeno dinâmico que evolui com o tempo.

a dosagem do ensino. Ao lingüista caberá o conteúdo e as técnicas de investigação. CAGLIARI. . p. aos professores e demais colaboradores do processo escolar. procederam de maneira irresponsável e leviana (cf. cada um na sua função. 41). sua programação na seqüência conveniente e motivações para o aluno estudar português. psicólogos.76 sem. O uso da lingüística no ensino de português tem que ser planejado em conjunto por lingüistas e professores de português. adequá-las ao ensino. 2002. com a colaboração de pedagogos. no entanto.

o que ele consegue realizar e o que ele expressa sobre sua atividade funcional. Ela foi desenvolvida com professores e com alunos que freqüentam as referidas séries em uma escola pública e uma escola particular do município de Sertãozinho – SP. Além disso. (Mahatma Gandhi) Com o intuito de investigar o pensamento do professor sobre as práticas pedagógicas que ele adota e. outros já pertencem ao quadro docente de outras escolas devido serem poucos os professores de português em cada unidade de ensino. A nossa pesquisa foi feita através de um questionário cujas perguntas foram direcionadas ao ensino/aprendizagem de português. realizado e representado. A quantidade de alunos entrevistados foi aleatória.77 3 CONCEPÇÕES DE ENSINO E MODOS DE ATUAÇÃO DO DOCENTE “A liberdade não tem qualquer valor se não inclui a liberdade de errar”. seus conhecimentos quanto às prescrições reguladoras de sua atividade e o que realmente consegue fazer a serviço da linguagem. Por ser o trabalho do professor alvo de muitas críticas quanto ao ensino da Gramática achamos por bem desenvolver essa pesquisa com objetivo de verificar aproximações e distanciamentos entre o trabalho prescrito. a sua concepção sobre o trabalho. de fato. Buscamos descobrir através dos enunciados de suas respostas. pois responderam às perguntas somente os alunos que quiseram: . de fato. os objetivos propostos por eles são alcançados e até onde os professores conseguem atingir os alunos através de seu ensino. Nosso objetivo é verificar o conhecimento que o professor tem do que é prescrito para o seu trabalho. Esse é motivo pelo qual só foram entrevistados 10 professores. procuramos averiguar se. isso acontece porque as escolas são pequenas e têm somente um ou dois professores de português que ministram todas as aulas. elaboramos um questionário a ser respondido por professores e alunos da Rede pública e privada. o seu modo de atuar em sala de aula. Alguns professores são destas escolas. especificamente ao ensino/aprendizagem de gramática nas salas de 5ª a 8ª séries ou de 6º a 9º anos.

o que faz no seu dia-a-dia. Com estas indagações esperamos levar o professor a demonstrar o que realmente pensa. conhecer o seu pensamento a respeito do papel da gramática em relação ao texto que o aluno produz e saber da importância do livro didático no ensino de língua portuguesa.1 ENTREVISTAS COM OS PROFESSORES: Conteúdo: A entrevista direcionada aos professores. 3. constou de dados para identificação como o nome do professor. onde ele coloca verdadeiramente o ensino de gramática. o que ele entende por “ensino de português”. o que significa ensinar português? 2) Que importância você atribui ao ensino de gramática? 3) Para você. . escola em que atua e a data. se é professor bitolado pelo livro didático.78 5ª série ou 6º ano ______________ 15 alunos 6ª série ou 7º ano ______________ 18 alunos 7ª série ou 8º ano ______________ 18 alunos 8ª série ou 9º ano ______________ 15 alunos Total de alunos entrevistados ______ 66 alunos Ambos os questionários. tanto o dirigido aos professores. como o dirigido aos alunos. As questões para serem respondidas foram as seguintes: 1) Para você. como ele age dentro da sala de aula. a gramática auxilia o texto ou o texto é base para o ensino de gramática? 4) Você acha que o uso do livro didático é necessário? 5) Qual livro didático você indicaria para a aprendizagem de gramática? Por quê? Objetivos: As questões que propusemos aos professores tiveram como objetivo sondar a concepção que o professor de Português tem sobre o significado do ensino que ele conduz. foram formulados com perguntas simples pretendendo com isso respostas simples e objetivas. primeiramente.

é mostrar a luz do entendimento. 5) Ensinar Português é algo como esclarecer um significado obscuro. como língua materna. As respostas dadas para cada uma das perguntas foram as seguintes: Pergunta 1. deve-se ter em mente o amor e “passar” isto para os alunos. 6) Eu acredito que como professora de Português. o que significa ensinar Português? 1) Significa dar vida às palavras e aos textos. Somente dois dos professores encontravam-se em local não definido. 2) A língua portuguesa. 4) Para mim. proporcionar aos alunos uma inserção no mercado de trabalho e como se comportar nas mais variadas situações diárias. pois levaramno e o entregaram em outro dia. da compreensão de tudo o que o mundo pode nos mostrar. 3) Significa ensinar a língua materna e a partir daí. em sala de aula. É transpor as barreiras do outro e mergulhar na riqueza do diálogo. tanto textos para interpretação. Para você. 7) Melhorar o uso da língua já falada pelos alunos que chegam ao colégio. Condições de produção das respostas ao questionário: O questionário foi entregue e a proposta foi que os professores respondessem às perguntas ao mesmo tempo em que os alunos. Tanto a gramática. como a técnica de redação. a minha função é sempre oferecer estímulos (livros e filmes) para aprimorar a imaginação (poder de criação) orientando como montar sua produção oral ou escrita usando as regras gramaticais. . ensinar Português significa ampliar o conhecimento sobre a nossa língua incentivando os alunos a aprimorarem a bagagem que já trazem de seu convívio familiar desde o nascimento.79 Declarando sua preferência por determinado autor também poderemos saber o tipo de gramática que ensina em sua aula e como o faz.

Observações: Percebe-se pelos textos das respostas que o professor sente-se desafiado a dar uma resposta que ele sabe que é esperada por estudiosos do assunto e pela pesquisadora. temos que dominar muito bem a nossa! 10) Ensinar Português é de fundamental importância.80 8) Ensinar Português é um processo que alia a estrutura da língua à semântica e o que isso implica para a reflexão sobre a língua. na “correção” da linguagem trazida pelos alunos do seu meio familiar ou social. Pergunta 2 Que importância você atribui ao ensino de gramática? 1) O indivíduo falante de uma língua já traz parte da gramática sistematizada.. uma ligação entre a vida. já que somos “obrigados” até mesmo a aprender outras línguas. é muito importante que o educador abra os horizontes diferentes dessa gramática. 9) Para mim. pois ela é parte da Língua. Houve. . Não devemos é ficar só em nomenclaturas e mostrar a língua em um modo real e seus problemas. A gramática é essencial. Mas. Pode-se observar que essa preocupação direciona-se também à linguagem escrita e à metalinguagem. ensinando-a com sentido ao educando. Então. pois é fundamental. 3) A gramática é importante porque é a própria língua.. constitui-se de modo primordial no ensino de língua portuguesa. Acredito ser impossível ensinar uma língua sem valorizá-la. incluindo a linguagem da norma culta e a popular. pois a língua é um dos veículos de sustentação da personalidade da pátria. direcionando o ensino da língua diretamente ligado à inserção dos alunos no mercado de trabalho e à comunicação. ensinar a Língua Portuguesa é a base de tudo. o dia-a-dia e o aprendizado. É notória uma grande preocupação por parte dos professores em “melhorar” o uso da língua. 2) A gramática é uma parte de um todo. por parte deles.

5) A gramática é de fundamental importância para uma boa escrita proporcionando assim um bom entendimento do texto. sim. 9) A gramática é muito importante. mas estes são uma minoria. 6) Através do conhecimento da gramática as pessoas podem ter uma leitura mais aprimorada de diversos textos. pois saberá se expressar melhor. falar. ajuda o aluno a participar ativamente da sociedade. suas normas. Observações: Muitos professores consideram a gramática como a própria língua e colocam-na em primeiro plano. comunicar-se bem. Eles demonstram suas crenças na impossibilidade de “falar-se bem” e “escrever bem” sem ter um vasto conhecimento das regras gramaticais. 7) É um diferencial do conhecimento.81 4) A gramática é hoje colocada em segundo plano mas através dela é que reestruturamos todos os conhecimentos previamente adquiridos para podermos ler. os que consideram a gramática como auxiliar para o domínio da língua. Pergunta 3: Para você. interpretar. escrever corretamente. 8) A importância do ensino da gramática é que ela é um meio de auxilio estrutural que nos faz refletir as intenções da nossa língua materna. Escrever e compreender melhor tudo o que nos é oferecido pala sociedade. 10) Sem o domínio da Gramática. é impossível escrever. Gramática auxilia o texto ou o texto é base para o ensino de Gramática? . no seu uso pessoal. Está bastante presente a tendência para a gramática normativa (língua padrão). tudo isso já ajuda no processo de comunicação de um indivíduo. Há. enfim. mesmo sabendo que os PCNs (1998) criticam o uso do texto para ensinar valores morais ou como pretexto para o tratamento de aspectos gramaticais e a apresentação de uma teoria gramatical inconsistente. pois toda língua possui suas regras. Conjugar um verbo de forma correta.

10)Só se escreve bem se houver domínio da gramática. 3) Os dois pontos são importantes. semânticos e gramaticais envolvidos na construção dos . um auxilia o outro. É claro que para se conhecer bem gramática. sem ter noção de que o autor escolheu antes todo um campo lexical. não tem graça. Portanto. Ler somente um texto. percebemos que a gramática também tem a sua beleza e aprendemos mais. a Gramática auxilia o texto. Você tem que ter a teoria para saber como aplicá-la. 6) O texto é a base para o ensino da gramática. pois um texto é muito mais que formas fixas de palavras e funções gramaticais. 8) O texto é a base para ensino da gramática. Observações: Na opinião destes professores há uma dependência entre o texto e a gramática. 5) O texto é base para o ensino da gramática. Segundo os PCNs espera-se que o aluno amplie progressivamente.82 1) Não faço tal separação. pois só assim será possível refletir o porquê das escolas lingüísticas. não devemos usar um texto só para fins gramaticais. 7) Um completa o outro. Mas quando observamos tudo isso. 9) Na verdade. Portanto. Entretanto. o conjunto de conhecimentos discursivos. A gramática ajuda na melhor construção do texto e o texto contribui para uma melhor aprendizagem da gramática. uma ampara a outra. Alguns deles priorizam o valor do texto para o ensino da gramática e outros acreditam que somente sabendo gramática pode-se escrever bons textos. um depende do outro. 4) As duas coisas. uma dependência entre eles para um bom entendimento/compreensão. 2) Tanto a gramática e o texto estão ligados. tem que se conhecer os textos dos grandes mestres. que nada escrito ali é por acaso. A gramática auxilia dando base para o entendimento do texto e o texto exemplifica cada função. enfim entendem o porquê das escolhas gramaticais em determinados contextos. mas é no texto que os principais problemas surgem.

direciona o trabalho do professor. como jornal. 2) Um bom livro didático auxilia nas aulas de Português. 10)Sim. como auxiliar ou mesmo como base de direcionamento do trabalho. Pergunta 4: Você acha que o uso de um livro didático é necessário? 1) O livro didático é um complemento direcionado para a fixação dos conteúdos explicados. Esse objetivo será mais facilmente alcançado priorizando o texto que é a resposta de alguns professores. Mas sempre é bom usar outros recursos. quanto em textos. para que os alunos façam varias leituras para compreensão e interpretação. musica. mas não é o mais importante. outros livros didáticos. 3) É necessário. Observações: Foram unânimes em aprovar o uso do livro didático quer como apoio. 8) Sim. para que os alunos façam exercícios em casa. recortes de jornal. revista. 4) Ele deve ser considerado um apoio mas se trouxer diversidade de textos e explicações claras e fáceis auxilia muito no trabalho do dia-a-dia e na compreensão do conteúdo. mas não podemos nos prender somente a ele. Deve ser visto como material de apoio do professor e guia para o aluno. O mais importante é você mostrar a língua em funcionamento e nem sempre isso está nos livros didáticos. 6) Sim para a realidade das salas de aulas com 40 alunos. Tanto em gramática. 5) Só para apoio de leitura e conhecimento de textos diversos. etc. com exercícios de fixação. paradidáticos. O mesmo deve funcionar como um instrumento a mais e não como o único a ser utilizado pelos alunos. Destacaram a . ele é fundamental para pesquisas teóricas.83 sentidos. tentando sempre trazer coisas novas. o livro didático é um poderoso aliado do estudioso da língua. 9) Até certo ponto sim. 7) É importante. etc.

Reflexão e uso” A gramática é apresentada a partir de textos. mas há outros muito bons. não conheço os atuais. mas não me lembro o título. 2) Para o ensino de gramática do autor Cereja. muitas vezes. seria melhor ainda se o professor utilizasse vários. Um dos meus preferidos é a gramática do William Roberto Cereja. 6) Este ano adotamos o livro “Projeto Arariba” Português e os testes que fiz foram bem satisfatórios. “todos deles”. É uma gramática dinâmica com textos interessantes. 5) Gramáticos como Bertolim e Siqueira tornam a gramática mais fácil de ser entendida através de exercícios práticos e fáceis. revistas para complementação do livro.84 necessidade e a importância de outras leituras como jornais. ele (o professor) acaba tendo que se adequar àquilo (material) que lhe é oferecido. pois ela trabalha o texto junto com a gramática. Eu já usei muito o “Cegalla”. 8) Gramática Reflexiva – Tereza Cochar Magalhães e Willian Roberto Cereja. não trazendo nada “mastigado”. 9) Eu indicaria a “Gramática Reflexiva”. desenvolvendo no indivíduo realmente uma reflexão. Porque as atividades são baseadas em textos curtos que levam o aluno primeiro a uma interpretação e depois os ligam as regras gramaticais. 7) “Gramática – Texto. para que o aluno usufruísse de varias formas e maneiras de teorias e exercícios de fixação. que normativa. não seja aquela tradicional . 10) Como há tempos não trabalho com livro didático (apenas com apostila). 4) Acho que a escolha é particular de cada profissional mas. 3) O livro mais próximo de como se ensinar português é o autor William Cereja. Pergunta 5: Qual livro didático você indicaria para a aprendizagem de Gramática? Por quê? 1) Gosto de vários. porque é um livro que mostra a gramática em uma visão mais atual.

85 Observações: Citaram o livro didático “Gramática – Texto.2 ENTREVISTAS COM OS ALUNOS: Tal como as entrevistas dos professores. Embora os professores prefiram esses livros. pela apresentação da gramática através do texto e ainda por levar o aluno a uma reflexão. se eles conseguiram dos alunos o que almejavam. no ler. ou seja. Poderemos também diagnosticar se as aulas de português estão conscientizando os alunos do que. primeiramente. estas também constaram de dados para identificação dos alunos e das escolas e para que eles tivessem maior liberdade nas suas respostas. As questões direcionadas aos alunos foram: 1) 2) 3) 4) Você tem aulas especificas de gramática? Você gosta de aulas de gramática? Como são as aulas de gramática a que você assiste? Você sente dificuldade para aprender algum conteúdo de Gramática? Qual ou quais? 5) 6) Você sabe por que e para que aprende gramática? Onde você aplica seus conhecimentos gramaticais? Objetivos: Através das respostas dos alunos poderemos saber se os objetivos dos professores foram alcançados. Condição de Produção das Respostas: . Reflexão e uso” e a “Gramática Reflexiva” de Tereza Cochar Magalhães e William Roberto Cereja pelo fato de ter texto e gramática juntos. usam os indicados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). é importante no falar. na comunicação. foi-lhes dito que não precisariam assinar os seus nomes. no escrever. 3. de fato.

Após responderem e entregarem as folhas. a tradicional ou normativa. Observações: Os alunos responderam que tinham aulas especificas de gramática devido os professores esclarecerem a eles. essas não foram lidas por nenhuma pessoa ligada à escola. que as aulas nas quais se estudava somente gramática são especificas embora não façam parte do currículo. conforme foi dito aos alunos que seria feito. Muitas salas estavam com aulas de português. dois disseram que “não”. muitos justificaram as respostas. então. 6ª série ou 7º ano . no momento que respondiam as questões. os professores e os alunos responderam ao mesmo tempo. Pergunta 2 Você gosta de aulas de gramática? 5ª série ou 6º ano Dentre os 15 alunos entrevistados. um “mais ou menos” e o restante que “sim”.86 As questões foram entregues aos alunos nas escolas durante o período de aulas. Somente 5 dos 66 alunos entrevistados responderam que tinham aulas de Português e que nestas aulas estudavam Gramática. Pergunta 1 Você tem aulas especificas de Gramática? 5ª série ou 6º ano à 8ª série ou 9º ano A resposta “sim” foi quase unânime. para aprender a falar certo ou pelo fato de usá-la no dia-a-dia. As justificativas apresentadas foram: a necessidade de dominar a língua para melhor comunicar-se com os outros.

Este comentário dos alunos comprova que a gramática tradicional é a trabalhada pelos professores. Pergunta 3 Como são as aulas de gramática a que você assiste? . Observações: Percebe-se claramente que os alunos consideram a gramática como o principal fator para melhorar a comunicação entre as pessoas.87 Metade dos alunos entrevistados atestam “não gostarem das aulas de gramática embora saibam que é importante”. justificaram suas respostas. 8ª série ou 9º ano Dos 15 alunos entrevistados. outros já responderam “mais ou menos devido às regras que são muitas. Alguns alunos que responderam “sim”. os que responderam afirmativamente dizem que é pelo fato da “gramática ser a matéria que mais utilizarão no dia-a dia”. eles não conseguem guardar e acabam confundindo-as”. dizendo que “estudar gramática é melhor que matemática”. têm dificuldades na aprendizagem”. 8 disseram “não” e alguns explicaram que “ficam confusos e que embora saibam que têm que aprender a falar a própria língua. ou que “nessas aulas aprendem novos conhecimentos” e até mesmo porque “a matéria é importante”. Os demais alunos responderam que “sim” ou “mais ou menos”. Atribuem como sua principal função fazer com que as pessoas saibam ler e escrever corretamente e que é para isso que existem as regras. também “pela importância de se aprender a falar e a escrever corretamente” ou até porque “as aulas são importantes para torná-los cidadãos cultos”. Quanto ao restante. 7ª série ou 8º ano Nesta série 18 alunos foram entrevistados e 5 deles afirmaram categoricamente que “não”. Alguns deles “gostam das aulas porque gostam das professoras”. ou que “se interessam pela língua portuguesa”.

6ª série ou 7º ano Os alunos desta série acham “legais” as aulas de gramática e completaram com algumas observações como: “a professora faz algumas explicações. que são muito importantes. explicativas”. Alguns citaram como a aula desenvolve-se: “a professora manda fazer quadros enormes de verbos que depois de explicados dá para entender. é muita lição”. que as professoras explicam bem e depois dão os exercícios. É . às vezes entediantes. explica e dá os exercícios do livro didático.88 5ª série ou 6º ano Todos disseram que “são boas. sempre aprendemos coisas novas como classes gramaticais. pois os conhecimentos dados nessas aulas são necessários para o futuro”. depois ela passa os exercícios do livro didático”. é só copiar no caderno. a mesma coisa foi dita de maneira diferente por 11 alunos dos 15 entrevistados e também citaram que “nessas aulas é que eles aprendem a falar corretamente”. “A professora passa o ponto na lousa e explica ao mesmo tempo. a gente faz redação. o professor coloca o ponto na lousa. as professoras explicam muito bem”. Observações: Ficou bem claro como se desenvolvem as aulas de gramática. legais. 8ª série ou 9º ano “Embora legais acham as aulas cansativas”. uma boa explicação e muitos exercícios para entender melhor. observa se os alunos entenderam e depois passa as questões. tranqüilas. legais. 7ª série ou 8º ano As opiniões deles não são muito diferentes. Acham essas aulas “boas. a professora corrige e depois nos vemos os erros.

ativa. orações coordenadas. conjugações. orações reduzidas. regências. apresentam dificuldades em sintaxe. os seus erros nas provas. leituras ou em decorar as regras. orações subordinadas e substantivas. verbo transitivo direto. morfologia. 8ª série ou 9º ano Somente 5 alunos dos 15 entrevistados afirmam “não sentir dificuldades”. Os demais. Os que afirmam sentir dificuldades. agente da passiva. 7ª série ou 8º ano As dificuldades encontram-se na aprendizagem de vozes verbais. 11 afirmam “não sentir dificuldades neste aprendizado”. Verbo transitivo indireto.89 grande o número de alunos que disseram que os seus professores explicam muito bem e aprendem a falar corretamente o português nessas aulas. Pergunta 4 Você sente dificuldade para aprender algum conteúdo de gramática? Qual ou quais? 5ª série ou 6º ano A maioria disse “não sentir dificuldades no aprendizado de gramática. segundo eles. sentem-nas principalmente em pronomes. Alguns alunos atribuem à falta de atenção. 6ª série ou 7º ano Os que sentem dificuldades para aprender gramática sentem-nas principalmente na análise sintática e análise morfológica. Observações: . voz passiva. pois este é facilitado com a explicação do professor e também pela dedicação do próprio aluno”. orações subordinadas. reflexiva. sintaxe. Dos 18 alunos entrevistados.

Os outros alunos que disseram que sabiam responderam que “é para melhorar o conhecimento. 6ª série ou 7º ano “Não sei” foi a resposta taxativa de seis alunos. escrever corretamente. para ter maior conhecimento sobre a língua. aprender significados das palavras. para não falar errado no dia-a-dia”. para conseguir interpretar textos e também para passar no vestibular. escrever textos . relatórios. para aprender palavras novas e ampliar o vocabulário. quando formos dar entrevistas para emprego. para ficarmos inteligentes. para aprender as classes gramaticais. para ler. para ler e escrever direito e assim não tirar vermelho. Pergunta 5 Você sabe por que e para que aprende gramática? 5ª série ou 6º ano Os alunos entrevistados desta série afirmaram saber porque estudam gramática. para procurar um emprego”. e outras partes gramaticais ligadas a regras e memorizações. todos dizem que sabem por que e para que: “para dialogar melhor. 8ª série ou 9º ano Nesta série todos declaram saber o por que e para que aprendem gramática: porque “servirá para fazer redações. Disseram que “estudam gramática porque sem o domínio da língua não podem se comunicar.90 Não existe dúvida quanto às dificuldades que os alunos sentem ao aprender gramática. para falar melhor. para arrumar emprego. 7ª série ou 8º ano Com exceção de um aluno. escrever e interpretar textos”. é muito importante para um ensino fundamental. textos. São dificuldades próprias do estudo de análise sintática. saber mais sobre as regras da nossa língua. para falar e escrever certo.

Pergunta 6 Onde você aplica seus conhecimentos gramaticais? 5ª série ou 6º ano “No dia-a-dia. nos exercícios passados pelas professoras. na rua. fazer testes.91 corretos e fazer provas. nos diálogos. Os alunos acham que somente aprendendo gramática é que poderão falar e escrever “certo” e consequentemente conseguirem um emprego. na hora de falar e escrever. redações. em testes para arrumar emprego. em aulas e concursos de redação. para conseguir um emprego melhor”. para utilizar em textos do vestibular. em ocasiões especiais”. nos exercícios dos livros. nas avaliações. futuramente no trabalho”. dentro e fora da escola”. para poder aplicar no dia-a-dia. nas provas de português. no desempenho escolar e trabalhista. para escrever cartas”. em cartas formais. poesias. eles demonstram esta preocupação juntamente com a necessidade de falar e escrever bem. diálogos. nos textos. para ser pessoa culta. 8ª série ou 9º ano “No dia-a-dia. na hora da escrita. textos. 6ª série ou 7º ano Os alunos desta série acham que “aplicam seus conhecimentos gramaticais em casa. para fazer textos. para conhecer melhor a língua. Observações: Destaca-se nestas respostas a preocupação dos alunos com empregos e vestibulares. foram as respostas dos alunos da referida série. diálogos. . nas reportagens. na escola. 7ª série ou 8º ano “Na hora de pesquisar. em provas. leituras. em lugares importantes.

Há por parte do professor uma grande preocupação quanto ao uso da língua pelos alunos e. Os referidos professores consideram o ensino de gramática como sendo o ensino da própria língua e consequentemente é a ela que dedicam suas atenções. é um ponto de apoio para o professor e que muitas outras fontes são usadas em suas aulas. 3. sem esquecer a preocupação com emprego e vestibulares. é bastante equiparada a leitura (textos) e as lições de gramática. ou melhor. Os livros didáticos que . então. O aprendizado de português é avaliado pelo grau de assimilação dos conteúdos gramaticais ensinados. em melhorar suas expressões lingüísticas. devem dominar as regras gramaticais. Ao estabelecerem relações entre textos e gramática consideram-no como base e que há uma interdependência entre eles. Nesta parte da pesquisa procuramos analisar o trabalho do professor levando em consideração três itens: o trabalho prescrito. Acreditam que para os alunos conseguirem falar e escrever corretamente.92 Observações: A estas perguntas juntaram-se as afirmações e preocupações da anterior. como pensam que devem ser desenvolvidas suas aulas. No trabalho deles. Como livro didático auxiliar indicam um livro que reflete como gostariam de trabalhar. de acordo com suas respostas. desde diálogos familiares até cartas formais. principalmente. o trabalho realizado e o trabalho representado. muitas orientações tenham sido apresentadas através dos PCNs e mais recentemente da Proposta Curricular de Língua Portuguesa do estado de São Paulo. embora muitos estudos tenham sido desenvolvidos.3 O PERFIL DO PROFESSOR As respostas dadas nas entrevistas permitem-nos delinear as aulas de português e concluir que o professor prioriza o ensino da gramática normativa direcionado à norma culta. O livro didático. Observa-se em suas respostas que seu trabalho é direcionado à linguagem escrita e ao ensino da norma culta. eles aplicam os conhecimentos gramaticais em todas as atividades do seu cotidiano.

Um ensino baseado em estudos de regras e exceções gramaticais. O ensino de gramática não pode ter uma finalidade em si mesmo. principalmente na escrita. Em suas aulas o ensino de português é embasado no ensino da gramática e elas desenvolvem-se na seguinte ordem: primeiramente é colocado o ponto (gramática) na lousa. Os objetivos do ensino de gramática são. . concluímos que as aulas a que eles assistem não correspondem às aulas que foram prescritas para o trabalho dos professores. para serem aprovados nos vestibulares. de acordo com as respostas dos alunos. aprendem através da observação de textos retirados de várias fontes. Os alunos são passivos e não criativos. Os alunos. Pela análise das respostas dos alunos. O ensino das regras gramaticais é tão importante para eles que chegam a ligá-lo ao sucesso profissional. O professor. depois o professor explica e dá os exercícios do livro didático para fixação. portanto. falar e escrever bem e é elucidado aos alunos que somente aprendendo a gramática normativa é que conseguirão. ligada à norma culta. Eles atêm-se à prescrição da gramática e não à analise dos fatos da língua. trabalha com a concepção de que a língua é somente um instrumento de comunicação e que para isso depende exclusivamente do aprendizado das regras gramaticais. O trabalho representado pelo professor é aquele em que os textos os levarão ao aprendizado da gramática e que esta não esta ligada a certo ou errado e sim a leituras diferenciadas. Alem dessa afirmação. Os conteúdos programáticos. somente um professor indicou o mesmo livro adotado na sua escola. nomenclaturas gramaticais. um dos motivos da aprendizagem das regras gramaticais é sair-se bem nas entrevistas para serem aceitos em determinados trabalhos. conceitos. conforme as entrevistas dos alunos. não ajuda o aluno a melhor utilizar a língua. os alunos declaram que necessitam aprender a gramática tradicional. portanto.93 usam não são os almejados por eles. têm uma excessiva preocupação com a metalingüística. Analisando o trabalho realizado pelos professores percebemos a grande valorização dada à gramática normativa e consequentemente à norma culta. Acreditam que somente quando se sabe gramática é que se consegue comunicar bem e. no caso. ele tem que auxiliar no ensino da leitura e da produção de texto. neste caso.

Sabemos que muitas vezes. mas. mas sem um direcionamento comum que seria levar o aluno a apropriar-se da língua como forma de ação sobre o outro e sobre o mundo. pouco ou nada mudou no ensino de gramática. Amazonas e Pará. Pernambuco (1993) realizou uma ampla pesquisa com 85 professores em 35 cidades diferentes de três estados brasileiros: estado de São Paulo.94 Se formos às salas de aulas de português encontraremos as práticas pedagógicas de leituras. . tantas propostas. O objetivo do ensino da língua deve sempre estar ligado a levar o aluno ao domínio do instrumento verbal para poder comunicar-se e interagir com o seu grupo social. por serem em número bem maior que as da nossa pesquisa proporcionaram uma melhor observação do pensamento e do desenvolvimento do trabalho do professor. somente depois é que eram apresentadas 20 perguntas que formaram o então chamado “Questionário para professor de Português” e com elas pretendia abarcar todo o conjunto de ideologia. nas entrevistas. tudo dificulta para que ele possa desenvolver suas aulas da maneira como gostaria. deixaram claro os seus objetivos quanto ao ensino da língua. Salas repletas. Isso acontece principalmente quando se trata de ensino apostilado “ele tem que acabar a matéria”. desligada da sua função de auxiliar do texto. interpretação de textos e gramáticas. Primeiramente oito de suas perguntas continham dados pessoais dos entrevistados e quatro versavam sobre a formação profissional dos mesmos. metodologia e atividades do professor que ensina português. o mesmo dito anteriormente. desenvolvida na sua tese de doutorado. O mais preocupante de toda esta análise e que depois de tantos estudos lingüísticos. os professores são obrigados a se prenderem ao livro didático e desenvolverem somente o que está no seu conteúdo e como lá se encontra. da língua materna. na sua maioria. Os professores. presentes. Esse resultado é demonstrado ao compararmos a nossa pesquisa com a pesquisa feita por Pernambuco (1993). As perguntas. uma realidade social diferente. suas aulas retrataram o ensino de uma gramática tradicional. Ambas as pesquisas possuem os mesmos objetivos o que torna viável esta comparação. normativa e pura.

equivalentes a 80% das finalidades . . “melhor desempenho lingüístico”. número aproximadamente o mesmo das pesquisas de 1993 e 2007.95 Apesar dos coincidentes objetivos. “segurança”. ”elevação social”. para que se expressem corretamente e assim serem bem aceitos na sociedade. somente três perguntas puderam ser destacadas na íntegra e mesmo assim nós as adaptamos para que pudéssemos melhor fazer as comparações. o percentual dos professores que acham que o ensino de Língua Materna serve para que os alunos aprendam a norma culta e assim aperfeiçoar a língua usada por eles diminuiu somente 4% depois de tantos trabalhos e orientações. é a tradução para termos práticos: “bom desempenho profissional e social”. para que usem a língua padrão/norma culta e ser bem sucedido na vida. reúnem: para os alunos serem aprovados em concursos e vencer na vida. Afirma que na maior parte dos casos. Resumindo. Questão 1: PARA QUE SERVE O ENSINO DE LINGUA MATERNA? (1993) O QUE SIGNIFICA ENSINAR PORTUGUÊS? (2007) Respostas 1 2 3 4 5 6 1993 67% 8% 8% 5% 5% 7% 2007 50% 10% 10% 0% 10% 20% ensinar a norma culta conhecer a tradição e desenvolver a cultura integrar a criança ao meio ambiente ensinar a pensar promover a ascensão social do aluno aperfeiçoar a língua do aluno Podemos observar nesta primeira questão que ao mesmo tempo em que diminuiu o número de professores que achavam que o ensino de português ou da Língua Materna era ensinar a norma culta (67% para 50%). Neves (2005) desenvolveu esse tipo de pesquisa e concluiu que de acordo com as respostas dos professores quanto à utilização da gramática ensinada. na verdade eles respondem o mesmo usando palavras diferentes. aumentou o numero dos que acham que é aperfeiçoar a língua do aluno (7% para 20%). “maior correção de linguagem”.

pois. exercício. . A freqüência das atividades praticadas é a seguinte por ordem de freqüência: leitura do texto. explicação.. exercícios. já outros não se limitavam ao que o livro oferece. leitura do ponto. exercícios. em ambas as pesquisas. Neves (2005) revelou.96 Questão 2: QUAL O SEU MÉTODO DE TRABALHO? respostas dos professores (1993) COMO SÃO SUAS AULAS DE GRAMATICA? respostas dos alunos (2007) respostas 1 aulas expositivas com o apoio do livro didático 2 explorando a gramática do texto 3 leitura e gramática 1993 2007 81% 100% 6% 0% 6% 0% Quanto à segunda questão é bastante visível que as aulas expositivas com o auxilio do livro didático caracteriza mais o ensino atual. que a grande maioria dos docentes recorre à parte gramatical do livro didático. em sua pesquisa. concluiu que a maior parte dos professores aponta que inicia o processo com explicação da matéria e a maioria aponta a exercitação como último passo do processo. Ela verificou em suas entrevistas que “partir do texto” representa “retirar de textos” unidades (frases ou palavras) para análise e catalogação. Questão 3: O QUE VOCÊ ACHA DO LIVRO DIDÁTICO? (1993) VOCÊ ACHA QUE O USO DO LIVRO DIDÁTICO É NECESSÁRIO? (2007) respostas 1 2 3 4 1993 60% 24% 13% 3% 2007 60% 20% 10% 10% apoio para o professor válido com restrições indispensável importante Nessa terceira questão ficou claro a necessidade que os professores sentem de possuírem o livro didático para auxiliá-los... O aluno ainda não constrói o seu saber. segundo Neves (2005). “as aulas de gramática consistem numa simples exposição de conteúdos expostos no livro didático em uso”.

Há embates possíveis de serem travados para que o professor se sinta mais realizado como profissionais de ensino e um deles é colocar em pratica os fundamentos epistemológicos das orientações teóricas que norteiam o ensino de língua materna na contemporaneidade. segundo De Campos (2007 ). mas quase nada mudou. O papel da escola e dos professores é prioritário na fecundação do exercício do ensino-aprendizagem da Língua Materna. Sabia-se que este tipo de ensino não estava dando certo desde 1993. O desânimo e o desencanto verificado nos professores. nota-se no professor muita vontade de acertar e melhorar seu desempenho. A gramática pela perspectiva da lingüística não é a prescrição de regras e sim a descrição de uma língua nas diferentes variações lingüísticas evidenciando que não se deve levar em consideração somente uma variante. trabalham muito (dois períodos e muitas vezes em escolas diferentes). mantêm as aulas sistemáticas de gramática como um ritual e continuamos com os mesmos problemas. continua o ensino de regras gramaticais. são desatentos e dispersivos. a instituição perde-se na burocracia. não têm tempo de estudar. não valoriza o professor. não se consideram respeitados nem pelo governo nem pela sociedade nem pelas famílias dos alunos. os alunos têm problemas de comportamento. e através delas o educando pode e deve ganhar certa autonomia como leitor-produtor de textos. não oferece condições para uma continuidade de trabalho e assim propicia a fragmentação dos programas. Ganharam novas roupagens.97 Os lingüistas defendem a necessidade do ensino da gramática na escola. mas não a que é tradicionalmente ali é estudada ou do que se entende por gramática. Neves declara que se encontram na seguinte situação geral: os professores ganham mal. a educação brasileira nunca esteve em tão baixo nível. de ler. Discussões foram implantadas e intensificadas nos anos 80 quando os materiais didáticos foram modificados. mas muitos professores até hoje. O domínio dos diferentes níveis de concretização da língua viabiliza a ampliação do conhecimento sobre as atividades de escrita e de leitura. não se dedicam aos estudos e não valorizam a oportunidade que têm de aprender. Ela afirma que apesar do desestímulo ser muito grande. a norma padrão utilizada por determinado grupo social. não tem papel orientador. .

a valorização do aluno deve ser o fator principal embasando uma mudança. É preciso que os professores se conscientizem quanto a essa necessidade de renovação. . se eles assim o desejarem. Segundo Possenti (2006) “as únicas pessoas em condições de encarar um trabalho de modificação das escolas são os professores” e que qualquer projeto fracassará se não considerar o professor como prioridade e este considerar seus alunos como tal. que somente poderão sair do papel. As propostas para isso já fazem parte dos PCNs da Língua Portuguesa (1998) e das Propostas Curriculares do estado de São Paulo.98 Para que isso aconteça.

o inglês. no caso. e o descritivo e.99 4 PRINCÍPIOS PARA UMA PROPOSTA DE ENSINO PRODUTIVO DA GRAMÁTICA PARA OS DIAS ATUAIS “Pois a linguagem planta suas árvores no homem e quer vê-las cobertas de folhas. .1 TIPOS DE ENSINO Halliday et al (1974) desenvolveram um trabalho sobre língua materna. o importante é que se levem em consideração as habilidades que os alunos já têm. O ensino prescritivo. Acha que é muito importante que se distingam os três tipos de ensino ou de abordagem da língua: o produtivo. de signos. ressalta-se o ensino da leitura e da escrita. de obscuros sentimentos.” ( Carlos Drummond de Andrade) Neste capítulo apresentaremos alguns princípios para uma proposta de ensino com base nas descobertas que fizemos com a pesquisa. em se tratando da língua materna.. segundo Halliday et al (1974) é a interferência nas habilidades existentes com a finalidade de substituir um padrão de atividade já com sucesso. Inclui o ensino das línguas e. Nesse trabalho eles identificam como principal problema do ensino de Língua Materna o desequilíbrio entre o ensino prescritivo e proscritivo de um lado. O ensino produtivo da língua é um ensino de novas habilidades. No ensino produtivo. que denominaram “estudo da língua materna” que pode ser aplicado ao ensino de Português. pois cada “faz isso” implica um “não faz isso”. o prescritivo e o descritivo. 4. nem podemos propor soluções para todas as dificuldades que os professores enfrentam quando se propõem a ensinar o uso da língua para os alunos. o produtivo do outro. principalmente. por outro.. É evidente que não pretendemos. O conceito de “prescritivo” inclui o “proscritivo”.

Os três tipos de ensino da língua materna podem ter seus lugares nas aulas desde que estejam de algum modo equilibrados. Algumas normas abrangem a fala e a escrita. 1974. mas mostrando como usálas. à fonologia ou à fonética. com peso maior para o produtivo. . só será prescritivo se se ensinar às crianças que nem sempre na escrita são aceitáveis certos padrões que da fala. O ensino da leitura e da escrita é por si mesmo produtivo e não prescritivo. ou à escrita. No caso da escrita refere-se à transcrição da linguagem falada para a linguagem escrita. ao léxico. Quaisquer padrões lingüísticos nativos que a criança normal dominou. Esse ensino passa por etapas que são correspondentes à idade e experiência da criança. a teoria lingüística e a descrição da língua materna não despertam o interesse dos professores. Há críticas específicas ao ensino de língua materna nas nossas escolas: o ensino prescritivo é superestimado em prejuízo do ensino produtivo. Isto se aplica a qualquer nível da linguagem: à gramática. ignoram-se os registros não literários. são “exatamente como tão bons” enquanto linguagem. A língua falada é desprezada. principalmente nas fases iniciais dessa aprendizagem. no sentido de usá-los da maneira como são usados por aqueles de quem os aprendeu.100 O ensino descritivo é a demonstração do funcionamento da língua suas habilidades já adquiridas. sem procurar alterá-las. p. (HALLIDAY et al. 261). O ensino prescritivo significa selecionar os padrões privilegiados socialmente e usar práticas padronizadas de ensino. mas a maioria refere-se ou à fala. Cada um deles tem uma resposta diferente à pergunta: “para que ensinamos a língua materna?” Para o prescritivo: “para ensinar as crianças a substituírem aqueles de seus próprios padrões de atividades lingüísticas que são inaceitáveis por outros padrões aceitáveis”. quanto os que se espera que ela substitua aos primeiros. para persuadirem as crianças a se conformarem àqueles padrões.

criar-se-á uma geração de analfabetos e de pessoas que pronunciam as palavras de modo errado. se o ensino for proscritivo. Há sem dúvida no ensino da língua materna uma implicação lingüística não relacionada à idéia de uma liberdade ortográfica. insegurança na hora de escrever. Quando a criança entra pela primeira vez na escola. Nesse ensino tem o papel principal a língua materna por ser a língua que o aluno melhor conhece. já outros acham que as convenções da linguagem escrita devem ser ensinadas desde o começo. Não é culpa deles se sua imagem da “língua materna” é esta: “Indique o que está errado nas seguintes frases”. é vergonhoso. A finalidade da linguística descritiva é saber: o que está sendo ensinado e o modo como a linguagem funciona e como determinada língua funciona. ela já tem um grande acervo de experiências da língua materna. desconsiderando a habilidade aritmética. Se o ensino prescritivo ocupar muito ou todo o tempo no ensino da língua materna. p. o aluno terá uma falsa imagem da natureza da linguagem. Ensinamento lingüístico descritivo consiste em mostrar à criança como a língua funciona. mediante a exposição. mas demasiadas correções podem gerar nas crianças. como o ensino descritivo e produtivo. desde que haja algo melhor para se colocar em seu lugar. Alunos que saem das escolas secundárias conhecendo tão pouco do modo como sua língua funciona e o papel que desempenha na vida dos homens. O segundo componente do ensino da língua é a descrição.101 Alguns professores acham que seria mais produtivo para a criança se se permitisse que elas escrevessem tal como falam. Halliday et al (1974. pois é um principio pedagógico geral correlacionar. a instrução com a própria experiência da criança. Provavelmente muitos professores de língua materna saúdem uma mudança que se afaste do ensino prescritivo. suficiente para que lhe seja dada uma instrução descritiva da linguagem. a ordenação e os aspectos relativos ao seu uso da língua materna. além disso. além de julgarem que há uma nova língua imposta que é diferente da que conhecem. E. 270 e 271) afirmam: . informativa e interessante. em qualquer etapa de sua carreira escolar. Halliday et al (1974) afirmam que a correção de erros ortográficos nas escritas das crianças é uma atitude semelhante à do professor de aritmética que considera errado uma soma correta só porque a escrita do número foi feita de trás para diante. sempre que possível.

mediante isso do lugar que ocupa. Se for possível expor a gramática e o léxico da língua apelando para as situações em que a linguagem é usada.. singular e plural. Não estamos procurando dizer ao professor como deve ensinar. exploraremos o significado contextual da língua.102 Se o lingüista pode dizer alguma coisa sobre os materiais e os métodos usados nas aulas. Para Hallday et al. o importante nessa situação é que as crianças observem o resultado do que dizem e qual a causa que conduz a esse resultado. etc. mas ainda como alargamento de sua experiência geral. (. Nossa finalidade aqui consiste em encorajar o ensino lingüístico descritivo. A atividade de brinquedo oferece oportunidades para encorajar a compreensão linguística. mas aumentar os recursos que possui. antes de entrar para a escola.. O terceiro tipo de ensino da língua é o chamado produtivo.) É uma indicação do que nos parece ser o modo como o tempo aplicado à língua materna na escola deveria ser usado para levar as crianças a aprenderem o funcionamento de sua língua e. para uso adequado. o produtivo não pretende alterar padrões que o aluno já adquiriu. A criança aprende a gramática e o léxico de sua língua pátria tal como aprende a fonologia e a fonética. e fazer isso de modo tal que tenha a seu dispor. Os autores declaram que muita coisa pode ser feita com o mínimo de terminologia. para esclarecer seu significado formal e isto será útil em qualquer fase do aprendizado da língua pelos alunos.. a da teoria e da pratica pedagógicas. A criança precisa aprender as variedades da língua adequadas a diferentes situações. Na escola aprende novos vocábulos e alguma coisa de gramática. por exemplo. A amplitude e o uso de seus registros e línguas restritas. Este brinquedo serve para ilustrar contrastes gramaticais conhecidos. 276): O ensino produtivo da língua interessa-se por ajudá-lo a estender o uso da sua língua materna de maneira mais eficiente. Ao contrário do ensino prescritivo. mas é uma vantagem se a introdução da criança na linguagem escrita puder ser mais estritamente ligada ao seu próprio uso da língua falada. em todas as diversas situações em que tem necessidade delas . na vida. Mais . isto se dá porque –. p. a de uma loja.e na medida em que – esforçou-se para aprender uma nova disciplina. A língua usada normalmente pela criança quando fala não é o material mais fácil pelo qual se deve ensiná-la a ler e a escrever. 1974. a maior escala possível de potencialidades de sua língua.

eficientes. O tratamento da língua padrão na escola. só pode aprender a usar e compreender na sua aula de língua materna. a escola deve ajudar o aluno a crescer linguisticamente e alerta: ele só fará isso como parte de um crescimento global. Quanto à linguagem. não se tem a verdadeira vivência da leitura. (1974) “é a amplitude e o uso das diferentes variedades da língua materna. leitura e escrita é que leitura e escrita são atividades escolares e do uso normal da língua no dia-a-dia. Se o professor de português não ensinar os usos literários da língua. Embora o aluno aprenda o que é novo em sua língua materna fora da sala de aula. isto é. “melhores”nas diversas situações de discurso. televisão. responder questões). nas diversas modalidades de uso. Na escola. pois a escola não tem conseguido . À escola cabe capacitar o aluno a produzir enunciados adequados. a capacidade de falar e escrever a língua materna que o ensino produtivo pode criar. o ensino da língua materna deve relacionar-se com ”o modo como usamos a linguagem para viver”. Em sua proposta de ensino de Português. deve assumir que ela nada mais é que uma das variantes da língua em uso. o que para Neves (2006) não seria problema já que ninguém pode negar que a escola é uma instituição que prevê ascensão social. lêse por prazer (lazer. As relações entre língua falada. a escola valoriza a escrita e a norma padrão. p. o aluno apreciará a literatura. livro) ou por necessidade ( na rua para adquirir informações. 280). que constitui o foco de ensino lingüístico produtivo”.103 cedo ou mais tarde a criança aprende que certos padrões encontrados na fala não se encontram na linguagem escrita. Fora da escola. com maturidade intelectual e emocional. mas existe uma forma adequada e eficiente de se usar a língua para determinado propósito. infelizmente lê-se por obrigação ( cumprir tarefas. o autor destaca o fenômeno da variação lingüística. se puder compreender e extrair o máximo da sua língua em seus usos literários. 1974. O ensino produtivo é um aspecto habitual da língua pátria. Segundo Pernambuco (1993). também pode encontrar alguns aspectos pela primeira vez na sua aula e muitos que já tenha encontrado. não haverá ninguém mais que o faça. De acordo com Halliday et al. “Se tem de manter seu lugar no programa do curso. mais do que a real introdução de novos padrões e elementos. (HALLIDAY et al. ao contrário de considerar que essa modalidade seja algo divorciado do uso lingüístico.

é fácil compreender a utilidade de análises constrastivas no ensino de língua materna. a escrita. tem que trabalhar a partir da realidade gramatical heterogênea dos alunos. o aluno deverá aprender gramática. léxico. 1998). Para Pernambuco (1995). Sendo toda língua uma soma de “dialetos”. Afirma que temos um “método gramatical” que faz o aluno aprender o sistema da gramática da língua e num outro extremo temos o “método direto” que recusa ensinar conceitos gramaticais aos alunos. 1995). É evidente que em uma sociedade econômica e culturalmente heterogênea há uma heterogeneidade no campo da linguagem e a escola que visa a uma homogeneidade lingüística culta. a ciência da língua. Essa gramática ocupa-se das correspondências entre duas ou mais línguas. Diz o pesquisador “se uma criança aprendeu espontaneamente a língua do seu meio. Se o ensino da Língua Materna tem como objetivo ensinar o aluno a usar a sua língua.104 equacionar este problema e trata como deficiência o que é apenas diferença de linguagem entre falantes de diferentes origens sociais. Aebli (1982) afirma que embora haja muitas concepções sobre gramática. escrever e ler a língua. Continua o autor: “as práticas pedagógicas usadas em nossas escolas não levam em consideração a aprendizagem natural da língua pela criança e é por isso que muitos alunos sentem um total desgosto nas aulas de português o que consequentemente leva o ensino ao fracasso. portanto teoria sobre a língua. a leitura e a . A compreensão deturpada que se tem da gramática da língua é um entrave à ampliação da competência dos alunos para a fala. o profissional de ensino deveria estar tecnicamente capacitado a detectar os contrastes entre as regras da língua culta e as regras dos outros níveis gramaticais. semântica. então. com certeza aprenderá a variante padrão que a escola deseja que ela aprenda se a ela forem oferecidas as mesmas formas de aprendizagem do seu meio ambiente” (PERNAMBUCO. isto é. fonologia. ele deveria ter conhecimentos da gramática contrastiva. há uma unanimidade entre os autores de que se trata de teoria da língua. morfologia. pretendendo fazê-los aprender a língua mediante o uso. É isso que necessariamente conduz a um crítico diante do problema e uma busca de soluções para obtermos um ensino eficiente da língua como forma de ação do homem” (PERNAMBUCO. falar e ouvir falar. ressaltando as diferenças nos diversos planos dos respectivos sistemas: sintaxe.

São inúmeros os casos de pessoas que falam muito bem uma língua. objetivos. sem nunca terem aprendido gramática. percepção e vivência”. em situações de atuação social e através de práticas discursivas. para uma reorientação. funcional e discursiva da língua. têm que possuir elementos que os ajudem a descobrir “novos jeitos de ver a língua e. vontade e empenho de querer mudar. de forma que todas as ações se orientem para um ponto comum e relevante: conseguir ampliar as competências comunicativo-interacionais dos alunos. Por exemplo. Nesta escola já não há mais lugar para o professor simplistamente repetidor. Aebli (1982) diz: “a essência do ensino da língua é o seu uso vivo em situações reais de ação. sistemática e participada. o principio geral de que “a língua só se atualiza a serviço da comunicação intersubjetiva. passivo. É importante que se conscientize que não existe prática eficiente sem fundamentação num corpo de princípios teóricos sólidos e objetivos. materializadas em textos orais e escritos”. do Fundamental ao Ensino Médio.105 escrita de textos adequados e relevantes. à espera que lhe digam como fazer. Segundo Antunes (2003). A aproximação do estudo da língua deste ideal de competências para a cidadania é o começo de uma mudança. cumpra seu papel social e capacite as pessoas para o exercício pleno e consciente de sua cidadania. a aplicação das regras de colocação pronominal do português europeu gera uma série de incompatibilidades que apenas reafirmam a idéia de que o . necessidade de determinação. pois já concretiza a intenção dos professores de querer adotar uma atividade pedagógica realmente capaz de oferecer resultados mais positivos e gratificantes. As aulas de nossas escolas denominam-se aulas de português e são aulas de “português do Brasil”. de fato. A complexidade do processo pedagógico impõe o cuidado em se preverem e se avaliarem concepções. Supõe-se uma ação ampla. procedimentos e resultados. automaticamente. como “passar” ou “aplicar” as noções que lhe ensinaram. O novo perfil do professor é aquele do pesquisador que. planejada. fundamentada. com seus alunos produz conhecimento. para que haja mudança. antes de tudo. Os professores que assumem a orientação ou a atividade de ensino de Português. mas aplicam-se regras do “português europeu”. para que se chegue a uma escola que. Antunes (2003) também afirma que deriva da concepção interacionista. de ver-se como professor da aula de Português”. há.

ter o que dizer é condição primordial para o êxito da atividade de escrever. de frases inventadas. que vão desde o planejamento. faz literatura. etc. sem a clara e inequívoca definição de sua razão de ser. do outro lado da linha. “para não ser um ato de linguagem” e é por isso que em nenhum grupo social.2 ESCRITA E LEITURA A escrita é uma atividade interativa. informações. Sem o outro. do exercício de cada evento. não há linguagem. “para não dizer”. não existe padrão único de escrita: falamos e escrevemos com maior ou menor formalidade. ou o material com quem se faz a ponte entre quem fala e quem escuta entre quem escreve e quem lê. mais ou menos à vontade. de textos sem propósitos. Socialmente. portanto é tão interativa. dinâmica e negociável quanto a fala. O grande equívoco em torno do ensino da língua é acreditarse que ensinando análise sintática. há escrita de palavras ou frases soltas. A chamada “normapadrão” deve ter como parâmetro os usos próprios do Brasil nos diferentes contextos do funcionamento da língua. é realizada conjuntamente por duas ou mais pessoas numa inter-ação (ação entre). As palavras são apenas a mediação. adverte. Assim como não existe padrão único de fala. Além desta. passa por várias etapas. Pela escrita alguém informa. 4. conforme as diversificadas situações sociais. com maior ou menor espontaneidade e fluência. anuncia. com as regras próprias de cada tipo e de cada gênero do texto. avisa. isto é. A crescente competência para a escrita vai ficando por conta da prática de cada dia. os alunos ficarão competentes para ler e escrever textos. A escrita existe para servir à comunicação entre sujeitos em interação. tão dialógica. . documenta. ao contrário. cria-se um problema sem solução. Produzir um texto escrito não é uma tarefa que implica apenas o ato de escrever. do contrário. nomenclatura gramatical. não existe a escrita “para nada”. existem várias outras questões.106 brasileiro fala mal. A atividade escrita é uma atividade interativa de expressão. interdependentes e intercomplementares. A principal diferença é que a fala é mais informal e a escrita é mais formal. de manifestação verbal das idéias.

reduzi-los a objetos de análise sintática. “Escreva três substantivos e forme frases com eles”. é esvaziá-los de sua função poética e ignorar a arte que se pretendeu com o arranjo diferente de seus elementos lingüísticos. Pobreza de repertório. Apenas sentindo e. 73) transcreveu uma proposta de atividade apresentada em um livro didático. como começar pela sua intertextualidade e recuperar a clara alusão que se faz no poema à oração . falta de informação. ter o que dizer. de ler pelo simples gosto de ler. crônicas. ricos. p. 71). conhecer o objeto sobre o qual vai se discorrer. O tempo destinado a exercícios como procura de dígrafos. As práticas de “redações” escolares devido ao limite escasso de tempo. porque nem a reconhece. Antunes (2003. É para este plano de leitura que se destinam os textos literários: romances. sem planejamento e sem uma revisão em busca da melhor forma de dizer o que se pretende comunicar. Como ilustração da sua afirmativa. até o momento posterior da revisão e da reescrita. Sem cobrança. de encontros consonantais. Para admirar. poderia ser bem mais aproveitado com a leitura e análise (diária) de textos interessantes.etc. muitas vezes. Existem outras motivações para a exploração do texto. Na proposta de exploração desse texto havia a observação “Ave = salve (é uma interjeição”). sejam eles literários ou não. Para escrever bem. indicar a classe gramatical a que pertence a palavra. classificação das funções do que e outras questões semelhantes. sem a preocupação de qualquer prestação de contas posterior. poemas principalmente. contos. A leitura possibilita a experiência gratuita do prazer estético. Essa atividade além de matar toda a “poesia” do texto. antes de tudo.107 passando pela escrita propriamente. sobre a poesia “Ave Alegria” de Sylvia Orthof. a pretexto para exercício de ortografia. com o jeito bonito de dizer literariamente as coisas. dizendo: “Que coisa bonita!” (ANTUNES. levam o aluno a produzir textos de qualquer maneira. não ter o que dizer. é preciso. o que vai na direção oposta da textualidade. à improvisação e à ausência de objetivos mais amplos. com as imagens criadas. p. 2003. Para deleitar-se com as idéias. favorece ao aluno exercitar a “competência” de formar frases soltas. não são problemas que se solucionam com regras de gramática e nem com exercícios de analise sintática.

do ENEM ( Exame Nacional do Ensino Médio) e de alguns outros concursos. pela leitura. poderia ainda recuperar outros pequenos textos ou expressões que remetem para outras preces bem conhecidas e também poderia ser feita a exploração da associação semântica entre as palavras do texto. Infelizmente. Antunes (2003) confirma que é pela leitura que se aprende o vocabulário específico de certos gêneros de textos. feitas fundamentalmente em cima da compreensão de textos. Quando alguém é capaz de falar uma língua. A nomenclatura corresponde aos “nomes” que as unidades. da análise sintática e similares. As regras implicam o uso. A distinção entre “regras de gramática” e “nomenclatura gramatical” é muito importante. A aprendizagem das regularidades próprias da escrita acontece no contacto com textos escritos. a maioria das pessoas quando se referem ao ensino de gramática na escola. possamos desenvolver no aluno o gosto e o afeto pela apreciação da literatura. para que este dizer seja interpretável e inteligível.108 “Ave Maria”. morfológicas. Evidentemente. a bons textos escritos é fundamental para a ampliação de nossa competência discursiva em língua escrita. é claro. têm conseguido fazer as pessoas entenderem qual a função . orientam a forma de como dizer. antes de tudo. as forma de organização seqüencial e de apresentação dos diversos gêneros de textos escritos. referem-se a esse ensino da nomenclatura. da mesma maneira como a aprendizagem da fala acontece com a exposição do aprendiz a experiências de oralidade. Nem mesmo as provas do vestibular. também o é de usar as regras fonológicas. sintáticas e semânticas dessa língua. A exposição. os fenômenos da língua e suas classificações têm. as categorias. todo esse trabalho deve depois de uma emocionada leitura e releitura do texto. os padrões gramaticais (morfológicos e sintáticos) peculiares à escrita. pois não existe falante sem conhecimento de gramática. O importante é discernir sobre o objeto do ensino: as regras( mais precisamente: as regularidades) de como se usa a língua nos mais variados gêneros de textos orais e escritos. Poderia ser comentado o uso de tantos pontos de exclamação. para que. mas é bom lembrar que “bons textos” não são apenas os textos corretos gramaticalmente. Ensinar ou não ensinar gramática nem é uma questão já que não se pode falar nem escrever sem gramática. destinam-se a ele.

a prioridade da competência de leitura e de escrita. a articulação das competências para aprender a contextualização no mundo do trabalho. A sociedade do século XXI é cada vez mais caracterizada pelo uso intensivo do conhecimento. Para se obterem condições adequadas ao processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa. Os currículos das escolas têm que levar em conta os princípios centrais desta Proposta Curricular: a escola que ensina e aprende. da colocação dos pronomes oblíquos.3 PROPOSTA CURRICULAR DE SÃO PAULO A ineficiência do ensino levou a Secretaria de Educação do estado de São Paulo. todos os trabalhos desenvolvidos deverão estar centrados no texto. mas certas regras causam dificuldades como o caso da concordância do plural. Este trabalho com o texto e pelo texto pretende levar o aluno a ter uma visão crítica da realidade com percepção dos conteúdos ideológicos destinados a mascarar a essência do real.109 da gramática de uma língua e deixar a obsessão pelo estudo da nomenclatura gramatical. o currículo como espaço de cultura. tanto pela falta de acesso a bens materiais quanto pela falta de acesso ao conhecimento e aos bens culturais. pois para elas acorrem as camadas mais pobres da sociedade brasileira. Na sociedade de hoje não é aceito nenhum tipo de exclusão. instrumentalizando-o para ocupar seu espaço na sua comunidade. Ele deverá ser o ponto de partida e o ponto de chegada de qualquer prática de ensino que pretenda levar o aluno a falar e a escrever a língua conforme as normas socialmente aceitas. Muitas vezes o aluno que aprende a sua língua materna numa forma regional. etc. a elaborar um projeto que visa propor um currículo para os níveis do ensino Fundamental – Ciclo II e Médio. pode transferir grande número de regras de construção para a língua erudita padrão.. A qualidade da educação oferecida nas escolas públicas também ganha importância. em 2008. . 4. Segundo Pernambuco (1995): A metodologia de trabalho do texto deve ser aquela que faça da prática pedagógica diária uma oportunidade de troca e existência em comum de valores díspares tendo a linguagem como veículo de interação. a função do professor será a de conduzir o aluno a fazer textos que falem de textos. as competências com eixo de aprendizagem.

com o momento de produção da leitura. com destaque maior para os temas que geram mais problemas de uso para os falantes. Os mesmos conteúdos de uma série serão apresentados nas séries seguintes com aspectos organizadores: o desenvolvimento das habilidades de leitura. É importante que a atividade da Língua Portuguesa evite que o aluno se sinta um estrangeiro a utilizar-se de sua própria língua e das literaturas que essa língua produziu. não responde a todas as necessidades daquele que faz uso da língua nas mais diversas situações. o olhar gramatical seguirá a organização tradicional apresentada pelos livros didáticos tendo o cuidado de expor os temas dentro da perspectivas das variedades lingüísticas e textuais. parte do estudo do texto como base para o estudo de conteúdos.110 A Proposta Curricular do Estado de São Paulo para a disciplina de Língua Portuguesa visa a formar os alunos para o mundo do conhecimento. o desenvolvimento de habilidades e competências – especialmente de leitura e escrita – e propostas metodológicas de ensino e aprendizagem. Além disso. espaço de interação entre as pessoas.4 SISTEMA DE AVALIAÇÃO DO RENDIMENTO ESCOLAR DO ESTADO DE SÃO PAULO (SARESP) . A proposta de ensinar a língua como uma atividade social. 4. Estudar uma frase mesmo que incorporando esse estudo ao texto. em consonância com os parâmetros e com os avanços feitos até o momento. se transforma a toda hora e relaciona os textos. Essa proposta. Há o aspecto social da língua que. como organismo vivo e pulsante. do ouvir e as relacionadas aos aspectos gramaticais da língua. implica a compreensão da enunciação como o eixo central de todo o sistema lingüístico. num determinado contexto de comunicação. literários ou não. de escrita. Centrar o ensino de Língua Portuguesa no texto requer o desenvolvimento de habilidades que ultrapassem uma visão reducionista dos fenômenos lingüístico e literário. do falar. por meio da linguagem. No que diz respeito aos aspectos gramaticais da língua: haverá momentos de sistematização.

111 A necessidade de citar-se essa avaliação deve-se ao fato da mesma ter sido elaborada considerando um ensino de gramática não normativo. diretamente relacionadas a determinadas esferas discursivas e a determinadas formas de circulação social do texto. da seguinte forma: 4ª série (5º ano) do Ensino Fundamental: produzir um relato de experiência pessoal vivida com base em proposta que estabelece tema. gênero. Esse exame tem como finalidade avaliar as competências e habilidades desenvolvidas pelos alunos ao longo do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Estes tipos foram associados aos gêneros e de acordo com as indicações das Matrizes curriculares para a avaliação de Língua Portuguesa do Saresp/2008. pela estrutura e organização de sua composição e. Com base em Bakhtin. A Secretaria de Educação do estado de São Paulo (SEE) avalia a educação básica do Estado desde 1996. com a preocupação de verificar o nível de leitura e de compreensão de textos por parte dos alunos. . pois cada situação de produção de texto. por meio do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp). Quanto aos tipos de provas: as de redação foram do tipo narrativodescritivo no EF e dissertativo-argumentativo no EM. pode-se dizer que os gêneros são formas relativamente estáveis e padronizadas de enunciação. houve capacitação para os professores que participariam da correção. pelos recursos lingüísticos e textuais que tendem a mobilizar. Podem ser reconhecidos pelo tipo de autoria. dependendo da sua finalidade exige competências diferentes dos alunos. Quanto às correções das provas: antes. A proposta nas provas do Saresp/2007 estava situada em uma proposição de tipos textuais como a narração e a argumentação. portanto. Recebemos o Manual para a avaliação das redações do Saresp/2008 e este continha todas as orientações necessárias. por um conteúdo temático próprio. finalidade e interlocutor do texto. linguagem. Primeiramente destacou-se a necessidade de compreender qual foi a situação de produção de texto proposta para depois definir critérios para a avaliação. orientações estas que muito colaboraram com a aprendizagem dos professores participantes. No Saresp/2008 procurou-se observar a construção da proposta atrelada a um determinado gênero textual.

ou seja. gênero. Os outros objetivos da avaliação em Língua Portuguesa promovida pelo Saresp são essencialmente diagnósticos. gênero. referências e formulações. identificável por marcas características como valores. gênero. Em todas as séries serão avaliadas quatro competências dos alunos: tema. trata-se de aferir as capacidades e habilidades em leitura e escrita que os alunos puderam desenvolver no contexto da rede estadual de ensino. que deve mobilizar tudo o que ele sabe. a proposição é uma competência que faz parte da avaliação do ensino médio. nos limites espaciais e temporais disponíveis para isso. linguagem. esfera de circulação e finalidade social. a competência do aluno em produzir um texto que reflita a sua preocupação com as expectativas do leitor a quem ele se dirige. Esse é o diferencial dessa proposta que faz com que a produção de determinado gênero delimite. o aluno necessita. por parte do aluno. Para tanto. coesão/coerência e registro. ler a proposta.. tomando-se como referências os objetivos de ensino definidos para as diferentes séries avaliadas. Mas atribuir um significado à proposta implica. Essa proposta caracteriza-se pela proposição de um tema em determinado gênero. portanto. destacar aquilo que o aluno considera relevante. igualmente. Ler implica compreender e interpretar. aquilo que o toca. finalidade e interlocutor do texto. definindo um provável leitor do texto produzido. 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental: produzir um artigo de opinião com base em proposta que estabelece tema. a compreensão da proposta de redação é essencial. cujo desafio é o desenvolvimento.112 6ª série (7º ano) do Ensino Fundamental: produzir uma carta pessoal vivida com base em proposta que estabelece tema. de um texto escrito. gênero. finalidade e interlocutor do texto. Mesmo antes de o aluno produzir a redação e de o professor avaliá-la. atribuir um significado aos diferentes aspectos apresentados na proposta da redação. A redação nas provas do Saresp se expressa pela proposição de uma situação-problema. a do próprio aluno. primeiro. o que está escrito na proposta de redação é um meio ou um recurso para a produção de uma outra escrita. se torna motivo de consideração. 3ª série do Ensino Médio: produzir um artigo de opinião com base em proposta que estabelece tema. mesmo que de forma simulada.linguagem. linguagem. que o instiga e. Neste momento. . finalidade e interlocutor do texto.

mas com alguns elos entre partes e proposições do texto. à escrita das palavras. demonstrando conhecimento dos mecanismos lingüísticos e textuais necessários para sua construção Apresenta dificuldades em compreender a proposta de redação e apresenta indícios do gênero Organiza precariamente as partes do texto. no registro do texto. de acordo com as determinações temáticas e situacionais da proposta de redação Nível1 Insuficiente Apresenta dificuldades em compreender a proposta de redação e desenvolve um texto que tangencia o tema. Demonstra no registro do texto. com base na definição de um projeto temático pessoal. à escrita das palavras. bom domínio das regras normativas do sistema de representação da escrita. CII Gênero Mobilizar. Compreende razoavelmente as partes do texto. Organiza muito bem as partes do texto e demonstra um bom domínio no uso dos elementos coesivos C IV Registro Aplicar as convenções e normas do sistema da escrita. 6ª e 8ª EF e 3º EM competências C1 Tema Desenvolver o texto. bons domínios das regras normativas do sistema de representação da escrita. Nível 2 Razoável Compreende razoavelmente a proposta de redação e desenvolve razoavelmente o tema. e demonstra um bom domínio no uso dos recursos coesivos Compreende bem a proposta de redação e desenvolve muito bem os elementos constituintes do gênero. os conhecimentos relativos aos elementos organizacionais do gênero CIII Coesão/Coerência Organizar o texto de forma lógica e produtiva. referentes à norma gramatical. Apresenta muitas inadequações. apresentando grande dificuldade em articular as proposições. mesmo que apresente alguns desvios recorrentes no uso dessas regras.113 Planilha de correção 4ª. parafraseando os textos da proposta ou apresentando uma série de idéias associadas (listas) ao tema. demonstrando um domínio básico na utilização dos recursos coesivos Apresenta inadequações no registro do texto. Organiza bem partes do texto apresentando problemas pontuais na articulação entre as partes e/ou as preposições. referentes à norma gramatical. à segmentação de palavras e frases e/ou à pontuação mas com indícios de seu domínio básico Nível 3 Bom Compreende bem a proposta de redação e desenvolve bem o tema. Demonstra no registro do texto. apresentando indícios de um projeto temático pessoal. . Nível 4 Muito bom Compreende muito bem a proposta de redação e desenvolve muito bem o tema. e demonstra pouco domínio na utilização dos recursos coesivos Compreende bem a proposta de redação e desenvolve bem os elementos constituintes do gênero mesmo que com desvios. apresentando redundâncias ou inconsistências constantes. no texto produzido. Compreende razoavelmente a proposta de redação e desenvolve razoavelmente os elementos constituintes do gênero indicado. à segmentação de palavras e frases e/ou à pontuação.

O professor deve estar atento para esta transição. considerando os valores humanos e a diversidade sociocultural. EM Elabora proposta de intervenção razoavelmente relacionada ao tema. mas incipientemente articulada com a argumentação necessária ao posicionamento crítico. seus amigos.EM Elabora proposta de intervenção muito bem relacionada ao tema e muito bem articulada à argumentação necessária ao posicionamento crítico.114 C V Proposição Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado demonstrando um posicionamento crítico e cidadão a respeito do tema. isto é. A proposta de redação para os alunos do 9º ano foi produzir um artigo de opinião tendo como tema: A escola pública em discussão: a escola que eu tenho e a escola que eu gostaria de ter. 9) As partes consideradas mais importantes na redação. escreveu sobre outro tema ou escreveu em outro gênero. 2008. EM Elabora proposta de intervenção precariamente relacionada ao tema. mas ainda pouco articulada do ponto de vista da argumentação necessária ao posicionamento critico. sua produção se enquadra no conceito 1 – Insuficiente em todas as competências. Foram apresentados alguns textos publicados em um blog da internet com algumas opiniões sobre o assunto e as seguintes recomendações: Ao desenvolver o tema. Selecione. procure utilizar conhecimentos adquiridos e as reflexões feitas ao longo de sua formação.EM ( Manual para a avaliação das redações do SARESP. falava sobre a escola que freqüentava. são o Tema e o Gênero. precisa ter criatividade e o mais importante é que seu professor seja um adepto do ensino . O momento de transição entre a leitura da proposta de redação e sua referência na produção do texto é fundamental. Seja qual for a temática desenvolvida pelo aluno. Se o aluno não atendeu à proposta de redação. p. e perguntava sobre a escola deles. pois seria a que ele iria freqüentar. elaborando propostas para a solução do problema discutido em seu texto. EM Elabora proposta de intervenção bem relacionada ao tema. a redação deve manter um elo com a proposta solicitada. dessa prova. organize e relacione argumentos. Os alunos do atual 7º ano teriam que responder a uma carta do primo André. Nesta carta ele dizia que ia se mudar para perto deles. Podemos observar que o aluno para fazer uma boa redação. fatos e opiniões para defender o seu ponto de vista.

como os que se especializam em publicar livros com listas de centenas ou milhares de “erros” de português” ( PERINI. p. devemos mudar nossos valores. Daí só pode surgir aquele complexo de inferioridade lingüístico tão comum entre nós: ninguém sabe português – exceto. pode-se argumentar que cabe à escola preservar seus educandos da discriminação social que. pois as opiniões de respeitados estudiosos convergem para a posição de que o ensino de Português deve privilegiar o texto com as novas contribuições lingüísticas. Estas provas vieram ao encontro das idéias dos lingüistas que acham que está na hora de mudarmos a nossa maneira de ensinar. 4. é a mais legitima confrontação quando se trata da atuação escolar no trabalho com a linguagem. A gramática tradicional tem o seu lugar no ensino. a mais problemática das dicotomias do estudo lingüístico é: certo x errado. alguns poucos privilegiados. talvez. dirigida mais ou menos exclusivamente à “correção” de pretensas impropriedades lingüísticas dos alunos. Dentre elas.5 GRAMÁTICA E ENSINO Muitas dicotomias têm cercado a noção de gramática. nossas crenças. O grande perigo é transformar a gramática – uma disciplina já em si um tanto difícil – em uma doutrina absolutista. o temor do erro é uma questão mal conduzida. essa norma padrão merece . Por ser uma norma socialmente legítima. p. Outra dicotomia muito discutida é a uso x norma-padrão. 13). Podemos aqui dizer que o professorado de português vive uma situação muito incômoda. o aluno que procura escrever encontra essa arma apontada sobre sua cabeça: “Não é assim que se escreve (ou se fala)”. “Isso não é português”e assim por diante.1995. mas não é um caminho ideal para desenvolver o desempenho na leitura e na escrita. 155). com certeza. eles sempre deverão estar em primeiro lugar. focalizando gêneros diversos sem ater-se ao livro didático. Segundo Neves (2006. possuem preconceitos lingüísticos. A cada passo. direcionar nossos objetivos levando em consideração os alunos. Durante a orientação para a correção disseram-nos sobre a importância dos aspectos lingüísticos e a pouca importância das regras da gramática normativa. pois mesmo os que pregam a liberdade sobre o modo de falar ou escrever dos usuários da língua.115 produtivo. será vítima se não receberem a devida orientação escolar.

condenarem o cuidado da escola com a língua escrita e com a norma prestigiada.116 reflexão profunda e precisa estar sob consideração o espaço escolar que a língua materna deve ocupar. afinal. afinal com total ausência de uma situação consentida de interlocução. nunca pelo oferecimento de lições prontas de “boa” linguagem. o que a escola obtém. conseqüência do entendimento no trânsito das normas coloquiais para a padrão e mobilidade entre os diversos registros para a necessária adequação devam ser obtidos em lições “gramaticais” desvinculadas do processo de interlocução. com finalidades ditadas do exterior. com condições de produção absolutamente rituais. para a colocação de seus alunos em outras situações que acionem outros padrões. Para as situações informais de fala no seu próprio meio social. com essa atitude. em nome de “somos todos iguais”. o aluno se põe a produzir um texto simplesmente na hora em que lhe dizem que está na hora de produzir um texto. A terceira dicotomia – língua falada x língua escrita tem sido falsamente avaliada principalmente quando se trata de trabalho escolar com a linguagem. mesmo no inicio de sua atividade de produção de textos escritos. p. A atenção escolar se concentra na produção escrita e o sistema escolar entende que a desvinculação deve ser imediata. além de constituir fonte inegável de frustração pessoal. O que ocorre na situação escolar de produção escrita é que. aos quais eles terão que chegar pela construção e pelo aproveitamento de situações de interação. Não é legítimo que se apregoe condição de inferioridade para os alunos que ingressam na escola sem nenhuma versatilidade quanto. A escola está instituída justamente para caminhar em trabalho participativo. desprestigiado. é inevitável. verificado mais tarde. 2006. mas o monodialetalismo é a maior fonte de barreiras para a mobilidade social. O insucesso no desempenho escrito. 159) . Neves (2006) afirma ser necessário que não nos iludamos quando. sem mais quê nem por quê. pois estarão pregando que as desigualdades de oportunidade e realização pessoal sejam mantidas e alimentadas. simplesmente não admitindo que a criança escreva “como fala”. é fazer a criança perder o domínio de seu desempenho em linguagem. todos estão minuciados desde que aprenderam a falar. A alfabetização parte do princípio de que alfabetizar é ensinar a codificar os sons em letras e cadeia sonora em cadeia gráfica. e pela falta de posse de outro padrão que não aquele de seu grupo familiar. E. demagogicamente. com motivações artificialmente criadas. e confundir a consciência intuitiva de linguagem que a fala lhe deu (NEVES.

2006. discussões envolvidas serão de ordens tais como a própria concepção de gramática e a natureza das gramáticas. Relacionado à natureza da gramática é o discurso dos manuais de gramática. .6 EM BUSCA DE PRINCÍPIOS PARA UMA PROPOSTA DE ENSINO Com base em Pernambuco (1995) apresentaremos alguns princípios que poderão nortear uma proposta de ensino. da investigação sobre o funcionamento da linguagem. 104). que até certo ponto determina o estabelecimento de padrões de correções vigentes em períodos mais ou menos longos (in NEVES. e de uma concepção ainda sociopoliticamente de que uma língua nacional deve ser preservada. “o conjunto de procedimentos discursivos que levam o enunciatário a acreditar na verdade e na necessidade de certos usos lingüísticos”. Somente com a ascensão do nível sócio-culltural é que crescerá o nível de línguagem do indivíduo. O imobilismo da língua é um ideal a ser perseguido. a escola deve ajudar o aluno a crescer linguisticamente com maturidade intelectual e emocional. 161) investiga como “discurso da norma”.117 A quarta dicotomia . Nogueira (1999) buscando “compreender a extensão e a variedade do conceito de gramática em função de suas implicações pedagógico-didáticas” (p. com crescimento de toda a vida. como instrumento de dominação. ou seja. O autor considera indiscutível a distinção entre as duas primeiras perspectivas porque as línguas naturais são mecanismos cujo funcionamento decorre do rigor inerente à relação que entre si mantêm os elementos que as constituem como sistemas e porque as práticas de uso da língua em situações concretas de enunciação e comunicação implicam por meio dos falantes. e em todas as demais disciplinas do currículo escolar. 160). considera três perspectivas complementares: “descritiva. in NEVES. aqui. Com esta dicotomia entramos no domínio conceitual. 2006. que Barros (2001.descriçào x prescrição – pertence ao domínio da analise lingüística. Segundo este autor. a consciência crítica de que existe uma norma. 4. normativa-prescritiva e produtiva”. p. exige-se muito. p.

Segundo Pernambuco (1995). De acordo com o pesquisador.118 Pernambuco ressalta: O realismo lingüístico é indispensável ao professor: a língua (e a gramática) é como é. à natureza. com sentido e dentro de um contexto determinado. Aqui. objetivos e circunstâncias de seus atos de comunicação. ao entrar na fase de alfabetização seu modelo é acrescido pelo texto da cartilha o qual é considerado o modelo “correto”. os modelos de texto de uma criança nas séries iniciais de escolarização: a) quanto à forma de estrutura. Relativismo lingüístico: língua e comportamento gramatical devem ser vistos e julgados relativamente aos falantes/escreventes. como os gramáticos pretendem impor que seja. não como deveria ser. organizada. Se a criança aprendeu-a espontaneamente em seu ambiente.. seja ela escrita ou oral. para se criarem condições adequadas ao processo ensino-aprendizagem de língua portuguesa. há necessidade de que ele tenha conhecimento a respeito da concepção do texto que a criança possui na fase de alfabetização e da influência que tem tal concepção na forma como estrutura seus textos. Sendo a principal função do professor. conversacional. é inevitável a heterogeneidade no campo da linguagem. O fracasso escolar acontece porque a escola não está conseguindo que o aluno desenvolva a habilidade de domínio da modalidade escrita da língua. as atividades pedagógicas em sala de aula deverão estar centradas nos trabalhos com o texto. como o professor quereria que fosse. ensinar ao aluno como se produz e como se lê o texto em busca do que dizer e do como dizer. Com estes modelos seus textos passam a ser mais artificiais . (. Em sociedades econômica e culturalmente heterogêneas. presos a modelo do passado. os alunos não falam a mesma variedade lingüística e nossa proposta defende por parte da escola um trabalho eficiente no sentido de ampliar a competência lingüística do aprendiz ensinando-lhe a variedade prestigiada sem menosprezar a variedade lingüística que ele aprendeu em seu meio ambiente. Segundo Koch (2008). certamente aprenderá a variante que a escola quer que ela aprenda desde que as atividades para tal sejam semelhantes. Isto acontece devido ao fato de que tem feito uso somente do ensino prescritivo. “casos”). está ligada ao texto oral. O inverso desse relativismo é o absolutismo gramatical do ensino tradicional ingênuo. texto significa toda a produção verbal.). ou a textos narrativos (estórias..

O trabalho com o texto e pelo texto que preconizamos pretende levar o aluno a ter uma visão crítica da realidade com percepção dos conteúdos ideológicos destinados a mascarar a essência do real (PERNAMBUCO. mesmo assim seus textos continuam cheios de marcas de oralidade que deverão ser eliminadas por meio da intervenção do professor. 4. livros de literatura infantil e modelos de redação. diminuindo sensivelmente nas séries finais. O tempo . O professor tem a função de direcionar o aluno a fazer textos e para isso ele deverá ser um bom leitor que tenha intimidade com tipos variados de textos.6. os seus anseios quanto à escola. o professor cria condições adequadas para o desenvolvimento da oralidade do aluno e também para a produção de textos escritos. complicação.1 O texto do aluno como ponto de partida É imprescindível que nesta fase o professor interaja com o seu aluno para conhecê-lo. A metodologia do trabalho com o texto que queremos é aquela que faça da prática pedagógica diária uma oportunidade de troca e existência em comum de valores díspares tendo a linguagem como veículo de interação. percebendo as várias significações que um texto pode ter e observando suas estruturas. seus interesses e gostos. p. Mais tarde ela encontra outros modelos de textos: quadrinhos. o esquema textual mais freqüente é o de contos de fada. b) quanto a superestrutura ou esquema textual e à macroestrutura ou conteúdo semântico global: quando narrativas. O sucesso desse trabalho com o texto em sala de aula depende somente de o professor utilizar alguns procedimentos básicos. 1995. das historias tradicionais. ser competente nesse trabalho e direcionar seu trabalho às finalidades educacionais escolhidas como adequadas ao seu trabalho docente.resolução e a coda para finalizar: “E viveram felizes para sempre”. c) tempo verbal inadequado: em todas as séries. é necessário que através da oralidade ele descubra o meio em que o aluno vive. estes textos apresentam situação. 110).119 perdendo muito da criatividade de seus primeiros textos. O professor é o mediador entre o aluno e o texto levando-o a produzir sua própria leitura. Através deste diálogo.

. Nesta etapa da nossa proposta levamos em conta: o aluno e seu universo lingüístico (experiências). pois esta é uma grande oportunidade para os alunos se desinibirem e para o professor verificar a concepção que cada aluno tem da modalidade escrita da língua em relação à língua oral. que o aluno não encontra dificuldade em escrever sobre suas experiências pessoais. Pernambuco (1993) percebeu que ao pedir aos alunos que fizessem alguns textos. A partir do conhecimento que se tem do aluno através de seus textos é que se deve traçar um projeto de ensino adequado às necessidades. Até chegar a essa compreensão ele passa por três fases: “a escrita é a fala transcrita graficamente. Para Pernambuco (1995). Após a escrita o ideal será que cada um leia o texto que acabou de escrever para os demais.120 estipulado para esse processo é o necessário para que todos os alunos falem e que suas falas sejam ouvidas e respeitadas pelos outros alunos. a escrita é outra modalidade de língua e exige conhecimento de técnicas”. mas sem exigências. escrever para ele é falar através da palavra escrita. confessionais no caso. Percebeu também que lendo os textos com atenção percebe-se que o aluno não está preocupado com a possível avaliação do professor. mas sua escrita é a transcrição da fala. o processo da fala e da escrita e o professor com ciência de que ele tem do que seja ler e escrever e ter seu projeto de ensino. O contato dos alunos com textos múltiplos e variados com relação à estruturação e à temática é que vai definindo o tempo necessário para que ele ultrapasse as etapas. “é preciso que o professor tenha conhecimentos seguros a respeito dos processos que acontecem na leitura e na redação para que sua interferência seja adequada”. Durante o desenvolvimento de sua pesquisa. Como próximo passo será a estimulação para o texto escrito. mas o aluno também aprenderá desde que esse processo seja bem conduzido pelo professor. O que importa ao professor no momento é levar o aluno a aprender a pensar o que seja a modalidade escrita da língua. a escrita é diferente da fala porque exige o uso de palavras mais difíceis e frases mais complicadas. sem traumas. interesses e gostos para melhor poder conduzi-lo à aquisição da habilidade da produção de textos. É notório que a chegada à produção do texto escrito é bem mais complexa do que a aprendizagem da fala. pois somente assim ele poderá conduzir o aluno na produção de textos na modalidade escrita.

121 4. os problemas apresentados são: a) a conexão entre os enunciados faz-se por simples justaposição ou por meio de seqüenciadores típicos do texto oral. temática. Geralmente. sociocultural. pontuação. etc.2 Trabalhar o texto do aluno em todos os aspectos Muitos aspectos poderão ser observados coletivamente pelo professor como: paragrafação. situacional. o professor deverá anotar as principais dificuldades dos alunos para depois trabalhá-las uma a uma.3 Selecionar as dificuldades apresentadas pelos alunos. coerência. mas sim com os resultados que deverá obter. deverá ser feita uma releitura deles. superestrutural e temporal. A coesão diz respeito ao modo como os constituintes textuais se encontram explicitamente interligados. coesão.interessa nessa fase conhecer o aluno . Segundo Koch (2008) “a concepção de texto que a criança possui tem reflexos na escrita. “ela diz respeito ao modo como os elementos expressos na superfície textual e aqueles que se encontram explicitados vêm a permitir aos usuários do texto a construção de um sentido devido à atuação de uma série de fatores de ordem cognitiva. 181). sintática. Durante essas releituras. às vezes meramente continuativa. em algum caderno ou folha.. às vezes com função adversativas. só deverá estar preocupado com o conteúdo do texto. interacional (KOCH 2008. O professor não deve preocupar-se com o tempo que irá gastar com este trabalho.6. Pode-se falar em diversos tipos de coerência: semântica. b) encontra-se várias ocorrências de mas. Quanto à coerência. Após a leitura dos textos pelo professor que. em termos da coesão e da coerência do texto. c) repetições em abundância. neste primeiro momento. 4. d) referência ambígua. p.6.

através de leitura ou reprodução oral. etc. de textos como cartas familiares. aos adolescentes. eles não gostam de faltar às aulas no dia que “tem biblioteca”. trocam os livros com os amigos. indicam leituras. etc. para a fantasia da criança e do adolescente. mas aquele que deixa espaço para a reflexão. fazem comparações. A criança lê o livro que lhe dá prazer e costumam freqüentar a Biblioteca Municipal para retirarem livros que não têm na escola e também para fazer pesquisas. diários íntimos. Enredos palpitantes e trama bem construída é o tipo de livro que proporciona. prazer na leitura. romances. todas as semanas. Os alunos participam de uma aula neste local com decoração e mobiliário apropriado. O professor tem que despertar no aluno o prazer pela leitura. daí a necessidade do professor ser um amante da literatura para crianças e adolescentes. sem preocupação excessiva com o domínio que ele possa ter de correção gramatical. Nas Escolas Municipais de Sertãozinho. Os textos selecionados não podem ser somente os voltados para uma pedagogia moral. desenhos. Não há . para poder fazê-la. É inaceitável que o professor trate a literatura como simples obrigação didática. A leitura é cobrada descontraidamente. É de grande importância a presença no dia-a-dia da sala de aula. textos escritos. assistem a filmes. jornais. amam ler. dentro e fora da aula. 4.4 Propostas de leituras A seleção de textos é imprescindível para o sucesso de nossa proposta. o professor deverá ser bom leitor e conhecer os mais variados tipos de textos. naturalmente. tanto ficção como não-ficção. de primeiro ao nono ano. A literatura infanto-juvenil é uma grande oportunidade para despertar a sensibilidade no aluno e ampliar a sua visão de mundo. O momento decisivo para o nascimento de um bom leitor. como instrumento para atribuir notas e conceitos. temos o “Projeto Sol do Saber”. eles ouvem e contam histórias. é este. Do aluno é cobrado responsabilidade e cuidados com os livros. diálogos informais. revistas.122 e sua visão de mundo. escolhem livros para lerem em casa. etc. Ele é desenvolvido nas bibliotecas das escolas e coordenado por professores que gostam e têm o hábito de ler.6. para a busca. Lá.

como forma de crescimento . As séries iniciais também levam livros para lerem em casa com a ajuda dos pais. na verdade. Esse projeto.. Logicamente uma prática de leitura bem conduzida não fará do leitor. o que deveria estar em foco é a possibilidade de o ensino contribuir para a expansão do material lingüístico e cultural dos alunos. laboratório de leitura e escrita. Há necessidade de o professor se conscientizar de que ele deve ler cada vez mais. As perguntas que o aluno faz sobre a língua. Não se pretende fazer surgir um escritor mas proporcionar aos alunos situações de aprendizado significativas para que eles se apropriem da língua. deve ir preparado para a aula para não se decepcionar.6. Segundo Pernambuco (1995). quando. o ensino de língua portuguesa em nossas escolas causa a impressão de que o que se deseja é fazer do aluno um autor de gramática normativa da língua. às vezes completa o trabalho do professor na sala de aula e às vezes é completado por eles. um grande produtor de textos.123 atribuição de notas nem conceitos. diz Pernambuco (1995).5 A aula de gramática. mas com certeza escreverá textos muito melhores. “a aula de português deve funcionar como uma espécie de laboratório em que o erro ocasional é sempre oportunidade de uma nova descoberta”. O leitor deve ver no texto um todo de estruturação e um todo de significação. pois o caminho da modalidade escrita é a partir do domínio da leitura. o aluno gosta de ler. obrigatoriamente. mas não é porque ele gostou do texto que os alunos também irão gostar. Da forma como é conduzido. deve enxergar no texto o jogo que se faz com as palavras para a abertura de caminhos para as diferentes leituras. quando em contato com a leitura de textos ou durante o processo de produção deles é que devem constituir o material de ensino do professor. das mães ou irmãos. é um trabalho interdisciplinar e coletivo. muitas vezes decoram as histórias. “O gosto é do aluno e para ele não existe autor clássico ou não”. Quando esse processo é bem dirigido não há constrangimento por parte dos alunos e muitas vezes ele é capaz de perceber sua próprias falhas em um ou outro aspecto do trabalho. 4.

uma página de diário. Esta proposta de trabalho com textos pretende alcançar a participação ativa dos alunos e levá-los a desenvolver um trabalho produtivo. Um texto narrativo curto. prioritariamente para atribuição de notas. Bons leitores referindo-se à capacidade de o aluno ler percebendo o sentido do que se disse. sim. como um elemento diagnóstico para o professor detectar as dificuldades dos alunos no domínio da modalidade escrita da língua e tentar sanálas. uma carta familiar. um comentário sobre um texto lido devem fazer parte dos textos trabalhados até uma quinta série. Para Pernambuco (1995). mas. (PERNAMBUCO. um bilhete. quanto à produção de textos.. pretende-se que o aluno seja capaz de usar a língua produzindo textos orais e escritos de acordo com as necessidades. sendo um bom leitor e produtor de textos. . 1995. 117). o ensino de língua portuguesa deve ter como objetivo maior levar o aluno a usar a língua entendendo o que está fazendo através dela e usá-la expressando o seu próprio mundo. usando a língua e. um convite.124 individual e a conseqüente transformação da sociedade.p. Os objetivos e a proposta desenvolvida em nossa pesquisa é a mesma defendida por Pernambuco em 1995. A redação não deve ser usada.

O equilíbrio é difícil.125 CONSIDERAÇÕES FINAIS “Ser conservador em matéria de linguagem é estupidez. e os professores não estavam preparados metodologicamente para receberem essas crianças socioeconomicamente diferentes e com uma grande variedade lingüística. Há uma grande variação quanto às práticas pedagógicas usadas pelos docentes e uma delas é a predominância do ensino de metalinguagem. A escola atual não é capacitada para transmitir uma modalidade lingüística a um público bastante diversificado social e linguisticamente. pois não se abole nada só porque se quer abolir.” Glauco Mattoso (1951) A proposta dessa dissertação foi analisar o trabalho do professor de português na sala de aula. mais um dos veículos divulgadores de uma variedade lingüística considerada como padrão. em sua modalidade oral e em diversos dialetos e registros. Através dessa análise pretendemos desenvolver princípios que dêem ao aluno. E ser totalmente inovador é ilusão. estudo de regras e hipóteses de análises de problemas. através de exercícios de descrição gramatical. A democratização da escola trouxe um grande número de alunos. é preciso mostrar ao falante . acesso à modalidade escrita da língua. possível a todas as pessoas que já dominam esta mesma língua. Nossa pesquisa buscou investigar como a escola tem agido para ensinar a língua de forma produtiva. na sociedade. Este tipo de prática está ligada ao conceito de que para se escrever bem. deve-se saber a gramática normativa. domínios de conceitos. A escola assume o papel de ser. principalmente no que diz respeito ao ensino da gramática. Ensinar português não se restringe apenas ao trabalho de metalinguagem.

pois ele deve saber conciliar os objetivos específicos de sua função com sua ação didática. sempre esteve e ainda está presente nas nossas salas de aula. Para que isso ocorra. às vezes recrimina. mas quase sempre o aluno que lê mais escreve melhor. proporcionando condições para que ocorra o domínio da variedade considerada padrão em nossa sociedade. e saber usá-la para se produzir os textos que se quer produzir. a distinguir a dimensão pessoal da sociedade e a comunicar experiências e sensações. é uma avaliação. ao contrário. sim. mas. Para que isso aconteça há a necessidade de que o professor tenha claro o conceito de que seja uma língua e especificamente do que seja a gramática da língua. provocando grande reprovação e evasão deles. O preconceito social. lingüístico. A escola nunca ofereceu condições de igualdade aos seus alunos. descobrir o que as pessoas podem fazer umas com as outras usando as palavras. também fazem parte das atividades escolares. O caminho para a igualdade desses alunos começaria pela escola aceitar a variedade lingüística deles. ao usar a língua.126 que. Há necessidade de que todos se conscientizem de que ao aprender uma língua. que a função do professor seja fundamentada numa metodologia de: trabalho com o texto e pelo texto que leve o aluno a ter uma visão crítica da realidade com concepção dos conteúdos ideológicos destinados a mascarar a essência do real. . falando ou escrevendo com controle dos recursos que ela oferece aos seus usuários. O professor de língua materna interfere diretamente na formação do indivíduo e este fato deve ser assumido com todas as suas implicações. não é uma unanimidade. o falante está aprendendo a refletir. mas também às normas pragmáticas e sócio-culturais. não será através de regras gramaticais. A leitura também faz parte das estratégias de trabalho com os alunos e. ele estará se sujeitando não somente às normas gramaticais e semânticas. Dominar a língua é ser capaz de entender os seus usos. A finalidade que deveria ter uma redação escolar é a de proporcionar aos alunos condições de domínio da língua escrita para a sua expressão individual. Trabalhar com a língua deve ser uma prática social prazerosa e com sentido. mas tem como objetivo principal a correção feita pelo professor. Os exercícios de redação. O trabalho do professor é de enorme importância. Os textos dos alunos são destinados a um único leitor: o professor. A função do professor será a de conduzir o aluno a fazer .

alternativas. Para que o ensino de português atinja os objetivos almejados. corrigir. o caráter relacional das estruturas sintáticas. com o intuito de exemplificar os diferentes aspectos gramaticais não levam o aluno a operar com a linguagem. o professor deve levar o aluno a uma melhor compreensão da função da morfologia na sintaxe. Os alunos criticando os seus próprios textos poderão ampliar a teoria gramatical podendo assim entender as variedades de recursos sintáticos expressivos disponíveis ao escritor ou ao falante para a composição do sentido dos textos. O professor deve mostrar ao aluno por que fazer. Para que o professor efetive o desenvolvimento da competência comunicativa dos alunos. Trabalhos isolados com orações. agindo para a sua transformação. tornando as aulas dinâmicas e operatórias. construindo e transformando os textos os alunos estão operando e conhecendo os diferentes valores argumentais das expressões que tem ao seu dispor. mostrar caminhos para o desenvolvimento do texto a ser lido por ele e por outros. Em vez de dedicar suas aulas às definições de categorias gramaticais. É necessário que se criem condições para o exercício do saber lingüístico e da gramática interiorizada. 136). Há necessidade de que se estabeleça uma conexão entre as atividades de gramática.127 textos que falem de textos instrumentalizando-o para ocupar adequadamente um espaço na sua comunidade. A escola deve configurar situações específicas de linguagem com fins e propósitos específicos e próprios. explicitar.p. pressupondo que a variação lingüística está ligada a mudanças de situação. para que assim se tornem capacitados para explorarem a adequação do discurso às diversas situações de comunicação. 1986. que se manifesta na interação. leitura e produção de textos. como fazer. de leitura/compreensão e de produção de textos. . suas aulas devem dispor de atividades diversificadas que conduzam os alunos para o domínio dos diferentes modos de atuação lingüística. Cabe ao professor fornecer meios para que o aluno adquira e aprenda os elementos lingüísticos correspondentes às diferentes situações comunicativas. sugerir possibilidades. (PERNAMBUCO. o valor categorial dos elementos nas estruturas. a concepção de língua adotada deve levar em conta o processo de linguagem na integração das atividades da gramática.

Justifica : não quer dizer que a gramática não é útil e que não deva ser ensinada. ou seja. a unidade básica de ensino só pode ser o texto. não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra. Segundo Koch (2008). uma participação ativa na construção do sentido. mas sim que deve ser ensinada dentro das práticas concretas da linguagem. Esperamos que este trabalho possa colaborar para a ampliação das habilidades lingüísticas de seus alunos.128 Os PCNs (1998) preconizam que o ensino de Língua Portuguesa deve ter como objeto central o texto: Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e interpretar textos. Priorizar o texto não significa que não se enfoquem palavras ou frases nas situações didáticas específicas que o exijam. Ao final. O processamento textual quer em termos de produção ou de compreensão. por meio da mobilização do contexto a partir das pistas e sinalizações que o texto lhe oferece. que não se deve fazer do texto um pretexto para ensinar a gramática. princípios para uma proposta de ensino produtivo da gramática e do texto. com base nas teorias lingüísticas que tratam do texto e sua produção. mas sempre por intermédios dos conhecimentos. a maior “novidade” no ensino da língua materna é o deslocamento que se vem operando do foco na gramática normativa para o foco no texto. Dentro desse marco. nem a palavra. descontextualizadas. que é a questão central. buscou apresentar. nem a sílaba. por intermédio de textos. E da parte do leitor. mas sim levar o aluno a uma reflexão sobre como se produzem sentidos na interação por meio da língua. Esta pesquisa envolveu-se com o ensino de gramática e com o trabalho do professor. Os PCNs deixam clara a necessidade do recurso do contexto na produção da linguagem. As abordagens sociocognitivas do processamento textual vêm postulando que o contexto físico não afeta a linguagem diretamente. Compreende da parte do produtor do texto um “projeto de dizer”. mas também o contexto sociocognitivo dos interlocutores. nem a frase que. não significa que deva encher as crianças de conceitos recém aprendidos na faculdade. O contexto abrange não só o co-texto (situação de interação imediata e mediata). . pouco têm a ver com a competência discursiva. depende de uma interação entre produtor e leitor.

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