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Monitoramento e avaliação da adesão ao tratamento

ARTIGO ARTICLE
antirretroviral para HIV/aids: desafios e possibilidades

Monitoring and evaluation of adherence


to ARV treatment for HIV/aids: challenges and possibilities

Larissa Polejack 1
Eliane Maria Fleury Seidl 1

Abstract The advances in research and treat- Resumo Devido aos avanços nas pesquisas e pos-
ment regimens have transformed aids into a sibilidades de tratamento, a aids tornou-se uma
chronic illness, with a marked increase in the doença crônica, com aumento relevante da quali-
quality of life of those living with HIV/aids. This dade de vida de pessoas acometidas, o que traz no-
brings new challenges in understanding and treat- vos desafios para sua compreensão e enfrentamen-
ing the disease and those living with it. From to. Nessa perspectiva, a adesão ao tratamento an-
this perspective, adherence to antiretroviral treat- tirretroviral tem sido priorizada nas políticas pú-
ment (ART) has been made a priority in the pub- blicas de países como o Brasil. O objetivo do artigo
lic policy of countries such as Brazil. This article é discutir as possibilidades e desafios no processo de
discusses the challenges and potential solutions to monitoramento e avaliação da adesão ao trata-
the monitoring and evaluation of adherence to mento antirretroviral, bem como as vantagens e
ART as well as the advantages and disadvantages desvantagens das técnicas disponíveis para sua afe-
of the techniques available for its assessment. rição, com destaque para o trabalho com pessoas
Emphasis was given to the work done in coun- de baixa escolaridade e em países com recursos li-
tries with scarce resource with patients who have mitados. Conclui-se que é necessário considerar
little or no formal education. It is necessary to aspectos logísticos, conceituais e empíricos na es-
take into account logistic, conceptual and empir- colha de métodos para monitorar a adesão, tendo
ical aspects in the choice of methods to monitor por base os contextos socioculturais e econômicos,
the adherence, examining sociocultural and eco- principalmente em países com recursos limitados.
nomic contexts, especially in countries with scarce Conclui-se também que identificar formas mais
resource. The conclusion is that identify adequate adequadas e efetivas de medir a adesão ainda se
and effective ways of measuring adherence re- constitui em desafios para pesquisadores e profis-
mains an important challenge for those who work sionais de saúde que atuam em HIV/aids.
with HIV/aids. Palavras-chave HIV/aids, Terapia antirretrovi-
Key words HIV/aids, Antiretroviral therapy, ral, Adesão a tratamento, Avaliação da adesão
1
Instituto de Psicologia,
Treatment adherence, Adherence evaluation
Universidade de Brasília.
Campus Universitário
Darcy Ribeiro, Instituto de
Psicologia. 70910-900
Brasília DF.
larissapolejack@
columbia.org.mz
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Polejack L, Seidl EMF

Introdução evidenciam os efeitos positivos dessa política,


como a redução da mortalidade, diminuição das
No início da década de oitenta do século passa- internações hospitalares e redução da incidência
do, começaram a ser identificados os primeiros de infecções oportunistas e da transmissão verti-
casos de aids (síndrome da imunodeficiência cal do HIV. Com o objetivo de investigar o im-
adquirida) e, após mais de duas décadas de des- pacto da disponibilidade do tratamento antirre-
coberta do HIV (vírus da imunodeficiência hu- troviral na sobrevida de pessoas vivendo com
mana), ainda nos deparamos com desafios para HIV/aids, Marins et al.4 realizaram um estudo de
a compreensão dos vários aspectos suscitados abrangência nacional, usando informações dis-
por essa epidemia. poníveis no banco de dados do Ministério da
Compreende-se a epidemia do HIV/aids como Saúde, com 3.930 pacientes cujos diagnósticos
problema de saúde pública, tendo em vista suas ocorreram nos anos 1995 e 1996. Após a aplica-
consequências sobre o processo de governabili- ção dos critérios de inclusão, 2.821 casos com-
dade e sustentabilidade das nações e sociedades. puseram a amostra. Os autores verificaram que
A Organização Mundial de Saúde (OMS)1 estima os pacientes diagnosticados em 1996 - quando o
que, em 2007, 33,2 milhões de pessoas viviam com acesso universal ao TARV foi implementado no
HIV/aids no mundo, sendo que, desse total, 2,5 Brasil - tiveram uma mediana de sobrevida três
milhões eram menores de quinze anos. Naquele vezes mais longa (alcançando 58 meses) em rela-
ano, o número estimado de mortes em adultos e ção aos que foram diagnosticados em 1995 (me-
crianças por aids era de 2,1 milhões, sendo que diana de sobrevida de dezoito meses). Os resul-
1,6 milhão (76%) desses óbitos ocorreu na África tados desse estudo ilustram os benefícios da oferta
Subsaariana. Esses dados caracterizam uma pan- universal do TARV na sobrevida de pessoas vi-
demia, mantendo-se os padrões de expansão e vendo com HIV/aids, residentes em países em
disseminação, conforme a situação de cada país e desenvolvimento como o Brasil.
de cada comunidade. O sucesso dessa estratégia - acesso universal
A prevalência da infecção pelo HIV e as taxas e gratuito - sofre, no entanto, influência dos ní-
de incidência variam substancialmente, sendo que veis de adesão ao tratamento antirretroviral, as-
os países em desenvolvimento são os mais severa- pecto que tem sido priorizado nas políticas pú-
mente afetados2. Sem dúvida, o pior cenário se blicas de alguns países5. Cabe salientar que di-
apresenta na África Subsaariana, onde se encon- versos fatores podem influenciar de modo favo-
tram 22,8 milhões de pessoas infectadas, constitu- rável ou desfavorável a adesão ao TARV. Em es-
indo um imenso desafio para o desenvolvimento tudo de revisão sistemática da literatura, abar-
de estratégias de controle e combate da epidemia1. cando 84 pesquisas com metodologia quantita-
Durante os últimos anos, a disponibilidade tiva ou qualitativa, realizadas em países desen-
dos medicamentos antirretrovirais levou a um volvidos e em desenvolvimento, Mills et al.6 in-
declínio relevante da morbidade e da mortalida- vestigaram facilidades e barreiras à adesão pre-
de relacionadas ao HIV/aids. O advento de re- sentes em contextos socioculturais e econômicos
cursos disponíveis de tratamento traz novos de- diversos. Os autores observaram que medo da
safios para a compreensão e enfrentamento da descoberta do diagnóstico, uso abusivo de subs-
enfermidade. No espaço de uma década, os regi- tâncias psicoativas, esquecimento, ausência de
mes terapêuticos, com maior leque de combina- compreensão dos benefícios do tratamento e re-
ções possíveis, transformaram a infecção pelo gimes complicados foram barreiras identifica-
HIV, de doença devastadora que quase invaria- das indistintamente em países com níveis diver-
velmente conduzia a pessoa infectada à morte, a sos de desenvolvimento. No entanto, barreiras
uma doença crônica com possibilidades de con- como limitações financeiras e dificuldades de aces-
trole3. Nesse sentido, é possível afirmar que a aids so ao tratamento foram peculiares aos países em
se tornou uma doença crônica, naqueles países desenvolvimento. Sentimentos de autovaloriza-
onde o acesso ao TARV é uma realidade, com ção de pessoas vivendo com HIV/aids, percep-
aumento significativo na expectativa e na quali- ção positiva dos ARV, aceitação da soropositivi-
dade de vida das pessoas acometidas. dade, uso de estratégias para lidar com o esque-
No Brasil, entre as estratégias para combater cimento e compreensão acerca da necessidade de
a epidemia, destaca-se a política de distribuição níveis elevados de adesão foram mencionados
universal e gratuita dos medicamentos antirre- como aspectos facilitadores nas diversas realida-
trovirais aos portadores do HIV e doentes de des. Os autores destacaram que, tendo em vista
aids que necessitem de tratamento. Indicadores o número maior de pesquisas realizadas em pa-
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íses desenvolvidos, seria importante a investiga- Monitoramento
ção dos fatores facilitadores e dificultadores em e avaliação da adesão ao tratamento
contextos com recursos limitados, o que poderia
favorecer a implementação de estratégias para Uma vez que a adesão é um ponto crucial para o
promoção da adesão ao TARV com base nas rea- sucesso da terapia antirretroviral, surge um ou-
lidades locais. tro desafio: como saber se os pacientes estão to-
Adesão é entendida como o estabelecimento mando corretamente os medicamentos? As for-
de uma atividade conjunta na qual o paciente mas para monitorar e medir a adesão têm sido
não é um mero seguidor da orientação médica, um dos maiores desafios para quem trabalha
mas entende e concorda com a prescrição reco- em saúde, uma vez que não há métodos ou pro-
mendada7. Nessa perspectiva, adesão deve ser cedimentos capazes de garantir a adoção de um
compreendida como um processo dinâmico, padrão adequado quanto à adesão de uma pes-
multideterminado e de corresponsabilidade en- soa. Por outro lado, a fidedignidade da medida
tre paciente e equipe de saúde. de adesão ao tratamento antirretroviral é essen-
Atualmente, apesar dos esquemas terapêuti- cial para avaliar as intervenções propostas, me-
cos estarem mais simplificados, com a disponi- lhorar o seguimento do tratamento e prevenir a
bilidade de combinações de medicamentos cujo resistência viral.
uso é mais fácil, permanecem vários desafios para Existem vários métodos e técnicas desenvol-
a adesão ao TARV que requerem o envolvimen- vidos com o objetivo de aferir a adesão em doen-
to de todos: paciente, equipe de saúde, família e ças crônicas, alguns utilizando recursos tecnoló-
demais pessoas da rede social de apoio. Ademais, gicos sofisticados como, por exemplo, a conta-
é fundamental considerar que, até o presente gem eletrônica de pílulas, mas nenhum com acu-
momento, o TARV é um tratamento para toda a rácia suficiente para definir a real situação de uso
vida, que pode trazer efeitos secundários para dos medicamentos11-13.
muitos pacientes, e que a enfermidade ainda não Melhorar a qualidade da medida da adesão,
tem cura. Isso torna necessário uma atenção es- tanto no contexto clínico quanto no de pesquisa,
pecial na preparação dos usuários ao iniciar o é importante por várias razões. No contexto clí-
tratamento, a fim de que seus benefícios sejam nico, o monitoramento da adesão é fundamen-
compreendidos e que este assuma um significa- tal para identificar precocemente aqueles pacien-
do positivo na vida da pessoa HIV+. É funda- tes em risco de não adesão, ou aqueles que já
mental, ainda, que seja desenvolvida uma estru- estão apresentando dificuldades, a fim de plane-
tura de seguimento e de apoio psicossocial para jar intervenções de apoio ao tratamento de acor-
o paciente ao longo do tratamento, uma vez que do com cada caso. No que concerne ao contexto
os níveis de adesão tendem a diminuir após perí- de pesquisa, o aprimoramento das medidas de
odos prolongados de uso de medicamentos. adesão pode dar informações mais precisas acerca
Outro desafio do TARV se refere ao nível ele- da prevalência de não adesão, sobre preditores
vado de adesão exigido para que o tratamento de baixa adesão e identificação de populações mais
seja eficaz 8. À guisa de exemplo, estudo com de- vulneráveis a serem priorizadas no desenvolvi-
lineamento prospectivo (seguimento de três a mento de políticas públicas12. Ademais, quanto
quinze meses), realizado por Paterson et al.9, com mais fidedigna a informação sobre o uso dos
81 pacientes norte-americanos HIV+, mostrou medicamentos, e coerente com as necessidades
que 81% dos pacientes que autorrelataram ade- das pessoas, maiores as chances de que as políti-
são igual ou superior a 95% das doses prescritas cas em saúde pública tragam impacto efetivo
conseguiram manter a carga viral indetectável nas para a população. Em países com recursos limi-
avaliações subsequentes. Alguns pesquisadores tados, o monitoramento da adesão é crucial, con-
alertam ainda que a adesão insatisfatória pode siderando que as opções de medicamentos de se-
estar associada ao desenvolvimento de resistên- gunda linha ainda são bastante limitadas e efeti-
cia viral aos medicamentos10. vamente inexistentes, tal como ocorre na maio-
O objetivo do presente artigo é discutir as ria dos países africanos. Nessa perspectiva, a iden-
possibilidades e desafios no processo de moni- tificação precoce de riscos ou vulnerabilidades
toramento e avaliação da adesão ao tratamento para a não adesão é essencial para se prevenir o
antirretroviral, com destaque para o trabalho desenvolvimento de resistência viral, consequên-
com pessoas com baixa escolaridade e em países cia que pode limitar o acesso das pessoas às pos-
com recursos limitados. sibilidades de tratamento.
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Segundo Oyugi et al.13, ainda não há medidas Métodos e técnicas para monitorar
validadas de adesão, específicas para lugares com e avaliar a adesão ao tratamento
recursos limitados, não obstante tais medidas
serem essenciais para compreender melhor as Autorrelato
barreiras à adesão nesses contextos. Em países
com essas características, o desafio do monito- O autorrelato tem sido o método mais utili-
ramento sistemático da adesão parece ser ainda zado para monitorar e obter informações sobre
maior, tendo em vista a presença de problemas a adesão, tanto em pesquisas quanto na atenção
estruturais que envolvem a falta de recursos hu- cotidiana em saúde. Tem como vantagens ser de
manos nos serviços de saúde, baixa qualificação baixo custo, flexível, tomar pouco tempo, depen-
técnica, grande sobrecarga de trabalho pelo nú- der de pouco staff e, em especial no contexto clí-
mero de pacientes/dia por profissional, além de nico, proporcionar escuta e discussão acerca dos
condições laboratoriais limitadas para um bom motivos e dificuldades relativas às doses perdi-
seguimento clínico do paciente. das e possíveis soluções. Entretanto, alguns au-
Cabe destacar, no entanto, que a obtenção de tores15,16 ressaltam que o uso dessa técnica apre-
níveis satisfatórios de adesão em pessoas soro- senta vários desafios, uma vez que existem dife-
positivas vivendo em países com recursos limi- renças entre os métodos para aferição da adesão
tados é possível, segundo estudo realizado por a partir de autorrelato. Essas diferenças dificul-
Mills et al.14. Os autores analisaram resultados tam, muitas vezes, a comparação dos resultados
de pesquisas sobre adesão ao TARV com amos- de estudos que utilizam este método.
tras de pacientes norte-americanos (31 estudos) Outro aspecto a ser considerado no uso do
e pacientes de países da África Subsaariana (27 autorrelato é a tendência dos pacientes superes-
estudos). A partir de meta-análise, os pesquisa- timarem a adesão com receio de decepcionar ou
dores estimaram que 77% das pessoas em TARV desagradar os profissionais de saúde, o que pode
apresentaram níveis satisfatórios de adesão com ser explicado pelo fenômeno da desejabilidade
base nos resultados dos estudos da África Sub- social. Uma forma de minimizar esse efeito é com-
saariana, enquanto que apenas 55% dos pacien- binar o autorrelato mediante entrevista, por
tes norte-americanos atingiram bons níveis de exemplo, com outras estratégias de autorrelato,
adesão. como instrumentos padronizados específicos17-
Atualmente, os métodos utilizados para afe- 19
. Outro aspecto fundamental é a existência de
rição da adesão incluem medidas indiretas e me- uma relação profissional-usuário pautada no
didas diretas. Entre as medidas indiretas, pode- acolhimento e no vínculo, permitindo que o pa-
se incluir o autorrelato, o monitoramento ele- ciente verbalize de modo franco e fidedigno so-
trônico de medicamentos (electronic medication bre temas relativos ao seu tratamento20.
monitoring), a contagem de comprimidos e os Em estudos que usaram o autorrelato me-
registros referentes à retirada de medicamentos diante entrevista, encontramos vários tipos de
da farmácia. As medidas diretas incluem, por estratégias para a obtenção das informações so-
exemplo, a detecção dos medicamentos antirre- bre a conduta de adesão. Normalmente, as per-
trovirais ou de seus metabolizadores no sangue. guntas se concentram no número de doses ou de
Para Berg e Arnstein12, o tratamento diretamen- comprimidos/cápsulas de ARV perdidas num
te observado (TDO) pode ser considerado por determinado período de tempo, variando de um
alguns autores como um método direto de aferi- dia, três dias, uma semana a trinta dias. Alguns
ção da adesão, uma vez que possibilita a verifica- estudos também buscam informações acerca dos
ção objetiva da ingestão do medicamento. En- atrasos na ingestão dos comprimidos e nas difi-
tretanto, para estes autores, o TDO é reconheci- culdades identificadas pelo paciente21.
do como uma intervenção em adesão e não uma Sankar et al.15 destacam a importância do
estratégia de avaliação, o que parece plausível. autorrelato e das entrevistas em profundidade
para a realização de pesquisas qualitativas sobre
adesão a tratamento, assim como no contexto
clínico. Segundo estes autores, é fundamental
compreender os padrões individuais de tomada
dos medicamentos, bem como as crenças e com-
portamentos relacionados à adesão ao tratamen-
to em cada cultura. Afirmam que só seria possí-
vel acessar essa dimensão mediante o contato
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direto com a realidade vivenciada pelo sujeito. como base o conhecimento prévio da escolari-
Nessa perspectiva, conhecer as características dade da população-alvo, e foi identificado um
socioculturais e as especificidades do contexto são conceito de quantidade que fizesse sentido na
aspectos fundamentais que devem ser conside- cultura local. Trata-se de uma representação de
rados no desenvolvimento de instrumentos para cinco copos com quantidades diferentes de con-
o monitoramento da adesão e na implementa- teúdo, procurando relacionar a quantidade de
ção de estratégias para fortalecê-la de modo efi- líquido existente em cada um deles com a frequ-
caz e coerente com a diversidade das situações ência do comportamento investigado (uso dos
vividas pelas pessoas em tratamento. medicamentos ARV em determinado período de
O autorrelato pode ser facilitado por recur- tempo). Por exemplo, a figura de um copo cheio
sos complementares, como uma escala analógi- representa sempre, o copo quase cheio representa
ca visual e teste de comprimidos. O teste de com- quase sempre, o copo pela metade às vezes, o copo
primidos consiste em apresentar uma amostra quase vazio representa quase nunca e o copo va-
de medicamentos diferentes na qual são incluí- zio equivale a nunca. Essa estratégia permitiu uma
dos dois comprimidos muito parecidos com os compreensão adequada da escala intervalar, ao
do esquema prescrito para o paciente e outros associar um conceito de frequência abstrato com
comprimidos comuns ao tratamento, além dos uma figura concreta comum no cotidiano dos
antirretrovirais. Pede-se ao paciente para apon- participantes.
tar quais ele está tomando. É possível identificar
se há dificuldades de compreensão quanto à in- Monitoramento eletrônico
gestão ou confusão entre os medicamentos e dos medicamentos
horários22 . Esse método é especialmente interes-
sante para uma população de baixa escolaridade O monitoramento eletrônico dos medica-
que tem dificuldades em ler ou guardar o nome mentos (MEM) tem sido utilizado para medir a
do medicamento que está em uso23. adesão em várias doenças, em especial nas pes-
A escala analógica visual tem sido utilizada quisas com pessoas HIV+12,25 . Um dos exemplos
em vários estudos na área de saúde, principal- desse método é a utilização de frascos de medica-
mente em trabalhos relacionados com dor crô- mentos adaptados com um microprocessador
nica e aguda. Recentemente, percebe-se o aumento na tampa que marca a hora e a data quando o
da utilização desse tipo de escala em estudos so- frasco foi aberto, e a dose presumida retirada. A
bre adesão ao tratamento antirretroviral13,16,24. informação fica armazenada até que seja descar-
Os instrumentos mais comumente utilizados in- regada no computador.
cluem uma escala ordinal na qual o menor nú- Os benefícios do monitoramento eletrônico
mero representa a menor frequência de experi- incluem a possibilidade de verificar, inclusive, o
ência em questão (por exemplo, adesão aos me- intervalo entre as doses, além do número de ve-
dicamentos ou presença de dor) e o maior nú- zes que o frasco foi aberto e o medicamento in-
mero representa a maior quantidade ou intensi- gerido. Para alguns participantes, o uso deste mé-
dade. Nas escalas de dor, encontramos legendas todo pode melhorar a própria adesão, uma vez
que exemplificam a quantidade através de nú- que cria o hábito de gerenciar a abertura do fras-
meros e, no uso pediátrico, podemos encontrar co. Estudiosos observaram vantagens desse mé-
rostos ou outras figuras representativas da quan- todo associado ao autorrelato, indicando maior
tidade de dor ou desconforto, como, por exem- validade preditiva quanto à supressão viral quan-
plo, faces sorridentes que significam ausência de do ambos foram usados de modo complemen-
dor até figuras com choro ou expressão facial de tar, em comparação com a utilização de apenas
muita dor. um deles separadamente26.
Considerando que na maior parte dos países Uma dificuldade no uso do MEM está em
com recursos limitados encontramos altos índi- garantir que, de fato, o medicamento retirado
ces de analfabetismo, é importante identificar foi ingerido, ou que não foram retirados mais
estratégias que auxiliem na obtenção de infor- comprimidos/doses por vez, nos momentos em
mações sobre o tratamento dos pacientes. Um que o frasco é aberto. Há ainda dificuldades de
exemplo é a escala analógica visual desenvolvida ordem técnica, como o tempo que se leva para
por Polejack 23 em estudo sobre adesão ao trata- transferir os dados para o computador e a logís-
mento e qualidade de vida, que contou com 75 tica necessária para isso. Outra desvantagem se
participantes em tratamento antirretroviral em refere ao custo elevado de cada frasco, o que faz
Maputo (Moçambique). Essa estratégia tomou com que seja inviável para uso clínico, ainda mais
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em países com recursos financeiros limitados, vamente a data de retirada dos medicamentos
sendo portanto mais utilizado em pesquisas que na farmácia com marcadores biológicos, em es-
recebem financiamento de agências de fomento. pecial com a carga viral26 .

Contagem de pílulas Monitoramento dos níveis


de medicamento ARV
A contagem de pílulas pode ocorrer de forma
anunciada ou de forma inesperada. A contagem O monitoramento dos níveis de medicamen-
de forma anunciada pode ocorrer nas consultas to ARV no sangue tem sido considerado uma
clínicas ou quando o paciente retorna à farmácia medida direta e objetiva de adesão aos medica-
para buscar mais comprimidos e traz seu frasco mentos que pode ser usada tanto na clínica quan-
com o saldo de comprimidos. Alguns estudos to em pesquisas. A análise é feita mediante o re-
citados por Berg e Arnstein12 demonstram uma sultado de um exame de sangue que indica os
correlação moderada entre a contagem de pílu- níveis de medicamento presentes. Alexander et
las, o MEM e níveis de carga viral. al., citados por Berg e Arnstein12, demonstraram
Esse método pode ser ineficaz se o paciente associação entre baixos níveis de medicamento
não se sentir bem acolhido ou não tiver uma boa no sangue com autorrelato de não adesão e fa-
relação com a equipe de saúde a ponto de relatar lência terapêutica.
suas dificuldades com o tratamento. Sendo as- Apesar de ser uma medida objetiva, apresen-
sim, pode esvaziar o frasco antes de trazê-lo ou ta várias desvantagens. A principal delas é que o
ainda omitir as falhas na ingestão dos medica- exame de sangue só é capaz de refletir a ingestão
mentos. Outro ponto a ser considerado é que a do medicamento nas últimas 24 horas, ou seja,
contagem de pílulas requer uma boa organiza- pacientes cientes de que irão colher sangue po-
ção dos registros da própria farmácia, a fim de dem tomar os ARV no dia anterior, sem contudo
identificar corretamente a data em que o pacien- significar que vinham tomando os medicamen-
te buscou os medicamentos, o número de com- tos de modo regular anteriormente. Outra limi-
primidos que levou e quando deverá retornar tação é que os resultados podem variar devido a
para buscar outra quantidade. fatores como a interação com outros medica-
Por outro lado, a contagem inesperada de mentos ou com determinados alimentos. Entre-
pílulas é mais utilizada em pesquisas e requer, tanto, o fator que mais dificulta sua utilização
por exemplo, visita domiciliar de surpresa para em grande escala é o custo elevado, além da ne-
o paciente. O fator surpresa diminui a possibili- cessidade de equipamentos e procedimentos de
dade de esvaziar o frasco antes, entretanto pode coleta padronizados.
reforçar para o paciente o sentimento de policia-
mento ou de desconfiança da equipe acerca de
seu comportamento de adesão. Ademais, qual- Considerações finais
quer intervenção que possa prejudicar a relação
entre paciente e equipe de saúde deve ser conside- Pode-se concluir que a adesão é um fenômeno
rada contraproducente27-29. complexo e dinâmico, sem uma medida padrão-
ouro definida para seu monitoramento e aferi-
Registro da farmácia de dispensação de ARV ção. Cada método apresenta vantagens e des-
vantagens e é preciso considerar aspectos logísti-
O uso dos registros da farmácia como medi- cos, conceituais e empíricos para utilizá-los de
da de adesão é muito comum em pesquisas nas acordo com a realidade dos diferentes contextos
quais este estabelecimento tem controle sobre a socioculturais e econômicos, principalmente em
dispensação dos antirretrovirais. Um dos indi- países com recursos limitados. A combinação de
cadores dos níveis de adesão pode ser a data de dois ou mais métodos parece auxiliar no proces-
retirada dos medicamentos da farmácia compa- so de monitoramento da adesão e deve ser con-
rada com a data esperada. Essa medida baseia- siderada, tanto no contexto clínico quanto em
se na possibilidade de que pacientes que buscam pesquisas26 .
seus medicamentos na data certa tendem a tomá- É importante salientar que o monitoramen-
los mais corretamente do que aqueles que atra- to da adesão deve ser utilizado como uma estra-
sam até mesmo na retirada de seus medicamen- tégia de apoio ao paciente, na medida em que
tos da farmácia. A validade dessa premissa foi auxilia a equipe de saúde a identificar possíveis
testada em estudos que correlacionaram positi- dificuldades, o que permite delinear um plano de
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intervenção de acordo com as demandas e ne- trabalha com HIV/aids, principalmente se con-
cessidades de cada usuário. Portanto, deve ser siderarmos que medidas mais eficazes permiti-
utilizada como um recurso de ajuda ao paciente rão o desenvolvimento de estratégias e interven-
e não como uma forma de culpá-lo pelas dificul- ções mais custo-efetivas. E isso é urgente se pen-
dades de adesão. sarmos nas possibilidades de desenvolvimento
Encontrar formas mais eficazes de mensura- de resistência viral e no impacto da epidemia no
ção e monitoramento da adesão ainda permane- futuro da humanidade, principalmente nos paí-
ce um grande campo de investigação para quem ses com recursos limitados.

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