De V olt a a o É den

ÍNDICE Introdução Capítulo I Capítulo II De volta ao Éden Adão, Eva e algo mais...
Um mundo além do bem e do mal

O conto das duas árvores
As árvores se contradizem? O Jardim do Éden e o Princípio da Incerteza de Heisenberg Querubins com a espada flamejante

Capítulo III

O lado escuro do Paraíso
O que nós sabemos sobre a serpente? Uma “tentação” curiosa Ser como D-us

Capítulo IV

A verdade nua
A estranha proeminência da nudez Uma nudez oculta Um engano “inocente”

Capítulo V

Os motivos da serpente
A árvore dos desejos A serpente “nua” A bela e a fera

Capítulo VI

Um mundo de brócolis e pizza
Do que é feito o verdadeiro conhecimento? Certo e errado de fora para dentro Escolhendo entre o brócolis e a pizza Todos os dilemas morais são idênticos?

Capítulo VII

Um boxeador chamado 'Desejo'
Uma luta contra o irreal Os jogos mentais do desejo Os princípios do desejo

Capítulo VIII

O olho daquele que contempla
Há um modelo aqui? As peças que faltam no quebra-cabeças

Capítulo IX

Friedrich Nietzsche e o D.J.
Torá e o tempêro da vida O advento do desequilíbrio Um medo recém-descoberto O preço do poder

Capítulo X

“Onde estás?” A primeira pergunta da História
Dons gêmeos As roupas de Adão e a sepultura de Moisés

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INTRODUÇÃO

De Volta ao Éden

Adão, Eva e a serpente são familiares para nós desde a tenra infância, entretanto o sentido dessa história parece por demais elusivo. Por exemplo, por que será que D-us proibiu comer da árvore do conhecimento do bem e do mal? Será que Ele não queria mesmo que a humanidade estivesse apta a distingüir o certo do errado? Começamos nesta semana uma nova série de estudos que nos levará de volta à história do Éden, revelando progressivamente novas camadas de sentido. Paradoxalmente, um grande problema quando estudamos as histórias bíblicas é que elas são muito familiares para nós. Não importa onde você tenha crescido ou que nível de educação tenha, você certamente já se deparou com a história de Adão e Eva dezenas, senão centenas de vezes. Ouvimos a história na escola, aprendemos a mesma em casa, e alguns até talvez já tenham assistido filmes sobre o relato do Éden. Nós conhecemos aquela história, asseguramos para nós mesmos. Será que de fato a conhecemos? Quando conhecemos uma história muito bem, nós nos tornamos presa fácil do que gosto de chamar de “efeito canção de ninar”. O “efeito canção de ninar” retarda nossa habilidade de perguntar – e até mesmo de ver – as questões realmente importantes que a Bíblia está pedindo que investiguemos. O “efeito canção de ninar” nos anestesia através da impressão da familiaridade. Veja só como funciona: Quando foi a última vez que você parou para pensar sobre a letra das canções de ninar que muitas mães cantam para que seus filhos durmam? Pare por um só momento e pense... mas pense bastante! Pense na letra e no sentido da mesma. Para quem não consegue lembrar de nenhuma dessas canções de ninar, lá vai uma das mais conhecidas: “Boi da cara preta, pega esta criança que tem medo de careta”, ou ainda, “Dorme menino que a cuca vem pegar”. Imagine só se a criança estivesse 2

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mesmo prestando atenção ou se pudesse enteder de fato o que tais letras querem dizer. A criança pode até dormir com essas canções mas se ela de fato estivesse entendendo a “mensagem” que a letra transmite, permaneceria acordada com certeza! Muitas perguntas poderiam surgir em sua mente, tais como: Quem me deixaria ficar aqui bem em frente à esse boi perigoso? Será que meus pais estão tentando se livrar de mim? Será que só por eu ter medo de careta isso seria motivo suficiente para me deixar sozinho em frente à esse animal furioso? Poucos porém mesmo remotamente se incomodam com a violência implícita em tais letras de inocentes canções de ninar. E por que não nos preocupamos com isso? Simples: Porque nós paramos de “ouvir” essas letras. Repetimos as mesmas quase que mecanicamente e não nos damos conta do seu impacto; Nós mesmos as ouvimos muitas e muitas vezes desde criança, e mesmo antes de sabermos exatamente o que suas letras queriam dizer. E agora, mesmo como adultos tais letras não nos podem chocar. As histórias bíblicas são como canções de ninar nesse sentido. Quase todas as histórias bíblicas têm o seu “elefante na sala” ou seja, um grande problema ou uma série deles que estão aí pedindo para serem investigados. “Por que D-us pediria que Abraão tomasse seu filho e o sacrificasse somente para se retratar no último momento e dizer que Ele não queria isso de fato?”. O que exatamente D-us tinha contra a construção da Torre de Babel? Por que D-us se daria o trabalho de mandar Moisés barganhar com o faraó a fim de libertar o povo hebreu sabendo que Ele mesmo (o próprio D-us) é que estava “endurecendo” o coração do rei egípcio? Mas, aí é que está o problema. Essas histórias são muito familiares para nós; nós as ouvimos por muitas e muitas vezes. Elas já se tornaram parte de nossa formação cultural. Nós mergulhamos nessas histórias através de osmose, o modo como inconscientemente desenvolvemos tendências que refletem o lugar onde crescemos. Nós já não conseguimos ver todos os problemas que existem nesses relatos bíblicos e perdemos a sensibilidade e a curiosidade para investigá-los. Eu gostaria de convidá-los a mudar esta realidade. Quero pedir que você embarque conosco numa jornada, uma aventura pelo texto bíblico na qual nós faremos uma releitura dessas histórias que pensávamos conhecer tão bem; só que dessa vez, veremos as mesmas com outros olhos e faremos as perguntas que qualquer leitor inteligente faria. Se esta idéia te deixa nervoso, relaxe. Não precisamos temer estas perguntas, porque na verdade elas não são problemas mas sim, oportunidades. Elas são janelas que o texto bíblico nos entreabre para que percebamos os sentidos mais profundos do relato sagrado. Na verdade, você pode manter as janelas fechadas e fingir que elas não estão ali. Mas se você não abri-las, o tesouro que se encontra mais adiante, um rico e tridimensional entendimento da Torá¹ sem mencionar ainda 3

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um mundo inteiro de Chazal² e Midrash³ permanecerá eternamente selado para você. Eis aqui então o que propomos. A cada ano, os judeus leêm toda a Torá em seu ciclo de estudos; todavia, com muita freqüência não damos à primeira parashá4 (que inclui Gên 1-3) a devida importância e atenção merecidas. Vamos então inspirar profundamente e dar uma olhada mais de perto no texto da primeira parashá, na história de Adão e Eva, mas só que desta vez, prestaremos muito mais atenção ao texto em si. Abra agora a sua Bíblia na história de Adão, Eva e a serpente no Jardim do Éden. Sim, eu sei que você conhece bem a história. Você tem a imagem da serpente enrolada na árvore oferecendo uma maçã para Eva. Mas, aí é que está. Você deve ESQUECER tudo isso e também essa imagem. Você precisa apagar essas imagens e ler a história de novo. Você precisa quebrar a síndrome da canção de ninar. Leia a história devagar e com cuidado. Só o texto, esqueça os comentários. E enquanto faz isso, faça as seguintes perguntas para si mesmo: Se eu estivesse lendo esta história pela prmeira vez, o que me chamaria a atenção e quais elementos nela me parecem estranhos? Quais são as grandes perguntas que a Torá deseja que eu faça sobre esta história? Anote tudo o que achar importante e as perguntas que você tem sobre o texto e nos veremos no próximo capítulo de nossa saga de investigação do sentido mais profundo do texto bíblico. Até lá.

Rabino David Fohrman

Referências: 1.Torá = os cinco primeiros livros de Moisés (Gên/Êx/Lev/Núm/Deut). Tradicionalmente incluise também a Mishná, cerne e coluna vertebral do Talmud. 2.Chazal = abreviatura hebraica de Chachameinu Zichronam Liv'rachá (Nossos Sábios de Abençoada Memória). Trata-se de uma referência às interpretações bíblicas dos sábios do judaísmo. 3.Midrash = comentários e interpretações (geralmente escritas) de certas passagens da Torá, elaboradas por sábios antigos. 4.Parashá = porção da Torá lida e estudada a cada sábado na sinagoga.

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CAPÍTULO I

Adão, Eva e algo mais...

Já na introdução nós pedimos que o leitor fizesse uma releitura da história de Adão, Eva e da serpente, desta vez, prestando muita atenção e com uma nova abordagem, fazendo à cada etapa da leitura aquela perguntinha básica: “O que há de estranho nessa história?”. Vamos juntos revisitar resumidamente nosso relato – assim: Após ter criado o mundo, D-us cria dois seres humanos e os coloca num paraíso, no Jardim do Éden. Ele lhes concede domínio e livre soberania sobre todo o território e a criação. Há apenas uma restrição: Uma certa árvore da qual eles não deveriam comer --- é a “árvore do conhecimento do bem e do mal”. O fruto dessa árvore não deveria ser comido sob nenhuma circunstância! Entretanto, para resumir, os dois seres humanos conseguem de alguma forma transgredir a única ordem proibitiva que lhes fora dada. Seduzida por uma misteriosa serpente, Eva come da árvore e também faz com que Adão partilhe do fruto. O Eterno parece ter ficado decepcionado e dita várias punições: A serpente? Não andaria mais, apenas rastejaria. A mulher? Suas descendentes sofreriam uma multiplicação de dores na concepção e no parto. E o homem? Ele e sua descendência deveriam tirar da terra o sustento de cada dia à custo de suor do rosto. E para piorar, a morte passa a ser o destino final de todos os envolvidos. Ninguém mais poderia viver para sempre. O Éden fora colocado fora do alcance; à partir de então, o ser humano deveria buscar um outro lugar para servir de habitação. Mas, espere um momento! Há ainda um detalhe sobre nosso texto que parece ter escapado: há uma outra árvore no jardim, uma árvore misteriosa, a chamada “árvore da vida”, e a última coisa que D-us quer agora é que alguém tome e coma do fruto da mesma. Bem, que problemas temos aqui? A história te cai bem ou você sentese desconfortável com ela? Se você sente-se desconfortável, será que poderia justficar e dizer o por quê dessa sensação?

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Como mencionamos na introdução, todas as histórias têm o seu “elefante na sala”: uma pergunta óbvia que é tão básica e tão profundamente perturbadora que até que você ache um meio de lidar com ela não pode afirmar honestamente que entende o que está lendo. Será que temos aqui em nosso relato sobre Adão, Eva e a serpente uma pergunta deste tipo ou desta magnitude? Eu pessoalmente acredito que sim. Vamos conversar um pouco sobre aquela nossa primeria árvore misteriosa, a “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Com certeza este é um nome muito estranho, mesmo para uma árvore; entretanto, é exatamente esse o nome que a Bíblia lhe dá, então presumivelmente é isso mesmo o que ela é: um meio que transmite conhecimento sobre o bem e o mal, ou a habilidade de distingüir o certo do errado àqueles que participam do seu fruto. Mas, há um grave problema com tudo isto. Poderíamos resumir este problema numa pergunta: Por que D-us desejaria que tal conhecimento sobre o bem e o mal fosse negado às pessoas? Pense nisso. Será que os seres humanos estão em melhores ou piores condições pelo conhecimento do bem e do mal? Distingüir o certo do errado está mais para um patrimônio ou uma grande responsabilidade para os seres humanos? Imagine um mundo no qual as pessoas fossem exatamente como são agora: inteligentes, seres que podiam falar, andar, dirigir carros, fazer investimentos etc. Entretanto, faltava algo nessas pessoas. Elas não sabiam distingüir o certo do errado. Nós temos uma palavra para definir esse tipo de pessoa. Nós os chamamos de sociopatas. Alguém que possua todas as faculdades humanas mas que não saiba distingüir o certo do errado é alguém que pode assassinar outra pessoa com uma machadinha da mesa forma que eu e você cortamos a grama. Será que D-us teria prazer em criar um mundo cheio desse tipo de gente? Certamente as pessoas estão muito melhor conhecendo e distingüindo o certo do errado. Então por que será que D-us parece insinuar que tal conhecimento é indesejável, visto ter proibido o homem de comer do fruto da tal árvore? Uma saída tentadora para este problema seria por exemplo, sugerir que tudo não passou de uma “armação”, um mero “teatro”: D-us na verdade queria que as pessoas pudessem usufruir do conhecimento que a árvore podia transmitir e ficou feliz com o fato de que os humanos partilharam do seu fruto. Mas isso pode não ser tão simples assim pois tal abordagem é extremamente problemática. Pelo que percebemos do relato da Torá (Bíblia), D-us parece profundamente desapontado com Adão e Eva após terem comido da árvore; 6

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Ele chega até a puní-los de forma severa. Como devemos entender tal desapontamento? Não parece um tanto perverso imaginar o Altíssimo em segredo deleitando-se com o fato de que ambos comeram finalmente do fruto para logo em seguida puní-los com rigor exemplar? Será que Ele ocultaria sua alegria e prazer por trás de uma 'máscara' de decepção e descontentamento? D-us claramente queria que Adão e Eva evitassem aquela árvore. Mas isso nos leva à outra questão crucial: Por que desejaria D-us privar o homem de uma compreensão plena do bem e do mal? A verdade é que a pergunta é um tanto mais profunda do que isto. Não é estranho simplesmente o fato de que D-us tenha imposto limites com relaçâo àquela árvore: Na verdade, a própria existência de tal árvore no jardim parece criar uma contradição básica na história como um todo. Veja por que: O que acontece imediatamente após Adão e Eva comerem da árvore cujos misteriosos frutos conferem conhecimento do “bem e do mal”? O Eterno D-us zanga-se com eles e pune-os com rigor. Mas se Adão e Eva foram punidos pelo que fizeram, isto pressupõe que eles sabiam que tinham feito algo ruim, tanto é que na seqüência buscam justificar o ato. O homem afirma que a mulher deu-lhe de comer o fruto e a mulher por sua vez, afirma ter sido enganada pela serpente. Não punimos alguém que não esteja ciente de que fez algo errado. Assim, tanto Adão como Eva tinham um conhecimento prévio do que era certo ou errado, e isso antes mesmo de terem comido do fruto proibido. Bem, poderíamos no mínimo dizer que basicamente eles sabiam de antemão que era “certo” obedecer a D-us e “errado” desobedecê-Lo. Mas agora nos deparamos com outro dilema, pois se Adão e Eva já entendiam a distinção entre o certo e o errado, o bem e o mal, então de certa forma eles já possuíam aquilo que a tal árvore poderia dar-lhes! E isso então poderia significar que a árvore era algo inútil, que não passava de uma farsa. Temos aqui um sério problema. Não é algo como se perguntar por que aqui ou ali a Torá incluiu uma palavra extra num verso ou por que o comentarista Rashi citou um Midrash após o outro na interpretação de uma passagem. Estas são perguntas interessantes mas se você não tiver respostas ainda assim poderá dormir tranqüilo à noite. Todavia, a pergunta que nos acabamos de fazer, ou seja, “Será que Adão e Eva já possuíam o conhecimento que a árvore poderia transmitir-lhes?” - é fundamental. É básica. É o tipo de pergunta que se você não encontrar resposta pode até fazer com que perca o sono, pois enquanto você estiver “no escuro” e com falta de respostas, a história de Adão e Eva não fará para você sentido algum. Então como será que poderemos lidar com este problema? Eu gostaria agora de delinear um esquema de nova abordagem que acredito possa vir a ser de utilidade e talvez represente uma forma de solução para nosso pequeno grande dilema.

UM MUNDO ALÉM DO BEM E DO MAL 7

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Talvez tenhamos sido vítimas de falsas premissas. Nós presumimos que conhecemos que tipo de conhecimento a árvore deu a Adão e Eva: um conhecimento do 'bem' e do 'mal', do 'certo' e do 'errado'. Mas numa segunda reflexão poderemos notar que só pelo fato da árvore ser chamada de “árvore do conhecimento do bem e do mal” isso não signiifca absolutamente que Adão e Eva não tinham nenhum tipo de conhecimento ético ou moral e que não sabiam distingüir o certo do errado antes mesmo de terem experimentado o fruto probido por D-us. Significa simplesmente que eles não chamavam isso de “bem” ou “mal”, “certo” ou “errado”; eles chamavam isso por uma outra nomenclatura. Dois fatos bíblicos aludem a esse fato que expomos. O primeiro: o homem (ser humano) foi criado à imagem e semelhança de D-us – e isto antes mesmo de ter experimentado do fruto, naturalmente. A “imagem” a que a Torá faz referência é obviamente a imagem moral, uma vez que de acordo com um dos treze princípios do judaísmo, D-us não tem corpo ou forma. Maimônides (Rabi Moshe Ben Maimon, Espanha 1135-1204) em sua obra Moreh Hanevukhim (“O Guia dos Perplexos”) distingüe dois conceitos: tselem (forma) e demut (semelhança), de toar (aparência) e tavnit (configuração). Toar e tavnit dizem respeito à forma material, enquanto tselem e demut à forma espiritual. A Torá ao relatar a criação do homem faz uso dos termos tselem e demut (Gên. 1:26), definindo a imagem espiritual do Criador em seu caráter afirmando assim um dos princípios básicos do judaísmo: Não podemos elevar a D-us através da matéria, mas sim, através do espírito (vide Is 44:13), daí a rejeição formal do judaísmo pela idolatria, pois o ídolo é apenas “aparência material” ou uma “configuração da matéria”. Tendo sido criado dessa forma, com a imago dei (imagem divina) impressa em seu ser, é mais do que óbvio esperar que o homem já tivesse ciência moral e ética antes mesmo de ter comido da árvore do conhecimento do bem e do mal. O segundo fato diz respeito à própria consciência do homem. Ele entendeu muito bem a ordem divina de manter-se longe da árvore e sabia assim que obedecer era o 'certo' e 'desobedecer' era errado. Entendeu também que a penalidade para a transgressão seria a 'morte'. Assim, entendia a relação crime x castigo, em suma, mesmo no mundo antes da queda ele tinha consciência moral. A abordagem que estamos sugerindo não é de minha autoria. É na verdade a abordagem usada por Maimônides em seu Guia dos Perplexos. O Rambam1 considera a mesma pergunta que nós estamos nos fazendo agora: Por que D-us negaria ao homem o conhecimento do 'bem' e do 'mal'? E a resposta que ele nos dá é essa: A árvore não nos deu um entendimento do que era certo e errado pelo fato de não termos isso antes; a bem da verdade, o comer do fruto da árvore transformou este entendimento primitivo de uma coisa para outra. Transformou isso em algo que passou a ser chamado de 8

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“conhecimento do bem e do mal”. Se isto te parece um tanto obscuro, tente pensar nisto desta forma: Hoje em dia quando fazemos algo certo pensamos nisso como algo “bom”. Se por outro lado fazemos algo errado, pensamos nisso como “mau”. Mas o Rambam contende, esses não são os termos mais naturais que poderíamos possivelmente usar. Esses termos passaram a ser relevantes em nosso inconsciente coletivo tornando-se parte de nosso vocabulário somente após termos experimentado do fruto proibido. No mundo do Éden, naquele mundo anterior à árvore do conhecimento do bem e do mal, as palavras “bem” e “mal” pareceriam estranhas e não apropriadas. Sim, nós até poderíamos estar cientes do certo e do errado, mas certamente não teríamos chamado isto de “bem” e “mal”, Nós teríamos pensado nisso de forma diferente. Nós teríamos chamado isso por um nome diferente. Mas, de que forma então teríamos chamado o “bem” e o “mal” naquela época? Como seria pensar em conceitos de “bem” e “mal” no mundo edênico, no mundo antes da árvore do conhecimento do bem e do mal? Essa é na verdade uma intrigante pergunta. Para sermos honestos, estamos indo muito além da capacidade humana normal, para simplesmente formular a pergunta; fazer tal pergunta é inquirir, investigar um mundo que não mais conhecemos; um mundo no qual o “certo” e o “errado”, o “bem” e o “mal” pareciam vastamente diferentes dos nossos conceitos atuais. Mas é exatamente para isso que estamos aqui. A Torá sugere que esse era o mundo ideal, o mundo genuíno e é para aquele mundo perdido que nós lutamos para retornar. Revelar a natureza do bem e do mal no mundo autêntico do Éden será uma de nossas tarefas mais importantes nos capítulos a seguir. Mas antes de darmos início à essa aventura nós precisamos nos munir de mais dados. Por enquanto devemos voltar ao texto de nosso relato e nos perguntar: Quais são os outros problemas que a história de Adão e Eva nos apresenta? Releia mais uma vez a narrativa do Éden e tente encontrar os outros problemas que temos ali. Anote tudo e até o próximo capítulo.

Referências: 1.Rambam = acrônimo de Rabi Moshe Ben Maimon.

CAPÍTULO II 9

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O conto das duas árvores

No capítulo anterior nos concentramos basicamente no tema da misteriosa “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Mas sabemos que havia no jardim uma outra árvore, igualmente misteriosa, chamada de “árvore da vida”. Diz Gênesis 2:9, “E D-us fez crescer da terra todo tipo de árvore agradável à vista e boa de se comer, [incluindo] a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal” Por todo o relato podemos perceber que a árvore da vida permanece sempre em segundo plano. Ela é criada e logo em seguida sai de cena, desaparecendo da discussão. Que papel essa árvore misteriosa desempenha na história, e como devemos entender o seu sentido? Embora a árvore da vida permaneça fora de vista, ainda assim não permanece ausente no desfecho de nossa história, pois após terem Adão e Eva comido do fruto proibido, ouvimos falar da árvore da vida mais uma vez: “E D-us disse: Eis que o homem tornou-se como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora deve-se evitar que ele estenda a mão e tome do fruto da árvore da vida e coma e viva para sempre” (Gênesis 3:22). Temos aqui a razão de D-us ter exilado Adão e Eva do Éden. Eles são expulsos dali para que se assegure que jamais voltariam a comer da árvore da vida. Mas há algo extremamente estranho nisso tudo. Pois ao lermos a história percebemos que Adão não recebeu ordem alguma para ficar longe da árvore da vida. Se D-us achasse uma má idéia que o homem dela comesse, por que Ele não os instruiu para que a evitassem, como fez com a outra árvore, a do conhecimento do bem e do mal? Agora para deixar as coisas um pouquinho piores, vamos relembrar onde exatamente localizava-se a árvore da vida: 10

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“...a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gênesis 2:9) Vamos somar isso tudo. A árvore da vida estava no meio do jardim, e Adão e Eva não receberam ordem alguma para que a evitassem. Pela percepção lógica, D-us até desejava que o homem comesse daquela árvore eventualmente. Na verdade, nem sabemos se eles tinham consciencia de que se tratava de uma árvore especial. O que então aconteceria eventualmente? Ora, era só questão de tempo para que alguém comesse de seu fruto. Perceba então que o enredo de nossa história fica ainda mais complexo. Evidentemente D-us não se importava se Adão e Eva comessem da árvore da vida. Ele aparentemente até desejava que eles comessem daquele fruto; mas isso foi antes deles terem comido da outra árvore, a do conhecimento do bem e do mal. Após terem partilhado do fruto proibido, de alguma forma tudo muda: agora a árvore da vida ficaria for a do seu alcance. Todos os esforços para que se evite que a humanidade jamais outra vez tome do seu fruto e coma devem ser feitos. Por que? O que será que há por trás desta curiosa relação entre as duas árvores? Por que o fruto da árvore da vida pode ser comido antes de se experimentar do fruto do conhecimento do bem e do mal mas não depois disso? Este é um ponto que certamente revisitaremos mais tarde. Mas ainda não acabamos de explorar os mistérios das relações entre as duas árvores. Para dizer a verdade, estamos só no começo. AS ÁRVORES SE CONTRADIZEM? Tente esta pergunta: Como eram Adão e Eva antes de comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? Eram mortais ou imortais? Vejamos o que cada um tem a dizer sobre isto. Comecemos pela árvore do conhecimento. Nós sabemos que o homem foi advertido a não comer daquele fruto, por que no dia em que dele comesse, certamente morreria (Gênesis 2:17). Como afirmou Nachmânides, isso não significa que o fruto os mataria imediatamente tendo em vista que sabemos que os dois não morreram “no dia” em que comeram daquela referida árvore. Bem, você talvez possa pensar: Talvez o texto queira dizer algo como: “No dia em que vocês comerem desse fruto, vocês se tornarão mortais”; esta, poderia você pensar, é a 'mensagem' por trás dessas palavras de advertência da parte de D-us. Então a árvore do conhecimento do bem e do mal parece responder a pergunta que fizemos anteriormente. Ela prova que Adão e Eva eram 11

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originalmente imortais, certo? Errado! Porque agora já é hora de vermos o que a árvore da vida tem a dizer sobre esta questão. A Torá diz que D-us baniu Adão e Eva do jardim para que eles não mais estendessem a mão e comessem do fruto da árvore da vida, vivendo assim “para sempre”. Bem, o verso parece muito claro à respeito de uma coisa: o fruto da árvore da vida confere imortalidade – se você comê-lo, jamais morrerá. Ora, se a árvore da vida tinha o poder de tornar o homem imortal isso significaia que ele antes era mortal, ou que mortal fora criado, pois caso contrário, que lógica haveria em se plantar uma “árvore da vida” cujos frutos transmitiam a condição de imortalidade se o homem era desde sua criação um ser imortal? Mas, espere! Há algo de estranho aí, pois a árvore do conhecimento do bem e do mal parece nos dizer que o homem teria vivido originalmente para sempre caso não tivesse dela comido. Todavia, a outra, a árvore da vida parece sugerir que o homem era mortal pois deveria comer dela para viver para sempre. À primeira vista, as árvores parecem ser contraditórias. Mas isso a primeira vista. Uma surpreendente verdade vai nos demonstrar qual era a natureza do homem antes dele ter experimentado do fruto proibido. Pare de ler por enquanto e pense se você pode encontrar a solução. O JARDIM DO ÉDEN E O 'PRINCÍPIO DA INCERTEZA' DE HEISENBERG Eis aqui nossa sugestão para resolver este dilema: As duas árvores estão corretas e não se contradizem. O ser humano antes de comer das árvores não era nem mortal, nem imortal. Se comessem do futo da árvore da vida, tornariam-se imortais. Se por outro lado comessem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, eles se tornariam em seres que experimentariam a morte. Enquanto não provaram de nenhum desses frutos, o ser humano estava na chamada “zona crepuscular”, um estado de suspensão, uma condição precária de realidade, entre a mortalidade e a imortalidade. Sua natureza era indeterminada. Se um estado assim de indeterminação te parece estranho, não se preocupe. Vá à qualquer biblioteca e apanhe algum livro sobre Física Quântica. De acordo com este ramo da ciência, é uma característica padrão da realidade que as coisas sejam indeterminadas. Em dado momento, um elétron pode estar aqui ou ali afirma Heisenberg, mas neste exato momento, ele não se encontra nem aqui e nem ali. Sua posição ou determinação só torna-se real quando um observador entra em cena e fixa-se nele. Bem, se os elétrons podem swer indeterminados, as pessoas tabém. 12

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Ora, valendo-se deste princípio, o Éden era um lugar onde o homem foi precariamente colocado num estado indeterminado, entre a vida e a morte, dependendo de sua escolha. Se prestarmos bem atenção, o Éden e este estado de indeterminação do ser humano lembra um marcante episódio na história judaica. Isto nos faz lembrar de um tempo em que o povo judeu não encontrava-se nem aqui nem ali, quando o Eterno D-us ofereceu-lhes uma escolha similar entre a 'vida' e a 'morte': “Vêde que hoje tenho proposto perante vós uma escolha entre a vida e o bem [por um lado] e a morte e o mal [por outro]... Escolhei pois a vida...” (Deuteronômio 30:14-19) Quando Moisés pronunciou estas palavras, o povo judeu encontravase no limiar de um deserto, não possuindo ainda nem a 'vida' e nem a 'morte'. Uma vez mais, eles deveriam fazer uma escolha. Neste caso, a 'vida' era para eles a aceitação da Torá e seus princípios, enquanto a 'morte' significava a rejeição dela. É de fato surpreendente que a escolha de abraçar a Torá e apegar-se aos seus princípios seja retratada da exata forma como foi no caso da árvore da vida. Alguns poderiam afirmar que trata-se de mera coincidência ou uma meticulosa escolha de metáforas – pode, mas também pode ser que o episódio queira nos dizer algo mais profundo, e veremos que isto é fato! QUERUBINS COM A ESPADA FLAMEJANTE Considere isso por um momento: Os anjos que D-us colocou na entrada do jardim para guardar o caminho [de volta] para a árvore da vida (Gênesis 3:24) pertencem à uma ordem angélica muito particular. Eles são querubins. (Para aqueles que apreciam arte renascentista, eles são aqueles tipos de anjos que Rubens gostava de retratar em seus quadros, apesar de eu particularmente não saber por que ele pensava que sabia qual era a sua aprência!) Assim, percebemos que querubins são anjos relativamente raros nas Escrituras. Por todos os cinco livros de Moisés encontramos apenas duas referências a eles; Além da referência no Gênesis, guardando o jardim e o caminho para a árvore da vida, eles são mencionados só mais uma vez. Postos sobre a kapporet (propiciatório¹)da aron hakodesh (arca sagrada), dois querubins de ouro: “E farás dois querubins de ouro; batidos e feitos de uma só peça os farás das duas extremidades do tampo...e os querubins estenderão suas asas cobrindo com elas o tampo...” (Êxodo 25:18-20) Vamos agora um passo adiante. Que 'tesouro' guardavam estes dois querubins sobre a arca sagrada da aliança? Eles guardavam as tábuas das Dez Sentenças (chamadas também de 13

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“Dez Mandamentos”), em resumo, guardavam a Lei Divina, a Torá. Para aqueles que freqüentam a sinagoga no shabbat (sábado) o que vou dizer agora é bastante familiar. Uma passagem de Provérbios é recitada enquanto o leitor ergue o rôlo da Torá para que todos possam contemplá-la: “Etz chayim hi, lamachazikim bah” “Ela é árvore da vida para os que a ela se apegam” (Provérbios 3:18) Fascinante, não é mesmo? A outra passagem onde encontramos os querubins eles estão guardando o caminho para a árvore da vida, e lá em Êxodo, encontramos mais uma (e única) vez os querubins guardando desta vez a Torá, também chamada de “árvore da vida” para aqueles que se apegam à ela. Só que desta vez, os querubins não estão nos afastando da “árvore da vida”, muito pelo contrário: eles estão nos guiando até ela, protegendo ao mesmo tempo nós e a Sagrada Torá debaixo de suas asas. Bem, e agora? Que faremos nós com todas estas informações? Por que será que a escolha no Éden entre a vida e a morte é mais uma vez repetida como a escolha entre aceitar ou rejeitar a Lei Divina (a Torá)? Por que os querubins que antes vigiavam o caminho de volta à árvore da vida desta vez parecem nos incentivar a que possamos ter acesso àquela segunda “árvore da vida” que encontrava-se dentro da arca da aliança, à saber, a Sagrada Torá? O que queremos dizer exatamente quando chamamos a Torá de “árvore da vida”? Quais são as semelhanças entre a árvore do jardim e esta segunda? Nós certamente temos um longo caminho pela frente, mas já demos um grande passo chegando até aqui, a fim de desvendarmos os mistérios que envolvem aquelas árvores e o relato do Éden. No próximo capítulo estaremos estabelecendo outras peças deste grande quebra-cabeça da saga de Adão e Eva no Éden perdido. E quando finalmente tivermos em mãos todas as peças, começaremos a montar este quadro a fim de desvendarmos a figura que ele pretende nos mostrar. Até lá.
Referências: 1. kapporet (propiciatório) = tampa que cobria a arca da aliança.

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CAPÍTULO III

O lado escuro do Paraíso

A Bíblia está repleta de personagens que exemplificam o bem e o mal, e embora possamos simpatizar com os personagens que se aliam ao “bem”, nem sempre eles são os protagonistas da história. Considere por exemplo a narrativa sobre Cain e Abel. A história não é na verdade sobre Abel. Nós não sabemos quase nada sobre ele. Ele é assassinado pelo irmão e desaparece naturalmente da narrativa. Quer gostemos ou não da idéia, a história é sobre Cain: o que o teria levado a matar seu irmão, como era o seu universo interior, o que D-us quis dizer-lhe logo após ter cometido o seu crime e se ele alcançou perdão. Quem são os personagens principais do nosso relato? Nosso primeiro impulso é apontar Adão ou Eva. Mas talvez a história é sobre alguém mais, também: a serpente. Naturalmente ela não é um personagem muito popular, não é certamente um herói – mas talvez a história seja tanto sobre ela quanto e sobre nós. Vamos tentar entender como ela se incorpora à nossa história e que papel ela representa. O QUE NÓS SABEMOS SOBRE A SERPENTE? Quando fizemos esta perunta pela primeira vez em nossas palestras, recebemos várias respostas, mas e maioria delas afirmava que a serpente era o “diabo”, um anjo caído, um poderoso inimigo de D-us que busca perverter Seus desígnios à todo instante. Sendo judeu, eu confesso que tenho sérias dificuldades de enteder e aceitar a noção de uma fonte independente de mal no universo que sirva como “inimigo” de D-us, o Todo Poderoso. O pensamento judaico tende a ver Satan de uma outra forma, não como opositor dos planos divinos, mas como um tipo de “promotor celeste” que é parte importante nos planos de D-us. Assim como nenhuma côrte terrestre é completa sem um promotor, assim também a “côrte celestial”. Sendo assim para o judaísmo, 15

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Satan é o promotor celeste que insiste na aplicação da divina justiça com todo o seu rigor. Será então que a serpente era uma manifestação de Satan? Vejamos. Gênesis 3:1 poderá nos ajudar: “Ora a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que D-us tinha feito”. A questão que podemos levantar aqui é: Será que a “serpente” era astuta por natureza ou porque Satan estaria “incorporado” nela? Sabemos que para perguntas óbvias não são necessárias respostas. A serpente era astuta porque D-us assim a tinha feito e não porque algum “ser sinistro e maligno” estava no “controle” dela. Aliás, acreditar que um suposto “diabo” estaria controlando a serpente não passa de mera conjectura, uma especulação que não pode ser comprovada e pior ainda: trata-se de uma adição à Palavra Divina. Entretanto, o que sabemos sobre a serpente é um tanto estranho. Que serpente é essa que “fala” e que parece “andar” (visto que “rastejaria” mais tarde como punição divina)? Que serpente é essa que passa a comer pó após o episódio da árvore? (ora, isto é uma nítida evidência de que deveria comer alguma outra coisa antes!) Enfim, que serpente é essa que é o mais astuto dentre todos os animais que D-us tinha feito? É exatamente aqui que o texto deixa de ser simples, ingênuo e direto para tomar uma nova e surpreendente direção. Não estamos mais falando de coisas tangíveis, físicas. Tudo toma uma outra direção: o que temos aqui é um “mapa” da consciência humana. Adão não é mais um homem. Eva não é simplesmente sua muher. A serpente se reveste de outro sentido. As árvores e até o próprio jardim assumem papéis diferentes. O que muitos deixam de perceber é que temos dois relatos no Gênesis sobre a criação do homem. O primeiro, mais curto, reduz-se basicamente a três versos (1:26-28). O segundo relato estende-se de Gên 2:7-25. Isto é notável, pois normalmente não se dá muita importância para o primeiro relato, aliás ele às vezes passa por despercebido da grande maioria dos leitores. A ênfase de quase todos os leitores e estudiosos dos temas bíblicos concentra-se geralmente no segundo relato. Entretanto, ao contrário do que muitos poderiam pensar e também ao contrário do que geralmente se expõe por aí, os dois relatos são distintos, e contém diferenças notáveis. Há sete diferenças cruciais entre os dois relatos:

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No primeiro relato, o ser humano (macho e fêmea) são ambos criados no mesmo momento (1:27). Já no segundo, o homem (2:7) surge ANTES da mulher (2:22). No segundo relato, eles não são mais chamados de “macho” e “fêmea”, mas sim, de “homem” e “mulher” (2:23). No primeiro relato, não vemos D-us “soprando em suas narinas” o “fôlego vital”, só no segundo (2:7). No primeiro relato, D-us não impõe nenhuma restrição alimentar sobre o que a terra produz (1:29); no segundo, há uma restrição clara quanto à chamada árvore do conhecimento do bem e do mal”: Dessa árvore eles NÃO poderiam comer (2:16-17). No primeiro relato, a ordem dada é apenas quanto à reprodução da espécie (1:29). No segundo, entretanto, há uma clara alusão ao sentimento e ao envolvimento emocional, pois o homem deverá deixar seus pais e unir-se à sua esposa, tornando-se com ela “uma só carne” (2:24). Curiosamente não encontramos no segundo relato uma ordem quanto à reprodução da espécie, a qual já está implícita em 2:24 quando da união plena entre o marido e sua esposa. No primeiro relato (1:27) o homem é “criado”; no segundo, ele é “formado” (2:7). A mulher por sua vez, no segundo relato é “construída” ou “edificada” de acordo com o texto hebraico (2:22) No primeiro relato, o ser humano (macho e fêmea) recebem uma bênção para sua multiplicação e o domínio sobre os outros seres vivos (1:28) e o verso 29 demonstra que o ser humano naquela época não era produtor, mas sim, coletor – pois apenas coletava da terra o alimento já existente. Não existia agricultura. Já no segundo relato, uma das funções do homem era cultivar o jardim (2:15).

O leitor atento descobrirá que ocorre uma nítida evolução de um relato para o outro: Antes chamado simplesmente de macho e fêmea, o ser humano passa a ser chamado de homem e mulher; O homem do primeiro relato não recebe o sôpro divino, ao contrário do segundo; O homem do primeiro relato parece apenas comprometido com a preservação da espécie, mas o segundo percebe a necessidade de envolvimento emocional nas relações homem e mulher e conhece o conceito de maternidade e paternidade; No primeiro relato, o ser humano é criado – algo denso. No segundo, ele é formado – uma idéia mais sutil, mais evoluída. Mas, o que isso tudo parece querer dizer? Mais uma vez, a Bíblia já antecipa o que a ciência vem descobrir 17

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séculos, milênios depois. As Escrituras judaicas, conhecidas como Antigo Testamento especificamente no livro de Gênesis demonstram a “evolução” do ser humano, em linguagem naturalmente simples. No primeiro relato, como simplesmente “macho” e “fêmea” o homem não conhecia as relações familiares e tão pouco a produção de alimentos, uma vez que andava aos bandos apenas coletando o que a natureza pródiga lhe oferecia. Não existia a idéia de família, mas a espécie preocupava-se apenas com a preservação de sua espécie. O “sôpro divino” que lhe faltava era simplesmente a evolução do intelecto, a conscência de si mesmo e o marco evolutivo da espécie humana. Mas, e o segundo relato? O que o faz primeiro? parecer tão diferente do

Em primeiro lugar, o segundo relato é seguramente uma parábola, uma alegoria que pretende nos transmitir a verdade da evolução humana e finalmente a prova ou o teste oferecido aos nossos “ancestrais edênicos”. De acordo com a exegese judaica, nós poderíamos interpretar a passagem na forma literal, mas deixaríamos de perceber várias nuances de significado, ocultas no texto superficial do relato do Éden. Há várias “camadas” de sentido em cada passagem das Escrituras e o relato que estamos estudando não é certamente uma exceção. Explicando: Adão, do hebraico Adam não é exatamente um nome próprio. Seu significado é “humanidade”; Eva, do hebraico Chava não é também um nome próprio: significa “vida”. Assim, quando D-us “construiu” Eva, Ele trouxe “vida” (Chava) para a “humanidade” (Adam). Se isto parece confuso, talvez fique ainda mais se questionarmos: Mas Adão não tinha vida antes de Eva? Naturalmente que sim! Logo, a “vida” que Eva trouxe para Adão deve ter um outro sentido. No texto aberto¹ da Torá, Adão busca encontrar uma adjutora, alguém que lhe sirva de parceira. D-us lhe apresenta assim os animais que criara e ele dá nomes a todos mas, segundo Gênesis 2:20, “para o homem não se achou ajudadora idônea”. O texto aberto sugere que Adão procurou entre os animais uma parceira, mas sua busca foi infrutífera e sem sucesso: era evidente que tal busca seria inócua e destituída de sentido; D-us naturalmente sabia disso, e desta forma, nosso relato deve estar querendo dizer algo mais. Você deve lembrar que ao criar Adão, D-us soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida (Gênesis 2:7). Será que D-us fez o mesmo ao criar os outros animais? A resposta é naturalmente NÃO. Isso por si só já coloca o homem, a humanidade (Adam) num patamar mais elevado do que seus pares do reino animal. É de se estranhar entretanto que D-us tenha criado todos os outros seres como casais, macho e fêmea --- e só com o “homem” isso tenha sido diferente! Bem, talvez tenha sido diferente aqui neste segundo relato sobre a 18

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criação do “homem”, mas certamente não foi no primeiro (Gênesis 1:26-28). Nessa passagem vemos D-us criando o ser humano, macho e fêmea. Aliás é importante observar que no primeiro relato o homem é “criado” (o verbo hebraico bara' implica criação à partir do nada). No segundo, o homem é “formado”, “plasmado” ou ainda, “moldado”; o verbo usado aqui da raiz yatsar implica em transformação de algo já existente. E o que aprendemos disso? No primeiro relato, o ser humano primitivo é “criado” na forma densa, na crueza da matéria, no sentido exato da palavra. No segundo, ele é “formado”, o que denota sutileza, avanço psíquico e espiritual, evolução intelectual. UMA “TENTAÇÃO” CURIOSA Voltemos agora ao tema da serpente, a fim de que possamos revelar sua verdadeira identidade. Só para lembrar após esse longo parêntesis: Tudo o que sabemos sobre a serpente é deveras inimaginável caso estivéssemos falando de um animal de verdade: Ela fala, anda, e é astuta (inteligente). Em certo sentido, a serpente assemelha-se muito a um ser humano. Não se surpreenda, é isto mesmo – a serpente lembra o que nós somos. Bem, vamos falar um pouco sobre o que a serpente diz em sua conversa com Eva. Lembre-se: a Torá descreve a serpente como um ser inteligente. Pense então por um momento: Faça de conta que você é a serpente e que deseja fazer com que Eva coma um tipo de fruto que ela não deveria comer. Como você agiria nesse caso? Para o que apelaria? Bem, talvez você colocasse ênfase na beleza da fruta, fazendo com que Eva percebesse como ela era deliciosa. Talvez você inventasse alguma estória acerca dos supostos poderes 'mágicos' daquele fruto; talvez como a rainha má do conto da Branca de Neve você aparecesse diante de Eva com uma bela maçã brilhante e vermelha... Mas, vejamos qual foi a estratégia da serpente. Ela se aproxima de Eva e diz no original hebraico: “Af ki amar elokim lo tochlu mikol etz hagan”. A maioria das traduções verte esta frase assim: “É assim que D-us disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gênesis 3:1) Mas, essa não é a tradução mais precisa do hebraico. Uma tradução literal, mais precisa, ficaria assim: “Mesmo que D-us tenha dito, não comereis de alguma árvore do jardim....” 19

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Não é muito de se admirar que os tradutores tenham tomado certa liberdade com o texto hebraico original, uma vez que a frase soa um tanto diferente do que esperaríamos de um bom “estrategista” como pensamos que a serpente fosse. Em primeiro lugar, a frase no original não parece ter um final, uma conclusão. De algum modo, parece que a serpente foi interrompida antes de terminar sua colocação; sua frase se perde de repente no meio do nada. Não podemos chegar à nenhuma conclusão se não tentarmos deduzir o que ela queria dizer à partir das informações de que dispomos. Sabemos que a intenção da serpente era fazer com que Eva comesse do fruto daquela árvore proibida, então se talvez usarmos de nosso poder de dedução, poderíamos afirmar que a serpente queria dizer: “Mesmo que D-us tenha dito, não comereis de alguma árvore do jardim... e daí? Vá em frente e coma dessa árvore”. Mas, espere um segundo. O melhor argumento que a serpente pode arranjar foi esse? Isso não parece lá muito digno da “astúcia” com que a Torá a descreve. Além do mais, para mim soaria bem mais astuto se a serpente não lembrasse Eva da ordem divina de não comer daquela árvore. Por que a serpente insinuaria que Eva deliberadamente desrespeitasse a ordem de seu Criador? SER COMO D-US Basta lermos alguns versos a mais e o argumento da serpente toma um rumo diferente. Em Gênesis 3:5 a serpente sugere que ela sabe a razão de D-us ter proibido a eles o acesso ao fruto do conhecimento do bem e do mal: “Por que D-us sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como D-us conhecedores do bem e do mal” Pondere por um momento nas palavras da serpente. Será que ela está mentindo ou dizendo a verdade? Eu não sei quanto a vocês, mas para mim, à primeira vista me parece que ela está mentindo descaradamente. Que tipo de bobagem é essa que a serpente esta dizendo ao sugerir que D-us guarda com ciúmes o fruto do conhecimento do bem e do mal porque ele é a chave para que nos tornemos semelhantes a Ele? Será que D-us é tão “territorial” assim ao ponto de temer que meros humanos, por virtude de ingerir algum tipo de fruto com propriedades “mágicas” se tornassem como Ele e se infiltrassem em seus domínos? Por favor! A serpente deve estar mentindo. Mas não há razão para filosofar. O próprio texto nos revela se a serpente estava mentindo ou dizendo a verdade. O verso que passou agora pela minha mente aparece pouco depois de Adão e Eva terem experimentado do fruto proibido. Refletindo sobre o fracasso do homem, D-us decreta que 20

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agora ele deve ser banido, exilado do Éden. E eis aqui a razão: “D-us disse: Eis que o homem tornou-se como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, deve-se evitar que ele estenda sua mão e tome da árvore da vida, e coma e viva para sempre” (Gênesis 3:22). Pode parecer impossível, mas a serpente estava dizendo a verdade quanto a isto. D-us claramente afirma que de alguma forma, aquele fruto elevou o ser humano, fazendo com que o mesmo se tornasse “semelhante” a Ele, visto que eles se tornaram conhecedores do bem e do mal. Mas, pense: como pode ser isso? Se a árvore de fato tinha poderes para que fôssemos como D-us, por que então Ele decidiu que era melhor que a evitássemos? Parece bastante blasfema a idéia de que D-us estava com medo de competição, principalmente competição com Suas próprias criaturas. Finalmente, como se isso não fosse bastante, leia como o próprio Altíssimo define o que é “ser como D-us”: “O homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal” Peça para que as pessoas definam D-us para você. Você vai provavelmente ouvir dizer que D-us é onisciente, que é todo poderoso, que é um, que é nosso Criador, etc. Mas, será que alguém vai dizer que ser D-us é conhecer o bem e o mal? Mas é exatamente dessa forma que D-us descreve o que é ser D-us. A serpente aquele ser que falava, que andava e que era astuto (como nós) estava certa. O próprio D-us confirma suas palavras. Ser como D-us significa “conhecer o bem e o mal”. Agora compete a nós entender o que tudo isto quer dizer. Pense nisso e até o próximo capítulo.

Referências: 1. Texto aberto = Diz respeito à leitura natural, literal e óbvia das Escrituras, em contraste com o chamado “texto oculto”, uma camada de sentido mais profunda do texto sagrado, interpretada ou deduzida por meio das regras da hermenêutica judaica.

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CAPÍTULO IV

A Verdade Nua

Todo o relato sobre o Éden não passa de vinte e cinco versículos. É aparentemente muito pouco para relatar eventos que mudaram o curso da história humana. A Enciclopédia Britânica teria devotado a eventos de tamanha magnitude dezenas de páginas. Nós poderíamos nos questionar: Como pode a Torá comunicar algo tão profundo num trecho tão curto? Uma das formas mais comuns aparentes no texto bíblico para que se transmita verdades mais profundas é através das “camadas de sentido” que encontram-se “embutidas” no chamado texto aberto. Vinte e cinco versos podem não parecer muita coisa, mas certamente torna-se abundante em sentido se os mesmos estiverem “codificados”. A tradição judaica ensina que a Torá emprega várias técnicas para “codificar” o texto a fim de transmitir outros “níveis” da mesma verdade. Uma dessas técnicas é a da “palavra- chave”. Às vezes, ao ler o texto bíblico da Torá você pode perceber que a narrativa parece sair do seu contexto para usar uma certa palavra, frase ou idéia de forma insistente, repetitiva até. Quando isto acontece, é uma indicação freqüente de que aquela palavra, frase ou idéia é a chave para a “decodificação” do texto, desdobrando-o em diversas “camadas” de interpretação e sentido, levando o leitor a um entendimento mais rico e profundo do texto que está estudando. Acontece que nossa história do Éden contém uma palavra que se repete algumas vezes. Se você tomar algum tempo para “escanear” a história, é bem provável que você a ache por si mesmo. Bem, quer queira você tenha achado ou não, lá vai: nossa palavra é “nu” ou, a idéia de “nudez”.

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A ESTRANHA PROEMINÊNCIA DA NUDEZ A nudez aparece por toda nossa história. Aparece no início, pouco antes da serpente falar com Eva: “E eis que estavam nus...e não se envergonhavam”. Aparece de novo no final quando D-us faz roupas para Adão e Eva para esconder sua nudez; aparece ainda no meio da narrativa, no exato ponto onde atingimos o clímax da mesma: “E abriram-se os olhos de ambos e viram que estavam nus”. Estranho, não é mesmo? Se alguém te pedisse para imaginar como o ato de comer um fruto que concedesse conhecimento do bem e do mal afetaria a humanidade, o que você teria dito? Talvez Adão e Eva tenham ficado imediatamente conscietes de um mundo completamente novo de dilemas que se desdobrava perante seus olhos: por exemplo, o direito de viver vs. o direito de escolher morrer; ou então, dez pessoas num barco que vai afundar a menos que alguém seja lançado fora; o que você faria? Todos os tipos de dilemas e questões éticas e morais devem ter passado pela cabeça deles. Suas cabeças deveriam estar girando com tantas possibilidades... Mas, espere aí. Nada disso! Nenhuma das alternativas acima. Nada disso parece ter preocupado Adão e Eva. Após terem comido do fruto proibido, a reação imediata foi perceber que estavam nus. Mas, que coisa esquisita! Por que conhecer o bem e o mal afeta nossa percepção de nudez? E há “nudez” também tanto no início quanto no final de nossa história, não esqueça. Mas, vamos continuar a leitura do texto. Adão come da árvore e imediatamente se esconde de D-us. Agora, vamos nos perguntar, “por que ele está se escondendo?” Pense por um instante. A quem foi dada a ordem de não comer daquele fruto: ao homem apenas, somente para a mulher ou a ambos? Quem de acordo com o texto se escondeu após ter comido o fruto: só o homem, a mulher apenas ou ambos? Não se apresse. Leia bem o texto antes de aventurar uma resposta. Pronto? Bem, lá vai a resposta: a ordem for a dada apenas a Adão. Eva nem sequer havia sido “construída” ainda ( Gênesis 2:15-17). E após comer do fruto, Adão e Eva se escondem de D-us (Gênesis 3:8), mas curiosamente o texto hebraico usa o verbo hitchabe' [escondeu-se] no singular, em vez de hitchab'u [esconderam-se], o que seria o normal em se tratando de duas pessoas. Mas agora as coisas parecem estar ainda mais complicadas, ou não? Você deve estar lembrado de que dissemos que o primeiro relato sobre a criação do homem é evidentemente literal, mas o segundo é uma alegoria, uma parábola que explica temas complexos sobre nossas origens como seres plenamente conscientes.

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Retomando nosso tema, vamos nos perguntar agora sobre a razão de Adão para ter se escondido. Leia a passagem e tente entender o motivo pelo qual ele achou melhor esconder-se de D-us quando ouviu Sua voz no jardim. Curiosamente, Adão não diz que estava envergonhado pelo que fez, isto é, pela desobediência e pelo fato de ter comido do fruto proibido. A razão que ele dá para se esconder é outra, bem diferente da que esperaríamos: “Ouvi sua voz no jardim e temi porque estava nu e me escondi” (Gênesis 3:10) De alguma forma, a consciência de que estava nu era tão profunda em Adão, tão perturbadora, que até mesmo obscureceu seu sentimento de vergonha pelo fato de ter desobedecido a ordem de seu Criador. Ao ser chamado por D-us no Éden, Adão não ofereceu como justificativa para se esconder o fato de ter desobedecido ao Eterno; antes, afirmou que sua principal preocupação era o fato de estar nu. Por que a nudez é tão importante nesta história? Por que será que a percepção de nudez da humanidade é a conseqüência natural de comer do fruto da árvore do conhecimento? E por que esta percepção de nudez é tão perturbadora ao ponto de ser a única justificativa oferecida pelo homem ao fato de ter se escondido da face do seu Criador? Para responder isto, nós deveremos entender que surpreendentemente, nós ainda não vimos o desfecho da condição de nudez nesse relato. A “nudez” aparece mais uma vez em nossa narrativa, só que desta vez, ela vem “oculta” para os leitores da Bíblia em seus próprios idiomas. Assim, há alguém mais no jardim que também está “nu”. Você é capaz de determinar quem é? UMA NUDEZ OCULTA Se você teve dificuldades para identificar quem mais estava nu no jardim, acredite: Isto só ocorreu porque você deve estar lendo a Bíblia em sua própria língua mãe (no caso do Brasil, o português). Na maioria das vezes, isto acontece porque as versões de que dispomos não conseguem transmitir a riqueza de significados de uma palavra em hebraico. Veja, por exemplo, as seguintes passagens: E ambos estavam nus, o homem e sua mulher, e não se evergonhavam...E a serpente era o mais astuto dentre todos os animais do campo... (Gênesis 2:25 e 3:1) Muito bem. Ao ler estes versos, você percebe claramente que tanto Adão quanto Eva são descritos como que estando sem roupas. Mas, no verso seguinte, há alguém que também é descrito da mesma forma. Não percebeu?

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Bem, uma pequena “aula” de hebraico bíblico. ‫ויהיו שניהם ערומים האדם ואשתו ולא יתבששו‬ Va-yihiu shneihem ARUMim, ha-adam ve-ishto, ve-lo yitboshashu. E estavam ambos nus, o homem e sua mulher e não se enveronhavam. ‫והנחש היה ערום מכל חית השדה‬ Ve-ha-nachash hayah ARUM mikol chayat ha-sadeh... E a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo... Note as palavras em destaque. É interessante que um verso siga imediatamente após o outro e tenham ambos uma palavra de uma raiz comum: ARUM. Esta palavra hebraica pode significar tanto “astuto” quanto “nu”. Adão e Eva são chamados de “arumim” (plural de arum), isto é, “nus”. A serpente é chamada de arum, isto é, astuta. Mas, num espectro mais amplo de sentido e significado, a serpente também estaria “nua”, se aceitarmos o sentido da raiz da nossa palavra-chave, arum. Assim, logo após descrever Adão e Eva como estando nus, a Torá não por acaso ou mera coincidência, usa o mesmíssimo termo hebraico para descrever a serpente! Mas, o que será que tudo isso quer dizer? Bem, no sentido óbvio do texto, a Torá nos informa que a serpente era “astuta', enganosa, perspicaz; este é certamente o pshat (sentido evidente) da passagem. Mas, não parece ser coincidência o fato da Torá ter usado esta palavra em particular para descrever as intenções duvidosas da serpente. A Torá parece sair do seu contexto ao tomar esta palavra em particular (arum) e aplicá-la também àquele réptil “astuto”. O que a Torá parece querer nos transmitir com isso tudo? O mistério fica ainda maior quando nos fazemos a seguinte pergunta: Será que os dois sentidos da palavra arum (“nu” e “astuto”) estão relacionados de alguma forma conceitual ou será que são palavras totalmente não relacionadas, sem a menor ligação entre uma e outra? Bem, eu não sei quanto a vocês, mas para mim não me parece muito “astuto” estar “nu”... À primeira vista, eu não consigo perceber ligação entre os sentidos do termo. Mas, espere. Vamos interpor os dois sentidos: nu e astuto; astuto e nu...de alguma forma, os dois sentidos parecem ter alguma coisa em comum, pois numa segunda reflexão eles são opostos um ao outro. Eu explico. 25

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Quando alguém está “nu”, não há como ou do que se esconder. O íntimo do ser está exposto, para que todos vejam. Entretanto, quando se é “astuto”, age-se maliciosa e falsamente; encobrem-se as verdadeiras intenções por trás de uma “fachada”, uma “máscara”. O íntimo do ser está encoberto para que não se exponha e venha a ser visto por todos. Fascinante, não é mesmo? Os dois sentidos da palavra hebraica arum são como imagens em espelho de si mesmos, reflexos opostos de uma mesma realidade. Agora isto faz com que nossa pergunta tome uma outra dimensão: Por que a Torá tomaria a mesma palavra que usa várias vezes para expressar “nudez” e então ao descrever a serpente inverte seu sentido para nos transmitir uma idéia incrivelmente oposta, para descrever a serpente como “astuta”? Será que a Sagrada Torá estaria sugerindo que a serpente era “astuta” mas que de alguma forma ela também estava “nua”? O que isto poderia significar? UM ENGANO “INOCENTE” Se nos atermos ao mero sentido literal do texto poderemos facilmente verificar que a serpente é um ser biologicamente “nu”, pois como réptil, ela não possui uma cobertura de pêlos para cobrí-la como ocorre com os mamíferos. Mas, refletindo com mais profundidade, o que será que a Torá quer dizer quando afirma que a serpente era “astuta” mas que num sentido mais amplo estava ela também “nua”? Se “nu” é realmente o oposto de “astuto”, então isso significaria que a serpente possuia as duas qualidades: ela era ao mesmo tempo simples, ingênua, pura mas também podia agir com astúcia e sagacidade. Vê-la com essas qualidades só dependeria do ponto de vista do leitor. Por um lado, a serpente é astuta porque suas palavras não funcionam para Adão e Eva (eles de fato “morreriam” caso comessem do fruto); mas, por outro lado, ao comer daquela árvore os olhos de ambos se abririam e eles finalmente se tornariam como D-us, conhecedores do bem e do mal – e nesse ponto, a serpente não mentiu e foi honestíssima – qualidade de quem está “nu”, com o ser a descoberto, sem máscaras ou fachadas. Vejamos a que conclusões isto tudo nos levará no próximo capítulo.

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CAPÍTULO V

Os Motivos da Serpente

Até agora nós estivemos mais interessados em focar as questões relacionadas à interpretação da passagem bíblica do Éden e sua ampla simbologia e estávamos deixando de lado talvez o mais importante personagem da nossa história: a serpente. Quem é ela e quais os motivos que a levaram a agir daquela forma? Você já pôde perceber que toda a nossa história não deve ser tomada literalmente, “ao pé-da-letra”. Já discutimos isso no capítulo III, “O Lado Escuro do Paraíso”. O que propomos agora é que nos aprofundemos na simbologia da serpente e dos demais personagens, até que de alguma forma possamos entender cabalmente a que tudo isso se refere. Serpentes não falam, não andam e tão pouco são inteligentes ou tão astutas assim. O texto da Torá deve estar dizendo alguma outra coisa. Por outro lado, a serpente do Éden não é astuta porque algum ser do mal está no controle dela: a Torá deixa claro que ela é astuta porque D-us assim a fez! Logo, não existe um “diabo” por trás da serpente. A Torá deve estar dizendo outra coisa aqui também. Veja ao que a “serpente” apelou, perceba os expedientes empregados por ela na tentativa de seduzir “Eva”. Já analisamos a frase da serpente no capítulo III: A frase usada pela “serpente”: Af ki amar Elokim lo tochlu mikol etz hagan... [Mesmo que D-us tenha dito: não comereis de alguma árvore do jardim...] termina no vazio, sem uma conclusão, mas ela sugere algo para quem a ouviu, ou seja, “Eva”. Trata-se de uma clara indução, uma tentativa de persuadir a mulher para que ela tome e coma do fruto proibido. Como 27

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sabemos disso? O uso da expressão af ki [“mesmo que”, “ainda que”] deixa claro que trata-se de uma forma de indução. Só que a conclusão da frase é deixada para a mulher, que responde à frase sedutora afirmando que D-us deu ordem para que eles não comessem do fruto da árvore que estava no meio do jardim (Gênesis 3:2-3). Note agora que após a sedutora frase da “serpente”, a mulher percebeu que a árvore era “boa para se comer, agradável aos olhos e era uma árvore boa para dar entendimento” (Gênesis 3:6). Vemos vários “níveis de apelação” aqui. Eva foi seduzida pelo apetite, pela cobiça e pela vontade de aventurar-se no desconhecido. Em resumo, ela foi dominada pela mais poderosa força existente em nós: o desejo. O desejo é a nossa força motriz, é aquilo que nos impele em todos os sentidos; é como se fosse o vento para um barco à vela, ou o combutível para a máquina. Não “funcionamos” sem o desejo. A ÁRVORE DOS DESEJOS Eu gostaria de compartilhar com todos vocês uma abordagem desenvolvida pelo Rabino Shimshom Raphael Hirsch, um gigante da exegese bíblica contemporânea. O Rabino Hirsch sugere que a motivação da atitude da “serpente” encontra-se em algo tão simples quanto a ênfase da frase usada por ela. Isto é, dependendo do ponto enfatizado na frase empregada por ela, poderemos perceber com clareza quais os motivos para que a serpente agisse como agiu. Hirsch pergunta: O que levou a serpente a tentar seduzir Eva para que ela comesse daquele fruto? Hirsch sugere que coloquemos a ênfase na expressão tenha dito: “Mesmo que D-us tenha dito: Não comereis de alguma árvore do jardim...” --- Caso leiamos a frase dessa forma, podemos perceber que a serpente não está realmente desafiando a autoridade de D-us em si. O argumento empregado por ela é muito mais estreito: ela está afirmando que as palavras ditas por D-us não deveriam ser o foco da atenção de Eva. O Rabino Hirsch elabora assim o raciocínio da serpente: “D-us pode ter dito para que vocês evitassem a árvore. Mas, a grande questão é: Você quer comer dela? Você a deseja? E digamos que você deseja comer dessa árvore; de onde você acredita que tal desejo vem? Qual a sua origem? Quem colocou esse desejo em você? Não foi o próprio D-us? Não foi Ele por acaso quem te criou?” Em suma, a serpente está de forma indireta apontando para uma terrível contradição: Por um lado, a voz de D-us te instruiu para não comer do fruto mas por outro, uma outra forma da mesma voz, a voz de D-us dentro de você --- seu desejo, sua vontade, insiste para que você tome do fruto e 28

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experimente-o. Assim sendo, qual das duas vozes divinas você irá ouvir? A voz de Dus que vem para você em forma de palavras ou aquela voz divina interior, que pulsa em você e que anima todo o seu ser? Qual das duas vozes divinas é a primária, a mais importante? Da forma como a serpente coloca seu argumento, podemos deduzir que de acordo com o seu ponto de vista, não é exatamente a voz divina em forma de palavras a mais importante, mas sim aquela outra que fala dentro de você, através dos desejos, das paixões, da vontade. A SERPENTE 'NUA' Ao insinuar isso, a serpente não está necessariamente sendo maliciosa ou mesmo falsa. Pelo contrário, ela pode ser vsta como inocente e honesta! Ou seja, ela está totalmente “nua”, totalmente exposta. Mas, como pode ser isso? Nós sempre aprendemos que a serpente era uma espécie de ser dominado por um demônio ou coisa parecida e isso apegou-se muito ao inconsciente coletivo. É certamente por esta razão que é difícil vê-la como inocente ou honesta em sua afirmação. Mas, entenda: Ela estava simplesmente afirmando o que era natural do seu ponto de vista. Eu explico. A Torá usa a figura de uma serpente (um animal) para transmitir uma idéia bastante profunda. Conside isso: De que forma D-us faz com que Sua vontade seja conhecida das serpentes? Como será que a vontade divina se mostra e se faz conhecida para qualquer animal? Naturalmente o Altíssimo não instrui os animais intelectualmente. Ele não fala para eles por meio de palavras. Não há Bíblia ou Torá revelada sobre um monte para serpentes, pássaros, lagartos etc! Mas o fato das serpentes, pássaros e lagartos não possuírem um livro de leis não significa que eles não possuem “lei” alguma. Muito pelo contrário: os animais seguem a Lei Divina de modo muito fiel. A “voz” de D-us pulsa intensamente dentro deles, pois o Ser Divino “fala” aos animais através de seus instintos, paixões e desejos. Toda vez que um urso pesca salmões num dos rios do Alasca, toda vez que as abelhas operárias retiram o néctar das flores – toda vez que um animal age “naturalmente” obedecendo a voz do seu instinto dentro dele, ele está nada mais nada menos do que “ouvindo a voz” do seu Criador que palpita em seu ser. Assim, do ponto de vista da serpente edênica, a saída para a contradição entre a voz divina tansmitida por palavras e a outra voz divina instintiva (das paixões, da vontade e do desejo) é bastante clara e simples: “Mesmo que D-us tenha dito: não comereis de alguma árvore do jardim, e daí? A voz real de D-us não fala com você por meio de palavras vindas do exterior do seu ser; a voz verdadeira de D-us vem do interior, ao âmago da nossa 29

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existência, é aquela voz que palpita dentro de nós”. De acordo com a serpente, é essa voz que devemos atender. Em resumo então, esse é o sutil argumento da serpente, entendido por muitos como uma espécie de “tentação”. É na verdade uma “tentação” que atinge a raiz de nossa condição humana, e que estabelece os limites entre nós e os outros animais. Qual é a base de nossa condição humana? Qual é o fator que nos distingüe dos outros animais? Será que a fala é o fator que nos distingüe dos animais? Mas, caso encontrássemos por aí um animal que pudesse falar, será que concederíamos a ele todos os direitos humanos? Há alguns anos, certos cientistas ensinaram a base da linguagem de sinais a alguns chimpanzés; será que esses chimpanzés poderiam ser qualificados como “humanos” pelo fato de poderem comunicar-se ainda que de forma primitiva? Bem, talvez nossa inteligência avançada é o que nos faz humanos. Mas será que caso encontrássemos um animal muito inteligente por aí, ele poderia receber todos os direitos civis como por exemplo, o direito ao voto? Bem, então se a base de nossa condição humana não está na fala, nem em nossa capacidade de andar, e nem mesmo em nossa inteligência (qualidades essas também possuídas pela lendária serpente do Éden) --- no que então está a base de nossa condição como seres humanos de verdade? Eu argumentaria que a resposta para esta pergunta encontra-se na seguinte questão: Como D-us “fala” com você? Qual das duas vozes divinas que apresentamos é a primária, a mais importante para você? Se D-us fala com você primariamente através das paixões, dos desejos e dos instintos, se tudo o que você precisa fazer é examinar seus desejos e descobrir o que D-us quer de você – bem, então você é um “animal”. Se D-us tem expectativas a seu respeito, para que você aja além dos seus instintos, além dos desejos e paixões, se Ele dirige-se à sua mente e consciência pedindo que você se eleve acima de seus desejos e que canalize-os construtivamente – bem, então você é “humano”. O que a serpente está tentando é na verdade confrontar Adão e Eva quanto à sua condição, qual o sentido de ser humano e não um animal. No fim das contas, a serpente é realmente arum – em todos os sentidos da palavra, “nua” e “astuta”. Quando ela fala, “Mesmo que D-us tenha dito: não coma – e daí?” ela está sendo honesta, “nua” como explicamos anteriormente, ela está simplesmente agindo em conformidade com o que se espera de um animal. Por outro lado, quando atentamos para o argumento da serpente pela nossa perspectiva, pela perspectiva de Adão e Eva – então o argumento passa 30

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a ser enganoso e astuto, que é o outro sentido da palavra hebraica arum. O que é certo para a serpente não é de forma alguma certo para nós. A serpente alegórica do Éden fala, anda e é inteligente --- mas nós somos diferentes dela. Nós ouvimos uma voz que não é relevante para ela, dentro da sua realidade. No fim das contas, não somos “serpentes”, mas sim, humanos. A BELA E A FERA O desafio da serpente toma a forma de uma proposta para que o ser humano comesse do fruto proibido. Se observarmos atentamente, notaremos que esta proposta surge naturalmente da sugestão da serpente que a voz do desejo, a voz íntima do nosso ser é a forma primária, básica pela qual D-us nos transmite sua vontade. Momentos antes de decidir tomar o fruto, Eva contempla a escolha diante de si. De acordo com o texto, eis o que aconteceu: “E a muher viu que a árvore era boa para se comer, e que era um deleite para os olhos, e que a árvore era desejável para dar conhecimento” (Gênesis 3:6) Esta é a forma como a maioria das versões nos transmitem aquela passagem. No entanto, cabe salientar que a palavra deleite como temos aqui tem o sentido de concupiscência, cobiça. Na passagem que estamos estudando poderemos encontrar três níveis de apelação: O apetite ou o paladar – a árvore era boa para se comer. A visão – a árvore era um deleite para os olhos. A mente – a árvore era desejável para dar conhecimento. Preste bem atenção à segunda frase. Que tipo de coisa pode ser um “deleite para os olhos”? De que forma esta frase se ajusta às outras duas? Será que as três proposições estão relacionadas? Eu acho que estão intimamente relacionadas. Todas estas frases descrevem como a árvore era um apelativo para Eva esteticamente --- no nível da beleza, mais precisamente, no nível do desejo, e cada descrição é mais sofisticada e mais sutil do que a outra. Explicando: Um doce pode ser “bom para se comer” - até uma criança de dois anos sabe disso e aprecia a guloseima. Mas, a beleza de uma rosa é algo que exige algo mais; tal beleza só pode ser realmente apreciada bem mais tarde, com mais anos de vida. A beleza é um “deleite para os olhos”, não para o paladar. E o que dizer daquilo que é “desjável para dar conhecimento”? Esse é 31

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o tipo de coisa que não apela para os sentidos mas sim para a mente. É um nível de desejo ou de beleza que afeta o mais íntimo de nosso ser. Os poemas de Emily Dickenson, as sinfonias de Beethoven, um debate elegante e bem articulado --- tudo isso são coisas que apelam para nossa mente, mas não necessariamente porque elas são verdadeiras mas porque são belas. De fato, um belo poema pode ou não expressar verdades, um brilhante discurso feito por um grande orador pode conter muitas mentiras mas isso é irrelevante. A mente aprecia tais coisas – e as deseja. A árvore proibida apela para nós em todos os níveis de estética. Do mais óbvio ao mais sutil e refinado. O fruto da árvore estava transbordante de desejo. Mesmo que D-us tenha dito, não coma – e daí? Assim, a serpente queria dizer: “O desejo e o instinto são melhores indicadores da vontade de D-us do que Suas palavras. Coma da árvore, faça com que o desejo se torne mais forte em vocês e verdadeiramente vocês serão como D-us.” Mas o que você poderia dizer, isso tudo tem a ver com o conhecimento do bem e do mal? Vejamos isso no próximo capítulo.

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CAPÍTULO VI

Um Mundo de Brócolis e Pizza

A serpente sugeriu a Adão e Eva como vimos no capítulo anterior que a forma de se conhecer a vontade de D-us é olhar para dentro de si mesmo e seguir a voz do desejo. Se você quer comer da árvore, vá em frente – e mesmo que D-us tenha dito para não comer daquela árvore, e daí? D-us não nos fala de verdade por meio de palavras [de acordo com o argumento da serpente]; Ele nos fala por meio dos nossos instintos naturais, aqueles que Ele mesmo criou em nós. Obedeça a voz dentro de você, seus instintos, suas paixões e você estará obedecendo a voz primária de D-us. Mas, o que isso pode ter a ver com o conhecimento do bem e do mal? - Você poderá perguntar. Por que travaríamos uma batalha sobre o papel adequado do desejo na psiquê humana em relação à uma “árvore” que teria o poder de nos fazer conhecer o “bem e o mal”? Bem, então está na hora de examinarmos mais de perto essa árvore do conhecimento do bem e do mal. Aliás, essa não vai ser uma tarefa fácil. Não temos mais a tal “árvore” por perto (ainda bem que trata-se de uma alegoria!). Se não temos uma árvore literal por perto para examinarmos suas condições temos então o texto da Torá que pode nos conduzir ao correto entendimento dessa alegoria. Os termos hebraicos que descrevem as características da árvore são perfeitamente inteligíveis e podem deter as chaves para aquilo que estamos procurando. A árvore proibida é conhecida em hebraico como etz daat tov va-rá. A tradução convencional seria “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Mas será que é só isso mesmo ou há algo mais além do que nossos olhos podem ver?

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DO QUE É FEITO O VERDADEIRO CONHECIMENTO? Vamos começar com a palavra daat – normalmente vertida como “conhecimento”. É interessante notar que essa palavra não se limita apenas ao “conhecimento” no sentido convencional. Na verdade, numa das primeiras vezes que a raiz verbal que origina a palavra daat é usada no Gênesis, ela aparece num sentido que poucos de nós chamaria de “conhecimento”: Ve-ha-adam yadá et Chavah ishto... E o homem conheceu Eva sua mulher... Na Torá a palavra “conhecimento” tem também o sentido de intimidade sexual. O uso dessa raiz em especial pela Torá significando tanto “conhecimento” como “união sexual” deve ser significativa. Mais do que possa parecer há um entendimento profundo do termo daat que dá origem a ambos os sentidos. Mas, qual seria esse entendimento? Vamos tentar colocar dessa maneira: quando um homem “conhece” sua esposa, o que ele está procurando? Os cínicos talvez possam dizer que ele não busca outra coisa senão prazer físico. Mas além do mero prazer físico e além do próprio instinto de procriação, não há algo mais, algo mais profundo que ele esteja buscando? Talvez em algum nível ele esteja de fato atrás de “conhecimento” - conhecimento do misterioso universo feminino, tão diferente do dele, mas que parece ser algo que faz tanta falta para ele ao mesmo tempo. Para reforçar: não é conhecimento intelectual que ele busca. Ele busca na verdade conhecimento cru, de primeira mão, uma experiência do feminino de uma forma direta, não filtrada. No ramo da filosofia chamado de epistemologia corre há muito tempo um debate sobre do que consiste o verdadeiro “conhecimento”. Os racionalistas argumentam que o verdadeiro conhecimento é aquele que pode ser demonstrado pela lógica e pela análise. Outros pensadores entretanto, argumentam que o conhecimento verdadeiro é obtido pela experiência. É muito proveitoso podermos racionalizar um conceito ou uma idéia em nossas mentes – afirmam eles – mas você só pode saber se isto é verdadeiro quando tal conceito ou idéia acontece no mundo real, quando se demonstra tal conceito digamos, num laboratório. Se você vê, se pode tocar e experimentar, então você saberá que é real. O termo hebraico daat (conhecimento) parece denotar este último conceito, ou seja, conhece-se algo quando se experimenta ou quando se vivencia. Um centista que faz uma experiência em laboratório consegue daat, mesmo que ainda ele não consiga racionalizar ou entender bem aquilo que experimentou. 34

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O homem por sua vez, atinge daat em relação à sua muher unindo-se à ela, experimentando-a, mesmo que não consiga expressar por meio de palavras sua essência misteriosa. A humanidade nesse mesmo proncípio, atinge daat do bem e do mal não intelectualizando conceitos de moralidade e do que ela se compõe, mas sim, ao experimentar o bem e o mal cruamente de uma forma direta e objetiva. Para resumir então: ao obter conhecimento do bem e do mal, nós não obtemos uma melhor compreensão intelectual do que é certo ou errado. Nós conseguimos obter um entendimento experimental dessas coisas. Nós começamos a conhecer o certo e o errado de fora para dentro. Mas o que tudo isso quer dizer? Isto soa tão abstrato! O que queremos dizer com “conhecer o bem e o mal” de uma forma crua, experimental? Eu sei o que significa conhecer sorvete na forma experimental. Me dirijo até a sorveteria da esquina e peço um passas ao rum, e assim que acabo de tomar aquela casquinha, pronto! --- Já obtive meu daat (conhecimento experimental) de sorvete. Mas e quanto ao bem e ao mal? Como podemos obter conhecimento do bem e do mal dessa forma? Como pode o ser humano “ interiorizar “ o bem e o mal? Uma olhada nas palavras “bem” e “mal” em hebraico (tov e rá) fornecem as chaves para aquilo que estamos procurando. CERTO E ERRADO DE FORA PARA DENTRO Em capítulos anteriores, aludimos à visão de Maimonides sobre nossa narrativa em sua obra Guia dos Perplexos. Nela, o Rambam sugere que Adão e Eva ja tinham ciência do certo e do errado de alguma forma meio primitiva, isso antes mesmo de comerem do fruto proibido. De acordo com Maimon, a arvore não deu ao ser humano “consciência moral” quando ele não tinha nenhuma. Na verdade, o homem já possuia essa “consciênica moral”, mas o fato de ter comido do fruto proibido transformou essa consciência de uma coisa para outra. Em resumo: antes de comer do fruto, nós não chamaríamos as escolhas virtuosas de “bem” e tampouco chamaríamos as escolhas vis de “mal”; nós tínhamos então uma outra forma de pensar sobre estas coisas; nós usavamos outros termos para definir isto. Mas qe termos seriam esses, essa forma mais “precisa” de encarar as coisas? Bem, de acordo com Maimônides, no mundo antes da árvore, naquele mundo primitivo, as escolhas virtuosas seriam chamadas de “verdadeiras” e as escolhas repreensíveis seriam chamadas de “falsas”. Resumndo, fazer a coisa certa seria “verdadeiro”, e fazer a coisa errada seria “falso”. Mas o que será que o Rambam queria dizer com isso? À primeria 35

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vista parece bizarro. A palavra “falso” parece ser bem melhor para descrever que 2+2=5 do que para descrever o ato de se roubar um banco! O que será que realmente significa ver a moralidade como um conjunto de escolhas entre o “verdadeiro” e o “falso”? E qual é a diferença no mundo posterior à árvore no qual chamamos tais escolhas de “boas” ou “más”? Bem, fica difícil determinar ocm precisão todas essas coisas e Maimônides não elabora muito o seu argumento; entretanto há uma maneira pela qual poderemos entender melhor o ponto onde ele quer chegar. Vamos pensar: De que maneira as coisas “verdadeiras” diferem das coisas “boas”? Quando eu digo que algo é “verdadeiro” eu estou descrevendo a realidade objetiva. Estou dizendo que algo está lá – é real quer eu queira ou não, quer eu goste ou não: trata-se de algo “verdadeiro”. Se estivermos falando de moralidade como questões que envolvem o verdadeiro e o falso então isso significa que fazer escolhas morais envolve o discernimento de algo objetivo; envolve determinar qual é a coisa certa a se fazer – o que o meu Criador espera de mim e tentar dessa forma alinhar meu comportamento àquela “verdade”. Como então vemos a virtude de forma diferente quando nós a chamamos de “boa” em vez de “verdadeira”? Enquanto a palavra “verdade” tem o sentido central de “real”, as palavras “bom/bem” não têm um sentido tão objetivo assim. Por exemplo: qual o outro sentido da palavra “bom” além daquilo que é eticamente correto? Muito simples: Aquilo que é agradável, desejável ou prazeiroso. Quando eu digo que algo é “bom” o que eu estou realmente afirmando ainda que de forma sutil é que eu aprovo tal coisa, que ela é desejável. Talvez então o que Maimônides propõe seja que a mudança de um mundo do verdadeiro e do falso para um mundo do bem e do mal tenha sido uma mudança entre um mundo primevo onde minha escolha essencial era objetiva para um mundo mais subjetivo, um mundo no qual meu desejo se intromete, tornando-se parte inescapável do cálculo moral. Como já sugerimos no capítulo anterior, a “árvore do conhecimento” estava profundamente associada ao desejo – ela apelava para nós em todos os níveis estéticos concebíveis, do mais básico (paladar) ao mais profundo (a mente). Assim, talvez a misteriosa árvore do conhecimento fosse realmente uma árvore do desejo. E talvez a conseqüência mais fundamental de nossa decisão de comer dela seja simplesmente essa: O papel que o desejo passaria a desempenhar em nossas vidas mudaria para sempre. Explicando: No mundo anterior à árvore, o desejo era mais facilmente controlado, era parte natural do homem – mas uma parte que estava em equilibrio com o resto de nosso ser. O desejo não podia obliterar, obscurecer nossa visão das coisas. Mas, no mundo posterior à árvore, isso não pode ser mais tomado como certo. O desejo passou a desempenhar um papel mais 36

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crucial no perfil da psiquê humana. Ele está sempre presente, nos “bastidores”, sempre uma força com a qual temos que lutar. O desejo passou a ser uma forma de “lente” pela qual vemos as coisas. Eu não vejo mais um mundo claro de “verdadeiro” e “falso”; eu vejo um mundo novo do “bem” e do “mal”. ESCOLHENDO ENTRE O BRÓCOLIS E A PIZZA Se isso ainda parece abstrato, vamos exemplificar esses conceitos. Vejamos como usamos hoje em dia os conceitos de “verdadeiro” e “falso” --- e “bem” e “mal”. Se prestarmos bastante atenção poderemos até perceber o eco do entendimento de Maimônides quanto à essas idéias. Na prática de arco e flecha o objetivo é atingir o alvo. O alvo está ali bem à sua frente e ele é o seu objetivo, ele é real e quer queira quer não, se vcê não acertá-lo de forma visível a todos ao redor, você terá falhado e perdido de vista seu objetivo. O interessante é notar que no hebraico bíblico, a palavra chet que significa “pecado” tem o mesmo sentido de “errar o alvo” como no exemplo que demos do arco e flecha (veja Juízes 20:16). Na verdade quando eu vejo as decisões morais como escolhas entre o “verdadeiro' e o “falso”, isto significa que estou tentando acertar um alvo – estou tentando discernir as expectativas do meu Criador em relação a mim para agir em conformidade com elas. Pecar não tem muito a ver primariamente com penalidade e culpa – tem muito mais a ver com “errar o alvo”, uma falha na tentativa de me alinhar com a realidade chamada 'vontade do meu Criador'. Vamos falar agora um pouco sobre o outro lado da moeda. Quando uma criança empurra um prato de brócolis porque diz que o legume é “ruim” e prefere pizza porque é “bom”, ela não está na verdade criticando as qualidades e os benefícios nutricionais da comida. Ela está te dizendo algo sobre o que ela gosta e o que não gosta. De certa forma a criança está falando mais sobre ela mesma do que sobre a comida. Assim, quando a Torá fala sobre “conhecer o bem e o mal” é uma forma simples de demonstrar uma nova maneira de encarar as escolhas morais. Sim, eu ainda estou tentando entender o que D-us quer de mim, só que agora há um novo fator presente que pode obscurecer minha visão: não é só mais sobre aquilo que D-us deseja; agora é também sobre o que eu desejo. A minha vontade própria é agora parte constante e inescapável de todo o quadro. Eu passei a ver o bem e o mal de fora para dentro. Eu certamente posso me elevar acima desses desejos, mas a questão é que isso não é tão simples quanto parece e mais: será que eu realmente quero me elevar acima deles? A razão pela qual isso não é tão simples assim é que neste mundo novo e ainda não desbravado do bem e do mal o quadro que eu tenho do que é certo e que vale a pena não representa necessariamente as coisas do jeito que elas realmente são. Aquilo que é meramente “bom”, desejável do meu ponto de vista pode ser astuciosa e sutilmente mascarado como “verdadeiro”. Quando eu encaro a vida através do filtro de minha própria subjetividade, eu posso pensar que “x” é a vontade do Criador... entretanto na maiora das vezes 37

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trata-se isso sim da minha própria vontade! TODOS OS DILEMAS MORAIS SÃO IDÊNTICOS? Para que realmente possamos sair do domínio da teoria e aplicar essas idéias no sentido prático, vamos falar do “verdadeiro X falso” e do “bem X mal” dentro do contexto de alguns dilemas morais que tanto eu quanto você enfrentamos no curso de nossas vidas. Tente pensar um pouco pois abaixo você encontra uma lista de diversos dilemas morais hipotéticos. Sua tarefa será dividí-los em duas listagens – assim, tome uma folha de papel, trace uma linha de cima para baixo (fazendo duas colunas) e nomeie a primeira “coluna A – dilemas reais” e a outra, “coluna B – dilemas ilusórios”. Como você dividiria essa lista? Eis abaixo os exemplos: 1. 2. Desligar os aparelhos que mantém viva uma pessoa que está em coma e desenganada pelos médicos. Minha mãe já está com idade avançada e precisa de ajuda para organizar a casa; mas meu filho também precisa de ajuda nos estudos para o teste final da escola. Com quem devo passar a tarde? Carlos é meu melhor amigo e precisa trabalhar para ajudar sua mãe doente. Ontem percebi que ele estava “colando” no teste que fez em minha empresa. Devo omitir aquilo que vi ao meu chefe? É uma noite escura e chuvosa no centro da cidade. Você engata a ré no seu modesto carro popular para sair do estacionamento quando ouve o som de uma batida de metal contra metal. Você sai do seu carro e vê que atrás há um luxuoso carro importado – com um parachoque amassado! E agora? Você olha para todos os lados e não há ninguém na rua. Você deixa um recado com o seu número para combinar o conserto?

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Os dilemas se dividem naturalmente em dois grupos. Três dos dilemas acima são reais. Um deles, porém, é fundamentalmente ilusório. Três desses dilemas existem de fato, não importando se você vive num mundo de “verdadeiro e falso” ou do “bem e do mal”. Um deles, todavia existe apenas num mundo misto de bem e mal, pois no mundo do “verdadeiro e falso” ele se dissipa como fumaça. Mãos à obra a até o próximo capítulo.

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CAPÍTULO VII

Um boxeador chamado 'Desejo'

No capítulo anterior, discutimos sobre dilemas morais e eu propus uma lista de deles que você deveria classificar como “reais” ou “ilusórios”. Dos quatro dilemas propostos um deles eu argumentei que era puramente ilusório, inexistente. Vamos rever a lista logo abaixo: 1. 2. Desligar os aparelhos que mantém viva uma pessoa que está em coma e desenganada pelos médicos. Minha mãe já está com idade avançada e precisa de ajuda para organizar a casa; mas meu filho também precisa de ajuda nos estudos para o teste final da escola. Com quem devo passar a tarde? Carlos é meu melhor amigo e precisa trabalhar para ajudar sua mãe doente. Ontem percebi que ele estava “colando” no teste que fez em minha empresa. Devo omitir aquilo que vi ao meu chefe? É uma noite escura e chuvosa no centro da cidade. Você engata a ré no seu modesto carro popular para sair do estacionamento quando ouve o som de uma batida de metal contra metal. Você sai do seu carro e vê que atrás há um luxuoso carro importado – com um parachoque amassado! E agora? Você olha para todos os lados e não há ninguém na rua. Você deixa um recado com o seu número para combinar o conserto? E daí? Você conseguiu identificar o impostor? Se você chegou à conclusão que o último dilema é o ilusório, ou seja, o de número 4 então estamos obtendo bastante progresso; caso contrário, ainda assim poderemos ser amigos. 39

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4.

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Se você se encaixa nesse último perfil, e não entendeu muito bem o que eu digo, vamos detalhar. Note que os três primeiros dilemas compartilham uma certa qualidade básica. Há escolhas entre ideais que competem um com o outro. Cada ideal é nobre e válido de sua própria forma, e o dilema surge apenas porque os dois ideais são forçados a competir um contra o outro. Tome como exemplo o primeiro dilema. Todo mundo concorda que prolongar a vida é algo nobre e todos também concordam que melhorar a qualidade de vida é também um nobre ideal. Mas, o que ocorre quando você se vê obrigado a escolher entre um e outro? Considere agora o terceiro caso: a honestidade é realmente algo válido e que todos devemos buscar; por outro lado, a lealdade (isso em relação aos amigos e nas relações de trabalho) também é um ideal nobre a ser buscado. Mas o que fazer quando cada um desses nobres valores nos levam à uma direção diferente? Considere o segundo caso agora: eu tenho obrigações morais tanto com minha mãe idosa quanto com meu filho que mau começa a viver – como saio dessa? Quais critérios poderei usar para pesar minhas obrigações tanto com um para com o outro? O fato é que todas essas escolhas são genuínas. Há na verdade dois boxeadores no ringue, dois valores competindo entre si. A pergunta é: quem vencerá? Qual será o valor que deve prevalecer? Como meu Criador espera que eu aja? Agora, vamos pensar sobre o último caso. Está escuro e a noite muito chuvosa; ninguém está me vendo e eu fico pensando se devo ou não deixar um bilhete com meu número para que mais tarde o proprietário do carro luxuoso possa me contactar a fim de que eu pague pelo conserto --- afinal de contas, eu fui o “autor' daquela façanha! Vamos tentar identificar os dois ideais que competem aqui. Bem, em primeiro lugar, há a questão da honestidade. A honestidade pede que eu deixe o recado com meu número. Ok, mas e quanto ao contra-argumento? Pense cuidadosamente... Não existe nenhum contra-argumento! Um minuto! Se não há um segundo ideal, um contra-argumento, então por que é tão dificil saber o que fazer? Uma questão desse tipo não é algo com o que deveríamos nos preocupar, pois a honestidade reivindica uma ação positiva e imediata. Há apenas um “boxeador no ringue”, logo ele deveria vencer por w/o. Mas, as coisas não são tão simples quanto parecem. Há sim um outro “boxeador” no ringue, mas não trata-se de um ideal --- o nome desse “boxeador” é desejo.

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UMA LUTA CONTRA O IRREAL Nesse último dilema, a “batalha” está sendo travada entre um ideal (a honestidade) e o que você prefere fazer. Os dois “boxeadores” chamam-se simplesmente: Honestidade versus O fato de que você não quer deixar o recado. É claro que não é bem assim que o seu cérebro apresenta diante de você essas questões. Vamos ouvir o nosso “diálogo interior” enquanto você examina o pára-choques amassado do carro importado, lutando para tomar a decisão: “Sabe, eu até entendo que eu tenho que deixar aquele recado, mas... espere! Será que fui eu mesmo que fiz este estrago? Quer dizer, eu ouvi mesmo um barulho ao dar a ré, mas talvez eu tenha passado por cima de uma lata de refrigerante junto ao meio-fio, ou sei lá. E para dizer a verdade eu mau toquei nesse carrão... será que isso seria suficiente para que eu deixasse um recado com meu número de telefone para depois pagar o conserto? E além disso, o que esse sujeito estaria fazendo bem aqui a essa hora com o seu brinquedinho caro estacionado logo atrás do meu carro? Sinceramente eu acredito que me sentiria um perfeito idiota se o para-choques já estivesse amassado e sem saber disso, eu deixasse o recado. E ainda que eu tivesse feito este estrago, não significa que o dono deste carrão perderia dinheiro, afinal, é para isso que existe o seguro: a poderosa companhia de seguros pode muito bem arcar com o prejuízo”. E assim, você se “convence” de que é muito virtuoso sair sem olhar para trás. É Robin Hood contra as grandes empresas de seguro... é o coitadinho contra os ricos e arrogantes; é você contra a sua própria ingenuidade – você pensa: Será que se ele estivesse em meu lugar deixaria um recado para mim a fim de pagar o conserto do meu carro? Mas todo esse raciocínio que você desenvolve não passa de falácia. É você mesmo que cria esses “boxeadores” para que lutem contra a honestidade – eles de fato não existem, nunca estiveram lá. Trata-se de uma luta contra o irreal, os “boxeadores” são todos eles, meros “fantasmas”. O nome do “boxeador” que você criou para lutar contra o outro (a honestidade) é simplesmente desejo. Seja bem-vindo ao mundo do bem e do mal. OS JOGOS MENTAIS DO DESEJO Um fascinante midrash faz eco a essa idéia. Note porém, que os midrashim não devem ser tomados literalmente. Os comentaristas tradicionais desde Luzzato até ao Maharal de Praga raramente tomavam suas palavras ao pé-da-letra. A idéia do Midrash é que você leia as “entrelinhas”, e investigue o que está sob o manto da narrativa. Os segredos e as grandes verdades 41

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contidas ali somente são reveladas àqueles de espírito aberto que ousam olhar sob o manto da narrativa a fim de entender a mensagem e o ponto abordado pelos sábios. Dizem os sábios que ao morrer a pessoa ascende ao céu e ali dá-selhe o direito de contemplar a sua yetzer hará (inclinação para o mal); se a pessoa era justa aqui na Terra, a usa inclinação aparece como uma grande montanha. Entretanto, se era ímpio ela lhe aparece como um pequeno monte. Ambas as pessoas ficam perplexas: o justo por ter conseguido superar a montanha, enquanto que o ímpio, por perceber que um pequeno monte pôde detê-lo. Um amigo uma vez me sugeriu uma explicação interessante. Talvez a diferença entre o justo e o ímpio não esteja em quem tem a maior ou a mais intensa inclinação para o mal. Acredito que a diferença esteja no fato de que a pessoa ímpia sucumbiu à inclinação para o mal, enquanto que o justo, não --e isso muda radicalmente o que a pessoa vê quando olha para trás; O justo vê o desejo ainda não satisfeito enquanto que o ímpio vê a aparência do desejos após ter se entregado a ele. Quando o desejo ainda está por ser saciado, ele parece uma montanha. Pouco antes de você comer uma torta de chocolate, você não pode imaginar coisa mais deliciosa; Mas através do “espelho retrovisor”, o desejo aparece de forma bem diferente. Após ter comido o último pedaço, a “montanha” desaparece, e você agora vê a realidade como ela é. A torta estava deliciosa pelos poucos minutos que durou, e agora você tem a sua frente várias horas na academia para dar um fim à todas aquelas calorias que você acumulou ao se deliciar com aquela fina iguaria. Estas são as armadilhas da subjetividade. No mundo posterior à árvore do conhecimento do “bem e do mal”, um dilema nasce no centro da cidade numa noite escura e chuvosa. O desejo, com toda a sua grandeza e poder habita imperceptível dentro de nós mesmos, se escondendo facilmente atrás de “boxeadores fantasmas”. Neste mundo subjetivo, o mal pode aparecer para nós envolto em belas roupagens – e quando isso ocorre, é difícil saber a diferença entre aquilo que realmente é verdadeiro e virtuoso e aquilo que é meramente sedutor. OS PRINCÍPIOS DO DESEJO O argumento da serpente permanece talvez como um exemplo clássico deste tipo de sedução mascarada ou travestida de virtude. Da mesma forma que aquela nossa “voz interior” cria um “boxeador fantasma” para lutar contra o outro (a honestidade) no quarto exemplo que demos, a escolha de comer ou não daquela árvore pode ter sido entendida pela mente de Eva como uma forma de um legítimo dilema. “Qual das vozes divinas devo ouvir? A voz do desejo que está em mim (cujo autor é o próprio D-us) ou a voz que me deu a ordem por meio de palavras?” Esta parece ser uma questão bastante razoável. Havia boas razões para que se comesse daquela árvore; havia boas razões para pensar que seria 42

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certo, bom e louvável fazer com que o desejo desempenhasse um papel mais ativo em nossas vidas do que ocorria antes. Afinal de contas, a serpente não estava de todo errada quando sugeriu que o instinto e o desejo constituem-se numa das muitas formas e maneiras pelas quais D-us “fala”. As paixões vêm realmente de D-us e experimentá-las parece ser parte essencial do que nos torna humanos. O que seria por exemplo, acordar pela manhã sem o menor senso de ambição, ou olhar para uma grande obra de arte sem ter o desejo pelo que é belo, o que seria de nós se o romance fosse insípido e desinteressante, ou se a poesia não pudesse nos tocar a alma? Poderíamos até nos perguntar se valeria a pena viver a vida sem desejo. De alguma forma e até certo ponto, o desejo parece ser o motor de nossa própria existência. Bem, tudo isso é certamente razoável. Mas assim como o caso da noite escura e chuvosa no centro da cidade, há algumas entrelinhas neste dilema. Os argumentos intelectuais mascaram uma outra agenda. Mesmo quando Adão e Eva viviam no mundo do verdadeiro e do falso, o mundo do “bem e do mal” acenava para nós e o desejo começou a desempenhar sua sutil influência. O leitor atento notará que quando Eva parafraseia para a serpente a ordem divina de evitar a árvore, ela muda alguns pontos daquilo que D-us originalmente falou. À primeira vista, as mudanças que ela faz na ordem parecem inócuas. Por exemplo, Eva identifica a árvore do conhecimento do bem e do mal como estando “no meio do jardim”. Mas se voltarmos ao capítulo 2 do Gênesis, você verá que Eva não foi precisa na sua informação. Não era exatamente a árvore do conhecimento que estava no meio do jardim. Se você ainda considerar aqueles versos mais atentamente, você vai perceber que esta não é a única mudança que ela faz na ordem --- há muitas outras com certeza. E isto me faz lembrar de nosso trabalho de casa: Pegue uma folha de papel e tente fazer uma lista destas discrepâncias para que possamos abordá-las no próximo capítulo: “De que forma Eva transmite errado a ordem de D-us para que eles evitassem a árvore do conhecimento?” Quando você terminar sua lista, pergunte para si mesmo: Por que Eva mudou estes detalhes? Bem, talvez Eva tenha sido vítima de falha de comunicação – Quem sabe Adão transmitiulhe o recado de forma errada --- talvez. Mas eu acho que havia algo mais... Veja se você consegue encontrar um padrão às várias discrepâncas entre a ordem original e a paráfrase de Eva para a serpente. Eu acredito que existe um padrão – abra sua Bíblia e veja se você concorda comigo. Até lá.

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CAPÍTULO VIII

O olho daquele que contempla

No capítulo anterior eu pedi para que você comparasse a paráfrase de Eva quando ela citou a ordem divina para que eles não comessem o fruto da árvore proibida. Os dois relatos são claramente distintos. Algumas das diferenças resultam de falta de precisão quando Eva cita a ordem de D-us. Outras, porém, são meras mudanças de ênfase. Mas apenas para irmos direto ao ponto, minha pergunta é: Tomadas como um todo, será que essas mudanças sugerem um modelo de alguma forma ou será que tratam-se apenas de citações erradas? Vamos reproduzir os versos em questão a fim de que seja mais fácil compará-los. Ei-los aqui: A Ordem Original de D-us E D-us fez surgir da terra todo tipo de árvore boa para se contemplar e boa para se comer e a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. (2:10) E D-us ordenou ao homem dizendo: De todas as árvores do jardim poderás comer livremene. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás pois no dia em que dela comeres certamente morrerás. (2:16-17) Eva citando para a Serpente a mesma ordem E a mulher disse para a serpente: Do fruto das ávores do jardim nós poderemos comer. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim D-us disse não comereis dele , nem nele tocareis para que não morrais. (3:3-4). Muito bem, vamos às diferenças. O que você conseguiu achar? Aqui está minha lista:

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Localização da árvore proibida. Eva identifica a árvore proibida como se a mesma estivesse “no meio do jardim”. Na verdade de acordo com 2:10 era a árvore da vida que encontrava-se ali, e não a do conhecimento. D-us não impôs nenhuma restrição quanto ao comer da árvore da vida como sabemos. O local onde a árvore proibida se encontrava é incerto. [os versos afirmam que D-us colocou “a árvore da vida no meio do jardim”, e a árvore do conhecimento do bem e do mal”. Da forma que a frase foi colocada no texto, a expressão “no meio do jardim” modifica a “árvore da vida”, somente e não a segunda. Se ambas estivessem no mesmo lugar, o fraseado seria: '...a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim”]. Tocar no fruto era contra as regras? Eva diz para a serpente que a proibição incluía não tocar no fruto da árvore do conhecimento. Na ordem original, só comer do fruto era proibido. Fruto vs. árvore. D-us fala sobre uma árvore proibida. Eva menciona um fruto proibido. Na prática talvez é tudo a mesma coisa. Mas a ênfase é certamente diferente. A morte é uma certeza? D-us diz que se eles comessem da árvore eles certamente morreriam. Eva sugere que seria melhor que ela e Adão não comessem da árvore, “para que não” morressem. D-us afirma que eles certamente morreriam. Eva sugere não uma certeza, mas uma probabilidade, uma possibilidade. Quando é que a morte torna-se uma realidade? D-us diz que a morte se tornaria uma realidade no dia em que eles comessem da árvore proibida. Eva não menciona nada sobre o tempo. "Todas" as árvores ou não? Usando linguagem repetitiva onde o verbo comer em hebraico é usado duas vezes [achol tochel], D-us enfatiza que Adão e Eva podem comer de todas as árvores do jardim, exeto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ao mencionar para a serpente as árvores das quais eles poderiam comer, Eva não usa a mesma ênfase que for a usada por D-us, isto é, ela não repete o verbo comer e ainda não usa a palavra “todas” como D-us usou. Sua frase é bem menos enfática do que a ordem original dada pelo Eterno.

HÁ UM MODELO AQUI? Bem, e agora? O que faremos com todas essas informações? Há alguma razão por trás de todas essas discrepâncias , algum bom motivo que possa justificar as modificações que Eva fez ao “explicar” para a serpente a proibição proferida pelo Altíssimo? Me parece que as mudanças que Eva fez ao relatar a ordem de D-us realmente querem dizer alguma coisa. Podemos até teorizar que Eva 45

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deliberadamente distorceu a ordem de D-us ou que talvez ela a tenha entendido mal. Eu não posso desprovar conclusivamente essas teorias. Mas há na minha opinião uma terceira possibilidade, e essa me parece mais plausível: As distorções que Eva fez ao relatar a ordem divina não foram deliberadas de forma alguma. Pelo contrário, pega “desarmada” pela serpente e no calor do momento, tudo o que ela disse era na essência como as coisas lhe pareciam. Era de fato a forma como ela queria vê-las. Em outras palavras, as sutis distorções nas palavas de Eva não aludem provavelmente a um mal entendido intelectual daquilo que D-us tinha dito. Era isso sim uma tentativa sutil da mente de Eva de colocar a ordem de D-us sob uma perspectiva diferente. Explicando: Se o comer da árvore marcava o início de um papel mais profundo do desejo na vida da humanidade, então o curto diálogo entre Eva e a serpente nos dá o primeiro recurso para estudarmos a mecânica oculta pela qual o desejo pode confundir nossa percepção das coisas como elas realmente são. Pense nisso: quando nós queremos algo que nós não podemo ster ou não devemos ter – mas queremos mesmo assim – quais são as coisas que dizemos para nós mesmos? Como exatamente o desejo começa a desempenhar sua “mágica”? O que nós dizemos a fim de convencermos a nós mesmos que é certo ter aquilo que desejamos? Nós olhamos para a realidade à nossa frente e começamos a fazer um jogo que envolve o exagero de certos aspectos e a minimização de outros. O jogo continua, mais ou menos de acordo com as seguintes linhas:

Nós podemos começar exagerando a extensão da restrição imposta sobre nós. [p.ex., até mesmo tocar no fruto é proibido]. É fácil racionalizar sobre algo errado se exagerarmos como é difícil permanecer de acordo com as regras. Como meus pais podem querer que eu nem mesmo chegue perto do pote de biscoitos? Eu sei que eu não devo comer aqueles biscoitos, mas como eles podem querer que eu evite até mesmo entrar na cozinha? Na mesma medida eu possso minimizar o significado daquilo que eu posso ter. Na verdade, eu posso comer mesmo de todas as árvores do jardim, exceto de uma. Há milhares de árvores no jardim das quais eu fui incentivado, quem sabe até ordenado comer, mas os jogos mentais do desejo mudam a ênfase: Certamente nós podemos comer das árvores (note a ausência do termo todas, existente na ordem divina original), mas nós não podemos sequer tocar naquela que está no meio do jardim (note a adição do termo tocar à ordem divina original). Quais são as conseqüências da transgressão? Isto é algo que costumamos trivializar também. Nós não vamos morrer imediatamente, certo? Não. Mesmo que D-us tivesse a intenção de dizer que nós hoje nos tornaríamos mortais ---- a morte em si não ocorreria senão anos depois. Por que então eu deveria ficar longe da árvore senão pelo fato de 46

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que eu eventualmente pudesse morrer?

Finalmente, eu posso exagerar o significado da coisa que eu não posso ter. Ela se torna o meu foco principal, o eixo em volta do qual meu mundo começa a girar. Lembre-se: Qual árvore encontra-se no meio do jardim? Para qualquer observador, o centro de uma floresta pode ser apenas a árvore para a qual ele está olhando. Para D-us, o centro ou o meio do jardim, a árvore que ocupa o Seu foco é a árvore da vida – árvore essa que Ele jamais proibiu. Para Eva no entanto, a árvore da qual ela não poderia comer torna-se o centro de suas atenções, ela a coloca no meio do jardim, posição essa que a árvore jamais ocupara no plano divino. Assim, meu desejo foca no proibido e o amplia, não objetivamente porque aquilo é de fato importante para mim, mas sim, pelo simples fato de que eu não posso tê-lo.

Ao retratar a conversa de Eva com a serpente da forma que faz, a Torá parece estar construindo para nós um caso para estudo na dinâmica do desejo. Aqui está o que parece, o texto parece estar dizendo, lutar com o boxeador “fantasma”, o boxeador chamado desejo. De formas sutis, as coisas podem começar a parecer maiores ou menores do que realmente são. A advertência que isso implica é clara: Não seja tão afoito para abraçar os argumentos que você construiu de forma 'impecável' a fim de justificar a ação de comer do fruto proibido. Primeiro, faça a si mesmo a seguinte pergunta: Será que estou vendo as coisas da forma que elas realmente são ou será que as estou vendo da forma que eu mesmo prefiro vê-las? Mesmo que eu não esteja mentindo para mim sobre os fatos, será que não estou brincando com a forma pela qual eu estou enfatizando as coisas? Será que não estou exagerando na importância de certas coisas e minimizando o sentido de outras? Lembre-se: Neste mundo subjetivo no qual vivemos, a “realidade” depende do olho daquele que a contempla. AS PEÇAS QUE FALTAM NO QUEBRA-CABEÇAS Se o desejo desempenhou um papel tão importante na primeira decisão de Adão e Eva (comer ou não do fruto proibido), como se fizeram sentir neles as conseqüências de tê-lo comido? Como o fato de terem comido – ou mesmo a luta para decidir se comeriam ou não – pode tê-los afetado? De que forma isso também nos afetou e nos mudou como seres humanos? Para entendermos isto, nós precisamos olhar cuidadosaente para o resto de nossa história, a saber, o que ocorreu após terem comido daquele fruto. Vamos analisar isso tudo de forma simples à princípio. Quais são os eventos que ocorrem à partir de então? Vamos alistá-los:
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Adão percebe que está nu e se esconde de D-us. D-us pergunta para Adão: Onde estás? Adão responde que ele se escondeu porque teve medo por estar nu. Após ter rejeitado as explicações de Adão e Eva quanto ao terem comido do fruto proibido (“ela me deu e eu comi”, “a serpente me enganou”), Dus impõe várias punições sobre eles, incluindo a morte, a expulsão, o 47

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trabalho penoso e a multiplicação das dores de parto. Anteriormente nós apontamos alguns estranhos aspectos desses eventos. Mas na realidade, a lista de dificuldades é ainda maior do que aquela que nós mencionamos naquele momento. Cada um desses acontecimentos pós-Éden é como eu penso, perturbador de seu próprio modo. Vamos analisar um a um e ver como isso tona-se claro:

Adão percebe que está nu e se esconde de D-us. Lá no início de nosso estudo, eu havia mencionado que a ênfase na nudez parecia estranha. Por que será que a percepção nudez é a conseqüência natural do ato de terem comido de um fruto que transmite o “conhecimento do bem e do mal”? Após receber este conhecimento, Adão não torna-se ciente de um novo e desconhecido reino de dilemas morais. Em vez disso ele simplesmente percebe que está nu. Por que? D-us pergunta onde Adão está. Um minuto! Você está querendo dizer que o Eterno D-us não podia encontrar Adão? Por que o D-us onisciente estaria fazendo uma pergunta para qual Ele já conhecia a resposta? Adão responde que ele se escondeu porque teve medo por estar nu. Leia o texto novamente e veja se você teria essa mesma reação se estivesse no lugar dele. Bem, em primeiro lugar, é deveras estranho que Adão afirme que se escondeu pelo fato de ter “medo” porque estava nu. Se estivéssemos no lugar dele, nós provavelmente diríamos que estávamos com vergonha pelo fato de termos desobedecido a ordem de D-us. Mas, por alguma razão, na mente do homem esse sentimento de vergonha é obliterado, obscurecido por algo ainda mais aterrorizante: a consciência de sua própria nudez. Mais uma vez, retomamos o tema da nudez: Por que isso o afeta de forma tão crucial? Mas a questão é um tanto mais profunda: Coloque-se de novo no lugar de Adão. Se você tivesse que se esconder por estar nu, qual a razão que você daria por estar escondido? Eu não sei quanto a vocês, mas eu me esconderia por vergonha de estar naqula situação. Mas, estranhamente Adão aponta um outro motivo, inimaginável numa situação dessas. Ele se escondeu por ter medo e não vergonha necessariamente. Por que então na mente do homem o fato de estar nu inspira medo e não vergonha? O Altíssimo impõe diversas punições a Adão e Eva. Ok, vamos pensar um pouco nessas punições. Nós poderíamos esperar creio eu, que as punições impostas por um D-us justo e onisciente se ajustem de alguma forma ao crime cometido. Deveria haver alguma correspondência lógica entre o que a pessoa fez de errado e as punições que deveria suportar. Mas que tipo de conexões podem haver entre crime e castigo em nosso relato? À primeira vista, parece que o Altíssimo simplesmente abriu sua valise de conseqüências e aleatoriamente passou a distribuir relâmpagos para todos os lados. “Vejamos, Adão. Você será aquele que vai suar a camisa para retirar da terra o seu sustento. À partir de agora, acabou a 48

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moleza, pois você terá que trabalhar duro para semear e colher da terra. Eva? Ok, você é que gera filhos... então, vamos tornar isso tudo um pouco mais difícil para você. E a serpente? Você vai rastejar sobre seu ventre e deverá comer pó, e haverá eterno ódio entre a sua descendência e aquela de Eva. Bem, e no mais, morte para todo mundo; ninguém poderá mais viver para sempre. E só mais uma coisinha: Exílio. Todo mundo para for a da piscina!”

Bem, finalmente parece que estamos aptos a responder todas essas questões. Tendo visto as conexões da história e todas as suas nuances, nós finalmente poderemos entender os outros fatos posteriores ao fato de Adão e Eva terem experimentado daquele fruto: A estranha pergunta de D-us (“Onde estás?”); o foco de Adão não exatamente sobre a vergonha mas sim sobre o “medo” de estar nu; e finalmente a distribuição aparentemente aleatoria de punições pelas mãos do Eterno. Nos derradeiros capítulos deste estudo estaremos tentando fazer com que as extremidades desse enredo emaranhado se encontrem. Enquanto isso, eu gostaria que você fizesse uma pausa antes de começar a ler o próximo capítulo e parasse para pensar: Será que todas aquelas punições dadas por Dus são realmente aleatórias, sem nenhuma ligação entre si como de fato parecem? E dada à natureza da árvore como começamos a ver, por que será que o medo da nudez pode ser exatamente a resposta que devemos esperar de alguém que de repente acorda para dar-se conta que passou a habitar num mundo radicalmente novo do “bem” e do “mal”? Até lá, e bons estudos.

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CAPÍTULO IX

Friedrich Nietzsche e o D.J.

Há alguns anos, eu estava dirigindo pelas ruas de Nova York, ouvindo uma estação de rádio bastante popular naquela cidade. O locutor, que lá é conhecido por D.J (de disc jockey) estava oferecendo ajuda para resolver os problemas sentimentais de seus ouvintes. Eu ouvi por alguns instantes o que as pessoas tinham a dizer e de repente entrou na conversa pelo telefone um jovem que pelas palavras parecia ser muito religioso e correto. Ele se esforçava para explicar os motivos pelos quais preferiu abster-se de relações sexuais até o casamento. O locutor debateu com ele e para minha surpresa, saiu-se com um argumento religioso, muito apropriado creio eu, contra o ouvinte: “Diga-me” - inquiriu o locutor - “Você é um sujeito normal? Você sente desejos?”. Silêncio do outro lado da linha. Após alguns instantes continuou o locutor: “Olha, por que você acha que o S-nhor colocou esses desejos em você se Ele não quisesse que você agisse sobre eles?” O pobre ouvinte certamente não esperava ser atacado no campo religioso e ficou sem resposta. Enquanto eu seguia meu caminho pelas ruas de Nova York, fiquei pensando na situação daquele ouvinte e me senti solidário para com ele. Percebi de repente que a serpente do Éden após todos esses anos está bem viva e passando muito bem! O argumento que ela usou lá no princípio é sempre atual. “Mesmo que D-us tenha dito para que você não coma da árvore... e daí?” ---- Assim, segundo a serpente edênica, os mandamentos de D-us, sejam eles quais forem, não são primários. A voz verdadeira do Divino sussurra para você de dentro para fora, através dos desejos e das paixões que o próprio D-us instilou em nosso ser. Se esses mesmos desejos foram de fato colocados em 50

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nós pelo nosso Criador por que então não honrá-Lo fazendo com que eles sejam efetivos? Através de toda a História humana, os opositores da religião têm aprimorado este argumento em um vasto número de formas e guisas. Nos últimos cem ou duzentos anos, um dos mais poderosos desses críticos da religião foi o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, autor de uma série de ensaios chamada “Além do Bem e do Mal”. Nesses e em outros escritos, Nietzsche argumenta ferrenhamente contra a religião organizada do ocidente. Ele critica em suas obras a tendência da religião ocidental de desprezar os prazeres e alegrias “mundanos”. Segundo o filósofo alemão, a religião ocidental tende a evitar tais prazeres como se fossem coisas a serem temidas pelo povo comum. A paixão ele declarou, é a essência da vida. Se evitamos os desejos e as paixões reprovamos no mais essencial teste de humanidade, deixamos de ser humanos de verdade. Qual então deve ser a resposta para a serpente – ou mesmo para aqueles que advogam o argumento que ela usou no Éden para induzir o ser humano? É correto dizer que as paixões são para os animais e que os mandamentos de D-us são para os humanos; que os animais obedecem a voz de D-us dentro deles e que nós obedecemos a voz de D-us que nos chega por meio dos mandamentos- mas, como humanos, será que devemos negar as paixões e os desejos, será que devemos eliminá-los de nossa existência como se não fizessem parte de nós mesmos? O desejo desperta nosso senso de estética, faz com que nós ansiemos por beleza, faz com que nos emocionemos ao som de belas canções. Para dizer a verdade, até certa altura, Nietzsche estava certo: Nossa apreciação dessas coisas, pelo menos em parte, é o que nos torna humanos. No momento em que eu estiver sem nenhum desejo, no momento em que eu anulá-lo, no momento em que eu não tiver mais nenhum tipo de desejo, aí então eu não terei mais razão ou motivo para despertar no outro dia. Estou na mesma condição que uma pessoa morta. Se isso é assim, então onde foi que a serpente errou? Para responder esta pergunta nós precisaremos recalibrar nossos argumentos um pouco. Nós precisaremos dar mais uma olhada no que é o desejo e ver se fato nós queremos, precisamos ou devemos afinal dispensar seus apelativos. Afinal de contas, poderia-se argumentar que o próprio D-us é um Ser extremamente movido pela paixão, pelo desejo, pela votade. Ele é um Ser tão poderoso que espontaneamente manifesta-se como realidade. D-us deseja um universo e do nada tudo passa a existir. O que poderia estar errado com um pouco mais de paixão, de desejo, de vontade? TORÁ E O TEMPERO DA VIDA Há mais ou menos dezoito séculos, os Sábios do Talmud da Babilônia anteciparam esta linha de raciocínio e eles sugeriram uma metáfora simples mas ao mesmo tempo intrigante que tenta penso eu, responder esta questão. A metáfora foi escrita em hebraico e encontra-se no Tratado Kiddushin, 30b: 51

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‫הקב"ה אמר להם לישראל בני בראתי יצר הרע ובראתי לו תורה תבלין ואם אתם עוסקים‬ ‫בתורה אין אתם נמסרים בידו‬ HaKadosh Baruch Hu amar lahem le-Israel: Beni, baratí yetzer hará uvaratí lo Torah tavlin ve-im atem osekim ba-Torah ein atem nimsarim be-yado. A tradução: “O Santo e Bendito Seja disse para eles (para Israel): Meu filho, eu criei a inclinação para o mal e criei para ela a Torá como antidoto. Se vos ocupardes da Torá, vós não sereis entregues na sua mão.” À primeira vista, os Sábios parecem estar sugerindo que a Inclinação para o Mal, a yetzer hará, é um problema um veneno e a Torá é a solução, o antídoto – como normalmente é vertida a palavra tavlin. Mas, como sempre ocorre muito se perde na tradução do hebraico para os idiomas modernos. No hebraico original, o Talmud diz que o Eterno criou a Torá como tavlin para a Inclinação para o Mal. A maioria dos tradutores vertem essa palavra como “antídoto” (“Se vocês tomarem dessa antídoto [i.e., a Torá] vocês não serão entregues nas mãos da Inclinação para o Mal”). Esta tradução parece até que se ajuste ao contexto da passagem talmúdica, mas na verdade, não é exatamente isso que o texto quer dizer. Se você for a Israel hoje e visitar o famoso antigo mercado de Jerusalém e pedir tavlin você certemente não será encaminhado à seção de ervas medicinais. Em vez disso, os atendentes mostrarão para você maços de cebolinha verde, menjericão, salsa, pimentado-reno etc. A verdade é que o termo tavlin significa “especiaria, tempêro”. Bem, esse sentido de “tempêro” muda bastante as coisas. Mas se a palavra tavlin significa “tempêro”, o que será que os Sábios do Talmud queriam dizer com isso? O que eles queiam dizer ao afirmar que a Torá é o “tempêro” da Inclinação para o Mal? Em que tipo de coisa você coloca tempêros? - Bem, colocamos tempêro em carne, em comida em geral. Intreressante isso! A Inclinação para o Mal é “carne”. Que modo diferente de se encarar as coisas! Se você estivesse preso numa ilha deserta e pudesse escolher entre uma provisão anual de carne e têmperos, qual seria sua escolha? Bem, eu arriscaria supor que a maioria de nós escolheria carne. O tempêro é bom, mas ninguém pode viver à base unicamente de tempêro! A carne por outro lado, é “combustível”, a carne nos fornece energia para viver. À primeira vista, parece surpreeendente e até blasfemo pensar dessa forma. Como ousa dizer que a Inclinação para o Mal é mais “essencial” de alguma forma do que a própria Torá? Mas, antes de tirar conclusãoes apressadas, espere e pense no que os Sábios afirmam naquela passagem do Talmud, pois não é só a palavra tavlin que desafia os tradutores --- temos ainda a expressão “Inclinação para o Mal”, que é também em si mesma um 52

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grande desafio para a nossa correta compreensão. Como normalmente traduzida, a expressão parece ser um conceito extremamente passível de ser mau compreendido. O que exatamente é a concepção de “Inclinação para o Mal”? Será que é o chamado “lado escuro da Força”? Será que é alguma espécie de diabo de chifres com tridente e brilhantes vestes vermelhas? Será que trata-se de alguma espécie de anjo caído que volta e meia fica sussurrando ao nosso ouvido maus conselhos por não ter mais nada interessante para fazer? É difícil mesmo escapar de oscuras e sinistras idéias metafísicas e até vergonhosamente infantis quando pensamos sobre a “Inclinação para o Mal”. Mas, na nossa “vida real”, no mundo tangível, o que isso significa? O que queremos dizer quando mencionamos a “Inclinação para o Mal”? Se mudarmos a linguagem dos Sábios do Talmud para a linguagem moderna da psicologia nós poderíamos dizer que a “Inclinação para o Mal” nada mais é do que nossas paixões, desejos e inclinações. Na verdade, podemos ir até um pouco além. Em hebraico, a expressão “Inclinação para o Mal” é yetzer hará. A raiz da palavra yetzer é y-tz-r [ ‫ ] יצר‬que fascinantemente significa “formar, moldar, plasmar”, e em resumo, “criar” (à partir de algo). Se traduzirmos a expressão literalmente teríamos algo como (prepare-se!): O ímpeto para criar de forma errada ou ainda, a criatividade do modo errado. Nossas paixões constituem-se na força que nos move. Nosso ímpeto de criar é uma espécie de “motor” que nos faz andar e viver, é em essência um dos mais profundos e fundamentais princípios da vida. Na verdade essa habilidade de criar surge de diversas formas em nossa experiência diária: através da sexualidade, da arte, das novas idéias e invenções, da ambição – todas essas coisas são formas externas, exteriorizações ou “válvulas de escape” que dão vazão à todas as expressões da criatividade humana. O Talmud séculos antes de Freud e Nietzsche antecipava que tais forças são essenciais para nossa condição de seres humanos. Sem essa “energia criativa”, sem essa “carne”, ou você não é humano ou está morto. Mas, o Talmud parece dizer que a “carne” pode levar um pouco de “tempêro”. Vamos pensar um pouco nisso. O que o tempêro pode fazer com a carne? O tempêro faz com que a carne tenha sabor, ele dá uma nova “direção” para a carne, faz com que ela tenha sabor desta forma e não daquela outra. Sem nenhum tempêro, a carne não tem sabor; mas, com o tempêro apropriado, torna-se no prato dos reis. Isso explica porque os Sábios do Talmud afirmam que a Torá é o tavlin, o tempêro da Inclinação para o Mal. A Torá dá à essa nossa inclinação natural uma nova direção, a direção apropriada. A Torá dá a direção correta aos nossos desejos, paixões e ímpetos. A sexualidade, a ambição, a vontade, a imaginação, a criatividade – todas essas coisas são o nosso “combustível”, aquela força que nos anima e nos faz agir. É tentador para certas religiões e filosofias olhar com certa desconfiança para essas inclinações e reprová-las, fazendo com que seus seguidores passem a rejeitá-las. O Talmud não concorda com essa visão. Segundo esse vasto 53

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compêndio de sabedoria, o temível poder das paixões e dos desejos não deve ser suprimido – não precisamos tirar o motor do carro, não precisamos renunciar a “carne” e morrer de fome. Não – a Torá não tem como objetivo extingüir as nossas paixões, nossos desejos, nosso poder criativo. A função da Lei Divina é por outro lado de complementá-los e orientar a correta vazão de todos esses aspectos de nosso ser; A função da Torá é basicamente prover “sabor” aos nossos desejos, temperá-los, direcioná-los aos fins produtivos, guiá-los em direção à objetivos válidos e sagrados. Alimente seus desejos, sua ambição, sua sexualidade, sua criatividade ---- e não os destrua, é o que nos diz a Torá. Mas direcione essas inclinações para este objetivo e não para aquele outro. Oriente-os e não se deixe orientar por eles – esta é a regra. O ADVENTO DO DESEQUILÍBRIO Houve um tempo em que essa tarefa de orientar nossos desejos não era tão difícil como agora parece ser. No mundo anterior à árvore do conhecimento, quando a paixão e o intelecto estavam mais naturalmente equilibrados, a clareza moral era mais fácil de ser percebida pela mente humana. Nós podíamos tomar decisões com uma visão sem interferências, sem o temor de que nossos desejos pudessem distorcer o panorama moral, sem nos preocuparmos com a possibilidade de que a vontade de nosso Criador pudese ser sutilmente corrompida por nossas paixões, por nosso ímpeto de criar. Mas o mundo mudou – e nós mudamos após termos comido do fruto daquela árvore. Após termos partilhado daquela árvore misteriosa, daquela fonte dos desejos, nós passamos a perceber que o “motor” que nos move é muito mais poderoso do que poderiamos jamais imaginar. Sim, a bem da verdade, essa grande força que estava em nós foi plenamente conhecida e ela nos fez seres maiores, mais semelhantes ao Criador, como o próprio D-us: “Sereis como D-us, conhecedores do bem e do mal” (Gênesis 3:5) Mas, foi aí que surgiu o grande problema: A humanidade trocou o seu “motor” por outro ainda mais poderoso – mas o pior é que fomos deixados com o mesmo “volante” com a mesma direção que tínhamos antes, ou seja, nosso intelecto. O delicado equilíbrio entre as paixões e o intelecto foi alterado. No mundo posterior à árvore, Adão e Eva – todos nós – fomos deixados no meio de uma luta a fim de resolver o maior dilema de nossa existência: Como orientar um poderoso “motor” fazendo uso de um intelecto pequeno, limitado e incompatível com a potência dessa nova “máquina”? UM MEDO RECÉM-DESCOBERTO Agora, leiamos nossa história pela última vez, atentando para o que acontece logo após Adão e Eva terem comido da árvore proibida. Pouco depois de ter comido do fruto proibido, Adão ouve “a voz de D-us que caminhava pelo jardim” e ele se esconde, agora ciente de que estava nu. É interessante notar que foi o simples ato de ouvir a voz de D-us – não algo que D-us tenha dito 54

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em particular – mas sim, a consciência de ter ouvido Sua voz pelo jardim que fez com que Adão ficasse ansioso. Tendo recentemente cedido ao jogo da serpente, tendo aceitado a idéia de que D-us fala conosco por meio dos instintos ou através de uma voz dentro de nós mesmos, o fato de Adão ter ouvido a voz de D-us vindo de for a deve ter sido algo especialmente amedrontador. Constituía-se numa evidência insofismável de que D-us de fato nos fala por meio de palavras, que Suas expectativas em relação a nós vão muito mais além do que imaginamos ao cedermos à esse nosso “motor” (os desejos), deixando que ele nos guie para onde bem entender. A ansiedade de Adão toma forma de desconforto pela sua nudez. É interessante insistirmos na idéia de que Adão não estava envergonhado (como esperaríamos de alguém que de repente se vê nu em público); antes, a sensação que tomou conta dele foi o medo: “Tive medo porque estava nu e me escondi” (3:10). O medo está muito longe da vergonha. Eu fico envergonhado quando cometo uma gafe em público, mas tenho medo de algo que percebo ser maior, mais forte do que eu, de algo que noto estar fora do meu contrôle – enfim, tenho medo de algo que pode me controlar e me subjugar. Antes de comer da árvore, Adão estava bem consciente de sua nudez – só que ele não a temia. A sexualidade no mundo anterior à árvore era considerada parte natural da vida, por que então preocupar-se com roupas? Agora, entretanto, a mesma sexualidade, nosso ímpeto biológico de criar era infinitamente maior, manifestava-se com maior intensidade, tornara-se ameaçadora. Agora a nudez, a confrontação direta, desbloqueada, com nossa própria sexualidade torna-se fonte de medo, de temor. Estas paixões recém-descobertas, este ímpeto de ciar – tudo isso pode ser divino --- mas ao mesmo tempo, tudo isso pode ser intoxicante; essa força pode subitamente tomar conta de mim. Como então guiar um “motor” tão temível e poderoso quanto esse que acabamos de descobrir? O PREÇO DO PODER Depois que Adão e Eva comeram do fruto proibido, D-us lhes impõe o que parece ser uma série de punições aleatórias. Morte, dores de parto, trabalho penoso, a serpente passaria a rastejar e comer pó. Mas será que todas essas punições são tão aleatórias quanto parecem? Será que elas não seguem uma lógica ou não apresentam nenhuma coerência? Vamos começar com a serpente. Adão e Eva forma iludidos por uma serpente que falava, que andava. Bem, serpentes não falam e provavelmente jamais falaram; serpentes não andam e provavelmente jamais andaram --sempre rastejaram.

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Logo, do que falamos aqui? De qual “serpente” falamos aqui? Diversas referências bíblicas comparam as atitudes do ímpio com as atitudes de uma serpente: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras. Têm veneno semelhante ao veneno da serpente; são como a víbora surda, que tapa os seus ouvidos” [Salmo 58:3-4; veja também Salmo 140:2-3] A Tanach classsifica como “ímpio” ou pecador todo aquele que cede aos seus desejos e paixões, nunca direcionando-os da forma correta para o alvo determinado por D-us. Sendo assim, a serpente é um símbolo mais do que apropriado para nossas paixões, vontades e desejos. No Éden, a mulher ouve a voz da “serpente” e cede à mesma (note que Adão não é mencionado, pois é Eva quem dialoga com a serpente). Razão e emoção fazem parte de nosso ser, e a parte que cede ao desejo e às paixões é certamente a emoção, e Eva é um símbolo mais que adeqüado ao nosso eu emocional, por ter ela cedido aos apelos da “serpente”. Indo ainda mais adiante, vemos que Adão “ouve a voz de D-us” no jardim, e se esconde (apesar de mencionar ambos, o verbo hebraico aparece no singular – vide Cap. IV “A verdade nua”, subtítulo: “A estranha proeminência da nudez”). Ao ser interrogado por D-us, Adão responde (no singular): “Tive medo porque estava nu e me escondi”. Somente o nosso eu racional pode “ouvir a voz de D-us” e dar-se conta do estado em que nos encontramos; logo, Adão é o modelo perfeito da consciência, do racional. A pena aplicada à “serpente” é rastejar e comer pó. A mulher por sua vez, deve ter sua vontade sujeita a Adão [Gênesis 3:14 e 16] . Se atentarmos para esses dois casos, notaremos que ambas as penalidades são idênticas, são na verdade uma só. Nossos desejos [a “serpente”] devem estar um nível abaixo de nós [“rastejar”], e nossa emoção [“Eva”] dever ser subjugada, dominada pela razão [“Adão”]. Logo, sinto desapontar, mas nenhuma referência que possa agradar aos machistas-chauvinistas aqui pois nossa passagem é totalmente alegórica. D-us afirma que colocaria inimizade entre a semente da “serpente” e aquela da “mulher”, o que significa o contraste entre os desejos e as emoções e a luta que todos teríamos no futuro para subjugar nossas paixões quando as mesmas apelam não para o nosso aspecto racional, mas sim, para a parte mais frágil de nosso ser – o nosso eu emocional. A semente da mulher feriria a serpente na cabeça (i.e., obteria sucesso na tentativa de subjugar seus desejos) mas não sairia totalmente incólume nesse novo mundo ainda não desbravado do pós-árvore do conhecimento, pois sairia ferida no calcanhar, uma alusão aos revéses que sofreríamos aqui nessa nova realidade. A Tanach está repleta de exemplos de pessoas que obtiveram sucesso nessa empreitada 56

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espiritual, mas que vez ou outra, acabaram sendo feridas no calcanhar pela serpente (Abraão, Davi, Ezequias etc). O Salmo 91 afirma entretanto que aquele que habita no esconderijo do Altíssimo poderá finalmente e em definitivo calcar aos pés a serpente [v. 13], isto é, subjugará suas paixões e desejos orientando-os em conformidade com a vontade do seu Criador. Apesar da essência alegórica de nossa passagem ela também tem certos aspectos reais, tangíveis. Aquilo que poderíamos ver como uma punição da parte de D-us em relação ao sexo feminino, i.e., a geração de filhos em meio à multiplicação de dores pode ser visto na verdade como mera conseqüência desse novo estado de consciência. Voltemos à analogia do motor e do volante: Imagine que você acaba de adquirir um carro construído por uma montadora extremamente competente. Esse carro funciona perfeitamente e todo o conjunto está em perfeita harmonia. Se não houver nenhuma fricção entre as partes do carro, por quanto tempo ele vai durar? Bem, ele deverá durar para sempre. Certo, mas e se... e se você quiser acrescentar mais força ao motor, se trocar o 4 cilindros original por um potente V8... Bem, agora você tem mais potência em sua máquina, mas a certo custo. A harmonia se foi. Internamente a fricção entre as partes aumentou e surgiu o desequilíbrio entre elas, causando um desgaste maior do que o natural. Algum dia, o sistema todo entrará em colapso. Esse desequilíbrio causado pela intromissão de uma nova e tremenda força inteiror que tenta nos dominar passou a afetar o nosso “sistema”. Adquirimos mais intensidade em tudo o que desejamos, nossa vontade e poder de criação passou a agir com maior intensidade mas de forma um tanto desordenada e um tanto diferente da original. Todo nosso ser foi afetado. O desequilíbrio tornou-se físico e emocional, hoje geramos e criamos filhos em meio à dores e tribulações, hoje trabalhamos duro em “solo improdutivo” que nos produz “cardos e espinhos” --- figura adequada para o trabalho penoso e que não traz muita satisfação. Essa realidade só será definitivamente mudada quando da restauração de todas as coisas ao seu estado natural, primitivo: “Não trabalharão em vão, nem terão filhos para calamidade; porque serão a descendência dos benditos do Senhor, e os seus descendentes estarão com eles”. [Isaías 65:23] Hoje em dia, a humanidade sente a falta de harmonia de outras formas também. Nós nos percebemos não sincronizados com todo o restante da Criação. No passado, o mundo natural fornecia ao homem tudo o que ele precisava, sem esforço algum. Agora, o homem deve buscar o seu sustento do solo e com o custo do suor do seu rosto – e além disso, o mesmo solo de onde ele fora tirado lhe é contrário, poduzindo ervas daninhas que o tornam improdutivo! No passado, estávamos em harmonia com o mundo a nossa volta. 57

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Agora, quando um tsunami avança silenciosamente em direção à praia, é o mundo animal que sente por instinto que algo estranho está para acontecer, e assim, os animais buscam abrigo em lugares mais altos. O homem por outro lado, permanece enclausurado no seu próprio mundo, de férias na praia – alienado do resto da Criação, alheio ao sutil clamor do mundo natural ao seu redor. Hoje em dia, a humanidade não está mais em harmonia consigo mesma, e também não está em harmonia com o mundo criado para ela. Sofremos a “morte” no exato dia em que comemos do fruto proibido, pois a “morte” que nos foi imposta no Éden não é a morte física tal qual a conhecemos mas é isso sim, o simbolo perfeito dessa alienação, desse “exílio”¹ que impusemos a nós mesmos – fomos “expulsos do Éden”, exilados de nossa primitiva condição, sofremos assim a “morte” a qual D-us fez referência quando deu a ordem: “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” Estamos nos aproximando do fim de nosso estudo sobre o Éden. No próximo capítulo, abordaremos a aparente pergunta desnecessária feita pelo Eterno: “Onde estás?”. Uma olhada na passagem em hebraico irá sem dúvida alguma revelar as impressionantes domensões dessa pergunta, incluindo a possibilidade de que a mesma nem tenha sido essencialmente uma pergunta, mas sim, algo muito mais surpreendente. Até lá.
Referências: ¹ morte = referências à morte como “exílio” ou saída forçada Salmo 107:10-14/Ezequiel 37/Oséias 13:14-16

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CAPÍTULO X

“Onde estás?” - A primeira pergunta da História

“Onde estás?” - D-us chama Adão após ter ele comido do fruto proibido. Nós perguntamos no começo por que D-us faria tal pergunta sendo que Ele naturalmente já sabia a resposta. Está na hora de revermos esta questão. Primeiramente, é bom saber que há duas palavras que significam “onde” no hebraico bíblico. A mais comum delas é eifo - mas, essa não é a palavra que D-us usa ao chamar o homem. Em vez disso, o Eterno usa a palavra menos comum, ayeh. Há diferenças entre os sentidos dessas duas palavras, e se de fato há, como podemos entender quais são elas? O modo de se resolver esse mistério não é consultar um dicionário, afinal de contas, como os autores do dicionário descobriram tais diferenças? O melhor a se fazer é consultar uma concordância, um livro que traz todas as ocorrências de certa palavra na Bíblia. Se pudermos identificar quando e em que contexto a Bíblia usa as palavras ayeh e eifo, então torna-se possível ligar os pontos e entender o sentido único de cada palavra. Como estamos muito dispostos hoje, vamos poupar-lhes o trabalho penoso de percorrer sua concordância bíblica em busca daquelas palavras. Vou dar-lhes alguns exemplos de onde especificamente essas palavras (ayeh e eifo) ocorrem na literatura bíblica e deixar que você tire suas próprias conclusões. Alguns exemplos com “eifo”: a.Hagidah na li eifo hem ro'im - “Dizei-me por favor onde eles estão apascentando... チ” (José, em relação ao paradeiro de seus irmãos), em Gênesis 37:16). 59

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b.Eifo likatit hayom? - "Onde colhestes hoje?” (Naomi para Rute) em Rute 2:19). c.Eifo Shmuel ve-David? - "Onde estão Samuel e David?” (Rei Saul buscando a David) em I Samuel 19:22. Alguns exemlos com “ayeh”: a.Vayigva adam ve-ayeh? - "O homem rende o espírito e onde está?” (Jó 14:10). b.Hineh ha'esh...ve-ayeh ha'seh le-olah? - "Eis aqui o fogo...mas onde está o cordeiro para o holocausto?" (Isaque para Abraão, subindo o Monte Moriah) em Gênesis 22:7). c.Ayeh na Eloheihem? - "Onde estão seus deuses?" (Em referência aos ídolos) no Salmo 115:2). d.Le'imotam yomru ayeh dagan ve-yayin? - “Para suas mães (os filhos famintos) dirão: Onde está o cereal e o vinho?” (Lamentações 2:12). Bem, o que você conseguiu captar disso tudo? Gostaria de dar-lhes um ou dois minutos de reflexão a fim de verificar se podemos isolar um denominador comum em cada série de citações. Ok, vamos lá então. Prontos ou não, eis aqui o que eu percebo dessas citações. Eifo é uma palavra mais genérica para dizermos “onde”. Isto quer dizer que eifo é uma expressão usada quando desejamos saber a localização de algo ou alguém. Assim, José por exemplo, só deseja saber onde estão seus irmãos; Naomi quer saber simplesmente onde Rute colheu naquele dia e o rei Saul quer saber qual o paradeiro de seu rival, David. Agora, consideremos a palavra ayeh. Como poderemos verificar ao usar esta palavra a pessoa não está querendo saber a localização de alguma coisa. Como exemplo, note a nossa última citação de Lamentações 2:12. As crianças na verdade não desejam saber onde se encontram o cereal e o vinho, até porque elas sabem que não há nenhum cereal ou vinho, pois a ênfase do livro de Lamentações é o cerco de Jerusalém em 606 aEC e os sofrimentos e penúrias que o povo judeu passou naquele triste momento de sua história, quando houve uma séria escassez de alimentos. Dessa forma, os filhos exclamam em agonia: Onde estão o cereal e o vinho que tínhamos antes em abundância? Temos algo parecido quando Isaac pergunta ao seu pai: “Mas onde está o cordeiro para o holocausto? チ ” A ênfase de Isaque não está no fato de que ele não consegue achar o cordeiro – sua ênfase está no fato de que não há 60

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nenhum cordeiro para ser achado! Deveria haver um cordeiro ali para o holocausto, mas não há. Pelo fato de que a palavra ayeh tem esse sentido único, a expressão usada pelo patriarca nos passa um vasto espectro emocional: É nesse momento que Isaac passa a perceber que já que não havia nenhum cordeiro ali, ele talvez fosse o objeto do sacrifício! Em resumo, quando usamos ayeh nós não estamos querendo saber onde algo se encontra; estamos na verdade expressando surpresa pelo fato de que algo que deveria estar ali não está; algo está faltando quando deveria estar na posição esperada. Isto então muda drasticamente o sentido da pergunta que D-us fez para Adão. O Altíssimo não está perguntando: “onde você está?” no sentido de que Ele não sabe o paradeiro do homem. Em vez disso, Ele está dizendo, “Para onde você foi? Por que você não está aqui (desse lado onde deveria estar)”. Em suma, D-us está lamentando a posição tomada pelo homem, como afirmam os Sábios no Midrash: “Ontem você estava aqui comigo e meu conhecimento; agora, você está com o conhecimento da serpente” (Midrash Bereshit Rabbah 19:9) Ayeh é o tipo de pergunta que você pode fazer mesmo quando sabe a localização das coisas ou das pessoas. É uma palavra muito mais triste e melancólica do que eifo. Numa estranha coincidência, a forma de ayeh (“onde”) usada por D-us em Gênesis 3:9 [ayekah] escreve-se da mesma forma que a palavra que expressa toda a dor e o lamento de Jeremias ao contemplar Jersualém desolada. O profeta usa a palavra eichah. Eichah yashvah vadad ha-ir (Como encontra-se solitária a cidade...) Lamentações 1:1

‫איכה ישבה בדד העיר‬

‫ויקרא יהוה אלהים אל האדם ויאמר איכה‬
Va-iykrá Ad-nay Elohim el ha-adam va-yomer “ayekah” (E chamou o S-nhor D-us ao homem e disse, onde estás?) Gênesis 3:9 Compare a primeira palavra hebraica de Lam 1:1 com a última de Gên 3:9, ambas em destaque azul. Notou como elas são idênticas quanto à forma de escrita? Em Lamentações, diz Jeremias: “Como encontra-se solitária a cidade...” - O profeta chora ao contemplar Jerusalém destruída, solitária e desolada relembrando das grandes multidões que para lá afluíam nos dias das festas sagradas e que agora foram levadas para além de Babilônia. Adão e Eva foram também “exilados” e a expressão usada por D-us assim como a usada por Jeremias tem mais a ver com lamento do que com uma pergunta em si, um lamento que expressa toda a tristeza divina ao contemplar a separação causada pelo ato de comer do fruto do conhecimento.

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Eu trouxe Adão ao Jardim do Éden e dei-lhe ordens, as quais foram desobedecidas. Eu então decretei exílio para ele e ao partir, Eu lamentei “ayekah” [‫ .]איכה‬E assim foi com os seus filhos. Eu os trouxe para a Terra de Israel e dei-lhes ordens, as quais eles desobedeceram. E então decretei exílio para eles e ao partirem, Eu lamentei “eichah” [‫] איכה‬ (Midrash Bereshit Rabbah 19:9). DONS GÊMEOS Nossa história no Jardim do Éden termina com dois atos finais. 1) O Altíssimo confecciona vestes de pele animal para ambos, a fim de substituir o tipo mais primitivo de vestimentas feitas de folhas das árvores. 2) Após expulsar Adão e Eva do Jardim do Éden a fim de que eles não comessem da árvore da vida, D-us posiciona anjos querubins com espadas flamejantes para guardar o caminho de volta àquela árvore. De uma forma estranha, mas bastante pertinente, esses dois eventos estão intimamente relacionados. Nós percebemos que os querubins aparecem só duas vezes em todos os cinco livros de Moisés. Além da referência no Éden, a única vez que o termo é usado é na ordem dada a Moisés para que se fizesse dois querubins de ouro, como ornamento para a arca da aliança. Na arca, como sabemos, guardava-se além de outros objetos sagrados, as tábuas da Lei, símbolo da aliança divina com Israel as quais estariam protegidas pelos querubins postos sobre a tampa da arca, chamada de kapporet [propiciatório]. Apropriadamente, o Livro de Provérbios descreve essas tábuas ou a Torá que elas representam como outra “árvore da vida”, uma árvore da vida para todos aqueles que se apegam a ela (Provérbios 3:18). Assim, os mesmos querubins que antes vigiavam o caminho de volta para a árvore da vida são os mesmos que agora nos dão acesso à uma outra “árvore da vida”. Alguns capítulos atrás nós questionamos o por quê disso e nos perguntávamos em que sentido a Torá pode ser vista como uma “árvore da vida” substituta. A resposta para essas questões devem ser evidentes agora. Após obterem o conhecimento do bem e do mal, a humanidade tornou-se mais “divina”, mais passional, mais desejosa, mais intensamente criativa. Mas nós nos tornamos apenas “semelhantes” a D-us, o que não quer dizer que sejamos Ele! Ser verdadeiramente divino significa não ser apenas passional, ser imbuído de desejo como D-us é. Isto significa não apenas criar como D-us cria, mas sim, manejar sabiamente a temível força que tal ato encerra; Significa controlar plenamente as forças e tendências de nossa natureza e não sermos controlados por elas; Significa também manter o equilíbrio das paixões, significa perceber que há tempo determinado para se criar e tempo de parar de criar. 62

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Após comermos da árvore do conhecimento, após termos ampliado o papel da paixão em nossas vidas, viver eternamente não era mais o que o médico ordenou para a humanidade. A vida eterna resume-se na presença constante de D-us em nossas vidas. Assim, após a proibição do acesso àquela primitiva árvore, deu-se o caso de que o homem necessitava de alguma árvore da vida substituta, a fim de que o equilíbrio fosse restaurado e a harmonia pudesse prevalecer na psiquê humana. A nova árvore da vida foi projetada para ajudar o homem a lidar com um mundo totalmente novo, um mundo no qual as paixões poderiam obscurecer o olho da mente, dificultando nossa percepção daquilo que de fato é certo, genuíno e daquilo que realmente é mau ou incorreto. Os anjos que outrora barravam o acesso de nossos primitivos pais à árvore da vida primeva são os mesmos que agora nos abrem o caminho em direção à uma outra, graciosamente oferecida por D-us. A Torá é o guia para fazer a vontade de D-us, uma ferramenta que pode ajudar o homem a distingüir os impulsos de sua própria criatividade das profundas convicções mantidas pelo seu Criador. Ao consumir do fruto dessa árvore da vida, ao assimilar o ponto de vista da Torá, o homem recebe uma nova e potente direção, que o habilita a manejar o seu novo “motor”, fazendo dele um ser plenamente divino. Agora, pare e pense por um momento para contemplar o que aconteceu aqui. Mesmo quando D-us nos baniu do Éden, mesmo quando naquele momento que nós parecíamos mais rejeitados, Ele nos imbuiu de ferramentas apropriadas para este bravio mundo novo, que afinal de contas, nós mesmos “criamos”. Vamos pensar agora no segundo ato divino, quando o Eterno faz vestes para Adão e Eva. No mundo que D-us previra para o homem, não haveria necessidade de roupas; Elas seriam supérfluas. Não foi escolha de Dus que o homem vivesse num mundo em que a nudez fosse algo que devesse ser temida ou evitada. Todavia, nesse momento de profunda decepção, o Eterno providencia roupas para Adão e Eva, dando-lhes as ferramentas para que o ser humano pudesse iniciar sua nova caminhada nessa nova realidade e posição que ele mesmo escolhera. AS ROUPAS DE ADÃO E A SEPULTURA DE MOISÉS Os Sábios do Midrash afirmam que a Torá começa com um ato de misericórdia e termina com outro ato de misericórdia. O primeiro ato de misericórdia refere-se ao ato divino de fazer roupas para o ser humano e o último ato de misericórdia refere-se ao sepultamento de Moisés, feito pelo próprio D-us de acordo com a Torá, quando o Grande Legislador encontrava-se sobre o Monte Nevo, contemplando a Terra Prometida, sem no entanto colocar seus pés ali. Em ambos os casos, as coisas não saíram muito em conformidade com o que D-us planejara para Suas criaturas. Era de se esperar quando se cria seres com livre arbítrio. Adão e Eva desapontaram D-us quando comeram 63

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daquela árvore e como resultado eles foram banidos do Éden, devendo morrer em solo estranho. Moisés por sua vez, também desapontou o Altíssimo ao ferir a rocha e como resultado ele não pôde entrar na Terra Prometida, devendo morrer às suas portas, em pleno deserto. Em ambas os exemplos, o homem escolheu fazer sua própria vontade e não a do seu Criador. E como resultado de ambos os eventos, o homem deixou para trás o mundo ideal que D-us tinha-lhes preparado, trocando esse mundo por outro, de solo desconhecido. A reação divina em ambos os casos é a mesma. Ao sepultar Moisés num momento em que não havia ninguém mais presente para fazê-lo, Ele pessoalmente providenciou ao Legislador o meio de transição deste mundo para outro. Esta transição dar-se-ia ainda no futuro caso a vontade de D-us tivesse sido feita. E ao providenciar as “roupas” apropriadas para Adão e Eva, o Eterno lhes concedeu um meio de transição do mundo do Éden [o ideal divino] para um novo mundo que o homem mesmo criou e escolheu. Caso a vontade divina tivesse sido feita também nesse caso, essa transição não se daria assim de forma tão abrupta e inesperada. A realidade clara é que os seres que possuem liberdade de escolha, livre arbítrio, nem sempre correspondem às expectativas de seus criadores. Se isso é assim conosco, o mesmo também é com D-us. Nós temos filhos mas eles têm vontade própria e livre escolha – suas escolhas nem sempre correspondem às nossas expectativas. Uma lição que levamos dessa série de estudos sobre o Éden é que quando talvez nossos filhos nos desapontam, quando eles fazem escolhas que não aprovamos, quando eles trocamm o “mundo” que nós cuidadosamente preparamos para eles por um mundo dúbio que eles mesmos criam – talvez nós também após todas as conseqüências tenham sido medidas, após todas as palavras tenham sido ditas, e após todas as angústias tenham sido absorvidas talvez nós também tenhamos forças para preparar-lhes roupas para essa sua nova jornada, ou seja, talvez consigamos muní-los de instrumentos e ferramentas apropriadas para a árdua tarefa de desbravar essa sua nova realidade.

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