UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

ALQUIMISTAS DO ÊXTASE
UMA ANÁLISE DO MOVIMENTO PSICODÉLICO NA CONTACULTURA E NA PSICONÁUTICA

Iago Soares Otoni Pereira

Belo Horizonte 2009

2 Iago Soares Otoni Pereira

ALQUIMISTAS DO ÊXTASE: UMA ANÁLISE DO MOVIMENTO PSICODÉLICO NA CONTRACULTURA E NA PSICONÁUTICA

Monografia

apresentada

ao

curso

de

Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do titulo de Bacharel em Ciências Sociais

BANCA EXAMINADORA: Eduardo Viana Vargas (Orientador-UFMG) Ana Lúcia Modesto (UFMG)

Belo Horizonte 2009

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DEDICATÓRIA

Aos psiconautas de todas as épocas e lugares.

Stela e o pessoal da mesa da cantina (parte indispensável de minha formação acadêmica) Ivanildo. Além disso. em específico. Danilo. à Léa. Lakshmi e Saraswati. ao Bruno Reis e ao Renarde pela inspiração proporcionada por suas aulas e idéias. Hermes. João. Éris.4 AGRADECIMENTOS Antes de tudo.entre vivos e mortos . Para citar alguns que me vem em mente aleatoriamente agora: Kátia. . Frodo. pelo suporte. Lu. em especial. Agradeço ao professor Eduardo Viana Vargas pela orientação minuciosa e paciente oferecida a um empreendimento que. pareceu que não chegaria a lugar nenhum.que me ensinaram a pensar: Gilles Deleuze. por fim. apoio e compreensão oferecidos de mãos abertas desde sempre. ao Daniel Simião. à Ana Lúcia. Agradeço à professora Ana Lúcia Modesto por aceitar participar da banca examinadora deste trabalho. Agradeço a todos os membros da Enteógenos sem Dogmas: pela cooperação com este trabalho e pelas inúmeras e inspiradoras discussões conduzidas na comunidade. Félix Guattari. Gabriel Tarde e Friedrich Nietzsche. Michel Foucault. Yuri. Josué. Donna Haraway. Ramiro. agradeço à minha família. Daniel. sem os quais eu não teria conseguido chegar aqui. Agradeço aos autores . agradeço aos membros que me autorizaram a citar os textos de sua autoria. agradeço ao meu pai por me hospedar em sua casa durante a confecção deste trabalho e à minha mãe e irmã por aguentarem as saudades causadas pelo isolamento decorrente deste trabalho. Lucas. Bruno Latour. que contribuíram direta ou indiretamente para este trabalho. Suely Rolnik. aos meus amigos. agradeço ao Vargas. etc. Agradeço. Em especial. muitas vezes. LG. Agradeço também às deidades: Ganesha. Keoma. Agradeço aos professores de curso de ciências sociais por tanto me ensinarem. Agradeço também aos inúmeros músicos contraculturais que me forneceram uma trilha sonora pros dias sem fim dedicados a este trabalho.

Thompson What Leary took down with him was the central illusion of a whole life-style that he helped create. failed seekers.. Maybe it meant something.. no mix of words or music or memories can touch that sense of knowing that you were there and alive in that corner of time and the world. but Nietzsche is something else entirely. in the long run. the dawn of a counterculture. A generation of permanent cripples..is tending the light at the end of the tunnel. But no explanation..5 Drugs have now become part of our culture. Gilles Deleuze San Francisco in the middle sixties was a very special time and place to be a part of. there are bad drugs and good drugs. Michel Foucault Perhaps Marx and Freud are the dawn of our culture. Just as there is good music and bad music. who never understood the essential old-mystic fallacy of the Acid Culture: the desperate assumption that somebody. Or at least some force . So we can't say we are 'against' drugs and more than we can say we're “against” music.. .. Hunter S... Whatever it meant. Maybe not.

Thompson RESUMO Este trabalho propõe uma análise do fenômeno conhecido como "psiconáutica". perspectiva esta que abarca as obras de Gilles Deleuze. em vias de compreender em que sentido a psiconáutica é um "renascimento" do movimento psicodélico. o autor esboça uma genealogia da contracultura das décadas de 1960 e 1970. Enteógenos sem Dogmas . que constituiria um renascimento do movimento psicodélico iniciado na década de 1990 principalmente através da internet (CARNEIRO. Por “netnografia” o autor entende uma adaptação da etnografia tradicional para os meios de socialização online (KOZINETS. Félix Guattari. Corpo sem Órgãos. fórum. Palavras chave: psiconáutica. Orkut. comunidade. drop-out. fragmentados ou cancerosos. psicodélicos. 2002). A abordagem dos dois eixos é efetivada segundo uma perspectiva analítica e política designada provisoriamente como “pós-estruturalista”. O autor conclui com a observação de que. plano de imanência.6 Hunter S. No primeiro eixo. Estes processos de desmonte engendram uma série de riscos – podendo resultar em corpos vazios. chamada "Enteógenos Sem Dogmas". Michel Foucault e Bruno Latour. No segundo eixo o autor empreende uma “netnografia” em uma comunidade parte da cena psiconáutica. hippie. enteógenos. movimento psicodélico. entre outras. A análise é desenvolvida através dois eixos exploratórios. se estes riscos são devidamente contornados. os processos em questão conduzem à constituição de o que Deleuze e Guattari (1996) designam plano de imanência. contracultura. O autor observa que tanto a contracultura quanto a psiconáutica põem em operação processos relacionados ao desmonte de estruturas transcendentes de autoridade. netnografia. plano de transcendência. 2005).

These dismantling processes engineer their own set of risks – possibly resulting in empty. Félix Guattari. netnography.7 ABSTRACT This study proposes an analysis of the phenomenon known as “psychonautics”. in order to understand what it means to say that psychonautics is a “rebirth” of the psychedelic movement. plane of transcendence. Those two axis are approached under an analytical and political perspective provisorially named “post-structuralist”. the processes under consideration lead to the constitution of what Deleuze and Guattari (1996) names as plane of immanence. to name a few. Body without Organs. In the first axis. Keywords: psychonautics. psychedelics. if these risks are successfully circumvented. 2002). forum. The author observes that both the counterculture and the psychonautics puts into operation processes related to the dismantling of transcendent structures of authority. drop-out. Orkut. which comprehends the works of authors like Gilles Deleuze. entheogens. counterculture. Enteógenos sem Dogmas . The author understands “netnography” as an adaptation of the traditional ethnography to the virtual environments (KOZINETS. Michel Foucault and Bruno Latour. The author concludes by observing that. plane of immanence. This analysis is developed through two exploratory axis. named “Enteógenos sem Dogmas”. community. In the second axis the author undertakes a “netnography” in a community that is part of the psychonautic scene. 2005). fragmented or cancerous bodies. understood to be a rebirth of the psychedelic movement through the internet since the nineties (CARNEIRO. psychedelic movement. hippie. the author drafts a genealogy of the 1960’s and 1970’s counterculture.

..............................................................75 ....................................................2 Do que se trata esta comunidade do Orkut?................................................................70 2...........48 1.............2 CONTRACULTURA E DROP-OUT..................................................................................................3 A relação com a psiquiatria e as ciências da mente..............................................2 O revival da religião..5 Ocaso do primeiro movimento psicodélico.........................................................................................................2..........10 2 EIXOS DE PESQUISA..........................................4 DESBUNDE: CONTRACULTURA NO BRASIL.........................32 1..................................15 3 PERSPECTIVA TEÓRICA..........................14 2............2 Segundo eixo........63 1............................................70 2.....................................2...............1 Permeabilidade das fronteiras.............8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO..............21 CAPÍTULO 1 – ESBOÇO DE UMA GENEALOGIA DO MOVIMENTO PSICODÉLICO..................................................1 INTRODUÇÃO..........................................................................................................................28 1....1...........12 2.............2...............................................................................................................................48 1.........................................51 1....2 AUTO-PERCEPÇÃO DOS PSICONAUTAS..........................................................................2..2 Considerações metodológicas..........................................................59 1.................34 1............3..............3 Drop-out e Corpo sem Órgãos................10 1 APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA............................65 CAPÍTULO 2 – DESCRIÇÃO NETNOGRÁFICA...........................................................52 1......................................70 2..................................39 1............3...........57 1............................................................................................................3..................1 QUE CONTRACULTURA? ..................................................................3................................................5 APÓS A CONTRACULTURA...................2 O desejo e seus distintos regimes produtivos........................................................................1 Saber antropológico...................................1 Busca preliminar.3....36 1.........2................................................................. esboço de uma genealogia.....................1 As portas da percepção....4 A droga enquanto agenciamento...3 DEVIRES MOLECULARES...........12 2.13 2........................................................................................................ netnografia....71 2.......28 1.............................1..............................1 Primeiro eixo....................................

....90 2.........................................................................................................................................................................................................................................3 O QUE PRATICAM OS PSICONAUTAS? ................81 2......9 2.....93 CONCLUSÃO.........112 .........................5 ANÁLISE.....111 ANEXO A – Descrição: “Enteógenos sem Dogmas”............................................................................................................................................................................4 O QUE OCORRE NO FÓRUM? ................99 BIBLIOGRAFIA..........................105 APÊNDICE A – Texto de apresentação na comunidade............................................

2005).trazer à consideração antropológica uma cena virtual. ou seja. and this ranges from purposeful (intentional) community in which member’s lives become densely interconnected.”. uma rede de comunicação cuja socialização ocorre primariamente através da internet. to emergent and amorphous community that may involve some interconnections. ele faz referência a uma onda anterior (e primeira) do uso de substâncias . to very loosely linked and dispersed networks and interactions what we may characterize as scenes rather than communities” (GATSON. 2007: 100. a cena psiconáutica é fruto do “renascimento psicodélico dos anos 1990”.10 INTRODUÇÃO 1-Apresentação do problema Neste trabalho me proponho a – através de uma prospecção histórica e de uma descrição etnográfica . Do que se trata esta “cena psiconáutica”? O termo “psiconauta” foi cunhado por Ernst Jünger em 1970 (OTT apud CARNEIRO. Grifo do autor). nas palavras de Gatson (2007). Opto por nomear a psiconáutica uma cena porque ela é formada por uma rede de comunidades mais ou menos conectadas umas às outras. Quando Carneiro atribui ao movimento psiconáutico a alcunha de “renascimento psicodélico”. when properly processed. There has been a wide range of interaction that has occurred historically and contemporaneously in CMC [ComputerMediated Communication]. Psychonauts believe that these spiritual experiences. que “se expressou numa intensa atividade editorial e na articulação através da internet”. lead to long-term and positive benefits in their everyday lives. o documentário húngaro Psychonauts (2006) apresenta uma definição formal que podemos acatar provisoriamente: “Psychonaut: An explorer of the mind. A esta cena atribuo o nome de “psiconáutica”. por ser freqüentada pelos assim chamados “psiconautas”. Segundo Carneiro (2005). who journeys in his/her psyche using hallucinogenic drugs or other counsciousness altering techiniques.

11 psicodélicas no mundo ocidental. estes jovens “reinvidicavam a extensão dos direitos de livre-disposição do corpo e de autonomia sobre si próprio. “enteógeno” se refere ao potencial destas substâncias de induzir êxtases de caráter místico ou religioso. 2005) e é utilizado tipicamente para se referir a usos cerimoniais ou religiosos destas substâncias. “psicotógenos”. . termos como “psicotomiméticos”. 2005. “psicodislépticos” ou “enteógenos”. 2005. “psicotógenos” e “esquizotoxinas” definem uma zona de proximidade dos estados mentais propiciados pela ingestão destas substâncias com a psicose (STRASSMAN. 2005: 32). 2005. 2001). GOULART E LABATE. “esquizotoxinas”. 2005: 67). religião e sociabilidade de um grupo extenso de jovens aos quais damos o nome de contracultura. Nas palavras de Carneiro (2005). Por substâncias “psicodélicas” entendo um subgrupo das substâncias psicoativas que recebem também uma miríade de outras designações. 2005: 31). sendo empregado usualmente numa compreensão laica dos efeitos de alteração mental destas substâncias. os anos 60. significando “aquilo que revela o espírito ou a alma” (CARNEIRO. com impactos significativos sobre a arte. CARNEIRO. ano em que transcorreu o ápice das insurreições juvenis contra a ordem estabelecida. A designação por “alucinógeno”. “psicotomiméticos”. GOULART E LABATE. como “alucinógenos”. e mesmo as categorias antes enumeradas não são perfeitamente equivalentes. LABATE e CARNEIRO. Por outro lado. STRASSMAN. GOULART E LABATE. ciência. O termo “enteógeno” fora proposto por Gordon Wasson em 1978 (CARNEIRO. de gênero (o movimento feminista) e de opção sexual (o movimento homosexual)” (CARNEIRO. traduz-se “enteógeno” aproximadamente como “aquilo que leva alguém a ter o divino dentro de si” (MACRAE apud GOULART. 2001). que por sua vez costuma ser resumido a 1968. Não há um consenso perfeito quanto a quais substâncias são classificáveis nestas categorias. O termo “psicodélico” foi adotado pela contracultura das décadas de 1960 e 1970 e é fortemente vinculado a estes movimentos. de uso mais corrente enfatiza a presença de percepções “ilusórias” em detrimento dos aspectos intelectivos e afectivos (CARNEIRO. Como parte destes movimentos. Já “psicodélico” é uma tradução do inglês “psychedelic”. CARNEIRO. A contracultura marcou de tal forma o imaginário do ocidente que se tornou sinônima de uma década. destacavam-se os que discutiam questões de política sexual.

2001.1 Primeiro eixo. No primeiro trecho do capítulo 1. LANGDON. em que sentido estas categorias são problemáticas e como estão constantemente envolvidas em embates por sua definição. mas . Por uma genealogia entendo uma prospecção histórica cujo objetivo. 2005: 58). Veremos. produzindo por outro lado poucas alterações fisiológicas identificáveis (CARNEIRO. 2005).12 A terminologia utilizada para designar estas substâncias ainda é objeto de intenso debate (STRASSMAN. examinando sua inserção nas agitações sóciopolíticas mais amplas as quais costumamos denominar “contracultura”. Os psicodélicos causam alterações principalmente na estrutura perceptiva e de pensamento do usuário. a mescalina (presente nos cactos peyote e San Pedro). o LSD (sintetizado por Albert Hofmann em 1938). a salvinorina (presente na erva Salvia divinorum). também conhecido como Daime). não é “reencontrar as raízes de nossa identidade. As substâncias psicodélicas distinguem-se de outras grandes categorias como estimulantes ou depressores (embora possam ter também um efeito estimulante ou depressor secundário). me referirindo a estas substâncias como “psicodélicas” ou “enteógenas” indistintamente. como apresentado por Foucault (1992). Substâncias tipicamente identificadas como psicodélicas são o DMT (presente no preparado da ayahuasca. 2005: 58). o LSA (quimicamente similar ao LSD e presente nas ipoméias e na Argyreia nervosa) e as anfetaminas psicodélicas como o MDMA (conhecido como Ecstasy) e mais uma centena de similares químicos (CARNEIRO. “Que Contracultura?”. traçando ligações entre as práticas e discursos dos psiconautas contemporâneos com o movimento psicodélico da década de 1960 em vias de produzir o esboço de uma genealogia deste movimento. 2 Eixos de pesquisa Este trabalho se estrutura através de dois eixos exploratórios: 2. traçaremos os contornos do movimento psicodélico. a ser conduzido no capítulo 1. contudo. esboço de uma genealogia O primeiro eixo. a psilocibina (presente em uma série de cogumelos). Opto neste trabalho por acompanhar a utilização nativa dos termos. consiste em investigar meticulosamente em que sentido a psiconáutica é um renascimento.

iremos também atentar. concluiremos nossa exploração deste eixo de pesquisa lançando o olhar sobre o intermezzo entre o movimento psicodélico dos 1960 e seu renascimento atual. que tipo de “saber antropológico” ela se propõe a elaborar. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo (FOUCAULT. 1992: 35). Corpo aí entendido como superfície de inscrição dos acontecimentos [. econômicas. se obstinar em dissipá-la. entre elas políticas. 1992: 22).. está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. lugar de dissociação do Eu [. por um lado.. como análise da proveniência. na quarta parte do capítulo 1. confronto e transformação de uma variedade de forças.”. 2. Antes de mais nada. químicas. e que. ou seja.. “fazer parecer todas as descontinuidades que nos atravessam” (FOUCAULT. no segundo e no terceiro trecho do capítulo 1 iremos analisar os discursos e os diagramas de poder que permeiam o corpo drogado – corpo-superfície onde se efetuam o encontro. simbólicas. netnografia Este segundo eixo consiste na realização de uma etnografia em uma comunidade virtual conectada à cena psiconáutica. ajude a estabelecer um diálogo entre os saberes acadêmicos e a psiconáutica. ou seja..].]. Com efeito. no quinto e último trecho do primeiro capítulo.2 Segundo eixo. em vias de elaborar uma conexão com o segundo eixo deste trabalho. volume em perpétua pulverização.13 ao contrário. Em seguida irei considerar as adaptações realizadas no método etnográfico em vias de efetivá-lo em . traga os psiconautas à consideração da comunidade antropológica. explorado no capítulo 2. de Theodore Roszak). Objetivo com isto construir um texto descritivo que. para algumas condições específicas do surgimento e da propagação da contracultura no Brasil durante o regime militar. etc. Albert Hofmann e Aldous Huxley) e trabalhos sociológicos referentes ao período (como a etnografia The Hippie Trip (1973) e The Making of a Counterculture (1969). considero necessário definir a que se presta esta etnografia. por outro lado. Visando este objetivo abordaremos as obras de alguns dos principais pensadores que participaram ou influenciaram a contracultura (como Thimoty Leary. Por fim. A genealogia.

fruto da etnografia por ele produzida sobre a divinação de Ifá em Havana. apresentada em sua exegese do trabalho de Foucault: “E primeiramente.” (DELEUZE. ela não é construída em vias de refletir melhor a alteridade observada em nossos quadros de pensamento. considerando o saber como problema. a função de uma etnografia dentre um saber antropológico é produzir conexões novas entre o visível (os nativos) e o enunciável (o texto antropológico). ou seja.1 Saber antropológico Compreendo a função desta etnografia como sendo produzir o que Holbraad (2004) nomeia como “definições inventivas”1. Ainda assim. 2. lançar uma flecha de um contra o alvo do outro. Isto implica que uma definição inventiva não é verdadeira em um sentido onde possamos contrapô-la à falsidade (falseá-la). given what they say and do. pensar é ver e é falar. fazer brilhar um clarão de luz nas palavras. fazer ouvir um grito nas coisas visíveis. também. às categorias nativas – pode eventualmente ser tão estranha aos nativos quanto o é para nós. Logo depois. no interstício ou na disjunção do ver e do falar. Ela não equivale. mas pensar se faz no entremeio. detalharei o processo de escolha em uma comunidade virtual dentre a cena psiconáutica. 1988: 124). Lendo nestes termos. É. para concluir abordando certas problemáticas referentes ao envolvimento e distanciamento do objeto de estudo. 1 .2. uma definição inventiva em si mesmo. ela está em relação com o campo – por ser construída em interface com as categorias e práticas nativas – e também em relação com nossos quadros de pensamento. aliás.” Considero que esta ruptura empreendida por Holbraad com uma concepção representacional da descrição etnográfica possui uma íntima ressonância com a elaboração de Deleuze (1988) a respeito da função do pensamento. inventar o entrelaçamento. produzir a diferença em nosso pensamento através do contato com a Conceito que é. a cada vez.14 uma comunidade da internet. It is about how we could learn to think. Holbraad (2004) sintetiza da seguinte forma o que está implicado numa definição inventiva: “(…) anthropology is not about ‘how we think they think’. Uma definição inventiva se distingue de uma definição representacional.

Contudo. dirigi-me primeiramente ao Orkut. o Orkut constitui “um fértil caso para quem quiser tratar dos efeitos da virtualidade nas representações daqueles que dela fazem uso. Se entendermos o método etnográfico tradicional. algumas delas. GUIMARÃES JR. 2007. Entretanto. 2005) e por vezes é adotado de forma genérica para descrever etnografias realizadas na internet2. em um sentido amplo. Com efeito. basta notar que o Orkut comporta tanto um agregado de páginas pessoais compostas pelos participantes - 2 Para alguns exemplos. não realizam revisões significativas no método etnográfico para viabilizar suas pesquisas. algumas destas idiossincrasias possuem implicações metodológicas pertinentes a serem consideradas de antemão. Descreverei com mais detalhes do que se trata o Orkut no capítulo 2. Esta adaptação vem sendo chamada de “netnografia”. 2008: 15). 2008: 16). ver Segata (2007). 2. . No intento de realizar a etnografia. que foram relevantes na experiência de campo. 2004). embora contenham discussões pertinentes às condições de sociabilidade online. 2008. BECKMAN e LANGER. alguns trabalhos recentes (SEGATA. por enquanto. O termo “netnografia” fora apresentado por Kozinets em 1998 (BARROS. 2007.. COSTA. DONELLES. não há nenhum empecilho para que se faça uma adaptação deste método aos territórios virtuais. Kozinets (2002) oferece uma sistematização específica do método netnográfico que adotei como orientação geral para a realização desta pesquisa.15 alteridade. serão abordadas no capítulo 2. ou Viana (2008). namely transforming concepts (coming up with new ones)” (HOLBRAAD.2.2 Considerações metodológicas A interação social realizada por trocas de textos online possui várias idiossincrasias em relação às interações sociais presenciais e corporais. muito por sua popularidade no Brasil. Contudo. Desta forma. uma rede social online criada em 2004 e que rapidamente “tornou-se "A" rede de relacionamentos nacional” (DORNELLES. PEREIRA e ROCHA. NETO e PINTO. “we come much closer to what I take philosophers to be doing. como consistindo numa convivência próxima com um grupo humano específico de forma a se tornar familiar com sua sociabilidade e seus sistemas de símbolos. 2005. uma parcela significativa da discussão a respeito de etnografias virtuais tem se focado em uma adaptação do método etnográfico tradicional.” (DORNELLES. 2004).

A discussão em um fórum virtual funciona através de “tópicos”. a segunda se chamava “Psiconautas” e possuía 161 membros. 2002: 5) A busca de fóruns no Orkut pelos termos mais diretamente relevantes me levaram a duas comunidades que se propunham a agregar psiconautas. A primeira se chamava “Psychonauts” e continha um total de 1506 membros3. and (5) more betweenmember interactions of the type required by the research question. Um tópico é composto inicialmente por um título e um texto. topic or group. Não observei nenhuma variação brusca ou significativa no número de membros destas comunidades nos meses que antecederam esta data. A primeira era satisfatória nos três primeiros critérios fornecidos por Kozinets. (2) higher “traffic” of postings. and their use distinguishes the method of “netnography” from traditional ethnography. . qualquer membro da comunidade pode abrir um tópico. O centro de sociabilidade em uma comunidade consiste em um espaço destinado à discussão baseada em texto entre os membros. espaço esse chamado pelo Orkut de “fórum”. (KOZINETS. digitados por seu autor. A segunda comunidade era demasiadamente pequena e continha apenas tópicos criados por um único usuário. muito ao modo da convivência com os nativos característica da observação participante. tendo uma quantidade enorme de tópicos abertos por membros que simplesmente não continham nenhuma discussão. ao qual os outros membros da comunidade podem então responder e manter uma conversação assincrônica. mas deficiente nos dois últimos critérios. à qual eu me filiaria e em cujo fórum eu observaria e participaria das discussões.16 as quais são chamadas pelo Orkut de “perfil” – quanto uma vasta quantidade do que o Orkut nomeia como “comunidades”. (3) larger numbers of discrete message posters. que fica então listado na página principal do fórum. Insatisfeito com estas duas comunidades considerei uma terceira de cuja existência eu já 3 Todas as contagens de membros aqui apresentadas foram oferecidas pelo Orkut no dia 5 de novembro de 2008. Cada comunidade possui um título e descrição. Kozinets (2002) oferece linhas-guia para a escolha de uma comunidade virtual para a realização de uma netnografia: (1) a more focused and research question relevant segment. exceto nos casos expressos em contrário. Minha intenção nesta etapa da pesquisa consistia em escolher uma comunidade do Orkut freqüentada por psiconautas. com pouquíssima ou nenhuma discussão. geralmente circunscrita a um tema. (4) more detailed or descriptively rich data. These evaluations entail an important adaptation of ethnography to the online context.

. parágrafos e pontuações. 6 No processo de cópia dos textos presentes na “Enteógenos sem Dogmas” me deparei com um dilema. o mais fiel possível à estética textual da internet: não alterei as gírias típicas deste meio . Em seguida.ti®). Loucos. a comunidade Enteógenos sem Dogmas já havia mais que duplicado seu número de participantes. então. de resto. acompanhei também todas as discussões transcorridas na comunidade durante o ano seguinte. a corrigir estes erros ortográficos. Era possível que eu os transportasse estes textos para cá ao fielmente. acessado dia 27 de novembro de 2008. Tampouco alterei a estrutura das frases.por exemplo. este risco seria agravado por estes textos estariam sendo recontextualizados em meio a um trabalho escrito sob as regras da norma culta. Ateu. Testemunhas de Geová. Procedi. acidentes de digitação ou produtos de desatenção. etc. optei por realizar a etnografia na “Enteógenos sem Dogmas”. os leitores perderiam o acesso às peculiaridades da ortografia empregada na comunicação informal pela internet. ou seja. segundo as contingências. mantendo uma participação regular nas discussões. que significa “você”. com a exceção do primeiro. Ciente de que não havia opção que não implicasse perdas. Punks. Se eu me dedicasse. .orkut. “vc”. as duas opções. contando com 1. Este recorte se fez necessário por causa do volume excessivo de informação 4 Após mais de um ano de observação. e inclusive figurava como membro. à leitura dos 293 tópicos existentes na comunidade ma data da observação (dia 3 de outubro de 2008) visando uma familiarização com o conteúdo discutido ali até então. Corrigi os apenas os erros ortográficos que aparentavam ser não-intencionais. Por um lado. mantendo-os idênticos aos originais. por outro lado seu perfil parecia bem adequado. Umbandistas. O texto completo da descrição da comunidade pode ser encontrado no Anexo A. copiei os 18 tópicos com mais de 50 postagens para meu computador e os analisei utilizando um programa de análise de dados qualitativos (Atlas. que significam “também”.aspx?cmm=40018089. Caretas. Junkies. Budistas. TODOS são bem vindos6 Esta comunidade atendia particularmente bem a todos os quesitos fornecidos por Kozinets.com. A comunidade se chamava “Enteógenos sem Dogmas” e continha 756 usuários4. Daimistas. esta comunidade possuía um título é menos diretamente ligado à psiconáutica. mas também [.17 tinha conhecimento. emos não. Contudo. Sua descrição5 mencionava psiconautas como potenciais visitantes. onde tentei balancear. por favor) rsrs (brincadeira). e os membros da comunidade com alguma freqüência chamavam-se mutuamente de psiconautas sem que houvesse dissenso quanto a esta categorização. “tb” ou “tbm”.641 membros no dia 5 de novembro de 2009 5 http://www. peculiaridades estas as quais considero serem relevantes à descrição etnográfica. pelo contraste com o corpo textual. Evangélicos. os erros ortográficos presentes nos textos poderiam desmerecer os seus redatores sob as vistas de alguns leitores. salvo nos casos onde era possível identificar.. ou seja. por outro lado.br/Main#Community. tomei uma espécie de “via do meio”. a ocorrência de um acidente de escrita. Tendo em vista que pela minha própria condição de membro eu era familiar com as discussões que ali aconteciam. Skinheads.] Esotéricos. Mantive-me. Emos (não. Espíritas.

resultando na descoberta de que. affiliations and intentions to online community members during any research. comentando nas discussões segundo minhas opiniões? Ou deveria a partir de então tornar-me unicamente um . Procedi. visando identificar outros nodos da rede próximos aos psiconautas estudados. e o que praticam efetivamente nas discussões do fórum. categorizei todas as referências minimamente significantes a cada substância. (2) the researchers should ensure confidentiality and anonymity to informants. tendencialmente maior deve ser o número de postagens envolvidas num tópico sobre este assunto. portanto. (KOZINET. and (3) the researcher should seek and incorporate feedback from members of the online community being researched. a despeito de uma exceção (que abordarei posteriormente) estas inquietações podiam ser separadas em dois campos problemáticos distintos. de forma similar. Kozinets orienta que (1) the researcher should fully disclose his/her presence. criei um tópico chamado “Etnografia na comunidade” (o texto que apresentei neste tópico se encontra no Apêndice A). parti da premissa de que quão mais importante é um assunto para os membros de uma comunidade online. Busquei identificar no texto destes 18 tópicos o que os usuários escreviam a respeito de si mesmos (enquanto indivíduos ou enquanto grupos). Durante o processo de observação fui atravessado por uma série de inquietações relativas ao distanciamento analítico implicado na construção de um saber antropológico. a saber: deveria eu continuar participando na comunidade. 2002: 9) A única diferença em relação a proposta de Kozinets que optei por adotar no tocante a ética foi comunicar-me com o criador e moderador da comunidade por via de um programa de comunicação instantânea online (MSN Messenger) antes de revelar minha presença enquanto antropólogo publicamente no fórum. o que eles escreviam sobre suas práticas. No que diz respeito ao aspecto ético da netnografia. Tendo recebido apoio. O primeiro campo problemático emergiu ao redor da escolha que enfrentei. Dada a relevância atribuída pelos próprios membros da comunidade às diferenças entre os vários psicoativos. mantive registro de todos os links externos utilizados pelos usuários. uma investigação mais cuidadosa destas inquietações.18 registrada no fórum da comunidade. O valor arbitrário de 50 postagens selecionava uma quantidade de postagens suficiente para permitir um aprofundamento em temáticas variadas.

impasses. por outro lado. como antes notado. Por um lado é parte da tradição antropológica. neste caso. Esta intuição me levou a considerar a pertinência. em contraposição ao que. diziam os psiconautas a respeito de suas práticas e seus efeitos resultantes. a considerar os ganhos e perdas de cada opção. intuí a existência de uma dissonância entre o que diziam. eu já figurava como membro. histórico e social – apesar de testemunhar um interesse crescente por parte das ciências. já há alguns anos eu freqüento sites. atentando para as peculiaridades culturais. a percepção de que este campo – do consumo de psicoativos como fenômeno cultural. Considerei que participar das discussões me permitira experimentar de primeira mão as condições. O risco. eu seria apenas um entre dezenas. possuía ainda vastos territórios inexplorados dotados de um amplo potencial de pesquisa antropológica. na qual. atentando para as influências efetivadas nas duas vias de interação. caso contrário. sob a luz de uma dupla percepção: primeiramente. históricas e técnicas destas práticas. O segundo campo problemático ao qual referi minhas inquietações trata de meu envolvimento prévio com a psiconáutica e com a comunidade “Enteógenos sem Dogmas”. sensações. do decurso das atividades sociais no fórum. é que minha posição de antropólogo modificasse significantemente os posicionamentos dos membros. então. . Passei. Em segundo lugar. movido por uma curiosidade pessoal sobre os psicoativos e sua diversidade de usos por seres humanos em variados contextos sócio-históricos. por manter a participação. por um lado. A idéia de transformar esta minha curiosidade em uma pesquisa acadêmica só se deu alguns anos depois. portanto. sociais. Optei. ou que atribuíssem excessivo valor à minha participação. ao menos desde Malinowski (1978). etc. os órgãos oficiais. O envolvimento pessoal nas discussões me colocaria em contato direto com os outros membros da comunidade em seu ambiente informal e descompromissado. Embora eu não me identifique como psiconauta. a convivência próxima com o grupo estudado. quanto para a sociedade extra-acadêmica mais ampla. de um estudo cuidadoso das práticas empreendidas pelos psiconautas e dos efeitos que delas resultam. Após uma curta experiência não consegui observar esta “contaminação” acontecendo de forma significativa em nenhuma situação. as reportagens jornalísticas e alguns discursos médicos a respeito das drogas. leio sobre e discuto temáticas recorrentes na cena psiconáutica.19 observador silencioso? O temor em questão era de alguma forma “corromper” ou contaminar os dados de campo com a minha influência. tanto para os psiconautas.

com as discussões e com a cena psiconáutica mais ampla demandou que eu efetivasse certo distanciamento. Tendo isto em mente. Por outro lado. Entretanto. eu senti a responsabilidade. não implica em muita coisa. apenas raramente eu escrevia qualquer coisa. fez-se necessário a elaboração de um olhar que não se resumisse ao olhar envolvido que até então eu lançava. havia o risco de . No caso de minha participação na “Enteógenos sem Dogmas”. a não ser que se queira. uma vez que eu não era um completo estranho. um estranhamento perceptivo. Foi a partir da necessidade e na realização deste movimento que as inquietações começaram a emergir: em várias situações em que eu esbocei no texto uma leitura crítica do que se passa na comunidade. um olhar questionador ao qual podemos chamar “antropológico”. por si só. eu poderia acabar em converter este texto numa repetição ou reprodução da ideologia nativa e. contudo. considero que minha participação formal na “Enteógenos sem Dogmas” no período anterior ao início da pesquisa. e pela minha experiência considero comum que os usuários do Orkut sejam “membros” de várias centenas de comunidades. eu era. Não é necessário. graças a discussões conduzidas em outras comunidades do Orkut que compartilhávamos. mas só participem ativamente de algumas poucas. não exerceu nenhuma influência específica sobre a produção deste trabalho. portanto reduzindo a pertinência acadêmica ou antropológica deste trabalho. por si só. me vi fantasiando as reações negativas que poderiam surgir quando os membros lessem meu texto. ou seja. com freqüências variadas segundo o momento e o site. na maior parte das comunidades. Ser “membro” de uma comunidade do Orkut. Meu empreendimento nesta situação se encontrou confrontado por riscos de dois lados: Por um lado. sem o devido distanciamento. de construir uma representação do que se passa no fórum da forma mais acurada possível. no limite.20 Até que eu escolhesse a “Enteógenos sem Dogmas”. na maior parte dos casos. conhecido por alguns membros bastante participativos da comunidade. pode ter sido um fator ligeiramente facilitador na aceitação de minha etnografia por parte dos membros da comunidade. contentandome em acompanhar as discussões que eu considerava de interesse. participar de forma alguma do fórum. ela era para mim como os outros sites da internet que eu costumava visitar. basta um mero clique do mouse para figurar como “membro”. para com os membros da comunidade. em vias de permitir que a pesquisa não se resumisse em uma reprodução do ponto de vista e das opiniões nativas. a minha familiaridade com o tema.

a vívida sensação de que. 3 Perspectiva Teórica Como antes mencionado. aproximação e distanciamento. a intenção de produzir esta pesquisa. com a comunidade “Enteógenos sem Dogmas” resulta uma tensão. De meu simultâneo envolvimento e distanciamento com a cena psiconáutica e. meu olhar seria sempre um olhar parcial. do corpo que sustenta minha cabeça. e eles são pessoas se comunicando informalmente e conduzindo práticas que. contudo. não constituindo nunca uma “objetividade” com os graus de rigor e pureza adequados à esta categoria. sociais. de todo. meu trabalho poderia aparentar estar determinando uma verdade objetiva. intelectuais e afetivos em relação. Tratava-se do status da escrita antropológica. Mas a sensação não terminava aí. dos olhos que estão em minha face. Não enxerguei forma aceitável de realizar uma observação e construir um texto sob a premissa de que estes elementos em relação não eram importantes na constituição e . os submetendo à minha visão: afinal. contudo. Eu tinha. este trabalho se insere em uma situação de assimetria de poder onde eu sou o autor de um texto científico dentro de uma instituição acadêmica. eu passasse por cima dos membros da comunidade. em especial. ao lançar uma observação crítica. se removidos todos os elementos biológicos. havia uma terceira inquietação envolvida na observação e subseqüente escrita deste trabalho. das idéias que atravessam minha mente. Como tal. cabe aos leitores julgar se contornei apropriadamente os riscos envolvidos. ou seja. mas parte integrante e constituinte da própria pesquisa. uma inquietação que não se resumia à problemática de envolvimento. para mais ou para menos. surgiu no próprio contexto de envolvimento pessoal. ela se estende por todo o trabalho. uma vez que eu sentia que. a percepção de que a escrita antropológica está imbuída. não me restaria olhar algum a ser lançado.21 que. por mais acurado que fosse. de modo que a presença e relação de elementos como estes formavam as próprias condições necessárias à produção e manutenção de um olhar. às vistas da sociedade mais ampla. de forma que a tensão não é apenas um infortúnio que engendra um par de riscos. poderiam ser consideradas marginais. de que jamais poderia ser destacado. de certo poder relacionado à sua participação no rol das ciências: para tal ou qual leitor.

também. grosso modo. Produzo. portanto um sumário do que caracteriza esta abordagem “pós-estruturalista”. tampouco. de que este olhar estava de alguma forma descorporificado. e era. outras respostas poderiam ser encontradas para estas questões. capaz de negar sua influência sobre este olhar. Donna Haraway. na medida em que obscurecia as especificidades do olhar que eu me esforçava em lançar. deparei-me. afinal. Fazia-se necessário. com uma miríade de afinidades e sintonias entre as obras destes autores. quando argumenta . esta opção tinha também seus inconvenientes. de modo que considerei possível entende-las como estando envolvidas em uma mesma perspectiva analítica e política. conduzir este texto ao mesmo patamar no qual se transcorrem as elaborações dos próprios membros do fórum a respeito de si mesmos – ou seja. construindo um plano de consistência onde “há o que acontece” – uma sucessão de camadas de aparências ou extratos. Um exemplo destas implicações pertinente à nossa temática pode ser encontrado em Vargas (2006). sociais. Félix Guattari. porém. Certamente. enquanto simultaneamente exploro as respectivas implicações no procedimento e nos produtos da pesquisa. atentam para as forças que se desenvolvem na superfície dos corpos. técnicas e simbólicas envolvidas na corporeidade. A busca pela referência explicativa em um plano transcendente a aqueles planos nos quais se desenrolam os fenômenos observados possui implicações analíticas e políticas cuja consideração pode ser oportuna. capaz de perceber verdades objetivas que transcendessem as redes orgânicas. aceitável a conivência com os possíveis entendimentos. portanto. ou seja. neste momento. Não considerei. encontrei na obra de alguns autores como Gilles Deleuze. pois o próprio olhar era produto de uma série de influências. Conduzido por estas inquietações. como uma perspectiva “pós-estruturalista”. encontrar uma forma de pensar a diferença entre as diversas perspectivas sem referência a um plano transcendente onde encontraríamos a verdade objetiva. Eu cogitei como alternativa. Contudo. portanto. à qual podemos nomear. conduzindo este e outros olhares até uma paridade onde “dá tudo na mesma”. Suely Rounik e Bruno Latour uma aparelhagem conceitual dedicada a pensar a diferença sem o recurso a um plano de transcendência. eu não era. entender este texto como sendo mais uma opinião. Ao invés de se lançar nas profundezas buscando a causa oculta dos fenômenos.22 sustentação deste olhar. Primeiro: estes autores operam sem recurso a essências. o status da escrita antropológica não é a única razão pela qual esta perspectiva é pertinente às questões abordadas neste trabalho. por parte de tais ou quais leitores hipotéticos.

as perguntas de “o que significa o uso de drogas”. 2004: 539). uma vez que. .” (VARGAS. 2006). especialmente na presença de uma assimetria de poder entre o analista e o coletivo analisado. Ou mesmo. afeto. podem ser encontradas em uma variedade de obras empreendidas nas ciências sociais: Por exemplo. consciência. liberdade etc. definidas a partir da falta. Caracterizações desta sorte. Como propõe Vargas (2006). os enunciados imortais das escolas evolucionistas da antropologia do século XIX a respeito dos “selvagens” e “bárbaros”. o que se passa (e o que não passa). pra atentemos para quais são as perguntas sendo feitas. razão. como coloca Velho (1995). 2006). considerar o que acontece.23 que ao levantarmos questões como “por que as pessoas usam drogas?" ou. o subjugado pode ter sido definido a partir da falta já enquanto elaboramos nossas perguntas. e que respostas podemos delas obter. muito mais próximos da preocupação dos próprios usuários que “habitualmente se mostram pouco interessados em saber por que usam drogas ou qual o significado dessas práticas. Não mobilizo estes exemplos como uma forma de julgamento da obra de tal ou qual autor. dinheiro. informação.” (VARGAS. segundo o autor. "o que significa usar drogas?” as respostas que produzimos nos informam que “o consumo de drogas seria uma resposta a uma crise ou a uma carência qualquer: consomem-se drogas porque faltam saúde. Sahlins (2004) ironiza algo similar a isto quando coloca que “os weberianos se fixaram na questão de por que tal ou qual sociedade não conseguiu chegar a esse summum bonum da história humana. é importante notar. ou seja. 1995: 47). na presença desta assimetria de poder. Os resultados que daí decorrem são outros e. “no caso de Weber [. religião. Temos como alternativa. cultura. ou “porque as pessoas usam drogas” não são as únicas que podemos colocar. apesar das ricas indicações positivas presentes em sua obra” (VELHO. pode carregar a implicação errônea de que o estado faz alguma falta às sociedades indígenas nas quais ele inexiste enquanto instituição. é disto que se trata quando nos propomos a pensar o plano de consistência.] como a contraface do ascetismo – que era de fato para ele o misticismo – foi quase sempre lida como ausência e falta. afinal. família. trabalho. salvo quando os analistas ou outras autoridades os indagam. onde se explica que eles sejam como são porque “falta-lhes a razão” que advêm com a civilização. Os exemplos apontam... e é isto que finalmente critica Clastres (2003) no conceito de “sociedades sem estado” – que. o capitalismo tal como o conhecemos e amamos” (SAHLINS. contudo. escola.

Um dos riscos desta aproximação da cultura estudada é que perdemos precisamente o que acontece. étnico. o problema é que “aquela realidade passa a ser pensada como se os elementos não cobertos pela pergunta antropológica não existissem. no sentido de produzir o mesmo achatamento do mundo que a prédica dos missionários religiosos. já que capta na sua rede de possibilidades racionais só aquelas práticas ou aspectos de práticas que se adéquam a um sincretismo muito particular.” (SEGATO. social. a outro plano. precisava ser remetido a um campo horizontal qualquer. ou seja. político. que podem conviver com a razão ocidental. Não se trata. sendo que se pensa que os padrões deste contexto interacional desempenharão o papel de significado. Nos termos da própria autora. condenando aqueles aspectos que não se adéquam a ficar atenuados ou até mesmo esquecidos. em vias de produzir um significado para uma dada prática. a inteligibilidade é buscada a partir do pressuposto de que existem relações significativas entre a crença e algum aspecto do contexto interacional no seio do qual ela existe. formarão parte do universo de sentido da sociedade do antropólogo. . de Durkheim a Geertz: o entendimento de um aspecto do viver nativo como representação de alguma outra coisa.” (SEGATO. sempre remetendo a uma profundidade. a imediaticidade do viver religioso – que. 1992: 126). pelo contrário. de acordo com Segato (1992). para que fosse antropologicamente legível. havia desaparecido precisamente o que importava aos seus nativos – a radicalidade do contato pessoal com o divino. permeia a antropologia quase em sua totalidade. A proposição de pensar os fenômenos em seu plano de consistência nos conduz a um segundo aspecto desta perspectiva pós-estruturalista: ao recusar as essências como referência para se pensar os fenômenos estes autores exploram em contrapartida a possibilidade de pensarmos os corpos como sendo montados em relações que prescindem de qualquer dimensão suplementar que os totalizem numa identidade. No caso de Segato. Deste ponto de vista. de negar as tramas de relação nas quais se produzem as práticas e símbolos e experiências. Quando feito isto. a Antropologia comporta-se como uma espécie de empresa missionária. 1992: 124). articulado no registro da representação.24 Ao acionar este aparato conceitual busco um caminho alternativo a uma prática que. evidentemente. o que se passava com os nativos e escapava de seu texto etnográfico era a experiência da transcendência.

ao elaborar um "sujeito nominal". como posição política e religião. ou outro espaço. de constituição – ser – em um.25 Segata (2007) considera que esta perspectiva é especialmente providencial quando estamos tratando dos sujeitos que interagem no ciberespaço. os seus “perfis” no Orkut não era o símbolo que os representava naquele espaço. são opcionais).enfim.termo cunhado por Judith Butler e aproveitado por Segata (2007) no contexto do ciberespaço para designar as totalizações que produzimos quando discursando sobre nossa identidade. mas sim de “ser” online – não se está falando em representação de corpo ou pessoa do usuário no Orkut. outros tantos. O que temos. na medida em que seu perfil sustenta-se em uma rede de conexões com pessoas. quando on-line. textos sobre si mesmo e ao optar por certas comunidade que soam adequadas ao que o usuário deseja transmitir sobre quem é . Segata evoca a perspectiva dos próprios usuários do Orkut a este respeito: "Como apontavam os participantes de minha pesquisa de mestrado. troca de recados e depoimentos. em sua vida offline? De alguma forma o usuário se representa no Orkut. Porém. Em que sentido? Observemos mais detalhadamente o caso do Orkut. é um misto de uma elaboração do sujeito a respeito de si próprio com uma série de relações que transbordam a totalização elaborada na chave da identidade. como "nome" e "data de nascimento" são obrigatórios. Uma vez explorando a rede social o usuário do Orkut vai conectando amigos e comunidades a seu perfil. comunidades. a demarcação de espaço online/offline. ao fornecer fotografias. 2007. Este elementos discursivos iniciais compoem uma espécie de "sujeito nominal" . então? Tratar-se-ia de uma representação do que "é" o sujeito. o que no início era uma série de elementos de identidade começa a se converter em um nodo de uma rede de relações. Grifos meus). cada amigo adicionado e cada recado trocado elabora um novo vínculo que vem a se somar à descrição inicial. era. falase em corpo e pessoa propriamente: “é” o usuário online. Tão logo. enfim. é mais do que isso. As informações oferecidas pelos ingressantes para estes formulários preenchem as primeiras lacunas de seu "perfil". . Do que se trata o perfil. Quando se ingressa nesta rede social há a requisição do preenchimento de várias espécies de formulários (alguns itens. Cada comunidade adicionada ao perfil constrói mais uma faceta. antes de tudo eles próprios ali presentes – não se trata então de “estar” on-line." (SEGATA. não parece traduzir uma posição da pessoa – estar – mas sim.

em uma compreensão imediata.. 2005) que possibilita e modula a conexão dos usuários uns com os outros. ao examinar a contracultura. os processadores que computam o fluxo de informação. natural e artificial. antes mesmo de embarcarmos no procedimento analítico. mas também inumanos como os monitores onde se visualiza a rede social. portanto.” (VIVEIROS DE CASTRO. articular seus impasses e fornecer caminhos alternativos para a contestação política. buscando criticar algumas de suas premissas.que não possuem distinção clara entre sujeito e objeto. toda uma "rede sociotécnica" (LATOUR. Especialmente porque. Contudo. e Deleuze (2004: 194. trata-se de a perspectiva pós-estruturalista ter se desenvolvido durante. durante os quais alguns elementos-chave de nossa presente apercepção cultural foram inventados. remeter os fenômenos a seu plano de consistência. por outro (deixando aberto à observação se trata-se de uma coexistência pacífica ou violenta). real e ilusório – que opto aqui por adotar esta perspectiva analítica e política e. esta coexistência entre uma representação totalizante. os fios e ondas que transmitem estes dados pelas grandes distâncias. ou seja. um julgamento a partir da falta. Podemos encontrar outros exemplos de referência à relação entre esta perspectiva “pósestruturalista” e as agitações contraculturais do final da década de 1960 em Foucault (1977). como os programadores e técnicos do Orkut.. em vista de um percebido fracasso dos movimentos e discursos de modificação social então empregados. 216-217). ao exemplo das célebres mot d’ordre grafitadas na Paris de 1968: “seja realista. o nome de Gilles Deleuze evoca de pronto a mudança de orientação no pensamento que marcou os anos em torno de 1968.26 Faz-se necessário pensar. contudo.alguns agentes humanos. Quando dizemos “fracasso”. não pode ser Como colocado por Viveiros de Castro (2007). O perfil do usuário do Orkut se produz num contexto de patente hibridização: simultaneamente a pessoa online e aparelhagem técnica. Enfim. “Para a minha geração. e pelas relações que sustentam e compõem a existência "na rede" e através da rede. 7 . por um lado. É em vias de abordar frontalmente estas individuações presentes nas redes sociais informáticas . temos de arcar com proposições que manejam as idéias de sucesso e fracasso de uma forma aparentemente paradoxal. 2007). após e em resposta à contracultura7. portanto. em Deleuze e Guattari (1995: 7). do que “poderia ter sido e não foi”. é necessário que sejamos cautelosos para não determinar. não há razão para pararmos aí: há toda uma outra série de agentes mobilizados na produção e manutenção desta rede social . impossíveis de se desacoplar sem que com isso desfaçamos a pessoa online e tornemos obsoleta a aparelhagem técnica. exija o impossível!” Quão realista seria desejar algo que. Há uma última razão pela qual esta perspectiva é de especial pertinência para este trabalho.

de forma similar ao descrito por Deleuze e Guattari (1997) “só pode fracassar. ao menos em vias de rascunhar mapas que nos sejam úteis quando nos propusermos a explorá-los. também.. decidindo que aí falta o sentido. descartar este paradoxo como uma baboseira proposital. talvez. Mas podemos. 1997: 59). mas também como um mapa ou plano de ação. pois é impossível ser-lhe fiel. entender o que se passa quando estas palavras são abordadas não apenas como um jogo linguístico. se não em vias resolve-los. É a paradoxos como este que busco abordar neste trabalho. talvez. investigar em que condições estas palavras de ordem como estas se tornaram uma proposição plausível.27 realizar? Não estava aí o fracasso já. anunciado? Poderíamos.. . Um plano que. para. mas os fracassos fazem parte do plano. pois ele cresce e decresce com as dimensões que ele desenvolve a cada vez” (DELEUZE E GUATTARI. de antemão.

Haight-Ashbury é o bairro de imigrantes de São Francisco. É este o caso da expressão “Faça o amor. não faça a guerra”. esta expressão nos conduz a uma série de questões que podem. de instâncias macroscópicas e microscópicas de poder. 1972). a segunda onda do movimento feminista e a esquerda humanista universitária (por vezes referida como “nova esquerda”). a princípio. idéias e valores a respeito deste período. e simultânea oposição. mas também para outras agitações relacionadas ao final da década de 1960 como o movimento pelos direitos dos homosexuais. com o qual esta expressão costuma ser associada.28 CAPÍTULO 1 – ESBOÇO DE UMA GENEALOGIA DO MOVIMENTO PSICODÉLICO 1. que em 1967 era o principal ponto de congregação hippie da costa oeste dos Estados Unidos (YABLONSKY. tão distintas? Como proposto por Carneiro (2005: 67). a relação implícita nesta expressão. as ciências médicas. de modo que. Quando dizemos “Faça o amor. nos ser pertinentes. a despeito das especificidades de cada movimento: o empreendimento de uma luta política ocupada da interação e interseção entre o que podemos chamar. o mercado. o exército. embora possa soar demasiado clara quando comparada ao paradoxo previamente mencionado.1 Que contracultura? Dentre as palavras de ordem mobilizadas durante as décadas de 1960 e 1970 encontramos algumas que foram capazes de deixar sua marca na memória coletiva. Colocando em outros termos. eróticos e peludos que se amam em Haight-Ashbury8 de 1967. estas agitações políticas estavam ocupadas dos modos nos quais instituições como o Estado. uniformizados e contábeis. sua própria menção é suficiente para evocar uma torrente de imagens. entre a máquina militar. esta questão é de importância central quando não apenas para o movimento hippie. muitas vezes. Qual seria. não faça a guerra” traçamos uma conexão. de início. então. este simultâneo emaranhamento e oposição entre fenômenos de ordens. Trata-se de uma tendência geral das diversas agitações sociais que estremeceram o mundo ao final da década de 1960 e no início da década de 1970. produtora de corpos duros. provisoriamente. 8 . Enquanto o “amor” tende a evocar em nossas mentes uma relação entre indivíduos. e os corpos macios. a guerra evoca uma relação entre nações.

.29 entre outras. Estariam excluídos também. exerciam uma espécie de poder diretamente sobre os corpos e subjetividades das pessoas. Nas palavras de um adolescente hippie entrevistado por Yablonsky em uma comunidade urbana em Nova York. por uma rejeição radical ao modo de vida oferecido pelo que estes jovens nomeavam como “sociedade técnica”. “movimento psicodélico”. Os limites do que entra nesta categoria não são claros. segundo Roszak (1969) e Yablonsky (1973). you know. It’s just there. 1969: xii). é expressamente deixado de fora por Roszak. através destes corpos e subjetividades sobre os quais exerciam poder. The way I look at it is that they treat human beings as puppets. “movimento hippie” ou “drug culture” em referência ao mesmo movimento. tendem a recorrer a esta nomeclatura indistintamente. It’s Just a large machine and you don’t know who runs the machine or what.” 9 . de origens principalmente na classe média branca americana. Rozsak apresenta a contracultura como a culture so radically disaffiliated from the mainstream assumptions of our society that it scarcely looks to many as a culture at all. em sua apresentação. Even the cream of the society. Sobre este tema. They are not on their own. cuja principal manifestação era o “movimento hippie” ou “movimento psicodélico”9 . 1969: 42) A contracultura seria um movimento juvenil. este modo de vida recusado seria descrito por estes jovens como sendo “plástico”. Roszak (1969: 56) pensa que “there exists.embora Roszak inclua também a juventude universitária da nova esquerda10. A algumas destas agitações sociais o teórico Theodore Roszak deu o nome de contracultura. O movimento negro. assim como eu. (ROSZAK. A contracultura se caracterizava.. A diversidade de denominações advém dos próprios autores referidos que. por exemplo. (…) You’re not going to learn anything by punching your clock every day when you go to work and then Usaremos neste capítulo os nomes “contracultura”. e se sustentavam. Simultaneamente. “desumanizante” e “materialista”. at a deeper level. [. but takes on the alarming appearance of a barbaric intrusion. estes movimentos chamavam a atenção para o modo através do qual estas grandes instituições se constituíam.] as culturally old-fashioned as the nationalist mythopoesis of the nineteen century” (ROSZAK. they become machines. boa parte dos “noviços” – drop-outs parciais sinceramente engajados no movimento hippie – participam também da nova esquerda. os militantes do marxismo tradicional. 10 Segundo Yablonsky (1973: 32). a theme that unites these variations and which accounts for the fact that hippy and student activist continue to recognize each other as allies. o que nos leva a crer que as fronteiras entre movimento hippie e nova esquerda nos Estados Unidos eram bastante difusas. “despite it’s urgency. (…). pois a seu ver tinha se tornado.

the technocracy increases and consolidates its power in both as a transpolitical phenomenon following the dictates of industrial efficiency.30 punching out again when you go home. de antemão. ou seja. por um lado. rationality and necessity. it is characteristic of the technocracy to render itself ideologically invisible. [. como alternativa. the technocracy works to knit together the anachronistic gaps and fissures of the industrial society. quando começamos a questionar a tecnocracia somos conduzidos para além das divisões políticas tradicionais: the technocracy easily eludes all traditional political categories. 1973: 106). (YABLONSKY. rationalizing.. os jovens engajados na contracultura buscavam11 uma reconstrução total de suas vidas. por isto. como não é minha intenção. Indeed. trazer implícito que estas crenças e práticas possuem sim pertinência. num corte de vínculos formais com a sociedade ao seu O movimento psicodélico aqui descrito se processou. contudo. 1969: 5) Segundo Roszak. I mean that social form in which an industrial society reaches the peak of its organizational integration. Este “cair fora” consistia. isto implicava em um custo simétrico e oposto. Drawing upon such unquestionable imperatives as the demand for efficiency. Em contraposição. efetuar este julgamento. pois o recurso ao passado pode trazer implícita a noção de que estas crenças e práticas não mais existem. durante as décadas de 1960 e 1970. referir-me ao movimento no presente gramatical. em nenhum dos sentidos. up-dating.]While daily political argument continues within and between the capitalist and collectivist societies of the world. Cogitei. planning. que pode ser traduzido como “cair fora”. (ROSZAK. 11 . um inconveniente. Há aí. em grande medida. No que consiste. It is the ideal men usually have in mind when they speak of modernizing. refiro-me às crenças e práticas relacionadas a este movimento no passado gramatical. ou que não possuem mais pertinência para o cenário atual. for ever higher levels of affluence and ever more impressive manifestations of collective human power. O resultado deste regime percebido como desumanizante seria a construção de subjetividades que Yablonsky (1973) denomina “robopáticas”. for large-scale co-ordination of men and resources. cujo primeiro passo era o drop-out. for social security. 1969: 8).. (ROSZAK. contudo. então esta “sociedade técnica”. optei por manter-me fiel à opção gramaticamente correta. esta “grande máquina” à qual estes jovens se opunham? Roszak elabora uma explicação destes conceitos através de sua definição inventiva de “tecnocracia”: By the technocracy.

as “As Lenson (1998) notes.em vias de purgar-se das estruturas internalizadas entendidas como repressivas.geralmente através do uso do LSD e de maconha . militares e em muitos casos a família. os rituais místicos. acessórios estéticos ou religiosos (roupas coloridas. jornais. produzindo então uma miríade de resultados distintos. post-vietnam war society. a existência de “a natural social condition that underlies man-made cultures and societies. Nestes termos. Em vias de reconstruir esta socialidade percebida como primária. também.31 redor como vínculos de trabalho. incensos. a saber. toda forma de consolidação de estruturas estratificadas de poder ou organização são rejeitadas. lojas que vendiam produtos ligados à contracultura).” (KOTARBA. terrenos e imóveis (os apartamentos urbanos que hospedavam comunidades alternativas – também chamados crash-pads – terrenos e casas de campo. música étnica. discos de vinil e aparelhos de som). os quais abordaremos posteriormente. rádios. colares de oração indianos. drug use was central to the rock music scene of the late 1960s because it enhanced the experience of improvisation-the hallmark of countercultural music-for both artist and audience. meios de circulação de informação (livros. as festas informais e semi-formais nos parques urbanos. O que se pretende produzir é uma política num sentido muito diferente do que costumamos entender – uma política sem estrutura de representação. aparelhagem técnica (instrumentos musicais variados. o folk e seu híbrido folkrock. o dropout consistia. The 1970s witnessed a decline in the countercultural power of rock music. 2007: 162) 12 . espirituais e religiosos. tendas e domos. is the fundamental social reality” (YABLONSKY. as comunas urbanas e rurais. o xamanismo. blues). estudo. cópias mimeografadas. 1973: 24). O processo de drop-out alicerçava-se em uma premissa central à filosofia do movimento psicodélico. num processo mais complexo de desconstrução da própria subjetividade . o hinduísmo e o budismo). uma série de recursos materiais e simbólicos eram mobilizados: Mitologia e estruturas simbólicas de sociedades primitivas ou tradicionais (o livro tibetano dos mortos. acatando-se apenas lideranças espontâneas e transitórias ou organizações emergentes. das quais se destacam a maconha (Cannabis sativa). uma musicalidade (o rock ‘n roll12. lâmpadas coloridas. circuitos comerciais e underground de performance artística) e uma série de substâncias químicas psicoativas. This structure. o ácido lisérgico (LSD). a psilocibina (presente em vários cogumelos alucinógenos) e a mescalina (presente nos cactus Peyote e San Pedro). within the context of an increasingly conservative. os festivais de música. according to the high priests of the movement. Podemos listar também variados circuitos de socialização que entram nestes agenciamentos junto a estes componentes materiais e simbólicos – as caronas nas estradas. sinos).

porto-riquenhos. 1. intervenções artísticas e performáticas e a socialização nas faculdades. interação com grupos étnicos minoritários dos quais são proeminentes os negros. sonoridades e técnicas coletivas das culturas periféricas rumo às cidades centrais do mundo civilizado. através de cobrança de concessões fotográficas) (YABLONSKY. com a guerra e com a política. Há. impedindo algumas relações mas produzindo uma série de outras . teriam um histórico de inúmeras experiências com ácido (LSD). e o contrafluxo de símbolos. interação com as famílias de origem dos membros do movimento. da qual provém grande parte dos hippies. em sua maioria drop- . e também interação com as culturas periféricas orientais e indígenas às quais os hippies se voltam em busca de modos de vida alternativos. sendo familiares com as filosofias esposadas no movimento e sendo capazes de uma visão crítica sobre o mesmo. abandonado qualquer envolvimento formal com a sociedade tecnocrática. Há também uma série de coletivos de onde estes agenciamentos derivam seus fluxos e outros nos quais depositam seus fluxos: a juventude branca e de classe média insatisfeita com o mundo do trabalho. O principal traço distintivo dos alto-sacerdotes seria terem realizado um drop-out completo.da mais profunda à menos profunda – sendo a quarta depositária da miscelânea que não se encaixa claramente em nenhuma das anteriores. as passeatas contra a guerra do Vietnã. espanhóis.cobertura jornalística e fotográfica por parte dos circuitos de mídia (que rendia algum dinheiro às comunidades urbanas proeminentes na mídia. ou seja. um limite ou membrana que delimita as fronteiras do movimento com a sociedade técnica. Os participantes mais envolvidos com o movimento seriam os descritos como “alto-sacerdotes”. Em seguida teríamos os “noviços”. 1973: 113).2 Contracultura e drop-out Yablonsky constrói um arcabouço analítico que distingue quatro tipos diferentes de pessoas envolvidas no movimento. três delas estruturadas em uma hierarquia de inserção no movimento . muitos dos quais seguem em viagem rumo às cidades grandes das costas aos bairros “hippies” de Haight Ashbury (São Francisco) e East Village (Nova York). por fim. práticas. judeus e ucranianos nos bairros periféricos das grandes cidades.32 organizações altruísticas (como hospitais de trabalho voluntário e os diggers) (YABLONSKY. interação com habitantes da cultura majoritária branca urbanas e rurais. a migração religiosa pela Índia ou pelos territórios indígenas norteamericanos. 1973: 214).

habitantes das vizinhanças dos hippies. sonoros modificam-se em graus variados segundo sua aproximação ou distância do drop-out enquanto um corte pontual. carreira militar. No trecho central do eixo . em sua maioria adolescentes que tiravam as férias de verão para andar com os hippies. o drop-out não se resume a este corte pontual. simbólicos. circuitos comerciais. portanto. . Os membros mais periféricos do movimento seriam os teenyboppers. entram em diferentes agenciamentos uns com os outros segundo sua posição em um “antes” e um “depois”. sem muito conhecimento ou envolvimento com sua filosofia. ou seja. Poderíamos dizer. Todos estes elementos anteriormente descritos – espaciais. uma vez que é ele se inicia e prossegue como um processo gradual de auto-escrutínio e subseqüente desconstrução dos vínculos com a sociedade técnica que foram interiorizados durante a vida anterior do sujeito. Este eixo sequencial estabelece. como antes colocado. orgânicas. investidas no experimento da . sonoros. É neste momento que entram em operação certos elementos cuja função é arcar com a instabilidade decorrente da mudança súbita e desencadeada pelo drop-out enquanto corte.especialmente no momento imediatamente “após” o drop-out . regiões de cidade. com suas próprias articulações simbólicas. que esta temporalidade binária esta superposta a um eixo sequencial gradativo. Estas articulações encontram-se. ou os crash-pads.33 outs parciais. humanos. tanto travando contato com pessoas com potencial ou na iminência de drop-out quanto atravessando famílias. materiais. de ruptura de vínculos como trabalho. etc. em grande parte. políticas. Na outra extremidade do eixo. os hospitais e serviços de assistência voluntários dos bairros hippies.articulam-se através de uma temporalidade binária. encontramos o interior do movimento. etc. físicas. etc.temos uma reconfiguração súbita dos elementos e de suas articulações. Yablonsky relata que as visões mais ingênuas e encantadas com o movimento eram encontradas entre noviços. etc. estudo. materiais. em uma de suas extremidades. entre outros elementos. cujo propósito inicial era acolher provisoriamente os hippies que ainda não conseguiram se estabelecer em uma comuna rural. uma zona de contato com a sociedade técnica. traficantes de drogas tradicionais. simbólicos. programas de televisão e reportagens jornalísticas. por exemplo. Contudo. humanos. removida da sociedade técnica. onde os elementos espaciais. Na miscelânea encontramos as famílias dos envolvidos. O que procede a divisão entre o “antes” e o “depois” é o dropout em seu aspecto de corte pontual. com um número modesto de experiências com ácido – muitas vezes menos de dez – e aspirantes a se tornar drop-outs completos.

em muitas situações. o trecho identificado no “depois” do drop-out era entendido pelos membros da contracultura como uma antecipação do futuro. Isto quer dizer que a sociedade técnica. é entendida pelos membros da contracultura como fadada ao desmonte. por um lado. conforme percorre o eixo adentrando a contracultura. aproxima-se de tornar-se um alto-sacerdote. Por outro lado. que tenderia cedo ou tarde se alastrar para a sociedade como um tudo. Voltaremos a investigar esta noção em breve.1 Permeabilidade das fronteiras Perpassando esta divisão pré. a entrevista com os habitantes é interrompida pela entrada violenta e brusca de um porto-riquenho e um negro – levando os membros da comunidade a jogar todas as drogas ilegais na privada ao ouvir as batidas violentas na . Este eixo sequencial tem um efeito estruturante. simbólicos e humanos que vazam de um lado ao outro. durante e pós-drop-out. de que o movimento falhou em realizar o que se propôs. se viram contra a própria estrutura. como estando com os dias contados. Não é de se surpreender que daí decorra a percepção. este eixo estrutura também a narrativa contracultural de transformação da sociedade técnica através do drop-out.34 construção de uma sociedade alternativa. Não havia uma perspectiva de coexistência com a sociedade técnica em longo prazo: o processo desencadeado pelo contato com o LSD e pela confluência das idéias da sociedade alternativa em discursos semi-integrados é visto como a tendência irreversível do momento histórico. estudantis ou militares. bastante comum. localizada no “antes” do drop-out. escapam pelas bordas. com resultados os mais variados – e.2. Exemplos da permeabilidade das fronteiras são ilustrado por Yablonsky (1973: 105-114) em sua etnografia do movimento hippie: em uma comunidade urbana de Nova York chamada Galahad’s Pad. há uma infinidade de fluxos materiais. tornando-se um noviço. como uma espécie de permanência de uma forma passada. se destroem ou se hibridizam. É importante frisar este ponto: sob a perspectiva da grande maioria dos envolvidos com o movimento hippie. na experiência do indivíduo que atravessa o drop-out – rompendo seus vínculos empregatícios. bastante distintos do que se pretendia inicialmente. a que separa a contracultura da sociedade técnica é contestada em inúmeros pontos. perfurada em outros e permeável em ambos os sentidos. Como qualquer fronteira social. e. Por outro lado. 1. a transformação social que eles corporificavam tendia a ser global e duradoura.

Outros exemplos são o grupo de negros que havia se mudado para a comuna Morningstar. ou a presença do grupo de motoqueiros Hell Angels em Haight-Ashbury como uma espécie de polícia paralela.ou mesmo os eventuais discursos favoráveis . . Contudo. por vezes pacificamente (como o rapaz porto-riquenho que estava sendo “ensinado” pelos hippies sobre sua filosofia). Estes indivíduos e grupos não se conformam ao padrão de drop-out. além de ter se envolvido em diversas situações de violência junto à gangues porto-riquenhas.advindos da sociedade técnica – verdadeiros ou falsos. Em grande medida. estava “andando” com os hippies e buscando aprender sua filosofia. mas sua presença. ou seja. quanto propor uma alternativa viável”. a despeito da beligerância. produzindo certos resultados. eles operam em conjunto com práticas. nem pretendem se conformar. A dupla aparentava. a fronteira entre o dentro e o fora do movimento é erigida e sustentada por ambas as extremidades – por exemplo. 1973: 203-204).35 porta. discursos de incompreensão pelos grupos étnicos minoritários. por vezes favorável aos hippies. desengajados do movimento. O rapaz tinha um histórico de alcoolismo e passagem por hospitais psiquiátricos. porém se relacionam de forma íntima com o movimento . circula e é mobilizada junto a uma miscelânea de pessoas. símbolos e bens materiais. o que nos interessa é que a narrativa de transformação social existe. vocês não conseguiram tanto revolucionar a sociedade técnica. produzindo certos efeitos. discursos de repressão ou repulsa advindos da sociedade tecnocrática. por vezes extremamente violenta e autoritária (ver YABLONSKY. não é de nossa alçada julgar em critérios de verdade os contra-discursos repressivos ou de repulsa . a dupla saiu. ser um par de viciados em drogas “comuns”. segundo Yablonsky. Após uma discussão de se deveriam ou não roubar o gravador de Yablonsky. era tratada como natural pelos membros da comunidade.por vezes invasivamente (como no caso do grupo de negros na comunidade Morningstar). Algum tempo depois um outro porto-riquenho entrou na comuna e foi entrevistado pelo sociólogo. Embora isto possa ser verdadeiro ou falso segundo diversos critérios de julgamento. Da mesma forma. A estes discursos não pretendo contrapor nenhum critério de verdade – ou seja. próxima a São Francisco. narrativas de contestação e de modificação social advindos da contracultura. símbolos e práticas. não é da alçada deste trabalho lançar ao movimento psicodélico a colocação “sua narrativa de transformação social foi ineficaz.

seja através de sua efetivação. seja através de um direcionamento à ação. a pessoa tende a abrir mão de sua vontade. sem que nos afastemos do território da “intenção”. Em ambos os casos. Na perspectiva legal. um trabalhador ou estudante cumpre suas tarefas segundo o seu desejo.2. Like after I dropped my first acid. na percepção contracultural. como tais. a ser recuperada no processo de drop-out? Muitas vezes. Por vezes. Sob este ponto de vista. “Desejo” ou “vontade” podem ser utilizados. etc. o desejo de uma pessoa ser mutuamente excludente em relação a esses vínculos contratuais e formais por ela realizados? Pode . antes de tudo. poderiam ser entendidos como um passo anterior a “ação”. desde que tomada em seu livre-arbítrio. Como colocado por um jovem hippie para Yablonsky (1973). tal formalização é legítima. tornando-se algo como um mecanismo ou aparelho de uma máquina maior. No caso contratual. – surge da percepção de que. ou seja. seu cotidiano. imediatamente. It make you aware of things. e sim na formalização de uma decisão de agir de tal ou qual forma. 1973: 126). o mero desejo ou vontade já se constitui. what an ass. de posse das informações relevantes e sem coerção. No que consiste esta “vontade” ou “desejo” que viria. even if he is my father (YABLONSKY. também. corresponde à intenção do contratado. como uma ação. não em uma ação. o desejo de uma pessoa – sua intenção – se manifesta. “desejo” e “vontade” referem a uma experiência subjetiva relacionada com o potencial de ação.36 1. então. recorremos casualmente a estas palavras – “desejo” e “vontade” – como sendo quase sinônimos de “intenção”. como termos contratuais. uma vez vinculada aos sistemas da sociedade técnica. Frequentemente é uma viagem de LSD que desencadeia uma modificação na percepção do usuário no tocante ao mundo que o rodeia. tanto em viagens introspectivas e subjetivas quanto em mudanças sistêmicas como abandono de trabalho. Como poderia. de seu desejo. etc. I went home and listened to some of the things that my father was saying and I got to thinking. faculdade. ou seja. Este primeiro momento – de desconstrução da própria pessoa e personalidade.2 O desejo e seus distintos regimes produtivos O drop-out enquanto evento definidor da entrada no movimento psicodélico possui uma associação intensa com a utilização do LSD para auto-exploração. “Wow.

etc. segundo o seu desejo contratualmente expresso. o corte de vínculos formais com trabalho. Em seguida. “humano”. o problema com o trabalho e estudo conduzidos pelas vias instituídas seria o compromisso em longo prazo. em uma situação ausente de coerção e de posse das informações relevantes? Tratar-se-ia de uma questão de uma mudança de idéia entre a formalização da intenção e a ação? Aparentemente. não se resume a isto. Neste contexto. exército. em nome de desejos coletivos “mecânicos” ou “plásticos” – desejos de consumo. Gridley interpreta esta reação negativa da parte deste hippie como “a carry-over from what they have seen as leadership before in their straight life”. do que se tratam estes desejos “humanos” e seus antagonistas “mecânicos”. destilando os desejos entendidos como “humanos” dos desejos entendidos como “mecânicos”. man – we have to do it spontaneously” (YABLONSKY. Gridley . outra pessoa coloca: “Yeah. Em alguns momentos da etnografia produzida por Yablonsky (1973: 84-86). de subserviência. escola e família exerce uma função de triagem. Impulsionadas por um discurso feito por Gridley. 1973: 85-86). Podemos explorar duas possibilidades para entende-los. ou seja. que desenha a sociedade técnica como uma maquinaria que oprime o desejo “autêntico”. Em seguida. mesmo na consonância entre tal ou qual intenção e seu contrato. Ou seja. Entendendo desta forma. we’re falling into the Establishment bag of setting up committees of people and… this is too much. ainda. que constantemente se chocaria com o desejo espontâneo. as pessoas decidem começar a reconstruir a cozinha às nove horas do dia seguinte. alguém reclama: “Let’s not get into the same fuckin’ organization bag we dropped out of. por parte dos proponentes do movimento. avesso ao planejamento ou ao compromisso que se estenda além de uma situação imediata. o entendimento deste hippie de que constitui uma liderança e uma organização estava ainda vinculado ao modo de viver na sociedade técnica. um altosacerdote hippie de bastante influência e principal informante de Yablonsky. Mas não sabemos.37 uma pessoa executar um trabalho. Posteriormente. uma vez que há uma denúncia. porém ainda contra o seu próprio desejo. A primeira é de que o desejo “humano” é um desejo visto como espontâneo. na Califórnia) as pessoas estavam discutindo as possibilidades de reconstruir uma cozinha que havia sido destruída. poderíamos encontrar uma situação de desejo “mecânico” ou “plástico”.” Mais tarde. torna-se evidente que esta concepção de desejo está em operação: em uma comunidade rural numa situação bastante fragmentária (na região de Big Sur.

portanto. Na visão contracultural a liderança como opera na sociedade técnica envolve a construção e sustentação de relações de dependência e autoridade. operando como referência transcendente tanto ao trabalhador. uma concepção alternativa de liderança sendo explorada. o ato de desejo é em si mesmo o ato de movimento. so that they are effective. então. O Estado opera aí como uma referência transcendente à relação idealmente horizontal entre os dois indivíduos – patrão e empregado. a explorar a situação de um trabalhador hipotético insatisfeito com seu trabalho. suas mãos. a esta vinculação dupla do trabalho e do trabalhador a uma autoridade transcendente – derivada da legitimação antes estabelecida do contrato pelo Estado correspondem dois outros regimes de desejo além daquele contratualmente formalizado. enquanto ação. de liderança como uma forma de “ensino”13. antes de tudo. no caso. O que esta referência empreende.38 apresenta sua visão de liderança na contracultura como “a process whereby people come to be divested of their dependency. 1973: 93) 13 . o trabalhador e o Estado como elemento transcendente dão. chamemos a este desejo de desejo-movimento. Gridley oferece o nome de “professor” (YABLONSKY. em vias de depurar as conexões entre estas organizações hierárquicas e os desejos deste trabalhador. Os vínculos estabelecidos entre o patrão. neste primeiro momento. é a paridade formal entre a intenção do trabalhador. o Estado. o desejo que o conduz o trabalhador ao trabalho todos os dias. que supostamente conduziria a outras formas de organização. O primeiro é o desejo correspondente ao pólo do trabalho enquanto ação. correspondente ao trabalhador enquanto pessoa. Notemos. do empregado e aquelas intenções manifesta no contrato. seus braço. vem a adotar posição similar de autoridade. pela autoridade derivada do Estado através do contrato. Nesta instância suplementar de vinculação. o patrão.” (YABLONSKY. enquanto pessoa. Neste caso. sua boca. o desejo-movimento é um desejo unívoco – ou seja. na execução do serviço designado pelo patrão. espaço a uma outra instância de vinculação análoga.“queria não ter de trabalhar”. a realização da ação. se manifesta como a matéria de expressão de sua insatisfação . Arrisquemo-nos. A segunda forma de desejo. aqui. movimenta seu corpo. como a seu trabalho. É um desejo que se sustenta em segundo lugar e em oposição ao desejoQuando perguntado por Yablonsky qual um outro nome que ele poderia dar a estes líderes contraculturais. Ora. que a vontade individual deste trabalhador – aquela manifesta em um contrato trabalhista – adquire sua legitimidade através da intervenção de uma força de autoridade superior. ou seja. 1973: 93) Haveria.

através de uma operação hipotética: “Se eu não trabalhasse.e “fantasma” ou “fantasia” – produção de significância ou subjetivação. então sabemos agora algo a respeito do que consiste o “desejo plástico” ou “mecânico” de que nos falam membros da contracultura.”. say. desejo-movimento. Trata-se de um regime de desejo estruturado em relações hierárquicas.3 Drop-out e Corpo sem Orgãos O corte sistemático dos vínculos com trabalho. do qual o patrão extrai um trabalho útil. Partamos da descrição de Gridley. o informante de Yablonsky. think. a respeito de seu drop-out: […] I quit work and it just ocurred to me that it would be interesting to see what would happen if I just did what I FELT like doing all the time. Isto implica que se trata de uma relação assimétrica entre os dois regimes de desejo – o desejo produtivo que encompassa qualquer tipo de produção. So I did! I was thirty-three years old. É importante notar que o fantasma – a produção de significância – ainda constitui uma produção de movimento. do whatever the fuck I felt like. cujo regime produtivo está centrado na significância de uma série de signos emitidos. no que consiste o desejo “humano” que reivindicam os membros da contracultura. (DELEUZE E GUATTARI. go to sleep. 1. realizado no processo de drop-out constitui um processo de desatar-se das vontades investidas nestas relações hierárquicas com uma autoridade que é transcendente ao plano no qual o trabalho e o trabalhador estão localizados. Chamemos de desejo-hipótese. 1976). relações estas que sustentam uma oposição entre o desejo-hipótese. ainda é desejo produtivo. You know. but always. even in A estas duas formas de desejo Deleuze e Guattari chamam de “desejo produtivo” – pura produção de movimento.. conquanto que dobrado contra si mesmo em uma oposição do tipo afirmação-negação. precisamos entender o que se passa.. quando estes vínculos hierárquicos são rompidos. 14 . afinal.2. and it was the first time in my life that I ever did really feel free. ou seja.39 movimento. à situação na qual se encontravam os trabalhadores insatisfeitos que se direcionaram ao drop-out. produção de significância. get up when I felt like wearing. contudo. de diferença . seria melhor. e carreira militar. And you can’t do that if you’re working for somebody else. academia. e o desejo em seu aspecto diretamente produtivo. ou seja. Para que entendamos. I’d had vacations before. e o fantasma que constitui um caso específico de produção. relacionado ao trabalhador enquanto pessoa. em alguma medida. e não no movimento que estes signos podem ou não produzir na relação com o meio externo.14 Se a análise da situação deste trabalhador hipotético corresponde.

como referido pela contracultura. you’re thinking about what you’re going to do after vacation is over. veste-se o que se deseja vestir. sejam uma variedade planos festivos. recaía uma planificação específica que “lhe impõe formas. Ora.” (YABLONSKY. é que o desejo a que se referem os membros da contracultura como “desejo humano” possui certa semelhança com o desejo-movimento. 1973: 174). We choose to come here and to live together and to learn together. 350. Poderíamos concluir. sem referência a programas ou propostas? Recairíamos desta forma em uma situação onde o desejo “humano” é equacionado ao “espontâneo”. criar. quando descreve para Yablonsky (1973) o que se passa na comuna hippie da qual era membro. enquanto um experimento. etc. que o desejo “humano” se processa sem nenhum plano. sejam planos de transformação macro-social (como na narrativa contracultural antes apresentada). artísticos.. com suas próprias e características articulações de variados elementos. o drop-out por vezes engendra seus próprios planos. funções. dormir. a elaboração de uma série de planos onde se estabelecem circuitos de desejo: come-se o que se deseja comer. também. organizações dominantes e hierarquizadas.40 the vacations. comunitários. corpo este sobre o qual. destruir. de tal ou qual forma). Elaboração similar realiza Gary. Vemos. (YABLONSKY. fala-se o que se deseja falar. dormese quando se deseja dormir. Ou seja. por exemplo. precisamos responder a seguinte pergunta: O que nos resta 15 Como. perversos. esquizofrênicos. nesses e em outros casos15. 1996: 21). No que. despóticos. viver o “desejo humano” se resume em si mesmo. sexuais. 1973: 46). O que vemos de comum. aprender. etc. ligações. caso desejemos entender no que consiste este “desejo humano”. comer. Contudo. então. no caso descrito por Gridley. Yablonsky (1973: 157. sequer demanda um nome próprio. apenas acontece. não significa nada. o que aparenta ocorrer pelo menos em alguns casos. na situação anterior de empregado. transcendências organizadas para extrair um trabalho útil” (DELEUZE E GUATTARI. políticos. não se vive para nada mais além do próprio viver. . This is just an experience. estas disposições descritas por Gridley têm em algo em comum: dizem respeito a um corpo e seus potenciais (falar. 352). como já vimos. e à que esta comuna se propõe: “We’re not going for any end product. That is why we won’t even officialy name the place ‘cause it doesn’t matter.

ou CsO: O CsO é o campo de imanência do desejo. operando como máquina produtiva a serviço de seu patrão. o plano de consistência próprio do desejo (ali onde o desejo se define como processo de produção. falta que viria torna-lo oco. o ânus e a laringe. 1996: 15.41 quando removemos. em busca de extrair deles o significado. em vista de extrair um trabalho útil. ou seja. em tais condições obteríamos o que eles nomeiam como Corpo sem Órgãos. os pulmões para respirar. o cérebro para pensar. designo uma instância de totalização à qual os processos subjetivos são remetidos para que se possa fixá-los em uma identidade. a vinculação a planos transcendentes? Segundo as colocações de Gilles Deleuze e Félix Guattari. 1996: 12). de órgãos e potenciais produtivos. 1996: 11). o conjunto de significâncias e subjetivações. designo uma instância de autoridade ou totalização que efetua uma disposição. a boca para engolir. quando me refiro à significância. No que levanto a pergunta: do que se tratam estes conceitos? Quando me refiro ao organismo. com sua subjetividade fixada na identidade de “trabalhador” e o desejo-hipótese circulando a redor da significância de uma matéria de expressão. dos circuitos de desejo envolvidos com este corpo. “os olhos para ver. quando me refiro à subjetivação. Na situação anterior ao drop-out do trabalhador hipotético.” (DELEUZE E GUATTARI. Grifos do autor) “O CsO é o que resta quando tudo foi retirado. Este abismo impede que uma coisa vaze para outra. segundo um plano transcendente. que se trabalhe a pessoa. designo um plano interpretativo ao qual são remetidos processos quaisquer. abre-se espaço para que . Quando voltamos à situação do trabalhador hipotético. CsO é um nome parcialmente inadequado. e do outro lado temos o trabalho enquanto ação. sem referência a qualquer instância exterior. ou seja. Uma vez desvinculados da autoridade transcendente. pois o que visa-se limar do circuito de desejo durante a elaboração de um CsO não é o órgão enquanto campo produtivo. E o que se retira é justamente o fantasma. que se pessoalize o trabalho. O que busca se retirar é o que estes autores conceituam como organismo. a língua para falar. prazer que viria preenchê-lo). a cabeça e as pernas” (DELEUZE E GUATTARI. (DELEUZE E GUATTARI. significância e subjetivação. o seu drop-out envolve desmontar a estrutura de autoridade que sustenta uma oposição onde de um lado temos o trabalhador enquanto pessoa. há um abismo que coloca estes dois em oposição.

que trata da experiência de uma sociedade alternativa. em especial o organismo. Tendo isto em vista. É necessária uma atenção constante para contornar a persistência dos modos de pensamento e ação que foram recusados. e um segundo momento. . o CsO – ou plano de consistência . “dobrando-os” como se dobraria uma folha de papel. Similarmente. A estas camadas sucessivas de padrões cristalizados Deleuze e Guattari (1996) chamam de “estratos”. o CsO é produzido em duas fases – a primeira na qual trata-se de elaborar o CsO (desvincular um corpo dos estratos nos quais está capturado.e as organiza em sistemas hierárquicos. Contudo. onde se trata de romper os vínculos com a sociedade técnica. não de modo a unificar hipótese e movimentos. de desestratificação. Por outro lado. os quais sem dúvida acometeram muitos experimentadores neste período. Contudo. a significância e a subjetivação). os hábitos adquiridos na formação do indivíduo continuam a se repetir na vida do sujeito. abre-se espaço para que se estabeleçam circuitos de desejo engendrando n hibridizações entre hipóteses e movimentos: vestir outras roupas. de desdobramento destas camadas sucessivas visando o desmonte das oposições estabelecidas no dobramento. como veremos depois.42 se engendre um plano de consistência entre o que antes operava como desejo-hipótese e o desejo-movimento. varia segundo os elementos em questão e suas disposições. o processo de cortar vínculos com a sociedade técnica não termina com o corte de vínculos formais – na visão contracultural. passar algo” (DELEUZE E GUATTARI. tampouco para abrir mão de um em nome do outro. aí. são inúmeras as possibilidades de falha). O plano de estratificação captura a singularidade dos eventos – situações .se produz através do processo oposto. enrijecidos e binários. 1996: 12). a segunda na qual trata-se de “fazer aí circular. O que se passa. Os estratos se formam através da operação do que estes autores abstraem como um “plano de estratificação”. cada uma dessas fases engendra seus próprios riscos. há um outro mais sutil e profundo a ser encontrado. para cada padrão do qual se emancipa. em todo caso. falar outras palavras. Um exemplo de desmonte similar é realizado no abandonar do emprego durante o drop-out – o colapso entre o desejo-hipótese e o desejo-movimento em vias de se produzir um plano de consistência entre ambos. comer outras comidas. se o CsO é estabelecido com sucesso (pois. uma vez que. não sabemos de antemão como vai resultar o experimento. como colocado por Deleuze e Guattari (1995). retomamos a dupla temporalidade na qual o drop-out se estrutura: um primeiro momento.

nada venha a preencher o CsO elaborado – e ele converta-se em um CsO vazio. de que falhemos em constituir um CsO sobre o plano de imanência. prolifera e perde sua figura. na única alternativa. pode acontecer de que o corpo se produza não no plano de consistência do desejo. mais pesados do que nunca. contudo. tão ou mais autoritário que o sistema que buscou suplantar. produzimos apenas corpos despedaçados. a cada segundo. produziu-se um corpo-canceroso sobre o estrato de Subjetivação. uma fabricação do “outro” CsO sobre o plano de consistência. uma célula torna-se cancerosa. apodera-se de tudo. 1996: 23).43 Em relação a primeira fase.] Ou.. ou mais. então. Ou deparamo-nos com um outro risco. 1996: 23-24). 1996: 26) Ou seja. that they . em busca de contornar o percebido isolamento dos indivíduos na sociedade técnica. de forma que a “sociedade alternativa” se converte. Ou que. mas também que seja possível uma fuga para fora do organismo. um corpo vítreo de autodestruição. mortificados. o drop-out conduziu aí a um corpo-fascista. Largar emprego. em vias de produzir uma sociedade alternativa.” (DELEUZE E GUATTARI. mas sob o estrato do organismo. de que nada se passe. encarcerados. largar tudo – apenas para sentar no sofá e fazer cair sobre a própria cabeça uma sensação paralisante de vacuidade. man. Como colocado por Gridley para Yablonsky (1973). nestas condições. corpo asfixiante da subjetivação que torna ainda tanto mais impossível uma liberação porque não deixa subsistir uma distinção entre os sujeitos. ao invés de traçar um plano de consistência do desejo. louca. You know. deparamo-nos os riscos envolvidos no processo de constituição de um CsO. que os faz recair sobre nós. (DELEUZE E GUATTARI. um Corpo sem Órgãos enredado entre os estratos. não somente para sobreviver. A segunda fase engendra também os seus próprios riscos: primeiro. some people have been told what they HAVE to do for so long. largar escola. um destes riscos é que o processo de desestratificação seja conduzido sem a prudência ou perícia necessária. [. não permite alternativa alguma senão a própria: ao invés de resultar em um CsO pleno. os submete à uma tirania do coletivo. um Tecido canceroso: a cada instante.. produzindo. é necessário que o organismo a reconduza à sua regra ou a reestratifique. “encravados em um buraco negro” (DELEUZE E GUATTARI. catatônicos. situação na qual. precipitando “os estratos numa queda suicida ou demente.

They just sit around in their own filth. Gridley responde: “I am still up-tight with the system. em uma situação onde Gridley dissertava sobre as relações entre o as pessoas do movimento e a polícia. Em um caso. que visa fazer com que algo se passe – são ambas operacionalizadas pelos mesmos procedimentos. se percebe em variadas situações repetindo padrões de comportamento enrijecidos advindos de seu viver na sociedade técnica. como a . por exemplo. em muitos casos este processo de ruptura com os hábitos sedimentados aparenta não ter fim. 1973: 55) Ou. à produção de autodestruição. na visão contracultural. há o risco de que algo se passe. um entupimento – levando.44 get into a place where they’re free and they just don’t know what to do. Encontramos também aqui uma analogia entre o drop-out e a produção de um Corpo sem Órgãos. Paralisia produzida por uma terrível culpa de estar desperdiçando a própria vida. Isto significa que o programa executado em vias da construção de uma sociedade alternativa é idêntico ao programa executado em vias de abandonar a sociedade técnica. como no caso anterior. ele se enfurece com seu amigo por ele ter feito sexo com sua esposa. 1996: 12). Como outro exemplo. como descrita por Deleuze e Guattari (1996): a primeira fase da constituição de um CsO – sua fabricação – e a segunda. 1973: 68). Mesmo se considerarmos Gridley. que “devem ser repetidos. é um ato que por si só re-inaugura a sociedade alternativa. ele interrompe o que estava a dizer e reflete: “I’m slipping into a kind of game status here where it’s like my team versus their team. it fucks my head. extremamente articulado e versado na filosofia do movimento. mas surja um ponto de estrangulação. feitos duas vezes” (DELEUZE E GUATTARI. Colocando de outra forma. quando advindo deste processo descrito como uma “expansão da consciência” e reconexão com a “essência”. O processo de superação de um hábito advindo da sociedade técnica através do que é entendido como contato com a própria natureza conduz consequentemente à produção do que os membros da contracultura chamam de “socialidade primária”.” (YABLONSKY. comportamentos antagonísticos desta sorte costumam ser considerados.” (YABLONSKY. à incapacidade de desejar. Quando questionado por Yablonsky sobre o porque de sentir-se assim. o ato que rompe com os modos da sociedade técnica. 1973: 52). com incontáveis experiências de ácido (LSD) na bagagem. Há dois momentos distintos de um mesmo processo. Como foi colocado. (YABLONSKY. o informante de Yablonsky.

And I think this is a . No exemplo antes ilustrado. or they can leave. you know (YABLONSKY. [. 1973: 93). Ou seja. Listando as opções de ação das pessoas que não gostam da organização Gridley está trazendo este “não gostar” de volta ao nível de movimento. Em seguida. ele continua: Man. Sobre isto. If you got two cats behind the kitchen thing and they’re both strong cats.. que libera o CsO. O plano de consistência está ameaçado. that’s righteous. com o risco de abortar a recém-redescoberta capacidade de articulação do grupo através do conserto da cozinha. Gridley se esforça para contornar as oposições do tipo ou/ou e reconstruir um plano de consistência na discussão: If you’ve got some cat who’s pushy behind organizating a kitchen and getting that thing done and that’s his trip. desejo verdadeiro x desejo falso. uma certa concepção de desejo – que equaciona desejo verdadeiro com o “espontâneo” – entra em jogo na comuna Big Sur. impedindo que este não gostar mantenha-se centrado na significação: “eu gostaria de que este cara parasse de querer organizar as coisas”. Deleuze e Guattari (1996) colocam que [. pitch him out. O desejo está para ser arrancado de sua univocidade – colocado numa situação onde é julgado sob um critério transcendente que o distribui segundo pares de oposição. neste momento.. I see no reason why they’re can’t get together on it.] é porque há sempre um estrato atrás de um outro estrato. e as superfícies de estratificação que o bloqueiam ou rebaixam (DELEUZE E GUATTARI. a produção de um Corpo sem Órgãos está constantemente ameaçada pelo rebatimento do plano de estratificação – um certo elemento pode remeter todos os outros a uma estratificação e produzir uma coagulação. atravessa e desfaz todos os estratos. um estrato engastado em outro estrato.45 permanência de um modo de pensar competitivo advindo da sociedade técnica. the whole emphasis is on love. a ser dobrado em uma relação de oposição excludente: OU vocês fazem a coisa segundo seus próprios desejos espontâneos OU vocês se organizam. 1996: 22). they can complain. de produção de movimento. well.. A distinção entre o desejo em sua imanência e sua estratificação é delicada: na discussão posterior do que se passou. If other people don’t like it.] Combate perpétuo e violento entre o plano de consistência.. estrangulando todo o circuito desejante.

posto que o CsO é também pleno de alegria. mas um amor dirigido ao cosmos. Here there’s something bigger than any two or three people happening. or be one up or that their way has to prevail (YABLONSKY.] vitrificados. and some random snoring. de dança? [.. The boredom annoyed me and I felt a strong compulsion to leave immediately. catatonizados..] Corpos esvaziados em lugar de plenos. (YABLONSKY. de coagulação. 1996). de êxtase. O risco que ali se enunciou foi o risco de recusar qualquer organização.46 big difference in what’s happening here and what happens in other types of organization. Gridley remete ao amor – não ao amor entre duas pessoas. Yablonsky descreve uma cena observada por ele na estrutura principal da comuna: In addition to the people sleeping on the floor there were around thirty people in the stone house sitting and staring into the darkness. They don’t necessarily feel that they have to compete. acabe-se por se destruir os próprios órgãos. 1996: 11). o risco de. only the dissonant music. de sedimentação” (DELEUZE E GUATTARI: 21. Por exemplo. o CsO. a questão não está na organização em si. e sim nos diversos modos de organização.” (DELEUZE E GUATTARI. quer dizer um fenômeno de acumulação. For a community to get somewhere it has to be started by a few people who are out of that bag. A situação da comuna rural das montanhas de Big Sur era bastante fragmentária. People who’ve gone through just doing nothing to the point where they have opened up enough to themselves to tap into their creativity so that it will come out in their daily lives and they will be productive (YABLONSKY. Gridley considera que They’re in a vacuum. . They don’t know how to handle that. 1973: 94-95. mas um estrato sobre o CsO. Ou seja. ao se virar contra os estratos e o organismo. Grifos meus). “O organismo não é o corpo. indistintamente – em vias de produzir uma organização onde há algo maior do que duas ou três pessoas se passando ali – um coletivo. There was no conversation. produzindo um corpo vazio. 1973: 87) “Mas porque este desfile lúgubre de corpos [. Falando sobre Big Sur. 1973: 95)... aspirados.

47 Ou seja – produzir esta suposta socialidade primária, natural, verdadeira e humana é uma tarefa que exige perícia, artifício, inteligência, intervenção. Dificilmente ela se reduz à ações “espontâneas” no sentido de momentâneas - dificilmente pode ser realizada sem envolvimento duradouro. Partimos de categorias como “natural” e “artificial” em vias de separar o modo de funcionamento da sociedade técnica do modo de funcionamento da sociedade alternativa; contudo, chegamos a um ponto onde o natural nos parece também um artifício. Não há contradição aí. Não nos propusemos a julgar se havia realmente um natural aí – seja lá como isso possa ser feito. Nos propusemos a entender como se articulavam os diversos elementos nos agenciamentos contraculturais, incluindo estas categorias no rol de elementos em jogo. Sobre isto, já sabemos alguma coisa. Podemos dizer, portanto, que o movimento hippie das décadas de 60 e 70 se define por um processo específico de desconstrução dos vínculos com a sociedade técnica e reconstrução de uma socialidade vista como primária, processo ao qual chamamos de drop-out. Neste processo, uma série de elementos de estatutos ontológicos os mais variados são mobilizados – sons, pessoas, símbolos, técnicas, objetos. Consideramos que o drop-out enquanto estrutura de ação concernia a uma oposição entre dois regimes de desejo, os quais eram no processo remetidos a um plano de imanência do desejo que nomeamos Corpo sem Órgãos. Este processo era perpassado por riscos de autodestruição, de coagulação, de que nada se passe – e vimos alguns exemplos onde isso se processava. Entendemos o papel que os líderes – altosacerdotes – podiam realizar nesta conformação, reconstruindo o plano de consistência e fazendo com que algo se passe. De especial importância no processo do drop-out eram as substâncias psicodélicas, especialmente o LSD – substâncias estas entendidas como um instrumento de investigação de (percebidas) verdades internas do Ser que teriam sido obliteradas ou escondidas pela sociedade técnica. Estas substâncias estavam de tal forma associadas ao drop-out que era esperado de um alto-sacerdote uma íntima familiaridade com elas. Falta-nos, portanto, entender que função exercem o LSD e os outros psicodélicos neste processo. Para tal, precisamos estudar como se deu a gradual associação dos psicodélicos com as práticas contraculturais e quais as diversas relações estabelecidas entre estas substâncias, o movimento psicodélico, a sociedade técnica e o Estado. Iremos agora,

48 portanto, investigar mais profundamente a gênese e as transformações das substâncias psicodélicas no século XX dos Estados Unidos. 1.3 Devires Moleculares 1.3.1 As portas da percepção Entre os eventos singulares que alavancaram a história das drogas no ocidente durante o século XX, um dos que se destaca é a descoberta acidental das propriedades psicodélicas da vigésima quinta dietilamida do ácido lisérgico (LSD-25 ou, no uso popular, LSD) sintetizada em laboratório pelo químico suíço Albert Hofmann:
I had planned the synthesis of this compound with the intention of obtaining a circulatory and respiratory stimulant (an analeptic). Such stimulating properties could be expected for lysergic acid diethylamide, because it shows similarity in chemical structure to the analeptic already known at that time, namely nicotinic acid diethylamide (Coramine). […] The new substance, however, aroused no special interest in our pharmacologists and physicians [nos testes com animais]; testing was therefore discontinued. (HOFMANN, 1980)

Durante cinco anos o LSD foi deixado de lado até que em 1943 Hofmann, movido pelo que descreveu como “a peculiar presentiment”, produziu uma amostra de LSD-25 para a realização de novos testes; situação que ele descreveu como sendo incomum. Na etapa final da síntese ele interrompeu o trabalho afetado por sensações estranhas e seguiu para casa, onde experienciou
a not unpleasant intoxicated-like condition, characterized by an extremely stimulated imagination. In a dreamlike state, with eyes closed (I found the daylight to be unpleasantly glaring), I perceived an uninterrupted stream of fantastic pictures, extraordinary shapes with intense, kaleidoscopic play of colors. After some two hours this condition faded away. (HOFMANN, 1980)

Em seu raciocínio Hofmann concluiu que deveria ter absorvido uma quantidade minúscula de LSD através do contato com a pele. Testou esta hipótese ingerindo uma solução aquosa contendo 250 microgramas de LSD, uma dose significantemente maior

49 do que a média estimada das doses encontradas no mercado negro atualmente. Hofmann atravessou então horas de estado de percepção alterada; por várias vezes acreditou que fosse morrer, embora seu médico lhe assegurasse que seu estado físico estava ótimo. Esta experiência impressionou muito a Hofmann – pela quantidade minúscula do psicoativo comparada à intensidade dos efeitos, pela ausência de ressaca, pela capacidade de se lembrar perfeitamente dos acontecidos e pelo caráter autônomo que a experiência “alucinatória” tinha perante as intenções e vontades do usuário. Hofmann conta que
I was aware that LSD, a new active compound with such properties, would have to be of use in pharmacology, in neurology, and especially in psychiatry, and that it would attract the interest of concerned specialists. But at that time I had no inkling that the new substance would also come to be used beyond medical science, as an inebriant in the drug scene. Since my self-experiment had revealed LSD in its terrifying, demonic aspect, the last thing I could have expected was that this substance could ever find application as anything approaching a pleasure drug. I failed, moreover, to recognize the meaningful connection between LSD inebriation and spontaneous visionary experience until much later, after further experiments, which were carried out with far lower doses and under different conditions. (HOFMANN, 1980)

Em 1947 a Sandoz começou a produzir e vender LSD-25 sobre a alcunha de Delsyd®, como uma droga experimental de uso psiquiátrico. Uma vez que os usos nãomédicos da mescalina tinham ficado restritos a grupos de intelectuais e artistas em busca de uma experiência exótica ou inspiradora, não havia porque supor que o LSD atingira os níveis de consumo por um grande público como veio a acontecer. A invenção do LSD, apesar da estranheza de sua situação e a importância que veio a desempenhar depois, não foi um evento isolado; as primeiras décadas do século XX trouxeram uma série de novos psicodélicos sendo isolados de plantas e fungos (como o DMT, a ibogaína e a psilocibina). Desta erupção farmacológica seguiram-se uma série de tentativas de categorizar as ações destes psicoativos em grupos segundo seus efeitos sobre o usuário (CARNEIRO, 2005). Em 1953 o escritor Aldous Huxley realiza uma experiência de uso da substância psicodélica mescalina, com a ajuda do psiquiatra Humphry Osmond. A partir desta

de que os psicodélicos possuem a propriedade de “expandir” a percepção do usuário – viria a se tornar um credo fundamental na contracultura. a mescalina não era também a droga ideal. Each person is at each moment capable of remembering all that has ever happened to him and of perceiving everything that is happening everywhere in the universe. Esta visão . a mescalina permite a experiência de estados místicos ou extáticos a pessoas sem nenhum tipo de afinidade espiritual ou capacidade intuitiva. delusions of omnipotence or release from inhibition. […] It must be less toxic than opium or cocaine. primeiro. uma década depois. ele considerava que a . ou seja. 1963) Portanto. ao seu ver. The function of the brain and nervous system is to protect us from being overwhelmed and confused by this mass of largely useless and irrelevant knowledge. segundo. para Huxley a mescalina seria capaz de abrir as “portas da percepção”. less likely to produce undesirable social consequences than alcohol or the barbiturates. on the positive side. by shutting out most of what we should otherwise perceive or remember at any moment. And. 1963) Para Huxley. and leaving only that very small and special selection which is likely to be practically useful. (BROAD apud HUXLEY. Assim como pensava Hofmann acerca do LSD. less inimical to heart and lungs than the tars and nicotine of cigarettes. Para o escritor. more intrinsically valuable than mere sedation or dreaminess.50 experiência Huxley escreve um livro intitulado As Portas da Percepção. Such a drug must be potent in minute doses and synthesizable. pela duração muito longa dos efeitos de sua ingestão. Huxley argüi também que a vontade de auto-transcendência é um apetite inerente ao ser humano – e na percepção deste escritor não caberia a nós barrá-la. e sim construir uma substância perfeita: What is needed is a new drug which will relieve and console our suffering species without doing more harm in the long run than it does good in the short. captar materiais que estariam além da experiência comum de nossa realidade organicamente sustentada. por produzir experiências infernais em alguns. (HUXLEY. it should produce changes in consciousness more interesting.

um uso descompromissado de estimulantes vendidos como remédios para tosse e finalmente a menção do uso de heróina pelo também escritor beat William Burroughs. A principal característica que parece distinguir o uso de drogas pelos beats do uso feito pelos seus “sucessores” contraculturais é o caráter recreativo e desengajado dos primeiros. algumas situações envolvendo maconha. O livro termina contando da viagem do poeta beat Allen Ginsberg ao Peru em busca de uma bebida sagrada chamada yagé – popularmente chamada de ayahuasca. trabalho e instituições oficiais em um ato de rejeição da vida burguesa e consumista em prol do nomadismo. p. Ginsberg foi uma ponte entre os poetas da geração beat e indivíduos ilustres da contracultura sessentista (ROSZAK. Nas descrições das viagens empreendidas por Jack Kerouac e Neal Cassady no relato semi-autobiográfico On The Road (KEROUAC. Este. 1969: 125). Apesar de tudo.3. intitulado Junky (BURROUGHS. entrando em agenciamento com certos coletivos (mexicanos e indígenas). Ken Kesey e Bob Dylan. por sua vez. Thimoty Leary.2 O revival da religião O retrato da juventude desenhado por Huxley encaixa particularmente bem no grupo de escritores e poetas que compuseram a assim chamada “geração beat” durante a década de 50. 1979: 63) 1. A diferença entre drop-out como realizado . 48). segundo Bakalar e Grinspoon. Embora o movimento beat na década de 50 tivesse um caráter apolítico (com eventuais flertes com o marxismo). In 1955. tornando-se amigo de. enquanto com a ascensão movimento hippie os psiquedélicos (especialmente o LSD) adquirem um valor sacramental. In an article on mescaline in the Saturday Evening Post in 1958. As obras destes autores oferecem algumas pistas quanto ao uso nãomedicamentoso de psicoativos antes da explosão contracultural da década seguinte. 2004) aparecem uso maciço de álcool. ele antecedeu (e possivelmente fundamentou) o movimento hippie em alguns aspectos do drop-out: abandono de estudo. relata sua experiência de vício em seu próprio relato semi-autobiográfico. Huxley spoke of "a nation's well-fed and metaphysically starving youth reaching out for beatific visions in the only way they know"—through drugs (Young and Hixson 1966. he suggested that it might produce a revival of religion (BAKALAR E GRINSPOON. entre outros. vegetal ou daime. 1984).51 possibilidade considerável de uma “viagem ruim” com a mescalina tornava seu uso maciço inviável.

. .. This discipline.] The contemporary field of "biological psychiatry" was born in those years. tanto em seus livros quanto em aparições na mídia.para usos psiquiátricos . 1. Stanislav Grof).52 pelos beats e realizado pelos hippies na década seguinte aparenta estar na dimensão maciçamente sócio-histórica que o movimento hippie vem adquirir – produzindo e articulando a perspectiva de um drop-out que arrastaria toda a sociedade americana. Segundo um membro do movimento hippie entrevistado por Yablonsky (1973). (YABLONSKY: 125-126) Podemos reconhecer dois fatores que impulsionam a contracultura a adquirir as dimensões de um movimento de massa: a comercialização do LSD pela empresa Sandoz .e a popularidade que o psicólogo de Harvard Thimoty Leary adquire. ou investigando sua capacidade de servir de modelo para a psicose (HOFMANN. [.] They didn’t want to be bothered with anyone outside of their own group or community. In addition to LSD.3 A relação com a psiquiatria e as ciências da mente Desde a síntese da mescalina (e a posterior entrada no mercado do LSD e da psilocibina) vários cientistas ao redor do mundo se empenharam em precisar os potenciais terapêuticos destas substâncias16. [. The beatniks just dropped out. which studies the relationship between the human mind and its brain chemistry. scientists also discovered the "antipsychotic" properties of chlorpromazine. or Thorazine. onde recomenda o LSD como uma ferramenta para reconstrução completa da sociedade ocidental através da transformação individual. Strassman ressalta a importância dos psicoativos que estavam então sendo descobertos sobre a psiquiatria: The years after World War II were exciting ones for psychiatry. 1980). But the hippie community is trying to get involved anywhere they think they can help.3. was the child of these two 16 Bakalar e Grinspoon (1979: 62) colocam que em 1960 haviam mais de 500 papers tratando do LSD em publicação... Thorazine made it possible for severely mentally ill patients to improve enough that they could leave asylums in unprecedented numbers. utilizá-las como ferramentas de exploração da psique visando a construção de mapas da consciência (por exemplo.

na perspectiva das ciências psiquiátricas. A segunda opção interpretativa. Esta perspectiva – da recuperação de um estado natural através da intervenção artificial – surge aqui como um espelho do próprio movimento psicodélico. 296. The notion that you could ever do anything about it hadn't ocurred to anyone. p. a catatonia e as alucinações – é de especial relevância no tocante ao movimento psicodélico. Shorter (1997) coloca que a clorpromazina oferecia a opção de baratear os custos de encarceramento dos doentes mentais. era resultado da hibridização de sua bioquímica com uma substância fabricada pelo homem – um artifício.no caso destes pacientes . (STRASSMAN. longe de constituírem . devolver o ser humano a seu “estado natural”. Esta normalidade e saúde. 111. com tal freqüência17 que somos deixados com duas opções interpretativas destes dados (opções estas não mutuamente excludentes): a primeira é a de que esses diagnósticos se calcavam na observação do comportamento questionador. é a de que o movimento possuía um apelo maior a pessoas já desviantes devido a um distúrbio psiquiátrico cuja sintomática antecedia ou possuía características externas ao vestuário e comportamento exótico do movimento psicodélico. em um envolvimento apropriado. as opções de tratamento para aqueles diagnosticados como esquizofrênicos eram escassas. 2001: 23-24) Até este momento. por duas razões. 17 . e funcionava como uma alternativa química às práticas de tratamento então empregadas – da psicanálise à lobotomia e o eletrochoque.um “estado natural” absoluto do funcionamento cerebral. vestuário e música idiossincráticas ao movimento psicodélico. 1973. O emprego de uma substância química para restaurar (temporariamente) a saúde mental dos pacientes – banindo os delírios.53 strange bedfellows: LSD and Thorazine. que esposava o LSD como uma substância capaz de. De qualquer forma. o psiquiatra John Young relata que naquele período “There were no drugs.” (SHORTER. a invenção dos medicamentos antipsicóticos é de relevância também devido a. Those cases were in the back wards and that was it. 1997: 234). a agitação. A primeira é a de que muitas pessoas de comportamentos desviantes – beats e hippies – foram diagnosticadas como doentes mentais. Este paralelismo é particularmente Ver alguns exemplos e considerações de Yablonsky a este respeito em YABLONSKY. no uso de psicoativos ou no choque causado na sociedade técnica pelas escolhas de estilo de vida. 148-149. possuírem a propriedade de restaurar a saúde ou normalidade dos doentes. levantada por Yablonsky (1973: 296).

alheios à observação objetiva e que envolvem uma suposta integração a “graus de consciência” cósmicos e transpessoais. O que temos em jogo na relação entre a contracultura e as ciências naturais são sistemas produtivos de saúde. alucinações. quando bem sucedidas. modificando o comportamento dos pacientes no que é lido pela psiquiatria como a restauração (temporária) de sua saúde. corpos. deixarem de operar discursivamente como “natureza”. portanto. critérios estes que distribuem os diversos elementos em um sistema binário e mutuamente excludente (ou/ou) como sendo . por exemplo. como coloca Latour (2005). pelo questionamento das concepções enraizadas a respeito da saúde mental e da razão. contudo. forças e energias portadoras de uma essência autônoma e impessoal (LATOUR. a clorpromazina. considerada em algumas classificações como “psicotomimético”. nas ciências naturais como um todo. a “saúde mental” remete a critérios transcendentes ao plano dos acontecimentos (a objetividade). natureza e normalidade bastante distintos e em uma situação de conflito. que os resultados por elas produzidos sejam iguais. pois o LSD é capaz de induzir delírios. o êxtase religioso. 2005: 37). a contracultura busca recuperar ou revalorizar o mito. adquirem o status de objetividade. Certamente. simulador de psicose. Entendermos estas “naturezas” como todas referentes a sistemas produtivos sociotécnicos não significa. contudo. a experiência visionária (ROSZAK. como mencionado na introdução deste trabalho. agitação – e. A denúncia contracultural contra as práticas da psiquiatria começa. No caso da psiquiatria. vem introduzir mudanças na prática clínica da psiquiatria. Estes agentes agora objetivos passam novamente a exercer toda sorte de papéis políticos e sociais (além dos papéis “naturais” que lhes são atribuídos em sua construção). no orçamento dos asilos psiquiátricos. o passado que demandou a intervenção laboratorial é enxugado restando apenas a pureza das leis. onde certas “naturezas” requerem uma ampla aparelhagem laboratorial para se manifestarem – sem. As “naturezas” construídas nos sistemas sociotécnicos científicos. clamando ser o homem “normal” afetado por um estado “robopático” de personalidade causado pela submissão à sociedade técnica.54 irônico. a percepção de uma normalidade biológica sendo sustentada por intervenções da perícia e técnica humana não são em nada destoantes do que se realiza nas práticas médicas mais gerais. em oposição à saúde psiquiátrica caracterizada por uma normalidade. ou mesmo. sanidade. 1969: 50) – elementos simultaneamente pessoais.

em um nível cósmico ou arquetípico (em última instância insondável. (ROSZAK. No caso das “saúdes mentais” produzidas pelo drop-out. é uma resistência micropolítica ao poder exercido pelas instituições da sociedade tecnocrática (indústria farmacêutica. onde substitui-se Apolo por Dionísio.por vezes total18 . It is becoming the whole works. vinculando este desejo a um plano de estratificação. exército e o aparato de estado) diretamente sobre o corpo e seus circuitos de desejo. em sua visão. O que se propõe na contracultura. 1969:. in adolescent rebellion. haveria muito a ser ganho. At worst. a empregar alianças e hibridizações com substâncias químicas (e estados mentais) rejeitados pela sociedade técnica em vias de produzir verdades singulares que escapam à estratificação – caso os riscos engendrados por estes agenciamentos sejam contornados. VIII). conquanto em determinados âmbitos: primeiro. onde todo tipo de procedimento intelectual. com o misterioso e com o maravilhoso. prudência e planejamento é rejeitado junto ao resto da sociedade técnica e suas percebidas corrupções: They have. study and esthetic elaboration. segundo. (ROSZAK.45-46 . Roszak (1969) considera que. it has become an end in itself. economia. se a crítica contracultural à razão tecnocrática se resumisse ao resgate ou reconexão com o inconsciente. thrown off the corrupted culture of their elders and. então. mas com o qual a visão contracultural propõe ser possível entrar em sintonia) (ROSZAK. a contracultura em seus momentos mais radicais resvala em uma outra situação de oposição mutuamente excludente. há uma recusa . along with that soiled bath water. the very body of the Western heritage – at best. ciências objetivas.de qualquer critério objetivo de julgamento. 1969: 159) Neste contexto. 1969: 160) 18 Ver ROSZAK. in favor of exotic traditions they only marginally understand. então.55 verdadeiros ou falsos. porém. em nível pessoal e subjetivo. cap. a source of boundless lore. Roszak avalia que psychic chemistry is no longer a means for exploring the perennial wisdom. medicina – especialmente a psiquiatria. 1969. in favor of an introspective chaos in which the seventeen or eighteen years of their own unformed lives float like atoms in a void. O exercício de resistência vem. A experiência é sempre entendida como verdadeira.

via no LSD o potencial para promover uma mudança de consciência na sociedade ocidental que terminaria “the 400year bad trip that began with the scientific revolution and the rise of industrial society” (LEARY apud BAKALAR E GRINSPOON. disponível no dia 13 de novembro de 2008 no endereço http://query. apenas para realizar uma fuga espetacular com a ajuda do grupo de esquerda 19 De acordo com uma reportagem do New York Times escrita por Laura Mansnerus." . Foi preso em 1970 e condenado a 20 anos de reclusão pelo porte de uma pequena quantidade de maconha. Leary se converteu em inimigo do Estado19. and employment. Assim como Huxley. became a central dogma of the hippie movement. tune in. Carneiro argui que isto “simbolizou o mergulho na clandestinidade das pesquisas científicas com LSD. em 1963. o psicólogo Timothy Leary se converteu em uma espécie de profeta dos psicodélicos. (ROSZAK.com/gst/fullpage.” (CARNEIRO. Leary propunha que a experiência psicodélica era similar às experiências visionárias de alguns santos e profetas. 1979: 70). 1969: 164) Após uma experiência com cogumelos em 1960. the study of one's own nervous system. 2005: 71). and to dedicate oneself wholly to the true inner universe. it is [Timothy] Leary who emerges as the Ultra of the campaign.56 Embora não seja fácil isolar os fatores causais que conduzem a contracultura a este centramento obsessivo na experiência psicodélica. after one has turned on with LSD.nytimes. Leary's proclamation to youth.html?res=9500E0DD1E39F932A35755C0A960958260&sec=&s pon=&pagewanted=all “Richard Nixon declarou Leary como "the most dangerous man in America. condensed in his famous slogan "Turn on. to give up school." was the challenge to escape from bourgeois life. 2005: 72). Roszak considera que if we look for the figures who have done the most to push psychedelic experience along the way toward becoming a total and autonomous culture. Segundo nos conta Hofmann. 1980) Tendo a fabricação e comércio do LSD sido proibida em 1965 (e a posse em 1968) (CARNEIRO. até que as pesquisas começaram a escapar do controle acadêmico e Leary foi expulso do quadro de professores. drop out !". Leary is one of the founding fathers of the hippie cult. to turn one's back on society. studies. Por alguns anos realizou pesquisas em Harvard com a recuperação de dependentes de álcool e de delinqüentes. This challenge above all went beyond the psychological and religious domain to assume social and political significance. The last of these three precepts. (HOFMANN. "drop out.

3) o desejo invista diretamente a percepção e o percebido. Do que se trata esta modificação? 1. o DNA. o cenário paranóico da contracultura da década de 70 havia perdido a confiança em seu profeta. Leary continuou escrevendo. no Afeganistão. .) Quando Deleuze e Guattari colocam como primeiro aspecto do agenciamento Droga que “o imperceptível seja percebido” implicam que deve haver uma ampliação da consciência até um ponto onde os limites da própria percepção sejam alcançados. [. sejam quais forem as diferenças. desta vez focando em assuntos menos politicamente agressivos como as relações entre a consciência. Embora Leary tenha argüido que ninguém foi efetivamente preso graças a seu depoimento para o FBI (e os Weathermen tenham confirmado esta declaração). Em 1973 foi capturado no aeroporto internacional de Kabul.4 A droga enquanto agenciamento Na elaboração de seu conceito de devir. O que permite descrever um agenciamento Droga. a viagem espacial e a internet.57 militante Weathermen. e as modificações de velocidade. a qual jamais poderia ser apreendida em sua totalidade por um cérebro humano.. delimitando as fronteiras do percebido. (DELEUZE E GUATTARI. isso se manifesta em duas direções: a primeira. interessa-nos a influência que os escritos de Leary tiveram sobre sua época (e continuam a ter) ao sintetizar e propagar um discurso que propunha uma revolução total da sociedade através da modificação da própria consciência. é uma linha de causalidade perceptiva que faz com que: 1) o imperceptível seja percebido. A figura de Leary é complexa e escapa de nossa proposta aqui tentar capturar suas nuances. e faça-se contato com a superfície do imperceptível.. 2) a percepção seja molecular. No caso do experimento com mescalina de Huxley. Foi liberado novamente em 1976 após cooperar com o FBI como delator. Grifos dos autores. a segunda direção aponta rumo ao que Huxley propõe como uma consciência cósmica. Deleuze e Guattari propõem: Mudar a percepção.3.] Todas as drogas concernem primeiro as velocidades. de uma constatação de que a percepção do mundo é resultado de um aparato orgânico de filtragem de informação. 1997: 76.

sobre este plano. a terceira característica – de que o desejo invista diretamente a percepção e o percebido – é equivalente ao próprio processo de “colapso de regimes de desejo” descrito antes como etapa do drop-out. com isso. detalhes estes que são obscurecidos pela percepção rotineira destes objetos. Grispoon e Bakalar (1979) reportam que.a painting on the wall. 1979: 94) Em outro exemplo. se o processo é realizado com sucesso. a figura do pai se impunha transcendente sobre estes quanta discursivos. impedindo. mas que a tudo encompassa. drug users say that they understand what Blake meant by "the world in a grain of sand and heaven in a wild flower". a pattern in the carpet-may become a universe to be entered and explored. “lazer”. Durante o drop-out. As substâncias psicodélicas se encaixam no agenciamento em vias de produzir. uma conexão com estados visionários caracterizados por sua dimensão cósmica. “trabalho”. (BAKALAR E GRINSPOON. sobre o efeito do LSD. Este estado é repetidamente caracterizado como “amor”. . um amor dirigido a nada em específico.de um processo de drop-out desencadeado por uma experiência com LSD por parte de um jovem . o maravilhamento e o mistério existencial suscitados pela experiência servem de base para o nivelamento do desejo em seu plano de imanência. “rosa”) rumo aos quanta fenomênicos que os compõem.que teve sua perspectiva sobre seu pai transformada a partir da apreensão de elementos do discurso emitido pelo pai. a percepção atinge a imanência do fluxo de quanta (moleculares) e o desejo passa a operar neste nível. nas vistas do jovem. o plano de imanência vem a se desenhar sobre a superfície do imperceptível. racionalmente insondável. como antes mencionado. elementos estes que antes passavam desapercebidos em sua própria consistência. a cortina na janela. podemos relembrar o exemplo citado no início deste capítulo . os grandes segmentos (“pai”. Com efeito. Anything in the environment . no caso de Huxley. isso se manifesta em seu tomar de consciência da riqueza de detalhes visuais (rachaduras. que eles fossem considerados em seu próprio plano. variações de tom e cor) que compõem uma rosa em sua mão. Anteriormente.58 A segunda característica apontada por Deleuze e Guattari do agenciamento Droga trata da “percepção molecular”. entendo a elaboração de uma percepção que capture os fenômenos num grau de precisão que permita ultrapassar os conjuntos globais.

relatos de viagens ruins e casos de surtos psicóticos. boatos de ácido adulterado com estricnina e discursos científicos apontando possíveis danos cromossômicos causados pelo LSD circulavam amplamente. o recurso ao agenciamento Droga implica em uma série de riscos específicos a este agenciamento: [. o movimento perde sua vitalidade e se dissolve.5 Ocaso do primeiro movimento psicodélico Dada a tendência proibicionista (no tocante às drogas) em voga nas sociedades ocidentais desde o século XIX. and satisfies the need to act. Caso seja interrompido o traçamento do plano de consistência. O deslumbramento inicial com o poder de modificação do LSD estava manchado.] as linhas de fuga enrolam-se e põe-se a rodopiar em buracos negros. (YABLONSKY. in the movement. ou seja. a expansão do uso de psicodélicos e a associação deste uso com discursos revolucionários acaba por sofrer represálias. Por uma série de razões que iremos analisar aqui. como um caramujo.3. 1. Yablonsky nota que The feeling of love was seldom translated into concrete commitment or action. a atenção da mídia e da comunidade científica aos psicodélicos. Simply “feeling love” is enough. Nixon se elege em 1968 e lança a “Guerra às Drogas”. e não os movimentos que podem ou não surgir a partir daí. pois o desejo volta a orbitar ao redor da significância.. o movimento hippie entrara em declínio. Porém. 1997: 79) No caso do amor de dimensões cósmicas construído no processo do drop-out.59 Como antes notado. a constituição de um CsO é sempre uma tarefa delicada. dissociando-se do desejo enquanto movimento: o que passa a importar é o significado de uma sensação. Therefore “love”. política cuja vigência e implicações continuam atuais. e com ele. Como nos conta Strassman (2001). com a intervenção de psicoativos. ou.. Caindo mais no buraco do que no barato. tends to be hedonistic and selfish. cada drogado em seu buraco. 1973: 310) Neste caso o plano de imanência ou consistência está ameaçado. (DELEUZE E GUATTARI. . grupo ou indivíduo. caso as condições de gênese do movimento psicodélico sejam desfeitas. transforma-se engendrando outros agenciamentos.

1979: 81) Grispoon e Bakalar (1979) levantam também que a relação no sentido oposto .60 The government told scientists to return their drugs. Como colocam Grispoon e Bakalar (1979). It was as if the psychedelic drugs became "un-discovered”. por outro tinham em um dos produtos da técnica seu principal foco de transcendência. interest in human psychedelic research died off almost as rapidly as it had begun. Muitos teriam. Money for studies dried up and researchers abandoned their experiments. O caso é que a rejeição à sociedade técnica em vias de produzir a socialidade primária/natural almejada sempre foi uma rejeição parcial. 1979: 328) .. 1979: 74). abandonado as drogas e buscado nas religiões hindu e budistas uma forma “não-química” de aprimoramento pessoal e de consciência. and its relationship with the mass media. both orthodox and "underground".. Yablonsky (1973) coloca que “The “straight” community’s almost positive response to this deviant pattern may be partially accounted for by a traditional American worship of aggressive. sexually free heroes who “go it alone” (“do their own thing”) unencumbered by social restraints or standart moral conscience.não fora somente de repressão ou combate. (BAKALAR E GRINSPOON. adventuresome. paperwork requirements for obtaining and maintaining new supplies of psychedelics for research became a time-consuming and confusing burden. “America confronted the hippies with a mixture of attraction and revulsion [.a da sociedade técnica com a contracultura .” (YABLONSKI. With the new drug laws in place. (STRASSMAN. in part it [a contracultura] was created by newspaper and television publicity. 2001: 27) Bakalar e Grinspoon (1979) destacam entre os vários fatores que levaram ao declínio da contracultura na década de 70 uma contradição inerente aos próprios discursos hippie: enquanto por um lado partiam de uma rejeição da sociedade tecnológica e industrial. and there was little hope for new projects.” (BAKALAR E GRINSPOON. Sobre esta ambigüidade.] The hippies made conventional society anxious but also touched its imagination. então. was intimately symbiotic.

For the same reasons it was easily corrupted by drug dealers' profiteering and co-opted by commercial exploitation of its superficial . não pretendia o confronto com a sociedade técnica. in his social criticism. 1973: 24-25. novelista extremamente influente na contracultura (ROSZAK. rejeitando o primeiro em prol do segundo. como proposta por seus alto-sacerdotes. a sustentação da própria prática não-confrontacional engendrou suas próprias armadilhas: The drug culture had no resources to protect itself against those who joined it to disguise. A filosofia do movimento. 1969: 200. o “amor” cósmico esposado pelo movimento permitia a integração do que é usualmente tido como seu oposto.61 A estrutura de drop-out se orientava. Podemos considerar. que as oposições de mútua exclusão empregadas no segmento inicial do processo de drop-out – especialmente artifical versus natural. No mesmo sentido. 1969: 150-154). mas também sociedade alternativa versus sociedade técnica – realizaram sua própria pressão no sentido de remeter. a sustentação do plano de consistência contracultural demandava uma pragmática não-confrontacional (ROSZAK. o desejo a processos de estratificação: retraçando um plano de transcendência capaz de efetuar o exercício de autoridade envolvido na distribuição dos elementos segundo as categorias ontológicas de certo e errado. o ódio (YABLONSKY. portanto. portanto. justify. É particularmente ilustrativa da abordagem não-confrontacional do movimento psicodélico a conceituação elaborada por Roszak a partir de seu estudo do texto de Paul Goodman. não bem a anulação da técnica. na sua extremidade de contato com a sociedade técnica. novamente. de onde coletava os fluxos de jovens de classe média insatisfeitos e os propelia em um processo de desestratificação. 1973: 54). 201): So Goodman seeks. the same end always: to scale down selectively our leviathan industrialism so that it can serve as a handmaiden to the ethos of village or neighborhood. Contudo. Contudo. em uma relação de oposição apenas localizada. e sim sua molecularização. 1969: 200) Ou seja. e sim sua inclusão e assimilação como mais uma forma possível de vida (YABLONSKY. 32. or alleviate their disturbed conditions. (ROSZAK. onde as oposições categóricas de mútua exclusão fossem destituídas de seus elementos de transcendências e niveladas sobre um mesmo plano. 50-54). este processo envolvia categorizar em dois grupos excludentes o artificial e o natural.

sendo convertido em uma identidade: “hippie” – um artefato midiático que foi inclusive rejeitado pelo movimento em diversas instâncias (YABLONSKY. não protegia o movimento da comodificação – de que se convertesse os membros da contracultura em consumidores de um estilo de vida. Sob perspectiva similar. resultado da permanência das idéias e práticas contraculturais em nossa sociedade. Este processo de individualização tornou o movimento cooptável pelo mercado. But in fact society to some extent becomes what it consumes. um vetor de integração e normalização: como vimos. técnicas. Mas antes de transferir o foco para os tempos atuais. 1979: 87-88) O renascimento psicodélico que hoje observamos é. 1979: 72). cósmicas . etc. em um certo sentido. políticas. Contudo. o processo desencadeado pelo drop-out pode ser entendido como uma singularização coletiva que atravessou a sociedade técnica (ou seja. 1973: 290. . trabalhistas. boêmias. havia uma profunda afinidade entre o ethos contracultural de livre iniciativa e dissenso com o individualismo americano tradicional. the adaptation has not been all on one side. ideológicas. considero importante primeiro checar algumas especificidades da contracultura em solo brasileiro. um processo de aglomeração e associação de diferentes espécies de dimensões – artísticas. This absorptive or adaptative capacity has been decried by philosophers like Marcuse who consider it a means of neutralizing all oposition and emptying it of meaning. and the drug culture has modified habits and ways of thinking in more important matters than marihuana smoking or long hair. (BAKALAR E GRINSPOON. BAKALAR E GRINSPOON. Grispoon e Bakalar (1979) concluem que Liberal capitalist industrial society has absorbed a cultural movement that implausibly promised to transform it out of recognition. 1979: 81) A produção de um plano de consistência configura uma resistência em relação aos mecanismos de transcendência envolvidos nas autoridades estatais.em um mesmo plano de consistência). Colocando nos termos empregados por Guattari (1986). ou seja. Este processo de singularização era atravessado por um vetor de individualização característico. e logo após checar o que se passou com as substâncias psicodélicas no período entre o primeiro movimento e seu renascimento.62 symbols (BAKALAR E GRINSPOON.

4 Desbunde: Contracultura no Brasil A contracultura em sua vertente psicodélica levou alguns anos até penetrar as fronteiras culturais brasileiras. Mas. ao fim dos anos de 1960 temos no Brasil um panorama de resistência caracterizado pelo ativismo político de esquerda. juntamente com o sindicalismo e organizações de esquerda. entretanto. queriam uma abertura . a agenda era marcadamente política e a juventude universitária. 2000: 15- 16) Na década de 1970 se aprofunda no Brasil a divisão entre o ativismo macropolítico praticado pela esquerda e a resistência micropolítica manifesta no desbunde característico da geração drop-out. É a partir dos anos 70. Nas palavras de Bigode. que se criam condições para o surgimento dos aspectos mais místicos e individualizados do movimento Nova Era. na experimentação do Cinema Novo e do teatro de vanguarda e na música popular. (MAGNANI. ligada ao Partido Comunista da União Soviética. estava às voltas com as desigualdades sociais e não com o esgotamento dos anos de prosperidade e do modernismo acadêmico. Nestes relatos se evidencia a percepção destas pessoas quanto a uma rigidez e sobriedade moral na esquerda ortodoxa. Aqui. o eixo da agitação cultural assume uma linha mais politizada e se manifesta nos Centros Populares de Cultura (CPCs).63 1. havia um cercamento. do pós-guerra nos EUA. Dias (2004) recolhe vários testemunhos de pessoas que enfrentaram a decisão de se envolver ou com o ativismo marxista ou com o movimento psicodélico. Nos anos 60. Então essas organizações significavam uma camisa-de-força para pessoas que. Como coloca José Guilherme Magnani (2000). contudo. como eu. fatores invocados para explicar a desorientação da geração baby boom. dentro da esquerda. um de seus entrevistados: Todas as pessoas que estavam de alguma maneira querendo uma transformação buscaram o exercício desta transformação dentro das organizações de esquerda. com o fechamento dos canais de participação e a repressão aos movimentos populares. não se podia assumir uma postura libertária por conta do preconceito com que você ia deparando.

” (DO CARMO. 2004: 161). Isso porque o movimento sempre fez questão de rejeitar a arte que submetia os objetivos estéticos e finalidades políticas imediatas. Os testemunhos indicam que grande parte das pessoas envolvidas com a esquerda marxista consideravam os desbundados . [. 2000: 67). como registra o ex-guerrilheiro Alex Polari.o “mal” no Brasil encontrava-se concentrado em um inimigo despótico. no entanto. A pressão exercida pela repressão policial empurrou. O negócio foi virando ou arriscar a vida ou saltar fora e arranjar um Nirvana qualquer para se refugiar. Ao contrário da contracultura americana – onde. culpabilizável (SOARES. Não se conseguiu ver. os marxistas rumo à soluções radicais como a luta armada. 2000: 59).” (POLARI apud Dias.. 2000: 67). Neste contexto. Ou.. que o movimento tropicalista "realizava uma releitura pop e hippie da antropofagia de 1922" e assim permitia avançar na redescoberta de nossas contradições culturais e sociais.como alienados e politicamente passivos em relação à ditadura. pontual. Para Heloísa Buarque de Holanda. não é? A esquerda americana não. (Bigode apud Dias. (DO CARMO. durante a década de 1960 o cenário musical era claramente dividido entre a música internacional e a música nacional.aderentes do movimento psicodélico . as guitarras elétricas do rock’n roll e as roupas coloridas importadas da estética do movimento psicodélico americano remetiam à cultura internacional. por um lado.64 maior na sociedade e na vida pessoal. Esta situação se evidencia no vaiar dos estudantes a Caetano Veloso em 1968 (DO CARMO. “Ficou cada vez mais difícil o meio-termo. 2004: 310311). A própria história da esquerda brasileira vem dos tenentes. e “Tomar partido por uma determinada música assumia uma importância que muitas vezes tinha ares de opinião política. Soma-se a isto o nacionalismo que perpassava a esquerda universitária neste período.] Quer dizer. 1994: 190). enquanto por outro incentivou uma apatia . ecoando uma percebida alienação cultural. que impeliu ao surgimento de um abismo entre o ativismo marxista e o movimento psicodélico. segundo Rozsak (1969: 56) a presença de um inimigo comum e difuso construía um panorama compartilhado onde se inseriam as práticas de resistência . era uma esquerda muito militarizada. "certa parcela mais politizada do público estudantil acusou o tropicalismo de omissão ante o avanço da ditadura.

1985: 12. 1985: 20-21. 1. aparentemente. causadora de efeitos estimulantes quando consumida por humanos. através de processos laboratoriais. 1985: 38. Na década de 1980 vem o abrandamento progressivo da ditadura. os agenciamentos antes em operação. Longe de me propor a uma análise completa destas ramificações . Em algumas destas ramificações. com o surgimento de meios institucionais de dissenso. são pertinentes à atual cena psiconáutica. uma corrente de mudanças caracterizada pela crescente prevalência de uma substância psicoativa até então bem pouco presente nos circuitos contraculturais: a cocaína20. tendo dado lugar no palco para movimentos de dissenso como o punk e o gótico. conduzem seus elementos a buracos negros. Em outros casos. estes agenciamentos são abortados e substituídos (como no abandono do LSD em vias de formas não-químicas de obtenção de experiências espirituais). a luta armada marxista deixa de ser a via de modificação social por excelência. os agenciamentos se transformam. incapazes de contornar os riscos concernentes a suas operações.5 Após a contracultura A partir da década de 1970 o movimento psicodélico. conduzidos a novos planos e efetivando circuitos de desejo de graus variados de similaridade aos que observamos aqui.me proponho a delinear os contornos de umas poucas ramificações que. 20 . O uso desta substância torna-se significantemente mais freqüente. 25) Simultaneamente. em outras ramificações. de início. 25) – dos quais é provável a associação prévia com a contracultura (CLAYTON. CLAYTON. A cocaína é extraída. seguindo rumo a democratização. especialmente entre jovens e jovens adultos. Destaco. conduzido por forças internas e externas como as antes destacadas.o que demandaria estudos tão ou mais extensos do que o desenvolvido a respeito da contracultura do final da década de 1960 e início de 1970 . resultando em muitos casos em simples autodestruição. 20005: 8). O movimento psicodélico no cenário global já não é mais uma sombra do que fora vinte anos antes. ramifica-se em diversas direções.65 política e isolamento em comunas rurais centradas no misticismo entre os proponentes do movimento psicodélico. por fim. na segunda metade da década de 1970 (ALBESON E MILLER. de duas espécies de plantas: a Erythroxylum coca e a Erythroxylum novogranatense (HENMAN.

contudo. 1973: 33. Em vários casos. 211). temos exemplos de casos onde os psicoativos de vários efeitos eram consumidos por hippies sem uma valorização específica associada a um tipo de efeito (DIAS. a imagem popular da cocaína e. status. Neste período. poder. (ALBESON E MILLER. como os teenyboppers (YABLONSKY. como levantado por . Em segundo lugar. por exemplo. a utilização de anfetamina e metanfetamina (referidas sob as alcunhas de “speed” ou “meth”) no cenário contracultural norte-americano. 2004: 158). e sucesso financeiro – ou seja. Podemos destacar. 1985: 31). “Os hippies maconheiros e viajandões. No Brasil. 1985: 9. duas tendências: Primeiro. passando de uma rejeição à sociedade técnica rumo ao terreno quase diametralmente oposto do trabalho. a cocaína era tipicamente enxergada como uma droga pesada e perigosa. 25. também. do ‘cão’. O que isto nos indica? Antes de qualquer coisa. riqueza e status. em termos amplos. 1973: 132. principalmente. passa a ser associada a glamour. por parte de algumas ramificações da contracultura. 36). místicos e pacifistas. por membros apenas marginalmente conectados à filosofia ou às propostas políticas do movimento. do psicoativo envolvido em seu agenciamento: transitando dos causadores de efeitos psicodélicos para os causadores de efeitos estimulantes. percebemos uma tendência de modificação dos valores e categorias envolvidos em seus circuitos de desejo. a abordagem a ela conferida pela mídia. ao lado da heroína. 28). é relevante a consideração de que substâncias psicoativas de efeitos estimulantes já existiam em circulação nos circuitos contraculturais. A partir destes indícios podemos perceber. ao longo da década de 1970. uma “droga de rico” (CLAYTON. eram radicalmente contra o pó: era coisa ‘dele’. Clayton (1985: 14) indica que em 1965. os participantes da contracultura associavam valorizavam de forma bastante negativa as substâncias de efeitos estimulantes (Como exemplo. YABLONSKY. 1985: 38-39). Com efeito. 2004: 153. entre eles vestuário.” (MOTTA apud DIAS. a modificação. em especial. Modificam-se também os elementos agenciados na cultura popular. estas substâncias eram consumidas. Contudo. circuitos festivos e de socialização (com a ascensão do fenômeno da discoteca) e. 144-145). o mercado negro em torno tanto da plantação da “folha de coca” quanto da extração e venda da cocaína se torna extremamente lucrativo (CLAYTON. riqueza.66 observamos neste período um declínio significativo na frequência do consumo da maconha (Cannabis sativa).

O neoesoterismo virara empreendimento (micro) empresarial! (MAGNANI. TACKET-GIBSON e WILLARD. trata-se da espiritualidade sincrética marcante da contracultura. Este primeiro momento do renascimento neo-psicodélico é caracterizado pelo desenvolvimento. resultando em surpreendentes bricolages.” (MURGUÍA.67 Kotarba (2007: 163). the drugs of alarm were freebasing cocaine [mais conhecido como crack]. comuns a qualquer das atividades de prestação de serviços nos grandes centros urbanos. configurando o início do que Carneiro (2005) denomina “renascimento neopsicodélico”. seus praticantes não desdenham equipamentos. uma ramificação específica da contracultura começa a adquirir proporção. em correntes espiritualistas. 2007: 6). em larga medida. do que costuma ser referido como cena rave. dando espaço para os ritmos eletrônicos característicos do estilo disco. no esoterismo clássico europeu e até em propostas inspiradas em certos ramos da ciência contemporânea. assistimos durante o período final da década de 1980 a reemergência de fenômenos culturais associados ao consumo de psicodélicos. Murguía. Contudo. este fenômeno recebe uma variedade de nomes – de “misticismo ecológico” (SOARES. 1994) a “neo-esoterismo” (MAGNANI. A partir década de 1980. o neo-esoterismo vai buscar sua fundamentação em alguns sistemas de pensamento e religiões de origem oriental. 1985: 38). como computação. deixando gradualmente o centro das atenções para outras substâncias. (MAGNANI. marketing. Tacket-Gibson e Willard descrevem a cena rave como . terceirização. 1999: 12). De forma similar à espiritualidade característica da contracultura das décadas de 1960 e 1970. and methaqualone (quaaludes). "By the mid-1980s. 1999). a partir do final da década de 1980 e se estendendo até os dias atuais. simultaneamente. em cosmologias indígenas. num processo que continua até os dias de hoje. 1999: 17) Simultaneamente. do uso de psicodélicos. em contraposição às práticas contraculturais. phencyclidine. condições e técnicas. franchising. a música: o rock’n roll psicodélico sai gradualmente de cena. mas agora dissociada. e não poucas vezes em todos eles. Já ao final da década de 1970 a cocaína atinge um platô na prevalência de sua utilização (ALBESON E MILLER. renascimento este que engloba o fenômeno psiconáutico aqui estudado.

2007: 6) Segundo Gatson (2007). Clothing and dance were distinctive. jornais. aliás. Shulgin não se dedicou a nenhum proselitismo – o que aparentemente não o torna menos subversivo sob a perspectiva das autoridades legais. Da mesma forma.. (MURGUÍA. O uso do MDMA – popularmente conhecido como ecstasy – começou a propagar-se por volta de 1985. Seu efeito psicoativo em seres humanos teve sua primeira aparição acadêmica em 1976. Shulgin é autor de dois livros que são referência para a cultura psiconáutica atual – PHIKAL21 e THIKAL22. a cena rave é marcada por uma afinidade com a tecnologia. Rave parties tended to be large (over one thousand people) and held in warehouses. Este. que “resumem o que há de mais avançado na pesquisa psicofarmacológica dos psicodélicos e produzem um relato autobiográfico intimista entretecido com as fantásticas imbricações da guerra contra as drogas nas últimas décadas. TIKHAL: The Continuation. Esta afinidade influenciou a forma de organização dos grupos de ravers – operando em comunidades online. 1997. entretanto.. Sobre este aspecto. Alexander e SHULGIN. é um dos grandes representativos dos pesquisadores científicos de psicodélicos contemporâneos.] há uma contribuição metodológica de Shulgin que é revolucionária do ponto de vista científico e 21 SHULGIN. TACKET-GIBSON e WILLARD. Tendo trabalhado em seu próprio laboratório sintetizando e testando em si inúmeras substâncias novas. Ann.” (CARNEIRO. Berkeley: Transform Press.68 (…) a “cyberpunk culture”. . Ao contrário de Thimoty Leary. divulgando seus eventos de forma externa às grandes mídias (televisão. Ann. 1991. a blend of the technical cybernetics world and underground pop culture. em contraposição à contracultura da década de 60. revistas e rádio) – e causando uma sobreposição com outras subculturas underground como os hackers. (…) The dancing was individualistic and not sensual. Berkeley: Transform Press. Alexander e SHULGIN. synthesized music with a fast constant beat played at a high volume until early morning. Carneiro (2005) comenta que além da perspectiva farmacológica [. PIHKAL: A Chemical Love Story. através do químico Alexander Shulgin. unlike dancing to hip-hop music. 2005: 76). as principais opções de psicoativos dos grupos ravers – MDMA e GHB – são substâncias sintéticas. The music was techno dance music. tanto por sua música característica ser eletrônica. quanto por ter se desenvolvido simultaneamente à internet. 22 SHULGIN.

.69 político ao estabelecer uma indagação sobre o direito do Estado em intervir no terreno da jurisdição química da mente [. entre as quais encontramos a cena psiconáutica. (CARNEIRO. propagando informações sobre psicodélicos na internet.] num momento em que a demonização das drogas e o pânico moral construído em torno delas o torna alvo de uma perseguição governamental que invadiu sua casa e o multou em milhares de dólares após a publicação destes livros. 2005: 77) A ressonância tecnológica da cena raver.. É a este movimento que iremos estudar no capítulo seguinte. . e as descobertas de substâncias psicodélicas novas e ainda legais – que vem a ser vendidas nas chamadas smart-shops na internet – fornecem as bases fertéis para o desenvolvimento de um renascimento psicodélico.

tratando do impacto das redes de troca de informação 23 http://www1. Infelizmente.70 CAPÍTULO 2 – DESCRIÇÃO NETNOGRÁFICA 2. Os dois termos pesquisados foram “psiconautas” e “psiconauta”. . praticamente do zero.que estaria se desenvolvendo na internet.uol.folha. o termo é também título de algumas poesias encontradas na busca. tornamo-nos psiconautas.br/folha/sinapse/ult1063u68. No que se faz necessário que levantemos certas perguntas: do que se trata a psiconáutica? Quem são estes psiconautas? Onde podemos encontrá-los? 2.1 Introdução Que longa viagem! Partimos conduzidos por umas poucas pistas – o documentário húngaro Psychonauts (2006) e referências à uma rede frouxa de comunidades . excutei uma pesquisa no buscador “Google” visando trazer à tona os vários pontos da rede psiconáutica brasileira na internet. Entretanto.1 Busca preliminar Em busca de obter mais pistas. desde a década de 1990. aparentemente de autores diversos. Como não entenderíamos muito sobre um renascimento sem que. a tal ponto que não podia sequer ser reconhecido. entendêssemos o nascimento. fomos remetidos até um período carregado de suas próprias agitações: o final da década de 1960.uma cena . um álbum e uma banda. por uma dessas ramificações.1. o movimento se transformou – e se ramificou – muitas vezes. ápice e decadência de um movimento que se propôs a reconstruir. agora.shtml. a sociedade técnica da qual emergiu. antes de tudo. Em um artigo jornalístico23 o colunista da Folha Gilson Schwartz declara que “Mais que internautas. Atravessamos o início.com. este método não ofereceu resultados com consistência suficiente para montar uma rede. acessado no dia 8 de dezembro de 2009. longe de simplesmente desaparecer. muitos usuários da internet cadastrados em inúmeros sites de temas variados utilizam o nome “psiconauta”. Buscamos. Vimos então que. exploradores de estados de consciência transpessoal”. sem deixar claro se estes internautas tem ou não uma relação com a cena psiconáutica. possibilitaram um vislumbre da variedade de funções às quais o termo “psiconauta” atende: é o nome de uma música.

fotos e caminhos para muitas outras comunidades das quais estas pessoas participam. seus “perfis”. pelas fotos. Cidade no litoral baiano que foi ponto de convergência hippie durante a década de 1970 (DIAS. encontramos seus nomes. para ler o que escrevem sobre si mesmos e suas práticas. . textos auto-descritivos. tão branco quanto pode se ser no Brasil). se tornaram familiares. A variedade de usos do termo demonstra que não existe um consenso amplo sobre o que esta palavra aponta. 2004). ser jovem e ter a pele branca (ao menos. em vias de compreender quem são estes psiconautas que busco. Observando.1. então. muito populares no Brasil – e segundo os procedimentos já mencionados na introdução. Aproximamos-nos das pessoas de uma forma estranha.2 Do que se trata esta comunidade do Orkut? Conforme nos aproximamos deste nodo da cena psiconáutica. O point onde transcorre o grosso da socialização é uma superfície de tom azulado. mais de mil pessoas. 24 25 Campinas: Editora da Unicamp. Para tal me dirigi às comunidades da rede social Orkut. entre muitos outros que ainda nos são estranhos. pelo que o próprio título indica. 1998. descobrimos o nome deste espaço: “fórum”. No topo da tela. imagens e práticas que. a comunidade comporta. e o resumo reforça. após esta longa jornada. em seu espaço. Contudo. Mas nem todas as pessoas são assim tão claramente identificáveis. escolhi a comunidade “Enteógenos sem Dogmas” para a realização de uma netnografia. Não estamos sozinhos. percebemos que os elementos familiares são apenas alguns. e sim sentados defronte uma tela onde observamos a página principal de uma comunidade virtual do Orkut. Não estamos em Haight-Ashbury. Algumas não possuem foto alguma que possamos entender como seu retrato. a “Enteógenos sem Dogmas”. há uma tese produzida por Cintia Ávila Carvalho nomeada “Os Psiconautas do Atlântico Sul – Uma etnografia da psicanálise”24 – que. onde encontramos uma série de palavras grifadas distribuídas como em uma planilha. A maioria dessas pessoas parece. antes que possamos nos sentir confortáveis. não tem relação com a cena que pretendemos aqui observar. ou em Arembepe25. Vemos muito mais homens que mulheres. Finalmente. clicando em seus nomes ou fotos. 2. se fez necessário aproximar o foco de uma comunidade específica desta rede. nos preparamos para reencontrar algumas idéias.71 descentradas na consciência dos usuários da internet.

na ordem cronológica de sua publicação. imagens de arte psicodélica ao estilo contracultural. Conforme nos acostumamos com este estranho espaço de convivência. iluminada por luzes arroxeadas surreais. tem namorada e é ex-fumante. eterno navegante da consciência em expansão”. O dono da “Enteógenos sem Dogmas” se chama Nunzio. em outros casos. também. A partir daí. somos conduzidos a seu perfil. O dono escolhe uma pequena foto para a comunidade e escreve sua descrição. aprendemos que perfis como estes. feriados e viagens pelo Brasil. Só pode haver um dono da comunidade. se descreve como “Psiconauta andarilho das reentrâncias cerebrais. mora em São Paulo. Clicando em seu nome. Como já sabemos. e imagens religiosas. nomes de animais. Este usuário assume o papel de dono da comunidade que criou (podendo transmitir o cargo a alguém caso deseje. também. Os posts contêm a data de . em alguns casos. plantas. De volta a “Enteógenos sem Dogmas”. Assim como as demais comunidades do Orkut. sem indicadores onde reconheçamos um ser humano como estamos acostumados são chamados de “fakes”. nomes de plantas que contém substâncias psicodélicas. os membros podem ver as demais mensagens (“posts”) deixadas neste tópico por outros membros. escrever sua própria mensagem que fica registrada no tópico. Ele pode. enquetes. a “Enteógenos sem Dogmas” é composta por um fórum. o fórum é onde transcorre a principal atividade da comunidade. clicando no título do tópico. deparamo-nos com a foto escolhida por Nunzio para representa-la: uma casa sobre um morro gramado. podem. Apresenta uma lista extensiva de bandas favoritas e possui mais de 400 fotos. disposto na página principal da comunidade. bastando para tal uma série de comandos simples. ou deixando o cargo para o primeiro que se candidatar caso apague sua conta no Orkut). Aprendemos. outros usuários da rede social (os membros) e uma área de comunidades relacionadas. imagens de cogumelos. tem 25 anos. objetos. etc. ou. que tem poder (assim como o dono) de banir membros e apagar mensagens consideradas indesejáveis. qualquer membro tem poder de abrir tópicos (escolhendo um título e escrevendo uma mensagem inicial). Logo abaixo da descrição da comunidade (que reproduzi na Introdução deste trabalho) descobrimos a data de sua criação: 5 de outubro de 2007. em seus perfis. Somos informados de que ele é “caucasiano (Branco)”.72 encontramos. nomear moderadores. também. onde o observamos em diversas festas. em frente a qual está sentado um minúsculo homem branco de blusa verde-clara. que as comunidades do Orkut são criadas e geridas por um usuário qualquer da rede social. Seus nomes são.

“Passeata Verde – SP”.73 sua publicação (“postagem”). Foi adicionada uma nova comunidade relacionada “Receitas Éticas”. no primeiro caso. a entrada na comunidade precisa ser aprovada pelo dono ou por moderadores para poder se efetivar. e “LSD”. Como mencionei na Introdução deste trabalho. o que não é o caso da comunidade em questão. Estes 18 tópicos versam sobre assuntos os mais variados (sendo freqüente que o assunto mude durante a discussão para outro tema). 28 Contudo. da totalidade de 293 tópicos (disponíveis no dia 3 de outubro de 2008). Uma comunidade pode também permitir postagens anônimas ou proibi-las. 18 tópicos foram copiados e analisados mais profundamente. 26 . um texto. “Alice D” e “LSD” foram removidas da área de comunidades relacionadas. no dia 5 de novembro de 2008. cujo dono é participador também da Enteógenos sem Dogmas. A “Enteógenos sem Dogmas” estava. em algum momento ao longo do ano seguinte que não fui capaz de precisar. supostamente graças a acusações de outros usuários da rede social a respeito da ilegalidade de seu conteúdo. “Salvia Divinorum”. Dentro de uma enquete os membros da comunidade podem também deixar posts com comentários. 27 Durante o ano ao longo do qual o trabalho de campo transcorreu. o dono de uma comunidade pode optar por tornar seu fórum e suas enquetes invisíveis para não-membros. “Plantas Enteógenas – IEPE”. qualquer usuário do Orkut pode se tornar membro da comunidade clicando em um botão da página principal desta (“participar”). relacionada a nove outras comunidades (que é número máximo permitido pelo Orkut): “Magic Mushrooms”. foi apagada pelo Orkut. Alguns focavam No resto deste texto utilizo de forma equivalente “fórum” e “comunidade”. “Alex Grey”. é comum se referir a ambos como sendo equivalentes. sendo então aceitos ou recusados pelo dono da comunidade. “Alice D”. “Comunidade EtnoBotânicos [CEB]” e “LSD”. Entretanto. à semelhança dos tópicos. sendo este o principal lócus de atividade (e de análise). com suas respectivas imagens pessoais. que contém links para comunidades que o dono optou por ali inserir (usualmente outras comunidades do dono ou comunidades de temas afins). as seguintes modificações foram observadas: “Passeata Verde – SP“. “Ayahuasca sem Dogmas”. Os membros da comunidade aparecem listados num quadro na parte superior direita da página inicial da comunidade. As enquetes também podem ser criadas por qualquer membro.26 Na parte inferior direita da tela estão as “comunidades relacionadas” (e suas respectivas fotos). contém um texto e uma série de opções nas quais os membros podem votar. No caso da comunidade Enteógenos sem dogmas a participação é pública28 e a postagem anônima é proibida. o nome do membro que a escreveu e a foto pessoal que ele utiliza para se identificar em seu perfil. não há como ser membro apenas do fórum. os usuários se candidatam a entrar.27 Uma comunidade pode ser pública ou não. sendo que: “Alice D” continua existindo na rede mais ampla do Orkut. ou seja. Finalmente. a comunidade tornou-se “moderada”. No segundo caso. “Passeata Verde – SP” não foi mais encontrada numa busca na rede ampla do Orkut. anonimamente ou não.

postada por outro membro: mentira. nem esta separação é articulada no discurso dos psiconautas – se tratando. Aí a galera tava jogando um futs de inauguração e começou a chover.74 em um psicoativo específico (“Chá de trombeta”. imagina só!!! nem em sonho um maluco nunca teve a visão que nós tivemos. Estes aspectos não se encontram jamais separados in loco. a veracidade do que é dito ali. e o que acontece efetivamente no fórum. “Psilocybe Cubensis – O cogumelo mágico”. onde os membros do fórum tentavam articular um encontro “físico” dos participantes. num gramado de futebol aqui perto de casa o dono tinha acabado de plantar a grama e resolveu adubar com esterco de vaca. um tópico destinado à postagem de links para vídeos variados que os membros quisessem compartilhar uns com os outros. “A Federação Galáctica vem em paz”) e outros em troca e aprimoramentos de técnicas valiosas aos psiconautas (“Armazenamento”. A análise das discussões do fórum atentou para três aspectos: o que escrevem os psiconautas sobre si mesmos (e o que posso induzir sobre eles a partir do que observei). quando um dado disparatado é fornecido por um membro este dado é contestado.. [postado por “do Mato”. Será o fim do mundo?”. “idéias de cultivo Psy C”). o que escrevem sobre suas práticas (e o que posso induzir de suas práticas a partir do que dizem). paramos de jogar. Tampouco a análise se focar no conteúdo e na prática discursiva através da internet implica que está fora de consideração a relação entre esses discursos e as práticas efetivamente conduzidas pelos psiconautas em sua corporalidade. arrumadinhos um ao lado do outro. Dois dos 18 tópicos possuíam temas e estruturas de discussão idiossincráticas: “Encontro dos Psiconautas”. e “Vídeos”. de uma construção analítica que objetiva facilitar a compreensão do que são as práticas dos “nativos” desta rede. quando um membro postou a seguinte mensagem. outros num tema de discussão sem conexão direta com psicoativos (“LHC. jogou um caminhão de esterco dichavado por cima da grama. tava o super cubensis? . Uma premissa tácita que opera subjacente na comunicação amistosa do fórum é a de que todos os relatos são relatos reais e de que as posições pessoais ali evidenciadas correspondem verdadeiramente às posições pessoais dos redatores dos textos. e pronto. mas a chuva foi bem rápida e na sequência saiu um solzão. e a maioria era cubensis. “DMT”). foram os maiores cubensis que eu já vi na vida. "os maiores cubensis q tu ja viu" na mesma tarde.. Por exemplo. portanto. uma chuva depois o sol. novembro de 2008] Foi seguido pela seguinte resposta. Embora nunca tenhamos como saber. um campo de futebol com milhares de cogumelos. com certeza.

outubro de 2007] Utilizando-se da boa-fé das pessoas... novembro de 2008] 2. os chacras se abrem e a mágica acontece.2 Auto-percepção dos psiconautas Tendo estas considerações em vista. abril de 2008] Portanto. visto pelos membros como dogmático). que nem todos os discursos auto-perceptivos contenham esta categoria. como é sabido de todos.. porém. indiferente do propósito a ligação com a natureza e o desligamento do materialismo acontece.. portanto. é basicamente o caminho trilhado por Sidarta Gautama (o Buda) e pelo Jesus Cristo. entendidos na comunidade como usuários de psicoativos compulsivos e desprovidos de uma perspectiva espiritual e sócio-histórica sobre suas práticas. Não é surpresa.. a verdade liberta. isto ocorre em muitos templos que dizem pregar a "verdade". .75 nem miojo é tão instantâneo. não me indentifico com nenhuma doutrina. por isso a psicodelia não tem limites. os membros tendem a frisar a distinção entre as suas práticas e as dos usuários de psicoativos em contexto estritamente inserido numa religião organizada: cabe lembrar que eu não sou de nenhuma igreja.. [postado por Nunzio. [postado por Sezaru. No entendimento de alguns membros “psiconauta” é um termo suficientemente amplo para abarcar diversas modalidades de técnicas de modificação da própria consciência: [... Embora seja da opinião geral no fórum que o uso de psicoativos pode ser benéfico quando feito de forma criteriosa. há um esforço de delimitação do que é uma prática psiconáutica. [postado por Diogo. sem "dogmas". quanto o padrinho [de religiões ayahuasqueiras] e o junkie são psiconautas. temos que sentir sem induções. a "verdade" pregada por eles aprisiona. se busca não é espiritual ela é científica. ambos utilizados aqui apenas como alegoria. partamos para a pergunta: O que escrevem os membros do fórum sobre si mesmos? Como apresentei na introdução.. pois tbm às considero mto fechadas.. e neste caso. o texto de descrição do fórum não o dedica exclusivamente a psiconautas.] tanto o xamã. [postado por Gambá. pois o caminho da verdade só pode ser seguido pela experimentação... outubro de 2007] Esta mensagem surge no contexto de uma discussão a respeito do uso recreativo de psicoativos – onde os membros se vêem no risco de serem confundidos com meros junkies. situando-se em meio a dois extremos (o uso visto como desregulado e irresponsável do junkie e o uso das religiões.

um membro conhecido da comunidade propôs a construção de um símbolo para que os usuários de enteógenos colocassem em seus perfis em vias de reconhecer-se mutuamente no Orkut.. novembro de 2009] Para os membros que questionaram os propósitos do símbolo. mais que perfeito. [.. nossa autenticidade como indivíduos. e não reconhece o estereótipo pejorativo que existe CONTRA essa(s) forma(s) de ser. Grifos meus] . suas reuniões e tudo mais. se é bom pra você. outubro de 2007] Em um tópico de novembro de 2009.. operacionalizando uma distinção “nós” versus “eles”. pelos temas (acho que alex grey é em boa parte responsável por isso. e queremos te mostrar é porque certos "limites". há algo de bem comum nas fotos dos perfis dos que tão aqui. algo que foi espontâneo e não planejado. com dois resultados percebidos pelos críticos como sendo nefastos: primeiramente. cada uns com seus propósitos na enteogenia . ele funcionaria como um “rótulo”. somos organismos diferentes e temos modos de pensar diferentes. achamos que limita um pouco as coisas e preferimos nossas próprias pernas! [postado por Felipe. afinal. qual seria o objetivo de usar um símbolo. novembro de 2009] Cada vez que nos identificamos com um grupo de pessoas. onde se exclui “eles” em detrimento de “nós”. um nome. isso também cria uma identidade que se afirma... tabus. paradigmas. seja por idéias ou atitudes.] tudo bem você considerar esses paradigmas. Mas pra nós.76 Outras auto-percepções apontam como características definidoras do psiconauta o pensamento independente. Alguns membros favoráveis à idéia do símbolo contra-argumentaram que se repararem bem. [postado por Rafael. outubro de 2007] Mais o que não entendemos. [postado por Thiago Kimerling. [postado por Lars. senão a vontade de ser identificado pelos outros como membro de uma turma? [postado por Rafael. são levados em conta. e assim dificultando aquilo que há de mais importante no uso de enteógenos que é o auto-conhecimento. sobre seu centro xamânico. uma vez que estes existirem acho uma besteira sem tamanho. novembro de 2009. de qualquer forma. a exploração individual dos mistérios do mundo e a convivência na diversidade de pensamentos e práticas daí resultante: Se for pra me auto-aplicar um rótulo. por um plágio. não devemos ser taxados como nenhum grupo. se nomeia. dogmas. eu acho que estou muito mais pra "místico" ou "explorador" do que pra cientista. Seguiu-se uma discussão onde foi contestado o propósito de tal símbolo: eu também não acho necessário nenhum símbolo. Afinal. “taxação” ou “estereótipo”. em segundo. adotando um símbolo. construindo a percepção de uma homogeneidade dos praticantes da enteogenia. estamos trocando nossa originalidade. heheheh).

. nem decidir se tais conseqüências nefastas da construção do símbolo de fato ocorreriam. os que vêm em defesa do símbolo apontam o aspecto emergente ou imanente da composição de um coletivo. que é o ser humano. ver Haraway (1995). na minha humilde opinião seria apenas uma forma de se expressar. Minha intenção não é selecionar uma das duas posições a respeito do símbolo como “representativa” do fórum. como considerar simultaneamente a originalidade . humanos) desde nossa gênese. e de identificar outros pessoas que entendem do assunto. pois nos discursos auto-perceptivos dos membros do fórum há constante referência a questões de dimensão coletiva... somos membros de grupos (no caso. neste caso. o resto são sub grupos. e esta gênese só se processa através do funcionamento destes grupos e de nossa participação neles. Interessa-nos o que está em jogo neste debate. A observação simultânea tanto da originalidade pessoal quanto das similaridades coletivas é de suma importância. assim como possibilita as diferenças. Só existe um grupo. Desta percepção decorre que a convivência em um mesmo grupo parte de e induz a construção de similaridades. a singularidade – valorizada pelos membros do fórum. seja em se Sobre uma análise do “situado” e o “universal” como programas distintos de constituição de saberes. 29 . o símbolo não iria indicar que somos iguais. ou que pensamos iguais. como você ver.77 A idéia é legal sim. temos duas conceituações de sociabilidades distintas mobilizadas. com a constatação de que inúmeros padrões de similaridade se constroem em sua interação sem que isto seja visto como um problema. um sinal expressivo emergindo de um grupo pré-existente. que têm outros sub grupos.. Interessa-nos também entender qual a diferença entre a identidade transcendente produtora de hegemonia (rejeitada pelos membros) e as similaridades constitutivas da (e constituídas na) participação no fórum. É através das diferenças e semelhanças que evoluímos. novembro de 2009] Nesta discussão.. um instrumento para seu reconhecimento enquanto tal. ou seja. não-situada29) na comunicação sobre a qual se distribuem as pessoas nas categorias opostas e mutuamente excludentes de “nós” OU “eles” a partir de uma série de critérios absolutos (Ele age como nós? Ele pensa como nós? Ele fala como nós?). ou seja. Os que se posicionam contra o símbolo reconhecem nele a instituição de algo externo e transcendente à interação situada e pessoal que se estabelece no fórum. que nos vestimos iguais. todos aqui pensam diferente. de modo que a adoção do símbolo resultaria no estabelecimento de uma referência universal (ou seja. utilizando o termo de Guattari (1986).. [postado por Edgar.. O símbolo seria.ou.

. etc. resumindo pra eles vc será taxado como um DROGADO.. novembro de 2009] Por outro lado. pedaços de plástico que custam uma fortuna.. então. "O dinheiro é a raiz de todo o mal. o contato com os enteógenos propicia uma libertação do percebido aprisionamento no qual a maior parte das pessoas viveria – deixando-lhes a responsabilidade de agir segundo o conhecimento revelado nesta “libertação”.. Enfrentam a dificuldade de lidar com a enormidade do mundo. e a historia da Barbie (aquela puta! rsrs) que a maldita marca impõe até um padrão de beleza pra criança ja crescer se espelhando nela.. . E a maldita ostentação e status que o Marketing e a Televisão impõe. Porra isso é felicidade? somos felizes em alimentar multinacionais que patrocinam a desigualdade social??? [postado por Nunzio.. [postado por Felipe. A maioria dos freqüentadores tem uma posição bastante crítica em relação às instituições da sociedade técnica – Estado. Como já diziam os Monkees. mídia.. a resistência das estruturas de poder e a pequenez das ações de indivíduos isolados (sendo recorrente. e todos nós sabemos o peso dessa palavra justamente por estudarmos a fundo os enteógenos e sabemos bem que não é assim... novembro de 2007] fora que pros caretas vc já fica taxado de usuário de alterador da consciência. seja de sua relação com coletivos mais amplos.. como um carro.. Carregam. daquela época pra cá.. agosto de 2008] No entendimento dos psiconautas. e hj vemos meninas de 10 anos anoréxicas com a auto estima la em baixo. os psiconautas frequentemente se percebem numa situação marginal em relação à sociedade em que vivem: somos todos foras da lei.. mercado. Muitos membros . [postado por Nunzio. o fracasso das propostas radicais de modificação empreendidas pela contracultura no passado. entretanto. um barco. Como colocam os membros. E a coisa só foi piorando. E as crianças então o q sofrem com tanta propaganda. por exemplo para ter sucesso com mulheres tenho que usar tal roupa.. tenho q ter tal carro. agosto de 2008] Não é muita filhadaputag** eles nos imporem que pra sermos felizes temos que ter tal coisa..78 tratando de características do coletivo psiconáutico. [postado por Laila. a visão de que se deve trabalhar para modificar o seu entorno – não o mundo inteiro de uma só vez). um perfume. uma roupa.em uma intensa ressonância com a crítica à tecnocracia levantada pelo movimento psicodélico precedente. são alimentos industrializados que matam de câncer." E eles diziam em 1966. Por exemplo. brinquedos fúteis. os membros sentem que precisam (e podem) contribuir de alguma forma com a sociedade que os rodeia..

educar nossas crianças para ter compaixão? empatia? consciência ecológica. fazendo coisas.. A própria existência de um debate prolífico sobre este tema aponta que não há consenso sobre o que deve ser mudado e como deve ser feito. agosto de 2008].. e não simplesmente dando enteógenos pra eles ficarem pensando e pensando e depois virar de lado e dormir de novo para acordar no outro dia com o mesmo problema martelando.79 propõem uma conduta similar ao drop-out promovido por Thimoty Leary cinquenta anos no passado: o que eu penso em relação à atitudes do cotidiano é que devemos nos esforçar pra depender cada vez menos desse sistema vicioso que rege a nossa sociedade. A opção por uma dieta vegetariana.. Muitos dos membros colocam que assim como os enteógenos tem o potencial para “abrir a mente” das pessoas.. outubro de 2008] Também é similar à contracultura das décadas de 1960 e 1970 a proposta da modificação da sociedade global através de uma “mudança de consciência”. agosto de 2008] Os membros não acreditam que o contato com a experiência psicodélica por si só é suficiente para promover uma mudança no mundo. etc e tal. vejo que 90% das pessoas que se aprofunda nos enteógenos. Para tal os freqüentadores do fórum apontam constantemente a necessidade de promover a educação. eles “Boa. [postado por Thomas. [postado por Diogo. é o quanto estamos ajudando a "mudar o mundo". na meditação. ao fomentar debates e estimular uma re-conexão com a “natureza”. religiosa e política”30.. por exemplo.. embora haja concordância de que nosso sistema de produção de alimentos é agressivo à ecosfera. mas vamos mudar as pessoas. no yoga. outro considera que basta ter moderação no consumo para mitigar os problemas. Consideram também que a própria existência da comunidade “Enteógenos sem Dogmas” promove a conscientização. Não simplesmente ampliando os investimentos. é um tema polêmico... Um membro critica a postura de muitos psiconautas a respeito de mudar o mundo: vamos tentar mudar as pessoas. acaba querendo definitivamente ir para o mato morar. alguns usuários pensam que simplesmente parar de comer carne não seria o suficiente para causar alguma mudança. agosto de 2008] 30 .. chega a ser indiscutível.. no vegetarianismo. O quanto pudermos nos desvencilhar disso. mas sim promovendo uma efetiva reformulação do sistema – visando transmitir às crianças “consciência ecológica. [postado por Rafael. religiosa e política? hehehehe isso ia ser show!” [postado por Nunzio. ao disponibilizar informações que permitam maior segurança e clareza a usuários de psicoativos. nem tem como enumerar os benefícios.

a percebida libertação produzida pelos enteógenos no psiconautas não se atribui a uma agência intrínseca à substância. mas tem uns chá-mans [ayahuasqueiros] aqui no Brasil q por incrível q pareça tão se dando muito bem com isso!! [postado por Rafael. está entrando pelos corredores obscuros do seu cérebro..... onde vai mexer justamente com o que carrega a sua essência. desprovido de seu valor espiritual e psicológico). [..80 podem ter seu uso banalizado (ou seja.. sem dúvidas. é freqüente que os membros do fórum manifestam também a percepção de que a experiência enteogênica – mesmo num contexto destituído de qualquer intenção sacramental – tende a guiar o usuário num sentido último da libertação mental do usuário. e sim aos contextos materiais e simbólicos que informam a experiência... (LEARY. assim como algumas igrejas cristãs fazem com cristo. e eu confio nelas :-) [postado por Rafael. ou até mesmo serem usados como ferramenta de lavagem cerebral. percepção esta bastante similar à de Timothy Leary. membros alienados brigando em diversas comunidades... sobre lavagem cerebral com enteógenos... preparation.a CIA pode não ter conseguido. que levantou a hipótese de que the drugs had no specific effect on consciousness but that expectation. [postado por Nunzio.. acusações e calúnias no mundo ayahuasqueiro que acaba demonstrando o contrário que a planta promove nos sentimentos das pessoas.. eu sempre achei q seria uma coisa impossível de se fazer.. abril de 2008] Neste sentido. o seu modo de viver..] O resto é com as próprias plantas. 1966) De forma paradoxal..mas essa opinião tá mudando cada vez mais. outubro de 2007] Claro que com enteógenos também é possível fazer lavagem cerebral. Acho que não importa se as pessoas usam enteógenos da mesma forma q se bebe uma cerveja. ou a tendência vai ser o surgimento de novas igrejas que vão se aproveitar dessa novidade e vão banalizar as plantas assim como banalizaram cristo?? Já vemos grupos por aí praticando lavagens cerebrais. abril de 2008] Agora. pois tudo o que você está ouvindo e sentindo naquele momento está entrando por um canal muito mais profundo que a sua sã consciência. outubro de 2007] ... entende? [postado por Diogo. Voces acham que a tendência é as pessoas buscarem espiritualidade em suas próprias casas e em grupos. emotional climate and the contract with the drug-giver accounted for all differences in reaction. e pregam totalmente o contrário que o coitado do homem promovia. pq os próprios enteógenos "mostram" o que tiver que ser visto..

.] respeito com os enteógenos acima de tudo.. pureza e amor espiritual que é se entreter. para além das intenções do uso. simplesmente. é fundamental. o que está em questão são as fronteiras com o junkie e com o religioso. Por vezes aqui irei também adotar esta nomenclatura nativa. são seres muito sábios e muito poderosos. O que alguns membros argúem é que a recreação também pode ser uma atividade espiritual: O que nesse universo não é um milagre? O que não é uma maravilhosa obra divina. qual a diferença entre um uso recreativo empreendido por um membro do fórum com o uso recreativo de um junkie? Na perspectiva de muitos membros do fórum. perfeita. sempre que toco nessa ferida logo meia dúzia já chiam. mas muito mesmo sobre qualquer coisa que eu esteja querendo experimentar. nesse caso. da mãe natureza. Nem todo material considerado enteógeno está em plantas (como os cogumelos Psilocybe Cubensis. [postado por Felipe. sem também implicar que os enteógenos são plantas num sentido biológico do termo. recorrentes. em outras palavras: enterre as plantas que tem [postado por ?Glandula Pineal. ou mesmo um sintético como o LSD). Eu sempre acho que o conhecimento. Não tem problema nenhum em ser recreativo não cara. há certas práticas e posicionamentos que tornam possível uma recreação responsável ou consciente. seguidamente contestadas pelos membros.3 O que praticam os psiconautas? Recomendações rituais como esta . não os menospreze e NUNCA jogue algum deles no lixo os devolva de onde tirou. outubro de 2007] Se “não existe nada que não seja espiritual”.. evoluir é passar por tudo que esse plano divino te reservou. mas os membros freqüentemente se referem a todos indistintamente como plantas. Novamente. Setembro de 2008] 2. 31 . Estes membros consideram. simplesmente por existir? Uso espiritual é balela. há nesta postagem um posicionamento também presente entre vários dos membros do fórum: a abordagem das plantas como entidades autônomas e conscientes. mais é porque não conseguem interpretar a beleza. Por outro lado. Um membro do fórum ressalta a importância de uma pesquisa cuidadosa antecedendo o uso: Sobre ler.determinando como manusear e despachar plantas enteógenas .não são. abril de 2008] Um outro membro propõe que. eu sempre leio muito. há uma atitude adequada ao se abordar uma planta31 enteógena: [. as quais os membros articulam em seu discurso: a espiritualidade das plantas e seu uso recreativo. [postado por Laila. uma materialização milagrosa de energia. não existe nada que não seja espiritual. de todo.. Pra evoluir espiritualmente basta viver.81 Esta discussão é permeada por duas categorias tipicamente opostas. para que nada de ruim aconteça.

32 . as plantas são entendidas como professoras desejosas de transmitir ensinamentos através da experiência advinda de seu consumo. por vezes. tudo isso diz respeito à produção de seres humanos conectados suficientemente com seus corpos e mentes. apenas para em seguida lhe transmitir os verdadeiros ensinamentos. No que consistem estes ensinamentos. por exemplo.. para poderem desenvolver o potencial humano a partir de uma relação harmônica com a natureza e o planeta. a obtenção dos ensinamentos demanda que sejam abordadas “respeitosamente” ou “conscientemente”. o ambiente adequado e um momento de Os fosfenos são imagens geométricas caleidoscópicas produzidas na visão humana em algumas condições – por exemplo. novembro de 2008] Qual o objetivo da enteogenia e da busca espiritual? Na minha opinião. destruir as crostas de sujeira do ego. Uma abordagem “desrespeitosa” das plantas (ou seja. viver a felicidade. os fosfenos32 observados durante a experiência psicodélica como “iscas” para atrair as pessoas em busca de shows de cores superficiais. uma abordagem que menospreze seu percebido poder e sabedoria) é tida como conduzindo a experiências ruins ou bad trips – cujo papel principal os membros entendem como didático.] acima de tudo.. Essa palavra é um pouco mal explicada. [postado por CLR. a existência de espíritos próprios a cada planta ou substância psicoativa. Nesta perspectiva. ou seja. ser puro amor.. arrebentar as correntes que nos prendem no circulo social comum.. a quantidade. pura consciência :) [postado por Thomas.. novembro de 2008] Minha busca é viver a felicidade. novembro de 2008] De todo modo. novembro de 2008] [. por outro. Resto é consequência! [postado por Luca. o que se busca aprender com a experiência psicodélica? Nas palavras dos próprios membros do fórum. de modo similar. uma intencionalidade benéfica inerente ao enteógeno. mas transcender é a idéia principal.82 portanto. quando pressionamos o globo ocular ou quando ingerimos psicodélicos. produzindo uma “viagem” adequada a seus percebidos fins didáticos. Defrontamo-nos então com um aparente paradoxo: por um lado as plantas detêm um ensinamento. Romper os limites mundanos. o termo espírito não é empregado. Um membro considera. Transcender.. os psiconautas se esforçam para controlar a viagem escolhendo minuciosamente a substância. porém percebe-se. Os enteógenos me proporcionam um estado em que eu consigo notar cada vez mais o que posso melhorar e ou fazer para melhorar a minha vida tão como as de quem eu amo e nem conheço. [postado por Rafael.

. [postado por ÄÎÞíËåÞÎ íË ÎãåÑ. coleta. agosto de 2008] Esta preocupação com o controle sobre a experiência se torna visível nas principais práticas exercidas no fórum: a circulação de técnicas (ou teks. principalmente. e iMAO é a sigla para inibidores de enzimas MAO. Locais próximos ou em meio à natureza são altamente valorizados. Na maior parte do tempo os participantes não se referem às técnicas por esta designação. Plantas contendo 33 . [postado por Laila. estar preparado intelectual e emocionalmente para receber o que a planta oferece. Que o 'set' e 'setting' importam muuuito. modo de preparação de alguma planta ou fungo para seu consumo. abril de 2008] Não existe uma concordância geral sobre o que constitui o melhor setting. Um membro enuncia o estado mental adequado para a utilização de enteógenos: [. Por isso que 90% das minhas experiências com psicodélicos aconteceram aqui dentro de casa. os aspectos enfatizados pelos psiconautas como sendo relevantes foram a intenção envolvida no uso. a escolha de um local é relativa ao efeito desejado: alguns membros relatam que viagens em ambientes fechados tendem a ser mais introspectivas. Um membro coloca: Eu sou da opinião. elas surgem como perguntas de como se executa algo. apenas entregue-se e deixe fluir. no fórum. termo por vezes utilizado na rede mais extensa de psiconautas da internet) e a discussão entre as experiências dos usuários de enteógenos. extração do princípio ativo de algum material de planta ou fungo.] jamais sinta medo do que os efeitos vão lhe mostrar. Alguns se sentem confortáveis em fazer suas viagens em casa. seus efeitos e as respectivas causas. A maioria recomenda que as viagens sejam feitas com privacidade. outros consideram isto absurdo e tem um forte apreço por espaços abertos..83 estado mental desejado (o set e o setting. Algumas vezes. Estas enzimas são responsáveis pela quebra no sistema digestivo de diversas substâncias psicodélicas (sendo a mais conhecida o DMT).. hipótese elaborada por Timothy Leary na década de 1960). seguidas por diversas respostas de modos alternativos de fazê-lo. seja em ambientes internos ou externos. Quanto ao set. assim como o ambiente noturno favorece a introspecção. o estado emocional no momento do uso e. uso combinado de diversas substâncias (sendo recorrentes as misturas envolvendo iMAO33). cultivo e identificação (sendo nessas categorias de técnicas os cogumelos portadores de psilocibina os principais enteógenos envolvidos).. Mas muito mesmo. não tente de jeito nenhum resistir ou lutar contra os efeitos.. As técnicas notadas envolviam: armazenamento de algum enteógeno..

contudo. mais ainda. a atividade criativa acima suposta ou é executada em outros nodos da rede (os quais abordaremos no próximo sub-capítulo) ou ocorre fora do ambiente virtual. Não nos assustemos. como ela. A mistura de outras plantas que contém DMT e iMAO compõe uma bebida comumente chamada na cena psiconáutica de “anahuasca”. que compõem a preparação conhecida por “ayahuasca”. como o erowid. A mais famosa combinação de plantas envolvendo iMAO é a da Chacrona (Psychotria viridis) com o Mariri (Banisteriopsis caapi). A situação de consumo e. houve também um momento onde um usuário requisitou técnicas para alterar a percepção e/ou a passagem de tempo. dado o nome e propósito da comunidade em questão). Estas técnicas provêm de origens variadas: algumas provêm de bancos de dados dedicados a prevenção de danos. neste fórum o foco das técnicas se mantém bastante centrado no consumo de enteógenos (o que não é. o “deixar rolar”. os participantes do fórum costumam apresentá-las seguidas de uma justificativa por sua preferência por esta ou aquela ou com relatos curtos de suas experiências com cada técnica. a não-resistência. assim. .] Mas isso que é minuciosamente produzido também ultrapassa todas as previsões e resulta em inibidores de enzimas são tomadas em conjunto com as substâncias psiquedélicas para torná-las ativas por via oral ou amplificar seu efeito. sem incutir na pergunta que desejava psicoativos para atingir este fim.84 finalmente a dosagem de alguma substância psicoativa ou plantas e fungos que a contém.org. Embora na definição que adotamos provisoriamente . Como coloca Vargas (2006). As técnicas raramente são apresentadas contendo alguma referência de sua proveniência.. com o aparente paradoxo da mobilização ativa de uma miríade de técnicas em vias de produzir uma experiência cujo programa enfoca a entrega. tem de ser. algumas são visivelmente (ou mesmo expressamente) desenvolvidas a partir de discursos científicos.do documentário Húngaro Psychonauts (2006) .. contudo. a do auto-abandono. Não observei os participantes do fórum se engajando explicitamente na construção de qualquer técnica na própria comunidade. minuciosamente produzida [. de se espantar. o uso da combinação de DMT e/ou iMAO isolados quimicamente (podendo envolver material vegetal como o outro elemento da combinação) compõe um preparado conhecido como “pharmahuasca”.uma amplitude potencial de técnicas de modificação e exploração da própria consciência seja considerada. mas dada a escassez de estudos (especialmente no tocante a substâncias tornadas ilegais) é de se supor que muitas delas advenham da experimentação semi-sistemática praticada por inúmeros usuários e psiconautas ao longo de anos. Como exceção. colocadas em comparação com resultados obtidos por outros experimentadores e sintetizadas em técnicas como as que circulam.

pois essa fuga é. pronto e acabado. de 'sair do normal' ou da 'realidade' cotidiana e de perceber as coisas e pessoas segundo outro registro de realidade. como que a secundá-las. os psiconautas participantes do fórum jamais perdem de vista os efeitos experienciais e qualitativos de tal ou qual montagem. conexões. o agenciamento visado. lugares e técnicas na formação de um evento que não concerne. substâncias. ao invés de nos perguntar “quem é o senhor da ação?”. ou colocando nos termos populares. a alternativa de modificar nossas questões. em maior ou menor medida. esforçando-se para determinar [. sujeitos plenos e zumbis amaldiçoados. por quais causas. como se passa. O ponto é que.85 eventos surpreendentes. de um agenciamento que implica um 'sair de si'. ela mesma. segundo um registro propriamente intensivo de realidade. um auto-abandono – ou. fluxos e resistências. por exemplo.] "entidades primeiras". o que se passa quando se articulam certas pessoas. ao qual acrescentamos. (VARGAS. de relações "segundas".. 2006) Resta-nos. categorizações como a diferenciação entre plantas fáceis e plantas difíceis que emergem constantemente nas discussões do fórum. autônomos e autômatos. ao 'sair de si'. nem a sujeitos.. enquanto põem em circulação. na onda. Com efeito. . montam e modificam esta miríade de técnicas. em que condições. um repertório não menos limitado. primariamente. 2006) A situação se coloca como um problema apenas na medida em que nos atemos a determinados modelos de agência ou ação. podemos nos perguntar o que acontece. como argui Vargas (2006). precisamente. como dizem os usuários. trata-se de 'ficar doidão'. nem a objetos. com quais resultados. Apenas tendo em vista este empreendimento ativo de experimentação podemos entender como se produzem. ao mesmo tempo em que retiramos desse duplo movimento o corolário/ladainha de senhores e servos. mas sim a intensidades. É de opinião geral na comunidade que um psiconauta inexperiente deve começar sua prática com algumas plantas que são consideradas “fáceis” e evitar as “difíceis” até que adquira certa bagagem de experiência. (VARGAS. pois se trata. a situação necessariamente foge ao controle.

Embora os usuários tenham algumas vezes relatado consumo de álcool. Nas palavras de um membro. estas definições são eventualmente contestadas. intoxicante. Também conhecidas como “lírio”.. Pra mim. os preparados contendo DMT (principalmente ayahuasca) e por fim o próprio LSD são considerados adequados para os iniciantes. anfetamina. tem gente que já ficou louco por um tempo ou pra sempre.. Não a considero um psicodélico. Alguns psicoativos não são considerados enteógenos pelos usuários. ele aparenta ser totalmente destituído de perspectivas de autoconhecimento ou aprendizado. Mas ela não me foi reveladora. o máximo de aprendizado que pude ter com ela foi ganhar mais alguma intimidade com a morte e com a loucura. de possibilidade de dependência química ou de dano orgânico pareça ser um critério na definição de quais plantas são fáceis e quais são difíceis.. Minha observação leva a crer que por via de regra apenas psicodélicos são aceitos nesta categoria. se ela tiver com uma concentração alta de alcalóides na época que vc colher pode ser que vc tenha uma trip monstra.. setembro de 2008] Embora a ausência de efeitos colaterais significativos. anti-colinérgicos de ação alucinógena e delirante. :) [postado por Jadiel. Das plantas consideradas ‘difíceis’. Contudo.] tomar trombeta é um tiro no escuro. é tida como sendo muito forte (pela sua alta concentração do princípio ativo) e causa de enjôos muito intensos. o principal elemento a ser levado em conta é o caráter “amigável” ou mesmo didático da experiência derivada do consumo destas plantas. contém escopolamina e atropina. [postado por Nunzio. um membro Nome popular dado à Brugmansia suaveolens e duas espécies de Datura. O consumo desta planta é tido pela maioria como perigoso. álcool e opiáceas). em outra discussão. 34 . teve gente que já ficou com a visão borrada pra sempre. de onde se seguiu uma discussão acalorada onde a maioria dos membros se posicionou contrariamente. para muitos indesejável.. [. A Argyréia nervosa (que contém um psicodélico quimicamente similar ao LSD chamado LSA).. além da trombeta é listada a jurema preta (Mimosa hostilis) – que embora tenha sua psicoatividade também atribuída ao DMT. mas um alucinógeno potente e com alto grau de intoxicação. em uma discussão um membro propôs que a benzidamina (vendida como fármaco no Brasil sob a alcunha de Benflogin®) era um enteógeno. o cogumelo Psilocybe cubensis.86 Tomemos como exemplo a trombeta34. estando excluídos estimulantes e depressores em geral (como cocaína. agosto de 2008] Um participante descreve a sua relação com a trombeta nos seguintes termos: Eu respeito a trombeta. outros cegos.

.. o LSD é um perfeito exemplo de façanha bem-sucedida nesse sentido. [postado por Rafael. por ser uma substância sintética. nessa nova Era que estamos entrando.. E na minha opinião. setembro de 2009] Pensando mais um pouco aqui.. já tive experiências com vários substâncias psicodélicas sintetizadas ou não... onde alguns consideram que apenas os “naturais” podem ser considerados enteógenos legítimos. outubro de 2009] Nas discussões que se seguem. o vejo como uma resposta adequada e inevitável à situação do tempo em que surgiu.. setembro de 2009] . Não o vejo como artificial. além de proporcionar ensinamentos profundos elas curam o nosso corpo físico através da limpeza do organismo. quantidades e o estado de humor e intenção do usuário. a questão da classificação das substâncias gira em torno mais do potencial enteogênico de uma substância.. acredito que.87 sustentou que o LSD não é um enteógeno. As plantas sempre são mais seguras em seu contato com nossa consciência. e é um Enteógeno fantástico. [postado por SOM. desenvolver e potencializar seu potencial criativo inato. e posso dizer que o LSD é uma ferramenta tão importante e eficaz quanto qualquer outra planta ou fungo Enteógeno! [postado por Pedro Bonna. Como colocado por um membro. a maioria dos freqüentadores considera que a enteogenia constrói-se através da relação entre o usuário e a planta. é alguma coisa que simplesmente usou a capacidade inventiva do ser humano para entrar em cena. ilegal e depender de contato com o crime organizado para sua aquisição..mas enfim.. o potencial de um uso para o que estes psiconautas entendem como autoconhecimento ou aprendizado. O primeiro eixo atravessa a divisa entre “psicoativos sintéticos” e “psicoativos naturais”.. é importante aprender a ver nós mesmos como partes legítimas e integrantes da natureza. Albert Hofmann foi apenas um mediador de algo que veio de muito além do mundo humano. As discussões a respeito de que substâncias possuem ou não potencial enteogênico se orientam frequentemente segundo quatro eixos. O LSD não é uma invenção humana.. nesse fator o LSD é deficiente e por isso mesmo algo estagnado que será abandonado de vez por futuros psiconautas. ou seja. acho que já falei isso aqui antes hehe ....LSD faz parte da natureza (pra mim tudo desse mundo é natural). É importante notar que dada a importância atribuída pelos membros ao set e ao setting. capazes de modelar..remontando o mito do pecado original .esse lance de ver tudo que passa pela mão do homem como pecaminoso e degradante é herança de um paradigma bem velho e retrógrado hein .. Acho que vc está impregnado com ideologias tolas. os membros que discordam operam desconstruções do que se entende por natural e sintético: Concordo com o que disse o Rafael. entrando em consideração ambientes.

[postado por Thomas. nem que você reze ou medite por dias observando a pílula de benflogin ele será melhor que o LSD.. dezembro de 2007] Benflogim é veneno.. angustia... um membro relata que o Benflogin é tão poderoso. esta é a verdadeiramente perigosa.. um jovem índio deve agir como tal. Por exemplo. com uma musica de fundo no cérebro. a presença de ressaca. medo.... pode matar.. Como alguns membros argúem. O problema que surge na discussão é a variedade de efeitos registrados e a impossibilidade de estabelecer uma observação objetiva sobre estes efeitos subjetivos.. Paranóia a noite inteira.. Em uma discussão. potencial de auto-descoberta... provoca um número exorbitante de mortes e não traz absolutamente nada de revelador. o quarto eixo que estrutura esta discussão é o histórico de uso tradicional/indígena.. [postado por Nunzio. e NÃO existe insight com benflogin. a indução de consumo e o estrago físico causado pelo álcool.. Visto a tolerância social. e um sonho psycodélico também. mas sabe porque??? Porque os índios são muito mais rigorosos.. dezembro de 2008] O terceiro eixo gira em torno dos efeitos físicos indesejáveis de uma substância. vejamos só!!! A cultura indígena não se compara com igreja alguma.. novembro de 2008] No que outro membro coloca: As primeiras horas podem até ser boa. que um psicoativo não se enquadra como enteógeno. Pode revelar quase tudo na sua vida. [postado por Anru. abrir mil portas... dezembro de 2009] Por fim... O álcool deturpa valores. dois membros entraram em conflito legitimando argumentos opostos (acerca da necessidade de doutrinas e dogmas na utilização de enteógenos) através de suas percepções de sociedades indígenas: Agora . pois a comparação (e oposição) de nossa sociedade com culturas indígenas ou a referência a suas práticas é recorrente no fórum. luzes.. [postado por Felipe. o alto grau de dependência.. ..88 O segundo eixo através do qual se processa a discussão é a avaliação dos efeitos qualitativos das substâncias na consciência humana – avaliando o que os membros entendem como potencial de “transcendência”. diversão.. para os membros. mas o resto todos que tomaram ja sabem. potencial de quimiodependência. peso no estômago vontade de que tudo acabe logo. eu considero benflogin um dos melhores enteógenos da minha vida. caso contrário ele sofre sérias consequências... pra eles as leis são para ser cumpridas ou você é morto ou expulso da tribo. que vc pode se distrair do próprio pensamento e pensar 5 coisas ao MESMO TEMPO... Um pouco mais deve ser dito disto. energia. mesmo os impuros. revelação e integração mística com o mundo exterior. distorções alguns sustos. não transcende. e toxicidade a curto ou longo prazo podem indicar.

que é normalmente. mais uma razão para se referirem às sociedades indígenas ou tradicionais em vias de importar práticas e conceitos a respeito do .] [postado por Felipe. naturalmente encaminhado à devida posição de cacique.. Esta afinidade dos membros da comunidade com sociedades indígenas não é. inédita – sendo recorrente na contracultura das décadas de 1960 e 1970. Faço projetos de antropologia sobre povos indígenas. sendo valorizadas por sua percebida conexão e proximidade com a “natureza”. outubro de 2008] Certamente. antes de qualquer coisa. contudo. De forma similar à da contracultura precedente. não se deve ingerir ayahuasca quando a pessoa não teve a alimentação correta. e por aí vai!! ele tem a palavra final. já tive contato com muitos. Assim como o Pajé. Aquele que nasce. curandeiro. é o Xamã. você realmente tem que estudar um pouco mais sobre a cultura indígena.. pagé. vomitar as tripas e ter uma peia terrível. os papéis de cada um na tribo são determinados segundo sua própria vontade.. viagens espirituais e curas. Neste sentido. Todas as regras na cultura indígena são extremamente práticas: Por exemplo. e nunca vi nada disso que você citou. outubro de 2008] Cara. com o dom de oração.89 Na tribo tem um Chefe. [. aquele que se interessa por plantas. As sociedades indígenas. também. A sociedade indígena é totalmente anárquica. com um forte espírito de liderança. por simplesmente. pois este. O guerreiro da tribo.. em seu estatuto de “outro”. é normalmente o indivíduo com mais sangue frio e com melhores aptidões físicas. é. muitas vezes não fazem julgamentos de valor como aqueles aos quais os psiconautas se vêem submetidos quando são tidos por drogados ou viciados. É uma posição que exige muita responsabilidade. as práticas e conceitos provenientes de sociedades indígenas constituem uma alternativa às práticas e conceitos da sociedade técnica. é suficiente que mantenhamos em mente que estes membros articulam estes “índios” em seus discursos como uma orientação ou referência em vias de considerar as práticas dos psiconautas modernos e da sociedade técnica em geral. em que. [postado por Diogo. desde os beats até os relatos “antropológicos” de Castañeda – o que me leva a supor que esta referência aos índios constituiria outro legado da contracultura aos psiconautas. Os membros oferecem. não cabe a nós neste texto decidir qual dos retratos de sociedades indígenas é o mais adequado aos dados etnográficos de que dispomos. deve prezar pelo bem estar e felicidade da tribo. elas operam como referências a serem buscadas em via de orientação a respeito do que constitui um viver “harmônico”. os psiconautas recorrem a elas como quem recorre a tradições milenares que podem oferecer legitimidade a suas práticas contemporâneas. eles saberem que ele vai ficar mal.

como coloquei antes. neste tópico. um dos tópicos dos 18 analisados em profundidade é um tópico onde os usuários compartilham links para vídeos uns com os outros. além dos dados médicos que até então só confirmam a inofensividade dessas coisas.youtube. falência nos órgãos. as substâncias que possuem uso tradicional são consideradas como tendo sido testadas por milênios em seres humanos. O foco da discussão. se mantém . Algumas postagens deste tópico contêm comentários sobre vídeos postados anteriormente.4 O que ocorre no fórum? Nem toda comunicação no fórum é literalmente uma discussão sobre um tema. [Rafael. Terrence McKenna. não vai ter tumores. contudo. embora esta sugestão tenha ficado sem resposta). discos voadores) e palestras de figuras eminentes (como Thimoty Leary e Terrence McKenna) e/ou sobre temas de interesse como os mencionados. mas em geral conduzem a vídeos no site Youtube (www. Dissentem também sobre o grau de formalidade do encontro – embora todos aparentem concordar que o encontro seria um local de troca de conhecimento (um membro propõe a discussão de textos de autores clássicos como Aldous Huxley. crenças religiosas. Outro dos 18 tópicos de mais de 50 posts que cabe destacar foi um nomeado “Encontro dos Psiconautas”. na percepção dos membros da comunidade. etc. Timothy Leary e Albert Hofmann. sem sucesso até a data da cópia do tópico para meu computador. novembro de 2008] 2. Em relação ao enteógeno. que seu consumo tende a ser seguro. Os links ali apresentados variam em tal amplitude que é difícil sintetizá-los.90 consumo de enteógenos. Simplesmente pq.com) contendo músicas (incluindo aí desde Raul Seixas até diversos estilos de música eletrônica). mas não atingem consenso. neurologia. que seja causado por este consumo. oferecem uma quantidade grande de datas e locais possíveis. só pra citar alguns exemplos. documentários informativos sobre temas variados (exemplos: psicoativos. Como colocado por um membro. posso te garantir que um ser humano que usa regularmente cogumelos ou ayahuasca. Inúmeros complicadores dificultaram a realização deste encontro. os psiconautas moram em diferentes regiões do Brasil e tem diferentes poderes aquisitivos para financiar uma viagem. temos uma grande amostragem de exposição humana pra basear a idéia de que é seguro. os membros da comunidade tentam articular um encontro presencial entre si. o que indica. também temos informações sobre tradições milenares de populações inteiras que utilizam essas coisas há gerações. e mesmo algumas curtas discussões.

conforme as várias posições dos participantes são expostas em postagens e divergências ou convergências de opiniões vão se definindo.. graças à comunicação pelo fórum). Um participante define o que considera uma postura dogmática em sua repreensão às postagens de outro participante: só pra finalizar.91 sobre quais seriam os enteógenos consumidos e como estes seriam levantados. Nem toda comunicação.quanto ao que disse pra mim. afetivo ou. os membros que porventura vão aos festivais costumam discutir a possibilidade de se encontrarem presencialmente. em todos os tópicos ocorrem. em grau variado. veja q está caracterizado nas suas palavras o dogma. Os participantes tendem a manter uma discussão polida. e que. é argumentativa. quanto aqueles que adotam uma postura percebida como dogmática ou autoritária. a requisição de uma técnica como as anteriormente descritas aqui. Os tópicos usuais do fórum costumam iniciar com a apresentação de um assunto (que pode ser uma notícia jornalística. A discussão então emerge casualmente. um relato de experiência com uma substância. baseado em minha vivência em fóruns de discussão diversos ou mesmo em comunidades do Orkut de propostas similares a esta. ou mesmo simplesmente a declaração daquele espaço (o tópico) como sendo destinado à discussão de um enteógeno ou de uma combinação deles). o que acontece algumas vezes). até eventualmente sair de foco e nada ter sido decidido. ponto inquestionável de uma crença ou . a discussão perdeu seu momentum. Os participantes repreendem uns aos outros quando crêem que alguém está se comportando de forma avessa à sociabilidade no fórum. Buscando a privacidade para assegurar que este encontro transcorra sem problemas legais e sem intrusões não-autorizadas os psiconautas se propuseram a continuar esta discussão em outro fórum.. tanto aqueles que adotam um tom ofensivo ou até agressivo na perspectiva dos outros participantes.. Contudo. ou seja. postagens ou trechos de postagens de caráter cômico. eventualmente afetuosa – o que aparenta ser bastante idiossincrático. Eventualmente. a discussão “morre” – os membros simplesmente deixam de postar e o tópico vai gradualmente sendo esquecido (embora uma discussão possa ser revivida por um membro postando naquele tópico posteriormente. entretanto. depreciativo. raramente. inclusive. na iminência de festivais conhecidos de músicas do interesse dos membros (especificamente rock psicodélico e música eletrônica). Considero relevante observar que alguns psiconautas se conhecem presencialmente (aparentemente.

o site do NEIP e a “Associação Pró-fungos”. Associação Pró-Fungos (http://www. sinto muito. e isso vc agora percebeu pois se abstém do diálogo pra ficar com a crença inquestionável. dados 35 Os links para a raiz (home) destes sites: Cogumelos Mágicos (http://www. então no seu juízo moral certamente me falta consciência e bom senso. guarde-as em foro íntimo. um fórum fechado à visualização por visitantes não-registrados. Três destes links levavam a fóruns de discussão (“Growroom”.92 ideologia.cogumelosmagicos. “Cogumelos Mágicos” e “Plantas Enteógenas”).net). . por um membro incentivar a outro o consumo de quantidades grandes demais. assim como o site “Cogumelos Mágicos”.growroom.com. O Erowid é um site internacional de troca de informações sobre psicoativos que armazena relatos de experiências. onde são postadas notícias e comentários a respeito da política relacionada às drogas. se não quer ter suas "certezas" particulares ameaçadas. o “Growroom” também possui um blog para o qual se é redirecionado quando se acessa o link da raiz do site. também. dos links colocados pelos psiconautas em suas discussões nestes 18 tópicos. portanto. Em minha observação mantive registro.plantasenteógenas. Então. Plantas Enteógenas (www. a repreensão mais comum feita pelos membros do fórum diz respeito a usos de enteógenos que consideram irresponsáveis: em uma situação. ao contrário de vc que não está aberto a questionamentos e ainda se sente em condições de assumir a posição de juiz.erowid. O fórum “Cogumelos Mágicos” avisa expressamente na página de raiz que é de acesso privado.br) e Avisos Psicodélicos (http://avisospsicodelicos. por um participante apresentar pressa excessiva na busca por uma experiência. em outras.org/). links não relacionados à psiconáutica que apareceram apenas uma vez (como a referência de notícias publicadas). dando especial ênfase àqueles relacionados a práticas psiconáuticas. Os sete sites35 aos quais estes links se dirigem foram visitados – sendo que um deles já havia surgido em meio à busca preliminar no “Google”. Erowid (www.neip. agosto de 2008] Entretanto. O objetivo deste registro era visibilizar as conexões dos participantes da comunidade do Orkut com a rede psiconáutica mais extensa. mas ainda assim tenta sair pela tangente dizendo que concordar com vc é questão de bom senso e consciência. Eu não concordo. mas não vejo nada além de moralidade nisso.blogspot.info).org). Aí voltamos ao que eu havia lhe dito.org). se o que vc tem a me dizer é que vc está certo simplesmente pq "sabe" q ta certo. [postado por Rafael. por um membro planejar consumir quantidades muito grandes de um enteógeno.profungos. Growroom (http://www. mas consciência e bom senso é justamente o que eu estou buscando ao levantar essas questões. Os outros sites para os quais foram postados links eram o Erowid. em várias.com). O site “Plantas Enteógenas” possui. também não entraram em consideração os links apresentados no tópico descrito anteriormente sobre vídeos. NEIP (www. Foram ignorados.

Os esporos de fungos são trocados na forma de “carimbos”.e possivelmente em decorrência da proximidade de parentesco entre as cenas . A “Associação Pró-fungos” não se pretende conectada de forma alguma à práticas psiconáuticas. que abordamos neste trabalho sob a rubrica de “contracultura”. fluência-bloqueio.. comunicaçãorepressão. às demonstradas pelos psiconautas na “Enteógenos sem Dogmas”. restauraçãodevastação. integração-competição. Preocupações estas também centrais. puro-poluído. intuiçãorazão. [. abertura-racionalização. um núcleo de pesquisas brasileiro que reúne pesquisadores de diversas áreas das ciências humanas e adota uma postura abertamente anti-proibicionista. Em segundo lugar . mistériociência.] sobretudo. essência-máscara. Enfatizo aqui quatro aspectos distintos desta afinidade: Primeiramente. uma folha fina de alumínio ou outros materiais que recebe uma “impressão” de esporos presentes no píleo (chapéu) do fungo.. o trinômio corpo-espíritonatureza e as díades saúde-doença. afetividadeinteresse. em sua maioria. (SOARES. 1994: 192). 1994: 189). reconciliação-ruptura. equilíbriodesequilíbrio. 36 . comunidade-individualismo. Temos por fim o site “Avisos Psicodélicos” que é um blog que coleta e redistribui textos científicos tratando de psicoativos. 2. Grifos do autor). o misticismo ecológico e as práticas psiconáuticas possuem uma ascendência comum ao que Soares designa “cultura alternativa” (SOARES. respeito-violência. as discussões e percepções que fluem na “Enteógenos sem Dogmas” possuem vários campos de afinidade com o “misticismo ecológico” descrito por Soares (1994) em sua busca de entender o que percebe como uma “nova consciência religiosa” (SOARES. trabalha com a distribuição de esporos de fungos pelos correios visando a manutenção destas espécies no ecossistema36. unidade-fragmentação. harmoniadesarmonia.93 sobre as substâncias e fornece link para diversos outros sites e textos informativos a este respeito. O NEIP é sigla para “Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos”. na medida em que o misticismo ecológico focaliza.5 Análise De modo geral.há uma intensa confluência temática. 1994: 193.

] O que aparece sendo comum facilita a tal ponto o aparente entendimento mútuo. Isso significa.” (SOARES. através de uma “[. Finalmente. 1994: 202) O que diferencia a situação por nós encontrada na comunidade “Enteógenos sem Dogmas” da situação descrita por Soares é a presença no fórum de certos mecanismos de discordância tacitamente aceitos nas discussões empreendidas pelos psiconautas. negligência ética (de que a indústria é um dos setores mais acusados). uma vez que este relata a ausência de [. consumismo.. impunidade recorrente” (SOARES. ignoradas ou esquecidas. resumidamente. Contudo. harmoniosas.. disponível e continente. mas pura e simplesmente recalcados. (SOARES. do ponto de vista de suas aspirações ecumênicas. reportando-as a códigos ou sistemas de referência. violência. que as diferenças podem ser também facilmente negligenciadas ou. graças à aversão e supressão do conflito. pacíficas e fraternas: pode ver as idealizações da unidade se converterem em insulamentos dogmáticos incomunicáveis e se precipitarem na fragmentação mais intensamente temida. ecléticas. . 1994: 192).. tanto o misticismo ecológico quanto os psiconautas respondem à sociedade técnica através de uma “ênfase na docilidade amorosa e compreensiva: aberta aos motivos alheios. 1994: 202) Soares considera que. 1994: 203). (SOARES.94 Em terceiro lugar.. Com efeito.. enquanto vítima da agressão do ‘progresso’” (SOARES. [. sem discriminações e sem a violência do conceito. o seguinte: os contrastes não são dialogicamente elaborados. que subsume a pluralidade pela via da redução.] o universo religioso alternativo pode acabar se defrontando com um paradoxo até certo ponto dramático.] registro para a diferença e tampouco instrumentos aptos a tratar as distinções. 1994: 203). este programa se assemelha em linhas gerais ao que os psiconautas entendem como os ensinamentos advindos do consumo de enteógenos. encontramos uma orientação comum na oposição à sociedade técnica. existe um aspecto onde o ethos psiconáutico diverge do misticismo ecológico descrito por Soares. [... mais que isso. capaz de proporcionar a unidade através do abrigo generoso do múltiplo. As críticas orientam-se segundo linhas bastante similares: “competição predatória. sincréticas.] identificação com a natureza..

Quando operam com sucesso. podem ser submetidas a escrutínio em tentativa de obter uma resolução para o conflito ou.e sim na viabilização da discórdia em situações controladas. o que os membros buscam evitar é que se consolidem autoridades de designação do certo e errado através da referência a um plano transcendente. oferece outra instância de referência. estas referências não operam de forma absoluta. isolado da discussão e indiscutível. estes mecanismos de discordância permitem que as discussões transcorram sem que sejam capturadas pelos dois domínios opostos percebidos como indesejáveis: a recaída em estruturas de autoridade transcendentes. a experiência empírica direta. Estes mecanismos de discordância operam. identificar o elemento de discordância em um panorama mais amplo de concordância. para os membros da comunidade. primariamente. por este . isolado de qualquer contexto e incontestável.conquanto possam ter sua metodologia ou linha de raciocínio questionados e relativizados constituem uma referência determinante em diversas discussões. Em ambos os casos. por fim. Portanto. separação entre a crítica a uma série de idéias da crítica à pessoa. a questão não está centrada na manutenção de uma aparente concordância – e equação desta concordância com harmonia . as discordâncias são articuladas através da discussão da perspectiva de pensadores contraculturais amplamente respeitados. aceitação da potencial irredutibilidade de uma multiplicidade de perspectivas. constituindo o que nomeio como discordância harmônica. donde se aceita a primeira sorte de críticas. Trata-se de passar pelo meio. invocada toda vez que um membro considera que outro está buscando impor o seu ponto de vista sem recurso aos protocolos ou às fontes legítimas. ou seja.95 Com mecanismo de discordância quero dizer que. por fim. e a queda na incomensurabilidade e a conseqüente fragmentação dos corpos. Aldous Huxley e Terrence McKenna. A proposta de “sem Dogmas” possui seu funcionamento crítico precisamente nestes mecanismos de discordância. Os mecanismos discernem também certas instâncias de referência que são tidas como legítimas para a construção de um argumento: os dados científicos . quando não se consegue faze-lo. Albert Hofmann. através de certos protocolos: manutenção de um tom (e presumida intenção) cordial. e. em diversas situações. a demanda de que as críticas sejam elaboradas e expostas em um raciocínio. como Timothy Leary. quando contextualizada. a captura por um plano de estratificação. ou seja. mas repreende-se as segundas.

mas uma direção perpendicular. São abandonados por tempo indeterminado. sem referências a instâncias removidas. “Justamente porque não há organização. quando bem sucedidos. é neste plano que em seguida os membros constroem conexões baseadas em consonâncias discursivas. Poderíamos dizer. não remetem a nenhuma falta. riacho sem início nem fim. de ordem teleológica: “Este merece ter existido. “os fracassos fazem parte do plano. encontramos apenas uma outra sorte de fracassos – que. quando circunscrito a apenas algumas dimensões ou agenciamentos. Quando buscamos em um plano de imanência ou de consistência. portanto. mas transmutação não voluntária” (DELEUZE E GUATTARI. Em ambos os casos. .96 “Entre as coisas [que] não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente. Como antes proposto. 1996: 59). não-situadas. pois ele cresce e decresce com as dimensões que ele desenvolve a cada vez” (DELEUZE E GUATTARI. 1997: 37. que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio” (DELEUZE E GUATTARI. não mais se sustentam. Este. um movimento transversal que as carrega uma e outra. nada a ser escrito no tópico. os processos desejantes podem se obstruir. ou seja. os tópicos se desenrolam.em vias de poder efetivar um julgamento como este. que fracassam? Segundo qual objetivo? Precisamos referir a um plano outro que não o da própria discussão – um plano transcendente de organização . conectados a circuitos de desejo que conduzam a mais postagens. O resto – acumula-se ao modo de camadas geológicas. e. ou. 1997: 59). eventualmente. apenas uns poucos a cada momento estão “ativos”. não”. desembocamos em um esvaziamento. Este fenômeno. No que podemos perguntar: como assim “quando bem sucedidos”? Não é suficiente que se contornem o “dogmatismo” e a incomensurabilidade? Como vimos antes. não é de todo extraordinário: das centenas de tópicos presentes na comunidade. o plano de imanência é capaz de destilar seus próprios venenos: pode ser que não haja nada para se passar ali. desenvolvem as suas próprias dimensões. e por harmonia aqui entendemos a manutenção das discordâncias em seu próprio plano. Grifos do autor). impedindo que algo se passe. desenvolvimento ou formação. Tomados de uma dinâmica que não pertence a nenhum membro sozinho. ao modo destes tópicos. Os mecanismos asseguram a produção de discordâncias harmônicas.

.] eu sei que esta comunidade tem um filosofia mais aberta. por outro. Vemos. derivada da ênfase na originalidade de cada membro....97 Contudo. Percebemos.Não estou dizendo para apagar o tópico nem nada. nestas situações. quando julgam que seu tema não se relaciona com o tema-proposta da comunidade.[postado por Luca. os membros recorrem à autoridade do dono ou moderador da comunidade. assim como Rafael. julgamentos desta sorte por vezes ocorrem no fórum: reclama-se que um determinado assunto está “desvirtuando” um tópico. até deixaria a parte do DXM mas a parte do benflogim só vai servir pra desvirtuarmos nosso foco e gerar discussões ridículas que não condizem com a proposta da comunidade. 1997: 60). novembro de 2008] Porque este recurso a um plano de organização? Ou. similaridades emergentes advindas e constitutivas da aproximação no fórum. os membros consideração a deleção do tópico ou post. “Não será preciso guardar um mínimo de estratos. "boa vizinhança" mas acredito. O que acham de apagarmos? quem manda na comunidade são os membros. esvaziamento ou até mesmo a produção de um corpo canceroso. É comum que.. que os afazeres do fórum não se restringem às chamadas discordâncias harmônicas. Talvez. o reconhecimento de instâncias coletivas.. afectos. Exemplifico estes julgamentos com as palavras dos próprios membros: particularmente acho esse Post completamente improdutivo para a comunidade.. portanto. Isto não anula a colocação anterior de que a produção e manutenção dos mecanismos de discordância permeiam o grosso da socialidade no fórum. vcs decidem [postado por Nunzio. nos oferecendo pistas para lidar com o aparente paradoxo antes visitado: por um lado. agenciamentos?” (DELEUZE E GUATTARI.. como levantado por Deleuze e Guattari (1997). sua recusa às identificações. os riscos envolvidos na referência a uma autoridade sejam menores dos que os riscos engendrados pelo plano de consistência – fragmentação. as discordâncias harmônicas estão intimamente relacionadas à autopercepção destes psiconautas. nestas condições. um mínimo de sujeito para dele extrair materiais. ao conduzi-lo para fora dos trilhos delineados ao início da discussão. novembro de 2008] [.. Com efeito. um mínimo de formas e de funções. que não se tratava de uma recusa à coletividade em nome de um . por mim nem faria parte da Enteógenos Sem Dogmas. apenas para criarmos mais consciência e não misturarmos as coisas. ou. então. existem centenas de comunidades por ae que voltadas a estes assuntos. que isso foge completamente do tema da comunidade.

talvez. portanto. por sua resistência em adquirir qualquer totalização. 1986) caracterizado por sua abertura a novas conexões. rejeitando suas estruturas de autoridade. tratava-se da produção e gerenciamento de um coletivo em condições específicas. uma hibridização: retendo o caráter sagrado presente no uso de enteógenos feito nas religiões organizadas. com seu consumo de psicoativos em uma situação de autoridade e verticalidade. o das religiões organizadas. o junkie. com seu corpo em desintegração e consumo de psicoativos banalizado ou esvaziado. arrastando consigo as duas margens em um processo de singularização (GUATTARI. capturando neste sagrado o investimento recreativo característico dos junkies (ou. é esta: O recurso a técnicas ou mecanismos em vias de atravessar no interstício entre a fragmentação e a autoridade. esta recusa a estas duas modalidades de consumo de psicoativos constitui uma recusa apenas parcial. de usuários recreativos quaisquer. de uma pragmática própria à interação entre psiconautas empreendida no fórum. dos quais o junkie é apenas um caso limítrofe). Curiosamente.98 individualismo dispersivo. Se pudermos falar. de outro lado. Contudo. . assegurando-se que este coletivo não fosse cooptado por mecanismos autoritários ou identitários – removidos do plano horizontal engendrado na interação entre os membros. ou melhor. este paradoxo possui uma ressonância com outros dois territórios que os psiconautas da comunidade visavam evitar: por um lado.

em vias de empreender este resgate. Seguindo as linhas indicadas por Foucault (1992). Descobrimos que. que a ruptura destes vínculos – denominada por estes . Consideramos. o exército. sociais. defini uma genealogia como uma prospecção histórica cujo objeto é o corpo enquanto superfície de encontro. estruturei dois eixos exploratórios em vias de abordar este fenômeno. a sociedade técnica se contrapunha a uma socialidade primária. a contracultura mobilizava uma variedade de elementos – materiais. O primeiro eixo exploratório tratava da elaboração de um esboço de uma genealogia do movimento psicodélico das décadas de 1960 e 1970. então. nesta conclusão. O drop-out. – articulados em torno de um processo designado por seus membros como “drop-out”. os valores e práticas correspondente a estas instituições. categoria que encompassa instituições como o mercado financeiro. relações familiares. Proponho-me. o trabalho. simbólicos. “natural”. humanos. consistia na secção dos vínculos com a sociedade técnica como trabalho. descobrimos que concerniam a cooptação de um corpo e seus circuitos de desejo por instâncias transcendentes de autoridade. como “movimento hippie”. às quais Deleuze e Guattari (1996) denominam como estratos. químicos. Orientado por uma definição provisória e por indicações oferecidas por Carneiro (2005). técnicos. cujo resgate se faria necessário. em vias de entendermos a proposição de Carneiro (2005) de que a psiconáutica constituía um “renascimento psicodélico”. rememorando seus objetivos. com razoável precisão. reiterando os resultados obtidos em sua exploração e delineando possibilidades de investigações futuras. percebemos que o movimento psicodélico era designado. Na perspectiva contracultural. etc. geralmente catalisado pela experiência dos efeitos do LSD.99 CONCLUSÃO Iniciamos este trabalho como a proposta de investigar um fenômeno social recente e ainda largamente desconhecido pela antropologia: a psiconáutica. estéticos. A contracultura se caracterizava por uma oposição ao que seus membros chamavam de “sociedade técnica”. etc. também. ao que Roszak (1969) definia como “contracultura”. a abordar novamente cada um destes eixos. o Estado e a academia. e que este movimento podia ser equacionado. conflito e transformação de forças diversas. Conforme aproximamos a atenção das agitações sociais que se propagavam ao final da década de 1960. assim como a socialidade. carreira militar. Examinando os sistemas de vinculação com a sociedade técnica.

decerto. A decadência do primeiro movimento contracultural pode ser compreendida. as raves e a prevalência do consumo de cocaína ao final da década de 1970. por fim. traçar o plano de consistência sobre a superfície do imperceptível.durante o processo de drop-out conduzia. e. resultando em corpos fragmentados. encravado nos estratos. contudo. em seguida. pudemos entender também um papel de destaque desempenhado pelas substâncias psicodélicas no movimento. mas seus circuitos de desejo constituírem um entupimento e produzir-se um corpo vazio. tendo conduzido em alguns casos à modificação e substuição dos agenciamentos em operação. A análise que efetivei neste eixo exploratório. como proposto. em alguns casos. consiste em somente um esboço de uma genealogia. graças a vetores de individualização (GUATTARI. Neste esquema. ou. portanto. uma vulnerabilidade à cooptação pelo mercado. como o neo-esoterismo. ao estabelecimento de circuitos de desejo sobre o que Deleuze e Guattari (1996) entendem como o plano de imanência ou plano de consistência. Observamos. verificamos a existência de inúmeros riscos relacionados à estes empreendimentos. ao que Deleuze e Guattari (1996) se referem sob a rubrica de Corpo sem Órgãos (CsO). então. que segundo Deleuze e Guattari (1997) compõem um dos potencias do que designam como agenciamento Droga: conduzir a percepção até o molecular. que essas tendências não simplesmente extinguiram o movimento psicodélico. conduzindo. cancerosos ou vazios. um corpo canceroso poderia se produzir. na ausência da prudência ou sutileza necessária. Contudo. 1986). que o resgate da socialidade primária a que se proponham os membros da contracultura podia ser entendido como a constituição de um corpo em seu próprio plano de consistência. Concluímos. com as conseqüentes alterações nas dimensões arrematadas pelo movimento. dimensões significantes da . um CsO poderia ser produzido. por fim. como sendo ao menos parcialmente advinda de forças internas ao movimento: experimentos conduzidos sem a prudência necessária. a uma série de resultados nefastos: uma desestratificação demasiado brusca poderia despedaçar ou destruir um corpo. passando por entre os poros das totalizações para.100 autores como desestratificação . reproduzindo na sociedade alternativa um inferno tão ou quão pior do que se buscava contornar. Ilustrei algumas das ramificações do movimento. Ou. oposições de mútua exclusão conduzindo à reestratificação e conseqüente desmonte do CsO.

percebemos que os membros do fórum se percebem como distintos tanto daqueles que empregam os psicoativos em um contexto religioso formal . o movimento feminista. considero pertinente uma avaliação das diversas outras agitações políticas relacionadas ao período das décadas de 1960 e 1970. no caso da “Enteógenos sem Dogmas”. escolhidos pelo seu criador (que. futuras explorações podem testar a pertinência deste esboço para manifestações do movimento psicodélico em locais outros que não os nos quais focamos.. 18 que possuíam 50 ou mais postagens foram examinados utilizando um programa de análise qualitativa (Atlas. ou não foram sequer abordadas. chamada “Enteógenos sem Dogmas”. também. Uma comunidade do Orkut possui um título. estudos posteriores podem se debruçar sobre a conexão entre a contracultura das décadas de 1960 e 1970 e suas posteriores ramificações. o movimento negro. “fórum”. “comunidades relacionadas” (também selecionadas pelo dono). prosseguimos a uma análise detalhada das atividades no fórum. como proposto por Kozinets (2002). mensagens deixadas pelos membros referentes à temática escolhida pelo criador do tópico. destes. Todos os tópicos arquivados na comunidade foram lidos. “netnografia” – em uma comunidade do Orkut freqüentada pelos psiconautas. Enxergo a possibilidade. o movimento pelos direitos dos homossexuais. Após uma visita aos conteúdos específicos destas seções na “Enteógenos sem Dogmas”. Vimos que um tópico. de estudos futuros que se aprofundem sobre nuances do movimento que não foram articuladas nesta análise. em vias de compreender melhor quais são estas ramificações e como se produziram. seu lócus principal de socialização. Por fim. a saber. participando de algumas conforme meus interesses pessoais. Este eixo tratava do empreendimento de uma etnografia virtual – ou. criado por um membro qualquer da comunidade. era composto por “posts”. De início. Através desta análise. passemos para o segundo eixo exploratório delineado na introdução deste trabalho. também. das quais destaco a primavera de praga. maio de 1968 na França. aqui. em vias de determinar se a análise aqui efetuada pode auxiliar em sua compreensão ou vice versa. Acompanhei. A página principal da comunidade se divide nas seções “membros”. Tendo isto em vista me proponho a destacar. De modo similar. se chamava Nunzio). e “enquetes”. todas as discussões empreendidas no fórum durante o ano no qual elaborei esta análise. uma descrição e uma foto. Dito isto.ti®). etc.101 contracultura e suas ramificações não foram exploradas adequadamente. Estados Unidos e Brasil. algumas possibilidades para explorações posteriores.

Percebemos que os efeitos qualitativos das experiências. capaz de proporcionar a unidade através do abrigo generoso do múltiplo. 1994). Vimos que estes psicoativos – aos quais chamam de enteógenos . mas suas linhas gerais se assemelham ao programa proposto pelo misticismo ecológico (SOARES. em um aparente paradoxo.. Concluímos que esta recusa à identidade não trata de uma recusa das dimensões . Percebemos que os efeitos qualitativos também são discutidos nos debates tocantes à separação entre psicoativos enteógenos – dotados de potencial da produção de estados místicos ou religiosos. quando consumidos – e as demais substâncias nãoenteógenas. Ao lado da análise dos efeitos qualitativos. capaz de englobar. ou “deixar que a própria planta ensine”. desejosos de transmitir um ensinamento. por outro lado. Defrontamo-nos com o aparente paradoxo: por um lado. 1996: 21). durante a experiência enteogênica.]. recomendam. Auxiliados por Vargas (2006).são abordados como sendo dotados de uma intencionalidade ou espírito próprio. Percebemos. contudo. que estes psiconautas recusam ativamente a constituição de uma identidade que lhe imponha “formas.. sem discriminações e sem a violência do conceito. também. às vistas de alguns. ligações hierarquizadas” (DELEUZE E GUATTARI..102 quanto daqueles que os consomem de forma “vazia” ou “banalizada”. da categoria “enteógeno”. os membros circulam e empregam diversas técnicas dirigidas ao controle da experiência.] docilidade amorosa e compreensiva [. aquilo que se passa durante o consumo. que subsume a pluralidade pela via da redução” (SOARES. As apreensões a respeito deste ensinamento são diversas. o consumo para fins recreativos. percebemos a presença de características recorrentes entre os membros da comunidade. O território de consenso é de que estão excluídos. funções. 1994: 203). Seu consumo de psicoativos é permeado por uma espiritualidade característica. assim como aos valores da contracultura: “[. fundamenta a distinção dos enteógenos entre plantas fáceis e plantas difíceis. a discussão do que se categoriza como enteógeno atravessa dois outros eixos: a oposição entre plantas psicoativas e psicoativos sintéticos e o histórico de uso tradicional ou indígena destas substâncias. a adoção de uma postura de “deixar fluir”. os psicoativos cujo principal efeito é estimulante ou depressor.. consideramos que a experiência resultante do consumo de psicoativos se passa numa ordem outra que a da oposição exclusiva entre controle e controlado: a ordem do evento.

recreativas. atravessar o interstício entre a autoridade e a fragmentação. Percebemos que dois outros aspectos da socialização no fórum são permeados por processos similares de dupla recusa: por um lado. vimos que mesmo quando bem sucedidos em sustentar uma discordância harmônica. orgânicas. então. associado a uma estrutura transcendente de autoridade. Observamos também que. três linhas principais ao redor das quais progressos futuros podem ser conduzidos neste campo. e o junkie. espirituais. a saber. sociais. O campo da psiconáutica ainda contém. recusa à totalização ou captura em um plano de transcendência. examinando aspectos aqui estudados ou mesmo penetrando em aspectos . em um plano de imanência. Destacarei. poderíamos comparar a cena psiconáutica em língua portuguesa com aquelas conduzidas em outras línguas. 1986) que arrasta consigo dimensões químicas. A segunda linha conduz a um aprofundamento da análise sobre as práticas psiconáuticas. os membros do fórum recorrem a um plano transcendente de organização (proposta do tópico ou comunidade) e a uma autoridade (dono ou moderador) em vias de defenderem-se destes riscos. O segundo destes aspectos pode ser observado em certos mecanismos empregados no fórum em vias de sustentar uma situação de discordância harmônica. envolvido em uma situação de esvaziamento e fragmentação do corpo. remetendo as discussões ao seu próprio plano de imanência através da recusa à totalização e em vias de impedir a incomensurabilidade. etc. em especial o inglês (que funciona quase como uma língua genericamente “internacional” na internet). vastos territórios inexplorados. Concluímos. em um processo de singularização (GUATTARI. que esta dupla recusa pode ser entendida. identitárias. e sim do gerenciamento de um coletivo sob condições específicas. O primeiro destes aspectos é a dupla recusa ao religioso. através da qual poderemos averiguar em que grau os resultados aqui obtidos podem ser generalizados. em especial. não estão prevenidos certos riscos de esvaziamento. riscos estes engendrados pelo próprio plano de imanência. entretanto. em maior ou menor grau. por outro. como constituindo um programa próprio à psiconáutica: através do recurso a certas técnicas ou mecanismos.103 coletivas em nome de um individualismo dispersivo. A primeira linha se refere à extensão da observação a outros nodos da cena psiconáutica. por vezes. entupimento ou formação de corpos cancerosos. Contudo. aqui. recusa à incomensurabilidade e fragmentação dispersiva.

104 apenas insinuados ou ainda desconhecidos dos explorados neste trabalho. Como exemplo, sabemos ainda pouco dos efeitos qualitativos destas substâncias sobre estes psiconautas, de que forma são recebidos os ensinamentos, da frequência de usos destas substâncias, etc. Poderíamos, também, ter acesso a todo um novo campo caso pudéssemos observar estes psiconautas fora do ambiente da internet, seja reunidos entre si ou separados; não sabemos quase nada sobre suas vidas externas à sociabilidade do fórum. Mais dados poderiam, também, ser obtidos através da observação do consumo de enteógenos in loco. Para estas futuras investigações, toda uma outra gama metodológica pode ser empregada, produzindo resultados de ordens bastante distintas das aqui obtidas. Por fim, como terceira linha, estudos futuros podem estruturar uma interlocução com estes membros, seja pelas comunidades onde participam, seja por meios destinados especialmente a isto, de modo a facilitar sua participação nas discussões acadêmicas relacionadas aos temas em questão.

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Abraços a todos! (: . para em seguida construir um relato etnográfico onde ele constrói abstrações a respeito das idéias e práticas daquele grupo/comunidade. na qual o antropólogo busca se inserir e comunicar-se com os membros. Uma etnografia é um estudo de um grupo ou comunidade. Daí acabei decidindo por estudar as discussões desta comunidade. E também se tem alguém que de antemão autorize a citação de material postado aqui (com a opção de anonimidade). Daí. Decidi fazer de minha monografia uma espécie de etnografia online sobre psiconautas.111 APÊNDICE A – Texto de apresentação na comunidade Olá gente. Me propuz a colocar a monografia acessível para discussão e comentários da comunidade uma vez que esteja pronta. Comecei pesquisando acepções do termo "psiconauta" pela via do google. como só citar no texto material quando autorizado pelo autor. que usam psicoativos de forma bastante diferente da retratada pela mídia e que escapam dos clichês do discurso médico e legal sobre drogas e vício. onde as religiões ayahuasqueiras drenam bastante atenção dos antropólogos). eu queria saber o que vocês acham. Estudo antropologia na UFMG e de uns tempos pra cá decidi juntar meu interesse nos enteógenos com minha prática científica. Quero apresentar esta forma alternativa de relação com os psicoativos ao discurso acadêmico. assunto bastante inédito na antropologia (especialmente aqui no Brasil. Alguns dos membros "épicos" (hahaha) daqui devem me conhecer dessa ou de outras comunidades. postando de forma esporádica. Conversei com o Nunzio e ele apoiou a idéia. Sempre achei as discussões daqui as melhores e mais ricas. e em seguida parti em busca de uma comunidade que me fornecesse material para analisar. Decidi também que seria importante seguir algumas regras éticas que são importantes em etnografias. Eu já participava da comunidade (por conta própria e sem pretensões acadêmicas) há bastante tempo. Meu interesse na psiconáutica partiu da minha própria experiência de contato com essas pessoas.

Budistas. Caretas. NÃO DISCRIMINEM. a Harmonia e a Ética são princípios para a evolução do homem. faça a ‘POLÍTICA DA BOA VIZINHANÇA’. Portanto se alguma discussão não o agradar evite atritos. se você está aqui por pura diversão ou pela busca de espiritualidade. Testemunhas de Geová. Emos (não. seja bem vindo. Umbandistas. Daimistas. TODOS são bem vindos. só não será tolerado o desrespeito das crenças e estilos de vida levada entre os membros. mas por favor NÃO CRITIQUEM. por mera vaidade de quem usa e doutrina. Punks. O Amor. Loucos. O conceito enteógeno empregado hoje em dia vem causando muita discussão e desarmonia nas comunidades e fóruns. por favor) rsrs (brincadeira). NÃO DITEM REGRAS PARA OUTROS USUÁRIOS DA COMUNIDADE. Skinheads. Ateu. emos não. Junkies. mas não são praticados. Evangélicos. Esotéricos.112 ANEXO A – Descrição: Enteógenos sem Dogmas “Comunidade dedicada à discussão de plantas psicodélicas. Chega de ignorância. são expostos no nosso dia a dia por diversos veículos de comunicação. Espíritas. Psiconautas. Pratique o Altruísmo” .

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