Economia Pública Aula 7 III – Externalidades e sua correcção 4 – Políticas correctoras das externalidades : Imposto Pigouviano e solução de Coase

Bibliografia : Cullis & Jones (1998) : 2.4, 2.5 e 2.6 Pontos a abordar : 1 – Direitos de propriedade; 2 – Coase e os custos de transacção; 3 – Apresentação gráfica e algébrica do Teorema de Coase; 4 – As limitações do Teorema de Coase na prática; 5 – Os instrumentos práticos e a sua relação com os instrumentos teóricos. 1 – Direitos de propriedade Custos de transacção – São os custos inerentes às externalidades numa relação bilateral. Para Coase (1960) a existência de ineficiência deve-se a externalidades que ocorrem devido à inexistência de direitos de propriedade. Se as externalidades definem o direito de propriedade então não é necessária a intervenção estatal para repôr o óptimo, apenas há que definir os direitos de propriedade com custos de transacção bem definidos. A negociação entre os agentes assegura o óptimo de Pareto. Direitos de propriedade+custos de transacção baixos+ possibilidade de transacção dos direitos= eliminação das externalidades Os direitos de propriedade podem definir-se em quatro formas : Como direito absoluto, como direito relativo, como direito com pagamento de indemnização e como regra de inalienabilidade. Prof. Carlos Barros 1

Situação A: A Empresa detem os direitos de propriedade O Estado define os direitos de propriedade. 2.Economia Pública O direito de propriedade exige a existência de : 1. O pescador precisa de água não poluída. Nestas condições a empresa pode usufruir do rio e poluí-lo. Para que as condições 1 e 2 existam tem de haver : i) ii) Capacidade de exclusão. ????? a teoriade Coase através de um exemplo. Carlos Barros 2 . cinema (não existe rivalidade no consumo. A empresa está disposta a reduzir de alguma forma a produção (isto é. A empresa gera um poluente que afecta a pesca e o pescador precisa de água não poluída para ter peixe. atribuindo-os à empresa. Direito de disposição – capacidade de alienar voluntariamente determinada quantidade de um bem. Direito de fruição – capacidade do agente disfrutar em exclusividade a satisfação proporcionada pela utilização total ou parcial de determinada quantidade do bem. Existência de rivalidade no consumo Ex : espectáculo de foguetes (não existe rivalidade no consumo nem capacidade de exclusão) . a externalidade) se para isso o pescador a indemnizar. mas existe capacidade de exclusão). em que o funcionamento da negociação se faz com base nos direitos de propriedade: Considere-se uma empresa de pasta de papel e um pescador no rio. (Ex: compra de 5kg de batata dá o direito pleno de utilizá-las após a aquisição). Prof.

π (qX) + c (qXP . I≥ . (ii) Apresentação Algébrica do Problema O pescador tem de comprar certos direitos por forma a conseguir a redução da quantidade produzida pela empresa. I-Valor da indemnização. C = custo marginal da indemnização. π XS= π no óptimo social. A maximização do lucro da empresa é dada por: Max qX ∂ π X/∂qX (q*) = c X aceita produzir no óptimo social desde que o lucro marginal seja igual à indemnização (c).( π XS Como πsx<πpx O pescador (Y) propõe uma indemnização definida pelo intervalo : I ≤ ( π YS - π XP) I = indemnização. Carlos Barros 3 . Cmax = custo máximo que o pescador está disposto a pagar. ter-se-á: I1 = c (qXP . ter-se-á: π YP) Como a produção social do pescador é superior à produção privada tem-se: π YS> π YP Considerando que a indemnização é função da quantidade produzida.qXS) Prof.qXS) Cmin ≤ c ≤ Cmax Cmin = custo mínimo que a celulose aceita receber. X aceita produzir no óptimo social quando : (i) Definição do espaço de negociação entre a empresa e o pescador Suponha-se que o pescador (Y) decide pagar uma indemnização.Economia Pública Admita-se que o mercado é de concorrência perfeita e o pescador (Y) paga à celulose (X). para a empresa a produção social é menor que a produção privada. Nesta situação há lugar à negociação. que definirá a indemnização a pagar. π XP= π no óptimo privado.

Prof. o pescador está disposto a pagar no máximo KBAA’ e a empresa está disposta a reduzir a sua produção para qXS e ganha. a empresa produz 0qX P . pelo que o máximo que o pescador está disposto a pagar ao produtor para este diminuir a sua produção mede-se pela recta CmgE . Se não houver negociação.c (qXP .Economia Pública Note-se que c entra com sinal positivo na função porque a empresa recebe o subsídio. A redução na produção é dada por BKA. O lucro marginal é da empresa mas o custo da externalidade é do pescador. pelo que a indemnização máxima menos a redução na produção dá o lucro que é gerado pela negociação: KBAA' – BKA = BA' A . Maximização do lucro do pescador Max qy ∂ π Y/∂qY (qY*. Note-se que c entra com sinal negativo na função porque o pescador paga o subsídio. Como qualquer negócio tem de ser vantajoso para ambas as partes é de esperar que a área relativa à produção da externalidade KBAA’é dividida entre os dois. Se houver negociação.qX*) = c π (qY) . Carlos Barros 4 .qXS) Y está interessado em produzir até à soma em que q é tal que o prejuízo marginal iguala a indemnização. a poluição continua e o mercado não está a produzir no óptimo de Pareto.

já que produzirá mais com a água mais limpa. desde que exista negociação que assegure a internalização da externalidade. Carlos Barros 5 . Coase – Se a quantidade que certos agentes económicos sofrem com a externalidade excede os ganhos que o produtor obtém ao produzir essa externalidade. mas ganha com a transacção por passar a ter água mais limpa. para reduzir a sua produção e naturalmente a externalidade. se a celulose poluir o rio terá de indemnizar o pescador. mas também não produz. Neste caso a empresa recebe apenas KBA o pescador ganharia BA’A. Existem duas hipóteses : (i) A celulose paga para poder produzir. A celulose não paga. Assim. Situação B: Os direitos de Propriedade pertencem ao Pescador Considere-se agora que os direitos de propriedade são atribuídos ao pescador. Na realidade é de esperar que a distribuição do lucro se faça entre os dois intervenientes. Haverá pelo menos um indivíduo que melhora o seu bem-estar. O pescador não ganha o lucro da negociação. e nesse caso o pescador não recebe nada. sem que para isso outro indivíduo fique em situação pior. Conclui-se : A externalidade pode ser relevante à Pareto. Trata-se da situação simétrica da anterior e com as mesmas conclusões. Definição do Espaço de negociação Prof. será natural que o produtor aceite uma compensação (indemnização) dos agentes afectados. Admita-se que devido à negociação é a empresa que fica com o lucro. Nesta situação atinge-se um óptimo de pareto em que a empresa melhora o seu bem estar (recebe o lucro) .Economia Pública Quem fica com o lucro gerado (BAA’)? No limite é a empresa. e o pescador não fica pior.

Y aceitará vender os direitos a X se : I2 ≥ . com d = valor da negociação.( π YS - π Y P) Existe um nível de produção óptimo maior que zero. X aceita indemnizar se : I2 ≤ ( π XS - π XP) Obtém algum lucro. π Y = π . (ii) Apresentação algébrica do problema Condição de maximização do lucro para a empresa: Maxqx π X (qX) + dqX ∂ π X / ∂qX (qX*) = d .qX) + ∂qX ∂ π Y / ∂qX (qY*.Economia Pública Admita-se que o pescador vende direitos de poluição à empresa. Note-se que se não produzir terá : qX = 0. Carlos Barros 6 . sendo o valor da indemnização I2 . π X=0 Conclui-se que se X estiver disposto a indemnizar há espaço para negociação. qX*) = 0 Prof. Condição de maximização do lucro para o pescador Maxqy π Y (qY. qX*) = d ∂ π Y / ∂qY (qY*.

Independente de a quem se atribue os direitos de propriedade. o rio) e se estes direitos puderem ser livremente transaccionados independentemente do agente a quem os direitos de propriedade forem atribuídos.Economia Pública Em termos gráficos ter-se-á : A’ABK = montante máximo que X está disposto a pagar A' BK = montante mínimo que Y está disposto a receber AA' B = lucro decorrente do aumento de eficiência inerente à internalização da externalidade. É possível através da negociação entre agentes económicos envolvidos pela externalidade atingir uma situação equivalente ao óptimo social. Carlos Barros 7 . Teorema de Coase – O óptimo social pode ser atingido internalizando os efeitos externos se forem atribuídos direitos de propriedade plena dos recursos (neste exemplo. desde que os direitos de propriedade estejam devidamente definidos. Prof. Este lucro pode ir para o pescador. chegamos a um óptimo social desde que exista negociação. Conclusões do Teorema de Coase : 1. mas também pode ir para a empresa.

7. Prof. Não existência de externalidades conjuntas – Se o regime de negociação for conjunto e não houver independência no processo de negociação da afectação de direitos de propriedade. o Teorema de Coase falhou. Porque é que ainda não se resolveu o problema da poluição ? Hipóteses explicativas : 1. não é igual ao preço. mas também os agentes futuros). Carlos Barros 8 . Número de agentes envolvidos – O problema da existência de free riders pode fazer com que não haja negociação. na situação B o pescador tem uma função lucro melhor do que na situação A. Esta indiferença existe na perspectiva da eficiência.Economia Pública 2. 6. Qualquer perturbação conduz ao óptimo privado ou à produção nula. O equilíbrio não é estável. o sistema só tem aplicabilidade quando o número de agentes envolvidos é reduzido e quando os custos de transacção são nulos ou residuais. 2. Estando os direitos de propriedade definidos é irrelevante em termos do óptimo social a quem são atribuídos. que é dado pela curva da procura. Se existir concorrência perfeita num destes mercados o benefício marginal. A não convexidade das preferências dos indivíduos – Nesta situação o custo marginal da externalidade pode ser decrescente. Se existirem os custos ou benefícios podem ser usados como chantagem. já que se qualquer das situações A ou B conduz a um ponto na fronteira de possibilidades de produção. Identificação dos interessados – Numa perspectiva intertemporal a externalidade pode afectar não só os agentes presentes. Existência de custos de transacção que impedem a negociação. É menor porque o produtor enfrenta uma curva de procura decrescente. Assim. Críticas ao Teorema de Coase – Para que o resultado da negociação seja efectivo é necessário que o processo de negociação entre as partes envolvidas não tenha custos associados. simétrica e perfeita. 5. 3. 4. Inexistência de informação sobre a externalidade.