PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Vão-se os anéis: uma abordagem etnográfica do penhor

DÉCIO SOARES VICENTE Orientadora: Profª. Drª. Lúcia Helena Alves Müller

Porto Alegre 2007

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

DÉCIO SOARES VICENTE

Vão-se os anéis: uma abordagem etnográfica do penhor

Porto Alegre 2007

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DÉCIO SOARES VICENTE

Vão-se os anéis: uma abordagem etnográfica do penhor

Monografia apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Ciências Sociais.

Orientadora: Profª. Drª. Lúcia Helena Alves Müller

Porto Alegre 2007

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DÉCIO SOARES VICENTE

Vão-se os anéis: uma abordagem etnográfica do penhor

Monografia apresentada como requisito para obtenção do grau de Bacharel, pelo curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Aprovado em____de______________de______.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Mauro Roese - UFRGS

Prof. Dr. Airton Luiz Jungblut - PUCRS

Orientadora: Profª. Drª. Lúcia Helena Alves Müller - PUCRS

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A Pluralidade Humana A pluralidade humana, condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e da diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da ação para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e idênticas. Ser diferente não equivale a ser outro - ou seja, não equivale a possuir essa curiosa qualidade de alteridade comum a tudo o que existe e que, para a filosofia medieval, é uma das quatro características básicas e universais que transcendem todas as qualidades particulares. A alteridade é, sem dúvida, um aspecto importante da pluralidade; é a razão pela qual todas as nossas definições são distinções e o motivo pelo qual não podemos dizer o que uma coisa é sem a distinguir de outra. Na sua forma mais abstrata, a alteridade está apenas presente na mera multiplicação de objetos inorgânicos, ao passo que toda a vida orgânica já exibe variações e diferenças, inclusive entre indivíduos da mesma espécie. Só o homem, porém, é capaz de exprimir essa diferença e distinguir-se; só ele é capaz de se comunicar a si próprio e não apenas comunicar alguma coisa - como sede, fome, afeto, hostilidade ou medo. No homem, a alteridade, que ele tem em comum com tudo o que existe, e a distinção, que ele partilha com tudo o que vive, tornam-se singularidades e a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade dos seres singulares.

Hannah Arendt

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AGRADECIMENTOS

Meus sinceros agradecimentos para a professora Lúcia Müller, que me possibilitou a oportunidade de participar do Núcleo de Estudos de Empresas e Organizações e que me orientou, com muita sabedoria e paciência, na execução desse estudo. Agradeço à Caixa Econômica Federal, que permitiu a realização desse trabalho. Aos funcionários da empresa que me receberam muito bem. Aos clientes que utilizam o setor de penhor que colaboraram nesse estudo com os seus relatos. Agradeço aos professores que tive o prazer de conhecer no decorrer de todos esses anos como estudante. Aos colegas e amigos que participaram de momentos importantes ao longo desse curso. Agradeço à minha família, pela confiança e pelo apoio. Agradeço principalmente à minha mãe Susana, pois sem sua ajuda, nada teria sido possível.

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RESUMO

Este trabalho tem como tema a inserção do penhor nas estratégias financeiras dos sujeitos no novo contexto de mercado de oferta de crédito. O penhor é uma das modalidades mais antigas de empréstimo oferecidas à população. Atualmente, esse serviço de crédito é oferecido pela Caixa Econômica Federal e tem sido apontado como uma das alternativas mais atrativas para a população, em função dos baixos juros cobrados. Com a implementação de políticas públicas de inclusão, baseadas no acesso ao crédito, crescem cada vez mais a disputa entre bancos, financeiras, cooperativas de crédito, etc., para conquistar clientes de baixa renda. Mesmo assim, o penhor segue concorrendo como modalidade de crédito, em função das características que o diferenciam dos outros produtos financeiros existentes. “Colocar no prego” é uma prática que possui especificidades econômicas e simbólicas em relação às novas modalidades de crédito oferecidas no mercado. Além disso, no penhor, as transações envolvem objetos, as jóias, que não são simplesmente coisas, elas “possuem memória”, são partes da história de vida das pessoas (STALLYBRASS, 2000). Através de um estudo etnográfico, realizado na cidade de Porto Alegre, em 2007, buscou-se identificar as relações sociais envolvidas na busca pelo acesso ao crédito via penhor, e compreender os sentidos que as pessoas que utilizam o penhor atribuem ao crédito quando este é obtido através desse mecanismo financeiro. O estudo sobre o penhor deverá contribuir para uma melhor compreensão da dimensão simbólica dos processos (e dos efeitos) das políticas de incorporação das populações de baixa renda no mercado financeiro e de consumo.

Palavras-chaves: Mercado de jóias. Penhor. Crédito. Consumo. Rituais. Inclusão financeira. Políticas sociais.

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ABSTRACT

The present work’s theme is the inclusion of pawn broking in the financial strategies of the individuals in the new credit-market context. Pawn broking is one of the most antique forms of loaning. Currently, this credit service is being offered by the federal savings bank and has been appointed as one of the most attractive alternatives to the population, due to its low interest rates. Along with the implementation of inclusion public policies, based on the access to credit, there is a growing dispute among banks, loan offices, credit unions, etc, in order to win over the low income clients. Even thus, pawn broking is still able to compete as credit form due to its characteristics that differentiates it from other financial products in the market. “Gír to pawn” is a practice that holds both economic and symbolic specificities compared to the new forms of credit offered in the market. In addition, in the pawn shop, the transactions involve objects, the jewelry, that are not just things, they “hold memory”, they are a part of people’s life stories (STALLYBRASS, 2000). Through an ethnographic study, in Porto Alegre city, throughout the year of 2007, this investigation looked forward to identifying the social relations involved in the search of access to credit through pawn, and to comprehend the meaning that pawn brokers give to credit raised through financial mechanisms. The study about pawn broking should contribute to a better comprehension of the symbolic dimension of the incorporation of politic processes (and its effects) on the low income population in the financial and consumer market.

Key-words: Jewel market. Pawn. Credit. Consumption. Ritual. Financial inclusion. Social politics.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 - Banco de dados no programa Excel..........................................................20 Figura 2 - Banco de dados no programa Excel..........................................................20 Figura 3 - Penhor da CAIXA tem mais dinheiro.........................................................22 Figura 4 - Panfletos de empréstimos recolhidos - 2006.............................................31

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Perfil do cliente do Penhor........................................................................41

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Motivos que levam as pessoas a usar o penhor e tipos de estratégia econômica em que os objetos penhorados se inserem.........................45 Quadro 2 - Motivos que levam as pessoas a se desfazerem das jóias....................55 Quadro 3 - Rituais que envolvem jóias.....................................................................57 Quadro 4 – Valor de Uso (simbólico)........................................................................62 Quadro 5 – Valor de Troca (comercial).....................................................................63

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LISTA DE SIGLAS

ABECS - Associação Brasileira de Cartões de Empresas de Cartões de Crédito e Serviços; AOL – America On-Line; CAIXA – Caixa Econômica Federal; CPF - Cadastro de Pessoas Físicas; CNPS - Conselho Nacional da Previdência Social; FEE – Fundação de Economia e Estatística; IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; IPVA - Imposto sobre a propriedade de veículos automotores; IPTU - Imposto Predial e Territorial Urbano; MP3 – Aparelho de som e gravador de áudio; NEEO – Núcleo de Estudos de Empresas e Organizações; ONGs – Organização Não-Governamental; PIB - Produto Interno Bruto; PRONAF - Programa Nacional de Agricultura Familiar; PUCRS – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; SERASA - Sociedade anônima (S.A.) e privada, totalmente nacional, de serviços especializados em pesquisas, análises e informações econômicofinanceiros para apoio a decisões de crédito e negócios; SICLI - Sistema de Clientes da CAIXA; SIPEN - Sistema de Penhor da CAIXA; SINDILOJA - Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre; SPC - Serviço de Proteção ao Crédito; UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul; UOL – Universo On-line.

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..........................................................................................................14 METODOLOGIA .......................................................................................................16 1 O ESTUDO DO PENHOR ......................................................................................21 1.1 Ciências sociais e instituições econômicas .....................................................23 1.2 Dinheiro, consumo e endividamento no Brasil hoje .........................................29 2 COMO FUNCIONA O PENHOR ............................................................................33 2.1 Leilões .............................................................................................................37 2.2 O universo do penhor ......................................................................................40 2.2.1 Gênero ......................................................................................................41 2.2.2 O hábito de penhorar ................................................................................43 2.2.3 A classe média no “sufoco” .......................................................................44 2.2.4 Estratégias financeiras ..............................................................................46 2.2.5 A poupança “sagrada”...............................................................................48 2.2.6 Bancos e financeiras .................................................................................48 2.2.7 “Quebra-galho”..........................................................................................51 2.2.8 Alternativa para autonomia .......................................................................51 2.2.9 No penhor é mais seguro ..........................................................................52 2.2.10 Jóias como investimento .........................................................................52 2.4 Jóias rejeitadas................................................................................................54 2.5 Jóias, rituais e vida econômica ........................................................................56 2.6 O significado das jóias: valor de uso e valor de troca......................................62 CONCLUSÃO ...........................................................................................................66 REFERÊNCIAS.........................................................................................................69 ANEXOS ...................................................................................................................75 ANEXO A - 1º Roteiro de entrevista e observação para o penhor...................76 ANEXO B - 2º Roteiro de entrevista e observação para funcionários do penhor...................................................................................................................80 ANEXO C - 3º Roteiro de observação para o penhor........................................81

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INTRODUÇÃO

O presente estudo tem como tema a participação do penhor nas estratégias financeiras dos sujeitos no novo contexto de mercado de oferta de crédito. Este estudo faz parte da pesquisa Me dá um dinheiro aí? Crédito e inclusão financeira sob a ótica de grupos populares, que está sob a responsabilidade da Profª. Dr. Lúcia Helena Alves Müller. O projeto iniciou em agosto de 2006 no Núcleo de Estudos de Empresas e Organizações (NEEO), do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humano da PUCRS. O tema do projeto Me dá um dinheiro aí? Crédito e inclusão financeira sob a ótica de grupos populares são as políticas públicas de caráter econômico e social que utilizam os mecanismos financeiros como instrumentos, mais especificamente, as políticas de acesso ao crédito para a população de baixa renda que vêm sendo adotadas pelo governo brasileiro como medidas para a distribuição de renda e promoção do desenvolvimento econômico, e implementadas através de mecanismos como: microcrédito, crédito pessoal, crédito consignado, crédito para servidores públicos, etc. O objetivo deste projeto é compreender o contexto simbólico a partir do qual os indivíduos de classe popular estão incorporando em suas vidas os novos mecanismos e recursos financeiros que lhes estão sendo oferecidos, bem como os novos conhecimentos que esse acesso demanda e/ou proporciona. Além disso, a pesquisa pretende, não somente estudar os novos mecanismos financeiros que estão sendo criados e oferecidos para os grupos populares, mas também entender como os diferentes grupos utilizam os mecanismos já existentes, como crediário oferecido pelo comércio, carnês, penhor, cheques pré-datados, caderno de compras, crédito informal, formas tradicionais de poupança, redes de reciprocidade familiar, de vizinhança, etc., que já fazem parte da vida de grande parte da população brasileira (MÜLLER, 2006). No âmbito dessa pesquisa, entre agosto de 2006 e julho de 2007, trabalhei como Bolsista de Iniciação Científica do CNPq no NEEO. Meu trabalho enfocou um dos instrumentos de crédito disponíveis à grande população: o penhor. No Brasil, esse serviço financeiro existe desde 1861. Atualmente, ele é oferecido pela Caixa Econômica Federal (CAIXA) e tem sido apontado como uma das alternativas mais atrativas para a população, em função dos baixos juros cobrados.

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Com as políticas de incentivo ao crédito, implementadas pelo governo federal, cresce cada vez mais a disputa entre Bancos, Financeiras, Cooperativas de crédito, etc. Essas instituições criam diferentes produtos financeiros para atrair clientes oriundos de grupos populares. O penhor consegue concorrer com as novas modalidades de crédito em função das características que o diferenciam dos outros produtos financeiros existentes, apesar de ser um mecanismo tradicional. Através de um estudo etnográfico, realizado na cidade de Porto Alegre, em 2007, buscou-se identificar as relações sociais envolvidas na busca pelo acesso ao crédito, via penhor, e compreender os sentidos que as pessoas que utilizam o penhor atribuem ao crédito quando este é obtido através desse mecanismo financeiro. O objetivo principal do estudo do penhor é compreender as especificidades econômicas e simbólicas envolvidas na prática da modalidade de crédito conhecida como penhor, em relação aos demais produtos financeiros existentes no mercado. Esta monografia está organizada em uma breve introdução, descrição da metodologia utilizada no estudo, dois capítulos e conclusão. No segundo e terceiro capítulos são apresentados o foco da pesquisa; a relação entre proprietário das jóias e o crédito. E, por fim, a conclusão, retomando algumas considerações do estudo do penhor e a situação do crédito no Brasil.

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METODOLOGIA

Esse estudo foi realizado a partir de uma abordagem etnográfica, propondose a construir aquilo que GEERTZ (1989) denomina de “descrição densa”. Algumas considerações sobre o método interpretativo podem ser encontradas na obra A interpretação das Culturas. Para ele, a ciência antropológica deve realizar interpretações da sociedade, como um estudo de uma obra literária. Essa analogia significa que a investigação da sociedade deve ser encarada como uma leitura de um texto cheio de significados. Cabe ao antropólogo entender a textualidade da sociedade. Segundo OLIVEIRA (1996), o olhar e o ouvir etnográficos cumprem uma função fundamental na pesquisa empírica e, assim como o escrever, são atos de interpretação. É a partir desses “atos cognitivos” que se pode construir o conhecimento antropológico. O olhar disciplinado pela teoria social é fundamental para que o pesquisador entenda as lógicas dos sistemas simbólicos e das estruturas sociais. O ouvir não se reduz ao ato de fazer entrevistas, mas, sim, tentar compreender os sentidos da ação dos sujeitos. Saber ouvir é apreender os “idiomas culturais”, próprios do nativo e, assim, ser capaz de dialogar com os “informantes” sobre o contexto da observação. Assim, o pesquisador integra-se e participa na vida de um grupo para compreender o sentido de dentro, o que se constitui numa observação participante. Entretanto, o pesquisador deve sempre manter uma certa distância para tornar possível o estranhamento. Já o ato de escrever se configura na análise do olhar e do ouvir. Ao escrever, o antropólogo estará refletindo sobre as diferentes informações recolhidas no campo e dialogando com as diferentes explicações teóricas. Escrever é o trabalho final, a “descrição densa”. Para MAGNANI (2002, p. 12):
(...) o método etnográfico não se confunde nem se reduz a uma técnica; pode usar ou servir-se de várias, conforme as circunstâncias de cada pesquisa; ele é antes um modo de acercamento e apreensão do que um conjunto de procedimentos. Ademais, não é a obsessão pelos detalhes que caracteriza a etnografia, mas a atenção que se lhes dá: em algum momento, os fragmentos podem arranjar-se num todo que oferece a pista para um novo entendimento. Em suma: a natureza da explicação pela via etnográfica tem como base um insight que permite reorganizar dados percebidos como fragmentários, informações ainda dispersas, indícios soltos, num novo arranjo que não é

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mais o arranjo nativo (mas que parte dele, leva-o em conta, foi suscitado por ele) nem aquele com o qual o pesquisador iniciou a pesquisa. Este novo arranjo carrega as marcas de ambos: mais geral do que a explicação nativa, presa às particularidades de seu contexto, pode ser aplicada a outras ocorrências; no entanto, é mais denso que o esquema teórico inicial do pesquisador, pois tem agora como referente o "concreto vivido".

Para a realização dessa etnografia foi necessário entrar em contato com a instituição financeira Caixa Econômica Federal (CAIXA), pois é ela que detém a exclusividade deste serviço financeiro. Através da superintendência da agência central de Porto Alegre, foi possível agendar uma reunião com o gerente responsável por essa instituição. Na reunião, ocorrida no dia 09 de fevereiro de 2007, foram discutidas as intenções da pesquisa sobre o crédito e a proposta de observação no penhor. Posteriormente, fui encaminhado para conversar sobre as possibilidades de observação com a Gerente de Comunicação, que me sugeriu a elaboração de um documento contento todos os esclarecimentos a respeito da pesquisa no setor de penhor. O objetivo do documento era solicitar aos dirigentes a licença para a realização de observações no interior das agências da CAIXA, em Porto Alegre. Após três meses de espera, a CAIXA autorizou a observação em duas agências. Por medidas de sigilo, sobre os clientes que participaram dessa pesquisa, não serão fornecidos os endereços de localização dessas agências. A partir de 2007, foi possível realizar as seguintes atividades: 1. Informações e dados coletados em jornais e outras fontes: Antes de desenvolver a pesquisa de campo, foi realizado um levantamento de fontes e de informações referentes ao tema da pesquisa, as formas de crédito que são oferecidas aos grupos populares. Com o objetivo de procurar referências bibliográficas e reportagens sobre os temas: família e classe popular; crédito, consumo, financiamento, empréstimo, inclusão financeira, crédito préaprovados, micro-crédito, economia doméstica, crédito para aposentados, penhor, pensionistas, agricultura familiar, crédito para militares e funcionários públicos, créditos em lojas, bancos, financeiras, etc. As principais áreas de interesse foram ciências sociais, assistência social, políticas públicas, finanças e economia. Foram consultados diferentes sites da web: a) Banco Central. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/>;

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b) Biblioteca da PUCRS. Disponível em: <http://www.pucrs.br/biblioteca/>. c) Biblioteca da UFRGS. Disponível em: <http://www.biblioteca.ufrgs.br/. d) CAIXA. Caixa Econômica Federal: Disponível em: <http://www.caixa.gov.br/>. e) FEE. Fundação de Economia e Estatística. Disponível em: <http://www.fee.tche.br>; f) IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/>; g) IPEA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/>; h) Jornal Online O Valor Econômico: Disponível em: <http://www.valoronline.com.br/>. i) Serasa. Sociedade anônima (S.A.) e privada, totalmente nacional, de serviços especializados em pesquisas, análises e informações econômico-financeiras para apoio a decisões de crédito e negócios. Disponível em: <http://www.serasa.com.br/>; j) Sindiloja. Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre. Disponível em: <http://www.sindilojas-poa.com.br/>; k) SPC. Serviço de Proteção ao Crédito. Disponível em: <http://www.acsp.com.br/servicos/serv_pf_scpc.htm>; l) Telelistas. Disponível em: <http://www.telelistas.net/>. 2. Consulta em documentos fornecidos pela instituição – A CAIXA forneceu alguns dados referentes à situação do penhor no Brasil. A maioria desses dados é referente a uma pesquisa sobre o perfil dos clientes do penhor, que a CAIXA levantou em todas as regiões do Brasil no ano de 2006. Esses dados foram analisados e contribuíram para o levantamento de algumas hipóteses da pesquisa; 3. Observações na sala de espera de atendimento do penhor – Para a realização das observações, foi proposto um cronograma de visitas às agências autorizadas. Por medidas de segurança dessas agências, a

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observação ficou restrita a uma visita semanal em cada uma dessas agências. No período de maio a julho de 2007, foram realizadas dez observações. Para conseguir aproveitar essas observações, adotei como estratégia visitar agências em horários e dias da semana com maior atendimento ao público; 4. Entrevistas com funcionários da agência – As entrevistas com funcionários do setor de penhor ocorreram no momento das observações nas agências, de forma que não prejudicasse as atividades do setor. Foram entrevistados 4 (quatro) avaliadores, sendo que somente de dois foram gravados os relatos. As entrevistas foram realizadas segundo um roteiro semi-estruturado (em anexo), que permitia o desenvolvimento de uma conversa livre. Os nomes dos funcionários entrevistados foram substituídos por motivo de sigilo; 5. Entrevistas com usuários do penhor - Devido ao pouco tempo autorizado para as observações dentro das agências da CAIXA, foi necessário realizar entrevistas fora das agências. Ao todo, foram realizadas seis entrevistas com pessoas que utilizavam o penhor e que foram indicadas por conhecidos, amigos, parentes, vizinhos, colegas, etc. Todas as entrevistas foram agendadas e realizadas na residência das pessoas ou no seu local de trabalho. Os nomes das pessoas entrevistados foram substituídos por motivo de sigilo. Durante as observações, nas agências da CAIXA, foram coletados depoimentos de cerca de 40 (quarenta) clientes. Os depoimentos eram realizados na sala de espera dos caixas do penhor e duravam entre cinco e dez minutos cada. Tanto as entrevistas como os depoimentos seguiram um roteiro (ver em anexo). O objetivo principal das entrevistas, dos depoimentos e das observações foi registrar opiniões, valores, sentimentos, vivência e interesses e formas de cálculos envolvidos nas negociações do empréstimo através do penhor. As entrevistas foram gravadas em aparelho de MP3. Para organizar os dados registrados no diário de campo, obtidos nas entrevistas e depoimentos, foi criado um banco de dados no programa Excel. O programa Excel facilitou a consulta e a interpretação dos dados, através de

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planilhas, linhas e colunas dinâmicas. Outros recursos interessantes do programa para os dados qualitativos são os filtros dos dados. Com esses recursos foi possível agrupar frases e palavras chaves para melhor análise dos dados. Além disso, dentro do banco de dados foi criada uma maneira de registro que indica a localização exata nas entrevistas sobre o tema de interesse. Assim é possível ouvir somente o tema de interesse. Isto é, com os programas destinados principalmente para escutar músicas em formato MP3, é possível indicar o tempo de localização na entrevista e escutar apenas o trecho de interesse.

Figura 1 - Banco de dados no programa Excel Fonte: O autor (2007)

Figura 2 - Banco de dados no programa Excel Fonte: O autor (2007)

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1 O ESTUDO DO PENHOR

No Brasil, o serviço financeiro conhecido como penhor existe desde 1861. A CAIXA possui exclusividade em oferecer esse tipo de serviço financeiro, que tem sido apontado como uma das alternativas mais atrativas para a população, em função dos baixos juros cobrados. Segundo informações da própria CAIXA, a taxa de juros para o penhor varia entre 2,60% e 3,25% ao mês, e o prazo para o pagamento pode ser de até 120 (cento e vinte) dias, sempre em múltiplos de 30 (trinta). O objeto a ser penhorado deve ser avaliado entre 50 (cinqüenta) reais e 50 (cinqüenta) mil reais. Já na modalidade micropenhor, o prazo de pagamento é o mesmo, mas as taxas de juros giram em torno de 2,00% ao mês. Nesse caso, o objeto a ser penhorado pode ser avaliado entre R$ 50,00 e, no máximo, R$ 600,00. Quem escolher o micropenhor não precisa ter conta bancária, mas, se tiver, tem que ter o saldo médio inferior a R$ 1.000,00 (CAIXA ECONÔMICA FEDERAL: Disponível em: <http://www.caixa.gov.br/). Os juros baixos do penhor e micropenhor tornam essa modalidade de crédito atrativa para as diferentes classes sociais, e o que chama atenção é o sucesso que este tipo de serviço financeiro, tão tradicional, vem alcançando recentemente:
RECORDE HISTÓRICO EM EMPRÉSTIMO EM PENHOR (...) A linha de penhor da Caixa Econômica Federal alcançou em maio deste ano o maior volume já aplicado em sua história. Foram, ao todo, R$ 425,56 milhões em empréstimos em 750.091 contratos, o que representa um acréscimo de 11,5% em relação ao valor médio de aplicação mensal do ano de 2006. A CAIXA tem disponível para 2007 recursos da ordem de R$ 6,5 bilhões para aplicação em penhor. O montante pode representar um crescimento no saldo de até 22% em relação ao ano anterior. A expectativa da instituição é de realizar cerca de 10 milhões de contratos, aproximadamente 20% a mais que em 2006 (CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, 2007).

Em outubro de 2007, o jornal Correio do Povo pública a matéria Penhor da Caixa Econômica Federal tem mais dinheiro. Segundo a reportagem, a CAIXA tem R$ 7 bilhões disponíveis para aplicação em empréstimo de penhor. Em relação à matéria sobre o Recorde Histórico em Empréstimo em Penhor, são mais quinhentos milhões do que o previsto. Outra informação que a reportagem fornece é que houve

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um crescimento de cem mil contratos assinados, só no Rio Grande do Sul, no primeiro semestre, formando R$ 34,4 milhões emprestados.

Figura 3 – Penhor da CAIXA tem mais dinheiro Fonte: Jornal Correio do Povo (21/10/2007)

O crescimento da busca pelo empréstimo conhecido como penhor chama a atenção por se tratar de uma modalidade de crédito tradicional que persiste em uma sociedade que caminha para o domínio do “dinheiro virtual”. A reportagem de RIBEIRO (25/07/2006), do jornal Valor On-line, apresenta dados da Associação Brasileira de Cartões de Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) que mostram a tendência para o crescimento do crédito, através de modalidades de “dinheiro de plástico”:
(...) nos primeiros seis meses do ano o número de cartões de crédito emitidos na praça aumentou 20%, para 73 milhões de unidades, com 948 milhões de operações e transações totais de R$ 69,4 bilhões (+24%) (RIBEIRO, jornal Valor On-line, 25/07/2006).

Além do crescimento, existe a tendência dos cartões de crédito e débito substituírem os demais produtos financeiros do mercado. RIBEIRO (25/07/2006) traz dados da indústria do cartão de crédito referentes ao crescimento da substituição do cheque pelo cartão de crédito:
(...) Cerca de 70% a 75% desse crescimento se deve à mudança de hábito dos consumidores, que têm trocado com freqüência o uso do cheque e do

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dinheiro pelos plásticos na hora de pagar suas compras, inclusive as de baixo valor. (...) A previsão mais recente é de que o faturamento da indústria de cartões de crédito some R$ 55,6 bilhões nos primeiros quatro meses deste ano, o que representará um crescimento de 18,3%, em relação ao mesmo quadrimestre do ano passado. A projeção está abaixo dos 20% estimados para todo o ano de 2007, mas a perspectiva é de que no segundo semestre o faturamento avance a taxas mais significativas, acima de 20%, e compense as variações entre 18% e 19% de alta que têm sido registradas nesta primeira metade deste ano (RIBEIRO, jornal Valor On-line, 25/07/2006d).

A substituição do cheque pelo cartão de crédito e sua expansão dão indícios de mudança no comportamento do consumidor. Outro fator que contribui para a mudança na forma do consumidor lidar com o dinheiro é o crescimento da diversidade de agentes financeiros oferecendo novas modalidades de crédito. Além da política de juros, um dos motivos para esse crescimento é o incentivo dado pelas atuais políticas adotadas pelo governo. Bancos, cooperativas de crédito e, atualmente, financeiras estão sendo utilizados como instrumentos para a implantação de políticas sociais de inclusão e de crescimento econômico, baseadas no incentivo ao consumo. Essas políticas reforçaram a disputa das diferentes agências financeiras pela conquista de clientes, inclusive entre grupos sociais que até então não tinham acesso ao crédito. Entretanto, mesmo com esses incentivos, que fizeram com que novos agentes financeiros entrassem no mercado, o penhor segue concorrendo como modalidade de crédito, em função das características que o diferenciam dos outros produtos financeiros existentes e ganha importância entre os novos atores do Sistema Financeiro Nacional.

1.1 Ciências sociais e instituições econômicas

“Colocar no prego” é uma prática que possui especificidades econômicas e simbólicas em relação às novas modalidades de crédito oferecidas no mercado, na medida em que a transação envolve a avaliação de objetos. Pode-se supor que as jóias possuem memórias, não são simplesmente coisas, são parte da história de vida das pessoas (STALLYBRASS, 2000). Em sua análise, STALLYBRASS (2000) usa conceitos centrais da teoria marxista: valor de troca, valor de uso, de mercadoria e de fetiche. O autor vai tratar

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da subjetividade dos sujeitos que se encontra impregnada nos objetos de uso pessoal e das relações sociais que envolvem esses objetos. Segundo MARX (1988), os trabalhadores que vendem sua força de trabalho no mercado estão alheios ao produto de seu trabalho. O mercado seria o espaço da troca entre as coisas. Para STALLYBRASS (2000), as coisas (objetos) são parte da história dos seus proprietários. Isso significa dizer que, no universo simbólico que estão inseridos, os objetos possuem um pouco da vida dos sujeitos, e é por esse motivo que as pessoas dão sentido a eles. Para uma melhor explicação desse fenômeno, Stallybrass traz para sua obra um dos momentos mais significativos da vida de Karl Marx. Para poder escrever O Capital, durante o verão, Marx penhora seu casaco. Assim poderia ter dinheiro para comprar folhas e ir à biblioteca estudar. No inverno, Marx já possuía algumas economias ou o amigo Engels lhe emprestava o dinheiro para retirar o casaco do “prego”. Então, ele podia continuar indo à biblioteca estudar. Marx vivencia os conceitos de valor de troca e valor de uso, isto é, o casaco tem seu valor de troca ao conseguir dinheiro no penhor, mas também tem seu valor de uso, ao proteger-lhe do frio do inverno. As coisas possuem vida dupla. As considerações de STALLYBRASS (2000) sobre os objetos, mais especificamente as roupas, inseridas num universo simbólico, trazem contribuições sobre as relações entre os sujeitos e as coisas. As roupas são mais do que peças do vestuário das pessoas, pois elas se amoldam, não apenas ao corpo, mas à sua sensibilidade, carregando marcas profundas de quem as usa. As roupas e os objetos carregam a memória, informações da vida das pessoas que as utilizaram. Ao conhecer a história desses objetos, estaremos interpretando e resgatando os pedaços de uma história de vida de uma pessoa. Nesse resgate pode-se compreender os valores, sentimentos, o modo de vida, os hábitos, as ideologias e os rituais que revelam as transformações na vida. Para entender um pouco mais a relação dos objetos na vida pessoal e social dos sujeitos, o autor MAUSS (2001), na obra O ensaio sobre a Dádiva, traz contribuições fundamentais para o estudo do penhor. Esse autor está preocupado com o regime contratual, isto é, qual a base em que se organiza a economia e as relações contratuais? e busca a resposta nas pesquisas de Malinowski sobre os Trobriandeses. A partir desses estudos, Mauss percebe que as obrigações do contrato, das trocas econômicas, estariam expressas por um princípio universal, o

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da reciprocidade, constituído pelo ato de dar, receber e retribuir. A reciprocidade é garantida pelo sentido que as coisas trocadas possuem no âmbito social e simbólico dos grupos, como, por exemplo, os objetos presenteados entre os grupos da ilha Trobiand, que possuem significados relacionados a esses grupos, possuem a alma das pessoas, “o espírito das coisas”, hau. Nesse sentido, o grupo presenteado pelos objetos dos outros grupos ficava na obrigação de retribuir as coisas dadas. Assim, se estabelecia um sistema de trocas, baseado nessa forma de reciprocidade. Outro autor que retoma os estudos de Malinowski é POLANYI (1980). Esse autor coloca em pauta a visão do mercado como instituição social. Segundo Polanyi, os acontecimentos sociais não podem ser vistos a partir de um ponto de vista econômico. Ao contrário, os acontecimentos econômicos é que devem ser vistos pelo ponto de vista social. Em sua obra A grande transformação, Polanyi desenvolve uma crítica às teorias liberais, que surgiram no final do século XIX, também conhecidas como teorias econômicas neoclássicas que se baseavam na idéia de um mercado auto-regulável, formado por indivíduos que agem pelo próprio interesse. As bases do pensamento teórico sobre o indivíduo auto-interessado e/ou homos economicus, que busca racionalmente maximizar os ganhos e diminuir os prejuízos, está na obra A riqueza das nações, de Adam Smith, publicada em 1776. SMITH (1985) supunha que o resultado de sujeitos movidos pelo auto-interesse levava ao benefício coletivo. Por exemplo, um sujeito que monta um estabelecimento comercial, visando ter lucros, estará beneficiando a comunidade com mantimentos (produtos e mercadorias) e gerando emprego. Além disso, os benefícios seriam maiores para o coletivo, quando existisse competição, no caso do estabelecimento comercial, a concorrência entre os comerciantes levaria à queda do preço dos mantimentos. Assim, Smith defendia a idéia de que a iniciativa privada deveria agir livremente, sem intervenção governamental, pois “naturalmente” as relações econômicas tenderiam para um equilíbrio. Para POLANYI (1980), as teorias neoclássicas afastavam os economistas dos fatos reais da vida cotidiana. Segundo o autor, a economia auto-regulável, independente, é um fenômeno na história da humanidade que nunca existiu antes do início do século XIX. O que Polanyi verifica na história são as economias que estavam sempre atreladas a questões sociais e culturais. O próprio modelo de economia capitalista que está surgindo no século XIX baseia seus contratos na confiança mútua e responsabilidade entre os sujeitos. Assim, o sistema auto-

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regulado defendido pelos teóricos neoclássicos é uma ficção. Portanto, segundo Polanyi, a economia está submersa em relações sociais. Então, os sujeitos são homens sociais que agem não em seu próprio propósito, mas sim por interesses coletivos.
O interesse econômico individual só raramente é predominante, pois a comunidade vela para que nenhum de seus membros esteja faminto, a não ser que ela própria seja avassalada por uma catástrofe, em cujo caso os interesses são ameaçados coletiva e não individualmente (POLANYI, 1980, p. 62). O

capitalismo industrial, que se desenvolve no início do século XIX, realiza

uma grande transformação na mentalidade da sociedade. Para POLANYI (1980), é nesse momento da história do capitalismo que as pessoas começam a agir conforme as regras do mercado. Há uma separação, não total, entre o social e o econômico. Isso é ocasionado principalmente porque a terra, o trabalho e o dinheiro passam a ser tratados como se fossem mercadorias, que devem ser vendidas no mercado. O resultado disso, segundo o autor, é a “corrosão” do tecido social que mantinha as obrigações recíprocas e que dão a base para a existência da economia. Mas, segundo POLANYI (1980), a sociedade não é passiva a crises e aos efeitos corrosivos do capitalismo industrial, ela responde aos efeitos do mercado. Polanyi mostra que, ao final da década de 40 do século XIX, surgiram leis de proteção para a classe trabalhadora, o que representou uma barreira para o mercado auto-regulável. As conclusões que chegamos ao lermos o trabalho de Polanyi é que a sociedade tende sempre a criar formas de se proteger dos efeitos desumanos do capitalismo. A autora ZELIZER (2005), no seu estudo sobre as indenizações das vítimas do atentado de 11 de setembro, no Wold Trade Center, nos Estados Unidos, em 2001, traz contribuições importantes no sentido de entender de que forma o mercado é submerso em relações sociais. Zelizer analisou como foram conduzidos os pedidos de indenizações às vítimas. Os resultados de sua pesquisa identificam que a fronteira entre a “esfera econômica” e a “esfera social” não são tão nítidas. Segundo a autora, o que existe é uma construção social de ”esferas distintas” que se adaptam e se misturam. Os valores morais que poderiam barrar a atuação do mercado, ao contrário, podem acabar por legitimá-lo. “Contabilizar a vida” (calcular quanto vale a vida de uma pessoa) não é de todo um fator condenável. A indenização das vítimas do atentado de 11 de setembro foi uma forma de

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reconhecimento dessas pessoas. Esse ato é socialmente valorizado, é uma forma de se fazer justiça à família das vítimas que perderam seus parentes no desastre. Portanto, o mercado nem sempre corrompe a esfera do social. Nesse sentido, Zelizer se diferencia das concepções de Polanyi, ao contrário dele, vê mercado e sociedade como esferas distintas, com o surgimento do capitalismo industrial. Além dos autores citados acima, para compreender as relações sociais envolvidas no empréstimo de penhor, também foi consultado o trabalho de ABRAMOVAY (2004). Em seu estudo sobre o PRONAF (Programa Nacional de Agricultura Familiar), Abramovay aponta as falhas das políticas de acesso ao crédito para grupos populares que não levam em conta a diversidade de formas e maneiras de uso dos recursos monetários por essa população, principalmente em relação à combinação entre a economia de produção e a economia familiar. Segundo o autor, a forma como é oferecido o crédito para a produção dos pequenos agricultores não é adequada à sua realidade de vida, pois eles tendem a utilizar o financiamento para outros fins, como por exemplo, financiar tratamentos de eventuais doenças ocorridas na família. Nesse sentido, os resultados desse trabalho, sobre o microcrédito, apontam as falhas das políticas de acesso ao crédito para grupos populares, que não levam em conta a diversidade de formas pelas quais a população utiliza os recursos e mecanismos financeiros. Já o trabalho de WEBER (2002) propõe que, para compreendermos o tipo de raciocínio das populações, é necessário identificar as categorias nativas de classificação que são utilizadas para o cálculo nas negociações e avaliações econômicas. A autora tem como objetivo mostrar aos economistas a necessidade de se criarem novas fórmulas matemáticas, que contemplem as condutas humanas concretas. Deve-se compreender a maneira como os grupos populares pensam as transações financeiras, o que é uma forma de entender a economia e seus efeitos. Outro autor que contribui para analisar os fenômenos da sociologia econômica é SWEDBERG (2005). Este autor analisa as idéias de Max Weber sobre a sociologia econômica. Um dos pontos da teoria de Weber que Swedberg chama a atenção é a relação entre teoria econômica e sociológica. Weber leva em consideração fenômenos que não são exclusivamente econômicos, mas que são “economicamente orientados”. Ou seja, a racionalidade na esfera da economia difere da racionalidade em outras esferas da vida social, e a economia pode ser racionalizada por causa de interesses distintos.

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Na obra de FONSECA (2004), Família, fofoca e honra, os resultados da pesquisa realizada entre 1981 e 1983, na Vila Cachorro Sentado, em Porto Alegre, apresenta os aspectos importantes das famílias de classe popular. Nesse trabalho, a autora faz algumas críticas aos teóricos, que estipulam tipologias para compreender o contexto de famílias de baixa renda. Segundo Fonseca (2000), não há somente um contexto de pobreza, há maneiras e maneiras de sobreviver, e o investigador deve levar em consideração cada caso em seu contexto, cada contexto em seus múltiplos aspectos. O contexto dos moradores da Vila Cachorro Sentado possui uma lógica própria, em que a instabilidade conjugal, entre casais, não significa o rompimento da relação de apoio mútuo. Para SARTI (2003), nos grupos populares, as escolhas individuais são sempre pensadas no âmbito familiar. As relações familiares são constituídas por obrigações mútuas entre os indivíduos pertencentes. Portanto, as práticas econômicas dos grupos populares não podem ser pensadas pela lógica do individualismo. Na família existe um projeto de vida comum, com papéis a serem desempenhados, a partir dos quais as práticas econômicas são elaboradas. BRUSKY e FORTUNA (2002), na pesquisa Entendendo a demanda para as micro-finanças no Brasil, propõem que os estudos sobre a relação econômica devem satisfazer o desenvolvimento dos serviços financeiros úteis e adequados ao público. Para esses autores, a pesquisa auxilia no fortalecimento das microfinanças. Ao entendermos as dinâmicas sociais do grupo e os fatores culturais que sobre elas influem, entenderemos a maneira como o público utiliza o dinheiro e os diferentes produtos financeiros. O trabalho de pesquisa auxilia na criação e adaptação de produtos e procedimentos, em concordância com formatos aceitáveis do público alvo. Na literatura brasileira, pude encontrar um drama social relacionado com o penhor. Na obra Os Ratos, MACHADO (2006), publicado em 1935, é retratado um pouco do imaginário social da dívida. O enredo da história se inicia com a cobrança de uma dívida que o personagem principal (Naziazeno) tem com o leiteiro. A dívida deve ser saldada em 24h. Nesse prazo, o personagem principal busca angustiantemente pelo dinheiro. A necessidade de conseguir dinheiro é reforçada com a doença do filho. Naziazeno, após tentativas frustradas, ao pedir dinheiro para o patrão, amigos e agiotas, consegue um anel de bacharel penhorado. O anel acaba se tornando a solução para o problema da dívida.

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Levando em consideração os trabalhos aqui analisados, podemos pensar que os estudos das práticas econômicas, como práticas culturais, podem contribuir para se pensar melhor a política social de inclusão financeira para os grupos populares, uma nova forma de tratar os fenômenos econômicos e sociais. A sociologia econômica tem novos desafios pela frente, faltam trabalhos e estudos de investigação em muitas áreas em que ela deveria ser central. Portanto, o estudo do penhor contribui para entender as relações econômicas em torno do crédito, a partir dos fenômenos sociais; conhecer a maneira como os sujeitos agem em relação às mudanças do mercado; perceber a existência de novos comportamentos, novos hábitos de consumo e escolhas ao lidar com os produtos financeiros. A teoria escolhida pode revelar em que medida a fronteira entre mercado e sociedade é delimitada no contexto do público que utiliza o penhor. A teoria escolhida também pode contribuir para explicar as dimensões simbólicas dos objetos penhorados.

1.2 Dinheiro, consumo e endividamento no Brasil hoje

No Brasil, vem crescendo a oferta de crédito para a população. Os principais motivos desse crescimento são as políticas de acesso ao crédito, adotadas pelos últimos governos. É também o incentivo a bancarização, que tem como objetivo incluir a população de baixa renda no Sistema Financeiro Nacional. Os estudos realizados por ZOUAIN e BARONE (2007) apresentam algumas considerações sobre a expansão do crédito no Brasil. Para esses autores o Plano Real, implementado no governo do presidente Itamar Franco, em 1994, foi a principal base para o crédito, pois a nova moeda conseguiu estabilizar a economia e eliminar a inflação. Nos governos que se sucederam, a estratégia política foi direcionar o acesso ao crédito para dentro de um contexto de desenvolvimento local e sustentado. Ou seja, além dos Bancos comerciais e financeiras, também passaram a oferecer crédito às cooperativas e ONGs. Assim, foi possível expandir para um público maior a oferta de empréstimos. Segundo MÜLLER (2006), as políticas públicas de promoção do acesso ao crédito para a população de baixa renda incentivaram os agentes do Sistema Financeiro a criarem novos produtos, como contas bancárias, cartões, linhas e

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modalidades de crédito dirigidas para os grupos populares. Por exemplo, microcrédito, crédito consignado para aposentados e pensionistas, crédito para funcionários públicos, apoio a projetos de implementação de moedas de circulação local, etc. O acesso ao crédito como mecanismo de inclusão social também passou a ser uma forma de distribuição de renda e de estímulo ao desenvolvimento econômico. Através das políticas de acesso ao crédito para a população de baixa renda, o governo conseguiu baixar as taxas de juros oferecidas no mercado. Entretanto, o efeito da política ocasionou um grande mercado competitivo que disputa clientes oriundos de grupos populares. O resultado dessa competição foi à associação entre grupos varejistas e instituições que oferecem crédito. Atualmente, podemos encontrar lojas que vendem produtos e oferecerem financiamento. Ao analisar os panfletos distribuídos nas ruas da cidade de Porto Alegre, pode-se perceber a variedade de serviços financeiros que estão sendo oferecidos. São produtos como seguro de vida, seguro de acidentes pessoais, consórcio, crédito rural, cartões de crédito (para diferentes perfis), crédito pessoal, empréstimo para aposentados, servidores públicos (com desconto em folha de pagamento). Há, também, opções de financiamento de bens, como de veículos, motos, reformas/construção (também casas pré-fabricadas), máquinas, telefone celular, equipamentos (microinformática, eletrônicos e peças), conversão de gás, piscinas, material escolar, móveis e, além desses, financiamento para urnas funerárias. O financiamento não se limita somente a bens. Também estão entre as ofertas os financiamentos de plano odontológico, pagamentos de impostos (Imposto de Renda, IPVA, IPTU, 13º Salário), turismo, estética, carteiras de habilitação, etc. O mercado de empréstimo no Brasil expandiu tanto que já é possível afirmar que há crédito para tudo, ou quase tudo. Mas não é só isso, no “pacote” dos produtos financeiros a concorrência promete um atendimento personalizado, tratamento diferenciado para seus clientes, crédito de forma ágil e rápida. Em muitas organizações financeiras chegam a anunciar créditos sem consulta ao SERASA e ao SPC, o chamado “dinheiro sem burocracia”.

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Figura 3 - Panfletos de empréstimos recolhidos - 2006 Fonte: O autor (2007)

Os dados levantados pelo Banco Central mostram que entre 2005 e 2006 o crédito expandiu de 20,7%, atingindo R$ 732,835 bilhões, equivalente a 34,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Os principais agentes apontados como responsáveis por essa expansão foram o crédito consignado e as pequenas e médias empresas. Há uma expectativa de que esse crescimento seja maior no ano de 2007:
Redução dos juros e aumento de prazos foram fatores a contribuir para o crescimento do crédito bancário que, segundo o Banco Central, apresenta uma nova composição. Em primeiro lugar, a evolução dos recursos à pessoa física, a partir da “grande mola propulsora” do crédito com desconto em folha de pagamento, surgida em 2004. Esses empréstimos cresceram pela queda no custo médio dos empréstimos às famílias. Assim, o crédito tomado por pessoas físicas subiu 37,6% em 2005 e 25,2% no ano passado. Depois de uma elevação de 84% no ano anterior, em 2006 o consignado continuou se expandindo, marcando uma alta de 52%. A segunda mudança foi nos financiamentos a empresas, que apresentaram crescimento de 22,1% sobre 2005, mesmo com a "fuga dos bancos" pelas grandes corporações, que no ano passado buscaram, fortemente, fontes alternativas de captação, como o lançamento de papéis no mercado de capitais (RODRIGUES, Jornal Valor On-Line, 29/01/2007).

O que chama a atenção é o crédito consignado para os aposentados e pensionistas. A reportagem da Agência Brasil traz alguns dados do Ministério da Previdência Social:
Nos últimos três anos, foram realizados 20,7 milhões de operações de empréstimo com desconto em folha por aposentados e pensionistas do INSS. De acordo com balanço divulgado pela assessoria do Ministério da

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Previdência Social, de maio de 2004 até agosto deste ano, 8,4 milhões de pessoas recorreram aos empréstimos e os recursos liberados totalizaram R$ 27,3 bilhões. Somente em agosto, o valor de empréstimos foi de R$ 904,1 milhões. Segundo a assessoria do Ministério, a taxa de juros para empréstimo com desconto em folha na rede bancária chega até a 2,64% ao mês ou 36,66% ao ano. A taxa é definida a cada dois meses pelo Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS). Do total de empréstimos, estão ativos cerca de 13 milhões de operações, no valor de R$ 21,1 bilhões. O total de empréstimos quitados é de quase 5,3 milhões, o equivalente a R$ 1,9 bilhão. O restante refere-se a empréstimos cancelados ou liquidados, o que pode ocorrer quando o segurado decide fazer um novo empréstimo antes de encerrar o primeiro (REBELO, Jornal Agência Brasil, 2007).

No contexto apresentado pode-se perceber a presença de novos padrões de consumo que, se incorporam na vida de alguns grupos de baixa renda, em razão dos baixos custos de financiamento e dos prazos a “perder de vista”. Faltam estudos que possibilitem o impacto da expansão do crédito no Brasil. Outra questão importante é avaliar a metodologia empregada nas políticas públicas de acesso ao crédito.

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2 COMO FUNCIONA O PENHOR

O penhor é um serviço de exclusividade da Caixa Econômica Federal (CAIXA) e é oferecido em aproximadamente 400 (quatrocentos) agências em todo o país. O serviço prestado no penhor se resume à avaliação das peças, à concessão do empréstimo, ao resgate das jóias e à renovação do contrato. A operação é simples: a pessoa entrega a jóia e a avaliação da peça é feita na hora. Logo após, o contrato é assinado, autenticado, o dinheiro é entregue e a jóia é guardada no cofre do banco. Na primeira vez que vai ao penhor, a pessoa apresenta carteira de identidade, CPF, comprovante de residência atualizado, e faz um cadastro, no Sistema de Clientes da CAIXA (SICLI) e no Sistema de Penhor da CAIXA (SIPEN). Ela não precisa ter conta bancária. Nas próximas idas ao penhor, a pessoa só apresenta identidade, CPF e a jóia a ser empenhada. Não há consulta ao SPC ou SERASA, para a disponibilização do empréstimo. A garantia do negócio é a jóia. Isso faz com que a obtenção desse tipo de crédito seja rápida. Em, no máximo, dez minutos o cliente cadastrado no penhor é atendido e recebe o dinheiro. O tempo no atendimento depende sempre da quantidade de jóias que o cliente trouxer para ser avaliada. As jóias penhoradas são as mais variadas: anel, anel de formatura, aliança, brinco, bracelete, colar, corrente, gargantilha, medalhas, pingente, piercing, pulseira, tornozeleira, etc. Em minhas idas ao penhor, tive a oportunidade de assistir à cena do funcionário da CAIXA avaliando algumas peças preciosas. Uma cena quase “arcaica”, se não fosse um que outro instrumento mais moderno para confirmar a qualidade da peça. O avaliador cumpre algumas etapas: primeiro, o peso da jóia é sentido na palma da mão. Segundo, se a peça apresentar pedras preciosas, então é utilizada uma régua que mede o seu tamanho. Terceiro, a peça é posta em frente a uma lâmpada fluorescente de uma pequena luminária e o avaliador posiciona uma lupa entre seu olhar e a jóia. Não satisfeito com as primeiras informações, o avaliador segue para o quarto teste com ácido. O ácido faz com que o ouro apresente uma reação ao ser raspado em uma pedra. E, por fim, na sexta etapa o avaliador pesa a peça em uma balança e anota as informações.

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Para realizar a avaliação das jóias, todos os avaliadores devem possuir curso superior nas áreas financeira e matemática. Mas, para trabalhar nesse setor também é necessário saber química, gemologia, etc. Segundo um dos avaliadores, que tive a oportunidade de entrevistar, o teste do ácido junto com a pedra revela os “diversos tipos” de ouro. São pingadas algumas gotas de ácido no metal e a jóia é raspada na pedra para se ver a velocidade da reação. Quanto mais rápida ela for, menor será o valor. Quanto mais devagar, mais o ouro vale.
O instrumento mais importante de todos é a nossa sensibilidade, é o nosso conhecimento. Não se trata de uma auto-valorização do profissional. No penhor, com o tempo, tu adquires um refino bastante apurado. Quando a gente pega na mão uma aliança, até pelo peso aparente, tu percebes que é ouro baixo ou ouro 18. O ouro é um dos metais com maior densidade que existe, maior densidade que o ouro só o urânio. Então uma peça em ouro pesa mais que qualquer outro metal. O ouro é uma liga... o ouro que usamos em jóias no Brasil tem 75% do metal e 25% de outros metais, como cobre, prata e qualquer outro metal de tons de cores diferentes. Por exemplo, se eu trocar cobre por ferro sabe o que vai acontecer? Vou conseguir ouro azul, se eu diminuir a quantidade de cobre e colocar mais prata, vou ter ouro amarelo. Se eu ponho mais cobre e menos prata, vou ter ouro vermelho. Então, através dessas mudanças de metais, eu tenho ouro de diversas cores, mas o importante é que ¾ do metal presente na liga tem que ser ouro, para ser ouro 18. E quando tu pegas na mão já sente, pois já adquiriu o costume. Mais pesado, ou seja, a propriedade é a densidade. A aspereza vem da qualidade do trabalho. Existem trabalhos que a gente pega grosseiros, que são de ouro quase que puros. Vou te dar um exemplo bem simples, se tu pegares jóias do Afeganistão, do Irã, do Iraque, eu já tive em mãos, às vezes são artesãos que fazem de maneira manual, com pouquíssima instrumentação. Tu olhas são jóias bastante toscas, mas feitas de ouro puro, ouro 24, mas têm um peso incrível, com muita densidade. Então, o que eu quero te dizer, o principal instrumento que nós contamos é a nossa experiência. Quando um avaliador pega na mão a jóia, ele já sabe que é ouro baixo, pelo tamanho, pelo volume e densidade. Se for ouro deve pesar mais, mas se for leve, então significa que é “ouro baixo”, que tem menos ouro e mais outros metais presentes (relato do avaliador).

Além disso, o avaliador me explicou que a lupa é um instrumento que possibilita vinte aumentos, ela é aplanática e acromática, ou seja, a lente não tem cor e não causa nenhum tipo de deformação no momento da avaliação. A lâmpada fluorescente fornece uma luz que revela a transparência do diamante, quando há peças cravadas de pedras preciosas. O avaliador descreve o brilho como inconfundível. A dispersão, ou seja, como a luz entra e sai da pedra é diferente para cada mineral. Segundo o avaliador, embora existam diferentes instrumentos para auxiliar na avaliação da pedra preciosa, 90% se identifica a olho nu. Como o diamante é muito duro para ser lapidado, ele só pode ser lapidado com pó de

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diamante, logo, quando a pedra possui arestas incrivelmente retas, e não arredondadas, percebe-se que é diamante. Segundo um dos avaliadores da CAIXA, as ferramentas são importantes, mas o principal, para se chegar à conclusão de que as pedras são diamantes, é o conhecimento de quem as está avaliando. Se o profissional não consegue chegar à avaliação adequada, ele corre o risco de superavaliar ou de desvalorizar a peça. Segundo o avaliador Caio:
Se o profissional superavaliar a jóia, e a peça for a leilão e vendida a um valor inferior ao que foi emprestado, o avaliador se torna responsável pelo prejuízo. Isso são regras da CAIXA. Nunca aconteceu comigo porque eu tenho “bastantes horas de vôo”. Para não dizer que nunca aconteceu, teve uma vez que eu errei no cálculo por centavos. E também porque realmente foi uma daquelas situações que você decide em “dúbio prol do réu”, em favor de uma pessoa que precisava. Mas, foi entre R$10,00 ou R$15,00 reais e isso não podem dizer, ao longo de uma vida profissional, que significa que tenha sido prejuízo.

O tipo de jóia que é levada ao penhor depende do público que a agência atinge. Em Porto Alegre, segundo os avaliadores de jóias de diferentes bairros, pode-se perceber a predominância de determinados grupos étnicos, por exemplo, na agência São João há bastante ciganos, no bairro Bom Fim tem uma grande quantidade de judeus, em Teresópolis a maioria dos usuários é de origem alemã, etc. Além disso, em muitos lugares do Rio Grande do Sul não se oferece penhor porque não há a “cultura” da utilização das jóias, entretanto, em outros lugares, podemos encontrar muitas agências da CAIXA oferecendo esse serviço. Mesmo sendo um serviço oferecido há mais de 146 anos, o penhor conserva quase as mesmas características do passado. As jóias penhoradas servem como garantia e, assim, possibilitam taxas de juros baratas. Entretanto, mesmo sendo uma forma de empréstimo tradicional, o penhor se adapta ao mundo moderno. As operações envolvidas no contrato, que eram feitas manualmente, passaram a ser realizadas parcialmente via on-line, pois a avaliação da jóia continua sendo feita por um profissional treinado. Segundo LIMA (2006), no passado, as liquidações de jóias poderiam ser feitas somente na agência de origem do contrato. Atualmente, um dos avaliadores me explicou que a liquidação das jóias pode ser feita em qualquer agência que tenha penhor, em qualquer agência ou caixa eletrônico que tenha o programa internet explorer, que possibilita o acesso à rede de computadores. Na era dos computadores, também é possível corrigir a maior parte dos contratos de forma

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automática, de acordo com a oscilação do preço do ouro, isto é, quase todas as amortizações são feitas pela máquina, em questões de segundos. Antigamente, quando ocorria oscilação no preço do ouro, o funcionário tinha que liquidar o empréstimo (contrato antigo), pegar a jóia e fazer outro contrato, tudo de forma manual (digitação de todos os dados). Além disso, o avaliador me explicou que, até alguns anos atrás, o preço do ouro era muito valorizado porque os processos de mineração eram mais precários e a quantidade do metal em circulação era menor. Assim, os contratos de empréstimos eram de maior valor, com uma quantidade menor de jóias envolvidas e os clientes retiravam mais dinheiro no penhor. Atualmente, o preço do ouro está estável porque os processos de extração estão muito sofisticados, sendo possível retirar da natureza grandes quantidades do metal, mesmo em pequenas áreas, e isso fez com que as peças produzidas com ouro se tornassem mais baratas. Ao contrário do que se via no passado, agora o cliente tem que penhorar mais jóias para adquirir empréstimos de maior valor. Segundo os avaliadores do penhor, não somente os métodos para extração do ouro na natureza estão mais sofisticados, o que interfere no preço das jóias, mas também os modelos das jóias, que também interferem no seu valor. Antes, as jóias mais pesadas eram as mais valorizadas pelos consumidores, sendo que, em sua maioria, elas eram produzidas com técnicas artesanais. Com esse tipo de jóia se obtinham contratos de empréstimos maiores. Atualmente, valorizam-se jóias mais leves, com desenhos mais simples e discretos. Com esse tipo de jóia se obtêm contratos de empréstimos menores. Outro elemento que mudou no penhor foi o tipo de objeto que pode ser penhorado. Até 1991 era possível penhorar, além das jóias, outros metais preciosos, eletrodomésticos e utensílios domésticos, como garantia para receber empréstimo.
(...) No início de 1992, a instituição realizou um “megaleilão” para livrar-se do acervo. Entre milhares de artigos colocados à venda, havia enceradeiras, máquinas de costura, panelas, abajur, sapatos gastos, colchões de molas frouxas, instrumentos musicais e até muletas. Objetos que podem ser empenhados: jóias (ouro, prata, platina e diamante), pedras preciosas e objetos de metais nobres. Em algumas agências também são aceitos objetos do tipo: pratarias, equipamentos de informática, máquinas fotográficas, televisor de pequeno porte, videocassetes, aparelho de DVD, filmadoras, instrumentos musicais e outros objetos confeccionados em materiais nobres. Assim, faça contato prévio com a agência para verificar se aquela unidade da Caixa opera com o tipo de objeto que pretende oferecer em garantia (JORNAL DO COMÉRCIO, 2006).

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Hoje, o penhor só aceita como garantia jóias em ouro e diamantes. Os aparelhos eletrodomésticos e demais utensílios não servem mais para operações no penhor porque, segundo os técnicos da instituição, esse tipo de mercadoria trouxe muitos prejuízos para a CAIXA. Com as mudanças da tecnologia, as mercadorias desvalorizavam muito rapidamente e os objetos também ocupavam muito espaço para serem guardados. A questão da desvalorização dos produtos aponta para uma mudança no “ciclo de vida das coisas”. Isso faz parte de um de um fenômeno recente da sociedade do consumo. Não somente as empresas produzem novidades para concorrer no mercado, mas para manterem uma imagem de inovação. Um aparelho de televisão, por exemplo, produzido há seis meses atrás, não oferecerá os mesmos recursos que um televisor que está sendo produzido atualmente. Por trás dessa obsolescência planejada dos aparelhos e utensílios está a tentativa de filiação da imagem da marca dos produtos à inovação tecnológica, o valor de uso se associa as ao universo simbólico. Porém, isso pode significar uma perda para a economia, a perda do valor de troca, pois agora muitos objetos são descartados e não mais voltam para o mercado, isso pode provocar impactos em muitas alternativas de sobrevivência que se baseiam em trocas comerciais.

2.1 Leilões

Para compreender melhor o funcionamento dos leilões das jóias que não foram resgatadas, analisei as informações contidas nos editais. O leilão é uma forma de “licitação”, para venda de jóias recebidas em garantia de empréstimo. As jóias são dispostas em lotes numerados, conforme o catálogo. A exposição das jóias é feita em um dia e os lances são feitos em outro. Os lances são dados nos horários de atendimento ao público, nas salas de auto-atendimento, em qualquer Agência da CAIXA ou, na sua impossibilidade, apresentados em formulário fornecido pela CAIXA no local da licitação. O licitante poderá oferecer lances para todos os lotes constantes do Catálogo de Licitação de Jóias, inclusive para os lotes que não estejam expostos.

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O preço mínimo de venda para cada lote de jóias consta no Catálogo de Licitação de Jóias. No terceiro dia há sorteio de lotes empatados. Depois disso, é divulgado o nome dos vencedores de lotes empatados. O pagamento é feito no mesmo dia. Segundo o edital, as informações estão disponíveis no site da CAIXA (disponível em: <www.caixa.gov.br>) onde poderá ser encontrado o Mapa de Classificação dos Licitantes e o Relatório de Lotes Empatados, bem como o resultado do sorteio, que serão afixados na data e horário previstos. Em caso de desistência, do todo ou parte dos lances oferecidos, o licitante perderá o direito de arrematar todos os lotes em que tiver se sagrado vencedor e estará sujeito às penalidades previstas. A confirmação dos lances se dá mediante o pagamento da Nota de Arrematação, inerente aos lotes vencidos pelo licitante. O licitante receberá a Nota de Arrematação para pagamento, no local da licitação/exposição das jóias. O edital revela as regras de como os indivíduos devem competir no leilão. Basicamente, a formalização descrita no documento é um meio de estabelecer as regras “eqüitativas” de concorrência, sem privilégios no momento da negociação. MÜLLER (2006a), no seu estudo antropológico sobre Bolsa de Valores, descreve “as regras do jogo”, regras formais do pregão. Para a autora, essas regras estão baseadas no modelo teórico do mercado perfeito, formulado pela escola econômica neoclássica. São as condições de como os participantes devem agir. Entretanto, a autora aponta que é difícil perceber espaços sociais em que vigore plenamente o modelo de mercado perfeito. Com a evolução da tecnologia bancária, a forma de realização dos leilões de objetos não resgatados também mudou. As jóias vão a leilão quando os clientes não renovam ou liquidam o contrato de penhor. Segundo os avaliadores entrevistados, anteriormente, cada agência era responsável por realizar seu próprio leilão. As jóias eram expostas ao público. Quando alguém se interessava, tinha que dar lances em sigilo (usando envelopes fechados com o valor proposto). Levava a jóia quem desse o lance maior. No caso de haver sobras de jóias, se abria o “pregão”. Os lotes que sobravam eram colocados em cima da mesa, sob a vigilância de um segurança, e as pessoas interessadas faziam os lances, novamente em sigilo. Nesse sistema, existia mais flexibilidade, pois o cliente poderia trocar informações e opiniões com os funcionários, e também visualizar melhor a jóia. Todos os lotes eram vendidos.

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MOTT (2000), nas suas observações sobre feiras populares na Bahia, percebeu como era importante nas negociações dos preços o contato face-a-face. Na verdade, um ritual de barganha em que o cliente pode propor um valor menor que o preço oferecido. Nos leilões do passado, o chamado “pregão” possuía um pouco das negociações face-a-face porque o objetivo era vender o máximo de peças possível. Com as sobras das jóias, os clientes tinham a possibilidade de tirar suas dúvidas, conversar novamente com o avaliador, visualizar e tocar na jóia. Com a modernização do sistema, hoje, tudo é centralizado, ou seja, os leilões de todos os contratos de penhor são realizados em uma única agência. Nesse sistema, as informações sobre as jóias estão disponíveis em catálogos on-line. No dia do leilão, a exposição das jóias é feita em estantes de vidro, onde as peças são apresentadas dentro de sacos plásticos. O contato dos interessados com a jóia é somente visual, não sendo possível sua manipulação. O lance também é feito online, ou seja, através dos terminais eletrônicos. Nesse sistema prevalece a relação formal e impessoal. A informação dada pelos avaliadores entrevistados é que sobram muitos lotes não vendidos. Como no passado, a realização de leilão ainda é uma forma da CAIXA não ter prejuízos com as dívidas não pagas. Porém, mais do que evitar prejuízos, o leilão é uma forma de controlar a inadimplência, pois o penhor se insere em uma estratégia econômica, dentre outras formas de crédito que participam do orçamento doméstico. Em média, os juros do penhor são os mais baixos do mercado, por isso, para quem possui outras dívidas a pagar, liquidar o contrato das jóias acaba não sendo prioridade. É preferível pagar com urgência dívidas sobre as quais incidem juros mais altos do que dívidas menores e que têm possibilidades de serem negociadas. Não é uma questão de desvalorizar pequenos valores, mas os riscos são menores. Os juros maiores podem se transformar num grande problema, na expressão popular, “eles podem virar uma bola de neve”. O que está em risco é o “nome limpo na praça”, a única coisa de valor que muitas pessoas possuem. Para Weber (2002), os cálculos podem ter uma dimensão cognitiva, as pessoas podem avaliar a compra por uma lógica prática, sem uma avaliação técnica, apenas utilizando o bom senso. Assim, o leilão tem também a função de fazer com que as pessoas saldem suas dívidas. Para a avaliadora Luíza:
A gente, como avaliador, percebe quando a inadimplência é alta, porque a agência fez poucos leilões. Quando se aproxima do leilão as pessoas

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retiram suas jóias. E é o momento que a gente tem mais trabalho, pois muita gente vem resgatar as jóias.

Para que o leilão sirva como controle da inadimplência, as pessoas devem valorizar as jóias que lhe pertencem. Na verdade, as pessoas que utilizam o penhor não querem se desfazer dos bens, salvo em alguns casos, porque aquelas jóias, além de possuírem valor sentimental, também podem significar a garantia de um empréstimo futuro. Segundo o avaliador Caio:
As pessoas enxergam assim: “Assim como me faltou hoje, pode me faltar amanhã, então eu tenho que continuar com aquela jóia”. Nós temos clientes aqui com quinze e vinte mil em penhor, então não podemos dizer que são pessoas pobres, e são jóias da Vivara, da Cusari, são bem atuais, não é só aquelas jóias da vovó.

2.2 O universo do penhor

O penhor é um setor diferenciado dentro das agências bancárias. Nas duas agências observadas existe uma sala de espera própria para esse setor, com sofás e folhagens decorativo, diferente dos demais espaços da agência bancária, em que o público espera pelo atendimento do serviço em pé, normalmente em uma fila. Ao sentarem-se nos sofás, as pessoas ficam de frente para vários cartazes que chamam a atenção pelo conteúdo dos textos:
Para quem quer dinheiro rápido a juros baixos, o penhor da Caixa é uma opção valiosa. Quem tem jóia em casa, tem dinheiro na Caixa. Crédito rápido, fácil e sem burocracia. Penhor é um negócio precioso.

Todos os cartazes mostram uma mensagem positiva da relação entre dinheiro e jóias, justificada principalmente pelas vantagens dos juros baixos, do “dinheiro rápido” e da falta de burocracia do serviço. Logo, entendo que o penhor não é apenas um setor de atendimento diferente, mas também atende a um público diferenciado. Em setembro de 2006, a CAIXA divulgou algumas informações sobre o perfil dos clientes que utilizam o penhor, referentes à pesquisa realizada pela própria

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instituição, em todo o Brasil, nos meses anteriores. Entre os dados fornecidos pela instituição estão: Tabela 1 - Perfil do cliente do Penhor Mulheres Na faixa etária dos 30 aos 49 anos Donas de Casa Autônomo ou tem seu negócio próprio Funcionário dos setores público e privado Aposentados Tem renda média mensal familiar entre cinco e vinte salários mínimos Tem renda média mensal familiar superior a vinte salários mínimos Nível de escolaridade (Ensino Superior) Nível de escolaridade (Ensino Médio) Nível de escolaridade (Somente Ensino Fundamental) Já utilizou esse tipo de empréstimo mais de uma vez
Fonte: Caixa Econômica Federal (2006)

81,4% 46,3% 21,1% 23,8% 26,4% 18,5% 51,7% 4,7% 32,4% 49,1% 14,1% 78%

A seguir, análise de alguns aspectos contidos no quadro:

2.2.1 Gênero

Pelo quadro apresentado acima, podemos traçar um perfil do público que utiliza o penhor. Percebe-se que a maioria é do sexo feminino (81,4%), um dado evidente, pelo fato de que o uso das jóias é mais comum no gênero feminino. A monografia de MALLMANN (2006) mostra que o “plenarinho” da Corretora de Valores do Banco Banrisul é um espaço predominante masculino. Segundo a autora, a maioria dos clientes que freqüentam a corretora são homens, isso faz com que o ambiente se torne masculinizado. Em suas observações foram percebidos os homens falando alto, contando piadas, etc. O próprio universo simbólico que possuímos sobre a bolsa de valores é configurado como o de um espaço masculinizado, de homens aos encontrões e empurra-empurra, disputando o melhor negócio. Em suma, o “plenarinho” é uma construção social masculinizada. O penhor, ao contrário, é um espaço feminino. É um ambiente tranqüilo, onde entre um e outro atendimento, pode-se observar algumas mulheres conversando

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discretamente. Já no leilão, existem mais homens que mulheres. Segundo dados do Jornal Folha On-Line (30/12/2005), os homens são 61% do público que participa dos leilões do penhor da CAIXA. No quadro acima, 23,8% dos clientes são classificados como autônomo/com negócio próprio, ou seja, podemos supor que há uma parcela significativa de empresários do ramo de jóias e ouro que utiliza o penhor como negócio ou investimento. Para esse público, o penhor da CAIXA fez às vezes de fornecedor de jóias e/ou matéria prima (ouro). Mas, a participação feminina no campo financeiro não se restringe ao penhor. Ao buscar dados sobre a vida financeira das mulheres, pode-se encontrar informações interessantes sobre o crescimento do público feminino na utilização dos produtos financeiros. Segundo reportagem de RIBEIRO, do Jornal Valor On-line (2007), as mulheres são as que mais utilizam cartões de crédito no país. De acordo com os resultados da pesquisa setorial feita pelo Itaucard, elas somam 50,2% dos que utilizam “dinheiro de plástico”.
(...) a previsão do Itaucard é de que a receita derivada do público feminino deve crescer 21% neste ano - mais do que a média prevista para a indústria como um todo (20%). Assim, os gastos das mulheres devem somar R$ 86,4 bilhões, perante um total de R$ 188,3 bilhões previstos para o setor em 2007. Com isso, a participação da mulher em volume financeiro crescerá de 45,6%, para 45,9% (RIBEIRO, jornal Valor On-line, 2007c).

No entanto, a matéria da jornalista RIBEIRO (2006b) aponta que, mesmo havendo crescimento no uso de cartões de crédito entre as mulheres, elas ainda gastam menos com cartões do que os homens. As informações divulgadas pela Credicard Itaú mostram que as mulheres, naquele mês, desembolsaram o equivalente a 46% do montante do faturamento previsto pela agência, sendo que os homens gastaram 54% do mesmo.
(...) Na avaliação de Fernando Chacon, diretor de Marketing de cartões Itaú, esse comportamento está associado à renda, que é maior entre os homens, mas também demonstra um uso mais consciente por parte do público feminino no uso de cartões de crédito. Embora não possam ser quantificadas no estudo, não podem ser descartadas as situações em que as mulheres vão às compras com o cartão do companheiro e/ou marido, sobretudo para as compras de supermercados e outras despesas do lar. Mesmo assim, as titulares dos plásticos no país são classificadas pela indústria como consumidoras mais "conscientes". "Elas tomam a maior parte das decisões de compra da família, são provedoras do lar e usam melhor a opção de parcelamento sem juros do que os homens" (RIBEIRO, Jornal Valor On-Line, 28/09/2006).

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Em seu estudo sobre famílias de classe popular, SARTI (2003) propõe que se compreenda a família como uma instituição moral. A autora aponta para o fato de que os homens provedores de famílias pobres sentem-se responsáveis pelos rendimentos domésticos. Em contrapartida, as mulheres, como donas-de-casa, administram os ganhos dos maridos, mesmo que esses sejam de pequena monta, fazendo que o dinheiro dê para pagar os gastos com alimentação (prioridade fundamental) e controlando as despesas da família. A autora mostra que, no seio familiar, a obrigação mútua se estabelece através dos papéis que cada um desempenha. Portanto, é de se supor que as mulheres, responsáveis por administrar os rendimentos familiares, venham incorporando, na lógica do orçamento doméstico, diferentes produtos financeiros, como cartões de crédito, cheques, carnês, etc. Assim, utilizando esses produtos mais do que os homens.

2.2.2 O hábito de penhorar

Também podemos ver no quadro acima, que as pessoas que buscam esse tipo de empréstimo conhecido como penhor, se concentram na faixa etária entre 30 aos 49 anos. Esse dado é um indicativo de que essas pessoas, dessa faixa etária, já constituíram famílias e conseguiram adquirir algum patrimônio. No quadro acima, o público se distribui de forma equilibrada entre as ocupações de donas de casa (21,1%), autônomo/com negócio próprio (13,8%), funcionário dos setores público e privado (26,4%) e aposentados (18,5%). Em relação ao dado sobre a freqüência ao utilizar o penhor (78%), podemos supor que existe uma “cultura” própria do público indicado acima. Em minhas observações pude ver que penhor possui um atendimento “informal”, mesmo com toda a formalidade da atividade bancária. As pessoas chegam no setor de penhor e vão diretamente cumprimentar os caixas, chamandoos pelo primeiro nome. Nesse instante, ocorria sempre uma pequena conversa de descontração. Às vezes, um que outro cliente opta por ceder sua vez na ordem de atendimento porque quer ser atendido por um funcionário específico. Um dos avaliadores me relatou que a maioria do público é sempre o mesmo. Muitas vezes as pessoas falam sobre seus problemas de família, puxam conversa durante a

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operação da avaliação da jóia. Segundo o avaliador: “Quando eu troquei de agência, muitas das pessoas que eu atendia acabaram vindo atrás de mim, e eu continue atendendo elas”. Na maioria dos casos, os clientes estabelecem laços de confiança com o avaliador, eles se sentem mais seguros com alguns avaliadores do que com outros.

2.2.3 A classe média no “sufoco”

Pelos dados da CAIXA pode-se verificar que a maior parte do público que utiliza o penhor pertence à classe média ou alta, tendo renda média mensal familiar entre cinco e vinte salários mínimos (51,7%). Seria interessante tentar responder por que razão essa classe social está buscando crédito, e em relação às outras classes sociais, o que este fenômeno no penhor pode nos dizer? Que tipos de motivos levam as pessoas a usar o penhor? E em que tipo de estratégia econômica o penhor se insere? Para tentar responder a essas perguntas, foram agrupados os principais motivos que levam as pessoas a buscar o penhor:

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Quadro 11 – Motivos e levam as pessoas a usar o penhor e tipos de estratégia econômica em que os objetos penhorados se inserem Motivos
Imprevistos Alteração de renda

Descrição
Desemprego, divórcio, doença, morte e roubo. O penhor é uma alternativa para complementar o orçamento. Muitos trabalhadores não tiveram reajuste salarial no período dos últimos governos, isso representou a perda de poder aquisitivo de boa parte da população. O penhor pode servir como uma alternativa para pessoas que não querem prestar satisfação de seus atos financeiros, para os familiares (cônjuges, pais, filhos, etc.). O penhor pode servir como uma alternativa para que pessoas não utilizem investimentos que se destinem a projetos futuros, como por exemplo, poupança para a compra da casa própria, de um carro, estudo dos filhos. O penhor pode servir como uma alternativa para as pessoas conseguirem dinheiro para saldar dívidas adquiridas através do cartão de crédito, do cheque especial, etc., diminuindo, assim, o montante de juros a serem pagos. O penhor pode servir como uma alternativa para pessoas guardarem suas jóias, em vez de mantê-las em casa ou pagarem um cofre em um banco. O penhor pode servir como uma alternativa para cobrir os custos de eventos especiais, como por exemplo, o aniversário do filho, viagens, etc. Ao tomar as jóias como garantia de empréstimo, o penhor permite que as pessoas tornem úteis as jóias que não são mais utilizadas como peças de adorno pessoal e/ou ostentação. O penhor serve como uma alternativa de lucro, através da compra de jóias a baixos preços nos leilões do penhor e revenda das mesmas a consumidores, através do uso do ouro das jóias antigas para a confecção de novas jóias, com modelo atualizado. Comerciantes do mercado de jóias utilizam o penhor para vender as jóias de seus estoques e obterem uma parte do lucro que não foi obtido através das vendas no mercado ou diminuir os prejuízos.

Independência

Alternativa para não utilizar outros investimentos Diminuir o custo das dívidas

Segurança

“Quebra-Galho”

Dar utilidade às jóias

Investimento no mercado de jóias

Liquidação de estoques

Fonte: O autor (2007).

1

Os quadros foram elaborados conforme a descrição e classificação das situações pelos próprios entrevistados

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Um dos motivos principais que leva as pessoas a buscarem o penhor é a alteração na renda. Isso é um indicativo de que grupos de classe média e alta estão perdendo o padrão econômico. Muitos trabalhadores, dentre eles os funcionários públicos, não tiveram reajuste salarial no período dos últimos governos, isso representou a perda do poder aquisitivo de boa parte da população. Para esses, o penhor pode servir como alternativa econômica para complementar o orçamento. Mas, também nesses casos, o penhor se insere na estratégia de diminuir o custo das dívidas já adquiridas. O empréstimo de penhor pode servir como uma alternativa para as pessoas saldarem dívidas adquiridas através do cartão de crédito, do cheque especial, etc., diminuindo, assim, o montante de juros a serem pagos. Segundo um dos clientes do penhor:
A vantagem do penhor é quando tem que pagar uma conta. Não vale a pena abrir outra forma de empréstimo. Eu sou aposentado, “e quando a coisa aperta”, venho no penhor. Eu utilizo o penhor para resolver coisas rápidas.

2.2.4 Estratégias financeiras

A diferença entre os juros de um e outro empréstimo é chamada de spread, um conceito muito utilizado na economia. Os juros do cartão de crédito estão em torno de 7% a 10%. No penhor, os juros variam de 2% a 3%. Assim, se levarmos em consideração a diferença entre os juros cobrados pelo cartão e os juros do penhor, a pessoa ganharia um spread de 5%, isto é, na verdade é o que ele deixaria de pagar. Fazer uma dívida com juros menores para pagar outra dívida com juros maiores é agir de uma forma utilitária. Aqui poderíamos localizar o homos economicus, a racionalidade e a maximização do ganho. Mas, a maioria das pessoas somente percebe essa situação no momento do “sufoco”, pois de todas as opções para saldar as dívidas, as jóias acabam sendo submetidas ao penhor porque estão ao alcance. Mas, não será sempre que essa estratégia será priorizada, pois o penhor é usado para resolver problemas imediatos, somente quando os prazos de outras dívidas devem ser saldados.

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Na reportagem Consumidor trocando de carro para pagar dívida, dos jornalistas CUCOLO e NAIME (03 de abril de 2007), do Jornal on-line G1 (pertencente à Rede Globo) mostrou como os brasileiros colocam em prática a lógica do spread. Segundo a reportagem, os brasileiros estão comprando cada vez mais carros, devido às facilidades de financiamento. Os juros também estão cada vez mais baixos, fazendo com que surja uma nova modalidade de negócio que está sendo chamada de “troca com troco”. Os consumidores estão indo atrás das concessionárias porque podem trocar de carro e ainda obter algum dinheiro vivo para quitar uma dívida. Também pode trocar os juros altos cobrados pelos bancos por um financiamento mais barato, sem ter que ficar sem automóvel.
Existem diversas modalidades de troca com troco. Uma das opções é trocar aquele carrão de mais de R$ 40 mil, por exemplo, por um modelo mais barato. Nesse caso, a concessionária devolve a diferença, que pode ser usada para abater uma dívida ou reforçar o caixa da família. O mais comum, no entanto, é a troca de dívidas. Uma pessoa que tem um carro avaliado em R$ 20 mil, por exemplo, pode sair da concessionária com até 100% desse valor no bolso. Para isso, ela terá de comprar outro veículo (mais caro ou mais barato, não importa), que será totalmente financiado. O objetivo, nesse caso, é usar o dinheiro da venda do carro para abater outra dívida, que seja mais cara ou que tenha prazo menor de pagamento. Assim ele troca a dívida no banco pela dívida com a montadora. O cliente também pode usar uma parte desse dinheiro para reduzir o valor do financiamento automotivo e sair com um “troco” menor, de R$ 15 mil ou R$ 10 mil. “Se você não quiser dar nada de entrada, deixa o seu carro antigo e leva o carro novo e os R$ 20 mil de troco. Se você quiser dar R$ 5 mil de entrada, leva R$ 15 mil de troco”, diz o vendedor Waldemir Moreira, da Fiat Itavema. Segundo ele, o valor do troco depende do “crédito” que o cliente tem na praça. Quem consegue um financiamento maior no banco da montadora, leva um troco maior. Alguns clientes, segundo Moreira, utilizam o dinheiro do troco para abater dívidas bancárias – como cartão de crédito ou cheque especial –, que possuem taxas de juros mais altas. Enquanto o cheque especial fica em torno de 10% ao mês, os juros das montadoras são de cerca de 2% ao mês (CUCOLO e NAIME, Jornal on-line G1, 03/04/2007).

O único problema nesse negócio é o valor do carro usado, que acaba ficando mais baixo, além disso, o dinheiro que o consumidor recebe de troco é apenas o dinheiro que ele irá pagar com juros por ter antecipado o acesso. A troca com troco é um bom negócio para quem tem necessidade momentânea de saldar alguma dívida.

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2.2.5 A poupança “sagrada”

Além de servir como forma de buscar o equilíbrio do orçamento, o uso do penhor pode significar uma estratégia para proteger outros tipos de investimento. Muitas vezes, um investimento como a poupança pode adquirir grande importância pelo fim a que ele se destina: pode significar a realização do sonho da casa própria, do carro, dos estudos dos filhos e/ou "daquela" viagem. O dinheiro investido em uma conta-poupança não deve ser utilizado, deve-se garantir o acúmulo do investimento, mesmo sendo mínimo, e para isso, o penhor serve como alternativa. Entretanto, no Brasil, a poupança é um investimento raro. Um dos principais motivos para isso é que o dinheiro não sobra no fim do mês, no orçamento das classes populares. Na verdade, ele acaba antes do fim do mês. Como o salário é muito baixo, o crédito acaba sendo uma espécie de poupança invertida. Nas análises de BRUSKY e FORTUNA (2002), sobre as microfinanças no Brasil, observaram que existe o desejo e a intenção, por parte da população, de realizar uma poupança, mas, segundo os entrevistados no estudo, existe uma incapacidade de poupar devido ao pagamento das diversas prestações que devem ser saldadas durante o mês, não sobrando dinheiro. Outra questão importante é que a poupança não significa algo muito importante na vida das pessoas, pois ela não traz benefícios em curto prazo.

2.2.6 Bancos e financeiras

O trabalho desenvolvido por MATTOSO (2005), um estudo realizado na favela da Rocinha, localizada no Rio de Janeiro, trata da identidade, inserção social e acesso a serviços financeiros. Segundo a autora, os problemas financeiros dos pobres são causados principalmente por imprevistos, como por exemplo: desemprego, divórcio, doença, morte, roubo, etc., que levam as pessoas a buscarem as organizações financeiras. Nesse sentido, pode-se dizer que as financeiras são procuradas nos momentos de falta de opção e de urgência. No penhor ocorre algo semelhante, pois as jóias se tornam alternativas para a busca de um tipo de crédito

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que dê conta de imprevistos, embora elas sejam possam ser justamente uma alternativa ao uso das financeiras, em função de seus juros altos. Em seu depoimento, uma cliente do penhor explica os motivos que a levaram a buscar esse recurso:
Utilizo o penhor quando a coisa está “num arroxo total”. Eu já tinha penhorado uns anos atrás e tive que utilizar novamente. Foi no final de novembro. Não é freqüente, é quando aperta mesmo. (...) São minhas as jóias. Ganhei quando era moça e depois eu adquiri algumas. Não consulto o meu marido quando vou penhorar, mas como ocorre imprevisto, até para aliviar ele, eu penhoro. O que eu resolvo, eu resolvo. Eu tenho a solução.

Muitos dos depoimentos coletados ao longo das observações no setor de penhor da CAIXA mostraram como os clientes diferenciam os bancos das financeiras. Para os clientes do penhor, os bancos oferecem diferentes produtos financeiros, como os investimentos, enquanto que as financeiras atuariam na oferta de crédito, baseada na necessidade dos indivíduos, principalmente em casos de imprevistos, como doenças de família, desemprego, etc. O trabalho de MATTOSO (2005) apresenta algumas considerações do universo simbólico dos moradores da Rocinha, em relação aos empréstimos em financeiras. Para eles, o empréstimo em financeiras assume significado negativo, ao contrário do crédito para empreendimentos, de investir em negócios, que é visto como uma coisa boa. Segundo a autora, muitos moradores da Rocinha se orgulham de nunca precisarem ter usado o empréstimo de financeiras. As financeiras são sempre lembradas pelos juros altos. Para entender um pouco a diferença entre os bancos e financeiras, realizei algumas observações no bairro Centro da cidade de Porto Alegre. As observações ocorreram na Rua dos Andradas, também conhecida pelos gaúchos como “Rua da Praia”. A Rua dos Andradas é um dos pontos mais movimentados da cidade de Porto Alegre. Pode-se dizer que esta rua é um grande centro comercial. Nela, milhares de pessoas compram mercadorias das mais diversas. O que chama a atenção nesse grande local de negócios é o crescente surgimento das agências especializadas em crédito, isto é, cada vez mais encontramos financeiras oferecendo vantagens na concessão de empréstimos à população. A abordagem das financeiras é quase sempre a mesma: um rapaz ou uma moça vestindo a camisa de alguma dessas instituições, distribuindo panfletos e

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informando sobre os diferentes tipos de créditos para a população que transita na “Rua da Praia”. Esses rapazes e moças fazem um exercício constante para entregar os panfletos. A abordagem é feita de forma educada e acompanhada de um discurso atrativo sobre as vantagens dos diferentes tipos de crediário que a financeira está representando. Os panfletos sempre vêm com o nome da pessoa que está distribuindo, o que indica que deve haver algum tipo de “comissão” para estimular a abordagem desses “panfleteiros”. Ao caminhar por essa rua, podemos recolher diversos panfletos de financeiras existentes nessa área, como Losango, Caixa Alta, BV Crédito Pessoal, Finasa e IBI. Os “panfleteiros” buscam na multidão possíveis futuros clientes, já os bancos partem de uma venda indireta, ou seja, o cliente deve se dirigir à agência bancária e a abordagem pode ser feita através de contato telefônico e/ou por correio. As financeiras buscam os clientes na rua e a abordagem é sempre pessoal. Dona Maria, cliente do penhor, conta como percebe a abordagem das financeiras:
Quando a gente passa na rua e eles vêem que a gente tem cabelo branco, vem com aquele monte de panfletos para dar para a gente. Mas nenhuma financeira foge à regra, todas elas têm o juro muito alto. Triste da pessoa que pede empréstimo nestas financeiras. Eu tenho um caso de família: o meu genro fez um empréstimo e depois fez outro para cobrir o primeiro empréstimo, mas como não conseguiu pagar, ele se “atocaiou” em um terceiro para tentar liquidar a dívida. Eu sei que ele está com uma dívida muito alta e não conseguiu liquidar nenhum dos empréstimos. Eu vejo as pessoas se arrependerem amargamente.

A arquitetura das agências dos bancos são orientadas para a segurança: portas giratórias com detectores de metais, cofres, guardas. Podemos dizer que os bancos oferecem um serviço em que o cliente deve provar que está em condições legais em relação à receita federal para adquirir crédito, salvo no penhor. Mas mesmo sendo uma instituição que oferece diferentes produtos e serviços financeiros, a maioria dos brasileiros utiliza somente a conta corrente e, em casos mais raros, fazem uma poupança como investimento. Já as financeiras são mais flexíveis, acontecendo de oferecerem crédito a pessoas inadimplentes. A estrutura física das financeiras também é diferente em relação à dos bancos. Elas têm agências abertas, sem portas giratórias, que parecem mais lojas do que instituições financeiras. Entretanto, as financeiras são vistas de forma negativa por sua maneira de atuar, como se elas buscassem os clientes somente em seus momentos de “sufoco”.

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2.2.7 “Quebra-galho”

Diferente de quem busca o penhor por causa de imprevistos não premeditados, é a modalidade de busca por esse tipo de crédito que pode ser classificada como “quebra-galho”. O “quebra-galho” é uma decisão que não envolve situações de sofrimento, ele é uma alternativa para ocasiões que cobrem os custos de alguns eventos, como por exemplo, o aniversário do filho, viagens, etc. O penhor, nesse sentido, é procurado para resolver, não necessariamente uma urgência, mas cobrir custos que estão fora do orçamento, e não implica perdas, pois as jóias podem ser resgatadas em outros momentos.

2.2.8 Alternativa para autonomia

Penhorar as jóias pessoais também pode ser uma alternativa de independência. Pessoas que possuem uma vida financeira em conjunto com outras, como, por exemplo, os casais, principalmente as esposas, podem buscar o penhor para não ter que prestar satisfação de seus atos particulares para os demais membros da família. Para Ana:
Eu não preciso fazer penhor, mas para meu marido não saber de meus gastos, então venho aqui e penhoro algumas jóias. Eu ganho mesada do marido e, às vezes, gasto demais por causa de minha filha. Como eu não uso jóias na rua, acho que vale a pena fazer o penhor porque preciso do dinheiro para cobrir algumas despesas. Mas não é bom fazer sempre, pois os juros podem ir além do valor da jóia.

No caso da esposa, que não queria prestar contas de seus atos financeiros ao marido, sua decisão foi pode ser classificada como emocional. Existia o interesse de evitar constrangimento com o acordo conjugal nos gastos do orçamento doméstico. Portanto, a relação com o penhor possui fenômenos não “economicamente orientados”, segundo a teoria de SWEDBERG (2005).

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2.2.9 No penhor é mais seguro

Não somente o penhor pode estar inserido nas estratégias familiares, mas também pode servir como uma maneira das pessoas guardarem suas jóias, em vez de mantê-las em casa ou pagarem um cofre em um banco. Os objetos ficam seguros no cofre do banco, sendo oferecido o serviço de renovação do contrato, em que o cliente pode optar por pagar somente os juros cobrados, evitando assim que as peças vão a leilão. Segundo dados da CAIXA, 10% das pessoas pesquisadas penhoram suas jóias apenas para guardá-las com segurança nos cofres. Uma reportagem sobre como o penhor está sendo utilizado pela classe média brasileira, da jornalista EMÍLIA (Jornal on-line AOL, 2/10/2003) ilustra bem esta situação:
Por mais inusitado que pareça, há também aquelas pessoas que deixam as jóias no prego por segurança. Elas correspondem a 10% do total de usuários do crédito. "Eu fui assaltada quando estava com um conjunto de brincos e colar de ouro português. Eles me machucaram e eu jurei que nunca mais iria ter nenhuma jóia comigo", diz Sandra Pujol da Silva. "Eu uso o dinheiro e fico sempre renovando a cautela do empréstimo, o que é uma vantagem, pois não preciso vender as coisas, que ficam aqui guardadinhas no cofre" (EMÍLIA, Jornal on-line AOL, 2003).

Também por questões de segurança, as jóias deixaram de ser usadas na vida cotidiana. Muitos relatos informam sobre o perigo de se usar jóias hoje em dia. Uma peça de ouro ostentada no pescoço pode representar um convite para ser assaltado. Nesse sentido, as jóias perdem seu valor de adorno e acabam recebendo outros sentidos. Um deles é o de utilizá-las como garantia de empréstimo. Assim, o penhor permite que as pessoas tornem úteis as jóias que não são mais utilizadas como peças de adorno pessoal e/ou ostentação.

2.2.10 Jóias como investimento

Existe um mercado de jóias que se utiliza dos serviços prestados pelo penhor da CAIXA. O penhor serve como uma alternativa de lucro, seja através da compra de jóias a baixos preços nos leilões do penhor e da revenda das mesmas a

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consumidores, seja através do uso do ouro de jóias antigas para a confecção de novas jóias, com modelos atualizados. Além de pessoas que investem nesse tipo de negócio, também se pode supor a existência de grandes comerciantes do mercado que usam o penhor para liquidar seus estoques de jóias não vendidas. Para esses profissionais, o penhor é um meio de garantir uma parte do lucro não obtido através das vendas no mercado, ou de diminuir os prejuízos. Portanto, este item deve ser melhor explorado em próximas investigações, pois a pesquisa necessita de dados mais apropriados para confirmar a presença de comerciantes de jóias no penhor.

2.3 Visões negativas do penhor

Mesmo tendo crescimento dos empréstimos na modalidade de crédito conhecida como penhor, existem visões negativas em relação a esse tipo de serviço financeiro. Essas visões fazem com que os indivíduos evitem buscar essa forma de crédito, fazendo dele um tabu. Por envolver bens (as jóias) como garantia para a aquisição de empréstimo, a atividade do penhor entra no imaginário social associada à idéia de falência ou de perda de status social de certos indivíduos, ou seja, associada à pessoa que não soube administrar suas dívidas e acabou buscando, por necessidade, penhorar as jóias. O penhor assume o sentido de desonra. A penhora das jóias é vista como moralmente inaceitável. A falta de informação sobre o serviço também contribui para uma visão negativa desse tipo de empréstimo. Desconhecendo principalmente que as jóias penhoradas servem somente como garantia do contrato, não significando a perda dos objetos, salvo em caso de leilão, muitas vezes, as pessoas entendem que as jóias estão sendo vendidas para a CAIXA. Também contribui para a visão negativa sobre o penhor a sua identificação como um negócio para velhos2. Este termo “rotular”, às vezes preconceituoso, foi utilizado pela grande maioria dos entrevistados, que em muitos casos eram pessoas que estavam na mesma faixa etária de pessoas consideradas idosas. Ou

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O termo freqüentemente utilizado pelos entrevistados.

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seja, na forma como algumas pessoas estão pensando o penhor, como sendo um recurso somente utilizado por pessoas com uma faixa etária mais avançada. Entretanto, em minhas análises e observações percebi que o público de pessoais com menos idade também é freqüentador do penhor. Portanto, necessita-se de maior análises do fenômeno e aqui exposto. O penhor também é visto como um negócio para a classe alta ou média alta, pois os pobres, as classes populares, não teriam condições econômicas nem interesses em adquirir jóias. No entanto, ao analisarmos dados sobre essa questão, veremos que as jóias também se inserem na vida dos grupos populares, através de diferentes meios, em especial, através dos rituais. Mas, de todos os motivos que favorecem à visão negativa do penhor, o constrangimento ainda é o mais apontado pelos entrevistados do penhor, ou seja, precisar penhorar o bem de uso é uma demonstração de incompetência ou descontrole moral. Em depoimento coletado na CAIXA pela jornalista Andreza EMÍLIA (UOL, 2003), muitos clientes confessam o drama de penhorar jóias:
"É ruim vir aqui, você tem a sensação de se desfazer das coisas, um sentimento de derrota, sabe? Mas fazer o quê, não dá para deixar a situação ficar pior", lamenta a cliente Elizabeth. Casos como o de Elizabeth são cada vez mais comuns (EMÍLIA, UOL, 2003).

Os dados da CAIXA mostram que está havendo um crescimento considerável na procura desse tipo de crédito. Apesar disso, os dados dessa etnografia nos levam a supor que quem utiliza esse instrumento, já possui uma familiaridade que é fruto de hábitos familiares, o que é retratado na pesquisa realizada pela Caixa Econômica Federal, cujos dados mostram que esse tipo de empréstimo é utilizado mais de uma vez por 78% dos entrevistados.

2.4 Jóias rejeitadas

Um dos dados fornecido pela CAIXA é o de que mais de 95% dos clientes do penhor conseguem resgatar as jóias empenhadas. Esse dado mostra que as

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pessoas possuem estima pelos objetos preciosos. Mas, então, por que muitas jóias chegam a ir a leilão e chegam até a ser vendidas? No quadro abaixo serão indicados os motivos de rejeição dos objetos: Quadro 2 - Motivos que levam as pessoas a se desfazerem das jóias Tipos
Jóias achadas

Motivos
Na rua ou em casa. São peças encontradas dentro de casa, na rua, perdidas por outras pessoas. A pessoa que encontra ou acha esse tipo de jóia pode escolher entre ficar com a peça ou procurar o penhor para tentar obter algum dinheiro; Divórcio, separação; De parentes não muito próximos. As jóias recebidas de herança possuem um valor sentimental muito grande para a maioria das pessoas. Porém, se os objetos pertenciam a parentes não muito próximos, as jóias recebidas não possuem maior valor sentimental, podendo ser penhoradas sem intenção de resgate; O penhor é uma forma das pessoas trocarem as jóias por outras. Para pessoas que possuem o hábito de comprar e utilizar as jóias, o penhor pode ser uma alternativa para trocar as peças por outras com modelos mais atualizados; Joalheiros que precisam renovar os estoques. Joalheiros que precisam renovar seus estoques e recorrem ao penhor para se desfazerem das jóias não vendidas; Por falta de organização, as pessoas acabam esquecendo dos dias do leilão, perdendo, assim, a oportunidade de resgatar suas jóias penhoradas.

Jóias de casamento Jóias de herança

Jóias desatualizadas

Jóias liquidadas

Jóias esquecidas

Fonte: O autor (2007).

Aqui podemos destacar a presença de uma lógica não econômica na transação financeira. Tudo leva a crer que o que existe não são jóias que deixaram de ser resgatadas, mas sim, peças que foram rejeitadas. Os motivos que levam as pessoas a se desfazerem das jóias são os mais variados. No caso dos divórcios ou separações matrimoniais, as pessoas se desfazem das jóias que são associadas à relação conjugal do passado, em especial as alianças de casamento, que trazem lembranças dessa relação. FONSECA (2000), apresenta uma descrição do ritual do fim de uma relação conjugal no capítulo Aliados e Rivais na Família. O fim do relacionamento é marcado com o ato de abandono ou demolição da casa. Todavia,

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nos grupos populares, segundo a autora, as casas são de baixo custo porque são construídas com materiais de construção recuperados. Segundo STALLYBRASS (2000), os objetos adquirem uma aura fantasmagórica, eles trazem recordações de pessoas que usaram esses objetos. Recordações que magoam e trazem dor, portanto, as jóias devem ser sacrificadas, rejeitadas, como o passado que ficou para trás. Alguns dados coletados sobre o casamento e o divórcio dão uma idéia do contexto dos relacionamentos conjugais no Brasil. Segundo reportagem de SPITZ (05/12/2006), existe uma relação ente o divórcio e o aumento do índice do casamento. À primeira vista, a relação dos dados pode ser contraditória, mas o que a repórter chama a atenção, com os dados coletados do IBGE, é que está crescendo no Brasil o segundo casamento. O número de casamentos no Brasil subiu 3,6% em 2005. De acordo com o IBGE, o percentual de mulheres solteiras que se casaram com homens divorciados passou de 4,1% para 6,2%, entre 1995 e 2005. Já o percentual de mulheres divorciadas que se uniram legalmente com homens solteiros cresceu de 1,7% para 3,1%. Os casamentos entre cônjuges divorciados também aumentaram de 0,9% para 2,0%. Mesmo ocorrendo um crescimento significativo de divórcios, os índices de casamento continuam crescendo, pois existe a segunda união conjugal. Logo, o penhor receberia muitas alianças de divórcios e os leilões forneceriam matéria-prima para novas demandas de casais.

2.5 Jóias, rituais e vida econômica

Com 146 anos, o penhor continua existindo e convivendo com fatores que tenderiam a extingui-lo; como o desenvolvimento da tecnologia (“dinheiro virtual”, desvalorização do ouro, etc), a violência (empecilho para o consumo de jóias), as visões negativas do serviço e a concorrência com outros produtos e instituições financeiras. Mesmo assim, o empréstimo de penhor cresce e é cada vez mais utilizado como uma alternativa e/ou estratégia econômica. O que faz ele ser tão procurado nesse contexto?

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Para POLANYI (1980), as atividades econômicas do mercado estão “submersas” em relações sociais. O penhor ratifica esta tese, pois as jóias não são adquiridas para obtenção de crédito. Na verdade, as peças preciosas entram na vida dos sujeitos, e/ou no contexto familiar, de diferentes formas. Elas podem ser adquiridas através de presentes, serem herdadas ou transferidas através de rituais. As jóias continuam fazendo parte de rituais importantes na vida social das pessoas. No quadro abaixo, podemos ver alguns rituais que envolvem jóias:

Quadro 3 - Rituais que envolvem jóias Rituais Tipo de jóia

Nascimento de uma criança do Presenteada pelos padrinhos com um par de brincos sexo feminino Aniversário de quinze anos de Presenteada pelos pais com um anel de brilhantes uma moça (Debutante) Formatura Universitária Casamento Premiação esportiva Premiação de mérito Anel com símbolo da profissão Os noivos usam aliança Medalhas olímpicas e troféus que simbolizam a conquista e/ou vitória Troféus, estatuetas, placas de dedicação e reconhecimento do mérito profissional

Fonte: O autor (2007).

Para PEIRANO (2003), os rituais revelam representações, valores, o que é comum em uma sociedade. Os rituais são eventos de comunicação simbólica que demarcam a passagem de uma situação para outra. Segundo a autora SEGALEN (2002), o ritual não é um fenômeno meramente repetitivo, ao contrario, é uma experiência de linguagem e conteúdo mutável, com outras formas e reinterpretada dentro de certos limites. Nesse sentido, a mutação dos rituais indica a manutenção da sociedade. Um exemplo de rito que a autora trabalha é o casamento. Para Segalen, o casamento se realiza entre famílias e é apoiado pela comunidade, que celebra a passagem do rito. O casamento simboliza a aliança entre duas famílias, a fusão entre elas. Já antes da cerimônia do casamento, o noivo pede a mão da noiva aos pais dela. Logo, o noivo presenteia a

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sua noiva com um anel, assim se passa do estágio de namoro para o noivado. O anel de noivado, de costume, é usado no dedo anelar da mão direita. Na cerimônia de casamento, a posição do anel muda, da mão direita para a esquerda, também no dedo anelar. A escolha dos anéis também é um acontecimento importante na vida do casal. O valor da jóia, simbolicamente, pode significar proporcionalmente o amor que está envolvido na relação. Jóias mais caras simbolizam um grande amor. O mercado se aproveita dessa situação, capta e expressa esse código simbólico. As joalherias oferecem cada vez mais diferentes modelos de jóias, com ou sem uma pedra preciosa cravejada e tendo a possibilidade de personalizar o objeto, marcando as letras do nome da noiva ou do noivo. No cotidiano, podemos ver algumas pessoas com alianças enormes no dedo. Se o mercado é uma construção social, como afirma ZELIZER (2005), o mercado de jóias é o resultado de uma construção social que depende dos rituais para existir. Não existe uma barreira moral para a comercialização de jóias destinadas aos ritos, muitas vezes a preços maiores do que o de sua matéria-prima. A comercialização das jóias entra no circuito de consumo estipulado pela própria demanda da sociedade. Assim, o capitalismo se adapta, se mistura com a cultua. O mercado de jóias é o resultado de relações sociais. Para MAUSS (2001), o dom está na base de um sistema de troca recíproca entre os sujeitos e/ou grupos. Nesta troca, material e simbólica, o ato voluntário de presentear estabelece a obrigatoriedade de aceitar e retribuir. Portanto, a doação de um presente não é necessariamente um ato desinteressado ou apenas generoso, pois um vínculo entre pessoas é estabelecido, um contrato, uma dívida de honra que não terá um prazo específico para ser saldada, mas que deverá ser honrada. Mauss também mostra que o sujeito tem muito a perder com a dívida não saldada. Ele perde prestígio, posição social entre os membros da comunidade a que pertence. Na sociedade contemporânea, um ritual interessante que podemos compreender a partir do conceito de reciprocidade está relacionado com o nascimento de uma criança. No caso das meninas recém-nascidas, os padrinhos costumam presentear a criança com um par de brincos. No caso dos meninos recém nascidos o presente é cada vez mais raro, mas era de costume eles ganharem correntes ou escapulários de ouro. Todavia, nestes casos, não é a criança que está em dívida com os padrinhos, mas ao contrário, são eles que devem moralmente algo

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à criança. O presente inicial não é o par de brincos ou o escapulário. Na verdade, as jóias são parte da retribuição que os padrinhos dão pela criança, que é de fato o presente oferecido. Na tradição judaico-cristã, os padrinhos têm como papel guiar o afilhado para o caminho de Deus e de ajudá-los no que for preciso. Eles são pais e mães espirituais da criança. No batismo, eles têm como obrigação auxiliar os pais da criança, na educação religiosa. Mas, também, em alguns casos a importância dos padrinhos é fundamental para a sobrevivência da criança. No estudo sobre a circulação de crianças, FONSECA (1993) mostra como esse sistema pode ter múltiplo significado. Para a autora, além da sobrevivência, as crianças são usadas como elementos de trocas, para consolidar redes já existentes. A circulação de crianças chega a ser uma tática para reatar a relação entre parentes que estão longe do grupo de parentesco. Parentes que se distanciaram com a mobilidade social. Segundo a autora, as pessoas que ficam responsáveis pela criação das crianças são os beneficiários da troca, estando em dívida com os verdadeiros pais, e não ao contrário. Os padrinhos se enquadram nessa mesma lógica. Já no aniversário de quinze anos, tradicionalmente, a moça (debutante) é presenteada pelos pais com um anel de brilhantes. Os pais organizam uma festa de comemoração para a filha. O evento representa a passagem da adolescência para a vida adulta.
O baile de debutantes é um rito de passagem ao qual as jovens são submetidas, geralmente sendo realizado quando essas completam quinze anos. Completando o décimo quinto aniversário de uma mulher, pedia-se uma linda festa de comemoração, onde ela seria apresentada oficialmente à sociedade, começando assim uma nova fase de sua vida. (...) A jovem moça passava a freqüentar reuniões sociais, a usar roupas mais adultas e tinha permissão para namorar (DEBUTANTE, Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, 1989).

No momento da festa de comemoração, a moça irá trocar de sapatos, dançar a valsa com os convidados e apresentar o anel de brilhantes ao público. Um presente de valor que ressalta o prestígio dos pais à comunidade. Outro rito social em que as jóias participam é na cerimônia de formatura. O evento de formatura representa a conclusão de um curso de qualificação profissional. Significa o término de uma fase de estudos, em que o aluno foi submetido a avaliações de sua aprendizagem. No rito, o estudante passa a ser um profissional, que possui habilidades e competências específicas para atuar no

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mercado de trabalho. O mérito foi alcançado. O que chama a atenção no mundo da qualificação profissional são os ritos que simbolizam o mérito, eles ocorrem em dois momentos: no primeiro, o estudante, ao entrar no curso, deve passar pelo “trote”, normalmente o aluno passa por uma “humilhação” feita pelos colegas veteranos. O estudante novo é pintado, sujo, descalço e deve pedir trocados nas ruas. Já no segundo momento, no fim do curso, o estudante é prestigiado e louvado pelo esforço. A formatura de conclusão de curso pode ser uma ocasião para a aquisição de um anel (ANÉL, Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, 1989). Tradicionalmente, esse anel contém o símbolo da profissão. Além do “trote” e da formatura, o mundo da qualificação profissional possui outras formas de rituais que simbolizam o mérito. Os profissionais são reconhecidos pelo bom desenvolvimento de seus trabalhos. Normalmente são concedidos aos profissionais de destaque jóias como troféus, estatuetas, placas de dedicação. Na verdade, o prestígio público é a “jóia preciosa”. Outra ocasião ritualizado em que as jóias se inserem ocorre no esporte. Nos jogos esportivos os atletas disputam o primeiro lugar no pódio, a vitória, a busca pelo prêmio. O esporte representa a ideologia da superação física do homem, quebrar recordes e vencer limites da capacidade do corpo humano. Para alcançar o lugar no pódio, os atletas se dedicam a uma rotina diária de exercícios físicos, tentando alcançar a perfeição. Porém, às vezes, a capacidade de vencer limites não depende somente de um corpo saudável e treinado, o emocional e o social do atleta também são fundamentais. Isso pode significar “os segundos” necessários da vitória. No sentido emocional, o atleta deve estar preparado às pressões que o “peso” da competição pode exercer na sua personalidade. Na parte social, a torcida pode fazer a diferença em motivar o atleta a buscar a vitória, ou fazê-lo não desistir da competição. O papel da torcida revela a subjetividade dos homens. GEERTZ (1988), ao descrever a briga de galo, estava também descrevendo a forma como o homem de Bali pensa e age. Em Bali, os galos de rinha são animais que representam o universo simbólico da masculinidade. Isso é tão forte, que os animais são chamados de Sabung, de acordo com Geertz, na linguagem nativa significa “herói”, “guerreiro”, “campeão”, “homem de valor”, “Don Juan”, “cara durão”, etc. Aqui temos a expressão simbólica da personalidade desejada pelos homens: moral, estética e metafísica. Nesse sentido, podemos comparar os atletas com o Sabung. Os atletas

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representando um ideal de homem. Mas, além disso, os atletas podem representar o modelo de uma sociedade. Nas Olimpíadas, evento que ocorre de quatro em quatro anos, os melhores atletas do mundo representam suas nações. A vitória desses atletas tem um significado de afirmação de identidade nacional, identidade coletiva. As premiações esportivas como medalhas e troféus deverão simbolizam a vitória, não somente de um atleta, mas de uma nação. Mas, na sociedade atual, o rito sofre uma plasticidade. Segundo SEGALEN (2002), os rituais mantêm o sentido geral, mas tomam outras formas específicas. Segundo a autora, cada vez mais os rituais viram um espetáculo, um show. No casamento, na festa de debutante, na formatura e em cerimônias de premiação, os organizadores buscam realizar um evento de sucesso, e quanto mais publicizado melhor, pois irá representar prestígio perante a família, amigos e comunidade. Isso é possível com o trabalho de profissionais especializados no ramo de organização de eventos. Conforme Segalen, esses profissionais oferecem um pacote de serviços e produtos para incrementar o rito. Da taça, que deverá ser servido o champanhe, aos detalhes do convite. Para a formatura, as joalherias possuem catálogos de design de símbolos, que caracterizam as diversas profissões. Esses anéis podem ser cravejados de pedras, conforme o gosto do consumidor. Portanto, os rituais são ocasiões sociais que dão sentido à aquisição de jóias. Jóias que passam a ser os traços da história dos sujeitos. Objetos que são lembrança de um evento passado na vida social das pessoas (STALLYBRASS, 2000). Rituais, instituições, comércio e crédito estão ligados ao penhor. Logo, o penhor não estabelece uma separação entre mercado (lógica financeira dos juros e o valor do ouro) e sociedade (lógica da aquisição e uso das jóias). Não existe uma fronteira no sentido que POLANYI (1980) descreveu, uma separação entre mercado e os valores humanos. O penhor funciona incrustado em relações sociais, os ritos se legitimam porque as jóias que deles fazem parte possuem valor reconhecido no mercado. Uma coisa depende da outra. O penhor pode ser pensado como uma esfera econômica engendrada na esfera social (ZELIZER, 2005).

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2.6 O significado das jóias: valor de uso e valor de troca

O conceito elaborado por MARX (1988) diz que o valor de uso é definido pela utilidade das mercadorias. Usamos algum bem ou produto pela sua propriedade porque temos alguma necessidade, física ou material. Já o valor de troca é um conceito baseado pelo tempo de trabalho socialmente gasto para a produção de bens. A princípio, a relação entre o tempo gasto com a mão-de-obra do trabalhador equivaleria ao resultado do produto do trabalho. O valor de troca é a expressão monetária. Entretanto, segundo Marx, esse resultado é uma ilusão porque oculta as relações desiguais de trabalho. O fetiche da mercadoria é o conceito que define essa ilusão, pois não revela nas trocas comerciais a injustiça da desigualdade na etapa da produção. O mercado capitalista é o resultado das trocas de mercadorias, ou seja, as relações humanas são disfarçadas nas relações entre as coisas. Marx quer chamar a atenção para o fato de que as coisas possuem valor de troca porque foram produzidas socialmente. No quadro abaixo, a partir das observações no penhor, foram sintetizados os conceitos de valor de troca e valor de uso:

Quadro 4 - Valor de Uso (simbólico) Categorias
Poder, status, prestígio Estético, beleza, elegância, glamour Romance, sedução Lembranças

Descrição
Jóias representam posição/classe social Jóias servem como acessório no vestuário Jóias podem significar um ato de amor e conquista Jóias podem representar lembranças, ser referência de acontecimentos do passado, da vida das pessoas Jóias podem ser demarcadores de relações de parentesco, representando alianças entre familiares, objetos que são transmitidos de uma geração para outra (herança)

Símbolo de vínculos e de pertencimento familiar

Fonte: O autor (2007).

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Quadro 5 - Valor de Troca (comercial) Categorias Descrição
No momento da avaliação para a O design, forma e modelo da jóia não agrega valor no concessão do penhor momento da avaliação para se adquirir o empréstimo. O valor do objeto é medido por seu peso de ouro. Nos leilões O penhor como fornecedor Amortecedor de custos do crédito Fonte de recursos para eventos extraordinários Na hora da revenda, o design, a ausência de marcas de uso e que personalizam a jóia é fator de valorização da mesma. O penhor serve como uma alternativa de obtenção de lucro para comerciantes de jóias. As jóias que não são mais utilizadas são tomadas como patrimônio que pode ser usado para diminuir o custo dos empréstimos. O penhor pode servir como uma alternativa para pessoas conseguirem dinheiro para garantir diversas situações, como por exemplo, o aniversário do filho, viagens, material escolar, urgência médica, datas comemorativas (páscoa, natal, etc.), etc. O dinheiro adquirido no penhor equilibra as despesas domésticas.

Complemento no orçamento

Fonte: O autor (2007).

O estudo sobre o crédito conhecido como penhor permitiu perceber que diferentes sentidos e valores são atribuídos às jóias. Os atributos dados às jóias fazem parte de uma fronteira, às vezes, não muito nítida entre valor de troca e valor de uso. A utilização das jóias explicada pelo conceito de valor de uso possui alguns problemas. O principal é que as jóias não possuem a finalidade de suprir uma necessidade, como o casaco que pode nos proteger do frio. Portanto, qual a utilidade de usar um pedaço de metal no dedo? O uso das jóias se dá através da dimensão simbólica, existe um código sendo transmito, um signo. O valor de uso das jóias é simbólico. As alianças comunicam ao mundo o comprometimento mútuo do casal. Além disso, as jóias preciosas também podem representar poder, status, prestígio e posição/classe social. As jóias servem como acessório no vestuário, podem significar um ato de amor e de conquista, fazem parte dos jogos de sedução. Às vezes, as jóias vão revelar o status social dos homens. Ou seja, a mulher presenteada com jóias é um indicativo de ostentação de poder e prestígio masculino.

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As jóias no Brasil, como em diferentes lugares do mundo, possuem valor estético, elegância e glamour. As jóias cumprem um papel importante na vaidade feminina, significam parte da identidade pessoal. No universo moral, as jóias valorizam as mulheres. Conforme STALLYBRASS (2000), as “lembranças”, a que nos remetem os objetos, têm valor simbólico, pois elas fizeram parte de momentos da história da vida das pessoas. As jóias podem representar essas lembranças como, por exemplo, a de um romance, de uma conquista, de uma perda de um membro da família. Portanto, os objetos são a referência de acontecimentos do passado da vida das pessoas. Para Stallybrass, o não-desapego pelo objeto pode representar saudade de eventos e/ou pessoas do passado.
(...) As roupas são, pois, uma forma de memória, mas elas são também pontos sobre os quais nos apoiamos para nos distanciar de um presente insuportável: o presente da infância, por exemplo, quando somos protegidos pelos nossos pais (STALLYBRASS, 2000, p. 42).

A construção simbólica do valor das jóias também está associada à existência de vínculos e ao pertencimento familiar. Jóias podem ser demarcadores de relações de parentesco, representando alianças entre familiares, objetos que são transmitidos de uma geração para outra (herança). PISCITELLI (2006) estudou a transmissão das empresas através da herança. Para a autora, o conceito de herança refere-se à transmissão de patrimônio espiritual, moral e material. Portanto, a transmissão da propriedade (a empresa) não deverá ser para qualquer herdeiro, filho ou parente. Os sucessores da empresa são escolhidos por critérios de responsabilidades e atribuições pessoais, adequados à gestão empresarial. Da mesma forma, as jóias que deverão ser transmitidas por herança, não deverão ser entregues para qualquer pessoa da família. Além da qualidade de merecimento, vão estar envolvidas questões de responsabilidade dos herdeiros. As jóias devem permanecer na família, os herdeiros terão a obrigação de repassar as peças para a próxima geração. Portanto, a transmissão das jóias é uma forma de reorganizar a rede familiar, quase a preservação de uma linhagem. Podemos entender essa relação através da descrição que Stallybrass faz das roupas, quando elas eram objeto de penhor por parte de indivíduos da classe trabalhadora inglesa, na época da revolução industrial:

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(...) as roupas têm uma vida própria: elas são presenças materiais e, ao mesmo tempo, servem de código para outras presenças matérias e imateriais. Na transferência de roupas, as identidades são transferidas de uma mãe para uma filha, de um aristocrata para um ator, de um mestre para um aprendiz. Essas transferências são freqüentemente representadas no teatro da Renascença em cenas em que um servo ou uma serva vestese como seu mestre, um amante veste-se nas vestimentas emprestadas de outro amante, uma caveira habita as roupas que sobreviveram a ela (STALLYBRASS, 2000, p. 38).

Além do valor simbólico, as jóias possuem uma segunda vida, aquela em que possuem o valor de troca ou comercial. No valor de troca, as jóias possuem o poder de adquirir crédito, transformar-se em dinheiro. No momento da avaliação para a concessão do empréstimo, o design, forma e modelo da jóia, não agregam valor. O valor do objeto é medido exclusivamente por seu peso de ouro. O dinheiro é equivalente ao valor do peso do ouro. Em suma, variam muitos os valores agregados às jóias preciosas. Poderá haver distinção entre o valor de uso (simbólico) e o valor de troca (comercial). Em outros casos não, as jóias podem agregar maior valor comercial por possuírem uma característica simbólica específica. Tudo vai depender do tipo de situação e do tipo de pessoa ou público que estão sendo negociadas as jóias.

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CONCLUSÃO

A expansão do crédito no Brasil foi possível com a estabilidade financeira do Plano Real. As políticas de acesso ao crédito adotadas pelos últimos governos, com o objetivo de incluir a população de baixa renda no Sistema Financeiro Nacional, provocaram um crescimento concorrencial da oferta de empréstimos. O mercado de empréstimo no Brasil expandiu tanto que já podemos encontrar uma variedade muito grande de serviços e produtos financeiros oferecidos para diferentes públicos. Com essa expansão, um novo cenário se configura. Novos padrões de consumo se incorporam à vida da população. Faltam pesquisas e estudos que avaliem melhor o impacto da expansão do acesso ao crédito no Brasil. A forma como o consumidor lida com o dinheiro muda, pois passa a ser incorporado ao seu cotidiano uma diversidade de produtos financeiros. Nesse sentido, a realização do estudo sobre penhor revelou algumas das diferentes formas da população lidar com o crédito. Levando-se em conta as hipóteses da pesquisa, foi possível entender alguns mecanismos da economia e seus efeitos a partir de uma dimensão social e simbólica. Especificamente, o penhor como forma de crédito - o uso das jóias como garantia. As jóias entram na vida dos sujeitos, e/ou no contexto familiar, de diferentes formas. Elas podem ser adquiridas através de presentes, serem herdadas ou transferidas através de rituais. Por esses motivos, as jóias materializam os traços da história dos sujeitos, são objetos que lembram eventos passados na vida social. Penhorar as jóias pessoais é uma forma de adquirir crédito, transformar os objetos em dinheiro, dar a elas um outro sentido. Além do valor simbólico, pelo penhor, o objeto volta a ter valor de troca. Ao sofrer essa transformação, as jóias permitem que o seu proprietário obtenha crédito, um recurso para equilibrar o orçamento doméstico, principalmente para a parcela da população que vem perdendo poder aquisitivo e status econômico, em função de não ter havido reajustes salariais para algumas categorias nos últimos anos. As jóias se tornam alternativas para a busca de um tipo de crédito que dê conta de imprevistos urgentes. Esse serviço pode servir como meio para cobrir custos que estão fora do orçamento, como, por exemplo, uma viagem ou o aniversário de um filho. O penhor também pode servir como uma alternativa para as pessoas saldarem dívidas

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adquiridas através do cartão de crédito, do cheque especial, etc., diminuindo, assim, o montante de juros a serem pagos. O penhor serve ainda como uma alternativa de lucro, seja através da compra de jóias a baixos preços nos leilões e da revenda das mesmas a consumidores, seja através do uso do ouro de jóias antigas para a confecção de novas jóias, com modelos atualizados. Além das questões puramente financeiras, com o estudo do penhor pude verificar a articulação da lógica econômica com outras lógicas. O penhor pode servir como um meio do indivíduo adquirir autonomia no seio familiar. Pessoas que possuem uma vida financeira conjunta podem buscar o penhor para não ter que prestar satisfação de seus atos particulares para os demais membros da família. O serviço de empréstimo de penhor também pode servir como uma maneira das pessoas guardarem suas jóias, ao invés vez de mantê-las em casa ou pagar um cofre em um banco. Também chamam a atenção no estudo desse universo as jóias que vão a leilão por terem sido rejeitadas. Nesse caso o penhor serve como um meio para as pessoas se desfazerem das jóias, como acontece, por exemplo, nos divórcios, em que as pessoas se desfazem das jóias que são associadas à relação conjugal do passado. No estudo também foi possível identificar algumas “barreiras simbólicas” ao uso do penhor que fazem parte do imaginário social. Algumas pessoas associam o uso do penhor à idéia de falência ou de perda de status social dos indivíduos. Essa visão do serviço pode trazer constrangimento a quem faz o uso dessa modalidade de crédito. Mas, a questão fundamental do penhor é o fato de que o serviço se insere nas estratégias familiares. Portanto, é um erro definir o comportamento humano, através das teorias sobre o homo economicus, para explicar o contexto do uso financeiro de crédito no Brasil. A lógica do indivíduo que toma suas decisões, a partir da análise de custo e beneficio, não dá conta da realidade em que se inserem as práticas relativas ao crédito. As teorias sobre o individualismo distorcem o contexto em que predominam escolhas baseadas em lógicas e projetos de vida familiares. No contexto familiar os indivíduos possuem obrigações mútuas. Através dessa pesquisa pode-se perceber que o penhor é mais uma opção de crédito como tantos outros produtos financeiros que estão sendo incorporados à vida financeira da população, embora tenha significados e funções diferentes,

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dependendo da situação e da necessidade envolvida. O penhor funciona incrustado em relações sociais, os ritos se legitimam porque as jóias que deles fazem parte possuem valor reconhecido no mercado. O penhor não estabelece uma separação entre mercado e sociedade. Através do estudo do penhor pode-se perceber que o mercado do capitalismo se adapta, se articula com a cultura e valores da sociedade. Podemos compreender o mercado como construção social. A presente pesquisa sobre o penhor pode contribuir para indicar algumas hipóteses no âmbito das políticas de acesso ao crédito. Mais do valor comercial ou simbólico, a prática financeira de penhorar as jóias levanta questões que se referem às diferentes formas como a população brasileira, que não possui uma cultura da poupança, vem administrando suas dívidas. Nesse contexto, podemos supor que o desenvolvimento econômico brasileiro segue a lógica da aquisição de riquezas através da dívida, e não pela poupança. Essa monografia representa apenas a primeira etapa de investigação no penhor. O estudo deverá ser retomado com a autorização da Caixa Econômica Federal nos próximos meses.

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REFERÊNCIAS

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ANEXOS

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ANEXO A - 1º Roteiro de entrevista e observação para o penhor

1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) 8) 9) 10) 11) 12) 13) 14) 15) 16) 17) 18)

Data e hora da entrevista; Conhecer um pouco sobre a história de vida do entrevistado; Saber a ocupação; Saber onde trabalha; Identificar a naturalidade do entrevistado; Falar sobre a família (quantas famílias já teve); Conhecer os papéis sociais dos membros da família; Origem étnica da família; Identificar o tipo de religião; Identificar aposentados na família; Saber com quem mora; Identificar quem toma as decisões em casa; Identificar os tipos de conta: Aluguel, Luz, Água, Telefone, Veículo, etc.; Identificar quem paga as contas; Identificar o tipo de planejamento no uso de dinheiro (estratégia de como a família organiza os recursos e o que fazem com o dinheiro emprestado?); Conhecer os motivos que levou a usar o penhor (necessidade urgente); Como conheceu o penhor da Caixa; Identificar fatores que levaram a utilizar o penhor como meio de crédito, para que a pessoa (entrevistada) não recorresse a dever um favor para “terceiros” (parente, amigo, etc.);

19) 20)

Que tipo de conhecimento tem em relação às jóias; Identificar que tipo de jóia já penhorou: Anel, A. de Formatura, Aliança, Bracelete, Brinco, Colar, Corrente, Gargantilha, Linha infantil, Medalha, Moedas, Piercing, Pingente, Pulseira, Relógio e Tornozeleira;

21) 22)

Identificar o momento em que as jóias devem ser penhoradas (que tipo de estratégia econômica os objetos se inserem); Conhecer a história da jóia (em que momento o objeto entrou na vida do entrevistado, por exemplo, herança, presente, adquirida em leilão, comprada em joalheria, etc);

23)

Saber se o entrevistado compra jóias;

77

24) 25) 26) 27) 28) 29) 30)

Identificar a utilidade da jóia (racional – um acessório); Saber se as jóias estiveram presentes em rituais de passagem; Identificar a relação de jóias com o sexo feminino (valorização da mulher, modelação do objeto no corpo, etc.); Conhecer a vaidade feminina no uso das jóias; Identificar os sentidos das jóias (poder, prestígio, beleza, luxo, status, glamour, objeto de desejo, sedução, romance, de elegância); Identificar os sentidos negativos do uso de jóias (cafona, brega, “fora de moda”); Identificar os momentos em que as jóias são usadas (eventos familiares, casamento, aniversário, dia das mães, natal, nascimento de uma criança na família, namoro, festas, cotidiano, etc.);

31) 32) 33) 34) 35) 36) 37) 38) 39) 40) 41) 42) 43) 44) 45)

Identificar se a jóia é um patrimônio administrado pelo gênero feminino (quem tem o poder sobre os bens?); Identificar se o entrevistado conhece marcas de jóias; Identificar se o penhor é um investimento; Identificar a pessoa que “abre mão do bem”, se sacrifica de não usufruir a jóia, para poder adquirir crédito através do penhor; Identificar se a jóia pertenceu à outra pessoa da família; Identificar a importância que têm as jóias herdadas; Identificar as obrigações daquela pessoa em relação a jóias herdadas; Identificar o sentido da perda da jóia; Saber do entrevistado sua opinião enquanto a substituição da jóia por outros objetos (celular, câmera digital, “objetos de desejo”); Identificar as vantagens e desvantagens do penhor; Saber como se dá o resgate das jóias (prataria, etc.), se acontece de renovação do objeto para continuar no penhor; Entender a importância da jóia para o entrevistado; Conhecer as dificuldades que teve o entrevistado em sua história de vida; Identificar as vantagens que o crédito dá ao antecipar a “possibilidade de consumo”; Identificar os diferentes tipos de crédito que o entrevistado realizou: crediário, carnês, cheques pré-datados, penhor, caderno de compras, crédito informal,

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formas tradicionais de poupança, redes de reciprocidade familiar, de vizinhos, etc.; 46) 47) 48) 49) 50) 51) 52) 53) 54) 55) 56) 57) 58) 59) 60) 61) 62) 63) 64) 65) 66) 67) 68) 69) 70) 71) Entender como são organizadas as diferentes modalidades financeiras de crédito (qual a lógica da escolha do tipo de crédito?); Compreender como é utilizada cada modalidade de crédito; Compreender o conhecimento dos juros para o entrevistado; Saber como funciona a organização das contas (tipos de registros); Identificar em que circunstancias o pagamento à vista ocorre; Identificar quando o pagamento à prazo é mais vantajoso que o pagamento à vista; Quando as prestações são aceitas; Identificar que tipo de percepção de risco o entrevistado tem; Compreender a situação de não adiar a compra, pagamento da dívida, etc. e pagar à vista para buscar antecipar o pagamento através do crédito; Conhecer os motivos pela procura do crédito (penhor); Saber a freqüência do uso do penhor; Saber se o penhor é utilizado ao mesmo tempo que outras alternativas de crédito; Identificar os problemas financeiros; Identificar quem é o responsável pela dívida; Identificar os critérios que o entrevistado leva em consideração quando escolhe a instituição que oferece crédito; Saber se o entrevistado utilizou empréstimo em Financeiras; Saber se já utilizou empréstimos em Banco; Compreender a diferença entre Banco e Financeira, segundo o entrevistado; Que tipos de serviços bancários ou financeiros a pessoa conhece; Identificar se somente pela mídia a pessoa conhece os serviços financeiros; Identificar os tipos de investimentos da pessoa; Saber se o entrevistado possui meios de reservas; Saber com que freqüência o entrevistado busca crédito; Saber se o entrevistado realiza algum tipo de pesquisa antes de adquirir algum produto financeiro; Conhecer os Imprevistos que surgiram antes da aquisição do crédito; Conhecer os Imprevistos que surgiram após a aquisição do crédito;

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72) 73) 74) 75) 76) 77) 78) 79) 80) 81) 82) 83) 84) 85) 86) 87) 88) 89) 90) 91) 92) 93) 94)

Saber como o entrevistado negocia a dívida; Saber os motivos para a não utilização do crédito (penhor), segundo o entrevistado; Identificar os fins do dinheiro adquirido com o penhor (por exemplo, quitar contas de despesas pessoais, materiais escolares, impostos, férias, etc); Identificar se o penhor serve como um modo de segurança para as jóias; Saber se o entrevistado utilizou o crédito (penhor) para ajudar alguém (terceiro); Conhecer a maneira como é organizado o orçamento doméstico do entrevistado; Identificar se existem cortes no orçamento em caso de excessos nos gastos; Identificar se o entrevistado já fez algum tipo de trabalho (“bicos” ou hora extra) para pagar as dívidas; Conhecer do entrevistado sobre os custos da operação de crédito (juros e taxas); Conhecer os projetos futuros do entrevistado (“sonhos” de consumo: viagens, estudo, negócio, casa própria, veículo, etc.); Compreender como o entrevistado se classifica como pagador (Honra); Saber se o entrevistado pede crédito com a possibilidade de pagar (condições de empréstimo); Saber qual a importância o entrevistado atribui para o sentido do “nome limpo na praça”; Saber se o entrevistado já “emprestou o nome”; Saber se o entrevistado já pediu o “nome” de alguém para fazer crédito; Identificar o tipo de pessoa que o entrevistado não “emprestaria o nome”; Identificar as formas de autocontrole com gastos e sacrifícios (do que já abriu mão para quitar a dívida); Saber se o entrevistado estipula um limite nos gastos, por exemplo o salário; Identificar os recursos utilizados quando ocorre atraso/impossibilidade de pagamento; Identificar sentimentos de angústia e sofrimento relacionados ao crédito; Nível de escolaridade; Idade; Renda.

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ANEXO B - 2º Roteiro de entrevista e observação para funcionários do penhor

1) 2)

Saber como funciona o penhor; Classificar o perfil do cliente através do contexto da negociação: dia da semana, mês, hora, roupa que veste, gênero, idade, acompanhado, sozinho, atitude, etc.;

3) 4) 5) 6) 7) 8) 9)

Identificar o tipo de cálculo utilizado pelos avaliadores; Conhecer o tipo de classificação dos clientes através dos avaliadores; Conhecer casos contados por avaliadores e clientes; Saber o que as pessoas contam enquanto o funcionário avalia a peça; Conhecer os dados sobre inadimplência; Conhecer o histórico do penhor; Conhecer os equipamentos para a avaliação das peças;

10) Conhecer a questão do comércio de ouro – “compra ouro e vende ouro”; 11) Conhecer sobre o funcionamento do leilão e casos (outras épocas); 12) Saber como foram os leilões (antes da tecnologia da informação); 13) 14) 15) Como funciona o penhor com a tecnologia da informação; Conhecer a marca das jóias; Saber quanto é a média de dinheiro que os clientes pegam no penhor;

16) Identificar perfil de pessoas do Micropenhor.

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ANEXO C - 3º Roteiro de observação para o penhor

1) Saber com que freqüência a pessoa utiliza o penhor da CAIXA; 2) Saber como a pessoa ficou sabendo do penhor; 3) Conhecer os motivos que levou a usar o penhor (necessidade urgente); 4) Identificar que tipo de jóia já penhorou; 5) Identificar os padrões femininos no uso das jóias; 6) Identificar se a jóia pertenceu à outra pessoa da família; 7) Identificar as vantagens e desvantagens do penhor; 8) Identificar os diferentes tipos de crédito que o entrevistado utilizou; 9) Compreender o conhecimento dos juros para o entrevistado; 10) Saber se o entrevistado possui meios de reservas (poupança).

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