ESCREVENDO COMÉDIA. PASSO À PASSO.

GENE PERRET PREFÁCIO: CAROL BURNETT TRADUÇÃO: ALDO CAMOLEZ
DE:

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PRIMEIRA PARTE: A Decisão de Escrever. 1. Você pode escrever comédia.
Trabalhando numa arte universalmente praticada. . . disciplinando seu humor, e refinando suas habilidades cômicas naturais. . . porque escritores iniciantes têm medo…a síndrome de “Eu não sou um escritor cômico.”. . . como possíveis escritores cômicos dão se por vencidos antes de começar a escrever. . . aprenda a lidar com as sua percentagem cômica.

2. Sim, escrever comédia pode ser aprendido.
Ninguém nasce escrevendo comédia. . . você precisa aprender tudo de alguma maneira. . . um escritor inexperiente não é necessariamente um mau escritor. . . só você é capaz de ensinar a si mesmo. . . conhecimentos gerais.

3. As ferramentas necessárias para começar escrever.
Analisando a comédia: dissecando este sapo. . . preparação e prática. . . definindo o senso de humor. . . o processo mental na escrita humorística. . . o quê são a maioria das piadas. . . indo além do óbvio. . . porque qualquer pessoa pode escrever comédia. . . e por que um escritor não deve depender do acaso.

4. A comédia como um hobby.
O Humor e a qualidade de vida. . . quando a recompensa pelos seus esforços está somente na própria pratica da escrita. . . desafio, entretenimento, e simulação. . . a comédia como pratica em grupo. . . o prazer de personalizar o humor.

5. A comédia como uma segunda fonte de renda.
Escrevendo por dinheiro: uma das grnades inspirações. . . como voce pode preencher a demanda de atores comicos. . . os mercados mais provaveis e menos provaveis. . . vendendo seu material. . . como cobrar pelo seu material.

6. A comédia como uma carreira.
Iniciando uma carreira como escritor de comédia: as portas não estão sempre totalmente abertas mas entre-abertas. . . o fator sorte. . . os mercados insasiaveis por comédia: porque eles precisam de material comico. . . como iniciar na sua propria comunidade. . . covertendo potencial em conquista. . . como fazer pequenos sucessos se tornarem grande sucessos.

SEGUNDA PARTE: Aumentando a sua Aptidão.
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7. Escreva, leia e escute.
O material básico do humor. . . rotinas para apresentações STANDUP: um aprendizado superbo. . . a melhor maneira de aprender. . . a outra melhor maneira de aprender. . . como conquistar a auto-confiança. . . porque você deveria manter uma cota ( e porque este é o melhor conselho que qualquer pessoa poderia lhe dar) . . . se expondo para a avaliação de outros autores cômicos. . . descobrindo o que funciona – e o que não funciona.

8. Exercícios para escrever comédia.
As três principais habilidades ao escrever comédia. . . porque a visualização cômica é tão importante. . . como tirar vantagem nas maneiras de pensar (sua e dos outros). . . passando pela vontade de desistir antes do tempo. . . evitando o óbvio: o valor do implícito. . . exercícios para escrever comédia de Gene Perret.

9. O valor dos monólogos.
Mostrando o seu material. . . melhorando as suas piadas particulares. . . o principio dos altos e baixos. . . os passos para se alcançar uma gargalhada de peso. . . a maneira mais eficiente de se construir uma piada. . . como preparar e escrever mais material. . . diversificando o seu estilo. . . porque os monólogos auxiliam na venda do seu material.

10.

Começando escrever.

O alicerce da escrita cômica. . . porque você deve escrever um material preparatório. . . de onde surgem os resultados produtivos. . . a escolha mais importante: encontrando um tópico. . . organizando suas idéias cômicas e canalizando seu pensamento. . . o segredo dos tópicos suplementares.

11. Fazendo suas piadas fluir.
Os benefícios de se manter em um tema. . . o ponto inicial: ter alguma coisa a dizer. . . preparando sua punchline. . . como fazer as perguntas corretas. . . exagero e distorção: deixando a sua mente brincar. . . explorando clichês para seu próprio proveito e diversão.

12.

A arte de criar uma rotina cômica.

Como determinar uma progressão lógica. . . um guia passo a passo para organizar aprimorar suas gags. . . quais são as melhores transições. . . a importância de fazer suas piadas fluírem e o polimento das suas piadas. . . Fazendo a platéia pensar – mas não por muito tempo. . . as fraquezas mais comuns – e como livrar-se delas.

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13.

Atalhos para o humor.

Como extrair e intensificar o humor. . . fazer o público se identificar com a verdade. . . relaxando a tensão: como alcançar uma gargalhada certeira. . . atacando as autoridades – até onde . . . envolvendo o seu publico. . . seguindo a sua intuição.

14.

Escrevendo para seu publico.

Porque o publico é superior (ou, porquê você não tem outra escolha a não ser agrada-los. . . . fazendo o publico rir. . . porque você deve ter certeza de que o publico lhe entende.

15.

Mantendo um material cômico.

Idéias: nunca são demais – ou se lembre delas todas. . . porque você deveria ter um caderno de anotações. . . as categorias que fazem a diferença . . . dicas dos profissionais. . . mantendo seus tópicos humorísticos atuais. . . Escrevendo melhor, mais rápido e mais facilmente.

16.

Escrevendo esquetes.

Como construir um esquete . . . os porquês e as causas pelas quais você deve direcionar e programar a sua loucura. . . criando e sustentando complicações. . . criando um final . . . de onde tirar as suas idéias.

17.

Escrevendo SITCOM.

A estória. . . evitando tabus. . . como estudar os shows para quem você escreve. . . escrevendo para personagens em situações realistas. . . um guia para escrever diálogos. . . formulando piadas para uma SITCOM. . . porque você deve mapear a sua estória . . . como as coisas acontecem na televisão: um insight de alguém que escreve para isso.

TERCEIRA PARTE Construindo uma Carreira. 18- A atitude apropriada.
Aperfeiçoando a sua habilidade. . . como fazer os outros acreditar que você é bom. . . experimentando a rejeição . . . porque você tem que ser melhor doque já existe . . . descobrindo o seu valor – e quais as experiências que lhe servem melhor.

19- Fazendo a sua carreira deslanchar.
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Tentativa e erro . . . como pesquisar o mercado. . . a importância do diálogo: escrevendo cartas. . . como estabelecer contatos . . . quanta ajuda é demais para pedir. . . superando o medo da rejeição. . . aturando os contratempos.

20- Praticando o seu ofício.
A maneira como você deve exemplificar o seu trabalho. . . o que colocar no seu portifolio. . . conhecendo o que um humorista enfrenta. . . encenando o seu próprio material e como isto pode beneficiar a sua escrita. . . dicas para superar os bloqueios. . . porque razão você deve guardar o seu trabalho . . . como reutilizar o seu material.

21- Completando o seu trabalho especulativo.
Disciplina, disciplina, disciplina. . . colocando o seu produto no papel. . . jogos de memória para fazer com que você consiga escrever por encomenda. . . visualizando os seus ideais. . . como evitar o bloqueio durante a faze de preparação . . . deadlines para a entrega do material.

22- Comercializando o seu material.
Concentrando no que realmente importa. . . trabalhando de graça. . . colocando as adversidades de lado . . . os mercados mais fáceis para se começar . . . como entrar em contato com os humoristas. . . como colocar seu material escrito para a teve sobe avaliação. . . porquê é importante se vender junto com o seu material.

Apêndice
As dúvidas mais constantes entre aqueles que começam escrever comédia.

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Prefácio
Todas as facilidades de que dispomos hoje em dia – o automóvel, a lavadora de pratos, a torradeira, etc. - sempre começaram de uma idéia. Alguém deve ter pensado que estas coisas seriam possíveis e trabalharam para que elas se tornassem realidade. Novas ideias fazem com que o mundo progrida. Quando alguém tem uma idéia engraçada e consegue coloca-la no papel, esta pessoa é um escritor cômico. É espantoso pensar que o humor de James Thurber e as caracterizações engraçadas de Neil Simon partiram de folhas de papel em branco. Cada manhã em Hollywood, um batalhão de escritores brilhantes entram nos seus escritórios, engolem um monte de café, colocam uma folha de papel em branco nas suas máquinas de escrever, ou, abrem os seus processadores de texto e deixam as suas mentem rolarem. Seus dedos começam a digitar, às vezes rapidamente, em outras não tão rapidamente assim, e o humor magicamente apararesse. Do nada (aparentemente) palavras, sentenças, e cenas tomam forma. Tudo começa com as palavras. Elas produzem cenários, figurinos, adereços, mas, acima de tudo, gargalhadas gloriosas. Bem, tudo depende do escritor. A primeira coisa que um performer pergunta quando ele aparece para trabalhar Segunda de manhã é, “Cadê o meu script?”. Sem estas paginas eles não teria razão qualquer para aparecer no trabalho. Se não houvesse os escritores cômicos nós os comediantes não teríamos o que dizer. Fora alguns clássicos, não existem muitas pérolas no humor. Para uma comédia funcionar, ela precisa ser única. Sempre haverá espaço para as mentes talentosas, e criativas na comédia. Se esta é a sua primeira tentativa em escrever comédia, é melhor você se apressar e aprender a sua arte e seu ofício. Nós precisamos de você.

Carol Burnett Maio, 1982.

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Eu quero que você faça as pessoas rirem, Assim elas começarão a ver as coisas mais seriamente. William R. Zinsser

A Decisão de Escrever.

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Você pode escrever comédia.
Eu tive uma farra escrevendo comédia. Já escrevi comédia na minha mesa de cozinha em Upper Darby, Pensilvânia, de um escritório - que mais parecia um casulo no quintal da minha casa na Califórnia – até mesmo numa poltrona de avião indo para a Inglaterra para auxiliar no show do 25°aniversário da coroação da Rainha Elizabeth. Já sai de férias com a minha família onde ficamos todos apertados num pequeno apartamento perto da praia, e depois de um dia exaustivo e enquanto todos dormiam eu me acomodava – como dava – dentro de um banheiro minúsculo, deitado dentro de uma banheira menor ainda e escrevia minha cota de piadas para o dia seguinte. Escrevi ótimas piadas em lugares horríveis e piadas horríveis em lugares maravilhosos, mas eu me diverti cada minuto. Uma das mensagens que eu tenho que lhe dar é: “Escrever comédia pode ser divertido.” É DIVERSÃO com letra maiúscula, é diversão sublinhada, em itálico, e também é diversão em outras línguas: C’est trés amusant, es muy divertido, es macht mir Freude. Bom, minha mulher talvez tenha uma outra idéia da minha diversão. Ela é obrigada a ouvir as minhas reclamações constantes sobre companheiros de trabalho arrogantes, atores e atrizes egocêntricos, produtores estúpidos, e executivos incultos. Talvez ela não consiga ver que as minhas reclamações são divertidas para mim – ela é a única que não se diverte com isto .

Meu ego cômico e como ele se desenvolveu.
Tenho exultado em todos os estágios da minha carreira – bons e maus. Quando minha carreira mostrou os primeiros sinais de progresso, eu delirei tanto que chegava a cansar os amigos e familiares. Eu tinha orgulho de circular com algumas celebridades e nunca me cansava de falar sobre as minhas conquistas. Todo papo que tinha era recheado das minhas últimas gracinhas. Resumindo, eu era um completo chato. Você vai notar no decorrer deste livro que eu ainda não estou 100% curado desta doença.
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Enquanto eu me encontrava no estagio mais critico da doença, eu ansiosamente esperava por receber os cheques enviados por Phyllis Diller e ir ao banco toda Sexta. Eu tentava parecer o mais humilde possível quando eu entregava os cheques assinados por ela ao caixa e esperava que o caixa notasse o nome nos cheques. Uma senhora uma vez viu a assinatura deu um sorriso e disse: “Phyllis Diller, huh?” Eu modestamente respondi, “Sim.” Dai ela chamou outra caixa e mostrou o cheque . O orgulho se instalou em mim tanto que começou a ameaçar estourar os botões da minha camisa. “Este cheque é da verdadeira Phylis Diller?” a caixa perguntou. “Sim, é a verdadeira Phylis Diller. Ela é uma amiga pessoal minha.” (Até então havíamos conversado pelo telefone uma única vez.) A senhora então estudou o cheque e a assinatura com toda aquele ar experiente instintivo de uma caixa de banco, carimbou o cheque com o que quer que eles carimbam os documentos e me disse firmemente, “Não é ela não.” Eu nunca consegui convence-la do contrario. Muito pelo contrario, ela quase conseguiu me convencer de que eu estava escrevendo para uma fraude. Este incidente não esta entre os mais importantes da minha carreira, ou mesmo aquele dia em particular, mas ele serve para dar algumas gargalhadas. Uma outra vez eu e minha mulher nos divertimos muito com um outro incidente que é o oposto do que aconteceu com a caixa do banco. Nós havíamos saído de férias – não pense que tudo que um escritor de comédia faz é sair de férias – e estávamos na Califórnia nos preparando para deixar o hotel quando o recepcionista me informou que eu havia recebido um telefonema de Bob Hope. Ele perguntou, “Este é o verdadeiro Bob Hope?” Nós lhe asseguramos que sim e ele me pediu para usar o telefone que estava sobre o balcão. Enquanto eu estava no telefone um outro casal se aproximou para dar entrada no hotel e a primeira coisa que o recepcionista lhes perguntou foi: “Vocês já ouviram falar de Bob Hope?” eles ficaram um pouco confusos com a pergunta e o que ela tinha de fato haver com a entrada deles no hotel, mas mesmo assim, responderam que sim. O rapaz do balcão apontou na minha direção com o seu polegar e lhes disse com superioridade, “Ele esta falando com ele.”
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Eu já estive em outras situações onde foram creditados a mim méritos que não merecia. Uma vez nosso staff de escritores foi nomeado para concorrer a um Emmy, então o produtor do programa me convidou para chegar com ele numa limusine alugada – nós queríamos chegar com estilo. As festividades estavam acontecendo bem perto da minha própria casa, assim meus quatro filhos foram para lá nas suas bicicletas e se colocaram bem na frente atrás do cordão de isolamento formado pelos policiais. Tão logo nossa limusine parou na frente do teatro e saímos, meus filhos começaram a gritar histericamente. Sendo um canastrão incurável como eu sou, eu me virei e comecei a acenar para a multidão. Agora, todos na multidão gritavam. O fato de que eles não me reconheciam ou nem ao menos sabiam quem eu era, não importava. Eles pensavam: grite agora e faça perguntas mais tarde. Uma senhora, por outro lado, se aproximou da minha filha mais eloqüente e lhe perguntou: “Quem é aquele?” e minha filha respondeu: “Meu Pai!” Bem, há uma outra história que funciona mais ou menos como o oposto desta. (Vocês estão começando a notar que cada uma das minhas histórias tem a sua própria replica?) Uma vez estávamos em um ensaio de um Bob Hope Show . Na ocasião, o ex presidente Gerald Ford era um dos convidados de gala, e alguns agente secretos munidos de seus cães farejadores, farejavam todo e qualquer lugar a procura de bombas. Bob, que estava no palco segurando um bando de paginas do seu script, me viu e gritou, “Hey, Perret. Os cães não param de farejar as suas piadas.” Acho que você começa a se arrepender de ter entrado para este curso, mas eu só estou tentando ilustrar e enfatizar os momentos engraçados que já tive nesta carreira. Esta talvez seja a verdadeira razão para eu ter escrito este livro. Eu já me diverti tanto escrevendo humor que eu gostaria de ajudar outras pessoas a se divertirem também. E você pode.

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Uma forma Universal.
Você pode até não acreditar mas há um medo geral em escrever comédia. As pessoas acreditam que se trata quase de uma profissão sagrada, que o dedo de uma Deusa ou Deus qualquer virá ungir nossas cabeças e fazer o humor germinar. Bobagem. A comédia é a forma de arte mais universalmente praticada. Como Jimmy Durante já nos disse tão eloqüentemente, “Todos querem fazer parte.” O humor é universal. Todas as vezes que sua família se reúne, eu tenho certeza que coisas engraçadas e piadinhas são ditas a revelia. Todas as vezes que velhos amigos se reúnem, o bom humor é um dos convidados também. Todos nós gostamos de satirizar e fazer piadas uns com os outros. Nos meus anos de novato como parte do staff de escritores de uma televisão, os produtores entraram na sala e pediram ao staff para criarem uma piada nova para um dos convidados. Nos estávamos fazendo um programa em homenagem a Las Vegas e precisávamos de uma piada entre os versos de uma canção. Dez de nós, entre recém chegados e veteranos, nos reunimos em uma sala para escrever uma única piada. Bom, isso já é uma piada. Nós nos bombardeamos com idéias das 10 da manhã até 1 da tarde, sem que nenhuma das gags satisfizesse nosso julgamento coletivo. Quando paramos para o almoço, a maioria de nós se dirigiu para os banheiros masculino da CBS. Lá encontramos um garoto de uns 10 anos lavando as mãos. Seu cabelo estava impecavelmente penteado, exceto um chumaço de cabelo que se recusava a fazer parte do contexto e estava arrepiado para cima como se houvesse sido lambido por uma vaca. Eu segurei seu cabelo pelo chumaço e, olhando nossos reflexos no espelho, perguntei, “O que é isso?”. “Ah, isso,” ele me respondeu. “Isso aí é a minha consciência.” E ele saiu do banheiro andando como se estivesse acabado de nos dar uma pérola. Nós profissionais havíamos gastado horas com nenhum resultado e esta criança havia nos dado um grande improviso assim em segundos. “Todos querem fazer parte.”
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Uma vez eu fui o convidado de honra para um jantar na minha cidade natal. No mesmo jantar encontrei uma notável ex-professora minha. Notável, porque se tratava de uma senhora de grande força de vontade de 93 anos que nunca havia se casado: ela me deu aulas quando eu estava na 5° série primária e ela já parecia ter 93 anos então, o que fiz questão de lhe dizer. Ela era o tipo de pessoa que podia dizer estas coisas. Havia uma história circulando durante o banquete de que esta mesma senhora havia especificado no seu testamento que quando ela morresse ela não queria que seu caixão fosse carregado por nenhum homem. Durante o jantar me aproximei dela e perguntei sobre a veracidade de tal rumor. Ela admitiu que era. Eu perguntei por que. “Aqueles bastardos nunca me levaram pra passear quando eu estava viva,” ela declarou. “E eu vou ficar puta da vida se me levarem depois de morta.” É claro que a comédia não está restrita somente à perspicácia dos jovens ou dos velhos. Uma vez, quando Don Rickles foi interrompido durante uma performance o que não só requer bom humor mais muita coragem – Rickles não pôde resistir a uma última palavra ao seu antagonista antes de sair do palco. “Senhora”, ele disse, “Quanto você cobra para assombrar uma casa?” Ela imediatamente respondeu da platéia, “Quantos quartos?” Sim, Mr. Durante, todo mundo quer fazer parte do negócio. O humor é universal.

Uma questão de Disciplina.
Ser ocasionalmente engraçado, ou até mesmo todos os dias, não é o mesmo que escrever humor suficiente para ser publicado em uma revista ou para ser vendido para um comediante, por exemplo. A diferença esta na disciplina e não na habilidade de ser engraçado. Disciplina pode ser adquirida e aprendida. A sua habilidade, então, será aprimorada com este treinamento básico. Quando eu comecei a escrever para Phyllis Diller, Eu lhe enviava duas rotinas cômicas por semana, o que dava por volta de 60 piadas. A primeira vez que eu me encontrei com ela pessoalmente depois de muitas conversas por telefone e correspondências, ela me disse, “Você não escreve o suficiente.” Eu então imediatamente resolvi manter uma cota de no mínimo 90 piadas por semana. Foi difícil, e bem cansativo por varias semanas. Hoje, por outro lado, eu posso chegar em casa depois de um dia inteiro escrevendo para TV, e após um jantar relaxante escrever por volta de 120 gags para serem entregues a um cliente freelance na manhã seguinte.

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O medo do Iniciante.
Quando lido com escritores iniciantes a frase que eu mais escuto é,”Você poderia dar uma olhada no meu material e me dizer se é bom ou não?”. Bem, estas pessoas assistem TV, vão aos nightclubs ou lêem livros, ninguém tem que lhes dizer quando devem sorrir. Eles conhecem uma boa piada como qualquer outra pessoa. Estas pessoas sabem de qual material elas se orgulham ou de qual material elas não se sentem tão seguras assim. A pergunta - “Me diga se é bom ou não” – mostra o medo de se misturar com os profissionais. Muitas pessoas se auto denominam amadores e aos escritores que vendem, de profissionais. Bem, isto é tecnicamente correto, mas os amadores não precisam permanecer amadores. Bons amadores fazem bons profissionais. Hoje, muitos dos boxeadores Olímpicos amadores estão nocauteando os profissionais. E nós humoristas e escritores de humor profissionais sabemos que, em breve, muitos escritores amadores estarão nos nocauteando. Uma das coisas do medo do iniciante é que ele esta constantemente comparando o seu trabalho com os melhores. As rotinas que acontecem nos nightclubs ou na televisão são produto de várias mentes. As gags, piadas, tudo foi escrito, re-escrito e revisado inúmeras vezes por zilhões de pessoas. É quase impossível você conseguir este grau de profissionalismo sentado na mesa da cozinha escrevendo sozinho, mas o mais importante é que você não precisa faze-lo. Jovens cômicos procuraram a min e a outros escritores inúmeras vezes pedindo por um material que lhes colocariam no show do Johnny Carson, na esperança de verem as suas carreiras deslanchar e coloca-los, de uma vez por todas, morando na Estrada da Fama pelo resto de suas vidas. E prometem mandar alguma grana para o escritor, assim que eles cheguem lá. Se eu pudesse escrever um material que fosse capaz disso eu próprio teria construído a minha moradia na Estrada da Fama. Mas eu não posso e nem meus amigos podem fazer isso. Ninguém é capaz de produzir sozinho este tipo de material. Um escritor iniciante não deveria ter este tipo de expectativa.

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Jogando com as Porcentagens.
Para ser um bom escritor, nem tudo que você escreve tem que ser bom – uma boa parte já é o suficiente. Um jogador de baseball não precisa acertar todas as bolas. Se ele conseguir acertar 1/3 de todas as bolas ele já pode pedir um bom aumento para jogar o próximo campeonato. A mesma porcentagem pode ser aplicada quando se escreve comédia. Uma comediante para quem eu trabalhei uma vez tinha oito ou nove escritores produzindo de 20 a 30 piadas sobre um mesmo tópico. Isto quer dizer que o comediante tinha de 200 a 300 piadas sobre um único assunto. E somente 15 destas piadas, no máximo, seriam incluídas no seu monologo final. Às vezes, eu mesmo desempenho meu próprio material após o jantar de alguma palestra. (Os cheques não são tão grandes quanto aqueles que recebo para escrever, mas é bom, de vez em quando, ouvir as gargalhadas que você pode provocar.) Para cada assunto que eu vou falar eu escrevo por volta de 25 ou 30 gags. Quando estou re-escrevendo este numero cai para 12 ou 15 das melhores. Quando faço a ultima revisão, eu corto ainda mais. Depois de ensaiar umas duas ou tres vezes descrubro que algumas gags simplismente não estão fazendo a sua parte. Das primeiras 30 gags, seis ou oito permacecem até o final. E eu estou cortando as minhas próprias piadas. Shows para TV são re-escritos interminavelmente. Se alguns produtores e escritores pudessem, eles mudariam ainda mais coisas enquanto o programa estivesse sendo transmitido. Me vem a mente agora um incidente que occoreu comigo e meu sócio. Os produtores the All in The Family nos pediram para escrevermos um episódio. Depois de entregue, eles nos importunavam constantemente para que submetêssemos novas idéias ou novo material para ser discutido. Mas, quando o episódio que havíamos escrito foi para o ar, uma única piada nossa tinha sido aproveitada. Num show de 30 minutos, uma única piada. Nosso script havia sido completamente re-escrito, e mesmo assim, eles nos importunavam por mais. Um outro amigo meu havia escrito um script para o Dick Van Dike Show e ele, então, foi para o Arizona ver a gravação do programa. Seu script havia tambem sido inteiramnete re-escrito. Quando a gravação terminou os produtores do programa vieram até ele pra pedir que ele escrevesse outro programa e le disse: “Porque vocês não usam aquele que eu mandei primeiro?”
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Não se dê por vencido antes de você começar. Se você pode escrever coisas engraçadas e esta afim de aprender e aplicar as técnicas, você pode se tornar um humorista. Tudo o que você escreve não precisa ser necessariamente uma jóia. Só é preciso haver algumas pedras preciosas, o suficiente para que a escavação valha a pena. Pessoas que não escrevem profissionalmente acham que nunca irão – eu já estive lá e sei – Eu escevi piadas para revistas mas no caminho eu sempre me dizia que eu estava colecionando “NÃOS”. Aí, alguma coisa aconteceu: Eu fui pago pelas minhas piadas. Minha vida mudou. Mas, antes de estar entre os profissionais eu sempre me dizia: “Eu não sou um escritor de piadas.” Estas pessoas costuman se ver como engenheiros, eletricistas, ou vendedores, alguém lá fora vai ser o humorista. Isto tudo é uma grande besteira. Phyllis Diller compra material cômico de qualquer lugar deste planeta, e embora eu não os conheça eu ousaria dizer que eles vêm de pessoas de todos os tipos. No inicio da minha carreira, depois de estar vendendo meu material regularmente para Phyllis Diller eu resolvi ver Phyllis gravar seu quadro no Mike Douglas Show. Enquanto eu espera no estúdio com o resto do publico, um cavalheiro veio até mim e disse que Phyllis queria falar comigo antes do show começar. Após um breve encontro com ela, eu convercei com o homem que havia me dado o recado. Nós não nos conhecíamos, nem nunca havíamos se quer nos visto antes, mesmo assim, no meio de tanta gente, ele veio direto até onde eu estava. Eu estava curioso por saber como ele tinha sido capaz de me reconhecer. Depois de muita tentativa e relutância da parte dele, ele me disse: “Eu perguntei para ela como eu iria te reconhecer”, e ela me disse, “É só passear pelas pessoas e escolher aquele que menos se parece com um humorista e traga ele até aqui.” Se você tem senso de humor e se as coisas lhe parecem engraçadas, e se você acha que pode escrever, então - você pode.

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Sim, você pode aprender.

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Alguns dos meus amigos escritores irão me açoitar por escrever este livro. Eles argumentaram que não é possível ensinar ninguém a escrever comédia. Isto me faz lembrar de um trabalho que tive antes assumir a carreira de humorista como minha única fonte de renda. Eu trabalhava no departamento de engenharia elétrica de uma grande companhia, e eu fui encarregado de computadorizar a nossa lógica diária. Eu devia juntar todo nosso raciocínio, organiza-lo, e reduzi-lo a um formato que caberia dentro de um computador. A primeira fase da investigação era entrevistar os engenheiros. E, naturalmente, eles relutaram. “É impossível fazer isso,” eles insistiam. “Existem muitas variáveis no que sabemos para colocar numa maquina que não pensa.” “Mas vocês passam por uma série de passos até chegar ao que querem, não é?” “Certamente,” ele concordaram, “mas é tudo muito complexo para um computador poder entender.” “Mas se vocês pudessem,” eu persisti, “qual seria o primeiro passo?” “A primeira coisa que faríamos,” eles responderam, “seria . . .” e então foi assim que conseguimos fazer exatamente o que nos foi pedido. Cada um deles definiu para mim o que, a principio, disseram ser impossível. Nós temos o mesmo fenômeno aqui. Humoristas profissionais insistem em dizer que somente escritores profissionais sabem e podem escrever comédia. Mesmo assim, a própria existência de escritores profissionais lhes contradiz. Eles não nasceram humoristas, então, eles devem ter aprendido de alguma forma. Por que eles insistem que ninguém mais pode aprender? Eles se esqueceram que também aprenderam após 25 ou 30 anos escrevendo comédia. Mesmo assim, quando eles se vangloriam das suas longas carreiras o que esta implícito em seus discursos é que eles aprenderam a escrever comédia durante todo este tempo. Se comédia é algo que não pode ser aprendido, como foi que eles conseguiram, então? Esta retórica é particularmente brochante para os escritores iniciantes. “Se não pode ser aprendido como é que eu vou escrever comédia?” Jovens escritores sempre me pedem para revisar os seus trabalhos. Minha primeira inclinação é dizer, “Isto é horrível.”
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Então, eu me pego revendo as coisa que eu escrevia a vinte e cinco anos atrás e as acho tão ou mais horríveis. A moral da estória é que há um potencial. A escrita não é ruim, só é inexperiente. Aquele ou este escritor pode melhorar conforme ele aprende ou é ensinado.

Um processo continuo.
A verdade é que veteranos ou iniciantes – sempre há espaço para todos nós nos aprimorarmos. Nós ficamos melhores quando eliminamos os erros. Nós aprendemos a não cometer os mesmos erros novamente. Neste caso, um iniciante pode aprender muito mais do que um velho profissional simplesmente por que o iniciante tem mais erros a serem eliminados. Com o passar dos anos, eu aprendi algumas coisas sobre escrever humor. Talvez, eu tenha lido ou aprendido ouvindo os escritores mais experientes, ou descobri tentando e errando o que devemos e não devemos fazer. Porque não posso, então, passar este conhecimento para os escritores menos experientes? Isto não é ensinar? O escritor, ou escritora, não esta aprendendo? Você pode argumentar que não se pode ensinar alguém a ser engraçado. E enquanto este argumento é tecnicamente correto, na prática a coisa pode ser um pouco diferente. É obvio que não se pode ensinar aquilo que leva um atleta nato a se tornar um jogador de baseball, futebol, ou uma estrela do tênis, mesmo assim todo time tem um técnico, muito bem pago por sinal, que ensina o seu atleta algumas coisinhas para melhorar seu desempenho em campo. Você pode ensinar um atleta com uma certa coordenação a usar seu talento mais apropriadamente ou inteligentemente. Você não tem como ensinar uma pessoa a ser mais rápida ou ágil, mas um profissional astuto pode ensinar a um novato como usar sua agilidade e velocidade corretamente. O veterano ensina e o jovem aprende. Podemos brincar com comparações deste tipo o quanto nós quisermos, mas uma coisa é certa, alguns aspectos do humor podem ser ensinados, e aprendidos, assim cada um de nós podemos melhorar nosso desempenho. Alguns amigos também argumentam que você não pode ensinar todo mundo a ser como Wood Allen, por que, então, se incomodar em instruir os
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iniciantes? Simplesmente, por que todos aqueles que escrevem por hobby, ou todos aqueles escritores de meio período, que almejam uma carreira profissional tem o direito de aprender o quanto eles quiserem.

Um outro exemplo que pode, perfeitamente, ilustrar isto tudo é o fato de eu ter sido um músico frustrado e por isso perturbava todo mundo que estava ao meu lado com meus assobios ou batucadas por que sempre havia uma musica rolando na minha cabeça. Durante anos eu tentei aprender gaita, banjo, guitarra, etc. Minha família até hoje me agradece por eu não ter tentado aprender bateria. Com o tempo, consegui dominar horrivelmente a guitarra e minha técnica era bem limitada. Finalmente, eu tomei a decisão de que eu iria tocar aquele instrumento bem e, para isso, eu tinha que aprender tudo sobre ele. Me matriculei, então, num curso de teoria musical e num outro sobre técnica instrumental. A música, então, perdeu seu mistério para mim quando eu comecei a aprender a lógica e a matemática por trás dela. Meus dedos tomaram uma destreza maior com os exercícios práticos. Resumindo, hoje toco com um grupo de Jazz nos finais de semana. Bom, mas a coisa mais importante disto tudo é que eu hoje toco razoavelmente bem e com isso tenho horas e horas de relaxamento e prazer com a minha guitarra. Ninguém pode me dizer que perdi dinheiro e tempo investindo em aprender música e a tocar um instrumento simplesmente por que nunca conseguiria ser um Segovia ou George Benson. Se somente aqueles que tivessem a certeza de que se tornariam virtuosos aprendessem piano, o mundo teria sido privado de muita música.

O auto aprendizado.
Existe um senso comum de que não podemos ensinar alguém a ter habilidade: cada um deve se auto ensinar. Voltemos ao nosso exemplo esportivo. O veterano pode expor ao seu aprendiz de tênis todo o tipo de conhecimento e sabedoria que ele possui
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sobre o esporte mas, a menos que a pessoa instruída tente converter este conhecimento e sabedoria em prática, onde ele possa aplicar tudo que lhe foi passado, ele nunca superará suas dificuldades. Existem dois tipos de conhecimento: o intelectual e o prático. Como exemplo, suponhamos que um professor universitário tenha resolvido aprender tudo o que se pode sobre natação. Ele estudou todos os livros relacionados com esta prática. Ele chegou, até mesmo, a estudar anatomia para conhecer melhor os músculos que tal prática esportiva requer. Contudo, nosso prezado professor nunca chegou sequer perto d’água. Criemos um outro personagem fictício que arranjou um emprego de salvavidas. Ele passou pelo curso da Cruz Vermelha, e tinha que nadar duas milhas diárias. Durante os anos de profissão ele teve que se aventurar em águas sob diversas circunstâncias e condições para salvar alguém. Suponhamos agora que você, acidentalmente, tenha caído de um barco no meio do oceano e tenha pedido socorro. Qual dos dois personagens você gostaria que viessem a sua ajuda? O Professor ou o salva-vidas? Certamente, o professor possuía todo o conhecimento intelectual que ele precisava para salva-lo, mas ele nunca testou seus conhecimentos. Ele nunca vivenciou aquilo que aprendeu. O nosso salva-vidas, por outro lado, talvez não tenha todo o conhecimento intelectual que envolve a sua profissão, mas ele sabia como faze-lo. Este exemplo deixa claro que só você pode se auto ensinar. Só você será capaz de aprender como lidar com a água, a corrente, as ondas, e tudo mais por meio da pratica e repetição. Só o seu corpo poderá repetir aqueles mesmo movimentos musculares e aprimora-los com o tempo. A escrita é como um músculo. No sentido prático da coisa, só você é capaz de ensinar a si mesmo como escrever. E a única forma com a qual você poderá aprender é escrevendo. Individualmente falando, o conhecimento pratico é superior e mais eficiente que o conhecimento obtido nos livros. O conhecimento obtido nos livros se torna quase inútil, a menos que ele tenha suporte prático. O conhecimento prático, embora por vezes possa ser inexato, ele sempre é de grande valia. Se você der uma raquete e algumas bolinhas a uma pessoa que quer aprender tênis e vê-lo praticar duas horas diárias por dois anos, no final
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de dois anos esta pessoa estará jogando tênis razoavelmente bem ou, até mesmo, muito bem. Talvez ele ainda rebata a bola sem precisão, mas com mais prática ele conseguirá dominar esta dificuldade. Com certeza ele estará jogando melhor tênis do que aquele que leu tudo o que ele podia a respeito de tênis durante dois anos por duas horas ao dia. É obvio que o ideal é ter os dois tipos de conhecimento. Aprenda o que fazer e como faze-lo e vá a luta e faça.

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As ferramentas que você ira precisar.

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Uma vez, quando eu estava ministrando um curso de como escrever comédia, um aluno me disse que analisar uma comédia é como dissecar um sapo: ”Você aprende algumas coisas durante, mas a pobre criatura sempre morre durante o processo”. Talvez, seja assim que algum de vocês se sinta no momento. “Chega de comédia…. Quando é que a gente vai começar a escrever?” Sinceramente, você tem a minha simpatia porque eu conheço muito bem esta sensação. A tendência quando recebemos um trabalho é simplesmente nos sentarmos e começar a maquinar as piadas: “É para isso que somos pagos e é isso que nos diverte – escrever coisas engraçadas.”

Preparação! Preparação!
Tendo passado por alguns trabalhos exaustivos com prazos de entrega (deadlines) não menos estressantes, eu aprendi uma coisa: faça o que tem de ser feito rapidamente para que você possa relaxar depois. Naturalmente eu quero fazer um ótimo trabalho para que eu possa ainda continuar trabalhando para pagar os meus momentos de lazer. Também aprendi com a experiência que a maneira mais fácil e rápida de completar um trabalho não é se apressar para começar a escrever, mas gaste algum tempo preparando o que você vai escrever. Faz o trabalho ficar mais fácil e o resultado final será melhor. Por isso estamos dedicando um capitulo sobre as ferramentas ou habilidades que você vai precisar para escrever comédia. Tenha estas ferramentas sempre com você, pratique-as e aprimore-as. Vamos usar a música como exemplo novamente. Eu já lhes contei como eu me dediquei para aprender música no geral e a guitarra, mais especificamente. Inegavelmente, foi entediante aprender todas aquelas escalas e acordes. No inicio, tudo aquilo parecia não ter nada haver, aquilo tudo não estava me ajudando a tocar guitarra. Mas, com paciência, estudo, e muita pratica, tudo se encaixou. Eu descobri que estava tocando melhor e mais abrangentemente. Eu estava conseguindo improvisar e criar espontaneamente com o meu instrumento. Eu estava tocando música. De alguma maneira, o sapo havia sobrevivido. Você vai acabar sentindo o mesmo quando começar a trabalhar e praticar as ferramentas e ou habilidades que envolvem uma boa comédia. Nenhum pensamento ou idéia virá e mudará seu trabalho instantaneamente mas,
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gradualmente, e quase sem perceber, você ira absorver o que você aprender e este conhecimento fará parte do seu arsenal. Felizmente, quando se escreve comédia você não precisa ter uma destreza especifica como a de um atleta ou estudar escalas chatas como na musica, a diferença é que escrever comédia é um exercício divertido. Vamos discutir algumas habilidades ou ferramentas que você ira precisar. Quando chegarmos na segunda parte eu lhes prometo que vocês irão começar a escrever.

Senso de Humor.
Talvez seja um pouco estúpido listar senso de humor como uma ferramenta. É quase igual a estarmos sentados numa sala de aula de um curso de guitarra de 300 dólares mensais com nossos instrumentos de 600 dólares e o professor perguntar, “Quantas pessoas aqui gostam de tocar guitarra?” É claro que você tem um senso de humor ou não estaria tentando aprender a escrever comédia. Contudo, vai nos ajudar a conhecer um pouco mais sobre comédia e a si mesmo se discutirmos o senso de humor por mais uma ou duas páginas. Eu defino senso de humor como as três habilidades seguintes: a) ver as coisas como elas são b) reconhecer as coisas como elas são c) aceitar as coisas como elas são Deixe me usar um exemplo aparentemente distante do mundo do humor para ilustrar o meu principio. Ano passado, eu descobri que estava com alguns problemas cardiovasculares e teria que fazer uma operação de ponte de safena. A operação foi um completo sucesso, o problema foi sanado, e eu continuo a jogar tênis mal como sempre. Mas a cadeia de eventos que se seguiu, serve para mostrar a diferença entre: ver, reconhecer e aceitar a realidade. Meus primeiros sintomas eram mau humor e fatiga. Eu não havia notado que estava agindo assim até alguns amigos íntimos começarem a me chamar a atenção para o fato. Eu não estava vendo as coisas como elas eram. Depois de estudar as reclamações e finalmente admitir a minha culpa, eu tentei explicar por que eu estava agindo daquela forma eu estava extremamente cansado, estava trabalhando demais e estava meio fora de forma.
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Eu estava ranzinza simplesmente por que as outras pessoas não me deixavam em paz. Eu não reconhecia as coisas como elas eram. Finalmente, eu fiz alguns testes que confirmaram que havia um problema comigo e que eu precisaria ser operado. Neste instante, eu aceitei as coisas como elas eram. Não foi fácil mas. . . Minha vontade era dizer: “Eu vou me alimentar melhor, vou fazer mais exercícios físicos, vou me comportar e o problema ira desaparecer.” Este exemplo ajuda a esclarecer os conceitos de ver, reconhecer, e aceitar as coisas como elas são. Mas que raios isso tem haver com senso de humor? Assim como eu nunca teria sido curado do meu problema se eu houvesse me recusado a seguir estes três passos, ninguém conseguirá ver o humor em qualquer situação se não satisfazer estes mesmos três passos. Deixe me usar como exemplo novamente. Junto com todo este problema cardiovascular eu estava também passando por uma fase de queda de cabelo crônica. Será que podem tirar sarro na minha cara por causa disto? Espero que sim. Meus filhos, por exemplo, nunca me pouparam e me mostraram o valor que a comicidade tem. Já confessei que eu estava mal humorado, mas quando eu descobri que devia ser operado eu comecei a ficar deprimido e um expert em sentir pena de mim mesmo – nem preciso dizer que não havia muitas gargalhas ao redor. Para aumentar o meu sofrimento eu tinha que usar uma destas medicações que a gente gruda na pele. Tudo bem, se não fosse o fato de eu ter um corpo coberto por pelos. Dá pra imaginar o tipo de tortura a que eu tinha que me submeter. Eu não conseguia achar um lugar onde eu pudesse grudar aquilo. Minha filha, então, me disse: “Porque você não gruda na sua cabeça?” Parece cruel mas foi uma resposta espontânea e bem humorada que tirou o peso da melancolia que sentia e nos fez rir novamente. Eu recuperei o meu bom humor por que finamente consegui ver, reconhecer e aceitar a realidade da minha doença. Voltando a ilustrar o senso de humor. Em que ocasião eu não teria aceitado piadinhas sobre a minha calvície? Primeiro, eu não tinha consciência dela. Eu não via. Muitas pessoas começam a perder cabelo em partes difíceis de serem vistas no espelho, você não vê, mas todo o resto vê, principalmente aquelas pessoas mais altas que você. Se alguém faz uma piadinha a respeito disso neste estagio da calvície, as pessoas te olham como se você estivesse ficando completamente louco.
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“Quem???? Eu careca? Você está louco?” Segundo, se elas se recusam a reconhecer o fato de que estão ficando carecas. Eu me convenci, durante anos, que se eu penteasse o cabelo de outro jeito eu conseguiria disfarça-la. Se alguém houvesse feito alguma piadinha, então, eu teria ficado completamente ofendido porque era uma prova viva de que meu esquema de cobrir a careca não estava funcionando. Terceiro, alguns de nós nos recusamos a aceitar os fatos, e piadas sobre nossa perda de cabelo não são nem um pouco bem-vindas. É essencial que você tenha consciência destas três habilidades quando você está diretamente falando para o publico porque nem todas as platéias tem senso de humor a respeito de todo e qualquer assunto. Você deve saber o que o seu publico vê, reconhece e aceita antes de fazer piadas com ele.

Humor e Bem-estar
Bom humor não precisa estar relacionado só em escrever comédia, desenvolver senso de humor ajuda no seu bem-estar. Como é que se desenvolve senso de humor? Simplesmente, tendo sempre com você as três habilidades que há nele. Muitas vezes, nos deparamos com situações que testam a nossa santa paciência: se você aprender a ver, reconhecer e aceitar a realidade delas vai ser muito melhor para o seu sistema nervoso. Aqui em Los Angeles, às vezes, a gente se vê preso no maior estacionamento do mundo, o trânsito. Uma vez que você se encontra dentro de um destes engarrafamentos intermináveis, não tem como você não vê-lo, você esta lá parado. Contudo, as vezes é difícil reconhece-lo, a gente diz para si mesmo: “Talvez, seja só um acidente e logo estaremos andando de novo.” O verdadeiro otimista diz para si mesmo: “Talvez a faixa onde eu estou comece a se mover rapidamente.” Existe aquele outro tipo que a gente ama e diz: “Bem, já que eu estou aqui, vou começar a buzinar e tudo vai se resolver rapidamente.” Aí, a gente tende a não aceita-lo. A gente se tortura dizendo a si mesmo coisas do tipo,”Putz, eu estava indo pra outro lado e achei que aqui estava melhor.” ou “Eu deveria ter saído mais cedo.” A realidade é que você não fez nenhum dos dois. Dai, você vê, reconhece e aceita que você está no meio de um puta engarrafamento, você liga o radio numa estação bacaninha, e relaxa até o transito voltar a fluir, ou faça o que eu faço – BUZINE!!!!!
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A habilidade de analisar e preparar.
Existem dois processos de pensamento, no geral, quando se escreve uma piada. O primeiro é absolutamente rápido e quase imperceptível. Consiste em ter seu cérebro lotado de idéias que borbulham lá dentro, e instantaneamente analisa-las, para ver se há alguma conexão relevante com um outro pensamento. A grosso modo, uma piada carrega duas idéias distintas que navegam juntas para formarem uma. Pense nas suas piadas rapidinhas favoritas aquelas de uma linha - e você ira descobrir que, na verdade, há dois pensamentos nelas. Às vezes, estes pensamentos são surpreendentemente parecidos; às vezes, completamente opostos; outras vezes, são ilógicos ou simplesmente irônicos. Mas, 99% das piadas são duas idéias amarradas juntas de uma forma engraçada. Quando formulamos uma piada, nosso cérebro começa com uma idéia e, então, com a velocidade de um computador, seu cérebro gera e analisa outras idéias que possam se unir a primeira de forma nova e engraçada. Como nossos cérebros são bem rápidos, esta combinação pode acontecer acidentalmente. Por isso, qualquer pessoa pode escrever uma piada. Porem, nós escritores não podemos ficar a mercê do acaso, de coincidências ou acidentes quando criamos uma piada. Por isso, o processo de formular uma segunda idéia para se unir à primeira é tão importante. Às vezes, este processo é vagaroso e metódico. É, simplesmente, o mecanismo de preparar o seu cérebro para passar pelo primeiro processo. Toda piada parte do primeiro processo, aquele onde as idéias inundam sua cabeça e você as avalia. Assim, quanto mais pensamentos iniciais você tiver melhor será a sua seleção, conseqüentemente, mais piadas você gerará e melhor você vai se tornar. Como um humorista você vai querer ser capaz de dissecar completamente um assunto e preparar uma lista com pensamentos relativos a ele, antes de realmente sentar e escrever.

A habilidade de correlacionar idéias.

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Como parte da análise e preparação, um escritor vai querer encontrar palavras, frases, eventos, pessoas, fatos, coisas e símbolos que são similares ou completamente opostos ao tópico ou assunto principal. Não é muito diferente de quando fazemos palavras cruzadas. Quando uma palavra lhe é dada, você imediatamente começa a procurar todas as outras palavras que, possivelmente, tenham uma relação com a definição que você acabou de ler e, de repente, sua mente lhe apresenta uma resposta e, de preferência, a resposta certa.

A habilidade de ver outros significados.
Um bom humorista deve aprender a ir além dos limites óbvios. Quando você vê uma foto, uma palavra, ou frase, você reconhece o seu significado, digamos, seu significado padrão. Com um pouco de esforço, contudo, você pode lhe creditar um novo significado. Freqüentemente, este outro significado dado por você o levará a piada que você estava procurando. Por exemplo, um homem vestindo um smoking é um homem vestindo um smoking, mas ele também pode ser um pingüim. Um homem vestindo um paletó branco num jantar pode ser um homem de muito bom humor ou um médico. Uma vez, eu escrevi uma piada para Bob Hope sobre a quantidade de ataduras usadas pelos jogadores de futebol americano,

“My wife watched the game on television and said, ‘These players can’t be too old. Some of them haven’t been unwrapped yet’.” “Minha mulher estava assistindo a um jogo de futebol americano na televisão outro dia e disse: ‘Estes caras não podem ser tão velhos assim, algum deles nem foram desembrulhados’.”
Este método funciona tão bem com palavras quanto com visualização. Groucho Marx era mestre em achar novos sentidos para as palavras.

“Then, one morning I shot an elephant in my pajamas. How he got in my pajamas, I’ll never know.” “Então, uma manhã, eu atirei num elefante em meu pijama. Como ele entrou (coube) em meu pijama, eu nunca saberei!”
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Uma outra piadinha velha que pode servir para ilustrar o que eu estou dizendo é:

“Can you tell me how long cows should be milked?” “Você sabe me dizer quanto tempo leva para tirar leite de uma vaca bem grande.”
Você fica, então, esperando uma reposta relacionada com tempo, tipo 5 ou 10 minutos. Mas o comediante diz:

“The same as the short ones.” “O mesmo que as bem pequenas.”
Um significado diferente foi encontrado para a pergunta.

A habilidade de rastrear idéias.
Você, provavelmente, já deve ter notado que a maioria das nossas habilidades trabalham juntas. O escritor deve utilizar todas ao mesmo tempo quando ele senta para escrever. A habilidade de rastrear idéias é uma das mais importantes, por que esta habilidade é, basicamente, no que consiste o processo de escrever uma “gag”. Uma escritora ou escritor analisa e lista todas as correlações que ele ou ela foram capazes de encontrar sobre um único assunto, mas para escrever, ele ou ela, deve rolar todas estas idéias em suas cabeças, uma a uma, até que eles encontrem uma piada. Geralmente, você começa dizendo aquilo que você realmente quer dizer e, então, você rastreia a sua mente até encontrar aquela segunda idéia que vai dar a graça. Com o tempo, a gente aprende a fazer isto mentalmente, mas eu recomendaria a um recém-chegado que ele tomasse nota de tudo para facilitar as coisas, pelo menos no início.

A habilidade de visualizar.
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Esta é uma habilidade mental que irá lhe ajudar a criar muitas piadas. Se você analisar as suas piadas favoritas, você descobrirá que muitas são engraçadas porque elas criam imagens ridículas. Eu criei uma piada para Phyllis Diller, uma vez, que tinha a ver com uma rotina cômica sobre sogras do tipo “Minha sogra é tão gorda que. . .” E era assim:

“My mother-in-law is so large, one day she wore a gray dress and an admiral boarded her.” “Minha sogra é tão grande que, um dia ela usava um vestido cinza e um almirante quis embarcar nela.” “Minha sogra é tão grande que, um dia ela usava um vestido cinza e um almirante embarcou nela.” “Minha sogra é tão gorda que, quando ela veste cinza parece um navio de guerra!”
O imaginário, neste caso, é que a mulher parecia um navio de batalha. O piada evoluía conforme eu deixava minha mente vagar no campo do exagero. Eu imaginei uma baleia, um prédio, um caminhão, um tanque de guerra, um navio de combate e muitas outras coisas estranhas. Como um humorista, você toma alguma coisa real e a distorce ao extremo exagero para ver que tipo de imagem engraçada você pode criar. E aí, é só achar as palavras certas para aquela imagem.

Uma facilidade com as palavras.
Toda forma de comédia é expressa por meio de palavras, então, seria conveniente que todo escritor cômico soubesse usa-las para seu benefício. Algumas gags dependem exclusivamente de palavras. Uma vez eu criei uma piada para uma estrela mundialmente reconhecida pelo tamanho dos seus seios. O comediante encarava os seios dela e dizia: “Ai que dó. Sua corcunda veio parar na frente.” O escritor deve desenvolver um ouvido para as palavras, devendo até mesmo criar uma lista com elas: as mais esquisitas, engraçadas, as que
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estão mais na moda, etc. que possam lhe ajudar quando ele escreve suas piadas. Durante um show de natal perguntaram a Bob Hope o que ele fazia para se manter tão jovem. Ele respodeu, “Eu uso uma versão industrial de Óleo Deveras”. Criando um trocadilho para o nome Aloé Vera.

A habilidade de dominar o ritmo da comédia.
Esta habilidade é inata. Você ouve coisas do tipo a regra de três da comédia, três frases e uma de efeito no final da piada. E de que as palavras começadas com ‘k’ em inglês são sempre engraçadas. Okay, todas estas regras podem ser aplicadas, mas o ritmo e o tempo de uma piada são pessoais. Eu já vi cinco escritores discutirem por horas sobre a colocação precisa das palavras numa piada. Ninguém estava necessariamente certo ou errado. Não se assuste com todas estas regras complicadas que se aplicam na comédia. A maioria delas são inerentes em qualquer pessoa com bom humor. No capitulo oito iremos encontrar uma série de exercícios que trabalham os diferentes aspectos que estão envolvidos quando escrevemos gags e cada um deles será discutido em detalhes. Você vai perceber que todas estas regras e técnicas são mais fáceis que a minha explicação.

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A comédia como um hobby.

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Há algum tempo atrás, eu estive presente em um workshop onde o principal palestrante foi Charles Schulz, você sabe quem é, o criador de Charlie Brown, Snoopy e toda a turma. Durante a palestra, Schulz mencionou que Snoopy, o beagle precoce das tiras, era um autor frustrado. Embora ele escrevesse seriamente e com um otimismo inigualável, Snoopy, concordou Schulz, nunca vendeu e nem vendera qualquer um dos seus trabalhos. Então, uma das pessoas da platéia comentou que muitos de nós ali naquele dia éramos iguaizinhos ao beagle escritor. Talvez nunca chegássemos a vender nada também. Ela, então, perguntou se Schultz gostaria de dar algum conselho para estas pessoas. Eu me lembro de ter me simpatizado com Schulz quando a pergunta foi feita porque, até então, ele se referia a Snooppy como um autor frustrado de uma maneira bem humorada, e aquela pergunta fez com que aquele clima engraçado se tornasse pesado e bastante deprimente. Mas Schulz não se abalou. “Eu, com certeza tenho” - ele disse. “A recompensa esta no fazer.”

As recompensas de uma ocupação.
Eu sempre acreditei que precisamos dar uma escapada do mundo estressante em que tentamos ganhar algum dinheiro. Não há nada de errado em tentarmos ganhar o nosso pão: o problema é que todos esperam que você tenha grandes resultados na vida e por isso ganhe dinheiro. É extremamente confortante quando lutamos para superar algum desafio sem nunca nos preocuparmos com os resultados. Como você já deve ter imaginado um dos meus hobbies favoritos é o tênis. E eu levo muito a sério este meu hobby. Eu já estudei bastante e na quadra eu jogo para ganhar. Mas se eu perco, mesmo quando eu roubo, e ocasionalmente isto acontece, não é uma catástrofe para mim. Ter perdido uma partida de tênis não vai influenciar em nada nos meus rendimentos e nem prejudicar a minha profissão. É natural que eu não goste de perder mas os efeitos na minha vida prática são mínimos, eu não perdi nada mais do que uma partida de tênis. O outro lado da moeda é que nunca é demais quando a gente consegue fazer um dinheirinho extra para engrossar as finanças.
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Eu não jogo tênis por dinheiro - se o fizesse eu estaria falido – mas eu ganhei dinheiro escrevendo comédia, que no início era apenas um hobby. Quando as pessoas me perguntam como foi que eu entrei para o ramo da comédia, eu sempre respondo que foi um hobby que saiu do controle. As pessoas embarcam numa carreira de escritor da mesma forma que elas cometem pecados. No inicio, você experimenta porque você quer se divertir, depois você começa a entreter os seus amigos mais íntimos, então, você diz: “Caramba, já que me dedico tanto, poderia tentar ganhar algum dinheiro com isso”. Eu descobri depois, no entanto, que meu hobby se tornou uma carreira e que eu ainda precisava de alguma diversão. Foi aí que o tênis e a guitarra vieram me socorrer. Todos nós precisamos de uma atividade onde a recompensa esta no fazer. Todos nós precisamos de um passatempo onde podemos ir ao extremo e que se danem os resultados. Escrever humor pode preencher este vazio. E certamente é bastante conveniente. Você não precisa de nenhum aparato, ou instrumento. Tudo o que você precisa é de uma caneta e folhas de papel em branco. Escrever pode se encaixar em qualquer hora vaga que você possa ter no seu cronograma. Você pode escrever em qualquer lugar também: no ônibus, durante o seu horário de almoço, enquanto você se barbeia, etc. Meus filhos uma vez me fizeram leva-los para ver um filme dos Irmãos Marx, do outro lado da cidade. Eles já esperavam por este dia ansiosamente mas, um pouco antes de sairmos de casa, eu recebi um telefonema de um cliente que precisava que eu lhe escrevesse um novo material para um monólogo. E, infelizmente, o material deveria estar pronto em uma hora. Quando as crianças ouviram as novidades, eles ficaram extremamente desapontados e me acusavam de ter quebrado uma promessa. Eu me sentia culpado – mas um pouco de criatividade salvou meu dia e minha reputação de pai. O cinema que estava passando o filme ficava a uns 45 minutos de carro da minha casa, então eu dei um caderno e um lapís para cada um deles. O mais velho deveria escrever a primeira piada, o próximo em idade deveria escrever a minha segunda piada, e assim por diante. Eu ditava minhas gags e eles escreviam enquanto eu dirigia. Chegamos ao cinema, compramos a nossa pipoca, achamos nossas cadeiras, eles assistiram ao filme enquanto eu juntei as anotações, revisei as gags e liguei para o cliente. Uma porcentagem grande das piadas funcionaram, o filme foi hilário, as crianças se divertiram, e eu fui um bom pai.
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Eu classifiquei este trabalho como um hobby, por que no final do dia, depois de ter pago o cinema, colocado gasolina no carro e ter ido jantar fora, não me sobrou nada. Mas, de qualquer forma, este exemplo mostra que se pode criar e fazer comédia sob qualquer condição. Escrever humor é um hobby excitante, divertido e provocativo por que ele utiliza habilidades diferentes. Como vimos no capitulo 2, escrever comédia requer uma facilidade com palavras, visualização, memória, e um toque de psicologia. Escrever também é desafiador. Você sabe o quanto é bom ouvir uma boa piada, mas é melhor ainda quando nós criamos nossas próprias piadas. Pode ser divertido também faze-lo com várias pessoas, ao mesmo tempo. Quando eu trabalhava como engenheiro, nas horas de folga, nós criamos uma imitação do programa do Johnny Carson, que nós chamávamos de “O Grande Calsoni”. E é claro que tínhamos um quadro igual aquele do programa feito por Steve Allen, chamado de “O Homem Resposta.” Cada um de nós submetia algumas frases, perguntas, ou dizeres que haviam sido publicados nos jornais. Havia frases do tipo, “um buraco em um” ou “tome uma Coca e sorria.” Cada um de nós, então, passava o resto da semana trabalhando durante nosso almoço, durante o nosso descanso em casa, ou até mesmo, quando deveríamos estar trabalhando em algum projeto, para criar respostas do tipo: “O que foi que o Robert Redford deixou quando ele encontrou os irmão James?” ( ….. um buraco em um.) “O que você compra com dois dólares num bordel?” ( … uma coca e um sorriso.) Você pode notar que um pouco de competitividade e diversão pode ser adicionado ao seu hobby. Você não só se diverte com as coisas que você cria, mas com o que os outros criam também. No capitulo 8 veremos alguns exercícios que podem ser aplicados como exercício em grupo. Humor também pode ser usado mais praticamente.
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Eu descobri o quanto as pessoas gostam de ser motivo de risadas quando eu comecei a escrever comédia. Eu já havia adquirido uma certa reputação e já trabalhava como mestre de cerimônias em banquetes ocasionais. Nestas ocasiões eu sempre escrevia algum material sobre o convidado ou convidada de honra. Depois do jantar, muitos se aproximavam de mim e pediam uma copia do texto. O humor pode ser um bom presente para alguém. Sua própria inteligência lhe trará um suprimento infinito de idéias inovadoras, mas aqui estão algumas das coisas que já fiz com humor das quais eu gosto muito. Já escrevi quadros sobre amigos ou membros da família, criei rotinas para chás de cozinha, aniversários e bodas, escrevi frases engraçadas para álbuns de família, etc. Já criei cartões personalizados, e cartoons enormes para serem emoldurados. Não existe fim para o que se pode fazer com comédia. Mas, como Charles Schulz disse no inicio deste capitulo, “A recompensa esta no fazer.” E esta recompensa é muito maior quando você a compartilha com os outros.

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A comédia como uma segunda fonte de renda.

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Com o devido respeito, a “Recompensa esta no fazer”, o próprio Charles Schulz é uma prova viva de que não há nada de errado em conseguir alguma remuneração pelos seus esforços. Fazer comédia é divertido, mas também é divertido ir às compras com os cheques que você pode receber em troca. O valor do dinheiro não precisa ser explicado por mim aqui, mas eu posso lhe dizer que há uma grande alegria em ser compensado pelo seu trabalho como escritor. Um cheque sempre te leva de volta a máquina de escrever. É uma força a mais que lhe mantém escrevendo. Seus amigos e conhecidos podem te achar engraçado e rir histericamente com as coisas que você cria, mas quando você apanha alguma coisa no supermercado que você pode pagar, você acaba tomando consciência de que você é um escritor. Escrever comédia pode ser uma excelente forma de ter uma segunda renda. Você pode trabalhar em casa, quando bem entender e você pode ser seu próprio chefe. Eu comecei a escrever em 1959 e levei quase dez anos para trabalhar na televisão e realmente ganhar muito dinheiro. Durante aqueles dez anos, eu consegui fazer dinheiro o suficiente para justificar todo a minha dedicação em escrever. Nesta época eu ganhava em torno de 1,500 a 10,000 dólares anuais escrevendo gags. Hoje, provavelmente, estes números poderiam ser dobrados ou quadruplicados. A coisa mais importante é que, paralelamente, eu mantive meu emprego, durante todos estes 10 anos, sem comprometer os meus momentos de lazer. E não precisava gastar muito com o meu hobby de escritor. Uma máquina de escrever, fita e papel em branco (não por muito tempo, a gente espera), um pouco de selos, talvez uma ligação telefônica extra, não custam tanto assim. As oportunidades de mercado para quem escreve comédia por meio período são ilimitadas. Tudo depende de você. Aqui estão duas histórias que me divertem até hoje. Durante meus anos de aprendizado, eu escrevi varias colunas para os jornais. Eram 12 piadas sobre os problemas locais. Eu as escrevia de manhã, tomando o café e me barbeando para ir trabalhar.
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Eu ainda fico orgulhoso de mim mesmo por ganhar 10 dólares toda manhã enquanto me barbeava. (Hoje eu tenho uma senhora barba, o que me faz pensar que talvez eu nunca volte a escrever para os jornais ou eu tenha ficado rico.) Com o tempo, contudo, eu comecei a ficar um pouco frustrado com o caminho que minha carreira como escritor estava tomando; ou, eu comecei a ficar irritado com a falta de caminho que a minha carreira estava tomando, não sei bem. Mas o fato é que eu precisava fazer alguma coisa com tudo aquilo. Eu queria fazer um curso de comédia por correspondência, mas o custo do curso me proibia. Dai eu entrei em contato com um comediante local e contei para ele os meus planos e vendi para ele os direitos de todas as piadas que produzi durante o curso. Ele conseguiu material cômico bem barato e eu aprendi um pouco mais sobre comédia. O humor esta sempre em demanda em qualquer lugar. Você deve encontrar onde ele é necessário e preencher este vazio, talvez até mesmo dentro da sua própria comunidade. Seguindo você vai encontrar algumas sugestões para estimular a sua mente.

Revistas
Muitas revistas solicitam pequenas piadas para preencher as suas páginas. A Changing Times e a Reader’s Digest são os melhores exemplos disto. Certamente, deve haver alguma coisa do gênero no seu pais. Meu primeiro cheque veio de uma revista de suplemento dominical e era de $5,00, junto dele um bônus especial: na capa desta revista veio a foto do meu ídolo Bob Hope, com uma história sobre suas piadas de golf mais famosas. (Então,às vezes, eu gosto de me engrandecer e dizer que a primeira vez que eu apareci numa revista eu a dividi com Bob Hope.) Se você concentrar esforços para entrar neste mercado você deve manter suas piadas organizadas para que você depois saiba o que mandou, para que revista. As revistas mais convencionais trazem ensaios engraçados em todas suas edições, você também poderia mandar trabalho para ser avaliado por estas revistas. Os editores adoram pedaços genuinamente engraçados e quase nunca sabe onde encontrá-los.
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Cartões.
Você já deve ter notado que, ultimamente, os cartões românticos estão cedendo mais e mais espaço para os cartões de humor. Conseqüentemente, há uma necessidade maior de humoristas escrevendo para qualquer tipo de produtores destes cartões.

Cartunistas
Ser abençoado com habilidades artísticas não quer dizer que esta mesma pessoa tenha sido abençoada com o talento cômico. A maioria dos cartunistas está sempre procurando por algum material cômico que eles possam ilustrar.

Colunas de Jornais.
Procure os jornais locais da sua comunidade. Alguns jornais locais querem material que fale a respeito de assuntos específicos dentro daquela comunidade, bairro etc., para publicarem. Você pode não receber um cheque gordo em troca, mas vale a pena tentar. Meu conselho é que você escreva, neste caso, algumas colunas a respeito de alguma coisa que tenha sido publicada, e presenteie os editores destes jornais com elas. Eu já escrevi varias destas colunas e sempre as considerei bastante populares, por duas razões. A primeira é que as pessoas adoram rir, especialmente se elas vêm impressa no meio de toda aquela barbaridade que poluem nossos jornais. Segundo, eles adoram alguns comentários engraçados a respeito da cidade onde moram. Tente os jornais de bairro, e outros que sigam esta mesma linha, eles são mais fáceis de ceder, e dai, é trabalhar o caminho inverso. Depois que você já adquiriu alguma experiência, você pode começar a fazer o mesmo com os jornais maiores.

Personalidades do rádio e da tevê.
Disc Joqueis e personalidades de TV locais sempre têm algum espaço que eles precisam preencher. Eles estão sempre precisando de material cômico. Neste caso, a melhor aproximação é uma carta de apresentação
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com um exemplo do tipo de material que você escreve. Se eles se impressionarem com a sua habilidade, eles vão te procurar e dai é com vocês. Muitas destas personalidades trabalham tanto fora quanto dentro das rádios e das tevês. Eles vão, na maioria das vezes, precisar de algum material cômico nas suas aparições em público.

Oradores Profissionais

Uma verdadeira subcultura de palestrantes, conferencistas, ou oradores profissionais existe e sabemos muito pouco a seu respeito. Estas são pessoas que ministram palestras sobre assuntos técnicos, motivação, técnicas de venda, etc., ou são simplesmente humoristas que entretém convidados em um banquete. Quase todas estas pessoas estão sempre procurando por algum material cômico, por que sabem que um certo humor é essencial para manter o publico acordado durante suas palestras.

Executivos.
Muitos executivos têm descoberto que um pouco de humor durante as suas apresentações ajuda os presentes, não só a ouvir melhor o que esta sendo explicado, mas também ajuda a reter as informações que estão sendo passadas. Conseqüentemente, sempre há algum executivo interessado em acrescentar um pouco de alegria nos seus discursos. É difícil colocar o seu trabalho à disposição destas pessoas, mas conforme sua reputação aumenta, eles poderão vir ao seu encontro. Esta não é uma área muito fácil de explorar, mas vale a pena tentar.

Dando o seu próprio recado.
Existem profissionais que adoram um tom menos austero – especialmente os profissionais que lidam com assuntos nem sempre agradáveis, ou longas dissertações técnicas. Muitas organizações procuram, ano apos ano, por um ou dois conferencistas que possam acrescentar um certo humor durante suas reuniões. Foi assim que a minha carreira como escritor começou – como um orador.
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Algumas destas pessoas já tinham ouvido falar das minhas piadas, especialmente criadas para estas ocasiões, e me contrataram como orador. Meu trabalho era entretê-los após os jantares. Isso fez com que outras pessoas ouvissem a meu respeito e sobre minha habilidade cômica, e não levou muito tempo até começarem a aparecer as primeiras ofertas para comprar meu material. Com o tempo, a função de escritor se tornou mais lucrativa do que a de orador e comecei a dedicar mais tempo em frente à máquina de escrever. Recentemente, voltei a prestar este tipo de serviço e descobri uma coisa bastante interessante: pessoas que não pagam por um orador, pagam por um humorista. A razão pela qual muitas organizações não pagam por oradores é que eles geralmente falam de graça.

É incrivelmente fácil achar alguém em alguma organização, empresa, comunidade, etc. que discurse de graça em troca da oportunidade de expor e promover seus produtos, idéias, planejamentos, etc. Contudo, se estas organizações encontram um bom humorista para alegrar as suas reuniões, eles costumam lhe oferecer uma taxa. Há outros caminhos que você pode seguir também. Existem instituições esportivas, musicais, etc., dentro das comunidades ou bairros que oferecem prêmios aos seus representantes mais expressivos, geralmente eles não costumam contratar humoristas profissionais para este tipo de ocasião porque, na maioria das vezes, eles não possuem fundos para pagar um. Mas você pode fazer o serviço por uma quantia que eles possam pagar. Eu já lhes disse da importância de mostrar o seu próprio trabalho e talvez volte a falar isso mais algumas vezes. Dar o seu próprio recado é uma excelente forma de medir o seu material. Quando você escreve para os outros, você tenta encontrar o material ideal para aquela pessoa ou ocasião, e ele ou ela é quem passa pelo sofrimento de ver alguma piada não funcionar. Mas, quando é você que esta lá dando o recado, você aprende melhor o que um material bom ou ruim pode fazer contra você. Você aprende pelo que um comediante tem de passar quando o seu material de escritor é só “suficientemente bom.”

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Comediante local.
Quase toda área tem seu Sr. ou Sra. Comédia. Cidades grandes tem vários deles disputando o título. Estas pessoas precisam de material, tanto quanto qualquer outro comediante famoso, talvez até mais. Vender para eles é muito bom por dois motivos. Primeiro porque você esta sendo pago. Segundo, você tem a oportunidade de aprender com a reação do público. Você poder ir ver estes comediantes apresentarem as suas piadas. É quase a mesma sensação de estar, você mesmo, lá no palco dando o seu recado. Você pode viajar com os comediantes locais e assistir as suas apresentações e, ao mesmo tempo, estudar o público enquanto eles apresentam-se. Isto já fica mais difícil com os comediantes de âmbito nacional. Você nem sempre tem dinheiro ou tempo para acompanha-los, então, o único jeito de ter algum feedback é conversando com eles. No inicio da minha carreira, eu escrevi bastante material para vários ‘comediantes de final de semana’ que moravam na minha cidade. Com um deles eu consegui fechar um contrato semanal, com um outro eu ganhava uma porcentagem da bilheteria quando ele se apresentava.

Comediantes de âmbito Nacional.
É possível escrever para este tipo de comediante sem sair da sua própria cidade. Eu escrevi durante anos para Phylis Diller, antes de nos encontrarmos pessoalmente. A maioria de nossos negócios foi fechada por carta ou por telefone. Muitos destes comediantes compram material de escritores freelance. Phyllis Diller é famosa por comprar material de donas de casa espalhadas por todo os Estados Unidos. Ela seleciona as piadas que quer e paga uma taxa por cada gag escolhida. Joan Rivers comprou muita rotina cômica assim. Rodney Dangerfield também comprou muito material de escritores freelance, durante anos. Bom, não é fácil encontrar estas pessoas, você tem que estar atento para saber onde encontra-las e mandar seu material para elas. Na maioria das vezes, estas pessoas são bem receptivas e, se gostarem do que você lhes mandou, elas entrarão em contato. Eles precisam tanto de material que não deixarão esta oportunidade passar.
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Televisão.
Eu menciono a televisão aqui só por precaução. É muito difícil para um escritor de meio período, que não mora nas grandes metrópoles, vender seu material para as redes de televisão. Material para televisão muda quase de hora em hora. Você vende uma história para eles de manhã e a tarde eles já te ligam para uma reunião onde será discutido um novo rumo para a sua história. Você vai reescreve-la e, mais tarde, levar aos produtores, que farão mais um tanto de sugestões e objeções. Mais uma vez, você senta e reescreve. Depois de uma última prova, sua história será novamente reescrita para, então, ser gravada. E mesmo assim, durante as gravações, seu texto passará por inúmeras modificações. É complicado fazer este tipo de trabalho por telefone, carta ou e-mail. É quase impossível faze-lo com outros cinco ou seis escritores trancados numa mesma sala, imagine, então, à distância. Executivos do mundo da Tevê compram mais nomes do que histórias ou idéias. Noventa e nove por cento das idéias compradas por eles vem de escritores já bem estabelecidos: eles compram a reputação destes escritores na esperança de que algum material que possa ser aproveitado venha com ela. Então, até que sua reputação não esteja firme e sólida, eu sugiro que você esqueça as redes de Tevê e se concentre em mercados mais acessíveis.

Televisão Local ou Cabo.
Nem todas as estações de televisão se originam das grandes redes. Existem estações locais que são muito mais fáceis de contatar. Tudo que pode ser uma desvantagem, em lidar com as grandes redes, torna-se vantagem com as emissoras locais. Você pode criar sua própria lista de emissoras locais e assistir aos shows e ver para quais deles você pode escrever e entrar em contato com os produtores ou estrelas destes programas por meio da própria emissora.

Hobby com competência.
No último capítulo, mencionei como você pode usar o seu humor para presentear as pessoas.
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Você pode começar a receber encomendas de pessoas conhecidas para escrever comentários bem humorados para álbuns de família, cartões personalizados, etc. Você provavelmente já deve estar tendo suas próprias idéias de como usar o seu hobby para levantar alguma grana. Explore-as. Tente.

Quanto vale?
Talvez estejamos nos adiantando um pouco no assunto, mas você deve estar se perguntando quanto você deve cobrar pelos seus serviços. Em muitos casos o preço já está predeterminado. Em outros, você dá o preço. Cobre o suficiente para valer as horas que você gastou escrevendo. O perigo aqui é cobrar o que um escritor já reconhecido cobra. Como iniciante, você deveria tentar cobrar comparativamente. Você também deve ter em mente que nós mentimos a respeito do quanto ganhamos. Eu estaria muito mais rico hoje se eu recebesse pelo meu trabalho o que eu dizia a meus amigos. É melhor cobrar menos do que você acha que seja um preço justo, para assim ganhar experiência e crédito. Cada vez que você vende seu material você vai ganhando mais credibilidade – o que significa que seu trabalho valerá mais no futuro. Seja justo com você mesmo, mas nada que não seja razoável. Com o passar do tempo, você pode conseguir tanto trabalho que você será obrigado a seleciona-los. Daí, você poderá escolher aqueles que podem te pagar melhor. “Uma boa piada é uma série de palavras que terminam num cheque bem gordo.”

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A comédia como carreira.

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Ed Simmons, um produtor e escritor de Hollywwod, era um fotografo de bebês. E ele conta: “Eu passava meus dias provocando risadas em crianças. Depois de um tempo, eu comecei a enlouquecer. Fazer um único bebê sorrir não era o suficiente. Comecei a me concentrar em gêmeos, depois trigêmeos e, quando eu cheguei nos quádruplos, eu quase fui à falência. Quantos quádruplos existem lá fora? Foi quando apareceu a televisão e eu entrei nesta onda.” A televisão não apareceu assim, do acaso, na vida de Simmons, como ele diz. Ele realmente era um fotografo especializado em fotografar crianças mas, na mesma época, ele e um amigo se reuniam todas as noites para escrever paródias musicais. O sucesso que ele alcançou com paródias o levou a escrever para alguns comediantes, que se apresentavam em nightclubs famosos. A televisão era uma indústria jovem, até então, e precisava de escritores que não haviam sido corrompidos pelo formato das rádios. Alguém que pudesse se enquadrar naquela nova linguagem que se formava. Foi aí, que Ed e seu companheiro de escrita foram convidados por um produtor para escrever para televisão. Ed tem uma lista de créditos que se estende até os dias de hoje. Entre as pessoas para quem ele escreveu esta Dean Martin e Jerry Lewis, Danny Thomas, Edie Cantor, Martha Raye, George Gobel, Red Skelton, e o show onde Ed foi meu chefe por cinco anos, “O Carol Burnett Show.” O caminho de fotografo de crianças a chefe do departamento de criação e produtor de uma das maiores emissoras de televisão pode parecer meio bizarro, mas não é. Todos os escritores em Hollywood tem histórias similares para contar sobre como esta transição aconteceu nas suas vidas. Eu era um engenheiro elétrico antes de ir parar na televisão, e lá encontrei médicos e advogados que haviam abandonado suas profissões para entrarem para o Show Business. Não existe uma única estrada que leva à comédia, e nem um único ponto de partida para chegar até ela. Eu abri este capitulo com a história de Ed porque muitos escritores iniciantes me perguntam sobre a praticidade de iniciar uma carreira como humorista profissional. É possível se tornar um? É fácil? Quanto tempo leva? Mr. Simmons, recentemente, concedeu uma entrevista onde lhe perguntaram, “ O senhor poderia dar aos nossos leitores alguma idéia do quanto a televisão esta acessível aos jovens escritores hoje em dia? A porta está aberta? Existe trabalho para jovens escritores?,” e ele
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respondeu: “ A industria da televisão diz que não esta aberta para novos escritores, a porta esta fechada e eles não precisam e não querem novos escritores. Mas, ao mesmo tempo, a cada ano, uma dúzia de novos escritores são contratados.” Uma carreira de escritor de comédia sempre é possível, se ela é fácil ou difícil, não podemos dizer. Contudo, é o tipo de carreira que exige muito esforço e disciplina para que você consiga algum reconhecimento. Neste sentido, eu não a acho fácil. Mas pode ser mais fácil se você está disposto a aprender e continuar aprendendo, nunca parar de escrever e se aprimorar. Se você se dedicar, não tem como você não chegar a algum lugar. É quase impossível falhar, assim. É quase como aprender a tocar piano. Quando eu vejo uma pessoa tocando piano, minha mente me diz que aquilo é impossível. É humanamente impossível ler as notas musicais rabiscadas num pedaço de papel, dar um sentido para aquilo, traduzi-las em movimento, ter 10 dedos se movendo em direções e ritmos diferentes e tudo, simultaneamente. E, por vezes, ainda cantar enquanto toca. É tudo tão complicado que parece inalcançável. Mas, mesmo assim, qualquer pessoa que tome aulas, estude e pratique devotadamente, pode aprender a tocar piano. Não é um dom dado a poucos, qualquer pessoa pode tocar piano. Agora, se você será um bom ou mau pianista, vai depender de quanto tempo você esta afim de gastar nos seus estudos e prática. Eu tive a oportunidade de encontrar vários músicos profissionais, ao longo da minha carreira e sempre eu lhes perguntava quantas horas eles praticavam o instrumento. Na maioria das vezes, mesmo tendo alcançado uma carreira profissional, eles praticavam entre seis e oito horas diárias para se tornarem melhores. Eu não lhes digo isto para que os duvidosos abandonem as suas carreiras de escritores, mesmo antes de terem tentado, mesmo porque, tocar um instrumento bem é muito mais difícil do que escrever. Tocar um instrumento é uma função muito mais exata. Você precisa tocar as notas certas na hora certa… , se você não é capaz desta façanha, você nunca tocará com um grupo. Quando se escreve, nós não precisamos ter este tipo de precisão. E escrever também não requer qualquer tipo de destreza. Se você tem a vontade e o desejo de trabalhar, aprender e não desistir, a carreira de escritor pode ser fácil. Do contrario, ela se torna quase impossível.
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O fator Sorte.
Muitas pessoas talentosas – não só escritores – tentam usar a sorte como desculpa para não embarcarem em uma nova carreira. “Eu não consegui ser um escritor de comédias. Você tem que ter muita sorte para fazer isso.” “Claro que hoje ela é uma escritora famosa. Mas ela sempre teve muita sorte.” Vamos dar uma olhadinha em dois escritores contemporâneos que, no momento, estão desempregados. O escritor A esta sempre telefonando para seu agente para saber se há algum trabalho para ele porque ele tem de pagar as contas. O escritor B não dá nenhuma trégua para o seu agente. Ele o inferniza. Mas, enquanto não aparece trabalho, ela vai escrevendo mesmo assim. Hoje mesmo já escreveu 26 idéias para uma sitcom. Finalmente, o escritor A arruma um trabalho e pede um bom salário. O escritor B vende uma das suas idéias para uma comédia de situação, um sitcom, é um sucesso e fica milionário. Agora o escritor A está sentado em seu escritório se lamentando. “O escritor B agora está tendo um vidão. É claro. Ele teve sorte.” A sorte é uma reação a um fato. Eu não fiz com que o escritor B se tornasse um sucesso. Se nenhum dos seus shows tivessem sido comprado, ele estaria muito provavelmente ainda escrevendo mais shows. E, se estes não vendessem, ele continuaria escrevendo até vender um, daí, todos diriam que ele teve sorte. Uma das grandes histórias ‘da pobreza à riqueza’ é a de Sylvester Stalone. Ele chegou rápido à fama depois do filme ‘Rocky’ , escrito e atuado por ele. Sorte??? Não! Stalone me contou que escreveu 10 ou 12 roteiros, antes de vender ‘Rocky’. Isto não é sorte. É dedicação. Nós criamos nossa própria sorte. Não a use como desculpa para fugir do desafio e não dependa dela para ter sucesso. Use confiança e trabalho e depois deixe que o escritor A diga que você teve muita sorte.

Por que alguns novatos se dão bem.
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Na concepção popular, escrever para comédia é uma “profissão fechada,” não há espaço para os novos. A porta para esta carreira não esta completamente aberta mas esta entreaberta. Mesmo que nós, que já estamos nesta profissão a anos, quiséssemos, nós não conseguiríamos fazer desta profissão uma fraternidade exclusiva. E não conseguiríamos pelo seguinte:

A comédia é popular.
O humor é uma mercadoria em constante demanda porque ela é extremamente popular. Se você estudar a maioria dos campos do entretenimento, você ira descobrir que a comédia é uma máquina de fazer dinheiro. Boas comédias é o que a maioria dos grandes estúdios de cinema e de televisão, as editoras e até os nightclubs querem (até alguns cantores começam a contar piadas, agora). O apetite por comédia das pessoas é tão voraz que nunca haverá escritores de comédia o suficiente para satisfaze-lo.

A comédia esta sempre mudando.
Houve uma vez que a maioria esmagadora adorava o estilo de Jack Benny. Aí, veio Lenny Bruce com seu estilo inovador. Bill Cosby ainda faz uma rotina cômica diferente e Steve Martin criou o novo louco. Nem todos nós podemos escrever várias formas de comédia. Eu me lembro quando nós escrevíamos para o Show da Carol Burnett, os escritores do “Saturday Night Live” estavam sempre dizendo que nós éramos um bando de velhos que não conseguia entregar uma bela e fresca comédia (apesar de termos três escritores por volta dos 25, na nossa turma). Era uma competição interessante porque, durante os cinco anos em que eu trabalhei no show de Carol Burnett, nós colecionamos três Emmies, enquanto o pessoal do Saturday conseguiu dois. Mas, a observação deles era correta. Cada novo estilo de comédia exigi novos escritores. Música é, novamente, uma boa analogia. A música muda constantemente – drasticamente em anos mais recentes. Quando apareceu o Hard Rock, muitos músicos não aceitaram e muito
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menos o aderiram, este novo estilo de rock trouxe consigo uma legião de novos músicos. O mesmo acontece com o humor. Alterações modernas no seu estilo sempre abrem a porta para uma nova cria de escritores.

A comédia não é reciclável.
Comece a contar uma piada e, imediatamente, você vai ouvir de alguém: “Eu já ouvi essa.” Ninguém gosta de uma história engraçada ou piada que já tenha ouvido mais de uma vez. Mas, ninguém faz isto com um cantor por exemplo. Se Frank Sinatra começasse a cantar aqui e agora um dos seus grandes sucessos, ninguém diria pra ele parar e cantar outra porque eles já conheciam aquela. Material cômico é usado numa velocidade alucinante. Uma vez que ele atinge as ondas da informação, telecomunicação, sei lá, ele já era. Na verdade, não só as piadas específicas ou datadas e velhas se perdem, mas as piadas parecidas com as que se foram, também. Uma vez, estava escrevendo uma sitcom e um dos personagens era um menestrel. Acontece que, quando o texto estava pronto pra gravar, ficamos sabendo que Archie Banker havia feito o mesmo personagem no seu show. Da pra imaginar??? Com a necessidade enorme que é criada por todas as formas de entrenimento, e como o humor não dá para ser aproveitado ou re-usado brevemente ou mesmo copiado, sem perdão, novas cabeças cômicas e férteis são sempre necessárias para ajudar a manter a bola rolando.

Existe uma grande demanda por comédia.
Como não podemos reciclar a comédia, as pessoas que precisam dela estão sempre atrás de material novo. Comediantes, apresentadores de programa de tevê, e outros tantos consumidores de comédia trabalham constantemente e por isso não podem utilizar o mesmo material por muito tempo, assim estas pessoas precisam sempre de alguém que lhes traga novas idéias, e este mecanismo cria uma grande necessidade de mentes cômicas. O humor é vital na carreira de muitas pessoas. Entertainers nunca estão satisfeitos com o material que eles possuem porque sabem que vão precisar de mais, num período bem curto de tempo.
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Eles só relaxam quando sabem que haverá um bando de gags para eles na mesa do escritório, na manhã seguinte. Por isso, precisamos sempre de novas mentes, novas idéias, resumindo, novos escritores.

Os bons escritores progridem.
Uma das maiores dificuldades da televisão, no que diz respeito à comédia, é encontrar bons escritores. Não estou dizendo que não há bons escritores em Hollywood, há sim. Mas eles progridem tão rapidamente que, quando você precisa deles, eles já estão trabalhando pra alguém mais. Alguns se tornam consultores de scripts ou editores de histórias e, provavelmente, chegarão a produtores ou produtores executivos. Este movimento ascendente cria um vácuo que precisa ser preenchido com novos talentos.

Escritores novos são desejados.
Para comédia chegar a ser qualquer coisa ela, primeiro, precisa ser nova, única ou ter uma cara. Estas qualidades já estão nos escritores novos. Escritores veteranos são extremamente competentes, mas (apesar de detestar ter que admitir) às vezes competência não é o suficiente. Ela deve vir combinada com um novo brilho – alguma coisa diferente, única, alguma coisa irreverente ou corajosa. Justiça seja feita, por vezes, este frescor e anseio do novato tem de ser temperado com um pouco da sabedoria do veterano. A Associação Nacional de Futebol estaria em péssima situação se deixássemos os jogadores darem as ordens. O know-how e a disciplina de um técnico sempre são necessários. Mas, que time patético você colocaria em campo se nele só houvesse técnicos com 40 ou 50 anos de idade. Há espaço na comédia, tanto para profissionais de carteirinha, quanto para os zelosos recém-chegados.

Comece onde você estiver.
Nós mencionamos, ainda pouco, que cada escritor de sucesso percorreu e tentou achar seu próprio caminho para o profissionalismo. Seu caminho
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será tão distinto e notável como cada um deles. Eles todos tem uma coisa em comum, eles começaram pequeno. Ter como seus heróis Erma Bombeck e Woddy Allen não tem nada de errado, mas o iniciante tem que tomar cuidado para não querer se equiparar aos seus heróis, logo no começo. Os escritores de nome hoje começaram com um potencial ilimitado e nenhum sucesso. E, aos poucos, foram trocando potencial por conquistas. Você pode começar a sua carreira bem ai onde você esta agora. Algumas pessoas freqüentemente, me dizem que vão se mudar para Hollywood e tentar escrever. Tudo bem, afinal, é em Hollywood onde a maioria dos escritores para os estúdios de televisão fica rica e famosa. Mas, eles começaram todo o processo nas suas próprias cidades. Hollywood ou Nova York é a maior aspiração de muitos escritores americanos, mas você, que se inicia nesta coisa, deve se concentrar em alicerçar a sua escrita primeiro. Chegar em Hollywood ou Nova York cedo demais pode ser fatal. É muito melhor você ter um background extenso onde você está e ,ai, começar a entendê-lo para Nova York ou Hollywood do que se aventurar e chegar lá como um iniciante e começar a colecionar “NÃOS”. Muitos futuros escritores cômicos nunca mais se refazem da primeira rejeição. Eu já havia escrito para Phyllis Diller, por vários meses, por carta, telefone, etc., antes de encontra-la pela primeira vez. Ela ia fazer um show no Cassino Latino em Cherry Hill, New Jersey. Eu fui até o camarim dela, depois do show, e a primeira coisa que ela me disse foi: ”Você é meu melhor escritor.” Eu fiquei completamente lisonjeado e já ia tentar obter mais elogios: ”Então me diz por que eu não estou em Hollywood?” E ela respondeu: “Por que você ainda não está pronto.” Eu nunca gostei muito de ter ouvido aquilo dela, mas só consegui entender quando eu cheguei em Hollywood. Claro que meus primeiros anos lá coincidiam com os primeiros anos de muitos outros escritores, e eu pude ver a diferença. Aqueles de nós que haviam se preparado e aprendido mais, conseguiam seguir a loucura que é escrever para televisão, com os seus deadlines mais loucos ainda. Nós talvez não fôssemos escritores brilhantes, mas adaptávamos nossos estilos ao que a televisão precisava naquele momento. Recentemente, entrevistei Phyllis Diller para o meu jornal. Sim, eu tenho um jornal que mando para qualquer humorista, comediante, cômico ou pessoa interessada que peça um exemplar
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pelo correio. Neste jornal, eu dou dicas e outras coisas aos jovens humoristas. Bem, durante a entrevista de Phyllis para o meu jornal “Round Table”, nós perguntamos a Phyllis qual era o maior conselho que ela poderia dar aos jovens escritores ou àqueles que pensavam em se tornar humoristas. Ela disse: “Comece bem aí onde você esta agora. Você se oferece para fazer de graça no começo, depois começa a receber o que pode. Mas, você tem que se testar e se provar capaz onde você está, agora. Trabalhe em banquetes, mande piadas ou monólogos para apresentadores de programa de auditório, ou entrevistas das redes de tevê locais. Tente mandar material para todas as pessoas, empresas, instituições, onde você acha que pode contribuir com seu humor. Algumas pessoas vão tentar lhe convencer a ir para as cabeças e atacar as grandes redes, os grandes estúdios, os grandes jornais, as grandes capitais, Hollywood ou Nova York, para você realmente começar a ganhar dinheiro e ficar famoso. Eu te digo que a viagem ao redor do mundo começa com um primeiro passo na direção desejada e este passo você pode dar agora, bem ai, onde você está.”

O meu caminho.
Eu levei exatos nove anos do dia em que resolvi me dedicar a escrever até o momento em que me tornei um profissional. Eu vou citar qual foi meu processo aqui, só como exemplo. Meu processo foi mais longo ou mais curto ou talvez diferente de muitos outros. E depois, não há como dizer se as rotas que tomei foram as mais corretas ou mais eficientes. Minha narrativa não deve ser tomada como uma estrada para o sucesso, mas simplesmente, como a história de alguém e com isso talvez ter uma idéia das coisas que você poderá encontrar pela frente. Eu achava que tinha talento para comédia e resolvi experimentar. Eu não conhecia ninguém e não tinha contatos, mas estava determinado a tentar, de qualquer maneira. Meu maior medo era de não tentar e depois, mais tarde, ficar me dizendo: “Eu devia ter tentado.” Eu preferia quebrar a cara a me arrepender depois. Eu comecei a gravar todos os monólogos que o Bob Hope fazia na tevê e, depois, eu os digitava, estudava-os e tentava reproduzir a forma e o estilo com que as piadas eram criadas com tópicos diferentes. (Anos mais tarde quando recebi um telefonema de Bob Hope pedindo algum material para sua performance, durante a entrega do Oscar, eu escrevi 300 piadas, ele
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usou 10. Quando conversamos mais tarde sobre o evento ele me disse: "Quando eu li o material que você me mandou, eu tive a sensação de que você havia escrito para mim toda a sua vida.” Eu respondi: “Bob, eu escrevi, só que você não sabia.”) As revistas pareciam ser um caminho fácil de fazer algum dinheiro, então eu comecei a mandar pequenas piadas para preencher os espaços para eles. Com um esforço enorme, muito selo, endereços e organização eu consegui fazer $20 com comédia por mês. Só como exercício, eu comprei um livro de fotos de bebês e comecei a escrever piadas para cada uma das fotos, enquanto eu trabalhava. Os amigos do trabalho gostavam. Não demorou muito, comecei a fazer álbuns de família de pessoas conhecidas, álbum de bodas de ouro e prata, álbuns de formatura, etc. Era um grande exercício para mim e este exercício vinha com uma vantagem, ele expunha meu trabalho, de certa forma. Alguém conhecia um comediante e disse para ele que eu era engraçado. Ele me ligou e pediu para que eu mandasse algum material para ele. Ele nunca comprou uma só piada minha, mas ele fez melhor, acabou me indicando para uma estação de televisão local que precisava de um escritor para um apresentador de um programa diurno e um ghost-writer para uma coluna de jornal. Eu fiz os dois e, novamente, não vendi nada. Contudo, um dia, um comediante passou para visitar o diretor da tal emissora e viu meu material na escrivaninha com o meu nome, endereço e telefone impressos no topo e me ligou para que eu escrevesse para ele. O que me valeu um contrato de seis anos. Nesta época, eu também ia a todos os nightclubs em Filadélfia, levando cópias das minhas gags mais recentes aos comediantes. Eu consegui vender alguma coisa, mas o que eu mais consegui mesmo foi lidar com a rejeição. Finalmente, eu contatei e impressionei Phyllis Diller. Ela me fez escrever mais e melhor. Com o passar dos anos, ela foi fazer um show para a tevê e me contratou para escrever os seus monólogos. Foi quando eu fui apresentado à televisão. E, daí, um trabalho leva a outro e a outro e, assim por diante. Eu comecei bem pequeno, na minha cidade e fui progredindo gradualmente. Foi divertido este caminho e uma aula inesquecível que me serviu muito bem quando chegou a hora de ir para Hollywood.

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A sua jornada ainda esta por vir, mas o alicerce tem de ser erguido agora. Eu tenho grande inveja de você, porque a sua estrada poderá ser divertida e excitante. A Primeira Parte deste livro foi escrita para ajuda-lo ou ajuda-la a superar o seu maior obstáculo… aquela vozinha dentro de você que diz: “Eu não sei escrever.”. Sim você sabe e pode. Você sabe que tem senso de humor e perseverança. Se você conseguiu chegar até aqui sem ficar de saco cheio, você tem perseverança. Então, vamos adiante. Na segunda parte vamos converter todo este potencial em produto. Como nós dizemos nesta profissão: “Vamos botar no papel.”

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Criando com suas habilidades.
Se o desejo de escrever não for acompanhado pelo ato de escrever em si, então, o desejo não é o de escrever.

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Escreva, leia e escute.

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Nesta segunda parte, você tomará o controle da situação. Você vai escrever. Garanto que vai ser muito mais divertido do que ler sobre todas as minhas experiências. Contudo, você não vai correr para a máquina de escrever impune. Você vai ter de me ouvir um pouco mais. Deixe-me desperdiçar mais um capítulo do meu interminável falatório, antes de deixa-lo livre para libertar a sua criatividade. Antes de continuarmos, nós deveríamos entender melhor qual é a nossa tarefa, daqui para frente. Este é um curso, certo? Mas esta apostila não deve ser tomada como a única, e definitiva bíblia sobre comédia. Ela contém sugestões para você iniciar a escrever comédia e algumas dicas para aperfeiçoar a sua técnica e habilidade, mas a genialidade deve vir de você. A comédia é uma arte tão subjetiva que ninguém pode, ou deveria ter todas as respostas. Se alguém tivesse todas as respostas sobre a comédia, com certeza, ela não existiria mais. Antes de ser qualquer coisa, o humor tem de ser novo, estar em constante mudança, deve ser inovador e inventivo. Para a sua comédia ter brilho ela deve ter você dentro dela. Um cartaz no escritório dos produtores do show de Carol Burnett diz: ”Existem poucas pessoas capazes de julgar uma boa comédia, e eles discordam entre si.” Um dia, nós tivemos uma discussão séria a respeito daquele cartaz. Alguns dos escritores queriam mudar os seus dizeres. Alguns queriam que ele dissesse: “E nós sempre discordamos.” Dá para ter uma boa idéia de como a comédia é subjetiva.

E agora uma palavrinha do autor.
Espero que este material ajude a cada um de vocês. Contudo, gostaria que você não permitisse que nenhuma coisa citada nele fizesse a sua criatividade ou sua loucura endurecer. Você não vai encontrar todas as respostas neste material, o que você vai encontrar aqui são coisas que aprendi com os anos de profissão. Coisas que aprendi e ouvi de outros escritores cômicos. As sugestões e dicas aqui vão lhe ajudar a escrever comédia e aprender sozinho. Este livro é como tecer um suéter, até você começar a dar os primeiros pontos, seu talento não aparece.
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Ou melhor . . . este material é uma bomba. Eu lhe dou a faísca que fará a bomba explodir. E ela explodirá quando você começar a criar sua própria comédia. As lições e os exercícios nestas paginas são básicos. Eu queria que este material fosse um material que progredisse passo a passo. Que qualquer aluno, quer seja ele totalmente iniciante ou com certo conhecimento de comédia ou não, pudesse estudá-lo e fazer humor com o potencial de um profissional. Ao mesmo tempo, servindo como um curso de recapitulação (reciclagem?) para aqueles humoristas mais experientes. Às vezes, a gente fica meio relapso. Uma boa porcentagem destas páginas será dedicada a escrita de piadas, gags, ou monólogos. Isto é, porque eu sinto que a comédia é baseada em piadas, e piadas são os blocos de construção do humor. Se você elaborou alguma vez uma lista dos melhores escritores de comédia para a tevê americana você verá que, muitos deles, já escreveram gags. Norman Lear começou fazendo paródias de musicas para comediantes que se apresentavam em nightclubs até começar a escrever rotinas cômicas para eles. Os filmes bizarros de Wood Allen vieram da sua experiência em escrever gags e apresenta-las em stand-ups, na noite. Eu não estou dizendo que stand-up e gags são as melhores formas de comédia. Contudo, não posso negar que este tipo de comédia é um grande aprendizado para todas as outras formas. Se imagine comprando uma sainha, uma raquete de tênis e bolas e chegar para o seu treinador e dizer: “Eu quero ser uma jogadora de tênis de ataque,” e o treinador diria, “Sim. Muito bem, mas antes vamos começar com alguns exercícios gerais.” Você não conseguirá formular nenhuma estratégia de jogo, a menos que você conheça o básico. Durante este processo, você descobrirá suas fraquezas e forças (potencialidades) - e suas preferências. E daí, você poderá planejar o seu esquema de jogo. Este manual só poderá ser o seu terceiro melhor professor de comédia. Os dois primeiros serão a função de escrever comédia e a prática.

A melhor maneira de aprender.
Lillian Hellman, uma vez, fez um comentário que pode ser usado aqui.

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Ela disse: “Se eu tivesse que dar qualquer conselho para quem esta começando eu diria – Nunca escute os escritores falando de como se deve escrever.” Uma vez escrevemos um quadro para o Carol Bunett Show em que brincávamos com a série “Kung Fu,” na qual Harvey Korman fazia o papel do sábio mestre. Ele daria longas, cansativas e, por vezes, incompreensíveis explicações para seu discípulo e, no final de cada uma delas, ele diria: ”Mas bem, é claro que se trata só de uma teoria.” É isto que você deve ter em mente quando você ouve os escritores falando de como se escreve: “É tudo teoria.”. O único aprendizado que você pode realmente ter é escrevendo na prática e observando a resposta do publico para aquilo que você escreve. Algumas pessoas, às vezes, se intimidam ao sentar na frente de uma folha em branco. “Eu deveria tentar escrever, mesmo se não me sinto pronto?” Sim, porque é assim que a gente se sente pronto. Quantas pessoas estariam jogando golf hoje se elas não tivessem pegado num taco? O meu conselho para você, iniciante, é o seguinte: siga uma cota rígida de piadas que você deve escrever diariamente, e não desanime. Não há nenhuma necessidade de criar uma cota super puxada, se você for muito afoito você pode acabar sendo desumano com você mesmo. Vá devagar. Comece com alguma coisa tipo três piadas por dia, ou dez piadas por semana, mas se mantenha fiel. Depois, com o tempo, você vai, sem querer, aumentar a sua cota. Você só terá a ganhar se você criar um programa próprio e segui-lo constantemente e religiosamente.

Aperfeiçoando-se através da repetição.
Você lembra do nosso tenista iniciante que jogava tênis por uma hora, todos os dias? No final do ano, ele não terá se tornado um Guga, ou um jogador de torneios internacionais, e nem tão pouco um jogador de um clube, mas ele estará rebatendo a boa com maior eficácia. Mesmo que ele ainda cometa erros, ele terá desenvolvido uma autoconfiança maior, o que irá ajudá-lo a corrigir seus erros. Eu já joguei com pessoas que fazem praticamente tudo errado, exceto perder. Você tem de procurar se aprimorar com a repetição.

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Obviamente, o curso para a otimização é uma combinação de estudo e prática. Com esta mistura, você com certeza tem grandes chances de se aperfeiçoar. Contudo, estudo e treinamento, sem prática, não vale de nada.

Adquirindo Confiança.
Se você já escreveu alguma vez isto é prova o suficiente de que você pode escrever novamente. Cada vez que você fizer um exercício ou tarefa, você encontrará duas ou três coisas que lhe darão muito prazer. Você, talvez, não fique 100% feliz com o resultado, mas você, com certeza, encontrará alguma coisa lá que lhe deixará excitado e surpreso. Voltando ao meu esporte favorito, o tênis ira me ajudar a lhe explicar melhor. Eu já joguei com pessoas que não estavam indo muito bem naquele dia em particular, mas quando eles conseguiam uma boa jogada, diziam a si mesmos: “Esta jogada valeu pelo jogo todo.” São estes momentos pequenos e maravilhosos que fazem com que você acredite no que você faz. Assim que você começar a escrever, você se deparará com tarefas e ou exercícios que você pode achar, a principio, impossíveis de serem alcançados. Mas, mesmo assim, você deve persistir e completá-las. Assim, da próxima vez que você se deparar com alguma tarefa que você possa achar impossível, esta tarefa ou exercício não lhe parecerá tão ameaçadora como da primeira vez, porque você já passou por esta sensação antes e chegou até o fim. Muitas vezes, me pediram para escrever sobre coisas as quais eu não achava a menor graça, ou com um tempo muito curto para prepará-las. Mas, porque eu já havia me deparado com este tipo de adversidade antes – e consegui superá-la – eu sento na máquina e faço meu trabalho.

Aprendendo a lidar com as suas forças e fraquezas.
No meu escritório, eu tenho um cartoon pendurado na parede feito por Macnelly no qual há uma coruja sentada em frente a uma maquina de escrever. Contudo, em cada quadro o balão está em branco. Até que um dos quadros mostra a coruja completamente entusiasmada com uma idéia e, no balão, a gente pode ver uma linda letra ‘A’, datilografa. Ele a estuda e no último quadro ele a amassa e joga fora, colocando uma outra folha em branco na maquina e voltando aos seus pensamentos vazios.

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Eu mantenho este cartaz no meu escritório para eu poder me lembrar sempre de que há um longo caminho a ser percorrido entre uma idéia e sua execução. É facil dizer, ”Eu quero escrever a maior música da minha vida.” O difícil é transmiti-la para o papel. Todo os escritores descobrem as suas inadequações bem cedo em suas carreiras. William Sarayon disse uma vez: “Você escreve uma peça de sucesso da mesma forma que você escreve um fracasso.” Talvez Robert Benchley tenha se expressado melhor quando ele disse, “Eu levei quinze anos para descobrir que eu não tinha nenhum talento para escrever, mas eu não conseguia desistir por que eu já tinha ficado famoso demais como escritor.” Haverá estilos aos quais você se sentirá mais adequado e outros em que você terá mais trabalho durante sua execução. Alguns dos seus trabalhos serão considerados excelentes; outros simplesmente, adequados. Mas, você só saberá qual é qual escrevendo. Você também ira descobrir qual dos estilos ou tipos você prefere e quais você abomina. Você tomará consciência das suas habilidades e quais delas você precisa praticar mais para melhorar.

Desenvolvendo novas habilidades.
Conforme você exercita e progride na sua escrita, você ira descobrir e experimentar novas maneiras e formas de escrever. Ralph Waldo Enerson, uma vez, disse que escrever é como patinar, só que seus patins te levam para lugares aonde você normalmente não iria. Por todos estas razões, e também como uma forma de treinamento, eu resolvi escrever um roteiro inteiro para o cinema. Não me importava se bem, mau ou indiferente, eu só tinha em mente que, uma vez que eu começasse, eu só ficaria satisfeito quando eu houvesse terminado de escrever 120 paginas de diálogos. Eu estava preparado para enfrentar um trabalho extremamente entediante. Mas, eu descobri um fenômeno fascinante: Depois que eu comecei a escrever, eu fiquei completamente envolvido com os meus personagens. Eu não podia esperar para estar com eles, em frente à minha maquina de escrever, toda manhã, para saber o que eles tinham a dizer. Eu descobri que eu adorava escrever diálogos. Outros escritores, simplesmente, detestam escrever diálogos. Mas, se você não escrever diálogos, você nunca ficará sabendo se gosta ou não de escreve-los.
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A segunda melhor maneira.
Ler e escutar é a segunda melhor maneira de praticar porque é quase aprender sem esforço. Eu já lhes contei como eu gravava e datilografava os programas do Bob Hope e depois os estudava para aprender um pouco sobre forma e estilo. Mas eu ouvi vários outros comediantes também. Eu li comédia e sobre ela o máximo que pude. No fim, você acaba absorvendo alguma coisa com todo este contato. Nós aprendemos muito mais que a gente imagina estando em contato com os melhores. Don Rickles é um ator muito dinâmico e engraçado. Eu, às vezes, fico vislumbrado com o tanto que eu vejo dele em outros performers. Se você perguntar se estes outros performers estão copiando Rickles, eles iram negar efusivamente, e eles estão sendo terrivelmente verdadeiros quando afirmam que não copiam ninguém: eles não se deram conta de que adotaram o estilo de Rickles. Ouvir outros humoristas e ler comédia irá ajuda-lo das seguintes formas:

Aprenda o que funciona e o que não funciona.
Existe um único critico de comédia e este critico é o publico. O resto de nós só está conjeturando. Eu escrevi piadas que eu realmente adorava. E eu sentava lá, junto com o resto das pessoas, esperando para ouvi-las. E, então, quando o ator finalmente dava a minha brilhante piada ao público, nada acontecia. Eu conseguia convencê-lo a tentar novamente – e novamente nada. Eu trabalhava com o comediante na forma com que ele deveria entregar a piada, ele incorporava minhas sugestões e nada de novo. Tentávamos uma vez mais só para ter certeza e, finalmente, eu me convencia de que se tratava de uma grande piada que só eu gostava. Em outras ocasiões, contudo, a platéia vem abaixo em gargalhadas com uma piada realmente simples. Nem eu, ou o comediante, pode explicar o que aconteceu. Assistir a comediantes e anotar que tipo de reação o publico tem ira ajuda-lo a perceber esta química.
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O publico será sempre o mestre da comédia, mas você pode se tornar expert em saber o que eles gostam e querem.

Formas de Piadas.
Recentemente, Bob Hope me pediu que escrevesse alguma coisa sobre Roanald Reagan, uma vez que ele era um Liberal Democrata, deveria haver alguma coisa engraçada para escrever a este respeito. A piada poderia começar assim: Ronald Reagan é um Liberal Democrata. Isso é o mesmo que . . . . (espaço em branco à ser preenchido). Esta é uma forma. Formas de piadas são muito úteis quando você precisa entregar muito material, por que a forma, por si só, estimula o raciocínio. A cabeça da piada já esta pronta, tudo o que você precisa é preencher o espaço em branco. Cada comediante tem sua própria coleção de piadas usando este formato. Johnny Carson tem o seu: ”Está tão frio hoje que . . . “ Com o Bob Hope a gente trabalha definições. “Todos vocês conhecem a teoria da escorregada, que é . . . “ A gente também cria novos significados para siglas. “Do jeito que a coisa vai no campeonato de futebol deste ano, a CBF vai mudar seu significado para . . .” Você será capaz de absolver muitas desta formas ouvindo outros comediantes. E estas formas vão lhe servir bem, no futuro.

Novos tópicos.
Um dos escritores do programa de Johnny Carson, o “Tonight Show”, me disse uma vez que a maior dificuldade não está em escrever realmente, mas em ter novos tópicos para escrever a cada dia. O trabalho é interminável, por que são cinco dias por semana, cinqüenta e duas semanas ao ano. Escrever nem sempre é duro – mas encontrar um assunto sobre o qual se possa escrever a respeito, às vezes, pode ser. Ler e escutar outros comediantes, escritores, humoristas, etc., lhe trará um novo catálogo de tópicos sobre os quais você pode escrever. Você poderá descobrir do que os humoristas estão falando naquele momento e como o público esta respondendo. Você também aprenderá com os outros comediantes como dar uma nova abordagem às piadas consideradas padrão.
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Por exemplo, enquanto o então presidente do momento, Ronald Reagan, estava no hospital se recuperando da uma tentativa de assassinato, pediram para que a gente escrevesse alguma coisa a este respeito. Não é necessário dizer que era um tópico um tanto quanto delicado, você não quer criar alguma coisa que possa ser interpretada como uma piada de mau gosto. Então, a primeira pergunta é “Como eu posso escrever sobre isso?” “Que tipo de abordagem eu devo dar?” Alguns sugeriram escrever sobre o desconforto que o presidente poderia estar tendo, internado em um hospital. Ronald Reagan não gosta de ficar no hospital. É extremamente dolorido aplicar jujubas nas veias. Alguns sugeriram fazer piadas sobre as coisas que Ronald Reagan havia dito enquanto ele estava hospitalizado. Ronald Reagan não tem feito nada no hospital, além de contar piadas. A teoria é de que a bala deve ter atravessado Steve Martin antes de atingi-lo. Há varias formas de se aproximar de um tópico, portanto, seria interessante você manter algumas para uma eventual necessidade. Isto não só lhe ajudará a escrever sobre um tópico em particular, mas também lhe ajudará a criar novas formas de abordagem.

Estilos diferentes.
Uma das coisas que separa os bons comediantes de outros ruins, ou medíocres, é um estilo definido – um personagem definido. Bill Cosby é bem engraçado e Alan King também. Mas Bill Cosby não conseguiria trabalhar com as piadas de King e nem King com as piadas de Bill. Eu escolhi estes nomes aleatoriamente, mas o mesmo principio se aplica a maioria dos comediantes. O material deles não pode ser trocado, cambiado entre eles por que seus estilos e características são únicos. Estilo e caracterização são muito importantes para a comédia e muito pouca gente tem consciência disto. Quando eu escrevo para comediantes diferentes eu, automaticamente, tento ter a característica de cada um bem definida na minha mente. Como eles falam, atuam, etc.
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Quando eu trabalhei com Jim Nabors eu imitava seus tiques nervosos durante o jantar. Eu fiquei trabalhando um ano com Bill Cosby e eu andava pela casa falando como ele. Usando seu ritmo. Quando eu trabalhei para Carol Burnett, eu comecei a me vestir como ela. (Está tudo bem agora e, graças a deus, eu só me visto como ela nos finais de semana.) Vai lhe ser de grande valia se você conseguir diferenciar e reconhecer o máximo de estilos que você puder.

Como misturar estilos.
Quando você se expõe a uma variedade de estilos diferentes você começa – consciente ou inconscientemente – a adota-los no seu trabalho. Você pode querer começar com um pouco de George Carlin, uma pitada de Rodney Dangerfield, uma colher de sopa de Joannie Rivers e Steve Martin para dar sabor. Assim você estará formulando um estilo novo – o seu estilo. Não há nada de errado em tomar um pouco emprestado dos grandes escritores, humoristas ou comediantes. Todo comediante que você assiste tem um pouco de outros comediantes nele. Johnny Carson sempre admitiu a influência de Jack Benny no seu estilo.Woody Allen fez um filme para a Sociedade Cinematográfica, que mostra o quanto sua caracterização foi influenciada por Bob Hope. Minha mulher, minha sogra e minha cunhada fazem molho de tomate usando a mesma receita. Todos ficam uma delícia e todos são completamente diferentes, um do outro. Porque? Por que cada uma delas coloca um pouco da sua própria personalidade na receita. Quando estamos conscientes dos diferentes estilos que existem na comédia, podemos descobrir quais os ingredientes que vamos utilizar para criar nossa própria receita cômica.

Inspiração.
Ouvir outros humoristas pode lhe servir de estímulo. Quando eu era jovem, eu ia assistir o meu irmão jogar futebol pelo time da escola, todo Domingo à tarde. E tudo o que eu queria fazer quando eu chegava em casa era reunir os moleques da redondeza para uma partida de futebol.
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Assistir aos jogos me dava vontade de jogar. Assim, quando você lê ou vê comédia de boa qualidade, o mesmo pode acontecer, você pode ficar inspirado em fazer o mesmo. Estes grandes comediantes com quem a gente se deleita podem acrescentar alguma coisa ao seu trabalho. Eles lhe instigam a trabalhar mais e melhor. Um dos escritores que escreve para o Bob Hope me confessou, um dia, que quando ele está com bloqueio, ele assiste a algumas fitas antigas do Bob Hope, por algum tempo. Daí, ele diz que, quando ele volta para a máquina, ele sente um novo vigor em escrever. Agora, como eu havia prometido no inicio deste capitulo, nós vamos começar a escrever. Pegue papel, lápis e vamos em frente.

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Exercisios.

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No capitulo três discutimos várias habilidades da escrita cômica. Muitas delas estavam envolvidas na preparação do seu trabalho. Quando chegamos na hora de realmente escrever, três habilidades são as mais importantes. Reconhecimento Visualização e o imaginário Facilidade com as palavras É fácil categorizar estas habilidades e lista-las separadamente, mas, na prática, elas estão entrelaçadas, no processo criativo você usa todas de uma vez só. Estamos de volta à mesa para dissecar o nosso sapo novamente. Você pode estudar seu sistema cardiovascular e ver como ele funciona e qual a sua função no todo, você também pode investigar o seu sistema nervoso e qual o seu propósito em particular. Mas se você quiser que o sapo viva e seus órgãos continuem a exercer suas funções, estes mesmos órgãos não poderão ser retirados do organismo ou corpo. O coração não baterá mais se ele não estiver ligado ao sistema nervoso, os nervos não podem funcionar adequadamente se não receberem sangue do sistema circulatório. Vamos tomar estas habilidades separadamente mas, cuidado, você não terá nenhum sucesso se tentar usa-las separadamente. Seja criativo, usando todas as habilidades, e deixe-se levar.

Relações e ironia.
Como já sabemos, a maioria das piadas é formada por uma relação entre duas idéias. É a combinação destas duas idéias que geram humor. Algumas idéias são bem similares, algumas são bem diferentes. Algumas parecem ser diferentes, mas são, na verdade, a mesma e vice versa. O humorista habilidoso irá descobrir este relacionamento, esta combinação de idéias. Quando você vê um homem abrindo a porta do carro para uma mulher é porquê um dos dois acaba de ser adquirido. Esta é uma afirmativa simples, mas a observação feita é bem engraçada. Obviamente, a piada se sustenta por si só. Qualquer piada que precisa ser explicada não é uma piada.
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Á comédia provem de um fato que, na sua grande maioria, é verdadeiro. No caso da nossa piada acima, é a mais pura verdade que os homens casados esquecem com o tempo de abrir a porta dos carros para as suas respectivas esposas. Mas, um carro novo revigora a virilidade masculina. Lhe preenche de orgulho masculino E pode, inconscientemente, levá-lo a abrir a porta para sua esposa. Com a constante freqüência com que os testemunha de Jeová batem na minha porta, eles bem que poderiam entregar a correspondência. Novamente temos uma observação bem humorada. É uma gag bem construída por que ela não só contem uma combinação de idéias mas ela é feita de uma forma bastante irônica.

A visualização e o imaginário.
A maioria das piadas são pequenas fotos. Isto é, com as palavras criamos uma imagem na cabeça de quem nos ouve. O ridículo, ou, o exagero distorce a verdade e cria humor. Eu já trabalhei com vários clientes que não gostam de trabalhar com piadas que dependam exclusivamente do jogo de palavras. Eles as consideram menos engraçadas porque este tipo de piada não cria uma imagem na mente do publico, por isso, na maioria das vezes, não são piadas hilárias – elas podem ser inteligentes mas não são engraçadas. O humor é muito subjetivo. Algumas pessoas adoram uma piada ou história e outras, simplesmente, podem detesta-las porque a imagem criada varia de pessoa para pessoa. A piada para quem a escuta não é uma coleção de palavras juntas mas, sim, a cena que é formada na mente dela. Um uso adequado de palavras ira criar uma imagem forte, mas é a imagem e ela unicamente, que ira carregar o humor. Escritores para a tevê, freqüentemente, discutem a relação tevê versus rádio. Programas de rádio costumam rodar por anos e anos, comparado com os programas de tevê, que geralmente duram cinco ou seis anos, dependendo da sua popularidade. Uma das teorias para este fenômeno é que o radio esta constantemente se adaptando ao gosto do ouvinte. Os programas, na sua grande maioria, não mudaram, quem mudou foi o ouvinte. Não há cenários, não há rostos. Tudo existe somente na mente do ouvinte. Cada pessoa cria uma imagem para aquela voz na sua mente. Se o ouvinte
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muda de preferência, ele também muda a imagem que ele cria. Com a televisão não se pode fazer isso. A mente pode ser extremamente elástica, o que é uma coisa bastante positiva para o humorista. Nossa mente aceita facilmente o exagero, a distorção e o impossível. Tente se lembrar de algum sonho que você já teve, no seu sonho você vaga por lugares sem o menor problema. Pessoas mudam, repentinamente, na sua frente e se tornam outras pessoas ou coisas. A situação pode beirar ou chegar ao bizarro, mesmo assim, durante o seu sonho, o seu intelecto aceita o que esta ocorrendo sem questioná-lo. Muitas vezes, quando eu, ou outros escritores, escrevemos esquetes nós pedimos para o comediante fazer algum movimento estranho. Mas, quando chegamos para o ensaio, vemos que os movimentos pedidos são fisicamente impossíveis de serem feitos – por exemplo: um homem de um braço só ter que sacar a sua espada, enquanto segura o seu adversário pelo pescoço. Bem, resta saber com o que ele deverá sacar da sua espada. Ainda assim, na mente do escritor, este tipo de movimento é perfeitamente viável. Os humoristas devem usar esta flexibilidade da mente a seu favor e não contra ele. Abaixo, você verá algumas linhas que eu criei para uma rotina sobre a sogra fictícia de Phyllis Diller. Durante a atuação, Phyllis costuma chamá-la de Moby Dick. Por falar em gente gorda vocês deveriam ver a minha sogra. Ela é tão grande que possui dois ceps. A primeira vez que eu a vi, meu marido me perguntou, com quem você ache que a minha mão se parece? Com o estado do Amazonas. Eu não sei quanto exatamente ela mede. Mas já temos engenheiros trabalhando no terreno. Ela é uma mulher bacana, apesar de tudo. São os três acres de carne mais bacanas que eu já encontrei. Um dia ela me deu de presente um dos seus vestidos velhos. Eu pretendo engoma-lo e tranformá-lo numa barraca de praia (camping). Uma vez ele veio nos visitar e eu não queria que ela ficasse
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conosco em casa. Eu fiz uma reserva num hotel pra ela. Quartos 13, 14 e 15. Quando você entrar em um elevador com ela, reze para vocês estarem descendo. Uma vez no ônibus, seis cavalheiros se levantaram para ela se sentar. Se mais dois tivessem feito o mesmo, ela teria aceitado. Note a liberdade que eu tomei ao criar imagens para as linhas acima. Primeiro, ela é tão grande que ela necessita de dois ceps, aí ela se torna tão grande quanto a um (estado/bairro). Eu a defino como três acres de carne e a sua mente aceita. Numa outra linha ela já não é do tamanho de um estado, mas de uma barraca de camping. Ela necessita de três quartos de hotel, mas pode entrar em um elevador e um ônibus. Minha descrição de Moby Dick, como Phyllis Diller à chama, nunca seria aceita como evidencia nos tribunais, mas a adaptabilidade das nossas mentes permite que eu me divirta – fazendo comédia – com imagens exageradas e distorcidas desta mulher. Ainda um outro fenômeno mental pode ser usado por escritores de comédia, vantajosamente. As pessoas costumam preencher os espaços em branco. Nossa mente leva uma imagem à sua conclusão e fornece qualquer coisa que esteja faltando. É esta peculiaridade que faz com que truques de mágica funcionem. Os mágicos mostram ao seu publico apenas o suficiente, e o público presume o resto. A chave do truque está toda na suposição do publico que o assiste. As pessoas dizem: eu sei que ele colocou aquela moeda na mão direita. Eu a vi, lá. Mas, na verdade, eles realmente não a viram lá; eles, simplesmente, presumiram que ela estava na mão direita do mágico, a moeda deveria estar na mão direita, e assim, nas suas mentes, o publico presume que eles a viram lá.

Os humoristas usam esta técnica quando levam o seu público a pensar que a piada toma uma direção, mas ele a leva a uma outra, surpreendendo totalmente as pessoas e, assim, fazendo-as rir. A comédia depende do inesperado. Se lembre, que ninguém gosta de ouvir uma piada que ele ou ela já conhece.
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Eu já vi piadas esquematizadas desta maneira.

Este diagrama indica que o pensamento toma uma direção e, abruptamente, acaba indo para outra, completamente diferente. Pense no diagrama acima como sendo uma pessoa que está calmamente andando. Nós todos presumimos que ela continuará no seu caminho para onde quer que ela esteja indo, mas repentinamente ela escorrega em uma casca de banana e cai. Todos, que assistiam a sua calma caminhada, foram surpreendidos com um fato inusitado, a queda, e isso os fazem rir. W.C. Fields, uma vez, disse que a verdadeira comédia acontece quando você espera que alguma coisa quebre, mas ela só se dobra. Como humoristas, devemos tirar vantagem do padrão de pensamento das pessoas. A história que se segue ilustra esta teoria, muito bem. Uma vez eu estava num hotel que tinha as paredes muito finas. Os hóspedes do quarto ao lado chegaram tarde, uma noite, e logo começaram a discutir em voz alta. Eu ouvia uma mulher dizendo. Tire o meu vestido, agora tire a minha meia-calça. E, por fim, ela disse, agora tire o meu sutiã. E se eu te pegar usando minhas roupas de novo, eu vou pedir o divórcio. Percebe que nossos pensamentos nos leva a uma direção (eles vão transar) e, de repente, a direção muda. Puxaram o tapete do seu raciocínio. Isto não se aplica somente a histórias longas. Uma piada de Bob Hope usa a mesma estratégia. Ele a contou num dia em que os Estados Unidos havia tentado lançar mais um foguete teste para a ida do homem a lua. Acho que vocês já ouviram as boas notícias que chegaram do Cabo Kennedy. Os Estados Unidos acabam de lançar um outro submarino. Sua mente toma uma direção, mas a conclusão te leva a uma nova direção, completamente oposta.
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Facilidade com as palavras.
Grande parte das piadas é formada por palavras; elas são o meio do qual utilizamos para transportar as nossas idéias. A gestos engraçados e expressão facial também ajudam numa piada, contudo, a maioria das piadas são transferidas aos outros pelas palavras. As palavras contêm um jogo próprio. Norm Crosby constrói performances hilárias somente com o mau uso das palavras. Um dos exemplos de que eu mais gosto foi empregado num dia em que eu e um amigo jogávamos tênis contra uma outra dupla, que estava acabando com a gente. Ele se vira para mim e diz: ‘Bom , acho que nós os botamos bem onde eles queriam que estivéssemos.’ Samuel Goldwyn, da Goldwyn Mayer, era mestre em construir este tipo de frases. Eu acho que todos nós sabemos o que ele quis dizer com: “Um contrato oral não vale nem o papel onde ele esta escrito.” Piadas baseadas em trocadilho, ou jogo de palavras, caíram em desuso por acharem que elas são a forma mais baixa de se fazer humor. Mas não é verdade, algumas delas podem ser bem engraçadas. Eu sei que eu já disse que não as acho engraçadas e você não precisa começar a voltar as páginas para saber onde foi que eu disse. Foi quando falávamos de visualização e o imaginário. O que eu disse, então, e sustento, é que piadas que dependem tão somente de jogo de palavras não são engraçadas porque não criam uma imagem. Mas nem sempre é assim. Bob Hope, uma vez, fez uma piada com jogo de palavras que é um exemplo disso. Era época de natal e, em todos os Jornais, havia sido publicada uma noticia em que Ronald Reagan mostrava seu descontentamento com o seu, então, secretário das finanças, Mr. David Stockman (que eu tomo a liberdade de traduzir por Sr. David Meiasdehomem). Que era assim: “Ronald Reagan já está pronto para o natal. Suas Meiasdehomem estão penduradas na lareira com muito carinho.” O jogo de palavras também o leva a criar a imagem do sr. Stockman pendurado na lareira do presidente e, é justamente aí que está a graça. Wood Allen também é mestre neste tipo de piada. Ele tem uma que não só é um clássico, mas também lhe valeu um processo judicial. Havia sido publicada uma história de que uma das suas ex-esposas havia sido molestada.
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Allen disse: “Ela diz que foi violada. Conhecendo minha ex-mulher acho que ela deve ter irritado o moço do violão.” Tente. Pense numa ou duas palavras e quase imediatamente você poderá encontrar um outro significado para elas. Tome uma palavra comum como “casa”. Quando você a lê você automaticamente visualiza o seu significado. Mas será? Qual dos significados eu pretendia dar a palavra? uma moradia um bordel um teatro cheio Um bom escritor cômico pode aprender a usar a idiossincrasia da língua a seu favor. A seguir, você encontrará oito exercícios cômicos que lhe ajudarão a aprimorar sua escrita. Alguns, favorecem o uso das palavras , outros, da imagem, mas não foi feito nenhum esforço da minha parte em diferencialos por razões que já discutimos antes. Você não estará fazendo nenhum favor a você mesmo se tentar separa-las, assim. Se um exercício requer um jogo de palavras, a melhor piada que você poderá conseguir criar com isso será aquela que carrega uma imagem com ela. Se divirta com os exercícios. Eles não são tarefas de casa. Eles são exercícios divertidos e instigantes. Trabalhe. Tome o tempo que você achar necessário para concluí-los. Há uma tendência de desistir entre os iniciantes, quando se chega nesta parte. Tente se surpreender. Garanto que eles começarão a desvendar o mistério de escrever comédia e, desta forma, você se disciplinará a escrever sempre, mais e melhor.

Exercício 1
Primeiro passo: Junte 50 piadas de qualquer natureza. Elas podem vir de um único livro de piadas, se assim você quiser; de alguma revista; ou, até mesmo, as suas piadas favoritas, ou qualquer piada que você tenha ouvido na tevê de algum comediante famoso. O único critério é que elas devem ser gags das quais você gosta. Não vale copiar todas as piadas de um livro, incluindo aquelas que você não gosta.

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Segundo passo: Datilografe ou imprima estas piadas num pedaço de papel e as analise. Coloque perto de cada uma o que você acha que faz com que elas sejam engraçadas e que forma elas usam. Elas são piadas de palavras, ou elas te fazem rir por que criam uma imagem engraçada na sua memória? Ou ambos? Você não precisa ser técnico, tudo o que você tem a fazer é dizer porquê você gosta de cada uma delas. Cada exercício segue um propósito. Você irá se familiarizar com o estilo e a forma de algumas grandes piadas, e você começará a entender seu próprio gosto por piadas e criará seu próprio estilo. Você verá as diferentes formas que uma gag pode utilizar. Você aprenderá sobre seu próprio gosto cômico e, conseqüentemente, os tipos de piadas que você se acha melhor escrevendo. Outro aspecto importante de se juntar uma série de piadas, que você particularmente gosta, é que elas se tornam uma forma de inspiração para você. Analisar o trabalho dos expertes pode motivá-lo. Esta lista de piadas também lhe servirá como uma boa referência. Quando discutirmos, mais a fundo, os tipos e formas de piadas, você poderá usar sua própria lista de piadas como referência. Exercício 2 Primeiro passo: Faça uma lista de 10 adjetivos que você acredita que possam servir para escrever comédia. Estes adjetivos deveriam ser palavras simples e usuais. Segundo passo: Para cada palavra na sua lista de outras palavras ou símbolos que possam servir como representantes da original. Por exemplo, suponhamos que você tenha escolhido o adjetivo ‘Branco’. Algumas palavras ou símbolos que podem carregar a mesma imagem são: Tela de cinema Um vestido de noiva Pureza Um homem de neve Uma enfermeira Páginas em branco Palidez Um fantasma Roupa de cama
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Este exercício é uma forma de praticar ou descobrir a relação entre palavras e fatos. Ele lhe ajudará a achar palavras ou frases que possam substituir outras palavras, ou frases menos óbvias. Algumas piadas, ou são muito óbvias, ou muito diretas. Estas gags podem ser melhoradas com o uso de outras palavras ou frases que carregam um significado implícito. Talvez, fosse uma boa idéia você dar uma olhadinha na sua lista de 50 piadas agora de novo e ver quantas piadas na sua lista empregam este recurso. Você se lembra das piadas da Phyllis Diller sobre sua sogra, Moby Dick? Ela é uma mulher tão grande que, quando ela está de branco a gente pode ver filmes nela. Neste caso, uma idéia relativa cria a piada, o significado das palavras esta implícito. Esta piada ficaria menos engraçada se houvéssemos dito que a sogra se parece com uma tela de cinema. Muitas vezes, podemos recorrer ao simbolismo para substituir completamente o significado de uma frase ou palavra.

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Exercício 3 Primeiro passo: Junte pelo menos 30 fotos com cenas não muito corriqueiras. Elas podem ser fotos de bebês interessantes, filmes, fotos estranhas como naquelas revistas de fotografia, ou qualquer outra fonte que você ache aproveitável. As fotos não podem ser comuns, então, eu não recomendaria fotos do seu álbum de família, a menos que você tenha uma família mais estranha que a minha. Segundo passo: Crie títulos engraçados para cada uma delas. Quando você for criar seus títulos, pense em dar um novo significado para as fotos ao invés de não descrever o que elas contém. Às vezes, escrevemos piadas muito óbvias ou diretas e este mesmo erro pode ocorrer neste tipo de exercício. Nossa tendência é comentar o óbvio – a foto. Crie títulos estranhos e engraçados, por exemplo, suponhamos que uma das suas fotos traga um bebê com comida por todo rosto. Você poderia criar um título como: ‘Cara, eu detesto espinafre.’ Ou, ‘Esta é a última vez que deixo aquela senhora me dar comida.’ Qualquer um dos títulos que você der, neste caso, ainda descrevem uma criança com comida por todo rosto. Contudo, se escrevemos: ‘Esta foi a última vez que minha mulher me compra creme de barbear sabor espinafre.’, você estará modificando a ação que vemos na foto. Apesar de termos um bebê nela, nós não o vemos mais, mas sim um homem cuja esposa gosta de comprar coisas exótica, como creme de barbear com sabor. Com certeza ainda poderíamos criar frases hilárias para as fotos, usando gags mais diretas, mas já que nosso objetivo aqui, neste exercício, é evitar o óbvio, eu gostaria que você criasse um novo significado para cada foto em uma única frase, ou título.

Exercício 4 Primeiro passo: Junte, no mínimo, 25 tiras (cartoons) que você goste. Você poderá encontra-las nos jornais ou revistas. Segundo Passo: Crie suas próprias frases para cada um dos balões. Não se limite a uma frase para cada um deles, crie várias.
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Este exercício é bastante parecido com o exercício 3, exceto que neste caso, você não pode fugir da ação que está no desenho. Não importa o quanto o cartoon seja bom, não existe nenhuma garantia de que as frases que foram dadas sejam as únicas, ou as melhores. Você pode parafrasear as frases originais, melhorando o uso das palavras ou até mesmo criar um novo ângulo para uma piada. As suas frases podem até não ter nada em comum com as originais. Não se limite. Este exercício lhe ensinará uma lição valiosa, a de não desistir. A tira foi criada, comprada e impressa no jornal ou revista, a tendência é acreditar que elas não podem ser melhoradas. Continue tentando. Você poderá se surpreender. O importante é resistir a tentação de se render. Muitas vezes nos deparamos com tópicos em que não vemos a menor graça. Mas, se você persistir, você acabará encontrando. Exercisio 5 Primeiro passo: Crie 25 tiras ou cartoons da sua própria autoria. Seus personagens podem ser qualquer coisa. Objetos, formas geométricas, aparelhos domésticos, etc. Eu sei que isso pode lhe soar um tanto bizarro agora, mas eu explicarei melhor no meu exemplo. Segundo passo: Crie frases para suas tiras. Você pode escolher fotos, recortes de jornal, ou, até mesmo, desenhar seus personagens, se você assim quiser. Por exemplo, digamos que eu tenha escolhido uma foto com dois pretzels nela. Um deles, com mostarda espalhada por cima e, o outro, sem nada. Você poderia dizer: ‘Você é uma garota legal Maple. O único problema é a sua maquiagem.’ Outro exemplo: Colei duas frutas juntas. Um pêssego perto de uma ameixa. A ameixa poderia dizer ao pêssego: ‘Eu não me importo que já estamos super atrasados, mas você não vai sair de casa sem se barbear antes.’ Em um outro exemplo, poderia usar coisas relacionadas ao ato de fumar e seus acessórios. Digamos que tenho sete cigarros em fila, um deles é uma bituca amassada. Você poderia escrever: ‘Okay, qual de vocês passou dos limites ontem á noite?’ Em outro exemplo, eu usei formas geométricas.

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‘Tubo bem, Orville. Os convidados já se foram. Pode parar de fingir que é um abajur.’ Este exercício é parecido com os anteriores. A diferença é que você começa do nada. A princípio, parece ser um exercício difícil mas, se você se por a faze-lo e aceitar e procurar outras pessoas para ajuda-lo, você descobrirá que não é tão difícil assim. Comece, eu te garanto que é mais divertido do que parece. Exercisio 6 Primeiro passo: selecione um tópico sobre o qual você gostaria de escrever a respeito. Pode ser um tópico geral, ou um que você tenha escolhido lendo as notícias nos jornais. Segundo passo: Pesquise sobre o seu assunto de escolha e escreva 20 fatos a seu respeito. Os fatos a respeito do seu tópico de escolha não devem ser cômicos, de forma alguma, e nem você deveria torná-los engraçados. Pelo menos, não até agora. Simplesmente, faça uma lista com os seus mais verdadeiros comentários a respeito do assunto. Se você escolher um tópico extraído dos jornais, leia a noticia e faça uma lista dos seus comentários baseados na reportagem. Por exemplo: “O preço dos selos está 20 centavos mais caro a partir de hoje.” “As agências do correio explicaram que o custo adicional era para melhorar a eficiência dos nossos correios.” Se o seu tópico for de natureza mais geral, você ainda poderá encontrar comentários, baseados em fatos, para listar. Exemplo: “Meu marido dorme no sofá todas às noites, após o jantar.” “Ele ronca durante minha novela favorita.” Terceiro passo: Trate cada um dos seus tópicos e comentários como uma preparação para a uma “punchline” (um desfecho). Crie frases para cada situação.Você não precisa, necessariamente, criar uma única punchline (um único desfecho) para cada tópico, não se limite. No final, você terá uma série de piadas. Exemplo: “O preço dos selos está 20 centavos mais caro a partir de hoje. Eu só tenho uma saída. Vou criar uma corrente para mandar meus cartões de natal este ano.”

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“As agências do correio explicaram que o custo adicional era para melhorar a eficiência dos nossos correios. Bobagem. A melhor maneira de aumentar a eficiência dos correios é enviar aos carteiros os seus cheques.” Este exercício lhe irá ajudar a analisar e criar piadas para os seus tópicos. Também lhe ajudará a ver como algumas piadas são formadas. Exercício 7 Primeiro passo: Faça uma lista que contenha 50 substantivos. Você pode extrapolar por que estes substantivos lhe servirão para criar piadas gráficas. Você vai querer escolher os substantivos mais engraçados que você possa pensar. Segundo passo: Divida a sua lista em dois grupos. A primeira deve conter 20 substantivos e a outra 30. Terceiro passo: Releia a primeira lista transformando cada um dos substantivos em um assunto para suas piadas – combinando cada um deles com uma das palavras que você escreveu na sua segunda lista. Construindo uma punchline (ou desfecho).

Exemplo: 1. Bolo de frutas 2. Caminhão de lixo 3. Purificador de ar 4. Bode, etc. Este é um exercício difícil, que lhe ensinará que escrever comédia nem sempre é moleza. Mais importante que isso, este exercício lhe mostrará que uma piada é feita com duas idéias separadas, e a combinação destas idéias é que criará a graça. Este exercício exigirá uma concentração maior da sua parte. Mais tarde você verá que este exercício lhe foi crucial quando você estiver escrevendo monólogos. Quando escrevemos monólogos, temos de encontrar uma frase para mudar de um tópico ou sub tópico para outro. E este elemento de junção será muito mais interessante se for uma piada.

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O valor dos monólogos.

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No capitulo 7 discutimos a piada como sendo o bloco principal na construção do humor, assim como o tijolo é o da construção. Contudo, ninguém consegue viver em um tijolo. Um tijolo tem que se unir a outros tantos para criar uma estrutura. A mesma verdade se aplica à comédia. Piadas têm que se unir com continuidade e estrutura na criação de um trabalho humorístico. E a isto chamamos de monólogos. Tijolos ou pedras sozinhos não constroem catedrais – mas tente construir uma sem eles. Mesmo os melhores tijolos não nos atraem se estiverem, simplesmente, empilhados em um terreno baldio, mas se estiverem organizados elegantemente na forma de uma estrutura nos parecerão mais belos. Da mesma maneira, gags bem escritas, magistralmente fundidas em uma rotina cômica, geram mais risos. Certamente, piadas soltas de uma linha, tem o seu lugar. Já falamos das revistas, cartões de aniversário, natal, etc. No próximo capítulo, escreveremos algumas piadas, mas eu sugiro que você as escreva dentro de um monólogo, ao invés de escrever piadas isoladas. Deixe-nos pensar porque será mais vantajoso para você escrever monólogos. Você deveria estar criando um portfólio (repertório) com o seu trabalho. A oportunidade pode bater à sua porta a qualquer momento e ela não vai ficar esperando você produzir material suficiente para seduzi-la enquanto ela espera. Eu já trabalhei com muitos escritores novatos, como já mencionei antes, meu primeiro conselho é o de escrever uma cota diária, ou semanal de piadas. Contudo, eu sei que muitos poucos seguem este meu conselho. Quando eu recebo alguma ligação de algum produtor procurando por novos escritores, eu não consigo encontrar um só que eu possa indicar - eu ainda não os vi produzirem material suficiente para provarem o seu talento e eles quase nunca tem material algum para mostrarem aos produtores. É por isso que um portifólio é de suma importância: você tem de ter alguma coisa palpável para mostrar para eles. Porém, quando você estiver formando seu portifolio, leve em consideração que monólogos têm um valor maior, não importando o quanto as suas piadas isoladas são boas. Eu, sinceramente, não consigo ler um bando de piadas isoladas de uma só vez. E não acredito que alguém consiga ler um livro de capa a capa cheio delas. Piadas isoladas cansam o leitor. Piadas isoladas também sofrem, quando comparadas a outras piadas suas. As melhores fazem com que o resto pareça ruim. Voltemos a analogia do bloco de construção. Ninguém olha uma estrutura completamente construída e critica um tijolo em particular. Nossos olhos
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vêem a construção acabada e só, então, passamos a julgar os seus componentes em relação ao todo. As piadas são realçadas. Rotinas bem organizadas não só encobrem as nossas fraquezas, mas podem fazer com que nossas piadas fiquem mais engraçadas. O comediante Slappy White costumava contar esta história durante seus shows em night clubs: Uma vez um cara morreu e foi para o céu. Quando ele chegou lá, descobriu que só haviam duas pessoas no paraíso, Deus e George Washington. O homem disse para Deus: ‘Eu não entendo. Onde está o resto das pessoas?’ E Deus respondeu, ”Elas estão lá embaixo. Venha até aqui que eu vou te mostrar. Deus, então, abriu um buraco no céu e o homem olhou. Lá embaixo, as pessoas cantavam e dançavam. Havia até uma Big Band tocando e todos estavam se divertindo horrores. O homem, incrédulo, olhou para Deus e perguntou: ”Como é possível eles cantarem, dançarem e até ter uma banda tocando só para eles lá embaixo, enquanto aqui em cima não acontece nada? Deus disse: “Você não acha que eu vou contratar uma banda daquele tamanho para tocar para duas pessoas, acha?” Slappy tinha um jeito bem engraçado de contar esta piada, e ele sempre conseguia levar o público às gargalhadas e, quando as pessoas começavam a parar de rir, ele arrematava: “E George não sabe dançar.” O que fazia as pessoas começarem a rir novamente. “E George não sabe dançar” não é de perto uma piada clássica se você tomá-la isoladamente. Você, com certeza, não conseguiria vende-la para o Reader’s Digest. Nenhum cartunista, ou produtor de cartões, a compraria. Mas, como parte do todo, ela funciona bem. Um bom monólogo trabalha dentro do que eu chamo de ‘principio dos picos e vales’. Nem todas piadas podem ter o mesmo conteúdo humorístico. Mesmo que fosse possível, isso não nos valeria de nada porque faria do nosso oficio uma coisa monótona e a comédia precisa ser modulada. As gargalhadas deveriam vir em um crescendo e, então, depois, diminuir para, novamente, surgir em um crescendo e descender gradualmente. Quando vemos um comediante do qual, normalmente, não gostamos, não é porque ele não seja engraçado: é porque seu material não progride como deveria. Todos os cômicos, até mesmo os grandes, nem sempre são hilários. Durante este momentos menos hilários, eles estão nos levando a
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algum lugar – eles estão construindo uma atmosfera. Quando eles nos colocam onde eles nos querem, eles nos entregam a recompensa: a gargalhada. O público que os ouvia sente justificada a espera, sente justificado o tempo em que ele gastou ouvindo um material menos engraçado. Um cômico medíocre não entrega a recompensa para o seu público. Conseqüentemente, o publico se sente desapontado. Sente que ele esperou e investiu seu tempo em vão. Tudo que este comediante precisava era de algumas piadas fortes estrategicamente colocadas na sua rotina. Deixe exemplificar o que eu quero dizer com o ‘ princípio de picos e vales.’ Esta é uma história que eu ouvi e que ilustra bem este princípio. Eu numerei a rotina em diferentes partes, assim poderemos discuti-la mais tarde. 1- Eu adoro trabalhar com comédia por que é uma das poucas coisas que consigo fazer melhor que a minha mulher. 2- É verdade. É horrível estar casado com alguém que é inteligente, criativa e com tantas habilidades, mas ela tem seus defeitos também. Como naquela vez que em que ela foi para o hospital para ter nosso quarto filho e eu fiquei em casa cuidando dos outros três. Ela sabia que ia ficar ausente por seis dias e deixou pratos limpos só para cinco dias. 3- A casa estava um desastre aéreo e ela ia ficar muito chateada quando chegasse, por isso eu tive uma idéia brilhante para amenizar as coisas. Eu pedi para as crianças fazerem um cartaz enorme e escreverem: “Bem vinda, Mamãe.” E penduramos o cartaz onde costumava ser a sala de jantar. 4- Mas minha mulher está sempre me dizendo o quanto eu só atrapalho. Às vezes a gente está se arrumando para sair, eu ofereço minha ajuda para vestir as crianças e ela me diz: “Não estou com muita pressa para você ajudar.” 5- Portanto, no dia que ela estava para chegar, eu revolvi tomar aquela tarefa como um desafio. Eu disse para a minha filha mais nova que eu ia dar banho e vesti-la com uma rapidez que ela nunca havia visto. Eu levei ela para o banheiro e disse a ela que tudo ia ser como em um jogo. Quando eu lhe desse o sinal, ela deveria levantar os dois braços, então eu tiraria a roupa dela e a colocaria na banheira. Enchi a banheira, testei para ver se estava no ponto e disse, ‘Okay”. Ela colocou os braços para cima, e eu arranquei em um único puxão, o seu vestido, e as calcinhas dela, peguei ela no colo e coloquei na banheira. E disse, com orgulho, da minha proeza. E aí querida, a mamãe já tinha
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feito isso tão rápido assim? Ela me respondeu: “Não, mas a mamãe tira os sapatos e meias primeiro.” 6- Eu não passei por um completo idiota, como tive que comprar sapatos novos para ela. O primeiro item é uma piada fraca, que serve ao propósito de introduzir a rotina. As pessoas sabem que ela não é uma grande piada, mas eles ouvem, esperando o que vem a seguir. O segundo item é uma piada mais forte e ela ilustra o desamparo do marido. O terceiro item é igualmente uma piada mais forte, mas novamente, ela carrega a sensação de que ainda existe mais. O quarto constrói e antecipa o que ainda esta por vir. O publico pode até pensar, “Ele já nos deu duas piadas, mas ainda não chegou no ponto. Provavelmente será muito engraçado quando ele chegar ao ponto principal”. O quinto item é a recompensa. O publico esperou e foi recompensado. Ela justifica a espera do publico. O sexto e último item é uma piada fraca que só vem tirar vantagem das gargalhadas conseguidas com o quinto item, e gera mais algumas risadas. Algumas boas piadas precisam de (set up) introdução. Freqüentemente, até mesmo as piadas mais poderosas necessitam de um pouco de explicação ou set up (introdução) para torná-las entendíveis, talvez porque uma gag parte de uma premissa, que nem sempre é facilmente reconhecida. Em outras palavras, você escreveu uma piada ótima, mas ela não é suficientemente forte para se sustentar. Um monólogo lhe permite usar esta gag sem qualquer preâmbulo equivocado. A piada que a precede explica ou introduz o caminho. Por exemplo, suponhamos que você tenha escrito uma piada sobre pessoas que, constantemente, tossem durante um recital de piano. Você, provavelmente, precisará inventar umas poucas gags para criar a atmosfera e, então, entregar ao público a sua principal piada. Anos atrás, eu fiz um banquete para um amigo meu, que estava se aposentando. Este meu amigo costumava tirar os óculos toda vez em que ele havia bebido um pouco mais. E eu criei uma piada sobre isso. Como nem todas as pessoas naquele banquete sabiam desta particularidade, eu precisava de um set up para ela. O resultado foi este:
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“Todos sabem que Jimmy gosta de tomar uns tragos em festas como esta, e ele sempre tira os óculos depois de uns drinks a mais. Eu estava conversando, antes do jantar desta noite, com a esposa de Jimmy. E disse: ‘Bem, após 28 anos de casados, eu tenho certeza de que você sempre sabe que o Jimmy bebeu demais quando ele chega em casa sem os óculos. Ela então olhou para mim e disse: ‘Que óculos??’ Eu gosto desta construção mas, contudo, eu ainda acho que eu poderia ter criado um set up melhor e com piadas mais simples. Porque, assim, a minha grande piada teria sido bem mais simples e concisa. Monólogos requerem preparação. Eu considero um monólogo uma rotina cômica de umas 25 a 35 piadas. Isto não é uma regra, é somente um número conveniente de piadas que eu uso quando escrevo monólogos. No capitulo 10, discutiremos este número melhor. Por agora, é suficiente dizer que isto é uma tarefa extraordinária que você começa com uma folha em branco, sabendo que você terá que criar duas ou três dúzias de pérolas cômicas. Conseqüentemente, você necessita fazer o seu trabalho de casa. Você não pode protelar, quando você precisa ter este material escrito. Você precisa se organizar e fazer alguma pesquisa e planejamento – como resultado, você notará que o seu material será mais criativo. Os monólogos nos forçam a escrever mais. Uma tendência comum entre os escritores de comédia é desistir cedo demais quando uma piada ou tópico começa a lhe dar mais trabalho do que você gostaria. Eu comecei a notar que as minhas melhores frases, enquanto eu escrevia um monólogo, eram as primeiras e por volta da oitava. A razão que eu encontrei para isso é que a primeira gag que eu escrevia era o produto da minha inspiração, aquela que surgiu na minha cabeça e fez com que eu começasse a escrever aquela rotina. Então, daí eu escrevia o que se esperava, o óbvio, até eu me exaurir delas para, então, por volta da sétima ou oitava linha, ser forçado a ser criativo novamente. Não se trata de uma equação matemática, mas todos nós, quando escrevemos um monólogo, chegamos naquele ponto em que a gente se diz, “Não há mais nada a dizer sobre este tópico que eu possa escrever.” Mas, te garanto que você, na maioria das vezes, está errado. Na maioria das
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vezes, é justamente quando cruzamos este ponto que o nosso trabalho se torna mais inventivo. Escrever monólogos diversifica o seu estilo. Um monólogo é feito de forma a ser lido ou ouvido no seu todo. Ele precisa ser interessante o suficiente para manter o público cativado. Portanto, você deve incorporar um justo número de variedades em cada parte. Embora as piadas de uma tenham (são) essencialmente a mesma forma, você ainda assim deve inventar maneiras diferentes de usá-la. Por exemplo: ”Meu cunhado e tão preguiçoso que….” Talvez você consiga escrever umas 15 variações para esta piada, mas você não conseguirá criar uma rotina onde todas as piadas comecem com “meu cunhado é tão preguiçoso que….” Você pode inventar outras do tipo: “Meu cunhado é tão preguiçoso que ….. (piada)” “Ele, é a preguiça em si, ele tem tanta preguiça que…..(piada)” “Não vou dizer que ele odeia trabalhar, mas ……..(piada)” “Eu vou de dar uma idéia de como ele é …..(piada)” Você usou a mesma forma, mas as frases que antecedem às piadas mudaram. Você também aprenderá a usar variações para evitar que o seu trabalho soe monótono. Se você se forçar a escrever monólogos completos e bem estruturados, você, com certeza, aprimorará o seu estilo. Os monólogos trabalham para quem os compra. Você terá melhores chances de chegar a vender qualquer coisa se você facilitar as coisas para o comprador. Monólogos deixam as coisas fáceis para eles. Se você apresentar a um comediante um monte de piadas soltas sem uma ordem, ele achará muito difícil de lê-las, como já mencionei antes. Mesmo que ele goste de algumas piadas, ele terá de incorporá-las dentro da sua rotina de palco. Se você já apresenta as suas piadas estruturadas dentro de um monólogo, ele não terá trabalho algum. E, se você apresentar um monólogo com um numero suficiente de piadas, no meu caso de 25 a 35, ele ainda terá material suficiente para escolher as que ele mais gosta e ou não editar as
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outras. Mesmo que ele reduza o seu monólogo para 8 das 35 piadas, ainda é um numero suficiente para ele incluir em um dos seus atos. Agora, se você entregar um monólogo com 5 ou 6 piadas e se o comediante editar a mesma porcentagem, o monólogo acabara com uma ou duas piadas, no máximo. E que vantagem há em duas piadas, ele vai pensar.

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Se preparando para escrever.

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Eu já li uma vez que pesadelos frustrantes são bem comuns na minha profissão. Pilotos de aeronaves já me confessaram que eles freqüentemente sonham com a decolagem. Minutos depois de decolarem, eles já se deparam com milhões de obstáculos como, por exemplo, fios de alta tensão e prédios residenciais, pontes, etc. Quando eu me comprometi a me tornar um escritor profissional, eu costumava ter um mesmo sonho quase que todas às noites. Eu sonhava que estava em um evento importante e era chamado ao palco para entreter a multidão. Eu andava até o microfone sob os aplausos, sentido uma fagulha de excitação crescendo dentro de mim. E, logo que a platéia terminava os aplausos e eu me encontrava no centro do palco, eu não sabia o que dizer. Eu não conseguia pensar em nenhuma piada, rima, ou charada …nem mesmo uma simples canção que eu pudesse cantar. Tudo o que eu podia fazer é ficar lá, de pé, mudo e desejar que alguma mágica pudesse acontecer e fazer com que eu desaparecesse dali. A preparação é essencial para se escrever comédia. Alguns comediantes são mestres na improvisação, mas eles não se apóiam na improvisação o tempo todo, eles têm um material que lhes serve de suporte. Eu gostaria de viajar com você no processo de escrever uma piada do início ao fim. Naturalmente, a descrição de um pensamento leva mais tempo do que o ato de pensar. Seja paciente. É como se lêssemos as instruções de um novo jogo: As regras parecem complicadas e leva um tempo para entendê-las. Mas, uma vez que damos inicio ao jogo, as regras ficam mais fáceis, óbvias e claras. A mesma coisa acontece quando escrevemos. Voe comigo algumas vezes nesta jornada e logo, logo, você estará pilotando a aeronave sozinho e muito mais rápido. Gostaria de relembra-los de que há dois processos de pensamento quando escrevemos uma gag. Um é quase instantâneo. Idéias e pensamentos rolam pela nossa mente como se fossemos um computador. O outro é mais tedioso e estudado. Digamos que é um sistema de pesquisa acirrado. Eu devo admitir que este processo é lento e monótono, por vezes, o que faz com que alguns escritores queiram partir direto para a escrita. Nós já dissemos aqui e volto a dizer, que muitos novatos se cansam e desistem de passar pelo processo de preparação dos tópicos e das suas piadas. Eu recomendo que você seja mais assíduo na preparação do seu trabalho, pelo menos no início. Escreva todas as suas idéias antes, não elimine este processo. Com o tempo, você poderá até abolir eu reduzir alguns passos na sua preparação e passar a faze-las mentalmente. Você irá aprender a trabalhar mais rapidamente – executar algumas das suas rotinas mentalmente e rapidamente – e conseguirá chegar as suas piadas
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em menos tempo. Mas, no começo, eu não acredito que isto seja viável. Até hoje, quando meus deadlines (prazos de entrega) permitem, eu costumo preparar o material para os meus monólogos antes de, verdadeiramente, escreve-los. Com isso, eu sempre melhoro a quantidade e a qualidade do meu trabalho. Vic Braden, uma autoridade no tênis, me disse que, quando criança, ele costumava imaginar-se jogando a Copa Davis de Tênis, cercado pelos melhores técnicos, que lhe transmitiam informações cruciais sobre suas jogadas, lhe passando recomendações valiosíssimas quando ao seu plano de jogo. Ele costumava assistir a todos os campeonatos e sempre, quando o técnico se aproximava de seu jogador para dizer alguma coisa, ele imaginava que tipo de segredos ele, o jogador, poderia estar recebendo naquele momento. “Dobre os joelhos.”, Mantenha a cabeça baixa.’’ Mas o único segredo a ser passado para eles era “Esteja bem preparado e mantenha os fundamentos do jogo em prática.” Chega dos meus sermões. Você esta pronto para começar a trabalhar. Você já está com o lápis apontado, ou tem uma máquina de escrever, computador, ou laptop por perto. Então, voltemos ao meu pesadelo. Era um pesadelo porque eu não tinha nada a dizer. Seu primeiro passo, antes de começarmos, é achar alguma coisa a respeito da qual você quer escrever. Escolha um tópico. Você deve escolher um assunto, algum assunto que lhe ajude a mostrar toda a sua esperteza e espirituosidade. Qual? Este assunto pode ser qualquer um: acontecimentos corriqueiros e atuais, vida em família, ironias sociais, algo fantástico, qualquer coisa. Você, simplesmente, precisa de alguma coisa para botar naquela página em branco. Onde você consegue este tópico? De qualquer e de todos os lugares possíveis, imaginados ou nunca imaginados. Você pode ter lido algo irônico no jornal de hoje. Folheie as revistas à caça de algo que possa interessar o seu humor. Você pode estar passando por um momento ou acontecimento que você gostaria de satirizar. Ouça a conversa dos outros. Se você tem alguém pagando pelas piadas, geralmente, ele ou ela escolhe o assunto, mas isto é bom porque você estará recebendo um cheque pelo seu trabalho. Mas, se você está livre para escolher os seus próprios assuntos, seja bonzinho consigo mesmo e escolha algo que possa facilitar o seu trabalho. Tenho certeza que você tem um assunto que lhe inspira. Eu, geralmente, gosto de escrever sobre coisas que me irritam. Uma vez eu estava dirigindo meu carro e, ao mesmo tempo, sonhando com tópicos para
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escrever. O meu modo de dirigir deve, com certeza, ter irritado o motorista que estava logo atrás de mim. Ele buzinava a cada 30 segundos. Aquilo começou a me irritar bastante e, por isso, eu escrevi um monólogo inteiro sobre isto. Escrever comédia também pode ser terapêutico. Deste ponto em diante, estaremos trabalhando, passo a passo, na construção do seu próprio monólogo. Neste exato momento, seria prudente que você não fosse tão ambicioso. Escolha um assunto sobre o qual você tem certeza que possa ser engraçado. Associação livre. Agora que você já escolheu o seu tópico, permita que sua mente considere toda e qualquer coisa que você possa relacionar ao seu assunto. Não tente ser engraçado neste momento. Você está, simplesmente, se suprindo de informações para poder compor seu texto. Você também não deveria tentar ser, particularmente, seletivo. Você não deve julgar os itens que aparecem na sua cabeça, simplesmente, escreva-os. Alguns lhe poderão ser úteis quando você for compor seu monologo, outros não. Deixe sua mente fluir livremente. Como exemplo, suponhamos que eu tenha escolhido escrever sobre pessoas que possuem cães. Minha lista de associações livres pode acabar, mais ou menos, assim: Cães: narizes molhados, xixi no tapete, mastigar e destruir coisas com os dentes que estão nascendo. Brincar de pegue, sente e guarde. Ele traz seus chinelos, o cachimbo e o jornal da manhã. Ele adora perseguir gatos e carros. As visitas ao veterinário e a compra de ração para cães. As orelhas humanas e as orelhas de um cão. Isto é tudo que (...) para ser feito neste passo. Você deve tentar escrever todas as associações possíveis. Mesmo quando você achar que já tem um numero suficiente delas, force a sua mente mais um pouco, sempre existe uma, duas ou três associações escondidas lá. Explore o máximo. Uma piada é a junção de duas idéias. Geralmente, nós temos um ponto de vista e uma idéia que está ligada a ele. Esta lista pode lhe oferecer ambos, mas vamos partir do principio que temos uma única parte da piada.
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O processo de escrever uma piada é encontrar a outra idéia que se unirá a primeira. Para ilustrar, suponhamos que eu não goste de cachorros por que eles fazem xixi nos tapetes. Como posso dizer isto de uma forma engraçada? Eu posso, rapidamente, olhar a minha lista de tópicos na procura por uma relação de idéias. Tentemos ‘narizes molhados’. ‘Eu e este cão temos algo em comum. Ele tem um nariz molhado e eu um tapete igualmente molhado.’ Talvez: ‘chinelos e cachimbos’ ‘Este cão faz tanto xixi nos tapetes que quando eu chego, ao invés dos chinelos, ele me traz as galochas.’ E que tal: ‘arrombadores assustadores’ ‘A gente sempre sabe quando tem um ladrão andando dentro de casa. Os tapetes fazem squish, squish, squish.’ Sem uma lista a que você possa se referir, estas gags, provavelmentea teriam me tomado muito mais tempo para escrever, isto é, se elas chegassem a surgir na minha cabeça. Uma lista organizada. Depois que você permitiu a sua mente andar livremente pelas idéias relacionadas ao seu tópico, e após tê-las listado, uma a uma, você deve estimular o seu cérebro um pouco mais e encontrar outras que possam servir na construção da sua piada. Este passo é, na verdade, a padronização das suas associações livres. Ele é mais organizado. Faça uma lista de pessoas, lugares, coisas, acontecimentos, palavras, clichês, e frases que são similares ou relacionadas ao assunto da sua escolha e uma lista das mesmas categorias que são opostas ao assunto da sua escolha. Você pode criar um formulário padrão para poder sempre utiliza-lo. No meu exemplo que se segue, eu listei apenas alguns itens que eu posso escrever em cada categoria. Sua lista deveria ser muito mais extensa. Trabalhe e pense até você conseguir um número considerável de idéias para cada divisão. Alguns tópicos serão mais fáceis de serem analisados,
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que outros. Eu recomendaria você ter, pelo menos, sete itens em cada seção. Tópico: ser dono de um cão. Coisas Eventos Frases coleira dia de cão ‘Sua latida é pior que a sua mordida.’. Papéis no chão Primeira vez que Pegue, sente, comeu de atenção, fica. uma lata de lixo. OPOSTOS: Eventos Reunião da AA.
ser dono de um cão.

Pessoas Pluto

Lugares Canil

Lassie

Casa de cachorro

Pessoas gatos

Lugares Coisas lugares Outros que não animais. carrocinha permite cães Inimigos carteiro o quarto naturais dos cães.

Frases Eu tenho medo de cachorros. Eu não confio em cachorros. Eu sou um amante dos gatos.

Os benefícios que você alcançará com este esquema na sua escrita são exatamente os mesmos que a associação livre lhe dá. A vantagem desta lista é que ela ajuda a sua mente a se concentrar em áreas específicas. Quando canalizamos nossos pensamentos, as nossas mentes se tornam muito mais produtivas. Quanto mais idéias você tem para trabalhar, melhores serão as piadas que você criará. Seu primeiro processo foi associar livremente as suas idéias a um tópico. Quando você chegou ao fim da primeira lista, você imaginou que havia conseguido relacionar tudo o que você podia pensar a respeito do seu tópico. Então, nós categorizamos nosso pensamento. Nós as organizamos um pouco mais e pedimos a você para elaborar mais idéias ao seu tópico. Tanto as idéias diretamente relativas a ele quanto indiscutivelmente opostas a ele. A sua segunda lista deveria conter um numero maior de
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itens que a primeira. Vários deles serão réplicas da primeira, outros tantos serão itens novos. Quando organizamos nossos pensamentos e objetivos, nossos esforços, nós podemos ser capazes de encontrar outras tantas associações sobre um tópico, que já achávamos explorado ao máximo. Tudo que você fez de diferente no segundo projeto foi canalizar os seus pensamentos. Ao invés de pensar em uma associação, você pensou sobre qualquer COISA que estivesse relacionada, qualquer LUGAR que estivesse relacionado e assim por diante. Deveria ser aparente para você agora que a preparação para executar o seu trabalho realmente funciona. Confie em mim. Estamos prestes a começar a escrever nossas piadas. Já deveríamos estar lá. Mas a razão pela qual eu ainda protelei o seu inicio com estas últimas explicações foi tornar o seu trabalho mais rápido. Esta é a boa noticia, a má noticia é que ainda temos mais um procedimento ao qual eu quero me ater antes de entrarmos na parte divertida de escrever. Subdividindo os tópicos. No capitulo 9 eu comentei que, para o nosso propósito, um monólogo deveria conter de 25 a 35 piadas, e prometi, então, explicar o porquê eu, arbitrariamente, adotei este critério. Já tocamos algumas das minhas razões, então, mas vamos revê-las, rapidamente. Em primeiro lugar, este número lhe força a executar o processo preparatório. Duas ou três dúzias de piadas sobre um único tópico é uma tarefa considerável. Muitos de nós, atletas das letras, gostaríamos de atacar as nossas gags já escrevendo nossas piadas. Se fizéssemos isto, acabaríamos com 6 ou 8 gags, das quais gostamos e ficamos satisfeitos. Contudo, já que começamos com uma cota maior precisamos passar por alguns processos preliminares para conseguirmos completar a nossa exigência. Em segundo lugar, porque escrever uma cota maior de piadas também lhe força a terminar o seu trabalho sem deixa-lo no meio do caminho. Escrever piadas pode se tornar difícil após as 5 ou 6 primeiras piadas, por que as primeiras são piadas que vêm da nossa inspiração. O objetivo de escrever 25 a 35 piadas faz com que você vá além da inspiração. Não é sempre que a temos, ou podemos contar com ela e você ficará surpreso com o material que você será capaz de produzir após ter certeza de que não há mais nada a dizer a respeito de um tópico. E terceiro, porque torna o seu material mais vendável. Existe material suficiente numa cota de 25 a
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35 piadas para um comediante edita-las, usa-las ou adapta-las a sua rotina. Quarto, o volume de piadas lhe permite ser mais seletivo. Nenhuma das razões citadas acima faz seu trabalho de escrever menos formidável. Qualquer um pode escrever 5 ou 6 piadas sobre um tópico que lhe foi sugerido, mas nem todos escrevem 25 ou 35 piadas assim, facilmente, só por inspiração. O segredo, então, está em subdividir seu tópico em 5 ou 6 sub tópicos e escrever meia dúzia de piadas sobre cada um deles. O resultado será um monólogo. Você chega os seus sub tópicos analisando seu tópico principal. Você faz anotações a seu respeito, você o questiona, você o destrincha, procurando pelos seus componentes. Quando pensamos em um tópico, nós já temos uma ou duas piadas praticamente formadas em algum lugar na nossa mente. Estas piadas podem gerar sub tópicos. Reveja as suas listas. Todas, incluindo as de associação livre e organizada. Com certeza, você ira encontrar várias sub divisões nelas. Meu tópico principal era: “ser dono de um cão.” Eu o dividi nos seguintes sub tópicos. A) Geral. Esta é um decisão bastante abrangente, que serve para trazer a atenção de todos. O que me permite acrescentar uma ou duas piadas que introduzirá a minha rotina. B) Molhando os tapetes. Este sub tópico saiu das minha lista de associações livres. C) Qual o tamanho do cachorro. D) O cachorro atacando o carteiro; ou, as visitas; ou, ambos. E) O cachorro mordendo e destruindo tudo o que ele encontra pela frente. Subdividi-los desta maneira me permite elaborar um monólogo completo sobre o meu tópico principal, que é alguém que possui um cão. Não existe somente sub tópicos quando se tem um cachorro, talvez, os sub tópicos escolhidos por mim nem sejam os melhores. Mas eles são os que eu escolhi para estimular o meu cérebro a escrever 35 piadas sobre o fato de alguém possuir um cachorro. Esta divisão em sub tópicos é, provavelmente, a parte mais importante para se escrever um monólogo. Pois, então, você já tem um tópico. Tente pensar em todos os processos. Uma vez que você tenha completado os processos citados, podemos começar a escrever nosso monólogo. Divirta-se.
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Fazendo as piadas Fluírem.

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Todo nosso trabalho até o momento, com exceção de alguns exercícios, tem sido preparatório. E isto é essencialmente necessário. Boxeadores se preparam meses para uma luta. Times de futebol sempre treinam antes de uma partida. Jogadores de tênis estão sempre querendo aperfeiçoar as suas jogadas. Mas, o momento da verdade sempre chega quando eles se deparam com os seus oponentes. Acabamos de chegar neste momento da verdade. Seu oponente, uma folha de papel em branco. E esta será uma boa batalha já que nem eu, nem este manual poderá escrever as piadas por você. Contudo, posso servir de técnico e dar algumas dicas de como você deve se portar no jogo, das laterais do campo. Neste exato momento, você deveria ter com você um tópico, uma lista extensa de referências , e um grupo de sub-tópicos. Você deverá converte-los em uma série de 25 a 35 gags, que você, por sua vez, irá transformar em um monólogo. Não há necessidade de escrever a sua rotina cronologicamente. Se você pode se sentar agora na sua maquina de escrever e começar a trabalhar na piada número 1 e, logo em seguida, na número 2, então, faça isso. Será muito mais fácil para você chegar ao fim do seu monólogo, depois. Apesar de não ser tão fácil, é exatamente o que eu lhe aconselho a fazer. O extenso trabalho de preparação pelo qual temos passado tem um único objetivo: tornar a função de escrever comédia mais fácil para você. Agora deveríamos tirar proveito de toda esta preparação. Eu recomendaria que você listasse num pedaço de papel os seus sub tópicos e deixasse esta lista à vista, enquanto você estiver escrevendo as suas gags. Você também poderia manter um contador, marcando quantas linhas você foi capaz de produzir sobre cada sub tópico. Mas, não se limite, de forma alguma, a este placar. Ele só esta lá para servir de estímulo para que você escreva mais e melhor. Agora, partimos para o primeiro passo do nosso processo. Você deixará os seus pensamentos rolarem na sua, selecionando aqueles dois ou três itens relacionados que você poderá, com suas próprias palavras, transformar em uma piada. Seu cérebro estará operando quase que independentemente. Você só deverá interromper este processo cerebral quando os pensamentos pararem de rolar para que você escreva a sua primeira piada. E, assim, sucessivamente. O seu cérebro estará trabalhando tão rápido, que você não conseguirá acompanhá-lo, escrevendo. Se você gostar mais de um sub tópico, em particular, em seu cérebro lhe entregará mais do que 5 ou 6 piadas, permita que ele continue. Eu já me deparei com sub tópicos
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tão férteis, que eu consegui juntar gags o suficiente para transforma-los em monólogos independentes. Às vezes, contudo, depois de algumas linhas, seu cérebro para e lhe exige um senso de direção maior. E é quando você pode recorrer ao seu placar e dizer para o seu ser criativo: “Precisamos de mais linhas ou frases neste sub tópico.” Para, então, deixar sua mente vagar novamente. Se você conseguir se manter razoavelmente fiel ao seus sub tópicos, você acabará produzindo suas 30 e poucas gags que estarão diretamente ligadas ao tópico principal. No capitulo 12, discutiremos como você poderá colocá-las em um monólogo, de forma que elas possam fluir suavemente. Mas agora, no entanto, a sua página continua em branco. O único remédio será preenchê-la com piadas. A inspiração, sem dúvida, poderá lhe dar as melhores piadas. Mencione, por escrito, qualquer tópico e gags que venham à sua cabeça. Mesmo que elas se encaixem ao seu tópico, mas pareçam não estar relacionadas a nenhum dos seus sub tópicos. Não se irrite, crie uma outra categoria e a denomine de ‘Geral’. Já houve vezes em que esta área se tornou tão produtiva que, novamente, escrevi monólogos completos que não tinham relação alguma com o que eu havia me predisposto a escrever. Mas, a inspiração só, não será capaz de fazer todo o seu trabalho e é quando você precisará extraí-las da sua mente. A seguir, você encontrará algumas técnicas que poderão lhe ajudar. Sempre tenha algo a dizer. Piadas tem um ponto de vista muito próprio. Elas podem exagerar, distorcer, mas elas também podem ser reduzidas a uma certa lógica. A maioria delas está dizendo alguma coisa séria, de forma engraçada. Precisamos de um ponto inicial. No processo mental de escrever piadas, você tem um pensamento, e você está testando outros pensamentos que sirvam para se unir ao primeiro . Não se pode ter dois pensamentos iniciais à procura de outros dois para se unir aos dois primeiros. Seria, por demais cansativo, pensar desta forma. Mesmo as piadas mais nonsenses possíveis, começam com um pensamento. O Ponto de partida de uma gag deve começar com a pergunta: O que quero que a minha gag diga? A resposta para esta pergunta não precisa ser engraçada. A gag que você criar precisa ser engraçada, mas o seu ponto de partida, não, e, na maioria das vezes, não é. Em alguns dos exercícios que fizemos, criamos títulos e ou comentários para algumas fotos, se cem
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pessoas fizessem este exercício com uma mesma foto, teríamos 100 piadas diferentes. Comece com fatos. Mencionamos anteriormente que algumas gags nada mas são do que algumas frases diretas. Alguns dos exercícios que fizemos no capitulo 8 lhe pedia para fazer isto, ao dar títulos ou comentários para algumas fotos, desenhos, etc. A maioria das pessoas acha este exercício bem fácil, desde que lhe seja dado o material necessário para trabalhar – fotos, ou o que quer que seja. Quando listamos uma série de frases factuais, estamos nos alimentando com esta matéria prima. Daí, deixamos os pensamentos e ou idéias rolarem, muitos já foram selecionadas da sua própria lista de referências, até você encontrar a piada. Novamente gostaria de dizer que as frases iniciais não precisam ser engraçadas. Elas são frases diretas que lhe leva a procurar o seu complemento, a puch-line ou desfecho. Encontrar frases factuais é uma questão de ler os jornais e extrair alguns fatos. Carter admitiu cedo. Os votos foram desmoronando. Carter vence em somente 5 estados. Carter reconheceu sua perda antes mesmo de todas as urnas serem apuradas. Frases factuais também podem conter tópicos mais gerais. Suponhamos que você queira falar de como seu marido é preguiçoso. Ele dorme no sofá o dia todo. Ele nunca concerta nada. Ele nunca põe o lixo para fora. Agora você pode pegar estes fatos e acrescentar: O corpo de Jimmy Carter ainda não foi encontrado após o desmoronamento dos votos.
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Meu marido dorme o dia todo no sofá. Um dos lados do seu corpo já esta todo tatuado de pequenas rosas. A fechadura da porta da frente está quebrada durante meses. A única maneira que eu encontrei para o meu marido concertá-la foi dizer que a minha mãe estava vindo nos visitar. Nenhum destes exemplos são regras inquebrantáveis. Existem várias maneiras de ajudar o seu cérebro a pensar na direção certa. Se for necessário, fragmente, quebre, distorça as suas idéias desta forma, manipulando–as para que você consiga escrever uma piada melhor. Faça perguntas. Uma vez que você tem uma frase factual, como você a trata? Você a investiga. Explora outras áreas. Por que isto aconteceu? Quem mais é afetado por estes acontecimentos? Quem ficaria satisfeito com ele? Quem ficaria irritado com ele? Qual seria o passo lógico a seguir? Não há limite para as suas perguntas. E, qualquer uma das suas perguntas, pode levá-lo a punchline, ou desfecho que você procura. Às vezes, nossas perguntas nos podem dar uma abordagem ou ângulo totalmente novo para um tópico. Quando houve aquele terrível terremoto em Los Angeles, por exemplo, eu tentei criar rotinas partindo das minhas perguntas tipo: Quanta terra se moveu? Eu estava com medo? Mas aí, eu comecei a pensar como aquele terremoto poderia ter afetado as estrelas que moram na cidade. O terremoto deixou Jimmy Stweart com tanto medo que ele parou de gagejar? Ele repartiu o cabelo de Glen Campbell? Como ele afetou Raquel Welch e seus peitos?? E assim por diante. Há uma outra história que eu gostaria de usar como ilustração. Uma cliente me ligou pedindo que eu criasse alguma coisa para o seu show em Las Vegas. Ela havia deslocado o ombro e teria de fazer o show com o braço engessado. O publico, com certeza, ficaria intrigado com aquele gesso, portanto, nós precisávamos de alguma coisa que explicasse, rapidamente, o que aconteceu. A primeira coisa que eu perguntei foi: Que tipo de situação bizarra poderia ter acarretado o acidente dela? Aqui esta:

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“Senhoras e senhores, Eu sei que vocês devem estar se perguntando como foi que eu acabei assim. Bem, se vocês compraram aquele livro ‘A alegria do Sexo,’ cuidado. Há um erro de impressão na pagina 204.” Exagere e distorça. A comédia é basicamente verdadeira. Um amigo adora fazer piadas sobre agentes financeiros. Ele diz: ‘Se nós ficamos com 90 porcento do dinheiro e eles 10, por que a gente precisa ir ao escritório deles?”. A idéia é bem engraçada porque, além de ser verdade, é completamente irônica. Embora as piadas sejam baseadas na verdade, não é comum encontrarmos verdades engraçadas. Na maioria das vezes, temos de modificá-las um pouco. Uma maneira e distorcer e exagerar esta verdade, além das suas proporções reais. Este é o mesmo princípio empregado pelos cartunistas. Eles pegam algumas características de alguém e a distorcem criando, assim, a graça. O exagero no humor serve para o mesmo propósito. O truque, neste caso, é fazer com que sua mente brinque com as dimensões e as cores e todos os atributos físicos de uma imagem mental, até que você crie uma imagem engraçada. Lembre-se, que já discutimos isto no capítulo três, como a mente pode ser flexível em distorcer uma imagem e, ao mesmo tempo, aceitar aquela distorção como verdade. O público aceita este tipo de exagero e não fará qualquer objeção a ele, contanto que o exagero lhes façam rir. ‘Eu tenho um amigo tão flácido que, quando ele se levanta, seus pés desaparecem. Outro dia ele estava atravessando a rua e foi atropelado por um Fusca. Ele acham que não houve nenhum dano sério. Mas ainda não conseguiram encontrar o motorista do fusca. A maioria das piadas acima são distorções. Mas você pode conseguir algumas risadas com o exagero também. “Meu cachorro é um ser terrivelmente altruísta. Se ele gosta de você, ele não lambe a sua mão, mas ele deixa você levar ela para casa depois.” “Outro dia, meu marido pediu para que eu o alimentasse. Mas ele já havia comido. Eu pude sentir o cheiro do carteiro no hálito dele.”
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Use referencias e expressões comuns ao seu público. É inacreditável ouvir dois analistas de sistemas conversando. Para um leigo eles estão falando uma língua completamente diferente. Todo negócio e ou profissão possui seus próprios jargões. Estas frases e expressões usadas por eles, se não forem muito longe do mundo do seu público comum, podem ser uma mina de ouro para nós. Também, quase todo tópico contém uma série de referências ligadas a ele. Eu já escrevi vários monólogos sobre futebol e já usei a palavra GATORADE, pelo menos, uma vez neles. Tente escrever uma piada sobre o ex presidente Jerry Ford sem tocar no seu esporte favorito, o golf. Bancários falam de cheques. E usam um bando de denominações estranhas. Você pode tirar proveito disso. Ha inúmeros slogans e frases comuns a todas as pessoas. A maioria dos slogans de comerciais podem ser usados em gags.

Crie fórmulas para as piadas. Nós já falamos a este respeito brevemente no capitulo 7. Estas piadas seguem uma fórmula padrão. Por exemplo: Jimmy Carson, durante seu programa, sempre tinha uma nova piada que começava: “Está tão frio hoje que …. Ou Estava tão frio que …“ Ha inúmeras maneiras de se criar uma piada assim e não vou conseguir e nem tentar lista-las aqui, mas você poderá criar as suas próprias se ouvir o que as pessoas costumam dizer. Eu irei listar só algumas para ilustrar o que eu quero dizer. A piadas que usam definições como fórmula. Por exemplo, Bob Hope tinha uma sobre a guerra. “Todos nós sabemos o que é um Jeep. Um Jeep é um taxi que foi alistado pelo Exército.” Durante uma festa numa empresa de bebidas de nome PNB, eu criei uma piada que usa siglas como fórmula. Eu disse: “Me pediram para informá-los que o nome desta empresa mudou. De agora em diante e, principalmente esta noite, PNB quer dizer “Por favor Não Bebam.”
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Existe uma fórmula que descreve um grupo de coisas em três, sendo a última uma punchline, ou desfecho. ‘Meu cunhado tem três velocidades . . Devagar, mais devagar e Okay vocês podem colocar o corpo aqui.” Estas dicas poderão lhe ajudar a criar as aquelas 25 ou 35 gags. Pode ser difícil no começo, mas quanto mais você escrever, mais fácil elas vão ficar. Novamente, eu lhes chamo a atenção. Isto são só sugestões e não regras, elas só servem para estimular a sua criatividade. Uma vez que você tenha terminado de escrever as suas 25 ou 35 gags, estudaremos uma maneira de coloca-las dentro de um monologo, ou rotina cômica.

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A arte de criar uma Rotina Cômica para o palco.

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Se você escreveu suas 25 à 35 piadas sobre um unico tópico, parabéns. Muitos dos meus amigos escritores dizem que não gostam de escrever, mas também dizem que se sentem completamente orgulhosos por terem escrito. Então, você deveria se sentir orgulhoso por ter escrito as suas 25 ou 35 piadas. Contudo, elas ainda não forman um monólogo. É como construir uma casa e você acaba de receber os tijolos. Agora, teremos de organizar estas piadas de forma que elas fluam suavemente, como em uma narrativa. Não há nada mais intediante que ler um monte de piadas isoladas. Mas, ouvi-las dentro de uma história engraçada é extremamente excitante. Faze-las fluir em direção a uma conclusão natural – para um ponto alto – onde cada piada lhe leva para esta direção. Uma boa rotina também ajuda a aperfeiçoar suas linhas, frases ou piadas porque elas lhe permitem ser mais conciso. Cada piada escrita por você, não só pode servir para construir o seu monólogo mas, também, pode lhe servir como uma preparação para as outras que às seguem. Mais tarde, neste capitulo, nós discutiremos isto, passo a passo. A criação destas rotinas cômicas melhora o efeito geral do seu material porque elas tiram proveito dos “picos e vales” naturais da comédia como comentamos no capitulo 9. Johnny Carson costuma satirizar a si mesmo quando, durante seus monólogos, estes picos e vales da comédia parecem não estar funcionando a seu favor. Eles existem. E nós precisamos deles porque cada piada é afetada em comparação a sua piada vizinha. As piadas em um monólogo não podem possuir o mesmo grau de graça que as demais (entre elas): se elas tivessem o mesmo grau de graça ou importancia que as demais o resultado seria uma rotina bem monótona. As piadas menos fortes podem fazer as fortes parecerem mais fortes e algumas delas podem ser usadas para ajudar as menos favorecidas. E as piadas mais fracas sempre podem servir de introdução ou preparação para as outras mais fortes. Bob Hope consegue fazer isto com maestria, assim como a maioria dos comediantes. Note e, se possível, estude como ele, nos seus monólogos, usa cada piada num crescendo; como ele consegue extrair gargalhadas de piadas menos forte, baseado neste crescendo. Esta abordagem me faz lembrar de uma multidão assistindo a um show pirotécnico. As pequenas fagulhas, que alcançam os céus, criam uma expectativa para o que esta por vir. E a ahhas! E oohhhs! Quando elas explodem numa bola gigante de cores e luzes. É assim que sua rotina cômica deve operar.
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Não existe nenhuma regra para isso. Comédia é uma coisa tão subjetiva que, num grupo de seis ou oito piadas, poucas pessoas concordariam a respeito de qual delas seria a grande piada e quais serviriam de apresentação ou preparação para ela. Contudo, o mecanismo de uma rotina cômica é bem simples. Primeiro, você deveria dividir as suas piadas de acordo com os seus subtópicos. Tente, então, criar uma progressão lógica de subtópicos. Às vezes, esta progressão já esta pré determinada por você mesmo. Se você está construindo uma rotina cômica sobre o fato de levar a sua mulher para o hospital para ter um bêbe, você não começa a dissertar sobre o tráfico que você enfrentou no caminho para o hospital até você ter entregue ao publico as gags relacionadas com o tramite de fazer as malas dela. Eu costumo usar dois métodos para arrumar as minhas gags. Você pode usar qualquer um deles ;ou, inventar o seu próprio, se assim quiser. O primeiro método leva mais tempo mas, geralmente, produz resultados melhores. Eu costumo cortar umas tiras de papel para cada uma das gags e, daí, coloco na minha frente outras tiras representando, cada um dos meus subtópicos, do primeiro ao último. Este método me facilita visualizar e arrumar as minhas gags, fisicamente. Depois, grampeio cada uma de acordo com os subtópicos que eu escolho e deixo-as prontas para serem redigitadas e finalizadas. No segundo método, eu revejo todas as minhas piadas e decido que tipo de andamento progressivo vou aplicar nos meus subtópicos. Daí, revejo-as novamente e circulo as margens das piadas que farão parte do primeiro subtópico. Assim, as piadas que eu quero usar estão facilmente visíveis. O próximo passo que eu tomo é, novamente, rever as piadas para aquele subtópico, colocando-as em uma ordem lógica, não esquecendo de numerálas sucessivamente. Quando eu houver terminado este processo para o primeiro subtópico, repito novamente todos os passos, organizando o segundo subtópico e assim, progressivamente, até que todos os meus subtópicos e suas respectivas gags estejam numerados e organizados. Este processo é mais trabalhoso e difícil que o primeiro. Uma vez que você numerou e organizou todas as suas piadas e subtópicos fica mais difícil mudar a sua ordem. Portanto, eu o aconselharia a usar o primeiro processo, a menos que você esteja trabalhando perto de uma janela aberta, durante uma tempestade de vento. Após você ter organizado as suas piadas de forma progressiva, ao rele-las você poderá descobrir que muitas delas parecem não se encaixar apropriadamente. Você escreveu cada uma destas piadas individualmente,
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separadamente e, provavelmente, seguindo uma lógica. Agora que elas estão expostas de forma progressiva, algumas terão de ser lapidadas para que elas possam fluir juntas dentro da sua rotina cômica. Você pode encontrar muitas piadas parecidas, perto uma das outras. Talvez você tenha piadas com introduções elaboradíssimas, das quais você não necessita mais. Talvez, você tenha uma piada inicial maravilhosa, que necessita de uma apresentação. Todos estes problemas podem ser solucionados facilmente re-escrevendo-as. Por exemplo, suponhamos que você tenha estas duas piadas juntas: ‘Eu tenho um amigo tão preguisoso, que ele só sai de casa para assitir a um jogo no estádio depois do hino nacional, para não ter que ficar de pé”. “Eu tenho um amigo que é tão preguiçoso, que ele se casou com uma mulher grávida.” Naturalmente, a introdução destas piadas é muito parecida para mantê-las tão perto, uma da outra; portanto, você poderia re-escreve-las: ‘Eu tenho um amigo tão preguisoso, que ele só sai de casa para assitir a um jogo no estádio depois do hino nacional, para não ter que ficar de pé.’ ‘Ele chegou até se casar com uma mulher grávida.’ Mesmo assim, o resultado não é dos melhores. A finalização soa vaga demais. Ela ainda precisa de um preâmbulo. Eu acrescentaria uma outra introdução para variar a rotina: ‘Eu tenho um amigo tão preguiçoso, que ele só sai de casa para assistir a um jogo depois do hino nacional, para não ter que ficar de pé. Ele é tão doente, que se casou com uma mulher grávida para se poupar do esforço.’ Eu já mencionei, anteriormente, que nós não podemos, simplesmente, construir uma rotina cômica inteira de seis ou oito piadas começando com “Ele é tão preguiçoso. . .

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Contudo, se a piada for uma boa, a introdução pode ser aprimorada ou adequada à ela; ou, até mesmo, descartada sem afetar o humor contido na gag.

Isto se tornará bastante aparente quando você reler o seu mais novo monologo. Você também tomará consciência dos buracos que possa haver na sua rotina. Você encontrará lugares onde você sente que deveria haver alguma gag, mas não há. Por exemplo, suponhamos que você esteja apresentando uma rotina cômica sobre seu amigo preguiçoso, e a maioria das suas piadas gira em torno dos hábitos que ele tem em casa, exceto uma delas, que se refere a sua preguiça no trabalho. Isto fará com que você acrescente algumas linhas, que leve a esta piada. Aqui não se trata do simples fato de refrasea-la. Você terá de voltar à sua máquina de escrever e criar algumas linhas adicionais. Talvez, você sinta isso mais freqüentemente quando for passar de um subtópico para outro. Você pode achar a mudança de tópicos um tanto abrupta. Bob Hope é reconhecido pelas transições de um tópico a outro. Ele simplesmente diz, “Hey, e aqueles políticos, huh?” Henny Young quase cria uma nova rotina para juntar os seus subtópicos. A melhor maneira de se fazer esta transição é encontrar uma gag que junte um elemento nos dois subtópicos, um elemento que misture o subtópico que você esta deixando com aquele que você está entrando. Como exemplo, voltemos a minha rotina sobre “ter um cão”. Um subtópico era a respeito de como ele era grande e, um outro, era sobre seu costume de morder as pessoas. Após ter feito várias piadas a respeito do seu tamanho eu poderia dizer: ‘Você tem idéia do que um cachorro deste tamanho come? . . . Carteiros” Agora eu posso prosseguir discursando sobre as outras pessoas que ele tenha mordido. Para que fique mais claro, examinemos parte de uma rotina cômica. Partindo de um rascunho, ao produto final. Discutindo a razão de como ele está organizado e algumas mudanças que teremos de fazer durante o processo. Aqui estão as gags como elas foram escritas pela primeira vez:
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1.

Uma viagem segura de carro hoje em dia na B.R. 7 ou B.R. da Morte é aquela que você termina no mesmo carro em que você começou.

2. Sempre há acidentes nesta estrada. Outro dia eu vi uma pilha de 12 carros. Imagine 12 carros empilhados numa colisão,… isto só pode significar que uma mulher deu sinal que ia virar para a esquerda e todos acreditaram nela.

3. Esta estrada promete lhe levar a qualquer cidade vizinha em apenas vinte minutos . . . quer você queira ou não.

4. Esta é a única estrada do país que você pode cruzar, do começo ao fim, sem deixar a área do acidente.

5.

Se você quiser imprimir maior velocidade a sua jornada, o melhor lugar para se estar é na traseira de uma ambulância.

6.

Na verdade, a BR da Morte é uma estrada famosa. Ela já foi citada por líderes religiosos de todo o pais por ser considerada a segunda maior responsável pela cura do ateísmo.

7. É fácil saber quando eu estou chegando perto da BR da Morte. É quando a minha estátua da Nossa Senhora sai do painel do meu carro e se esconde no porta luvas.

8. A B.R. 7 já teve vários nomes. Os índios, por exemplo, costumavam chamá-la de “Homem Branco Não é Gato.” Vamos voltar a primeira piada e organizar o nosso monóloguo de maneira progressiva.

1. Uma viagem segura de carro hoje em dia na B.R. 7ou B.R. da

viagem prazeirosa

A
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Morte é aquela em que você termina no mesmo carro que você começou.

2. Sempre há acidentes nesta estrada. Outro dia eu vi uma pilha de 12 carros. Imagine 12 carros empilhados numa colisão

lá, um dia destes isto só pode significar que uma mulher deu
sinal que ia virar para a esquerda e todos acreditaram nela.
3.

F

Esta estrada promete lhe te leva a qualquer cidade vizinha em apenas vinte minutos . . . quer você queira ou não.

B

4.

Esta É a unica estrada do país que você pode cruzar do começo ao fim sem deixar a area do acidente.

E

5. Se você quiser imprimir maior velocidade na sua jornada, o

melhor lugar para se estar é na traseira de uma ambulância.

G

6. Na verdade, a BR da Morte é uma estrada famosa. Ela já foi citada por líderes religiosos de todo o pais por ser considerada a segunda maior responsavél pela cura do ateismo.

H

7. É facil saber quando eu estou chegando perto da BR da Morte. É quando a minha estátua da Nossa Senhora sai do painel do meu carro e se esconde no porta luvas.

D

115 Comedy Writing

8. A B.R 7 já teve vários nomes. Os índios, por exemplo, costumavam chamá-la de “Homem Branco Não é Gato.”

C

Para evitar confusão com os números das piadas, eu as organizei, desta vez, em ordem alfabética. Vamos, agora, discutir a nova ordem e as mudanças que fiz.

A

Esta, me pareceu, será melhor piada para ser usada como introdução. A piada 8 também me pareceu adequada, mas me pareceu muito abrupto começar a minha rotina com uma definição antes de fazer umas piadinhas sobre a estrada. Eu mudei para “viagem prazeirosa” porque me pareceu mais fácil começar a minha rotina assim. É o oposto do que se pode ter numa estrada com este nome.

B

Eu, simplesmente, mudei o formato da piada porque, se não, todas as minhas primeiras piadas cairiam na fórmula da definição. Só mudei a primeira palavra para que as minhas piadas fluissem melhor. A primeira frase já não era mais necessária porque as piadas anteriores já havia mencionado a periculosidade da estrada. Nesta gag eu parei de usar definições porque eu já havia Usado esta fórmula o suficiente. E isto acrescenta uma variação à minha rotina, sem prejudicar a piada.

E

F

G

Esta piada parece estar fora de lugar em comparação ao todo. Ela precisaria de algumas linhas adicionais explicando qual o procedimento em situação de ermergência nesta estrada, ou, então, eu deveria cortá-la. Vamos corta-la, então.
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H

Na minha opinião, esta é a piada que (para a qual) as anteriores criaram o caminho de chegada. Se ela for tão boa quanto eu acho que ela pode ser, poderemos acrecentar uma ou duas outras após, simplesmente, para capitalizarmos as gargalhadas. Por isso, criei estas linhas adicionais para finalizar.

“Os buracos na estrada são tão grandes que os Chineses estão economizando a passagem de avião quando vem passar férias por aqui.” “O Papa já a abençoou, mas ele se recusa a transitar nela.” Agoras, vejamos como esta sessão fica na sua forma acabada. “Eu tive uma viagem prazeirosa outro dia pela B.R. 7 ou a B.R. da Morte. E uma viagem prazeirosa na B.R. 7 significa você completar o seu percurso no mesmo carro em que você começou. Esta estrada te leva a qualquer cidade vizinha em apenas vinte minutos . . . quer você queira ou não. A B.R.7 já teve varios nomes, mas os índios costumavam chamá-la de “Homem Branco Não é Gato.” Eu sempre sei quando estou chegando perto dela porque a minha estatua da Nossa Senhora sai do painel e se esconde no porta luvas. Ela é a única estrada do mundo em que você pode ir de ponta a ponta, sem deixar a área de acidentes. Outro dia, eu vi lá, 12 carros empilhados numa colisão. Tudo aconteceu porque uma mulher deu sinal que ia virar a esquerda e todo mundo acreditou. A BR da Morte é uma estrada famosa. A verdade é que ela já foi citada por líderes religiosos de todo o pais por ser a segunda maior responsável pela cura do ateísmo. Os buracos na estrada são tão grandes que os Chineses estão economizando a passagem de avião quando vem passar férias por aqui.
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Quando o Papa esteve aqui ele a abençoou mas, mesmo assim, ele se recusa a transitar nela. Agora, só nos resta criar uma linha de transição para o nosso próximo subtópico. Suponhamos que nosso próximo subtópico seja a respeito dos problemas que os motoristas enfrentam com a polícia. Então, deveríamos inventar uma linha sobre as rodovias, mas que também incluísse a polícia. Poderia ser alguma coisa assim: “Francamente, esta rodovia é bem segura. A gente quase nunca é multado nela. A polícia rodoviária também tem medo de transitar por ela.” Eu já disse, anteriormente, que escrever piadas é como ter um bando de tijolos entregues no local da construção. O resultado da construção pode ser uma casa no estilo rancho, colonial, etc. O humorista pode fazer o que ele desejar com as piadas. Ë importante, contudo, que elas fluam porque, assim, será mais fácil lê-las, ou ouvi-las. Se você esta tentando vendê-las, você quer que seu possível comprador fique interessado, ao lê-las. E se você estiver escrevendo para você mesmo, não há menor dúvida de que você quer que seu público seja cativado por elas. Eu estou sempre lhe encorajando a não desistir antes do tempo. Até agora, este conselho funcionou, você chegou até aqui, não chegou? Agora, o mesmo conselho se aplica na construção geral de um monólogo. Após lutar para conseguir umas três duzias de linhas e arruma-las apropriadamente dentro de uma rotina cômica, a inclinação é dar-se por satisfeito com elas. Mas, é exatamente agora que, como um nadador, você precisa daquelas braçadas derradeiras para bater o recorde. Um artista amigo meu costumava dizer que qualquer um pode pintar um quadro, mas somente um artista pode tocá-lo. Eu tive o privilégio de testemunhar o que ele queria dizer. Seus alunos costumavam trazer suas pinturas para a sua apreciação. Para o meu olhar, tudo parecia bom, mas o mestre pegava um pincel e com pinceladas quase imperceptíveis ele transformava aquela pintura. Repentinamente, a pintura adquiria um novo colorido, luz, energia, vitalidade e realidade que lhe faltava antes. O mesmo pode ser aplicado à sua comédia. Certamente, escrever 35 piadas é motivo de orgulho, mas seu trabalho não terminou ainda. Você ainda tem de dar aquelas poucas e,
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quase imperceptíveis, pinceladas que transformarão seu monólogo em uma obra de arte. Um dos produtores para quem eu trabalhei tinha um jeito todo próprio de arrasar com o seu trabalho. Você se matava, penava, criava, apresentava e ele dizia: “Isto não é escrever. Isto é datilografia.” Se você analisar sua rotina cômica mais uma vez sob o seu olhar critico, eu lhe garanto que, quando você chegar ao fim, você terá escrito e não datilografado, como o meu antigo produtor costumava dizer. Eu vou listar para você algumas das suas prováveis fraquezas, neste exato momento. Mas, se lembre de que a comédia é uma arte subjetiva. Em cada piada individual, o que um crítico vê como fraqueza, para você pode ser seu ponto forte. Eu escrevi piadas que eu amava para descobrir, mais tarde, que eu era o único que as amava. Você deve ser o principal juiz do material que sai da sua máquina de escrever. Antes que você possa satisfazer quem quer que seja, você precisa satisfazer a si mesmo com o seu próprio material. Então, eu lhe pediria que se relesse o seu monólogo com um lápis a mão e tenha as prováveis falhas em mente. Piadas que são diretas demais. Freqüentemente, os escritores de comédia alcançam uma combinação de idéias e, simplesmente, as escrevem. A piada é engraçada, mas não o suficiente: ela não testa a platéia. Não existe um elemento surpresa de peso e, conseqüentemente, a piada parece óbvia demais. Talvez, agora, devêssemos discutir a natureza da gargalhada, porquê ela existe. Eu pesquisei muito pouco sobre isto, portanto, não pense que estas são as palavras de um expert. Contudo, eu li uma vez uma explicação a respeito que tem me ajudado muito quando formulo as minhas piadas. Esta hipótese diz que a gargalhada vem como um grito de vitória. No princípio, o homem das cavernas estava envolvido numa vida de luta e sobrevivência, uma vez que a batalha era finda, o vitorioso se sentia livre da tensão e soltava um grito de alegria. Faz sentido. Na maioria dos esportes, hoje, você pode ver os atletas repetindo este mesmo gesto dos homens das cavernas. Mas você já deve estar se perguntando, “Que diabos isto tem haver com comédia?” Bem, o humor pode ser considerado um duelo de inteligências. Neste duelo de inteligências, o comediante joga uma frase direta e todos sabem que a piada se aproxima. O público, imediatamente, vê isto como um desafio e começa a formular suas próprias gags.

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Antes que eles consigam chegar a uma conclusão, você lhes dá o desfecho (punchline) da piada. O publico ri porque a tensão da batalha terminou: O comediante lhes deu a resposta do enigma. Há piadas que nós chamamos de (groaners) gemidos. Porque quando o publico as ouve, ou invés de rir, eles gemem. Porque? Porque eles sabem que o desfecho (punchline) foi fraco. Eles sabem que, se eles tivessem tido mais tempo, eles teriam chegado a uma conclusão melhor que a sua. Estas são piadas diretas ou óbvias demais. A piada ideal arremessa uma frase que imprime um desafio a quem estiver ouvindo . E, então, na hora certa, ela vence quem a ouve. Um bom desfecho (punchline) deveria fazer com que o publico parasse por uma fração de segundo, pensasse, e então dissesse: “Sim, é grande.” Quando você reler o seu monólogo, você deverá encontrar estas áreas onde o público está pensando durante aquela fração de segundo. Meu exemplo favorito disto aconteceu há alguns anos atrás, durante o ‘The Joey Bishop Show’, e deve ter acontecido durante alguma ocasião especial, porque os convidados vestiam smoking. Hugh Downs veio ao palco para fazer a apresentação de Joey, vestindo um paletó branco. Não há duvidas de que ele queria ser notado. Joey, ao entrar, deveria ter dito que ele queria uma cerveja, uma piada que era popularmente usada na época, mas ele disse que o diretor do seu setor havia lhe dado alta. Todos riram muito, por que Hugh com certeza parecia um daqueles enfermeiros de hospital psiquiátrico. A piada que havia sido escrita para ele dizer era óbvia demais. Ele não chegou a dizer que havia fugido do sanatório, o público intuiu de onde ele havia saído, portanto, a sua piada improvisada era menos direta e conseqüentemente, mais engraçada. Se você encontrar alguma piada no seu monólogo que lhe pareça direta demais, gaste algum tempo nela e procure outra maneira de dizer a mesma coisa, mas de uma maneira menos óbvia e mais implícita. Isto deverá aumentar o seu conteúdo cômico.

Piadas que são obscuras demais. Este é o outro lado do problema anterior. Neste caso, as duas idéias cômicas estão tão longe do óbvio que elas se tornam intraduzíveis. Rip Taylor costumava dizer “Vocês ainda vão pensar sobre esta piada quando chegarem em casa e começarão a rir”, quando o público não correspondia a
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alguma de suas piadas. Você quer que o seu público pense, por uma fração de segundo, antes de ser pego pelo seu desfecho, você não quer que ele ainda continue pensando quando você já estiver voltando para casa. É perigoso demais. Uma vez, eu fui a um restaurante com um amigo escritor, onde o garçom era um comediante de meio período que insistia em nos mostrar o seu ato. Quando meu sanduíche chegou, faltava um pedaço que dava a impressão dele ter sido mordido antes. Eu mostrei para o garçom e perguntei: “Alguém deu uma mordida no meu pão?” E ele me respondeu: “Não, nós só estávamos jogando Hockey na cozinha.” Eu dou cem dólares para quem me disser o que foi que ele quis dizer com aquilo. Naturalmente que, na cabeça do nosso garçom, havia uma conexão entre o pedaço que faltava do meu sanduíche e o jogo de hockey. Contudo, ele não foi feliz ao transmitir esta relação a mim, que o ouvia. Investigamos uma outra piada. Eu já usei esta: “Quando eu estava promovendo o meu livro, o ano passado, eu viajei mais de 50,000 milhas…. O que não é muito, considerando que a minha bagagem viajou 100,000 milhas.” Esta piada está dizendo que as minhas malas estavam sempre se perdendo. Isto está implícito nela. Todos na platéia sabem exatamente o que o meu desfecho para a piada diz. Vamos estudar uma forma de reescrevermos esta piada. “Quando eu estava divulgando o meu livro o ano passado eu viajei mais de 50,000 milhas . . . nem sempre com a minha bagagem.’ Agora, você verá o público parar e pensar, e procurar pelo significado daquilo que você acaba de dizer. Será que ele esqueceu a bagagem em casa algumas vezes? Ele mandava a bagagem na frente? Ninguém sabe, ao certo. Mas é lógico que eu falava da minha bagagem estar em um outro avião viajando para bem longe de onde eu estava indo. Mas a minha escolha das palavras não mostra para o meu público isto. Como os comediantes costumavam dizer: “Eu apenas as conto, pessoal. Eu não as explico.” Nenhuma piada irá funcionar se você tiver de entregar o manual para o seu publico, antes. Gaste algum tempo revendo as suas gags e veja se elas são claras. Você também tem de ter certeza se as suas piadas estão de acordo com o seu público. Você tem de ser cuidadoso para
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que todas as suas frases sejam universais também. Uma vez escrevi piadas sobre genuflexo. E fiquei estarrecido quando o meu público não sabia o que genuflexo era. Piadas que são verborrágicas demais. Shakespeare já dizia. “A brevidade é a alma da inteligência”. Esta máxima ainda se aplica hoje. Seja perspicaz com as suas palavras. Diga somente o máximo necessário para transmitir a sua idéia. Porquê? Cada linha ou preparação (set up) que você oferece ao publico é uma promessa de um desfecho (punchline). O seu público começa a antecipar a recompensa que ele terá no final, assim que você lhes oferece a primeira frase. Quanto mais você fazê-los esperar, mais você terá que dar. E se você fizê-los esperar muito, eles ficarão todos sentados lá pensando, “Cara, é melhor que esta piada seja boa.” Por que criar este tipo de pressão sobre você mesmo? Vamos recriar, novamente, a analogia de uma multidão assistindo a um show pirotécnico. Pense no que acontece no inconsciente desta multidão quando um dos fogos de artifício não explode. A multidão o vê ganhar o espaço e espera por sua explosão em cores vibrantes e fascinantes mas, nada acontece. Tudo o que você pode ouvir deles é um estrondoso AHHHHHH! Comediantes não querem este tipo de reação. Vamos reescrever uma piada que já citamos aqui antes. “Meu marido saiu e comprou um cachorrinho. Quando ele chegou em casa, o cachorro fez xixi na sala. Depois, na cozinha e por toda a casa. Ele diz que aquilo é um cachorro. Pra mim não é nada mais que uma incontinência urinária coberta de pelos.” A piada não é ruim, mas sua longa preparação é desnecessária. Todos sabem o que um cachorrinho faz pela casa. Há uma outra piada sobre o mesmo tema que é, mais ou menos, assim. “Eu acabei de comprar um cãozinho. Mas ele veio com um grave problema de vazamento.” Todo mundo é capaz de entender esta piada, mesmo que seu autor não tenha mencionado qualquer incidente na sala, na cozinha, ou qualquer outro canto da casa.
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O maior problema nas piadas verborrágicas é que elas, geralmente, entregam o desfecho antes que você chegue ao seu final. O público antecipa qual será o desfecho. Às vezes, no entanto, você encontrará piadas onde o desfecho (punchline) lhe pedirá uma preparação (set up) mais longo. Embora você tente e tente mais uma vez, você não conseguirá diminuir o número de palavras. Quando isto acontece, você tem duas opções: A) Se certifique que o desfecho (punchline) que você entrega merece toda esta construção. B) Divida a construção em piadas pequenas e mais suaves. Neste caso, você terá que enxertar mais piadas para que a sua rotina cômica se desenrole com desenvoltura. Como exemplo, tomemos uma piada que já havíamos analisado no capitulo 9. É uma boa gag, mas a sua construção é um pouco confusa e longa demais. “Todos sabem que Jimmy gosta de tomar uns tragos em festas como esta, e ele sempre tira os óculos depois de uns drinks a mais. Eu estava conversando antes do jantar desta noite com a esposa de Jimmy. E eu disse: ‘Bem, após 28 anos de casados eu tenho certeza que você sempre sabe que o Jimmy bebeu demais, quando ele chega em casa sem os óculos. Ela, então, olhou para mim e disse: “Que óculos??” Existem palavras demais até chegar ao seu desfecho (punchline), mas elas são necessárias para explicar o tipo de humor a que ela se refere. Contudo, vamos pensar em como poderíamos passar pela introdução desta piada com gags menores. “Jimmy esta casado com a mesma mulher há mais de 28 anos. Bem… não é verdade. Depois de viver 28 anos com ele, ela não é mais a mesma mulher.” Parece que conseguimos umas risadas aqui, além de informar que eles estão casados por 28 anos. “Mas, ele ainda tem muito amor por ela quase na mesma proporção que ele ama os seus drinks.” Acabamos de informa-los que ele gosta de beber. “E ele bebe bastante mesmo. Naturalmente, ninguém sabia do seu problema até o dia que ela apareceu para trabalhar sóbrio.”
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Esta é uma boa frase, mas ela também estabelece a premissa de que Jimmy bebe constantemente. “Quando ele toma uma a mais, a primeira coisa que ele faz é tirar os óculos. Já que ele não consegue enxergar mesmo, por que usa-los.” Assim, nós dividimos aquela preparação extensa em outras piadas menores e, então, podemos continuar com a piada . Eu estava conversando com a esposa dele um pouco antes do jantar e disse: “Após todos estes anos, quando ele chega em casa sem os óculos, você já sabe que ele bebeu.” “Mas o meu Jimmy não usa óculos.” A piada parece fluir melhor sem aquela longa preparação. E o mais importante, seu público não terá de esperar muito pelo desfecho. Você criou outras boas piadas para destrai-los até o momento do desfecho. Assim, eles se tornam menos impacientes, e mais tolerantes e receptivos à sua piada. Piadas que não lhe agradam. Você deve dar ouvir aos seus instintos. Às vezes, nos deparamos com gags que parecem preencher todo o critério mas, mesmo assim, você não sente que ela seja boa o suficiente para o seu gosto. Alguns até poderão lhe dizer que ela é uma ótima piada e que você não deveria mudá-la, mas você ainda não está satisfeito com ela. Talvez, tal descontentamento seja o seu inconsciente lhe dizendo que existe uma piada melhor dentro de você. Escute o seu inconsciente e gaste um pouco mais de tempo melhorando, ou, mudando a sua piada. Você poderá surpreender a si próprio com uma pérola.

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Atalhos para o Humor.

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O autor (eu) e o leitor (você) devemos nos unir em pensamento aqui. Este livro foi escrito para lhe dizer um pouco sobre como escrever comédia. Ele pode lhe dizer a forma que seu manuscrito deve tomar, ele pode preparar a sua mente para escrever humor e pode ajuda-lo a comercializar e promover o seu material cômico. Mas, naturalmente, ele não pode escrever as piadas para você. Desculpe-me pela metáfora: você é o cavalo que foi levado por mim até o rio. Mas você terá de beber a água sozinho. Eu não sou tão ingênuo a ponto de pensar que listar passos de um ao infinito fará com que você produza piadas fantásticas quando você se sentar, pela primeira vez, em frente à maquina de escrever para datilografar uma piada. Você não deveria ser tão ingênuo a ponto de pensar assim também. Se, após ter tentado e passado por todos os exercícios contidos até o momento neste livro e se esforçado para entender e executar as sugestões encontradas nele, você descobriu que escrever comédia não é uma tarefa fácil, então você já aprendeu uma lição valiosa. Não é uma lição que todos aqueles que compram material cômico aprenderam . Eu, às vezes, fico impressionado com o desdém que muitas pessoas do mundo da comédia tratam seus manuscritos. Muitas estrelas acham que é só chegar no escritório de um escritor de comédia e dizer: “Pessoal, eu estou me apresentando num banquete hoje à noite e vocês poderiam me escrever de 50 à 60 linhas para mim durante o almoço?” Este tipo de atitude mostra um completo desdém com o processo criativo de nós escritores. Este é o mesmo tipo de pessoa que está sempre reclamando o quanto exaustivo é ler, semana após semana, as linhas escritas em um script. Fred Allen, um humorista do rádio, sempre ajudou a escrever a maioria do seu material cômico. Eu nunca fui um grande fã dele quando eu era jovem, mas aprendi a gostar dele após ouvir esta história. Fred Allen teve que ir ao estúdio um dia e, lá chegando, ouviu um dos artistas fazer comentários sobre um script que havia sido entregue a ele. “Estes escritores estão tentando me arruinar”, a estrela esbravejou. “Este material é podre. Eu não posso ir ao ar e dizer estas coisas.” Mas Ellen lhe perguntou. “Onde você estava quando estas páginas estavam em branco?” Eu tentei desenvolver um plano de batalha para você poder atacar estas mesmas páginas em branco. Supostamente, este plano lhe ajudará a simplificar sua escrita mas, ao mesmo tempo, este plano não fará da sua tarefa uma mera função mecânica. Você ainda terá de fazer seu cérebro trabalhar. Você terá de escrever e se aprimorar, escrever mais e se aprimorar ainda mais.
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Algumas tarefas exigem muito pouco de um iniciante. Por exemplo, se você compra um destes mini-gravadores, o manual de instruções lhe dirá o que fazer para gravar, reproduzir, voltar ou avançar a gravação, simplesmente, lhe dizendo quais teclas devem ser pressionadas. Se você acaba de comprar uma máquina de escrever, o manual lhe ensinará como datilografar, e estas funções lhe exigirão um pouco mais de interatividade com a máquina. Fazendo uma analogia grosseira, eu diria que é exatamente onde este livro o levou até agora. Ele colocou e mostrou para você os mecanismos de como escrever piadas e monólogos cômicos. Agora, você terá de entrar com a criatividade e a prática. Se a única maneira de aprender a datilografar é datilografando, você só aprenderá a escrever comédia escrevendo, escrevendo e escrevendo mais um pouco. Se você concluiu fielmente todos os exercícios e atacou as tarefas contidas neles com determinação e ainda não está satisfeito com o seu próprio resultado, não desanime. Escrever exige muito esforço, você certamente não espera ler um manual de datilografia e, assim que terminar, começar a datilografar 125 palavras por minuto. Escrever comédia requer muita imaginação e muita, muita disciplina. Sugiro que você relaxe, e tente se divertir, ao longo do caminho, e se deleite com os avanços que você verá. Como você pode notar, eu estou assumindo que você tenha tido alguns contratempos, mesmo seguindo todas as minhas recomendações até o momento. Você fez seu trabalho de preparação religiosamente, seguiu as instruções para fazer as suas piadas fluírem e, mesmo assim, você ainda continua confuso. Você pode até dizer: “Eu tenho todas as minhas referências listadas, e tenho até umas boas combinações, mas como é que eu faço as minhas piadas ficarem engraçadas?” A seguir você verá algumas idéias que eu, presunçosamente, chamo de ‘Atalhos para o Humor’. Estes atalhos nada mais são que algumas idéias que ajudam a extrair o humor de certas situações, e também ajudam a intensificar a comédia. Você poderá usa-las junto com todas as outras sugestões que eu lhes dei até o momento. Estas idéias são mais um ângulo, ou abordagem, que uma piada pode tomar. Se você mantiver esta lista em mente ela poderá, em algumas ocasiões, ajuda-lo a criar combinações humorísticas ou, até mesmo, proporcionar a escolha certa das palavras para algumas idéias que você já possui. Eu vou lista-las aqui e, depois, iremos analisa-las individualmente.
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Reflita a verdade. Relaxe a tensão. Choque Ataque autoridades Envolva a platéia Simplesmente, seja engraçado.

Reflita a Verdade. No “Carol Burnett Show”, costumávamos fazer um esquete, uma ou duas vezes por ano, que chamávamos “Comerciais de Cozinha” (Kitchen Commercials). Talvez você se lembre. Carol era uma dona de casa atormentada pelos comerciais da TV que tomavam vida. O homem do Glad entrava arrebentando a sua parede, O homem do detergente de banheiro falava com ela de dentro da privada. O público amava estes esquetes e, mesmo assim, as piadas não eram tão engraçadas. Eles eram, simplesmente, citações diretas a estes comerciais. As pessoas riam porque os reconheciam. Você vê o mesmo tipo de fenômeno acontecer quando um humorista faz imitações de celebridades. O público costuma rir muito com eles, mesmo quando o imitador não faz uma piada sequer. Eles riem porque reconhecem a celebridade em questão. Este é o tipo de valor que você pode incorporar a uma piada e faze-la, não só engraçada, mas também verdadeira. O público percebe o grau de verdade nela e se identifica, imediatamente. Um comediante que eu conheci, muitos anos atrás, costumava fazer piadas exclusivamente sobre a comunidade, a área e a cidade onde ele morava. Ele nasceu e cresceu lá, e conhecia todos os costumes do lugar – assim como a maioria do público que ia assisti-lo. Ele costumava fazer um pedaço de 10 minutos durante a sua apresentação que não continha uma piada sequer, mesmo assim, ele fazia o público delirar. Ele, simplesmente, fazia com que eles recordassem de coisas comuns à sua infância. Ele diria coisas como: “Se lembram do doce de sorvete que vinha naqueles pratinhos de metal com aquelas colherinhas que sempre entortavam?” E o público se divertia.

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“E aqueles pedaços de papel enorme com aqueles pingos caramelados que grudavam em toda parte.” Mais risadas. Por quê? Porque o público, realmente, se lembrava daquilo e respondiam com uma risada de agradecimento. Como contraste, tente criar piadas onde você inventa novos tipos de doces. Você poderia obter algumas combinações bastante bizarras. Provavelmente, nenhuma das suas piadas atingiria o expectador tão bem simplesmente porque não havia qualquer verdade nelas. A verdade pode ser uma simples frase. Jack Benny, uma vez, fez o público, que assistia a gravação do seu programa, vir abaixo com um exemplo simples destes. “Eu não sei por que estou sendo tão engraçado com vocês. Vocês todos entraram de graça.” Ele simplesmente lhes comunicou um fato e o público o reconheceu de imediato. Era verdade, portanto riram. George Carlin faz a mesma coisa com as palavras. Ele adora analisa-las e brincar com as idiossincrasias da nossa língua. Ele, basicamente, está lidando com a verdade das palavras. Ele as vê no seu sentido literal, o que a maioria de nós não faz. A maioria das nossas expressões idiomáticas tem dois significados, o literal e aquele implícito pelo seu uso comum. Geralmente, nos atemos ao seu significado comum e esquecemos o seu significado literal. “As aeromoças nos pedem: por favor, subam no avião agora. Muito obrigado, mas eu preferiria entrar nele”

Uma outra piada que ele costumava fazer sobre aeronaves era. “Aí, a aeromoça anuncia: Estamos nos preparando para a nossa descida final. Oh, meu Deus, espero que não, eu ainda gostaria de fazer uma descida na semana que vem ou na próxima. Eu não quero que esta seja a minha última.” Eu ouvi outro comediante fazer quase a mesma coisa quando ele disse que nós temos o costume de substituir tempo por distância.
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“Qual é a distância que você dirige até o trabalho?” “Oh, uns quinze minutos.” Isto faz sentido para nós mas o inverso, não. “Com licença, o senhor poderia me dizer as horas?” “Claro. (checando o relógio) ”Eu tenho mais ou menos três milhas.” É irônico e até extravagante mas é, basicamente, verdade. Nós achamos graça porque reconhecemos a verdade e a burrice nelas. Nós estamos achando graça de nós mesmos porque aceitamos e usamos este tipo de linguagem. A sua própria verdade pode ser exagerada ou distorcida. Você não precisa se limitar em refletir os fatos, brinque com a verdade o quanto você quiser, vá ao extremo com ela contanto que você a mantenha reconhecível. “A inflação está realmente terrível.Hoje fui ao supermercado e dei um sinal numa perna de ovelha.” É verdade que a inflação esta terrível, mas ainda não chegamos ao ponto de comprarmos carne como compramos um carro ou casa. Contudo, nós distorcemos esta realidade até o limite do ridículo; mas o publico ainda é capaz de reconhece-la. Relaxe a tensão. Nada relaxa mais a tensão em um público do que a comédia, e quanto mais tensos eles estão, mais fácil será relaxa-los. Este fenômeno, em particular, é um prato cheio para a improvisação. Se algo acontece e faz com que a platéia fique tensa, qualquer piada que você faça, espontaneamente, será agraciada com uma boa gargalhada. Se um garçom derruba uma bandeja fazendo um estrondo enquanto um artista está no palco, o humorista conseguirá uma risada quase que fazendo qualquer tipo de comentário. A tensão foi criada na platéia e ela espera que o humorista a alivie. Eu me lembro de um grande humorista se apresentando uma vez com muita graça mas a piada, que foi mais bem recebida, não estava planejada. Ele estava trabalhando em um clube noturno que alugava o andar superior para festas particulares. No meio da sua apresentação, o pessoal do andar de cima deve ter começado a dançar uma polca. O barulho que vinha do teto era assustador. O comediante
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disse: “Meu Deus, o que está acontecendo lá em cima?” E alguém do publico respondeu. “Acho que é uma festa de casamento”. E o comediante simplesmente disse: “Eles não podiam ter esperado até chegar em casa?” A improvisação é um tiro tão certeiro, que muitos comediantes criam suas próprias situações. Uma vez eu assisti George Gobel fazer uma improvisação que eu suspeito ter sido planejada. Ele estava cantando e, durante a sua apresentação, ele começou a tossir. Cantou um pouco mais e tossiu, mais um pouco até ele se virar para a coxia e pediu para que alguém lhe trouxesse um copo de água. Para depois dizer. “Tudo bem, não precisa mais. Acho que a mosca desceu sozinha.” Se você está apresentando o seu próprio material, mais cedo ou mais tarde, uma destas coisas inesperadas poderá acontecer. As pessoas derrubam as coisas, casais começam a brigar, as luzes começam a piscar intermitentemente, ou o sistema de som pára de funcionar, ou vai à loucura. Pode ser perturbador, mas também pode ser uma preparação para uma piada enviada por Deus. Você se sairá muito melhor se tratar todas estas pequenas mazelas com uma preparação (set up) para o seu desfecho (punchline). Não é muito difícil porque, como dissemos anteriormente, qualquer frase fará a mágica. Uma vez, eu fui convidado para entreter os convidados de um banquete, que aconteceu às seis da tarde. Quando eu me aproximei do microfone para começar o meu número, o microfone começou a fazer um zunido terrível. Eu me distanciava dele, ele parava, eu me aproximava ele zumbia. O publico já começava a achar aquilo muito inusitado e, ao mesmo tempo, bastante engraçado. Quando finalmente um dos proprietários conseguiu sanar o problema eu disse: “Bem, nem todo mundo tem tempo de tomar banho para um banquete às seis da tarte.” Eles adoraram e se encantaram com aquela situação que estava totalmente fora do meu controle. Aquela situação era completamente perturbadora e, ao mesmo tempo, estava me fazendo pagar um mico, mesmo assim eu percebi a piada e a joguei sobre mim mesmo. Aquilo fez com que eles se esquecessem do incidente e eu pude continuar com o meu show. Muitos anos atrás, houve um documentário na TV americana sobre a carreira de Shally Berman. A câmera estava sobre Shally, que fazia um monólogo, quando um telefone público instalado nas coxias começou a tocar. Berman ficou furioso, ele foi até a coxia e arrancou o telefone da parede, tudo registrado pela câmera. Algumas pessoas dizem que foi depois deste incidente que a carreira dele começou a declinar. Eu não sou capaz de ir tão longe, e nem tão pouco estou citando isto aqui para
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diminuir o valor que Sherman trouxe para a comédia. Mas eu menciono este incidente somente para ilustrar os diferentes tipos de reação que as pessoas podem ter. Se ele, ao invés de ter mostrado toda sua ira, houvesse feito um comentário bem humorado a respeito, o público com certeza teria gostado e se divertido com aquela situação. Ele, simplesmente, fez com que uma situação tensa ficasse mais tensa ainda. Como escritor, você pode usar este dispositivo para criar sua própria tensão para, em seguida, liberá-la. Eu vi um comediante fazer isto, uma vez, durante sua apresentação em um night club. Bem na abertura ele disse: “Este é o clube mais barato onde eu me apresentei até hoje.” Imediatamente a platéia ficou apreensiva, achando se tratar de uma briga do comediante com a gerência. “Os donos deste lugar são um pai e seu filho e, às vezes, podemos vê-los andando por entre as mesas (o que era a pura verdade). Eles estão analisando minha atuação. Eu vou mostrar para vocês como eles são baratos. Primeiro, vem o pai que sai daquele escritório lá do fundo com um charutão na boca e dá umas voltinhas por ai e depois volta para o seu escritório. Em seguida, vem o filho, também com um charutão na boca e dá umas voltas por ai. É o mesmo charuto.” Agora, o público percebe que eles foram enganados e se sentem aliviados e, por isso riem. Um escritor pode usar situações existentes e distorce-las na intenção de criar humor. Choque. Parte do valor cômico de um comediante está no fato de que ele pode fazer e dizer qualquer coisa que as pessoas normais não fazem ou não podem. Ele é o menino mau da sala de aula. Jerry Lewis sempre se apoiou neste tipo de humor. Ele é o bufão no palco fazendo e dizendo coisas que podem chocar a platéia. Mesmo comediantes dignos do calibre de Bob Hope e Jhonny Carson se valem desta técnica, às vezes. As pessoas ficam surpresas que estas
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pessoas possam falar certas coisas a respeito do presidente ou de qualquer político influente. O público fica estarrecido. A maioria das piadas de Don Rickles se apóia neste tipo de humor. Ele insulta completo estranhos. Normalmente, as pessoas não falam este tipo de coisas para qualquer um, a não ser para os seus amigos mais íntimos. Conseqüentemente, não só rimos da sua inteligência mas, também, da sua audácia. Piadas sujas também dependem do choque que elas causam. Se você dissecar uma desta piadas você verá que, na maioria da vezes, não há nada engraçado nelas a não ser o fato delas fazerem uso de palavras que não são usadas comumente em público. Não há necessidade de eu citar qualquer exemplo porque quase todas as piadas que usam de palavrões ou bufonaria, caem nesta categoria. Ataque autoridades. Esta categoria é, na verdade, uma extensão do Choque, mas é menos grosseira. Você, basicamente, usa o humor para chocar, mas neste caso, o comediante esta brincando em terreno mais seguro porque o público ficará do seu lado. Ele esta atacando alguém que a platéia sente que merece ser atacado. Pode ser o seu chefe. Bob Hope fez isso um zilhões de vezes enquanto se apresentava para as tropas em guerra. Ele se identificava e era identificado muito mais com os recrutas do que os generais. Deixe me citar novamente um exemplo tirado da minha própria experiência. Uma vez, eu estava fazendo um show para os operários de uma fábrica que trabalhava com enxofre e, por isso, havia um certo fedor de peido no ar. “Quando eu cheguei aqui hoje, fui recepcionado por vários dos seus chefes. Mas um deles me chamou mais a atenção pelo seu problema de flatulência” “Todos nós gostamos do tipo de chefe que sabemos quando está por perto.” “Ele não só é o chefe mais fedido da área como também é o único que tem uma boa desculpa para isso.” Eu já lhes contei que comecei minha carreira me apresentando e criando discursos bem humorados para diversos eventos. Uma vez, contudo, as pessoas que me contrataram resolveram criar o seu próprio discurso. O resultado foi tão devastador que o convidado de honra saiu, no meio do
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evento, se sentindo completamente ofendido. Há uma maneira de se fazer humor ofensivo, faça com que ele seja engraçado e divertido, mas não destrua ninguém. Bob Hope faz piadas com os políticos o tempo todo mas, no entanto, ele é capaz de almoçar com eles no dia seguinte. Parece contraditório usar de humor ofensivo sem irritar alguém mas ele pode ser feito se você observar os seguintes itens. 1. Brinque com coisas que são fabricadas e, obviamente, inverdades. 2. Brinque com coisas que as pessoas costumam brincar, elas mesmas. 3. Brinque com coisas que não trarão conseqüências indesejáveis. Usando estas sugestões e um pouco de bom senso você poderá criar humor ofensivo sem realmente ofender ninguém. Mas um bom conselho é: Se você não está certo sobre a reação que este tipo de piada irá causar, não a use. Voltemos aos nossos atalhos. Envolva a platéia. Seu público se divertirá mais com seu humor se você os fizer parte dele. Se você conseguir localizar o seu poder cômico ele multiplicará o seu conteúdo humorístico. Os membros da platéia sentirão que eles estão dividindo o placo com você. Um palestrante amigo meu quase sempre começa as suas palestras dizendo: “Seu chairman (ele menciona o nome) me constatou para vir aqui dar esta palestra. E eu aceitei a chamada a cobrar com prazer.” Você acaba de criar humor com alguém da própria platéia. E, com certeza, você conseguirá algumas risadas. Ao invés de começar alguma piada com “dois caras estavam descendo a rua quando,” descubra o nome de alguém da platéia, que se encaixa na sua história. Você também pode tornar as suas piadas mais localizadas usando nomes de lugares que estão naquela área, bairros, restaurantes, oa lugar de encontro dos namorados, etc. Todas estas artimanhas fazem com que o público fique mais próximo do seu material cômico. Mesmo que você não tenha todos estes conhecimentos a respeito do seu público, você ainda pode traze-los para dentro da sua rotina cômica. Slappy White costumava contar uma história que ilustra este ponto, perfeitamente.
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“Eu acabei de ler no Readers Digest que um, em cada quatro americanos, sofre de algum problema mental. Uau! Pense só nisso… um em cada quatro. Você não precisa acreditar em mim, mas prove você mesmo. Aqui está o que eu quero que vocês façam. Pensem em três dos seus amigos.” Agora as pessoas no platéia já estão começando a rir e a olhar ao redor procurando seus amigos, alguns até os apontam com o dedo. E ele continua: “Eles parecem pessoas normais para você?” Novamente as pessoas começam a se relacionar, a rir e a olhar ao redor. Eles têm a sensação de que Slappy fala diretamente com o grupo deles. E, então, ele finaliza: “Sim, porque se eles são normais, você deve ser o cara.” Isso sempre funciona porque as pessoas se sentem envolvidas.

Simplesmente, seja engraçado. Certamente, este é um item premeditado para tirar o meu da reta caso eu tenha me esquecido ou omitido alguma coisa nos itens anteriores. Eu criei este item, simplesmente para lhe dizer, se você tiver alguma coisa engraçada em você não vá atrás de criar nada, simplesmente, use-a. Seja espirituoso, alegre, simpático, seduza o seu público com qualquer coisa que você possa imaginar.

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Escrevendo para o seu público.

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Eu já citei aqui, uma ou duas vezes, um pôster que havia na sala da produção que dizia, “Existem apenas algumas pessoas que podem julgar bem comédia. E até elas discordam entre si.” Aquele cartaz estava completamente errado. Existe apenas um juiz capaz de julgar comédia e este é o público: o resto de nós está, meramente, especulando. Alguns profissionais podem especular melhor que outros, mas, mesmo os melhores, sempre cruzam os dedos e esperam que o público responda positivamente. Fazendo as pessoas rir. A carpintaria é uma ciência exata. Ela pode ser criativa, mas ela é sempre exata. Se você pegar uma fita métrica e medir a distância entre um ponto A e B, você terá o tamanho do pedaço de madeira que você terá de cortar para que ele se encaixe em um determinado espaço. A comédia é diferente. Você não pode determinar o tempo que uma pausa deveria ter, ou qual a inflexão que deveria ser usada na voz por um humorista. É uma operação instintiva. Quase sempre quando eu converso com os escritores e atores cômicos, eu costumo fazer estas duas perguntas: 1) O que é uma piada? 2) O que todo comediante tem em comum? Sugiro que você pense bem sobre estas perguntas e chegue a alguma resposta antes de continuarmos. Naturalmente que existem definições técnicas e práticas do que é uma piada, mas a minha definição caseira de uma piada é prática: Uma piada é tudo aquilo que faz com que as pessoas riem. Pode ser uma série de palavras, um olhar, um movimento de ombros, até mesmo um momento de silêncio – mas se estas coisas fazem as pessoas rirem, então, é uma piada. Eu trabalhei para o “The Jim Nabors Hour” por dois anos e uma das melhores gargalhadas que eu me lembro veio de Ronnie Shell, que fazia o personagem do inebriante inquilino; ele disse a Frank Sutton para que ele fechasse os olhos porque ele tinha um presente de aniversário para ele. Frank fechou os olhos e todos no palco olharam para ver o que Ronnie lhe daria. Ronnie fez uma pequena pausa e depois deu de ombros como que dizendo, “Eu não tenho nada.” É difícil de acreditar só contando, mas aquela cena foi hilária e obteve uma tremenda resposta da platéia. Aquilo foi uma piada quer ela se enquadre na definição da palavra ou, não.
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E agora a resposta para a segunda pergunta: O que todo comediante tem em comum? Comediantes e qualquer outro tipo de artista que usa o palco como seu meio de comunicação tem o público como um fator comum, não há outra maneira. Todo artista precisa de um. Algumas pessoas podem argumentar que um cineasta não tem uma multidão ao seu lado na sala de edição ou que um autor escreve seu livro sozinho. É verdade, mas um filme e um livro são feitos para um público. Um dia alguém irá ver o filme ou ler o livro. Ninguém escreveria um livro para não ser lido, ou produziria um filme para não ser visto. As respostas para estas perguntas são importantes porque elas nos levam ao público. Uma piada faz as pessoas rirem. O publico é o ser supremo da comédia. O publico é extremamente importante para o humor porque ele se torna parte dele. Não existe humor até que pessoas sejam envolvidas. Você já ouviu a pergunta: “Se uma árvore cair na floresta e não existir ninguém por perto para ouvir a sua queda, ela fará algum barulho?” Eu não sei. O que eu sei, contudo, é que se você contar uma piada e não houver risadas, ela não é uma piada. Não existe humor real até que o esforço do comediante seja pago com uma gargalhada. Um comediante, uma vez, me disse o quanto ele invejava os cantores e cantoras. Ele achava que a vida deles era fácil – eles podiam cantar a mesma música inúmeras vezes, e eles tinham acesso aos grandes escritores no mundo, de graça. Até mesmo um novato poderia cantar Cole Porter ou Jerome Kern. Mas, onde um comediante jovem vai encontrar material cômico de primeira? O mesmo comediante costumava dizer que, mesmo que um cantor não cante tão bem uma canção, no final dela ele poderá ser aplaudido. Mas, se um comediante conta uma piada ruim, ele não vai conseguir fazer ninguém rir – muito pelo contrário. O público não precisa participar de uma canção, o cantor pode cantar do jeito que ele bem entende, o público pode conversar sentados às suas mesas e, quando eles percebem que a música chega ao fim, eles simplesmente aplaudem, educadamente. Naturalmente que existem cantores que pedem a participação do público e os envolvem no seu show. Eles são grandes homens do entretenimento. Todavia, um comediante precisa da atenção do público. O público tem de ouvi-los e as gargalhadas obtidas tem de ser espontâneas, do contrário, elas não valem nada para ele. O verdadeiro humor só acontece com a parceria do público. Infelizmente, muitos escritores e performers se esquecem disto.
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Quando eu comecei na minha carreira de escritor de comédia, eu costumava viajar com alguns comediantes só para poder estudar a resposta do público. Eu sempre ficava um pouco confuso com os comediantes que reclamavam: “Ninguém pode fazer este público rir.” Eu ficava imaginando por que as pessoas se vestiriam e viriam a um night club caro para não rir. É óbvio que esta não é a verdadeira razão. Eles estão sempre dispostos a fazer a sua parte, talvez o comediante não tenha feito a dele. Eu descobri a grande diferença de escrever para um show em um Night Club e escrever para a televisão. Em um Night Club a sua resposta é imediata e honesta. Ou eles gostam, ou não. Eu já lhes contei sobre algumas piadas minhas que eu adorava e mais ninguém. Se após te-las reescrito, redistribui-las, e contá-las de forma diferente, eu ainda não consigo uma resposta positiva, eu, naturalmente, sou obrigado a tira-las do show. Na televisão, é fácil culpar alguém. “O ator não disse a piada corretamente.” “O diretor não soube dirigir a cena.” O platéia, no estúdio, estava distraída com as câmeras.” Existem centenas de desculpas com que o escritor pode se satisfazer e, conseqüentemente, nunca aprimorar o seu trabalho. Porque ele deveria? Não foi culpa dele. Se você ignorá-los, eles não irão rir. Grande parte do material de trabalho de Steve Martin é baseado no Showbusiness, ironicamente, ele consegue gargalhadas estrondosas fazendo piada da profissão que ele mesmo exerce. Em um dos seus shows, ele ilustra lindamente o princípio da participação do público. Martin faz a sua apresentação no seu estilo inigualável, eu vou, simplesmente, cita-la para ir direto ao assunto. Ele conta ao público que ele ouviu dizer que há uma convenção de encanadores acontecendo na cidade e ele acaba de ser informado que eles vieram assistir ao show, naquela noite. Então, ele pede a atenção da platéia para o que ele diz ser uma piada hilária sobre encanadores, ele continua contando a piada até que ele dá um desfecho, mais ou menos, assim: “Eu pedi uma chave Watson sua besta, não uma chave Inglesa.” Então, ele mesmo ri da sua piada e espera que o publico o acompanhe. Naturalmente, ele não obtém muito êxito, então, ele rapidamente disfarça explicando, ” Acho que o ônibus que vinha da convenção para cá ainda não chegou.” Acredite em mim, é uma rotina cômica maravilhosa e mostra o quanto o público é importante para um comediante.
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Como escritor, você deve admitir a importância do público no seu trabalho e incluí-los. Você não tem outra escolha, se você os ignorar eles não se divertirão. E, se eles não rirem, você não tem um produto. É como um homem que quer ficar milionário procurando poços de petróleo. Será que ele sai por ai cavando buracos por todo o canto na esperança de encontrar petróleo? Naturalmente que não. A terra é uma parte importante na sua busca e, eventualmente, ela lhe dará sua riqueza. Mas, antes ele deve estudar o solo, descobrir onde seria mais provável de encontrar o óleo e, então, ele perfura o solo. O escritor cômico deve colocar o público como parte do seu trabalho e ele, o público, o recompensará com o riso. Desta forma, o escritor deve estudar o seu público para descobrir onde ele deve garimpar o riso. Alguns anos atrás, eu visitei a minha terra natal, Filadélfia. Foi logo após a vitória do campeonato de hockey do Filadélfia Flyers. Meus sobrinhos e sobrinhas tinham posters dos jogadores espalhadas pelas paredes do quarto. Vários amigos me deram réplicas do troféu de campeão como presente. Meu irmão chegou até a tocar o hino nacional cantado por Kate Smith, segundo ele, toda vez que ela cantava antes dos jogos, os Flyers venciam. A cidade inteira havia sido tomada pela febre dos Flyers. Algumas semanas depois, Bob Hope veio se apresentar em Filadélfia e eu estava a cargo de escrever suas piadas. Eu, então, escrevi um monte de piadas sobre o que eu havia presenciado naquela cidade, na semana anterior. O público vinha abaixo a cada nova piada sobre os Flyers. E, se as piadas eram engraçadas, elas com certeza se tornaram 10 vezes mais. Hope ficou tão surpreso com a reação do público que veio falar comigo, depois do show. Claro que eu não tive coragem de pedir um aumento, aquele foi um dos meus trabalhos mais fáceis de escrever. Como um escritor, como é que você consegue capitalizar a participação do público? Novamente, voltamos ao trabalho de preparação. Você deve se tornar quase que um investigador. Você deve isolar e particularizar o seu público. Faça a si mesmo estas três perguntas: 1) O que se adapta ao meu publico? 2) Como eu adapto o meu trabalho ao meu publico? 3) O que eles sabem? O que se adapta. Descubra o que as pessoas para quem você vai se apresentar estão conversando a respeito? O que está acontecendo na cidade deles? Se você
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for falar para um grupo de homens de negócio ou profissionais, descubra o que está acontecendo no campo de trabalho deles. Descubra tudo aquilo que possa ser usado por você. Converse, investigue, inquira. Se você estiver visitando a cidade, leia os jornais atrás das notícias a respeito da política local, dos esportes, etc. Uma vez, eu fiz um show para um grupo de corretores de seguro no Canadá. Ao chegar no local, eu comentei com o meu anfitrião que eu nunca havia visto chapas de carros com números tão estranhos nelas. Ele, então, me explicou que as corretoras de seguro no Canadá distribuíam as licenças das chapas dos carros e, por isso, os corretores sempre escolhiam os números para as suas próprias chapas. Durante o banquete da convenção, eu mencionei que era fácil saber que aquele evento se tratava de uma convenção de corretores de seguro – do lado de fora estavam estacionados os carros com as placas mais bonitas do Canadá. Aquela foi uma descoberta acidental mas os escritores não deveriam depender sempre do acaso. Peça a alguém da organização para lhe dar jornais, boletins, ou as suas próprias idéias sobre o que está acontecendo por dentro da organização. Se existem duas piadas de igual valor aquela que se adequa melhor ao seu publico poderá lhe render dez vezes mais gargalhadas. Vale a pena pesquisar. Como eu adapto meu trabalho para o meu público. Se você estiver fazendo um show durante uma convenção de agricultores, você pode escrever piadas sobre a política agrícola do Presidente, certo? Certo, mas é melhor você saber antes como os fazendeiros e agricultores aceitam esta política governamental. Se eles forem a favor e as suas piadas contra você poderá estar em apuros. Se você estiver trabalhando para uma Universidade que não tem interesse em promover o futebol, é melhor você descobrir qual a posição dos alunos à respeito disto, antes de compor as suas gags. Você deve, simplesmente conhecer a mente do seu público e, depois, usar este conhecimento para fazer com que as suas gags funcionem. Geralmente, você pode contar a mesma piada com algumas modificações para gerar uma resposta positiva no seu público. Aqui está uma piada que eu ouvi que pode ser usada numa reunião de Republicanos ou Democratas. “Um homem perguntou a um político por que ele era um Republicano e ele respondeu, dizendo, “Meu Pai era um Republicano, assim como o meu avô.
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E, então, o homem perguntou, “Se seu pai fosse um idiota, assim como o seu avô, o que você seria?” O político respondeu “Um Democrata.” Se você mudar os partidos você terá uma piada que funciona para qualquer tipo de grupo político. Você não esta tomando nenhum partido você, simplesmente, está brincando com eles. Aqui está um outro exemplo disto. Suponhamos que a Companhia Alfa é um dos maiores competidores da Companhia Beta. Você pode contar esta piada para o pessoal da Alfa. “Um homem muito rico queria que seus três filhos tivessem seus próprios negócios. Assim, ele perguntou para o seu filho mais velho o que ele queria. O rapaz disse que queria uma companhia de petróleo, então, o homem lhe comprou a Exxon. O segundo filho, um pouco mais novo, disse que gostava de cinema, assim o homem lhe deu a M.G.M. O terceiro filho, e o mais novo de todos, disse que gostava de fazer nada e o homem lhe comprou a Companhia Beta”. Naturalmente, a mesma história pode ser contada para o pessoal da Beta, mas não se esqueça de mudar o desfecho. Existem maneiras de manipular uma piada para que ela não se vire contra você. Quando eu escrevo a minha coluna no jornal, eu tenho que manter uma imparcialidade política, do contrário eu perderia a metade dos meus leitores por se sentirem ofendidos. Esta imparcialidade pode ser alcançada se você começar a sua piada com frases do tipo: “Eu ouvi dizer que. . .” ou “Algumas pessoas dizem que . . .” “Alguns petistas gostariam que . . .” e assim por diante. Como um humorista, você está diretamente envolvido com o seu público. Que beneficio você obterá se você contar piadas que não lhes agradem? Ou, converta algumas frases para que elas não soem tão agressivas, ou, esqueça o que você estiver fazendo e comece de novo. De qualquer forma, é sempre muito valioso saber o que se passa pela mente do seu publico antes de você começar a escrever para ele. O que eles sabem? Isto pode lhe parecer estúpido, mas é tão óbvio que geralmente não lhe damos atenção. Para a sua piada funcionar, seu público precisa saber do que você esta falando.
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Um risco que você corre em perguntar para as pessoas de uma organização é que eles poderão lhe dizer, e depois que você escreveu um grande número de piadas, você descobre, durante a sua apresentação, que as informações que lhe foram passadas só são conhecidas pelo pessoal do gerenciamento e ninguém mais. O público sempre varia de região para região. Alguns produtos só são comercializados em uma certa área. As pessoas da costa leste raramente ouviram falar da May Company, e na costa oeste eles nunca ouviram falar da Wanamaker’s. Estes são apenas alguns exemplos de como uma piada pode fazer sentido para você e ser completamente incompreensível para um público, diferente daquele que você está habituado a lidar. Ou, você conhece os assuntos que possam interessar a estes tipos diferentes de público; ou, você escreve piadas sobre assuntos mais genéricos. E o que fazer quando você esta escrevendo de uma maneira mais geral? Você deve abordar referências mais gerais. Você deve ter idéias e assuntos pertinentes a todos.

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Mantendo um caderno de anotações.

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Em um Sábado de manhã, eu acordei, me vesti e fui para o clube para as minhas cinco horas semanais de duplas de tênis. Normalmente, eu costumo relaxar depois, assistindo qualquer esporte idiota na TV. Neste sábado em particular, eu tinha que me apressar para escrever uma coluna para um jornal. Eu não conseguia ter uma idéia sequer sobre o que eu deveria escrever. Isto acontece com a maioria dos escritores quando estamos perto de um prazo de entrega (deadline). Contudo, a razão pela qual eu estava apressado este dia era porque eu queria assistir as partidas de tênis do campeonato de Wimbledon. John MacEnroe iria jogar e, além dele jogar bem, eu sempre me divertia com os seus ataques histéricos. As primeiras páginas do jornal daquele dia traziam uma foto de John e o chamavam de o “Fedelho de Wimbledon.” Todos os membros do clube conversavam a respeito do seu comportamento nas quadras. Tudo isto estava ali bem no meu nariz e eu não conseguia pensar em nada para escrever. A presença de MacEnroe em Wimbledom pedia para ser satirizada e eu não conseguia ver. Uma coisa que você já deveria ter aprendido é que uma boa parcela de escrever comédia está na preparação. Preparação por si só não vai escrever as suas piadas mas, quando chega a hora de escrever as suas gags, preparação fará as coisas mais fáceis para você. Se eu houvesse me preparado naquele Sábado de manhã, eu poderia ter escrito uma coluna inteira, enquanto eu me refestelava no meu banho de espuma. De fato, umas 12 piadas no mínimo, poderiam ter sido escritas por mim no caminho do clube para a minha casa. Se eu estivesse atento, meus amigos de tênis poderiam ter-me dado aquelas 12 piadas sobre MacEnroe, durante as nossas conversas nos intervalos das partidas. Nós já conversamos um bocado sobre preparação, mas na maioria das vezes, ela estava ligada a um tópico em particular. Uma piada, como sabemos, é uma combinação de duas idéias diferentes – que não precisam ser, necessariamente, sobre o mesmo tópico, contanto que estejam relacionadas de alguma maneira. De fato, relacionar um tópico padrão a uma notícia lhe dá um tempero particular: ela faz com que a piada seja tão nova quanto a notícia a que ela se refere. idéias são a matéria prima com que as piadas são feitas. Você nunca terá idéias o suficiente. E você não conseguirá se lembrar de todas elas. Você não pode confiar que a sua memória sempre lhe irá servir uma idéia fresca e novinha, toda vez que você precisar dela, principalmente, quando uma deadline se aproxima.

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Meu descaso com toda esta história do MacEnroe é uma prova viva disso. Enquanto eu tentava, desesperadamente, encontrar alguma coisa para escrever, resolvi fazer uma visita ao meu barbeiro. Enquanto eu estava lá, o telefone tocou incessantemente. O meu barbeiro tinha que anotar todos aqueles horários em sua caderneta para não esquecer de todos os seus apontamentos para aquele dia. Porque diabos, então, nós escritores de comédia deveríamos manter tudo na nossa memória e, imediatamente, lembra-las sempre que precisamos delas? Nós não conseguimos, mas muitos de nós tentam. É lógico, então, que deveríamos manter um caderno de anotações onde deveríamos escrever todas as nossas lindas idéias nele para uma possível referência futura. Nossas anotações poderão, futuramente, nos dar tópicos inteiros, ou até um desfecho (punchline) para uma de nossas piadas. De qualquer forma, as nossas idéias são muito valiosas para serem guardadas em qualquer canto da nossa fraca memória. Lá elas são mais fáceis de serem esquecidas. Eu tenho um caderno para os meus tópicos atuais. Todo dia, enquanto eu leio o jornal, eu anoto um monte de informações, títulos e, assim por diante, que eu tiro das matérias atualizadas dos jornais. Elas podem ser selecionadas da primeira página, do caderno de esportes, ou seja, de qualquer parte. Durante o dia, eu converso com varias pessoas. Eu posso anotar muitos temas que estão sendo discutidos ou falados por elas. Este tema poderia ser um novo filme que foi lançado ou um programa de televisão que todos assistem. Além dos tópicos, que eu retiro dos jornais ou dos meus papos com os amigos, eu mantenho uma lista das minhas observações diárias. Alguma coisa que valha a pena pode ser vista, ouvida ou lida por mim a qualquer hora do dia, em qualquer situação. Algum balconista no supermercado pode ser mais rude ou mais amigável, naquele dia. Qualquer coisa que eu acho diferente ou instigante, eu anoto no meu caderninho. Agora, com esta munição toda, eu me sinto mais preparado para sentar e escrever a minha coluna ou compor uma piada. Todos estes itens, mais a preparação sobre um tópico qualquer, me proporciona uma quantidade tremenda de alimento para as minhas gags. Seu caderno pode ter a forma que você quiser. O meu é um bloco de anotações, que eu deixo em cima da minha mesinha do escritório. Conforme as idéias vão surgindo, eu as anoto nele com algumas indicações que podem me servir mais tarde. Alguns escritores mantém uma agenda semanal ou mensal e fazem suas anotações de acordo com as datas. Quando eu comecei em Hollywood, eu conheci um escritor que mantinha as suas anotações nestas folhas contínuas para impressoras grudadas na parede, além delas serem fáceis de visualizar, conforme elas iam ficando
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datadas demais, ele simplesmente as excluía desenhando um ‘X’ sobre elas. Você pode desenvolver o seu próprio sistema. Qualquer forma é aceitável, desde que ela funcione para você. Um amigo meu, aqui de Los Angeles, tem uma forma bastante elaborada. Por ela ser mais bem organizada que a minha eu a recomendo. Johm mantém um bloco de anotações separadas por categorias. Por exemplo, ele pode ter seções inteiras devotadas a algumas das áreas que já discutimos - tópicos atuais, ou, idéias do dia a dia. Mas ele também mantém uma parte inteira para os comerciais que ele assiste na televisão, ou, ouve no rádio. Ele tem outra página devotada às estrelas de cinema e, do lado de cada nome, tudo aquilo que ele pode achar intrigante sobre aquela personalidade. John também separa uma página inteira para os títulos de filmes e comentários a respeito deles. Ele lista shows de TV, que ele pode conseguir nos guias especializados, e faz comentários daqueles que estão se saindo bem e daqueles que não estão fazendo o menor sucesso, quem largou que show e porquê e, assim por diante. E, finalmente, ele tem uma página para as frases ditas por qualquer celebridade que possa ser usada em uma das suas piadas. Na verdade, não é tanto trabalho assim manter um caderno de anotações como o de John porque, uma vez que você tenha feito a sua pesquisa, não será difícil fazer uma breve anotação a respeito do que você encontrou, diariamente. E tal coleção vai ser extremamente valiosa para você. Quando a oportunidade chega. Se eu lhe pedisse para se lembrar de 15 comerciais de televisão memoráveis, você com certeza teria dificuldade de recordar-los, sem mencionar o fato de escrever uma piada para cada um deles. Mas, se você se virar para a página correta das suas anotações, lá estarão eles. Você terá a sua pesquisa prontinha para você. Estas são apenas algumas aplicações óbvias para o seu caderno de anotações mas haverá alguns outros benefícios que você descobrirá por si mesmo também. Um caderno de anotação de um escritor de comédia lhe proporcionará idéias brilhantes para alguma gag sobre um tópico qualquer, que a princípio parece não tem nenhuma relação com algumas das suas listas. Mas, quando você conseguir encontrar esta relação, você terá uma gag verdadeiramente original. Um caderno destes fará a sua tarefa mais fácil e, a longo prazo, fará você escrever mais rápido e melhor. Como já dizemos inúmeras vezes, você aprende a escrever, escrevendo. Sua mente se acostuma a isso.
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Usando um instigador, como uma das listas que você mantém no seu caderninho, lhe ensinará a associar as idéias na criação de uma piada. Isto é o que o humorista ideal faz. Eu já trabalhei com comediantes possuidores de mentes espantosamente rápidas. Os comentários de Woody Allen sempre me surpreendem. Nós todos deveríamos nos espelhar no brilhantismo cômico de Woody Allen. Mas, se você ainda não conseguiu obter este tipo de rapidez, perspicácia e desenvoltura, ainda é melhor você começar a fazer suas anotações no seu caderninho.

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Escrevendo Esquetes

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Quando eu era apenas um novato como escritor para a televisão, uma das minhas maiores dificuldades foi a transição de escrever monólogos e começar a escrever esquetes de humor. A inclinação que temos é de, simplesmente, escrever uma série de piadas e juntá-las para formar um esquete, mas não é tão fácil assim. Certamente, um esquete é uma coleção de piadas, mas é muito mais que isso. Vocês se recordam da metáfora dos tijolos? Gags são os tijolos que ajudam a erguer um esquete, mas uma pilha de tijolos colocados no local da construção não fazem uma casa. Também não basta apenas cimentar os tijolos – você assim conseguirá, apenas, ter um bando de tijolos colados uns aos outros. Você precisa de um plano mestre para construir uma casa. Os blocos de construção devem ser dispostos de maneira ordenada, e bem arquitetada. Eu acredito que a diferença entre escrever uma gag e escrever um esquete é a mesma entre um pedreiro e um arquiteto. O que dissemos anteriormente ainda se aplica. É mais fácil aprender a forma de um esquete se você já foi educado nos princípios de como escrever uma piada. Escritores profissionais sempre dizem que um esquete precisa de um início, meio e fim. Este tipo de definição nunca me disse o suficiente porque qualquer coisa que ocupa tempo e espaço tem de ter um inicio, um meio e um fim, e um bom esquete deve ter que ser muito mais que simplesmente a alocação de tempo e espaço. O conceito de começo, meio e fim é, meramente, uma forma simplista de dizer que um esquete tem der ser mais que uma coleção de piadas juntas. Toda regra tem sua exceção, e alguns leitores podem capta-las imediatamente. Johnny Carson fazia esquetes que eram, meramente, entrevistas com Ed MacMahon. Bob e May fazem esquetes que são, nada mais que, uma porção de gags. ‘O homem de dois mil anos’ de Mel Brooks é hilário mas não é nada mais que piadas de uma linha apenas. A maioria destes exemplos com a exceção de Bob e Ray, são diálogos cômicos – material de monólogo feito por duas pessoas. Pode ser feito na televisão mas, esporadicamente. Um dos maiores sucessos dos esquetes para televisão foi o show de “Sid Caesar”, que era apenas uma série de entrevistas feitas semanalmente. Embora Caeser o fizesse brilhantemente, o formato do show não conseguiu se suportar por muito tempo e o show acabou. Esquetes sólidos requerem: 1) Uma premissa 2) Algumas complicações 3) Um final
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Em outras palavras, um início, meio e fim. Analisemos cada parte de um esquete.

Uma premissa.
Assim como o passo inicial na construção de uma piada é ter o que dizer, o passo inicial de um esquete é ter algum tipo de mensagem a ser dita. Pode lhe parecer evidente de mais mas muitos escritores profissionais se esquecem disso. Muitas vezes, idéias que são lançadas para um esquete não são o que eu chamo de premissa mas, simplesmente, lugares ou figurinos. O escritor chefe ouve coisas do tipo: “Vamos colocar o cara vestido de cowboy. Vai ser hilário!” Estamos falando de um figurino. O comediante pode ser um excelente comediante mas, mesmo que você o vista de cowboy e o coloque na frente de uma câmera, ele terá de fazer e dizer alguma coisa. Alguns escritores sugerem: “Vamos colocar a Carol Burnett no balcão de reclamações de uma loja de departamentos e será magnífico.” Isto é só um lugar. Com quem ela estará lidando lá, e como ela ira se comportar? Qualquer coisa que pareça conter alguma coisa louca, exagerada, etc., não é o suficiente para servir de premissa. Esta loucura, exagero, ou seja lá o que for, tem de ser programado e dirigido. Deve haver uma razão para isto acontecer. Ela terá de conter ímpetos que se desenvolvam de forma ordenada e progressiva. Se você colocar um xerife ameaçado de ser linchado pelos habitantes de uma cidadezinha, que esta tentando fugir de carroça com um cocheiro e cavalos mais vagarosos que um leão marinho, então, você tem um início. Se você colocar Carol Burnett na fila de um balcão de reclamações de uma loja de departamentos com outros fregueses, não menos irritados, e se o primeiro da fila for o marido dela que quer o divórcio, você tem o início de um esquete. Você tem uma premissa. Uma premissa é uma ou duas linhas que lhe dá a idéia do que um esquete pode ser. Um jogador de cassino que tem de ganhar de um gangster em um jogo de pôquer se não ele morre, me diz mais que vestir um cara de cow-boy. Cada um dos esquetes que você começa a escrever deve ser descrito ou explicado em uma, ou, duas linhas e esta descrição tem de ser e / ou parecer interessante e sustentável. Se você conseguir esta proeza, então, você já tem um começo ou seja uma: premissa. Ao escrever um esquete, você deve conseguir a sua premissa rapidamente, e ela deveria ser entregue quase como um desfecho (punchline). Ela
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deveria ser concisa, clara e explicar o que, sobre o que o seu esquete será. É o que nós chamamos de ‘Fator OO-OU’ É aquele ponto no esquete em que a ação vem acontecendo normalmente e, então, você acrescenta uma ou dias linhas que fazem com que o público diga: ‘OO-OU! O que eles vão fazer agora?’ Você poderia ver este exemplo, quase que graficamente, em todos os episódios de “I Love Lucy.” Em quase todos eles, você conseguia visualizar o exato momento em que os tele espectadores diziam ‘OO-OU’. Isto é o que deveria acontecer em um esquete. Para lhe mostrar melhor o que eu quero dizer, deixe me, rapidamente, lhe contar sobre alguns esquetes que fizemos para o show de Carol Burnett. Em uma das histórias, nós tínhamos Harvey Korman fazendo o papel do marido recém saído da cadeia, sob condicional. No início do esquete, eles estão sentados na mesa de um bar, esperando para serem atendidos. Neste momento, o público já sabe sobre a condição do marido e também sabe que, se ele fizer qualquer coisa que possa lhe incriminar, ele volta para a prisão e não sairá mais de lá até que sua pena seja cumprida. É, então, que Carol se vira para um garçom enorme e com cara de poucos amigos e grita: ‘Ei cabeça gorda! Você chama isso de um Dry Martini?’ E então o publico pensa: “OO-OU, o cara está ferrado agora.” Em outro episódio, nós tínhamos Carol sendo recepcionada por amigos, após ter passado algum tempo no hospital se recuperando de um problema emocional. Ela assistia todas as novelas e vivia a vida dos personagens como se eles realmente existissem. Mas, agora, ela está totalmente curada da sua loucura. E, assim que ela diz: “Eu não me importo mais se o Roberto vai se casar com a Vanda”, uma amiga lhe diz:”Roberto esta morto.” Os olhos de Carol se esbugalhavam de terror e todos pensavam: “OO-OU, vai começar tudo de novo.” No show de Bill Cosby, uma vez colocamos Peter Sellers e Lily Tomlin sentados um, ao lado do outro, em um avião. O piloto anuncia que o avião está em pane. Após alguma histeria, Sellers se virava calmamente para Lily e lhe perguntava se ela estava sentada no lugar certo. “Que diferença faz isso numa hora destas?” E Sellers respondia “É que eu estou vendo toda a sua vida se passando bem em frente dos meus olhos.” O público imediatamente dizia: ‘OO-OU, que situação embaraçosa para ela.’ Em qualquer uma das esquetes que você compor deve haver este momento e ele deve vir logo no início. Novamente, existem exceções. Em um dos mais fantásticos esquetes no show de Carol, nós tínhamos uma família inteira se despedindo de um parente no aeroporto. Eles falavam sobre os bons momentos que passaram juntos durante a sua visita e como era difícil dizer adeus novamente. Todos se
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despendem dele emocionadamente, quando pelos alto falantes (speakers) você ouve dizer que, infelizmente, o vôo sofrerá um pequeno atraso. Após alguns minutos, todos se despedem novamente e, novamente, é anunciado um novo atraso. E assim até que aquela despedida se torna a mais descarada lavação de roupa suja. Neste caso, nossa premissa ficou escondida por algum tempo e foi sendo revelada gradativamente. Mas, mesmo assim, o público sabia do que se tratava aquele esquete, desde o principio. E mais importante que isso, aquele esquete era sobre uma coisa, ele tinha um início. Ele tinha uma premissa.

Algumas complicações.
Uma vez que a sua premissa já foi posta adiante, você deve fazer alguma coisa acontecer. Se sua premissa foi apresentada como uma situação difícil, ou embaraçosa, o público vai querer tentar resolver o problema para você. Se você colocou a sua premissa como um objetivo a ser alcançado, você deverá, então, criar alguns problemas para que ele seja, realmente, alcançado. Naturalmente que você não deve criar uma premissa e logo, em seguida, pular direto para o final. Você vai precisar de alguma ação. Às vezes, a sua ação poderá ser episódica, ou seja, uma série de piadas, uma atrás da outra. Uma vez, fizemos um esquete onde Tim Conway e Harvey Korman eram soldados revolucionários, cercados pelos inimigos. Tudo o que eles tinham para combate-los era um único canhão com uma única bala. Harvey propunha a Tim que ele iria atrair os inimigos para uma área aberta e, então, ele dispararia o canhão neles. Então, Harvey sai e atrai a atenção dos inimigos mas, para a surpresa de Tim, ele não consegue colocar a bala no canhão por que ela parece ser maior que a boca do canhão. Exausto e um pouco debilitado, Harvey volta a cena e consegue colocar a bala para, novamente, sair para a sua tarefa de atrair o inimigo. Desta vez, o Tim tenta limpar a boca do canhão mas acaba perdendo a escova. Depois, ele não tinha o fósforo para acender o pavio, logo em seguida, ele deixa o canhão baixar e a bala sai da sua boca e rola para longe, e assim por diante. Uma vez, duplicamos esta premissa em um outro esquete. Ken Berry era um cavaleiro da Infantaria, junto numa cabana com Conway. Eles estavam cercados por índios. Ken atrairia os índios enquanto Tim acendia o pavio de um barril de pólvora e atingiria os índios, fazendo com que o barril rolasse morro abaixo. Quando Ken estava em perigo, Ken descobre que o barril é grande demais para passar pela porta da cabana. O esquete seguia assim, de forma episódica. A ação pode se desenvolver naturalmente. No
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caso da família se despedindo no aeroporto, a ação se desenvolvia de tristeza a impaciência, então, de discussões acirradas para safanões, para, finalmente, se voltar ao adeus cheio de emoção e amor. A ação pode ser quase que qualquer evento que você invente. O importante é que a sua premissa seja forte o suficiente para sustentala. Em um outro show da Carol Burnett, nós conseguimos criar uma premissa bastante intrigante. A premissa era que dois cavalheiros estavam de férias no Havaí. Um deles havia perdido dez dólares e ficava o tempo todo reclamando do incidente. O outro tentava levantar o seu moral dizendo que era ridículo ele se importar com míseros dez dólares durante umas férias caras daquelas. E o outro dizia: “É facil para você falar isso porque não foi você que perdeu os dez dólares.” Aí o segundo cavalheiro pega dez dólares da sua carteira e coloca fogo na nota. “Pronto, agora nós dois perdemos dez dólares. Então, vamos esquecer tudo isso e nos divertir. O primeiro, então, recobra o seu humor e, feliz, começa a se divertir com as férias quando ele vai pegar o seu maço de cigarros e descobre que a nota de dez dólares, que ele pensava ter perdido, estava o tempo todo lá no bolso junto com os cigarros. E ele se vira para o segundo e diz. “Olha, achei os meus dez dólares.” A maioria dos escritores amou aquela premissa. Mas o consenso geral dizia que não havia mais aonde ir depois que o outro descobriu que não perdera o dinheiro. Aquele esquete estava terminado. Era difícil para aquela premissa sustentar um número de ações suficiente para manter o desenvolvimento do esquete. Contudo, os escritores gostaram tanto do começo que resolveram gastar mais algumas horas em cima daquela idéia, antes de abandona-la por completo. Com o tempo, nós conseguimos achar uma maneira de progredir naturalmente com aquela premissa e conseguimos criar um esquete bastante agradável. Eu resolvi imprimir este esquete no final deste capítulo. Assim, você poderá ver como um esquete é escrito e a forma que ele deveria assumir no papel. Isto nos serviu de lição. Quando uma premissa é boa, devemos nos ater a ela um pouco mais e ver se, realmente, não existe qualquer possibilidade para ela. Aqui vai uma dica de como você deve abordar uma premissa: resolva o problema imediato e procure alguma complicação na resolução do problema. Então, solucione-o mas ache um outro problema que aquela solução pode causar. (E continue assim, até o final.)

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