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ANÁLISE DO DISCURSO RELIGIOSO DE PLÍNIO SALGADO INSERI-

DO NA OBRA “SÃO JUDAS TADEU E SÃO SIMÃO CANANITA”

The analysis of Plínio Salgado’s religious discourse within “são ju-


das tadeu e são simão cananita”

Felipe Salvador Weissheimer1


Fausto Alencar Irschlinger2

WEISSHEIMER, F. S; IRSCHLINGER, F. A. Análise do discurso


religioso de Plínio Salgado inserido na obra “São Judas Tadeu
e São Simão Cananita”. Akrópolis, Umuarama, v. 18, n. 1, p.
5-14, jan./mar. 2010.

Resumo: Buscamos identificar e analisar o discurso religioso do integra-


lista Plínio Salgado, inserido em seu romance “São Judas Tadeu e São
Simão Cananita”. Deste modo, tecemos relações e abordagens dos
intelectuais e da política no Brasil dos anos 1920-1950. Apoiados nas
novas perspectivas historiográficas, foi possível ampliar a percepção
da fonte literária – através de abordagens diversas – e entendê-la inse-
rida num contexto histórico, revelando ser parte do discurso integralista
a articulação ou “comoção” de massas.
Palavras-chave: História do Brasil; História e literatura; Intelectuais; Plí-
nio Salgado; Integralismo.

1
Acadêmico do Curso de História da Uni- Abstract: The purpose of this study was to identify and analyze Plínio
versidade Paranaense – UNIPAR, Campus Salgado’s fascist religious discourse within the novel São Judas Tadeu
Cascavel. Participante do PIC - Programa e São Simão Cananita. Therefore, we present the relations and appro-
de Iniciação Científica. Email: felipe.s.w@ aches of both the scholars and Brazilian politics in the 1920s – 1950s.
hotmail.com
Based on the newest historiographic perspectives, it was possible to
2
Professor mestre e pesquisador do Curso
broad the literary perception – through a number of approaches – and
de História da Universidade Paranaense – understand it within an historical context thus revealing itself as part
UNIPAR, Campus Cascavel. Email: faus- of a fascist discourse towards the articulation, or “commotion”, of the
to@unipar.br masses.
Keywords: Brazilian history; History an literature; Scholars; Plínio Sal-
gado; Fascism.

Recebido em dezembro/2009
Aceito em fevereiro/2010

Akrópolis, Umuarama, v. 18, n. 1, p. 5-14, jan./mar. 2010 5


WEISSHEIMER, F. S; IRSCHLINGER, F. A J.

INTRODUÇÃO ratura, as obras literárias de Plínio Salgado se


tornaram vastos campos de investigação, o que
Este artigo é o resultado de pesquisas poderá enriquecer ainda mais a historiografia
desenvolvidas pelo projeto que aborda os in- brasileira.
telectuais e a política do Brasil: a geração dos
anos 1920-1940, no qual infatiza-se o intelectual O BRASIL “MODERNISTA”
Plínio Salgado. Embora este intelectual tenha
escrito um número expressivo de obras, foi es- O Brasil até o início do século XIX, este-
colhido seu romance intitulado “São Judas Ta- ve muito aquém de um pleno desenvolvimento
deu e São Simão Cananita”, que, além de outros em vários aspectos: seja no desenvolvimen-
aspectos, trás consigo uma forte ideologia cristã, to econômico e industrial, no fortalecimento de
embasada no catolicismo romano. suas instituições representadas pelo Estado, ou
A utilização dessa obra literária, na pre- até mesmo cultural e politicamente. Ou seja, não
sente pesquisa engendra a necessidade de pen- existia uma imagem definida do Estado brasilei-
sar sobre o texto numa perspectiva semiótica3. ro. Existiam, neste contexto, os “regionalismos”,
O objetivo desta pesquisa se concentrou em mas não uma unidade nacional. Existiam “civili-
analisar aspectos sobre as “estruturas mentais” zações” no Brasil, e não uma “civilização brasi-
(BURKE, 1991: 62) inseridas no discurso de Plí- leira”. Conforme Mário de Andrade expressou:
nio Salgado, que, por meio dos personagens en-
voltos no enredo, transmitiu sua ideologia. Estas Enquanto o brasileiro não se abrasileirar é
“estruturas mentais” ou mentalidade são consi- um selvagem. Os tupis nas suas tabas eram
deradas uma estrutura de longa duração. Além mais civilizados que nós em nossas casas
de Belo Horizonte e São Paulo. Por uma
disso, “ao contrário dos fatos, que acontecem
simples razão: não há uma Civilização. Há
muito rapidamente, a mentalidade permanece
civilizações [...] Nós, imitando ou repetindo a
durante muito tempo sem modificações, e suas civilização francesa, ou a alemã, somos uns
mudanças são tão lentas a ponto de nem serem primitivos, porque estamos ainda na fase do
percebidas” (SILVA, 2005: 279). Com isso, ob- mimetismo. (ANDRADE in PÉCAUT, 1990:
servam-se no discurso de Plínio Salgado algu- 27).
mas “heranças históricas” cristãs, provenientes
de contextos históricos remotos, que serão abor- Além disso, a sociedade brasileira ca-
dados neste artigo e estão diretamente ligadas recendo de uma cultura política, perecia pelas
às representações4 oriundas da inquisição. Bus- opiniões ideológicas, que estavam atrelada à
ca-se analisar que o discurso5 de Plínio Salgado preservação das posições das elites dirigentes
também se estendeu à “psicologia analítica” de (política do café com leite). Entretanto, no início
Carl Gustav Jung, que muito nos auxiliou com do século XX, os intelectuais, representando a
seus conceitos de “inconsciente pessoal e cole- classe burguesa que tinha acesso à educação
tivo”. Além disso, o presente estudo se apoiará (diplomados em várias áreas como advogados,
nas novas perspectivas historiográficas, buscan- jornalistas, professores) buscavam seu “lugar ao
do em vários autores, conceitos que foram de sol” no aparelho estatal e na representação polí-
suma importância na pesquisa. tica do Brasil.
Vale destacar, que pesquisar sobre o in- Essa burguesia em ascensão teve sig-
telectual Plínio Salgado é de suma importância nificativa importância na recuperação da “na-
para entendermos o movimento integralista e, cionalidade” brasileira, pois, fez da literatura um
conseqüentemente a história do Brasil. Nesse instrumento de transformação política e social.
aspecto, com a aproximação da História à Lite- Estes agentes políticos tornaram-se “porta-vo-
3
“A semiótica tem por objeto o texto, ou melhor, procura descrever e explicar o que o texto diz e como ele faz para dizer o que diz.”
(BARROS, 2005: 11).
4
Conforme explicações de Sandra Jatahy Pesavento, as representações “são matrizes geradoras de condutas e práticas sociais, dotadas
de força integradora e coesiva, bem como explicativa do real. Indivíduos e grupos dão sentido ao mundo por meio das representações
que constroem sobre a realidade.” (PESAVENTO, 2005: 39).
5
Segundo Eni Orlandi, uma das principais estudiosas da Análise do Discurso no Brasil, “o discurso é a prática da linguagem, isto é, uma
narrativa construída a partir de condições históricas e sociais específicas. Para ela, todo discurso materializa determinada ideologia na
fala a partir de um idioma específico. Deste modo, todo discurso possui uma ideologia, e é a língua que permite aos indivíduos compre-
enderem e assimilarem tal ideologia.” (SILVA, 2005: 101).

6 Akrópolis, Umuarama, v. 18, n. 1, p. 5-14, jan./mar. 2010


Análise do discurso religioso...

zes” da nação, co-responsáveis na formação de Porém, na análise das obras de Plínio


uma “consciência nacional” e consequentemen- Salgado, integrante do movimento verde-amare-
te pela “organização nacional”. Havia tendências lo, nota-se a utilização ideológica não apenas da
e opiniões diversas em meio aos intelectuais cultura indígena (Tupi), mas da cultura essen-
brasileiros, porém, faziam parte da “mesma” ca- cialmente católica, como destaca Salgado:
tegoria social. Plínio Barreto já destacava a ne-
cessidade de “civilizar por cima, civilizar os que O Estado Integral é tudo quanto ouvistes da
estão em estado de compreender” (PÉCAUT, leitura do “Manifesto de Outubro” e do “Ma-
1990: 29). A exaltação do “nacional” foi uma for- nifesto-Programa”. É tudo quanto vos acabo
de expor e de explicar. Mas, para mim, no
ma desta elite tornar-se autônoma das “ideias
mais íntimo refolho do meu coração, e no re-
importadas”. Além disso, “o imperativo nacional
côndio mais misterioso da minha alma, o Es-
teve ainda outra função: permitiu enunciar crité- tado Integral transcende das formas políticas
rios de participação legítima desta elite. Não me- e do próprio pensamento filosófico. Porque o
reciam plenamente o título de intelectuais senão Estado Integral, essencialmente, é para mim
os que aceitassem esse imperativo” (PÉCAUT, o Estado que vem de Cristo, inspira-se em
1990: 41). Cristo, age por Cristo e vai para Cristo. (SAL-
Na busca por uma identidade nacional6, GADO, 1954: XXIV).
muitos intelectuais identificaram na imagem do
Tupi as “características essencias” do povo bra- Ou seja, a imagem do Tupi foi um arqué-
sileiro. A corrente verde-amarela, movimento de tipo projetado pelo inconsciente dos intelectuais
7

direita do Modernismo, em seu manifesto, fez modernistas brasileiros, pois, conforme nota-se
grande ênfase à imagem do Tupi, atribuindo a no fragmento acima (escrito pelo integralista Plí-
ele “a prodigiosa força e bondade do brasileiro nio Salgado), é o cristianismo a fonte de muitos
e o seu sentimento de humanidade”, além da dos conceitos ideológicos inseridos no discurso
“bondade, a generosidade, a capacidade para o integralista. Antes do destaque e análise espe-
trabalho, o espírito de fraternidade”. (PÉCAUT, cífica da obra “São Judas Tadeu e São Simão
1990: 37). Cananita” de Plínio Salgado, na qual observada,
Já segundo o psiquiatra Carl Gustav além de outros aspectos, a predominância da
Jung, fundador da psicologia analítica, o ameri- cultura católica cristã, vale ressaltar alguns as-
cano escolhe o índio – neste caso o Tupi – como pectos sobre a AIB (Ação Integralista Brasileira),
símbolo ideal do herói. E neste sentido, “o herói que teve em Plínio Salgado seu maior idealiza-
é sempre a encarnação de um desejo muito forte dor.
ou de uma aspiração que se gostaria de realizar
o quanto antes”. (JUNG: 1954: 50). Essa análise “O INTEGRALISMO ESPIRITUAL”
de Jung encaixa-se perfeitamente à imagem do
Tupi segundo a corrente verde-amarela, pois, o A  Ação Integralista Brasileira foi um mo-
índio na psicologia analítica corresponde a um vimento considerado para a maioria dos histo-
arquétipo universal, além de estar presente na riadores de extrema-direita de grande expressão
cultura do “novo mundo”. Desta forma, pode-se nos anos 1920-1940. De caráter nacionalista,
considerar, que boa parte desses intelectuais “tinha seus inimigos representados no liberalis-
brasileiros desejavam uma “mudança estrutu- mo, socialismo, capitalismo internacional e nas
ral” (cultural, política, social, ideológica) imediata sociedades secretas (judaísmo e maçonaria).”
com o movimento de “nacionalização do Brasil”. (IRSCHLINGER in DIEHL, 2004: 38). Além dis-

6
Sandra Jatahy Pesavento destaca que “as identidades são, pelo seu lado, um outro campo de pesquisa para a História Cultural. Enquan-
to representação social, a identidade é uma construção simbólica de sentido, que organiza um sistema compreensivo a partir da idéia de
pertencimento.” (PESAVENTO, 2005: 89).
7
Como destaca Jung na Estrutura da psique, o mesmo tentou dar uma visão geral da estrutura do inconsciente. Seus conteúdos – os ar-
quétipos – são de certa forma os fundamentos da psique consciente ocultos na profundidade ou, usando outra comparação, suas raízes
afundadas não só na terra, em sentido estrito, mas no mundo geral. Os arquétipos são sistemas de prontidão que são ao mesmo tempo
imagens e emoções. São hereditários como a estrutura do cérebro. Na verdade, são o aspecto psíquico do cérebro. Constituem, por um
lado, um preconceito instintivo muito forte e, por outro lado, são os mais eficientes auxiliares das adaptações instintivas. Propriamente
falando, são a parte ctônica da psique – se assim podemos falar – aquela parte através da qual a psique está vinculada a natureza,
ou pelo menos em que seus vínculos com a terra e o mundo aparecem claramente. É nestes arquétipos ou imagens primordiais que a
influência da terra e de suas leis sobre a psique se manifestam com maior nitidez. (JUNG, 2007: 35).

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so, esteve diretamente ligada ao espiritualismo segundo ele, “só a Deus podemos jurar fidelida-
cristão, pois “acredita que a eliminação das ma- de sem condições” (LIMA in DUARTE, acessado
zelas da sociedade brasileira ocorrerá pela ação em 15/11/2009: 4).
espiritual e por meio de uma consciência nacio- Em análise da obra “São Judas Tadeu e
nal” (GONÇALVES, acessado em 04/08/2009: São Simão Cananita” é notória a presença do
92). Esse discurso de cunho espiritual “será in- caráter tradicionalista-católico-cristão. Neste ro-
clusive a especificidade do Integralismo enquan- mance, Plínio Salgado busca recriar de forma
to discurso fascista”8 (GONÇALVES, acessado “cinematográfica”10 (LEITE in SALGADO, 1982:
em 04/08/2009: 92). Porém, segundo Plínio Sal- s/n) a pregação dos dois apóstolos nos mon-
gado, os camisas-verdes – título atribuído aos tes iranianos e na antiga Babilônia. Além disso,
integralistas, em função de seus uniformes – se demonstra claramente que as fontes históricas
distinguiam dos fascistas europeus: “A fim de utilizadas de base para escrever sua obra são
mostrar a autonomia do integralismo em rela- incertas, enfatizando:
ção aos fascismos europeus, os camisas-verdes
apontavam a ‘maior dose de espiritualidade’ ou Nossa preocupação, baseando-nos nas len-
o ‘primado do espírito’, contido em sua doutri- das e tomando como fundamento o que de
na.” (SALGADO in GONÇALVES, acessado em positivo se encontra nos Evangelhos e nos
Atos, foi compor um enrêdo, o qual, atraindo
04/08/2009: 92).
as atenções, servisse para maior propaga-
Renata Duarte destaca sobre o aspecto
ção da vida de São Judas Tadeu e de seu ir-
temporal do discurso religioso do integralismo, mão e não menos heróico dilatador do Reino
que: de Cristo, São Simão Cananita. (SALGADO,
1954: 87).
Na fase que vai de 1937 a 1945, com a pre-
sença do Estado Novo, o integralismo apre-
Contudo, Leandro Pereira Gonçalves ao
senta-se já despojado de sua ação política
efetiva. A tônica política da produção teórica
analisar as obras de Plínio Salgado, percebe
de Plínio dá lugar à perspectiva católica, que, que este “romancista e político deixa muito claro
na realidade, jamais deixará de estar presen- o seu desejo ideológico: a defesa de uma polí-
te em seu pensamento, ainda que subordi- tica nacionalista baseada no conservadorismo”,
nada ao seu entendimento peculiar do catoli- – inclusive presente no lema integralista: ‘Deus,
cismo. O doutrinador político cede, em parte, Pátria, Família’ – “e organizada dentro de um
seu lugar ao doutrinador cristão. (DUARTE, contexto tradicionalista”. Vemos que este “de-
acessado em 15/11/2009: 12). sejo ideológico” de Plínio está presente na obra
“São Judas Tadeu e São Simão Cananita” que
Embora o Integralismo seja considera- “serve de propagação” da vida dos dois apósto-
do um “organismo preparatório, elaborador da los, porém se apresenta de forma subjetiva em
grande pátria cristã [que] visa à reestruturação relação às conclusões de Leandro Pereira Gon-
da sociedade brasileira sobre o alicerce dos prin- çalves.
cípios imortais do Cristianismo” (CORBISIER in Esta subjetividade que emerge na obra
DUARTE, acessado em 15/11/2009: 1), sofreu “São Judas Tadeu e São Simão Cananita”, pos-
várias críticas por parte dos intelectuais cató- sibilita o resgate das emoções, sentimentos,
licos da época, dentre eles Figueiredo e Lima, ideias, temores e desejos, e servem à “análise
em função da “fidelidade incondicional [dos in- das sensibilidades” (PESAVENTO, 2005: 58) de
tegralistas] ao Chefe Nacional9 [Plínio Salgado]” Plínio Salgado. Em relação à “análise das sensi-
(DUARTE, acessado em 15/11/2009: 4). Esta bilidades”, Sandra Jatahy Pesavento destaca:
crítica se justifica para Figueiredo e Lima, pois,
8
“Dá-se o nome de fascismo, ou nazi-fascismo, ao fenômeno histórico específico ocorrido no mundo europeu entre 1922 e 1945, o
chamado período entre-guerras, caracterizado pela ascensão de regimes políticos totalitários que se opuseram, ao mesmo tempo, às
democracias liberais e ao regime comunista soviético (também este de caráter totalitário) e cuja repercussão atingiu numerosas Nações
que adotaram regimes semelhantes.” (SILVA, 2005: 141).
9
Fausto Alencar Irschlinger destaca sobre a organização e a estrutura do movimento integralista: “é quase unanimidade entre os historia-
dores que trabalham com o tema e os que o relacionam em seus trabalhos que o integralismo apresenta uma organização burocrática e
totalitária, caracterizando-se por uma milícia hierárquica e centralizada no grande chefe nacional.” (IRSCHLINGER, 2004: 38).
10
Citação de Alfredo Leite no livro de Plínio Salgado “São Judas Tadeu e São Simão Cananita”, Rio de Janeiro: Editora Voz do Oeste,
1954.

8 Akrópolis, Umuarama, v. 18, n. 1, p. 5-14, jan./mar. 2010


Análise do discurso religioso...

Toda experiência sensível do mundo, parti- Análise do Romance (I): As Origens do Cris-
lhada ou não, que exprima uma subjetivida- tianismo
de ou uma sensibilidade partilhada, coletiva,
deve se oferecer à leitura enquanto fonte, Eis o contexto da obra: os apóstolos Ju-
deve se objetivar em um registro que permita
das Tadeu e Simão Cananita seguindo o pedido
a apreensão dos seus significados. O histo-
riador precisa, pois, encontrar a tradução das
de Jesus, partem para os montes iranianos para
subjetividades e dos sentimentos em mate- curar a lepra do Rei Abgar:
rialidades, objetividades palpáveis, que ope-
rem como a manifestação exterior de uma Esse era o palco misterioso oferecido ao
experiência íntima, individual ou coletiva. Apostolado de Judas Tadeu. Ali, as raças e
(PESAVENTO, 2005: 58). as religiões, os deuses do paganismo e as
fraternidades místicas, as doutrinas filosófi-
cas e as seitas secretas, as ciências ocultas
Vale destacar que a análise do pensa-
e os ritos abstrusos se intercomunicaram, e
mento/discurso de Plínio Salgado inserido na
mesclaram, apresentando o espetáculo de-
obra dar-se-á de forma peculiar, pois haverá uma sordenado de erros e verdades, de barbari-
descaracterização dos elementos do “enredo” dade e civilização (SALGADO, 1954: 122).
criado por Plínio Salgado, para aí existir um en-
tendimento do pensamento do mesmo. Ou seja, Plínio Salgado, ao tentar “entender” a
não será analisada a imagem dos apóstolos por “maneira de pensar” de São Judas Tadeu, des-
seu caráter “santo”, mas a imagem criada a partir taca esta “maneira de pensar” em relação às re-
das características atribuídas pelo autor. Assim, ligiões presentes nos montes iranianos:
a análise dos elementos do “enredo” terá relação
com a subjetividade do discurso religioso inseri- É provável tivesse impressionado o Apóstolo
do no romance, e consequentemente ligado ao a figura de Mitra, o mediador entre Deus e os
“inconsciente”11 de Plínio Salgado. Utilizando-se Homens; Não tinha qualquer coisa do Cristo,
do “método indiciário”12 (observação dos deta- Deus-Homem e Homem-Deus, participante
lhes aparentemente sem importância), também da natureza humana e da essência divina? E
se observam algumas “heranças” da Inquisição, Atar, o Fogo, adorado pelos mazdeístas, não
tinha qualquer coisa do Espírito Santo, que
que estão arraigadas ao “inconsciente”13 de Plí-
descera sobre os Discípulos, em forma de
nio Salgado. Além disso, há “semelhanças cul- línguas de Fogo? E o culto de Anahita, divin-
turais” nas religiões abordadas no romance e dade feminina não dizia algo dAquela conce-
também “recriações históricas” que envolvem bida sem pecado e entre as mulheres eleita
essas religiões, o que evoca uma dúvida: será para ser a Mãe do Redentor? Talvez esses
que Plínio Salgado estava consciente dos fatos pensamentos despertassem em Judas Tadeu
históricos que envolvem estas religiões? Ou os o desejo ardente de ultrapassar os Montes
fatos e a obra são meras coincidências? É válido Iranianos . (SALGADO, 1954: 125-126).
lembrar que Plínio Salgado, além de escritor foi
um grande político articulador das massas. Torna-se importante fazer um rápido re-
Em seguida, serão apresentados algu- trospecto das origens do cristianismo, para a
mas análises pontuais, elaboradas com base no descaracterização dos elementos do romance.
romance de Plínio Salgado. Sabe-se que o cristianismo tornou-se uma reli-
gião aceita no Império Romano (que tinha gran-
de parte da Europa e do Oriente Médio estavam
11
O “inconsciente pessoal” é definido na teoria de Carl Gustav Jung: “As experiências vividas, mesmo que fiquem esquecidas, deixa
vestígios na psique através dos quais se podem reconhecer a experiência anterior. Este longo lastro de influências indiretas deve-se a
fixação das impressões que são conservadas mesmo quando não mais conseguem chegar ao consciente. Além dos fatos esquecidos,
existem também percepções subliminares, quer sejam simples percepções sensoriais que ocorrem sob o limiar da estimulação auditiva
ou no campo visual externo, ou apercepções, isto é, percepções assimiladas abstratamente de processos internos e externos.” (JUNG,
1954: 14).
12
Como destaca Pesavento, Carlo Ginzburg, em seu ensaio já clássico, nos fala de um paradigma indiciário, método este extremamente
difundido na comunidade acadêmica. Nele, o historiador é equiparado a um detetive, pois é responsável pela decifração de um enigma,
pela elucidação de um enredo e pela revelação de um segredo. (PESAVENTO, 2005: 63).
13
Em referência ao “inconsciente supra-pessoal” ou “inconsciente coletivo” (JUNG, 1954: 15). Sumariamente, o “inconsciente coletivo”
(constituído pelos materiais herdados pela humanidade) está presente no “inconsciente-pessoal” de Plínio Salgado (e vice-versa). No
livro de Jacques Le Goff “A História Nova”, Editora Martins Fontes, 4ª ed., pág. 174, há um tópico sobre o “inconsciente coletivo”.

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sob sua égide) a partir do século III, quando o nal. As igrejas antigas possuem criptas sub-
Imperador Constantino I oficializou o “adven- terrâneas que evocam os templos mitraícos.
to” do cristianismo. Entretanto, existem muitos A fraternidade e o espírito democrático das
pontos em comum entre o cristianismo e outras primeiras comunidades cristãs se asseme-
lham muito ao mitraísmo. A fonte jorrando da
religiões da Antiguidade, fruto do sincretismo re-
rocha, a utilização de sinos, os livros e as ve-
ligioso que lhe garantiu a perenidade, a difusão las, a água santa e a comunhão, a santifica-
e possibilitou que os vários povos que estavam ção do Domingo (fora da tradição judaica do
sob a égide do Império Romano se convertes- Sábado), a insistência numa conduta moral,
sem a fé cristã14. o sacrifício ritual, a angeologia, a teologia da
Observam-se estes “pontos em comum” luz, dualidade deus-diabo, o fim do mundo e
ou semelhanças também em relação ao mitraís- o apocalipse são também comuns em am-
mo (religião utilizada como fonte nesta pesquisa, bas as religiões. (CARVALHO, acessado em
por ser uma das religiões citadas por Plínio Sal- 04/08/2009: s/n).
gado), conforme William Almeida de Carvalho
escreve: Quando Plínio Salgado tenta “entender”
a mentalidade de São Judas Tadeu, evoca histo-
Os pontos comuns entre o cristianismo e o ricamente as semelhanças acima, mas tangen-
mitraísmo são inúmeros. O nascimento de cia em forma de dúvida o sincretismo existente
Cristo é anunciado por uma estrela assim entre o mitraísmo e o cristianismo. Presume-se
como o de Mitridate Eupator. Ambos são nas- que Plínio Salgado conhecia bem este sincretis-
cidos de uma Virgem Imaculada que toma o mo e tenta por meio de seu romance censurar os
nome de Mãe de Deus. A caverna, a gruta pontos em comum entre as duas religiões, pois
são os locais de nascimentos tanto de Cristo
faz algumas considerações que buscam distin-
quanto de Mitra. A presença de pastores e
guir o cristianismo das demais religiões15, con-
de seu rebanho também estão presentes em
ambos os nascimentos. A gruta de Belém é forme fragmento abaixo:
prenhe de luz e Mitra é um deus solar. Além
do mais, o ouro, símbolo do Sol, tem uma Se os Mazdeístas, concebendo o espírito
importância crucial na liturgia cristã. Deus é das Trevas como um deus, deixavam a li-
Amor mas também Luz. O nascimento dos nha pura do monoteísmo, para aceitar uma
dois deuses foi a 25 de dezembro, solstício concepção dualista que era a base de sua
de Verão no Hemisfério Norte. Sabe-se que teologia; e se, adorando Atar, Mitra e Anahi-
Cristo não teria nascido no dia 25 e que, so- ta, aproximavam-se de um politeísmo, não
mente com o fim do mitraísmo, a Igreja Cris- lhes faltando mesmo as configurações dos
tã, “cristianizou” o dia como a festa do Natal. deuses secundários, à maneira da mitologia
Tanto Cristo como Mitra eram castos e celi- greco-romana, também não se podia negar
batários. Todas as duas religiões são funda- que o pensamento da religião dos Magos de-
das sobre um sacrifício salvador do Mundo, senvolvia-se no sentido final de um só Deus,
mas com a morte de Cristo, o cristianismo tira porquanto ensinava o Zend-Avesta, seu livro
a sua vantagem e sua superioridade. A morte sagrado, que no fim dos tempos Oramazdes,
do Touro encontra um símile na luta de São o deus do Bem, venceria e destruiria Arimã, o
Jorge com o dragão. A vontade de neutralizar deus do Mal. (SALGADO, 1954: 126).
as potências do mal, a guerra entre as duas
potências e a vitória do Bem. A consagração Posteriormente Plínio Salgado enfoca
do pão e do vinho estão presentes entre os novamente a “impressionante aproximação de
cristãos e os iniciados de Mitra. No grau de crenças e conceitos morais” entre o cristianismo
Soldado (Miles), o iniciado é marcado com e as demais religiões citadas, finalizando: “Seria
uma cruz de ferro em brasa sobre a fronte. doloroso deixar estes povos, com tão boas dis-
A imortalidade da alma e a ressurreição fi- posições, imersos na ignorância a míngua das

14
Para mais informações sobre as origens do cristianismo, ler a obra “História do Cristianismo” de Paul Johnson, Rio de Janeiro: Editora
Imago, 2001. Alguns aspectos do sincretismo religioso podem ser vistos em “Os mistérios de Mitra” de Franz Cumont, São Paulo: Editora
Madras, 2004.
15
Kalina Vanderlei Silva tece algumas considerações sobre a análise do discurso que, no nosso caso, se aplicam às intenções de Plínio
Salgado: “poderíamos dizer que os sentidos buscados nos discursos – na ‘narrativa’ sobre os apóstolos – têm a ver não somente com o
que foi dito, mas também com o que não foi dito e com o que poderia ser dito. Deve-se então perguntar por que essa forma de apresentar
a mensagem e não outra. Perguntas que nos levam a pensar para além do conteúdo.” (SILVA, 2005: 104).

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Análise do discurso religioso...

revelações do Evangelho” (SALGADO, 1954: consciente coletivo” de alguns cristãos. Através


128). Neste fragmento é perceptível a “genero- da censura do simbolismo que aproxima as “re-
sidade” presente no discurso de Plínio Salga- ligiões-irmãs” (Carl G. Jung: 1954: 25) – mitra-
do, provinda da imagem popular e inspirada no ísmo e cristianismo – o “inconsciente” de Plínio
“mito do Messias sofredor e passivo”, um Cristo Salgado (cristão) se projeta sobre as demais re-
cheio de princípios espirituais, criado a partir dos ligiões (mitraica). Além disso, faz do “sofrimento”
primeiros séculos do cristianismo. Porém, esta dos magos um estranho sentimento de “equipa-
“imagem” criada de Cristo e consequentemente ração histórica”, pois este “sofrimento” também
incorporada por seus seguidores contrasta com está presente na história de Cristo.
a imagem do “Cristo-poder” oriunda da incorpo-
ração do “patriarcalismo” romano. Análise do Romance (III): A Imposição
Este “Cristo-poder” (romano) é análogo
à imagem do “Chefe Nacional” (Plínio Salgado), O “Cristo-poder” presente nas ações dos
pois transmite o sentimento de “Onipotência”. dois apóstolos está diretamente ligado a imposi-
Entretanto, a “generosidade” (inspirada no “mito ção do cristianismo ao longo da história. Tal fato,
do Messias sofredor e passivo”) citada anterior- pode ser observado logo após a conversão do
mente, aproxima o autor aos “corações benevo- Imperador Constantino I:
lentes” cristãos.
Os sucessores de Constantino foram decla-
Análise do Romance (II): O Inconsciente Pes- radamente hostis. Uma perseguição aberta
soal tomou o lugar de uma intolerância latente. Os
cristãos não mais restringiam seus ataques
a ridicularizar as lendas e práticas dos mis-
Estas observações são importantes, pois
térios mazdeístas nem a denegri-los por ter
demonstram o contraste existente no romance, como fundadores os irreconciliáveis inimigos
principalmente quando Plínio Salgado tenta re- de Roma – eles exigiam a destruição total
criar uma “história de época” a partir de influên- da idolatria e suas exortações foram pronta-
cias posteriores. Isso é demonstrado no contexto mente levadas a efeito. Quando um especia-
da obra: os apóstolos (já presentes naquelas ter- lista em retórica nos diz que sob o governo
ras), pela “Graça do Nosso Senhor Jesus Cris- de Constantino ninguém mais ousava olhar
to” surpreendem e convencem várias classes de para o sol nascente ou poente, que até mes-
homens (diga-se de passagem, não há mulheres mo os fazendeiros e marinheiros evitavam
olhar para as estrelas e, tremendo, manti-
no enredo). Além disso, suas presenças “trazem
nham os olhos fixos no chão, vemos nessas
a paz” e “neutralizam as influências mágicas”.
declarações enfáticas um eco magnificado
Entretanto, o aspecto “romano” (Cristo-poder) se dos temores que enchiam todos os corações
expressa na subjugação dos magos, conforme o pagãos. (CUMONT, 2004: 134).
fragmento que segue:
Há outra semelhança no romance de Plí-
Lançarei sôbre vós, ó magos de Babilônia nio Salgado que aproxima seu discurso ao fato
estas serpentes. Mas em nome de Nosso Se-
histórico: a construção da Basílica de São Pedro.
nhor Jesus Cristo ordeno que não vos mate.
No entanto, em nome do mesmo Senhor, de- No final do romance, os apóstolos “exorcizam”
termino que vos causem horríveis dores, a as estátuas dos ídolos, são “linchados” pelos sa-
fim de que conheçais o poder d’Aquêle que cerdotes mazdeístas e estão presentes em um
veio ao mundo para a redenção dos homens. templo mazdeísta quando o mesmo é destruído.
(SALGADO, 1954: 165). Segue os fragmentos do texto que demonstram
isto:
Isso demonstra um certo “instinto
animalesco”16 presente no “inconsciente” de Plí- A fim de que saibas que estas estátuas repre-
nio Salgado, que, inclusive, está presente no “in- sentam falsos deuses e que elas estão cheias

16
Segundo Carl Gustav Jung “o cristianismo histórico não tem relação com o animal. [...] Nenhuma outra religião está tão manchada de
sangue inocente, cruelmente derramado, quanto a Igreja cristã, e nunca o mundo viu guerra mais sangrenta do que a guerra das nações
cristãs. Por isso, o animalesco “reprimido” cristão – repressão: “desejo incompatível que se torna inconsciente” (JUNG, 1954: 11) – quan-
do aflora espontaneamente à superfície, assume formas perigosas e leva à autodestruição, ao suicídio das nações, quando irrompe com
violência”. (JUNG, 1954: 26).

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WEISSHEIMER, F. S; IRSCHLINGER, F. A J.

de espíritos malignos, vamos ordenar-lhes tolos no templo Mazdeísta, é congruente com


que saiam dos corpos inanimados dos ídolos a imposição e apropriação dos templos mitrai-
e que despedacem a todos êsses deuses de cos pelo cristianismo. Além disso, o “exorcismo”
pedra. [...] Em nome do Padre, do Filho e do exercido pelos apóstolos, quando os mesmos
Espírito Santo, nós vos ordenamos que vos
ordenam que os “espíritos malignos” se retirem
retireis dessas estátuas, destruindo-as, por-
que a vinda ao mundo de Jesus, o Cristo, e
das estátuas, não é uma prática contemporânea
a sua morte e ressurreição, trouxeram a vida a vida dos apóstolos, mas sim uma prática me-
verdadeira aos homens fazendo desapare- dieval. E, naquele tempo não eram associadas
cer tudo aquilo que os povos tinham por deu- feitiçaria à demonolatria, conforme se apresenta
ses! [...] Os dois apóstolos foram agarrados e no romance de Plínio Salgado, pois isto “é uma
derrubados ao chão. Dedos crispados de ira elaboração intelectual posterior, feita pela Igre-
constringiam-lhes os pescoços, enterrando- ja”. (Luiz Roberto Lopes, 1993: 47), o que carac-
lhes as unhas nas carnes. Em poucos minu- teriza um erro de cunho histórico na elaboração
tos os corpos inanimados dos mártires eram do romance.
pisados e arrastados para fora do templo.
Este medievalismo, essas “heranças” da
No largo pátio, o poviléu avançou em fúria,
arrebatando os cadáveres das mãos dos sa-
inquisição se manifestam no romance de Plínio
cerdotes de Bal-Marduk. E foi neste instan- Salgado em vários momentos. Seu discurso e
te que se ouviu um estrondo subterrâneo. O “ética espiritual” se aproximam da inquisição eu-
céu enegreceu-se. Por toda Suemir caíram ropéia, no qual o “crime de bruxaria” integrou o
trevas. E quando os relâmpagos em lampe- código penal e, conforme ocorreu em determi-
jos sucessivos começaram a iluminar de um nados períodos em Portugal (e na Espanha), os
azul sinistro o templo, a praça, os perfis dos tribunais da inquisição estavam sob o domínio
edifícios, um estouro mais terrífico abalou os do rei. (Luiz Roberto Lopes, 1993: 55 e 127).
alicerces da majestosa mansão dos deuses.
Partiram-se as grandes colunas, tombaram
Análise do Romance (IV): O Esoterismo Cris-
os capitéis e, num fragor pavoroso desabou
o teto do templo. Largas fendas se abriram e,
tão
numa delas desapareceram o Enu, o Gran-
de Mahu e o Urigalu imponente, revestidos Tanto no romance, quanto historicamen-
com seus paramentos e suas tiaras assírias. te está presente a destruição de uma “velha cul-
(SALGADO, 1954: 122-124). tura” e o “nascimento” (ou a imposição) de uma
nova cultura: “O choque produzido pelo mártir
Embora a Basílica de São Pedro não es- sôbre as multidões é golpe da Graça Divina, si-
teja localizada na mesma região onde sucedeu derando nelas o Homem Velho e fazendo brotar
todos os acontecimentos mencionados no frag- o Homem Novo, como a explosão das flôres, de-
mento acima, é importante saber que, conforme pois dos suplícios do inverno, no esplendor da
a afirmação de William Almeida de Carvalho, a primavera”. (SALGADO, 1954: 212).
mesma “foi construída sobre o local do último Este fragmento de texto faz uma liga-
templo mitraico: o Phygianum”. E, conclui: ção semiótica à hipótese dos “Éons de Tempo”
(DRURY, 2002: 114) que são produzidos pelo
A partir daí, o cristianismo construiu, boa par- ciclo de precessão astrológico17, uma vez que
te de seus templos, acima de cavernas que Plínio Salgado faz menção à transformação – “o
continham Mithrae, seja em Roma seja nas choque produzido” – existente em um ciclo – “si-
províncias do Império. A catedral de Canter- derando” – pela passagem para um novo estágio
bury e a de São Paulo em Londres, o mostei- – “depois dos suplícios de inverno, no esplendor
ro do Monte Saint-Michel e algumas catedrais da primavera”. Isso é entendido através do sim-
em Paris estão construídas sobre antigos Mi-
bolismo astrológico das religiões: Mitra é repre-
thrae em ruínas. (CARVALHO, acessado em
04/08/2009: s/n). sentado pela imagem de um homem “degolando
um touro” (CUMONT, 2004: 25), ou seja, o fim da
Em suma, toda a encenação dos após- “era de Touro” e consequentemente o início da
“era de Áries”; Cristo, por sua vez, teve o “peixe”

“Precessão dos Equinócios: na astrologia, situação referente à revolução lenta dos pólos da Terra em torno da eclíptica, ocorrida uma
17

vez a cada 26 mil anos” (DRURY, 2002: 293). Assim, cada Éon (simbolizado pelo seu signo correspondente: Áries, Peixe, Aquário, etc.)
possui aproximadamente 2.100 anos.

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Análise do discurso religioso...

por símbolo nos primeiros séculos de sua exis- evidenciam ainda mais a imagem do intelectual
tência. Este “peixe” é análogo à “era de Peixes” Plínio Salgado. Porém, seus romances, segundo
(DRURY, 2002: 116) do ciclo de precessão as- as novas perspectivas da “História Cultural” (PE-
trológico, que é posterior à “era de Áries”. SAVENTO, 2005: 82), podem dar aquele “algo a
Levada em consideração a hipótese dos mais” que as outras fontes não fornecerão, am-
“Éons de Tempo”, surgem novamente indícios pliando ainda mais o conhecimento da história
que Plínio Salgado conhecia essa hipótese, contemporânea brasileira.
além do simbolismo religioso mitraico e cristão, Contudo, há uma gama de abordagens
pode-se observar que ele usou do exoterismo e perspectivas historiográficas a serem conside-
cristão em seu discurso, visando a articulação radas e/ou confrontadas que poderão servir de
ou comoção das massas. base teórica para a análise desses romances de
Plínio Salgado. Entretanto, não foi possível con-
CONSIDERAÇÕES siderar todas as abordagens que surgiram ao lon-
go desta pesquisa neste único artigo, tampouco
Há autores como Daniel Pécaut que afir- se poderíam alcançá-las, visto a quantidade de
mam que “a referência ao catolicismo foi crucial teóricos relacionados. Pode-se considerar tam-
na produção da linguagem integralista” (PÉ- bém que Plínio Salgado escreveu muitas obras
CAUT, 1990: 78) e que o sucesso da AIB (Ação literárias e há um vasto campo a ser explorado
Integralista Brasileira) se deva ao fato de ser o neste sentido, pois, esse autor abordou vários
“único partido” – ou movimento – político decla- temas de cunho religioso, político, filosófico ou
radamente cristão-católico. Contudo, a análise social. Aliando a gama de abordagens historio-
à AIB não foi o objeto de estudo neste artigo, gráficas ao vasto campo a ser explorado nas
pois a análise esteve diretamente ligada à obra obras literárias de Plínio Salgado, pode-se lhes
de Plínio Salgado, seu discurso e subjetividade. garantir que esta pesquisa abordou somente
Que, além de outros adjetivos, expressam uma uma parcela do pensamento de Plínio Salgado,
concepção política severa e forte (extremamen- portanto muito há de vir sobre o pensamento e
te ligada ao “Cristo-poder”) historicamente “ne- as obras de Plínio Salgado.
cessária” à perenidade do movimento integralis-
ta brasileiro e, conforme visto anteriormente (por REFERÊNCIAS
mimetismo), do próprio catolicismo romano.
Contudo, a análise do discurso de Plínio BARROS, D. L. P. de. Teoria semiótica do tex-
Salgado inserido no romance é complexa, em to. São Paulo: Ática, 2005.
função de vários fatores, como: o contexto his-
tórico vivido por Plínio Salgado, sobretudo pela BURKE, P. A revolução francesa da historio-
busca de uma “identidade nacional” brasileira; o grafia: a Escola dos Annales 1929-1989. São
mimetismo existente entre a história do cristia- Paulo: Universidade Estadual Paulista, 1991.
nismo e a “narrativa/recriação histórica” da vida
dos apóstolos; a religiosidade, o simbolismo e CARVALHO, W. A. Título. Disponível em:
o sincretismo religioso; o inconsciente coletivo e <http://www.freemasons-freemasonry.com/
os arquétipos estabelecidos; as intenções políti- 19carvalho.html. Acesso em: 04 ago.2009.
cas e ideológicas; enfim, a análise do romance
“São Judas Tadeu e Simão Cananita” nos leva a CUMONT, F. Os mistérios de mitra. São Paulo:
considerar que as “aparências” da história criada Madras, 2004.
por Plínio Salgado conduzem a uma irrealidade
histórica, à uma ficção histórica, e muitas vezes DIEHL, A. A. (Org.). Fascínios da história II:
omitem o verdadeiro propósito do autor no to- textos de história do Brasil contemporâneo. Pas-
cante às suas intenções políticas e ideológicas. so Fundo: UPF, 2004.
É relevante destacar a importância deste
tema (a análise do discurso inserido nos roman- DRURY, N. Dicionário de magia e esoterismo.
ces de Plínio Salgado), pois fornecem informa- São Paulo: Pensamento, 2002.
ções importantes quanto ao pensamento e as
idéias de Salgado. Os estudos nesta área não se DUARTE, R. Título. Disponível em: <www.anped.
esgotam com esta pesquisa, pelo contrário, eles org.br/reunioes/28/textos/GT02/GT02-1161--Int.

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