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Do livro "Contos Gauchescos e Lendas do Sul" Autor: João Simões Lopes Neto

O NEGRINHO DO PASTOREIO

NAQUELE TEMPO os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas1 se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos... Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões2 cheios de onças e meias-doblas3 e mais muita prataria; porém era muito cauíla4 e muito mau, muito.

Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano5 podiam entanguir6 gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.

Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade darlhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna7 e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria8 e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando9... Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso10 como uma mosca, para um baio cabos-negros11, que era o seu parelheiro12 de
Apanhar e conduzir gado, de um para outro lugar. Bolsa de couro usada pelos pastores. 3 Moedas antigas. 4 Sovina. 5 Vento do sudoeste, seco e frigidíssimo, que se manifesta no Inverno!, após as chuvas, no Sul do Brasil. 6 Mirrar, encolher, contrair. 7 Erva-mate de má qualidade, amarga. 8 Sovinice; ato do somítico. 9 Tirando o couro/ preparando o couro, em geral do cavalo ou do muar, limpando-o e raspando-lhe os pêlos. 10 Teimoso, impertinente. 11 Cavalo com pelos das pernas, crina e cola pretas. 12 Cavalo preparado para a disputa de corridas
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. na cancha16 da carreira havia gente como em festa de santo grande. —Pelo baio! Luz e doble!… —Pelo mouro! Doble e luz!. mais agüente e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta. Senhora Nossa. 18 Arreio. que o vento assobiava-lhe nas crinas. corria tanto. 13 14 Ferramentas. mas não lhe viam as patas baterem no chão. Do baio era fama que quando corria. As parcerias abriram as guaiacas17. Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio.. uma disputa entre animais de corrida em campo raso 16 Recinto para corrida de cavalos 17 Bolsa de couro cru. tanto. por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem. depois conduzia os avios13 do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino. E trataram: o tiro era trinta quadras.confiança.. mil onças de ouro. que o judiava e se ria. . E do mouro era voz que quanto mais cancha. e para um escravo. a parada. No dia aprazado. e aí no mais já se apostavam aperos18 contra rebanhos e redomões19 contra lenços. 19 Cavalo novo que já foi montado algumas vezes para se domar. *** Um dia depois de muitas negaças14. 15 Ajustar. o estancieiro atou carreira15 com um seu vizinho. que é a madrinha de quem não a tem.. A este não deram padrinhos nem nome. muito bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam somente o — Negrinho. Isca. chamariz. Entre os dois parelheiros. contratar uma carreira. nesse caso são os utensílios para preparar e beber o chimarrão. o outro que não. pequeno ainda.. Este queria que a parada fosse para os pobres.. a gauchada não sabia se decidir. tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. engodo. que só se ouvia o barulho. que não! que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. sedução.

de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar.. de rebenque21 no ar. cobrindo a marca do baio. E a duas braças da raia. sempre emparelhados. Nossa Senhora! — gemia o Negrinho — Se o sete-léguas perde. e quando foi na última. retrucava o outro corredor. o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões… mas sempre juntos. largaram. . ganhando de luz aberta25! E o Negrinho. Canga. de em pêlo. compassados como numa colhera23.. tornar para trás.. compassada como numa colhera.. — Mau jogo! — secundavam os outros da sua parceria. quase em cima do laço. — Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!. — Valha-me a Virgem madrinha. 20 21 Agachando Espécie de chicote com que o cavaleiro incita o cavalo. 23 Objeto para juntar. Quando foi na última quadra. — Foi mau jogo! — gritava o estancieiro. pôs-se em pé e fez uma caravolta24. — Empate! Empate! — gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz. 26 Cavaleiro muito bom.. que parecia uma tormenta. 25 Ganhar com grande diferença. agarrou-se como um ginetaço26. emparelhar dois animais.. os parelheiros meneando cascos. o meu senhor me mata! hip! hip! hip!. 24 Menção de voltar. fizeram ambos a sua senha e se convidaram. Mas os fletes22 corriam. 22 Cavalo bonito ou muito bom. Hip! hip! E cerrava as esporas no mouro. o baio assentou de supetão.Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas. E baixava o rebenque. E amagando20 o corpo.

Indivíduo forte. que pague. 35 Pano de lã felpudo. 39 Espádua. que redistribuía a terra entre portugueses e espanhóis e retirava os índios de locais onde viviam. côvados34 de baeta35 e baguais36 e deu o resto. de mota37. ao pobrerio. mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda39… O trompaço40 das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma. 36 Potro recém-amansado 37 Gorjeta. respeitável. 31 Diz-se do cavalo baio e do amarelo-avermelhado. 29 Forte. quem as ganhou venha buscá-las. 40 Pancada. valente. equivalente a 66 cm. muito bom. Líder indígena da chamada Guerra Guaranítica. propina. mais de um torena27 coçou o punho da adaga.. lugar em que se nasceu. Tornou-se personagem lendário do RS. *** O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando. perdeu o cavalo baio. era um juiz macanudo29. A cara dele vinha lisa. 34 Antiga medida. em todo o caminho. Eu perdi cem gateadas31. residência. 32 Aldeia. o estancieiro pagou a parada. bofetada. mais de um desapresilhou a pistola. 30 Proibição de desistir daquilo que se apostou. 33 Gado manso que vive perto das habitações. atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário. 28 27 . 38 Cavalo para pequenas corridas.A gauchada estava dividida no julgamento da carreira.. pensando calado. estendido no chão. Mas o juiz. destemido. ganhou o cavalo mouro. Foi na lei! Não havia o que alegar. porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros33 e leiteiras. Abanando a cabeça branca sentenciou. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos38 que havia. à vista de todos. que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tíaraju28. que já tinha visto muito mundo. Quem perdeu. para todos ouvirem: — Foi na lei! A carreira é de parada morta30. Despeitado e furioso. E foi um alegrão por aqueles pagos32. mais de um virou as esporas para o peito do pé. revolta dos índios pela demarcação das terras no Tratado de Madri (1750).

O Negrinho tremia. 44 Que tem cor de tordo/ De pelame negro em que sobressaem malhas brancas. separado de outro por vales cobertos de mato. amarelos na escuridão. e toda a tropilha com ele. veio a chuva. varado de fome e já sem força nas mãos. porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu. Era já tarde da noite. 41 42 Ocasião. da mesma vereda41 mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe. 46 Animal semelhante ao cachorro-do-mato. . 47 Tira ou correia de couro cru. de medo. De vereda: logo. sem barulho nas asas. Então vieram os guaraxains46 ladrões e farejaram o Negrinho e cortaram a guasca47 da soga. encontrado da Argentina até SP. 43 Lomba prolongada em que há pastos/ Pequeno monte. 48 Dar repetidas voltas.E conforme apeou-se. como rindo-se dele. enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim.. passaram as Três-Marias: a estrela-d'alva subiu. O tropel acordou o Negrinho. 45 Corda grossa. O baio sentindo-se solto rufou a galope.. 49 Planície estreita entre montanhas. dar-lhe uma surra de relho42.. porém um pouco maior. paradas no ar. o Cruzeiro apareceu.... Vieram então as corujas e fizeram roda. veio o vento. E uma piou e todas piaram. Cinturão de couro. escaramuçando48 no escuro e desguaritando-se nas canhadas49. os guaraxains fugiram. paradas no ar. Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha43 falou assim: — Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos44 negros. veio a noite. iam passando as estrelas. O Negrinho. voando. E dormiu. O baio fica de piquete na soga45 e tu ficarás de estaca! O Negrinho começou a chorar. e todas olhavam-no com os olhos reluzentes. enquanto os cavalos iam pastando. dando berros de escárnio. subiu e passou. momento. imediatamente. Veio o sol.

que se dispersaram. Gemendo. Mancando 52 Pequeno matagal.. a vela benta ia pingando cera no chão. o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa. até a coxilha que o seu senhor lhe marcara. O gado ficou deitado. filho do estancieiro e enxotou os cavalos. e já eram tantas que clareavam tudo. perverso. e de cada pingo nascia uma nova luz. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxains ladrões. por onde o Negrinho ia passando. *** O menino maleva50 foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. gemendo. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha. na beira dos lagoões. dar-lhe uma surra de relho. Quando os galos estavam cantando.. os touros não escarvaram53 a terra e as manadas xucras não dispararam. 50 51 Mau. à margem de ribeiro ou terreno fértil.. E chorou. chorando e gemendo. o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas. mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo. E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. porém pior do que os bichos maus. como na véspera. os cavalos relincharam todos juntos. o Negrinho dormiu. E assim o Negrinho achou o pastoreio. ao clarear o dia veio o menino. . e sonhando com a Virgem. E se riu. sua madrinha. Trata-se do filho do estancieiro. Rengueando51. 53 Corroer. E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. tomou o coto de vela acesa em frente da imagem e saiu para o campo.Os galos estavam cantando. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe.. nos paradeiros e nas restingas52. Por coxilhas e canhadas. Cavar superficialmente (é o que fazem os cavalos ao bater com as patas no chão).

dar-lhe uma surra de relho. mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos... e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho. E chorou. porém ninguém achou a tropilha e nem rastro. Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo. E três dias houve cerração forte.. mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro… e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno. sem olhar para trás. o sangue vivo escorrendo do corpo… O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa. O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá. E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. raivosas. que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos. *** O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos. as asas dos pássaros e a casca das frutas. *** A peonada bateu o campo. dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir. cobriam todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-la é que então ele se foi embora..disparando campo fora. E assanhou bem as formigas... 54 Traquinar . Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos. que chorou no ar como uma música..... E como já era noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova. e quando elas. a um palanque e dar-lhe. com as carnes recortadas. e pareceu que morreu. retouçando54 e desguaritando-se nas canhadas. Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. o estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro... deu um suspiro triste.

Nossa Senhora. e nem se riu. E não chorou. gineteando de em pêlo. E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio.. pulando de em pêlo e sem rédeas. como levada em pastoreio. para ver o que restava do corpo do escravo.. de pé. o cavalo baio e ali junto a tropilha dos trinta tordilhos. *** Correu no vizindário a nova do fadário55 e da triste morte do Negrinho. sarado e risonho. pousada na terra. devorado na panela do formigueiro. . mascates e carreteiros. os chasques58 que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas. em um cavalo baio!… Então. no baio. Porém logo. perfeita. destino imposto por um poder sobrenatural. viu a Virgem. de todos os rumos do vento. o senhor caiu de joelhos diante do escravo.. e ali ao lado.. que os posteiros56 e os andantes. de perto e de longe. mas mostrando que estava no céu. o que 55 56 Sorte. O Negrinho. de guarda ao mesquinho. Qual não foi o seu grande espanto. começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo. 57 Erva daninha que nasce nas searas/ Campo em que há muito capim ou pequenos arbustos. sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!. tocada por um Negrinho. os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas57. e fazendo-lhe frente. 58 Escuteiro. quando qualquer cristão perdia uma cousa. mandado de um lugar para outro com aviso urgente. muitos acenderam velas e rezaram o Padre Nosso pela alma do judiado. Que vivem no posto de uma fazenda.. tão serena.Então o senhor foi ao formigueiro. Quando tal viu. E o Negrinho. E era. viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé. uma tropilha de tordilhos. todos davam notícia — da mesma hora — de ter visto passar. o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm. fado. com a pele lisa... quando chegado perto.. Daí por diante. chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

Nossa Senhora. pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos. Se ele não achar… ninguém mais. O mesmo que mourão. a Virgem. cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa. que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha. à margem de ribeiro ou em terreno fértil. *** Desde então e ainda hoje. pela noite velha o Negrinho campeava e achava. . a sua tropilha esparrama-se.. desponta os banhados. *** Todos os anos.. nem na culatra61. sarado e risonho. desaparece: está metido em algum formigueiro grande. bandeia as restingas62. fazendo visita às formigas.. cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha. cruza os campos. Foi por aí que eu perdi. 59 60 Debandada. Mas ao nascer do sol do terceiro dia. quando estes acendem um coto de vela. suas amigas.. Quem perder suas prendas63 no campo. o baio relincha perto do seu ginete.. mas só entregava a quem acendesse uma vela. corta os macegais. que ele conduz e pastoreia. nem na ponta. acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo — Foi por aí que eu perdi.. o Negrinho. é quando nas estâncias acontece a disparada59 das cavalhadas60 e a gente olha. o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida. 62 Pequeno matagal. o Negrinho. madrinha dos que não a têm. Algo que se preza 64 Estaca. vara os arroios. Cavalgada/ Manada de cavalos 61 Retaguarda de um rebanho. olha. durante três dias. e não vê ninguém. Foi por ai que eu perdi!. os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. 63 Jóias.fosse. conduzindo o seu pastoreio. guarde esperança: junto de algum moirão64 ou sob os ramos das árvores. dispersão. sem ninguém ver. outro por lá. sobe as coxilhas e desce às canhadas. e um aqui. O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos.