PCN

O tempo muda o ensino da História
Até o começo dos anos 80, ensinava-se História principalmente com o objetivo de criar uma identidade nacional no aluno. Mas, muitas vezes, a “identidade” deixava mais dúvidas do que identificações. Por exemplo, independentemente de nossa cor, éramos todos descendentes de portugueses. Pouco se falava das centenas de grupos indígenas que viviam no Brasil de 1500. Sobre os negros, que já foram muito mais numerosos do que os brancos, as informações eram mínimas. O ensino tradicional preocupava-se com a decoreba de datas e nomes. Longe da realidade e sem utilidade visível, a disciplina tornava-se um assunto chato que existia apenas em livros velhos, fotos amareladas e na poeira dos museus. Mas a

de 1ª a 4ª série

Parâmetros Curriculares Nacionais

Fáceis de entender
s A prioridade é desenvolver a consciência s Use os eixos temáticos como estratégia s Valorize o conhecimento de sua turma

História

Nada de decorar nomes e datas. Ensinar História é estimular os alunos a refletir e fazer descobertas História mudou, graças a fatores como a expansão escolar, que trouxe um público culturalmente diversificado às aos estabelecimentos de ensino, aumento do acesso dos estudantes às informações e uma nova visão pedagógica, que considera os alunos como participantes ativos na construção do conhecimento. O que se busca agora é desenvolver a consciência humana, algo que será alcançado estabelecendo-se relações entre identidades individuais, sociais e coletivas e relacionando-se o particular e o geral, construindo as noções de diferenças e semelhanças e de continuidade e permanência.

Alunos da Escola Eliezer Steinbarg, do Rio, fantasiam-se de detetives em um exercício de investigação

O aniversário de uma cidade vira tema gerador

E

m 1997, Belo Horizonte – a capital mineira – completou 100 anos. O evento, muito comemorado, serviu como um poderoso tema gerador de atividades

escolares, sobretudo em História. O colégio Santa Dorotéia, da rede particular, aproveitou bem a oportunidade. Os pais dos alunos da préescola, por exemplo,

foram convidados para contar como se vivia na cidade quando eram crianças. Eles falaram do chicotinho-queimado, da cabra-cega e de outras brincadeiras de rua, quando a capital tinha menos carros. Lembraram também brinquedos, como os fantoches, que as crianças aprenderam a fazer. Elas montaram,

Fotos Giovani Pereira

ainda, livros com fotos de álbuns de família. Os alunos de 1ª a 4ª série estudaram os meios de transporte usados nesses 100 anos. Eles fizeram carros de boi , bondes, trens e metrô de papel machê, associando cada tipo de veículo à história da cidade. Depois, percorreram de ônibus as ruas centrais e desenharam mapas da

região para comparar o traçado atual das ruas com o que foi planejado há um século. Uma grande quantidade de árvore que valeram a Belo Horizonte o apelido de Cidade Jardim, foi derrubada para dar espaço para os veículos. Junto com Artes, os alunos conheceram hinos e canções populares de Belo Horizonte.

Crianças do Santa Dorotéia: ensaio de hino em homenagem a Belo Horizonte

Carro de boi, trem e bonde de papel machê: história dos meios de transporte

PCN 1ª a 4ª série -

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Alice Hattori

Pluralidade Língua Cultural Portuguesa

As práticas do construtivismo podem tornar minhas aulas de História mais interessantes? No construtivismo não há fórmulas prontas. Trabalhe com os fatos do dia-a-dia dos alunos e com as diferentes visões que eles têm dos protagonistas da História. Os passos seguintes podem ajudar a obter uma aprendizagem mais significativa. * Descubra o que as crianças já sabem sobre o conteúdo a ser introduzido. * Levando em conta a faixa etária dos alunos e o tipo de problematização que deseja fazer, escolha material que ponha em dúvida os conhecimentos prévios deles. Dê ênfase às interações professor-alunos e alunos-alunos. * Ao planejar os objetivos da aula, tenha claras as possibilidades reais e potenciais da classe. * Avalie os resultados obtidos junto com as crianças: elas terão mais consciência do próprio processo de aprendizagem e você verá se é preciso fazer correções em sua prática de aula.
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- PCN 1ª a 4ª série

Trabalhe com eixos temáticos
Para substituir o ensino simplificador do passado, que se limitava a transmitir aos alunos a seqüência dos períodos históricos, a proposta é trabalhar com “eixos temáticos”. Eles são os grandes assuntos do ensino da História para as quatro primeiras séries do Ensino Fundamental, em torno dos quais podem ser desenvolvidas várias atividades. No primeiro ciclo, equivalente às duas primeiras séries, o eixo temático é a História Local e do Cotidiano. No segundo ciclo – a 3a e 4a séries –, o eixo é a História das Organizações Populacionais.
O professor mostra uma foto antiga do local onde ele e os alunos vivem. Deve identificar com a classe o que mudou e o que foi preservado. Os costumes, o uso do espaço, as construções atuais e de então devem ser comparados.

Geografia

maneira, será mais agradável aprender com jogos, músicas, brincadeiras ou gravuras antigas, nos quais poderá identificar vestígios de outros tempos que ainda permanecem entre nós. O conhecimento sobre os costumes de outros grupos sociais, como os indígenas, revelará a existência de diferentes formas de relações sociais. Isso desenvolverá sua capacidade de diferenciar e identificar outros grupos sem classificálos como mais ou menos “evoluídos”.
Uma pesquisa mostrará que os alunos vivem em diferentes tipos de moradia (apartamento, casa, barraco). Em que tipo a maioria vive? Formule hipóteses do porquê de eles morarem em um tipo de residência e não em outro.

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Meio Ambiente

Ao propor o estudo da História Local, o professor estará fazendo com que o aluno amplie sua capacidade de observação do mundo que o rodeia e diversifique suas relações. O estudante terá mais facilidade em compreender a História se começar a abordá-la pelo tempo presente. Ele pode ver o mundo de hoje e diferenciá-lo de outros tempos por meio de objetos antigos que são o testemunho de outras formas de vida. Da mesma

Chegando ao segundo ciclo com essas noções básicas, o aluno estará pronto para começar a estudar a História das Organizações Populacionais. Aí, será o momento de ele compreender que a História também é feita de intercâmbios humanos, sociais, econômicos, políticos, culturais e artísticos. Essas noções podem ser transmitidas à turma ao estudar a procedência geográfica e cultural de suas famílias e as histórias que aconteceram quando se deslocaram de um lugar para outro. O professor também pode introduzir o estudo dos grupos e classes sociais que lutam ou lutaram por direitos ao longo do tempo e um apanhado de como foram se constituindo os centros políticos administrativos brasileiros.

Orientação Sexual

Saúde

Educação Física

Ciências Naturais

Chame os avós para dar aulas

Dica

Matemática

História

E

m muitas escolas ainda se ensina História como se ela existisse apenas nos livros. Mas não no Externato Nossa Senhora do Morumbi,

em São Paulo. “Queremos mostrar que a História foi e é uma coisa viva, feita por gente de carne e osso”, afirma a orientadora pedagógica de Estudos
Fotos Gustavo Lourenção

Sociais da escola, Norma de Oliveira Leite. “Entendendo isso, as crianças desenvolvem um visão crítica dos fatos.” Exatamente para mostrar que a História é real, a escola convida os avós para conversar com a turma de seus netos sobre a época em que tinham a mesma idade dessas crianças. Além de aumentarem o sabor

Dica

As crianças ficaram perplexas: vivia-se sem geladeiras elétricas, que só chegaram nos anos 50

Arte

Um bate-papo com os mais velhos: uma fonte de pesquisa que não está nos livros

Os cinemas ficavam no centro e passavam filmes seriados. Sala de bairro é invenção recente

Ética

O que se quer ensinar nessa etapa de aprendizagem
Conforme propõem os PCN nos capítulos dedicados à História, os alunos devem desenvolver as seguintes habilidades nas quatro séries iniciais do Ensino Fundamental: Ao final do primeiro ciclo, o aluno deve ser capaz de: s comparar acontecimentos no tempo, tendo como referência os conceitos de anterioridade, posteridade e simultaneidade; s discernir algumas semelhanças e diferenças sociais, econômicas e culturais existentes em seu grupo de convívio escolar e em sua cidade; s reconhecer que algumas situações sociais, econômicas e culturais se transformam e outras permanecem, em seu espaço de convivência; s caracterizar o modo de vida de uma coletividade indígena, que vive ou viveu na região, distinguindo suas dimensões econômicas, sociais, culturais, artísticas e religiosas; s estabelecer diferenças entre seu modo de vida e o da comunidade indígena estudada; s identificar alguns documentos históricos e fontes de informações, discernindo suas funções.

Ao final do segundo ciclo, o aluno deve ser capaz de: s reconhecer algumas relações sociais, econômicas, políticas e culturais que sua coletividade estabelece ou estabeleceu com outras localidades, no presente ou no passado; s identificar a ascendência e descendência das pessoas que pertencem a sua localidade, quanto a nacionalidade, etnia, língua, religião e costumes, contextualizando seus deslocamentos e confrontos culturais e étnicos, em diversos momentos históricos nacionais;
Relacione o local de nascimento de seus alunos. Peça que pesquisem junto à família as razões que a levaram a mudar. Pesquise em livros, vídeos e revistas as rotas migratórias no país e no mundo. Compare a história relatada por cada um.

Meus alunos não gostam de estudar História. Como posso motivá-los? A primeira providência é tornar a matéria a ser dada significativa para o aluno. Isso se faz envolvendo a criança no tema, o que lhe permite participar dessa História. Todos os assuntos trabalhados em classe devem ter relação direta ou indireta com questões presentes no dia-a-dia dos estudantes. Uma enchente na cidade, por exemplo, possibilita essa ligação. As crianças podem ter presenciado as chuvas ou visto no noticiário da TV os estragos causados por elas. O fato serve de ponto de partida para uma aula sobre o meio ambiente e o desmatamento ao longo dos séculos. O mesmo acontecimento dá margem ainda a discussões sobre como ocorreu a ocupação do município ou da região onde se vive. Enfim, a motivação da turma cresce à medida que o professor dá vida aos eventos do passado e o aluno os relaciona com os problemas do presente.
PCN 1ª a 4ª série -

s distinguir as relações de poder, formais ou de fato, estabelecidas entre sua localidade e os demais centros políticos, econômicos e culturais, em diferentes tempos; s utilizar diversas fontes de informação – jornais, revistas, noticiário de TV ou de rádio, conteúdos na Internet – para o desenvolvimento da leitura crítica; s valorizar as ações coletivas que tenham repercussão na melhoria das condições de vida das comunidades.

A turma queria saber quem foi Getúlio Vargas: um presidente amado por uns e odiado por outros

Linha do tempo: uma boa estratégia para apresentar noções de cronologia

da disciplina, esses encontros permitem explorar em detalhes até os mais singelos gestos do dia-a-dia e relacionálos com eventos grandiosos do passado. Por exemplo, os alunos ficaram fascinados ao saber que, na década de 40, as crianças de então guardavam os chicletes mastigados para desfrutá-los no dia seguinte. “Era a época da Segunda Guerra Mundial”, contou uma das avós. “Não se encontravam chicletes nos bares e a incerteza quanto ao futuro nos fazia economizar.” A turma, claro, quis saber

que guerra foi essa, quando começou, quem ganhou. Meios de transporte, o tamanho das famílias, os artigos de higiene foram alguns dos assuntos abordados. As crianças trabalharam como pesquisadores, observando objetos, entrevistando os participantes dos acontecimentos e produzindo textos informativos. O texto, nesse caso, foi um painel com uma linha do tempo. Feito com textos, fotos e ilustrações referentes a cada época, o painel teve também a vantagem de reforçar a noção temporal.

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Dica

Pluralidade Língua Cultural Portuguesa

Como fazer para meus alunos uma comparação entre o Brasil colonial e o de hoje? Comece discutindo com os alunos as razões que levaram nosso território a crescer para o interior entre os séculos XVI e XIX. Dessa forma, poderá estimulá-los a traçar hipóteses de trabalho e, em seguida, buscar comprová-las pelo estudo do processo de expansão territorial. Será possível então desenvolver a noção de que o território do Brasil atual constitui uma construção histórica, cujas marcas podem ser facilmente identificadas nas diferenças entre as várias regiões do país. Esses estudos mostrarão que a busca de mão-deobra indígena, a pecuária e a mineração, entre outros exemplos, foram atividades que expandiram a ocupação portuguesa para muito além do litoral e dos limites do Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494.
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- PCN 1ª a 4ª série

Você pode ir mais fundo em suas aulas de História
A proposta dos PCN é que o professor, ao lecionar História nos primeiros anos do Ensino Fundamental, trate de três conceitos que estarão presentes em todos os anos de escolaridade: o fato histórico, o sujeito histórico e o tempo histórico. Mas atenção: quando o professor repassa ao aluno o estudo produzido por pesquisadores, ele vai adaptar parte desse conhecimento a seus objetivos. Nesse processo, ele vai se utilizar de uma série de representações sociais do mundo e da História. Ou seja, estará escolhendo uma concepção de História para transmitir aos alunos.
Construir linhas do tempo deixa mais clara a sucessão dos fatos históricos e suas interações. Qualquer aspecto da História pode ser representado assim. A mudança nos transportes na cidade em que se vive – as carroças, o bonde, os ônibus – pode ser feita facilmente.

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O professor, por exemplo pode traduzir para o aluno a noção de fato histórico num acontecimento como uma festa cívica ou o ato de um herói. Ou pode ensinar esse mesmo conceito por meio de ações humanas significativas. Dependendo das escolhas didáticas, pode-se restringir o fato histórico às atitudes isoladas de um ou outro personagem ou interpretá-lo de maneira mais abrangente, em que estão incluídas as ações que envolveram vários setores da sociedade, como criações artísticas, influências econômicas, ritos religiosos ou adesão popular a alguma idéia. A guerra de Canudos, que ocorreu no sertão da Bahia em 1897, por exemplo, foi sem dúvida um fato histórico. Ali, 30 000 pessoas morreram, entre soldados e sertanejos. O episódio é interpretado como resultado das lutas entre um imenso grupo de sertanejos conduzidos pelo líder religioso Antônio Conselheiro e as tropas do recém-criado Estado Republicano. Ocorreu isso, sim, mas houve mais. Em Canudos encontraram-se vários conflitos da sociedade: lá estavam desempregados pela crise na lavoura canavieira, militares que disputavam o poder com políticos civis e o medo republicano de um levante para restaurar a Monarquia.

Ciências Naturais

Meio Ambiente

Geografia

Saúde

Educação Física

Viagem a bordo de uma cápsula do tempo

Orientação Sexual

Dica

Matemática

Dados sobre as eleições de 1996 foram guardados. Como estará a política em 2008?

Alunos e cópias dos objetos guardados na cápsula A pré-escola deixou as marcas de seus pés e mãos

Gustavo Lourenção

A 3ª série inventou o jogo Percurso do Tietê, mostrando a poluição do rio. Com sorte, a situação muda tubo de PVC guardado dentro de uma caixa d’água – só será aberta em 2008, quando o colégio fará trinta anos. As crianças colocaram ali seus planos para quando crescerem, previsões sobre a despoluição do Rio Tietê (que corta São Paulo) e sobre o futuro dos semterra, entre outros documentos.

História

Q

uem já não pensou em deixar informações sobre o presente para os pesquisadores do futuro? A idéia fascina também as crianças. No Colégio Madre Iva, em Cotia, na Grande São Paulo, a proposta da professora de História Sonja Antiqueira Magri de construir e encher

Arte

com trabalhos escolares uma “cápsula do tempo” para ser aberta anos depois entusiasmou os alunos. A intenção era desenvolver a noção de tempo dos estudantes.

“Nessa faixa etária, entender o que é o presente, o passado e o futuro não é simples quanto parece”, explica Sonja. Construída em 1997, a cápsula – um

Ética

O tempo corre em velocidades diferentes
Os conceitos de sujeito histórico e tempo histórico também podem ser tratados de maneira tradicional ou inovadora. Sujeitos históricos são personagens como Tiradentes, Getúlio Vargas, Bill Clinton, reis, soldados, escravos, patrões ou trabalhadores que foram fundamentais em determinado tempo histórico para o desenrolar de um fato histórico. O professor não deve limitar-se a ensinar aos alunos os nomes e feitos de personalidades, mas mostrá-las no contexto em que sua ação ganhou significado. Da mesma forma que a HisPara ilustrar a noção de passado, presente e futuro, o professor pode apresentar graficamente o andar do tempo. Por exemplo, num calendário que relacione as atividades dos alunos, representadas com desenhos, com as horas em que são feitas.

tória não deve ser entendida como resultado da vontade de alguns indivíduos “iluminados”, o professor não pode passar a idéia de que a seqüência dos conhecimentos é compartilhada por toda a humanidade num mesmo percurso ao longo do tempo cronológico. Cada nação, povo ou comunidade vive o próprio tempo histórico. O aluno deve compreender que alguns fatos históricos têm curta duração, ao passo que outros levam décadas (às vezes séculos) para se consumar. Um bom exemplo para ilustrar tal informação é a Independência do Brasil e os vários planos pelos quais ela pode ser compreendida. Na esfera política, a Independência representou uma mudança de governo, que foi formalizada no dia 7 de setembro de 1822. No nível econômico, no entanto, as mudanças demoraram um pouco mais, já que a necessidade de rompimento com a dominação portuguesa vinha se manifestando desde 1808. No entanto, no plano das relações de produção, a Independência não trouxe alterações significativas. Nas relações trabalhistas, a escravidão ainda duraria 66 anos, até a assinatura da Lei Áurea.

Como trabalhar a localização dos fatos da História do Brasil colonial na linha do tempo? O mais importante na hora de montar a linha do tempo é selecionar os eventos a ser mencionados. Não é produtivo fazer a cronologia de todos os acontecimentos importantes do período. O critério de escolha deve ser definido pelo tema a ser desenvolvido em sala pelo professor. Além disso, os episódios destacados na linha do tempo devem ter um significado para o aluno. Se o tema das aulas for, por exemplo, a divisão do Brasil em capitanias hereditárias, uma notícia sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra pode dar à criança o sentido que a envolverá nas aulas. Na linha do tempo, relacione a chegada de Martin Afonso de Souza ao país e outros fatos que mostrem como o governo português dividiu o território. Um exercício desse tipo deixa claro para os estudantes que o Brasil, desde quando era colônia, tinha nos latifúndios sua principal forma de ocupação.
PCN 1ª a 4ª série -

O passado vira notícia em uma TV colonial

C

om ar grave, o apresentador levanta os olhos do papel, encara a câmara e diz: “Ontem à noite, o imperador dom Pedro I radicalizou e fechou a Assembléia Constituinte”. No quadro seguinte, um comentarista econômico, pessimista com a situação nacional, lamenta a queda dos preços do

açúcar e do algodão e os gastos com a Guerra Cisplatina. As câmaras são de papelão. Os apresentadores, alunos da Escola Castro Alves, em Cariacica (ES). As notícias saíram das pesquisas feitas na biblioteca da escola. No ar, a “História Legal”, projeto da professora Edna Mendes Tavares. A idéia é pedir aos alunos que transformem

o conteúdo ensinado em classe em notícias apresentadas sob a forma de um telejornal. “Os alunos se sentiram motivados e a atenção e a assimilação dobraram”, garante a professora Edna, que levou as crianças à sede de alguns jornais locais, para estudar técnicas de redação. Os estudantes prepararam o texto, o cenário e, depois de pesquisar, criaram o figurino da “Dom Pedro I” dá uma entrevista ao vivo: indecisão entre Portugal e o Brasil

época, mesmo que fosse um simples chapéu usado por “dom Pedro I” na entrevista ao vivo em que admitia estar “dividido” entre manter-se leal a Portugal ou lutar pela independência brasileira.

Alunos da Castro Alves pesquisam na biblioteca da escola: matéria-prima para telejornal

Fotos Samuel Vieira

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Dica

Pluralidade Língua Cultural Portuguesa

Como posso explicar a meus alunos a origem da expressão “santo do pau oco”? A expressão surgiu no século XVIII, em Minas Gerais. Sua origem tem relação com uma prática usada para sonegar os impostos cobrados pelo rei de Portugal, que eram elevadíssimos durante o apogeu da mineração. Para escapar do tributo, os donos de minas e os grandes senhores de terras da colônia colocavam parte de suas riquezas no interior de imagens ocas de santos, feitas de madeira. Algumas delas, normalmente as maiores, eram enviadas a parentes de outras províncias e até de Portugal, como se fossem presentes inocentes. Por isso, essas imagens acabaram conhecidas como “santos do pau oco”. Esse estratagema aproveitava a religiosidade profunda existente na época e o costume dos mais ricos de manter em casa altares com os santos de sua devoção.
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Valorize os conhecimentos de seus alunos
A História é uma das disciplinas que apresentam maiores possibilidades de criar situações pedagógicas para que o aluno desenvolva suas capacidades intelectuais autônomas e se transforme num observador atento da realidade, capaz de estabelecer relações, comparações e chegar a conclusões sobre o tempo e o espaço em que vive. Principalmente porque, dentro das novas concepções, ela é matéria viva e deve desenvolver um método específico de comunicação com os estudantes. O professor pode facilitar o processo de aprendizagem utilizando materiais como relatos orais, imagens, objetos, danças, músicas, narrativas, cartas, mitos, lendas, construções arquitetônicas, utensílios, vestimentas e quaisquer outros itens que possam se transformar em instrumento de construção de conhecimento. Ao mesmo tempo, o aluno terá mais facili-

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- PCN 1ª a 4ª série

Educação Física

dade em compreender a História se o professor partir dos problemas locais, em que ele está inserido (como a escola, sua família, vizinhos ou amigos), fazendo a relação destes com situações regionais, nacionais e mundiais. Por exemplo: a criança poderá aprender sobre temas que estão sendo discutidos na sociedade por meio de debates, leitura e identificação dos problemas de seu bairro. Com certeza, ela saberá propor soluções. Para que essa dinâmica tenha o maior aproveitamento possível, recomenda-se que o professor valorize os conhecimentos, hipóteses e modos de explicar que os alunos já possuem. Esses dados devem ser tomados como ponto de partida para desenvolver estratégias que permitam ampliar o repertório inicial. Também é proveitoso que se selecione material de fontes diferentes, mostrando ao aluno a diversidade de opiniões que pode existir sobre o mesmo assunto. Como fechamento da atividade, o professor pode propor que o tema estudado seja transformado em um produto cultural, que poderá ser, entre outros, livros, mural, exposição de desenhos, teatro, mapa ou quadro cronológico.

Ciências Naturais

Meio Ambiente

Geografia

Saúde

Moda pode ajudar a entender o passado
época. Na atividade sugerida pelas professoras Denise Subtil e Denise Cruz da Silva, as crianças pesquisam em revistas, fotografias, discos e entrevistas com parentes as mudanças na moda brasileira e as relacionam com os fatos que marcaram o país nas últimas quatro Painel coletivo: trabalho para décadas. retratar a evolução da moda Elas pesquisam e fazem modelos de roupa s alunos da 3ª de papel e organizam série da Escola um “desfile” com Municipal Professor músicas da época. Augusto Cony, no Rio de Os estudantes Janeiro, estudam as desenvolvem o espírito transformações da de pesquisa e exercitam história contemporânea a capacidade de brasileira observando o contextualizar os fatos. vaivém da moda de

História

Orientação Sexual

Matemática

Fotos Marcelo Carnaval

Anos 60, época política turbulenta: a moda retrata a inquietação jovem

Anos 70: roupas informais com influência hippie e da mística indiana

O

Arte

Anos 80: ainda há ecos da década anterior, mas o vestuário é mais social

Anos 90: para os alunos, na era da diversidade toda roupa é bem-vinda

Ética

Visitas e excursões também ajudam o aprendizado
A obrigatoriedade de saber a lição de cor foi definitivamente superada em favor de atividades mais significativas e estimulantes, tanto para os alunos quanto para o professor. Visitas a museus, exposições, cidades históricas e pesquisas no bairro põem o estudante diante de situações que permitem seu contato com tipos diferentes de informação e a possibilidade de interagir com essa diversidade, para que chegue às próprias conclusões. Recomenda-se que o professor desenvolva algumas atividades antes da realização da visita, para que a classe obtenha o maior proveito. Ele pode, por exemplo, pedir aos
Corresponder-se com outros países pode mostrar aos alunos que fatos históricos são vistos com olhos diferentes. A troca de cartas entre estudantes brasileiros da cidade de Santos (SP) e de Portugal, por exemplo, mostrou que o ensino da História no país europeu pouco fala do tráfico de escravos no Brasil colônia.

alunos que façam uma pesquisa prévia sobre o lugar que vão visitar, organizar junto com as crianças um roteiro do passeio, um mapa do local e a divisão de tarefas. Também é interessante que converse com a turma sobre a importância daquele patrimônio ambiental, histórico, cultural ou arqueológico, decidindo em conjunto as condutas que não interferem no local, que pertence a toda a humanidade e não a um grupo específico de pessoas. Também é importante que, depois de realizada a atividade, o professor faça propostas
Antes de levar sua turma a um lugar histórico, visite o local escolhido. Assim será possível fazer um roteiro de acordo com os assuntos que estão sendo estudados e tornar a visita mais proveitosa.

Qual é a forma correta de fazer a divisão dos séculos? Qual será o último ano do século XX? O modo usual é fazermos a divisão de 100 em 100 anos (de 1 a 100): o século I começa no ano 1 e termina no ano 100. Contamos a partir do nascimento de Jesus Cristo. O século II se inicia em 101 e finda no ano 200 e assim sucessivamente. Algumas pessoas cometem o engano de começar a contagem dos séculos por um hipotético ano zero. É um equívoco, pois nunca existiu ano zero. Ao contrário do que muita gente também pensa, o último ano do século XX será o ano 2000. Somente no dia 1o de janeiro de 2001 é que entraremos de fato no século XXI. Isso quer dizer que só vamos poder comemorar a chegada do novo século e o início do terceiro milênio na passagem de 31 de dezembro de 2000 para 1o de janeiro de 2001.
PCN 1ª a 4ª série -

Dica

para que os alunos organizem as informações. Dê preferência a trabalhos que possam ser compartilhados com outras pessoas. Por exemplo, que tal reunir outros grupos da própria escola ou familiares, para que os alunos contem como foi o passeio e o que aprenderam? Vale a pena verificar se há condições para uma atividade como essa.

Música, letra e dança, a História no ritmo rap

G

rande parte dos moradores de Ceilândia, cidadesatélite de Brasília, é pobre e se identifica com o rap, música de origem americana com letra de protesto social.

Tirando partido disso, a professora Valéria Guedes, da Escola da Fundação Bradesco, em Ceilândia, sugeriu a seus alunos que transformassem em raps alguns conteúdos
Fotos Marcelo Carnaval

escolares. O trabalho começou com aulas expositivas e a seguir foram feitos debates em sala e pesquisa em textos paradidáticos. Finalmente, iniciou-se a composição das músicas. Temas como o Primeiro Reinado (18221831) ou a Escravidão foram desenvolvidos. Mas o melhor é que os alunos relacionaram assuntos atuais com o passado. Como no rap

Alunos de Ceilândia apresentam um dos seus raps: críticas a questões sociais, como a dos menores abandonados

Meninos de Rua: “(...) no Império era diferente, todos os menores viviam contentes, eles viviam com seus pais e moravam em fazendas legais (...)”. As músicas foram apresentadas para toda a escola, e aclamada uma campeã. Este trecho do rap De Volta ao Passado, dedicado ao reinado de dom Pedro I, parece mostrar que os objetivos de Valéria foram atingidos: “(...) o que nós devemos fazer é estudar o passado e aprender, para modificar a nossa realidade, e saber de tudo sobre a verdade”.

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Dica

Pluralidade Língua Cultural Portuguesa

Ética

Arte

Crianças manuseiam vários tipos de papel: analogia com raças e culturas

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- PCN 1ª a 4ª série

Fotos Leonardo Carneiro

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É verdade: a Guerra dos Cem Anos foi um conflito entre a nobreza feudal da França e a da Inglaterra pelo trono francês. Naquele período, não existia sequer a idéia de nacionalidade. Os países eram conjuntos de feudos. O rei da Inglaterra, por exemplo, tinha feudos na França. O conflito iniciouse em 1337 e se estendeu até 1453. Durou, portanto, 116 anos, com períodos de trégua e de luta. Foram os primeiros manuais didático lançados no século XIX, que divulgaram a idéia de um século de confronto, com o intuito de facilitar a compreensão dos estudantes. Para saber mais sobre o assunto, consulte os livros História Medieval, de Jacques Heers, Difel/Edusp, São Paulo, e História da Idade Média, de C. W. Previtéorton, Martins Fontes, Lisboa.

Por que a Guerra dos Cem Anos recebeu esse nome, se ela, na verdade, não teve essa duração?

O tempo pode abarcar múltiplas concepções
O tempo é um dos conceitos mais difíceis de ser entendidos no estudo de História, pois pode indicar uma cronologia, a marcação de um período de duração ou o ritmo de organização de determinada comunidade, por exemplo. Mas é importante dar atenção especial a sua compreensão nessa fase do ensino, porque ele é um poderoso auxiliar para que o aluno se torne capaz de sair do campo do raciocínio concreto para pensar reflexivamente. De acordo com os PCN, não deve existir uma preocupação em ensinar formalmente aos alunos essas noções. Isso pode ser feito por meio de atividades que vão diferenciando, aos poucos, os diversos conceitos e possibilitando a compreensão da complexidade do tempo. Por exemplo: criar rotinas de atividades, organizando-as em quadros de horários, e agendas é uma boa idéia de atividade que possibilita ao aluno organizar-se de modo autônomo em relação aos acontecimentos da escola. Também é interessante fazer o re-

gistro dos dias da semana, do mês e do ano, chamando a atenção para datas como feriados, aniversários e festas, relacionando-os com acontecimentos do passado e do presente. Salientar a repetição dos fenômenos naturais como o dia e a noite e as mudanças nas fases da Lua também é útil para estudar o assunto.
Não deixe de falar da história de sua região mesmo que ela pareça não ter tido papel relevante nos eventos nacionais. Toda mudança histórica traz reflexos no cotidiano das pessoas.

Geografia

Outra boa idéia é fazer a comparação entre a rotina de trabalho dos camponeses e a da produção em uma fábrica. Com esse exercício, os alunos poderão perceber que o tempo também pode ser um ritmo de organização das sociedades, ordenando as ações individuais e coletivas. Para chamar a atenção sobre o tempo histórico, por exemplo, é sempre bom confrontar acontecimentos do presente com os de outras épocas. Além disso, os alunos podem se divertir identificando nos assuntos que estão estudando aqueles que são de curta, média ou longa duração.

Saúde

Educação Física

Ciências Naturais

Meio Ambiente

Pegando conceitos com a mão
A professora Priscila e o painel de fotos: rostos diferentes, mas com grande semelhança brasileiros, conclui a turma. Mas são todos iguais? Novo debate, e a resposta é “não”, mas não podemos tratar tais diferenças com preconceito. Em seguida, Priscila distribui vários tipos de papel: lixa, papel de seda, jornal, cartolina, crepom. Em grupos, os alunos manuseiam o material. Qual o papel mais importante? Cada um acha que é o dele. No final, concordam que não há como responder a essa questão. “Cada variedade é única e, muitas vezes, insubstituível na sua característica”, concluem.

História

Orientação Sexual

Matemática

A

lguns conceitos de História parecem abstratos demais e difíceis de explicar aos alunos mais novos. A professora Priscila Crantschaninov, do Centro Educacional e Cultural Vivência, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, usa retalhos de papel e fotos para ilustrar noções como a de diversidade cultural. “Como as crianças ainda

estão numa fase de raciocínio muito concreto, procurei um material que facilitasse sua passagem para um nível mais alto de abstração”, explica Priscila. A atividade começa com a professora montando um cartaz com fotos de vários tipos humanos: brancos, negros, índios, orientais, famosos, pobres... O que eles têm em comum? São

Dica