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De volta ao Éden

De volta ao Éden

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Estudo sobre o relato do Éden embasado na Torah, Moreh Hanevukhim e outras obras tradicionais judaicas.
Estudo sobre o relato do Éden embasado na Torah, Moreh Hanevukhim e outras obras tradicionais judaicas.

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Published by: joão maria alves correia on Sep 03, 2008
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De Volta ao Éden

De Volta ao Éden

ÍNDICE

Introdução

De volta ao Éden

Capítulo I

Adão, Eva e algo mais...

Um mundo além do bem e do mal

Capítulo II

O conto das duas árvores

As árvores se contradizem?
O Jardim do Éden e o Princípio da Incerteza de Heisenberg
Querubins com a espada flamejante

Capítulo III

O lado escuro do Paraíso

O que nós sabemos sobre a serpente?
Uma “tentação” curiosa
Ser como D-us

Capítulo IV

A verdade nua

A estranha proeminência da nudez
Uma nudez oculta
Um engano “inocente”

Capítulo V

Os motivos da serpente

A árvore dos desejos
A serpente “nua”
A bela e a fera

Capítulo VI

Um mundo de brócolis e pizza

Do que é feito o verdadeiro conhecimento?
Certo e errado de fora para dentro
Escolhendo entre o brócolis e a pizza
Todos os dilemas morais são idênticos?

Capítulo VII

Um boxeador chamado 'Desejo'

Uma luta contra o irreal
Os jogos mentais do desejo
Os princípios do desejo

Capítulo VIII

O olho daquele que contempla

Há um modelo aqui?
As peças que faltam no quebra-cabeças

Capítulo IX

Friedrich Nietzsche e o D.J.

Torá e o tempêro da vida
O advento do desequilíbrio
Um medo recém-descoberto
O preço do poder

Capítulo X

“Onde estás?” A primeira pergunta da História

Dons gêmeos
As roupas de Adão e a sepultura de Moisés

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De Volta ao Éden

De Volta ao Éden

INTRODUÇÃO

De Volta ao Éden

Adão, Eva e a serpente são familiares para nós desde a tenra
infância, entretanto o sentido dessa história parece por demais elusivo. Por
exemplo, por que será que D-us proibiu comer da árvore do conhecimento do
bem e do mal? Será que Ele não queria mesmo que a humanidade estivesse
apta a distingüir o certo do errado?

Começamos nesta semana uma nova série de estudos que nos levará
de volta à história do Éden, revelando progressivamente novas camadas de
sentido.

Paradoxalmente, um grande problema quando estudamos as histórias
bíblicas é que elas são muito familiares para nós. Não importa onde você tenha
crescido ou que nível de educação tenha, você certamente já se deparou com a
história de Adão e Eva dezenas, senão centenas de vezes.

Ouvimos a história na escola, aprendemos a mesma em casa, e
alguns até talvez já tenham assistido filmes sobre o relato do Éden. Nós
conhecemos aquela história, asseguramos para nós mesmos. Será que de fato
a conhecemos?

Quando conhecemos uma história muito bem, nós nos tornamos
presa fácil do que gosto de chamar de “efeito canção de ninar”. O “efeito
canção de ninar” retarda nossa habilidade de perguntar – e até mesmo de ver
– as questões realmente importantes que a Bíblia está pedindo que
investiguemos.

O “efeito canção de ninar” nos anestesia através da impressão da
familiaridade. Veja só como funciona: Quando foi a última vez que você parou
para pensar sobre a letra das canções de ninar que muitas mães cantam para
que seus filhos durmam? Pare por um só momento e pense... mas pense
bastante! Pense na letra e no sentido da mesma. Para quem não consegue
lembrar de nenhuma dessas canções de ninar, lá vai uma das mais conhecidas:
“Boi da cara preta, pega esta criança que tem medo de careta”, ou ainda,
“Dorme menino que a cuca vem pegar”. Imagine só se a criança estivesse

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De Volta ao Éden

De Volta ao Éden

mesmo prestando atenção ou se pudesse enteder de fato o que tais letras
querem dizer. A criança pode até dormir com essas canções mas se ela de fato
estivesse entendendo a “mensagem” que a letra transmite, permaneceria
acordada com certeza! Muitas perguntas poderiam surgir em sua mente, tais
como: Quem me deixaria ficar aqui bem em frente à esse boi perigoso? Será
que meus pais estão tentando se livrar de mim? Será que só por eu ter medo
de careta isso seria motivo suficiente para me deixar sozinho em frente à esse
animal furioso?

Poucos porém mesmo remotamente se incomodam com a violência
implícita em tais letras de inocentes canções de ninar. E por que não nos
preocupamos com isso? Simples: Porque nós paramos de “ouvir” essas letras.
Repetimos as mesmas quase que mecanicamente e não nos damos conta do
seu impacto; Nós mesmos as ouvimos muitas e muitas vezes desde criança, e
mesmo antes de sabermos exatamente o que suas letras queriam dizer. E
agora, mesmo como adultos tais letras não nos podem chocar.

As histórias bíblicas são como canções de ninar nesse sentido. Quase
todas as histórias bíblicas têm o seu “elefante na sala” ou seja, um grande
problema ou uma série deles que estão aí pedindo para serem investigados.
“Por que D-us pediria que Abraão tomasse seu filho e o sacrificasse somente
para se retratar no último momento e dizer que Ele não queria isso de fato?”.
O que exatamente D-us tinha contra a construção da Torre de Babel? Por que
D-us se daria o trabalho de mandar Moisés barganhar com o faraó a fim de
libertar o povo hebreu sabendo que Ele mesmo (o próprio D-us) é que estava
“endurecendo” o coração do rei egípcio?

Mas, aí é que está o problema. Essas histórias são muito familiares
para nós; nós as ouvimos por muitas e muitas vezes. Elas já se tornaram parte
de nossa formação cultural. Nós mergulhamos nessas histórias através de
osmose, o modo como inconscientemente desenvolvemos tendências que
refletem o lugar onde crescemos. Nós já não conseguimos ver todos os
problemas que existem nesses relatos bíblicos e perdemos a sensibilidade e a
curiosidade para investigá-los.

Eu gostaria de convidá-los a mudar esta realidade. Quero pedir que
você embarque conosco numa jornada, uma aventura pelo texto bíblico na
qual nós faremos uma releitura dessas histórias que pensávamos conhecer tão
bem; só que dessa vez, veremos as mesmas com outros olhos e faremos as
perguntas que qualquer leitor inteligente faria.

Se esta idéia te deixa nervoso, relaxe. Não precisamos temer estas
perguntas, porque na verdade elas não são problemas mas sim,
oportunidades. Elas são janelas que o texto bíblico nos entreabre para que
percebamos os sentidos mais profundos do relato sagrado.

Na verdade, você pode manter as janelas fechadas e fingir que elas
não estão ali. Mas se você não abri-las, o tesouro que se encontra mais
adiante, um rico e tridimensional entendimento da Torá¹ sem mencionar ainda

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De Volta ao Éden

De Volta ao Éden

um mundo inteiro de Chazal² e Midrash³ permanecerá eternamente selado
para você.

Eis aqui então o que propomos. A cada ano, os judeus leêm toda a
Torá em seu ciclo de estudos; todavia, com muita freqüência não damos à
primeira parashá4 (que inclui Gên 1-3) a devida importância e atenção
merecidas.

Vamos então inspirar profundamente e dar uma olhada mais de perto
no texto da primeira parashá, na história de Adão e Eva, mas só que desta
vez, prestaremos muito mais atenção ao texto em si. Abra agora a sua Bíblia
na história de Adão, Eva e a serpente no Jardim do Éden. Sim, eu sei que você
conhece bem a história. Você tem a imagem da serpente enrolada na árvore
oferecendo uma maçã para Eva. Mas, aí é que está. Você deve ESQUECER tudo
isso e também essa imagem. Você precisa apagar essas imagens e ler a
história de novo. Você precisa quebrar a síndrome da canção de ninar.

Leia a história devagar e com cuidado. Só o texto, esqueça os
comentários. E enquanto faz isso, faça as seguintes perguntas para si mesmo:
Se eu estivesse lendo esta história pela prmeira vez, o que me chamaria a
atenção e quais elementos nela me parecem estranhos? Quais são as grandes
perguntas que a Torá deseja que eu faça sobre esta história?

Anote tudo o que achar importante e as perguntas que você tem
sobre o texto e nos veremos no próximo capítulo de nossa saga de
investigação do sentido mais profundo do texto bíblico. Até lá.

Rabino David Fohrman

Referências:

1.Torá = os cinco primeiros livros de Moisés (Gên/Êx/Lev/Núm/Deut). Tradicionalmente inclui-
se também a Mishná, cerne e coluna vertebral do Talmud.

2.Chazal = abreviatura hebraica de Chachameinu Zichronam Liv'rachá (Nossos Sábios de
Abençoada Memória). Trata-se de uma referência às interpretações bíblicas dos sábios do
judaísmo.

3.Midrash = comentários e interpretações (geralmente escritas) de certas passagens da Torá,
elaboradas por sábios antigos.

4.Parashá = porção da Torá lida e estudada a cada sábado na sinagoga.

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