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Sumário
Introdução.............................................................................................................................3 Notas de capa........................................................................................................................4 Capítulo 1..............................................................................................................................5 Capítulo 2..............................................................................................................................11 Capítulo 3..............................................................................................................................19 Capítulo 4..............................................................................................................................29 Capítulo 5..............................................................................................................................36 Capítulo 6..............................................................................................................................48 Capítulo 7..............................................................................................................................59 Capítulo 8..............................................................................................................................66 Capítulo 9..............................................................................................................................70 Capítulo 10............................................................................................................................75 Capítulo 11............................................................................................................................82 Capítulo 12............................................................................................................................99 Capítulo 13..........................................................................................................................109 Capítulo 14..........................................................................................................................122 Capítulo 15..........................................................................................................................128 Capítulo 16..........................................................................................................................132 Capítulo 17..........................................................................................................................143 Capítulo 18..........................................................................................................................152 Capítulo 19..........................................................................................................................158 Capítulo 20..........................................................................................................................169 Capítulo 21..........................................................................................................................177 Capítulo 22..........................................................................................................................183 Capítulo 23..........................................................................................................................187 Capítulo 24..........................................................................................................................199 Em memória ao Bader.........................................................................................................208 Agradecimentos ..................................................................................................................209 Comentário do autor............................................................................................................210 Informações Bibliográficas.................................................................................................211

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INTRODUÇÃO

O livro conta a história de Bader, um jovem publicitário sonhador. Apesar de ser homossexual, nunca deu motivos para que sua família se envergonhasse. Bem sucedido em tudo que faz, sua vida parece perfeita, até ser abandonado pela pessoa que mais amava. Desacreditado no amor, ele continua sua vida na companhia de sua cachorra, até que um acidente de carro muda o seu destino. Desse acidente nasce uma amizade que dura pouco tempo, até os dois se descobrirem apaixonados. Uma história de amor incondicional começa a ser protagonizada por eles, até que no auge dessa paixão, Bader descobre que está doente. A partir de então, começam os conflitos. Uma mistura de amor, suspense, medo e tragédia que promete envolver o leitor até o final.

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Um estranho dentro de mim
Lu Mounier

Estudante na área de Comunicação Social, nasceu e foi criado em São Paulo. É o autor de @mor.com.br, A marca de batom, Quase Levy um fora, Prazer em conhecer. Começou a escrever livros aos seus 17 anos, trazendo como temas centrais romances e transgressões culturais. Explicando das formas mais simples que todo ser humano possui sua identidade própria, vontades e sentimentos que os diferenciam do perfil ideal criado pela sociedade. Sendo visados como pecadores, marginais, acabam sendo vítimas de preconceitos, discriminações injustamente, quando na verdade eles apenas são diferentes.

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No meu segundo ano de faculdade eu consegui um emprego na área que estava fazendo.. tomei banho de mangueira com meus primos. o que existe são momentos felizes”. principalmente carinho. e apesar de ser gay. sempre fui mimado pela minha mãe. inglês e natação. e que nós perdemos a oportunidade de vivê-la por orgulho. nunca fiz nada que meus pais pudessem se envergonhar. meu carro e um namorado que amava demais. eu era o do meio. me mudei para São Paulo.. eu acreditava nesse pensamento até que um acidente me provou que a felicidade existe sim. tinha o Pedro. Se eu pudesse voltar atrás. Eu e meus dois irmãos íamos para a escola durante a semana: informática. Desde então. Meu nome é Bader. faria tudo diferente. Meu pai alugou um apartamento e mudei logo em seguida. Viajávamos nos feriados. sempre fui o orgulho da família. Conheci uma outra pessoa e não quero mais te enganar. Certo dia. queremos ficar sozinhos. 5 . Digamos que “sozinho” mesmo há pouco tempo. almoçávamos e jantávamos com todos à mesa e passeávamos aos finais de semana. pelo contrário. mas acho que nosso relacionamento chegou ao fim. ao chegar em casa. nasci em São Paulo. foi muito bom ter a família reunida. meu pai fez um churrasco e convidou todos os parentes. que era o mais novo e o Rodrigo. “A felicidade não existe. pelo menos era o que eu pensava. Agora tenho consciência de que poderia ter evitado muitas coisas e aproveitado mais. que era o mais velho. pois quando eu namorava o Bruno vivíamos juntos. e quando encontramos esse alguém. bobagens da vida. A diferença entre cada irmão era de 5 anos. mas fui criado em Campinas. Cresci em uma família de 3 irmãos. percebi um bilhete sobre a mesa: “Bader. Foi uma infância muito boa. Depois que me formei. comecei a viver com meu próprio dinheiro. Minha vida estava ótima. Éramos uma família típica de classe média. tinha meu apartamento. que era Publicidade. Quando passei no vestibular foi uma festa em casa. assim eu ficaria mais perto da faculdade.A vida é muito engraçada. disso não tenho do que reclamar. amor. fui promovido na empresa e meu salário triplicou. Logo depois de passar no vestibular. Com 22 anos eu já era independente. tinha uma vida estável e morava sozinho desde os 18 anos. Eu sou assumido entre todos da família e trabalho. Naquela tarde rimos bastante com as piadas do tio Ricardo. devoramos os doces da tia Cida. acho que isso me estragou um pouco. Desculpe por te comunicar dessa maneira. Às vezes estamos sozinhos e sentimos a falta de alguém ao nosso lado. Tenho saudade daqueles tempos. sempre tivemos de tudo. ele passava mais tempo na minha casa que na casa dele.

Obrigado pelas palavras. Fiquei interessado e no outro dia fui até o local onde os corretores estavam de plantão. o que é seu ninguém tira. -Alô? -Mãe? -Oi filho. Bader. Nessas horas eu sempre procurava os conselhos da minha mãe que sempre vinham na hora certa...Desculpas sinceras. pois sua localização era ótima. quem sabe você encontra um sentido e um incentivo para viver algo novo? -Acho que a senhora tem razão. que fossem a minha cara. Ass Bruno. Estava abarrotado de peças para criar.. podendo me mudar a hora que eu quisesse. Visitei o apartamento decorado e me encantei. -Será. mãe? -Um dia você vai me dar razão. pois eu queria móveis planejados. bem amplo no bairro de Higienópolis em São Paulo. mãe. 6 . feitos especialmente para a minha casa e que dessem um ar de modernidade e espaço. é porque algo melhor e merecedor espera por você. Depois levei à loja de móveis planejados e encomendei tudo. Consegui vender meu antigo em menos de uma semana após anunciá-lo. Durante a semana eu fui trabalhar normalmente. Não fique chorando por isso. -Só você pra me entender. Peguei o jornal e comecei a olhar os classificados de imóveis. duas vagas. parei no semáforo da Avenida Brigadeiro Faria Lima e me entregaram um panfleto de uns apartamentos recém-construídos. Um dia quando estava voltando pra casa. se ele te deixou. com três dormitórios.” Ser abandonado por alguém que você gosta dói. -Mãe.. assim eu me livraria das lembranças do Bruno que marcaram aquele lugar. graças a Deus não me faltava trabalho. deixou um bilhete dizendo que encontrou outro alguém e se apaixonou. -Acredite. nada em nossas vidas acontece por acaso. Só ela conseguia me animar.. Desenhei tudo o que eu queria e como queria. Minha vida financeira era bem tranqüila por ser bem sucedido no que fazia. era lindo e bem confortável. Não queria mais nada do antigo apartamento. -Te amo! -Eu também. Decidi que compraria um novo apartamento e venderia o meu. fere. Bader? -Não sei. -Mas por que. fechei negócio. machuca.. O Bruno me deixou... preferi deixar no passado o próprio passado. -Filho. sem contar na estrutura bem acomodada. senti-me bem melhor. Comecei a chorar e liguei para minha mãe em Campinas. Depois de falar com minha mãe. Deu um pouco de trabalho quanto à mobília do meu novo apartamento. meu filho! Procure fazer algo para se distrair.

A sorte era que a Dani estava no meu colo. Mas você está ferido. tinha que acontecer alguma coisa para estragar meu dia. Acordei no hospital. mas com o tempo ela ia acostumar.. Abri a porta do armário e notei que havia esquecido de fazer compras. Saí do carro para ver o estrago que a batida havia feito. ensolarado. Só percebi que havia um ferimento em minha cabeça quando senti algo quente escorrer pelos meus olhos. tive uma luxação no braço e um corte na cabeça. A Dani estranhou um pouco. O motorista do outro carro não sofreu nada. Em compensação. Reconheço meu erro quando fechei o carro do rapaz sem querer. sem contar que ficava próximo ao shopping. Na volta pra casa coloquei um CD com MP3 e comecei a ouvir música em alto volume. você precisa de socorro urgente. Voltei para o quarto e troquei de roupa para ir ao mercado comprar o que faltava. assim.. -Não foi nada.. Por pouco o volante do carro não comprimiu meu peito. não. caso contrário ela não teria escapado com vida. a não ser seguir minha vida de cabeça erguida. mas nada poderia fazer. Chegar em casa e sentir aquele cheiro de “novo” era ótimo. que era branca. Permaneci por um tempo dentro do carro. Peguei a Dani e a levei junto comigo para o supermercado que havia no shopping. Levei-a ao petshop para tomar banho e até comprei umas roupinhas de inverno para ela. o rapaz do outro veículo começou a chamar ajuda. estava molhada de sangue. enquanto esperava minha visão restabelecer-se totalmente. Quando achei que tudo em minha vida começara a dar certo. 7 . Em quarenta e cinco dias mudei-me definitivamente. pois nenhum mal é tão ruim que durasse para sempre. A batida foi tão forte que meu carro girou três vezes até bater contra um poste do outro lado da rua. O vidro ao lado do motorista se partiu na hora. -Desculpa. A freada foi tão brusca que minha cabeça foi jogada várias vezes contra a coluna que ficava atrás do encosto do banco do motorista. O lado do passageiro ficou completamente destruído. deixando as marcas dos pneus no asfalto. você se machucou? -Graças a Deus. onde eu costumava ir malhar na academia. A minha camisa. Depois disso não vi mais nada. voando estilhaços para todos os lados. mas ele poderia ter evitado o acidente se não estivesse distraído falando ao celular e em alta velocidade. A tristeza ainda permanecia por conta de ser abandonado pelo Bruno. Levantei e fui até a cozinha preparar algo para comer. Lembrava-me vagamente do acidente. um pouco atordoado. Uma amiga minha sempre dizia que o melhor remédio para a tristeza era fazer compras. -Sua cabeça está machucada. A Dani subiu no meu colo e foi com a cabeça para fora da janela como ela gostava de fazer. Fui cantando e dançando enquanto dirigia. Acabei desmaiando. Para não atropelá-lo eu desviei bruscamente e acabei batendo em outro carro. -Caramba! -Você precisa prestar mais atenção no trânsito. O dia estava lindo. Era bom demais para ser verdade.Eu estava todo entusiasmado com meu novo apartamento. Tudo estava se tornando perfeito até que no cruzamento da Avenida Angélica apareceu um cachorro na minha frente.. Com o celular na mão. comecei a notar que ela tinha razão... Acordei em uma manhã de sábado ensolarado morrendo de fome.

. preciso ligar pra minha mãe vir me buscar e assinar os papéis. eu vou buscar minha mina na faculdade e depois volto aqui pra saber como você está.. -Mas você precisa de um acompanhante.. Depois te conto.... que por qualquer coisa já arma um circo. Ao entrar no quarto. eu moro sozinho em São Paulo. -O quê estou fazendo aqui. eu me viro. No começo da noite. pelo menos eu me distraio um pouco.. principalmente depois de ter caído de bicicleta aos sete anos e quebrado a perna. -De onde eles são? -Eles moram em Campinas. o rapaz do acidente voltou.. Mas não se preocupe.. -Não vá preocupar sua mãe. Sorrindo por ver minha felicidade.. Eu já não agüentava mais aquele cheiro de álcool.. Mas perdi meu celular. Assim.? -Você desmaiou e eu te trouxe pra cá.. Pode ser? -Humpft.... -Valeu pela força.. mas a enfermeira me deu um remédio para aliviar. fazendo-me dormir por um bom tempo. -O quê aconteceu? -Humpft. entrou no quarto dizendo: -Não tente se levantar. liberando minha saída logo em seguida. estou precisando. Ao perceber que eu havia acordado.... a enfermeira entregou alguns papéis para o rapaz assinar.. questionou o motivo do sorriso em minha face: -Licença.. Eu só estou atrasando sua vida.. Vamos fazer o seguinte. Às vezes doía um pouco quando eu mexia. eu assino a responsabilidade de te acompanhar. -Obrigado. -Tudo bem. -Valeu. me sinto na obrigação.. 8 . Com a porta do quarto entreaberta avistei o rapaz. -Humpft. Minha cabeça estava com um curativo enorme ao lado direito.. Meu braço estava enrolado numa faixa e uma tipóia o apoiando. sirene de ambulância... -Deixa eu te ajudar. -Mesmo assim eu volto pra ver como está. Nunca gostei de hospital. mas minha família também não mora tão longe assim.. -Não esquenta. -Mas você não disse que mora sozinho em São Paulo? -Eu moro sozinho. O cara era gente boa. -Não se preocupe. pode afetar sua coluna. -Nada disso. -Melhoras pra ti. Tem algum parente seu para vir aqui ficar com você? -Não.Levei a mão à cabeça e senti que no lugar da ferida havia um curativo. Está sorrindo só por ter me visto? -Hahaha.. Desde criança sempre tive trauma de enfermaria. Eu já estou bem... A enfermeira disse que eu já posso ir para casa.. Diferente de muitas pessoas por ai. Nossa!.. que preocupado andava de um lado para o outro com a mão esquerda apoiada na cintura e a outra em sua cabeça. deitar em minha cama. Não via a hora de chegar em minha casa.

ficarei em débito contigo. o meu o seguro já levou para arrumar.. e também eu errei por me distrair falando ao celular. -Ah.. Daniel... -Eu moro aqui. sua cachorra ficou na minha casa.. Com cuidado ele abriu a porta para mim.. -Então é melhor mudarmos de assunto. Fomos até seu carro. você me paga uma balada e fica tudo certo. meu nome é Daniel. -Nossa... -Entendi. eles ocupam os outros dois.... -De nada.. Você é um cara bacana....... -Nos separamos hoje. está me ajudando.. -Prazer! -Humpft. dentro do carro estava a Dani. 9 . Olha o papai aqui.... Que chato.... que ao me ver não parava de latir. onde ficamos conversando um pouco mais. Minha mãe adorou ela...-Então. -Por quê? -Porque eu bati no seu carro e você ao invés de brigar comigo... Você trabalha com o quê? -Sou formado em Educação Física. Quando vem minha família pra cá. nosso relacionamento já não estava dando certo. Meu corpo ainda estava dolorido.. Já o meu. -Ainda não nos apresentamos...... Sou contra a violência no trânsito. -Mas.. -Puxa. pois meu braço estava imobilizado. -Parecem serem grandes esses apartamentos. Eu vou te levar em casa. -Eu já disse que o seguro vai cobrir o prejuízo.. -O meu é Bader.. Para minha surpresa... fui abandonado. Eu tenho uma dívida com você.. -Por isso mesmo. -Eu esqueci de te avisar. Ao vê-lo suspirar questionei: -O que foi? -Nada. lembrei da minha ex-namorada apenas.. Quando chegamos perto de casa. -Não esquenta.. -Dani. -E são.. -É o carro da minha mãe. Seu carro. Humpft. Foi melhor assim.. e você? -Eu trabalho com Publicidade e Propaganda. -Obrigado por ter cuidado da Dani pra mim.. E você... caminhando calmamente. Que mau... ele parou o carro em frente ao edifício. sua cachorra é bem comportada e muito esperta.. Entendi. namora? -Eu não. -Nada que um dia após o outro não resolva. devido ao impacto do acidente. -É verdade... porque foi assim que perdi meu pai. Possuem três dormitórios. -Tudo isso só pra você? -Sim. -Daniel. -Pois é.. -Humpft..... Então ta explicado. -Faria a mesma coisa por qualquer outra pessoa.

. Iniciei uma série de exercícios somente para as pernas. para que meu corpo não desacostumasse. É verdade. Eu já libero pra você. Depois de ficar quatro dias em casa sem fazer nada... eu havia te contado que era professor de Educação Física.. e você? -Eu treino aqui... mas como eu já havia feito meus exercícios e estava um pouco cansado.. Que coincidência! -Pois é. Meu horário é de manhã. Você é aluno? -Não. No término da aula chegou outro professor... Voltei dois passos enquanto a outra pessoa segurava a maçaneta... -Você? -Daniel? Respirei fundo. 10 . Passei meu cartão na catraca e a mesma começou a apitar dizendo que estava bloqueado. O quê você faz aqui? -Eu trabalho aqui.. -Eu acho que você me odeia. não acreditei no que vi: -Opa. Fiquei logo à frente da fileira.. -Então deve ser por isso. Logo em seguida voltei para a sala de aparelhos.. Durante aquela semana eu tive que levar o atestado médico na agência onde eu trabalhava.-Firmeza... -Obrigado! Com muita má vontade ela liberou a catraca pra mim. É obvio que sou aluno... A perícia diagnosticou perda total. Agora eu vou indo. é só marcar. porque ficava dentro do shopping perto de casa. Aborrecido. mudei o horário de treino. -Foi mal.. Aproveitei também para resolver alguns assuntos relacionados ao seguro. e não fazia nem um ano que eu havia o comprado. Achei essa carteirinha na rua e vim testar. -Falou cara. e quando sua figura se revelou.. -Se não me engano. Foi mal. cara. que por coincidência tem meu nome e foto.. não pense que eu esqueci da balada. -Ah.. mas como fui afastado por um tempo do trabalho.. resolvi voltar para a academia... Era meu primeiro dia no novo horário.. porque no meio da tarde e à noite eu trabalhava. Ganhei 3 meses de afastamento por conta do braço. -Um momento.. resolvi ir até o vestiário e lavar o rosto antes de fazer um pouco de esteira. atento ao cenário que o professor criava no decorrer do treino. meu cartão está bloqueado.. Bufando segui até o vestiário para trocar de roupa. -É verdade. e ao abrir a porta senti que havia batido em alguém. mas por esses meses quero treinar à tarde. comuniquei à uma garota muito arrogante que estava na recepção: -Por favor. forneceram-me um outro carro temporariamente. Guardei a mochila no armário. Seria uma hora de pedalada sem parar. Enquanto a seguradora não me mandava um novo. por conta do acidente com meu carro.. pois meu braço estava imobilizado.. Colocava a toalha no ombro enquanto caminhava. Fui até a academia caminhando. Eu costumava ir sempre à academia na hora de almoço ou de manhã.

bele? -Você se importa se eu te alugar um pouco? -Relaxa.. até que fazia sentido quando bati em seu carro.. pois não consegui dormir com os latidos da Dani por causa do gato da vizinha. quiser trocar uma idéia. -Aconteceu algo? -Mano. por quê? -Está a fim de dar um rolê? -Só se você dirigir.. 11 . -Bom dia! -Bom dia. Não me senti bem encontrando o Daniel pela segunda vez e dando-lhe uma pancada. Daniel! Tudo bem com você? -Humpft. Fui até o vestiário deixar minha mochila e trocar de roupa. A vida é tão cruel cara. -O quê você vai fazer depois daqui? -Vou pra casa. MPB.. Na terça-feira cheguei um pouco mais cedo na academia. Programei-a como sempre fazia e comecei a caminhar. mas pensando bem. desse jeito ele ia me achar um atraso de vida. Depois de pagar minha divida com ele não pretendia vê-lo nunca mais. pode contar comigo. provavelmente ele deveria estar saindo da academia na hora do acidente. -Eu adoro música eletrônica! -Eu conheço uma balada que toca umas legais. -Olha. Desanimado o Daniel se aproximou de mim para colocar presença na ficha. com um pouco de tristeza em seu olhar.... Ao entrar na sala de treino. -Beleza.. -Fechado. pois estávamos próximos do shopping. se é que já não me achava.. O pior de tudo era que ele dava aula na mesma academia que eu malhava. se você precisar desabafar.Segurando a cabeça ele perguntou: -Que estilo de música você curte? -Eletrônica. se precisar estamos ae.. Estou um pouco depre... Sábado está bom pra você? -Pode ser. rock. notei que o Daniel já estava lá. tamanha era a vergonha que havia ficado.. depois peguei minha ficha nos arquivos e fui fazer esteira.. -Falou.

agora que eu estou aqui.. Isso acontece às vezes. -É por isso que você está aflito? -Sinto culpa. -Mas era meu filho... carregando fardo dos outros. -Você precisa se distrair. sem destino.. aproveitando que o parque não estava tão cheio. jamais permitiria que isso acontecesse estando ciente dos fatos... ocupar sua cabeça com outras coisas... gel no cabelo e vesti minha roupa. Saímos do Centro e fomos para um parque de diversões na Zona Oeste de São Paulo. acho que posso te ajudar. Perdeu.. -Caramba! -E o pior de tudo é que ela estava grávida.. -Então vem comigo. -E o bebê? -Humpft. -Mas como ela está agora? -Não sei ao certo. O dia estava ensolarado. 12 . esperando um filho meu. cara! Pra onde vamos então? -Já? -Demorô. sei lá.. -Mas você não é culpado. todos temos problemas e quando achamos que estamos livres de um. Passei desodorante para não ficar transpirando igual uma torneira. -É assim que estou me sentindo... e tanto para mim quanto para ele seria bom um pouco de distração. ela tentou se matar por isso... Nenhum ser humano é livre de problemas. ela teria que ser adulta o suficiente para entender isso. -Sim. Mas não tenho amigos que curtam umas loucuras. um lixo. mas não deve ficar guardando uma culpa que não é sua. lembro. -Claro que sou. era uma vida inocente que pagou pela irresponsabilidade da mãe. -É. seguido de outro e mais outro. Você sabia que ela estava grávida? -Não.. -Não agüento mais pressão em cima de mim.... -Lembra daquele namoro que eu te falei que havia terminado? -Sim. Humpft. fiquei sabendo hoje. -Bem. -Eu compreendo que você tenha ficado triste.. O Daniel já esperava por mim no estacionamento da academia...... angústia. -Claro que não. -Então.. Você é um homem inteligente. Com os olhos lacrimejando ele perguntou: -Alguma vez você já se sentiu culpado pela tristeza de alguém? -Humpft. Entrei em seu carro e seguimos sem rumo. você não deve se achar culpado por algo que não cometeu.Depois do treino fui até o vestiário tomar um banho pra tirar o suor.. Caminhando pelo Centro de São Paulo íamos conversando. -Da hora. -Humpft. Se você terminou um relacionamento é porque não estava mais a fim. aparece outro. -Pois é.. Fazia tempo que eu não ia a um lugar desses. aparentemente bem. Eu fiquei triste. Ao chegarmos fomos direto para a fila dos brinquedos.

-Com CER-TE-ZA.. mas com seu jeito meigo e atencioso o Daniel me encorajou a continuar. foi da hora. -Hahaha. Dois. segura firme na minha mão. Três... quase borrando as calças.... Faz muito tempo que eu não venho num lugar desses. Que demais.. Depois de tirarmos todo o equipamento fomos buscar o certificado de coragem.. -Vamos começar pelo SkyCoaster? -Só se for agora. Bader você é o cara...... Uhuuu... -Hahaha. Enquanto éramos erguidos questionei: -Será que tem como voltar atrás? -Agora já não dá mais. Vestimos os equipamentos com a ajuda dos instrutores.. -Já acabou. até quis desistir só de pensar em despencar lá do alto segurado apenas por dois cabos. e você? -Eu também..... hein? -Ah meu Deus! -Um. que era erguida até o topo de uma torre. -Não vou olhar nada...... -Ai caramba. segurando-a forte na tentativa de me confortar e deixar-me mais à vontade. está gostando? -Estou me divertindo muito.... -Chega.. Solidário ele pegou em minha mão.. -Então vamos aproveitar... Uhuuuuuuuuuu O Daniel puxou a corda. -Não adianta. pelo amor de Deus.. Eu to com medooooooo. -Vamos lá. Vai ter que pular. SkyCoaster era uma espécie de rede segurada por alguns cabos. mas não tirou totalmente meu medo. Caminhei até a plataforma com as pernas tremendo. Daniel... 13 .. Pra descer daqui só puxando essa cordinha. -Ahhhhhhhh! -Que demais!.. Caminhando em direção à montanha russa perguntei: -E ai. juntamente com a fita gravada toda aquela brincadeira que para mim foi mais que uma grande aventura. -Olha isso! Fechei os olhos... ninguém vai ouvir.-Nossaaaaaaaaaaaaa!. -É verdade. Mais um. -No três. Uhuuuuu.. -Abra o olho e veja como os carros na Marginal parecem formigas.. Mais um.. Quase morri. -Agora tem que pegar a fita do nosso sobrevôo. -Pára que já estou quase em pânico. Parem isso... Confesso que até ajudou. cara! -Pois é. No começo me deu um frio na barriga. -Pelo amor de Deus.

Os carros começaram a subir. A descida iniciou-se.. Sentando-se à uma mesa o Daniel sugeriu: -Vamos parar aqui? -Sim. Verificando as opções de pedido comentei: -Vou pedir um suco. Devolvendo o copo à mesa reclamei: -Esse suco está sem açúcar.. Apesar disso.. -Eu também... foi ótimo. mas pra mim estava sendo um martírio. Deixamos a montanha russa e seguimos para a lanchonete. -Pára. Expressando satisfação ele comentou: -Nossa.. Sempre relacionei-me com “melhores amigas”. Mesmo com meu braço imobilizado deu para brincar legal. até eu fazer a besteira de olhar para o lado e ver o caminho que iriamos percorrer. pois achava que garotos tinham umas brincadeiras idiotas.. Tudo aconteceu tão rápido que nem consegui gritar.. Chegou nossa hora de andar no brinquedo. Eu estava era morrendo de medo.. Esboçando um leve sorriso ele disse: -Eu já ia atirando essa bolinha de papel nela.. Tive receio de achar-me um chato.. Ao prender a trava de segurança um arrepio na espinha me fez tremer.. -Chame a garota do caixa. e ninguém dizia que eu era gay ou parecesse um com relação ao meu comportamento social.. né? Comecei a concordar com ele. -Sei. fiquei imóvel. -Ah é? -Sim.. não está tão ruim assim. Que demais! -É mesmo. -Eu também.. Hahaha. nunca tive um “melhor amigo”. pois a fome começara a dar sinal. respirei fundo e fechei os olhos. -Nossa!. -Eu pedi com adoçante. mas parece que não colocaram nada.. nunca se sabe o quê se passa pela cabeça das pessoas.. estou me divertindo pra caramba. No início estava tranqüilo. -Deixa pra lá. cara. Para ele tudo estava sendo uma festa. nunca fui afeminado.... O pior de tudo é que fui eu quem deu a idéia. Bader. Sentado ao meu lado o Daniel perguntou: -Está com medo? -Claro que não. estou morrendo de fome. Apoiando-me ao encosto da cadeira duvidei: 14 . Para ser sincero. na verdade estava traumatizado com o SkyCoaster. pois meu estômago quase saiu pela boca. Por um bom tempo esqueci dos problemas. -O quê? -Estou adorando passar essa tarde com você.. Ao pararmos no topo.Demos risada pela situação.. O Daniel só dava risada. -Eu também.

-Olha que eu falo sério. -Hahaha. contei até cinco e atirei.. Todas as latinhas começaram a cair.. Fechado. mas satisfeitos.. Ao pegarmos a alça de acesso à Marginal o Daniel falou: 15 . pode ter certeza. Topa fazer uma aposta? -Beleza. -Tudo bem... Terei companhia pra amanhã.. Pegamos os prêmios e fomos curtir os outros brinquedos. Prendendo o cinto de segurança eu disse: -Você me deixa sem graça. Ao final da tarde voltamos para casa. -Pelo quê? -Pela paciência. -Ta certo... amanhã você vai ter que ocupar meu dia assim como hoje.... Tiro ao alvo.. Muito obrigado. não derrubei todas. eu também me diverti muito. Quanto mais latas derrubar.. O que tinha a fazer agora era torcer para que o Daniel não derrubasse nenhuma.... Quem conseguir derrubar todas as latinhas da pirâmide... Se eu ganhar não precisarei mais pagar a balada de sábado e não precisarei olhar nunca mais pra sua cara.. Tomando posse do canhão ele falou: -Agora é minha vez. mais sofisticado ele fica. mas a última tremeu. mas ele conseguiu.. Bader. derrubando toda aquela pilha. Respirei fundo por três vezes.. -Muito obrigado mesmo. porque assim eu não teria que passar o dia com ele outra vez... Colocando seu óculos escuro sobre a cabeça o Daniel disse: -Começa você.. DU-VI-DO. Mirei bem no meio. Enquanto analisava os mini-canhões perguntei ao rapaz: -Quantas latas eu tenho que derrubar para marcar ponto? Entregando uma pelúcia à uma garota ele respondeu: -Acima de três você já ganha um prêmio. cansados.-Você tem boa pontaria? -Opa.. -E o que você quer apostar? -Se eu ganhar. -Pois é. ganha. Depois de afastar suas pernas ele mirou na pirâmide. mas o que poderia fazer? Sorrindo ele me deu um abraço dizendo: -Ganhei!.. -Hahaha. -Vamos ver então.. Seguimos até o quiosque de jogos.. Quando eu menos esperava ele atirou. seguimos para casa.. -Relaxa. Fazia muito tempo que eu não me divertia assim em uma companhia agradável. Ficou imóvel olhando a pilha de latas. ou seja. Uhuuuu.. Foi inacreditável. Claro que eu não gostei muito da idéia. No caminho o Daniel não conseguia esconder o sorriso de contentamento. Acionando as travas das portas ele falou: -Bader. tremeu...... e voltou ao seu lugar..

-Humpft. apostamos corrida. Aquele toque mexeu comigo...... -Eu quero saber se você está a fim? -Sim. Seu corpo suado sem camisa encostando-se ao meu... Durante o caminho o Daniel foi me contando sobre sua vida profissional.. Promessa é divida.. Senti um arrepio. eu não sei jogar futebol. eu. foi muito divertido. Você e mais quem? -Eu e meu amigo aqui. Desafio vocês seis a jogar um contra. -Firmeza. não vou te forçar a nada.. um dos meninos aproximou-se de nós dizendo: -Desculpa aê. mesmo com o braço ainda em recuperação. mano? -Desculpa o caralho. Você deveria levar em consideração minha convalescênça. onde alguns moleques jogavam futebol. e os garotos não gostaram muito. Sussurrando ao meu ouvido ele disse: -Deixa comigo. deixando-me escolher se queria ou não continuar a vê-lo.. -Hahaha. Ligeiro o Daniel pegou a bola. Iniciou-se a disputa. Não quero que faça o que não estiver a fim... mas até então não passou disso. Vamos fazer uma aposta. -Firmeza. frio na barriga. eu e o Daniel. Se você não estiver a fim.... Tirando sua camisa ele disse: -Calma. -Então beleza. olhou feio para os garotos e disse: -Quem foi que jogou? Constrangido. fiquei sem reação... No outro dia fomos ao parque do Ibirapuera. -Já está ficando sem graça. Confesso que o achei um rapaz muito interessante e inteligente. -Cara.. -Devolve a bola deles. -Ah coitadinho. Vou te deixar em casa agora. não tem problema.. -Bem. pois acabei perdendo outra vez. tive que pagar um sorvete para ele... suas experiências em outros empregos. Daniel... contra vocês seis. Vamos ver quem é bom aqui. Sentamos-nos embaixo de uma árvore para descansar. Nem preciso dizer que ele jogava muito bem. -Sem graça. 16 . Correndo de encontro a mim ele deu-me um abraço de felicidade. e por ser inexperiente até que não me sai mal. Para não perder o costume.. Só eu ganho.. Assustado questionei: -Mas Daniel. Tirei minha camiseta para que formássemos um time. Andamos de bicicleta. Debocha mesmo. O tempo inteiro o Daniel preocupou-se em estar à frente.. Que culpa tenho eu se ganho de você? -Humpft... Vamos cumprir as promessas feitas. Conversávamos tranqüilamente até o Daniel levar uma bolada na cabeça.. -Ta beleza... Atrás de nós havia uma quadra.. Poucas vezes na minha vida toquei em uma bola...-Eu achei que você não gostou muito da idéia de passar o dia comigo amanhã. protegendo-me de qualquer acidente que pudesse acontecer. Gostei do jeito com que ele levou a conversa..

-Que amigo? -Aquele loirinho. Fomos caminhando e conversando até o próximo quarteirão. em seu sorriso. Pode ser. havia uma fila de automóveis aguardando para entrar.. Minha implicância com o Daniel foi tornando-se carinho na medida em que ia o conhecendo mais. Sei lá o que estava acontecendo. Peraê.. to indo pra Perdizes.. depois que você saiu de lá.. Coloquei meu MP3 e fechei os olhos para relaxar um pouco. -Bom. Ah!. Daniel? -Ta indo pra onde? -Trabalhar.. Quando eu ia atravessando a rua escutei um assovio chamando por mim. pois ele havia deixado o carro em um estacionamento na rua de trás.. -Eu vou pra Pinheiros. Se não fosse o Daniel puxar-me pelo braço. Ao passarmos por um petshop. quando de repente um deles avançou em minha direção... era o Daniel: -Bader. -O Bruno? -De nome eu não sei.. Acabei adormecendo na hidromassagem.. estava saindo para trabalhar quando encontrei com uma amiga dos tempos de faculdade: -Bader! -Juliana? -Quanto tempo! -Tudo bem com você? -Eu to ótima. E como anda lá no seu trabalho? -Nem me fala. Distraído.-Gol!. Depois do treino. Sabe quem andou procurando por você? -Quem? -Aquele seu amigo que ia te buscar na faculdade... Parabéns. tomar meu café e ir pra academia. É nóis moleque! -Hahaha. Após tirar os fones do ouvido fui me enxugar. Por mais que eu tentasse pensar em outras coisas. ao mesmo tempo em que pensava naquele abraço que recebera do Daniel.. -Fala.... aquele lugar nunca mais foi o mesmo. ele não saia da minha cabeça.. com certeza eu teria sido prensado entre os dois veículos. Ao chegar fui tomar um banho de hidromassagem. -Sério? -É. somente um carinho especial. -Quer uma carona? -Humpft. O quê será que ele queria comigo? Ficamos conversando um pouco até que ela se foi. Quando acordei o dia já havia amanhecido. Pela descrição dela deveria ser o Bruno. pois já estava na hora. Minha pele estava toda enrugada.. No fim da tarde cada um foi para sua casa. e você? -Eu estou bem.. cruzei a fila de carros que estavam parados. Irritado ele dirigiu-se até a mulher e disse: -A senhora está louca? 17 .... só sei que já não tinha mais raiva dele...

Vamos até minha casa para fazer um curativo? -Não precisa disso. De olhos fechados e fazendo careta ele falou: 18 . Ao ver-me voltando com uma maleta nas mãos.. meu caro. deixe isso pra lá. Você também não perde uma. -Mas precisa ser cuidado. -Ah...-Desculpa..... -Como? -Está sangrando...... mais parecido com um menino mau.. não? -É. Com essa cachorrada dentro do carro. O Daniel era muito charmoso.. esbugalhou os olhos assustado. -Não vale a pena ficar brigando com ela por essa bobagem.. -Ai. -Será que você pode deixar de ser teimoso pelo menos uma vez? -Humpft.. -Calma. -Desculpa? Por pouco você não machucou meu amigo.. -Eu peço desculpas... -Eeeeeeee.. Não vê que ela é mal-amada? -Hahaha. Se eu não encontrar..... -Não machucou muito.. -Mas Bader. -Bem. Ta ardendo. A ré não engatou direito. -Peraê.. -Fica zoando. Um homem desse tamanho com medo de remedinho. Enquanto eu colocava o cinto de segurança o Daniel exclamou: -Caralho! Assustado perguntei: -O que foi? -Esqueci o carregador do meu celular no vestiário..... Puts. -Pelo que percebi você é bem desligado..... Dentro de seu carro haviam três cachorros que não paravam de latir.... Vamos logo vai.. -Hahaha... Colocando-a sobre o sofá eu disse: -Tire a camisa... -Deixa pra lá.. Sou um pouco mesmo. Nem aparentava com aquele corpo forte.... Entramos no carro.. Para que não prolongasse a discussão eu intervi: -Daniel..... depois compro outro. Como você é chato... Encantava-me cada dia mais com seu jeito meigo e sensível de ser..... acabou ferindo seu braço no mural de pedras. -Empatamos.. Preocupado comentei: -Olha como seu braço ficou... Não foi nada. né? Devido ao movimento brusco que ele fez para me ajudar. Chegando em casa eu pedi para que ele aguarda-se na sala enquanto eu ia buscar a caixa de primeiros socorros no banheiro. -Preste mais atenção ao dirigir.

-Que bom! Meu carro fica pronto semana que vem.. era só ligar pra ela. mas não posso fazer muito esforço.. e a perda deve ter o deixado abalado. alguém que me ouça. você não se incomoda.. Há muito tempo ninguém faz isso por mim. firmeza cara? -Tudo legal! Como estão os machucados? Olhando para seu braço ele respondeu: -Nem sinto mais. É amanhã. hein. e sempre tomando cuidado para não dar nenhuma pancada no Daniel... Nos falávamos pelo menos três vezes na semana. Desde que meu pai morreu. me dê conselhos. -Melhorou seu braço? -Bem. -Por que você diz isso? -Porque é verdade.. além de tudo. percebi que o Daniel era um cara carente. deveria ser muito apegado ao pai.. Minha rotina permaneceu normalmente. -Bom dia! -Fala Bader.. Continuei indo à academia no decorrer dos dias.. Minha mãe era minha melhor amiga. mas tratei logo de tranqüilizá-la. chame mais amigos se quiser..-Obrigado por se preocupar comigo. Quando eu precisava de consolo. Conforme conversávamos. -Chamei uma mina que eu to ficando. sofrido. Durante a semana telefonei para minha mãe e contei sobre o acidente. eu sinto falta de alguém pra conversar..... Sem intenção deixei-a preocupada.. Já consigo dirigir. vive viajando com as amigas. -Mas e sua mãe? -Minha mãe está pouco se importando comigo. Olha que coisa? 19 .. alguém que me defenda. Pela forma como falava. Eu passo mais tempo sozinho naquela casa enorme do que com ela.. né? -Claro que não. -O meu já está pronto. pois era difícil eu ir pra Campinas. sensível. -Da hora.. -Pois é. Batendo em minhas costas ele disse: -Ganhei um amigo num acidente de carro.

. topete. Não era à toa que as meninas da academia pagavam um pau pra ele. -Ah não. ia tirando sua roupa. pele morena. -Hahaha. mas até então nunca tínhamos nos cruzado nas dependências da academia. Ruim seria se chagasse tarde demais. -Bem. -Você quer beber alguma coisa? -Agora não. Tiramos já faz um tempo. -Quais? -Essas aqui.. Por que o espanto? -Nada não. Enquanto eu tomava banho ele aguardava por mim. preciso tomar um banho e me arrumar.. -Deve ser muito ruim mesmo.... Eu ainda não havia reparado em seu corpo... No sábado ele passou em casa por volta de oito horas da noite. Pedi para o porteiro deixá-lo subir sem precisar pedir autorização para mim antes. -Namorado? -É. depois de ver tudo aquilo eu tinha que concordar com elas .. -Pô. Claro que no dia do passeio ao parque do Ibirapuera foi impossível não notar seu peitoral definido..Estávamos só nós dois dentro do vestiário masculino.. porém. Ele era um magro falso. -Quem é esse do seu lado? Seu irmão? -Onde? -Vocês estão em uma escada abraçados. Tenho amigos homos. Um corpo todo definido. Exalando um delicioso perfume ele sentou-se no sofá. nada de mulher pra encher o saco.. -Falae Bader! -Opa. Bader. eles não se davam muito bem.. -Ah. O Daniel tinha um sorriso perfeito. Eu havia acabado de chegar e fui guardar minhas coisas quando o encontrei. caminhei até a sala perguntando: -Você não ia trazer sua mina? -A mãe dela tava meio adoentada... -É bonito ver uma família unida assim. -Você é contra um relacionamento homo? -Não.. nada contra. Legal essas fotos. Eu tenho poucas fotos com meu pai e minha mãe juntos. é estranho ver um cara chamando outro cara de NAMORADO. Com pêlos serrados. Tirando-a do porta retrato comentei: 20 . Essa é minha família.... Com a toalha enrolada à cintura.o Daniel era tudo e mais um pouco. mas não passou daquilo. O Daniel parecia já estar de saída. Às vezes eu ouvia algumas meninas comentando sobre um professor. -Vai lá. esse é meu ex-namorado. era de deixar qualquer mulher apaixonada... olhando as fotos dos porta-retratos espalhados pelos cantos da sala.. Conforme ele falava. Não esperava que você chegasse tão cedo. Usava a calça meio caída com a cuequinha à mostra. -Hahaha... -Fiz mal? -Não. cabelo todo espetadinho com gel. pelo menos até aquele momento. E também a parada hoje é só pra homem.

Dando um gole em sua bebida ele questionou: -Quanto tempo vocês namoraram? -Três anos. ta bom? -Beleza.. -Hahaha. Não sabia o por quê dela ainda estar em casa.-Aliás. Nem demorou tanto assim. O Bruno adorava esse lugar.. -Humpft. já o Daniel foi logo pedindo uma caipirinha. -Você não ofendeu.. me deseja. E por que você terminou seu relacionamento. Quero ser amado. beijava as que davam vontade..... -Legal isso.. escutei a voz do Daniel perguntando onde tinha água. Pior que minha mãe.. Amassei-a e joguei no lixo. pois eu havia me livrado de tudo que lembrava o Bruno. Apoiando-se ao balcão ele perguntou: -Você não quer uma? -Não. receber carinho... -E você sonha com um conto de fadas? -Não. Chegamos na balada já passava de meia noite. Gritei dizendo que ele poderia pegar na geladeira da cozinha. Irritado respondi: -Nunca mais fale dessa forma comigo... -Sem exageros. -Eu sei muito bem o que é isso. Eu sou um imbecil mesmo. Ao chegarmos seguimos para o bar. 21 . Que boiola.. conversando um pouco mais: -Faz tempo que você freqüenta aqui? -Eu vinha bastante quando namorava.. não tinha a intenção de te ofender. Agora eu cansei. resolvemos permanecer no bar. provavelmente deixei passar na confusão da mudança. Segui para meu quarto. Eu dificilmente bebia... -Pois é. Passei meu perfume de sempre.. Tenho 26 anos. -Sim... vou beber pra caramba... Queria ter a certeza de que alguém me ama de verdade. apenas não gosto de ser rotulado pela minha condição sexual. -Uau! Bastante tempo. mas como disse minha mãe: Algo melhor me espera... Já é hora de jogar essa foto no lixo. por favor. então? -Porque eu queria casar e ela não.. A balada estava cheia....... Mas não tem problema. -Vamos esquecer isso. já transei com todas as garotas que eu quis.. Levei quase meia hora em frente ao espelho pra deixar o topete do jeito que eu gostava. juntamente com meu penteado. Enquanto escolhia uma roupa para sair. Devido a chatice inicial das músicas. muita gente bonita e solteira. Vou pegar uma água tônica mesmo. só o que eu quero é ter alguém do meu lado todos os dias para dividir minha vida. como é você que vai pagar. restando apenas aquela foto.. -Nossa! Desculpa. -O quê? Quase dormi aqui no seu sofá. O conheci com 21 anos... O engraçado é que nos tempos de hoje as meninas estão fugindo de compromisso sério e os homens estão a fim. Voltei à sala e vestindo a jaqueta exclamei: -Pronto! -Até que enfim.. -Ah.

veja. o puxei pelo braço e avisei que iriamos embora: -Daniel. O que você consumiu eu pago conforme o combinado... eu ficava pensando no que havia dito-me sobre relacionamentos. mas é verdade. -Cuidado. -Não me julgue pelas aparências.. cairia fora.. Apoiado em mim caminhamos até o estacionamento. está na hora de ir. mas eu só tenho aparência de “Menino Mau. o que deixou-me preocupado. mas acredito que já era tarde. 22 ... seria sofrimento na certa.. Sem que eu esperasse.. Se eu pudesse escolher. Eu sei muito bem o que to fazendo.. -Não é isso. Já chega.. Vendo que passara dos limites. você vai ficar doente com o peito pelado assim.. -Vamos. você já bebeu demais. isso eu não posso negar. É por causa da bebida? Deixa que eu pago então.. Vamos para casa? -Ta bom.. Tirando sua camisa ele falou: -Será que eu não posso mais esquecer da minha tristeza com um pouco de cachaça? -Não é dessa forma que seus problemas irão acabar. -Você não está em condições de dirigir. -Eu também. Se isso fosse concreto. mal conseguiu subir as escadas. Feliz o Daniel se soltou e mostrou que sabia dançar. -Desculpa..... ele me puxou até o meio e ficamos dançando um de frente para o outro. Adoro ela. Fiquei sem reação... -Ah.. seu pão duro. Destravando as portas eu disse: -Vista essa camisa e entre no carro. Daniel. muito bem por sinal. O lugar estava cheio.. Foi uma briga para convencê-lo a me deixar dirigir. Vamos dançar? -Claro! Corremos para a pista. O Daniel continuava bebendo sem parar. O Daniel gostava de mulher.-Pode não parecer.. Dirigindo-se até a porta do motorista ele falou: -Eu te deixo em casa e depois sigo para a minha. estou preocupado contigo.. Pegando pelo meu braço. -Imagine.. pois começara a gostar dele.. cativante. ele me puxou pra bem junto de seu corpo. apenas uma empolgação. Dançando e olhando pra ele. mas me deixou com vontade de beijar aquela boca carnuda. As músicas estavam cada vez mais legais.. apertado. Saímos de lá eram quase quatro horas da manhã. Tentando fazer o número quatro ele falou: -Eu to ótimo. Sei que não foi com malícia.. Você quase caiu.. eu estaria perdido. -Vestir por quê? -Porque está frio. e eu não teria chance alguma. -Está ouvindo essa música? -Sim.” -Mas você assusta um pouco. e a vontade era de ficar na pista e não sair mais. O Daniel não estava em condições de dirigir. O Daniel era um cara muito bonito. -Agora que está ficando bom? -É necessário.

Com um pouco de dificuldade abri a porta da sala.. Socorro. você precisa de um banho frio para curar essa bebedeira. praticamente carregado por mim. -Eu não quero... porque sozinho ele não conseguia nem dar dois passos à sua frente...... pois se debatia o tempo todo.. Peguei pelo seu braço e o arrastei ele até o banheiro do meu quarto. Responde? -Não vou dizer.. Com muita paciência e força consegui colocá-lo embaixo do chuveiro com a água bem fria... -Dormir? Nada de dormir. -É assim? Então vou te levar para minha casa. vai que dessa vez você encontra um caminhão em algum cruzamento. -Sim e sim. -Nananananão.. -Entra. Depois de desprender seu cinto ele colocou a cabeça para fora da janela e começou a gritar: -Socorro. Mas deixa que eu te levo até sua casa. está louco? -Louco eu estaria se deixasse você me levar.... Prendi seu cinto de segurança e dei partida. Quando você estiver sóbrio eu deixo você ir sozinho. -Venha.. -Põe o cinto e cala essa boca.... Ascendendo a luz da sala falei: -Você precisa dormir um pouco.. -Engraçadinho. -Eu já disse que irei te levar... -Ai. Tive muita dificuldade para tirá-lo do carro. travei as portas e entrei logo em seguida. Vou fazer um café pra você beber. Apoiado em meu ombro o Daniel não falava coisa com coisa. -Eu não vou tirar nada. -E molhada também.-Tudo bem.. Aquela bebedeira tinha que passar de qualquer jeito. e se arrependimento matasse eu já estaria morto há tempos. ele ficou se debatendo e gritando...... -Você que sabe então. vou jogar vídeo game... -Tire a roupa. Foi difícil convencêlo a entrar no box. você disse que era pra eu calar minha boca. Ta cedo. -Daniel.. -Enquanto você faz um café. -E como você vai voltar para a sua? -Eu pego um táxi. -Pára de gritar. -Hahaha...... O joguei dentro do carro.. -Nem pensar. Irritado... tendo que solicitar ajuda dos seguranças do condomínio para carregálo até o elevador.. Olha que coisa? Apertando meu braço ele gritou: 23 . -Eu to ótimo. Onde você mora?.... Vamos conversar um pouco.. Está gelada. você não está bem..... Fechei o vidro ao seu lado e o levei para minha casa.. -Humpft...

-Ta molhando minha roupa.. e depois de muito lutarmos consegui deixálo totalmente nu.. -Judiação. deixando-me puto da vida. você está me molhando. -Depois nada. minha voz soava bem próximo ao seu ouvido. -Me solta... Sua bebedeira já havia superado todos os limites que eu poderia suportar. -Até parece que você manda em mim. travando a porta logo em seguida. -Pára de se debater. Amanhã eu mando importar um tapete novo do Oriente pra você. Nós éramos da mesma altura. o Daniel era uma outra pessoa. Tive que tirar minha roupa e ficamos nus. mas mando na minha casa.. -Posso não mandar em você. Confesso que naquele momento não senti desejo algum.. eu te seco. Em um movimento brusco ele puxou-me para dentro do box.. despertando nele algo diferente. -Sua roupa também está molhadaaaaaaa.. onde senti algo crescendo e tocando minha perna.. não vou me molhar sozinho. Isso eu percebi ao virá-lo de frente para mim.. meu ódio ia aumentando na medida em que eu não conseguia sair... Não fale assim porque eu não resisto. Achando tudo uma festa ele começou a puxar minha camisa... -Deixa de viadagem e entra aqui. e como ele estava à minha frente. -Nossa.. -Se você não se secar. -Hahaha.. 24 .... Enquanto aquela água fria molhava-me toda a roupa. Você está molhando todo o meu carpete. Ele não parava quieto. -Deixa de viadagem você agora. Sóbrio. Peguei novamente a toalha e o sequei à força.. -Então tira essa mão de mim. Seu corpo molhado estava encharcando todo o carpete do meu quarto... -Não. eu avisei antes. pois estava tomado pela raiva de toda aquela situação provocada pelo Daniel.. Após terminar de dar banho naquele marmanjo fui buscar uma toalha no quarto.. depois vou tirá-la. Entregando a toalha para ele eu falei: -Chega de bobagens e se enxugue. E não grite. -Pare quieto.. pois você não é uma criança... -Eu não quero tirar.. -Mas o quê você faz aqui? Eu disse para me esperar no banheiro... vai tirar agora também.. Seu comportamento parecia de um menino de oito anos. todo encharcado. mas bêbado parecia uma mula de tão impertinente e teimoso... Com muita raiva comecei a tirar sua roupa. -Você não quis tirar.. Sua teimosia estava tirando-me do sério.. O quê tem no meio das suas pernas eu também tenho. Jogando-a sobre à cama ele disse: -Não me amole. -Você não pode ficar com essa roupa molhada. pois a que estava no banheiro ele acabou molhando.. Quando ia voltando para o banheiro depareime com o Daniel dentro do meu quarto. -Eu sei.

-Então se enxugue sozinho. Sem que eu esperasse ele segurou em meu rosto e começou a me beijar... Não entendia o que deu nele para agarrar-me 25 . Seu corpo nu pousado sobre o meu também nu.. -Não vou vestir.. -Sai da minha cama. -Mas não é piada... Vai acordar os vizinhos. tinha muito fogo. que por pouco mão quebrei sua cabeça com o abat-jour. O puxei por duas vezes e ele insistia em não sair. peguei um travesseiro e fui dormir no outro quarto.. tenha uma boa noite! Apaguei a luz... -Parar por quê? Levantando-me da cama falei: -Vou pegar uma roupa pra você vestir e depois vamos dormir.. mas estava bêbado. Não era possível que uma pessoa alcoolizada ficasse tão insuportável assim... comecei a me debater.. Humpft. -Não.. Na terceira vez o Daniel puxou-me pra cama junto de si. Eu só consigo dormir pelado.. teria menos prejuízo. Peguei pelo seu braço e comecei a puxá-lo pra fora. Fazendo esse tipo de piadinha ridícula.. Ele não sabia o que estava fazendo. Será que você não cresce? -Eu já cresci. Olhando-me fixamente ele falou: -Nossa!. Sua mão explorava meu abdome e peitoral com pegadas firmes... Quando vi fazendo aquilo.. pois mal preguei o olho. -Você quem sabe. Seu cabelo pingava em minha face. Vou dormir no outro quarto.. Hahaha. Naquele instante eu fiquei sem fôlego. não tive reação nenhuma. Devo admitir que o Daniel beijava muito bem. acho que acabaria quebrando sua cara. Sai de cima de mim. Saia já daí. Na hora não sabia o que fazer. Acho que se eu tivesse lhe dado um cheque para cobrir os gastos do conserto do carro. Sai daí agora.. pois fui pego de surpresa. Subiu-me um ódio tão grande. Passei a noite revirando na cama.. você está molhando toda minha cama.... -Não vou me enxugar nada. -Não parece. -Não grita. pensando naquele beijo.. -Então comporte-se como um adulto. e quando percebi que a coisa estava tomando proporções maiores eu interrompi. Paciência tem limite e a minha já tinha se esgotado. possuindo-me como se fosse uma terra desapropriada. Mais um gracinha dele... Segurando meus braços com muita força ele subiu em cima de mim. Minha respiração faltou.. Querendo matá-lo respondi: -Seu bêbado idiota. naquele corpo colado ao meu. o que me fez fechar os olhos.. Sem forças fiquei imóvel.. -Não me faça te odiar. -Pare com isso.... -Deita aqui. Não vou dizer que consegui dormir. fortes. Maldita hora que concordei em pagar uma balada para o Daniel... Eu to falando sério. Você tem uma boca tentadora. Irritado.. Jogando a toalha no chão ele pulou na minha cama inda molhado. não acreditei...... Irado gritei: -Caralho.

Levei até a lavanderia e as coloquei dentro da máquina de lavar.. espantado. 26 . O dia começava a clarear quando eu adormeci. Em duas horas fica pronta para você vestir.. -Alô? -Bader? -Oi. Agora eu vou colocar sua roupa para lavar e depois na secadora. -Não tem problema.. tive que trazer você pra cá. vamos esquecer tudo. E ai como estão as coisas? -Aqui está tudo na mesma. meu filho. né? -E como sei. Você não estava em condições de dar um passo sozinho depois de ter bebido.. -Estou sim. Mas você sabe como são esses dois. -Bom. -Por quê? -Por bobagem. e muito menos em mim de permitir sem ao menos dar-lhe um soco naqueles belos olhos castanhos.. meu anjo.. O Rodrigo e a Millena brigaram.. -A senhora também. mãe! -Que voz é essa? -Eu estava dormindo. Desliguei o telefone e ainda bocejando caminhei até o quarto onde o Daniel dormia.. como está? -Foi até a padaria comprar um bolo de laranja. -Nossa! -O que foi? -O que estou fazendo aqui? Por que estou sem roupa? Levantando-me da cama respondi: -Você bebeu demais ontem e ultrapassou dos limites. Não demorou muito ele acordou. -Sério? Fiz você pagar mico? Abusei da sua paciência? Encostando-me ao batente da porta questionei: -Você não se lembra de nada? -Não.. Desculpa.. -Nada mesmo? -Nada.. -Tudo bem.daquela forma...... -Beleza. -Liguei pra saber se você está bem. -Não se preocupe. -Que delícia! -Vou preparar o almoço. Sentei-me à beirada da cama e fiquei velando seu sono tranqüilo... -Fique com Deus. -Caramba!. Pouco tempo depois fui acordado pelo telefone tocando... Abri a porta cuidadosamente para não acordá-lo. Bader... Desculpa.. -Ah. O pai. Até banho eu te dei pra tentar passar um pouco a bebedeira.. Em seguida fui até a cozinha preparar o café da manhã. Segui até o banheiro e peguei sua roupa de dentro da pia.

-O quê foi? -Queimei meu dedo com o café. desconfiei de que algo estava errado. Aonde você quer chegar? Aproximando-se de mim ele questionou: -Por que você não falou sobre o beijo? Nessa hora eu queimei meu dedo com o bule de café.. pois o Daniel citou o café da noite anterior. Bader... Apenas com a toalha enrolada na cintura o Daniel foi até a cozinha onde eu estava. Não foi nada. Já coloquei sua roupa para lavar e estou fazendo um café... Tudo que eu costumava comer diariamente. Tocando em minha mão ele perguntou: -Deixa eu ver. Seu corpo ainda molhado fazia destacar as gotas em seu peitoral. Abrindo a janela eu disse: -Bem. 27 . O banheiro é bem ali. -Mas você não tinha feito café ontem? -Acabei nem fazendo.... -Tem razão.. inevitável não olhar.. -Obrigado! Dando uma mordida na maçã ele perguntou: -Porque você não abre o jogo? -Que jogo? -Sobre ontem. Parecia que fazia de propósito... Acompanhando-me o Daniel relembrava o acontecimento na madrugada... -Aquele beijo que eu te dei. E café amanhecido é horrível. Enquanto ele foi tomar banho eu fui pegar uma outra toalha.. Como ele sabia que eu havia feito café? Já que ele parecia não se lembrar de nada... o Daniel colocou a maçã sobre a mesa e foi olhar meu dedo. encostou-se ao batente da porta e começou a puxar assunto: -Está cheiroso seu café. entendeu? -Não. -Eu perguntei o quê tinha acontecido nessa madrugada. Caminhando até à sala respondi: -Mas eu já contei sobre sua bebedeira.. -Valeu.. Com a maior naturalidade ele pegou uma maçã da cesta de frutas. -Ai!. Preocupado. só pra me provocar... Enquanto lavava as uvas. posso tomar um banho? -Claro. Confuso perguntei: -O quê você quer? -Por que você não me falou do nosso beijo? -Qual beijo? Voltei à cozinha para lavar o dedo.. voltei ao quarto onde o Daniel estava.... Fiquei sem graça.Enquanto a cafeteira se encarregava do trabalho. queria saber T-U-D -O.. Separei um monte de coisas gostosas. -Beijo? Mas você disse que. Deixei-a sobre a pia do banheiro e voltei à cozinha para arrumar a mesa do café da manhã. quer um beijinho pra sarar? Puxei-a novamente.

. Engasguei com o suco. mas é um homem... Só quero que você saiba que eu gostei. aproveitando-me de sua bebedeira.. Há alguns dias você tinha uma namorada. ajoelhou-se ao meu lado. -Eu sei o que te deu. Foi gostoso... -O que você quer que eu diga? Tocando em meu rosto ele disse: -Não diga nada. -Olha Daniel. É o seu beijo que eu gostei. Sério. é do seu beijo que eu provei.-Eu menti.. -Não é isso.. -Sabe o quê eu acho? -O quê? -Que você não regula bem das idéias.. sempre tive tesão por seios. mas não sei o que me deu ontem. se não vamos acabar brigando.. -Não quero te convencer de nada. -Tudo bem.. eu só queria dizer que ontem eu senti atração por você. só fingi que não recordava para ver se você seria corajoso para me contar a verdade.. pegou em minha mão e continuou a falar: -O seu beijo foi diferente. -E por que não? Enxugando a mão respondi: -Porque você não é gay.. E eu senti vontade de beijar só você. -E você está querendo me convencer quê.... e para um cara assim. você me beijou ontem”... Eu não sei se você lembrava-se ou não..... mas acontece que o homossexual dessa história sou eu. não deve ser fácil conviver com um homossexual. -Por quê? Irritado questionei: -O que você queria? Que eu chegasse em você e dissesse: “Daniel. -Eu namorava garota. Sentando-me à mesa interrompi: -Eu não estou interessado em saber da sua virilidade... Lembro de tudo que aconteceu.... Humpft.. sendo assim. Senti vontade de beijar você. -Mas se fui eu que te beijei.. -Quê? -É difícil pra eu ter que assumir isso... Pela primeira vez eu beijei alguém sem primeiro sentir uma atração sexual... jogar meu futebol com os amigos. marca de biquíni.. 28 .. que o fato de ter gostado de beijar você não quer dizer que eu vá me interessar por homens ou me tornar gay. Tem também o fato de você poder achar que eu abusei da situação. acho melhor esquecer tudo isso e mudarmos de assunto. -Mas Bader... você estava bêbado... -Eu sei. Não é porque eu te beijei que vou sair por ai agora beijando um monte de caras. apenas me beije. ele caminhou até mim.. todas as suspeitas cairiam sobre mim... -E eu sou o quê? -Você é homem. poderia muito bem dizer que eu me aproveitei da situação.

Fui pego de surpresa, desprevenido. Seus dedos passaram por trás da minha orelha, enquanto sua outra mão segurava minha cintura. Entreguei-me em meio ao carinho gostoso que recebia, intercalado com uns apertões. Aquele não foi um simples beijo. Foi mais que um beijo.

Nos levantamos e encostamos corpo com corpo. Dominando a situação o Daniel colocou-me contra a parede, imobilizando com seu tronco pesado e forte. Por um bom tempo ficamos ali nos beijando. Aquela língua safada me fazia perder o juízo. Os sussurros ao meu ouvido faziam-me estremecer. Antes que eu fizesse a besteira de me entregar totalmente, recuei: -Acho melhor pararmos por aqui. -Mas está tão bom... -O café vai esfriar... Preciso colocar sua roupa dentro da secadora... -Tudo bem... Humpft... Vamos terminar nosso café. -Enquanto você continua tomando seu café... Eu vou colocar sua roupa pra secar e já volto. -Está bem. Deixei-o na sala e fui colocar suas roupas na secadora. Logo depois voltei para a mesa e terminamos de tomar café juntos. Conversamos sobre futebol, sobre baladas, e muitas outras coisas, evitando o tempo todo de retomar aquele assunto. Por mais que eu tentasse agir com naturalidade, continuava confuso com o fato dele ter gostado do meu beijo, mas ao mesmo tempo eu adorei a idéia, pois também havia adorado o beijo dele. Depois do café ele vestiu suas roupas e nos despedimos com um longo beijo. Fechei a porta e logo se manifestou em mim a sensação de arrependimento. Fiquei com medo que ele mudasse de idéia ou se arrependesse mais tarde, afinal, antes de me beijar ele só ficava com mulheres. Aproveitei o domingo para arrumar meu armário. Tirei umas roupas que já não usava mais para doar a quem precisava. Quando eu era criança, minha mãe sempre nos ensinou que deveríamos ajudar aos necessitados. Todos os meses ela levava eu e meus irmãos para visitarmos orfanatos, e juntos doávamos nossos brinquedos que não usávamos mais. Era uma satisfação para nós vermos o brilho nos olhos daquelas crianças ganhando um 29

brinquedo. Na segunda feira acordei com a campainha tocando. Eu odiava ser acordado com barulho, pois deixava-me de mau humor. Bufando levantei. Vesti meu roupão e fui atender à porta, querendo socar o infeliz que me acordava. Espiei pelo olho mágico e avistei o porteiro com uma linda cesta na mão. -Bom dia seu Bader! -Fala? -Deixaram isso pro senhor hoje cedo lá na portaria. -Obrigado! Fechei a porta e coloquei a cesta sobre a mesa. Nunca havia recebido nada assim, e nem fazia idéia de quem havia mandado. Abri o cartão preso à alça, e logo identifiquei um perfume familiar naquele envelope.

“Bom dia! Dormiu bem? Como está o braço? Não consegui dormir muito bem essa noite, fiquei pensando em você, no seu cheiro, na sua boca. Logo irei para a academia, depois te ligo. Daniel”
Fiquei encantado com aquela atitude. Ninguém nunca havia me tratado daquela forma. Peguei a cesta e levei para a mesa da cozinha. Não conseguia parar de cheirar aquele bilhete perfumado, parecia proposital. Com o sorriso de orelha a orelha fui tomar um banho. Em seguida comecei a preparar meu almoço. Na verdade eu fui descongelá-lo, porque eu costumava fazer toda a comida no início da semana e distribuir em pequenas quantidades. Depois colocava no freezer e tirava quando fosse comer, em porções individuais. Separei uma porção de batata frita, feijão e frango assado. Enquanto coloquei o feijão e o frango no microondas para aquecerem, comecei a fritar as batatas e cozinhar o arroz. Quando eu estava virando as batatas, meu telefone tocou. Baixei o fogo e corri até a sala para atender: -Alô? -Alô! Bader? -Sim... -É o Daniel. Tudo beleza com você? -Opa... Com aquela cesta que recebi hoje pela manhã, não poderia estar ruim... -Quem bom que gostou. O que você está fazendo? -Preparando meu almoço, você já almoçou? -Ainda não, acabei de sair da academia... Vou passar na praça de alimentação do shopping e comer alguma coisa... -Vem almoçar comigo?

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-Hummm... O quê vai ter de bom para o almoço? -Feijão, arroz, frango assado, batata frita e salada de agrião. -Que delicia! Vou levar a sobremesa então. -Vou te aguardar ansiosamente. -Em um piscar de olhos estarei aí. -Beijo! -Outro. Desliguei o telefone e fui correndo virar as batatas no fogo, e por sorte elas não tinham queimado ainda. O arroz estava quase pronto, e a Dani não parava de pular em minha perna pedindo comida -Calma bebê, o papai já vai te dar comida... Coloquei um pouco de ração no pote dela. Peguei uma baixela no armário, coloquei-a sobre a pia e comecei a lavar a salada quando o interfone tocou: -Diga? -Seu Bader, o senhor Daniel está na portaria. -Pode deixar subir. -Obrigado. Enquanto ele subia até o décimo nono andar que era onde eu morava, arrumei a mesa da sala com flores e frutas. Ao ouvir a campainha tocar, meu coração disparou. Fiquei sem saber o que fazer naquele momento. A campainha tocou mais uma vez. Respirei fundo e fui abrir a porta. -Oooooi. -Oi Daniel! Nos cumprimentamos com um beijo e um abraço. Tocando em minha cintura e com suas pernas bem afastadas uma da outra ele falou: -Não via a hora de te encontrar outra vez... Tocando em sua face respondi: -Eu também... Mal podia esperar. -Vontade de sentir seu cheiro... Sua pele... Seu beijo... Enquanto nos beijávamos a Dani começou a latir e pular em minha perna. -Fica quieta, Dani. Puxando-me para mais próximo dele o Daniel disse: -Deixa ela... Continue me beijando... Quando íamos dar outro beijo, o microondas apitou. Afastei-me dele e fui até a cozinha retirar a comida. -O microondas! Acompanhando-me o Daniel disse: -Vamos que eu te ajudo. Não é bom você pegar peso com o braço dodói... Entregando a ele uma baixela eu disse: -Tira essa vasilha aqui... Você não se importa de comer comida congelada? Esboçando um leve sorriso ele respondeu: -Estando perto de você, eu comeria até churrasco grego no Centro. -Desculpa, é que não tenho tempo de cozinhar todo dia, então deixo tudo prontinho, só aquecer e comer. -Por falar em aquecer, o sorvete que eu trouxe deve estar derretendo lá na sala... -Meu Deus!... Vou buscar...

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Corri até a sala para buscar o pote de sorvete. Ao pegá-lo, o Daniel me abraçou por trás e começou a morder meu pescoço. Na hora levei um pequeno susto, deixando cair o pote. -Ai que susto! -Desculpa, gato... Olha só a sujeira que fez? -A sujeira é o de menos... Deixe ai que depois eu limpo, vamos almoçar se não a comida esfria. -Vamos. Almoçamos e conversamos por um longo tempo. Sua companhia era muito agradável, e seu sorriso um verdadeiro colírio. Ele tinha assunto pra tudo, uma pessoa muito inteligente. A cada palavra sua eu ficava mais apaixonado. Era um sentimento puro, inocente, sincero. -Você vai ficar em casa por quantos dias ainda? -Acho que mais um mês e meio. -O que acha de fazermos uma viagem? -Mas você não trabalha? -Estou com férias vencidas... Posso pegá-las a hora que eu quiser... -Hum... Pra onde você me levaria? -Japão! -Já conheço. -Sério? -Sim... Fui a trabalho uma vez e acabei morando por dois meses. -O que acha da Austrália? -Tenho medo. -Medo? Por quê? -Porque na Austrália tudo é venenoso... -Hahaha... Eu protejo você. -Prefiro um lugar menos arriscado. -Bem... Você já conhece a França? -Ainda não. -Eu também não. O que acha de irmos conhecer? -Podemos conversar sobre isso depois. Você está de carro? -Estou sim! -Você pode me dar uma carona depois até a agência onde trabalho? Pra voltar eu me viro... -E você acha que eu vou te deixar lá sozinho? Te levo e trago até em casa. Depois do almoço fomos até meu trabalho levar algumas peças que eu havia criado. Enquanto entrei no prédio da agência o Daniel esperava-me no carro. Até queria levá-lo para conhecer o pessoal que trabalhava comigo, mas ele não encontrou vaga para estacionar. Duas semanas se passaram. Eu e Daniel nos falávamos todos os dias por telefone. Algumas vezes ele passava em casa no finalzinho da tarde para ver como eu estava. Foi em uma tarde dessas que quase morri de medo ao sair com ele. Havíamos marcado de ir ao cinema em uma sexta feira à noite. Durante à tarde ele me ligou e pediu para eu aprontar-me que iria passar em minha casa e me buscar. Antes do cinema, tínhamos programado um jantar.

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-Você não vai quebrar a cara de ninguém. moradora do décimo sexto andar. Cada semana era um diferente. pedi: -Vamos parar com isso. Não tiro sua razão.. vivia se agarrando com os namorados dela no Deck da piscina. Pegamos o elevador e ao parar no décimo quinto andar entrou o síndico do prédio. Com ele eu perdia os sentidos. -Boa noite! -Boa noite! Demonstrando seu carinho o Daniel deu-me um abraço bem apertado.. 33 . Separando-se de mim o Daniel falou: -Desculpe. tamanho era o impacto que o Daniel causava com sua presença. Não demorou muito e o telefone tocou. não entendi. -Você sabia que isso é uma forma de discriminação? -Olha aqui. Ficamos nos beijando por uns dez minutos encostados à parede da sala. por favor. Nervoso. Respirando fundo ele falou: -Não é permitido esse tipo de cena dentro das áreas sociais desse condomínio. pois ele já queria partir pra cima do Carlos. Claro que o Daniel não fez aquilo propositalmente para provocar o Carlos. esquece isso. apaguei as luzes do apartamento. seguido de um beijo na testa. Aquelas regras de não poder beijar nas áreas sociais do condomínio eu desconhecia.. -Olha aqui você. -Eu disse que não é permitido. no hall do elevador.. O Daniel sempre tirava-me o fôlego. e até então eu nunca havia presenciado nenhuma repressão. A campainha tocou.. Daniel. Era o Daniel dizendo que já estava pegando o elevador. Às vezes nem conseguia pensar. sua reação foi totalmente desnecessária naquele momento. -Ele disse que não é permitido dois homens se beijarem dentro do condomínio. despertando nele uma repugnância ao presenciar aquela cena. -Não foi isso que eu quis dizer. mas o síndico ficou constrangido. mostrando-se uma pessoa totalmente homofóbica. Fiquei todo bonito pra ele. Mordendo meus lábios ele falou: -Que boca gostosa! -Mais gostoso ainda é ficar agarrado com você. Preocupado. fechei as portas e fiquei na sala esperando. Mal deu para respirar. -Só não te arrebento porque o Bader está pedindo. -Está pronto pro nosso cinema? -Claro! -Então vamos. confundindo todos meus sentidos.... O Carlos foi muito preconceituoso e estava pegando em nosso pé devido a nossa condição.. Tive que segurar o Daniel.. Não entendi o por quê. e sem que esperássemos. Nossa.. o Daniel gritava: -Eu vou quebrar a cara desse palhaço. Enquanto ele subia.... Logo fui abrir a porta e ele já entrou me agarrando. mas a gente ainda vai se cruzar. Tanto é que a Glória. Por favor. meu coração palpitava só de ouvir sua voz.. -Calma.À noite me arrumei..

Antes que ela se fechasse. cheio de bebidas. Às vezes quando me sinto sozinho.O elevador parou no térreo.. -De quem é essa casa. Em meio a escuridão dava para ver a luz que vinha do interior da casa. em uma longa estrada de terra.. Ao chegarmos no estacionamento de visitantes. Provavelmente deve ter ficado com medo de apanhar do Daniel. -Sem MAS. Pisando em folhas secas perguntei: -Que lugar é esse? Pegando em minha mão ele respondeu: -Nosso ninho de amor.. combinando com os sofás de couro.. quebrado pelas cigarras em volta. e confesso que eu também fiquei com medo do Daniel machucá-lo. Claro que morrendo de medo. abriu a porta assim que entramos já foi me abraçando. Minha mãe quase nunca vem pra cá.. -Eu sei que é um capacete.. um sítio talvez.. e isso notei quando ele desviou do caminho do shopping e começou a seguir por um caminho totalmente estranho... Daniel? -Da minha família.. O lugar era lindo. estilo rústico. Subi na garupa da moto e grudei em sua cintura. Isso não seria bom para nossa imagem perante o condomínio. retratos de um homem com alguns cavalos me chamaram atenção. Tocando em minha face.... Achei estranho. que já não era bem vista por sermos um casal de homens. mas confiei nele. Fazendo mistério ele abriu a mochila e me entregou um capacete. As cortinas da sala iam do teto ao chão.. deixando-me curioso e com medo também. Embaixo da escada um pequeno bar. Um silêncio que chegava a incomodar. Na parede. então resolvi perguntar onde que ele havia estacionado. Mais linda ainda é a visão que temos do segundo andar. -Mas. -Pra onde você está me levando? -Pro paraíso.. -Onde você estacionou seu carro? -Segura ai. Vem ver. Abri a porta e esperei que o Daniel saísse primeiro. pois a estrada era um pouco escura e fechada. Tirando o capacete o Daniel falou: -Chegamos. Ainda segurando em minha mão ele levou-me até a casa. Ele guardou segredo o caminho todo. eu venho me esconder aqui. 34 .. não avistei seu carro. bem decorado. Eu já deveria suspeitar que o Daniel estava armando alguma coisa. -Linda! -É. Suspirei. o Daniel olhava-me enquanto dizia: -Aqui vamos poder esquecer por um tempo da correria da cidade. Ao chegarmos. reparei que estávamos em uma casa de campo.. Mas pra que você me entregou? -Para você colocar na cabeça e subir na minha garupa.. o Carlos olhou-me sem graça e permaneceu calado.. -O quê é isso? -Um capacete. Sobe logo..

Segurando em minha mão ele puxou-me até o andar superior da casa. Subimos por uma escada de madeira que nos levou até um corredor cheio de portas. Pelas minhas contas, aquela casa deveria ter em torno de seis quartos. Entramos logo no primeiro. Era lindo. Uma enorme cama ocupava metade do comodo. De um lado havia uma parede coberta de tijolinhos vermelhos, e do outro um armário de madeira maciça que ia de ponta a ponta. Da varanda do quarto principal dava pra ver o céu cheio de estrelas, coisa que da cidade grande torna-se quase impossível visualizar por causa da poluição. Uma lua linda nos iluminava e clareava aquele gramado, proporcionando o clima perfeito. Enquanto eu sentia o cheiro de terra molhava que exalava com o bater da brisa, o Daniel abraçou-me e contou uma história que ouvia de seu pai em sua infância: -Está vendo aquelas estrelas no céu? -Sim. -Quando eu era moleque, meu pai dizia que as estrelas do céu eram reis, faraós e todas as pessoas boas que viveram na terra e continuavam a reinar no céu, só que olhando e cuidando daqueles que precisam aqui na Terra. -Nossa! Que profundo isso... Acariciando meu rosto o Daniel olhou em meus olhos, fechou os seus e começou a me beijar. Nos abraçamos e deitamos à cama, sozinhos, cercados pela natureza, trocando carinhos, carícias, sentimentos. Ele parecia ser uma pessoa totalmente desligada, mas só parecia, pois quem o via com aquela pose de machão não, conseguia enxergar a criança carente que existia dentro dele. Sussurrando ao meu ouvido, ele cantava bem baixinho, bem juntinho, só pra mim: -Diz pra eu ficar mudo, faz cara de mistério, tira essa bermuda que eu quero você, é sério... -Hum... Eu quero você como eu quero... -Bader... Eu quero você, e como eu quero... -Te amo, Daniel! Foi uma noite linda, impossível de esquecer. Mais difícil ainda seria não me apaixonar pelo Daniel, que dia após dia me conquistava mais e mais.

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Chegou o dia de irmos viajar. O destino escolhido foi a França, apesar de que eu queria também conhecer o Egito, mas resolvemos deixar para uma outra oportunidade. O nosso vôo estava marcado para às dez da noite. A escolha do horário foi minha, pois assim eu iria dormindo a maior parte do tempo, já que passar quase doze horas dentro de um avião não é brincadeira. Na parte da manhã fui até Campinas deixar a Dani na casa da minha mãe. Ela cuidaria do meu “bebê” até eu voltar. Pensei em deixá-la em um hotel para cachorros, mas fiquei com receio dela ficar doente, pois a Dani era muito apegada a mim. Já estando com minha mãe ela se distraia com a família, além do mais, seria uma viagem curta, apenas dez dias. Ao voltar para São Paulo, passei em uma loja de roupas de frio para comprar algumas peças, pois na época em que fomos viajar era inverno na Europa. Depois das compras segui direto para casa, pois ainda tinha que preparar minhas malas. Aproveitei e deixei uma delas vazia, para trazer um monte de lembrancinhas da França para os amigos e família. Claro que traria para mim também, pois sempre fui fã de perfumes e lá eu estaria na “fonte”. O relógio da sala marcava sete horas da noite quando o Daniel tocou a campainha. Sorrindo ele deu-me um abraço. Ao seu lado haviam três malas enormes, e pelo volume que faziam com certeza ele estava levando coisas demais. -Nossa! -O quê foi? -Não acha que tem malas demais? -Você disse que lá vai estar frio... -Sim, mas também não vamos esquiar pela “Rue Rivoli”... Não terá montanhas de neve pelas calçadas... Deixe esse esqui aqui em casa... -Tudo bem, da próxima vez avisa... -Desculpe! Agora vamos... -Calma... E o meu beijo? -Hum... Chamamos um táxi para nos levar até o aeroporto. Deu um trabalho enorme para colocar aquele monte de malas dentro do carro, mas com a ajuda do taxista conseguimos ajeitá-las. Ao chegarmos no aeroporto de Guarulhos, faltavam quase uma hora para a partida. Fizemos o check-in e depois seguimos para a sala vip, onde aguardaríamos até a hora do embarque. Enquanto isso tiramos algumas fotos, olhamos o mapa de Paris e focamos os pontos principais para não nos perdemos. No avião, pedi para sentar na janela. O Daniel levantou-se e trocou de lugar comigo. Atrás de nós havia uma mulher com as outras duas poltronas vagas, pelo que deu a entender ela havia comprado os três lugares só pra ela. 36

À nossa frente havia um jovem casal com uma criança, um verdadeiro pestinha, pois queria furar a poltrona do avião com um palito de sorvete. O pior de tudo era que os pais não falavam nada. Antes de decolar a comissária teve que intervir e eles não gostaram muito, mas deram um puxão de orelha no moleque. Ainda bem que ao nosso lado ficou uma poltrona vazia, permitindo que eu e o Daniel viajássemos mais à vontade. Quando o avião decolou, ele segurou em minha mão e disse olhando nos meus olhos: -Está com medo? -Não, e você? -Um pouco... Se eu disser que te amo agora, você acredita? -Você está quase me convencendo. -Vamos ver se com esse beijo eu te convenço... Fechando os olhos ele pegou em minha cabeça com sua mão esquerda e trouxe minha boca para junto da sua. Acariciou meus lábios com os seus, suavemente. Um pouco depois notei que as pessoas no avião nos olhavam assustadas, mas até então nem estávamos preocupados. O que era para ser apenas dez dias, acabou virando vinte. Ao desembarcarmos no aeroporto Charles de Gaulle em Paris, o Daniel não entendia o que os avisos diziam, mas como eu sabia falar francês fluente, para mim não foi difícil achar os guias. Chegamos no hotel e fomos logo ligando o aquecedor do quarto. A decoração era estilo vitoriano, de bom gosto e muito charmosa. Colocamos nossas malas sobre a cama e começamos a arrumar nossas roupas nos armários. Esfregando uma mão na outra comentei: -Ai que frio... -Frio bom pra namorar... -Hum... Ficar agarradinho... O clima da cidade estava muito frio. A paisagem vista da janela nos enchiam os olhos. Aqueles jardins de folhas secas no chão formando um tapete natural, parecia um bolo “floresta negra”. Na rua do hotel haviam poucos carros, bem tranqüilo o lugar. Depois de arrumar tudo em nosso quarto, fomos passear pela cidade. Andando pelas calçadas de Paris paramos em um bistrot. Sentados em uma mesa posta na calçada, recebia um abraço do Daniel a cada bater da brisa gelada. -“Bonjour”! (Bom dia!). -“Bonjour! S’il vous plaît, un chocolat et un croissant”. (Bom dia! Por favor, um chocolate e um croissant). -“Oui. Et vous monsieur”? (E o senhor?). Sussurrando ao meu ouvido o Daniel falou: -Diz pra ele que vou querer o mesmo que você. -“Aussi”. (Também) -“Voilà”. (Ok) Enquanto o garçom foi buscar nosso pedido, reparei que na mesa ao nosso lado havia um casal de gays que se beijavam com a maior naturalidade. Os rapazes eram jovens, deveriam ter a mesma faixa de idade que eu e o Daniel, além de serem muito bonitos. Às vezes algumas pessoas olhavam disfarçadamente para os dois, mas nenhuma reação homofóbica foi presenciada por nós. -O quê você tanto olha para aqueles dois? -Nada... -Como nada? Você não tira o olho... 37

-Eu estou surpreso com a atitude deles de beijar em público e das pessoas em volta que tratam com naturalidade... -E o que tem a ver beijar em público? Se for o caso fazemos também. Passando seu braço por trás de mim ele me puxou e começou a beijar-me. O Daniel tinha suas loucuras que me assustavam, mas também tinha algumas que me deixavam sem fôlego. Claro que vindo dele eu adorava, pois quando a gente gosta de alguém temos que aprender a gostar das qualidades e defeitos, e eu gostava dele por completo. Afastando-me lentamente comentei: -Você sabe que eu não me sinto bem... -Mas o que tem de errado? -Eu sei que não tem nada de errado, mas têm pessoas que se assustam, pois não estão acostumadas... -Humpft... Tudo bem, nós paramos então. -Mesmo assim eu continuo gostando de você. -Por que você não me deixa te fazer feliz? -Não entendi. -Você parece ter medo de se entregar... -Mas é claro, você vem de um mundo diferente do meu. Talvez amanhã você acorde e vê que não é isso que quer pra sua vida... -Eu sei o que eu quero pra minha vida. Se eu decidi ficar com você é porque tenho certeza do que eu quero... -Tudo bem, discutimos isso depois. -Ta bom. Depois do nosso lanche, fomos dar uma volta no parque Monceau. Começamos a correr entre as árvores, até que o Daniel conseguiu me pegar, mas acabamos tropeçando no banco e caímos sobre as folhas secas no chão. Meu corpo ficou sobre o dele, cara a cara. Demos muita risada, quase sem fôlego, até rolar um beijo. Ele foi me abraçando com seus braços fortes e ficamos ali trocando carinhos, ao som dos pássaros, foi muito bom. À noite fomos passear pelas ruas da “Cidade luz”. Paris à noite é linda, charmosa, romântica. Pegamos o metrô na estação Père Lachaise e ficamos passeando até nos perdermos. Olhei naquele mapa cheio de linhas que nos confundia. Ouvimos o anúncio de que a operação estaria se encerrando em quinze minutos, nos fazendo correr para pegar o último metrô para a estação Louvre Rivole. Por pouco não o perdemos, pois já estava fechando as portas quando entramos. Subimos pela escada morrendo de rir. Até tirei uma foto pelo celular do Daniel tropeçando nos degraus. Acho que as pessoas pensavam que éramos loucos, e de fato não deixava de ser verdade, mas éramos dois loucos felizes e que se amavam. Voltamos para o hotel de madrugada. Fomos tomar um banho bem quente, juntos na pequena banheira que havia no “quarto de banho”. Achei a água da Europa um pouco estranha, parecia ter consistência, sem contar que é muito cara. Depois do banho fomos nos deitar, como um casal, bem agarrados. Para o Daniel tudo estava sendo novidade. Eu era o primeiro rapaz que ele havia ficado, até então ele só sabia lidar com mulheres e não com homens. Naquela noite ele olhou para mim, tocou em meu rosto e olhando em meus olhos disse: -É estranho... -O que é estranho?

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Fizemos amor à madrugada toda. ficou todo confuso: “Correspondance pour Carcassonne” “Départ 11h29. Correspondendo ao seu abraço perguntei: -Está com frio? -Um pouco. Seu jeito me cativava e sua alegria me contagiava. é pelo seu amor que quero lutar.. na plataforma 4... -Pára de rir. uma magia dentro de si. Dentro do trem tive que fechar a cortina. é com você que quero ficar. O Daniel era um cara muito carinhoso. deixando-me um pouco tonto. Sentados na estação esperávamos o anúncio. deitados trocando carinhos.. em Paris.. Nossos corpos suavam de frio e calor ao mesmo tempo.. -Mas eu não to rindo de você.? -Sim. A cada dia que passava eu gostava mais do Daniel. fazendo amor. porém. No décimo dia fomos para Carcassonne. dentro do quarto namorando. um ótimo pretexto para ficar dentro do quarto o dia todo abraçado. E a mina que você estava ficando? -Não sei. Ele tinha uma sensualidade inexplicável. É de você que eu gosto. mas as paisagens eram lindas. eu só sei falar inglês. Nunca mais a vi.. Foi um momento mágico. 39 . -Do que você está rindo? -Da careta que você fez.. -Humpft.. -É. encostou sua cabeça sobre meu peito e abraçou-me. Meu cabelo estava molhado. meigo. uma garoa chata. Meu medo era da hora em que ele não me quisesse mais. -Se você me permitir te amar.. Começamos a nos beijar. quai nº 4.. misturando-se e nos fazendo deslizar um sobre o corpo do outro.. -Deita aqui que te esquento.. Lá fora chovia um pouco. o dele também... tamanha era a intensidade do nosso desejo. via B. -Nunca. te farei uma pessoa muito feliz. que é um trem bem veloz na França. mas vai passar.” -Mas o quê ele está falando? -Ele disse que o trem que vai para Carcassonne partirá às 11h29. Tremendo ele deu um beijo na minha testa. O brilho nos olhos me faziam acreditar que seu sentimento por mim era verdadeiro. Dormi no céu e acordei no paraíso.. inesquecível.. -Nossa! -Hahaha. O Daniel que não entendia nada... o difícil era por isso em prática.. pois ele andava tão rápido que quando passava outro ao lado nos dava vários sustos.. Aquela garoa durou dois dias. por isso o melhor a fazer era não criar muitas expectativas.. voie B. Nunca recebi uma declaração dessa. -Ainda dá tempo de se arrepender e voltar atrás.-Eu amar um homem. e durante esse tempo permanecemos no hotel. -Nossa!. mexia comigo dia após dia. Ficamos na estação aguardando a partida do TGV.

a coleção de tesouros do Museu começou com Francisco I. gregas. Ao lado do Daniel eu me sentia seguro.. No Louvre também está a Vênus de Milo. Tiramos fotos. esculturas. mesmo assim não ia me entregar por completo e correr o risco de machucar-me depois. Pára de me fazer rir que todo mundo já está me olhando. Durante quatro séculos sofreu acréscimos e construções com reis e imperadores. os luxuosos quartos do rei e da rainha. objetos d'art da Idade Média até 1850. pois adorava mitologia de faraós. adquirindo muitos quadros italianos. o famoso salão dos espelhos. a residência real e Museu da história da França. já nem lembrava mais do Bruno. egípcias e etruscas. Pena que não podemos tirar fotos. era tanta beleza que chegava até a doer os olhos. pois câmeras e seguranças nos vigiavam o tempo inteiro.. aproveitou essa construção e mandou construir um dos mais lindos palácios existentes até hoje na Europa. Aproveitei a oportunidade e caminhei. romanas. um dos mais importantes e famosos museus do mundo.. mas não sei ao certo sobre a veracidade. Claro que eu e o Daniel não 40 . Naquele dia brincamos bastante. Com seus jardins e edifícios. foi muito divertido eu caminhando na ponta dos pés com o nariz empinado. A entrada do Louvre é uma pirâmide de vidro. do século II a. O prédio foi construído em 1190 como um forte. -Caraca! -O quê? -Essa múmia. Depois voltamos à Paris e fomos ao Museu do Louvre. Fiquei impressionado com as artes egípcias. seu filho. sendo transformado em Museu a partir de 1793.. De acordo com o guia. construiu na cidade de Versailles uma morada para sua residência em tempos de caça. corri pelos corredores verdes da vegetação que cercava aqueles lindos jardins. pois o Daniel ria tanto que mal conseguia estabilizar a câmera. Eram aproximadamente sete quilômetros de galerias com milhares de obras expostas. No décimo terceiro dia fomos conhecer o Chaetau de Versailles. impressões e desenhos. possui inúmeras obras de arte. pinturas. Louis XIII em 1623. visitando as obras lá expostas. As imagens saíram um pouco tremidas. -Quer ir para o calabouço? -Não. Todas aquelas múmias originais à minha frente me fizeram tremer de emoção e medo ao mesmo tempo. conhecido como “Rei Sol”. Dizem os boatos que seus vidros são de fabricação brasileira. -O que tem? -Parece uma professora que eu tive no colegial. -Hahaha.. desfilando pelo corredor de nariz empinado. não.. Louis XIV. conhecido também por ter o maior labirinto do mundo. uma mais linda que a outra.. Eu e o Daniel ficamos babando na beleza daquele lugar.. inclusive o Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Caminhamos por boa parte.Eu estava começando a gostar dele de verdade.. filmamos. subalterno? -Nada majestade. inaugurada em 1989. Seu acervo está dividido em sete departamentos por período: Antiguidades orientais.. Em 1360 foi reconstruído para servir como um Palácio Real. Foi engraçado em uma hora que o Daniel foi segurando a câmera e eu fui brincando em ser o rei Louis XIV. -Do que você está rindo. Graças à sua dupla vocação.C.

... paramos para o almoço próximo à Basílica de Sacré-Coeur. -Estou precisando então imaginar a minha conta bancária. Ao chegar na recepção. Merci beaucoup. -Obrigado! 41 . Depois de algumas compras nas lojas ao redor. É a nossa imaginação que nos faz aumentar o tamanho das coisas. tem algo pro senhor) -“Pour moi?” (Pra mim?). que significa “Te amo” em francês. Era um coração vermelho de pelúcia. em seguida ele voltou a me abraçar. Na volta para o hotel perdi o Daniel de vista. foi só um comentário bobo. caminhando tranqüilamente até o hotel.. com o perfume do Daniel e escrito Je t’aime. também imortalizado por Toulouse Lautrec. -Muito infeliz. -Só você mesmo.... Essa dança parisiense nasceu naquele local.” (Muito obrigado) -“De rien.” (Com licença. e de uma hora pra outra comecei a ter diarréia. une chose pour vous. Daniel. Por curiosidade minha assistimos ao famoso show com as sessenta dançarinas. Sussurrando o Daniel comentou: -Essas dançarinas não dançavam sem calcinha? -Não acredito que você vai ficar reparando se elas usam calcinha. mas nem dei muita importância a isso. -Nossa! -O que foi? -Nos filmes e livros esse lugar parece ser bem maior. -Hahaha. -“Oui. -Gostou da surpresa? -E tem como não gostar das suas surpresas? Entregando-me a rosa ele falou: -Comprei isso aqui pra você guardar como recordação. podendo conhecer o local.. Aconteceu de repente. Deveria ser alguma coisa que eu havia comido estragada ou com algum condimento diferente. -Desculpa amor. no quadro Bal du Moulin Rouge. com um botão de rosa nas mãos e um sorriso estampado na face. Não demorou muito e ele chegou. Após sair do toillete fui abrir o pacote que havia recebido. Com medo de me perder pela cidade voltei sozinho. Em seguida descemos uma rua e finalmente chegamos ao Moulin Rouge. uma senhora muito mau humorada parou-me para entregar algo: -“Pardon monsieur.. (Não sei) -“Humpft.” (De nada) Peguei o embrulho que esperava por mim na recepção e deixei para abrir no quarto. -“Je ne sais pas”. -Você me desculpa? Dei um beliscão em seu braço que o fez dar risada.” (Sim) -“Qu’est-ce?” (O que é?).. pois era tanta gente passando pela calçada que mal consegui espaço para caminhar. o bordel mais famoso do mundo. por sinal. mil fantasias e French Can Can. Enquanto subia as escadas comecei a sentir muitas cólicas.conseguimos ver tudo. pois ele só me fez rir com suas piadas que acabou dispersando parte de minha atenção. Sempre tive curiosidade sobre a história que contavam sobre aquele lugar e finalmente eu estava ali.

.. Mãe? -Oi meu filho. para não acordar o restante dos passageiros. então fui lavar o rosto. -Vou me realizar com você. vou arrumar todas as coisinhas dela na malinha. Ao desembarcarmos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (Cumbica). Eu adorava essas fantasias malucas que o Daniel tinha. quase perdemos o avião.No dia de voltarmos ao Brasil. Bati duas vezes a cabeça na parede. meu pai. Enxuguei as mãos e ao abrir a porta levei um susto. Nossos gemidos eram bem baixinhos. -Eu vou buscá-la hoje. Deixamos o banheiro do avião discretamente. levantei-me e fui até o banheiro. -Mas.. Quando ele vinha com aquela cara de cachorro abandonado eu ficava fora de mim. como você está? -To bem. Já era noite e todos os passageiros no avião dormiam. Ficamos em média meia hora fazendo amor. Pedi para que o Daniel me acompanhasse para apresentá-lo à minha família: -Daniel. em ritmo lento e acelerado.. A culpa foi do Daniel. Nos beijávamos como se não nos víssemos há anos. ver minha mãe. Fomos os últimos a embarcar. -Eu sempre tive vontade de fazer amor no banheiro de avião.. Começamos a pingar de suor. que inventou de pegar um ônibus até o aeroporto e mais uma vez ficamos perdidos. pois o ar condicionado não estava dando conta. chamamos um táxi. O Daniel fazia-me perder o juízo. naquele banheiro apertadinho.. vamos comigo? -Até a casa da sua mãe? 42 . Ao reconhecer minha voz. ofegantes.. -Filho. pois não via a hora de rever meu “bebê”. Sem que eu esperasse o Daniel já foi empurrando-me com tudo de volta. Dessa vez ele pegou a poltrona da janela e eu a do corredor. tamanha era à força de suas pegadas.. Dani. Transamos no canto da pia. começou a latir sem parar. suados. voltamos para nossas poltronas e tentamos dormir. um seguido do outro. Não podíamos gritar nem fazer muito barulho. Sem despertar muita atenção das pessoas. Era divertido e ao mesmo tempo dava muito tesão. Muito tesão. sacanagem. Em menos de cinco minutos ele já havia tirado minha roupa e a dele também. Eu estava ansioso. Meu braço já está curado e eu já posso dirigir. vou até a casa da minha mãe buscar a Dani. -Está bem. -Ta bom meu filho. -Poe o telefone no ouvido dela? -Dani. exalando sexo.. -Outro! Deixei as malas no canto da sala e desci até a garagem para pegar o meu carro. desejo. sexo. era uma mistura de sentimentos que me deixava louco. Beijo. Minha mãe colocou o telefone na orelha dela e comecei a chamar seu nome. Quando chegamos em casa fui logo telefonar para minha mãe: -Alô? -Alô.. Eu não estava conseguindo pegar no sono. mãe.. Embora eu achasse desnecessário.. Sem que fossemos notados. trancou a porta e prendendo meu corpo com o seu começou a me beijar. inclusive o Daniel. mãe! Acabei de chegar. como está meu “bebê”? -Está aqui do meu lado.. o Daniel insistiu em me acompanhar até em casa.. mãe. ela chorou todas as noites olhando pela janela. além da adrenalina subir á mil.

. Levei sua mão até meu coração. Eu te amooooooooo.. Esboçando um sorriso ele exclamou: -Sério!? -Sim. me tocava. -Você não está em condições de pegar peso ainda.... Com a língua tocando seu lábio superior ele puxou-me pela gola camisa. descemos para pegar o carro. Você quer me fazer chorar? -Veja.. Ele não conseguia conter sua alegria e começou a gritar pela janela. Dessa vez eu fui dirigindo.. Ele abriu o teto solar do carro e ia subindo quando eu o puxei: 43 ... Os carros ao passarem por nós buzinavam. pois você nunca me pediu em namoro. Por que isso? -Basta ouvir sua voz para ele ficar assim.. Falei algo de errado? -Estou surpreso. Namorado. -E também é a primeira vez que eu digo que te amo! Fiquei emocionado ao ver seus olhos cheios de lágrimas. Quero te apresentar para minha família. -Nossa!.... era difícil resistir ao charme e às pegadas do Daniel. a forma com que tratava... Te amo. carinhos e calor. -Hum.. mas eu posso montar para você uma série de exercícios e acompanho todos os dias seu desempenho... Vou adorar. Eu vou sim. Eu te amooooooooo... mas ele insistia em dizer a todo mundo sobre nosso amor. com metade do corpo pra fora: -Bader. agora preciso dizer a todo mundo.. Eu gosto tanto de você que às vezes chega até a doer. Bader. Mas dizer que te amo eu já disse... que palpitava só de ouvir sua voz....... você vai cair daí. -Nossa.. -Eu também! -E se você me esquecer um dia? -Não irei te esquecer. Era encantador o jeito que ele olhava-me.-É. agora que eu sei que amo você. Depois de aproximadamente dez minutos de beijos e apertões..... pois meu braço já estava bem melhor. -Do quê? -Meu namorado. Enquanto eu manobrava o carro falei: -Não vejo a hora de voltar para a academia.. porque você é presente em minha vida e dela nunca mais vai sair.... -Hum... Por mais que eu tentasse... Como posso esquecer se ele me lembra todo dia de você? -Sabe. quero muito conhecer a família do meu. Te amo. -Se você soubesse o quanto eu sonhei em ouvir isso de você.. deu-me um abraço e começou a me beijar com muitos afagos. Eu tentava puxá-lo de volta... -Eu já caí de amor por você há muito tempo.. -E precisa? Você ainda tem dúvidas de que eu gosto demais de você? -Não tenho mais... -Nossa!.. Aquele movimento pélvico que ele fazia de ir e vir deixava-me trêmulo. É a primeira vez que você se declara... Na hora seu rosto se abriu uma luz. -Pára com isso.. Bader.

uma foto ou até mesmo uma data.” -Olha aquele carro ali?... deixa eu te apresentar o Daniel. Juntando-se a nós meu pai iniciou o assunto: -O que você faz da vida. Espero que você faça meu filho feliz e não o faça chorar como o de antes. -Se depender de mim.... pois já estava se sentindo em casa. é que eu falo sempre pra ela que se eu não estiver por perto.” -”Fiquei na merda. arrancou meu coração depois desapareceu. -Prazer. -Isso que é amor.. Buzinei na porta e escutava a Dani latir sem parar. uma peça de roupa. nas areias do destino. -O que tem? -Repara que eles estão cantando com a gente. Sentamos no sofá da sala. junto com sua noiva. É incrível como existem coisas em nossas vidas que ficam marcadas para sempre.. a Millena... Pelo visto. -É verdade! Chegamos na casa da minha mãe. Aumentei o volume enquanto cantávamos juntos. -Desculpa. pulando dentro do carro pela janela. rapaz? -Eu sou Professor de Educação Física. me deixou no boqueirão.. -Mãe. -”Subiu a serra. -Estava com saudade do papai? -Filho. além de matar a saudade que eu estava de todos eles. o Daniel ia se dar muito bem com minha família. ela olhava pra lua toda noite e ficava chorando. não se incomode.. hein. filho.. pai do Bader. O Rodrigo sempre teve bom gosto para suas namoradas. agora sente aí e põe o cinto antes que eu leve uma multa. -Ah mãe. -Ta bem. pois os cães têm esse sentido bem aguçado. Ela deveria ter reconhecido meu cheiro. Você já gritou o quanto você quis.. Os carros ao lado passavam por nós e dava para notar que as pessoas gostavam e cantavam conosco. -Prazer. incrível. Pode ser uma música. A coitada até chorava de felicidade em me ver. um perfume. -Eu sou Felipe.-Chega. Ele ficou um pouco acanhado no começo. Daniel! -Prazer.. com os vidros abertos. as lágrimas que seu filho derramar serão somente de felicidade. O que importa é as boas lembranças que a vida nos trás e a saudade que elas deixam. Minha mãe abriu a porta e a Dani passou por baixo de suas pernas. seu Felipe! -Pode continuar sentado. Entramos para tomar um café e conversar um pouco. amor! Liguei o rádio e começou a tocar “Lá vem o alemão” dos Mamonas Assassinas.. Peguei na mão do Daniel e abracei a Dani. A Dani é muito inteligente. -Boa noite! -Boa noite! Você que é o Daniel? -Sim... mas depois viu que meus pais encaravam aquilo com naturalidade e foi se soltando.. Nessa hora meu irmão mais velho chegou... Vivian. é só olhar pra lua que me torno presente. -Vamos entrar. Tudo bem que cada mês era uma diferente 44 .

Millena! -Prazer. Claro que terão mais.. Rodrigo? -Desculpa.. Bader? -Eu topo também. -Valeu.. muito inteligente... beleza. Ela foi a única que conseguiu segurar as rédeas do meu irmão. eu adorei... É maravilhoso! fomos também ao Moulin Rouge! Com ar de desejo meu irmão exclamou: -Nossa! Que inveja. sou o Daniel! Próximo ao meu ouvido ela comentou: -Você tem bom gosto. e noivos há dois... -Nós? -É. -Humpft. Corpo muito bem cuidado. essa é a Millena. -Millena!. Abrindo uma lata de cerveja o Rodrigo falou: -O quê acontece é que a Millena adora o Bader e morreria se ele não fosse padrinho dela. né? -Hahaha. Bader! Quanto tempo. Você sabe que só tenho olhos pra você.. -Quando eu fui era verão.... uma pessoa bonita em todos os sentidos. E Versailles. Simplesmente linda! -Estava muito frio por lá? -Razoável... Pensamos em chamar você e o Daniel pra serem nossos padrinhos... Vocês dois não mudam mesmo. -Deixa eu te apresentar o Daniel. Surpreso o Daniel concordou: -Por mim. -Boa noite.. mas confesso que seu gosto para mulher era indiscutível. Visitamos aquele restaurante que você sugeriu perto da Basílica.. 45 . -Que bacana! Já estava na hora mesmo. Cabelos cobreados todo repicado. -Mas bem que você poderia dançar assim pra mim qualquer dia. Tudo bem? Beleza Rodrigo? -Firmão cara. Millena.. Segurando em minha mão ela sentou-se ao sofá perguntando: -Que saudade. -Depois conversamos sobre isso... olhos verdes. amor. Ansiosa a Millena perguntou: -E então. você foi conhecer? -Mas é claro. um calor insuportável. fazia faculdade de fisioterapia.... -Prazer.que ele arrumava. -É assim. como foi em Paris? -Foi ótimo.. A Millena era uma mulher muito simpática... deixando minha mãe feliz da vida.. -Bader. né. Me conte.. temos uma novidade pra você.. Os dois já estavam namorando há três anos. -Então. mas não perdeu o charme.. -Qual? -Eu e seu irmão já temos data marcada para o casamento. Bader. amor. Parabéns. Amor..... -Falou tudo. já morou fora do país. noiva do meu irmão.

Na volta para casa fomos conversando sobre sermos os padrinhos do casamento.Meu pai foi buscar um espumante na cozinha e trouxe para comemorarmos. Ficamos por mais de quarenta minutos conversando na sala. -Não mãe.. diferente do Bruno que preferia permanecer afastado. Quer motivo maior? Começamos a nos beijar na sacada da sala. eu e você? -Brindaremos o quê? -Brindar o nosso amor. eles são pessoas livres de preconceito. Humpft. pois ainda íamos pegar a estrada para voltar à São Paulo. Na rua as crianças brincavam.. Nunca me trataram diferente dos outros irmãos.. adultos conversavam. Pode considerá-la sua também. precisamos ir. minha casa. Procurei não beber muito. Gostaria que a minha fosse assim. Acha mesmo que eu seria capaz de deixar de amá-lo por isso? -Nossa!.. Aquele segredo já estava me sufocando e cheguei pra ela já desabafando. quero a minha cama. o Daniel levou-me até o canto e falou ao meu ouvido: -Muito legal sua família. -O que me deixou feliz foi ver que eles aceitam nosso relacionamento com muita naturalidade.... Quando contei para minha mãe que era homossexual.. enquanto eu e o Daniel nos beijávamos no escurinho. -Pelo que vi.. ela estava costurando uma camisa minha antes de eu ir pra escola. -O lado homossexual que é mostrado por aí não condiz com nossa realidade.. ouvir seu choro. mas depois passei a amar a idéia. pois me apoiavam e davam-me força em tudo que eu precisava. -Mas nós voltamos outro dia.. -Vou te esperar. -Eles são uma comédia. -Adorei ter conhecido sua família. Sua mãe é demais. Era noite de verão. filho. Exausto..... Claro que estranhei. já o Daniel ficou empolgadíssimo.. esperei um ano pra ouvir você dizer “mamãe”.... interrompi o bate papo dos dois: -Pai. aí ela me sentou na cadeira da cozinha. Enquanto todos brindavam. e fomos embora. Ser 46 .. Meu pai e o Daniel tornaram-se praticamente amigos. pode deixar. ou vocês vão nos visitar em São Paulo. Millena. -Mas eu vou sim Bader. eu sofri pra ter você. passei nove meses esperando pra ver sua carinha. em família. Só faltou o Pedro para completar a família. Nos despedimos de todos. mas ele havia ido acampar com uns amigos da escola. Sempre achei-me um cara de sorte por ter a família que eu tinha. -Vamos brindar. De início eu fiquei surpreso.. -Humpft. -Ah que pena...... Contei que era gay e ela perguntou: E?. pena que a minha não é assim.. Passava noites em claro cuidando das suas cólicas.. além de fazer de tudo para afastar-me também. -Mas já? Levantando-se do sofá minha mãe disse: -Dorme aqui. olhou nos meus olhos e disse: Homossexual não ama? Não respira? Não chora? Não sofre? Onde está a diferença? Você saiu daqui de dentro. eles te adoraram também. Desde adolescente meus pais sabem sobre mim.

Somente temos preferência por homens.. -É verdade... agora estou ficando roco. também pensava assim. e nem havia dado tempo de abrir as janelas ainda. -Hahaha. Voltei à cozinha e tomei um antitérmico para baixar a temperatura. Peguei o prato e o copo. A visão quando se está dentro é bem diferente da que vemos de fora. -Nós somos homens comuns. -Te amo! -"Moi aussi". -Pode deixar que depois eu te mando em CD. Levei a mão à testa e notei que estava com febre. Desculpa.. -O quê você está fazendo ai de bom? -Eu jantei há pouco tempo e fiquei aqui vendo um pouco de TV. Me acabei de rir com o vídeo que gravamos em Versailles. gosto só de você. colocar peito. Ao chegar a Dani foi cheirar todos os cantos. se não vou pensar que está falando com a cachorra. Ficaram lindas! -As que tirei com minha máquina eu passo amanhã. mas nada interfere em nossa personalidade ou capacidade de sermos o que somos. Fiquei deitado no sofá da sala assistindo um documentário até o telefone tocar: -Alô? -Alô. -Deve ser a diferença de temperatura.. Parados na rua do condomínio do Daniel. Do nada fiquei com febre. Bader? -Oi Dani! -Não me chame de Dani. enquanto isso coloquei as coisas dela em um dos quartos e fui desfazer minhas malas. Logo depois segui para minha casa. Em seguida vesti uma cueca samba canção e fui ver TV. Deve ter ficado engraçado. -Hum.. Após o banho. -Pode ser. -É... usar batom.. não vou trabalhar mesmo.. demos um longo beijo de despedida.. iguais a outros homens.. E você o quê estava fazendo? -Eu estava passando pro computador as fotos que tiramos. -Hahaha. Vou esperar ansiosamente. amor. não é isso.. Para livrar-me do cansaço fui tomar um banho com os cosméticos que trouxera da França. 47 ... cansado e com fome. -Nos vemos amanhã então. Ao final do jantar. -Ficou demais! Amanhã eu vou até aí para supervisionar seus exercícios... fiz uma salada de alface com tomate e um suco de abacaxi... coloquei a louça suja dentro da lavadora e deixei-a encarregando-se da lavagem enquanto fui escovar os dentes...homossexual não quer dizer que eu vá querer me vestir de mulher. Tirei todas as roupas e as coloquei sobre a cama.. O mais estranho era que a noite estava quente.. -Eu não sei o que está acontecendo... eu sei muito bem como é. Mas eu não gosto de homens. Ao entrar na sala comecei a sentir frio... fui jantar na sala de frente para a TV sentado no sofá. -Beijão. lá estava tão friozinho.. -Você está com a voz um pouco roca.

Corri para o banheiro. porque as roupas da viagem estavam todas sobre minha cama e acabei ficando com preguiça de tirar. A febre não baixava. 48 .. Depois de tomar café. Será que eu havia comido alguma coisa que me fez mal? Mas o Daniel e eu comemos a mesma coisa. Olhei-me ao espelho e me achei um pouco abatido. Era uma sensação horrível. Pensei que fosse um liquidificador. Durante a noite inteira eu passei mal. O melhor a fazer seria ir ao médico mesmo. haviam ficado lindas. ajoelhei próximo ao vaso e tentei vomitar. com febre alta. Como o porteiro já o conhecia. desci até a garagem e peguei o carro para ir à uma farmácia vinte e quatro horas comprar outro remédio para febre e um para diarréia. E isso também. Por volta das nove da manhã o Daniel chegou em casa. -Jura?. barras de cereais. fui passar as fotos da câmera para o computador. amor! -Bom dia! -Trouxe isso aqui pra você. indo dormir logo em seguida... A foto ficou tão bonita que mandei fazer um pôster para presenteá-lo. Dessa vez foi uma caixa de bombons de chocolate com licor. comecei a sentir ânsia de vômito. e como sempre ele trouxe algo para agradar-me.Desliguei o telefone e a TV. Troquei de roupa.. -O que é? -Um CD. Também imprimi para colocar no porta-retrato e transformei em papel de parede da minha área de trabalho. Coloquei uma toalha branca na mesa como de costume. suco de maracujá. como todos os dias eu fazia. Na manhã seguinte acordei cedo e fui preparar o café. mas não consegui. Quando ia me deitando outra vez. com cappuccino. Fui atender à porta. e um mal estar vinha me consumindo cada vez mais. -Bom dia... e só em mim deu problema.. de rosto colado ao meu. Tinha uma em que o Daniel estava abraçado comigo no castelo de Versailles. brioches. salada de frutas. Tive que ocupar o outro quarto.. enfim. costumava permitir que ele subisse sem interfonar. Realmente. Senti muita fraqueza ao levantar da cama. Levantei para ir ao banheiro e estava mais uma vez com diarréia. pão de queijo. Só não entendi o por quê daquilo tão de repente. Meu corpo estava dolorido.

olhando nos meus olhos. -Sim. O vento soprava pela janela... -Que é um CD eu sei... O Daniel segurava em meus pés. -Assim? -Perfeito! Agora você vai subir e descer 30 vezes sem parar. assim como ele. e de fundo a Torre Eiffel... -O que foi? Machuquei você? -Não. que depois de desabotoada saiu facilmente. com uma pitada de prazer. Agora deite aí no tapete.. O suor que corria pelos nossos corpos eram uma mistura de tesão e desejo. Depois de completar as séries. o Daniel segurou minha cabeça. Coloquei a caixa de bombom sobre a mesa e fui ver o que tinha no CD que ele levoume. enquanto eu me exercitava. Abraçado a mim o Daniel perguntou: -Gostou? -Claro! Só você mesmo.. Quero saber o quê tem nele. 49 . Pelo que inicialmente senti ele parecia estar sem cueca. As mordidas na orelha que ele dava faziam-me viajar... confundido-se com nossos suspiros. De frente pra mim ele acompanhava a série de exercícios. chupadas no pescoço.. acariciando parte por parte do meu corpo. olhou dentro dos meus olhos e colocou seu corpo formado de músculos por cima do meu. o Daniel esfregava suas coxas entre as minhas... Gemidos de prazer. -Coloca lá no aparelho de DVD que você vai ver.. eu iria querer fazer todos os dias..-Hahaha. -Ai. Suas coxas grossas com pêlos serrados esfregavam-se às minhas. A sua respiração já estava ofegante.. Suas pegadas fortes exploravam meu corpo como um terreno desconhecido. apenas com uma bermuda vermelha estilo surfista. Com os dentes ele foi arrancando meu short. prendendo-me ao chão de maneira que só sairia dali quando ele deixasse. deitou-me ao tapete... Começamos com a Abdominal... Como se não bastasse. lambidas na orelha.. Segurando em minha mão ele falou: -Agora vamos lá fazer uns exercícios. colocando-me na cama em seguida.. Então deixa comigo que ainda quero ver você ardendo como uma fogueira. confirmando a minha suspeita de que ele estaria sem cueca.. Vestindo uma regata branca. No roçar do seu corpo ao o Daniel ia tirando sua bermuda. A capa era estampada com nossa foto. arranhões. A cada vez que eu aproximava-me dos meus joelhos. Fungando em meu ouvido ele levou sua mão por baixo da minha camiseta. -Eu vou segurar seus pés. ganhava um selinho dele. -Hum. Eu ainda estava de pijama.. -Tudo bem. Foi o tesão mesmo. trouxe para junto da sua e ficamos ali na sala nos beijando por uns cinco minutos. deixando-me totalmente nu. Com seu pé esquerdo o Daniel fechou a porta que estava aberta. misturando-se com a minha que seguia em ritmos desordenados. Você vai cruzar os braços de forma que suas mãos fiquem no seu ombro. Minha pele ficava toda arrepiada quando sentia sua mão com calos me tocar. no mamilo.. Deixa eu afastar essa mesinha daqui e.. No auge do clima ele pegou-me no colo e me levou para o quarto. Se todos os exercícios fossem como aquele. muito tesão.

furiosa: -Daniel. e meu único medo era que aquela história de amor por algum motivo um dia viesse acabar. Meses se passaram. se amando. até entrar no box e fechar a porta. sob seu poder.. te amo cada dia mais. Passamos a manhã inteira no quarto. Como ele sempre teve muito bom gosto para esse tipo de ocasiões. tudo novo. No dia em que estávamos comemorando o aniversário de sexto mês de namoro havíamos marcado de jantar fora.. -Fala. -Hahaha.. gostoso. com a água caindo sobre meu rosto. Levantei delicadamente para não acorda-lo e fui tomar banho. Às vezes eu me perguntava se merecia tanto.. por quê? Jogando algumas fotos sobre sua cama ela questionou: -Amigo que beija na boca? -Do que a senhora está falando? -Estou falando dessas fotos. Antes do Daniel passar em minha casa... tomando posse do meu físico e meu coração: Com sua boca próxima a minha ele perguntou: -Está querendo fugir de mim? -Imagine. Parecia estarmos vivendo um sonho. camisa.-Ai Bader... preferi deixar esse detalhe por conta dele... beijar você.. tomar banho com você. Eu e Daniel já íamos comemorar seis meses de namoro. Durante o dia eu fui ao shopping comprar um presente e roupa nova para aquela noite especial com meu petit (Era assim que ele me chamava). tornando-me indefeso.. -Mas não vai acabar. se curtindo. No lençol ficou a mistura do nosso perfume com nosso suor. confie em mim. sapato. Fiquei embaixo do chuveiro de olhos fechados.. cinto.. tocar você. O Daniel ficou encarregado de escolher o lugar. E nem me chamou? -Você estava dormindo tão gostoso.. Encostei a porta do banheiro e deixei a do box aberta. Foi lindo. Nos entendíamos em todos os sentidos. sentir você.... talhado em Ideograma Japonês que significava "Amor". Você é muito gostoso. Nossa.. Seu corpo prendeu-me à parede. mãe. Adormecemos agarrados. Comprei calça. O Daniel ia falando e chegando mais perto de mim.. To gostando muito de você. mais eu o amava. pele com pele... nunca havíamos brigado.. como passou rápido! A cada dia que passava. De presente escolhi dar a ele um pingente de ouro branco com brilhante. ele arrumava-se em em seu quarto quando sua mãe entrou sem bater. Acordei quase uma hora da tarde. Finalmente havia descoberto o significado de "fazer amor"... -Quem é Bader de que você tanto fala? -Meu amigo. -Gostoso é estar com você.. -Eu também amo você! -Humpft. Tenho medo que esse sonho acabe. -Você que é um tesão. Galanteador.. até o Daniel aparecer dizendo: -Banho?. 50 ..

Passando perfume o Daniel questionou: -O quê é pecado? Quem disse que é pecado? 51 . seremos tratados como "gente deles". e com a mão ao rosto lamentava: -Oh Deus! Por que isso tinha que acontecer comigo? Abaixando-se frente à ela o Daniel falou: -Humpft. pulseiras. Eu não quero ter um filho bicha..Tremendo ela pegou a foto em que estávamos abraçados no Louvre.. Deixa de ser falso. -Eu A-M-O o Bader. Quem vai herdar os patrimônios que seu pai deixou? -EU vou herdar. mãe.. O quê a sociedade vai dizer? -Foda-se o quê a sociedade vai dizer. que chega invadindo meu quarto dessa maneira como se tivesse algum poder sobre minha vida. O fato de estar me relacionando com um rapaz. só que amando um outro homem. não faz de mim menos homem do que qualquer outro. -Não fale assim do Bader.. Enquanto tivermos dinheiro para freqüentar os mesmos lugares que eles.. Mas eu continuo sendo o mesmo Daniel de sempre... -Mas Daniel... -Meu sonho era ser avó. Eu estou feliz com meu corpo. por silicone e nem cortar meu pinto... servindo como prova "do crime". Não tenho intenção de usar colares. -Quem vai dar continuidade ao nome da família? -Chega.. Minha vida sem ele já não tem mais sentido. Irritada ela levantou-se da cama dizendo: -Só falta você me dizer agora que quer meus brincos emprestados.. -Me respeite. -Olha como à senhora fala comigo. -Mas meu filho.. O tempo todo você só pensou em si mesma. Deixe de ser egoísta. Batendo a porta de seu closet ele gritou: -Lave a boca antes de tocar no nome dele... -E eu? Meu coração? Meus sentimentos? Você pensou em mim? -Filho.. Daniel! -Me respeite a senhora. -Então olhe você as companhias com quem anda saindo. Não tenho motivos para esconder de ninguém os meus sentimentos. Chorando ela sentou-se à beira da cama. No verso do retrato havia uma dedicatória minha para ele. Nervoso o Daniel levantou-se: -Já chega.. -O quê há de errado com essa foto? -Eu não acredito.. -Vai brigar comigo por causa desse...... é pecado. mãe. Desesperada ela pegou em sua mão e questionou: -Meu Deus!.. em nossa viagem à França.... continuo sendo o mesmo Daniel de antes. Espalhando aqueles papeis pelo chão ela falou desesperada: -Você acha fácil para uma mãe abrir uma pasta no computador e encontrar um monte de fotos do único filho dela beijando outro homem? E depois encontrar uma foto com uma dedicatória de amor? -Mãe.

Fui atender correndo. vesti a roupa nova e fiquei na sala esperando o Daniel ir buscar-me.. O padre. -Você. tchau. -Mas que comparação estúpida.. já que a filosofia da igreja é que o sexo só deve ser praticado para procriar. A igreja.. ainda existem pessoas conservadoras.. -Namorado.. e dão o maior apoio. -E. quentes. -Por a senhora amar sua mãe. Quase perdi as unhas de tanto que roí.. O Bader é um cara legal e vai gostar de conhecer a sogra dele... assim como eu adorei conhecer a minha. -Daniel.. -Como você está cheiroso! -Estou cheiroso pra você.. Passei meu perfume para ficar cheirosinho. "petit"! Já podemos ir? -Sim. Tomei banho... eu quero que a senhora entenda uma coisa: Assim como a você ama sua mãe. Não tem nada a ver.. -Mas você já é cheiroso sem passar perfume.. Já conhece a mãe dele? -Não só a mãe... Vestindo sua jaqueta o Daniel disse: -Estou de saída. irmão e a cunhada. Ao abrir a porta ele entrou com tudo me beijando. ninguém nasceria estéril... Isso é um preconceito social.-O padre disse na missa quê. Tocando em sua face eu disse: -Te amo. Eles sabem que nós namoramos sim. Alguém disse que isso era certo e outro alguém obedeceu. ansioso para ver aquele rostinho inocente que ele tinha. Apesar do mundo vim se modernizando.. Vou conversar com ele. 52 .. com a mente fechada para as mudanças que o mundo sofre. mas ao mesmo tempo carinhoso. só quis dar o exemplo de que você não pede para amar uma especifica pessoa ou sexo. Por volta das nove horas da noite a campainha tocou. Fui até convidado para ser um dos padrinhos do casamento do irmão mais velho dele. -Onde que Deus diz que é pecado amar? Se homossexualidade não fosse natural.. eu amo o Bader. Pelo menos eu vou poder conhecer esse seu. não é considerada homossexual.. Eles sabem que vocês dois tem um caso? -Não sou homem de casos. Seus beijos eram selvagens. Às vezes o Daniel fazia um estilo cafajeste que me levava à loucura. mas também o pai.. preconceituosas.. -O que isso tem a ver? -Nada.. prendendo meu corpo junto à estante da sala.. Enxugando as lágrimas sua mãe perguntou: -Humpft. sabia? -Eu também te amo. Eu adorava quando ele fazia isso. Seres humanos esses que passarão o resto da vida processando a mesma filosofia.... Claro que não é fácil para uma mãe saber que o filho é gay.. A mesma igreja que no século retrasado dizia que negros não eram filhos de Deus? A mesma igreja que pede dinheiro na missa? Que matava as pessoas na Santa Inquisição? -Bader. Mãe. racistas. -Ah.

-Humpft. Liguei o ar-condicionado exclamando: -Nossa!..Fui pegar minha carteira que estava no criado-mudo do meu quarto.. Olha essa vista do Municipal?. Tiramos uma foto com ele de fundo. Apesar de ser pelo celular a resolução ficou ótima. Nossa relação era aquele tipo de "amor perfeito". -Podem me acompanhar. -Tudo bem. -E você é minha inspiração. Eu tenho uma mesa reservada em nome de Daniel Marzin. Durante o jantar comemos pato ao molho de manga... -Deixa que eu tiro pelo celular. Aqueles carinhos que ele fazia em minha mão faziam-me relaxar. quatro. Sorrindo ele olhou em meus olhos. Antes de acabar o jantar ele levantou-se da mesa e disse que voltaria logo. apaixonar. -Boa noite! -Boa noite. Ta muito calor.. A que estava reservada para nós estava localizada bem ao canto. como sempre.. Entramos no carro e seguimos para o lugar onde iríamos comemorar nosso aniversário de namoro. Entramos na caminhonete dele e seguimos pelas ruas de São Paulo. O local era uma espécie de bar/restaurante com música ao vivo. As ruas do Centro estavam vazias. impecável. Ligando o pisca-alerta o Daniel parou o carro em frente ao Teatro Municipal. enquanto isso o Daniel abriu a porta da sala e ficou segurando-a até eu sair. Reparei que o pessoal freqüentador do local era um público jovem. e a decoração era em estilo rústico/moderno. Caminhando entre as mesas eu ia observando o lugar. Seguimos o garçom até chegar ao lugar reservado para nós. Fomos até o estacionamento de visitantes do condomínio onde ele havia estacionado seu carro. pena que não se pode arriscar muito andando por essas ruas. Tocando em minha mão o Daniel perguntou: -Gostou do lugar? -Adorei! Você sempre tem bom gosto. com os vidros do carro fechados em uma noite quente. mas ao comer comprovei o quanto era bom. Sempre gentil comigo e com todo mundo.. Respirei fundo e fechei os meus. A música que tocava era ao vivo por uma garota muito talentosa. acertou... -Ligue o ar. Haviam mesas para duas. Uma vela que boiava sobre um recipiente com água decoravam o ambiente. -Obrigado.. Havia muita gente bonita e os funcionários bastante simpáticos. Tudo lindo.. sentado à mesa terminando de comer meu bolo de chocolate. Vou parar o carro... seis e oito pessoas. Olhando pela janela comentei: -Sabia que eu adoro essa parte da cidade? -Eu também gosto muito do Centro à noite. -Vamos tirar uma foto? -Mas eu não estou com a câmera aqui... Fiquei aguardando.. -Já volto. 53 . Confesso que no início quando fiz careta... sofisticado e a comida era ótima. um ambiente muito agradável. e que meu amor. isso era mais um de seus encantos.

... às vezes fechava seus os olhos. o amor que sinto por você é tão grande que às vezes até dói.. Ta ruim pra disfarçar Entre nós dois Não cabe mais nenhum segredo Além do que já combinamos No vão das coisas que a gente disse Não cabe mais sermos somente amigos E quando eu falo que eu já nem quero A frase fica pelo avesso Meio na contra-mão E quando finjo que esqueço Eu não esqueci nada 54 . jamais passaria batido aquela data. e algo de especial ele iria criar. foi a melhor coisa que já me aconteceu na vida. eu vou cantar uma música em sua homenagem. “Eu e você Não é assim tão complicado Não é difícil perceber Quem de nós dois Vai dizer que é impossível O amor acontecer Se eu disser que já nem sinto nada Que a estrada sem você é mais segura Eu sei você vai rir da minha cara Eu já conheço o teu sorriso. Bader. Fiquei sem reação na hora.. cantando com a alma. Uma voz começou a falar ao microfone e quando olhei para o palco. Conhecer você Bader. Olhando para mim ele continuou a falar: -Humpft. No telão passavam várias fotos nossas tiradas na viagem à Europa. leio teu olhar Teu sorriso é só disfarce E eu já nem preciso Sinto dizer Que amo mesmo. Hoje estou comemorando seis meses de namoro. mas especial como ele era. Com você eu quero viver pra sempre.. Enquanto ele tocava. parecia tirar a música do fundo do coração.De repente a música parou de tocar. avistei o Daniel sentado no lugar da garota. Em nome de todo esse amor que sinto por você. a verdadeira declaração de amor. com um violão na mão se declarando pra mim. -Boa noite a todos! Bem. Pra mim só iria ter o jantar. seis meses de felicidade e alegrias.

enquanto isso eu tentava conter minhas lágrimas. eu me aproximo mais E te perder de vista assim é ruim demais E é por isso que atravesso o teu futuro E faço das lembranças um lugar seguro Não é que eu queira reviver nenhum passado Nem revirar um sentimento revirado Mas toda vez que eu procuro uma saída Acabo entrando sem querer na tua vida. e para se fazer algo assim tem que amar muito a outra pessoa. Os casais se abraçavam e trocavam carícias. 55 . e acabou virando “nossa” música. Só vivendo uma situação assim para saber como é a sensação de receber uma declaração de amor em público.” Composição: Dudu Falcão Intérprete: Ana Carolina Essa música tinha tudo a ver com nossa história. O ambiente todo começou a cantar junto com ele. eu me aproximo mais E te perder de vista assim é ruim demais E é por isso que atravesso o teu futuro E faço das lembranças um lugar seguro Não é que eu queira reviver nenhum passado Nem revirar um sentimento revirado Mas toda vez que eu procuro uma saída Acabo entrando sem querer na tua vida Eu procurei Qualquer desculpa Pra não te encarar Para não dizer De novo e sempre a mesma coisa Falar só por falar Que eu já não tô nem aí pra essa conversa Que a história de nós dois não me interessa Se eu tento esconder meias verdades Você conhece o meu sorriso Lê no meu olhar Meu sorriso é só disfarce Por que eu já nem preciso E cada vez que eu fujo.E cada vez que eu fujo. Foi impossível não se emocionar.

De corpos nus trocávamos calor humano. aproximando ainda mais meu corpo do seu. Por todos os cantos da suítes haviam pétalas de rosas vermelhas espalhadas.. Pelo visto todos adoraram. Sem enxergar nada reclamei: -Mas está escuro. Subi alguns degraus tropeçando.. Quando já estava quase tirando a venda senti o carro parar... Adorei. mas ele disse que era segredo. Ao lado havia uma garota acompanhada pelo seu namorado. lençóis brancos. Fiquei um bom tempo andando de carro sem ver nada. Após destravar as portas o Daniel segurou minha mão e pediu para que eu não estragasse a surpresa preparada por ele. que ao ver-me emocionado disse: -Parabéns pelo namoro e pelo namorado. pediu para que eu fechasse os olhos e colocou uma venda em meus olhos. Pouco tempo depois de deitarmos à cama já estávamos em brasa.. quatro travesseiros. -Obrigado! -Vocês têm muito bom gosto! Sorrindo o Daniel parou à minha frente. O quarto era bem sofisticado. Perguntei aonde estávamos indo..Depois de cantar a música o Daniel foi aplaudido de pé. Em seguida ele pegou pela minha mão e foi conduzindo-me. Estava tudo escuro. então acabei deixando-a onde estava. -Você que fez tudo isso? -Não. pois não sabia o que ele iria fazer colocando aquela venda em meus olhos. Até o pessoal da cozinha foram ouvir ele cantar. eu te amo tanto que às vezes chega até a doer meu peito. Quando ele ascendeu à luz meus olhos brilharam. Ao descer do carro comecei a ouvir alguns ecos. meu futuro é você comigo. Era maior que eu. Abraçando-me forte o Daniel perguntou: -Gostou? -Nossa!. quebrado por um barulho de porta batendo. -Ficou lindo.. Enquanto ele acariciava minha face eu disse: -Petit. no chão.. Abraçados eu já podia sentir as batidas do seu coração. Seu braço atravessou minhas costas. A cama era enorme. até no banheiro. Meu coração disparou quando o avistei dirigindo-se até a mesa onde eu estava. Nesse momento o Daniel pediu para que eu retirasse a venda: -Já pode tirar. Era um quarto de motel. na cama.. Deveríamos estar em uma garagem. No banheiro tinham dois roupões de banho. Sobre aqueles lençóis brancos em contraste com o vermelho das pétalas nos deitamos. mas contratei alguém para deixar do jeito que eu queria. -Só de pensar em ficar longe de você um dia eu tremo.. Já não conseguíamos distinguir o que era gemido de dor e de 56 . Dentro da banheira boiavam algumas velas aromáticas. Logo depois um silêncio tomou conta do ambiente. e sobre a cama havia um urso de pelúcia enorme branco com um laço vermelho no pescoço. No início fiquei com medo.. não consigo mais viver minha vida sem você. mas confiei no amor da minha vida e permiti. Fui caminhando de mãos dadas com ele até o carro. chinelos. -Lindo é você! Começamos a nos beijar.. escovas de dente e outros produtos de higiene pessoal.

Ela chorou no começo. -Humpft. mas é uma obrigação respeitar. Pronto. Minhas pernas tremiam. -Mas como? -Ela abriu uma pasta no computador onde eu tinha guardado nossas fotos e. Saímos do motel e seguimos em direção a casa do Daniel. Seu corpo coberto de pêlos serrados esfregava ao meu corpo liso. Tive que contar a verdade. Confesso que eu estava com um pouco de receio em conhecer minha sogra. Sua mão grande puxava meu cabelo com cuidado para não machucar-me. sem intervalos até o amanhecer. na hidromassagem. Espero que ela tenha mesmo entendido numa boa. e por sermos jovens acho que contribuía muito. Às vezes ele tremia quando sentia uma “fisgada”. abraçado junto a mim ele contou-me sobre sua mãe ter descoberto tudo entre nós: -Humpft. -Isso é verdade. três andares. -Hoje eu te levo lá pra conhecê-la. mas depois teve que respeitar. O melhor disso tudo. um corpo apenas. juntando seu fogo com o meu. Tenho uma coisa pra te contar. -Já? -Sim. -Será que ela aceitou numa boa? -Se aceitou eu não sei.. em movimentos desordenados.. em seguida esboçava um leve sorriso de satisfação. -O quê? -Minha mãe descobriu tudo sobre nós ontem. -É. sete em uma noite. aumentando nosso tesão. nos tornávamos uma fogueira impossível de apagar. -Caramba!.. Transamos na cama.. -Viu a foto do nosso beijo.. no chão... -Ela disse que quer te conhecer. Agora que eu ia infartar.. Meu coração quase saiu pelas orelhas quando o Daniel disse: -Chegamos. O Daniel tinha muito fogo.. Depois ela foi vasculhar minhas coisas e encontrou uma foto nossa onde você fez uma dedicatória para mim. Ninguém é obrigado a aceitar a homossexualidade.... sexo selvagem.. e se eu permitisse ele conseguia seis.. Além de fogoso ele era gostoso. E se ela não gostasse de mim? Fiquei com medo do que estava por vir..... O Daniel parecia mesmo ter vindo de uma família de classe média alta. é que agora eu não vou precisar mais me esconder de ninguém. 57 . pois os dois se fundiram tornando-se uma coisa só.. ficava dentro de um condomínio de luxo na Zona Sul de São Paulo. Nem toda família encara uma situação dessa como a minha encarou. E agora? -Humpft.. No início da manhã.. meus lábios secaram.. Era o repasse de energias que se transformavam em combustível. -Quê? Ta louco? -Eu? No caso quem está louca é ela. Seu corpo gelado e suado arrepiava-se quando sentia minha língua explorá-lo. Fizemos amor gostoso.prazer. -Ta bom. Saímos do carro e paramos em frente à casa. A estrutura era moderna.

-Não fale assim. lisos e pretos. Meu sonho era ver o Daniel na Aeronáutica como o pai dele. Nas paredes da sala haviam muitos retratos de paisagens. viagens de família... -Eu disse a você que minha mãe era uma pessoa legal.. era visível a desaprovação quanto a nossa relação. cabelos presos. pode deixar. Estendendo sua mão ela disse: -Então você é o Bader.. -Sim. -Sério? -É. Uma mulher um pouco tímida. Sentados ao sofá. espero que volte mais vezes.. -Um suco? -Pode ser. mãe.. Era uma senhora de nariz empinado. -Voltarei sim. Sentei-me ao sofá e avistei sua mãe descendo a escada. Desejo felicidades a vocês.. com pose de superior. Bader? -Eu sou publicitário.... Luana era a empregada da casa. prazer. Você aceita um café. -Marisa! Meu filho me falou muito de você. -Luana. -Você trabalha com o que. quero a felicidade dele. Olhos verdes. -O Daniel é meu filho único. principalmente a cristaleira que havia na sala de jantar.Entramos na casa.. -Pare com isso. Notei que sua mãe não gostou nem um pouco de presenciar aquela cena. Eu faço o que eu gosto.. moramos eu e minha cachorra Dani... Não entendo essa vidinha de academia que ele leva. Traga um suco para o rapaz. Uma estante de madeira cobria um lado inteiro do ambiente. Um tapete chinês enorme cobria todo o chão da sala. que por sinal era linda.. -Você mora com seus pais.. Almoçamos juntos e depois o Daniel levou-me até em casa. o Daniel abraçou-me. -Disso não tenho dúvidas. parecia olhar as pessoas "de cima". Embora sua mãe tenha tentado ser simpática. Fiquei um pouco constrangido ao ver a reação dela.. mas parecia ser uma boa pessoa. Bader? -Não. -Sim senhora. -Humpft. porém era uma mulher muito elegante e viajada. Daniel. Fechando a porta o Daniel disse: -Sente aí no sofá que vou chamá-la. Tudo decorado com muito bom gosto. 58 . Ta bom. Bader? -Não bebo café. Conversamos bastante naquele dia.. -Humpft.

barulho de ambulância davam-me calafrios. -Pode sentar-se. A recepcionista pegou minha carteirinha de titular junto com o RG e pediu para que eu aguardasse. Lembrei-me que há seis meses aconteceu-me algo parecido. olhei-me ao espelho e achei meus olhos um pouco fundos.Cheguei em casa e fui dar comida pra Dani. muito preocupado com o que estava acontecendo. pedindo para que eu deitasse de lado para examinar-me. Ao passar pelo meu quarto. dava para ouvir alguém chorando no andar superior. Sempre tive medo de hospital. e em uma folha com letras verdes ele ia anotando tudo. De repente passei a ter cólicas e diarréia. Estranhei de início.. pois eu havia voltado à rotina de sempre. Provavelmente eu deveria ser alérgico a algum condimento ou tipo de comida. Pediu para que eu ficasse em uma posição que desse para ele examinar. iodo. Corri até o banheiro e comecei a tirar a roupa para tomar um banho frio. Fiquei preocupado. -Pode baixar a calça.. Será que eu estava com anemia? Não dei muita importância ao fato e fui colocar algumas roupas na máquina para lavar. Entrei na sala com um pouco de receio. Programei-a e voltei à cozinha para beber um copo d'água.. Terminei meu banho e fui até o hospital. Deitei-me à maca do jeito que ele havia pedido. cueca e deitar na maca pra eu examinar.. Ao levar a mão na testa notei que estava com febre. Não demorou muito e ela foi devolver-me os documentos. -Está bem. subi na balança e notei ter emagrecido quatro quilos. Tirando as luvas ele voltou à mesa dizendo: -Eu já sei o que é. Não consegui distinguir se era uma criança ou uma mulher. Vou buscar uma luva e já volto. Segui até o banheiro. Cheguei na recepção do pronto socorro e não havia ninguém na sala de espera.. e voltava novamente. agora voltou a acontecer. Logo depois começou a fazer-me uma série de perguntas íntimas que eu não gostei muito. Aquele cheiro de álcool. Levantando-se da cadeira ele puxou um rolo de papel para cobrir a maca. O médico entrou na sala e trancou a porta. Fiquei vendo TV na sala de espera até ouvir o médico me chamar. -O que acontece. -O que é? 59 . Às vezes parava. mas respondi. Enquanto aguardava seu retorno. -Obrigado. e dessa vez eu estava evacuando com sangue. Bader? Expliquei a ele o que havia se passado.. Quando aconteceu da primeira vez fiquei de ir ao médico e acabei deixando passar.

. raça.. o impacto da revelação foi maior que eu. quer seja quanto ao sexo. e meu corpo parecia não estar dentro daquela sala. ou seja.. e antes dele eu só havia relacionado-me com o Bruno. Comecei a tremer todo. para aquelas “brincadeiras” preliminares há necessidade de se usar preservativo. -Humpft. -O quê? É tão grave assim? -Não. ranger os dentes.. 2005: 01) Eu não fazia idéia de onde nem quando havia pego aquela doença. bastando haver uma porta de entrada através de micro-traumas da pele ou mucosa. que não tem preferências. Por mais que eu tentasse estabilizar meu emocional. Esse vírus prefere as regiões mucosas para se instalarem. lesões decorrentes do crescimento irregular das células. Desesperado argumentei: -Não pode ser. Sua presença foi encontrada ainda no líquido amniótico. O cirurgião vai dar uma queimadinha na lesão e pronto.. Como será que eu peguei esse tal de HPV? Eu e o Daniel nunca transamos sem preservativo.. Não leva mais que dez minutos. Esse vírus pode ficar um tempo sem se manifestar em seu organismo. No seu caso terá que ser cirúrgico. aquele líquido que envolve o feto na vida intra-uterina”. Pode ser que você o tenha há um ou dois anos e ele só veio apresentar os sinais agora.. mas no momento veio-me a desconfiança. tem que se prevenir. (YAHOO RESPOSTAS. ânus.. Sexo é muito gostoso. 60 . remover ou destruir as lesões provocadas pelo vírus HPV.. Pode se instalar em qualquer região do corpo. os tratamentos existentes hoje em dia têm a finalidade de reduzir. Faz muito tempo que eu não transo sem preservativo. idade. Já se detectou o vírus não só na região genital. Anotando em seu prontuário ele falou: -Você está com HPV. faringe. localização. doutor? -HPV é a abreviatura de 'Human Papilomavirus'. boca.. -Isso tem cura? -Olha Bader. Esses tratamentos podem ser químicos. portando. Quando ele disse que eu estava com HPV minhas pernas tremeram.. o que significa Papilomavírus Humano. reto e uretra. cirúrgicos e estimuladores da imunidade. Preocupado perguntei: -O quê é HPV. -Só o fato de encostar no local contaminado você já pode se contaminar também.-Pode se vestir.. Por mais que você confie em alguém. -Você se prevenia? -Eu confiava nele. vias respiratórias. mas também é muito perigoso.. quando eu disse cirúrgico não quer dizer que você será internado. provocando alterações na região infectada. “O Papilomavírus Humano é um vírus universal. Na hora minha cabeça só pensava em besteiras.. mas também extragenital como olho. Meu medo era de que aquela lesão se transformasse em um câncer. Eu tinha um relacionamento fixo. -Confiança não é o bastante. Parecia estar vivendo um pesadelo. Trata-se de uma cauterização simples.

raiva. Era uma mistura de medo. mas ser humano nenhum está livre de adquiri-la.. Você pode transar com uma pessoa portadora usando preservativo e contrair o mesmo. 61 . Meus olhos começaram a lacrimejar. decidindo o que faria da minha vida. -Você é muito jovem.. Como iria contar a ele que estava com HPV? Revelar que o médico me pediu exame de HIV. pensando. tristeza. Esse "folclore" que inventaram em cima da homossexualidade foi para criar uma rejeição. -Já sei. mas o HPV pode ser transmitido mesmo assim. Mantive a postura e o controle enquanto estava naquele hospital. O impacto foi tão grande que eu não conseguia mais raciocinar.. -Desejo boa sorte a você e juízo. -Está bem. vou te passar o encaminhamento de alguns exames que devem ser feitos. A camisinha não evita o contágio por completo do vírus. -Exames de quê? -Hepatite A. Homossexualidade não tem nada a ver com grupo de risco.. merece alguém especial como você.. O pior de tudo foi a cara que o médico fez. Se cuide.. doutor? -Eu não vou dizer quais são. mas ao sair não consegui segurar. seu jeito de me tratar. Tive que me conter ao máximo que pude. -Quais são os sintomas do HIV. Minha preocupação era com o Daniel.. Bader. -O quê? -Pense que você é especial.. só pensava que iria morrer. Ainda em dúvida perguntei: -Então a única maneira de evitar esse vírus é a camisinha? -Veja bem.. -Mas você sabe que isso não é verdade.. -Obrigado. E se eu tivesse passado para ele? Nunca fizemos nada sem preservativo. porque você pode ficar com raiva e sair por ai querendo se vingar passando para outras pessoas. angústia. HIV 1 e 2. A todo tempo eu pensava no Daniel.Claro que eu não ia chorar na frente do médico. Seus olhos demonstravam a pena que ele estava de mim.. Liguei o carro e fui andar pela cidade. pois achava que eu tive um passado promíscuo? Ele nunca iria me perdoar. Entrei no carro. mas o preservativo ajuda a dificultar a contaminação. B e C. obrigado. não merece qualquer pessoa. desespero. encostei minha cabeça ao volante e comecei a chorar como uma criança perdida.. Foi muito ruim. seu carinho. Naquele instante achei que minha vida estava acabada.. Naquele momento queria que o chão se abrisse e me engolisse. -Está bem. jamais me perdoaria se passasse algo para ele.. -Que absurdo. Sua gargalhada. -Aguarde o resultado que vai ser melhor.. o que você está pensando agora é o que todo mundo pensa: Que todo homossexual faz parte do "grupo de risco". Passei a noite toda rodando pelas ruas. Em meu pensamento veio à figura do Daniel. Levantava-me da cadeira quando ele disse: -Espere. Eu nunca faria isso. A todo momento eu só pensava no Daniel.. horrível. Quando ele falou HIV tive vontade de pular da janela.

Estourei o limite do meu cartão de crédito. Minha fúria era tão grande que se eu o encontrasse naquele momento. não atendi. Algumas fotos impressionaram-me demais. Na primeira tentativa deu caixa postal. porém.. talvez pelo fato de estar cedo ainda. furioso.. liguei para a Central de consultas do meu plano médico e agendei a coleta de sangue para os exames. Minha última opção era enviar um e-mail para aquele desgraçado. -Obrigado! Fui tomar outro banho. Não demorou muito e começou a tocar outra vez. No outro dia pela manhã acordei bem cedo e fui pesquisar na internet sobre o HPV.. começou a chamar no telefone de casa. Até que não estava muito cheio. Na verdade minha intenção era essa. Estou "caçando" o Bruno. Acumularam tantos pacotes que precisei pedir ajuda do segurança do estacionamento para colocar tudo dentro do carro. mas eu não havia escutado.. Insistente ele não desistiu. mas não aparecia ninguém. Peguei o telefone e comecei a discar.. Chegando na porta de sua casa buzinei três vezes. Quase bati no portão do condomínio onde eu morava. Após o banho. pois meu celular havia acabado a bateria. Encontrei várias coisas falando a respeito que me deixaram ainda mais assustado. mas com certeza ele não sairia ileso nessa história. fiquei pensando na situação e no constrangimento passado naquela sala do médico. Quase não conseguia andar com tantas sacolas. -Ah.” Envolver-me com o Bruno foi a pior coisa que fiz na vida. Enquanto a água escorria pela minha face. 62 . Comprei o que precisava e o que não precisava.. Abrindo à janela a vizinha da casa ao lado apareceu perguntando: -Você está procurando a Terezinha? -Não. Saindo do shopping segui direto para a casa do Bruno. mas não tive coragem de atender. aproveitando para agendar também a cauterização e a consulta com o infectologista.Logo no começo da manhã eu passei no shopping. As palavras do médico não saiam da minha cabeça: “Juízo garoto. nervoso. deixei minhas compras dentro do meu carro e quero que algum dos seguranças traga até meu apartamento. Senti-me humilhado de certa forma. -Obrigado. Fiquei com um ódio tão grande dele que se conseguisse encontra-lo nem sei do que eu seria capaz. Ao sair do banheiro fui pegá-lo e notei uma chama perdida. Durante o banho meu celular tocou. -Vou providenciar isso. no mínimo perderia uns dentes. Fui fazer umas compras para esquecer dos problemas. e na segunda atendeu uma pessoa dizendo que o aparelho já não pertencia mais ao Bruno. seria capaz de matá-lo de tanta pancada.. Digitei um texto enorme contando todos os detalhes do que estava ocorrendo. pois o deixei sobre o sofá da sala. das preocupações e tudo mais. pedindo para que me contatasse assim que recebesse a mensagem. Eles não moram mais aí. Deixei as compras dentro do carro e subi até meu apartamento para telefonar pro maldito do Bruno. fazendo com que eu desligasse o computador pouco tempo depois. O número que lá mostrava era do Daniel. Desliguei o computador e interfonei na portaria: -Portaria. irado. -Por favor. Sai arrancando com o carro. O aparelho estava em minha mão..

Em poucos minutos ela coletou o sangue.Sai de casa e fui para o ponto de ônibus. típico da época. Destacando uma etiqueta ele falou: -Tudo bem. 63 . com um copo de café na mão. Estou. Daqui uma semana você já pode vim buscar.. Sem graça ele disse: -Desculpe pela demora. trêmulo. Onde eu pego um atestado médico? -Pede na recepção que eles fornecem pra você.. -O senhor está em jejum por no mínimo oito horas para fazer a coleta? -Ah. Peguei uma revista que falava sobre um naufrágio recém descoberto os destroços no fundo do mar. Ao entrar na recepção não havia nenhum paciente aguardando. Fui atendido por uma enfermeira super simpática.. -Assim? -Isso. pois eu estava ansioso. Aproximei-me do balcão e percebi que o garoto que fazia o atendimento não estava.. Caminhando em direção ao balcão entreguei as guias a um rapaz: -Bom dia! -Bom dia! -O senhor está em jejum? -Não entendi. -De nada. -Obrigado.. O ambiente era simples.. -Obrigado. Sentei-me ao sofá azul de camurça enquanto aguardava ser chamado.. pois já era Outono. segui por um corredor até encontrar a sala onde iria fazer a coleta. -Tudo bem. é rapidinho. Aflito questionei: -Em quanto tempo sai o resultado? -Deixa-me ver. -Então vira o rosto para o outro lado. É só aguardar que a enfermeira já chama. -Estique o braço e fecha a mão. Na verdade eu nem prestei atenção nas matérias. -Humpft. depois folhei outra que falavam sobre a guerra no Iraque... Fiquei aguardando por quase cinco minutos quando o vejo vindo pelo corredor. Tudo bem. Aquela neblina cobrindo o horizonte.. Procure não fazer esforço com esse braço. Passei quase uma hora dentro do ônibus até chegar no laboratório em Moema. e uma cadeira adaptada com um apoio pro braço para fazer coleta de sangue. eu deveria ser o primeiro do dia. já que meu carro não poderia sair por conta do rodízio naquele dia. Enquanto a enfermeira preparava os tubos e a seringa eu engolia a saliva a seco e morrendo de medo. só pensava nesse exame e no meu petit.. junto com o cheiro do orvalho nas folhas das árvores.. Ao ouvir meu nome.. Você tem medo de injeção? -Tenho. Segui até a recepção para fazer a solicitação do atestado. No canto próximo à porta havia um armário de vidro com alguns materiais. Com todo cuidado colocou um tampão no orifício e pediu para eu não pegar peso nem fazer esforços por duas horas.. é claro. A manhã estava um pouco fria.

Saindo de lá eu uma passada na agência onde trabalhava e entreguei o atestado. -O que acontece? -Você colocou os papéis na bandeja de cima. Fui seqüestrado. Já sei. mas infelizmente eu não estava com cabeça para pensar em trabalho naquele dia. O balcão da recepção era enorme. Tonto do jeito que ele era.. Quando vi minha mesa abarrotada de papéis quase pirei. Sem muita paciência perguntei: -O que acontece? -A impressora não está pegando o papel. esquecer de tudo e todos. Dois dias depois fui trabalhar normalmente...... Cheguei na agência e fui direto para minha sala.... Você estava sumido. O rapaz era muito atrapalhado.. -Não foram bandidos. Haviam três computadores de última geração.. tudo com prazo para aquele dia. -Certo. mal sabia manusear corretamente os equipamentos. -Jura? -Sim. quem sabe ela refletisse sobre suas perguntas invasivas e parasse com aquele péssimo hábito..... a não ser no resultado daquele exame. Será que está com problema? -Você abasteceu com papel? -Sim. No departamento de Criação estava uma correria só. deitado de pijama. Ao pegar o elevador cruzei com a dona Lídia. isolado. -Deixa eu dar uma olhada. 64 . Eu não conseguia pensar em outra coisa. Foram extra-terrestres... dona Lídia. Naquele momento eu queria ficar sozinho. -Jesus amado! E os bandidos foram presos? -Que bandidos? -Os que te seqüestraram. Permaneci abraçado com a Dani e assim eu adormeci. Cuidado. Melhor ainda.. filho. sendo que o certo é colocalos na bandeja de baixo. Tranquei-me em meu quarto e passei todo meu dia chorando. Chegando em casa havia mais de cinco recados do Daniel na secretária eletrônica.... -Ah tudo bem. A partir daquele momento em diante começou minha tortura. que para não perder o costume questionou: -Bader!. aguarde só um instante. peças para serem criadas. eu não me movia para atender. Ah!.-Tudo bem. uma impressora imensa que tinha mil e uma utilidades.. -Até. Notei que havia muito trabalho a se fazer. Provavelmente ela não havia se dado conta de que era uma brincadeira. Por mais que o telefone tocava. -Pois é.. Haviam briefings* para serem estudados. -Deus misericordioso! -Até mais.. Apaguei todos sem ouvir nenhum. -Nossa! Depois de resolver o problema com a impressão deixei o local. fiz hoje quando cheguei. Eu preciso de um atestado comprovando que eu compareci aqui no dia de hoje.

Você vai almoçar onde? -Aqui no restaurante da rua mesmo..... Bader Pires" *Briefing: conjunto de informações sobre a empresa. Quero sim. Vou te mostrar.. Ah!.. Naquele dia pensei que meu dia não iria terminar. -Obrigado.. É um inferno mesmo... -Tudo bem.. mas não é para mim... você não vai sair para almoçar? -Não. -Um gato? -É.. -Tudo bem. -Ta.. -Sim. Antes de sair a Eduarda perguntou: -Bader. -Não é só o seu não.. Passe na loja de animais e compre para mim um gato. mas você disse que sua cachorra detesta gatos.. você está melhor? -Humpft. Quer que eu traga alguma coisa da rua? -Não..... Vou ficar aqui pondo em prática algumas idéias que estou tendo.. -Sabe que têm duas peças que eu já criei. -Tome meu cartão de crédito. já estou de volta. Junto com ele deixei um bilhete dizendo: "Espero que goste. produto (linguagem publicitária) 65 .. -Faça-me um favor. -Pra quê? -Sem muitos interrogatórios. -Pegue.. caso contrário acabaria enlouquecendo.. deixei o gato com o porteiro e pedi para que ele o entregasse no dia seguinte para a dona Lídia. Vou dar de presente.. Eu trouxe pra você.. -Humpft. Estou tentando me recuperar. Mergulhei de cabeça no trabalho. Essa foi a única maneira de cumprir os prazos e esquecer dos meus problemas. Puxando uma cadeira ela sentou-se à mesa e disse: -Estamos abarrotados de trabalho. Saí da agência já passava dás onze horas da noite. -Esse computador está muito lento. -Já..Entrando na sala com um copo de café na mão a Eduarda perguntou: -Bader. O meu nem e-mail ta abrindo... não consegui parar um minuto se quer. -É porque o servidor da empresa está dando problema. -Eu percebi.. -Ah!.. Ao chegar no condomínio...

No outro dia tive que acordar mais cedo, pois ainda havia ficado alguns trabalhos pendentes. Por não ter acordado muito bem preferi não saí de casa, fiz tudo no meu computador. O bom é que as criações ocupariam minha mente e eu não teria tempo para pensar nos problemas. Por volta das dez da manhã a campainha tocou. Mordendo uma maçã dirigi-me à porta para atender. Ao olhar pelo olho mágico avistei a dona Lídia. -Bom dia! -Bom dia, Bader! Vim lhe agradecer... -Imagina... Não precisava se incomodar. -O gato é lindo! Fique muito feliz com o presente. -Que presente? -Ué... O gatinho... -Ah... Mas não foi um presente. -Não? -Não. -Então foi o quê? -Uma ocupação. -Ocupação? -Sim... Eu lhe dei sete vidas para a senhora cuidar. Quem sabe agora a senhora me deixa em paz? Irritada ela saiu batendo o pé. Fechei a porta morrendo de rir, na esperança de que ela tivesse entendido a mensagem. No final da tarde fui até a cozinha dar o almoço da Dani. Enquanto ela comia eu bati um suco de maracujá pra mim. Abri o armário, peguei uma pipoca de queijo e coloquei no microondas. Depois de prontos segui pro meu quarto, fechei a janela que havia aberto pela manhã, apaguei a luz, fechei a porta e coloquei um DVD pra assistir abraçadinho com a Dani embaixo do edredom. Assistimos ao Moulin Rouge. Eu adorava esse filme. Às vezes vinhame as lembranças de Paris e conseqüentemente o Daniel. Chegou o dia de ir ao hospital fazer a cauterização na lesão. A consulta estava marcada para o período da tarde. Cheguei ao hospital com uma hora de antecedência, tamanha era minha ansiedade e desejo em me livrar logo daquele maldito HPV. Não demorou muito e fui atendido pelo médico. Era um senhor muito simpático que deixou-me bem descontraído. Após esse problema resolvido, só me faltava pegar o resultado dos exames que havia feito para acabar com minha angústia. Durante aquela semana afundei-me no trabalho. Não atendi às ligações do Daniel. Saia de manhã e voltava à noite, sumi do mundo literalmente. Às vezes eu ligava para minha mãe pra contar como estavam as coisas por aqui, mas eu queria mesmo era fugir do petit.

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No dia de buscar o resultado do exame, mal podia me agüentar de ansiedade. Foram momentos inesquecíveis, a semana mais longa da minha vida. Dormi pouco na noite que antecedeu. Pela manhã tomei um banho rápido e saí apressado. O caminho inteiro fui pensando na vida que eu teria dali pra frente. Aquele resultado iria decidir minha vida, meu futuro. Cheguei no ambulatório e entreguei o protocolo para retirada. Enquanto a recepcionista imprimia os resultados eu retorcia-me para tentar ver se conseguia lê-lo. Conversando com outra funcionária ela pegou as folhas, dobrou e as colocou dentro de um envelope, entregando-me logo em seguida. Saí do laboratório aflito. Segui em direção ao hospital que ficava ao lado. No caminho parei embaixo de uma árvore para ver o resultado. Consegui abri-lo, pois o adesivo que ela havia colocado era bem frágil e descolou com facilidade, sem nenhum esforço, mas não tive coragem de ler. Entrei no pronto socorro do hospital para passar com o médico sem precisar marcar consulta e saber de uma vez por todas o resultado do meu exame. -Bom dia! -Bom dia, eu quero passar com o Clínico Geral. -Sua carteirinha e RG por gentileza? -Ta aqui. -O que o senhor está sentindo? -Medo. -Não entendi... -Dor muscular. -Ta bem, é só aguardar. -Obrigado. Não sei por que ficar perguntando o que você está sentindo pra colocar na ficha, se dentro da sala o médico pergunta outra vez e nem dá importância para o que está escrito naquele papel verde, onde elas colavam um adesivo impresso todos meus dados e pediam pra eu assinar. Sentei-me ao sofá da recepção e fiquei aguardando ser chamado. Sala de espera de hospital é tudo igual. As horas parecem nunca passar, e um silêncio que chega até a incomodar. As pessoas ficam olhando umas para as outras sem dar uma palavra, algumas cochicham no ouvido da outra para fazer algum comentário, outras ficam observando um quadro sem graça que fica na parede, mas o maldito silêncio só é quebrado com a voz do médico chamando o nome do paciente: -Bader Pires. Quando ouvi o médico chamar pelo meu nome eu gelei. Minha barriga já estava doendo de ansiedade. Entrei na sala e fechei a porta. Eu tremia muito. Sentei-me de frente para o médico quase chorando, entregando-lhe o envelope. -Então você é o Bader... -Sou, o senhor já me conhecia? -Não... Olhei aqui na ficha. -Hahaha, entendi. Além de comunicativo ele fazia umas palhaçadas e por alguns momentos eu esquecia dos problemas. -O que te trouxe aqui, Bader? -As pernas... 67

-Hahaha... 1 x 1. -Hahaha... Preciso saber o resultado desses exames... -Vamos ver... Mas antes me diga uma coisa, por que o médico pediu esses exames pra você? -Porque eu adquiri HPV e ele disse que por ser uma “DST” era bom eu fazer outros exames também. -Hum... -E então? -Hepatite não reagente. -O que quer dizer? -Que você não possui hepatite. -Ufa... Que alivio. E o HIV? -HIV... Bom... -Fala logo doutor. -HIV não é algo tão absurdo como as pessoas acham... Comecei a me desesperar. Ele estava vindo com aquela conversinha para fugir do assunto e não me contar o resultado dos exames. Notei que seus olhos estavam lacrimejando, com certeza era mais um com pena de mim. -Chega de mentir, não tente me esconder doutor, eu tenho HIV? -Se acalme, sente-se e beba uma água. -Eu não quero porra de água nenhuma, me fala doutor, eu tenho HIV? Essa frase foi o suficiente para deixar-me em pânico. Para mim era a sentença. E agora? Como eu iria contar ao Daniel que eu era aidético? Ele iria me odiar. Eu até suportaria viver sem ele, mas viver com seu ódio eu não suportaria, não saberia olhar em seus olhos e ouvir o Daniel dizer que me detestava. -Bader... Você é portador do vírus. -O quê?... Eu vou morrer... Eu vou morrer... Levantando-se de sua mesa ele caminhou até mim dizendo: -Calma... -Como calma? Não é você o aidético na história... -Bader... Em um sistema imunológico saudável existem de 600 a 1200 células de CD4 por milímetro cúbico de sangue. Consideramos que um indivíduo tem AIDS quando este número é inferior a 200 células de CD4... Humpft... O seu resultado está acima de 200, então você não é considerado um aidético, apenas portador do vírus HIV. Chorando eu disse desesperado: -Eu não quero morrer, doutor... -Mas quem disse que você vai morrer? -Eu vou emagrecer... Ficar feio... -Não necessariamente, Bader.
“AIDS quer dizer “ACQUIRED IMMUNE DEFICIENCY SYNDROME” e é causado por um vírus que ataca o sistema Imunológico, quer dizer, as próprias "fábricas" encarregadas de fazer as "armas" com as quais os seres humanos se defendem das infecções e que também servem para controlar o desenvolvimento de cânceres”. (ACI DIGITAL, 2005: 01)

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No Brasil ela é conhecida como SIDA, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, causada pelo vírus HIV, que destrói os sistemas de defesa do corpo humano, ocasionando a perda da imunidade natural que possuímos, permitindo assim o aparecimento de várias outras doenças oportunistas. Para se reproduzir o vírus penetra no linfócito T, com a ajuda de uma proteína chamada CD4, uma espécie de glóbulo branco encontrada ao redor da célula.
“Quanto mais o HIV se multiplica no organismo, mais a carga viral se eleva, níveis altos indicam um risco de evolução da infecção pelo HIV e baixa do CD4. Durante o processo, as células CD4 acabam morrendo por razões ainda não totalmente conhecidas. Com a redução do número desses glóbulos brancos, o organismo começa a perder a capacidade de combater doenças até atingir o ponto crítico que caracteriza a Aids”. (ABC DA AIDS, 2005: 01)

Há pessoas que têm o vírus HIV, mas não desenvolvem a doença. Essas pessoas são chamadas de soropositivas, que seria o meu caso até então. Das pessoas contaminadas somente uma minoria vai desenvolver a forma mais grave de infecção, que é a AIDS. Minha preocupação era de como seria minha vida dali pra frente, meu futuro com o amor da minha vida. Estava perfeito demais pra ser verdade. -Doutor, como vou evitar o enfraquecimento do meu organismo?... Eu vou me privar de tudo? Isso eu não quero... -Você vai precisar de um acompanhamento médico, mas não será necessário a privação de tudo... O acompanhamento médico e os tratamentos anti-HIV têm por finalidade evitar o enfraquecimento do sistema imunológico e impedir o desenvolvimento de doenças oportunistas, permitindo que a pessoa conserve boa saúde. -No próximo mês eu espero você aqui para iniciar o tratamento e acompanhamento, Bader. -Humpft... Entregando-me uma lista ele falou: -Tem uma lista de coisas que você deve evitar e outras que você deve controlar... -Como o quê, por exemplo? -Sexo sem preservativo. -Mas e se a outra pessoa também for portadora do HIV? -Mesmo assim deve-se usar preservativo. Toda pessoa infectada, com ou sem sintomas aparentes devem ser considerados propagadores do HIV. Ao contrair o vírus, o organismo do infectado desenvolve depois da infecção uma resposta imunológica, que é a produção de anticorpos. Conforme o tempo passa, ocorre uma diminuição nessa resposta imunológica, sendo assim, os anticorpos neutralizantes não exercem a função de proteção, por isso o uso de preservativo é necessário nas relações sexuais entre dois soropositivos, pois uma outra carga de vírus é injetada no parceiro, fazendo com que sua situação se agrave ainda mais.

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fiquei olhando o movimento dos veículos que passavam por ali. Daniel. Abri a porta da sala cabisbaixo. Meu coração doeu. doente.. e ao lado dela estava o Daniel aguardando-me. eu chorava sem parar. incrédulo. Que eu o amava demais eu não tinha dúvida. mas nessas horas a gente nem pensa. tocar naquele braço musculoso. Seus olhos começaram a lacrimejar. Passei direto por eles. mas nada de te encontrar. Enquanto ele não passava. mas uma moradora o interrompeu fazendo algumas perguntas. triste. Naquele dia ele estava tão bonito. -O quê você faz aqui? -Como assim o que eu faço aqui? Te liguei a semana inteira. -O quê está havendo? Jogando a chave sobre a mesa respondi: -Nosso namoro termina aqui. alias. Minha vontade era de me matar. aproveitando que o elevador já estava parado no térreo. 70 .Deixei o Centro Médico arrasado. O caminho inteiro eu fui pensando em como eu faria isso. mas o meu medo era passar essa maldita doença para o Daniel. vegetando em cima de uma cama. perfumado. só pensa que vai morrer.. ao mesmo tempo eu tinha vontade de me jogar na frente de um deles. Entrei dentro do ônibus decidido a me matar. A minha maior preocupação naquele instante era com o Daniel. mandei e-mail. magro. Tentado disfarçar minha angústia coloquei um óculos escuro. Você está fugindo de mim? Paciente ele foi se aproximando de mim na tentativa de me beijar. e isso eu não queria. Por mais que o médico tivesse tentado me fazer entender que eu levaria uma vida normal. te procurei no serviço e na academia. Olhando para seu rosto era obrigado a por um fim em uma linda história de amor. Com que cara eu iria contar a verdade? Claro que ele não ia entender e me odiaria por isso. -Precisamos conversar sério. aguardava o ônibus no ponto da Avenida Ibirapuera. A Dani estava sentadinha no sofá abanando o rabo. Com o resultado do exame na minha mão. Nem dei importância. -Mas terminar como? Por quê? -Porque não te amo mais. Era tudo o que eu queria. mas não evitava alguns olhares curiosos das pessoas. Permaneci na porta paralisado. Eu também não consegui conter a emoção. acabar com tudo isso logo e livrar-me do sofrimento. mas na hora em que ele ia abraçar-me eu desviei. beijar aquela boca gostosa. eu já me via com um pé na cova. No ato do desespero eu não sabia mais o que era certo ou errado. Não sei se era a coisa certa a fazer. carinhoso como sempre. Na hora eu gelei. só pensava no jeito mais fácil de acabar com os problemas. calça jeans meio caída mostrando a cuequinha. torpedo. baby look branca. barba por fazer. Cheguei no condomínio e percebi que o porteiro queria dizer-me algo. minhas pernas amoleceram. Chorando.

Se fosse para o Daniel me odiar.. Olhe nos meus olhos e diga que você não me ama mais. mas por amá-lo demais eu tomei essa decisão. Abaixei-me ao canto da parede e chorava demais. Desculpa. mas esse sonho foi quebrado por uma alma pobre.. Dentro de mim eu dizia que o queria. Nem que eu passe a vida toda esperando por mais um beijo seu. -Eu não estou escondendo nada.. Chorando ele gritou: -Não posso tirar da cabeça o que está no coração. me esquece. Devido a isso acabei entrando em depressão. Some da minha vida.... Prendendome à parede o Daniel disse: -Mentira.... Eu pensei bem e mudei de idéia. era melhor ele pensar que eu não o amava mais. Muitas e muitas vezes eu me imaginei vivendo ao lado do Daniel para sempre.Claro que eu não ia contar para ele a verdade... Bader.. Tocando em minha face ele perguntou: -Me diga como eu posso viver sem você? -Vai ser melhor se você me tirar da sua cabeça.. -Desculpa. -Eu te conheço. vivendo um para o outro. -Como posso esquecer de todos os momentos que passamos juntos? Nosso amor.. -Você está mentindo. mas vou te levar comigo dentro do meu peito. mas seria loucura naquele momento contar toda a verdade. -Daniel. -Daniel.. -Mas tudo bem. Pegando pelo meu braço e encostando aquela boca carnuda próxima à minha quase não resisti. Não seria fácil dizer ao homem da minha vida que queria terminar o relacionamento. -Por favor. -Eu te amo como nunca amei ninguém em toda minha vida. que me satisfaz em todos os sentidos.. Minha vida estava sendo destruída. cuidando um do outro. Assustei-me quando ele deu um soco na parede. Chorávamos juntos.. Eu vou embora..... me deixe em paz... não faça isso comigo. É a primeira pessoa que me fez e me faz feliz em todos os momentos. -Mas como você não me ama mais se a última vez em que nos vimos você me jurou amor eterno? -Eu. Tentando afastar-me eu disse: -Por favor. Você está escondendo alguma coisa. Eu já não sabia se tremia de nervoso ou por sentir sua pele encostar na minha. e minha felicidade havia chegado ao fim.. que me completa. pelo menos depois de um tempo ele me esquecia e tudo bem.. não insista. Batendo a porta ele saiu chorando.. por favor. nosso amor é muito bonito pra acabar assim. o desejava. Vou esperar até você mudar de idéia... Eu o amava muito. -Porque o que eu sinto por você é verdadeiro e forte.. Ele batia no peito e as lágrimas desciam como um rio de encontro ao mar. Sonhava em como seria nós dois velhinhos.. uma pessoa maldita que havia me passado uma doença e se quer teve a dignidade de me encarar.. que ele era tudo pra mim. Por dentro meu coração estava gritando. dividindo a mesma casa. 71 ....

Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus por ter teto para morar. Enchi a banheira com sais que havia trazido da França. sentia-me carente. porém. E aqui estou eu. (Charles Chaplin) E por que eu teria que ficar trancado em casa lamentando a minha desgraça? Será que isso me ajudaria? Resolveria meu problema? Só dependia de mim. carente como sempre. sem vontade de fazer nada. 72 . às vezes dava aquela vontade de chorar. apesar de somente ser portador do vírus e não ter a doença manifestada. Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho. Havia acordado muito mal. e foi pensando assim que desliguei o computador. Havia passado a madrugada inteira em claro. não tinha fome. triste. Era um texto onde dizia que tudo dependia só de mim: TUDO DEPENDE SÓ DE MIM Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite. Passei uma hora coberto de espumas e ouvindo minhas músicas favoritas. Por mais que as pesquisas diziam que um portador sadio pode viver o resto da vida sem a doença se manifestar. A prevalência de depressão é maior na população HIV positiva é em torno de dez vezes maior do que na população geral e está dentro da variação encontrada em outras doenças crônicas 5 a 8%”. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido. um deles chamou-me atenção. Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição. (SALVES. Passei um mês isolado do mundo e da realidade. Comecei a excluir tudo. Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. eu ainda sentia-me um doente. Pesadelos eram freqüentes. particularmente a depressão. a solidão e isolamento aumentam a morbilidade psiquiátrica. Minha vida tornou-se um pesadelo. tomei um banho bem gostoso como eu fazia antes. evitando o desperdício. Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças. Tudo depende só de mim. Nos primeiros dias eu não saia de casa e muito menos atendia telefone. tive até febre. Antes de mais nada iniciei uma limpeza em minha caixa de mensagens. 2005: 01) Eu já não tinha mais vontade de viver. só chorava. Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. Às vezes eu conectava à internet para limpar a caixa de e-mail e fazer algumas pesquisas sobre o vírus do HIV. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo.”Vários estudos têm sugerido que nos pacientes com AIDS. o escultor que pode dar forma. Em uma manhã de sol levantei-me para enviar um e-mail pra agência.

-Melhor não. Insistente ele ia chegando mais perto. Volta pra mim. Tirei a camisa. Tinha vezes que eu ficava meses sem precisar trabalhar. Segui para o vestiário e deixei minha mochila no armário oito.. cada uma em um canal diferente... pois cada peça publicitária que eu criava rendia-me no mínimo dez mil. na tentativa de dificultar sua aproximação. foi passear na casa da minha tia. Sentindo que não iria resistir. Enquanto ele ia falando. -Eu adoraria te acompanhar. O desejo e a vontade de tê-lo novamente era mais forte que eu. aproxima-se de mim como se fosse me beijar. Cheguei na academia e não havia muita gente.. Passei por ele e o cumprimentei com um “bom dia”. -Eu só queria entender o por quê? -Porque eu não te amo mais. Quando era para grandes empresas eu chegava a ganhar cinqüenta mil em média. Claro que dessa vez eu tomei o cuidado pra não bater no carro de mais ninguém. Ao esquivar-me com a esteira ligada acabei desequilibrando. somente para fazer circular o sangue. como sempre fazia. Joguei a mochila no banco de trás do carro. Aos poucos nossas bocas foram se aproximando e quando íamos nos beijar. mas antes de sair de casa eu dei comida pra Dani. Para variar havia esquecido minhas luvas para levantar peso. eu me afastei. Meu coração disparou.. arrumei minha mochila para voltar pra academia.. corri pro vestiário. respirei fundo. -É mentira... deitei no banco de madeira que ficava no centro do vestiário e fiquei olhando pro teto. -Não faz isso comigo. olho no olho. telefonei na agência onde eu trabalhava e avisei que no dia seguinte estava retornando com toda força. tremendo. com a respiração ofegante. -E sua mãe.. provavelmente alguém não havia fechado direito. to pensando em conhecer Londres. Ficamos ali olhando um para o outro. Se ele continuasse com aquela conversa eu acabaria entregando-me. como está? -Está bem. Voltando para a sala de treino fui fazer um pouco de esteira. trazendo meu corpo pra junto do seu. além do mais também havia chorado a semana inteira. Quando ia caindo o Daniel me segurou com um abraço bem apertado. O bom de trabalhar naquela agência. Rapidamente o Daniel foi até mim para colocar presença na minha ficha: -Tudo bem com você.. Bader? -Na medida do possível sim. Os televisores em frente à esteira estavam ligadas. 73 . Eu estava suando. -Que legal..Depois de recuperar meu ânimo. e com você? -Eu poderia estar melhor se estivesse ao seu lado. só se ouvia o barulho de um chuveiro pingando.. cinco ao total. Na hora reparei que ele ficou desconsertado e ao mesmo tempo surpreso por me ver ali. Peguei o elevador e desci até o S1. Escolhi o meu favorito e fui ouvindo e cantando no trânsito. Ao dar meia volta avistei o Daniel auxiliando uma senhora na esteira. Eu usava um óculos escuro por causa das olheiras. amanhã ela volta de Londres. vai? -Prefiro não entrar nesse assunto. já que por um mês eu sumi do mundo. Você não consegue falar isso olhando nos meus olhos. nervoso. Para evitar qualquer contato eu ia aumentando a velocidade da esteira. Encostei-me à porta ofegante. Comecei a caminhar devagar. abri o porta-luva e peguei meu estojo de CDs. Em meio aquele silêncio. era que eu ganhava pelo que eu produzia. sendo assim eu trabalhava quando eu queria.

sem ele minha vida tornou-se vazia.. -Desculpa... Deixa eu sentir novamente esse corpo junto ao meu. Não é fácil resistir quando se ama alguém como eu amava o Daniel. Enquanto chupava meu pescoço ele dizia: -Por que parar. Eu quero você e vou ficar com você. o volume que ficou em sua bermuda era notável à distância. Eu tremia só de pensar no que ele seria capaz de fazer... cruzando em minhas costas até sua mão encostar em meu ombro direito. mas foi inútil resistir aquele braço forte laçando meu corpo seminu. colando barriga com barriga. -Chega. tê-lo pra sempre comigo. Em meio aos beijos e carícias ele perguntou: -E agora. Mais um pouco que ele insistisse eu não teria resistido e me entregaria à paixão. Olha o estado que você me deixou? Realmente. Minhas pernas entre as dele fizeram o encaixe perfeito. 74 . na verdade eu queria olhar em seus olhos e dizer que ele era tudo pra mim. Tentei conter-me no começo. entregue de corpo e alma à paixão.. o ritmo da sua respiração fungando na minha orelha. Pegando pelo meu braço ele encostou-se à parede.. Foi um beijo selvagem. -Hum.. Sussurrando deixei escapar: -Eu te amo! -Repete? -Te amo. Você ainda insiste em dizer que não me ama? -Pára. daqueles para matar a saudade dos velhos tempos. -Chega. enganando a mim mesmo quando dizia que não o amava. abriu suas pernas e me puxou pra junto dele. Eu estava vivendo somente por viver. era melhor não cair em tentação. Sentindo novamente sua pele junto à minha.... eu espero. -Agora não... as batidas do seu coração que palpitada a cada carícia minha. o empurrei. por você eu espero a vida toda. Segurando meu braço ele falou: -Volta pra mim? -Humpft. fazendo-me levantar imediatamente..Levei um susto ao ouvir a porta bater. Seu braço direito passou por baixo da minha axila. me debati.. Naquele momento eu fui feliz. mas refletindo bem. Sem que eu pudesse impedir o Daniel começou a beijar-me à força. deixei-me envolver pelo clima de amor que pairava sobre nós. Decidido o Daniel trancou a porta e caminhou até mim. sem sentido. Fui pego de surpresa. Senti sua mão na minha nuca outra vez. mas você que provocou. caloroso. Meu coração disparou. -Tudo bem. queria dormir e acordar ao lado dele. sendo possuído pelo amor da minha vida. ver se é isso mesmo que eu quero pra mim. A dor que eu sentia no meu coração era enorme. Me dê um tempo? -Um tempo pra quê? -Pra pensar. se podemos ser felizes juntos como sempre fomos? -É melhor cada um pro seu lado. Pensei duas vezes se deveria “ajudá-lo”. até eu ficaria com vergonha de sair dali naquele estado..

além de elaborar alguns projetos de marketing. Não tem se alimentado direito? -Acabei me descuidando um pouco. Eu era muito jovem e tinha muito que aproveitar ainda. Acordava cedo. Em seguida fui trabalhar normalmente. pois eu precisava de mais harmonia. Inventei uma desculpa dizendo que tive problemas familiares. -Tudo bem. Todo mundo perguntava-me o por quê eu havia sumido. Existem pessoas muito indiscretas e curiosas que invadem sua vida sem o menor senso de ética. Aquela semana foi corrida para mim. deixando-me muito feliz. mas agora vou me cuidar mais. Achei que minha vida iria acabar. Uma delas abordou-me e ofereceu sua mercadoria. corri um pouco no parque do Ibirapuera. No caminho. porque não ia dar pra dirigir e segura-lo para impedir o sangramento. -Obrigado! Saí do laboratório e atravessei à rua. Agora nós vamos nos encontrar sempre por aqui. -Dia 1 você pode vir buscar o resultado.Dias se passaram e depois de muito sofrimento. pois eu morria de medo de agulha. paz. Entrei em depressão. Já comecei a nova fase de minha vida fazendo mudanças em minha sala na agência. você parece um pouco abatido. dava comida para a Dani. minha vida voltou ao normal. -Com certeza. tomava meu banho de vinte minutos. -Olá Bader! -Tudo bem com a senhora? -Tudo ótimo. -Segure o algodão pra parar de sangrar. passei na farmácia para comprar um Band-Aid e coloquei no lugar do algodão. Nunca gostei de ficar dando detalhes da minha vida para os outros. eu odiava quando isso acontecia. Naquela mesma semana eu fui ao médico para fazer os exames de rotina. rejeição. Segui algumas dicas do Feng-Shui para atrair energias boas e sorte. pensei até em suicídio. tomava meu café da manhã com tudo que eu gostava e ia pra academia. Sofri demais quando fiquei sabendo que era portador do HIV. de lá segui para o laboratório que ficava próximo. 75 . Mudei alguns móveis também. -É assim que se fala. Depois tomava outro banho e ia trabalhar. Todo portador do vírus tem que fazer exames de nível de CD4 para manter boa saúde e o tratamento correr bem.. Recebi o briefing de um cliente novo. onde havia algumas crianças vendendo doces no farol. pense que você é jovem e tem muito que curtir. Com muita paciência a enfermeira me convenceu a deixá-la coletar. Tirei quatro tubos de sangue. mas depois eu percebi que estava perdendo tempo ao invés de viver e curtir minha vida. No dia de buscar o resultado de sangue acordei mais cedo.. parei no semáforo na Avenida República do Líbano.

-Senhor Bader. Entreguei o protocolo para a recepcionista e fiquei aguardando ser chamado: -Bom dia! -Bom dia.. Eu não ficaria em paz enquanto não visitasse. Na sala de espera fiquei assistindo um pedaço da novela até ser chamado pelo doutor.Por curiosidade perguntei o que ela fazia com o dinheiro que ela ganhava: -Tio. -Brigado tio. Poderia me ajudar comprando essas maçã do amor? -Hum... pois interessei-me pelo projeto. enquanto meus pensamentos estavam naquela criança do farol.. -O que é "Lar do céu?" -Minha casa. -Toma aqui R$ 50. 76 . -Nossa!.. mais à vontade para expressar-me diante do médico.. na instituição que ela ajudava. -Aguarde um momento que já está imprimindo.... Preso à embalagem do produto havia um comunicado com a finalidade dos recursos arrecadados com a venda das maçãs.. Não achei certo uma criança vender maçã do amor no farol pra ajudar uma instituição à arrecadar fundos.. Esse dinheiro é realmente para essa instituição? -Sim. Enquanto ele saiu pulando de alegria por ter conseguido os cinqüenta reais. -Nossa!.50 cada uma. -Por nada..00. nas crianças que lá abrigavam. mas acredito que não foi obra do acaso. Peguei o endereço do lugar para visitar assim que possível. -Eu posso ir visitar se eu quiser? -Pode. calmo.. Eu adoro maçã do amor! Quando custa? -R$ 1. -Você mora com quem? -Eu moro no Lar do céu.. Fiquei emocionado quando li que o dinheiro era pra ajudar nas despesas de uma entidade que cuidava de crianças com HIV. Cheguei na clínica para buscar meu resultado e haviam duas pessoas na fila..00. Um ventilador de teto tentava diminuir o calor que estava dentro do ambiente. Cruzava a perna de um lado pro outro por conta do nervosismo.. lágrimas desciam dos meus olhos. -Você tem quantos anos? -Tenho 14. Abrindo minha carteira perguntei: -Humpft.. -Obrigado! -Por nada. Estão aqui. Peguei o envelope e levei para o Centro Médico ao lado. Dessa vez eu estava tranqüilo.. Sentei-me ao sofá e fiquei aguardando. Quanto custa? -R$ 20. Quero levar toda essa cestinha sua. Tão novo e já ajuda em casa? -É... -Tudo bem. -E sua mãe? -Eu não tenho mãe.

.. -Uma boa alimentação é fundamental para ter uma boa saúde. Eu vou ter que tomar por quanto tempo. -Deixa eu ver o resultado do seu exame. só agora sei do quanto meu organismo foi prejudicado. O fato de entrar em depressão fez com que eu me descuidasse da alimentação. Seguindo pelas ruas da zona sul.. como foi esse mês? -Nem me fale... -Eu sei.. a senhora sabe se por aqui tem alguma instituição chamada "Lar do céu"? -"Lar do céu"? Fica naquela rua.. O Portador do HIV é qualquer indivíduo que foi infectado pelo vírus e que na grande maioria das vezes está totalmente saudável. entrei em depressão. -Humpft. -Perigoso? -Você pode se contaminar.? -Quer dizer que você vai precisar tomar remédio para equilibrar isso.. -Sempre estaremos fazendo exame de sangue para acompanhar a evolução da sua taxa de CD4... não tem se alimentado direito? -Estive me desanimando um pouco. A partir de agora você pode se considerar com AIDS. que foi provocado pela ação do vírus no organismo fragilizado. Vou te receitar o remédio e você terá que tomar rigorosamente como eu prescrever na dieta. -Você sabe que tem que ter um cuidado redobrado com sua saúde.. -Você deu uma emagrecida. -Humpft.. cujo comprei a maçã do amor no semáforo.. vai depender de como seu organismo vai reagir e dos cuidados com a saúde que você vai tomar. mas enquanto eu sofria deprimido nem pensava nisso. -Obrigado! Fazendo uma careta ela perguntou: -Você pretende ir lá? -Já estou indo.. aparecendo pela deficiência do sistema imunológico do infectado. Parei uma senhora que passava próximo rua e perguntei: -Por favor.. uma casa azul. Voltei para o carro. nem saí de casa... Eu tinha ciência que meu organismo estava vulnerável. guardei no porta-luva e fui visitar a entidade que cuidava de crianças com HIV.. a sua taxa de CD4 está abaixo de 200.. -Entendi. Ter AIDS significa que é a fase da infecção onde podem surgir várias doenças e infecções oportunistas.. -Entendo. -Humpft.-E ai Bader. -Isso quer dizer que. é preciso que seja equilibrado esse nível para manter boas condições de vida... Saindo da clínica passei na farmácia e comprei o remédio que o médico receitou.. procurava pelo endereço do papel e não conseguia encontrar. por quê? -Não vá.. Dobrando os papéis o doutor disse: -Bader. é perigoso. 77 .. A vida inteira? -Não necessariamente. Tudo bem. Tenho medo até de passar em frente.. Você procurou um psicólogo? -Não. é um lugar que cuida de crianças com AIDS.

-Ah. Tudo bem. Desculpe. que era uma mulher um pouco mais baixa que eu. Escutei a porta ser destrancada. gorda. É a pior doença de todas que já existem. pobreza e doença. Aparentava ser evangélica.. cabelo preso meio crespo. Diferente da Roberta.. avental na cintura e um jaleco bordado o nome da instituição. A parede interna estava um pouco descascada. Em pessoas com situação financeira desfavorecida a coisa piora. Pelo barulho e demora deveriam haver mais de três fechaduras. ouvia um choro bem baixinho que vinha de algum cômodo da casa. Chegando em frente à casa eu pude notar que eles enfrentavam certas dificuldades financeiras. Uma televisão antiga e um bocal com os fios aparecendo no teto tornavam-se parte da pouca mobilia que ali existia. A Vânia era uma garota que aparentava não ter mais que quinze anos. -Ah sim. A casa era simples.. Logo ao entrar notei que a casa não tinha estrutura nenhuma para abrigar as crianças. Meu único medo é pegar a doença que a senhora tem. É um absurdo como as pessoas olham com maus olhos outras que são portadoras do HIV. Abre a porta aí pro rapaz. Enquanto aguardava pela mulher.. Isso vai se tornando um círculo vicioso difícil de se quebrar. haviam vários rabiscos feitos por giz de cera próximo à porta. Além disso. A pintura era um azul meio apagado. Estacionei o carro em frente.. Eu não tenho medo. Ela já vai abrir.. obrigado. -Que doença? -O Preconceito.. pois junta-se dois preconceitos ao mesmo tempo. Está mais que comprovado que não se adquire a doença através de contato social. -Quem é Roberta? -É aquela mulher que te atendeu pela janela. sendo possível ver os tijolos.-Ah fique tranqüila. obrigado. Baixinha e moreninha. comprei um produto de algumas crianças que vendem no farol para ajudar. branca.. -Estou bem assim... Enxugando suas mãos ao pano em seu bolso ela dirigiu-se a mim dizendo: 78 . -A Roberta já vem. você foi o rapaz que comprou a cesta inteira? -Sou. Haviam duas crianças brincando no quintal frontal. corpo miudinho. já a porta era de ferro e no lugar do vidro existiam algumas folhas de papelão cobrindo o buraco. Bati à porta e logo apareceu uma senhora na fresta da janela: -Quem é? -Oi. os infectados sofrem com o preconceito.. Espalhados pela sala estavam alguns brinquedos caídos ao chão de cerâmica vermelha. rejeição. construção antiga.. empurrei um pequeno portão enferrujado que rangia ao abrir. Sem que eu esperasse ela deu um grito para uma outra menina abrir a porta: -Vâniaaaaaaaaa. provavelmente alguma traquinagem das crianças. Puxando um banquinho de madeira a pequena garota disse: -Pode senta. -Tudo bem. Ao lado esquerdo tinha uma pequena horta que deveria ser cultivada para consumo próprio do local. Tenha um bom dia! Arranquei com o carro e deixei-a falando sozinha. Além de sofrerem por conta da disso.

do tipo: “Foda-se o conteúdo. entregando para a Roberta logo em seguida. logo ele vai também.. Aquela criança molinha.. Realmente as aparências enganam.. -Toma aqui esse cheque. Ele já está em fase terminal. Não está escrito na testa de ninguém "Tenho AIDS". Caminhei até um dos quartos onde havia uma criança deitadinha em um berço.. Quando ela olhou quase caiu de costas. -Eu sou portador do vírus. Ver um adulto sofrendo é até compreensível. -Eu sei muito bem como é.. da boa vontade das pessoa que se comove e nos ajuda... mas uma criança que veio ao mundo já contaminada e condenada não é fácil.. -Mas moço. arriscando sua vida porque aquela pessoa é bonitinha.. por favor.. mas para ele estavam enormes... -Essa criança vai morrer aqui se nada for feito.-Desculpa pela demora. Eu vim conhecer o Lar. tão frágil que parecia um boneco.. indefesa.. governo injusto.. mas não tem dinheiro. Não conciliava singular e plural nas palavras. Interne essa criança o mais rápido possível.... -E por que não está no hospital? -Eu ia leva hoje. -Que absurdo! -É mesmo... Aqui a gente vive de doação. Além disso ela tinha um jeito meio bruto também. cheirosinha. Vida injusta.. é revoltante. Geralmente as pessoas julgam as outras pelas aparências. -Vocês recebem algum incentivo do governo? -Nenhum.. Passamo muitas dificuldade.. -O senhor? Tão chique e bonito desse jeito? Foi engraçada a cara que a Roberta fez ao saber que eu era portador.. Tem também o dinheirinho que os menino ganha no farol vendendo doce. Tirei a carteira do bolso e assinei um cheque... A mãe dele morreu faz quatro dia. -Se for por falta de dinheiro eu posso ajudar. Suas fraldas eram tamanho P. Vem comigo. to mais a fim da embalagem”.. Aquilo era o mínimo que eu poderia fazer. Ninguém que me visse na rua poderia dizer: “Aquele tem AIDS”. -Deus misericordioso! 79 .. -Sem problema. -O quê? -Tadinho. É aí que mora o perigo. Conversando com a Roberta deu para notar que ela era um pouco ignorante. gostosinha. a coitada ficou abismada. eu sei o que passei e estou passando.. só a gente que convivemo pra saber como é difícil cuidar de crianças assim. Peguei o bebê no colo e comecei a chorar. Tem dia que as criança só pode comer uma vez. -Mas o que ele tem? -O bichinho ta com pneumonia. -Ah sim.. -Só quem passa por isso pode saber. Coloquei o bebê de volta ao berço... magrinha. por isso o uso de preservativo é de extrema importância. porque se comerem duas vez vai faltar pro outro dia. com os olhinhos fundos.. -E esse bebê? -Ah. doutor.. talvez faltou-lhe uma oportunidade de terminar os estudos. -O que vocês ganham é suficiente para manter esse lugar? -Claro que não... Correr esse risco pode levar a um caminho sem volta.

.. -Com esse dinheiro vai ajudar muito. Que absurdo.. -O senhor quer uma água? -Por favor.. -E o seu nome...-Eu quero essa criança internada agora. pois na rua passava um vendedor de picolé e ele ficou com vontade. Era um menino tão meigo. Encostado à parede de frente para a janela eu observava o movimento da rua...... -Bader? -É. como é? -Meu nome é Bader.. -Fala neguinho? -Hoje eu posso toma um pouquinho de sorvete? -Hoje você não pode. -Quando eu vou poder? -Só quando você melhorar.. Vai busca uma água pro Doutor. -Eu entendo. -Tio. Você ta com vontade de tomar sorvete? -Aham.... esperto e comunicativo: -Tudo bem com você? -Eu to bem e você? -Eu to ótimo. -Tia Rooooo... Abaixei-me à frente dele.. Seu eu pudesse. o senhor caiu do céu. Levantei-me e corri até a sala para ele não me ver chorando. catapora. Agarrado à perna da Roberta ele pedia para tomar sorvete. crueldade. tal como uma gripe.. Cadê a água do Doutor.. Aqui sua água. Vânia? -Já to indo. Comecei a chorar descontroladamente.. -Fala? -Você sabe como faz pra tirar esse bichinho de dentro de mim? -Oh meu anjo!. aliviando também o cheiro de bolor que havia no interior da casa. Enquanto conversávamos entrou uma criança no quarto chamando pela Roberta. mas eu não consegui conter a emoção. Um garotinho moreno. O senhor não quer se senta? -Desculpa.. segurei sua mão e comecei a conversar com aquela criança. falante. salvem a vida dessa criança.. Mas eu não posso.. mas por favor. o que eu ia dizer? Aquilo mexeu comigo. Qual seu nome? -Eu me chamo Rodrigo.. Se for preciso eu ajudo com mais. -Que nome bonito! Meu irmão se chama Rodrigo também.... -Por que você não pode? -Porque eu tenho um bichinho dentro de mim que não gosta. É nessas horas que ficamos comovidos com a inocência de uma criança.. passar vontades e não poder consumir para não atrapalhar no tratamento e interferir em sua saúde. Fiquei emocionado. A criança perguntando-me como fazer para tirar aquele “bichinho” de dentro dela. Seus olhinhos brilhavam quando falava em sorvete. -Vâniaaaaaa. Eu já to acostumada. Fiquei imaginando em como o Rodrigo deveria sofrer... Esse dinheiro tem que salvar a vida desse inocente. inteligente.. 80 . Ele falava de uma maneira como se fosse algo comum..

Aquela cena ficou na minha cabeça torturando-me. A sensação que tive foi como se uma bomba atômica se destruísse dentro de mim. mas doeu fundo dentro de mim o vendo com outra pessoa. Na verdade isso é responsabilidade do governo. de perda. Comecei a procurar por uma vaga para estacionar meu carro. Se ele me aceitasse. deixar à vida sedentária. e meu amor por ele ainda maior. triste. Fiquei impressionado. tornou-se praticamente um trabalho comunitário. Iniciei a manobra para entrar de frente. mas pelo que eu notei indo até lá. e entregando o copo para a Vânia falei: -Dona Roberta. Minha alma gritava. claro que na intenção de ajudar às crianças e suas mães.Bebi aquela água em um gole só. com aperto no coração em ver a situação precária que as crianças viviam. No banco do carona havia um rapaz com ele. Tremendo. reataria nosso namoro e nunca mais o deixaria escapar. Seu olhar estava tímido. coisa que já deveria ter sido feito há muito tempo. Na verdade eu estava era morrendo de ciúme.. O Daniel era jovem e tinha o direito de curtir com quem ele quisesse. ainda mais vendo que ele estava lindo. até o momento não havia qualquer tipo de participação governamental. Eu precisava retomar meus exercícios outra vez.. mas ao mesmo tempo feliz por poder dispor de condições financeiras para ajuda-los. Humpft. chorando.. preciso ir agora. Saindo de lá segui pra academia. -E não estou. ansioso para vê-lo e dizer que o amava mais que tudo nessa vida. Eu voltarei aqui outras vezes. Não é fácil para ninguém testemunhar o amor de sua vida com alguém que não seja você. Durante o caminho eu tomei a decisão de contar toda a verdade ao Daniel.. Cheguei feliz da vida no estacionamento. Os moradores reuniam-se em um trabalho voluntário.. -Tudo bem. Precisamos conversar mais sobre a situação dessas crianças.. 81 . no fundo. No vão entre elas avistei o Rodrigo encostado ao batente da porta. Por mais que eu negasse. -O senhor parece não esta bem. Após rodar por quase dez minutos finalmente encontrei uma no G1. e quando olhei para o lado esquerdo avistei o Daniel saindo com seu carro. fica com Deus. interrogativo.. Por ficar praticamente dentro de uma favela. olhando pra mim com a mãozinha encostada à parede. no fundo bate aquele sentimento de angústia... Deixei o Lar do céu chorando. Seria um egoísmo meu achar que ele deveria esperar por mim a vida inteira. -Tchau Rodrigo. Respirei fundo. Cada dia que passava o Daniel ficava mais bonito. dei meia volta com o carro e fui direto pra casa. As duas ficaram olhando-me imóveis. corroendo meu coração.. -Tchau tio.

peguei a chave que estava sobre a mesa e fui buscá-lo.. ele me odiaria por isso. se o que ele sente por você é amor de verdade.Sai pelas ruas igual um louco. -Humpft. o peito dói.... agora é cada um pro seu lado.. Vou pensar.. seguindo sua vida. Cheguei em casa desnorteado.. além do que você não pode ter certeza que ele te odiaria. Sentei-me ao sofá chorando de soluçar... 82 . Eu já não chorava mais. Mas meu filho.. Ao ouvir sua voz falando novamente comigo meu coração disparou: -Oi amor!.. No visor de seu celular ele pode identificar o meu telefone. -É muito mais digno você ser odiado por uma verdade. um beijo meu filho. -Humpft. Petit?.. Eu vi o Daniel com outro. Conte logo a verdade pra ele. um colo.... Desliguei o telefone e liguei pra minha mãe. travei. Alô? Não consegui falar. Eu sempre recorria à ela quando estava triste. pense bem no que você está fazendo com sua vida. Fiquei pensando no que minha mãe havia dito.. É nessas horas que nós aprendemos a dar valor às pessoas. Caminhando até o quarto lembrei-me que o remédio havia ficado no porta-luva do carro... Não sei. era horrível. Voltei à sala. Bad?... Alô?. No segundo toque ele atendeu. e realmente eu não tinha certeza de que o Daniel odiaria-me pelo fato de ser portador do vírus HIV. do que fingir uma situação que não existe.. Entrei no elevador e apertei o S1. -Outro. No momento em que teclava o número eu tremia demais. e de certa forma eu havia mesmo.. Quem já passou por isso sabe como o coração aperta. ele vai entender e te perdoar. pensando em tudo que já havíamos vivido... talvez movido pelo impulso de perdê-lo. -Eu sei.. pois minha mãe sempre tinha o que me dizer na hora certa: -Alô. Apesar disso o medo que algo semelhante pudesse acontecer foi tão grande que acabei bloqueando-me. sendo preciso perder pra aprender a valorizar. foi você que terminou seu namoro com ele.. isso você supôs. Tentei pedir um consolo.. -O que houve.. A sensação que eu tinha era de ter perdido algo muito importante na minha vida. Desliguei o telefone triste. Nem sei o por quê fiz isso. Mas se eu contasse pro Daniel que estou com HIV. estava apenas triste. Bader? Chorando eu tentava falar: -Hoje. Peguei o telefone e disquei para o Daniel. mãe. -Tudo bem. mãe? -Oi filho! -Eu quero morrer.

. -Sim. Minha vida já não tinha mais sentido sem o Daniel. pois eu falava com minha mãe.. -Vai com Deus. naquele mesmo banheiro onde ainda continha seu cheiro. Estranhando os latidos desesperados da Dani.. Vendo que eu não abria ele começou a bater à porta. Chegando na garagem do prédio. O deixei preocupado. Com a banheira toda cheia. Ao cruzar com uma moradora senti algo diferente.. Chamando pelo meu nome ele caminhava em direção ao quarto.. olhei para o sofá e relembrei os momentos em que havia passado com o Daniel naquela sala. Revivi aquele momento onde tudo começou. Meu pulmão começou a doer. Como você está abatido. Na hora em que eu liguei pro Daniel e não falei nada. Quando abri a porta de casa senti uma tristeza muito profunda. o Daniel tirou sua chave do bolso e abriu a porta. fiquei relembrando do dia em que o Daniel havia bebido bastante.. mas nada aconteceu. -Tchau. O que você tem. Sentei-me ao apoio lateral da banheira e comecei a enche-la. Posteriormente ele retornou. Ao chegar ele tocou a campainha por três vezes. Deixei o remédio sobre à mesa de jantar e fui ao banheiro. Bader.. seu calor. peguei uma doença que se chama “Síndrome do leva e trás”. mas permaneci embaixo d'água até perder os sentidos.. apenas ficou com medo de pegar a “Síndrome do leva e trás”. Cada canto daquela casa havia uma história diferente.. -Misericórdia!. eu havia ido buscar o remédio no carro. fazendo uma verdadeira bagunça em meu banheiro. Está doente? -Sim. Submerso vi minha vida se passar como um filme na tela de um cinema.. Do jeito que a dona Lídia era. Bom. porém. mergulhei de roupa e tudo.. Dani?. abri o porta-luva e peguei o remédio. vou ficar aqui no terceiro andar e descer o resto de escada. mas logo comprovei que para nada adiantou: -Oi Bader! -Oi Dona Lídia. Foi muito engraçado ver a cara de espanto que ela fez. 83 . um vazio dentro do meu peito me corroía. só de imaginá-lo com outra pessoa esfarelava-me à alma. ele retornou-me a ligação.. Claro que ela não tinha exercício nenhum para fazer. ela pode até matar. Enquanto aquela água fria escorria pelas minhas mãos. seguiu imediatamente para minha casa... Provavelmente a Dona Lídia já havia anunciado a grande novidade. Doeu meu coração as lembranças que vieram à tona. Da primeira vez o telefone estava ocupado. Pensei que a “lembrancinha” que eu havia dado à ela fosse servir para algo.. Assustada ela olhou-me estranho e se afastou um pouco. Teimoso como o Daniel era. Tirei o urso de lá e travei o carro. Olhei para o urso gigante que ele havia me dado. Com o gigantesco urso e a sacola da farmácia voltei para o elevador..Ao parar no décimo nono andar a Dona Lídia entrou. Quando ia fechando notei que o presente que o Daniel havia me dado de aniversário de namoro ainda estava dentro do porta-malas. -Que horror! É contagiosa? -Muito. -Bader?.. com certeza iria espalhar a notícia a todos os condôminos sobre a tal doença. destravei o carro. -Nossa!.. claro. O médico pediu pra eu fazer exercícios. Você está em casa?.

Daniel. Depois de enxugar-me. -Estou aqui.. não foi pela minha boca. -O que é isso. Segurando-me no colo ele voltou ao quarto.. -Jamais vou te deixar..... Foi coisa do destino. -Medo? Você é um egoista. Minha mãe tinha razão. repetindo várias vezes que me amava: -Petit eu te amo tanto. Acredito que se ele demorasse mais alguns minutos eu teria morrido afogado. -Era isso que você escondia de mim? -Petit. -Daniel. Jogando o frasco sobre a cama ele falou: -Por que você não me falou que tinha HIV? -Fiquei com medo de você não gostar mais de mim. Na hora não sabia o que dizer.... -Eu também te amo.. Eu estou aqui. Permaneci na cama descansando... Chorando e preocupado o Daniel tirou minha roupa molhada.. -Te amo!.. O que você fez? O banheiro ficou inundado.... Eu ia te falar agora.. Segurando minha mão ele beijava minha testa. Após regurgitar toda a água que havia engolido... O Daniel não merecia ser enganado. A fórmula é bem conhecida. pois já estava mais que na hora.. pouca coisa. e me deitou sobre o tapete. O Daniel chegou bem a tempo de salvar-me e impedir que acontecesse uma besteira. Ele acabou descobrindo tudo.. 84 . Não me deixa sozinho... Criando coragem chamei por ele que estava na cozinha: -Daniel. iniciando a respiração boca a boca logo em seguida. mas tem. -Bader?. Com muito carinho ele pegou uma toalha e começou a enxugar-me.. Bader? -Amor!. Se eu te perdesse ficaria louco.Em passos lentos o Daniel empurrou a porta do banheiro lentamente. amor. com certeza ele iria me entender.. Naquele momento eu tinha que contar para ele toda a verdade. -Oi petit. Ah meu Deus!... Quando o vi entrando no quarto com o frasco em suas mãos fiquei pálido.. Não vou te deixar sozinho meu amor. Preocupado comigo o Daniel chorava em me ver naquele estado.. o Daniel vestiu em mim um pijama e cobriu-me com um cobertor. pois a torneira permaneceu aberta quando mergulhei... Mas o que é isso?. e o Daniel sendo professor de Educação Física tem um conhecimento. mas graças ao meu petit isso não aconteceu... enquanto o Daniel fazia um chá de maçã para mim. comecei a chamar pelo seu nome. Já estou indo..... Á caminho do meu quarto ele viu o remédio que deixei sobre à mesa da sala. Acariciando minha face ele me abraçou para aquecer-me com o calor de seu corpo... Através do espelho ele avistou uma de minhas pernas para fora da banheira.... repetindo várias vezes que também me amava: -Daniel. e o que era pior. Tirando sua mochila das costas ele correu até mim e desesperado tirou-me da água. encostava minha cabeça sobre seu peito.. Bader.. Não me deixe....

Algumas situações nós podemos evitar que aconteçam. sempre atento a qualquer atitude que o coloque em risco de contágio. e não ficar dando desculpas mentirosas e me fazendo de idiota. Eu te amo. -Não meu amor. o vendo partir diante de meus olhos sem que nada pudesse fazer. No outro dia fui pra academia na esperança de encontrá-lo e podermos conversar melhor. pois fui vítima tanto quanto ele.. porém. Daniel. -Você não confiou em mim. peguei o telefone e disquei para ele. quase capotou o carro. mas o elevador já havia descido.. mas o celular deu caixa postal.... terei que tomar todo cuidado para não passar pra outra pessoa. afinal eu não tive culpa nenhuma.-Petit. -Me deixe. Ao chegar na academia minhas pernas tremiam... Por mais que eu tentei consertar. Corri para a sacada da sala e o vi dobrando a esquina. Talvez se eu tivesse contado a verdade teria sido tudo diferente. foi inútil.. Chutando à porta o Daniel chorava de decepção.. Ter HIV não significa que obrigatoriamente eu deva contar para meu parceiro que sou portador.. -Sempre usamos camisinha. -Pára Bader.. Chega de mentiras.. o Daniel pegou sua mochila e saiu de casa batendo a porta. Estou pouco preocupado com o que eles vão achar.. -Eu odeio ser enganado. e eu de arrependimento. -Não grite. A todo momento eu pensava em você.. por favor. -Daniel.. Contar é uma opção minha. Comecei a procurá-lo por toda parte. mas já era tarde demais. Não via a hora de chegar lá e tentar ter o petit de volta só para mim. -Você tem idéia do quanto eu sofri? -Mas Daniel.. No meu caso fui egoísta em não contar a verdade para o Daniel forjando uma mentira. -Eu sei. eu pensei em nós.. -Foda-se os vizinhos. Bader. mas não o encontrei. -Quando eu soube do resultado eu fiquei muito mal. Você vai acordar os vizinhos... -E as noites que eu passei em claro pensando em alguma idéia pra te reconquistar. -Entenda meu lado. minha boca secou. mesmo assim eu tive medo de que você contraísse. tenho que ter a consciência de que se eu quiser guardar isso só pra mim.... Inconformado com a situação... -Claro que não. fale. Bader. Angustiado... me perdoa? -Você só pensou em você. Me escuta? -Tudo bem. Levantei-me da cama e corri atrás dele. me escuta pelo amor de Deus? -Que ódio! (Dando socos na parede) -Amor.. Não deveria tê-lo enganado ocultando a verdade... Naquele momento eu tive a certeza que definitivamente perdia o amor da minha vida... A a burrice já havia sido cometida. Bader. deixando que ele decidisse nosso destino. Deveria ter se aberto comigo.... Ainda de mochila nas costas voltei à recepção e perguntei: -Oi. em como você iria reagir quando soubesse e principalmente na sua segurança. achando que você não me amava mais? -Amor. argumentar. jamais me perdoaria se em algum acidente contaminasse você. Você sabe me dizer se o professor Daniel já foi embora? 85 .

. -Tudo bem. Saí cheio de sacolas. -Algo grave? -Muito. -Como não? Desde quando isso? -Já fazem alguns dias que ele saiu. -Mas você não pediu desculpa? -Não adiantou. -Humpft. -Quer me contar? -Eu e o Daniel acabamos brigando. -Que coisa chata. eu trouxe aqui alguns book's para ver se é aquilo que você procura... Você não está bem. -Eu posso imaginar. Mais um dia se passou.. Hoje mesmo te entrego... Vendo-me parado ao portão ela ficou toda feliz..... -Tem a ver com o Daniel? -Humpft. né? -Não. Largou a manguei no chão. Levantando-me da mesa questionei: -Aquele Outdoor da campanha de sabonete. Essa é a melhor coisa que podemos fazer para esquecer dos problemas. Saindo da academia fui direto trabalhar. recomeçar tudo outra vez... O professor Daniel não trabalha mais aqui. Aquele dia foi muito corrido para mim.Entregando um cartão à uma aluna a garota respondeu: -Ah. Sai de casa e passei no shopping para comprar alguns brinquedos educativos. Tive que fazer uma seleção de modelos para uma peça de um novo cliente da agência.. seguindo direto para o Lar de céu. obrigado. Ao chegar avistei a Roberta lavando o quintal da frente. Tudo bem. -Estou sofrendo demais. Com uma pilha de álbuns nos braços a Eduarda sentou-se à mesa dizendo: -Bader.. pois minha carreira estava alavancando de uma forma extraordinária. fechou a torneira e foi até mim enxugando suas mãos no avental branco que ela não tirava. Eu fiz a pior besteira da minha vida. -De nada. pois a água se perdia tanto pelos buracos que quando chegava na ponta já saia fraca. com uma manguei verde que mais parecia uma peneira. praticamente já estava amarelo: 86 . sem volta. Chorar não iria adiantar. -Bem. Ouvindo ela dizer aquilo era como se eu visse minha felicidade partindo no horizonte sem rumo. o que retava-me fazer era seguir minha vida normalmente. -Obrigado! -Humpft. focando apenas meu trabalho como prioridade. Vou grava em um CD para te entregar. pois o computador daqui está muito lerdo. Tem como você me passar até o final da semana? -Claro. Pela manhã acordei cedo e nem tomei café direito. Meu coração apertou. não deixarei que isso acabe comigo. já está pronto? -Está. por conta de uma mentira.. sem o Daniel.. Eu tentava seguir minha vida normal.

.. Sentei-me em um banquinho de madeira todo torto... o Rodrigo foi correndo me dar um abraço. -Ah. -Não se preocupe. olha doutor seu dinheiro caiu do céu. mas faziam bastante volume... seu Bader? -Vim visitar essas crianças que tanto necessitam. -O que é isso? -Abre... doutor! -Bom dia. Deixamos as sacolas no canto da sala próximo à velha TV.. Tudo bem? -Tudo ótimo. Com uma ansiedade sem igual. e junto com elas vieram àquelas mulheres que haviam olhado-me diferente. -Mas doutor. -Entre doutor. Naquele momento eu senti uma sinceridade sem igual.. não precisava.. essa casa não tem estrutura para abrigar essas crianças.. salvou a vida do bichinho.. Fomos até o carro pegar os pacotes que eu havia comprado.-Bom dia.. pois olharam-me torto.. -Desculpa. Abre o portão pro doutor.. -Eu sei. Sem que eu esperasse ela deu um berro: -Vâniaaaaaaaaaaaaaa. -Olha o que o tio trouxe pra você. -Pára de me chamar de doutor que já está me irritando.. tudo bem? -Tudo.. talvez estranhando um rapaz de aparência fora do comum na qual elas estavam acostumadas a ver. Em principio achei que elas não haviam ido muito com minha cara. E o bebê. Reparei que na casa havia mais duas mulheres cuidando das crianças.. fique à vontade. Não eram muitos brinquedos.. -Roberta. Roberta.. como está? -Ta no hospital. Percebendo minha presença no local. -Já vou. Enquanto ajeitávamos a Roberta pediu para a Vânia trazer as crianças. me ajude aqui com os pacotes. Tudo bem... -Sente aí. Não te ofereço um suco porque não tem. Mas se não ficarem aqui. Deixei os brinquedos no carro e não comentei nada. Eu trouxe umas lembrancinhas para elas. -Obrigado.. ele foi rasgando o pacote da caixa com um olhar curioso: -Um vídeo game.. O que te trás aqui. -O senhor quer um café? -Eu não bebo café... não vim aqui para fazer pic-nic. pra onde elas vão? -Quantas crianças têm aqui? -Têm 20 criança. roído por cupim.. Abaixei-me e o esperei de braços abertos. -Oi Rodrigo.. Levantando-me da baquenta eu disse: -Humpft.... -Tio!..... -Hahaha. -Você gostou? 87 .

-Vem aqui me dar outro abraço. Roberta? -Tinha uma velha.. estudando. dar condições dignas de sobrevivência pra elas. correndo o risco de se machucarem. Não aceitava a idéia de uma criança ter que trabalhar ao invés de estudar e brincar. Sempre tive de tudo. Uma vez perdida. nunca mais é recuperada. mando trazer um pra cá.. -Prefiro conversar em um lugar reservado. Tudo bem que não são aqueles brinquedos muito sofisticados. os brinquedos disponíveis para eles estavam quebrados.... -Que notícia boa! Agora eu preciso ir. Acomodados em outro ambiente eu disse: -Eu quero ajudar vocês com essas crianças. Quer dizer... -Não tem problema. digna e feliz como todas as crianças do mundo deveriam ser.. Vem comigo.. o senhor é tão bondoso. Rodrigo.. Aquelas crianças viviam com dificuldade.. passavam necessidades. Ao ver os olhinhos do Rodrigo e de todas aquelas crianças brilharem de felicidade por ganhar pela primeira vez um brinquedo novo.... é um casal de médico lá do hospital. -Pode dizer. A infância é a melhor fase de nossas vidas... coisas simples. -Eles não tem televisão... mas acabou queimando. preciso falar com você. Era a primeira vez que eles ganhavam um brinquedo novo.. espero ter ajudado. Ah doutor.... A televisão ta no conserto. um descaso total com a educação e formação de nossas crianças que são o futuro do país. -Tia posso jogar? -Agora não.. brincando.. -Não ficarei em paz enquanto não ver essas crianças fazendo cinco refeições por dia..-Eu gostei.. e naquele ambiente elas estavam perdendo sua melhor fase.. Com o dinheiro do último contrato que fechei com a agência. -Ah! -Sim. -Bader. -Isso. -Como. 88 .... A Roberta foi os distribuindo um por um. em casa tenho três televisores. O governo parece não dar muita importância para isso. -Quem é Emerson? -Aquele bebê que.. seu Bader... -Brigado tio. doutor.... o resto tinha em média de 3 a 8 anos. Esse lugar funciona legalmente? -Humpft. -Roberta. -Ah que lindo! Isso deve ser caro... Pelo que vi da última vez que fui lá.. Na casa haviam 6 recém nascidos.. Já tem uma família interessada em adotar o Emerson.... Ai que gostoso. deixou-me emocionado.. eu tinha a possibilidade de tirar aquelas crianças dali e ajudá-las a terem uma vida melhor.. -Entendi. Essa ali do canto também não funciona e. doutor? -Quero tirar essas crianças daqui. ia me esquecendo.. -Se Deus quiser. Não. Seu. -Ai seu Bader.

89 ...... De início a Roberta ficou com um pouco de receio em deixar eu sair com o Rodrigo. Percebi que ambos estavam um pouco assustados com o barulho de carros em um ambiente fechado e com forte cheiro de combustível. -Só se a Vânia for junto... Então vamos. -Tchau Rodrigo! -Já vai.... -Ta.. Ao chegarmos deixei o carro no estacionamento do subsolo... -Onde a gente está... Virei-me para trás e o prendi por ele. o Rodrigo tem mãe? -Não sabemos. Bom. Abri a porta do carro e o Rodrigo já pulou pra dentro. Liguei o carro e seguimos em direção ao shopping mais perto... obrigado mesmo. -O quê? -Você gostaria de passear um pouco agora à tarde? -Obaaaaaaaaaaaa. -Pão com quê? -Só. -O que você comeu hoje de bom? -Pão. tio? -Aqui é um estacionamento. tio? -Preciso ir. Peguei na mão da Vânia e do Rodrigo enquanto caminhávamos em direção ao elevador.. -Posso levá-lo. -E quando você volta? -Não sei.. hoje não tinha comida pra dar pra eles e.... -Pra que serve um estacionamento? -Serve pra guardar carros.. ele foi deixado aqui na porta quando era bebê. -Como assim.. -Ah. Baixei o óculos escuro e entrei logo em seguida. Acionando a trava das portas perguntei: -Já prendeu o cinto. Poeiraaaaaaaaa. Que carinha é essa? -To com fome. só pão? -Pois é seu Bader. Roberta? -Ai doutor.. Ro? -Sim. Rodrigo? -Não sei como faz... Durante o caminho coloquei um CD e fomos cantando: -Você gosta dessa música.. talvez por conhecer-me pouco e ter pouca confiança. provavelmente esse tenha sido o motivo de pedir para que a Vânia nos acompanhasse. Poeiraaaaaaa. -Mas como pode? Humpft.... -Rodrigo. -E você já guardou o seu? -Já sim...... Roberta.-Ajudou muito doutor. -Fique tranqüila. trago ele ainda hoje.

O Rodrigo gritava pra ela subir. -Obaaaaaaaaaa!...... Andávamos pelo corredor do shopping olhando as vitrines. Quase você ia ficando lá sozinha.... Segurando em minhas mãos. Não demorou muito e o elevador chegou.. -Ai não.A Vânia quase não abria a boca. -Normal. muitas luzes.. -Pra que serve? -Ele serve pra levar uma pessoa de um andar pro outro. Peguei pela sua mão e continuamos andando pelos corredores das lojas. algumas até achavam graça. chamou sua atenção: -O que é aquilo. pois estava mesmo na idade das perguntas. Você nunca andou em um? -Não.. parecendo um bicho do mato. parecia um papagaio. já o Rodrigo perguntava tudo. também tinha medo. e eu falei várias vezes também. Vânia? -Deus me livre. Provavelmente a coitada deve ter ficado com medo de ser engolida pela escada. os dois demonstravam admiração com tudo... Deu um frio na barriga? -É. Não precisa ter medo.. Ao mesmo tempo em que o Rodrigo tinha curiosidade. Então vamos andar agora. -Hahaha.. Apertei o botão e ficamos aguardando junto com um casal de namorados.. Nem bem entramos e o Rodrigo foi lá pro fundo espiar a vista do alto.. -O que foi? -Minha barriga. deixando o da fantasia. tio? -Aquilo é um elevador. -Deixa de bobagem. -E ele não cai? -Não. tudo era novidade. Que troço horrível! -Hahaha. -E você. Esperamos todas as pessoas descerem antes de entrar. Para subirmos pela escada rolante foi um problema enorme. e por último saiu uma mulher com um carrinho de bebê. luzes.. As pessoas ficavam olhando. Sua atitude era compreensível.. Não sabia se subia ou não.. A Vânia ficou com medo. Nós adultos devemos ser sinceros. Com uma das mãos pressionando o peito ela falou: -Ai.. dizer sempre a verdade com jeitinho. Enquanto eu e o Rodrigo subimos ela ficou lá embaixo. Vânia. espelhados e iluminados. barulho.. Para ele.. está bem preso naqueles cabos ali.. até que a empurraram com a movimentação de pessoas no local. a descoberta de uma realidade fora da que ele vivia. e nessa fase as crianças começam a descobrir as verdades do mundo real. um mundo cheio de cores... pois o elevador era todo de vidro. tomando cuidado com as palavras e a forma de contar.... Por fim ela conseguiu chegar ao segundo piso. pessoas. mas a coitada ficava com medo. Ao passarmos pela praça principal do shopping o Rodrigo apontou para os elevadores que cruzavam no alto. -Hahaha. 90 . mas fiz de tudo para deixá-los à vontade e proporcioná-los um dia de muita diversão: -Ui.. Para eles era novidade aquele monte de pessoas juntas.

De mãos dadas fomos andando e vendo um lugar para nós. causava aquele tipo de reação. Notei que ambos estavam com muita fome pela maneira que comiam. Calma. Naquele horário estava vazia. Eu também dei risada da reação da Vânia e do Rodrigo. deslumbrados com o que eu estava proporcionando foi meu pagamento. -E a gente vai comer? -Vamos sim. -Hahaha... -E você. pois ele estava meio adoentado da primeira vez que fui visitar o orfanato. -O que é aqui. pizza. Ganhei meu dia. -Então vamos comer pizza e hambúrguer. -Estão gostando? -Uhum. mas eu compreendia que por ser uma descoberta nova. um pouco rápido demais... Chegamos no quinto andar e seguimos para a praça de alimentação.. pouco barulho. O que você quer comer? -Deixa eu pensar. foi uma cena muito engraçada. Vânia. Vânia? -Ele ta melhorzinho sim.. Eu vou morrer. torta de maçã. O casal que estava junto conosco dentro do elevador riam da situação. eu tentava disfarçar a gargalhada.. fez uma mistureba total.Segurando-se entre os vidros a Vânia exclamou: -Ah seu Bader!. tio? -Aqui é uma praça de alimentação. -Ebaaaaaaaaaaaaaaaaa. A satisfação em ver os olhinhos deles brilhando. Paramos em um dos fast-food para almoçarmos. -Eu quero comer pizza... mas depois fiquei com um pouco de receio. -O que é isso? -É um lugar onde as pessoas param pra comer e conversar. e assim que ele terminou fiz com que bebesse água logo em seguida. Compramos hambúrguer.. castanhas. muitas opções de restaurantes e uma variação de comidas.. -Fala? -Depois eu posso tomar sorvete? Cortando uma fatia da pizza perguntei: -Ele já melhorou da gripe.... batata frita... um mundo que ela não conhecia... Já vai parar. -Obaaaaaaa! Depois de almoçar fomos tomar um sorvete. -Tio. -Muito bom seu Bader. O Rodrigo quis um com muita cobertura de morango. 91 .. refrigerante.. Vânia? -Eu quero comer hambúrguer.. -E vamos conversar também? -Claro. Enquanto os dois pensando que iam morrer por causa de um frio na barriga ao subir de elevador. e os dois ganharam a realização de um sonho.. A Vânia não desgrudava do meu braço. Matou sua vontade pelo ano inteiro. -Só se você prometer comer tudo.

-É uma incompetente. Essa responsabilidade é a produtora quem deve. Não resisti e comprei várias roupas para ele.. por isso. gato..... -Eu? -É.. indo trabalhar logo em seguida. -Eu? -É. -Nossa!. -O que você está imprimindo? -O roteiro pra gravação de amanhã.. 92 ..... Hoje não estou com saco pra falar com aquela secretária burra deles. Bader.. pois as que o coitado vestia estavam muito judiadas... O Atendimento quer que você compareça na gravação do filme. -Do que se tratam? -Da gravação de amanhã. -Ah não. Sentando-me à mesa perguntei: -Você já contatou a prefeitura sobre a interdição do espaço pra filmagem? -Já. Humpft.... -Preciso assinar uma TV por satélite em casa.. Depois você passa para o pessoal da produtora. Cheguei na agência já passava das quatro da tarde. -E por que não vai o Atendimento? -Porque a filha dela está doente e desde ontem ela está de licença. Sua presença seria importante. parece que o cliente quer assistir as filmagens. E para o seu governo. -Sente aí... Passamos em frente à uma loja de roupa infantil e acabamos entramos para dar uma olhada em um tênis que o Rodrigo havia gostado. eu. -Mas Bader. -Eu sei.... mas está muito ruim. Coloquei meu casaco apoiado ao encosto da cadeira e liguei o computador. Iniciei a impressão dos roteiros de gravação. Então é incompetente mesmo.. -Já to indo... -Mas você não tem? -Tenho a cabo. -Bem. ela trabalha lá há mais de um ano. que é a Criação.. -Hahaha. -Sente aqui que preciso falar algumas coisas com você. Vou rever meu contrato com o João depois e pedir um aumento. tem uma pilha de papéis sobre sua mesa. Amanhã quero acordar um pouco mais tarde.. -O que foi? -É que... Já estava passando da hora. Não vou mesmooooo.. então os levei de volta para o Lar do céu.. Mas o gerente de marketing do cliente vai estar lá. -Sem problemas. A autorização foi concedida..Terminando de encher as três barrigas nós fomos andar um pouco mais pelo shopping.. -Uau!..... -Cheguei. vou pegar um café e já volto.. -Eduarda... Subi às escadas e encontrei com a Eduarda no corredor: -Bader. isso sim.. É que ela é nova. -Ah ta! -Humpft. velhas e gastas. a minha parte eu já fiz.

. -Lindas!. entregue esses desenhos pra eles.. Já que não tem outro jeito... Pára.. Rindo comentei: -Se todo bissexual e homossexual se assumissem.. Mas será que dá tempo amanhã? -Não seja tonta. -Sim. a Vanessa que disse. -Você quem manda. Quero as roupas iguais a essas dos desenhos. -Bem..... -Avise a todos. Teve alguém procurando por você um dia desses. claro. -Não creio! -Pois é. -Oba! -E você vai também... -Vou passar isso pro Henrique. -Nossa! Mas vai começar às 14 horas..... No outro dia acordei bem cedo. Estou solteiro. que façamos logo. Já inventaram um aparelho chamado FAX... a trilha sonora já foi escolhida? -O Glauber quem estava cuidando disso. eu vou. -Está bem. desculpa. servindo café.. limpando o vidro. se for algo de importante vão me procurar outra vez. Bobo. Ele quem está cuidando dessa parte.-Hahaha. Você sabe para que serve? -Pára de falar assim? -Então acorda para a vida.. -Hahaha. Comi um pedaço de pão integral com requeijão e um copo de suco de 93 ... Se é para fazer do meu jeito. -Quem está cuidando dos figurinos? -A Vanessa e o Gilberto.. Dando um gole em seu café ela perguntou: -E seu namoro. -Bader. mas vamos mudar de assunto. -Quem? -Não sei. como está? -Humpft. Não está. -São da produtora... É a mais pura realidade. -Não importa. -Com certeza. -Bom. você ficaria abismada com a quantidade.. -Também quero que os equipamentos já estejam posicionados.. pois se fosse ele a Vanessa viria correndo me contar. -Sim. -Não conheço esses dois.. -Quero que chegue lá antes das dez da manhã.... Bader. Não fazia idéia de quem seria. O rapaz é um gato.. -Daqui a pouco eu estou fazendo a reforma. mas de qualquer forma não dei muita importância a isso. pena que é gay. -Você me assusta falando desse jeito. -Deixou algum recado pelo menos? -Parece que não. pois deram-me o maldito papel de fiscal das gravações do filme publicitário. Olha. O Daniel não poderia ser. -Nem precisa.

Entregando minha mochila à ela.. né?... -Onde? -Na Via Dutra. -Galera.. arrumei algumas coisas na mochila e segui pra Praça Ramos. -E por que você não me ligou avisando que eu ia buscar esse infeliz? -É que ele está muito longe... você tem idéia do prejuízo que vamos ter? -Mas não é culpa nossa. Hei você. Bader.. Ao chegar notei que havia muita correria. -Por isso que eu te amo.. gritando. acho que já começou a maquiá-los também. onde o filme seria rodado. -Inferno! -E. -Misericórdia! Tirando sua franja do olho a Eduarda perguntou: -Você quer que eu cancele a gravação? -Até parece que você não me conhece. -Pode deixar. -O que acontece? -O diretor. tirando e ponto equipamentos.. já está aí? -Está sim. Quase chegando no Rio. Tire aquele canhão de luz dali e coloque perto daquela marquise. -Não interessa de quem é a culpa. também não é justo com todas essas pessoas que assim como nós estão trabalhando. Bader. só pudemos começar agora.goiaba. -Você viu a Vanessa? -Está vestindo os atores. -O que faremos então? -Eu vou dirigir esse filme.. já vestiu os atores? Cadê as câmeras? -Calma. -Eu sabia que você... Tomei meu banho bem rapidinho.. acabamos de conversar pelo telefone. Temos mais um probleminha.. e até o momento o guincho ainda não havia chego. 94 ....... É o seu emprego e meu nome que estão em jogo. -Bom dia! -Bom dia. -Como calma? Se esse filme não ficar pronta hoje. Bader! -O que aconteceu que não está tudo pronto ainda? Segurando a prancheta entre o peito a Eduarda disse sem graça: -Ai Bader. disse ao pessoal: -Espere. Você está muito nervoso.. Não veio. Era uma movimentação de pessoas pra lá e pra cá. atrapalhou tudo. Não acordei cedo em vão. parecia estar tudo atrasado. -E a Kelly. -Ótimo! Em meia hora quero ver tudo pronto...... vamos apressar essa montagem de equipamentos aí. Estava tendo um protesto de sindicato aqui. Sentei-me ao degrau do Teatro Municipal esperando a “bomba”. -Como não? -Parece que deu um problema no carro dele.. -Sem bajulações..

Passamos a tarde inteira gravando às externas no Centro de São Paulo. e nem sempre conseguimos o resultado que queremos na primeira filmagem. -Humpft.. Terminamos as gravações quando já era noite. -Bom. O cliente acompanhou às filmagens do início ao fim. cercar o local. -Vocês estão me deixando sem graça.. -Claro!. ajustar a luz de acordo com a claridade do dia. É necessário gravar várias vezes a mesma cena... -Avise aquele rapaz. pois dá muito trabalho. preciso ir. por favor. Muitas pessoas paravam para acompanhar as filmagens. Eduarda? -O gerente de marketing chegou. Foi necessário fechar um quarteirão inteiro... até dias para ficar pronta.... o que acabava nos atrapalhando em alguns momentos. o que eu faço? -Dê um jeito de distraí-lo.. Muito talentoso você. figurinos. a Eduarda abordoume correndo. tenho uma má notícia. Eu adorava meu trabalho. -Sem problemas. Com o sorriso de orelha a orelha a Eduarda falou: -Não é à toa que ele é destaque na agência por ter essas idéias persuasivas.. No meio da gravação tivemos que interromper por causa de uma chuva repentina.-Eduarda. retomando o trabalho novamente na primeira trégua. -Obrigado. Além disso. logo em seguida demos início à gravação. Uma produção como aquela leva-se horas. Ficamos em média quarenta minutos aguardando a chuva forte passar... e pela cara dele parecia ter gostado: -Bader? -Eu. e uma infinidade de outros detalhes que contam muito para que saia um trabalho de boa qualidade. -Tudo bem.. O que é... -Droga! -E agora.. temos que achar a posição certa da câmera. eu disse que não era pra ninguém circular por dentro da área cercada sem crachá de identificação. Estendendo sua mão para mim ele falou: -Parabéns! A idéia foi toda sua? -Sim. não disse? -Sim... Em nome de 95 . Obrigado pela presença! -Obrigado você pelo bom trabalho que desempenhou para nossa empresa. atores e produção. A equipe técnica que levamos era enorme. e engolindo a saliva a seco falou: -Bader. enquanto eu arrumo uma maneira de fazer um milagre aqui. Consegui deixar tudo pronto em quinze minutos. -Ta bom. Nervosa. Foram armadas cinco tendas para abrigar equipamentos. mas nada teria feito se não fosse a ajuda de todos esses profissionais que deram duro. -Nossa!. cerca de vinte pessoas. Não é fácil filmar em externa. mas às vezes ele era stressante..

Desculpe. na edição das imagens. Com um olhar sério ele encarava-me calado. deitar em minha cama quentinha abraçado com a Dani e ver um filme na TV. Daniel. Não via a hora de tomar meu banho. pois havia esquecido o controle que abria o portão automático e buzinei para que o porteiro abrisse para mim. Assim que ele foi embora. imóvel. com uma bermuda tipo surfista azul e preta com a "barraca" meio armada. Não conseguia pensar. sinal de que eu estava seguindo no caminho certo. coloquei no liquidificador com água e açúcar. enfim. já que ele adorava pegar no meu pé. Deixei o que estava fazendo e fui abrir a porta antes de jantar. Dei a comida pra Dani e fui tomar um banho bem quente para tirar o stress. Ao mesmo tempo em que fiquei feliz por vê-lo.. amor.todos agradeço. O bom de ficar ocupado daquela forme é que você esquece um pouco de seus problemas.. mas antes tive que passar na agência para deixar alguns equipamentos.. Subi para meu apartamento morrendo de saudade da Dani e louco pra cair na cama. seria um ótimo pretexto pro Carlos ir bater na minha porta para me encher o saco. seguindo para minha casa em seguida.. por isso tratei de não demorar muito. -Mais uma vez. Chovia e trovejava demais.. Passei meu óleo de amêndoas no corpo todo para dormir melhor. Deixei a mochila no meu quarto. Depois de descobrir que eu estava com HIV por um descuido meu. juntamente com minha cabeça e garganta. camiseta amarela e tênis sem meia. Minha única atitude foi pedir mais uma vez desculpas: -Oi petit. Eu esperava que fosse qualquer pessoa. bem vestido. Ele estava lindo como nunca. coisa boa ele não haveria de querer ali. Peguei a polpa de fruta congelada. tirei alguns congelados do freezer e coloquei para aquecer no microondas.. Claro que eu já até previa quem era. O microondas começou apitar indicando que a comida ficou pronta. pois o cansaço era tanto que não via a hora de dormir. Tive que me segurar para não cair. depois bati até ficar cremoso. Meu coração foi a mil. Segui até a cozinha. 96 . -Não é isso. perfumado. não demorou muito e eu fui também. Coloquei-a no prato e fui coar o suco quando a campainha tocou. Enrolei a toalha em minha cintura e fui preparar um suco.. menos o Daniel. Aquilo estava me incomodando. chegando cansado em casa e não tendo tempo para mais nada. melhor ainda era saber que ele havia ficado satisfeito com meu trabalho. Durante o caminho fui dirigindo e pensando em como seria meu dia seguinte. minha boca secou. Aproximei-me da porta preparado pra descer os cachorros em cima dele... Não estava nos meus melhores dias pra escutar desaforos: -Já estou indo. -Você não confiou em mim. Ao abrí-la levei um susto. pois o dia havia sido exaustivo. Minha mãe dizia que não é recomendável tomar banho enquanto estivesse relampeando. também tive medo. -Oi bebê! Papai chegou. Manobrei o carro na garagem e acabei estacionando de qualquer jeito. sonorização. Minhas pernas estavam doloridas. Eu entendo que você esteja furioso comigo.. obrigado! Fiquei muito feliz em receber pessoalmente um elogio do representante da empresa... focando somente na tarefa que deve ser desempenhada no momento. Minha voz custou a sair. Parei em frente ao condomínio. Por ter estacionado o carro de qualquer jeito.

sabia? -Humpft.. Em meu ouvido ele sussurrava palavras de amor.. eu fui ao médico fazer os exames. -Depois daquele dia..... Com seu corpo deitado sobre o meu. Cala essa boca e me beija logo.. Por uma causa justa. Apenas coberto pela toalha eu deitei-me à cama. Ali mesmo na sala começamos a nos amar. quase comecei a chorar. -Como eu senti falta desse corpo.. Desse cheiro. jogou-me à cama e começou a tirar sua roupa já de "barraca" armada. Dessa pele.. deixando-me.. -Você não vai explicar nada. -Te amo. -Nossa!. Peguei a toalha do chão e me enrolei.. seu jeito delicado e ao mesmo tempo selvagem de chupar meu mamilo. meu coração quase saiu pela boca. Eu delirava com sua performance na cama. -Quase quebramos a cama. -Hahaha. Nossos corpos pelados deitados sobre minha cama. de corpo nu e bronzeado.... se encaixava perfeitamente.. -O que? -Fazia tanto tempo que eu não gozava assim. A maneira com que o Daniel me abraçava. Deixei em suas costas a marca do auge atingido pelas suas bombadas. Olhando em meus olhos ele foi se aproximando. Vem comigo.-Chega. enquanto eu suspirava incrédulo de que aquilo estava realmente acontecendo. Eu também te amo.. Aquele cheiro de pele misturado com o cheiro da sua respiração completaram o sexo safado. -Por favor. Fui arrastado até o quarto onde ele trancou a porta..... Você me perdoa? -Claro. tudo negativo. Relembrei todo aquele sofrimento que havia passado quando também os fiz: -E ai? -Não tenho nada. vamos matar nossa saudade fazendo o que nós sabemos fazer de melhor.. Na sala mesmo ele já havia tirado sua camiseta. Em seus braços eu entreguei-me. como retribuição o Daniel marcou meu peito com uma chupada enorme.. Ainda com a luz acesa olhei O Daniel tirar sua bermuda sem cueca. Pegando pelo meu braço ele puxou-me novamente. Na hora que ele falou aquilo minha barriga gelou. 97 . -Psiu. caralho... Afastei-me um pouco.. Fizemos amor gostoso. Pouco me importa se você tem HIV ou não. Jamais eu te abandonaria. ele puxou minha toalha deixando-me nu. -Nem eu... Com aquela mão enorme ele tocou meu rosto e deitou-se ao meu lado.... A vontade que eu tinha de estar com ele era enorme. então foi só alegria. me deixe explicar. você nem imagina o quanto... o importante é que eu te amo mais que tudo nessa vida. Minhas pernas amoleceram. -Ufa! -Mas isso já era certeza. -Petit. Não fale nada... sua pele se arrepiava só de tocar na minha. Aquele movimento pélvico de ir e vir que ele fazia era incomparável.. -Petit. Pegando em minha cintura ele jogou-me ao sofá e foi me beijando como nos velhos tempos... O quarto se fez silêncio..

olha ele aqui. mas... 98 . Eu não jantava sem o Daniel chegar e banho só tomávamos juntos... A vida nos colocou à prova algumas vezes. -Mas o Maik é mansinho. Só faltou o Maik -Quem é Maik? -Meu cachorro. -Pra que você trouxe isso? -Porque a partir de hoje nós vamos viver como um casal.. -Ah. Pegamos as malas e trouxemos pra dentro da sala. me ajuda aqui.. -Nem pense nisso.. cujo eu não tinha entendido o por quê.. -E por que não? -Por que não. De mãos dadas comigo ele abriu a porta e no hall do elevador havia algumas malas..... -Então eu voltei pra junto de ti. -Ai. -Você tem cachorro? -Sim.. Eu nunca havia reparado naquela tatuagem. -É porque ela é recente. que segundo ele era seu cachorro Maik. Me ajude a guardá-las.-Eu sei. Todos os dias eu dormia e acordava com ele ao meu lado. Mas aqui não tem espaço pra ele.. ou também por distração mesmo. tomando os cuidados necessários. pra ficar com você pro resto da vida..... um pittbull.. -Nossa!.. Talvez fosse pelo fato dela ficar atrás do ombro e as camisas tamparem.... como um casal de verdade. Aquelas alturas eu já havia vestido uma cueca. logo farei uma sua. Vem comigo. Eu tive muita sorte na vida quando o encontrei. Pára com viadagem. e sei que posso viver eternamente ao seu lado sem correr nenhum risco.. Morro de medo dessa raça. -Então. -Tirei todas as minhas dúvidas com o médico. e ele só mostrou o quanto era grande o seu amor por mim. Fiz há pouco tempo. por isso estou me mudando pra cá. também tem a Dani. E olha que eu te dei banho uma vez.. Nunca havia reparado nessa sua tatuagem...... A partir daquele dia começamos a morar juntos. -Sério? -Sim. Em seu ombro direito havia uma tatuagem de um pittbull. -Pra onde? Depois de vestir sua bermuda o Daniel pegou pela minha mão e levou-me até a sala... -De quem são essas malas? -Minhas.

Trabalhei quase dezoito horas por dia. cujo eu não pretendia acordar nunca mais.. -Se eu pudesse ficar assim com você eternamente. abraçá-lo. Nossa rotina parecia um sonho... -Promete? -Sim. Daniel? -O quê? -Esse comercial foi eu que dirigi. fazia chá de maçã que era o meu preferido.. -Humpft. e só fui descansar no final de semana.. -Deixa eu ver. O Daniel cuidava de mim com muitos paparicos. -Prometo que nunca dormiremos separados. O filme dava cada susto de disparar o coração. chorando 99 . Mas por que o espanto? -Porque eu não sabia que seria veiculado tão rápido. quando de repente começou a passar a propaganda que eu havia dirigido. Na verdade estava previsto para ir ao ar no próximo mês. foi uma semana cansativa.. Eu sei.. -Obrigado.. Levava comida na cama. Durante a semana tive duas gravações para acompanhar.. Adormecemos com a TV ligada..... -Olha lá.Finalmente minha vida voltou a ser como era antes. amor! -Oh meu bebê..... demais. ficamos ali abraçadinhos o dia todo. Pegamos sol e chuva. que por conta da correria e descuido acabei pegando uma gripe. sempre estaremos juntos. você precisa se cuidar mais. -Te amo. Sonhava que chovia muito e eu corria por uma rua sem fim. e claro que ele também entrava na água para me fazer companhia. comendo pipoca e vendo TV. Era muito bom naquele tempo frio... Abraçados. Será que o público vai aderir? -Com certeza... Ficamos de pijama deitados à cama. Durante a madrugada eu tive um sonho horrível. amor!. Nossa.. -É tão bom ficar abraçadinho com você. -Moi aussi. começamos a ver um DVD de suspense que o petit tinha alugado. Ta pronto seu chá. petit.. -Petit. e claro que eu aproveitava pra pegar em sua mão. aconteça o que acontecer. Deitado à cama eu via TV. mudava a TV de canal quando eu pedia e até me dava banho. -Sim.. -Melhor ainda... amor. (Eu também) Lá fora chovia muito. né? -Pois é. Desculpe. Seu organismo agora é frágil. embaixo do edredom se amando.

Não esquece de pegar a nota fiscal. -Ta bom. -Bom dia! -Bom dia. 100 . Eu te vi com um outro cara no carro e. Tomei meu capuccino bem quentinho e fiquei vendo o noticiário na TV.... petit! -Bom dia amor.. Me abraça... está tudo bem... colocou uns pães de queijo para assar no forno e foi arrumando a mesa para o café. Tive um pesadelo horrível.... Na manhã seguinte o Daniel acordou primeiro que eu. Deitado em seus braços não consegui dormir. Falou. O que foi?. Por mais que eu tentasse falar era inútil. perdido em uma rua onde nunca encontrava a saída. mas já que você tocou no assunto. Eu tremia demais. -Ah é.. -Ai meu Deus. Dando-me um beijo na testa ele falou: -Não se preocupe. -E nós somos padrinhos. Bader?. eu estava acuado no meu próprio medo.. a voz não saia. sempre..... Já tem café pronto na cozinha. -E você preenche meu coração quando está comigo.. geléia..sem parar. dando-me um beijo melado... suco. petit. Nem compramos o presente. -Vai dar sim. -É verdade!.. A previsão do tempo era de chuva forte a semana inteira. Levantei para preparar o café da manhã... você pediu demissão na academia? Humpft. -Você preenche minha alma quando fala assim. suando. continuamos conversando: -Semana que vem é o casamento do seu irmão. eu to aqui pra te proteger. Com você ao meu lado minha vida tende a dar certo. pois parecia real demais. até ser acordado pelo barulho de seu celular tocando: -Alô? Daqui a pouco eu to chegando.. Espreguiçandose ele exclamou: -Bom dia. -Que sócio? -Saí daquela academia do shopping e montei a minha própria academia. Já passou.... petit? -Vem aqui... pois eu chorava de medo. -Bader. -O que aconteceu? -Eu. amor. Tomou banho. meu gato. Sorrindo ele veio de encontro a mim.. Não vou deixar ninguém te machucar. -A propósito.. -O que você acha de dar uma passagem de lua de mel para os dois em um cruzeiro pela costa brasileira? -Seria uma boa idéia... Enquanto ele foi à cozinha preparar seu café. Aquele cara que você viu comigo é o meu sócio. frutas.. como só ele sabia fazer... -Ah que bárbaro! Espero que dê tudo certo.. Eu ia te fazer uma surpresa.. O Daniel despertou preocupado. O sonho que tive deixou-me assustado. Acordei assustado. pão no microondas... leite na geladeira... ta bom. gostoso e safado.. Vestindo apenas uma cueca samba canção o Daniel apareceu na sala.. Enquanto isso eu dormia..

Em seguida passei sabão. O medo de contaminar outra pessoa era constante. deixando aquecer por um minuto no microondas. abri o armário atrás de mim e peguei uma caixa de chá de camomila que ainda estava fechada. coco. com goiabada. Enquanto eles não ficavam prontos.. volto pra almoçar com você. Enquanto eu comia. Se alguém se contaminasse por minha causa eu ficaria louco. e quando eu via sangue já entrava em pânico.-Você vai sair? -Vou. Na hora nem senti. Eu não conseguia resistir. Compramos equipamentos novos para a academia e preciso estar lá na hora da entrega. Fiz um curativo com esparadrapo e voltei para tomar meu café. 101 .. um abraço quentinho. sequei com papel e passei um remédio para não infeccionar. -Tome cuidado. Aquela boca dando um sorriso safado de canto fazia-me perder a cabeça. fiquei na cozinha de olho nos pães de queijo para não queimarem. ia ter que o tempo certo para não ficar mal acostumada. vou de moto. chocolate. dava-me aflição. o chá de camomila. Depois que eu soube sobre minha doença. petit. Que homem era aquele que me fazia esquecer até meu nome? -Te amo! -Eu também. Enquanto isso. Tirei os pães de queijo do forno e o chá do microondas. Então vou fazer um almoço bem gostoso. -Até mais tarde. mas antes quero outro beijo do meu gatinho. peguei o pote com os biscoitos amanteigados e levei até a mesa da sala. peguei uma faca para rasgar aquele plástico estúpido. um mais gostoso que o outro. torradas. bebê? Papai já vai dar seu papá. e foi aí que reparei o corte em meu dedo. Depois que o Daniel saiu para resolver os problemas da academia. Abri a torneira da pia e deixei o dedo embaixo d'água até lavar todo o excesso de sangue. Sentei-me à mesa e tomei meu café da manhã. -Ah ta. -Você volta tarde? -Não. A coitada ainda não havia comido nada. fazendo com que eu entrasse em pânico. para não pingar nenhuma gota de sangue pela casa. Agora preciso ir. Guarde-a de volta no armário e coloquei o sache dentro de uma xícara com água. Começou a sangrar muito. Quero conferir tudo de perto. -Hum. Vem aqui. Demos um selinho bem molhado.. não desejava aos outros. mas também nem estava na hora dela comer. Irritado. O que eu não queria pra mim. -Até. Não tinha paciência. -Pode deixar. salame e muitas outras mais. meus cuidados foram redobrados. Corri para o banheiro tapando o corte com a outra mão.. -Você está com fome. com biscoitos amanteigados de vários tipos. quando por um descuido acabei cortando meu dedo. Também tinha os pães de queijo. Levava os dois para a mesa quando notei que o pote de biscoitos estava sujo de sangue... Eu detestava abrir aquelas embalagens que lacravam as caixas de chá. Seu olho entregava sua vontade de me consumir como o pão que assava no forno. a Dani ficava sentada ao meu lado esperando sua vez. -Mas eu volto logo. -Mais gostoso que você? Impossível. Consegui abrir a embalagem e tirar um sache de chá.

Desliguei o telefone com o coração apertado. Ta. se não ela ia deixar-me maluco. -Amor. Fui tomar um banho bem quentinho.. porque ainda estava doendo e eu havia acabado de passar remédio. -Humpft. aproveitei e fiz a barba também que já estava me incomodando. Desde criança sempre fui comilão. não quero você nesse ambiente pesado. mas antes limpei com álcool o sangue que havia sujado. -Te amo! -Eu também.. só do carro.. Ainda bem que nada de ruim aconteceu com o meu petit. Conforme fui crescendo... pois desde a hora que havia acordado fiquei de samba canção. Guardei os biscoitos que sobraram.. -Fica tranqüilo.. pois é em contato com a água caindo sobre nós que renovamos nossas energias e mandamos o stress embora. Deveria estar tocando há algum tempo.. -Quer que eu vá até aí? -Não... Eu adorava cantar e dançar enquanto banhava-me... -Caramba!. Coloquei toda a louça para lavar na máquina. Sempre achei que o banho é muito importante pra todo mundo. não sei que horas vou sair. vou ficar bem. Ainda com o dedo doendo um pouco fui dar comida para a Dani. adorava doces e detestava verduras. -Por quê? -Porque roubaram minha moto.. mas não encontrei. passei a gostar de vegetais. mas minha moto já era. Agora eu to aqui na delegacia registrando ocorrência.. -O quê? Como foi isso? -Humpft. porque logo quando parei em frente à academia fui abordado por dois indivíduos armados. Fui até o quarto vestir uma roupa.Terminei de tomar meu café tranqüilamente.. Daqui a pouco eu to em casa. -Humpft. Fiquei com o dedo machucado para fora da água.. fica aí mesmo. Comecei a vasculhar o 102 .. mas continuava preferindo um bom pedaço de bolo de chocolate. Voltei ao banheiro e procurei pelo meu relógio de pulso. -Você não tinha seguro? -Da moto não.. -Vou chegar um pouco tarde em casa. Voltei até o banheiro e terminei de escovar os dentes. Ainda com a boca cheia de espuma enxaguei rapidamente e corri para atender: -Alô? -Petit. -Oi.. Com o rádio do quarto ligado eu acompanhava a música do chuveiro. eu to preocupado. Logo depois voltei à sala e comecei a arrumar a mesa... -Puts.. Abri a tampa do creme dental com o dente para não machucar meu dedo.. enrolei a toalha na cintura e fui escovar os dentes. No rádio as músicas ainda tocavam. Eu acho que os caras já estavam de olho nela há algum tempo. em frente ao espelho da pia eu escovava os dentes e dançava seguindo o ritmo da música até ouvir o telefone tocar. Mas você está bem? -Eu to... Depois de tudo limpo e arrumado fui vestir uma roupa. Saindo do banho. Sempre tive mania de encher a mesa com um monte de coisas gostosas.... mais do que já estava.

-O que aconteceu pra ela sair correndo desse jeito? -Ela viu um gato correndo na rua e começou a correr atrás. sempre sorrindo. Tive que abrir o portão para poder sair e ele entrar.. peguei o celular.. subindo na árvore da calçada. mas a Dani perdi de vista ao dobrar a esquina. Entrei em pânico. você não está vendo ela de coleira arrebentada? 103 .. Cansou do Bader. Com o dedo machucado não consegui segurá-la. Com isso aquele tonto acabou ficando pro lado de fora.... quando em um amontoado de papeis deixei cair a carteirinha de vacinação da Dani. Não era possível que um basset caramelo fosse sumir assim tão fácil. até que um gato vira-lata passou em nossa frente.. o porteiro estava recebendo um pacote dos Correios. permitindo que ela escapasse. -Ela ta fugindo de você? Hahaha. mas aquela mula esqueceu que o portão era automático e trancava ao bater. Até que foi uma cena engraçada. e ao chegar no cruzamento com a Avenida Angélica avistei o Daniel atravessando a rua.. mas com certeza eu iria expor aquele acontecido na reunião de condomínio. Vamos passear com o papai. pois era a segurança dos condôminos que estava em jogo.criado mudo. -Já achei... óculos escuro e cabelo todo espetadinho. Acabou sobrando pra mim. um tesão de homem. faz um favor pra mim? -Qual? -Abra o portão que acabou trancando? -Onde que abre? -Tem um botão verde ao lado do teclado dentro da guarita. -Eu? -A Dani. coloquei o óculos escuro e saímos pela área de serviço. Naquele momento lembrei-me de que sua vacina estava atrasada. meio caidinha aparecendo a cuequinha como eu gostava.. e eu tentando segurá-la. Dani. Sua fúria era tanta que não demorou muito e a coleira se desprendeu de seu corpo. Ao chegarmos na portaria.. E você também. passei um pouco de gel no cabelo e fui até a cozinha buscar a coleira da Dani. comecei a sentir falta de ar e mal estar. -Muito obrigado! -Preste atenção da próxima vez. pois não era permitido andar com animais nas áreas sociais do condomínio.. -Dani. sem ar. teria o abordado e entrado com muita facilidade. -Bom dia seu Bader! -Bom dia.? -Ai que sustou você me deu. No caminho lembrei que havia deixado o relógio sobre a mesa da sala. Cansei de tanto correr. vindo de encontro a mim com a Dani em seu colo. -Mas você deixou ela andar solta pela rua? -Claro que não... Camisa baby look preta. O felino eu consegui achar. que ficava dentro da última gaveta do armário. Se fosse um ladrão. Vestindo uma calça jeans com uns detalhes rasgados. Desesperada ela começou a querer correr atrás dele. Prendi a coleira nela. Dani. Douglas. O gato cinza conseguiu escapar sem nenhum arranhão. Caminhávamos a Dani e eu tranqüilamente pela calçada.. -Seu Bader... Eu também nunca havia corrido tanto até então. Corri pela Avenida Higienópolis quase morrendo. Nunca vi a Dani correr tanto em minha vida. Coloquei um tênis.

. e os sarros do Daniel deixaram-me mais puto ainda... amor......... -Como assim? -Eu não tenho uma renda fixa. E também como eu ia saber que você tinha grana? -Se perguntasse saberia... -Por quê? -Você acha que vão encontrar minha moto? À uma hora dessas ela deve estar em outra cidade. eu ganho por contrato. -E isso equivale a quanto? -Meu último contrato eu fechei em cem mil.. -Ah.. -Aonde você estava indo? -Humpft. Comecei a chorar e tremer. Bader? -Eu não tenho salário fixo. -Você nunca mais faça isso com o papai. -Pega ela aqui. -Daniel. -Você fala com essa cachorra como se ela fosse gente.. eu to vendo. Vou levar a Dani pra tomar vacina na veterinária. Você fez o boletim de ocorrência? -Fiz.... dei preferência ao carro que custa mais. -Amor. -Petit. é também para dividir os problemas. é que fiquei nervoso. Se estamos juntos. -Daniel.. -E por que você não colocou no seguro? -Não tinha grana pra isso. não tem tempo estipulado. estado ou até mesmo desmontada.... tive que economizar ao máximo. você me deixou com o coração apertado. mas quanto você ganha... te amando como sempre... -Ah.. -Quê? -Sim. Levei a Dani no colo para não correr o risco dela escapar outra vez. perto de você. -Está louco? -Por quê? -Não acho justo. -Humpft.. Deixa pra lá.. Esse trabalho pode durar um mês ou um ano... Desculpa... Eu fecho um contrato com a agência para produzir a publicidade de um cliente dela. Você reparou que foi nesse cruzamento que nos conhecemos? -É verdade. -Mas eu to aqui.... fiquei preocupado com aquela história de assalto... Eu vou com você.. mas tenho quase certeza que não vai dar em nada..-Calma amor.. -E por que você não me pediu? -Pediu o quê? -O dinheiro para... Fomos caminhando e conversando até a veterinária que ficava ali perto... -Desculpa. -Hum. 104 . e ganho um valor pelo contrato. -Que mal lhe pergunte. -Mas ela é quase. O medo de perder minha companheira de tanto tempo fezme sair do controle... E entende tudo que eu falo.... Um deve ajudar o outro. Agora que montei a academia..

parecia estar voltando de uma pelada.. Sente aí que já.. -Oh de casa. Sentando-se ao meu lado a Millena completou: -Ele só dá trabalho. o trabalho que daria.... -Vem cá.. -Ah. Após minha mudança para São Paulo. Nós estamos no meio da rua.-Caralho!... Segundo elas. e no lugar dela até eu teria ficado. Na véspera do casamento eu já estava melhor e meu dedo também já havia cicatrizado. Millena. -Ta bom. é por contrato.. 105 .... Você tem uma maneira de me fazer feliz que ninguém tem.. -Bader! -Oi mãe! -Oi Bader! -Tudo bem. Foi muito engraçado ver minha mãe contando. não resisti e senteime à mesa para almoçar com eles.. sentia muita falta daquela comidinha caseira de mãe. Passei a semana tratando daquela gripe chata.. mas isso eu só iria comprovar no dia da cerimônia.. é diferente.. abri a mochila e entreguei à Millena uma pasta contendo o meu presente e do Daniel: -Mi. Mesmo assim. um encanto no olhar... é muita grana. -Olha como você está me deixando? -Daniel. -Eu tento. entregar o meu presente e o do Daniel.... acabava fazendo tudo.. disseram que escolheram o melhor vestido da loja e o mais bonito. -Entre meu filho. uma sedução oculta. mesmo contra a vontade dos médicos... Millena? -Eu to ótima. -Se você soubesse o quanto minha vida mudou depois que te conheci. -Pare com isso.. Disse que a vendedora da loja quase ficou louca.... Também queria um emprego desse. Era visível a ansiedade dos noivos para o casamento. ele não trabalha não? -Trabalha.. Hoje eu vim aqui por um motivo especial.. todo sujo. -Mudou em que sentido? -Em todos. Pra falar a verdade eu nem conseguia. -Cadê o pai? -Ta tomando banho. Minha mãe havia acabado de fazer o almoço. Aproveitei e fui visitar os noivos em Campinas... Logo depois o Rodrigo chegou. Imagine guardar aquele monte de vestidos depois... mas não consigo resistir a você. Ganhar cem pau por mês. A Millena provou quatorze vestidos antes de decidir qual iria usar.. e não por vinte e quatro meses... já ele termina. Enquanto conversávamos sentados ao sofá.. E o Rodrigo? -Saiu com os amigos. Só você mesmo.... -De nada vale ter todo esse dinheiro e não ter você ao meu lado. Não agüentava mais ficar de repouso sem poder fazer as coisas que eu gostava.. Passei o dia com eles. -Não é por mês. Controle-se.. -Hahaha. Fechei o contrato por dois anos com essa empresa e vou ganhar cem mil por esses dois anos.

.. -Ai Bader. -Opa.. -Sei. Bader.. Deus te acompanhe.. Os dois pareciam duas crianças. Passa meu telefone pra ele... -Vai com Deus. fiz um pudim de leite condensado. -Tudo bem. filho.-Ah é? -Sim. Trazer o presente de casamento meu e do Daniel. -Rodrigo? Respeite seus pais. -Ah é assim? -Estou brincando. Bader. 106 . -Você não faz idéia de como vamos nos divertir. pai? -O Cristiano ta precisando fazer um trabalho de escola que fala dessas coisas de comercial.... Eu morria de rir com aquele monte de besteira que eles falavam. mãe. -Passe para ele depois. ta? -Passo sim. amor. mãe. -Você tem meu e-mail? -A Millena tem.. -Bom... -Claro! Do que ele precisa exatamente? -Parece que precisa vender água em pó.. Olha.. você quer levar? -Isso é pergunta que se faça? Não seja indecente. e pra variar eu sempre estava envolvido... -Hahaha. -Espere um pouco que vou embrulhar pra você. filho.. -Já falei que não gosto que a senhora fale assim.. Pode deixar. -Obrigado pela visita. Drigo? -Eu to vendo... -Ele veio me perguntar se você poderia dar uma ajuda pra ele. -Obrigado.. -Não Millena.. -Filho. você é tão especial que se fosse hétero eu largaria seu irmão por sua causa. É claro que eu quero.. -Ta cedo. vou pensar em um argumento bem bacana. -Espero que curtam bastante a viagem de lua de mel. Fiquem com ele. -Ah! O que será. -Desculpe...... lua de mel? Vai ser o dia todo... Parece que eu morri.. -Fala... eu preciso ir agora. -Agora sim. Não! Assustado perguntei: -Você não gostou? -Mas que pergunta pornográfica! É CA-LA-RO que eu gostei.... ainda tenho que passar na tinturaria pra pegar minha roupa e a do Daniel. -Bader. -Tudo bem.... Voltando da cozinha com um prato na mão minha mãe falou: -Aqui está o pudim.

pois bem no centro de São Paulo com metrô perto. Me casei com um Chefe de cozinha e não sabia?.. -Ai.. tornavase louco.. Pára. Finja que nem to aqui. Fomos nos amando e nos despindo no caminho.. Também tinha os doces que minha mãe fazia e eu não resistia..... morava na mesma rua que minha família. 107 ... -O que você está fazendo de bom? -Pene ao sugo. Olhando pros meus lábios com olhos de desejo. pois eles eram uma verdadeira comédia. Beijo pra vocês e até amanhã. -Hum. A localização era boa. -Tudo bem. Na cozinha mesmo o Daniel começou a tirar nossas roupas. Petit. Marquei de encontrar com o dono na próxima semana. dei-lhe um beijo e fui colocar as roupas no cabide do quarto para não amassar. -Peraê.... Colocando a colher sobre a pia o Daniel tirou o avental e abraçou-me. Sempre que ia pra lá. -Hahaha. Quando cheguei em casa o Daniel já estava fazendo o jantar.... divertia-me abeça. pouco a pouco foi me beijando e tocando minha pele por baixo da roupa.. Na volta para São Paulo. Hahaha. pois minha avó era comadre da avó do Cristiano. Hum.. Adorei ter passado um começo de tarde tão gostoso como aquele.. Com os dois corpos nus abri o chuveiro enquanto o Daniel ascendia à luz.. -Ascende a luz.. Já trouxe as roupas? -Estão aqui.. E como é que eu faço para descobrir mais sobre você? -Assim. petit!. -Amor. -Não.. depois fui até a tinturaria para pegar minha roupa para o casamento. com uma placa de vende-se. -Boa noite. vou lá colocar no cabide para não amassarem.. -Uau.. fácil acesso... -Hum. e quando chegamos no banheiro já não vestíamos mais nada... Deveria ter uns doze anos.. Vem aqui também. só você mesmo. Se ele ficasse um dia sem sentir minha pele colada a sua. Fiquei interessado no local e anotei o número do telefone. Cristiano era o filho caçula do amigo do meu pai. -Tem muita coisa ainda que você não sabe sobre mim. Seu pai e o meu cresceram juntos. pai.... Aquela vontade de me ter parecia nunca terminar.. -Hahaha.. um mais gostoso que o outro... principalmente o bolo de chocolate com três camadas de creme que ela fazia como ninguém. -Como assim VOCÊ vai? Nós vamos tomar banho juntos.... Eu vou tomar um banho...-Ah.. Lembro-me que nas festas de fim de ano nossas famílias se reuniam. seria um ótimo lugar para construir uma instituição para as crianças com HIV. Que cheirinho bom. Ta gelada.... Coloquei a chave sobre a mesa. passava pelo Centro quando vi um terreno cheio de entulhos... -Hum? -Agora. aproveitei e peguei a do Daniel também. -Não. passavam todas juntas. ficar bem gostosinho pra você... Encostei o carro e na mesma hora telefonei para consultar o preço.

O dia que eu me interessei por você.. Abrimos um vinho tinto e brindamos nosso amor. fomos deitar.. é? Seguido de um abraço ele começou a me beijar. -Você vai provar agora uma especialidade do Daniel.. Dei-lhe empurrão.. -Hum. Você começou a dominar meus pensamentos desde quando me abraçou no Ibirapuera pra comemorar seu gol.. mas deixa isso pra lá. pois dormir mesmo demorou um pouco. To brincando. O aroma está ótimo! O jantar foi perfeito. quer dizer. amor.... e o vinho era um dos melhores.. O Daniel quando ficava assim era meio descontrolado. no chuveiro. E você? -Eu o quê? -Desde quando você passou a sentir um interesse por mim? Passando xampu em seu cabelo... além de ser tudo o que uma pessoa sonhou ter na vida. vai.. -Pois é. -Fala?. -Nossa!.. Deve ser por que eu estava bêbado. A comida que ele havia preparado estava ótima.... 108 . Acabamos "terminando o trabalho" ali mesmo. Depois do nosso "banho" fomos jantar. -Sente aí que vou te servir.... né? -Além daquela. -Sem contar aquela que acabamos de fazer..-Viu só? -Sabe o que isso me lembra? -O quê? -O dia em que nós ficamos pela primeira vez. bom cozinheiro. -Deixa pra lá. -Ah é? -Hahaha. Acariciando sua face perguntei: -Foi só naquele dia que você se interessou por mim? -Naquele dia eu comecei a me interessar por você. -Não vou falar. -Não faz essa carinha que eu não resisto. e em pouco tempo já estávamos de barraca armada. principalmente depois que o Daniel teve a idéia de continuar fazendo o que havíamos começado no banho.. Naquela noite fomos dormir mais cedo.. -Tudo bem.

-De sábado é sempre assim. impecável como sempre. arrumar o cabelo. mas aquele dia eu tinha que caprichar. 109 . -Mas seu cabelo já é bonito. -Pode sentar no lavatório enquanto isso. -É verdade. O que você tem feito nele? -Nada.. -Tudo bem. não devemos atrasar o casamento. -Eu já te falei que você está muito bonito hoje? -Ainda não. -Seu cabelo está tão bonito. passei quase a manhã toda no salão. -Então vamos comprar agora. -Espere aí que eu já te atendo. Jogando vídeo game o Daniel já estava pronto esperando por mim. só a noiva pode fazer isso. O Daniel quem foi dirigindo meu carro... O salão de cabeleireiro que eu costuma ir ficava dentro do shopping. No caminho fomos conversando sobre o abrigo das crianças que eu havia conhecido.. -Bom dia. Precisava cuidar da minha aparência. Vamos começar lavando com xampu especial. pois era um dia especial. Não que eu largasse mão de me cuidar. perfumado. Cheguei em casa já passada das dez da manhã. tudo bem? -Tudo ótimo. pois o dele estava no mecânico fazendo revisão.No outro dia logo pela manhã levantei mais cedo e fui fazer limpeza de pele. Haviam vários profissionais. Depois estilizar o cabelo fui fazer a limpeza de pele. pois desde a primeira vez que fui até lá era ele quem me atendia. -Tudo bem... Daniel! -Já comprou as alianças? -Ainda não... -Daniel. O casamento estava marcado para meio-dia. Cláu! -Oi Bader.. sempre fui bem vaidoso... -Está cheio aqui hoje. depois faremos uma hidratação. vim fazer uma hidratação... mas eu só deixava o Cláu mexer no meu cabelo. Só uso aqueles xampus que você recomendou e a pomada para modelar. -Compramos depois. -Você está lindooooooooooooo! -Muuuuuuuuuuuuuuuuuito obrigado! -O que você acha de aproveitarmos a ocasião e pedirmos para o padre casar a gente também? -Seria ótimo..

... -Parabéns. Entregamos a chave ao manobrista. Minha mãe nos levou para dentro da igreja e nos mostrou onde teríamos que ficar.-Diga? -Quando voltarmos pra São Paulo quero que você conheça um lugar cujo me apaixonei. Do outro lado da calçada haviam alguns seguranças bem altos com rádio na mão se comunicando. O tapete 110 . Olhando-me no reflexo do retrovisor perguntei ao Daniel: -Daniel. notamos haviam muitos carros parados na rua. Aproximando-me dele perguntei: -Meu perfume ainda está cheirando? -Sim. Que delicia? -O que.. -Sério? -É. assim como gostei você também vai gostar. com um cercado de flores ao redor. filho? -Esse tapete vermelho. No canto do altar havia um pianista tocando. Esboçando um largo sorriso ela recebia os convidados.. Estou me sentindo a própria noiva. Rodrigo! -Valeu... -Eu? -Está amassada? -Não. petit! Caminhávamos em direção à porta quando avistei minha mãe.. -Que massa! -Vou te levar lá e você vai ver.. -Que lugar? -É uma entidade que cuida de crianças com HIV. -Parabéns. Acho que até o padre já deve ter sentido.. -Exagerado. -Gente. todo enfeitado com lírios amarelos e orquídeas brancas que formavam uma cascata pelo corredor principal. Rodrigo! -Valeu. O lugar estava lindo. -Bader.. que nervoso recebia os cumprimentos. Subindo pelo degrau coberto pelo tapete vermelho cumprimentamos o meu irmão que estava muito ansioso. fui conhecer e fiquei adorei uma das crianças.. Um tapete vermelho enorme cobria os degraus externos. Estamos atrasados? -Não.. cara. -Oi mãe!. né? -Você ta lindo. Ao seu lado estava meu irmão Rodrigo. Ao chegarmos em frente à igreja....... a noiva que está. vamos entrar que logo a noiva está chegando. Minha roupa está bem.. Desci do carro e mesmo de longe conseguia ouvir o toque de piano que vinha do interior da catedral. Daniel! -Ai. todos convidados do cerimonial.. Pelas calçadas o movimento de pessoas era razoável. sim.. Rindo meu irmão perguntou: -E você não pretende casar? -Se o Daniel aceitar entrar de lengo branco.

você deve sim satisfação a eles.. sai do altar e fui até a sacristia.. era sangue. que de mãos dadas com uma garota veio cumprimentar-me: -Eae. Assim como eu também apanhei para chegar onde cheguei. Já foi fazer fofoca? O prensando contra a parede falei: -Fofoca? Vem cá. mas não levei muito a sério.. Vai precisar apanhar muito ainda. quero falar com você... Ju.. 111 . De repente meu nariz começou a escorrer.. Não era possível que justo àquela hora meu resfriado fosse dar o “ar de sua graça”.. entenda que enquanto você morar com nossos pais.. Pedro? -Por quê? -Outro dia a mãe me ligou e contou sobre sua rebeldia. deveriam ter investido muito dinheiro.. Afastando-nos um pouco dos convidados falei: -O que está acontecendo em casa. o que você está pensando da vida? -Humpft. Problemas de família que acredito já estar resolvido. Pegando levemente em seu braço falei: -Vem comigo um instante. Estavam presentes muitas pessoas importantes. Estávamos eu de um lado do altar e o Daniel do outro. Com licença. -Hum. Reparando em toda aquela produção. Não sou e nem quero ser exemplo para ninguém. a vida. Humpft. Primeiro você precisar ter maturidade. Levei a mão ao nariz com um lenço para limpar o catarro. por mais simples que seja.. Pedro. -Já volto... Comecei a sentir um gosto ruim na boca. Discretamente. -Não interessa que você é um homem... -Terminou? -Acho que não adianta falar com você. Bader! -Oi Pedro. que preocupado perguntou: -O que houve? -Nada. Toda cerimônia de casamento é emocionante. convidados do pai da Millena que era muito bem de vida e influente em Campinas.. Ao cruzar a porta encontrei meu irmão Pedro. O coroinha começou ascender às velas decorativas. tomando cuidado para não chamar atenção das pessoas. -E quem vai me bater? Você? -Eu não. -E quem você acha que é pra me dar lição de moral? -Não estou lhe dando lição de moral alguma. -Ah.. pois de início achei que fosse por causa do nervosismo...... Bader. O deixei lá sozinho e voltei para junto do Daniel.. brancas e vermelhas.. -Você acha justo deixar o pai e a mãe preocupados e sair sem dar notícias? -Eu já sou um homem. Ser homem vai além de transar com uma garota.. Quando fui guardá-lo novamente no bolso percebi que o que escorria pelo meu nariz não era catarro. dando um contraste muito bonito..vermelho estava coberto com pétalas de rosas amarelas.

-Bader. Recuando eu dei um grito. Eu vi você entrando aqui com a mão no nariz. -Calma. Já não sangra mais.. não precisa entrar em pânico. acompanhada de seu pai. E agora. petit. esperamos as portas serem abertas. Talvez tivesse estourado alguma veia e ocasionado o sangramento. Preocupada ela já ia tocando no meu nariz. -Eu não posso chegar lá com o nariz escorrendo sangue. Por mais que eu lavasse o nariz. Fiquei segurando o lenço por cerca de cinco minutos... depois o Daniel e por último eu.. Posicionados. É.. esperando o sangue parar de escorrer. como vou voltar pro altar assim? Entrei em pânico... Espiando pela porta minha mãe falou: -Meninos... O quê está acontecendo? Minha mãe também entrou logo em seguida preocupada.. Um amontoado de papéis ao lado esquerdo da pia mal sobrava espaço para a mesa. o Daniel entrou na sacristia logo depois para ver o que estava acontecendo. -Deixa eu dar uma olhada em como está? -Só não ponha a mão.. Bader.. -Tudo bem. -Limpa o sangue com isso. deveria ter uns dois metros de cauda. Saímos um de cada vez para não despertar a atenção das pessoas.. meu nariz começou a sangrar do nada. Voltamos para o altar sem que fossemos percebidos. -Ah. vamos. Eu não sentia dor nenhuma..Fechei a porta e desesperadamente comecei a lavar o nariz para estancar o sangue... o nariz apenas sangrava sem motivo.. O pianista começou a tocar outra música que a Millena havia escolhido especialmente para a cerimônia.. O Daniel pegou um lenço umedecido e entregou-me para ficar segurando. Da torneira saia pouca água. -Vamos... -Deixa eu ver no espelho. Preocupado. Precisamos voltar.. As portas se abriram e o coro começou a acompanhar... Logo em seguida a Millena começou a entrar. a noiva chegou.. Atrás dela vinha sua priminha segurando a cauda de seu vestido. Seu bouquet era uma cascata de orquídeas que chegava quase ao joelho. Do alto caiam pétalas de rosas brancas. o que ta acontecendo? Por que você saiu do altar? Chorando respondi: -Não sei. -Calma filho. Acho que parou. o sangue não parava de descer. Eu já comecei a entrar em pânico. Enquanto isso minha mãe estava de olho na porta para não correr o risco de chegar alguém e nos surpreender. e seus cabelos dourados com longos cachos intercalados com pequenas flores davam luz à sua face.. -Deixa eu ver. Primeiro minha mãe. Era uma música que ela adorava ouvir quando estava triste.. os deixando assustados: -Não toque em mim.. provavelmente eram doações para pessoas carentes. No canto da porta havia uma pilha de caixas com alimentos. tira pra eu ver... Aquela sacristia cheirava a mofo. -Tudo bem. 112 . pois sangue pra mim já era sinônimo de perigo. -Meu filho. -Calma..

.. Está passando. -Imagino.... basta você ficar ao meu lado pra sempre. -Pode ser.. 113 . embaixo desse sol quente... Coma essa fruta. fomos para a festa de casamento que aconteceria em um sítio ali próximo. doces.. Está com as costas toda molhada de suor. então sabia que casar em um cerimonial assim não seria possível. vem.. O tempo inteiro passavam os garçons pelas mesas servindo comidas... Nos sentamos próximos à mesa do buffet. A Millena também está linda.. -Você precisa se alimentar um pouco. acompanhando os que iam buzinando à frente. onde continha uma infinidade de comidas gostosas... -Bader. muito bom gosto tiveram quando escolheram a decoração.. o Daniel me abraçou pela cintura e com todo carinho e paciência foi ajudando-me a andar até uma das mesas. -Antes eu tinha essa vontade.. Você viu como isso aqui está cheio? -Demais.. -Deve ter sido uma queda de pressão... Deixamos o carro com os manobristas e seguimos à pé até o jardim onde a festa havia sido preparada... -Pois é. Abanando-me com um guardanapo o Daniel perguntou: -Você está melhor? -Humpft.. Minha mãe também estava emocionada.. está muito fraquinho. bebidas. Após a cerimônia. -Credo! -Também.. Não demorou muito e chegamos no sítio.. -Eu já tive vontade de casar assim. Preocupado. -Amor.. Ela sempre ficava assim em casamentos. -Eu não.. -Por quê? -Porque não preciso me casar com alguém pra ser feliz.. Estou cansado..... Respirando fundo disse ao Daniel: -Petit. Olha aquela velha gorda como dança? -Hahaha. -Vamos sentar naquela mesa.. Eu e Daniel seguimos em nosso carro. você está pálido! -Eu não to bem. -Não sei por que eu insisto em acreditar em você. -O quê você está sentindo? -Um mal estar horrível.. (Colocando uma uva em minha boca) -Hum. -A é? -É. e realmente a cerimônia estava impecável. nunca tive dúvidas do que eu sentia.Sua mãe não se conteve e chorava como um bezerro desmamado. O irmão caçula segurava as alianças logo atrás de sua prima. Prendendo o cinto de segurança o Daniel comentou: -Lindo casamento! -É. mas se eu disser que hoje ainda tenho estarei mentindo.. Enquanto caminhávamos embaixo daquele sol comecei a sentir-me cansado...

-Vou lá pedir pra ele trazer aqui... -Bader. -Tudo bem.. Ao lado da casa havia uma equipe cuidando do churrasco.... -É que fico preocupado.. Parabéns. -Petit. -Humpft. né? A banda que tocava na festa era a mesma que o irmão mais velho da Millena fazia parte. -Bader?. sabia? -É? -Sim! -Eu também te amo.. -Você quer um suco? -Quero... você está passando bem?. Olha só como está pálido. O cheiro que vinha até nossa mesa estava me dando ânsia.. Aproximando-se de nossa mesa chegou o garçom trazendo o suco.. jamais fico doente..... Mi! Sorrindo eu disse ao Daniel: -Você fica tão bonitinho quando faz essa carinha de medo. Quando começaram a tocar Anos 60 o povo pegou fogo. -Te amo.. Eles tocavam de tudo um pouco. você não faz idéia do quanto. -Não se preocupe. -Com licença. -Eu já falei pra ele beber essa água pra ver se alivia um pouco. -Estou um pouco enjoado. Ficamos sentados conversando até começar a tocar Estúpido cúpido de Celly Campello. mas as músicas eram mais puxadas para o rock.. mas logo passa.. -Vou chamar o garçom aqui pra servir vocês..-Com você cuidando de mim. -Eu fico preocupado com você. Todo mundo se aproximou do palco e iniciaram a coreografia da época. -Vocês estão gostando da festa? -Está linda.. petit. Levantando-me da cadeira eu disse: 114 .. Com a respiração ofegante a Millena aproximou-se da nossa mesa. -O que tem? -Como você chegou até ele? -Comprei uns doces de uma criança que vendia no farol e coincidência ou não era para ajudá-los. Pegue.. -Obrigado! -Bebe devagar. mas por favor. Você está muito pálido. -Obrigado.. enjôo.. Millena!. -Para que essa água? -Estou preocupado com você... Você acredita em destino? -Acredito que nós somos donos de nosso destino. não sou um bebê pra você falar assim comigo.. De qual você gosta? -Pode ser um de goiaba. amor. -Hum? -Aquele orfanato que você disse ter conhecido.

Dançava descontraído com o Daniel que não largava minha mão. seu cupido o meu coração. pois a última vez que ela foi em casa eu era adolescente... -Pode ficar ai dançando.. vê se me deixa em paz. pois o Daniel praticamente só cuidava de mim. -Nada disso. Já cansei de tanto soluçar Hei. ameaçando desmaiar.. Percebendo que algo de errado estava acontecendo o Daniel segurou-me.. -Humpft. oh. oh. -Bader? 115 . perguntando logo em seguida: -Petit. Comíamos alguns doces quando minha mãe apareceu. é o fim. meu pobre coração já não agüenta mais Enquanto caminhava desabotoei a camisa e alaciei o nó da gravata para poder respirar melhor. Meu beijo recusou e o meu amor não quis Hei. não quer saber de mais uma paixão Por favor.. Dança comigo? -Mas é claro! Nos juntamos no meio da galera e começamos a dançar como eles. hei.. trazendo com ela a tia Benilde. cupido pra longe de mim As amigas da Millena dançavam descontraídas. De certa maneira senti-me um pouco culpado. é o fim. A flecha do amor só trás angústia e a dor Mas.-Petit. Para ser sincero eu nem lembrava que ela existia. Voltamos para a mesa onde estávamos sentados e ficamos assistindo o pessoal dançando. já não sabia-se mais o que era cabelo penteado. Você está bem? -Você se importa se eu voltar para a mesa? -Eu vou com você. com os sapatos nas mãos e puxando a barra de seus vestidos de festa. -Eu já estou melhor.. Meu coração já não agüenta mais Eu amei há muito tempo atrás. quero ficar ao seu lado o tempo todo.. Ao girar por duas vezes fiquei tonto. pois o calor e o suor eram tantos que descompunha qualquer um. Eu dei meu coração a um belo rapaz que prometeu me amar e me fazer feliz Porém. hei.... ele me passou pra trás. -Hum? -Vamos dançar? -Mas você não está bem. vê se deixa em paz. Era uma pena que minha condição física naquele dia não estava permitindo que eu me divertisse e aproveitasse à festa. Oh! Cupido. cupido pra longe de mim Não tinha um coração cansado de chorar.

-Não venha com essa história.. -Quase noivo. -Como assim? -Deixa eu te apresentar..... Respeitar o espaço do outro já é o bastante. esse é meu namorado.. -O Daniel disse a mesma coisa quando nos conhecemos. a criação da sua tia. ninguém é obrigado a aceitar que.... Deve estar cheio de namoradas.... Atitude ridícula... -Está gostando da festa... Daniel. -Até que não. -Invasiva? -É. -Você deixou ela traumatizada. ela saiu sem rumo driblando as mesas do jardim. -Mas Bader.. enquanto eu caí na gargalhada. -Tchau.... O erro foi dela em ultrapassar os limites que lhe cabe. O pai teve a mesma criação que ela. Sinto muito.. -Humpft. essa é minha tia Benilde.. Vou dar uma volta e rever o restante da família. Não quero que a senhora fique chamando minha atenção por isso. quem manda ser entrometida? -Eu sei. -Eu não estou falando em aceitar.... como se eu tivesse a obrigação social de concretizar um matrimônio. já tenho o Daniel que me satisfaz..-Mãe. -Bem feito.. -Tia Benilde!... Você está pálido. -Bader!.. Já chega perguntando de namorada. Como você cresceu. nem por isso ele é assim..... Foi um prazer revê-la. impregnando em minha roupa seu horrível perfume... a última vez que a senhora me viu eu tinha 12 anos.. Todos na família sabiam sobre nosso relacionamento e nos respeitavam. Minha mãe ficou sem graça. Confusa.. -Bem feito. quem manda ser tão invasiva. -Tudo bem. Sem graça ela falou: -Bom. Eu estava com um pouco de enjôo e tontura. E muito. -Pois é. Quanto tempo.... filho? -Estou sim. mãe.... Eu. Deixou a coitada constrangida.... -Humpft. mas Bader. mas agora já estou 116 . Daniel... mãe.. -Como você está bonito.. -Olha. Virou um homem.. -Namorado?.. para falar a verdade... -Prazer! -Tia. -Vá pela sombra. mãe... -Hahaha... pelo menos na nossa frente.. Sorrindo ela deu-me um abraço.. Não precisava falar daquela forma com ela. -Mas petit... -Olha quem está aqui.. -Mas Bader.... Você sendo um rapaz tão bonito....... tia.... Vocês viram a cara que ela fez? -Bader. Sua tia Benilde. algum problema? -Já está passando. tia.

sua mãe disse que você havia me chamado.. filho! -Eu também. Antes de jogar o bouquet eu e o Bader vamos cantar uma música. -Que surpresa? -Quero cantar uma música pra ele. Segurando a calda do vestido com uma mão.. É normal isso acontecer.. você já está melhor? -Estou.. Ela colocou o microfone para eu falar: -Essa música vou oferecer para o Daniel.... então ela pegou o microfone e anunciou: -Aham. vou parar a banda agora. Dando-me um beijo na testa ela falou: -Te amo. mãe.. Qual música você quer cantar? -Aquela que a gente adora... Bader? -Eu quero fazer uma surpresa pro meu amor. -Tchau Daniel. -Chame a Millena aqui.." -Ah. -Chamei sim..melhor.. pai. Daqui a pouco eu como mais alguma coisa. Eu também amo você.. escutava o Daniel fazendo suas perguntas: -Petit... é possível os músicos acompanharem? -Mas é claro.. -Ótimo. O bader vai oferecer para... Agora eu quero pedir a atenção de todos os convidados.. Eu amo essa música! -Quer cantar comigo? -Eu posso? -Claro. Daniel. vem comigo... -Filho. -Quer comer alguma coisa? -Já comi tanto doce. -Ok... -Obrigado.. -Podemos começar? 117 . Já volto. -Tchau! Dando um gole no suco de goiaba que o garçom havia trazido para mim. "Sous le vent. Todos fizeram sinal de sim com a cabeça. Esperamos eles terminarem a música. por favor? -Vou chamar.. em seguida a Millena foi até o ouvido do seu irmão e cochichou. são os efeitos que o remédio provoca. agora meu esposo e o homem mais importante da minha vida. Respirando fundo ela questionou: -Fale. ela pegou na minha com a outra e arrastoume até o palco onde os músicos estavam tocando. Saí de perto da mesa onde estávamos sentados e levei a Millena até um canto onde haviam poucas pessoas.. Bader.. mãe! Faz um favor pra mim? -Claro. Não precisa fazer essa cara. que também é o homem mais importante da minha vida depois do meu pai. A Millena chegou à nossa mesa: -Bader.. Eu vou oferece-la ao Rodrigo.. você tem seguido o tratamento com os médicos? -Sim.

(Coro) (Eu) 118 ... (Coro) (Millena) Et si tu crois que c'est fini Jamais C'est juste une pause.. Fais comme si j'avais pris la mer J'ai sortis la grand voile Et j'ai glissé sous le vent Fais comme si je quittais la terre J'ai trouvé mon étoile Je l'ai suivie un instant Sous le vent.... un répit Après les dangers Et si tu crois que je t'oublie Écoute Ouvre ton corps aux vents de la nuit Et ferme les yeux Et.Os músicos começaram a tocar a melodia: (Eu) Et si tu crois que j'ai eu peur C'est faux Je donne des vacances à mon coeur Un peu de repos Et si tu crois que j'ai eu tort Attends Respire un peu le souffle d'or Qui me pousse en avant Et... Fais comme si j'avais pris la mer J'ai sortit la grand voile Et j'ai glissé sous le vent Fais comme si je quittais la terre J'ai trouvé mon étoile Je l'ai suivie un instant Sous le vent.

. A hora de jogar o bouqueeeeeeeeeeeeeeeet.Coro) Fais comme si j'avais pris la mer J'ai sortit la grand voile Et j'ai glissé sous le vent (j'ai glissé sous le vent . 3.. -No 3. Do palco eu olhei pro Daniel que derramava lágrimas de emoção... Agora chegou a hora mais esperada por todos. Após virar-se de costas ela tapou os olhos com a mão esquerda e começou a ameaçar jogar. Eu também emocionava-me toda vez que escutava essa música interpretada por Garou e Celine Dion.Coro) Fais comme si je quittais la Terre J'ai trouvé mon étoile Je l'ai suivie un instant (suivi un instant .. hein... custou mais de seis mil. Jogou. Eu juntei-me à multidão que ficou embaixo louca para pegá-lo e desencalhar. Até os músicos desceram do palco pra tentar pegar: -1. Aproveitei da 119 ...Coro) Fait comme si je quittais la terre (Eu e Millena) J'ai trouvé mon étoile Je l'ai suivie un instant (suivi un instant .. Segundo minha mãe...Coro) Sous le vent (Millena) Sous le vent (Eu e Millena) Composição: Paroles et Musique: Jacques Veneruso 2000 "Seul" Todos nos aplaudiram de pé. Emocionada a Millena dominou outra vez o microfone e anunciou que iria jogar o bouquet: -Obrigada...Et si tu crois que c'est fini Jamais C'est juste une pause un répit Après les dangers Fais comme si j'avais pris la mer (Eu e Millena) J'ai sortit la grand voile J'ai glissé sous le vent (j'ai glissé sous le vent . 2. Uma multidão de mulheres correndo e se contorcendo para pegar bouquet que vinha em minha direção. A mãe dela o levou até o palco. parecia uma manteiga derretida.

a noiva caminhava driblando algumas pedras pelo caminho. Tocando em minha mão ele completou: -Puts. -Ganhei!. De certa maneira ele tinha razão.. -Impar. deixando o Daniel preocupado. Então trate de casar logo. molhado e sexy. gato! -De nada... e nenhum corte também.. e eu também já estava cansado. -Não sei de nada. o pegando sem fazer esforço... Mas fique sabendo que eu caso primeiro que você.. -Vamos tirar no par ou impar então. -Eu somente te amo.. -Hahaha.. Ajeitando a franja de seu cabelo ela disse ofegante: -Tchau. -Obrigada. Muito obrigada por ter vindo. Deixamos o sítio no começo da noite.... Quase sem fôlego dei um selinho no Daniel que olhando em meus olhos com os seus cheios de lágrimas.. discreto. Não resistindo à sua cara de tristeza falei: -Não fique assim.. Vendo que ela não largava eu disse: -Esse bouquet custou muito caro pra ser repartido ao meio. moderar minhas ansiedades conforme o conselho do médico.. rindo. Depois que meu enjôo passou. -Hahaha. como me conquistar. Eu dou ele pra você. -Tchau meu filho. junto comigo pulou também a Juliana. Segurando a cauda de seu vestido e com a maquiagem toda borrada..... mas só o fiz porque minha boca já não tinha mais resíduo de sangue algum. -Eu é que agradeço. uma garota que meu irmão Pedro estava ficando. -E eu simplesmente também amo você.. petit? -Adorei!.... -Sabe sim. Caminhávamos em direção ao campo onde os carros estavam estacionados. pois eu serei a próxima... Gritando ela exclamou: -Peguei! -Eu que peguei. Hahaha..vantagem de ser o mais alto entre todas e estiquei o braço. tumultuada.. Demos um longo beijo.. mas eu e o Daniel precisávamos pegar a estrada de volta para casa.. comecei a comer descontroladamente. tímido.. -Ah. como me vencer.. badalada. acompanhados pela minha mãe e sua mais nova nora Millena... 120 . Voltei à mesa gargalhando.. pois era minha saúde que estava em risco e eu precisava tomar cuidado com ela.. Passamos a tarde toda comendo.. conhece meus pontos fracos.. porém. Millena. Bader. A festa ainda rolava.. Você sabe como me conquistar. Eu precisava mesmo controlar mais minhas loucuras. pegue. Você sabe como me fazer ficar cada vez mais apaixonado por você... A festa estava ótima.. -Par.. agradeceu-me pela música dedicada a ele: -Gostou.

........-Tchau mãe. -Vocês brigaram. que quase sem fôlego trazia as lembranças de seu casamento. filho? -Claro que não.. -Não quero que vocês se desentendam. Bader.... o aviso já foi dado.. -Obrigado. eu estou colocando esse moleque nos eixos. -Tchau Daniel. -Tchau Daniel. Mas que burrice a minha.. -Pode deixar.. -Tchau Dona Vivian... -Mãe. não houve desentendimento nenhum.. Esbugalhando o olho a Millena exclamou: -Ah!.. -Hahaha.. mãe. Puxando-me para próximo dele o Daniel falou: -Mas você é meu bebê. Enquanto a Millena correu para buscar as lembrancinhas de seu casamento.. obrigada pela presença e por ter aceitado o convite. cuide do Bader por mim. filho... -Bobagens da parte dele. Estão aqui...... 121 ... -Tchau Daniel.... Você sabe muito bem como o Pedro é. Correndo em nossa direção vinha a Millena. tchau Millena. cruzando os braços minha mãe comentou: -Eu percebi que você e o Pedro estavam um pouco distantes hoje... -E meu também.. -Se cuide. -Ai que cabeça a minha... Já volto.. -O quê? -As lembrancinhas do meu casamento.. Eu só conversei com ele e pedi que maneirasse na rebeldia. Eu já ia esquecendo. -Querem parar com isso? Parece que estão falando de uma criança.

. Deixamos o carro na garagem e subimos pelo elevador de serviço.. pois foi o primeiro que desceu. Dani.. Eu adorava quando isso acontecia. gritei pelo Daniel: -Daniel.. O Daniel era bem paciente.. Vamos levá-la até um veterinário. Daniel.. à tarde. -Eu também.. -Humpft.. Ao ver o pote de comida da Dani ainda cheio de ração. com medo de perder minha melhor amiga. uma piscada de olho... Daniel. Fiquei desesperado. Após ser pego no colo.. completamente despidos. pois estava cansado demais e com um pouco de dor de cabeça. enquanto eu fui dormindo no banco do passageiro. Corre aqui.. -O que foi. olha pra mim.. Tocar nesse corpo gostoso.. -Ela está morrendo. Fazia sexo como ninguém.. Ascendi a luz da área de serviço reparei que o chão estava todo vomitado. -Há essa hora? 122 . Fomos nos beijando ali na sala mesmo... Todas as noites que estávamos juntos nós fazíamos. Beijar essa sua boca... Daniel. Daniel... Não faz isso comigo. Caminhei na ponta dos pés até sua caminha...No caminho de volta o Daniel quem dirigiu. estranhei.. O que ela tem? -Ela está estranha. Pega ela e vai descendo até o carro..... Fiquei todo arrepiado quando minhas costas peladas encostaram-se àquela parede gelada. Ela não olha pra mim. até mesmo com o aroma do perfume. carinhoso e muito bom de cama. seguimos para o quarto onde demos continuidade de onde havíamos parado. Nunca tinha visto a Dani naquele estado.. de manhã. Reage Dani. selvagens.... Antes de ir tomar banho vesti uma cueca e fui até a Cozinha. uma vontade de sexo que despertava com um simples toque na perna. Beijos ardentes. Dani.. Quando a vi deitadinha com a língua pra fora e respirando com dificuldade. Bader? -Olha a Dani. -Ai.. mas o mais importante disso tudo era o amor que sentíamos um pelo outro.. Dani. caminhávamos de encontro à parede.. Quando acordei já estávamos no estacionamento do prédio.. Ao mesmo tempo em que íamos nos beijando.. -Dani. Bader... não morre filha. Não me provoca. Cruzando a porta comentei: -Não via a hora de chegar em casa.. calorosos... Ele adorava fazer aquilo com seu corpo definido e pesado. não tinha hora para nos amarmos.. O Daniel tinha um fogo insaciável. Suas mãos passavam pelo meu corpo como um trem sobre trilhos... tornando-me seu refém. Vou vestir uma calça e uma camisa.. -Calma. nem vi o tempo passar. Em pouco tempo já estávamos nus na sala.. Fala com o papai.

..-Eu tenho um amigo veterinário. olhou pra mim.. respirando pouco. Fique tranqüilo. Ao chegarmos na casa do amigo do Daniel.. Entramos em sua casa e seguimos até a cozinha. mas se você não a trouxesse logo. -Muito obrigado! Quanto é? -Que isso. fiz isso pela nossa amizade... mano.... Sentei-me no banco de trás mesmo.... Vou colocar uma roupa... chorava de medo de perdê-la... Não demorou muito e o Adriano foi até a sala conversar comigo: -Bader. Apressado o Daniel abriu a porta de trás do carro pra mim. Não faz isso comigo pelo amor de Deus... pois era a vida da minha cachorra que estava em risco. cabeça um pouco caída. O Daniel é meu mano.. Papai vai cuidar de você. -Mas ela vai ficar bem? -Vai sim...... Preferi não presenciar e fui aguardar na sala.. que utilizou-se o tempo inteiro de palavras otimistas para tentar confortar-me.. -Eu? -Você deu alguma coisa estragada pra ela? -Não.. não queria perder tempo com detalhes... Papai te ama. -Não faz isso comigo. Entrae. não posso sair só de cueca. Teve uma hora que ela virou a cabecinha. Ela só come ração. Enquanto eu segurava a Dani nos braços. Fazendome companhia ficou sua esposa. Não morre Dani.. provavelmente o rapaz deveria estar dormindo. -Alessandro!.. -Calma bebê. -Que isso. Já ta chegando. e uma lágrima desceu de seu olhinho. -Falou. Vou receitar um remédio pra ela e recomendo que você leve-a ao veterinário que ela costuma passar........ Bader.. -Rápido. com a Dani deitadinha no meu colo. Após tocarmos a campainha o rapaz veio nos atender com a maior boa vontade. Desculpa vim te incomodar à essa hora... -Não.. ela poderia morrer agonizando. Às vezes ela gemia e aí eu já ficava histérico. -Chegamos. Dani. Corri até o quarto e vesti a primeira coisa que vi na frente. Agüenta mais um pouco. -Humpft. Daniel. Seu corpo estava molinho. mas trata-se de uma emergência. mesmo. Descemos até o estacionamento às pressas.. toda suja de vômito. 123 . vamos até a casa dele. a quantidade de veneno não foi suficiente pra matar rapidamente.. -Muito obrigado... -Ta. Ela sofreu um envenenamento. Daniel? -Estamos quase. -Valeu cara. Sobre uma mesa ao canto ele forrou uma toalha de papel e deitou a Dani... Pensei que estava perdendo minha companheira. de dentro do carro reparei que estava tudo escuro. Armei um "berreiro" dentro do carro. Eu já dei uma medicação pra ela e logo vai melhorar. -O quê? -Bem.

-Então vamos..... Foi assim que acordei em uma linda manhã ensolarada de Maio. vai ter que repousar por uns dias. e manchas roxas apareciam em meu corpo. O Daniel adorava patê de presunto com torrada. Inferno!. pois havia dormido pelado. Tirei um saco de pão de queijo do freezer e coloquei para assar. achava tudo de bom. Procurei o pote de patê e não encontrei... -Seu celular está tocando. -Demais. -Calma que o papai já está acabando. -Sim... Notei que sua respiração já havia voltado ao normal e seu olhinho brilhava mais. -Bom dia! -Já acordou? -Está mais que na hora. Olhei atrás das garrafas.. Até deixei cair a caixa de suco que segurava na mão esquerda. Graças a Deus! Assim que chegamos em casa fui correndo dar banho nela. Bader? -Está sim. -Ela está melhor.... enquanto isso o Daniel limpava o chão da cozinha que estava sujo de vômito. O Daniel ainda dormia. seguido de um delicioso beijo de bom dia. Como será que ela se envenenou assim? Você usa veneno pra matar barata na casa? -Não.. Não acha? Caminhando lentamente ele foi até mim e abraçou-me. mas antes vesti um roupão....Só de saber que minha cachorra não iria morrer. -O que foi? -Cadê ele? -Não está no quarto? -É mesmo. mas não achei. colocando-a sobre a mesa logo em seguida. aliviado.. Estou muito cansado.. 124 . Comecei a montar a mesa na sala.. fiz tudo sozinho. Às vezes uma ou outra unha aparecia preta. Sentia enjôo com freqüência. aqui dentro não tem barata nem rato. sempre faço de tudo pra manter esse apartamento limpo. Eu adorava pão de queijo bem quentinho com manteiga no meio. O tratamento anti-HIV que eu estava fazendo causava-me alguns efeitos colaterais. Mas ainda continua um pouco debilitada.. -Muito estranho. deixou-me mais calmo. Cadê?. e provavelmente deveria ter comido tudo. Agora que ela já está pronta pra dormir eu vou tomar meu banho e depois cair na cama. Viu como ela já está melhor? -É. Abri a geladeira e peguei uma caixinha de suco de soja e comecei a beber enquanto abria um pacote de torradas que tinha no armário. dentro das gavetas. Enquanto ele foi atender ao telefone passei o café da cafeteira para a garrafa térmica. -Vou lá atender. morrendo de sono. Durante o caminho de volta fui abraçado com ela. -Terminei de limpar o chão da cozinha. sentia também muita falta de ar.. e na melhor parte fomos interrompidos pelo celular dele tocando. Levantei e fui preparar o café da manhã.. Desde que mudei pra cá não contratei empregada pra limpar. Após trocar sua roupa da caminha fui dormir sossegado.

não pode descer pelo elevador social. -Vou descer até a piscina.. Hahaha.... você vem? -Depois eu vou.. trajes de banho. O volume que fazia também era chamativo.. deixa eu terminar meu café.. -O cheiro está bom.. Hum. estou precisando pegar uma cor. era realmente ousada e safada. Vou falar com meu antigo treinador. faz muito tempo que eu não treino. te espero lá embaixo.. Vou aproveitar o tempo bom e tomar um banho de piscina. quero só um suco de laranja. -E por que você não vai disputar dessa vez? -Sei lá. Já está pronto o café? -Quase tudo pronto. vestiu uma sunga preta que eu adorava vê-lo usar. -Eeeeeeeeeee. Com um vidro de bronzeador na mão direita.. principalmente na hora de comer.. Estampada na frente havia a frase: "Entra sem bater"... -Nada que um treino intenso não resolva. óculos escuro na testa e uma toalha na mão esquerda ele passou pela sala. Portando animais. -Quer um? -Depois eu pego. Enquanto isso continuei tomando meu café da manhã.... -Quem é Caio? -É um colega meu. -É. eu disputava campeonato...-Nossa! -O que foi? -O Caio me ligou agora. Após levantar-se da mesa o Daniel foi até o quarto. abriu a porta e já ia saindo quando eu o interrompi: -Estou descendo. Sentei-me à mesa ao seu lado. -Que luta? -De jiu-jitsu. Sempre fui um pouco estabanado mesmo... ele disse que pintou uma luta aí. -Que droga!. Irritado ele deu a volta até a cozinha e saiu pela porta de serviço. acabava derrubando alguma coisa para não perder o costume. vá pelo elevador de serviço.... -Pega uma faca pra mim? -Calma... Graças a Deus meu enjôo e a dor de cabeça já 125 . já fui Campeão Paulista de jiu-jitsu. -Tudo bem. entre outros deve usar o elevador de serviço. Colocando caldo de laranja na salada de frutas acabei derrubando na toalha branca da mesa. Você vai querer salada de frutas? -Não. só falta terminar de assar o pão de queijo. -Por quê? -Porque você está com traje de banho.. -Mas que putaria é essa? -São normas do condomínio. -Tem biscoitos amanteigados dentro do vidro no armário. cadê a faca? -Ah é! Ta aqui. -Petit.. -Ta bom. deixa eu tirar o pão de queijo do forno antes que queime..

óculos e toalha na mão imagina-se que vou no mínimo tomar sol na piscina. Aliás. ele sabe que você é gay? -Ta tirando? 126 . O elevador parou no térreo. é que te vi olhando com tanto desejo pela porta que achei você interessado em alguma coisa lá fora. vou ao velório de um amigo.. -Se o seu interesse lá fora não é pelo sol. É obvio que vendo-me de sunga. provavelmente voltava da feira.. Logo em seguida peguei meu óculos escuro.. -Não to a fim de tomar sol. Só não entendi o por quê do "obsceno" no aviso. Ao abrir a porta cruzei com a dona Lídia arrastando um carrinho cheio de coisas. filho do síndico. Suspirei fundo vendo-a dormir tranqüilinha. Com certeza o responsável pelo comunicado foi o síndico.. depois da confusão que ele armou comigo e com o Daniel quando presenciou nosso beijo no elevador. deitado em uma das cadeiras. Será que ele considerava um beijo carinhoso como obsceno? Ou o fato de serem dois homens se beijando seria obsceno? Atitude totalmente ridícula. Fechei a porta e fiquei aguardando o elevador chegar. Tudo bem que quem está do lado de fora não consegue ver aqui dentro porque o vidro é espelhado.. olhando atentamente o lado externo através dos vitrais. mas a intenção dela era querer puxar assunto e saber mais da minha vida. Seria a primeira vez que eu ia entrar na piscina. Desde que mudei-me para o novo apartamento em Higienópolis. passei um protetor solar fator trinta e cinco no corpo inteiro. Bader! -Bom dia. Deixei-a falando. Ao terminar. Desculpa. O que ele queria na verdade era encher o saco. Por isso já cortei logo de início..tinham passado. -Bom dia. com isso aproveitei para comer bastante.. -Mas trajado assim? -É que ele era naturista. -Vai passear? -Pois é. Tenha um bom dia. Nunca vi uma pessoa tão fofoqueira e curiosa como ela.. Aproximei-me da porta e vi que só tinha o Daniel tomando sol no deck. Provavelmente algo de muito interessante havia chamado sua atenção. Coloquei sobre o ombro esquerdo uma toalha branca e segui para o hall de serviço. pois ele estava tão distraído que nem me viu chegar. ainda não tinha utilizado quase nada da área de lazer. -Não acredito! -O que foi? -Você estava espiando o Daniel tomando sol?. mas se no meu lugar viesse seu pai e te pegasse aqui. dona Lídia.. abusando dos doces. e antes de cruzar a porta avistei o Flávio.. preconceituosa. fui até meu quarto espiar como a Dani estava. Peguei minha sunga branca e fui vestir no banheiro. Entrei no elevador e logo reparei num aviso em destaque de frente para à porta: "Não é permitido atos obscenos dentro deste local". chinelo. -Eu? Ta louco? -O louco aqui é você que fica dando uma bandeira dessas. -Por que você não põe uma bermuda e vem tomar sol? -Ai que susto! -Nossa!. Segui pelo corredor que dava acesso à piscina.

.. -Sério? Hahaha. Não parecia ter mais que dezoito anos. o coitado ficou morrendo de medo que eu contasse pro pai dele. loirinho.. Cheguei à piscina morrendo de rir. pai dele chegou. magrinho. -Quem é Flávio? -O filho do Carlos. O Flávio era um garoto até que bonito.... -Por favor.. Isso era pra pagar sua língua cumprida. resolvi alfinetar: -Sobre o corpo humano. -Pois é.. de calabresa com queijo.. -Demorou. algumas marcas de acne no rosto. -Mas você ia contar? -Não sei.. -O síndico? -Uhum. -Algum problema aqui? -Nenhum. -O que aconteceu? -Peguei o Flávio espiando você tomando sol.... -Tudo bem. o Flávio estava. -Mas agradeço pelo convite e muito obrigado por não ter contado nada pro meu pai. estatura média.. Ta certo. -Deixa aquele bosta do pai dele vim me aloprar que ele vai ver só. 127 . Daniel. Forrei a toalha na cadeira ao lado do Daniel e deitei-me pra tomar sol... Queria só ver a cara do Carlos ao saber que seu filho era gay. -É. Chega de confusões. Provavelmente se ele não tivesse interrompido-me naquele momento. eu teria contado para seu pai que ele espiava o meu namorado.. -Falou... -É que tive um contratempo no caminho..Nesse momento o Carlos... Abrindo a porta eu disse ao Flávio: -Bom. Se você quiser vir tomar sol comigo e com MEU NAMORADO para aproveitar esse tempo maravilhoso. -Você que sabe. pois cuidou tanto da minha vida que esqueceu de olhar o que tinha dentro de casa. mas tome mais cuidado da próxima vez que quiser espiar um homem seminu... -Não tem do que agradecer. -Estava tirando umas dúvidas sobre aquele trabalho de biologia. -Vai querer pastel? -Sim. O Bader falou que tem uns livros e vai me emprestar. estou indo até a feira. Sem graça ele respondeu: -Deixe pra uma outra oportunidade. hein. Usava um óculos de CDF. -Pode deixar. -Ta bom.. Avise sua mãe quando ela acordar.. É melhor eu correr e apagar o histórico do meu computador antes que meu pai volte. -Humpft. -Que trabalho de biologia? Para não perder a chance. fique à vontade. acho que se ele não tivesse me interrompido eu teria contado sim. O convite ainda está de pé. Tchau.

Resolvi subir os dezenove andares de escada mesmo. Será que o Carlos mandou dedetizar o prédio e acabou envenenando a Dani? Para acabar com minhas dúvidas.. Subia correndo aquele monte de degraus. já o Daniel só iria trabalhar à tarde. pois seu sócio ficava cuidando da academia na parte da amanhã. Que o Carlos colocou veneno em um biscoito e deu pro cachorro de um viado lá do 19?. Já estando no terceiro andar. Antes de sair dei um beijo no Daniel que ainda estava deitado e corri apressado. -Qualquer hora ele vai arrumar pra cabeça dele.. junto ao de serviço. Mantendo o sangue frio entrei na deles: -Isso! -Ficamos sabendo agora. porém. Ao ouvir eles falarem em "veneno" o assunto me interessou.. Resolvi ir para a agência no período da manhã para ter a tarde livre. quando cansei-me. em tom de gozação: -Esse Carlão é foda.. que morava no apartamento trinta e três. Aguardava o elevador social no hall quando ouvi às gargalhadas vindas da casa do Carlos. a porta do elevador já havia se fechado e eu não ia ficar esperando ele descer novamente. podendo voltar a trabalhar na agência e retomando meus treinos na academia.Naquela época do ano em São Paulo chovia muito e fazia frio.. Na segunda feira acordei cedo para trabalhar.. Também notei alguns comentários dos faxineiros referindo-se a ele.. Ele ta se divertindo.. -Eu acho que ele pegou pesado com veneno. Quando cheguei no S1 notei que havia esquecido a chave do carro em cima da mesa da sala. pois iria acabar me atrasando para a reunião.. cujo estava sendo ocupado por um novo morador que transportava sua mobília até o vigésimo oitavo andar. -Ah é? 128 . resolvi discretamente perguntar o que acontecia: -Vocês também já estão sabendo da história do veneno? -Qual? Ah!. passei pela porta-corta-fogo onde o pessoal da limpeza recolhia os sacos de lixo.... Eu já estava quase curado da gripe. A localização da saída de emergência ficava no corredor atrás do elevador social.

se não vai sobrar pra você. Cheguei em casa e puto da vida.. como ele costumava falar pelas minhas costas... Escondendo-se atrás da porta o Carlos questionou: -O que você quer? -Sai aqui fora e me enfrenta como homem. Se o Carlos tivesse aberto à porta naquela hora eu teria quebrado a cara dele. Toquei a campainha. Você vai ouvir um barulho sim. embora motivo nenhum lhe dava o direito de tirar a vida de um inocente.. só que a fofoca dessa vez foi que o Carlos quem deu veneno pra Dani. chamou atenção do Carlos e fazendo com que ele fosse ver o que ocorria: -Que barulho foi esse? -Barulho?. o motivo de odiar-me tanto.. cheio de frescuras e trejeitos. -Deixa meu filho quieto. Voltei até lá e o Daniel não estava. mas se enganaram. Anda seu filho da puta. Aqueles dois imbecis estavam falando de mim sem saber quem era eu... -Você não vai bater no meu pai. aí eu queria ver quem era o viadinho do condomínio.. Por que bateu a porta desse jeito? -Porque estou puto. se aproveitando da situação enquanto ficamos fora... mas vai ser dos seus ossos quebrando. -Lá vai você dar atenção pra fofocas. pois havia saído com o coração apertado. -Pois é. Nem de longe eu aparentava ser gay.. Naquela hora meu sangue subiu... Assim que o elevador chegou no terceiro andar eu subi para casa... aí vamos resolver nossas diferenças como homem de verdade. Sem pensar duas vezes fui falar com o Carlos. Após empurrá-lo com tudo o fazendo cair com os livros no chão. Bati a porta da sala.. Fiquei muito puto e comecei a dar vários socos na porta: -Carlos.. Na hora imaginei que ele teria ido tirar satisfações com o Carlos..Joguei um verde e colhi maduro. -O quê? Esse cara é louco? -Eu tentei falar com ele. mas o maldito não atendia. Mexeu com a Dani.. abre essa porta.. Não tem coragem de me enfrentar?. assustando o Daniel que trabalhava diante do computador em nosso quarto. Assim que o Daniel chegou cruzou com o Flávio estava saindo de casa para ir ao curso de inglês. aliás. Ainda ali parado escutei o Carlos e o Flávio se matando de rir. colhi um podre. claro que da minha cara achando que tinham conseguido me tirar uma das coisas mais importantes da minha vida. mas o covarde não abriu à porta. Eu ainda te cato. -A parada aqui é entre eu e você. Furioso segui até o quarto ver como a Dani estava. Ou você não é homem? 129 . Provavelmente achavam que o viado que o Carlos pegava no pé era visível à distância. Abaixei-me diante da caminha dela quando escutei a porta da sala bater. Na mesma hora ele foi correndo ver o que acontecia: -Mas o que foi isso?. -Mas como ele conseguiu envenenar a cachorra? -Parece que passou um biscoito por baixo da porta com alguma substância tóxica. e ao chegar no terceiro andar comprovei que estava certo... -Tira a mão de mim moleque. -O que aconteceu? -Eu estava subindo e escutei um ti-ti-ti.. Eu não entendia o que se passava pela sua cabeça. querendo quebrar a cara do primeiro que aparecer. mexeu comigo. o Daniel deu um chute na porta que ia se fechando..

-Cala sua boca. -Contou o quê? -Ah!. pois foi o próprio que procurou pra sua cabeça. Rastejando-se pelo chão ele implorava por desculpas. Entrando na frente o Flávio falou: -Você não vai bater no meu pai. dando-lhe logo um soco em sua boca.. Imediatamente tentei tirar o Daniel de cima dele.. -Pelos menos não fico espiando os visinhos seminus na piscina. Flávio. viadinho. Flávio? -Mentira. sua bichinha de armário.. -Chame a polícia.. chama lá a polícia que vamos contar a boa ação da semana que seu pai fez.. Se cuidasse somente de sua vida. -Chega.. mas não foi o suficiente para fazer o Daniel parar. -Agradeça ao Bader por não perder os dentes hoje.. Tirando o Flávio de perto do Daniel eu disse: -Fica quieta aí. Ele já apanhou o bastante. batendo o braço na quina da mesa. pai. você que é.. -Isso é verdade.... envenenando os animais de estimação do prédio todo. -Larga ele. e a partir de hoje passe longe do Bader e da Dani. ou vou te buscar aí dentro. O Daniel voou em cima do Carlos. Se você insistir.. mas no momento de raiva eu também queria ter quebrado sua cara. Claro que o Daniel foi errado de ter batido no Carlos daquele jeito. Antes de você mexer com alguém tome muito cuidado.. esse filho da puta vai ter que apanhar muito ainda. Você não está sabendo? Seu filho estava me espiando tomando sol outro dia. 130 .. Entrando em sua frente falei: -Não. agora vou quebrar sua cara. -Isso. -Você não contou pro papai? -Cala a boca. vamos embora. -Chega o caralho.. que em pânico implorava: -Pare pelo amor de Deus.. -Eu não sou viado. nem passando as tardes vendo fotos de homens pelado na internet.. principalmente ele.. De dentro do elevador dava para ouvir os gritos que despertaram à atenção do prédio todo. você vai me matar.-Ta tirando? -Está com medo?. Daniel. -Olha como você fala do meu filho... Segurando o Carlos pelo colarinho e olhando em seus olhos o Daniel dizia: -Agora a gente pode falar de homem pra homem.. Por um descuido meu o Daniel deu um chute no Carlos. o covarde se escondeu... antes que o matasse de tanto bater. Não vou dizer que fiquei com dó dele. Quando cheguei o Carlos estava com o rosto cheio de sangue. aí sim eu volto aqui e acabo com a tua raça. Por favor. -Já chega.. teríamos evitado muitos problemas. -Essa é minha vontade.. porém....... -Tira a mão do meu pai.... -Bom.. Ou você sai aqui. Sem tempo para reagir ele caiu. Daniel. depois vocês discutem assuntos familiares sobre sexualidade..

. Era um rapaz bonito.. Deixei aquele lugar chorando. -Ah não.. minha vidaaaaaaaaaa!. Humpft.. talvez tivesse inveja da vida tranqüila que eu levava. -Prazer.. Irritado falei: -“Dani”? Que intimidade é essa? -Desculpa. Seus olhinhos brilharam de felicidade. amor! -Boa noite. bermuda vermelha.. usava uma regata branca... Agora eu não sou mais nada. o que deixou-me pasmo foi sua cara de pau. e se eu não tivesse chegado a tempo.. e antes de entrar no automóvel o Daniel segurou meu braço. razão de minha existência. O que o Carlos fez com a Dani foi pura maldade. 131 . Pensei que ele ia matar o Carlos de tanto bater. Ao ver-me entrando abriu um lindo sorriso. tornando-se uma pessoa recalcada e amargurada.... querendo descontar no animal o ódio que sentia por mim. pede para o Cláudio te ajudar. fiquei nervoso. Bem se nota que você é uma pessoa que necessita de muita atenção mesmo. -Quem você é pra falar assim comigo? -Eu?. tinha o cabelo com franja caída de lado.. mas algo em mim o incomodava. Portando uma mochila nas costas. Na sexta feira resolvi fazer uma surpresa para o petit indo buscá-lo em sua academia. Dei um beijo nele e fui apresentado à Suzy. Talvez fosse o fato de viver sem ter vergonha de ser o que era. só você me dá atenção aqui.. dando em cima do meu namorado igual uma galinha no milho. Corri até o carro e o Daniel veio atrás de mim. batendo a porta e entrando em minha frente. ou tivesse vontade de ser como eu.. Por que você está chorando? -Porque estou comovido com a atenção que você costuma dar pro fulano. Seu visual era de alguém bem posto socialmente. Tenham uma boa noite! -Bader. pois quase sempre quem fazia as surpresas era o Daniel. com essa cara de retardado. -Calma. Daniel.. -Ah é assim?. Coloquei algumas revistas que segurava nas mãos sobre o capô. -Mas eu trato todos meus alunos igual. ficou todo feliz.... quero que você renove minha carga hoje. -Pare com isso. Por que você ficou assim?.. óculos escuro apesar de já ser noite. Não demorou muito chegou um aluno da academia. porém. Estacionei o carro em frente à academia... -Boa noite! -Boa noite! -Dani. Não sei ao certo.. Eu nunca entendi o motivo de tanta raiva tanto. esse aqui é o Bader. e logo quando entrei na recepção o avistei com a mochila nas costas conversando com a garota que trabalhava como recepcionista. Deixa eu te apresentar.. -Ah é? -Estava muito curiosa para conhecê-lo. Mas agora estou de saída.. já fiz as 26 sessões. acabei perdendo o controle.. como se o Daniel estivesse disponível no mercado.. Bader! -Prazer! -O Daniel fala muito sobre você. -Boa noite. Ele iria adorar. tênis sem meia. isso certamente teria acontecido.Tive que praticamente arrastar o Daniel para casa. Suzy. Não consegui me segurar... mas nunca pode ou faltou-lhe coragem.. espere aí. Alexandre.

Tentando me abraçar e acariciando meu rosto ele dizia: -Você ficou com ciúme... Não é fácil viver com aquela insegurança pela vida inteira. Tornei-me uma pessoa muito insegura depois de saber que possuía HIV. não me perturbe. com toda intimidade. As revistas que estavam no capô acabaram voando pela rua. Ao chegar em casa ele estava no banho.. ficando só de cueca esperando ele sair do banheiro para eu entrar. aquela cena não saia da minha cabeça. não faz isso comigo. mas o orgulho falava mais alto. Enquanto isso fui até a cozinha. O que me deixou mais magoado é que o Daniel permitiu que “aquela lombriga” o chamasse de “Dani”. 132 . amor. -Tadinho. magoado. Fiquei triste. -Bader. tinha medo que o Daniel chegasse um dia e dissesse que não me amava mais. está bravo comigo? -Por favor. Na verdade meu medo maior era dele interessar-se por outra pessoa e deixar de gostar de mim. é isso? -Posso te pedir um favor? -Claro! -Some da minha frente. o levando para conhecer minha família.-Quer dizer que eu não posso te chamar de “Dani” por causa da cachorra. Entrei no quarto e comecei a tirar minha roupa. me deixa sozinho um pouco? -Não.. peguei uma maçã e dei uma mordida quando escutei o barulho da água parar de cair do chuveiro. Amor.. Por mais boba que fosse minha atitude. Muito atencioso você.. Parei no parque do Ibirapuera. Eu confiava no petit. Magoado o empurrei da porta do meu carro e saí arrancando. deitei à grama e olhando para o céu estrelado fiquei relembrando nossos bons momentos juntos. a compreensão dele comigo quando descobriu que eu estava com HIV. mas aquele magrelo pode? -Não é nada disso. enquanto sai sem rumo pelas ruas de São Paulo. -Daniel. Lembrei-me do acidente que nos aproximou. mas sabia que o Daniel não tinha culpa.... Volta lá para dar atenção aquele “bacalhau seco” e me deixe em paz..

-Bader? -Eu? -Você recebeu um e-mail da Angélica falando sobre as cores da peça? -Recebi. Nos primeiros dois dias mal tive tempo de almoçar. ter com quem se preocupar. mas ninguém vive feliz eternamente. Bader. Alguns amam demais.. Notei que ele chorava. mas na hora a gente nem pensa.. mas seria o homem perfeito da vida de qualquer um. -Petit. Ficamos a semana inteira conversando somente o necessário.. a viver. Resolvi usar esse pensamento na nova propaganda que eu iria começar a produzir. A luz do quarto ficou apagada o tempo todo. sair do trabalho e com a certeza de chegar em casa tendo alguém à sua espera. -Mas você sabe como a Angélica é. a gente precisa conversar. Chorando fui tomar meu banho antes de dormir.. porque eu tinha o meu petit.. -Mas Bader. Eu já nem tinha mais raiva dele. Eu já tinha imaginado como seria com aquelas mesmas cores. Meu peito está tão apertado por conta disso tudo. E você ta ficando com alguém? -Estava. o Daniel seguiu pro quarto. ter com quem dividir suas alegrias e tristezas.. não só eu.. passando xampu em meu cabelo. o orgulho falava mais alto. Tudo isso eu tinha..... e por amá-lo loucamente sentia ciúme. como qualquer outro ser humano que ama. -Por favor.. e de certa forma é verdade... Eu sabia que o Daniel não estava dormindo. não estou mais. Eu acho que todo ser humano deveria ter o poder de controlar a dose de amor. O Daniel ensinou-me a amar de verdade. poxa. Podemos ter momentos de felicidade... Deitei ao seu lado.. e pela primeira vez eu soube o que era amar e ser amado. Daniel.. Assim que terminei voltei ao quarto e ele já estava deitado na cama. Sim. Só eu sabia o quanto o amava.. -É. você não acha que está pegando pesado demais com ele? -Duda. outros nem amam. porém. não só da sua vida. Sei que ele não teve culpa de ser assediado.. O cara só queria sexo comigo.Enxugando o cabelo e com uma toalha branca enrolada na cintura. -Deixa de orgulho bobo. pois o prazo para finalizar aquele trabalho era curto demais. Dando um gole no café eu disse: -Eu tenho certeza de que ele é o homem da minha vida. -Humpft. Comecei a sentir saudade dos momentos felizes que tivemos. né? -Acha que no mundo só existe ela com cérebro.. Às vezes precisamos ceder também. o que existe são momentos felizes. Não faz isso comigo.... insegurança por conta da minha doença. Pela forma com que você fala dele. me ouça? -Tira a mão de mim.. Sentando-se ao meu lado na mesa a Eduarda falou: -Você e o Daniel ainda estão brigados? -Humpft. -Eu não quero falar sobre isso agora. Confesso que senti falta dele esfregando minhas costas. Fiquei quase uma hora no banho. Uma vez eu li em algum lugar que a felicidade não existe. -Não tenho dúvidas disso.. Trabalhamos sem parar a semana inteira na agência. e naquele momento minha vontade era de abraçá-lo e pedir perdão. 133 .

-Não precisa me agradecer.... Que me chama de LINDO ao invés de GOSTOSO.. -Olha que bonito. é só o que os homens querem. meu Deus? No final da semana fui até o Lar do céu levar a televisão pro Rodrigo jogar seu vídeo game. -Obaaaaaaaaaaaaa. Roberta.. -Hahaha. -Mas isso eu já faço. -Tudo bem. -Ta bom.. Roberta. eu te acompanho até a porta. -Bom dia.... Só quero que você cuide bem dessas crianças por mim. Vou marcar. Hoje em dia. Ai... -Obrigado! -Obrigado o senhor.... -Mas já.. 134 . -Vai Rodrigo.. Na agência eu estava abarrotado de trabalho. Bom dia.. pois eu havia prometido que daria uma TV para eles...... -Por isso tenho orgulho do petit.... seu Bader? -Eu preciso.. -Não vai não. Vai..... Liga de volta quando desligo o telefone na cara dele. -Pára de falar essas coisas antes que eu roube ele de você.. Vânia... Insiste em segurar minha cintura pra me proteger.... Beija minha boca pra dizer que sente desejo. mal sobrava-me tempo para dormir. Homem especial.. -Seu Bader. Estou cheio de trabalho. Coloca o CD dentro e aperta aqui. -Opa. tia Ro!.... -Olha o que eu trouxe aqui.. Eu vou..... -Então eu vou ser o de verde. -Eu to vendo. nem sei como agradecer o senhor... Bom dia Rodrigo! -Oi tio. Dei uma breve passada. -Então continue fazendo. seu Bader! -Bom dia... vim só pra deixar a TV mesmo.. Levantando-me da cadeira falei: -Joga com a Vânia agora que o tio Bader precisa ir. e beija minha testa pra mostrar o respeito... -Eu sei. como faço pra jogar? -Assim. Vou poder jogar o vídeo game que você me deu também? -Claro! Vai poder assistir DVD também. -Goooooooooooooooooooooooooooool. -O que é isso? -Uma televisão pra você assistir seus desenhos. Você vai querer ser qual jogador? -O de azul. -Tio. -Onde que eu estava que não bati no carro desse homem. -Olha lá.. Pra ligar você aperta aqui.....-Humpft....... pois estava com pressa e não poderia demorar muito.... Roberta. -Caramba!...

Na rua havia pouca iluminação. Antes de entrar no túnel Ayrton Senna meu celular tocou. cabelo cumprido. Bader... feliz por ver um sorriso no rostinho daquela criança que me ganhou logo quando a vi. acabei desistindo. é o Bader? -Sou eu. Mal pude acreditar quando ele se identificou. Seguimos para um Café próximo à Avenida Paulista. Coloquei o celular novamente no banco do passageiro. -Pensasse nisso antes de me abandonar. Está bem. Apeguei-me demais ao Rodrigo. Voltando para casa eu escutava música dentro do carro. Depois de ter tentado de todas as maneiras falar com ele sem sucesso. -Nós precisamos mesmo conversar. O relógio do painel marcava 21 horas. e feliz por ter o final de semana inteiro para descansar. barbudo.. Bader? -Humpft. e colocá-lo no viva voz seria inútil... -Quem está falando? -Ué. quem é você? -Sou eu Bader. talvez não tomasse banho há uns dois ou três dias. e você? -Poderia estar muito melhor se estivesse contigo. Pronto. e agora ele quem reaparece do nada procurando-me com um propósito desconhecido. Onde você está? -Anotai. -Por favor. mas continuava bonito.. fiz sinal com o farol do carro. não vejo a hora de chegar em casa. sabia? -Entre logo que não estou me sentindo bem nesse lugar. você liga para meu celular e ainda pergunta quem está falando? -Desculpa... -Você está bem? -Estou ótimo.. Devido a estar dirigindo naquele momento não pude atendê-lo. O vendo para na esquina. Peguei o aparelho para ver se reconhecia o número de quem havia me ligado. -Fala?. Cheguei em uma viela onde o Bruno estava à minha espera. Abrindo a porta ele falou: -Pensei que você não viria. parecia vim de um telefone público.. mal vestido.. O numero que lá marcava não estava em minha agenda. -Mas tem que ser agora. um pouco sujo. passando por umas ruas escuras na periferia da Zona Sul. deixando-me com medo de passar por ali. -Só um instante que vou parar o carro. -Eu quero falar com você.Deixei o Lar do céu com o corpo mais leve. pois entrei no túnel perdendo o sinal. O caminho era meio sombrio. -Agora? -Sim. o Bruno. ansioso para chegar logo em casa.. com os vidros todos fechados. -Hoje estou muito cansado. Anotei o endereço na última folha da minha agenda e fui ao encontro dele. suspeito. 135 . como pai e filho. O Bruno estava diferente. depois de ter trabalhado doze horas por dia durante uma semana. Atendi pedindo um momento para encostar o carro e assim poder falar sem colocar a vida de ninguém em risco. e quando saí do túnel ele voltou a tocar.

... respondi: -Não tenho do que te perdoar.. meu gato. seu beijo.. Não é justo sair por ai contaminando pessoas inocentes.... -Não respondeu por quê? Tentando me “levar no bico” ele disse: -Vamos deixar o passado de lado e pensar no futuro.. Quando eu descobri... -Nossa!.. Parei o carro na rua do Café. amor! -Você me fez um favor quando foi embora.. já estou infectado.-Eu fiz uma idiotice quando te abandonei. -Pelo que to vendo você não mudou nada.. -Se você soubesse como eu me arrependo de ter te deixado. Eu li o e-mail. mas se fizesse não me livraria desse mal. -Nossa! Não precisava humilhar assim... pode deixar por minha conta. Desligando meu celular questionei: -Sempre.. -Posso ser franco? -Claro.. -Tudo bem. -E se desiludiu agora? -Humpft.. Eu ainda te amo.. -Tudo bem.. me lembro que você tinha dito que não me amava mais... -Desculpa.. -Você deveria ter escrito isso no bilhete que me deixou.. Tocando em minha mão ele insistia: -Tenho saudade do seu cheiro. você fez sua escolha e me fez um favor quando foi embora. Vamos direto ao assunto.. sabia? -É. -Eu estava iludido. Você já procurou um médico? -Eu tenho medo.... Pelo que li.. lamento.. Entendi.... -Nem tanto... 136 . Você é tão compreensivo... -Meu futuro está comprometido...... minha vontade era de te matar. -Você não vai me perdoar nunca. só preserve outras pessoas com quem você for sair. não é? Enquanto o garçom nos servia.. não precisa me procurar nunca mais agora.. -Fique tranqüilo... Você sempre gostou desse tipo de sopa. -Já matou sua saudade. -Por quê? -Há algum tempo atrás eu descobri que tenho HIV.. não te odeio. para que você me procurou? -Porque eu estava com saudade. mas eu peço para que você procure um médico e use sempre preservativo.. -Ah!. Foi como eu disse. em seguidas entramos rapidamente para conversar tranqüilamente: -Vamos tomar uma sopa de cebola? -To sem grana.. Percebi que não era aquilo que eu pensava.. Você deve me odiar por isso. Nesse caso não poderei te ajudar. -Ah! Então você já sabe.. Eu estou te convidando. -Eu te procurei como um louco. -Sei. Se é que um dia me amou de verdade.

-Agora é tarde. Sou muito feliz com a vida de casado que estou levando agora.. nada se compara ao que eu vivi e vivo hoje. ouvindo o barulho da água cair do chuveiro. Vestindo apenas uma samba canção ele levantou o edredom e deitou ao meu lado. amanhã você pode ser plebeu. Ainda calados. Tenho tanta saudade dos momentos felizes que passamos. morrendo de vontade de dar um beijo naquela boca molhada. No caminho eu ia pensando na cara de pau do Bruno em procurar-me outra vez. mas depois acordei. Hoje você é rei. Depois de jantar vesti uma cueca e fui me deitar. Andava sempre perfumado. -Nossa!. Ele era tão vaidoso. mas fiquei abismado com sua decadência. Dei boa noite ao Daniel. coisa que me irritava.. -Ah. fazendo-me subir um frio pela espinha e um arrepio na pele. -Tudo bem. Meus pensamentos estavam longe. Sua outra mão tocou minha cintura.. Às vezes paramos para pensar e notamos que esse mundo dá muitas voltas.. pois estava morrendo de cansaço e sono.. Não posso me queixar. barbudo. Vesti meu roupão branco e fui jantar. minha barriga gelou. no silêncio da noite permiti ser tocado. Partiu-me o coração ver aquela carinha de cachorro abandonado que ele fazia. Conforme ele se virou. está ficando tarde e eu tenho dois amores em casa me esperando. Não foi nada.... Não que eu ainda gostasse dele. ou pensei que estava apaixonado. não vai ser você que irá atrapalhar. No auge dos meus pensamentos. -Você está namorando? -Praticamente casado. só percebi ao me virar para pegar o xampu e o vi espiando pela porta que estava entreaberta. Fechei meus olhos e fiquei pensando no Bruno.. foram ótimos momentos. se acariciando. Encostando a porta o Daniel entrou no quarto e foi tomar seu banho. Ficamos calados por um tempo. Com certeza você nunca vai encontrar alguém que te proporcione o que eu te proporcionei. achando que eu iria acreditar naquelas juras de amor ultrapassadas. cabeludo. em seguida caminhei até a cozinha e coloquei a comida no microondas. Eu nunca amei ninguém como amo o Daniel. Pouco a pouco íamos nos apertando. até ele levemente ir tocando em minha mão outra vez. quando o encontrei pela última vez estava mal vestido. às vezes até mais que eu. -Eu não tenho saudade de nada que vivi com você. fui interrompido pela volta do Daniel ao quarto. pois eu acreditava que você me amava e pensava que te amava. tem o descaramento de procurar por mim para dizer que ainda me amava. O que era apenas um tocar acabou virando carícias e logo estávamos de dedos entrelaçados. bonito.. não parecia ser aquele Bruno que um dia eu me apaixonei. Quase um ano se passou e minha vida já está reconstruída. Cheguei em casa primeiro que o Daniel. porque você não é tudo isso.. mas me controlei. Meu coração disparou. Deixe de ser convencido. Levantando-me da mesa falei: -Agora eu preciso ir. 137 . -Tenha uma boa noite! Deixei o Café e fui direto para casa. porém. Nem notei quando o Daniel chegou.. mas dessa vez foi proposital. Permaneci deitado.. Viajei em uma reflexão pelo que é viver de verdade e fingir que vive.. quase fui até ele e o agarrei. Larguei minha mochila sobre o sofá da sala fui até o quarto olhar como a Dani estava. -Desculpa. acabou esbarrando no meu braço. quase um ano depois de ter me abandonado. Não resistia aquele olhinho baixo de tristeza. Liguei o rádio e entrei no banho. de olhos fechados.

. Bader!. -Nossa. -Vem aqui. -Você já não tem mais raiva? -Nunca tive. -Você não sabe como eu senti sua falta.. -Então eu já morri por você há muito tempo... Sua pegada firme deixava-me louco.. tenha a certeza que assim estarei perto de você. fazendo amor. Antes do almoço tomamos banho juntos como nos velhos tempos. gostoso. petit! Nos abraçamos e continuamos a nos beijar. abraçado pelo amor da minha vida.... mas agradecia a Deus todas as noites por ter o colocado em minha vida... -Hahaha. gostoso.Com minha outra mão toquei em seu braço.. agora eu digo para você. um sonho. Saímos do banho. com você.. selvagem.... -É?. nos vestimos e almoçamos juntos. Nosso amor era coisa de novela. -O quê? -Derrubou o sabonete. Não sei o que eu fiz para merecer isso. Abri a cortina e lhe mostrei a lua dizendo: -Eu sempre disse isso pra Dani. -Parar?.. -Que lindo... O que aconteceu? -O desejo de estar com você fez meu feromônio triplicar. leves puxões de cabelo. qualquer bobagem se torna algo grandioso. fabuloso. Quando a gente ama. olhe para a lua. -Pega.. pelo meu anjo da guarda. -Eu também senti muita falta. Te amo! -Eu também te amo muito. Você está tão gostoso. Quando você não está comigo eu fico muito mal. Na manhã seguinte acordei sentindo-me no céu. petit.. a relação volta muito mais gostosa.. Bader.. Quando o Daniel tocou em meu rosto e trouxe junto ao seu não resisti. já estou acostumado dividir o chuveiro com você. Hahaha... que eu vivo pra você. Toda vez que eu não estiver presente e você sentir minha falta. Foi romântico.. Em pouco tempo estávamos nos amando outra vez... Peguei em sua mão e o levei até a janela do quarto. beijos desesperados intercalados com chupadas no pescoço. -Você quer me matar afogado? -Quero te matar de amor. (Jogando água na minha cara) -Pára. -Olha o que você fez. -Essa semana foi sem graça ter que tomar banho sozinho. foi o orgulho que não permitiu te dizer mais uma vez que você é tudo na minha vida. mas antes passávamos óleo pós- 138 . -Eu também senti. um enxugar o outro... Começamos a nos beijar como se fosse a primeira vez. Era um costume nosso ao sair do banho. planejando nosso futuro. Pega você. Ficamos a manhã inteira juntinhos no quarto. O bom das brigas de casal é que quando fazemos as pazes.. parecia não existir.. Passamos a noite fazendo amor. Há tempos não fazíamos isso.. lambidas pelo peito.. Hahaha. lindo demais. Algo selvagem..

-Cadê a Roberta? -Ta lá no fundo. assim como eu também fiquei da primeira vez que fui lá. Bader? -É o abrigo que cuida de crianças com vírus HIV que havia te falado. Saímos de casa e seguimos para o abrigo das crianças. e em breve teriamos um novo lar para as crianças. Enquanto isso eu recebia uma deliciosa massagem... algumas senhoras sentadas na calçada conversando. pois eu cuidaria de todos. chocante. Estão levando nossa máquina de lavar roupa embora. O Daniel estava um pouco assustado com a situação precária que se encontravam àquelas crianças. pareciam um pouco assustadas. -Hum? -Quero te levar pra conhecer o "Lar do céu”. Era algo revoltante. -Mas por quê? -Porque a gente não tinha mais como pagar as prestação.banho um no corpo do outro. Dando-me um abraço ela começou a chorar. pulando corda. -Daniel. -Roberta. quase sem trânsito. -Olá Vânia! O que se passa aqui? -Ai seu Bader... Fiquei com o coração partido.. fofo como sempre. piscina.. o que acontece aqui? -Seu Bader... Na porta do Lar do céu havia um caminhão e três homens tentavam equilibrar-se segurando uma máquina de lavar roupa. uma cozinha com equipamentos de higiene necessários.. mas guardei segredo até então. A Roberta estava no quintal dos fundos conversando com um homem uniformizado.. Eu queria que o petit conhecesse o lugar onde eu me apaixonei pelas crianças que lá viviam e me propus a ajudá-las. com uma sala de aula. com as dependências todas adaptadas para elas.. tudo feito pensado em uma vida melhor e confortável. ensolarado. Na rua haviam crianças brincando com bola. já o Daniel gostava de óleo de canela. O Daniel foi caminhando pela casa e observando o ambiente. Caminhei até os fundos para encontrar a Roberta. Estão levando nossa máquina de lavar a roupa das criança embora.. -Que lugar é esse.. O cheiro de creolina estava irritando meu nariz.. despejando óleo em meu corpo e com seu corpo ele ia espalhando ao meu... Paramos à porta. por isso prometi a mim mesmo que elas não iriam mais passar necessidade. Vamos lá ver o que está acontecendo. Ao entrarmos a Vânia estava em pé na porta da cozinha.. -Tudo bem. O dia estava lindo. Comecei a espirrar. -Eu vou falar com ela. quando a Vânia puxa assunto com ele: 139 .. abraçada à uma das crianças olhando o eletrodoméstico ser retirado.. é claro. -Quando? -Hoje. eu usava óleo de amêndoas.. Eu havia comprado aquele terreno no Centro e já tinha dado início ao projeto. jardim todo gramado com brinquedos. provavelmente era ele quem estava retirando a máquina de lavar da casa. A construção já havia iniciado. Mais lindo ainda estava o Daniel.

... Entrei no quarto e vi o Rodrigo sentadinho na cama. -Sou namorado do Bader... -O que é estranho? -Porque homem tem que namorar mulher.. sentimentos. -Roberta. Dizer o que é certo ou errado depende de pontos de vista. -Namorado? -É.... -Pai? -Você me chamou de quê? -Desculpa. por favor? -Eu te chamei de.-Quem é o senhor? -Eu? -Sim. Logo quando o conheci identifiquei-me com esse menino. e o Rodrigo era uma criança inteligente. parecia eu quando criança.. Pai. Daniel! -Prazer.. -Não meu anjo. tio Bader.. Viu como a gente não consegue seguir algumas regras impostas pela sociedade? -Por quê? -Porque você tem vontade própria. pois me senti tão útil naquele momento que olhei pra ele e perguntei: 140 . esperta. -Tudo bem... Pra mim foi muito bom ouvir ele me chamando de pai.. -Que estranho. Você come verduras todos os dias? -Eca. Você não tem pai? -Não. onde está o Rodrigo? -Deve estar no quarto brincando com o vídeo game.. sou a Roberta.. Sempre fui uma "manteiga derretida". As crianças têm uma mágica que encanta os adultos. -Ah!. Esse é meu namorado.. -Prazer... e cada ser humano tem o seu. -Por quê você me chamou de pai?. repete.. De repente o que está bom pra você está ruim pro outro. Seu abraço deixou-me todo comovido. falante pra caramba. -Nem sempre... -O quê você está fazendo.. Daniel? -Conversando um pouco com essa menina inteligente aqui. Minha mãe dizia que eu parecia um papagaio quando tinha aquela idade. frutas e legumes todos os dias. não gosto de verdura. Deixei o Daniel conversando com a Roberta na sala e fui até o quarto ver o Rodrigo.. -Deixa eu te apresentar à Roberta. mas dizem que o certo é comer verduras.. brincando sozinho com o vídeo game: -Rodrigo?. -Então. Eu queria que você fosse meu pai... -Eu vou lá e já volto.

-Que gracinha! Mas deve ter custado muito caro. beleza? -Sim. Os banheiros também estão adaptados para elas com tudo proporcional. -Já volto. -Nem tanto. consegui doações e não gastei muito. seu Bader. pai.. -Ta bom. Levei fotos do projeto concluído e expliquei todos os procedimentos para que se tornasse legalmente uma ONG em pró daquelas crianças.. Foi tudo pensado para a segurança das crianças. -Vamos até a sala. mas gostou da idéia. como você chama? -Eu sou o Daniel. A Roberta e o Daniel fizeram cara de espanto quando eu disse que queria adotar o Rodrigo. um para os meninos e outro para as meninas. Voltamos à sala conversamos sobre o projeto do novo lar para as crianças..-Você quer mesmo ser meu filho de verdade? -Eu quero! -Então eu vou adotar você. Não senti-me confortável quando disse à ela que eu e o Daniel éramos namorados. Claro que o petit ficou surpreso.. O prédio não terá escada que é para evitar acidentes. Né Rodrigo? -Sim. seu Bader.. Enquanto caminhávamos falei: -Eu trouxe aqui o projeto da estrutura que está sendo construída. -Oi! -E aê Rodrigo.. Existem dois dormitórios. -Obaaaaaaaaaaaaaaaa! Nessa hora o Daniel e a Roberta entraram no quarto. adotar essa criança amor? -Eu quero que o Rodrigo seja nosso filho. quem tem a guarda do Rodrigo? -Eu tenho provisoriamente. Rodrigo. por mais que a pessoa disfarce você consegue notar em seu olhar o constrangimento e o preconceito. Ao ver-me abraçado com o Rodrigo.. -Mas que coisa linda! -Esse é o espaço das crianças onde pretendo que elas vivam confortavelmente. -Como assim. O quê é aqui? -Aqui é o refeitório. cada um tem trinta camas que abrigam crianças até 10 anos. -Roberta. Esse é o Rodrigo..... o Daniel questionou: -Quem é esse menino? Sorrindo como idiota a Roberta respondeu: -É uma das crianças que cuidamos. Na casa terá também uma enfermaria equipada com uma 141 . Através de seus olhos pude enxergar o preconceito da sociedade que não aceitava um homossexual adotar uma criança. -Parece um sonho. por quê? -Porque eu quero adotá-lo... -Veja amor... Dirigindo-me à Roberta questionei: -Roberta. Já na Roberta notei um certo repúdio em sua face.. Veja. O refeitório tem todos os equipamentos para esterilização dos objetos. preciso falar com você.

. No mesmo corredor dos quartos têm uma brinquedoteca. Roberta. Vou fazer uma malinha com as roupas dele. com mobília adequada para suas idades.. seu Bader. Abri a porta de trás do carro e o Rodrigo já pulou pra dentro. enquanto a nova casa não fica pronta.mini farmácia.. Inicialmente achei que a Roberta não havia gostado muito da idéia. posso levá-lo pra passar esse fim de semana em casa? -Mas. seu Bader.. travei a porta e entrei no carro. preciso conversar com um advogado para ver os trâmites do processo. -Pra que serve isso. Roberta! -De nada. -Eu não sei por... Pronto... por favor.. -Ta aqui a malinha dele. -Fala. -Mas é um sonho. -Tchau Roberta. -Nem sei como te agradecer. Quem iria dirigindo seria o Daniel. -Sabe sim... Doutor..... tio? 142 .. aparelhos de emergência e uma enfermeira de plantão. -Deus o acompanhe seu Bader. -Cuide bem dele. -Tchau Rodrigo.. ele parece gostar muito de você.... Bader. -Eu também gosto muito dele.... DVD. muito. -Pode deixar. televisor. -Até parece um sonho.. -Deixa que eu te ajudo.. -Já vai. -Iupiiiiiiiiiiiiii! -Ficou feliz? -Muito..... -Obrigado.. vários livros didáticos. Tudo bem.. mesmo assim acabou liberando. -Humpft... -Põe o cinto de segurança. -Obrigado! Agora precisamos ir. Deixei sua mochila no banco de trás.. -Pode deixar! -Quanto à adoção do Rodrigo. Essas crianças precisam sonhar. -Rodrigo? -Oi.. e uma infinidade de outras coisas. -Vou torcer pelo senhor. -Tchau seu... cuidando bem delas por mim.. -Você já me conhece e sabe que pode confiar em mim... O Daniel olhava e dava risada. -Isso! -Até logo. Não faz essa carinha. brinquedos pedagógicos. Encostada à porta a Roberta comentou: -Coitado.. -Daniel.. Roberta... Não chore. tio? -Sim...

-Sim. -É quando o carro pára muito rápido. 143 . pois já de início ele lembrou-se de quando a Vânia ficou com medo de subir na escada rolante: -Pai. Liguei o rádio do carro e estava tocando Detonautas . Mas ele tem razão.... No carro o Rodrigo foi olhando pela janela e perguntando sobre tudo que lhe causava curiosidade... -Obaaaaaaaaaaaa! Igual aquele dia.. Bader? -Vamos almoçar no shopping primeiro. Rindo. e eu sempre explicando o que era e para que servia tudo que ele me perguntava. o Daniel comentou: -Olha como ele fala da garota? -Pois é. -O que é "freiada bruscra?”.. né Bader? -Sim.. Chegamos no shopping e seguimos para a praça de alimentação. Na hora de subir na escada o levantamos pelo braço.Outro lugar. -Que risada gostosa ele tem. -Hahaha..-Pra você não bater a cabeça no banco da frente se o carro der uma freada brusca..... -Opaaaaaa. O Daniel morria de rir ao volante. o Daniel fazia o mesmo do outro. -Por quê? -Porque a Vânia é meio tonta mesmo.. Parando no semáforo o Daniel comentou: -Ele está na idade dos "por quê".. -Pra onde vamos.. papai? -Sim... Era impressionante como o Rodrigo tinha boa memória. que achando divertido começou a gargalhar... Que burra. Seguimos em direção ao shopping para almoçarmos. que por sinal estava lotada. -Hahaha. Enquanto eu segurava em um lado de sua mão. lembra que a Vânia ficou com medo de subir a escada? -Lembro.

vem aqui do meu lado.. O que vocês vão querer comer? -Eu vou querer yakisoba. Daniel. pois os lanches vinham mornos. -Procure você e o Rodrigo uma mesa enquanto eu busco a comida de vocês.. Por que você ta comendo com esse palito? -Hahaha... pai.. -Hahaha. -Olha que bonito. -Rashi? -É. -Ahhhhh boooooooooooom! Depois que terminamos de almoçar fomos dar uma volta pelo shopping. O Rodrigo mordia seu sanduíche com tanta vontade que a impressão era de que o sanduíche iria escapar da caixa. de tão cheia que estava. -Ta bom... Eu não gostava muito daquele sanduíche com batata frita da rede de fast-food. Sentados à cadeira e balançando as pernas o Rodrigo perguntou: -Pai. Aqui. é um rashi. além de serem caros. acho melhor procurarmos um lugar pra ficar antes de nos servirmos.. eu e o Daniel não deixamos de nos divertir por isso. -Deixa o Daniel sentar aí Rodrigo. Subindo na cadeira o Rodrigo começou a gritar por ele: -Aqui. Aqui..... Vamos lá. Embora os brinquedos fossem direcionados ao público infantil. o Rodrigo e eu fomos procurar uma mesa. Demos duas voltas na praça de alimentação até encontrarmos uma para quatro pessoas: -Olha ali uma mesa. Segurando àquelas bandejas o coitado ficou um pouco perdido.Chegamos na praça de alimentação e quase não conseguíamos andar. Bader? -Aqui dentro tem um parque infantil no piso subterrâneo.. Segurando firme na mão do Rodrigo falei ao petit: -Daniel.. Eu comi yakisoba e o Daniel pegou o mesmo que o Rodrigo.. igual o garfo faz.. Sentamos à mesa e ficamos esperando o Daniel chegar com nosso almoço.. Ele já nos viu.... Enquanto o Daniel foi comprar nossa comida. -Caramba! Que lugar cheio. -Para que serve? -Serve para pegar o alimento e levar até a boca. ó? Ah!. pai? -To vendo. -Ta! Almoçamos como uma família comum.. esticando seu pescoço de um lado para o outro procurando por nós. Não é um palito. Levamos o Rodrigo até o parque. -Onde? -Ali. 144 . Pulando feito um macaco o Rodrigo perguntou: -Pra onde vamos agora? -Vamos ao parque de diversão? -Obaaaaaaaaaaaaaaa! -Que parque. Eu já volto. -E você... Rodrigo? -Eu quero sanduíche....

se não eu fico doente. pai? -Vamos pra casa. Bader? -Não precisa... Após o Daniel estacionar na minha vaga da garagem.... Enquanto aguardávamos o Rodrigo questionou: -O que a gente ta esperando. está leve. Minhas pernas estavam exaustas.. pai? -Estamos esperando o elevador. Segura em minha mão.. peguei sua mochila cheia de roupas e dei à mão pra ele..... você pegou a chave de casa dentro do porta-luva? -Ta aqui comigo. pois o dia foi muito agitado para todos. Assim que o Daniel abriu a porta de casa entrei exausto. Você não vai se molhar.-O que é aquilo? -É uma piscina de bolinhas. -Hahaha. Eu adorava quando ele usava aquela bermuda tipo surfista com camisa regata e tênis sem meia. 145 . Apertando o botão para chamar ao elevador o Daniel perguntou: -Quer que eu leve a mochila.. não tem água. -Pra onde a gente vai agora... Sim.... Depois de termos passado o dia inteiro com o Rodrigo no parque brincando. Quer brincar lá dentro? -Não posso me molhar. Desprendi o cinto de segurança do Rodrigo. -Hahaha. -Hahaha. parecia ter percorrido uma maratona. Sem contar a cuequinha aparecendo. Caminhei até o interruptor e ascendi a luz para iluminar o ambiente.. que além de provocante despertavam em mim um tesão sem igual. -Ah! Caminhando em direção ao elevador perguntei: -Daniel. Conforme o Daniel andava. fomos pra casa descansar. O elevador chegou e o Daniel abriu a porta para nós. desci do carro e abri a porta de trás. -Então eu quero! -Vamos lá. logo em seguida o Daniel também entrou. -Ui! -O que foi? -Senti um frio na barriga. -Que casa? -A nossa. mas pelo Daniel ficaríamos um pouco mais. a chave dentro de seu bolso traseiro fazia barulho.. Abraçado a mim o Daniel começou a rir. Fechando a porta falei: -Chegamos! -O que é aqui... -Igual aquele do "xóspi"? -Hahaha. Chegamos no estacionamento do prédio. apertou o 19 e soltamos a porta.. pai? -Aqui é o estacionamento do prédio que eu e o Daniel moramos. Segurando o Rodrigo e sua mochila entrei primeiro. só tem bolinhas de plástico na piscina.

-Pode deixar. chegamos.. Pegando a mochila de cima do sofá o Daniel disse: -Vou levar essas roupas para um dos quartos vagos. -Mas não é você que é meu pai? -Sim sou... foi só uma forma carinhosa de se referir à mim. -Petit.. mas o Daniel também vai ser seu papai. pai? -"Petit" quer dizer "pequeno" em francês. -Dani. -Tenho? -Sim. mas esse "pequeno" que o Daniel se referiu não é de tamanho. -Você é pai dela também? -Sou pai de coração. -Mas você tem mãe... -Por que você chamou ela de Dani? -Porque ela se chama Dani. igual você. -Mas você não é pequeno. Segurando um travesseiro com sua mão esquerda o Daniel disse: -Bader. eu e o Daniel.. já a outra eu não conheço.. já arrumei tudo lá no quarto. Não faz essa carinha.. Vem aqui com o papai. 146 . amor! Você já está com sono. então todos temos pai e mãe. Você já está melhor? -O que é "petí".. -Obrigado. -Prepara a cama pro Rodrigo dormir... olha quem está aqui? -Dani!. Entendeu? -Entendi.-Enfim.. Sentando-se ao sofá o Rodrigo perguntou: -O quê o Daniel é da Dani? -Pai. -E o que ele é meu? -Pai também.. mesmo sem conhecê-los... papai do céu te deu dois papais.. travesseiro e edredom. Bader.. -Nem eu.. -Eu vou ter dois "pai"? -Sim. -Eu sei. Mas todo mundo nasce de alguém. Uma delas é a Roberta que cuida de você há muito tempo. cobertor. Rodrigo? -Não. Dentro dos armários tem lençol. Eu não conheço sua mãe.. Você tem duas mães. filho. -Eu queria ter uma mãe... -E quem é minha mãe? Sentei-me ao seu lado e tentei explicá-lo: -Humpft. eu que sou pequeno. -Obaaaaaaaaa! -Agora você têm o papai Bader e o papai Daniel. -Ah! -Mas pra compensar.

até a Dani entrou na brincadeira... transformando aquela sala em um campo de batalha de penas.. Abri a porta de vidro do box..... -Mas tinha que ser o Bader mesmo pra estragar o clima. Levei o Rodrigo até o banheiro. parecia ter descoberto um outro mundo. -Ah é? Toma! -Ai. Caímos os três sobre o tapete e começamos a fazer cócegas um ao outro.. Achando tudo engraçado o Rodrigo entrou na brincadeira.... Onde está a carteirinha? -Vê se está na gaveta do armário da cozinha. -Quer tomar banho nela? -Não. amor?. Pára. Levantando-se do sofá o Daniel pegou o travesseiro que segurava e bateu em mim. quase tive uma overdose de risos. com água bem quentinha e muita espuma para ele brincar.. Vamos jogar vídeo game então? -Vamooooooooo. -Pedindo assim eu vou. Eu me afogo.. -Pra que serve? -Pra você tomar banho bem quentinho dentro d'água. vá até a locadora alugar algum filme para nós? -Eeeeeeee. só de bebê. -Firmeza. antes você vai tomar banho. -É guerra! -Hahaha. se não estiver lá. O clima que pairou em nosso lar naquele momento foi de muita alegria... Mas é folgado mesmo. -Ta bom. -Papai Bader! -Oi? -O que é isso? -É uma banheira. -Enquanto eu dou banho nele.Sentando-se ao sofá o Daniel falou: -E nem eu. Depois a gente joga uma partida de vídeo game. -Hahaha. O Rodrigo pulava em cima de nós às gargalhadas.. Você nunca tinha visto? -Grande assim não.. Rodrigo.. né.. Eu deixo a água bem rasinha. -Então eu quero. -Já chega... Não deixei barato. -Agora não. peguei uma almofada e joguei de volta..... -Vá tirando a roupa enquanto eu encho a banheira.. Hahaha. -Por favor. Daniel. -Que horas são? -20h15. uma paz que brotava de todos os cantos. está na minha carteira. Enquanto ele foi tirando sua roupa eu coloquei a banheira para encher. quando ele viu a banheira ao lado direito ficou deslumbrado. 147 . hein.. parecíamos três crianças.. mas antes o Rodrigo vai precisar tomar um banho e vestir uma roupa limpa. -Hahaha. O Rodrigo acabou levando a alegria que faltava para nossa casa. -Sim...

. peguei o aparelho do meu quarto que era sem fio e fui falar no banheiro.. -Ta bom. Pode ser? -Tudo bem então....... Já posso abrir? -Ainda não. -E agora? -Pronto. -Vamos passar xampu no cabelo? -Vamo. Ele voa alto.. Fiz sim. -Prontinho. -Tchau filho! -Tchau pai. Deixei o Rodrigo brincando com o avião. Dei em sua mão alguns brinquedos que eram meus quando criança para se entreter enquanto eu o ensaboava. Quem bom! 148 . Enquanto corri até o quarto. supervisionando o Rodrigo brincando: -Alô? -Alô. Antes de lavar seu cabelo fui até o quarto pegar toalha e roupa para ele vestir: -Rodrigo. o papai já volta. eu te mando por e-mail amanhã pela manhã. -Fecha os olhos pra não cair espuma do xampu. -Olha como ele voa.. -Mande outro pra ela. simulando os motores do avião... filho? -Oi pai! Tudo bem com o senhor? -Eu to ótimo e você? -Eu estou bem também.. -Hahaha. você fez aquele trabalho pro Cristiano sobre comercial? -Ah!. -Assim? -Isso! -Ta... ele vai precisar pra quando? -Parece que pra depois de amanhã.. -Olha..... Já ia esquecendo.-Uia! -O que foi? -Quanta espuma! -Legal. te mandou um beijo. De longe eu conseguia ouvir ele fazendo barulho. né? -É. vou buscar toalha e roupa pra você vestir. -Vamos fazer assim. -O quê? -O Rodrigo e a Millena telefonaram hoje e disseram que estão adorando seu presente. filho! -E a mãe. papai? -Nossa!.. o Rodrigo ficou brincando com um aviãozinho de plástico e um barquinho. Peguei ele no colo e o coloquei dentro da banheira.. -Filho.. como está? -Ela está bem. Olha.. O telefone tocou. né? -É.

pois o corpo já se enxugou com o enrolar da toalha. Enxugando minha mão à toalha disse a eles: -Vão indo pra sala que eu já vou... Coloquei um pacote de pipoca ao microondas e deixei estourando. Observando aquela cena. enquanto os dois brincavam na sala. peguei uma garrafa de guaraná e coloquei refrigerante em três copos para nós.. Enquanto penteava seu cabelo em frente ao espelho... agora você já está limpinho.. -Assim? -Bom menino! Agora você já está de pijama...... -Levanta os bracinhos pra eu colocar a blusa em você. -Petit?.. -Ahhhhhhhh.. 149 . -Quais? -Um desenho para vermos com o Rodrigo e outro de suspense. -Assim? -Isso. escutei a porta da sala se fechando. talvez fosse esse o motivo que os faziam se dar tão bem.. -Eu to com frio.. -Pronto. né papai? -Ta sim. o carinho e atenção com que ele tratava o Rodrigo. Peguei o telefone de cima da pia e fui colocar de volta na base do quarto.. Agora a outra.-Beijão. -Mande um abraço pro Daniel.. Desliguei o telefone e o coloquei em cima da pia. Às vezes o Daniel parecia ser mais criança que o Rodrigo. -Estou aqui no banheiro.. Era o Daniel que acabava de voltar da locadora com os DVDs. Olha que menino cheiroso!. -Já fui lá e aluguei dois filmes. -Ganha nada... -Assim? -Isso. -Já? -Já. -To perfumado. pai. Vamos apostar uma corrida? -Eu ganho de você. Agora coloca a perna dentro da calça.. -Outro. Continuei enxugando suas pernas e cabelo. Voltei ao banheiro para esvaziar a banheira. senti que o Daniel daria um ótimo pai. -Vamos ver desenho. Peguei a toalha aberta e comecei a enxugar o Rodrigo: -Hora de sair.. Apostando corrida saíram os dois correndo pelo corredor dos quartos em direção à sala. Tirei o Rodrigo de dentro da banheira e o coloquei sobre o tapete.. Enquanto isso abri a geladeira. cheirosinho e pronto pra dormir. Bader.. -Pode deixar.. Hummm.. -Tudo bem. -Levanta e fica paradinho aqui pra eu te enxugar. Rodrigo? -Simmmmmmmmmmmm.

.. Fechei a porta do quarto e seguimos para o banheiro. com a cabeça caída sobre meu ombro. deixando tudo escuro em clima de cinema. -Porque esse é pro Rodrigo. -Ta bom.. mas eu também. Segurando-se ao batente da porta ele questionou: -Fala? -Leva esses copos lá pra sala que eu vou levar a pipoca. Fale baixo para não acorda-lo. 150 .. -Também. Sussurrando falei: -Psiu. -Ta bom. Comecei a tirar a dele também até ficarmos completamente nus. Já sem camisa o Daniel abraçoume com aquele peitoral estufado e quentinho. Aquela cara de safado que ele fazia quando olhava pra mim com a respiração ofegante era de matar qualquer um.. Apaguei a luz. Com todo cuidado o Daniel pegou o Rodrigo no colo e o levou até o quarto. obrigado.. seguida de fortes pegadas. leve ele para dormir na cama.. -Quer mais pipoca.. Puxando-me para roubar um beijo ele falou: -Amanhã você faz isso. Sem interromper os beijos ele arrancou minha bermuda... Sentei-me ao lado direito. Sentamos ao sofá reclinável. liguei o abat-jour e a luz que vinha do corredor iluminava sua cama.. pele colada à pele. como sempre fazíamos.... divertindo-se com os personagens. Parecíamos estar dentro de um cinema.. -Beleza.. -Fala. Peraê que eu já volto. Começamos a nos beijar antes mesmo de tirar completamente nossas roupas. -Não só ele se cansou. depois de um dia agitado como o de hoje. liguei o home theater e fechei as cortinas. -Foi mal. papai Daniel? -Eu quero! -E você.. Entramos no box e tomamos nosso banho juntos. Levantando-se do sofá o Daniel disse: -Petit. -Ah ta. com a tigela de pipoca no colo. e o Rodrigo não tirava o olho da tela. Encostado ao batente da porta com os braços cruzados comentei com o Daniel: -Ele estava bem cansadinho.-Daniel?. Abraçando-me o Daniel perguntou: -Vamos tomar nosso banho e depois dormir? -Antes preciso limpar as pipocas espalhadas na sala.. pois a noite estava um pouco fria. arrepiava-me até a alma. o Daniel ao lado esquerdo e o Rodrigo no meio.... -Vem aqui me ajudar? -Já vou. -Amor.. Assistíamos Procurando Nemo. papai Bader? -Não Ro. Apaguei todas as luzes do apartamento. Está sem gelo esse refrigerante no copo de plástico. O deitou à cama e cobriu com o edredom. Quando o desenho chegou ao fim o Rodrigo já dormia ao sofá.

. O Rodrigo parecia estar adorando o croissant de presunto e queijo. Ro?. -Com chocolate? -Simmmmmmmmmm. foi até a cozinha só de bermuda. petit! -O que você está fazendo? -Um achocolatado pro Rodrigo.. enquanto o Daniel e o Rodrigo dormiam. -Vou buscar pra você. antes que queime? -Peraê. -Você quer comer bolo? 151 .No dia seguinte acordei cedo.. -Pra que serve? -Ele suga toda a sujeira que está espalhada pelo chão. fiz suco de laranja.. -Eu também. Sobraram algumas migalhas espalhadas ao canto do sofá. Fiquei louco. torradas.. Você já está com fome? -To. -Sente aí na mesa que vou tirar os croissants do forno. Tira o croissant do forno pra mim.. Abri um pote de geléia de morango. Leite. Enquanto eu fui até a cozinha buscar o leite com chocolate pro Rodrigo o Daniel acordou. -Ta quente!.. papai Bader.. Enquanto eles não acordavam eu fui até a sala recolher as pipocas espalhadas pelo chão que ficaram da noite anterior. -E o que é isso barulhento? -Isso é um aspirador de pó. Esquentei leite. gato! -Bom dia.. Passando geleia na torrada comentei: -Estou com vontade de comer bolo de chocolate. suco? -Sim. Ro? -To sim. coloquei para assar croissant. Eu to limpando a sala. -Ta gostando. amor. pra ele era novidade. Levei os croissants dentro da cesta e o chocolate com leite pro Rodrigo até a sala. -O que é "croassam"? -É um pão recheado. Peguei o aspirador de pó que estava na área de serviço e voltei pra sala. levantei-me sem fazer barulho e fui até a cozinha preparar o café. papai Bader? -Já acordou... para tomarmos café os três juntos como uma família. -Bom dia. muito gostoso... coçando o lado direito daquele peitoral definido e peludo.. -E você vai me dar um? -Claro! -Obaaaaaaaaa! -O que mais você quer? Leite.. Aspirava os cantos quando o Rodrigo apareceu dizendo: -O que você está fazendo. -Obrigado. Sentamos os três à mesa para tomarmos nosso café da manhã. arrumei tudo na mesa e esperei pelos dois acordarem. Opa. Onde eu coloco? -Põe aqui dentro da cesta....

. -Quer um pouco de salada de fruta? -Não.. -E você. enquanto o Daniel cuidava do Rodrigo. -O que você vai querer. Daniel? -Eu também quero. falei: -Petit. sentadinha com a língua pra fora esperando eu dar alguma coisa pra ela 152 . falta de tempo era o real motivo. Segurava a Dani pela coleira. Gostou do croissant. Levei a Dani com a gente para passear. Caminhamos pelas calçadas tranqüilas de Higienópolis até chegar à Praça da República. Podemos ir à feirinha da República. por favor. Ao meu lado estava a Dani. fomos até a feirinha da Praça da República. Dirigindo-se à chinesa o Daniel pediu: -Três yakisobas. Por que você não é cachorro.. o que acha? -Boa idéia!. Passando pelas tendas de comidas. cujo estava lotada.. -Ahhhh! Sentamos às mesinhas que lá haviam para almoçarmos nosso yakisoba.. pois como morávamos ali perto não precisaríamos pegar carro ou qualquer outro transporte. Brincando com a Dani o Rodrigo perguntou: -Papai Bader. Ro? -Sim. Eram raras às vezes que eu aparecia por lá. -Eu? -Por que ela ta com a língua pra fora? -Porque ela está cansada. Rodrigo? -Eu quero "soba" também. -Grande ou médio? -2 médios e 1 pequeno. Depois de tomarmos café da manhã... -Por que eu não ponho a língua pra fora quando to cansado? -Hahaha. eu vou querer yakisoba....-Eu quero...

-Hahaha. Olha quanta água!. -O que é isso? -É uma espécie de bolo com creme.... mon ange. Tentando fazer como eu o Rodrigo tentou usar o rashi para comer. -"Pavê"? -É. Daniel? -Vou lá pagar. Tem sim.. -Ta bom.. -Estou vendo.. -Eu também era assim quando criança... lembra? -Lembro.. -Bader... pai? -Claro. -Agora eu quero comer um pedaço de pavê...comer... Passamos o final da manhã e o início da tarde na feirinha comendo.. você vai querer pavê de quê? -Tem "floresta negra?” -Acho que sim. Após terminarmos de almoçar deixamos a barraca de comida chinesa e fomos para a barraca de doces. -E eu posso comer um pedacinho também.. Enquanto o Daniel foi pagar a conta. Não agüento mais.. -É coisa de criança mesmo. você vai querer? -Vou. -Pior que eu também. -Papai.. -Eu também quero comer com esse pau de churrasco.... -Já está satisfeito? -Sim. 153 . você viu que bonito o chafariz? -O que é chafariz? -É esse jato de água que você está vendo pulando.. Tem pavê floresta negra?. deixei a Dani lamber o pratinho de isopor com o caldo do yakisoba que sobrou... -Olha a água.. comprando algumas tranqueiras e tirando fotos. mas não conseguiu. bem gostoso. Igual aquele do shopping ontem. -E o Rodrigo? -Eu divido com ele... Dando um gole em seu refrigerante o Daniel falou: -Mas esse garoto é curioso. -Ah. é uma espécie de talher que os orientais usam.. Afastando a bandeja perguntei: -Você já pagou. Hahaha. papai?. -O que é "monange"? -"Mon ange" quer dizer "meu anjo" em francês. -Ta bom. -Até demais.... O Rodrigo estava adorando o passeio.. Não é pau de churrasco.. brincamos de pic-esconde. Andamos pela praça.

Batemos a foto que por sinal ficou linda. -Sim. O Rodrigo dizia que havia adorado o bolo... Fazia muito tempo que eu não sentia aquela sensação de alegria.. Para mim. -Fica junto com o Rodrigo que eu bato a foto de vocês dois. os três sorrindo como uma família feliz.. Segurando o bolo em uma mão e a coleira com a Dani na outra falei: -Enquanto vocês brincam ai. Olha um ali? -Óia! -Viu? -Vi.. -Ta bom.-Vamos tirar uma foto? -Vamooooooooooo. Ao chegarmos no condomínio. Aproveitando que o Daniel estava com uma bola na mão. -Vamos bater um "fut".... 3.. eu vou levar esses pedaços de bolo lá pra cima e por na geladeira para não derreter. -Tudo bem..... Vamos ver quem chega primeiro na quadra? -Eu vou chegar primeiro. caminhávamos em direção ao hall do elevador de serviço quando o Rodrigo viu a quadra de esportes. Imediatamente foquei meu olhar pra piscina e notei que haviam dois rapazes muito bonitos tomando sol no deck. como a que senti com os dois. 2..... Um campo. -Ahhhhhhhhhh... Segui pelo corredor que dava acesso ao elevador de serviço.. -E tem peixe lá dentro? -Tem sim.. Rodrigo? -Obaaaaaaaaaaaaaaaaaa.. Acabei comprando quatro pedaços para levar com ele. Óia otro? -Eu to vendo. Entrei pela porta que dava acesso à piscina e avistei o Flávio parado próximo à porta. Assustei você? -Caralho... né? 154 ... Claro que eu não queria perder aquela oportunidade.. ficou todo animado querendo brincar na quadra: -Uia!.. pois por estar com a Dani não poderia subir pelo social. e de fundo o lago com o chafariz servia de cenário. Juntamos nossos rostos de maneira que o Rodrigo ficasse no meio. minha linda e querida família. -Papai..... até pediu para levar um pedaço pra Roberta. -1. -É uma quadra de esportes.. Aproximei-me dele e dei um grito: -Está gostando? -Ah! -Nossa!. aquela tornou-se a minha família. Bader. Você me odeia. -Pronto!. Por que a água daqui é verde? -Por causa das folhas que caem das árvores... Voltamos para casa comentando sobre as comidas da feira. Depois a gente tira mais.... Colocando o Rodrigo de volta ao chão o Daniel disse: -Vamos tirar outra foto.

. sem dar mais nenhuma palavra. deveria ter passado pela portaria. Aproximei-me do sofá e reparei que sobre o tapete havia um porta retrato caído.. peguei uma faca e segui até o quarto. procurando sabe-se lá o quê. Enquanto subia até o décimo nono andar pelo elevador fui morrendo de rir da cena que acabara de presenciar. Coitado.. Divirta-se. uma barata talvez. -Pelo amor de Deus. Fiquei pensando no que teria em casa para chamar à atenção de algum ladrão... obrigado. Alguma coisa de errado estava acontecendo.. Já estou casado. Quando entrei. Era estranho.. Saí do elevador e fui direto até a portaria perguntar ao porteiro quem procurava por mim naquela manhã: 155 ... Descemos no mesmo elevador calados. -Por nada.. Larguei a faca sobre a cama e desci até a portaria. Não conta nada para o meu pai.. porque antes de sairmos de casa o Daniel havia trancado tudo. que após sacudir-se saiu cheirando o chão até a sala.. Abri a porta da área de serviço que dava acesso à cozinha e tirei a coleira da Dani. Alguém havia entrado em minha casa e mexido em minhas coisas.. todo quebrado. Como ele era? -Ah.. Ao chegar notei uma certa diferença no ambiente. e tudo que havia dentro estava espalhado pela cama. Não me lembro muito bem. Eu quero que seu pai morra. A foto que havia nele sumiu.. Voltei à cozinha.Aproximando-me dos vitrais falei: -Imagina.. Preciso ir. Ao certo eu não sabia o que procuravam. Enquanto esperava o elevador subir uma vizinha saía de sua casa e me perguntou: -Boa tarde. Ainda na cozinha.. -E a senhora disse o quê? -Eu confirmei.. e o pai dele pondo a mão no fogo pelo filhinho achando que não é gay.. hein? -Que caras? -Aqueles que você estava de olho... parecendo que queria chamar minha atenção. abri a porta da geladeira e guardava os pedaços de bolo quando escutei a cachorra latindo. -Eu? -Eu que não sou. Notei que a porta da sala estava apenas encostada. Tranquei a porta da área de serviço e saí pela porta da sala para pegar o elevador social. De início nem dei muita importância achando que fosse alguma bobagem.. reparei que meu criado-mudo estava caído ao chão.. Fechei a geladeira e fui até a sala.. -Tudo bem.. já que dinheiro eu não mantinha no apartamento e coisas de valor eu não tinha muitas.. Bader! -Boa tarde! -Teve um rapaz procurando por você hoje.. Olha que os caras são bonitos.. mas ela insistia... Você tem bom gosto. estaria perdido. Se eu fosse depender daquela imbecil para me fazer um retrato falado da pessoa que procurava por mim. Eu estava voltando da feira quando ele quis saber se era aí que morava o Bader. -Humpft. Seja quem fosse que tivesse entrado em casa. mas o fato de alguém ter entrado em minha casa sem dificuldade nenhuma deixou-me apavorado. -Eu?. -Me procurando? -É.

-Então quer dizer que se qualquer um chegar aqui dizendo que me conhece você vai deixar entrar? -Acontece. escorrei em uma camisinha esquecida ao chão.......... seu Bader.. o gravador quebrou.-Boa tarde. -Humpft. seu Bader.... que só presta pra ficar espiando as meninas de biquíni na piscina. Não tenho dó de pessoas sem caráter.. -Quem? -Não sei dizer. -E você deixou? -Eu deixei. Eu tenho uma família para criar.. Há muito tempo que eu venho observado seu comportamento incondizente com sua função. Quando eu ia saindo da guarita. Olha. Assuma o que você faz. seja homem. né? -Não.. -Pelo amor de Deus. Por acaso esteve alguém aqui procurando por mim hoje? -Esteve sim. onde só moravam pessoas de alto poder aquisitivo. -Mas como?. seu incompetente. seu Bader! -Boa tarde. -Pois seu eu fosse você.. Douglas. Você sabe o risco que minha família correu? -Mas seu Bader. Calado ele não respondeu nada. não poderia ter esse tipo de falha tão estúpida cometida por um 156 .. -Não seja falso.. Irritado falei: -Olha isso? -O quê?... -Você colocou a minha vida e a vida da minha família em risco.... Desculpa. ele disse que conhecia o senhor e pediu para eu deixá-lo entrar. -Acontece que você é um incompetente... Douglas. não. Nossa!.. -Isso não vai ficar assim. -Por favor.. Entrando na guarita questionei: -Eu quero a fita de hoje pela manhã. -Pensasse nisso antes. Humpft.. pois vou fazer de tudo para te ver no olho da rua.... Existe muita gente por ai que não ganha metade do que você ganha trabalhando aqui. -E por que não arrumaram ainda? -Isso tem que perguntar ao Carlos. Se até hoje eu me calei foi por pena da tonta da sua mulher e daquelas duas crianças que vocês têm.... -Não vai ter como. Não é minha. Várias vezes cheguei de madrugada e ouvi gemidos femininos vindos dessa guarita. Era inacreditável que uma coisa daquelas pudesse acontecer em um condomínio de luxo como aquele.. já começaria a procurar outro emprego.. -Claro.. Deixei a portaria soltando fogo pela fuça. seu Bader.... O circuito interno de TV estava ligado? -Estava sim.... e sem fazer nada praticamente.. -Não pode ser...... me dê mais uma chance? -Você e o Carlos que me aguardem. seu Bader. ele disse que te conhecia. Vai dizer que é minha...

Colocando um boné na cabeça o Daniel falou: -Bader. Caminhei até a quadra para comunicar o Daniel sobre o que havia acontecido... entrei dentro do carro e seguimos para o Lar do céu.. -Ta bom. -Fala. amor.. eu vou descendo e te espero no carro. Vamos levar o Rodrigo de volta para o Lar do céu e depois resolvemos isso. -Já volto.. amor? -Você trancou a porta da sala quando saímos hoje pela manhã? -Tranquei sim.. Esboçando seu lindo sorriso ele correu até mim...... -Obaaaaaaaaaaaaaaa.. -Então vamos. abri a porta de trás e coloquei a mochila do Rodrigo no canto do banco e depois ele entrou.. No caminho fui pensando em qual providência iria tomar quanto a isso. -Oi? -Por hoje chega.. -Rodrigo. -Ah... papai Bader? -Vai sim. você pegou a sua bola? -Peguei. Dentro do carro o Daniel já nos esperava. Descemos até o estacionamento. no mínimo aquele porteiro imbecil seria demitido. Havia algumas coisas reviradas em casa e uma foto minha sumiu.... só sei que estou com medo. -Daniel.. -Rodrigo..porteiro despreparado e cretino.. Subimos até o apartamento e fui direto pro quarto do Rodrigo arrumar sua malinha.. Parado próximo à porta ele perguntou: -Eu vou poder voltar outra hora. prendi nele o cinto de segurança e travei a porta. Eu estou aqui. -Tudo bem.... vamos arrumar suas coisas que está na hora de voltar para o Lar do céu. 157 . ninguém vai te fazer mal. Se fosse uma quadrilha especializada em assalto condomínios teria feito a festa em casa. -Mas como? -Eu não sei. Ro. -Ta bom. Após pular o alambrado ele abraçou-me e pediu para que eu não me preocupasse: -Fica tranqüilo.. pois não iria deixar barato. por quê? -Porque quando cheguei ela estava apenas encostada.. Em breve você vai estar aqui morando comigo e com o Daniel. Ro.

Mas olha só o preço? -Caramba! -É a moto dos meus sonhos. -Boa tarde... para evitar qualquer outro problema que ele pudesse criar. ficou de olho na motocicleta verde. -Seu Bader.. que além de bonita era a mais cara também: -Olha aquela moto! -Bonita.. No momento não poderei pagar uma prestação de moto que no mínimo vai sair mais de dois mil.... -Pra quê? -Olha o preço dela? Não tenho esse dinheiro à vista.Enquanto o Daniel dirigia. Roberta! Vim devolver o Rodrigo pra você. -Que absurdo!.. Não demorou muito e veio a Roberta atender. dentro de uma hora mais ou menos ele passa lá em casa pra trocar as fechaduras e colocar mais duas para reforçar. Enquanto isso o Rodrigo foi brincando com o aviãozinho que eu havia dado pra ele... -Vai ver ele está gastando sozinho.. -Falou com o chaveiro.. 158 . -O farol abriu. -Você acredita que eu não posso saber quem entrou no meu apartamento porque o circuito interno de segurança não tem gravador? -E por que não providenciaram ainda? -Eu também gostaria de saber. Entreguei a mochila para ela.. vestindo seu avental branco.. Que prazer!. -Demais!.... Abri o portão e bati na porta... -Compre à prestações. pois eu não me sentia mais seguro dentro da minha própria casa... peguei seu celular e liguei para um chaveiro ir trocar as trancas da porta. -Ou com a família dele.. Paramos no farol e ao lado do Daniel havia uma loja de autos. Bader? -Sim. -Prefiro vender o carro e comprar à vista. -Pelo preço também. né? -Acho que vou vender o meu carro. O que o Carlos faz com o dinheiro dos condôminos já que não investe no condomínio?. Tudo parecia estar na santa paz.. Apaixonado por motos como ele era. Em destaque em sua vitrine havia uma moto muito linda. Aproveitei e comunique também ao Douglas.... Chegamos no Lar do céu e não havia nenhuma criança na rua...

-Por favor.. Batendo à porta do banheiro o Daniel disse: -Bader.. -Tudo bem.. Ao chegar fui direto tomar um banho pra tirar o stress. -Certo... eu já estou terminando aqui. Coloquei uma bermuda sem cueca mesmo. Enquanto ele foi buscar o chaveiro eu sai do banho e fui me vestir.. Acompanhei todo o processo de perto. Ela foi aberta com algum material de ponta. Tchau Rodrigo.. -Como foi lá na casa do Bader? -Muito legal... Não demorou muito e a porta se abriu.. adorei ter passado esses dias com o Rodrigo.... e todo cuidado era pouco... fui no parquinho.. -Vou buscar.. -Roberta.. "soba".. Quanto foi? -R$150.. porque com certeza ele quem iria pagar pelos prejuízos que eu estava tendo. -Tchau! Deixamos o Rodrigo aos cuidados da Roberta e voltamos para casa. 159 . eu já não confiava mais em ninguém.. para não ter o risco de sofrer qualquer tipo de sabotagem. -Ele não está. seu Bader! -Eu é que agradeço. uma camiseta de manga e um chinelo de dedo.. -Tchau papai Bader. -Muito obrigada. muito menos ainda de alter ter acesso à minha residência em minha ausência... viajou com minha mãe. -Oi Tiaaaaaaaaaaaa!. o porteiro interfonou dizendo que o chaveiro está lá na portaria.. fui no "xopis".. grampo. Eu ainda não havia engolido aquela história de não ter gravador no circuito de segurança. Um canivete. Fiz questão de guardar as velhas para mostrar ao Carlos depois. Comi bolo. joguei bola. preciso voltar agora. eu quero que troque e adicione mais duas trancas nessa porta e na da área de serviço também. -Já está pronto! -Ótimo. cadê as crianças? -Estão tudo lá no quarto vendo TV. -Bom. Sentei-me ao sofá da sala e fiquei aguardando por eles. -Obrigado! Enquanto o Daniel acompanhou o chaveiro até a portaria.. desci até o terceiro andar para falar com o Carlos.. Eu vou descer lá pra checar e subo com ele. Àquelas alturas.00.. alguém conseguiu abrir e entrar aqui dentro de casa. Roberta.. Tchau papai Daniel. Você pode me dar um recibo? -Claro.... Assim que os dois entraram expliquei o que havia acontecido: -Boa tarde! -Boa tarde! -O que aconteceu com a fechadura? -Não sei o que houve de fato. -Vamos ver.. Toquei a campainha e o Flávio quem atendeu a porta: -Oi Bader! -Quero falar com seu pai.-Oi Ro. -Já volto.

. pois aqueles dois eram garotos de programa. Assim fomos até o banheiro. -Obrigado! 160 .. para dormir abraçadinhos. Acho que ele estava procurando por você. -Valeu! -Hahaha. onde tiramos nossas roupas e fizemos amor antes de ligar o chuveiro. -Não tem problema. -Quer um pouco de leite de soja? -Eu quero. Divirta-se.. Entreguei as antigas fechaduras retiradas da porta junto com o recibo do chaveiro ao Flávio e voltei pro elevador. mas eu esquento no microondas pra você. sabia que algo poderia rolar. lá estava ele varrendo os cacos do chão dando risada: -Te acordei.. -Hummm. Sabe quem estava descendo no elevador junto comigo? -Quem? -Aquele rapaz que vive desfilando sem camisa por ae. -Antes que eu me esqueça... deixou a colher dentro da pia e foi abraçando-me beijando. o Daniel olhou pra mim com aquela cara de safado... Levantei-me imediatamente e fui até a cozinha ver o que tinha acontecido..-Quando eles voltam? -Acho que a semana que vem... Entregue isso aqui pro seu pai e diga que preciso falar com ele o quanto antes.. Tudo bem que isso não é da minha conta.. Foram para o Maranhão e Ilhéus. -Do que você está falando? -De nada. -Desculpa? -Tudo bem. você toma outro. Chegando em casa o Daniel estava na cozinha comendo iogurte. mas se for o que eu estou pensando é muito além da minha conta. Tomamos banho gostoso como sempre fazíamos....... vou tomar banho... Após jogar a embalagem vazia ao lixo.... voltando ao quarto logo depois... Dê uma passada lá depois.. Vem comigo? -Eu acabei de tomar. com o salário que ele ganha não dá pra viajar assim. está quente? -Não.. -Nossa!. No meio de seus braços eu me rendi a seus encantos. -Tudo bem. Ao chegar.. petit? -Uhum. Foram pra tão longe assim? -Sim. -Que rapaz? -O mesmo que você estava espiando lá na piscina. -Engraçado. No outro dia fui acordado pelo Daniel quebrando um copo de vidro. Por mais que eu tivesse feito aquela “pequena” brincadeira com ele e os rapazes. -Por mim? -Pois é. Tranquei a porta da sala e deixei a chave sobre a mesa. caminhei pelo corredor em sentido ao quarto dizendo: -Petit.. Tirando a camisa. e eu só descobri isso através da Eduarda que os conheciam sei lá de onde. já está quase na hora de ir trabalhar.. Caso de polícia....

... Já colocou comida pra Dani? -Ainda não.. -Obrigado! Tocando em minha mão o Daniel disse: -Sabe por que eu gosto tanto de você? -Porque você é muito corajoso. tadinha. -Hahaha. -Não deixe ela sem comer.. Que eu desconfio que o dinheiro que ele está gastando viajando pelo Brasil é o dos moradores do prédio.. Aparência frágil mas ao mesmo tempo imponente..... exemplo de educação.Sentei-me à mesa da cozinha e ficamos ali conversando um pouco.. Estive fazendo as contas....... -Hahaha. -Então quer dizer que sou uma boneca de porcelana? -Não.. Você fica tão gostoso quando faz essa carinha de bravo. Não.. -Eu liguei para a doutora Eliete e marquei uma consulta pra Dani. Daniel. -Será? -Com certeza. Ele e o zelador são muito amigos. Sendo esse homem justo e de caráter admirável. Temos que agradecer sempre.. -Se você não estivesse falando ao celular isso não teria acontecido.. deve estar rolando uma parceria brava entre os dois. Você já viu o carro da mulher do zelador? -Não. cara.. Pega uma laranja pra mim? -Toma. E se ele fez com que você batesse no meu carro aquele dia não foi por acaso.. Se bem que um carro importado não está custando lá aquelas coisas... Eu acho caríssimo.. mesmo quando não é necessário..... -Então não sei. -Você não existe. -Eu bati no seu carro? -Foi. mas o dela não é para qualquer um.. -Tudo isso? -Pois é... enquanto ele serviame o café da manhã: -Acredita que ontem fui falar com o Carlos e ele não estava? O salafrário foi viajar... -Depois te mostro. -Humpft. Mas isso meus pais me ensinaram desde criança....... -Caralho! -Cada morador pagando em média dois mil de condomínio. Vamos esquecer isso..... -Vou colocar agora. Por quê? -Por causa desse seu jeito meigo. e a arrecadação mensal de condomínio deve chegar a cem mil.. -Caramba! -Mas vou investigar mais a fundo. Você é aquele rapaz que me encantou. deixa ele voltar.. Por agradecer a todos. Deus não erra..? -E.. -Ainda não levou ela à veterinária? -Não tive tempo.... -E... -Hum. -Ta bom.. mesmo que seja apenas um empregado nos servindo.. 161 .

vamos viajar para comemorar? -Para onde você quer ir? -Podemos ir pra Fernando de Noronha..... Tomei um banho bem rápido e me arrumei. Vestindo apenas uma bermuda sem cueca e sem camisa ele aproximou-se de mim e encostou seu corpo ao meu de uma tal forma que quase gozei naquela hora. não permitindo que eu falasse mais nada. quem sabe para Campos do Jordão que nessa época é bem frio... Angra dos Reis. Enxugando meu cabelo perguntei: -Você pode me dar uma carona até a agência? -Claro. -Faz muito calor. você sabe que eu detesto o calor. Ao erguer a mão para limpar o Daniel falou: -Hum. Chupando meu pescoço e dando leves gemidos ele disse: -Você me deixa louco.. -Ai Daniel.. No caminho fomos conversando sobre seu aniversário que estava próximo.. caralho. Após tapar minha boca com um beijo seguimos para o quarto.. já morto de saudade. -Olha que tesão! Chupava à laranja quando deixei o caldo vazar pelo canto da boca.. Quando me dei conta já estávamos em pé encostados à parede. Com a respiração ofegante ele tapou minha boca com a sua. mano.. Fico com um puta tesão.-Pára.. Deixa eu te ajudar a chupar essa laranja? Aproximando-se de mim ele tirou a laranja da minha boca. nos amando ali na cozinha mesmo.. O Daniel trancou a porta e ascendeu a luz.. apenas me entregasse ao clima de amor que nos envolveu dentro daquele quarto. Enquanto nos amávamos eu consegui sentir que sua barraca estava armada juntamente com a minha.. Despedi-me do Daniel com um beijo e entrei no prédio. Não provoca.. -Ai petit.. -Hum. -Não me provoque.... A cada vez que ele trocava de marcha. Ilha Bela. -Meu aniversário está chegando. lambendo meus lábios. mas antes de subir fiquei olhando ele sair com o carro.. e segurando em minha mão o Daniel foi beijando-me.. amor! 162 .. -Tchau. Mordendo minha orelha ele falou: -Ah!. Não quero chegar atrasado na agência... -Já pensou? -Ótima idéia! Chegamos na agência.. Daniel... Olhei para o relógio e exclamei: -Daniel! -Hum? -Olha que horas são? Levantei imediatamente e corri pro banheiro. tocava em minha perna e me olhava com cara de desejo. Fazer amor em frente à uma lareira.. -Pra onde você quer ir então? -Poderíamos pensar nisso depois... terminou em um orgasmo profundo. Deitei-me à cama. O que começou com uma simples brincadeira. intercaladas com leves mordidas. Eu não resisto quando vejo você..... Bader.. -Você que fica me provocando com essa cara de safado..

-Ta bom.. Saímos pela rua sem rumo.. Ele era o sonho que todo mundo gostaria de viver. -Bom dia. -Você está de carro? -Estou. -Então o que é? -São todas iguais. Não tem uma beleza exótica. pois já era bem grandinho para ficar paparicando tanto aquele marmanjo. Quero alguém que estampe na face a veracidade da vida brasileira. -Humpft... sem que se cubra com maquiagem.. -Não.. -Para onde vamos. Deve ser a preocupação. Respirei fundo e comecei a folhear um a um. natural. -Ai... Eu estou é de saco cheio? -Uau.. selecionando algumas modelos através das fotos para uma nova peça publicitária.. Enquanto ela dirigia eu pensava em alguma idéia. -Mas eu preciso entregar um briefing pra. -Agora? -Sim..... diferente.. Alguém natural.. ai. -Você quer alguém com o rosto marcado... O que pretende fazer? Levantei da cadeira. -Novo? -É.. Bader? -Sei lá. -Humpft. -Depois você entrega. Está tudo bem com você? -Por quê? -Não sei. Vejamos. As meninas são muito bonitas.. Segue pela Rebouças. -Bem.. o homem que toda mulher gostaria de ter.. Bader! -Bom dia. -Ah. O que acontece? -Veja essas fotos? Passei um álbum para ela... Eduarda! Ao chegar em minha sala.. -Então vamos dar uma volta.. -Quanto a isso não tenho do que discordar. Com um copinho descartável de café na mão a Eduarda sentou-se à mesa: -Você está sério..-Tchau! O Daniel ficava um tesão dirigindo com aquele óculos escuro e boné vermelho com a viseira virada para trás... 163 ... Peguei pela sua mão. com marcas da vida. Às vezes eu me pegava pensando em que eu havia feito na vida para merece-lo.. -Iguais? -É. o amigo que se pode contar. Estou achando você meio triste.. Claro que eu não falava a ele certas coisas.. -Vou procurar um rosto novo. avistei um amontoado de book's sobre a mesa...

. mesmo assim continuo apreensivo. Faz tempo que você trabalha com isso? -Não muito. -Você viu o que eu vi? -Não. Buzinando a Eduarda gritou pela janela: -Bader. -Eu sei.. estacionado na avenida com o pisca-alerta ligado. -Obrigada! -Por nada. uma vendedora de bala chamou-me atenção.-Quer me contar? -Vasculharam minha casa enquanto estávamos fora. Eu sou feia. -Levaram muita coisa? -Não levaram nada... -Oi! -Oi! -Qual seu nome? -Amanda. -Nossa.. -Que estranho! -Muito. Já tomei algumas precauções. -Bader. Fiz sinal para ela e continuei a conversar: -Você gostaria de trabalhar como modelo? -Eu? -É.. Caso mude de idéia.. Enquanto acelerava a Eduarda comentou: -Você está louco? -Eu? Por quê? -Correndo pelo meio dos carros desse jeito.. 164 ... -Ah! -Pode ligar a cobrar. -Você deu queixa na polícia? -Ainda não.... isso é algo muito sério. Ao pararmos no semáforo do cruzamento com a Faria Lima. -Como isso? -Não sei. me procure. Caminhei em meio aos carros.... correndo o risco de ser atropelado. Atravessei a rua correndo e entrei no carro... -O que o Daniel acha disso? -Pelo que eu o conheço. -Você é linda! -Não sei. não faço idéia. Bader?.. -Bader.. -Meu nome é Bader. e isso que me deixa preocupado. Aproximei-me daquela franzina garota que encostada ao poste aguardava o semáforo fechar novamente.. eu sei. já deve ter esquecido.. aonde você vai?.... -Posso imaginar.. vou deixar com você o meu cartão... -Bom. No mesmo instante abri a porta do carro e segui em sua direção.. Volte aqui..

. Fiz três tentativas. e todas deram caixa postal. Você pode ir lá comprar? -Vou. diga ao pessoal do atendimento que não sei se vou poder participar... Seja qual for a proposta.. peguei o telefone e liguei para o Daniel. -Bader. Entregando-me um papel. -Chegou esse fax dizendo que hoje temos reunião com o Gerente de Marketing de uma multinacional do ramo alimentício. -Esquece. -Propostas de quê? -De trabalho. -Sim. Fechando o vidro da porta ao seu lado: -E agora. -De viado e louco. Hoje estou carente. -Eduarda. -Cadê? 165 .. eu compro pra você e depois você me dá. -Ah!.. -Depois você tenta novamente.. Voltamos para a agência e passamos o restante da manhã trabalhando na criação. aonde vamos? -Pode voltar para a agência.. Enquanto ela foi buscar meu suco. Colocando o copo sobre minha mesa a Eduarda questionou: -Que carinha é essa. você está tão estranho.. Então não vai entender. -Bader? -Eu. -Que bonitinho! Liga pro seu amor. -Hahaha.. recebi um fax do Atendimento agendando uma reunião para após o almoço.. eles querem que o departamento de criação participe.. Justo hoje? -Pois é. -Ta bom. -Quer um remédio? -Quero um suco de maracujá. -Mas Bader.. -Estou sem dinheiro na carteira. -Bem. leve meu cartão de débito.. Vem aqui ver o busdoor que acabei de finalizar.. mas o celular parece estar desligado. querido? -Humpft. -Era o que eu estava fazendo agora. -Inferno! Minha cabeça está estourando... Essa eu não conhecia...... Enquanto parei para beber uma água.. -Não precisa. -Será que ela liga? -Tenho quase certeza que sim..... -Humpft..-Pois é.. -Você é louco mesmo... todo mundo tem um pouco.. -O que você fazia com aquela garota? -Propostas. ela aceitou? -Ficou de pensar e me ligar depois...

Voltei à cozinha e coloquei a comida no microondas para ir aquecendo. Ao recebermos o briefing. Voltei ao quarto e de lá telefonei para o sócio do Daniel: -Alô? -Jeferson.. O relógio na parede marcavam três horas e vinte da madrugada. -Depois eu vejo melhor. Caminhei até o quarto e o Daniel ainda não havia chego.. Abri a porta e espiei o hall do elevador.. Passei um pouco de óleo pósbanho. Fechamos contrato por um ano. -Estou ficando preocupado... Bader. Assim adormeci. Mesmo sem paciência participei da reunião naquela tarde com Gerente de Marketing da empresa. Mas ele me deixou na agência dizendo que iria trabalhar e.. -Ué.. angustiado. Conversamos por um bom tempo. -Não foi? -Não. -O quê? -Agora sim poderei fazer minha viagem para rever minha família em Portugal. Telefonei pra casa de sua mãe. Sentando-se à mesa de volta a sala. Minha carreira estava tomando um rumo fabuloso. 166 . mas ele não havia passado por lá naquele dia. Nessas horas é muito bom estar namorando... -Beleza.. Acordei assustado com o barulho do vaso caindo ao chão.-Olha. Desculpa estar te ligando uma hora dessas. -Uau! Está salvo na rede? -Sim. hoje ele não foi trabalhar e me deixou na mão.. Nem to acreditando. -Por lá ele não apareceu. Eu mal pude acreditar. Fui tomar um banho bem rapidinho pra tirar o cansaço. É que estou preocupado com o Daniel.. ter alguém para dividir seus momentos de felicidade.. O silêncio que pairava naquele ambiente só era quebrado pelo ruído dos contrapesos que subiam e desciam intercalados com os elevadores.. -Você já ligou no celular dele? -Já. Bader? -Humpft. Encostei a cabeça ao batente da porta e suspirei... vesti uma bermuda e uma camiseta.. não via a hora de chegar em casa e contar a novidade para o Daniel.. Abri a porta da sala e reparei que todas as luzes estavam apagadas.. a Eduarda comentou: -Nossa. enquanto isso deitei ao sofá da sala e fiquei vendo TV. devido ao vento que entrava pela fresta da janela que estava aberta. sou eu. Cheguei em casa todo feliz. ter com quem comemorar as alegrias.. De primeira classe ainda! -Hahaha.... Se você souber de algo. Levantei para ver que horas eram.. Que luxo! Deixei a agência já passava das onze horas da noite. Meu coração começou a ficar apertado. Liguei novamente para seu celular e deu caixa postal... mas só dá caixa postal. várias idéias iam surgindo. sinal de que o Daniel ainda não havia chego. -Bem. não deixe de me ligar.

Duas mesas de inox no centro da sala estavam rodeadas por moscas. cabelo preto e liso. Respirei fundo e entrei logo em seguida.. Rodei com o carro pelo bairro. Se precisar de mim. Passei por vários na cidade.. Eu chorava e tremia como nunca. O relógio do painel do carro marcava oito horas e cinco da manhã. Minhas pernas amoleceram. e isso eu tive certeza nesse momento difícil que passei. -Sim. Parei meu carro em frente ao IML. encostei a cabeça sobre o volante e comecei a chorar. Cada minuto que se passava. 167 ... tem aproximadamente um metro e oitenta e três de altura.. Eu vou.. inconformado com a burocracia desse país. de medo talvez. Um cheiro horrível vinha de toda parte. Ao passar as características do Daniel ao legista. mas nem sinal do Daniel... pediram pra eu aguardar. Pode me acompanhar? -Pois não.. Num ambiente assim? -Pois é meu jovem. Entregando uma prancheta à um funcionário ele disse: -Leve esse rapaz para fazer o reconhecimento desse corpo.. mas não encontrei nenhuma pista.-Pode deixar.. Eu. O ser humano nunca está preparado para lhe dar com a morte.. Ajeitando o óculos o médico disse: -O reconhecimento poderia ser feito por foto. angustiado só de pensar que poderia encontrá-lo ali. mas como ainda não havia se passado vinte e quatro horas de seu desaparecimento... mas como a chegada é recente... meu coração disparou. -Obrigado e desculpa pelo incômodo.. -Como. de alguém que eu amava... setenta quilos. -Humpft.. cheia de gavetas.. começando pelos hospitais. Deixei a delegacia bufando.... Já que a polícia ainda não poderia me ajudar. O mundo se acabou para mim quando o legista perguntou: -Você deseja reconhecer o corpo? Corpo? Eu estava à procura de um ser humano. Minha preocupação tornou-se medo na medida em que as horas iam se passando e sem nenhuma notícia.. corpo definido. Ta bom. fui procurá-lo por conta própria.. calcei um tênis e saí pela rua à sua procura. deixava-me mais nervoso. Levei a mão esquerda à testa e não segurei o choro.. sem cor... -Qual a cor da pele? -Branca. ainda não houve tempo de colher a imagem. -Ah meu Deus! Na hora eu gelei. -As características batem com um corpo de um rapaz que deu entrada aqui hoje. -Curto? -Sim. Vocês conseguem. Troquei de roupa. não simplesmente de um pedaço de carne fria.. Tem uma tatuagem. Trabalhar normalmente. recebi a noticia que não gostaria de ouvir: -Como ele é? -Ele é moreno.. Já estamos acostumados. Fui até a delegacia próxima de casa dar queixa sobre o seu desaparecimento. Meu coração dizia que algo de ruim havia acontecido.. Acompanhei o rapaz por um corredor comprido até uma sala fria. sabe como me encontrar...

-Não precisa se desculpar... -Pode deixar. -Obrigado! -Eu acompanho o senhor até a porta. Bonita a menina. alguém tem que trabalhar nesse país. De início não fui muito bem atendido pelo delegado... como um pedaço de carne na vitrine de um açougue... Tapei a boca impressionado com o que via. Não estacionei em outro lugar porque não há.... Deixou os taxista doido. avistei o corpo de uma jovem mulher. né?.. respeito.. costurado do pescoço ao umbigo.. mas ao mesmo tempo eu estava preocupado. pois também estava todo costurado... -Humpft. Infelizmente. -Claro! -Espero que a partir de agora as buscar por Daniel Marzin sejam iniciadas. Voltei à delegacia para registrar a queixa de seu desaparecimento. e falsa cortesia não me agrada.. -O corpo é esse aqui.. Você vem ver ou não? -Estou tentando.. -Meu Deus! -Isso não é nada perto do que vemos todos os dias. Obrigado. preso pela nuca com um gancho à parede. Respirei fundo e ao abrir os olhos minha alma foi ao céus e volto depois de ver que não era o meu Daniel. acabou sendo atropelada no ponto do ônibus. Faltou-me coragem. -Ah é? -Até eu paguei um pau. -Senhor Bader. e gaguejando perguntei: -Essa. -Não.. Moça. mas pelo menos o delegado disse que iria cuidar do caso desde então. deixando ele estacionado na rua. vivemos em um mundo onde as pessoas passam a serem reconhecidas pelo que têm. eu peço desculpa por te fazer esperar... como um cidadão que paga altos impostos. cheia de marcas por toda pele.. até um soldado entrar comentando: -Tem um carrão ali na porta. é meu.. -O que aconteceu com ela? -Acidente de trânsito. é que tive que.. mas entre saber e ver. O barulho de uma das gavetas sendo aberta me fez arrepiar. eu preferia ficar só no saber. eu conheço o caminho. A partir daí passei a ser tratado com mais atenção. porque ver foi realmente traumatizante. Deixei a delegacia descontente com aquela atitude forçada.. e não pelo que são. -Não é necessário. Eu sabia que uma autópsia tinha o procedimento de abrir o corpo para estudar a causa da morte. Tão jovem e bonita.. Provavelmente aquela pessoa já havia passado pela autopsia.Ao virar a cabeça para meu lado esquerdo.... Sai daquele lugar aliviado por não ter encontrado meu amor naquela situação. mas reuni as poucas forças que ainda me sobraram e caminhei em direção àquela geladeira. Não é ele. e isso era o que me importava. 168 . sem qualquer pista de onde estaria o meu petit. pois já havia se passado mais de vinte e quatro horas.... -E o dono fica ae moscando. Voltando da faculdade.. -Se vocês estão falando de um preto...

" O que eu iria dizer a ela? “Dona Marisa. chorava ao relembrar nossos momentos de alegria. tentando imaginar onde estaria naquele momento.. seu filho sumiu e eu não sei onde possa estar.. Fui para casa descansar um pouco..” Eu não poderia fazer isso.. mas meu pensamento não. será que estava dormindo? Se alimentando bem? E se estivesse passando frio? Com sede? Seu desaparecimento estava me deixando louco. -Vou trazer alguns pães de queijo que eu sei que você adora.. -Alô? 169 . Acontece que não consigo comer. -Humpft. -Meu querido. o tempo todo pensando no Daniel. já fazem dias que eu não vejo você comer como antes. "Humpft.. mas a minha cabeça estava longe. Três dias se passaram. obrigado. Deixei-o acionado enquanto tirava minha roupa.. Marisa.. Todos os dias quando chegava do trabalho eu pegava nossas fotos e ficava olhando. Eduarda? -Vou até a padaria comprar uma torta. Rezava por ele todas as noites. sangrando por uma ferida que não se curava. Eu já não dormia direito. estou ligando para saber sobre meu filho Daniel. matando a saudade. Você quer uma? -Não. Volto logo. Imediatamente levantei para atender. Deixei de viver literalmente.. Não me agrada muito ter que ligar para. Eu estou aqui..Meus olhos estavam ardendo de sono. Bader. e eu continuei minha rotina de sempre.. -Desse jeito você vai ficar doente. Humpft. Olha como você está pálido? Olhei-me ao espelho.. preferi aguardar a polícia investigar o caso ao invés de me precipitar. Meu coração estava partido. espero receber notícias. Ao chegar.. pois já se faziam quase vinte e quatro horas que eu estava sem dormir. Bom. Na manhã do quinto dia acordei com o telefone tocando. corri até a sala esbarrando em tudo que cruzava no caminho. Estou sem fome. havia um recado na secretaria eletrônica. Com o coração quase pulando pela boca. tinha pesadelos. Obrigada. na esperança de ser o meu Daniel. -Bader? -Fala. Assinei uma folha..

-Vou pedir para trazerem pra você. mas infelizmente não era. -Vim buscar as coisas do Daniel. -O senhor pode passar aqui na delegacia para pegar alguns pertences que estavam no carro? -Sim. Quase meia hora depois ele veio até mim dizendo: -Desculpe por fazê-lo esperar.. decepcionado. -Obrigado! É incrível a diferença de tratamento que eu tive quando fui à delegacia registrar a ocorrência antes e após de verem meu carro... mas temos uma pista. -Aqui não tem ninguém com esse nome. eu quero falar com a Carla. A tendência mundial no sistema capitalista é 170 . eu não quero saber o número que você ligou. meu coração me dizia que alguma coisa estava errada. como se fosse tragado pela terra. pois provavelmente deveria ser aquele cara chato outra vez procurando pela Carla. -Bom dia! Alguma notícia do Daniel. -Mas e o Daniel? -Do carro não levaram nada. eis que o telefone volta a tocar.. e naquela hora eu tive a certeza. Não era possível que alguém sumisse dessa forma sem deixar nenhuma pista.-Alô.. mas o Daniel. vesti uma roupa e fui até a delegacia. -O veículo foi para perícia. Peguei o telefone pronto para mandá-lo para o inferno: -Alô? -Bom dia. abracei o travesseiro junto ao peito. Aproximei os joelhos da cabeça e fiquei assim por um bom tempo.. Esperava que fosse o Daniel ligando para dar notícias. As lágrimas insistiam em descer dos meus olhos.. Deitei na cama. -Que pista? -Encontramos o carro dele em um terreno baldio na Zona Sul. nem sinal. foi engano então... Voltei pro quarto triste. Ao chegar o delegado estava atendendo um outro caso. Tudo indica que seu amigo Daniel foi seqüestrado. em forma de caracol. -Não diga uma coisa dessas.. dizer que me amava.. -Desculpe. Quando estava quase pegando no sono outra vez. doutor? -Por enquanto não temos notícia do senhor Daniel. -Olha... Corri até o quarto. Sentei-me ao banco de concreto no canto ao lado do balcão e fiquei aguardando ele registrar o caso junto com o escrivão. senhor Bader? -Sou eu. claro. Eu sabia que aquele desaparecimento repentino não partiria do Daniel. -Aqui é o delegado Valter. Já disse que não há nenhuma Carla aqui.. Levantei puto da vida. seu Bader. Vamos aguardar para ver se deixaram alguma pista que possa nos levar a um esclarecimento do caso. estava todo aberto e intacto. -Mas ai não é o número 3129. Desliguei o telefone decepcionado...

. está bem? -Larga do meu pé. um ex-namorado que um dia me abandonou sem nenhuma consideração comigo.. joguei a chave sobre a mesa e segui em direção ao quarto quando o telefone tocou. Olhando para o delegado questionei: -Havia somente esse dinheiro na carteira? -Sim. não é? -De forma alguma.. com a cabeça sobre o volante. mas longe de mim. -Vou indo.. -Aqui estão.. mesmo assim fui atender ao telefone.essa. O senhor está desconfiando de que alguém possa ter pego? -Eu não disse isso. se possível não me procure mais. Abri a porta. caso contrário. Falar com você. disse? -Não. -É o Bruno.. -Tudo que eu quero é ver você feliz e vivendo bem. você não vai se arrepender.... Bruno? -Preciso te ver. chorando muito.. -Ta bom. Tenham um bom dia. Pronto. manteremos informado. -Mas eu tenho. -Então vamos nos ver pela última vez. Acredito que não há motivos para que fique ofendido. -Opa! 171 . por favor. até criar coragem e entrar em casa. -Por favor.. Naquele dia acabei nem indo trabalhar. Bader? -Sim. Tudo bem que duzentos reais não é muita coisa. Encontre-me no café da Haddock Lobo. Era só o que faltava.. Voltei para casa triste... início da depressão outra vez. agora ficar no meu pé seguindo meus passos. -Obrigado. -Assim espero. seu Bader. você é apenas mais um número nas estatísticas urbanas. gato? -Humpft. delegado.. mas também não é um valor que se passa despercebido nos tempos de hoje. Depois você promete me deixar em paz? -Sim. Achei estranho alguém querer seqüestrar somente a pessoa e não ligar pedindo resgate. Será que ele não se tocava que eu não queria mais nada? Olhando no relógio perguntei: -O que você quer. Ao abrir sua carteira haviam duzentos reais em notas de cinqüenta. Como se já não bastasse o seqüestro do meu namorado. -Não tenho mais nada pra falar com você. você só é considerado "gente" se tiver dinheiro/status. -Apenas lhe fiz uma pergunta.. Olhei para ele e sem vontade nenhuma de manter contato com o mundo. pensando. -Qualquer outra pista que tivermos. ainda tinha o Bruno que não parava de me perseguir.. -Alô? -Alô... Estacionei o carro na garagem e fiquei ali por um tempo. dando uma de cachorro arrependido..

Bader? -Não Bruno. -Não precisa agradecer. -Mas que cara de pau a sua. não foi para elogiar minha beleza que você quis me encontrar. pontual. Notei que ele me dava umas olhadas suspeitas. Na época em que conheci o Bruno. certo? -Isso é verdade.... um pouco relaxado. -Pois é.. -Então o que era? -Carência talvez.. Sua voz já me causava nojo e seu perfume ânsia de vômito. limpinho. dizendo que não queria mais nada. -E por que não está com ele agora? 172 . -Boa noite! -Boa. sem a mínima vontade de olhar para aquela cara de pau. Ao chegar o avistei sentado à mesa tomando uma cerveja. igual quando o conheci. Você gosta muito dele? -Eu amo ele. -Humpft... Foi você mesmo que me abandonou deixando aquele bilhete sobre a mesa. -Vamos direto ao assunto? -Eu quero. todo perfumado. Um pouco deslocalizado. -Bruno. -Me dê mais uma chance.. pois no horário combinado ele estava lá me esperando. Acabamos pegando o mesmo ônibus e os olhares vindos dele continuavam.. mas naquele dia eu fiquei surpreso. mas nem liguei muito. -É. -Obrigado. -Bruno. você sabe que é lindo. Certa vez estava voltando da faculdade e no ponto de ônibus o vi pela primeira vez. O Bruno nunca foi pontual... Na hora fiquei sem reação ao ser bordado por ele tentando me entregar um bilhete.. te pedi perdão e te quero outra vez. Fiquei procurando a faculdade pelas avenidas movimentadas dos Jardins. não conhecia quase nada.. acabei me perdendo e descendo no ponto errado. -Humpft. sempre atrasado em nossos encontros e me deixava irritado.À noite fui encontrá-lo. Viu como hoje fui pontual? Puxei a cadeira. exceto aquele cabelo lambido que ele estava usando que para mim não combinou nada. pois era meu primeiro dia e eu não conhecia São Paulo até então.. Você está tão bonito. um dia eu pensei que estava te amando. -Quer beber alguma coisa? -Quero uma água tônica. lembra-se? -Eu já estou arrependido. eu já estou em outro relacionamento. mas quando você me deixou eu vi que não era amor. Ao cruzar a esquina levei um susto. eu morava há pouco tempo na cidade.. -Você quer o quê? -Te pedir perdão e voltar a viver com você como antes. -Com o Daniel. mas acabei o pegando e dois meses depois já estávamos namorando.. Deparei-me de frente com aquele garoto que me paquerava dentro do ônibus.

.. apenas. -Uhum. esqueceu que ele está comigo? Entrei em desespero.. -Por que você está fazendo isso? -Desculpa amor.. -Então foi você que entrou no meu apartamento e revirou minhas coisas..... Será que eu nunca teria um momento de paz em minha vida? Quando tudo estava indo bem em meu relacionamento. -Humpft.. A única alternativa foi essa. -Ah que pena. Eu posso te ajudar a trazer o Daniel de volta. amor? Não pense mal de mim. -Eu sei como encontrá-lo.. por favor.. Claro que pra te ajudar eu vou querer algo em troca. -Ah é? Como? Inclinando seu corpo para frente ele disse: -Eu sei onde o Daniel está.. gato. eu posso te ajudar com a ajuda deles... Mas um dos comparsas acabou confundindo vocês e seqüestrou o cara errado. -O que você quer de mim? Uma viagem? Um carro? Uma moto? Diga logo.. -Pois é. Meu coração disparou. Quase voei em seu pescoço quando o maldito confessou a responsabilidade pelo seqüestro.. -Imagino que você tenha se juntado com um pessoal não muito correto.. -Eu vou na polícia agora... -O quê? -É sério. -O que você quer? Dinheiro? Um carro? Uma moto? -Eu quero você.... Se você voltar pra mim eu mando soltá-lo. -O que você sabe sobre minha vida? -Faz algum tempo já que eu venho observando a rotina de vocês. por favor. -Não me venha com suas lorotas. mano. e sim você... Quando eu vi a cagada que ele havia feito já era tarde... Bader. -Não o machuque. -O que é isso. 173 . foi seqüestrado.. uma pousada em Porto Seguro. Eu ia seqüestrar você e te levar pra morar comigo em um paraíso que minha mãe montou.. Como? -Eu tenho uns amigos da pesada ae. -Como você sabe? Foram seus amigos que seqüestraram ele? -Eu sei tudo sobre vocês... -Pare com essas ironias.-Porque ele sumiu. -Por que você fez isso? Levantei-me da cadeira. meu amor.. mas não faça mal ao meu Daniel. na verdade nem não era pra seqüestrar ele. peça o que você quiser que eu te dou. sempre aparecia alguém para atrapalhar. Ele segurou minha mão e disse bravo olhando nos meus olhos: -Se eu fosse você não faria isso.. não poderia saltá-lo porque corríamos o risco de ser cagüetados.. Já disse que sua felicidade é comigo.. -Só vai depender de você.. -Eu já disse que quero você..

mas na hora fiquei com medo de denunciá-lo e algo de ruim acontecesse com meu Daniel.. Lembrava-me que um pouco antes do Bruno sumir. pois de dentro do carro mesmo eu liguei pra ela e contei o que havia acontecido. eu não fazia idéia do que ele seria capaz de fazer com o amor da minha vida. ta? Deixei aquele lugar correndo. Àquelas alturas a mãe do Daniel já estava ciente do seqüestro.. Senti meu corpo flutuar no espaço... Fui chorando o caminho inteiro. tradicional. solte o Daniel?. falava inglês fluente. Bader. Ao ouvir sua voz comecei a chorar. Me ajude. Parei o carro na porta da delegacia. Eu sentia em sua voz um certo medo... -Petit. E então amor... -Daniel. -Eu digo e repito. Por favor. Vamos viver juntinhos pra sempre. Você tem até o fim da semana para me dar a resposta.-Não me chame de "mano". se você voltar pra mim eu solto ele.. indignado com tamanha audácia do Bruno. -Calma amor. começou a se misturar com umas pessoas suspeitas... Meu coração acelerou como o motor de um carro.... Fechei a porta da sala e logo o telefone tocou: -Alô? -Oi meu amor! -O que você quer.. -Deixa eu falar com ele. Bruno? -Você sabe muito bem o que eu quero.. e não demorou muito para eu entrar também. Ele não necessitaria entrar nessa vida. Como ele foi capaz de chegar aquele ponto? Eu reparei que havia em seus olhos um certo descontrole. Gritos soavam ao fundo: 174 .. Ele estava em pânico. O Bruno estava muito esquisito.. mas nunca imaginaria que teria o atrevimento de seqüestrar a mim ou ao Daniel. já decidiu? -Por que você está fazendo isso comigo? -Porque eu te amo. Claro que eu seria capaz de dar tudo o que já tinha conquistado financeiramente para ver o Daniel livre outra vez. só depende de você. Não entendia o que se passava pela cabeça dessas pessoas que tem de tudo na vida e opta pelo caminho errado. Tirando o telefone de sua mão o Bruno disse: -Chega dessa ladainha. Pense com carinho.. só eu e você? -Maldito. amor.. chorando. Foi freqüentando "as bocas" que ele contraiu aquelas doenças e acabou passando pra mim. deitado na minha cama sorrindo só de bermuda sem camisa e me chamando de petit. usando drogas.. -Eu vou tirar você daí. Cheguei em casa triste. cursou até o segundo ano de Administração e largou tudo depois que se juntou com esses "amigos". -É como eu disse. veio de família de classe média alta... Sempre teve de tudo. Eu não acredito que você foi capaz de tanto. -Por favor... mas o preço que o Bruno estava pedindo era alto demais. Eu não resisto a um pedido seu. Você é um desgraçado. Bader. não precisa responder agora. Você está bem? -Pelo amor de Deus petit.. Seu porco imundo. por favor? -Humpft.

Não foi fácil chegar onde cheguei. Tudo que conquistei em minha vida foi às custas de muito esforço e trabalho. Coisas horríveis se passaram pela minha cabeça. -Gato. e perde-la estupidamente como estava acontecendo tornava-me um prisioneiro de mim mesmo. Jamais o Bruno conseguiria armar e manter tudo sozinho. só dando uma pequena lição para ele aprender quem é que manda aqui. gotas de chuva começavam a cair. -Humpft. -Fala logo o quê eu preciso para você soltá-lo? -Muito simples. Eu amava o Daniel mais que tudo e a última coisa que eu queria na vida era vê-lo sofrer. local onde havíamos combinado de nos encontrar. não conformava-me em perder o Daniel. -Certo.. O terreno de terra vermelha faziam meus pés afundarem em meio às possas de lama que ali continham. Pedi à ela que ficasse despreocupada. mas é claro que você terá tratamento cinco estrelas. não o machuque. alcançar a tão sonhada felicidade. Alguns quarteirões à frente havia uma construção abandonada. Bruno. trovejando. como faremos? -Muito simples. comecei a sentir um pouco de tontura.. eu já disse. eu solto ele e você foge comigo. Está bem. Não era justo que pagasse por algo que não tinha culpa. O tempo estava nublado. avistei o Daniel ao seu lado. Quando? Onde? Que horas? Combinamos tudo por telefone. se for da sua preferência. 175 . e a falta dos remédios acarretaram em algumas complicações. mesmo que para isso eu tivesse que ficar em seu lugar. Uma das exigências do Bruno foi manter a polícia longe de tudo. Por mais que eu quisesse acabar com tudo aquilo de uma vez por todas. Provavelmente ele não estava agindo sozinho. Estacionei meu carro em uma rua próxima à Avenida Rebouças.. Não resisti ao ouvi-lo gritar. porém.. Imediatamente olhei para trás e avistei o Bruno. Durante o caminho vi minha vida inteira passar diante de mim. Meu coração bateu forte quando nossos olhares se cruzaram. eu liberto o seu amor e você fica no lugar dele.. Olhei para cada canto daquele cômodo relembrando os momentos em que ali passei com o grande e único amor da minha vida. só depende de você. peguei a chave do carro e segui para o local combinado. Devido ao fato de não ter me alimentado direito naqueles dias. O Daniel não tinha nada a ver com a minha história e do Bruno.. Minha visão não estava muito boa. -Por favor. Após fechar a janela. -E como terei certeza de que você o soltou mesmo? -Eu liberto ele na sua frente. pois lhe faltava inteligência para arquitetar um plano audacioso como esse. O lugar estava um pouco escuro. motivo que me deixava com mais medo. mas pelo pouco que eu conseguia enxergar. fazendo-me permanecer em um silêncio mortal. e antes que o pior acontecesse eu resolvi ceder. Enquanto eu caminhava entre as pilastras de concreto mal acabadas. No dia seguinte telefonei pra dona Marisa e contei sobre a libertação de seu filho. pois naquele dia mesmo teria seu filho de volta. Enquanto aguardava por eles. Ao esquivar-me embaixo de uma marquise escutei um assovio. Desliguei o telefone e fui até o quarto e me despedi da Dani. não ficaria em paz enquanto o Daniel estivesse em cativeiro.-O que é isso? Por que o Daniel está gritando desse jeito? -Seu namorado é um pouco teimoso. a chuva ia aumentando gradativamente.

correndo logo em seguida em direção ao meu amor. -Não. Irritado ele deu-me um soco no nariz.Pouco a pouco eles seguiam em minha direção. Seguíamos em direção à rua quando três viaturas policiais fecharam o cerco.. tive a certeza de que minha vida chegara ao fim.. Os motivos eram diversos. mas o impacto que ocasionaria seria bem menor do que se algo acontecesse com o Daniel. Tentei ampará-lo. e ao abrir seu olho imediatamente esboçou um sorriso. Imediatamente o Bruno pegou em meu braço e foi me puxando para uma escada.... acabei tornando-me a mira de sua arma.. mas possuído por uma fúria sem fim o Bruno pegou pelo meu braço e me afastou dele. recebia os cuidados dos médicos. Atire logo e acabe com tudo isso de uma vez. Naquele instante o mundo parou.. -Conforme o combinado estou aqui. Daniel?. Tremendo de frio aproximei-me da ambulância.. -Vida? Que vida? Ao seu lado eu só conheci o inferno.. o que fizeram com você?. Naquele momento eu chorava demais. enfrentando a fraqueza que sentia. Minha vida se tornaria uma desgraça. Esboçando um leve sorriso ele exclamou: -Petit! Caminhei apressadamente em sua direção dizendo: -Amor. Agora você é meu. Entrando em sua frente o Bruno interrompeu: -Muito bem. e a dor no peito só fazia aumentar.. Vamos viver nossa vida juntos.. -Seu filho da puta.. Gaguejando ele disse: -Se eles me pegarem. O barulho da água encontrando o asfalto foi intercalado com um disparo. Nervoso ele gritou: -Não fale assim comigo. Fiquei imóvel. Sempre pontual. -Tudo bem. fazendo com que ele largasse aquela arma imediatamente.. que por sorte havia partido da arma da polícia. O tiro feriu seu braço. caído dentre a sujeira e a fronteira da dignidade. -Não repita mais o nome desse cara.. Quando ouvi o barulho de seu revolver sendo engatilhado. faça logo.. amparado pela sua mãe. como antes. Agora cumpra com sua palavra e solte ele. fazendo com que ele batesse a cabeça e desmaiando. tentava equilibrar-se nas pernas. Bader.. provavelmente ocasionada pela má alimentação. -Esquece ele. eu questionei: -Por que você fez isso com ele?. Sujo de terra e molhado por conta da chuva.... Enquanto ele levava-me para fora daquele lugar. Segurando uma arma na mão esquerda ele jogou o Daniel ao chão... Cai sobre um amontoado de entulhos postos na marquise superior.. Aproximei-me do Daniel que estava deitado no interior de uma ambulância. Agora somos eu e você. Enquanto subíamos ele disse ofegante: -Eu não falei que era pra deixar a polícia fora disso? -Mas eu não chamei polícia alguma. Ao tentar se levantar eu interrompi: 176 . Ferido eu levantei com dificuldade.. Olhando em seus olhos respondi: -O que tiver que fazer. Com os olhos fechados e deitado sobre a maca. gato. Abatido e com a barba por fazer. eu te mato..

-Continue deitado... Entrei na ambulância. e não deixarei ninguém lhe fazer mal. Você está bem? -Estou bem. Você vai me dizer onde ele está ou não? -Bem... -Eu amo você. Cheguei na recepção aflito... e para não perder a oportunidade ela fez questão de dizer: -Se não fosse por mim. Recebi um beijo seu nas costas da mão. Aparentemente todo o "pesadelo" parecia ter acabado e meu petit já estava de volta para meus braços... vai ficar tudo bem.. -Olha como você está molhado?.. se não.. -Chega. Eu peço que aguarde na sala de espera enquanto eu verifico. sabe-se lá Deus o que poderia acontecer com meu filho. Por você eu mato e morro. Depois de resolver os tramites burocráticos na delegacia...... Louco porque te amo.... -Petit.. mãe. dirigindo-me até o balcão: -Por favor. Eu quero saber para onde Daniel Marzin foi levado. Louco por você. -Quem me garante? Você? Meu querido.. -Por que você se arriscou assim? Você é louco? Tocando em sua face eu respondi: -Sou. A dona Marisa estava me fuzilando com o olhar. Você pode ficar doente. Não me olhe com essa cara.. segui até o hospital para onde o Daniel havia sido encaminhado... meu amor.. entre aqui.... Já passou o pesadelo. Daniel.. -Também amo você.... -O que o senhor é dele? -Sou noivo. Agora não se preocupe... -Obrigado! 177 . -Você promete? -Prometo! Estou aqui. Tentando evitar mais aborrecimentos. -Nenhum mal aconteceria ao Daniel. A chuva não parava de cair. Louco porque sem você eu não tenho mais vida. deixei a ambulância e segui em uma das viaturas até a delegacia.

Arrume uma roupa seca para o petit vestir.. onde ele iria ficar por aproximadamente dois dias. -Mãe... -Bader! -Amor! Com um leve sorriso irônico ela interrompeu: -O Daniel recebeu alta e já pode deixar o hospital... a dona Marisa insistiu para levá-lo para sua casa.. -Mas eu não quero ir. chegava ao fim um pesadelo horrível.Molhado.. Vá tirar essa roupa e vestir uma minha. (Tossindo bastante) Ela só quer seu bem. Já em sua antiga casa. Você está todo molhado.. -Mas você não está bem. vamos respeitar. petit.. embora vou morrer de saudade.. é a vontade de sua mãe cuidar de você. O Daniel também sabia disso.. motivo que o preocupava bastante. seca. Com um olhar repleto de ódio ela disse: -Humpft. dei-lhe um beijo na testa e puxei o edredom para cobri-lo. tinha o direito de querer ficar mais próxima do filho naquele momento tão difícil. Quanto a decisão de sua mãe procurei não interferir. e uma simples gripe poderia me levar à morte.. Aproveitando-se da situação.. -Filho. Para mim. Por mim não tem problema. Daniel? -Sim. Acariciando minha face ele comentou: -Amor. -Fique repousando... por favor. Manhê... -Entenda sua mãe. sujo e morrendo de frio aguardava por noticias...... -Logo vai passar... Entendo. petit? -Sim. amor. Já era noite quando ele recebeu alta... -Eu preciso.. -Sério. Abrindo a porta e portando um pequeno cesto de roupas nas mãos ela entrou no quarto: -Me chamou... Acompanhei-os até a casa de sua mãe. -Humpft. deitado em sua antiga cama. Levei a mão na testa e aparentemente parecia estar com febre. Tentando levantar-se ele disse: -Então eu vou com você. mas não sairia de lá enquanto não tivesse notícias do meu namorado.. -Não vá embora sem antes me dar um beijo. Preciso estar lá pra cuidar de você. Daniel. Vem comigo. Tossindo. quero voltar pra nossa casa. Eu vou pra casa daqui a pouco. pois entendi que ela por ser mãe.. Não precisa. um casal feliz. -Mas eu queria que ele fosse agora pra minha casa. -Humpft. filho. -Quem está necessitando de cuidados aqui é você. eu estou preocupada com você.. pelo menos por essa semana enquanto ele está um pouco debilitado.. -Olha como você está tremendo. Adormeci naqueles bancos duros e gelados da recepção... petit. Ele é meu petit. -Que “petit”? -O Bader. -Nada disso... Bader. pra nossa cama e ter nossa vida de antes. 178 . Eu tinha a consciência de que minha saúde era frágil........ Finalmente voltaríamos a viver como antes.

-Fale logo. porque a mãe não vale uma caixa de fósforos. casado com uma moça de família. pois não foi fácil pra eu chegar até aqui. 179 ... Fechei a porta do quarto e acompanhei-a até a sala. mon bijou... mal amada. some da vida dele. espero nunca mais ter que encontrá-la. passo o resto da minha vida vivendo confortavelmente bem. garoto. faça logo o seu. conquistei tudo às custas do meu esforço..... Eu amo o Daniel e meu amor não tem preço.-Eu já volto.. claro que contra a minha vontade. Onde a senhora quer chegar? -Você que não quer entender... falta de educação talvez.. Moro sozinho. -Te amo.. -Como não tem preço? Tudo na vida tem um preço... Mas eu vou te fazer entender. Se pensa que vou me vender por qualquer mixaria se enganou.. -Eu não estou entendendo.. Fala logo quanto você quer para sair da vida do meu filho? -A senhora está louca? -Todo mundo tem um preço. -Isso quem tem que decidir é o Daniel. Com uma bolsa na mão.. meu querido.. dinheiro pra mim não é problema. ao vir com aquela conversinha de que o pai do Daniel queria isso ou aquilo para o filho deles. -O Daniel é muito diferente da senhora. sentou no sofá dizendo: -Vamos ver se agora você entende o mesmo idioma que eu. Pelo menos ele tem dignidade. eu amo o Daniel. Apesar de ser necessário na vida de todo mundo.. provavelmente puxou o pai. -O que há de errado?. -Ele também ama você. Não demorou muito e ela desceu novamente. aguarde um momento que eu já volto. -Você não é para meu filho. -Suma de uma vez de nossas vidas. Desde meus 18 anos eu sobrevivo com meu próprio dinheiro. Inicialmente estranhei ser levado para aquele ambiente. Enquanto ela subiu as escadas fiquei pensando em qual seria a real intenção dela... -Dona Marisa.. se eu quiser parar de trabalhar hoje. mas logo fui surpreendido com sua real intenção. -Eu também. Você gosta do meu filho de verdade? -Claro. eu já conheço tipinhos como você.. Quanto você quer? -Quê? Tirando um talão de cheques da bolsa e uma caneta ela continuou: -Deixa de bobagem garoto.. Com um ar irônico ela comentou: -Fiquei comovida com sua história. Hoje me orgulho de tudo que tenho e consegui.. Colocando o cesto sobre o sofá ela perguntou: -Bader. Caminhando em direção à porta concluí: -Eu vou embora da sua casa. -A senhora é uma maluca. -Por que a senhora está me falando essas coisas? -O sonho do pai dele era ver um monte de netos correndo pela casa.

-Sou mesmo.. Todas as minhas contas estão pagas em dia...Deixei sua casa chorando.. Preciso de sua ajuda.... coisa que já perdeu há muito tempo. no meio da pista onde os carros transitavam e molhavamme ao passar nas poças de água das guias.... 180 . Tenha uma boa vida. Nunca mais me procure. Por um instante eu relembrei o sonho que uma vez tirou-me o sono. Estou pouco me importando para o que a senhora pensa a meu respeito.. Não tem coragem. Bader? Irritado respondi: -Por que você não cuida da sua vida e deixa a minha em paz? -Mas.... O que houve com você. vá fazer uma panela de sopa e distribuir aos que estão passando fome nas ruas. pesado.... Ao chegar no térreo deparei-me com a dona Lídia.. O vento frio cortava meu rosto. Depois de tudo que já me havia acontecido naquele dia.. Quem sabe se a senhora encontrar um homem corajoso ao ponto de lhe tirar essas teias de aranha aí de baixo. -Vamos.. Amar ao próximo é errado? Eu não faço guerra. desprotegido de maldade alheia. Vá pro inferno. Suma da minha vida. que infelizmente subia do S1.. -Você é muito mal criado. seu biltre. -Ser o quê? -Nada. Eles vão me prender. ocupe seu tempo com coisas úteis... Bader.... Caminhei até o hall social para pegar o elevador. -Não te interessa o que me aconteceu. O porteiro ficou olhandome.. Não deixa. falo três idiomas. sua desocupada... Atirei o celular bem longe. detalhes como esse eram de menos. e eu vestido com apenas uma blusa fina. perdido naquela rua. -Nos encontramos lá. enquanto descia a Rua da Consolação à pé. -Antes de exigir respeito de alguém. Estava frio demais. Meu celular começou a tocar: -Bader. Eu consegui escapar. tenho um namorado que fode como ninguém. ignorando as regras do condomínio de utilizar o de serviço em extremas ocasiões. Chovia muito e quase não se via nada à frente. nervoso por ter sido humilhado daquela forma. tenho uma família que me ama. somente dinheiro.... Ao invés de ficar cuidando da vida dos moradores desse condomínio.. Ao tocar em meu bolso lembrei que havia deixado a chave do meu carro sobre a mesa ao lado da cama do Daniel. -Que horror! -Pois é. assustado ao me ver daquele jeito. Antes mesmo de eu entrar ela já começou com sua mania de cuidar da vida alheia: -Nossa!.. dê a senhora o respeito. -Vá pro inferno... já plantei duas árvores. Por que será que algumas pessoas não entendem nossa forma de amar? Não escolhemos por quem se apaixonar. eu faço amor.. Cheguei na portaria do prédio com o corpo dolorido.. mas a polícia está me perseguindo. -Você me respeite. -FO-DA-SE. não é?. -Tinha que ser vi. Como poderia existir pessoas assim? Não consegue enxergar a felicidade. diga?. Esqueça que eu existo. Agora só me falta escrever um livro.

Deixei-a sobre a mesa e fui atender à porta.. Eu briguei com a minha mãe hoje.. meu destino.. tornando-se inesquecíveis em nossa história. Espirrando e tossindo olhei pelo olho mágico e não consegui ver quem era. Por que você não me contou a verdade? -Porque eu não queria ver você brigando com a sua mãe.. -E prefere assumir a culpa? -Humpft.... Me dê um beijo? -Claro.Após sua saída continuei subindo. relembrando momentos inesquecíveis que tive junto com o Daniel. Fechei meus olhos e fiquei pensando em minha vida.. Tirei toda a roupa e notei uma mancha roxa na minha pele. Na minha vida o Daniel teve um papel fundamental.. aproveitei para fechar o vidro da janela na área de serviço. Meu corpo estava dolorido.. eu não teria coragem de denunciar a mãe do homem que eu amo. Por isso que eu te amo! -E o que você vai fazer agora? -Eu já fiz. cenas que se registravam a cada azulejo daquele ambiente.. Há tempos eu que dizer poucas e boas para ela. um momento depressivo provocado pelo episódio com a mãe do Daniel querendo me comprar. petit! -Eu também. Jamais faria algo para colocar você contra a dona Marisa. É incrível como existem pessoas em nossas vidas que entram e deixam uma marca em nosso coração. Entrando e batendo a porta ele disse: -Não me enrole. só me faltava oportunidade e disposição. Sentei ao chão e deixei a água cair sobre minha nuca.. Fui para a cozinha preparar um chá de canela que eu adorava. Entrei no box e abri o chuveiro. fale a verdade.. -Te amo. mon petit. Tirei a xícara de dentro do microondas e a campainha tocou. -Por quê? -Porque eu a vi te oferecendo dinheiro para se afastar de mim. O fato de ter abandonado o tratamento anti-HIV também contribuiu para que isso ocorresse. -À uma hora dessas você deveria estar descansando.. A verdade sempre aparece. voltei pra junto de você para nunca mais sair. Mesmo não tendo culpa. minha cabeça parecia que iria explodir. sentir seu perfume. pois o vento frio que entrava estava provocando-me uma tosse seca e forte.... Mas tive orgulho quando você recusou.. -Daniel?! Apoiando-se ao batente da porta ele perguntou: -Por que você veio embora sem se despedir de mim.. Era como se as cenas se repetissem. Entenda Daniel. -Humpft. Bader? -Você precisava descansar. As boas lembranças do passado me fizeram chorar como uma criança. um pouco abaixo da costela.. Eu conseguia ouvir sua voz. na casa da sua mãe. No banheiro eu tocava aquelas paredes onde serviram de cenário nas nossas noites de amor... Humpft. 181 .. mas quando abri a porta fiquei surpreso. Deixei a chave na fechadura mesmo e fui direto tomar um banho. Bader fiquei com tanto medo de você aceitar. com o olhar perdido. Abri a porta da sala e fiquei ali parado por um instante. -Junto com você. Saí do banho e vesti um roupão.

. (Tossindo) Acariciando meu rosto ele comentou: -Você está tossindo... -Como você veio embora? -Eu? -É. Voltei à sala e sobre a mesa havia uma folha de papel. Puxei a cadeira. algo inexplicável que fortalecia nosso amor. -Bem.. -Eu também. telepatia. ao mesmo tempo em que sua mão entrava pelo meu roupão e ia explorando todo meu peitoral. Era um relacionamento diferente. -Como eu senti falta dessa pele perfumada.. a parte que faltava. Olhei para o computador portátil que estava sobre a poltrona e no mesmo instante bateu uma vontade louca de escrever algo... deixei no estacionamento. -Ta bom.. tínhamos uma cumplicidade. pois estava perto do meu amor. Demos um longo beijo. Enquanto isso eu vou tomar um banho.Eu e o Daniel parecíamos nos conhecer de outras vidas. Vim caminhando. -Eu vim dirigindo ele.. Segurando a xícara fui até meu quarto e sentei-me à beira da cama... Abri o editor de texto e nada consegui digitar.. -Eu também senti sua falta. minha tosse só aumentava. eu fiz um chá pra aquecer o corpo e. 182 . guardei o papel dentro da gaveta e fui escovar os dentes antes de dormi abraçadinho com o meu amor.. Depois de escrever aparentemente um monte de bobagens. Meu coração estava apertado. -Não acredito. peguei uma caneta e deixei que fluísse algum rabisco.. petit.. Muita falta... Naquele momento eu me senti completo... -Obrigado! -Agora toma seu chá pra não pegar uma gripe. ombros e costas. -Eu pensava em você o tempo todo. Por que você não veio com seu carro? -Porque havia deixado a chave no seu quarto e não queria voltar lá pra pegar.. -Logo vai passar.

-O quê você tem. mas com o Daniel pegando no meu pé nem tinha como não seguir as recomendações e dietas médicas. Sem mais nem menos acordei assustado. Era uma tosse seca que já estava incomodando.. Não sei o que aconteceu.. chamego.. -E tem como não gostar do que você faz? -E tem como não se apaixonar por você? -Te amo! -Vamos tomar banho? -Hum. Tente respirar tranqüilamente. pois não conseguia respirar. mas graças ao Daniel eu consegui respirar novamente. O que foi?. -Gostou? -Do quê? -Do que preparei para você. Se não fosse por ele não sei o que seria... O tempo todo ele demonstrava sua preocupação com minha saúde. amor. petit? -Estou com um pouco de dor nas costas. -Que susto você me deu! -Eu. era como uma mãe cuidando de um filho. fazendo tudo para me agradar. pensei que naquela hora eu iria morrer. Não tem preço que pague a satisfação que você sente quando está nos braços de quem ama. Alguns dias se passaram e nossa vida estava indo muito bem. ouvindo ao pé do ouvido sussurros de amor.. enquanto isso ele esperava por mim sentado à mesa da sala. vestiu uma roupa e levou-me ao médico. Do quarto eu sentia o cheirinho de pão de queijo assando. O Daniel tinha uma facilidade enorme para habilidades manuais... Na hora se passam tantas coisas pela cabeça que você perde todos os sentidos. -Então vamos. Ele cuidava de mim com tanto carinho.. O Daniel já havia preparado o nosso café da manhã com tudo que eu mais gostava.... Naquela mesma hora ele se levantou. onde tomamos café. Levantei e fui escovar os dentes.. Bader. não entre em pânico.. preso ao fundo sem poder voltar à superfície. pois o pouco que ele fazia já era o suficiente. -Deite aqui pra eu te fazer uma massagem.. como sempre.. -Hum. Essa era uma das vantagens de amar e ser correspondido. e nem precisava fazer muito. -Se arrume que vou te levar ao médico pra ver isso..Não há nada melhor do que passar a noite inteira abraçado com quem você gosta. Assim ela vai passar rapidinho... -Bader. No outro dia acordei recebendo vários beijos de bom dia.. pura felicidade. e se tratando de relaxar ele conseguia me levar às nuvens. Foi nos braços do Daniel que eu acordei em pânico em uma madrugada muito fria. e para completar comecei também a sentir dor nas costas. 183 .... sentindo-se protegido. Amor. Minha tosse não passava e minha preocupação aumentava. Convite irresistível. zelo. Minha traqueia havia se fechado.. A sensação assemelhava-se como um mergulho em uma piscina. As massagens que ele me fazia eram ótimas.

. ta? -Pelo quê? -Por ficar ao meu lado. Tudo bem. -Promete que ficará ao meu lado pra sempre? Após dar-me um beijo na testa ele respondeu: -Aconteça o que acontecer. Obrigado.. -Eu amo você! O médico chamou meu nome: -Bader Pires.. mas nada que eu não pudesse superar com a ajuda do meu amor. pálido. Na recepção de emergência só havia uma moça atendendo no balcão.. petit. -E você acha que eu iria te abandonar? -Humpft. mo? -Não. Sentia-me fraco. isso é. Olhando em minha ficha ele comentou: -Você está sentindo dor nas costas e falta de ar. -Obrigada. e nenhum paciente aguardando para ser atendido. logo em seguida puxou-me para mais próximo dele e me abraçou. -Ah. -Você quer uma água. o Daniel foi até a moça preencher meu cadastro. Enquanto eu caminhava lentamente o Daniel fechou a porta da sala. Bader? -Não muito. A tosse permanecia. quando a tosse deixava. Podem aguardar que o médico já chama. -Obrigado! Após colocar meus documentos em seu bolso ele sentou-se ao meu lado.. Não sei o que eu fiz de bom na vida pra merecer você. -Mas eu sei.... -Sente-se na maca pra eu te examinar... -Bom dia! -Bom dia! -Você que é o Bader? -Não.. Digitando ela perguntou: -O que ele tem? -Dor nas costas e falta de ar. por favor? -Estão aqui. Após colocar-me ao banco de espera. Envolvido entre os braços do Daniel eu tentava ver o filme. tanto que permanecia de pijama.. -A carteirinha dele e RG. -O quê? -Você simplesmente nasceu... Jamais te deixaria sozinho em uma hora como essas... você é a coisa mais preciosa que eu tenho na vida. quase morri sufocado. 184 . À nossa frente havia uma televisão passando um filme clássico dos anos 1980.Chegamos ao hospital por volta de quatro horas da manhã. minha barriga doía e meu peito apertado. o Bader é ele.... Às vezes batia uma falta de ar repentina. -Humpft. Acordei com a respiração travada. -Bom dia! -Bom dia. Humpft. ele vai passar com o clínico geral. -Vamos....

-Amor. -Quer comer alguma coisa? -Estou sem fome. Chegou uma hora em que o Daniel já não escondia mais de ninguém seus sentimentos por mim... -Vou te pedir um raio-x do pulmão agora e assim que terminar você volta aqui comigo. fraco.. pois não está passando muito bem.. -Certo.. Estou um pouco tonto... mesmo quando tentavam impedir: -Eu vou pedir ao senhor que aguarde lá fora. coisa que pra uma pessoa que estava tendo sua primeira experiência homossexual não era fácil. Pouco tempo depois eu já voltava à recepção quando ouvi meu nome: -Bader Pires. Agora respire fundo... -Humpft.. Mais uma vez. Preocupado o Daniel pegou-me no colo e me levou até as poltronas. Aguardava sentado. e principalmente como o Daniel me tratava. houve a troca de turno das recepcionistas. Tudo bem. O tempo inteiro o Daniel me acompanhou. é difícil vê-los andando de mãos dadas em público. Enquanto eu permanecia na sala. Caminhava em direção à recepção quando comecei a sentir um pouco de tontura.. Vamos lá levar pro médico? -Vamos. Tocando em meu rosto ele perguntou: -Você não quer beber um chocolate quente... amor. Sei que não é algo anormal. porém.. Ele está sentado na sala de espera. -Agora? -Sim. com a cabeça apoiada à parede enquanto o Daniel fazia todos os tramites de emissão do exame.... segurando minha mão. o mundo está 185 .... Obrigado. -Tudo bem.... Entregue esse papel na recepção e depois você volta..-Tudo bem.. embora ela não tenha aberto a boca para falar algo..... café. amor. Percebi o constrangimento pela cara da segunda recepção. Ao vê-lo aproximar-se de mim com uma sacola na mão perguntei: -Ficou pronto? -Já sim. Para os próprios homossexuais que são assumidos.. As pessoas estranharam a forma com que nós nos tratávamos.. -O que você é dele? -Noivo. -Humpft. Não demorou muito e logo fui chamado para ir até a sala de raio-x iniciar o exame.. sem desgrudar de mim um minuto. Está aqui a radiografia.... tudo bem... -Levante um pouco a camisa. chá? -Não. -Sim? -Você é o Bader? -Não. Pode levar direto pro médico na sala dele... -Por quê? -Por causa da radiação dentro da sala. -Deixe que eu te levo. O que você tem? -Não sei. -Ah. -Certo..

Bader? -Fiz. apoiei a mão esquerda no rosto e encostei a cabeça no vidro quando o Daniel chamou minha atenção: -Amor.. põe o cinto. -Fez o raio-x. sentindo-me culpado sem saber pelo quê. ele é minha vida. No caminho de volta passamos em uma farmácia e compramos os remédios prescritos pelo médico.. também pode afetar os nódulos linfáticos. -Vou te receitar uns medicamentos e você tem que tomar direitinho. -Você não tem se alimentado direito? -Tive alguns problemas e descuidei um pouco da saúde. Daniel.. o que contribuiu para que a gripe evoluísse para uma pneumonia. está com o Daniel.em constante mudança e nós temos que ter mente aberta para nos adaptarmos à elas. Muito mal. Dava pra ver no seu rosto a tristeza em me ver daquele jeito.. Geralmente ocorre nos casos de contagem de CD4 inferior a 200. Deixamos o Centro Médico e voltamos para casa. Ao chegarmos em casa fomos direto dormir. A doença costuma atingir os pulmões.. Entregando ao médico os envelopes o Daniel disse a ele: -Ele está um pouco fraco.. a Terra não pára de girar. o fígado e a medula. Voltei à sala do médico. doutor. Acabou adquirindo uma pneumonia. Eu estando perto dele não vai ter como escapar de tomar os remédios. -Cuide bem dele. antes dela se curar por completo eu deixei a casa do Daniel embaixo de uma tempestade torrencial. 186 . que era o meu caso... -Fez mal. doutor. o baço. A pneumonia é historicamente uma das maiores causas de morte entre os portadores de HIV. O dia já estava começando a amanhecer. -Claro. Deitado na cama eu chorava calado.. Sentado no banco do carona.. mas agora já pode ser tratada e prevenida com medicamentos... Eu estava exausto e o Daniel deveria estar cansado também. Pegando em minha mão o Daniel disse: -Pode deixar. Eu já estava com uma gripe forte.

..... Tranquei a porta da sala e descemos até o estacionamento de visitantes. fui até o quarto e vesti uma outra roupa rapidinho. -Oh Deus! 187 . -Se você quiser eu compro pra você. Coloquei uma jaqueta de couro. Esse é um assunto que tratarei como prioridade assim que me recuperar.. Após prender o cinto a Eduarda perguntou: -Pra onde vamos? -Vamos para uma loja de motos que tem na rua de baixo. -Pois é. -Uau!. Eu quero que você me leve até a loja para eu comprar pessoalmente... Posso ver antes? -Sim. -Eu sei. Eu imprimi algumas peças aqui pra você levar para a agência... Peguei minha carteira... -Nem se atreva. Colocando sua bolsa sobre o sofá: -Você precisa se cuidar mais.. Mudando de assunto. Eu vou me vestir e vamos até a loja que fica perto daqui. mas fiquei muito mal por causa do seqüestro do petit. ele vai fazer aniversário essa semana...Durante a semana eu não pude sair para trabalhar por recomendação do médico. -Mas Bader. Vou precisar de um favor seu. uma calça jeans... Eu não conseguia ficar parado sem fazer nada. pois eu precisava voltar antes que o Daniel chegasse. -Não.. Eu vim aqui pra saber como você está. recebeu minhas peças no seu e-mail? -Recebi sim.. né.. algo bem básico.. São as de cerveja? -É. achei estranho. -Estou indo.. talão de cheque e a chave do carro. amigo. Sentando-se ao sofá ela perguntou: -Qual? -Eu ainda estou muito fraco e proibido de sair de casa. -Adorei! -Humpft. podemos ir.. -Sem mais.. minha cabeça pirava se eu não tivesse com o que me distrair. Tudo bem. Bader. Estudava alguns briefings quando a campainha tocou: -Oi Bader! -Oi Eduarda! -O porteiro nem interfonou para você avisando que eu estava à sua procura... -Eu sei Duda. Com saúde não se brinca.. mas acabei trabalhando em casa mesmo... -Claro. Desliguei o computador.. você está com pneumonia.. Mas enfim.... Entendido? -Humpft. mas ele não pode saber que eu saí de casa. mas preciso comprar o presente do Daniel...... Ajeitando o cabelo enquanto caminhava eu disse: -Pronto. não posso dirigir ainda....... -Hã? -Vou dar uma moto de presente pra ele. sendo assim não poderia demorar..

Imbecil do jeito que ele é. -Já sei... por isso que a comprei. por quê? -Não. -No momento não é possível. Para mim já era tão comum que eu não sentia vergonha alguma. -À vista? -Sim. Destaquei-o do talão e entregando para ele reforcei: -Já podem depositar agora se quiserem.. Não importava-me de pagar tudo isso por um presente para o Daniel. Tentando ser irônico o vendedor disse: -Tenho certeza que seu namorado irá adorar o presente.... o senhor já pode levá-la se quiser. pagaria até mais se fosse necessário pra vê-lo feliz. tornou-se tão natural quanto dizer “bom dia”... eu quero levar aquela moto. -Bem. E ele nem se ligou.... Modéstia a parte eu entendo de homens. Como eu já sabia o que queria. -Humpft. Mais um que olhou-me sem graça ao ouvir que era um presente para o meu NAMORADO. 188 .. Comecei a preencher o cheque quando o vendedor questionou: -O senhor fará o pagamento com cheque? -Naturalmente. Pessoas inteligentes não trocam ofensas.. Espero mesmo que seja uma bobagem minha. Sem perder a linha respondi à altura: -Claro. Viu como eu e você temos algo em comum?.. -Boa tarde! -Boa tarde.. segui em direção à moto indicando meu interesse pelo veículo. Ao cruzarmos a porta a Eduarda comentou: -Não acredito! -Em quê? -Que você chamou o cara de gay. Deixei a loja morrendo de rir. Prefiro que vocês entreguem no endereço que irei deixar. Como ela é peça única.Ao chegarmos na loja logo fomos abordados por um vendedor. eu como namorado dele sei mais que ninguém. -O senhor pode me acompanhar? -Claro. é presente para o meu namorado. querida. -Aqui estão os documentos. está desconfiado de algo.. não é? -Longe de mim. -Qual seria a forma de pagamento. Por nada. -Obrigado.. A Eduarda quase caiu dura quando eu disse que pagaria à vista os vinte e cinco mil que a moto custava.. ou você acha que sairia por ai andando com vinte e cinco mil no bolso? -Bem.. -Como preferir... senhor? -À vista. -Então ta bom. É que. Bom trabalho pra ti. -Seria para o senhor mesmo? -Não. não vai entender mesmo.. -Claro.

amiga! -Por nada. Lembrei. -Mas Bader. -Ela só precisa de uma oportunidade. -Aquela peça para mídia impressa que te enviei.. Não demorou muito e o interfone tocou: -Fala? -Seu Bader. tomou banho e foi pra academia. -Se possível... -Eu não estou pedindo para ninguém aceitar minha condição sexual. -A de cosméticos? -Não.. Disse que você deu seu cartão pra ela.. -Agora vamos logo antes que o Daniel volte. -Claro. Ligou uma garota à sua procura esses dias. Fechando a porta do carro eu respondi: -Humpft. Ah. -Humpft...-Você percebeu a forma diferente que ele te tratou só porque disse que tinha um namorado. A minha vida particular cabe somente a mim.... -Pois é. Acordou cedo. Quero essa garota na campanha. vou indo... com certeza brigaria comigo. -Mas está muito em cima. -Bader. 189 . Bader. -Sim.. -Que garota? -Acho que se chama Amanda. -Hum.. tem um pessoal aqui dizendo que tem uma entrega pro senhor. Não ouço mais calado às piadas alheias sobre minha sexualidade. quem não gosta não precisa aceitar. ninguém é obrigado a aceitar isso. é aquela do celular... -Deixa comigo. Acho que ainda temos quinze dias. mas pelo menos respeite o espaço do outro.. Voltei pra casa feliz da vida.. pois pelo horário o Daniel já deveria estar a caminho e se me pegasse andando pra lá e pra cá. Obrigado pela ajuda. tirando o fato desagradável com o vendedor da loja. faça uma super produção nela. Tomei meu café da manhã. -Você acha que dará certo? -Alguma vez eu falhei? -Não. Quando acordei ele já não estava mais. era aquela garota do farol. -Ah sei. -Amanda? -É... Alguns dias se passaram.. Mesmo sendo seu aniversário o Daniel deixou de trabalhar. -Quero que você me faça um favor. quero que você contate essa garota... -O cliente deu um prazo até que longo. Ao chegar tratei de tirar a roupa correndo para evitar surpresas. -Concordo com você. -Por ai. dei comida pra Dani e fui navegar um pouco na internet. -Ah!... como fazia todos os dias.

. -Onde o senhor quer que deixe ela? -No estacionamento. -Pode deixar aqui mesmo.. Passei o restante do dia tentando adivinhar em qual restaurante ele me levaria.. -Quê? Não acredito que você vai me deixar na curiosidade. O relógio da sala já marcava quase oito horas da noite quando ele chegou.. -Às 20h eu to chegando... -De nada. Já esteja pronto. Tirei o pijama.... Está bem. 190 . -Hum. Abra o portão da garagem.. No início da noite da noite fui tomar meu banho. por favor...-Pede para eles aguardarem um momento que eu já estou descendo. -Sim.... Lá vinha o Daniel com suas surpresas que só ele sabia fazer.. Dei um pulo rápido na cozinha.. Eram os entregadores da loja que foram entregar o presente do meu petit. Mal sabia ele que eu também tinha uma surpresa esperando a hora certa pra revelar.. -Aonde você vai me levar? -Segredo. peguei um copo de suco de abacaxi antes de voltar para frente do computador e continuar editando algumas fotos. vesti um moletom e desci até a portaria para receber o presente que eu havia comprado. Pouco tempo depois o telefone tocou outra vez: -Alô? -Petit? -Oi mon ange! -Se arrume que hoje vamos jantar fora para comemorarmos meu aniversário. por favor? -Sim. -Assine aqui. Coloquei o aparelho de volta à base e fui fechar à porta que havia deixado aberta. mas como o Daniel era imprevisível não arrisquei palpite. Subi para casa e quando abri a porta o telefone estava tocando.... -Então vamos. Deixei a chave na fechadura e corri pra atender. -Sim seu Bader. mas já tinham desligado.. Logo depois fui me arrumar para sair com meu amor. Obrigado. -Humpft. -Bom dia! -Bom dia! -Seu Bader Pires? -Isso.. -Boa noite meu amor! -Boa noite petit! -Já está pronto? -Sempre estou pronto quando você me pede.. Para onde você vai me levar? -É surpresa. Um dos entregadores foi levando a moto até a vaga que eu indiquei na garagem.

que por sinal foi muito bem escolhido. A comida estava maravilhosa. amor? -Hoje passei em frente à loja e a moto não estava mais lá.. Sobre a mesa haviam vários talheres... fiquei depois que te conheci... Que nós possamos comemorar muitas e muitas vezes mais essa data.. É sua.. Ao cruzarmos a porta o garçom nos acompanhou até a mesa que o Daniel havia previamente reservado para nós dois... O ambiente era de primeira classe. Hei. mas o Daniel fez segredo o tempo todo.. -Sabe que eu estou um pouco triste.. Atrás da nossa mesa havia um aquário lindo com enormes peixes. -Oi amor.. eu comprei a moto pra você..... juntos. Com aquela cara de safado ele puxou-me pra junto dele e demos um longo beijo na boca. -Sim petit.. Entramos no carro e seguimos para o tal lugar desconhecido.. O Daniel entregou o carro para o manobrista e entramos no local. -Sério? -Alguém comprou... Chegamos em um restaurante na Alameda Santos. e claro que eu fui o caminho inteiro me corroendo de curiosidade. -Deve ser a mesma pessoa que estacionou ela na minha vaga de garagem.. Seu amor me enlouqueceu. seguido de pegadas fortes e leves mordidas nos lábios. As ruas estavam movimentadas naquela noite. é vinte e quatro horas movimentada... Tocando em minha mão e olhando em meus olhos ele perguntou: -Está gostando? 191 . Sorrindo ele deu-me um abraço... Seus olhos brilhavam como dois diamantes refletindo o brilho do sol. Igual aquela da.. -Olha que moto linda..A curiosidade estava me matando. quero um beijo. petit! -Obrigado nada. Peraê.. uma rosa vermelha em um vaso de vidro bem fino com algumas pedras coloridas... Tentando entender ele fez uma careta. -Por quê... -Claro. Logo na entrada havia um corredor de plantas que se destacavam em um caminho de pedras brancas e uma iluminação que vinha de baixo davam um toque meio sombreado. petit? -Caralho!. Ainda sem acreditar ele se aproximou da moto. em seguida selamos o compromisso com um delicioso beijo melado. -Quê?. tocando nela para ter certeza de que não era um simples sonho. vamos comemorar muitas e muitas vezes mais. São Paulo não pára. daqueles que só ele sabia dar... -Até dois.. -É. -Obrigado... O cardápio era bem variado. -É mesmo. Você é louco? -Não era.. Ao chegamos no estacionamento ele foi em direção ao seu carro até eu pedir a atenção: -Daniel.. serviço personalizado. -Antes de mais nada quero te desejar um feliz aniversário..

. então? Levando a mão ao bolso ele respondeu: -É simples. -Eu nem tinha reparado que você estava usando aliança. Certamente ele era o homem que todo mundo gostaria de ter. -Ué. -Ah. amor. -Depois eu quero um beijo. -Mas.. Não falei a verdade quando disse o motivo pelo qual te trouxe aqui.. -Ah! -Na próxima semana quero iniciar uma reforma naquele quarto ao lado do meu... Então ta bom.. nós estamos noivos. mas não entendi o motivo desse mistério todo só pra me trazer em um restaurante. -Eu vou com você. alguma coisa queria aprontar. Entregando-me uma caixinha preta aveludada esboçou um sorriso. petit. Ao abrir quase não acreditei.. -Quando? -Humpft. Quero dar entrada ao processo de adoção do Rodrigo. Quando eu pensava que já o conhecia.. Selamos nosso compromisso de noivado com um beijo. Em seu interior estava gravado nossos nomes e a data daquele dia. podendo eu considerarme o homem mais feliz do mundo..... amor. Era uma linda aliança em outro branco.. Esse é o motivo.... O novo abrigo para as crianças está quase pronto... o Daniel fazia algo para surpreender-me ainda mais..... -Mas agora nós somos oficialmente noivos. -Por quê? Não gostou? -Se gostei? Adorei! -Que bom.. -E qual é o real motivo. -É que eu soube esconder.. Ainda essa semana eu quero ir até o local ver como estão os términos da obra.. quis apenas proporcionar uma noite agradável para nós. interrompido pelo garçom que trouxe em seus braços um ramo de flores vermelhas. para quando o Rodrigo chegar encontrar um ambiente todo preparado para recebê-lo....-Eu adorei. toda trabalhada.. Adorei o jantar.. -Eu sei.. Foi para dar um toque à mais. -Eu te dou quantos você quiser. olha a minha aqui?. Somos um casal feliz... -Quem é Audrey? -É a advogada amiga da família. lindas.. Após terminar de mastigar perguntei: -Por que você está me olhando assim? -Eu menti.. -Mas hoje é diferente... -E assim tornarmos uma família de verdade. Quando ele vinha com aquela cara safada.. Esse é o maior presente de aniversário que eu poderia ganhar: Você! -Estou sem palavras. Seu olhar procurando o meu com um sorriso de canto de boca deixaram-me com a pulga atrás da orelha. -Quero aproveitar também e passar no escritório da Audrey. Mas.. 192 .. -Petit. A partir de hoje.

gritos. -Nada disso. -Humpft. -Na beira do mar do amor... a noite perfeita. muitos gemidos. O desejo estava aumentando.. Após fechar a porta ele pegou as flores da minha mão e as colocou sobre a mesa. Quando a gente gosta de alguém e recebe qualquer coisa do ser amado é muito satisfatório. sexo. Antes de dormir o Daniel deu-me um beijo na testa e disse: -Amanhã eu desmarquei todos meus compromissos para passarmos o dia juntos. Sua língua passava em meu pescoço fazendo com que o tesão triplicasse.. Lá fora o céu estava lindo. Deixa de ser bobo.. não importa. acho que se você me abandonar algum dia eu fico louco. Sua mão esquerda tocou meu rosto... só não liguei para minha mãe dando a notícia porque já era tarde. Aquele cheiro da sua respiração parecia ser o combustível para me deixar louco. -Na beira do mar. mãos que tocavam com vontade. almoçar. O Daniel abriu a porta de casa para mim. em passos lentos e sorrindo feito bobo. vá se divertir e depois passamos o dia juntos... Realizamos fantasias. lambidas.. Sua mão delicadamente entrou por baixo da minha camisa e foi alisando minha pele. -Mas e seu treino com a galera da academia? -Desmarquei também. língua tocando língua. Entrei segurando as flores que havia ganhado.. -É verdade. Humpft. -Então me beija.. Eu acho que gosto mais de você do que de mim mesmo.. Aquelas pegadas foram ficando cada vez mais fortes.. Foi nossa melhor noite de amor até então. apagou a luz e deitou-se ao meu lado.. Então ta bom.Voltamos para casa já era madrugada.. Eu adorava sentir as batidas do seu coração com meu peito encostado no dele. -Nunca vou te abandonar.. -Hahaha. desejos.... Depois do meu treino de jiu-jitsu vamos sair para passear. anestesiado. -Promete? -Prometo! -E nossa promessa de todas as noites dormirmos juntos. sussurros. desprendendo os botões até tirá-la por completo. no horário em que você treina estarei dormindo mesmo. Eu estava muito feliz com a aliança e a oficialização do nosso noivado... com estrelas piscando para nós e dentro do nosso quarto fazíamos amor.. 193 . fazer compras. mordidas.. afinal.. Eu mordia a pontinha de sua orelha do jeito que ele gostava. com sua atenção só pra mim. jamais esqueceremos. Nos abraçamos forte. parecia estar vivendo um sonho. e o sangue em nossas veias corria com adrenalina. tudo torna-se especial e valioso. sussurrando nos meus ouvidos ele cantava: -Quando Deus te desenhou.. A luz da lua entrava pela fresta da cortina. O Daniel acariciava minha nuca de uma forma que me deixava maluco. ainda está de pé? -Claro.. -Hum. pele com pele. Ele estava namorando. Com todo carinho ele colocou-me à cama.. mesmo que for um grão de arroz. foi maravilhoso. Vou adorar passar um dia todo ao seu lado. estrear minha moto nova. puxou-me pelo braço e me pegou no colo.. mas mandei um torpedo em seu celular contando a novidade.. atingindo orgasmos múltiplos. Fomos nos beijando até o quarto.

parece não estar muito bem. Olhando em meus olhos ele me abraçou e cruzou suas mãos em minha cintura.. O dia já estava amanhecendo quando consegui adormecer. Sei que isso era uma prova de amor.. deixa que na volta eu passo no mercado e compro algumas coisas pro almoço.. pode ir tranqüilo.. Te amo. Ao nos cruzarmos na sala o Daniel veio até mim. -Tudo bem. Antes de sair ele deixou cair ao chão do quarto o frasco do desodorante.-Se eu pudesse. te daria o mundo. -Acordei você.. o petit que ele tanto amava. -Também te amo! -Vou levar minha chave.. Durante a madrugada mal consegui pregar os olhos. A preocupação do Daniel comigo era como se fosse consigo mesmo. depois passei na cozinha para beber um copo d’água. nariz coladinho com nariz.. Uma angústia apertava-me o peito. -É que não dormi muito bem essa noite. -Obrigado.. Demos um longo beijo molhado e assim adormecemos. -Sem problemas meu amor.. caso você esteja dormindo quando eu voltar. Quer que eu fique aqui com você? -Não precisa. -Alô? -Bader? -Oi pai.. recebeu meu torpedo? -Recebi.. depois fui pro meu quarto.. a mãe está aí? -Está sim filho. vou chamar. -Você me espera para tomarmos café juntos? -Espero! -Tudo bem. -Ta bom. Às vezes ele deixava de trabalhar e fazer as coisas que gostava só para cuidar de mim. -Oi filho.... Sentando-se à cama ele disse: -Fica deitado. deu-me um beijo tão diferente que parecia se despedir para sempre. Deitei-me à cama. suspirando ele disse que me amava... a senhora não imagina como. fiquei muito feliz por você. Antes de sair ele disse: -Estou com receio de ir e te deixar aqui sozinho.. -Oi mãe... -Tchau.. e com ela uma vontade louca de chorar.. mas tinha dias que eu me sentia mal com isso. pois ele se sacrificava muito por mim.. sua voz está um pouco cansada. O acompanhei até a porta. mas logo vou levantar. amor? -Humpft. Logo pela manhã o Daniel acordou cedo para ir ao treino com o pessoal da academia.. -Eu também estou muito feliz.. fazendo com que eu acordasse com o barulho... Então vou indo. -Filho.. Bader. puxei o edredom e peguei o telefone para falar com minha mãe.. Já estava na hora mesmo.. Levantei-me da cama e fui até o banheiro escovar os dentes. Você está bem? 194 .. Eu vou deitar e dormir mais um pouco até você chegar. -Bader..

-Humpft... Não estou muito bem, mãe. -O quê você tem, Bader? -Não sei, meu corpo está estranho... -Estranho como? -Não sei explicar, só sei que não estou muito bem, mãe... Meu peito está apertado, estou angustiado... -Você quer que eu vá pra São Paulo ficar com você? -Não precisa, mãe. -O Daniel está cuidando de você? -Está sim, mas eu não contei pra ele, pois não quero trazer mais preocupações pra sua cabeça... -Filho... Meu coração também anda apertado, ainda comentei com seu pai... -Nossa!... Sem querer te cortar, mas a senhora não teria aí algumas roupas que não está usando mais? -Para que, Bader? -Para eu levar pro Lar do céu. -O quê é isso? -É um abrigo que cuida de crianças com HIV. -Eu acho que têm algumas aqui sim, serve as suas de quando era criança? -Claro! -Humpft... Filho... Você é tão bom... Sempre ajudando à quem precisa... Mamãe tem tanto orgulho de você... -Pare com isso, tudo que sou hoje aprendi com a senhora. -Vou dar uma separada pra você e te levo ainda essa semana. -A senhora vem pra cá? -Vou sim. -Tudo bem, então quando chegar aqui a gente conversa mais. -Te amo, meu filho! -Eu também te amo muito, mãe. Após desligar o telefone, adormeci novamente. Por volta do meio dia o Daniel chegou em casa. Guardou as compras no armário, colocou leite para esquentar, ligou a cafeteira e depois deu comida pra Dani. Enquanto eu dormia o Daniel preparou a mesa do café da manhã, cheia de coisas gostosas, bem farta. Quando tudo já estava pronto e arrumado na mesa ele foi até o quarto, deitando-se ao meu lado. Acariciando minha face o Daniel colou nariz com nariz, olhando-me profundamente com aquela carinha de cachorro abandonado. Após um profundo suspiro ele tocou levemente minha boca com seus lábios, dizendo em seguida: -Petit... Vamos tomar nosso café?... Vendo que eu não acordava, ele insistiu mais uma vez: -Amor... Acorda que nosso café já está pronto... Psiu... Oh garoto preguiçoso viu, acorda se não o pão vai ficar ruim... Bader... Permaneci imóvel, da mesma forma como deitei-me da última vez, e a não resposta ao seu chamado começou a deixá-lo preocupado. -Bader... Acorda que nosso café está pronto... Bader, fale comigo, por favor... Percebendo que eu não respirava, imediatamente chamou por socorro: -Bader pelo amor de Deus, o que você tem?... Está me deixando preocupado... Não faz isso comigo, não me deixe, por favor... Socorro... 195

Seus gritos de desespero chamou atenção do vizinho ao lado, que assustado foi ver o que acontecia. -O quê está acontecendo? -Por favor, me ajude... O Bader não está bem... -O quê ele tem? -Eu não sei... Ele não responde quando eu chamo... -Deixa-me ver... Nossa!... Ele parece estar morto... -Cala essa boca. Você não sabe o que está falando... -Desculpa... Eu vou chamar uma ambulância... Sentando-se à beira da cama ele puxou-me para junto dele, deitando minha cabeça sobre seu colo, ao mesmo tempo em que tentava me fazer acordar: -Bader... Você está me ouvindo?... Eu sei que está... Eu amo você... Sabe o que eu comprei?... Aquela geléia de morango que você gosta... Amor... Por que você está fazendo isso comigo? Enquanto ele falava comigo, não sabia que eu acabara de entrar em coma. A ambulância chegou. Os médicos entraram no quarto e viram o Daniel abraçado comigo, chorando bastante. Educadamente eles pediram para que se afasta-se, pois iriam me levar para o hospital: -É necessário que o senhor o solte para podermos levá-lo... -O quê ele tem, doutor? -Humpft... Aparentemente ele está em coma, precisa ser removido com urgência... Inconformado ele se questionou: -Mas como? Ele vai passear comigo, doutor... Nosso café já está prontinho na mesa... -Ele necessita de cuidados especiais, precisa ser removido imediatamente. Ao ver-me sendo retirado da cama, o Daniel desesperou-se: -Bader... Fala pra eles que nós vamos passar o dia juntos hoje... Fala... Bader... Pelo amor de Deus fala comigo... Bader... Fui colocado em uma padiola e levado para a Santa Casa. No caminho o Daniel foi segurando minha mão, sentado ao meu lado esquerdo na ambulância. Enquanto isso um médico fazia o procedimento necessário até chegar ao hospital. A pneumonia costuma atingir os pulmões, também podendo afetar os nódulos linfáticos, o baço, o fígado e a medula. Geralmente ocorre nos casos de contagem de CD4 inferior a 200, no meu caso a situação já havia se agravado e evoluído para algo pior. Chegando no hospital colocaram-me em uma outra maca. Eu conseguia ouvir tudo o que eles diziam, os gritos dos médicos, o choro do Daniel, a sirene da ambulância. Doía meu coração aquela situação. Eu queria gritar e não podia, queria dizer que amava o Daniel e não conseguia. Nada adiantava, só o que eu poderia fazer era deixar que o meu destino fosse cumprido. Deitado naquela maca fria de hospital eu vi minha vida se desfazendo como uma torre de baralhos ao vento, sendo levado por um longo corredor que parecia não ter mais fim. O Daniel acompanhou-me segurando minha mão o tempo todo, até ser interrompido por um dos médicos, pois a área que eu seria levado era restrita: -Petit... Você vai ficar bom... Amanhã a gente vai estar rindo disso tudo, você vai ver. -A partir de agora o senhor não pode entrar. -Como não? -Ele vai ser levado para o C.T.I, não é permitido a entrada de acompanhantes...

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A maca passou pela área restrita. Pelo vidro da porta o Daniel me olhava, chorando, vendo eu sendo afastando de si, cada vez mais. Por fora eu continuava imóvel, mas por dentro eu gritava e me debatia, implorando por socorro. Não sei bem explicar como eu me sentia, mas era como se eu estivesse oco por dentro. Não sentia dor, não conseguia me mover, só ouvia vozes. Deixado em uma sala fria, com um vidro transparente na parede ao lado esquerdo. Por dentro havia uma cortina, da qual os médicos só abriam para a família ver. Naquele mesmo dia o Daniel avisou minha família em Campinas, que na mesma hora vieram pra São Paulo. Ao chegar no hospital minha mãe já não estava bem. Sua pressão havia baixado e ela quase desmaiou, e quando encontrou com o Daniel no corredor a emoção tomou conta dos dois, que se abraçaram e juntos choravam: -Daniel?... -Dona Vivian... -Cadê meu filho?... -Não sei onde está agora... Levaram ele pra uma sala e não me deixaram entrar. Ajeitando seu óculos escuro a Millena perguntou: -O quê aconteceu com ele, Daniel? -Hoje pela manhã eu fui treinar jiu-jitsu com o pessoal da academia e antes de sair dei um beijo nele... Humpft... Eu até perguntei se ele queria que eu ficasse, mas ele disse pra eu ir que ficaria tudo bem... Limpando as lágrimas minha mãe continuou: -Nos falamos hoje pela manhã e ele me tratou tão diferente... Parecia se despedir de mim... -Quando eu cheguei em casa e fui acordá-lo para tomar café... Ele já não respondia... -Onde ele está agora? -Levaram ele pro C.T.I... Tiraram ele de mim, dona Vivian... Levaram meu petit... -Calma, filho... -Ele está em coma... Enquanto minha mãe e a Millena ficaram com o Daniel, meu pai e meu irmão Rodrigo foram à recepção buscar informações sobre onde e como eu estava: -Por favor, eu quero saber onde está internado o paciente Bader Pires. -O senhor é o que dele? -Sou pai. -Um momento que vou verificar. -Obrigado. Fiquei em uma área isolada, por causa da minha doença. No quarto só havia eu e uma enfermeira de plantão, que acompanhava meu estado minuto a minuto. Somente depois de dois dias internado foi liberada a visita. -Acompanhante de Bader Pires? Todos que estavam na sala de espera levantaram-se. O Daniel tomou a frente e o médico informou: -Aqui... -O quê o senhor é dele? -Sou o noivo do Bader. -Eu sou a mãe dele. Segurando uma prancheta na mão direita o médico disse: -O paciente Bader Pires se encontra em um quadro estável... Humpft.. Sua situação é grave... 197

Começando a chorar minha mãe falou: -Por favor, doutor, ajude meu filho... -Se acalme, senhora... A visita pode ser liberada para apenas uma pessoa... Será permitida a permanência no local por dez minutos... -Vá a senhora, dona Vivian... -Você não se incomoda, Daniel? -Claro que não, a senhora é a mãe... -Obrigada! -Dona Vivian... Diga a ele que eu o amo. -Pode deixar. Enquanto todos permaneceram na sala de espera, minha mãe acompanhou o médico até a unidade onde eu estava. Sua entrada no leito não foi permitida, tendo apenas o contato visual através da parede de vidro, como um bebê de berçário. Com a testa apoiada ao vidro juntamente com as mãos, ela chorava relembrando nossos momentos juntos, rezando por mim: -Meu filho... Meu menino... O que fizeram com você?
"Mamãe... Cadê meu tênis azul escuro?" "Bader, não corre assim que você vai cair, meu filho..." "Papai eu te amo!" "Que cara é essa, filho? Passei no vestibular!" "Alô... Mãe? Oi filho... Mãe... O Bruno me deixou..."

-Deus... Eu entrego meu filho em suas mãos... Não o abandone agora, por favor. Deitado sobre aquela maca eu conseguia ler seus pensamentos, tamanha era sua força. Junto com ela eu também chorava, mas chorava por dentro. Minha alma se desfazia em pedaços, enquanto meu corpo permanecia estável. O tempo passou rapidamente. Logo minha mãe teve que voltar e a cortina foi fechada. Emocionada ela voltou à recepção, onde todos esperavam ansiosamente por uma notícia minha: -E ai, mãe? -Ele está tão pálido... Cheio de fios, aparelhos... Parece que está dormindo, rostinho sereno... Abraçada à Millena, minha mãe tentava tomar um copo d'água que meu pai segurava nas mãos. O Daniel se abaixou no chão e encostou-se à parede. Fechando seus olhos ele passou a relembrar os momentos em que vivemos juntos. Aproximando-se dele meu irmão perguntou: 198

. que deve estar com fome e saudade do meu petit. ao mesmo tempo em que eu ia me aproximando da luz... era impedido por uma força maior que me puxava de volta. Ao final havia uma forte luz cujo estava parecia estar me sugando. toma a chave. A todo tempo o Daniel permaneceu no hospital. -Eu sei.-Daniel.. Ro.. até que ela surgiu: -Senhor Daniel? -Eu? 199 . Não é fácil pra ninguém ver uma pessoa que você ama naquelas situações em que eu me encontrava. A sensação era como se eu estivesse sobre uma esteira.. -Mas faz dois dias que você está sem dormir.. mas não importa. Quinze dias se passaram e meu estado Continuava estável. Rodrigo. Enquanto meu petit não sair daqui eu também não saio. -Obrigado. Enquanto eles sofriam. Você não quer ir até em casa descansar um pouco? -Não. Vou ficar aqui com meu noivo até ele melhorar. aguardando uma oportunidade para poder me ver. sem comer. -Pode deixar. porém.. Tocando no ombro de seu marido a Millena disse: -A dona Vivian está precisando descansar um pouco. Cuide da Dani também. -Então vou trazer umas roupas pra você. Millena... Levando a mão ao bolso o Daniel disse: -Levem ela lá pra casa.. Todo esse tempo eu via-me dentro de um corredor muito escuro.. eu também sofria junto. Millena.

volte para nossa casinha com nossa rotina de sempre. acho que do amor e do laço que nos unia eternamente nesse sentimento inexplicável... -Bader? Você mexeu o dedo? O aparelho que registrava os meus batimentos cardíacos começou a apitar. juntos novamente. Sou eu. Claro que até lá você já estará de volta.. dei um aperto em sua mão.. -Sério? -Sim. em seguida eu parti. Acompanhando a enfermeira ele ia olhando atento para cada canto daquele longo corredor.. -Petit..-O senhor pode subir para ver o paciente Bader. foi quando eu reuni todas as minhas forças. eu te amo!. Na intenção de sentir seu calor pela última vez. Imediatamente os enfermeiros entraram na unidade.. Humpft.. Bader... um pouco abatido. Assim que ele entrou ela foi fechada... só de ouvir meu amor falar comigo... mas antes o senhor terá que vestir uma roupa especial para não levar nenhuma bactéria para dentro da unidade. -Petit. Não sei de onde as tirei.. Tudo que ele falava eu podia ouvir.. Cuidadosamente a enfermeira abriu a porta.. Próximo ao meu ouvido ele cantou: -Quando Deus te desenhou. ganhar seu beijinho de boa noite. Todas as noites eu rezo para que você saia logo desse lugar... Ele estava namorando..... com sua mão quentinha ele tocou na minha gelada. mas abri levemente meu olho. O quê está acontecendo? 200 . acariciando-a como ele sempre fazia. Torcendo por mim e me apoiando.. Nem preciso dizer que elas se apaixonaram pelo Rodrigo. Com lágrimas descendo de seus olhos e uma máscara cobrindo seu nariz e boca. só falta você comigo.. Não sei de onde tirei forças. -Amor. -Sabe petit. Na beira do mar do amor. o rapaz meigo que me fez apaixonar... de bom dia.. deixando o Daniel preocupado. lembra da nossa promessa? Todas as noites que tem lua eu olho para ela e consigo sentir seu cheiro. Ontem à tarde meu ex-treinador me ligou marcando uma luta pro mês que vem. permanecendo apenas eu e o Daniel. eu sei que você está me ouvindo.. Eu queria olhar pela última vez o cara que me fez muito feliz em vida.. Petit. sem poder me mover. O lugar ficou lindo. Estou morrendo de saudade de dormir abraçadinho com você... ele foi se aproximando de mim lentamente. O quê é isso. Sua mãe e a Millena também foram lá conhecer. o Daniel. e eu disse que só aceitaria se você melhorasse. esboçando um sorriso de felicidade. Ao chegar na porta do leito onde eu estava ele respirou fundo. Ontem foi entregue a mobília no novo Lar do céu.. a Roberta foi conhecer e adorou... está toda feliz.. né?. Quando abri meus olhos vi o Daniel de cabeça baixa. -Tudo bem. eu fui feliz. Ao ouvir sua voz e sentir que ele estava ao meu lado. mas permanecia calado. Estava lindo como sempre. emocionado relembrando nossos momentos.. sozinhos. mas continuava o gatinho que sempre foi. Senti-me mais leve. No fundo do meu coração eu sentia que não conseguiria mais resistir por muito tempo. Ele foi e eternamente será o único cara que amei de verdade em toda minha vida. Não tem como explicar qual foi a sensação. Segurei forte em sua mão por pouco tempo. mas foi o suficiente para registrar em minha memória aquela lembrança. Parado ao meu lado esquerdo..

. o médico apareceu: -Quem são os familiares de Bader Pires? -Aqui. Sentado ao banco estava o Rodrigo. -Eu vou falar com meu pai... O Bader sendo um portador do vírus HIV se fragilizou muito ao se descuidar de sua saúde.. Sentando-se ao chão o Daniel disse ao meu pai: -Diga que é mentira. onde estavam a Millena e minha mãe.. Ao informar às duas sobre o ocorrido... Bader. É mentira... -O quê você quer dizer com isso.. O que está acontecendo?. Uma hora se passou.... Passar todo aquele tempo no hospital havia os deixado cansados. Quando a angústia parecia não terminar. mas faz parte.. Todos esperavam por uma notícia que não chegava. mãe. Por favor. -Humpft.. -Mas o quê ele tem? Petit. -Calma.. -O quê? -O organismo do Bader estava muito comprometido. Meu pai estava encostado na porta fumando um cigarro.. Eu não sei se é do conhecimento de vocês que o Bader adquiriu tuberculose. resultado do cansaço da família. Acaba de falecer... Daniel. No carro eu notei que ela estava um pouco debilitada. -O quê aconteceu com o meu filho? -Calma mãe... Fale logo.. -Que notícia?.. doutor? -Bom... sua mãe não está passando bem.. Meu filho não.. -Você vai ter que ser forte. -Por favor.. -Ah meu Deus! Nessa hora o Rodrigo pegou o celular e ligou pra casa.... Ao verem o Daniel descendo as escadas apavorado.... -Não. -O paciente Bader Pires. Uma das enfermeiras acompanhou o Daniel até a porta... o senhor precisa se retirar imediatamente... Chegando ao ponto de se tornar aidético. andando de um lado pro outro... Nossa equipe médica fez tudo que estava ao nosso alcance. Acabou pegando uma simples gripe que evoluiu para uma pneumonia por falta de cuidados...... -O que aconteceu com o meu filho. ainda não sabemos. O quê aconteceu? -Meu petit não está bem. Meu pai quase fez um buraco no chão.. senhor... 201 ..-Por favor. -Pelo amor de Deus.. -Ah meu Deus!.. Os médicos me tiraram de lá muito rápido.. doutor? -Não é fácil pra mim. seu Felipe?.. imediatamente elas se dirigiram para o hospital. Apagando seu cigarro meu pai perguntou: -Daniel.. Meu petit não. e logo em seguida a fechou. -Amor. Ter que dar essa notícia.. perceberam que algo de errado estava acontecendo. com a cabeça deitada para trás dormindo um pouco.... Assustado com todo aquele apavoro dentro da unidade ele desceu até a sala de espera em pânico...

junto de mim... -Cala essa boca e me beija logo" “-Amanhã eu desmarquei todos meus compromissos para passarmos o dia juntos.T.” Ás 16h38 eu entrei em óbito. momentos inesquecíveis vividos por nós passavam-se pela sua cabeça. sendo coberto por um lençol branco até a cabeça. Roberta... Você!” "-Eu sei que. Acompanhada da Millena ela chegou e foi recepcionada pela Roberta. pedir desculpas. Cada vez que ficamos um tempo sem falar com quem amamos. Enquanto olhava-me... -Mas e seu treino com o pessoal da academia? -Desmarquei também. deixando as pessoas que mais amava até então. Na mão direita ele conservava nossa aliança de noivado..... não ia. vai se perdendo no caminho e só se pode perceber quando já não se é possível recuperar.. sozinho. Agora eu tenho a consciência das bobagens que fiz em vida.. Daquelas brigas bobas que tive com as pessoas que amava.. o Daniel só pode me ver através do vidro. às vezes até sem motivo.. Com suas duas mãos abertas e a testa encostada ao vidro ele chorava desesperadamente. “-É surpresa. mas que na hora nem pensamos. Não só minha família.. ele não ia fazer isso comigo. Esse é o maior presente de aniversário que eu poderia ganhar. onde vão permanecer em meu coração por toda eternidade.I procurando por mim. que ciente da minha situação já estava preparada.. Naquele mesmo dia minha mãe foi até o Lar do céu dar a noticia. Seus olhinhos estavam pequenos e inchados.” “-Mas.. é um tempo que não vamos recuperar depois. Parti levando eles em minha memória para sempre. pois os enfermeiros estavam tirando os aparelhos do meu corpo. -Quê? Não acredito que você vai me deixar na curiosidade... -O quê aconteceu? Sem conseguir dar uma palavra obrigou à Millena intervir: -O Bader faleceu hoje. Meu petit. ele saiu correndo pelo corredor do C. 202 . Seu coração apertou ao ver-me deitado sobre aquela maca. Inconformado. -Calma Daniel.. -Dona Vivian? -Olá Roberta.. -Que bons ventos a trazem? -Infelizmente a notícia não é muito boa.. quer um copo d'água? -Eu quero o meu noivo de volta. -Mas agora nós somos noivos. sendo assim.-Não pode ser verdade. mas os médicos e enfermeiros ficaram todos comovidos em ver o sofrimento do Daniel ao receber a triste notícia. Mas. Ao encontrar a sala foi impedido de entrar.

filho. Bastou o zelador do local dizer “o corpo” que o Daniel entrou em pânico.... -E quando ele volta?. acabou se tornando triste quando o Rodrigo começou a chorar: -Por quê?..... Eu quero meu pai.. Ele precisa de mim.. -Por quê? Limpando as lágrimas ela abaixou-se à sua frente e disse: -Porque. Já meu pai foi forte. né? -Sim... iniciou-se uma movimentação de pessoas. O Daniel passou a madrugada inteira sem dormir. -O... Chorando ele saiu correndo em direção ao quarto. Lá não tem telefone. Por que ele não veio mais me ver? -O seu papai Bader. Você gosta muito do papai Bader. Precisou fazer uma viagem. Eu quero.. -Calma.Nessa hora o Rodrigo entrou na sala: -O quê você tem. To com saudade.. No começo da madrugada levaram meu corpo para velar... Às vezes ele ia tomar uma água e voltava.. quando abraçou o caixão e começou a conversar comigo: 203 .. Porque. Quando o carro funerário chegou no local.. Tia Ro.. Talvez ele nem estivesse entendendo muito bem o que acontecia. separando-nos para sempre.. -Dona Vivian.. Só deixava a sala do velório para ir ao banheiro.. A titia ta triste. conteve a emoção de ver seu filho chegando dentro de um caixão. mas saber que nunca mais voltaria a ver o “papai Bader” já foi o suficiente para entristecê-lo.. a Millena tentava explicar ao Rodrigo: -Ele. Emocionada...... -Você não quer ir pra casa. aquele mesmo colo que servia de consolo para meus momentos de tristezas. Humpft... -O papai Bader não vai voltar... Toda minha família já estava no local aguardando minha chegada.... pois o caixão foi lacrado.. Teve um momento em que ele surpreendeu a todos. carregado por pessoas nunca vistas na vida. minha mãe abraçou o petit para tentar confortá-lo. Fala que eu to com saudade. tia Vivi? -Oi querido... ele só conseguia me ver através de um pequeno vidro que só mostrava meu rosto..... deitando em sua caminha logo em seguida. Eu não vou conseguir contar. -Rodrigo.. Diz que eu amo ele... não posso deixar meu petit aqui sozinho. fazendo com que o Daniel acordasse: -O quê está acontecendo? -O corpo chegou. Não é verdade.. embora ela também estivesse chorando muito. De hora em hora ele se aproximava do caixão e conversava comigo... Sob efeito de calmantes o Daniel descansava deitado no colo da minha mãe. -Eu quero meu papai Bader.. mas impedido de me tocar. O papai Bader foi pro céu....... -Ah meu anjo. Daniel? -Não seu Felipe. Ro... A Milena já começou a chorar. Liga pra ele. medos e carência. sendo assim. perto de mim.. O quê parecia ser um simples entendimento. -Eu quero ir pro céu também ver meu papai.

-Não. “Nossa. “Está vendo aquelas estrelas no céu? Sim.. É por causa da bebida? Deixa que eu pago então. Ah. “Diz pra eu ficar mudo.... Te amo.. Por que o espanto? Nada não. “Petit. Volta pra casa. por favor. Quando eu era pequeno... Bader. Não levem ele de mim. meu pai dizia que as estrelas do céu eram reis... meu futuro é você comigo........ eu te amo tanto que às vezes chega até a doer meu peito. O Daniel abraçou o caixão de uma tal maneira que ninguém conseguia tirá-lo de cima. eu quero o meu petit de volta.. tira essa bermuda que eu quero você sério. Por que separaram a gente com esse vidro?.” -Eles querem tirar o único amor da minha vida..... A gente ficou noivo. -É hora de fechar o caixão. é estranho ver um cara chamando outro cara de namorado.” -Daniel. te farei uma pessoa muito feliz.. Só de pensar em ficar longe de você um dia eu tremo.. por favor..” A pior hora foi quando quiseram fechar a urna. só que olhando e cuidando daqueles que precisam aqui na Terra.. O Rodrigo.. precisamos dar uma festa. a Dani e eu estamos esperando você melhorar pra morarmos juntos como uma família de verdade. O que vai ser da minha vida sem você? Emocionado. deixe. não consigo mais viver minha vida sem você.... Nunca recebi uma declaração dessa. meu irmão Rodrigo tentou tirá-lo dali: -Vem tomar um café para se acalmar.-Amor. -Eu não quero café nenhum..” -Eu e a Dani estamos sentindo sua falta.... Se você me permitir te amar.. seu pão duro.. Fala comigo amor. “Nossa! O que foi? 204 .. Daniel.... Não.. “É necessário...” -Bad.. “Namorado? É.. Por que você me deixou? Você tinha me prometido que nunca me deixaria. Petit.. você já bebeu demais... faraós e todas as pessoas boas que viveram na terra e continuavam a reinar no céu...” -Petit. faz cara de mistério..

Não é justo. não me deixa sozinho. por que o senhor fez isso comigo? Petit.. causando um tumulto no local. Hoje tornou-se a “Fundação Bader Pires”. No apartamento onde eu morava.. “Essas dançarinas não dançavam sem calcinha? Não acredito que você vai ficar reparando se elas usam calcinha ou não. O Rodrigo teve que segurar o Daniel.. 205 . Bader..... Vocês vão machucá-lo. Bader..” -Por favor.” -Deus. Um ano se passou.Não acha que têm malas demais? Você disse que lá vai estar frio. realizando meu sonho. preso ou até morto. -Mas Rodrigo.. seu quarto já está pronto. síndico do prédio....... Meu pai e a Millena a levaram para fora da sala. petit diga pra eles que você só está dormindo. Bader. Nesse período. -Me larga. meu petit não pode ir assim..... Minha mãe mudou-se para São Paulo e ajuda o Daniel na administração do dinheiro que deixei e da Fundação. Bader. Todos que estavam presentes ficaram comovidos. possibilitando assim colocar a tampa. cujo nome foi escolhido pelo próprio Daniel em homenagem a mim. A última vez que falei com ele foi antes de atirar o telefone no meio da rua. Os dois passaram seis meses presos e estão respondendo processo na justiça... tirem a mão dele. pois ele não queria deixar que os agentes funerais fizessem seu trabalho. Por quê? O quê vai ser de mim sem você agora? -Por favor... não tirem ele de mim. O Daniel deu continuidade aos projetos que eu tinha iniciado. E agora você me abandona. “Do que você está rindo? Nada majestade.. Amor. todas órfãs ou abandonadas pelos pais.. foi só um comentário bobo. Desculpa amor. Quer ir para o calabouço? Não. Por favor. pelo rumo que sua vida estava tomando. Nunca mais tiveram notícias do Bruno. me leve com você.” Dando socos no caixão o Daniel gritava: -Você prometeu que nunca iria me deixar. e ali se fechou o ciclo da vida... Provavelmente ele deve estar à uma hora dessas se metendo em confusão... um deles foi o antigo Lar do céu.. Bader. Minha mãe desmaiou. Me solta. cheio de brinquedos. Daniel..... e em breve o Daniel se tornará legalmente pai dele.. precisamos levá-lo. deixe eles fecharem o caixão.... não. só esperando o Rodrigo chegar. Você prometeu nunca me deixar. Vocês não podem fazer isso comigo.. senhor. Amor. Com a ajuda de três homens conseguiram afasta-lo de perto do caixão.. após algumas investigações do Daniel. Atualmente cuidam de sessenta crianças soropositivas entre zero e quinze anos. Pelo amor de Deus. pois o Daniel queria me tirar do caixão à força... Bader... junto com o zelador estavam desviando dinheiro do condomínio..... A adoção do Rodrigo está quase saindo. evitando ver seu filho partindo para sempre. descobriram que o Carlos...

o desenho de um coração e dentro dele nossas iniciais. Semana passada a Millena ligou para minha mãe dando a notícia de que estava grávida. Após minha partida. pois até hoje acha que ela foi a maior culpada de eu ter adoecido. prova de maturidade e profissionalismo de ambas as partes. deixamos mais uma marca de nosso amor. o Daniel nunca mais a viu. Doe para instituições de caridade. pois elas vão precisar muito. e uma parte para o Lar do céu. mas de vez em quando nós matamos a saudade no sonho. mas na verdade não era uma simples bobagem. Quanto à promessa que havia feito ao Daniel estou cumprindo. Minha mãe torcia pelos dois. Junto comigo eu trouxe a aliança que ele me deu. Rolou um affair com a Débora. Quero que você pegue metade dele e divida entre a minha família e você. decorando a mesa da sala. asilos. Todas essas lembranças que levamos em nossa memória são coisas que ninguém nunca poderá nos tirar. Ontem. simpática. o Daniel demorou para se envolver com alguém. Quero pedir a você que cuide das coisas que estou deixando. Embora o relacionamento não tenha dado certo. como prova de nosso amor eterno. Tome a frente do novo Lar do céu. arrumando as gavetas o Daniel encontrou um papel com algumas coisas que eu havia escrito na semana em que adoeci. Nem preciso dizer que o Rodrigo tomou um porre com os amigos. pois faziam um lindo casal. e sim um pressentimento do que iria acontecer. Todas as noites quando ele se deita pra dormir eu me deito ao seu lado. O restante use para ajudar pessoas necessitadas. As flores que ele me dera na noite de noivado continuam vivas. mesmo separados pelo destino. eles continuam amigos e trabalhando juntos em prol das crianças. Todos os dias o Daniel assiste aos vídeos que fizemos em Paris. Além dessas. A saudade aumenta a cada dia. pois a gente nunca se despede de quem estará sempre conosco.. principalmente do meu petit. onde nos encontramos e aproveitamos os poucos momentos que nos dão. carro. psicóloga que cuida das crianças da Fundação Bader Pires. dinheiro no banco. Sinto muita saudade de todos. ele ainda continuava me amando cada vez mais. Eu ainda estava presente nas lembranças do Daniel. como o prometido ainda em vida. Todo esse patrimônio foi o resultado de seis anos de duro trabalho. mas era por uma causa nobre.. cuide com carinho daquelas crianças como se estivesse cuidando de mim. Cuido delas todos os dias e não as deixo murchar.Depois daquele episódio com sua mãe. Ela é uma mulher muito bonita. 206 . tamanha era a alegria daquela casa com a chegada de um novo membro. Sinto que em pouco tempo já não estarei entre vocês. Não considere isso como uma carta de despedida. Foi uma festa em Campinas. Meu petit. embora ele não se lembre depois que acorda. mas o nosso amor permanece eterno. desenhadas em uma árvore no Parque do Ibirapuera. as fotos que tiramos no decorrer do nosso relacionamento. chorando ao ver nossas lembranças tão vivas em suas mãos e pensamentos. mas o namoro não durou muito tempo. evitando sempre de falar nela. por isso estou deixando aproximadamente um milhão de reais em imóveis.

Não fique brigado com sua mãe por minha causa. “Se um dia eu chorei não foi porque perdi. chegou minha hora e eu tenho que partir.ao invés de GOSTOSO. O homem que beijasse minha boca para demonstrar DESEJO. mas sim porque amei. não importa o tempo nem a hora. e assim vivermos juntos para todo o sempre. não importa onde eu esteja. irei te amar eternamente. Daniel.Cuide da Dani pra mim.” Bader Pires 207 . Nada de deixar toalha molhada em cima da cama. Espero um dia ainda poder te reencontrar. ela não teve culpa de nada. A vida inteira esperei por um homem que me chamasse de LINDO . e não esqueça de dizer aos meus pais que eu os amo demais. mas que também beijasse minha testa para expressar RESPEITO.

Concretizei meu desejo. Nunca tinha pensado que um dia. Encontrei o que procurava. De querer estar sempre com você. amor. Daniel Marzin 208 . Numa batida de carro. Não sabia da minha afinidade. Ao lado do meu Petit. Passeamos por muitos lugares. Na minha viagem à França. Mas não iria ser tão bom. Foi ao todo muita emoção. o nosso. Meu gosto. E meu sonho se concretizou. Junto com você. Depois por você me apaixonaria. E eu me sentiria um mendigo. De te achar um cara tão legal. Sempre me fez passar mal. De um modo natural. mudaria. Se você não estivesse comigo. Onde você se machucou. Não saem da lembrança. de repente. Paris não seria a mesma. Nossa amizade de tão bela que ia. Nunca me esquecerei. Todos os momentos guardados.Em memória ao Bader: De uma maneira diferente. no fundo do meu coração. Dos momentos que vivi. Achei o seu. Que me faz especial. Paisagens e comidas belas. Numa bela viagem à França.

quando tivemos uma recaída na academia e quase voltamos. a cada atitude minha ou do Bader envolvia um carinho. já é o bastante.Agradecimentos Agradeço ao Daniel por permitir que eu escrevesse um pouco de sua história nesse livro. Quero agradecer ao Lu por ter contado um pouco de nossa vida nesse livro. o sentimento é o mesmo ou até mais forte. Não acredito que esse livro vá mudar o mundo. Bader e Daniel são os exemplos de dignidade e cidadãos. Não importa que seja narrada pelo “Bader”. mas sim esboçou todo um sentimento em tudo que detalhava. um sentimento forte. do qual me diverti e me emocionei. Sua história é a prova de que o amor não escolhe quem nem quando. pois além de escritor também fui leitor e senti-me personagem. quando briguei com minha mãe.. com certeza se ele estivesse aqui conosco também teria se emocionado com a nossa história contada nesse livro. eu não sei o que seria da minha vida. O Lu Mounier conseguiu contá-la de uma maneira que não há como não se emocionar. ou até mesmo faça alguém derramar uma lágrima. ele simplesmente chega invadindo o coração.. Uma verdadeira lição de vida e um tapa na cara de quem não acredita em amor entre iguais. É possível sentir isso ao ler os pontos mais altos da história. tais como quando eu descobri que o Bader tinha HIV. mas se fizer com que as pessoas reflitam sobre suas atitudes com o próximo. ele ainda continua vivo em algum lugar esperando por mim. foi pensando assim. sem pedir licença. Ele não simplesmente a contou. Daniel Marzin 209 . o Bader não morreu. Caso contrário. para assim podermos dormir juntos pra sempre bem agarradinhos. Lu Mounier Lendo essa história é como se eu voltasse no tempo e vivenciasse tudo outra vez. comovendo e persuadindo à todos com o romance que protagonizam. Se até hoje eu consegui sobreviver. Quero dizer que pra mim. Foi um prazer imenso escrever esse livro.

livre de preconceitos que levam à discriminação e marginalização de pessoas que não seguem um estilo padrão de ser. uma relação de amor puro e verdadeiro. promíscuo entre outros rótulos. sofre e acima de tudo. Maneira como a sociedade vê as coisas. contrariando o praxys* social de que todo portador do HIV é gay. Por isso. mostrei através do Bader o exemplo de cidadão de bem. O grande sonho dos passionais é viver um relacionamento como o de Bader e Daniel. Mas querer é poder? Será que todos que leram a história. puta. 210 . ainda hoje em dia. Outra questão é a idéia que se faz da AIDS e a associação à homossexualidade. mas sim. O personagem Rodrigo. vai emagrecer. que é o sentimento. na qual explico da maneira mais clara e simples possível no livro.Comentário do autor Escrever o livro Um estranho dentro de mim exigiu além de dedicação. Acredito que o preconceito existe por dois motivos: um deles é a falta de informação e o outro é a preservação das regras culturais. logo vem a idéia de que todo portador é/foi promíscuo. Amar não é suficiente. pararam pra pensar em como sua vida seria se estivesse no lugar do Daniel? Assumir essa responsabilidade não é fácil. consome. que trabalha. imposto pela sociedade. sua individualidade e diferença que não são anomalias. ama. muito cuidado ao falar de temas tão mal vistos. Descrevi em sua história o lado que a maioria das pessoas não conhecem. é preciso ter muita coragem para encarar o mundo e os preconceitos. Esse livro não tem o intuito de fazer apologia à homossexualidade. mostrar que cada ser possui sua característica. chora. trás consigo toda a inocência e ternura. *Praxys: óculos da sociedade. vai depender de remédios à vida toda e rotulada como aidética. portador do vírus desde que nasceu. Quando se fala em HIV. para assim podermos viver em um mundo menos violento. Cabe a cada um de nós entender e respeitá-las. A riqueza de detalhes narrada por Bader Pires. que é a AIDS e homossexualidade. cativando os personagens centrais e leitores. os tornando parte do cenário descrito no decorrer da trama. envolve o leitor de tal forma a transportá-lo para o mundo dos personagens.

(20 de maio de 2005). (On-line). Alfredo.gapabahia.virushpv. ( 12 de maio de 2005). (On-line). Disponível http://www.br ADOLESITE. Aids.htm . (On-line).htm .com. (On-line). (20 SALVES.br/hiv. ACI DIGITAL.inca.br http://www.Hospital Jaraguá).adolesite. Disponível: http://www.aids. Biologia do HIV (On-line). Sobre o vírus HPV!?.br/virtua/aidsmanifestpsic.letras. GIV. Disponível: de maio de 2005) www.br http://www.htm . HPV.com. Como o HIV causa diminuição das defesas do organismo?.htm .gov. FIGUEIREDO. (Clínico geral – Hospital Jaraguá).Informações Bibliográficas Fontes de pesquisas: COSTA.dst.shtml . O que é a AIDS?. HPV – O que é?.aids.acidigital.uk/portuguese/especial/1357_biologia_aids/page5. Manifestações Psicológicas e Psiquiátricas.abcdainds.mus.com/aids/aids. (01 de junho de 2005). Disponível: http://br. Sites: http://www.org.yahoo.giv. (01 de maio de 2005). (2 de junho de 2005). Ministério da Saúde. (26 de maio de 2005).org.gov.com. Patrícia P.htm .com.br http://www.aids. (On-line). (On-line). Texto do e-mail de Bader: Tudo depende só de mim (CHAPLIN – Charles) 211 .bbc.com.co. Disponível: http://www.br http://www. BERNACCHI.answers.salves.com.br/int05.google. BBC Brasil.br/dstaids.com. Wilson José Miranda de (Clínico geral .br http://www. Ministério da Saúde. Disponível: http://www.br http://www. YAHOO! Respostas.com/question/index?qid=20060726074559AAzy3eo . Vírus / Ginaykos Serviços Médicos S/C Ltda. Disponível: http://www.br http://www.

Músicas citadas: Sous le vent – Celine Dion et Garou Composição: Paroles et Musique: Jacques Veneruso 2000 "Seul" Quem de nós dois – Ana Carolina Composição: Ana Carolina/Dudu Falcão/Gean Luca Grignani/Massima Luca Desenho de Deus – Armandinho Composição: Armandinho Como eu quero – Kid Abelha Composição: Leoni e Paula Toller Lá vem o alemão – Mamonas Assassinas Teto de vidro – Pitty Composição: Pitty Estúpido cupido .Celly Campelo Composição: Celly Campelo Outro lugar – Detonautas Composição: Rodrigo Netto / Tico Santa Cruz 212 .

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