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21 REIMPRESSÃO

Belo Horizonte Editora UFMG 2001

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separa e hierarquiza o espaço. direcionado por um paradigma emergente que. Até então.58) desenvolvem uma análise em que privilegiam a ação dos sujeitos. surgiu uma nova vertente de análise da instituição escolar. é entendida. ação-estrutura. a conservação ou destruição da memória coletiva." O reflexo desse paradigma emergente é um novo humanismo. analisam os efeitos produzidos na escola pelas principais estruturas de relações sociais que caracterizam a sociedade capitalista. portanto. na vida social e escolar. expõem a força das macroestruturas na determinação da instituição escolar. ~. Falar . A partir da década de 80. imposição de nonnas e estratégias individuais. Robert Dreeben. mas. dos sujeitos na trama social que a constitui. que coloca a pessoa. os sujeitosalunos. de outro. Nessa perspectiva. enquanto autor e sujeito do mundo. a fim de diferenciar trabalhos. presentes na história. Assim. no dizer de SANTOS (1987. tem como característica a superação do conhecimento dualista. ordenado em dupla dimensão. o processo educativo escolar recoloca a cada instante a reprodução do velho e a possibilidade da construção do novo. Ao contrário. Nessa perspectiva. de conflitos e negociações em função de circunstâncias determinadas. professores. que buscam unificar e delimitar a ação dos seus sujeitos. a instituição escolar seria resultado de um confronto de interesses: de um hiáó. EZPELETA & ROCKWELL 0986. que "define conteúdos da tarefa central. como um espaço social próprio.". Talcott Parsons. Em outras palavras. o controle e a apropriação da instituição. Bowles e Gintis. uma organização oficia] do sistema escolar. na relação com as estruturas sociais.. enquanto instituição. expresso na volta do sujeito às ciências: "O sujeito.Esta abordagem pennite ampliar a análise educacional. ao mesmo tempo que resgata o papel ativo dos sujeitos. reelaboração ou repulsa expressas pelos sujeitos sociais. Este ponto de vista expressa um eixo de análise que surge na década de 80. ou coletivas. organiza. a natureza e a sociedade são antes de tudo humanas. na medida em que busca apreender os processos reais.. e nenhum dos lados pode antecipar uma vitória completa e defInitiva. que leva em conta a dimensão '" ~ ~ do dinamismo.. tanto a natureza quanto as estruturas estão no centro da pessoa. Apreender a escola como construção social implica. (Idem). adultos e ~~ adolescentes. sob um olhar mais denso. Para as autoras. umas mais detenninistas. a realidade escolar aparece mediada.IO. das normas. atribui funções. PRIMEIROS OLHARES SOBRE A ESCOLA Analisar a escola como espaço sóciO<UlturaIsignifica compreendê-Ia na ótica da cultura. esse processo. seres humanos concretos. do fazer-se cotidiano. nas "teorias da reprodução" (Bourdieu e Passeron. (EZPEIEfA & ROCKWELL.~ sujeitos sociais e históricos. assim. Essa vertente se inspira num movimento existente nas ciências sociais. elaboração. por uma complexa trama de relações sociais entre os sujeitos envolvides. funcionários. .' da escola como espaço sócio-cultural implica. que a ciência moderna lançara na diáspora do conhecimento irracional. é heterogêneo. compreendê-Ia no seu fazer cotidiano. a criação e a transfonnação de conhecimentos. levado a efeito por homens e mulheres. Institucionalmente. assim. regressa investido da '. alunos e professores. em "cada escola interagem diversos processos sociais: a reprodução das relações sociais. Baudelot e Establet. entre outros). trata-se de uma relação em contínua construção. 137 A I f~COlA COMO f~~AÇO ~OC. como tal. a resistência e a luta contra o poder estabelecido". de transgressão e de acordos.. que ocorrem no interior da escola. .l1do as necessárias mediações. que criam uma trama-própria de interrelações. sujeito-objeto. no cotidiano. negros e brancos. e. incluem alianças e cpnfl-itos. onde os sujeitos não são apenas agentes passivos diante da estrutura. das práticas e dos saberes que dão fonna à vida escolar. englobadas. Um processo de apropriação constante dos espaços. atores na história. p. cotidianos. pela apropriação. as relações sociais". no centro do conhecimento.43). a instituição escolar era pensada nos marcos das análises macro-estruturais. nas "teorias funciona listas" (Durkheim. outras evidencia. que buscava superar os determinismos sociais e a dicotomia criada entre homem-circunstância.CUlTURAl ". resgatar o papel ~'\. ."". que. entre outros). de outro. Desta fomm.II i J U A R E Z D A y R E L i L tarefa de fazer erguer sobre si uma nova ordem científica. ou seja.1986). fazendo da escola um processo permanente de construção social. A escola.. . de um lado. por um conjunto de nonnas e regras. Cotidianamente. enfim. p. Essas abordagens. como espaço sócio-cultural. .. definindo a estrutura escolar e exercendo influências sobre o comportamento dos sujeitos sociais que ali atuam.~ '. trabalhadores e trabalhadoras. assim. definindo idealmente. Fruto da ação recíproca entre o sujeito e a instituição.

nos últimos quatro anos. repetindo-se todos os dias os gestos. são reduzidos a produtos. Como a ênfase é centrada nos resultados da aprendizagem. com a mesma organiZãção do trabalho escolar. disciplinado ou indisciplinado etc. conversas ao pé-de-ouvido. não faz sentido estabelecer relações entre o vivenciado pelos alunos e o conhecimento escolar. Tais conhecimentos. na periferia. outrOS sozinhos. de uma escola particular do centro. o processo de ensino/aprendizagem ocorre numa homogeneidade de ritmos. aparentando idades que variam de 15 a 20 anos. A entrada dos alunos na escola parece ser um ritual cotidiano. .como que a evidenciara passagem para um cenário. Esta é a fonte dos exemplos. situadas na periferia da região metropolitana de Belo Horizonte. Cumprimentos. professores e direção . É fruto também de uma pesquisa exploratória. independente da origem social. porém. predominando jeans e tênis. Vestem-se de fonnas as mais variadas. pois a resposta é óbvia: são alunos. das experiências vivenciadas. o A DIVERSIDADE CULTURAL Quem são estes jovens? O que vão buscar na escola? O que significa para eles a instituição escolar? Qual o significado das experiências vivenciadas neste espaço? Para grande parte dos professores. ou de uma escola noturna. existe uma outra entrada. o que é valorizado são as provas e as notas e a finalidade da escola se reduz ao "passar de ano". tendo como função garantir a todos o acesso ao conjunto de . E é essa categoria que vai informar seu olhar e as relações que mantém com os jovens. indiferente ao burburinho. risos. ou.1 texto que se segue expressa esse olhar e reflete questões e angústias de professores de escolas noturnas da rede pública de ensino.-. carros. alguns poucos mais velhos. Nota-se uma pequena agitação. o conhecimento escolar se toma "objeto". Alguns rapazes chegam à porta das lojas. O espaço é claramentedelimitado. Os alunos que chegaram. A escola é vista como uma instituição única. É comum e aparentemente óbvio os professores ministrarem uma aula com os mesmos conteúdos. Começam a entrar por um portão de ferro inteiriço. um rapaz sai do seu grupo e vai até as moças e diz algo que provoca sonisos. Para esses professores. na sua llli\ioriajovens. paquera. Nessa lógica. ~ entrando em seguida no pátio coberto da escola. padaria. A escola ocupa todo um quarteirão. das experiências vivenciadas. principalmente mulheres. mesma grade e currículo. em momentos de encontro.--. "'Ii ~ - _ 139 . mesmos recursos e ritmos para turmas de quinta série. A diversidade real dos alunos é reduzida a diferenças apreendidas na ótica da cognição (bom ou mau aluno. negros. 138 objetivos. realizada em 1994. a compreensão das suas atitudes e expectativas. Um casal de namorados se beija. falas. perguntas como estas não fazem muito sentido. ônibus. grupos misturados. encostado no muro sob uma árvore. alguns em grupos. Além do portão. a instituição escolar'!'geveria buscar atender a todos da mesma forma. São 18:30h e a escola dá o seu primeiro sinal. indep~ndetite do sexo. locadora de vídeo. bares etc. Rapazes e moç-dScontinuam chegando aos poucos. "coisa" a ser transmitida. desconsidera a totalidade das dimensões humanas dos sujeitos alunos. todos são considerados igualmente alunos. de um passatempo. Existe um clima de desejo no ar.próprios do "mundo da esooIa8!.) ou na do comportamento (bom ou mau aluno. A prática escolar. procuram a escola com as mesmas expectativas e necessidades. o que lhe dá uma aparência pesada. obediente ou rebelde. Ensinar se toma transmitir esse conhecimento acumulado. com os mesmos sentidos e OS ALUNOS CHEGAM À ESCOLA Um som estridente de campainha corta o ar. professores e funcionários que dela participam. Dessa forma. simplesmente. Grupo de rapazes. espalhados pelo largo formado pela confluência de três ruas. Materializado nos programas e livros didáticos. e aprender se toma assimilá-Ia. . resultados e conclusões. açougue. até esse momento. É um pequeno centro comercial de um bairro de periferia. bem diferentes daqueles que desempenham no cotidiano do "mundo da rua". os alunos descem por uma rampa ao lado de um pequeno anfiteatro e entram por um outro portão. onde deixam a caderneta com uma servente.). justificando-se a desarticulação eYJstente-entre o conhecimento escobl:' e a vida dos aiunos.destas escolas deixo os mêus' agradecimentos. Assim. da idade. por exemplo. A homogeneização dos sujeitos como alunos corresponde à homogeneização da instituição escolar. Aos alunos. esperando pelo movimento. entre o escolar e o extra-escolar. da idade. mulatos. na região metropolitana de Belo Horizonte: lojas. através de uma garagem por onde passam os professores. cercada por muros altos. ~"__ Mas é no momento do sinal que aumenta o volume de pessoas chegando. onde vão desempenhar papéis específicos. esforçado ou preguiçoso etc. das cenas e das situações reais aqui apresentadas. sem se levar em conta o valor determinante dos processos. Olhares sugestivos acompanhados de comentários e risos. Brancos. grupo de moças. sentimentos. em duas escolas públicas noturnas. compreendida como universal. ~ '11:. se encontram em grupos. nessa lógica. da origem social. conhecimentos socialmente acumulados pela sociedade. de uma escola pública diurna.. Após o portào. juntando-se ao burburinho de vozes. pintados de azul. com os quais venho trabalhando e aprendendo através de assessorias e cursos de aperfeiçoamento. estratégias e propostas educativas para todos.

não cabendo aprofundar a questão. grande parte deles com pouca escolalidade. no âmbito deste trabalho. Reduz os sujeitos a alunos. Afinal de contas. Estes experimentam suas situações e relações produtivas como necessidades. O mundo que rodeia o desenvolvimento do aluno é hoje. espaços e criações culturais. escalas de valores. ao chegar à escola. Uma outra fOm1a de compreender esses jovens que chegam à escola é apreendê-Ios como sujeitos sócio-culturais. Essa perspectiva implementa a homogeneidade de conteúdos. em virtude da quantidade e qualidade de suas experiências e relações sociais. ritmos e estratégias. (Tradução minha). mas constitui-se e se produz como tal.. O '. Como lembra rnOMPSON (984). e não a diversidade. emoções. assim.uma dara construção social onde as pessoas. ou seja. temos de levar em conta a dimensãe"<ia' "experiência vivida". Assim. o das interações dos indivíduos na vida social cotidiana. uma realidade única. mais que nunca. a principio.. se apropliam dos significados que se lhes oferecem e os reelaboram. O que cada um deles é. LARAIA(1986).à atividade mental humana. agindo confom1e a situação deten11inada. crenças.não é só nem prindpalmente o universo físico. através das quais podem elaborar uma cultura própria. à realidade onde se inserem. onde os indivíduos se identificam pelas fOn11as próprias de vivenciar e interpretar as relações e contradições. o que produz uma cultura próplia. são dimensões . sentimentos. Há múltiplas realidades como há múltiplas formas de viver e dar sentido à vida. fOm1ando.lCeSso bens f'l1lh1T::!is VaLdefinir. objetos. entre si e com a sociedade. Assim. o fato de serem filhos de trabalhadores desqualificados.. com suas características próprias. 141 Nesse sentido. valores. interesses e antagonismos e elaboram essa experiência em sua consciência e cultura.que os ãlü~nos chegam à" escola marcados pela diversidade. espaçGs e ritmos bem como o seu fracasso. Não há portanto um mundo real. para compreenrlêdo.seuJ1íveLde. ou seja. num processo contínuo de passagem da natureza para a cultura. com suas próprias estruturas. cuja estrutura não dependeu desse sujeito. havendo mais de 300 conceitos cunhados.Sob o discurso da democratização da escola. com visões de mundo. entre outros aspectos. independentemente da ação de cada um.as aos f'te experiências que cada um dos alunos teve e a que têm acesso.70): o mundo real não é um contexto fIXO. apreendidos sobretudo pela dimensão cognitiva. (VElHO. prévias e paralelas à escola. Essa outra perspectiva implica em superar a visão homogeneizante e estereotipada da noção de aluno. nenhum indivíduo nasce homem. É o nível do grupo social. com lógicas de comportamentos e hábitos que lhe são próprios. É onde os jovens percebem as relações em que estão imersos. Assim. reflexo dos desenvolvimentos cognitivo. sentem e atribuem sentido e significado ao mundo. Ao mesmo tempo. Expressa uma lógica instrumental. Em outras palavras. evidentemente desiguais. uns "óculos" pelo qual vêem. entre outros. que ten11inam por definir a própria natureza humana. os resultados da ap'rendizagem e não '0 processo. Para um maior aprofundamento. Como afuma-SACRISTÁN0994t p. em virtude das coordenadas sodais e históricas que detenninam sua configuração. - Nessa perspectiva. cada indivíduo. enquanto indivíduo que possui uma historicidade. que reduz a compreensão da educação e de seus processos a uma fOm1ade instrução centrada na transrrlissão de infom1ações. VELHO (1978). não podemos esquecer o que essa lógica esquece . inseriu-se numa sociedade que já tinha uma existência prévia. é fruto de um conjunto de experiências sociais vivenciadas nos mais diferentes espaços sociais. o cotidiano se toma espaço e tempo significativos. vai sendo construído e vai se construindo enquanto ser humano. essa perspectiva homogeneizante expressa uma detemunada forma de conceber a educação. é a experiência vivida que pen11ite apreender a história como fruto da ação dos sujeitos. porém. ou mesmo da escola única. 1994). rede de significados: expressões simbólicas da inserção dos indivíduos em deten11inado nível da totalidade social. visão de mundo. dando-Ihe um outro significado. a experiência vivida é matéria-prima a partir da qual os jovens articulam sua própria cultura. I 140 . dentro do projeto de humanidade do seu grupo social. buscar. a raça. CANCLINI(1983). portanto. GEERlZ (1978). um leque mais ou menos definido de opções em relação a um destino social.1aqui entendida enquanto conjunto de A discussão a respeito do conceito de cultura no campo da antropologia não é consensual. Mas como se dá esta produção numa sociedade concreta? Quando qualquer um daqueles jovens nasceu. traduz um projeto político pedagógico que vai infom1ar o conjunto das ações educativas que ocorrem no interior da escola. não foi produzida por ele.. preexistente . O tratamento uniforme dado pela escola só vem consagrar a desigualdade e as injustiças das origens sociais dos alunos. Explica-se assim a fOn11acomo a escola organiza seus tempos. São as macroestruturas que vão apontar. _cqnh~çimento é visto como produto. DURHAM(1984). seus padrões de c:ompOIT::!mf'nto.. projetos. os alunos já chegam à escola com um acúmulo de experiências vivenciadas em múltiplos espaços. o ser humano e seus processos fom1ativos. o gênero. políticas ou sociais adquirem um sentido peculiar.que vão interferir na produção de cada um deles como sujeito social. Trata-se de compreendê-Io na sua diferença. histórica. sendo enfatizados. desejos. afetivo e social. ao nascer. existe um outro nível. sob a lirrlitação das condições dadas.

assim como também o cotidiano difuso do trabalho. isto é. a educação tem um sentido mais amplo. lugar e papéis sociais.. em que os indivíduos vão larwando mão de um conjunto de símbolos.Um projeto é elaborado e construído em função do processo educativo. a maioria. O lazer é bem diferenciado. Aderem a religiões diferentes. A educação. p. num constante reiniciar as relações com grupos de amigos e formas de lazer.A noção de projeto é entendida como uma construção. uma Abordagem processo com detalhes. em que a diversidadenão é apenas a expressão de particularidades do modo de vida. nem sempre pode ser explicada apenas pela dimensão das classes sociais. e interpretam de forma peculiar os diferentes equipamentos simbólicos da sociedade. mas aparece como "manifestaçõesde oposições ou aceitações que implicam num constante reposicionamento dos gTllpoS sociais na dinâmica das relações de classe". e expressàm uma das dimensões da heterogeneidade. cujos limites estão fixados pela estrutura material e simbólica da sociedade. expressam a diversidade cultural: uma mesma linguagem pode expressar múltiplas falas. como habitantes de uma sociedade complexa. pentecostais.culturaise políticos. por exemplo. Para uma discussão detalhada sobre este processo de fonnação.(Idem. Passam a trabalhar muito cedo em ocupações as mais variadas. produzem os indivíduos em suas realidades singulares e mais profundas. um rumo de vida.conscientes. (VElHO. a educação e seus processos é compreendida para além dos muros escolares e vai se ancorar nas relações sociais: São as relações sociais que verdadeiramente educam. étnicas.quando procuramos compreender a cultura xavante.diferente de tratá-Iaentre diversassociedades. outros. de uma pluralidade de tradições cujas bases podem ser ocupacionais.). Constitui.Em outras palavras. p. A diversidade cultural. Essamesma diversidadeestá presente na elaboraçãoe na expressão dos projetosindividuaisdos alunos.Dessa forma a heterogeneidadeculturaltambém tem uma conotação político-ideológica.a princípio. O campo educativo onde os jovens se inserem. Nessa medida. Portanto. ou seja. numa relação de oposição . urbana e industrial. dois conjuntos culturais básicos. apresenta uma ampla diversidade de experiências. haffi1oniosa ou não. igreja etc. nos adverte Eunice DURHAM (1984).complementar. ver o texto: "A Educação do Alternativa". 1987." (VELHO. 1992. estamos lidando com diferenças que expressam manifestações de uma mesma capacidade humana criadora.na perspectivatanto de expressaras especificidadesdas condições de existênciaquanto de formularinteressesdivergentes. Porém. construindo identidades cujas fronteiras simbólicas não são demarcadas apenas pela origem de 'classe. num diálogo constante com os elementos e com as estruturas sociais onde se inserem e as suas contradições.. experimentam morar em diferentes bairros. quase sempre restrito. Nesse sentido. umbandistas etc. onde a escolase inclui. representando uma orientação.. já o dividem com a família. do lazer etc. qualitativamente. como evidenciamos 143 142 . o que vai delinear as classes sociais.2 Os alunos podem personificar diferentes grupos sociais. raça.fruto de um processohistóricoindependente. ancoradas em avaliações e definições de realidade. em determinado momento histórico. 1987). A diversidade cultural na sociedade brasileiratambém é fruto do acesso diferenciadoàs informações.35). católicos. expressões de um gênero. esses jovens que chegam à escola são o resultado de um processo educativo amplo. com os elementos culturais a que têm acesso. marcadas pela própria divisão social do trabalho e das riquezas. É preciso levar em conta uma heterogeneidade mais ampla. que ocorre no cotidiano das relações sociais. (ENGUITA. que constituem os -alunos como indivíduos concretos.o que promove a utilizaçãodistintado universo simbólico.. apesar da aparência de homogeneidade. Alguns ficam com o salário. Dessa forma.-. que faz com que os indivíduos possam articular suas experiências em tradições e valores.. oc~rre nos mais diferentes espaços e situações sociais.frutode escolhasracionais. É um processo dinâmico. por exemplo.às instituiçõesque assegurama distribuiçãodos recursosmateriais. (DAYRELL. do bairro. num complexo de experiências. os alunos vivenciam experiências de novas relações na família. quando os sujeitos fazem-se uns aos outros.' entre àútras. criativo. Nenhum indivíduo nasce homem. religiosas etc. relações e atividades. estão incluídas as instituições (família. "fruto da coexistência. reelaborando-os a partir das suas interações e opções cotidianas. p. escola. é o processo de produção de homens num determinado momento histórico. culturalna sociedade moderna: a oposiçãoculturaeruditax culturapopular. devido à falta de recursos.r:1 .2). 1992. onde busco recuperar este 1 Aluno Trabalhador. no entanto. I .16). Outra coisa é lidar com alguma expressão da cultura popular.1990). formam. pertencem a grupos de indivíduos que compartilham de uma mesma definição de realidade. portanto. sua consciência individual e coletiva. São essas experiências. a linguagem. de padrões de normalidade. Nesse campo educativo amplo. ininterrupto. Assim. de escalas de valores.tratar a heterogeneidade culturalno âmbito de uma mesma sociedade é. DAYRELL..

II os projetos dos alunos. quanto pelos professores. Quando essa ordem de valores éticos é rompida ou não é transmitida às novas gerações. bem como nas relações que vão privilegiar. sobre sua própria experiência) e ampliação dos projetos dos alunos? Essa questão se torna mais presente quando levamos em conta as observações de Gilberto Velho: ." '<"' fruto das experiências vivenciadas dentro do campo de possibilidades de cada um..tO' ou maIs restnto. . maIs ou menos conscIente. instala-se a violência. conhecendo as dimensões culturais em que ele é diferente. Com isso. "' - . sempre no contexto do campo educativo ou de um "campo de possibilidades". Implica buscar uma compreensão totalizadora desse outro.Ii seu projeto individual vai espelhar este momento que vive. mais marcada será a sua autopercepção de individualidadesingular. ou seja. quanto mais tiver de dar conta de ethos e visões de mundo contrastantes. II " i! para um mesmo território. uma razão para estar na escola.32). na cultura e no trabalho". com u~ sabe~. 1986. o lugar onde se aprende a ser "educado". conhecendo "não apenas o mundo cultural do aluno mas a vida do adolescente e do adulto em seu mundo de cultura. ° que implicam estas considerações a respeito da diversidade cultural dos alunos? "- Um primeiro aspecto a constatar é que a escola é polissêmica.cultura. amplq'. a experiências culturais significativas? Pensando no exemplo do adolescente em crise. que o domínio mord. ou seja. afirmamos que todos os alunos têm. os alunos que chegam à escola são sujeitos sócio-culturais. 145 . fabricada dentro de uma experiência cultural específica. mais. principalmente se levamos em conta. as respostas são variadas: o lugar de encontrar e conviver com os amigos. as questões e interrogações postas por um adolescente serão muito diferentes das de um jovem de 18 anos e. Um adolescente. como uOLdado. quanto menos fechada for sua rede de relações ao nível do seu cQtidiano. na sociedade democrática. por exemplo.universa!.. não teríamos de fazer da escola um lugar de reflexão (re-fletir. está às voltas com sua identidade sexual. ou seja.- Um segundo aspecto é a articulação entre a experiência que a escoIã '_. pela família. I ~ A escola não poderia ser um espaço de ampliação de experiências? Considerando-se principalmente a realidade dos alunos dos cursos noturnos. o lugar onde se aumentam os conhecimentos. onde se insere o indivíduo. pelos colegas no trabalho. A escola é parte do projeto dos alunos.l situa-se na ordem da razão. no cotidiano escolar. possam resgatar a diferença como tal e não como deficiência. no contexto de um plano de futuro. Sobre o significado da escola. ~r' comunicação de massa. ao imaginário sobre as fases da vida. iif ~ Portanto. com um sentido úniCO. não podemos consideráda. Diferentes significados. que lhes é negado. (BRANDÃO. examinando as suas experiências cotidianas de participação na vida. Se partíssemos da idéia de que a experiência escolar é um espaço de formação humana ampla. tem uma multiplicidade de sentidos. Um fator que interfere nesta dinamiddade é a faixa etária e o que ela possibilita enquantõ vivêndas. acima. Concretamente. . dependendo da cultura e projeto dos diversos grupos sociais nela existentes. e. de uma fOIll1a ou de outra. Essa vanavel remete ao amadurecimento psicológico. podendo ser reelaborado a cada momento. voltar sobre si mesmo. nestes tempos pós-modernos. suas relações podem estar sendo significados de fom"la diferenciada. e não apenas transmissão de conteúdos. no contexto sócio-histórico-cultural concreto. quanto mais exposto estiver o ator a experiências diversificadas.1987.. 144 ~" .(VELHO. Quais espaços e momentos podem contribuir para que ele se situe em relação ao mundo em que vive? A família. oferece. de tal forma que. corresponderá uma maior elaboração de um projeto.fJrinc:ipa1==--= mente quando este é defmido previamente pelo sistema ou pelos professores. mas sempre eXIstente. a escola não poderia estar ampliando o acesso. podemos nos perguntar também sobre quais lugares ele possui para refletir sobre suas questões e angústias pessoais. seus tempos. Por sua vez. de um adulto de 30 anos. da qual a educação é o instrumento. tanto pelos alunos. Sendo assim. com seu papel no grupo: o que é ser homem? o que é ser mulher? Pode estar perplexo diante dos diferentes modelos sociais de homem e mulher que lhe são passados pelos meios ~. aos papéis socialmente construídos. uma . tem dado conta de responder a demandas desse nível? São questões que remetem a uma reflexão sobre a função social da escola e seu papel no processo de formação de cidadãos.BARRETO (992).certamente irão influirno comportamento dos alunos. como Vicente . e também ~om um projeto. Tais implicações desafiam os educadores a desenvolverem posturas e instrumentos metodológicos que possibilitem o aprimoramento do seu olhar sobre o aluno. Essa discussão se torna cada vez O1aisurgente. o lugar onde se tira diploma e que possibilita passar em concursos. referido anteriormente. mais ainda. como "outro". Um outro aspecto do projeto é a sua dinamicidade. na forma como estrutura o seu projeto político-pedagógico. e elaboram isto de uma fOIll1a mais ampla ou mais restrita. a essa consciência da individualidade. e que circunscreve suas possibilidades de experiências. Dizer que a escola é polissêmica implica levar em conta que seu espaço. política e cultural. Certamente" ~. tornando inviável a vida social. p.

Um casal que está se beijando num canto é " repreendido pela servente: o namoro é proibido na escola. Desde a fonoa da construção até a localização dos espaços. em tomo da porta. -~.' realidades: o mundo da rua e o mundo da escola. Já o do lado esquerdo dá para um desnível. Salas. sem nenhum apelo. Conversam entre si. ~ 146 fonoalmente. Fica evidente que essa re-significação do espaço. como que a tentar separar algo que insiste em se aproximar. porém. Da mesma forma.. recriando neles novos sentidos e suas próprias formas de sociabilidade. Assim. Éa própria forçatransformadorado uso efetivosobre a imposição restritiva dos regulamentos. também os 147 . Nesse sentido.. na defmição das funções para cada local. O e"Spaço arquitetônico da escola expressa uma determinada concepção educativa. com isso. o pátio se -toma de lugar de encontro. O território é construído de forma a levar as pessoas a um destino: através dos corredores. as mesas do pátio se tomam arquibancadas. a arquitetura escolar interfere na fonoa da circulação das pessoas. As paredes são lisas. Umas param e ficam também a conversar. Logo os professor~. uma biblioteca e uma sala um pouco maior transformada em auditório. levada a efeito pelos alunos. existem 4 mesas grandes. e se dirigem para um grande pátio coberto. Mas.139). segundo princípios racionais. a geografia escolar e. São 18:35h e os alunos continuam entrando pelo portão gradeado. para compreender o outro. que é hora de iniciar o turno. além da sala de aula. nesse momento. A biblioteca fica num canto do prédio. como adolescentes e adultos reais. Um primeiro aspecto. que pode não coincidir com o dos professores e mesmo com os objetivos expressos pela instituição. permite uma boa visão de quem se aproxima. é o lugar preferido dos poucos casais de namorados. É grande a algazarra. O outro bloco tem um grande pátio coberto. perto da cantina. expressa sua . Uns param no pátio. Os aJunos. confinada à sala de aula e à instrução. com uma quadra de futebol embaixo. que a rigor não lhes pertencem. é o seu isolamento do exterior. Nesse pátio. Há um pequeno pátio descoberto entre os dois blocos: um pouco mais escuro. na frente das salas.1 p. se apropriam dos espaços.observação do movimento. O corredor do fundo se toma o local da transgressão. gritos. ritmos e tempos.se para as salas e o pátio fica vazio. onde estão os banheiros. conversando em grupos. que chama a atenção. pátio. pelos corredores. para a sala de aula. corredores. tal como afirmamos anteriormente. de madeira. fazendo delas uma arquibancada. risos. de relacionamentos. brincando com outros. o espaço físico é rígido. a escola ocupa um grande espaço. que expressam uma expectativa de comportamento dos seus usuários. Dessa forma. pensado para locomoção. No meio do bloco há um pequeno corredor que liga os dois lados. pois. pela segunda vez. vazia. Com o sinal efetivo do começo das aulas. onde muitas vezes os alunos colocam cadeiras. que dão acesso às salas de aulas. Há um movimento pelos corredores. em grupos.. cada um destes-locais tem uma função defmida a priori. baixas. Um menor. No seu conjunto. começam a passar pelo pátio e alguns alunos vão procurar um ou ou~ professor. os alunos encaminham:. pontos privilf'Zi::!dos . som de vozes. em frente à cantina. não só os alunos re-significam o espaço. AS MÚLTIPLAS DIMENSÕES EDUCATIVAS DO ESPAÇO ESCOLAR o som estridente da campainha volta a soar. Nesses momentos. por exemplo.compreensão da escola e das relações. . têm um sentido próprio. mexem com os outros. Grupos sentam-se sobre as mesas. matar aula. o locus central do educativo. misturam-se alunos de diferentes turmas. Nenhum local. Assim. de professores. espremida num espaço reduzido. tudo é delimitado . cantina. a fal14de cor. cartazes anunciando festas e alguns avisos da escola. a pobreza estética. . de estímulos visuais. sala dos professores. alguns alunos esperam a chegada dos professores. O pátio do meio é re-significadocomo local do namoro. Entram sozinhos. avisando. "'"'~ daquele de quando estão fora da escola. para os alunos "tomarem a merenda". deixam entrever a concepção educativa estreita. O corredor. A ARQUITETURA DA ESCOLA A arquitetura e a ocupação do espaço físico não são neutras. contribuindo para a disciplinação. 'i. Apenas há.Tal postura nos desafia a deslocar o eixo central da escola para o aluno. A escola tenta se fechar em seu próprio mundo. É formada por dois grandes 'k. onde ficam escondidos aqueles que "matam"aulas. para os alunos. e. chega-se às salas de aula. deixando as cadernetas com a servente. frio. é também utilizado para encontros. pouco estimulante. retangular. é pensado para atividades pedagógicas. que termina na cantina e em dois longos corredores laterais. boa parte da escola é pensada para uma locomoção rápida. Como nos lembra Malinowski. de vida. brincam com as meninas que passam. alguns seguem direto. a própria escola. . além de mais escondido.~ blocos. Parece ser um lugar pr6'prio para qualquer transgressão. É perceptível um "clima" diferente. O corredor do lado direito é limitado pelo muro alto que cerca a escola. com ênfase na valorização da dimensão do encontro. Vista de dentro. com suas regras. Os muros demarcam claramente a passagem entre duas '. com salas da administração. é necessário conhecê-Ia.

quando os alunos ficam mais soltos. quando as relações tornam-se mais fugazes. predo-mina um tipo de relação. o tempo é sempre curto para um fluir das relações. tais como tamanho da sala. as demandas individuais e as expectativas com a tradição ou a cultura da escola. quase sempre rapazes. fora ou dentro da sala. ou porque.tomando-se a "tunna de trás". MACLAREN 0991. Assim. É a formação de "panelinhas". que parecem não se ligar a nenhum dos grupos. como essas. sua linguagem. os corredores. ou porque não se identificam. Na medida em que a escola não incentiva o encontro. os CDF. coincide com os comportamentosdos grupos: a turma da bagunça tradiciullahm::llte-ucopa--oi"undo'Ja'saia. uma experiência peculiar. e também professores. mas com características próprias. quase sempre identificadas por algum dos estereótipos correntes: a turma da bagunça.seu regime peculiarde produção e gestão de . comentáriossobre alguma moça ou rapaz. Os alunos de diferentes tumlas se misturam. carteiras pesadas etc. É isto que faz de cacb" . A ocupação dos territórios. num footing pelo pátio. Interfere aqui a mobilidade dos alunos entre escolas. culturas.131) classifica como "estados de interação" os diferentes estilos de relação. combinações. é pouco discutida entre os educadores. pór exemplo. Há um clima diferente entre o encontro no início das aulas.as relaçõestendem a ser superficiais. sua cultura. e nesta. Atividades. É muito comum. Em cada um deles identifica conjuntos organizados de comportamentos. a sala de aula materializam a convivência rotineira de pessoas. no cotidiano esc0iar. Ao mesmo tempo.'. p. paqueram. seja fora ou dentro da escola. ocasionalmente. ampliando ou limitando suas possibilidades. cotidiano escolar. "estudante". são inÍormados por concepções geradas pelo-= diálogo entre suas experiências.seu imaginário.Durante a observação. ou ao contrário. sentam-se sobre as mesas no pátio. leva seus alunos para as mesas do pátio. É a convivência rotineira de pessoas com trajetórias. programasde televisão. conversam. dos quais emerge um sistema de práticas vividas. de 26 alunos. A sala de aula também é um espaço de encontro. a cultura da escola são suas características de vida própria. regras e sanções. também é dinâmica. "santidade" e "de casa". com mais avisos~'recados. É o momento da fruição da afetividade. Sendo assim. com comportamentos e atitudes próprios. Enquanto uns merendam. É também comum haver grupos menores nas salas jogando truco.. O pátio. pois passam a assumir um papel específico. No momento em que os jovens cruzam o portão gradeado. numa clara relação entre tempo e espaço.nunca tive oportunidade de presenciaralguma conversa que aprofundasse mais algum tema. são excluídos. seus símbolos. Ao mesmo tempo. que passam a dividir um mesmo território. Não se leva em conta que a arquitetura é o cenário onde se desenvolve o conjunto das relações pedagógicas.Com as conversas e brincadeiras ocorrendo preferencialmente no interior de cada um deles. professores o fazem. de alguma forma. é preciso estarmos atentos à forma como os alunos ocupam o espaço da escola e fazermos desta observação motivo de discussões entre professores e alunos. Alguns grupos de moças ficam andando por ali. Como expressão da cultura. professores desenvólverem pouco trabalho de grupo com seus alunos. por afinidades. além de ser o da alimentação. escola.. os mauricinhos. tanto quanto no trabalho. Alguns ficam em sala ou pelos corredores. fOffi1ando grupos de interesse. formam-se subgrupos. Identifica quatro estilos básicos: estados de "esquina de rua". Essa questão. os CDF ocupam as cadeiras da frente. em dias de muito calor. O recreio é o momento de encontro por excelência. ocorre um "rito de passagem". interesses diferentes. Uma das professoras dessa escola descrita. dificultaa sua concretização. de cada turno. A DIMENSÃO DO ENCONTRO As cenas descritas evidenciam que a escola é essencialmente um espaço coletivo de relações grupais. ou mesmo no bairro. outros. 149 . Mesmo que os alunos. fazendo dali uma sala de aula. há vários alunos "soltos".4 Em qualquer um dos lugares mencionados. se efetivanç10 de fato quando OS sujeitos se apropriam desse imaginário e o reelaboram no seu cotidiano. 148 . em nome de dificuldades. pelo menos por um ano. ore-signifiquem. 10 haviam chegado h ~ I I. para desvelar e aprofundar a polissemia da escola. dependendo do momento em que ocorrem. discutem. existe um limite que muitas vezes restringe a dimensão educativa da 'escola. Na sala de aula observada. e o da hora da saída. no entanto.com as conversas girando em tomo de temas como paqueras. cada grupo tem regras e valores próprios. 3 Para FORQUIN (1993). e muito. muitas vezes. Em cada Ürridestes momentos. é a "tunna do gargarejo". em pequenos grupos. os comportamentos dos sujeitos.3 A forma das relações entre os sujeitos vai variar também. · Refletindo sobre as diferentes forn1as de interação entre os alunos e destes com o ambiente no ritmos e ritos. entre amigos. ele se dá sempre nos curtos espaços de tempo permitidosou em situações de transgressão. poderiam contribuir. interesses comuns etc. Uma discussão sobre a dimensão arqu'itetônica é importante em um projeto de escola que se proponha levar em conta as dimensões sócio-culturais do processo educativo. para o prazer de todos. diferente daquele desempenhado em casa. Neste sentido.

No entanto. permite o acesso aos códigos culturais dominantes. São momentos mais intensos. este conjunto absolutamente ordenado. Ao mesmo tempo. detenninava relações e era determinado por relações sociais. confronto de valores e 'visões de mundo.-. desfazendo as "panelinhas". ligado ao fazer. 150 . Em boa medida. Além desses. Alguns servem para fortalecer emocionalmente alunos e/ou professores. há um outro tipo de rituais. ainda. _ " cia de convivência com a diferença. BRANDÃO0986. sempre foi da interação justamente entre este lado livre e permissivo da iniciativa discente. são momentos que garantem a reprodução de valores considerados universais na nossa cultura. p. Já. lidar com a diferença. levados a efeito pela escola. regrado e criativo de práticas escolares. as turmas são misturadas. como é o caso das festas juninas. e não apenas pedagógica e formalmente pensada. como o dar aula. ou são simplesmente profanas e profanadoras o bastante para não ser consideradas.!:'. Comentando sobre esse aspecto. Potencialmente. 994). outros eI)f~tizam a memória coletiva. contribuindo. quando não reprimidos. É o que muitos autores entendem como "cu1!Í-<~ culo oculto". na maioria das vezes implícita. era apenas um breve corte. a vivência do tempo é específica. do trabalho. ao mesmo tempo internas e externas aos limites da norma pedagógica. E. que não a potencializa. . e os mecanismos pedagógicos de controle docente. a sala de aula fundona não como o corpo simples de alunos-e-professor.'!<~ 1 a relação com os professores.121). de acordos. (SILVA. passa~tMoo. Independente dos conteúdos ministrados. de imposição de normas e estratégiasindividuaisou coletivas de transgressão. = com vários eventos ocorrendo ao mesmo tempo e os alunos podendo se envolver com todos eles. correm como inexistentes. Olhar a instituição escolar pelo prisma do cotidiano permite vislumbrar a dimensão educativa presente no conjunto das relações sociais que ocorrem no seu interior. Em cada situação. de uma forma qualitativamentedistinta da famíliae.. p. a escola se torna um espaço de encontro entre iguais. A própria atividade escolar. A tendência é separar as turmas anualmente. numa lógica que privilegiao bom comportamento em detrimento da possibilidade de um aprofundamento dos contatos. autônoma e transgressivamente pedagógicas. onde as pessoas estão lidando constantemente com as normas. havendo oportunidade para os alunos falarem de si. fazer prova. . na dinâmica cotidiana da sala de aula e mesmo da vida da escola. Os tempos que a escola re~erva--para-atividades dc' socialização são mínimos. de alguma forma. principalmente. sentimentos. do Dia dos Professores ou Dia das Mães. Como lembra BRANDÃO(1986.:. um contínuo "transformar a impaciência em hábito". É o caso da Semana da Pátria. à revelia da escola. que se expressa nos gestos e posturas acompanhados de sentimentos. separando os "bagunceiros". Outros funcionam para tentar injetar uma renovação do compromisso com as motivações e valores dominantes. com o conflito. que demandam um investimento maior dos professores e um maior envolvimento dos alunos.at. É o caso da Semana do Estudante. Mais uma vez a escola expressa a lógica instrumental. interagia com as "atividades planejadas".o tempo na sala de aula tende a ser longo. num claro processo de disciplinação. egidos por prindpios r igualmente simples que regram a chatice necessária das atividades pedagógicas" . De qualquer forma. A questão que se coloca é que essa dimensão ocorre predominantemente pela prática usual dos alunos. Os diferentes comportamentos dos alunos. nesse último ano. há uma dimensão simbólica. trocarem idéias. principalmente na ótica dos alunos. o tempo do recreio é sempre curto. que a própria vida real da escola se cumpria como uma realidade social e culturalmente existente. Todos eles . 151 Em cada um desses espaços e momentos. desbragada e não visivelmente estruturada.. é (mas poderia ser muito mais) um momento de aprendizagem de convivência grupal. da postura metodológica dos professores.Assim. Podemos dizer que a escola se constitui de um conjunto de tempos e espaços ritualizados. .1 ." A sala de aula organiza sua vida a partir de uma complexa trama de relações de aliança e conflitos.. permite a aprendizagem de viver em grupo. independente da intencionalidade ou dos objetivos * explícitos da escola. no entanto. há um reiniciar constante das relações. De uma forma mais restrita ou mais ampla. é um espaço potencial de debate de idéias. dificultando o seu desenvolvimento.-. Possibilita lidar com a subjetividade. Cada um dos seus rituais possui uma dimensão pedagógica. os limites e a transgressão. Vista por esse ângulo. ligados às datas comemorativas. Se. que interagia.119) afirma: Aos olhos do observador formal esta face tribal. em cada ano. poderoso e impositivo. possibilitando a convivência com a diferença. ô cotidiano -fia sala de aula reflete uma experiên:-. Outro fator que interfere nos agrupamentos são os critérios de enturmação. necessários para se disputar um espaço no mercado de trabalho. na construção dos elementos de uma "identidade nacional".3:ndolembranças que manifestam a tradição de um grupo. a semana de provas são exemplos desses rituais escolares. que interfere no processo de formação e educação dos alunos.

José começa a conversar com Angela. desvalorizando. Começa a~éscrever um "resumo" no quadro. abraços. Ao meu lado. A sala está vazia: dentro. Dessa 153 !. sério. São onze alunos de uma turma de vinte e seis. Os professores. e começam a escrever. com ênfase na relação com os professores.i !l! 11' w j: r li 1'1 I . na concretude das relações vivenciadas. mas ri.. se despede. construção de imagens e estereótipos. por trás desta aparente obviedade. Ele me vê observando a conversa e pisca para mim.. o "bagunceiro". uns mais envolvidos que outros. O que é uma sala de aula? Uma turma de alunos. nas relações no interior da escola. Prof. continua escrevendo no quadro. em constante bagunça. até às 18:50. uns interessados e bem comportados. mas sem nenhuma relação com o que se passa na sala. lá de trás. Na relação entre professor e aluno. coloca seu caderno na mesa e começa a andar pela sala. A cada aluno que vai chegando. a "chatice" . sentada na sua frente. o "tímido".carteira. a geografia''da América-do Norte. S. ouvem música. valorizando. conrrnaior-ou menor proximidade. porque há uma regra implícita de não se namorar alguém da própria sala. começa a explicar a matéria: a explicação se baseia no resumo que está " no quadro. alunos e professores.. mesmo assim. Os quatro restantes estão calados. o "doidão". Educação Artística.altera-se o clima: sempre alguém tem algum comentário. existe um discurso e um comportamento de cada professor que termina produzindo nOffi1as e escalas de valores. e seus professores. Parece ter uma liderança na turma. que ocorreria naquela noite.~ ficam quietos. entabulam alguma discussão. para tirá-Ia: "olha a picadura deste bicho. mas pouca coisa muda. Essa rede aparece como relações naturalizadas. relacionada com uma concepção de aluno. Não desperta a atenção da turma. fica evidente como o primeiro horário é sempre esvaziado.. que tel1TIinam por cristalizar modelos de comportamento. não tocar no assunto do eclipse. algum recado para aquele que chega. É um diálogo com estereótipos socialmente criados. cumprimenta os alunos. pára na carteira de José e pergunta por que ele não está copiando. de Geografia. No dia anterior houve jogo do Atlético.Chamou-me a atenção o fato de S. Num primeiro momento. Para os alunos. Brincadeira. onde os próprios atores. vai se dando.--criam em sala. a partir das quais classifica os alunos e a própria turma. A maioria_____ expressa um-tédio 4ue é compensado peio clima de "tititi" que eles próprios--. Ela diz que vai continuar com a matéria. correspondendo às imagens criadas. naquele espaço.. Ele. como alunos. os alunos continuam do mesmo jeito. e com suas experiências pessoais em escobs anteriores.A DIMENSÃO DO CONHECIMENTO NA ESCOLA Às 18:35. No fundo. óbvias. Outro pede uma caneta emprestada. Esses papéis não são dados. três meninas cochichando num canto. em relação com a escola. em diálogo com a tradição familiar. S. mas sim construídos. comparando. obselVar a sala de aula é constatar o óbvio. a respeito da colonização dos EUA. 0-"bom-aluno". Param.~ 152 Um aspecto que chama a atenção são os papéis de aluno e de professor. :11' . Matemática. os alunos se movimentam: pegam os cadernos.ii'j ! . O restante inicia um movimento de escrever no caderno."grita Celso. existe uma dinâmica e complexa rede de relações entre os alunos e destes com os professores. onde a sala de aula aparece como o espaço privilegiado: Na construção do papel de aluno. hierarquizando. o "esforçado". desenham.a turma vai lançando mão desses elementos do imaginário escolar e os re-elabora a partir da situação específk:a de cada um. logo dcpois empresta um dos fones para Sheila escutar uma música. A prof. S. gerando uma situação comum a quase todas as aulas: apenas os alunos que estão na primeira fila copiam silenciosos. Maria levanta a voz e "ordena" que todos tragam as cartolinas para a festa do Haloween. outros nem um pouco int~ressados. Essa aula selVirá de modelo ao fazel1TIosalgumas considerações. Num primeiro momento. Em cada situaç-do. sobre beijos. É esse mesmo entrecruzamento de modelos que constrói os diferentes "tipos" de professores e demais sujeitos da escola. num processo contínuo de acordos. S. Um aluno levanta. por pouco tempo. Todos estão calados. Os processos tem1iii~m sendo muito parecidos: ensinar a matéria. Mas se apurarmos o olhar. " S.-de uma rotina asfIXiante. a atividade parece ser uma obrigação. A construção do papel desses jovens. abrem. dizendo que continua a explicação na 3' aula daquele mesmo dia. de qualquer sala de aula. faz a chamada pelos números da lista. Mas não demoram cinco minutos começa a desconcentração na sala. einh!.Geografia. até aquele momento. assim. parecem não ter a conSciência da sua dimensão. Às vezes. ~ ""'e"'" S.. chego à porta da sala. que eles cumprem para se verem livres. chega. mantêm. aceita a desculpa. . . numa brincadeira de sedução. A "turma de trás". poucos prestam atençào no que ela fala: continuam a copiar. acaba de copiar. diz que está com um problema na mão. mais criativos ou tediosos. eles respondem. Nesse dia. dando a entender que conseguiu enrolar a professora.1 II i-I II.. Em quinze minutos chegaram sete alunos. O horário é significativo: 4 aulas de quarenta minutos cada. os alunos terào Geografia. sem se alterar com o zum zum zum. é sempre mais barulhenta e desafiadora. S. Tudo é motivo de brincadeira: entra uma abelha na sala e começa uma pequena confusão. entra em jogo a identidade que cada um veio construindo. num conjunto de negociações. quatro rapazes no fundo discutindo futebol. Concorre para essa escolha a tradição que a própria escola. vai até outra . Soa o sinal avisando o fim da aula. '~i.. voltam a copiar. com os quais os alunos passam a sc--iclcnthl1car. devido a um acidente na fábrica e que Maria está copiando para ele. A prof. conversam com os colegas dos lados. o "mau aluno". onde pouca coisa muda. Vander liga o walkman e fica escutando rádio. conflitos. Do outro lado.

do seu papel como educador e sobretudo do aluno. com sua matéria. auto-imagem. o professor não percebe a dimensão do conjunto das relações que se estabelecem ali na sua frente. mesmo assim. e mesmo a questões '. das relações sociais e seus conflitos. Imerso nessa visão estreita da educação. são comuns imagens ligadas à cor ou à raça.. na sala de aula. mas de forma mecânica. assumindo ou não o estereótipo. Cabe. se cruzam. é verdade. e os alunos. quando havia algum problema. uma subjetividade inferiorizada. os professores comparavam duas turmas de 8~ série. as imagens criadas quase sempre se refiram a um dos aspectos cognitivos (bom . que. Não seria o caso de estabelecer relações entre as duas realidades?De analisar essas relações. de uma das dimensões humanas. refletindo também no seu desempenho social. para. Um jovem. É significativo também que. a partir do que os próprios alunos 155 rejeitados. de potencializar a aprendizagem. dependendo da forma como se constroem as relações.. Aliada a outros fatores.este tema acrescpnt::l~lgo_oué LfP-port. negando ou assumindo a sua imagem. do grupo. a pergunta imediatapoderia ser: quais são OSobjetivos desta unidade? qual a relação que existe com a realidade dos alunos? O que.im. responsável e irresponsável ete. O conhecimento escolar se reduz a um conjunto de infoffi1açõesjá construídas. as~. "T " 154 . cada turma pode ter uma especificidade em relação às demais. assim. os jovens são "bombardeados" constantemente pela indústria cultural. e. outros. e ela pode assumir de fato o "tipo" ou abrir o conflito com o professor. E mais. muito menos. como as repetências constantes (numa tum1a de '" 26 alunos.. e mau aluno. Falavam disso constantemente. um dos alunos. os alunos são vistos de fOffi1a homogênea. quase a dizer que se sentiam Um segundo eixo de questões se refere ao cotidiano das aulas e à relação com o conhecimento. tende a se ver assim e se deixar influenciar por esse rótulo. Parece que a resposta está implícita: o conhecimento é aquele consagrado nos programas e materializado nos livros didáticos. representa o aluno reduzido a sujeito cognoscente. como vimos anteriormente. com sua dinâmica própria. onde geralmente se expressam com mais clareza os preconceitos e racismos existentes nas relações. materializando' o seu papel. quando se referiam a essa imagem negativa. de formal positiva ou negativa. sua maior ou menor disciplina. regida por princípios igualmente simples. O professor parece não perceber. e em que. Diante da aula. em particular. São descontextualizadas. por exemplo. a turma. para produzir. ou não levar em conta. sua imagem e o dos alunos. 18 já tinham tomado pelo menos uma bomba). com os mesmos interesses e necessidades. em outros espaços além da escola. Uma turma pode ser "bagunceira" ou "fraca" para uns professores e não o ser. No dia-a-dia das relações entre professor e alunos.~ sexuais. nesse processo de produção de imagens e estereótipos.) e aos comportamentos em sala. aos alunos. No caso desses conteúdos. Existe uma dimensão educativa nas relações sociais vivenciadas no interior da instituição.ante cada um para deles? Em nenhum momento. Os dois mundos às vezes se tocam. inteligente e preguiçoso. como um todo. atividades de lazer etc. Na escola observada. dos processos educativos. com cada professor pode ter uma reação diferenciada. a professora ou qualquer outra pessoa explicitou os objetivos específicos da matéria que está ensinando. Deixa. forma. mas certamente isto interfere nq. 'i$. podem ter uma reação própria a cada professor. O seu olhar percebe os alunos apenas enquanto seres de cognição. expressão da lógica instrumental. e muito. taxado de "mau aluno". desqualificação no trabalho. com ênfase no homnssPxl1::1lismo na prostituição. o discurso e a postura destes têm uma influência muito grande. gírias. contribuem.Assim. ao professor ensinar. a construção dessas auto-il11agens interfere. e == De uma fOffi1aou de outra. uma delas considerada pior que a outra. cabendo ao professor transmiti-Ias e. uma articulação com a realidade dos alunos. Nessa construção de imagens e estereótipos. Nessa criação de imagens e papéis. transmitir esses conteúdos. expressavam um certo ressentimento.. memorizá-Ias. mesmo sendo fruto das relações entre alunos e professores. dialogando. a sala se reduz a uma relação simples e linear entre eles e seus alunos. quais sejam o de aprender Gonteúdos para fazer provas e passar de ano.cidade de aprender conteúdos e comportamentos. não todos. de forma equivocada: sua maior ou menor capa. nesse jogo de papéis.. Para boa parte dos professores. ou seja. parecem existir dois mundos distintos: o do professor. O professor não diz e os alunos também não perguntam. que interfere na produção da subjetividade de cad2.~1. no seu conjunto. Os alunos. a trama de relações e sentidos' existentes na sala de aula. já em curso. ou 'a . com elementos da cultura americana: roupas. interferindo diretamente na produção de " tipos" de alunos e da própria turma. no desempenho escolar da turma e do aluno.J'~' no caso desses jovens trabalhadores. quase sempre ligado à disciplina.". por exemplo. que se toma um elemento a mais na produção de sua subjetividade. Como descrevemos. sem uma intencionalidade explícita e. no início deste trabalho. permanecem separados. mas na maioria das vezes. seu discurso.

Da forma como está posto. O que dá sentido e motivação são as notas. o professor e sua atuação. apesar das muitas aberrações existentes. ficando quietos praticamente todo o período. Cabe perguntar: está havendo. que possibilite um diálogo com sua realidade. que é ter notas para passar de ano. assim. ou seja. mesmo tendo estes objetivos. mediado por sua percepçdo sobre a escola. até os que não param ou que ficam escutando rádio pelo walkrnan. para suportar a "cI1atice necessária" das aulas. entre outras áreas das Ciências Sociais. principalmente daquela dirigida às camadas populares. como muitos professores gostam de afinnar. aquelas em que precisavam mais ou menos e felicidade . Também podemos nos perguntar se a escola. não deveria se orientar para contribuir na organização racional das informações recebidas e na reconstrução das concepções acríticas e modelos sociais recebidos. parece ser uma provação necessária para atingir a meta. diante _. o aluno aprende quando. dependendo de cada professor e da relação que ele cria com a turma. veio sendo construída nas experiências escolares. pode ser urriã das causas centrais do fracasso da escola. seus sentin1entos. em grande parte das aulas assistidas. a aula. regras. com coerência interna. retomando a questão do aluno como um sujeito sócio-cultural. é que o que é oferecido aos alunos é uma versão empobrecidá. é necessário levar em conta o aluno em sua totalidade. Nesse sentido. são mediadores no processo de ensino e aprendizagem. E aqui retomamos a discussão sobre a diversidade cultural. tem desde aqueles que não dão uma palavra.já sabem sobre aquele país?O que se questiona não é tanto o conteúdo escolar em si. Na concepção desenvolvida por SALVADOR (1994). implicaafmnar que. para a aprendizagem se efetivar. os possíveis pontos que vão ganhar com cada uma das atividades passadas pelo professor. Este autor mostra também que a cognição se expressa nos diferentes usos da linguagem. contribuindo. é fruto da própria cultura escolar. estabelecer um diálogo entre o conhecimento a ser ensinado e a cultura de origem do aluno. de alguma forma. por suas expectativas.aquelas nas quais não precisavam de nenhum ponto. relacionando-a às diferenças de classes sociais: "A receptividade a uma forma particular de estrutura da língua determina a maneira como são construídas as relações com os objetos e a orientação para uma manipulação própria das palavras. diluída e degradaM'do conhecimento. os alunos vão produzindo estratégias próprias. dos conteúdos ministrados na escola. ficam reduzidas as possibilidades educativas. a resposta é não. seu corpo." Quando afmnamos a existência de uma diversidade cultural entre os alunos. Mas no cotidiano da sala de aula. projetos e utopias a ser proposto aos alunos. É um processo de construção de significados. O que observamos. A aprendizagem implica. A intensidade e o grau de envolvimento nas aulas vão depender do papel que se assume como aluno. cada vez mais dominada~ . Nesses casos. perplexidades geradas pela vida cotidiana. assim. assim. Dessa forma. presos que estão a esta foma de lidar com os conteúdos. deixam de se colocar como expressão de uma geração adulta. o conhecimento escolar deixa de ser um dos meios através dos quais os alunos podem se compreender melhor. O que parece mesmo ajudar a passar o tempo são as conversas e brincadeiras. numa mesma" . das suas crises. quando sua cultura. Os professores. cabe também nos perguntannos pela qualidade dos conhecimentos. portadora de um mundo de valores. Poucos conseguem tocar efetivamente a turma. dúvidas. quando estabelece reI~çõeS substantivas e não arbitrárias entre o que se aprende e o que já conhece. nem era mais necessário freqüentar as aulas. Nosso período de observação foi o 4Q bimestre. compreender o mundo físico e social onde se inserem. Além da postura pedagógica dos professores. mais ou menos penneável. E a escola também tende a se tomar meio para outro fun: o diploma e. !: ii I1 lil I II sala. com ele.28). O cotidiano evidencia a 157 pelos meios de 'êõmtfi1iÓlção de massa. na elaboração de seus projetos. um processo de aprendizagem? Se levamos em conta a noção de aprendizagem significativa. Deixam de contribuir no proceSso de formação mais amplo. já constataram a relação íntima existente entre a cultura de origem. para os alunos. Os estudantes tendem a criar um mundo próprio. ou uma certa estabilidade ocupacional. os sentimentos e emoções e as suas expressões ou. na sua maioria. e as conversas dominantes entre os alunos eram a respeito dos pontos necessários para passar em cada uma das matérias. pelos conhecimentos prévios que já possui. 156 . Vista num outro ângulo. p. Tanto a Antropologia. das mais diferentes matérias. a relação íntima entre a construção de um universo simbólico e a dimensão cognitiva como evidencia Basil BERNSTEIN (1971. podemos ter uma diversidade de formas de articulação cognitiva. quanto a Psicologia e a Lingüística. Mais do que "alienação" dos alunos. como interlocutores desses alunos. a esperança de um emprego melhor. em outras palavras. mas a foma como é entendido e trabalhado pelo professor. o conhecimento se torna significativo para ele. O conteúdo é encarado como um meio para o verdadeiro fim: passar de ano. o ritmo alternado de concentração e desconcentração. nesse caso. mais do que enfatizar a transmissão de informações. 'Kfalta dé acesso dos alunos a um corpo de conhecimentos significativos. Se os alunos têm essa percepção das aulas e dos conteúdos é porque ela. aliada a uma postura pedagógica estreita. Na sala.

As apresentações. Nessas atividades. Português e Educação Artística. um outro elemento fundamental na escoia são as atividades extraclasse. Buscamos desvelar como os atores lidam na escola com o espaço. os alunos se organizam. neste nível. que pouco acrescentam à dimensão educativa central. na atenção. sem nenhuma orientação ou acréscimo por parte dos professores. não há uma intencionalidade naquilo que seria uma das funções centrais da escola. Um último aspecto a ser analisado diz respeito à estrutura da escola. sujeitos de experiências sociais que vão reproduzindo e elaborando uma cultura própria. ~:# relacionando tais ações ao cotidiano da sala de aula. que nada acrescentam aos "objetivos educacionais". pàr"pàrte dos professores ou da escola. na concentração. pOllCO leva em conta a realidade e os anseios dos alunos. "penduricalhos" pedagógicos. ressaltamos aspectos e dimensões presentes no cotidiano escolar. por exemplo. viemos definindo a escola como uma instituição dinâmica. ampliando o acesso dos alunos aos bens e expressões culturais. a comunidade lotou o anfiteatro. para o fortalecimento do sentimento de grupo entre os alunos e os professores. desempenham um papel ativo no cotidiano. Se grande parte dos alunos dessa escola são trabalhadores. O próprio nome já indica qllê são atividades realizadas fora dos marcos do que são considerados efetivamente pedagógicos. o prazer e o lúdico são permitidos. foram coreografias coletivas de dança. São momentos quando fica mais explícita a noção de uns e outros a respeito da escola. sua função. os alunos. que muitas vezes nos passam despercebidos. sem urriá intenciorialidade. Presenciamos um destes eventos. a festa do Halloween. Aponta também para o potencial da escola como um espaço de cultura e lazer para o próprio bairro. num diálogo ou conflito constante com a sua organização. Mas. brigar com aqueles que não queriam se envolver. não estimulam o exercício das capacidades de abstração. Há aí um deslocamento: a escola parece se organizar para si mesma. Ao mesmotempo. ao longo deste texto. cuja dimensão educativa encontra-se também nas experiências humanas e sociais ali existentes. chamaa atenção o fato da escola não aproveitar desses momentos 158 ~. suas dimensões educativas. de um cotidiano monótono. fruto de um processo de construção social. iniciar as aulas às 18:30h irá resultar em não menos de 50% de infreqüência diária no primeiro horário. como divide os tempos e espaços. de potencializar as capacidades que quase nunca são estimuladas no cotidiano destes jovens. trabalharem de alguma forma com o tema em suas aulas. Apesar daqueles professores. através do prazer" para a reforço da auto-estima. na sua maioria. O fato de uma turma produzir uma coreografia. um determinado olhar sobre a instituição escolar. e situações para ampliar seu trabalho educativo. o recreio era o momento em que cada turma ensaiava sua apresentação e. o é irlâividúalmente. Neste sentido. No dia.' pouca ênfase na criação de hábitos necessários ao trabalho intelectual. O que foi apresentado foi criação apenas dos alunos. apresentar e ser aplaudida. Em suma. além de contribuir na confecção da ornamentação: vampiros. participam. para uma excitação significativa. Junto a esta dimensão do conhecimento. e muito menos o conjunto dos professores. ou seja. enquanto limite e possibilidade. aranhas e morcegos de cartolina. ou seja.=~~ Durante a s~mana. ficar tensa na véspera da apresentação. buscamos apreender alunos e professores como sujeitos sócio-culturais. viemos construindo. produzir as fantasias. Para muitos alunos. nem todos os alunos. coordenada pelas professoras de Inglês. do 159 . o "ensino forte". Não deixa de significar um resgate da capacidade de criar. ensaiar. que promoveram a festa. que é a transmissão de conteúdos. Os professores não conseguem (e muitas vezes não pretendem) disciplinar minimamente os alunos. evidendando uma predisposição a participar de atividades culturais. uma atividade como esta aponta para a riqueza pedagógica dessas situações. do sentimento de ser criativo. Na escola. dividir responsabilidades. Era visível o envolvimento e interesse de boa parte dos alunos.. Finalizando. à noite. e também professores. da afetividade. é uma experiência educativa intensa. Concluímos que os atores vivenciam o espaço escolar como uma unidade sócio-cultural complexa. Os alunos parecem vivenciar e valorizar uma dimensão educativa importante em espaços e tempos que geralmente a Pedagogia desconsidera: os momentos do encontro. A forma como a escola se organiza. no dizer de muitos alunos. Cada turma teve de preparar alguma atividade para apresentar. A preparação se deu em uma semana. o tempo e seus rituais cotidianos.~. apreendida enquanto espaço sóciocultural. Exemplo claro deste deslocamento é o horário de início das aulas. de articulação entre fatos etc. mudando o clima da escola. que são as habilidades básicas necessárias ao processo de construção de conhecimentos. nas aulas. aos conteúdos. polissêmica. Talvez por isso mesmo. como se a instituição em si tivesse algum sentido. def111indode fato o que a escola é. aparecem como "naturalizados" ou óbvios. havia uma desconexão entre o conteúdo da sala e o extraclasse. contribuind('). Nas aulas. Portanto. mesmo com esses limites. Parece que o que é aprendido. as atividades extraclasse são perda de tempo. Nesta ótica. expressar. Isso evidencia a falta de sensibilidade de colocar a organização da escola em função daqueles que são sua razão de existir. nelas. de questionamento.

Gilberto. MCLAREN. Aprendizagem escolar e construção conhecimento. Escola e cultura. Justa. In: ZALUAR. do REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARRETO. Elsie. Acreditamos que a escola pode e deve ser um espaço de fon-nação ampla do aluno. vem ocon-endo no seu interior uma multiplicidade de situ~ções e conteÚdos educativos. 1978.71-89. Roque de Barros. BRA. Basil. 1978. apurando o nosso olhar sobre a instituição. Eduardo Viveiros. e no aprimoramento de sua vida social. BERNSTEIN. das socie- 161 . 1994. Alba.21-29. Dados. VELHO. Rio de Janeiro: Zahar. estrutura social e atividade humana na educação.NDAO. às experiências culturais diversas podem contribuir assim como Suporte no desenvolvimento singular do aluno como sujeito sócio-cultural. Carlos Rodrigues.Tomás Tadeu. THOMPSON. Educação em Revista. às relações sociai::. LARAIA. Gilberto. 1986. O acesso ao conhecimento. Vicente. As culturas populares no capitalismo. In: MORAIS. 1990. 1983. Gilberto. 1986. 15. Eunice. revuelta y cOl1sciel1cia de c!ase. Porto Alegre: Al1es Médicas. BRANDÃO. A educação como cultura. DURHAM. Rio de Janeiro: Zahar. v. Peter. Tornam-se necessários a ampliação e o aprofunda:mento das análises que. Violência e educação. São Paulo: Vozes. 1994. 1984. São Paulo: Brasiliense. Teoria e Educação. César Coll. Pesquisa participante. GÓMEZ. Rio de Janeiro: Zahar. GEERTZ. Edward P. n. Cultura: um conceito antropológico.J. 1994. Porto: Afrontamento. A turma de trás. São Paulo: Brasiliense. jornal de Cultura do Estado do Rio de janeiro. jun. como essa. POl10Alegre. A educação do aluno trabalhador: uma abordaJ gem alternativa. que aprofunde o seu processo de humanização. Jean Claude. C. 1986. VELHO. 1987. Comprender y transformar Ia ensenanza. 1993. 1. São ENGUITA. Morata. 1984. CANCLINI. Gimeno.diálogo. 1992. Nestor Garcia. Regis. 1. Belo Horizonte. 1994.Carlos Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas. pA-9. EZPELETA. Rio de Janeiro. SILVA. ROCKWELL. 1987. p. uarez T. Madrid: Ed. 1986. 1992. Rio de Janeiro: Zahar. 160 SANTOS. jun. Cultura e ideologia. SALVADOR. Tradición. 1987. CASTRO. 27. SACRISTÁN. n. Rituais na escola: em direção a uma economia política de símbolos e gestos na educação. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. O conceito de cultura e o estudo das sociedades complexas. Gilberto. A interpretação das culturas. contradição. L Pérez. F. Porto Alegre: Artes Médicas. A. Paulo: Cortez. Sala de aula: que espaço é este? Campinas: Papirus.. E fundamental que os profissionais da escola reflitam mais detidamente a respeito dos conteÚdos e significados da fonna como a escola se organiza e funciona no cotidiano. apud VELHO. Educação e violência: reflexões preliminares. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. seu fazer e seus sujeitos. Rio de Janeiro: Zahar. Boaventura de Souza. Mariano. Barcelona: Crítica. Independente dos objetivos explídtos da escola. contribuindo assiCn para a problematização da sua função social. Artefato n. aprimorando as dimensões e habilidades que fazem de cada um de nós seres humanos. 1991. FORQUIN. O que produz e o que reproduz em educação. Projeto e metamo/fose: antropologia dades complexas.108-133. p. buscam apreender a escola na sua dimensão cotidiana. que podem e devem ser potencializados. VELHO. DAYRELL. Reprodução. Um discurso sobre as ciências. p. São Paulo: Livros do Tatu/Cortez.

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