TANTRA Projeto Jiva

A Primeira Clínica da Vida Além da Alma.

Editoria

Capa Arthur de Castro Foto da capa Revista Osho Times Revisão Ma Prem Mahahari (Heloisa M de Oliveira Presta) Ma Prem Kaliní (Silvana Mara de Castro) Roberto Melo Editora Sannyas editora

Bhagwan Bhava

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Tantra Projeto Jiva

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Projeto Jiva Apresentação O Projeto Jiva ou projeto Sannyas é o fruto de uma contínua, cuidadosa e longa investigação sobre o homem, a sua vida, seu destino, e sobre as suas possibilidades. Aqui é oferecido pela primeira vez alguns diamantes-insights, diamantes estes que se revelam através das palavras nos diversos sentidos possíveis em uma vida. No contexto do Hinduísmo a palavra Sannyas é um termo Sânscrito para o encontro da essência imortal pelo Jiva, para a liberdade do Homem em vida. Se esta essência é sua Alma ou não, se é um outro ser, tudo isto está ainda por ser explorado. Viver como Sannyasin é viver como um ser liberto, é viver totalmente responsável por si mesmo. Na história humana o homem ainda não foi visto como ele é, e este Projeto visa levar ao maior numero possível de pessoas este conhecimento. O que é o homem e sua Alma? O que nos espera? Qual nosso destino? O que realmente podemos fazer por nós mesmos? E principalmente, como fazer algo? O Projeto Jiva traz este diamante capaz de refletir para nós a nossa própria existência, possibilitando um espelho mítico, onde podemos nos ver. Ele é financiado pelos discípulos do Mestre Bhava, que trouxe para si a imensa responsabilidade de dar um sentido, de produzir algo que evidencia aquilo que liberta. Todas as grandes tradições religiosas como o Cristianismo, a Muçulmana, a Budista, e o Hinduísmo, devem conter dentro de suas tradições algum ponto de vista próximo ao Sannyas, da mesma forma que a filosofia ocidental pode algum dia ter produzido tal tipo de pensamento, embora o desconhecemos até o momento. Sendo assim, o projeto Jiva pode ser a oportunidade de tais manifestações reivindicarem ou desenvolverem ainda mais os seus conceitos.

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O livro sobre o Projeto Jiva é uma coletânea das entrevistas dadas, em grupos, e em respostas de questões pessoais, estas perguntas foram organizadas, e com as questões agrupadas segundo sua semelhança, fruto de quase 30 anos de ensino, estudo e prática do Tantra.

Aproveite esta oportunidade, talvez a única, neste momento, no mundo.

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Dedicatórias Esta apresentação é uma maravilhosa coleção de Insights, graças à perfeição da iluminação do Mestre Bhava, conseguida segundo seu relato com o processo denominado de Ciência da Energia Kundaliní, uma especialidade do Tantra. “Existem centenas de livros e sites na internet que exploram o tema, mas nenhum livro até hoje trouxe em detalhes e com realismo o que significa tal experiência. O próprio Tantra é enfático ao dizer que somente um mestre no assunto, um Guru, pode fazê-lo. Eis aqui e através dos ensinamentos, das palavras do Mestre Bhava, o significado do Tantra, esta tão amada e desconhecida ciência da realização humana.” “Após a leitura do Projeto Jiva/Sannyas, fui invadida por uma onda de otimismo, e a luz gerada por palavras tão bem ditas e colocadas, e de forma verdadeira, devolveram a minha fé, agora renovada por vínculos reais, possíveis.” “A descoberta de um si mesmo e como ele se relaciona com o Universo; a noção cada vez mais clara de liberdade e esperança aqueceu minha Alma de uma forma que me faz grata pela existência desta pessoa, por sua vida, por sua mente, capaz de iluminar com clareza aqueles recantos obscuros e esquecidos de quem somos nós. Cada recanto destes teve a atenção do mestre, de forma a nos dar uma visão incomum, nova e iluminada.” “Para os amantes da auto-ajuda estas entrevistas que aqui são apresentadas como Projeto Jiva, não seguem as tradicionais fórmulas de “faça isto” ou “faça aquilo”, aqui somos levados para as questões mais fundamentais da existência de forma a dar a quem lê, uma revelação gradual deste mistério que é a nossa constante busca pela felicidade. “ “Nas entrevistas aqui reunidas formando o Projeto, surge aos poucos aquilo que desejamos ouvir ao longo da nossa vida, as confirmações sobre a natureza e sobre nossa espiritualidade como gotas de sabedoria, que se reúnem em um todo

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harmônico, produzindo o sentimento extasiante de uma compreensão além, muito além de qualquer filosofia.”

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O sistema1 que o senhor ensina foi mantido secreto por muito tempo, qual o motivo que o leva a falar sobre isto neste momento? No meu caso não houve nenhum pedido de segredo, talvez por que ele seja a provável fonte real da felicidade e da libertação possível, é que tenha sido mantido reservado por alguns grupos até então. Ou realmente não houve quem o revelasse adequadamente. Apenas falo sobre isto, é de minha Alma, é como eu compreendo a existência.

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Como se chama o caminho ou sistema que o senhor ensina? Sempre se chamou de via tântrica, de Tantra, uma escola Dvaita2, uma escola dualista.

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Sabemos que seu processo de iluminação veio através dos métodos da secreta filosofia do Tantra, um sistema indiano Dvaita de realização. O senhor poderia esclarecer melhor, que é Tantra? Tantra é uma palavra composta por dois prefixos, Tan e Tra, extraídos das palavras Tanoti e Trayati. Significa uma expansão, Tan; e uma retração, Tra. As duas realidades, a realidade objetiva e a realidade subjetiva.

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Historicamente como localizamos esta filosofia? No hinduísmo o Tantra é classificado como uma escola dualista. O Tantra é Dvaita, é uma escola dualista da filosofia Vedanta, a palavra Sânscrita “Dvaita” significa “dual.” Essa linha de filosofia foi estabelecida por volta do século X, na Índia.

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Tantra. Dualista.

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Em contraste com a escola Advaita3, não dual, de Shankara, do século VIII, o Tantra propõe a dualidade eterna entre a Alma ou Atman4, e Brahman ou Deus. Diferença esta que é tanto qualitativa como quantitativa. Enquanto a tradição Advaita, não dualista, enfatiza a não diferença - Abheda, entre Brahman e o Atman, entre Deus e a Alma, especialmente em termos qualitativos, o Tantra sustenta a separação e a distinção eterna entre ambas as entidades, ou Bheda. Este sempre foi um ponto delicado na tradição Vedanta, que sempre foi Advaita, sempre teve Abheda como seu princípio irrevogável – Para o Vedanta, ambos, a Alma e a Consciência ou Deus, são de natureza espiritual e transcendentais ao mundo fenomenal. No Tantra isto é bem diferente. 5 Houve algum acontecimento histórico que marcou esta mudança? A filosofia dual do Tantra foi prontamente adotada por muitas seitas, que se sentiam incomodados diante da delicada situação de adorar um Ser supremo que era idêntico a todas as outras coisas, pois não havendo a dualidade entre a Alma ou Atman, e Deus, Brahman, adorar um burro é igual a adorar a Deus. Houve desta forma na Índia Vedanta, uma proliferação de crenças em animais, coisas e pessoas - pois todas eram e são Deus, e tudo é Deus por este ponto de vista. E foi por este motivo que as pessoas e os animais se misturaram nas diversas crenças. Até aquelas formas como Mandalas5 assumiram esta representação. Então o fato é que não havia mais uma representação de Deus, todas eram válidas e assim nenhuma era a mais próxima de Deus. E mais, esta visão trouxe uma perigosa perda de expectativa, então não havia nada que pudesse ser feito por uma pessoa, tudo já é Deus de alguma forma. Se Deus está em tudo, é tudo, para que existem os templos e os sacerdotes? Então cada pessoa foi criando sua forma de adoração pessoal e isto teve implicações sociais catastróficas, foi o que ocorreu na Índia. Para dar sustentabilidade a isto, as Castas vieram como um extrato representativo de seu papel. Para ser Deus as pessoas deveriam aceitar o seu papel social, o seu Dharma. Se você é negro ou loiro, é assim que Deus se fez representar em você. Cabe a você aceitar isto, e esta aceitação é a casta. As condições genéticas,
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Monista. Não Dualista. A Alma imortal. 5 Inscrições simbólicas, bidimensionais

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sociais, econômicas, climáticas etc são fruto do seu Karma, aquilo que você teria que cumprir para ser Deus. Há aí uma verdade e uma ilusão, certamente cada pessoa é hoje o fruto do seu Dharma, de condições passadas, isto é correto, mas segundo o Advaita você se realiza aceitando e se limitando a ser o seu Dharma. O Tantra alterou isto, como o Budismo e o Jainismo. O Tantra por que é Dvaita, ou seja, nele a Alma não será Deus, jamais. E nem Deus será a Alma jamais. 6 Desta forma foi a visão Advaita, não dual, foi ela quem pulverizou a crença na não dualidade na Índia. E daí surgiu o Tantra? Os conceitos filosóficos do Tantra são um tanto radicais, além da proposta herética de dualismo, aos olhos da filosofia Advaita Vedanta, ele também propõe a tese da condenação eterna, o ser nascido estaria condenado a ser eternamente, coisa enfaticamente rejeitada pela maioria das escolas do hinduísmo que crêem na salvação da Alma de um processo de vidas contínuas. No Tantra a Alma não irá se salvar, mas poderá transcender seu aspecto pessoal para um aspecto mais cósmico ou Universal, mais próximo do outro, por sucessivas experiências de Brahman, os chamados Samádhis, a Felicidade e as suas conseqüências. Logo, para o Tantra, existir não é ser Deus. Mas experimentar a felicidade é ser Deus. Então no Tantra não há a “salvação da Alma”. Desta forma a experiência de gozo, de prazer, é uma experiência de Deus, da Consciência. Aqui começa um caminho diferente do Advaita, pois a Alma vive experimentando ser “Deus”, há a possibilidade de investigar a nossa natureza. É uma psicologia do esotérico. 7 Isto ainda está um tanto obscuro, foi isto o que alterou a qualidade da busca espiritual? Sim e alterou completamente. Muitas escolas hindus advogam o preceito do Sahaja6, ou caminho de uma liberação espiritual espontânea, como sendo o trajeto invariável da Alma, após um longo Samsara7, ou ciclos de nascimentos e mortes desta Alma. E que a Alma, finalmente, ela se emanciparia deste mundo dual e temporal. Veja que nessa questão, na filosofia não dual não costuma haver
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A realidade espontânea ou natural. O mundo das mudanças finitas.

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dualismo, ou seja, o sentido da degradação da Alma vida após vida é impossível, já que Brahman ou Deus e a Alma teriam a mesma qualidade espiritual, e se Atma ou a Alma se degradaria, Brahman ou Deus também o faria? E isso é impossível, pois essa inferência nega o Shruti que diz que Brahman ou Deus é “perfeito e estável em todos os aspectos”. Logo caem os aspectos transcendentais do Avdaita. Se tudo já é Deus, Consciência, então os aspectos transcendentais não existem no Vedanta Indiano. O que seriam? O que seria transcender? Segundo as escolas de Vedanta, a Alma, é um Moksha8 Yogi e não um Tama Yogui, isso é; a Alma está preparada para a liberação e não para a escuridão eterna. Negar esse princípio é negar o próprio caráter ariano dos Vedas, já que ariano quer dizer progressivo, evolutivo. Então a vida do Advaita é um processo progressivo através de muitas vidas até ser Brahman ou Deus. Por este ponto de vista o sujeito já é Brahman, e ao mesmo tempo não é, e para ele ser, precisaria sacrificar alguns aspectos da vida, levando a sua cultura a ser bitolada pela meta espiritual. Desta forma, pelo Advaita, nada nos afasta ou nos aproxima de Deus, o que entra em choque com a cultura e a tradição e com qualquer método espiritual. O Yoga como filosofia foi aceito pelos Brahmanes, pois ele disfarça seu aspecto Dvaita, dual, e logo o Yoga e o Tantra se uniram. Foi o casamento perfeito. Um conjunto de técnicas meditativas com uma filosofia que dizia que a pessoa poderia ter a experiência de libertação nesta vida mesmo. Por este motivo a minha primeira clinica é a da Consciência e do Eu, do Dvaita. 8 Ou seja, para o Vedanta, não dual, o indivíduo e sua vida espiritual estão na tradição e na família? Isto mesmo. Já com o Dvaita, com o Tantra, o hinduísmo passou a poder contar com um aspecto filosófico bem mais próximo das religiões semíticas que adotam concepções duais entre a deidade e as Almas individuais e que são bastante

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A libertação, um dos quatro Purusha Artha.

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rígidas na proposição de diferentes destinos tanto para os piedosos como para os pecadores. E daí surgem questões como: - O pecado é um afastamento de Deus? Já que ele, o crente, é Deus? - Se o sujeito peca, não é por que Deus quer? Já que ele é Deus? Compreende agora o embaraço e o estrago social desta doutrina não dual? Então as pessoas criticam as religiões, quando deveriam criticar o monismo filosófico e não as religiões. Mesmo com o Dvaita, com o dualismo, continuou a exploração do princípio do Karma9 como uma lei. Mas as implicações disto são enormes, pois no Tantra Deus não age e nem controla a natureza, ela segue leis próprias fora do controle de Deus, então Deus ou Brahman é um principio de Consciência concebível e conhecível. O “Tat Tvam Asi”, do Vedanta passa a ser “ver-se como se é”. No Tantra a dualidade é trazida para o indivíduo, Deus passa a ser um principio de Consciência, a sua fonte inseparável. Isto é o esotérico. Isto é um grande segredo esotérico, Deus é um só, a Consciência é uma só. 9 Deus não controla a natureza? Não, Deus não controla a natureza, a natureza tem leis próprias que absolutamente nada tem a ver com Deus. Nem mesmo a natureza foi criada por Deus, ela surgiu de sua presença como manifestação material, mas não é Deus. A natureza, chamada de Prakriti10, segue suas leis próprias. Existe e continuará existindo por que “Deus” está presente como Consciência em tudo, mas não age, nunca agiu e nunca agirá. Quando nós pedimos proteção, rogamos algo, deveríamos pedir para as forças da natureza e não para Deus, veja que a própria igreja católica está mudando, a “mãe” já representa quem pode intervir na natureza e não Deus.

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Ação, atividade. A procriadora.

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Parece... que a fé como uma força individual, como a nossa vontade, fica bastante comprometida no Tantra, pois nele, Deus, não age. Como isto se explica? Engano seu, a fé é justamente a expectativa. A fé vem da crença na interferência divina, mas para o Tantra, todas as forças são divinas, a Consciência está em tudo da mesma forma- imutável, então a fé é na natureza e não em Deus, esta fé se dá pelo conhecimento destas forças e de como operá-las. A Fé Advaita vem de Deus em todas as coisas e de que este Deus não é dual, ou seja, o religioso se submete ao destino, pois ele é seu Karma, seu caminho natural. A investigação espiritual, o Tantra, começa quando o homem separa Deus da natureza. Isto tem implicações muito complexas, como o reconhecimento do outro e da matéria. No Advaita o outro não existe, no Tantra o outro existe, o outro é uma outra dualidade, uma outra Alma, com uma outra fé, mas com a mesma Consciência. Assim o que passa a existir entre os sujeitos e suas Almas é o pacto social, mas no Advaita não, nada interfere na vida, nem o outro. No Tantra, há uma sociedade entre as nossas Almas, uma cultura, e não há nada entre nossas Consciências. Isto é importante. A própria investigação científica começa quando isolamos Deus da Natureza. A fé como uma expectativa, ela pode vir daquilo entre nós, do desejo, da sociedade ou da Consciência, a fé como expectativa é espiritual - de que nós somos a mesma Consciência. O desejo vem da Alma, do Eu, de que posso ser melhor que você, ter mais, ter menos etc A referência do desejo é social e cultural, mas a referência da Consciência é nula, é só uma separação que produz uma expectativa, dita amorosa. A fé vem na expectativa de que compreendendo o Dvaita, compreendendo a minha primeira clínica, podemos alterar as condições, pois se eu sei que Deus não interfere em nenhum assunto, quanto mais eu sei disso, mais minha fé se direciona para compreender melhor a natureza e seus mistérios. A fé é a crença em uma expectativa que está obstruída pelo fato de você achar que pode pedir alguma interferência divina, quando você sabe que isto não é possível, está fé se transforma em poder. A fé em Deus tem uma ligação com a crença na morte, em uma extinção salvadora.

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Segundo o hinduísmo o Dharma são as condições que me fizeram estar aqui. Mas tenho lido que é a lei, poderia nos esclarecer melhor este aspecto? O Dharma é o fundamento ou o alicerce, do seu eu. Todos nós esquecemos quem somos, e às vezes em uma conversa em família, lembramos aquela sensação de base, de fundamento, que volta quando lembramos quem nós somos, do nosso lugar na cadeia de eventos que nos dão a sensação de existir, este é o Dharma. Quanto mais você souber do seu Dharma mais fundamentado você estará. Então a clínica psicanalítica ocupa-se deste reconhecimento. Ou seja, ao longo da sua vida você teve que negar-se para ser, e para dar conta de ser. Estas negações de si mesmo, até o amor pode ter sido uma negação de si mesmo, foram feitas para ter experiências, ser o outro ou fazer os outros serem você. Isto deveria se encerrar na juventude chegando a um ápice de maturidade. Então na clínica psicanalítica fala-se, conta-se, e assim se reconhece as condições e circunstâncias que lhe fazem ser, isto é fantástico, pois todas as memórias vão se unificando novamente até uma lucidez notável. Na Índia este aspecto é o que gerou um grande país de famílias, com sua história e suas memórias. O sujeito indiano pela sua estrutura social, já faz terapia, pois ele conhece e vive o seu Dharma. Isto é bom, mas é ruim para sua emancipação.

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O senhor quer dizer que só há uma Consciência humana? Isso mesmo, só há uma Consciência.

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Não existem varias Consciências que se comunicam entre si? Não, só há uma Consciência e justamente por ser apenas uma só Consciência, há comunicação entre nós. Isto está claro. E até hoje somente duas pessoas disseram isto de uma forma muito tímida, Krishnamurti e Osho

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Sempre foi uma única Consciência? Sempre foi e sempre será uma única e mesma Consciência, pois ela é imutável.

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Se o que nos separa é nossa Alma, a nossa cultura, o nosso Eu. A nossa existência nos separa da Consciência? Exatamente, a nossa existência é aquilo que nos separa, cria uma “ilusão” de eu e de você. A ilusão se dá por que meu corpo é separado do seu, tivemos uma história diferente e vivemos circunstâncias diferentes.

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A Psique também está separada dos demais? Passamos a existir como Psique quando damos conta deste isolamento, desta separação, de alguma forma, sendo alguém, sendo uma Alma. Se somos a mesma Consciência não pode haver eu e você, então para dar conta de ser você, é necessário uma psique, a sua psique. A sua percepção de si mesmo. O que falamos, comunicamos, é o fato de sermos diferentes, marcamos a nossa diferença por um discurso que nos separe e ao mesmo tempo dê conta desta separação, mas pelo mesmo discurso que nos separa.

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A Psique ou a Alma está em comunicação com outras Psiques? Indiretamente sim, cada psique se comunica com a Consciência no outro e então as psiques estão interligadas, isto é o Inconsciente.

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Aquilo que nos separa o senhor chama de Alma, Psique, Eu? Sim, imagine antes, éramos a mesma Consciência então não havia comunicação entre a Consciência e ela mesma, não há necessidade alguma, então esta Consciência é eterna, não está no tempo. No momento em que esta Consciência está em um corpo diferente do corpo da sua mãe, especularmente é preciso um intermediário entre a Consciência e ela mesma. Então qualquer coisa que se faça será diferente da Consciência mesma. Mesmo que você diga que é a mesma Consciência, já há diferença, compreende? O Ser até mesmo para ser esta Consciência precisa de uma Alma, de uma psique, de um Eu. Entretanto eu posso falar com minha Consciência através de minha Alma, falando, e escutando, os outros. Mas isto cria a ilusão de que posso encontrar a felicidade pelos outros.

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O que o senhor nos diz é que falamos com nossa Consciência através dos outros? Precisamente, eu tenho acesso a minha Consciência conversando com você e por sua vez, você tem acesso a sua Consciência conversando comigo. É a Biunivocidade11.

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Não posso ter acesso a minha Consciência sem o outro? Jamais. Por que isto não é necessário. O discurso é do outro.

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Então meu pensamento é um diálogo imaginário? É o que eu tenho dito todos estes anos. É preciso que você seja dois para pensar, imaginar.

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Usamos um ao outro para ter Consciência? Não há outra forma de ter Consciência. Veja, se minha Alma ou psique me proporciona a capacidade de falar, de usar símbolos, é por estes símbolos que posso falar comigo mesmo na Consciência que está em você. Isto gera entre nós um Inconsciente, eu tenho acesso a minha Consciência por você e você tem acesso a sua Consciência através de mim. Esta ponte que usamos é o Inconsciente, algo que nos separa e ao mesmo tempo permite um acesso cruzado, biunívoco.

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E se eu falar comigo mesmo? Isto é o pensamento, o uso de seu aparelho Psíquico para pensar, imaginar, e para tanto é preciso que você se divida em dois, que você crie uma separação dentro da separação. Um outro Eu, um alter ego, que na verdade é triplo, conforme Freud descobriu. A Consciência em si não participa desta dialética. Isto, o pensamento, é o conhecimento, mas ele não é a experiência da Consciência.

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Qual é a origem do pensamento?

A realidade objetiva em expansão e a realidade subjetiva, imutável.

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É a memória, é o que eu já fiz, é um passado trazido para um presente, o passado é o conhecimento, aquilo que foi o fruto das experiências psíquicas anteriores. Você não pode lembrar-se do nada, mas pode imaginar agora o que conheceu antes. 25 Esta dinâmica psíquica não tem a participação da Consciência? Não. A única “vontade” da Consciência é ser imutável, então ela sempre é. A sua presença possibilita um desenvolvimento triplo da Psique. A Consciência, Shiva12 para os Hindus, não está separada da sua energia, Shakti13, ela é imutável, eterna. A Alma surge como um Eu que afirma ser, tem a vontade, segue a dialética: “Eu sou”; “Eu sou isso”; e “isso sou Eu”. 26 Correto. Dizer ou pensar “eu sou” já é a Alma quem diz. A intermediação pela linguagem? A linguagem é o que dá conta de ser um eu, mas ser este Eu é uma “separação fictícia” da Consciência. Então o processo de iluminação é transcender a linguagem, que é o mesmo que transcender a Alma ou o Eu. A Psique é feita de linguagem, de letras e palavras, de sons. 27 Isto me leva a outra questão sempre bastante complexa no hinduísmo, os Chakras. Pelo que o senhor afirma agora, provavelmente eles são feitos de letras, sons e não de energia? Os Chakras14 são a estrutura da Psique, uma organização do alfabeto, um corpo de sons, uma memória sonora. A Consciência é luz, os Chakras já são a luz tornadas sons. 28 Os Chakras são agrupamentos de letras? Os Chakras já são centros da psique que possibilitam a nomeação das coisas, pela combinação de letras. Então se eu digo a palavra “cadeira”, você ouve, pois,

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Totalmente Benigno. Poder. 14 Roda. Centros de grupos de letras.

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a mesma combinação é possível em você, e já estava em você esta possibilidade. Por isto a fala e o pensamento são trocas em forma de símbolos.15 29 Eu não poderia escutar se não tivesse em mim? Poderia ouvir, mas não escutar, é preciso que esta matriz ou Matrix esteja pronta em você, que exista uma forma de manifestação da matéria, a matéria é Máyá 16. Esta teia universal se formou em poucos segundos após o Big Bang, esta teia é a nossa Matrix, uma organização energética do universo, da natureza, da matéria. O nosso corpo é matéria e segue os mesmos padrões da matéria. 30 O princípio de manifestação de Deus é Máyá? Não, Máyá é a matéria como o seu todo, que se revela em partes, que vem de outras partes até o fim do processo como ele está hoje. O princípio evolutivo da natureza em relação ao homem é chamado de Prakriti, e a Alma é o Purusha17, o homem , mas não é Deus. Toda a natureza para o homem é Prakriti e todo o princípio de Consciência desta natureza é o Purusha, a Alma. Há a presença de Deus ou a Consciência na natureza como um princípio inoperante, eliciador, imutável. Máyá é todo principio de manifestação do Universo como matéria, desde uma partícula, um fóton, até os átomos, matéria e antimatéria são Máyá. Máyá não é fenômeno e nem uma ilusão, e sim a matéria medida, e em sua totalidade. Entretanto, Deus como uma Consciência Contínua, sendo a mesma sempre, não há nela, não há o desejo desta Consciência em estar em algum aspecto de Máyá, ele é todos os aspectos o tempo todo. Se o próton é uma partícula, e o elétron é uma outra partícula, Deus é indiferente, está nos dois da mesma forma.
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O processo não é tão simples assim, pois a questão não se resume ao pronunciamento da cadeia sonora, mas, de uma certa forma, ao conhecimento entre significante e significado, já que atuam, instantaneamente, de forma simultânea -- referência e conceito -- como já nos mostrou Saussure. Além disso, tomando a idéia de língua como código, proposta por ele, é preciso conhecer esse código para trabalhar, no processo de comunicação, com as possibilidades combinatórias. Diga-se, também, que as letras apenas são símbolos gráficos de representação dos sons, pelo menos no alfabeto fonético – Roberto da Melo.

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Medida. Homem.

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A natureza se divide, se particiona, é Kála, tempo; e é Kalá, parte. Havendo parte há tempo. “Deus” é Akála e Akalá, não se divide, está em tudo da mesma forma, pois não é afetado pelo Tempo. Pense nisto, que a Consciência é um todo, não tem partes, não se divide, é Akalá. Também ela não está no Tempo, é Akála. Imagine algo que está em você e não começou e nem termina, não se divide. É Deus. A qualidade dele é ser imutável e não afetável por nada, o Yogue buscava ser Deus buscando a impassibilidade psíquica. Como é a Consciência. 31 Isto significa que Deus não criou e nem interfere na matéria, mas que ele é eterno? Sim, a qualidade de Deus, da Consciência, é ser eterna e imutável. É uma estrutura sempre ausente. Mas não é a antimatéria, não é nada que possa ser concebido, limitado. Isto significa que temos que reconhecer, a vida é dupla, uma vida que nos expande pelo desejo e pelo gozo, Tan; e outra que nos recolhe a si mesmo pelo Tra. Temos assim o desejo e a vontade do amor que quer o gozo e logo a paz e a quietude, o recolhimento em si mesmo como uma expectativa amorosa, do gozo que é amor. 32 O Eu é a Consciência, é Deus? Não, o Eu nasceu, se formou, se fez, a Consciência sempre foi. Então nós somos duplos, um Eu que se fez pela cultura, pela linguagem, e a Consciência eterna e imutável. O Eu é a Alma, é o Purusha, é o Homem, é o Avatar da Consciência, é o sujeito da ação. 33 A linguagem fez o Eu? Exatamente, e ainda posso lhe dizer que é pela linguagem que surgem as circunstâncias de ir além deste Eu, uma expansão do Eu, pois a linguagem cria

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uma circunstância para a Consciência se manifestar como fonte imutável. Alterar assim a estrutura da Alma. Somos um Eu que se faz pelos nossos desejos e somos uma Consciência, além dos desejos. Este jogo duplo que a vida é chama-se, - Tantra. O Eu nasceu e precisa se fazer, a Consciência é tudo, está pronta, sempre estará e sempre será a mesma, Deus. Para dar conta da realidade criada pela cultura, este Eu precisa fazer-se, e a Consciência não precisa de algo, ela é sempre. O Tantra é Dvaita, pois a Alma, o sujeito, o Eu, sempre será distinto da Consciência, ela é um Avatar da Consciência. O Jiva18, o Ser, é aquela “parte” da Consciência que está na sua Alma, no seu Eu. 34 É possível ao Eu ser uma Consciência? Eu lhes digo que Sim, pela via do Tantra é possível. Pela via do Tantra este Eu pode ser a Consciência pela felicidade e pelo desejo. Você tem sido confundido, de que o seu desejo representa justamente aquilo que lhe impede de ser, que o seu Eu já é verdadeiro. De que Deus e que o seu Eu sejam a mesma coisa, mas não são. Você tem sido sistematicamente enganado, desta forma. O Eu nasce, cresce e se desfaz. A Consciência não nasceu não cresce e nem morre, ela é. Sempre. Por este fato cósmico você vive uma vida dupla, em uma gangorra cósmica, sendo o Eu e sendo a Consciência, si mesmo. Então por mais feliz e próspera que seja a vida do Eu, lhe falta sempre algo. E lhe é dado uma escolha, escolher entre a vida do Eu e a da Consciência.
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Ser vivo.

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Se você escolher seu Eu viverá uma vida limitada pela morte, o que é um alívio é bom saber que se morre. Má noticia: Na hora da morte nem o Eu morre de fato e nem a Consciência se liberta dele, ela jamais esteve presa a ele, jamais foi ele, ela é tudo, sempre será qualquer coisa. Boa notícia: Você pode ser esta Consciência, nesta vida mesmo, e em qualquer vida daqui para frente, se isto existir. 35 O que torna o Eu uma Consciência? A bem aventurança, aquilo que é bom, é o que aproxima o Eu da Consciência. Mas o Eu confunde o fato de ser bem aventurado como o de ter isto somente para ele, o Eu se recorta do Universo para ser, então ele Viola a lei da Consciência. A clínica psicanalítica ajuda, pois o psicanalista lhe devolve seu Eu, e então os problemas e os gozos de sucesso são seus. E você precisa se responsabilizar pelos dois, pela parte ruim e pela parte boa. Então se uma pessoa se responsabilizasse totalmente pelo seu Eu, seria iluminado, seria a Consciência vivendo a dinâmica como uma Alma. Como isto é muito raro, é topologicamente impossível mesmo, resta a outra via, que chamamos de Kundaliní 19, a de um fenômeno unificador. Então é o desejo de gozo que leva o Eu ao amor, já o amor como gozo é um estado de não desejo, de ser a mesma Consciência universal, mas logo, surge o “Eu sou”, que se recorta novamente do todo, e que leva a um novo desejo de gozo. Você esquece a fonte, a sua Consciência. Pois o mecanismo da Alma é a linguagem. Entre o Eu a Consciência há uma energia primária, esta força que causa esta biunivocidade, é o que chamamos de Kundaliní.

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Enrodilhada.

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Se situamos o gozo como a instância que liberta, nos enganamos? Sim, nos enganamos completamente, não pelo fato do gozo ser ou não ser tudo, e sim por que nos apropriamos dele de forma selvagem. O gozo dá mais que o Eu pode obter, comportar nele. O amor. Então o gozo ultrapassa o Eu, e desta forma ele precisa voltar a um novo desejo, e assim o Eu precisa confirmar este gozo, pelo outro. Isto é a pulsão, a pulsão detectada por Freud, e a instância do outro, detectada por Lacan. Analisemos este Eu: Ele é formado pela separação de sua mãe, como corpo e como psique, ele se faz sujeito buscando preencher uma falta. Ele surge como sujeito e se torna um Eu ou uma Alma ao ter que dar conta da realidade do mundo, como corpo e psique. Este Eu, até 4 ou cinco meses, era a mãe e tudo no mundo, ele era o mundo e o mundo era ele, e lá na separação da sua mãe ele se inaugura como sujeito, que vive justamente para reparar aquela falta. Freud e Lacan detectaram isto. Agora este Eu busca suprir sua falta colocando algo, desejando, para tampar o furo de sua falta, e cada vez que deseja sente que pode voltar ao paraíso, sente que pode voltar a ser a Consciência. Tenta e acredita que pode conseguir, mas nada dá conta. Por quê? O que lhe fez como Eu, como Alma, foi a separação, a Alma ou o Eu surgem para reparar uma falta, a da separação da Mãe como corpo e como Psique. Este gozo perdido é o que Eu é, ele é um reparador do fato da Consciência ser eterna. Então, Justamente o gozo que lhe aproxima do si mesmo, não preenche, por que o gozo ultrapassa o que cabe no Eu, o Eu deseja, mas o desejo dele é limitado ao que ele se fez como sujeito. Já o gozo é universal, é da Consciência. O sujeito pensa que MAIS gozos possam preencher seu Eu, mas o problema não está no gozo e sim no Eu. Todo gozo dá mais que o Eu é e pode desejar. Amor. 22

A crença em uma simetria, de um ritmo entre o Eu e o gozo, é a pulsão dele, na busca deste preenchimento, que jamais termina. A pulsão é a crença na simetria ou no ritmo entre o Eu e o gozo, simetria que só pode ocorrer em uma linha de tempo, na contabilidade do gozo. Então o desejo do Eu é limitado, mas o gozo é ilimitado. O que o Eu deseja é limitado pelo seu próprio desejo em função de sua própria falta, nas condições de cada um de nós. E o gozo sempre lhe dá mais do ele deseja, ultrapassa sua condição de Eu. A perspectiva do Tantra sobre a realidade é simples: o seu desejo é que é mesquinho, pequeno, e limitado, você deseja pouco, ganha sempre mais que aquilo que desejou e fica insatisfeito, pois percebe que desejou pouco, este “pouco”, na verdade, significa que se deseja ser esta Consciência, que é tudo. A “iluminação” é uma simetria teórica entre o gozo e o Eu, mas como o Eu é uma parte do Todo, e o gozo é do tamanho do Universo, ele é a pura expressão da felicidade como Ananda; como Ser, Sat; então é necessário um conhecimento Cit , do que seja a Consciência, para ser SatCitAnanda. Este ritmo entre o gozo e o Eu é a iluminação. Como manter isto, já é uma outra história. 37 Deus não está na Alma do Homem? Deus está em tudo, mas a Alma é a exclusão da Consciência em favor de uma Consciência pessoal, individual, de uma parte. O Amor ou Deus está negado na Alma. A Alma é a luta pela exclusão de “Deus” ou a Consciência, nela, pelo desejo de ser uma parte, de ser um pedaço do Universo, mas como o gozo lhe dá mais que aquilo que ele comporta... A culpa não é do desejo da Alma ou do Eu, e sim de que este Eu é uma construção individual em cima de uma Consciência única. E o gozo que liga os dois é uma coisa divina. Amor.

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Como saber o que é ser a Consciência universal? Como colocar isto em um desejo? A parte pode representar o todo?Esta simetria pode ser obtida de alguma forma? O Tantra nos diz que sim. Que o gozo pode ser feito por um processo de meditação que dê exatamente a medida do desejo do Eu, que satisfeito encontra a Paz. E assim sucessivamente por esta meditação especial, começar uma simetria entre o Eu e o gozo. Eu chamo isto de simetria de Gozo, harmonia ou Paz. Você fica feliz quando as coisas se encaixam, quando há uma simetria entre você e a realidade, quando o seu gozo não ultrapassa o seu desejo! Sentimos Harmonia quando não ultrapassamos o nosso desejo. Mas na verdade sempre ultrapassa, e é com este resto que ultrapassou, que o Tantra lida. Esta forma secreta de realização foi chamada de Kundaliní. Ela, Kundaliní, representa a energia do gozo, que sempre excedeu o desejo do Eu, trazendo a insatisfação como resultado, como resto da operação. Veja, se esta força é despertada para dar um gozo simétrico ao Eu, e se depois o seu resto voltar e ser guardado lá no lugar onde ela dorme, não há mais gozo que o Eu. O Eu experimenta ser a Consciência mesma. O gozo foi obtido e seu resto guardado. Amor.

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Como Guardar isto? Aí surge uma estrutura indiana, o Pújá20. O agradecimento para alguém que lhe deu isto, vejamos que o Pújá, que é uma etiqueta, propicia o reconhecimento de mais alguém, como uma outra pessoa, que também é uma Consciência como você. Sem o Pújá você não guarda sua Kundaliní, não encerra o gozo, e aí estará embrulhado com a realidade novamente. Haverá sempre mais gozo que o desejo.

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Kundaliní representa uma energia que produz o gozo?

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Adoração

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Esta é a visão correta do Tantra. Um poder heurístico que produz o gozo. Kundaliní é toda a energia do universo mobilizada como Gozo, um poder enrolado, um poder serpentino, um potencial que se renova sempre. Uma força que atrai tudo. Fraca no sentido da física, mas poderosa, pois é Universal. 41 Alguma outra alternativa? Os sonhos já fazem isto, mas de forma Inconsciente, dando ao Eu um gozo conforme seus desejos, e existe uma enorme diferença entre o desejo e a expectativa, mas como o sonho é um processo Inconsciente tudo ocorre sem reflexos diretos no Eu. Os sonhos são a elevação desta força kundaliní conforme as necessidades do Eu. O Tantra faz este processo na vigília, quando o Eu está ativo e não quando dorme, como nos sonhos. A partir da biunivocidade. O sonho é um desejo que sempre cabe no gozo, mas o desejo, na vigília, não cabe no Eu, pois o sonho ajusta o símbolo ao desejo, então qualquer símbolo tem o sentido do desejo e do gozo daquele desejo. O sonho traz a sensação de plenitude, pois desfaz o fantasma que é o Eu. Mas isto não é bom. Este desfazimento diário pelo sono e sonhos, “purificar o fantasma”, “lavar a Alma” querem dizer, desfazer os vínculos dele com o mundo, vínculos feitos através de metáforas e metonímias. Assim o Eu como um fantasma somente pode se comunicar pela linguagem e não diretamente. A linguagem é uma intermediação que dá conta, mas gera o fantasma. A Alma ou Psique é um corpo de linguagem, de som. E o Samádhi 21, é uma felicidade, um gozo sem restos, que recoloca o Eu na dimensão do desejo, lhe dá o êxtase de ser esta Consciência além das palavras. Então a dualidade do Tantra, comporta uma possibilidade real, de ter a experiência de ser aquilo que você é.

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Êxtase.

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Com isto a sua noção de Deus, de si mesmo, se aprimora, ele é Ista, imutável diante do tempo e da natureza. Este Deus imutável é o Deus dos Yogues. É a Consciência mesma. 42 Deus é o mesmo para todos nós? Exatamente, Deus é a Consciência, é ela mesma. A nossa noção dele é que evolui, Deus é Consciência. 43 Um indivíduo iluminado pelo Tantra se aproxima da Consciência, de Deus, é um sentimento ou um conhecimento que produz esta sustentação? Conhecimento e sentimento são, símbolos e valores respectivamente, o sonho é símbolo/valor , ao mesmo tempo, mas estamos dormindo, desligados da linguagem e operando diretamente com as imagens. Mas não há uma aproximação da Consciência ou um afastamento dela, tudo ocorre ao mesmo tempo, a realidade é biunívoca, é Tantra.22 44 A inteligência é um dom espiritual? A inteligência é a capacidade do Eu de lidar com os desafios da realidade. Como disse antes, o Eu é um representante da Consciência, para a Consciência não existe evolução, ela é tudo, sempre foi, e sempre será. Então a inteligência é uma sagacidade ou uma esperteza do Eu. A Consciência não tem inteligência alguma, ela é imediatamente tudo que existe e passe a existir. A necessidade de lidar com a realidade, de dar conta dela, é uma qualidade do Eu e não da Consciência. Veja que esta necessidade é em relação aos demais Eus e não em relação à Consciência. 45
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Existe um sentimento de ser a Consciência, de ser Deus?

Creio haver uma sintaxe para que essa linguagem dos sonhos possa, de alguma forma, ser interpretada. Senão, estaríamos num espécie de caos simbólico, e, nesta caso, não poderíamos sonhar, apenas “passar” sequências de imagens sem qualquer conexão, sem uma textualidade. Creio que tais relações guardam uma imensa complexidade no campo da produção de sentidos, pois sugere outra vertente, com outro tipo de lógica entre as referências dos objetos em questão. Robero Melo

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Uma Imediatez com tudo. O que nos separa é o tempo, o Eu existe pelo tempo, mas a Consciência, ela existe sem o tempo. O sentimento é um valor, do tempo.

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O Inconsciente é Deus? Se tomarmos o Inconsciente como um lugar, sim, ele é Deus. A “mulher” para o Tantra é sagrada pelo fato de ser um lugar, o lugar de origem de todos. A mulher sacrifica sua posição como Eu. Desta forma a mulher como mãe é a porta do Inconsciente para o Eu, é Deus para o Eu. O Eu surge como uma estrutura que lida com a separação do Inconsciente, com Deus. Ao nascer, a criança e a mãe são um só corpo, a criança não sabe que ela é ela e que a mãe é a mãe. Quando ela vê no espelho que a mãe é uma imagem e que ela é uma outra imagem, o sujeito se inaugura como uma estrutura que irá dar conta deste fato, o Eu surge para dar conta da separação com a Consciência, com o Inconsciente dela, com a mãe. Isto é a castração Freudiana. O falo, o Linga 23, que é um termo sânscrito, esta estrutura evanescente que irá buscar reverter a castração, encontrando um lugar, uma Yoni24, que lhe devolva o gozo de ser a Consciência novamente. Ao mesmo tempo em que a “mulher” representa a possibilidade de voltar ao estado iluminado, ela é a causa da separação. Entre nós e o Inconsciente está a Mãe. Então a “mulher” é a porta para Deus, para o gozo, para o Inconsciente, para a Alma se comunicar com a Consciência.

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Como, ou qual é a interconexão deste fato, o da castração, com Kundaliní? Quando voltamos a ser a Consciência, e o fazemos através de tudo que dizemos, pensamos e agimos, tentamos ser a Consciência e não conseguimos, e tentamos de novo...esta pulsão de tentar reverter a nossa saída do Consciente se faz pelo Inconsciente, se faz por um processo intermediado pelo outro, de pôr nossa

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Sinal, marca. Vagina.

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energia nisso, e cada vez que não conseguimos voltar ao paraíso de ser, esta energia retorna; e isto produziu no homem o sono e os sonhos como um restabelecimento inconsciente de voltar a ser. O nosso fantasma nos salva toda noite, pois precisamos ser um fantasma, precisamos do outro, precisamos da linguagem etc O Inconsciente liga, ele está entre o Consciente e tudo mais como uma supersimetria feita pelo Signo, então tudo que a Alma faz é para ter uma ponte para a Consciência. Esta ponte é o Inconsciente. Ao dormir o Eu esquece, a Alma esquece de si, cai em esquecimento, e “Kundaliní sobe”, refaz a união perdida, desfaz a castração. Acordamos renovados pelo sono e sonhos que refizeram este processo. No sono e nos sonhos, o nosso fantasma é exatamente nós mesmos. É este vinculo com a verdade que torna o sonho ou a imaginação mais real O Tantra ao investigar melhor o homem, concluiu que era possível fazer este processo na vigília, e assim surgiu o método de Kundaliní. Então o Eu ao sofrer uma experiência consciente, ele é a Consciência mesma de “ser Brahman” ou de “Ser Deus”, por alguns momentos, e depois volta a ser o Eu. Atravessa a ponte e depois volta pela mesma ponte. Precisamente este é o processo de Kundaliní, uma meditação que conduz esta força de volta a sua origem, produzindo a felicidade e voltando a ser guardada lá no Chakra Muládhárá25, na raiz, da linguagem. 48 As técnicas Yogues sofreram influência do Tantra? Sim, e muito, antes do século X, antes do Tantra surgir, o Yoga era somente filosófico, como está descrito nos Yoga Sutras de Patáñjali. Com o advento do Tantra muitas técnicas e conhecimentos sobre a natureza26 foram aprendidos. São os segredos do corpo e da psique. Até chegou-se ao máximo de produzir a
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Um dos centros das letras, a roda de apoio da raiz. Ciência. Roberto Melo.

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elevação da força Kundaliní por meios técnicos. É bom salientar que o Samkhya foi fundamental como base para a filosofia Dvaita do Tantra, da mesma forma que foi base para o Yoga. 49 Existe de fato o Inconsciente? Claro que sim, tem que existir um intermediário entre tudo, este intermediário, esta ponte, é o que chamamos de Inconsciente. Ele é o meio entre tudo. O Universo se manifesta biunivocamente, mas o Inconsciente não é um meio físico como os antigos acreditavam como Éter, não é uma substância. Temos aí dois vieses interessantes, a física estuda a natureza e seus fenômenos, a psicanálise estuda a Alma e seus fenômenos, então na física o Inconsciente é uma supersimetria, algo que possibilite a parceria entre as partículas. No plano psicanalítico o Inconsciente se manifesta para a Alma como linguagem, como letra, que faz o sujeito dar conta de sua separação da Consciência, pela linguagem, pelo símbolo. Como já disse antes, há um erro ao considerar o termo Máyá como este véu entre os mundos, então o Inconsciente não é Máyá. A manifestação do Inconsciente na Alma se dá pela biunivocidade da Alma, isto significa que um sujeito, que uma Psique, que um Eu, se relaciona com outro Eu, Alma, Psique, através do Inconsciente - Ele não tem um acesso direto, sem o outro. O Inconsciente está na expectativa de uma pessoa, na expectativa de gozo, de felicidade, de ser a Consciência no Outro. O homem vive por que tem expectativas27, vive por que tem uma ligação com o Inconsciente, ligação esta que é indireta, fixada na causa, no fundamento do Tantra, de que ele e o outro são a mesma Consciência! Esta expectativa é a manifestação do Inconsciente na Alma, no Eu, ou como você queira chamar. Há algo nesta expectativa que gera um apaziguamento, como uma sabedoria de
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Diante de todas as realidades, ou simplesmente porque é capaz de construir sentidos para a sua própria existência sem sentido? Roberto Melo.( há aí uma diferença fundamental entre o Sintoma e o Sinthome, sendo este último uma ausência de expectativa que não evoca uma perda e nem um ganho – nota do autor.)

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pano de fundo dizendo, “somos a mesma Consciência, intermediados pela psique, pelo Eu”. Esta cumplicidade silenciosa, este pacto mudo entre todos nós é uma expectativa, e é da ordem do espiritual. O homem sem expectativas estaria desligado do Universo, estaria vendo o mundo através de sua Alma, de seu Eu, estaria foracluído 28, se excluído. Fechado em seu narcisismo. Esta expectativa que lhes falo é sempre desconhecida, pois ela é inconsciente, e é para dar conta desta separação absurda entre nós, que nós falamos, construímos uma cultura etc 50 O que o senhor nos diz é que a expectativa é a manifestação do Inconsciente? Sim, expectativa em algo sempre desconhecido. Aquilo que está entre nós pode ser conhecido, mas aquilo que nos une biunivocamente não pode ser conhecido, mas sentido, percebido como expectativa e depois como experiência. Se há a apropriação deste sentimento, ele já é um desejo, não há paz, há o desejo de ser a Consciência, mas pelos símbolos da Alma e não da Consciência. O desejo ainda Inconsciente é a expectativa, e o segredo é manter esta expectativa, então o Inconsciente estará aberto ao seu desejo, estará aberto para você. Há algo ligando você a tudo. Uma ponte com “Deus”. O dia que criaremos uma linguagem baseada nesta expectativa, nesta realidade espiritual do Real, não nos chamaremos de “Eu”, “Eu fiz”, “Eu sou”, “Eu gosto” e sim de “nós”, mas isto é pedir muito a um homem ainda longe da Consciência. E aí Marx foi um gênio, pois o capital, o bem, a propriedade, representa a separação entre nós. Então Eu não posso me referir a minha casa como nossa casa.

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Esta expectativa não pode ser somente minha, pessoal?

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Incluído fora.

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A expectativa é sempre sua, o desejo é a parte consciente, simbólica, e a expectativa é a parte inconsciente do desejo, se você se fixasse somente no seu desejo, há uma limitação, há uma perda gradativa de conexão com tudo. 52 Esta expectativa é uma experiência? Sim, ela é uma experiência de ser a Consciência, e assim ser tudo. Ser tudo é ser Brahman para os Hindus, ou ser Deus através dos outros. É um gozo que gozamos antecipadamente. Todo gozo tem uma antecipação, uma brisa espiritual, pelo fato de que temos uma certeza, mesmo que bastante vaga, que aquilo que imaginamos é real, e a parte que cabe a Consciência é real mesmo, este contato indireto com o si mesmo, é a expectativa. Um gozo, um Samádhi, ou como digo, uma Felicidade. Então quando imaginamos o nosso desejo, nós antecipamos o nosso gozo, por uma expectativa, como esta expectativa está fora do que é a realidade, sofremos o revés deste gozo, pois nos perdemos, nos embrulhamos com a realidade, pelo desconhecimento eterno dela. A energia colocada neste gozo ultrapassou aquilo que é factível, e aí o gozo e a expectativa nos dão um gozo que ultrapassa o Eu ou a Alma. Portanto sobra energia que foi mobilizada neste gozo, neste Samádhi, esta sobra precisa voltar e ser guardada lá no nosso centro raiz, no Muladhára, onde surgem as letras, e esta operação de ter o gozo, a felicidade, e guardar o resto desta energia, é o processo de Kundaliní. É isto que significa “Manter a virtude”. Normalmente é preciso que o indivíduo durma e sonhe para ter o seu gozo, e desta forma desfazer os vínculos dos seus excessos pelos sonhos. Agora imagine acumular isto por 30, 40 anos! Cada Alma comporta um gozo, e este gozo que ultrapassa o que nela cabe, lhe causa mais transtornos do que benefícios. A Iluminação é um processo que enfrenta o seguinte desafio: Sou um Eu ou uma Alma formada pela falta, pelo meu desligamento da Consciência que vivia em 31

um gozo eterno; surge então uma ponte, o Inconsciente, que me liga a esta Consciência, permitindo-me ter o desejo; mas o meu desejo produz um gozo que ultrapassa o que sou como Alma, e esta energia precisa voltar para mim; tenho o gozo que me reúne a Consciência e ao mesmo tempo tenho que voltar a ser a Alma pois o que obtive como gozo não cabe em mim, é muito grande, desconhecido, e até perturbador. 53 Qual é a lógica empregada para resolver este dilema, este Paradoxo? Temos duas lógicas. Descobrir a medida que cabe e é justa para a Consciência; ou guardar o que sobrou de energia desta experiência. A primeira é paradoxal, pois somente posso aprender a primeira alternativa colocando a segunda em prática! Então tenho que “despertar” a energia para o gozo que me faz Consciência por um momento, a felicidade, e depois tenho que guardar o que restou desta energia! Desta forma tenho a experiência de iluminação e não tenho o ônus dela, pois fiz esta energia retornar para a sua origem - o Inconsciente. Veja que experiência não é conhecimento. É a experiência me faz “aprender” o que é ser a Consciência e, por conseguinte ajusto o desejo da Alma a cada vez ter um gozo mais adequado a Consciência. Este processo é Kundaliní, é o Tantra. Estou utilizando aqui para vocês as expressões “mais energia”, “menos energia”, “gozo que cabe”, “ultrapassa” etc como aproximações de um processo que é cósmico e que possui uma linguagem que não compreendemos ainda, pois não existe o tempo, e nós como Almas, Psiques, como um Eu, sujeitos etc, vivemos pelo tempo.29
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Creio que o problema está na nossa forma de nos relacionar com a realidade, não somos um objeto, uma partícula que vaga inexoravelmente pelo espaço e o tempo, sem desconfiar de sua própria existência, ou ter a necessidade de compreender essas instâncias abstratas. Por termos criado vários níveis de linguagem é que buscamos toda essa complexidade existencial. Se assim não fosse, estaríamos como os índios, como as comunidades primitivas, que dão conta de sua existência sem essa complexidade classificatória, sem a necessidade de todo esse aprofundamento do conhecer, vivem pela e na experiência do cotidiano e nada mais... Posso, então, depreender que seria o exercício do intelecto, entendido aqui como capacidade de processamento dos dados apreendidos na realidade, que me leva, ou pode levar, a esse nível de Consciência do Ser no mundo – o Dasein? Pode haver Eu fora da realidade concreta do mundo? Roberto Melo.

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Deus é um só, único e imutável, eterno e imperturbável – é a Consciência. Buda quando promulgou o Anátman30, a inexistência da Alma, estava correto, a Alma é uma construção vazia, nada do que ela possa imaginar, poderá ser a Consciência, mas assim é, a nossa Alma, a nossa Psique, é ela quem somos, e por ela podemos ir tendo experiências de ser o todo, que a modificarão. São as experiências de felicidade que modificam a Alma rumo a Consciência. Esta experiência foi chamada de Ishwara Pranidhana, ter uma experiência de Ishwara. Um grande segredo indiano de como uma Alma pode se libertar através de experiências que lhe aproximem de sua verdadeira natureza. 54 Pelo que o senhor nos disse a Alma é um produto desta vida e a Consciência é eterna, como se dá a transmigração ou a passagem de uma Alma para uma outra vida, ou outra Alma? A Alma é uma construção desta vida, mas as suas tendências são herdadas, estas tendências ficam latentes, e se manifestam nas circunstâncias, a circunstância revela a estrutura, e esta estrutura é que é herdada.31 Então a Alma é uma “estrutura” herdada de outras vidas e revelada pelas circunstâncias desta vida. Na ocasião da morte, a energia do indivíduo se reúne definitivamente com a Consciência espalhada em tudo, e isto há que gerar alguma estrutura ainda desconhecida, no Tantra chamam esta estrutura de corpos sutis. O corpo físico; o corpo de desejos ou corpo de sonhos; e o corpo mental. Os três formam uma unidade como Alma, cada um deles possui um tempo até seu desfazimento completo. Mas lembremos de um fato: Para a Consciência não há tempo, então eu posso ser uma outra pessoa em tempos diferentes agora mesmo! A Consciência pode ser todos ao mesmo tempo! Isto é perturbador.

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Não existência da Alma. logo: tendências da Alma = estrutura. Roberto Melo.

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Ela é você me fazendo uma pergunta nesta entrevista, e ela sou eu lhe respondendo! Então a reencarnação como um processo do tempo, é um fato, mas é desprezível e irreal diante da realidade que é a Consciência. Sempre que a estrutura, a qual chamamos de Alma, não é a Consciência, ela precisa de alguma forma, retornar, isto significa utilizar o Inconsciente como uma ponte para a Consciência. Isto é claro. 55 A iluminação, teoricamente, pode ser descrita como ser esta Consciência durante a existência da Alma, ou seja, durante a vida. O senhor diz que isto é possível pelo processo descrito como Kundaliní. Há outro caminho? Não creio em outro processo por que é impossível, estamos diante de um paradoxo, o sujeito, a Alma, o Avatar se forma para dar conta da sua separação com a Consciência, veja que não digo Inconsciente, o Inconsciente é aquilo que passa a representar simbolicamente a Consciência, uma intermediação, mas ele não é a Consciência, então o sujeito surge como efeito de sua separação da Consciência. Antes desta separação não existia a Alma, não existia um Eu, ele era a Consciência, mesmo que o Ser deseje ser apenas a Consciência, este desejo já o separa da Consciência, pois ela é tudo, logo, o sujeito, a parte, a Alma, surge para dar conta de uma separação especular, o assujeitamento. Esta lei que separa e que torna o todo na parte, este corte, é o Inconsciente. Os yogues que chegaram a esta compreensão entenderam que a iluminação é um processo coletivo, ou seja, enquanto apenas uma Alma estiver separada, haverá Inconsciente. Isto está correto, mas há uma exceção descoberta como um segredo espiritual. Uma Alma não se ilumina por que seu êxtase é êxtase da Consciência, o seu “gozo” como se diz no Tantra e na psicanálise. Este gozo nunca se completa por que o resto deste gozo, aquilo que não cabe na Alma, sobra, alimenta o Inconsciente. Este é o segredo da segunda clinica no Tantra.

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A genialidade do Tantra é que quando o sujeito produz gozo, o que sobra, este gozo, não volta ao Inconsciente, não é mais “comum aos demais”. Ele é seu, e você o guarda como seu. Eis aí o começo da emancipação da Alma, do Inconsciente, uma emancipação da linguagem. Daí que a filosofia trabalha com o resto, com o que não foi explicado em uma corrente dialética, que não se completa. 57 O senhor poderia descrever este processo? Um ligeiro exemplo metafórico. Na meditação Tântrica, o Yogue primeiramente leva sua Alma para o seu centro de energia do corpo, para a sede do desejo, isto é feito por um gesto interno, Pronam Mudra32, lá do centro de força do corpo, na sede da Alma, no coração, e depois até o Chakra Raiz, com a Alma aí, o yogui ganha energia, vontade, libido, e depois esta energia é conduzida para a testa, no Ajña Chakra33, o centro de comando do corpo, ali medita no seu desejo ininterruptamente, imagina livremente, até que seu desejo seja qualquer coisa que esteja na Consciência, então vem o Samádhi, o êxtase, depois o yogue faz o caminho inverso, faz descer sua Consciência até o centro raiz, “guarda lá” a Kundaliní, e depois volta com a sua Alma para o coração. Esta é, grosseiramente, uma instrumentação yogue. Jamais na sua vida você ouviu falar de encerrar uma prática de meditação, e o encerramento do gozo é o mais fundamental, pois ter o desejo, gozar seu êxtase, é o que você sempre fez, e todos fazem. Então a meditação que você faz é inútil, pois todos já fazemos isto na vida, desejamos e gozamos ao reter este desejo na mente. Entretanto, guardar este resto, guardar o gozo que ultrapassou o Eu, que ultrapassou a Alma, é ir fechando o Inconsciente para você, se emancipar, isto é ser um Yogue. Eis aí o Sannyas, não há a negação do gozo.

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Ambas as mãos unidas, Palma com Palma. Centro localizado na testa, tem todas as letras do alfabeto no sentido de construção e desconstrução.

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Cada êxtase, cada gozo, faz com que o gozo que ultrapassa o Eu, a Alma, não seja mais seu e sim do Inconsciente. A meditação com Kundaliní produz o mesmo gozo, mas aquilo que ultrapassou o Eu, a Alma, é guardado, e não mais como um depósito, inconsciente. É do próprio individuo, daí o Sannyas ser assumir a total responsabilidade sobre si. Resumidamente esta é a técnica a ser aprendida. 58 Cada gozo que embrulha o sujeito com o Real, leva este sujeito a se misturar com o Inconsciente? Eu não poderia dizer melhor, é exatamente isto. O gozo, o êxtase, faz o sujeito se embrulhar com o real, com o Inconsciente. O gozo é da instância da Consciência e o Sentido é da instância do Inconsciente, quem dá sentido ao sujeito, a Alma, é o Inconsciente. A Consciência ou Deus dá tudo, o problema é o que fazer com o resto do tudo. E aí as coisas se complicam bastante, pois quando mais desejamos mais embrulhados pelo Inconsciente ficamos. As pessoas, principalmente os psicólogos, pensam que o Inconsciente é uma coisa maravilhosa, mas não é não, ele é a única causa do não esclarecimento. Mas ele existe para cumprir seu papel ali, como uma lei do mundo, como um sentido, como um futuro. Ele não pode ser negado, e nem aceito, é difícil de lidar com ele, pois ele é imediatamente tudo que está entre a Consciência e a Alma, praticamente a Alma é a sua parte aparente, mas o resto do iceberg está lá embaixo, ligando tudo a tudo. 59 Pelo que o senhor nos ensina, o Tantra é um processo natural, pois o sono e o sonhos fazem por nós este processo de restabelecimento de uma forma automática. Entretanto já fiz a prática de Kundaliní Yoga por muito tempo, e ela é artificial, ou seja, ao empregar um controle sobre meu desejo, começo um processo que não é natural. O que o senhor pode nos dizer sobre isto?

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Primeiro, você terá de aprender com alguém competente o bastante para não produzir uma nova forma de desejar - a sua já é perfeita, é o seu Mudrá 34, o seu gesto interior. O problema é que este seu desejo produz um gozo que ultrapassa a sua expectativa e gera um sintoma negativo de depressão. Alimenta o Inconsciente. Como já lhes disse, o gozo como ele é, já faz pelo sujeito aquilo que ele é, aproxima de uma Consciência, de uma experiência de totalidade, não há nada de errado com isto. Aceite isto. Segundo, que a meditação somente é feita no momento de queda, de fim do gozo, antes da onda do gozo ser negativa, aí, interrompida a parte negativa desta onda, ela é elevada etc. Isto quer dizer, assumir a reação do gozo, para si mesmo. 60 O desejo que ultrapassa a minha expectativa é o que gera a depressão? Tenho repetido isto por anos a fio, a necessidade de uma terceira clinica Lacaniana, mas esta é minha construção para o homem contemporâneo, que é diferente de tudo. Se eu lhe falasse em linguagem oriental diria que é para a era de Kali, o que dá no mesmo. O homem contemporâneo está afogado em depressão, são tantas as fontes de estimulo, que seu desejo já está desgastado, você não acredita mais. O homem contemporâneo é diferente, pois seu gozo ultrapassa seu Eu. A mídia, a net, o cinema, as facilidades em viagens... Trouxeram-lhe uma noção do real muito mais abrangente e rico em possibilidades. Mas no fundo o que todo mundo deseja é simples, a Paz, uma felicidade perene que não seja mantida por um esforço. Todo este bombardeio de informações gera uma necessidade, a de estar pari passo com os acontecimentos, como uma tela de TV cheia de informações sobre fatos mundiais ocorrendo naquele instante, as cotações das moedas, etc então sim, o Eu teria um sincronismo, um ritmo com o real. Será a TV do futuro.
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Atitude, gesto.

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Esta imediatez é diferente de quando líamos a noticia impressa no papel, no outro dia, ou na revista semanal. Somente esta imediatez, o tempo furado, traz ao Eu um gozo que cabe no seu Eu, pois assim o Eu está sendo o real naquele momento. Veja que o que está por detrás disto, é que o Eu precisa ter a experiência direta da Consciência! A Consciência está fora do tempo, e o Eu vive pelo tempo, o fato do Eu se aproximar dos fatos no instante em que eles acontecem, esta antecipação em relação aos outros, já é uma coisa extraordinária, mas ainda não é a Consciência. Esta imediatez é o tal Tesão. Sem isto o homem contemporâneo sente-se fora do mundo, ultrapassado. Esmagado pelo Real. Então temos três nós existenciais, “três clinicas” que o sujeito precisa fazer, e no Tantra chamamos de Granthis35. A primeira é a da Consciência e a do Eu, esta aqui. A segunda é a do Desejo e do Gozo, e a terceira é a da Kundaliní. Estas três clinicas analisam as três dimensões do real. Se você coloca em prática a da Kundaliní sem compreender a relação do Eu com a Consciência, e sem a relação do desejo com o gozo – você não está movendo Kundaliní alguma! Você nem sabe o que ela significa. Então esta força vem do Outro. Não é ela, é o Inconsciente, é a Matrix. 61 As suas três clinicas são a Consciência e o Eu; o Desejo e o Gozo e Kundaliní? O senhor poderia falar delas? Eu tenho dito isto repetidamente, talvez não de uma forma organizada. A Consciência e o Eu tratam da eternidade e do tempo respectivamente. A Consciência é eterna, não é afetada pelo tempo, o Eu é um produto do tempo. Vá fundo nisso e chegará a segunda clínica, a do desejo e do gozo, e nela, o desejo
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Etapas, nós existenciais. O Sexual, afetivo e o espiritual.

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está limitado ao tempo, ao Eu, mas o gozo não; e depois você chegará a conclusão: A eternidade, a Consciência, não está limitada pelo tempo; o desejo sim, é produto do tempo, do Eu. Como resolver isto? A solução é a terceira clinica: Tenho que guardar o gozo que excedeu meu desejo, o nome disto é Kundaliní. Alguns Mestres de Tantra falavam de Máyá como uma teia de eventos Universais, algo que simetriza o Universo, dando uma característica tão estranha a matéria. De alguma forma os eventos da matéria tem de estar previstos e programados em um Matriz, ou uma Matrix. Eus ou Almas são produtos de Máyá, da matéria, e portanto eles seguem programas previstos nela, como um tipo de existência. A Consciência não, ela está fora da Matrix. A Alma é um Avatar da Consciência. Então a questão fundamental do Tantra é que o Eu ou a Alma precisa constantemente entrar em contato com a Matrix ou Máyá, para atualizar o “seu programa”. O sono e os sonhos são este evento, em que a energia Kundaliní, atualiza a Alma ou o Eu, todos os dias ao dormir. Kundaliní em si é somente uma energia simétrica, e ao se deslocar pelo eixo da coluna, no sono, produz os sonhos, as atualizações no seu sistema. O yogui tântrico ao meditar, ao fazer esta força subir em vigília, está controlando, ele próprio, estas atualizações, que antes eram automáticas. Aos poucos ele vai assumindo o controle destas atualizações. Então o Samádhi é diferente do êxtase. A meditação vai substituindo os sonhos, até que o sono do yogue seja sem sonhos. É na terceira clínica que se aprende este processo, de sair da Matrix, ou como se dizia antigamente retirar o véu de Máyá. 62 O Samádhi não é um êxtase?

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Não, no Samádhi não há resto de energia ou sensação, ele não alimenta o Eu ou o ego, desculpem- me pela palavra ego. O êxtase é um gozo que embrulha, confunde o Eu, dá esperança, cria expectativas pelos desejos. Veja que no Samádhi, o resto, a vontade, o ganho, é guardado, então o Samádhi é uma felicidade que liberta. 63 O êxtase é um gozo que produz reações, retorno? Sim, mas o Samádhi não produz. O sono comum já produz o Samádhi, de forma automática. 64 O sono é o Samádhi? Sim. O problema é que Máyá foi atualizada pelos sonhos. O Eu foi atualizado.

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O sonho é uma atualização de Kundaliní? Não, Kundaliní não se atualiza, é uma força de atualização, de simetria da Alma. O “subir” e o “descer” são sinônimos de se atualizar, a Alma tem a capacidade de se Auto-atualizar, pelo sonho e pelo sono. Quando disse que o problema estava aí, que Máyá se atualizava, é problema para quem não crê na evolução da Alma. A evolução é uma lei da matéria, com certeza, mas a Consciência nada tem a ver com isto. A Natureza imita a Consciência, é um espelho dela, mas não é ela. Máyá é a matéria, com seus processos objetivos e subjetivos. Toda a Natureza tenta ser a Consciência, se atualizando por diversos processos evolutivos, o tempo é o marco regulatório da Consciência. Mas ela não está no tempo. É eterna, ou atemporal.

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Kundaliní é o fenômeno da simetria entre a Alma e Deus?

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No homem sim, mas está entre tudo e “Deus”, não é somente do homem. A Alma busca ser Deus, se atualiza diariamente dormindo e sonhando. Alma [{(fenômeno simétrico)}]Deus (Consciência)

Kundaliní ao mesmo tempo que mantém uma atualização, liga, simetriza, interliga os dois, é a causa única da distinção. As pessoas tendem a tomar Kundaliní por um meio, que subindo, conduza ao Samádhi, etc em uma visão mecanicista, irreal. Isto, a Alma já faz todos os dias. Mas foi assim que no século X os hindus a imaginaram. Então, e se uma Alma não buscar esta atualização ou simetria? Pense sobre isto. Sua psicologia se revira, haverá a Consciência na vigília. O Tantra começa aí, e por esta razão é difícil entender o que é buscar ser a Consciência. 67 O senhor poderia nos falar sobre os destinos do Advaita e do Dvaita, de uma pessoa que crê na evolução e na reencarnação e de outro que não crê? Imagine dois irmãos gêmeos, idênticos, um deles crê que a Alma evolui, que cada vez mais está mais consciente, portanto mais próximo de Deus ou da Consciência; e o outro irmão não crê, acredita que a Alma jamais será Deus ou a Consciência. Com a morte dos dois temos duas situações distintas, o irmão Advaita voltaria para um novo corpo para continuar sua evolução em direção a Deus e o outro, como não acredita, pois é Dvaita, será Deus. Reencarna quem quer continuar, pois acredita que cada vez mais está evoluído e portanto mais próximo de Deus, mas pela morte. Então os destinos de ambas as Almas são diferentes, uma voltará e a outra se extinguirá em Deus.

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Para o Tantra, como para Buddha, a Alma é uma ilusão, ela existe e está buscando ser Deus, mas tudo que ela faz não é Deus. A natureza não é Deus e nem Deus criou a natureza, nem mesmo a controla. Então o Advaita é um caminho, que conduz ao Dvaita, onde a natureza não interfere mais na Alma, o Tantra, o Dvaita, é a via final do Advaita. A Alma não pode negar-se sem ter a certeza que esta negação a conduzirá a uma extinção exitosa. Quando ela tem esta certeza, surge na sua frente o caminho Dvaita, ela não é Deus e jamais será por uma compreensão profunda, Vidyá 36. Antes era Avidyá, ele ainda não conhecia a natureza da Consciência, de Deus, então foram necessários longos períodos de Alma, inúmeros nascimentos etc Com esta percepção a Alma abre mão completamente de ser, o mais puro zen, o Tantra. Esta entrega da Alma é o Tantra, o começo do Dvaita. Desta forma, falar do desejo e do gozo para um Dvaita é completamente diferente do que para um Advaita. Kundaliní é um conceito oposto para ambas as posições. O tântrico a trata como uma força atualizadora da Alma, uma nova tentativa de ser Deus, uma nova ilusão. Os Advaitas a tratam como uma força que lhes aproxima de Deus e lhe traz esperança. Por este motivo também chama-se Kundaliní de MahaMáyá, em dois aspectos. Mas na verdade não é Kundaliní em si, e sim a Alma que retorna ao ponto zero, pois ela não foi a Consciência nas suas tentativas, e assim ela retorna milhões de vezes, uma pulsão.

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Conhecimento.

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O Sahasrara37 Chakra jamais mudou, ele é a Consciência. O Eu, o ego, lá veio novamente a palavra ego, no comando de sua psique, tenta ser a Consciência, tenta novamente, e quanto mais tenta, mais tentará... 68 Esta força de Kundaliní está ligada a respiração? Sim, o controle do Prana38 é a chave do controle de Kundaliní. Toda vez que você inspira, Kundaliní desperta, e quando você expira ela dorme, então em retenções de ar prolongadas, os Kumbhakas, ela desperta e na expiração e na etapa sem ar ela volta ao Sahasrara. 69 O senhor disse que ela volta ao Sahasrara? Sim, na verdade ela desce ao Muladhara e não “sobe” como se diz, é como um Raio, ele não cai, ele sobe, mas nós o vemos cair. O que sentimos é uma coisa que sobe, mas na verdade ela desceu, é energia cósmica, é vacuidade. 70 Voltando ao conceito de Matrix, a Alma escapa e não escapa da Matrix, pelo que o senhor diz, e está capturada pela Matrix, pois como Alma alimenta-se da Matrix, da linguagem, da crença de uma evolução, na própria crença na sua existência etc E para escapar da Matrix precisa primeiramente bloquear as atualizações diárias nesta Matrix, que são feitas pelo sonho. Estas idéias estão coerentes? Perfeitamente. Não há como negar aquilo que você é, uma Alma, este foi o caminho de Buddha. O Tantra ao conhecer este ciclo de Kundaliní, entendeu o processo da Matrix, este processo é o da Alma buscar ser a Consciência, isto não pode ser impedido, seria paradoxal. Mas os sonhos, que são as atualizações na Matrix, podem ser sonhados em vigília, e isto é precisamente pensar e meditar, uma técnica budista.

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Centro no Crânio contém todas as formas de linguagem. Vida, vital.

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Na meditação sonhamos exatamente como sonhamos quando a Matrix nos atualiza nos sonhos, mas na meditação temos escolha. No sonho não. Então meditar é sonhar, e aí surgem dois momentos, que se alternam. Você é o objeto e o objeto é você, uma questão de perspectiva, a Alma e seu objeto e logo o objeto sem a Alma. Isto é a meditação no Ajña Chakra ou terceiro olho. Kundaliní sobe e desce. O objeto assume as características da Alma e logo a Alma está diante de um objeto desconhecido, milagroso, eterno. Transcendente. Ele mesmo como fenômeno de identidade. No sonho você não tem esta chance, pois o objeto será trazido para o comando da Alma. A Matrix domina e atualiza, então o estado iluminado, mágico, de ser a Consciência, será trazido como parte da Alma, recordações, interpretações de fatos passados que são resignificados. A Matrix atualiza a Alma. 71 O senhor relacionou Kundaliní com vacuidade, poderia esclarecer melhor este aspecto? O Tantra elabora o conceito de Kundaliní a partir da descrição dos Lokas, que são os sete mundos ou níveis de existência da matéria. Segundo a doutrina tantrika, e não a doutrina da Shakti, pois na doutrina da Shakti, ela é a energia da criação, a mãe divina etc que faria a união com Shiva produzindo o néctar do prazer etc; no Tantra Nigamico tal doutrina é ilusória e fruto da ignorância religiosa, pois Kundaliní é a energia que transita entre os vários Lokas produzindo sete dimensões, ou planos do Universo. Como nenhuma dimensão é superior a outra, apenas diferente, há uma onipresença do ser nas sete dimensões ao mesmo tempo. É esta capacidade que se cristaliza na reunião dos princípios do Universo como corpo, originados de uma primeira onda vazia, Sabda39, o OM. Para o Tantra o homem existe ao mesmo tempo em dimensões diferentes, e até sendo pessoas diferentes, Kundaliní representa uma força enroscada, capaz de ir

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OM. Som.

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de uma dimensão a outra, sem o tempo. Como a Consciência, Kundaliní não está no tempo e nem não está no tempo, está e não está. Por este fato, as técnicas envolvidas no processo são multidimensionais, é uma visão contrária ao comum, não é a Consciência que interfere na matéria, é a matéria que é interferida temporariamente pela Consciência. Isto é Dvaita. A Consciência não muda e jamais mudará, está em tudo da mesma forma, mas uma vez limitada a um corpo físico, este corpo físico precisa seguir as leis físicas etc Kundaliní é a fronteira, entre tudo e a Consciência, no átomo, nas galáxias, em tudo há esta fronteira, que mantém um sincronismo, uma simetria entre tudo. Esta “vacuidade”, esta inteligência é Kundaliní, um poder supersimétrico. Isso me fez lembrar da cena do filme Matrix onde o Neo sai da Matrix, e percebe que seu corpo é uma ilusão imposta a ele pela Matrix, por Máyá. O problema é que esta fronteira é a mesma que lhe dá a capacidade de expressão da Consciência, e para se expressar ela precisa de um Eu, de uma linguagem. Então não há como ele ser a Consciência, sem ser o Neo. 72 Quem escapará dela, da Matrix, de Máyá, se quem está preso é a própria Matrix ? Pois é, quem deseja escapar é o Eu, mas ele não é a Consciência, e jamais será. O fato do Eu existir é para dar conta da separação ocorrida no nascimento. Então posso dizer que a experiência com Kundaliní é uma EPV, uma Progressiva Experiência com a Vacuidade, um desfazimento gradual do Eu. A transcendência da linguagem. Ou como você queria chamar a Transcendência. Desta forma, as percepções irão se ampliando com a mesma linguagem, ela produz percepções diferentes daquelas de antes do experimento, mas não invalida a compreensão pela linguagem. O poder ou o potencial das Matrikas40, das sementes sonoras, é desfeito, a Matrix continua, pois o sujeito continua a

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As Mães, as sementes sonoras.

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ouvir e entender, mas não há mais vínculos restritos com a linguagem, isto significa Mahamudrá. A circunstância altera a estrutura. 73 O que são Mátrikas? É o poder de Máyá, da Matrix que se revela pelo som, pela linguagem, sílabas, são sementes sonoras. 74 A Matrix somos nós? Sim, ela nos dá a existência, e um processo de expressão limitado a um corpo e a uma psique, a um Eu limitado. A Consciência está o tempo todo presente, influencia com sua onipresença, quando você pensa “vou para meu quarto dormir”. Quem disse isto foi a Matrix, através das Matrikas, o seu poder. E você vai dormir! E dorme! Você segue um programa. Então para escapar dele, é preciso ser por algum instante algo que não é você, nem ninguém, e nada. Esta vacuidade é a fronteira entre tudo, e entre você e tudo. Algo desconhecido e misterioso, Kundaliní. Por este motivo os Hindus a chamaram de “Kundalini”, um poder que pode “saltar” para qualquer lugar do universo. Este espaço dinâmico de NADA é Kundaliní. O Zen mais refinado chama isto de doutrina da não Mente. 75 Desta forma, Shakti não é Kundaliní, sempre vejo esta relação em vários Tantras? Kundaliní não é Shakti, Shakti é uma manifestação como a luz é a manifestação da passagem da corrente elétrica por um filamento ou gás, a luz é uma Shakti , mas não é Kundaliní.

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Isto surgiu dos Ágamas, que foram os ritos de culto védico, como Shivaísmo, Shaktismo e Vishnuísmo, eles utilizam o termo Shakti como sendo uma Deusa, uma força, um poder etc Isto nada tem a ver com o Tantra. Por este motivo Tantra Agâmico nada tem a ver com Tantra Nigâmico. Isto foi levado para a sexualidade, para uma polaridade, Shiva e Shakti etc, mas nada tem ver com o Tantra, nem com o Kundaliní Yoga. 76 Pelas suas afirmações, esta força, este NADA que está entre tudo pode se manifestar no corpo físico por alguma técnica, e depois gerar uma experiência positiva, uma experiência progressiva de vacuidade. Sendo assim já há algo gerado como se fosse esta força, algo com o que teremos que lidar para continuar nesta experiência? Sim, a iniciação garante uma experiência, que irá gerar uma expectativa, que terá que ser ultrapassada para se obter uma nova experiência real. Antes falei do Pújá como encerramento desta experiência, é isto. A fé inabalável em algo ali entre o Eu e a Consciência. Imagine que se consiga retirar tudo da matéria, restaria um vácuo quântico, que representa pela sua natureza, Kundaliní. Neste “Vazio”, está a representação original da Consciência, um salto em direção a matéria, a polaridade do Universo, como origem. Ali se apresenta a Consciência segundo seu princípio, o qual nós ainda desconhecemos, pois o que conhecemos é sua representação na matéria. Tal fenômeno ocorre todos os dias no sono e nos sonhos para reinventar a Alma. O encontro com este fenômeno em plena vigília é o Tantra, é a diferença do que ocorre naturalmente, há uma interceptação da atualização automática da Alma. Para que esta medida seja eficiente e progressiva, é preciso que a Alma tenha plena ciência de sua existência ilusória, o Dvaita no Tantra, o Anatman no Budismo. Então que certeza é esta que progressivamente e deliberadamente, desfaz a si mesmo? 47

Esta “destruição” progressiva de si mesmo é um desfazimento progressivo em função de uma experiência de libertação, por novas percepções. É a experiência de libertação, positiva, que alimenta o processo, estamos falando do gozo de não ser, não ser a linguagem, não ser seus gostos, suas preferências, etc Mas este desfazimento se dá de forma progressiva, e é progressiva, pois o sujeito não a experimenta de forma negativa, pelo contrário, é de forma positiva, devido à memória que não é perdida, é realçada, iluminada. A Alma se desfaz, mas suas memórias não, elas são as experiências e não o conhecimento. O que é notado pelos outros é uma distância entre o sujeito e ele mesmo, mas como certo aguçamento de suas capacidades, uma ampliação de sua memória e não o embotamento. Parece ser uma dúvida, na verdade trata-se de dedução e fé. Então a Alma troca sua limitação por uma ilimitação, mas ela não está se ampliando, ela não está sendo outra Alma, nem sendo nada que possa se configurar depois, pois está presente apenas como meio, como um Avatar da Consciência. Esta progressão é uma PRT, ou EPV, Experiência Progressiva de Vacuidade. A iluminação. 77 Já li uma matéria do senhor relacionando esta força Kundaliní ao gráviton, a partícula da gravidade, trata-se de uma aproximação conveniente, ou é real? È real mesmo. Isto que os físicos chamam de gráviton, é uma força de natureza fraca. Exemplo, como de um imã destes de calendários ou bichinhos de decoração que se põe na porta de geladeira, pois bem, este pequeno imã é mais poderoso que a força da gravidade. Esta força é fraca, porém sem oposição alguma em todo o Universo, é o chamado gráviton. Os yogues descrevem Kundaliní como um força sutil, quase imperceptível, etc-Trata-se da força da mesma natureza. 48

Isto não seria verdade se pudéssemos dormir em pé. O ato de deitar para dormir revela o que aqui afirmo. A gravidade é a grande mestra do Universo, é quem dá as cartas neste jogo de forças. Os efeitos relatados pelas pessoas com a experiência com Kundaliní são efeitos da gravidade sobre o corpo, resultando em um maior aproveitamento energético, mais eficiência geral. As pessoas relatam estes efeitos e não Kundaliní em si. A metáfora hindu da serpente se esticando, subindo para cima pela coluna vertebral, é muito boa.

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A psique é suscetível a esta força? Extremamente, no sono, por exemplo, esta força não produz a vigília e sim o sono, um transe de sono, com a mente em Delta, 0,5 a 3 ciclos por segundo. Cada estado psíquico é um ponto de atuação desta força, de uma forma pontual. A meditação significa o sujeito estar com esta força no seu centro de comando, ou como se diz, no Ajña Chakra, 3 a 7 ciclos por segundo, em Teta.

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Como o senhor disse esta força está sempre atualizando a Psique, a Alma? Exato. Exceto na meditação.

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Chegamos em um ponto interessante, eu estaria equivocada ao dizer que um yogue, ao manejar sua Kundaliní, tenta deixar a força gravitacional agir sobre seu corpo? Não estaria, estaria correto. Deixar esta força agir sobre o eixo da coluna, é o que se faz no Kundaliní Yoga.

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E por quais motivos não se chega logo a este ponto?

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A energia desta manobra produz reações psíquicas severas, a pessoa precisa antes ter uma noção clara, senão há uma confusão entre a experiência e o conjunto de crenças da pessoa, o conhecimento. Antes é preciso a primeira clinica, o conceito do Dvaita, a Consciência e o Eu; a segunda que é o Desejo e o Gozo então a terceira que é Kundaliní pode ser empreendida. Trata-se de uma força extremamente sutil, quase imperceptível, mas muito poderosa. Primeiro a dimensão mental, ela precisa ser posicionada conforme é o Universo, depois surge a dimensão afetiva, do significado do gozo, da felicidade, e por ultimo surge a experimentação progressiva com a vacuidade, com o fenômeno Kundaliní. 82 Se eu experimentar Kundaliní sem estas duas clinicas, o que poderá ocorrer?

Confusão e conflito de crenças. De certa forma você tem experimentado esta força todos os dias, mas está protegido pelo sono, sendo atualizado automaticamente. Os sonos e os sonhos são exatamente isto, uma proteção psíquica. O Inconsciente é isto. Se você conseguisse realizar o experimento sem as duas primeiras clínicas, e todos conseguem pelo menos uma vez, entretanto depois ele está bloqueado para você, sua segurança é a resistência que impedirá o prosseguimento do processo. Você não poderia sobreviver a uma experiência contínua de vacuidade, teria depressão grave e provavelmente cometeria o suicídio. O mundo perderia o sentido, a vida ficaria sem sentido. Então a fé surge, fé em um porvir, fé que é investimento, um novo desejo.

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O desejo salva, desejo que vem de uma expectativa futura, pois há esta força atuando. A Alma experimenta a depressão pelo fato de se imaginar autosuficiente, depressão é doença de autonomia. Enquanto a Alma não encontrar o seu lugar, ficará limitada a ela, e paradoxalmente quando conhece sua limitação, se liberta. 83 O Eu é Alma, ela pré existe ou nasce na criança? A Alma é a construção temporária da Consciência, é um Avatar. Se imaginarmos que um corpo é feito de forma herdada, com seus constituintes herdados, e que neste corpo surgirá uma personalidade, com certas tendências, há uma influência anterior aí. Se a Alma fosse herdada, não haveriam clones, nem gêmeos. As condições para a existência da Alma foram fruto de um longo processo de evolução biológica, a fala. Com o nascimento esta criança se forma, adquirindo um meio de lidar com o fato de sua existência pela expressão da fala. A Alma existe para revelar a Consciência. Então para dar conta de ser alguém, esta Alma nomeia o mundo, adota uma linguagem, esta linguagem não dá conta do fato em si, mas cria a sensação de existir, e aí produz os seus sintomas, os seus afetos e também os seus fetiches, o seu saber. A Alma se faz a partir da Mãe. Esta mesma Alma pode se comunicar com outras Almas por um conjunto de códigos sonoros, e escritos. Nesta comunicação cruzada com outra Alma, surge para ela uma possibilidade inusitada, evoluir. Ser cada vez mais. Então ela crê que possa se aprimorar, evoluir, e ser ela mesma cada vez mais. Mas quanto mais “evolui”, esta Alma percebe que o seu saber se reduz na mesma proporção, tudo passa a ser relativo. Um não-saber começa a tomar conta dela. 51

Ela encontra aí o seu ponto de Mutação ou será uma Alma buscando aqui e ali a felicidade, que é o revelar momentâneo da sua Alma, mas esta felicidade não pode ser encontrada, o que há é um vislumbre dela na relação com os outros, um olhar pela fresta para contemplar a eternidade. Nossa Alma desiste de encontrar a felicidade e começa um novo processo, inventa sua felicidade. E neste ponto descobre um segredo, sua felicidade, seu gozo, não é deste mundo, é algo além, muito maior. Descobre que foi refém de seu desejo, se confundiu. E se confundirá novamente se não se isolar do outro, isolar seu gozo como a “sua” felicidade. Esta separação da felicidade que é imanente, é de si mesmo, é o Kaivalya41, uma atitude espiritual de isolar sua felicidade, e desta forma a busca desta felicidade não passa mais pelo outro, não passa por ninguém. Somente é um Guru quem tem plena Consciência disto. O Guru tem a capacidade de manter sua própria felicidade, e sabe que ao iniciar alguém no processo de meditação, não é ele que o faz. Então finalmente o processo de Kundaliní é ensinado para que a Alma tenha experiência, uma felicidade, que é somente dela. 84 O senhor já iniciou muitas pessoas neste processo. Sempre usou deste método, ou ele foi sendo aprendido? Hoje tenho uma visão mais privilegiada, mas quando comecei, eu sabia intuitivamente que se tratava de algo extraordinário, então muitas pessoas foram iniciadas assim, sem a primeira e a segunda clinica. Não muda nada, pois o processo não depende disso, mas as pessoas que são iniciadas hoje têm mais capacidade de lidar com isto, é evidente, pois não havia uma cultura sobre isto, como o que estamos fazendo aqui nestas entrevistas. O

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Solitude.

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método é o mesmo e sempre será o mesmo, o que “evoluiu” foi o contexto, a nossa capacidade de dar as pessoas alguma base que sustente a sua experiência. As pessoas não têm nenhum conhecimento sobre isto, elas desejam simplesmente ser feliz, a sua busca é no sentido de uma felicidade perene, algo que seja delas. Então a primeira clinica gera esta expectativa e cria um espaço real para a Alma. Não sou contra a atitude Advaita de dizer que Alma é Deus ou a Consciência, não, mas esta perspectiva cria um conformismo, e um tipo de crença danoso ao sujeito e a sociedade. Daí que o cansaço da vida e a tristeza são gozos que a pessoa passa a fazer para se salvar de sua aniquilação, tornando a felicidade uma expectativa sempre frustrada. Mas isto não é a felicidade e sim um Marxismo sentimental. Investe-se na relação, investe-se no outro, investe-se para buscar um retorno para si mesmo, que não vem e este retorno não pode vir de ninguém. 85 Espiritualmente há diferenças entre os dois caminhos o da dualidade e o do monismo? Eu sempre digo o seguinte: você quer sofrer no inicio ou no fim? Compreende? A visão dualista é real no fim, e isto gera uma felicidade autentica e a visão monista gera uma felicidade inicial e um fim sempre trágico. Então o Tantra pede esta entrega inicial, as lágrimas iniciais serão depois a felicidade, senão, a felicidade serão as lágrimas no final. E no meio disto tudo há o medo e a insegurança. O caminho espiritualista começa com as lágrimas ou com a dúvida e termina com a felicidade. Então o caminho dual sempre começa depois do trajeto monista, a crença em que Deus seja a Alma definirá para o monista uma idéia de Deus ou da Consciência como algo inatingível, e precisamente isto, fará o monista crer na morte como

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um encerramento de sua dor, e crer na morte não é crer em uma Alma que é Deus. O que digo é que não existe o monismo espiritual, ele não leva a nada, que não sejam formas disfarçadas de dualismo. Evolução, reencarnação, reconhecimento, purificação, são conceitos que estão dizendo: A Alma não é Deus, ainda. Entende agora a manipulação grosseira da fé? O Yoga e o hinduísmo estão permeados disso, mas o mistério da Consciência é mais absurdo que a história humana, ela já é tudo, sempre foi e sempre será. Não há nada que alguém possa fazer para mudar esta realidade, cabe a nós como Alma compreender o Universo que nos rodeia, para ter uma visão mais próxima daquilo que é a Consciência. 86 Psicologicamente é um absurdo que os valores humanos, a nossa história, nossa cultura, não sejam uma evolução. É deste absurdo que lhes falo, pois o sujeito, a Alma, não pode usar seus atributos culturais, psicológicos, éticos, etc como a via espiritual. Tudo que vem da mente não pode levá-lo além da mente. Tudo que vem da Alma não pode lavá-lo além da própria Alma. A única coisa que temos como Alma é uma experiência de felicidade, um gozo, que, ao mesmo tempo em que incita um processo de ser mais, nos engana, pois o gozo que a Alma sofre é intermediado pelo outro, desde que se separou da mãe. E a própria Alma precisa usar este gozo para se fazer, para ser. A felicidade ou o amor, no seu melhor entendimento não podem ser encontrados aí. Esta é a confusão, o tal estranhamento com si mesmo. Na busca de encontrar esta felicidade nos estranhamos como Consciência. Quando temos uma coisa perdemos a outra, a conexão com nossa naturalidade não pode ser estranhada, por nós mesmos, se você investigar isto entenderá o que lhe digo. É uma felicidade que não liberta. 54

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A felicidade que liberta não deveria produzir nenhum estranhamento.. Sim, ela existe a partir de uma mudança de seu paradigma filosófico, na passagem de um “Eu sou”, para um “Eu não sou”, mas não é a negação de Deus ou a sua aceitação, veja o que lhe digo, que é dar inicio aquilo que é uma felicidade que liberta e não uma que estranha. Negar ou aceitar Deus ou a Consciência é irrelevante, não há o que fazer sobre isto, as pessoas dizem “vá com Deus”, “fique com Deus”, pois querem dizer fique bem. Em nenhum momento a filosofia Dvaita cria uma ruptura entre a Alma e Deus, simplesmente a Alma não é Deus. E nem Deus pode ser encontrado pela evolução da Alma, há que se produzir na Alma uma felicidade que é Deus, é a Consciência, é isto que estou lhe dizendo. Então não existem fórmulas, nem métodos42. Existem sim alguns fundamentos que conhecemos sobre a realidade, fundamentos que giram em torno de dualidades, a da Alma e Deus; e a do Desejo e do Gozo. Nem a Alma é Deus e nem o Desejo é o Gozo. O primeiro é um conceito topológico, de lugar, o segundo é de valores. E o terceiro que lhes falei, de Kundaliní, é da ordem econômica. Então entre a Alma e Deus há uma relação entre Tempo e a Eternidade, uma relação da ordem do impossível; a segunda é da ordem do possível, e a terceira é da ordem que é a práxis, o que pode ser feito a respeito. Nenhuma Alma fará relação alguma com Deus, nunca fez e nunca fará, o que está sendo feito, é que o Desejo e o Gozo, aquilo que é da ordem do possível é esta relação, e sempre foi. Mas como a Alma não é Deus, não é a Consciência, é preciso de um meio que faça esta Alma transcender as suas limitações, e desta forma a felicidade será aquela que liberta e não a que estranha.

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Como se atinge algum objetivo, humano, sem fórmulas ou métodos? Convenhamos que o significado da palavra método decorre do grego, e queria dizer exatamente “caminho”. Logo, o método é um caminho de atingimento daquilo que se pretende alcançar. Seria possível esse atingimento sem um método? Roberto Melo.

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Para que isto seja possível, o produto do desejo, a mais valia universal, o gozo, não pode voltar ao banco de desejos e pulsões do universo, não pode voltar para o Inconsciente, é preciso que a Alma o guarde em si mesmo. E isto significa checar sua identidade. Esta é a idéia hindu de Kundaliní em sua essência. 88 As relações com Deus estão intermediadas pelo Inconsciente? É isto que precisa ficar claro, nenhuma Alma está se relacionando diretamente com Deus ou com a Consciência. O outro intermedeia. Então o desejo atende a esta intermediação, até aí é compreensível, mas o gozo do desejo ultrapassa a Alma, dá a ela todo o Inconsciente, e aí as coisas se complicam admiravelmente. A Alma se estranha. 89 As opções econômicas são uma medida do desejo, de guardar o resto do gozo? As religiões tentam medir o desejo, fazer com que seus fiéis desejem menos, ou mais, dá na mesma. Pois isto não resulta na felicidade que liberta. Mas quando se consegue guardar de seu gozo, o que lhe ultrapassou, e ele sempre lhe ultrapassou, então o ciclo é quebrado, o Inconsciente perde seu poder, a Alma começa a se libertar. Então se você gasta mais do que possui, terá um débito à frente, e se gastar menos, terá um crédito. 90 A instrumentalização deste processo, como meditação deve passar para uma dinâmica diária? Obviamente. Se faz uma meditação com Kundaliní para dominar um processo, mas depois ele é automático. Kundaliní é um conceito econômico.Você deseja, obtém o gozo, e não deixa ele voltar a sua origem. No conceito econômico comum, compramos algo e pagamos por este algo supondo algum desfrute, este 56

desfrute é o objetivo, o lucro. O desejo é um investimento libidinal, que trará um gozo, e tem sido assim desde nosso nascimento, mas Kundaliní é inesgotável, é a energia potencial, a vacuidade que pode dilatar sua identidade. Então o desejo obtém o que deseja, que é o gozo, e depois credita ao Inconsciente, a Matrix. E aí você pede mais, e ela lhe dá mais, mas o fato é que a Matrix é banco universal, é alguém que lhe empresta o que não é dele. E você pede a ela, a Matrix..mas ela não é a Consciência. Então, quando você pára de devolver a ela o gozo que lhe ultrapassou, ocorre uma coisa interessante. Ela abre as portas para você, lhe testa. E se você continua a tomar energia dela, e não lhe devolve, então ela, a Matrix, ou o Inconsciente, não se relacionam mais com você como Alma e sim como a própria Consciência. Então aquela felicidade que gerava um débito ou um crédito na Matrix, no Inconsciente, some, e surge a felicidade do ser, o Samádhi. 91 A felicidade vem de uma quebra do ciclo comum? Sim, nós inventamos a nossa felicidade, mas ela é tão particular, que na verdade nenhum grupo ou mesmo outra pessoa nos entenderia, então nós temos que inventar nossa felicidade e assumir esta forma particular perante os outros, fazer esta felicidade comum a alguém. É preciso coragem para ser feliz. Enquanto o outro, o mundo, como senso comum for seu caminho para a felicidade, ela não será inventada e sim encontrada e depois perdida. Você continua nas mãos do grande Pai, do Inconsciente. Não há nada que você deva seguir, nenhuma fórmula pronta, somente faça algo que você deseje, não siga o desejo dos outros, não se apóie neles, e entenda sua situação como uma Alma, como um Eu. A felicidade que liberta vem da quebra de um antigo vício, o gozo que era obtido era devolvido aos outros, não faça isto, o gozo é seu, e se não suportar tanto, 57

guarde. Não que as outras pessoas não mereçam, elas merecem, elas não merecem serem iludidas desta forma, isto é a compaixão, o amor. Hoje as pessoas vão ao terapeuta e são diagnosticadas como depressivas, e se 10 pessoas forem ao terapeuta nove delas receberão o diagnóstico de depressão, qual é a causa disto? Antes se achava que o depressivo era uma pessoa triste, sem motivação etc. Mas com o avanço da psicanálise este diagnóstico genérico de depressão revela dois fatos interessantes. Primeiro que a depressão é um distúrbio de autonomia, pessoas muito autônomas acabam sendo depressivas, mas a depressão é mais que isto, é um sintoma de crise de existência, busca de identidade. Segundo, que esta crise de existência se dá no seguinte plano: Se a pessoa segue seus desejos, a sua vontade encontra dificuldades, pois todos os outros também têm as suas vontades, mas os outros usam o seguinte argumento, “você deve fazer assim”, “você deve fazer isto ou aquilo”. Todos têm a solução do que você deve fazer, mas elas não têm a solução do que elas próprias devem fazer. O fato é que a sua felicidade deve ser inventada, e seguida como a sua verdade. E existe a felicidade que vem dos outros e da sociedade, esta precisa ser negociada, mas a sua felicidade não precisa ser negociada e sim, você se responsabilizar sozinho por ela. A depressão é um mal dos nossos tempos justamente como um sintoma de crise existencial, causada pelo avanço nas comunicações, cultura, etc Então a depressão é alguém que deseja viver com sua felicidade em um mundo em que o senso comum é atrasado e fechado, baseado na acumulação e no mérito. A depressão é a revelação de uma liberdade pessoal em um mundo de irresponsáveis. A pessoa que vive de uma forma e não se responsabiliza como vive, mas ilude, vive pelo senso comum, não é depressivo, e por este motivo ele cobra dos demais o senso comum. Então a felicidade inventada e a felicidade negociada são duas formas de lidar com a realidade. A repressão da sua felicidade é o que gera a depressão. 58

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Como sair disso? Sozinho você não sai disso, é preciso que alguém, eu sempre dou como exemplo Jacques Lacan, a sua primeira clinica foi a leitura de Freud, então nesta fase ele construiu um saber, uma ação justificada no outro. Havia mais saber. E já na segunda clínica havia menos saber, mais ação apostada ou arriscada nele mesmo. Este saber que lhe empresto e empresto a quem ler o que agora lhe digo, é uma Primeira clinica, na segunda clínica você arrisca alguns comentários seus, próprios, e age motivado em si mesmo. É isto que pode ser feito, o estudo, a leitura, o conhecimento de alguém, é a primeira clinica, mas a felicidade é sua, a depressão é sua, então quando este experiência produz ações apostadas em si mesmo, já é a segunda clinica. Aí a depressão some, ou melhor, ela é transformada em algo que é seu, a sua felicidade apostada em si mesmo. Observe bem que primeiro vem o conhecimento, que é do outro, e depois vem a experiência, apostada em si mesmo. Este espaço Mítico que você cria para você, é o Sannyas.

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Como instrumentar isto, como treinar isto como meditação? A meditação é um treino. Não se pode simplesmente entender e tudo começar a fazê-la funcionar, seu corpo, sua psique precisam sair dos antigos condicionamentos. A meditação é um descondicionamento. O que estou fazendo aqui é argumentando em favor de uma nova forma, lhe dando um conhecimento muito especial, é a sua primeira clinica. Mas ainda o conhecimento não é seu, é meu, esta passagem precisa ser feita, então quando você se apropria dele, agora ele é seu, e não é mais meu. Para sustentar esta passagem, neste período, é preciso de algo, de um treino de si mesmo com as instruções recebidas, isto é a meditação. É preciso que você 59

verifique por você mesmo aquilo que está aprendendo. Se você não fizer isto, irá esperar para colocar em prática o que aprendeu, mas não poderá fazê-lo enquanto não fizer a meditação, e motivo é - você não pode descondicionar a si mesmo. Então o fato de fazer a meditação, é um ato de experiência, de experimentar a felicidade pela imaginação. 94 Isto é possível? É isto que a meditação fará. Sem ela não há descondicionamento algum, você continuará a agir e sentir como antes. Você pode ficar interessado, ter muitos insights proporcionados pelas minhas palavras e não fará nada por você, pois crê que entendeu, e que isto basta, mas não. As minhas palavras são a sua primeira clinica, e fazer disto um desejo que produz uma felicidade, é a sua segunda clinica, e nela, quem faz, quem se arrisca, é você, e não eu. A meditação está justamente entre a primeira e a segunda clinica. Isto significa que estou afirmando a existência de uma força que produz este milagre, desfaz os vínculos com a depressão ou com o modelo de felicidade que dependia dos outros. Entretanto não basta que você creia em mim, é preciso que você experimente isto. 95 Quais são as orientações para uma meditação? Existem três níveis que podem ser atingidos pela meditação instrumentada, o primeiro é superficial. Se recolha a um lugar reservado, sentado ou até deitado, e simplesmente relaxe sem dormir, não conduza nada, não faça nada, seja apenas um observador, feche

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os olhos e observe. Deixe seu corpo e sua mente no controle observe os movimentos dos músculos, as pulsações, apenas espere passivamente. Em uma segunda etapa, adicione a observação de sua respiração, acompanhe-a, e observe as reações. Depois de 20 minutos irá perceber um grande bem estar, uma felicidade. No terceiro nível, você já aprende a ter esta felicidade e a conduzi-la com sua imaginação. A primeira chama-se, meditação na forma, Rupa, ou Yantra, a segunda é no nome, Nama ou Mantra. A terceira é no gozo, na felicidade, e chama-se Tantra. O mais importante é a passividade, Kundaliní se move na passividade. Nas primeiras vezes a mente tentará dominar o processo, levando-a a pensar, imaginar, conduzir as coisas, não tente deter nem mesmo isto, deixe a mente fazer seu trabalho, e aos poucos ela cederá, os condicionamentos começam a deixar de exercer sua influência. 96 Uma pessoa poderá colocar em prática a meditação sem a primeira e a segunda clinica? Poderá e pode, mas é inócuo, não resulta em nada com respeito a felicidade, certamente haverá o reforço dos condicionamentos, e não seu afrouxamento. São coisas interdependentes e por este motivo sempre dei a iniciação para as pessoas depois de uma análise cuidadosa de sua psicologia. 97 O senhor está falando disso agora, e é valido somente no contexto da sua explanação sobre o Tantra? Precisamente, sem este contexto, a meditação é inócua, com isto quero dizer que não há o movimento de Kundaliní. Ela é deste contexto, surgiu dele como resposta ao fenômeno que permeia o universo. Esta passagem de si mesmo como 61

um outro, que se apropria de uma linguagem do outro e depois assume sua posição como Yogue, e constrói a sua própria linguagem, esta passagem é feita pelo Tantra e pelo poder do Universo, Kundaliní. Se retirarmos o contexto do Tantra, não há o que dizer sobre isto. Certamente que você estará na via Advaita, e lá Kundaliní nem existe. 98 Existem outros contextos dualistas, Dvaitas, como o Budismo e o Jainismo. Neles não existe Kundaliní? Não, não existe, o budismo precisa negar até esta força, embora a reconheça, e o Jainismo empurra este momento para o momento da morte, no momento da morte esta força é elevada. O contexto de Kundaliní como uma experiência em vida é exclusivo do Tantra. 99 A primeira clínica, é o que agora faço? É o que as pessoas que escutarem ou lerem, farão? Sim, a primeira clinica de vocês, no Tantra, é esta. No contexto com Kundaliní, é minha, ou seja, você terá que me ouvir ou ler, não há outro caminho. 100 O senhor está abrindo as portas deste conhecimento? Estou lhe apresentando algo que é muito, muito próximo da realidade Universal, a sua clínica consiste em absorver este conhecimento e formar uma segunda clínica, a sua clínica a partir da minha. Uma vez em você, este conhecimento será diferente, será pelos seus símbolos e pela sua imaginação, eu poderia lhe dizer que será pelo seu fetiche, então, neste caso estou lhe emprestando o meu conhecimento, Vidya. 101 Porque fetiche? O conhecimento é feito pela linguagem, eu estou apresentando a minha linguagem, com conceitos muito bem trabalhados e meditados, e ao ter um 62

contato com eles, isto é a sua primeira clínica. Por exemplo, as palavras Deus, Consciência, matéria etc tem em você outros significados, sentidos, ao ter contato com o Tantra a sua clínica é trabalhar com estes conceitos, dando a eles, configurando-os conforme os seus símbolos, e a sua imaginação. Este processo é uma clínica. As palavras são como objetos postiços ou portiços, que empregamos para dar sentido ao pensamento, então isto é um fetiche, colocar uma roupa em algo para significar este algo. Na prática significa o maior poder do homem sobre a terra, criar. E isto significa inventar a sua realidade em termos esotéricos. A grande magia. E quem cria sentidos cria universos, como está no primeiro verso do Sat Chakra Nirupana. 102 As palavras têm um sentido único ou não? Deveriam ter um único sentido, é este meu trabalho aqui, começar a dar um sentido a esta confusão. A palavra, o Mantra, é o maior poder do homem, ela é a origem de tudo, cultura, civilização etc. E se estamos destruindo nosso planeta, causando guerras e doenças, é pelo uso deste poder, pelo uso dúbio. Quando a cultura não mais admitir outra interpretação então estaremos chegando à civilização e poderemos nos comunicar pelo pensamento, mas até lá temos que usar o fetiche, a maldita linguagem. Estou lhe dizendo que o Inconsciente está aí, pronto, mas fazemos um péssimo uso dele, ainda precisamos falar, interpretar. Quando a sua dúvida não for mais a negação da negação, começaremos uma humanidade espiritual, afirmativa. 103 O Inconsciente simplesmente responde a nosso desejo? Exatamente, é como o “nós”, aquilo que é comum a nós, então a palavra cadeira pode ter um sentido até oposto ou agressivo, para duas pessoas. O Inconsciente,

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a natureza, simplesmente lhe dá o poder, e aí aprendemos a manipular a coisa, a usamos para denegar. Então você entra em uma biblioteca ou livraria, cada livro é um fetiche, é alguém contando seu ponto de vista, seja ficcional, histórico, acadêmico, etc. A ciência pretende ser um fetiche que usa o Inconsciente de forma a criar um padrão, então de certa forma é o que estou fazendo aqui. É uma situação estranha, temos uma psique com este poder, de usar a palavra, de criar, e esta criação é sempre ficcional, pois cada psique tem seu conjunto de símbolos e imaginação. E o Inconsciente nos dá simplesmente o crédito, o $ do nosso desejo. Por este motivo não existe evolução, quando não existir mais a palavra dita, mas a comunicação direta, então haverá uma possível evolução. O Inconsciente é feito pela linguagem, e isto choca os teóricos e adeptos das luzes, nós temos o Inconsciente da nossa linguagem, e chamamos de liberdade o fato de podermos unir o significante e o significado segundo nosso desejo. Por isto a minha segunda clinica trata do desejo e do gozo. 104 Kundaliní é este fenômeno? Sim, o de transformar um desejo em gozo e do gozo em desejo... Mas pense no gozo como felicidade e não como gozo, felicidade é mais adequado. Então “inventar a sua felicidade” tem um significado de iniciar a sua libertação. Na primeira clínica você assimila meus conceitos, na segunda os formula segundo seus desejos, símbolos etc. e na terceira, na Clínica com Kundaliní, domina o processo - inventa sua felicidade. 105 E se eu não concordar com este dualismo, seguir uma trilha Advaita?

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O desejo e a felicidade lhe destruirão, pois neste caso o desejo não é individual, não é seu. Ele é transferido. É recalcado no Inconsciente, não é livre, pois você não pode se responsabilizar por ele, simplesmente segue a manada, para manterse seguro. 106 Ao criar esta porta, nós estamos todos presos a sua figura, como uma primeira apresentação do Universo, do Tantra, o senhor não teme questionamentos, represálias e criticas? Felizmente para uns e infelizmente para outros estou aqui apresentando pela primeira vez na história humana, esta codificação, este Projeto, ninguém o fez antes, tudo que vier é um desenvolvimento deste começo. 107 Teremos que ser Bhavianos.. Pois é. Daí o nome que recebi na minha Diksha43, Bhava significa a verdadeira expressão do ser, a revelação dele, e me parece que funcionou. 108 O que o levou ao Tantra? Existiu algum princípio mestre nesta descoberta? Primeiro a busca pela verdade, e depois o amor pela verdade, e junto com ele a capacidade de não ser egóico, não me apegar a algum ideal, e isto me permitiu voltar atrás nas escolhas e refazer muitas vezes o caminho. Primeiro você precisa ser sincero com você mesmo.44 109 Comparando tudo com o que o senhor aqui nos ensina, o Buddha fez a mesma coisa, até chegar a sua formulação clássica do caminho óctuplo. O interessante nesta sua filosofia, é que como a segunda clínica passa a ser da própria pessoa, ela é simples, não se apega a conceitos morais como no budismo. O senhor concorda com isto?

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Iniciação. Método de produzir no outro o desfazimento da linguagem pela identidade. Há, de fato, possibilidade de se negar a idealização da vida como um processo mental inerente à nossa relação de existência no mundo? Roberto Melo.

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Sim, este é um aspecto interessante na psique, a relativização no caso da minha filosofia, ela é sua, é a própria pessoa que possui este poder. Na segunda clínica o desejo e a felicidade irão desempenhar este papel, mas sem uma doutrina externa, nem mesmo a supervisão por outros. Temos que confiar e ter fé na Consciência, esta fé é o que mantém uma intuição, de que há algo bom, sempre, que a Consciência é bem aventurança, sem isto, teríamos que criar doutrinas. O livre arbítrio entra aí, como um componente ético, e isto significa que quando a pessoa se aproxima da Consciência, ela não pode mais agir contra o outro, pelo fato de que o outro - é ele mesmo. 110 Esta é a sua energia, é o que sentimos no senhor... O masoquismo representa isto, ele representa uma culpa por fazer ao outro o que não faria contra si mesmo. O único inimigo real é o conceito. E a única maneira de lidar com ele é transformá-lo em algo seu, no âmbito do desejo e da felicidade, mas aí estamos entrando no território da Consciência, e neste campo nada está errado. O que quero dizer é que quem relativiza o desejo é a própria pessoa. Portanto ela não fará nada de danoso aos demais ao desejar, pois nela está desativada a denegação como forma de alimentar seu desejo. Desta forma nem mesmo perversa ela é. Normalmente a pessoa usa a denegação, usa o fetiche, a “mentira”, para produzir outro fetiche, uma outra “mentira”, isto para quem é consciente é impossível, o perverso assim age por que é a única forma de lidar com o outro. Quando o sujeito faz o fetiche e não é perverso – isto é a felicidade, a sua felicidade. Você não pode agir com o outro de uma forma que não agiria contra você. Está impedido. Então há o amor. O amor é um impedimento. Quando você sabe que você e o outro são a mesma Consciência, há um impedimento, pois você está impedido, e neste sentido, é o único para mim em que há uma evolução. Mas isto pede o fim da linguagem falada, eis aí um desafio.

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Eu estou propondo um resumo, são muitas informações que surgem. Parece que a Alma é um veículo, um corpo e uma psique, para a Consciência? Exatamente, a Alma é uma construção em cima do nosso corpo biológico, esta construção é psíquica e mental. Veja que “mental” para mim é apenas a confirmação de dados da memória do indivíduo, a mente é o passado que se faz presente. Este Ser é um Avatar, um veículo para a Consciência. Você é um Avatar da Consciência, veja que não disse da sua Consciência e sim “da” Consciência. Você sabe que é a mesma minha. Eu sou um Avatar da mesma Consciência, todos somos Avatares diferentes da mesma Consciência. Ocorre que ainda falamos como se a Consciência fosse pessoal, a minha fosse somente minha e a sua, fosse somente sua. Então a primeira clinica é entrar neste mundo, ter contato com este saber e a segunda clinica é a sua confirmação deste saber. Avatar é uma palavra Sânscrita que significa a manifestação corporal de um ser imortal. Deriva do sânscrito Avatāra, que significa "descida", normalmente denotando uma encarnação da divindade. Muitos não-hindus, por extensão, usam o termo para denotar as encarnações de divindades em outro Avatara, ou a encarnação da Divindade, que desceu do “reinado” de Deus pela criação e manutenção da manifestação em um corpo material. E essa forma de personalidade da Consciência que então se apresenta é chamada de uma encarnação ou Avatara. Tais Personalidades estão situadas no mundo sutil, sem um corpo físico. Quando eles transcendem para a criação material, eles assumem então o nome Avatar. Um Avatar é uma forma encarnada do “Ser Supremo”, e tais incontáveis formas “divinas” residem em um plano sutil, de energia sonora. Estes planos são as chamadas Lokas do Tantra. Mas estas palavras podem ser mal interpretadas pela mente ocidental.

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Quando essa forma impessoal de “Deus” ou da Consciência transcende daquela dimensão mais elevada, para o plano material do mundo, Ele - ou Ela - é então conhecido como a encarnação ou Avatar. Então, nascemos e adquirimos uma cultura pela negação daquilo que somos, negamos o que somos como Consciência para poder aprender a linguagem e a cultura do mundo. A denegação é isto, sabemos de tudo no universo e aí nascemos em um corpo e em uma cultura específica, deste mundo. Então seus pais ou professores lhe dizem que o mar Egeu é assim e assado, e lhe resta crer que isto seja verdade, mas para crer é preciso que você tome este conhecimento como algo a ser verificado posteriormente, a ser confirmado. Então você faz um pacto, mente que entendeu para aprender, até a tal verificação ser feita, que nunca é confirmada de fato, e assim somam-se conhecimentos, que irão se ligar a outros e outros, formando um todo. A Alma ou o Avatar se forma pela denegação. Enquanto estas informações não entrarem em choque com a realidade, com o Caos, há no Avatar a sensação de pertencer ao mundo, de uma segurança, mas quanto mais cresce e mais vive esta Alma, mais ela começa a perceber que não tem nenhum controle sobre as coisas, e o seu mundo começa a cair. Não saberia lhe dizer se todos nós como Almas viemos para tentar libertar-se, ou se temos alguma missão especifica, o que posso lhe dizer com segurança é o que eu sei, e isto significa alterar a nossa linguagem completamente, para que ela seja mais próxima da realidade do Universo.45 Quando lhe digo “nós” estou dizendo que há uma parte comum entre nós, de que falamos a mesma coisa de forma diferente. Também não saberia lhe responder com precisão se ao deixar este corpo nosso Avatar se dissolve completamente. O que é certo, é que a energia que tomamos para ser, é apenas emprestada, da matéria, de Máyá, da Matrix.

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Entender a “realidade do Universo” não me parece tarefa tão simples, cujo caminho está, a priori, traçado, desenhado, delimitado, delineado. Roberto Melo.

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Há algum tempo atrás o senhor nos falou sobre os sonhos como uma atualização da Alma. Um processo automático, que me faz pensar na Matrix renovando os nossos vínculos com nossa Consciência. Como não há uma evolução desta Alma, estas renovações, evitam o colapso da Alma, nos salvam pelo sono e sonhos? Os sonhos e o sono salvam nossa Alma do colapso, por este motivo a depressão pode causar insônia, ou a insônia pode levar a depressão. Enquanto a Alma se referir a ela como uma Consciência, haverá problemas e eles desaparecem quando este conhecimento lhes é transmitido. A Alma não é “uma” Consciência e sim a encarnação dela, um Avatar da Consciência. O fato das Almas poderem se comunicar por uma linguagem não quer dizer que elas sejam autônomas espiritualmente. Isto causa problemas, pois a linguagem dá conta de algo que não pode ser resolvido por ela e o sono e os sonhos são uma reparação destes problemas.

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Se o senhor puder resumir a sua filosofia, o Tantra, para as pessoas em poucas palavras o que diria. Existe uma forma direta desta compreensão? Eu poderia dizer que é o caminho da felicidade e da realização pessoal, o caminho de fazer o seu desejo ser a sua felicidade, de fazer Mukti e Bhukti, a libertação e a felicidade. A libertação e a felicidade como a mesma coisa.

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Quando penso ou falo, “eu fiz isto”, “vou fazer tal coisa”, estou condicionado a ser uma Consciência, a ter um livre arbítrio sobre minha vida. Sendo eu um Avatar de minha Consciência, um veículo dela - como posso pensar e falar de uma forma mais precisa? O “seu” livre arbítrio é seu, você pode fazer o que desejar, mas nada mudará sua condição, nada irá alterar sua condição como Alma. O que muda é sua condição subjetiva, de como você lida com este fato, o da intersubjetividade da Consciência. Isto significa que a sua intersubjetividade é a mesma que a minha e a mesma de todos. Somos diferentes em como lidamos com as nossas 69

subjetividades quando a tornamos a nossa propriedade objetiva, linguagem. Somos diferentes em como criamos a nossa realidade objetiva, frente a realidade objetiva que o mundo nos exige. 115 Intersubjetividade da Consciência é uma colocação valiosa. Podemos explorar melhor por este viés. Porque então me comunico com o outro? Esta é uma questão fundamental, se somos a mesma Consciência, somente precisaríamos comunicar aos demais as nossas objetividades e não nossas subjetividades. Isto é o real significado do “Cotidiano” do Zen. Somente deveríamos comunicar as nossas objetividades e não as nossas subjetividades, quando tentamos comunicar nossas subjetividades perdemos a intersubjetividade da Consciência. O subjetivo é imediatamente captado pelo outro, não é necessário tentar comunicar isto ao outro, ele é comum, é de todos nós, é a Consciência. 116 O que o senhor nos diz agora é fantástico, e começo a compreender o que é a meditação, o amor, e o silêncio. Se nos disciplinarmos a somente comunicar as nossas objetividades, deixando que o silêncio seja a comunicação instantânea entre as Consciências criaríamos uma cultura da espiritualidade? Este é o nosso projeto, provar e fazer com que a Alma, que é este fantasma, sofra uma experiência do fenômeno Kundaliní, que desfaça os vínculos com a linguagem e mesmo assim, possa continuar a existir, sem os condicionamentos que a fizeram Alma. O que é comum às pessoas não precisa ser comunicado, então somente comunicamos o que é incomum, o que pode ser transcendido por ambos. 117 Começo a compreender cada vez melhor o senhor e a sua filosofia, este projeto visa isto, possibilitar a existência além da Alma? É o único sentido de libertação, existir além da Alma. Ter esta experiência e fazer dela um processo pessoal, o que é o Universal tornar-se pessoal. 70

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O senhor nomeou este projeto? Sim, eu o chamo de Projeto Jiva, o projeto de uma Alma mortal, condicionada, tronar-se imortal. A palavra Sannyasin significa aquilo que é imortal nos seres vivos e nos humanos, a Consciência. A Consciência corporificada. Mas a palavra Sannyas já existia e era utilizada na Índia com este fim.

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Este Ser é uma centelha, um ponto físico, algo que é um centro? Os hindus o chamam de Jiva, por ser vivo, como um “átomo original”, imutável. Alguns grupos o simbolizam como um ponto, um Bindu. Em torno deste átomo original a Alma se organiza. Então Sannyas é a natureza da Consciência ou de Deus em torno do qual uma Alma se organiza. Jivatman. Então o Jiva, o ser vivo, está em todos os seres ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo é o mesmo e é diferente em todos os seres. O pouco que sei é que existem dois grupos de Almas, de Jivas, os Badha e os Mukta. Badha46 são Jivas que nunca se libertaram e os Mukta47 são Jivas já libertos.

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Os Mukta são Jivas que já se libertaram? Sim, a tradição hindu descreve que o processo de nascer etc geralmente os faz esquecer, mas ao longo da vida eles relembram que são livres, não possuem laços com a matéria, não são Pasus. Sua psique é diferente, mais inclinada a investigação da realidade como ciências ou filosofia. Eles buscam seu Eu. Daí terem sido chamados de Sátvicos. Os Jivas Badha são mais atados a matéria, tem mais dificuldade no caminho espiritual, elaboram de forma diferente os seus fundamentos. Os Mukta são mais

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Atados. Libertos do laço.

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atados a Alma e seus conflitos, são mais elevados, quer dizer, mais próximos da Consciência. 121 Quais são os fundamentos sobre este Projeto Jiva, algo que possa nos dar uma vista mais geral? São cinco, as chaves ou distinções filosóficas que são a sua base. 1- A Consciência é distinta da Alma. 2- A Consciência é distinta da Matéria. 3- As Almas são distintas da Matéria. 4- As Almas são distintas umas das outras. 5- Cada parte da matéria é distinta de outra parte da Matéria. Assim a Consciência ou “Deus” é o único “ente” “eterno e imutável”, com uma realidade independente, SvaTantra; a Alma e a Matéria são também eternas, mas são mutáveis na sua forma, energia etc Desta forma Deus ou a Consciência é a causa eficiente do Universo, das Almas e da Matéria, mas a distinção entre Deus/Consciência e as Almas e a Matéria é inqualificável e absoluta. 122 O Projeto Jiva é sua codificação do Tantra ou ele vem sendo trazido como tradição? A autoridade como religião não é a passagem Inconsciente de um determinado código, nem é uma revelação espiritual, é o fruto de uma experimentação, de uma experiência espiritual feita por centenas ou talvez milhares de Almas e que pode ser tornada pessoal por qualquer pessoa com uma certa disciplina e observação sobre si.

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A sagrada perfeição é ser esta Consciência ainda que em um corpo físico e com uma Alma, veja que não estou ajudando uma Consciência a se libertar, ela sempre esteve liberta, estou ajudando a Alma a encontrar seu papel dentro da realidade universal, que é espantosamente diferente e absurdamente maravilhosa. Não criei um código de valores morais, mas um projeto que expõe a realidade, que é o Tantra, as duas realidades, a objetiva e a subjetiva. Este contexto Universal é de uma ordem que merece ser bem estudada, para que a pessoa como Alma, se insira dentro da realidade, como ela é. É este conhecimento que é o autoconhecimento, não é um conhecimento sobre si mesmo, mas sobre si mesmo dentro de um contexto Universal. E isto é Sat, o Ser, a Alma; Chit, Consciência; e Ananda, que é a Ventura. Sat-Chit-Ananda é uma expressão indicada para assinalar este mistério, como a Alma encontrará sua Ventura na existência. Assim somos forçados a ver “Deus” como ele é, e não como ele é para nós, encontrar este estado de perfeição espiritual é que é a Consciência pura, biunívoca.

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Porque Deus ou a Consciência é inqualificável? A idéia de Deus é sempre pessoal e supra pessoal, com as qualidades da Alma e além da Alma. Quando você qualifica Deus ou a Consciência o faz pela sua Alma, por sua personalidade, mas tudo que for usado, sendo pessoal ou supra pessoal é inútil, não qualifica “Deus”, sendo ele a causa eficiente do Universo, apenas isto. A Matéria é real e qualificável, ela não é Deus, nunca foi, e jamais será, mas sua existência deriva de uma causa eficiente, Deus, que não criou a Matéria e nem a Alma. A Alma e a Matéria são eternamente distintas da Consciência, que você chama de Deus.

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O mundo da mecânica quântica é o mundo da matéria, da Alma ou de Deus? O mundo da mecânica quântica não é o mundo da Matéria, é o mundo da Alma observando a matéria. Não existe um mundo da matéria independente do mundo da Alma, a causa dos eventos quânticos é a presença da Alma e da Matéria. A Alma interfere no mundo das grandes energias, no mundo quântico, exatamente da mesma forma que a Consciência interfere no mundo das Almas. No mundo pequeno temos forças grandes e no mundo grande temos forças pequenas. Nós somos a causa eficiente do mundo quântico.48 “Deus” é eterno e imutável, é a Consciência pura.

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A característica de Deus ou da Consciência é a imutabilidade?

Sim, exatamente. Os físicos e astrofísicos, tentam relacionar, encontrar uma simetria entre o que é muito pequeno e o que é muito grande, tentam captar este algo que permanece imutável. A Consciência é a única entidade imutável no Universo.49 126 O Tantra admite a evolução? Que evolução? Da Alma? Da Matéria? A Alma não evolui, eu digo que não há uma evolução em direção a Consciência ou Deus. Tudo o que uma Alma aprende na vida se perde na morte de seu corpo físico, não existem provas da passagem de uma vida para outra, mas se a Alma também não morre, se ela volta

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Poderia haver fenômenos do mundo quântico sem a presença do observador, se a interferência das “Almas”? Como sabê-los? Roberto Melo. 49 Mas eles já chegaram a esta conclusão, ou isso não passa de ilações forçadas, crenças obtidas? Roberto Melo. ( Sim, e a chamam de Singularidade um evento sem Tempo – Espaço que começa a matéria e que existe em milhões de lugares no Universo – nota do Autor)

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ou não... Mas tudo que evoluiu em uma vida, não é transmitido para outra vida, logo, a Alma não evolui, mas o corpo sim. Nos animais assim como no homem existe uma evolução biológica, que é transmitida pelos códigos genéticos herdados, neste caso existe uma evolução, um processo de seleção, então temos que a Matéria evoluiu, mas a Alma não evolui e nem a Consciência. Então perceba que a Alma está produzindo a evolução de um veículo físico cada vez mais adequado para ela. Isto é muito interessante. 127 Nem a Alma e nem a Consciência evoluem? Sim. É isto. A Alma vem produzindo um corpo cada vez mais adequado para a Consciência, e parece que este é seu papel. Quando não precisarmos mais da fala biológica será que poderemos comunicar algo?50 Então, na comunicação, seremos a Consciência. Eu já falei sobre isto, somente precisamos da fala para comunicar aquilo que não é comum entre nós. Para quê precisamos comunicar o que é pessoal? Claro que é para vender nosso Peixe -Sujeito, $, criar um significante para um outro significante. Se eu não desejo nada de você, não há o que comunicar. Cada um de nós é um olho da mesma Consciência. 128 A realidade vivida pela Alma não é a mesma da Consciência?

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Essa fala não é biológica, não falamos por indução genética, mas, sim, porque passamos a expressar a nossa capacidade de pensar, de simbolizar, de interpretar o mundo real e aquele que queremos criar pela imaginação. Talvez a confusão surja apenas por termos a propriedade de possuir um aparelho fonador para tal função... Pode-se comprovar facilmente esta tese a partir do fato de que não nascemos falando. E falamos aquela linguagem que nos é ensinada, que está no nosso contexto histórico e cultural. Temos esta monumental capacidade de aprender e apreender e, assim, transformar o mundo. Foi isso que a humanidade fez e vem fazendo até o presente momento. Roberto Melo.

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É a mesma da Consciência, mas a Alma interpreta a realidade pela sua história como Alma, realidade objetiva, a realidade é a mesma e uma só, mas para a Alma esta realidade é da ordem do impossível, ela vê a realidade como ela é, mas capta, interpreta, para ela como Alma. Logo, a Alma não tem como captar a realidade, daí que o Real é da ordem do impossível. A partir desta realidade única, cada Alma vê uma coisa distinta, pessoal. As coisas dizem respeito ao sujeito, mas porque não as ignoramos? Porque imaginamos que nos dizem respeito? 129 Qual o propósito disto? Imagino que seja evoluir o veículo físico, criar um Avatar para a Consciência. 130 Esta evolução o senhor poderia nos falar dela? A Alma faz o corpo evoluir, mas este corpo tem uma existência limitada, e durante a vida um ou dois eventos produzem um salto evolutivo, se a pessoa estiver preparada, e este fenômeno; chamado Kundaliní, ele desfaz os vínculos com a linguagem, com a história desta Alma, propiciando uma experiência de felicidade, de ventura, da Consciência estar naquele corpo físico “naquele momento”. O Tantra dominou esta experiência, dominou o processo deste salto, deste desfazimento da Alma, proporcionando um momento único, de ser a Consciência, estar junto dela. Então este corpo sofre transformações, adaptações. A Alma em si não tem muita importância, a não ser pelo fato, como faço agora, de poder falar sobre isto. O que separa a Alma da Consciência são as vibrações, os Vrittis 51, as modificações mentais, são estes fragmentos que causam a separação e assim criam uma realidade objetiva para a Alma. 131
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A Alma é descartável ao longo deste processo?

Redemoinhos, turbulência mental.

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Nós pensamos lá onde ainda não somos, então o conhecer é ser aonde ainda não somos, e isto nos faz ser onde ainda não somos, pelo pensamento. Como é a Alma quem conhece, ela tem a propriedade de ser além dela - pelo pensamento. Então, na verdade, nós somos onde não pensamos. Por este motivo a Alma nos dá a oportunidade da experiência do Ser, mas sem a linguagem, e nos dá a oportunidade de pensar, ser pelo menos um instante, onde ainda não somos. Ser além da linguagem é o êxtase, e ser além da Alma, onde ainda não somos, é o pensamento. Então não diria que a Alma é descartável, mas sim que ela está presa a um paradoxo, pois ela se fez e se faz pela linguagem, desta forma ela nos faz pensar, faz ser onde não somos. E isto é a perversão original da Alma, que somente é a Consciência, quando não pensa. Não emite um sujeito, $, um tesouro para um outro. Temos então dois momentos, chamados de Tan e de Tra. Uma expansão além da Alma e depois ser ela. Emitimos o nosso tesouro, e depois? Caímos no vazio. Devido a presença constante da Consciência, que é a mesma, sempre, imutável; e desta capacidade da Alma ser além dela, pelo pensamento, que temos um cenário Dvaita, dual. A linguagem da Alma produz um sentido, uma evolução, que sempre escapará, ou melhor, não poderá ser a Consciência, pela mutabilidade da Alma e pela imutabilidade da Consciência. Então como Alma, somos a Consciência apenas no gozo do êxtase. Mas este gozo nos dá sempre mais daquilo que somos, ultrapassa nossa Alma, nos mostra uma unidade, única, igual, e que sempre se repete ao longo da vida, produzindo muitos sentidos para as Almas. Pelo pensamento somos mais do que somos.52
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Pelo pensamento não somos de fato, apenas pensamos que somos, mas não somos, sentimos que somos, mas não somos. E como o pensamento é essa espécie de força incontrolável da mente, atingimos o psíquico, tido aqui como o todo da vida espiritual – distinguindo-se apenas de corporal - que impera de forma soberana sobre nós. Roberto Melo.

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O gozo é uma iluminação? Sim, sempre. As pessoas podem ficar confusas que seja físico, afetivo ou espiritual, mas na verdade o gozo é um momento de ser, de compartilhar a mesma Consciência. Neste momento único a Alma é igual as outras Almas, e sofre uma experiência, a de ser a Consciência. O gozo, o êxtase, é o desfazimento temporal da Alma.

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Lidar com este desfazimento da linguagem é, ao que parece, a chave neste processo. Certamente. O desfazimento é o êxtase, o Gozo. É o que se repete sempre, imutável. Tudo o que fazemos como Alma é lidar com o Gozo, dando a ele, as características que desejamos. Daí que a minha segunda clínica é a do Desejo e do Gozo. O desejo representa nossa Alma e o gozo representa esta Alma sofrendo uma experiência transcendental, sofrendo a experiência de ser a Consciência, naquele exato instante. Sempre gosto de frisar que o Gozo é a experiência da felicidade.

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Deus ou a Consciência é amor? O amor é tudo que produz a felicidade, a Consciência é o amor puro, que dá a Alma mais daquilo que ela é, tem, possui. Esta é a loucura da existência. Não somos reconhecidos, jamais. Pois no momento em que somos o outro, que somos a mesma Consciência, o gozo anula o motivo da Alma. Esta união em gozo é o que é o Maithuna; duas Almas sendo a Consciência naquele instante.

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No que o senhor chama de segunda clínica do Projeto Jiva, temos este desafio, o de lidar com os nossos desejos e a felicidade que eles produzem.

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Existe outro caminho? Há uma alternativa além desta que o senhor nos apresenta? Não. Não há. Veja que podemos chamar de libertação, entendimento, iluminação, ou paixão, amor, etc onde ainda temos uma separação entre o que é cognitivo e o que é afetivo. Mas a felicidade, o gozo não é mais nem cognitivo e nem afetivo. O afetivo é o valor que damos a uma experiência e o cognitivo é o símbolo dela. O Real, o Tantra, escapa de ambos, tanto do imaginário como do simbólico. Pois ele é os dois em uma dinâmica eterna, biunívoca. Outras pessoas poderão dar novos nomes, mas o Gozo e o Desejo sempre representarão o desafio da Alma, em ser a Consciência. É na terceira clínica, quando a pessoa é capaz de levar seu desejo ao gozo do Real e segundo a sua regra Biunívoca Universal, que surge o fenômeno, Kundaliní. Ela Foi simbolizada como uma serpente mitológica que subia pelo canal da coluna vertebral do Yogue, engolindo as letras, dos centros, dos Chakras, isto significa, desfazendo o universo da Alma, libertando o Yogue, da palavra. Entretanto para se chegar a um ponto destes é preciso que tal Yogue tenha resolvido a equação do Desejo e do Gozo. 136 Isto significa aceitar o Gozo como iluminação? Sim. Este é o ponto. Parece fácil, mas não é, pois a Alma se fez pela negação do gozo e não pela aceitação. Isto significa desfazer sua Alma, transcender. A psique trata do gozo como se ele estivesse aceito, mas esta máscara se trata de uma aparência. Para se ter a relação do sujeito com os demais, o gozo aceito por todos, é uma negação, pois é pela negação do gozo que o sujeito existe e vive como tal. 137 Então não há como aceitar isto socialmente? Não há como aceitar isto socialmente, isto lhe destruiria. Como o gozo é um desfazimento da fragmentação, da Alma, sua transcendência produz um 79

isolamento, o Kaivalya, do Yogue, do mundo. Ele precisa isolar-se, fazer do gozo a experiência de transcendência, portanto incomunicável a um outro. Se o gozo, o Samádhi, o torna uma Consciência, naquele momento, ele não tem o que comunicar aos demais, pois eles também são a mesma Consciência. Esta é a experiência biunívoca real. A Matrix não pode agir aí. Você está fora dela. 138 Como o senhor já disse antes, devemos inventar nossa felicidade. Isto mesmo. E se responsabilizar por isto. 139 Porque devemos nos responsabilizar? Você tem sua felicidade, ela é somente sua? Os demais não aceitarão isto como você imagina, e certamente você será cobrado por isto. Isto colocará os outros em cheque. A Alma, o Eu, como se diz vulgarmente, é o lugar de um sinal, sinal que ele representa algo para alguém, um tipo de perigo que ele corre. Este estado suspenso, uma angústia, é o sinal do desejo. Se sentimos ali, lá, na Alma, é lá que ele se localiza, então este sinal não é para a Alma, é para outra Alma. Este desejo, é pela demanda de um outro que questiona minha Alma, me anula de alguma forma, dirige-se a mim pois espera algo de mim, algo este, perdido, já irrealizado antes. Então a felicidade como sinal do desejo, solicita minha perda, para que o outro se encontre aí, seja feliz. Como o desejo do outro não me reconhece e nem meu desejo reconhece o outro, a minha felicidade como gozo, não é reconhecida, mesmo por que, a minha felicidade surgiu de uma demanda para alguém. Isto posiciona a Alma como uma reação, um centro de reações, aos demais.

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Ela não se questiona, não pode fazê-lo. E se o fizer se torna patética. A reação como desejo, como angústia, vinda da humilhação, Erniedrigung, da Alma, é uma visão romântica e irreal, a Alma reage a um perigo, a um sinal de perigo, pois foi ultrapassada, ela sabe que não é reconhecida, nunca foi ou será. Sente-se humilhada, pois se assume como uma vítima do processo engana-se e engana, pois assim parece que foi reconhecida por alguém e também que ela reconheceu alguém. É a felicidade que embrulha. Na verdade não se reconhece ninguém e também não se desconhece ninguém, é com esta realidade que temos que lidar e construir em cima disto uma felicidade. Então, ela, a felicidade, somente pode ser inventada por você mesmo, ela não pode advir da Alma, e isto nos leva a segunda clínica. Que tipo de desejo pode nos acometer depois de sabermos que Deus não tem Alma, que a Consciência não é a Alma, jamais foi ou será? É justamente esta configuração do Universo que nos coloca assim, uma Alma, que é diferente de todas as demais Almas, um Deus que não tem Alma, jamais teve, ou terá, e nem criou estas Almas. E que aquilo que é o desejo e o valor espiritual destas Almas, advém de sentir-se atraído para um outro, por que este outro, na mesma situação, sente-se atraído por você, pois assim reconhece o seu desejo em você e você nele. As Almas brincam de espelhos. Se fazem Almas de Deus, para terem mais convicção e esperança de serem reconhecidas. Como isto é possível se Deus ou a Consciência está da mesma forma em todos? Exatamente isto é a paixão, ser possuidor e ser possuído, reconhecer alguém, ser uma Alma que se faz Alma de Deus para um outro. Em resumo a Alma é um $, na busca de um lucro ou de uma perda. O lucro é ilusão pois a Alma quer é a perda. 140 Não existe encontro de Almas? 81

Uma Alma se encontra na perda da outra, na negação da outra. A Alma perde-se pelo desejo, para que o outro se encontre aí. Aí está o Amor, um ritmo de encontros e desencontros, Tan e Tra, que somente pode ser reconhecido ao longo do tempo, mas não no presente. Este é o acordo entre as Almas. As Almas nem se reconhecem e nem se desconhecem, o amor como paixão é uma dinâmica de encontros e desencontros, de troca, ritmo. Se eu reconheço você, isto ainda não é o amor, é preciso que eu reconheça você, me perca em meu desejo, para que então você se encontre aí, e depois que o Outro o faça, para que eu me encontre aí, meu desejo produz seu encontro e seu desejo produz meu encontro. O amor é um ritmo, uma troca ao longo do tempo, que somente pode ser percebido, quando na perda deste ritmo. No mesmo tempo, não há encontro. 141 Na sedução, no gozo, não há este encontro? Isto é a minha segunda clínica, o desejo esvazia a Alma, o desejante é um ser que esvazia sua Alma, aumenta sua falta, fura seu Eu, caracteriza ele como o lugar da falta. A angústia é um sinal de perigo, para o Eu, pois o desejo está abrindo um vazio no Eu, na Alma. Veja que é um sinal negativo, no sentido de esvaziar a Alma. A Alma não pode lidar com isto, pois o seu $ veio do outro, a Alma está se perdendo no desejo, em direção ao gozo, que é a perda total, a máxima suportada pela Alma. Continuando, se eu desejo, eu abro uma condescendência, me permito desejar aquilo que o outro quer, mesmo não sabendo o que ele quer, nunca saberei de fato o que ele quer, esta condescendência é a minha angústia e o sinal de perigo do Eu, da Alma. Então é na medida em que quer, em que o outro quer meu gozo, 82

este outro que imagino, que me deseja, é que chega a angústia e o desejo. Me castro, para gozar. O gozo vem como a finalidade das manobras de por fim a angústia, ao desejo, a um máximo de não desejar, de estar satisfeito, esvaziado, mas pelo outro. Logo, este Gozo, veio do Outro, veio do Real. A sedução é esta promessa. Mas o problema é que no Real, em Deus ou na Consciência como vocês quiserem chamar, não falta nada. Ela, a Consciência, ou Deus é a causa, pelo fato da nada faltar nela. Todo gozo está lá. E do lado de cá, para a Alma ter um vislumbre, ela precisa, abrir um tipo de condescendência para desejar e ter um vislumbre de Consciência, de Deus, de ser aquilo que nada falta. Chamamos isto de Gozo. Se não o fizer, isto é, se a Alma não abrir esta condescendência, apela para a violência, claro, em nome de Deus. 142 Seria possível o senhor estruturar isto, a Alma, seu desejo, o outro e a Consciência para termos uma visão geral? A Alma se supõe um sujeito, ela é Alma porque se atribui como Ser, espiritual, imortal etc. Mas a Alma se supõe sujeito por um desejo indeterminado, produto da Linguagem. Então temos que em um primeiro tempo há um desejo na linguagem e em um segundo tempo uma Alma que se supõe sujeito quando um desejo é determinado. A linguagem claro, é um campo do Outro, em que um Outro como sujeito que se supõe aí surge, emerge – a Alma. A Alma é o fantasma, um fantasma que fala, portanto ela não sabe o que quer.

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Sendo esta Alma um produto da própria linguagem, ela não sabe o que deseja e assim se supõe um sujeito. A Alma não é outra coisa senão o efeito da divisão da linguagem, ela não pré existe à linguagem, nem existe sem ela. A linguagem existe para tentar dar conta de algo que conteria em si mesmo a necessidade de existir, como se a Alma fosse completa. A linguagem se delineia para buscar, por proximidade, o local onde se encontra o desejo, este campo é o campo do Outro. Ao dominar a fala, a Alma domina o processo de se aproximar do campo do outro, e encontrar aí o desejo. A Alma escolhe o outro pois escolhe o desejo, o lugar comum a todos nós onde se produz o efeito de divisão, onde nós nos supomos um sujeito. A Alma não pode escolher a si mesmo, não há desejo lá, não há linguagem, não há troca, não há $. Esta é a Alma e todas as Almas assim funcionam. O que chamo de Consciência é a experiência efetiva da inexistência do Outro, a existência de uma experiência sem a linguagem, portanto, sem o outro. Ora, é justamente o fato de que a Consciência está em tudo da mesma forma, imutável, que possibilita e produz uma linguagem e o desejo, e por conseqüência a Alma, bem como o que este desejo quer, mas ele não sabe o que quer. Esta experiência conhecida como Samádhi, é sem a linguagem, portanto sem localizar o desejo no campo do Outro, ela somente pode ser uma experiência de desfazimento da Alma, o desfazimento da linguagem e do desejo, para que o Ser como Consciência seja ele mesmo. Esta experiência chamada de Samádhi é um gozo sem o outro, sei que os psicanalistas irão torcer o nariz e dizer: como isto é possível? Mas é possível, então para falar em instrumentação de uma experiência sem o outro, do si mesmo, é preciso que os temas sejam colocados de forma clara e segura. Esta experiência de si mesmo é como a verdade de Platão, mas uma verdade que não

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pode ser instrumentada se for e quando ela é instrumentada, ela torna-se um conhecimento, uma coleção de palavras da Alma. Desta forma, a experiência que chamamos Kundaliní e que produz o Samádhi, não é conhecível, não é objeto epistemológico, de uma teoria do conhecimento. Entretanto é ela que induz a Alma a buscar seu desejo, é o que digo quando falo em experiência, é algo espiritual, não pertence ao mundo das Almas, é a própria Consciência. Até aí é compreensível, mas veja que quando um sujeito sofre esta experiência mítica, ele é ele mesmo, não sendo nenhuma Alma, nem mesmo a sua Alma, ele é aquilo o que o desejo de toda Alma quer - Ser. A sua Alma se desfez naquele momento, mas não foi negada, isto é fundamental, a Consciência voltou ao comando. E logo virá o outro lado da experiência, atendendo a biunivocidade, isto é o Tantra. 143 Este fenômeno Kundaliní, o senhor poderia nos dar uma aproximação do que ocorre em um sujeito, mesmo que esta teoria do conhecimento não nos leve a experiência em si?

O Tantra deve ser aprendido de um Guru, de alguém que tenha dominado o processo e seja capaz de transmitir este conhecimento. Na minha terceira clínica, kundaliní, ensino o processo da seguinte forma: Primeiro é necessário o que se chama de Àsana53. Àsana é uma posição estável da mente, é um assento estável de tal forma que o corpo fique perfeitamente acomodado em qualquer posição, sem demandar nenhum esforço para isto.

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Assento.

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Com esta estabilidade geralmente as pessoas dormem, então vamos imaginar que nosso Yogue não durma e nem divague. Imediatamente começa um segundo processo, a energia, o Prana é percebido nas formas de calor, luz, pensamentos etc, então o nosso Yogue precisa dominar este Prana, com seu gesto interior pessoal, ou Mudrá. Ele começa a lidar com seu Signo. Daí para frente temos a Alma, com seu Desejo e com seu Gozo, utilizando sua energia, o seu Prana, pelo seu gesto interior, pessoal. Então, digamos que nosso Yogue tem um gozo, experimenta um Samádhi pelo desejo de sua Alma, de seu Mudrá, de seu sentido, do sentido de sua Alma. Depois deste Gozo de seu Desejo, ele começa a perceber que este gozo não era o Gozo da Consciência, era um gozo da Alma. Aquilo que o desejo quer não era “aquele” gozo que foi gozado. Nesta trilha ele está no caminho da realização, do Tantra. Ele segue, e a cada meditação faz sua energia subir, faz seu Prana acionar sua personalidade e ela produz um novo gozo através de um Signo. Nesta via de gozo não há a denegação, pelo contrário, há uma experiência que esta Alma está fazendo para se libertar. A Alma deseja, mas não sabe o que deseja, ela não sabe o que o desejo quer dela, e é isto que nosso yogue está experimentando em cada meditação. A perfeita vacuidade, o vazio Absoluto como Náda, como som, como a palavra original ainda não falada.54 Então não há um desejo do sujeito e sim um sujeito do desejo. É isto que está descrito, mas em linguagem crepuscular, Sandhya, nos textos.

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Deveria, então, representar algum tipo de som que não fosse convencionado como palavra, como símbolo, como pertencimento à comunidade, como um consentimento do coletivo, daqueles que, por si e para si, em alguma medida, querem e podem se comunicar pelo verbo. Roberto Melo. ( Exatamente, é esta a representação pretendida pelo OM, como Náda – Nota do autor)

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Então na Primeira Clínica, lendo aqui, você aprende Tantra Yoga ou Tantra, comigo, na Segunda Clínica este conhecimento começa a ser seu. Surge em você o Mudrá, o seu gesto mágico, do poder. É na Terceira Clínica que você experimenta o que você aprendeu comigo (Primeira Clínica) e tornou isto, seu conhecimento (Segunda Clínica). Logo, o conhecimento não é a experiência. Mas para se ter a experiência é preciso que este conhecimento seja seu, somente assim você terá o gesto interior, o Mudrá. Um sentido pessoal. Isto que eu lhe disse agora tem um significado, de que a Alma pode transmitir para outra Alma, somente aquilo que passa por ela, um conhecimento. Um dado, um saber que não passa pela Alma, não chega até outra Alma, apenas perverte, cria um fetiche. Então o conhecimento não é a experiência. Logo o que proponho, é uma clínica de exploração real de si mesmo, e aí todos se defrontam com a palavra e com o gozo, até que por fim entendem que este gozo depende da palavra, que sua felicidade é uma felicidade de seu discurso. Neste instante mágico, a pessoa pode pensar que sabe que é ela mesma quem está imaginando ou produzindo sua felicidade, e é mesmo, e isto sempre passa meio despercebido, e depois é esquecido, mas isto é fundamental, ela tem que descobrir que ela é capaz de produzir sua felicidade, e quando domina este processo, isto é chamado de Mahamudrá.

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É possível que esta experiência seja apenas pelo encontro, pelo contato externo, visual, existe esta alternativa?

Sim, isto pode ocorrer desta forma espontânea, o problema é que assim, torna-se necessário um contexto, um grupo que venha a apoiar, após a experiência, este experimentador. Então temos duas vertentes interpretativas da experiência de iluminação. Uma é chamada de Acharya, a que produz a experiência de dentro 87

da Alma e a outra vertente é chamada de Bhagwan, que produz a experiência de fora para dentro da Alma. 145 O que o senhor chama de Projeto Jiva ou Sannyas?

É o que estamos fazendo aqui, expondo, explorando a realidade, isto pode estimular as pessoas na busca de sua iluminação ou libertação espiritual. Contudo, este processo somente começa, com a questão filosófica sobre a Alma e a Consciência, se a pessoa conseguiu algum conhecimento, chegou a alguma conclusão sobre a vida, formulou, ou mesmo se ela é simpática a alguma filosofia ou pensamento espiritual, sem passar pela questão Dvaita, da dualidade da Alma e da Consciência; e Advaita a da não dualidade da Alma e da Consciência; eu sinto muito, mas todo seu desenvolvimento foi em vão. 146 O que leva o senhor a ser tão categórico nesta afirmação, não é mais comum que cheguemos a esta questão depois de uma experimentação filosófica?

Há uma ordem aí que produz uma série de implicações, é como começar pelo efeito e terminar na causa. Aí está comprometida a integridade do ser, da psique, e até a saúde mental é comprometida. Quando nos movemos do efeito para a causa, colocamos a segunda clínica, a do Desejo e do Gozo como baliza de valores, agimos como em um jogo de tentativa e erro, e depois você nem mesmo sabe mais exatamente o que está fazendo, a Psique se fragmenta, e será preciso muita energia para conseguir alguma autonomia. O fato de você tentar, errar, e depois tentar novamente, não é o problema em si, mas veja que é a sua vida o que está em jogo, são as suas relações e os seus valores, então há um desgaste pessoal muito grande, e muitas pessoas são prejudicadas em sua saúde mental, pessoas que estejam próximas ao experimentador. As relações e os laços sociais perdidos não se recuperam mais. A crença nesta forma de desenvolvimento é baseada na especulação e não na

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experiência. É claro que este olhar privilegiado surge e surgiu agora, ao longo das experimentações sociais, e deixam um rastro de problemas. O Projeto Jiva, que idealizo é este. Começamos pela causa e depois vamos aos efeitos, pois assim sua autonomia pessoal e interpessoal está garantida. Onde você estiver, quando estiver, como ou com quem, será irrelevante, a iluminação não é somente para esta vida, ou para este mês ou ano - é para sempre. Nem é em relação a algum grupo social, religioso ou espiritualista, é para todos os grupos. Compreenda o que ocorre com o que chamamos de Real: Nós somos a mesma Consciência, O Mesmo Ser falando através de Almas diferentes. Este ponto, o da Primeira clínica do Projeto Jiva, é o fundamental, de outra forma será impossível você sair do Transe da Alma. Você estará ligando a sua Alma a uma Consciência e imagina que os demais possuem Uma outra Consciência, e ainda, que esta Alma será ou é a Consciência. Ora, quem nos inaugura como sujeitos, como uma Alma, é a linguagem, é ela que ao mesmo tempo nos possibilita existir distintos, e que cria a separação da Consciência. É isto que chamo de Bi-univocidade. O Real é Biunívoco, isto significa que eu e você somos a mesma Consciência o tempo todo, mas que ocupamos lugares diferentes. O Lugar, o lócus, já é uma dimensão do tempo, entretanto para a Consciência não há o tempo, portanto ela é a mesma sempre, em mim, em você e em todos, SEMPRE. Separada dela mesma a Consciência nunca esteve e nunca estará, há sim uma ilusão da Alma, que é um fantasma, necessário para se viver a vida como ela é, mas é um fantasma. 147 Isto que o senhor nos diz é realmente novo e bastante revolucionário na área do conhecimento, sabemos que o senhor sustenta este ponto de vista, advindo da escola Psicanalista francesa e do Tantra Hindu e muito bem elaborada pelo senhor. Esta idéia central é a Alma do projeto Jiva. É exatamente daí que partimos naquilo que o senhor chama de Projeto Jiva, desta realidade Bi-unívoca? 89

Sim, e por isto insisto na Primeira clínica ser a Clínica da Consciência e da Alma. 148 De certa forma o senhor abole o valor, o sentimento humano, antes da Primeira Clínica. O senhor poderia dar mais detalhes deste processo? Não existe muito a fazer, a minha exposição é apresentada por este motivo, para lhes dar algo que realmente seja uma fronteira na humanidade e no pensamento humano em particular. A minha primeira clínica é o fruto do pensar, de um longo processo, perigoso, sempre na borda da linha, ali onde corremos o risco. O sentimento não foi abolido, o sentimento é o valor que damos a uma experiência, este valor é reconhecido por mim, cada um deve inventar sua felicidade, o que estou expondo não é um modo de ser feliz, e sim o único modo de estar feliz. Nenhuma Alma pode ser feliz diante do Real, a não ser pelo processo de negar, o mecanismo descoberto por Freud. O que estou aqui dizendo é um saber mais além da Alma. Você é a negação, pois você é uma Alma. Não há outra forma de viver e ter saúde mental, e ao mesmo tempo você não pode esperar a evolução da sociedade. Então surge uma solução temporária, o invente sua felicidade. Até aí eu já lhes falei, não preciso voltar a este ponto novamente. Encare que você teve que sair da estrada, está no acostamento esperando uma boa nova, algo que faça sentido. Enquanto você espera, este enquanto, é um momento que seu sentimento precisa de algo para dar um valor perene. Eis o que faço aqui. 149 Certamente milhões de Almas estão esperando uma salvação. É verdade, mas o problema é que a “salvação” é bem diferente do que geralmente estas Almas imaginam, é muito diferente. Quando elas começam a conhecer o Real, e elas o chamam de extinção, transcendência, iluminação, passamento, transmigração etc. Tentando dar algum sentido ao processo. Porém, é evidente que este sentido veio da sua cultura, dos laços sociais, pôde ser nomeado, segundo alguma tradição. Entretanto a nomeação não cria uma 90

oportunidade com o Real, somente o livra de uma aflição existencial, adiando o processo de Salvação. Os Hindus adeptos do Tantra da linhagem Dvaita, criaram um termo para dizer o que uma Alma pode fazer para se libertar ou Salvar. A palavra é Prathyabijña, esta palavra significa Reconhecer, reconhecer a sua situação como Alma. É isto que podemos fazer, é reconhecer a nossa situação como Alma, e a partir daí o nosso elenco de valores, sentimentos, terão um sentido mais amplo, mais Universal. Da mesma forma na análise, e você sabe que sou um adepto desta corrente de pensamento, e em Lacan somos levados a esta mesma posição, a do fetiche. Sabemos que estamos usando um fetiche para ser. Não há como ser de outra forma, existimos lá onde desejamos. A linguagem dá conta da Alma ser a Consciência, mas dá conta, neste momento, hoje, talvez até amanhã. Apenas tampa o furo da Alma. Quando somos conscientes da nossa condição como Alma, que usamos o outro para ser, que produzimos algo inverossímil para ser, quando somos conscientes disso, em um primeiro momento, ficamos, somos perversos, mas depois esta realidade se assenta e então começa a transformação da nossa linguagem. O que estou produzindo aqui é uma clínica do Real, para que possamos promover esta transformação do nosso discurso. 150 Esta clínica do Real, é a sua intenção com o projeto Jiva? Sim, começar um saber que esteja além da Alma, ou que seja comum ás Almas, e quem sabe se uma linguagem mais adequada surja daí? Uma que dê conta do Real. Sei que o que estou trazendo para vocês é algo absurdo, mas a realidade é absurda. Ás vezes sinto-me sozinho e patético ao ter que tratar com os outros sem esta possibilidade.

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Também quero esclarecer que não creio na existência de uma linguagem da Consciência, não, creio no começo e no desenvolvimento de um discurso da Consciência, mais adequado ao Real. E já lhes falei que entre a Alma e a Consciência há um fenômeno, um choque de realidades. Entre o ser e o ter, pois a linguagem produz o ter, apenas dá conta do ter, mas não dá do ser. Então o Sannyas é um espaço Mítico que você cria, para poder usar livremente sua linguagem, o que significa que é preciso, em você, um espaço individual para o Desejo e o Gozo. 151 O senhor não crê na existência de uma linguagem da Consciência? Não. Sendo ela a mesma Consciência em todos nós, qual a necessidade de falar a si mesmo por uma linguagem? 55 Como somos a mesma Consciência, e isto é um fato, tudo que fazemos é tentar esta aproximação, pela Alma. Em direção a Consciência há mais espaços vazios significantes, até que a Alma seja apenas uma posição diferente da mesma Consciência, apenas topológica. Então se você torce por um time e eu para outro time, nós temos apenas posições diferentes da mesma Consciência. Isto é a biunivocidade prática, o Sannyas. O que você pode comunicar para minha Alma é um ponto de vista diferente, e isto é mágico, fantástico. Então quando conheço sua opinião que sempre é diferente da minha, tenho que denegar, para manter a minha opinião, e logo depois eu sou também a sua opinião. Quando você está liberto, não há mais esta luta, não há razão para esta luta, há experiências diferentes da mesma coisa. O olho que tudo vê é o mesmo, sempre. Então a experiência e o experimentador são a mesma coisa. Não há o futuro e nem o passado, somente o presente.

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Então, como reconhecer – para usar o termo dos hindus – sem que seja usada alguma modalidade de linguagem, entendida aqui como um código com suas infinitas possibilidades combinatórias? Para os humanos, na acepção mais completa deste termo de designação da coisa, não pode haver nada fora da linguagem. A linguagem seria, então, a expressão do ser sendo... a sua própria construção e reconhecimento, não? Roberto Melo. ( Nota do autor – Esta é a comprovação da contradição apontada pelo Tantra Dvaita. Se a linguagem representa a Alma, este reconhecimento não pode se dar)

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Realmente é difícil ter esta percepção, pois geralmente estamos muito aferrados a Alma como nosso centro. E nem podemos fazer de outra forma, temos que nos distinguir dos demais, ser uma Alma para ter experiências, não podemos abandonar nossa posição centrada na nossa Alma. A experiência é que é comum, é o Gozo. É ela que deve produzir uma mudança, esta mudança, é o que me referi como Projeto Jiva. A Alma não pode abandonar sua posição, o que ela pode fazer, é compreender a sua situação diante do Real, a situação de cada Alma é diferente pelo fato de ter desejos diferentes, logo não há uma fórmula do tipo faça isto, faça aquilo. As suas experiências como Alma já são a plena manifestação da Consciência, e através de seu discurso estas experiências são a emissão de um sujeito, um $, um sujeito do desejo e não um desejo do sujeito. No julgamento que fazes de que a Alma, por ser o nosso centro, produza algum tipo de percepção errônea, pode fazer crer que exista uma percepção libertadora, mas não há. O percebedor é ele mesmo, e foi isto que Krishnamurti descobriu.

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Isto é praticamente o que Patáñjali expõe nos seus Yoga Sutras. Exatamente. Muito se estudou e pouco se produziu a partir dos Yoga Sutras, que possui lá uma chave secreta, esta chave é o que estou lhe dando agora: A Consciência é a mesma. Com esta chave o Yoga é possível e liberta, sem ela nada será libertador, pois o percebedor está perdido nos reflexos da Alma.

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O senhor citou o Guru Osho, quando ainda se chamava de Rajneesh como um dos únicos filósofos a conhecer o yoga. Ele conhecia esta chave secreta? Certamente, lá no seu livro Alpha e Omega onde faz a análise do Yoga Sutra de Patáñjali ele expõe isto, mas não de uma maneira clara. Para Patáñjali, Deus é um Princípio de Consciência. Não é muito diferente do que Kant fez ao dizer que trazemos a priori as formas e os nossos conceitos, mas tem uma diferença fundamental, a de que somos a mesma Consciência, sempre seremos ou fomos.

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Patáñjali se esquivou desta apresentação, o que lhe traria a ira dos Brahmanes. 155 Para Patáñjali, o Yogue seria esse ser que sabe desta realidade? Isto não está claro nos Yoga Sutras. Para ele Yogash chitta vritti nirodhah O Yogue é aquele que faz o recolhimento, Nirodha; dos seus meios de expressão, Vrittis; da mente, Chitta; e desta forma Tadá drashtuh svarúpe’vasthánam, aquele que vê, Drashtuh, o percebedor; se manifesta em sua natureza mais autêntica. Que natureza autentica é esta? O que exponho como Sannyas. A idéia principal do Yogue é o de realizar o Si mesmo - Drashtuh, e isto é conseguido se fazendo uma pausa no raciocínio lógico da Alma, para que você possa se expressar com mais autenticidade, e conseqüentemente usufruir de toda a liberdade, Moksha, advinda desse processo. Passando assim a se expressar de uma forma mais espontânea, verdadeira - Satyam. Patáñjali nos faz crer que em essência temos um Princípio de Consciência e que podemos ser ele, abrindo mão da nossa Alma, e dos desejos dela. O que eu ensino, já é um passo além. Primeiro a questão da Consciência e da Alma, em um segundo plano vem o Desejo e o Gozo, como a sua segunda clínica. Nem mesmo posso dizer que seremos algo ou seremos o percebedor, pois até mesmo ser o percebedor é um desejo. Sempre quem percebe é a Alma. Logo são as experiências na segunda clínica que lhe levarão a posição de percebedor e não um processo, uma instrumentação. A questão é topológica, de lugar, ela não é uma questão qualitativa. A Alma não será a Consciência. Na lenda de Buda, quando sob a arvore Bodhid alcançou a iluminação, ele atravessa os graus de percepção, até que se depara com sua própria imagem, ali ele define seu processo ao perceber que tudo é ilusão, mesmo a sua percepção, mesmo ser o percebedor. A Alma não será a Consciência. 94

Aí é que está o ponto interessante e novo da minha apresentação, para mim a Consciência é a mesma em todos, logo este “Deus” não fará nada para beneficiar uma ou outra Alma, nem mesmo há, como dizia Mircea Eliade, uma “Simpatia de Deus”, pela Alma. Se houver ou se houvesse algum tipo de relação entre uma Alma e a Consciência ou Deus, relação esta que de uma forma qualquer aproximaria a Alma de Deus ou Deus da Alma, se houvesse alguma relação, esta Consciência deixaria de ser a mesma, este Deus cairia. Então a posição topológica Dvaita, em que a Alma não é a Consciência, nem será jamais, é a manutenção da relação metafísica entre a Alma e a Consciência ou Deus. Qualquer outro tipo de relação, mesmo levada as ultimas conseqüências tanto em sacrifício pessoal ou cognitivo, e que prometa esta identidade entre a Alma e Deus, é uma fraude - diante o Real. 156 Nenhuma Alma se salva? Nenhuma, e isto é maravilhoso, não é? Se nós somos a mesma Consciência, o que há para ser salvo? 157 E porque algo deveria ser salvo. Sim, não existem motivos. Os motivos alegados como, por exemplo, Mircea Eliade, que sempre disse que nós apreendemos um aspecto da eternidade, como se nós tivéssemos pela frente a tarefa de reconhecer o sagrado, camuflado em cada aspecto da nossa vida. Tal aposta seria a constatação de alguma evolução das Almas, de que vimos Deus por alguma fresta das nossas vidas e logo ele se esconde, para produzir em nós uma vontade de cifra, um sujeito desejante, $, e em Deus uma simpatia metafísica por nós. O que lhes digo é algo diferente. Nunca vimos nenhum aspecto da eternidade, nós jamais fomos enganados mais que um dia e em uma noite de sono. O que 95

vimos foi a possibilidade de ter, jamais a de ser, o que vimos foi uma oportunidade para que nosso sujeito de cifra, o $, tivesse um instante de glória, de gozo - sobre alguém. Nenhum de nós teve este vislumbre em si mesmo, pois ele é da ordem do impossível, ele somente é possível na negação deste outro, como se não fosse ninguém, a quem tivemos que superar. Não há evolução alguma, a não ser aquela, a da nossa capacidade de iludir. Descobrimos assim uma espécie de lei do silêncio dos homens, todos iludimos, e fazemos disto um modo de vida, assim nos protegemos mutuamente, criamos a idéia de algum sentido. Esta é a dialética do sagrado, contra a qual somos impotentes, pois ela é a única salvação que as Almas têm. O mistério. Quando este sentido do mistério nos abandona e a nossa Alma entra em angústia e desespero, o que nos acomete? O que nos faz sair do buraco é o mistério, o impossível. Então a farsa do Mito, precisa de mais, precisa de uma história, precisa de um arquétipo que simbolize para nós e nos faça compartilhar com outras pessoas, esta dialética do sagrado, seja ela, yogui, pouco, muito, ou totalmente não religiosa. Não importa a carga religiosa. A verdadeira realização é aquela que se faz sem o outro, em que a Alma não é a Consciência ou Deus, jamais será ou foi algum dia. Esta passagem de Alma para Consciência ou Deus, pois eu não tenho problemas em afirmar isto, é nossa tarefa. Mas, repito sempre que isto é pessoal e intransferível, o que está em jogo é a sua capacidade de emitir seu sujeito desejante, $, de forma que você seja a própria Consciência e não mais a sua Alma, mas isto é produto de uma manobra, que citei, a do sujeito ser o Gozo, e não o que Goza. Então, é a sua linguagem o que muda, e não a Alma ou Deus.

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Eliade tentou pregar exaustivamente esta fenomenologia da Alma e de Deus, e com isto perverteu o sentido histórico das religiões, que não estão interessadas nas razões e sim em aliviar o sofrimento das pessoas. Toda religião crê em algum relacionamento entre Deus e a Alma, e para tal os seus mitos são o fruto da história de cada uma delas que renovam a fé. Dar a Deus algum tipo de simpatia metafísica é criar algum dogma. É a possibilidade do atendimento por Deus que move o motor da fé. Então não se pode criar um sistema que explique o fenômeno, foi o que Mircea Eliade tentou fazer, ele teve medo de se expor e expor os seus pensamentos mais íntimos, ele preferiu alimentar a sua imagem como Alma, ser reconhecido. 158 O recalque freudiano, a idéia de recalque criada por Freud, veio explicar este fato humano? Sim, e também a idéia de um Inconsciente, ela surge exatamente daí, como um depósito das nossas intenções, uma intermediação enquanto não resolvemos a questão entre a Alma e a Consciência. Nós podemos “mentir” para superar a verdade, enquanto ainda não somos a Consciência. Por isto e para isto temos uma linguagem. O recalque é a mentira da mentira, ouvimos, recebemos do outro, um sujeito desejante, um $. Ele produz em nós um significante, S. E nós mentimos de volta, emitimos um novo significante, que produzirá seu efeito. A mentira da mentira. A sua negação é a minha negação. A linguagem não dá conta do Real, mas produz uma comunicação entre as Almas. Uma comunicação indireta é verdade, pois não podemos comunicar diretamente, nem há uma necessidade, não existe nenhum motivo para isto. 159 Porque não podemos comunicar diretamente?

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A pergunta é outra, para quê comunicarmos diretamente? Para quê falaríamos com a mesma Consciência que nós somos? Percebe? Qual a necessidade de ser outro, e ter o outro, quando a Consciência é a mesma? Esta necessidade somente surge quando queremos ser diferentes! Eu sei que é difícil pensar assim, é impossível mesmo. A Alma quer se destacar do todo, ela não quer ser o Todo. A Alma nega a Consciência, temos a dinâmica da psique como uma via de negação e não de aceitação, é esta negação e a denegação, a mentira da mentira a que me refiro, que Freud descobre como Verneinung, a negação, e como Abweissung, a denegação. A negação como um processo entre a Alma e a Consciência56, e a denegação, como a negação da Consciência no outro. A partir daí temos a Alma negando a Consciência para ser, produzindo a sua própria linguagem simbólica, e a mesma Alma denegando a Consciência do outro, pois a denegação é uma projeção de uma idéia nova que está surgindo nela, mas vinda do outro. Esta nova idéia que não é da Alma, pois veio de outro, e que precisa ser sua, é esta nova idéia é que é uma projeção. Então não existe uma comunicação direta entre as Almas, mas simbólica, Yantra no Tantra. Mas perceba que a Alma não deseja se comunicar diretamente, isto escaparia do seu elenco simbólico, isto seria seu fim57. Logo a Alma não deseja ser a Consciência, ela deseja ser entre ela e a Consciência, ser o outro, ela sabe que a instancia da Consciência é imutável, portanto eterna. A Alma não pode ser a Consciência, mas pode ser aquilo que está entre as Almas e a Consciência. Um Cristo, e por aí podemos ver a estrutura cristã. No Muçulmano é diferente, pois não há intermediários entre a Alma e a Consciência, nem imagem e nem Alma
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Freud trabalha, de fato, com essa dicotomia, ou isto representaria uma adequação de ressignificação dos termos à sua teoria psicanalítica? Roberto Melo. ( Nota do autor – Freud divide a Consciência em uma estrutura tripartite, a meu ver uma forma de estruturar o conceito de Consciência em Inconsciente, Sub Consciente e Consciente.) 57 Por quê? Roberto Melo. ( Nota do autor – A Alma é feita pela Linguagem, uma comunicação direta seria sua completa foraclusão, nulidade, não significação, morte, etc ou com que categoria se queira trabalhar nesta determinação. Uma vez que o assujeitamento se dá e se deu pela Linguagem.)

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alguma pode ocupar este lugar. Veja que esta estrutura produziu religiões diferentes, problemas e soluções diferentes. 160 Existiria uma comunicação entre as Consciências? Perguntei no plural, mas sendo que ela é a mesma para o senhor e para o Yoga...

Sei que vou lhe surpreender agora, não existe de fato, pois não é necessário, as necessidades são da Alma. Mas existe uma inversão metafísica. Quando a Alma começa seu desfazimento, ou no sono e nos sonhos, ou no estado meditativo, em um primeiro momento há uma projeção, pois aquilo que vem do outro faz sentido para a Alma, ela desarticula a denegação, ela começa a ver a Consciência no outro. Aquilo que estava denegado começa a surgir como um alimento, sim, um alimento para a Alma, que não pode ao mesmo tempo lidar com a aceitação do símbolo do outro, do Yantra do outro, e ao mesmo tempo com seus próprios símbolos. É quando o Gozo e o Desejo saem da ditadura da Alma, de seus vínculos, de seus hábitos. Há enfim o começo do Gozo de ser, de experimentador e experiência se fundindo em um só, e não mais o Gozo da razão. Por esta mesma via, dormimos todos os dias, e sonhamos e pensamos. Este fenômeno não é exclusivo do Tantra, do Yoga ou da Psicanálise, é uma passagem para o outro, passagem sem a negação, uma passagem pela denegação, então a Alma que era uma dinâmica, Mantra no Tantra; com seus símbolos, Yantra no Tantra; passa a utilizar símbolos do outro. O que produz um delírio narcisita, mas focado no outro. Mas há aí, algo interessante, a mudança na linguagem. O discurso muda. E é esta mudança de discurso que possibilitará o acesso a terceira clínica, Kundaliní, com a evolução deste discurso em direção a um discurso cada vez mais adequado a Alma. Em resumo, a Alma não evolui, mas seu discurso sim, ele aproxima-se do Real. Muitas pessoas que tentaram utilizar o sistema do Tantra, Kundaliní etc encontraram grande dificuldade, justamente por creditarem a evolução e as 99

mudanças à Alma - a Alma é um mecanismo. O que a terceira clínica produz é a alteração do discurso do mecanismo, ajustando a Alma para a realidade da Consciência. Veja que a primeira clínica é uma circunstância, a circunstância do Real diante da Alma, a segunda é o código de valores da Alma, e a dinâmica dos seus Desejos, e por fim a terceira é da ordem do Gozo. Esta dinâmica se altera na terceira clínica, alterando o discurso. Por este motivo Kundaliní é aquela que engole as letras, fazendo desaparecer o Universo e depois as devolve, transformadas pelo gozo. As pessoas foram contaminadas com conceitos da Teosofia, onde Blavatski e Leadbeader inventaram muita coisa a respeito, nem mesmo o budismo tibetano escapou destas fantasias, com as publicações de Lobsang Rampa, na verdade Cyril, Cyril Hoskins, nascido em Devon, Inglaterra, filho de um encanador. Nas horas vagas, ele freqüentava várias livrarias e bibliotecas, dedicando-se a leituras esotéricas, notadamente A Doutrina Secreta, de Madame. Blavatsky, e outros de seu discípulo, Charles Leadbeater, sobre teosofia, ambos pródigos pelas descrições da cultura e da religiosidade orientais. Kundaliní originalmente é um conceito de um fenômeno, o mesmo que produz o sono e os sonhos, bem como o que produz o pensamento humano. Frater Fidelis Causa est Orbi, ou “A causa do mundo é termos irmãos

sinceros”. Isto significa que por sermos a mesma Consciência, a única causa do mundo é o gozo de um momento, de manifestação da Consciência, quando o fenômeno surge, pela função do outro. Sannyas é isto, um espaço para pessoas diferentes que compartilham da mesma Consciência. Esta comunicação entre a mesma Consciência, mas intermediada pelas Almas, é que é a causa do mundo. O amor em sua forma pura. Tantra. O que se pretende chamar de compaixão.

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A manifestação da mente é como Alma, a mente é chamada de Citta no Yoga, Existe portanto, a Consciência e as Almas da mesma Consciência, e cada Alma com a mesma mente, Citta, que produz alterações ou expressões manifestadas como Vritti, estes sim, pessoais. Então vou ter que lhes explicar o que dificilmente as pessoas entendem e não encontram por aí, esta explanação. O Yoga se resume em recolher, Nirodah; as expressões, Vrittis irradiadas; de volta para a Citta, para a mente. Yogacittavrittnirodah é a descrição do método do Yoga. Estas Vrittis, as expressões, são a percepção da sua individualidade e da sua existência consciente. Citta não é somente a mente, é a origem, é a Consciência como observador silencioso. Esta mente jamais está diretamente presente, ela se manifesta pelas expressões, como uma Consciência imutável por traz das expressões. Para resolver esta questão o mestre D.T. Suzuki expressou a mente no Zen, que é a Alma, que ele expressa como mente; e a mente que é a Consciência como Mente, com M maiúsculo, como está no seu livro A Doutrina Zen da Não mente. Se analisamos o Yoga conforme Patánjali e o Zen temos o mesmo cenário, uma Alma que é uma mente, como no zen, que é Vritti como no Yoga e uma Consciência que é uma Mente, no Zen, e que é Cit no Yoga. Tanto o Zen como o Yoga se resumem a: Recolher a mente no Zen, e recolher as Vrittis no Yoga, assim resta a Mente no Zen e Citta no Yoga. Tanto Citta no Yoga, como a Mente do Zen, projetam na matéria os seus desdobramentos segundo as leis da matéria. Como todos os objetos tem a mesma Citta ou a mesma Mente do Zen, temos em nós uma necessidade de ter cada aspecto desta mesma Mente ou Citta, queremos ser aquela expressão também, e outra e outra..

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O Yoga nos ensina a recolher estas expressões na Citta que está em nós mesmos, e o Zen a deter a mente, em uma doutrina de não-mente, para que a Mente se manifeste. 161 Então o Tantra Yoga seria a aplicação do Yoga nestas expressões, as Vrittis, sendo recolhidas por outro meio, diferente do Yoga e do Zen? O Yoga é aquilo que Patánjali escreveu, que ele postulou em seu Yoga Sutra. Mas lá no caso, ele postulou uma serie de preceitos morais, éticos e exercícios que fariam este processo. O Tantra é mais refinado, descobre que todas as atividades humanas, como dormir, o sexo, etc produzem o efeito deste recolhimento das expressões, mesmo em indivíduos que não sigam aqueles preceitos e aqueles exercícios. Descobrese que aquele Nirodah, ocorre no sono, e se descobre que as expressões, as Vrittis não se vinculam a uma natureza espiritual, e sim a um código de linguagem. O Nirodah é então um desfazimento das expressões dos vínculos da linguagem. O Gozo, o Samádhi é um desfazimento destes vínculos com o desejo. E mais, que a vida da Alma, como mente, como Psique, depende diariamente do sono e dos sonhos para recolher estas Vrittis, “olhar para dentro”, “dormir”, é meditar. Fazer isto em vigília requer continuar sendo observador deste recolhimento, senão seria o sono, mas mesmo a percepção disto já é Vritti. Então o Yogue somente dá prosseguimento na experiência se ele acreditar que ele, o percebedor é a Consciência58. Em termos gerais seria isto. Patañjali instrumenta que as percepções com as Vrittis recolhidas, produzem um Samádhi com resíduos, e que muitos desses Samádhis preparam o Yogue para um Samádhi sem resíduos. Portanto nem no Yoga e nem no Zen existe o acesso a uma experiência que liberta, e isto para mim, eleva bastante o conceito destas disciplinas. São sérias.
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Em intenção.

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A liberdade última se fará pelo acúmulo destas experiências de não ser. No contexto do Tantra, isto está claro logo de início. O Yogue do Tantra, o Sannyasin, começa sabendo que o Samádhi é um Gozo, e que ele não liberta. E que ele como Alma, não será a Consciência. O fato dele saber disso, e ter a convicção disso o insere em uma outra categoria, de como ele lida com o Gozo e com os Desejos. O Gozo não é uma aproximação da Consciência, nem é a sua negação, ele como Alma é a expressão da mesma Consciência. Não há o que impedir, nem o que fazer. E a partir daí que ele reposiciona sua linguagem para que ela reproduza em si uma ordem do Universo. 162 Como me expressarei? Pois é, como e por quê. Qual a razão para você se expressar? Você não quer ser, quer ter algo. 163 Desculpe voltar ao tema, não ficou claro. Onde entra o fenômeno, Kundaliní, neste ponto? Se você perceber, a Alma está presa a um ciclo, a uma ditadura da linguagem, de ter que se expressar. Então as ações feitas como expressão geram mais problemas, mais angústias. É na terceira clínica que surge a saída, Kundaliní um poder entre a Alma e a Consciência, poder que desfaz o acúmulo de expressões ou Vrittis pelo sono e pelos sonhos. Portanto agora vamos aplicar este conhecimento na vigília. Eu posso me expressar, viver no mundo, ser a Alma, sem que isto me impeça de ser a Consciência. Como? Então eu posso viver cada segundo de minha vida, sendo Alma no mundo, e sendo Consciência. São ambas que me propiciam a oportunidade de ter 103

experiências biunívocas. Me expresso, uso minha linguagem, e desfaço isto. Um Tan e um Tra. Quem ou o que intermedeia isto é Kundaliní, que é um fenômeno unificador59. 164 Como age este fenômeno unificador? A partir da segunda clínica, há uma interiorização, a Alma normalmente se unifica a Consciência no outro, o que já foi bem explicado. O que gera a linguagem, cultura, sociedade etc. Na segunda clínica o sujeito, o yogue, já possui em si o conhecimento, já está fixo nas suas experiências, não se volta mais para fora, não precisa mais ver a Consciência no outro. A partir daí um fenômeno unificador, Kundaliní, começa a agir entre a Alma e a Consciência, é a terceira clínica. O mesmo fenômeno que unificava sua Alma com a Consciência em tudo, passa a unificar o discurso da sua Alma com a Consciência que está em você. O sono e os sonhos já fazem isto, mas pode-se fazer na vigília ou o tempo todo, então o fenômeno é identificação da Alma consigo mesmo, pelo sono, precedido dos sonhos ou pelo Samádhi, sem sonhos. O Sannyas. 165 A primeira clínica é o contato com a Consciência no outro, no mundo? Sim, em tudo e em todas as coisas. Mas para ser a Primeira Clínica é preciso alguém que já tenha se realizado, lhe apresentar um elenco de conhecimentos que lhe possibilite, a Segunda Clinica, a sua própria clínica. 166 Esta passagem é o que o senhor está fazendo aqui? Sim, mostrando o único caminho, este da unificação de um discurso que dê conta disso. 167
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Não existe outra forma?

A Identidade.

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Não. 168 O senhor tem certeza que não existe outra forma ou caminho? Não existe outra forma, o Tantra é o caminho. Qualquer outra possibilidade e estará fora do caminho. O caminho é pela Linguagem e o que ela representa, não há outro. 169 O que o senhor nos apresenta é surpreendente, aqui nesta entrevista temos a Primeira Clínica para todos os leitores? Se a leitura for uma escuta atenta, é sim a Primeira clínica. Mas ler ou ouvir é diferente da escuta. 170 O senhor explorou todas as possibilidades? Certamente e por isto chama-se Projeto Jiva ou Sannyas. O Caminho, que é o caminho do Tantra. 171 Pelas suas palavras podemos ver uma síntese, inclusive do Yoga, em uma clínica única, trazida aqui pelo senhor. Daí sua insistência sobre este único caminho. É isto? Sempre afirmei não existir uma outra alternativa, o que não quer dizer que você ou que as pessoas, não devam experimentar outras abordagens da mesma coisa. Pelo contrário, devem, pois haverá uma clareza maior sobre o que sempre afirmo, não há outra via para o Real. 172 Outro mestre indiano apresentou esta via do Tantra, era chamado de Sri Bhagwan Rajneesh e mais tarde seu nome foi Osho. É a mesma via? Certamente, pois não há outro caminho.

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Todos os discursos dele eram uma clínica para seus discípulos... Agora ficou claro. Exatamente, agora você começa a compreender o Tantra. Os discípulos do Rajnessh ou Osho, receberam a sua primeira clinica através dele. E aí ele é Osho, a clinica dele mesmo.

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E sobre as diferenças entre o discurso do senhor e os discursos dele? Veja, o Osho foi um mestre famoso, mas existem outros mestres de Tantra, então é normal que você me compare com ele. Estamos todos falando da mesma coisa, do Real. A experiência do Real é o que todos nós fazemos vivendo, amando, odiando, aprendendo, ensinando, errando, acertando, não importa muito o fato da vida em si, mas sim a experiência, viver é uma experiência, não é um conhecimento sobre a vida. A minha posição não é a de lhe dizer que eu possuo uma fórmula secreta, uma maneira certa de fazer as coisas. O que lhe digo é: Que as suas experiências de vida podem lhe levar além do mero conhecimento, a partir do momento em que você fique consciente de sua clinica do Real, o Tantra. O Osho evoluiu junto com seus discípulos, até onde foi possível, até onde as palavras chegaram perto do Real, do misterioso Universo em que vivemos. A minha perspectiva é diferente, não há um lugar, não há uma técnica, não há uma iniciação que coloque você mais próximo do Real. A iniciação é você simplesmente ler ou me ouvir falar sobre Tantra. O que estou lhe apresentando é o Tantra, no Real, na sua vida, não estou lhe prometendo um paraíso na Terra, e sim um lugar no Universo. Pois uma vez consciente, seja onde for ou como for, você lá estará.

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O seu mestre em Tantra não lhe ensinou isto, o Sannyas?

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A pessoa que me ensinou Tantra tinha uma intuição sobre o caminho. Mas nem ele mesmo sabia da biunivocidade do Real. O que ocorreu é que eu estava consciente o bastante para perceber, ou como se diz no Tantra, para reconhecer a minha essência. E perceber que o mestre é um meio, para qualquer pessoa, não pela qualificação do mestre e sim pela oportunidade de entrega ou de confiança em alguém. O meu mestre de Tantra não me ensinou nada sobre Tantra, mas foi uma pessoa bastante responsável por manter a minha integridade, pois ele sabia que eu já era, e que sou uma Consciência, como ele. E isto basta no Guru. Então ele não me corrompeu, e isto basta no comportamento, claro, de um mestre autêntico. Se eu sei que você já é uma Consciência, não posso lhe confundir mais, tenho que seguir aquilo que um dia acreditei e depois se tornou real. O espírito do Sannyas está aí. 176 Qual a sua contribuição? É de que nós podemos falar sobre isto, esgotar as possibilidades e deixar que cada pessoa faça seu caminho pelo Sannyas. Não há uma nova versão do Sannyas, ele sempre foi o mesmo, diante do Real. Então tenho certeza que minhas palavras podem lhe dar mais do que conhecimento. Posso validar as suas experiências, e isto é um milagre. Como se dá esta experiência na primeira clínica, aqui lendo? É a Formalização do Tantra e da Psicanálise em uma forma disciplinar, o conceito de inconsciente a partir do algoritmo do sintoma; a formalização unificante e universalista do Édipo, da castração e do recalque com o conceito de Nome-do-Pai e metáfora; formalização da libido no desejo e na metonímia. É o conceito clássico do Tantra - um Freud formalizado pelos hindus. Depois temos a subversão do Nome-do-Pai, que se pluraliza e se desloca, quando atribui o recalque à linguagem e não à proibição60. Subversão do
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A proibição, assim como a interdição, são passagens permitidas e utilizadas pelas relações de poder que a própria linguagem, ou melhor, os discursos, têm a propriedade de produzir...A linguagem não seria, então, o verdadeiro suporte da cultura? Roberto Melo.

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conceito de desejo ligado ao proibido, substituído pelo gozo, não pondo o acento sobre a falta, mas sobre aquilo que preenche a falta, que é a função de seu objeto a, na psicanálise, e como o fenômeno Kundaliní no Tantra. Então entramos no Tantra e o termo essencial é o gozo, enquanto não tem contrário conhecível. O significante se torna operador de gozo, a oposição prazer/gozo declina, o prazer chega a ser um certo regime de gozo. A pulsão ocupa o primeiro plano, pois não está intrinsecamente articulada à defesa, "o sujeito é feliz”, e, como disse meu amigo Sergio Garbelotto, “estou feliz”. Ao nível da pulsão sempre, sempre se satisfaz, diretamente, indiretamente, de maneira econômica, dolorosa, prazerosa, etc..., axiomaticamente. O que ocorreu com este sujeito do Sannyas? Ele em um primeiro tempo tem a clinica como concebida como tratamento, mas diferenciada do tratamento médico, a sua “cura” está ordenada para um ideal de maturidade ou esclarecimento como norma da personalidade em vias de esclarecimento. Em um segundo tempo vem a transição entre os paradigmas: a desmedicalização, desmistificação, desfazimento etc. Conseguida na cura. Faz como a concebamos como experiência e não mais como um tratamento ou conhecimento. A palavra experiência tem toda sua importância como o lugar onde as coisas se passam. A cura pelo Sannyas proporciona um novo sujeito, e isto se cristaliza com a noção do passe pensado sob o modo transgressivo do atravessamento do fantasma. O que eu quero ser? Pois sou eu quem pode agora decidir! Em um terceiro tempo, a sua clinica se transforma, pois devo negar a passagem para você de minha segunda clínica. Lacan não nega o passe, mas o resgata enquanto um relato, uma narrativa acertada que satisfaz a um auditório como procedimento, como um espetáculo apresentado a uma platéia. Se vou lhe dar um espetáculo, sinto muito, mas levarei você para a minha segunda clínica. Fantasma com o qual o Rajneesh teve que forçar ser Osho, para escapar das implicações. Sendo inaudíveis em uma palestra, por exemplo, os temas da Maturação, da Conclusão e do Término, nós entramos na inclusão do gozo nos direitos do homem, o que vai de par com a promoção do sintoma, com o novo nome que lhe deu Lacan - Sinthome - para indicar que é um sintoma que não tem 108

contrário. O sintoma clássico tinha seu contrário, a cura. O meu tem um nome vindo do Tantra – Sannyas. Sendo assim o Sannyas que é um Sinthome sem contrário, pois não é a angústia de existir e nem a sua cura, surge como o meu espetáculo e a sua experiência. Este é o Tantra original, como o fez o mestre Bhagwan Shree Rajneesh. E aqui lhes apresento.

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O Objeto a, é um elemento criado por Lacan, é o mesmo fenômeno Kundaliní? Exatamente. O que somos não era linguagem, e passa a ser, e depois deixa de ser, pois agora você sabe que ela é a causa da experiência. O Universo está agora em suas mãos. O Tantra rompe com a tese da existência de um núcleo fixo universal da linguagem humana, da mesma forma que o faz a Psicanálise Lacaniana, então daí a alcunha de Kundaliní como uma serpente ígnea, uma engolidora de Letras. Na verdade Kundaliní é uma heurística, o fenômeno da identidade. Ao admitir-se que o Real da língua é o impossível que lhe é próprio, aceitamos que existe ao menos um lugar na língua de onde se fala do que não se pode falar. O real da língua não estaria, assim, costurado às bordas da língua, preso, mas solto no nada. Poesia? Musica? Ou agora, na topologia do real como Sannyas?

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Qual a sua opinião de termos tanta informação falsa sobre Tantra? Muitas pessoas sem nenhum preparo divulgaram e divulgam informações distorcidas sobre Tantra, aqui no Brasil e na Europa isto ocorreu, bem como nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, por exemplo, houve uma exploração do tema Tantra pelo viés sexual, como Shaktismo, que na verdade é um Ágama, que foram os ritos dos Vedas, na Índia antiga. Mas nem o Tantra existia na Índia antiga. O Tantra

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somente surge por volta de 800 da era Cristã, como uma filosofia ligada a linguagem e aos símbolos. 179 O senhor poderia citar alguns autores? No Brasil o autor Luis Sérgio de Rose, ou professor de Rose como é conhecido, apresentou o Shaktismo com sendo Tantra, um completo absurdo, na mesma linha de André Van Lysebeth na Europa e de diversos autores norte americanos. O autor Georg Feuerstain tentou, mas timidamente levar o Tantra para o seu lugar como filosofia com a publicação do livro: Tantra, Sexualidade e Espiritualidade. São estas apresentações de quem não conhece que produziram uma aberração, a aberração da mais elevada filosofia humana que se tem notícia. Mas o mesmo aconteceu com a Psicanálise, quando Freud tentou usar a metáfora do mito de Édipo para explicar o começo da Alma. Aí surgiu a idéia de uma inveja do pênis como sendo a castração, idéia reparada na escola francesa, com Lacan. Hoje os Psicanalistas e psicólogos que leram Freud em Inglês e Português começam a descobrir que jamais leram ou entenderam a estrutura proposta e criada por Freud, e eles clinicaram a vida toda baseados em um engano. Há um autor, chamado Paulo Cesar de Souza, doutor em língua e literatura alemã, que está republicando toda a obra de Freud novamente. Imaginou o absurdo da situação? No Tantra é pior. 180 Gostaria de elencar vários termos e o senhor nos ajudar a situar cada um deles. Sim, devemos fazer isto. 181 A primeira clinica é a do Yantra, do signo, do símbolo; a segunda clínica é a clinica do Mantra, da palavra, o significado. E a terceira clínica é o Tantra, é a do sujeito diante do Real?

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Sim, pode ser dito assim, porém a terceira clinica, Tantra, também é chamada de Kundaliní e aí eu preciso colocar mais um elemento, o Shaktipat. Pois nenhum ser humano pode se autorizar em si mesmo, pelos seus signos. Então há um outro que nos autoriza e nós autorizamos o outro. Isto eu já comentei, o Tantra chama de instância do Ishvara e a psicanálise de Outro. A palavra Shaktipat significa uma transmissão sem transmissão de nada, feita por alguém capaz, e no contexto do Tantra este é o papel do Guru, mas no contexto psicanalítico ele não existe, ainda não existe. Este é o ponto. O Guru é uma pessoa que chegou ao Gozo de ser, Nirvana, Samádhi, etc Ele é sem a palavra, e na sua volta ao mundo teve que naturalmente resignificar seus signos, para continuar a ser uma pessoa ainda no mundo. Ao iniciar alguém no processo do Tantra, ele não pode usar aquilo que ele resignificou nele, se usar ele não é Guru, então é esta transmissão que ele faz, isto, precisamente, é o Shaktipat. Ele lhe devolve o EU SOU, lhe devolve o SOU, limpo, claro e brilhante. Então temos que somente podemos transmitir pela palavra aquilo que significamos em nós, mas não podemos transmitir aquilo que nós resignificamos com palavras, pois neste caso há um sentido, mas não há signo comum, há sim, a imaginação, pois há vontade. Há, portanto, uma inscrição incessante por parte do Guru como Ser, mas como não é recordado, não é simbolizado. Há no Guru uma completa desimplicação do desejo, pois não há o que ser dito. A presença do Guru como um Ser desimplicado do desejo, mas presente como Ser, produz o Shaktipat. Esta transmissão sem transmissão é o que formaliza o Sannyas, e transfere ao Sannyasin a capacidade de Ser sem desejo, de imaginar sem os símbolos limitados pela cultura e assim criar um discurso próprio.

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A terceira clínica é a formalização do processo, pois não sabemos como será e onde será que seremos um dia, mas seja como for, saberemos ser nós mesmos, diante de quaisquer condições. O Shaktipat ou transmissão do Sannyas, ao mesmo tempo coloca o Guru como um Ser e insere o Sannyasin como um Ser sem palavras, em si mesmo e para si mesmo. O fato marcante é que não há como voltar ao Real sem a falta, pois nós “somos” pela nossa linguagem, e o que está perdido pela linguagem, está perdido irremediavelmente. Então o Mantra não formaliza uma libertação, não há uma linguagem que liberte, ele formaliza um limite e uma biunivocidade. No Yantra somos um ser da linguagem, no Mantra somos um ser pela linguagem e no Tantra somos um ser além da linguagem. Então a metáfora de Kundaliní ser uma serpente de fogo que engole as letras do alfabeto, de baixo para cima, voltando ao Universo – pode ser significada. 182 O que o Tantra chama de instância do Ishvara? É isto que explica o fantasma, o Ser ou Ishwara, e também com isto se explica o atamento do fantasma. Perceberam que tudo fica sem solução? E aí é que o Tantra traz uma novidade, que vou introduzir, aqui. Sono, sonhos e Kundaliní, sim há um fenômeno reparador, que remove todos os dias o fantasma da cadeia de significantes. Fizemos muitas conexões, até chegar à prova cabal de que há algo entre o EU SOU e o resto. Eu chamei de Fantasma o Ser que vive após o EU SOU, e que vive do ISSO. ISSO é o Objeto, ou o que ele representa como Desejo.

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O EU e o SOU. O “EU SOU”, formam um lugar que falta o ISSO, formam uma estrutura, que ainda não se afirma, ainda não é um EU SOU EU (ISSO). Vejam que este segundo EU, (EU) refiro-me assim a uma constituição do Moi (o meu EU), porque ele é uma tentativa de elaboração de uma teoria que de conta do primeiro esboço de Eu que se constitui como ego ideal e o tronco das identificações secundarias, a sede do narcisismo. É na passagem do EU SOU, para o EU SOU EU, que surge o Eu que é o MEU EU, aqui um ISSO, pois ele não é o EU, e sim o MEU EU, um ISSO, a sede do Fantasma, sua origem, digamos, Cósmica, Universal. Este Ser é o Ishwara. Então caro leitor o seu EU não é o EU em si, sacou? Nunca é. Jamais será! É um ISSO, este é o Ser ou o seu ISSO. Você pode fazer Yoga, praticar budismo, conscienciologismo, psicanálise e o que quiser, mas jamais, nuca realizará seu EU, pois é um outro que se realiza, o Fantasma, o ISSO, O Ishwara. Há um impedimento, o SEU EU não pode ser o “EU”. O EU original é Shiva para o Tantra. Então façamos agora um pacto, esqueçamos o EU original, jamais estaremos falando dele, ou sobre ele, ele é inexpugnável, inatingível! Ele é Eterno, é imutável – a Consciência. Assim chegamos a raiz do Tantra: Shiva é o EU, e Shakti é o SOU. Por algum motivo este EU se manifestou, sua manifestação é a Shakti. Veja que ele se manifestou primeiro para ele mesmo, EU SOU EU, daí ele ser Benevolente, não por ser bom, mas por que se manifestou primeiro para ele mesmo! A sede do narcisismo. Eis aí a coisa, a ontologia do Universo, o mistério. A Shakti, manifesta o EU, mas ao manifestar, manifesta primeiro para ele mesmo, EU SOU EU, cria a 113

condição para a criação, veja que não manifesta para ele mesmo, mas para algo, alguém parecido com ele, um espelho. O Ser, o Ishwara. Assim todos os Jivas são reflexos da mesma Consciência. 183 Isto significa dizer que somente existe um Eu e os vários Issos, Almas, fantasmas, deste mesmo Eu, sendo, existindo como Isso temprario? O Isso é o que representamos como o que é intersubjetivo, é para nós, é o que é nosso. Entre o isso e o Eu, há o Real, um abismo com todas as possibilidades abertas, a loucura, algo que é realmente o umbigo, a cicatriz de onde surge a possibilidade de qualquer sentido, coisa, etc O Meu eu, a minha Alma está agarrada a letra, como isso, como algo representado, significado. Entretanto o real é o Eu que não é o meu e nem o seu, mas o nosso, é o mesmo Eu de todos nós, aquele Eu conceito, Real, absurdo! Uma abertura, ali, com o todo e com todas as possibilidades! Isto é a biunivocidade, ser o Eu cicatriz, como o umbigo do Eu original e poder se maravilhar-se diante do Real, do que é o Eu real. Veja que o Eu é transcendente, pois ele é você e eu, e não deixa de ser ele mesmo, esta é a Consciência nele, dele. Logo nós somos transcendentais em um sentido muito especifico, e isto precisa estar bem claro para não ser uma alienação, é neste sentido que o Eu é transcendental, e por isto ele é chamado de Parama Shiva, ele é ele e pode ser eu e você, sem deixar de ser ele. 184 Nunca tinha ouvido isto. Você não poderia ter ouvido isto. Prakásha e Vimarsha são as qualidades da Consciência, de Parama Shiva. A fonte de luz e o seu reflexo. Vimarsha é a natureza auto reflexiva da Consciência. É isto que nos dá auto Consciência, a capacidade reflexiva da Consciência.

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Biunivoco diz respeito a que temos a mesma Consciência, idêntica e imutável, pois para permanecer idêntica em cada um de nós, esta Consciência precisa ser imutável. Logo, toda relação entre nós e uma outra pessoa é biunívoca, isto é, a Consciência é idêntica tanto em mim, como no outro. Outro nome para isto é intersubjetivo, quer dizer que subjetivamente nós somos idênticos, na relação com a Consciência. A parte comum é a Consciência, esta Consciência que é imutável. A Consciência se manifesta para si mesmo, EU SOU EU, mas veja que nesta primeira manifestação não há nada ainda, não há um terceiro, ela se manifesta para ela mesmo como o primeiro broto, como um Princípio de Consciência. Esta manifestação é Pura, entre duas coisas que são idênticas. O que existe entre duas coisas que são idênticas? Veja que somente a Consciência é idêntica a ela mesma! Nada mais no Universo é idêntico! 185 O Sannyas seria um meio ou um fim? Sannyas não é um meio, isto está correto, quanto a ser um fim, tenho que fazer algumas considerações. Sannyas é um lugar, um lócus de onde se tem a perspectiva simultânea da subjetividade, na relação com seu principio de Consciência e ao mesmo tempo com a objetividade, na expressão da Alma. Escapar para o lado objetivo ou subjetivo tira a perspectiva da biunivocidade.Portanto o Sannyas é um lugar e não um meio ou um fim, é um lugar onde a realidade subjetiva, individual e realidade objetiva, aquela das relações com o outro, se encontram. Pelo lado da realidade objetiva temos uma linha de significantes, uma seqüência lógica, um sentido e pelo lado da realidade subjetiva temos um emaranhamento, tudo se liga com tudo, não há uma cadeia de eventos. Como se poderia reforçar este laço, tanto o da realidade subjetiva, onde o sujeito se fez pela linguagem, como o da realidade subjetiva que daria conta de se relacionar com si mesmo? É neste ponto de encontro, em que a nomeação do sujeito atende a sua vida objetiva, e a sua nomeação como ser em si mesmo atende a sua realidade subjetiva, é neste ponto que é um lugar, que é 115

denominado de Sannyas. O nome Sannyasin assim atende, este preceito Universal, de levar este sujeito novamente nomeado ao lugar onde ele pode ser si mesmo e isto, não é impedimento ou norma, ou condição para ele viver com sua nomeação recebida quando nasceu. Os dois atendem, cada um a sua realidade, tanto a subjetiva quanto a objetiva. Não há conflito. Há biunivocidade, ou um ponto de vista privilegiado, tanto na relação com o outro como consigo mesmo. 186 Seria porque quem nomeou sabia de antemão disto, sabia que a realidade objetiva não atende a uma relação com o si mesmo? Se não sabia, esta nomeação causará alienação e não iluminação ou inteligência. 187 De certa forma, ao expor isto, todos ficam a mercê de sua filosofia. O pioneirismo é isto. Não adianta mais um novo desenvolvimento da mesma coisa, neste esclarecimento eu cheguei primeiro. Mas faço uma ressalva, será que em algum lugar alguém já não imaginou isto? Há séculos que os indianos através do Tantra usam este caminho, é bem provável que alguém já tenha concluído isto, ou que isto esteja escrito em algum lugar. O pioneirismo está na exposição filosófica do Sannyas como biunívoca. Todos os dias os sonhos reparam a cadeia lógica, apagando possíveis conexões laterais, tentando dar uma vida real ao fantasma que a Alma é. Criando e recriando um sentido para a sua Alma. Mas nem a vida objetiva tem sentido, pois é limitada pela linguagem e nem a linguagem o leva além, pois a linguagem não é capaz de dar sentido a sua vida com si mesmo. As artes estão aí tentando criar uma linguagem mais capaz, então a linguagem é poderosa, tem mais de 20 sentidos, mas não dá conta da relação com si mesmo, é preciso sonhar e dormir para dar conta de uma vida na realidade. Muitas pessoas tomaram o Sannyas e não sabem exatamente o que é isto e nem para quê. Não saber para quê se toma o Sannyas é a causa mais danos ainda, pois supõe uma liberdade que acaba alienando ao propor uma liberdade mal discutida, praticamente uma crença, e o Sannyas não é isto, é sim um ponto de 116

vista corajoso e privilegiado, e não um ponto de fuga, uma alienação em uma crença em um futuro. 188 Não há futuro algum para a Consciência. Jamais houve. 189 O pensar é o exercício de Ser, pelo menos temporalmente, esta Consciência? Sim, ao pensar nós somos lá onde ainda não existimos. Mas existe uma diferença entre pensar e divagar. Pensar é estar junto da Consciência, Samádhi, ali ao lado dela. Divagar é ser ela, e isto faz toda a diferença, pois as pessoas não pensam, mas divagam. Pensar é cobrir o sentido, vesti-lo com uma palavra adequada, e divagar é dar sentido a palavra. No pensar o sentido é mantido e pode ser continuado, experimentado, mas no divagar cada palavra que é forçada para um sentido não encontra simetria no inconsciente e com isto, há um emaranhamento, a perda do sentido. Pensar é uma parte da biunivocidade, o efeito do Samádhi como Gozo. Pensar é sonhar na vigília, exatamente como fazemos quando dormimos, mas no sono nós divagamos e não pensamos, não estamos ao lado, junto da Consciência, nós neste caso, somos ela. Pensar é dar palavra ao sentido e divagar é dar sentido a palavra. Pensar é sonhar acordado e sonhar é pensar dormindo. Poucas pessoas pensam de fato, a maioria não conhece o que é pensar. Shiva é o Deus, mas o Deus da morte, pois o desafio da Alma é passar por ela, e para tanto é preciso dominar a energia do desfazimento do discurso e conseguir estar junto da Consciência, onde for e como for. É por isto que Shiva representa a Consciência, e domina a serpente Kundaliní. Esta é a mensagem do mito.

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Todos os filósofos são adeptos de Shiva, pois são adeptos da desconstrução do Real, na busca de discurso no lugar, que não é na Consciência, mas junto dela. Então se você está, imagina, que está pensando, está bem enganado, pensar é o Gozo de libertação. 190 Liberdade. O que é? Ser a Alma da Consciência com todas as limitações de uma Alma, as suas fraquezas e os seus erros, suas alegrias etc. E estar junto da Consciência em alguns momentos, estar junto dela não pela negação da Alma ou pela sua evolução, mas por um fenômeno. Estas duas posições são a maior liberdade possível. No início pode surgir o medo, a fobia, pois o que era velho e conhecido, agora é sempre novo e desconhecido. A Alma pode gritar um pouco, reivindicar sua posição como senhora da situação. Mas aos poucos você aprenderá que esta nova percepção, mesmo da mesma casa, da mesma rua, da mesma esposa ou marido, é um espetáculo, que não deve ser temido, mas maravilhado, você irá se maravilhar ao invés de temer.

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O que o senhor diria ao leitor comum para encerrar esta entrevista? Estamos todos sozinhos. Esta é a situação de todos nós. A sociedade nos faz acreditar que podemos juntos inventar uma sociedade, que podemos votar regras, que possam resolver nossos problemas. Nenhum modelo, nenhum padrão poderá resolver a nossa angústia, nem mesmo nos dar a felicidade. Tentam lhe dizer que como você não pode resolver os seus problemas, então pode delegar aos políticos uma procuração para que eles representem você e resolvam os problemas. Os terapeutas criaram o DSM IV, um horóscopo de doenças, para que identifiquem qual o seu problema.

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O problema é que estamos juntos nessa, estamos todos sozinhos, e não há nada que possa ser feito a este respeito. Seus filhos, seus pais, todos nós estamos sozinhos. Para lidar com a realidade e com os outros temos uma possibilidade limitada, ridícula – a linguagem. Tudo que você é, se fez pelo semi falar desta linguagem. Pelo truque de dizer meias palavras, que lhe dão a sensação de existir para você, pelos outros. Você sabe. Também quero esclarecer que não creio na existência de uma linguagem da Consciência, não, creio no começo e no desenvolvimento de um discurso da Consciência, mais adequado ao Real. E já lhes falei que entre a Alma e a Consciência há um fenômeno, um choque de realidades. Entre o ser e o ter, pois a linguagem produz o ter, apenas dá conta do ter, mas não dá do ser. Então o Sannyas é este espaço Mítico que você cria, para poder usar livremente a sua linguagem, isto significa estabelecer em você um espaço individual para o Desejo e o Gozo na linguagem e além dela, como experiência de si mesmo. Esta experiência de si mesmo, este gozo, os hindus o chamam de Samádhi, significa estar junto com si mesmo. E este termo somente fica claro em seus fins e meios quando a Alma encontrou na definição de cultura, como tudo, tudo que nos destaca dos animais, e tudo que está entre nós, como afeto, conceito, e até o econômico. O esclarecimento do que seja a cultura nos dá uma perspectiva do possível, como Alma, sem isto, estaremos na religião ou na alienação de algum aspecto da vida como dádiva. A filosofia ocidental trabalha com a cultura, mas ignora o fenômeno, e então a psicanálise, Professional, Freudiana, ela abraça a cultura e os sonhos, o imaginário. Mas o Tantra abraça a cultura, os sonhos e o sono, e ainda estrutura como elas se relacionam.

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Somente quando a cultura ocupar o seu lugar e abraçar todos os aspectos discutíveis da vida, como um saber, dominado por uma linguagem, é que há a cura desta Alma, curada por que agora ela ocupa o lugar que lhe cabe no Real, então aí o fenômeno estará reduzido a sua verdadeira expressão, não sendo mais um suporte para sugestão, convencimento, segurança etc Depois da cura é que sabemos sobre o fenômeno, aqui debaixo da palavra sânscrita Kundaliní. Ate lá por mais que você se esforce estará dando ao fenômeno características que ele não tem de fato. Freud foi o pioneiro, seguido por Lacan que tentou ajuizar esta causa no âmbito da linguagem. Eles ainda não foram sequer digeridos pela filosofia ocidental, e agora eu lhe falo que além do aspecto cultural, há o fenômeno, a partir da linguagem, vindo de uma semiologia oriental, convenhamos que é demais para o leitor comum, e que um dia possa ler ou ouvir esta entrevista. Eu tenho que simplificar as coisas, dizendo apenas algumas palavras que possam despertar seu interesse e assim prepará-lo melhor para esta descoberta de si mesmo. Esteja sempre junto com si mesmo. E bem vindo a clínica do Real. 192 O senhor nos falou sobre meditação, e este processo é amplamente divulgado e pouco conhecido, se eu lhe perguntasse não como entrevista, mas sim, como eu posso meditar e estar seguro de estar fazendo realmente a meditação? Meditação é a equanimidade, a capacidade de poder ser, e ao mesmo tempo não ser. Sem, entretanto, negar, ou seja: poder ter as duas percepções. Como se faz? Se aprende e se treina, até dominar. O desejo é o valor que damos a uma experiência, desejo este que solicita um gozo, em Dhyána61 o desejo e o Gozo não são mais motivadores de novo

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Meditação.

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sintoma-de-desejo, de uma progressão do desejo, pois se obtém a totalidade daquela experiência.

Então no Dhyána, na meditação verdadeira obtemos a totalidade daquela experiência, Samádhi, Gozo. Logo meditação é o corte na linha, do sutra, de significantes dos mantras do signo. Dominar o desejo, não pela sua negação e sim pela seu provimento em sua totalidade. Você somente sai deste labirinto de paradoxos se você conseguir apreender um "conceito" biunívoco que lhe permita sobrepor conceitos, isto significa que você não seja NENHUM deles, mas que os possa perceber. É a partir daí que surge algo, que é fenômeno, não pode ser produzido por uma técnica, nem mesmo por, ou com um conceito, - chama-se BIUNIVOCIDADE. A ação ou Kriya, é sobre o conceito: Yantra-Mantra. Esta ação é a mesma da filosofia - desconstrução. Então tudo que fazemos em meditação é trabalhar com os conceitos, revelando nele seu aspecto biunívoco. Isto é meditar, ver a totalidade do objeto, assim Patanjali chama, de objeto. No Tantra é o Signo. O que se deve fazer é aprender, treinar para ver a totalidade do Signo. A primeira clínica , Yantra, é isto, trabalhar com o Signo e transformá-lo em um conceito, Mantra, e Mantra é a segunda clínica, ter a totalidade deste conceito como cultura. Meditar é divagar pelo sentido até que esta linha cesse em uma palavra que reverte isto, e então já é o sentido que busca a palavra. Este revirão é a passagem 121

da meditação para o Samádhi, onde há o pensamento. Os hindus dizem que este tipo de gozo, é com semente, com Bija62, e que existe um outro tipo de Samádhi que é sem semente, sem Bija63, tal como o sono sem sonhos.

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Algumas pessoas foram iniciadas pelo senhor neste processo, Kundaliní. E de que existe uma linguagem que ativa este processo, o senhor pode explicar isto? Explicar? Não posso explicar. Isto é a Diksha. Isto é feito na Diksha. O fenômeno não pode ser explicado, existem a Alma, a Matéria, e a Consciência. O fenômeno está entre a Alma e a Consciência e entre a Matéria e a Consciência. Sonhamos e dormimos por que existe uma necessidade frente a Consciência, necessidade atualizada pelo sonho e pelo sono64. O fenômeno está aí, e ele nos faz sonhar e dormir, veja que dormir é esquecer-se de você por um momento, não ser você, não estar em lugar algum, não possuir nenhuma cultura, opinião, conhecimento, nada. Sonhar é a passagem para o sono. Para ser a Consciência por um momento, claro que há seu corpo e sua Alma, mas eles estão em estado inerte. O fenômeno faz isto todos os dias com todas as pessoas. Então ele é natural, e quando situamos este fenômeno entre a matéria e a Consciência, criamos muitos problemas na física, pois não podemos compreender a interação da matéria com a Consciência ou com a Alma. Repito, que o Samádhi é estar ao lado da Consciência, e você já faz isto, mas pelo sonho e não pela meditação. Então Kundaliní é o fenômeno universal, ela dorme quando você acorda e acorda quando você dorme. A Diksha é a passagem de um processo que produz a manifestação do fenômeno, mesmo estando você acordado, e isto produz uma experiência de Samádhi, de gozo.

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Sabija. Nirbija. 64 Necessidade ou Intenção de Ser.

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Este é sentido secreto de muitos símbolos tântricos como o tridente de Shiva ou a flor de Liz. As três estruturas são a vigília, o sonho e o sono. Uma quarta estrutura surge quando você começa a experimentar conscientemente as três estruturas, esta quarta é chamada de Turyan, um estado desperto. É Biunívoco, pois existe a polarização entre a Alma e a Consciência, o sonho atua como uma passagem entre ambos. Logo, a vida consciente é Bíunívoca, ora como Alma debaixo da limitação da linguagem, que gera quem é, quem fala, para quem fala, e porque fala para uma outro, que pensa e porque pensa, e se pensa e fala é por que deseja, e deseja pelo fato de que sabe que se é a Consciência, mas todo este processo esbarra na realidade Biunívoca, contraditória, do discurso. Se há discurso há desejo. Então sempre há o Signo e isto nos traz a possibilidade estarrecedora do Real: A Consciência se manifestando através de uma Alma, mas sempre este discurso não visa trazer a tona este esclarecimento, mas obnubliar, esconder, pois somente assim a Alma é algo. Então o discurso da Consciência através da Alma é coerente, somente quando falamos da estrutura, meu caso aqui, ou quando tomamos o outro com nós mesmos, como irmãos sinceros. Sannyasins. Assim as diferenças como Alma são somente expressões diferentes da mesma Consciência. Nenhum discurso se destaca, ou aproxima ou se distancia da Consciência, exceto o meu e neste caso, em que estruturo, concebo um saber a ser dividido, compartilhado.

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Se estou entendendo o senhor, as pessoas que se esclareceram sobre isto, sobre a Realidade, elas podem compartilhar isto de alguma maneira? Sim, não existe outra alternativa, claro que as vias religiosas propõem uma outra estrutura, e daí a possibilidade de investir em um paraíso distante. Na via filosófica o Sannyas é a única alternativa, se a topologia e a estrutura forem levadas a um estudo intenso e inteligente. O projeto que é chamado de Jiva é

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este, promover o debate, e para isto eu fiz uma estruturação, baseado na semiologia oriental, o Tantra, e na Psicanálise bem como na filosofia ocidental. E para isto o fenômeno precisa ser situado onde ele é fenômeno de fato, como uma ocorrência comum, quero dizer de todos, todos os dias e por toda a vida. Pelo fato de se situar o fenômeno onde as pessoas desejam ver o milagre, é que se produziram muitas crenças, ou pelo fato de não se situar em parte nenhuma como fez a filosofia, também se produziram as meta-filosofias. Ora, eu situo o fenômeno exatamente onde ele ocorre, nos sonhos e no sono. É estranho que a maioria das pessoas não se dê conta disso. Então há um fenômeno que auto-atualiza, não como Maslow descreve, mas pelo sonho e pelo sono. Todos nós nos auto-atualizamos todos os dias, pelo fenômeno que desfaz os vínculos da Linguagem, e não por uma força em direção a alguma evolução da Alma, pois enquanto falarmos como Alma há o fenômeno que o fará reinventar sua Alma todos os dias. Então para falar como Alma temos que falar disso, da estrutura que criamos para ser alguém, ou compartilhar isto com outros que já sabem disso, e aí neste embate de discursos podermos ser mais desapegados do velho mecanismo, e viver melhor a vida com menos tensão e hostilidade. Nenhuma religião pode de fato libertar sua Alma e nem a Filosofia e nem o Yoga, e nem mesmo o Tantra. Mas este último pode lhe incluir no cenário do Real e aí sim você pode determinar o que seja sua liberdade sem necessidade do outro, mas a partir dele elaborar um possível si mesmo.. Este é ponto sobre o qual já falamos antes. Logo, o discurso dos libertos está interditado aqui, pois ele somente é possível quando há para quem falar. A contradição deveria calar estas vozes cheias de hipocrisia, mas como? Se não há pelo menos uma apresentação razoável sobre o Real?

Veja que nem mesmo um retorno a um iluminismo perdido é possível. Nem o Sannyas é um New Mind ou uma seita exótica. Eu o levo ao lugar onde não há algo que não seja contraditório, e sim onde ele é o que pode situar o fenômeno 124

onde ele é fenômeno. Ou rimos ou estruturamos. A parte séria, chata, é esta, a minha, a de estruturar para você. 195 Sendo assim todo discurso é contraditório e tem a finalidade da manter certa integridade da Alma, não seria perigoso desfazer isto? Eu concordo, mas não se desfaz isto pela contradição do discurso, mas sim pela topologia do Real, quem faz este embate pela contradição do discurso é a filosofia, não o Tantra, ele lhe apresenta um cenário em que você como Alma é uma construção da linguagem, e aí a contradição surge na própria fala, não é mais um outro que produz isto, é com você mesmo. E ser contraditório em si mesmo significa que você está pensando, e que pensar lhe trará a sabedoria, e ela lhe coloca junto da Consciência. A sabedoria é esta, saber que não se é, mas estamos ali, juntos. Ser contraditório em si mesmo lhe levará a rir das situações que não podem ser debatidas pela evidencia do desejo do outro. Então você perceberá que as pessoas vivem separadas delas mesmas por uma noção de que aquilo que ocorre na sua vida seja totalmente real. Elas mesmas produzem uma alienação no outro para serem elas mesmas. A contradição é um diálogo interno, é pensar. Mas cuidado, pois como diálogo interno pode parecer que há com quem falar, em si mesmo, e não é isto, é sim um ajustamento feito na linguagem, de colocar as palavras certas no sentido e impedir que as palavras dominem o discurso. Esta cadeia de palavras que dominavam o discurso é que deve ser quebrada pelo fenômeno, gerando uma posição real do ser. - Vamos ao cinema? Um pergunta ao outro. Que filme vamos ver? Responde o outro. - Não sei que filme nós veremos. Nem sei se veremos um filme! Como assim? Você me convida para ir ao cinema eu lhe pergunto que filme nós veremos e você não sabe? - Ta bem, se nós formos ao cinema podemos ver o filme que você quiser! 125

A linguagem presume um sentido e quando este sentido é confrontado gera conflitos, então este processo é feito pelo fenômeno que ameniza a contradição, geralmente pelos sonhos e pelo sono. O fenômeno interioriza a contradição ao ponto dela ser assimilada, mas o outro como a fonte do trauma, não desaparece, e se queremos de fato viver em paz consigo mesmo e com os demais, esta contradição deve estar em si mesmo, ser biunívoca, você ser capaz de fazer uma leitura do outro, responder as suas exigências e ao mesmo tempo ser capaz de pensar. O fenômeno como sonho e sono não é capaz de fazer isto, apenas ameniza a situação mantendo a Alma, mas o fenômeno como ato intencional, o Samádhi, este sim, pode fazer isto, e criar uma perspectiva dupla. 196 Samádhi segundo o senhor nos diz, é estar junto da Consciência, um estado ou uma conseqüência? Somente o Samádhi é um estado do Ser e ao mesmo tempo é também uma conseqüência. A palavra é composta por Sam e Dhi, Significa reunir, e eu prefiro traduzir como colocar-se junto. Estar junto da Consciência é um estado, de êxtase e também uma conseqüência. Veja que somente a palavra Gozo, é uma conseqüência e é um estado. Logo, o verdadeiro Yoga é Samádhi, é êxtase. Neste caso, Yoga é não é o método e sim a união, o atrelamento da Alma com a Consciência. Os métodos do Yoga conhecidos não chegaram aonde o Tantra chegou, pelo fato de que não existem métodos e sim fundamentos, de que esta reunião possa ser feita, sempre intermediado pelo fenômeno. Veja que nenhum método de Yoga interpretava o fenômeno como reunidor da Alma com a Consciência. Nem mesmo existia o fenômeno no Yoga, somente com o Tantra surgindo no século X na cultura do nordeste da Índia, é que os métodos incorporam o fenômeno, Kundaliní, mas sem o contexto do Tantra. Se excluirmos o fenômeno dos métodos do Yoga, ele é uma ginástica mística alienante. Onde se propõe a reunião definitiva da Alma com a Consciência, e isto se daria por algum tipo especial de atenção da Consciência ou de Deus, pelo Yogue, que de sua parte se esforçaria para atender certos preceitos que lhe 126

tornariam aceitáveis, ou mais evoluídos, que as outras pessoas. Isto significa que Deus ou a Consciência tenha algum tipo de desejo? O Tantra destruiu esta noção, pois o fenômeno está situado em todos nós, destruiu uma normatização para ser Deus, pois o sono e o sonhos já fazem isto, em todos, todos os dias. Na verdade nós nunca nos separamos da Consciência, então a tese do homem caído não existe no Tantra, não existe reabilitação para a Alma em relação a Consciência, pois esta reabilitação diz respeito ao social, é cultural, não é espiritual. Quando digo alienação não desejo ofender aos yogues, pois todos buscamos a nossa felicidade, mesmo que ela esteja negada em si para que possa ser uma recordação feliz da nossa identidade com Si mesmo. Porém ocorre que estes métodos são culturais e não espirituais. E por isto surgem as questões de se negar o Gozo, seja ele afetivo, sexual ou cognitivo como manifestações que nos afastariam de si mesmo, pecados. Usamse os nomes de controlar, perceber, para na verdade, reprimir, e assim obter algum tipo de excelência nesta identificação, como se a Consciência pudesse mesmo ser seduzida pelo Yogue. Então o Gozo e o Desejo representam a terceira clinica do Real, do Tantra, pois representam tanto um estado como uma conseqüência. Não há nada de errado com desejo algum, todo desejo deseja o Gozo, e o Gozo é ser a Consciência estando junto dela ou por uma ação consciente ou inconsciente, pelo sono e pelos sonhos. Cabala, Yoga, Xamanismo, Budismo, Shaktismo, Sikhismo, Cristianismo etc todos são sacrifícios, ritos culturais que visam obter um tipo de graça divina, com varias opções de estrutura e de meios. E aqui faço uma ressalva importante, pois a religião Muçulmana é a única que não permite intermediários entre a Alma e Deus. No Tantra isto não existe e tudo é com Você! Pois a Consciência está em todos os aspectos da mesma forma, e nada altera isto.

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Em várias tradições inclusive na tradição Yogue, e em algumas religiões, há a tese de que Deus ou a Consciência, como o senhor nos diz, está de alguma forma na Alma, como uma mônada espiritual, e que este é o ser em Si mesmo, como uma cópia de Deus, uma parte dele, em nós. No Tantra temos uma radicalização entre a Alma e Deus ou a Consciência, como coisas distintas, não há nenhum ponto médio entre os dois pontos de vista? Não há acordo aí, veja que para atender ao conceito de eterno, onipotente, onipresente e onisciente, a Consciência precisa não ser afetada por nada e ao mesmo tempo estar em tudo da mesma forma. Não há nada que vele ou impeça a Consciência de ser. Cada Alma é uma manifestação diferente, uma expressão da Consciência. Mas nem a Consciência deseja se expressar de uma forma ou outra, ela é ela. Veja que somente existe o fenômeno quando temos a Consciência como eu a descrevo e a Alma, a separação entre estas estruturas, por um lado a Consciência que pode ser qualquer coisa, pode ser a Alma, sem deixar de ser ela mesma, eis a manifestação do fenômeno que se projeta na identidade. Como algo pode ser tudo sem deixar de ser ela mesma? A lógica é de que como ela já é tudo, ou qualquer coisa que exista ou venha a existir, já está nela. E isto só é compreensível pela linguagem, de que ela já tenha todas as possibilidades. O Eu é o Eu, basta ser para si mesmo, o Eu sou encerra a manifestação da Consciência, e enseja a única possibilidade, de um novo reflexo, de ser o reflexo de si mesmo, Eu Sou Eu. A partir do Eu como Consciência, há mais 4 níveis de possibilidades, estes são princípios comuns, de todos, eles não existem como entidades ou seres, e sim como possibilidades, oriundas da necessidade de ser. Se somente há a Consciência, o Eu sou não produz outra possibilidade além de Eu sou Eu. Este segundo Eu é o reflexo do Eu, não é mais ele, nem nunca será. Quem necessita ser, quem possui as necessidades de ser é o reflexo, e não o Eu, não a Consciência. A radicalização do Tantra é de fundo etimológico, de estrutura. As discussões sobre se o reflexo da Consciência, a Alma, ser ela, ou contém ela de alguma 128

forma, são baseados apenas a crença e com isto se afastam dos aspectos mais reveladores e maravilhosos sobre o Universo e sobre nós – a linguagem. Aspectos que revelam nossa psicologia, estrutura social, religião, como culturas que tentam se isentar da necessidade em favor de uma origem divina. Mas o Tantra revela quando e como se dá este fenômeno biunívoco. E assim nos abre um Universo de possibilidades com o fato de compartilharmos o mesmo Eu, que chamo de Consciência. Que é de fato, onipresente, onisciente e onipotente. Mas pode parecer que com isto eu defenda o desejo como manifestação legítima do Eu ou da Consciência, mas não, a demanda como desejo padece de seu objeto original, ele mesmo, sempre, e eternamente. O desejo surge pela hiância, de um Eu que como reflexo não é o original e jamais será. Mas o desejo em si não pode padecer de uma demanda que lhe é estranha ou desconhecida, não é, é ele mesmo buscando a Si mesmo. Logo as demandas do desejo já se opõem a apresentar no outro, aquilo que se busca. Daí que há uma Biunivocidade, eu busco em ti o meu EU e você busca em mim o seu Eu. Entretanto o Eu é o mesmo seu Eu. Mas o Meu Eu não é o Seu Eu, pois o desejo já é linguagem. Então o que a Alma possui não vale mais do que aquilo que ela não possui, e para ser e possuir algo que seja seu, é preciso barrar algo que não se produz, nem mesmo pelo discurso. E justamente por isto existe o fenômeno, ele faz este milagre. É claro que esta minha afirmação coloca a demanda de amor como fenômeno e não como algum tipo de laço entre Almas. Mas é claro que tal só acontece quando há um ritmo de trocas em que este fenômeno possa ser experimentado no outro. Com isto eu também posso lhe dizer que as intervenções do prazer são três, situadas como físico ou sexual, afetivo ou de valor simbólico e Imaginário ou cognitivo. E ao buscar no outro a intervenção pelo sexo como fim, sempre utilizamos o afetivo e o cognitivo, fazendo assim o caminho da construção significante, pela linguagem. Se o gozo, neste caso do gozo sexual, não sustentasse mais os valores afetivos e os valores cognitivos postos no discurso, para atingir o fim de ter o sexo, ele seria definitivo. Mas não é. Pelo contrário o gozo liga e reforça os valores, e o seu sentido como gozo não encerra o desejo,

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pois ele não sabe o que deseja, o que ele deseja de fato está barrado, pela linguagem. Entretanto a mulher deseja diferente do homem, ela deseja ser amada pelo que ela não é, e o homem deseja ser amado pelo que ele é. Pois o Falo, Linga no Tantra, expressa, simboliza onde o desejo está, seja ele sexual, afetivo ou cognitivo. E como somente o homem possui um falo evidente, ele é o portador da Libido, ou que a nossa cultura vive sob a tutela de uma libido masculina. Não sabemos e nada conhecemos ainda do mundo feminino, e somente saberemos quando o que estiver negado na Mãe, não puder mais ser lembrado pela filha, ou seja, quando não houver mais, as Mães. E por esta razão alguns grupos de Tantra divinizaram a Mãe tentando reverter o desejo, uma visão de voltar a infância sem sexo, a um estado de pureza, que na verdade é uma fraude espiritual. As pessoas estranham que o fenômeno, Kundaliní, seja a clinica entre o Desejo e o Gozo. E com isto fica exposto o motivo, que são os motivos da Alma, dela ser sujeito da linguagem e não uma aparição energética. Esta idéia ganha vigor e clareza quando temos uma visão radical entre a Alma e a Consciência e perde completamente seu sentido quando se atribui algum tipo de graça divina ou manifestação da Consciência. Com isto ficam expostas as bases do Sannyas, que não pode ser uma religião do futuro, nem uma filosofia do futuro, mas sim o que é de fato e pode ser chamado de espiritual, de onde e como se situa o fenômeno. 198 O desejo não sabe o que ele deseja de nós, é isto ? Ou sabemos o que desejamos e não obtemos a totalidade dele? O desejo atende a demanda para sermos lá aonde ainda nós não somos, Lacan disse isto, e o Tantra como uma expansão, Tan, para existirmos com a Consciência, junto dela; e depois voltamos, Tra, e que este movimento sempre é intermediado pelo fenômeno, pois se houvesse uma evolução, não dormiríamos nem sonharíamos, mas não há evolução e sim um estar junto da Consciência e depois uma retração, retração para voltar ao desejo novamente. Eu não poderia 130

lhe dizer que se obtêm tudo, pois a percepção se dá pela linguagem, se dá pela Alma, então nós já obtemos tudo em cada Samádhi, e quem reivindica uma evolução ou uma experiência definitiva, parte de um desejo pré concebido, limitado, um desejo de um Gozo além do Gozo. O desejo não sabe o que ele deseja, está perdido no reflexo, mas você deseja algo deste desejo, talvez que ele se encerre ou que seja apoteótico, o desejo é uma pulsão de morte, do defazimento momentâneo da Alma, e a volta, um novo renascimento, pelo Gozo. Mas quanto mais você goza, mais triste fica, mais angustiado, fica, então talvez sua autonomia esteja em xeque, o muro foi encontrado, um limite foi encontrado. E limites se vencem pela linguagem e pelo discurso e não pela insistência ou força. Mas ocorre que o debate, o discurso, também altera sua percepção e com isto o que você deseja do desejo, ele em si não muda, ele nem sabe o que deseja e não importa muito, mas o que você deseja de seu desejo é muito importante. E neste sentido o Gozo será fundamental, pois em vez de angustiar, o colocará na posição dele, do desejo. Esta posição do desejo, ali junto do Gozo, na imediatez, na biunivocidade, é uma liberdade tamanha, que aquele desejo mesquinho de que ele chegue a um fim, a ponto de você desejar morrer ou sumir, será motivo de riso. Pois você a partir de agora sabe que o desejo lhe fez, e também que este desejo não sabe o que deseja, mas pelo discurso você pode mudar isto, claro pelo Samádhi, e aí sim ser o senhor de si mesmo, e desejar o seu desejo e não ser desejado por ele. As emergências que surgem na gênese do desejo confirmam o que eu disse. 199 Então o Samádhi não encerra a vida da Alma, mas começa? Seria isto? Sim, a Alma é desejo desenfreado, inconsciente. O Samádhi traz uma aposição entre ela e a Consciência, a faz ser senhor de seu desejo, se o Samádhi encerrasse a tragédia da Alma ele a lançaria na desgraça da Beatitude solitária, uma loucura ainda tolerada pela nossa sociedade, pelo fato de ela ser uma crença, mesmo que uma crença em si mesmo, sem lugar para mais ninguém. Os yogues que conheci e que usam a verdade como bússola encontram esta beatitude solitária, estão calados pela contradição de seus próprios discursos,

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como não podem dizer que ainda estão no território da contradição e ao mesmo tempo tem que demonstrar que chegaram lá, resta a Beatitude solitária. Ora, a linguagem está ai para ser necessária a uma lei ainda não escrita, para ser usada para o outro e do outro para você. O Samádhi não encerra nada, apenas apõe a possibilidade de sua existência como ser entre a Alma e a Consciência. Torna o Sannyasin o senhor de seu desejo, ou o usuário consciente de sua linguagem. 200 A Biunivocidade seria uma afirmação que esta passagem se dá duplamente, que percebemos o desejo vindo do outro, que podemos corresponder a este desejo, inclusive participar dele sem perder este comando sobre si mesmo? O Samádhi é um gozo, de encerramento temporário, de satisfação. De desarticulação da ditadura do discurso da Alma, presa a sua cadeia de significantes. Nesta completa satisfação, uma nova demanda de desejo que venha do outro é tratada com menos paixão e mais percepção. E aí pode surgir um discurso de confronto ou de aceitação. Tanto faz, pois a lei moral não está escrita nas estrelas e sim nos livros dos homens. Mas a atitude de confronto revela uma necessidade lúdica, de educar mesmo que pelo confronto, revela que não se tem domínio sobre o desejo, que ainda não se tem um discurso que de conta deste desafio. Mas o Samádhi, veja que ele desarticula o discurso, todo ele, sem distinção, então ele desarma o confronto por uma aposição não de um espaço vazio a ser significado, mas sim pela aposição de percepção. Se uma demanda de desejo vindo de outro é uma nova percepção, então há aceitação e toda nova demanda de desejo vinda do outro se torna oportunidade e não conflito. Então a iluminação pode ser sentida como medo, conflito, ou oportunidade. 201 A percepção seria a oportunidade de ser senhor de seu desejo? Como o fenômeno Kundaliní participa disto. Não do seu desejo, mas do desejo advindo da demanda da vida. Perceber é ver algo novo, inédito, mesmo que seja o mesmo jardim ou a mesma pessoa ou as 132

mesmas idéias. O Samádhi o recoloca junto da coisa em si, da vida, de tal forma que saímos da Alma pela quebra de seu discurso, de desejo. Este confronto entre a Alma e ela mesma é o que produz o fenômeno. O fenômeno é você estar diante de você, completamente interditado, isto é Kundaliní , a identidade diante da identidade, isto anula o que você é, desfaz os vínculos com a linguagem, é um espelho sem borda ou limite, é a confrontação total consigo mesmo. O efeito disto é o Samádhi, a Alma está agora junto da Consciência. Por isto os praticantes e a maioria dos yogues não compreendem Patáñjali, o fenômeno não está descrito lá, nos Yoga Sutras, mas o Objeto de que ele fala, a identificação com o Objeto é com você mesmo, você é o objeto e você é quem se identifica com você. Isto é o fenômeno, que a linguagem produz a possibilidade de ser testemunha de si mesmo, o mesmo reflexo da Consciência, do Eu sendo ele mesmo. Porém a Alma é feita de linguagem, Chakras, alfabeto etc e tudo isto é a Alma, e quando ela se confronta por completo, ela sonha e dorme. Então o fenômeno é a contradição da Alma, Kundaliní, e por isto sonhamos e dormimos, para ter uma nova percepção. Eu sugiro ter cuidado com quem você aprende, pois, Tantra, Yoga, Mudrá, Kundaliní, etc são termos muito precisos, e você não encontrará ali na esquina um mestre ou professor de Yoga que saiba exatamente do se trata. O que a percepção produz é iluminamento, e isto produz um novo discurso na Alma que foi desarticulada pelo Samádhi.

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Neste momento a Alma não é a Consciência, mas está sendo ela? Neste momento a Alma está anulada por ela mesma, mas junto da Consciência, experimentando ela, não está professando nada, está fazendo a sua morte e a sua ressurreição em cada Samádhi. E de quem ali morreu e voltou, se espera uma nova percepção sobre a vida, afinal em todo Gozo morremos um pouco. Há luz enquanto há discurso. Não há como fazer esta passagem de outra forma, Kundaliní é o único método.

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É por todos estes motivos que o Sannyas seja o único caminho,para todos e de todos, o que faço aqui é revelar isto para vocês, pois assim são os Tantras como escrituras de diálogos. 203 A fórmula do Tantra seria, como o senhor aqui nos sugere, um aprendizado, como uma primeira Clínica, que é o Parampará; e a partir daí a produção de um discurso pessoal, sendo esta a Segunda Clínica; e por fim a Terceira Clínica, o fenômeno, e este seria o confronto entre o Sannyasin e ele mesmo, uma contradição psíquica que o leva a um desfazimento automático de sua linguagem ou de seus significantes, e com isto este Sannyasin experimenta ser o Si mesmo Universal, como um êxtase ou Gozo. Há um resumo coerente nesta descrição ou o senhor pode concordar com minha descrição? A descrição feita por você é um resumo do que ensino como Tantra, uma Semiologia indiana que introduz uma Clínica, um Paramapará. É isto o que significa “de um para o outro”, um processo dialético, didático, de colocar uma pessoa diante do Real por um Guru, uma pessoa com a capacidade de produzir tal confronto da identidade. Assim, para mim o Guru é um Filósofo com o qual nos defrontamos, e confrontamos a nossa noção do Real. Tantra é continuidade, mas ela somente se torna um Tan, um estender, a partir de uma base, e esta base tem que produzir uma sabedoria, Vidya, que não é uma sabedoria comum, e sim, exatamente a sabedoria do Tantra, a sabedoria que pode libertar. A sabedoria somente é um Vidya quando ela afirma o Sannyasin em uma continuidade. Isto atesta que o mundo condicionado, objetivo, Samsara, é co-essencial a Consciência, Nirvana. Samsara é Nirvana. Mas isto só é possível pela produção de um conhecimento especial, um conhecimento que gere uma sabedoria especial. É esta sabedoria que lhe colocará em condições de continuar e viver nesta continuidade. Entretanto somente a sabedoria, ela não produz esta capacidade, então as duas clinicas são para a produção de uma sabedoria, de um discurso que lhe permita continuar. E então entra a Terceira Clínica, o fenômeno.

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O fenômeno, Kundaliní, se dá pelo espelhamento da identidade, o mesmo processo do sonhos e do sono. O sono é produto deste espelhamento da identidade, o sonho é a aproximação, em que você e você, pois são dois, ajustam os seus desejos, significam, resignificam até que seja possível o espelhamento, e com isto vem o sono. Veja que a Consciência é contínua, o espírito é continuo, pois não precisa mudar, jamais, e ele viveu assim, vive e viverá assim, sempre. Mas você precisa mudar até que possa ter um discurso ou sabedoria que lhe permita continuar, as Clínicas fazem isto, ou Parampará na Índia. O fenômeno, Kundaliní , fará o reconhecimento ou a identidade entre você e você mesmo, é este fenômeno que repara a identidade, e possibilita a sua continuidade. Logo, Kundaliní é o fenômeno, o mesmo que foi fruto do Eu Sou Eu, da primeira manifestação do espelhamento, e que deu origem ao Universo. Por um erro Kundaliní é descrita como força, mas não, é coisa que vê a si mesma, um instante de dois iguais, em que o sujeito se descobre autor de si mesmo, descobre que deseja desejar, imaginar, sonhar, até o sono ou o Samádhi.. E assim ele escapa de suas limitações, e abre a possibilidade de continuar. 204 Isto significa que Kundaliní não é uma energia e sim este confronto da identidade com ela mesma, necessária para produzir o sono, um Samádhi, e que este fenômeno natural ocorre com todos nós, todos os dias, sendo, portanto, natural, e que ele pode ser produzido no estado de vigília por trazer o Gozo inconsciente, do sono, para o estado consciente? Sim, a realidade sendo Biunívoca, produz esta separação, feita pela linguagem, e produz uma identidade da Alma, mas este processo pessoal, de cada Alma, está em confronto com as outras Almas, então pela cultura estas Almas constroem sua identidade, com referências externas. Não gosto de falar em interno como uma oposição ao externo, ou como se ele tivesse mais próximo da realidade, por isto, eu uso interno para o pensamento, para as elaborações com si mesmo e os sonhos. Mas veja que é o externo ou a realidade objetiva quem lhe deu, pela 135

linguagem, o que se é como identidade, mas esta identidade não está em harmonia com sua realidade subjetiva, interna. Assuntos precisam ser discutidos, elaborações precisam ser feitas, mas para tal nós passamos da realidade objetiva, externa, para a interna, ou subjetiva. Mas não passamos de uma para a outra e sim somos uma e logo outra, este processo é o sonho, em que a identidade se confronta. Este fenômeno reparador, é que é denominado de Kundaliní. Uma identidade não se confronta na vigília, alias nem há identidade, há sim um transe, pois se usa uma linguagem para um outro, e não para si mesmo. Então o fenômeno ocorre no eclipse, entre si mesmo, na identidade. Logo não há um Gozo consciente, pois quem seria consciente seria a Alma, em seu aspecto como ser da linguagem, objetivo. O sono representa o Samádhi no estado natural, em que a identidade se confrontou, e se conciliou. O Samádhi na vigília é o mesmo do sono, em que a identidade se iguala, você é você. Portanto a única diferença é que seu corpo está relaxado pelo processo de dormir e no Samádhi em vigília, o corpo está relaxado por uma tetania induzida por apneia, mas consciente. Veja que o Gozo é o que não tem oposição, sendo ele a passagem natural da Alma pela sua identidade, o seu reflexo. O Eu e o Eu, ali, conciliados como sendo o mesmo, por um acordo simbólico e imaginário. Se isto desautoriza quase todos os conhecidos processos espirituais, sinto muito, mas este é o fenômeno desde o princípio, e ele se repete enquanto houverem Almas e a Consciência. Se isto nos leva a conclusão que a cultura não fez nada ainda pela identidade, e não fez mesmo, não como estou começando agora. Narcisismo? Mas é por ele que você vive, dorme e sonha. É aí que você é livre para ser, pois eu tenho a certeza que você e ninguém mais podem esperar que uma linguagem, ou que a cultura, possa lhe dar a possibilidade de ser, se somente a identidade é livre, quando está em si mesmo, e então com todas as possibilidades abertas. A Consciência representa isto, tudo, todas as possibilidades á sua mão, ali neste confronto diário entre o que se pode ter e o que se é.

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Até quando seremos escravos do capitalismo espiritual? Veja que a Alma não sonha em ter e sim em ser através do que tem, mas mesmo quando ela tem, uma coisa não combina com a outra, há desencanto, e aquilo perde a importância. Então imaginamos ter mais, e mais, mas a identidade, este encontro com si mesmo, não segue as leis que imaginamos, segue uma lei em que é o discurso aquilo que pode realmente fazer deste confronto um encontro. Encontro com si mesmo. Pode parecer fácil, mas você não altera seu discurso sem esta passagem pelo fenômeno, onde a identidade se confronta e acha uma saída – um futuro imaginado. E isto ocorre todos os dias. Logo temos uma fronteira interna, com o nosso espelho psíquico como identidade e temos a fronteira externa, com o outro – temos uma realidade Biunívoca. Ir dormir ao fim de um dia significa a mesma coisa que sentar e meditar, essencialmente é a mesma coisa. O processo é o mesmo, entretanto na meditação você pode ver seus sonhos até um ponto em que a identidade se funde a ela mesma, em que consciente e inconsciente se misturam admiravelmente. E este prazer é inigualável, é absoluto. E certamente nenhum ser humano pode viver sem isto. 205 Com estes esclarecimentos o senhor praticamente desmitifica o processo de meditação de tantas técnicas e métodos que se resumem a esta checagem feita pela identidade? Depende de como você valoriza uma experiência, pois para mim, isto é místico, fazer esta checagem da identidade, é o que é a meditação e muito mística. Mas as pessoas podem estar fazendo outras coisas, e assim se alienando em algum lugar ou outra pessoa como projeção de si mesmo, e infelizmente isto tem um preço – a angústia a ser enfrentada por cada um de nós. E para lidar com a sua angústia elas precisam convencer outras pessoas sobre seu processo, incluir

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outras pessoas na sua identidade, e se incluir em outras identidades. Afastar-se de si mesmas. O fenômeno aproxima a identidade de seu reflexo, justamente para se livrar das diferenças e assim produzir o estado de Gozo em si mesmo, Samádhi. E aí sim começa a produção de um discurso mais próximo do Real. Veja que este discurso de continuidade, quando a Alma não se afirma mais em um futuro imaginado, este discurso precisa ser especial. Ele precisa conter as informações necessárias a convivência e ao mesmo tempo dar conta de si mesmo. Mas isto não deve ser uma preocupação, isto será um efeito. Mas o que se espera do social é em um primeiro momento a inclusão de milhões de pessoas no mercado de trabalho, para que com seu trabalho possam produzir algum bem para si mesmas e assim ocupar um lugar com certa dignidade na sociedade, não se pode esperar de uma pessoa aquém de ter acesso aos bens de consumo que ela pretenda explorar a si mesmo, e a partir daí começar a exploração de si mesmo, de seus valores e inteligência, para então surgir pela frente esta perspectiva, a da realização em si mesmo, sem que esta seja algum tipo de deslocamento dos princípios do capital. Isto que lhe digo é importante, pois se pode confundir o que se tem com o que se é, e esta distinção somente surge na fartura material ou pelo menos em um mínimo que resulte naquilo que uma vez conseguida, dê ao indivíduo a certeza de que o material é necessário mas não produz o ser a partir do ter. Então a meditação pode conter nela mais a busca mítica de soluções materiais do que o encontro com si mesmo. E isto será um problema. Geralmente trata-se de alienar-se em outra cultura ou em uma projeção de seus ideais e necessidades. Mas se isto estiver esclarecido, não vejo nenhum problema, nem nenhuma contradição entre a vida social e a vida espiritual. A contradição, esta é de ordem espiritual, e não de ordem moral, mas os valores sociais estão aí para serem respeitados por alguém que já possui uma compreensão mais pessoal. 206 Qual seria a necessidade de uma meditação?

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A meditação vem da necessidade de uma conciliação com si mesmo, mas esta necessidade pode ter causas, as mais diversas, portanto é o esclarecimento do viés do capital como necessidade que pode atender as necessidades pessoais, o que pode responder isto. A necessidade pessoal, a de conciliação, é que é um processo espiritual, onde o julgamento é interno, que a identidade já faz automaticamente ao dormir e sonhar. Então cabe a quem tiver esta sabedoria aceitar as limitações alheias e sua dependência ainda do processo social, uma vez que o Sannyasin seja aquele que já pode lidar com si mesmo. E talvez a compaixão seja a capacidade de entender o processo do outro, uma vez que ele esteja claro para si mesmo. Sannyas é exatamente ter esta capacidade, a de se conciliar, e este estado é o único onde há paz, sem a injunção do outro. Pois neste jogo cósmico a Consciência ou Deus com queira, sempre empata o jogo, e nós desempatamos e logo estamos lidando com a diferença, uma vez que a nossa suposta vantagem volta como uma diferença na identidade. Diferença esta que precisa ser logo posta a prova, e levada lá para o porão, que chamamos de inconsciente. Uma vez que a identidade seja ela mesma, e que a diferença seja tratada como gozo, gozo que não se dá mais no plano objetivo, mas no subjetivo, então sim surge a Paz. 207 Sobre a elaboração após a meditação, no Samádhi como gozo que não tem restos, que satisfaz plenamente, uma vez como senhor ensina o Gozo como o que não tem contrário, insere o sujeito ou a Alma em uma possível evolução? Evolução do discurso, mas não a evolução da Alma em si, pois é o discurso que está mantendo a Alma ali, checado pela identidade e pela lei do Gozo. E por este motivo a palavra Samádhi significa ao lado, junto de. A partir do momento em que a Alma não gera resto, Eros foi resolvido, e o Gozo se dá na completude entre a identidade, Gozo de resto que foi insight, mas que se iguala pela identidade, não produzindo mais o Karma, ou a necessidade, bem, este gozo sem oposição é a verdadeira expressão do que seja ser. No plano objetivo, neste 139

plano há uma mudança ou evolução, mas no discurso, o Sannyas. Discurso que se mantém junto, ou ao lado da Consciência. Então é pelo confronto da identidade, o que chamamos de fenômeno - Kundaliní, que nos colocamos juntos da Consciência. Encontramos assim a nossa bem aventurança intrínseca, SvaAnanda, cuja simples proximidade basta para que você fique feliz e consciente. 208 O senhor nos diz que existe um segredo, e que este segredo revela-se para si mesmo, é um esclarecimento perene, e que isto é produto de Kundaliní, o fenômeno, uma checagem da identidade. O senhor poderia nos revelar aqui este segredo? Ele já foi revelado, como o fenômeno. Talvez o que eu ainda precise fazer sobre isto é contextualizá-lo nas mais diversas tradições. No Yoga, por exemplo, ele é o Objeto utilizado por Patañjali, nesta descoberta de si mesmo; nas seitas Kaula, Nâtha etc, temos a mesma oportunidade de ver nestes contextos a tentativa de se aproximar deste si mesmo. E este é o segredo perdido, pois hoje os Kaulas e Nâthas não sabem disto e os que sabem não ensinam65. No contexto psicanalítico também temos esta mesma aproximação, de si mesmo, por outros contextos da cultura. Entretanto nenhum destes contextos se aproxima ou produz esta aproximação, apenas se tenta criar uma cultura que reproduza isto, o que é a minha terceira clinica, onde cada um produzirá o SEU discurso em relação a si mesmo. Shiva é o Eu, o mesmo Eu em todos nós, a Consciência. Ele é Âdinâtha, Svatantra, ou seja, ele é o mesmo, é a Consciência mesma, refletida. A Alma surge pela cultura, porém antes de ser um sujeito, ela é a mesma Consciência, mas como a Alma nascida da cultura não pode ser esta Consciência e sim colocar-se ao lado dela, pois todos os meios de interpretação, linguagem, são da Alma como produto da cultura. Então em nenhum momento somos a Consciência, e sim estamos identificados com ela, não pelo que ela é, mas pelo que nós somos, como seu reflexo, como no meu exemplo de Eu Sou Eu. Os sonhos e o sono já são este encontro com si mesmo, e feitos pelo fenômeno.
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Não produziram um discurso que seria produto deste entendimento.

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Foi por volta do século X na Índia que surgiu pela primeira vez esta topologia, mas o segredo é o mesmo – a identificação com si mesmo. O Guru precisa ser buscado por todos os meios, pois somente ele pode lhe devolver o seu si mesmo. E esta projeção em um outro que sabe, é o que produz a oportunidade de você estar pela primeira vez no comando de si mesmo, sem nenhum interferência da cultura, mas sem negá-la, pois é por ela que temos os símbolos e uma linguagem que nos possibilita ser ao mesmo tempo o Eu e uma identificação com o Eu. A Alma não pode ir além da Alma, mas ela pode colocar-se junto da Consciência e atuar de forma Biunívoca. Ser o Eu e ter um Eu. O Eu e o meu Eu, no caso o seu Eu. O Eu é mesmo, e precisamente isto é que é o Ser, a Consciência. Com esta chave você pode ler qualquer texto sobre Yoga, Tantra, Psicanálise, Filosofia etc e poderá ver até onde a teoria do conhecimento da conta de produzir algo que seja fundamental. O Gozo surge como aquilo que é sem contrários, pois ele se dá pela identificação da Alma com a Consciência, com o Eu. A mesma identificação que fazem todas as Almas, diferentes, mas com o mesmo Eu. O Homem, como Alma cria uma tensão entre a linguagem comum e a linguagem conceitual, pois esta última surge quando ele se estrutura como um Eu capaz de estabelecer a diferença com o Eu. Mas nem esta elaboração e nem uma outra quê se faça, o colocará na posição de ser este Eu. É desta diferença que se trata o fenômeno como agente identificador permanente, entre o Eu e o Eu. Não se trata obviamente do Eu original, da Consciência, senão sua cópia fiel, um reflexo, em torno da qual é possível edificar-se um Eu, que é o seu Eu. Esta cópia é chamada precisamente no Yoga de Purusha, de Homem, o homem da filosofia em oposição a natureza, e é este homem como Purusha, o seu Eu, a cópia idêntica do Eu original, uma vez que este Eu original não mudará mais, será sempre o mesmo, a Consciência, que existe de dentro a dentro em todos nós.

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Assim posso lhe dizer que o fenômeno está na identificação do Seu-Eu, com o Seu-Eu, que é o mesmo reflexo em todos os Eus. E vejamos que este fenômeno não reduz, ou não produz uma redução de Seu-Eu e sim uma liberdade, logo são as normas morais, culturais, quem podem produzir uma atitude redutora, em que este Seu-Eu, se reduz pela culpa e pelo sacrifício, para atender a uma noção de um Seu-Eu ideal. Neste caso o fenômeno não existe aí, e sim uma projeção. O fenômeno ocorre na identificação por um total desfazimento neste encontro, onde não há norma. E esta necessidade, a necessidade de Gozo atende a estes princípios, sem nenhuma possibilidade de mudança. Por todos estes motivos um Guru, deve ele mesmo estar ciente, se não a projeção66 é inevitável, bem como se tentará reproduzir uma cultura coerente com esta realidade, e isto é impossível. Abre-se assim a perspectiva inédita de ser este Eu que é cópia do Eu original, e assim falar de dentro para dentro de todos. A necessidade de Gozo sexual é uma, a necessidade de gozo afetivo é outra, e a mental é outra, são todos Gozos-de-mais-gozar, pois nutrem o desejo, mas este Gozo como Samádhi, ele é da necessidade de identificação, de colocar-se junto do que se é. É onde há felicidade e Consciência, sem Gozo-de-mais-gozar. Vejamos nos Yoga Sutras, no Capítulo, Pada, do Samadhi67: 1. Eis os postulados mais elevados do Yoga. 2. O yoga é o recolhimento [nirodha] dos meios de expressão[vrttis] da mente [citta]; 3. Então “aquele que vê” [drasstr, o percebedor] se manifesta em sua natureza mais autêntica; E depois temos no Capítulo, Pada, Vibhuti, dos resultados: 1. Concentração [Dhárañá] é a fixação de Citta em um objeto.
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Transferência. Tradução do Yoga Sutras feita por Carlos Eduardo Barbosa.

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2. Meditação [Dhyánam] é a continuidade da cognição nesse único objeto. 3. Samádhi é perceber-se como a própria medida do objeto, esvaziando-se de sua própria forma. 4. Estes três passos reunidos são o Samyama (meditação intensa). Vemos que o Samádhi também está descrito no Yoga Sutras de Patañjali mas a sua descrição passa despercebida dos Yogues e estudantes do Yoga, se o Samádhi é perceber-se como a própria medida do objeto, esvaziando-se da sua própria forma. Que objeto percebido pode esvaziar sua própria forma que não si mesmo, na própria realização? É aí que o Tantra faz toda a diferença, pois este objeto identificado é o si mesmo, como fenômeno – Kundaliní. Nenhum outro objeto serve ou produz o Samádhi, que não si mesmo! No Yoga o fenômeno ainda não havia sido trazido à luz do conhecimento, portanto foi a experimentação de gerações e gerações de Yogues que possibilitaram o seu desvendamento, e uma palavra para designá-lo – Kundaliní. Há outros aprofundamentos do tema a serem feitos no futuro, abrindo uma perspectiva inédita no campo do conhecimento - este é um primeiro passo nesta direção. O Samádhi como gozo é, portanto, exclusivo da realização de si mesmo, um Gozo sem contrários, sem reações ou retornos, é pleno. Dadas estas explicações faço agora a minha tradução do Yoga Sutras: 1. Eis os postulados mais elevados do Yoga. 2. O yoga é o recalque [nirodha] dos meios de percepção [vrttis] do pensamento [citta]; 3. Então “aquele que vê” [drasstr, o percebedor] se manifesta em sua natureza mais autêntica. Com isto muda completamente aquilo que as pessoas entendem como sendo Yoga, pois Yoga é o conteúdo espiritual sendo espelhado em si mesmo, como identidade, Ideen. Este espelhamento causa o recalque dos meios de percepção 143

do pensamento, produzindo o Samadhi, e como vemos no Sutra, Samádhi é perceber-se como a própria medida do objeto, esvaziando-se de sua própria forma. Então Yoga é comum a todos, é como o fenômeno da percepção nos faz ser nós mesmos, é o Conteúdo. Tantra é a Forma, é como lidamos com este conteúdo comum. Isto quer dizer que o Ser, o Jiva se espelha nele mesmo como Consciência, recalcando aquilo que não é a Consciência, e produzindo a percepção daquilo que restou, posta sob a linguagem, como forma de expressão.

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Adendo final para o livro Tantra, Projeto Jiva. O texto apresentado é uma coletânea de questões que foram respondidas em ocasiões diversas, entre 1995 até o ano de 2009 agrupadas por similaridade ou com um sentido, mas muitas destas questões devem ser tratadas no contexto em que elas ocorreram. O Projeto Jiva é a apresentação do Tantra como Semiologia Oriental, que surgiu como uma necessidade de dar continuidade ao conhecimento indiano ligado a realização espiritual desenvolvida por muitos séculos na história da Índia. O Tantra nos mostra que nós não falamos uma língua, e que sim somos falados por ela. Em épocas pré históricas a linguagem se opunha a atividade mítica, começando então a tangenciar e conhecer os meios pelos quais uma cultura se estabelece e produz uma sociedade. À medida que conhecemos o mítico integramos o sentido sem língua, fora, acima, excluído do referente, e um corpo de uma língua; como referente. Assim cada vez mais conhecemos o mítico não pela redução a um zero sempre desconhecido, mas a referentes que puderam ser colocados pela língua e assim debatidos e experimentados através dos séculos e séculos. A linguagem possibilitou que o mítico, antes uma propriedade sem forma, etérea, consignada aos Xamãs e Gurus, fosse trazido a luz do conhecimento e exercida das mais variadas formas. Notemos que na tradição Tântrica os Gurus começam com uma tradição oral e depois para a tradição escrita. Uma vez capturada pela linguagem, o mítico assume formas e nomes, como entidades além do nosso espaço tempo, mas que têm qualidades e atributos, que satisfazem as várias necessidades humanas. O mítico, o espiritual, não caiu, não foi ele que caiu, e sim foi a linguagem, ela que evoluiu, e atravessou o portal que nos separava do que era o espiritual, agora facilmente identificável. Neste sentido o Tantra é uma Revelação do mundo espiritual, revelação esta que se deu através da linguagem e do seu papel como Semiologia no sentido de produção de textos literários que são duplos, escritura e leitura, mensagem e recepção, um desafio ao entendimento e uma abertura para um debate sobre a realidade. Esta abertura começa quando a linguagem é posta a serviço da espiritualidade, e não da historicidade, e assim se produzem textos, escritos a serem verificados e até retificados, começando uma semiologia própria 145

do Espiritual. Semiologia ou semiótica é a ciência da linguagem que neste caso, cumpre um papel científico, de criar uma topologia, quase que um caminho na busca de si mesmo, na busca de uma possível libertação. Tal fato não ocorreu no ocidente por motivos vários, mas o principal foi que o mítico no ocidente não poderia ser privado, não poderia ser do indivíduo, coisa que o oriente fez, ao colocar a espiritualidade como o privado, coisa impensável para a filosofia oriunda dos Gregos, que idiotizavam o privado, e colocaram o Espiritual como manifestação pública, em que os Deuses, o mítico, atendia aos interesses da política. O oriente não temeu em dar ao indivíduo este poder, o poder do privado, e com isto tivemos uma investigação a partir do privado para o público no oriente, encarnado na figura do Sábio, do Guru, e no Ocidente a filosofia nasce com o debate do público, do grupo para o privado, do publico para o privado. Assim as portas de uma investigação como a que foi feita por Freud encontraram dificuldades inexplicáveis, sendo o privado para o Ocidente, a sede do Narcisismo e não o conhecimento sobre si. O Mítico ocidental representava aquilo que é a lei como natureza, que afeta os grupos de homens e suas relações, enquanto no Oriente representava a psique, aquilo que afeta o sujeito. São dois desenvolvimentos que partiram de planos opostos e se encontram, porém o mítico para o ocidental é o zero como redução e o mítico oriental é o que ele usa para dar conta do que é público, ter de seguir uma lei uma Dharma. Assim uma Semiologia oriental teve a vantagem de produzir um sujeito que é privado, e se lança para o que é público pelo uso da linguagem, do que é escrito e lido. Então temos uma evolução, evolução dos conceitos e o domínio cada vez maior deles para dar conta da realidade. Esta evolução se torna impossível na filosofia ocidental, pois ela se encaminha para delimitar o que é o privado, logo os conceitos se reduzem em vez de se ampliarem. Como o mítico Real parte do fenômeno da identidade, do sujeito frente a frente com si mesmo, toda evolução espiritual se dá na produção dos conceitos, para que eles sejam adequados ao que é público. Foi este investimento a partir do indivíduo, que fez o oriente poder conhecer pela linguagem e continuar na via mítica que explica o público e não o privado. O fenômeno como identidade faz o retorno no indivíduo, que fica frente ao desafio de lidar com o que lhe é público, sem afetar jamais o privado. 146

É este automatismo feito pela identidade que desmorona a filosofia ocidental, que precisa de um-outro, para a realização de uma busca por uma liberdade. Este tipo de liberdade que não existe de fato, pois se trata do campo com um-outro, onde a lei é a da atualização do discurso. Lei esta negada no ocidente em função dos argumentos já expostos. O que é o privado senão os sonhos e a imaginação? Ali onde o eu faz a volta em si mesmo, sonha e dorme, passa pelo Eclipse e volta como se nada tivesse ocorrido, mas ocorreu, um novo discurso sai, agora como propriedade de fato e de direito, assim negada a sua apropriação pelo mecanismo, pelo fenômeno da identidade. Meditação é tão somente tornar tal fato ciente, ciente do fato, do fenômeno e não ciente do conteúdo trabalhado por ele. O ocidental em sua formação tem sede de dominar o processo, mas falha, falha pela incapacidade de aceitar o fenômeno, mas sonha como todos sonham, imagina e chama isto de inteligência. Como se de alguma forma estivesse ele dominado isto. E esta a realidade objetiva e subjetiva do Tantra, um caminho difícil para a cultura ocidental que vê o mítico como produto e não como a causa. A causa já está identificada, é a identidade, frente a frente com si mesmo, e isto é o mítico, o motor do mundo é este retorno em si mesmo – Kundaliní.

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Projeto Jiva - Sannyas
O Sannyas é o espaço do Ser, do Jiva, e como ensino é um esclarecimento ou uma sabedoria - o único que serve ao mesmo tempo para as relações com o mundo e consigo mesmo. Nenhum outro tipo de esclarecimento pode lhe libertar, somente o esclarecimento advindo do Sannyas pode lhe libertar, pois ele tem este fim. O Sannyasin não tem vínculos com a religião, ou com a política e nem com a sociedade, mas vive neste mundo de vínculos, e este é o desafio que a realidade absurda impõe para as nossas mentes, manter-se são diante da loucura que nós produzimos, uma sociedade doente e contra a vida em seus mais variados aspectos e ao mesmo tempo maravilhosa. Sannyas é um salvo conduto para a vida, mas não há nada escrito nele, nem mesmo o seu nome. Pois mesmo quem será salvo, é um fantasma, uma projeção da nossa linguagem, da nossa psicologia, da nossa sociedade, da cultura. Sannyas significa coragem, mais do que qualquer outra coisa, porque ele é uma declaração de sua individualidade, de sua liberdade, declarada de você para você mesmo, eu somente sou uma testemunha surda e cega, mas que lhe compreendo. Somente quem pode lhe “salvar” é você mesmo, mais ninguém, nenhuma religião ou escritura poderá lhe salvar. Assim, este é um relacionamento único. Ele tem absolutamente apenas um lado; do meu lado não há qualquer relacionamento. Isto tem que ficar inteiramente claro: de meu lado não há qualquer relacionamento com você, nós compartilhamos do mesmo estado.

Quais são as regras para você comandar você mesmo? Elas não existem, pois no momento em que você não está sob o comando de mais ninguém, eu confio inteiramente em você.

Na Clínica do Real a situação é esta, uma primeira clínica lhe fornece conhecimentos que não lhe libertarão, de forma alguma, mas servirão para

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florescer em você aquilo que estava perdido - a confiança em si mesmo. Na segunda clínica você forma um conhecimento seu, um semi-dizer. Mas é na terceira clínica que este semi-dizer, se torna uma experiência, experiência em si mesmo e para si mesmo.

A realidade é Biunívoca, contém você como um ser da Cultura e ao mesmo tempo contém um você que se liga a tudo e todos por dentro, de dentro a dentro, atravessando a cultura em suas mais variadas formas e possibilidades. Nem uma destas duas formas é superior ou melhor que a outra, nenhuma delas lhe fará mais ou menos espiritual que a outra. As duas, é que possibilitam uma dinâmica no Real. Não existe evolução e nem redução, nem mais e nem menos, nem mais próximo e nem mais afastado, existe sim uma relação de dentro a dentro e existe uma relação pela cultura, pela linguagem. Sannyas é Biunivocidade por isto, como for seu futuro, como forem os valores, e onde forem, lá se exercem o mesmo velho Sannyas indiano. Ser um Sannyasin implica em assumir esta contradição, ela em si mesma é que oportuniza a vida como ser da cultura e ao mesmo tempo um ser livre. Qualquer pessoa que compreenda isto é um Sannyasin, faz seu caminho caminhando, não há uma chegada e nem uma partida. Todos nós sabemos disto desde que nascemos, mas esquecemos, esquecemos de lembrar que sempre soubemos, desde crianças, quando o presente era vivo e brilhante, pois não tínhamos a ambição de ser, já éramos tudo que há para ser em cada instante. Responsabilidades não podem ser negadas em favor de um sentido maior, os outros não lhe perdoarão. Erros não podem mais ser corrigidos, mas vistos como enganos deste ser da cultura, falhos é claro, e enganos deste ser espiritual, falhos por atribuir valores humanos àquilo que é isento de tudo, sempre foi e será.

O que nos liga e une em comum, não passa pela Alma, é na defesa deste laço comum trazido para a religião o que tem lançado uns contra os outros, lutam pela comunização dos ideais espirituais, quando estes sempre foram comuns. Nada se fez sobre isto ainda em toda história humana, o comum, o Idêntico Real

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é reivindicado com argumentos, argumentos ilegítimos, pois ninguém pode reivindicar o que é comum a todos. O que uma Alma pode fazer é lembrar, lembrar que já sabíamos disto, e sempre acreditamos que isto se resolveria de alguma maneira, e acreditar é projetar este saber em um futuro – sempre inexistente. Sannyasa é o fim da vida de ignorante da realidade (Pasu) dentro deste renunciante da ignorância espiritual. Nesta fase da vida, a pessoa desenvolve Vairagya, ou um estado de desapego dos laços materiais, sociais, culturais com a espiritualidade Real. Ele renuncia a todas as formas de limitação e de vínculos da cultura como o Espiritual. O Viver desapegado do Sannyasin , é desapegado da relação entre o espiritual e o cultural, nos faz tomar os valores culturais como uma expansão Tan, em que todos os valores são da ordem humana, portanto conhecíveis e perfeitamente realizáveis pelo pensamento e pela inteligência humana, e ao mesmo tempo os valores espirituais não se modificam, Tra. Tan - Tra é esta Biunivocidade, como o Real se apresenta para nós, hoje e em qualquer lugar. O Tantra acredita no homem, como ele é, ao mesmo tempo em profundo progresso no pensamento e na cultura e ainda o mesmo que sempre foi e será.

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