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A REPRESENTAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO NOS ATLAS MUNICIPAIS, SUA

CONSTRUÇÃO E UTILIZAÇÃO NA GEOGRAFIA ESCOLAR: UM ESTUDO SOBRE


A ELABORAÇÃO DO ATLAS MUNICIPAL DA CIDADE DE PETRÓPOLIS-RJ.

Fabrício Pimenta da Cunha¹ ²


Maria Inês de Souza Braga³

¹ UFF – Universidade Federal Fluminense - Niterói - RJ


² CEPEC – Centro Educacional Petropolitano Cristão – Petrópolis - RJ
³ E.M. Santo Agostinho - Duque de Caxias - RJ

Artigo Publicado no VI Colóquio de Cartografia para Crianças e Escolares e II Fórum


Latino americano de Cartografia para Escolares, 17 a 19 de Junho de 2009.

Resumo

A representação do espaço geográfico tem na cartografia uma grande aliada para a


compreensão dos diversos fatores no qual constituem sua formação e sua estrutura, a partir de
localização destes fatores representados nos mapas, podemos entender como ocorre a dinâmica
espacial a luz de outras características geográficas, os mapas nos ajudam a entender como a
localização de determinados fatores influência na dinâmica no espaço geográfico.
A proposta de criar um Atlas Municipal da Cidade de Petrópolis vem da emergência do
conhecimento do espaço Petropolitano, tanto por parte dos professores como dos discentes do
município, que na sua maioria não conseguem identificar sua localização no Estado do Rio de
Janeiro e sua formação espacial.
A fim de contribuir para uma aprendizagem significativa é que se pretende
construir/elaborar um Atlas do Município de Petrópolis, a partir do qual os alunos poderão
analisar as feições do espaço e seus fatores, pois estes pertencem a realidade vivenciadas pelos
mesmos, como por exemplo, o estudo das redes hidrográficas que podem ser estudadas a partir
de bacias na qual se localiza a escola e as residências dos próprios alunos, o que torna o
conhecimento teórico em empírico pois estes, faz parte do seu cotidiano e o torna passível de
observações e comprovações.

Palavras-chave: Atlas Escolar, Geografia, Ensino, Espaço.


Introdução e descrição conceitual

A elaboração do Atlas Municipal de Petrópolis, vem sendo pensado e planejado a


alguns anos, este só passou a ser realmente uma realidade após leituras de bibliografias a cerca
do tema, que se multiplicaram durante o decorrer da década de 90, onde surgiram as primeiras
propostas, artigos e o surgimento dos primeiros Atlas Municipais, que tem como objetivo a
realização do estudo local da disposição ou/e espacialização dos fenômenos e objetos.
Retratar os aspectos geográficos da paisagem em escala a nível municipal se torna um
grande aliado para os professores e alunos para compreender a dinâmica ocorrida no espaço,
muitos autores discorrem sobre os níveis escalares e como se dá a aprendizagem em cada um
desses níveis, desde o que requerem grandes abstrações aos mais palpáveis, o espaço próximo,
o espaço vivido, e é a este que se pretende dar maior ênfase neste trabalho, não
desconsiderando a importância dos demais níveis de escala, pois no espaço geográfico
acontecimentos a níveis mundiais modificam o local , como o contrário também acontece o
espaço é dinâmico e de grande complexidade, aqui se optou pela escala local com questão
metodológica.
Vários conceitos nortearam a concepção deste projeto, um dos quais vem sendo
discutidos e debatido por toda a história da ciência geográfica, a paisagem, que podemos
dizer que é um conceito muito explorado por geógrafos do século XIX, e que pouco povoou os
trabalhos e ensaios geográficos no decorrer do século XX, este foi recuperado pelos autores da
chamada Geografia Radical, que se preocupava não somente em inserir na geografia
acadêmica as questões socioeconômicas, mais também a volta aos clássicos, os primeiros
sistematizadores da disciplina, tanto que o nome da corrente Geografia Radial, remete a função
matemática do Radical que extrai a raiz dos números, a volta a raiz da geografia trouxe consigo
o debate do conceito de Paisagem.
O conceito de paisagem contido nesta obra, foi retirado de Milton Santos assim como
o conceito de espaço que trataremos mais adiante no decorrer do presente artigo, por paisagem
estende-se:

Tudo o que nós vemos, o que nossa visão alcança,é a


paisagem. Esta pode ser definida como o domínio do visível,
aquilo que a vista abarca. É formada não apenas de volumes
mas também de cores, movimento, odores, sons etc.
( SANTOS, 1988 )
Como podemos observar no conceito exposto a paisagem não é só entendida apenas
como formas, daí a importância de mapas que tratem da realidade próxima dos alunos, pois
estes poderão além de ter as formas espacializadas no papel visualizarão o movimento,
sentirão os odores, escutarão os sons que emitem daquela paisagem que está friamente
disposta no papel, e quando falamos friamente de jeito algum colocamos em dúvida a
eficácia dos mapas, só complementamos que no espaço vivido estes passam a ter outra
dimensão para os alunos, a dimensão real, a dimensão da vida cotidiana.
A paisagem como conceito nos ajuda a entender porque os mapas que retratam a
localidade são de extrema importância para os alunos, não que uma paisagem distante não
possa ser compreendida pelos mesmos, mais esta dependerá de um grande exercício de
abstração por parte dos alunos, que na sua maioria só a observaram por meio de fotos e
mapas, o que não os torna capaz de entender as dinâmicas espaciais, econômicas, culturais
que correm nestas, mas quando a paisagem estudada passa a ser o seu espaço vivido os
mapas e fotografias ganham materialidade e dinâmica, o que pode e deve ser explorado pelos
professores e alunos.
A representação do espaço nos Atlas Municipais e consequentemente a melhor
compreensão das dinâmicas espaciais, além de ser um grande instrumento pedagógico
possibilita ao aluno a sua interferência nas dinâmicas no espaço, é nesse sentido que o aluno,
no processo de ensino-aprendizagem, passa a ler o espaço e pensar a sua transformação,
(SILVA JUNIOR, W.), esta questão remete ao conceito de cidadania na qual o estudante
passa e ter entendimento do seu espaço e através deste, mecanismos para atuar na sua
modificação e melhoria, para que este possa proporcionar qualidade de vida para todos os
cidadãos.
O estudo da localidade é de grande importância como já discorremos acima. Na
geografia o local foi durante o século XIX um dos principais interesses dos geógrafos, tanto
que um grande nome da geografia Vidal de La Blache chega a dizer que a Geografia é a
ciência dos lugares, o grande problema desta afirmação e que sofreu grandes crítica durante
os anos seguintes, é que a geografia dos lugares a qual La Blache se referia estava mais
preocupada com a inventariação dos lugares, dando pouca importância às relações e
dinâmicas ocorridas nestes e com outros locais. O que queremos com a elaboração do Atlas
Municipal de Petrópolis, não é uma volta a geografia estritamente Lablacheana na qual não
podemos deixar de afirmar, proporcionou um grande salto em metodologia e
conceitualização da ciência geográfica, mas o que se espera é que a partir do conhecimento
do lugar e das dinâmicas ocorridas neste, possa-se fazer paralelos como outros espaços em
diversos níveis escalares e as dinâmicas que estão presentes nestes.
Durante o Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, foram elaborados os
PCN`s (Parâmetros Curriculares Nacional) que abrangiam todas as disciplinas escolares,
este servem como referência para a elaboração dos Currículos escolares, nos PCN’s foram
abordadas a importância do estudo da localidade, do espaço vivido dos estudantes e o
aproveitamento dos saberes cotidianos nas práticas e disciplinas escolares, em um dos
trechos que abordam essa temática diz:

“Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma


base nacional comum, a ser complementada (...) por uma
parte diversificada, exigida pelas características regionais e
locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela”
( BRASIL, 1996. Grifo nosso).

Os PCN`s no que se referem ao ensino da ciência geográfica, mostram a importância da


localidade a ser debatida e estudada na sala de aula e como esta auxilia o trabalho dos
professores.

“ ... a paisagem local e o espaço vivido são referências para o


professor organizar o seu trabalho” (BRASIL, 1997)
“ ... no estudo dos lugares, para que o aluno possa se situar
melhor, a cartografia estará neste ciclo priorizando a grande
escala, garantindo-lhe maior detalhamento dos fatos que
caracterizam o espaço de vivência no seu cotidiano ( BRASIL,
1997).

A localidade passa a ser uma escala de análise que proporciona o aluno espacializar os
objetos no espaço e compreender a ações que nele se desenvolvem dinamicamente. É neste
sentido que concebemos o espaço geográfico como sendo um sistema de objetos e ações
(SANTOS, 1996), a localização dos objetos no espaço passa a ser uma grande contribuição no
Atlas Municipal, e as ações nas quais os espaços se produzem são de melhor identificação
quando este espaço nos é próximo, assim o Atlas não é um fim, mais um meio para se
desvendar como o espaço se produz.
Desvendar e estudar a produção e o consumo do espaço no ensino fundamental e
médio, é um desafio para alunos e professores mas quando se trata da realidade mais próxima
e vivida torna a compreensão fácil e pode se dar ênfase a dinâmica ocorrida neste.
O Município de Petrópolis desde meados da década de 80, implementou uma disciplina
em seu currículo escolar que trata dos aspectos geográficos, históricos e turístico do município,
esta disciplina é obrigatória nas escolas municipais, e contam com um material específico,
ementas a serem cumpridas em cada seguimento escolar, estas apostilas reúnem aspectos sobre
o espaço petropolitano, sua formação e como este é aproveitado para as funções turística, que é
de onde vem o maior parte das divisas do município.

Breve histórico da cidade de Petrópolis e a construção/representação espacial no Atlas


Municipal de Petrópolis

A cidade de Petrópolis tomada aqui como objeto de estudo, se localiza


geograficamente na região serrana do estado do Rio de Janeiro (Serra do mar), considerada
uma cidade de clima ameno que varia entre 10° e 30° C, sua altitude média é de 809m.
Petrópolis também é considerada a única cidade imperial das Américas, esta foi fundada em 16
de março de 1843 do D.Pedro II, que possuía uma casa de veraneio na cidade, para fugir do
clima quente da cidade do Rio de Janeiro, na época capital do Império.
O primeiro plano urbanístico da cidade foi construído a pedido do imperador D. Pedro
II, ao engenheiro Júlio Frederico Koeler 1, que projetou a cidade de Petrópolis em consonância
com a rede hidrográfica, as casas e prédio da cidade foram projetadas para que suas entradas e
janelas dessem de frente para os rios, que se caracterizavam por suas águas cristalinas, o
padrão de drenagem dendrítica2 que é característica da região, serviu como suporte ao
planejamento de Koeler.
1
Júlio Frederico Koeler nasceu na cidade de Mognúncia, no dia 16 de junho de 1804, na Alemanha. Logo
após ter saído do exército prussiano, como Alferes, emigrou para o Brasil em 1828, sendo contratado para
servir ao Exército Imperial, devido à falta de oficiais no Brasil. Arrendou a Fazenda Imperial entre 27 de
julho de 1843, foi quem projetou a planta urbana de Petrópolis. Teve a idéia de mudar o velho estilo colonial
de construir as casas de fundos para os rios que eram utilizados apenas como esgoto. Passou a aproveitar os
cursos de água, para traçar pelas suas margens as avenidas e as ruas que davam acesso aos bairros.
2
Padrão de drenagem dendrítica é a forma que as linhas de água tomam. Este tipo de drenagem é assim
designado por se assemelhar a uma árvore (do grego dendros - árvore). Este tipo de drenagem desenvolve-se
em rochas de resistência uniforme.
FIGURA 1 Planta de Petrópolis elaborada por Koeler em 1846
Fonte: www.compuland.com.br/.../plantapet.jpg

Uma das questões que serão abordadas no Atlas Municipal de Petrópolis, é a


transformação do espaço, esta análise se dará desde o primeiro plano urbanístico elaborado por
Koeler até a atual configuração espacial do município, abordando como ocorreu a rápida
evolução urbana e a ocupação de risco em vertentes muito inclinadas e nos leitos dos rios,
ocupadas basicamente pela população com baixo poder aquisitivo.
Um Atlas municipal que ignore a formação espacial histórica do município, perde em
avanço e qualidade, pois é com base nas transformações sucessivas ocorridas durante os anos é
que visualizamos os espaços futuros. Uma renomada autora da geografia Doreen Massey, nos
diz em sua concetualização de espaço geográfico, das possibilidades e do espaço sempre em
construção:

“ ...o espaço é, sem dúvida, um produto de relações, e para que


assim o seja tem de haver multiplicidade. No entanto, não
relações de um sistema coerente, fechado, dentro do qual, como
se diz, tudo está relacionado com tudo ´...` é um espaço de
resultados imprevisíveis e de ligações ausentes. Para que o
futuro seja aberto, o espaço também deve se-lô ” ( MASSEY,
2008)

A autora retrata o espaço sempre como possibilidade, em devir sempre em construção,


mas esta não renega a importância das trajetórias, segundo a mesma o espaço é um conjunto de
múltiplas trajetórias (MASSEY, 2008), estas trajetórias são extrema importância para a
construção do espaço. Quando ela cita que o espaço deve ser aberto para que o futuro também
o seja, nos permite a constatação que a representação do espaço próximo e vivenciado pelo
aluno o permite visualizar o futuro como exercício de abstração, mas que este está sempre em
construção daí vem a importância da vivência no espaço, pois esta construção ocorre em sua
vivência no cotidiano.

Metodologia

Nas pesquisas que fizemos para a elaboração do Atlas, procuramos por acervos
cartográficos no município e o que encontramos foi um grande número de mapas antigos
da cidade. Por ser a primeira cidade planejada das Américas esta foi exaustivamente
cartografada por seus idealizadores, o que não encontramos foi um material cartográfico
didático para os escolares, nos materiais que são distribuídos aos alunos para as aulas de
História, Geografia e Turismo de Petrópolis (HGTP) há textos se referindo as bacias
hidrográficas de Petrópolis, mas não há nenhum mapa espacializando as áreas das bacias,
daí a emergência na elaboração de um material didático que auxilie na compreensão do
espaço.
O que venho propor através deste artigo é a elaboração de um Atlas Escolar do
Município de Petrópolis, que sirva de auxilio à disciplina História e Geografia e Turismo
de Petrópolis e às demais ciências escolares que trabalhem com a realidade local, sendo
assim a elaboração do Atlas municipal, servirá como material de apoio aos professores do
município que terão a sua disposição um material próprio e adequado a sua realidade.
Segundo a metodologia que optamos em seguir para a elaboração deste projeto,
pontuamos em nível seqüencial as etapas que serão cumpridas, na elaboração do Atlas
Escolar do Município de Petrópolis estas serão as seguintes:
• Aquisição das bases cartográficas, para a elaboração dos mapas;
• Reunião com professores da rede municipal de educação, para estabelecer quais
mapas deverão estar presente no Atlas;
• Pesquisa para a elaboração dos mapas históricos;
• Elaboração dos mapas;
• Revisão por parte dos professores e da Secretaria de Educação;
• Elaboração dos exercícios baseados no Atlas que constarão do mesmo no formato
CD-ROM;
• Finalização Atlas Escolar Municipal de Petrópolis.

Os mapas serão elaborados através de bases cartográficas retiradas do Instituto


Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e algumas cedidas pelas secretarias de
governo municipal de Petrópolis, essas bases serão estruturadas em um banco de dados
criado especificamente para o projeto, e que são tratados em um SIG ( Sistema de
Informação Geográfica) e posteriormente serão gerados os mapas que comporão o Atlas
Municipal.
A realização da escolha dos mapas para compor o Atlas, partirá de debates com os
professores de geografia e docentes que ministram as aulas de HGTP, e com base nas
demandas destes professores e nos conteúdos abordados nas apostilas que são distribuídas
a todos os alunos.
Os mapas que a princípio serão elaborados a partir dos materiais didáticos são os
seguintes:
• Mapa de Localização do Município;
• Mapa das Micro-Regiões do Estado do Rio de Janeiro;
• Mapa da Distribuição espacial das Sesmarias em Petrópolis;
• Mapa de Localização das Principais Fazendas, que deram origem ao município;
• Mapa dos limites do município de Petrópolis com os municípios vizinhos;
• Mapa de Distritos;
• Mapa de População;
• Mapa com a localização dos Pontos Turísticos;
• Mapa das Bacias Hidrográficas de Petrópolis;
• Mapa da Hidrografia (rios)
• Mapa de Clima;
• Mapa de Vegetação;
• Mapa de Solos;
• Mapa de Relevo;
• Mapa das áreas de Proteção Ambiental do Município;
• Mapa da distribuição espacial das Indústrias;
• Mapa de Uso do Solo;
• Mapa de Evolução Urbana;
• Mapas Históricos;
• Mapa Histórico dos Transportes;

Conclusão

O trabalho acima apresentado vem contribuir tanto para o debate acerca do tema dos
Atlas municipais, que vem ganhando grande importância nos estudos sobre a cartografia
escolar, nos estudos da paisagem, do espaço e da localidade, quanto para a comunidade
escolar- professores e alunos que poderão contar com um valioso material de apoio que
subsidiará o ensino colaborando para o desenvolvimento integral do educando, pois a partir da
própria realidade será capaz de analisar, avaliar e olhar de forma mais crítica para o seu espaço
vivido.
Esperamos que as discussões metodológicas aqui apresentadas sirvam para suscitar o
debate em toda a comunidade cientifica acerca desta temática que muito tem a nos auxiliar e
que nos faça retomar visões nem sempre utilizadas pela maioria dos estudiosos, mas que são
bastante atuais e pertinentes quando nos propomos a desenvolver o tema cartografia escolar.
Enfim, que possamos a partir deste trabalho reconhecer o nosso papel de educador
sabendo o quanto podemos fazer para enriquecer nosso trabalho com os alunos proporcionando
a estes meios eficazes para a compreensão da dinâmica espacial e a intervenção no seu espaço
próximo levando a estes uma maior qualidade de vida.

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