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Série Cris 01 - Promessa de Verão

Série Cris 01 - Promessa de Verão

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(pág 101)

Serie Cris 1 - Promessa de Verão
Robin Jones Gunn
Editora Betania Digitalização: deisemat www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

PROMESSA DE VERÃO 1

ROBIN JONES GUNN

Começando Mal 1
- Eu te detesto! gritou Cris Miller, olhando-se no espelho do closet. Com um gemido de gata ferida ela enrolou a toalha de "praia e jogou-a no espelho, observando como ele distorcia sua imagem de magricela. - Cris, querida? veio do corredor uma voz aguda. Voltou tão depressa da praia? - Sim, tia Marta,
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Serie Cris 1 - Promessa de Verão
Robin Jones Gunn
Editora Betania Digitalização: deisemat www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

PROMESSA DE VERÃO 1

ROBIN JONES GUNN

Começando Mal 1
- Eu te detesto! gritou Cris Miller, olhando-se no espelho do closet. Com um gemido de gata ferida ela enrolou a toalha de "praia e jogou-a no espelho, observando como ele distorcia sua imagem de magricela. - Cris, querida? veio do corredor uma voz aguda. Voltou tão depressa da praia? - Sim, tia Marta,

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Serie Cris 1 - Promessa de Verão
Robin Jones Gunn
Editora Betania Digitalização: deisemat www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

PROMESSA DE VERÃO 1

ROBIN JONES GUNN

Começando Mal 1
- Eu te detesto! gritou Cris Miller, olhando-se no espelho do closet. Com um gemido de gata ferida ela enrolou a toalha de "praia e jogou-a no espelho, observando como ele distorcia sua imagem de magricela. - Cris, querida? veio do corredor uma voz aguda. Voltou tão depressa da praia? - Sim, tia Marta, disse Cris, pegando uma escova e fingindo desembaraçar seu longo cabelo castanho. Sua tia era uma mulher esbelta e elegante, com cerca de quarenta anos de idade. Abrindo a porta do quarto de hóspedes, ela olhou em volta e perguntou: - Que barulheira foi essa, querida? Com quem estava falando? - Com ninguém. Só estava pensando alto, respondeu Cris calmamente, tentando abafar o vulcão de emoções prestes a explodir. - Por que você não está na praia, meu bem? O dia está maravilhoso e você fica aí, trancada nesse quarto, falando sozinha! Marta apontou para a porta de modo teatral. - Você devia estar lá fora se bronzeando! Aprenda a surfar! Divirta-se! A garota mordia o lábio, sem resposta. - Você está na Califórnia! Viva um pouco! Nós não trouxemos você lá do Wisconsin para passar o verão enfurnada no quarto. Saia e procure fazer amizade com o pessoal aí. De repente o vulcão interno explodiu, jorrando palavras e lágrimas. - Eu tentei, tá bem?! engasgou Cris. Tentei me enturmar com a galera na praia, mas

Cris levou alguns minutos para se recompor e dizer: .são todos uns esnobes! Não os suporto! Eles são mal-educados e maldosos.E então? insistiu Marta. Dizendo isso ela cobriu o rosto com as mãos. disse Cris. com cinquenta quilos de peso. .Eu não tenho nada a ver com as pessoas daqui.Careta. esticando os braços para mostrar seu metro e setenta. Ficou olhando sua imagem refletida no espelho. O maio inteiriço cobria seu corpo de Olívia Palito como um esparadrapo verde-cheguei.Diga que eu não pareço um picolé! . . e meu corpo é reto como uma tábua! Se isso não é uma tremenda caretice na praia de Newport. querida. as lágrimas escorriam entre os dedos.Olhe pra mim. repreendeu Marta. Eu sou branca como um picolé de coco. Riram de mim.Você não parece um picolé.E você é? desafiou a tia. tia. A garota não respondeu.Eu não imaginava! disse a tia. .Você só está dizendo isso para me consolar. Elas me acham careta. insistiu Cris. . Diga-me o que está acontecendo. . mudando o tom de voz e conduzindo Cris à beira da cama. . sentando-se no chão e .Olhe pra mim.Sou o quê? . Cris pulou da cama e colocou-se de pé diante dela. . não sei o que é! . do outro lado do quarto. respondeu a tia. um picolé de coco? .Ora Cris. .Senta.

Não é tão ruim assim. . mas é um encanto de menina e tem um potencial tremendo. Como eu estava dizendo.Ora. . entregando-lhe um lenço de papel. Talvez você demore um pouco para florescer. . tentando relaxar. disse Marta. Podemos comprar-lhe um maio novo hoje mesmo. por favor. O tipo que a pessoa fungar e urrar. gatinha! Onde você arranjou essa vagem com alças? Num catálogo de compras?" Marta parecia confusa.E isso aborreceu você? Um comentário bobo sobre um "maio que parece vagem"? . tia Marta! Cris deixou as lágrimas correr e fungou alto. Os que iram de mim e disseram: "Oi. .Por favor. Cris respirava meio ofegante.E o que eles queriam dizer com isso? . Você não entendeu? Eu comprei mesmo num catálogo de compras! A garota cobriu o rosto com as mãos e chorou até as lágrimas escorrerem pelos braços. . .Ah é? Vá dizer isso para os surfistas lá na praia. querida. e por mais que se sinta idiota e tente parar.cruzando os braços. Cris limpou o nariz com as costas da mão. Cris. vamos. O tipo de choro que vem do fundo do estômago e traz consigo uma forte dor de cabeça. meu alvo nestas férias é proporcionar a você algumas das melhores coisas .Estavam se referindo ao meu maio. acalme-se. Você merece mais do que seus pais podem lhe dar no momento. Gostaria muito de oferecer-lhe mais oportunidades do que sua mãe e eu tivemos.Use isso.Não.É exatamente por isso que eu disse à sua mãe que queria ir você passasse o verão conosco. não consegue. A tia aproveitava a oportunidade para reforçar uma idéia que vinha defendo? .

da vida. Quero também ensinar-lhe, Cristina Juliet Miller, a ser mais autoconfiante. A moça piscou e tentou segurar um forte arroto que surgira em consequência do choro. Tarde demais. O som embaraçoso, embora abafado, saiu sem querer. - É, parece que não vai ser fácil, hein, querida? - Desculpe, respondeu Cris, sentindo uma vontade incontrolável de rir. Você tem certeza de que conseguirá transformar um picolé arrotante numa pessoa autoconfiante? Pode ser perigoso! Ao dizer isso, caiu na risada, mas a tia continuou séria. - Começaremos amanhã, Cristina. Vou tentar marcar às nove horas com uma especialista para escolher suas cores. Depois iremos comprar umas roupas novas pra você. Imediatamente a moça ficou séria. - Tia, eu não trouxe quase nada de dinheiro. - Não seja tola! É um presente meu. Não são umas simples roupinhas que vão me deixar pobre. E mais uma coisa: precisamos cortar seu cabelo. Um estilo curtinho, bem na moda. Meu cabeleireiro, Maurice, faz um trabalho divino. No fim, você vai se sentir e parecer outra pessoa. Ela falou com tanta fineza que Cris quase acreditou. Um novo guarda-roupa? Novo corte de cabelo? E o que ela queria dizer com "escolher suas cores"? - Por que você não toma um banho e se arruma, meu bem? Seu tio ainda não sabe, mas ele vai levá-la para jantar hoje à noite, e depois vocês irão ao cinema, anunciou Marta ao sair. Cris aproximou-se do espelho com uma nova perspectiva. Segurou o longo cabelo castanho no alto da cabeça, e fez diversas poses, tentando imaginar como ficaria de cabelo curto. Mas não dava para visualizar muito bem a mudança. Queria que Paula estivesse ali com ela. Paula, sua melhor amiga, sempre lhe dava

conselhos quando estava diante de grandes decisões. Mas a amiga também tinha lá suas falhas. Afinal, fora ela que a ajudara a escolher aquele maio verde! Cris franziu o nariz e chegou o rosto bem perto do espelho para ver se havia novas manchas na pele. Nenhum cravo ou espinha, mas as bochechas estavam coradas demais. Além disso, o nariz vermelho e os olhos inchados revelavam sua choradeira. - Meus olhos são totalmente sem graça, murmurou. Não são azuis, nem verdes. São uma espécie de nada, como tudo em mim. - Posso entrar? perguntou o tio Bob, diante da porta entreaberta. Imediatamente ela soltou o cabelo e afastou-se do espelho, envergonhada por ter sido vista em meio a esse auto-exame aborrecido. - Parece que nós iremos ao cinema hoje. Você quer assistir a algum filme em especial? perguntou, observando-a sorridente. Ele estava usando um quepe branco e, a julgar pelas marcas de suor em sua camiseta, parecia estar voltando do campo de golfe. - Não, respondeu a moça. - Tudo bem. Vou dar uma olhada no jornal para ver o que está em cartaz. Sua tia não gosta muito de cinema. Espero que você não se importe se formos só nós dois. - Não. - Vamos sair daqui a uma hora, está bem? - Tudo bem. - A propósito, disse ele, tirando o quepe e limpando a testa. Ainda não lhe disse, mas estou muito contente por você ter vindo passar as férias conosco. Você é minha sobrinha predileta, sabia? - Também; sou a única! - Detalhe de mínima importância, minha cara, mínimo detalhe, brincou ele, saindo e fechando polidamente a porta.

Com um suspiro, Cris jogou-se sobre a cama. Não sentia vontade de tomar banho e não ia demorar para se trocar. Como tinha uma hora livre, resolveu escrever à Paula. Gostava de escrever, principalmente quando estava preocupada. Colocaria tudo no papel e, então, quando relesse, seria como olhar para os próprios pensamentos num espelho. As idéias saíam claras no papel, mais do que quando tentava falar. Pegou a caixa de papel de carta com ursinhos e começou a escrever.
Querida Paula, Como estão as coisas aí na fazenda? A viagem de avião foi divertida no começo, mas depois ficou chata. Não vi nenhum artista de cinema no aeroporto, mas guardei seu bloco para pegar alguns autógrafos, caso eu encontre alguém famoso. Lembra quando você telefonou quinta passada e eu lhe disse que não podia conversar? É porque meus pais estavam me dando o maior sermão sobre minha viagem para cá. Me fizeram prometer que nestas férias eu não faria nada de que pudesse me arrepender mais tarde. Você acredita? O engraçado é que a única coisa da qual me arrependo é ter vindo para cá. Detesto este lugar! Não há nada para fazer, e todo mundo é tão metido! É uma chatice. À noite fico sentada, vendo televisão com meu tio. Pelo menos uma coisa boa vai acontecer. Amanhã minha tia vai me levar para fazer compras e, sabe o que mais? Provavelmente vou cortar o cabelo! Você acredita? Estou com um pouco de medo, mas acho que ela quer me dar uma nova imagem, ou algo parecido. Bem, tenho de parar agora. Na próxima carta contarei como foi a grande transformação. Imagine só, talvez você nem me reconheça quando eu descer do avião, em setembro! Acho bom você me escrever! Com carinho,

. correu para a cozinha e disse um "Bom dia!'" animado ao tio Bob. Tem manteiga e calda na mesa. . Parecia um gigante respirando fundo. Eu mesmo preparei a massa e devo admitir que parece que saiu perfeita.Cris A Transformação 2 Na manhã seguinte. a cada ida e volta das ondas. merecedora de um premio.Hummm! O cheirinho é de panqueca. Tudo parecia refrescante e novo.Acertou! disse o tio. tranqüilo. Estava encantada com o oceano. Ondas espumantes quebravam na praia.Bom dia. As brancas brilhavam como um flash no azul do céu. Cris acordou com o barulho do mar. olhos brilhantes! Espere só pra ver o que eu preparei para você! . e esta é pra você. ao qual ele respondeu: . Abriu a janela para curtir a brisa. apagando as pegadas de duas pessoas que haviam corrido ali mais cedo. tirando a primeira panqueca fumegante da frigideira. Vestiu-se depressa. Abriu as cortinas e ficou olhando umas gaivotas que sobrevoavam a praia à procura de comida.

Tirou da geladeira metade de um grapefruit em gomos.. Você quer que eu beba isso? . Só temos vinte minutos antes de sua consulta de cores.Eca.Será que eu quero mesmo? Quer dizer. .Cris.Mas meu bem. fechou os olhos e levou a primeira garfada à boca. Com ar muito satisfeito. não é bom não? Com o garfo a poucos centímetros da boca e manteiga escorrendo pelos dedos. Acabe logo enquanto eu troco de sapatos. Tem todas as vitaminas e sais minerais de que necessita para que os rapazes a notem. . De repente Marta entrou na cozinha e exclamou: . rica em proteína. E tenho mais uma coisa pra você. Entregou-lhe um copo com uma bebida espumante. Tome tudo. Dizendo isso saiu da cozinha.Aqui está. . Marta tirou algo do armário. cortou-a com cuidado. num prato de vidro com uma toalhinha de papel enfeitado. tia Marta. .Claro. Bob apenas sorriu. Parecia horrível. Não é uma maravilha? O desjejum perfeito.Tomando meu café da manhã. queridinha! O que você pensa que está fazendo? .Aí. Tomou um gole.Estou impressionada! Cris foi correndo passar manteiga na panqueca. . Isto é muito melhor para você. meu bem.Vamos. O gosto era péssimo. beba! Experimente! Cris soltou o garfo e pegou o copo. sua pele seja perfeita e seu cabelo sedoso! . bateu no liquidificador e ofereceu à sobrinha. Cris olhou para o tio à procura de apoio. . você sabe quantos carboidratos têm nessa panquequinha? Isso não é um desjejum apropriado para uma moça que quer que seus olhos brilhem. entregou à garota a fruta amarga.

. Por que não pergunta a ela? .Esse é o problema. pediu: . Virou-se então para o tio que. . Pra mim chega! Cris olhou para a bebida.Não sei. O único conselho que posso dar é "a ti mesma sê fiel". Tio.Você sabe que as intenções dela são boas. Quer dizer.Tenho adotado essa . e não tenho certeza se devo. tá?! ...Seu segredo está seguro comigo. depois para a panqueca e.Sei. enfiando duas garfadas enormes na boca. parece um excelente desjejum. disse: .Vitaminas e sais minerais. empurrando-lhe o copo. você acha que eu devo cortar o cabelo? Ele sentou-se ao seu lado à mesa. esforçando-se para segurar uma risada.Eu não! Sua tia já tentou mudar minha alimentação uma vez. Sua tia é que entende de moda. disse Cris com um suspiro. Siga sua própria cabeça.Não achei graça! retrucou Cris. . .Cris olhou para a panqueca e o grapefruit. estudando seu rosto e cabelo como um fotógrafo em busca do ângulo certo. Bob deu unia piscadinha e tirou outra panqueca da frigideira. Sempre gostei do seu cabelo do jeito que é.Então beba você! disse ela. . tentando conter uma imensa gargalhada. sim. hein?! . cortando sua panqueca.Acho que não sou a melhor pessoa para responder isso. não sabe? . .Não conta pra ela não. Ela quer que eu corte o cabelo hoje. disse o Bob.A mim mesma o quê? "A ti mesmo sê fiel" é uma citação de Shakespeare. . faça o que você quer fazer e não tente agradar a todo mundo.Bem.

você vai assim? Bem. antes que a tia notasse.Bem. minha voz interior me diz que temos de correr! exclamou Marta. e gostava dele. não tem importância. mas o comentário da tia fez com que se sentisse cafona.. . e. e a blusa azul clara de mangas bufantes. Não temos tempo de trocar. deixando uma mancha de batom cor maravilha. Sentiu uma onda de depressão.É melhor você correr. . . Sempre vale a pena seguir sua voz interior! . Cris? ressaltou Bob.Querida.Espero que você tenha contado à Cris que muito do seu sucesso vem também da secretária maravilhosa que tinha em seu primeiro escritório imobiliário.Está vendo. Deu então uma olhada para a sobrinha e perguntou: . . Simplesmente sigo meu "faro" e sou autentico. não há quem a faça parar. provavelmente. Marta já estava tirando o Mercedes prateado da garagem. disse Bob. Dizendo isso abraçou o marido e beijou seu rosto. Vamos! A garota olhou para a saia xadrez rosa e azul com babados. Cris levou discretamente os pratos para a pia e jogou fora a bebida de proteína..filosofia há anos. . Quando sua tia entra nessa corrida. Sempre fui fiel a mim mesmo. com quem você acabou se casando. Era um dos seus melhores conjuntos. Marta entrou na cozinha vestida com um macaquinho lilás que exibia seu corpo esbelto. é por isso que tenho tanto sucesso nos negócios imobiliários.Sabe. Trocaram um sorriso e um beijo rápido. mas não tinha tempo de deixá-la tomar conta de seus pensamentos como no dia anterior. né? Aquela doce secretária.

Ainda não experimentou um maio sequer! Qual o problema. Afinal de contas. mas não sei se me sentiria bem usando alguns dos . Cris? A garota passou os dedos pelas pontas do cabelo e resolveu ser sincera com a tia.Não sei se gosto das mesmas coisas que você. empurrou as sacolas contra a parede. Cris nunca soubera o quanto era desinformada a respeito de moda.Bob estava certo. Ao lado da tia Marta. Cris não gostou nada do lugar. Enquanto perambulavam por lojas super chiques. . . com dificuldade. o tio Bob lhe dissera que fosse autêntica. que Marta disse ser o único lugar com a atmosfera adequada em toda a "Ilha da Moda". O verde forte do seu maio não estava na seleção de "suas" cores.Estas são as suas cores. Cris tentava. Na primeira hora e meia. queridinha. mas acompanhou a tia a um dos ambientes. As duas blusas e a sandália que compramos são peças básicas. acompanhar o pique da tia. Ela deveria levá-las consigo sempre que fosse comprar roupas. Marta ia a todo vapor. Caindo sobre um assento almofadado. Nada a fazia parar e nada estava fora do seu limite de preço. o dia voava. uma senhora elegantíssima "vestiu" a jovem com variados tecidos de cores diversas.Estou achando nosso progresso muito lento. Achou o ambiente escuro e silencioso demais. O azul claro da blusa que vestia também não. Quando se tratava de fazer compras. Você não está gostando das compras? Parece com medo de provar as coisas. espremendo uma fatia de limão no chá gelado. Selecionou então algumas amostras de cores e tecidos e entregou-as a Cris. Ao meio-dia pararam para comer uma salada no restaurante Bob Burns. disse Marta. Jamais use uma cor que não esteja entre as amostras selecionadas. O objetivo era determinar quais eram as "suas" cores e quais não lhe caíam bem. . disse a especialista.

Querida! exclamou tia Marta. . . Antes que a tia pudesse repreendê-la. Nunca fiz tantas compras assim na vida! A garçonete chegou com as saladas e perguntou a Cris se ela queria pimenta em seu prato. . Além do mais. Não estrague o meu prazer! Vamos começar a comprar! Cris acenou concordando e empurrou o tomate para o lado do prato. Não conhecia aquele tipo de pimenta. . disse ela.Não. eu acho estranho deixar você pagar tudo. a garota falou: .Você acaba de me dizer que tudo que quiser é meu. Dê o primeiro passo! Seja atirada! É a única maneira de vencer. Não é assim que sou. querida.Vou tentar me soltar. . continuou Marta. Cris. Você precisa se esforçar para ser mais extrovertida se quer fazer amizade com a turma da praia Tome as rédeas do seu destino.Escute.Então torne-se assim! Levante a cabeça e diga a si mesma que tudo que quiser é seu! Cris terminou a salada e olhou com vontade para a bandeja de sobremesas que a garçonete lhes apresentava. Já lhe disse que hoje quem paga sou eu.Isso nos leva a outro assunto. . apontando para uma torta de nozes e chocolate. A garçonete parecia não ter notado a inexperiência de Cris.Sei não. acho que não. e eu quero um pedaço de torta! .Aceito aquela coisa de chocolate ali. não sei. . Cris olhou-a meio perdida por um momento e respondeu: . Havia-se voltado para Marta e oferecia-se para salpicar pimenta na salada dela.conjuntos que você estava me mostrando. Lute para assumir o controle de sua própria vida. Defina o que você quer c vá em frente.

Eles têm uma coleção maravilhosa. quando Marta trouxe um que parecia encantá-la. Virou-se então para a sobrinha: . Cris! Eu não lhe disse? Ficou perfeito em você. . Definitivamente não era o tipo de maio que Cris teria escolhido. Confie em mim. mas resolveu experimentá-lo para ver a reação da tia. Já estou satisfeita. Vamos. era preto. querida. Agora.Este é maravilhoso! exclamou ela com entusiasmo renovado. . . Não é cavado demais como o vermelho.Saboreie depressa seus carboidratos pra gente sair e fazer mais compras. . Marta chamou a atendente: . Meia hora depois. vamos ver o que mais a gente encontra aqui.Será que devo comprar? perguntou Cris. revelando a moça simples de cidade do interior que fora um dia. que sorria e concordava educadamente. Marta realmente gostou do maiô. Na cabine de provas de uma das lojas em que entraram.Marta deu uma risada leve que removeu por um momento sua capa de sofisticação. Vai ficar absolutamente divino em você! O maiô tinha alças fininhas cruzando nas costas.Mas é claro! respondeu Marta. disse.Está bem. . Não está maravilhosa? Que vergonha! Cris viu no espelho o reflexo da atendente. mas está bem na moda. dirigindo-se à garçonete. olhando a etiqueta de preço. onde marcava oitenta dólares.Veja minha sobrinha neste maiô. . você venceu. saia desse cubículo e olhe-se nesse espelho de corpo inteiro! Enquanto a garota saía timidamente.Ah. Cris havia experimentado uma dúzia de maiôs. Absolutamente perfeito. Cris observava a caixa somando o preço de suas roupas novas. com pequena estampa azul-turquesa.

e quando tinham de comprar alguma. passando pela seção de cosméticos. e antes que Cris se desse conta. A escova em sua pele parecia veludo. em parte para a balconista e em parte para a sobrinha: . com luzes voltadas para ela. Mas agora estava com a tia Marta. Com um lápis macio. são lindos. tenho uma idéia! Vamos aproveitar e fazer sua maquiagem aqui! A balconista concordou com prazer. Pediu à balconista o tamanho maior do "Private Collection". Marta tirou o cartão de crédito e. não podiam gastar mais de quarenta dólares numa tacada. disse a moça com um sorriso. enquanto a esteticista passava uma sombra lilás em suas pálpebras. não acha. perguntou: . A especialista em cosméticos passou um chumaço de algodão sobre a face e o nariz da garota.São setecentos e oitenta e sete dólares e cinquenta e oito centavos. Na saída. . e esse era o jeito dela. levava três calças sociais. a moça fazia um traço ao redor de seus olhos. Marta exclamou: . uma saia jeans e quatro shorts. disse. Em seguida. Cris? A jovem ainda estava sem fôlego pelo total da compra. aplicando-o com cuidado nos cantos externos. Deve ser um sonho! pensou Cris.Além do maiô. explicando o procedimento correto para a limpeza dos poros. e . estava sentada numa banqueta alta diante de um espelho.Pode acrescentar estes também? Ficarão perfeitos com esse vestidinho de alça. seis blusas. Meu perfume esta quase no fim. Então respondeu: . dois vestidos de alça. Sua mãe costumava fazer a maior parte de suas roupas.Ótimo! Ainda bem que passamos por aqui.Ei. um blusão de moletom.Claro. entregando-lhe ainda um par de brincos amarelocheguei.

Olhe-se no espelho. . Conheço modelos que fariam de tudo para ter olhos como os seus. . O que acha? Cris abriu os olhos devagar. E seus olhos! Nunca havia notado como eles eram bonitos. . disse a esteticista. Sentia uma empolgação diferente.quando apertou os lábios.pronto. assegurou-lhe a maquiadora. Cris nem conseguia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo com ela. quase como se tivesse feito algo que não deveria. no que diz respeito às cores. Ela pode fazer qualquer coisa com eles. disse a esteticista.Você fez um trabalho excelente.Será que sou eu? disse baixinho. . aproximando-se um pouco mais do espelho para examiná-los melhor. . mas não parecia ser. querida! Voltando-se então para a esteticista. Era ela.Queremos também a linha completa de produtos para o sol. comentou Marta para a esteticista. eles têm uma cor azul-esverdeada tão diferente! . Cris mal podia acreditar. levantando o queixo de Cris para olhar mais de perto. .É mesmo? perguntou Cris. sua mãe só lhe permitia usar um pouco de brilho nos lábios. pensou em como o brilho tinha cheiro de morangos.Mas é claro! Não faça tanto escarcéu.Muito obrigada. Em casa.Sim. . acrescentou: . Vamos comprar um de cada produto que você usou. tia! .Os olhos dela tem o formato perfeito.Tia Marta! Tem certeza? assustou-se Cris. Aparentava mais idade e maturidade. Tudo isso agora era maravilhoso! .

pareceu chocado. . ora. Então seu sorriso voltou.E onde é? perguntou a sobrinha. Ele cortara o cabelo do alto da cabeça bem curto.Por nada. .Ora. e por um momento. arrumando-o . Marta entregou-lhe a sacola repleta de cosméticos. não sabia que você iria trazer uma atriz de cinema para jantar conosco! Se soubesse teria vestido algo mais apresentável! . vendo seu reflexo numa vitrine. Cris sorriu e comentou: . Bob virou-se. Gostou? Meu cabelo ficou bom. querida. .Tãtãtãtãam! anunciou Marta teatralmente.Agora só temos mais uma parada a fazer. Maurice havia feito uma escova deixando-o todo cheinho. com uma pilha de correspondência. à frente do computador. parece que é agora ou nunca! O Pesadelo 3 Chegaram em casa às quatro e meia da tarde e encontraram Bob no escritório. é claro! Percebendo a manobra da tia.. e disse: .Que é que você acha? perguntou Cris. . caso você queira saber. dando uma voltinha.O salão do cabeleireiro Maurice.É. curtinho assim? Estava curto mesmo! Pouco abaixo das orelhas.

Nunca fiz tantas compras assim em toda minha vida! Animada. Umas roupas novas e coisas que a ajudassem a melhorar a auto-estima. sapatos.Você me surpreendeu. . Queria saber o que Paula acharia. Maurice ouviu e repreendeu-a severamente. Cris reclamou que estava parecendo um poodle. Contudo ela não se convencera. . Ficou estonteante! .Que tal pôr agora? Assim aproveito para levar minhas duas "namoradas" pra jantar . Comprei também um enrolador elétrico de cabelo que ele me ensinou a usar. . eu não a teria reconhecido. disse baixinho a Bob.Dá pra acreditar? perguntou Cris. Parecia ofendido por alguém ousar questionar uma de suas criações. acessórios e uma linha completa de maquiagem.É exatamente o que ela precisava. E embora tivesse dito isso baixinho. Não vejo a hora de sair com ele. Todos os cabeleireiros elogiaram a garota. Sabia que ele seria sincero.num penteado espetadinho e puxando uma franjinha desfiada. ficou ansiosa por ouvir o que o tio Bob iria dizer. . Mas não foi só isso! Espere só pra ver o que tem nessas sacolas. dando um gritinho. Ao olhar-se no espelho. e eu trouxe dois frascos. dizendo que estava deslumbrante. toda sorridente.O cara do salão me mostrou como se aplica esse negócio de musse. Estes brincos ficam ótimos com este vestidinho. Eu não lhe disse que ela ficaria mais animada? . Queria poder usar tudo de uma só vez! Marta parecia muito satisfeita consigo mesma. mocinha! Se não estivesse com a mesma roupa que estava usando quando saiu daqui hoje cedo.Você estava certa! disse Cris. Mas como a amiga estava a três mil e quinhentos quilômetros de distância. ela abriu todos os pacotes para mostrar os novos pertences. Logo o sofá estava coberto de roupas.

.Está bem. Q que você acha. ela aprontou-se rápido mesmo e. Quando Cris entrou na sala. ofereceu Bob. apresentava pequeninas rugas ao redor dos olhos.Mas é claro. gentil dama? Cris deu uma gargalhada. disse Marta. . que se acentuavam quando sorria. concordou Bob. Então pediram um coquetel de camarão e caminharam até um longo banco de madeira. . Mas tenho uma reunião com o grupo de mulheres hoje à noite.Que ventinho agradável. Cris? A garota já havia ajuntado as roupas novas e estava correndo escada acima quando respondeu: . comentou Bob. A pele.Ótimo. encontrou o tio ao telefone.Estou pronta em cinco minutos! Surpreendentemente. curtida pelo sol das muitas tardes no campo de golfe. Quando estavam saindo.Divirtam-se! Ao chegarem à Cozinha do Siri. . descobriram que teriam de esperar uma hora para conseguir um lugar. que aparentava ter bem menos que os seus cinquenta e um anos de idade. Bob. Por que não a leva à Cozinha do Siri? . quando desceu. Bob deu um assovio e ofereceu-lhe o braço. Enquanto esperava notou que ele trocara de camisa e penteara o espesso cabelo castanho.fora e comemorar. Marta gritou: . . vossa "charmosidade". Seu jeito de ser contrastava profundamente com o estilo de vida acelerado de Marta. passando por um grande número de pessoas. A voz suave e grave harmonizava-se com sua personalidade tranqüila. Vão vocês dois.Posso ter a honra de acompanhá-la até o carro. Parece uma boa idéia. Bob era um homem atraente. naquele tom de quem está no controle da situação.

Claro que estão. Deve ser um 68. Bronzeados.É lá que todos os barcos descarregam a pesca diária. explicou Bob. . Devia estar imaginando coisas.É pouco provável. Naquele momento.Eu nunca tinha visto um carro desses. a não ser na televisão.Aqueles caras estão olhando pra você. direção esporte. . usavam shorts de surfista de cores vivas e camisetas estampadas. quando ele voltou ao banco. . que estavam realmente olhando na sua . . entrou no estacionamento. Ela não parecia muito impressionada com o carro. conversível. Quer que eu os convide pra jantar conosco? brincou ele. Cris levantou-se do banco e jogou o copinho de plástico do coquetel no lixo. Entretanto ficou bastante interessada nos rapazes que desciam dele. Cris virou as costas para os dois rapazes.. Observando-os enquanto vinham em direção ao restaurante. . apontando a direção com o garfo de plástico. respondeu Cris. ela concluiu que eles representavam o que ela gostava na Califórnia. rodas de magnésio. .Você está falando do Rolls Royce? .Ah.Não estão não! . . Será que tem algum artista de cinema nele? Perguntou abaixando a voz. Mas Bob confirmou suas suspeitas. Tala larga. Deve ser a roupa e o penteado novo. com ar de quem não quer nada.Tem cheiro de peixe. um carro esporte.É isso aí. Pararam a poucos metros. .É porque o quebra-mar de Newport fica logo ali no fim da rua. Por um momento Cris pensou que estivessem olhando para ela.Aquele é que é meu tipo de carro! exclamou Bob.Puxa! Olha só aquele carro! . . acrescentou Cris.

Nem acredito que você tenha dito isso! .Sr. disse Bob. baseado naquilo que se crê. Nunca conhecera ninguém que acreditasse em Deus que não tivesse o habito de ir à igreja.Nossa! Para alguém que nem esteve no sol hoje você está vermelha demais. grupo de dois. Cris abaixou os olhos ao passar por eles. Robert. Não ë uma coisa sobre a qual se deve falar publicamente. . ainda esperaram uns vinte minutos até serem servidos.Acho que encaramos a religião como algo muito pessoal.Pára! cochichou. Não precisa ir à igreja pra isso.Claro. Toda sua família e suas amigas de Wisconsin também freqüentavam. ela ameaçou: . Na verdade. Seus namorados vão ter de esperar uma próxima vez. disse Bob. . Cris freqüentava uma igreja desde que se entendia por gente. por favor! Parece que só conseguimos uma mesa para dois.Graças a Deus. Estou morto de fome. Eram amigas desde então. . Bob sorriu e cumprimentou-os com a cabeça. . com um suspiro profundo. de vez em quando.dominical para crianças. disse Bob. Seu comentário fez com que Cris perguntasse algo que vinha-lhe martelando a mente havia algum tempo. Naquela hora a recepcionista do restaurante chamou: .Vocês costumam ir à igreja? . assim a gente pode adorá-lo onde estiver. ao ver o garçom aproximar-se.E então. Mas sempre acreditei que Deus está em todo lugar e é parte de tudo.Eu te mato. . De dentes cerrados.Você e a tia Marta acreditam em Deus? Bob pensou um instante e explicou: . Parece que você e Marta tiveram um .direção. tio! Depois que fizeram o pedido. ela conhecera Paula numa classe de escola . Algo interior.

é isso que importa. . não acha? Ele deu um daqueles sorrisos cativantes e declarou: . Ela não estava muito a fim. mas sobre o qual fizera mil fantasias. e ela não poderia agora simplesmente dizer que não queria.Se você estiver feliz. "Estou ate com cheiro de rica". A sensação de estar misteriosa e atraente instigava-lhe o desejo de experimentar um estilo de vida que nunca vivenciara antes.Sabe. Divertido? Talvez. Como se sente com o novo visual? Espetando o garfo num camarão. pensou. . no silêncio do quarto: "Se você estiver feliz. obedientemente Cris aplicou o novo adstringente e o hidratante antes de vestir o camisão de dormir. Uma vez no verão passado ela se sentira assim quando voltava de um passeio com alguns amigos. Mas aquela empolgação trazia a tiracolo um novo temor. O irmão de Paula havia lhe sugerido que dirigisse sua pick-up. Estava gostando de se sentir mais adulta e mais na moda. Contudo Paula e sua prima já haviam dirigido naquele dia.As palavras do tio ainda lhe ecoavam na cabeça. Realmente gosto. É muito mais o "eu" de verdade. ficou a pensar por um momento. Uma felicidade contagiante. O adstringente cheirava a remédio. empolgante. Estava penas a setenta por hora quando os outros riram e desafiaram: . e no íntimo adorara a atenção daqueles rapazes lá fora.dia empolgante. mas o hidratante tinha uma fragrância de perfume fino. fazendo compras. ***** Aquela noite. deitando-se na luxuosa cama e cobrindo-se com a colcha branca de bordado inglês." Hoje ela se sentira feliz. Cristina Juliet Miller. Apavorante? Certamente.Vai mais depressa! Ela sentia um frio na barriga. começou ela com a voz mais amadurecida possível. é isso que importa.

Pegamos você! Pegamos você! Finalmente ela alcançou o bote e agarrou-se à sua borda. ou entregar-se ao mantra das algas. repetia. para parecer mais extrovertida. Às duas da manhã. só via água. Tentou nadar até lá.Ar fresco! Preciso de mais ar! Pulou da cama e escancarou a janela. Houve um momento aterrador em que ficou indecisa: não sabia se deveria erguer-se e entrar no barco. diziam: . finalmente ela conseguiu subir à tona. . acordou assustada. Cada braço de alga tinha uma voz e."Foi só um sonho". Tragando fundo a brisa que vinha do mar. desesperada para pular para dentro dele. À distância."Foi só um sonho". disse a si mesma. coração disparado e a camisola ensopada de suor. na praia. . Acendeu depressa a luz e tentou respirar mais devagar. tremendo com a lembrança do sonho assustador: Estava deitada na praia quando. Contudo. Foi então que acordou. veio sobre ela uma onda gigante que a arrastou para o mar. tomar seu destino em suas próprias mãos e tudo mais. "Um sonho bobo e sem significado. fechou a janela e pôs-se a andar para lá e para cá. . avistou um barquinho a remo. A terra desaparecera. mas tentáculos compridos e gosmentos de algas marinhas se enroscaram em suas pernas.Que pesadelo horroroso! Ela arfava. Depois de muito lutar. de repente. pensando em como faria no dia seguinte. sentiu a mente começar a se aclarar. em todas as direções que olhava.Apagou a luz do abajur sobre a mesinha de cabeceira e dormiu. . todos juntos. tentando puxála para baixo. Naquele instante crucial estava paralisada pela indecisão." Respirou fundo mais uma vez. .

.Então.Acho que usei demais daquele treco de espuma: minha franja está grudada. Amém. deixando a luz acesa. Amém. como está? Esperando algum sinal de aprovação. o maiô ficou lindíssimo em você. abriu a porta e encontrou tia Marta no corredor. Vamos ver. E pode maneirar um pouco no lápis de olho. com essas suas pernas . Depois de quase uma hora e meia de preparativos. querido Deus. que tal estou? . Cris perguntou: . talvez você deva usar menos da próxima vez. Cris teria tirado o primeiro lugar. Instantes depois. meu bem. Orando por sua família. estava dormindo.Querido Pai celeste. sendo a primeira vez.Seu cabelo. bem.. Surfe e Algas Marinhas 4 Na manhã seguinte.. protege-me e guarda-me em segurança. Acrescentou então: E. você fez um bom trabalho. com meu pai e com o Davizinho.Você está aí. Esteja com minha mãe. se houvesse um concurso para ver quem leva mais tempo se aprontando no banheiro.. prestes a bater na porta do quarto. Mas o maiô. seu cabelo parece. . Cris lembrou-se da promessa que fizera aos pais antes de sair de casa. .. enfiou-se debaixo da colcha e orou: . digamos que. ajuda-me a cumprir a promessa que fiz aos meus pais de não fazer nada de que possa vir a me arrepender. querida? Nós já estávamos preocupados.E então.Sim. ..

compridas. Marta voltou da cozinha com duas garrafas de água mineral e colocou-as na sacola nova de Cris. A voz de Cris demonstrava a irritação que sentia por causa dos constantes conselhos. . . . Ele funciona como .Claro.Bem. onde os surfistas ficam. tia Marta. Vamos à sua bebida matinal? Cris ficou arrepiada só em pensar. Não vai ter sempre essas coxas se puxar a família da sua mãe. Só vou levar alguma coisa para beber na praia.Está bem. tia Marta. em seu primeiro dia ali. acrescentou Marta. por isso se quiser manter as pernas sempre esbeltas.Sim. como Marta os chamava.Eu não estou com fome. querida. Cris aprendera com o tio Bob. abrindo a geladeira. que o quebra-mar é uma longa península artificial feita de rochas.Psiu. enquanto Cris caminhava pela areia. tia. Algumas nuvens finas velejavam pelo céu naquele final de manha. Bob deu uma piscadela e voltou ao jornal. . . de todos os tipos. você sabe o que dizem por aí: "Dinheiro e boa forma física nunca são demais". com o dedo sobre os lábios e. trocou a água mineral por duas latas de refrigerante. estavam reunidos perto do quebra-mar. Divirta-se e lembre-se: tente fazer amizade com outros jovens na praia. onde Bob lia o jornal. Estão na estante no escritório. Tirou então um romance da estante. .Você tem algum bom livro para eu levar pra ler na praia? perguntou Cristina. Cris foi depressa para a cozinha. tem de evitar comer massas. .Aí está. . Os "jovens". As duas riram e desceram para o térreo. sussurrou ela. Escolha o que quiser.

"Que é que ela está tentando provar?" perguntou-se Cris. do outro. começou a ler seu romance. Não sabia o que seria pior: se eles a ignorassem de novo. Seu cabelo loiro caía até a cintura. Pouco depois. mas não estavam. Com um novo penteado e um novo maiô. e vinha caminhando com leveza sobre a areia. "Por que veio sentar perto de mim? E se os rapazes vierem aqui conversar com ela? E se puxarem conversa comigo?" Uma vontade imensa de fugir apoderou-se de Cris. parecendo a crina de um cavalo selvagem. ou se alguém viesse conversar com ela. tudo bem! pensou. Estendeu a toalha e notou que alguns dos rapazes pareciam olhar para ela. esperava que pensassem que fosse outra garota. As ondas do norte se formavam a certa distância. Parou bem perto de Cris. Depois. mexendo na areia com os dedos do pé. como se estivesse posando para uma propaganda de bronzeador. “Controle seu destino!" As palavras de Marta ecoavam na martelando-lhe os seus nervos. . Ergueu a cabeça e para o mesmo grupo que tinha rido dela poucos dias atrás.um divisor de águas no oceano. Cris parou e olhou a arrebentação batendo contra o quebramar. Então. enquanto todos olhavam. fingindo não notá-la. Tinham agora os olhos fixos numa garota incrivelmente bonita que vinha em sua direção. ela estava de biquíni e óculos de sol. criando uma baía calma de um lado e as maiores ondas da praia. arriscou uma olhadela tímida para ver se os rapazes ainda a estavam olhando. deitada de bruços. Alta e magra. aquele modelo de beleza de praia acomodou-se na areia e olhou para o mar. Até aqui. vindo como um enorme muro estourar com força sobre as rochas. Mas.

Então não vou estragar o suspense. gaguejou: . Mas antes de ontem ela estava uma delícia. mas acabou perguntando: .Não.Você esteve aqui ontem? . nós chegamos ontem. .Não. E o seu? . e muito sensual.Já entrou na água? Está muito fria? Cris notou que ela tinha um sotaque diferente ao dizer certas palavras.Cris. Depois. para uma esnobe. De onde você vem? . Então a moça perguntou: . replicou Cris. Meu nome é Alissa. mas no ano passado morávamos na Alemanha.Não. .Esse livro é ótimo. A voz da tia ressoava em sua cabeça: "Controle seu destino! Dê o primeiro passo! Seja ousada!" O cheiro doce de óleo de coco que emanava da garota perturbou tanto Cris que ela acabou virando-se e dizendo um tímido "Oi!" A moça respondeu prontamente. ignorou o jeito que seu coração acelerava e fixou os olhos no livro. Já chegou à parte em que eles ficam presos num táxi em Hong Kong? Cris espantou-se com a simpatia da moça. . .Acabamos de chegar de Boston.Quer dizer. disse com um sorriso. da casa de minha avó. Mas a parte em Hong Kong é ótima. Cris hesitou um pouco.Ah. tentando estudar a garota mais a fundo. hoje também ainda não. .contudo. . ontem não entrei. Parecia muito boazinha. disse Cris. percebendo que não estava acrescentando nada à conversa. bem.

Virando-se então para Alissa.Não. Daí deixamos que ela leve a gente até a praia. O Wisconsin parecia tão sem graça em comparação com a Argentina e o Havaí. explicou Alissa. Dá vontade de ficar o dia todo. na hora certa.. Eu moro no Wisconsin.Deve ser legal! .Sem sombra de dúvida! Respondeu Alissa. Ao contrário. E as ondas são perfeitas para pegar jacaré. mergulharam numa onda espumante.. Entretanto Alissa não fez nenhuma gozação.É tudo questão de pegar a onda certa.. Antes disso moramos no Havaí e na Argentina. Se esperar demais. ... lamentou Cris.. A água é tão morna e clara.Tem suas vantagens e desvantagens.Eu queria saber pegar jacaré. Cris sentiu o olhar dos surfistas acompanhá-las enquanto caminhavam devagarinho em direção ao mar. Veja essa que está chegando. convidou-a para dar um mergulho. Sou desajeitada demais. Quando estavam já com água na altura da cintura. Sempre quis conhecer. Cris sentia a água fria em cada poro. Você adoraria as praias do Havaí. Estou passando uns dias na casa de uns tios aqui.Só ficamos na Alemanha dois anos. E você? Mora aqui? . . .É mesmo! Você é da Alemanha? Meu pai tem uns parentes lá. ela quebra em cima de você e a leva ao fundo. flutuando numa pequena onda. Meu pai era da Força Aérea.Adoro o mar! E você? . por exemplo. Então prenderam . A onda surgiu atrás delas grande demais para que pudessem boiar. A gente tem de começar a bater os pés e nadar enquanto a onda está formando a crista atrás. . como se estivéssemos dentro dela. disse: .. "Não existe no mundo sensação igual a esta!" pensou com entusiasmo.

Passe por cima dela. com um suspiro. Quando ela saiu da água. jogando-a na praia e raspando seu cotovelo na areia grossa. engolindo muita água. Deve ser a melhor dessa série. Distraída com o que acontecia na praia. alisando o cabelo encharcado. dando-lhe a sensação de que estava lutando com um perigo maior do que o do oceano.Essa teria sido perfeita para pegar jacaré. puxava o cabelo comprido sobre o ombro e o torcia. deixando-a como uma foquinha ilhada na praia. Sem dó. "Ah. puxando-a para baixo com uma força esmagadora.Olha a sétima onda. Ela virou cambalhota debaixo d'água e. viram a onda quebrar-se numa curva espumante em direção à praia. pingando água. com inveja. bem . A galera da praia estava igualmente de queixo caído com a graça de Alissa. Talvez veja o que quero dizer com bater os pés antes da onda começar a quebrar.a respiração e mergulharam fundo. . Cris não viu a onda enorme que surgia por trás dela. "Ela dá a impressão de que é tão fácil!" pensou. apavorada e sem ar. Era seguida. se eu tivesse um corpo e uma personalidade como da Alissa! Ela tem tudo que se possa desejar. onde a água estava tranqüila. Inesperadamente. que eu vou tentar pegá-la. a onda retrocedeu. enquanto Alissa. Tá vendo aqueles rapazes lá embaixo? Eles pegaram a onda. engasgou. disse Alissa. quatro surfistas largaram a prancha e correram para puxar conversa. Ela observou Alissa navegando sobre ela com graça e destreza até a praia. Haviam flutuado sobre mais quatro ondinhas quando Alissa disse: . a onda quebrou." Cris a admirava e. ao mesmo tempo. Quando subiram. O pavor que sentira no pesadelo retornou. Cris olhava de longe. a onda deu-lhe mais um golpe. Uns surfistas me disseram no Havaí que a sétima onda é a melhor. sentia antipatia por ela. A onda ergueu Cris como um pai levanta seu bebe.

. enquanto o grupo disparava a rir. .Radical! gozou ele. O cara bonitão a seguiu e ficou ali. . que ardia quase tanto quanto seu orgulho ferido. cobrindo o olho. Os outros voltaram a paquerar Alissa. as al. mas eles continuavam rindo. Ela piscou. Pior de tudo. Cris olhou para cima e viu um dos rapazes mais interessantes que já vira em toda a sua vida. Alissa mais que os outros.Ah não! exclamou ela. o pior momento da minha vida". de cabelo louro. . Era exatamente como o "cara perfeito" que ela descrevera para Paula meses atrás: cabelo clareado pelo sol. Ele a tomou pelo cotovelo e ajudou-a a levantar-se. A maneira como ele falou expressava bondade.Você está bem? Era mais uma declaração do que uma pergunta. Cris caminhou pela areia até sua toalha. Um dos surfistas aproximou-se e ajudou-a a desembaraçar as algas do tornozelo.É posso imaginar. próximo a Alissa. olhando para o grupo em busca de uma "força".Sim. Havia um surfista alto e bonitão.Estou me sentindo ridícula! confidenciou ela. pensou. Parecia realmente entender como ela estava se sentindo. sem sombra de dúvida. enquanto ela se enxugava e tentava tirar a areia dos . . "Este é. . Saia água do seu nariz. Isso foi totalmente chocante! Nesse instante notou que escorria sangue do seu cotovelo.perto de Alissa e dos surfistas. seu cabelo estava em pé na parte de trás e o lado direito emplastrado sobre o rosto.as dos maiô estavam retorcidas e um pedaço grande de alga marinha envolvia seu tornozelo. seus ouvidos estavam cheios de areia. olhos azul-prateados.

. durante o verão. e cada um segurava uma lata de cerveja.Ah! disse ele. .Quer um pouco? ofereceu o rapaz a Cris. sentando-se sobre a toalha de Alissa.Eu sou Cris. balbuciou ela. com um sorriso franco e amistoso. eu trouxe uns refrigerantes. .Acho que não. com meu pai. surpresa por estar tão calma ao lado desse cara maravilhoso.Não. Ele estava com o braço na cintura da jovem. .ouvidos. .Onde é isso? .E sua mãe? Perguntou Cris. que flertava tanto com os surfistas que parecia nem lembrar que ela existia. Meus pais são divorciados. . Você mora aqui? .Na Flórida.Na verdade. e minha mãe mora em Tallahassee. sentindo-se meio desajeitada. Finalmente ela quebrou o silêncio. Naquela hora.Obrigada por ter me ajudado. Moro com ela durante o ano letivo e passo o verão e alguns feriados com meu pai.Claro. Alissa e um dos surfistas vieram para perto deles. obrigada.Tallahassee.Sim. respondeu ela. sem saber o que ele queria .Meu nome é Ted. Você deve ser daquele tipo de amigos que o Ted tem. . . com ar de superioridade. . Sua amiga se importa se eu me sentar aqui? Cris olhou para a "amiga". respondeu. . Disse ele. . disse ele. Pareciam estar se dando muito bem. .

no Wisconsin nós as chamamos de rodovias. que devia se uma mistura do jeito de falar de todos os lugares em que vivera. Tinha muitas histórias sobre vida na Alemanha. disse Cris. vocês dirigem muito devagar aqui. respondeu Cris. Ted aproximou-se de Cris. Não tinha certeza.Na Califórnia nós as chamamos de autopistas. observou Alissa. na outra toalha. Essa é de rachar! . Você quer um. e o outro surfista sentou-se com Alissa.. disse Ted ao mesmo tempo. . Ted? . com uma risada. e seus olhos tinham um brilho estranho. Como é que vocês dizem? "Autopistas"? . Ficaram papeando durante cerca de uma hora. e Cris apresentou Alissa. Ted e Alissa começaram então a falar sobre carros. Sam também ficou quieto. e Cris ficou escutando. Parecia não estar nem aí. Não sabia sequer a diferença entre um Fiat e um Fiesta e tinha medo de dizer alguma bobagem.E aqui os carros vão tão devagar nas "autovias".Bem.Olha só! exclamou Sam de repente. Sabia que sua tia ficaria encantada. Em Stuttgart não era nada dirigir a 120 por hora. Cris gostou do seu sotaque. . Isso é bom demais pra ser verdade! pensou Cris.Sim. . Olharam um para o outro. mas achava que o olhar dele era o que os livros chamam de "lascivo".Não. . Mas não é essa a palavra que vocês costumam usar. Ted apresentou o rapaz como Sam.dizer com "aquele tipo de amigos do Ted" Tenho dois.Claro.Bem. apontando na direção da água. . . seja como for. Alissa praticamente dominava a conversa. explicou Ted. Cris sentia-se mal quando ele olhava para ela.

mas quando ria. . Cris desviou o olhar para o quebra-mar. brincou Sam. negou Sam.Vocês meninos. . não nos disseram sua idade. lançando a Sam um olhar que deixou Cris envergonhada.Vamos lá Sam! disse Ted. parecia não ter mais que uns quatorze anos. . . Não sabia bem por que. mas sentia-se como uma intrusa numa brincadeira particular. pois se abaixou e beijou Alissa nos lábios. desafiou Alissa.Ta vendo aquele menino na prancha branca? Só tem uns oito anos e já surfa muito bem.O que ele quer dizer? perguntou Cris baixinho a Ted.Quantos anos você tem? perguntou Alissa a Cris. mentiu a princípio. Cris não sabia se Alissa estava mentindo ou não. . Falou Alissa.Depende da minha fome. Além do mais. Nós dois temos dezesseis anos. Faço aniversário daqui a algumas semanas. Certamente Sam conhecia todas as regram do jogo. se tinha mesmo dezessete.Tenho quinze. .Eu não me lembro. .Não é isso não.Dezessete. Ele esta com medo de que você não queira sair com um cara mais novo. que tinha quinze? .. Sua aparência era mesmo de uma garota dessa idade. por que estaria se relacionando com ela. . Pensando que provavelmente era a mais nova dos quatro. .Está com fome? A voz de Sam tinha um timbre forte. Na verdade tenho quase quinze. E você? . Entretanto corrigiu-se logo em seguida.

Como você deve ter notado.Ah! disse Cris.Não exatamente. confusa pela saída repentina do casal.. mas é claro. Sam levantou-se. O coração de Cris deu um salto. E se ele tentasse beijá-la assim? . . Alissa pegou sua toalha e os dois atravessaram depressa a areia em direção à casa de Sam. debochou Sam.Vamos surfar. o que você quer? Perguntou Ted.E aí. .Quer o quê? Será que ele estava lendo seus pensamentos? . Nunca gostara de um cara como estava gostando dele. mas percebeu que. . Não sei. Ted olhou para ela meio espantado. mesmo não tendo tentado beijá-la. olhando para seus enormes olhos azuis. Contudo! ela não se importou nem um pouco. respondeu Alissa. Na verdade o pensamento a deixava atônita. Adoraria passar o resto do dia sentada ali. não tenho muita coordenação na água.Quer surfar? . com uma risada.Eu lhe ensino. puxando Alissa consigo. . .Eles vão preparar um lanche ou algo assim? Perguntou Cris. conversando com o Ted. . quando Ted quebrou aquele clima romântico. como Sam fizera com Alissa. Sam! As ondas parecem legais.Ah. o Ted não estava muito contente com a saída do Sam. E só o conhecera hoje Será que ele estava gostando dela? Parecia que sim. interrompendo se devaneio. Cris não sabia bem o que ela não "pegara". .Faminta.

deitou-se de bruços na pranchinha e começou a bater furiosamente os pés. . . que ele oferecia. .Como se usa? perguntou Cris.Obrigada. Cada onda que passava levava Ted em sua crista e a deixava para trás. . Use-a o quanto quiser. concordou. ofereceu Ted.Não sou o melhor nisso por essas bandas. e ela o achou muito mais simpático que os outros surfistas que encontrara antes. levantando-o sobre a prancha de Body Board até à praia. você só tem que subir nela e.. Era uma gracinha. Depois de certo tempo. enquanto aonda estourava atrás dele.O que eu queria mesmo aprender é a pegar jacaré. Posso tentar? .Claro. eles enfrentaram juntos as ondas... eu não sei! Usa-se como se usa uma prancha de Body Board. disse Douglas. disse Douglas. insegura sobre o que fazer com a prancha macia. mas posso lhe ensinar o que sei. Ted tentou ensiná-la a pegar jacaré. Como dois golfinhos. e Cris teve novamente aquela sensação de bem-estar. deslizando à frente dela. Chamavase Douglas. agora ainda mais intensa por causa da presença de Ted. . Com paciência. Prendeu com velcro uma tira em volta do punho e esperou um instante.. amarelo-cheguei.Bem.. encharcada. Cris e Douglas ficaram boiando e observando Ted. Mergulharam no mar.Aqui. . . e. Era o que a Alissa estava tentando me ensinar.Legal! exclamou Cris. Quando veio a onda seguinte.Experimente isso. mas ela não conseguia se cronometrar. . oferecendo-lhe sua prancha de Body Board. eu mostro. outro surfista passou por eles e Ted apresentou-o. ah. conversando e rindo.

.Taí.Que bárbaro? repetiu Ted. que horas são? perguntou Ted. respondeu Douglas. Aliás. . e acenou para Ted e Douglas. disse Ted.Pois eu digo. a onda a cobriu. . Espero que meu traseiro não esteja muito saliente! preocupou-se. Cris ficou de pé. De repente a força da onda levantou-a. puxando-a para cima e para a frente. Cris. tremendo um pouco por causa da água fria. .Você virá aqui amanhã? Cris assentiu com a cabeça. sem um arranhão. imediatamente. Ninguém mais diz "Que bárbaro" hoje em dia! .Tenho de ir. Virou-se então para Cris e perguntou: .Quase três e meia.Isso facilita pra pegar as ondas! Meio sem jeito. Imagine como seria fazer isso de pé numa prancha grande! Mesmo deitada nessa pranchinha já é uma delícia de tirar o fôlego! Enfrentou as ondas e voltou para onde estavam Ted e Douglas. Cris deitou sobre a pranchinha. Vou dar uma carona à Trícia para o trabalho. Quero fazer isso de novo! É por isso que o pessoal gosta tanto de surfar. a onda recuou. Comece a bater os pés! A garota bateu os pés sem parar e não olhou para trás. respondeu Douglas rindo. você foi bárbara naquela onda. Antes que conseguisse perceber o que estava acontecendo. A prancha escorregou sobre a areia grossa da praia e. em todo o percurso! .Que bárbaro! disse Douglas quando ela chegou. . Agarrou a prancha com toda força e sentiu o ímpeto do mar impelindo-a para a praia. .Ei. que acenavam parabenizando-a. consultando seu relógio de mergulho.Ted remou de volta com as mãos e entregou a prancha curta e esponjosa para Cris. .

pensava: Esse dia foi realmente bárbaro. Acho que vou tomar um solzinho. Douglas ainda estava na água. Então ela resolveu ir embora. Ted e Douglas.Até mais! respondeu Douglas e.Estou com um pouco de frio. agora ambos à sua frente.. saíam da água na beira da praia. Os três estavam batendo os pés ao mesmo tempo. e a boca muito seca. Está sempre às ordens. empurrando a garota mais depressa. virando-se para Cris. A água salgada secava formando manchinhas nas suas pernas. perguntou: . menor e menos forte. mas. Cris deitou-se novamente sobre a prancha e deixou que a onda que veio em seguida.Ei. o impacto separou-os. essa aí parece uma boa! Ted apontou para a imensa onda que se aproximava. Ela esticou a toalha e deixou que o sol quente a tostasse. quando a onda os alcançou. disse ele. Obrigada por terme emprestado sua prancha. pegando-a de volta. A amarra no pulso permitiu que puxasse a prancha de volta. Virou urna vez debaixo da onda e saiu por trás dela. Enquanto ia caminhando com cuidado na areia quente. . Ela deu um gritinho ao sentir a força que arrancou a prancha de debaixo dela. onde Ted sacudia vigorosamente a água do cabelo. como diria o Douglas. Vamos todos nela! Cris deitou-se sobre a pranchinha e os dois rapazes seguraram nas beiradas.Então vejo vocês amanhã. e Ted não voltaria mais naquele dia.Você vai pegar mais onda? Ela hesitou um instante e depois disse: . curtindo sua prancha de Body Board. e ela sentia a pele ressequida e coçando. Foi divertido! De nada. disse ele. a impelisse suavemente para a praia. . Minha tia vai se orgulhar de mim! Ela tinha .

Esperou ansiosamente pelo Ted. Oito e vinte e sete. e olhou para o relógio. Nossa! A Paula nem vai acreditar. Não havia quase ninguém. Voltou para casa..razão: eu só precisava de um bom maiô e um belo corte de cabelo. Cris ficou ali assistindo meio desligada. Ninguém do grupo que conhecera no dia anterior estava lá.. que ainda se achava em silêncio. O Convite 5 Na manhã seguinte. vendo um boneco que tentava . Estava passando um programa infantil. exceto uns poucos surfistas que não conhecia. Adorei me enturmar com a galera do Ted. Não era de espantar que ninguém estivesse na praia. Cris foi bem cedinho para a praia. de cabelo arrumado e com maquiagem nos olhos. Esparramou-se sobre uma poltrona e ligou a televisão.

convencer o outro comprar um sorvete de picles e sardinha. . um sorvete de picles com sardinha. . . se eliminar os picles e as sardinhas! Enquanto tomavam o café da manhã.Ótimo. sardinha e queijo? Cris riu da brincadeira do tio e replicou: . no final. para criancinhas! Credo! .Eca! gritou ele ao experimentar o sorvete.Ha-ha-ha! riu o primeiro boneco. O segundo ficava dizendo que não gostava. He-he-he! . " Ele não lhe dava espaço para ter suas próprias idéias e expressá-las. . mas ele era um homem muito fechado.Ele é o cara mais bacana que já conheci. Pensar que isso é um programa "educativo". Estava gostando dessa liberdade de poder dar suas opiniões. a sua conclusão: "É assim que tem de ser. Provei e não gostei.Ah.Como pode dizer que não gosta se nunca experimentou?! O primeiro insistiu tanto que o outro acabou comprando o sorvete.Não gostou do quê? A voz de Bob veio da porta. Ha-há-ha! Ganhei o dia. e não gostei!" disse ela arremedando o personagem. Sinto muito. ela a filha. Ela queria poder relacinar-se assim com seu pai. ela obedecia. .Qualquer rapaz seria louco se não gostasse de você! Era tão fácil conversar com o tio Bob. . Sabia que não ia gostar. desligando a TV.E que tal uma omelete de picles. e tenho certeza de que gosta de mim. Ele dizia. . conversar sobre tudo e sentir-se capaz de tomar decisões acertadas. mas agora sua moeda já está no meu bolso. Cris conversou com o tio sobre Ted.Que chatice! pensou Cris. . . Conversar com ele consistia em ouvi-lo falar sobre um assunto durante horas e."Provei. Ele era o pai. Era assim mesmo.

Como vão as coisas? Esta é a Trícia.Oi.Com a autoconfiança aumentada. tentando melhorar o clima. disse Trícia com um sorriso rápido. . quando viu o Ted.Não fique zangado. correu para cumprimenta-lo. . não a vi mais. .Eu vi os dois hoje cedo. .Sei. mas vocês dois não têm mais nada em comum. Os olhos de Cris pularam de Ted para Trícia e novamente para Ted. dirigiu-se novamente à praia. O Ted me disse que havia conhecido duas garotas novas na praia ontem. . . enquanto eu estava trabalhando.Vocês se importam se eu colocar minha toalha aqui? . respondeu Trícia repreendendo-o. . pronta para o que desse e viesse. disse Trícia a Ted. depois que ela saiu com o Sam. Cris! disse Ted. irmãos ou como . Não dava para saber se Ted e Trícia estavam conversando como. sem perceber que ele estava conversando com outra garota.Ei. Tinha cabelo escuro na altura do ombro e olhos vivos. Estava tão entusiasmada que. uma graça de garota. só isso.Onde você trabalha? interrompeu Cris. aliás.Não sei. A jovem era baixa e magrinha. Seu bronzeado era bem mais intenso que o de uma modelo de propaganda de bronzeador. . Provavelmente eles ainda vão aparecer mais tarde. Sua amiga virá? . Na verdade eu a conheci ontem e.Claro que não. cor de chocolate. disse Ted em voz baixa. defendeu-se Ted.Eu e Sam somos amigos há muito tempo. respondeu Trícia. Eu só fico me perguntando por que você ainda anda com ele. Será que estava interrompendo alguma coisa? .Não posso simplesmente ignorá-lo.Não sei como você consegue ser tão amigo dele. . lá pelas onze horas.

. Vou pedir que minha tia me deixe lá. .E você.Meio dia às seis. Fica lá perto do Pavilhão. .Provavelmente darei uma passada por lá. não sou muito de festas. se quiser.Ah! Não faça isso! disse Alissa com uma risadinha. Se Trícia não fosse. Ted? .Vocês irão todos à festinha amanhã à noite? perguntou Alissa. Você pode ir comigo. o Sam e a Alissa! Agora é que Cris sentiu-se sobrando mesmo. Quer um emprego? Eles estão procurando mais alguém para trabalhar à noite. Sam e Alissa chegaram abraçados. tenho de trabalhar. Os pais dele vão estar fora da cidade no fim de semana. . .Na Sorveteria Hanson. . Além do mais. .Você vai. Olh'aí. . nitidamente orbitando em uma galáxia particular. . mas obrigada pelo interesse.Não. Trícia? perguntou Cris. respondeu Cris. Não numa festa dessas! São só algumas quadras. O interesse de Cris aumentou. Que será que estou fazendo aqui? perguntou-se Cris.Acho que eu vou.Claro. Você ainda vai poder me dar uma carona?! . . ainda tentando descobrir qual o relacionamento de Ted e Trícia. . talvez ela tivesse mais chance com o Ted.namorados.Não. disse Cris. É melhor irmos embora logo. .Ótimo! Cris lançou um olhar para Ted para ver se ele se ofereceria para levá-la. . Ted e Trícia! Até os nomes combinavam! Será que ele gostava dela? Sentiu-se meio insegura sem saber direito o que ela era para ele.Do Sam.Que festa? murmurou Cris. .Que horário você trabalha hoje? perguntou Ted a Trícia.

Pelo menos tinha isso de bom para esperar. Ontem ele parecia estar realmente interessado nela... esticada sobre uma espreguiçadeira no pátio. ela juntou suas coisas e atravessou a areia quente aos pulinhos. . de tempo em tempo.. A não ser sobre o convite para a festa. Hoje ele e Trícia pareciam um casal. Além disso. Usava um maiô preto com uma faixa roxa na cintura e um enorme chapéu de palhinha com fita também roxa. tentando não deixar transparecer o desapontamento pelo fato de o Ted não passar o dia com ela. O pior de voltar para casa era a certeza de que sua tia pediria um relato completo do dia.Temos de ir. discutindo. Cris tirou o romance da sacola e tentou não ficar muito deprimida por ter ficado sozinha de repente. ele levando-a para o trabalho. e a Trícia não! Eu queria saber lidar com os rapazes como a Alissa. e foram caminhando pela praia abraçadinhos. Marta estava deitada. mas agia como se não ligasse a mínima. O sol da tarde queimava suas costas e. prometi a meu pai que terminaria de pintar a varanda hoje.. foi tudo o que ele disse. O corpo bronzeado de Alissa atraía como um imã os olhares de todos por quem passava. Como é que eu fico nessa historia? questionou-se. ela erguia os olhos na esperança de que Ted voltasse.Tchau! Vejo vocês depois! disse Cris a Ted e Trícia. Tudo que Alissa fazia era perfeito.. Vou levar a Trícia para o trabalho. . Certamente ela sabia que todo mundo estava olhando. e não havia muito a dizer. Alissa e Sam também resolveram sair. com um copo grande de chá gelado na mão. Se pudesse ser igual a ela. Pelo menos ele vai á festa amanhã. Depois de passar ali várias horas sem progredir muito na leitura. Não dava para entender. imaginando como seria que a Alissa conseguia andar com tanta elegância. Assim seria mais fácil conseguir que um cara como o Ted gostasse de mim. Só suas pernas estavam expostas ao sol.

eliminando os detalhes. a Alissa vem me buscar. acrescentou: . Cris esperava que Marta não insistisse em levá-la de carro. Quando Cris entrou na cozinha. lembra? . Estou surpresa por meu rosto estar . mas falou sobre o convite para a festa.Mesmo? perguntou. Tão bom quanto ontem? Cris fez um relato. . disse Marta. Bob estava retirando um pacote de hambúrguer do congelador.Vestido de festa? Sem essa! E se a gente for fazer alguma brincadeira mais movimentada? Eu vou de jeans. parecendo contente. Marta se acalmou.Na verdade. porque Alissa dera a entender que ela ia parecer meio infantil se a tia a levasse. Não vi você chegando. se tentasse! A que horas devo deixá-la na casa do rapaz? . Marta disse com orgulho. Você se queimou! .Nossa! exclamou ele quando a viu.Olá. Marta parecia bastante preocupada. . .Estava lendo uma revista em formato de jornal. vou pensar no caso. e uma manchete que dizia algo como: "Alexis quer vingança".Sim. . Como foi o dia querida.Eu sabia que você conseguiria se entrosar com a turma mais popular. Em seguida. Não contou que acabara ficando sozinha na praia. . mas não compramos nenhum vestido de festa de verdade. Por um momento Cris achou a tia um pouco parecida com a artista da capa.Mas tia. . com a foto de uma artista de cinema na capa. Para alívio seu. com uma expressão meio assustada. você me deu um guarda-roupa inteiro faz poucos dias. Cris! disse Marta.Bem.Ó céus! Temos de sair para comprar um vestido bonito pra você usar.

Devo chamá-la quando estiver tudo pronto? . e eu vou com a Alissa.queimado. querida! Você está horrivelmente queimada! Não levou o filtro solar para o rosto hoje? . Fui até convidada para uma festa. disse com exagero dramático. Até mesmo o gel de aloe Vera ardia quando o aplicava aos ombros. disse Cris. Passe isto depois do banho.Cristina. .Não. que a convidou? . Marta olhou bem para o rosto de Cris. Tem alguma coisa pra se comer nesta casa? . enquanto subia a escada. A festa é na casa do Sam. Foi só quando olhou no espelho do banheiro que viu o que seu tio falara sobre a queimadura de sol. Bob parecia não se importar. Mais tarde. .Hoje na praia eu não os assustei. Até suas orelhas estavam queimadas! Ao lavar o cabelo. mexendo nos armários.Si. ou você vai inchar como tomate e assustar os garotos.Daqui a algumas poucas horas teremos um jantar rnexicano no pátio.Aqui. sua lagostinha. anunciou. quando os três se sentaram à mesa para jantar. e falou: . a água do chuveiro parecia mil agulhas enfiando-se nas suas costas. si senor! respondeu Cris. .Claro. A festa é só amanhã. terminando de tomar o sorvete. Vestir-se foi um esforço monumental. explicou. disse ele. mas ele também vai estar lá.Foi esse seu novo amigo. Cris pegou uma colher e começou a tomar sorvete de chocolate e nozes direto no pote. Minha nossa! retrucou Bob. Fiquei de bruços quase o dia todo. abrindo a geladeira e procurando algo para comer. o Ted. Não estamos nos tornando uma borboletinha social de repente?! Teremos a honra de sua presença no jantar hoje? . oferecendo-lhe um tubo de gel de aloe vera. respondeu ela com certa petulância.

mas Marta não a deixou sair de casa. ele já estaria novamente do tamanho do Alissa. tendo morado em tantos lugares diferentes. Passou o dia pensando nele. Virou a cabeça pra trás em frente ao espelho.Deixa a mocinha! protestou Bob.Não coma muito. que besuntava uma variedade de misturas nos seus ombros e costas doloridos. Estava tão queimada de sol que acabou passando o dia inteiro deitada pelos cantos. Ela queria ir à praia para procurar o Ted. vida do que todas as amigas de Cris de sua cidade. Finalmente resolveu pôr um jeans novo e uma camiseta com estampa de ursinho. Quando completasse dezessete anos. Lá pelas quatro da tarde começou a revirar o guarda-roupa a fim de decidir o que vestiria. Alissa era tão mais amadurecida que Paula e. pensava no lindo cabelo comprido de Alissa. disse Bob acalmando-a. Eu lhe dei o gel de aloe vera. imitando sorriso de Alissa e sacudiu a longa cabeleira imaginária.Bem. Ela vai ficar bem. querida. sabia muito mais sobre . meu bem? . amanhã vai ser uma noite importante para Cris.O que está fazendo. Marta. tomando água gelada e tolerando a tia. gemendo.. Era o tipo roupa que Paula teria usado. . . Você tem de sentir-se leve amanhã à noite. ***** Cris não se sentia tão bem quando chegou a grande noite. . Mas o que ela queria mesmo era ter o número do telefone da Alissa para perguntar-lhe o que ela iria vestir. Enquanto escovava o cabelo curto.Está tudo bem. . e só quero que ela esteja com seu melhor aspecto. Resolveu deixá-lo crescer de novo.

Já estou quase pronta. Depois. assustada. .Bem.Isto.Parece que você já se decidiu. quando a gente resolve. O que é que ela sabe sobre a turma? Colocou novamente a camiseta. Vou usar isto. . com vontade de gritar. . Vou vestir o que eu quero.Está na hora de você começar a se aprontar. Já resolveu o que vai vestir? Cris olhou para sua roupa.Não me importa o que ela acha. abriu de sopetão a porta do armário. Primeiro os adultos insistem em dizer que temos de crescer. disse bem alto. mudou o tom de voz e anunciou com uma alegria exagerada. Ai! A pele queimada latejava. Eu estava só querendo ajudar. . ser autênticos e tomar nossas próprias decisões. pegou o vestido novo de alças e arrancou a camiseta. escovou o cabelo e desceu a escada. Marta examinou a garota com ar de censura. .Oh! Só brincando.Marta estivera olhando da porta do quarto. respondeu Cris. . eles falam que somos incompetentes e que nossas decisões são insensatas. Jogou a escova no chão. Caiu no choro e jogou-se na cama ficando quietinha até sentir-se mais calma. . Virando-se então para sair. o jantar está pronto! Não agüento isso! pensou Cris.

Estou gostando de ver como .Estou ansiosa para conhecer sua nova amiga Alissa. seu quiche de camarão. . Marta retomou o controle da situação. em silêncio.A Festa 6 Á mesa do jantar Cris revirava.

Nem Sam nem Ted estavam por perto. o cabelo muito bem arrumado. Alissa desfilou pela sala com movimentos de bailarina. que cumpriu seu papel bem ensaiado . Quando estavam a caminho da casa do Sam. e aquela música barulhenta fazia seu coração bater mais forte. Um vestido branco incrível que destacava seu bronzeado. Sua maquiagem estava perfeita. Tenho coisas melhores pra fazer do que criar menininhos. Cris observava impressionada.Eu quase não vinha mais. Ele é um bebezão. como seu carro de golfe quebrara no décimo quinto buraco aquela tarde. "O ápice da perfeição". ao mesmo tempo. . Quando Alissa tocou a campainha. num jeito muito engraçado. Quando chegaram. Alissa disse: . Primeiro girando para cumprimentar uma pessoa. Cris analisou-a detidamente. tudo nela era perfeito! Cris a detestava e. O ar da sala encheu-se do seu perfume de gardênia enquanto ela. Mas começou a animar-se novamente quando Bob contou. educadamente. diria ela mais tarde. Cris estava contente de novo e disposta a se divertir. Mas o entusiasmo da garota murchou quando abriu a porta.Você pensou isso? disse Alissa. e um ótimo exemplo para Cristina. Até recebeu um convite para uma festa! É absolutamente ma-ra-vi-lho-so! Agora Cris nem sentia mais vontade de ir à festa. parecendo surpresa. O Sam é um boboca! Tão imaturo! . Marta gostou imediatamente de Alissa.você tem feito amizades depressa. conversava com Bob e Marta. daria tudo para ser igualzinha a ela. Era um mar de espectadores desconhecidos observando o desempenho de Alissa.Pensei que vocês já estivessem ficando apaixonados. depois levantando graciosamente o braço para acenar a outra. Alissa estava usando um vestido.

"Magnum". assustada e dolorosamente consciente de que era a única de jeans. deixou a moça com quem viera. conversando.Com licença. e achou o gosto horrível. e os dois saíram juntos pela porta da frente. Obviamente Alissa decidira que ele seria sua conquista da noite. perto geladeira. Não queria beber aquilo. intimidada. E ele deve ter percebido suas intenções porque. mas não poderia ir para casa agora. Só tinha cerveja. em poucos minutos. segurando latas de cerveja. Todas as outras garotas estavam com vestidos de festa. Talvez se sentisse melhor se estivesse com uma bebida como todo mundo. Cris calculou que ele tivesse vinte e um ou vinte e dois anos. lembrava aquele cara do antigo seriado TV. Simplesmente apontou para uns tambores de gelo que estavam no meio da cozinha e tomou mais um gole de cerveja.ate ir sentar-se no sofá. As pessoas à sua volta davam-lhe as costas. Ela se sentia como uma menininha de três anos. "Como alguém pode gostar disso?" Outro surfista entrou na cozinha e gritou pra ela: . saiu do seu cantinho e procurou a cozinha. Ninguém olhava para ela. Ele estava até usando uma camisa com estampa havaiana. De cabelo e bigode escuros e espessos. Só havia experimentado cerveja uma vez. No outro tambor era a mesma coisa. algumas fumando. Agora Cris estava sozinha. Cris enfiou a mão no gelo para procurar um refrigerante. Não queria admitir para a tia que fracassara. . É aqui que a gente pega alguma coisa pra beber? Ele não respondeu. Enchendo-se de coragem. passou o braço em volta de Alissa. quando tinha dez anos. tremendo num canto com sua camiseta de ursinho. Como poderia admitir que a tia estava certa sobre o que ela deveria vestir? Sentiu uma enorme vontade de sair correndo porta afora. disse ela a um dos surfistas em pé. onde estava o cara mais maravilhoso da festa.

de repente. O silêncio foi total. respondeu.Ei.Ah? . Ela perguntou de novo.Ah? Ele parecia confuso e. a Alissa veio? .Onde lá em cima? . .Vá embora! . a música parou.. mais alto: .Ei. Era a primeira pessoa que falava com ela desde que chegara à festa. entregando-lhe as latas. .Lá em cima. Daí ele conseguiu lembrar: . perguntou: .Sabe onde está o Sam? O surfista olhou para ela como se estivesse tentando lembrar de onde a vira antes. .Veio. subiu a escada. Atendeu prontamente e.Você sabe onde está o Sam? Ele pareceu não escutar por causa da música.Qual é. Cris assustou-se.Lá em cima onde? Ela estava gritando no ouvido dele. manda duas geladinhas. Por que todo mundo está me olhando assim? Seu coração batia Será que estão me achando infantil por ter pedido Coca em vez de cerveja? Tentando manter a pouca compostura que ainda tinha. mas já saiu com outra pessoa. Um dos rapazes disse: .Eu só queria perguntar ao Sam onde tem Coca. e alguém gritou lá de dentro: . gatinha?! Hoje é dia de festa! A menina ao lado dele riu. Cris tinha de gritar porque a música estava ensurdecedora Daí perguntou: . Bateu na primeira porta fechada que encontrou.

Sam. Ninguém conversava com ela. . sentindo-se uma completa idiota.Cadê a a Alissa? . . Todos olhavam para um cara ao lado da mesinha de cabeceira. . embora não a ignorassem totalmente. Sua voz refletia a irritação por ter sido deixada sozinha. Agora ela estava entendendo por quê.Eu não queria incomodar você. da mesma maneira que aquele rapaz a olhara na cozinha. Cinco ou seis pessoas estavam sentadas na cama e no chão. Ce sabe. não Coca-Cola! Como ela pôde ser tão boba? . De vem ter pensado que ela estivesse pedindo cocaína. tá legal? Mas esse aqui é de primeira.Não tem coca. De repente Cris entendeu e exclamou: . "Ouro de Kona”. depois aproximou-se de Cris e disse baixinho: .Oi. Sam deu ao rapaz uma caixa de fósforos. que enrolava alguma coisa entre os dedos. Sam também estava irritado e soltou uma série de palavrões que a deixaram totalmente chocada. alguma razão. muito melhor do que o que a gente consegue por aqui. e Sam apareceu. disse Cris.Claro! Entre aqui! Sam conduziu-a para o que certamente era o quarto de seus pais. Sam olhou em volta e atrás dela.Quer dizer que isso é maconha? Novamente todos olharam para ela como os outros na cozinha haviam olhado. eles a haviam aceitado.Saiu com um cara. Só queria saber se tem Coca ai? Ele a olhou assustado. Era como se tivesse entrado numa turminha particular e. Como eles podiam parecer um par de pombinhos num dia e desprezar um ao outro no dia seguinte? .Bateu então numa segunda porta.

O que Alissa faria? O quarto parecia rodopiar sua volta. como eu falei.Não posso! Simplesmente não posso! . Ela abriu os lábio.Sam parecia ofendido. Cris entregou-lhe o cigarro. tenho de ir embora”? Desesperada. Ela é uma grande garota. . mas. Sam entregoulhe o cigarro sem dizer nada. A música que vinha do andar de baixo provocava uma vibração que ela sentia desde a sola dos pés até a cabeça. .Ei. Sam. O que deveria fazer quando ele oferecesse de novo o baseado? A porta ficava do outro lado do quarto. ela engasgou: . sentindo o ardor das lágrimas nos olhos. legal! exclamou Ted. Não dava para sair discretamente. O suor fazia arder seu rosto queimado pelo sol. De repente ouviu uma voz do outro lado do quarto. . parou.Tudo bem. Quer a primeira tragada? Todo mundo estava esperando. Que criançona! . puxando a fumaça densa. obrigada. para dentro dos pulmões e prendendo a respiração antes de soltá-la.Parece até que é a primeira vez dela! disse uma das meninas. É capaz de tomar suas próprias .É. Ela tomou-o com mãos trémulas entre o dedão e o indicador como o vira fazer.Tá legal. A fumaça espessa enchia s narinas. Fechou os olhos e levou-o à boca. como poderia simplesmente dizer: "Não. Toma aqui! disse ele empurrando o baseado na frente do rosto de Cris. de repente. Ele deu uma tragada. vá você primeiro. passe pra nós! pediu um dos rapazes. . a coca não pintou. Só aquele cheiro já estava deixando Cris com a cabeça leve.Vamo lá. sentada à beira da cama. de cheiro adocicado. Depois de toda a confusão que causara. respondeu.

. . ha. . Desesperada. Sentia-se insegura demais para fazer qualquer outra coisa.Você vai para casa agora? perguntou com ternura.. mas incerta quanto ao que poderia acontecer em seguida.decisões. mas. aprecio vi ter me convidado.Acho que sim.Vou com você. mas simplesmente um fato. . pronta para dar um murro em quem fosse. Ela desviou o olhar e tentou não chorar mais. disse ela. deixou as lágrimas escorrerem. foi muito bom. acrescentou. murmurou Sam. Era o Ted.. Eu. . Cris virou-se bruscamente.Vamos por aqui.. ia empurrando as pessoas para abrir caminho entre amultidão que bebia... ria e sacudia a cabeça ao som da musica. enquanto ela saía correndo do quarto e descia apressadamente a escada.Bem. Todo mundo olhou para ela. e.. Era mais uma de suas declarações. engolindo em seco.. caminhando em direção a praia. De repente. . . Não uma pergunta ou um convite. a-a-acho que vou indo agora. com vontade de gritar.Como você quiser.. Seguiu-o de boa vontade. para limpar alguma mancha de rímel e lápis. Sou mesmo uma criançona! pensou. Cris passou o dedo por baixo de cada olho. alguém tocou em seu ombro. Passando pela porta da frente. Sam. ha. ..

Tempo de Chorar 7 .

Estava gostando do Ted pra valer. Cris notou pela primeira vez o quanto o rosto do Ted transmitia serenidade. Ela puxou as pernas para cima. fiquei aliviada por você ter vindo me socorrer.. Estava se virando muito bem sozinha. eu não sei. sentindo o cheiro do mar. um tempo para a garota aclarar as idéias.Atravessaram a areia macia e fresca em silêncio. ao olhar para ele naquele momento. Ele tinha personalidade forte e sempre se expressava de maneira bem direta. A noite estava tranqüila.Eu. Queria apagar da lembrança a hora passada naquele lugar. . Ficaram em silêncio muito tempo. A propósito.Não. Ted fitava o mar. Cris respirou fundo. O ar estava morno.Quer sentar um pouco no quebra-mar? . espirrando gotículas de água na calça jeans de Cris. Por que ele tinha vindo com ela? Ela havia sido tão tola na festa.Você não precisava de mim.. Ela sentia-se culpada por não confiar nele.. deixando tonalidades laranja e rosa no céu. sentando-se com as pernas cruzadas sobre a pedra tosca. e a atmosfera toda tinha um efeito calmante.Então. Acho que sim. Cris viu algo terno em seus olhos. Era como se ele tivesse deixado. e agora quisesse bater um papo. mas aquela umidade provocava um friozinho que a fazia tremer. O sol acabara de se pôr.. começou Ted. de propósito. Entretanto. O que começara como uma leve "paixonite" estava-se tornando algo que nunca sentira antes por um rapaz. . tomou sua decisão sem que eu tivesse que dizer nada. hein? . . Ted interrompeu os pensamentos confusos da garota.Não era o tipo de festa a que você está acostumada. admitiu Cris. . será que ficar sozinha com Ted seria outro passo errado? Ela não sabia mais em quem podia confiar. As ondas quebravam logo abaixo de seus pés. .

mas Ted não era o tipo de cara com quem se pode fazer brincadeiras tolas. . Cris ficou surpresa. disse ela. . . . e disse não. Na verdade eu nunca fumei nenhum tipo de cigarro.Antes de eu vir passar as férias aqui.Porque sou cristão.Parece sábio. pra ser sincera. Mas não faço mais isso. mas logo após Cris indagou: .. Nunca tinha visto nem sentido o cheiro de maconha! Me deu nojo. mas pensei que depois me arrependeria se experimentasse. Tudo estava acontecendo tão depressa que não tive muito tempo para pensar se queria ou não. e estava-me sentindo uma idiota parada lá daquele jeito.Que coisa? . Eu ia experimentar porque achava que era o que a Alissa faria.De maconha.Não.Sim.É por isso que você recusou o baseado? perguntou Ted. Você está contente agora por não ter fumado? Cris pensou por um momento.Por quê? Ted olhou-a direto nos olhos. Antigamente eu fumava.Posso lhe dizer uma coisa? perguntou. .Gosta do quê? . . Foi por causa de uma coisa que prometi aos meus pais. Estava com um pouco de medo e também curiosa. hesitando um pouco. . acho que sim. Nunca esperava uma declaração daquelas de um surfista de . Você fuma muito? Sua ousadia surpreendeu até a ela mesma. .Você gosta? .Não. Seguiram-se mais uns minutos de silêncio. eles me fizeram prometer que não faria nada de que pudesse me arrepender depois.

Não dava para Cris ouvir o que Ted dizia para Sam. Sam gritou alguma coisa sobre surfar no quebra-mar de olhos fechados. Espere aqui um minutinho. declarou Cris. que saiu caminhando pela areia em direção a Cris. imitado pelo resto da turma. Quer ir lá? disse ele com voz tensa. . . terminando com: . Fui batizada quando era bebe. mas ela viu-o puxar o braço do amigo. disse Ted.Eu não preciso de você! Me larga! Sam mergulhou enquanto alguns da turma debochavam de Ted.Newport.Eu fui batizado bem ali. descruzando as pernas e endireitando o corpo. gritando e fazendo muito barulho. . tentando recobrar-se do susto. Pararam na praia a poucos metros de onde estavam Ted Cris.E o que Cristo tem a ver com isso? . . Fica "chapadão".Ele está pirado.Ir onde? .Tudo. Vinte e sete de julho.Bom. . Volto já. Era o pessoal que estava na festa. apontando para o mar No verão passado. É o dia do meu aniversário! Ted parecia querer dizer-lhe alguma coisa. também sou cristã.Não brinca! disse Cris. Parece que vai tentar surfar. Toda minha família é. mas foram interrompidos por um barulhento grupo de pessoas que caminhava em sua direção. .A Hanson ainda está aberta. o que nessas alturas é uma loucura. Sam vinha na frente. . Já o vi assim antes. Então ouviu Sam berrar uma série de palavrões para Ted.Que é que ele está fazendo? perguntou Cris. .

Obviamente o caso era muito mais engraçado contado pelo tio Bob. um minutinho só. . voltando a mostrar-se tranqüilo. A maneira como Ted estava falando demonstrava ira e frustração. e Cris sentiu um aperto no coração ao perceber por quê. ela limpou as mãos no avental e exclamou: .O que você quer tomar. Eu trouxe. não teriam encontrado lugar pra sentar! . só quando chegou lá é que lembrou que tinha deixado todos os tacos no carrinho.Não sei. Ela estava equilibrando um banana split numa mão e milk shake.Hoje está tão movimentado aqui! Se vocês tivessem vindo a uma hora. assustando-a um pouco. . Cris? perguntou Ted.Claro. Depois de entregar dois sundaes de chocolate na mesa ao lado da deles. gente! Já vou aí.Trícia! Como vão as coisas? Ted mostrou-se mais alegre e encaminhou-se para uma das mesas.Oi. Ela fizera um rabo-de-cavalo no cabelo. O rapaz permaneceu sério até entrarem na sorveteria Hanson. .Eu tentei.Tomar sorvete. e o Sam? . Eu não trouxe dinheiro.. . De repente ele se animou. Cris resolveu provocar Trícia um pouquinho. né? Ele é responsável por seus próprios atos.Cris não se lembrava onde ouvira aquele nome antes. o carrinho dele estragou e ele foi a pé até a sede do clube. . Ted.. Tentou animá-lo enquanto andavam até a sorveteria. perto do décimo quinto buraco! Ted não disse nada. desde que você não peça a “extravagância do .Não se preocupe. . amarrado com uma fita rosa-choque que combinava com o babado do avental do uniforme.Meu tio jogou golfe hoje. na outra. mas. e aconteceu uma coisa tão engraçada. Trícia trabalhava ali. .

Fico furioso da vida. Cris ainda tinha ciúmes da intimidade dos dois. sem nozes e com calda de chocolate quente. Sam estava totalmente drogado. Ted parou e deu uma mordida no abacaxi.Então vou querer um sundae de flocos. mas não estava pintando muita coisa lá. Contudo sentia-se contentíssima por estar vivendo seu primeiro encontro com um rapaz. Trícia. colocou o sorvete sobre a mesa e perguntou: . . . Parecia que a Paula é que teria de arranjar os cinco dólares. Quando saímos. continuou Ted. mas ele me xingou como se eu não valesse nada. com mãos experientes.Você não ia à festa do Sam.Por favor! gemeu Trícia. Trícia. Trícia.Quase bati nele. sorrindo para Trícia. Cerca de quatro meses atrás. Tentei evitar que entrasse na água. .Eu fui. As regras eram que ele tinha de convidar. Cris se sentia uma boboca. disse Ted. . . Até ali. disse Ted. Cris sentiu-se excluída da conversa. tudo bem. O "de sempre" do Ted era um milk-shake de manga com um pedaço grande de abacaxi. disse Cris.Essa não é exatamente toda a história. Quase quebrei a cara dele! Mas sei que isso não ia resolver o problema. e já ultrapassei minha cota hoje! . Fazer duas daquelas numa só noite é demais pra mim.E eu quero o de sempre.Hanson". então nós viemos embora. . Por que fui falar isso? E se o Ted disser a ela que na verdade saí de lá correndo e aos prantos? pensou Cris. Cris? . ela e Paula haviam feito uma aposta para ver qual das duas seria a primeira a ter um encontro de verdade com um garoto. pagar a conta e levá-la em casa. ao ver que Trícia dava conselhos ao Ted.

. com seu jeito franco. Sempre mesmo. Parecia mais uma discussão entre irmãos. Sou leal aos meus amigos. a não ser pelo surfe. Mas no ano passado.Tenho de atender mais umas pessoas.. .Sei que é difícil. "te ligo amanhã" ? De qualquer forma. Não é problema seu. e andamos sempre juntos. ou.Mas ele é meu melhor amigo! Não posso fingir que não me importo! Você nunca entendeu isso.Quero o número do seu telefone. principiou mas parou. lembrando que esse era o número de sua casa. Quando voltou. Nós nos conhecemos desde que eu me entendo por gente. . Você e Sam são bons amigos? . . disse Ted. Cris observou naquela conversa o mesmo clima de intimidade que havia notado entre os dois no dia anterior. Ted ficou um pouco retraído enquanto acompanhava Cris até sua casa. mesmo quando eles são uns crápulas! Trícia pediu licença. Será que ele disse: "Te vejo amanhã". ficou mais animada. Ted. tentando entrar no assunto. 794. Simplesmente entregue tudo ao Senhor. uma sirene de ambulância soava a algumas quadras.. Estava tão alta que quase não conseguiu escutar o que Ted disse ao despedir-se. a animação não diminuiu. nós nos afastamos. É ele que está errado. . Mas.É. disse Cris. Cris não entendia por que "tornar-se cristão" mudava a situação entre amigos. quando me tornei cristão. Ela lutava contra o pensamento desalentador de que talvez ele não gostasse dela do jeito que ela gostava dele. mas você não pode passar o resto da vida tomando conta do Sam.. na praia. à porta.E então. Trícia. mesmo quando encontrou a tia na . Não sabia o número do telefone dos tios de cor. disse. deixando Ted à porta e correndo para copiar o número na cozinha. Não me interessei mais pelas coisas que ele fazia.Espere um instante.

e desceu a escada de dois em dois degraus.Ôbaaaa! gritou. Seu tio jamais fará algo que possa envergonha-la! . . querida! Estou morrendo de vontade de saber como foi a festa. tudo numa palavra só.Olá! Ela queria parecer meio distante. Cris? perguntou Marta. ou Ned. Alguém de nome Fred. Talvez ele ligue pra mim amanhã. Enquanto limpava o rosto e se maquiava. . interessada e charmosa. . disse Marta.Digamos que não era o tipo de festa que eu esperava.Já peguei. Você e Alissa se divertiram? O que vocês comeram? Brincaram muito como você pensava? Cris riu até não poder mais. ipiscando os olhos. Por que está rindo tanto assim? A garota esticou-se no carpete fofo e balançou a cabeça. ou algo parecido. . . ou Ed. então é melhor dizer ao tio Bob para não pegar no pé dele. Que noite! Que semana! Parecia que havia amadurecido e mudado mais nos últimos dias do que nos últimos três anos. . . Ted . tio Bob! disse.Ah. Será que deveria descer à praia ou ficar em casa esperando seu telefonema? Enrolou o cabelo com um cuidado todo especial e estava quase pronta quando o tio bateu à porta. e em seguida ouviu o clique do aparelho sendo desligado. telefone.Olá.Cris. Ainda estava super animada quando acordou na manhã seguinte. .Não entendi. e Ted me trouxe em casa.O que você quer dizer com isso. claro que não! A garota subiu para o quarto morrendo de rir. Mas acabei me divertindo assim mesmo. e pegou a extensão na sala de leitura.sala. Já vou! Deu uma última olhada no espelho. pensava em Ted.

talvez saiba dizer onde os pais foram. Acho que vou voltar para a casa dele pra procurar os telefones de parentes ou alguém que saiba onde eles estão. Vi uma ambulância na praia e tive um pressentimento de que poderia ser o Sam. Teve vontade abraçá-lo e chorar em seu ombro. Se ele acordar. mas faria qualquer coisa pelo Ted. Estava pálido e a expressão angustiada não combinava com o rosto forte e terno que Cris conhecia. mas por que ela não podia? . Eu não queria incomodar você. .O Problema não é comigo.Claro. . Ted.Ted! O quê? Como? O que foi que aconteceu? Você está bem?. . Ted foi embora e os três pegaram o elevador para o andar em que Sam se . A moça ficou tão assustada que quase deixou o fone cair. perdeu muito sangue e ainda está inconsciente. respondeu Cris estupefata. Passei a noite toda aqui. .Ontem.parecia ser o tipo do cara que costuma fazer essa espécie de joguinho. Estou no hospital. Quebrou muitos ossos. Ele foi atirado contra o quebra-mar ontem. É com o Sam. Já estou indo aí. mas não consigo falar com mais ninguém. Os pais dele estão viajando. . Ted encontrou-os no saguão e disse o número do quarto no hospital e do telefone da casa do Sam.Bem.Quando você ficou sabendo? . quando deixei você em casa. então fui seguindo-a até o hospital.Cris. o que eu posso fazer? Cris estava abalada e se sentia incapaz de ajudar.Pensei que talvez você pudesse ficar aqui com ele. Bob dirigia e Marta falava sem parar. Você acha que sua tia ou seu tio poderiam trazêla? É no Hospital Memorial Hoag. é o Ted. . concluiu com voz cansada.

teve uma festa na casa dele ontem à noite. senhor. e eu cheguei lá pelas oito. . com a voz ainda mais alta e estridente que de costume.Com licença. Havia algum problema por ele ser menor de idade e seus pais não estarem presentes para assinar os papéis permitindo cirurgia.Sim. .Talvez a senhora devesse deixar a jovem responder. começou Cris. disse a tia. Um policial surgiu de repente e uma enfermeira conduziu-o a Cris.Rolava droga na festa? Marta engasgou. não! O oficial parecia irritado. . Sam parou de respirar e foi levado imediatamente para a sala de cirurgia. Talvez devêssemos sentar pra que você me diga tudo que sabe. Bob conversava com o médico em voz baixa. mexendo nervosamente com as unhas. . disse o oficial. Você estava com Sam Russell ontem à noite na hora do acidente? .Céus. não. querida.Sou o oficial Martin. . . senhorita. olhando bem para ela. Posso fazer-lhe algumas perguntas? .Conte tudo. .Bem. . Tantas coisas aconteceram ao mesmo tempo que não dava nem para saber o que havia realmente acontecido. balbuciou Cris. disse ele. levantando a sobrancelha. e só sua presença já amedrontava. Marta foi a primeira a sentar-se. enquanto Marta e Cris aguardavam no corredor. O homem tinha quase dois metros de altura. . Isto é. mais ou menos.Sim.Sei. Quer dizer.encontrava.

ela respondeu mais calmamente: . ela observava a tia empalidecida. tão certa de que tinha tomado decisão correta. Me mandaram pra cima. senhor.Subi a escada. porque um dos caras me disse para subir. Era na casa dele. disse o policial. .Bem.Havia drogas? repetiu ele.Não. quando entrei. disse o policial. subi para o quarto e.Sabe o nome de alguma outra pessoa que estava na festa? perguntou o oficial. Eu estava procurando alguma coisa para beber que não fosse cerveja. com voz tremula. Nunca se sentira tão bem.Oh. . . tinha umas pessoas que estavam. Eu não usei.Continue.. quero dizer. . . Mas aí concluí que devia ser maconha. Sam Russell. . no começo eu nem sabia o que estavam fazendo. .Senhorita Miller. A festa. inclinando-se e olhando firmemente para Cris. . .Sim. Cris tremia tanto que não conseguia nem raciocinar direito.Sim. e perguntei se tinha Coca em algum lugar. contendo-se um pouco. O coração de Cris martelava. Marta suspirou aliviada. senhor. disse Cris. não! Marta parecia que ia desmaiar. senhor. Com o canto do olho. Você participou no uso de drogas ilegais ontem à noite? .. pra perguntar ao Sam.Marta encolheu-se no sofá.Não! A palavra lhe saltou da garganta como um gato acuado. bem. Depois. .

Quer dizer que o Ted foi embora com você depois que Sam entrou no mar? Ela acenou que sim. . Mas não adiantou.O paciente expirou? perguntou o oficial sem emoção.Sinto muito.Ted ainda não sabe! disse ela chorando. Cadê o número? Marta se recompôs e voltou ao controle da situação. Acho que o sobrenome dele é Spencer.Não.Ai. senhorita.Esse Ted tentou impedir Sam de entrar na água? . Bob acenou. Os médicos não puderam fazer nada. Cris deu mais alguns detalhes.Só o Ted. Ela começou a tremer incontrolavelmente e chorou com a cabeça em seu ombro. . A cabeça de Cris estava a mil enquanto olhava para o tio Bob na cabine telefônica. com o rosto pálido como cera.Deixe que seu tio faça a ligação Cristina. . disse o policial. senhor. obrigado por sua ajuda. Cris notou que o tio vinha caminhando pelo corredor em sua direção.E você não conhecia mesmo as outras pessoas no quarto ontem à noite? Insistiu ele. não parecendo convencido. . . . Fique aqui e procure acalmar-se. Temos de ligar pra ele. . Bob sentou-se e abraçou Cris. . Com licença. disse: . mas não tenho certeza. deixando marcas de rímel em sua camisa de golfe azul-clara. confirmando. segurou seu queixo com cuidado e.. meu Deus do céu! exclamou Marta. com os olhos marejados de lagrimas.Bom. De repente o policial interrompeu-a e perguntou: . Aproximou-se dela. É ele que está tentando localizar os pais do Sam. . senhor. a . Continue.Sim.Está bem. querida. Ele disse que o Sam estava “chapado" demais e não sabia o que estava fazendo.

E o Ted? Cris chorava incontrolavelmente. . .Na verdade. eu não tinha idéia de que era esse tipo de amigos que lhe faziam companhia! Ora. Bob acrescentou: . indignada. Quando chegaram na rampa de entrada da garagem. Bob interrompeu-a com uma força que Cris jamais vira. Cristina. e agora se fora. . Nunca os vira brigando assim. Falando em voz mais baixa. e Ted vai busca-los no aeroporto. . não vai admitir! Com isso bateu a porta do carro e entrou em casa furioso.Consegui falar com ele. Não podia ser verdade! As lágrimas lhe escorriam pelo rosto.. Eles estarão voltando no próximo vôo. tudo estava quieto. Marta quebrou o silêncio.Que audácia! disse Marta. Marta! Não vê que foi você que a empurro para tudo isso? . Tirando o fungar de Cris e os suspiros ocasionais de tia Marta. . pronta para se defender.Eu?! Como eu poderia empurrar a menina? Marta bufava. a ira de Marta desapareceu.Sim. Ele localizou os pais do Sam em Carmel. Do mesmo modo como uma onda espumante se retira. Bob insistiu: .Eles ainda não sabem. Como o Sam podia estar morto? Ela só o conhecera poucos dias atrás. Bob voltou e disse mansamente: . se eu tivesse pensado por um momento que você iria a uma festa com drogas ontem eu.alguns metros. disse Bob. Cris não sabia o que fazer. e .Cala a boca. você! E você é teimosa demais.. A volta para casa foi incomoda.Acho que é melhor a gente ir embora.

Prefiro me deitar um pouco. Como tia Marta podia falar em comer numa hora daquelas? A garota fitou os olhos na tia.. Sabe o que mais? Vamos nós duas comer uma salada na Ilha Balboa? Há um lugarzinho maravilhoso que há muito quero que você conheça. mesmo com o espírito tão conturbado. enquanto o conversível prateado descia a rampa da garagem e corria pela rua. Cris saiu do carro e abriu a porta da frente com um gesto melancólico. Uma dor lacerante parecia esmagar sua cabeça.Está bem. . O final veio intencionalmente sarcástico e. Cris procurou responder com toda a educação possível.Vamos? Insistiu Marta.Cris. Deus não podia ter evitado que aquilo acontecesse? Todos nós cometemos erros. .ela recobrou a postura reservada de sempre.. Por muito tempo ficou deitada na cama. Será que o inferno existe? As pessoas vão para o inferno quando morrem? Como é que ele foi morrer daquele jeito? . Refugiou-se então no quarto. É verdade que de estava fumando maconha. Tenho certeza de que ele não quis magoá-la. Então vou sozinha. se não se importa. a morte de Sam não saía de sua cabeça. fitando o nada a sua frente. procurando a chave do carro. mas sua morte foi um acidente. não estou com vontade de comer. Marta disse: . Como um disco arranhado que voltava sempre para a mesma linha. Não fique sentida com seu tio. meu bem. "Que mulher fria. E onde Sam estava agora? Será que estava no céu ou . onde passou o resto do dia de porta fechada. Cris sentia-se como se o mundo inteiro estivesse girando e rodopiando à sua volta. com um gesto de desagrado. insensível! Será que ela acha que fingindo não ver a realidade. tia Marta. fará as coisas ruins desaparecerem?" . Os questionamentos eram tantos! Por que Sam? Ele tinha só dezesseis anos.Sinceramente.

no entanto estava dominada pela emoção. As ondas continuavam a vir e voltar. me chame. Até o pano parecia áspero contra sua pele. pensou.Não parecia verdade. ao reler. obrigada.Cris. Mal conhecia Sam. . não encontrou as respostas que procurava. Tudo parecia amargo como fel.Não. chamou Bob baixinho. conseguisse entender o que acontecera.Claro.Quer que eu prepare alguma coisa pra você? perguntou ele. de tanto segurar a caneta. se não se importa. Finalmente foi vencida pelo cansaço. . Nada havia parado. Contudo.Quer beber algo? Está com fome? . tá bem? . As pessoas continuavam a fazer sua corrida de fim de tarde. Obrigada. Escreveu tudo numa carta para Paula. Talvez se escrevesse tudo. tio. O mundo continuava seu curso lá fora. Nada parecia verdade. e ficou com cãibra na mão. Só quero ficar sozinha. Entrou no banheiro. Não vou incomodá-la mais. se isso tivesse acontecido com um amigo mais intimo? . Como seria. Foi a carta mais longa que escreveu: vinte e quatro páginas. . A vida continuava para todos os Outros. Levou horas. ou pelo menos fazer com que aquilo parasse de girar em sua cabeça. O sol começava a se pôr quando ela olhou pela janela.Obrigada. encharcou um pano felpudo com água morna e fez uma compressa no rosto. viu? Qualquer coisa. Não parecia justo. no horário de sempre. A garota levantou a cabeça. Ela continuou a escrever. As gaivotas sobrevoavam as latas de lixo. respirando o vapor. Mas se precisar de alguma coisa. . do lado de fora da porta. . colocasse no papel todos os acontecimentos dos últimos dias.Está bem.

Trôpega. caminhou até a cama. puxou o acolchoado sobre os ombros e caiu num sono profundo. .

ela ficou um tempão na frente do guarda-roupa. e já estava ocupada arrumando as malas para a viagem. e sentia-se mais segura com ele do que com as roupas novas. em estilo colonial. Marta sugeriu que fossem juntos passar alguns dias em San Francisco. Nenhum dos dois falou muito no carro. e eram de gente mais velha. Bob e Marta haviam se reconciliado após aquela briga e ambos vieram pedir-lhe desculpas. Quando Bob estacionou em frente à casa funerária branca. Não tinha nenhuma roupa preta. Era como se Cris soubesse que as coisas estavam acontecendo. Cris conseguiu persuadi-la a adiar o vôo. Encontrou o tio na cozinha. Queria ir no dia seguinte e já havia feito as reservas de avião. No dia do enterro. e há muito tempo.Perguntas e Respostas 8 Os dias que se seguiram foram como uma névoa sobre o mar. para que pudesse assistir ao funeral do Sam. e descobriu que tia Marta havia-lhe preparado a bebida protéica. será que as pessoas ainda usavam preto em enterros? Finalmente resolveu pôr a saia e a blusa velhas que usara no dia em que saíra para fazer compras com sua tia. Só tinha ido a dois velórios em sua vida. tentando resolver o que vestir. Cris teve uma vontade enorme de pedir a ele que . Não se lembrava do que havia vestido. Só Bob a acompanharia ao funeral. Talvez esse conjunto não estivesse tão na moda. Tudo parecia meio fora de foco em sua mente. Além do mais. Marta ria como se tivesse sido algo sem consequência. Entretanto. com a ajuda do tio. mas era algo conhecido. enquanto as palavras de Bob foram carregadas de sincera preocupação com os sentimentos da sobrinha. mas não conseguisse distinguir os fatos com clareza.

cantou um hino arrastado. enquanto Bob e Ted se cumprimentavam com um aperto de mãos. deu uma mensagem curta A mãe de Sam encontrava-se na primeira fileira. Entretanto mudou de idéia ao ver Ted e Trícia ali na escadaria da frente. começou ele. O padre voltou para o púlpito. vestindo um tailleur cinzento. e ele só havia telefonado uma vez para dizer a hora e o local da cerimônia fúnebre. Foram para uma pequena sala abarrotada de arranjos florais. . Provavelmente jamais me perdoarei por não ter insistido mais com ele para que parasse. mas em vez disso estendeu os braços para Ted. mas Cris notou que suas mãos tremiam. e Trícia também lhe deu um abraço forte. Um padre careca. fazia sua cabeça latejar. Com seu jeito firme e direto. Uma mulherona gorda e ruiva. fazendo-a engasgar com o perfume forte e doce. . Depois.Ainda bem que você veio.virasse o carro e voltasse para casa. lenta e monótona. Ao vê-la. Ted sorriu. Ela sentia vontade de vomitar. Não vira o Ted desde aquela manhã. de batina preta. chorando sem parar. Sua voz ficou embargada. Cris queria chorar. Ted foi até a frente. . e parou para limpar a garganta. Cris respirou fundo e se dirigiu para onde estavam. Cris. anunciando que um dos amigos mais chegados de Sam havia pedido para dizer algumas palavras. A música de órgão. se afastaram. sem palavras. Estive com ele na noite em que morreu. Parecia confiante. O ar sufocava Cris. Parecia exausto. Ficaram abraçados por um bom tempo. no hospital. juntando as mãos como se estivesse numa ópera e não num enterro.Sou amigo do Sam há muito tempo.

limpou rapidamente os olhos com as mãos. O padre viera à frente e acenou-lhe para que se sentasse. fez uma pausa. Cris piscava para limpar as próprias lágrimas. tudo bem. Seus olhos já não estavam tão vermelhos. .Mas o que quero ler é o que Jesus disse para a família do amigo. disse ele com voz rouca. Não via em seu rosto nem um pouco de sentimento.Éramos realmente muito unidos. Com um soluço profundo.. ainda que morra. com os olhos marejados. ao encontrar o versículo. Ted olhou para os pais de Sam. Ela olhou para ele agradecida e ficou surpresa ao notar que ele não parecia emocionado. e fico admirado em ver que Jesus chorou. Olhou então para o público.. Ted ergueu a mão como se dissesse: "Só mais um minuto". colocou-a sobre o púlpito. Aqui diz que ele chorou. Estávamos sempre juntos até o verão passado. Ted limpou as lágrimas que escorriam e continuou. Ted ainda estava tentando controlar-se e parar de soluçar. Eu. Quem crê em mim. sem nem tentar segurar. Respirou fundo e limpou as mãos nos lados da calça. pigarreou e prosseguiu: encontrei um versículo no Evangelho de João que tem me ajudado muito. mas Cris ficou impressionada ao ver como ele estava pálido: seu rosto parecia uma folha de papel. Folheou a Bíblia com mãos trémulas e.. oferecendo-lhe um lenço. . . Olhou para Trícia e percebeu que também estava chorando muito.Gostaria de ler uma coisa. Ele disse: " Eu sou a ressurreição e a vida. Eu queria que o Sam também se tornasse cristão.No capítulo onze. quando me converti a Cristo. Bob tocou ternamente o braço de Cris. um dos amigos mais chegados de Jesus havia morrido. viverá!" Fechando a Bíblia. Assim. Não sei se o fez Foi aí que Ted se entregou ao choro. a gente pode se entristecer quando alguém a quem amamos morre. .

Ted não conseguiu terminar. e a maioria olhava para baixo. Muitos fungavam.. mas o que quero dizer é que Jesus me transformou de maneira radical. Só queria. em vez de olhar para as pessoas. as ondas pareciam uma linha fina de espuma de sabão. dando uma rápida olhada para o padre que se encontrava de pé. De cima. Assistir ao sepultamento.. Eu me entreguei totalmente a Cristo e agora sei que passarei a eternidade com ele no céu... engolindo o choro. disse ele. Virando o rosto para a janela. Queria que Sam estivesse vivo. em miniatura lá embaixo. Cobrindo os olhos com as mãos.. Simplesmente orei pedindo-lhe para perdoar meus pecados e tomar conta da minha vida.Bem. desceu e foi para seu lugar. Cris andou depressa até o carro. Como essas mesmas ondas podiam ter tirado a vida de Sam?! Será que é assim que Deus vê as coisas? Será que dessa altura tudo fica insignificante e sem valor para ele? Será que ele se importa com o que as pessoas sentem? . Só quando já estava no avião. tentava distinguir a linha da costa da Califórnia. Dirigiu em silêncio até chegar em casa. Queria que ele tivesse crido em Jesus e entregado a vida a Deus. finalizou com uma bênção formal. Queria ir embora imediatamente.Não sei se estou sendo claro. atrás dele. O grupo se dispersou. O padre voltou ao púlpito e. Inócuas. De olhos embaçados. Só queria que Sam. chorou. Apertando os olhos como se tentasse encontrar as palavras certas. a caminho de San Francisco olhando o oceano Pacífico pela janela. foi que Cris soltou as emoções reprimidas na cerimônia fúnebre. Pegou a Bíblia. O que eu estou querendo dizer é que gostaria de poder voltar no tempo uma semana. deixou as lágrimas jorrar. com voz grave e sem emoção. continuou: . Cris achou que não agüentaria nem mais um segundo. e parou engasgado. macias e espumantes. jamais! Bob nem perguntou nada.

Você não devia ficar assim tão emocionada com esse funeral.Cris. Havia gente falando em línguas estrangeiras." . deixando que o ritmo da música levasse pra longe aqueles pensamentos sombrios. Abaixou a poltrona com um puxão e colocou os fones de ouvido. ***** Cris se sentia como um robô. e depois no táxi que os levaria ao hotel St. interrompendo seus pensamentos com um tapinha no ombro. Assim que chegaram às suítes. Seus pais lhe ensinaram que deve ser uma menina boazinha e cristã. atendentes e carregadores colocando malas sobre carrinhos de rodas e. no restaurante anexo. . alguém tocava piano. Cris encarou a tia. do outro lado do saguão. Francis. esperando Marta acabar de registrá-los. popularidade e todas essas outars coisas que ela vive martelando na minha cabeça. Tenho de lhe dizer uma coisa. mas não estava nem ligando.Então ela lembrou-se do que Ted falou: "Jesus chorou. 1133 e 1134. o teto todo decorado e os lustres de cristal reluzentes do saguão. Deveria estar impressionada com o carpete espesso. e você não deve ficar pensando em coisas tristes e feias como a morte. Como é que alguém consegue viver de maneira tão simplista. tentando fazer o mundo caber dentro de sua bolsinha de festa? Tem de haver mais na vida do que dinheiro. roupas. Ficou de lado. A cabeça latejava e o queixo doía de tanto cerrar os dentes. Bob abriu sua mala e tirou um vidro de aspirinas para Cris. enquanto andavam pelo aeroporto de San Francisco. Ele si importa. Deveria estar tentando memorizar cada detalhe para depois poder contar tudo à Paula. Mexia com a alça da bolsa e tentava não ouvir os ruídos ao redor. chamou Marta.

Puxa! exclamou Cris. Magnin. nunca vi tantas lojas grandes num mesmo lugar! . Cris segurava com toda força. Abriu a cortina e estava olhando para a praça Union.É isso aí. saindo em seguida para o apartamento adjacente. os cantos da boca voltados para baixo e o cabelo murcho. Que passeio! E que clima festivo havia no ar! Será que vinha do bate-papo dos turistas no bonde? Ou daquele vento forte tão agradável. . Tomou duas aspirinas e olhou-se no espelho.. O quarto se encheu da fragrância de seu perfume. e firmou o braço no balaústre.Tudo aquilo ali são lojas de departamentos? perguntou Cris. O bonde sacolejava e balançava enquanto os cabos subterrâneos o conduziam morro acima. Nordstroms e Saks. entrando com Marta. Além disso.Isso deve ajudar.AMacy's é maravilhosa. Sem fôlego. no meio da praça. . Vamos pegar um bondinho. tocou as maçanetas de vidro e passou a mão sobre o sofazinho cor de salmão. que . disse Bob. não se sentia bem. Talvez fosse das casas à beira do caminho. disse ele. apontando à direita.Pronta para um passeio turístico? perguntou. conseguiram abrir caminho entre a multidão e pegaram o bonde que se dirigia ao Cais do Pescador. Cris ficou em pé no estribo. Sua aparência não estava nada boa: olhos vermelhos e inchados. Depois de uma espera de quarenta minutos.Vamos! sugeriu Bob. rumo à baía azul. acrescentou Marta. . . Cris desembrulhou o copo que estava no banheiro e encheu-o de água. que já trocara de roupa. apontando para os prédios altos que molduravam o parque. quando Bob bateu à porta. Mesmo sendo quatro horas da tarde de um dia de verão. Mas não podemos deixar de passar também no I. Dando uma volta pelo imenso quarto. à frente. todos levaram agasalhos. Francis? . Por que acha que nós sempre ficam no St.

pareciam tirada de um livro de histórias vitorianas, tornando o passeio ainda mais encantador. Fosse o que fosse, Marta notou claramente a animação de Cris. - Eu não lhe disse, Bob? cochichou, sentada no banco de madeira. A pobrezinha tinha que se afastar daquele estresse todo. Não é bom para uma menina de sua idade. Pode causar rugas precoces! Bob sorriu concordando e virou-se para o condutor, que se encontrava atrás dele, manuseando as manivelas com mãos fortes, protegidas por luvas. - Manejou muito bem o bonde naquela curva. Faz esse trabalho há muito tempo? - Sim, senhor, respondeu ele, um homem alto, de quepe e uniforme elegante. Desde 1985, quando reabriram as linhas Antes disso, ficaram fechadas dois anos para reformas, sabia? - É, lembro-me de ter ouvido sobre isso. Bob parecia realmente interessado. - Temos o maior orgulho dessa linha de bonde. É a única do mundo que se encontra em pleno funcionamento. - Que é divertido, é! gritou Cris, quando o condutor tocou o grande sino de bronze. Dim-dim-dim! Cris deu uma risada e imaginou-se num anúncio de televisão de arroz com macarrão, de San Francisco. - Segura bem, mocinha! avisou o homem. Vamos passar por outro bonde. Cris se encolheu toda, encostando o estômago nos joelhos de Marta. O bonde passou raspando, e ela sentiu que a alça de uma bolsa de alguém que estava dependurado no outro bonde, esbarrara nela. - Essa passou perto! Exclamou. Bob apertou seu braço. É bom ver esse sorriso de volta no seu rosto. O que você quer fazer? Comer primeiro ou dar umas voltas pelas "armadilhas" para turistas?

- Vamos andar um pouco, dar uma olhada por aí, não é, querido? Era evidente que Marta já fizera seu itinerário. - Bob, você pode ir ver o seu barco de pescaria e depois nos encontramos, digamos, às seis e meia no Alioto's para jantar. - Tudo bem, concordou Bob. Quando o bonde parou, desceram e partiram em direções opostas. - Esses lugarzinhos são meio cafonas, cochichou Marta para a sobrinha, ao entrarem numa pequena loja de suvenires. Mas pensei que talvez você pudesse encontrar uma lembrança para levar para sua casa. Amanhã faremos compras de verdade, no Centro comercial. Agora, se você achar alguma coisa de que gosta, basta falar. Cris pegou uma caixinha de música colorida, com um bonde que subia e descia o morro de cerâmica, tocando: "l left my heart in San Francisco" (Deixei meu coração em San Francisco). - Olha que bonitinho! exclamou. Marta pediu à balconista que embrulhasse bem e colocasse numa caixa. Enquanto a moça fazia o embrulho, Cris cantarolava baixinho aquela canção. Na verdade, pensou ela, deixei meu coração em Newport Beach. Sonhava em estar junto ao Ted no bondinho. Como seria bom sentir seu braço em volta de sua cintura enquanto subiam e desciam os morros de San Francisco... Marta trouxe-a de volta à realidade, chamando um jinriquxá* para irem ao Cais 39. Papagaios de papel colorido voavam alto no céu da noite de verão, enquanto uma variedade de atores de rua atraíam as multidões.
*Pequeno veículo montado sobre uma bicicleta, utilizado como táxi. (N.E.)

Cris ficou fascinada por um malabarista que atirava facões de açougueiro para o alto, mas Marta insistia em ir adiante. Entraram numa loja especializada em enfeites de

Natal, de toda espécie imaginável. Então Marta teve uma inspiração repentina: resolveu escolher um tema para sua árvore de Natal e comprar todos os enfeites ali. Depois de muita indecisão, escolheu carneirinhos em vez de anjinhos e selecionou o suficiente para encher toda uma árvore. - Vou ao caixa, Cris, disse Marta, animada com a compra. Encontrou alguma coisa que quer levar? - Ainda não sei. Cris mexia num enfeite, um ursinho de madeira com o nome "Ted", pintado com letras rebuscadas. Ela nunca havia compra do um presente para um homem antes, a não ser seu pai e seu irmão, e queria levar uma lembrança para o novo amigo. - E então, querida? indagou Marta, lá do caixa, pegando um cartão de crédito para pagar a conta. - Não, disse Cris, devolvendo o enfeite à prateleira. Não acho nada aqui. Talvez na próxima loja. A loja seguinte em que entraram era só de moletons. Havia uma coleção incrível de todas as cores e tamanhos imagináveis, pendurada na parede, em grandes suportes de madeira. - Este é legal! exclamou, mostrando à tia um blusão preto e branco com os dizeres: "Escaped from Alcatraz" (Fugitivo de Alcatraz). Marta não pareceu gostar muito. - Bem, não é muito feminino, querida, mas se é o que você quer, acho... - Não, tia; não é pra mim! É pro Ted. Posso comprar pra ele Por favor? - Entendi, disse Marta, examinando a blusa. É, suponho que não haja problema. Por que você não escolhe uma para você também? Aquela azul com veleiro branco está um amor, não acha?

Com cuidado. para não se machucar.Exatamente o que já lhe disse antes. observavam a névoa que vinha lentamente cobrindo a baía. Ele era mais ele. Seja fiel a você mesma com o que tem vontade de fazer. desde que saiba a hora de parar. Mas daí. Depois de uma pausa. Na verdade.O que está querendo dizer. quando Bob interrompeu a tagarelice de Marta para filosofar com Cris. Enquanto passavam manteiga no pãozinho quente. enquanto Cris replicou: . . Está entendendo o que eu quero dizer? ." quando íamos passar pelo outro bonde. . Você tem de saber se jogar para dentro na hora certa. continuou ele.Vinte minutos mais tarde elas encontraram Bob e sentaram-se numa mesa. na hora "H. Seja autêntica. e olhe só o que aconteceu. sentindo a total do vento e o ímpeto do bonde. não estava entendendo nada. pelando de quente. Que festa! Estava limpando as mãos com um guardanapo de pano. e molhava-a em manteiga derretida. Cris. tio? perguntou Cris. colocando na boca o último pedaço de caranguejo.E isso que eu estava dizendo sobre o bonde.Mais ou menos. Está morto. ao lado de uma janela no Alioto's. é como aquele passeio de bonde. Você estava-se divertindo dependurada do lado de fora. . Pela primeira vez Marta permaneceu calada. você se jogou para dentro e ficou em segurança. Bob respondeu: . o Sam fazia exatamente o que ele queria. É bom experimentar tudo que quiser.Há muitas coisas para se provar na vida. . Cris pediu um prato que nunca havia experimentado: caranguejo. É isso aí. quebrava a casca e puxava a carne branca. Aproveite a vida ao máximo porque é a sua vida.Mas tio Bob. .Bem.

E pretendia chegar a algumas conclusões antes de voltar para o Wisconsin. mas sabia que não era boboca. Todo mundo sabe disso. hein Cris"? concluiu ela recostando-se na poltrona. acaba tudo. E Deus? Onde ele se enquadra? Será que ele simplesmente me larga pra me virar sozinha e. como Bob e eu sempre fomos. Cris sentia a névoa emocional dos dias anteriores tornar a envolvê-la. disse: . Não tenho certeza se quero viver assim à beira do caos. querida! Deus é amor.. . como podemos ter certeza de que iremos para o céu ao morrer? Marta armou-se com todas as suas defesas. caso eu não consiga me jogar para dentro a tempo. mas estava resolvida a tentar compreender o sentido da vida.Por favor. querido. As respostas dos tios não satisfaziam.Sei não. Deus ajuda a quem se ajuda.Sim. e ele apenas diz: "Que pena. . pague a conta enquanto vou ao toalete Era como se um vento gelado tivesse varrido a sala quando Marta se retirou.Claro que não. . aí ploft. Por que não conseguia raciocinar e chegar a uma conclusão? Nunca lutara com tantas indagações assim antes. Você só tem de ser uma pessoa boa. Marta parecia envergonhada de que estivessem discutindo essas coisas num restaurante e tentou fechar a conversa dentro de seu embrulhinho compacto. você tem certeza de que isso é tudo Por exemplo. Cristina. . mas tia Marta. ingênua e inexperiente. Voltando-se então para Bob.Simplesmente não acho que esta seja a hora ou o lugar para uma discussão teológica. Talvez fosse mesmo jovem.

Desculpe! Não sabia que você já tinha subido. .Não tem problema. Por que ele não ligava? Será que sabia que ela ia sair da cidade? Bob empurrou a porta do quarto com a mala. . Retirou a do Ted e ficou com um dilúvio de dúvidas: Será que ele acharia tolice? Será que deveria dar o blusão a ele? Talvez devesse esperar o momento certo.. diante da porta da casa de praia. tio Bob! O telefone está tocando! Cris estava com as mãos cheias de coisas. Seu coração saltou de esperança.Carteiro! gritou Bob da porta.Vamos depressa! gritou Cris. . Nenhuma das chamadas era do Ted. o telefone já havia parado de tocar. disse Cris. Paula também não telefonara. Bob continuou a descarregar o carro e Cris ficou ouvindo com atenção as mensagens dos últimos três dias. Entretanto quando Bob conseguiu enfiar a chave na porta. Com passos arrastados. verificando o cabelo no espelho. Quem sabe ele lhe mandara um cartão daqueles . ninguém sentira sua falta enquanto esteve fora. subiu para o quarto..Eu verifico a secretária eletrônica.Depressa.O Barco ou a Praia? 9 . . Aparentemente. Faz o favor de colocá-la em cima da cama para mini? A primeira coisa que tirou da mala foi a sacola com as blusas. ou. Bob estava retirando a bagagem do porta-malas do Mercedes e Marta ainda se encontrava no carro. . como quando ele viesse vê-la ou quando a chamasse para sair.

Dinheiro! exclamou Bob. Pegou os quatro envelopes e olhou depressa os remetentes. Uma das cartas era de sua mãe. . Espero que esteja se divertindo na casa do tio Bob e da tia Marta. sem ser meloso. levantando a sobrancelha. Eu quero um chapéu. Nós fizemos uma aposta e eu ganhei.Ah. Ah! Deixa isso pra lá! Naquele momento Marta apareceu à porta. ao fazê-lo.Bem. uma de Paula. na verdade eu ganhei mesmo. que é daqui a . disse ele. . Pena que no dia-a-dia ele seja um pestinha. Com amor. Não se esqueça de comprar uma lembrança para mim na Disneylândia. Espero que se divirta quando for à Disneylândia. quero dizer. Puxa! Bem que eu gostaria de receber cartas assim! Que espécie de jogo você ganhou? Cris passou os olhos pela carta. terno. surpresa por seus pensamentos estarem tão evidentes. . não ligue pra mim. tio.Não é uma gracinha? exclamou.Ei. . vendo que ela estava chateada. escutem essa! disse Cris lendo em seguida a carta de seu irmão de oito anos. brincou Bob.Não fique empolgada demais. mais ou menos. Paciência! Chega de sonhos! . . mas não me sinto como achava que me sentiria. Quando é que vamos à Disneylândia? Seria divertido no meu aniversário.Entendi. Cris enrubesceu.engraçadinhos. uma amiga lá da minha cidade. vocês estão aí! . Sinto sua falta. . David Miller . duas de Paula e uma do seu irmãozinho.Ah. Abriu primeiro uma das cartas de Paula e. Divirta-se. Querida Cris. não. uma nota de cinco dólares caiu do envelope no chão.É da Paula.

Como elas podiam permanecer as mesmas. estudando sua imagem no espelho. E agora tinha esse vestido espetacular. Marta tinha um olho clínico para roupas. quando tanta coisa diferente lhe acontecera? Tirou o vestido novo. se ela pudesse escolher. . mas o rosto permanecia bronzeado e sardento. Como ele nao disse nada. Na praça Ghirarde-III encontraram uns brincos de . perto do hotel. ela falou: . Escolhera esse traje com cuidado no Macy's. deixando no ar seu rastro de perfume.poucas semanas. Paula parecia a mesma de sempre. dando-lhe uma aparência esportiva. no aniversário. embora não tivesse tão deslumbrante quanto no dia que Maurice o penteara. Marta saiu do quarto.Ah. Nem parecia a mesa garota que chorara por causa de sua aparência diante deste mesmo espelho. Cris leu as outras duas cartas. não se pode prever o que acontecer entre hoje e 27 de julho! Pensamento positivo. ainda estava bonito.Bob deu uma piscadela. O cabelo curto agora caía em ondas naturais e. bem! exclamou. É claro que você prefere que o Ted a leve. Naquele momento não se sentia arrependida por tê-lo cortado.Acho que eu não sou bem o cara com quem ela gostaria de ir a Disneylândia. Os ombros queimados pelo sol haviam descascado. Estava satisfeita com seu visual. . Bob disse: . Esse é mais um programa para o seu tio.Eu não sou exatamente o tipo de pessoa que vai à Disneylândia. semanas antes. azul-cobalto. da mala e encostou-o ao corpo. Cris! Pode ser que seus sonhos se tornem realidade. Taí a indireta! Marta olhou para Bob procurando uma resposta. Seria maravilhoso! Bem. não pode querido? Com um sorriso esperto. com cinto e sapatos prateados para combinar. Cris enrubesceu e Marta de repente entendeu. A vida por lá não mudara muito. Você pode ir lá com ela. Sua mãe também.

.E daí? . e de lá pra cá temos nos encontrado todos os dias. cumprimentando-a e parecendo realmente contente em vê-la. mas Alissa já a vira e acenava para que se aproximasse. . mas começou: . onde passamos o fim de semana juntos. Acabamos de voltar de Lajolla. Talvez nem soubesse. sema na passada? O que realmente tinha vontade de dizer era: "Por que você me abandonou.Alissa. Pensou em voltar e correr em direção contrária.O tempo está perfeito hoje! disse Alissa. Estava louca para ir à praia no dia seguinte: queria ver se o Ted estaria lá e saber se ele a convidaria para sair. . mas ele se chocou contra o quebra-mar e foi levado para o . Cris não sabia muito bem como mencionar o acidente com Sam.Foi ótimo! O nome dele é Erik. respondeu Cris. Alissa parecida não ter vergonha de seu relacionamento obviamente "avançado" com o namorado. Como foi seu encontro na festa. que complementavam o conjunto. Alissa não fora ao enterro de Sam. Sentia-se tão ansiosa que acabou indo à praia quando ainda não havia viv'alma! Ou melhor. traidora? Por que você é tão perfeita e tão horrível ao mesmo tempo?" .prata com pingentes bem modernos.Ele foi pegar onda lá no quebra-mar. Quem sabe num encontro com Ted? Entretanto a única coisa que podia fazer a respeito disso era esperar. Sentimentos mistos inundavam Cris.Nem sei como lhe dizer.Soube o quê? Cris engoliu em seco. você soube do Sam? . ele tem um Porsche. quase ninguém! Havia só uma pessoa: Alissa. Era o tipo de roupa que deveria ser usada numa ocasião especial. .Oi. na noite da festa. Você já tinha ido embora com o Erik.

Sem essa. Quando Alissa acabou de dizer tudo que queria. . . nada?! .hospital. Talvez você seja nova demais para saber o que é a vida. . . cada um tem de se virar. e quanto mais cedo você entender iss. ignorando Cris. disse Cris. e não podemos perturbar muito quando isso acontece. Cris retraiu-se enquanto Alissa continuava a destilar veneno.É uma pena. deitou em toalha. Não podemos ficar parados esperando que alguém responda nossas orações ou realize nossos sonhos! Cris suspirou e tentou pensar em alguma coisa para dizer. . Cris não sabia o que fazer. ouvi. de olhos fechados e rosto voltado para o sol. mas os olhos permanecia gélidos. passando óleo de coco nas pernas bronzeadas. interrompendo-a. A vida é dura. menina! O rosto de Alissa estava vermelho.Mas nada. Eu acabo de lhe dizer que o Sam morreu. A gente tem de viver o que quer e deixar que o resto se lixe. mas não conseguia. Morreu na manhã seguinte. E daí? As pessoas morrem. respondeu Alissa. Como que uma pessoa pode ser tão fria e sem coração? Quanto mais pensava nisso. menininha. .Mas. mas não resistiu.Não ficou chocada.. Estava morrendo de raiva.Escute. respondeu ela friamente. . olhando fixamente para Cris. disse Alissa.Sam morreu. Eu lhe contei que o Erik tem um Porsche? É preto com estofamento interno preto. emocionada. melhor será. Se quiser ser feliz.Alissa! gritou.Sim.. mais queria gritar com Alissa e . Cris! A gente está só. então vou lhe dizer. e você fica aí falando sobre um carro! Você não me ouviu? . porque quando acabar.. acabou. te de lutar pela sua própria felicidade.. Cris nem queria acreditar no que ouvia.

Para alívio seu. decidida a enfrentar Alissa com calma.Oi! Cris sentou-se depressa. porém terno. Então deitou-se.dizer-lhe o quanto estava errada.Como foi a viagem? Cris tentou acalmar-se e adotar um tom mais maduro. Irritada.Olá. Num momento em que surgiu uma onda maior.Muito boa. deixando que os raios ternos do sol a consolassem.Vamos entrar na água? Nas horas que se seguiram Cris sentia-se mais viva do que nunca. com coração disparado. Não tinha solução melhor. sobre a toalha. . Alissa havia ido embora. Com um sorriso largo e simpático. e ela sentia seu calor mesmo na água fresca. Divertia-se imaginando como seria maravilhoso sentir seu braço sobre os . deu um pulo e correu em direção à água. . . .Mergulhe! Seu tom de voz era forte. Tudo bem com você? Era o Ted. ele soltou sua mão. voltou para onde estava sua toalha. Depois que seus pés e sua ira haviam esfriado. Não sabia como refutar nada do que a outra dissera. e as ondas estavam calmas. Viver não é simplesmente aproveitar a vida ao maximo para depois morrer! Mas só conseguia chegar até aí em seus argumentos íntimos.Uma apresentação musical?! Claro! respondeu Cris. . Ted convidou: . Quando a onda passou. Ficava sem palavras quando o via. Entrou apenas o suficiente para molhar os pés e foi caminhando pela praia. Me diverti bastante. Ted agarrou a mão de Cris e disse: .Quer ir a uma apresentação musical hoje à noite? Ted era extremamente direto. . Cris queria sentir novamente a emoção daquele toque. A água brilhava como um campo de brilhantes ao sol do meio dia. Meia hora mais tarde alguém aproximou-se dela.

Cris contou-lhe como tinha sido a viagem a San Francisco: passear de bonde. jogando areia dentro do pacote de salgadinhos. .Deixe para lá! disse Ted. Agora não saberemos se estamos comendo sal ou areia. . o enterro? . Fico pensando e remoendo aquela noite.To a fim de sair da água. sabe. Ted escutou com atenção e depois perguntou: . comentou Ted. Contou até da discussão que teve com os tios sobre Deus. mas Cris achou-o meio tenso. Ted ofereceu-lhe o salgadinho enquanto se enxugavam. comer o melhor chocolate do mundo na praça Ghirardelli.ombros à noite.Ótimo! disse Cris. disse ele. que minha tia pôs na sacola.Também..Eu trouxe um pacotinho de "chips". jogar moedas nas caixas dos violões dos músicos ambulantes. durante a apresentação musical.É. meus pais fazem a mesma coisa. . Estou faminta! . Agem como se soubessem tudo. pegando o pacotinho e olhando lá dentro. Eles são assim mesmo. . tentando . E você? . desde. Dois meninos pequenos que corriam até a água passaram por cima da toalha de Ted. Eu só trouxe água mineral. empanturrar-se de caranguejo no Alioto's.Mudaram completamente de assunto. mas quando procuro aprofundar mais uma questão.Não tenho dormido muito bem. Mas pelo menos ela colocou duas garrafas! Enquanto comiam..E o que eles disseram quando você perguntou a respeito das idéias deles sobre Deus? . Ele tentou rir da própria piadinha.Ted. simplesmente mudam de assunto. . como você tem passado desde.

imaginar o que eu poderia ter feito forçá-lo a parar. creio que ele é Filho de Deus e tudo o mais. desde que Sam morreu.E é.Em casa era fácil. . Mas qual a vontade dele. Agora você me diz que se eu quiser ir para céu tenho de viver conforme o propósito de Deus. afinal? .Deve ser horrível.Eu entendo como você está se sentindo. As pessoas podem optar por viver do jeito que elas querem ou conforme Deus quer. . Todo mundo freqüenta a mesma igreja e acredita em Deus. começou. Cris olhou em sua volta. como é que você sabe que vai para o céu quando morrer? . mas não estava vendo nenhum dos outros surfistas.Ted.Mas o que você quer dizer com "aceitei a Cristo"? Eu o aceito. disse Cris em voz contida. para seguir meu próprio rumo. . Nunca o rejeitei ou neguei.Claro. . . . A praia estava cheia. Parecia estar pensando muito. . Ted olhou para o mar. quase gritando. Cris continuou.Porque no verão passado eu aceitei a Cristo. e minha tia vive evitando a realidade e tentando pensar positivamente. Estou tão confusa! . e continuou: Acho que você é o único que talvez possa explicar o que estou tentando entender. Posso lhe fazer umas perguntas? . Primeiro. Meu tio fica me dizendo para ser fiel a mim mesma. . minha cabeça está cheia de perguntas sem resposta.É tão simples que fica difícil explicar.Mas qual o jeito de Deus? perguntou Cris.Tá bem.

mas você entregou sua vida a Jesus? Ou está sentada na praia dizendo "acredito no barco e no Havaí". Pelo menos isso me da algo para pensar. disse. Isso era boimdemais para ser verdade! Cris pensou no quanto ela já melhora por haver seguido os conselhos da tia.Sim. está bem? disse Ted. . Estava realmente tornando-se uma pessoa autêntica. . abrindo a porta. Parecia haver algo mais profundo no que ele dizia. Tá acompanhando meu raciocínio? . Podemos rejeitar uma viagem gratuita de barco ao Havaí.Tia Marta! gritou. Não gostava de se sentir ignorante. mas ela simplesmente não conseguia entender.Sei lá. É com. Entretanto se não entramos no barco. Imaginou-se subindo num barco que iria para o Havaí.Eu acredito em tudo isso.Mais ou menos. . Precisaria de um barco. disse ela com um sorriso. explicou Ted.Bem. sem subir no barco? Ted estava mexendo numa área que ela ainda não estava muito disposta a encarar. Você está olhando o oceano Pacífico.É assim. . nós temos de escolher.Claro! Fico te esperando! Cris pegou suas coisas e foi para casa. . Ted parecia contente com a ilustração. Você nunca chegaria lá a nado. mas Cris ainda se sentia confusa. não é? Lá longe está o Havaí. se Jesus fosse esse barco. ou então sentar aqui e dizer: ''Eu acredito no barco e acredito no Havaí". . . Parecia arriscado deixar a segurança da praia e enfrentar as fortes ondas do mar. . Preciso ir embora. Vou refletir um pouco a respeito do que disse.Ele desviou o olhar para o oceano. nunca chegaremos ao Havaí.Pego você em casa hoje lá pelas seis e meia. Suponha que o Havaí seja o céu. Tio Bob! . A vida parecia realmente estar-se tornando bela.

acrescentou: . Vou já para o chuveiro. observando a animação das duas lá em Cima: .Acho que sim. Voltando-se então para Bob. com o livro de amostras de papel de parede na mão.Bob. Estou tão contente! . Olhe só. Só estou preocupada porque meu nariz começou a descascar. sozinho. . faz o favor de ligar para o Maurice e cancelar minha hora com a manicure. Bob respondeu. Que ótimo! O que você vai vestir querida? Será que o vestido novo que compramos em San Francisco fica bem? .Você não tem usado o protetor solar que eu te dei? repreendeu a tia enquanto subiam a escada.Tuuuuuudo bem! . Nem pensei no que vestir.Encontrou-os na sala.Oh.Adivinhem o que aconteceu? Ted me convidou para sair hoje à noite! Dá pra acreditar? Uma apresentação musical! Ele vem me buscar às seis e meia! Só tenho três horas para me aprontar. Preciso ficar e ajudar a Cris a se aprontar! Em pé. . olhando um livro de amostras de papel de parede. querido. Cris! exclamou Marta.

você vai abafar. Cris carregava um embrulho de presente. não sei. Ainda bem que hoje estou com uma roupa legal. Ele é um cara bacana. . naquela festa que eu fui todas as pessoas estavam com roupas desse jeito. Mas não se preocupe com o Ted. Marta sorriu. Cris comentou: . Não acha que o cabelo dela ficou muito bem desse jeito. Às seis e vinte e cinco. com acessórios prateados. passando mais manteiga na batata. e eu me senti péssima de jeans. . Bob? . Adorei o vestido que você me deu.Sabe. quando Cris apareceu na porta. Esse rapaz vai ficar tonto quando olhar pra você! . Bob colocou a travessa de rosbife à jardineira sobre a mesa. Ao sentar à mesa. foram todos para a sala esperar o toque da campainha. .Que tipo de programa vocês vão assistir? perguntou Bob. disse Cris com um sorriso.Você está lindíssima. minha sobrinha.O Grande Encontro 10 Eram exatamente dezoito horas.É.Obrigada. querida! elogiou Marta. Marta estava acabando de encher de água as taças de cristal. contente consigo mesma . .Que é isso? perguntou Bob. de vestido novo. azul. e tenho certeza de que não me levaria a nenhum lugar impróprio.Sinceramente. Foi muito legal. que deixou ao lado da porta. .

natural. ele provavelmente tinha uma boa razão para estar atrasado. com seu sorriso mais simpático. .Talvez ele tenha parado para lhe comprar flores. Aí gelou.. cumprimentou-o. pegou o presente e concentrou-se em melhorar a expressão do rosto. tio. às sete. Afinal de contas.É claro que vai gostar! asseverou Marta. tudo bem? Vamos? Cris gritou "tchau" e correu para fechar a porta antes que a tia pudesse ver como Ted estava vestido. . Finalmente. Naquele instante a campainha tocou.É o blusão de moletom que comprei para o Ted em San Francisco.Bem.Então quem sabe ele ficou com medo e desistiu! . eu estava só querendo . Ele deve estar chegando a qualquer instante. Espero que ele goste! . Bob começou a cantar hipóteses para explicar por que Ted estaria atrasado. Esperaram até cansar. Ele estava de bermuda! Bermuda e camiseta! Por que fora pôr um vestido de festa? Ted pareceu não notar que ela exagerara na roupa. Bob e Marta estavam no hall. . Os olhos de Cristina se encheram de lágrimas.Olá.Hoje em dia ninguém compra flores assim.. . Tarde demais. . mostrando um ar mais alegre. Cris piscou para evitar que a maquiagem borrasse. e o tio estendia a mão para Ted.. . Abriu a porta e. Sua voz era tranqüila. Nem pediu desculpas pelo atraso. Correu para a porta. Hoje vai ser a ocasião perfeita para entregá-lo.Bob! Como é que você diz uma coisa dessa?! repreendeu a tia.

E .Comprei em San Francisco. minha filha? Marta lançou-lhe um olhar penetrante. Divirtam-se. disse. .Ted. Agora mesmo! Antes que acontecesse mais algum. Cris e Ted foram para o carro. explicou com voz trémula . tudo bem. Se não gostar.Boa noite.Acho que estou pronta.Sim. Vamos.Ótimo. É tão bom ver você novamente.Tem certeza. Você tem certeza de que está pronta para sair.O que é isso? perguntou o rapaz. coisa e ela perdesse essa oportunidade. Só queria saí com o Ted. Marta. que ele chamava afetuosamente de "Kombi Nada". disse Marta com um sorriso. . mas não sabia o que iria vestir. Por que se achava vestida para uma festa quando ele estava tão à vontade? Por que se sentia tão boba? Por um segundo pensou em dizer que não estava se sentindo bem e não poderia ir. querida? Cris entendeu a dica. Ted.Quase me esqueci. É pra você. . disse ele à Marta. O veículo estava lotado de gente. Mas já estavam à porta da velha kombi. seu Robert. olhando para a caixa.. tenho. Ted abriu a porta e Cris quase soltou um grito.Pra mim? O que é? .Prazer em vê-lo. . respondeu. . daquele dia no hospital? . .Nós voltaremos antes das onze e meia. Sabia que era a chance de correr par trocar de roupa. Virando-se então para Bob acrescentou: . Por que foi ter a idéia de comprar uma lembrança para ele. Lembra-se de minha esposa. . Virou-se então um pouquinho de lado e dirigiu a Cris um olhar apavorado.

A Trícia e o Douglas você já conhece. Helen.Que é aquilo? perguntou Douglas quando o carro saía. . Quando percebeu que teria de sentar-se entre Michelle e Helen. Mas ele nem se tocou. O que é que aquelas pessoas estavam fazendo ali? Ted não a convidara para sair com ele? O que a Trícia estava fazendo ao lado dele? Era de dar nojo! . Cris sentou-se rapidamente. O único lugar vago era bem atrás. torcendo para que Ted notasse e voltasse para andar com ela. agarrada ao braço do Ted. Ted fez as apresentações. Ela estava ridícula com aquela roupa. Os comentários ardiam como sal. ou pelo menos que lhe prestasse um pouco de atenção. seus . Entraram num estacionamento do que parecia um centro comunitário. e a turma foi para a porta da frente onde uma multidão ia entrando. Lillian e Michelle.outra moça. . mas não a incluíam. Os outros se mandaram com Trícia. ela já havia rasgado o papel e estava levantando o moletom para que todos na kombi vissem. E o pior de tudo é que todos estavam de jeans. . já estava sentada no lugar de passageiros da frente.Uma coisa que Cris comprou pra mim em San Francisco. Trícia. Estes são Bruce.Deixa que eu abro! ofereceu-se Trícia. Ted! Ela descobriu tudo sobre você. . mas Cris ficou para trás. Se andarmos depressa ainda conseguimos lugar na frente. Os sonhos que acalentara a tarde toda vinham pouco a pouco esvaziando-se como um balão furado. Antes que Ted pudesse responder. revoltada e envergonhada. .Vamos! chamou Trícia. seu bandido! Cris não abriu a boca em todo o trajeto. Todo mundo falava e ria.É exatamente o que você precisava.

Não! Não vá agora! A apresentação já vai começar. respondeu Cris.Você tem alguma das fitas dela? . .Você disse alguma coisa? perguntou Michelle. . . Naquele instante as luzes diminuíram e um jovem foi ao centro do palco anunciar a cantora. Vou-me embora. Michelle cochichou para Cris: . Sentia-se meio atordoada com a música alta e o entusiasmo da multidão. Essa é a primeira vez que a ouço. .Debbie Stevens! gritou Michelle. . Trícia ficou entre Ted e Douglas no final do corredor e virou-se para dar um alôzinho para Michelle.planos acabaram de frustrar-se por completo. Acho que vou ligar para meu tio e pedir que venha me buscar. Você não pode perder! argumentou Michelle. respondeu Cris.Quem? Cris teve de gritar para que a outra a ouvisse em meio aos aplausos. . apontando para a artista magra e alta que aparecera no palco. Vejo que você . vestindo um conjunto vermelho vistoso.Não. Forte e clara. a voz de Debbie encheu o auditório: "Todo mundo me diz Que caminho devo escolher.Não estou muito legal.Pra mim chega! murmurou Cris. assustada por Michelle tê-la ouvido e ainda mais por ter falado com ela. Mas ninguém tem as respostas! Você sabe me dizer? Não sou tola.

Com o canto do olho. Parecia um auditório qualquer. que conseguia entender bem a letra. Percebeu que todas as músicas tinham mensagens embutidas e. livre como a brisa. assobiaram e aplaudiram de pé. A apresentação prosseguia e Cris ouvia atentamente. Mas hoje é gratuito. Por esse bem você não pode pagar. Aos poucos a música ia desfazendo a tensão que se formara em sua garganta e em seu estômago.Sim. Jesus lhe deu esse presente Quando da morte ressuscitou. de graça pra você.Não vive o que diz crer. Quando Debbie anunciou o número seguinte. Alguém pode me mostrar? Deve haver um modo melhor de viver!" Cris ouvia atentamente e percebeu.Esse show tem alguma coisa que ver com religião? perguntou Cris a Michelle. Ted e Douglas faziam o mesmo. Essa dívida alguém já quitou. Nunca entra em liquidação. Entregue o coração e a vida a Cristo E eternamente vai viver. "Você não o encontra em lojas. via Trícia se balançando. . meio surpresa. Cris deu uma olhada no salão. como o Ted gostava daquele tipo de coisa. A única indicação de que aquilo era uma igreja era o fato de haver bancos em vez de cadeiras. rindo e se mexendo. queria . imenso e cheio de janelas. Seu valor é incalculável." . batendo palmas ao ritmo da música. Essa é a igreja que nós freqüentamos. Não pode pagar com cartão Nem encomendar por reembolso.

Afinal de contas. .entendê-las também. Eu não. Cris olhou de novo para o Ted. fazendo tremer o cabelo cacheado em volta do rosto. principiou. . eu era uma pessoa muito legal. continuou a cantora.. Não matava.. Olhou para o rapaz na ponta do banco. como a Trícia. Depois de cantar por uns quarenta minutos. Não entendia por que precisava pedir perdão por meus pecados. . não colava nas provas e tentava obedecer aos meus pais.Bem. um dos cantores disse como poderíamos nos converter. que lhe deu um sorriso. . movendo a cabeça.Quero lhes falar sobre algo que me aconteceu alguns anos atrás. É um gato e tanto! pensou.Eu não entendia o que eles diziam. No final. As palavras de Debbie penetravam fundo no coração de Cris.Então. e muitas pessoas oraram com ele naquele dia. como aqueles caras estavam dizendo. Na noite seguinte fui dar uma volta de bicicleta perto da . porque havia sido criada numa família que sempre freqüentava a igreja. O auditório foi-se aquietando. Não via por que Jesus teria de me "salvar". Debbie pediu que todos se assentassem antes de apresentar o último número. Ah. Debbie aproximou-se da beira do palco e continuou falando e gesticulando. . Seu rosto se aqueceu e ela voltou o olhar para o palco. Falava com bastante entusiasmo. Achava que era automaticamente cristã. se ele gostasse de mim.Há quatro anos vim a este lugar com alguns amigos para ouvir uma banda tocar. Talvez ele se interessasse mais por ela se conseguisse conversar Com ele sobre o "Senhor". o baterista disse que entregara sua vida a Jesus e que ele e todos os rapazes do conjunto eram cristãos.

naquele lugar. Perdoa os meus pecados e entra em minha vida. Pois embora não soubesse Era o Senhor que eu procurava. A música começou baixinho. Mas de um jeito especial Demonstraste o quanto me amavas. eu preciso de ti. de maneira lenta: "Até hoje eu não sabia. Dou-te agora minha vida.Escrevi a próxima canção naquela noite. Um dos moços tinha citado um versículo da Bíblia que dizia: "Todos pecaram e carecem da glória de Deus". Transforma-me. depois que voltei do passeio de bicicleta. Fiquei ali pensando um longo tempo. De repente tudo ficou claro! Só Deus é perfeito e santo. Amém".Fiquei lá. Foi uma das noites mais felizes da minha vida. Desde o princípio de tudo. . mas Jesus sabia que eu precisava dele e não desistiu de mim.Naquela hora. de modo que eu venha a ser como queres que eu seja. Naquele momento reconheci que eu carecia da glória de Deus. . apresentando vários tons de rosa. por mais que me esforçasse. . Mostraste o teu interesse Mesmo quando eu nem ligava. Eu jamais conseguiria ser boa o suficiente para me apresentar diante dele.praia e resolvi sentar-me num banco. . Que era de ti que eu precisava. orei mais ou menos assim: "Senhor Jesus. Durante muito tempo eu pensei que não precisava de nada. ouvindo o ruído do mar e vendo o céu mudar de cor. Entrego-a sem reservas. Precisava que Jesus me abrisse o caminho para que eu pudesse chegar a Deus.

Queríamos conhecer a Debbie." Que música linda! disse Cris a Michelle. . com confiança.Gente! Vamos tentar ir aos bastidores falar com a Debbie. estou orando para que o faça hoje mesmo. esperando que a multidão diminuísse.O Senhor já me amava.Olá. . convidou o músico. disse Douglas. e as pessoas começaram a conversar descendo os corredores em direção às portas de saída.Vamos! insistiu Douglas. tem uns fãs aqui que querem conhecê-la. . deu um tapa no . puxando o grupo até o palco e procurando um jeito de chegar aos bastidores. entrou por um corredorzinho." Os ouvintes estavam em silêncio total.Se você ainda não entregou sua vida a Jesus. Que Deus abençoe a todos! Obrigada por terem vindo! As luzes se acenderam. onde bateu à porta e disse: . fãs! Mas imediatamente ficou vermelha e. por que não? Venham comigo. Levou-os a uma porta lateral. .Debbie. segurando o microfone bem próximo à boca: "Desde o princípio de tudo. Ele está te esperando.Claro. Os últimos acordes da música desvaneciam. sugeriu Douglas. de brincadeira. o Senhor já me amava. A galera de Ted permaneceu em sua fileira. que é isso! replicou Helen. DebBie repetiu o finalzinho da canção com os olhos fechados. seguindo até um camarim. . duvidando. Debbie abriu a porta de chofre e exclamou: . Debbie abriu os olhos e disse: .Ah. Será que ela teria um tempinho pra falar com uns fãs? .Querem alguma coisa? perguntou-lhes um rapaz que pertencia ao conjunto da cantora.

disse Cris. quebrando o gelo.É difícil explicar. Cris queria que os outros não estivessem ali.Eu também. Debbie se recompôs.Nós realmente gostamos do seu show. respondeu Cris.É? O que você sentiu? perguntou Debbie. disse Debbie. com interesse sincero. .colega. Mas havia um brilho em seus olhos que a tornava linda. Me fez sentir algo diferente. Pensei que estivesse brincando! Não sabia que tinha gente aqui mesmo! Todos riram. . cumprimentando a todos e perguntando o nome de cada um. porém. Quer dizer "seguidora de Cristo". surpresa com a amabilidade da cantora. Não era por causa da maquiagem. . Talvez Ted tenha sentido sua falta de jeito e interrompeu: . Não sabia. respondeu Cris. . irradiava autenticidade. sabia? . Debbie.Gostei principalmente da última. elogiou Douglas: . Sempre achara que as estrelas eram todas distantes. e Cris ficou pensando como ela era bonita.Sabe. temperamentais e procuram proteger ao máximo sua privacidade. porque não estava muito carregada. Você tem mais alguma para sair? . todos olhando para ela. respondeu Debbie com um largo sorriso. . . sempre gostei do nome Cristina. comentou Michelle.Estou tão contente por você ter vindo hoje! . meio sem graça.Tenho todas as suas fitas. Seu cabelo negro reluzia em pequenos cachos que caíam na testa. disse: .Espero que até dezembro consiga lançar a próxima.Não. Quando chegou a vez de Cris.Mark! gaguejou.

Não tem importância. .Claro.Na verdade. mas sentiu-se constrangida e não sabia como dizer não. . . É que gosto de conversar com as pessoas depois das apresentações. acho que sim. Quer ficar aqui alguns minutos para conversar. me diga: o que foi que minha música fez você sentir? perguntou Debbie sentando e oferecendo uma cadeira a jovem. . eu vim com umas pessoas que assistem a muitas apresentações como esta. E se eles fossem embora e a deixassem para trás? . Não tive a intenção de deixar você sem jeito. Levou alguns segundos para Cris aclarar os pensamentos. .. .Cris. E ela só conseguia pensar no Ted.Bem. Talvez você devesse perguntar a elas o que acharam.Voltamos já. eu não me lembro. disse Ted. se você morresse hoje.Você autografa pra nós? acrescentou Trícia.E posso lhe perguntar uma coisa? disse Debbie. tem certeza de que iria para o Céu? O coração da garota latejava. saindo com Trícia e os outros. Ali estava ela. porque falam o tempo todo sobre Deus.Eu. Cris? Na verdade ela não queria.. com os olhos brilhando. . Até questionara seus tios sobre isso. . . para ver como o Senhor lhes fala através da música.Queremos comprar alguns dos seus discos. mas nunca ninguém lhe fizera essa pergunta. . Talvez ele estivesse tentando livrar-se dela para poder abraçar a Trícia ou coisa parecida. gaguejou.Claro! disse Debbie. Debbie. sozinha com uma estranha que lhe perguntava sobre seus sentimentos mais íntimos..Então. . Havia pensado mil vezes nessa questão quando Sam morrera.

Só podemos ser salvos através dele. disse. . disse: . mas não basta. . Tudo que acabei de dizer está na letra destas músicas. acrescentou: . Tchau. . . porque ele é santo.Obrigada por sua atenção. Todos pecaram.Está bem. com receio de ter sido grosseira por ter cortado o papo tão depressa.. e foi por isso que Jesus morreu. Freqüento a igreja desde que eu era pequena. quero lhe dar uma de minhas fitas.Obrigada. A volta para casa foi tão desagradável quanto a ida. Prometo que vou. Por que ela está pregando para mim desse jeito? pensou Cris. Entregou uma fita cassete a Cris com sua foto e a palavra "AUTENTICIDADE". acrescentou. na capa.Sim. tentando ser educada. Mais uma vez.Isso é bom. com uma expressão carinhosa. murmurou Cris. obrigada. Mas preciso procurar meus amigos antes que eles saiam sem mim. Peça a Jesus que perdoe seus pecados e entre em sua vida. A penalidade do pecado é a morte. disse Cris. Você foi muito gentil. sei isso tudo. Pagou o preço dos nossos pecados. Preciso ir. e isso nos torna incapazes de nos apresentarmos diante de Deus. disse Debbie. . sentindo ainda mais raiva da galera por havê-la deixado ali sozinha. Por que eles me deixaram aqui para a Debbie me encurralar desse jeito? Seu coração batia mais rápido.Vou escutá-la. . Debbie pôs a mão em seu ombro e.Prometa apenas que vai escutar o que o Senhor falar ao seu coração.Está bem. Depois. Olhe. Ted perguntou se queriam . Cris desviou os olhos.Existe uma maneira de ter certeza.

Ted murmurou Cris no seu cantinho lá atrás.Sim. sua casa está no caminho da casa da Trícia.Tudo bem. em vez de simplesmente parar o carro e deixá-la descer. . na outra quase a ignorava.Bom. Espero que venha outras vezes. Seu rosto bronzeado chegou a apenas alguns centímetros do de Cris. Ted acompanhou-a até a porta. Vejo você amanhã? . disse ele. respondeu Cris.Mesmo? Achei que você nem tinha notado que eu estava lá. Será que ele tinha noção da montanha russa emocional em que a estava . Como ele podia fazer isso com ela? Uma hora parecia gostar dela. ainda mais no território dela. se é isso que você quer. entre tantos outros amigos.Claro.comer alguma coisa. .Acho que prefiro ir para casa.No final de agosto. Quando volta para Wisconsin? . . se você não se importa. boa noite. dando-lhe um rápido abraço. Por que ele tinha de concordar tão facilmente com tudo? . Ela esperava que ele se importasse e insistisse para que os acompanhasse. parecendo meio confuso.Afinal. falou o jovem. . Não me lembro exatamente o dia. . exclamou Trícia. . . disse ele sob a luz da varanda.Fiquei contente por você ter vindo. replicou Ted. Desde que não seja na sorveteria Hanson! Sugeriu então que fossem à sua casa e de lá pedissem uma pizza.Claro que eu notei você. A última coisa que Cris queria era passar mais uma hora com Trícia. Para sua surpresa. A gente se vê. sentindo o coração derreter-se.

Ela não é tão má assim. para os outros que o esperavam no carro. E o Ted não é exatamente meu namorado. . uma hora pra cima. Mas ele gostou do meu vestido e ainda disse que me veria amanhã. está na cara que ele também a convidou para sair.Luta livre! gritou. . Tem de dar tempo ao tempo. com os olhos ainda grudados na TV.Fique firme aí! Fique firme! murmurou Bob.Derruba ele! É assim! Derruba no chão! É a sua chance! Vá com tudo. acrescentou com um sorriso.É isso aí! exclamou Bob. Contou-lhes que todos foram para a casa da Trícia. tentando fazer com que o tio tirasse os olhos da televisão e olhasse para ela. . enquanto Marta conversava ao telefone.Mas como vou ficar firme? perguntou Cris. e acenou. Estou pedindo um conselho sério. . Quer dizer. pensando que você está me .Mas que moça desagradável! exclamou Marta. Gostei do seu vestido! Entrou na kombi e. Marta desligou imediatamente. Bob assistia a TV com o som bem baixo. Vou voltar para casa dentro de algumas semanas! .Esse é o problema! lamentou a menina. . Ao ver Cris. admitiu Cris. Como vou conseguir fazer com que ele goste de mim? . Não tenho muito tempo. curiosa por ouvir tudo sobre o grande encontro. meio sem graça. deixando de fora o detalhe de que era uma apresentação de música cristã.colocando. Como ela se atreve a se meter com seu namorado desse jeito! . Bob e Marta aguardavam na sala de televisão. vá em frente! Cris olhou brava para o tio e para a televisão. . com um solavanco e um barulhão. desceram rua abaixo. Ele vai acabar caindo. mas que ela não teve a mínima vontade de ir com eles. Cris recapitulou rapidamente os acontecimentos decepcionantes daquela noite.Ei! gritou Ted. outra pra baixo? Ela ficou olhando enquanto ele voltava para o carro.

Esses homens! exclamou Cris. espalhadas pelo chão. a . olhando-a assustado. com alguma relutância. .Você já vai embora? Pensei que sua família ia ficar até o fim de agosto.Íamos. Você disse alguma coisa? . respondeu Alissa baixinho. . e Marta havia dito que ela tinha telefonado na noite anterior. que aparentemente ela começara a arrumar. Vou para Boston. Ela concordara. mais temerosa e insegura ia ficando. Cris percebeu que o cabelo cobria-lhe o olho direito. . Alissa parecia chateada ao telefone. mas quanto mais se aproximava da casa. em vez de ligar para o Erik? Quando a moça atendeu a porta. Alissa tirou uma caixa de cima do sofá para que pudessem sentar.escutando. quando Cris estava fora. Uma hora antes Alissa telefonara. disse ela secamente. Caminharam com cuidado para não pisar em algumas maas abertas. indicando-lhe a sala. mas agora não vamos mais. O short e a camisa que vestia estavam amarrotados. . São todos iguais! Todos esquisitos! Tudo que Uma Garota Poderia Desejar 11 Cris caminhou devagar as quatro quadras até a casa de Alissa.Entre. pedindo-lhe que fosse lá.O quê? perguntou ele. Que será que ela queria? E por que a chamou.Bob! repreendeu Marta. e você está conversando com um lutador de televisão! .

e ela estava deitada no chão da sala. Só que minha mãe trouxe consigo uma velha amiga.Minha mãe me deu um soco quando tentei fazer com que fosse para a cama ontem à noite. . declarou Alissa. mas. Não sabia. .casa de minha avo.O que você quer dizer com isso? Cris temia que Alissa estourasse.Que horror.O resto da minha família?! repetiu Alissa rindo. e meu pai morreu de câncer pulmonar há três meses. não lhe contei.E o resto da sua família? .Quero dizer que minha mãe é alcoólatra. Sua garrafa. Erik ainda não a conhecia.É. O Erik ia passar aqui para me pegar. acalmando-se um pouco.Sinto muito. Ela fez um tratamento alguns anos atrás. e Cris notou que seu olho direito estava machucado e inchado.O quê? . O que você quer saber? perguntou. . com uma expressão de fúria no olhar. Alissa virou a cabeça para olhar pela janela. Eu e minha mãe viemos para cá para espairecer e descansar durante o verão. mas viu algo diferente no seu rosto que lhe causou dó. Vou lhe contar sobre o resto da minha família! EU! Eu sou toda a família que tenho! . . me bateu e jogou uma garrafa de vodca em mim. . Bebeu até não saber mais onde estávamos nem quanto tempo havia passado. Desde o dia em que chegamos ela só ficou dentro dessa casa. e eu não queria que ele a visse naquele estado. Ela ficou furiosa. Sou filha única.É isso mesmo. com a morte de meu pai. Então tentei arrastála para o quarto. . começou a beber de novo. Alissa! Você está bem? O que aconteceu com seu olho? . .

Você tem sorte de ter o Erik. pequenos. Já arrumei a mala dela hoje cedo para deixar no hospital quando for para o aeroporto. Cris ficou arrumando as malas de Alissa durante uma hora. que coisa terrível! Será que tem alguma coisa que eu possa fazer por você? Alissa voltou ao seu jeito frio e calculista e disse: . Chamei a polícia.Eu gostaria que você me ajudasse a fazer as malas. disse Cris. Cris encheu uma maleta com os cosméticos. Dentro dela havia vários comprimidos brancos. numerados dispostos na forma de um círculo. . Minha mãe estava mais sóbria hoje de manhã e concordou em assinar os papéis de admissão ao hospital. jeans caros de marcas famosas e sapatos que não acabavam mais. destampando a caixinha. Suas roupas enchiam três guarda-roupas.. . onde você achou isso?! perguntou Alissa. um espelho e uma caixinha cor-de-rosa redonda de plástico. tirou um. . Tenho certeza de que irão colocá-la novamente em alguma clínica de recuperação. Preciva dar tantos telefonemas. Vai ser horrível deixá-lo aqui.Estava maluca.Como você vai para o aeroporto? .i porção de delineadores. Estou procurando isso há dias. Ele parece gostar muito de você. Enquanto Alissa terminava os telefonemas. dizendo que ia me matar. Nunca vou conseguir arrumar tudo até a hora do vôo. ela poderá voltar a Boston no final de setembro. O que será isso? pensou Cris. Se tudo for bem.Olhe só.Tudo resolvido. Fiquei com muito medo e saí correndo pela rua até ao telefone público. estendendo a mão para pegar a caixinha cor de rosa. . Tinha tantos vestidos lindos de seda. disse Alissa ao entrar no quarto.Puxa.. às quatro. Levaram minha mãe. . Abrindo a última gaveta. não é? .O Erik disse que me levaria.

.Ainda bem. saindo pelo corredor. Erik.Provavelmente é o Erik. Cris se assustou.Pare com isso Erik! Agora não! Estou falando sério! A voz de Alissa ficou abafada. eu estava de saída! gaguejou Cris. O que deveria fazer? . . Antes que ela pudesse terminar a sentença..Fico contente que você tenha vindo.Tem gente. Erik entrou abraçado com Alissa. Você ainda tem tempo de me dizer adeus. disse Erik em voz mais baixa. eu. Não sei o que teria feito se você não tivesse vindo.Antes que Cris pudesse responder a campainha tocou.Vou sentir sua falta...Não precisa! gritou Erik. . Preciso de você! Não vá embora! Ele abriu a porta da frente de sopetão e replicou: . e Cris só conseguia ouvir passos no corredor. sabia? Ficou sentada na cama. Cris deu um salto..Erik. Cris ouviu a voz de Erik ecoando pelo corredor. porque tenho de deixar as coisas da mamãe no hospital. pensando: Que doçura! Será que o Ted vai me dizer algo assim quando eu estiver voltando para casa? . A voz de Alissa vinha do outro lado da porta. . disse Alissa com voz aveludada. vindo em direção ao quarto. . . O que você está fazendo aqui? .Ei! gritou ele. a porta do quarto se abriu. gritou Alissa.Eu até cheguei cedo.Isso não deve demorar.. você não notou? .. .Eu. saindo para atender a porta e deixando Cris no quarto. olhos arregalados. disse Alissa. .

Vai ficar tudo bem. Estou cansado de suas desculpas e de seus joguinhos infantis. depois de hesitar por um instante. Cris ouviu o barulho estridente dos pneus do Porsche descendo a rampa de entrada. Alissa. . . E por que estou tão infeliz que. saiu devagar pelo corredor.Tudo que uma garota pode desejar? perguntou com sarcasmo. . com os olhos cheios de lágrimas. não acredito que você esteja me dizendo tudo isso! Você tem tudo.Calma. Aparentemente ela não estava convencida do que dizia. respondeu Cris. Cresça e amadureça! concluiu batendo a porta.Que cara mais mau-caráter! Eu não gostava mesmo dele. Cris sentou-se ao seu lado no sofá. Pode me responder? perguntou quase gritando.Eu também precisava de você.. . Enterrou o rosto nas mãos e chorou até não poder mais. você está bem? .Alissa. Tenho coisas melhores pra fazer do que perder tempo com ele. Ele é um meninão que não sabe o que fazer quando não consegue o que quer. . . Então por que estou sempre tão sozinha. quer dizer. mulher! Mas você não está nem aí para mim. Depois de alguns instantes. que em dezembro passado tentei me matar? Concluiu. não sei. Você é exatamente como eu gostaria de ser! . com lágrimas brotando nos olhos. Alissa levantou os olhos vermelhos e encarou Cris com uma expressão de frieza. Esperou no quarto. disse Cris procurando um lenço de papel. disse a moça deixando as lágrimas jorrar. disse Alissa.Sinto muito ter atrapalhado você... sem saber o próximo passo a dar.Não foi você. Você tem tudo que uma garota pode desejar.Não.

Cris sentia o coração apertado.Imagino que Alissa tenha tido muitos namorados como o Erik. Por um momento ambas ficaram em silêncio. achava que ela era perfeita. . . Estou faminta.Vou telefonar para o meu tio e pedir que ele leve você ao aeroporto. . Enquanto esperavam que Bob viesse. como se não ligasse mais pra ela. Quando a conheci. mas já era um começo. Queria ser como ela em tudo. Desde que não seja na sorveteria Hanson. Durante o trajeto até o aeroporto.Não sou não. Cris. . tá bem? Não era muito. Gosto de ajudar. Queria muito ajudar a amiga e oferecer-lhe respostas. Cris ficou matutando como explicar ao tio aquela situação. Entretanto ele foi bem discreto e não disse nada.Estou sempre às ordens. Isso não é bom. Ele simplesmente a abandonou. voltando para casa. . comentou Bob. Dentro de vinte minutos Bob chegou e colocou no carro os pertences da moça.Estou começando a perceber isso. foi só quando estavam a sós. .O que? . De repente teve uma idéia. que ele perguntou se ela queria conversar sobre alguma coisa. Continue inocente.Quero sim.. enxugando as lágrimas e passando a mão no longo cabelo loiro. Hoje quase não acreditei quando ela contou como é infeliz. disse Alissa.Os homens são esquisitos. Se tivesse alguma maneira de ajudá-la. Continue sendo inocente.. Ela dá a impressão de ser uma moça muito solta. Obrigada por ter vindo e por tê-la ajudado. Você não sabe como sua vida é boa. disse Cris. Quer parar em algum lugar para jantar? . Essa foi a segunda vez nessas férias que você me socorreu quando meus novos amigos estavam em apuros. Não dá pra acreditar na maneira como Erik tratou Alissa. Alissa se recompôs e parecia ter se recuperado do desentendimento com Erik..

Cris girou os olhos. querida.Eu disse a ele que você estava de papo pro ar lá na Alissa. disse que falaria com você amanhã. Ela se acomodou no sofá e continuou.. .Cris. Eram mais de dez horas. Esse é outro problema que preciso resolver. na última ligação.Deixa pra lá. . Esperanças e Sofrimentos 12 . O coitado já ligou duas vezes. continuou Marta.Não importa. Nós conversamos um pouco.Não estávamos bem de papo pro ar. vestindo um macaquinho amarelo-ovo. Cris! . . tenho ótimas notícias para você! Seu namorado veio aqui enquanto você estava fora e perguntou por que não foi à praia. respondeu Bob.Sim. depois de deixarem Alissa no aeroporto. mas acho que acabou desistindo porque. Marta desceu a escada saltitando. . gesticulando muito. Eles estavam chegando do restaurante onde haviam jantado. Ele é um encanto de rapaz. e ele disse que ligaria para você hoje à noite.Cris? Bob? Vocês chegaram? Gritou Marta lá do quarto. .

Na manhã seguinte. Estou cansada de usar a mesma coisa de sempre. ficou mais de uma hora na cama. Cris resolveu parar de pensar em Alissa e foi dar uma olhada no guarda-roupa. Finalmente cedeu ao cansaço e. depois.. jogando uma almofada do sofá na cabeça do tio.Ah! Já ia me esquecendo! Você precisava ver que gracinha! Ele estava com o moletom que compramos em San Francisco.. Provavelmente teria ficado ainda mais. Você ainda vai fisgá-lo.. fez escova no cabelo e maquiou-se. jogando-se na cama. bocejando. . com um cuidado todo especial. se ele não telefonar. com um brilho de satisfação nos olhos. Não dá para acreditar que o Erik a tenha largado daquele jeito. vou para a praia.Não tenho nada pra vestir! reclamou alto. entrou debaixo das cobertas. Mas quanto mais olhava. mas estava caindo de sono. Ainda havia roupas novas que não tinha vestido.Cris? A batidinha de unhas postiças na porta já era conhecida. Em seguida foi para o quarto. . mais desanimada ficava.É um rapaz legal! Exclamou Bob. .Verdade? Não acredito! . Como será que está a Alissa na casa da avó? Espero que as coisas melhorem para ela. . onde resolveu escrever para Paula antes de dormir. .Você é um bobo! exclamou Cris com ar de riso. não fosse a ansiedade de ver Ted. Depois. Acho que vou usar o maiô e uma camiseta de novo. escrevendo uma carta para Paula e outra para seus pais. Dê tempo a ele. Será que devo ir à praia ou ficar esperando em casa? Acho que vou esperar. pelo menos até o meio-dia. Ficou tão bem nele! . Pensei que ele gostasse dela.Seria tão bom se ele também me achasse um encanto de garota... Pensei que a vida dela fosse tão legal.

Além do mais.Cris. Que tal a gente ir ao shopping do South Coast Plaza hoje à tarde? Bob poderia nos encontrar lá para jantarmos juntos.Céus! Preciso ir! Estarei de volta lá pelas duas e meia. .Entre.É.Você ainda está de camisola? . querida! Onde estou com a cabeça? Subi para lhe dizer que o Ted está esperando você na sala de televisão.Deixar quem esperando? Marta olhou-a com uma expressão de interrogação. meu bem. . Por que você não falou antes? O que é que vou vestir? . tia Marta. .Comigo mesma. eu queria comprar algo para você usar no seu passeio de aniversário. Mas não agora. respondeu com uma risadinha forçada. tia Marta? . Vejo você lá pelas duas e meia. .Com quem você estava conversando.Preciso ir. Marta olhou para o relógio cravejado de brilhantes. . . Tenho uma reunião.Quer dizer que eu não lhe disse?! Jogou a cabeça um pouquinho para trás e riu de uma piada que só ela estava entendendo.Nada. poderemos sair logo depois. Olhou novamente para Cris e disse: .. . Divirta-se.É mesmo? disse Cris abafando um grito. Não é educado deixá-lo esperando.Você deveria se aprontar depressa. querida? . Não consigo achar nada para vestir. meu bem? . . . absolutamente nada.Talvez estejamos precisando fazer mais compras. Céus. Simplesmente achei que seria bom fazer algumas compras para seu aniversário.O que você está tentando me dizer.

envergonhada por haver pensado que ele estivesse planejando levar outra "Kombi Nada" repleta de gente para a Disneylândia. Senão eu não teria deixado você sozinho aqui tanto tempo. pensou.Quem mais vai? . no dia do seu aniversário.Saiu abanando a cabeça e rindo consigo mesma.Não tem importância. Cris ruborizou. diminuindo visivelmente o entusiasmo. . . me desculpe! Deixei você esperando! Minha tia não me disse que você estava aqui. Ele deve ter pensado nisso. Correu para vestir um short e uma camiseta e se olhou rapidamente no espelho. gritou Cris. .Não.Só você e eu. . Você faz quinze anos e eu completo um ano no Senhor. era uma ocasião especial: o aniversário dela.Não. . Você gostaria de ir à Disneylândia? Ted não era mesmo de fazer rodeios.Agora? perguntou Cris com um salto.O quê? . É seu aniversário.Sério?! Claro que sim! Será divertido. Poderemos comemorar juntos o nosso aniversário. disse o rapaz. Claro que não. Adoraria! De repente Cris parou um pouco e. A não ser que queira levar mais alguém. indagou: . . procurando animar-se antes de descer a escada. respondeu ela delicadamente. . Isto é. .Oi. A menos que você queira.Diga a ele que já vou descer. Pelo menos arrumei o cabelo e me maquiei. Ted. Não quero convidar mais ninguém.Não. só disse agora há pouco. .

- Lembra daquela noite na praia, depois da festa do Sam? Eu lhe disse que havia-me tornado cristão no ano passado, no dia 27 de julho, e foi aí que você me contou que era o dia do seu aniversário. Você faz quinze anos e eu faço um! Ted ergueu o queixo quadrado e cruzou os braços. Cris achou-o um pouco parecido com o tio Bob quando queria brincar com ela. - Está com fome? Quer comer alguma coisa? perguntou. Ainda não tomei café, e acho que meu tio está na cozinha. Quem sabe a gente descola um "rango"? Encontraram Bob na cadeira de sempre, à mesa da cozinha, molhando um donut* numa xícara de café fresquinho.

*Rosquinha frita, de massa semelhante à do sonho. (N.E.)

- Bom dia! cumprimentou ele. Vocês querem uns donuts? - De onde vieram estes? perguntou Cris. - Quando sua tia saiu hoje de manhã, disse que eu precisava de exercício. Então andei a passos rápidos até a confeitaria, disse ele, dando uma piscadela para a sobrinha. Preciso de ajuda para destruir a "prova do crime", entendeu? Ted e Cris riram e sentaram-se à mesa. - Quais os planos para hoje? perguntou Bob. - Eu e Marta devemos ir ao South Coast Plaza por volta das duas e meia. Você deverá encontrar-nos lá pra jantarmos juntos. - Ainda bem que perguntei. Minha diretora social não tinha me revelado seus planos para o fim da tarde. Deve ter sido uma daquelas coisas que ela esquece de falar, disse com amabilidade. - É, concordou Cris, lembrando do incidente no quarto, no começo da manhã. Ela anda um pouco esquecida ultimamente. - Sabe, são apenas onze horas. O que vocês acham da idéia de dar um passeio em

nossa bicicleta de dois lugares? Nós a compramos o ano passado, pensando em fazer exercício, mas só usamos duas vezes. - Legal! Você quer, Ted? - Claro, vamos até a ilha Balboa. Bob ajudou-os a tirar a geringonça da garagem e deu-lhes um empurrão para a rua. Cris acenou rapidamente e colocou a mão de volta no guidão, para ajudar a firmar o monstrengo capenga. - Ainda bem que você está indo na frente, disse ela a Ted. Não tenho muita coordenação em coisas desse tipo. Ted dirigiu até o cruzamento. Cris tentava manter o equilíbrio, evitando olhar para os carros velozes à sua volta. Pedalaram até a balsa da ilha Balboa. Ela levava apenas alguns carros de cada vez, mas, como eles eram os únicos de bicicleta dupla, logo chegou a vez deles. Ted tirou umas moedas e pagou a taxa. O barco partiu com um movimento brusco, fazendo muito barulho durante a rápida travessia até a ilha Balboa. - Olha quanto barco à vela! exclamou Cris, achegando-se mais a Ted. - Aquele é um catamarã* legal, disse Ted.

* Embarcação de esporte ou de recreio, de pequeno porte. (N.E.)

- Onde? - Está vendo, lá adiante? apontou Ted. Cris aproximou-se, roçando o ombro no dele. Não sabia o que era um catamarã, e não queria perguntar para não parecer boba. De qualquer forma, estava achando ótimo ter uma desculpa para ficar mais juntinho do rapaz.
Seria tão bom se ele me abraçasse! pensava.

Mas antes que Ted pudesse se mexer, a balsa já estava ancorando no cais, e eles desceram com a bicicleta. Subiram as ruas estreitas, repletas de chalés. Cris gostou das janelas com vitrais coloridos e das flores de cor viva nos jardins. - Quer um "esquimó" Balboa? perguntou Ted, virando um pouco a cabeça. - Nunca comi, nem sei o que é, admitiu Cris. Pararam numa barraca de sorvetes e Ted disse: - Não se pode vir a Balboa sem tomar um "esquimó" Balboa. O que você quer no seu? Confeitos? Castanhas? Chocolate granulado? Cris olhou as gravuras dos diversos tipos de "esquimó" no cardápio. A fila atrás dela estava longa e a balconista parecia impaciente. - Não sei. Ela detestava quando se sentia assim, perdida, insegura. Devolveu a decisão para Ted. - Eu aceito o que você escolher. Ted pediu dois "esquimós" com castanhas na cobertura de chocolate. Cris não gostava de castanhas, mas não disse nada. Andaram pelas butiques da rua principal, curtindo o "esquimó". Cris tomava o "esquimó" sem prestar muita atenção ao que viam nas vitrines. Sentia-se abatida pela frustração que experimentara alguns momentos antes.
Por que tenho tanta dificuldade para tomar decisões simples? Por que sempre perco a confiança em momentos-chave e ajo como uma completa idiota? Será que o Ted percebe a minha insegurança? Será que ele gosta de mim? E a Trícia? Por que a Trícia é tão mais auto-confiante e alegre do que eu? Por que não consigo ser como ela?

Veio-lhe então um pensamento estranho.
Como posso ser fiel a mim mesma como o tio Bob falou, se não gosto de

Que tal? Gostou? perguntou Ted. Não as havia notado antes. e ela tentou lamber os pingos antes que caíssem em sua roupa. E se o Ted realmente começar a gostar de mim. E você? Dizendo isso ele sorriu e. Na verdade. ela havia comido quase tudo e nem notara o sabor. falou ela. como aquele que Sam dera em Alissa. tudo bem? . respondeu ele. para que ele pudesse ouvi-la melhor. passando pela ponte em vez de pegar a balsa. Tenho tanta coisa pra contar! .Claro! Cris inclinou-se para a frente para ver melhor suas covinhas. Como estou sendo chata. disse ele. pensou Cris. Cris via pequenas covinhas na pele bronzeada do seu rosto.mim do jeito que sou? Cris reconheceu que sempre queria ser igual a outra pessoa. percebendo que já estavam voltando para pegar a bicicleta. disse Cris. Quase não conversei com ele.De nada. Sua imaginação voou um pouco mais. do ângulo em que estava. . agora Trícia.Gostei. Imaginou como seria sentir o rosto dele encostadinho no seu. virando-se novamente. O que você conta de novo? .Então. Espero que o Ted não fique pensando que não gosto dele! . Se a Paula me visse agora! Ainda bem que ainda não mandei aquela carta. montando a geringonça e dando um empurrão para começar a pedalar. aproximando o rosto dos seus ombros largos. Primeiro Alissa. e começarmos a namorar? Será que ele vai agir comigo como o Erik agiu .Não há muito. E em casa sempre tinha imitado a Paula. O sol estava derretendo o chocolate. apontando para o "esquimó".Isso é divertido! Obrigada por ter vindo comigo aqui. Paula! pensou. . Vamos voltar pedalando. . e um beijo dele em seus lábios.

que já conhecia bem começou a envolvê-la.. Tendo passado as duas últimas horas com Ted.. mas acabou dizendo somente "até mais tarde". Como seria bom se pudesse nivelar tudo. ele ajudou a colocar a bicicleta de volta na garagem. ela murmurou: "Até mais". Cris cerrou os dentes e disse: . ia . ele nem estava pensando nela.com a Alissa? O que vai acontecer nesses próximos dias. na verdade. encontrar uma base estável em que pudesse se firmar. Quando a traseira bege desbotada desapareceu no trânsito. firmou o cotovelo na mesa da cozinha. sempre indo e voltando. deveria estar feliz. Entrando pela porta dos fundos. Então sentou-se. outra hora lá em baixo. Além do mais. A onda de depressão . Procurou na geladeira algo pra comer e decidiu-se por um pedaço de frango grelhado e um copo de leite. deixar tudo igual. mas não havia ninguém em casa. e correu para a "Kombi Nada". chamou os tios. Quando chegaram em casa. Uma hora lá em cima. Ted pareceu não se importar com seu silêncio. Trícia! Por que ele tinha de falar nela? Sentiu-se tola por pensar em ficar mais próxima de Ted quando. mas ela só ouviu o nome "Trícia". antes de eu voltar para casa? Será que vou quebrar minha promessa a meus pais e acabar fazendo algo de que me arrependa mais tarde? Ted disse alguma coisa. Ficou emburrada o resto do caminho pra casa.O quê? Não ouvi o que disse! . Sorriu como se fosse dizer algo engraçado. Sua vida parecia feita de ondas. apoiou o queixo na palma da mão e ficou ali parada um tempão.Perguntei se você sabe as horas? Prometi buscar a Trícia no trabalho às duas. Cris ficou olhando a "Kombi Nada" descer a rua.

Típico." De repente Cris começou a compreender algo: Talvez a Debbie esteja certa. você está pronta? Cris voltou do seu marasmo e gritou de cima da escada: . tentando resolver que roupa iria vestir. Quinze para as três. Entretanto não queria pensar sobre aquele assunto naquele momento. Ficar pensando na morte de Jesus na cruz. Estava subindo a escada. Vagou um pouco pela casa. . quando a porta da frente abriu-se de repente.Estou pronta! Marta estava ao lado da porta com um maço de cartas na mão. vestiu uma saia jeans e uma das blusas que ainda não havia usado. desceu as escadas correndo e disse: . pensou. na semana seguinte. em tempo recorde. Precisava sair daquela depressão. . querida. Desde o início das férias tinha conseguido tudo que queria e mais um pouco. olhando os enfeites caros. Olhou o relógio.Já vou descer! Correu para o quarto e. Vinha sendo super paparicada pelos tios havia semanas. De repente lembrou-se da letra da música de Debbie Stevens: "Você não o encontra em lojas". Nem se olhou no espelho. certamente não iria ajudá-la a melhorar seu estado de espírito.Cristina. mas simplesmente não se sentia feliz e não entendia por quê. Olhou para Cris e franziu a testa em desaprovação. Mas estava na pior. "Ummm. Havia comprado muita roupa nova e agora ainda ia fazer mais compras! Nunca tivera antes tantas oportunidades de passear e fazer coisas tão interessantes. Talvez eu esteja mesmo precisando de Jesus. As compras nunca acabam para minha tia. e no fato de ser pecadora. e Marta ainda não estava em casa.com ele à Disneylândia no seu aniversário.

Depende de você. Cris subiu para recompor o rosto conforme as instruções da tia. Tinha sujado o rosto com o chocolate do "esquimó" que deixara nele uma mancha que ia desde o lábio superior quase até a orelha! Cris caiu no choro. .O que é que você fez com seu rosto. murmurando e fungando. o que você gostar.Cris. disse. menina?! .Vê se isso é modo de uma mocinha agir? Acalme-se.Não. Vamos sair para fazer compras. Mas Cris. . mostrando uma saia preta de brim. Não é linda? Não era tão bonita assim.Não! Não! Não! Não! Por que sou tão boba assim? Certamente o Ted me viu deste jeito. e você tem de subir e arrumar a maquiagem. Se ficava bem. . chegaram ao shopping do South Coast Plaza antes das quatro.Meu rosto? Não sei. erguendo uma saia de listas vermelhas e brancas. Cris correu para o espelho do lavabo e Marta a seguiu. A propósito. Apesar da confusão. achando aquela explosão exagerada. levando em seguida para provar. repreendeu-a: . Você se lembra de que preto não é uma de minhas cores? Mas gosto desta. Marta sentou-se numa cadeira e declarou resignada: . . além de ser algo que Marta jamais teria escolhido. Então Cris fez algo que nunca fizera antes: correu a mão pelas roupas expostas e pegou tudo que lhe chamava a atenção. essa camisa não combina bem com a saia.. Cris. depois da repreensão da tia. Por que não disse nada? Marta. Escolha o que você quiser. não estava conseguindo animar-se com as compras. você não acha esta saia uma gracinha? disse Marta. Depois de várias provas.

Parece que vocês tiveram um bom começo! Marta concordou friamente. Cris sabia que o que estava fazendo era uma bobagem.Sim. Precisamos encontrar com seu tio daqui a meia hora. . De repente Cris sentiu um mal-estar tremendo. estaríamos muito bem! . Só vou levar isso. Não olhou nenhuma etiqueta de preço. todas combinando entre si. mas era o único jeito de se vingar da tia.Tem certeza? . Marta não abriu o bico. ande depressa querida. . Se o gosto de sua sobrinha por roupas fosse tão forte quanto a sua impulsividade.. entregando à vendedora uma pilha bem menor de roupas. Setecentos dólares! Não tinha coragem. bem. Uma camiseta estava até em liquidação. Fechou a porta e escolheu apenas cinco peças. acho que eu peguei algumas peças no número errado. quem realmente pagava as contas era o tio Bob.Aqui.pedia a tia para comprar. Ficou em silêncio até encontrarem com Bob no restaurante. . e a vendedora acompanhou-a. Além do mais. . disse Cris. carregando aquele montão de roupas. O total foi mais de setecentos dólares.. .. .Sim.Espere. Talvez a pilha de roupas somasse mais de quinhentos dólares. disse à vendedora.Bem. Cris entrou no provador. mas Marta já ia pagar tudo com o cartão de crédito. Eu. sem pestanejar. Marta parecia muito irritada. Eram as que ela tinha gostado mais. olhando as sacolas.Muito bem! exclamou ele.. Você pode cancelar essa conta? Seria horrível chegar em casa e descobrir que algumas coisas não me servem.

O comentário atingiu Cris como um vento gelado. Era isso! Algo deu um dique. Na mente de Cris, a tia Marta transformou-se de uma ricaça sofisticada num pavão altivo e egocêntrico. E daí, se ela podia comprar tudo que queria? Ela não tinha coração. Havia demonstrado repetidas vezes que não tinha a menor consideração pelas pessoas. Vivia abusando do tempo, e dos sentimentos daqueles com quem se relacionava. Cris queria retrucar: " Estou cansada de ver você tentando fazer de mim a
filhinha perfeita que você nunca teve. Não preciso mais do seu dinheiro e dos seus sermões. Quero ser apenas Cristina Juliet Miller, de Wisconsin. E se isso não bastar pra você, então, sinto muito!"

Entretanto disse apenas: - Vou querer um filé. Pode ser, tio Bob? - Claro, querida. O que você quiser. Marta dirigiu-lhe um olhar de desprezo e pediu uma mini-salada da casa. Embora Cris não estivesse com muita fome, comeu tudo, inclusive uma batata assada com montes de manteiga e creme de leite. Depois ainda pediu um sundae de caramelo só para provar à tia que ela era dona do próprio nariz. À noite, porém, não conseguia dormir, sentindo dor de barriga, e ficou se perguntando se havia realmente conseguido provar alguma coisa. ***** Nos dias que se seguiram, continuou aproveitando todas as oportunidades de rebelar-se, em silêncio, contra as tentativas de manipulação da tia. Eram coisinhas sutis e mínimas, que no começo Marta nem notou. Mas, para Cris, cada insolência sua intensificava o desprezo que sentia pela tia. Uma tarde, quando voltou da praia, atendeu o telefone e anotou um recado para Marta, sobre uma reunião especial no centro cívico, naquela noite às sete. Deixou o

recado escondido, de propósito, até às seis e meia. Então colocou-o em cima da escrivaninha e perguntou: - Você pegou o recado ao lado do telefone, não pegou? Não era de seu feitio ser vingativa daquele jeito, mas quanto mais tentava segurar as frustrações, mais sua amargura se manifestava. Havia convivido com Marta tempo suficiente para saber o que a incomodava, e procurava fazer tudo que podia para aumentar sua irritação. Comia na frente da televisão, deixava a toalha de praia cheia de areia no chão do quarto e colocava o telefone no suporte com o fio do lado errado, cruzando Sobre os botões da frente. Além disso procurava, sempre que possível, fazer duas coisas que a irritavam mais: ficar encurvada, com a coluna torta, e roer as unhas. Como uma fera ferida, Marta recuou. Parou de tratar a sobrinha de maneira agressiva, passando a fazer-lhe apenas alguns lembretes gentis. Quando voltava da praia uma tarde, Cris encontrou a tia na cozinha. - Chegou uma carta para você. Está na sua cama, disse Marta. - Ótimo. Cris encheu a mão de biscoitos com "gotas" de chocolate, uma receita secreta de seu tio, e foi para o quarto. - Ó Cris, gritou Marta. Por que não deixa sua toalha aqui? Eu jogo na máquina de lavar para você. E talvez seja bom você levar um guardanapo de papel, acrescentou timidamente. Cris enfiou um biscoito inteiro na boca, ignorando as sugestões da tia e procurando sufocar o sentimento de culpa que lhe sobrevinha por estar agindo de modo tão insuportável. Não gostava de agir daquela maneira, mas como já havia começado era mais fácil continuar do que parar. Nunca fora boa em pedir desculpas. Especialmente se a outra pessoa estava recebendo o que merecia.

Seu quarto, claro e refrescante, estava tão convidativo aquela tarde... Encontrou a carta na cama, como a tia dissera. Para sua surpresa, era de Alissa. Leu e releu a carta, percebendo como sua vida era boa. A vida de Alissa parecia tão triste e sem esperança!
Querida Cris, Cheguei à casa de minha avó sem maiores dificuldades. Quero agradecer a você e a seu tio por terem me levado ao aeroporto e pela sua ajuda na arrumação das malas. Minha mãe está firme no programa de controle do alcoolismo, e o diretor da clínica telefonou ontem para dizer que, se ela continuar a melhorar, terá alta dentro de poucas semanas. Vou ficar com minha avó até o começo das aulas, e depois ela vai me mandar para um internato. Meu endereço está no envelope. Se você puder, escreva-me. Seria tão bom receber uma carta sua... Tenho pensado muito em você, no Ted, no Sam e no Erik. Estou sentida pelo modo como agi em Nevvport, especialmente porque foi tão pouco tempo... Sei que lhe disse umas coisas horríveis sobre o Sam, na praia aquele dia. Só posso dizer que não sei por que as pessoas morrem, e não sei como encarar isso. Queria encontrar um pouco de paz, em vez de toda essa dor que existe em minha vida. Minha avó arranjou um psiquiatra pra mim. Tenho consulta três vezes por semana para tratar dessas coisas. Ela me proíbe de sair sozinha. Bem, não era minha intenção narrar a "triste história da minha vida". Só queria lhe dizer o quanto apreciei seu apoio. Gostaria de me corresponder com você. Queria que minha vida fosse como a sua: doce, inocente e livre, com uma família de verdade, numa fazenda do Wisconsin. Parece um sonho. Por favor, diga ao Ted que mando um abraço pra ele. Você tem sorte de têlo! Sua amiga,

Alissa. Alguns eram super esquisitos. Parecia até que haviam levado um bocado de pancadas na cabeça com a prancha. Ela não "tinha o Ted". As coisas com ele continuavam no mesmo vaivém de sempre. Cris chorou várias vezes enquanto lia a carta. a única coisa que podia fazer era escrever. com os quais Cris não conseguia se entrosar. Trícia aparecia. sentia-se perturbada. Queria de alguma maneira animar a amiga. . dar-lhe alguma esperança. mas quando parecia que a situação ia melhorar. ou coisa parecida. o Ted tinha uma porção de amigos surfistas. Além disso. Tudo que tentava dizer parecia tão artificial. mas não encontrava palavras. cada vez que lia aquela parte que dizia que tinha sorte por ter o Ted. Mas acabava jogando fora toda carta que começava. Eles se viam na praia todo dia. e ela acabava ficando em segundo plano. Como estava tão longe de Alissa. Ninguém tinha o Ted. Além do mais.

Espero que vocês se divirtam bastante! E se eu não te encontrar amanhã. . Gosto muito. observando Ted surfar com sua prancha alaranjada. Cris tinha de esforçar-se para manter a calma e tratá-la bem. Cris ousou perguntar: . interpretou Trícia..Então por que não fica com ciúme quando ele sai com outras garotas? perguntou.Ah! Ainda bem que o Ted não fala assim. Ele tem seus amigos surfistas.. por exemplo. você gosta do Ted? . Aproveitando a oportunidade. sem um pingo de inveja. não é? começou Cris.Tá um lixo! Cris virou-se para Trícia e perguntou: . feliz aniversário.É mesmo? perguntou Trícia. . c continuou: . disse Cris. . mas anda com a turma mais "certinha" também. Ele vai para casa. .O Ted fala a língua de todo mundo. ele vai me levar à Disneylândia para comemorarmos juntos meu aniversário. olhando para o mar. Por que será que ela não lutava para conquistar a atenção do Ted? Finalmente.Passei batido! Sacudiu a cabeça de cachos loiros. cara! Só tem caixote! Daí ele colocou a prancha debaixo do braço e foi embora murmurando: .Acho que sim.Trícia. .Naquela manhã um dos caras.Tá doido.Sim. . respingando água em Cris. acrescentou: Amanhã. disse: .Você o conhece bem. .Ele estava falando comigo? Acho que preciso de um intérprete! . Ela era tão amável e autêntica. Parecia estranho que Trícia fosse sempre tão amigável.As ondas não estão boas. quando saía da água.

.Não estou entendendo o que você quer dizer. . .Não. .. basta confessar a Deus seu pecado e pedir que Jesus entre na sua vida e seja . .Bem.Você nunca sentiu culpa por alguma coisa que fez e depois desejou apagar tudo e começar do zero? Cris relembrou a semana que passara e o sentimento de culpa que tivera por causa de seu comportamento para com a tia. O mesmo cara nos conduziu a Cristo aqui na praia.É! Você também já fez isso? . nunca poderemos ser como ele quer que sejamos. sei que pode parecer duro. caindo na defensiva.O que você quer dizer com "conduziu a Cristo"? . nem um pouquinho. .Que ele nos explicou como nos tornarmos cristãos. Eu e Ted somos amigos desde o ano passado. replicou ela.Não.Você quer dizer que ele explicou que a gente deve pedir perdão pelos pecados e pedir que Jesus entre em nosso coração indagou Cris.Eu sei de tudo isso! interrompeu Cris. Pode livrar-se de todo esse incomodo. disse Trícia com meiguice mas ninguém pode tornar-se cristão simplesmente por ser bom É por isso que Cristo morreu por. murmurou Cris. não exatamente.Já.Você não precisa viver com esse sentimento de culpa. . . . mas não entendo por que vocês ficam falando tanto em pecado.Porque é ele que nos separa de Deus.. mas sou cristã mesmo assim. chateada por ver sua pergunta ficar sem resposta. . .. E isso não perturba você? concluiu. Enquanto estivermos separados dele.Obrigada.

. Enquanto conversavam. agarrando seus tornozelos. e que era minha obrigação ser uma pessoa boa. . .Pronta para um caldo? perguntou Ted. Eu entro sozinha! Assim que ele soltou seus pulsos. Grandes amigos. hein? disse Ted com um olhar maroto. ela correu na direção contrária. . Ted agarrou-a pelos punhos. e eu aqui embaixo. Antes que pudesse se dar conta do que estava acontecendo. Elas começaram a gritar e a rir. Cris sentia-se meio sem jeito. Ted chegou do surfe todo molhado e sacudiu-se espirrando água nas garotas. não quer se molhar. começando a abaixar as defesas. não uma força distante e poderosa. . Agora vou ter de passar mais loção de bronzear. mas com Douglas segurando as mãos e Ted segurando os pés. .Segura ela! gritou Ted.seu Senhor. rindo e olhando para trás para ver se ele a seguia. .Ah. Era como se ele fosse para ela um amigo chegado.Parem! Cris tentou soltar-se. .Você dá a impressão de que você e Deus são tão amigos.Sei não. Douglas estava vendo tudo e agarrou-a pelo braço. Invejava o jeito tão livre de Trícia e a maneira como ela falava sobre Deus. puxou-a para cima e começou a levá-la na direção da água. pronto para castigar qualquer um que fizesse alguma coisa errada. impedindo-a de fugir. Cris viu de relance Trícia acenando um rápido "sim" para ele. Sempre pensei que Deus estivesse lá em cima.Cuidado! Está molhando minhas pernas! protestou Cris.Não! Me solte! . .E nós somos. Cris esperneava: . disse Cris.Não! Não! gritou ela.

. Isso foi hoje. Também ainda sentia alegria não só de surfar. Queria ficar com essa sensação pra sempre. Nadaram até o ponto em que as ondas começavam a formar-se. .Obrigada. ou maravilhoso como quando brincavam juntos no mar? Seus pensamentos foram interrompidos por um. Então eles furaram a onda que se aproximava. Cris estava no quarto. quem sabia como seria amanhã com o Ted? Um dia na Disneylândia com ele. batida na porta. tio Bob. por mais de uma hora.Olha gente. e.Cris? Era a voz de seu tio. enchendo-a de prazer. mas Ted permaneceu na beira da água. Via a luz do dia diminuir pouco a pouco e ainda' sentia no corpo o movimento do mar. Vou atender no seu quarto.não dava para escapar. mas de estar com o Ted. .Ainda pego vocês! Vocês me pagam! Douglas tinha corrido para a areia. querida. três! Jogaram-na sobre uma onda espumante. brincaram juntos na água.Vamos! Mergulhe! gritou Ted. E amanhã. enquanto outra onda a levantava e carregava.Um. . ela tá querendo surfar! brincou Ted. tá?! Os pais de Cris conversaram com ela como sempre costumavam fazer. Seria ruim como o show da Debbie Stevens. Queria que esse dia não acabasse nunca! pensava Cris.Telefone. . Ensopada. com a carta de Alissa ainda na mão. . Eles a levaram até a beira d'água. mas seu pai interrompeu-a . Sua mãe fez rodeios para chegar ao ponto que realmente lhe interessava. deitada na cama. Levantando bem os joelhos. ela levantou-se e gritou: . São seus pais. foi caminhando até onde Cris o esperava com as mãos na cintura. dois.

quando iria comemorar seu aniversário com o Ted. .Nós explicaremos tudo no domingo. . Sua mãe ainda estava na outra extensão. por que eu tenho de voltar pra casa? Cris lutava com todas as forças para não chorar. . .Domingo? Quer dizer. mas as lágrimas não vinham. Teria de ir embora.Dei ao Bob as informações de vôo. .O que está acontecendo. .com palavras ríspidas: . menina! As férias acabaram. Este domingo. querida. . Tudo parecia tão sem sentido. começou ela. Ele disse que você tem se divertido muito.Simplesmente tem de voltar. não fizera nada de que pudesse se arrepender. ainda não). neste domingo? . Cris. mãe? Houve uma pausa. . Pelo menos ainda tinha três dias pra aproveitar.É isso mesmo.Não discuta comigo.Mas isso é daqui a três dias! Eu ia ficar até o final de agosto! . Será que era a fazenda do pai? Será que as coisas haviam piorado financeiramente para eles? Ou era ela? Será que eles a estavam castigando por alguma coisa que tinha feito? Mas ela havia cumprido sua promessa. Vê se não se atrasa para pegar o avião.. (Ou melhor. Cris voltou para o quarto arrastando os pés e deitou-se na cama. quando você chegar. Queria chorar. a começar por amanhã. Não torne as coisas ainda mais difíceis para todos nós. ouvindo em seguida o clique do outro lado da linha.. indicando que ele desligara.Mãe. e não sabia por quê. .Você vai voltar para casa domingo.Mas pai.

Nem seu pai nem sua mãe lhe desejaram "feliz aniversário".Seu aniversário. Quando se deu conta disso. as lágrimas brotaram. . Lágrimas de amargura e de raiva.

Nunca mais teria esse tipo de liberdade. .Aproveitem o dia. Ted estava vestido da maneira informal de sempre: short de surfista e camiseta num amarelo bem vivo. sabia que seus pais iriam regular tudo: maquiagem. É um dos estilos mais populares de nossa coleção safári". horário para chegar em casa. enquanto caminhavam para a "KombiNada". . . Gostava muito desse conjunto. Ted apareceu exatamente às nove. namoro. E era assim que Cris estava se sentindo hoje: como se estivesse indo num safári selvagem em lugares desconhecidos. Quando voltasse ao Wisconsin.Não acredito que ele tenha chegado na hora! disse apavorada à tia. . roupas.O Reino Encantado 13 Na manhã seguinte.A que horas o Sr. Tinha de aproveitar agora. Nós só vamos começar a nos preocupar depois de meia-noite.Divirtam-se bastante! disse Marta. disseram os dois. Cris lançou uma última olhada no espelho. com um sorriso de aprovação. "Na verdade o nome desta cor é camarão. .Tchau. Desceu a escada com passos leves e cumprimentou Ted com confiança. enquanto podia. Ande depressa! disse Marta. com um logotipo comercial nas costas. .Vou conversar com ele. .A que horas vocês voltam? perguntou Bob. quer que a Cris esteja de volta? perguntou Ted. . dissera a vendedora. com dez botoezinhos na frente. Short cor caqui e camiseta cor de pêssego. Cris ainda estava procurando suas sandálias novas. meninos! disse Bob.

Feliz aniversário. murmurou Cris. . voltando a falar no tom alegre de sempre. . sentada como uma pedra no banco da frente. disse Trícia ao descer da kombi.Você está bem? perguntou timidamente. Cris estava se sentindo mal à bessa. cumprimentou-a Trícia.Olá.Calma. desculpe.Você não aborreceu. Feliz aniversário! Cris descontrolou-se e ficou ali parada. Trícia. Aqui. . não.Não. disse Trícia com relutância. Me perdoe. . Ted abriu a porta e lá estava Trícia. Isso é algo que vocês duas têm de resolver. respondeu Trícia. A Trícia não se importa de eu passar o dia com você. .Pode abrir quando quiser. Por que fora estragar o dia daquele jeito? . Só vou deixá-la no trabalho! . Eu não queria aborrecer você. entregando-lhe um pacote em seguida.Cris parecia que ia estourar de contentamento e empolgação. . Eu estava sendo chata.Não se preocupe.É isso que você chama de surpresa? Achei que íamos só nós dois à Disneylândia. Espero que vocês realmente tenham um dia ótimo! Pensem em mim enquanto eu trabalho como escrava com baldes e baldes de sorvete o dia inteiro.É por causa do jeito como tratei a Trícia? . Por que você se importa de eu dar carona a ela até o trabalho? . .Na verdade não. Rodaram em silêncio por alguns quilômetros antes que Cris olhasse para Ted. .Tudo bem. Sinto muito tê-la magoado. Ted dirigiu até a Sorveteria Hanson em silêncio.Ah. envergonhada. o que fazia seu queixo parecer ainda mais másculo. Seus dentes estavam cerrados. . Isto é para você. falou rispidamente.

Não há razão para isso. Espero que goste. Queria começar o dia todo de novo. com florzinhas brancas e bordado inglês nas bordas. . . Esperamos que isto a ajude a entender tudo que lhe temos falado sobre o Senhor.É linda.Não me importo.Ainda bem que você gostou. abaixou o vidro e aumentou o volume. Feliz aniversário! Com amor. curtindo a brisa. Seu comentário lembrou-lhe do presente. Ted. com um sorriso. rasgando o papel.É. Cris leu o cartão escrito com a letra da Trícia: Cris. o embrulho e tudo o mais.Será que devo abrir o presente agora? . Trícia e Ted O presente é seu também? perguntou.Claro. disse ele. pode abrir. Eu já sei o que é. Uma Bíblia é o tipo de presente que se recebe de um professor de escola dominical. concentrando-se em aproveitar bem o tempo que passaria com Ted. . Não ia . mas a Trícia fez a capa.. A capa era feita de um tecido almofadado cor-de-rosa. Havia duas fitas de cetim cor-de-rosa que funcionavam como marcadores. Acho que tenho inveja dela em algumas coisas. Cris também abaixou o vidro do seu lado. Colocou uma fita da Debbie Stevens no toca-fitas. Ela é uma das pessoas mais amáveis e atenciosas desse mundo. Obrigada! No fundo ela desejava que tivesse sido algo mais pessoal. Fui eu que escolhi. . . Cris tirou o resto do papel e viu que era uma Bíblia.

Conversavam bem à vontade e. Nós costumávamos madrugar para surfar. . . Onde ele arranjou tanto dinheiro? pensou.Não tem uma nota menor? perguntou o homem. Cris ficou observando enquanto Ted abria uma carteira abarrotada de dinheiro. . nove anos de idade. Cris sorriu. chegando finalmente a um bolo de notas de vinte dólares. como havia acontecido com o passeio de bicicleta dupla à ilha Balboa.Pronta para entrar no Reino Encantado? perguntou Ted. só lambe-tornozelos. Talvez a Disneylândia seja mais cara do que eu imaginava. Sei lá. eram. .Vou ver. Cris apontou o jardim de flores que formava um desenho do Mickey. trancando o veículo. Ted entregou uma nota de cinquenta dólares ao atendente do estacionamento. disse..Lá pelas seis e meia. Quando estavam entrando.As ondas estavam boas? .Hoje cedo? Não brinca! A que horas? . estavam entrando no estacionamento da Disneylândia. . Quer dizer.Ótimo. ele pagou os passes para o dia inteiro. . o que deveria dizer? .Mesmo? Eu nunca teria imaginado.. Vocês são tão diferentes.Tudo bem. Ele é todo seu. eu sei o que você quer dizer. mas essa coisa toda com o Sam estava me arrasando. Desde os oito. Fiquei lá um pouco com minha prancha. No portão de entrada.Eu lhe disse que fui surfar hoje cedo? perguntou Ted. dentro de pouco tempo.deixar que esse dia escapasse entre os dedos. . . Meu pai me acordou quando saiu para o trabalho. guardando as chaves no bolso. .Não.

brincou Ted.Ei! disse Cris.Nada disso! A gente não leva máquina para a Disney. tentando abafar o riso. Ted riu.Quando era pequena. de brincadeira Cuidado! Eu sou do Meio-Oeste! Ted olhou meio de lado. . tentando focalizar a comprida bicicleta. Eu tentei fazer sozinha com pedras e torrões de terra. (N. disse ele.E.. *Quarteto masculino que costuma cantar músicas sentimentais. senão fica parecendo turista. dando-lhe um tapa no braço. vi isso na televisão e tentei convencer minha mãe a plantar nossas flores desse jeito. Ted apontou para uma família. como aquelas pessoas ali.Eu sei. Ted entrou no trenó vermelho e sentou-se chegando bem para o cantinho e ficando com as pernas prensadas contra os lados. Suas covinhas apareciam ainda mais enquanto tentava reprimir o riso. . Queria ter uma máquina pra tirar fotografias daqui. . estendendo-lhe a mão. Não solte! pensou. .E ela plantou? .Devem ser do Meio-Oeste. conversando e rindo enquanto esperavam para andar de trenó. em estilo antigo e harmonia bem simples. O pai se contorcia numa posição hilariante.) Ted e Cris olharam um para o outro. Não solte minha mão nunca mais! Ficaram meia hora numa fila. Vamos lá! Vamos dar uma volta em alguns brinquedos! Cris deu a mão a ele e começou a sentir um calor nos dedos que foi subindo pelo braço e espalhou-se pelo corpo todo. A mãe grandalhona e as três crianças gorduchas estavam diante de um barber shop quartet* montado numa bicicleta de quatro lugares. mas não deu muito certo. .Não. .

Ela entrou com cuidado e encaixou o corpo. pedia o atendente.Estou pensando nessa possibilidade mesmo! admitiu Cris. Ela agarrou as barras de segurança do trenó. Cris achou que jamais caberia ali. . o trenó passou ainda pela água e parou com um solavanco. recostando-se em seu peito. por favor. .Pronta para a Montanha Espacial? perguntou Ted.Aqui. Outro atendente estendeu-lhe a mão para ajudá-la a sair. . Estava quase no colo do Ted! . Nesse momento ela pôde sentir seus músculos e seu calor. Seu corpo todo tremia.Recoste-se em mim.Estou amassando você? De repente o trenó deu um solavanco e começou a subir o Matterhorn.Onde é que eu sento? perguntou Cris. . Que ficar juntinho que nada! Deixa o momento de ternura pra depois! O negócio agora era segurar com todas as forças! Depois de várias viradas e descidas fortes. disse Ted.Você está bem? perguntou Ted. disse Ted. que estava usando uma bermuda verde e meias até o joelho. fechou os olhos e deu um grito de terror quando o carrinho desceu em disparada o outro lado da montanha.To. Cris só enxergava o céu à sua frente. Tá tudo bem. . com a empolgação de um menino.. Queria tanto que ele a abraçasse! O tilintar dos trilhos foi ficando mais devagar até quase parar na crista do Matterhorn. Por um instante. e estava envergonhada por ter gritado. indicando o pequeno espaço bem à sua frente. .Entre. Você parece pronta pra pular! . O atendente segurou seu braço e apressou-a. conduzindo-a para a saída. . Parecia um pastor de ovelhas da Suíça. e o medo ia só aumentando.

É verdade. Cerca de meia hora depois haviam conseguido um lugar para sentar. Depois de provar algo em cada carrinho de lanche que encontraram. comer mamão e mangas e tomar água de coco. foram para a Terra das Aventuras. na manhã seguinte.Sim. durante uma marcha de protesto e. mas ficaram contentes por terem encontrado um lugar silencioso onde pudessem sentar. Depois da casa de árvore. . . resolveram entrar na fila do restaurante Blue Bayou para jantar. e de experimentar todas as atrações na Terra do Amanhã.Que tal beber alguma coisa primeiro? Preciso de alguns minutos para me recuperar. avistaram todo o imenso parque de diversões.Provavelmente sim. Subiram na casa de árvore da família Robinson. comendo e divertindo-se. . vou trocar colares com os nativos e viver dos produtos da terra. e. Ele conheceu minha mãe em Berkeley. esperaram na fila durante quase uma hora para fazer o passeio dos "piratas do Caribe". a .Vou surfar o dia todo.É isso aí. Meu pai foi hippie. . Sua mesa estava bem na beirada. Nenhum dos dois estava com muita fome. estavam morando juntos. lá de cima.Sabe. . E vou dormir numa rede. você teria dado um excelente hippie. Quando voltaram.E vai fazer o quê para ganhar dinheiro? .Ah. Ted falou de seu sonho de um dia viver numa ilha tropical. . depois que saíram da cadeia.Sério! . Isto é. direto.Não acredito! . .. Ficaram o dia inteiro passeando.Que exótico! E você vai morar numa casa em cima de uma árvore como essa? .

Cris pensou sobre o dia. . um adesivo com a palavra Disneyland e um ursinho Puff. . Pagou tudo. Demoraram para comer e. quando o garçom trouxe a conta. o que quer fazer? . . não é? E aí. Ted guardou o troco no bolso e disse: . Esses vaga-lumes. que tal um daqueles para o seu irmãozinho? disse Ted. enquanto caminhavam pela praça New Orleans.Bem. e agora. . mas.Acho que o frango é uma boa pedida. Cris ficara muito impressionada com o incessante piscar dos vaga-lumes artificiais.Não é relaxante? Sinto-me como que transportada para outro tempo e lugar. apontando para uma pilha de chapéus de Mickey numa vitrine. inclusive um conjunto de moletom da Minnie.poucos passos do ponto em que os barcos dos piratas partiam. pra dizer a verdade. mesmo em meio à multidão.Vamos dar uma volta em mais alguns brinquedos. Era muito agradável sentir-se próxima a ele e segura. Parecem tão verdadeiros. como se fosse um jogo de Banco Imobiliário. Depois quero comprar uma lembrança para o meu irmãozinho. Ted ficou segurando sua mão na saída do Blue Bayou. Ela queria tanto que suas mãos não estivessem suadas! Será que o Ted notaria? A mão dele parecia tão forte e segura. já sabe o que quer pedir? O pânico que geralmente sentia nesse tipo de situação não apareceu. Ted pagou com uma nota de cinquenta dólares.Ei. Ted havia jogado dinheiro para todos os lados. de pelúcia. então! São inacreditáveis! Eles são artificiais mesmo? . não estou com fome.Claro! respondeu Ted sorrindo.

É uma pena. .Eles entraram e experimentaram todos os chapéus. Meus pais telefonaram ontem à noite e me disseram que tenho de voltar imediatamente. e meu pai já vendeu uma boa parte da nossa terra. com uma imensa pena azul. As aulas só vão começar daqui a mais de um mês. Ted.Mas por quê? perguntou Ted. . . . . quando estavam na fila para entrar no "Cruzeiro da Selva". .É..Bem.. não falei? Sei que não é nada tão interessante quanto um hippie regenerado. Mas nos últimos três ou quatro anos não temos ido muito bem financeiramente. Finalmente resolveram comprar um chapéu preto de pirata. Gostaria que você me escrevesse ou que a gente mantivesse contato de alguma maneira.Quando você vai voltar? perguntou Ted.Davi vai gostar muito deste! Espero conseguir levar para casa sem amassá-lo. .Domingo agora? Depois de amanhã? . Acho que deve ter acontecido alguma coisa depois que saí de lá. embora ainda não saiba exatamente o quê. mas acho que as coisas não estão lá muito legais.Eu sei. Eu lhe falei que meu pai é fazendeiro. Vou embora no domingo. Só sei que eles querem que eu volte imediatamente. Eu só vou pra casa da minha mãe no dia primeiro de setembro. .Vou sentir sua falta.Mas qual é o problema? . e meus pais querem que eu esteja em casa para passarmos juntos pela crise. . . apertando um pouco mais a mão do Ted.Isso é uma coisa que eu precisava lhe falar. rindo bastante um do outro. disse Cris. . não sou muito de escrever.Sinceramente. só consigo imaginar que seja alguma dificuldade com a fazenda.

Chora não. começou a rir quando o netinho passou a mão em Cris e disse: . ao lado deles. estão os hipopótamos selvagens.Oh. . disse o piloto ao microfone. Tallahassee não é tão longe do Wisconsin quanto a Califórnia! Estou certa? Ted riu de sua lógica. quando era garoto. curtindo todos os sons daquela selva artificial. Você Tarzan. . O guia. Cris gritou e agarrou-se ao Ted. O casal idoso. não! Minha gente... moça.Logo à frente. O maior abriu a boca e começou a mexer as orelhas.Esse era o meu passeio predileto. Na verdade. criando um romance na selva. eu Jane. Mas não tenham medo. O piloto aproveitou a ocasião para dizer: . Monstro foi embora! Todo mundo no barco ficou olhando.. sua mente vagava. minha gente. devido aos animais selvagens que encontrariam à frente. . Ted colocou braço no encosto do assento: .. com roupa de safári.Não sei. . minha gente. Dava até pra imaginá-lo balançando-se em um cipó. enquanto Cris se afastava de Ted. que estava muito envergonhado. Haviam chegado ao princípio da fila e entraram no barco.. Assustada. Parecia um menino agora. nós a contratamos para vir e acrescentar um pouco de empolgação à versão Disney do Barco do Amor. ele está mexendo as orelhas! O piloto pegou um revólver de espoleta e atirou rapidamente no animal.Bem. alguns metros adiante. recomendou aos passageiros que não colocassem as mãos para fora do barco quando estivesse em movimento.Está tudo bem. Eles só são perigosos quando mexem as orelhas! Cris virou um pouco a cabeça para olhar para os hipopótamos selvagens que surgiam na água.

pararam perto da Terra dos Ursos. em volta do Reino Encantado. enquanto o artesão o puxava.. em como deveria ficar com a boca. ela "voava" de cima do Matterhorn. Ted colocou o braço em sua cintura. Nem escutava o que Ted estava dizendo. . Seus olhos pareciam dizer-lhe algo profundo.Você quer? perguntou Ted.Com licença. não sei. disse Ted à vendedora de vestido longo e avental branco. Distraiu-se com esse pensamento e quase não conseguiu prestar atenção no que estavam fazendo o resto da noite. . para ver um soprador de vidro fazer uma minúscula estátua da fada "Sininho". quando se beijassem. enquanto cada explosão de luz rompia no céu da noite. chegando-o à chama azul do maçarico.. . Ao sair do parque. apertava e retorcia.Bem. sentindo as emoções explodirem..Claro. e ela descansou a cabeça no seu ombro. Cris estava envergonhada. Cris hesitou. que tortura! Lá pelas nove da noite. À distância.Todos riram. para ver a exposição de fogos de artifício. fizeram a última parada no Emporium. Ted tirava a carteira empanturrada de dinheiro e comprava para ela.Que gracinha! disse Cris. O vidro derretido parecia chiclete transparente. até a Terra da Fantasia. . Retraiu-se preocupada com sua aparência. Toda vez que dizia gostar de alguma coisa. viam uma moça vestida de fada "Sininho". Presa por um cabo. mas riu também. imaginando se iria bater o nariz no dele. Podemos comprar a "Sininho" que ele acabou de fazer? . Ted colocou o braço em seu ombro e sorriu tranqüilo. ou será que não? Foi aí que Cris começou a pensar se ele iria beijá-la quando a deixasse em casa.. . quando o artesão terminou e lhe mostrou a estatueta. um sorriso super significativo para Cris.

Ela pegou a estatueta de vidro e embrulhou em papel de seda. pensou.Você quer ver mais alguma coisa? . Provavelmente Cris teria caído no sono se não fossem as inquietantes suposições sobre o momento da despedida. O estacionamento era muito maior que o parque de sua cidade. Tentando equilibrar todas as sacolas de compras. Ambos estavam cansados demais para conversar. Ted. apertando-lhe o braço. .Só quero um bom lugar pra sentar. lá no Wisconsin. colocando-a numa caixa. É realmente uma terra de conto de fadas. de tão cansada. ela se deu conta de que Ted também estava com as mãos cheias. e Cris notou as luzinhas piscando em todas as árvores. Os pés doíam. . Obrigada. mas agora as sacolas pareciam pesadas e desajeitadas.De nada. a garganta doía e os braços doíam. nem conseguiria gritar. A maioria dos carros já tinha ido embora. Quer comer alguma coisa? .Boa idéia. Será que ele a beijaria? Como seria? Ela deveria fechar os olhos? E se estivesse com mau hálito? Quase não estava suportando o suspense. A viagem de volta para casa foi sossegada. Reprisava mentalmente a cena toda hora. Acho muito legal o que você está fazendo. .Que tal a "Kombi Nada"? . disse Cris. . comprando todas essas coisas para mim.Obrigada. .Acho que não vou conseguir comer mais nada durante uma semana! Desceram a rua principal. Não havia percebido que fizera tantas compras. Se ela fosse em mais algum brinquedo. Tomaram o trenzinho que rodava pelo estacionamento e sentaram-se tentando equilibrar todas as sacolas no colo.

. agarrou a sandália. Entretanto no terceiro degrau tropeçou e a sandália soltou-se de seu pé.Obrigada Ted.É da sua tia. . Engoliu em seco. Nós nos divertimos muito. . Seu coração estava em disparada.Boa noite. De repente. . Toma aqui. O coração de Cris gelou. Com a ira de um guerreiro. então acho que você deve devolver-lhe o resto. Olhou para ele timidamente. Cris. afastando-se sem tentar beijá-la. e ainda deu o dinheiro?! .Ela teve de convencer você?! Cris virou as costas e abriu a porta de sopetão. disfarçando o desapontamento. . Era quase meia noite. Agora estou contente que ela tenha me convencido a ir.O que é isso? . Que dia esse no Reino Encantado! E o que dizer do "felizes para sempre"? A tia "fada madrinha" . como se tivesse esquecido alguma coisa. Ele tirou um bolo de dinheiro do bolso e entregou a Cris. . Foi legal.Finalmente chegou o momento quando Ted foi com ela até a porta da frente.É o dinheiro que sobrou do que ela me deu para levar você à Disneylândia. não esquenta não.Ei. esperando para ver qual seria sua reação.Já ia me esquecendo. Ele está voltando! E agora? O que é que eu faço? Será que vai me beijar? . Este foi o melhor aniversário da minha vida. voltou. O que sobrou. respondeu ela. . murmurou ele.Boa noite. jogou-a em direção ao Ted e entrou no seu quarto. Cris empalideceu. voando como uma bala escada acima. Ele deu-lhe um abraço apertado. Nós não gastamos tudo. Ele enfiou as mãos nos bolsos e foi para a kombi. .Quer dizer que minha tia pediu que você me levasse.Como? Não estou entendendo.

Sua vida era uma confusão só. ainda atirara um travesseiro no tio quando ele a seguiu até o quarto. . tinha de se levantar e enfrentar o inevitável. Achavam-se repletas das lembranças que Ted comprara para ela. e é humilhante. O quarto estava uma bagunça. Cris não se sentia nem um pouco melhor do que na noite anterior. Havia jogado a sandália no Ted e atirado o dinheiro na tia. Ou melhor. Além disso. para tentar conversar. e o príncipe encantado acabara de se transformar num sapo! A Decisão 14 O relógio digital da mesa da cabeceira indicava 12:04. mais ela queria afundar-se no travesseiro. Fizeram bem em deixá-la dormir. nas últimas doze horas. e ainda estava com a roupa com que fora à Disneylândia. dissera-lhe Paula um dia. na noite anterior. Esse é o problema das explosões temperamentais. do jeito que as jogara na hora da raiva. Mas não podia continuar escondida na cama. que sua tia havia financiado para que ele comprasse. Os dentes pareciam cobertos de pipoca caramelada.na verdade era uma bruxa malvada. estavase sentindo horrorosa. Precisava entender-se com a tia e ainda arrumar as malas para pegar o avião na manhã seguinte. Quem acaba tendo de arrumar tudo depois é a gente mesmo. Os cílios superiores estavam grudados nos inferiores. Ela estava péssima. As sacolas de compras estavam espalhadas pelo chão. O sol brilhando na janela do quarto estava tão forte que parecia berrar. . gritando: "Saia da minha vida!" Para completar. os olhos inchados de tanto chorar. Contudo quanto mais pensava nessas coisas.

como Ted havia exemplificado). cada vez mais apertados. Parece que tudo ao meu redor está desmoronando. Ao recordá-lo. tinha de entrar no barco. Ajoelhou-se ao lado da cama. Só sei que estou perdendo o controle das coisas. Jesus era o barco.O mais humilhante para Cris naquele momento foi ver a Bíblia nova aberta como um leque.Desculpe. . todos aqueles sentimentos voltaram. Entra em minha vida. e teria de ser agora. eu sei que o que falta em minha vida é você. Os tentáculos de algas marinhas estavam se enrolando nela. inclinou a cabeça e fechou os olhos. O que foi que eu fiz de errado. Perdoa os . da mesma forma como vira seus amigos falarem com ele. . Envergonhada. . Cris compreendeu o que tinha de fazer. Não dava para ignorá-lo. eu tenho ouvido falar de você minha vida inteira. Deus? No silêncio que se seguiu. e o sonho agora era a realidade que estava vivendo. derrubando-a como uma onda em toda sua força. uma lembrança atingiu-a como uma flecha: o pesadelo de semanas atrás.Não sei qual é o meu problema. Cris percebeu que estava conversando com Deus como se fosse a coisa mais natural do mundo. Por que minha tia me fez de boba assim? Por que o Ted concordou em fazer o que ela queria? E por que tenho de ir para casa amanhã? Agora as coisas nunca vão dar certo entre mim e o Ted.Deus. Falou alto. Era como se ela estivesse novamente dependurada na borda de um barco. Estava vivenciando aquela sensação de terror novamente: o momento em que tinha de resolver se entraria no barco ou se deixaria as algas puxá-la para o fundo do mar. Quer dizer. E se ela quisesse ir para o céu (ou para o Havaí. escorregou da cama e pegou a Bíblia e se pôs a alisar as páginas amassadas. E quero conhecê-lo pessoalmente. sussurrou ela. mas com voz calma. mas não o conheço como o Ted e a Trícia dizem conhecer. É que não acho nada disso certo. caíra de uma das sacolas. Como o Ted dissera. Senhor. Só que desta vez estava acordada.

Acabara de entrar no barco. querida. acho que eu é que não deveria ter esperado tanto do Ted. E não culpe o Ted.Eu tenho muita culpa nisso tudo. Cris. . prosseguiu Marta.Não. não se culpe assim. Feliz. mas franziu a testa como se não soubesse o rumo que essa conversa iria tomar. Encontrou os tios sentados na varanda. Tomou banho e vestiu-se rapidamente. quer dizer..Não. começou Cris. mas. nada disso. Bob continuou em silêncio. virando-se para ela. A primeira grande onda a enfrentar seria a tia Marta..meus pecados e entra em minha vida agora mesmo. esperando que ela desse o primeiro passo. Segura. . e a aventura estava prestes a começar.. disse Marta. . Eu. perto da cadeira do tio. Cris passou pela tia e sentou-se na espreguiçadeira.. Prometo que todo o meu coração será seu pra sempre.. Ela sorriu e abraçou a Bíblia. . Amém.Sobre ontem à noite. Os dois agiam como se ela não estivesse ali. eu lhes devo um pedido de desculpas. Abriu os olhos e virou-se para ver seu reflexo no espelho Não parecia diferente de quando se levantara da cama: cabelo desgrenhado. . olhos de guaxinim (por causa do rímel manchado).. roupas amassadas... Simplesmente estava limpa. Eu deveria ter previsto isso e tê-la preparado melhor. Reconheço que eu é que tenho que me desculpar.Bem.. Em silêncio.. tomando chá gelado. Não é que você não. e não sei se poderei me perdoar por não tê-la preparado para sua primeira experiência. continuou Cris. A culpa é minha. . esfregando as mãos. Nada de loucura emocional. Mas por dentro sabia que havia mudado. procurando as palavras certas pra dizer. É que eu pensei que ele queria estar comigo só porque gostava de mim.

Sim. Quem sabe. Tão usada.Não mesmo. respondeu Cris.. Bob! Eu não gosto quando você diz essas coisas! Eu realmente estava preocupada. . .Sim. .O que você quer dizer com "os homens podem fazer com que a gente se sinta assim"? perguntou Cris..EU a fiz sentir assim? Como é que eu posso tê-la feito sentir-se usada? . Cris estava aturdida. em tom de guerra. sem que eu a tivesse preparado melhor! E estava sentindo-me culpada. Se essa é a gratidão que recebemos. VOCÊ me fez sentir assim. achando que a Cris tivesse tido sua primeira experiência sexual com um jovem. encarando-a. . continuou Marta. O que você pensou que fosse? . E me sinto tão tola. concordou Marta. principalmente na primeira vez. Os homens podem fazer com que a gente se sinta assim. Ela não sabe mais como é a inocência da juventude.Nem queira saber o que ela pensou. tia Marta! . Tem assistido a novelas demais. eu não fiz outra coisa senão inundá-la de carinho. valorize mais tudo que compramos para você! .Só que dói. disse Bob interferindo.. Seu tio e eu temos feito muitos sacrifícios por você.. assim que estiver em casa. e sua tia imaginando que eles tivessem ido para a cama! .Quer dizer que todas aquelas lágrimas ontem à noite eram por causa disso?! Os gritos e aquele tumulto todo eram simplesmente porque eu ajudei a financiar seu passeio de aniversário? . Está com a mente desvirtuada. então talvez seja melhor mesmo você ir embora amanhã. Ela preocupada com a possibilidade de Ted beijá-la.Dando ao Ted todo aquele dinheiro e subornando-o para que me levasse à Disneylândia! Marta encarou-a meio espantada. tia.Desde que você chegou. Tenho lhe dado tudo que uma moça pode desejar..

Quando acabou de dizer isso. . Foram as melhores férias da minha vida! Marta não respondeu. .Mas. respondeu envergonhada. disse Cris quase chorando. A verdade é que tem algumas coisas que não se pode comprar no shopping. pegando o calçado. será que isto por acaso é seu? indagou mostrando a sandália que ela havia jogado na direção de Ted. . estou muito agradecida por tudo que vocês têm feito por mim.Não tenho mais nada para dizer. é sua última chance. começou Cris com cuidado. .Vai sim. disse Cris com ternura. lembrou-se da canção de Debbie Stevens: "Você não encontra em lojas". disse Bob. primeiro abraçá-la e depois bater nela! Como é que ela pode pensar de maneira tão distorcida?! Como é que pode torcer tanto os fatos. os jantares em restaurantes e os passeios.Sinto muito. Nunca me esquecerei destas férias. meu bem. .Sim. . Sinto muito ter sido um problema assim tão grande pra vocês. . jogando toda a culpa em cima da sobrinha? Contudo em parte Marta estava certa. A propósito.Tia Marta.Claro que quer! Além do mais. esperando derreter o olhar gelado da tia.Cris teve vontade de correr para a tia. Ficou olhando para o mar. Aproveite-a ao máximo. . Agora entendia o sentido da letra da música.Você sabe que nós dois gostamos demais de ter você aqui conosco. com os lábios apertados de ira. . sugeriu Marta. De todo coração. estendendo o braço e apertando o ombro de Cris.Não sei se quero ver o Ted! Nem sei o que dizer se ele aparecer! . acrescentou depressa. Por que você não aproveita sua última tarde aqui e vai ver seus amigos na praia? . Cris aceitara facilmente todas as roupas. Cristina. Você precisa acertar as coisas com ele antes de ir embora.Tenho de acertar as coisas com você também.

Rindo. pensou. Trícia provavelmente estaria trabalhando. Foi muito bom.Mas o Douglas fala! disse Helen com uma risadinha. brincou Douglas.Oh! Legai! Essa é uma palavra super moderna. tentando parecer tranqüila. como se não estivesse acostumada a demonstrações de carinho. . Helen embolou uma camiseta e jogou nele. ninguém pagou para ele passar a tarde comigo hoje. respondeu Marta. Ninguém mais fala "caramba" hoje em dia.Oi.Está tudo perdoado. Douglas e Lillian. mas não sabia como.Caramba? brincou Lillian. A Trícia contou que ela e o Ted lhe deram uma Bíblia. Mas era tarde demais. Por que ele haveria de estar por perto? Olhou os surfistas na água. Cris.. . Cris hesitou. meio sem jeito. .. . Cris estava andando na areia. Disse que vocês se divertiram pra "caramba" na Disney.É. Ele passou a manhã toda aqui. mas ele não estava entre eles..Agora vá. Eles já a tinham visto e acenavam para que se aproximasse. quem sabia o que Ted estaria fazendo? Afinal de contas. mas as únicas pessoas que conhecia eram Helen. Ted. Ela soltou a sobrinha e arrumou o cabelo que havia saído do lugar. Cris correu para a tia e abaixou-se para abraçá-la. Ela queria contar-lhes sobre sua decisão de entregar a vida a Cristo. Aproximou-se da turma que costumava andar com Ted. Marta abraçou-a também. disse Douglas. Alissa estava em Boston. Sam morto. disse Cris. . Lembrando-se de como se sentira "sobrando" na noite do concerto. Vinte minutos mais tarde. . . Isso foi muito legal. pensando no que poderia encontrar perto do quebra-mar. Você acaba de desencontrar-se do Ted. sem saber se queria mesmo enfrentar a galera. com um sorriso amarelo.

A princípio pensou que fosse a letra da Paula.. Cris foi em casa pegar umas salsichas para grelhar e um moletom. mas depois percebeu que era da Alissa. Cris ficou conversando com Helen. Cris ficou conversando com Helen. Parecia que Alissa estava um pouquinho melhor do que demonstrava na carta anterior. para bron . havia uma carta para ela. disse Helen. Michelle. Assim. ao lado da porta da frente. mas talvez fosse por causa de um . viu! Durante as duas horas que se seguiram. para bronzear bastante o rosto. O Ted disse que talvez viesse e. Ficou deitada de costas o tempo todo. trará o violão.Nós vamos fazer um churrasco hoje à noite. enquanto Douglas surfava com sua prancha de Body Board. Na mesa. Tantas coisas tinham acontecido em tão pouco tempo! Sentou no primeiro degrau e leu a carta rapidamente. É parecido com o nosso grupo da igreja. todos veriam que ela estivera na Califórnia. Você não gostaria de vir também? . indicando uma churrasqueira logo à frente. viu! Durante as duas horas que se seguiram. fazia tempo que a Paula não lhe escrevia. e a gente senta. Pensando bem. Ficou deitada de costas o tempo todo.O Ted toca violão? perguntou Cris. Cada um traz alguma coisa. quando descesse do avião. . anunciou Douglas. Douglas e eu viremos. enquanto Douglas surfava com sua prancha de Body Board.Cê não sabia? E toca bem.Cê não sabia? E toca bem.Onde vai ser? .. canta. Lá pelas cinco. se vier. Deixa pra lá..Lá naquela churrasqueira. a catástrofe com o Ted e a entrega de seu coração a Jesus. conversa. Amanhã estaria em casa e em breve poderia contar à amiga tudo sobre a Disneylândia. . mas tentamos não ser fechados. é mais ou menos assim.

disse ele. Eu ia para a praia com o pessoal. com os olhos brilhando. Parece que vai voltar para casa com mais coisas do que trouxe! . Alguém que não a abandone. Nós temos mesmo de ir ao restaurante? . pensou. e eu pensei em adiantar um pouquinho as coisas para você. . Não precisava mais tentar decifrar as coisas sozinha. . Um universitário de nome Everett. Não se preocupe com sua tia.Acho que ela queria que sua última noite aqui fosse especial. Colocou a carta de volta no envelope e resolveu que escreveria para a amiga quando estivesse no avião.Com certeza! . . .Radical? Isso é bom? . tio. Eu arrumo mais tarde.Bem. na porta dos fundos. A gente faz o seguinte: você sai bem quietinha pela garagem. Estávamos planejando assar salsichas pra fazer cachorro-quente.Bem. disse Bob. não! suspirou Cris. Ela parecia mais feliz.Se eu puder passar com meus amigos. Abriu a porta do quarto e encontrou o tio guardando uma calça jeans dela numa mala. Mas todo mundo o chamava de Bret.novo namorado que mencionava. Eu dou um jeito de amansá-la. sua tia fez uma reserva às seis e meia no restaurante Five Crowns. Agora ela achava que tinha algumas respostas a oferecer-lhe. .Não precisa fazer isso. mas Cris ficou pensando quanto tempo isso duraria. é que vai ser especial! argumentou Cris. Até a avó o aprovava. . Alissa precisa desse Amigo. Ter Jesus no coração fazia com que não se sentisse mais só. e eu coloco uma sacola com as salsichas na escada.Você é radical! Cris deu um abraço apertado no tio. . Acho que vamos ter de arrumar umas caixas ou outra mala.Espero que não se importe.Ah.

arrumando os espetos para assar as salsichas.Mesmo? Fico feliz. Vamos sentir sua falta. Depois do nosso rápido encontro de ontem. Sentia-se desapontada e aliviada ao mesmo tempo. respondeu. mas não disse nada.Passou alguns minutos diante do espelho. Não estava mais ligada a vacas. E obrigada pela Bíblia com a capa tão bonita que você fez.Ele esteve aqui hoje cedo quando falávamos sobre o encontro. pensou. Bob entregou-a com uma piscadela.Obrigada. fiquei sem saber se deveria entregá-la a você ou não. Assim que eu puder vou mudar-me para a Califórnia. . Trícia tinha um sorriso fácil e enormes olhos castanhos. Gostei demais! . Talvez possa cursar a faculdade aqui. . Cris olhou rapidamente à sua volta. Não acredito! falou jogando os espetos de lado e abraçando a amiga. . Trícia estava lá. abraçando Trícia. Passou rímel. pegou o moletom e ficou na porta dos fundos esperando a sacola de salsichas prometida.Não sei. cabelo clareado pelo sol. sabe se o Ted virá? . Ted ainda não chegara. Era ali que se sentia em casa agora. . mas agora percebia o quanto sentiria sua falta.Cris! O Ted me disse que você vai ter de ir embora amanhã.Ainda bem que entregou. nevascas e tudo o mais lá do Wisconsin. Brian. arrumando o cabelo. Cris tinha se esforçado tanto para não gostar dela. Miúda e bonitinha. preparada pela turma na praia. O Ted vem? . Borrifou água fria no rosto e passou um pouco de gel de aloe vera sobre a pele queimada. Estava muito mais interessada agora em palmeiras e pranchas de surfe. e ela correu para a fogueira que já crepitava. Parecia mesmo uma garota da Califórnia: bronzeado escuro.

Depois de algum tempo. ou melhor. porque se inclinou para ela e cochichou: . Que noite perfeita! Seria tão bom se o Ted estivesse aqui.Provavelmente vai ser duro para você ir para casa. As lágrimas faziam arder a pele queimada de sol. Durante cerca de uma hora ela ficou olhando. Contudo não sabia bem o que diriam um ao outro se ele viesse. E as outras coisas vos serão acrescentadas Aleluia. parou de se preocupar com ele e tentou tirá-lo da cabeça. . O sol desaparecia na linha do horizonte como uma imensa bola alaranjada. Falou bem.Quem sabe o que o "Sr.Se o Ted não vier com o violão. essa brisa.. Todo mundo estava tratando-a muito bem e estava fácil divertir-se. A letra de uma das músicas era um versículo bíblico: Buscai primeiro O reino de Deus E a sua justiça. a gente canta assim mesmo. O grupo de onze jovens ajuntou-se em volta da fogueira... entretanto. do rosto de Cris. começando a cantar músicas que Cris nunca ouvira antes. pensou Cris. Este é o lugar mais lindo do mundo. . Algumas eram suaves. Se não tivéssemos acabado a noite passada daquele jeito... disse Trícia. outras mais animadas. aleluia. esperando que o Ted aparecesse. Mas este céu límpido.. eram canções que eles cantavam para Deus... Tudo isso é tão maravilhoso! Não quero ir embora! Quero ficar! Não podem me obrigar a ir! Michelle deve ter notado as lágrimas de Cris brilhando à luz da fogueira. pensou Cris. Contudo todas falavam sobre o Senhor. essas músicas confortantes. Imprevisível" fará? acrescentou Michelle.

Não quero ir embora! ..

Quando não souber como agir.Sim. surpresa com a reação do pessoal. outros pela conversão dos amigos. Todos falavam ao mesmo tempo. quero lhe agradecer por ter entrado na minha vida hoje de manhã. que deveria orar em seguida deu um abraço em Cris e perguntou: .Mas isso é ótimo! Que maravilha! Que legal! Temos orado tanto por você! . ajudando-nos com os problemas que estamos enfrentando agora. outros ainda agradeciam a Deus pelo que ele fez por eles. para sua surpresa. você vai ver! O cântico que cantaram em seguida era inspirado em outro versículo bíblico: "Lançando sobre Deus a nossa ansiedade.. O grupo permaneceu em torno da fogueira até o último pedaço de lenha virar brasa. Toda a minha ansiedade lanço sobre ti.Querido Senhor. as palavras saíram com facilidade. e por favor. Os meus fardos deixo a teus pés. esteja comigo na minha viagem de volta amanhã.Isso o quê? Cris abriu os olhos assustada. Entregarei meus cuidados a ti. respondeu.Você fez isso mesmo? . Douglas. Pois Ele tem cuidado de nós. Esteja com minha família. . . Alguns oravam pela família.Você convidou Jesus para entrar em sua vida hoje de manhã? . Todo mundo estava olhando para ela. Amém." Cris nunca sentira o coração tão cheio de alegria como agora.Vai dar tudo certo. Cris foi a penúltima a orar e. Então cada um orou. .

parece que você vai ter de falar com eles.Sabe do que eu vou sentir falta? De escutar as pessoas falando sobre Deus com tanta facilidade e naturalidade. Não vai se arrepender nunca. A gente aprende a depender dele e não de nós mesmos. . Pra começar basta uma pessoa. quando se aproximavam da escada na entrada da casa.Ajuntaram-se todos ao seu redor e a abraçaram.Sim.E então. Não fazia idéia como poderiam resolver aquela questão. disse Douglas.Será que Deus ajuda mesmo a gente quando as coisas vão mal? perguntou Cris. Ele nos ajuda a passar por elas. e mais feliz ainda porque você tornou-se cristã.. Aprendi muito com todos vocês nestas férias. Comece o seu próprio grupo de amigos de Deus.. Além do mais. Ficaram ainda em volta da fogueira já meio apagada até todos começarem a sentir o frio do vento noturno.Acabou depressa demais. . ou qualquer outro nome que você queira dar ao grupo. . então. . passando a mão no cabelo curto.É.Amigos de Deus? repetiu ela. mas ele não tira as dificuldades. Cris ficou admirada com a alegria que eles estavam demonstrando. .Estou feliz por ter conhecido você. se tentassem. mas sabia que conseguiriam. Pelo menos é isso que acontece comigo.Bom. todas as situações difíceis nos ajudam a crescer. . . . Depois daquela cena de ontem. Nunca se sentira tão amada e aceita como naquele momento. . Douglas acompanhou-a até em casa. Lá na minha cidade não tenho amigos que amem a Deus como vocês. . Lá pelas onze. aproveitou bem o verão? perguntou. Seria tão bom se o Ted estivesse ali também! Era horrível não saber se o veria novamente.

" Adormeceu antes de terminar a música. B. Douglas lhe deu um rápido abraço e disse: . Por que Ted não apareceu no churrasco? Será que o verei novamente? Por que tenho de ir para casa? Por que a vida é tão complexa? Ficou exausta tentando encontrar as respostas. ou no céu.. disse Cris. . Até logo! Espero ver você novamente algum dia. . senão vou acabar enlouquecendo tentando entender tudo isso. Havia tantas questões em sua mente..Aqui.Tudo bem. tremendo um pouco por causa do ar frio. se não te encontrar antes. Resolveu simplesmente confiar no que Douglas lhe dissera: que Deus a ajudaria a enfrentar as dificuldades. Acho melhor depender do Senhor para me ajudar nessas frustrações todas.. Por que não era ele que estava ali com ela. Suas roupas estavam em três malas novas. Ted.Era tão fácil conversar com o Douglas! Por que ela não gostava dele do jeito que gostava do Ted? Ele era gente boa. Cris riu e entrou. Havia um bilhete de seu tio no travesseiro: "Espero que tenha se divertido. Acordo você às seis para que tenha tempo de se aprontar. Você terá de tirar alguma coisa da mala para usar na viagem amanhã. entrou debaixo da coberta e começou a cantar baixinho "Toda a minha ansiedade lanço sobre ti. Encontrou o quarto totalmente limpo. em vez de removê-las. disse Cris em oração. O meu fardo deixo a teus pés.. entregou os pontos. mas havia um "algo mais" no Ted. abertas no chão. em vez do Douglas? Ela havia estragado o relacionamento deles ao jogar a sandália nele. Em seguida. bonito e muito atencioso. ." Cris não conseguia dormir.Preciso entrar. Afinal.

Cris. Quando o carro estava descendo a rampa de entrada da garagem. Estava tudo acabado: as férias. . . Aparentemente Bob havia dado um jeito no problema do restaurante. Os ouvidos zumbiam como se um aviãozinho de brinquedo estivesse dando voltas ao redor de sua cabeça. tentando desfazer um nó na garganta.Temos de sair daqui a uma hora.Não.Tem certeza de que pegou tudo. enfiou o último dos cosméticos na mala e. . O carro parou no sinal fechado.Estou pronta! Marta apareceu no corredor. chorando. prudentemente. Estão pesando como chumbo! Bob levou as malas para o carro uma a uma e acomodou-as no porta-malas. e nada em sua atitude lembrava o conflito de ontem.Sim. querida? Estava elegantíssima num conjunto amarelo e azul-marinho. .Na manhã seguinte Bob bateu em sua porta às 6:02.. Ela tomou um banho e se vestiu.Então por que o cara atrás de mim está piscando os faróis e abanando as mãos? Cris virou-se.Estou de farol aceso? perguntou Bob a Marta. achou melhor não tocar no assunto. . Cris. Ted. Depois de arrumar o cabelo. seu primeiro amor. ainda meio tonta. Parecia friamente calma. . deu uma última olhada na casa e na praia. gritou: . mas não consigo carregar estas malas. e pensou no Ted mais uma vez. Era o mesmo cruzamento que ela e Ted haviam atravessado no passeio de bicicleta dupla. abrindo a porta. mas Cris. Só pensar nele dava uma dor no coração! Cris engoliu em seco. .. Me chame se precisar de alguma coisa.

Não prometo escrever muito. baixando timidamente o olhar. Ted desceu da kombi. não estava nem se importando mais. passou por eles buzinando e atravessou o sinal amarelo. as covinhas.. disse Ted.É o Ted! Fique parado aí! . Sua flor predileta! Como ele sabia? Será que havia conversado com sua tia de novo? Nessas alturas. concordou ela. lá no meio da avenida. O motorista do carro atrás de Ted. com um sorriso que fazia aparecer as covinhas. . ..Mas querida. cansado de esperar.Tudo bem. e percebi que era hora de entrar no barco como você havia dito. Ted. Olhando mais uma vez seu rosto forte e bronzeado. Mas saber que você tornou-se cristã é o fato mais animador que poderia me acontecer no momento. Meu endereço na Flórida está no cartãozinho das flores. prometo responder. o sinal acabou de abrir! protestou Marta. mas se você me escrever. Cris saltou do carro e correu até a "Kombi Nada". Finalmente tudo fez sentido. Cris tentava desesperadamente memorizar tudo nele: os olhos azul-prateados. deixando o motor ligado. e entregou-lhe um pequeno buquê de cravos brancos.De nada.Ainda bem que você parou. Ei! A Trícia me telefonou ontem e contou que você aceitou a Cristo! . . A buzina da "Nada" não quer funcionar hoje. na frente de todo mundo. esforçando-se para não chorar. Ele se inclinou. deu a volta. .Obrigada pelas flores. e sussurrou: Até logo.Sim! disse Cris. . o cabelo clareado pelo sol. disse Ted. e lhe deu um beijo .. com um daqueles seus maravilhosos sorrisos confiantes.Acho que precisamos ir. .Você nem imagina o quanto estou feliz! Tenho estado tão chateado com a história do Sam.

suave nos lábios.Não mesmo? disse Cris com voz leve e em tom sonhador. . .Eu também vou sentir sua falta! Ted ergueu o olhar e mudou o tom de voz.Vou sentir sua falta. . Eu fiz uma promessa a Deus nestas ferias. deixando a "Kombi Nada" para trás no sinal fechado. . . . Como ele soube que cravos brancos eram meus prediletos? . querida. . . Mas o meu conselho é: não .Até logo! gritou ela.Bem.Bem. correndo para o carro.Isso é ótimo.O que é isso? .Kismet. Marta abaixou o quebra-sol para verificar a maquiagem no espelhinho. enquanto Cris encostava os lábios no buquê de cravos. É uma forma simpática de se pensar em Deus. isso é muito bonito. . Um beijo breve e terno.Algumas coisas são simplesmente inexplicáveis.É mais que isso. Só para você saber. . Bob acelerou. eu não tive nada a ver com esse encontro. Prometi a ele todo o meu coração. declarou Bob. disse Marta com satisfação. .Sinal verde de novo. Prometo escrever. Por alguns instantes reinou profundo silêncio no carro.E há mesmo! concordou Cris. querida. relembrando aquele primeiro beijo. disse Marta apertando os lábios. Agora confio nele e espero que ele faça aquilo que achar melhor na minha vida. O tipo que vem somente do amor inocente. Precisamos ir. murmurou Ted. cuja memória dura para sempre. Você tem de entender que há uma força superior comandando tudo. Eu o conheço pessoalmente.

Quem controla o seu destino é você. Marta. . Cris riu baixinho e passou os cravos no rosto. Cris apenas sorriu e passou os cravos na ponta do nariz. Não adianta ficar esperando que Deus faça aquilo que você mesma pode fazer. sentindo o perfume doce e forte. deixando tesouros na praia de seu coração e mudando sua vida para sempre. Marta deu uma olhada meio de lado para Bob. Como eu lhe disse há algumas semanas. Uma alegria indizível brilhava dentro dela. mas comecei a me afundar. agora tenho certeza de que vou chegar ao Havaí.Tentei ser fiel a mim e seguir minha própria cabeça.O que será que ela quer dizer com isso? O olhar de Bob dizia: "Sei não". É muito melhor! Além do mais. concordou Bob. FIM . "A ti mesma sê fiel". e cochichou: . .exagere nessa visão religiosa da vida. Prefiro seguir a vontade do Senhor.Você está certa. Suas férias na Califórnia iam-se acabando como a maré que se afasta.

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