A POLÍTICA SOCIAL DO ESTADO CAPITALISTA: As Funções da previdência e da assistência Social

Vicente de Paula Faleiros
Capítulo 4 - AS FUNÇÕES DA POLÍTICA SOCIAL NO CAPITALISMO

A análise da política social não pode ser colocada em termos de um esquematismo rígido, de leis imutáveis, como se a realidade se desenvolvesse segundo um modelo teórico ideal. Se há um campo onde se torna necessário considerar o movimento real e concreto das forças sociais e da conjuntura é o da política social. Há os que consideraram as políticas sociais como o resultado de uni maquiavelismo do capital e de sua acumulação, sem uma análise dos limites impostos ao capital pela própria realidade e pelas lutas sociais. Marx diz claramente que “o capital age, portanto, sem qualquer cuidado contra a saúde e a duração da vida do trabalhador, onde ele não é obrigado a tomar cuidado pela sociedade”. 1 A análise da política social implica, assim, metodologicamente a consideração do movimento do capital, e ao mesmo tempo, dos movimentos sociais concretos que o obrigam a cuidar da saúde, da duração da vida do trabalhador, da sua reprodução imediata e a longo prazo. É necessário considerar também as conjunturas econômicas e os movimentos políticos em que se oferecem alternativas a uma atuação do Estado. As políticas sociais do Estado não são instrumentos de realização de um bemestar abstrato, não são medidas boas em si mesmas, como costumam apresentálas os representantes das classes dominantes e os tecnocratas estatais. Não são, também, medidas más em si mesmas, como alguns apologetas de esquerda costumam dizer, afirmando que as políticas sociais são instrumentos de manipulação, e de pura escamoteação da realidade da exploração da classe operária. Trata-se, nos dois casos, de uma concepção instrumentalista e mecanicista que não leva em conta a realidade da exploração capitalista e da correlação de forças sociais. As medidas de política social só podem ser entendidas no contexto da estrutura capitalista e no movimento histórico das transformações sociais dessas
1 MARX, K. - Das Kapital. Dietzverlag, Berlim, 1959, vol. I - p. 281, citado por SINGER, P. - Economia Política do Trahallro. S. Paulo, HUCITEC, 1977, p. 124.

mesmas estruturas. Engels, falando da questão da habitação diz que “a mesma circunstância, que outrora determinara um certo bem-estar relativo entre os trabalhadores - a saber, a posse de seus instrumentos de produção - tornou-se para eles presentemente um entrave e uma calamidade”2. Assim é necessário compreender dinamicamente a relação entre o Estado e o processo de acumulação de capital para poder visualizar as medidas de que estamos tratando.

4.1. CLASSIFICAÇÃO EMPÍRICA DAS POLÍTICAS SOCIAIS

A natureza da intervenção do Estado, em termos bastante empíricos, considerandose o que se chama comumente “medidas de política social”, consiste na implantação de assistência, de previdência social, de prestação de serviços, de proteção jurídica, de construção de equipamentos sociais e de subsídios. A assistência implica uma transferência de dinheiro, bônus ou de bens de consumo, com base num pedido, e de acordo com critérios de seleção a um indivíduo que deve provar que se encontra em estado de privação e impossibilitado de prover imediatamente a sua subsistência. Em certos países, entre os quais o Canadá, a assistência pública é um direito consagrado em lei. Nos países latino-americanos a assistência é prestada por órgãos governamentais ligados ao poder executivo, e com base numa distribuição limitada de recursos, que são vinculados a objetivos eleitoreiros (quando há eleições) ou paternalistas-nepotistas. Em muitos países, há

departamentos de assistência pública. No Brasil, a assistência estatal/federal está vinculada à Legião Brasileira de Assistência (LBA). Nos Estados, os órgãos de prestação de assistência estão subordinados ao executivo, e não raro, às primeirasdamas. A assistência privada, prestada por sociedades beneficentes, não raro,

confessionais e voluntárias, que recebem subsídios dos governos, distribuem os recursos (arbitrários e variáveis) e a cada ano conseguem angariar os mesmos com lobbies, coletas públicas, doações e trabalhos voluntárias. Já os seguros sociais, ou previdência social, consistem numa política geral de direitos sociais em função do pagamento de contribuições. O princípio dos seguros sociais é uma garantia adquirida pelo indivíduo, em certos casos específicos (riscos) de perda do salário ou da capacidade de trabalho (doença, desemprego, velhice,
2 ENGELS, 1'.La Question du Logement. Paris. Editions Sociales, 1957, p. 15

O fato de se apresentar como social. a regulamentação dos aluguéis. de prioridades humanas. Medidas jurídicas. terapêuticas e promocionais. Esses domínios de intervenção são denominados sociais por questões históricas e ideológicas. muitas vezes. Os seguros sociais. como curativas e preventivas. Assim quando o governo fala de prioridades sociais. já são universais. etc. mesmo sem exigência de uma prévia contribuição. uma medida de política governamental. secundárias e terciárias. internamento. vacinação. doações. reinserção social. foram assim denominados. Os subsídios são outra forma de intervenção do Estado na subvenção de produtos específicos de consumo popular ou de produtos que interferem. em forma de créditos. descontos. As medidas primárias. aparece como defensor das camadas pobres. A prestação de serviços sociais compreende uma gama muito variada de intervenção estatal para informação. no custo de vida. Alguns benefícios prestados. Além disso. consulta médica ou psicossocial. ao mesmo tempo em que oculta e escamoteia a vinculação dessas medidas à estrutura econômica e à acumulação de capital. A intervenção do Estado se manifesta claramente. defesa do consumidor. em 1935. como a proteção do como a proteção do consumidor. pela regulamentação e pela obrigatoriedade dos seguros sociais. habitação. educação. teatros. como parques infantis. informação. em relação à saúde. praças de cultura. serviços sociais. adoção. Os serviços são prestados por profissionais ou técnicos. em política social.acidente. como os serviços de saúde. como petróleo. nos Estados Unidos. invalidez). O direito advém do pagamento das contribuições (eu pago. são tomadas como política social. dizem respeito a uma ação de massa . nesse caso. dentro de normas administrativas pré-estabelecidas e com o controle superior. Na América Latina esses seguros são limitados a certas categorias de assalariados ou contribuintes autônomos. o Estado interfere na produção de equipamentos físicos. em alguns países. logo. são definidas também por seus objetivos imediatos. a normatividade de procedimentos educativos. As intervenções do Estado. por uma “Comissão de Seguros Econômicos”. A diversidade de intervenção do Estado capitalista pode também ser visualizada pelos distintos domínios de política social: saúde. faz com que pareça boa à população. O subsídio pode ser feito diretamente ao produtor ou ao consumidor. tenho direito). etc. de maneira significativa. reabilitação. ou primárias.

as medidas sociais podem ser assim classificadas. satisfazer as suas necessidades de subsistência e as de sua família. em função de certas categorias de população que as políticas sociais são apresentadas: os gruposalvo.). A ideologia da normalidade pressupõe que o indivíduo possa trabalhar para poder. etc. fragmenta. classificados ora por idade (crianças. em fracassados. No domínio da saúde. em desadaptados. esconde da população as relações dos problemas sentidos com o contexto global da sociedade. discriminando as populações-alvo por critérios de idade ou de normalidade/anormalidade transformam esses mesmos grupos em anormais. tendo em conta o critério de sua extensão e profundidade. só pode ser desmistificada à medida em que se coloca essa problemática no contexto geral da economia e do Estado capitalista. com o salário obtido. tem por objetivo controlá-las e realizar uma etiquetagem que as isola e as caracteriza como tal. por exemplo. Em todos os domínios. jovens. e as terciárias à internação. victim blaming. seu fracasso. No discurso oficial mudam-se . velhos). ao diagnóstico e tratamento. 4. principalmente. com o salário que ganham. ao mesmo tempo em que estigmatiza e controla. Esse tipo de classificação das populaçõesalvo das políticas sociais. psicóticos. mães solteiras.2. desadaptados sociais. Esta função ideológica das políticas sociais. obter essa vida normal. é necessário considerar as formas em que é apresentada a evolução dessas políticas sociais. Mas é. Os que não conseguem. ao mesmo tempo em que as divide. vêem-se censurados socialmente pelas próprias políticas sociais. inválidos. O trabalho é o critério de vida normal para viver bem. FUNÇÕES IDEOLÓGICAS Ao implantar políticas sociais com intenção de reintegrar os desviados sociais. ora por critérios de normalidade/anormalidade (doentes. agora definido oficialmente como anormal. estes são marcados pela própria existência dessa política social em relação ao desvio. ao indivíduo. excepcionais. que atribuem.como a vacinação. É o que se chama culpabilização das vítimas. delinquentes. então. As secundárias. a doença passa a ser atribuída à falta de higiene pessoal. A política social. normalmente. à educação deficiente. As medidas de política social. Para analisar essa questão. que se poderia chamar de prestidigitação. ao mau comportamento do indivíduo que bebe ou come de forma indevida.

com a “dívida social”. Essa ideologia da “humanização” dos serviços se manifesta no discurso da “preocupação” com os direitos humanos. concorrendo todos a esse mesmo resultado. é a reprodução das relações capitalistas de exploração. Para isso. com a valorização da pessoa. o autor distingue os aparelhos que funcionam com base na violência daqueles que funcionam com base na ideologia. Louis . essa “passagem” das medidas repressivas às ideológicas dos aparelhos do Estado. na realidade. 97-141 . no sentido de que todo o espaço social é organizado por esses aparelhos para submeter a classe operária. de instituições humanas. 1976. 73 ed. Essa postura leva a uma visão maquiavélica das políticas sociais do Estado capitalista. se mudem as instituições e os aparelhos de controle da clientela.. desadaptados. Mesmo ideológicos. Nesse texto. pp. sem que. 3 ALTHUSSER. para falar de uma realidade desumanizadora. da reprodução da submissão. e não raramente. com a igualdade de oportunidades. buscando significar melhoria. impõese um discurso humanizante. A função dos aparelhos ideológicos. Aos olhos da população.simplesmente as categorias de denominação da clientela. Exercem a função de reproduzir a subordinação das classes dominadas. e os segundos. assim. os aparelhos de políticas sociais (embora o autor não utilize esse nome) aparecem coma que monoliticamente orquestrados (“a única partitura que domina nesse concerto é a partitura da classe dominante”). como intrinsecamente perversas. os aparelhos do Estado são repressivos. é o texto de Louis Althusser sobre “ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado”3."Ideologia y aparatos ideologicos del estado". Por exemplo. de atendimento humano. passando-se a uma etapa de humanização. As políticas sociais aparecem. para realizar a submissão total do proletariado às classes dominantes. do hospital humano. e lugares de luta de classes. pelas classes dominantes para subjugar. Pasado y Presente/4. na sua lógica implacável da submissão. Nesse texto. com a melhoria da qualidade de vida. adota-se a denominação de menores carentes. centralizados. para o autor. Fala-se da cidade humana. múltiplos. em vez de menores delinquentes. Córdoba. sendo os primeiros. In: La filosofia como arma de la revo luc ión. feitas por “essa máquina de repressão” (sic) que é o Estado. Um dos quadros teóricos que têm servido para descrever esta relação. parece que as medidas sociais deixaram de ser repressivas.

p.No entanto. obrigando-o a realizar compromissos entre as distintas frações da burguesia (por exemplo. articulando as pressões e movimentos sociais dos trabalhadores com as formas de reprodução exigidas pela valorização do capital e pela manutenção da ordem social. 568). lutas. da qual é independente e que ela domina. entre as exigências do capital como um todo e as pressões dos trabalhadores e de outras forças sociais4. sem causa externa. Nenhum capital pode voluntariamente submeter-se às necessidades específicas. in "Teoria do Valor e Acumulação do Capital". Ele realiza os “interesses gerais do capital”. Mario e SWEEZY. a política social é uma gestão estatal da força de trabalho. não altera o fato de ser "também" uma contradição entre a produção e o consumo. da acumulação capitalista. “Quando o Estado é assim definido como uma instituição da sociedade capitalista. Escorpião. que são impostas pelo Estado. . assume os investimentos que demandam recursos que superam a disponibilidade dos capitalistas.3.Teoria da Acumulação Capitalista. 111.”. 125. aparecendo simultaneamente como fundamento interno dessa sociedade e como uma força contrária à formação de valor. CONTRA-TENDÊNCIA À BAIXA TENDENCIAL DA TAXA DE LUCRO O Estado capitalista não realiza a política dos capitalistas. Isso a coloca numa situação contraditória. 1977. como uma instituição especial. nem por uma harmonização de ambos". Na concepção do Marx as crises não podem ser abolidas nem por urna redução da produção. transforma os recursos 4 Paul Mattick assim resume o ponto de vista de Marx: Quando Marx afirma que a causa última das crises reais "continua a ser a pobreza e o insuficiente consumo das massas. essa evidente defasagem entre a produção e o consumo. só a pressão da concorrência o obrigará a isso. independente dos capitais individuais. Ele assume os investimentos não rentáveis para o capital. entre o capital financeiro e o industrial). nenhuma formação de capital irá aprovar o desenvolvimento de limitações externas. Porto. individualmente tomados.in COGOY. isto é. conflitos. Vol. mediatizadas par lutas de classes e conflitos entre as frações da classe dominante. "embora seja condição da existência do capitalismo". ele não está disposto a tais medidas senão quando se encontra em face de catástrofes. afirma E. Assim. objetivamente percebidas. relativamente à tendência da produção capitalista pala desenvolver as forças produtivas de maneira tal que só o potencial absoluto do consumo de toda a sociedade deveria constituir o limite" (Capital. p. Altvater. nem por um aumenta do consumo. Paul . torna-se claro que as funções históricas do Estado não estão originalmente nele contidas. O Estado capitalista é uma garantia de manutenção das condições gerais de reprodução do capital e da produção. mas devem ser o resultado de crises de produção social. o que será analisado em seguida. 4.

seguros. Em realidade. A crise capitalista é causada por um excedente. A tendência atual da política social nos países capitalistas dominantes é a implantação do imposto negativo. como medida unificadora de todas as prestações e . uma das contratendências em relação à baixa tendencial da taxa de lucro. para estimular a demanda efetiva dos grupos ou camadas excluídos do mercado. A valorização do capital implica a extração da mais-valia e a acumulação de uma parte tão grande quanto possível desta. de mercadorias. realizar-se enquanto capital e acumular-se. gere a moeda e o crédito em favor da acumulação de capital. ou de produtos específicos. a política social teria somente como função econômica subsidiar o consumo. estabelece facilidades jurídicas e. compreende. e isso leva. aplanando com tudo isso a concorrência intercapitalista. Se é verdade que as medidas de política social. portanto. como assistência. Mario Cogoy. podem compensar uma certa defasagem temporária entre produção e consumo. com intenção de prevenir as crises do capitalismo. assistência). pois a crise não significa um subconsumo. Cogoy insiste em que as despesas do Estado custam algo aos capitalistas. quer no improdutivo. é o trabalhador que produz a mais-valia para o capitalista. Na realidade.públicos em meios de favorecer e estimular o capital. quer trabalhe no setor produtivo. equipamentos. O fato de que as despesas do Estado sejam consideradas “improdutivas” não significa que não produzam mais-valia. e investe em grandes empreendimentos. às vezes. politicamente selecionados. ou o subconsumo. empregos. seja a uma capacidade ociosa da indústria. como o pretenderam os keynesianos do pós-guerra. seja a uma despesa improdutiva pelo Estado. sobretudo. elas não resolvem a crise. ou ser consumida sob a forma de bens de luxo ou de despesas públicas. só serviriam como contra-tendência à baixa tendencial da taxa de lucro. assim. mas uma sobreprodução de capital e. uma sobreprodução de capital. cria a infra-estrutura necessária para os investimentos e a circulação do capital. nem a contradição fundamental entre produção e consumo. Na interpretação keynesiana. A mais-valia social global pode. Essa intervenção do Estado. através de toda a pletora de incentivos ao consumo (alocações domiciliares. afirma que “o emprego improdutivo do capital pelo Estado não constitui senão um dos processos próprios para retardar a queda da taxa de lucro”. no entanto. Essas medidas foram feitas. seguros sociais. afirma ainda Mario Cogoy. serviços.

com a associação direta às multinacionais. do governo ao contribuinte do imposto de renda. a política social. . A transformação capitalista ao nível das políticas sociais consiste. 63. não atingirem um teto mínimo estabelecido. educação. em que a produção dos benefícios e serviços consome mercadorias. 5 Ver sobre esta proposição STOLE RU. Paz e Terra. Essa medida tem o duplo efeito de controlar o contribuinte e de mercantilizar ainda mais. e que na América Latina consiste na aliança imprescindível do Estado-empresa privada. forma o que James O'Connor chama de complexo sócio-industrial6. num só movimento. O controle da renda familiar será então total. seja pelo controle direto da propriedade das empresas sociais. nessa mercantilização dos serviços e dos benefícios. 1977. ou. recebendo do Estado uma só contribuição. sendo esta.transferências sociais. p. 6 O'CONNOR. as instituições religiosas. L. A aliança entre o Estado e as multinacionais. A crise do Estado capitalista. 1974. transforma-os em mercadorias. os grupos de ajuda mútua. Rio. Numa simbiose entre o público c o privado. cuja relação é transformada com as modificações do próprio sistema de acumulação capitalista. . isto é. obrigando o indivíduo a abastecer-se no mercado. se o nível de renda deste último. Assim como também está sendo destruída a prestação de serviços de forma liberal. Flamarion. seja pela compra e controle da tecnologia empregada. Paris. não nos referimos a uma sucessão linear ou a uma separação estanque entre os modelos. obrigada a declarar todas suas fontes de renda. mas a uma articulação dialética. Quando falamos de etapas ou de modelos de prestação de serviços sociais. complexo sócio-empresarial. estando-se agora entrando num terceiro modelo das formas de prestação dos serviços sociais e de realização da política social. Esse novo tipo de empresa social destruiu e transformou completamente as associações voluntárias. J. O Estado realiza suas políticas por uma série de intermediários. que predominavam na prestação dos serviços sociais. como regime produtor de mercadorias. O imposto negativo consiste numa transferência de dinheiro. obriga à compra de mercadorias e coloca o homem como mercadoria. justamente. por urna única via: o imposto de renda. habitação. Isto também unificaria as distintas formas de prestação social5. Esse processo se manifesta pela privatização ou pelo apoio dado pelo Estado à rentabilização dos empreendimentos privados de saúde.Vaincre Ia pauvretë daps les pays riches. a forma empresarial. garantindo-se o regime capitalista na sua essência. e o de sua família.

objetivando a maximização dos lucros. Em realidade. 5% do salário mínimo da região. a Medicina de Grupo que contrata profissionais assalariados e realiza convênios com empresas particulares. o financiamento desse complexo e de seu alto custo provém das . no âmbito da fábrica. de tecnologia avançada. provoca um aumento considerável nos custos da prestação de serviços. ou combinando distintas formas de atendimento. Assim é a própria empresa que passa a controlar diretamente. subvencionadas pelo governo. o que visa incrementar a taxa de mais-valia. A forma empresarial consiste na criação de “empresas” de prestação de serviços que muitas vezes não só prestaram os serviços. com isso. era sustentada por um capitalismo concorrencial com as sociedades beneficentes para determinados sócios. sua produtividade. das habilidades da mão-de-obra e da intensidade do trabalho. Esse complexo sócio-estatal-empresarial tem três efeitos principais: uma socialização dos custos e privatização dos lucros e uma elitização ou exclusão das massas no acesso aos serviços mais avançados. vinculados às empresas multinacionais. O desenvolvimento do capitalismo implica o desenvolvimento da produtividade não só pela mudança da composição orgânica do capital. e realizando os serviços com profissionais assalariados. a saúde dos trabalhadores. para que assumisse os encargos de saúde com seus empregados. Mesmo as instituições estatais funcionam com o modelo de administração de empresas. por empregado. tecnificados e. aumentandose. reproduzindo as desigualdades sociais. por sua vez introduzem a produção de serviços sofisticados. muitas políticas sociais são diretamente realizadas pela empresa. nas instituições de política social. No Brasil. numa atitude paternalista e de controle direto da mão-de-obra. mas os financiam. A privatização. A introdução de aparelhos caros. evitandose absenteísmos e controlando-se os casos de doença. portanto. A forma liberal consiste no livre contrato entre profissional e cliente. a Previdência Social restitui à empresa uma parte de sua contribuição com os gastos de saúde. recebendo uma clientela subvencionada pelo Estado. pelo qual recebe. Na América Latina. realizou um acordo com a Previdência. e de santas-casas.A forma paternalista voluntária. por uma dominação de certos grupos de profissionais que. Prolifera no setor saúde. a tecnificação da prestação de serviços é acompanhada por uma profissionalização contínua. mas também pelo aumento das cadências. hospitais gerais (segunda classe) para a população ou classes dominadas. em 1964. A Volkswagen do Brasil.

mas interferem diretamente na valorização e na validação da força de trabalho. acidentes de trabalho. dos mais pobres aos mais ricos. justamente. aposentadoria. como mercadoria especial.S. Engels afirma que a solução capitalista ao problema da habitação.contribuições dos trabalhadores aos seguros sociais e dos impostos ao consumidor que. Suzanne de Brunhoff pouco insiste no processo de luta de classes que impõe ao Estado o que ela mesmo chama de “instituições não capitalistas” e que enfrenta e modifica esse “despotismo” na luta. A maioria das medidas de política social realizam uma transferência de recursos. . O financiamento de políticas de tratamento de saúde.4. É verdade que as medidas de assistência realizam uma certa redistribuição da renda. cit. Ao receber uma prestação. provém da contribuição dos trabalhadores (direta ou indiretamente).Op. pode parecer que o trabalho como critério de vida normal esteja rompido.Etat et Capital. BRUNIIOFF. 24._ p. a vinculação entre a renda e o esforço produtivo. E para comprar o trabalhador deve antes vender sua força de trabalho para poder encontrar uma habitação 7. e não atinge o trabalhador enquanto trabalhador. Essas instituições rompem. em sentido imediato. mantém a insegurança do emprego e a disciplina do trabalho 8. limitadas sempre a um nível mínimo. ao mesmo tempo. fundamental para manter a disciplina da fábrica e a subsistência do trabalhador. VALORIZAÇÃO E VALIDAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO As políticas sociais realizam não só uma valorização do capital. Suzanne . mas. se situa ao nível exclusivo do consumo. a uma clientela restrita e com um controle rígido. sem estar trabalhando. . 4. na reivindicação. Paris. do “despotismo capitalista” que. 8. na pressão. 1976. As medidas de política social fazem parte. Esta ruptura não se realiza pelas seguintes razões: 1) o trabalhador pago com o salário indireto das políticas sociais ganha somente 7 8 ENGEI. Isso permite ao capitalista a obtenção de mão-de-obra barata e disciplinada. constituem a grande massa de receitas do Estado. p. Maspero. reproduzindo a força de trabalho nas condições impostas pelo capital. Os serviços privados atendem uma clientela proveniente de classes burguesas ou pequeno-burguesas e são financiados pela contribuição do Estado que advém dos trabalhadores. produtora de mais-valia. mas como comprador e vendedor. segundo Suzanne de Brunhoff. F .

continua tão inseguro como antes. O capitalismo vai criando uma reserva permanente. diz que “as despesas para o setor da educação não são somente da 9 SINGER. cit. a saúde. Certas políticas sociais. mas também. 10 SINGER. como a educação. 111. São Paulo. 1977. mas para o intercâmbio. p. Paul Op. O trabalhador. não existe somente a produção da força de trabalho. O capitalismo transforma em assalariados os trabalhadores dos modos de produção de subsistência e mercantil. a reprodução da força de trabalho deve ser feita com um valor inferior ao produto. A valorização dessa força de trabalho tem seu limite. . 4) as pressões sociais para a volta ao trabalho são grandes. 3) os controles administrativos para eliminação dos “fraudulentos” são cada vez mais restritivos. o que na linguagem capitalista é expresso pela “inversão no homem”. 106. mas “a disponibilidade de força de trabalho é o principal limite à expansão do capital”10. isto implica o consumo de mais-valia e uma certa valorização da força de trabalho. utilizando-se o valor de uso dessa mesma força. . sendo retirado e empurrado ao mercado de trabalho. e mantido como reserva. inferior sempre ao salário-mínimo. O capitalista não produz para o consumo. e consomem mercadorias para sua reprodução. é necessário que a força de trabalho incorpore valor ao capital no processo de produção. pelo desenvolvimento das forças produtivas. que por sua vez. na medida em que haja acumulação. HUCITEC. estimulando-se assim a volta ao trabalho. interferem diretamente na valorização da força de trabalho. O desenvolvimento da produtividade vai substituindo os trabalhadores por máquinas.. Sob o capitalismo.Economia Política do Trahalho.um mínimo. e para que as mercadorias adquiram valor. pela “formação do capital humano”. 2) a situação de viver da “política social” é temporária. Ora. P. vai traduzindo em excedente os trabalhadores de outros modos de produção. um exército industrial de reserva que se reforça nos períodos de crise e pode ser absorvido nos períodos de expansão do capital. no regime de previdência social ou de assistência. criando um excedente populacional. Paul Singer lembra que esse desenvolvimento se faz pela introdução de novos produtos ou pela mudança de processos de produção9. p. sua reprodução. Se o capital necessita manter a força de trabalho apta ao trabalho. Altvater. a habitação.

As pequenas e médias empresas que empregam mais mão-de-obra (labor intensive) ficam desvantajadas em relação ao seguro e à previdência social. mas pelas próprias crises do capitalismo e pela luta de classes. mas pelo seu crescimento. não só pelas despesas do Estado. Os seguros sociais. A camada que trabalha no setor monopolista se beneficia de um acúmulo de vantagens sociais: melhores salários. Os trabalhadores do setor concorrencial contribuem e usufruem dos seguros sociais. fundos de pensão. Esse setor contribui. restaurantes. e. de forma autônoma. transporte. elas diminuem a taxa de mais-valia que. assim. que a mais-valia pode se desestabilizar. É necessário lembrar aqui. para que este retome. para poder se beneficiar da política de seguros sociais. além de uma sólida organização sindical.mais-valia retirada do capital. pois os seguros sociais foram instituídos em relação à mão-de-obra efetiva. o mais rapidamente possível. a formação continuada. intervêm quando é diminuída ou afetada a capacidade de trabalho do trabalhador. Quando estão doentes. a medicina de empresa. separa as distintas camadas da classe operária. elas aumentam também o valor da força de trabalho. Os trabalhadores do setor autônomo. pagando uma contribuição mais elevada. devem filiar-se à previdência social. diz respeito fundamentalmente à camada produtiva da classe operária. mantendo a produtividade dos setores industriais. A política social fragmenta. velhos ou acidentados. de outra forma seria estável”. em relação à posição de Altvater. tendo em conta o seu valor agregado. férias. não têm as mesmas condições que os trabalhadores do setor monopolista. considerando-se que o salário mínimo não permite a subsistência do trabalhador. proporcionalmente. ao mercado de trabalho. contratos orais claros. A política de valorização da força de trabalho a que nos estamos referindo. menos para com seguros sociais. e sofrem mais facilmente as conseqüências das crises. adotando ao mesmo tempo um enfoque diferencial para cada uma. . de acordo com a inserção destas nos diferentes modos de produção de uma formação social. mas não têm as mesmas vantagens de salário e de condições de trabalho que os do setor monopolista. Eles são pagos abaixo do valor quotidiano da força de trabalho. roupa de trabalho. abonos. maior segurança. per capital. São despedidos primeiro e reabsorvidos depois. ainda remanescentes do modo de produção mercantil.

em condições mínimas que os capacitem para uma 11 DIERCKXSENS. A fragmentação das políticas se insere num contexto de articulação da valorização da mão-de-obra e de sua manutenção em reserva. de lazer. partes acessórias e matérias-primas para as indústrias monopólicas. Já os trabalhadores do setor concorrencial dificilmente teriam acesso a casas. articuladas com a manutenção da reserva de mão-de-obra da população excedente. que é baixa no setor. mas a força de trabalho para o capital. os governos buscarem a lealdade de seus servidores pela concessão de certos benefícios.individualmente. já que consomem a quase totalidade de seus salários em alimentação e vestuário. o objetivo das políticas sociais é estimular a produtividade. o consumo. guardar. na história da previdência social. A força de trabalho supérflua é um excedente de população que não valoriza e que não é valorizada. de saúde. Basta dizer do grande número de pequenas empresas subsidiárias que fabricam as peças. que tenham sido instituídos os seguros para essa camada ou fração da força de trabalho. 2). nas melhores condições possíveis de acordo com a correlação de forças sociais. Ao mesmo tempo em que se realiza essa política de valorização da força de trabalho. exerce uma pressão direta ou indireta para que os salários e os benefícios concedidos sejam rebaixados.La reprodución de la fuerza de trabajo bajo el capital Lima. p. Os trabalhadores excluídos do mercado de trabalho constituem um exército industrial de reserva. de educação. mas dentro de duas condições fundamentais: 1) com um benefício inferior ao dos trabalhadores incluídos no mercado de trabalho. Wins . na expressão de Wim Dierckxsens11. Para essas camadas da classe operária. Os trabalhadores do setor monopolista estão em melhores condições de beneficiar-se da política de habitação. A população excedente e produzida pelo próprio desenvolvimento das forças produtivas. não nos parece que tenha sido em função da produtividade. . que é necessário manter. e manter a paz social. que. Os setores monopolista e concorrencial estão intimamente correlacionados e articulados. Não foi raro. por sua vez. No âmbito estatal os trabalhadores gozam de seguros sociais. lazer. A população-alvo das políticas sociais não são os indivíduos isolados. 16. há políticas que pressionam por sua desvalorização. CELATS. 1978. como as pensões e aposentadorias. Cuadcrno CELATS n9 15. Assim. mas estão sujeitos a mudanças políticas e aos recursos orçamentários disponíveis.

mas para resolver uma crise de superprodução. Mas. forçando a uma volta do valor da força de trabalho a seu valor quotidiano. mas só validado pelo Estado. o indivíduo se sinta validado socialmente. que não contribui. As políticas de transferência de dinheiro e de “distribuição de renda” objetivam dinamizar a própria capacidade ociosa do capital. E necessário que mesmo estigmatizado pela recepção da ajuda. O inferno do pauperismo é constituído por aqueles trabalhadores totalmente desmonetizados. não representa senão uma pseudo-validação social da existência da reserva. não tendo em cofre o dinheiro disponível às prestações. tem que recorrer às despesas públicas para “validar” essa mão-de-obra. (órfãos. A modificação da composição orgânica do capital e da produtividade do trabalho fazem aumentar a produção. O valor das aposentadorias. como nota Suzanne de Brunhoff. pensões e benefícios estatais reduz o valor da força de trabalho a um mínimo extremo. donde a necessidade de aumentar os consumidores para resolver a mesma crise de superprodução. e com efeitos inflacionários. Tanto o regime de assistência como o regime de seguro social monetizam os trabalhadores excluídos do mercado não por urna questão de subconsumo. mais atraída que repelida pelo mercado de trabalho constitui a população flutuante. Por sua vez. vinculada a um discurso de valorização do homem. e de crise fiscal. velhos abandonados. A superpopulação relativa. miseráveis. Essas prestações de seguro ou de assistência. em períodos de crise. produzir mais. o valor de reprodução da força de trabalho pode ser socialmente reconhecido. o Estado. Essa monetização da força de trabalho pela assistência. por uma política que não o valoriza. A assistência social também se estende à população que é liberada pelo capital do modo de produção de subsistência camponesa e ainda não integrada no mercado . mendigos). através da despesa pública. Essa reprodução se realiza sobretudo pela assistência social. o que serve de prova aos demais trabalhadores de que se pode viver com “quase nada”. como já foi analisado. no artigo citado. sendo que a estagnada vive de ocupações irregulares e é mais repelida que atraída pelo mercado de trabalho'. mas não é mais socialmente validado com prestações efetivas.substituição. são formas de validação da força de trabalho que não trabalha. em situação de crise. que mantém esse “viveiro de trabalhadores”. baratear os custos. o que na expressão de Suzanne de Brunhoff consiste numa pseudo-validação.

como também na baixa do custo dessa reprodução. incapacidade. estes também contribuem para o trabalho produtivo. quando não pode conseguir um biscate. . portanto. Se os trabalhadores ativos contribuem para os inativos.Femmes. 13 Ver o contrato de locação de serviços agrícolas no inicio do século que postulava a dispensa do trabalhador doente. levando-se assim à adoção de medidas de previdência social para o camponês. mantendo a produção e o Estado. ao mesmo tempo toma assalariados os que são submetidos à produção capitalista. As políticas sociais articulam essas distintas formas de manutenção da capacidade de trabalho e reprodução da força de trabalho de forma contraditória e dialética. os trabalhadores que perdiam sua capacidade de trabalho poderiam ser “ajudados” como relegados aos cuidados da família13. era a família camponesa que assumia a subsistência dos velhos. p. Á medida em que o capitalismo penetra no campo e libera mão-de-obra. são também combinadas com o que Claude Meillanoux chama de “modo de reprodução doméstico” 12. Maspero. 1229 A enfermidade do locador é causa de dispensa. que constituem os serviços ambulantes. de guarda de automóveis. A reprodução da força de trabalho compreende três domínios principais: 1) a 12 MEILLANOUX. consumindo. de assistência. É pelo trabalho extenso da família camponesa que esta mantinha seus membros em caso de velhice. no âmbito de sua cultura popular. pois não deixam de pagar impostos. Paris. barateando os gêneros de primeira necessidade. na maioria dos países latino-americanos. 152. e na ajuda mútua familiar. doença. doentes e desempregados. que buscava os “recursos” da medicina rústica. greniers et capitaux. inválidos.capitalista. em geral. eles também estimulam o consumo e mantêm o processo de acumulação. isto é. no contexto de sua ideologia de fatalismo e submissão. Ver Código Civil. C. O paternalismo da oligarquia agro-exportadora era arbitrário. Ao serem excluídos da previdência social. A assistência é atribuída segundo critérios morais de bom comportamento e segundo a prova de indigência ou de incapacidade de trabalhar. As formas de seguro social. e. Art. os trabalhadores do campo contribuíram com os trabalhadores urbanos na melhoria da manutenção de sua capacidade de trabalho. . Se os seguros sociais são medidas de valorização da força de trabalho. exigidas pelas lutas sociais no campo. No Brasil. de limpeza de carro. encontrados nas cidades latino-americanas. 1975.

A política social da infância (menores. a assistência. set. mantém e forma a reserva de futura mão-de-obra./dez. juridicamente estabelecida. in Serviço Social e Sociedade. . lazer. 14 FALEIROS.manutenção da capacidade de trabalho. reeducarão. REPRODUÇÃO DAS DESIGUALDADES A reprodução da força de trabalho reproduz também a situação de classe e as desigualdades sociais inerentes ao sistema capitalista. a formação profissional.5. escolas. mas também o lugar ocupado pela classe trabalhadora no sistema produtivo. como corredores. excluindo e integrando a força de trabalho tanto quantitativa quanto qualitativamente. 2) a restauração dessa capacidade. serviços. Vol. para repor as energias gastas pelo trabalhador no processo de trabalho. os seguros sociais. São Paulo. lançando novos trabalhadores no mercado ou na reserva. seguros. 3) reprodução de novos trabalhadores."Espaço profissional e espaço institucional". Essa reprodução se dá por intermédio do próprio sistema de organização da política social. reproduzem não só a força de trabalho. 1979. segundo o lugar ocupado pela mão-de-obra no sistema produtivo. Mas é necessário colocálas coma instrumentos de filtragem da reprodução social. A criação de creches está também vinculada diretamente à participação da mulher como força de trabalho. fragmentada e dominadora da realização das políticas sociais. sistema judiciário) vinculada ainda à manutenção da família como prioridade. prestações e manutenção de sua reserva. A rede burguesa consome a alta tecnologia.. 1) a institucionalização discriminatória. das diferenças de classe. Elas são a garantia. com os distintos níveis de atendimento. principalmente pelo salário. As habitações. Até agora analisamos a reprodução da força de trabalho por intermédio das políticas de emprego. Recursos limitados e qualidade deteriorada são os dois componentes para os atendimentos da rede da classe operária. desemprego. Vicente . Não é o momento aqui de estudarmos as instituições 14. 2) a forma de prestarão de serviços e dinheiro vinculada à própria manutenção da situação de classe. a sua reabilitação por meio de salários indiretos. assistência. adoção. 1. a carreira escolar. creches. a internação. isto é. da manutenção de sua capacidade de trabalho e de sua restauração ou de sua guarda. segundo sua expansão ou recessão. 4.

é que as funções de legitimação e de acumulação não estão desvinculadas da função de coerção exercida pelo Estado capitalista17. como os seguros sociais). James . MANUTENÇÃO DA ORDEM SOCIAL Como já ficou assinalado no início desse artigo. James O'Connor 16. partindo de uma proposição teórica geral de que o Estado capitalista cumpre duas grandes funções. E mesmo que as redes de atendimento institucional cresçam. Paz e Terra. 4. 20/01/1980.os melhores profissionais. Rio. Toronto. 8 18 PIVEN F. 16 O'CONNOR. Outra observação relativa a esta colocação de O'Connor. in PANICH. divide as despesas públicas segundo a realização dessas funções. Vintage Books. As despesas com capital social servem para manter a acumulação. R.USA: A crise do Estado capitalista. reproduzindo-se. afirmam cm Regulating the Poor. 1977. enquanto que as despesas sociais reforçam as funções de legitimação. o maior número de recursos 15. ou seja. consistindo em investimentos sociais (aumentam a produtividade da força de trabalho. servindo de legitimação do Estado. Essa classificação nos permite uma visão geral bastante clara das políticas sociais. o Estado não é um instrumento ilimitado de acumulação de capital. Leo . em relação aos Estados Unidos. gastos com a acumulação vêm favorecer a legitimação do Estado. mas intervém. N. n9 157. como a assistência social. as despesas de assistência social e de certos serviços com a população excedente. não são somente gastos com a legitimação.6. Em 15 Ver o debate "Assistência médica para quem". mas como analisamos até agora. Por outro lado. 1977 17 Para urn aprofundamento dessa critica a O'Connor ver PANICH. mas também favorecem a acumulação de capital. pois a política concentradora e excludente de atendimentos faz com que os trabalhadores paguem e financiem os serviços melhores para as classes dominantes. numa situação de “perversidade” social. e CLOWARD. 1973 que em períodos . os problemas continuam mantendo-se. Leo . As políticas sociais se desenvolvem e se retraem segundo a conjuntura política. Folha de São Paulo. obrigado pela correlação de forças sociais. como o afirmam Piven e Cloward 18 . As despesas de capital social referem-se à acumulação privada. acumulação do capital e a legitimação da ordem social. de alguns especialistas em saúde em Folhetim. A categoria despesas sociais tem como função a manutenção da harmonia social. University of Toronto Press. de um ciclo vicioso de exploração e de sua manutenção. p. como os parques industriais) e consumo social (rebaixam o custo da reprodução da força de trabalho."The role and nature of the canadian state".Y.The Canadian State.

é função do Estado. com o pleno desenvolvimento de suas capacidades. e não é dentro de uma lógica formal abstrata que se pode compreender suas funções Nessa perspectiva. Estado e suas políticas situam-se num marco histórico-estrutural. numa determinada conjuntura política. n9 22.fala de três tipos de Estado na América Latina: o civil-populista (coerção temperada por certa abertura à sociedade civil). portanto. a integração. O Estado liberal. busca suas formas de legitimação. como o foi o peruano Velazco Alvarado.Pobreza Urbana e o Estado: As Favelas do Rio de Janeiro 1972-76". a política social é eminentemente política. A conservação do poder político. . 20 PORTES. O Estado de bem-estar social não existe na América Latina. Essa política. o militar-tecnocrático. A ordem pública. concessão e imposição. pp. vamos encontrar o Estado militar-mobilizador. a paz social. Neste sentido. perturbação da ordem pública. como já analisamos. mas não instrumento dos capitalistas em particular. manipulado) por parte das classes dominantes. 19 Nesse sentido ver HIRSCH. 133-161 . mas a reprodução de sua aceitação da ordem social dominante são fundamentais para o funcionamento da acumulação a longo prazo. a introdução do capitalismo em áreas retardatárias e certa de forte agitação social e de recessão houve extensão na lista de assistidos sociais. Alejandro em “Política Habitacional . cit. e. 25-94.períodos de agitação. in VICEN'IE. da hegemonia. justifica suas políticas sociais com base na igualdade de oportunidades. e o liberal-paternalista. no livre acesso dos indivíduos aos bens disponíveis. segundo a correlação de forças. sendo que nos períodos de expansão de capital. sem luta e consenso. Estudos CEERAP. foram estendidos os programas de assistência. Joachim. a oligarquia militar (distância entre Estado e massa). . chamada por alguns de promoção social. J. o que não se faz sem hegemonia e sem dominação. passam por Estado transformações ao longo da história e. enfim não só a reprodução da força de trabalho. no capítulo anterior.M. s/d. da capacidade de direção. Na América Latina dos últimos anos. pp. certos grupos operários) em função desses projetos. de manutenção de um “pacto social aceito” (ainda que não negociado com as classes dominadas.Op. o militar-populista (incorporação das massas). portanto. as formas de legitimação do 19 .. em relação à sua forma de constituirão e ao desenvolvimento de suas políticas sociais 20. houve uma política restritiva para reforçar a disciplina do trabalho. in "Elements pour une théoric materialiste ou L'Etat". estudantes. com um projeto reformista e de mobilização de certos grupos (camponeses. permite uma modernização da estrutura social. O Estado militar-mobilizador.

se. destrói as organizações populares. mas. Os técnicos do governo inventam inúmeros programas sociais. os quais é necessário isolar e eliminar (de uma ou de outra forma). pois esta fica abafada em razão da aliança desse Estado com os interesses das multinacionais e de uma burguesia dependente e associada. impulsionando o crescimento da economia. núcleos comunitários urbanos. a população consegue manifestar certo descontentamento. Mas a questão da mobilização popular é vista sob o ângulo da política da internalização do inimigo. Cercado por um grupo de tecnocratas. e modernizando o atendimento de certos setores sociais. se produz uma desmobilização das classes dominadas. por um novo projeto a implantação de projetos sociais de assentamentos. sem nenhuma participação desta nas decisões. Ao mesmo tempo. concentradas num pequeno grupo. esses instrumentos técnicos passam a ser meios de manipulação popular. concentrando a renda. os grupos populares têm pouca chance de fazer sua pressão. sindicatos. 0 Estado busca uma aliança explícita com setores populares para enfrentar os grupos reais resistentes á modernização. até mesmo o da reforma agrária. manipulando os índices. uma rede de instituições pode ser criada. e logo é percebida como infiltração de elementos estranhos no meio do povo. temerosa de perder seus privilégios. criação da estabilidade que. mas em função dos próprios projetos de governo. Essa política de internalização do inimigo não admite tensões políticas. e termine com as ameaças reais ou percebidas que as classes subalternas possam fazer aos investimentos estrangeiros e á burguesia dependente associada. os salários são calculados com fórmulas complexas. o Estado tenta justificar suas políticas com base em modelos técnicos. A mobilização social global não é tolerada em termos de classe social. em seu conjunto. os modelos são parcialmente modificados. O objetivo estratégico desse tipo de Estado é a estabilização social. Os controles administrativos predominaram sobre os . numa linguagem hermética para a população. mesmo com o sufoco sofrido.redistribuição de terras ou de rendas. permita a inversão e a acumulação. Assim. controla e patrulha os movimentos populares e os possíveis embriões desses movimentos. Esse tipo de Estado não deixa de modificar e de encontrar outras alternativas técnicas. Essa tecnocratização é introduzida através dos planejamentos sofisticados. pois a ordem e a paz devem ser preservadas a qualquer custo. por sua vez. sem a pressão popular. está fechado à negociação. em certas brechas. impede a representação de baixo para cima. O Estado militar-tecnocrático não tolera mobilizações.

forçando-se a diminuição do custo da força de trabalho. ainda. A questão da delinquência transforma-se numa questão jurídica. o problema da fome/subnutrição num problema de supermercados. as desigualdades são reproduzidas. A manutenção da economia capitalista. desmobilização e despolitização das forças dominadas. atuando os profissionais para sua “juridificação”. É verdade que na Costa Rica os seguros sociais são muito mais extensos que em outros países da América Latina. utilizando uma expressão de James O'Connor. que por esse meio mantém a economia de mercado em seu conjunto. segundo a correlação de forças sociais e buscando novas formas de intervenção em políticas sociais para legitimar-se. controlar os movimentos populares. em seu conjunto. as mudanças na política internacional. busca-se o controle e a institucionalização dos conflitos pelo esvaziamento. sua “psicologização”. seja para manter a acumulação de capital. o que também os transforma em bandeiras de um “Estado social”. as instituições de política social funcionam sob a pressão de certas reivindicações populares. seja para manter a ordem social. sua “medicalização". as formas de exploração articuladas. o problema do menor numa questão de educação. com alguns recursos. que podem modificar ou reestruturar certas formas de política social. mecanismos liberais de promoção do mercado. O mercado de trabalho é administrado politicamente. quando não são levadas a um completo aniquilamento. sua “sociologização”. Essas formas de Estado não são permanentes. sua “serviçossocialização”. de rede de abastecimento ou de cestas populares. as . seja para exigir a submissão ou impor o aniquilamento das forças populares. implica cada vez mais a intervenção do Estado. diminuir as tensões sociais. ao se transformarem em política social são administrados política e profissionalmente. o problema da saúde numa questão de remédios. com a distribuição paternalista de certos benefícios a partir do poder público. Os problemas sociais. A administração política estabelece um canal para que sejam expressos. Essa intervenção significa uma socialização dos custos e uma privatização dos lucros.controles políticos. Essas e outras formas de legitimação coerção variam segundo a ameaça possível ou real das classes subalternas. A reorganização das forças sociais. Dentro do Estado liberal-paternalista. Combinam-se. podendo “endurecer” ou "abrir". Ao mesmo tempo.

Se há força suficiente para a realização de um interesse. que surgem as alternativas possíveis de política social. modificam a correlação de forças e as conjunturas para transformação e implantação das políticas sociais. . num equilíbrio instável de compromissos entre as forças presentes e os interesses em jogo. as contradições internas dos capitalistas. É no confronto. mas de modificações estruturais complexas e dialéticas. recuar. devendo parcializar-se. na luta. nem nem das de exigências implacáveis da produção (concepção causas/efeitos imediatos mecanicista). determinista). ou anular-se diante de uma força contrária que quer realizar interesses contraditórios a esses. este se impõe. mas tática e estrategicamente utilizadas na dinâmica dos conflitos sociais. Trata-se de um campo que se define historicamente pela correlação de forças.conquistas internacionais dos trabalhadores. as contradições internacionais. e não de um campo abstrato ou de um instrumento rígido. Estas não são estáticas. A realização dos interesses não depende só da estratégia dos atores (concepção (concepção voluntarista).