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Ensaio Sobre a Liberdade - John Stuart Mill[1]

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e que podem ser consideradas as suas vítimas,
como em qualquer outra modalidade da institui-
ção do casamento. E, por mais surpreendente
que tal fato possa parecer, tem ele a sua explica-
ção nas idéias e costumes correntes, os quais, ensi-
nando as mulheres a olharem o casamento como
a única coisa necessária, tornam compreensível
que muitas mulheres prefiram ser uma de várias
esposas a não ser esposa de maneira nenhuma.
Outros paises não se viram solicitados a reconhe-
cer essas uniões nem a dispensar da observância
das suas leis, por motivo de opiniões mormônicas,
qualquer porção dos seus habitantes. Mas quando
os dissidentes tiverem concedido aos sentimentos
hostis alheios muito mais do que estes teriam di-
reito a reivindicar, e houverem deixado os paises
que consideram inadmissíveis as suas doutrinas,
para se estabelecerem num remoto esconso do globo
que eles tenham sido os primeiros seres humanos
a habitar, será, então, difícil ver por que princí-
pios, que não os da tirania, se pode impedi-los de
aí viverem sob as leis do seu agrado, desde que não
agridam as outras nações, e dêem toda a liberdade
de se irem embora àqueles que não estiverem satis-
feitos com os seus métodos. Um escritor recente,
a certos respeitos de considerável mérito, propõe,
para usar as suas próprias palavras, não uma cru-
zada, mas uma "civilizade", contra essa comuni-
dade poligâmica, afim de pôr termo ao que lhe
parece um passo atrás na civilização. Para mim
também se trata de um passo atrás na civilização;
mas eu não penso que assista a qualquer comuni-
dade o direito de forçar outra a ser civilizada.
Enquanto as vítimas das más leis não invocarem a

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JOHN" STUART MILL

assistência de outras comunidades, não posso admi-
tir que gente inteiramente sem relações com elas
intervenha, e exija que se ponha fim a um estado
de coisas com o qual todos os interessados diretos
parecem.satisfeitos, porque seja ele um escândalo
para pessoas, distantes de alguns milhares de mi-
lhas, que nele não teem parte nem interesse.
Mandem missionários, se lhes agrada, pregar
contra o estado de coisas, e oponham-se, por qual-
quer meio lícito (e fazer calar os mestres do novo
credo não é meio lícito), ao progresso de tais dou-
trinas em meio ao seu próprio povo. Se a civili-
zação triunfou sobre a barbárie quando a barbárie
dominava o mundo, é demais recear que a barbá-
rie, depois de tão facilmente derrotada, reviva e
domine a civilização. Uma civilização que assim
pode sucumbir ante o inimigo vencido, deve pri-A
meiro ter-se tornado tão degenerada, que nenhum
dos seus padres e pregadores, nem ninguém mais,
tem capacidades, ou assumirá o penoso encargo,
de se erguer por ela. Se assim for, quanto mais
cedo tal civilização se vir notificada a despejar,
tanto melhor. Só poderá ir de mal a pior, até ser
destruída e regenerada, como o Império do Oci-
dente, por bárbaros enérgicos.

CAPITULO V

Aplicações

í~~\ s princípios afirmados nestas páginas preci-
^ ' sam ooter nma aceitação mais generalizada
como base da discussão de minúcias, antes de se
tentar, com perspectiva de sucesso, uma aplicação
coerente sua a todos os diversos setores do governo
e da moral. As poucas observações que me pro-
ponho a fazer sobre questões de detalhe visam
ilustrar os princípios, antes que os acompanhar
às suas consequências. Ofereço não tanto aplica-
ções, como exemplos de aplicação, os quais podem
servir para trazer maior clareza sobre o signifi-
cado e os limites dos dois preceitos que, conjun-
tamente, formam a doutrina deste ensaio, e para
auxiliar o entendimento a decidir entre eles, nos
casos em que pareça duvidoso qual o aplicável.

O primeiro de tais preceitos é que o indivíduo
não responde perante a sociedade pelas ações que
não digam respeito aos interesses de ninguém a
não ser ele. Conselho, ensino, persuasão, esqui-
vança da parte das outras pessoas se para o bem
próprio a julgam necessária, são as únicas medi-
das pelas quais a sociedade pode ligitimamente
exprimir o desagrado ou a desaprovação da con-
duta do indivíduo. O segundo preceito consiste
em que, por aquelas ações prejudiciais aos interes-

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