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MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro


O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto



A
João Luiz Ferreira
Engenheiro Civil




Le grand inconvénient de la vie réelle et ce qui la rend insupportable à l’homme supérieur, c’est
que, si l’on y transporte les principes de l’idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort
souvent l’homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l’égoïsme ou la
routine vulgaire.

Renan, Marc-Auréle


PRIMEIRA PARTE


I
A Lição de Violão
Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às
quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de
Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às
vezes, e sempre o pão da padaria francesa.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim,
tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada
de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um
eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume
jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: “Alice, olha que
são horas; o Major Quaresma já passou.”
E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros
rendimentos além do seu ordenado, o Major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos
seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem
abastado.
Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o
julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única
desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia
admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”
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O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas
da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários
no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos
dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro,
pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou
a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?
E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram
um tempo perdido, de cá pra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante
da janela aberta do esquisito subsecretário.
Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o “pinho” na
posição de tocar, o major, atentamente, ouvia: “Olhe, major, assim.” E as cordas vibravam
vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia: “É ‘ré’, aprendeu?”
Mais não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão.
Mas que cousa? Um homem tão sério metido nessas malandragens!
Uma tarde de sol - sol de março, forte e implacável - aí pelas cercanias das quatro horas, as janelas
de uma erma rua de São Januário povoaram-se rápida e repentinamente, de um e de outro lado. Até
da casa do general vieram moças à janela! Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o
Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo
do braço um violão impudico.
É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuário não lhe
escondia inteiramente as formas. À vista de tão escandaloso fato, a consideração e o respeito que o
Major Policarpo Quaresma merecia nos arredores de sua casa diminuíam um pouco. Estava
perdido, maluco, diziam. Ele, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não
percebeu essa diminuição.
Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando
fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de
penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava.
Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o
queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de
fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um
figurino antigo de que ele sabia com precisão a época.
Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é,
andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito!
O major descansou o chapéu-de-sol - um antigo chapéu-de-sol com a haste inteiramente de
madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madrepérola - e respondeu:
- Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é
um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o
instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em
Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um
inglês, muito o elogia.
- Mas isso foi em outro tempo; agora...
- Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos
genuinamente nacionais...
- Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias.
O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da
casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma
cadeira de balanço, descansando.
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Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era formado de estantes de
ferro.
Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem
examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o
espírito que presidia a sua reunião.
Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da
Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar
(todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um
dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major.
De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gândavo; e Rocha Pita, Frei
Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von
Brasilien), Melo Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou
menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o
Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o
Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville
e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes
tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.
Além destes, havia livros subsidiários: dicionários, manuais, enciclopédias, compêndios, em vários
idiomas.
Vê-se assim que a sua predileção pela poética de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma
irremediável ignorância das línguas literárias da Europa; ao contrário, o major conhecia bem
sofrivelmente francês, inglês e alemão; e se não falava tais idiomas, lia-os e traduzia-os
correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no
forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o
amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento
sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou,
ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a
meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas,
com pleno conhecimento de causa.
Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul,
nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de
tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo
que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São
Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da
Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves - era tudo isso
junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.
Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se,
sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais
do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do
Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.
Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos
de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de
guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria.
Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua
história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de
minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes
exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de
todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais
rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival
do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e
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delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face
da do Nilo.
Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manhãs, antes que a “Aurora,
com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo”, ele se atracava até ao almoço com o
Montoya, Arte y diccionario de la lengua guaraní ó más bien tupí, e estudava o jargão caboclo com
afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo notícia
desse estudo do idioma tupiniquim, deram não se sabe por que em chamá-lo - Ubirajara. Certa vez,
o escrevente Azevedo, ao assinar o ponto, distraído, sem reparar quem lhe estava às costas, disse
em tom chocarreiro: “Você já viu que hoje o Ubirajara está tardando?”
Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua ilustração, a modéstia e honestidade de
seu viver impunham-no ao respeito de todos. Sentindo que a alcunha lhe era dirigida, não perdeu a
dignidade, não prorrompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concentrou o pince-nez, levantou
o dedo indicador no ar e respondeu:
- Senhor Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridículo aqueles que trabalham em
silêncio, para a grandeza e a emancipação da Pátria.
Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do café, quando os
empregados deixavam as bancas, transmitir aos companheiros o fruto de seus estudos, as
descobertas que fazia, no seu gabinete de trabalho, de riquezas nacionais. Um dia era o petróleo que
lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de
árvore de borracha que crescia no rio Pardo, em Mato Grosso; outra, era um sábio, uma
notabilidade, cuja bisavó era brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela
corografia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegável, os melhoramentos insignificantes de
que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. Ele amava sobremodo os
rios; as montanhas lhe eram indiferentes. Pequenas talvez...
Os colegas ouviam-no respeitosos e ninguém, a não ser esse tal Azevedo, se animava na sua frente
a lhe fazer a menor objeção, a avançar uma pilhéria, um dito. Ao voltar as costas, porém,
vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de troças: “Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos
meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa.”
E desse modo ele ia levando a vida, metade na repartição, sem ser compreendido, e a outra metade
em casa, também sem ser compreendido. No dia em que o chamaram de Ubirajara, Quaresma ficou
reservado, taciturno, mudo, e só veio falar porque, quando lavavam as mãos num aposento próximo
à secretária e se preparavam para sair, alguém suspirando, disse: “Ah! Meu Deus! Quando poderei
ir à Europa!” O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou fraternal e
persuasivo: “Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum
dia puder, hei de percorrer a minha de princípio ao fim!”
O outro objetou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major contestou-lhe com
estatísticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra.
Era um clima caluniado pelos viciosos que de lá vinham doentes...
Era assim o Major Policarpo Quaresma que acabava de chegar à sua residência, às quatro e quinze
da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes, exceto aos domingos, exatamente, ao jeito
da aparição de um astro ou de um eclipse.
No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aqueles que têm ambições políticas ou de
fortuna, porque Quaresma não as tinha no mínimo grau.
Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua biblioteca, o major abriu um livro e pôs-se a
lê-lo à espera do conviva. Era o velho Rocha Pita, o entusiástico Rocha Pita da História da América
Portuguesa. Quaresma estava lendo aquele famoso período: “Em nenhuma outra região se mostra o
céu mais sereno, nem madrugada mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os
raios mais dourados...” mas não pôde ir ao fim. Batiam à porta. Foi abri-la em pessoa.
- Tardei, major? perguntou o visitante.
- Não. Chegaste à hora.
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Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos Outros, homem
célebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Em começo, a sua fama estivera
limitada a um pequeno subúrbio da cidade, em cujos “saraus” ele e seu violão figuravam como
Paganini e a sua rabeca em festas de duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi tomando toda a
extensão dos subúrbios, crescendo, solidificando-se, até ser considerada como cousa própria a eles.
Não se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas aí qualquer, um capadócio.
Não: Ricardo Coração dos Outros era um artista a freqüentar e a honrar as melhores famílias do
Méier, Piedade e Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na casa do
Tenente Marques, do Doutor Bulhões ou do “Seu” Castro, a sua presença era sempre requerida,
instada e apreciada. O Doutor Bulhões, até, tinha pelo Ricardo uma admiração especial, um delírio,
um frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em êxtase. “Gosto muito de canto”, dizia o doutor
no trem certa vez, “mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo.” Esse
doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios, não como médico, pois que nem óleo de rícino
receitava, mas como entendido em legislação telegráfica, por ser chefe de seção da Secretaria dos
Telégrafos.
Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É
uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios. Compõe-se em geral de
funcionários públicos, de pequenos negociantes, de médicos com alguma clínica, de tenentes de
diferentes milícias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões, assim
como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguesia de Petrópolis e Botafogo. Isto é só lá,
nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos,
olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um
prato de comida. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço,
muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado - aí, julga ela, é que está a pedra de toque da
nobreza, da alta linha, da distinção.
Fora dos subúrbios, na Rua do Ouvidor, nos teatros, nas grandes festas centrais, essa gente míngua,
apaga-se, desaparece, chegando até as suas mulheres e filhas a perder a beleza com que
deslumbram, quase diariamente, os lindos cavalheiros dos interminá- veis bailes diários daquelas
redondezas.
Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou e passou à cidade,
propriamente. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo
convidá-lo-ia, pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua
poética...
Mas que vinha ele fazer ali, na casa de pessoas de propósitos tão altos e tão severos hábitos? Não é
difícil atinar. Decerto, não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poética, de
mineralogia e histórias brasileiras.
Como bem supôs a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão-somente ensinar o major a
cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais e é simples.
De acordo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a
expressão poético-musical característica da alma nacional. Consultou historiadores, cronistas e
filósofos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa verdade,
não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos
da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da
cidade e tomou lições com ele. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo
original de arte.
Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas antes disso, por convite especial do discípulo, ia
compartilhar o seu jantar; e fora por isso que o famoso trovador chegou mais cedo à casa do
subsecretário.
- Já sabe dar o “ré” sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se.
- Já.
- Vamos ver.
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Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve tempo. Dona Adelaide, a irmã
de Quaresma, entrou e convidou-os a irem jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem!
- O Senhor Ricardo há de nos desculpar, disse a velha senhora, a pobreza do nosso jantar. Eu lhe
quis fazer um frango com petit-pois, mas Policarpo não deixou. Disse-me que esse tal petit-pois é
estrangeiro e que eu o substituísse por guando. Onde é que se viu frango com guando?
Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e não fazia mal
experimentar.
- É uma mania de seu amigo, Senhor Ricardo, esta de só querer cousas nacionais, e a gente tem que
ingerir cada droga, chi!
- Qual, Adelaide, você tem certas ojerizas! A nossa terra, que tem todos os climas do mundo, é
capaz de produzir tudo que é necessário para o estômago mais exigente. Você é que deu para
implicar.
- Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa.
- É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras aí, fabricadas com gorduras de esgotos,
talvez não se estragasse... É isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra...
- Em geral é assim, disse Ricardo.
- Mas é um erro... Não protegem as indústrias nacionais... Comigo não há disso: de tudo que há
nacional, eu não uso estrangeiro. Visto-me com pano nacional, calço botas nacionais e assim por
diante.
Sentaram-se à mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de cristal e serviu dous cálices de
parati.
- É do programa nacional, fez a irmã, sorrindo.
- Decerto, e é um magnífico aperitivo. Esses vermutes por aí, drogas! Isto é álcool puro, bom, de
cana, não é de batatas ou milho...
Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito, levou-o aos lábios e foi como se todo ele
bebesse o licor nacional.
- Está bom, hein? indagou o major.
- Magnífico, fez Ricardo, estalando os lábios.
- É de Angra. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos... Qual Borgonha! Qual
Bordeaux! Temos no Sul muito melhores...
E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha, o toucinho
e o arroz; a irmã fazia pequenas objeções e Ricardo dizia: “é, é, não há dúvida”- rolando nas órbitas
os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero, forçando muito a sua
fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.
Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flor... Certamente não
se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas, manacás
melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o
major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias -
flores exóticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes, como
aquelas que ele tinha ali.
Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o crepúsculo vinha devagar,
muito vagaroso e lento, como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas
cousas a sua poesia dolente e a sua deliqüescência.
Mal foi aceso o gás, o mestre de violão empunhou o instrumento, apertou as cravelhas, correu a
escala, abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. Tirou alguns acordes, para experimentar;
e dirigiu-se ao discípulo, que já tinha o seu em posição:
- Vamos ver. Tire a escala, major.
Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua execução nem a firmeza, nem o
dengue com que o mestre fazia a mesma operação.
- Olhe, major, é assim.
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E mostrava a posição do instrumento, indo do colo ao braço esquerdo estendido, seguro levemente
pelo direito; e em seguida acrescentou:
- Major, o violão é o instrumento da paixão. Precisa de peito para falar... É preciso encostá-lo, mas
encostá-lo com macieza e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos...
Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo ele fremindo de paixão pelo
instrumento desprezado.
A lição durou uns cinqüenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. Era
a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido; embora lisonjeado, quis a vaidade profissional
que ele, a princípio, se negasse.
- Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.
Dona Adelaide obtemperou então:
- Cante uma de outro.
- Oh! Por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O Bilac - conhecem? - quis fazer-me uma
modinha, eu não aceitei; você não entende de violão, “seu” Bilac. A questão não está em escrever
uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e
deseja. Por exemplo: se eu dissesse, como em começo quis, n’ “O Pé” uma modinha minha: “o teu
pé é uma folha de trevo” - não ia com o violão. Querem ver?
E ensaiou em voz baixa, acompanhado pelo instrumento: o - teu - pé - é - uma - fo - lha - de - tre -
vo.
- Vejam, continuou ele, como não dá. Agora reparem: o - teu - pé - é - uma - uma - ro - sa - de - mir
- ra. É outra cousa, não acham?
- Não há dúvida, disse a irmã de Quaresma.
- Cante esta, convidou o major.
- Não, objetou Ricardo. Está velha, vou cantar a “Promessa”, conhecem?
- Não, disseram os dous irmãos.
- Oh! Anda por aí como as “Pombas” do Raimundo.
- Cante lá, Senhor Ricardo, pediu Dona Adelaide.
Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e começou em voz fraca:

Prometo pelo Santíssimo Sacramento
Que serei tua paixão...

- Vão vendo, disse ele num intervalo, quanta imagem, quanta imagem!
E continuou. As janelas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a se amontoar na calçada
para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se interessava, Coração dos Outros foi apurando a
dicção, tomando um ar feroz que ele supunha ser de ternura e entusiasmo; e, quando acabou, as
palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando Dona Adelaide.
- Senta-te Ismênia, disse ela.
- A demora é pouca.
Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco a moça e continuou a dissertar sobre a modinha.
Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma perguntou à moça:
- Então, quando te casas?
Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ela então curvava do lado direito a sua triste cabecinha,
coroada de magníficos cabelos castanhos, com tons de ouro, e respondia:
- Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do ano e então marcaremos.
Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.
Não era feia a menina, a filha do general, vizinho de Quaresma. Era até bem simpática, com a sua
fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.
Aquele seu noivado durava há anos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava para dentista, um curso de
dous anos, mas que ele arrastava há quatro, e Ismênia tinha sempre que responder à famosa
pergunta: - “Então quando se casa?” - “Não sei... Cavalcanti forma-se para o ano e...”
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Intimamente ela não se incomodava. Na vida, para ela, só havia uma cousa importante: casar-se;
mas pressa não tinha, nada nela a pedia. Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo.
Após responder a Dona Adelaide, explicou o motivo da visita.
Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa dela.
- Papai, disse Dona Ismênia, gosta muito de modinhas... É do Norte; a senhora sabe, Dona
Adelaide, que a gente do Norte aprecia muito. Venham.
E para lá foram.

II
Reformas Radicais
Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa. Na sua meiga e sossegada casa de São
Cristóvão, enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu
temperamento. De manhã, depois da toilette, e do café, sentava-se no divã da sala principal e lia os
jornais. Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa, a
sugestão de uma idéia útil à sua cara pátria. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo;
e, embora estivesse de férias, para os não perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo às
nove e meia da manhã.
Acabado o almoço, dava umas voltas pela chácara em que predominavam as fruteiras nacionais,
recebendo a pitanga e o cambuim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia,
como se fossem bem cerejas ou figos.
O passeio era demorado e filosófico. Conversando com o preto Anastácio, que lhe servia há trinta
anos, sobre cousas antigas - o casamento das princesas, a quebra do Souto e outras - o major
continuava com o pensamento preso aos problemas que o preocupavam ultimamente. Após uma
hora ou menos, voltava à biblioteca e mergulhava nas revistas do Instituto Histórico, no Fernão
Cardim, nas cartas de Nóbrega, nos anais da Biblioteca, no von den Stein e tomava notas sobre
notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os índios. Não fica bem dizer estudava,
porque já o fizera há tempos, não só no tocante à língua, que já quase falava, como também nos
simples aspectos etnográficos e antropológicos. Recordava (é melhor dizer assim), afirmava certas
noções dos seus estudos anteriores, visto estar organizando um sistema de cerimônias e festas que
se baseasse nos costumes dos nossos silvícolas e abrangesse todas as relações sociais.
Para bem compreender o motivo disso, é preciso não esquecer que o major, depois de trinta anos de
meditação patriótica, de estudos e reflexões, chegava agora ao período da frutificação. A convicção
que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora
ativos e impeliram-no a grandes cometimentos. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir,
de obrar e de concretizar suas idéias. Eram pequenos melhoramentos, simples toques, porque em si
mesma (era a sua opinião), a grande pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à
Inglaterra.
Tinha todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores terras de
cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do mundo - o que
precisava mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, dúvidas não flutuavam mais no seu
espírito, mas no que se referia à originalidade de costumes e usanças, não se tinham elas dissipado,
antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do “Tangolomango”, numa festa que o
general dera em casa.
Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veio despertar no general e na
família um gosto pelas festanças, cantigas e hábitos genuinamente nacionais, como se diz por aí.
Houve em todos um desejo de sentir, de sonhar, de poetar à maneira popular dos velhos tempos.
Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto tais cerimônias na sua infância; Dona Maricota, sua
mulher, até ainda se lembrava de uns versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz,
viram na cousa um pretexto de festas e, portanto, aplaudiram o entusiasmo dos progenitores. A
modinha era pouco; os seus espíritos pediam cousa mais plebéia, mais característica e extravagante.
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Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma chegança, à moda do Norte,
por ocasião do aniversário de sua praça. Em casa do general era assim: qualquer aniversário tinha a
sua festa, de forma que havia bem umas trinta por ano, não contando domingos, dias feriados e
santificados em que se dançava também.
O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e danças tradicionais, entretanto viu logo a
significação altamente patriótica do intento. Aprovou e animou o vizinho. Mas quem havia de
ensaiar, de dar os versos e a música? Alguém lembrou a tia Maria Rita, uma preta velha, que
morava em Benfica, antiga lavadeira da família Albernaz. Lá foram os dous, o General Albernaz e
o Major Quaresma, alegres, apressados, por uma linda e cristalina tarde de abril.
O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a
sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse
relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fora sempre ajudante-de-ordens, assistente,
encarregado disso ou daquilo, escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo
Militar, quando se reformou em general. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua
inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Nada entendia de guerras, de estratégia, de
tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai,
para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos.
O altissonante título de general, que lembrava cousas sobre-humanas dos Césares, dos Turennes e
dos Gustavos Adolfos, ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão, cuja única
preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do
Colégio Militar. Contudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Ele
mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episódio de guerra, uma
anedota militar. “Foi em Lomas Valentinas”, dizia ele... Se alguém perguntava: “O general assistiu
a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vésperas. Mas soube
pelo Camisão, pelo Venâncio, que a cousa esteve preta.”
O bonde que os levava até à velha Maria Rita percorria um dos trechos mais interessantes da
cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da cidade, antigo término de um picadão que ia ter a
Minas, se esgalhava para São Paulo e abria comunicações com o Curato de Santa Cruz.
Por aí em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os
chamados gêneros do país. Não havia ainda cem anos que as carruagens d’El Rei Dom João VI,
pesadas como naus, a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali para
irem ter ao longínquo Santa Cruz. Não se pode crer que a cousa fosse lá muito imponente; a Corte
andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. Não obstante os soldados remendados,
tristemente montados em “pangarés” desanimados, o prestígio devia ter a sua grandeza, não por ele
mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar à sua lamentável
majestade.
Entre nós tudo é inconsciente, provisório, não dura. Não havia ali nada que lembrasse esse passado.
As casas velhas, com grandes janelas, quase quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de há
bem poucos anos, menos de cinqüenta.
Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminiscências e foram até ao ponto. Antes
perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e
coudelarias de animais de corridas, tendo grandes ferraduras, cabeça de cavalos, panóplias de
chicotes e outros emblemas hípicos, nos pilares dos portões, nas almofadas das portas, por toda
parte onde tais distintivos fiquem bem e dêem na vista.
A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação da estrada de ferro
Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. Sobre um largo terreiro, negro de moinha de
carvão de pedra, medas de lenha e imensas tulhas de sacos de carvão-vegetal se acumulavam; mais
adiante um depósito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob
pressão.
Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera seco e por isso se
podia andar por ele. Para além do caminho, estendia-se a vasta região de mangues, uma zona
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imensa, triste e feia, que vai até ao fundo da baía e, no horizonte, morre ao sopé das montanhas
azuis de Petrópolis. Chegaram à casa da velha. Era baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas
portuguesas. Ficava um pouco afastada da estrada. À direita havia um monturo: restos de cozinha,
trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira - um sambaqui a fazer-se para gáudio de
arqueólogo de futuro remoto; à esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto à cerca, no mesmo
lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça apareceu na janela aberta.
- Que desejam?
Disseram o que queriam e aproximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:
- Vovó estão aí dous “moços” que querem falar com a senhora. Entrem, façam o favor - disse ela
depois, dirigindo-se ao general e ao seu companheiro.
A sala era pequena e de telha-vã. Pelas paredes, velhos cromos de folhinhas, registros de santos,
recortes de ilustrações de jornais baralhavam-se e subiam por elas acima até dous terços da altura.
Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Vítor Emanuel com enormes bigodes
em desordem; um cromo sentimental de folhinha - uma cabeça de mulher em posição de sonho -
parecia olhar um São João Batista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma
lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.
Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descarnado,
enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas. Capengava de um pé e parecia querer ajudar a
marcha, com a mão esquerda pousada na perna correspondente.
- Boas-tardes, tia Maria Rita, disse o general.
Ela respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. O general atalhou:
- Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.
- Ah! É sô coroné!... Há quanto tempo! Como está nhã Maricota?
- Vai bem. Minha velha, nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas.
- Quem sou eu, ioiô!
- Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o “Bumba-meu-Boi”?
- Quá, ioiô, já mi esqueceu.
- E o “Boi Espácio”?
- Cousa véia, do tempo do cativeiro - pra que sô coroné qué sabê disso?
Ela falava arrastando as sílabas, com um doce sorriso e um olhar vago.
- É para uma festa... Qual é a que você sabe?
A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa, deixando perceber
rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados:
- Vovó já não se lembra.
O general, que a velha chamava coronel, por tê-lo conhecido nesse posto, não atendeu a observação
da moça e insistiu:
- Qual esquecida, o quê! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia?
- Só sei o “Bicho Tutu”, disse a velha.
- Cante lá!
- Ioiô sabe! Não sabe? Quá, sabe!
- Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Policarpo, se
sei.
Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo
em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor
recordar-se, e entoou:

É vem tutu
Por detrás do murundu
Pra cumê sinhozinho
Cum bucado de angu.

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- Ora! Fez o general com enfado, isso é cousa antiga de embalar crianças. Você não sabe outra?
- Não, sinhô. Já mi esqueceu.
Os dous saíram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições
de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as
suas canções? Era bem um sinal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daqueles
povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das
tradições, mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes...
Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar, e escapava-
lhe. Era quase a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma
delas já estava garantida, graças a Deus!
O crepúsculo chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.
A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismênia, informou que nas imediações
morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a ele. Era
um velho poeta que teve sua fama aí pelos setenta e tantos, homem doce e ingênuo que se deixara
esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em publicar coleções, que ninguém lia, de
contos, canções, adágios e ditados populares.
Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores. Quaresma estava
animado e falou com calor; e Albernaz também, porque via na sua festa, com um número de
folklore, meio de chamar a atenção sobre sua casa, atrair gente e... casar as filhas.
A sala em que foram recebidos era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes, pejadas de
livros, pastas, latas, que mal se podia mover nela. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos; numa
pasta: São Bonifácio do Cabresto.
- Os senhores não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia popular! Que surpresas
ela reserva!... Ainda há dias recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda canção. Querem
ver?
O colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu:

Se Deus enxergasse pobre
Não me deixaria assim:
Dava no coração dela
Um lugarzinho pra mim.
O amor que tenho por ela
Já não cabe no meu peito;
Sai-me pelos olhos afora
Voa às nuvens direito.

- Não é bonito?... Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco, a coleção de
histórias que o povo tem sobre o símio?... Oh! Uma verdadeira epopéia cômica!
Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um
semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado pela paixão do folclorista, tinha mais
inteligência no olhar com que o encarava.
O velho poeta guardou a canção de Urubu-de-Baixo, numa pasta; e foi logo à outra, donde tirou
várias folhas de papel. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes:
- Vou ler aos senhores uma pequena história do macaco, das muitas que o povo conta... Só eu já
tenho perto de quarenta e pretendo publicá-las, sob o título Histórias do Mestre Simão.
E, sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:
“O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em troça, pulando de árvore em
árvore, nas bordas de uma grota. Eis senão quando um deles vê no fundo uma onça que lá caíra. Os
macacos se enternecem e resolvem salvá-la. Para isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem,
amarraram a corda assim feita à cintura de cada um deles e atiraram uma das pontas à onça. Com o
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esforço reunido de todos, conseguiram içá-la e logo se desamarraram, fugindo. Um deles, porém,
não pôde fazer a tempo e a onça segurou-o imediatamente.
- Compadre Macaco, disse ela, tenha paciência. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de
deixar-se comer.
O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexível. Simão então lembrou que a
demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a ele; o macaco sempre agarrado pela onça. É
juiz de direito entre os animais o jabuti, cujas audiências são dadas à borda dos rios, colocando-se
ele em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco expôs as suas razões.
O jabuti ouviu-o e no fim ordenou:
- Bata palmas.
Apesar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que
também expôs as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:
- Bata palmas.
A onça não teve remédio senão largar o macaco, que se escapou, e também o juiz, atirando-se
n’água.”
Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:
- Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita intenção, muita criação, verdadeiro
material para fabliaux interessantes... No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa
forma imortal!... Ah! Então!
Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos
abrolhavam duas lágrimas furtivas.
- Agora, continuou ele, depois de passada a emoção, vamos ao que serve. “O Boi Espácio” ou o
“Bumba-meu-boi” ainda é muita cousa para vocês... É melhor irmos devagar, começar pelo mais
fácil... Está aí o “Tangolomango”, conhecem?
- Não, disseram os dous.
- É divertido. Arranjem dez crianças, uma máscara de velho, uma roupa estrambólica para um dos
senhores, que eu ensaio.
O dia chegou. A casa do general estava cheia. Cavalcanti viera; e ele e a noiva, à parte, no vão de
uma janela, pareciam ser os únicos que não tinham interesse pela folia. Ele, falando muito, cheio de
trejeitos no olhar; ela, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de
gratidão.
Quaresma fez o “Tangolomango”, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do general, pôs uma imensa
máscara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de báculo, e entrou na sala. As dez
crianças cantaram em coro:

Uma mãe teve dez filhos
Todos os dez dentro de um pote:
Deu o Tangolomango nele
Não ficaram senão nove.

Por aí, o major avançava, batia com o báculo no assoalho, fazia hu! hu! hu!; as crianças fugiam,
afinal ele agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala,
quando, pela quinta estrofe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista escura e caiu. Tiraram-lhe a máscara,
deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.
O acidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folklore. Comprou livros, leu todas as
publicações a respeito, mas a decepção lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo.
Quase todas as tradições e canções eram estrangeiras; o próprio “Tangolomango” o era também.
Tornava-se, portanto, preciso arranjar alguma cousa própria, original, uma criação da nossa terra e
dos nossos ares.
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Essa idéia levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéia traz outra, logo ampliou o
seu propósito e eis a razão por que estava organizando um código de relações, de cumprimentos, de
cerimônias domésticas e festas, calcado nos preceitos tupis.
Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram à porta, em
meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os
cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio
também, e o compadre e a filha, pois eram eles, ficaram estupefatos no limiar da porta.
- Mas que é isso, compadre?
- Que é isso, Policarpo?
- Mas, meu padrinho...
Ele ainda chorou um pouco. Enxugou as lágrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:
- Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão.
Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que
faziam os tupinambás.
O seu compadre Vicente, a filha e Dona Adelaide entreolharam-se, sem saber o que dizer. O
homem estaria doido? Que extravagância!
- Mas, Senhor Policarpo, disse-lhe o compadre, é possível que isto seja muito brasileiro, mas é bem
triste, compadre.
- Decerto, padrinho, acrescentou a moça com vivacidade; parece até agouro...
Este seu compadre era italiano de nascimento. A história das suas relações vale a pena contar.
Quitandeiro ambulante, fora fornecedor da casa de Quaresma há vinte e tantos anos. O major já
tinha as suas idéias patrióticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de
vê-lo suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de
europeu recém-chegado. Mas um belo dia, ia Quaresma pelo Largo do Paço, muito distraído, a
pensar nas maravilhas arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim, quando veio a encontrar-se
com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquela simplicidade d’alma que era bem sua, e notou
que o rapaz tinha alguma preocupação séria. Não só, de onde em onde, soltava exclamações sem
ligação alguma com a conversa atual, como também cerrava os lábios, rilhava os dentes e crispava
raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um
seu colega, estando disposto a matá-lo, pois perdera o crédito e em breve estaria na miséria. Havia
na sua afirmação uma tal energia e um grande e estranho acento de ferocidade, que fizeram
empregar o major toda a sua doçura e persuasão para dissuadi-lo do propósito. E não ficou nisto só:
emprestou-lhe também dinheiro. Vicente Coleoni pôs uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-
se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veio a ter aquela filha, que foi levada à pia pelo seu
benfeitor. Inútil é dizer que Quaresma não notou a contradição entre as suas idéias patrióticas e o
seu ato.
É verdade que ele não as tinha ainda muito firmes, mas já flutuavam na sua cabeça e reagiam sobre
a sua consciência como tênues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte anos,
veleidades que não tardariam tomar consistência e só esperavam os anos para desabrochar em atos.
Fora, pois, ao seu compadre Vicente e à sua afilhada Olga que ele recebera com o mais legítimo
cerimonial guaitacás, e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o
não tê-lo. Estava até à mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.
- Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre ele os seus olhos muito
luminosos.
Havia entre os dous uma grande afeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar
os seus sentimentos faziam-no econômico nas demonstrações afetuosas. Adivinhava-se, entretanto,
que a moça ocupava-lhe no coração o lugar dos filhos que não tivera nem teria jamais. A menina
vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua afeição tanto mais que
sentia confusamente nele alguma coisa de superior, uma ânsia de ideal, uma tenacidade em seguir
um sonho, uma idéia, um vôo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a
ver em ninguém do mundo que freqüentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a
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comum às moças de seu nascimento. Vinha de um pendor próprio, talvez das proximidades
européias do seu nascimento, que a fizeram um pouco diferente das nossas moças.
Fora com um olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho:
- Então, padrinho, lê-se muito?
- Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.
Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos
livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta
segurança, ele que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar - que diabo! Não, não
era possível... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos - uma alegria de
matemático que resolveu um problema, de inventor feliz!
- Não se vá meter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.
- Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violências...
Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão
encapotado em camurça. O major fez as apresentações.
- Já o conhecia de nome, Senhor Ricardo, disse Olga.
Coração dos Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento. A sua fisionomia minguada
dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cútis, que era ressecada e de tom de velho
mármore, como que ficou macia e jovem. Aquela moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o -
que satisfação! Ele que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das
moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a língua, amaciava a voz e ficava
numeroso e eloqüente.
- Leu então os meus versos, não é, minha senhora?
- Não tive esse prazer, mas li, há meses, uma apreciação sobre um trabalho seu.
- No Tempo, não foi?
- Foi.
- Muito injusta! acrescentou Ricardo. Todos os críticos se atêm a essa questão de metrificação.
Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. Vossa
Excelência sabe que os versos para música têm alguma cousa de diferente dos comuns, não é? Não
há, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra métrica e outro
sistema, não acha?
- Decerto, disse a moça. Mas parece-me que o Senhor faz versos para a música e não música para
os versos.
E ela sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, enquanto Ricardo,
desconfiado, lhe sondava a intenção com os olhinhos vivos e miúdos de camundongo.
Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:
- O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.
- Eu sei, padrinho. Eu sei...
- Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a sério essas tentativas
nacionais, mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquele poeta
que escreveu em francês popular?
- Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francês popular; é o provençal, uma verdadeira língua.
- Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao
violão, estou fazendo o mesmo.
Olhou triunfante para um e outro circunstante; e Olga dirigindo-se a ele disse:
- Continue na tentativa, Senhor Ricardo, que é digno de louvor.
- Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um belo instrumento e tem grandes
dificuldades. Por exemplo...
- Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Há outros mais difíceis.
- O piano? perguntou Ricardo.
- Que piano! O maracá, a inúbia.
- Não conheço.
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- Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais possíveis, os únicos que o são
verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, daquela gente valente que se bateu e ainda
se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!
- Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.
- De caboclo! Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir... Se é por
ser de caboclo, o violão também não vale nada - é um instrumento de capadócio.
- De capadócio, major! Não diga isso...
E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpresa, espantada, sem atinar, sem
explicação para aquela inopinada transformação de gênio do seu padrinho, até ali tão sossegado e
tão calmo.

III
A Notícia do Genelício
- Então quando se casa, Dona Ismênia?
- Em Março. Cavalcanti já está formado e...
Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há
quase cinco anos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento
para daí a três meses. A alegria foi grande na família; e, como em tal caso, uma alegria não podia
passar sem baile, uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática.
As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia
que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado, e fora a irmã quem até ali tinha impedido que se
casassem.
Noiva havia quase cinco anos, Ismênia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto à sua
natureza pobre fê-la não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ela, não era
negócio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéia, uma pura idéia.
Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da idéia de casar o amor, o prazer dos sentidos,
uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer:
“Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”... ou senão “Você precisa aprender a pregar
botões, porque quando você se casar”...
A todo instante e a toda a hora, lá vinha aquele - “porque quando você se casar”... - e a menina foi-
se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações
íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa cousa: casar.
De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na
rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se;
não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa”; ou então: “A Zezé está
doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!”...
A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéias, o nosso próprio direito à
felicidade, foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho; e, de tal forma casar-se se lhe
representou cousa importante, uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-
lhe um crime, uma vergonha.
De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente, sem
quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto, na sua inteligência a idéia de “casar-
se” incrustou-se teimosamente como uma obsessão.
Ela não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho malfeito, mas galante, não
muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva, de indolência de corpo, de
idéia e de sentidos - era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam - “bonitinhas”.
O seu traço de beleza dominante, porém, eram os seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos, com
tons de ouro, sedoso até ao olhar.
Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalcanti, e à fraqueza de sua vontade e ao temor de
não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.
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O pai fez má cara. Ele andava sempre a par dos namoros das filhas: “Diga-me sempre, Maricota -
dizia ele - quem são. Olho vivo!... É melhor prevenir que curar... Pode ser um valdevinos e...”
Sabendo que o pretendente à Ismênia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista?
perguntava ele de si para si. Um cidadão semiformado, uma espécie de barbeiro. Preferia um
oficial, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito,
e ele acedeu.
Começou então Cavalcanti a freqüentar a casa na qualidade de noivo “paisano”, isto é, que não
pediu, não é ainda “oficial”.
No fim do primeiro ano, tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para acabar
os estudos, o general foi generosamente em seu socorro. Pagou-lhe taxas de matrículas, livros e
outras cousas. Não era raro que após uma longa conversa com a filha, Dona Maricota viesse ao
marido e dissesse: “Chico, arranja-me vinte mil-réis que o Cavalcanti precisa comprar uma
Anatomia.”
O general era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretensão marcial, não havia no seu caráter a
mínima falha. Demais, aquela necessidade de casar as filhas ainda o fazia melhor quando se tratava
dos interesses delas.
Ele ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despesas ao futuro genro,
convidou-o a jantar em casa todo o dia; e assim o namoro foi correndo até ali.
Enfim - dizia Albernaz à mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos - a cousa vai acabar.
Felizmente, respondia-lhe Dona Maricota, vamos descontar esta letra.
A satisfação resignada do general era porém falsa; ao contrário: ele estava radiante. Na rua, se
encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia ele:
- É um inferno, esta vida! Imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha!
Ao que Castro interrogava:
- Qual delas?
- A Ismênia, a segunda, respondia Albernaz e logo acrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos.
- Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malícia, aprendi a receita. Por que não fizeste o mesmo?
Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazéns, às lojas de louça, comprava mais pratos,
mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter um ar de
abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.
Na manhã do dia da festa comemorativa do pedido, Dona Maricota amanheceu cantando. Era raro
que o fizesse; mas nos dias de grande alegria, ela cantarolava uma velha ária, uma cousa do seu
tempo de moça e as filhas que sentiam nisto sinal certo de alegria corriam a ela, pedindo-lhe isto ou
aquilo.
Muito ativa, muito diligente, não havia dona-de-casa mais econômica, mais poupada e que fizesse
render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôs tudo em
atividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota foram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as
raparigas na arrumação das salas e dos quartos, enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa, dispô-
la com muito gosto e esplendor. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A
alegria de Dona Maricota era grande; ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar
casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e
desonroso para a família. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra,
como ela dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família.
Ela arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indiferente.
- Mas, minha filha, dizia ela, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí
uma “mosca-morta”.
- Mamãe, que quer que eu faça?
- Não é bonito rir-se muito, andar aí como uma sirigaita, mas também assim como você está! Eu
nunca vi noiva assim.
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Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a
pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-
a e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria.
Veio muita gente. Além das moças e as respeitáveis mães, acudiram ao convite do general o
Contra-Almirante Caldas, o Doutor Florêncio, engenheiro das Águas, o Major honorário Inocêncio
Bustamante, o Senhor Bastos, guarda-livros, ainda parente de Dona Maricota, e outras pessoas
importantes. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença
dele em festa séria; Quaresma o fora, mas não viera; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.
Às seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia, cumprimentando-a, não sem um
pouco de inveja no olhar.
Irene, uma alourada e alta, aconselhava:
- Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.
Tratava-se do enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras,
as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam a par.
A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:
- Eu, ontem, vi na Rua da Constituição um dormitório de casal, muito bonito, você por que não vai
ver, Ismênia? Parece barato.
A Ismênia era a menos entusiasmada, quase não respondia às perguntas; e, se as respondia, era por
monossílabos. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono. Estefânia, a
doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num
dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. Quando deixou
de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e
quentes, e disse alto:
- Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...
Ela aludia à resposta que, à sua confidência, Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê!
Todas elas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam
Cavalcanti, muito solene, dentro de um grande fraque preto.
- Então, Doutor, acabou, hein? dizia este a jeito de um cumprimento.
- É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos - fui de um
heroísmo!...
- Conhece o Chavantes? perguntava um outro.
- Conheço. Um crônico, um pândego...
- Foi seu colega?
- Foi, isto é, ele é do curso de Medicina. Matriculamo-nos no mesmo ano.
Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de
outro.
- É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no
Deve e Haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.
- Atualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas
academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo!
Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores, como é que particulares
poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...
- Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabéns. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho,
quando se formou: vá furando!
- Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.
- Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.
- Boa carreira.
Nos intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente
sobrenatural.
Para aquela gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma
cousa sagrada e de essência superior; e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as
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cousas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava nela de modo
algum; e aquele tipo, para alguns, continuava a ser vulgar, comum, na aparência, mas a sua
substância tinha mudado, era outra diferente da deles e fora ungido de não sei que cousa vagamente
fora da natureza terrestre, quase divina.
Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O general
ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com ele o
Contra-Almirante Caldas, o Major Inocêncio, o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros
Segismundo.
Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação
militar. O contra-almirante era interessantíssimo. Na Marinha, por pouco que não fazia pendant
com Albernaz no Exército. Nunca embarcara, a não ser na guerra do Paraguai, mas assim mesmo
por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era dele. Logo que se viu primeiro-tenente, Caldas foi
aos poucos se metendo consigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos
e sem amigos nos altos lugares, se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. É
curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento, mas só se as dá aos
protegidos.
Certa vez, quando era já capitão-tenente, deram-lhe um embarque em Mato Grosso. Nomearam-no
para comandar o couraçado “Lima Barros”. Ele lá foi, mas, quando se apresentou ao comandante
da flotilha, teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante navio. Indagou daqui e dali e
houve quem aventurasse que podia ser que o tal “Lima Barros” fizesse parte da esquadrilha do
Alto-Uruguai. Consultou o comandante.
- Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia imediatamente para a flotilha do Rio Grande.
Ei-lo a fazer malas para o Alto-Uruguai, onde chegou enfim, depois de uma penosa e fatigante
viagem. Mas aí também não estava o tal “Lima Barros”. Onde estaria então? Quis telegrafar para o
Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais que não andava em cheiro de santidade.
Esteve assim um mês em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um
dia lhe veio na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe,
apresentou-se às altas autoridades da Marinha. Foi preso e submetido a conselho.
O “Lima Barros” tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguai.
Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. Todos o tinham
na conta de parvo, de um comandante de opereta que andava à cata do seu navio pelos quatro
pontos cardeais. Deixaram-no “encostado”, como se diz na gíria militar, e ele levou quase quarenta
anos para chegar de guarda-marinha a capitão-de-fragata. Reformado no posto imediato, com
graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de
estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referisse a promoções de oficiais. Comprava
repertórios de legislação, armazenava coleções de leis, relatórios, e encheu a casa de toda essa
enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação de sua
reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam meses o infinito rosário de repartições e
eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar.
Ultimamente constituíra advogado junto à justiça federal e lá andava ele de cartório em cartório,
acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juízes e advogados - esse poviléu rebarbativo do foro
que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.
Inocêncio Bustamante também tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso, mas servil
e humilde. Antigo voluntário da pátria, possuindo honras de major, não havia dia em que não fosse
ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asilo
dos Inválidos, noutro honras de tenente-coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha
nenhum, ia ver a dos outros.
Não se pejou mesmo de tratar do pedido de um maníaco que, por ser tenente honorário e também
da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dous galões mais
outros dous fazem quatro - o que quer dizer: major.
Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante, Bustamante fez a sua consulta.
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- Assim de pronto, não sei. Não é a minha especialidade o Exército, mas vou ver. Isto também anda
tão atrapalhado!
Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos, que lhe davam um ar de
“comodoro” ou de chacareiro português, pois era forte nele o tipo lusitano.
- Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!
- Não há mais gente que preste, disse Bustamante.
Segismundo por aí aventurou também a sua opinião, dizendo:
- Eu não sou militar, mas...
- Como não é militar? fez Albernaz com ímpeto. Os senhores é que são os verdadeiros: estão
sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?
- Decerto, decerto, fez o almirante cofiando os favoritos.
- Como ia dizendo, continuou Segismundo, apesar de não ser militar, eu me animo a dizer que a
nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto Alegre, um Caxias?
- Não há mais, meu caro, confirmou com voz tênue o Doutor Florêncio.
- Não sei por quê, pois tudo hoje não vai pela ciência?
Fora Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor:
- Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de “xx” e “yy” em Curupaiti, hein, Caldas? hein,
Inocêncio?
O Doutor Florêncio era o único paisano da roda. Engenheiro e empregado público, os anos e o
sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da
escola. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de
Albernaz, era raro que não viesse toda a tarde jogar o solo com o general. O Doutor Florêncio
perguntou:
- O senhor assistiu, não foi, general?
O general não se deteve, não se atrapalhou, não gaguejou e disse com a máxima naturalidade:
- Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão, o
Venâncio...
Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janela da sala onde estavam, não se via nem
um monte. O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das casas vizinhas com as suas
cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas lembrava
tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já tinha desaparecido do horizonte e as
tênues luzes dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acender-se por detrás das
vidraças.
Bustamante quebrou o silêncio:
- Este país não vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, pedindo honras de tenente-
coronel, está no ministério há seis meses!
- Uma desordem, exclamaram todos.
Era noite. Dona Maricota chegou até onde eles estavam, muito ativa, muito diligente e com o rosto
aberto de alegria.
- Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico, sim?
Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala, onde a mulher lhe disse alguma
cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto,
nestes termos:
- Se não dançam é porque não querem. Estou pegando alguém?
Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou:
- Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguém tira par, ninguém toca. Estão lá tantas moças,
tantos rapazes, é uma pena!
- Bem; eu vou lá, disse Albernaz.
Deixou os amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile.
- Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!
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E ele mesmo em pessoa ia juntando os pares: “Não, general, já tenho par”, dizia uma moça. “Não
faz mal”, retrucava ele, “dance com o Raimundinho; o outro espera.”
Depois de ter dado início ao baile, veio para a roda dos amigos, suando, mas contente.
- Isto de família! Qual! A gente até parece bobo, dizia. Você é que fez bem, Caldas; não se quis
casar!
- Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?
- Vamos jogar o solo, convidou Albernaz.
- Somos cinco, como há de ser? observou Florêncio.
- Não, eu não jogo, disse Bustamante.
- Então jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz.
As cartas vieram e também uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram a
sorte para ver quem dava. Coube a Florêncio dar. Começaram. Albernaz tinha um ar atento quando
jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de
reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante
numa partida de whist. Segismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a
cabeça do lado para fugir à fumaça. Bustamante fora à sala ver as danças.
Tinham começado a partida, quando Dona Quinota, uma das filhas do general, atravessou a sala e
foi beber água. Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou à moça:
- Então, Dona Quinota, quedê o Genelício?
A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muxoxo e respondeu com falso mau humor:
- Ué! Sei lá! Ando atrás dele?
- Não precisa zangar-se, Dona Quinota; é uma simples pergunta, advertiu Caldas.
O general, que examinava atentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz grave:
- Eu passo.
Dona Quinota retirou-se. Este Genelício era o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se
como certo o seu casamento na família. A sua candidatura era favorecida por todos. Dona Maricota
e o marido enchiam-no de festas. Empregado do Tesouro, já no meio da carreira, moço de menos
de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do
que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que
podia. Quando saía, remancheava, lavava três ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o diretor
na porta. Acompanhava-o, conversava com ele sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava
este ou aquele colega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um
ministro, fazia-se escolher como intérprete dos companheiros e deitava um discurso; nos
aniversários de nascimento, era um soneto que começava sempre por - “Salve” - e acabava também
por - “Salve! Três vezes Salve!”
O modelo era sempre o mesmo; ele só mudava o nome do ministro e punha a data.
No dia seguinte, os jornais falavam do seu nome, e publicavam o soneto.
Em quatro anos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de
Contas, a se fundar, num posto acima.
Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio. Não se limitava ao soneto,
ao discurso; buscava outros meios, outros processos. No intuito de anunciar aos ministros e
diretores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornais longos
artigos sobre contabilidade pública. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas
aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses.
Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e ele vivia
na seção cercado do respeito de um gênio, um gênio do papelório e das informações. Acresce que
Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar; e tantos títulos
juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal
Albernaz.
Fora da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico, mas que a
convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava. Um empregado modelo!
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O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das “mãos” fazia-se um breve
comentário ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as “falas” sacramentais do jogo: “solo,
bolo, melhoro, passo”. Feitas elas, jogava-se em silêncio; da sala, porém, vinha o ruído festivo das
danças e das conversas.
- Olhem quem está aí!
- O Genelício, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?
Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado,
chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo ele traía a profissão, os seus gostos e hábitos.
Era um escriturário.
- Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negócios.
- Vão bem? perguntou Florêncio.
- Quase garantido. O ministro prometeu... Não há nada, estou bem “cunhado”!
- Estimo muito, disse o general.
- Obrigado. Sabe de uma cousa, general?
- O que é?
- O Quaresma está doido.
- Mas... o quê? Quem foi que te disse?
- Aquele homem do violão. Já está na casa de saúde...
- Eu logo vi, disse Albernaz, aquele requerimento era de doido.
- Mas não é só, general, acrescentou Genelício. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro.
- É o que eu dizia, fez Albernaz.
- Quem é? perguntou Florêncio.
- Aquele vizinho, empregado do Arsenal; não conhece?
- Um baixo, de pince-nez?
- Este mesmo, confirmou Caldas.
- Nem se podia esperar outra cousa, disse o Doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de
leitura...
- Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.
- Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
- Ele não era formado, para que meter-se em livros?
- É verdade, fez Florêncio.
- Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Segismundo.
- Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros.
Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?
- Decerto, disse Albernaz.
- Decerto, fez Caldas.
- Decerto, disse Segismundo.
Calaram-se um instante, e as atenções convergiram para o jogo.
- Já saíram todos os trunfos?
- Contasse, meu amigo.
Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silêncio. Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala
triunfantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano. Zizi acompanhava.
Tossiu e, com a sua voz metálica, apurando muito os finais em “s”, começou:

A vida é uma comédia sem sentido,
Uma história de sangue e de poeira
Um deserto sem luz...

E o piano gemia.

22
IV
Desastrosas Conseqüências de
um Requerimento
Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em torno da mesa de solo, na
tarde memorável da festa comemorativa do pedido de casamento de Ismênia, se tinham desenrolado
com rapidez fulminante. A força de idéias e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado
em atos imprevistos com uma seqüência brusca e uma velocidade de turbilhão. O primeiro fato
surpreendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma
extravagância, uma pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.
Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a sessão da Câmara, o
secretário teve que proceder à leitura de um requerimento singular e que veio a ter uma fortuna de
publicidade e comentário pouco usual em documentos de tal natureza.
O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensável ao elevado trabalho de
legislar não permitiram que os deputados o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam próximo à
Mesa, ao ouvi-lo, prorromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes à majestade do lugar.
O riso é contagioso. O secretário, no meio da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o
presidente, ria-se o oficial da ata, ria-se o contínuo - toda a Mesa e aquela população que a cerca
riram-se da petição, largamente, querendo sempre conter o riso, havendo em alguns tão fraca
alegria que as lágrimas vieram.
Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de trabalho, de sonho
generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquele rir inofensivo diante
dela. Merecia raiva, ódio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava à Mesa da
Câmara, mas não aquele recebimento hilárico, de uma hilaridade inocente, sem fundo algum, assim
como se se estivesse a rir de uma palhaçada, de uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta
de clown.
Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nele um motivo para riso franco e sem
maldade. A sessão daquele dia fora fria; e, por ser assim, as seções dos jornais referentes à Câmara,
no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.
Era assim concebida a petição:

“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é
emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo
no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas
dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores,
com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se,
diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma - usando
do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-
guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua idéia, pede
vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua
criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento
e conseqüência a sua emancipação idiomática.
Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua originalíssima, aglutinante, é a única capaz
de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se
perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e
ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos,
evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas de uma difícil adaptação de
uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal - controvérsias
que tanto empecem o progresso da nossa cultura científica e filosófica.
Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida
e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade
23
P. e E. deferimento.”

Assinado e devidamente estampilhado, este requerimento do major foi durante dias assunto de
todas as palestras. Publicado em todos os jornais, com comentários facetos, não havia quem não
fizesse uma pilhéria sobre ele, quem não ensaiasse um espírito à custa da lembrança de Quaresma.
Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quis mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era
casado, se era solteiro. Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na
rua.
Os pequenos jornais alegres, esses semanários de espírito e troça, então! eram de um
encarniçamento atroz com o pobre major. Com uma abundância que marcava a felicidade dos
redatores em terem encontrado um assunto fácil, o texto vinha cheio dele: o Major Quaresma disse
isso; o Major Quaresma fez aquilo.
Um deles, além de outras referências, ocupou uma página inteira com o assunto da semana.
Intitulava-se a ilustração: “O matadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma”, e o desenho
representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via à esquerda. Um
outro referia-se ao caso pintando um açougue, “O açougue Quaresma”; legenda: a cozinheira
perguntava ao açougueiro:
- O senhor tem língua de vaca?
O açougueiro respondia: - Não, só temos língua de moça, quer?
Com mais ou menos espírito, os comentários não cessavam e a ausência de relações de Quaresma
no meio de que saíam fazia com que fossem de uma constância pouco habitual. Levaram duas
semanas com o nome do subsecretário.
Tudo isso irritava profundamente Quaresma. Vivendo há trinta anos quase só, sem se chocar com o
mundo, adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor
cousa. Nunca sofrera críticas, nunca se atirou à publicidade, vivia imerso no seu sonho, incubado e
mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fora deles, ele não conhecia ninguém; e, com as pessoas
com quem falava, trocava pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o
seu coração nada tinham de ver.
Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que a todos.
Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo, às competições, às
ambições, pois nada dessas cousas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu
temperamento.
Desinteressado de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a
candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma idéia fixa, os grandes estudiosos,
os sábios, e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingênua, mais inocente que as donzelas
das poesias de outras épocas.
É raro encontrar homens assim, mas os há e, quando se os encontra, mesmo tocados de um grão de
loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho de ser homem e mais
esperança na felicidade da raça.
A continuidade das troças feitas nos jornais, a maneira com que o olhavam na rua, exasperavam-no
e mais forte se enraizava nele a sua idéia. À medida que engolia uma troça, uma pilhéria, vinha-lhe
meditar sobre a sua lembrança, pesar-lhe todos os aspectos, examiná-la detidamente, compará-la a
cousas semelhantes, recordar os autores e autoridades; e, à proporção que fazia isso, a sua própria
convicção mostrava a inanidade da crítica, a ligeireza da pilhéria, e a idéia o tomava, o avassalava,
o absorvia cada vez mais.
Se os jornais tinham recebido o requerimento com facécias de fundo inofensivo e sem ódio, a
repartição ficou furiosa. Nos meios burocráticos, uma superioridade que nasce fora deles, que é
feita e organizada com outros materiais que não os ofícios, a sabença de textos de regulamentos e a
boa caligrafia, é recebida com a hostilidade de uma pequena inveja.
É como se se visse no portador da superioridade um traidor à mediocridade, ao anonimato
papeleiro. Não há só uma questão de promoção, de interesse pecuniário; há uma questão de amor-
24
próprio, de sentimentos feridos, vendo aquele colega, aquele galé como eles, sujeito aos
regulamentos, aos caprichos dos chefes, às olhadelas superiores dos ministros, com mais títulos à
consideração, com algum direito a infringir as regras e os preceitos.
Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino plebeu olha para o assassino marquês
que matou a mulher e o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o
burguês trazem o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu
humilde colega de desgraça.
Assim, quando surge numa secretaria alguém cujo nome não lembra sempre o título de sua
nomeação, aparecem as pequeninas perfídias, as maledicências ditas ao ouvido, as indiretas, todo o
arsenal do ciúme invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do
que ela.
Amam-se ou antes suportam-se melhor aqueles que se fazem célebres nas informações, na redação,
na assiduidade ao trabalho, mesmo os doutores, os bacharéis, do que os que têm nomeada e fama.
Em geral, a incompreensão da obra ou do mérito do colega é total e nenhum deles se pode capacitar
que aquele tipo, aquele amanuense, como eles, faça qualquer cousa que interesse os estranhos e dê
que falar a uma cidade inteira.
A brusca popularidade de Quaresma, o seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e
superiores. Já se viu! dizia o secretário. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa!
Pretensioso! O diretor, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não
cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. O colega arquivista era o menos terrível, mas
chamou-o logo de doido.
O major sentia bem aquele ambiente falso, aquelas alusões e isso mais aumentava o seu desespero e
a teimosia na sua idéia. Não compreendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades,
essa má vontade geral; era uma cousa inocente, uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o
assentimento de todo o mundo; e meditava, voltava à idéia, e a examinava com mais atenção.
A extensa publicidade, que o fato tomou, atingiu o palacete de Real Grandeza, onde morava o seu
compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de construções de prédios, viúvo, o antigo
quitandeiro retirara-se dos negócios e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e
tinha todos os remates arquitetônicos do seu gosto predileto: compoteiras na cimalha, um imenso
monograma sobre a porta da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e outros
detalhes equivalentes.
A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, tinha um razoável jardim na
frente, que avançava pelos lados, pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo
calor os pássaros morriam tristemente. Era uma instalação burguesa, no gosto nacional, vistosa,
cara, pouco de acordo com o clima e sem conforto.
No interior o capricho dominava, tudo obedecendo a uma fantasia barroca, a um ecletismo
desesperador. Os móveis se amontoavam, os tapetes, as sanefas, os bibelots e a fantasia da filha,
irregular e indisciplinada, ainda trazia mais desordem àquela coleção de cousas caras.
Viúvo, havia já alguns anos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha, quem o
encaminhava nas distrações e nas festas. Coleoni aceitava de bom coração esta doce tirania. Queria
casar a filha, bem e ao gosto dela, não punha, portanto, nenhum obstáculo ao programa de Olga.
Em começo, pensou em dá-la a seu ajudante ou contramestre, uma espécie de arquiteto que não
desenhava, mas projetava casas e grandes edifícios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou
resistência, mas não encontrou também assentimento. Convenceu-se de que aquela vaporosidade da
menina, aquele seu ar distante de heroína, a sua inteligência, o seu fantástico não se dariam bem
com as rudezas e a simplicidade campônias de seu auxiliar.
Ela quer um doutor - pensava ele - que arranje! Com certeza, não terá ceitil, mas eu tenho e as
cousas se acomodam.
Ele se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquês ou o barão de sua terra natal. Cada terra
tem a sua nobreza; lá, é visconde; aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito aceitável
comprar a satisfação de enobrecer a filha com umas meias dúzias de contos de réis.
25
Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propósitos da menina. Gostando de dormir
cedo, tinha que perder noites e noites no Lírico, nos bailes; amando estar sentado em chinelas a
fumar cachimbo, era obrigado a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de
modas atrás da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns grampos e um frasco
de perfume.
Era engraçado vê-lo nas lojas de fazendas cheio de complacência de pai que quer enobrecer o filho,
a dar opinião sobre o tecido, achar este mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de
sentimento daquelas cousas que se adivinhava até no pagá-las. Mas ele ia, demorava-se e
esforçava-se por entrar no segredo, no mistério, cheio de tenacidade e candura perfeitamente
paternais.
Até aí ele ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam bastante as visitas, as colegas da
filha, suas irmãs, com seus modos de falsa nobreza, os seus desdéns dissimulados, deixando
perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante da sociedade das amigas e das colegas de
Olga.
Não se aborrecia, porém, muito profundamente; ele assim o quisera e a fizera, tinha que se
conformar. Quase sempre, quando chegavam tais visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da
casa. Entretanto, não lhe era sempre possível fazer isso; nas grandes festas e recepções tinha que
estar presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso da alta nobreza da terra que o
freqüentava. Ele ficara sempre empreiteiro, com poucas idéias além do seu ofício, não sabendo
fingir, de modo que não se interessava por aquelas tagarelices de casamentos, de bailes de festas e
passeios caros.
Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e sempre perdia. Chegou
mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e
muito, mas não foi isso que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos - uma ninharia! A
questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez que Coleoni deu com isso,
pareceu-lhe simples distração do distinto jornalista e famoso advogado. Um homem honesto não ia
fazer aquilo! E na segunda, seria também? E na terceira?
Não era possível tanta distração. Adquiriu a certeza da trampolinagem, calou-se, conteve-se com
uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez
e o passe foi posto em prática, Vicente acendeu o charuto e observou com a maior naturalidade
deste mundo:
- Os senhores sabem que há agora, na Europa, um novo sistema de jogar o poker?
- Qual é? perguntou alguém.
- A diferença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos parceiros, somente.
Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar, e a ganhar, despediu-se à meia-noite cheio de
delicadeza, fez alguns comentários sobre a partida e não voltou mais.
Conforme o seu velho hábito, Coleoni lia de manhã os jornais, com o vagar e a lentidão de homem
pouco habituado à leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal.
Ele não compreendeu bem o requerimento, mas os jornais faziam tanta troça, caíam tão a fundo
sobre a cousa, que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada criminosa, tendo
praticado, por inadvertência, alguma falta grave.
Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha, mas daí quem sabe?
Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pilhéria...
Apesar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. Havia nele não
só a gratidão de camponês que recebeu um grande benefício, como um duplo respeito pelo major,
oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio.
Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquele sagrado respeito dos
camponeses pelos homens que recebem a investidura do Estado; e, como, apesar dos bastos anos de
Brasil, ainda não sabia juntar o saber aos títulos, tinha em grande consideração a erudição do
compadre.
26
Não é, pois, de estranhar que ele visse com mágoa o nome de Quaresma envolvido em fatos que os
jornais reprovavam. Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que ele queria dizer. Chamou
a filha.
- Olga!
Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque; mas, quando falava português, punha nas
palavras uma rouquidão singular, e salpicava as frases de exclamações e pequenas expressões
italianas.
- Olga, que quer dizer isto? Non capisco...
A moça sentou-se a uma cadeira próxima e leu no jornal o requerimento e os comentários.
- Che! Então?
- O padrinho quer substituir o português pela língua tupi, entende o senhor?
- Como?
- Hoje, nós não falamos português? Pois bem: ele quer que daqui em diante falemos tupi.
- Tutti?
- Todos os brasileiros, todos.
- Ma che cousa! Não é possível?
- Pode ser. Os tchecos têm uma língua própria, e foram obrigados a falar alemão, depois de
conquistados pelos austríacos; os lorenos, franceses...
- Per la madonna! Alemão é língua, agora esse acujelê, ecco!
- Acujelê é da África, papai; tupi é daqui.
- Per Bacco! É o mesmo... Está doido!
- Mas não há loucura alguma, papai.
- Como? Então é cousa de um homem bene?
- De juízo, talvez não seja; mas de doido, também não.
- Non capisco.
- É uma idéia, meu pai, é um plano, talvez à primeira vista absurdo, fora dos moldes, mas não de
todo doido. É ousado, talvez, mas...
Por mais que quisesse, ela não podia julgar o ato do padrinho sob o critério de seu pai. Neste falava
o bom senso e nela o amor às grandes cousas, aos arrojos e cometidos ousados. Lembrou-se de que
Quaresma lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de
admiração pelo atrevimento do major, não foi decerto o de reprovação ou lástima; foi de piedade
simpática por ver mal compreendido o ato daquele homem que ela conhecia há tantos anos,
seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz.
- Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.
E ele tinha razão. A sentença do arquivista foi vencedora nas discussões dos corredores e a suspeita
de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. Em princípio, o subsecretário
suportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o supunham insciente no tupi, irritou-se,
encheu-se de uma raiva surda, que se continha dificilmente. Como eram cegos! Ele que há trinta
anos estudava o Brasil minuciosamente; ele que, em virtude desses estudos, fora obrigado a
aprender o rebarbativo alemão, não saber tupi, a língua brasileira, a única que o era - que suspeita
miserável!
Que o julgassem doido - vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas afirmações, não! E ele
pensava, procurava meios de se reabilitar, caía em distrações, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa
quotidiana. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo o dia, e a outra, na
preocupação de provar que sabia o tupi.
O secretário veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fora grande e
ele mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha começado a passar a limpo um ofício sobre cousas
de Mato Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do fundo da
sala, com acento escarninho:
- Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.
27
Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupi que se encontravam na
minuta, fosse pela alusão do funcionário Carmo, o certo é que ele insensivelmente foi traduzindo a
peça oficial para o idioma indígena.
Ao acabar, deu com a distração, mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram,
para que ele examinasse. Novas preocupações afastaram a primeira, esqueceu-se e o ofício em tupi
seguiu com os companheiros. O diretor não reparou, assinou e o tupinambá foi dar ao ministério.
Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que língua era? Consultou-se o Doutor
Rocha, o homem mais hábil da secretaria, a respeito do assunto. O funcionário limpou o pince-nez,
agarrou o papel, voltou-o de trás para diante, pô-lo de pernas para o ar e concluiu que era grego, por
causa do “yy”.
O Doutor Rocha tinha na secretaria a fama de sábio, porque era bacharel em direito e não dizia
cousa alguma.
- Mas, indagou o chefe, oficialmente as autoridades se podem comunicar em línguas estrangeiras?
Creio que há um aviso de 84... Veja, senhor Doutor Rocha...
Consultaram-se todos os regulamentos e repertórios de legislação, andou-se de mesa em mesa
pedindo auxílio à memória de cada um e nada se encontrara a respeito. Enfim, o Doutor Rocha,
após três dias de meditação, foi ao chefe e disse com ênfase e segurança:
- O aviso de 84 trata de ortografia.
O diretor olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades de
empregado zeloso, inteligente e... assíduo. Foi informado de que a legislação era omissa no tocante
à língua em que deviam ser escritos os documentos oficiais; entretanto não parecia regular usar
uma que não fosse a do país.
O ministro, tendo em vista esta informação e várias outras consultas, devolveu o ofício e censurou
o Arsenal.
Que manhã foi essa no Arsenal! Os tímpanos soavam furiosamente, os contínuos andavam numa
dobadoura terrível e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em chegar.
Censurado! monologava o diretor. Ia-se por água abaixo o seu generalato. Viver tantos anos a
sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um
escriturário!
Ainda se a situação mudasse... Mas qual!
O secretário chegou, foi ao gabinete do diretor. Inteirado do motivo, examinou o ofício e pela letra
conheceu que fora Quaresma quem o escrevera. Mande-o cá, disse o coronel. O major encaminhou-
se pensando nuns versos tupis que lera de manhã.
- Então o senhor leva a divertir-se comigo, não é?
- Como? fez Quaresma espantado.
- Quem escreveu isso?
O major nem quis examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distração e confessou com firmeza:
- Fui eu.
- Então confessa?
- Pois não. Mas Vossa Excelência não sabe...
- Não sabe! que diz?
O diretor levantou-se da cadeira, com os lábios brancos e a mão levantada à altura da cabeça. Tinha
sido ofendido três vezes: na sua honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de
ensino que freqüentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento científico do
mundo. Além disso escrevera no Pritaneu, a revista da escola, um conto - “A Saudade” - produção
muito elogiada pelos colegas. Dessa forma, tendo em todos os exames plenamente e distinção, uma
dupla coroa de sábio e artista cingia-lhe a fronte. Tantos títulos valiosos e raros de se encontrarem
reunidos, mesmo em Descartes ou Shakespeare, transformavam aquele - não sabe - de um
amanuense em ofensa profunda, em injúria.
- Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de
Benjamim Constant? Sabe o senhor Matemática, Astronomia, Física, Química, Sociologia e Moral?
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Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francesinho aí,
pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em Cálculo, 10 em Mecânica, 8 em Astronomia, 10 em
Hidráulica, 9 em Descritiva? Então?!
E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava
fuzilado.
- Mas, senhor coronel...
- Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.
Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fora seu propósito duvidar da sabedoria do seu diretor.
Ele não tinha nenhuma pretensão a sábio e pronunciara a frase para começar a desculpa; mas,
quando viu aquela enxurrada de saber, de títulos, a sobrenadar em águas tão furiosas, perdeu o fio
do pensamento, a fala, as idéias e nada mais soube nem pôde dizer.
Saiu abatido, como um criminoso, do gabinete do coronel, que não deixava de olhá-lo
furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser.
Saiu afinal. Chegando à sala do trabalho nada disse; pegou no chapéu, na bengala e atirou-se pela
porta afora, cambaleando como um bêbado. Deu umas voltas, foi ao livreiro buscar uns livros.
Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros.
- Cedo, hein major?
- É verdade.
E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo avançou algumas
palavras:
- O major, hoje, parece que tem uma idéia, um pensamento muito forte.
- Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
- É bom pensar, sonhar consola.
- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens...
E os dous separaram-se. O major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado a Rua do Ouvidor,
com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canelas, sobraçando o violão na sua armadura
de camurça.

V
O Bibelot
Não era a primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquela larga escada de
pedra, com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e Nossa Senhora da
Piedade; penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas, atravessara o átrio ladrilhado, deixando à
esquerda e à direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mistério da loucura; subira
outra escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no
seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia às vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso
dever de amizade, visitando Quaresma. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao
certo; uns três ou quatro meses, se tanto.
Só o nome da casa metia medo. O hospício! É assim como uma sepultura em vida, um semi-
enterramento, enterramento do espírito, da razão condutora, de cuja ausência os corpos raramente
se ressentem. A saúde não depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida,
prolongar a existência, quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para onde.
Com que terror, uma espécie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de inimigo invisível e
onipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes
uma boa morte, diziam.
No primeiro aspecto, não se compreendia bem esse pasmo, esse espanto, esse terror do povo por
aquela casa imensa, severa e grave, meio hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janelas
gradeadas, a se estender por uns centos de metros, em face do mar imenso e verde, lá na entrada da
baía, na Praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos,
como monges em recolhimento e prece.
29
De resto, com aquela entrada silenciosa, clara e respeitável, perdia-se logo a idéia popular da
loucura; o escarcéu, os trejeitos, as fúrias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali.
Não havia nada disso; era uma calma, um silêncio, uma ordem perfeitamente naturais. No fim,
porém, quando se examinavam bem, na sala de visitas, aquelas faces transtornadas, aqueles ares
aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheados e mergulhados em um sonho
íntimo sem fim, e via-se também a excitação de uns, mais viva em face à atonia de outros, é que se
sentia bem o horror da loucura, o angustioso mistério que ela encerra, feito não sei de que
inexplicável fuga do espírito daquilo que supõe o real, para se apossar e viver das aparências das
cousas ou de outras aparências das mesmas.
Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado,
sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer cousa ele nos invade, nos
toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós
mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais
semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após.
E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Com o seu
padrinho, como fora? A princípio, aquele requerimento... Mas que era aquilo? Um capricho, uma
fantasia, cousa sem importância, uma idéia de velho sem conseqüência. Depois, aquele ofício? Não
tinha importância, uma simples distração, cousa que acontece a cada passo... E enfim? A loucura
declarada, a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa...
Enfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sair, de se dizer perseguido, de
imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do
seu delírio, aquela agitação desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava
fora dele e com os atos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde saía, de que ponto
do seu ser tomava conhecimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um
cataclismo, que o fazia tremer todo, desde os pés à cabeça, e enchia-o de indiferença para tudo mais
que não fosse o seu próprio delírio.
A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. Para ele, nada disso valia,
nada disso tinha existência e importância. Eram sombras, aparências; o real eram os inimigos, os
inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar. A velha irmã, atarantada,
atordoada, sem direção, sem saber que alvitre tomar. Educada em casa sempre com um homem ao
lado, o pai, depois o irmão, ela não sabia lidar com o mundo, com negócios, com as autoridades e
pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiência e ternura de irmã, oscilava entre a
crença de que aquilo fosse verdade e a suspeita de que fosse loucura pura e simples.
Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava, chamando a si
os interesses da família e evitando a demissão de que estava ameaçado, transformando-a em
aposentadoria, que seria dele? Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado, regrado,
honesto, com emprego seguro, tinha uma aparência inabalável; entretanto bastou um grãozinho de
sandice...
Estava há uns meses no hospício, o seu padrinho, e a irmã não o podia visitar. Era tal o seu abalo de
nervos, era tal a emoção ao vê-lo ali naquela meia-prisão, decaído dele mesmo que um ataque se
seguia e não podia ser evitado.
Vinham ela e o pai, às vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram só os três a visitá-lo.
Aquele domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo, nas proximidades do
mar e das montanhas altas que se recortavam num céu de seda. O ar era macio e docemente o sol
faiscava nas calçadas.
O pai vinha lendo os jornais e ela, pensando, de quando em quando folheando as revistas ilustradas
que trazia para alegrar e distrair o padrinho.
Ele estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ela teve um certo pudor em se
misturar com os visitantes.
Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias; recalcou porém, dentro de si,
esse pensamento egoísta, o seu orgulho de classe, e agora entrava naturalmente, pondo em destaque
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a sua elegância natural. Amava esses sacrifícios, essas abnegações, tinha o sentimento da grandeza
deles, e ficou contente consigo mesma.
No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. Como
em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda a gente, de várias condições,
nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam
também a sua rasoura pelas distinções que inventamos.
Os bem-vestidos e os mal-vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e os bonitos, os inteligentes e
os néscios, entravam com respeito, com concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se
penetrassem noutro mundo.
Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas, fumo, meias, chinelas, às
vezes livros e jornais. Dos doentes uns conversavam com os parentes; outros mantinham-se
calados, num mutismo feroz e inexplicável; outros indiferentes; e era tal a variedade de aspectos
dessas recepções que se chegava a esquecer o império da doença sobre todos aqueles infelizes,
tanto ela variava neste ou naquele, para se pensar em caprichos pessoais, em ditames das vontades
livres de cada um.
E ela pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ela é mais rica de aspectos tristes que
de alegres, e como na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e como que dá o
próprio movimento da vida.
Verificando isso, quase teve satisfação, pois a sua natureza inteligente e curiosa se comprazia nas
mais simples descobertas que seu espírito fazia.
Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delírio parecia querer desaparecer
completamente. Chocando-se com aquele meio, houve logo nele uma reação salutar e necessária.
Estava doido, pois se o punham ali...
Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo do
bigode já grisalho. Tinha emagrecido um pouco, os cabelos pretos estavam um pouco brancos, mas
o aspecto geral era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar, mas
quando a mania lhe tomava ficava um tanto seco e desconfiado. Ao vê-los disse amavelmente:
- Então vieram sempre... Estava à espera...
Cumprimentaram-se e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada.
- Como está Adelaide?
- Bem. Mandou lembranças e não veio porque... adiantou Coleoni.
- Coitada! disse ele, e pendeu a cabeça como se quisesse afastar uma recordação triste; em seguida,
perguntou:
- E o Ricardo?
A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e alegria. Via-o já escapo à semi-
sepultura da insânia.
- Está bom, padrinho. Procurou papai há dias e disse que a sua aposentadoria já está quase acabada.
Coleoni tinha-se sentado. Quaresma também e a moça estava de pé, para melhor olhar o padrinho
com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar. Guardas, internos e médicos passavam
pelas portas com a indiferença profissional. Os visitantes não se olhavam, pareciam que não
queriam conhecer-se na rua. Lá fora, era o dia lindo, os ares macios, o mar infinito e melancólico,
as montanhas a se recortar num céu de seda - a beleza da natureza imponente e indecifrável.
Coleoni, embora mais assíduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com satisfação que
errava na sua fisionomia, num ligeiro sorriso. Num dado momento aventurou:
- O major já está muito melhor; quer sair?
Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente:
- É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incomodar-te tanto, mas vocês que têm sido tão
bons, hão de levar tudo isso para conta da própria bondade. Quem tem inimigos deve ter também
bons amigos...
O pai e a filha entreolharam-se; o major levantou a cabeça e parecia que as lágrimas queriam
rebentar. A moça interveio de pronto:
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- Sabe, padrinho, vou casar-me.
- É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos preveni-lo.
- Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.
- É um rapaz...
- Decerto, interrompeu o padrinho sorrindo.
E os dous acompanharam-no com familiaridade e contentamento. Era um bom sinal.
- É o Senhor Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez Olga gentilmente.
- Então é para depois do fim do ano.
- Esperamos que seja por aí, disse o italiano.
- Gostas muito dele? indagou o padrinho.
Ela não sabia responder aquela pergunta. Queria sentir que gostava, mas estava que não. E por que
casava? Não sabia... Um impulso do seu meio, uma cousa que não vinha dela - não sabia... Gostava
de outro? Também não. Todos os rapazes que ela conhecia não possuíam relevo que a ferisse, não
tinham o “quê”, ainda indeterminado na sua emoção e na sua inteligência, que a fascinasse ou
subjugasse. Ela não sabia bem o que era, não chegava e extremar na percepção das suas inclinações
a qualidade que ela queria ver dominante no homem. Era o heróico, era o fora do comum, era a
força de projeção para as grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros anos,
quando as idéias e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não podia colher e registrar esse
anelo, esse modo de se lhe representar e de amar o indivíduo masculino.
E tinha razão em se casar sem obedecer à sua concepção. É tão difícil ver nitidamente num homem,
de vinte a trinta anos, o que ela sonhara que era bem possível tomasse a nuvem por Juno... Casava
por hábito de sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a
sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho:
- Gosto.
A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rápida, não convinha fatigar a
atenção do convalescente. Os dous saíram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos.
Na porta já havia alguns visitantes à espera do bonde. Como não estivesse o veículo no ponto,
foram indo ao longo da fachada do manicômio até lá. Em meio do caminho, encontraram,
encostada ao gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ela:
- Que tem, minha velha?
A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar, úmido e doce, cheio de uma irremediável
tristeza e respondeu:
- Ah, meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!
E continuou a chorar. Coleoni começou a comover-se; a filha olhou-a com interesse e perguntou no
fim de um instante:
- Morreu?
- Antes fosse, sinhazinha.
E por entre lágrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais, não lhe respondia às
perguntas; era como um estranho. Enxugou as lágrimas e concluiu:
- Foi “cousa-feita”.
Os dous afastaram-se tristes, levando n’alma um pouco daquela humilde dor.
O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a face do mar em pequenas ondas
brancas. O Pão de Açúcar erguia-se negro, hirto, solene, das ondas espumejantes, e como que
punha uma sombra no dia muito claro.
No Instituto dos Cegos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sair
daquelas cousas todas, da sua tristeza e da sua solenidade.
O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no Largo da Carioca. É bom ver-se a
cidade nos dias de descanso, com as suas lojas fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os
passos ressoam como em claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhe as
carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e gente. Na porta de uma loja ou
32
outra, os filhos do negociante brincam em velocípedes, atiram bolas e ainda mais se sente a
diferença da cidade no dia anterior.
Não havia o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos e só encontravam, por vezes, casais que
iam apressadamente a visitas, como eles agora. O Largo de São Francisco estava silencioso e a
estátua, no centro daquele pequeno jardim que desapareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes
chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que
os levasse à casa de Quaresma. Lá foram. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras já
apareciam nas janelas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros, grupos de caixeiros
com flores estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas antediluvianas ao lado de
vestidos pesados de cetim negro, envergados em corpos fartos de matronas sedentárias; e o
domingo aparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a
ostentação dos tolos.
Dona Adelaide não estava só. Ricardo viera visitá-la e conversavam. Quando o compadre de seu
irmão bateu no portão, ele contava à velha senhora o seu último triunfo:
- Não sei como há de ser, Dona Adelaide. Eu não guardo as minhas músicas, não escrevo - é um
inferno!
O caso era de pôr um autor em maus lençóis. O Senhor Paysandón, de Córdova (República
Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escrito, pedindo exemplares de suas
músicas e canções. Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escritos, mas a música não. É
verdade que as sabia de cor, porém, escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua
força.
- É o diabo! continuou ele. Não é por mim; a questão é que se perde uma ocasião de fazer o Brasil
conhecido no estrangeiro.
A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A sua educação que se fizera,
vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não podia admitir que ele
preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, suportava a mania de
Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos
suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar. Os
pequenos serviçais e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo de Ricardo, que os
desempenhara com boa vontade e diligência.
Atualmente era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discípulo. É um trabalho
árduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gíria burocrática. Aposentado o sujeito,
solenemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser
ultimada. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou
fazendo o cálculo; e a cousa demora um mês, mais até, como se se tratasse de mecânica celeste.
Coleoni era o procurador do major, mas não sendo entendido em cousas oficiais, entregou ao
Coração dos Outros aquela parte do seu mandato.
Graças à popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a resistência da máquina burocrática e
a liquidação estava anunciada para breve.
Foi isso que ele anunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha. Pediram, tanto ele como
Dona Adelaide, notícias do amigo e do irmão.
A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou compreendendo melhor; mas o
sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.
Ricardo Coração dos Outros gostava do major, encontrara nele certo apoio moral e intelectual de
que precisava. Os outros gostavam de ouvir o seu canto, apreciavam como simples diletantes; mas
o major era o único que ia ao fundo da sua tentativa e compreendia o alcance patriótico de sua obra.
De resto, ele agora sofria particularmente - sofria na sua glória, produto de um lento e seguido
trabalho de anos. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar
força e já era citado ao lado do seu.
Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por causa das
suas teorias.
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Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto famoso
tocar violão, era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento. Se o seu rival
tocasse piano e por isso ficasse célebre, não havia mal algum; ao contrário: o talento do rapaz
levantava a sua pessoa, por intermédio do instrumento considerado; mas, tocando violão, era o
inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa, desmoralizava o misterioso violão que ele tanto
estimava. E além disso com aquelas teorias! Ora! Quer que a modinha diga alguma cousa e tenha
versos certos! Que tolice!
E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante dele como um
obstáculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua glória. Precisava afastá-lo, esmagá-lo,
mostrar a sua superioridade indiscutível; mas como?
A réclame já não bastava; o rival a empregava também. Se ele tivesse um homem notável, um
grande literato, que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra, a vitória estava certa. Era difícil
encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francesas...
Pensou num jornal, O Violão, em que ele desafiasse o rival e o esmagasse numa polêmica.
Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma, atualmente recolhido ao hospício,
mas felizmente em via de cura. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo
estava melhor.
- Não pude ir hoje, disse ele, mas irei domingo. Está mais gordo?
- Pouca cousa, disse a moça.
- Conversou bem, acrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se.
- Vai casar-se, Dona Olga? Parabéns.
- Obrigada, fez ela.
- Quando é, Olga? perguntou Dona Adelaide.
- Lá para o fim do ano... Tem tempo...
E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento.
E ela se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considerações, impudentes e irritantes;
queria fugir à conversa, mas voltavam ao mesmo assunto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide,
mais loquaz e curiosa que comumente. Esse suplício que se repetia em todas as visitas, quase a
fazia arrepender-se de ter aceitado o pedido. Por fim, achou um subterfúgio, perguntando:
- Como vai o general?
- Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Ele deve andar bem, a Ismênia é que anda triste,
desolada - coitadinha!
Dona Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do general. Cavalcanti,
aquele Jacó de cinco anos, embarcara para o interior, há três ou quatro meses, e não mandara nem
uma carta nem um cartão. A menina tinha aquilo como um rompimento; e ela, tão incapaz de um
sentimento mais profundo, de uma aplicação mais séria de energia mental e física, sentia-o muito,
como cousa irremediável que absorvia toda a sua atenção.
Para Ismênia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. Arranjar outro
era problema insolúvel, era trabalho acima de suas forças. Cousa difícil! Namorar, escrever
cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios - ela não podia mais com isso. Decididamente, estava
condenada a não se casar, a ser tia, a suportar durante toda a existência esse estado de solteira que a
apavorava. Quase não se lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz
duro e fortemente ósseo; independente da memória dele, vinha-lhe sempre à consciência, quando,
de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, essa outra idéia: não casar. Era um castigo... A
Quinota ia casar-se, o Genelício já estava tratando dos papéis; e ela que esperara tanto, e fora a
primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de todas. Parecia até que ambos estavam
contentes com aquela fuga inexplicável de Cavalcanti. Como eles se riam durante o carnaval!
Como eles atiraram aos seus olhos aquela sua viuvez prematura, durante os folguedos
carnavalescos! Punham tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar bem claro a
felicidade de ambos, aquela marcha gloriosa e invejada para o casamento, em face do seu
abandono.
34
Ela disfarçava bem a impressão da alegria deles que lhe parecia indecente e hostil; mas o escárnio
da irmã que lhe dizia constantemente: “Brinca, Ismênia! Ele está longe, vai aproveitando” - metia-
lhe raiva, a raiva terrível de gente fraca, que corrói interiormente, por não poder arrebentar de
qualquer forma.
Então, para espantar os maus pensamentos, ela se punha a olhar o aspecto pueril da rua, marchetada
de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem à
sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquele ruído de atabaques e adufes, de tambores
e pratos. Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como que a idéia que a
perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.
De resto, aqueles vestuários extravagantes de índios, aqueles adornos de uma mitologia
francamente selvagem, jacarés, cobras, jabutis, vivos, bem vivos, traziam à pobreza de sua
imaginação imagens risonhas de rios claros, florestas imensas, lugares de sossego e pureza que a
reconfortavam.
Também aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro e de uma grande indigência melódica,
vinham como reprimir a mágoa que ia nela, abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão
de gritos, mas para o que não lhe sobrava força bastante e suficiente.
O noivo partira um mês antes do carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior.
Sem hábitos de leitura e de conversa, sem atividade doméstica qualquer, ela passava os dias
deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.
Nas horas da entrega da correspondência, tinha ainda uma alegre esperança. Talvez? Mas a carta
não vinha, e voltava ao seu pensamento: não casar.
Dona Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismênia, comentou:
- Merecia um castigo isso, não acham?
Coleoni interveio com brandura e boa vontade:
- Não há razão para desesperar. Há muita gente que tem preguiça de escrever...
- Qual! fez Dona Adelaide. Há três meses, Senhor Vicente!
- Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.
- E ela ainda o espera, Dona Adelaide? perguntou Olga.
- Não sei, minha filha. Ninguém entende essa moça. Fala pouco, se fala diz meias palavras... É
mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.
- É orgulho? perguntou ainda Olga.
- Não, não... Se fosse orgulho, ela não se referia de vez em quando ao noivo. É antes moleza,
preguiça... parece que ela tem medo de falar para que as cousas não venham a acontecer.
- E os pais que dizem a isso? indagou Coleoni.
- Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incômodo do general não é grande e Dona Maricota
julga que ela deve arranjar “outro”.
- Era o melhor, disse Ricardo.
- Eu creio que ela não tem mais prática, disse sorrindo Dona Adelaide. Levou tanto tempo noiva...
E a conversa já tinha virado para outros assuntos, quando a Ismênia veio fazer a sua visita diária à
irmã de Quaresma.
Cumprimentou todos e todos sentiram que ela penava. O sofrimento dava-lhe mais atividade à
fisionomia.
As pálpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão.
Indagou da saúde de Quaresma e depois calaram-se um instante. Por fim Dona Adelaide lhe
perguntou:
- Recebeste carta, Ismênia?
- Ainda não, respondeu ela, com grande economia de voz.
Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque, veio atirar ao chão uma
figurinha de biscuit, que se esfacelou em inúmeros fragmentos, quase sem ruído.


35
SEGUNDA PARTE


1
No “Sossego”
Não era feio o lugar, mas não era belo. Tinha, entretanto, o aspecto tranqüilo e satisfeito de quem se
julga bem com a sua sorte.
A casa erguia-se sobre um socalco, uma espécie de degrau, formando a subida para a maior altura
de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambus da cerca, olhava
uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regato de águas paradas e sujas
cortava-a paralelamente à testada da casa; mais adiante, o trem passava vincando a planície com a
fita clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas, de um e de outro lado, saía da esquerda e
ia ter à estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A habitação de Quaresma tinha
assim um amplo horizonte, olhando para o levante, a “noruega”, e era também risonha e graciosa
nos seus caiados. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica das nossas casas de campo,
possuía, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janelas, e uma varanda com uma colunata
heterodoxa. Além desta principal, o sítio do “Sossego”, como se chamava, tinha outras construções:
a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada, e uma estrebaria
coberta de sapê.
Não havia três meses que viera habitar aquela casa, naquele ermo lugar, a duas horas do Rio, por
estrada de ferro, após ter passado seis meses no hospício da praia das Saudades. Saíra curado?
Quem sabe lá? Parecia; não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem comum embora,
sob tal aparência, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se irá a loucura,
mas o sonho que cevara durante tantos anos. Foram mais seis meses de repouso e útil seqüestração
que mesmo de uso de uma terapêutica psiquiátrica.
Quaresma viveu lá, no manicômio, resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde
via ricos que se diziam pobres, pobres que se queriam ricos, sábios a maldizer da sabedoria,
ignorantes a se proclamarem sábios; mas, deles todos, daquele que mais se admirou, foi de um
velho e plácido negociante da Rua dos Pescadores que se supunha Átila. Eu, dizia o pacato velho,
sou Átila, sabe? Sou Átila. Tinha fracas notícias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou
Átila, matei muita gente - e era só.
Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as cousas tristes de ver, no
mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente.
Aquela continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo imperceptível, mas profundo e
quase sempre insondável, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que
nós, que nos guia, que nos impele e em cujas mãos somos simples joguetes. Em vários tempos e
lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera
de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é ele quem fala, é
alguém que vê por ele, interpreta as cousas por ele, está atrás dele, invisível!...
Quaresma saiu envolvido, penetrado da tristeza do manicômio. Voltou a sua casa, mas a vista das
suas cousas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha impregnado. Embora nunca
tivesse sido alegre, a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes, muito abatimento moral,
e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça, onde se dedicava a
modestas culturas.
Não fora ele, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe à idéia aquele doce acabar
para a sua vida. Vendo-o naquele estado de abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sair,
enclausurado em sua casa de São Cristóvão, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e
filialmente:
- O padrinho por que não compra um sítio? Seria tão bom fazer as suas culturas, ter o seu pomar, a
sua horta... não acha?
36
Tão taciturno que ele estivesse, não pôde deixar de modificar imediatamente a sua fisionomia à
lembrança da moça. Era um velho desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna;
e foi lembrando dos seus antigos projetos que respondeu à afilhada:
- É verdade, minha filha. Que magnífica idéia tens tu! Há por aí tantas terras férteis sem emprego...
A nossa terra tem os terrenos mais férteis do mundo... O milho pode dar até duas colheitas e
quatrocentos por um...
A moça esteve quase arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia atear no espírito do
padrinho manias já extintas.
- Em toda a parte - não acha, meu padrinho? - há terras férteis.
- Mas como no Brasil, apressou-se ele em dizer, há poucos países que as tenham. Vou fazer o que
tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o feijão, a batata-inglesa... Tu irás ver as minhas culturas, a
minha horta, e meu pomar - então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras!
A idéia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado e só esperava uma boa
semente. Não lhe voltou a alegria que jamais teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento
moral, e veio-lhe a atividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou dos
preços correntes das frutas, dos legumes, das batatas, dos aipins; calculou que cinqüenta laranjeiras,
trinta abacateiros, oitenta pessegueiros, outras árvores frutíferas, além dos abacaxis (que mina!),
das abóboras e outros produtos menos importantes, podiam dar o rendimento anual e mais de
quatro contos, tirando as despesas. Seria ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus cálculos,
baseados em tudo que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional. Levou
em linha de conta a produção média de cada pé de fruteira, de hectare cultivado, e também os
salários, as perdas inevitáveis; e, quanto aos preços, ele foi em pessoa ao mercado buscá-los.
Planejou a sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus projetos.
Encarou-a por todas as faces, pesou as vantagens e ônus; e muito contente ficou em vê-la
monetariamente atraente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso mais uma
demonstração das excelências do Brasil.
E foi obedecendo a essa ordem de idéia que comprou aquele sítio, cujo nome - “Sossego” - cabia
tão bem à nova vida que adotara, após a tempestade que o sacudira durante quase um ano. Não
ficava longe do Rio e ele o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor
demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho agrícola. Esperava grandes
colheitas de frutas, de grãos, de legumes; e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores,
estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro, virente e abundante a
dispensar os argentinos e europeus.
Com que alegria ele foi para lá! Quase não teve saudades de sua velha casa de São Januário, agora
propriedade de outras mãos, talvez destinada ao mercenário mister de lar de aluguel... Não sentiu
que aquela vasta sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos anos, fosse servir para salão de
baile fútil, fosse testemunhar talvez rixas de casais desentendidos, ódios de família - ela tão boa, tão
doce, tão simpática, com o seu teto alto e as suas paredes lisas, em que se tinham incrustado os
desejos de sua alma e toda ela penetrava da exalação dos seus sonhos!...
Ele foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano, tirado da
terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria
ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho?
Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico,
sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre,
alegre e saudável?
E era agora que ele chegava a essa conclusão, depois de ter sofrido a miséria da cidade e o
emasculamento da repartição pública, durante tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que
não pudesse, antes da morte, travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das
terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas
instituições e costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida, era uma forte base
37
agrícola, um culto pelo seu solo ubérrimo, para alicerçar fortemente todos os outros destinos que
ela tinha de preencher.
Demais, com terras tão férteis, climas variados, a permitir uma agricultura fácil e rendosa, este
caminho estava naturalmente indicado.
E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras em flor, olentes, muito brancas, a se enfileirar
pelas encostas das colinas, como teorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar
com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis
coroados que nem reis, recebendo a unção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores
carnudas cheias de pólen; as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado; os pêssegos
veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as mangas capitosas; e dentre tudo aquilo surgia uma
linda mulher, com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um
imaterial sorriso demorado de deusa - era Pomona, a deusa dos vergéis e dos jardins!...
As primeiras semanas que passou no “Sossego”, Quaresma as empregou numa exploração em regra
da sua nova propriedade. Havia nela terra bastante, velhas árvores frutíferas, um capoeirão grosso
com camarás, bacurubus, tinguacibas, tabebuias, munjolos, e outros espécimes. Anastácio, que o
acompanhara, apelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava
os nomes dos indivíduos da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras.
O major logo organizou um museu dos produtos naturais do “Sossego”. As espécies florestais e
campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares, e quando era possível com os
científicos. Os arbustos, em herbário, e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e
transversalmente.
Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata dera a
Quaresma sólidas noções de Botânica, Zoologia, Mineralogia e Geologia.
Não foram só os vegetais que mereceram as honras de um inventário; os animais também, mas
como ele não tinha espaço suficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado,
Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas de
tatus, cutias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, avinhados, coleiros, tiês, etc. A parte mineral
era pobre, argilas, areia e, aqui e ali, uns blocos de granito esfoliando-se.
Acabado esse inventário, passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola e uma relação
de instrumentos meteorológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura.
Encomendou livros nacionais, franceses, portugueses; comprou termômetros, barômetros,
pluviômetros, higrômetros, anemômetros. Vieram estes e foram arrumados e colocados
convenientemente.
Anastácio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que tanta cousa, tanto livro, tanto
vidro? Estaria o seu antigo patrão dando para farmacêutico? A dúvida do preto velho não durou
muito. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviômetro, Anastácio, ao lado, olhava-o espantado,
como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou o espanto do criado e disse:
- Sabes o que estou fazendo, Anastácio?
- Não “sinhô”.
- Estou vendo se choveu muito.
- Para que isso, patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco... Isso de
plantar é capinar, pôr a semente na terra, deixar crescer e apanhar.
Ele falava com a sua voz mole de africano, sem “rr” fortes, com lentidão e convicção.
Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o conselho de seu empregado. O
capim e o mato cobriam as suas terras. As laranjeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos,
cheios de galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabeleira de erva-de-passarinho; mas como
não fosse época própria à poda e ao corte dos galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os
pés das fruteiras. De manhã, logo ao amanhecer, ele mais o Anastácio, lá iam, de enxada ao ombro,
para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão estava no auge, mas Quaresma era
inflexível e corajoso. Lá ia.
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Era de vê-lo, coberto com um chapéu de palha de coco, atracado a um grande enxadão de cabo
nodoso, ele, muito pequeno, míope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de
guaximba. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento
agrícola. Anastácio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto andar naquele sol a
capinar sem saber?... Há cada cousa neste mundo!
E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rápido, raspando o mato rasteiro, com a mão
habituada, a cujo impulso a enxada resvalava sem obstáculo pelo solo, destruindo a erva má;
Quaresma, furioso, a arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada arbusto e,
às vezes, quando o golpe falhava e a lâmina do instrumento roçava a terra, a força era tanta que se
erguia uma poeira infernal, fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelotão de
cavalaria. Anastácio, então, intervinha humildemente, mas em tom professoral:
- Não é assim, “seu majó”. Não se mete a enxada pela terra adentro. É de leve, assim.
E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho instrumento de trabalho.
Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usá-lo da maneira
ensinada. Era em vão. O flange batia na erva, a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar
uma piada irônica: bem-te-vi! O major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, suava, enchia-se
de raiva e batia com toda a força; e houve várias vezes que a enxada, batendo em falso, escapando
ao chão, fê-lo perder o equilíbrio, cair, a beijar a terra, mãe dos frutos e dos homens. O pince-nez
saltava, partia-se de encontro a um seixo.
O major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia à tarefa que se impusera; mas,
tanto é em nossos músculos firme a memória ancestral desse sagrado trabalho de tirar o sustento de
nossa vida, que não foi impossível a Quaresma acordar nos seus o jeito, a maneira de empregar a
enxada vetusta.
Ao fim de um mês, ele capinava razoavelmente, não seguido, de sol a sol, mas com grandes
repousos de hora em hora que a sua idade e falta de hábito requeriam.
Às vezes, o fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos, lado a lado, à sombra de uma fruteira
mais copada, ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das
árvores e punha nas cousas um forte acento de resignação mórbida. Então, aí por depois do meio-
dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira, é que o velho
major percebia bem a alma dos trópicos, feita de desencontros como aquele que se via agora, de um
sol alto, claro, olímpico, a brilhar sobre um torpor de morte, que ele mesmo provocava.
Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente sobre um improvisado
fogão de calhaus, e o trabalho ia assim até à hora do jantar. Havia em Quaresma um entusiasmo
sincero, entusiasmo de ideólogo que quer pôr em prática a sua idéia. Não se agastou com as
primeiras ingratidões da terra, aquele seu mórbido amor pelas ervas daninhas e o incompreensível
ódio pela enxada fecundante. Capinava e capinava sempre até vir jantar.
Esta refeição ele fazia mais demorada. Conversava um pouco com a irmã, contava-lhe a tarefa do
dia, consistindo sempre em avaliar a área já limpa.
- Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará nem mais uma touceira de mato.
A irmã, mais velha que ele, não partilhava aquele seu entusiasmo pelas cousas da roça.
Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com ele, não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo.
Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a
sua agitação interna. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera
deputado? Era tão bonito... Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira!
Seguira-o ao “Sossego” e, para entreter-se, criava galinhas, com grande alegria do irmão cultivador.
- Está direito, dizia ela, quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. Não vá ficares
doente... Neste sol todo o dia...
- Qual, doente, Adelaide! Não estás vendo como essa gente tem tanta saúde por aí... Se adoecem, é
porque não trabalham.
Acabado o jantar, Quaresma chegava à janela que dava para o galinheiro e atirava migalhas de pão
às aves.
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Ele gostava desse espetáculo, daquela luta encarniçada entre patos, gansos, galinhas, pequenos e
grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos prêmios que ela comporta. Depois, fazia
indagações sobre a vida do galinheiro:
- Já nasceram os patos, Adelaide?
- Ainda não. Faltam oito dias ainda.
E logo a irmã acrescentava:
- Tua afilhada deve casar-se sábado, tu não vais?
- Não. Não posso... Vou incomodar-me, luxo... mando um leitão e um peru.
- Ora, tu! Que presente!
- Que é que tem? É da tradição.
Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa
roceira, quando Anastácio veio avisar-lhe que se achava um cavalheiro na porteira.
Desde que ali se instalara, nenhuma visita batera à porta de Quaresma, a não ser a gente pobre do
lugar, a pedir isso ou aquilo, esmolando disfarçadamente. Ele mesmo não travara conhecimento
com ninguém, de modo que foi com surpresa que recebeu o aviso do velho preto.
Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Ele já subia a pequena escada da frente e
penetrava pela varanda adentro.
- Boas-tardes, major.
- Boas-tardes. Faça o favor de entrar.
O desconhecido entrou e sentou-se. Era um tipo comum, mas o que havia nele de estranho era a
gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto desonesto. Parecia que a fizera de
repente e comia, a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a
de um lagarto que entesoura enxúndia para o inverno ingrato. Através da gordura de suas
bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era
naquela idade, com pouco mais de trinta anos, sem dar tempo que todo ele engordasse; porque, se
as duas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ágeis.
O visitante falou:
- Eu sou o Tenente Antonino Dutra, escrivão da coletoria...
- Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.
- Nenhuma, major. Já sabemos quem o senhor é; não há novidade nem nenhuma exigência legal.
O escrivão tossiu, tirou um cigarro, ofereceu outro a Quaresma e continuou:
- Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incomodá-lo... Não é
cousa de importância... Creio que o major...
- Oh! Por Deus, tenente!
- Venho pedir-lhe um pequeno auxílio, um óbulo, para a festa da Conceição, a nossa padroeira, de
cuja irmandade sou tesoureiro.
- Perfeitamente. É muito justo. Apesar de não ser religioso, estou...
- Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do lugar que devemos manter.
- É justo.
- O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a irmandade também, de
forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde já,
portanto, major...
- Não. Espere um pouco...
- Oh! major, não se incomode. Não é para já.
Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fora e acrescentou:
- Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, major?
- Muito bem.
- Pretende dedicar-se à agricultura?
- Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
- Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sítio já foi uma lindeza, major! Quanta fruta!
Quanta farinha! As terras estão cansadas e...
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- Qual cansadas, Seu Antonino! Não há terras cansadas... A Europa é cultivada há milhares de anos,
entretanto...
- Mas lá se trabalha.
- Por que não se há de trabalhar aqui também?
- Lá isso é verdade; mas há tantas contrariedades na nossa terra que...
- Qual, meu caro tenente! Não há nada que não se vença.
- O senhor verá com o tempo, major. Na nossa terra não se vive senão de política, fora disso,
babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...
Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar pesquisador sobre a
ingênua fisionomia de Quaresma.
- Que questão é? indagou Quaresma.
O tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
- Então não sabe?
- Não.
- Eu lhe explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto, moço honesto, bom orador; mas
entenderam aqui certos presidentes de Câmaras Municipais do Distrito que se hão de sobrepor ao
governo, só porque o Senador Guariba rompeu com o governador; e - zás - apresentaram um tal
Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influência... Que pensa o senhor?
- Eu... Nada!
O serventuário do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e morando no
município de Curuzu, não se incomodasse com a briga do Senador Guariba com o governador do
Estado! Não era possível! Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse ele consigo, este malandro
quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem dificuldade. Estava tirando sardinha com
mão de gato... Aquilo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as asas daquele
“estrangeiro”, que vinha não se sabe donde!
- O major é um filósofo, disse ele com malícia.
- Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.
Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, mas, desanimado de penetrar
nas tenções ocultas do major, apagou a fisionomia e disse em ar de despedida:
- Então o major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
- Decerto.
Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vê-lo montar no seu pequeno
castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escrivão afastou-se, desapareceu na estrada, e o major
ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais,
como se nelas houvesse qualquer cousa de vital e importante. Não atinava por que uma rezinga
entre dous figurões importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da
esfera daqueles. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? Não exigia ela uma árdua luta
diária? Por que não se empregava o esforço que se punha naqueles barulhos de votos, de atas, no
trabalho de fecundá-la, de tirar dela seres, vidas - trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo
estar a pensar em governadores e guaribas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ela quer
carinho, luta, trabalho e amor...
O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo.
O trem apitou e ele demorou-se a vê-lo chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa
de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicações com o resto do mundo. Há
uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se
também más. A alternativa angustia...
O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mistério, e traz, além de notícias gerais,
boas ou más, também o gesto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e estão longe.
Quaresma esperou o trem. Ele chegou arfando e se estirando como um réptil pela estação afora à
luz forte do sol poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e saiu a levar notícias, amigos,
riquezas, tristezas por outras estações além. O major pensou ainda um pouco como aquilo era bruto
41
e feio, e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginária da beleza que os
nossos educadores de dous mil anos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava à estação. Vinha
um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o
homem que caminhava com pressa... Quem era? Aquele chapéu dobrado, como um morrião...
Aquele fraque comprido... Passo miúdo... Um violão! Era ele!
- Adelaide, está aí o Ricardo.

II
Espinhos e Flores
Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. A
topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram,
porém, os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas
surgiam como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas
delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos
inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.
Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante, outras se afastam, e deixam
de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas
sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar
uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Há casas de todos os
gostos e construídas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e
acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha
rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-
se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da
qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo
pouco classificável, que parece vexada a querer ocultar-se, diante daquela onda de edifícios
disparatados e novos.
Não há nos nossos subúrbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades
européias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e
cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque
os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios em
certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma
importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre
um rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal
juntos.
Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes
empane o brilho do vestido; há operário de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de
chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa
mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.
Além disto, os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e no
espiritismo endêmico; as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito.
Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos
aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos,
é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um
rigor londrino.
Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas.
Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos deparar velhas fabricantes de
rendas de bilros, compradores de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros,
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catadores de ervas medicinais, enfim, uma variedade de profissões miseráveis que as nossas
pequena e grande burguesias não podem adivinhar. Às vezes, num cubículo desses se amontoa uma
família, e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem.
Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. Não era
das sórdidas, mas era uma casa de cômodos dos subúrbios.
Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina, olhando da
janela do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos.
Vistos assim do alto, os subúrbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de
branco, de oca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali,
um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho
das ruas põe no programa um sabor de confusão democrática, de solidariedade perfeita entre as
gentes que as habitavam; e o trem minúsculo, rápido, atravessa tudo aquilo, dobrando à esquerda,
inclinando-se para a direita, muito flexível nas suas grandes vértebras de carros, como uma cobra
entre pedrouços.
Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triunfos e
também os seus sofrimentos e mágoas.
Ainda agora estava ele lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo com a
vista uma grande parte daquela bela, grande e original cidade, capital de um grande país, de que ele
a modos que era e se sentia ser, a alma, consubstanciado os seus tênues sonhos e desejos em versos
discutíveis, mas que a plangência do violão, se não lhes dava sentido, dava um quê de balbucio, de
queixume dorido da pátria criança ainda, ainda na sua formação...
Em que pensava ele? Não pensava só, sofria também. Aquele tal preto continuava na sua mania de
querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival dele,
Ricardo; outros já afirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais -
ingratos! - já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em prol do
levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infância, daquela sua aldeia sertaneja, da casinha
dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitelos... E o queijo? Aquele queijo tão substancial,
tão forte, feio como aquela terra, mas feraz como ela tanto que bastava comer dele uma pequena
fatia para se sentir almoçado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o
Maneco Borges, não lhe predissera o futuro: “Irás longe, Ricardo. A viola. A viola quer teu
coração.”
Por que então aquele encarniçamento, aquele ódio contra ele - ele que trouxera para esta terra de
estrangeiros a alma, o suco, a substância do país!
E as lágrimas lhe saltaram quentes dos olhos afora. Olhou um pouco as montanhas, farejou o mar lá
longe... Era bela a terra, era linda, era majestosa, mas parecia ingrata e áspera no seu granito
onipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das árvores.
E ele estava ali só, só com a sua glória e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só
como um deus ou como um apóstolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.
Sofria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquelas lágrimas que iam cair no solo
indiferente. Por aí, lembrou-se dos famosos versos:

Se choro... bebe o pranto a areia ardente...

Com a lembrança, ele baixou um pouco o olhar à terra e viu, que, no tanque da casa, um tanto
escondida dele, uma rapariga preta lavava. Ela abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o
seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro à pedra, e recomeçava. Teve pena daquela pobre
mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua cor. Veio-lhe um afluxo de ternura e, depois,
pôs-se a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleado no enigma do nosso
miserável destino humano.
A rapariga não o viu, distraída com o trabalho; e se pôs a cantar:
43

Da doçura dos teus olhos
A brisa inveja já tem

Era dele. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher, abraçá-la...
E como eram as cousas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga; era a sua humilde e dorida voz que
vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então à memória aqueles versos do padre Caldas, esse seu
antecessor feliz que teve um auditório de fidalgas:

Lereno alegrou os outros
E nunca teve alegria...

Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter:
- Vai bem, Dona Alice, vai bem! Se não fosse, por que eu lhe pedia bis?
A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
- Não sabia que o senhor estava aí, senão não cantava na vista do senhor.
- Qual o quê! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
- Deus me livre! Para o senhor me “acriticar”...
Embora insistisse muito, a rapariga não quis continuar. As mágoas pareciam ter passado do
pensamento de Ricardo. Veio ao interior do quarto e pôs-se à mesa na tenção de escrever.
O seu quarto tinha o mobiliário mais reduzido possível. Havia uma rede com franjas de rendas, uma
mesa de pinho, sobre ela objetos de escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a
uma parede, o violão na sua armadura de camurça. Havia também uma máquina para fazer café.
Sentou-se e quis começar uma modinha sobre a Glória, essa cousa fugace, que se tem e se pensa
que não se tem, alguma cousa impalpável, incolhível como um sopro, que nos alanceia, queima,
inquieta e abrasa como o Amor.
Tentou começar, dispôs o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha
sido lavrada, baralhada, com a idéia daquele furto que se queria fazer ao seu mérito. Não conseguiu
assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a música zumbir no ouvido.
A manhã ia alta. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a esquentar
e o céu estava de um azul ligeiro”, tênue, fino. Quis sair, procurar um amigo, espairecer com ele,
mas quem? Ainda se o Quaresma... Ah! o Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.
É verdade que ultimamente esse seu amigo se achava pouco interessado pela modinha; mas assim
mesmo compreendia o seu propósito, os fins e o alcance da obra a que ele, Ricardo, se propunha.
Ainda se o major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava a dous mil-
réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. Bateram à porta. Traziam-lhe uma carta.
Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu:
“Meu caro Ricardo - Saúde - Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ela e o
noivo fazem muito gosto que você apareça. Se o amigo não estiver comprometido com alguém,
agarre o violão e venha até cá tomar uma chávena de chá conosco - Seu amigo Albernaz.”
O trovador, à proporção que lia, ia mudando de fisionomia. Até então estava carregada e dura;
quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ela, descia e subia, ia de uma face a
outra. O general não o abandonara; para o respeitável militar, Ricardo Coração dos Outros ainda
era o rei do violão. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um
pouco o violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um ídolo benfazejo.
Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o último brinde havia sido levantado e
todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. Dona Maricota vestia seda malva e o
seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquele tecido caro que parece requerer
corpos elegantes e flexíveis. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ela era alta, de feições
mais regulares que a irmã Ismênia, mas menos interessante e mais comum de temperamento e
alma, embora faceira. Lalá, a terceira filha do general, que já se ajeitava a moça, tinha muito pó-de-
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arroz, estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem
cotado e esperado. Genelício dava o braço à noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha
bem à mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.
Ricardo não os viu passar, pois, ao entrar, a fila estava no general, metido num segundo uniforme
dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem
tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante
Caldas. Fora padrinho e estava irrepreensível na sua casaca do uniforme. As âncoras reluziam como
metais de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e
pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim. Ismênia estava de rosa e
andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando
providências. O Lulu, o único filho do general, impava no seu uniforme do Colégio Militar, cheio
de dourados e cabelos, tanto mais que passara de ano, graças aos empenhos do pai.
O general não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou,
agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um - “sou muito feliz...” - deitando a cabeça de lado e
sorrindo para o chão, sorriso que encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel.
Deram começo às danças e o general, o almirante, o Major Inocêncio Bustamante, que também
viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorário, o Doutor Florêncio, Ricardo e dous
convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.
O general estava satisfeito. Sonhava há tantos anos uma cerimônia daquelas em sua casa e enfim
pela primeira vez via realizado esse anseio.
A Ismênia foi aquela desgraça... O ingrato!... Mas para que recordar?
Os cumprimentos se repetiram.
- É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e enquanto o limpava,
respondeu, olhando com aquele jeito dos míopes:
- Estou muito contente.
Por aí pôs o pince-nez, endireitou o trancelim e continuou:
- Creio que casei bem minha filha: rapaz formado, bem encaminhado e inteligente.
O almirante acudiu:
- E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dois anos primeiro escriturário do
Tesouro, é cousa nunca vista.
- O Genelício não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou Florêncio.
- Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era da amizade do recém-
casado.
De fato, Genelício tinha arranjado a transferência e não fora só isso que o decidira a casar-se.
Tendo escrito uma - Síntese de Contabilidade Pública Científica - viu-se, sem saber como,
cumulado de elogios pela “imprensa desta capital”. O ministro, atendendo ao mérito excepcional da
obra, mandou-lhe dar dous contos de prêmio, tendo sido a edição feita à custa do Estado, na
Imprensa Nacional. Era um grosso volume de quatrocentas páginas, tipo doze, escrito em estilo de
ofício com uma vasta documentação de decretos e portarias, ocupando dous terços do livro.
A primeira frase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente sintético e científico, fora
até muito notada e gabada pelos críticos, não só pela novidade da idéia, como também pela beleza
da expressão.
Dizia assim: “A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente a despesa
e receita do Estado.”
Além do prêmio e da transferência, ele já tinha promessa de ser subdiretor na primeira vaga.
Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante, o general e os convidados novos, o major não pôde
deixar de observar:
- Depois da militar, a melhor carreira é a da Fazenda, não acham?
- Sim... Bem entendido, fez o Doutor Florêncio.
- Eu não quero falar dos formados, apressou-se o major. Esses...
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Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira frase que lhe veio
aos lábios:
- Quando se prospera, todas as profissões são boas.
- Não é assim tanto, obtemperou o almirante, alisando um dos favoritos. Não é para desfazer das
outras, mas a nossa, hein, Albernaz? hein, Inocêncio?
Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou:
- É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um,
grita outro como em Curupaiti, então...
- O senhor esteve lá, general? perguntou o convidado amigo de Genelício.
- Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi - você sabe,
não é, Inocêncio?
- Se estive lá...
- Polidoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores à esquerda e “nós” caímos sobre os paraguaios. Mas
os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
- Foi “seu” Mitre, disse Inocêncio.
- Foi. Atacamos com fúria. Era ribombar de canhões que metia medo, bala por todo o canto, os
homens morriam como moscas... Um inferno!
- Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
Todos se entreolharam admirados, exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai
excepcional.
- Foram os paraguaios, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a nossa
profissão é bela, mas tem as suas “cousas”...
- Isso não quer dizer nada. Também na passagem de Humaitá... ia dizendo o almirante.
- O senhor estava a bordo?
- Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o embarque
equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaitá...
Na sala de visitas as danças continuavam com animação. Era raro que alguém viesse de dentro até
onde eles estavam. Os risos, a música, e o mais que se adivinhava não distraíam aqueles homens
das suas preocupações belicosas.
O general, o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pacíficos, contando batalhas
em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.
Não há como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para
apreciar as narrações de guerra. Ele só vê a parte pitoresca, a parte por assim dizer espiritual das
batalhas, dos encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de somenos. A Morte mesmo,
nas narrações feitas assim, perde a sua importância trágica: três mil mortos, só!!!
De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a cousa ficava
edulcorada, uma guerra bibliothèque rose, guerra de estampa popular, em que não aparecem a
carniçaria, a brutalidade e a ferocidade normais.
Estavam Ricardo, o Doutor Florêncio, o exato empregado como engenheiro das Águas, aqueles
dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das
proezas imaginárias daqueles três militares, um honorário, talvez o menos pacífico dos três, o único
que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira - quando Dona Maricota chegou
sempre diligente, ativa, dando movimento e vida à festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda
inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo
enorme. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido:
- Então, Chico, que é isso? Ficou aí e eu que faça sala, que anime as moças... Pra sala todos!
- Já vamos, Dona Maricota, disse alguém.
- Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, “seu” Caldas, “seu” Ricardo, os senhores!
E foi empurrando um a um pelo ombro.
- Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo, “seu”
Ricardo!
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- Pois não, minha senhora. É uma ordem...
E foram. No caminho o general parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:
- Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
- Vai bem.
- Tem-lhe escrito?
- Às vezes. Eu queria, general...
O general suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cair, e perguntou:
- O quê?
Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma
ligeira hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder as palavras:
- Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vê-lo.
O general esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabelo e disse:
- Isso é difícil, mas você apareça lá, na repartição, amanhã.
E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros acrescentou:
- Estou com saudades dele, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem
nome...
- Vá lá amanhã.
Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada:
- Vocês não vêm!
- Já vamos, fez o general.
E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
- Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem quarenta
anos, que não pego em livro...
Chegaram à sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos
retratos a óleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava
completa. Da mobília não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dançantes.
A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas
casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela, Ricardo pôde
ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os
“serenos”, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o
Tenente Fontes. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a famosa filha do Lemos, dispôs-se a cantar. Foi ao piano, colocou a partitura e começou.
Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem-
educada. Acabou. Palmas gerais, mas frias, soaram.
O Doutor Florêncio que ficara atrás do general, comentou:
- Tem uma bela voz esta moça. Quem é?
- É a filha do Lemos, o Doutor Lemos da Higiene, respondeu o general.
- Canta muito bem.
- Está no último ano do Conservatório, observou ainda Albernaz.
Chegou a vez de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o vilão, afinou-o, correu a escala;
em seguida, tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou com voz grossa:
“Senhoritas, senhores e senhoras.” Parou. Concertou a voz e continuou: “Vou cantar ‘Os teus
braços’. Modinha de minha composição, música e versos. É uma composição terna, decente e de
uma poesia exaltada.” Seus olhos, por aí, quase saíam das órbitas. Emendou: “Espero que nenhum
ruído se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui... to ‘dê-li-
cá-do’. Bem.”
A atenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebundo, macio e longo, como soluço de
onda; depois, houve uma parte rápida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um
andamento e outro, a modinha acabou.
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Aquilo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens.
As palmas foram ininterruptas. O general abraçou-o, Genelício levantou-se e deu-lhe a mão.
Quinota, no seu imaculado vestido de noiva, também.
Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu à sala de jantar. No corredor chamavam-no: “Senhor
Ricardo, Senhor Ricardo!” Voltou-se. “Que ordena minha senhora?” Era uma moça que lhe pedia
uma cópia da modinha.
- Não se esqueça, dizia ela com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão
ternas, tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismênia para me entregar.
A noiva de Cavalcanti aproximava-se e, ouvindo falar em seu nome perguntou:
- Que é Dulce?
A outra explicou-se. Ela aceitou a incumbência e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz
dolente:
- “Seu” Ricardo, quando é que o senhor pretende estar com Dona Adelaide?
- Depois de amanhã, espero eu.
- Vai lá?
- Vou.
- Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...
E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.

III
Golias
No sábado da semana seguinte àquela em que a filha do general recebera como marido o grave e
giboso Genelício, glória e orgulho do nosso funcionalismo público, Olga casara-se. A cerimônia
correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos
parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que
não a encheram lá de satisfação maior que as noivas comuns. Talvez nem mesmo essa ela tivesse.
Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não
encontrar dentro de si motivo para aquele ato, mas, aparentemente, nenhuma vontade estranha à sua
influíra para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta
que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo médico, cheio de talento nas notas e recompensas
escolares, via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na indústria clínica. Não
tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal título um foral de nobreza, equivalente àqueles com
que os autênticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees.
Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro por aí, em algum lugar deste Brasil, o sogro lhe
dera tudo e tudo ele aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e
medalhas, a receber homenagens de um vilão que não “roçou os bancos de uma Academia”.
Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título, o pergaminho; é verdade que foi, não
tanto pelo título, mas pela sua simulação de inteligência, de amor à ciência, de desmedidos sonhos
de sábio. Tal imagem que dele fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inércia da sociedade, a
sua tirania e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ela,
de si para si, pensava que se não fosse este, seria outro a ele igual, e o melhor era não adiar.
Era por isso que ela não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade,
embora sem perceber o constrangimento de um comando fora dela.
Apesar da pompa, esteve longe de ser uma noiva majestosa. Não obstante as origens puramente
européias, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, erecto, com uma fisionomia
irradiante de felicidade; e, desse modo, ela desaparecia dentro do vestido, dos véus e daqueles
atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar. De resto, a sua beleza não era a
grande beleza - aquela que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas
clássicas.
No seu rosto, nada de grego, desse grego autêntico ou de pacotilha, ou também dessa majestade de
ópera lírica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua fisionomia era profunda e
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própria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros, que quase cobriam toda a cavidade orbitária,
fazia fulgurar o seu rosto móbil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade,
malícia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade.
Ao contrário do costume, não saíram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
Quaresma não fora à festa, mandara o leitão e o peru da tradição e escrevera uma longa carta. O
sítio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-
se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, era como se
começasse a desertar da batalha.
O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de Ricardo veio
distraí-lo um pouco, sem desviá-lo contudo dos seus afazeres agrícolas.
Passou um mês com o major, e foi um triunfo. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo
o município o disputava e festejava.
O seu primeiro trabalho foi ir à vila. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de Quaresma e a
estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de
rodagem, se assim se pode chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros,
cortava planícies e rios em toscas pontes. A vila!... Tinha duas ruas principais: a antiga,
determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veio da ligação da velha com a
estrada de ferro. Elas se encontravam em T, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras
partiam delas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até
acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova,
Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro, partia a da
Matriz, que ia ter à igreja, ao alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo jesuítico. À esquerda da
estação, num campo, a Praça da República, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas,
ficava a Câmara Municipal.
Era um grande paralelepípedo de tijolo, cimalha, janela com sacadas de grade de ferro, puro estilo
mestre-de-obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma
natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média.
Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro, Salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O
fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia certos circunstantes, um
deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado.
Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile do Doutor Campos, presidente da
Câmara, festa que teria lugar na quarta-feira próxima.
Chegara sábado e fora passear à vila domingo.
Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída. A concorrência nunca é grande na roça, mas
Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior, linfáticas e tristes, ataviadinhas, cheias de
laços, descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo
entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. Foi na saída da missa
que lhe apresentaram o Doutor Campos.
Era o médico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de “aranha” com a sua filha,
Nair, assistir o ofício religioso.
O trovador e o médico estiveram um instante conversando, enquanto a filha, muito magra, pálida,
com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua.
Quando eles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil.
À festa do Doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a
alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua vitória. Se bem que o major
tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente
nacional. As conseqüências desastrosas do seu re- querimento em nada tinham abalado as suas
convicções patrióticas. Continuavam as suas idéias profundamente arraigadas, tão-somente ele as
escondia, para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens.
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Gozava, portanto, a fulminante vitória de Ricardo, que indicava bem naquela população a
existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos
estrangeiros.
Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Doutor
Campos, Presidente da Câmara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquela manhã até
esperava um dos cavalos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a
Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:
- Major, foi uma boa idéia vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...
- Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são estranhas todas essas cousas.
- Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos oferecem, não devemos rejeitar, não acha?
- Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra.
- Até aí não vou. Olhe, major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu
levantamento moral e intelectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo, você
vai ser deputado”, o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais
desferir os trenos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vaza, major.
- Cada um tem as suas teorias.
- Decerto. Outra cousa, major: conhece o Doutor Campos?
- De nome.
- Sabe que ele é presidente da Câmara?
Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança. O menestrel não notou o
gesto do amigo e emendou:
- Mora daqui a uma légua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele.
- Fazes bem.
- Ele quer conhecê-lo. Posso trazê-lo aqui?
- Podes.
Um camarada do Doutor Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido.
Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora
dous, pois, além do Anastácio, que não era bem um empregado, mas agregado, admitira o
Felizardo.
Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura.
Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre
aquele rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros.
Esvoaçavam tiés-vermelhos, bandos de coleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas
negras no verdor das árvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento,
parece que tinham saído à luz, não somente para a fecundação vegetal mas também para a beleza.
Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fora para auxiliar esse
serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas
pernas, como um símio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma aparência de fraqueza
muscular, não havia ninguém mais valente que ele a roçar. Com isto era um tagarela incansável. De
manhã, quando chegava, aí pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do município.
O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado norte do sítio, que o capão invadira. Obtido
ele, o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervalos batatas-
inglesas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro
estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quisera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno,
eliminando dele os princípios voláteis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais
grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miúdos e folhas, ele removia para longe, onde então
queimaria em coivaras pequenas.
Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas prometia dar
um rendimento maior ao plantio.
Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. Há quem cante, ele
falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção.
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- Essa gente anda acesa por aí, disse Felizardo logo que o major chegou.
Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa, raras não. Anastácio era
silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa
postura hierática de uma pintura mural tebana. O major perguntou ao Felizardo:
- Que é que há, Felizardo?
O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e
respondeu com a sua fala branda e chiante:
- Negócio de política... “Seu” Tenente Antonino quase briga ontem com “seu dotô Campo”.
- Onde?
- Na estação.
- Por quê?
- Negócio de partido. Pelo que ouvi: “seu” Tenente Antonino é pelo “governadô” e “seu dotô
Campo” é pelo “senadô”... Um “sarcero”, patrão!
- E você, por quem é?
Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a
remover. Anastácio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador.
Respondeu afinal:
- Eu! Sei lá... Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Isso é bom pro “sinhô”.
- Eu sou como você, Felizardo.
- Quem me dera, meu “sinhô”. Inda “trasantonte” ouvi “dizê” que o patrão é amigo do “marechá”.
Afastou-se com o pau; e, quando voltou, Quaresma indagou assustado:
- Quem disse?
- Não sei, não “sinhô”. Ouvi a modo de “dizê” lá na venda do espanhol, tanto assim que “doutô
Campo tá” inchado que nem sapo com a sua amizade.
- Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a
ninguém... Qual amigo!
- “Quá!” fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão “tá” é varrendo a testada.
Apesar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a idéia de
que ele fosse amigo do Marechal Floriano. “Conheci-o no meu emprego” - dizia o major; Felizardo
sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra.”
Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquilo? Demais, as palavras
de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo
fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos; os entusiasmos dele,
entretanto, junto à vontade de ser bom amigo, podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum
perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em
breve, porém, esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. À tarde, quando foi jantar, já nem mais se
lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem
sombra alguma de cogitações por parte dele.
Dona Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se à cabeceira; Quaresma à
direita e à esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a língua do trovador.
- Gostou muito do passeio, Senhor Ricardo?
Não havia meio dela dizer “seu”. A sua educação de “senhora” de outros tempos não lhe permitia
usar esse plebeísmo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portuguesa, dizer “senhor” e
continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
- Muito. Que lugar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.
E ele tomava aquela atitude de arroubo; uma fisionomia de máscara de trágico grego e uma voz
cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
- Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
- Hoje acabei uma modinha.
- Como se chama? indagou Dona Adelaide.
- “Os lábios da Carola”.
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- Bonito! Já fez a música?
Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo à boca; deixou-o suspenso
entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção:
- A música, minha senhora, é a primeira cousa que faço.
- Hás de no-la cantar logo.
- Pois não, major.
Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros saíram a passear no sítio. Fora essa a única
concessão que ao amigo fizera Policarpo, no tocante ao regime de seus trabalhos agrícolas. Levava
sempre o pedaço de pão, que esfarelava em migalhas no galinheiro, para ver a atroz disputa entre as
aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquelas vidas, criadas, mantidas e protegidas para
sustento da sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e
ávidos, e demorava-se a apreciar a estupidez do peru, imponente, fazendo roda, a dar estouros
presunçosos. Em seguida ia ao chiqueiro; assistia Anastácio dar a ração, despejando-a nos cochos.
O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se, dificilmente, e solenemente vinha
mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os bacorinhos grunhiam e grunhindo vinham
com a mãe chafurdar-se na comida.
A avidez daqueles animais era deveras repugnante, mas os seus olhos tinham uma longa doçura
bem humana que os fazia simpáticos.
Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava minutos
esquecidos a contemplá-las numa demorada interrogação muda. Sentavam-se a um tronco de
árvore; e Quaresma olhava o céu alto, enquanto Coração dos Outros contava qualquer história.
A tarde ia adiantada. A terra já começava a amolecer, pelo fim daquele beijo ardente e demorado do
sol. Os bambus suspiravam; as cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos,
o major voltou-se. Padrinho! Olga!
Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro, com as
mãos presas. E vieram aquelas estúpidas e tocantes frases de encontros satisfeitos: Quando
chegaste? Não esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous; Anastácio
tirara o chapéu e olhava a “sinhazinha”, com o seu terno e vazio olhar de africano.
Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passou a vista pelos quatro pontos
e Quaresma perguntou:
- Quedê teu marido?
- O doutor?... Está lá dentro.
O marido tinha resistido muito em acompanhá-la até ali. Não lhe parecia bem aquela intimidade
com um sujeito sem título, sem posição brilhante e sem fortuna. Ele não compreendia como o seu
sogro, apesar de tudo um homem rico, de outra esfera, tinha podido manter e estreitar relações com
um pequeno empregado de uma repartição secundária, e até fazê-lo seu compadre! Que o contrário
se desse, era justo; mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade
nacional. Mas, em definitivo, quando Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso respeito, de
uma particular consideração, ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram trocadas
e satisfeitas.
Dona Adelaide, mulher velha, do tempo em que o Império armava essa nobreza escolar, possuía em
si uma particular reverência, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difícil demonstrá-lo
quando se viu diante do Doutor Armando Borges, de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia.
Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquele seu
sobre-humano prestígio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, à
proporção que conversava, talvez para que o efeito não se dissipasse, virava com a mão direita o
grande anelão “simbólico”, o talismã, que cobria a falange do dedo indicador esquerdo, ao jeito de
marquise.
Conversaram muito. O jovem par contou a agitação política do Rio, a revolta da fortaleza de Santa
Cruz; Dona Adelaide, a epopéia da mudança, móveis quebrados, objetos partidos. Pela meia-noite
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todos foram dormir com uma alegria particular, enquanto os sapos levantavam no riacho defronte o
seu grave hino à transcendente beleza do céu negro, profundo e estrelado.
Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o
doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o título. Era o O Município,
órgão local, hebdomadário, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; ele
aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Pôs o pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e
descobriu o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente.
Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se “Intrusos” e consistia em uma tremenda
descompostura aos não nascidos no lugar que moravam nele - “verdadeiros estrangeiros que se
vinham intrometer na vida particular e política da família curuzuense, perturbando-lhe a paz e a
tranqüilidade”.
Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre
versos.
Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas:

POLÍTICA DE CURUZU

Quaresma, meu bem, Quaresma!
Quaresma do coração!
Deixa as batatas em paz
Deixa em paz o feijão.

Jeito não tens para isso
Quaresma, meu cocumbi!
Volta à mania antiga
De redigir em tupi.

Olho vivo.

O major ficou estuporado. Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não atinava, não achava o
motivo e o fundo de semelhante ataque. A irmã aproximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma
estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: “Lê isto, Adelaide.”
A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. Ela tinha aquela
ampla maternidade das solteironas; pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da
mulher pelas dores dos outros. Enquanto ela lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com
política? E coçava os cabelos já bastante encanecidos.
Dona Adelaide disse então docemente:
- Sossega, Policarpo. Por isso só?... Ora!
A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho:
- O senhor se meteu algum dia nessa política daqui?
- Eu nunca!... Vou até declarar que...
- Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a irmã:
- Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações. Notaram a
alteração de Quaresma. Estava pálido, tinha os olhos úmidos e coçava sucessivamente a cabeça.
- Que há, major? indagou o troveiro.
As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo depois contou o que ouvira
na vila. Acreditavam todos que o major viera para ali no intuito de fazer política, tanto assim que
dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuía remédios homeopáticos... O
Antonino afirmava que havia de desmascarar semelhante tartufo.
- E não desmentiste? perguntou Quaresma.
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Ricardo afirmou que sim, mas o escrivão não quisera acreditar nele e reiterara os seus propósitos de
ataque.
O major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de acordo com seu gênio, incubou nos
primeiros tempos a impressão, e, enquanto estiveram com ele os seus amigos, não demonstrou
preocupação.
Olga e o marido passaram no “Sossego” cerca de quinze dias. O marido, ao fim de uma semana, já
parecia cansado. Os passeios não eram muitos. Em geral, os nossos lugarejos célebres, assim como
na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade histórica.
Em Curuzu, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas léguas da casa de
Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. O Doutor
Campos já travara relações com o major e, graças a ele, houve cavalos e silhão que também
permitisse à moça ir à cachoeira.
Foram de manhã, o presidente da Câmara, o doutor, sua mulher e a filha de Campos. O lugar não
era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze metros de altura, despenhava-se em três partes,
pelo flanco da montanha abaixo. A água estremecia na queda, como que se enrodilhava e vinha
pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que
toda a cascata vivia sob uma abóboda de árvores. O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre
a água ou sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde
mais claro, pousados nos galhos eram como as incrustações daquele salão fantástico.
Olga pôde ver tudo isso bem à vontade, andando de um para outro lado, porque a filha do
presidente era de um silêncio de túmulo e o pai desta tomava com o seu marido informações sobre
novidades medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o tártaro emético?
O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o
ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros idéia de que eram
felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e
não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de
varas, como o esqueleto de um doente. Por que ao redor dessas casas não havia culturas, uma horta,
um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era
raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador.
Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um
milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não podia ser preguiça
só ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar
relativamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda a parte, os casais, as famílias, as tribos,
plantam um pouco algumas cousas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões
desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles
párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!...
Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos, indagaria,
observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. Aquilo era uma situação do
camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha face
humana e voz articulada...
Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho, aproveitou a ocasião para interrogar a
respeito o tagarela Felizardo. A faina do roçado ia quase no fim; o grande trato da terra estava
quase inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a colina que formava a lombada do sítio.
Olga encontrou o camarada cá embaixo, cortando a machado as madeiras mais grossas; Anastácio
estava no alto, na orla do mato, juntando, a ancinho, as folhas caídas. Ela lhe falou:
- Bons-dias, “sá dona”.
- Então trabalha-se muito, Felizardo?
- O que se pode.
- Estive ontem no Carico, bonito lugar... Onde é que você mora, Felizardo?
- É doutra banda, na estrada da vila.
- É grande o sítio de você?
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- Tem alguma terra, sim, senhora, “sá dona”.
- Você por que não planta para você?
- “Quá, sá dona!” O que é que a gente come?
- O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro.
- “Sá dona tá” pensando uma cousa e a cousa é outra. Enquanto planta cresce, e então? “Quá, sá
dona”, não é assim.
Deu uma machadada; o tronco escapou; colocou-o melhor no picador e, antes de desferir o
machado, ainda disse:
- Terra não é nossa... E “frumiga”?... Nós não “tem” ferramenta... isso é bom para italiano ou
“alamão”, que o governo dá tudo... Governo não gosta de nós...
Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas partes, quase iguais, de um
claro amarelado, onde o cerne escuro começava a aparecer.
Ela voltou querendo afastar do espírito aquele desacordo que o camarada indicara, mas não pôde.
Era certo. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só para os nacionais; para os
outros todos os auxílios e facilidades, não contando com a sua anterior educação e apoio dos
patrícios.
E a terra não era dele? Mas de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela
vira até fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que esse acaparamento, esses latifúndios
inúteis e improdutivos?
A fraqueza de atenção não lhe permitiu pensar mais no problema. Foi vindo para casa, tanto mais
que era hora de jantar e a fome lhe chegava.
Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquele perdera um pouco da sua morgue; havia
mesmo ocasião em que era até natural. Quando ela chegou, o padrinho exclamava:
- Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal idéia! Pois se temos as terras mais férteis do
mundo!
- Mas se esgotam, major, observou o doutor.
Dona Adelaide, calada, seguia com atenção o crochet que estava fazendo; Ricardo ouvia, com os
olhos arregalados; e Olga intrometeu-se na conversa:
- Que zanga é essa, padrinho?
- É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos... Isto é até uma
injúria!
- Pois fique certo, major, se eu fosse o senhor, aduziu o doutor, ensaiava uns fosfatos...
- Decerto, major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar violão, não queria aprender
música... Qual música! Qual nada! A inspiração basta!... Hoje vejo que é preciso... É assim,
resumia ele.
Todos se entreolharam, exceto Quaresma que logo disse com toda a força d’alma:
- Senhor doutor, o Brasil é o país mais fértil do mundo, é o mais bem-dotado e as suas terras não
precisam “empréstimos” para dar sustento ao homem. Fique certo!
- Há mais férteis, major, avançou o doutor.
- Onde?
- Na Europa.
- Na Europa!
- Sim, na Europa. As terras negras da Rússia, por exemplo.
O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante:
- O senhor não é patriota! Esses moços...
O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão. À noite, o
menestrel cantou a sua última produção: “Os Lábios da Carola.” Suspeitava-se que Carola fosse
uma criada do Doutor Campos; mas ninguém aludiu a isso. Ouviram-no com interesse e ele foi
muito aclamado. Olga tocou no velho piano de Dona Adelaide; e, antes das onze horas, estavam
todos recolhidos.
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Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, pôs-se a ler um
velho elogio das riquezas e opulências do Brasil.
A casa estava em silêncio; do lado de fora, não havia a mínima bulha. Os sapos tinham suspendido
um instante a sua orquestra noturna. Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer
esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinário! pensou. Da despensa, que ficava
junto a seu aposento, vinha um ruído estranho. Apurou o ouvido e prestou atenção. Os sapos
recomeçaram o seu hino. Havia vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia à outra,
num dado instante todas se juntaram num uníssono sustentado. Suspenderam um instante a música.
O major apurou o ouvido; o ruído continuava. Que era? Eram uns estalos tênues; parecia que
quebravam gravetos, que deixavam outros cair ao chão... Os sapos recomeçaram; o regente deu
uma martelada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas
cinco páginas. Os batráquios pararam; a bulha continuava. O major levantou-se, agarrou o castiçal
e foi à dependência da casa donde partia o ruído, assim mesmo como estava, em camisa de dormir.
Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma ferroada no peito do pé. Quase
gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a fúria à
sua pele magra. Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no assoalho, lhe
tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes
tinham sido deixados abertos por inadvertência. O chão estava negro, e carregadas com os grãos,
elas, em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterrânea.
Quis afugentá-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e cada vez mais o exército
aumentava. Veio uma, mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés,
subindo pelo seu corpo. Não pôde agüentar, gritou, sapateou e deixou a vela cair.
Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquele ínfimo inimigo que,
talvez, nem mesmo à luz radiante do sol, o visse distintamente...

IV
“Peço Energia, Sigo Já”
Dona Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro anos mais que ele. Era uma bela velha, com
um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquela pátina da grande velhice, uma espessa
cabeleira já inteiramente amarelada e um olhar tranqüilo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de
inteligência lúcida e positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; contudo, nunca
houve entre eles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ela não entendia
nem procurava entender a substância do irmão, e sobre ele em nada reagia aquele ser metódico,
ordenado e organizado, de idéias simples, médias e claras.
Ela já atingira aos cinqüenta e ele para lá marchava; mas ambos tinham ar saudável, poucos
achaques, e prometiam ainda muita vida. A existência calma, doce e regrada que tinham levado até
ali concorrera muito para a boa saúde de ambos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos
quarenta e ela nunca tivera qualquer.
Para Dona Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma casa, jantar e almoço,
vestuário, tudo modesto, médio. Não tinha ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara
príncipes, belezas, triunfos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu
necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ela sempre se sentiu completa.
O seu aspecto tranqüilo e o sossego dos seus olhos verdes, de um brilho lunar de esmeralda,
emolduravam e realçavam naquele interior familiar a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão.
Não se vá supor que Quaresma andasse transtornado como um doido. Felizmente não. Na aparência
até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se
examinassem os seus hábitos, gestos e atitudes logo se havia de ver que o sossego e a placidez não
moravam no seu pensamento.
Ocasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao longe o horizonte, perdido em
cisma; outras, isso quando no trabalho da roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o
olhar no chão, demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava depois um
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muxoxo, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação
ou uma frase.
Anastácio, em tais instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O antigo escravo não os sabia
mais fixar, e nada dizia; Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custódio com o Manduca
da venda; e o trabalho marchava.
Inútil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a não ser no jantar e nas primeiras
horas do dia, eles viviam separados. Quaresma na roça, nas plantações, e ela superintendendo o
serviço doméstico.
As outras pessoas de suas relações não podiam também notar as preocupações absorventes do
major, pelo simples motivo de que estavam longe.
Ricardo havia seis meses que não lhe visitara e da afilhada e do compadre as últimas cartas que
recebera datavam de uma semana, não vendo aquela há tanto tempo, quanto ao trovador, e aquele
desde quase um ano, isto é, o tempo em que estava no “Sossego”.
Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo aproveitamento de suas terras. Os
seus hábitos não foram mudados e a sua atividade continuava sempre a mesma. É verdade que
deixara de parte os instrumentos de meteorologia.
O higrômetro, o barômetro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações
registradas num caderno. Dera-se mal com eles. Fosse inexperiência e ignorância das bases teóricas
deles, fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia, baseada em
combinações dos seus dados, saía errada. Se esperava tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava
chuva, lá vinha seca.
Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos, com aquele grosso e
cavernoso sorriso de troglodita:
- “Quá” patrão! Isso de chuva vem quando Deus “qué”.
O barômetro aneróide continuava a um canto a dançar o seu ponteiro sem ser percebido; o
termômetro de máxima e mínima, legítimo Casella, jazia pendurado na varanda sem receber um
olhar amigo; a caçamba do pluviômetro estava no galinheiro e servia de bebedouro às aves; só o
anemômetro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no alto do mastro, como se
protestasse contra aquele desprezo pela ciência que Quaresma representava.
Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, embora tendo deixado de
ser pública, lavrava ocultamente. Havia no seu espírito e no seu caráter uma vontade de acabá-la de
vez, mas como? Se não o acusavam, se não articulavam nada contra ele diretamente? Era um
combate com sombras, com aparências, que seria ridículo aceitar.
De resto, a situação geral que o cercava, aquela miséria da população campestre que nunca
suspeitara, aquele abandono de terras à improdutividade encaminhavam sua alma de patriota
meditativo a preocupações angustiosas.
Via o major com tristeza não existir naquela gente humilde sentimento de solidariedade, de apoio
mútuo. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados, isolados, em famílias geralmente
irregulares, sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, tinham bem perto
o exemplo dos portugueses que, unidos aos seis e mais, conseguiam em sociedade cultivar a arado
roças de certa importância, lucrar e viver. Mesmo o velho costume do “moitirão” já se havia
apagado.
Como remediar isso?
Quaresma desesperava...
A tal afirmação de falta de braços pareceu-lhe uma afirmação de má fé ou estúpida, e estúpido ou
de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares, sem se preocupar com os que já
existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de gado, fossem
introduzidas mais três, para aumentar o estrume!...
Pelo seu caso, ele via bem as dificuldades, os óbices de toda a sorte que havia para fazer a terra
produtiva e remunerada. Um fato veio mostrar-lhe com eloqüência um dos aspectos da questão.
Vencendo a erva-de-passarinho, os maus-tratos e o abandono de tantos anos, os abacateiros de suas
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terras conseguiram frutificar, fracamente é verdade, mas de forma superior às necessidades de sua
casa.
A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra,
sempre mãe e sempre virgem. Tratou de vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro
que os queria comprar por preços ínfimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. Andou de
porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Senhor Azevedo
no Mercado, o rei das frutas. Lá foi.
- Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
- Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela dúzia
cinco mil-réis.
- Em porção, o senhor sabe que... É isso... Enfim, se quer mande-os...
Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôs uma das mãos na cava do colete e quase de costas
para o major:
- É preciso vê-los... O tamanho influi...
Quaresma os mandou e, quando lhe veio o dinheiro, teve a satisfação orgulhosa de quem acaba de
ganhar uma grande batalha imortal. Acariciou uma por uma aquelas notas encardidas, leu-lhes bem
o número e a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma mesa e muito tempo levou
sem ânimo de trocá-las.
Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, o custo dos caixões, o salário
dos auxiliares e, após esse cálculo que não era laborioso, teve a evidência de que ganhara mil e
quinhentos réis, nem mais nem menos. O Senhor Azevedo tinha-lhe pago pelo tanto a quantia com
que se compra uma dúzia.
Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e ele viu naquele ridículo lucro objeto para maior
contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.
Foi, portanto, com redobrada atividade que se pôs ao trabalho. Para o ano, o lucro seria maior.
Tratava-se agora de limpar as fruteiras. Anastácio e Felizardo continuavam ocupados nas grandes
plantações; contratou um outro empregado para ajudá-lo no tratamento das velhas flores frutíferas.
Foi, pois, com o Mané Candeeiro que ele se pôs a serrar os galhos das árvores, os galhos mortos e
aqueles em que a erva daninha segurava as suas raízes. Era árduo e difícil o trabalho. Tinham às
vezes que subir às grimpas para a extirpação do galho atingido; os espinhos rasgavam as roupas e
feriam as carnes; e em muitas ocasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o
camarada.
Mané Candeeiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de caça; mas cantava que nem
passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingênuas, onde com surpresa o major
não via entrar a fauna, a flora locais, os costumes das profissões roceiras. Eram vaporosamente
sensuais e muito ternas, melosas até; por acaso lá vinha uma em que um pássaro local entrava;
então o major escutava:

Eu vou dar a despedida
Como deu o bacurau,
Uma perna no caminho
Outra no galho de pau.

Este bacurau que entrava aí satisfazia particularmente às aspirações de Quaresma. A observação
popular já começava a interessar-se pelo espetáculo ambiente, já se emocionava com ele e a nossa
raça deitava, portanto, raízes na grande terra que habitava. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de
São Cristóvão. Felizardo dizia que Mané Candeeiro era um mentiroso, pois todas aquelas caçadas
de caititus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poético, principalmente no
desafio: o moleque é bom!
Ele era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amolecidas pelo
sangue africano.
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Quaresma procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços; mas,
sinceramente, não a encontrou.
Com auxílio de Mané Candeeiro foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fruteiras daquele
velho sítio abandonado há quase dez anos. Quando o serviço ficou pronto, ele viu com tristeza
aquelas velhas árvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... Parecia sofrer e ele
se lembrou das mãos que as tinham plantado há vinte ou trinta anos, escravos, talvez, banzeiros e
desesperançados!...
Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdecesse, e o renascimento das árvores como
que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tiés-
vermelhos, com o seu pio pobre, espécie de ave tão inútil e tão bela de plumas que parece ter
nascido para os chapéus das damas; as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no chão
capinado; pelo correr do dia, eram os sanhaçus a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens
de coleiros; e de tarde como que todos eles se reuniam, piando, cantando, chilreando, pelas altas
mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do
velho Major Quaresma.
Não durou muito essa alegria. Um inimigo apareceu inopinadamente, com a rapidez ousadíssima de
um general consumado. Até ali ele se mostrara tímido, parecia que somente mandava
esclarecedores.
Desde aquele ataque às provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas
reapareceram; mas, naquela manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a
alma, e ficou sem ação e as lágrimas lhe vieram aos olhos.
O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez de criança, crescera
cerca de meio palmo acima da terra; o major até mandara buscar o sulfato de cobre para a solução
em que ia lavar a batata-inglesa a plantar nos intervalos dos pés.
Toda a manhã, ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de
coma cor de vinho, oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais. Até os tenros colmos
tinham sido cortados e levados para longe! “A modo que é obra de gente” disse Felizardo;
entretanto, tinham sido as saúvas, os terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima
do trabalho com uma rapacidade turca... Era preciso combatê-los. Quaresma pôs-se logo em campo,
descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal.
Passaram-se dias; os inimigos pareciam derrotados, mas, certa noite, indo ao pomar para melhor
apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as
folhas mortas das árvores... Um estalido... E era perto... Acendeu um fósforo e o que viu, meu
Deus! Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos
troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e
vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam; nada de atropelos, de
confusão, de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas
cortavam as folhas pelo pecíolo; cá embaixo, outras serravam-nas em pedaços e afinal eram
carregadas por terceiras, levantando-as acima da descomunal cabeça, em longas fileiras pelo trilho
limpo, aberto entre a erva rasteira.
Houve um instante de desânimo na alma do major. Não tinha contato com aquele obstáculo nem o
supusera tão forte. Agora via bem que era a uma sociedade inteligente, organizada, ousada e tenaz
com quem se tinha de haver. Veio-lhe então à lembrança aquela frase de Saint-Hilaire: se nós não
expulsássemos as formigas, elas nos expulsariam.
O major não estava lembrado ao certo se eram essas as palavras, mas o sentido era, e ficou
admirado que só agora ela lhe ocorresse.
No dia seguinte, tinha recobrado o ânimo. Comprou ingredientes e ei-lo mais o Mané Candeeiro a
abrir picadas, a fazer esforços de sagacidade, para descobrir os redutos centrais, as “panelas” dos
insetos terríveis. Então era como se os bombardeassem: o sulfeto queimava, estourava em tiros
seguidos, mortíferos, letais!
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E daí em diante, foi uma batalha sem tréguas. Se aparecia uma abertura, um “olho”, logo se lhe
aplicava o formicida, pois, do contrário, nenhuma plantação era possível, tanto mais que extintos os
das suas terras, não tardariam os formigueiros das vizinhanças ou dos logradouros públicos a deitar
canículos para o seu terreno.
Era um suplício, um castigo, uma espécie de vigilância a dique holandês e Quaresma viu bem que
só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um acordo entre os cultivadores, podia levar a
efeito a extinção daquele flagelo pior que a saraiva, que a geada, que a seca, sempre presente,
inverno ou verão, outono ou primavera.
Não obstante essa luta diária, o major não desanimou e pôde colher alguns produtos das plantações
que tinha feito. Se por ocasião das frutas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda
ela foi quando viu partir para a estação, em sucessivas carretas, as abóboras, os aipins, as batatas-
doces, em cestos cobertos com sacos cosidos. Os frutos, em parte, eram de outras mãos; as árvores
não tinham sido plantadas por ele; mas aquilo não, vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu
trabalho!
Ele ainda foi ver aqueles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a
glória e para a vitória. Recebeu o dinheiro dias depois, contou-o e esteve deduzindo os lucros.
Não foi à roça nesse dia; o trabalho de guarda-livros roubou o de cultivador. A sua atenção, já um
tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo meio-dia, pôde dizer à irmã:
- Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
- Não. Menor do que o dos abacates?
- Um pouco mais.
- Então... Quanto?
- Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando sílaba por sílaba.
- O quê?
- Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil e quinhentos.
Dona Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois,
levantando o olhar:
- Homem, Policarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as formigas!
- Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar a agricultura,
aproveitar as nossas terras feracíssimas...
- É isto... Queres sempre ser a abelha-mestra... Já viste os grandes fazerem esses sacrifícios?... Vê
lá se fazem! Histórias... Metem-se no café que tem todas as proteções...
- Mas, faço eu.
A irmã prestou mais atenção à costura, Policarpo levantou-se, foi até a janela que dava para o
galinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Ele concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:
- Oh! Adelaide! Aquilo não é uma galinha morta?...
A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até à janela e verificou com a vista:
- É... É já a segunda que morre hoje.
Após esta leve conversa, Quaresma voltou à sua sala de estudos. Meditava grandes reformas
agrícolas. Mandara buscar catálogos e ia examiná-los. Tinha já em mente uma charrua dupla, um
capinador mecânico, um semeador, um destocador, grades, tudo americano, de aço, dando o
rendimento efetivo de vinte homens. Até então, não quisera essas inovações; as terras mais ricas do
mundo não precisavam desses processos, que lhe pareciam artificiais, para produzir; estava, porém,
agora disposto a empregá-los como experiência. Aos adubos, entretanto, o seu espírito resistia.
Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia a Quaresma uma profanação estar a empregar
nitratos, fosfatos ou mesmo estrume comum, numa terra brasileira... Uma injúria!
Quando se convencesse de que eram necessários, parecia-lhe que todo o seu sistema de idéias ia
por terra e os móveis de sua vida desapareceriam. Estavam assim a escolher arados e outros
“Planets”, “Bajacs” e “Brabants” de vários feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe anunciou a
visita do Doutor Campos.
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O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão e o seu grande corpo. Era alto e gordo,
pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, quase à flor do rosto, uma testa média e reta; o nariz,
malfeito. Um tanto trigueiro, cabelos corridos e já grisalhos, era o que se chama por aí um caboclo,
embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera em Curuzu, era da Bahia ou de Sergipe, habitava,
porém, o lugar há mais de vinte anos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher e à sua
atividade clínica. Com esta, não gastava grande energia mental: tendo de cor uma meia dúzia de
receitas, ele, desde muito, conseguira enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário.
Presidente da Câmara, era das pessoas mais consideráveis de Curuzu, e Quaresma o estimava
particularmente pela sua familiaridade, pela sua afabilidade e simplicidade.
- Ora viva, major! Como vai isto por aí? Muita formiga? Lá em casa já não há mais.
Quaresma respondeu com menos entusiasmo e jovialidade, mas contente com a alegria
comunicativa do doutor. Ele continuava a falar com desembaraço e naturalidade:
- Sabe o que me traz aqui, major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obséquio seu.
O major não se espantou; simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos.
- Como o major sabe...
Agora a sua voz era doce, flexível, sutil; as palavras caíam-lhe da boca adocicadas, dobravam-se,
coleavam-se:
- Como o major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A vitória é “nossa”. Todas as
mesas estão conosco, exceto uma... Aí mesmo, se o major quiser...
- Mas, como? se eu não sou eleitor, não me meto, nem quero meter-me em política? perguntou
Quaresma ingenuamente.
- Exatamente por isso, disse o doutor com voz forte; e em seguida brandamente: a seção funciona
na sua vizinhança, é ali, na escola, se...
- E daí?
- Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o major quer responder (é melhor já) que
não houve eleição... Quer?
Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavanhaque e respondeu claramente,
firmemente:
- Absolutamente não.
O doutor não se zangou. Pôs mais unção e macieza na voz, aduziu argumentos: que era para o
partido, o único que pugnava pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexível; disse que não,
que lhe eram absolutamente antipáticas tais disputas, que não tinha partido e mesmo que tivesse
não iria afirmar uma cousa que ele não sabia ainda se era mentira ou verdade.
Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre cousas banais e despediu-se
com o ar amável, com a jovialidade mais sua que era possível.
Isto se passou na terça-feira, naquele dia de luz fosca e irritante. À tarde houve trovoada, choveu
muito. O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o major foi surpreendido com a visita de
um sujeito com um uniforme velho e lamentável, portador de um papel oficial para ele, proprietário
do “Sossego”, conforme mesmo disse o tal homem fardado.
Em virtude das posturas e leis municipais, rezava o papel, o Senhor Policarpo Quaresma,
proprietário do sítio “Sossego”, era intimado, sob as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e
capinar as testadas do referido sítio que confrontavam com as vias públicas.
O major ficou um tempo pensando. Julgava impossível uma tal intimação. Seria mesmo?
Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assinatura do Doutor Campos. Era certo... Mas que
absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil e duzentos metros, pois seu
sítio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de
oitocentos metros - era possível!?
A antiga corvéia!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sítio. Consultando a irmã, ela lhe
aconselhou que falasse ao Doutor Campos. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com
ele dias antes.
- Mas és tolo, Policarpo. Foi ele mesmo...
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A luz se lhe fez no pensamento... Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas
mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de
suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhe a iniciativa e a
independência, abatendo-as e desmoralizando-as.
Pelos seus olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas que se encostavam
nos portais das vendas preguiçosamente; viu também aquelas crianças maltrapilhas e sujas, d’olhos
baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquelas terras abandonadas, improdutivas,
entregues às ervas e insetos daninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, ativo e
trabalhador, sem ânimo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe
passava pelas mãos - este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do
relâmpago; e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.
Vinha viva e alegre. Contava pequenas histórias de sua vida, a viagem próxima do papai à Europa,
o desespero do marido no dia em que saiu sem anel, pedia notícias do padrinho, de Dona Adelaide
e, sem desrespeito, recomendava à irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de
arminho da “Duquesa”.
A “Duquesa” era uma grande pata branca, de penas alvas e macias ao olhar, que, pela lentidão e
majestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme, merecera de Olga esse apelido nobre. O
animal tinha morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas dúzias de patos,
levara a “Duquesa” também. Era uma espécie de paralisia que tomava as pernas, depois o resto do
corpo. Três dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico colado ao chão, atacada pelas
formigas, o animal só dava sinal de vida por uma lenta oscilação do pescoço em torno do bico,
espantando as moscas que a importunavam na sua última hora.
Era de ver como aquela vida tão estranha à nossa, naquele instante penetrava em nós e sentíamos-
lhe o sofrimento, a agonia e a dor.
O galinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou galinhas, perus, patos; ora sobre uma
forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua população a menos de metade.
E não havia quem soubesse curar. Numa terra cujo governo tinha tantas escolas que produziam
tantos sábios, não havia um só homem que pudesse reduzir com as suas drogas ou receitas aquele
considerável prejuízo.
Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador entusiástico dos primeiros
meses; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propósitos. Adquiriu
compêndios de veterinária e até já tratava de comprar as máquinas agrícolas descritas nos
catálogos.
Uma tarde, porém, estava à espera da junta de bois que encomendara para o trabalho do arado,
quando lhe apareceu à porta um soldado de polícia com um papel oficial. Ele se lembrou da
intimação municipal. Estava disposto a resistir, não se incomodou muito.
Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da coletoria, cujo escrivão,
Antonino Dutra, conforme estava no papel, intimava o Senhor Policarpo Quaresma a pagar
quinhentos mil-réis de multa, por ter enviado produtos de sua lavoura sem pagamento dos
respectivos impostos.
Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as
cousas gerais, levado pelo seu patriotismo profundo.
A quarenta quilômetros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas?
Depois de Turgot, da Revolução, ainda havia alfândegas interiores?
Como era possível fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopólio
dos atravessadores do Rio se juntavam as exações do Estado, como era possível tirar da terra a
remuneração consoladora?
E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-
lhe de novo, mais tétrico, mais sombrio, mais lúgubre; e anteviu a época em que aquela gente teria
de comer sapos, cobras, animais mortos, como em França os camponeses, em tempos de grandes
reis.
62
Quaresma veio a recordar-se do seu tupi, do seu folklore, das modinhas, das suas tentativas
agrícolas - tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.
Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessário refazer a administração.
Imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, removendo todos esses óbices, esses entraves,
Sully e Henrique IV, espalhando sábias leis agrárias, levantando o cultivador... Então sim! O
celeiro surgiria e a pátria seria feliz.
Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar à estação, e lhe disse:
- Seu patrão, amanhã, não venho “trabaiá”.
- Por certo; é dia feriado... A Independência.
- Não é por isso.
- Por que então?
- Há “baruio” na Corte e dizem que vão “arrecrutá”. Vou pro mato... Nada!
- Que barulho?
- “Tá” nas “foias”, sim “sinhô”.
Abriu o jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e
intimado ao Presidente a sair do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um
governo forte, até à tirania... Medidas agrárias... Sully e Henrique IV...
Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse à
irmã, tomou o chapéu, e dirigiu-se à estação.
Chegou ao telégrafo e escreveu:
“Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já. - Quaresma.”

V
O Trovador
- Decerto, Albernaz, não é possível continuar assim... Então, mete-se um sujeito num navio, assesta
os canhões pra terra e diz: sai daí “seu” presidente; e o homem vai saindo?... Não! É preciso um
exemplo...
- Eu penso também da mesma maneira, Caldas. A República precisa ficar forte, consolidada... Esta
terra necessita de governo que se faça respeitar... É incrível! Um país como este, tão rico, talvez o
mais rico do mundo, é, no entanto, pobre, deve a todo o mundo... Por quê? Por causa dos governos
que temos tido que não têm prestígio, força... É por isso.
Vinham andando, à sombra das grandes e majestosas árvores do parque abandonado; ambos
fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto intervalo, continuou:
- Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por aí, que o não chamasse de
“banana” e outras cousas... Saía no carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se
como um intruso.
- E era um bom homem, observou o almirante. Amava o seu país... Deodoro nunca soube o que fez.
Continuavam a andar. O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos
os lados, acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:
- Morreu arrependido... Nem com a farda quis ir para a cova!... Aqui para nós que ninguém nos
ouve: foi um ingrato; o imperador tinha feito tanto por toda a família, não acha?
- Não há dúvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: estávamos melhor naquele
tempo, digam lá o que disserem...
- Quem diz o contrário? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? um Rio Branco?
- E mais justiça mesmo, disse com firmeza o almirante. O que eu sofri, não foi por causa do
“velho”, foi a canalha... Demais, tudo barato...
- Eu não sei, disse Albernaz com particular acento, como há ainda quem se case... Anda tudo pela
hora da morte!
Eles olharam um instante as velhas árvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando.
Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre
árvores tão soberbas, tão belas, tão tranqüilas e seguras de si, como aquelas que espalhavam sob os
63
seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em
terra própria, delas, da qual nunca sairiam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e
esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. O
solo sobre o qual cresciam era delas e agradeciam à terra estendendo muito os seus ramos, cerrando
e tecendo a folhagem, para dar à boa mãe frescura e proteção contra a inclemência do sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas quase beijavam o chão. As
jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléia, e cobriam a
terra com uma ogiva verde...
O velho edifício imperial se erguia sobre a pequena colina. Eles lhe viam o fundo, aquela parte de
construção mais antiga, joanina, com a torre do relógio um pouco afastada e separada do corpo do
edifício.
Não era belo o palácio, não tinha mesmo nenhum traço de beleza, era até pobre e monótono. As
janelas acanhadas daquela fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo
ele, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco comum nas nossas
habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante, mas
para anos, para séculos... As palmeiras cercavam-no, erectas, firmes, com os seus grandes penachos
verdes, muito altos, alongados para o céu...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e função.
Albernaz interrompeu o silêncio:
- Em que dará isto tudo, Caldas?
- Sei lá.
- O “homem” deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custódio... hum!
- O poder é o poder, Albernaz.
Vinham andando em demanda à estação de São Cristóvão. Atravessaram o velho parque imperial
transversalmente, desde o portão da Cancela até à linha da estrada de ferro. Era de manhã, e o dia
estava límpido e fresco.
Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de saírem da quinta,
deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada!
camarada! O soldado levantou-se estremunhado; e, dando com aqueles dous oficiais superiores,
concertou-se rapidamente, fez a continência que lhes era devida e ficou com a mão no boné, um
instante firme, mas logo bambeou.
- Abaixe a mão, fez o general. Que faz você aqui?
Albernaz falou em tom ríspido e de comando. A praça, falando a medo, explicou que tinha estado
de ronda ao litoral toda a noite. A força se recolhera aos quartéis; ele obtivera licença para ir em
casa, mas o sono fora muito e descansava ali um pouco.
- Então como vão as cousas? perguntou o general.
- Não sei, não “sinhô”.
- Os “homens” desistem ou não?
O general esteve um instante examinando o soldado. Era branco e tinha os cabelos alourados, de
um louro sujo e degradado; as feições eram feias: malares salientes, testa óssea e todo ele anguloso
e desconjuntado.
- Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
- Do Piauí, sim “sinhô”.
- Da capital?
- Do sertão, de Paranaguá, sim “sinhô”.
O almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado, respondendo
tropegamente. Caldas, para acalmá-lo, resolveu falar-lhe com doçura.
- Você não sabe, camarada, quais são os navios que “eles” têm?
- O “Aquidabã”... A “Luci”.
- A “Luci” não é navio.
- É verdade, sim “sinhô”. O “Aquidabã”... Um “bandão” deles, sim, “sinhô”.
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O general interveio então. Falou-lhe com brandura, quase paternal, mudando o tratamento de você
para tu, que parece mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores:
- Bem, descansa, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te o sabre e estás na “inácia”.
Os dous generais continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na plataforma da estação. A
pequena estação tinha um razoável movimento. Um grande número de oficiais, ativos, reformados,
honorários moravam-lhe nas cercanias e os editais chamavam todos a se apresentar às autoridades
competentes. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continências. O general era
mais conhecido, em virtude de seu emprego; o almirante, não. Quando passavam, ouviam
perguntar: “Quem é este almirante?” Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto
e do seu incógnito.
Havia uma única mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua
filha Ismênia... Coitada!... Ficaria boa?
Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas, mas ele as conteve com força.
Já a levara a uma meia dúzia de médicos e nenhum fazia parar aquele escapamento do juízo que
parecia fugir aos poucos do cérebro da moça.
A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrépito, apitando com fúria e deixando
fumaça pesada pelos ares que rompia, afastou-o de pensar na filha. Passou o monstro, pejado de
soldados, de uniformes e os trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.
Bustamante apareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para apresentar-se. Trazia o seu
velho uniforme do Paraguai, talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. A barretina era
um tronco de cone que avançava para a frente; e, com aquela banda roxa e casaquinha curta,
parecia ter saído, fugido, saltado de uma tela de Vítor Meireles.
- Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorário.
- Viemos pela quinta, disse o almirante.
- Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me importa morrer, mas
quero morrer combatendo; isso de morrer por aí, à toa, sem saber como, não vai comigo...
O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam próximo olharam-no com mal
disfarçada censura. Albernaz percebeu e ajuntou imediatamente:
- Conheço bem esse negócio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em
Curuzu...
- A cousa foi terrível, acrescentou Bustamante.
O trem atracava na estação. Veio chegando manso, vagaroso; a locomotiva, muito negra, bufando,
suando gordurosamente, com a sua grande lanterna na frente, um olho de ciclope, avançava que
nem uma aparição sobrenatural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e parou por fim.
Estava repleto, muitas fardas de oficiais; a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil
homens. Os militares palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados.
Se falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de trás.
A cidade andava inçada de secretas, “familiares” do Santo Ofício Republicano, e as delações eram
moedas com que se obtinham postos e recompensas.
Bastava a mínima crítica, para se perder o emprego, a liberdade, - quem sabe? - a vida também.
Ainda estávamos no começo da revolta, mas o regime já publicara o seu prólogo e todos estavam
avisados. O chefe de polícia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distinção de posição e
talentos. Mereciam as mesmas perseguições do governo um pobre contínuo e um influente senador;
um lente e um simples empregado de escritório. Demais surgiam as vinganças mesquinhas, a revide
de pequenas implicâncias... Todos mandavam; a autoridade estava em todas as mãos.
Em nome do Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidadão, sem função pública alguma,
prendia e ai de quem caía na prisão, lá ficava esquecido, sofrendo angustiosos suplícios de uma
imaginação dominicana. Os funcionários disputavam-se em bajulação, em servilismo... Era um
terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, às ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão
e sem responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier-Tinville.
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Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães.
Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão
e a companhia, a todo esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro,
desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo
tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as
ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e
também ao advento do regime normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com
fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis, o paraíso, enfim, com inscrições em escritura
fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!...
Os positivistas discutiam e citavam teoremas de mecânica para justificar as suas idéias de governo,
em tudo semelhantes aos canatos e emirados orientais.
A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório que, naqueles tempos, amedrontava toda
a gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e criada para o
positivismo, como se a Bíblia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Católica e não também
para a Anglicana. O prestígio dele era, portanto, enorme.
O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter à praça da República. O almirante, cosido com
as paredes, seguiu para o Arsenal de Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel-
General. Penetraram no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de toques de cornetas; o
grande pátio estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, feixes de armas ensarilhadas, baionetas
reluzindo ao sol oblíquo...
No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vaivém de fardas, dourados,
fazendas multicores, uniformes de várias corporações e milícias, no meio dos quais os trajes
escuros dos civis eram importunos como moscas. Misturavam-se oficiais da guarda nacional, da
polícia, da armada, do exército, de bombeiros e de batalhões patrióticos que começavam a surgir.
Apresentaram-se e, depois de tê-lo feito ao ajudante-general e ministro da Guerra, a um só tempo,
ficaram a conversar nos corredores, com bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente
Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo.
O general porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque aprendia com ele alguma
cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.
Fontes estava indignado, todo ele era horror, maldição contra os insurrectos, e propunha os piores
castigos.
- Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do marechal, se os pegasse... ai deles!
O tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era positivista e tinha da sua
República uma idéia religiosa e transcendente. Fazia repousar nela toda a felicidade humana e não
admitia que a quisessem de outra forma que não aquela que imaginava boa. Fora daí não havia boa
fé, sinceridade; eram heréticos interesseiros, e, dominicano do seu barrete frígio, raivoso por não
poder queimá-los em autos-de-fé, congesto, via passar por seus olhos uma série enorme de réus
confidentes, relapsos, contumazes, falsos, simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por aí...
Albernaz não tinha tanta fúria contra os adversários. No fundo d’alma, ele os queria até, tinha
amigos lá, e essas divergências nada significavam para a sua idade e experiência.
Depositava, entretanto, uma certa esperança na ação do marechal. Estando em apuros financeiros,
não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do arquivo do Largo do
Moura, esperava obter uma outra comissão, que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o
enxoval de Lalá.
O almirante, também, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e de estadista de Floriano. A
sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a em primeira instância, estava gastando muito dinheiro... O
governo precisava de oficiais de Marinha, quase todos estavam na revolta; talvez lhe dessem uma
esquadra a comandar... É verdade que... Mas, que diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma
esquadra a cousa não era difícil; bastava coragem para combater.
Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim que, para apoiá-lo e
defender o seu governo, imaginava organizar um batalhão patriótico, de que já tinha o nome
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“Cruzeiro do Sul” e naturalmente seria o seu comandante, com todas as vantagens do posto de
coronel.
Genelício, cuja atividade nada tinha de guerreira, esperava muito da energia e da decisão do
governo de Floriano: esperava ser subdiretor e não podia um governo sério, honesto e enérgico,
fazer outra cousa, desde que quisesse pôr ordem na sua seção.
Essas secretas esperanças eram mais gerais do que se pode supor. Nós vivemos do governo e a
revolta representava uma confusão nos empregos, nas honrarias e nas posições que o Estado
espalha. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações supririam os títulos e habilitações para ocupá-
las; além disso, o governo, precisando de simpatias e homens, tinha que nomear, espalhar,
prodigalizar, inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O próprio Doutor Armando Borges, o marido de Olga e sábio sereno e dedicado quando estudante,
colocava na revolta a realização de risonhos anelos.
Médico e rico, pela fortuna da mulher, ele não andava satisfeito. A ambição de dinheiro e o desejo
de nomeada esporeavam-no. Já era médico do Hospital Sírio, onde ia três vezes por semana e, em
meia hora, via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro dava-lhe informações, o doutor ia, de
cama em cama, perguntando: “Como vai?” “Vou melhor seu doutor”, respondia o sírio com voz
gutural. Na seguinte, indagava: “Já está melhor?” E assim passava a visita; chegando ao gabinete
receitava: “Doente nº 1, repita a receita; doente 5... quem é?”... “É aquele barbado”... “Ahn!” E
receitava.
Mas médico de um hospital particular não dá fama a ninguém: o indispensável é ser do governo,
senão ele não passava de um simples prático. Queria ter um cargo oficial, médico, diretor ou
mesmo lente da faculdade.
E isso não era difícil, desde que arranjasse boas recomendações pois já tinha certo nome, graças à
sua atividade e fertilidade de recursos.
De quando em quando, publicava um folheto. O Cobreiro, Etiologia, Profilaxia e Tratamento ou
Contribuição para o Estudo da Sarna no Brasil; e, mandava o folheto, quarenta e sessenta páginas,
aos jornais que se ocupavam dele duas ou três vezes por ano; o “operoso Doutor Armando Borges,
o ilustre clínico, o proficiente médico dos nossos hospitais”, etc., etc.
Obtinha isso graças à precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da
imprensa.
Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que não havia nada de próprio,
mas ricos de citações em francês, inglês e alemão.
O lugar de lente é que o tentava mais; o concurso, porém, metia-lhe medo. Tinha elementos, estava
bem relacionado e cotado na congregação, mas aquela história de argüição apavorava-o.
Não havia dia em que não comprasse livros, em francês, inglês e italiano; tomara até um professor
de alemão, para entrar na ciência germânica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a
sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante.
A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em biblioteca. As paredes estavam forradas
de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. À noite, ele abria as janelas das venezianas,
acendia todos os bicos-de-gás e se punha à mesa, todo de branco com um livro aberto sob os olhos.
O sono não tardava a vir ao fim da quinta página... Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da
mulher. Eram romances franceses, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam
dormir da mesma maneira que os tratados. Ele não compreendia a grandeza daquelas análises,
daquelas descrições, o interesse e o valor delas, revelando a todos, à sociedade, a vida, os
sentimentos, as dores daqueles personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa ciência e a
pobreza de sua instrução geral faziam-no ver naquilo tudo, brinquedos, passatempos, falatórios,
tanto mais que ele dormia à leitura de tais livros.
Precisava, porém, iludir-se, a si mesmo e à mulher. De resto, da rua, viam-no e se dessem com ele a
dormir sobre os livros?!... Tratou de encomendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas
com títulos trocados e afastou o sono.
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A sua clínica, entretanto, prosperava. De comandita com o tutor, chegou a ganhar uns seis contos,
tratando de um febrão de uma órfã rica.
Desde muito que a mulher lhe entrava na sua simulação de inteligência, mas aquela manobra
indecorosa indignou-a. Que necessidade tinha ele disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha
o privilégio de um título universitário? Tal ato pareceu à moça mais vil, mais baixo, que a usura de
um judeu, que o aluguel de uma pena...
Não foi desprezo, nojo que ela teve pelo marido; foi um sentimento mais calmo, menos ativo;
desinteressou-se dele, destacou-se de sua pessoa. Ela sentiu que tinham cortado todos os laços de
afeição, de simpatia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, enfim.
Mesmo quando noiva, verificara que aquelas cousas de amor ao estudo, de interesse pela ciência,
de ambições de descobertas, nele, eram superficiais, estavam à flor da pele; mas desculpou. Muitas
vezes nós nos enganamos sobre as nossas próprias forças e capacidades; sonhamos ser Shakespeare
e saímos Mal das Vinhas. Era perdoável, mas charlatão? Era demais!
Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quase indignidade?... Todos os homens
deviam ser iguais; era inútil mudar deste para aquele...
Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande alívio, e a sua fisionomia se iluminou de novo
como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
Naquela carreira atropelada para o nome fácil, ele não deu pelas modificações da mulher. Ela
dissimulava os seus sentimentos, mais por dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro
motivo; e a ele faltavam a sagacidade e finura necessárias para descobri-los sob o seu esconderijo.
Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quanto estavam longe um do outro!...
A revolta veio encontrá-los assim; e o doutor, desde três dias, pois há tanto ela rebentara, meditava
a sua ascensão social e monetária.
O sogro suspendera a viagem à Europa, e, naquela manhã, após o almoço, conforme o seu hábito,
lia recostado numa cadeira de viagem os jornais do dia. O genro vestia-se e a filha ocupava-se com
sua correspondência, escrevendo à cabeceira da mesa de jantar. Ela tinha um gabinete, com todo o
luxo, livros, secretária, estantes, mas gostava pela manhã de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe
parecia mais clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade ao pensamento
e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
Ela escrevia e o pai lia; num dado momento ele disse:
- Sabes quem vem aí, minha filha?
- Quem é?
- Teu padrinho. Telegrafou ao Floriano, dizendo que vinha... Está aqui, n’O País.
A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir de fato sobre as idéias e sentimentos de
Quaresma. Quis desaprovar, censurar; sentiu-o, porém, tão coerente com ele mesmo, tão de acordo
com a substância da vida que ele mesmo fabricara, que se limitou a sorrir complacente:
- O padrinho...
- Está doido, disse Coleoni, Per la madonna! Pois um homem que está quieto, sossegado, vem
meter-se nesta barafunda, neste inferno...
O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca fúnebre e a cartola reluzente na mão.
Vinha irradiante e o seu rosto redondo reluzia, exceto onde o grande bigode punha sombras. Ainda
ouviu as últimas palavras do sogro, pronunciadas com aquele seu português rouco:
- Que há? perguntou ele.
Coleoni explicou e repetiu os comentários que já fizera:
- Mas não há tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que tem a idade? Quarenta e poucos
anos, não é lá velho... Pode ainda bater-se pela República...
- Mas não tem interesse nisso, objetou o velho.
- E há de ser só quem tem interesse que se deve bater pela República? interrogou o doutor.
A moça que acabava de ler a carta que tinha escrito, mesmo sem levantar a cabeça, disse:
- Decerto.
- É vem você com as suas teorias, filhinha. O patriotismo não está na barriga...
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E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava.
- Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros? É monopólio de vocês o patriotismo? fez Olga.
- Decerto. Se eles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade, a entorpecer, a
desmoralizar a ação da autoridade constituída.
- Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os fuzilamentos, toda a série de
violências que se vêm cometendo, aqui e no Sul?
- Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor, fechando a discussão.
Ela não deixava de ser. A simpatia dos desinteressados, da população inteira era pelos insurgentes.
Não só isso sempre acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a múltiplos
fatores, há de ser assim normalmente.
Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da
simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam
a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e
mudanças.
Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e Coleoni, estrangeiro e
conhecendo, graças à sua vida, as nossas autoridades, calasse as suas simpatias num mutismo
prudente.
- Não me vá comprometer, hein, Olga?
Ela se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, deitou-lhe o seu grande olhar
luminoso, e com os finos lábios um pouco franzidos:
- Você sabe bem que eu não te comprometo.
O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus à mulher,
que lhe seguia a saída, debruçada na varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingências terrenas.
Ricardo vivia ainda na sua casa de cômodos dos subúrbios, cuja vista ia de Todos os Santos à
Piedade, abrangendo um grande trato de área edificada, um panorama de casas e árvores.
Já não se falava mais no seu rival e a sua mágoa tinha assentado.
Por esses dias o triunfo desfilava sem contestação. Toda a cidade o tinha na consideração devida e
ele quase se julgava ao termo da sua carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo
de obter.
Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em publicar mais outro.
Há dias vivia em casa, pouco saindo, organizando o seu livro. Passava confinado no seu quarto,
almoçando café, que ele mesmo fazia, e pão, indo à tarde jantar a uma tasca próximo à estação.
Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que jantavam nas mesas sujas,
abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados; mas não deu importância...
Apesar de popular no lugar, não encontrara pessoa alguma conhecida durante os três últimos dias;
ele mesmo evitava falar e, em sua casa, limitava-se ao “bom-dia” e à “boa-tarde” trocados com os
vizinhos.
Gostava de passar assim dias, metido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Não lia jornais para
não distrair a atenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de
ser mais uma vitória para ele e para o violão estremecido.
Naquela tarde estava sentado à mesa, corrigindo um dos seus trabalhos, um dos últimos, aquele que
compusera no sítio de Quaresma - “Os lábios de Carola”.
Primeiro, leu toda a produção, cantarolando; voltou a lê-la, agarrou o violão para melhor apanhar o
efeito e empacou nestes:

É mais bela que Helena e Margarida,
Quando sorri meneando a ventarola.
Só se encontra a ilusão que adoça a vida
Nos lábios de Carola.
69
Nisto ouviu um tiro, depois, outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio
estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os lábios de Carola, onde encontrava a ilusão
que adoça a vida...


TERCEIRA PARTE


I
Patriotas
Havia mais de uma hora que ele estava ali, num grande salão do palácio, vendo o marechal, mas
sem lhe poder falar. Quase não se encontravam dificuldades para se chegar à sua presença, mas
falar-lhe, a cousa não era tão fácil.
O palácio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo e eloqüente. Não era
raro ver-se pelos divãs, em outras salas, ajudantes-de-ordens, ordenanças, contínuos, cochilando,
meio deitados e desabotoados. Tudo nele era desleixo e moleza. Os cantos dos tetos tinham teias de
aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira de rua mal varrida.
Quaresma não pudera vir logo, como anunciara no telegrama. Fora preciso pôr em ordem os seus
negócios, arranjar quem fizesse companhia à irmã. Fizera Dona Adelaide mil objeções à sua
partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompatíveis com a sua idade e superiores à sua
força; ele, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensável, necessário que
toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse
posto à disposição do governo, para então!... oh!
Aproveitara os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nele expunham-se as
medidas necessárias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos
da grande propriedade, das exações fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das
violências políticas.
O major apertava o manuscrito na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquela
planície feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e
transparentes, lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e plácidos que o viram partir com
uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquele momento, era do
Anastácio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquela ternura passiva de animal
doméstico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas órbitas as escleróticas
muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça...
Não lhe era comum tal atitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas sinais de
dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera que o presidente o chamasse. Era
cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano tinha ainda, como sinal do almoço, o palito na
boca.
Falou em primeiro lugar a uma comissão de senhoras que vinham oferecer o seu braço e o seu
sangue em defesa das instituições e da pátria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto,
gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita.
Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nela que uma escondia
a outra, furtando toda ela a uma classificação honesta.
Enquanto falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes olhos que despediam chispas.
Floriano parecia incomodado com aquele chamejar; era como se temesse derreter-se ao calor
daquele olhar que queimava mais sedução que patriotismo. Fugia encará-la, abaixava o rosto como
um adolescente, batia com os dedos na mesa...
Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com
um grosso e difícil sorriso de roceiro, declinou da oferta, visto a República ainda dispor de bastante
força para vencer.
70
A última frase, ele a disse com mais vagar e quase ironicamente. As damas despediram-se; o
marechal girou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma:
- Então, Quaresma? fez ele familiarmente.
O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma de oficiais
subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua atenção convergiu para eles. Não se ouvia o que
diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espáduas. O marechal quase
não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossílabo, cousa que Quaresma percebia
pela articulação dos lábios.
Começaram a sair. Apertavam a mão do ditador e, um deles, mais jovial, mais familiar, ao
despedir-se, apertou-lhe com força a mão mole, bateu-lhe no ombro com intimidade, e disse alto e
com ênfase:
- Energia, marechal!
Aquilo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo cerimonial da República, que
ninguém, nem o próprio Floriano, teve a mínima surpresa, ao contrário alguns até sorriram alegres
por ver o califa, o cã, o emir, transmitir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno
desabusado. Não se foram todos imediatamente. Um deles demorou-se mais a segredar cousas à
suprema autoridade do país. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul-turquesa, talim
e sabre de praça de pré.
Os cadetes da Escola Militar formavam a falange sagrada.
Tinham todos os privilégios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o ditador e
abusavam dessa situação de esteio do Sila, para oprimir e vexar a cidade inteira.
Uns trapos de positivismo se tinham colado naquelas inteligências e uma religiosidade especial
brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a
República, em artigo e fé, em feitiço, em ídolo mexicano, em cujo altar todas as violências e crimes
eram oblatas dignas e oferendas úteis para a sua satisfação e eternidade.
O cadete lá estava...
Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem que ia feixar em suas mãos, durante
quase um ano, tão fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo, limitando
tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos, às suas fraquezas e vontades, nem nas leis,
nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.
Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma
grande “mosca”; os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que
fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de
expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era
gelatinoso - parecia não ter nervos.
Não quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o caráter, a inteligência e o
temperamento. Essas cousas não vogam, disse ele de si para si.
O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de
enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país, manhoso talvez um
pouco, uma espécie de Luís XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma
ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade
predominante: tibieza de ânimo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum,
essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação
nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que
passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos.
Quando diretor do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assinar o expediente respectivo;
e durante o tempo em que foi ministro da Guerra, passava meses e meses sem lá ir, deixando tudo
por assinar, pelo que “legou” ao seu substituto um trabalho avultadíssimo.
Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II, de Guilherme
I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não compreende o descaso
florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas,
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certamente necessárias deviam ser tais transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e
influísse na marcha das cousas governamentais e administrativas.
Dessa preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos monossílabos,
levados à altura de ditos sibilinos, as famosas “encruzilhadas dos talvezes”, que tanto reagiram
sobre a inteligência e imaginação nacionais, mendigas de heróis e grandes homens.
Essa doentia preguiça fazia-o andar de chinelos e deu-lhe aquele aspecto de calma superior, calma
de grande homem de Estado ou de guerreiro extraordinário.
Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros meses de governo. A braços com o
levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um
inquérito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra
sedição, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas.
Demais, ninguém pode admitir um homem forte, um César, um Napoleão, que permita aos
subalternos aquelas intimidades deprimentes e tenha com eles as condescendências que ele tinha,
consentindo que o seu nome servisse de lábaro para uma vasta série de crimes de toda a espécie.
Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atmosfera de má vontade Napoleão assumiu o
comando do exército da Itália. Augereau, que o chamava “general de rua”, disse a alguém, após lhe
ter falado: “O homem meteu-me medo”; e o corso estava senhor do exército sem batidelas no
ombro, sem delegar tácita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsáveis.
De resto, a lentidão com que sufocou a revolta de 6 de setembro mostra bem a incerteza, a
vacilação de vontade de um homem que dispunha daqueles extraordinários recursos que estavam às
suas ordens.
Há uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, atos e gestos. Era
o seu amor à família, um amor entranhado, alguma cousa de patriarcal, de antigo que já se vai
esvaindo com a marcha da civilização.
Em virtude de insucessos na exploração agrícola de duas das suas propriedades, a sua situação
particular era precária, e não queria morrer sem deixar à família as suas propriedades agrícolas
desoneradas do peso das dívidas.
Honesto e probo como era, a única esperança que lhe restava repousava nas economias sobre os
seus ordenados. Daí lhe veio essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensável
para conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se tenazmente à Presidência da
República. A hipoteca do “Brejão” e do “Duarte” foi o seu nariz de Cleópatra...
A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse
“homem-talvez” que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi
transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que
vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo.
Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam
sido possíveis, depois de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro, isto é, após se
ter “fabricado” à vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos.
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de
uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande, o portar-se mal
era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim,
porém, prisão e morte. Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação,
assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água.
Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil,
raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo
pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus
auxiliares e asseclas.
Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo
foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande
obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao
72
organismo aniquilado da pátria, que o major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de
uns tempos para cá, já tivesse dúvidas a certos respeitos.
Decerto, ele não negaria tais esperanças e a sua ação poderosa havia de se fazer sentir pelos oito
milhões de quilômetros quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, segurança, proteção aos fracos,
assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de espera, desde que o
marechal lhe falou familiarmente, começou a considerar aquele homem pequenino, taciturno, de
pince-nez e foi-se chegando, se aproximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quase como um
terrível segredo:
- Eles vão ver o “caboclo”... O major há muito que o conhece?
Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente, porém, ficara só e
Quaresma avançou.
- Então, Quaresma? fez Floriano.
- Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos.
O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem, sorriu com dificuldade, mas,
levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu por aí a força de sua popularidade e senão a razão
boa de sua causa.
- Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.
Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias, nomes, empregos, situações dos subalternos
com quem lidava. Tinha alguma cousa de asiático; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias, medidas
tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. O marechal ouviu-o distraído, com
uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios.
- Trazia a Vossa Excelência até este memorial...
O presidente teve um gesto de mau humor, um quase “não me amole” e disse com preguiça a
Quaresma:
- Deixa aí...
Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora:
- Que há, Bustamante? E o batalhão, vai?
O homem aproximou-se mais, um tanto amedrontado:
- Vai bem, marechal. Precisamos de um quartel... Se Vossa Excelência desse ordem...
- É exato. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar... Ou antes: leva-lhe este bilhete.
Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma, e assim mesmo,
sobre aquela ponta de papel, a lápis azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra. Ao
acabar é que deu com a desconsideração:
- Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito... Não faz mal... Era a parte de cima, não tinha nada escrito.
O major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para Bustamante:
- Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
- Eu! fez Quaresma estupidamente.
- Bem. Vocês lá se entendam.
Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati. Até à rua
nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente; o
movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração apreciável. Havia a mesma agitação de
bondes, carros e carroças; mas nas fisionomias, um terror, um espanto, alguma cousa de tremendo
ameaçava todos e parecia estar suspenso no ar.
Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel, velho amigo do
marechal, seu companheiro do Paraguai.
- Mas nós nos conhecemos! exclamou ele.
Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro, com uma grande barba mosaica e olhos
espertos, mas não se lembrou de tê-lo já encontrado algum dia.
- Não me recordo... Donde?
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- Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
Policarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão
patriótico “Cruzeiro do Sul”.
- O senhor quer fazer parte?
- Pois não, fez Quaresma.
- Estamos em dificuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despesas devemos
auxiliar o governo... Não convém sangrar o Tesouro, não acha?
- Certamente, disse com entusiasmo Quaresma.
- Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um
rateio pelos oficiais, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil-réis, um tenente
com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O Senhor é major, não é?
Quaresma então explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influência no Ministério do
Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse posto. Nunca tendo
pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado major, e a cousa pegou. A princípio,
protestou, mas como teimassem deixou.
- Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major.
- Qual é a minha quota?
- Quatrocentos mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita?
- Pois não.
Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis e despediu-se jovialmente:
- Então, major, às seis, no quartel provisório.
A conversa se havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo de Sant’Ana. Quaresma
pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em
Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar.
A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando
em quando ouvia-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do quartel-general
saía uma força, armas ao ombro, baionetas caladas, dançando nos ombros dos recrutas, faiscando
com um brilho duro e mau.
Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco espoucar dos fuzis. Não
durou muito; antes que o bonde atingisse à Rua da Constituição, todos os rumores guerreiros
tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de supor-se em tempos normais.
Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o
vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no ombro. Voltou-se.
- Oh! general!
O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias e tinha mesmo um prazer,
uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação
qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado; não trazia espada e o pince-nez
continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detrás da orelha esquerda.
- Então veio ver a cousa?
- Vim. Já me apresentei ao marechal.
- “Eles” vão ver com quem se meteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A
República, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O “caboclo” é de ferro... No
Paraguai...
- O senhor conheceu-o lá, não, general?
- Isto é... Não chegamos a nos encontrar; mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como
encarregado das munições... É o fino o “caboclo”: não me quis no litoral. Sabe muito bem quem
sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no depósito, não me sai um caixote
que eu não examine... É necessário... No Paraguai, houve muita desordem e comilança: mandou-se
muita cal por pólvora - não sabia?
- Não.
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- Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o “homem” quer que eu fique
com as munições... Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá...
Deu de ombros, concertou o trancelim que já caía da orelha e esteve calado um instante. Quaresma
perguntou:
- Como vai a família?
- Bem. Sabe que Quinota casou-se?
- Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai?
A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto:
- Vai no mesmo.
O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura
mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um
olhar morto de estátua, numa atonia de inanimado, como que caíra em imbecilidade; mas vinha
uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: “Apronta-me,
mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento.” Outras vezes recortava papel, em
forma de participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu
casamento.
O general já consultara uma dúzia de médicos, o espiritismo e agora andava às voltas com um
feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava
o seu espírito naquela obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não atingira,
aniquilando-se, porém, o seu espírito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o seu estado aquela casa outrora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuído; e,
quando eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com todos os cuidados, à custa de
todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, lá ficava, enquanto as outras dançavam,
um instante esquecidas da irmã que sofria.
Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu a emoção e continuou no tom mais
natural, naquele seu tom familiar e íntimo que usava com todos:
- Isto é uma infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para o país. E os prejuízos? Um porto destes
fechado a comércio nacional quantos anos de retardamento não representa!
O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossível
a reprodução de levantes e insurreições.
- Decerto, aduziu o general. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que
mau efeito!
O bonde chegara ao Largo de São Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao
Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do Rosário.
Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre. Não foi indiferença que
sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora soubesse perfeitamente que ele estava a chegar.
Entretanto, não havia mudança na fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o
mesmo homem baixo, pálido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás do
pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar os lábios era o mesmo que ela
conhecia há tantos anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma força
estranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que ele entrara naturalmente,
com o seu passo miúdo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirara a
sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se
fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa
impressão da sua entrada:
- Papai saiu; e o Armando está lá embaixo escrevendo.
De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o “clássico” um grande artigo
sobre “Ferimentos por arma de fogo”. O seu último truc intelectual era este do clássico. Buscava
nisto uma distinção, uma separação intelectual desses meninos por aí que escrevem contos e
romances nos jornais. Ele, um sábio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma
que eles. A sua sabedoria superior e o seu título “acadêmico” não podiam usar da mesma língua,
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dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéia
do clássico. O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje,
em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar,
ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de
ao invés, em-pós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus
pares e ao público em geral.
Gostava muito da expressão - às rebatinhas; usava-a a todo o momento e, quando a punha no
branco do papel, imaginava que dera ao seu estilo uma força e um brilho pascalianos e às suas
idéias uma suficiência transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras linhas o
sono lhe vinha e dormia sonhando-se “físico”, tratado de mestre, em pleno Seiscentos,
prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor Sangrado.
A sua tradução estava quase no fim, já estava bastante prático, pois com o tempo adquirira um
vocabulário suficiente e a versão era feita mentalmente, em quase metade, logo na primeira escrita.
Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como
teimasse em não encontrar um equivalente clássico para “orifício”, julgou útil a interrupção. Queria
pôr “buraco”, mas era plebeu; “orifício”, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na
volta talvez encontrasse, pensou: e subiu à sala de jantar. Ele entrou prazenteiro, com o seu grande
bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma
discussão sobre autoridade.
Dizia ela:
- Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se
governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar
os governantes?
O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde deixar de objetar:
- Mas é preciso, indispensável... Nós sabemos bem que eles são homens como nós, mas, se for
assim, tudo vai por água abaixo.
Quaresma acrescentou:
- É em virtude das próprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ela existe...
Nas formigas, nas abelhas...
- Admito. Mas há revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantém lá à custa de
assassínios, exações e violências?
- Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não teve dúvidas e foi logo dizendo:
- Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pináculo da escala zoológica iremos
buscar normas de vida entre insectos?
- Não é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles a certeza da generalidade do
fenômeno, da sua imanência, por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Ele não tinha acabado a explicação e já Olga refletia:
- Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade - vá; mas não; de que vale?
- Há de trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidá-la.
Conversaram ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano, a sua próxima
incorporação ao batalhão “Cruzeiro do Sul”. O doutor teve uma ponta de inveja, quando ele se
referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu.
Sentia necessidade de rever aquelas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os
empregados se moviam como em um subterrâneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua
da Assembléia, a casquilha Rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma
multidão. Eram os avançados, os “jacobinos”, a guarda abnegada da República, os intransigentes a
cujos olhos a moderação, a tolerância e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de
lesa-pátria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O
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estrangeiro era sobretudo o português, o que não impedia de haver jornais “jacobiníssimos”
redigidos por portugueses da mais bela água.
A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a Rua do Ouvidor era a mesma. Os namoros se
faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia no alto céu azul, luminoso, as moças davam
gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes,
o sangue a subir às faces pouco e pouco, depois da palidez do medo.
Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel, que funcionava provisoriamente num velho
cortiço condenado pela higiene, lá pelos lados da Cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar térreo e
sobrado, ambos divididos em cubículos do tamanho de camarotes de navio. No sobrado, havia uma
varanda de grade de pau e uma escada de madeira levava até lá, escada tosca e oscilante, que gemia
à menor passada. A casa da ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o pátio, já sem
as cordas de secar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrelas e da água de sabão,
servia para a instrução dos recrutas. O instrutor era um sargento reformado, um tanto coxo, e
admitido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa: “om - brô”...
armas!
O major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento.
Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dólmã era verde-garrafa e tinha uns vivos azul-
ferrete, alamares dourados e quatro estrelas prateadas, em cruz, na gola.
Uma gritaria fê-los vir até à varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a
implorar, ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.
- É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, coronel? continuou ele com interesse
e piedade.
Bustamante estava impassível na varanda e só respondeu depois de algum tempo:
- Conheço... É um voluntário recalcitrante, um patriota rebelde.
Os soldados subiram com o “voluntário” e Ricardo logo que deu com o major, suplicou-lhe:
- Salve-me, major!
Quaresma chamou de parte o coronel, rogou-lhe e suplicou-lhe, mas foi inútil... Há necessidade de
gente... Enfim, fazia-o cabo.
Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:
- Eu sirvo sim, sim, mas dêem-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
- Restituam o violão ao cabo Ricardo!

II
Você, Quaresma, É um Visionário
Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado da terra, mal se enxergam as partes
baixas dos edifícios próximos; para o lado do mar, então, a vista é impotente contra aquela treva
esbranquiçada e flutuante, contra aquela muralha de flocos e opaca, que se condensa ali e aqui em
aparições, em semelhanças de cousas. O mar está silencioso: há grandes intervalos entre o seu fraco
marulho. Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odor da maresia parece
mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o desconhecido, o Mistério. Entretanto,
aquela pasta espessa, de uma claridade difusa, está povoada de ruídos. O chiar das serras vizinhas,
os apitos de fábricas e locomotivas, os guinchos de guindastes dos navios enchem aquela manhã
indecifrável e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. Acredita-
se, dentro daquele decoro, que é Caronte que traz a sua barca para uma das margens do Estige...
Atenção! Todos perscrutam a cortina de névoa pastosa. Os rostos estão alterados; parece que, do
seio da bruma, vão surgir demônios...
Não se ouve a bulha: o escaler afastou-se. As fisionomias respiram aliviadas...
Não é noite, não é dia; não é o dilúculo, não é o crepúsculo; é a hora da angústia, é a luz da
incerteza. No mar, não há estrelas nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro às
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paredes brancas das casas. A nossa miséria é mais completa e a falta daqueles mudos marcos da
nossa atividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.
Os ruídos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da terra ou são alucinações
auditivas. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes
intervalos, fracamente, tenuemente, a medo, de encontro à areia da praia, suja de bodelhas, algas e
sargaços.
Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia.
Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos o céu através do nevoeiro que lhes umedece o
rosto.
O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle à cintura e gorro à cabeça, sentado numa pedra, está
de parte, sozinho, e olha aquela manhã angustiosa.
Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ela faz sentir toda a sua força de
desesperar. Em geral, ele só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes;
aquele amanhecer brumoso e feio era uma novidade para ele.
Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquela vida solta da caserna vai-lhe bem
n’alma; o violão está lá dentro e, em horas de folga, ele o experimenta, cantarolando em voz baixa.
É preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não poder, de quando em
quando, soltar o peito.
O comandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...
O major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu estudo predileto é agora
artilharia. Comprou compêndios; mas, como sua instrução é insuficiente, da artilharia vai à
balística, da balística à mecânica, da mecânica ao cálculo e à geometria analítica; desce mais a
escada; vai à trigonometria, à geometria e à álgebra e à aritmética. Ele percorre essa cadeia de
ciências entrelaçadas com uma fé de inventor. Aprende uma noção elementaríssima após um
rosário de consultas, de compêndio em compêndio; e leva assim aqueles dias de ócio guerreiro
enfronhado na matemática, nessa matemática rebarbativa e hostil aos cérebros que já não são
moços.
Há no destacamento um canhão Krupp, mas ele nada tem a ver com o mortífero aparelho; contudo,
estuda artilharia. É encarregado dele o Tenente Fontes, que não dá obediência ao patriota major.
Quaresma não se incomoda com isso; vai aprendendo lentamente a servir-se da boca-de-fogo e
submete-se à arrogância do subalterno.
O comandante do “Cruzeiro do Sul”, o Bustamente da barba mosaica, continua no quartel,
superintendendo a vida do batalhão. A unidade tem poucos oficiais e muito poucas praças; mas o
Estado paga o pré de quatrocentas. Há falta de capitães, o número de alferes está justo, o de
tenentes quase, mas já há um major, que é Quaresma, e o comandante, Bustamente, que, por
modéstia, se fez simplesmente tenente-coronel.
Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma comanda, três alferes, dous tenentes; mas os
oficiais pouco aparecem. Estão doentes ou licenciados e só ele, o antigo agricultor do “Sossego”, e
um alferes, Polidoro, este mesmo só à noite, estão a postos. Um soldado entrou:
- Senhor comandante, posso ir almoçar?
- Pode. Chama-me o cabo Ricardo.
A praça saiu capengando em cima de grandes botinas; o pobre homem usava aquela peça protetora
como um castigo. Assim que se viu no mato, que levava a sua casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o
sopro da liberdade.
O comandante chegou à janela. A cerração se ia dissipando. Já se via o sol que brilhava como um
disco de ouro fosco.
Ricardo Coração dos Outros apareceu. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. A
blusa era curtíssima, sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente; e as calças eram
compridíssimas e arrastavam no chão.
- Como vais, Ricardo?
- Bem. E o senhor, major?
78
- Assim.
Quaresma deitou sobre o inferior e amigo aquele seu olhar agudo e demorado:
- Andas aborrecido, não é?
O trovador sentiu-se alegre com o interesse do comandante:
- Não... Para que dizer, major, que sim... Se a coisa for assim até ao fim, não é mau... O diabo é
quando há tiro... Uma coisa, major; não se poderia, assim, aí pelas horas em que não há que fazer, ir
nas mangueiras, cantar um pouco...
O major coçou a cabeça, alisou o cavanhaque e disse:
- Eu, não sei... É...
- O senhor sabe que isso de cantar baixo é remar em seco... Dizem que no Paraguai...
- Bem. Cante lá; mas não grite, hein?
Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o major recordou:
- Manda-me trazer o almoço.
Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro também dormir. As refeições eram-lhe
fornecidas por um “frege” próximo e ele dormia em um quarto daquela edificação imperial. Porque
a casa em que se acantonara o destacamento era o pavilhão do imperador, situado na antiga Quinta
da Ponta do Caju. Ficavam nela também a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e
barulhenta serraria. Quaresma veio até à porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o imperador
a quisesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
As formas das cousas saíam modeladas do seio daquela massa de névoa pesada; e, satisfeitas, como
se o pesadelo tivesse passado. Primeiro surgiam as partes baixas, lentamente; e por fim, quase
repentinamente, as altas.
À direita, havia a Saúde, a Gamboa, os navios de comércio: galeras de três mastros, cargueiros a
vapor, altaneiros barcos à vela - que iam saindo da bruma, e, por instantes, aquilo tudo tinha um ar
de paisagem holandesa; à esquerda, era o saco da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapucaia horrenda, a
ilha do Governador, os Órgãos azuis, altos de tocar no céu; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os
seus depósitos de carvão; e, alongando a vista pelo mar sossegado, Niterói, cujas montanhas
acabavam de recortar-se no céu azul, à luz daquela manhã atrasada.
A neblina foi-se e um galo cantou. Era como se a alegria voltasse à terra; era uma aleluia. Aqueles
chiados, aqueles apitos, os guinchos tinham um acento festivo de contentamento.
Chegou o almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia duas deserções.
- Mais duas? fez admirado o major.
- Sim, senhor. O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não responderam hoje a revista.
- Faça a parte.
Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quase nunca dormia ali;
pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as cousas como iam.
Uma madrugada, ele não estava. A treva ainda era profunda. O soldado de vigia viu lá ao longe um
vulto que se movia dentro da sombra, resvalando sobre as águas do mar. Não trazia luz alguma: só
o movimento daquela mancha escura revelava uma embarcação, e também a ligeira fosforescência
das águas. O soldado deu rebate; o pequeno destacamento pôs-se a postos e Quaresma apareceu.
- O canhão! Já! Avante! ordenou o comandante. E em seguida, nervoso, recomendou:
- Esperem um pouco.
Correu a casa e foi consultar os seus compêndios e tabelas. Demorou-se e a lancha avançava, os
soldados estavam tontos e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.
Quaresma reapareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo resfolegar:
- Viram bem... a distância... a alça... o ângulo... É preciso ter sempre em vista a eficiência do fogo.
Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
- Ora, major, você pensa que está em um polígono, fazendo estudos práticos... Fogo para diante!
E assim era. Quase todas as tardes havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das fortalezas
para o mar; e, tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas.
79
Lá vinha uma ocasião, porém, que acertavam, então os jornais noticiavam: “Ontem, o forte
Acadêmico fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, meteu uma bala no ‘Guanabara’.” No
dia seguinte, o mesmo jornal retificava, a pedido da bateria do cais Pharoux, que era a que tinha
feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida, quando aparecia uma carta
de Niterói, reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Havia uma
trincheira de fardo de alfafa e a boca da peça saía por entre os fiapos de palha, como as goelas de
um animal feroz oculto entre ervas.
Olhava o horizonte, depois de exame atento ao canhão, e considerava a ilha das Cobras, quando
ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:

Prometo pelo Santíssimo Sacramento...

Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lindíssimo quadro: à sombra de
uma grande árvore, os soldados deitados ou sentados em círculo, em torno de Ricardo Coração dos
Outros, que entoava endechas magoadas.
As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão embevecidas na canção de
Ricardo que não deram pela chegada do jovem oficial.
- Que é isto? disse ele severamente.
Os soldados levantaram-se todos, em continência; e Ricardo, com a mão direita no gorro, perfilado,
e a esquerda, segurando o violão, que repousava no chão, desculpou-se:
- “Seu” tenente, foi o major quem permitiu. Vossa Senhoria sabe que se nós não tivéssemos ordem,
não iríamos brincar.
- Bem. Não quero mais isto, disse o oficial.
- Mas, objetou Ricardo, o Senhor Major Quaresma...
- Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!
Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial, ao encontro do
major do “Cruzeiro do Sul”. Quaresma continuava no seu estudo, um rolar de Sísifo, mas
voluntário, para a grandeza da pátria. Fontes foi entrando e dizendo:
- Que é isto, “Seu” Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento?
O major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço. Ele
repetiu:
- Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno serviço?
- Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...
- E a disciplina? E o respeito?
- Bem, vou proibir, disse Quaresma.
- Não é preciso. Já proibi.
Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:
- Fez bem.
Em seguida perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada de uma fração decimal; o rapaz
ensinou-lhe e eles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de
Lalá, a terceira filha do general Albernaz, e esperava acabar a revolta para efetuar o casamento.
Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino fato familiar a que estavam
ligados aqueles estrondos, aqueles tiros, aquela solene disputa entre duas ambições. Subitamente, a
corneta feriu o ar com a sua voz metálica. Fontes assestou o ouvido; o major perguntou:
- Que toque é?
- Sentido.
Os dous saíram. Fontes perfeitamente fardado; e o major apertando o talim, sem encontrar jeito,
tropeçando na espada venerável que teimava em se lhe meter entre as pernas curtas. Os soldados já
estavam nas trincheiras, armas à mão; o canhão tinha ao lado a munição necessária. Uma lancha
avançava lentamente, com a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua borda um
80
golfão de fumaça espessa: Queimou! - gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto,
zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava a avançar impávida. Além dos soldados, havia
curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara: queimou!
E assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço;
em outras, um cidadão qualquer chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá
licença que dê um tiro? O oficial acedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a
pontaria e um tiro partia.
Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se anunciava
um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Público se enchia. Era como se fosse uma noite
de luar, no tempo em que era do tom apreciá-las no velho jardim de Dom Luís de Vasconcelos,
vendo o astro solitário pratear a água e encher o céu.
Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o
bombardeio como uma representação de teatro: “Queimou Santa Cruz! Agora é o ‘Aquidabã’! Lá
vai!” E dessa maneira a revolta ia, familiarmente, entrando nos hábitos e nos costumes da cidade.
Nos cais Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornais, engraxates, quitandeiros ficavam
atrás das portadas, dos urinários, das árvores, a ver, a esperar a queda das balas; e quando acontecia
cair uma, corriam todos em bolo, a apanhá-la como se fosse uma moeda ou guloseima.
As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de relógios, lapiseiras, feitas com
as pequenas balas de fuzis; faziam-se também coleções das médias e com os seus estojos de metal,
areados, polidos, lixados, ornavam os consolos, os dunkerques das casas médias; as grandes, os
“melões” e as “abóboras”, como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou
estátuas.
A lancha continuava a atirar; Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o projétil, recuou um pouco
e logo foi posto em posição. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!
Eram sempre esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o fuzilar breve e a
fumaça, lá longe, no navio, jorrar devagar, muito pesada, gritavam: queimou!
Houve um em Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade. Chamavam-no “Trinta-Réis”;
os jornais do tempo ocuparam-se com ele, fizeram-se subscrições a seu favor. Um herói! Passou a
revolta e foi esquecido, tanto ele como a “Luci”, uma bela lancha que chegou fazer-se entidade na
imaginação da urbs, a interessá-la, a criar inimigos e admiradores.
A embarcação deixou de provocar a fúria do posto do Caju, e Fontes deu instruções ao seu chefe da
peça, e foi-se embora.
Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. Os mais dias que
passou naquele extremo da cidade não eram diferentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e
a guerra caía na banalidade da repetição dos mesmos episódios.
A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, saía. Descia a cidade e deixava o posto entregue a
Polidoro ou a Fontes, se estava.
Raras vezes o fazia de dia, porque Polidoro, o mais assíduo, marceneiro de profissão e em atividade
numa fábrica de móveis, só vinha à noite.
No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o governo pagava soldos
dobrados, e, às vezes, gratificações, além do que havia também a morte sempre presente; e tudo
isso estimulava o divertir-se. Os teatros eram freqüentados e os restaurants noturnos também.
Quaresma, porém, não se metia naquele ruído de praça semi-sitiada. Ia às vezes ao teatro, à
paisana, e, logo acabado o espetáculo, voltava para o quarto da cidade ou para o posto.
Em outras tardes, logo que Polidoro chegava, saía a pé, pelas ruas dos arredores, pelas praias até o
Campo de São Cristóvão.
Ia vendo aquela sucessão de cemitérios, com as suas campas alvas que sobem montanhas, como
carneiros tosquiados e limpos a pastar; aqueles ciprestes meditativos que as vigiam; e como que se
lhe representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio da morte.
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As casas tinham um aspecto fúnebre, recolhidas e concentradas; o mar marulhava lugubremente na
ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste
e lúgubre.
A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda, para fazer
sentir nela tão forte aspecto funéreo.
Foi vindo até ao Campo; aí deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residência do
General Albernaz. Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo.
Acabavam de jantar e jantara com o general, além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas, o
comandante de Quaresma, o Tenente-Coronel Inocêncio Bustamante.
Bustamante era um comandante ativo, mas dentro do quartel. Não havia quem como ele se
interessasse pelos livros, pela boa caligrafia com que eram escritos os livros mestres, as relações de
mostra, os mapas de companhia e outros documentos. Com auxílio deles, a organização do seu
batalhão era irrepreensível; e, para não deixar de vigiar a escrituração, aparecia de onde em onde
nos destacamentos do seu corpo.
Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, ele logo perguntou ao major:
- Quantas deserções?
- Até hoje, nove, disse Quaresma.
Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu:
- Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!
- Fazem muito bem... Ora! disse o almirante.
Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe tinha
dado cousa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia
vice-almirante. É verdade que o governo ainda não organizara a sua esquadra; entretanto, pelo
rumor que corria, ele não comandaria nem uma divisão. Uma iniqüidade! Era velho um pouco, é
verdade; mas, por não ter nunca comandado, nessa matéria ele podia despender toda uma energia
moça.
- O almirante não deve falar assim... A pátria está logo abaixo da humanidade.
- Meu caro tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
- Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros,
continuou Fontes persuasivo.
- Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas.
Bustamente, o general e Quaresma assistiam à pequena discussão calados e os dous primeiros um
tanto sorridentes com a fúria de Caldas, que não se cansava de dançar a perna e alisar os longos
favoritos brancos. O tenente respondeu:
- Muito, almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de ordem, de
felicidade e evolução moral.
- Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas.
- Eu também penso assim, acrescentou Albernaz.
- Isto há de sempre ser o mesmo, aduziu ceticamente Bustamante.
O major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquelas contestações, ao
contrário dos seus congêneres de seita, não se agastou. Ele era magro e chupado, moreno carregado
e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.
Com a sua voz arrastada e nasal, agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários, depois de
ouvir todos, falou com unção:
- Houve já um esboço: a Idade Média.
Ninguém ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma.
E a sua afirmação fez calar todos, embora no íntimo duvidosos. É uma curiosa Idade Média, essa de
elevação moral, que a gente não sabe onde fica, em que ano? Se a gente diz: “No tempo de
Clotário, ele próprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame
mais a mulher deste e filhos” - o positivista objeta: “Ainda não estava perfeitamente estabelecido o
ascendente da igreja.” “São Luís”, diremos logo nós, “quis executar um senhor feudal porque
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mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas.” Objeta o fiel: “Você
não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a
decadência”... Citam-se as epidemias de moléstias nervosas, a miséria dos campônios, as
ladroagens à mão armada dos barões, as alucinações do milênio, as cruéis matanças que Carlos
Magno fez aos saxões; eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido
o ascendente moral da igreja; outra que ele já tinha desaparecido.
Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta. O almirante criticava
severamente o governo.
Não tinha plano algum, levava a dar tiros à toa; na sua opinião, já devia ter feito todo o esforço para
ocupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue. Bustamente não tinha opinião
assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma
improficuidade patente. Albernaz ainda não tinha dado o seu aviso, e veio a fazê-lo assim:
- Mas nós reconhecemos Humaitá, e por pouco!
- Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturais eram outras e assim mesmo o
reconhecimento foi perfeitamente inútil... O senhor sabe, esteve lá!
- Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão disse-me que foi arriscado.
Quaresma voltara ao silêncio. Ele procurava ver Ismênia. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e
o major se sentia por qualquer cousa preso à moléstia da moça. Viu todos: Dona Maricota, sempre
ativa e diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa interminável, e as outras que
vinham, de quando em quando, da sala de visitas à sala de jantar onde ele estava. Por fim, não se
conteve, perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior, cada vez mais abismada na
sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O general contou tudo com franqueza a Quaresma e quando
acabou de narrar aquela sua desgraça íntima, disse com um longo suspiro:
- Não sei, Quaresma... Não sei.
Eram dez horas quando o major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta do Caju. Saltou e
recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da perturbação especial que põe em nós o luar que
estava lindo, terno e leitoso, naquela noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de delíquio;
parece que nos tiram o envoltório material e ficamos só alma, envolvidos numa branda atmosfera
de sonhos e quimeras. O major não colhia bem a sensação transcendente, mas sofria sem perceber o
efeito da luz pálida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não por sono, mas em virtude
daquela doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos.
Dentro em pouco Ricardo veio chamá-lo: o marechal estava aí. Era seu hábito sair à noite, às vezes,
de madrugada, e ir de posto em posto. O fato se espalhou pelo público que o apreciava
extraordinariamente, e o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista
consumado.
Quaresma veio ao seu encontro. Floriano vestia chapéu de feltro mole, abas largas, e uma curta
sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de família em aventuras
extraconjugais.
O major cumprimentou-o e esteve a dar-lhe notícias do ataque que fora feito ao seu posto, há dias
passados. O marechal respondia por monossílabos preguiçosos e olhava ao redor. Quase ao
despedir-se, falou mais, dizendo vagarosamente, lentamente:
- Hei de mandar pôr um holofote aqui.
Quaresma veio acompanhá-lo até ao bonde. Atravessaram o velho sítio de recreio dos imperadores.
Um pouco afastada da estação uma locomotiva, semi-acesa, resfolegava. Semelhava roncar,
dormindo; os carros, pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, sossegados como que dormiam.
As anosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam polvilhadas preciosamente de prata.
O luar estava magnífico. Os dous andavam, o marechal perguntou:
- Quantos homens tem você?
- Quarenta.
83
O marechal mastigou um: “não é muito”; e voltou ao mutismo. Num dado momento, Quaresma
viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe mais simpática a fisionomia do ditador. Se lhe
falasse...
Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronunciá-la. Continuaram a andar. O major
pensou: que é que tem? não há desrespeito algum. Aproximaram-se do portão. Num dado momento
como que houve uma bulha atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quase não o fez.
Os edifícios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco luar. O major continuou a
mastigar a sua pergunta; urgia, era indispensável; o portão estava a dous passos. Tomou coragem,
ousou e falou:
- Vossa Excelência já leu o meu memorial, marechal?
Floriano respondeu lentamente, quase sem levantar o lábio pendente:
- Li.
Quaresma entusiasmou-se:
- Vê Vossa Excelência como é fácil erguer este país. Desde que se cortem todos aqueles
empecilhos que eu apontei, no memorial que Vossa Excelência teve a bondade de ler; desde que se
corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptável às condições do país, Vossa
Excelência verá que tudo isto muda, que, em vez de tributários, ficaremos com a nossa
independência feita... Se Vossa Excelência quisesse...
À proporção que falava, mais Quaresma se entusiasmava. Ele não podia ver bem a fisionomia do
ditador, encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéu de feltro; mas, se a visse,
teria de esfriar, pois havia na sua máscara sinais do aborrecimento mais mortal. Aquele falatório de
Quaresma, aquele apelo à legislação, a medidas governamentais, iam mover-lhe o pensamento, por
mais que não quisesse. O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
- Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?! Não
havia exército que chegasse...
Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
- Mas, não é isso, marechal. Vossa Excelência, com o seu prestígio e poder, está capaz de
favorecer, com medidas enérgicas e adequadas, o aparecimento de iniciativas, de encaminhar o
trabalho, de favorecê-lo e torná-lo remunerador... Bastava, por exemplo...
Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava lindo, plástico e opalescente.
Um grande edifício inacabado que havia na rua parecia terminado, com vidraças e portas feitas com
a luz da lua. Era um palácio de sonho.
Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; ele se despediu do major, dizendo
com aquela sua placidez de voz:
- Você, Quaresma, é um visionário...
O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava fisionomia às cousas, fazia nascer sonhos em nossa
alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz emprestada...

III
...E Tornaram Logo Silenciosos...
- Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não há meio!
- Já a levou a um médico especialista?
- Já. Tenho corrido médicos, espíritas, até feiticeiros, Quaresma!
E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do pince-nez. Os dous se haviam encontrado na
pagadoria da Guerra e vinham pelo campo de Sant’Anna, a pé, andando a pequenos passos e
conversando. O general era mais alto que Quaresma, e enquanto este tinha a cabeça sobre um
pescoço alto, aquele a tinha metida entre os ombros proeminentes, como cotos de asas. Albernaz
reatou:
- E remédios! Cada médico receita uma cousa; os espíritas são os melhores, dão homeopatia; os
feiticeiros tisanas, rezas e defumações... Eu não sei, Quaresma!
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E levantou os olhos para o céu, que estava um tanto plúmbeo. Não se demorou, porém, muito nessa
postura; o pince-nez não permitia, já começava a cair.
Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio.
Levantou o olhar ao fim de algum tempo, e disse:
- Por que não a recolhe a uma casa de saúde, general?
- Meu médico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, no estado em que a
menina está, não vale a pena...
Falava da filha, da Ismênia, que, naqueles últimos meses, piorava sensivelmente, não tanto da sua
moléstia mental, mas da saúde comum, vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo,
definhando, marchando a passos largos para o abraço frio da morte.
Albernaz dizia a verdade; para curá-la tanto de sua loucura como da atual moléstia intercorrente,
lançara mão de todos os recursos, de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.
Era de fazer refletir ver aquele homem, general, marcado com um curso governamental, procurar
médiuns e feiticeiros, para sarar a filha.
Às vezes até levava-os em casa. Os médiuns chegavam perto da moça, davam um estremeção,
ficam com uns olhos desvairados, fixos, gritavam: “Sai, irmão!” - e sacudiam as mãos, do peito
para a moça, de lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre ela os
fluidos milagrosos.
Os feiticeiros tinham outros passes e as cerimônias para entrar no conhecimento das forças ocultas
que nos cercam eram demoradas, lentas e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam,
acendiam um fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra cousa
esquisita, batiam com feixes de ervas, ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras
ininteligíveis. O ritual era complicado e tinha a sua demora.
Na saída, a pobre Dona Maricota, um tanto já diminuída da sua atividade e diligência, olhando
ternamente aquele grande rosto negro do mandingueiro, onde a barba branca punha mais veneração
e certa grandeza, perguntava:
- Então, titio?
O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as últimas comunicações do que não
se vê nem se percebe, e dizia com a sua majestade de africano:
- Vô vê, nhãnhã... Tô crotando mandinga...
Ela e o general tinham assistido à cerimônia e o amor de pais e também esse fundo de superstição
que há em todos nós levavam a olhá-la com respeito, quase com fé.
- Então foi feitiço que fizeram à minha filha? perguntava a senhora.
- Foi, sim, nhanhã.
- Quem?
- Santo não qué dizê.
E o preto obscuro, velho escravo, arrancado há um meio século dos confins da África, saía
arrastando a sua velhice e deixando naqueles dous corações uma esperança fugaz.
Era uma singular situação, a daquele preto africano, ainda certamente pouco esquecido das dores do
seu longo cativeiro, lançando mão dos resíduos de suas ingênuas crenças tribais, resíduos que tão a
custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses - e empregando-os na
consolação dos seus senhores de outro tempo. Como que os deuses de sua infância e de sua raça,
aqueles sanguinários manipansos da África indecifrável, quisessem vingá-lo à legendária maneira
do Cristo dos Evangelhos...
A doente assistia a tudo aquilo sem compreender e se interessar por aqueles trejeitos e passes de tão
poderosos homens que se comunicavam, que tinham às suas ordens os seres imateriais, as
existências fora e acima da nossa.
Andando, ao lado de Quaresma, o general lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo
contra a ciência, contra os espíritos, contra os feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos
poucos sem piedade e comiseração.
85
O major não sabia o que dizer diante daquela imensa dor de pai e parecia-lhe toda e qualquer
palavra de consolo parva e idiota. Afinal disse:
- General, o senhor permite que eu a faça ver por um médico?
- Quem é?
- É o marido de minha afilhada... o senhor conhece... É moço, quem sabe lá! Não acha? Pode ser,
não é?
O general consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. Cada médico
que consultava, cada espírita, cada feiticeiro reanimava-o, pois de todos eles esperava o milagre.
Nesse mesmo dia, Quaresma foi procurar o Doutor Armando.
A revolta já tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram problemáticas. No
Sul, a insurreição chegava às portas de São Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas
páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro de suas
trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque
era sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar
verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até à morte.
A ilha do Governador tinha sido ocupada e Magé tomado; os revoltosos, porém, tinham a vasta baía
e a barra apertada, por onde saíam e entravam, sem temer o estorvo das fortalezas.
As violências, os crimes que tinham assinalado esses dous marcos de atividade guerreira do
governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e ele sofria.
Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de móveis, roupas e outros haveres. O que
não podia ser transplantado, era destruído pelo fogo e pelo machado.
A ocupação deixou lá a mais execranda memória e até hoje os seus habitantes ainda se recordam
dolorosamente de um capitão, patriótico ou da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e
insofrido gosto pelo saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe, e o
capitão chamava o pobre homem:
- Venha cá!
O homem aproximava-se amedrontado e Ortiz perguntava:
- Quanto quer por isso?
- Três mil-réis, capitão.
Ele sorria diabolicamente e familiarmente regateava:
- Você não deixa por menos?... Está caro... Isso é peixe ordinário... Carapebas! Ora!
- Bem, capitão vá lá por dous e quinhentos.
- Leve isso lá dentro.
Ele falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em pé, demonstrando que
esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho:
- Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.
Entretanto, Moreira César deixou boas recordações de si e ainda hoje há lá quem se lembre dele,
agradecido por este ou aquele benefício que o famoso coronel lhe prestou.
As forças revoltosas pareciam não ter enfranquecido; tinham, porém, perdido dous navios, sendo
um destes o “Javari”, cuja reputação na revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra
detestavam-no particularmente. Era um monitor, chato, raso com a água, uma espécie de sáurio ou
quelônio de ferro, de construção francesa. A sua artilharia era temida; mas o que sobremodo
enraivecia os adversários, era ele não ter quase borda acima d’água, ficar quase ao nível do mar e
fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas máquinas não funcionavam e a grande tartaruga
vinha colocar-se em posição de combate com auxílio de um rebocador.
Um dia em que estava nas proximidades de Villegaignon, foi a pique. Não se soube e até hoje não
foi esclarecido por que foi. Os legalistas afirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os
revoltosos asseguraram que foi a abertura de uma válvula ou um outro acidente qualquer.
Como o do seu irmão, o “Solimões”, que desapareceu nas costas de cabo Polônio, o fim do “Javari”
ainda está envolvido no mistério.
86
Quaresma permanecia de guarnição no Caju, e viera receber dinheiro. Deixara lá Polidoro, pois os
outros oficiais estavam doentes ou licenciados, e Fontes, que, sendo uma espécie de inspetor-geral,
ao contrário de seus hábitos, dormira aquela noite no pequeno pavilhão imperial e ia ficar até à
tarde.
Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da proibição de tocar violão, andava macambúzio.
Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco
de árvore maldizendo no fundo de si a incompreensão dos homens e os caprichos do destino.
Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto, obrigara a Bustamante a fazê-lo
sargento. Não foi sem custo, porque o antigo veterano do Paraguai encarecia muito essa graduação
e só a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas importantes.
A vida do pobre menestrel era assim de um melro engaiolado; e, de quando em quando, ele se
afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos
disparos.
Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu demorar-se mais, e,
após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a casa do seu compadre, a fim de cumprir a
promessa que fizera ao general.
Coleoni ainda não decidira a sua viagem à Europa. Hesitava, esperando o fim da rebelião que não
parecia estar próximo. Ele nada tinha com ela; até ali, não dissera a ninguém a sua opinião; e, se era
muito instado, apelava para a sua condição de estrangeiro e metia-se numa reserva prudente. Mas,
aquela exigência de passaporte, tirado na chefatura de polícia, dava-lhe susto. Naqueles tempos,
toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os estrangeiros,
tanta arrogância nos funcionários que ele não se animava a ir obter o documento, temendo que uma
palavra, que um olhar, que um gesto, interpretados por qualquer funcionário zeloso e dedicado, não
o levassem a sofrer maus quartos de hora.
Verdade é que ele era italiano e a Itália já fizera ver ao ditador que era uma grande potência, mas no
caso de que se lembrava, tratava-se de um marinheiro, por cuja vida, extinta por uma descarga das
forças legais, Floriano pagara a quantia de cem contos. Ele, Coleoni, porém, não era marinheiro e
não sabia, caso fosse preso, se os representantes diplomáticos de seu país tomariam interesse pela
sua liberdade.
De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade, quando o governo provisório expediu o
famoso decreto de naturalização, era bem possível que uma ou outra parte se ativessem a isso, para
desinteressar-se dele ou mantê-lo na famosa galeria nº 7, da Casa de Correição, transformada, por
uma penada mágica, em prisão de Estado.
A época era de susto e temor, e todos esses que ele sentia, só os comunicava à filha, porque o genro
cada vez mais se fazia florianista e jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos
estrangeiros.
E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fora nomeado médico do Hospital de
Santa Bárbara, na vaga de um colega, demitido a bem do serviço público como suspeito por ter ido
visitar um amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéu do mesmo nome, dentro da
baía, em frente à Saúde e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos, ele nada tinha que
fazer, pois até agora o governo não aceitara os seus oferecimentos de auxiliar o tratamento dos
feridos.
O major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha saído, ido dar volta pela cidade, dar arras
de sua dedicação à causa legal, conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não
esquecendo também de passear pelos corredores do Itamarati, fazendo-se ver pelos ajudantes-de-
ordens, secretários e outras pessoas influentes no ânimo de Floriano.
A moça viu entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu padrinho lhe causava
ultimamente, e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do
seu destacamento, a passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente,
como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento qualquer em que a morte
não estivesse presente.
87
Tanto mais que o via apreensivo, deixando perceber numa frase e noutra o desânimo e
desesperança.
Na verdade o major tinha um espinho n’alma. Aquela recepção de Floriano às suas lembranças de
reformas não esperavam nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a idéia que ele fazia do
ditador. Saíra ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar com um presidente que o
chamava de visionário, que não avaliava o alcance dos seus projetos, que os não examinava sequer,
desinteressado daquelas altas cousas de governo como se não o fosse!... Era pois para sustentar tal
homem que deixara o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era, pois, por esse homem
que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se não
se interessava pela sorte deles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do país, o
progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural?
Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma raiva de si mesmo; mas
em seguida considerava: o homem está atrapalhado, não pode agora; mais tarde com certeza ele
fará a cousa...
Vivia nessa alternativa dolorosa e era ela que lhe trazia apreensões, desânimo e desesperança,
notados por sua afilhada na sua fisionomia já um pouco acabrunhada.
Não tardou, porém, que, abandonando os episódios da sua vida militar, Quaresma explicasse o
motivo de sua visita.
- Mas qual delas? perguntou a afilhada.
- A segunda, a Ismênia.
- Aquela que estava para casar com o dentista?
- Esta mesmo.
- Ahn!...
Ela pronunciou este “ahn” muito longo e profundo, como se pusesse nele tudo que queria dizer
sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da moça, mas via melhor a causa, naquela obrigação
que incrustam no espírito das meninas, que elas se devem casar a todo o custo, fazendo do
casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma desonra, uma injúria, ficar solteira.
O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada disso: é simplesmente casamento,
uma coisa vazia, sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades.
Graças à frouxidão, à pobreza intelectual e fraqueza de energia vital de Ismênia, aquela fuga do
noivo se transformou em certeza de não casar mais e tudo nela se abismou nessa idéia desesperada.
Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando lutava pela fortuna se
fez duro e áspero, mas logo que se viu rico, perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem
que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo.
Ultimamente o major tinha diminuído um pouco o interesse pela moça; andava atormentado com o
seu caso de consciência, entretanto, se não tinha um constante e particular pensamento pela desdita
da filha de Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana.
Não se demorou muito na casa do compadre; ele queria, antes de voltar ao Caju, passar pelo quartel
do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no
“Sossego”, e de quem tinha notícias, por carta, três vezes por semana. Eram elas satisfatórias,
contudo ele tinha necessidade de ver tanto ela como o Anastácio, fisionomias com quem se
encontrava diariamente há tantos anos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituísse a
calma e a paz de espírito.
Na última carta que recebera de Dona Adelaide, havia uma frase de que, no momento, se lembrava
sorrindo: “Não te exponhas muito, Policarpo. Toma muita cautela.” Pobre Adelaide! Estava a
pensar que esse negócio de balas é assim como a chuva?!...
O quartel ainda ficava no velho cortiço condenado pela higiene, lá para as bandas da Cidade Nova.
Assim que Quaresma apontou na esquina, a sentinela deu um grande berro, fez uma imensa bulha
com a arma e ele entrou, tirando o chapéu da cabeça baixa, pois estava a paisana e tinha
abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as susceptibilidades republicanas dos
jacobinos.
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No pátio, o instrutor coxo adestrava novos voluntários e os seus majestosos e demorados gritos:
ombroôô... armas! mei-ããã volta... volver! subiam no céu e ecoavam longamente pelos muros da
antiga estalagem.
Bustamente estava no seu cubículo, mais conhecido por gabinete, irrepreensível no seu uniforme
verde-garrafa, alamares dourados e vivos azul-ferrete. Com auxílio de um sargento, examinava a
escrita de um livro quarteleiro.
- Tinta vermelha, sargento! É como mandam as instruções de 1864.
Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante.
Logo que viu Quaresma entrar, o comandante exclamou radiante:
- O major adivinhou!
Quaresma descansou placidamente o chapéu, bebeu um pouco d’água, e o Coronel Inocêncio
explicou a alegria:
- Sabe que temos de marchar?
- Para onde?
- Não sei... Recebi ordem do Itamarati.
Ele não dizia nunca do quartel-general, nem mesmo do ministro da Guerra; era do Itamarati; do
Presidente, do chefe supremo. Parecia que assim dava mais importância a si mesmo e ao seu
batalhão, fazia-o uma espécie de batalhão da guarda, favorito e amado do ditador. Quaresma não se
espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossível obter a licença e também necessário
mudar os seus estudos: da artilharia, tinha que passar para a infantaria.
- O major é que vai comandar o corpo, sabia?
- Não, coronel. E o senhor não vai?
- Não, disse Bustamante, alisando o cavanhaque mosaico e abrindo a boca para o lado esquerdo.
Tenho que acabar a organização da unidade e não posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...
Começava a tarde, quando Quaresma saiu do quartel. O instrutor coxo continuava, com força,
majestade e demora, a gritar: om-brôôô... armas! A sentinela não pôde fazer a bulha da entrada,
porque só viu o major quando já ia longe. Ele desceu até à cidade e foi ao correio. Havia alguns
tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas continuavam a trocar idéias para a consolidação
definitiva da República.
Antes de chegar ao correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a uma livraria e comprou
livros sobre infantaria; precisava também dos regulamentos: arranjaria no quartel-general.
Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Niterói? Não sabia... Não sabia... Ah! se isso fosse para
realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...
E passou o dia atormentado pela dúvida do bom emprego de sua vida e de suas energias.
O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do general. Ele levava a íntima
convicção de que a sua ciência toda nova pudesse fazer alguma cousa; mas assim não se deu.
A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco atenuada, o seu organismo caía.
Estava magra e fraca, a ponto de quase não poder sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto
a ela vivia; as irmãs se desinteressavam um pouco, pois as exigências de sua mocidade levavam-nas
para outros lados.
Dona Maricota, tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes, estava sempre no
quarto da filha, a consolá-la, animá-la e, às vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um
tanto culpada pela sua infelicidade.
A moléstia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismênia, tinha-lhe diminuído a lassidão, tirado o
mortiço dos olhos e os seu lindos cabelos castanhos, com reflexos de ouro, mais belos se faziam
quando cercavam a palidez de sua face.
Raro era falar muito; e assim foi que, naquele dia, se espantou muito Dona Maricota com a
loquacidade da filha.
- Mamãe, quando se casa Lalá?
- Quando se acabar a revolta.
- A revolta ainda não acabou?
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A mãe respondeu-lhe e ela esteve um instante calada, olhando o teto, e, após essa contemplação
disse à mãe:
- Mamãe... Eu vou morrer...
As palavras saíram-lhe dos lábios, seguras, doce e naturais.
- Não diga isso, minha filha, adiantou-se Dona Maricota. Qual morrer! Você vai ficar boa; seu pai
vai levar você para Minas; você engorda, toma forças...
A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como se se tratasse de uma
criança. Ela ouvia tudo com paciência e voltou por sua vez serenamente:
- Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa à senhora...
A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em redor, deu com a porta
semicerrada e levantou-se para fechá-la. Quis ainda ver se a dissuadia daquele pensamento;
Ismêndia, porém, continuava a repeti-lo pacientemente, docemente, serenamente:
- Eu sei, mamãe.
- Bem. Suponho que é verdade: o que é que você quer?
- Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.
Dona Maricota ainda quis brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para o outro lado, pôs-se a
dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe saiu do quarto, comovida, com lágrimas nos olhos e
a secreta certeza de que a filha falava a verdade.
Não tardou muito a se verificar. O Doutor Armando a tinha visitado naquela manhã pela quarta
vez; ela parecia melhor, desde alguns dias, falava com discernimento, sentava-se à cama e
conversava com prazer.
Dona Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue às irmãs. Elas foram lá ao
quarto várias vezes e parecia dormir. Distraíram-se.
Ismênia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto, o seu traje de noiva. Teve
vontade de vê-lo mais de perto. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplá-lo.
Chegou-lhe o desejo de vesti-lo. Pôs a saia; e, por aí, vieram recordações do seu casamento falhado.
Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente ósseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas
não se recordou com ódio, antes como se fosse um lugar visto há muito tempo, e que a tivesse
impressionado.
De quem ela se lembrava com raiva era da cartomante. Iludindo sua mãe, acompanhada por uma
criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinhá. Com que indiferença ela lhe respondeu: não volta!
Aquilo doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah! Acabou de abotoar a saia em cima do
corpinho, pois não encontrara colete; e foi ao espelho. Viu os seu ombros nus, o seu colo muito
branco...Surpreendeu-se. Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. O
véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueza, uma
cousa, deu um ai e caiu de costas na cama, com as pernas para fora... Quando a vieram ver, estava
morta. Tinha ainda a coroa na cabeça e um seio, muito branco e redondo, saltava-lhe do corpinho.
O enterro foi feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia, como nos dias de
suas melhores festas.
Quaresma foi ao enterro; ele não gostava muito dessa cerimônia; mas veio, e foi ver a pobre moça,
no caixão, coberta de flores, vestida de noiva, com um ar imaculado de imagem. Pouco mudara,
entretanto. Era ela mesma ali; era a Ismênida dolente e pobre de nervos, com os seus traços miúdos
e os seus lindos cabelos, que estava dentro daquelas quatro tábuas. A morte tinha fixado a sua
pequena beleza e o seu aspecto pueril; e ela ia para a cova com a insignificância, com a inocência e
a falta de acento próprio que tinha tido em vida.
Contemplando aqueles tristes restos, Quaresma viu o caixão do coche parar na porta do cemitério,
atravessar pelas ruas de túmulos - uma multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na
estreiteza da várzea e nas encostas das colinas. Algumas sepulturas como se olhavam com afeto e
se queriam aproximar; em outras, transparecia repugnância por estarem perto. Havia ali, naquele
mudo laboratório de decomposições, solicitações incompreensíveis, repulsões, simpatias e
antipatias; havia túmulos arrogantes, vaidosos, orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muito,
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ressumava o esforço, um esforço extraordinário, para escapar ao nivelamento da morte, ao
apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
Quaresma ainda contemplava o cadáver da moça e o cemitério surgia aos seus olhos com as
esculturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e inscrições, em alguns túmulos; noutros, eram
pirâmides de pedra tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos, cousas
barrocas e delirantes, para fugir ao anonimato do túmulo, ao fim dos fins.
As inscrições exuberam: são longas, são breves; têm nomes, têm datas, sobrenomes, filiações, toda
a certidão de idade do morto que, lá embaixo, não se pode mais conhecer e é lama pútrida.
E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem uma celebridade, uma
notabilidade, um desses nomes que enchem décadas e, às vezes, mesmo já mortos, parece que
continuam a viver. Tudo é desconhecido; todos aqueles que querem fugir do túmulo para a
memória dos vivos são anódinos felizes e medíocres existências que passaram pelo mundo sem ser
notadas.
E lá ia aquela moça por ali afora para o buraco escuro, para o fim, sem deixar na vida um traço
mais fundo de sua pessoa, de seus sentimentos, de sua alma!
Quaresma quis afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. Ele estivera na sala
de visitas, onde Dona Maricota também estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe
diziam. O Lulu, fardado do colégio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As irmãs iam e
vinham. Na sala de jantar, estava o general silencioso, tendo ao lado Fontes e outros amigos.
Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma passou, pôde ouvir o
almirante dizer:
- Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O governo está exausto.
O major ficou na janela que dava para o quintal. O tecido do céu se tinha adelgaçado; o azul estava
sedoso e fino; e tudo tranqüilo, sereno e calmo.
A Estefânia, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo ao lado Lalá, que levava, de
quando em quando, o lenço aos olhos já secos, a quem aquela dizia:
- Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao “Bonheur des Dames”... Dizem que tem
cousas boas e é pechincheiro.
O major voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal. Tinha uma tranqüilidade quase
indiferente. Genelício apareceu demasiadamente fúnebre. Todo de preto, ele tinha afivelado ao
rosto a mais profunda máscara de tristeza. O seu pince-nez azulado também parecia de luto.
Não lhe fora possível deixar de ir trabalhar; um serviço urgente fizera-o indispensável na
repartição.
- É isto, general, disse ele, não está lá o Doutor Genelício, nada se faz... Não há meio da Marinha
mandar os processos certos... É um relaxamento...
O general não respondeu; estava deveras combalido. Bustamente e Caldas continuavam a conversar
baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. Quinota chegou à sala de jantar.
- Papai, está aí o coche.
O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou à mulher que se ergueu com a face
contraída, exprimindo uma grande contensão. Os seus cabelos já tinham muitos fios de prata. Não
deu um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. Todos estavam vendo
sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelício tomou um partido: foi retirando os círios de ao
redor do caixão. A mãe levantou-se, veio até ao esquife, beijou o cadáver: minha filha!
Quaresma adiantou-se, foi saindo com o chapéu na mão. No corredor, ainda ouviu Estefânia dizer a
alguém: o coche é bonito.
Saiu. Na rua parecia que havia festa. As crianças da vizinhança cercavam o carro fúnebre e faziam
inocentes comentários sobre os dourados e enfeites. As grinaldas foram aparecendo e sendo
penduradas nas extremidades das colunas do coche: “À minha querida filha”, “À minha irmã”. As
fitas roxas e pretas, com letras douradas, moviam-se lentamente ao leve vento que soprava.
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Apareceu o caixão, todo roxo, com guarnições de galões dourados, muito brilhantes. Tudo aquilo ia
pra terra. As janelas se povoaram, de um lado e doutro da rua; um menino na casa próxima gritou
da rua para o interior: “Mamãe, lá vai o enterro da moça!”
O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuário, cujos cavalos, ruços, cobertos com
uma rede preta, escarvavam o chão cheios de impaciência.
Aqueles que iam acompanhar até ao cemitério procuravam os seus carros. Embarcaram todos, e o
enterro rodou.
A esse tempo, na vizinhança, alguns pombos imaculadamente brancos, as aves de Vênus, ergueram
o vôo, ruflando estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos, quase
sem bater asas, para o pombal que se ocultava nos quintais burgueses...

IV
O Boqueirão
O Sítio de Quaresma, em Curuzu, voltava aos poucos ao estado de abandono em que ele o
encontrara. A erva daninha crescia e cobria tudo. As plantações que fizera tinham desaparecido na
invasão do capim, do carrapicho, das urtigas e outros arbustos. Os arredores da casa ofereciam um
aspecto desolador, apesar dos esforços de Anastácio, sempre vigoroso e trabalhador na sua forte
velhice africana, mas baldo de iniciativa, de método, de continuidade no esforço.
Um dia capinava aqui, noutro dia ali, outro pedaço, e assim ia saltando de trecho em trecho, sem
fazer trabalho que se visse, permitindo que as terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto
de desleixo que não condizia com o seu trabalho efetivo.
As formigas voltaram também, mais terríveis e depredadoras, vencendo obstáculos, devastando
tudo, restos de seara, brotos de fruteiras, até os araçazeiros depenavam, com uma energia e bravura
que sorriam aos fracos expedientes da inteligência crestada do antigo escravo, incapaz de achar
meios eficazes de batê-las ou afungentá-las.
Entretanto ele cultivava. Era a sua mania, o seu vício, uma teimosia de caduco. Tinha uma horta
que disputava diariamente às saúvas; e, como os animais da vizinhança a tivessem um dia invadido,
ele a protegeu pacientemente com uma cerca de materiais mais inconcebíveis: latas de querosene
desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, tábuas de caixão, não obstante ter à mão bambus à
vontade.
Na sua inteligência havia uma necessidade do tortuoso, do aparentemente fácil; e, em tudo ele
punha esse jeito de sua psique, tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava,
irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo à regularidade, ao paralelismo, à simetria, com um
horror artístico.
A revolta tinha tido sobre a política local efeito pacificador. Todos os partidos se fizeram
dedicadamente governistas, de forma que, entre os dous poderosos contendores, o Doutor Campos
e o Tenente Antonino, houve um traço-de-união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso
que ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que pôs em perigo a
segurança de ambos e eles se puseram em expectativa, um instante unidos.
O candidato foi imposto pelo governo central e as eleições chegaram. É um momento bem curioso
esse das eleições na roça. Não se sabe bem donde saem tantos tipos exóticos. De tal forma são eles
esquisitos que se pode mesmo esperar que apareçam calções e bofes de renda, espadins e gibão. Há
sobrecasacas de cintura, há calças boca de sino, há chapéus de seda - todo um museu de
indumentária que aqueles roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas
esburacadas e estradas poeirentas das vilas e lugarejos. Não faltam também os valentões, com
calças bombachas e grandes bengalões de pequiá, à espera do que der e vier.
Para a monótona vida que levava Dona Adelaide, esse desfile de manequins de museu, por sua
porteira, em direção à seção eleitoral que lhe ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ela
passava longos e tristes dias naquele isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de
Felizardo, a Sinhá Chica, uma velha cafuza, espécie de Medéia esquelética, cuja fama de rezadeira
pairava por sobre todo o município. Não havia quem como ela soubesse rezar dores, cortar febres,
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curar cobreiros e conhecesse os efeitos das ervas medicinais: a língua-de-vaca, a silvina, o cipó-
chumbo - toda aquela drogaria que crescia pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de
árvores.
Além desse saber que a fazia estimada e respeitável, tinha também a habilidade de assistir partos.
Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo remediada, todos os nascimentos se faziam aos
cuidados de suas luzes.
Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento doméstico em cruz, repetidas
vezes, sobre a sede da dor ou da tarefa, rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam
o espírito maligno que estava ali. Contavam-se dela milagres, vitórias extraordinárias,
denunciadoras do seu estranho poder quase mágico, sobre as forças ocultas, que nos perseguem ou
nos auxiliam.
Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e a toda a hora, consistia no afastamento das
lagartas. Os vermes haviam dado num feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o
proprietário já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes
de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôs cruzes de gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse
uma cerca de invisível material que nelas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta e colocou-se
na oposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se. Os vermes, num rebanho moroso e
serpejante, como se fossem tocados pela vara de um pastor, foram saindo na sua frente, devagar,
aos dous, aos quatro, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou.
O Doutor Campos não tinha absolutamente nenhuma espécie de ciúme dessa rival. Armou-se de
um pequeno desdém pelo poder sobre-humano da mulher, mas não apelou nunca para o arsenal de
leis, que vedava o exercício de sua transcendente medicina. Seria a impopularidade; ele era
político...
No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as duas medicinas coexistem sem
raiva e ambas atendem às necessidades mentais e econômicas da população.
A da Sinhá Chica, quase grátis, ia ao encontro da população pobre, daquela em cujos cérebros, por
contágio ou herança, ainda vivem os manitus e manipansos, sujeitos a fugirem aos exorcismos,
benzeduras e fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente pobre da terra, ali
nascida ou criada; havia mesmo recém-chegados de outros ares, italianos, portugueses e espanhóis,
que se socorriam da sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contágio das crenças
ambientes, mas também por aquela estranha superstição européia de que todo o negro ou gente
colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria.
Enquanto a terapêutica fluídica ou herbácea de Sinhá Chica atendia aos miseráveis, aos pobretões, a
do Doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina
regular e oficial.
Às vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas moléstias graves, nas complicadas, nas
incuráveis, quando as ervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pílulas do doutor
eram impotentes.
Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradável. Vivia sempre mergulhada no seu sonho
divino, abismada nos misteriosos poderes dos feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos
baixos, fixos, de fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de múmia, tanto ela era encarquilhada e
seca.
Não esquecia também os santos, a santa madre igreja, os mandamentos, as orações ortodoxas;
embora não soubesse ler, era forte no catecismo e conhecia a história sagrada aos pedaços,
aduzindo a eles interpretações suas e interpolações pitorescas.
Com o Apolinário, o famoso capelão das ladainhas, era ela o forte poder espiritual da terra. O
vigário ficava relegado a um papel de funcionário, espécie de oficial de registro civil, encarregado
dos batizados e casamentos, pois toda a comunicação com Deus e o invisível se fazia por
intermédio de Sinhá Chica ou do Apolinário. É de dever falar em casamento, mas bem podiam ser
esquecidos, porque a nossa gente pobre faz uso reduzido de tal sacramento e a simples mancebia,
por toda a parte, substitui a solene instituição católica.
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Felizardo, o marido dela, aparecia pouco em casa de Quaresma; e, se aparecia, era à noite, passando
os dias pelos matos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o
barulho já tinha acabado.
Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janela e embrenhando-se na capoeira, à
menor bulha ouvida.
Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam à depressão moral dos pais uma pobreza
de vigor físico e uma indolência repugnante. Eram dous rapazes: o mais velho, José, orçava pelos
vinte anos; ambos inertes, moles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, das rezas e
benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pai.
Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho contínuo. De
quando em quando, assim de quinze em quinze dias, faziam uma talha de lenha e vendiam ao
primeiro taverneiro pela metade do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de
cores vivas, um vidro de água-de-colônia, um espelho, bugigangas que denunciavam ainda neles
gostos bastantes selvagens.
Passavam então uma semana em casa, a dormir ou perambular pelas estradas e vendas; à noite,
quase sempre nos dias de festa e domingos, saíam com a “harmônica” a tocar peças, no que eram
exímios, sendo a presença deles muito requestada nos bailes da vizinhança.
Embora seus pais vivessem em casa de Quaresma, raramente lá apareciam; e, se o faziam, era
porque de todo não tinham que comer. Levavam o descuido da vida, a imprevidência, a ponto de
não terem medo do recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e bondade,
mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes à natureza, como uma pena ou castigo.
Essa atonia da nossa população, essa espécie de desânimo doentio, de indiferença nirvanesca por
tudo e todas as cousas cercam de uma caligem de tristreza desesperada a nossa raça e tira-lhe o
encanto, a poesia e o viço sedutor de plena natureza.
Parece que nem um dos grandes países oprimidos, a Polônia, a Irlanda, a Índia apresentará o
aspecto cataléptico do nosso interior. Tudo aí dorme, cochila, parece morto; naqueles há revolta, há
fuga para o sonho; no nosso... Oh!... dorme-se...
A ausência de Quaresma trouxera para o seu sítio essa atmosfera geral da roça. O “Sossego”
parecia dormir, dormir de encantamento, à espera que o príncipe o viesse despertar.
Máquinas agrícolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a etiqueta da casa. Aqueles
arados de ponta de aço, que tinham chegado com a relva reluzente, de um brilho azulado e doce,
estavam hediondos e morriam de tédio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente
para o céu mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no galinheiro, o esvoaçar dos
pombos - todo esse hino matinal de vida, de trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras
rosadas e com o chilreio álacre do passaredo; e ninguém sabia ver as paineiras em flor; com as suas
lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, caíam docemente como aves feridas.
Dona Adelaide não tinha nem gosto nem atividade para superintender aqueles serviços e fruir a
poesia da roça. Sofria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os
gêneros na venda e não se incomodava com as cousas do sítio.
Ansiava pela volta do irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, às quais ele respondia aconselhando
calma, fazendo promessas. A última recebida, porém, tinha de sopetão outro acento; não era mais
confiante, entusiástica, traía desânimo, desalento, mesmo desespero.
“Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi há quase duas semanas.
Justamente quando ela me chegou às mãos, acabava de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas
que me levou à cama e tratar-me-á uma convalescença longa. Que combate, milha filha! Que
horror! Quando me lembro dele, passo as mãos pelos olhos como para afastar uma visão má. Fiquei
com um horror à guerra que ninguém pode avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas,
chorões sinistros, imprecações - e tudo isto no seio da treva profunda da noite... Houve momentos
que se abandonaram as armas de fogo: batíamo-nos à baioneta, a coronhadas, a machado, a facão.
Filha: um combate de trogloditas, uma cousa pré-histórica... Eu duvido, eu duvido, duvido da
justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de
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nós todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos
milenários combates com as feras, quando disputávamos a terra a elas... Eu não vi homens de hoje;
vi homens de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem
amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo também fez
das suas, também foi descobrir dentro de si muita brutalidade, muita ferocidade, muita crueldade...
Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o
inimigo arquejava a meus pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei
a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguém enfim... Não imaginas como isto faz-me sofrer...
Quando caí embaixo de uma carreta, o que doía não era a ferida, era a alma, era a consciência; e
Ricardo, que foi ferido e caiu ao meu lado, a gemer e pedir - “capitão, meu gorro; meu gorro!” -
parecia que era o meu próprio pensamento que ironizava o meu destino...
Esta vida é absurda e ilógica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não
sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos contradizer de
sol para sol...
O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes encargos, irei viver na
quietude, na quietude mais absoluta possível, para que do fundo de mim mesmo ou do mistério das
cousas não provoque a minha ação o aparecimento de energias estranhas à minha vontade, que mais
me façam sofrer e tirem o doce sabor de viver...
Além do que, penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil. Tudo o que nele pus de
pensamento não foi atingido; e o sangue que derramei, e o sofrimento que vou sofrer toda a vida
foram empregados, foram gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralizados em prol
de uma tolice política qualquer...
Ninguém compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo,
maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade.”
..................................................................................................
Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era, porém, delicado e exigia tempo
para uma cura completa e sem perigos. Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o
sofrimento de Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era físico e não se
cansava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara até à posição de combatente.
Os hospitais em que se tratavam estavam separados pela baía, agora intransponível, exigindo a
viagem de uma margem à outra bem doze horas por estrada de ferro.
Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela estação em que morava. O
trem, porém, não parava, e ele se limitou a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para
aquele seu “Sossego”, de terras pobres e árvores velhas, onde sonhara repousar calmamente por
toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrível das aventuras.
E ele perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro sossego, onde se poderia
encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo qual tanto ansiava, depois dos sacolejamentos por que
vinha passando - onde? E o mapa dos continentes, as cartas dos países, as plantas das cidades,
passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou um país, uma província, uma cidade, uma rua
onde o houvesse.
A sua sensação era de fadiga, não física, mas moral e intelectual. Tinha vontade de não mais
pensar, de não mais amar; queria, contudo, viver, por prazer físico, pela sensação material pura e
simples de viver.
Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma visita, sem ver uma
face amiga.
Coleoni e família se haviam retirado para fora; o general, por preguiça e desleixo, não viera vê-lo.
Vivia só, envolvido na suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas idéias e
mais que tudo nas suas desilusões.
Entretanto, a revolta na baía chegava ao fim; toda a gente já pressentia isso e queria esse alívio.
O almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim com tristeza. O
primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseqüente volta para o quadro; e o
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general sentia perder a sua comissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notável melhorar a
situação da família.
Naquela manhã, bem cedo, Dona Maricota acordara o marido:
- Chico, levanta-te! Olha que tens que ir à missa do Senador Clarimundo...
Ouvindo a recomendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito. Era preciso não faltar. A sua
presença se impunha e significava muito. Clarimundo fora um republicano histórico, agitador,
tribuno temido, no tempo do Império; após a República, porém, não apresentara aos seus pares do
Senado nada de útil e benfazejo. Embora assim, a sua influência ficara sendo grande; e, com
diversos outros, era chamado patriarca da República. Há nos próceres republicanos uma
necessidade extraordinária de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que eles se
recomendam com teimoso interesse.
Clarimundo era um desses próceres e, durante a comoção, não se sabia bem por quê, o seu prestígio
cresceu e já se falava nele para substituir o marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir
a sua missa era quase uma afirmação política.
A dor da morte da filha já se esvaíra muito na sua memória. O que o fazia sofrer era aquela
semivida da moça, mergulhada na loucura e na moléstia. A morte tem a virtude de ser brusca, de
chocar, mas não corroer, como essas moléstias duradouras nas pessoas amadas; passado que é o
choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente querido, uma boa fisionomia sempre
presente aos nossos olhos.
Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram voltando
insensivelmente.
Obediente à mulher, preparou-se, vestiu-se e saiu. Conquanto se estivesse ainda em plena revolta,
esses ofícios fúnebres se faziam nas igrejas do centro da cidade. O general chegou a tempo e à hora.
Havia uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assinar as listas de presença. Não tanto que
quisessem atestar à família do morto esse ato delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter
os nomes nos jornais.
Albernaz não deixou de atirar-se também a uma das listas que andavam pelas mesas da sacristia; e,
quando ia assinar, alguém lhe falou. Era o almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram
entrar na nave cheia, e ficaram a um vão da janela, na sacristia, conversando.
- Então acaba breve, hein?
- Dizem que a esquadra já saiu de Pernambuco.
Fora Caldas quem falara primeiro e a resposta do general fê-lo sorrir irônico dizendo:
- Enfim...
- A baía está cercada de canhões, continuou o general, após uma pausa, e o marechal vai intimá-los
a renderem-se.
- Já era tempo, fez Caldas... Comigo, a cousa já estava acabada... levar quase sete meses para dar
cabo de uns calhambeques!...
- Você exagera, Caldas; a cousa não era tão fácil assim... E o mar?
- Que fez, a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! Se fosse com este seu criado,
tinha logo partido e atacado... Sou pelas decisões prontas...
O padre, no interior da igreja, continuava a pedir a Deus repouso para a alma do Senador
Clarimundo. O místico cheiro de incenso vinha até eles e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz
e da bondade, não os demovia dos seus pensamentos guerreiros.
- Entre nós, aduziu Caldas, não há mais gente que preste... Isto é um país perdido, acaba colônia
inglesa...
Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. Albernaz avançou,
meio sarcástico:
- Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma era de progresso vai abrir-se
para o Brasil.
- Qual o quê! Onde é que você viu um governo...
- Mais baixo, Caldas!
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- ...onde é que se viu um governo que não aproveita as aptidões, abandona-as, deixa-as por aí
vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturais: jazem por aí à toa!
A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma porção de homens, todos de
negro, ajoelhados, contritos, batendo nos peitos, a confessar de si para si: mea culpa, mea maxima
culpa...
Uma réstia de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças.
Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e confessaram também: mea culpa,
mea maxima culpa...
A missa veio a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmática. A nave rescendia a incenso e
tinha um aspecto tranqüilo de imortalidade.
Todos tinham um grande ar de compunção: amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos
pareciam sofrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram no corpo da igreja, apanharam
no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto.
Genelício também viera; ele tinha o vício das missas das pessoas importantes, dos cartões de
pêsames, dos cumprimentos em dias de aniversário. Temendo que a memória não lhe ajudasse,
possuía um caderninho onde as datas aniversárias estavam assentadas e as residências também. O
índice era organizado com muito cuidado. Não havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem
importante que, em dia de aniversário, não recebesse os seus parabéns, e, por morte, não o levasse à
igreja em missa de sétimo dia.
O seu traje de luto era de pano grosso, pesado; e, olhando-o, lembrava-nos logo de um castigo
dantesco.
Na rua, Genelício escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao almirante:
- A cousa está pra acabar!... Breve...
- E se resistirem? perguntou o general.
- Qual! Não resistem. Corre que já propuseram rendição... É preciso arranjar uma manifestação ao
marechal...
- Não acredito, fez o almirante. Conheço muito o Saldanha, é orgulhoso e não se entrega assim...
Genelício ficou um pouco assustado com a entonação da voz do seu parente; teve medo que ele
falasse mais alto, desse na vista e o comprometesse. Calou-se; Albernaz, porém, avançou:
- Não há orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
- Forte! Uns calhambeques, homem!
Caldas continha a custo a fúria que lhe ia n’alma. O céu estava azul e calmo. Havia nele nuvens
brancas, leves, esgarçadas, que se moviam lentamente, como velas, naquele mar infinito. Genelício
olhou-o um pouco e aconselhou:
- Almirante não fale assim... Olhe que...
- Qual! Não tenho medo... Porcarias!...
- Bom, fez Genelício, eu tenho que ir à Rua Primeiro de Março e...
Despediu-se e saiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão com o seu pince-nez
azulado, palmilhando a rua com passo miúdo e cauteloso.
Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos, cada
um com o seu desgosto e a sua decepção.
Tinham razão: a revolta veio a acabar daí a dias. A esquadra legal entrou; os oficiais revoltosos se
refugiaram nos navios de guerra portugueses e o Marechal Floriano ficou senhor da baía.
No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte da população abandonou
a cidade, refugiando-se nos subúrbios, por baixo das árvores, na casa de amigos ou nos galpões
construídos adrede pelo Estado.
Era de ver o terror que se estampava naquelas fisionomias, a ânsia e a angústia também. Levavam
trouxas, samburás, pequenas malas; crianças de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de
estimação, o passarinho que de há muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.
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O que mais metia medo era o famoso canhão de dinamite, do “Niterói”, uma espalhafatosa
invenção americana, instrumento terrível, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos
das montanhas graníticas do Rio.
As crianças e as mulheres, mesmo fora do alcance de seu poder, temiam ouvir o seu estrondo;
entretanto, esse fantasma yankee, esse pesadelo, essa quase força da natureza, foi morrer
abandonado num cais, desprezado e inofensivo.
O fim do levante foi um alívio; a cousa já estava ficando monótona e o marechal ganhou feições
sobre-humanas com a vitória.
Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a ilha
das Enxadas. Inocêncio Bustamente continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior
do seu gabinete, na estalagem condenada que lhe servia de quartel. A escrituração estava em dia e
era feita com a melhor letra.
Policarpo aceitou com repugnância o papel de carcereiro, pois na ilha das Enxadas estavam
depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus tormentos d’alma mais cresceram com o exercício
de tal função. Quase os não olhava; tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre eles um
conhecia o segredo de sua consciência.
De resto, todo o sistema de idéias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. Não
encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV. Sentia também que o seu pensamento motriz não
residia em nenhuma das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos
políticos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os moços, que eram muitos,
se não havia baixo interesse, existia uma adoração fetíchica pela forma republicana, um exagero
das virtudes dela, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar
justo. Era grande a sua desilusão.
Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos aspirantes. Havia
simples marinheiros; havia inferiores; havia escreventes e operários de bordo. Brancos, pretos,
mulatos, caboclos, gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha metido em tal
aventura pelo hábito de obedecer, gente inteiramente estranha à questão em debate, gente arrancada
à força aos lares ou à calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado por miséria;
gente ignara, simples, às vezes cruel e pervesa como crianças inconscientes; às vezes, boa e dócil
como um cordeiro, mas, enfim, gente sem responsabilidade, sem anseio político, sem vontade
própria, simples autômatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado à mercê do
vencedor.
De tarde, ele ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a
pescar. Os barcos passavam. Ora eram lanchas fumarentas que lá iam para o fundo da baía; ora
pequenos botes ou canoas, roçando carinhosamente a superfície das águas, pendendo para lá e para
cá, como se as suas alvas velas enfunadas quisessem afagar a espelhenta superfície do abismo. Os
Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul imaterial que
inebriava, embriagava, como um licor capitoso.
Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade que entrava na sombra,
aos beijos sangrentos do ocaso.
A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, meditando, pensando, sofrendo
com aquelas lembranças de ódios, de sangueiras e ferocidade.
A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do exemplo delas vinham os
crimes que aquela punia, castigava e procurava restringir. Eram negras e desesperadas, as suas
idéias; muita vez julgou que delirava.
E então se lamentava por estar sozinho, por não ter um companheiro com quem conversar, que lhe
fizesse fugir àqueles tristes pensamentos que o assediavam e se estavam transformando em
obsessão.
Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras; e, mesmo que ali estivesse, os rigores da disciplina
não lhe permitiriam uma conversa mais amigável. Vinha a noite inteiramente, e o silêncio e a treva
envolviam tudo.
98
Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da baía, onde quase não havia
luzes que interrompessem a continuidade do negror noturno.
Fixava bem os olhos para lá, como se os quisesse habituar a penetrar nas cousas indecifráveis e
adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito
desaparecer.
Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insônia e, se queria ler, a atenção recusava
fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro.
Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veio acordá-lo pela madrugada:
- Senhor major, está aí o “home” do Itamarati.
- Que homem?
- O oficial que vem buscar a turma do Boqueirão.
Sem atinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do visitante. O homem já estava no
interior de um dos alojamentos. Uma escolta estava à porta. Seguiam-se algumas praças, das quais
uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarelada. A vasta sala estava
cheia de corpos, deitados, seminus, e havia todo o íris das cores humanas. Uns roncavam, outros
dormiam somente; e, quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho gemeu - ai!
Cumprimentaram-se, Quaresma e o emissário do Itamarati, e nada disseram. Ambos tiveram medo
de falar. O oficial despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: “Levem este.”
Seguiu adiante e despertou outro: - “Onde você esteve?” “Eu” - respondeu o marinheiro - “na
‘Guanabara’”... “Ah! patife” acudiu o homem do Itamarati... “Este também... Levem!”...
Os soldados condutores iam até à porta, deixavam o prisioneiro e voltavam.
O oficial passou por uma porção deles e não fez reparo; adiante, deu com um rapaz claro, franzino,
que não dormia. Gritou então: “Levante-se!” O rapaz ergueu-se tremendo - “Onde esteve você?”
perguntou - “Eu era enfermeiro”, retrucou o rapaz. - “Que enfermeiro!” fez o emissário. “Levem
este também”...
- Mas, “seu” tenente, deixe-me escrever à minha mãe, pediu o rapaz quase chorando.
- Que mãe! respondeu o homem do Itamarati. Siga! Vá!
E assim foi uma dúzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, a embarcar num batelão
que uma lancha logo rebocou para fora das águas da ilha.
Quaresma não atinou de pronto com o sentido da cena e foi após o afastamento da lancha que ele
encontrou uma explicação.
Não deixou de pensar então por que força misteriosa, por que injunção irônica ele se tinha
misturado em tão tenebrosos acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regime...
A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro às pedras do cais. A esteira
da embarcação estrelejava fosforescente. No alto, num céu negro e profundo, as estrelas brilhavam
serenamente.
A lancha desapareceu nas trevas do fundo da baía. Para onde ia? Para o Boqueirão...

V
A Afilhada
Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço. Pois ele, o
Quaresma plácido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos, merecia aquele triste
fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que ele pudesse pressentir o seu
extravagante propósito, tão aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com
os seus atos passados, com as suas ações encadeadas no tempo, que fizera com que aquele velho
deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam sido os fatos externos que
venceram a ele, Quaresma, e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade? Ele não
sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se baralhavam, se emaranhavam e a conclusão
certa e exata lhe fugia.
99
Não estava ali há muitas horas. Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo cálculo
aproximado do tempo, pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca
luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira nada lhe quisera dizer; e, desde
que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém, não vira
nenhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um
gesto, trazer sossego às suas dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao
presidente, protestando contra a cena que presenciara na véspera.
Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a desoras, escolhidos a esmo, para
uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos
todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana; e ele
escrevera a carta com veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou
claro, franca e nitidamente.
Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus
semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado
com os seus detritos, quase sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha,
no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para
qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a
liberdade ou a morte, mais esta que aquela.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e
senti-la bem na consciência cousa sua, própria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara
toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir
para a sua felicidade e prosperidade. Gastara sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora
que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava?
Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não
pandegara, não amara - todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza
necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar
inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe
contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele
tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas
agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma
decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os
livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara?
Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois
não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série,
melhor, um encadeamento de decepções.
A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete.
Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que
existia de fato era a do Tenente Antonino, a do Doutor Campos, a do homem do Itamarati.
E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua
vida norteado por uma ilusão, por uma idéia a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma
deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa idéia nascera da amplificação da crendice dos
povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso
alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de
Coulanges... Lembrou-se de que essa noção nada é para a Menenanã, para tantas pessoas...
Pareceu-lhe que essa idéia como que fora explorada pelos conquistadores por instantes sabedores
das nossas subserviências psicológicas, no intuito de servir às suas próprias ambições.
100
Reviu a história; viu as mutilações, os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si
para si: como um homem que vivesse quatro séculos, sendo francês, inglês, italiano, alemão, podia
sentir a Pátria?
Uma hora, para o francês, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num dado
momento, a Alsácia não era, depois era e afinal não vinha a ser.
Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, sentimos que haja lá manes
dos nossos avós e por isso sofremos qualquer mágoa?
Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista.
Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera
atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a pressentiu logo e se deixou
enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele, dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o
seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço
seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer
uma asneira!
Nada deixava que afirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso.
Contudo, quem sabe se os outros que lhe seguissem as pegadas não seriam mais felizes? E logo
respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera comunicar, se nada dissera e não prendera o seu
sonho, dando-lhe corpo e substância?
E esse seguimento adiantaria alguma coisa? E essa continuidade traria enfim para a terra alguma
felicidade? Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo, sacrificando e as
cousas ficaram na mesma, a terra na mesma miséria, na mesma opressão, na mesma tristeza.
E ele se lembrava que há bem cem anos, ali, naquele mesmo lugar onde estava, talvez naquela
mesma prisão, homens generosos e ilustres estiveram presos por quererem melhorar o estado de
cousas de seu tempo. Talvez só tivessem pensado, mas sofreram pelo seu pensamento. Tinha
havido vantagem? As condições gerais tinham melhorado? Aparentemente sim; mas, bem
examinado, não.
Aqueles homens, acusados de crime tão nefando em face da legislação da época, tinham levado
dous anos a ser julgados; e ele, que não tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria
simplesmente executado!
Fora bom, fora generoso, fora honesto, fora virtuoso - ele que fora tudo isso, ia para a cova sem
acompanhamento de um parente, de um amigo, de um camarada...
Onde estariam eles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples, e tão inocente na sua mania
de violão, ele não poria mais os olhos? Era tão bom que o pudesse, para mandar à sua irmã o último
recado, ao preto Anastácio um adeus, à sua afilhada um abraço! Nunca mais os veria, nunca!
E ele chorou um pouco.
Quaresma, porém, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e procurava soltá-lo. Teve
notícia do exato motivo dela; mas não se intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco,
pois a indignação no palácio contra Quaresma fora geral. A vitória tinha feito os vitoriosos
inclementes e ferozes, e aquele protesto soou entre eles como um desejo de diminuir o valor das
vantagens alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais simpatia, nem respeito pela vida
humana; o que era necessário era dar o exemplo de um massacre à turca, porém clandestino, para
que jamais o poder constituído fosse atacado ou mesmo discutido. Era a filosofia social da época,
com forças de religião, com os seus fanáticos, com os seus sacerdotes e pregadores, e ela agia com
a maldade de uma crença forte, sobre a qual fizéssemos repousar a felicidade de muitos.
Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influências de amigos. Ao entrar no Largo de São
Francisco encontrou Genelício. Vinha da missa da irmã da sogra do Deputado Castro. Como
sempre, trajava uma pesada sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava subdiretor e o seu
trabalho era agora imaginar meios e modos de ser diretor. A cousa era difícil; mas trabalhava num
livro: Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos - o qual, demonstrando uma erudição superior,
talvez lhe levasse ao alto lugar cobiçado.
Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe:
101
- Doutor, Vossa Excelência dá licença que lhe dê uma palavra?
Genelício perfilou-se todo e, como tivesse péssima memória das fisionomias humildes, perguntou
com solenidade e arrogância:
- Que deseja, camarada?
Coração dos Outros estava com a sua farda do “Cruzeiro do Sul” e não ficava bem a Genelício dar-
se como conhecido de soldado. O trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente:
- Não me conhece mais, doutor?
Genelício fechou um pouco os olhos por detrás do pince-nez azulado e disse secamente:
- Não.
- Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que cantou no seu casamento.
Genelício não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se:
- Ah! É o senhor! Bem: que deseja?
- O senhor não sabe que o major Quaresma está preso?
- Quem é?
- Aquele que foi vizinho do seu sogro.
- Aquele maluco... Ahn!... E daí?
- Eu queria que o senhor se interessasse...
- Não me meto nessas cousas, meu amigo. O governo tem sempre razão. Passe bem.
E Genelício seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das botas, enquanto Ricardo
ficava de pé a olhar o largo, a gente que passava, a estátua imóvel, as casas feias, a igreja... Tudo
lhe pareceu hostil, mau ou indiferente; aquelas caras de homens tinham cataduras de feras e ele quis
por um momento chorar de desespero por não poder salvar o amigo.
Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procurá-lo. Não era longe, mas o general ainda não
tinha chegado. Ao fim de uma hora o general chegou e, dando com Ricardo, perguntou:
- Que há?
O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o fato. Albernaz concertou o
pince-nez, ajeitou bem o trancelim de ouro na orelha e disse com doçura:
- Meu filho, eu não posso... Você sabe; sou governista e parece, se eu for pedir por um preso, que já
não o sou bastante... Sinto muito, mas... que se há de fazer? Paciência.
E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do seu plácido uniforme de
general.
Os oficiais continuavam a entrar e a sair; as campainhas soavam; os contínuos iam e vinham; e
Ricardo procurava entre todas aquelas fisionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e ele
desesperava. Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o comandante; e foi ter com o Coronel
Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao garboso “Cruzeiro do Sul”.
O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a revolta no porto do Rio de
Janeiro era preciso mandar forças para o Sul; de forma que os batalhões não tinham sido
dissolvidos e um dos apontados para partir era o “Cruzeiro”.
O alferes coxo, no ensaboado pátio da antiga estalagem, continuava na sua faina de instrutor dos
novos recrutas. Om - brôôô... armas! Mei - ãã volta!
Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscilante escada do velho cortiço e logo que chegou ao
cubículo do comandante, gritou: “Com licença, comandante!”
Bustamante andava de mau humor. Aquele negócio de partir para o Paraná não lhe agradava. Como
é que havia de superintender a escrita do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas
e contramarchas? Isso era uma tolice do comandante marchar; o chefe devia ficar a resguardo, para
providenciar e dirigir a escrituração.
Ele pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença.
- Entre, disse ele.
O bravo coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dólmã desabotoado e acabava de calçar um
dos pés de botina, para com mais decência receber o inferior.
102
Ricardo expôs o seu pedido e esperou com paciência a resposta, que custou a vir. Por fim,
Inocêncio disse, sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio de severidade:
- Vai-te embora, senão mando-te prender! Já!
E apontou com o dedo a porta da saída num gesto marcial e enérgico. O cabo não se demorou mais.
No pátio o instrutor coxo, veterano do Paraguai, continuava com solenidade a encher a arruinada
estalagem com as suas vozes de comando: Om-brôôô... armas! Meia-ãã... volta... volver!
Ricardo veio andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vazio de afeto e de amor. Ele que
sempre decantara nas suas modinhas a dedicação, o amor, as simpatias, via agora que tais
sentimentos não existiam. Tinha marchado atrás de cousas fora da realidade, de quimeras. Olhou o
céu alto. Estava tranqüilo e calmo. Olhou as árvores. As palmeiras cresciam com orgulho e
titanicamente pretendiam atingir o céu. Olhou as casas, as igrejas, os palácios e lembrou-se das
guerras, do sangue, das dores que tudo aquilo custara. E era assim que se fazia a vida, a história e o
heroísmo: com violência sobre os outros, com opressões e sofrimentos.
Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo e que era necessário dar mais uns passos.
Quem poderia? Consultou sua memória. Viu um, viu outro e por fim lembrou-se da afilhada de
Quaresma, e foi procurá-la na Real Grandeza.
Chegou, narrou-lhe o fato e as suas sinistras apreensões. Ela estava só, pois o marido cada vez mais
trabalhava para aproveitar os despojos da vitória; não perdia um minuto, andando atrás de um e de
outro.
Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura, da tenacidade que punha
em seguir as suas idéias, da sua candura de donzela romântica...
Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade de agir. Pareceu-
lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo ao sofrimento do padrinho;
mas bem cedo o viu ensangüentado - ele, tão generoso, ele, tão bom, e pensou em salvá-lo.
- Mas que fazer, meu caro Senhor Ricardo, que fazer? Eu não conheço ninguém... Eu não tenho
relações... Minhas amigas... A Alice, a mulher do Doutor Brandão, está fora... A Cassilda, a filha
do Castrioto, não pode... Não sei, meu Deus!
E acentuou estas últimas palavras com grande e lancinante desespero. Os dous ficaram calados. A
moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre as mãos e as suas unhas longas e aperoladas
engastaram-se nos seus cabelos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado.
- Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ela.
Pela primeira vez, ela sentiu que a vida tinha cousas desesperadoras. Possuía a mais forte
disposição de salvar seu padrinho; faria sacrifício de tudo, mas era impossível, impossível! Não
havia um meio; não havia um caminho. Ele tinha que ir para o posto de suplício, tinha que subir o
seu Calvário, sem esperança de ressurreição.
- Talvez seu marido, disse Ricardo.
Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caráter do esposo; mas, em breve, viu bem que o
seu egoísmo, a sua ambição e sua ferocidade interesseira não permitiriam que ele desse o mínimo
passo.
- Qual, esse...
Ricardo não sabia o que aconselhá-la e olhava sem pensamentos os móveis e a montanha negra e
alta que se avistava da sala onde estavam. Queria encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!
A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabelos negros e a olhar a mesa em que repousavam
os seus cotovelos. O silêncio era augusto.
Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:
- Se a senhora fosse lá...
Ela levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram de espanto e o rosto lhe ficou rígido. Pensou um
pouco, um nada, e falou com firmeza:
- Vou.
Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se.
103
Ele então pensou com admiração naquela moça que por simples amizade se dava a tão arriscado
sacrifício, que tinha a alma tão ao alcance dela mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo,
deste nosso egoísmo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar de
reconhecimento.
Não tardou que ela ficasse pronta e ainda abotoava as luvas, na sala de jantar, quando o marido
entrou. Vinha radiante, com os seus grandes bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si
mesmo. Nem fez menção de ter visto Ricardo e foi logo direto à mulher:
- Vais sair?
Ela, afogueada pela ânsia desesperada de salvar Quaresma, disse com certa vivacidade:
- Vou.
Armando ficou admirado de vê-la falar daquele modo. Voltou-se um instante para Ricardo, quis
interrogá-lo, mas logo, dirigindo-se à mulher, perguntou com autoridade:
- Onde vais?
A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o trovador:
- Que faz o senhor aqui?
Coração dos Outros não teve ânimo de responder; adivinhava uma cena violenta que ele teria
querido evitar, mas Olga adiantou-se:
- Vai acompanhar-me ao Itamarati, para salvar da morte meu padrinho. Já sabe?
O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasórios, poderia evitar que a mulher
desse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. Falou docemente:
- Fazes mal.
- Por quê? perguntou ela com calor.
- Vais comprometer-se. Sabes que...
Ela não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grande olhos cheios de escárnio;
mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um pouco e disse:
- É isto! “Eu”, porque “eu”, porque “eu”, é só “eu”, para aqui, “eu”para ali... Não pensas noutra
cousa... A vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu
(agora digo “eu”também) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na
minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada, nada! Sou alguma cousa como um
móvel, um adorno, não tenho relações, não tenho amizades, não tenho caráter? Ora!...
Ela falava, ora vagarosa e irônica, ora rapidamente e apaixonada; e o marido tinha diante de suas
palavras um grande espanto. Ele vivera sempre tão loge dela que não a julgara nunca capaz de tais
assomos. Então aquela menina? Então aquele bibelot? Quem lhe teria ensinado tais cousas? Quis
desarmá-la com uma ironia e disse risonho:
- Está no teatro?
Ela lhe respondeu logo:
- Se é só no teatro que há grandes cousas, estou.
E acrescentava com força:
- É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do meu direito.
Apanhou a sombrinha, concertou o véu e saiu solene, firme, alta e nobre. O marido não sabia o que
fazer. Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sair pela porta fora.
Em breve, estava no palácio da Rua Larga. Ricardo não entrou: deixou que a moça o fizesse e foi
esperá-la no Campo de Sant’Anna.
Ela subiu. Havia um imenso burburinho, uma agitação de entradas e saídas. Toda a gente queria
mostrar-se a Floriano, queria cumprimentá-lo, queria dar mostras de sua dedicação, provar os seus
serviços, mostrando-se co-participante na sua vitória. Lançavam mão de todos os meios, de todos
os planos, de todos os processos. O ditador tão acessível antes, agora se esquivava. Havia quem lhe
quisesse beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e ele já tinha nojo de tanta
subserviência. O califa não se supunha sagrado e aborrecia-se.
104
Olga falou aos contínuos, pedindo ser recebida pelo marechal. Foi inútil. A muito custo conseguiu
falar a um secretário ou ajudante-de-ordens. Quando ela lhe disse a que vinha, a fisionomia terrosa
do homem tornou-se de oca e sob as suas pálpebras correu um firme e rápido lampejo de espada:
- Quem, Quaresma? disse ele. Um traidor! Um bandido!
Depois, arrependeu-se da veemência, fez com certa delicadeza:
- Não é possível, minha senhora. O marechal não a atenderá.
Ela nem lhe esperou o fim da frase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe as costas e teve vergonha
de ter ido pedir, de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com
o seu pedido. Com tal gente, era melhor tê-lo deixado morrer só e heroicamente num ilhéu
qualquer, mas levando para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho, a sua doçura, a sua
personalidade moral, sem a mácula de um empenho que diminuísse a injustiça de sua morte, que de
algum modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de matá-lo.
Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já
tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de
dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa,
as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma
linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do campo... Tinha havido grande e
inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes
modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e
seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.

Todos os Santos (Rio de Janeiro), janeiro - março de 1911.

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O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo. Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria? E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá pra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janela aberta do esquisito subsecretário. Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o “pinho” na posição de tocar, o major, atentamente, ouvia: “Olhe, major, assim.” E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia: “É ‘ré’, aprendeu?” Mais não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério metido nessas malandragens! Uma tarde de sol - sol de março, forte e implacável - aí pelas cercanias das quatro horas, as janelas de uma erma rua de São Januário povoaram-se rápida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do general vieram moças à janela! Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico. É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuário não lhe escondia inteiramente as formas. À vista de tão escandaloso fato, a consideração e o respeito que o Major Policarpo Quaresma merecia nos arredores de sua casa diminuíam um pouco. Estava perdido, maluco, diziam. Ele, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição. Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava. Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino antigo de que ele sabia com precisão a época. Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando: - Janta já? - Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco. - Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito! O major descansou o chapéu-de-sol - um antigo chapéu-de-sol com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madrepérola - e respondeu: - Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês, muito o elogia. - Mas isso foi em outro tempo; agora... - Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos genuinamente nacionais... - Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias. O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descansando.

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Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era formado de estantes de ferro. Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião. Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major. De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gândavo; e Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von Brasilien), Melo Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente. Além destes, havia livros subsidiários: dicionários, manuais, enciclopédias, compêndios, em vários idiomas. Vê-se assim que a sua predileção pela poética de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma irremediável ignorância das línguas literárias da Europa; ao contrário, o major conhecia bem sofrivelmente francês, inglês e alemão; e se não falava tais idiomas, lia-os e traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa. Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves - era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro. Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar. Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria. Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e

Foi abri-la em pessoa. bem ao centro de sua biblioteca. a não ser aqueles que têm ambições políticas ou de fortuna. o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios mais dourados. Batiam à porta. às quatro e quinze da tarde. concertou o pince-nez e falou fraternal e persuasivo: “Ingrato! Tens uma terra tão bela. taciturno. disse: “Ah! Meu Deus! Quando poderei ir à Europa!” O major não se conteve: levantou o olhar. hei de percorrer a minha de princípio ao fim!” O outro objetou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos. era um sábio.” mas não pôde ir ao fim. . quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo. as montanhas lhe eram indiferentes. assim pela hora do café. quando lavavam as mãos num aposento próximo à secretária e se preparavam para sair. não perdeu a dignidade. . a modéstia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. como todas as tardes. distraído. e queres visitar a dos outros! Eu. No dia em que o chamaram de Ubirajara. tendo notícia desse estudo do idioma tupiniquim. também sem ser compreendido. e só veio falar porque. Todas as manhãs. cuja bisavó era brasileira. vingavam-se da cacetada. antes que a “Aurora. se algum dia puder. Era um clima caluniado pelos viciosos que de lá vinham doentes. porque Quaresma não as tinha no mínimo grau. o major contestou-lhe com estatísticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. no seu gabinete de trabalho. cobrindo-o de troças: “Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico.Não. as descobertas que fazia.. a avançar uma pilhéria. sem erro de um minuto. Sentindo que a alcunha lhe era dirigida.. a não ser esse tal Azevedo.Ubirajara. era um homem como todos os outros. o escrevente Azevedo. Certa vez. Ao voltar as costas. sem reparar quem lhe estava às costas. não seja leviano. o major abriu um livro e pôs-se a lê-lo à espera do conviva. concentrou o pince-nez. para a grandeza e a emancipação da Pátria. alguém suspirando. uma notabilidade.Tardei. não prorrompeu em doestos e insultos. entrava pela corografia. disse em tom chocarreiro: “Você já viu que hoje o Ubirajara está tardando?” Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade. amanuenses e escreventes. Era o velho Rocha Pita. Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. a sua ilustração. quando os empregados deixavam as bancas. nem madrugada mais bela a aurora. os pequenos empregados. deram não se sabe por que em chamá-lo . porém. levantou o dedo indicador no ar e respondeu: . sem ser compreendido. os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. contava o curso dos rios. e quando não tinha descoberta a trazer. metade na repartição. se animava na sua frente a lhe fazer a menor objeção.. exceto aos domingos. Era assim o Major Policarpo Quaresma que acabava de chegar à sua residência. ao jeito da aparição de um astro ou de um eclipse. mudo. ao assinar o ponto. exatamente.. como sendo encontrado na Bahia. a sua extensão navegável. Nesse dia. o major pouco conversou. ele se atracava até ao almoço com o Montoya. Quaresma estava lendo aquele famoso período: “Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno. major? perguntou o visitante. Arre! Não tem outra conversa. transmitir aos companheiros o fruto de seus estudos. Era costume seu. Endireitou-se.” E desse modo ele ia levando a vida.. outra vez. Arte y diccionario de la lengua guaraní ó más bien tupí. o major ficava agitado e malcriado. Ele amava sobremodo os rios. o entusiástico Rocha Pita da História da América Portuguesa.4 delicado. Chegaste à hora.. Um dia era o petróleo que lera em qualquer parte. em Mato Grosso. Não queira levar ao ridículo aqueles que trabalham em silêncio. de riquezas nacionais. Quaresma ficou reservado.. tão rica. um dito. Sentado na cadeira de balanço. Os colegas ouviam-no respeitosos e ninguém. e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão.Senhor Azevedo. outra.. Na repartição. Pequenas talvez. com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo”. No mais. era um novo exemplar de árvore de borracha que crescia no rio Pardo. e a outra metade em casa. .

quando o trovador cantava. com o tempo. Isto é só lá. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo original de arte. “Gosto muito de canto”. muita carne-seca. assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um prato de comida.veis bailes diários daquelas redondezas.Já. não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos da modinha. . mas. olha-o da cabeça aos pés. Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a expressão poético-musical característica da alma nacional.. Mas que vinha ele fazer ali. de pequenos negociantes. Ricardo vinha justamente dar-lhe lição. chegando até as suas mulheres e filhas a perder a beleza com que deslumbram. a sua presença era sempre requerida.” Esse doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios. por ser chefe de seção da Secretaria dos Telégrafos. De acordo com a sua paixão dominante. instada e apreciada. nas festas e nas ruas. onde se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos. Fosse na casa do Tenente Marques. muito ensopado . É uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios. demoradamente. na Rua do Ouvidor. . Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço. foi tomando toda a extensão dos subúrbios. nas grandes festas centrais. Rara era a noite em que não recebesse um convite. essa gente míngua. major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se. nos teatros. muito feijão. mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da cidade e tomou lições com ele.5 Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos Outros. propriamente. Compõe-se em geral de funcionários públicos. Dessa maneira. cronistas e filósofos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. até. desaparece. os lindos cavalheiros dos interminá. nos bailes. mas antes disso. Piedade e Riachuelo. Decerto.Já sabe dar o “ré” sustenido. homem célebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Nada mais e é simples. Fora dos subúrbios. nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões. com mais força que a burguesia de Petrópolis e Botafogo. extravasou e passou à cidade. Como bem supôs a vizinhança. não como médico. . ficava em êxtase. aos poucos. Ricardo. de tenentes de diferentes milícias. até ser considerada como cousa própria a eles. entretanto. do Doutor Bulhões ou do “Seu” Castro. Não: Ricardo Coração dos Outros era um artista a freqüentar e a honrar as melhores famílias do Méier. pois que nem óleo de rícino receitava. a sua fama estivera limitada a um pequeno subúrbio da cidade. dizia o doutor no trem certa vez. ia compartilhar o seu jantar. Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. um frenesi e. da alta linha. quase diariamente. o Coração dos Outros vinha ali tão-somente ensinar o major a cantar modinhas e a tocar violão.aí. por convite especial do discípulo. tinha pelo Ricardo uma admiração especial. na casa de pessoas de propósitos tão altos e tão severos hábitos? Não é difícil atinar. Consultou historiadores. crescendo. Não se julgue. em cujos “saraus” ele e seu violão figuravam como Paganini e a sua rabeca em festas de duques. Estava nisso tudo a quo. de mineralogia e histórias brasileiras. é que está a pedra de toque da nobreza. assim como nas festas e nos bailes. “mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo. não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia. da distinção. Seguro dessa verdade. apaga-se. um capadócio. pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poética. O Doutor Bulhões. . de poética. depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia. julga ela. de médicos com alguma clínica. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo convidá-lo-ia.. Em começo. solidificando-se.Vamos ver. e fora por isso que o famoso trovador chegou mais cedo à casa do subsecretário. que Ricardo fosse um cantor de modinhas aí qualquer. mas como entendido em legislação telegráfica. um delírio.

... Dona Adelaide. é assim.. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de cristal e serviu dous cálices de parati.É uma mania de seu amigo. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos. drogas! Isto é álcool puro. que fossem! . hein? indagou o major. a irmã fazia pequenas objeções e Ricardo dizia: “é.. palmas-de-santa-rita. Disse-me que esse tal petit-pois é estrangeiro e que eu o substituísse por guando. Tirou alguns acordes.É do programa nacional. fez Ricardo. Comigo não há disso: de tudo que há nacional. eu não uso estrangeiro. Onde é que se viu frango com guando? Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom. que já tinha o seu em posição: . mas não houve tempo. .Vamos ver. Você é que deu para implicar. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha. fez a irmã.Em geral é assim.. Nada de rosas. como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra. não é de batatas ou milho.Olhe. nem o dengue com que o mestre fazia a mesma operação.rolando nas órbitas os olhos pequenos.. . o toucinho e o arroz.Mas é um erro. Quaresma preparou os dedos. calço botas nacionais e assim por diante. o major era em jardinagem essencialmente nacional... Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala. entrou e convidou-os a irem jantar. não tinha nem uma flor. apertou as cravelhas.Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa. se fosse como essas estrangeiras aí. major. Adelaide.6 Dizendo isto. talvez não se estragasse. . levou-o aos lábios e foi como se todo ele bebesse o licor nacional. . de magnólias flores exóticas. sorrindo. Esses vermutes por aí. É isto. afinou a viola. a irmã de Quaresma. e dirigiu-se ao discípulo. como aquelas que ele tinha ali. fabricadas com gorduras de esgotos.O Senhor Ricardo há de nos desculpar.Qual. Como em tudo o mais.Está bom. mais expressivas. e a gente tem que ingerir cada droga. A sopa já esfriava na mesa.. . para experimentar. pondo nas cousas a sua poesia dolente e a sua deliqüescência. .. disse a velha senhora. nesse tom. abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. . Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade. bom.. chi! . . estalando os lábios. quaresmas lutulentas. Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores.É de Angra. Acabado o jantar foram ver o jardim. Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito. Visto-me com pano nacional. mais olentes. é capaz de produzir tudo que é necessário para o estômago mais exigente.. . Eu lhe quis fazer um frango com petit-pois. manacás melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. correu a escala.. não há dúvida”. mas Policarpo não deixou. mas não havia na sua execução nem a firmeza. de cana. quando o crepúsculo vinha devagar. foi desencapotar o seu sagrado violão. disse Ricardo. seria uma novidade e não fazia mal experimentar. é. . forçando muito a sua fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação. você tem certas ojerizas! A nossa terra. Ricardo! Não querem nada da nossa terra. Tire a escala. de crisântemos. .. major. Mal foi aceso o gás. as nossas terras tinham outras mais belas.. E o jantar correu assim. Senhor Ricardo.Decerto. muito vagaroso e lento. e é um magnífico aperitivo. Sentaram-se à mesa.Magnífico. a pobreza do nosso jantar. Não protegem as indústrias nacionais.. franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero. esta de só querer cousas nacionais. que tem todos os climas do mundo.É porque é de leite. o mestre de violão empunhou o instrumento. Era uma maravilha.

pediu Dona Adelaide.ro . embora lisonjeado. cheio de sentenças. .. Aquele seu noivado durava há anos. .. todo ele fremindo de paixão pelo instrumento desprezado.. e respondia: . quando acabou. a irmã de Quaresma perguntou à moça: . vizinho de Quaresma. disse a irmã de Quaresma. n’ “O Pé” uma modinha minha: “o teu pé é uma folha de trevo” . se negasse. como se fosse a amada.Não sei. para que diga o que sentimos. Aproveitando uma pausa. minha senhora! Eu só canto as minhas.lha .Vejam.Cante esta.ra. mas que ele arrastava há quatro. o tal Cavalcanti.teu . seguro levemente pelo direito. Era até bem simpática.tre vo. Cavalcanti forma-se para o ano e. Ela então curvava do lado direito a sua triste cabecinha. conhecem? .não ia com o violão. .Oh! Não tenho nada novo. as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando Dona Adelaide. convidou o major. Está velha. disseram os dous irmãos. Agora reparem: o . objetou Ricardo. e Ismênia tinha sempre que responder à famosa pergunta: . quanta imagem. . com tons de ouro. Isto era dito arrastado. É preciso encostá-lo.uma .Major.de .. Querem ver? E ensaiou em voz baixa. Precisa de peito para falar. . ..quis fazer-me uma modinha. . uma composição minha.. disse ela.Oh! Por Deus.Não há dúvida. um curso de dous anos. quanta imagem! E continuou. a princípio. Dona Adelaide obtemperou então: . Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e começou em voz fraca: Prometo pelo Santíssimo Sacramento Que serei tua paixão.pé . indo do colo ao braço esquerdo estendido. Não era feia a menina. continuou ele.. e.de . .mir .Cante lá. com uma preguiça de impressionar. não acham? . “seu” Bilac. Moças e rapazes começaram a se amontoar na calçada para ouvir o menestrel.uma . O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. com a sua fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade. Senhor Ricardo. estudava para dentista. quis a vaidade profissional que ele. Sentindo que a rua se interessava. e em seguida acrescentou: .pé . coroada de magníficos cabelos castanhos..“Não sei.Então. quando te casas? Era a pergunta que se lhe fazia sempre. .teu . como não dá.Oh! Anda por aí como as “Pombas” do Raimundo. eu não aceitei.é . vou cantar a “Promessa”. As janelas estavam abertas.Cante uma de outro. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido.. Por exemplo: se eu dissesse. Coração dos Outros foi apurando a dicção.sa ..uma .conhecem? .Senta-te Ismênia. Cavalcanti forma-se no fim do ano e então marcaremos.Vão vendo. olhou um pouco a moça e continuou a dissertar sobre a modinha..7 E mostrava a posição do instrumento. Ricardo aprumou-se na cadeira.fo ..Não. o violão é o instrumento da paixão. Ricardo ficava loquaz. acompanhado pelo instrumento: o . a filha do general. o noivo. disse ele num intervalo. É outra cousa. mas encostá-lo com macieza e amor.“Então quando se casa?” . Diante do violão.A demora é pouca.” . a noiva.Não. tomando um ar feroz que ele supunha ser de ternura e entusiasmo. . O Bilac . como em começo quis.é . você não entende de violão. A questão não está em escrever uns versos certos que digam cousas bonitas. A lição durou uns cinqüenta minutos.

cantigas e hábitos genuinamente nacionais. no Fernão Cardim. Dona Adelaide. visto estar organizando um sistema de cerimônias e festas que se baseasse nos costumes dos nossos silvícolas e abrangesse todas as relações sociais. aplaudiram o entusiasmo dos progenitores. a quebra do Souto e outras . Já agarrara um noivo. embora estivesse de férias. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir. porque em si mesma (era a sua opinião). não só no tocante à língua. em nome do pai. nos anais da Biblioteca. e. de estudos e reflexões. Eram pequenos melhoramentos. no von den Stein e tomava notas sobre notas.Papai. nada nela a pedia. todos os frutos.. o general. Após responder a Dona Adelaide. sobre cousas antigas . A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora ativos e impeliram-no a grandes cometimentos. como também nos simples aspectos etnográficos e antropológicos. afirmava certas noções dos seus estudos anteriores. a grande pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à Inglaterra. porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa. nas cartas de Nóbrega. Dona Maricota. dúvidas não flutuavam mais no seu espírito. E para lá foram. até ainda se lembrava de uns versos de Reis. é preciso não esquecer que o major. Lia diversos. convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa dela. cinco moças e um rapaz. portanto.8 Intimamente ela não se incomodava. continuava a tomar a primeira refeição de garfo às nove e meia da manhã. para os não perder. de sonhar. como se fossem bem cerejas ou figos. gosta muito de modinhas. que a gente do Norte aprecia muito. de poetar à maneira popular dos velhos tempos. Na vida. De manhã. mais característica e extravagante. Tinha todos os climas. A modinha era pouco.o major continuava com o pensamento preso aos problemas que o preocupavam ultimamente. só havia uma cousa importante: casar-se. lembrava-se de ter visto tais cerimônias na sua infância. numa festa que o general dera em casa. o resto era questão de tempo. É do Norte. guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os índios. Albernaz. os seus espíritos pediam cousa mais plebéia. e os seus filhos. voltava à biblioteca e mergulhava nas revistas do Instituto Histórico. Portanto. a gente mais valente. . Conversando com o preto Anastácio. Houve em todos um desejo de sentir. Venham.. e do café. para ela. Não fica bem dizer estudava. que já quase falava. mais hospitaleira. dava umas voltas pela chácara em que predominavam as fruteiras nacionais. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo. Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veio despertar no general e na família um gosto pelas festanças. depois da toilette. Após uma hora ou menos. enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu temperamento. disse Dona Ismênia. Acabado o almoço. que lhe servia há trinta anos. O passeio era demorado e filosófico. porque já o fizera há tempos. Recordava (é melhor dizer assim). mais inteligente e mais doce do mundo . recebendo a pitanga e o cambuim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia. mas pressa não tinha. II Reformas Radicais Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa. todos os minerais e animais úteis. mas no que se referia à originalidade de costumes e usanças. viram na cousa um pretexto de festas e. as melhores terras de cultura. de obrar e de concretizar suas idéias. . antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do “Tangolomango”. Na sua meiga e sossegada casa de São Cristóvão. sua mulher. Para bem compreender o motivo disso. explicou o motivo da visita. não se tinham elas dissipado.o casamento das princesas. sentava-se no divã da sala principal e lia os jornais. depois de trinta anos de meditação patriótica. simples toques. como se diz por aí. Viera. a sugestão de uma idéia útil à sua cara pátria.o que precisava mais? Tempo e um pouco de originalidade. chegava agora ao período da frutificação. a senhora sabe.

quando Albernaz falou em organizar uma chegança. Passaram pela estação. se esgalhava para São Paulo e abria comunicações com o Curato de Santa Cruz. uma velha porta da cidade. de estratégia. não dura. a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas. e era secretário do Conselho Supremo Militar. uma zona . Adoeci e vim para o Brasil. “Foi em Lomas Valentinas”. Durante toda a sua carreira militar. Ia pelo Pedregulho. Entre nós tudo é inconsciente. Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai. Em casa do general era assim: qualquer aniversário tinha a sua festa. pelo Venâncio. não tivera um comando. antigo término de um picadão que ia ter a Minas. por toda parte onde tais distintivos fiquem bem e dêem na vista. que lembrava cousas sobre-humanas dos Césares. quando se reformou em general. alegres. Não se pode crer que a cousa fosse lá muito imponente. de forma que havia bem umas trinta por ano. para as bandas da estação da estrada de ferro Leopoldina. o General Albernaz e o Major Quaresma. mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar à sua lamentável majestade. e vidraças de pequenos vidros eram de há bem poucos anos. tristemente montados em “pangarés” desanimados. Lá foram ter. Mas quem havia de ensaiar. quase quadradas. com grandes janelas. nas almofadas das portas.. a Corte andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. de onde em onde. nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. O altissonante título de general. O tempo estivera seco e por isso se podia andar por ele. não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. de tática ou de história militar. que a cousa esteve preta. cuja única preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do Colégio Militar. O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e danças tradicionais. Contudo. Lá foram os dous. medíocre. tendo grandes ferraduras. entretanto viu logo a significação altamente patriótica do intento. provisório. de dar os versos e a música? Alguém lembrou a tia Maria Rita. Não havia ainda cem anos que as carruagens d’El Rei Dom João VI. Ele mesmo. A casa da velha preta ficava além do ponto. não contando domingos.” O bonde que os levava até à velha Maria Rita percorria um dos trechos mais interessantes da cidade. percebendo o seu ar muito civil.. apressados. panóplias de chicotes e outros emblemas hípicos. dias feriados e santificados em que se dançava também. passavam por ali para irem ter ao longínquo Santa Cruz. Sobre um largo terreiro. As casas velhas. Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminiscências e foram até ao ponto. à moda do Norte. cabeça de cavalos. escriturário. nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. menos de cinqüenta. assistente. não por ele mesmo. Mas soube pelo Camisão. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. contava um episódio de guerra. antiga lavadeira da família Albernaz. o prestígio devia ter a sua grandeza. uma anedota militar. encarregado disso ou daquilo. Aprovou e animou o vizinho. mais adiante um depósito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob pressão. pesadas como naus. Não obstante os soldados remendados. por uma linda e cristalina tarde de abril. Fora sempre ajudante-de-ordens. medas de lenha e imensas tulhas de sacos de carvão-vegetal se acumulavam. dizia ele. ficava mal naquele homem plácido. Para além do caminho. Antes perlustraram a zona do turfe.9 Quaresma ficou encantado. dos Turennes e dos Gustavos Adolfos. negro de moinha de carvão de pedra. O general nada tinha de marcial. Se alguém perguntava: “O general assistiu a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. nas vésperas. nos pilares dos portões. para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos. estendia-se a vasta região de mangues. por ocasião do aniversário de sua praça. bonachão. uma preta velha. almoxarife. não viu uma única batalha. uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animais de corridas. que morava em Benfica. Não havia ali nada que lembrasse esse passado. Nada entendia de guerras. Por aí em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os chamados gêneros do país.

conchas de mariscos. mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava.. A sala era pequena e de telha-vã. o quê! Deve saber ainda alguma cousa. ..Quem sou eu. caiada e coberta com as pesadas telhas portuguesas. Uma pretinha moça apareceu na janela aberta. enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas. com a mão esquerda pousada na perna correspondente. Qual é a que você sabe? A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa.. ioiô! . Entrou em camisa de bicos de rendas. A moça gritou para o interior da casa: .E o “Boi Espácio”? .uma cabeça de mulher em posição de sonho parecia olhar um São João Batista ao lado. Não tardou vir a velha. que vai até ao fundo da baía e. Era baixa.Vovó estão aí dous “moços” que querem falar com a senhora. com um doce sorriso e um olhar vago.Boas-tardes. . Ficava um pouco afastada da estrada.Quá. do tempo do cativeiro . O general atalhou: .disse ela depois. .. registros de santos. você não sabe o “Bumba-meu-Boi”? .pra que sô coroné qué sabê disso? Ela falava arrastando as sílabas. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha.Só sei o “Bicho Tutu”.. mostrando o peito descarnado. ergueu a cabeça. já mi esqueceu. Pergunte aqui ao meu amigo. triste e feia.Vovó já não se lembra.Ora! Vamos. não é. como para melhor recordar-se. trapos.É para uma festa. morre ao sopé das montanhas azuis de Petrópolis.Cante lá! . tia Maria Rita. Entrem. disse a velha. . uma lamparina.Ioiô sabe! Não sabe? Quá. farta e rica.Cousa véia. Ela respondeu.. À direita havia um monturo: restos de cozinha.10 imensa. . o Major Policarpo. O general. havia um pé de arruda. deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados: . Se eu soubesse não vinha aqui. façam o favor . crescia um mamoeiro e bem junto à cerca. se sei. Há quanto tempo! Como está nhã Maricota? . não atendeu a observação da moça e insistiu: . tia Maria Rita. dirigindo-se ao general e ao seu companheiro. nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas. você não perde nada. ioiô. Pelas paredes. por tê-lo conhecido nesse posto.. No alto da porta que levava ao interior da casa.Que desejam? Disseram o que queriam e aproximaram-se. o Coronel Albernaz.Vai bem. enchia de fuligem a Conceição de louça.um sambaqui a fazer-se para gáudio de arqueólogo de futuro remoto. no mesmo lado. pedaços de louça caseira . Chegaram à casa da velha.Qual esquecida. . Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha.Não me conhece mais? Sou o General.Ah! É sô coroné!. sabe! . talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa. à esquerda. .. no horizonte. um cromo sentimental de folhinha . numa cantoneira. havia um retrato de Vítor Emanuel com enormes bigodes em desordem. e entoou: É vem tutu Por detrás do murundu Pra cumê sinhozinho Cum bucado de angu. cante. disse o general. que a velha chamava coronel. Bateram.Não sei. Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha. . velhos cromos de folhinhas. recortes de ilustrações de jornais baralhavam-se e subiam por elas acima até dous terços da altura. Minha velha. titia? .

Ainda há dias recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda canção. . desenvolver o culto das tradições. adágios e ditados populares. Era quase a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia. Cavalcanti.. Querem ver? O colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu: Se Deus enxergasse pobre Não me deixaria assim: Dava no coração dela Um lugarzinho pra mim. homem doce e ingênuo que se deixara esquecer em vida. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar. numa pasta: São Bonifácio do Cabresto. Era um velho poeta que teve sua fama aí pelos setenta e tantos. Andava um bando de macacos em troça. Os macacos se enternecem e resolvem salvá-la. o noivo de Ismênia.. mas estava tão cheia de mesas. e escapavalhe. arrancaram cipós. isso é cousa antiga de embalar crianças. meio de chamar a atenção sobre sua casa. teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. e foi logo à outra. O amor que tenho por ela Já não cabe no meu peito... pejadas de livros. a coleção de histórias que o povo tem sobre o símio?. porque via na sua festa. um momento contagiado pela paixão do folclorista.Os senhores não sabem. sob o título Histórias do Mestre Simão. pulando de árvore em árvore. que mal se podia mover nela. mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes. Já mi esqueceu. uma demonstração de inferioridade diante daqueles povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir. e agora se entretinha em publicar coleções. pastas. nas bordas de uma grota. E. disse o velho poeta. que ninguém lia. Eis senão quando um deles vê no fundo uma onça que lá caíra. de contos. tinha mais inteligência no olhar com que o encarava. sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir. Os dous saíram tristes. Para isso.Ora! Fez o general com enfado. . das muitas que o povo conta... Foram a ele. das quatro. casar as filhas. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza. donde tirou várias folhas de papel.. A sala em que foram recebidos era ampla. e Albernaz também. latas.. Você não sabe outra? . Quaresma vinha desanimado. atrair gente e. Oh! Uma verdadeira epopéia cômica! Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um semelhante no deserto. demorou dias. Sai-me pelos olhos afora Voa às nuvens direito.. Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores. e Albernaz.Vou ler aos senhores uma pequena história do macaco. Com o . estantes. sinhô. porque uma delas já estava garantida.Não. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos.. Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco. canções. Quaresma estava animado e falou com calor.. A decepção. como poeta. emendaram-nos bem. que riqueza é a nossa poesia popular! Que surpresas ela reserva!. porém. Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo publicá-las. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes: .Não é bonito?. numa pasta. graças a Deus! O crepúsculo chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora. informou que nas imediações morava um literato.. com um número de folklore. Albernaz vinha contrariado. começou: “O macaco perante o juiz de direito. O velho poeta guardou a canção de Urubu-de-Baixo. amarraram a corda assim feita à cintura de cada um deles e atiraram uma das pontas à onça.11 .

o major avançava. Cavalcanti viera. O juiz. fugindo. como da primeira vez. entretanto. O dia chegou. É melhor irmos devagar.Compadre Macaco.. O macaco rogou. quando. e entrou na sala. lhe ficou a vista escura e caiu. pôs uma imensa máscara de velho. Comprou livros. mas a decepção lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo. uma máscara de velho. original.Bata palmas. o macaco pôde assim mesmo bater palmas. disse ela. “O Boi Espácio” ou o “Bumba-meu-boi” ainda é muita cousa para vocês. É juiz de direito entre os animais o jabuti. Tornava-se. Os dous chegaram e o macaco expôs as suas razões. Assim ia executando com grande alegria da sala. cheio de trejeitos no olhar. que eu ensaio. Ah! Então! Dizendo isto. isto é. as crianças fugiam. instou.É divertido. conhecem? . deitando de quando em quando.Não. preciso arranjar alguma cousa própria. Foram a ele. .Bata palmas. lhe faltou o ar. começar pelo mais fácil. falando muito. ela. O acidente.. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer. Quaresma fez o “Tangolomango”. não pôde fazer a tempo e a onça segurou-o imediatamente. Está aí o “Tangolomango”.. No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa forma imortal!. leu todas as publicações a respeito. . Arranjem dez crianças... colocando-se ele em cima de uma pedra. Simão então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. portanto. atirando-se n’água. cujas audiências são dadas à borda dos rios. batia com o báculo no assoalho. pareciam ser os únicos que não tinham interesse pela folia. uma roupa estrambólica para um dos senhores. deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si. vamos ao que serve. Por aí. A casa do general estava cheia. o velho dirigiu-se aos dous: .Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita intenção. pela quinta estrofe. Ele. verdadeiro material para fabliaux interessantes. O jabuti ouviu-o e no fim ordenou: .Agora. . meio fria. vestiu uma velha sobrecasaca do general. mas a onça parecia inflexível. chorou. Chegou a vez da onça. conseguiram içá-la e logo se desamarraram. Um deles. agarrou-se a um bordão curvo. Quase todas as tradições e canções eram estrangeiras. Apesar de seguro pela onça. para o noivo. um olhar de gratidão. que se escapou. à parte. em forma de báculo. e também o juiz. o próprio “Tangolomango” o era também. tenha paciência.. uma criação da nossa terra e dos nossos ares. Tiraram-lhe a máscara. As dez crianças cantaram em coro: Uma mãe teve dez filhos Todos os dez dentro de um pote: Deu o Tangolomango nele Não ficaram senão nove. brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lágrimas furtivas. disseram os dous. . o macaco sempre agarrado pela onça. A onça não teve remédio senão largar o macaco. afinal ele agarrava uma e levava para dentro.. determinou ao felino: .12 esforço reunido de todos. continuou ele. muita criação. e ele e a noiva.” Acabando a leitura. porém. que também expôs as suas razões e motivos. no vão de uma janela. depois de passada a emoção. não lhe deu nenhum desgosto pelo folklore. fazia hu! hu! hu!..

era assim que faziam os tupinambás. rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos.Lê-se muito. É verdade que ele não as tinha ainda muito firmes. uma idéia. uma tenacidade em seguir um sonho. motivo não foi o não tê-lo. A irmã correu lá de dentro. soltava exclamações sem ligação alguma com a conversa atual. ganhou uns contos de réis. enriqueceu. estando disposto a matá-lo. veleidades que não tardariam tomar consistência e só esperavam os anos para desabrochar em atos. calcado nos preceitos tupis. meu padrinho. Mas um belo dia. Este seu compadre era italiano de nascimento. O seu compadre Vicente. que fizeram empregar o major toda a sua doçura e persuasão para dissuadi-lo do propósito. A história das suas relações vale a pena contar. Adivinhava-se. Recebera a . quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. de onde em onde. O homem estaria doido? Que extravagância! . veio a ter aquela filha. em meio de seu trabalho. Não só. muito distraído. Havia na sua afirmação uma tal energia e um grande e estranho acento de ferocidade. depois. ficaram estupefatos no limiar da porta. fezse logo empreiteiro.Mas. compadre? . Falou-lhe com aquela simplicidade d’alma que era bem sua. Estava até à mão. Ele ainda chorou um pouco.. pois perdera o crédito e em breve estaria na miséria. Fora. Queriam que eu apertasse a mão. a berrar. O major já tinha as suas idéias patrióticas. mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vê-lo suado. pois eram eles. deitando sobre ele os seus olhos muito luminosos. não escondia a sua afeição tanto mais que sentia confusamente nele alguma coisa de superior. mas é bem triste. Policarpo? . de cumprimentos. é possível que isto seja muito brasileiro. E não ficou nisto só: emprestou-lhe também dinheiro. mas já flutuavam na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciência como tênues desejos. ao seu compadre Vicente e à sua afilhada Olga que ele recebera com o mais legítimo cerimonial guaitacás. se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo. um vôo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a ver em ninguém do mundo que freqüentava. a pensar nas maravilhas arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim. Havia entre os dous uma grande afeição. Inútil é dizer que Quaresma não notou a contradição entre as suas idéias patrióticas e o seu ato. como também cerrava os lábios. como se tivesse perdido a mulher ou um filho. explicou com a maior naturalidade: . mas não apertou a mão. sem saber o que dizer. que foi levada à pia pelo seu benfeitor.13 Essa idéia levou-o a estudar os costumes tupinambás.Decerto. mas faltava-lhe tempo para despir-se. padrinho? perguntou-lhe a afilhada. acrescentou a moça com vivacidade. padrinho. .Mas que é isso. Vicente Coleoni pôs uma quitanda. Essa admiração não lhe vinha da educação. e. ia Quaresma pelo Largo do Paço. . Enxugou as lágrimas e. fora fornecedor da casa de Quaresma há vinte e tantos anos.. uma ânsia de ideal. Desandou a chorar. o Anastácio também. e notou que o rapaz tinha alguma preocupação séria. habituada a falar alto e desembaraçadamente. Quitandeiro ambulante. com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recém-chegado.Que é isso.. parece até agouro. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no econômico nas demonstrações afetuosas.Mas. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu colega. A menina vivaz. que a moça ocupava-lhe no coração o lugar dos filhos que não tivera nem teria jamais. veleidades de rapaz de pouco mais de vinte anos. curvado ao peso dos cestos. pois. compadre.Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. de cerimônias domésticas e festas. entretanto. Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa.. a arrancar os cabelos. Senhor Policarpo. disse-lhe o compadre. quando (era domingo) lhe bateram à porta. e. e o compadre e a filha. Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos. Abriu. . casou. logo ampliou o seu propósito e eis a razão por que estava organizando um código de relações. como uma idéia traz outra. a filha e Dona Adelaide entreolharam-se.

Há outros mais difíceis. nada a admirar que os meus versos. Fora com um olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho: . não foi? . São.Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. uma verdadeira língua.. falou Coração dos Outros.Obrigado. minha senhora. . . deixando parado o seu olhar luminoso. Quaresma. é o provençal.uma alegria de matemático que resolveu um problema. não acha? .Não tive esse prazer. Fique certa. Aquela moça parecia rica. interveio: . Eu sei. ele que antigamente era tão modesto. não é? Não há. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Senhor Ricardo. A sua fisionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito. Tenta e trabalha para levantar o violão. quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos .. disse a moça gracejando.Continue na tentativa.. major. e a sua cútis. amaciava a voz e ficava numeroso e eloqüente. na Europa. quando se encontrava diante das moças. disse Olga.. respeitado? Eu. Pois o Mistral não é considerado.No Tempo. minha senhora? . sigam outra métrica e outro sistema. confirmou Ricardo. lhe sondava a intenção com os olhinhos vivos e miúdos de camundongo. uma reforma. . aquele poeta que escreveu em francês popular? . Vossa Excelência sabe que os versos para música têm alguma cousa de diferente dos comuns. que o violão é um belo instrumento e tem grandes dificuldades.Leu então os meus versos.que diabo! Não. disse a moça.. uma apreciação sobre um trabalho seu.. sim. . enquanto Ricardo. animava-se. não era possível. mas não é francês popular. . A cousa vai naturalmente. Falava agora com tanta segurança. . E ela sorriu devagar. Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça.Então.Entre nós. lê-se muito? ..Foi. feitos para violão. Senhor Ricardo. Como é que se chama.. Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros.Mistral. Olhou triunfante para um e outro circunstante. todos respeitam e auxiliam.Decerto. que a fizeram um pouco diferente das nossas moças. . portanto. Por exemplo. padrinho. . a emancipação de um povo.Sim. minha senhora. conhecia-o que satisfação! Ele que era sempre um tanto parvo e atrapalhado. . mas.Eu sei.14 comum às moças de seu nascimento. Dizem que os meus versos não são versos. Olga..O piano? perguntou Ricardo. padrinho. Mas parece-me que o Senhor faz versos para a música e não música para os versos. não é. . não é preciso violências.Muito injusta! acrescentou Ricardo. . Mas.Não te assustes por isso. soltava a língua. não se levam a sério essas tentativas nacionais. O major fez as apresentações. que era ressecada e de tom de velho mármore. Imagina que medito grandes obras. no tocante ao violão. era fina e bonita.Muito. hesitante mesmo no falar . que é digno de louvor. há meses... enigmaticamente.. minha filha. talvez das proximidades européias do seu nascimento. e Olga dirigindo-se a ele disse: . acudiu Quaresma. de inventor feliz! . mas li. . é isso. a inúbia. . . mas são versos para violão.. Coração dos Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento.O Ricardo.Já o conhecia de nome. como que ficou macia e jovem.. desconfiado.Não conheço.Que piano! O maracá. que até ali se conservava calado. estou fazendo o mesmo. Vinha de um pendor próprio.Não se vá meter em alguma conspiração. Todos os críticos se atêm a essa questão de metrificação. é um artista. fossem de que condição fossem.

a maternidade. espantada.. de indolência de corpo. Zizi. o violão também não vale nada . porque quando você se casar”..De capadócio.. major! Não diga isso.15 . e. o narizinho malfeito. que não se casar. as satisfações íntimas. e fora a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem. Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há quase cinco anos.Então quando se casa. ficar solteira. de tal forma casar-se se lhe representou cousa importante. A instrução.“bonitinhas”. os únicos que o são verdadeiramente.“porque quando você se casar”. Cavalcanti já está formado e. só se falava em casar. meu Deus!”. .Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais possíveis. com tons de ouro. Os caboclos! ..Instrumento de caboclo. sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente. De resto.Em Março. Quinota.. sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da idéia de casar o amor.. até o noivo.. parecialhe um crime. de idéia e de sentidos .. com os seus traços acanhados.. A todo instante e a toda a hora. para ela. a vida se resumia numa cousa: casar. uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática. e à fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou. . Se é por ser de caboclo. em casa das famílias conhecidas. No colégio. a Lili casou-se. Dona Ismênia? . sedoso até ao olhar. Noiva havia quase cinco anos.é um instrumento de capadócio. ou senão “Você precisa aprender a pregar botões. uma vergonha. o nosso próprio direito à felicidade.e a menina foise convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. não fez grande negócio. uma tal ou qual liberdade. amorenada. “Sabe. Esse sentimento junto à sua natureza pobre fê-la não sentir um pouco mais de alegria. As irmãs da noiva. porém. daquela gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho. surpresa.. a variedade intensa dos sentimentos. não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. mas é tão feia. nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéia. A alegria foi grande na família. não era negócio de paixão. na sua inteligência a idéia de “casarse” incrustou-se teimosamente como uma obsessão. porque quando você se casar”. Ficou no mesmo. III A Notícia do Genelício . E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça. ou então: “A Zezé está doida para arranjar casamento. “tia”.. Lalá e Vivi.. Casar. tudo isso era inútil. e. Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalcanti. Ismênia já se sentia meio casada. lá vinha aquele .. estavam mais contentes que a irmã nubente. Ela não era feia. instrumentos dos nossos antepassados. mas galante.. a alegria.De caboclo! Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir. na rua. o mundo. . Desde menina. pois parece que o noivo não é lá grande cousa”. ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso. o prazer dos sentidos. eram os seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos. como em tal caso. ora! disse Ricardo. O seu traço de beleza dominante.era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam . não muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva. A vida. uma espécie de dever. até ali tão sossegado e tão calmo. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para daí a três meses. uma pura idéia. Parecia que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado. sem atinar. De natureza muito pobre. das idéias. uma alegria não podia passar sem baile. Dona Maricota. . sem explicação para aquela inopinada transformação de gênio do seu padrinho.

Não era raro que após uma longa conversa com a filha. lá dizia ele: . minha filha. Maricota dizia ele .a cousa vai acabar. tinha montepio e meio soldo. enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa. Um cidadão semiformado.” Sabendo que o pretendente à Ismênia era um dentista. bom e generoso. A satisfação resignada do general era porém falsa. Dona Maricota viesse ao marido e dissesse: “Chico. e até para evitar despesas ao futuro genro. Logo que despertou. às lojas de louça. isto é. Pagou-lhe taxas de matrículas.A Ismênia. Ele ouvia a mulher. Olho vivo!. como ela dizia. nervosa e alegre. não gostou muito. É melhor prevenir que curar. dispôla com muito gosto e esplendor. e a filha fria e indiferente.16 O pai fez má cara.” O general era leal. as criadas e as filhas. . muito diligente. uma espécie de barbeiro. e ele acedeu. andar aí como uma sirigaita.Mamãe. Castro. porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.É um inferno. um centro de mesa. que quer que eu faça? . Era raro que o fizesse. mas também assim como você está! Eu nunca vi noiva assim. na noite do pedido. Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos. a falta de arrimo. o velho Albernaz corria aos armazéns. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra. uma cousa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto sinal certo de alegria corriam a ela. convidou-o a jantar em casa todo o dia.. não havia dona-de-casa mais econômica. coçava a cabeça e dava o dinheiro. Por que não fizeste o mesmo? Despedindo-se. Pode ser um valdevinos e. parecia-lhe feio e desonroso para a família.Qual delas? . livros e outras cousas.. se encontrava um camarada. Dona Maricota amanheceu cantando.Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malícia. Começou então Cavalcanti a freqüentar a casa na qualidade de noivo “paisano”. aquela necessidade de casar as filhas ainda o fazia melhor quando se tratava dos interesses delas. Vivi e Quinota foram para os doces..Mas.. não havia no seu caráter a mínima falha. que não pediu. quando já recolhidos . Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família.dizia Albernaz à mulher. até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí uma “mosca-morta”. Felizmente. Que é um dentista? perguntava ele de si para si. Ele andava sempre a par dos namoros das filhas: “Diga-me sempre. que ainda por cima tenho que casar uma filha! Ao que Castro interrogava: . aprendi a receita. respondia-lhe Dona Maricota. Muito ativa. a segunda. ao contrário: ele estava radiante.. pedindo-lhe isto ou aquilo.quem são. Na rua. Na manhã do dia da festa comemorativa do pedido. mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito. tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos. mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. mas nos dias de grande alegria. esta vida! Imagina tu. Demais. . dizia ela. no primeiro momento azado. não é ainda “oficial”. No fim do primeiro ano. e assim o namoro foi correndo até ali. Ela arrumava a mesa. o general foi generosamente em seu socorro. ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. . . vamos descontar esta letra. arranja-me vinte mil-réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia. mais compoteiras. Preferia um oficial. ela cantarolava uma velha ária. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. Enfim . pôs tudo em atividade.Não é bonito rir-se muito. comprava mais pratos. A alegria de Dona Maricota era grande. a não ser a sua pretensão marcial. respondia Albernaz e logo acrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos. Não eram só os perigos a que se achava exposta..

Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo! Um curso difícil e caro. normalista. chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. A Ismênia era a menos entusiasmada. Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê! Todas elas. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença dele em festa séria. vi na Rua da Constituição um dormitório de casal. aconselhava: . Veio muita gente..Em engenharia. Tratava-se do enxoval. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti.. Estavam a par..Conhece o Chavantes? perguntava um outro. cumprimentando-a. acabou. Quaresma o fora. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono. e o natural do seu temperamento venciaa e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria. não sem um pouco de inveja no olhar. torço a orelha e não sai sangue. Os senhores não imaginam os tropeços. acudia um outro. na Estrada de Caxias. ele é do curso de Medicina. Para aquela gente toda. guarda-livros. Está no Maranhão.É verdade! Trabalhei. A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos: . . Hoje.Foi seu colega? . quando se formou: vá furando! . era homem e mais alguma cousa sagrada e de essência superior. Matriculamo-nos no mesmo ano... dizia modestamente Cavalcanti. . não vale nada. e. isto é. Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro..Eu.Foi. as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. com tantas pedras que nem uma joalheria. acudiram ao convite do general o Contra-Almirante Caldas.. se as respondia. comprava tudo no Parque. uma alourada e alta. Cavalcanti não era mais um simples homem. Além das moças e as respeitáveis mães.. à sua confidência. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho. e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as . a casa já estava cheia. Se eu tivesse ouvido meu pai.. aparelhos. bons professores. como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal. todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural. sabiam as casas barateiras. era por monossílabos. ainda parente de Dona Maricota. .Então. conversando. que tinha nos dedos um anel.Eu. ontem. . muito solene. dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes. Quando deixou de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito. mas logo lhe tornava toda a pobreza de sua natureza. tinham os olhos no piano.É muito bonito ser formado.. Todas elas. Eu sei. Nos intervalos da conversa.Eu quero ver isso. um pândego.. davam conselhos. Doutor. dentro de um grande fraque preto.Pois doutor. As moças cercavam Ismênia. hein? dizia este a jeito de um cumprimento. e Cavalcanti jantara com os futuros sogros. embora solteiras. incapaz de vibração sentimental. num dado momento. Irene. . Todas dizem que não. engenheiro das Águas.Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.. e outras pessoas importantes. Um crônico.Conheço.17 Durante uma hora. o Doutor Florêncio. .. Estefânia. Ela aludia à resposta que. Com essas academias livres. não estava agora a quebrar a cabeça no Deve e Haver. Às seis horas.. . . os embargos . e disse alto: . se fosse você.Boa carreira.Atualmente. muito bonito. a doutora. o Senhor Bastos. . o Major honorário Inocêncio Bustamante.fui de um heroísmo!. que exige cadáveres. Ismênia? Parece barato. quase não respondia às perguntas. . a moça esforçou-se por parecer muito alegre. mas não viera. meu caro senhor. você por que não vai ver. dou-lhe meus parabéns.

o Major Inocêncio. Corriam meses o infinito rosário de repartições e eram sempre indeferidos. por ser tenente honorário e também da Guarda Nacional. ia ver a dos outros. noutro tal ou qual medalha. O “Lima Barros” tinha ido a pique. no seu caso. Num pedia inclusão no Asilo dos Inválidos. disse-lhe o superior. Nunca embarcara. avisos. e aquele tipo. hesitante. A culpa. depois de uma penosa e fatigante viagem. e ele levou quase quarenta anos para chegar de guarda-marinha a capitão-de-fragata. decretos. Um dia lhe veio na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio. abandonando a roda dos camaradas. não era dele. noutro honras de tenente-coronel. mas. Inocêncio Bustamante também tinha a mesma mania demandista. de forma que. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal “Lima Barros” fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguai. requereu lhe fosse passada a patente de major. mas só se as dá aos protegidos. O general ficara na sala de jantar. Embora absolvido. Deixaram-no “encostado”. visto que dous galões mais outros dous fazem quatro . . Certa vez. e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Mas aí também não estava o tal “Lima Barros”. fumando. acotovelando-se com meirinhos. Estavam com ele o Contra-Almirante Caldas. Reformado no posto imediato. na aparência. não havia dia em que não fosse ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Isto não entrava nela de modo algum. sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar. Comprava repertórios de legislação. o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros Segismundo. teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante navio. quando se apresentou ao comandante da flotilha. É curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento. apresentou-se às altas autoridades da Marinha. continuava a ser vulgar. todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis. tanto mais que não andava em cheiro de santidade. porém. nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. Consultou o comandante. vieram os menos importantes. partia imediatamente para a flotilha do Rio Grande. quando era já capitão-tenente. Ele lá foi. e. Era renitente. que se achava na sala de visitas. comum. por pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exército. Na Marinha. armazenava coleções de leis. que se referisse a promoções de oficiais. Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação militar. conforme a praxe. Todos o tinham na conta de parvo. se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. consultas. Ultimamente constituíra advogado junto à justiça federal e lá andava ele de cartório em cartório. Ei-lo a fazer malas para o Alto-Uruguai. Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante. era outra diferente da deles e fora ungido de não sei que cousa vagamente fora da natureza terrestre.18 cousas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. mas a sua substância tinha mudado. Os requerimentos. Caldas foi aos poucos se metendo consigo. durante a guerra do Paraguai. sem receber soldo e sem saber que destino tomar. para alguns. mas servil e humilde. Logo que se viu primeiro-tenente. choviam sobre os ministros da Marinha. sem empenhos e sem amigos nos altos lugares. teimoso. Onde estaria então? Quis telegrafar para o Rio de Janeiro. quase divina. quando não tinha nenhum. a não ser na guerra do Paraguai. O contra-almirante era interessantíssimo. Para o lado de Cavalcanti. Nomearam-no para comandar o couraçado “Lima Barros”. juízes e advogados . alvarás. onde chegou enfim. escrivães. . relatórios. possuindo honras de major.esse poviléu rebarbativo do foro que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos. pedindo a modificação de sua reforma. deram-lhe um embarque em Mato Grosso. Esteve assim um mês em Itaqui.Eu. mas assim mesmo por muito pouco tempo.o que quer dizer: major. com graduação do seguinte. Antigo voluntário da pátria. Foi preso e submetido a conselho. como se diz na gíria militar. de um comandante de opereta que andava à cata do seu navio pelos quatro pontos cardeais. Não se pejou mesmo de tratar do pedido de um maníaco que. Bustamante fez a sua consulta. mas teve medo de ser censurado.

general? O general não se deteve. Isto também anda tão atrapalhado! Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos. fez o almirante cofiando os favoritos. continuou Segismundo. o Venâncio. não foi.Este país não vale mais nada.Não há mais.. decerto. está no ministério há seis meses! . dizendo: . . O Doutor Florêncio perguntou: . apesar de não ser militar.Assim de pronto. Da janela da sala onde estavam. . que lhe davam um ar de “comodoro” ou de chacareiro português. ninguém tira par. Era noite.Os senhores sabem: se a gente não animar. ninguém toca. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. nestes termos: . hein. Inocêncio? O Doutor Florêncio era o único paisano da roda. tantos rapazes. Deixou os amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile. Todos se calaram e olharam a noite que chegava. no meio do caminho.Não assisti.Uma desordem. os anos e o sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da escola. Quanta ordem! Quanta disciplina! . Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor: . muito ativa.. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. tentando a ironia. Estão lá tantas moças.Decerto. cheios de “xx” e “yy” em Curupaiti. mas. um Caxias? .Eu queria ver esses meninos bonitos. Bustamante quebrou o silêncio: . meninas! Então o que é isso? Zizi. falou alto.Ah! meu tempo. exclamaram todos. depois voltou aos amigos e.Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico.Não sei por quê.Bem. uma valsa! . era raro que não viesse toda a tarde jogar o solo com o general. Ouviu a mulher.Vamos.Se não dançam é porque não querem. não se atrapalhou. é uma pena! .O senhor assistiu. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão. O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar. pedindo honras de tenentecoronel. Morando perto de Albernaz. Não é a minha especialidade o Exército. eu me animo a dizer que a nossa força está muito por baixo. Engenheiro e empregado público. não sei. O sol já tinha desaparecido do horizonte e as tênues luzes dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acender-se por detrás das vidraças. as grandes vistas sem fim. Imaginem que o meu requerimento. Os senhores é que são os verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente. não gaguejou e disse com a máxima naturalidade: .Não há mais gente que preste. Segismundo por aí aventurou também a sua opinião. sim? Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala. observou Albernaz. confirmou com voz tênue o Doutor Florêncio. eu vou lá. . pois era forte nele o tipo lusitano.19 ..Como ia dizendo.. Estou pegando alguém? Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou: . . disse Albernaz. disse Bustamante. não se via nem um monte. muito diligente e com o rosto aberto de alegria. não acha Caldas? . pois tudo hoje não vai pela ciência? Fora Caldas quem falara. Caldas? hein. meu caro.Como não é militar? fez Albernaz com ímpeto. suas chaminés e o piar de pintos. . onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. mas vou ver. . Um tamarineiro sem folhas lembrava tristemente o ar livre. Onde está um Porto Alegre. Dona Maricota chegou até onde eles estavam.Eu não sou militar.

Coube a Florêncio dar. já tenho par”. No intuito de anunciar aos ministros e diretores que tinha uma erudição superior. remancheava. e deixava-o no bonde. era um soneto que começava sempre por . Tinham começado a partida. uma das filhas do general.” Depois de ter dado início ao baile. e tantos títulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal Albernaz. As cartas vieram e também uma pequena mesa de tripeça. Acompanhava-o. Empregado do Tesouro. Em quatro anos. . lavava três ou quatro vezes as mãos.Isto de família! Qual! A gente até parece bobo. quedê o Genelício? A moça virou o rosto com faceirice. advertiu Caldas. suando. Quando saía. coçando um dos favoritos. Dona Maricota e o marido enchiam-no de festas. convidou Albernaz. salpicadas aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses. de quando em quando desovava nos jornais longos artigos sobre contabilidade pública. e os primos? . ao discurso. nos aniversários de nascimento. Parente ainda de Caldas. . perguntou à moça: . Dona Quinota retirou-se. Quando entrava um ministro. eu não jogo. até poder apanhar o diretor na porta. não se quis casar! .Não precisa zangar-se. A sua candidatura era favorecida por todos. fazia-se escolher como intérprete dos companheiros e deitava um discurso. “Não faz mal”. e publicavam o soneto. criticava este ou aquele colega. O general. ele só mudava o nome do ministro e punha a data. deu um pequeno muxoxo e respondeu com falso mau humor: . Só sobrinhos. já no meio da carreira. Nenhum pudor. dizia. mas que a convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava.Não. “dance com o Raimundinho. atravessou a sala e foi beber água. que examinava atentamente as cartas recebidas. veio para a roda dos amigos. com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para fugir à fumaça.Ué! Sei lá! Ando atrás dele? . Caldas. outros processos. um gênio do papelório e das informações.Então. tinham em grande conta o seu saber e ele vivia na seção cercado do respeito de um gênio. Os parceiros sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas. Interessante é que os companheiros o respeitavam. como há de ser? observou Florêncio. No dia seguinte. é uma simples pergunta. Um empregado modelo! . Acresce que Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar. moço de menos de trinta anos. Na bajulação e nas manobras para subir. Não se limitava ao soneto. Começaram. o outro espera. tinha-se como certo o seu casamento na família. . tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico.Somos cinco. Eram meras compilações de bolorentos decretos. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. tinha verdadeiramente gênio. Você é que fez bem.“Salve” . num posto acima. a se fundar. disse Bustamante.20 E ele mesmo em pessoa ia juntando os pares: “Não.Mas tenho mais filhos que você. Fora da repartição. Dona Quinota.Então jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz. . Este Genelício era o seu namorado. conversava com ele sobre o serviço. general. dava pareceres e opiniões.“Salve! Três vezes Salve!” O modelo era sempre o mesmo. buscava outros meios. mas contente. interrompeu a conversa com voz grave: . Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante numa partida de whist. dizia uma moça. nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. Albernaz tinha um ar atento quando jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão.Eu passo. ameaçava ter um grande futuro.Vamos jogar o solo. Segismundo jogava com todo o cuidado. os jornais falavam do seu nome. se o homem ia para casa. Bustamante fora à sala ver as danças. retrucava ele. Caldas. oito. quando Dona Quinota.e acabava também por . Dona Quinota.

. . com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano. Já está na casa de saúde. Aqueles livros.O Quaresma está doido.Já saíram todos os trunfos? . . acrescentou Genelício. meu amigo. . Evitavam-se assim essas desgraças. .. chupado de rosto. estou bem “cunhado”! . e as atenções convergiram para o jogo. da sala.Um baixo.Obrigado. fez Caldas. fez Albernaz. fez Caldas. Calaram-se um instante.Quase garantido.É o que eu dizia. os seus gostos e hábitos. o quê? Quem foi que te disse? . Era um escriturário. Feitas elas. Não há nada. . Genelício atalhou com autoridade: . . começou: A vida é uma comédia sem sentido. . já um tanto curvado. para os doutores. Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silêncio.. . para que meter-se em livros? .Devia até ser proibido. No fim das “mãos” fazia-se um breve comentário ou outro. . O ministro prometeu. general? . apurando muito os finais em “s”. Onde estiveste. disse Albernaz. E o piano gemia..Quem é? perguntou Florêncio. Não acham? . empregado do Arsenal. disse o general. disse Albernaz. confirmou Caldas. Pequeno. . não conhece? . . disse o Doutor Florêncio. . . disse Segismundo. vinha o ruído festivo das danças e das conversas. .É verdade.Decerto. bolo. e no começo ouviam-se unicamente as “falas” sacramentais do jogo: “solo. de pince-nez? .Decerto.Nem se podia esperar outra cousa... porém. disse Genelício. Cavalcanti ia recitar..Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.O que é? .Isto de livros é bom para os sábios. a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros.Vão bem? perguntou Florêncio... Atravessou a sala triunfantemente. Tossiu e.Mas não é só.Este mesmo. observou Segismundo. general.Aquele vizinho..Olhem quem está aí! .O Genelício. com a sua voz metálica.Aquele homem do violão.Mas. disse Florêncio. Uma história de sangue e de poeira Um deserto sem luz. com um pince-nez azulado. . melhoro. todo ele traía a profissão. . jogava-se em silêncio.Decerto.Contasse. .Estimo muito. aquela mania de leitura.Eu logo vi. fez Florêncio..Nada. . passo”. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro. meus amigos! Estou tratando dos meus negócios. Sabe de uma cousa. Zizi acompanhava. rapaz? Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos.Ele não era formado.21 O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava.Telha de menos. . aquele requerimento era de doido.

já ria-se o presidente. que estavam próximo à Mesa. e. ria-se o oficial da ata.22 IV Desastrosas Conseqüências de um Requerimento Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em torno da mesa de solo. sabendo.usando do direito que lhe confere a Constituição. Merecia raiva. portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos. Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade . O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensável ao elevado trabalho de legislar não permitiram que os deputados o ouvissem. mas não aquele recebimento hilárico. com especialidade os gramáticos. por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem. as seções dos jornais referentes à Câmara. portanto. porém. pelo fim. discretamente. língua originalíssima. de uma hilaridade inocente. de uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta de clown. de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais.controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura científica e filosófica. um deboche de inimigo talvez. publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons. oriundas de uma difícil adaptação de uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal . havendo em alguns tão fraca alegria que as lágrimas vieram. ouvindo aquele rir inofensivo diante dela. deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua idéia. havia de sentir uma penosa tristeza. ria-se o contínuo . na tarde memorável da festa comemorativa do pedido de casamento de Ismênia. é a única capaz de traduzir as nossas belezas. O riso é contagioso. A sessão daquele dia fora fria. sem fundo algum. vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupiguarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. se tinham desenrolado com rapidez fulminante. Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento. no dia seguinte. ria-se. não lhe sabiam a causa e só viam nele um motivo para riso franco e sem maldade. aglutinante. O secretário. pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo. uma pequena mania. se apresentou logo em insânia declarada. é a sua criação mais viva e original. querendo sempre conter o riso. o tupi-guarani. porém. Demais. e. se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua. Os que riam. os autores e os escritores. largamente.toda a Mesa e aquela população que a cerca riram-se da petição. surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma . Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço. vendo-se. O suplicante. no meio da leitura. certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil. o falar e o escrever em geral. que. o documento que chegava à Mesa da Câmara. prorromperam em gargalhadas. mas vieram outros e outros. ao ouvi-lo. Era assim concebida a petição: “Policarpo Quaresma. Senhores Congressistas. diariamente. a emancipação política do país requer como complemento e conseqüência a sua emancipação idiomática. assim como se se estivesse a rir de uma palhaçada. por ser assim. cidadão brasileiro. funcionário público. o secretário teve que proceder à leitura de um requerimento singular e que veio a ter uma fortuna de publicidade e comentário pouco usual em documentos de tal natureza. ao abrir-se a sessão da Câmara. dentro do nosso país. de trabalho. evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais. O primeiro fato surpreendeu. certamente inconvenientes à majestade do lugar. sobretudo no campo das letras. A força de idéias e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em atos imprevistos com uma seqüência brusca e uma velocidade de turbilhão. além. não se entendem no tocante à correção gramatical. os jornalistas. por esse fato. de forma que o que pareceu no começo uma extravagância. certo também de que. ódio. de sonho generoso e desinteressado.

o texto vinha cheio dele: o Major Quaresma disse isso. o Major Quaresma fez aquilo. o absorvia cada vez mais. gente que fica mais terna. adquirira a candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma idéia fixa. incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. mais inocente que as donzelas das poesias de outras épocas. pesar-lhe todos os aspectos. então! eram de um encarniçamento atroz com o pobre major. é recebida com a hostilidade de uma pequena inveja. exasperavam-no e mais forte se enraizava nele a sua idéia. vivendo numa reserva de sonho. e. de que vivia.Não. recordar os autores e autoridades. a sabença de textos de regulamentos e a boa caligrafia. e o desenho representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via à esquerda. adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor cousa. Não há só uma questão de promoção. e os inventores. os comentários não cessavam e a ausência de relações de Quaresma no meio de que saíam fazia com que fossem de uma constância pouco habitual. à proporção que fazia isso. que é feita e organizada com outros materiais que não os ofícios.” Assinado e devidamente estampilhado. às ambições. Indagou-se quem era. À medida que engolia uma troça. só temos língua de moça. “O açougue Quaresma”. não havia quem não fizesse uma pilhéria sobre ele. este requerimento do major foi durante dias assunto de todas as palestras. de interesse pecuniário. deferimento. mais ingênua. A continuidade das troças feitas nos jornais. Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na rua. ditos de todo o dia. os grandes estudiosos. Intitulava-se a ilustração: “O matadouro de Santa Cruz. mais orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça. nunca se atirou à publicidade. É raro encontrar homens assim. o avassalava. Se os jornais tinham recebido o requerimento com facécias de fundo inofensivo e sem ódio. Um deles. com comentários facetos. Fora deles. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue. embora a estimasse mais que a todos. trocava pequenas banalidades. vinha-lhe meditar sobre a sua lembrança. às competições. Nunca sofrera críticas. mesmo tocados de um grão de loucura. Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo. se era casado. quem não ensaiasse um espírito à custa da lembrança de Quaresma. com as pessoas com quem falava. e E. a maneira com que o olhavam na rua. e a idéia o tomava. de glória e posição. a gente sente mais simpatia pela nossa espécie. ocupou uma página inteira com o assunto da semana. sem se chocar com o mundo. examiná-la detidamente. Desinteressado de dinheiro. vivia imerso no seu sonho. esses semanários de espírito e troça. quando se os encontra. os sábios. Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva. uma superioridade que nasce fora deles. Publicado em todos os jornais. pois nada dessas cousas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu temperamento. Com uma abundância que marcava a felicidade dos redatores em terem encontrado um assunto fácil. se era solteiro. a sua própria convicção mostrava a inanidade da crítica. Os pequenos jornais alegres. há uma questão de amor- . Vivendo há trinta anos quase só. Nos meios burocráticos. mas os há e. Não ficaram nisso. Tudo isso irritava profundamente Quaresma. Levaram duas semanas com o nome do subsecretário. a repartição ficou furiosa. cousas com que a sua alma e o seu coração nada tinham de ver. ao anonimato papeleiro. compará-la a cousas semelhantes.O senhor tem língua de vaca? O açougueiro respondia: .23 P. e. além de outras referências. segundo o Major Quaresma”. a curiosidade malsã quis mais. É como se se visse no portador da superioridade um traidor à mediocridade. uma pilhéria. quer? Com mais ou menos espírito. legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro: . a ligeireza da pilhéria. ele não conhecia ninguém.

dous cães de louça. ainda trazia mais desordem àquela coleção de cousas caras. Não encontrou resistência. pontilhado de bolas multicores. O colega arquivista era o menos terrível. faça qualquer cousa que interesse os estranhos e dê que falar a uma cidade inteira. com algum direito a infringir as regras e os preceitos. Queria casar a filha. elevava-se sobre um porão alto. não punha. os tapetes. nos pilares do portão da entrada e outros detalhes equivalentes. voltava à idéia. o marquês ou o barão de sua terra natal. a incompreensão da obra ou do mérito do colega é total e nenhum deles se pode capacitar que aquele tipo. essa má vontade geral. o antigo quitandeiro retirara-se dos negócios e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e tinha todos os remates arquitetônicos do seu gosto predileto: compoteiras na cimalha. mas. olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. pensou em dá-la a seu ajudante ou contramestre. aos caprichos dos chefes. é doutor. o seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e superiores. onde pelo calor os pássaros morriam tristemente. no gosto nacional. Em começo. pouco de acordo com o clima e sem conforto. O major sentia bem aquele ambiente falso. Convenceu-se de que aquela vaporosidade da menina. os bacharéis. e julgou muito aceitável comprar a satisfação de enobrecer a filha com umas meias dúzias de contos de réis. Rico com os lucros das empreitadas de construções de prédios. Cada terra tem a sua nobreza. um imenso monograma sobre a porta da entrada. Em geral. Ambos são assassinos. Viúvo. vistosa. aqui. as sanefas. Era uma instalação burguesa. Primeiro sondou a filha. mesmo na prisão. as maledicências ditas ao ouvido. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretensioso! O diretor. um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu humilde colega de desgraça. com mais títulos à consideração. era uma cousa inocente.24 próprio. Assim. tinha um razoável jardim na frente. de sentimentos feridos. ainda o nobre e o burguês trazem o ar do seu mundo. aquelas alusões e isso mais aumentava o seu desespero e a teimosia na sua idéia. portanto. e a examinava com mais atenção. viúvo. No interior o capricho dominava. Ela quer um doutor . na assiduidade ao trabalho. mesmo os doutores. é visconde. uma espécie de arquiteto que não desenhava. que avançava pelos lados. uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo. na redação. Já se viu! dizia o secretário. .que arranje! Com certeza. a um ecletismo desesperador. a sua inteligência. tudo obedecendo a uma fantasia barroca. mas projetava casas e grandes edifícios. vendo aquele colega. Ele se havia habituado a ver no doutor nacional. Os móveis se amontoavam. Não compreendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades. cara.pensava ele . as indiretas. às olhadelas superiores dos ministros. aquele amanuense. bacharel ou dentista. quando surge numa secretaria alguém cujo nome não lembra sempre o título de sua nomeação. A brusca popularidade de Quaresma. A casa ficava ao centro do terreno. varanda. mas eu tenho e as cousas se acomodam. aparecem as pequeninas perfídias. e meditava. do que os que têm nomeada e fama. nenhum obstáculo ao programa de Olga. Coleoni aceitava de bom coração esta doce tirania. A extensa publicidade. o seu fantástico não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade campônias de seu auxiliar. mas não encontrou também assentimento. quem o encaminhava nas distrações e nas festas. Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino plebeu olha para o assassino marquês que matou a mulher e o amante. um viveiro. havia já alguns anos. não terá ceitil. aquele seu ar distante de heroína. bem e ao gosto dela. mas chamou-o logo de doido. onde morava o seu compadre Coleoni. atingiu o palacete de Real Grandeza. como eles. ao passar pela secretaria. que o fato tomou. sujeito aos regulamentos. Amam-se ou antes suportam-se melhor aqueles que se fazem célebres nas informações. aquele galé como eles. os bibelots e a fantasia da filha. irregular e indisciplinada. lá. todo o arsenal do ciúme invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do que ela. era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha.

despediu-se à meia-noite cheio de delicadeza. que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada criminosa. conteve-se com uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro. somente. Mas ele ia. calou-se. Havia nele não só a gratidão de camponês que recebeu um grande benefício. amando estar sentado em chinelas a fumar cachimbo. tinha em grande consideração a erudição do compadre. para no fim do dia ter comprado meio metro de fita. Apesar de ter enriquecido. Chegou mesmo a formar uma roda em casa. tinha que se conformar. ia para o interior da casa. . Adquiriu a certeza da trampolinagem. tendo praticado. de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. apesar dos bastos anos de Brasil. de origem humilde e aldeã. na Europa. Que perdia? Uns contos . . com uma falta de sentimento daquelas cousas que se adivinhava até no pagá-las. e a ganhar. Coleoni lia de manhã os jornais. Conforme o seu velho hábito. Entretanto. por inadvertência. caíam tão a fundo sobre a cousa. porém. a dar opinião sobre o tecido. no mistério. pareceu-lhe simples distração do distinto jornalista e famoso advogado. nos bailes. fez alguns comentários sobre a partida e não voltou mais. Vicente acendeu o charuto e observou com a maior naturalidade deste mundo: . como um duplo respeito pelo major. A primeira vez que Coleoni deu com isso. achar este mais bonito. quando chegavam tais visitas. era obrigado a andar horas e horas pelas ruas.. Quase sempre. mas não foi isso que o fez suspender o jogo. quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal. ainda não sabia juntar o saber aos títulos. cheio de tenacidade e candura perfeitamente paternais. Ele não compreendeu bem o requerimento. suas irmãs. comparar um com outro. aceitava e sempre perdia. como.Os senhores sabem que há agora. com seus modos de falsa nobreza. um novo sistema de jogar o poker? . Não se aborrecia. Gostando de dormir cedo. deixando perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante da sociedade das amigas e das colegas de Olga. demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo.Qual é? perguntou alguém. Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker. de bailes de festas e passeios caros. mas daí quem sabe? Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pilhéria. as colegas da filha. com o vagar e a lentidão de homem pouco habituado à leitura. os seus desdéns dissimulados. saltitando de casa em casa de modas atrás da filha. Coleoni afastava-se. Era engraçado vê-lo nas lojas de fazendas cheio de complacência de pai que quer enobrecer o filho. Pacheco deu-se por desentendido. isto é. tinha que perder noites e noites no Lírico. ele assim o quisera e a fizera. não lhe era sempre possível fazer isso. muito profundamente.25 Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propósitos da menina.A diferença é pequena: joga-se com seis cartas. Um homem honesto não ia fazer aquilo! E na segunda. guardava no fundo de si aquele sagrado respeito dos camponeses pelos homens que recebem a investidura do Estado. porém. nas grandes festas e recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso da alta nobreza da terra que o freqüentava.. seria também? E na terceira? Não era possível tanta distração. Perdeu e muito. Só o contrariavam bastante as visitas. Ele ficara sempre empreiteiro. com poucas idéias além do seu ofício. alguma falta grave. Quando vieram a jogar outra vez e o passe foi posto em prática. mas os jornais faziam tanta troça.uma ninharia! A questão. continuou a jogar. Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. uns grampos e um frasco de perfume. e esperou. e. oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio. é que Pacheco jogava com seis cartas. não sabendo fingir. Europeu. Até aí ele ia bem e calcava a contrariedade. um dos parceiros. de modo que não se interessava por aquelas tagarelices de casamentos. Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha.

isolado. ecco! . mas. a língua brasileira. mas de doido.Mas não há loucura alguma.Non capisco. não saber tupi. . É ousado.Todos os brasileiros. com acento escarninho: .Che! Então? . nós não falamos português? Pois bem: ele quer que daqui em diante falemos tupi. Tinha começado a passar a limpo um ofício sobre cousas de Mato Grosso. irritou-se.Ma che cousa! Não é possível? . o subsecretário suportou bem a tempestade. onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã.vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas afirmações. . fora dos moldes. . caía em distrações. talvez não seja.De juízo. e salpicava as frases de exclamações e pequenas expressões italianas.Olga! Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque.Pode ser. que se continha dificilmente. pois. franceses. . . obscuro e tenaz. todos. mas não de todo doido. observou Coleoni.Como? Então é cousa de um homem bene? . encheu-se de uma raiva surda. Está doido! . seguindo o seu sonho. ele que. O expediente fora grande e ele mesmo redigira e copiara uma parte.Homero.Tutti? . . papai.Como? . Os tchecos têm uma língua própria.Acujelê é da África. Como eram cegos! Ele que há trinta anos estudava o Brasil minuciosamente. dizer é outra. não! E ele pensava. os lorenos.que suspeita miserável! Que o julgassem doido . . talvez. de estranhar que ele visse com mágoa o nome de Quaresma envolvido em fatos que os jornais reprovavam. em virtude desses estudos.. aos arrojos e cometidos ousados. . meu pai. Neste falava o bom senso e nela o amor às grandes cousas. também não. quando falava português. procurava meios de se reabilitar. papai. Por mais que quisesse. E ele tinha razão. na preocupação de provar que sabia o tupi.. O secretário veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes. isto de saber é uma cousa. não foi decerto o de reprovação ou lástima.Hoje. que quer dizer isto? Non capisco. Em princípio. foi de piedade simpática por ver mal compreendido o ato daquele homem que ela conhecia há tantos anos. .26 Não é. .Isto vai causar-lhe transtorno. é um plano.É uma idéia. Chamou a filha.Per la madonna! Alemão é língua. mas. A moça sentou-se a uma cadeira próxima e leu no jornal o requerimento e os comentários. tupi é daqui. depois de conquistados pelos austríacos. e a outra. e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de admiração pelo atrevimento do major. .Olga.. mas tendo adivinhado que o supunham insciente no tupi. quando o Carmo disse lá do fundo da sala. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo o dia. mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana.. mas não entendeu o que ele queria dizer. A sentença do arquivista foi vencedora nas discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. agora esse acujelê.O padrinho quer substituir o português pela língua tupi. entende o senhor? . punha nas palavras uma rouquidão singular. Lembrou-se de que Quaresma lhe falara em emancipação.Per Bacco! É o mesmo. a única que o era .. e foram obrigados a falar alemão. talvez à primeira vista absurdo.. . Leu de novo o requerimento. fora obrigado a aprender o rebarbativo alemão. ela não podia julgar o ato do padrinho sob o critério de seu pai...

a respeito do assunto. Mas Vossa Excelência não sabe.Como? fez Quaresma espantado. agarrou o papel. Que língua era? Consultou-se o Doutor Rocha.. . mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram.. com os lábios brancos e a mão levantada à altura da cabeça. . esqueceu-se e o ofício em tupi seguiu com os companheiros. após três dias de meditação. Viu a letra.. . indagou o chefe.. examinou o ofício e pela letra conheceu que fora Quaresma quem o escrevera. o certo é que ele insensivelmente foi traduzindo a peça oficial para o idioma indígena. Mande-o cá.. Censurado! monologava o diretor. lembrou-se da distração e confessou com firmeza: .não sabe . foi ao gabinete do diretor. oficialmente as autoridades se podem comunicar em línguas estrangeiras? Creio que há um aviso de 84. para que ele examinasse. fosse pela alusão do funcionário Carmo. mesmo em Descartes ou Shakespeare. talvez por causa da molecagem de um escriturário! Ainda se a situação mudasse.. Enfim. Sociologia e Moral? . na honra de sua casta e na do estabelecimento de ensino que freqüentara. inteligente e. Além disso escrevera no Pritaneu. assinou e o tupinambá foi dar ao ministério. Física. Tantos títulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos. Veja. entretanto não parecia regular usar uma que não fosse a do país. Fosse pelas palavras em tupi que se encontravam na minuta.. Mas qual! O secretário chegou. a escola da Praia Vermelha.Mas. voltou-o de trás para diante. Química.27 Quaresma nem levantou os olhos do papel. andou-se de mesa em mesa pedindo auxílio à memória de cada um e nada se encontrara a respeito. deu com a distração. assíduo. O ministro. Ao acabar. O diretor não reparou.. transformavam aquele . pô-lo de pernas para o ar e concluiu que era grego. uma dupla coroa de sábio e artista cingia-lhe a fronte. Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Inteirado do motivo.Quem escreveu isso? O major nem quis examinar o papel.produção muito elogiada pelos colegas. .Fui eu.Então confessa? . em injúria.O aviso de 84 trata de ortografia. o primeiro estabelecimento científico do mundo. O Doutor Rocha tinha na secretaria a fama de sábio. devolveu o ofício e censurou o Arsenal.Pois não. Ia-se por água abaixo o seu generalato.de um amanuense em ofensa profunda. por causa do “yy”. Viver tantos anos a sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim.“A Saudade” . Novas preocupações afastaram a primeira.Não sabe! que diz? O diretor levantou-se da cadeira. porque era bacharel em direito e não dizia cousa alguma. . os contínuos andavam numa dobadoura terrível e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em chegar. foi ao chefe e disse com ênfase e segurança: . um conto . Consultaram-se todos os regulamentos e repertórios de legislação. o homem mais hábil da secretaria. Dessa forma. Tinha sido ofendido três vezes: na sua honra individual. a revista da escola.. Foi informado de que a legislação era omissa no tocante à língua em que deviam ser escritos os documentos oficiais. O funcionário limpou o pince-nez. O major encaminhouse pensando nuns versos tupis que lera de manhã. disse o coronel. O diretor olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades de empregado zeloso. . senhor Doutor Rocha.. tendo em vista esta informação e várias outras consultas. o Doutor Rocha. Astronomia.Então o senhor leva a divertir-se comigo. não é? . Que manhã foi essa no Arsenal! Os tímpanos soavam furiosamente.Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de Benjamim Constant? Sabe o senhor Matemática. tendo em todos os exames plenamente e distinção.

bom e modesto. da razão condutora. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao certo. não de hoje. Saiu afinal. O hospício! É assim como uma sepultura em vida. lá na entrada da baía. . de títulos. como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser. não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte. No primeiro aspecto. . mas. pensativos. 9 em Descritiva? Então?! E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava fuzilado. espanto de inimigo invisível e onipresente.28 Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francesinho aí. a fala. com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro. mas de há muito tempo. um pensamento muito forte. quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade. atravessara o átrio ladrilhado. triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. a sobrenadar em águas tão furiosas.. se tanto. não se compreendia bem esse pasmo. 10 em Hidráulica. . Saiu abatido.Consola. diziam. Só o nome da casa metia medo. em face do mar imenso e verde. cava abismos entre os homens. mas faz-nos também diferentes dos outros. 10 em Mecânica. meditabundos. Chegando à sala do trabalho nada disse. Quaresma era doce.O major. perdeu o fio do pensamento. quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para onde. pegou no chapéu. meio hospital. Mais de uma dezena já subira aquela larga escada de pedra.Mas.Tenho. Ele não tinha nenhuma pretensão a sábio e pronunciara a frase para começar a desculpa. quando viu aquela enxurrada de saber.É bom pensar. meio prisão. como um criminoso. uns três ou quatro meses. Nunca fora seu propósito duvidar da sabedoria do seu diretor.. indignadamente. parece que tem uma idéia. E os dous separaram-se. não tem nada! Considere-se suspenso. cambaleando como um bêbado. filho. hoje. na Praia das Saudades. pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em Cálculo. Com que terror. hein major? . foi ao livreiro buscar uns livros. esse terror do povo por aquela casa imensa. E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. até segunda ordem. uma espécie de pavor de cousa sobrenatural. penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas. sonhar consola. O major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado a Rua do Ouvidor. que não deixava de olhá-lo furiosamente. sobraçando o violão na sua armadura de camurça. enterramento do espírito. um semienterramento. severa e grave.. viam-se uns homens calmos. Seu pai a trazia às vezes. deixando à esquerda e à direita. Entrava-se. Deu umas voltas. aos domingos. com seu alto gradil. as idéias e nada mais soube nem pôde dizer. 8 em Astronomia. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros.Não tem mas. esse espanto. visitando Quaresma. talvez. com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canelas. V O Bibelot Não era a primeira vez que ela vinha ali. Pinel e Esquirol. ferozmente. meditando sobre o angustioso mistério da loucura. senhor coronel. Ricardo avançou algumas palavras: . do gabinete do coronel. . na bengala e atirou-se pela porta afora. subira outra escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima. a se estender por uns centos de metros. como monges em recolhimento e prece.Cedo.É verdade. a Caridade e Nossa Senhora da Piedade. de cuja ausência os corpos raramente se ressentem. . .. prolongar a existência. . suas janelas gradeadas. A saúde não depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida.

. atarantada.29 De resto. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. principalmente em Botafogo. chamando a si os interesses da família e evitando a demissão de que estava ameaçado. nos toma. Era tal o seu abalo de nervos. Estava há uns meses no hospício. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio. mais viva em face à atonia de outros. os livros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. de imaginar como inimigos. que seria dele? Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado. Aquele domingo estava particularmente lindo. No fim. Eram sombras. feito não sei de que inexplicável fuga do espírito daquilo que supõe o real. porém. O ar era macio e docemente o sol faiscava nas calçadas. a exaltação do eu. uma idéia de velho sem conseqüência. Vinham ela e o pai. um silêncio. e enchia-o de indiferença para tudo mais que não fosse o seu próprio delírio. transformando-a em aposentadoria. tinha uma aparência inabalável. e agora entrava naturalmente. mas. o entrechoque de tolices ditas aqui e ali. A casa. com negócios. a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra. desde os pés à cabeça. depois o irmão. o real eram os inimigos. com emprego seguro. donde saía. Ao mesmo tempo. uma ordem perfeitamente naturais. a loucura declarada. era uma calma. sem saber que alvitre tomar. às vezes o pai só. pensando. não se sente quando começa e quase nunca acaba. era tal a emoção ao vê-lo ali naquela meia-prisão. regrado. clara e respeitável. decaído dele mesmo que um ataque se seguia e não podia ser evitado. na sala de visitas. os inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar. sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer cousa ele nos invade. entretanto bastou um grãozinho de sandice. nas proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam num céu de seda.. ela não sabia lidar com o mundo. os melhores. as fúrias. de se dizer perseguido. recalcou porém. aquelas faces transtornadas. e via-se também a excitação de uns. para se apossar e viver das aparências das cousas ou de outras aparências das mesmas. perdia-se logo a idéia popular da loucura. os amigos. O pai vinha lendo os jornais e ela. com as autoridades e pessoas influentes. Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava. que nos rebaixa. aquela agitação desordenada. o seu orgulho de classe.. o angustioso mistério que ela encerra. aparências. de que ponto do seu ser tomava conhecimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclismo. Enfim. sem direção. pondo em destaque . cousa que acontece a cada passo. o escarcéu. cousa sem importância. na sua inexperiência e ternura de irmã. nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos. A velha irmã. uma fantasia. Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias. oscilava entre a crença de que aquilo fosse verdade e a suspeita de que fosse loucura pura e simples. ela teve um certo pudor em se misturar com os visitantes. embora assim. uma simples distração. sem acordo com que se realizava fora dele e com os atos passados. Mas que era aquilo? Um capricho. Ele estava como pensionista. alguns idiotas e sem expressão. um falar que não se sabia donde vinha. que o fazia tremer todo. Depois. os trejeitos. o pai. aquele ofício? Não tinha importância. atordoada. aqueles ares aparvalhados. Não havia nada disso. dos outros e do mundo.. e eram só os três a visitá-lo. aquele requerimento. nada disso valia.. nada disso tinha existência e importância. Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado. no começo. E enfim? A loucura declarada. dentro de si. como fora? A princípio. honesto. e a irmã não o podia visitar. com aquela entrada silenciosa. é que se sentia bem o horror da loucura. algumas vezes Ricardo. esse pensamento egoísta. quando se examinavam bem. Com o seu padrinho.. E essa mudança não começa. o seu padrinho. de quando em quando folheando as revistas ilustradas que trazia para alegrar e distrair o padrinho. Para ele. aquele falar sem nexo. a mania de não sair.. outros como alheados e mergulhados em um sonho íntimo sem fim.. Educada em casa sempre com um homem ao lado.

E o Ricardo? A afilhada apressou-se em responder ao padrinho. Sinto incomodar-te tanto. Tinha emagrecido um pouco. Como em todas as portas dos nossos infernos sociais. para melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar. Dos doentes uns conversavam com os parentes. Guardas. entravam com respeito. Coleoni. Quem tem inimigos deve ter também bons amigos. o major levantou a cabeça e parecia que as lágrimas queriam rebentar. padrinho.Está bom. Estava à espera. mas o aspecto geral era o mesmo. Chocando-se com aquele meio.Então vieram sempre. com concentração. Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas. Estava doido. notava as melhoras do compadre com satisfação que errava na sua fisionomia. Os bem-vestidos e os mal-vestidos. às vezes livros e jornais. o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos. pois se o punham ali. o mar infinito e melancólico.. num ligeiro sorriso. Quaresma estava melhor. mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto seco e desconfiado. pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente: . Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo do bigode já grisalho.Bem. Coleoni tinha-se sentado. pois a sua natureza inteligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu espírito fazia. essas abnegações. Mandou lembranças e não veio porque. era o dia lindo. outros indiferentes. com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem noutro mundo. embora mais assíduo nas visitas. O pai e a filha entreolharam-se. os ares macios. os inteligentes e os néscios. quase teve satisfação. as montanhas a se recortar num céu de seda . os cabelos pretos estavam um pouco brancos. fumo. Num dado momento aventurou: .. houve logo nele uma reação salutar e necessária.. mas vocês que têm sido tão bons..a beleza da natureza imponente e indecifrável. e pendeu a cabeça como se quisesse afastar uma recordação triste.Coitada! disse ele...Como está Adelaide? . em ditames das vontades livres de cada um.. Procurou papai há dias e disse que a sua aposentadoria já está quase acabada. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar. No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio.. Amava esses sacrifícios. e era tal a variedade de aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o império da doença sobre todos aqueles infelizes. Cumprimentaram-se e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada. Verificando isso. pareciam que não queriam conhecer-se na rua. internos e médicos passavam pelas portas com a indiferença profissional. tinha o sentimento da grandeza deles. e ficou contente consigo mesma. tanto ela variava neste ou naquele. chinelas.É melhor esperar um pouco. para se pensar em caprichos pessoais. os elegantes e os pobres.30 a sua elegância natural. outros mantinham-se calados. havia de toda a gente. hão de levar tudo isso para conta da própria bondade. meias. Os visitantes não se olhavam. adiantou Coleoni. como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres. quer sair? Quaresma não respondeu logo. Quaresma também e a moça estava de pé. Ao vê-los disse amavelmente: . e como na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e como que dá o próprio movimento da vida... os feios e os bonitos. de várias condições. perguntou: . nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela. . . num mutismo feroz e inexplicável. E ela pensava como esta nossa vida é variada e diversa.O major já está muito melhor. . em seguida. Vou melhor. A exaltação passara e o delírio parecia querer desaparecer completamente. com alvoroço e alegria. Lá fora.. Via-o já escapo à semisepultura da insânia.. A moça interveio de pronto: . a loucura.

tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sair daquelas cousas todas. não chegava e extremar na percepção das suas inclinações a qualidade que ela queria ver dominante no homem. chegou-se a ela: . minha velha? A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar. padrinho? fez Olga gentilmente. uma velha preta a chorar.. era como um estranho. Em meio do caminho.. Enxugou as lágrimas e concluiu: . padrinho.. Está satisfeito. era a força de projeção para as grandes cousas. esse modo de se lhe representar e de amar o indivíduo masculino. sinhazinha. A cidade é como um esqueleto. É tão difícil ver nitidamente num homem.. .Então é para depois do fim do ano.É o Senhor Armando Borges.Foi “cousa-feita”.Esperamos que seja por aí.31 . a filha olhou-a com interesse e perguntou no fim de um instante: . . um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade. No Instituto dos Cegos. mas nessa confusão mental dos nossos primeiros anos.não sabia. Tomaram. Na porta já havia alguns visitantes à espera do bonde.. . mas estava que não. as suas estreitas ruas desertas. hirto. coitado! E continuou a chorar. E por que casava? Não sabia. Como não estivesse o veículo no ponto. que a fascinasse ou subjugasse. A visita não se demorou muito mais.Quem é teu noivo? perguntou Quaresma. das ondas espumejantes. Era conveniente que fosse rápida. Desceram no Largo da Carioca. E os dous acompanharam-no com familiaridade e contentamento. E tinha razão em se casar sem obedecer à sua concepção. com as suas lojas fechadas. . . não tinham o “quê”. sempre bom. Coleoni começou a comover-se. Queria sentir que gostava. cheio de uma irremediável tristeza e respondeu: .. O Pão de Açúcar erguia-se negro. o que ela sonhara que era bem possível tomasse a nuvem por Juno. . É bom ver-se a cidade nos dias de descanso. meu sinhô!. o movimento de carros. Ela não sabia responder aquela pergunta. faltam-lhe as carnes. era o fora do comum. não lhe respondia às perguntas. levando n’alma um pouco daquela humilde dor. Um impulso do seu meio. Os dous afastaram-se tristes. E por entre lágrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais. encontraram. de vinte a trinta anos. uma cousa que não vinha dela . O bonde tardou um pouco. confirmou o pai. doutorando. quando as idéias e os desejos se entrelaçam e se embaralham. encostada ao gradil.. onde os passos ressoam como em claustros silenciosos. . ainda indeterminado na sua emoção e na sua inteligência. e como que punha uma sombra no dia muito claro.. que são a agitação. Era um bom sinal.. Todos os rapazes que ela conhecia não possuíam relevo que a ferisse. Casava por hábito de sociedade. A Olga vai casar-se e nós vínhamos preveni-lo. enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. Coleoni.É um rapaz. foram indo ao longo da fachada do manicômio até lá. .Que tem.Antes fosse. disse o italiano.Morreu? . Na porta de uma loja ou . da sua tristeza e da sua solenidade. não convinha fatigar a atenção do convalescente... de carroças e gente.Sabe. Chegou. solene.. interrompeu o padrinho sorrindo. Um filho. Ela não sabia bem o que era. úmido e doce.É verdade. que começava a soprar.Decerto. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho: .Gosto. O dia estava fresco e a viração. Gostava de outro? Também não. Os dous saíram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos.Gostas muito dele? indagou o padrinho. Era o heróico. É triste. vou casar-me. tão bom. Olga não podia colher e registrar esse anelo.Ah.

e o domingo aparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes. O Senhor Paysandón. Aborrecia-se com o rival. produto de um lento e seguido trabalho de anos. como se se tratasse de mecânica celeste. entregou ao Coração dos Outros aquela parte do seu mandato. Ricardo Coração dos Outros gostava do major. atiram bolas e ainda mais se sente a diferença da cidade no dia anterior. ficaram a cargo de Ricardo. Graças à popularidade de Ricardo. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu. mas o sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras já apareciam nas janelas. Os pequenos serviçais e trabalhos. solenemente por um decreto. É um trabalho árduo.sofria na sua glória. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar. Quando o compadre de seu irmão bateu no portão. Os outros gostavam de ouvir o seu canto. Pediram. e da sua lhaneza. Aposentado o sujeito. por vezes. ele agora sofria particularmente . meninas em cassas bem engomadas. . no centro daquele pequeno jardim que desapareceu.É o diabo! continuou ele. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros. com a crise não o ficou compreendendo melhor. que os desempenhara com boa vontade e diligência. cartolas antediluvianas ao lado de vestidos pesados de cetim negro. autor muito conhecido na mesma cidade. mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos suburbanos. porém. a questão é que se perde uma ocasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro. ele contava à velha senhora o seu último triunfo: . Ricardo estava atrapalhado. entretanto. Foi isso que ele anunciou a Coleoni. como eles agora. como se diz na gíria burocrática. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o cálculo. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse à casa de Quaresma. pedindo exemplares de suas músicas e canções.Não sei como há de ser. Dona Adelaide. tanto ele como Dona Adelaide. os passos para ali e para aqui. envergados em corpos fartos de matronas sedentárias. quando este entrou seguido da filha. encontrara nele certo apoio moral e intelectual de que precisava. O Largo de São Francisco estava silencioso e a estátua. De resto. os filhos do negociante brincam em velocípedes. Dona Adelaide não estava só. mas o major era o único que ia ao fundo da sua tentativa e compreendia o alcance patriótico de sua obra. Delicada. vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida. parecia um simples enfeite. A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto. Lá foram. mas a música não.32 outra. casais que iam apressadamente a visitas. com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos. Não havia o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos e só encontravam. escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua força. suportava a mania de Ricardo. lhe tinha escrito. apreciavam como simples diletantes. notícias do amigo e do irmão. mas não sendo entendido em cousas oficiais. Atualmente era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discípulo. mais até. a cousa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser ultimada. grupos de caixeiros com flores estardalhantes. Ricardo viera visitá-la e conversavam. esse de liquidar uma aposentadoria. A sua educação que se fizera. não podia admitir que ele preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem. não escrevo . e a cousa demora um mês.é um inferno! O caso era de pôr um autor em maus lençóis. É verdade que as sabia de cor. Coleoni era o procurador do major. . Não é por mim. vencera a resistência da máquina burocrática e a liquidação estava anunciada para breve. e segundo: por causa das suas teorias. A irmã nunca entendera direito o irmão. Tinha os versos escritos. de Córdova (República Argentina). Eu não guardo as minhas músicas.

. perguntando: . tão incapaz de um sentimento mais profundo. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francesas. E ela se sentia vexada. a Ismênia é que anda triste. em face do seu abandono. de manhã. em que ele desafiasse o rival e o esmagasse numa polêmica. embarcara para o interior. Parecia até que ambos estavam contentes com aquela fuga inexplicável de Cavalcanti. de uma aplicação mais séria de energia mental e física. mas voltavam ao mesmo assunto. O Violão. A menina tinha aquilo como um rompimento. não havia mal algum. fazer acenos. Precisava afastá-lo. E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento.. Pensou num jornal. Tem tempo. Olga? perguntou Dona Adelaide. era o inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa. o estafeta não lhe entregava carta. Esse suplício que se repetia em todas as visitas.Pouca cousa.. sentia-o muito. disse ele. esmagá-lo. Era um castigo. disse a moça. o rival a empregava também. Quase não se lembrava das feições do noivo.Vai casar-se. impudentes e irritantes. O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão. A Quinota ia casar-se. e não mandara nem uma carta nem um cartão. quase a fazia arrepender-se de ter aceitado o pedido. um grande literato. mas.Conversou bem. Cavalcanti. E além disso com aquelas teorias! Ora! Quer que a modinha diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice! E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante dele como um obstáculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua glória. ao contrário: o talento do rapaz levantava a sua pessoa. acrescentou Coleoni. há três ou quatro meses. .. Ele deve andar bem. escrever cartinhas. não só Ricardo.33 Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos.Como vai o general? . achou um subterfúgio. mas felizmente em via de cura. queria fugir à conversa. . quando. rebaixada diante de todas. mas irei domingo. mas a filha sempre vem aqui. do seu nariz duro e fortemente ósseo. atualmente recolhido ao hospício.coitadinha! Dona Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do general. vinha-lhe sempre à consciência. Era difícil encontrar. Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse célebre.. Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma. mais loquaz e curiosa que comumente. . aquela marcha gloriosa e invejada para o casamento. mas como? A réclame já não bastava.. tocando violão. a ser tia. ir a passeios .Lá para o fim do ano. Se ele tivesse um homem notável. desolada . como cousa irremediável que absorvia toda a sua atenção.Não pude ir hoje. . o Genelício já estava tratando dos papéis. . dos seus olhos esgazeados. Decididamente. era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento. que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra. aquele Jacó de cinco anos. Para Ismênia.Não o tenho visto. dançar. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor. a suportar durante toda a existência esse estado de solteira que a apavorava. e fora a primeira a noivar-se ia ficar maldita. . e ela. mas a velha Adelaide. essa outra idéia: não casar.. Dona Olga? Parabéns. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se. Cousa difícil! Namorar. independente da memória dele. e ela que esperara tanto. era trabalho acima de suas forças. desmoralizava o misterioso violão que ele tanto estimava. fez ela. de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos. Como eles se riam durante o carnaval! Como eles atiraram aos seus olhos aquela sua viuvez prematura. Por fim. era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. estava condenada a não se casar.Obrigada. a vitória estava certa. . mostrar a sua superioridade indiscutível.. tanto as perguntas como as considerações.Quando é. Arranjar outro era problema insolúvel.ela não podia mais com isso. durante os folguedos carnavalescos! Punham tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas. julgava. Está mais gordo? . por intermédio do instrumento considerado.

abafada. Senhor Vicente! . ela passava os dias deitada.34 Ela disfarçava bem a impressão da alegria deles que lhe parecia indecente e hostil. comprimida. a raiva terrível de gente fraca. Levou tanto tempo noiva.. que corrói interiormente. aqueles vestuários extravagantes de índios. .Não sei. marchetada de papeluchos multicores. . veio atirar ao chão uma figurinha de biscuit. aqueles adornos de uma mitologia francamente selvagem.. e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas.. vinham como reprimir a mágoa que ia nela. Ismênia? . que se esfacelou em inúmeros fragmentos.Era o melhor. jabutis. o incômodo do general não é grande e Dona Maricota julga que ela deve arranjar “outro”. Talvez? Mas a carta não vinha. . O sofrimento dava-lhe mais atividade à fisionomia. que pedia uma explosão de gritos. . tinha ainda uma alegre esperança.. Então. aquele ruído de atabaques e adufes. disse Ricardo. Fala pouco. Há muita gente que tem preguiça de escrever. quase sem ruído. lugares de sossego e pureza que a reconfortavam. mas o que fazia bem à sua natureza pobre. vai aproveitando” . Há três meses. Por fim Dona Adelaide lhe perguntou: .. Ricardo moveu-se na cadeira. mas para o que não lhe sobrava força bastante e suficiente. florestas imensas. Mergulhando nessa barulheira. por não poder arrebentar de qualquer forma. . ela se punha a olhar o aspecto pueril da rua. . se fala diz meias palavras. Era-lhe doce chorar.Merecia um castigo isso. Cumprimentou todos e todos sentiram que ela penava..Não. quando a Ismênia veio fazer a sua visita diária à irmã de Quaresma. minha filha. Ninguém entende essa moça. Nas horas da entrega da correspondência. . . de tambores e pratos. eram os cordões. Sente-se a sua tristeza. contida. berradas. E a conversa já tinha virado para outros assuntos.. É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos.Qual! fez Dona Adelaide. disse Ricardo sentenciosamente.E os pais que dizem a isso? indagou Coleoni. disse sorrindo Dona Adelaide. Ismênia! Ele está longe. Também aquelas cantigas gritadas. Indagou da saúde de Quaresma e depois calaram-se um instante. Se fosse orgulho.metialhe raiva. mas o escárnio da irmã que lhe dizia constantemente: “Brinca. .Ainda não.Eu creio que ela não tem mais prática. não.Recebeste carta. respondeu ela. preguiça..Não volta. mas não fala. comprimida. para espantar os maus pensamentos. ela não se referia de vez em quando ao noivo..E ela ainda o espera. o seu pensamento repousava e como que a idéia que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça. sem atividade doméstica qualquer. bem vivos. e voltava ao seu pensamento: não casar. acabando de contar o desastre da triste Ismênia. sentada. Batendo com o braço num dunkerque. . É antes moleza.Não há razão para desesperar. cobras. Mas pelo que pude perceber. jacarés. Dona Adelaide. traziam à pobreza de sua imaginação imagens risonhas de rios claros. Sem hábitos de leitura e de conversa. Dona Adelaide? perguntou Olga. não acham? Coleoni interveio com brandura e boa vontade: .. O noivo partira um mês antes do carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior. As pálpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão. com grande economia de voz. vivos. De resto. num ritmo duro e de uma grande indigência melódica. comentou: .Não sei bem. parece que ela tem medo de falar para que as cousas não venham a acontecer. a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar.É orgulho? perguntou ainda Olga.

ignorantes a se proclamarem sábios. dizia o pacato velho. e uma estrebaria coberta de sapê. é a mais depressora e pungente. mais adiante. olhava uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe. interpreta as cousas por ele. Vendo-o naquele estado de abatimento.. de um e de outro lado. Além desta principal. matei muita gente . Voltou a sua casa. fora a afilhada que lhe trouxe à idéia aquele doce acabar para a sua vida. sou Átila. onde via ricos que se diziam pobres. e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça. deles todos. A casa erguia-se sobre um socalco. porém. a sua horta. e uma varanda com uma colunata heterodoxa. mas. Eu. penetrado da tristeza do manicômio. triste e taciturno. Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e filialmente: . o trem passava vincando a planície com a fita clara de sua linha capinada. porém. olhando para o levante. possuía. Sou Átila. não acha? . faz pensar em alguma cousa mais forte que nós. mas não era belo. no manicômio. Saíra curado? Quem sabe lá? Parecia. e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando.35 SEGUNDA PARTE 1 No “Sossego” Não era feio o lugar. pensamos logo que já não é ele quem fala. um carreiro. um regato de águas paradas e sujas cortava-a paralelamente à testada da casa. Em vários tempos e lugares. sabe? Sou Átila. Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. Tinha. Não havia três meses que viera habitar aquela casa. sabia o nome e nada mais. se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo. formando a subida para a maior altura de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. Tinha fracas notícias da personagem. a duas horas do Rio. foi de um velho e plácido negociante da Rua dos Pescadores que se supunha Átila. enclausurado em sua casa de São Cristóvão. A habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte. Quaresma saiu envolvido. que nos impele e em cujas mãos somos simples joguetes. saía da esquerda e ia ter à estação. no mundo. com casas. mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha impregnado. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica das nossas casas de campo. sob tal aparência. uma espécie de degrau. a loucura foi considerada sagrada. que a inutiliza inteiramente. mas profundo e quase sempre insondável. sem coragem de sair. por entre os bambus da cerca. todos com janelas. amplos quartos. e era também risonha e graciosa nos seus caiados. tinha outras construções: a velha casa da farinha. quem se lembrara. onde se dedicava a modestas culturas. a “noruega”. Aquela continuação da nossa vida tal e qual. já não se irá a loucura. Foram mais seis meses de repouso e útil seqüestração que mesmo de uso de uma terapêutica psiquiátrica.. daquele que mais se admirou. o aspecto tranqüilo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte. Não fora ele. invisível!. ter o seu pomar.O padrinho por que não compra um sítio? Seria tão bom fazer as suas culturas. ao vermos um louco desarrazoar. está atrás dele. a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes. De todas as cousas tristes de ver. entretanto. atravessando o regato e serpeando pelo plaino. pobres que se queriam ricos..e era só. não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem comum embora. após ter passado seis meses no hospício da praia das Saudades.. sábios a maldizer da sabedoria. conversando com os seus companheiros. é alguém que vê por ele. que nos guia. mas o sonho que cevara durante tantos anos. muito abatimento moral. Em frente. com um desarranjo imperceptível. que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada. vastas salas. por estrada de ferro. resignadamente. Quaresma viveu lá. naquele ermo lugar. a mais triste é a loucura. como se chamava. Embora nunca tivesse sido alegre. o sítio do “Sossego”.

pesou as vantagens e ônus. de outros tempos. cujo nome . . virente e abundante a dispensar os argentinos e europeus.ela tão boa. dos legumes. criar. minha filha. Tu irás ver as minhas culturas. não pôde deixar de modificar imediatamente a sua fisionomia à lembrança da moça. depois de ter sofrido a miséria da cidade e o emasculamento da repartição pública. e meu pomar . o feijão. das batatas. Encarou-a por todas as faces.. a alegria e a fortuna..36 Tão taciturno que ele estivesse. durante tanto tempo! Chegara tarde. outras árvores frutíferas. tirando as despesas.cabia tão bem à nova vida que adotara. dos aipins. estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro. além dos abacaxis (que mina!). nasceriam mil outros cultivadores. O milho pode dar até duas colheitas e quatrocentos por um. e do seu exemplo. farta.. a batata-inglesa. Não lhe voltou a alegria que jamais teve. Indagou dos preços correntes das frutas. tão simpática. Planejou a sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus projetos.. Não sentiu que aquela vasta sala. há poucos países que as tenham.É verdade. Vou fazer o que tu dizes: plantar. por assim dizer.Em toda a parte .Mas como no Brasil. quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz. sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas. não por ambição de fazer fortuna. no trabalho agrícola. Esperava grandes colheitas de frutas.. oitenta pessegueiros. Que magnífica idéia tens tu! Há por aí tantas terras férteis sem emprego.há terras férteis. travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das terras brasileiras. do carinho. meu padrinho? . fosse testemunhar talvez rixas de casais desentendidos. Levou em linha de conta a produção média de cada pé de fruteira. Então pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas instituições e costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida. respirar um ambiente epidêmico. quanto aos preços. em que se tinham incrustado os desejos de sua alma e toda ela penetrava da exalação dos seus sonhos!.. Pareceu-lhe que ia atear no espírito do padrinho manias já extintas. sustentar-se de maus alimentos. as perdas inevitáveis. tão doce. livre. ódios de família . E foi obedecendo a essa ordem de idéia que comprou aquele sítio. sem ar. trinta abacateiros. após a tempestade que o sacudira durante quase um ano. O terreno estava amanhado e só esperava uma boa semente.. ele foi em pessoa ao mercado buscá-los. Não ficava longe do Rio e ele o escolhera assim mesmo maltratado. tirado da terra. abandonado.. e. talvez destinada ao mercenário mister de lar de aluguel. de grãos. baseados em tudo que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional.não acha.. Era um velho desejo seu. A moça esteve quase arrependida da sua lembrança. mas não a ponto de que não pudesse. mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral. e também os salários. de hectare cultivado. . facilmente. apodrecer numa banca.. antes da morte. das abóboras e outros produtos menos importantes. docemente. a minha horta. apressou-se ele em dizer.. alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado público. abrigo calmo dos seus livros durante tantos anos. agora propriedade de outras mãos. para melhor demonstrar a força e o poder da tenacidade. fosse servir para salão de baile fútil. calculou que cinqüenta laranjeiras. e muito contente ficou em vê-la monetariamente atraente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano. de legumes..então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras! A idéia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. Ele foi contente. podiam dar o rendimento anual e mais de quatro contos. era uma forte base . A nossa terra tem os terrenos mais férteis do mundo. esse de tirar da terra o alimento. e veio-lhe a atividade mental cerebrina. Seria ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus cálculos.“Sossego” . mas por haver nisso mais uma demonstração das excelências do Brasil. Com que alegria ele foi para lá! Quase não teve saudades de sua velha casa de São Januário. com o seu teto alto e as suas paredes lisas. cultivar o milho. e foi lembrando dos seus antigos projetos que respondeu à afilhada: . sem luz. alegre e saudável? E era agora que ele chegava a essa conclusão.

a deusa dos vergéis e dos jardins!. O capim e o mato cobriam as suas terras. sanãs. e outros espécimes. franceses. muito brancas. comprou termômetros. em pequenos tocos. a lhe sorrir agradecida. saracuras. pôr a semente na terra. Os arbustos. Não foram só os vegetais que mereceram as honras de um inventário. apelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda. mas como não fosse época própria à poda e ao corte dos galhos. cheios de galhos mortos. E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras em flor. mas como ele não tinha espaço suficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado. higrômetros. um culto pelo seu solo ubérrimo. para alicerçar fortemente todos os outros destinos que ela tinha de preencher. anemômetros. para o trabalho do campo. o verão estava no auge. as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado. com terras tão férteis. em herbário.era Pomona. como quem assiste a um passe de feitiçaria. munjolos. as jacas monstruosas. As primeiras semanas que passou no “Sossego”. avinhados. deixar crescer e apanhar. e era quem ensinava os nomes dos indivíduos da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras. O major logo organizou um museu dos produtos naturais do “Sossego”. As laranjeiras. com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu. e quando era possível com os científicos. seccionados longitudinal e transversalmente. Anastácio. olentes. . Lá ia. Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata dera a Quaresma sólidas noções de Botânica. Quaresma as empregou numa exploração em regra da sua nova propriedade. ele mais o Anastácio. e dentre tudo aquilo surgia uma linda mulher. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviômetro. Ele falava com a sua voz mole de africano. os abacateiros.. O patrão notou o espanto do criado e disse: . os abacaxis coroados que nem reis. Mineralogia e Geologia. a sopesar com esforço os grandes pomos verdes.. preás. As espécies florestais e campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares.. Havia nela terra bastante. a se enfileirar pelas encostas das colinas. as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos. tanto livro. Acabado esse inventário. as mangueiras estavam sujos. etc. climas variados. e cobertos de uma medusina cabeleira de erva-de-passarinho.Para que isso. bacurubus. aqui e ali. . mas Quaresma era inflexível e corajoso. os jambos. A parte mineral era pobre. barômetros. os abacateiros. tomou em consideração o conselho de seu empregado. argilas.Sabes o que estou fazendo. sem abandonar o instrumento. coleiros. olhava-o espantado. . as mangas capitosas. ao lado. as abobreiras a se arrastarem com flores carnudas cheias de pólen. tiês. De manhã. pluviômetros. Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel. tabebuias. Zoologia.Estou vendo se choveu muito. os pêssegos veludosos. Vieram estes e foram arrumados e colocados convenientemente. velhas árvores frutíferas. Anastácio assistia a todos esses preparativos com assombro. de troncos rugosos. tanto vidro? Estaria o seu antigo patrão dando para farmacêutico? A dúvida do preto velho não durou muito. passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola e uma relação de instrumentos meteorológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura. tinguacibas. Para que tanta cousa. cutias. sem “rr” fortes. os animais também. recebendo a unção quente do sol. Quaresma. este caminho estava naturalmente indicado.Não “sinhô”. uns blocos de granito esfoliando-se. Isso de plantar é capinar.37 agrícola. portugueses. logo ao amanhecer. e as madeiras. O sol era forte e rijo. com lentidão e convicção. Demais. Encomendou livros nacionais.. um capoeirão grosso com camarás. lá iam. que o acompanhara. areia e. Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. a permitir uma agricultura fácil e rendosa. Anastácio? . por onde sabia que as terras eram povoadas de tatus. com um imaterial sorriso demorado de deusa . patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco. cobras variadas. como teorias de noivas. de enxada ao ombro. Anastácio.

quando o golpe falhava e a lâmina do instrumento roçava a terra. comidas do dia anterior. E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho instrumento de trabalho. e.. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito. ele capinava razoavelmente. Quaresma agarrava-o. Anastácio. contava-lhe a tarefa do dia.Está direito. é que o velho major percebia bem a alma dos trópicos. assim. . Almoçavam mesmo no eito. tentava outra vez. O flange batia na erva. e houve várias vezes que a enxada. raspando o mato rasteiro. “seu majó”. demorando-se muito em cada arbusto e. Às vezes. que não foi impossível a Quaresma acordar nos seus o jeito. ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das árvores e punha nas cousas um forte acento de resignação mórbida. escapando ao chão. batendo em falso. Anastácio.. a beijar a terra. coberto com um chapéu de palha de coco. é porque não trabalham. feita de desencontros como aquele que se via agora. Ao fim de um mês. às vezes. a brilhar sobre um torpor de morte. claro. um escavador. Decerto. partia-se de encontro a um seixo.. Há cada cousa neste mundo! E os dous iam continuando. . amanhã estarão as laranjeiras limpas. anos e anos. a arrancar torrões de terra daqui. Não vá ficares doente. ele. Esta refeição ele fazia mais demorada. suava. destruindo a erva má. Por gosto andar naquele sol a capinar sem saber?. aquecidas rapidamente sobre um improvisado fogão de calhaus. Andar com livros. entusiasmo de ideólogo que quer pôr em prática a sua idéia. a cujo impulso a enxada resvalava sem obstáculo pelo solo. O velho preto. à sombra de uma fruteira mais copada. . não partilhava aquele seu entusiasmo pelas cousas da roça. que ele mesmo provocava. lado a lado. dali. rápido. para não ser nada. punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usá-lo da maneira ensinada. aquele seu mórbido amor pelas ervas daninhas e o incompreensível ódio pela enxada fecundante.. Se adoecem. Acabado o jantar. Havia em Quaresma um entusiasmo sincero. intervinha humildemente. muito pequeno. fatigava-se. Era em vão. de um sol alto. junto ao patrão. É de leve. . doente. mais velha que ele. com a mão habituada. a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar uma piada irônica: bem-te-vi! O major enfurecia-se. aí por depois do meiodia. quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. dizia ela. então.Sabes. tanto é em nossos músculos firme a memória ancestral desse sagrado trabalho de tirar o sustento de nossa vida. Capinava e capinava sempre até vir jantar. ligeiro. míope. a maneira de empregar a enxada vetusta. atracado a um grande enxadão de cabo nodoso.38 Era de vê-lo. Não se mete a enxada pela terra adentro. para entreter-se. mas em tom professoral: . mãe dos frutos e dos homens. Então. Adelaide. olhava-o com piedade e espanto. cair. que um pequeno instrumento agrícola. Adelaide! Não estás vendo como essa gente tem tanta saúde por aí. não seguido. não ficará nem mais uma touceira de mato. Considerava-o silenciosa. com grande alegria do irmão cultivador. consistindo sempre em avaliar a área já limpa. se viera viver com ele. Quaresma chegava à janela que dava para o galinheiro e atirava migalhas de pão às aves. a força era tanta que se erguia uma poeira infernal. olímpico. criava galinhas. enchia-se de raiva e batia com toda a força. O pince-nez saltava. de sol a sol. o fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos. mas. Não se agastou com as primeiras ingratidões da terra. mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de hábito requeriam.Não é assim. fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelotão de cavalaria.. não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo. quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira.. Conversava um pouco com a irmã. Quaresma. Neste sol todo o dia. ela o estimava. e o trabalho ia assim até à hora do jantar. O major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia à tarefa que se impusera.. fê-lo perder o equilíbrio... mas não o compreendia. furioso. A irmã.Qual.. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. A sua enxada mais parecia uma draga. a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. que doideira! Seguira-o ao “Sossego” e.

esmolando disfarçadamente. mando um leitão e um peru. de modo que foi com surpresa que recebeu o aviso do velho preto.Oh! major. portanto... Desde já. tu! Que presente! . . quando Anastácio veio avisar-lhe que se achava um cavalheiro na porteira.Eu sou o Tenente Antonino Dutra. mas o que havia nele de estranho era a gordura. major.. estou. . major! Quanta fruta! Quanta farinha! As terras estão cansadas e.Boas-tardes. a nossa padroeira. Já sabemos quem o senhor é. Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa roceira. não há novidade nem nenhuma exigência legal. Parecia que a fizera de repente e comia. a mais não poder. fazia indagações sobre a vida do galinheiro: . luxo. e se devia ser gordo não era naquela idade. Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. gansos. a gente daqui é muito pobre e a irmandade também. ofereceu outro a Quaresma e continuou: .Ainda não. e foi mesmo por isso que vim para a roça. um óbulo. . Era um tipo comum. Apesar de não ser religioso.Boas-tardes. sem dar tempo que todo ele engordasse.. E logo a irmã acrescentava: . tirou um cigarro. Enxugou o suor.39 Ele gostava desse espetáculo.. mas tinha um aspecto desonesto. guardou o lenço.Muito bem.Ora. as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ágeis.Uma cousa nada tem com a outra. tu não vais? . a pedir isso ou aquilo. ..Que é que tem? É da tradição.Venho pedir-lhe um pequeno auxílio.. a não ser a gente pobre do lugar. porque.Perfeitamente. Faltam oito dias ainda. se as duas faces eram gordas. . com medo de a perder de um dia para outro. nenhuma visita batera à porta de Quaresma. .Não. .Nenhuma. Espere um pouco.. . não se incomode. O desconhecido entrou e sentou-se. Adelaide? . Depois.Pretendo.Já nasceram os patos. Não posso. normal. .Pretende dedicar-se à agricultura? .. É uma tradição do lugar que devemos manter. major.. .. escrivão da coletoria. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos prêmios que ela comporta. com pouco mais de trinta anos.. É muito justo..Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma..Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui. . para a festa da Conceição.É justo. de cuja irmandade sou tesoureiro. pequenos e grandes. Este sítio já foi uma lindeza. Vou incomodar-me. Tem-se dado bem.Tua afilhada deve casar-se sábado. . O visitante falou: . . . Ele mesmo não travara conhecimento com ninguém. continuou o escrivão.. Não era desmedida ou grotesca..O senhor sabe. mas noutro tempo!. Não é para já.. daquela luta encarniçada entre patos.Não. major. via-se perfeitamente a sua magreza natural. Era assim como a de um lagarto que entesoura enxúndia para o inverno ingrato.Isto hoje não presta.Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. de forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais remediados.Oh! Por Deus. tomei a iniciativa de vir incomodá-lo. Não é cousa de importância.. Ele já subia a pequena escada da frente e penetrava pela varanda adentro... . Através da gordura de suas bochechas. major? .. galinhas. Desde que ali se instalara. Creio que o major. tenente! . Faça o favor de entrar. O escrivão tossiu.. olhou um pouco lá fora e acrescentou: .

. Não atinava por que uma rezinga entre dous figurões importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente.. que vinha não se sabe donde! .. Debruçado na varanda. pensam-se também más. um sorriso. no trabalho de fecundá-la. Não se demorou muito.. . meu caro tenente! Não há nada que não se vença. quando a nossa vida pede tudo à terra e ela quer carinho. amigos. este malandro quer ficar bem com os dous. O trem ou o vapor como que vem do indeterminado. Que pensa o senhor? . ...Que questão é? indagou Quaresma. também o gesto. O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo. só porque o Senador Guariba rompeu com o governador. Seu Antonino! Não há terras cansadas. A Europa é cultivada há milhares de anos. era preciso cortar as asas daquele “estrangeiro”. gordo e vivo. Na nossa terra não se vive senão de política.O major é um filósofo.. Com certeza. do Mistério. É uma emoção especial de quem mora longe. de tirar dela seres. riquezas.Então não sabe? .Então o major não se recusa a concorrer para a nossa festa.. mas entenderam aqui certos presidentes de Câmaras Municipais do Distrito que se hão de sobrepor ao governo. cuja vida estava tão fora da esfera daqueles. desanimado de penetrar nas tenções ocultas do major. O trem apitou e ele demorou-se a vê-lo chegar. moço honesto. A alternativa angustia.trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e guaribas. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? Não exigia ela uma árdua luta diária? Por que não se empregava o esforço que se punha naqueles barulhos de votos.. nessas tricas eleitorais.Lá isso é verdade. O escrivão afastou-se.. Os dous se despediram. . . O major pensou ainda um pouco como aquilo era bruto .. Apitou de novo e saiu a levar notícias. babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados. Nada! O serventuário do fisco ficou espantado.Por que não se há de trabalhar aqui também? ..Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.. .Eu. e . e o major ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas. tristezas por outras estações além. desapareceu na estrada. mas há tantas contrariedades na nossa terra que. bom orador. entretanto.. fora disso. apagou a fisionomia e disse em ar de despedida: .. luzidio de suor.Qual.40 .zás . sabendo e morando no município de Curuzu. . essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicações com o resto do mundo. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas. Quaresma ficou a vê-lo montar no seu pequeno castanho. e traz. mas. vidas .. Estava tirando sardinha com mão de gato. não é? . disse ele com malícia. Há uma mescla de medo e de alegria. Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão.O senhor verá com o tempo.Mas lá se trabalha. de atas.apresentaram um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influência. para depois arranjar-se sem dificuldade. luta.. Havia no mundo um homem que. a voz das pessoas que amamos e estão longe. Ao dizer isto. O tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria: . Ele chegou arfando e se estirando como um réptil pela estação afora à luz forte do sol poente. boas ou más. não se incomodasse com a briga do Senador Guariba com o governador do Estado! Não era possível! Pensou e sorriu levemente..Decerto. Aquilo devia ser um ambicioso matreiro.Qual cansadas.Eu lhe explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto. Quaresma esperou o trem. como se nelas houvesse qualquer cousa de vital e importante.Não. major. o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar pesquisador sobre a ingênua fisionomia de Quaresma. trabalho e amor. além de notícias gerais. disse ele consigo. .

II Espinhos e Flores Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade.. os azares das construções.. Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que caminhava com pressa. humildes e acanhados. Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets. que parece vexada a querer ocultar-se. e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginária da beleza que os nossos educadores de dous mil anos atrás nos legaram. parede de frontal. penteados. nas ruas. as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito. influiu decerto para tal aspecto. mais sem plano qualquer. são em geral pobres. castradores de gatos. Casas que mal dariam para uma pequena família. conforme as casas. com varanda e colunas de estilo pouco classificável. feios e desleixados. e assim pela tarde. Aquele fraque comprido. se os há. Vinha um sujeito. caprichosamente montuosa.. Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. A topografia do local. são divididas.. compradores de garrafas vazias. As casas surgiam como se fossem semeadas ao vento e. alugados à população miserável da cidade. as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas. e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa. outras se afastam. Aí. as ruas se fizeram. dessas de compoteiras na cimalha rendilhada. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos. Quem era? Aquele chapéu dobrado. Olhou a estrada que levava à estação. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas. contínuos de escritórios. circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado. com sedas e brocados. olhase acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique. cuidadinhos. Além disto. Não há nos nossos subúrbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européias. nem mesmo se encontram aqueles jardins. Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas. como um morrião. Às vezes. evitando a custo que a lama ou o pó lhes empane o brilho do vestido. Além dos serventes de repartições. em torno da qual formiga uma população. diante daquela onda de edifícios disparatados e novos.. há peralvilhos à última moda. subdivididas. Passada essa surpresa. Há pelas ruas damas elegantes.. podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros. adiante.Adelaide.. Há casas de todos os gostos e construídas de todas as formas. quando essa gente volta do trabalho ou do passeio. é uma velha casa de roça. algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. Um violão! Era ele! . está aí o Ricardo. há passeios em certas partes e outras não. mais influíram. há operário de tamancos. é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida. aparadinhos. os subúrbios têm mais aspectos interessantes.. mandingueiros. Num trecho. porque os nossos. Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. porém. a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Dirigia-se para a sua casa. sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico. num quarteirão. de repente se nos depara uma casa burguesa. coberta de zinco ou mesmo palha.41 e feio. mais caprichoso. dão voltas. com as suas vilas de ar repousado e satisfeito. sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino.. e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. a mescla se faz numa mesma rua. há mulheres de chita. e os minúsculos aposentos assim obtidos. cães e galos. . nesses caixotins humanos.. pode ser imaginado. há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora.. de porta e janela.. Passo miúdo. Nada mais irregular. Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante. logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.

. outros já afirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros. aqui e ali. Vistos assim do alto. de oca. As casas pequeninas.. Ainda agora estava ele lá. colhendo com a vista uma grande parte daquela bela. E o queijo? Aquele queijo tão substancial. fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe no programa um sabor de confusão democrática. e tinha adeptos. se não lhes dava sentido. Veio-lhe um afluxo de ternura e. tendo de permeio. A viola. tão forte. era linda. com a mão em concha no queixo... como aprendeu? O seu mestre.. Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina. Sofria em não ter um peito amado. sem amigo. Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias. amigo em que derramasse aquelas lágrimas que iam cair no solo indiferente. ainda na sua formação. a substância do país! E as lágrimas lhe saltaram quentes dos olhos afora.. no tanque da casa. E as festas? Saudades. bebe o pranto a areia ardente. sem confidente. dobrando à esquerda. Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. ensaboava-a ligeira. os seus triunfos e também os seus sofrimentos e mágoas. de branco. A rapariga não o viu.42 catadores de ervas medicinais. que. consubstanciado os seus tênues sonhos e desejos em versos discutíveis. de queixume dorido da pátria criança ainda. e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem. pôs-se a pensar no mundo. um tanto escondida dele. lembrou-se dos famosos versos: Se choro. dava um quê de balbucio. debruçado no peitoril. de que ele a modos que era e se sentia ser. e se pôs a cantar: . aquele ódio contra ele . os subúrbios têm a sua graça. rápido. enfim. duas vezes triste na sua condição e na sua cor. E o violão. Por aí. ficando um instante enleado no enigma do nosso miserável destino humano.já esqueciam os trabalhos. num cubículo desses se amontoa uma família. Não era das sórdidas. uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequena e grande burguesias não podem adivinhar. batia-a de encontro à pedra. Ricardo. como uma cobra entre pedrouços. Com o olhar perdido. sem amor.. olhando da janela do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. nas desgraças. o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em prol do levantamento da modinha e do violão.. um coqueiro ou uma palmeira. E ele estava ali só. sofria também. Alguns já o citavam como rival dele. feio como aquela terra. farejou o mar lá longe. engastadas nas comas verde-negras das mangueiras.. só como um deus ou como um apóstolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova. Ela abaixava o corpo sobre a roupa.ele que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma. da casinha dos seus pais.. mas feraz como ela tanto que bastava comer dele uma pequena fatia para se sentir almoçado. carregava todo o seu peso.” Por que então aquele encarniçamento. distraída com o trabalho. ele baixou um pouco o olhar à terra e viu. de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitavam. muito flexível nas suas grandes vértebras de carros. pintadas de azul. atravessa tudo aquilo. alta e soberba. A viola quer teu coração. mas parecia ingrata e áspera no seu granito onipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das árvores. Aquele tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa. e alguns mais ingratos! . e nem nomeavam o abnegado obreiro. mas era uma casa de cômodos dos subúrbios. Às vezes. a alma. o suco. Com a lembrança. Ricardo. com seu curral e o mugido dos vitelos. Teve pena daquela pobre mulher. depois... só com a sua glória e o seu tormento. era majestosa. Era bela a terra. daquela sua aldeia sertaneja. mas que a plangência do violão.. uma rapariga preta lavava. Em que pensava ele? Não pensava só. inclinando-se para a direita.. capital de um grande país. o Maneco Borges. Olhou um pouco as montanhas. as suas satisfações. Ricardo lembrava-se de sua infância. e o trem minúsculo. grande e original cidade. e recomeçava. não lhe predissera o futuro: “Irás longe.

Quis sair. o violão na sua armadura de camurça. muito bom. uma estante com livros. um sorriso brincava por toda ela. toda a sua natureza tinha sido lavrada. dispôs o papel. A manhã ia alta. uma mesa de pinho. e. que já se ajeitava a moça. tinha muito pó-de- . mas assim mesmo compreendia o seu propósito. Sentou-se e quis começar uma modinha sobre a Glória. por que eu lhe pedia bis? A rapariga estendeu a cabeça. .Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã. rasgou o envelope com emoção. Havia também uma máquina para fazer café.. mas tão longe! Consultou as algibeiras. agarre o violão e venha até cá tomar uma chávena de chá conosco . abraçá-la. Embora insistisse muito. apanhar as palavras no ar. A emoção tinha sido forte. Não reconheceu a letra. . agradecidamente como se fosse um ídolo benfazejo. Dona Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado. a rapariga não quis continuar. à proporção que lia. incolhível como um sopro.43 Da doçura dos teus olhos A brisa inveja já tem Era dele. descia e subia.Seu amigo Albernaz. que se tem e se pensa que não se tem. espairecer com ele. senão não cantava na vista do senhor.. É verdade que ultimamente esse seu amigo se achava pouco interessado pela modinha. procurar um amigo. Havia uma rede com franjas de rendas. O general não o abandonara.Vai bem.. inquieta e abrasa como o Amor. demoradamente. começava a esquentar e o céu estava de um azul ligeiro”. Dona Alice.. com a idéia daquele furto que se queria fazer ao seu mérito. Contemplou um pouco o violão. As mágoas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Tentou começar. era a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então à memória aqueles versos do padre Caldas. esse seu antecessor feliz que teve um auditório de fidalgas: Lereno alegrou os outros E nunca teve alegria. trazia-lhe conforto e consolo. Ricardo. Cante. naquele tecido caro que parece requerer corpos elegantes e flexíveis. queima. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter: .. mas não pôde.Qual o quê! Posso garantir-lhe que está bom.. O seu quarto tinha o mobiliário mais reduzido possível. Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. tênue. mas menos interessante e mais comum de temperamento e alma. sobre ela objetos de escrever. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado.... sim.. Ah! o Quaresma! Esse. que nos alanceia. Até então estava carregada e dura. ia de uma face a outra. ia mudando de fisionomia. Ainda se o major estivesse perto. Veio ao interior do quarto e pôs-se à mesa na tenção de escrever. pendurado a uma parede. quinta-feira. Ela era alta. ternamente. Como ir? Arranjaria um passe e iria. fino. reconheceu quem falava e disse: .Saúde . quando acabou de ler o bilhete. alguma cousa impalpável. mas quem? Ainda se o Quaresma. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher. vai bem! Se não fosse. Não chegava a dous milréis a sua fortuna. Que seria? Leu: “Meu caro Ricardo . mais socado.Deus me livre! Para o senhor me “acriticar”. Não conseguiu assentar o pensamento. E como eram as cousas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga. Ela e o noivo fazem muito gosto que você apareça. baralhada. Lalá. sentir a música zumbir no ouvido. embora faceira. Se o amigo não estiver comprometido com alguém.” O trovador.Não sabia que o senhor estava aí. se propunha. de feições mais regulares que a irmã Ismênia. para o respeitável militar. os fins e o alcance da obra a que ele. Traziam-lhe uma carta. Enfim era uma missão!. o último brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. uma cadeira. Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz. Bateram à porta. a terceira filha do general. Quinota estava radiante no vestido de noiva. essa cousa fugace.

atendendo ao mérito excepcional da obra. ele já tinha promessa de ser subdiretor na primeira vaga. o seu novo genro. Ricardo não os viu passar. mas. O Lulu.E que carreira! Não é por ser meu parente. estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. agradeceram-lhe muito. mas é a mesma cousa. endireitou o trancelim e continuou: .. Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante. O ministro.. a fila estava no general. como também pela beleza da expressão. fora até muito notada e gabada pelos críticos. é cousa nunca vista. cheio de dourados e cabelos. O general estava satisfeito. apressou-se o major. o único filho do general. cumulado de elogios pela “imprensa desta capital”. sem saber como.“sou muito feliz. O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro. Era um grosso volume de quatrocentas páginas. olhando com aquele jeito dos míopes: . com os seus gestos lentos. mandou-lhe dar dous contos de prêmio. que punha bem à mostra a sua gibosidade.Passou.Depois da militar.” Além do prêmio e da transferência.. com o seu vagar. Mas para que recordar? Os cumprimentos se repetiram. que era da amizade do recémcasado. tipo doze. dando providências. Bem entendido.” .viu-se. impava no seu uniforme do Colégio Militar. . quando o trovador os cumprimentou. . o general e os convidados novos. Genelício tinha arranjado a transferência e não fora só isso que o decidira a casar-se. ocupando dous terços do livro. Fora padrinho e estava irrepreensível na sua casaca do uniforme. O general não tardou em vir falar com Ricardo.44 arroz. ao mesmo tempo palaciano. O ingrato!.deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão. replicou o outro convidado novo. a melhor carreira é a da Fazenda. Por aí pôs o pince-nez.Síntese de Contabilidade Pública Científica . o Doutor Florêncio.Eu não quero falar dos formados... com a sua banda roxa de honorário. marcial e navegado. e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz. quem tinha um ar importante. Deram começo às danças e o general. tanto mais que passara de ano. era o Contra-Almirante Caldas. o almirante. muito penteados. mas com trinta e dois anos primeiro escriturário do Tesouro. tendo sido a edição feita à custa do Estado.. e os noivos. respondeu. Dizia assim: “A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente a despesa e receita do Estado. alargavam a sua face e pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim. não acham? .. que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado.Sim. e enquanto o limpava. pois. que também viera de uniforme.Creio que casei bem minha filha: rapaz formado. . o Major Inocêncio Bustamante. o major não pôde deixar de observar: . Esses. fez o Doutor Florêncio. Tendo escrito uma . De fato. metido num segundo uniforme dos grandes dias. bem encaminhado e inteligente. encasacado numa casaca mal talhada. disse um dos convidados novos. O almirante acudiu: . Ismênia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente. na Imprensa Nacional. A Ismênia foi aquela desgraça. Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco. escrito em estilo de ofício com uma vasta documentação de decretos e portarias. Sonhava há tantos anos uma cerimônia daquelas em sua casa e enfim pela primeira vez via realizado esse anseio. sorriso que encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel. o quinhão do livro verdadeiramente sintético e científico. não só pela novidade da idéia. . .Estou muito contente. As âncoras reluziam como metais de bordo em hora de revista e os seus favoritos. A primeira frase da primeira parte.O Genelício não está no Tribunal de Contas... ao entrar.É um rapagão.. não passou? perguntou Florêncio. graças aos empenhos do pai. Genelício dava o braço à noiva. e até Quinota disse um .

o exato empregado como engenheiro das Águas. . . repeliram o nosso ataque. dando movimento e vida à festa.quando Dona Maricota chegou sempre diligente. O general. fez com rapidez a dona da casa... aqueles dous recentes conhecimentos de Albernaz. só!!! De resto. “seu” Caldas.O senhor estava a bordo? . mas tem os seus percalços. Os risos.Foi. Flores à esquerda e “nós” caímos sobre os paraguaios. que nunca tinha visto a guerra. . tinham aproveitado o tempo. Todos se entreolharam admirados. uma guerra bibliothèque rose.É. Está ouvindo.Já vamos. e depois é o senhor. o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pacíficos... ... para apreciar as narrações de guerra. contadas pelo General Albernaz. ativa. o único que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira . mas tem as suas “cousas”. Chico. é já. “seu” Ricardo! .você sabe. general? perguntou o convidado amigo de Genelício. disse Inocêncio.. bala por todo o canto. exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai excepcional. Mas os malandros estavam bem entrincheirados. dos encontros..45 Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira frase que lhe veio aos lábios: . que é isso? Ficou aí e eu que faça sala. mas a nossa. tinha ainda inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena. tendo tomado alguns vinhos generosos. hein.. os tiros são os de salva e se matam é cousa de somenos.Isso não quer dizer nada. em que não aparecem a carniçaria.. e o mais que se adivinhava não distraíam aqueles homens das suas preocupações belicosas.. Quando se está numa trapalhada. Não imaginam o que foi . porque o embarque equivalia a uma promoção. que a filha do Lemos vai cantar. disse alguém.Não.Se estive lá. eu fui mais tarde. Pra sala todos! .Foram os paraguaios. Vamos. Um inferno! .. morre um. Inocêncio? .. Inocêncio? Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou: . boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginárias daqueles três militares. perde a sua importância trágica: três mil mortos. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido: .Quem venceu? perguntou um dos convidados novos. nas narrações feitas assim.Não. . . Perseguições fizeram com que eu não fosse designado. . contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram. ..Não estive..Não é assim tanto.Foi “seu” Mitre. Mas. Ele só vê a parte pitoresca. alisando um dos favoritos. o Doutor Florêncio. Dona Maricota. que anime as moças.Então. grita outro como em Curupaiti.Polidoro tinha ordem de atacar Sauce. obtemperou o almirante. . Albernaz? hein. Também na passagem de Humaitá. bem comido. Adoeci e vim para o Brasil. um honorário. na passagem de Humaitá. ia dizendo o almirante. Era raro que alguém viesse de dentro até onde eles estavam. que contrastava tanto com o seu corpo enorme. a brutalidade e a ferocidade normais. Era mais moça que o marido. a parte por assim dizer espiritual das batalhas. . Não há como um cidadão pacato.Depressa.. Atacamos com fúria...O senhor esteve lá. Estavam Ricardo. tiro dali. os senhores! E foi empurrando um a um pelo ombro.. a música. Na sala de visitas as danças continuavam com animação. A Morte mesmo.. “seu” Ricardo. Mas o Camisão.. todas as profissões são boas. Era ribombar de canhões que metia medo. É por isso que eu digo que a nossa profissão é bela. .Quando se prospera. talvez o menos pacífico dos três. guerra de estampa popular. fogo daqui. isto é. não é. Não é para desfazer das outras. a cousa ficava edulcorada. então. embevecidos. depressa.. os homens morriam como moscas.

mui. tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou com voz grossa: “Senhoritas. Ainda andando. depois. Deu começo. É uma composição terna. quase saíam das órbitas. o Doutor Lemos da Higiene. Ele ocupou um canto da sala.Às vezes. Da mobília não se podia julgar.Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma? ... chegou-se a Coração dos Outros e perguntou: . em seguida. E depois. os “serenos”.. mas frias. em que o violão estalava. Chegaram à sala.. macio e longo.Estou com saudades dele.. Emendou: “Espero que nenhum ruído se ouça. Ricardo pôde ver a rua. dispôs-se a cantar. por aí.. A moça. É isto! Eu. Coração dos Outros acrescentou: . conversava com o Tenente Fontes.O quê? Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. para ir vê-lo. Depois de uma ligeira hesitação. Modinha de minha composição.. e perguntou: . um passe.Aquele Quaresma podia estar bem. Foi ao piano. .46 . A casa era alta e tinha jardim.É a filha do Lemos. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. há bem quarenta anos. um espelho oval e alguns quadrinhos. soaram.Isso é difícil... na repartição. É uma ordem. O Doutor Florêncio que ficara atrás do general. respondeu o general..Canta muito bem. só de lá os curiosos. Concertou a voz e continuou: “Vou cantar ‘Os teus braços’. Era vasta. furiosos retratos a óleo de Albernaz e da mulher. coçou o cabelo e disse: .Tem uma bela voz esta moça.. colocou a partitura e começou. porque senão a inspiração se evola. senhores e senhoras. to ‘dê-licá-do’... Eu queria..Está no último ano do Conservatório. decente e de uma poesia exaltada. general. amanhã. levantou um pouco o pince-nez que começava a cair. poucas casacas.Vá lá amanhã. minha senhora. Bem. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador. Chegou a vez de Ricardo. Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bemeducada. depois tenho certos desgostos. dirigindo-se a Ricardo.Já vamos. tinha sido retirada. algumas sobrecasacas e muitos fraques. Havia um ou outro decote. ajuntou: . para dar mais espaço aos dançantes. . saltitante. Lalá.” Seus olhos. no vão de uma sacada.Pois não. e a decoração estava completa. Alternando um andamento e outro. mas você apareça lá. Por entre as cortinas de uma janela. Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada: .Vai bem. podiam ver alguma cousa da festa..Tem-lhe escrito? .. O general esteve uns instantes de cabeça baixa. como soluço de onda. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas.” A atenção era geral. Acabou. ..Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem. Quem é? . música e versos. gemebundo. .. fez o general. a modinha acabou. afinou-o. E continuaram a andar. agarrou o vilão. observou ainda Albernaz. a famosa filha do Lemos. . correu a escala. comentou: .” Parou. A calçada defronte estava cheia. houve uma parte rápida.Vocês não vêm! . O senhor sabe: um homem que tem nome. respondeu de um jacto. com medo de perder as palavras: . E foram. mas foi meter-se com livros. É o violão instrumento muito. O general suspendeu a cabeça. Principiou brando. Palmas gerais. No caminho o general parou um pouco. que não pego em livro.

o pergaminho. duque de plenamentes e medalhas. mas. glória e orgulho do nosso funcionalismo público. Tal imagem que dele fizera. As palmas foram ininterruptas. ao lado do noivo. cheio de talento nas notas e recompensas escolares. alto. ou também dessa majestade de ópera lírica. Tanto mais que ela.. Houve uns arremedos parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics. e. Não obstante as origens puramente européias. espero eu. mas a sua fisionomia era profunda e .Não se esqueça. Ela aceitou a incumbência e. por sua vez. E limpou os olhos furtivamente. a receber homenagens de um vilão que não “roçou os bancos de uma Academia”. Senhor Ricardo!” Voltou-se.. de desmedidos sonhos de sábio. A cerimônia correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. não se esqueça. com o seu pequenino lenço rendado. Genelício levantou-se e deu-lhe a mão. com uma fisionomia irradiante de felicidade. No seu rosto. também. com o desprezo de um duque. Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Olga casara-se. quando é que o senhor pretende estar com Dona Adelaide? . Gosto tanto das suas modinhas. Olhe: dê aqui a Ismênia para me entregar.Depois de amanhã.Que é Dulce? A outra explicou-se. “Que ordena minha senhora?” Era uma moça que lhe pedia uma cópia da modinha. que não a aborreceram. é verdade que foi.. Para fugir aos cumprimentos. em algum lugar deste Brasil. a sua tirania e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento.Vou. no seu imaculado vestido de noiva. a sua beleza não era a grande beleza . No corredor chamavam-no: “Senhor Ricardo. Havia nos seus traços muita irregularidade. Talvez nem mesmo essa ela tivesse. mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas comuns. De resto. embora sem perceber o constrangimento de um comando fora dela. depois foi a inércia da sociedade. esteve longe de ser uma noiva majestosa. pensava que se não fosse este. Eu queria tanto receber uma carta. ela desaparecia dentro do vestido.. Ficando rico e sendo médico. desse modo. e o melhor era não adiar. São tão ternas. de amor à ciência..“Seu” Ricardo. perguntou a Ricardo com a sua voz dolente: . em virtude de uma determinação certa de sua vontade.. Quinota.Vai lá? . O marido é que estava contente. .aquela que nós exigimos das noivas ricas.47 Aquilo tinha ido ao fundo de todos. . não tanto pelo título. mas julgava o seu banal título um foral de nobreza. Ricardo correu à sala de jantar. nada de grego. muito mesmo. segundo o modelo das estampas clássicas. Não tinha fortuna alguma. O general abraçou-o. tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. Apesar da pompa.Pois então diga-lhe que me escreva. Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro por aí. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquele ato. de si para si. durara instantes em Olga. Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título. equivalente àqueles com que os autênticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees. aparentemente. . mas pela sua simulação de inteligência. o sogro lhe dera tudo e tudo ele aceitara sem pejo. mas com a volta que a sua vida ia tomar. seria outro a ele igual. desse grego autêntico ou de pacotilha. dizia ela com meiguice. era pequena. via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na indústria clínica. Não seria muito com a noiva. ouvindo falar em seu nome perguntou: . dos véus e daqueles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar. A noiva de Cavalcanti aproximava-se e. Era por isso que ela não ia para a igreja. nenhuma vontade estranha à sua influíra para isso. tão delicadas. III Golias No sábado da semana seguinte àquela em que a filha do general recebera como marido o grave e giboso Genelício. erecto.

como a sua pequena boca. O trovador e o médico estiveram um instante conversando. cheio de caldeirões. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro. Elas se encontravam em T. Quaresma não fora à festa. Ao contrário do costume. A concorrência nunca é grande na roça. partia a da Matriz. pela estrada de rodagem. O sítio empolgara-o. não saíram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro. espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas. A antiga chamava-se Marechal Deodoro. um deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado. ex-Imperador. que quase cobriam toda a cavidade orbitária. olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. em campo. determinada pelo velho caminho de tropas. as casas juntavam-se urbanamente no começo. Tinha duas ruas principais: a antiga. vinha a época das chuvas. janela com sacadas de grade de ferro. ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil. Salão Rio de Janeiro. linfáticas e tristes. mandara o leitão e o peru da tradição e escrevera uma longa carta. cortava planícies e rios em toscas pontes. À esquerda da estação. O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. e não queria afastarse de suas terras. fora. exprimia bondade. cheias de laços. Quando eles partiram. cimalha. na sua fazenda. Quaresma não o acompanhava. Passou um mês com o major.48 própria. A vila!. sem desviá-lo contudo dos seus afazeres agrícolas. perdendo um dia ou dous. descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja. o calor ia passar. festa que teria lugar na quarta-feira próxima. num campo. sendo o braço vertical o caminho da estação. Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída. O seu primeiro trabalho foi ir à vila. a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas. Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro. de um desenho fino. As conseqüências desastrosas do seu re. que ia ter à igreja. seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. mas gozava a sua vitória. muito magra. era como se começasse a desertar da batalha. Não só a luz dos seus grandes olhos negros. de forma que todo o município o disputava e festejava. e a nova. À festa do Doutor Campos. que subia e descia morros. enquanto a filha. ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente nacional. A viagem seria breve. . mas Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior. feia e pobre no seu estilo jesuítico.querimento em nada tinham abalado as suas convicções patrióticas. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média. e fez a barba.. mas mesmo assim. espaçando. As outras partiam delas. Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile do Doutor Campos. das semeaduras. tão-somente ele as escondia. fazia fulgurar o seu rosto móbil. Chegara sábado e fora passear à vila domingo. e a nova. assistir o ofício religioso. onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. pálida. Era o médico do lugar. ataviadinhas. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. com uns longos braços descarnados. ficava a Câmara Municipal. e viera de “aranha” com a sua filha. malícia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade. Continuavam as suas idéias profundamente arraigadas. ao alto de uma colina. O fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens. puro estilo mestre-de-obras. Havia certos circunstantes. Nair. morava. A visita de Ricardo veio distraí-lo um pouco. Foi na saída da missa que lhe apresentaram o Doutor Campos. Era um grande paralelepípedo de tijolo.. e foi um triunfo. se assim se pode chamar um trilho. presidente da Câmara. cuja origem veio da ligação da velha com a estrada de ferro. A fama do seu nome precedia-o. ex-Imperatriz. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé. Marechal Floriano. depois iam espaçando. até acabar em mato. a Praça da República. Se bem que o major tivesse abandonado o violão. porém.

sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os trenos do instrumento? Ora. Durante o trabalho. Ricardo recebia todas as honras. Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido. . Vive-se bem e pode-se subir. eliminando dele os princípios voláteis ao fogo. que o capão invadira. major: conhece o Doutor Campos? . cultura nova em que depositava grandes esperanças.. e. pois. Era este um camarada magro. todos os favores. Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. parece que tinham saído à luz. Não digo que se peça. Obtido ele. . .. que ainda não tinha partido para o eito: . O menestrel não notou o gesto do amigo e emendou: .Decerto. além do Anastácio. ele falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção.Sei. por parte de todos os partidos. que indicava bem naquela população a existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos estrangeiros. no lado norte do sítio. admitira o Felizardo. Era manhã de verão. . faziam um roçado. e fora para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo.Major. Presidente da Câmara. . como um símio. mas agregado.. para aproveitar como lenha.Mora daqui a uma légua. Outra cousa. porém. o senhor pensa que eu não aceitava. era quem mais o cumulava de homenagens. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra. Tinha a face cor de cobre. Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe. custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos.. sob uma aparência de fraqueza muscular. . para dar um passeio ao Carico. e nos intervalos batatasinglesas.Podes. Um camarada do Doutor Campos. O Doutor Campos. Quaresma. aí pelas seis horas. portanto. mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura.Até aí não vou. mas. Naquela manhã até esperava um dos cavalos do edil. Você sabe como me são estranhas todas essas cousas. Quaresma foi caminhando por entre aquele rumor de vida. os galhos miúdos e folhas. . Isso levava tempo. quando chegava. Olhe. o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho.Não tenho nenhum desejo disso. Evitava assim calcinar o terreno. mas prometia dar um rendimento maior ao plantio. não havia ninguém mais valente que ele a roçar.De nome.Fazes bem. É. Há quem cante. alto. a barba rala e. Posso trazê-lo aqui? . major: eu gosto muito de violão. bandos de coleiros. rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele. foi uma boa idéia vir para a roça. O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato. se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo.. quando nos oferecem. se não! Não se deve perder vaza. essas tristes flores dos nossos campos.. não somente para a fecundação vegetal mas também para a beleza. neste instante. Até as flores. você vai ser deputado”. foi dizendo a Quaresma. Com isto era um tagarela incansável. de longos braços. ele removia para longe. anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das árvores.Cada um tem as suas teorias. não acha? . Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto.Ele quer conhecê-lo. meu caro Ricardo. não lhe quisera atear fogo. no momento. entretanto. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Esvoaçavam tiés-vermelhos. já sabia todas as intriguinhas do município. major. . a fulminante vitória de Ricardo. . onde então queimaria em coivaras pequenas. longas pernas.49 Gozava. não devemos rejeitar.Sabe que ele é presidente da Câmara? Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança. De manhã. Eram agora dous.Conforme. esperando. que não era bem um empregado. mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual.

Ouvi a modo de “dizê” lá na venda do espanhol.Na estação.E você. . . Felizardo? O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte.Quem disse? . sem fingimento. Anastácio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador.Gostou muito do passeio. podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum perverso. .. Felizardo. . Senhor Ricardo? Não havia meio dela dizer “seu”. deixando de remover os galhos cortados.“Os lábios da Carola”... E ele tomava aquela atitude de arroubo. sentava-se à cabeceira.Mas é falso. Quaresma ficou um instante pensativo. entretanto.. em breve. Eu não sou amigo cousa alguma.Eu! Sei lá. Que queria dizer aquilo? Demais. nem muito alegre. Que lugar! Uma catadupa.. Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas. Quaresma à direita e à esquerda.. Era a velha quem sempre puxava a língua do trovador. tanto assim que “doutô Campo tá” inchado que nem sapo com a sua amizade.. . Vira os pais. Pelo que ouvi: “seu” Tenente Antonino é pelo “governadô” e “seu dotô Campo” é pelo “senadô”.. é que se tem inspiração..Quem me dera. A sua educação de “senhora” de outros tempos não lhe permitia usar esse plebeísmo generalizado.. considerava. Ricardo? indagou Quaresma. gente ainda fortemente portuguesa. Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra.Hoje acabei uma modinha. de quando em quando.“Quá!” fez Felizardo com um riso largo e duro. . “Conheci-o no meu emprego” .Como se chama? indagou Dona Adelaide. já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural. por quem é? Felizardo não respondeu logo. não “sinhô”. parava.. mas sem sombra alguma de cogitações por parte dele. . O major perguntou ao Felizardo: . dizer “senhor” e continuava a dizer.. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a remover. limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante: . patrão! . Quaresma indagou assustado: . as palavras de Ricardo. não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a idéia de que ele fosse amigo do Marechal Floriano. Inda “trasantonte” ouvi “dizê” que o patrão é amigo do “marechá”. À tarde. junto à vontade de ser bom amigo. os entusiasmos dele.. . Um “sarcero”. Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Que maravilha! Aqui. Conheci-o. . Felizardo. e.” Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Anastácio era silencioso e grave. Qual amigo! .Onde? . na roça. Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel. numa postura hierática de uma pintura mural tebana. porém. . O patrão “tá” é varrendo a testada. quando voltou. .Muito.. quando foi jantar. as suas insinuações pela manhã.50 .Por quê? .Eu sou como você.. Isso é bom pro “sinhô”.dizia o major. Nada dizia: trabalhava e. disse Felizardo logo que o major chegou. atendia-lhe a conversa.Não sei. sempre com a sua matinée creme e saia preta. esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. meu “sinhô”. raras não. Dona Adelaide. “Seu” Tenente Antonino quase briga ontem com “seu dotô Campo”. naturalmente. E nunca disse isso aqui a ninguém. incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos. . Respondeu afinal: .Que é que há. nem muito triste.Negócio de política. Ricardo.Tens composto muito. Apesar de todo o esforço de Quaresma.Essa gente anda acesa por aí.Negócio de partido. uma fisionomia de máscara de trágico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada. Afastou-se com o pau..

criadas. ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram trocadas e satisfeitas. à proporção que conversava. enquanto Coração dos Outros contava qualquer história. Em seguida ia ao chiqueiro. mantidas e protegidas para sustento da sua. virava com a mão direita o grande anelão “simbólico”. Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida. e não lhe foi.. Ouvindo passos. pelo fim daquele beijo ardente e demorado do sol. possuía em si uma particular reverência. quando Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso respeito. muito vivos e ávidos. agarrava os pintinhos. que esfarelava em migalhas no galinheiro.. e. um culto pelo doutorado. depois passou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou: . dificilmente. fazendo roda. as rolas gemiam amorosamente. e Quaresma olhava o céu alto. talvez para que o efeito não se dissipasse. e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro. Conversaram muito. gozando aquele seu sobre-humano prestígio. tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de uma repartição secundária. Quaresma e Coração dos Outros saíram a passear no sítio. ao jeito de marquise. noutro compartimento os bacorinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe chafurdar-se na comida.. o talismã. Passada a emoção.O doutor?. as cigarras ciciavam. . Acabando. sentenciosamente. O marido tinha resistido muito em acompanhá-la até ali. Anastácio tirara o chapéu e olhava a “sinhazinha”. Levava sempre o pedaço de pão.Pois não. sem posição brilhante e sem fortuna.. major. Não lhe parecia bem aquela intimidade com um sujeito sem título. apesar de tudo um homem rico. ainda implumes.. que cobria a falange do dedo indicador esquerdo. de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia.. ia conversando pausadamente. era justo. com o seu terno e vazio olhar de africano. do tempo em que o Império armava essa nobreza escolar. Padrinho! Olga! Mal se viram. difícil demonstrá-lo quando se viu diante do Doutor Armando Borges. mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade nacional. Dona Adelaide. mulher velha. Sentavam-se a um tronco de árvore. deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção: . em definitivo. A tarde ia adiantada. Os bambus suspiravam. E vieram aquelas estúpidas e tocantes frases de encontros satisfeitos: Quando chegaste? Não esperava. É longe. objetos partidos. O jovem par contou a agitação política do Rio. ficava um instante a considerar aquelas vidas. Ele não compreendia como o seu sogro. Ricardo levava agora o garfo à boca. Sorria para os frangos.Hás de no-la cantar logo. para ver a atroz disputa entre as aves. pois. Está lá dentro.51 . de uma particular consideração. é a primeira cousa que faço. a moça se debruçou sobre o chiqueiro. . com as mãos presas. e solenemente vinha mergulhar a cabeça na caldeira. Pela meia-noite . a dar estouros presunçosos. o major voltou-se. dogmaticamente. minha senhora. a revolta da fortaleza de Santa Cruz. despejando-a nos cochos. A avidez daqueles animais era deveras repugnante. mas os seus olhos tinham uma longa doçura bem humana que os fazia simpáticos. e demorava-se a apreciar a estupidez do peru. Dona Adelaide. O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se. assistia Anastácio dar a ração. e até fazê-lo seu compadre! Que o contrário se desse. móveis quebrados. Fora essa a única concessão que ao amigo fizera Policarpo.Quedê teu marido? . de outra esfera.A música. abraçaram-se.Bonito! Já fez a música? Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar. Após o jantar. mas Quaresma ficava minutos esquecidos a contemplá-las numa demorada interrogação muda. A terra já começava a amolecer. Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous. Mas. no tocante ao regime de seus trabalhos agrícolas. Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor. a epopéia da mudança. imponente.

Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não atinava. pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher pelas dores dos outros. não achava o motivo e o fundo de semelhante ataque.Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo. Por isso só?. Acordaram cedo. Jeito não tens para isso Quaresma.Isto seria uma covardia.. recostou-se na cadeira de balanço e descobriu o jornal.. enquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hino à transcendente beleza do céu negro. filiado ao partido situacionista. hebdomadário.E não desmentiste? perguntou Quaresma. distribuía remédios homeopáticos. órgão local. O artigo de fundo intitulava-se “Intrusos” e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no lugar que moravam nele . Vou até declarar que.. tanto assim que dava esmolas..52 todos foram dormir com uma alegria particular. meu bem. O doutor se havia afastado. profundo e estrelado.. . Acreditavam todos que o major viera para ali no intuito de fazer política.. Tomou café e esteve conversando com o doutor. Estava na varanda.. Dona Adelaide disse então docemente: .“verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometer na vida particular e política da família curuzuense. Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas: POLÍTICA DE CURUZU Quaresma. tinha os olhos úmidos e coçava sucessivamente a cabeça. Estava pálido. major? indagou o troveiro. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Nunca! O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações. o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente. O Antonino afirmava que havia de desmascarar semelhante tartufo. Policarpo. Ricardo depois contou o que ouvira na vila. Era o O Município. meu cocumbi! Volta à mania antiga De redigir em tupi.O senhor se meteu algum dia nessa política daqui? . Ora! A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho: . As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Pôs o pince-nez.Que há. Quaresma estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: “Lê isto. Rasgou a cinta e leu o título. Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com política? E coçava os cabelos já bastante encanecidos. Quaresma! Quaresma do coração! Deixa as batatas em paz Deixa em paz o feijão. ele aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Ela tinha aquela ampla maternidade das solteironas. Enquanto ela lia. quando lhe pareceu ler seu nome entre versos. .Sossega... Notaram a alteração de Quaresma. Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco. ajuntando a irmã: . deixava o povo fazer lenha no seu mato. A irmã aproximara-se acompanhada da afilhada. Adelaide. Começou a leitura..” A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. . Quaresma não foi logo para o trabalho. Olho vivo.Eu nunca!. Uma satisfação. perturbando-lhe a paz e a tranqüilidade”.. O major ficou estuporado.. .

Havia muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma abóboda de árvores. aqui e ali. o doutor. de um verde mais claro. o ar triste. Ela lhe falou: . a pobreza das casas. as folhas caídas.Estive ontem no Carico. plantam um pouco algumas cousas para eles. O major ficou profundamente impressionado com tudo. Uma pequena cachoeira. a falta de cultivo. Pensou em ser homem. baixas. Felizardo? . O lugar não era feio. A faina do roçado ia quase no fim. para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. Aquilo era uma situação do camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha face humana e voz articulada. Por quê? Mesmo nas fazendas. juntando. aproveitou a ocasião para interrogar a respeito o tagarela Felizardo. abatido da gente pobre. o homem tem sempre energia para trabalhar relativamente. cortando a machado as madeiras mais grossas. trabalho de horas? E não havia gado. os casais. observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. as famílias. Anastácio estava no alto..O que se pode. não demonstrou preocupação. “sá dona”.53 Ricardo afirmou que sim. Felizardo? .. O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre a água ou sobre as pedras em pequenas manchas. já parecia cansado. Foram de manhã.Então trabalha-se muito.. Olga encontrou o camarada cá embaixo. na orla do mato. a ancinho. de acordo com seu gênio. o presidente da Câmara. Todas soturnas. o seu desejo de saber. Na África. Em Curuzu. Por que ao redor dessas casas não havia culturas. como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra. quase sem o pomar olente e a horta suculenta. tanta água. andando de um para outro lado. O Doutor Campos já travara relações com o major e. Olga e o marido passaram no “Sossego” cerca de quinze dias. por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de varas. Onde é que você mora. e. houve cavalos e silhão que também permitisse à moça ir à cachoeira. outra indústria agrícola..É doutra banda. redondas ou oblongas. em toda a parte. Olga pôde ver tudo isso bem à vontade. um carneiro. maltrapilhos. na estrada da vila. bonito lugar. ela não pôde ver outra lavoura. ela tinha dos roceiros idéia de que eram felizes. mugindo e roncando. os nossos lugarejos célebres. Os periquitos. porque a filha do presidente era de um silêncio de túmulo e o pai desta tomava com o seu marido informações sobre novidades medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o tártaro emético? O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral. A água estremecia na queda. enquanto estiveram com ele os seus amigos. graças a ele.. despenhava-se em três partes.Bons-dias. pelo flanco da montanha abaixo.. um pomar? Não seria tão fácil. e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias. as tribos.É grande o sítio de você? . Havendo tanto barro. indagaria. incubou nos primeiros tempos a impressão. sua mulher e a filha de Campos. O marido. mas. . Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho. o passeio afamado era o Carico. Para o seu gasto. uma horta. Era raro uma cabra. . sorumbáticos!. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos. pousados nos galhos eram como as incrustações daquele salão fantástico. Os passeios não eram muitos. na Cochinchina. mas o escrivão não quisera acreditar nele e reiterara os seus propósitos de ataque. como o esqueleto de um doente. Em geral. uma cachoeira distante duas léguas da casa de Quaresma. talvez com fome. de uns quinze metros de altura. nem grande nem pequeno. na Índia. . ao fim de uma semana. A não ser o café e um milharal. saudáveis e alegres. o grande trato da terra estava quase inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a colina que formava a lombada do sítio. Não podia ser preguiça só ou indolência. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade. Educada na cidade. para uso próprio. assim como na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade histórica. o espetáculo não era mais animador. mal alojados.

” Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do Doutor Campos. não queria aprender música.Que zanga é essa... estavam todos recolhidos.Mas se esgotam. e o rugoso tronco se abriu em duas partes.Sim.. senhora. de um claro amarelado. com as casas em ruínas. o padrinho exclamava: . havia mesmo ocasião em que era até natural.. major... Ricardo ouvia. seguia com atenção o crochet que estava fazendo. .Tem alguma terra. .O senhor não é patriota! Esses moços... .Na Europa. E a terra não era dele? Mas de quem era então. Todos se entreolharam. Era certo. por exemplo.Senhor doutor.É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos. mas não pôde.Decerto.. As terras negras da Rússia. avançou o doutor. sá dona”. Deu uma machadada. “sá dona”. na Europa. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só para os nacionais. Por que esse acaparamento. seguro. e então? “Quá. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão..Há mais férteis. sim.Você por que não planta para você? .. que o governo dá tudo.54 . Qual música! Qual nada! A inspiração basta!...Pois fique certo. Dona Adelaide.“Quá. . antes das onze horas. resumia ele. com os olhos arregalados. Nós não “tem” ferramenta. obtemperou Ricardo. major. . exceto Quaresma que logo disse com toda a força d’alma: . e Olga intrometeu-se na conversa: . mas ninguém aludiu a isso. Hoje vejo que é preciso. isso é bom para italiano ou “alamão”. padrinho? . Ouviram-no com interesse e ele foi muito aclamado. tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava. Governo não gosta de nós.. O jantar correu mais calmo.Onde? .. esses latifúndios inúteis e improdutivos? A fraqueza de atenção não lhe permitiu pensar mais no problema. E “frumiga”?. Fique certo! . quase iguais. quando comecei a tocar violão. firme. Quando ela chegou.. Foi vindo para casa. Desferiu o machado. não é assim. e. ainda disse: . tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela vira até fazendas fechadas. À noite.Na Europa! . o menestrel cantou a sua última produção: “Os Lábios da Carola.. É assim. é o mais bem-dotado e as suas terras não precisam “empréstimos” para dar sustento ao homem.“Sá dona tá” pensando uma cousa e a cousa é outra.. Ela voltou querendo afastar do espírito aquele desacordo que o camarada indicara. não contando com a sua anterior educação e apoio dos patrícios. Olga tocou no velho piano de Dona Adelaide. major. ensaiava uns fosfatos. antes de desferir o machado. o Brasil é o país mais fértil do mundo.Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal idéia! Pois se temos as terras mais férteis do mundo! . colocou-o melhor no picador e.. O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante: ... se eu fosse o senhor. calada. onde o cerne escuro começava a aparecer. major.. Enquanto planta cresce. Aquele perdera um pouco da sua morgue. aduziu o doutor. observou o doutor. Eu. o tronco escapou. Encontrou o marido e o padrinho a conversar. sá dona!” O que é que a gente come? .Terra não é nossa. para os outros todos os auxílios e facilidades.O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro.. Isto é até uma injúria! .. .

tudo modesto. Ocasiões havia em que ficava a olhar. Felizmente não. Quis afugentá-las. Os sapos recomeçaram. Da despensa. doce e regrada que tinham levado até ali concorrera muito para a boa saúde de ambos. era viver. Não pôde agüentar. nunca houve entre eles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. demorava-se assim um instante. de idéias simples. do lado de fora. por um buraco no assoalho. Demoraram muito. O chão estava negro. jantar e almoço. Descobriu a origem da bulha.. contudo. Os batráquios pararam. e prometiam ainda muita vida. Para Dona Adelaide. coçando uma mão com a outra. Ela já atingira aos cinqüenta e ele para lá marchava. O seu aspecto tranqüilo e o sossego dos seus olhos verdes. Suspenderam um instante a música. pôs-se a ler um velho elogio das riquezas e opulências do Brasil. Não tinha ambições. paixões. cujos recipientes tinham sido deixados abertos por inadvertência. Quase gritou. Apurou o ouvido e prestou atenção. calmo e doce. isto é. se mais vagarosamente se examinassem os seus hábitos. e carregadas com os grãos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta e ela nunca tivera qualquer. perdido em cisma. mas eram milhares e cada vez mais o exército aumentava. isso quando no trabalho da roça. vinha um ruído estranho. nem mesmo um marido. IV “Peço Energia. tinha uns quatro anos mais que ele. Não se vá supor que Quaresma andasse transtornado como um doido. Quaresma lia.55 Quaresma chegou a seu quarto. mas ambos tinham ar saudável. talvez. assim mesmo como estava. Que era? Eram uns estalos tênues. e sobre ele em nada reagia aquele ser metódico. de um brilho lunar de esmeralda. Veio uma. em pelotões cerrados. ao longe o horizonte. Eram formigas que. em camisa de dormir. médias e claras. poucos achaques. deitado. e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos. desejos. Moça. dez. de inteligência lúcida e positiva. o regente deu uma martelada e logo vieram os baixos e os tenores. o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ela sempre se sentiu completa. quando sentiu uma ferroada no peito do pé. que deixavam outros cair ao chão. com um corpo médio. agarrou o castiçal e foi à dependência da casa donde partia o ruído. subindo pelo seu corpo. Quaresma pôde ler umas cinco páginas. em que suspendia todos os movimentos. Era uma bela velha. Fria. em tudo formava um grande contraste com o irmão. Abriu a porta. Os sapos recomeçaram o seu hino. O major levantou-se. o alanceado do irmão. Havia vozes baixas. a bulha continuava. gritou. Matou uma. uma se seguia à outra. não havia a mínima bulha. ter uma casa. achou e correu daquele ínfimo inimigo que. e o foram mordendo pelas pernas. sem imaginação. outras mais altas e estridentes. nem mesmo à luz radiante do sol. Sigo Já” Dona Adelaide. durante minutos seguidos. Se não casou foi porque não sentiu necessidade disso. Na aparência até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma. triunfos. médio. belezas. pelos pés. A existência calma. Ela não entendia nem procurava entender a substância do irmão. duas. despiu-se. que ficava junto a seu aposento. emolduravam e realçavam naquele interior familiar a agitação e a inquietude. depois outra. A casa estava em silêncio. uma tez que começava a adquirir aquela pátina da grande velhice. gestos e atitudes logo se havia de ver que o sossego e a placidez não moravam no seu pensamento. parecia que quebravam gravetos. a vida era cousa simples. porém. a irmã de Quaresma. não sonhara príncipes.. dava depois um . uma espessa cabeleira já inteiramente amarelada e um olhar tranqüilo. mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterrânea. Ia procurar nos cantos. Os sapos tinham suspendido um instante a sua orquestra noturna. elas. Tudo na nossa terra é extraordinário! pensou. nada viu. fincava o olhar no chão. vinte. cem.. ordenado e organizado. Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta.. enfiou a camisa de dormir e. mordeu-o. sapateou e deixou a vela cair. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a fúria à sua pele magra. lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão. num dado instante todas se juntaram num uníssono sustentado. O major apurou o ouvido. o visse distintamente. vestuário. outras. o ruído continuava.

Via o major com tristeza não existir naquela gente humilde sentimento de solidariedade. lavrava ocultamente. com aquele grosso e cavernoso sorriso de troglodita: . lá vinha chuva.. já sem fio. Os seus hábitos não foram mudados e a sua atividade continuava sempre a mesma. Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custódio com o Manduca da venda. Se esperava tempo seguro. os abacateiros de suas . os óbices de toda a sorte que havia para fazer a terra produtiva e remunerada. com aparências. como se protestasse contra aquele desprezo pela ciência que Quaresma representava. continuava o trabalho. nas plantações. Era como se no campo em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de gado. baseada em combinações dos seus dados. a não ser no jantar e nas primeiras horas do dia. As outras pessoas de suas relações não podiam também notar as preocupações absorventes do major. Ricardo havia seis meses que não lhe visitara e da afilhada e do compadre as últimas cartas que recebera datavam de uma semana. O higrômetro. aquela miséria da população campestre que nunca suspeitara. Havia no seu espírito e no seu caráter uma vontade de acabá-la de vez. só o anemômetro continuava teimosamente a rodar. para aumentar o estrume!. e estúpido ou de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares. sentindo que a campanha que lhe tinham movido. e ela superintendendo o serviço doméstico. Anastácio. Dera-se mal com eles. Quaresma vivia assim. os maus-tratos e o abandono de tantos anos.. lucrar e viver. Durante esse tempo. ele via bem as dificuldades. a caçamba do pluviômetro estava no galinheiro e servia de bebedouro às aves. em famílias geralmente irregulares. Inútil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso. a rodar. o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia. O barômetro aneróide continuava a um canto a dançar o seu ponteiro sem ser percebido. mas como? Se não o acusavam. legítimo Casella. mesmo porque. se esperava chuva.“Quá” patrão! Isso de chuva vem quando Deus “qué”. conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importância. Pelo seu caso. É verdade que deixara de parte os instrumentos de meteorologia. pelo simples motivo de que estavam longe. no alto do mastro. o barômetro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações registradas num caderno. a situação geral que o cercava. fosse porque fosse. Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos. e o trabalho marchava. não vendo aquela há tanto tempo. que seria ridículo aceitar. sem se preocupar com os que já existiam. O antigo escravo não os sabia mais fixar. unidos aos seis e mais. tinham bem perto o exemplo dos portugueses que. Quaresma não cessou de se interessar pelo aproveitamento de suas terras. A tal afirmação de falta de braços pareceu-lhe uma afirmação de má fé ou estúpida. fossem introduzidas mais três. Como remediar isso? Quaresma desesperava. embora tendo deixado de ser pública. saía errada. Quaresma na roça. isolados.. Vencendo a erva-de-passarinho.. e aquele desde quase um ano. de apoio mútuo. o termômetro de máxima e mínima. e nada dizia. Fosse inexperiência e ignorância das bases teóricas deles.56 muxoxo. quanto ao trovador. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados. Entretanto. jazia pendurado na varanda sem receber um olhar amigo. sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. olhava por baixo dos olhos o patrão. o tempo em que estava no “Sossego”. Mesmo o velho costume do “moitirão” já se havia apagado. eles viviam separados. De resto. em tais instantes. lá vinha seca. isto é. aquele abandono de terras à improdutividade encaminhavam sua alma de patriota meditativo a preocupações angustiosas. e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação ou uma frase. se não articulavam nada contra ele diretamente? Era um combate com sombras. Um fato veio mostrar-lhe com eloqüência um dos aspectos da questão.

Lá foi.. Acariciou uma por uma aquelas notas encardidas.. A sua alegria foi grande. portanto.. Estava a serrar. um tanto amolecidas pelo sangue africano. Uma perna no caminho Outra no galho de pau. Depois. a flora locais. onde com surpresa o major não via entrar a fauna. Era árduo e difícil o trabalho. Mané Candeeiro falava pouco.Entretanto. Andou de porta em porta. com redobrada atividade que se pôs ao trabalho. Tratou de vender.. os galhos mortos e aqueles em que a erva daninha segurava as suas raízes. ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela dúzia cinco mil-réis.Em porção. sempre mãe e sempre virgem.. Enfim. A observação popular já começava a interessar-se pelo espetáculo ambiente. disse Quaresma.. a não ser que se tratasse de cousas de caça. arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma mesa e muito tempo levou sem ânimo de trocá-las. o senhor sabe que. tilintou a pesada corrente de ouro. Este bacurau que entrava aí satisfazia particularmente às aspirações de Quaresma. Para avaliar o lucro. o lucro seria maior. mas. melosas até. mas de forma superior às necessidades de sua casa. por acaso lá vinha uma em que um pássaro local entrava. quando lhe veio o dinheiro.. descontou o frete. jacus. Foi. Tinham às vezes que subir às grimpas para a extirpação do galho atingido. pois todas aquelas caçadas de caititus.. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Senhor Azevedo no Mercado. após esse cálculo que não era laborioso. contratou um outro empregado para ajudá-lo no tratamento das velhas flores frutíferas. É isso. os costumes das profissões roceiras. duras e fortes.É preciso vê-los.Abacates! Ora! Tenho muitos. já se emocionava com ele e a nossa raça deitava. leu-lhes bem o número e a estampa. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. Quaresma os mandou e. respeitava o seu talento poético. teve a evidência de que ganhara mil e quinhentos réis. pôs uma das mãos na cava do colete e quase de costas para o major: . então o major escutava: Eu vou dar a despedida Como deu o bacurau. . pois. onças eram patranhas... Felizardo dizia que Mané Candeeiro era um mentiroso. Foi. com o Mané Candeeiro que ele se pôs a serrar os galhos das árvores. O tamanho influi. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de São Cristóvão. o salário dos auxiliares e. o custo dos caixões. cesarianas. portanto. Eram vaporosamente sensuais e muito ternas. de estrada de ferro e carroça. mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria comprar por preços ínfimos. Anastácio e Felizardo continuavam ocupados nas grandes plantações. fracamente é verdade. teve a satisfação orgulhosa de quem acaba de ganhar uma grande batalha imortal. Não queriam. estava a cantar trovas roceiras. Tratava-se agora de limpar as fruteiras.. Para o ano. ingênuas. principalmente no desafio: o moleque é bom! Ele era claro e tinha umas feições regulares. se quer mande-os. o rei das frutas. nem mais nem menos. O Senhor Azevedo tinha-lhe pago pelo tanto a quantia com que se compra uma dúzia. . raízes na grande terra que habitava. .. Pela primeira vez. eram muitos. os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes. Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e ele viu naquele ridículo lucro objeto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado. mas cantava que nem passarinho. e em muitas ocasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada. ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra. Estão muito baratos! .57 terras conseguiram frutificar.

De manhã. pelos cajueiros. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! “A modo que é obra de gente” disse Felizardo. oscilando ao vento. em longas fileiras pelo trilho limpo. mariscando. nada de atropelos. mas o sentido era. pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se. meu Deus! Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas.. quando contemplou o seu milharal. tinha recobrado o ânimo. os papa-capins. entretanto. ele viu com tristeza aquelas velhas árvores amputadas. organizada. mas. a fazer esforços de sagacidade. parecia que somente mandava esclarecedores. O major não estava lembrado ao certo se eram essas as palavras.. as “panelas” dos insetos terríveis. pelos abacateiros. descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal. pelo correr do dia. outras serravam-nas em pedaços e afinal eram carregadas por terceiras. como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores. Lá em cima umas cortavam as folhas pelo pecíolo. ousada e tenaz com quem se tinha de haver. Quaresma ouviu uma bulha esquisita. elas nos expulsariam. Era preciso combatê-los.. mutiladas. estourava em tiros seguidos. mortíferos. esvoaçavam os tiésvermelhos. tinham sido as saúvas. piando. as rolas pardas e caboclas em bando. mas. entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma. mas. levantando-as acima da descomunal cabeça. o major até mandara buscar o sulfato de cobre para a solução em que ia lavar a batata-inglesa a plantar nos intervalos dos pés. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. e ficou sem ação e as lágrimas lhe vieram aos olhos. Não durou muito essa alegria. Parecia sofrer e ele se lembrou das mãos que as tinham plantado há vinte ou trinta anos. não mais as formigas reapareceram.. Toda a manhã. cantando. eram os sanhaçus a cantar nos galhos altos. pelas altas mangueiras. no chão capinado. com a rapidez ousadíssima de um general consumado.. as nuvens de coleiros. Passaram-se dias. chilreando. cá embaixo. O milho que já tinha repontado.. ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho. Comprou ingredientes e ei-lo mais o Mané Candeeiro a abrir picadas. Desde aquele ataque às provisões de Quaresma. ele não viu nada mais... os inimigos pareciam derrotados. para descobrir os redutos centrais. banzeiros e desesperançados!. Então era como se os bombardeassem: o sulfeto queimava. foi como se lhe tirassem a alma. os terríveis himenópteros. sinceramente. talvez. pequenino. Acendeu um fósforo e o que viu. com uma timidez de criança. Até ali ele se mostrara tímido. Veio-lhe então à lembrança aquela frase de Saint-Hilaire: se nós não expulsássemos as formigas. e de tarde como que todos eles se reuniam. Havia delas às centenas. naquela manhã.. moviam-se. de desordem.. No dia seguinte. Quando o serviço ficou pronto. andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam. letais! . Agora via bem que era a uma sociedade inteligente. Um inimigo apareceu inopinadamente. com folhas aqui e sem folhas ali. E era perto. Quaresma pôs-se logo em campo. e o renascimento das árvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto.58 Quaresma procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços. escravos. outras desciam. de confusão. Com auxílio de Mané Candeeiro foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fruteiras daquele velho sítio abandonado há quase dez anos.. com o seu pio pobre.. muito verde. Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdecesse. espécie de ave tão inútil e tão bela de plumas que parece ter nascido para os chapéus das damas. piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho com uma rapacidade turca. não a encontrou. e ficou admirado que só agora ela lhe ocorresse. aberto entre a erva rasteira. certa noite. indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada. Houve um instante de desânimo na alma do major. naquela. logo afugentadas. crescera cerca de meio palmo acima da terra. Não tinha contato com aquele obstáculo nem o supusera tão forte. Um estalido.

um capinador mecânico. entretanto. esteve olhando e de lá falou: . do contrário. levantando o olhar: . podia levar a efeito a extinção daquele flagelo pior que a saraiva.. seguindo a costura que fazia. de aço. destacando sílaba por sílaba. a sua alegria foi grande. foi uma batalha sem tréguas. que a seca. Após esta leve conversa.. mais expressiva e mais profunda ela foi quando viu partir para a estação. Os frutos. Adelaide? . respondeu Quaresma. eram de outras mãos. já um tanto gasta.. Tinha já em mente uma charrua dupla.. . foi até a janela que dava para o galinheiro. .. as árvores não tinham sido plantadas por ele. tudo americano. faço eu. Quaresma voltou à sua sala de estudos.Um pouco mais. as terras mais ricas do mundo não precisavam desses processos.Ora. mas aquilo não. não tardariam os formigueiros das vizinhanças ou dos logradouros públicos a deitar canículos para o seu terreno. Estavam assim a escolher arados e outros “Planets”. o seu espírito resistia. parecia a Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos. Era um suplício. É já a segunda que morre hoje. Menor do que o dos abacates? .Sabes qual foi o lucro. dizia Felizardo..É. não lhe favorecia a tarefa das cifras. Quanto? . da sua iniciativa. um destocador.. as abóboras. Se aparecia uma abertura. Metem-se no café que tem todas as proteções. o melhor é deixares isso.. Ele concertou o pince-nez. grades.Homem.Foi isso. . parecia-lhe que todo o seu sistema de idéias ia por terra e os móveis de sua vida desapareceriam. Fazia um dia fosco e irritante.É isto.. levantar a agricultura. .. que lhe pareciam artificiais. fosfatos ou mesmo estrume comum. foi até à janela e verificou com a vista: . numa terra brasileira. Uma injúria! Quando se convencesse de que eram necessários. Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo. outono ou primavera. Policarpo levantou-se. Até então. nenhuma plantação era possível. Mandara buscar catálogos e ia examiná-los. dando o rendimento efetivo de vinte homens.. os aipins. aproveitar as nossas terras feracíssimas. o major não desanimou e pôde colher alguns produtos das plantações que tinha feito. Recebeu o dinheiro dias depois. . depois. vinha do seu suor.. em parte... inverno ou verão.Dous mil quinhentos e setenta réis. que a geada. Se por ocasião das frutas. Dona Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos..O quê? .. estava. terra estrumada.. Policarpo. um castigo. um “olho”.. agora disposto a empregá-los como experiência. tanto mais que extintos os das suas terras. sempre presente. A irmã prestou mais atenção à costura. Meditava grandes reformas agrícolas. quando o seu pequeno copeiro lhe anunciou a visita do Doutor Campos. Tens gasto muito dinheiro..Então. contou-o e esteve deduzindo os lucros.Mas. com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a glória e para a vitória. Não foi à roça nesse dia. em cestos cobertos com sacos cosidos. para produzir. Queres sempre ser a abelha-mestra. um governo qualquer. e só pelo meio-dia.. pois. ou um acordo entre os cultivadores. um semeador. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil e quinhentos. Aos adubos.Oh! Adelaide! Aquilo não é uma galinha morta?. “Bajacs” e “Brabants” de vários feitios. Terra virada. o trabalho de guarda-livros roubou o de cultivador.59 E daí em diante. A sua atenção. Só com as formigas! .. em sucessivas carretas. A velha senhora ergueu-se com a costura. as batatasdoces.. do seu trabalho! Ele ainda foi ver aqueles cestos na estação. logo se lhe aplicava o formicida.. porém. Já viste os grandes fazerem esses sacrifícios?.Não. uma espécie de vigilância a dique holandês e Quaresma viu bem que só uma autoridade central.. Não obstante essa luta diária. Vê lá se fazem! Histórias. pôde dizer à irmã: . não quisera essas inovações.

embora o seu bigode fosse crespo... tinha os olhos castanhos. o lugar há mais de vinte anos. Ele continuava a falar com desembaraço e naturalidade: . é ali. simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos. conseguira enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário. dia em que o major foi surpreendido com a visita de um sujeito com um uniforme velho e lamentável. se. major! Como vai isto por aí? Muita formiga? Lá em casa já não há mais. com a jovialidade mais sua que era possível..Ora viva. Aí mesmo. pela sua afabilidade e simplicidade. se o major quiser.. conversou um pouco sobre cousas banais e despediu-se com o ar amável.Absolutamente não. era das pessoas mais consideráveis de Curuzu. flexível. ela lhe aconselhou que falasse ao Doutor Campos. mas contente com a alegria comunicativa do doutor. . sutil.. A vitória é “nossa”. aduziu argumentos: que era para o partido. O major ficou um tempo pensando.Mas és tolo. Quer? Quaresma olhou o doutor com firmeza. quase à flor do rosto. não é? Preciso de um pequeno obséquio seu. Seria mesmo? Brincadeira. como? se eu não sou eleitor. viu a assinatura do Doutor Campos.Como o major sabe. onde casara e prosperara. Campos não deu mostras de aborrecimento.. Mas que absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil e duzentos metros. pois seu sítio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de oitocentos metros ...Tenho aqui uma carta do Neves.Sabe o que me traz aqui. que não tinha partido e mesmo que tivesse não iria afirmar uma cousa que ele não sabia ainda se era mentira ou verdade. naquele dia de luz fosca e irritante. Quaresma foi inflexível.. era o que se chama por aí um caboclo. major? Não sabe. a sua mansidão e o seu grande corpo. graças ao dote da mulher e à sua atividade clínica.. ele. À tarde houve trovoada. rezava o papel. sob as penas das mesmas posturas e leis.Exatamente por isso. Consultando a irmã. Presidente da Câmara. pançudo um pouco. Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sítio. Se o major quer responder (é melhor já) que não houve eleição. coçou um instante o cavanhaque e respondeu claramente.Como o major sabe. Não nascera em Curuzu. porém. conforme mesmo disse o tal homem fardado. . era intimado. Quaresma respondeu com menos entusiasmo e jovialidade. Julgava impossível uma tal intimação.. Isto se passou na terça-feira. e em seguida brandamente: a seção funciona na sua vizinhança. choveu muito. não me meto. dobravam-se. habitava.Mas. o Senhor Policarpo Quaresma. não gastava grande energia mental: tendo de cor uma meia dúzia de receitas. dirigida ao senhor. Era alto e gordo.. uma testa média e reta. . Todas as mesas estão conosco. o nariz. . Agora a sua voz era doce. as palavras caíam-lhe da boca adocicadas. que lhe eram absolutamente antipáticas tais disputas. Um tanto trigueiro. e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade. firmemente: . proprietário do “Sossego”.60 O edil entrou com a sua jovialidade. Leu de novo o papel.. Pôs mais unção e macieza na voz. . exceto uma. O doutor não se zangou. Policarpo. o único que pugnava pelo levantamento da lavoura. Em virtude das posturas e leis municipais. cabelos corridos e já grisalhos. .. as eleições se devem realizar por estes dias. era da Bahia ou de Sergipe.E daí? .. disse o doutor com voz forte. nem quero meter-me em política? perguntou Quaresma ingenuamente.. O tempo só levantou na quinta-feira.era possível!? A antiga corvéia!. portador de um papel oficial para ele. Foi ele mesmo. disse que não. . coleavam-se: . Com esta. malfeito. a roçar e capinar as testadas do referido sítio que confrontavam com as vias públicas. Era certo. desde muito... na escola. proprietário do sítio “Sossego”. O major não se espantou. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com ele dias antes.

Vinha viva e alegre. Três dias levou a agonizar. viu também aquelas crianças maltrapilhas e sujas. essas contrariedades abateram muito o cultivador entusiástico dos primeiros meses. a agonia e a dor. voltoulhe de novo. quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara. pedia notícias do padrinho. ora sobre uma forma. ainda havia alfândegas interiores? Como era possível fazer prosperar a agricultura. de códigos e de preceitos. cobras. Uma tarde. homem bom. e anteviu a época em que aquela gente teria de comer sapos. d’olhos baixos. Aquela rede de leis. mais sombrio.. E não havia quem soubesse curar. ativo e trabalhador. oprimir as populações. viu ainda o desespero de Felizardo. com tantas barreiras e impostos? Se ao monopólio dos atravessadores do Rio se juntavam as exações do Estado. levara a “Duquesa” também. mas o seu pensamento voou logo para as cousas gerais. viu aquelas terras abandonadas. pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot. Esses contratempos. espantando as moscas que a importunavam na sua última hora. que. Era uma espécie de paralisia que tomava as pernas. atacada pelas formigas. Contava pequenas histórias de sua vida. pela lentidão e majestade do andar. a esmolar disfarçadamente pelas estradas. A “Duquesa” era uma grande pata branca.este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relâmpago. O galinheiro ficou como uma aldeia devastada. animais mortos. sem ânimo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos . mais lúgubre. estava à espera da junta de bois que encomendara para o trabalho do arado. Numa terra cujo governo tinha tantas escolas que produziam tantos sábios. crestar-lhe a iniciativa e a independência. de Dona Adelaide e. a viagem próxima do papai à Europa. se transformava em potro. nas mãos desses regulotes. com o pescoço alto e o passo firme. não se incomodou muito.. Pelos seus olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas que se encostavam nos portais das vendas preguiçosamente. A quarenta quilômetros do Rio. Adquiriu compêndios de veterinária e até já tratava de comprar as máquinas agrícolas descritas nos catálogos. perus. entregues às ervas e insetos daninhos. o animal só dava sinal de vida por uma lenta oscilação do pescoço em torno do bico. levado pelo seu patriotismo profundo. quando recebeu a intimação da municipalidade. conforme estava no papel. e só se apagou de todo. porém. não havia um só homem que pudesse reduzir com as suas drogas ou receitas aquele considerável prejuízo. mas da coletoria. intimava o Senhor Policarpo Quaresma a pagar quinhentos mil-réis de multa. entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propósitos.61 A luz se lhe fez no pensamento. por ter enviado produtos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos. quando lhe apareceu à porta um soldado de polícia com um papel oficial. cujo escrivão. a peste atacou galinhas. mais tétrico. em polé. Ele se lembrou da intimação municipal. em instrumento de suplícios para torturar os inimigos. recomendava à irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de arminho da “Duquesa”. de penas alvas e macias ao olhar. Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha. E que morte! Uma peste que lhe levara duas dúzias de patos. com o bico colado ao chão. de tais caciques. improdutivas. Deitada sobre o peito. naquele instante penetrava em nós e sentíamoslhe o sofrimento. o desespero do marido no dia em que saiu sem anel. sem desrespeito. como era possível tirar da terra a remuneração consoladora? E o quadro que já lhe passara pelos olhos. Antonino Dutra. até reduzir a sua população a menos de metade. foi ceifando. da Revolução. merecera de Olga esse apelido nobre. Estava disposto a resistir. patos. Era de ver como aquela vida tão estranha à nossa. depois o resto do corpo. abatendo-as e desmoralizando-as. como em França os camponeses. em tempos de grandes reis. de posturas. O animal tinha morrido havia dias. Recebeu o papel e leu. . matando. Não vinha mais da municipalidade. ora sobre outra.

das modinhas. das suas tentativas agrícolas . É incrível! Um país como este.. acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa: .. pobre. Nem com a farda quis ir para a cova!. foi a canalha. observou o almirante..Que barulho? . consolidada.Há “baruio” na Corte e dizem que vão “arrecrutá”. Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso. Chegou ao telégrafo e escreveu: “Marechal Floriano. pasquim por aí.. .Por que então? . e.. .. deve a todo o mundo. digam lá o que disserem. tudo barato. sim “sinhô”...Quem diz o contrário? Havia mais moralidade. Medidas agrárias. como há ainda quem se case.. depois de um curto intervalo. tão tranqüilas e seguras de si. e lhe disse: .Seu patrão.Decerto. Albernaz.. até à tirania. não é possível continuar assim. inteligente... Anda tudo pela hora da morte! Eles olharam um instante as velhas árvores da Quinta Imperial.. você quer saber de uma cousa: estávamos melhor naquele tempo... tão rico.Eu não sei.. não foi por causa do “velho”.. do seu folklore. Sully e Henrique IV. no entanto. Esta terra necessita de governo que se faça respeitar. não venho “trabaiá”.Por certo. Vou pro mato.. Imaginava um governo forte.Eu penso também da mesma maneira. Nada! . O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos os lados. Os seus olhos brilhavam de esperança. Deodoro nunca soube o que fez. . O que eu sofri. tornava-se necessário refazer a administração. e o homem vai saindo?. espalhando sábias leis agrárias. Aqui para nós que ninguém nos ouve: foi um ingrato.62 Quaresma veio a recordar-se do seu tupi... Albernaz. ambos fardados e de espada. mete-se um sujeito num navio.. . Então. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás... continuou: ..Não há dúvida nenhuma!. e dirigiu-se à estação. removendo todos esses óbices.E era um bom homem. pueril.” V O Trovador . que o não chamasse de “banana” e outras cousas. Foi ao interior da casa... disse Albernaz com particular acento. como aquelas que espalhavam sob os .“Tá” nas “foias”.. .. ... levantando o cultivador... não acha? .Você viu o imperador. Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar à estação.. é dia feriado. o imperador tinha feito tanto por toda a família. esses entraves. .. mais profundos. Continuavam a andar. tomou o chapéu.. Nunca as tinham contemplado.Não é por isso. talvez o mais rico do mundo. Amava o seu país.. nada disse à irmã.. um governo forte. assesta os canhões pra terra e diz: sai daí “seu” presidente. disse com firmeza o almirante... tão belas... Vinham andando. Despediu o empregado... força. Saía no carnaval.tudo isso lhe pareceu insignificante.Quaresma. amanhã. agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre árvores tão soberbas.Morreu arrependido. A Independência. Abriu o jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado ao Presidente a sair do poder. Onde está um Caxias? um Rio Branco? . Não havia jornaleco.. A República precisa ficar forte. Demais. Caldas. Era preciso trabalhos maiores. Por quê? Por causa dos governos que temos tido que não têm prestígio. Não! É preciso um exemplo. Rio.E mais justiça mesmo. respeitado... Albernaz. à sombra das grandes e majestosas árvores do parque abandonado.. É por isso. . o Pedro II. Sigo já. Peço energia. por onde vinham atravessando... Sully e Henrique IV.. Então sim! O celeiro surgiria e a pátria seria feliz. infantil. é.

sim “sinhô”.Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.Da capital? . com a torre do relógio um pouco afastada e separada do corpo do edifício. dando com aqueles dous oficiais superiores... Caminhavam com pequenos passos seguros. . . Não era belo o palácio.. . tinha uma tal ou qual segurança de si. Pareciam que medravam sentindo-se em terra própria. da qual nunca sairiam desalojadas a machado. com os seus grandes penachos verdes.Você não sabe. agora o Custódio.O poder é o poder. Caldas? . . sim “sinhô”. . Um “bandão” deles. muito altos.Então como vão as cousas? perguntou o general. não tinha mesmo nenhum traço de beleza. hum! . Pouco antes de saírem da quinta.É verdade. Eles lhe viam o fundo.. as feições eram feias: malares salientes. deram com um soldado a dormir numa moita. mas o sono fora muito e descansava ali um pouco. camarada. mas logo bambeou..A “Luci” não é navio. não para um instante. de um louro sujo e degradado. Era de manhã. para acalmá-lo. Que faz você aqui? Albernaz falou em tom ríspido e de comando. A praça. . Albernaz interrompeu o silêncio: .. sim.. O almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado.Do Piauí.. mas para anos.O “Aquidabã”. O solo sobre o qual cresciam era delas e agradeciam à terra estendendo muito os seus ramos.. todo ele. testa óssea e todo ele anguloso e desconjuntado. de um lado e outro da aléia. os bambus se inclinavam. para edificação de casebres. um ar de confiança pouco comum nas nossas habitações. cerrando e tecendo a folhagem. . . A “Luci”. e. era até pobre e monótono.Do sertão. O “Aquidabã”.. A força se recolhera aos quartéis. Caldas. Eram como que a guarda da antiga moradia imperial. Era branco e tinha os cabelos alourados. fez a continência que lhes era devida e ficou com a mão no boné. . As jaqueiras se espreguiçavam. e cobriam a terra com uma ogiva verde. “sinhô”. Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada! camarada! O soldado levantou-se estremunhado. firmes.Abaixe a mão. e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. fez o general. concertou-se rapidamente. quais são os navios que “eles” têm? . mas sem pressa.. para dar à boa mãe frescura e proteção contra a inclemência do sol. O velho edifício imperial se erguia sobre a pequena colina. sim “sinhô”. deliciosa e macia. resolveu falar-lhe com doçura. de Paranaguá. falando a medo. Atravessaram o velho parque imperial transversalmente.Os “homens” desistem ou não? O general esteve um instante examinando o soldado. As janelas acanhadas daquela fachada velha. respondendo tropegamente.. para séculos. . delas. Vinham andando em demanda à estação de São Cristóvão. Já tinha o Rio Grande. porém.Não sei. os ramos longos e cheios de folhas quase beijavam o chão.O “homem” deve estar atrapalhado. . . Albernaz. ele obtivera licença para ir em casa. joanina.Sei lá. e o dia estava límpido e fresco. um instante firme.Em que dará isto tudo. As mangueiras eram as mais gratas.63 seus grandes ramos uma vasta sombra. desde o portão da Cancela até à linha da estrada de ferro. erectas. não “sinhô”. aquela parte de construção mais antiga.. alguma cousa de quem se sente viver. uma certa dignidade.. alongados para o céu. guarda orgulhosa do seu mister e função. explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. os andares de pequena altura impressionavam mal. As palmeiras cercavam-no.

e mesmo apavorados. sem grandeza. que parece mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores: . e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas.. sofrendo angustiosos suplícios de uma imaginação dominicana. o comboio estremeceu todo e parou por fim. fugido. a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil homens. lá ficava esquecido. “familiares” do Santo Ofício Republicano. bufando. Era um terror. para se perder o emprego. reformados. Havia uma única mulher na estação. era cochichando. Houve execuções. O chefe de polícia organizara a lista dos suspeitos. É melhor ires para casa. Falou-lhe com brandura. Mereciam as mesmas perseguições do governo um pobre contínuo e um influente senador.Conheço bem esse negócio de balas. descansa. de uniformes e os trilhos. muito negra.. às ocultas. Podem furtar-te o sabre e estás na “inácia”.. Um grande número de oficiais. . Veio chegando manso. Albernaz percebeu e ajuntou imediatamente: ... Não me importa morrer.Bem. esses bondes andam muito perto do mar. Que é isto? indagou o honorário.. quase paternal. vagaroso.64 O general interveio então.. Já a levara a uma meia dúzia de médicos e nenhum fazia parar aquele escapamento do juízo que parecia fugir aos poucos do cérebro da moça. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua filha Ismênia. a autoridade estava em todas as mãos. talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. Os funcionários disputavam-se em bajulação.. Os dous generais continuaram o seu caminho e. isso de morrer por aí. A bulha de um expresso. Ficaria boa? Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas.. O trem atracava na estação. Quando passavam.Então por aqui?. ainda estremeciam. Você sabe. Coitada!. Bastava a mínima crítica. honorários moravam-lhe nas cercanias e os editais chamavam todos a se apresentar às autoridades competentes.quem sabe? . em virtude de seu emprego. parecia ter saído. Trazia o seu velho uniforme do Paraguai. mas quero morrer combatendo. um terror baço. Bustamante apareceu. .Nada. Se falavam. com a sua grande lanterna na frente. sem desculpa.. estavam na plataforma da estação. O general era mais conhecido.a vida também. ouviam perguntar: “Quem é este almirante?” Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incógnito. com aquela banda roxa e casaquinha curta. não vai comigo. sangrento. Em nome do Marechal Floriano.A cousa foi terrível. e os civis vinham calados e abatidos. muitas fardas de oficiais. para apresentar-se. ou mesmo cidadão.. mas o regime já publicara o seu prólogo e todos estavam avisados. olhando com precaução para os bancos de trás. depois de ter passado. Passou o monstro. meu filho. . em servilismo. sem coragem. apitando com fúria e deixando fumaça pesada pelos ares que rompia. mas ele as conteve com força.. A barretina era um tronco de cone que avançava para a frente.. um olho de ciclope. à toa. Foi chegando. a revide de pequenas implicâncias. afastou-o de pensar na filha. acrescentou Bustamante.. Já vi muito fogo. em breve. A cidade andava inçada de secretas.. e. Ainda estávamos no começo da revolta. sem saber como. saltado de uma tela de Vítor Meireles. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continências. Bustamante.. a liberdade. ativos. O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam próximo olharam-no com mal disfarçada censura. .. pejado de soldados.. . em Curuzu.. não.. sem função pública alguma.Viemos pela quinta. Estava repleto. um lente e um simples empregado de escritório. Todos mandavam. A pequena estação tinha um razoável movimento. qualquer oficial.. avançava que nem uma aparição sobrenatural. mudando o tratamento de você para tu. Demais surgiam as vinganças mesquinhas. meus amigos. chocalhando ferragens com estrépito. . suando gordurosamente. a locomotiva.. mas não houve nunca um Fouquier-Tinville. sem razão e sem responsabilidades.. que. Os militares palravam alegres. uma moça. morava nos arredores e vinha tomar o trem. prendia e ai de quem caía na prisão. Não havia distinção de posição e talentos. o almirante. disse o almirante..

e essas divergências nada significavam para a sua idade e experiência. esperava obter uma outra comissão. todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem.. enfim. e. sinceridade. se os pegasse.. cosido com as paredes. mas. uniformes de várias corporações e milícias. Albernaz e Bustamante entraram no QuartelGeneral. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo. antes bom e até generoso. pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo. O almirante. dominicano do seu barrete frígio. desinteresse e sinceridade. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a companhia. todos os assassínios.. do exército. contumazes.. e Bustamante porque aprendia com ele alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos. enorme. Albernaz não tinha tanta fúria contra os adversários.65 Os militares estavam contentes. congesto. ao progresso e também ao advento do regime normal.. sem samarra. raivoso por não poder queimá-los em autos-de-fé. estava gastando muito dinheiro. da armada. baionetas reluzindo ao sol oblíquo.. com fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis.. maldição contra os insurrectos. limitado e estreito. amedrontava toda a gente. seguiu para o Arsenal de Marinha.Hão de ver o resultado. de bombeiros e de batalhões patrióticos que começavam a surgir. que justificava todas as violências. Piratas! Bandidos! Eu. como se a Bíblia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Católica e não também para a Anglicana. simulados. soltos por aí. falsos. da polícia. depois de tê-lo feito ao ajudante-general e ministro da Guerra. dourados. relapsos. para apoiá-lo e defender o seu governo. lá diz ele. havia um vaivém de fardas.. O prestígio dele era. entretanto. O governo precisava de oficiais de Marinha. no meio do retinir de espadas. um pedantismo tirânico. em tudo semelhantes aos canatos e emirados orientais. fazendas multicores. que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o enxoval de Lalá. Fontes estava indignado. a religião da humanidade. uma certa esperança na ação do marechal. Fora daí não havia boa fé.. Perdera-a em primeira instância. imaginava organizar um batalhão patriótico. Fazia repousar nela toda a felicidade humana e não admitia que a quisessem de outra forma que não aquela que imaginava boa. de que já tinha o nome . Mas. fictos e confictos. feixes de armas ensarilhadas. Penetraram no grande casarão. a adoração do grão-fetiche. especialmente os pequenos. ele os queria até. condição necessária. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e criada para o positivismo. que diabo! Se fosse um navio. então sim: mas uma esquadra a cousa não era difícil. A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório que. No fundo d’alma.. Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto.. A sua causa não ia lá muito bem. naqueles tempos. a um só tempo. bastava coragem para combater. os alferes. É verdade que. e propunha os piores castigos. Misturavam-se oficiais da guarda nacional. mas era positivista e tinha da sua República uma idéia religiosa e transcendente. todo ele era horror. ai deles! O tenente não era feroz nem mau. os tenentes e os capitães. O almirante. Os positivistas discutiam e citavam teoremas de mecânica para justificar as suas idéias de governo. tinha grande confiança nos talentos guerreiros e de estadista de Floriano. Depositava.. Apresentaram-se e. via passar por seus olhos uma série enorme de réus confidentes. não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do arquivo do Largo do Moura. talvez lhe dessem uma esquadra a comandar. tinha amigos lá. o grande pátio estava cheio de soldados. o paraíso. a todo esse rebanho de civis. parou ainda em uma estação e foi ter à praça da República. O trem correu.. No sobrado. de toques de cornetas. no caso do marechal.. ficaram a conversar nos corredores. bandeiras. tanto assim que. . canhões. Estando em apuros financeiros. quase todos estavam na revolta.. também. em outros muitos havia sentimento mais puro. nas proximidades do gabinete do ministro.. portanto. no meio dos quais os trajes escuros dos civis eram importunos como moscas. com bastante prazer. eram heréticos interesseiros. O general porque já era noivo de sua filha Lalá. com inscrições em escritura fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!.

. pela fortuna da mulher. via trinta e mais doentes.. tanto mais que ele dormia à leitura de tais livros. O lugar de lente é que o tentava mais. metia-lhe medo. Não contente com isso escrevia artigos. além disso. repita a receita... Tinha elementos. o concurso. mas aquela história de argüição apavorava-o. A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em biblioteca. o enfermeiro dava-lhe informações. à sociedade. quem é?”. O Cobreiro. o marido de Olga e sábio sereno e dedicado quando estudante. mas ricos de citações em francês. A ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-no. O sono não tardava a vir ao fim da quinta página. o ilustre clínico. o interesse e o valor delas. porém. Nós vivemos do governo e a revolta representava uma confusão nos empregos. aos jornais que se ocupavam dele duas ou três vezes por ano. passatempos.. Genelício. senão ele não passava de um simples prático. Mas médico de um hospital particular não dá fama a ninguém: o indispensável é ser do governo. com todas as vantagens do posto de coronel. o proficiente médico dos nossos hospitais”. diretor ou mesmo lente da faculdade. acendia todos os bicos-de-gás e se punha à mesa. Eram romances franceses. desde que quisesse pôr ordem na sua seção. De resto. chegando ao gabinete receitava: “Doente nº 1. iludir-se. ... inventar. as dores daqueles personagens. colocava na revolta a realização de risonhos anelos. honesto e enérgico. Tratou de encomendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com títulos trocados e afastou o sono. para entrar na ciência germânica. graças à sua atividade e fertilidade de recursos. falatórios. revelando a todos. precisando de simpatias e homens. Maupassant. De quando em quando. Precisava. daquelas descrições. da rua. Daudet. Não havia dia em que não comprasse livros. e. Queria ter um cargo oficial. etc. espalhar. ele abria as janelas das venezianas. quarenta e sessenta páginas. a vida.. o governo. prodigalizar. Ele não compreendia a grandeza daquelas análises. tinha que nomear. a si mesmo e à mulher. Profilaxia e Tratamento ou Contribuição para o Estudo da Sarna no Brasil.. a sua falsa ciência e a pobreza de sua instrução geral faziam-no ver naquilo tudo. todo de branco com um livro aberto sob os olhos. doente 5. Essas secretas esperanças eram mais gerais do que se pode supor. respondia o sírio com voz gutural. Médico e rico. estava bem relacionado e cotado na congregação. em meia hora. porém. Anatole France. esperava muito da energia e da decisão do governo de Floriano: esperava ser subdiretor e não podia um governo sério. tomara até um professor de alemão. Etiologia. o “operoso Doutor Armando Borges.. de cama em cama. “Ahn!” E receitava. As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. promoções e gratificações. Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. inglês e alemão. Obtinha isso graças à precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da imprensa. nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. etc. Na seguinte. Já era médico do Hospital Sírio.66 “Cruzeiro do Sul” e naturalmente seria o seu comandante. estiradas compilações. os sentimentos. em francês. À noite. um mundo! O seu pedantismo. ordenados. fazer outra cousa. publicava um folheto. que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados.. Goncourt. desde que arranjasse boas recomendações pois já tinha certo nome. O próprio Doutor Armando Borges. o doutor ia. “É aquele barbado”. onde ia três vezes por semana e. indagava: “Já está melhor?” E assim passava a visita. Chegava. ele não andava satisfeito. mandava o folheto. em que não havia nada de próprio. criar e distribuir empregos. cuja atividade nada tinha de guerreira. viam-no e se dessem com ele a dormir sobre os livros?!. médico. perguntando: “Como vai?” “Vou melhor seu doutor”. mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante. brinquedos. inglês e italiano. E isso não era difícil. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações supririam os títulos e habilitações para ocupálas.

.Sabes quem vem aí. censurar. sentiu-o. Quis desaprovar.. minha filha? . pois há tanto ela rebentara. O genro vestia-se e a filha ocupava-se com sua correspondência. . e a sua fisionomia se iluminou de novo como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos. chegou a ganhar uns seis contos. não é lá velho... .Decerto.. Ainda ouviu as últimas palavras do sogro.. Ela dissimulava os seus sentimentos.... lia recostado numa cadeira de viagem os jornais do dia. Mesmo quando noiva... dizendo que vinha. tratando de um febrão de uma órfã rica.Teu padrinho. verificara que aquelas cousas de amor ao estudo.E há de ser só quem tem interesse que se deve bater pela República? interrogou o doutor.. sentiu um grande alívio. Ela sentiu que tinham cortado todos os laços de afeição. mais por dignidade e delicadeza. dava mais seriedade ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever. que o aluguel de uma pena. com todo o luxo.. e a ele faltavam a sagacidade e finura necessárias para descobri-los sob o seu esconderijo. Desde muito que a mulher lhe entrava na sua simulação de inteligência. De comandita com o tutor. feia e esmagadora. neste inferno. e. É o dever de todo o patriota. que prendiam ambos. sossegado. mas aquela manobra indecorosa indignou-a. Telegrafou ao Floriano. O doutor voltava já inteiramente vestido. livros.Mas não tem interesse nisso.É vem você com as suas teorias.Está doido. eram superficiais. n’O País. a vista para a montanha. O sogro suspendera a viagem à Europa. de ambições de descobertas. estantes. Vinha irradiante e o seu rosto redondo reluzia. Que tem a idade? Quarenta e poucos anos. com a sobrecasaca fúnebre e a cartola reluzente na mão. O patriotismo não está na barriga.. mesmo sem levantar a cabeça. que se limitou a sorrir complacente: . mas charlatão? Era demais! Passou-lhe um pensamento mau. exceto onde o grande bigode punha sombras. objetou o velho. Era perdoável. mas desculpou. A revolta veio encontrá-los assim. A sala lhe parecia mais clara. Muitas vezes nós nos enganamos sobre as nossas próprias forças e capacidades. toda a ligação moral.. Não foi desprezo. era inútil mudar deste para aquele. mas de que valeria essa quase indignidade?. destacou-se de sua pessoa. Pode ainda bater-se pela República. tão de acordo com a substância da vida que ele mesmo fabricara. pronunciadas com aquele seu português rouco: . de interesse pela ciência. filhinha. Quando chegou a esta conclusão. o modo de agir e reagir de fato sobre as idéias e sentimentos de Quaresma. desinteressou-se dele.Mas não há tal. vem meter-se nesta barafunda. mais baixo. após o almoço. ele não deu pelas modificações da mulher. A moça que acabava de ler a carta que tinha escrito. nojo que ela teve pelo marido. Per la madonna! Pois um homem que está quieto. de simpatia. que a usura de um judeu. menos ativo. mas gostava pela manhã de escrever ali.. que mesmo por qualquer outro motivo. disse Coleoni. enfim. Coleoni explicou e repetiu os comentários que já fizera: . nele. Todos os homens deviam ser iguais.. meditava a sua ascensão social e monetária. Continuavam a viver como se nada houvesse. num dado momento ele disse: ..Quem é? . foi um sentimento mais calmo.. A moça adivinhou logo o motivo. conforme o seu hábito. disse o doutor.. mas quanto estavam longe um do outro!. Ela tinha um gabinete. tão coerente com ele mesmo..O padrinho. Está aqui.. escrevendo à cabeceira da mesa de jantar. . secretária. Naquela carreira atropelada para o nome fácil. sonhamos ser Shakespeare e saímos Mal das Vinhas. entretanto. estavam à flor da pele. ao lado do pai.. . naquela manhã. disse: . Ela escrevia e o pai lia.Que há? perguntou ele.67 A sua clínica. e o doutor. prosperava. desde três dias. Que necessidade tinha ele disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha o privilégio de um título universitário? Tal ato pareceu à moça mais vil. porém.

agarrou o violão para melhor apanhar o efeito e empacou nestes: É mais bela que Helena e Margarida. as nossas autoridades. . Quando sorri meneando a ventarola. e demais. Gostava de passar assim dias. que pedem sempre mudanças e mudanças. e. há de ser assim normalmente. estrangeiro e conhecendo. pois. indo à tarde jantar a uma tasca próximo à estação. ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele. limitava-se ao “bom-dia” e à “boa-tarde” trocados com os vizinhos. Por esses dias o triunfo desfilava sem contestação. Só se encontra a ilusão que adoça a vida Nos lábios de Carola. graças à sua vida. os fuzilamentos. de admirar que a moça tendesse para os revoltosos. um dos últimos. organizando o seu livro. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de ser mais uma vitória para ele e para o violão estremecido. . Primeiro. calasse as suas simpatias num mutismo prudente.Não me vá comprometer.Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros? É monopólio de vocês o patriotismo? fez Olga. corrigindo um dos seus trabalhos. O doutor desceu a escada da varanda. com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias. levam a prometer o que não podem fazer. pouco saindo. . Ela não deixava de ser. é uma revoltosa. aqui e no Sul? . as deportações. como particularmente. Naquela tarde estava sentado à mesa. disse o doutor. Apesar de popular no lugar. toda a série de violências que se vêm cometendo. mas estava certo de obter. cantarolando. abrangendo um grande trato de área edificada. ele mesmo evitava falar e. a entorpecer. cuja vista ia de Todos os Santos à Piedade. não encontrara pessoa alguma conhecida durante os três últimos dias.. deitou-lhe o seu grande olhar luminoso. Por esse tempo. hein. abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados. a desmoralizar a ação da autoridade constituída. da população inteira era pelos insurgentes. Toda a cidade o tinha na consideração devida e ele quase se julgava ao termo da sua carreira. debruçada na varanda. Olga? Ela se tinha levantado para acompanhar o marido. Passava confinado no seu quarto. metido em si mesmo e ouvindo o seu coração. de forma a criar desesperados.Você sabe bem que eu não te comprometo. Ricardo vivia ainda na sua casa de cômodos dos subúrbios. que ele mesmo fazia. almoçando café. voltou a lê-la. Já publicara mais de um volume de canções.“Os lábios de Carola”. atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus à mulher. . Coração dos Outros sonhava desligado das contingências terrenas. Há dias vivia em casa. conforme o ritual dos bem ou mal casados. Notara que sempre que chegava. os carroceiros e trabalhadores. aquele que compusera no sítio de Quaresma . e com os finos lábios um pouco franzidos: .Você. Não só isso sempre acontece em toda a parte. no Brasil. agora pensava em publicar mais outro. e pão. e Coleoni. fechando a discussão. em sua casa. Faltava o assentimento de Botafogo. leu toda a produção. devido a múltiplos fatores. Não era. Se eles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade. A simpatia dos desinteressados. um panorama de casas e árvores. Parou um pouco.68 E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava. que lhe seguia a saída.. mas não deu importância.Decerto. no fundo. Já não se falava mais no seu rival e a sua mágoa tinha assentado.Deviam continuar a presenciar as prisões. que jantavam nas mesas sujas. Não lia jornais para não distrair a atenção do seu trabalho. Os governos. . esquecidos de sua vital impotência e inutilidade.

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Nisto ouviu um tiro, depois, outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os lábios de Carola, onde encontrava a ilusão que adoça a vida... TERCEIRA PARTE I Patriotas Havia mais de uma hora que ele estava ali, num grande salão do palácio, vendo o marechal, mas sem lhe poder falar. Quase não se encontravam dificuldades para se chegar à sua presença, mas falar-lhe, a cousa não era tão fácil. O palácio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo e eloqüente. Não era raro ver-se pelos divãs, em outras salas, ajudantes-de-ordens, ordenanças, contínuos, cochilando, meio deitados e desabotoados. Tudo nele era desleixo e moleza. Os cantos dos tetos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira de rua mal varrida. Quaresma não pudera vir logo, como anunciara no telegrama. Fora preciso pôr em ordem os seus negócios, arranjar quem fizesse companhia à irmã. Fizera Dona Adelaide mil objeções à sua partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompatíveis com a sua idade e superiores à sua força; ele, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensável, necessário que toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse posto à disposição do governo, para então!... oh! Aproveitara os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nele expunham-se as medidas necessárias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande propriedade, das exações fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das violências políticas. O major apertava o manuscrito na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquela planície feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes, lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e plácidos que o viram partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquele momento, era do Anastácio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquela ternura passiva de animal doméstico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas órbitas as escleróticas muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe era comum tal atitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas sinais de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!... Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera que o presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano tinha ainda, como sinal do almoço, o palito na boca. Falou em primeiro lugar a uma comissão de senhoras que vinham oferecer o seu braço e o seu sangue em defesa das instituições e da pátria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita. Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nela que uma escondia a outra, furtando toda ela a uma classificação honesta. Enquanto falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes olhos que despediam chispas. Floriano parecia incomodado com aquele chamejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquele olhar que queimava mais sedução que patriotismo. Fugia encará-la, abaixava o rosto como um adolescente, batia com os dedos na mesa... Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com um grosso e difícil sorriso de roceiro, declinou da oferta, visto a República ainda dispor de bastante força para vencer.

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A última frase, ele a disse com mais vagar e quase ironicamente. As damas despediram-se; o marechal girou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma: - Então, Quaresma? fez ele familiarmente. O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma de oficiais subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua atenção convergiu para eles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espáduas. O marechal quase não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossílabo, cousa que Quaresma percebia pela articulação dos lábios. Começaram a sair. Apertavam a mão do ditador e, um deles, mais jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão mole, bateu-lhe no ombro com intimidade, e disse alto e com ênfase: - Energia, marechal! Aquilo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo cerimonial da República, que ninguém, nem o próprio Floriano, teve a mínima surpresa, ao contrário alguns até sorriram alegres por ver o califa, o cã, o emir, transmitir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno desabusado. Não se foram todos imediatamente. Um deles demorou-se mais a segredar cousas à suprema autoridade do país. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul-turquesa, talim e sabre de praça de pré. Os cadetes da Escola Militar formavam a falange sagrada. Tinham todos os privilégios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o ditador e abusavam dessa situação de esteio do Sila, para oprimir e vexar a cidade inteira. Uns trapos de positivismo se tinham colado naquelas inteligências e uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a República, em artigo e fé, em feitiço, em ídolo mexicano, em cujo altar todas as violências e crimes eram oblatas dignas e oferendas úteis para a sua satisfação e eternidade. O cadete lá estava... Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem que ia feixar em suas mãos, durante quase um ano, tão fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos, às suas fraquezas e vontades, nem nas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana. Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande “mosca”; os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era gelatinoso - parecia não ter nervos. Não quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o caráter, a inteligência e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse ele de si para si. O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país, manhoso talvez um pouco, uma espécie de Luís XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tibieza de ânimo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos. Quando diretor do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assinar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da Guerra, passava meses e meses sem lá ir, deixando tudo por assinar, pelo que “legou” ao seu substituto um trabalho avultadíssimo. Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II, de Guilherme I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não compreende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas,

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certamente necessárias deviam ser tais transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e influísse na marcha das cousas governamentais e administrativas. Dessa preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos monossílabos, levados à altura de ditos sibilinos, as famosas “encruzilhadas dos talvezes”, que tanto reagiram sobre a inteligência e imaginação nacionais, mendigas de heróis e grandes homens. Essa doentia preguiça fazia-o andar de chinelos e deu-lhe aquele aspecto de calma superior, calma de grande homem de Estado ou de guerreiro extraordinário. Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros meses de governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquérito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra sedição, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas. Demais, ninguém pode admitir um homem forte, um César, um Napoleão, que permita aos subalternos aquelas intimidades deprimentes e tenha com eles as condescendências que ele tinha, consentindo que o seu nome servisse de lábaro para uma vasta série de crimes de toda a espécie. Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atmosfera de má vontade Napoleão assumiu o comando do exército da Itália. Augereau, que o chamava “general de rua”, disse a alguém, após lhe ter falado: “O homem meteu-me medo”; e o corso estava senhor do exército sem batidelas no ombro, sem delegar tácita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsáveis. De resto, a lentidão com que sufocou a revolta de 6 de setembro mostra bem a incerteza, a vacilação de vontade de um homem que dispunha daqueles extraordinários recursos que estavam às suas ordens. Há uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, atos e gestos. Era o seu amor à família, um amor entranhado, alguma cousa de patriarcal, de antigo que já se vai esvaindo com a marcha da civilização. Em virtude de insucessos na exploração agrícola de duas das suas propriedades, a sua situação particular era precária, e não queria morrer sem deixar à família as suas propriedades agrícolas desoneradas do peso das dívidas. Honesto e probo como era, a única esperança que lhe restava repousava nas economias sobre os seus ordenados. Daí lhe veio essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensável para conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se tenazmente à Presidência da República. A hipoteca do “Brejão” e do “Duarte” foi o seu nariz de Cleópatra... A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse “homem-talvez” que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo. Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam sido possíveis, depois de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro, isto é, após se ter “fabricado” à vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos. A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande, o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água. Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil, raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas. Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao

.Trazia a Vossa Excelência até este memorial. escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra. o presidente.. Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro.. não tinha nada escrito. desde que o marechal lhe falou familiarmente. Bustamante? E o batalhão. agora Tenente-Coronel. Que posto queres? . Tinha alguma cousa de asiático. ele não negaria tais esperanças e a sua ação poderosa havia de se fazer sentir pelos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. e assim mesmo. . alguma cousa de tremendo ameaçava todos e parecia estar suspenso no ar. vai? O homem aproximou-se mais.. Donde? . O major há muito que o conhece? Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta. Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.. Ao acabar é que deu com a desconsideração: .72 organismo aniquilado da pátria. embora. Sentiu por aí a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa. . medidas tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. de uns tempos para cá.. que o major se habituara a crer a mais rica do mundo. O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem. Precisamos de um quartel. um espanto. taciturno. proteção aos fracos. com uma grande barba mosaica e olhos espertos.. já tivesse dúvidas a certos respeitos. sorriu com dificuldade. Se Vossa Excelência desse ordem... carros e carroças. Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora: . a lápis azul..Mas nós nos conhecemos! exclamou ele.. levemente.Aproveita Quaresma no teu batalhão. voltando-se para Bustamante: . Ou antes: leva-lhe este bilhete.. Até à rua nada disseram um ao outro. sobre aquela ponta de papel. . Bustamante deu-se a conhecer.. Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma. segurança. Havia a mesma agitação de bondes. . Vocês lá se entendam.Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito.. O presidente teve um gesto de mau humor. ficara só e Quaresma avançou. mas não se lembrou de tê-lo já encontrado algum dia..Eles vão ver o “caboclo”. era cruel e paternal ao mesmo tempo. Era o Major Bustamante. .. um quase “não me amole” e disse com preguiça a Quaresma: . com uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios.É exato. nomes. um terror. de pince-nez e foi-se chegando. Quaresma vinha um pouco frio.. disse a Quaresma.Agradeço-te muito. mas. O major confirmou e o presidente. Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. marechal. Decerto. começou a considerar aquele homem pequenino. quase como um terrível segredo: . Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati. porém.Vai bem. Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias. em seguida.Deixa aí. O dia estava claro e quente. Era a parte de cima.Bem. O marechal ouviu-o distraído. Não faz mal.Que há. empregos.Eu! fez Quaresma estupidamente. mas nas fisionomias.. com um pouco de satisfação. .. seu companheiro do Paraguai. um tanto amedrontado: . velho amigo do marechal. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar.. . Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias.Não me recordo. o movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração apreciável. levando-lhes estradas. .Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos. Quaresma? fez Floriano. se aproximando e. situações dos subalternos com quem lidava.Então. assegurando o trabalho e promovendo a riqueza. quando já perto. Um seu companheiro de espera.

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- Da casa do General Albernaz... Não se lembra? Policarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão patriótico “Cruzeiro do Sul”. - O senhor quer fazer parte? - Pois não, fez Quaresma. - Estamos em dificuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despesas devemos auxiliar o governo... Não convém sangrar o Tesouro, não acha? - Certamente, disse com entusiasmo Quaresma. - Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos oficiais, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil-réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O Senhor é major, não é? Quaresma então explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influência no Ministério do Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado major, e a cousa pegou. A princípio, protestou, mas como teimassem deixou. - Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major. - Qual é a minha quota? - Quatrocentos mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita? - Pois não. Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis e despediu-se jovialmente: - Então, major, às seis, no quartel provisório. A conversa se havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo de Sant’Ana. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar. A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando em quando ouvia-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do quartel-general saía uma força, armas ao ombro, baionetas caladas, dançando nos ombros dos recrutas, faiscando com um brilho duro e mau. Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde atingisse à Rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de supor-se em tempos normais. Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no ombro. Voltou-se. - Oh! general! O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado; não trazia espada e o pince-nez continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detrás da orelha esquerda. - Então veio ver a cousa? - Vim. Já me apresentei ao marechal. - “Eles” vão ver com quem se meteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A República, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O “caboclo” é de ferro... No Paraguai... - O senhor conheceu-o lá, não, general? - Isto é... Não chegamos a nos encontrar; mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como encarregado das munições... É o fino o “caboclo”: não me quis no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no depósito, não me sai um caixote que eu não examine... É necessário... No Paraguai, houve muita desordem e comilança: mandou-se muita cal por pólvora - não sabia? - Não.

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- Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o “homem” quer que eu fique com as munições... Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá... Deu de ombros, concertou o trancelim que já caía da orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou: - Como vai a família? - Bem. Sabe que Quinota casou-se? - Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai? A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto: - Vai no mesmo. O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de estátua, numa atonia de inanimado, como que caíra em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: “Apronta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento.” Outras vezes recortava papel, em forma de participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu casamento. O general já consultara uma dúzia de médicos, o espiritismo e agora andava às voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espírito naquela obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não atingira, aniquilando-se, porém, o seu espírito e a sua mocidade em pleno verdor. Entristecia o seu estado aquela casa outrora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuído; e, quando eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com todos os cuidados, à custa de todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, lá ficava, enquanto as outras dançavam, um instante esquecidas da irmã que sofria. Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu a emoção e continuou no tom mais natural, naquele seu tom familiar e íntimo que usava com todos: - Isto é uma infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para o país. E os prejuízos? Um porto destes fechado a comércio nacional quantos anos de retardamento não representa! O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossível a reprodução de levantes e insurreições. - Decerto, aduziu o general. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que mau efeito! O bonde chegara ao Largo de São Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do Rosário. Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre. Não foi indiferença que sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora soubesse perfeitamente que ele estava a chegar. Entretanto, não havia mudança na fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o mesmo homem baixo, pálido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás do pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar os lábios era o mesmo que ela conhecia há tantos anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma força estranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que ele entrara naturalmente, com o seu passo miúdo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirara a sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua entrada: - Papai saiu; e o Armando está lá embaixo escrevendo. De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o “clássico” um grande artigo sobre “Ferimentos por arma de fogo”. O seu último truc intelectual era este do clássico. Buscava nisto uma distinção, uma separação intelectual desses meninos por aí que escrevem contos e romances nos jornais. Ele, um sábio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que eles. A sua sabedoria superior e o seu título “acadêmico” não podiam usar da mesma língua,

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dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéia do clássico. O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, em-pós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral. Gostava muito da expressão - às rebatinhas; usava-a a todo o momento e, quando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estilo uma força e um brilho pascalianos e às suas idéias uma suficiência transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras linhas o sono lhe vinha e dormia sonhando-se “físico”, tratado de mestre, em pleno Seiscentos, prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor Sangrado. A sua tradução estava quase no fim, já estava bastante prático, pois com o tempo adquirira um vocabulário suficiente e a versão era feita mentalmente, em quase metade, logo na primeira escrita. Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente clássico para “orifício”, julgou útil a interrupção. Queria pôr “buraco”, mas era plebeu; “orifício”, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu à sala de jantar. Ele entrou prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão sobre autoridade. Dizia ela: - Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes? O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde deixar de objetar: - Mas é preciso, indispensável... Nós sabemos bem que eles são homens como nós, mas, se for assim, tudo vai por água abaixo. Quaresma acrescentou: - É em virtude das próprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ela existe... Nas formigas, nas abelhas... - Admito. Mas há revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantém lá à custa de assassínios, exações e violências? - Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma. O doutor não teve dúvidas e foi logo dizendo: - Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pináculo da escala zoológica iremos buscar normas de vida entre insectos? - Não é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles a certeza da generalidade do fenômeno, da sua imanência, por assim dizer, disse Quaresma com doçura. Ele não tinha acabado a explicação e já Olga refletia: - Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade - vá; mas não; de que vale? - Há de trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidá-la. Conversaram ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano, a sua próxima incorporação ao batalhão “Cruzeiro do Sul”. O doutor teve uma ponta de inveja, quando ele se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu. Sentia necessidade de rever aquelas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um subterrâneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléia, a casquilha Rua do Ouvidor davam-lhe saudades. A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os “jacobinos”, a guarda abnegada da República, os intransigentes a cujos olhos a moderação, a tolerância e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-pátria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O

armas! O major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento. havia uma varanda de grade de pau e uma escada de madeira levava até lá.. um tanto coxo. rogou-lhe e suplicou-lhe. do seio da bruma. A casa da ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o pátio.. Acreditase. suplicou-lhe: . é a luz da incerteza.. ao mesmo tempo. mas dêem-me o meu violão. Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados: . Não é noite. é a hora da angústia. Há necessidade de gente. O mar está silencioso: há grandes intervalos entre o seu fraco marulho. Bustamante estava impassível na varanda e só respondeu depois de algum tempo: . major! Quaresma chamou de parte o coronel. No mar. corriam para dentro das lojas. é o desconhecido. As fisionomias respiram aliviadas.Conheço. a vista é impotente contra aquela treva esbranquiçada e flutuante. o sangue a subir às faces pouco e pouco.. a chorar e a implorar. Do lado da terra. Enfim. as aves morrem de encontro às . esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes. coberto de algas. seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou: .. O chiar das serras vizinhas. Tinha o tal cortiço andar térreo e sobrado. de uma claridade difusa. . Não se ouve a bulha: o escaler afastou-se. não há estrelas nem sol que guiem. mas com as pedras manchadas das barrelas e da água de sabão. depois da palidez do medo. não é o crepúsculo. Uma gritaria fê-los vir até à varanda. fazia-o cabo. mal se enxergam as partes baixas dos edifícios próximos. servia para a instrução dos recrutas. que é Caronte que traz a sua barca para uma das margens do Estige. os guinchos de guindastes dos navios enchem aquela manhã indecifrável e taciturna. que gemia à menor passada. Entre soldados entrava um homem. É um Visionário Oito horas da manhã.. luminoso. É um voluntário recalcitrante. já sem as cordas de secar ao sol a roupa.. a Rua do Ouvidor era a mesma. sujo. e admitido no batalhão com o posto de alferes. Entretanto. Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dólmã era verde-garrafa e tinha uns vivos azulferrete. Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel. está povoada de ruídos. lá pelos lados da Cidade Nova. O senhor não o conhece. que funcionava provisoriamente num velho cortiço condenado pela higiene. No sobrado.Salve-me. em cruz. coronel? continuou ele com interesse e piedade. Quaresma. Vê-se da praia um pequeno trecho. e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar.É o Ricardo! exclamou Quaresma. A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado.. para o lado do mar. não é o dilúculo. parece que. ambos divididos em cubículos do tamanho de camarotes de navio.. o Mistério.. alamares dourados e quatro estrelas prateadas. vão surgir demônios.. escada tosca e oscilante. e o odor da maresia parece mais forte com a neblina. Atenção! Todos perscrutam a cortina de névoa pastosa. as moças davam gritinhos de gata.Restituam o violão ao cabo Ricardo! II Você. sim. Ricardo. dentro daquele decoro. o que não impedia de haver jornais “jacobiníssimos” redigidos por portugueses da mais bela água. O instrutor era um sargento reformado. que se condensa ali e aqui em aparições.. levando de quando em quando uma reflada. mas foi inútil. aquela pasta espessa. Se uma bala zunia no alto céu azul. na gola. contra aquela muralha de flocos e opaca.76 estrangeiro era sobretudo o português. Os soldados subiram com o “voluntário” e Ricardo logo que deu com o major. os apitos de fábricas e locomotivas. na terra. então. A cerração ainda envolve tudo. de longe.Eu sirvo sim. a se debater... Para a esquerda e para a direita. não é dia. Os rostos estão alterados. que gritava com uma demora majestosa: “om . Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. em semelhanças de cousas.brô”. um patriota rebelde.

dous tenentes. O comandante chegou à janela. o de tenentes quase. Um soldado entrou: . os punhos lhe apareciam inteiramente. o pobre homem usava aquela peça protetora como um castigo. O seu pequeno aborrecimento é não poder. vai aprendendo lentamente a servir-se da boca-de-fogo e submete-se à arrogância do subalterno. marulhando com grandes intervalos. Chama-me o cabo Ricardo. Ricardo? . A blusa era curtíssima. e leva assim aqueles dias de ócio guerreiro enfronhado na matemática. estuda artilharia. onde ela faz sentir toda a sua força de desesperar. Há falta de capitães. outros procuram com os olhos o céu através do nevoeiro que lhes umedece o rosto. talvez. tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da liberdade. e o comandante. de rifle à cintura e gorro à cabeça. Aquela vida solta da caserna vai-lhe bem n’alma. da balística à mecânica. vai à trigonometria. cantarolando em voz baixa. que não dá obediência ao patriota major. de compêndio em compêndio. que é Quaresma. três alferes. e. E o senhor. Ele percorre essa cadeia de ciências entrelaçadas com uma fé de inventor. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. a medo. Estão doentes ou licenciados e só ele. Os ruídos continuam. mas ele nada tem a ver com o mortífero aparelho. sozinho. O comandante do destacamento é Quaresma que. contudo. o antigo agricultor do “Sossego”. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista. Aos grupos. está de parte. Aprende uma noção elementaríssima após um rosário de consultas.. . major? . por modéstia. desce mais a escada. Bustamente. Em geral. É encarregado dele o Tenente Fontes. A nossa miséria é mais completa e a falta daqueles mudos marcos da nossa atividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.. Comprou compêndios.Como vais. continua no quartel. como sua instrução é insuficiente.. o menestrel não se aborrece. lendo. O cabo Ricardo Coração dos Outros. Sob o fardamento de cabo. se fez simplesmente tenente-coronel. da artilharia vai à balística. A unidade tem poucos oficiais e muito poucas praças. Já se via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco. fracamente. algas e sargaços. de quando em quando. ele o experimenta. em horas de folga. o Bustamente da barba mosaica. o violão está lá dentro e.Pode. soltar o peito. da mecânica ao cálculo e à geometria analítica. ele só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas. estão a postos. após o rumor dos remos. consentisse.77 paredes brancas das casas. A cerração se ia dissipando. suja de bodelhas. superintendendo a vida do batalhão. o número de alferes está justo. É preciso não enferrujar os dedos. que levava a sua casa. Polidoro. nessa matemática rebarbativa e hostil aos cérebros que já não são moços. O comandante do “Cruzeiro do Sul”. tenuemente. Alguns já cochilam. que. de encontro à areia da praia. macias e fragrantes. os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia. mas o Estado paga o pré de quatrocentas.Bem. Assim que se viu no mato. mas os oficiais pouco aparecem. e as calças eram compridíssimas e arrastavam no chão. Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar. posso ir almoçar? . parece que vêm do fundo da terra ou são alucinações auditivas. mas já há um major. sentado numa pedra. Quaresma não se incomoda com isso. e um alferes. Há no destacamento um canhão Krupp. como nada se vê.Senhor comandante. O seu estudo predileto é agora artilharia. mas. aquele amanhecer brumoso e feio era uma novidade para ele. à geometria e à álgebra e à aritmética. O major está no interior da casa que serve de quartel. e olha aquela manhã angustiosa. Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma comanda. A praça saiu capengando em cima de grandes botinas.. Ricardo Coração dos Outros apareceu. sungada. este mesmo só à noite.

Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Cante lá. Aqueles chiados. durante o dia. senhor. Quaresma veio até à porta. Ficavam nela também a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e barulhenta serraria. chegou. Demorou-se e a lancha avançava. O diabo é quando há tiro. não é? O trovador sentiu-se alegre com o interesse do comandante: . E em seguida.O canhão! Já! Avante! ordenou o comandante. Se a coisa for assim até ao fim. e.Bem. major... A treva ainda era profunda. a alça.Faça a parte. O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não responderam hoje a revista. alongando a vista pelo mar sossegado. Para que dizer.. e disse. que sim.. você pensa que está em um polígono. não se poderia. a Gamboa. tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas. É preciso ter sempre em vista a eficiência do fogo. aí pelas horas em que não há que fazer. não é mau. as altas. a ilha do Governador. e. fazendo estudos práticos. com os seus depósitos de carvão.Andas aborrecido. ir nas mangueiras. satisfeitas. e também a ligeira fosforescência das águas. por instantes. hein? Calaram-se um pouco. Era como se a alegria voltasse à terra. . o ângulo.. As formas das cousas saíam modeladas do seio daquela massa de névoa pesada. do mar para as fortalezas. recomendou: . Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito: . Primeiro surgiam as partes baixas. Dizem que no Paraguai.Viram bem. .78 .. mas não grite...Esperem um pouco. .. resvalando sobre as águas do mar. a Sapucaia horrenda. cujas montanhas acabavam de recortar-se no céu azul. havia a Saúde.Manda-me trazer o almoço...Não. entrecortado pelo resfolegar: .. e. Quaresma reapareceu correndo.Eu. era o saco da Raposa. vinha ver as cousas como iam. O soldado deu rebate. . os guinchos tinham um acento festivo de contentamento.. o pequeno destacamento pôs-se a postos e Quaresma apareceu. . Uma coisa. não sei. O soldado de vigia viu lá ao longe um vulto que se movia dentro da sombra. As refeições eram-lhe fornecidas por um “frege” próximo e ele dormia em um quarto daquela edificação imperial. a distância. olhou a praia suja e ficou admirado que o imperador a quisesse para banhos. o homem do canhão..Ora. A neblina foi-se e um galo cantou. major.. pernoitava em casa.. como se o pesadelo tivesse passado. quase repentinamente. O Tenente Fontes.. e das fortalezas para o mar. e. Fogo para diante! E assim era. lentamente.. era uma aleluia. o Retiro Saudoso..Sim. A cerração se ia dissipando inteiramente.. . É. O major coçou a cabeça.. cargueiros a vapor. os navios de comércio: galeras de três mastros.. Quase nunca dormia ali. À direita. e. Ricardo ia partir quando o major recordou: . Niterói. cantar um pouco. altos de tocar no céu. altaneiros barcos à vela . major. Quase todas as tardes havia bombardeio.. assustado..O senhor sabe que isso de cantar baixo é remar em seco. em frente. Não trazia luz alguma: só o movimento daquela mancha escura revelava uma embarcação.. e por fim. à esquerda. situado na antiga Quinta da Ponta do Caju. Correu a casa e foi consultar os seus compêndios e tabelas.. Chegou o almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia duas deserções. Uma madrugada. os Órgãos azuis.Mais duas? fez admirado o major. Não era raro também dormir. ele não estava. aqueles apitos.. nervoso.Assim. a ilha dos Ferreiros.que iam saindo da bruma. Quaresma deitou sobre o inferior e amigo aquele seu olhar agudo e demorado: . Quaresma almoçava. assim. à luz daquela manhã atrasada. . Porque a casa em que se acantonara o destacamento era o pavilhão do imperador. os soldados estavam tontos e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.. alisou o cavanhaque e disse: . aquilo tudo tinha um ar de paisagem holandesa.

. Em seguida perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada de uma fração decimal. um rolar de Sísifo. aqueles tiros. depois de exame atento ao canhão. e estavam tão embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do jovem oficial.Não temos aqui Major Quaresma. Fontes foi entrando e dizendo: . os soldados deitados ou sentados em círculo. foi o major quem permitiu. Fontes era noivo de Lalá. Subitamente. em torno de Ricardo Coração dos Outros. objetou Ricardo.Que é isto? disse ele severamente. sem encontrar jeito. As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga. segurando o violão. Fontes perfeitamente fardado. armas à mão. meteu uma bala no ‘Guanabara’. Quaresma continuava no seu estudo. aquela solene disputa entre duas ambições. não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura: . já disse! Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial. que entoava endechas magoadas.Não é preciso. o rapaz ensinou-lhe e eles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. . em pleno serviço? . .. .Fez bem. o canhão tinha ao lado a munição necessária. com a proa alta assestada para o posto. Fontes assestou o ouvido.. em continência. quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia: Prometo pelo Santíssimo Sacramento. e a esquerda. . que era a que tinha feito o disparo certeiro. . perfilado. ao encontro do major do “Cruzeiro do Sul”. disse Quaresma. o major perguntou: . Quaresma não se deu por agastado. não iríamos brincar.79 Lá vinha uma ocasião. Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lindíssimo quadro: à sombra de uma grande árvore.. a terceira filha do general Albernaz.Que toque é? . vou proibir. porém. De repente. com a mão direita no gorro.Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão. a corneta feriu o ar com a sua voz metálica. . Uma lancha avançava lentamente. como as goelas de um animal feroz oculto entre ervas. Os soldados já estavam nas trincheiras. para a grandeza da pátria. e o major apertando o talim. e considerava a ilha das Cobras..Que é isto. Ele repetiu: . Havia uma trincheira de fardo de alfafa e a boca da peça saía por entre os fiapos de palha. Os dous saíram. desculpou-se: . Já proibi. então os jornais noticiavam: “Ontem. reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz. a pedido da bateria do cais Pharoux.. “Seu” Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento? O major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço. Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino fato familiar a que estavam ligados aqueles estrondos. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida.Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha. que repousava no chão. Não quero mais isto.Mas. quando aparecia uma carta de Niterói. que acertavam. mas voluntário.Bem.E a disciplina? E o respeito? . e Ricardo. o forte Acadêmico fez um maravilhoso disparo. e esperava acabar a revolta para efetuar o casamento.“Seu” tenente. Os soldados levantaram-se todos. saiu de sua borda um . O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor.Sentido.” No dia seguinte. Olhava o horizonte. Não quero. tropeçando na espada venerável que teimava em se lhe meter entre as pernas curtas. Vossa Senhoria sabe que se nós não tivéssemos ordem. o mesmo jornal retificava.Bem. o Senhor Major Quaresma. Com o canhão tal. disse o oficial.

garotos. Chamavam-no “Trinta-Réis”. Eram alfinetes de gravata. guarneciam os jardins. lá longe. e como que se lhe representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio da morte. A espaços.gritou uma voz. Fontes fez um disparo. a noite era alegre e jovial. os dunkerques das casas médias. fizeram-se subscrições a seu favor. como chamavam. não se metia naquele ruído de praça semi-sitiada. voltava para o quarto da cidade ou para o posto. lixados. Raras vezes o fazia de dia. o mais assíduo. porém. e fora um destes que gritara: queimou! E assim sempre. e tudo isso estimulava o divertir-se. as grandes. pelas ruas dos arredores. aqueles ciprestes meditativos que as vigiam. Mal viam o fuzilar breve e a fumaça. e. A lancha continuava a atirar. A lancha continuava a avançar impávida. e Fontes deu instruções ao seu chefe da peça. Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. atrapalhando o serviço. No centro da cidade. um divertimento da cidade. muito pesada. O canhão vomitou o projétil. os pequenos garotos. quitandeiros ficavam atrás das portadas. Quaresma. pelas praias até o Campo de São Cristóvão. jorrar devagar. se estava. às vezes. e quando acontecia cair uma. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou! Eram sempre esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. logo acabado o espetáculo. recuou um pouco e logo foi posto em posição. cantando. e. A embarcação deixou de provocar a fúria do posto do Caju.. seguiam o bombardeio como uma representação de teatro: “Queimou Santa Cruz! Agora é o ‘Aquidabã’! Lá vai!” E dessa maneira a revolta ia. só vinha à noite. lapiseiras. os rapazes como as velhas. Ia vendo aquela sucessão de cemitérios. Descia a cidade e deixava o posto entregue a Polidoro ou a Fontes. Todos se abaixaram. Havia muito dinheiro. marceneiro de profissão e em atividade numa fábrica de móveis. inofensiva. a interessá-la. porque Polidoro. saía. Ia às vezes ao teatro.. vendo o astro solitário pratear a água e encher o céu. gritavam: queimou! Houve um em Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade. além do que havia também a morte sempre presente. faziam-se também coleções das médias e com os seus estojos de metal. à paisana. Em outras tardes. Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças. areados. ornavam os consolos. como vasos de faiança ou estátuas. uma bela lancha que chegou fazer-se entidade na imaginação da urbs. Além dos soldados. Com o tempo. com as suas campas alvas que sobem montanhas. quando o aborrecimento lhe vinha. a revolta passou a ser uma festa. vendedores de jornais. feitas com as pequenas balas de fuzis. corriam todos em bolo. no tempo em que era do tom apreciá-las no velho jardim de Dom Luís de Vasconcelos. Nos cais Pharoux. o governo pagava soldos dobrados. e foi-se embora. os “melões” e as “abóboras”. a assistir o tiroteio. a criar inimigos e admiradores. engraxates. às trincheiras. polidos. no navio. havia curiosos. a bala passou alto. os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia. a apanhá-la como se fosse uma moeda ou guloseima. tanto ele como a “Luci”. das árvores. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa. Os teatros eram freqüentados e os restaurants noturnos também. como carneiros tosquiados e limpos a pastar. a ver.80 golfão de fumaça espessa: Queimou! . familiarmente. dos urinários. entrando nos hábitos e nos costumes da cidade. As balas ficaram na moda. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra caía na banalidade da repetição dos mesmos episódios. zunindo. a esperar a queda das balas. Quando se anunciava um bombardeio. berloques de relógios. em outras. logo que Polidoro chegava. . um cidadão qualquer chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá licença que dê um tiro? O oficial acedia. num segundo. os jornais do tempo ocuparam-se com ele. Um herói! Passou a revolta e foi esquecido. gratificações. Os mais dias que passou naquele extremo da cidade não eram diferentes deste. Era como se fosse uma noite de luar. o terraço do Passeio Público se enchia. saía a pé.

Uma iniqüidade! Era velho um pouco. recolhidas e concentradas.. aparecia de onde em onde nos destacamentos do seu corpo.Meu caro tenente. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma. É verdade que o governo ainda não organizara a sua esquadra. em face daquelas contestações. “quis executar um senhor feudal porque . que não se cansava de dançar a perna e alisar os longos favoritos brancos. diremos logo nós. A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda. ..” “São Luís”. ele próprio. E a sua afirmação fez calar todos.Não se deve desesperar.Quantas deserções? . É um desertar sem nome. aduziu ceticamente Bustamante. pela boa caligrafia com que eram escritos os livros mestres. ele logo perguntou ao major: . Ora! disse o almirante..Eu não sei o que tem essa gente.Fazem muito bem. . Ele era magro e chupado. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia vice-almirante.. e. Falta-lhes patriotismo! .81 As casas tinham um aspecto fúnebre. de ordem. embora no íntimo duvidosos. É uma curiosa Idade Média. acrescentou Albernaz. mas. falou com unção: . Caldas andava aborrecido. . atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame mais a mulher deste e filhos” . a organização do seu batalhão era irrepreensível.. aí deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residência do General Albernaz. . ele não comandaria nem uma divisão... e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lúgubre.. os mapas de companhia e outros documentos. as relações de mostra. almirante. nessa matéria ele podia despender toda uma energia moça. que a gente não sabe onde fica.. Com a sua voz arrastada e nasal. pessimista. para fazer sentir nela tão forte aspecto funéreo. . nove. Fontes. mas dentro do quartel. depois de ouvir todos.Isto há de sempre ser o mesmo. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe tinha dado cousa alguma. Bustamante era um comandante ativo.Houve já um esboço: a Idade Média. Não trabalhamos para nós. não se agastou. O major nada disse. Foi vindo até ao Campo... Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo. Ninguém ali lhe podia contestar. . Eu sei o que são essas cousas. Bustamente. agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários. continuou Fontes persuasivo.. O tenente respondeu: . Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores. Com auxílio deles.Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas. . Havia dez dias que Quaresma o não via. entretanto. em que ano? Se a gente diz: “No tempo de Clotário.o positivista objeta: “Ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja. as palmeiras ciciavam doridas. o mar marulhava lugubremente na ribanceira lodosa. é verdade. ao contrário dos seus congêneres de seita. Não havia quem como ele se interessasse pelos livros. Após os cumprimentos..Até hoje. Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu: ..Eu também penso assim. o Tenente-Coronel Inocêncio Bustamante. disse Quaresma. pelo rumor que corria. moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali. mas para os outros e para os vindouros. de felicidade e evolução moral. por não ter nunca comandado. para não deixar de vigiar a escrituração.O almirante não deve falar assim. além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas.Muito. com suas mãos. Acabavam de jantar e jantara com o general. o comandante de Quaresma. A pátria está logo abaixo da humanidade. parecia desinteressado da conversa.Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas. o general e Quaresma assistiam à pequena discussão calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a fúria de Caldas. o senhor é moço. essa de elevação moral.

Quantos homens tem você? .. Quaresma veio acompanhá-lo até ao bonde. . perguntou. As anosas mangueiras. há dias passados. pequenos. Não tinha plano algum. Por fim. a arrancar. Quaresma veio ao seu encontro. Albernaz ainda não tinha dado o seu aviso. sossegados como que dormiam. Ele procurava ver Ismênia. As condições naturais eram outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inútil. Quase ao despedir-se.Quarenta. e veio a fazê-lo assim: . Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior. O luar estava magnífico. eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja. Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil. mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma improficuidade patente. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e o major se sentia por qualquer cousa preso à moléstia da moça. O almirante criticava severamente o governo. terno e leitoso. Viu todos: Dona Maricota. mas em virtude daquela doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos. e o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista consumado.. sempre ativa e diligente.. o marechal perguntou: . e uma curta sobrecasaca surrada. muito quietos. Deitou-se um pouco. vestido. levava a dar tiros à toa.. embora isso custasse rios de sangue. Lalá. cada vez mais abismada na sua mania. falou mais. e por pouco! . de quando em quando. O marechal respondia por monossílabos preguiçosos e olhava ao redor. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de família em aventuras extraconjugais. O major cumprimentou-o e esteve a dar-lhe notícias do ataque que fora feito ao seu posto. parece que nos tiram o envoltório material e ficamos só alma. mas sofria sem perceber o efeito da luz pálida e fria do luar. não por sono.Não sei.. de madrugada. pareciam polvilhadas preciosamente de prata. Um pouco afastada da estação uma locomotiva.Isto é. Eram dez horas quando o major se despediu.. disse Fontes. O senhor sabe. Bustamente não tinha opinião assentada. a miséria dos campônios. Quaresma voltara ao silêncio. esteve lá! . Semelhava roncar. envolvidos numa branda atmosfera de sonhos e quimeras. enfraquecendo-se de corpo. já devia ter feito todo o esforço para ocupar a ilha das Cobras. às vezes. e ir de posto em posto. disse com um longo suspiro: . naquela noite. as ladroagens à mão armada dos barões. Quaresma. não se conteve.. Voltou de bonde para a Ponta do Caju. da sala de visitas à sala de jantar onde ele estava. na sua opinião. dizendo vagarosamente. lentamente: . Citam-se as epidemias de moléstias nervosas.Entretanto. de delíquio.. É uma emoção de desafogo do corpo. com o olhar. semi-acesa. Os dous andavam. as alucinações do milênio. Não sei. Vinha cheio da perturbação especial que põe em nós o luar que estava lindo. não a tomaram. banhados pelo luar. com falta de galhos aqui e ali. resfolegava. Atravessaram o velho sítio de recreio dos imperadores. Dentro em pouco Ricardo veio chamá-lo: o marechal estava aí. dormindo. o noivo da conversa interminável. O major não colhia bem a sensação transcendente. Floriano vestia chapéu de feltro mole. e as outras que vinham. mas o Camisão disse-me que foi arriscado. Era seu hábito sair à noite.Hei de mandar pôr um holofote aqui. outra que ele já tinha desaparecido. abas largas. as cruéis matanças que Carlos Magno fez aos saxões. O fato se espalhou pelo público que o apreciava extraordinariamente. O general contou tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquela sua desgraça íntima.Mas nós reconhecemos Humaitá.82 mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. os carros.” Objeta o fiel: “Você não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a decadência”. Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta.

se a visse.Já.. Eu não sei. mais Quaresma se entusiasmava. disse: . dava fisionomia às cousas.. Num dado momento.Eu tenho experimentado tudo. dizendo com aquela sua placidez de voz: . A lua povoava os espaços. Pareceu-lhe mais simpática a fisionomia do ditador. mas não sei. teria de esfriar. por mais que não quisesse. O presidente aborrecia-se. Quaresma voltou-se. com medidas enérgicas e adequadas... Continuaram a andar.. Vossa Excelência verá que tudo isto muda. plástico e opalescente. está capaz de favorecer.. Num dado momento. Num dado momento como que houve uma bulha atrás. marechal? Floriano respondeu lentamente. O bonde partiu. que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?! Não havia exército que chegasse... Os dous se haviam encontrado na pagadoria da Guerra e vinham pelo campo de Sant’Anna. como cotos de asas. por exemplo. Albernaz reatou: .. Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I.Mas. O general era mais alto que Quaresma. encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéu de feltro... pensa você. Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. O luar continuava lindo. . O major pensou: que é que tem? não há desrespeito algum.. é um visionário. os feiticeiros tisanas.Vossa Excelência já leu o meu memorial. pois havia na sua máscara sinais do aborrecimento mais mortal. À proporção que falava. aquele a tinha metida entre os ombros proeminentes. Tenho corrido médicos.Você. era indispensável. Se lhe falasse. enchia a vida. desde que se corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptável às condições do país. III . Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. enfim. não é isso.. com o seu prestígio e poder. marechal. Vossa Excelência. Quaresma entusiasmou-se: . e enquanto este tinha a cabeça sobre um pescoço alto.E Tornaram Logo Silenciosos.Vê Vossa Excelência como é fácil erguer este país. ficaremos com a nossa independência feita. a pé. em vez de tributários. mas.. não há meio! . quase sem levantar o lábio pendente: . O major continuou a mastigar a sua pergunta. de favorecê-lo e torná-lo remunerador.83 O marechal mastigou um: “não é muito”. e voltou ao mutismo.. Bastava. Quaresma! E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do pince-nez.. até feiticeiros. Quaresma. aquele apelo à legislação. a medidas governamentais. rezas e defumações. titubeou. Quaresma. andando a pequenos passos e conversando. mas não teve coragem de pronunciá-la.Já a levou a um médico especialista? .. Aproximaram-se do portão.Li.E remédios! Cada médico receita uma cousa. os espíritas são os melhores.. Preparou a pergunta. Ele não podia ver bem a fisionomia do ditador. iam mover-lhe o pensamento.. fazia nascer sonhos em nossa alma. Tomou coragem. Quaresma espantou-se.. Os edifícios da serraria pareciam cobertos de neve. ele se despediu do major. com vidraças e portas feitas com a luz da lua...Mas. no memorial que Vossa Excelência teve a bondade de ler. que. O bonde chegou. o portão estava a dous passos. Desde que se cortem todos aqueles empecilhos que eu apontei.. de encaminhar o trabalho. Era um palácio de sonho. com a sua luz emprestada. urgia. o aparecimento de iniciativas. dão homeopatia.. ousou e falou: . Aquele falatório de Quaresma. mas Floriano quase não o fez. tanto era o branco luar. Quaresma! . mas retorquiu: . Quaresma. Um grande edifício inacabado que havia na rua parecia terminado. espíritas. Se Vossa Excelência quisesse.

. no estado em que a menina está. A doente assistia a tudo aquilo sem compreender e se interessar por aqueles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se comunicavam. Levantou o olhar ao fim de algum tempo. definhando.84 E levantou os olhos para o céu. vivendo de cama. não vale a pena. olhando ternamente aquele grande rosto negro do mandingueiro. contra os espíritos. onde a barba branca punha mais veneração e certa grandeza. e disse: . perguntava: . ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras ininteligíveis. Era uma singular situação. gritavam: “Sai. titio? O preto considerava um instante.Vô vê. nhanhã.Então foi feitiço que fizeram à minha filha? perguntava a senhora. Os feiticeiros tinham outros passes e as cerimônias para entrar no conhecimento das forças ocultas que nos cercam eram demoradas. Na saída.. Andando. tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra cousa esquisita. acendiam um fogareiro no quarto. arrancado há um meio século dos confins da África. do peito para a moça.. enlanguescendo. general? . muito nessa postura. não tanto da sua moléstia mental. marcado com um curso governamental. ficam com uns olhos desvairados.. velho escravo. Não se demorou. Os médiuns chegavam perto da moça.Meu médico já me aconselhou isso. o general lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo contra a ciência. no intuito de descarregar sobre ela os fluidos milagrosos. resíduos que tão a custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses . lançara mão de todos os recursos.. . eram pretos africanos. naqueles últimos meses. já começava a cair.. que. que estava um tanto plúmbeo. E o preto obscuro. lançando mão dos resíduos de suas ingênuas crenças tribais.Por que não a recolhe a uma casa de saúde. quisessem vingá-lo à legendária maneira do Cristo dos Evangelhos.. o pince-nez não permitia. que tinham às suas ordens os seres imateriais. de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.e sacudiam as mãos. . aqueles sanguinários manipansos da África indecifrável. porém.. Em geral. as existências fora e acima da nossa.e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro tempo. mas da saúde comum. rapidamente.Foi. da Ismênia. procurar médiuns e feiticeiros. . Às vezes até levava-os em casa. Era de fazer refletir ver aquele homem. Falava da filha. a daquele preto africano. contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos sem piedade e comiseração. lentas e acabadas. e dizia com a sua majestade de africano: . Ela e o general tinham assistido à cerimônia e o amor de pais e também esse fundo de superstição que há em todos nós levavam a olhá-la com respeito. quase com fé.. sempre febril. como se estivesse recebendo as últimas comunicações do que não se vê nem se percebe. irmão!” .Santo não qué dizê.Então. marchando a passos largos para o abraço frio da morte. ao lado de Quaresma. general. Albernaz dizia a verdade. Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio.Quem? . fixos. . para curá-la tanto de sua loucura como da atual moléstia intercorrente. O ritual era complicado e tinha a sua demora. davam um estremeção. para sarar a filha. um tanto já diminuída da sua atividade e diligência. de lá para cá. saía arrastando a sua velhice e deixando naqueles dous corações uma esperança fugaz.. Como que os deuses de sua infância e de sua raça. sim. Tô crotando mandinga. a pobre Dona Maricota. contra os feitiços. piorava sensivelmente. nhãnhã. nervosamente. Chegavam. batiam com feixes de ervas. ainda certamente pouco esquecido das dores do seu longo cativeiro. A mulher não quer e agora mesmo.

Bem. era ele não ter quase borda acima d’água. demonstrando que esperava o dinheiro. Entretanto. por onde saíam e entravam.. Não se soube e até hoje não foi esclarecido por que foi. Quaresma foi procurar o Doutor Armando. As forças de terra detestavam-no particularmente. uma espécie de sáurio ou quelônio de ferro. ficar quase ao nível do mar e fugir assim aos tiros incertos de terra. raso com a água. chato. pela sua ferocidade e insofrido gosto pelo saque e outras vexações. porém.Três mil-réis. O que não podia ser transplantado. A ocupação deixou lá a mais execranda memória e até hoje os seus habitantes ainda se recordam dolorosamente de um capitão. sendo um destes o “Javari”. Passava um pescador. A pequena cidade tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro. Como o do seu irmão.. agradecido por este ou aquele benefício que o famoso coronel lhe prestou. quem sabe lá! Não acha? Pode ser. de construção francesa. A ilha do Governador tinha sido ocupada e Magé tomado. As forças revoltosas pareciam não ter enfranquecido. Cada médico que consultava. era destruído pelo fogo e pelo machado. sem temer o estorvo das fortalezas. Era um monitor. cuja reputação na revolta era das mais altas e consideradas. uma das poucas páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões.Venha cá! O homem aproximava-se amedrontado e Ortiz perguntava: . porém. pois de todos eles esperava o milagre. o senhor permite que eu a faça ver por um médico? . patriótico ou da guarda nacional.É o marido de minha afilhada. Está caro. a insurreição chegava às portas de São Paulo. capitão vá lá por dous e quinhentos. chegavam ao ouvido de Quaresma e ele sofria..Quem é? .. A sua artilharia era temida. tinham a vasta baía e a barra apertada. Ortiz. e só a Lapa resistia tenazmente. uma energia. mas os revoltosos asseguraram que foi a abertura de uma válvula ou um outro acidente qualquer. Um dia em que estava nas proximidades de Villegaignon. Moreira César deixou boas recordações de si e ainda hoje há lá quem se lembre dele.Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano. Afinal disse: . No Sul.Você não deixa por menos?.General. os revoltosos.. não é? O general consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho: .Quanto quer por isso? . o fim do “Javari” ainda está envolvido no mistério. Ele sorria diabolicamente e familiarmente regateava: . cada feiticeiro reanimava-o. que desapareceu nas costas de cabo Polônio. porque era sereno. Isso é peixe ordinário. O pescador voltava e ficava um tempo em pé. tinham.85 O major não sabia o que dizer diante daquela imensa dor de pai e parecia-lhe toda e qualquer palavra de consolo parva e idiota.. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até à morte. .. e o capitão chamava o pobre homem: . verdadeiramente isso. A revolta já tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram problemáticas. confiante e justo. com uma tampa de peixe. Ele falava na porta de casa. perdido dous navios.Leve isso lá dentro. foi a pique.. Os legalistas afirmaram que foi uma bala de Gragoatá. capitão. Nesse mesmo dia. o “Solimões”.. É moço. o senhor conhece. uma vontade. roupas e outros haveres. Carapebas! Ora! .. Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de móveis. As suas máquinas não funcionavam e a grande tartaruga vinha colocar-se em posição de combate com auxílio de um rebocador. As violências. mas o que sobremodo enraivecia os adversários. cada espírita. os crimes que tinham assinalado esses dous marcos de atividade guerreira do governo. .

sendo uma espécie de inspetor-geral. até ali. Ele nada tinha com ela. Tinham-lhe tirado o sangue. como se fossem feições de uma festa. dormira aquela noite no pequeno pavilhão imperial e ia ficar até à tarde. e passava os dias taciturno. que um olhar. não tendo protestado manter a sua nacionalidade. pois até agora o governo não aceitara os seus oferecimentos de auxiliar o tratamento dos feridos. esperando o fim da rebelião que não parecia estar próximo. e. resolveu demorar-se mais. de uma justa. Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue. naturalmente. não esquecendo também de passear pelos corredores do Itamarati. interpretados por qualquer funcionário zeloso e dedicado. aquela exigência de passaporte. obrigara a Bustamante a fazê-lo sargento. em prisão de Estado. apelava para a sua condição de estrangeiro e metia-se numa reserva prudente. toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. De resto. porque o antigo veterano do Paraguai encarecia muito essa graduação e só a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas importantes. Fontes notara a sua tristeza. a fim de cumprir a promessa que fizera ao general. a passagem de balas. Deixara lá Polidoro. de quando em quando. não o levassem a sofrer maus quartos de hora. andava macambúzio. ficasse no ilhéu do mesmo nome. e. extinta por uma descarga das forças legais. desde o dia da proibição de tocar violão. ido dar volta pela cidade. de um divertimento qualquer em que a morte não estivesse presente. o doutor tinha saído. e todos esses que ele sentia. temendo que uma palavra. o motivo de viver. Ricardo Coração dos Outros. dentro da baía. E o doutor tinha razão. A moça viu entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu padrinho lhe causava ultimamente. Naqueles tempos. tanta arrogância nos funcionários que ele não se animava a ir obter o documento. se os representantes diplomáticos de seu país tomariam interesse pela sua liberdade. quando o governo provisório expediu o famoso decreto de naturalização. porém. e Fontes. encostado a um tronco de árvore maldizendo no fundo de si a incompreensão dos homens e os caprichos do destino. Floriano pagara a quantia de cem contos. . Coleoni. por cuja vida. O major foi encontrar pai e filha em casa. ele nada tinha que fazer. ele se afastava um pouco e ensaiava a voz. se era muito instado. em frente à Saúde e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos.86 Quaresma permanecia de guarnição no Caju. já obtivera uma graça governamental. caso fosse preso. na vaga de um colega. ao contrário de seus hábitos. não era marinheiro e não sabia. para minorar-lhe o desgosto. que um gesto. não dissera a ninguém a sua opinião. que. tirado na chefatura de polícia. A época era de susto e temor. Havia tanta má vontade com os estrangeiros. só os comunicava à filha. dava-lhe susto. porque o genro cada vez mais se fazia florianista e jacobino. de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos estrangeiros. era bem possível que uma ou outra parte se ativessem a isso. e viera receber dinheiro. simplesmente. fazendo-se ver pelos ajudantes-deordens. secretários e outras pessoas influentes no ânimo de Floriano. para desinteressar-se dele ou mantê-lo na famosa galeria nº 7. Não foi sem custo. Fora nomeado médico do Hospital de Santa Bárbara. após despedir-se de Albernaz. pois os outros oficiais estavam doentes ou licenciados. Coleoni ainda não decidira a sua viagem à Europa. demitido a bem do serviço público como suspeito por ter ido visitar um amigo na prisão. Como o hospital. conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio. Mas. porém. por uma penada mágica. tratava-se de um marinheiro. e. para ver se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos. Hesitava. da Casa de Correição. encaminhou-se para a casa do seu compadre. Ele. dar arras de sua dedicação à causa legal. Verdade é que ele era italiano e a Itália já fizera ver ao ditador que era uma grande potência. A vida do pobre menestrel era assim de um melro engaiolado. transformada. mas no caso de que se lembrava. as descargas das lanchas. e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento. e.

. antes de voltar ao Caju. passar pelo quartel do seu batalhão. Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se.. havia instantes que lhe vinha um mortal desespero. abrangia-a ainda na sua bondade geral. uma coisa vazia. se não tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de Albernaz. Via bem o que fazia o desespero da moça. Eram elas satisfatórias. que não avaliava o alcance dos seus projetos. desânimo e desesperança. se não se interessava pela sorte deles. fez uma imensa bulha com a arma e ele entrou. Vivia nessa alternativa dolorosa e era ela que lhe trazia apreensões. que.. . Não se demorou muito na casa do compadre. à pobreza intelectual e fraqueza de energia vital de Ismênia. . perdeu a dureza de que se revestira. porém.. a sentinela deu um grande berro. abandonando os episódios da sua vida militar. mas via melhor a causa. que os não examinava sequer. mais tarde com certeza ele fará a cousa. não é maternidade. que elas se devem casar a todo o custo. . Ia ver se arranjava uma pequena licença. no momento.Mas qual delas? perguntou a afilhada. deixando perceber numa frase e noutra o desânimo e desesperança.Esta mesmo. pois percebia bem que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo. Na verdade o major tinha um espinho n’alma. mas logo que se viu rico. Era pois para sustentar tal homem que deixara o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era. Não tardou. lá para as bandas da Cidade Nova.Ahn!. notados por sua afilhada na sua fisionomia já um pouco acabrunhada. tirando o chapéu da cabeça baixa. ficar solteira. . O quartel ainda ficava no velho cortiço condenado pela higiene.87 Tanto mais que o via apreensivo.. ele queria. . pelo enriquecimento do país. por esse homem que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos. a ponto de parecer uma desonra. por carta. Ultimamente o major tinha diminuído um pouco o interesse pela moça. uma raiva de si mesmo. não pode agora. Toma muita cautela. o progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural? Pensando assim. Ela pronunciou este “ahn” muito longo e profundo. havia uma frase de que. Assim que Quaresma apontou na esquina. mas em seguida considerava: o homem está atrapalhado. fisionomias com quem se encontrava diariamente há tantos anos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituísse a calma e a paz de espírito. uma injúria. desinteressado daquelas altas cousas de governo como se não o fosse!. Aquela recepção de Floriano às suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a idéia que ele fazia do ditador. andava atormentado com o seu caso de consciência. pela sua vida feliz e abundante. pois estava a paisana e tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as susceptibilidades republicanas dos jacobinos. larga e humana. para visitar a irmã que deixara lá. Na última carta que recebera de Dona Adelaide. não é nada disso: é simplesmente casamento. quando lutava pela fortuna se fez duro e áspero. sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades. aquela fuga do noivo se transformou em certeza de não casar mais e tudo nela se abismou nessa idéia desesperada. O casamento já não é mais amor. se lembrava sorrindo: “Não te exponhas muito. Saíra ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar com um presidente que o chamava de visionário..A segunda. Graças à frouxidão. Policarpo. no “Sossego”.Aquela que estava para casar com o dentista? . como se pusesse nele tudo que queria dizer sobre o caso. fazendo do casamento o pólo e fim da vida.. Sendo bom de fundo. naquela obrigação que incrustam no espírito das meninas. e de quem tinha notícias. entretanto..” Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negócio de balas é assim como a chuva?!. pois. Quaresma explicasse o motivo de sua visita. três vezes por semana. contudo ele tinha necessidade de ver tanto ela como o Anastácio. a Ismênia.

. disse Bustamante.A revolta ainda não acabou? . alisando o cavanhaque mosaico e abrindo a boca para o lado esquerdo. quando a olhava muito.. e assim foi que.. o seu organismo caía. sargento! É como mandam as instruções de 1864.Para onde? . porque só viu o major quando já ia longe. Não sabia. irrepreensível no seu uniforme verde-garrafa. O instrutor coxo continuava. animá-la e. as irmãs se desinteressavam um pouco.Quando se acabar a revolta. no Café do Rio.... estava sempre no quarto da filha. se a mania parecia um pouco atenuada. o instrutor coxo adestrava novos voluntários e os seus majestosos e demorados gritos: ombroôô. . Estava magra e fraca..Não. Raro era falar muito.. fazia-o uma espécie de batalhão da guarda. alamares dourados e vivos azul-ferrete. o comandante exclamou radiante: .. Antes de chegar ao correio.. Bustamente estava no seu cubículo. Começava a tarde. Não se assuste. Percebeu que era impossível obter a licença e também necessário mudar os seus estudos: da artilharia. Podia ser. E passou o dia atormentado pela dúvida do bom emprego de sua vida e de suas energias. para Magé. Quaresma não se espantou. bebeu um pouco d’água. e o Coronel Inocêncio explicou a alegria: ...Mamãe. Logo que viu Quaresma entrar. Mais tarde. examinava a escrita de um livro quarteleiro. do Presidente. A moça continuou a definhar. tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes. mais conhecido por gabinete. armas! mei-ããã volta.. a consolá-la. Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?. mas assim não se deu. Havia alguns tiros espaçados. Correu a uma livraria e comprou livros sobre infantaria. era do Itamarati. Dona Maricota. a gritar: om-brôôô. Ele desceu até à cidade e foi ao correio. e. para Niterói? Não sabia.Não. mais belos se faziam quando cercavam a palidez de sua face. Parecia que assim dava mais importância a si mesmo e ao seu batalhão.O major é que vai comandar o corpo. Com auxílio de um sargento..O major adivinhou! Quaresma descansou placidamente o chapéu.. os levitas continuavam a trocar idéias para a consolidação definitiva da República. A moléstia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismênia.. Tenho que acabar a organização da unidade e não posso.88 No pátio... sabia? . pois as exigências de sua mocidade levavam-nas para outros lados. quando Quaresma saiu do quartel.Sabe que temos de marchar? . Ele não dizia nunca do quartel-general. O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do general. a ponto de quase não poder sentar-se na cama. precisava também dos regulamentos: arranjaria no quartel-general. mais tarde irei lá ter. . do chefe supremo. favorito e amado do ditador. Ele levava a íntima convicção de que a sua ciência toda nova pudesse fazer alguma cousa. Quaresma lembrou-se de sua partida..Tinta vermelha. majestade e demora. . tirado o mortiço dos olhos e os seu lindos cabelos castanhos..Não sei. E o senhor não vai? . coronel.. Para onde ia? Para o Sul.. nem se aborreceu. como que se sentia um tanto culpada pela sua infelicidade. Recebi ordem do Itamarati. tinha que passar para a infantaria. nem mesmo do ministro da Guerra. armas! A sentinela não pôde fazer a bulha da entrada. naquele dia. Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante. . se espantou muito Dona Maricota com a loquacidade da filha.. quando se casa Lalá? . volver! subiam no céu e ecoavam longamente pelos muros da antiga estalagem.. tinha-lhe diminuído a lassidão. Era sua mãe quem mais junto a ela vivia. com reflexos de ouro. às vezes. talvez. com força.

Mamãe.Eu sei.. Ismênia despertou: viu. Quaresma foi ao enterro. A morte tinha fixado a sua pequena beleza e o seu aspecto pueril. mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa à senhora. Quando a vieram ver. por aí. vaidosos. com a inocência e a falta de acento próprio que tinha tido em vida. deu com a porta semicerrada e levantou-se para fechá-la. com os seus traços miúdos e os seus lindos cabelos. seu pai vai levar você para Minas. Iludindo sua mãe. no caixão. na estreiteza da várzea e nas encostas das colinas. Ela ouvia tudo com paciência e voltou por sua vez serenamente: . Pôs a saia.Não diga isso. O enterro foi feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia. Teve uma fraqueza..uma multidão que trepava. Lembrou-se do seu noivo. . Havia ali. Quaresma viu o caixão do coche parar na porta do cemitério. doce e naturais. A mãe saiu do quarto. coberta de flores. e que a tivesse impressionado.. Dona Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue às irmãs. mamãe. e.. Sinhá. .. em outras. Quis ainda ver se a dissuadia daquele pensamento. Pouco mudara. que estava dentro daquelas quatro tábuas.. sentava-se à cama e conversava com prazer. tinha conseguido consultar Mme. alegres e tristes.Surpreendeu-se. desde alguns dias. por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto. Chegou-lhe o desejo de vesti-lo.Qual. com um leve respirar espaçado. voltou-se para o outro lado. falava com discernimento. alisando-lhe a face com a mão. Que mulher má! Desde esse dia. solicitações incompreensíveis. saltava-lhe do corpinho.. Teve vontade de vê-lo mais de perto. mas veio. mamãe.Eu quero. uma cousa. vestida de noiva. o seu traje de noiva. vieram recordações do seu casamento falhado. com as pernas para fora. pôs-se a dormir. e foi ao espelho. . deu um ai e caiu de costas na cama. toma forças.. Contemplando aqueles tristes restos. porém. como se se tratasse de uma criança. se tocava.. humildes.. minha filha.. ela parecia melhor. acompanhada por uma criada. o seu colo muito branco. mas não se recordou com ódio. Qual morrer! Você vai ficar boa. você engorda. com lágrimas nos olhos e a secreta certeza de que a filha falava a verdade. Com que indiferença ela lhe respondeu: não volta! Aquilo doeu-lhe. O Doutor Armando a tinha visitado naquela manhã pela quarta vez.. entretanto..89 A mãe respondeu-lhe e ela esteve um instante calada. troçar. Elas foram lá ao quarto várias vezes e parecia dormir. com um ar imaculado de imagem. lutava por espaço... ir vestida de noiva. seguras. naquele mudo laboratório de decomposições. docemente. atravessar pelas ruas de túmulos . Não tardou muito a se verificar. De quem ela se lembrava com raiva era da cartomante. era a Ismênida dolente e pobre de nervos. antes como se fosse um lugar visto há muito tempo. adiantou-se Dona Maricota. pois não encontrara colete. como nos dias de suas melhores festas. e foi ver a pobre moça. Ah! Acabou de abotoar a saia em cima do corpinho. do nariz fortemente ósseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti. e ela ia para a cova com a insignificância. simpatias e antipatias. Ismêndia. e de muito. estava morta. Suponho que é verdade: o que é que você quer? . O véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente. serenamente: . como um adejo de borboleta. Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplá-lo. Algumas sepulturas como se olhavam com afeto e se queriam aproximar. A mãe dizia-lhe tudo isso devagar. Olhou em redor. Tinha ainda a coroa na cabeça e um seio. muito branco e redondo. após essa contemplação disse à mãe: . As palavras saíram-lhe dos lábios.Bem. Era ela mesma ali. Viu os seu ombros nus. A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. comovida. Distraíram-se. porém.. orgulhosos. e. a filha. repulsões. continuava a repeti-lo pacientemente. olhando o teto. Eu vou morrer. Dona Maricota ainda quis brincar. ele não gostava muito dessa cerimônia. havia túmulos arrogantes. transparecia repugnância por estarem perto.

afastados. O general não respondeu. fardado do colégio. são breves. O major ficou na janela que dava para o quintal. não se pode mais conhecer e é lama pútrida. . nem uma celebridade. estava o general silencioso.. É um relaxamento. mesmo já mortos. ainda ouviu Estefânia dizer a alguém: o coche é bonito. A mãe levantou-se. beijou o cadáver: minha filha! Quaresma adiantou-se. complicações de ornatos. O major voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal. a quem aquela dizia: .. estava deveras combalido. de seus sentimentos.90 ressumava o esforço. tendo ao lado Lalá. às vezes. de quando em quando. “À minha irmã”.. não está lá o Doutor Genelício. chorando. Quinota chegou à sala de jantar. ao fim dos fins. Os seus cabelos já tinham muitos fios de prata. para escapar ao nivelamento da morte. nada se faz. O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. lá embaixo. Ele estivera na sala de visitas. um serviço urgente fizera-o indispensável na repartição. cousas barrocas e delirantes. foi saindo com o chapéu na mão. a doutora.. passou. Genelício apareceu demasiadamente fúnebre. Não lhe fora possível deixar de ir trabalhar. parece que continuam a viver. noutros.. está aí o coche. que levava. com vasos. a de olhos maliciosos e quentes. em alguns túmulos. Na sala de jantar. retratos.. Tudo é desconhecido. um esforço extraordinário. pôde ouvir o almirante dizer: . sereno e calmo. e tudo tranqüilo. para o fim. sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa. O seu pince-nez azulado também parecia de luto. cochilava a uma cadeira. ele tinha afivelado ao rosto a mais profunda máscara de tristeza. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua..Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui. E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido. o azul estava sedoso e fino. As inscrições exuberam: são longas. . e quando Quaresma passou. O tecido do céu se tinha adelgaçado. É caro! Vai ao “Bonheur des Dames”..Eu. cruzes e inscrições.Papai. As grinaldas foram aparecendo e sendo penduradas nas extremidades das colunas do coche: “À minha querida filha”. Na rua parecia que havia festa. Tinha uma tranqüilidade quase indiferente. Saiu. alguns choravam. com letras douradas. O Lulu.É isto. para fugir ao anonimato do túmulo. com fumo no braço. exprimindo uma grande contensão. . Todos estavam vendo sem saber o que fazer. Bustamente e Caldas continuavam a conversar baixo. cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. Não há meio da Marinha mandar os processos certos. moviam-se lentamente ao leve vento que soprava. têm nomes. o lenço aos olhos já secos. se fosse você. As irmãs iam e vinham. O governo está exausto. sobrenomes. caramanchões extravagantes. eram pirâmides de pedra tosca. filiações. Quaresma ainda contemplava o cadáver da moça e o cemitério surgia aos seus olhos com as esculturas que se amontoavam. Não deu um passo.. A Estefânia. As crianças da vizinhança cercavam o carro fúnebre e faziam inocentes comentários sobre os dourados e enfeites. Genelício tomou um partido: foi retirando os círios de ao redor do caixão. Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro. todos aqueles que querem fugir do túmulo para a memória dos vivos são anódinos felizes e medíocres existências que passaram pelo mundo sem ser notadas. um desses nomes que enchem décadas e. Todo de preto. veio até ao esquife. de sua alma! Quaresma quis afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. uma notabilidade. E lá ia aquela moça por ali afora para o buraco escuro. toda a certidão de idade do morto que.. As fitas roxas e pretas. Caldas e Bustamante conversavam baixo. ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas. Falou à mulher que se ergueu com a face contraída. disse ele. onde Dona Maricota também estava.. esteve um instante parada e logo caiu na cadeira. têm datas.. general. não comprava lá. No corredor. tendo ao lado Fontes e outros amigos.

muito brilhantes. em tudo ele punha esse jeito de sua psique. Um dia capinava aqui.. Há sobrecasacas de cintura. foi um divertimento. à simetria. Na sua inteligência havia uma necessidade do tortuoso. tábuas de caixão. deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos. As janelas se povoaram. Entretanto ele cultivava. lá vai o enterro da moça!” O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuário. e. devastando tudo. Para a monótona vida que levava Dona Adelaide. Ela passava longos e tristes dias naquele isolamento. sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana. com um horror artístico. De tal forma são eles esquisitos que se pode mesmo esperar que apareçam calções e bofes de renda. Não faltam também os valentões. Embarcaram todos. como nos canteiros que traçava. caibros bons. A erva daninha crescia e cobria tudo. até os araçazeiros depenavam. Tinha uma horta que disputava diariamente às saúvas. As formigas voltaram também. de continuidade no esforço. as aves de Vênus. apesar dos esforços de Anastácio. há chapéus de seda . o Doutor Campos e o Tenente Antonino. IV O Boqueirão O Sítio de Quaresma. voltava aos poucos ao estado de abandono em que ele o encontrara. irregulares. com calças bombachas e grandes bengalões de pequiá. chegou um outro mais forte que pôs em perigo a segurança de ambos e eles se puseram em expectativa. e assim ia saltando de trecho em trecho. As plantações que fizera tinham desaparecido na invasão do capim. ao paralelismo. Ao osso que ambos disputavam encarniçadamente. Aqueles que iam acompanhar até ao cemitério procuravam os seus carros. com grandes rodeios. na vizinhança. outro pedaço. noutro dia ali.. fugindo à regularidade. escarvavam o chão cheios de impaciência. ele a protegeu pacientemente com uma cerca de materiais mais inconcebíveis: latas de querosene desdobradas. folhas de coqueiros. cujos cavalos. houve um traço-de-união que os reconciliou e os fez entenderem-se. quase sem bater asas. mais terríveis e depredadoras. restos de seara. mas baldo de iniciativa. cobertos com uma rede preta. uma velha cafuza. Tudo aquilo ia pra terra. maiores aqui. em Curuzu. . do carrapicho. tanto no falar. por sua porteira. e. cortar febres. cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o município. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de Felizardo. e o enterro rodou. a Sinhá Chica. esse desfile de manequins de museu. à espera do que der e vier. ruflando estrepitosamente. Era a sua mania. de forma que. todo roxo. entre os dous poderosos contendores. Todos os partidos se fizeram dedicadamente governistas. vencendo obstáculos. incapaz de achar meios eficazes de batê-las ou afungentá-las. alguns pombos imaculadamente brancos. um instante unidos. espadins e gibão. uma teimosia de caduco. A esse tempo. É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Não havia quem como ela soubesse rezar dores. espécie de Medéia esquelética.todo um museu de indumentária que aqueles roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e estradas poeirentas das vilas e lugarejos. em direção à seção eleitoral que lhe ficava nas proximidades. ergueram o vôo. A revolta tinha tido sobre a política local efeito pacificador. de método. menores ali. há calças boca de sino. sem fazer trabalho que se visse. Não se sabe bem donde saem tantos tipos exóticos. permitindo que as terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que não condizia com o seu trabalho efetivo.91 Apareceu o caixão. com guarnições de galões dourados. Os arredores da casa ofereciam um aspecto desolador. um menino na casa próxima gritou da rua para o interior: “Mamãe. o seu vício. não obstante ter à mão bambus à vontade. de um lado e doutro da rua. como os animais da vizinhança a tivessem um dia invadido. O candidato foi imposto pelo governo central e as eleições chegaram. brotos de fruteiras. ruços. do aparentemente fácil. com uma energia e bravura que sorriam aos fracos expedientes da inteligência crestada do antigo escravo. das urtigas e outros arbustos. para o pombal que se ocultava nos quintais burgueses.

encarregado dos batizados e casamentos. parecendo esmalte de olhos de múmia. e um só não ficou. consistia no afastamento das lagartas. entretanto. Os vermes haviam dado num feijoal. entre a gente pobre e mesmo remediada. sobre as forças ocultas. Às vezes. um de um grupo passava para o outro. vitórias extraordinárias. portugueses e espanhóis. e pelos troncos de árvores. . Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento doméstico em cruz. benzeduras e fumigações. No interior. embora não soubesse ler. sujeitos a fugirem aos exorcismos. pois toda a comunicação com Deus e o invisível se fazia por intermédio de Sinhá Chica ou do Apolinário. foram saindo na sua frente.. aos cinco. todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes. mas bem podiam ser esquecidos. como se fossem tocados pela vara de um pastor. deixou uma extremidade aberta e colocou-se na oposta a rezar. Enquanto a terapêutica fluídica ou herbácea de Sinhá Chica atendia aos miseráveis.toda aquela drogaria que crescia pelos campos. por contágio ou herança. cuja evolução mental exigia a medicina regular e oficial. que vedava o exercício de sua transcendente medicina. balbuciando preces que afugentavam o espírito maligno que estava ali. fixos. os mandamentos. abismada nos misteriosos poderes dos feitiços. sentada sobre as pernas cruzadas. Seria a impopularidade. ia ao encontro da população pobre. A sua clientela. era forte no catecismo e conhecia a história sagrada aos pedaços. Na redondeza. devagar. cobrindo as folhas e os colmos. aos milheiros. Além desse saber que a fazia estimada e respeitável. Contavam-se dela milagres. daquela em cujos cérebros. aos vinte. porque a nossa gente pobre faz uso reduzido de tal sacramento e a simples mancebia. tanto ela era encarquilhada e seca. Com o Apolinário. ali nascida ou criada. tinha também a habilidade de assistir partos. o famoso capelão das ladainhas. que nos perseguem ou nos auxiliam. a silvina. Os vermes. a santa madre igreja. A da Sinhá Chica. num rebanho moroso e serpejante. substitui a solene instituição católica. sobre a sede da dor ou da tarefa. e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro. ele era político. e era contado em toda a parte e a toda a hora. era ela o forte poder espiritual da terra. mas não apelou nunca para o arsenal de leis. não se resumia só na gente pobre da terra. espécie de oficial de registro civil. quando as ervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pílulas do doutor eram impotentes. É de dever falar em casamento. Vivia sempre mergulhada no seu sonho divino. era nas moléstias graves. Armou-se de um pequeno desdém pelo poder sobre-humano da mulher. nas incuráveis. Um dos mais curiosos. mas também por aquela estranha superstição européia de que todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria. nas complicadas. denunciadoras do seu estranho poder quase mágico. as duas medicinas coexistem sem raiva e ambas atendem às necessidades mentais e econômicas da população. havia mesmo recém-chegados de outros ares. de fraco brilho. olhos baixos. o proprietário já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes de Sinhá Chica. pelas capoeiras. repetidas vezes. O vigário ficava relegado a um papel de funcionário. por toda a parte. as orações ortodoxas. Pôs cruzes de gravetos pelas bordas da roça. assim como se fizesse uma cerca de invisível material que nelas se apoiasse. aduzindo a eles interpretações suas e interpolações pitorescas. Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradável. o cipóchumbo . quase grátis. rezando em voz baixa. ainda vivem os manitus e manipansos. aos dez. A velha lá foi. aos pobretões. a do Doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos. Não tardou o milagre a verificar-se. não tanto pelo preço ou contágio das crenças ambientes.92 curar cobreiros e conhecesse os efeitos das ervas medicinais: a língua-de-vaca. aos dous.. Não esquecia também os santos. que se socorriam da sua força sobrenatural. aos quatro. O Doutor Campos não tinha absolutamente nenhuma espécie de ciúme dessa rival. italianos.

. saíam com a “harmônica” a tocar peças. O “Sossego” parecia dormir. de trabalho. imprecações . era à noite. se aparecia. com as suas lindas flores rosadas e brancas que. um espelho. satisfeitos. Oh!. bracejando angustiosamente para o céu mudo. mas o trabalho continuado. de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o chilreio álacre do passaredo. repugnava-lhes à natureza. caíam docemente como aves feridas. a Irlanda. Parece que nem um dos grandes países oprimidos.. assim de quinze em quinze dias. Embora seus pais vivessem em casa de Quaresma. Máquinas agrícolas. A ausência de Quaresma trouxera para o seu sítio essa atmosfera geral da roça. há fuga para o sonho.. dorme-se. voltavam para casa alegres. dormir de encantamento. orçava pelos vinte anos. aparecia pouco em casa de Quaresma. duvido da sua razão de ser. Tinham dous filhos.e tudo isto no seio da treva profunda da noite. sem força e sem crenças. não se ouvia mais o cacarejar das aves no galinheiro. capazes de dedicação. mas que me levou à cama e tratar-me-á uma convalescença longa. a imprevidência.. não era mais confiante.. Filha: um combate de trogloditas. no que eram exímios. a coronhadas. parece morto... bugigangas que denunciavam ainda neles gostos bastantes selvagens. Só agora posso responder-te a carta que recebi há quase duas semanas.. essa espécie de desânimo doentio. Que combate. a ponto de não terem medo do recrutamento. tinha de sopetão outro acento. Dona Adelaide não tinha nem gosto nem atividade para superintender aqueles serviços e fruir a poesia da roça. mesmo desespero. escrevia-lhe cartas desesperadas. a machado. a espaços. um vidro de água-de-colônia. dormia vestido. naqueles há revolta. eu duvido. de um brilho azulado e doce. Passavam então uma semana em casa. que não haviam ainda servido. enferrujavam com a etiqueta da casa. sendo a presença deles muito requestada nos bailes da vizinhança. Comprava os gêneros na venda e não se incomodava com as cousas do sítio. nem mesmo a da feitiçaria. quase sempre nos dias de festa e domingos. como uma pena ou castigo. desalento. Ansiava pela volta do irmão. cochila. o marido dela. era porque de todo não tinham que comer.. José. ambos inertes. e. Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batíamo-nos à baioneta. a dormir ou perambular pelas estradas e vendas. Justamente quando ela me chegou às mãos. passando os dias pelos matos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já tinha acabado. a Polônia. moles. a facão. Eram dous rapazes: o mais velho. Eu duvido. porém. traía desânimo. faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade do valor. à espera que o príncipe o viesse despertar.todo esse hino matinal de vida. Tudo aí dorme. mas que tristeza de gente! Ajuntavam à depressão moral dos pais uma pobreza de vigor físico e uma indolência repugnante. todo o dia. Uma confusão. A última recebida. no nosso. com um lenço de cores vivas. das rezas e benzeduras. às quais ele respondia aconselhando calma. a poesia e o viço sedutor de plena natureza. chorões sinistros. que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pai. passo as mãos pelos olhos como para afastar uma visão má. Vivia num constante pavor. De manhã. o esvoaçar dos pombos . duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de . à noite. ferimento ligeiro é verdade. Essa atonia da nossa população. de lealdade e bondade. Sofria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na cidade. acabava de ser ferido. estavam hediondos e morriam de tédio no abandono em que jaziam. galgando a janela e embrenhando-se na capoeira. milha filha! Que horror! Quando me lembro dele. e ninguém sabia ver as paineiras em flor. De quando em quando.. que tinham chegado com a relva reluzente. duvido da justiça disso tudo.. Eram. entretanto. Aqueles arados de ponta de aço. e. Levavam o descuido da vida. um infernal zunir de balas. a Índia apresentará o aspecto cataléptico do nosso interior. raramente lá apareciam. uma cousa pré-histórica. Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho contínuo. de indiferença nirvanesca por tudo e todas as cousas cercam de uma caligem de tristreza desesperada a nossa raça e tira-lhe o encanto.93 Felizardo.. Fiquei com um horror à guerra que ninguém pode avaliar. “Querida Adelaide. fazendo promessas. se o faziam. entusiástica. à menor bulha ouvida.

.. O trem.... Ricardo. também foi descobrir dentro de si muita brutalidade.. delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos.... ambos pelos mesmos motivos. eu matei! E não contente de matar. e ele se limitou a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquele seu “Sossego”... contudo. uma cidade. não encontrou um país. ferido como estava. era..... não física. A sua sensação era de fadiga. Tanto na ida como na volta.. viver. convalesceu longamente.. sempre a matar. aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos milenários combates com as feras. era a consciência... não viera vê-lo. Perdoa-me! Eu te peço perdão... estava o verdadeiro sossego. ninguém deseja penetrar e sentir.. O primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseqüente volta para o quadro. o lançara na mais terrível das aventuras. Adelaide. demoradamente. eu já tenho medo de viver. na quietude mais absoluta possível.. mas moral e intelectual.... Além do que.. minha irmã.” ... sem amor..... passo por doido. e o sangue que derramei. Eu não vi homens de hoje. Ninguém compreende o que quero. Adelaide. para que do fundo de mim mesmo ou do mistério das cousas não provoque a minha ação o aparecimento de energias estranhas à minha vontade. quando disputávamos a terra a elas.. meu gorro!” parecia que era o meu próprio pensamento que ironizava o meu destino. o seu ferimento não era grave. sem uma visita.. nas idéias e mais que tudo nas suas desilusões. observavam esse fim com tristeza. sem ver uma face amiga.... Tenho medo.. do Neanderthal armados com machados de sílex.. e o sofrimento que vou sofrer toda a vida foram empregados.. O almirante e Albernaz.... o que doía não era a ferida.. vi homens de Cro-Magnon. a revolta na baía chegava ao fim.. e o .. de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol.94 nós todos a ferocidade adormecida. as cartas dos países. as plantas das cidades.. foram vilipendiados e desmoralizados em prol de uma tolice política qualquer.. meu gorro. a gemer e pedir .. melancolicamente. Este teu irmão que estás vendo também fez das suas. pelo qual tanto ansiava.. irei viver na quietude. que foi ferido e caiu ao meu lado... o general. o que faremos amanhã. na sua vida.. E ele perguntava de si para si. Não imaginas como isto faz-me sofrer.. Como Quaresma dizia na carta.. e Ricardo. porém... a matar....onde? E o mapa dos continentes. exigindo a viagem de uma margem à outra bem doze horas por estrada de ferro.. uma província. Tudo o que nele pus de pensamento não foi atingido. onde sonhara repousar calmamente por toda a vida.. Quaresma passara pela estação em que morava... foram estragados. que mais me façam sofrer e tirem o doce sabor de viver. maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade. a que Deus.“capitão..... passavam-lhe pelos olhos e não viu. entretanto.. Coleoni e família se haviam retirado para fora... Esta vida é absurda e ilógica... Eu matei. era a alma. Tinha vontade de não mais pensar. queria. O melhor é não agir. E se o sofrimento de Quaresma era profundamente moral....... envolvido na suavidade da convalescença. de não mais amar. sem piedade.... a alguém enfim. foram gastos. na terra. sem sonhos generosos. agora intransponível. uma rua onde o houvesse........ de terras pobres e árvores velhas... Entretanto.. porque preciso de perdão e não sei a quem pedir. fora ferido mais gravemente.. onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo. depois dos sacolejamentos por que vinha passando . o de Coração dos Outros era físico e não se cansava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara até à posição de combatente... e desde que o meu dever me livre destes encargos.. muita ferocidade. Quando caí embaixo de uma carreta. não parava... a que homem.. porém.. Vivia só.. por prazer físico. por preguiça e desleixo. Os hospitais em que se tratavam estavam separados pela baía. tolo..... pela sensação material pura e simples de viver. este... ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus pés.. muita crueldade... a pensar no Destino. porque não sabemos para onde vamos. e. onde. toda a gente já pressentia isso e queria esse alívio..... penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil. Assim...

.Qual o quê! Onde é que você viu um governo. e uma era de progresso vai abrir-se para o Brasil. agitador. Caldas! . Albernaz ergueu-se logo do leito. mergulhada na loucura e na moléstia.. A dor da morte da filha já se esvaíra muito na sua memória. Dona Maricota acordara o marido: . . de chocar. e.Já era tempo. Embora assim. Conquanto se estivesse ainda em plena revolta. Era o almirante.Você exagera. aduziu Caldas. mas não corroer.. você não me dirá? Ah! Se fosse com este seu criado.. após a República. Não tanto que quisessem atestar à família do morto esse ato delicado. uma boa fisionomia sempre presente aos nossos olhos. não os demovia dos seus pensamentos guerreiros. Naquela manhã. O que o fazia sofrer era aquela semivida da moça.Então acaba breve. vestiu-se e saiu. levar quase sete meses para dar cabo de uns calhambeques!.. no interior da igreja. a que eles se recomendam com teimoso interesse. Clarimundo fora um republicano histórico. mas ambos evitaram entrar na nave cheia. . dominava-os.Agora não.. A morte tem a virtude de ser brusca. Albernaz avançou. Isto é um país perdido. Fora Caldas quem falara primeiro e a resposta do general fê-lo sorrir irônico dizendo: .Dizem que a esquadra já saiu de Pernambuco. . era chamado patriarca da República. Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram voltando insensivelmente. cujos rendimentos faziam de forma tão notável melhorar a situação da família. O padre. alguém lhe falou. a esperança de ter os nomes nos jornais.. vai ficando em nós uma suave recordação do ente querido. Ouvindo a recomendação da mulher.A baía está cercada de canhões. não se sabia bem por quê. continuava a pedir a Deus repouso para a alma do Senador Clarimundo.Chico. além disso.. Comigo. consolidada. Albernaz conhecera-o vagamente.Que fez. na sacristia. O místico cheiro de incenso vinha até eles e o votivo perfume. após uma pausa. durante a comoção. o seu prestígio cresceu e já se falava nele para substituir o marechal. no tempo do Império. e o marechal vai intimá-los a renderem-se. Caldas. fez Caldas. tinha logo partido e atacado. meio sarcástico: ..Mais baixo. . continuou o general. a sua influência ficara sendo grande.. mas assistir a sua missa era quase uma afirmação política. agora a autoridade está prestigiada. bem cedo. Sou pelas decisões prontas.. porém. tribuno temido. com diversos outros. hein? . acaba colônia inglesa.. a esquadra tanto tempo no Recife.. Obediente à mulher. Era preciso não faltar.. e.. . Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão.. não há mais gente que preste.. a cousa já estava acabada. Havia uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assinar as listas de presença. quando ia assinar. Albernaz não deixou de atirar-se também a uma das listas que andavam pelas mesas da sacristia. E o mar? . A missa ia começar. A sua presença se impunha e significava muito. . e ficaram a um vão da janela. . preparou-se. Há nos próceres republicanos uma necessidade extraordinária de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro. a cousa não era tão fácil assim.. Clarimundo era um desses próceres e. como essas moléstias duradouras nas pessoas amadas. conversando.Entre nós.Enfim. levanta-te! Olha que tens que ir à missa do Senador Clarimundo. O general chegou a tempo e à hora..... votivo ao Deus da paz e da bondade. passado que é o choque.95 general sentia perder a sua comissão. não apresentara aos seus pares do Senado nada de útil e benfazejo. esses ofícios fúnebres se faziam nas igrejas do centro da cidade.

deixa-as por aí vegetar?.. na casa de amigos ou nos galpões construídos adrede pelo Estado. o cachorro de estimação.A cousa está pra acabar!. Corre que já propuseram rendição. avançou: . Uma réstia de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças.Bom. Genelício olhou-o um pouco e aconselhou: . Porcarias!.. Levavam trouxas. Insensivelmente.. é orgulhoso e não se entrega assim. que se moviam lentamente. dos cumprimentos em dias de aniversário. leves. refugiando-se nos subúrbios. Pela porta. Todos tinham um grande ar de compunção: amigos. prima. olhando-o.Não acredito. Breve. No dia da entrada. .... abandona-as. eu tenho que ir à Rua Primeiro de Março e. Tinham razão: a revolta veio a acabar daí a dias.. pequenas malas. A nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranqüilo de imortalidade.. Genelício também viera. porém.. Olhe que.. a chorar.onde é que se viu um governo que não aproveita as aptidões.. esgarçadas. A esquadra legal entrou. conhecidos e desconhecidos pareciam sofrer igualmente. cada um com o seu desgosto e a sua decepção. Genelício ficou um pouco assustado com a entonação da voz do seu parente.. o papagaio querido. tia. possuía um caderninho onde as datas aniversárias estavam assentadas e as residências também.. Na rua.. levaram a mão ao peito e confessaram também: mea culpa. não recebesse os seus parabéns.Qual! Não resistem. acreditando que houvesse canhoneio. Temendo que a memória não lhe ajudasse. desse na vista e o comprometesse. em dia de aniversário. por morte. Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos. É preciso arranjar uma manifestação ao marechal. e. . mea maxima culpa. naquele mar infinito. A missa veio a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmática. curvado.Almirante não fale assim.... a confessar de si para si: mea culpa.. ele tinha o vício das missas das pessoas importantes. lembrava-nos logo de um castigo dantesco. não o levasse à igreja em missa de sétimo dia.. parentes. o passarinho que de há muito quebrava a tristeza de uma casa pobre. . . na sacristia. ajoelhados. palmilhando a rua com passo miúdo e cauteloso. uma grande parte da população abandonou a cidade. fez Genelício. teve medo que ele falasse mais alto. samburás..Forte! Uns calhambeques. Era de ver o terror que se estampava naquelas fisionomias.. apanharam no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto.. via-se uma porção de homens. Albernaz.. olhando o chão com o seu pince-nez azulado. homem! Caldas continha a custo a fúria que lhe ia n’alma. fez o almirante.96 . O índice era organizado com muito cuidado. cunhada.Não há orgulho que resista a uma esquadra mais forte. Calou-se. como velas. todos de negro. Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturais: jazem por aí à toa! A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia... Havia nele nuvens brancas. Conheço muito o Saldanha. e. batendo nos peitos..Qual! Não tenho medo.. dos cartões de pêsames. Genelício escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao almirante: . logo que penetraram no corpo da igreja. a ânsia e a angústia também.. crianças de peito. . Despediu-se e saiu com o seu traje de chumbo. . pesado. os dous. Albernaz e Caldas. contritos.E se resistirem? perguntou o general. os oficiais revoltosos se refugiaram nos navios de guerra portugueses e o Marechal Floriano ficou senhor da baía. Não havia sogra. O seu traje de luto era de pano grosso.. O céu estava azul e calmo. de homem importante que. . por baixo das árvores. mea maxima culpa.

foi morrer abandonado num cais. muita vez julgou que delirava. que eram muitos. gente arrancada à força aos lares ou à calaçaria das ruas. como um licor capitoso. os rigores da disciplina não lhe permitiriam uma conversa mais amigável. mesmo fora do alcance de seu poder. roçando carinhosamente a superfície das águas. gente ignara. caboclos. boa e dócil como um cordeiro. embriagava. um exagero das virtudes dela. esse pesadelo. mulatos. como se as suas alvas velas enfunadas quisessem afagar a espelhenta superfície do abismo.97 O que mais metia medo era o famoso canhão de dinamite. havia escreventes e operários de bordo. entretanto. gente inteiramente estranha à questão em debate. capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das montanhas graníticas do Rio. pendendo para lá e para cá. enfim. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV. sem anseio político. existia uma adoração fetíchica pela forma republicana. Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos aspirantes. temiam ouvir o seu estrondo. Os barcos passavam. Vinha a noite inteiramente. desprezado e inofensivo. piedade e parecia-lhe que dentre eles um conhecia o segredo de sua consciência. tinha vexame. e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Eram negras e desesperadas. gente sem responsabilidade. gente que se tinha metido em tal aventura pelo hábito de obedecer. E então se lamentava por estar sozinho. e o resto era azul. havia inferiores. Ficava assim um tempo longo. pensando. todo o sistema de idéias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. pois na ilha das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. simples autômatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado à mercê do vencedor. A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas. na estalagem condenada que lhe servia de quartel. ou que se haviam alistado por miséria. aos beijos sangrentos do ocaso. Brancos. e quando se voltava. tenros. às vezes cruel e pervesa como crianças inconscientes. A escrituração estava em dia e era feita com a melhor letra. mas. e. Sentia também que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma das pessoas que encontrara. um azul imaterial que inebriava. As crianças e as mulheres. e o silêncio e a treva envolviam tudo. Era grande a sua desilusão. e imaginou que do exemplo delas vinham os crimes que aquela punia. sem vontade própria. Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos políticos. simples. Os Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia. pequeninos. olhava a cidade que entrava na sombra. castigava e procurava restringir. ele ficava a passear. a ver. se não havia baixo interesse. meditando. as suas idéias. Inocêncio Bustamente continuava a superintender o corpo com muito zelo. essa quase força da natureza. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a pescar. do “Niterói”. de sangueiras e ferocidade. Os seus tormentos d’alma mais cresceram com o exercício de tal função. ora pequenos botes ou canoas. que lhe fizesse fugir àqueles tristes pensamentos que o assediavam e se estavam transformando em obsessão. olhando o mar. do interior do seu gabinete. por não ter um companheiro com quem conversar. instrumento terrível. Quaresma teve alta por esse tempo. . O fim do levante foi um alívio. De tarde. às vezes. ou por interesse. mesmo que ali estivesse. Quase os não olhava. sofrendo com aquelas lembranças de ódios. A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar. pretos. um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar justo. Mesmo entre os moços. Havia simples marinheiros. a cousa já estava ficando monótona e o marechal ganhou feições sobre-humanas com a vitória. gente de todas as cores e todos os sentimentos. Ora eram lanchas fumarentas que lá iam para o fundo da baía. nada de superior os animava. uma espalhafatosa invenção americana. De resto. Policarpo aceitou com repugnância o papel de carcereiro. esse fantasma yankee.

.“Onde esteve você?” perguntou . Fixava bem os olhos para lá. “Ah! patife” acudiu o homem do Itamarati. deitados. “Levem este também”. olhando o fundo da baía.. e. Fatigado. o recorte das ilhas que a noite tinha feito desaparecer. Quaresma não atinou de pronto com o sentido da cena e foi após o afastamento da lancha que ele encontrou uma explicação. . merecia aquele triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali. onde quase não havia luzes que interrompessem a continuidade do negror noturno.“Onde você esteve?” “Eu” . seminus. Gritou então: “Levante-se!” O rapaz ergueu-se tremendo . .“Que enfermeiro!” fez o emissário. tinha insônia e. um inferior veio acordá-lo pela madrugada: .Que homem? . assistindo ao sinistro alicerçar do regime. O oficial despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: “Levem este. Quaresma e o emissário do Itamarati.respondeu o marinheiro . Sem atinar bem do que se tratava. e havia todo o íris das cores humanas. pediu o rapaz quase chorando. sem que ele pudesse pressentir o seu extravagante propósito. outros dormiam somente.98 Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar. como se os quisesse habituar a penetrar nas cousas indecifráveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas. Certa noite em que ia dormindo melhor. a atenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro. quando Quaresma entrou. Uns roncavam. e nada disseram. A embarcação não ia longe. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. A esteira da embarcação estrelejava fosforescente. está aí o “home” do Itamarati.. levantou-se e foi ao encontro do visitante...O oficial que vem buscar a turma do Boqueirão..Senhor major. franzino. adiante. A lancha desapareceu nas trevas do fundo da baía. com as suas ações encadeadas no tempo. deixavam o prisioneiro e voltavam. O mar gemia demoradamente de encontro às pedras do cais. por que injunção irônica ele se tinha misturado em tão tenebrosos acontecimentos.. as estrelas brilhavam serenamente.. quando teimava em pensar. a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fora das águas da ilha. Ambos tiveram medo de falar. Os soldados condutores iam até à porta. que fizera com que aquele velho deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam sido os fatos externos que venceram a ele. o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos. houve alguém que em sonho gemeu .“na ‘Guanabara’”. Uma escolta estava à porta. A vasta sala estava cheia de corpos.. ao acaso. “seu” tenente. tão aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com os seus atos passados. Levem!”. O oficial passou por uma porção deles e não fez reparo. escolhida a esmo.. Pois ele. cercada pela escolta. e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade? Ele não sabia. Quaresma. No alto.ai! Cumprimentaram-se. Siga! Vá! E assim foi uma dúzia. retrucou o rapaz. “Este também. se queria ler. V A Afilhada Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço. deixe-me escrever à minha mãe. num céu negro e profundo. das quais uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarelada. o Quaresma plácido.Que mãe! respondeu o homem do Itamarati. .. deu com um rapaz claro. Não deixou de pensar então por que força misteriosa.” Seguiu adiante e despertou outro: . que não dormia... e.. . as duas cousas se baralhavam. Nem sempre dormia bem. . se emaranhavam e a conclusão certa e exata lhe fugia. Para onde ia? Para o Boqueirão. ia dormir.Mas. Seguiam-se algumas praças.“Eu era enfermeiro”.

não trocara palavra com ninguém. trazer sossego às suas dúvidas. falara fundo a todos os seus sentimentos. quase sem comer. logo ao erguer-se da cama. protestando contra a cena que presenciara na véspera. a sua virilidade também. a do Doutor Campos. . Outra decepção.. mesmo na sua pureza. não vira nenhum conhecido no caminho. ele não experimentara. E o que não deixara de ver. nem a intelectual. com um gesto. O importante é que ele tivesse sido feliz. era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete.. nem a política que julgava existir. quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. e altamente honrosa. nem o próprio Ricardo que lhe podia. e.. nem a moral. a desoras. das suas tentativas agrícolas. pelo cálculo aproximado do tempo. o escárnio. do folk-lore. Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra. escolhidos a esmo. não pandegara. a do homem do Itamarati.. Não havia base para qualquer hipótese. todos tinham sede de matar. Nada omitiu do seu pensamento. ele não vira. Iria morrer. Entretanto. na sua vida? Tudo. imaginava podiam ser onze horas. desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana. de gozar.. Aquela leva de desgraçados a sair assim. e ele escrevera a carta com veemência. Foi? Não.. Gastara sua mocidade nisso. inúmeros? Outra decepção. mais esta que aquela. misturado com os seus detritos. sem base. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria. Pareceu-lhe que essa idéia como que fora explorada pelos conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviências psicológicas.. agora que estava na velhice. O tempo estava de morte. e levou-o à loucura. por amá-la e querê-la muito. sofrendo umidade. A pátria que quisera ter era um mito. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem.. sepultado na treva. uma série. o oficial que o conduzira nada lhe quisera dizer. para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência cousa sua. própria. Por que estava preso? Ao certo não sabia. Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. como ela o condecorava? Matando-o. E. Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada. Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha. Não se pudera conter. e. no intuito de servir às suas próprias ambições. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. melhor. para tantas pessoas. e. como um criminoso. A sua vida era uma decepção. com um olhar. sem apoio. para uma carniçaria distante.99 Não estava ali há muitas horas. Não brincara. ele não provara. o riso. engaiolado. Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! O tupi encontrou a incredulidade geral.. Uma decepção. pusera diante dos seus olhos todos os seus princípios morais. desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras. A que existia de fato era a do Tenente Antonino. franca e nitidamente. no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. por um Deus ou uma deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa idéia nascera da amplificação da crendice dos povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Coulanges. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros. um encadeamento de decepções. no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. trancafiado. Fora preso pela manhã. por uma idéia a menos. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte. de carnificina. Lembrou-se de que essa noção nada é para a Menenanã. indignado. Nem a física.todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária. não amara . ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente. com paixão. E.... falou claro. Lembrou-se das suas cousas de tupi. como ela o premiava. havia. a mofa. bem pensando. pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca luz da masmorra. quando o seu patriotismo se fizera combatente. de fruir. o que achara? Decepções. o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma ilusão. E a agricultura? Nada. como ela o recompensava. isolado dos seus semelhantes como uma fera.

com forças de religião. para que jamais o poder constituído fosse atacado ou mesmo discutido. e. Sabia perfeitamente que corria grande risco. na mesma tristeza. não a pressentiu logo e se deixou enganar por um falaz ídolo. A cousa era difícil. o que era necessário era dar o exemplo de um massacre à turca. Ricardo. viu as mutilações. Ao entrar no Largo de São Francisco encontrou Genelício. absorver-se nele. de um camarada. naquele mesmo lugar onde estava. trajava uma pesada sobrecasaca preta que parecia de chumbo. mas não se intimidou. procurou influências de amigos. num dado momento. Talvez só tivessem pensado. gastara o seu tempo. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe: . sem um beijo mais quente. pois a indignação no palácio contra Quaresma fora geral. não se amedrontou. porém clandestino. e tão inocente na sua mania de violão. tinham levado dous anos a ser julgados. mas. inglês. porém. Aqueles homens. Quaresma. Como sempre.. sem um amor. Vinha da missa da irmã da sogra do Deputado Castro. envelhecera atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade. se nada dissera e não prendera o seu sonho. nunca! E ele chorou um pouco. demonstrando uma erudição superior. nem era ouvido. Era a filosofia social da época. para o francês. ia para a cova sem acompanhamento de um parente. Já estava subdiretor e o seu trabalho era agora imaginar meios e modos de ser diretor. tão lúcido. sem deixar traço seu. nem era julgado: seria simplesmente executado! Fora bom. não. e sem sequer uma asneira! Nada deixava que afirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso.. nem respeito pela vida humana. Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos. sobre a qual fizéssemos repousar a felicidade de muitos. alemão. com os seus sacerdotes e pregadores. Mas. tão simples. sacrificando e as cousas ficaram na mesma. Teve notícia do exato motivo dela. Contudo. como é que ele tão sereno. entretanto. empregara sua vida. Ricardo não se deteve. fora virtuoso . talvez lhe levasse ao alto lugar cobiçado. com os seus fanáticos. depois era e afinal não vinha a ser. mas sofreram pelo seu pensamento. acusados de crime tão nefando em face da legislação da época. quem sabe se os outros que lhe seguissem as pegadas não seriam mais felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera comunicar. ele não poria mais os olhos? Era tão bom que o pudesse. ao preto Anastácio um adeus. talvez naquela mesma prisão. fora generoso. porventura. mas trabalhava num livro: Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos . podia sentir a Pátria? Uma hora. sendo francês. o Franco-Condado era terra dos seus avós. enganava-se em parte. italiano. outra não era. e ela agia com a maldade de uma crença forte. Ricardo soubera de sua prisão e procurava soltá-lo. Onde estariam eles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros. para mandar à sua irmã o último recado. E ele se lembrava que há bem cem anos. sem nenhum mesmo.o qual. Vendo-o. e aquele protesto soou entre eles como um desejo de diminuir o valor das vantagens alcançadas. e assim é que ia para a cova. sem um filho. à sua afilhada um abraço! Nunca mais os veria. fora honesto. a terra na mesma miséria. A vitória tinha feito os vitoriosos inclementes e ferozes. ali. a Alsácia não era. na mesma opressão. Tinha havido vantagem? As condições gerais tinham melhorado? Aparentemente sim.100 Reviu a história. bem examinado. dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o seu isolamento. dando-lhe corpo e substância? E esse seguimento adiantaria alguma coisa? E essa continuidade traria enfim para a terra alguma felicidade? Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo. sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso sofremos qualquer mágoa? Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista. não havia mais simpatia. e ele. o seu esquecimento de si mesmo. que não tinha crime algum.ele que fora tudo isso. de um amigo. homens generosos e ilustres estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo. Não havia mais piedade. os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si para si: como um homem que vivesse quatro séculos.

Eu queria que o senhor se interessasse. o chefe devia ficar a resguardo. e Ricardo procurava entre todas aquelas fisionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e ele desesperava. no fervor de batalhas. mau ou indiferente.. armas! Mei .. que já não o sou bastante.. na velha estalagem que servia de quartel ao garboso “Cruzeiro do Sul”. porém. meu amigo. a gente que passava. Sinto muito. Você sabe.brôôô. muito seguro de si.Não me conhece mais. os contínuos iam e vinham. nas desordens de marchas e contramarchas? Isso era uma tolice do comandante marchar. e foi ter com o Coronel Bustamante. camarada? Coração dos Outros estava com a sua farda do “Cruzeiro do Sul” e não ficava bem a Genelício darse como conhecido de soldado. Genelício não sorriu. . Ele pensava nessas cousas.. eu não posso.Ah! É o senhor! Bem: que deseja? . E daí? .. subiu rapidamente a oscilante escada do velho cortiço e logo que chegou ao cubículo do comandante. E entrou para o seu gabinete prazenteiro. se eu for pedir por um preso.Que há? O trovador. perguntou com solenidade e arrogância: . dando com Ricardo. O bravo coronel coçava a grande barba mosaica.Meu filho. sou governista e parece.Doutor.. comandante!” Bustamante andava de mau humor. bastante emocionado. aquelas caras de homens tinham cataduras de feras e ele quis por um momento chorar de desespero por não poder salvar o amigo.101 . Não era longe.Eu. . dentro do seu plácido uniforme de general.ãã volta! Ricardo entrou. as campainhas soavam.. quando Ricardo pediu licença. as casas feias. ajeitou bem o trancelim de ouro na orelha e disse com doçura: . Ao fim de uma hora o general chegou e. a estátua imóvel.. Vossa Excelência dá licença que lhe dê uma palavra? Genelício perfilou-se todo e. mas o general ainda não tinha chegado.Quem é? . O trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente: . como tivesse péssima memória das fisionomias humildes.. Passe bem.Não. para providenciar e dirigir a escrituração. Os oficiais continuavam a entrar e a sair. . que se há de fazer? Paciência. Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o comandante. O alferes coxo..Que deseja. gritou: “Com licença. não deu mostras de alegria e limitou-se: . que cantou no seu casamento.. . perguntou: . para com mais decência receber o inferior.. Embora terminada a revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o Sul. Tudo lhe pareceu hostil. no ensaboado pátio da antiga estalagem. sou Ricardo Coração dos Outros. enquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo. Albernaz concertou o pince-nez. explicou-lhe com voz dorida todo o fato..Entre.O senhor não sabe que o major Quaresma está preso? .. Lembrou-se. E Genelício seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das botas. O governo tem sempre razão. mas. de Albernaz. continuava na sua faina de instrutor dos novos recrutas.Aquele que foi vizinho do seu sogro. disse ele. . Om . doutor? Genelício fechou um pouco os olhos por detrás do pince-nez azulado e disse secamente: . de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos apontados para partir era o “Cruzeiro”. fez com humildade Ricardo. Aquele negócio de partir para o Paraná não lhe agradava. O batalhão ainda continuava em pé de guerra. a igreja. Como é que havia de superintender a escrita do batalhão. Ahn!. tinha o dólmã desabotoado e acabava de calçar um dos pés de botina..Aquele maluco.Não me meto nessas cousas.. e correu a procurá-lo.

tomou a cabeça entre as mãos e as suas unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus cabelos negros. Ricardo ficou só e sentou-se. Ela levantou a cabeça. narrou-lhe o fato e as suas sinistras apreensões.. Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade de agir. . não pode. faria sacrifício de tudo. Ele tinha que ir para o posto de suplício. demorou-se mais no exame do caráter do esposo.. Num dado momento. da sua ternura. Ela estava só. Ele que sempre decantara nas suas modinhas a dedicação. Inocêncio disse. Logo. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam atingir o céu. recordou que era preciso salvar o amigo e que era necessário dar mais uns passos. está fora.. Olhou as casas. a mulher do Doutor Brandão. O cabo não se demorou mais. . A moça. mas bem cedo o viu ensangüentado . Quem poderia? Consultou sua memória. senão mando-te prender! Já! E apontou com o dedo a porta da saída num gesto marcial e enérgico. O mundo lhe parecia vazio de afeto e de amor. mas era impossível.. os palácios e lembrou-se das guerras... E era assim que se fazia a vida. Pela primeira vez.... mas nada! A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabelos negros e a olhar a mesa em que repousavam os seus cotovelos. Minhas amigas.. A Cassilda. Pensou um pouco.. volta.Vou. ele. mas. O silêncio era augusto. sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio de severidade: . um conselho. as igrejas. e falou com firmeza: . que estava sentada.. Pensou um pouco. armas! Meia-ãã. Ricardo não sabia o que aconselhá-la e olhava sem pensamentos os móveis e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam.. não havia um caminho.Qual. No pátio o instrutor coxo. Não sei. ..ele. Estava tranqüilo e calmo. Olga lembrou-se bem do padrinho. do sangue. Viu um.. veterano do Paraguai. a história e o heroísmo: com violência sobre os outros. Pareceulhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo ao sofrimento do padrinho. com opressões e sofrimentos.Que hei de fazer. volver! Ricardo veio andando triste e desalentado. porém. de quimeras. das dores que tudo aquilo custara. não perdia um minuto. esse. um nada.Vai-te embora. Os dous ficaram calados.. que fazer? Eu não conheço ninguém. Eu não tenho relações..Mas que fazer. via agora que tais sentimentos não existiam. a filha do Castrioto. da tenacidade que punha em seguir as suas idéias. . o amor. da sua candura de donzela romântica. sem esperança de ressurreição. Possuía a mais forte disposição de salvar seu padrinho. Olga foi vestir-se.. viu outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma.Talvez seu marido. e foi procurá-la na Real Grandeza. meu Deus? repetiu ela. . Olhou o céu alto. Tinha marchado atrás de cousas fora da realidade. Chegou. meu Deus! E acentuou estas últimas palavras com grande e lancinante desespero.102 Ricardo expôs o seu pedido e esperou com paciência a resposta. e pensou em salvá-lo. A Alice. Ricardo estava de pé e aparvalhado. andando atrás de um e de outro. tinha que subir o seu Calvário. Queria encontrar um alvitre.. os seus olhos se dilataram de espanto e o rosto lhe ficou rígido. tão bom. meu caro Senhor Ricardo. do seu eterno sonhar.. impossível! Não havia um meio. continuava com solenidade a encher a arruinada estalagem com as suas vozes de comando: Om-brôôô. a sua ambição e sua ferocidade interesseira não permitiriam que ele desse o mínimo passo. pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da vitória. que custou a vir.Se a senhora fosse lá. viu bem que o seu egoísmo. em breve.. ela sentiu que a vida tinha cousas desesperadoras. Por fim. as simpatias. disse Ricardo. Olhou as árvores. Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse: .. tão generoso.

.Vais sair? Ela. porque “eu”. . Ele vivera sempre tão loge dela que não a julgara nunca capaz de tais assomos. . o doutor interrogou o trovador: . mas logo. porque quero.É o que te digo: vou e vou. poderia evitar que a mulher desse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições.Fazes mal.É isto! “Eu”. disse com certa vivacidade: .. com os seus grandes bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. Já sabe? O marido pareceu acalmar-se. ora rapidamente e apaixonada. O marido não sabia o que fazer.. agora se esquivava. dirigindo-se à mulher. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano. Acreditou que. Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sair pela porta fora. estava no palácio da Rua Larga..Vais comprometer-se..Vou. dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar de reconhecimento. por sua vez. concertou o véu e saiu solene. Apanhou a sombrinha. não tenho relações. nada! Sou alguma cousa como um móvel. dous minutos. queria cumprimentá-lo. perguntou com autoridade: . um adorno.. “eu”para ali. Falou docemente: . Vinha radiante. na sala de jantar. não tenho caráter? Ora!. mostrando-se co-participante na sua vitória. mas Olga adiantou-se: . com meios suasórios. Ricardo não entrou: deixou que a moça o fizesse e foi esperá-la no Campo de Sant’Anna. é só “eu”.Onde vais? A mulher não lhe respondeu logo e. quis interrogá-lo. porque devo.. não tenho amizades. Não pensas noutra cousa. para salvar da morte meu padrinho. provar os seus serviços. Havia quem lhe quisesse beijar as mãos.Vai acompanhar-me ao Itamarati.Que faz o senhor aqui? Coração dos Outros não teve ânimo de responder. de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada. Então aquela menina? Então aquele bibelot? Quem lhe teria ensinado tais cousas? Quis desarmá-la com uma ironia e disse risonho: . todos só devem viver para ti.. Nem fez menção de ter visto Ricardo e foi logo direto à mulher: . adivinhava uma cena violenta que ele teria querido evitar. alta e nobre. Ela não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grande olhos cheios de escárnio. porque “eu”. que tinha a alma tão ao alcance dela mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo. deste nosso egoísmo. queria dar mostras de sua dedicação. e ele já tinha nojo de tanta subserviência. O ditador tão acessível antes..Está no teatro? Ela lhe respondeu logo: . E acrescentava com força: . estou. e o marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. para aqui. Não tardou que ela ficasse pronta e ainda abotoava as luvas. ora vagarosa e irônica. Sabes que. Voltou-se um instante para Ricardo.Se é só no teatro que há grandes cousas. riu-se um pouco e disse: . como ao papa ou a um imperador. de todos os processos. porque é do meu direito. de todos os planos. mirou-o um. Lançavam mão de todos os meios. O califa não se supunha sagrado e aborrecia-se. Muito engraçado! De forma que eu (agora digo “eu”também) não tenho direito de me sacrificar. depois.. Havia um imenso burburinho. Ela falava. quando o marido entrou. Em breve. Ela subiu. firme.Por quê? perguntou ela com calor. uma agitação de entradas e saídas. Armando ficou admirado de vê-la falar daquele modo. afogueada pela ânsia desesperada de salvar Quaresma. A vida é feita para ti.103 Ele então pensou com admiração naquela moça que por simples amizade se dava a tão arriscado sacrifício. de provar a minha amizade. .

. uma locomotiva apitou. Quando ela lhe disse a que vinha.Não é possível. os ares. as árvores de Santa Teresa. Com tal gente. as casas. minha senhora. das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Tinha havido grandes modificações nos aspectos. pedindo ser recebida pelo marechal. Um traidor! Um bandido! Depois. que de algum modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de matá-lo. O marechal não a atenderá. Foi inútil. fez com certa delicadeza: . * * * . já tinham errado tribos selvagens. Tinha havido grande e inúmeras modificações. Ela nem lhe esperou o fim da frase. os ares. a fisionomia terrosa do homem tornou-se de oca e sob as suas pálpebras correu um firme e rápido lampejo de espada: . e se lembrou que. a sua doçura. era melhor tê-lo deixado morrer só e heroicamente num ilhéu qualquer. e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros. sem a mácula de um empenho que diminuísse a injustiça de sua morte. na fisionomia da terra. A muito custo conseguiu falar a um secretário ou ajudante-de-ordens. Que fora aquele parque? Talvez um charco. as igrejas: viu os bondes passarem. por estas terras. a sua personalidade moral. talvez no clima. Todos os Santos (Rio de Janeiro). Quaresma? disse ele. atravessou-lhe na frente. um carro. quando já a entrar do campo. Ergueu-se orgulhosamente. janeiro . mas levando para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho.março de 1911. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu. pensou ela. deu-lhe as costas e teve vergonha de ter ido pedir.. arrependeu-se da veemência. puxado por uma linda parelha. Saiu e andou. de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido.104 Olga falou aos contínuos. Esperemos mais..Quem. Olhou o céu.. as árvores de Santa Teresa.

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