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Hipálage

1-
● Atribuição a alguns objectos de qualidades que pertencem a outros;

● Entre os diferentes recursos estilísticos utilizados por Eça de Queirós, destaca-
se o uso que deu ao adjectivo, quer nas possibilidades de associação expressiva do
seu significado, quer nas funções gramaticais, quer ainda na mobilidade do seu
lugar na frase. Mais concretamente, através da hipálage, ligou adjectivos a
nomes que não se relacionam entre si do ponto de vista semântico. É um
bom exemplo a expressão: «Fumar um pensativo cigarro.»
Por outro lado, também através da hipálage, é frequente que os adjectivos não se
apresentem associados aos nomes aos quais estão ligados gramaticalmente, mas
que estejam relacionados pela lógica com outros nomes do contexto.

«As agulhas atentas picavam os estofos ligeiros.»
«A leitora, tão cheia de graça, virou a página do jornal doloroso.»
«Todos se debruçaram, reliam a notícia do jornal amargo.»

2- In O Homem das Hipálages, Almeida Faria

● É natural que as hipálages de um fumador começassem nos cigarros. Por isso
aparece o pensativo cigarro, o cigarro distraído...Mas há também as sobrancelhas
meditativas, o lábio abjecto e os lábios devotos, a mão libidinosa ou pacificadora e
solene, o dedo subtil ou lento ou trágico ou severo, as sedas impúdicas, os braços
pasmados, a sala séria de tons castos, as tias fazendo meias sonolentas, as saias
ligeiras e ilegítimas, a lenta humidade das paredes fatais do Ramalhete...

À medida que aperfeiçoava a sua arte, Eça recorria sempre mais à hipálage como
processo de descrever depressa e bem. Depressa e bem, como diz o provérbio, há
pouco quem...

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LM – Maio 2009