PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS

RENE JOSÉ KELLER

A IDEOLOGIA DO DIREITO E O DIREITO DA IDEOLOGIA

PORTO ALEGRE 2010

RENE JOSÉ KELLER

A IDEOLOGIA DO DIREITO E O DIREITO DA IDEOLOGIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para a obtenção do grau de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Pontifícia

Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Orientador: Dr. Marcus Vinicius Martins Antunes

Porto Alegre 2010

RENE JOSÉ KELLER

A IDEOLOGIA DO DIREITO E O DIREITO DA IDEOLOGIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para a obtenção do grau de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Pontifícia

Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Aprovado em ___ de ______________ de 2010.

Prof. Dr. Marcus Vinicius Martins Antunes - PUCRS

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Prof. Dr. Elias Grossman

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Prof. Dr. Thadeu Weber

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incansavelmente. . fazem do Direito um instrumento de luta e de libertação social. acima de tudo.Aos que. não aceitam com naturalidade esta lógica que subjuga a coletividade a viver em condições desiguais. e que.

Isto é Utópico? Um mapa-múndi que não inclua a Utopia não é digno de consulta. se divisa terras melhores. pois deixa de fora as terras à que a Humanidade está sempre aportando. torna a içar velas. E nelas aportando. Oscar Wilde . O progresso é a concretização de Utopias. sobe à gávea e.

.....................................................1 4.......................... 43 A IDEOLOGIA JURÍDICA ............................ 90 ........................ 32 3 O DIREITO COMO APARELHO IDEOLÓGICO ESTATAL E A IDEOLOGIA JURÍDICA ................................................................................................................ 17 2.....................2 2.............. 87 REFERÊNCIAS ...... 75 5 CONCLUSÃO...... 51 4 A FUNÇÃO HARMONIZADORA DA IDEOLOGIA E A TOTALIDADE CONCRETA NO DIREITO ................................................ 64 4... 43 3..............................................................................................................................................................................................3 O DIREITO CONCRETO ............SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................. 24 A IDEOLOGIA ..........2 A FUNÇÃO HARMONIZADORA ..............1 2.................................................. 58 4.......2 O APARELHO IDEOLÓGICO JURÍDICO E O ESTADO ............1 3.................................................................................................................................................................. 58 A FUNÇÃO HARMONIZADORA NO DIREITO PÚBLICO E NO DIREITO PRIVADO ........................................ 7 2 A ORIGEM E A PRECISÃO DO PENSAMENTO IDEOLÓGICO E A IDEOLOGIA E O DIREITO NO UNIVERSO SOCIAL .................. 17 A IDEOLOGIA O E O DIREITO NO UNIVERSO SOCIAL .........................................................................................................3 A PSEUDOCONCRETICIDADE: A GÊNESE DA IDEOLOGIA...................

Porém. p. é uma atividade árdua em demasia para um estudante de graduação. ora orientador. efetuou em artigo publicado na Revista da Ajuris. Foi preciso. insistentemente. sempre recordando dos dizeres de Marx (MARX apud HARNECKER p. Direito e Ideologia. conteúdo e essência. o trabalho que se oferece não é o resultado de uma investigação que durou apenas o tempo formal das duas cadeiras de Trabalho de Conclusão de Curso. 21). que não possui experiência e conhecimento suficiente para tanto. No estudo. é um aceite. serão apresentados trouxeram enorme inquietude durante praticamente toda a graduação. particularmente a ideologia jurídica. mas sim o produto de leituras e experiências acadêmicas desses cinco anos. apontar algumas linhas de análise e estimular novos estudos e investigações sobre o sistema jurídico brasileiro. ao atentar à dificuldade de compreensão dos capítulos iniciais de “O Capital”: Esta é uma desvantagem contra a qual nada posso fazer senão advertir e precaver aos leitores preocupados com a verdade. (ANTUNES. O mote de estudo é dotado de alta complexidade. intitulado “Engels e o Direito: Parâmetros e Apontamentos Para Uma Reflexão Sobre a Ideologia Jurídica No Brasil”. Direito e Economia. à provocação que o professor Dr. Qual o grau de autonomia do Direito? Podem coexistir. em carta a Lachâtre.7 1 INTRODUÇÃO Os problemas que. 410). o orientador. Não há caminho régio para a ciência e só podem chegar aos seus cumes luminosos os que não temem fatigar-se escalando suas vias escarpadas. como advertiu. Ciência e Ideologia? Quais as relações possíveis entre forma. 1997. aqui. em verdade. que. que constitui um mundo à parte. o propósito é contribuir para a crítica. Marcus Vinicius Martins Antunes. Examinar a relação entre o Direito. como a relação entre o Direito e a Sociedade. para cumprir o objeto em exame. no Direito. O tema eleito. Superestrutura e Direito. conceito exógeno à ciência jurídica. assumiu-se o risco da empreitada. o autor assim conclamou: A pesquisa é feita com o intuito de reacender algumas questões. no entanto. no campo do sistema jurídico? Mais do que dar respostas cabais. socorrer-se de literaturas que fugiam por completo da ciência jurídica. concediam arrimo teórico às . mesmo que tácito. Assim. e a ideologia.

certamente. fazendo parecer que o trabalho escapa do âmbito jurídico por diversas passagens. Existe. Perpassando as justificações pessoais. que poderiam. Lá. c) a sua definição mais precisa. Foi um filósofo marxista que se notabilizou pela obra “Dialética do Concreto”. que costura o trabalho do início ao fim. b) a sua alocação na totalidade das relações sociais. que contrariou os interesses da URSS. em Praga. que deve ser lido na sequência apresentada. no ano de 1926. não se pretendeu apresentar nenhuma visão inovadora. resumiu-se o estudo a alocação do Direito e da ideologia no universo social. . basicamente. adentra-se na estrutura e conteúdo em pormenor. pôs-se relevo à ideologia sob o viés do materialismo histórico. estas não poderiam ser estritamente efetuadas senão pelo prisma organizacional. também em Praga. mas também como forma de não perder o percurso e de atingir o alvo pretendido. que permeiam as mentes humanas de modo a falsear o real. bem como a potência de uma influir sobre a outra em maior grau. No terceiro tópico. Na parte inicial do primeiro capítulo foi examinado o que se pode enquadrar como gênero da ideologia: a pseudoconcreticidade. imagina-se. não só para aumentar o grau de completude do trabalho. que perpassou pelas fases que se julgou elementares da ideologia: a) o seu surgimento. são citadas de maneira quase indiscriminada. havendo um pequeno detalhamento acerca da figura estatal – a partir do surgimento do 1 Karel Kosik nasceu na Tchecoslováquia. uma linha de continuidade. No ponto seguinte. todavia. de Karel Kosik1. Entende-se. Morreu em 2003. fazendo dele um todo orgânico. sendo um árduo crítico do neoliberalismo. Obras de filosofia. Na oportunidade. embora o tópico constitua campo fértil de debate. custando-lhe o afastamento das suas atividades acadêmicas até o fim do bloco soviético. O trabalho apesar de portar divisões por capítulos. de transição. economia política etc. em responder a seguinte pergunta: como surge o pensamento ideológico? A necessidade da análise se deu em razão da percepção da existência de um mundo não concreto (também no Direito). que o desvio foi necessário.8 proposições levantadas. analisou-se o Direito como aparelho ideológico do Estado. encerrou-se o primeiro capítulo. O estudo consistiu. o conteúdo jurídico passou a tomar cor mais acentuada. compor uma apresentação.. sociologia. No capítulo central. bem como pela posição assumida durante a Primavera de Praga. Com isso. repleto de representações de toda a ordem. repisando-se tão somente as noções gerais acerca da capacidade de influência recíproca entre as esferas sociais. A maior parte dos argumentos despendidos teve como esteio a obra “Dialética do Concreto”.

a função de harmonizar a contradição inerente à ordem social no ordenamento jurídico. a problemática que envolve o objeto de estudo em relação ao método escolhido. o fenômeno da harmonização foi aplicado às esferas jurídicas que. no tópico seguinte. o questionamento girou em torno da possibilidade de redução do Direito à ideologia. Além disso. que ficou resguardada para o capítulo final. ao menos em certa medida. que estavam preocupados com questões alheia ao Direito. concluindo o caminho que partiu do pseudoconcreto. pois consiste em mais do que um pensar lógico (correto). Para atingir o último objetivo posto. b) apresentar. o momento em que houve a particularização da ideologia no Direito. Pela via inversa. bem como um exame do Direito propriamente. isto é. Além disso. busca-se obra clássica de Roberto Lyra Filho. serviu como suporte à compreensão tanto da realidade como do meio através do qual o conhecimento é produzido. dividem o Direito em dois grandes grupos. Após. Foi o viés mais prático do trabalho. de maneira direta e com quase meio século de estudo da relação entre o Direito e o . ou. ainda. que se reconheça o potencial de transformação da realidade que porta o Direito. sob pena de se incorrer em incoerências e inconsistências lógico-argumentativas. quais sejam. Assim. O método eleito como guiador do trabalho – o dialético materialista – gerou certa perplexidade. O autor. não foi. a dificuldade se apresentou quando da aplicação do método ao Direito. iniciado tratando da harmonização do Direito. Meu Amigo: Diálogo com Marx sobre o Direito”. Na ocasião.9 Estado liberal –. mesmo que minimamente. intitulada “Karl. o do direito público e o do direito privado. em que se trouxe exemplos na legislação vernácula como forma de conceder escora à teoria. o ponto visa apreender um dos modos de particularização da ideologia no Direito. caso não seja. o último subtópico abrange a noção do Direito concreto. um real instrumento que ad vervm dvcit. praticamente. uma vez que tal atividade intelectual não foi desenvolvida de maneira completa por seus fundadores. Foi preciso ler obras específicas. o que se intenta é especular acerca de um possível Direito em que o conteúdo ideológico seja mitigado ou até mesmo eliminado. Por fim. pode-se dizer que a presente introdução tem uma dupla finalidade (embora uma delas já tenha sido cumprida): a) elencar os principais pontos que serão abordados. Não obstante tais análises. Em outros termos.

ao menos a ponto de formular uma teoria. em Marx. p. que decerto não é de cunho genético.10 marxismo. 43): “Deve-se começar reafirmando que não temos. procedida pelos marxistas. permite uma análise do Direito a partir dos fundadores. De fato. mais ou menos o seguinte: [. nele podemos encontrar apenas alguns fragmentos [. porém”. as bases do materialismo. 18) aponta: “o estado atual da teoria do materialismo histórico é. nem Engels desenvolveram uma teoria do Direito. 1983.]”. Como ressalva. 12)... ora cognitivos. Marcus Vinicius Antunes (1997. p.]”. 1983. Essa afirmação é corrente entre os juristas. chamado “obstáculos lógicos”. p. de sistematização da obra dos fundadores do marxismo sob formato de uma teoria do Direito. p.. p.. Marcus Vinicius (1997. 46) sustenta: “[. p. notadamente a partir das 2 Nas palavras do autor: “O primeiro tipo concerne aos obstáculos filológicos. portanto. Marta Harnecker (1973.. embora nem Marx nem Engels tenham se debruçado sobre o Direito. Não é genética. Por isso. Ao máximo. pode-se aceitar a existência de enunciados. 410) também assim se manifesta: “Nem Marx. ora preceptivos. (LYRA FILHO.. o autor censura a tentativa... mas não existe meio de reduzi-los à unidade e muito menos de considerar a soma deles uma doutrina constituída. mesmo como movimento filosófico amplo. no sentido em que a palavra é empregada na metodologia da ciência histórica (16). José Arthur Giannoti (1980. uma teoria acabada do Direito [.] – ausência de uma teoria científica da estrutura [. mesmo entre alguns que se reivindicam do marxismo”. Nesse sentido. por eles edificadas. apontou problemas de ordem técnica àqueles que pretendem se aventurar pelo exame do Direito por este prisma. . O segundo. isto é. p. concernentes ao Direito. 411) rebate: “Penso que a limitação existe. que reflete no Direito. uma vez que esta jamais existiu.. 10). dispensando integração e necessitando apenas explicitações e repetição ortodoxa. sem que se afaste a limitação.] o marxismo. p. tem uma „limitação genética‟ para compreender o Direito apenas a partir de seus fundadores”. Michel Miaille (1984. denominado “obstáculos filológicos” 2. Por fim. o estabelecimento e ordenação de fontes” (LYRA FILHO.] jurídico-político do modo de produção capitalista”. 8) é categórico: “Cabe ter presente desde o início que não existe uma teoria do Direito em Marx.. Tarso Genro (2004. traduz-se na falta de uma construção sistêmica da dialética materialista. No primeiro deles.

que neles se ocultam (31 A). Michel Miaille (1994. “que é preciso distinguir entre a aparência das coisas. cabendo menção à seguinte passagem: É um método bastante utilizado pela maior parte dos marxistas. p. nos marxistas. p. com transposição da teológica “verdade revelada”. posturas que seriam típicas das visões mecanicistas e reducionistas. dos fenômenos jurídicos e das “relações essenciais”. afastadas inclusive por Engels. supostamente retirada da obra de Marx. Lyra Filho (1983. que nos permite vê-lo com exatidão. que. . 1983. é meu Senhor. não se julgava um deus (70). situar o problema. 20). jovem poeta./ Rezo a Deus. Roberto Lyra Filho (1983). a exemplo do procedido por Roberto Lyra Filho. bem como fruto da vontade das classes dominantes.13) sobre o ponto: Não há espaço. condutor. e aquelas relações subjacentes e portadoras da significação profunda. 20) é bastante crítico nesse aspecto. como vimos. “Sabe-se”. principalmente. assim escreveu: “Contra ventos. aqui. Não se pode negligenciar a lição de Lyra Filho (1983. das barbas brancas do Senhor./ rumo fruto/ No astro firme. um bocado sacrilegamente. não cabe aos marxistas oferecer uma reconstrução da essência do Direito. às vezes. ao menos. Não seria bastante mencionar. especialmente. Marx distingue o fenômeno. infere que se deve evitar a formulação de proposições como se “revelações marxistas” fossem. e. acerca da religiosidade que Marx portava até certa idade. Ainda acentuando o segundo obstáculo. talvez por influência de seu pai. subdialética. diz ele. acertadamente. judeu. Marx. adicionando a ideia de que não há uma teoria do Direito em Marx. nem sequer admitia a existência de deuses3. p. . profissional. adolescente teísta./ Velas pandas. para considerar in extenso a questão da dialética marxiana – que já debati em dois longos escritos recentes (31). para os bigodes grisalhos do bom Karl.” (MARX apud LYRA FILHO. convertido ao luteranismo por questões de interesse pessoal e. e sua realidade” (32) ou “essência” (32 A). O que o autor pretende afirmar é que. em Marx e. em que as postulações e as citações do mestre fossem prova do acerto das teses. em superfície. ondas luto. Como ficará constatado adiante. De fato.11 repisadas noções de que este é apenas corpo integrante da superestrutura social. p. no próprio O Capital. Mas é preciso. a questão foi enfrentada em tópico próprio e considerada no decorrer do trabalho.pelas suas óbvias interferências na focalização dialética. 66) também se atentou ao problema: 3 O trocadilho é pertinente.

quando se deu o exame deste ramo do conhecimento. considerar a obra deste pensador como uma espécie de revelação de que bastasse recitar ou citar as passagens importantes para que se extinguissem as dificuldades da investigação.12 É freqüente. mas consiste também em um co-implicado critério de coincidência do pensamento e do “ser” das coisas (gnosiológica). de uma postura que interliga a natureza contraditória das coisas. quando necessário. não sofisma – ao abordar o Direito.. assevera o autor que o próprio Marx perpetrou paralelismo – raciocínio falso. Roberto Lyra Filho (1983) afirma que a dialética é ao mesmo tempo lógica ontológica e ontognosiológica.] se formaram diversas correntes dogmáticas ou ecléticas que fizeram. por outro lado.] o termo „marxista‟ é geralmente usado para caracterizar o corpo heterogêneo de pensamento desenvolvido pelos seguidores de Marx e „marxiano‟ é a designação em relação às opiniões e idéias atribuídas ao próprio Marx”. é de ordem hermenêutica. 5 O exemplo claro do exposto é o surgimento de certo “positivismo marxista”. Em outras palavras. não . o que teria levado a um paralelismo textual. A questão pode ser resumida na noção de que é impossível tentar formular qualquer teoria ou doutrina do Direito em Marx.] De outra parte. Os sentidos criados da leitura da obra de Marx. como apontou Tarso Genro (1988. É o caso da visão desenvolvida em alguns escritos. à maneira como certas seitas protestantes utilizam os textos bíblicos.. até agora. Por isso a 4 Cabe destaque à advertência que faz Gastão de Sá Weyne (2006. 15): “As relações do direito com o marxismo são. mesmo por parte daqueles que se reclamam de Marx. porque [. conduziram ao desenvolvimento de concepções acerca do Direito que escapam do próprio método dialético5. Com base na referida diferenciação ontológica da dialética. a análise do Direito foi procedida visando à resolução de problemas não jurídicos. em que o pensador sustenta que o Direito é um instrumento de dominação de classe e.. pareceria que Marx nos deu a solução. que levaram a formulações pouco coesas acerca do Direito. p. o que o autor pretende afirmar é que em razão da inexistência da formulação de uma teoria do Direito marxiana.. Pois não se trata apenas de um estilo de pensamento correto (lógica). [. em especial das passagens referentes ao Direito. Marx estava resolvendo questões específicas. O terceiro problema é decorrente dos paralelismos. sem perpassar pelo problema lógico e ontognosiológico da dialética marxiana4. relações de crise permanente. p. dessa vez efetuado pelos marxistas. assemelhou o Direito a instrumento de libertação. Para cada problema. dependendo da obra analisada e do enfoque concedido.. 29): “[.. Em Marx. em totalidade e em movimento (ontológica). materializado através do desconjuntamento do raciocínio. infelizmente. O segundo paralelismo apontado por Lyra Filho (1983).

como se verifica do seguinte excerto: “É em Marx que a verdadeira e própria teoria dialética do Direito [. sempre. segundo suas preferências. p. expungindo contradições fecundantes e rompendo a continuidade do itinerário. é o caso de Carnelutti. aos escritos em momentos de maturidade intelectual. Toda disposição em linha reta é tão mais arbitrária. para combater o lado vulnerável do sistema idealista. é a curva marxiana.. Com isso. chamado de obstáculos psicológicos. de modo algum pretende o autor retirar a validade das proposições tecidas por Marx acerca do Direito. que desembocaram ou num positivismo de esquerda. quando se refere aos tempos de Jena. não se pode julgar as fases sucessivas como excludentes e incompatíveis com as anteriores. p. cá e lá. notadamente. 33): É possível ler Marx de várias formas: todo o autor genial e criativo é multifacetado e se presta a manobras que tomam isto e largam aquilo.. já que a validade ou invalidade das teses não é questão de cronologia” (LYRA FILHO. Mas o que me interessa é outra coisa: é o sentido geral. que arrimam esta ou aquela leitura. Lyra Filho (1983) censura à postura de alguns marxistas que dividem a obra de Marx em períodos. em “o primeiro Hegel”. 28-29). independentemente das datas „evolutivas‟. o mesmo ocorre com Hegel6. quanto mais forceje para dar “coerência” ao seu autor. em especial Marx. na obra “Luta Por Reconhecimento – A Gramática Moral dos Conflitos Sociais”. O argumento se baseia na sínteses dialéticas superiores. 1983.]”. Além disso. concerne ao reto enfoque que deve ser dado na relação entre Marx e o Direito. caso se queira traçar uma linha cronológica do pensamento marxiano.. 33). Assim pondera Lyra Filho (1983. à André Demichel – que chega a afirmar que os „marxistas são os únicos verdadeiros defensores da regra jurídica‟ [.] começa a emergir do diálogo com Hegel. O argumento central para afastar essa forma de periodizar o conjunto da obra de autores. p. que é a Filosofia Jurídica” (LYRA FILHO. o cronológico. O quarto obstáculo. 1983. Até certo ponto. existe a tendência de assim analisar a obra dos mais variados pensadores.. reside no fato de que: “[. O quinto problema. professor da Escola Crítica de Frankfurt. 6 Axel Honneth.13 necessidade de resolução da questão do método antes da análise do Direito propriamente. chega a falar. Pelo contrário. na Filosofia.. tendo em vista que ambos sofreram análise cronológica. refere-se ao problema denominado pelo autor de “beatice marxista”.. . Há. com a finalidade de conferir validade eterna a certos postulados. No Direito. uns textos ou frases isoladas. por exemplo. predeterminações e preconceitos.] Marx tanto pode estar certo e fecundo neste ou naquele período.

perfeitamente descrito por Lyra Filho (1983. Quem pretende lá encontrar um fundamento materialista para o Direito. iniciou seus estudos acadêmicos nos bancos de Direito. os catedr´áulicos subservientes. O segundo. o elemento psicológico se firmou na obra de Marx. são as palavras Direito e justiça que voltam à tona. Pois quando da necessidade de conceber as reivindicações socialistas. estas oscilam entre o que denomina “objetivismo ilusório” e “subjetivismo descarado”. utilizando método de mascaragem. não conseguindo propiciar o ambiente adequado de reflexão e de estudo sobre os diversos aspectos e institutos próprios do Direito. quando temia que estas expressões fossem confundidas com o Direito corrompido e a justiça degenerada. através de operações de . trata da atitude adequada do investigador perante a obra de Marx. 40): Quando chegam aos bancos acadêmicos. deve ler com cautela as menções e passagens acerca do Direito. embora não de maneira plena. Lyra Filho (1983) acentua que dentre as diversas posturas possíveis de serem adotadas. apressava-se em efetuar a distinção. sabendo distinguir até aonde as ojerizas tecidas não são apenas reflexo do contato inicial que teve com a ciência jurídica. e. a dogmática obtusa alienante. O primeiro tem como característica a ocultação do diálogo entre o leitor e o texto. por sua vez. do pensamento comum e das representações ideológicas. de modo a escapar do óbvio ululante. o estômago de avestruz dos positivistas engolindo qualquer pacote das prepotências estatais. Assim. p. Lyra Filho (1983) aponta que com Marx fato semelhante ocorreu. defrontam-se com patacoadas rotineiras. deforma o texto. que o famoso “toque de midas” kelseniano transforma em “neutros” produtos “jurídicos”.14 circunstância de que Marx. filho de advogado. ainda. Desde aqueles tempos a academia está contaminada com a pobreza na reprodução espiritual e racional da realidade (principalmente a jurídica). em que o elemento essencial é a passividade na absorção da obra. Já o sexto e último problema mencionado pelo autor. Com essa rotineira vida acadêmica. Ocorre que o ambiente encontrando por ele foi o até hoje existente. referente aos obstáculos metodológicos. o alvoroço de inquietações e ideais apressados e não isentos de impaciência e sentimentalismo. levando-o a assumir posturas maniqueístas no trato com o Direito. os que possuem olhos progressistas logo percebem que aquele universo não lhes pertence. O repúdio manifesta-se em suas obras. e que toda a patotada jurídica não corresponde à noção devida de justiça.

mas na relação que pode ser estabelecida do interlocutor com o leitor. a obra de pensamento não se situa apenas no texto apresentado. O isolamento. Ele só poderia tomar em conta as condições em que aparece e se desenvolve inicialmente o capital industrial.. significar pensar o Direito contra Marx também. a manipulação econômica. organizatória e se internacionalizou. sobressai uma tendência: a que se firma na ideia de que “Marx está superado”. o capitalismo sofreu sucessivas transformações tecnológicas. na economia ou na prática política revolucionária. de modo algum será um impeditivo para que neles se incorra. que mantivessem algumas premissas das ideias originais de Marx. de que “Marx está superado”. as classes e as dominações de classe etc. tivessem desaparecido. Ora. é devido à ideia. posteriormente. as ideias de Marx valem tanto teórica quanto praticamente. p. . mas as condições objetivas da produção e da reprodução da acumulação capitalista acelerada. assumem dimensões aterradoras. O que ocorreu foi apenas o desenvolvimento natural do capitalismo. ou seja. na verdade. isso não ocorreu. como se não tivesse nenhuma contribuição a ofertar. como forma de direcionamento a bel prazer do conteúdo textual.. as contradições do capitalismo monopolista e do imperialismo.. para “capitalismo de sua época”. independentemente do valor intrínseco das suas ideias. 7-9): Entre as discussões ideológicas da crise do marxismo. mais do que nunca. ou seja. não se pode negligenciar o ostracismo a que foi relegado o materialismo na ciência jurídica. adicionandose a isto uma dose de preconceito. só seria possível negar as “suas ideias” se o capitalismo se tivesse tornado o avesso de si próprio. seria preciso construir uma nova teoria e uma nova práxis. acompanhando a evolução do mercado mundial. como ressaltou Florestan Fernandes (2009. Poder-se-ia chamar tais revisionistas de “revisionistas orgânicos” [. Por derradeiro. Como bem frisa o autor. O que prima Lyra Filho (1983) é pelo meio termo entre o objetivismo e o subjetivismo. exatamente por isso.15 exegese. De toda sorte. nessa lógica. claro. Seria inútil pretender enfiar a realidade em fórmulas que não possuem mais existência real. Para restabelecer a validade do marxismo. tendo a capacidade de produzir campos de reflexão em comum. ao menos em partes. a concentração e a centralização do capital. bem como que o materialismo pode trazer para o Direito. mas não ao ponto de invalidar as contribuições ofertadas por Marx. Ora. atenta-se para o fato de que a ciência dos obstáculos acima ressaltados.] Se se considera que Marx investigou não só o capitalismo de sua época. corrente. mas partissem da situação existente. Se não bastassem os problemas de cunho técnico-teórico apresentados por Roberto Lyra Filho. social e política do exército industrial de reserva. se a mais-valia relativa. Pensar o Direito em Marx pode. acredita-se que os fatores objetivos ainda estão postos. Em conseqüência.

16 as lições colocadas servem como premissas para o início desse estudo. ao menos se sente. Como uma introdução não deve. na conotação oferecida por Karl Marx e Friedrich Engels. que pretende aproximar o Direito do materialismo histórico e da ideologia. o exposto é o que se resume. a dizer. por ora. . antecipar o mérito das discussões.

como são os fenômenos criados (o pseudoconcreto). ao menos assim se manifestam os seus estudiosos. Isto ocorre em virtude de o indivíduo apenas compreender o fenômeno e lhe faltar à essência ou por ter o domínio da essência e rejeitar o fenômeno. para chegar à formulação do que denomina de pseudoconcreticidade. assim firmou: “A ideologia (e é preciso repetir outra vez o óbvio) espelha. Tal circunstância não ocorre em virtude da intencionalidade de o indivíduo assim conceber as coisas. mas sim por decorrência da aceitação natural das suas formas aparentes. que reflete e especula detidamente sobre os fatos objetivos que se defronta. por exemplo. A ideologia. tem um fundamento metodológico. na acepção marxiana do termo. para somente após este percurso ser possível atingir a sua lei e buscar o seu núcleo oculto para efetuar as múltiplas ligações necessárias (o concreto). ou. de forma inversa e às vezes perversa. 85). Pois o sujeito histórico encontra na sua atividade prático-sensível o meio para atingir – em sentido amplo – os mais variados fins. ainda que sempre inacabada e em constante transformação. infere que a atitude do homem ao se deparar com uma realidade posta não é a de um abstrato sujeito cognoscente. A ideologia trata. Karel Kosik (1995). Logo. O ponto norteador do capítulo é que o mundo tal qual aparece para o homem nem sempre tem correspondência com a sua essência. é entendida como a expressão de apenas parte do real. uma parte do real”. p. é o fio condutor à compreensão da totalidade. antes mesmo de afirmar o concreto. por isso. que trata da “coisa em si”. Nesse grau de relação entre o fenômeno e a essência.1 A PSEUDOCONCRETICIDADE: A GÊNESE DA IDEOLOGIA Analisar a pseudoconcreticidade. da falsa imagem produzida pelo sujeito cognoscente quando do processo de apreensão da realidade.17 2 A ORIGEM E A PRECISÃO DO PENSAMENTO IDEOLÓGICO E A IDEOLOGIA E O DIREITO NO UNIVERSO SOCIAL 2. a dialética. Fernando Henrique Cardoso (1995. . o caminho para o concreto só pode partir do visível e facilmente constatável.

não se compreender com exatidão o que se pretende demonstrar. No trato prático-utilitário com as coisas – em que a realidade se revela como mundo dos meios. o homem.18 Nesse processo de apropriação da realidade. de familiarizar-se com as coisas e manejá-las. 15) sobre o mundo da pseudoconcreticidade: O complexo dos fenômenos que povoam o ambiente cotidiano e a atmosfera comum da vida humana. analisar e compreender teoricamente. capta a realidade sem a capacidade de compreendê-la. tudo a partir da forma aparente. instrumentos. traz-se a definição de Karel Kosik (1995. sem proceder a um detóur. Por isso. Logo. à primeira vista. 13-14): Portanto. Segundo Kosik (1995. o que é dinheiro. como apontado. cujo pólo oposto e complementar seja justamente o abstrato sujeito cognoscente. menciona-se o exemplo que traz Kosik (1995. p. sob o aspecto de um objeto que cumpre intuir. A atividade prática do indivíduo não lhe proporciona a compreensão do mundo objetivo. que existe fora do mundo e apartado do mundo. Com isso. com a sua regularidade. o que acaba por determinar o aspecto fenomênico da realidade. p. p. Pode. 14). à primeira vista. nem ser obrigados a saber. exigências e esforços para satisfazer a estas – o indivíduo “em situação” cria suas próprias representações das coisas e elabora todo um sistema correlativo de noções que capta e fixa o aspecto fenomênico da realidade. apresenta-se como o campo em que exercita a sua atividade prático-sensível. firma-lhe apenas os sentidos primeiros. a praxis utilitária imediata e o senso comum a ela correspondente colocam o homem em condições de orientar-se no mundo. com ela interage e desenvolve sentidos intuitivos. Ocorre que. que. sobre cujo fundamento surgirá a imediata intuição prática da realidade. a posição frente a esta realidade não é a de um indivíduo que tem a introspecção e potência de refletir sobre ela de maneira crítica e detida. criando as representações. a realidade não se apresenta aos homens. Antes de avançar no estudo. o autor pretende demonstrar que o homem ao se defrontar com a realidade objetiva não só faz parte dela. que é simples e elucidativo: Os homens usam dinheiro e com eles fazem as suas transações mais complicadas. sem ao menos saber. tende a aceitá-la e absorvê-la da maneira como se apresenta ou é transmitida. porém. mas não proporcionam a compreensão das coisas e da realidade. fins. criando representações próprias às coisas. imediatismo e . que são pseudoconcretos. Para clarear.

através da prática humana. como típica consequência da pseudoconcreticidade. que são projeções dos fenômenos externos na consciência dos homens. ou apenas sob certo ângulos e aspectos. Além dessas. assumindo um aspecto independente e natural. parte integrante do mundo pseudoconcreto. ainda que brevemente. 105). mas só de modo inadequado. Pois a ideologia. penetram na consciência dos indivíduos agentes. 1995. Justamente por isso o fenômeno revela a essência. encontra-se: o mundo dos fenômenos externos. pode-se ofertar alguma explicação para conceder claridade solar ao ponto. por princípio. É o caso do fenômeno e da essência. todavia. O fato de se manifestar no fenômeno revela seu movimento e demonstra que a essência não é inerte nem passiva. O fenômeno indica a essência e. não sendo reconhecidos como produto da atividade social dos homens. Por oportuno. 15). p. que. traça-se. A essência se manifesta no fenômeno. pertence também à pseudoconcreticidade: “O mundo das representações comuns. portanto. O fenômeno é o que se manifesta primeiro. Trata da relação do fenômeno com a essência. ou seja. Até aqui se utilizou definições de suma importância sem a devida cautela de apresentar os seus significados. ao passo que é a maneira pela qual a totalidade e o singular se mostram. Cronologicamente – no . p.] O mundo da pseudoconcreticidade é um claro-escuro de verdade e engano. [. nesse estágio. que se desenvolvem à margem dos processos essenciais. é mediata ao fenômeno e. formas ideológicas de seu movimento”. A essência se manifesta no fenômeno... o mundo dos objetos fixados. A manifestação da essência é precisamente a atividade do fenômeno. surge da atividade prático-sensível. se manifesta em algo diferente daquilo que é. A passagem é densa. (KOSIK. no campo em que é gerada a representação. infere: “A ideologia contêm elementos de conhecimento da realidade. Dentre as situações elencadas por Kosik que pertencem à pseudoconcreticidade. O fenômeno indica algo que não é ele mesmo e vive apenas graça ao seu contrário. e a possibilidade de ver o seu núcleo oculto. constitui o mundo da pseudoconcreticidade. ao mesmo tempo. A sua captação é imediata. O seu elemento próprio é o duplo sentido. das formas produzidas idealmente. um paralelo entre a ideologia e a pseudoconcreticidade. mas estes se encontram sempre integrados em um sistema global de representações que. A identidade e precisão conceitual são flagrantes. riquíssima. que passam a impressão de serem frutos de condições naturais. A ideologia. a esconde. A essência não se dá imediatamente. é um sistema deformado e falseado da realidade”. parcial. produto da praxis fetichizada. socióloga chilena.19 evidência. Marta Harnecker (1973. toma vida própria a partir do aparente real.

de Petersburgo. que Marx jamais expôs de maneira didática. a transição de uma forma para outra. extrair o significado preciso da lei do fenômeno. p. Esta praxis utilitária cotidiana. constitui “a forma ideológica do agir humano de todos os dias” (KOSIK. da duração e da transformação de um fenômeno em outro. de seu desenvolvimento. Não obstante inexista uma teoria marxiana do método dialético. geram as representações comuns. o método aplicado em “O Capital”. à medida que eles têm forma definida e estão numa relação que pode ser observada em determinado período de tempo. demonstrá-la. Sintetizando. Para ele. no posfácio da segunda edição da referida obra. sempre. antecede a essência. analisou o método: Para Marx. E para ele é importante não só a lei que os rege. o conteúdo é diverso. I. pois é a forma aparente. são leis que . que forma o pensamento comum – ou “senso comum” –. Embora Kosik não explique tal lei. contudo. 19) cita passagem do Correio Europeu. sedimentados historicamente. Neste último caso. Os fenômenos são captados em contato primeiro. de maneira parcial. o mais importante é a lei de sua modificação. só importa uma coisa: descobrir a lei dos fenômenos de cuja investigação ele se ocupa. a essência e escondê-la (esta é sua atividade própria). da forma. p. por exemplo. Pela lógica inversa. Isto não se baseia no fato de que o fenômeno esteja vinculado ao conhecimento sensorial ou mais superficial. Todo o fenômeno possui uma lei. pode-se afirmar que são características do fenômeno: a) indicar a essência. em parte. sem. As leis dos fenômenos – e Marx tentava provar isso – são leis que independem da vontade. As projeções dos fenômenos. embora mantenha a sua forma. que são fenômenos externos na consciência humana. em artigo redigido em 1872. consciência e intenção do homem. possivelmente. c) revelar. isto é. mas porque o aspecto fenomênico é produto direto da praxis humana social. b) manifestar a essência apenas sob certo modo. esta deve ser entendida como a regra de determinação da aparição. 1995. sendo inclusive condição indispensável para atingi-la. que. 19). quando maximizadas. O fenômeno apresenta ainda a característica de se reproduzir de maneira espontânea no pensamento comum como se a própria realidade fosse. de onde se poderia. Chegar à compreensão da lei do fenômeno é o que busca.20 trato prático-utilitário –. Karl Marx (1983. fazendo com que o sujeito crie e atribua sentidos pseudosconcretos aos objetos cotidianos. v. de uma ordem de relações para outra. que é também o elo entre ele e a respectiva essência.

para. É o único caminho para o conceito. 1995. como o elemento consciência desempenha papel secundário. Embora o autor italiano tenha. 3) oferecer um quadro do próprio movimento. como mencionado. É. como valor de troca. na lógica apresentada. mas a unidade dela com o fenômeno. o início da análise parte da aparência do fenômeno externo. Terry Eagleton (1997. nesta passagem. Uma vez captado o núcleo essencial oculto. resta possível a demonstração do mediatismo do fenômeno. que é a sua forma aparente. Entendimento diverso foi apresentado por Antonio Gramsci (1978. observar o movimento real da mercadoria significa: “1) fixar as leis do seu movimento. no seu conjunto” (KOSIK. de certa maneira. afirma-se que a realidade esgota-se inteiramente nos fenômenos e que além dos fenômenos nada existe. ambos são partes do todo. 84) acentua: “Se a realidade capitalista abrange sua própria falsidade. então essa falsidade deve. Por isso. para somente depois examinar a sua essência: o valor. constitui não apenas a compreensão da essência. 2) analisar de per si as aparências ou formas (Gestallen )reais que o sujeito cria no curso ou no fim do seu movimento. é íntima a vinculação do fenômeno com a essência. reitera-se que. chegar à sua lei7. 182). Em outras palavras. não obstante haja a cisão. portanto. um grau e uma forma diferenciada de conhecimento. A realidade. e assim o é. certamente”. é a meia parte da realidade. Até mesmo porque. p. bem como que o método dialético busca justamente compreender a “coisa em si”. Marx analisa a mercadoria primeiramente sob o seu aspecto fenomênico. a definição do que seja o fenômeno foi bem apresentada: 7 Karel Kosik (1995) aponta que em “O Capital”. Constitui a “coisa em si” e sua estrutura. p. do ponto de vista lógico e metodológico. ser real”. deixando às claras o seu caráter derivado no universo social. 53). por sua vez. A essência. que é justamente o conhecimento da estrutura da coisa. posteriormente. p.21 determinam o agir. o pensar. A essência entendida em isolado pode ser tão irreal quanto o fenômeno o é ontologicamente. Nessa lógica. não se manifestando imediatamente ao homem. Atingir a essência significa também retirar a pretensa independência do fenômeno. embora a manifestação da essência seja através do fenômeno. manipulando a vontade. e. sem que se tenha o elemento consciência como fundamental. negligenciado a existência da essência. se justifica analisar a pseudoconcreticidade antes mesmo de apontar o concreto. Na teoria marxiana. ou seja. chegar até a essência é enxergar a face oculta do fenômeno e entender por que ele assim aparece. . quando assim assentou: “Na Sagrada Família.

do que é secundário e do que é essencial. p. Somente é possível demonstrar a coerência interna da coisa através deste ato de apartar. Segundo Kosik (1995. Nesse momento. que existe em si e por si. por que “a coisa em si” não se manifesta de maneira imediata ao homem? A resposta. p. É o caso da diferenciação entre representação e conceito. ou seja. afirma: “Toda ciência tem por objeto passar do movimento simplesmente aparente dos fenômenos ao movimento interno real”. A presente imagem sintetiza o até então exposto: Figura 1 – A composição da realidade Fonte: O autor (2010). a ciência e a filosofia seriam inúteis”. também ela. 18). Para proceder à decomposição do todo. isto é. seria justo indagar: por que o fenômeno e a essência não coincidem? Ou. existem certas distinções teóricas que auxiliam na tarefa. Complementando. 17). p.]. para Kosik (1995. o processo do conhecimento se realiza com a separação do fenômeno e da essência. da necessidade de encontrar uma ordem no mundo e de descrever e classificar as coisas (necessidade que é. (GRAMSCI. em que o secundário não é considerado irreal (ou menos real). 127).22 Que são os fenômenos? São algo objetivo... 53-54). mundo da . sendo evidenciado apenas o seu caráter derivado e fenomênico. 1978. ligada a interêsses práticos imediatos e futuros?) [. ou são qualidades que o homem distinguiu em conseqüência dos seus interêsses científicos. p. é no sentido de que “Se a aparência fenomênica e a essência das coisas coincidissem diretamente. Roger Garaudy (1967. pensador francês.

Além disso. Kosik (1995. o sustentado.. está em plena consonância com as premissas da concepção materialista da história. p.. sistematização doutrinária das representações („ideologia‟ – teoria e ciência)” (KOSIK. 8 “O Capital. . Inclusive. oculto. aparência externa dos fenômenos – lei dos fenômenos. e na medida em que saibamos que a realidade é produzida por nós. como sedimentos e produtos da praxis social da humanidade. é o fator que permite a transformação da realidade. de Marx. a atitude humana crítica necessária à transformação da realidade ou de alguma das suas esferas (como o Direito o é). naturalidade e pretensa originalidade. bem como espirituais. não os aceita sob o seu aspecto imediato: submete-os a um exame em que as formas reificadas do mundo objetivo e ideal se diluem. 22-23) afirma que: a realidade pode ser mudada [. elencadas por Marx e Engels (1982. para se mostrarem como fenômenos derivados e mediatos. movimento visível – movimento real interno. Do mesmo modo como assim não considera o mundo das representações e do pensamento como. destruir a pseudoconcreticidade. como não poderia ser diferente. as configurações e os objetos. mundo da aparência – mundo real. Kosik (1995. 21) refere ainda que A dialética não considera os produtos fixados. É a maneira pela qual o pensamento capta a “coisa em si” e procede a “cisão do único” 8.]”. todo o conjunto do mundo material reificado. 20).] só porque e só na medida em que nós mesmos produzimos a realidade. nessa via.1. pela religião. falsa consciência e consciência real etc. Por isso. 1995. essencial. Mas eles começam a distinguir-se dos animais assim que começam a produzir os seus meios de vida [. falsa consciência – consciência real. p. A diferença entre a realidade natural e a realidade humano-social está em que o homem pode mudar e transformar a natureza. é construído metodologicamente sobre a distinção entre a falsa consciência e compreensão real das coisas. 8). t. Constitui. Assim. existência positiva – núcleo interno. enquanto pode mudar de modo revolucionário a realidade humanosocial porque ele próprio é produtor desta última realidade. que é tarefa do pensamento dialético. p. em a “A Ideologia Alemã”: “Podemos distinguir os homens dos animais pela consciência.. mas retirar a sua pretensa independência. provando o seu caráter derivado..23 aparência e mundo real. não significa negar a existência ou objetividade do fenômeno. perdem a sua fixidez. de modo que as categorias principais da compreensão conceitual da realidade investigada se apresenta aos pares: fenômeno – essência. p. a desconstrução da pseudoconcreticidade visa dissolver as criações fetichizadas de um mundo idealmente desenvolvido. Essa capacidade de produzir e reproduzir as condições materiais. por tudo o que se quiser. como algo originário e independente. representação – conceito.

Afora isso. bem como analisar uma possível ideologia jurídica. não sendo. toda a ideologia é criada a partir da atividade prático-utilitária dos indivíduos. de que trata a filosofia. que não raro é apresentada na formulação latina como forma de conceder maior autoridade à proposição. A ideologia. 2. . Em boa hora. ou (o que em outras palavras exprime a mesma coisa): a totalidade do mundo revelada pelo homem na história e o homem que existe na totalidade do mundo”. no processo de apreensão do mundo objetivo. desvendando a “coisa em si”. nem mesmo uma coisa. principalmente os de introdução. não é exclusiva de quem se filia ao materialismo histórico. reitera-se que a dialética trata da “coisa em si”. portanto. como restou demonstrado no ponto passado. A “coisa em si” não constitui uma coisa qualquer. conforme aponta Miaille (1994). antes de traçar um paralelo entre a ideologia e o Direito. em verdade. é um produto social à medida que se desenvolve no cérebro dos integrantes em cada sociedade (embora seja possível universalizá-la). desenvolvidas pelo ser humano na sua atividade prático-sensível. ibi ius (“onde há sociedade também há Direito”). Esta ideia. enunciam a máxima Ubi societas. em um primeiro momento. Além disso. pode-se afirmar que é corrente a assertiva de que o Direito é um produto da sociedade. para que se identifique o locus preciso de ambos dentro da totalidade.2 A IDEOLOGIA O E O DIREITO NO UNIVERSO SOCIAL As lições postas no ponto pretérito serviram como auxílio à percepção mínima de como surge o pensamento ideológico. 248): “a „coisa em si‟. que não se manifesta de maneira imediata ao homem. igualmente. é o homem e o seu lugar no universo. A função do pensamento dialético é chegar à estrutura da coisa. verifica-se que a gênese da ideologia está centrada na ideia de pseudoconcreticidade. A simples noção de que tanto o Direito como a ideologia integram o universo social não é suficiente. mas não foi bastante para precisá-lo (que será tarefa do próximo tópico) e para alocá-lo dentro do universo social. p.24 De todo o exposto. Portanto. cabe situar ambos na totalidade das relações sociais. De modo prosaico. Os manuais de Direito. conforme leciona Kosik (1995. todavia. que compreende o mundo das representações de todas as ordens. não é possível aferir a possível existência de qualquer relação de determinação entre as esferas sociais.

de detóur. p. as visões de mundo etc. Logo. esse universo de relações não é o produto de criação metafísica – ou de qualquer espécie de dádiva sobrenatural –. p.. Karel Kosik (1995. é necessário deter. facetas e esferas [. em forças particulares [. os diferentes aspectos do complexo social tomam a forma de categorias isoladas. a tematização e a projeção. nas suas sempre completas palavras. em nossa mente. o ato pensante de conhecer a realidade tem a capacidade de isolar determinadas partes que compõe o todo social. produz. auxiliando. Para a exata compreensão da maneira pela qual os homens produzem as condições materiais e espirituais.. dotado da capacidade de transformar e criar o seu ambiente material. da qual e sobre o fundamento da qual derivam originariamente todos os outros modos de apropriação – teórica. portanto. Esta atividade intelectual é imprescindível à alocação do Direito e da ideologia nesse universo. as ideias. é um todo indivisível.]”. precedida pela atividade de abstração9. em linhas gerais. Ao contrário do que se presume imaginado. 59) afirma: “Graças ao processo de abstração. O conceito. quando se fala em modo de produção não se está referindo apenas às relações econômicas. Para a concepção materialista.. na mesma linha. dentro da qual pertencem o Direito e a ideologia. o direito. e é implicitamente compreendida em unidade de juízo de constatação e de valor. e as diferentes manifestações e expressões da atividade do ser social – a moral. Após.25 A totalidade da ordem social... efetua-se o caminho inverso. artística etc. diga-se de passagem. É o que se chama. tomando-se como ponto de partida este mundo da realidade pleno e inexaurível. as formas econômicas etc. com a projeção. expôs: Na apropriação prático-espiritual do mundo. buscando o concreto. de outro vértice. previamente. Só mediante a abstração. concebida como um todo indivisível de entidades e significados.]. se isolam determinadas zonas. no estabelecimento do grau de influência entre as esferas componentes da ordem social. ou às que neste âmbito 9 Plekhanov (2006. A possibilidade de conhecimento das partes componentes desse universo somente se torna viável a partir da intencionalidade de o sujeito isolar determinadas facetas. . é igualmente útil à localização do Direito e da ideologia no universo social. – a realidade é. Este ato de apartar o todo é levado a efeito com a tematização. que integram o complexo das relações. – convertem-se. O homem. 30). é o resultado puro e simples da atividade (práxis) humana na terra. o conceito de modo de produção. as teorias.

É necessário. serviu de fio condutor aos meus estudos. na sua formulação mais didática. mas. o segundo. denominado “A Ideologia Alemã”. pode ser formulado assim sucintamente: na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações. compreender o modo de produção do universo social significa assimilar a maneira através da qual sociedade se concatena e cria as suas condições materiais e espirituais de determinada época. Ocorre então uma época de revolução social. p. isto é. toda a imensa superestrutura. uma vez ganho.26 são travadas. evitar desde já um erro. p. necessárias. t. que. p. tanto à estrutura econômica como aos demais níveis da totalidade social: jurídico-político e ideológico. é um conceito teórico e se refere à totalidade social global. De formas de desenvolvimento das forças produtivas. não se deve confundir a expressão “modo de produção de bens materiais” com o conceito de MODO DE PRODUÇÃO. respectivamente. tanto mais partilhado quanto mais é mantido. 1. relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política. 530-531). Esta mesma ideia já havia sido apresentada por Marx e Engels em estudo anterior. O modo de produção não tem de maneira nenhuma o significado unilateral económico que se lhe costuma dar: é o conceito que designa a maneira como uma sociedade se organiza para produzir a vida social. O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social. A primeira é uma noção descritiva e se refere apenas à estrutura econômica da sociedade. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade. fazem a distinção: Pois bem. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser. com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até ai movido. que teve publicação póstuma. o seu ser social que determina a sua consciência. Portanto. O conceito é muito mais amplo. 134) e Michel Miaille (1994. para o entendimento da proposição levantada. o que é apenas uma expressão jurídica delas. É justamente o que Marx propõe sobre de uma maneira global sob a expressão. deve ser dado com as palavras de Marx (1982. assim colocou a questão: O resultado geral que se me ofereceu e. Marta Harnecker (1973. O ponto de partida. de <<modo de produção>>. sobre isto. inversamente. independente da sua vontade. e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. em que os . 68). que ele cria. Não obstante consistisse o desenvolvimento rudimentar do materialismo. política e espiritual. estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. apenas. as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou. pelo contrário. Numa certa etapa do desenvolvimento. mais devagar ou mais depressa. Com a transformação do fundamento económico revoluciona-se. embora complexa.

a conexão da estrutura social e política com a produção. MARX. as teorias.. em cada um dos casos. em determinados limites. Isto ocorre em um processo de apreensão da realidade. que a justifica e que corresponde a certo grau de desenvolvimento das forças produtivas. da religião. p. da moral. à totalidade das relações de produção econômica. wirkenden Menschen]. É também na infraestrutura social que os homens exercem a sua atividade prático-utilitária e tomam ciência dos fatores objetivos e históricos. nessa ordem. A infraestrutura da sociedade é a esfera social em que os homens atuam sob a forma de uma ação instrumental. independem da vontade dos agentes envolvidos. a passagem serve como forma de aclarar a citação acima posta: O facto é. etc.27 fundadores desta ciência ainda não tinham clareza bastante sobre ele. portanto. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política. como produzem materialmente. mas os homens reais. linguagem da vida real. Nela. com a finalidade de produzir os bens materiais. que tem por consequência a criação dos fenômenos. é a instância em que são contraídas relações que. este: o de determinados indivíduos. (ENGELS. o pensar. Os homens são produtores das representações. que trabalham produtivamente de determinado modo. Por isso. na concepção dialética da história. de um povo. determinam. as formas jurídicas. A produção das ideias. A superestrutura é. empiricamente e sem qualquer mistificação ou especulação. das leis. 1982. premissas e condições materiais que não dependem da sua vontade. ideias.. em última . por vezes. portanto. representações. da metafísica. 1. etc. portanto. o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como efluxo directo do seu comportamento material. entrarem em determinadas relações sociais e políticas. os vínculos estabelecidos na infraestrutura da sociedade. t. os homens que realizam (die wirklichen. a religião. da consciência está a princípio directamente entrelaçada com a actividade material e o intercâmbio material dos homens. o universo social é composto de duas partes: a infraestrutura e a superestrutura. as concepções filosóficas. Ou seja. A observação empírica tem de mostrar. O representar. a arte etc. ou seja. mas como eles são realmente. A estrutura social ao produzir as condições materiais de existência dos homens ergue sobre ela uma superestrutura. 13-14). mas destes indivíduos não como eles poderão aparecer na sua própria representação ou na de outros. como trabalham. tal como se encontram condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do intercâmbio a que estas corresponde até às suas mais formações mais avançadas. A base corresponde. Para Marx e Engels. estão abarcadas as ciências. como agem. A estrutura social e o Estado decorrem constantemente do processo de vida de determinados indivíduos. o reflexo da totalidade das relações sociais de produção.

A redução mecânica da superestrutura à base escapa do próprio método dialético. p. mas os diversos momentos da superestrutura – formas políticas das lutas de classe e seus resultados: constituições estabelecidas pela classe vitoriosa uma vez ganha a batalha. é a produção e reprodução da vida real. visões religiosas e seu ulterior desenvolvimento em sistemas de dogmas – exercem também a sua influência sobre o curso das lutas históricas e determinam em muitos casos preponderantemente a forma delas.. p. absurda. o momento em última instância determinante. e tenta o impossível. uma vez que os laços desenvolvidos na infraestrutura têm a capacidade de influenciar em maior grau o universo social e. abstrata. . na história. elencados na introdução desse estudo. em 1890. há deturpações e exageros quanto à relação determinação que existe entre base econômica e a superestrutura. p. a superestrutura. São várias as interpretações. 3. não raro. Pondera Marcus Vinicius Antunes (1997. É o que se chama. constituindo sempre um produto incerto de acordo com a ação. A questão já havia suscitado enorme divergência antes mesmo do falecimento de Marx. e mesmo os reflexos de todas estas lutas reais nos cérebros dos participantes. transforma aquela proposição numa frase que não diz nada. porém. etc. Se agora alguém torce isso (afirmando) que o momento econômico é o único determinante. 39) aponta: “A dialética não é o método da redução: é o método da reprodução espiritual e racional da realidade é o método do desenvolvimento e da explicitação dos fenômenos culturais partindo da atividade prática objetiva do homem histórico”. de “determinismo mecanicista”. foi Engels (1985. dentro e fora dos círculos marxistas. 411) que: “A relação. vulgarmente. jurídicas. em uma carta a Joseph Bloch. no sentido de que toda a superestrutura deriva – como mero reflexo – da base. Deve-se apontar que. mas de ação e reação”. O vinculo não é causal em virtude de que as sínteses não são jamais predeterminadas. não é de causa/efeito. que não é ontologicamente reducionista10. A situação econômica é a base. Nem Marx nem eu alguma vez afirmamos mais. teorias políticas. Entre a base e a superestrutura existe uma relação de determinação. No entanto. 10 Karel Kosik (1995. que é reduzir toda a carga superestrutural do bloco histórico às relações econômicas pura e simplesmente.. filosóficas. 547).28 análise. consequentemente.Segundo a concepção materialista da história. t. a consciência social e a forma pela qual os indivíduos tomam conta de apreender os fatos cotidianos. que afastou explicitamente tal visão: . Tal visão é o caso típico dos obstáculos lógico e metodológico.

] O desenvolvimento político. Ao contrário.29 Não foi a única oportunidade em que o fundador da filosofia da práxis pôs de lado o modo mecânico de enxergar e deturpar o materialismo histórico. entretanto. só ele.] Não há. Mas. etc.. segundo Maurice Duverger (1976. mas os homens fazem eles próprios a sua história. Em carta a W. contudo. [. é nela produzido e reproduzido. p. que toda a parte do universo social integrante da superestrutura tem o seu conteúdo próprio e leis próprias de desenvolvimento e funcionamento. 565-566) expôs: Nós encaramos as condições econômicas [ökonomische Bedingungen] como o em última instância condicionante [Bedingende] do desenvolvimento histórico. as decisivas e constituem o fio condutor que as percorre e que. Borgius. Engels (1985. um efeito [wirkung] automático da situação econômica. portanto.. as económicas – por mais influenciadas que possam ser pelas [condições] políticas e ideológicas – são. em 1894. captar esta lei significa . t.. 419): Freqüentes confusões. 124). entre as quais. Não reduz a consciência às condições dadas. sobre a base de condições efectivas que encontram [já]. [. unicamente activa. jurídico. p. 3. Ainda. em última instância. literário. religioso. alude: O marxismo não é um materialismo mecânico que pretenda reduzir a consciência social. são cometidas na exposição das teses marxistas relativas às relações da “base” e da “superestrutura”: não é verdade que sejam consideradas em sentido único. ao mesmo tempo. p. todos eles reagem também uns sobre os outros e sobre a base económica. por isso. Inclusive. a dialética materialista demonstra como sujeito concretamente histórico cria. no desmascaramento do núcleo terreno das formas espirituais. artístico.. mas num dado meio que a condiciona. concentra a atenção no processo ao longo do qual o sujeito concreto produz e reproduz a realidade social. conforme lição de Martha Harnecker (1973). como aqui e além por comodidade se quer imaginar. e tudo o mais apenas efeito passivo. Após as quase exaustivas citações de Engels e do Kosik. idéias correspondentes e todo um conjunto de formas de consciência. a filosofia e a arte a “condições econômicas” e cuja atividade analítica se fundamente. Não é que a situação económica seja causa. Karel Kosik (1995. cabe atentar.. o marxismo tem sempre admitido que as superestruturas reagiam sobre a base. repousa sobre o [desenvolvimento] económico. e ele próprio. a partir do próprio fundamento materialmente econômico. Como já visto. filosófico. leva ao entendimento. entende-se que restou devidamente claro que a superestrutura não pode ser deduzida da base de maneira mecânica. no mesmo sentido.

] não se pode situar a linguagem nem nas categorias das bases nem naquelas das superestruturas. dominado pelos interesses materiais. e à qual corresponderiam determinadas formas sociais de consciência”. que a linguagem não é um fenômeno que integra a superestrutura: [. de cada vez. a linguagem. no entanto. desempenhava o papel principal. mas não para a Idade Média. como se constata da seguinte passagem: Aproveito essa oportunidade para refutar. política e intelectual. Na diferenciação entre a forma e o conteúdo. ao contrário. de forma breve. mesmo entre os estudiosos do materialismo histórico. visto como não existem fenômenos intermediários deste gênero. Stalin (apud HARNECKER. há discrepância acerca dos elementos que integram a superestrutura. por que lá a política. Pode. entende-se que a linguagem pode ser enquadrada como elemento tipicamente superestrutural. é estranhável que alguém prefira supor que esses lugares-comuns arquiconhecidos sobre a Idade Média e o mundo antigo sejam ignorados por alguma pessoa. Oekonomie. p. 77). onde dominava a política. em nota de rodapé de “O Capital”. 92) asseverava. aqui. se afaste o caráter de determinação e a real essência. p.. 1973. resultar que os fenômenos encontrem a sua essência obscura e aparentemente na própria superestrutura. Em outros termos. aqui o catolicismo. em 1859. minha opinião. significa chegar até a essência. Tampouco se pode situá-la na categoria dos fenômenos „intermediários‟ entre a base e a superestrutura. que determinado sistema de produção e as relações de produção a ele correspondentes. A forma e o modo como eles ganhavam a vida explica. Deve ser claro que a Idade Média não podia viver do catolicismo nem o mundo antigo da Política. uma objeção que me foi feita. Em primeiro lugar. chegou a exemplificar um período histórico em que a superestrutura atuava de maneira determinante.. Marx (1983. Isso ocorre a partir do desenvolvimento aparente de vida própria. em geral” – tudo isso estaria até mesmo certo para o mundo atual. que “o modo de produção da vida material condicionaria o processo da vida social. proceder a um exame rigoroso da afirmativa. Este dizia. sem que. v. nem para Atenas e Roma. certa vez. em suma. Seria proceder de maneira omissa bastante caso não se mencionasse que. É impróprio. que permanece ofuscada. dominada pelo catolicismo. quando do aparecimento do meu escrito Zur Kritik der Pol. por exemplo. “a estrutura econômica da sociedade seria a base sobre a qual levanta-se uma superestrutura jurídica e política. com isso.30 apreender a estrutura e o respectivo conceito. por um jornal teuto-americano. I. Josef V. como ato de . por vezes.

Outro ponto interessante foi o embate teórico promovido de Althusser para com Gramsci.31 expressão e entendimento. a que liberta os olhos de qualquer ilusão ideológica. 123): Stalin. ao lado da infraestrutura social. ao propor que a língua não fazia parte da superestrutura e que não constituía um fenômeno de classes negava as relações dialéticas entre as variações e a evolução lingüística e a evolução da própria vida social. Colocando a questão sobre outro ângulo. o autor via um estreito vínculo . a ciência e a técnica dos árabes eram tidas pelos cristãos como pura bruxaria. que afirmava ter absorvido a própria ciência. inclusive as expressões mais simples do cotidiano. Significa fugir da história. que também estabelece contatos constantes. Sobre o tema. na realidade. as condições objetivas da vida material. o conteúdo da fala de determinada sociedade irá refletir. que podem passar despercebidas. Jürgen Habermas compreende que. o conteúdo é movido pelas forças materiais. p.70-71). Aquele afirmava que a ciência não é um fenômeno superestrutural. é o que é demonstrado também pelo fato de que ela tenha tido períodos inteiros de eclipse. a religião. de maior extensão e continuidade de desenvolvimento. 1973. obscurecida por uma outra ideologia dominante. Por outro vértice. Sendo evidente que a influência sobre a linguagem pode ocorrer pela própria superestrutura. p. fazer da ciência a concepção do mundo por excelência. É possível dizer. embora possa apresentar forma de aparente independência. Mas. isto significa recair no conceito de que a filosofia da praxis tenha necessidade de sustentáculos filosóficos fora de si. em que o homem atua sob a forma de uma ação instrumental. Embora admitisse que a teoria da comunicação não tivesse como finalidade solver problemas de ordem filosófica. 93). que no estudo das superestruturas a ciência ocupa um lugar privilegiado. Gramsci (1978. uma ideologia. Significava definir a língua como um instrumento neutro. contudo. conforme se denota da seguinte passagem: “Fazer da ciência uma superestrutura é tê-la na conta de uma dessas ideologias „orgânicas‟ que se coadunam tão bem com a estrutura que devem desaparecer com elas” (ALTHUSSER apud HARNECKER. notadamente após o século XVIII. existe espaço para uma ação comunicativa. assim se manifesta Florence Carboni (1997. assim. p. que põe o homem em face da realidade tal como ela é. também a ciência é uma superestrutura. a partir de quando a ciência seja uma superestrutura. Significa recusar o materialismo dialético. assim dispôs: Colocar a ciência na base da vida. pelo fato de que a sua reação sôbre a estrutura tem um caráter particular. ao seu turno. em certa medida.

são decorrência das relações de produção. Ao examinar hipóteses singulares sobre a teoria da evolução. que está desvendando um significado inexplorado e não somente repisando. Por isso. Ao desenvolver uma ideia própria. Habermas (1983. que é o locus onde o homem produz as suas condições materiais de sobrevivência. do agir instrumental e estratégico – em suma. 2. deparamo-nos com problemas. que encontram expressões nas imagens do mundo. 12-13) mencionou que: As linhas de conjunção não passam apenas entre a teoria do agir comunicativo e os fundamentos do materialismo histórico. do agir comunicativo e da regulamentação consensual dos conflitos de ação. Uma posição importante para a estratégia teórica chega assim a tocar nas estruturas de racionalidade. no plano ideal. O movimento da ideia parece caminhar e se desenvolver de maneira autônoma e independente da esfera social. O ato de pensar. se materializaram em sistemas de instituições. Afora as discussões teóricas. do saber prático. que. associado à noção da pessoa como um fim em si. que são as únicas a tornar possível. que. Quando ele elabora as teorias de explicação desta.3 A IDEOLOGIA Em linhas gerais. têm lugar processos de aprendizagem que e traduzem em formas cada vez mais maduras de integração social. p. Enquanto Marx localizou os processos de aprendizagem evolutivamente relevantes (na medida em que encaminham as ondas de desenvolvimento das épocas) na dimensão do pensamento objetivante. poderiam compor um estudo à parte. também na dimensão da convicção moral. tornam necessárias considerações de teoria da comunicação. que têm eficácia prática nos movimentos sociais e que. decerto. leva ao entendimento – e à sensação – de potência reveladora de entes e . por fim. na concepção materialista da história tanto o Direito como a ideologia são elementos superestruturais. as formula imaginando estar reproduzindo parte de todo o universo real em um processo de atribuição de significações específicas para determinado objeto. crê. do saber técnico e organizativo. em novas relações de produção. emergiram nesse meio-tempo boas razões para justificar a hipótese de que. o emprego de novas forças produtivas. em que ele cria e é criado. a ideia serve para o pensador como meio de apreensão da realidade.32 com a teoria da evolução social. por sua vez. Em sua obra “Para a Reconstrução do Materialismo Histórico”. portanto. ao contrário. o resultado de relações típicas de conjunturas históricas específicas. nas idéias morais e nas formações de identidade. das forças produtivas –.

Luiz Fernando Coelho (2009. O primeiro significado do têrmo não desaparece. que define e vincula às suas condições históricas e sociológicas”. O livro foi escrito pelos fundadores da filosofia da práxis. Para os objetivos deste trabalho. 11 Henri Lefebvre (1968. Na oportunidade. p. em parte. Por exemplo: a ideologia alemã. Quando se fala em materialismo histórico clássico.” . que é a advinda do materialismo histórico clássico. a palavra foi empregada por Antoine Destutt de Tracy. às projeções do espírito ou às dádivas sobrenaturais. Marx quer elaborar uma teoria das representações gerais.. Na concepção materialista. terminada em 1846. sociais. O contorno inovador foi dado na obra “A Ideologia Alemã”. o objeto estudado torna-se um conjunto de representações características de uma época e de uma sociedade. entendendo que não se poderia partir da consciência do indivíduo para compreender o seu status. A questão que se coloca. Marx e Engels inverteram o sistema lógico do idealismo alemão impulsionado por Hegel. em parte. através da psicologia causal. Marilena Chaui (1985) e Louis Althusser (1985)11. está-se retomando a um momento específico da história. no entanto. A palavra torna-se pejorativa. sem que o indivíduo tivesse a percepção deste fato que. 42-43) ressalta que: “Marx transformou o significado do têrmo [. será que poderia ela manipular o pensar. diversos significados. para rebater o que chamaram de “materialismo vulgar” dos jovens hegelianos. Na acepção original.. das representações individuais. A proeza consistiu em desvendar a face oculta dos fenômenos sociais atribuída. 12 Na mesma direção. segundo referem Luiz Roberto Lopez (1999). p. mas a própria coisa a ser explicada. Para Marx e Engels. Karl Marx e Friedrich Engels. a produção da ideia representa e reflete a atividade real do homem. é a seguinte: se o sujeito é que apreende a realidade. conforme aponta Luiz Roberto Lopez (1999)12. Essa coisa a ser explicada assume uma outra dimensão. conferem a ela uma nova acepção. Para os ideólogos franceses. seria tão notório? A palavra “ideologia” porta.33 significados que se encontram disseminados no mundo objetivo. êle dá os elementos de uma gênese explicativa das ideologias. hoje. nem meio século após o surgimento da palavra ideologia. para responder a Hegel e. entre 1801 e 1815. Pela primeira vez. ao escrever a obra “Elementos de Ideologia”.]. nem todas coerentes entre si. basicamente uma única concepção de ideologia será utilizada. Não designa apenas uma teoria explicativa. Terry Eagleton (1997) elencou pelo menos dezesseis definições distintas. particularmente ao de Hegel e ao dos chamados jovens hegelianos. o termo servia para designar a ciência da gênese e do desenvolvimento das ideias. até então. publicada em quatro volumes. a ideologia se limitava à explicação. 120) diz: “Esse conceito deflui da crítica que Marx faz ao idealismo. isto é. exatamente como ele é em dada circunstância. aparentemente.

as relações de produção serão exercidas de modo diverso dentro da mesma infraestrutura. apenas corresponde a impulsos das condições objetivas de vida. Pedrinho Guareschi (2000). para o possível paradoxo causal. cientificamente. sob um enfoque que denomina de “positivista-funcionalista”. nas palavras do autor. em verdade. pois a ideologia é um dos instrumentos da dominação de classes e uma das formas da luta de classes”. é necessário recorrer a esta para as compreender em sua estrutura. Agora. Na lógica materialista..34 A difícil tarefa inicial do materialismo histórico recém desenvolvido era comprovar. que é o de classe social e a sua respectiva luta13. . ao examinar as relações de produção de bens materiais de certa época. p. precisamente. adiciona-se um conceito imprescindível à teoria marxiana e à ideologia.. a partir de padrões de vida. pressupõe a noção de que há mais de um grupo social atuando em patamares distintos – e hierarquizados – na cadeia produtiva. formulando definições a partir das características visíveis. de ideias semelhantes. até mesmo. profissão etc. é impossível compreender a origem e a função da ideologia sem compreender a luta de classes. Ou. em que os critérios são rígidos (renda. E se perguntarmos: Por que ganham mais? A resposta será: Porque estudaram mais (melhor formação). sem fim.). classifica as pessoas em determinadas “caixinhas”. que esta teoria pode levar: Agora. se você perguntar: Por que há pessoas em determinadas “caixinhas”? A resposta será: Porque ganham mais. é cabível afirmar que dado segmento social pode influenciar em maior grau o senso comum ou a consciência social. 85-86): “[. é possível aperceber os reflexos no pensamento comum. escrita também por Roberto Ramos. Nessa visão. ao ponto de formar uma ideologia dominante? Nesse estágio. que os objetos ideais que se movem com pretensa independência apresentam as suas raízes nas condições materiais de existência humana. E se 13 Segundo Marilena Chauí (1985. 35-36). as ideias apresentam estreita vinculação com a base material. em sua obra “A Máquina Capitalista”. as classes podem ser determinadas entre alta. em uma visão superficial. e. Adverte Pedrinho Guareschi (2000. Ainda. A divisão da sociedade em classes. Logo.] em termos do materialismo histórico e dialético. Todo o conjunto de pensamentos e sistemas idealmente criados. p. Nitidamente. de grau de educação análogo etc. de consumo. indagou: o que é classe social? Aponta o autor que as respostam circundam teorias que advogam pelo simples enquadramento social. é uma análise estática da realidade. Com isso. média e baixa.

na sociedade. é na Inglaterra que a sociedade moderna.35 perguntarmos: Por que estudaram mais? [. como aponta Marx (1985. Isso. ficando alguns submetidos à vontade de outros.. 2. III – t. v. pois. desde que o sistema capitalista se estabeleceu. Também lá. v. o lucro e a renda fundiária. na separação radical entre o produtor e os meios de produção. como esta separação constituía a sua base. Desditosamente. do modo mais clássico. que são um grupo de intelectuais que desenvolvem teorias explicativas da realidade no sentido de condicionar o senso comum. exemplificativamente). no capitalismo. A rigor. p. cujas respectivas fontes de rendimento são o salário. tratava das classes sociais. portanto. estágios intermediários e de transição (embora incomparavelmente menos no campo do que nas cidades) encobrem por toda a parte as determinações de limites. 15 “A essência do sistema capitalista está. Esta tarefa corresponde à função dos ideólogos. p. 1981. está desenvolvida ao máximo. O último capítulo por ele escrito e inacabado. que se divide em três grandes classes14.] Alguns dizem: Porque ganham mais. A divisão em classes põe os indivíduos em posições distintas na escala produtiva e. Esta separação torna-se cada vez mais acentuada e numa escala progressiva. que se baseia no modo de produção capitalista” (MARX.. Marx faleceu antes de concluir a sua magnum opus “O Capital”. essa divisão em classes mesmo lá não aparece de modo puro. organizado por Engels. Em suma. 14). nos centros urbanos ao menos. O conflito é resultante da 14 “Os proprietários de mera força de trabalho. “b”. em última análise. acreditar que as classes se definem por características rígidas é também uma ideologia. por via reflexa. Para Marx (1983). em sua estrutura econômica. os proprietários de capital e os proprietários da terra. Contudo. p. . a segregação entre os produtores e os meios de produção cinge a sociedade em classes que possuem interesses colidentes. Em sentido formal e material. sem esquecer que a divisão entre as classes não aparece de modo puro. assalariados. havendo estágios intermediários e de transição. seria incorreto referir. mas. uma meia verdade. existem apenas duas classes: a dos que detêm os meios de produção e a dos que possuem apenas a força de trabalho15. 2. ele não poderia se estabelecer sem ela” (MARX. a posição social irá corresponder à posição do indivíduo na escala produtiva. constituem as três grandes classes da sociedade moderna. Ou seja. III – t. 317). capitalistas e proprietários da terra. à existência de diversas classes (“a”. 317): Indubitavelmente.. “c” etc. Esta desigualdade estrutural é que possibilita o fato de determinado quinhão da sociedade poder tomar para si a tarefa do pensar coletivo.

A hegemonia de determinada classe ocorre a partir da transformação na base social. revolucionam-se todos os elementos superestruturais já mencionados no ponto passado. por outro lado. o antagonismo de classes tem movido a história em diferentes épocas. ela lhe disse que a pessoa rica é aquela que poupa mais. Refere o autor que. ainda. ao mesmo tempo. sendo que a ideologia dominante tem sido – e será sempre – a ideologia da classe dominante. Além disso. Rompendo o abstrato. o livre mercado etc. 1. 123) deixaram esta ideia suficientemente clara em diversas oportunidades16. t. portanto as ideias do seu domínio” (MARX. t. como a liberdade. as ideias dominantes.. ENGELS. Aponta.]. no modo de produção capitalista. conversando com uma empregada doméstica. toda a camada superestrutural vai se adequando mais ou menos rapidamente às transformações infraestruturais. p. p. Pedrinho Guareschi (2000). ao mesmo tempo. o direito de propriedade sobre os meios de produção. das relações que precisamente tornam dominante uma classe. em que o capitalista busca o maior lucro e os trabalhadores melhores condições de trabalho. ao menos enquanto houver esta divisão. Assim. Para isto. Com isso. em “Sociologia Crítica”. inclusive em “O Manifesto Comunista”. em todas as épocas. 1982. A ideologia. outra frase que faz parte do ideário comum. 38-39).36 posição contraditória que ocupam os sujeitos na escala produtiva. com isto exprimese apenas o facto de que no seio da sociedade velha se formaram os elementos duma sociedade nova. de 1848: Que prova a história das ideias senão que a produção espiritual se transforma com a transformação da produção material? As ideias dominantes de um tempo foram sempre as ideias da classe dominante. As ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal [ideell] das relações materiais dominantes. A ideologia se apresenta como falseamento do real à medida que influi para que a essência das coisas permaneça obscura. Karl Marx e Friedrich Engels (1982. a classe que é o poder material dominante da sociedade é. traz exemplos do cotidiano para ilustrar a teoria. visa impedir que as pessoas tenham consciência real dos fatores objetivos que circundam a sua vida. basta constatar os valores até hoje predominantes.. as relações materiais dominantes concebidas como ideias. portanto. o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim. . outrora denominada burguesia. Fala-se de ideias que revolucionam uma sociedade inteira. 1. corresponde às diretrizes gerais de sua classe dominante. de que a dissolução das ideias velhas acompanha a dissolução das velhas relações de vida. que é a proposição de que quem 16 Em “A Ideologia Alemã”: “As ideias da classe dominante são. dos meios para a produção espiritual [. ou seja.

efetivamente. o servo vende apenas parte da sua força de trabalho ao senhor feudal. traços distintivos da figura do trabalhador assalariado. 1985. a sociedade é dividida em classes. acentua Marx (1983). o “trabalho é a fonte de toda riqueza”17. que apenas possuem a força de trabalho18.” (MARX. Pois. não vende a força de trabalho. na personalidade viva de um homem e que ele põe em movimento toda vez que produz valores de uso de qualquer espécie. possuía moradia. Decerto os exemplos constituem uma meia verdade. No capitalismo. em última análise. em “Crítica ao Programa de Ghota”. Explicando. mais o suficiente para mantê-lo vivo e para que pudesse ao menos reproduzir a força de trabalho. p. todavia. . a segregação levada a efeito no capitalismo é entre os possuidores e não possuidores dos meios de produção. assim. Esta posição irá determinar. como já referido. como visto. pois constituem. Ao apartar a classe trabalhadora dos instrumentos de trabalho. não seria um trabalhador assalariado. O “trabalhar melhor” ou “poupar mais” não têm o condão de alterar uma estrutura de produção estabelecida. Caso se estabeleça um paralelo histórico entre a figura do trabalhador assalariado com as demais classes dominadas na cadeira produtiva histórica. típico das ideologias. no capitalismo existe também a ideologia de que o trabalhador é livre para escolher para quem vender a sua força de trabalho. 1983. mas sim um escravo. I. p. pois a dicotomia é estabelecida precisamente – e previamente – entre os proprietários capitalistas e os trabalhadores. ele não poderá vender a sua força de trabalho por toda uma vida de início. laborar a vida inteira para se manter. caso fizesse isso. Ocorre que. a uma educação melhor. tal visão exige cautela. 139). sendo que. ao passo que ele trabalha um determinado lapso para o senhor feudal e parte para si. já no regime feudal. 18 A força de trabalho é a energia humana depreendida à produção de bens materiais. por sua vez. v. Complementando o exemplo de Guareschi.37 trabalha mais e com melhor qualidade ganha mais. Ou. A posição de classe independe do maior ou menor esforço ou do grau de escolaridade. com base na teoria marxiana. A Natureza é tanto fonte dos valores de uso (e é bem nestes que. o caráter derivado das ideias. revelando. 17 Não se pode olvidar o comentário pertinente de Marx. consiste a riqueza material [sachlich]!) como o trabalho. E é justamente por esse motivo. que não é ele próprio senão a exteriorização de uma força da Natureza. o trabalhador assalariado vende a sua força de trabalho ao capitalista por um determinado período. a força de trabalho humana” (MARX. chega-se à seguinte conclusão: a) Escravidão: o escravo. à saúde. o escravo. uma vez que ele é a própria mercadoria. uma vez que há outros aspectos que devem ser ponderados. 3. os que terão acesso aos bens de consumo. à cultura etc. igualmente. com a precisão de Marx: “o conjunto das faculdades físicas e espirituais que existem na corporalidade. alimentação. embora estivesse em uma condição desumana. t. ao alertar que “O trabalho não é a fonte de toda a riqueza. 10). como destaca o autor. que não obstante o trabalhador assalariado tenha que.

lhes dá iguais chances de melhorar – ocultando. O trabalhador assalariado. os interesses do capital. embora haja mútua dependência entre eles. p. mas de quem possui os meios de condições de trabalho. não são os mesmos dos trabalhadores assalariados. isto é. 88-89): A ideologia burguesa. de modo que . Uma justa indagação seria: quais são estes “mecanismos” de perpetuação da dominação de classe? Antes da resposta. Logo. bastando lembrar as palavras de Leão XVIII (19xx. com que os homens creiam que são desiguais por natureza e por talentos. A classe dominante se utiliza de diversos mecanismos ideológicos para que haja a manutenção da situação atual de hegemonia. assim. p.]. apesar da sua diversidade. Há ideologias espraiadas por toda a camada superestrutural. por exemplo. certamente. acerca das classes sociais. que é necessário colocar a verdade numa doutrina contràriamente oposta.38 b) Servidão: o servo. ao apontar: O êrro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra.]. ao ser despido por completo dos meios de produção.. faz com que creiam que são desiguais por natureza.. fazendo. o desenvolvimento do capitalismo pressupõe a separação entre os trabalhadores e os meios de produção. irá produzir idéias [. então. no entanto. com a sua típica característica de falseamento do real. 24). assim como no corpo humano os membros. mas que a vida social. É claro que ele irá vendê-la àquele que pagar o melhor preço. encontra-se em uma fragilidade tal que a única forma de sobrevivência é através da venda da única mercadoria que possui: a força de trabalho.. cabe lembrar que a ideologia. porque. como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para combaterem mùtuamente num duelo obstinado. os que honestamente trabalham enriquecem e os preguiçosos empobrecem. se adaptam maravilhosamente uns aos outros. Ou. [. tinha também moradia. permitindo a todos o direito de trabalhar. portanto. que é dito “livre”. o que possui? Apenas a força de trabalho.. alimentação e não raro era até mesmo proprietário dos meios de produção rudimentares. ou que são desiguais por desejo próprio. Isto é uma aberração tal. ao passo que. não com a total liberdade como propagam os liberais. com total denotação marxiana. suas “chances de melhorar” não dependem deles. reitera-se incansavelmente. tem a habilidade de harmonizar e pacificar o ontologicamente contraditório. Nesse sentido. ainda que vivesse sob o jugo do senhor feudal. manifesta-se Marilena Chaui (1985. que os que trabalham não são senhores de seu trabalho e que. A pergunta que resta a fazer é: e o trabalhador assalariado.

p. c) familiar. O Socialismo”. b) escolar. a ideia que deve permanecer é que há os mais diversos meios de propagação da ideologia. discursos dirigidos às diversas classes. de modo a se incutir nos mais variados meandros sociais. segundo Althusser (1985). na obra “O Estado. mas tão somente a ideologia como instrumento19. da própria religião uma ideologia? Por que a necessidade de uma classe se submeter ao interesse da outra? Qual o interesse da Igreja Católica na mediação do conflito? Neste instante. pode ser perfeitamente ampliada. entretanto. O Poder. Na oportunidade. p.] O índice de ideologização do discurso e também das práticas materiais do Estado é portanto flutuante. 37. não pretende ignorar as críticas procedentes tecidas por Nicos Poulantzas. e) político. assim também. Isso faz da visão religiosa.. o Estado porta os seguintes aparelhos ideológicos: a) religioso. as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mùtuamente em perfeito equilíbrio. Estes aparelhos. variável e diversificado segundo as classes e frações de classes às quais se dirige o Estado e sobre as quais age” (POULANTZAS. 1981. citou-se apenas o exemplo clássico da Igreja Católica. abarcando também a noção de que os aparelhos servem para a própria preservação do capitalismo e da desigualdade de classes. encarnados diferentemente nos diversos aparelhos de acordo com a classe a que se destinam. g) informação (imprensa etc. é que se põe relevância à teoria de Louis Althusser. não se pode olvidar que nem sempre a ideologia foi – e será – um reflexo invertido da base material. 39). A ideologia furta-se de “aparelhos ideológicos” para a sua perpetuação. o autor sustentou que é errado referir à representação do Estado como meramente ideológico-repressor. são instituições privadas. verifica-se. na sociedade.. e. Aqui. . Os aparelhos ideológicos têm a função de reproduzir as ideologias da classe dominante. que não utilizam a violência (por isso se distingue do aparelho repressivo do Estado). h) cultural. o intento de conciliar o que é contraditório em sua essência. Segundo o autor. vários. [.). cabe ressaltar que. ou melhor. sim. f) sindical. A tese foi elaborada visando o Estado. 19 Embora não constitua objeto direto de estudo. Theothonio dos Santos (1974. a adoção da teoria de Althusser no que toca os “aparelhos ideológicos do Estado”. d) jurídico. tendo a academia se ocupado desta tarefa também. pois “O Estado não produz um discurso unificado. 42-43) refere que: El concepto de ideología tomado en su forma pura inicial no supone necesariamente ningún falseamiento de lo real ni niguna racionalización. claramente.39 formam um todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico. De outro vértice. porém. Da citação extraída da “Rerum Novarum”.

a presença da ideologia na sua relação. Segundo Luiz Roberto Lopez (1999). representa a noção de . mas com uma consciência falsa. t. mas um fenômeno objetivo e subjetivo involuntário produzido pelas condições objetivas da existência social dos indivíduos”. portanto. sem dar por isso. As forças impulsionadoras [Triebkräfe] propriamente ditas que o movem permanecem desconhecidas. ainda segundo o autor. a necessidade de uma ideologia que falseie o real no que tange à escravidão. A ideologia assume ares de autonomia no pensamento. traz-se exemplo de Oskar Lange (1976). Lembrando que. Sin embargos. quer do seu próprio quer do seus antecessores. com efeito. Ele trabalha com mero material de pensamento [Gedankematerial]. Assim. ao referir que a relação estabelecida entre o escravo e o seu proprietário é consciente. por sua vez. Complementando. portanto. 557). pues pude que sea o no necesario. c) universalidade. ele deduz tanto o seu conteúdo como a sua forma do puro pensar. A universalidade. conforme Marilena Chaui (1985. e. precisamente. p. se não. 78): “A ideologia não é um processo subjetivo consciente. Ele [o pensador] imagina. a formulação da ideologia cabe aos ideólogos da classe dominante. Porque o [processo] é um processo de pensamento. asseverou: A ideologia é um processo que. A imparcialidade se consubstancia no fato de que.40 Ideología es em un primer momento de análisis. forças impulsionadoras falsas ou ilusórias. Para elucidar. la expresión consciente de intereses reales de clases y sua operacionalización en formas de acción concreta para lograr estos intereses. são: a) autonomia. aparentemente. em cuanto es la representación verdadera de los intereses. se agrega El elemento falsedad. em 14 de julho de 1893. que não tem ciência da sua condição. isso é para ele evidente. pode-se afirmar que não há. Engels (1985. é completado com consciência pelo chamado pensador. no sentido de que aquele tem ciência da condição que está em relação ao seu dono. en un segundo momento. Não da mesma lucidez goza o trabalhador assalariado. a ideologia não tem parte assumida. uma vez que os indivíduos ignoram o fundamento de sua criação. ni niguna ideología es falsa. aliás. independente do pensar. não seria. para ele. y solo en un segundo momento. ao menos em um primeiro momento. porque. 3. não investiga mais [se ele tem] uma origem mais afastada. Pues ni todas las ideologías son falsas. processo ideológico nenhum. p. havendo. toma como produzido pelo pensar e. que. todo o agir [Handeln]. porque mediado pelo pensar. em carta direcionada a Franz Mehring. com efeito. b) imparcialidade. parece também em última instância fundado no pensar. não representando os interesses de um grupo específico. As características essenciais da ideologia.

uma necessidade à preservação da ordem econômica e social vigente. mas uma ilusão necessária. A ideologia dominante deve ser extensiva aos dominados. mas a expressa de maneira falsa. a ideologia é uma ilusão (Schein). mesmo para o que há de pior . A ideologia é. portanto. os interesses de determinada classe aparecem como vontade de todos. o conteúdo volitivo da ideia é suprimido de modo que o agente que a adota não perceba os seus reais impulsos. justifica e legitima ideias específicas. a ideologia compartilha da verdade. Um conteúdo histórico específico aparece como universalmente válido e é utilizado como ponto de apoio de um sistema social específico. Lembra-se. não deve ter subido muito quem não sabe apresentar uma boa razão para tudo. sem que o indivíduo perceba a sua obscura essência. A ideologia. imutável o que é transitório”. Por isso. a ideologia é um modo de pensar que torna geral o que é particular. no sistema capitalista. generalizando o que é interesse próprio de um segmento social apenas. Para tanto. As idéias da classe dominante tornam-se idéias dominantes. citadas por Karl Marx: “Em nossa época rica em reflexões e raciocinante. Nos dizeres de Luiz Roberto Lopez (1999. incutidas no pensamento comum. os fundadores da filosofia da práxis afirmaram que a ideologia não tem história. Sendo que a sua tarefa primordial. 116-117): Para Marx e Engels. p. por fim. Ou seja. A ideologia.41 que as ideologias são naturais. em a “Ideologia Alemã”. fazendo-as parecer como se gerais fossem. projetando-se como fenômenos compreendidos como a visão real. portanto. São imagens distorcidas do real. p. com suas limitações e negações reais não são abrangidas pela conscientização. Para sintetizar o exposto. e se arrogam uma validade universal. Enquanto “reflexo” da base real. que ora se fazem oportunas.17): “Em outras palavras. natural o que é histórico. das palavras de Hegel. por efeito das contingências concretas da história. resultante de uma organização social de produção que se apresenta ao homem como um sistema de leis e fôrças independentes e objetivas. pois jamais é situada no tempo e espaço. reproduz-se as completas palavras de Herbert Marcuse (1969. que formam representações que fazem parte da própria realidade. Mas essa pretensão se baseia numa “falsa conscientização” – falsa porque a conexão real das idéias com sua base econômica e. é mascarar as relações de produção e as suas consequências sociais. em outros termos. conseqüentemente. é um fenômeno social que reflete parte das condições reais de existência dos homens.

Tudo o que foi estragado neste mundo. v. I. foi estragado por boas razões.” (Hegel apud Marx. p.42 e de mais errado. 1983. 210). A ideologia cria as boas razões que refere Hegel. .

ainda há enorme dificuldade na sua compreensão.43 3 O DIREITO COMO APARELHO IDEOLÓGICO ESTATAL E A IDEOLOGIA JURÍDICA 3. no campo acadêmico.1 O APARELHO IDEOLÓGICO JURÍDICO E O ESTADO No ponto passado. na mesma linha. foram citadas as diversas formas de preservação e propagação da ideologia dominante. Esses dois modelos teóricos. Mesmo assim. Declarações de Direitos e Constituições. Constituem elas ideologias jurídicas em sentido amplo. Nesse momento. remontando Grécia e Roma. o seu apogeu nos séculos XVII e XVIII. inserindo-se no espectro de análise a busca por uma definição. O Direito não é um fenômeno social recente. ou seja. . aponta: “O jusnaturalismo e o positivismo são as duas grandes concepções que impregnam de forma direta ou velada o mundo do Direito em toda a humanidade”. Do ponto de vista formal. a atenção recai apenas sobre um deles. tendo variado em forma e conteúdo ao longo da história. Neste ramo do conhecimento. segundo Marcus Vinicius Antunes (1997) é a concepção jurídica mais antiga. O fenômeno jurídico. que serve de arrimo teórico e metodológico à apreensão e entendimento deste fenômeno. fizeram-se presentes em diversos momentos históricos relevantes. Parte desta dificuldade dá-se pelo fato de que determinada definição é adotada e aceita de acordo com a matriz intelectual seguida. bem como atentar para a questão das fontes. são o positivismo jurídico e o jusnaturalismo20. em verdade. ganha feição própria. 20 Tarso Genro (1988. p. tendo. através dos aparelhos ideológicos do Estado. diversas correntes jurídico-filosóficas disputam. o Direito. embora se assente retomando institutos jurídicos antigos que mais se adequavam às alterações que estavam em curso. quando serviu de instrumento teórico para combater o absolutismo monárquico. 19). apesar da longa vida. O jusnaturalismo (o Direito Natural). a partir do Estado liberal. o Direito burguês se apresenta por meio de codificações. maior adesão na explicação do fenômeno jurídico. de certa forma. segundo Roberto Lyra Filho (1982). são corpos teóricos de elucidação de uma realidade específica. O problema da matriz intelectual é crucial para o Direito. As principais. na formulação proposta por Altrusser.

em sua complexa transição para a ordem liberal capitalista” (ANTUNES. com que interesses seria dado uma Constituição à própria nação. refere-se que a expressão “Assembleia Nacional Constituinte” foi utilizada por primeira vez no texto do art. as regras de Direito passam a adotar a forma escrita. movida por juristas. A nação existe antes de tudo. 22 “Segundo Tumanov. 96). Uma „tendência‟ é constituída por juristas que concordam no fundamental. analisa Marcus Vinicius (1997) que. Entretanto. entra em declínio e vai sendo progressivamente substituído por uma nova mentalidade. que vigorava nos feudos. fato que dá ensejo ao surgimento do positivismo. no momento histórico das rupturas e explosões do século XVIII. embora com divergências” (TUMANOV apud ANTUNES. „Doutrina‟ é o elemento primário. ela é a origem de tudo. 1997. uma nova concepção jurídica” (ANTUNES. Antes dela e acima dela só existe o Direito natural (SIEYÈS. Ademais. p. 1997. porém político. na obra intitulada “O Que é o Terceiro Estado?”. 48) (grifou-se). Entrelaçando as escolas jurídicas22. assim. jurista soviético. na passagem do século XVIII para o século XIX. Assim. o Direito hoje vigente. 103). p. a dupla necessidade de se submeter o governo a formas certas – interiores e exteriores – que garantam sua aptidão para alcançar os seus próprios fins e sua importância para separar-se dele. p. A ideia da existência de uma assembleia específica para a redação de uma Constituição foi formulada também por Sieyès. 5º da Constituição Francesa de 1791. a Assembleia Nacional21 teria poderes ilimitados. no momento em que se cristaliza em regras escritas. impõe-se uma linguagem mais precisa. 2010. . o fenômeno da codificação se explica à medida da necessidade de universalização do Direito. fortificando a superação do direito costumeiro. pelo padre Emmanuel Sieyès. Segundo o autor: “Paradoxalmente. pode formar uma „escola‟. é a própria lei. de acordo com que critérios. em conteúdo e 21 Na esteira da lição de Marcus Vinicius Antunes (2010). As modificações de uma escola podem conduzir à formação de uma „corrente‟. Quando se desenvolve. Sua vontade é sempre legal. a teoria do poder constituinte foi elaborada na França. com base em princípios do Direito Natural. 101).44 Sob influência do paradigma do jusnaturalismo. que dedicou um capítulo próprio. a teoria não nasce como um problema essencialmente jurídico. p. em um processo de codificação. Como ressalta o autor. afora o limite por ele preconizado: Sente-se. ainda segundo Marcus Vinicius Antunes. na referida obra. o jusnaturalismo. o positivismo jurídico tem as suas raízes fincadas no crescente conservadorismo da nova classe dominante. De maneira curiosa. A teoria nasceu “como resposta imediata a uma necessidade política. Segundo ele. sendo que Emmanuel Sieyès empregava simplesmente a denominação “Assembleia Nacional”. Esta nova concepção jurídica é o positivismo jurídico. 2001. para analisar a questão.

busca-se nas palavras de Engels (1985. No entanto.. o Código determina que o depoimento do patrão. p. mas o privilégio do dinheiro tomou o seu lugar. se estabeleceu definitivamente.45 forma. mas que coube principalmente à burguesia desfrutar. para que essas oposições.. os acontecimentos que já haviam alterado a estrutura social. não se consumam a si próprias e à sociedade numa luta estéril.] Depois que a revolução francesa acabou. O Estado burguês (ou liberal). t. O exame do Código Napoleônico deixa isso bem claro. mas as associações de empregadores permitidas. Destinava-se evidentemente a proteger a propriedade – não a feudal. e o direito dos camponeses proprietários.000 artigos. quando e onde quisesse. de modo nenhum um poder imposto de fora à sociedade e tão-pouco é a <<a realidade da ideia ética>>. viu-se que a burguesia conquistara o direito de comprar e vender o que lhe agradasse. Leo Huberman (1973. regulamentos e contenções. foi a burguesia quem ficou com o poder político na França. mas a burguesa. é resultado de um processo histórico de florescimento e ascensão de uma outrora nova classe: a burguesia. Igualdade. O feudalismo estava morto. . 366). 3. é que deve ser levado em conta. dos comerciantes e industriais. Êste levou consigo o mercado livre (e os princípios do Código Napoleônico) em suas marchas vitoriosas. segundo Noam 23 Como não se vai retomar todas as formas de aparição do Estado. é o reconhecimento de que a sociedade está enredada numa insolúvel contradição consigo própria. mas em todos os países conquistados pelo exército de Napoleão. O Código tem cêrca de 2. as obrigações e pagamentos feudais foram eliminados. de comprar e vender sem restrições. Quando o fumo da batalha se dissipou. Fraternidade” foi uma frase popular gritada por todos o revolucionários. dos acontecimentos revolucionários na França: [. da Propriedade Privada e do Estado”. E morto não só na França. Não é de surpreender que fôsse bem recebido pela burguesia das nações conquistadas! Nesses países. 162-163) detalha o reflexo. e esse poder surgido da sociedade mas que se coloca acima dela e se aliena cada vez mais dela é o Estado”. tornou-se necessário um poder situado aparentemente acima da sociedade para abafar o conflito e mantê-lo dentro dos limites da <<ordem>>. Todo esse processo de alteração da base social que culminou na alteração da superestrutura influenciou marcantemente o Direito e o Estado23. <<a imagem e a realidade da razão>>. o entendimento para o fenômeno: “O Estado não é. no Direito. classes com interesses económicos em conflito. Os sindicatos e as greves são proibidos. p. e não do empregado. no plano jurídico. O privilégio de nascimento foi realmente derrubado. fato que. as primeiras declarações e os primeiros códigos burgueses foram surgindo. “Liberdade. reproduzindo. que se cindiu em oposições inconciliáveis de que ela é incapaz de se livrar. proferidas na obra “A Origem da Família. Com a vitória política desta nova classe. ao menos em um primeiro momento. Ele é antes um produto da sociedade num estádio determinado de desenvolvimento. O código foi feito pela burguesia e para a burguesia: foi feito pelos donos da propriedade para proteção da propriedade. portanto. a servidão foi abolida. Numa disputa judicial sôbre salários. dos quais apenas 7 tratam do trabalho e cêrca de 800 da propriedade privada. como. regulamentou de maneira fiel os anseios da nova classe. como afirma Hegel.

concomitantemente. ou. Do mesmo modo o direito é. 85). seria uma espécie de “antiliberalismo” clássico24. embora não da forma como foram desenvolvidas. especialmente nos países de civil law. passou a fazê-lo para assegurar o laissez faire e. no seu ulterior estágio de desenvolvimento. como alguns preferem. e para mais na vontade dissociada de sua base real. por seu turno. apropriou-se do Estado e é a seu serviço que este põe o Direito. desenvolvendo políticas mercantilistas. o Direito se encontra totalmente apegado à lei. Ainda tomando a Revolução Francesa como exemplo. em sua essência.. o “bem comum”. Parafraseando Feuerbach. prover a proteção social. não pode ser criado do nada. a burguesia. Esta redução do Direito à lei. Daí a ilusão de que a lei assentaria na vontade. o Direito não é autopoiético. adquirem uma forma política. p.. Além disso. instrumentando a dominação da sociedade civil pelo mercado. sintetizam bem o exposto: Como o Estado é a forma em que os indivíduos de uma classe dominante fazem valer os seus interesses comuns e se condensa toda a sociedade civil de uma época. que inicialmente regulava a vida econômica da nação para atender a necessidades ditadas pelas suas finanças. 25 “Com efeito. 24 Segundo Chomky (2007. nem pode ser definido a partir de si mesmo. visando à defesa e preservação do sistema. 32) aponta o grau de correlação entre o Estado liberal e o Direito: O fato é que o Terceiro Estado. Eros Grau (2006. são profundamente anticapitalistas. Em um viés estritamente ideológico. tanto o Direito como o Estado se mostram como entidades que estão acima da sociedade. o Estado liberal foi criado à imagem e semelhança da burguesia. A essência destas idéias deve ser destruída para que elas sirvam como uma ideologia do capitalismo industrial moderno”. bem como a extirpação da carga valorativa da norma. p. somente em si mesmo” (ANTUNES. 72). reduzido à lei. 2010. são apenas exemplos de mecanismos de pensar o Direito como um mundo à parte da esfera social. O Estado.] creio que se pode dizer que as idéias liberais clássicas. que é a expressão jurídica do interesse coletivo. o sistema normativo tem ares de autopoiese25.46 Chomsky (2007). manifestando apenas o interesse geral. t. 1. . em que os agentes políticos apenas cumprem a tarefa de realizar a atividade normatizadora da sociedade. Por consequência. e que fazem dele uma necessidade à preservação da ordem. 12): “[. em “A Ideologia Alemã”. p. a visão ideológica do Estado obscurece os fatores de conflito que dão surgimento ao ente estatal. na vontade livre. segue-se que todas as instituições comuns são mediadas pelo Estado. p. Marx e Engels (1985. Como aparelho ideológico jurídico.

há conflitos estabelecidos na divisão do poder político. o conteúdo. necessariamente se interessam em manter essa ordem de coisas. os valores burgueses27. há momentos em que este dela se distancia. Esse modelo de Estado. Assim. no seu estágio atual de desenvolvimento. p. por conseguinte. por vezes. exemplificativamente. d) igreja etc. colaciona-se as palavra de Fernando Henrique Cardoso (1975. Desejo apenas dizer que este é insuficiente para explicar tanto as políticas que estão sendo implementadas. Ocorre que. p. regulamenta todas as instituições comuns. condensando institutos através dos quais a ideologia está infiltrada. porém. de fato o é para a defesa dos ricos contra os pobres. na medida em que é instituído para garantir a propriedade. A vitória de uns ou outros grupos. sendo reproduzida e mantida. [.] A burguesia deu o contorno. a aparência ao Estado liberal. o caráter burguês do Estado. Ainda 26 Na atual Constituição brasileira. como as lutas de poder. Neste sentido. Todas as instituições referidas são mediadas pela figura do Estado. 27 Alguns ideólogos liberais ao menos possuíam a sinceridade nas palavras ao tratar do Estado. traz para si a tarefa de normatizar condutas e institutos. ainda goza de plena validade. 2.. ao mencionar esta contradição. 181) ao examinar o regime militar vernáculo. ainda corresponde aos anseios da sua classe dominante. como é óbvio. A título ilustrativo. dependerá – dentro dos limites já assinalados – do conflito político e não pode ser deduzida. estão previstas as diretrizes gerais das seguintes instituições: a) família. a priori. 167) afirma: “Os ricos. . intrinsecamente. o estatuto jurídico máximo de um Estado. isolados ou em aliança. ou daqueles que têm alguma propriedade contra os que não possuem propriedade alguma”. exclusivamente das determinações abstratas de classe. no entanto. já que só ela é capaz de assegurar-lhes a posse de suas próprias vantagens.47 A constatação de Marx e de Engels de que o Estado condensa a sociedade civil de uma época e.] O governo civil. sem que perca. O Estado. o estado está expressando uma aliança contraditória de grupos. podem ocorrer. choques entre os interesses de grupos da burguesia e os interesses políticos dos demais setores que controlam o estado. o que pode se denominar de “núcleo rígido”.. que estão presentes na sociedade civil26. a burguesia se arroga do poder do Estado para fazer respeitar os seus interesses de modo a que soem como interesses universais. Adam Smith (1983. c) sindicatos. que é a Constituição. Ilustrativamente. v.. b) propriedade. que teve sede a partir de 1964: O decisivo é mostrar que pode ressurgir no novo estado o conflito político.. Noutros termos. em particular. não podendo o Estado meramente descrever os anseios da sua classe dominante de maneira direta. como necessidade permanente à mediação dos diversos conflitos porta. concedendo forma política a elas. Não quero desmentir. como já tem ocorrido. que utiliza o Direito como instrumento de regulamentação. regulamentando diversas entidades que são comuns aos cidadãos. [.

48 assim. não obstante a palavra tenha sido pronunciada em larga escala. este sendo corolário lógico daquela. no trato prático-utilitário. que dotam complexidade. no entanto. tudo sem dominar a sua essência. as diversas concessões que a burguesia ao longo da história vem fazendo como forma de manutenção da ordem geral28. pois não se sabe. de maneira mais acentuada. ao seu turno. O passo para clarear o ponto deve ser dado com a lição de Petr Stucka. Em outros termos. pendendo para determinada reivindicação de grupo ou de classe. um primeiro problema surge. uma associação entre o Direito e a lei. tem a capacidade de criar o Direito. No mesmo sentido. em virtude de aquele regular este através da Constituição. Visando apreender o fenômeno jurídico sob a égide do positivismo. tenham a sua exata compreensão. sem que. em um processo de adequação. Aparentemente. por meio de um poder autônomo. a lei criaria o Direito. em grande quinhão. um é produto do outro. sendo que o Estado. de que o Direito é um conjunto de normas que regem dada sociedade. nessa visão. não se encontra facilmente uma resposta à questão29. que é um mecanismo de amenizar o processo autônomo de centralização da propriedade. nessa hipótese. Tal aparência é facilmente dissolvida. que pode ser resumido em um trocadilho. . às vezes. garantindo ao trabalhador assalariado vantagens que tem por finalidade mitigar a relação desigual travada entre ele e o capitalista. Por via reflexa. dos direitos trabalhistas. Logo. eliminando-se este conjunto normativo não mais existiria Direito. por exemplo. Buscando uma explicação para o fenômeno jurídico a partir do Estado liberal. necessitando o Estado reagir para que mantenha as diretrizes gerais. o choque social pode se dar. o que é um equívoco. não há como escapar da representação comum. inclusive é possível manejar perfeitamente a sua técnica. em determinados períodos. 29 Relembrando uma colocação oferecida logo no exórdio do trabalho. A provocação do jurista soviético é brilhante: 28 Foi o caso. tendo por premissa a modificação do paradigma jusnaturalista pelo positivista. se é o Direito que cria a lei ou a lei que cria o Direito. O Direito pode ser estudado por longo período. que após intenso conflito teve como resultado a edição de diversas regulamentações. resolvendo praticamente diversas questões. o que pode ter como produto alterações superestruturais. posta no primeiro capítulo da obra “Direito e Luta de Classes”. em que o autor indaga: o que é o Direito? Refere Stucka (1988) que. refere-se a função social da propriedade. os homens manuseiam diversos institutos. pois caso o Direito seja um conjunto de normas. ao menos partindo da representação. a representação conduz à assertiva de que o Direito e o Estado apresentam certa confusão. o conflito presente na estrutura social ganha maior envergadura (ou poder político). Há. Isso explica. regulamentadas também pelo Direito.

o velho sente que neste conceito perde-se seu impulso e seu drama.. embora tenham a obrigação de conhecer todo o direito e este seja a norma das relações humanas mais comuns. E quando o saber junta-se com o saber que não sabe então a ciência converte-se em poesia. a sua verdade. falar do Direito como ordenamento de relações sociais atinge um ponto até hoje obscuro à ciência jurídica. O jovem contentava-se com o conceito científico de direito. a exemplo do referido no ponto pretérito. O segundo é a menção ao Direito como sistema ou ordenamento de relações sociais. onde as solenes cerimônias dos sacerdotes do direito se desenvolviam com os mesmo métodos de uma grande produção fabril. que se intensificaram no século XIX. no mais das vezes. Estas revoluções. Esta alusão é útil para a construção da definição de Direito. expressou a sua frustração quando já em idade avançada: “Isto é. afinal. na obra “A Arte do Direito”. O jovem acreditava no saber. Ao apontar à insuficiência das definições do que seja o Direito. 16). que habitualmente é negligenciado pelas definições que se prendem a critérios eminentemente formais. o autor refere à elaborada no Colégio do Comissariado do Povo para a Justiça. O viés classista do Direito é assumido a partir da noção de que a classe dominante de determinada época tem o poder de influir. pois. e para a sua interpretação e aplicação foram construídos verdadeiros templos. 15). brevemente. uma vez que toca diretamente ao seu conteúdo. portanto. Precisamente aqui está a minha diferença entre minha juventude e minha velhice de jurista. algo incompreensível para os simples mortais. E apesar de tudo isso. como já se apontou. a definição de Stucka porta elementos que pendem alguma reflexão. a essência do direito continua a ser um mistério. Expressa-se. 22).. o velho sabe que nada sabe. o direito? E este é o jurista. foram impulsionadas pelas alterações que estavam ocorrendo na base social. (STUCKA. e não de normas. A constatação do jurista soviético é Francesco Carnelutti. p. no início deste tópico. O Direito burguês tem marco inicial firme tendo em vista que é fruto direto das revoluções liberais ocorridas a partir do século XVII. 1988. que quer saber o que é o direito? Não sabe. O jovem tinha fé na ciência. em suma. [. em maior grau. nada de preciso. p. renomado jurista. Embora passível de críticas. 1988. o velho a perdeu. . p. que foi redigida nos seguintes termos: “O direito é um sistema (ou ordenamento) de relações sociais correspondente aos interesses da classe dominante e tutelado pela força organizada desta classe” (STUCKA. 2005. O primeiro deles é a referência ao critério de classe como balizador do conteúdo jurídico.]” (CARNELUTTI. e. De outro vértice.49 Fabricava-se o direito como produto de grandes fábricas. na superestrutura social e na formação do Direito. mais do que como um douto como um poeta. O enfoque classista é preciso.

que dispõe do aparelho de estado para impor a coerção e sanção que lhe são indispensáveis. como ela mesmo assume. Todavia. que exprimem o consenso e dissenso de segmentos e classes. A mesma lacuna não se faz presente na definição de Marcus Vinicius Antunes (2010. ao contrário da doutrina tradicional que aponta à lei como fonte primária. para o materialismo-dialético. olvida-se que o falso faz também parte do real. em sua tese de doutoramento. afirmou: O direito. a realidade. A sua fonte reside nas múltiplas relações sociais que são estabelecidas base da sociedade. A mudança de foco pode parecer sutil. não raro tido como elemento nuclear. mencionando à presença do Estado na relação para fazer impor a aplicação da norma (a forma). ao mesmo tempo. é concebida pela composição da essência e do fenômeno. como forma. A definição. refletidas também no Direito. é materializado em um sistema de regras e princípios. adotada por este trabalho. em síntese. a fonte do Direito não pode ser outra senão a que emerge da realidade social e das relações que nela são estabelecidas. por diversas vezes. conflito e consenso de grupos e classes. aqui. pois pelo fato de que diversos mandamentos legais estão impregnados na história. deve ser dada a relevância cabível. Isso não significa que a lei não seja fonte do Direito. a sua definição ficou desprovida de forma30. traduzindo. tampouco resulta da consciência dos legisladores. que. o Direito. mas. caminha no sentido de que. não obstante a sua importância. que é apenas 30 Como já assentado – e fala-se. 85). do primeiro tópico do primeiro capítulo –. é um sistema de regras e princípios orientado por valores criados na experiência social. . há. O Direito não emerge de um processo formal de elaboração. que somente consegue pensá-lo a partir da norma. constata-se que o Direito deve ser compreendido fora da esquemática positivista. e que criam um sistema de representações ideais. com arrimo em valores que portam o antagonismo e a consonância dos grupos e classes (o conteúdo). visa estabelecer uma síntese do que seja o Direito. ainda assim.50 importante porque deslocou o foco da norma jurídica. traz consigo elementos que dão conta de apreender o fenômeno jurídico atual. Extrai-se da definição que. Logo. a crítica que pode ser mencionada. uma definição de Direito que atinja apenas a essência. contudo. ao se afastar do elemento normativo em demasia. a reprodução deles nos ordenamentos jurídicos. Partindo da definição utilizada. De todo o exposto. p.

refletem-se de uma ou de outra maneira na consciência dos homens. 9192) afirmou que: Toda norma de direito positivo defende determinado interesse. 3. segundo Marx e Engels. Qual a origem desse interesse? Representam um produto da vontade e das consciências humanas? Não. reflete. é preciso ter consciência desse interesse. Assim. O foco a ser concedido deve partir das relações sociais. refere à discussão teórica travada entre Stucka e Rejner. responde a um questionamento mais amplo. p. são criados pelas relações econômicas entre os homens. o Direito era considerado uma das “formas ideológicas”. também sendo extraída dos múltiplos vínculos que são estabelecidos na base da sociedade. no segundo capítulo da sua obra “Teoria Geral do Direito e Marxismo”. ao ter as relações sociais como a sua fonte. temas como o grau de influência de um noutro. Na ordem dos autores que defendem o Direito como sendo essencialmente ideológico. Plekhanov (2006. que ora merece análise. Além disso. os múltiplos vínculos estabelecidos na infraestrutura da sociedade. dos demais elementos presentes na superestrutura social. a possibilidade de redução do Direito à ideologia. Não é a consciência dos homens que cria os interesses defendidos pelo direito. que é onde o Direito surge justamente para regulamentá-las. Sem . qual seja. circunda a correlação que é possível estabelecer entre o Direito e a ideologia. Por isso. que deve ser colocada. Para este. citando diversas passagens que comprovariam a tese. Logo. a sua fonte não pode estar em local diverso. ao ponto de se sustentar a existência de uma ideologia jurídica. A questão não é pacífica. a investigação. Para defender determinado interesse.51 a forma do fenômeno. Assim sendo. bem como qual a função dessa interpenetração. está sujeito a sofrer influências. e sim o estado da consciência social (a psicologia social) de uma época que determina a forma que toma no cérebro dos homens o reflexo do interesse em questão.2 A IDEOLOGIA JURÍDICA O sustentado no ponto passado conduz a outro problema não menos relevante. também. em conteúdo e forma. Pachukanis (1988). após perpassar por um primeiro problema. bem como fazendo menção a autores que sustentam o mesmo. A indagação inicial. Uma vez surgidos. não é ela por conseqüência que determina o conteúdo do direito. O Direito. constituem mote de exame. cita-se um primeiro exemplo. todo sistema de direito positivo pode e deve ser considerado como um produto da consciência.

noções filosóficas etc. 34-35). 2003. em mais de uma oportunidade. Arte. Também dentre os defensores do Direito como sendo ideologia. expressamente. p. a exemplo dos demais elementos superestruturais. O aludido caráter discursivo do pensamento do pensador jurídico é também. (grifou-se). O Direito.. O Direito produz e reproduz relações econômicas. dotado de sanção. Nessa história. p. Ademais. Do ponto de vista da forma. mas fato normativo. E o direito é também ideologia. não encontraríamos de maneira alguma explicação para a história do direito. sempre constituída por um corpo explicativo de idéias acerca do ser e do viver social. precisamos distinguir sempre e cuidadosamente a forma do conteúdo. Marcus Vinicius Antunes aceita. (ANTUNES. que é criado como reflexo da base social. No artigo intitulado “Engels e o Direito: Parâmetros e Apontamentos Para Uma Reflexão Sobre a Ideologia Jurídica no Brasil” aludiu o autor: Assim. naturalmente. é ideologia. refletir-se sobre a visão de Direito. etc. o Direito. Na obra “Mudança Constitucional: O Brasil Pós-88”. 1995.. [. ao sustentar que o Direito é ideologia. o autor. pensamento filosófico. sofre a influência das demais ideologias. o referido autor retoma a ideia ao ponderar que: A concepção que se tenha de Estado vai. Entende-se. de ideologia.]. (ANTUNES. a Ciência Política. 414). No mesmo supracitado artigo. constituindo também uma ideologia que sofre influência das demais. como parte dinâmica da superestrutura. como qualquer ideologia..]. ou ao menos de uma parte delas: crenças religiosas. apenas reflete a base real. Direito é fato social. a ideia de que o Direito pode refletir fielmente a base social. Plekahnov (2006) alude que toda norma jurídica tem um conteúdo volitivo intrínseco. em nítido apego à formulação clássica do materialismo. com certeza. Desta passagem. o Direito.. o direito. todavia. Por conseguinte. nuclearmente. que. manifesto. a Sociologia estão impregnados. Marcus Vinicius Antunes. [.52 levar em consideração o estado da consciência social. consoante se depreende do seguinte parágrafo: . mas também produz e reproduz. historicamente. muitas lições podem ser extraídas. incorreu em uma aporia. associou ambos. assevera que o conteúdo do Direito sofre interferência sempre a partir da consciência social de uma época.

com raro brilho. que mantém a expressão. Por oportuno. Inglaterra. como não poderia ser diferente. alguma crença religiosa ao prever que os congressistas constituintes promulgaram a Constituição sob a guarda de Deus. julgada em 2002. a superestrutura dinâmica. contra a Assembléia Legislativa do Acre. cita-se debate veiculado no Supremo Tribunal Federal. Para o PSL. ou falsa. já em expansão pelos mercados internacionais. é como poderia o Direito. Nos textos legais. Todo o campo superestrutural sofre influência. demonstrar sua tese de que o Direito não é puro reflexo. O desatar do nó reside na circunstância de que os campos superestruturais não portam faixas estreitas de separação. à época. omissão apenas . de outras ideologias. das condições econômicas. França e Alemanha. no Direito ou não. em que se discutiu a força normativa do preâmbulo da Constituição brasileira. A ideologia. ao mesmo tempo em que é falsa consciência? A única explicação plausível conduz à assertiva de que o Direito não é uma ideologia em essência. que corresponde à base. que vêm de outras áreas do conhecimento. Engels procura. é somente o reflexo invertido que produz a falsa consciência. o partido alegava ofensa ao preâmbulo da Constituição Federal. fiel. da arte etc.53 Em outra passagem da precitada obra “Lugwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã”. é facilmente constatável diversas delas. reflexo invertido. Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 2076) do Partido Social Liberal (PSL). Na ação julgada da hoje (15/8). passivo e indiferente. Rompendo com o abstrato. o preâmbulo adota. A conjuntura histórica específica determina. má. na acepção materialista-histórica.. explicitamente. reporta-se à descrição da evolução jurídica dos três mais adiantados países da Europa. que é ideologia. Para isso. na Constituição brasileira. Assim noticiou o site da Egrégia Corte ([2002]): O Plenário do Supremo Tribunal Federal considerou improcedente. Todos os elementos superestruturais podem refletir bem ou mal as relações econômicas. ao menos. por exemplo. O que não se compreende – e no artigo não fica claro –. inerte. o maior nível de incursão da religião. através da Ação Declaratória de Inconstitucionalidade nº 2076. por sua vez. O Direito possui uma multiplicidade de ideologias. ou seja. ser fiel à base. estabelece relações recíprocas entre os seus elementos. por unanimidade. em maior ou menor grau. por omissão no preâmbulo da Constituição daquele estado da expressão “sob a proteção de Deus”. O Direito pode ser expressão boa. Assim.

pois enfatiza os princípios democráticos e a soberania popular. Tal afirmação conduz ao sustentado por José Maria Rodríguez Paniagua (1972. a emenda que visava suprimir do texto constitucional a invocação de Deus foi derrotada na Comissão de Sistematização. não possuem qualquer significado além do ideológico. tanto que as constituições de países cuja população pratica em sua maioria o teísmo não contêm essa referência. todas as condutas regradas pelo Direito deveriam portar alguma falsa consciência. reflete simplesmente um sentimento religioso”. o autor encontrou o ponto central da discussão. O ministro Jobim afirmou não se lembrar do nome do deputado constituinte. alegou Velloso. portanto. mas salientou que era um político “muito inquieto”. O ministro disse ainda que a referência à proteção de Deus não tem grande significação. O preâmbulo da Constituição do Acre. ministro Carlos Velloso. p. de princípios ou de normas gerais. o problema não está em de modo algum em admitir ou contestar a existência da ideologia jurídica (ou da psicologia). caso se assuma a posição de que o Direito é tão só ideologia. não contém norma jurídica”. sob a forma de regras. O condicionamento do Direito por parte de ideologias não significa que o Direito possa a elas ser reduzido. 81): . 37). o que fez o senador Afonso Arinos “costurar” um acordo para que coubesse ao deputado a redação do preâmbulo. A guinada para o entendimento diverso. potencializando a afirmação. Ao reforçar o voto do relator. deve ser dada com as palavras de Pachukanis (1988.54 na Constituição do Acre tornava o estado “o único no país privado de ficar sob a proteção de Deus”. Ao que se sente. França. quando o autor assim estabeleceu: Não podemos também contestar o fato de que o direito é para os homens uma experiência psicológica vivida. disse o ministro. refletindo apenas a posição ideológica do constituinte. de que o Direito não pode ser reduzido à ideologia. e elas regulamenta. posta no preâmbulo da Constituição Federal. O Direito nasce das relações sociais. agora. não dispõe de forma contrária aos princípios consagrados na Constituição Federal. Portugal e Espanha. Argumentou-se ainda que. na Assembléia Nacional Constituinte. o ministro Nelson Jobim disse que o questionamento do PSL à Constituição do Acre lhe fez lembrar como foi feito o preâmbulo na Constituição brasileira. “Só não invoca a proteção de Deus que. como as dos Estados Unidos. No entanto. sustentou em seu voto que o preâmbulo constitucional não cria direitos e deveres nem tem força normativa. O relator da ação. regulamentadas pelo Direito. “O preâmbulo. Itália. Igualar o direito e a ideologia é afirmar que as relações sociais. mas em demonstrar que as categorias jurídicas não têm outra significação além da sua significação ideológica. p.

no discurso que acompanha o direito como no discurso de quem fala dele. produziram sentenças rechaçando a pretensão de desalojar os ocupantes pobres de imóveis pertencentes a ricos investidores de bens de raiz. Isto não impede que. referindo-se ao direito. inclusive.. pues. o avalia como junto ou injusto. O reflexo das relações de produção na mente humana pode ser mais ou menos claro. conveniente ou inconveniente. pero no toda superestructura es uma ideologia” debería. 118). da mesma sorte gozaria o outro. que refletem a base. que. ajuda a interpretá-lo. ao ponto de assumir a forma e o conteúdo jurídico de algo ontologicamente . prescreve condutas que o poder espera que se acredite que se produzem e não efetivamente se produzam. acompanha o direito. Trata-se. Nem toda superestrutura é ideologia. da influência que o Direito sofre dos demais elementos superestruturais. ao se desvendar esta ideologia não mais existiria o conteúdo jurídico. supostamente discurso “científico”.] a ideologia expressada no discurso jurídico. Elementos estes. a materialização. em conformidade com diversos fatores históricos. A ideologia jurídica é. inclusive. de acurdo con esto. em que refere à possibilidade de o Direito retratar fielmente a base. Ou seja. de fato fundamente as resoluções de funcionários de ideologia “não prevista”.55 La frase de M. como os poucos juízes que. do discurso que prescreve normas. às vezes. mas estabelecer os pontos de contato. bem como da necessidade ou não de falseamento do real. representa: [. p. Isso justifica a possibilidade de se falar em uma ideologia jurídica. ou seja. também o discurso jurídico possui ideologias. o cerne da questão parece circundar não a redução de um a outro. o maquila ou. caso o Direito fosse somente ideologia. características típicas das ideologias.. É um problema lógico tão grave quanto associar o Direito ao Estado. a passagem de Engels. fundamentando-se na ideologia do direito presente em alguns textos constitucionais como o “direito à moradia”. portanto. nas palavras de Óscar Correas (1995. ajustado ou não “a realidade”. Como já apontado. por exemplo. mas também do discurso que. Por isso. Tal como o direito. pois uma vez este desaparecendo. e que portam. o explica. e com eles estabelece relações. Igualmente se trata do discurso que. o fundamenta. bem como as influências recíprocas que são firmadas. em termos jurídicos (ou normativos). Além disso. pois o seu significado está condicionado a uma meia verdade. Motta “toda ideología es una superestructura. como costumar dizer os juristas. é dotada de total coerência. o Direito sofre condicionamento dos demais elementos que integram a superestrutura. modificarse en esta otra: toda ideología es una superestructura y toda superestructura es una ideología.

. A burguesia. Até se pode afirmar que a ideia de liberdade representa uma crença superior ao Direito. aplicada às relações contratuais. Nem toda a ideologia presente no Direito advém das relações que estabelece com os demais elementos superestruturais. se o Estado e o Direito fossem percebidos nessa sua realidade real. como instrumentos para o exercício consentido da violência. isto é.56 ideológico. por exemplo. „Estado de direito‟ com „Estado de direita‟. o Direito e a ideologia.. no entanto. é claro. O Direito reproduz no plano legal o que a ideologia firmou no plano ideal. que advoga com tanta paixão o respeito ao Estado de direito. Segundo Marilena Chaui (1985. p. como justo e bom. A função da ideologia consiste em impedir essa revolta fazendo com que o legal apareça para os homens como legítimo. bastando o Direito reproduzir a falsa consciência de determinada relação de produção. são as ideologia tipicamente jurídicas. é a instrumentalização da ideologia sob a forma jurídica (normativa). coloca imensos entraves quando as forças progressistas e revolucionárias pretendem modificar esse Estado de direito. nada mais é do que a reprodução de dada relação econômica em termos jurídicos (com uma severa dose de ideologia. Através do Direito. no entanto. da liberdade contratual prevista no Código Civil brasileiro. A lei é direito para o dominante e dever para o dominado.] não se deve confundir. os reflexos invertidos da base material agindo sobre o Direito. Assim. como “Estado de direito”31. 90-91): Através do Estado. a necessidade de interferência de outro campo superestrutural (embora haja). faz-se necessário deter a dimensão problemática presente na relação entre o Estado. a ideologia substitui a realidade do Estado pela idéia do Estado – ou 31 Segundo Marta Harnecker (2000. a rigor. Outro problema. Para a formação de uma ideologia jurídica não há. Isto é. É o caso.]”. O papel do Direito ou das leis é o de fazer com que a dominação não seja tida como uma violência. O grande instrumento do Estado é o Direito. o estabelecimento das leis que regulam as relações sociais em proveito dos dominantes. Algumas delas são. jurídica). como até aqui se expôs. isto é.. 64-65): “[. . a classe dominante monta um aparelho de coerção e de repressão social que lhe permite exercer o poder sobre toda a sociedade. ou seja. o Estado aparece como legal. procurando por em prática reformas da constituição que permitam uma melhor expressão dos interesses populares [. e por ser legal e não violenta deve ser aceita. simplesmente. Ou seja. Quando se fala em ideologia jurídica.. é possível extrair uma dupla conclusão. fazendo-a submeter-se às regras políticas. Uma delas permeia o fato de que o Direito sofre influência dos demais campos superestruturais. Ora. Para entender a finalidade da existência de ideologia no Direito. mas como legal. evidentemente ambos não seriam respeitados e os dominados se revoltariam. Apenas cabe tecer uma ressalva.

67): “[. decerto há estreita relação entre ambos. E substitui a realidade do Direito pela idéia do Direito – ou seja. A ideologia auxilia na tarefa de manter obscuras as forças que dão conteúdo às normas jurídicas. encontra óbice não só nas forças materiais existentes. sem história. Com isso. também permeado de ideologias. afora a digressão retro posta. A relação de exploração deve aparecer com naturalidade. não transforma em realidade concreta para a melhoria da própria condição do trabalhador”. . Nesse sentido. constata-se que. Todavia. embora não seja possível reduzir o Direito à ideologia. a dominação de classe é substituída pela idéia de interesse geral encarnado pelo Estado. e que fazem do Estado um órgão que representa a vontade de apenas parte da população. mas também por estabelecerem campos comuns de influência. quando fruto direto das relações que na base são contraídas. Portanto. fazendo parecer que um é fruto do outro. há a possibilidade de o Direito desenvolver as suas próprias ideologias. Eduardo Bittar (apud Weyne. Além disso. tendo o Direito o papel fundamental de equalizar e equilibrar o que é ontologicamente distinto.57 seja. não raro. a dominação de uma classe por meio das leis é substituída pela representação ou idéias dessas leis como legítimas. o Direito associa-se ao Estado. A ideologia jurídica utiliza-se de um discurso ideológico.. não só pelo fato de estarem presentes na superestrutura social. mas no próprio embate político. em que as palavras têm a aparência de conduzir a sociedade à sua transformação. De todo o esposado. que. sendo que a síntese dessa junção é manifestação jurídica da vontade geral. p. boas e válidas para todos. a função da ideologia no Direito é mascarar as relações que são estabelecidas na base da sociedade em que os indivíduos aparecem de maneira díspares e não tendo a capacidade de influir de maneira determinante na condução da vida. no entanto.. um discurso rico de figuras simbólicas. que lhe é garantida por um discurso empolado.] o direito tem uma função ideológica. a capacidade de transformação.

p. No Direito. 15. compreendido em sua representação como o universo de normas. Cita. 2007. 12). que. O terreno da economia é aquele no qual se encontra diversos egoísmos. 32 “O lema da economia é. formando as ideologias jurídicas. pode ser entendida como o exercício de dada atividade. Em vez de deixar a cada um o que lhe tenha conseguido obter. deixa. Ainda. infelizmente.12).. pois o mero fato de institutos jurídicos não possuírem as suas raízes fincadas no Direito. O Direito. Ao tecer tais considerações. seria “um fenômeno econômico antes de ser jurídico” (CARNELUTTI. Na mesma linha de raciocínio. por vezes. é o lobo]. em sua obra “Como Nasce o Direito”. poderíamos dizer que a economia é o reinado do eu. Por isso. não pode – ao contrário do que pensa o jurista – ser simplesmente transposto ao Direito. no seu sentido amplo. homo homini lopus [o homem. [.1 A FUNÇÃO HARMONIZADORA A ação de harmonizar. em si e por si. O conflito firmado no campo econômico. para o homem. o ordenamento jurídico. situar-se-ia os contratos. deve manter um mínimo de coerência por diversos motivos. do egoísmo. o Direito teria a função de pôr ordem na economia. estão andando em linhas conflituosas e dispares.] Se quiséssemos reunir numa breve fómula as razões pelas quais os homens não conseguem viver em paz no terreno da economia. decerto Carnelutti não tinha o domínio da profundeza de suas palavras. implantar sintonia. Visa. consonância. a princípio. para o autor.58 4 A FUNÇÃO HARMONIZADORA DA IDEOLOGIA E A TOTALIDADE CONCRETA NO DIREITO 4. dando nítido contorno para o Direito como regulamentador de institutos econômicos. é o reinado da desordem” (CARNELUTTI. afirmava que diversos institutos jurídicos nascem de fora do Direito. caso haja a ideologia presente na relação. economicamente. em objetos que. que é aceito por Carnelutti32.. ou seja. . 2007. A guerra não é em sua raiz mais do que este ato de arrebar. de reproduzi-los fielmente. não demonstra a maior problemática existente. comporta-se diante do outro homem como um animal predador. como exemplo. p. ao regulamentar institutos exógenos – principalmente os do campo econômico –. Francesco Carnelutti (2007). o homem. que pressupõe o intento de estabelecer o equilíbrio entre coisas diversas em si. nessa ordem. tanto dos homens quanto dos povos. o outro se vê tentado a arrebatá-lo dele. segundo o autor. que seria o terreno do “eu”. a propriedade.

que. porém. E isto tanto mais quanto é raro ocorrer que um código seja expressão abrupta. há a reprodução fiel da base econômica. o que afastaria a possibilidade de existir uma ordem jurídica conexa. um novo domínio. 533-534). primeiro. também uma capacidade particular de reacção contra esses domínios. e na medida em que aí está corporizada. p. O Direito. não apenas de corresponder à situação económica geral. A questão. Para a existência da harmonização. mas também de ser uma expressão em si conexa. puro. por sua vez. em carta dirigida a Konrad Schmidt. t. tem que ser uma expressão que dote coerência em si. em toda sua dependência geral da produção e do comércio. Assim. contudo. da burguesia revolucionária. no modo de produção capitalista. o Direito. para conseguir isso. de 1792 – 1796 está já falsificado. não adoçada. possui. e em que. Caso assim fosse. depois. deve assentir. mas apenas de um lado. a fidelidade do reflexo [Abspiegelung] das relações económicas é feita cada vez mais em fanicos. falo aqui apenas do Direito Civil). que não se esbofeteie a si própria por contradições internas. em 1890: Com o Direito [Jus]. de maneira límpida. no Code Napoleón. serve de base a todas as codificações. A passagem de Engels traz um ponto que ainda carece estudo mais aprofundado. o curso do <<desenvolvimento do Direito>> só consiste. da dominação de uma classe: isto seria mesmo contraditório já ao <<conceito de Direito>>. sob muitos aspectos. não falsificada. mais do que meramente regulamentar. tem diariamente que experimentar toda a espécie de atenuações por causa do poder crescente do proletariado. consequente. O conceito do Direito. em grande parte. a influência e o constrangimento do ulterior desenvolvimento económico rompe sempre de novo esse sistema e complica-o em novas contradições (de momento. embora se possa extrair algumas conclusões. em linhas gerais. Num Estado moderno. abre-se. 3. portanto. harmônico. O que não impede o Code Napoleón de ser o código que. Adentrando no fundamento da ideia. em que. de outro. no entanto. especialmente no direito civil. de ser expressão dela. com os anseios da sua classe dominante. todo o conflito presente na base iria se reproduzir. inclusive no Direito. A . Assim. cita-se as palavras de Friedrich Engels (1985. Assim. o ordenamento jurídico deve conter a reprodução fiel da infraestrutura social. se procure eliminar as contradições que se produzem a partir da tradução imediata das relações económicas em princípios jurídicos e estabelecer um sistema jurídico harmonioso.59 As projeções dos vínculos infraestruturais sobre a superestrutura social não aparecem. pois. em todas as partes do mundo. autônomo. o Direito [Recht] tem. esta reprodução engendra contradições que devem ser harmonizadas. passa-se de modo semelhante: logo que a nova divisão do trabalho que cria os juristas de profissão se torna necessária. é como se operacionaliza essa harmonização dentro do ordenamento jurídico. que busca sopesar o contraditório. no mais das vezes. E. há a falsificação ideológica sob a forma normativa.

agora. o que se estuda é um dos modos de operacionalização da ideologia dentro do ordenamento jurídico.60 análise é extensiva ao campo do direito público. centra-se somente na parte ideológica. as condições de adaptação mútua das partes constitutivas de uma formação dada. Embora a assertiva não constitua objeto de análise. a segunda a necessidade de uma 33 É válido atentar que. para que se mantenha determinada formação social. bem como nas implicações jurídicas que daí decorrem. esteja representada em conformidade com a consciência ideológica dominante. por via reflexa. caso não houvesse reprodução fiel da base econômica. o exame. tendo algumas delas a função de harmonizar a mera reprodução das relações infraestruturais. que responde a provocações imediatas e objetivas.2. 5051): A primeira e a segunda lei geral da sociologia exprimem a condição de harmonia. Em termos amplos. para que a ordem social. Ou seja. Portanto. Situando o espectro de abordagem. que propicia a harmonização. cabe menção às palavras de Oskar Lange (1976. depende de alterações que se operam no âmbito da infraestrutura da sociedade. A mutabilidade do ordenamento jurídico e. A primeira lei constata a necessidade de uma correspondência entre as relações de produção e o caráter das forças produtivas. Assim. da função harmonizadora. p. . é o mecanismo de adequação das necessidades imanentes do ordenamento jurídico. a atividade de harmonizar o sistema normativo deve ser vista sob o prisma de determinado período histórico. A harmonização no Direito é um movimento somático. não obstante se afirme a existência no ordenamento jurídico de reprodução direta da base33. Na ordem capitalista. diversas relações são travadas tendo o elemento ideologia como fundamental. Até mesmo porque a norma jurídica. não obstante a análise de Engels tenha recaído tão somente sobre o direito privado. guarda correspondência com a consciência social dominante de determinada época. conforme estudado no ponto 3. e da sua função dentro do sistema. pois seria composto unicamente de elementos falsos ou falseadores. em relação à base social. o Direito poderia ser reduzido a mera ideologia. sem que se cogite a hipótese da necessidade eterna de determinada harmonização. formalizadora das relações sociais. a realidade da vida. existe também a necessidade de harmonização. nada mais esperado do que o ordenamento jurídico repetir as ideologias sociais. Em certa medida. o que não significa que é causal. de equilíbrio interno das formações sociais.

de forma a garantir um mínimo de igualdade e segurança para tôda a sociedade. Então a formação social modifica-se. a exemplo dos tópicos pretéritos. que nada mais é do que a tradução direta das relações econômicas. superior aos interêsses particulares conflitantes. Essa função é imprescindível para que a contradição de classes se afigure compatível e controlável dentro da lógica desejada. que avoca para si a responsabilidade de editar normas em caráter geral. a interna. essência e conteúdo pouco mudou. p. A harmonização. Ou seja. abrange a necessidade de 34 Aqui. representa a ideologia dentro do ordenamento jurídico. por sua vez. seria pouco servível retomar as suas origens e o seu desenvolvimento. transforma-se em outra. na medida em que êle não é simplesmente a expressão política direta das relações básicas de produção. pelo próprio Estado. como até aqui se divagou. Ademais. Essa. correspondendo à vontade da classe dominante de falsear o real. em que duas ou mais normas portam conteúdo diverso acerca do mesmo tema. .61 correspondência entre a superestrutura e as relações de produção (base económica). as diversas partes constitutivas deixam de se adaptar umas às outras. que em sua forma. as leis da conservação das formações sociais. sendo e permanecendo um Estado das classes dirigentes. A primeira delas. que adota a noção de que o ente estatal não meramente reproduz os interesses da classe dominante: Na teoria marxista. apóia a lei e a ordem universais. não ocorre através da eliminação da contradição. de uma certa forma. a externa. para criar uma aparente harmonia no sistema. Sòmente em virtude dêsses elementos é que o Estado de classe pode preencher a função “moderadora” de manter dentro dos limites da “ordem” os conflitos de classe gerados pelas relações de produção. mas pelo ato de sopesar coisas antagônicas. em linhas gerais. e vem outra. ideológica. O Estado. A segunda. para fins didáticos e não reducionistas. O modelo de Estado que se remete é o liberal. pode ser analisada sob uma dupla faceta. mas contém elementos que “compensam” as relações classistas de produção. pode ser depreendida em uma interpretação extensiva da citação de Engels retro colocada. 113). O Estado34. O falseamento. a formação social cai numa contradição interna. Estas são. o Estado se relaciona à super-estrutura. conforme refere Marcuse (1969. equilibrar a existência dela. há uma norma que reproduz diretamente as condições econômicas. Para fins de cumprimento do objetivo do estudo. esta tarefa de harmonizar é cumprida. A harmonização é procedida por meio da ideologia. não se está empregando-a para designar todas as formas de aparição deste. quando se utiliza a expressão “Estado”. E é essa “mediação” que dá ao Estado a aparência de um interêsse universal. cabe destacar. Se as condições definidas por estas leis não estão realizadas. utiliza-se de normas ideológicas para harmonizar o conflituoso.

de fato. há duas normas. também existem duas normas. de modo a mitigar dada desigualdade que é estrutural. por 35 Apenas para minimamente clarear. ocorre quando uma ou mais normas do ordenamento jurídico são utilizadas para preencher dada demanda social estruturalmente reprimida. e que não versam sobre o mesmo fato ou conduta. o próprio direito objetivo não soluciona. não necessariamente de mesma hierarquia. ocorre apenas em termos superestruturais. outra norma. a reprodução fiel das relações da base. é o princípio jurídico basilar do ordenamento jurídico pátrio. de um lado. não tendo o condão de alterar de modo significativo estruturas econômicas pré-fixadas. o exemplo que se traz – e que será examinado no próximo ponto – é o da dignidade da pessoa humana. ideológica. por um lado. ponderando o sistema jurídico35. Embora não haja divergência aparente de características entre a interna e a externa. Nessa ordem de raciocínio. ante a inexistência de uma norma para equilibrar outra que traz a reprodução fiel da base. visa apenas mitigar. Uma delas fielmente reproduz a base. necessariamente. Traçando um paralelo entre as formas de harmonização. no entanto. Já na harmonização externa. Posta a questão em termos materialistas. a interna. O que se intenta. por vezes. no plano normativo superestrutural. mas estabelecer o equilíbrio social a partir do ordenamento.62 estabelecer equilíbrio dentro do Direito. configura uma das hipóteses de reação da superestrutura em relação à base. é uma forma de. a pretensão pode ser acolhida em nome da dignidade da pessoa humana. . Nesse caso. também através da ideologia. que. ameniza. é extrair do fenômeno jurídico o que a ordem econômica não pode propiciar. reproduzir os anseios econômicos em termos jurídicos. segundo alguns. em ambas as hipóteses. em verdade. conjunturas históricas específicas. A instrumentalização dessa última hipótese de harmonização. No entanto. pode-se afirmar que na primeira delas. Impende ressaltar que. sendo que o sentido delas porta incompatibilidade lógica. recorre-se a alguma de maior abrangência para equalizar a relação. e. a outra. o diferencial é que esta visa não apenas preservar a harmonia do ordenamento em si (embora faça isso também). de igual hierarquia. e. A hipótese de harmonização se configura quando o direito objetivo não acolhe determinada demanda coletiva. que não acobertam demandas imanentes. A harmonização que procede a ideologia. que prescrevem uma conduta ou um fato análogo. e. a fim de equilibrar a ordem jurídica. sendo que. há também. atua para equilibrar a desigualdade. geralmente de caráter mais abrangente (como o princípio o é). a harmonização.

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outro, falsear ideologicamente o conflito que se estabelece, buscando equilibrar com o contraditório. Quanto à forma, a harmonização ocorre através de regulamentações presentes no direito objetivo36. Além disso, segundo Marcus Vinicius Antunes (1997, p. 415):

As formas e os meios de harmonização, é claro, são variáveis. Como regra, nos países do Common Law, e, mais recentemente, em parte, nos países do sistema de Direito Codificado, o Poder Judiciário realiza essa “tarefa harmonizadora” por meio da jurisprudência, inclusive contra legem, ou prater legem.

Posta a questão da harmonização externa sob outro viés, é possível o entendimento de que ela resulta de um processo de objetivação do sujeito e subjetivação do objeto, em franca utilização da ideia de Georg Simmel37. Nessa desordem, a forma e o conteúdo perdem os seus papéis e invertem-se, consoante irá se demonstrar no ponto seguinte. Diante de todas as informações colocadas, constata-se que a harmonização é uma das formas de materialização da ideologia no Direito. Além disso, é possível afirmar a existência de uma dupla harmonização, embora ambas possuam, em linhas gerais, a mesma finalidade, qual seja, manter a consonância do sistema jurídico, que não pode, por vezes, meramente descrever as relações que na infraestrutura da sociedade são fixadas.

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O motivo pelo qual a forma da harmonização se dá pelo direito objetivo pode ser depreendido desta passagem de Nicos Poulantzas (1981, p. 99): “A lei e o sistema jurídico capitalistas apresentam igualmente, porém, particularidades no seu aspecto de materialização da ideologia dominante. A legitimidade desloca-se em direção à legalidade [...]. A lei, já encarnação do povo-nação torna-se a categoria fundamental da soberania do Estado: a ideologia jurídico-política em região dominante da ideologia [...]. [...] A função de legitimidade desloca-se em direção à lei, instância impessoal, abstrata, ao mesmo tempo em que, no seio das relações de produção, os agentes „desatam‟ e se liberam de seus elos territoriais-pessoais. Tudo se passa como se essa lei, graças a sua abstração, formalidade e generalidade, se tornasse aqui o dispositivo mais apto a preencher a função mor de toda ideologia dominante: a de cimentar a unidade de uma formação social (sob a égide da classe dominante)”. 37 Segundo André Lemos (2008, p. 17): "É a vida social contemporânea, enfim, que deve ser observada, não numa perspectiva de conceitos congelados, mas pela ótica do movimento caótico e sempre inacabado entre formas técnicas e os conteúdos da vida social. Para Simmel, a tragédia da cultura está ligada ao processo dialógico entre as formas e os conteúdos; entre a subjetivação do objeto e a objetivação do sujeito. Levar em conta a dimensão técnica da vida quotidiana significa dirigir nosso olhar ao mundo da vida".

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4.2

A FUNÇÃO HARMONIZADORA NO DIREITO PÚBLICO E NO DIREITO PRIVADO

No capítulo pretérito, verificou-se que a função harmonizadora corresponde a uma necessidade de equilíbrio do ordenamento jurídico, levada a efeito através da ideologia. Assim, o presente tópico apenas cumpre a tarefa de exemplificar, no direito brasileiro, o modo pelo qual a harmonização é efetivamente procedida nos ramos deste, quais sejam, o público e o privado. A relação existente entre essas esferas do Direito tem constituído uma verdadeira dicotomia, conforme aponta Norberto Bobbio (2003). Para o autor, é plausível sustentar a existência de uma grande dicotomia quando se pode dividir um universo em duas esferas, desde que todos os entes deste universo se façam presente em uma ou noutra parte. Além disso, a definição de uma das partes pode ser feita independentemente da outra, podendo, inclusive, quando uma é definida, a outra ganhar, automaticamente, uma definição negativa. De modo clássico, é relativo ao direito privado os assuntos que pertencem à seara dos particulares, em que o Estado não deve interferir, ou ao menos não de maneira a fazer valer os seus interesses. Pelo contrário, quando se fala em direito público, está-se a referir pela preponderância do interesse coletivo sobre o particular, comumente confundido com o interesse estatal. A radical oposição entre o direito público e o privado é passível de muitas críticas. Michel Miaille (1994) apresentou, brilhantemente, boa parte delas. Para o autor, a divisão não é fruto de elucubrações de juristas, pois segundo ele: “Na realidade, como vou mostrar, a separação público-privado é objectiva na sociedade capitalista: ela falanos de organização concreta e real dessa sociedade” (MIAILLE, 1994, p. 152). Conforme Miaille (1994), a dicotomia baseia-se em um fundamento primordial, que é a separação entre o indivíduo e o grupo social, em forma de oposição. Isto é, as finalidades e os conteúdos das relações privadas opõem-se às públicas, sendo que a liberdade está do lado do privado e a coerção ao lado do público. Ainda, para o autor, há dois movimentos de modificação da fronteira entre o público e o privado. Um deles, caminha no sentido da publicização do Direito (no Brasil, cita-se, como exemplo, a doutrina recente de constitucionalização do direito

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privado), que seria o mais aparente. O outro se dirige à privatização, que corresponderia ao movimento real. Referente à publicização do Direito, buscando estabelecer laços analógicos aos exemplos do direito francês trazidos pelo autor, reproduz-se a ideia de que o Estado tem intervindo em setores outrora abandonados. A substituição da noção do Estado liberal clássico pelo provinciano, conduz à necessidade de regulamentação de áreas de cunho eminentemente social, tais como: a educação, seguridade social, cultura etc. Além disso, como consequência, superficialmente falando, a publicização do Direito aparece também como restrição das liberdades. Para Miaille (1994, p. 155): “Antigamente, o director da empresa era <<livre>> nas suas relações com o operário que empregava, o proprietário era <<livre>> nas suas relações com o seu inquilino [...]. Na sequência, o autor complementa: “ <<Vê-se>> que está liberdade foi reduzida já que a legislação social veio a restringir quer os poderes do proprietário, quer os do patrão”. A visão apresentada, segundo o autor, é falsa:

[...] não é porque o direito privado se tornou mais imperativo que ele se transformou em direito público. Não houve, realmente, publicização do direito. Vamos mesmo um pouco mais longe: quando o Estado, por intermédio do legislador, diminui a liberdade do patrão, é para dar mais consistência à do empregado. Não diminuiu, pois, por este facto <<a liberdade>> no seio da sociedade.

Pela lógica inversa, Miaille (1994) aponta que sob o fundamento da incapacidade do direito público ser eficaz nos domínios econômicos e sociais, é que o direito privado vem ganhando terreno. Cita, ilustrativamente, que as empresas estatais, no mais das vezes, estão submetidas ao regime de direito privado, isso sem contar os serviços tradicionalmente públicos que passaram para o domínio privado38.

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Em certa medida, o Brasil experimentou o aludido com uma verdadeira privatização do Estado, por meio de alterações legislativas de grande envergadura. Paulo Bonavides (2004, p. 660-662) relatou o caráter privatista de cinco emendas constitucionais à Constituição de 1988: “A EC 5 pôs termo ao monopólio estatal da exploração dos serviços de gás canalizado, permitindo, doravante, o regime de concessão [...]. A EC 6 insere-se no esquema de desnacionalização da economia brasileira, fomentada pelo neoliberalismo instalado no poder. Modificou o inciso IX do art. 170, que outorgava tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte. Doravante, os benefícios desse princípio de ordem econômica são estendidos a quaisquer empresas de pequeno porte, não fazendo diferença sejam elas de capital nacional ou capital estrangeiro [...]. A EC 8, por sua vez, não fugiu ao espírito que move o constituinte da reforma: o da remoção de todos os ingredientes nacionalistas da Lei Magna, em nome de uma abertura completa, e certamente inadvertida, da riqueza nacional aos capitais externos, absolvidos e legitimados nessa ocupação da economia brasileira com o argumento da globalização. Essa Emenda n. 8 faz com as telecomunicações o que já se fez com a empresa brasileira, o

refere o Estado absolutista. a separação entre o direito público e o privado “não é. e porque. que examinou a relação entre o direito público e o privado à luz da necessidade de harmonização: O Estado. ser tudo e o conteúdo económico nada. 159). p. No capitalismo. ao fazê-lo. adota-se a divisão entre o público e o privado. traduz uma certa racionalidade do Estado burguês”. a navegação de cabotagem. em que o poder público era exercido pelo senhor feudal. o que justifica a segregação. bem como seguindo a doutrina tradicional. alude Miaille (1994. Nessas condições. Nos políticos de profissão. Não obstante o apontamento das críticas tecidas por Michel Miaille e Engels. acerca da dicotomia. há também evidentemente que ter em consideração todo o sistema jurídico já em vigor. nomeadamente. O autor. então. conforme vimos: escancarar a janela ao capital alienígena”. 416). que são capazes em si mesmo de uma exposição sistemática e a requerem através de consequente extirpação de todas as contradições internas. retomando a importância da função harmonizadora. porém. Começando pelo direito público. 160): Por outras palavras. como visto. p. pois <<natural>>: não é lógica em si. t.66 Para Miaille (1994. com esteio na lição de Pachukanis. produz logo uma ulterior ideologia. para serem sancionados sob a forma da lei. que ao mesmo tempo era o proprietário da terra. Direito público e direito privado são tratados como domínios autônomos. Para comprovar a tese. que têm o seu desenvolvimento histórico independente. os recursos minerais. o primeiro exemplo que se traz. de harmonização interna. foi o elaborado por Marcus Vinicius Antunes. não se justificaria uma separação extrema. a forma jurídica deve. para fins didáticos. o Estado aparece como instituição que dota autonomia em relação à formação social. Quase concluindo. por maioria de razão. nos teóricos do direito público e nos juristas de direito privado. a separação entre direito público e direito privado é exterior ao indivíduo: ela separa-os em dois elementos distintos e mesmo opostos. perde-se a conexão com os factos económicos. p. por [tudo] isso. entretanto. Cita-se. assim pôs a questão: monopólio estatal do petróleo. uma vez que o público e o privado se confundiriam na mesma pessoa. os dizeres de Friedrich Engels (1985. visando examinar uma das formas de operacionalização da ideologia no ordenamento jurídico. . O homem como indivíduo burguês privado e o homem como cidadão do Estado não é afinal senão outra formulação da distinção entre direito privado e direito público. uma vez tornado poder autónomo face à sociedade. por oportuno. 3. Porque em cada caso individual os factos económicos têm de tomar a forma de motivos jurídicos.

o quatro e o cinco preveem. o inciso quatro rege: “IV . conforme os ditames da justiça social. Outro exemplo relativo à propriedade. 170. caput e inciso IV. (ANTUNES. 415). outro exemplo está presente no art. tem por fim assegurar a todos existência digna. Como restou explanado no ponto 2. Seriam duas propriedades diferentes? Em verdade. de eliminar as contradições decorrentes da “tradução direta das relações econômicas”. a condição do trabalhador assalariado está em franca dissonância ao livre exercício da atividade econômica por parte dos detentores dos meios de produção. Nessa mesma linha de raciocínio.. mas. é extremamente interessante. da Constituição: “§ 4º . parágrafo 4º. 170. de um lado. e. busca-se a defesa do consumidor como meio de balancear o reflexo direto das relações econômicas em seus destinatários. só que rural. Por um lado.A lei reprimirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados. na valorização do trabalho humano. O mesmo se dá no campo do Direito Público (e nas relações deste com o Direito Privado). Adiantemo-nos.exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos 39 “Art. sendo a valorização do trabalho humano uma atenuação para a desigualdade estrutural gerada justamente pela livre iniciativa. Assim. Dentre eles. a “Função Social da Propriedade” é um meio de “harmonizar” a contradição. III – função social da propriedade.]”. tem-se o resguardado o direito do capitalista da livre concorrência. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa.. com trabalho assalariado – dão-se nos marcos de um sistema de propriedade privada dos meios de produção. Ainda no art. o que é contraditório com o caráter social da produção (e não com uma programática função social). respectivamente. para o autor. de outro. respectivamente). assegura a livre concorrência e a livre iniciativa (arts. na livre iniciativa. essas tentativas de harmonização ocorrem em diversas direções e instâncias. ao mesmo instante. de outro.3. o art. as relações econômicas na produção – as relações de produção. p. Por exemplo. dentre os seus incisos. 170. Pois. Ainda. representa as „atenuações‟ impostas por forças de fora do espectro exclusivo do grande capital” (ANTUNES. 170 da Constituição: II – propriedade privada. 1997. A ordem econômica. 173. 415). “Ou seja. No Brasil. à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros”. a repressão ao abuso econômico. ainda que nãoefetivo. que prevê a ordem econômica como fundada. 1997.67 A reflexão sobre a necessidade de construir um sistema harmônico de Direito. p. no art. 170 da Constituição39. observados os seguintes princípios: [. . a livre concorrência e a defesa do consumidor. 186 da Constituição elenca os requisitos necessários para o cumprimento da sua função social. pode-se inferir a previsão do caput do art.

t. etc. legalmente. não tendo os contratantes que seguir.] tomar por base o primeiro direito mundial de uma sociedade produtora de mercadorias. 415): Se o Estado e o direito público são determinados pelas relações econômicas. em regra..). inclusive. buscando. em si. Escapando do direito público. 421 assim prevê: “A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato”. com a sua inultrapassável incisiva elaboração de todas as ligações jurídicas essenciais de simples possuidores de mercadorias (comprador e vendedor. . 160 dispunha que a ordem econômica tinha como princípio a liberdade de iniciativa. após a morte. representando uma real “mitigação” dos efeitos reais inerentes ao direito de propriedade rural. Porém. já com a edição da Emenda Constitucional nº 1 de 1969. Regula. antagônicas... depois em que é incapaz de celebrar negócios jurídicos. p. Inclusive. No Código Civil vernáculo. Entretanto. entre os indivíduos. porém. o art. devedor e credor. sanciona apenas as ligações económicas normais existentes. Veja-se que o livre exercício da atividade de contratar representa uma realidade econômica. que é a propriedade. Pode [. que. uma reprodução da base econômica. e. havia o princípio da “harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção”. [. minimamente. dá-se relevância às palavras de Engels (1985.68 trabalhadores”. A ordem econômica assegura ao capitalista a propriedade dos meios de produção e a livre iniciativa para o seu exercício. também evidentemente o é o direito privado. nas circunstâncias dadas. Deve haver. A forma em que isso acontece pode. formas específicas para formalizarem um vínculo obrigacional. que a exploração atinja o bem-estar também do trabalhador. a liberdade de contratar é ampla. até se tornar apto a adquirir. contrato. pois. a segunda norma visava ao estabelecimento de consonância em coisas que são. desde o momento em que é nascituro. todos os atos da vida civil do “homem” e do “cidadão”. Escancaradamente. uma vez que a legislação civil tem como objetivo primordial a regulamentação do bem jurídico de maior valor. que é suavizada pela função social. negociar. na Constituição de 1967. explicitado no âmbito do direito privado. Acerca do tema. observadas as normas gerais fixadas neste Código”. no inciso IV. o [direito] romano. transmitir os seus bens aos seus herdeiros. entretanto. essencialmente. obrigação. conceito que até hoje não foi. ser muito diversa. consoante dispõe o art.].. no ramo privado é onde as relações econômicas aparecem de maneira mais clara. o art. 425: “É lícito às partes estipular contratos atípicos. 3.

ao seu turno.69 Ainda. condicionando os plenos poderes conferidos à propriedade. No ponto 3. quando se escreveu acerca da ideologia jurídica. Lá. que ora será objeto de análise. se trata de uma ideologia jurídica como restará demonstrado. Um dos maiores expoentes da doutrina da dignidade humana. ressalva: § 1o O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados. buscado na crença religiosa. por diversas passagens da obra “Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais na Constituição de 1988”. gozar e dispor da coisa. no seu parágrafo primeiro.2. A dignidade da pessoa humana é um típico exemplo de ideologia. ao ponto de se tornar uma norma tipicamente jurídica. bem como porque se julgou a que mais tem sido dada relevância hodiernamente. É claro que não basta ser norma. a segunda parte será centrada na análise da harmonização externa. Portanto. o professor Ingo Sarlet. 1. o foco será direcionado para apenas uma norma em específico. o Código Civil regulamenta o direito de propriedade nos seguintes termos: “Art. que é caso da expressão “dignidade da pessoa humana”. Este conceito. Ingo (2008). O proprietário tem a faculdade de usar. a flora. presente na Constituição brasileira. tem a sua formulação original no livro “Fundamentação da Metafísica dos . bem como evitada a poluição do ar e das águas. a fauna. tampouco constituir influência de outro campo superestrutural para ser ideológica. as belezas naturais. de conformidade com o estabelecido em lei especial. conceitos filosóficos. incutido no Direito. e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha”. um exemplo concreto foi referido. Perpassando alguns exemplos do que se denominou de harmonização interna. pois é um conceito filosófico. em razão da limitação espacial. o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico. sustenta que o conceito tem o seu fundamento na obra de Immanuel Kant. igualmente. Para tanto. defende que a fundamentação da dignidade da pessoa encontra esteio no conceito kantiano de “autonomia da vontade”. todavia.228. podem condicionar o conteúdo da norma jurídica. ficou ressaltado que diversos conceitos superestruturais exógenos podem ser incutidos no Direito. Contudo. como anteriormente firmado.

p. 53-54). 2006. a dignidade da pessoa humana é uma ideologia jurídica. 55. mas com uma suavização ideológica. e que. é a existência de um fenômeno social. como se a sua essência residisse no próprio homem ideal. em princípio proíbe a completa e egoística disponibilização do outro. mas sempre simultaneamente como fins em si” (KANT. a coisa que se acha acima de todo preço. que determina todo o valor. p. ou seja. 37. incomparável. A fundamentação da dignidade humana é um tanto quanto nebulosa.” (KANT. que jamais são explicados até a sua essência. Ainda. A harmonização procedida pela dignidade é levada a efeito a partir da existência de determina norma jurídica. sendo que estes devem ser compreendidos como um fim em si mesmo. fruto de uma estrutura desigual. e por isso não admite qualquer equivalência. . por outro lado. mas de maneira direta vide as páginas: 33. pois. dotado de uma característica especial. o fundamento da dignidade da natureza humana e de toda a natureza racional. tudo tem ou um preço ou uma dignidade. 54. Combinada ao Direito. O problema fundamental. e jamais serem rebaixados à condição de meio42. pode-se sustentar que a autonomia da vontade liga-se à liberdade que detém todos os seres humanos. a noção de dignidade da pessoa é compreendida pressupondo a existência de um ser em abstrato (qualquer humano). isto é. fazendo a releitura do conceito kantiano. convém acrescer) o do objetivo da conduta. para o qual só a palavra respeito confere a expressão conveniente da estima que um ser racional deve lhe tributar. 35. Sem contar a aparente tautologia do termo. pode ser substituída por algo equivalente. que se reproduz no ordenamento jurídico. Quando uma coisa tem preço. por consequência. inata. Ocorre que. 60. pois engendraria contradições ao ordenamento. compreende uma dignidade” (KANT. como se fosse possível a existência de um fenômeno desprovido de essência. p. Além disso. em termos ideológicos. 64). conferida pelos próprios homens e só neles presente. no entanto. ou melhor. a intenção de instrumentalizar (coisificar) o outro”. diversos institutos que são fiéis à base estão presentes no Direito. pois. de maneira concisa. Isto é. em demasia. Ingo Sarlet (2008. 65). do objeto de estudo. submetidos a essa lei que ordena que cada um deles jamais se trate a si como meios. A autonomia é. sustenta: “a dignidade da pessoa humana. 41 “No reino dos fins. ao passo que é uma teoria desconexa do ambiente material. busca a justificativa para o Direito em conceitos superestruturais. como incansavelmente frisado. em que Kant faz uma distinção entre o preço e a dignidade41.70 Costumes” 40. 42 No dizer de Kant: “Todos os seres racionais estão. p. 2006. 39. 46. no entanto. Assim. compreendida como vedação da instrumentalização humana. 2006. um valor incondicional. que reproduz fielmente a base econômica. o Direito. de tal sorte que o critério decisivo para a identificação de uma violação da dignidade passa a ser (pelo menos em muitas situações. A adoção desse conceito por Ingo se encontra de forma implícita em toda a obra. por isso mesmo deve ter uma dignidade. Diversas críticas poderiam ser tecidas à teoria. escaparia. 34. gera alguma situação de inconformidade social. 66). não pode simplesmente reproduzir as relações econômicas. 53. no sentido de que se está a utilizar outra pessoa apenas como meio para alcançar determinada finalidade. e que 40 “A própria legislação.

para elucidar o modo pelo qual a dignidade da pessoa humana atua como harmonizadora do ordenamento jurídico. Ao que se sente.71 é contrabalançada com um fenômeno superestrutural (a dignidade da pessoa humana). de forma alguma se altera a ordem da base social. que não atenta para as reais causas do fenômeno (quando se trata de uma demanda socialmente reprimida. um postulado normativo. conforme dispuser a lei. como a demanda por medicamentos. e que não encontram guarida no direito objetivo. um conceito filosófico. que é a postulação do benefício de amparo social. e que a reproduz.. que antes não permitia o reconhecimento de determinado “direito”.a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família. da Constituição: Art. em especial) e que.. jamais se encontra a raiz que motiva o surgimento do primeiro fenômeno. pois a sua solução se dá através de outro fenômeno superestrutural. gerando um equilíbrio entre a demanda social e o ordenamento jurídico. jamais poderá solucioná-lo. não busca compreendêlo. o caso prático veicula situação também recorrente nos tribunais. contradições sociais flagrantes. independentemente de contribuição à seguridade social. A dignidade da pessoa humana é uma ideologia jurídica.] V . Ainda assim. apenas ameniza o grau de desigualdade. Poder-se-ia referir a exemplos que são mais fáceis de demonstrar o sustentado. Ou seja. 203. busca como subterfúgio para a não aplicação da literalidade da lei. visando mitigar as contradições que a infraestrutura econômica cria. por vezes. ante a incapacidade de compreensão do fenômeno. Sob um viés imediatista. 203. todavia. sensibilizado com uma situação de latente desigualdade material. Com isso. A assistência social será prestada a quem dela necessitar. de modo a mascarar. e tem por objetivos: [. pois não compreende a estrutura do objeto a que pretende resguardar. pelo contrário. o direito à moradia etc. Não se pretende negligenciar o efeito social aparentemente positivo. V. que a aplicação de visões teoricamente progressistas pode trazer. a norma jurídica é infiltrada com um conceito filosófico. a pretensão é resolvida. o jurista. Assim. sem que. Mesmo que quase tardiamente. . busca-se um exemplo na jurisprudência pátria. se tenha alterado a estrutura social que gera a distorção. portanto. previsto no Art. Assim sendo.

é o que fixa a idade em 65 (sessenta e cinco) anos.741/2003). em seu art. reduziu-se a idade anteriormente prevista. tampouco tê-la provida pela sua família. POSSIBILIDADE DE DEMONSTRAÇÃO DA CONDIÇÃO DE MISERABILIDADE DO BENEFICIÁRIO POR OUTROS MEIOS DE PROVA. possuir renda familiar de até um quarto do salário mínimo per capita. nos termos da Lei Orgânica da Assistência Social – Loas”. Para a concessão do referido benefício devem ser preenchidos. BENEFÍCIO ASSISTENCIAL. dispôs: Art. nem de tê-la provida por sua família. em que as pessoas que se situassem abaixo do um quarto per capita fariam jus ao benefício. à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não 43 O critério etário vigente. Ocorre que. no cenário brasileiro em que a exclusão social é latente.72 A supracitada regra. Aos idosos. III. é assegurado o benefício mensal de 1 (um) salário-mínimo. QUANDO A RENDA PER CAPITA DO NÚCLEO FAMILIAR FOR SUPERIOR A 1/4 DO SALÁRIO MÍNIMO. parágrafo 5º. não ter a capacidade de prover a sua própria subsistência. 105.742/1993. 20. DIREITO PREVIDENCIÁRIO.. A pessoa tem que ser idosa43 ou com deficiência. 20. alguns requisitos de ordem objetiva e subjetiva. A decisão restou assim ementada: RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. O acórdão que serve de exemplo. A CF/88 prevê em seu art. e. pois a partir da edição do Estatuto do Idoso (Lei nº 10. O limite. em que a parte autora intentou comprovar o requisito de miserabilidade sem levar em conta o critério legal. . 1. de eficácia limitada. caput e inciso V a garantia de um salário mínimo de benefício mensal. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.] § 3º Considera-se incapaz de prover a manutenção da pessoa portadora de deficiência ou idosa a família cuja renda mensal per capita seja inferior a 1/4 (um quarto) do salário mínimo. 34. [. 203.. tendo como consequência bolsões infindáveis de miséria. o limite objetivo de um quarto do salário mínimo. veicula Recurso Especial Repetitivo. em razão de ser lei especial. ainda. que não possuam meios para prover sua subsistência. pinçado no Superior Tribunal de Justiça. ART. foi desenvolvido para criar um parâmetro aferidor do grau de incapacidade econômica. teve a aplicabilidade desenvolvida pela Lei nº 8. In verbis: “Art. em concomitância. que deve ser considerado. a partir de 65 (sessenta e cinco) anos. ALÍNEA C DA CF. em verdade. passou-se a questionar. que. O benefício de prestação continuada é a garantia de 1 (um) salário mínimo mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso com 70 (setenta) anos ou mais e que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção e nem de tê-la provida por sua família. no judiciário. independente de contribuição à Seguridade Social.

esse dispositivo deve ser interpretado de modo a amparar irrestritamente a o cidadão social e economicamente vulnerável. O precedente tratado. para o acórdão Min. AÇÃO JULGADA IMPROCEDENTE. 7.720/98. INEXISTE A RESTRIÇÃO ALEGADA EM FACE AO PRÓPRIO DISPOSITIVO CONSTITUCIONAL QUE REPORTA À LEI PARA FIXAR OS CRITÉRIOS DE GARANTIA DO BENEFÍCIO DE SALÁRIO MÍNIMO À PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA FÍSICA E AO IDOSO. pois é apenas um elemento objetivo para se aferir a necessidade. presumese absolutamente a miserabilidade quando comprovada a renda per capita inferior a 1/4 do salário mínimo. NELSON JOBIM. 5. traz a colisão do exercício de determinado direito à luz da realidade social.73 possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família. especialmente no que se refere à garantia das condições básicas de subsistência física.232/DF (Rel. a Lei 8. sob pena de cercear o seu direito de julgar.6. . 2.742/93. A questão se torna um pouco mais complexa à medida que o Supremo Tribunal Federal. O egrégio Supremo Tribunal Federal. alterada pela Lei 9. Recurso Especial provido. TERCEIRA SEÇÃO. em âmbito judicial vige o princípio do livre convencimento motivado do Juiz (art. Rel. o critério de um quarto do salário mínimo per capita não corresponde a uma realidade objetiva da sociedade brasileira. para mantê-lo em vigor. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO. Entretanto. De fato. diante do compromisso constitucional com a dignidade da pessoa humana. por maioria de votos. para aferir a miserabilidade. 6. conforme dispuser a lei. 131 do CPC) e não o sistema de tarifação legal de provas. DJe 20/11/2009) (Grifou-se). 3. IMPUGNA DISPOSITIVO DE LEI FEDERAL QUE ESTABELECE O CRITÉRIO PARA RECEBER O BENEFÍCIO DO INCISO V DO ART. In verbis: CONSTITUCIONAL.2001). Regulamentando o comando constitucional. julgou-a improcedente. a constitucionalidade dessa limitação legal relativa ao requisito econômico. dispõe que será devida a concessão de benefício assistencial aos idosos e às pessoas portadoras de deficiência que não possuam meios de prover à própria manutenção. julgado em 28/10/2009. já declarou. DA CF. 4. DJU 1. A limitação do valor da renda per capita familiar não deve ser considerada a única forma de se comprovar que a pessoa não possui outros meios para prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família. que questionou justamente o limite da renda. ou seja. não se pode admitir a vinculação do Magistrado a determinado elemento probatório. (REsp 1112557/MG. em verdade. Além disso. no julgamento da ADI 1. em Ação Direta de Inconstitucionalidade. Os postulantes pretendem demonstrar que. ou cuja família possua renda mensal per capita inferior a 1/4 (um quarto) do salário mínimo. 203. ESTA LEI TRAZ HIPÓTESE OBJETIVA DE PRESTAÇÃO ASSISTENCIAL DO ESTADO. motivo pelo qual essa delimitação do valor da renda familiar per capita não deve ser tida como único meio de prova da condição de miserabilidade do beneficiado.

DJ 01-062001 PP-00075 EMENT VOL-02033-01 PP-00095) Na realidade. o critério subjetivo. Inclusive. É um caso no qual nem os exercícios mais amplos de exegese legal pode salvar a pretensão. através de legislação infraconstitucional. firma. a forma passa a ser conteúdo e o conteúdo passa a ser forma. isto é. que age. a exemplo do precedente. Relator(a) p/ Acórdão: Min. Relator(a): Min. É a hipótese de harmonização externa. sopesando a contradição instaurada no ordenamento. o Estado. não há norma para contrabalançar a demanda social daqueles que se afirmam miseráveis e percebem renda superior a um quarto. Tribunal Pleno. de outro. o um quarto do salário mínimo. fazendo um contraponto à lei que não contempla a demanda coletiva. Assim sendo. que reconhece a existência de determinada desigualdade estrutural. que faz com que as pessoas que percebem renda acima de um quarto do salário mínimo se autointitulam miseráveis. também não se chegaria ao ponto de conceder o benefício. quem eles são através de um critério objetivo. Ocorre que. O critério objetivo. pois pode ser flexibilizado pelo juiz na situação concreta. mesmo que se utilizasse dos métodos de interpretação usualmente aceitos. Fica de fora dessa análise a distorção estrutural. ser pessoa idosa ou incapaz. julgado em 27/08/1998. concede-se o benefício em atenção à dignidade da pessoa humana. qual seja. apenas para poder preencher o requisito legal. por isso. Ainda. de um lado. ao ponto de estabelecer que seja necessária a previsão de um benefício prestacional para atender a esses casos em específico. há uma norma. passa a ser subjetivo. passa a ser considerado como objetivo. pois é um critério legal objetivo. E. ILMAR GALVÃO. Ao que se observa. Nesse processo. como apontado no tópico pretérito. Por sua vez. bem como uma legislação que não abarca a demanda. pressupondo a existência de miseráveis. a questão poderia ser entendida sob a ótica da objetivação do sujeito e subjetivação do objeto. de caráter constitucional.74 (ADI 1232. uma vez que não contempla tal possibilidade. há a reprodução de uma relação estrutural. uma norma de caráter mais abrangente que harmoniza a contradição instaurada na ordem jurídica. Caso se seguisse a aplicação literal da lei. e. . não haveria como acobertar tal demanda. ideologicamente. existe o postulado da dignidade da pessoa humana. NELSON JOBIM. tendo em vista que. uma vez que são portadores de dignidade inata.

da exposição. a realidade seria incognoscível. a dignidade da pessoa humana. Assim sendo. ao passo que sempre é possível acrescentar algum fenômeno ainda não apercebido pelo estudioso. 4. segundo Kosik (1995. 3). minimamente. incessantemente. uma forma de ideologicamente proceder a um equilíbrio no ordenamento jurídico. Se esta for entendida como um conjunto de fatos. produzindo as distorções. sem dúvida. um postulado filosófico. 41) “compreende a realidade nas suas íntimas leis e revela. a concreticidade poderia ser entendida como a totalidade deles. que não seria possível caso a dignidade não interferisse para que a lei fosse suavizada. de modo a tornar o ordenamento uma expressão jurídica coesa. a totalidade concreta busca responder “o que é a realidade?”. portando a finalidade precípua de amortizar a mera reprodução. as conexões internas. auxilia na compreensão do fenômeno jurídico em suas múltiplas ligações. p. que. torna-se possível harmonizar determinada demanda social em relação ao ordenamento jurídico. t. verifica-se que a dicotomia entre o público e o privado responde a uma situação objetiva do modo de produção capitalista. Ademais. 1. servindo como um instrumento para desbravar este ramo do conhecimento. o mesmo sistema econômico continua.75 Com isso. nada mais é do que um princípio metodológico. qualquer efeito prático na alteração da estrutura social. toda a elucubração intelectual não busca alterar a realidade. Segundo Kosik (1995).. na seara jurídica. tudo isso dentro da relação processual que se instaura. é transformálo” (MARX. a questão. sem que haja. sob a superfície da causalidade dos fenômenos. Dessa forma. Aplicado ao Direito. ela existe em ambos os campos do Direito. no que toca a harmonização. É. 1982. a totalidade não pode significar todos os fatos.]”. por consequência. necessárias [. em um processo de inversão do objeto e do sujeito. tem servido como fundamento ideológico para estabelecer equilíbrio em relações de desigualdade substancial. das relações infraestruturais. .3 O DIREITO CONCRETO A posição da totalidade concreta. e.. 44 “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes. p. Assim. mas tão somente pensá-la de outra forma44. porém. Ainda. Enquanto se discute a violação ou não da dignidade.

são momentos artificiosamente separados do todo. o princípio metodológico da investigação dialética da realidade social constitui ponto de vista da totalidade concreta. indivisíveis etc. se elimina a pseudoconcreticidade. os quais só quando inseridos no todo correspondente adquirem verdade e concreticidade.. da totalidade para as contradições e vice-versa. 52): Para o materialismo a realidade pode ser conhecida na sua concreticidade (totalidade) quando se descobre a natureza da realidade social. dialético. se conhece a realidade social como unidade dialética de base e de supra-estrutura. ser ao mesmo tempo produtor produto. portanto uma função dupla. Além disso. auxilia o jurista na tarefa de conceber o Direito em suas íntimas relações..] que cada fenômeno pode ser compreendido como momento do todo. Esta recíproca conexão e mediação da parte e do todo significam a um só tempo: os fatos isolados são abstrações. 44). definir a si mesmo. não o deixa ser ludibriado por pantomimas jurídicas idealistas. sendo que nessas correlações os conceitos entram em movimento recíproco e se elucidam. Por um lado. e o homem como sujeito objetivo. nas palavras de Kosik (1995. ser revelador e ao mesmo tempo determinado. não sendo imutáveis.76 outrossim. Para Kosik (1995. desempenha. por . Ainda. conhecer os fatos como integrantes de um todo. que significa: [. porém. p. de uma estrutura dialética. para o autor. que não portam nenhuma expressão do real. e de outro. históricosocial. no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos. abrange apenas a “realidade como um todo estruturado. significa. 1995. a concreticidade é um processo que se inicia do todo para as partes e vice-versa. a única capaz de dele fazer efetivamente um fato histórico: de um lado. Aceitar a categoria da totalidade concreta como princípio metodológico de conhecimento da realidade. dos fenômenos para a essência e vice-versa. atingindo a concreticidade. Logo. p. e. A realidade social não é conhecida como totalidade concreta se o homem no âmbito da totalidade é considerado apenas e sobretudo como objeto e na praxis histórico-objetiva não se reconhece a importância primordial do homem como sujeito. definir o todo. p. conjuntos de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido” (KOSIK. 49). o concreto e a totalidade não são a mera totalidade de fatos ou o seu agrupamento. Um fenômeno social é um fato histórico na medida em que é examinado como momento de um determinado todo. senão a idealmente criada. conquistar o próprio significado autêntico e ao mesmo tempo conferir um sentido a algo a mais.

que. constitui a única forma de emancipação humana. reproduz-se as palavras de Vinicius de Moraes (1983. e também que liberdade é libertação.77 outro lado. que consciência é conscientização. Na relação do Direito com a ideologia. em um processo de apreensão do conteúdo e do significado dos fenômenos. As relações ideológicas estabelecidas no Direito. Permitindo-se uma última interdisciplinaridade. como se não houvesse sentido nenhum além da própria norma. p. a categoria permite. estarão apenas à serviço da perpetuação de uma estrutura desigual. descobre quais são as forças da natureza e da sociedade que o “determinariam”. e liberdade também não é uma coisa que nós possuímos. conscientizado. somente exprimem a incapacidade de a ciência jurídica compreender realmente os seus institutos enquanto for desprovida de um método ontologicamente crítico. porém que vamos construindo. rompendo a barreira imposta pela ideologia. isto é. com Marx. desvendando o real significado dos seus institutos. a representação histórica deles é revelada. bem como a função harmonizadora da ideologia. que não atende aos ditames mais prosaicos de justiça. através da poesia “O Operário em Construção”. consciência não é uma coisa que nós temos. descreveu o processo de tomada de consciência de um operário. Para Roberto Lyra Filho (1982. 114): O que é “essencial”no homem é a sua capacidade de libertação. que se realiza quando ele. a destruição da pseudoconcreticidade jurídica. por meio da multiplicidade de correlações dos fatos. A diversidade de relações fatuais que devem ser firmadas para o entendimento do fenômeno não tem constituído tarefa do jurista. pelo contrário: ela vive amarrada e nós temos de cortas os nós. Lembramos. vamos livrando do que os nossos dominadores botaram lá (ideologia). em que o homem se compreende como produtor da realidade e nela é produzido. que até aqui vem sido travada. cuja rotina tem se resumido a interpretá-lo à luz do direito objetivo. Pois enquanto os juristas não detiverem o real conhecimento da sua ciência. Com isso. p. quando este conseguiu estabelecer múltiplas ligações que a ideologia o impedia de fazer: . O movimento da pseudoconcreticidade ao concreto. O resultado prático disso é o esvaziamento da capacidade de transformação do Direito. que se apresentam desconexos da atividade real do homem. se ele se deixasse levar por elas. para os materialistas. ajuda a compreender o Direito não apenas como mero reflexo invertido e inerte da infraestrutura social. 67-73).

tudo será teu. Mas ele desconhecia Esse fato extraordinário: Que o operário faz a coisa E a coisa faz o operário. Satanás. prato. V. Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão.78 E o Diabo. disse-lhe: – Vai-te. porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero. ele o comia. cap. Lucas. facão Era ele quem os fazia Ele. porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás. mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia. ao cortar o pão O operário foi tomado De uma súbita emoção Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa – Garrafa. De forma que. eventualmente Um operário em construção. à frente Um quartel e uma prisão: Prisão de que sofreria Não fosse. E Jesus. De fato. por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão... certo dia À mesa. . E disse-lhe o Diabo: – Dar-te-ei todo este poder e a sua glória. 5-8. cimento e esquadria Quanto ao pão. como podia Um operário em construção Compreender por que um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava Com pá. levando-o a um alto monte. um humilde operário. vs. respondendo. se tu me adorares. portanto. Mas fosse comer tijolo! E assim o operário ia Com suor e com cimento Erguendo uma casa aqui Adiante um apartamento Além uma igreja. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas Que lhe brotavam da mão.

Foi dentro da compreensão Desse instante solitário Que. E foi assim que o operário Do edifício em construção Que sempre dizia sim Começou a dizer não. E aprendeu a notar coisas A que não dava atenção: Notou que sua marmita Era o prato do patrão Que sua cerveja preta Era o uísque do patrão Que seu macacão de zuarte . tudo o que existia Era ele quem o fazia Ele. um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão. enxerga. nação! Tudo. cidade. janela Casa.79 Um operário em construção. Ah. O operário emocionado Olhou sua própria mão Sua rude mão de operário De operário em construção E olhando bem para ela Teve um segundo a impressão De que não havia no mundo Coisa que fosse mais bela. Cresceu em alto e profundo Em largo e no coração E como tudo que cresce Ele não cresceu em vão Pois além do que sabia – Exercer a profissão – O operário adquiriu Uma nova dimensão: A dimensão da poesia. homens de pensamento Não sabereis nunca o quanto Aquele humilde operário Soube naquele momento! Naquela casa vazia Que ele mesmo levantara Um mundo novo nascia De que sequer suspeitava. E um fato novo se viu Que a todos admirava: O que o operário dizia Outro operário escutava. tal sua construção Cresceu também o operário. caldeirão Vidro. parede. Olhou em torno: gamela Banco.

por imprescindível Ao edifício em construção Seu trabalho prosseguia E todo o seu sofrimento Misturava-se ao cimento Da construção que crescia. Sentindo que a violência Não dobraria o operário Um dia tentou o patrão Dobrá-lo de modo vário. o operário Ao sair da construção Viu-se súbito cercado Dos homens da delação E sofreu. por destinado Sua primeira agressão.80 Era o terno do patrão Que o casebre onde morava Era a mansão do patrão Que seus dois pés andarilhos Eram as rodas do patrão Que a dureza do seu dia Era a noite do patrão Que sua imensa fadiga Era amiga do patrão. Porém. Dia seguinte. Teve seu rosto cuspido Teve seu braço quebrado Mas quando foi perguntado O operário disse: Não! Em vão sofrera o operário Sua primeira agressão Muitas outras se seguiram Muitas outras seguirão. Mas o patrão não queria Nenhuma preocupação – "Convençam-no" do contrário – Disse ele sobre o operário E ao dizer isso sorria. Como era de se esperar As bocas da delação Começaram a dizer coisas Aos ouvidos do patrão. De sorte que o foi levando Ao alto da construção E num momento de tempo Mostrou-lhe toda a região E apontando-a ao operário Fez-lhe esta declaração: – Dar-te-ei todo esse poder E a sua satisfação Porque a mim me foi entregue . E o operário disse: Não! E o operário fez-se forte Na sua resolução.

Tarso Genro (1988) conclamou os juristas à formação de uma nova filosofia do Direito. E um grande silêncio fez-se Dentro do seu coração Um silêncio de martírios Um silêncio de prisão. experimentado pela poesia. E o operário ouviu a voz De todos os seus irmãos Os seus irmãos que morreram Por outros que viverão. Via tudo o que fazia O lucro do seu patrão E em cada coisa que via Misteriosamente havia A marca de sua mão. Disse. Esse processo de conscientização. Dou-te tempo de lazer Dou-te tempo de mulher. se abandonares O que te faz dizer não. objetos Produtos. e fitou o operário Que olhava e que refletia Mas o que via o operário O patrão nunca veria.81 E dou-o a quem bem quiser. tudo o que vês Será teu se me adorares E. O operário via as casas E dentro das estruturas Via coisas. Uma esperança sincera Cresceu no seu coração E dentro da tarde mansa Agigantou-se a razão De um homem pobre e esquecido Razão porém que fizera Em operário construído O operário em construção. ainda mais. que reconheça o . Um silêncio povoado De pedidos de perdão Um silêncio apavorado Com o medo em solidão. Um silêncio de torturas E gritos de maldição Um silêncio de fraturas A se arrastarem no chão. que ainda não tomou tal lucidez. não atingiu de maneira significativa o Direito. Portanto. E o operário disse: Não! – Loucura! – gritou o patrão Não vês o que te dou eu? – Mentira! – disse o operário Não podes dar-me o que é meu. manufaturas.

93-94): O homem sempre precisa viver do seu trabalho. ao analisar o instituto. não o tomando à primeira vista. em geral.. o ato de despir. Nesse sentido manifesta-se Adam Smith (1983. da mesma forma se pronunciou: “o preço natural do trabalho é aquele necessário para permitir que os trabalhadores. pela sua afirmação como sujeito. no mínimo. na maioria das vezes.] para a libertação do homem. 1988. metodologicamente. assegurado pela Constituição. a partir da totalidade concreta. pela consciência da sua alienação e. da Carta Política vernácula. inciso IV. a qual passa. A figura do salário mínimo observado por este enfoque. materiais e políticas. Além disso. livre de todas as opressões morais. as necessidades básicas do ser humano. portanto. 2. que captam apenas o aspecto fenomênico da realidade. presente na base da sociedade. (GENRO. p. nessa ordem. Destruir a pseudoconcreticidade erguida no Direito significa compreender os diversos vínculos que circundam o objeto. moradia. como verdadeiro ditador contra as forças externas alienantes.. e. tanto o viés positivista quanto o que desconhece o potencial do Direito não contribuem [. suprir em maior ou menor grau. 81). em primeiro lugar. representa. conforme preconizado pelo Art. o segundo. Caso se estabeleça os vínculos estruturais. É maneira pela qual é concebido pelos juristas. A figura do salário mínimo. p. 15). negando coletivamente as necessidades materiais e aprofundando a sua individualidade. 7º. p. a sua essência pode ser encontrada na necessidade vital.. cumulada com a esta consciência. subsistam e perpetuem a sua descendência. de garantir a produção e reprodução da força de trabalho. Dois exemplos práticos podem ser úteis para a elucidação do que vem sendo exposto: o primeiro deles é o salário mínimo. e seu salário deve ser suficiente. David Ricardo (1982. sob o aspecto puramente jurídico-ideológico. é a sua representação. Esses salários devem até constituir-se em algo mais. lazer etc. sem . de outra forma seria impossível para ele sustentar uma família e os trabalhadores não poderiam ir além da primeira geração. para a sua manutenção. como a alimentação. estritamente legalista. economista inglês. Visa. segundo o autor. pode ser entendida como um direito social. que está acobertado pelo manto protetor da Dignidade da Pessoa Humana. v.82 papel de transformação da realidade que esta pode oferecer. toda a sua carga ideológica. o casamento.

535.].535 e 1. o sistema capitalista estaria com os seus dias contados. o salário mínimo jamais será inferior ao necessário para a subsistência da força de trabalho. o homem. Presentes os contraentes. é a majoração do preço da força de trabalho. acerca da liberdade de firmar o casamento. em pessoa ou por procurador especial. mas. Em termos legais. de vos receberdes por marido e mulher. II . aos olhos da lei. 1. na verdade. O limite último ou limite mínimo do valor da força de trabalho é constituído pelo valor de uma massa de mercadorias. juntamente com as testemunhas e o oficial do registro. declarará efetuado o casamento. eu. pois.." Art. o casamento também é regulamentado pela Constituição brasileira. assimila a lição de Smith. O salário mínimo. assim dispõem os arts. aprimorando-as: A soma dos meios de subsistência necessários à produção da força de trabalho. Karl Marx (1983. A celebração do casamento será imediatamente suspensa se algum dos contraentes: I . Da mesma forma. vos declaro casados. não pode renovar o seu processo de vida. 142-143). Por outro enfoque. Ao se reivindicar o aumento dele. dos filhos dos trabalhadores. consubstancia-se em instituição de direito privado. os meios de subsistência dos substitutos.83 aumento ou diminuição”. No Código Civil. é uma necessidade para a preservação do sistema capitalista. isto é. .manifestar-se arrependido. sem cujo suprimento diário o portador da força de trabalho. o que se busca.declarar que esta não é livre e espontânea. 1. a instituição do casamento. ouvida aos nubentes a afirmação de que pretendem casar por livre e espontânea vontade. 1. compreendido apenas sob a feição ideológica.538. o presidente do ato. Pela lógica inversa. [. p. portanto. em verdade. principalmente a de Ricardo. para que o trabalhador assalariado possa suprir um número maior de necessidades além da alimentar. em nome da lei. inclui.recusar a solene afirmação da sua vontade. é projetado como Direito.. a exemplo do salário mínimo. ao que se parece. I. aparece como a comunhão livre de vontades. v. nestes termos: "De acordo com a vontade que ambos acabais de afirmar perante mim. III . caso um dia isso ocorra. estando portanto o valor dos meios de subsistência fisicamente indispensáveis.538: Art. em que há o intuito de constituir família. de modo que essa race de peculiares possuidores de mercadorias se perpetue no mercado de mercadorias. no parágrafo 1º do art. 226. que endossa a ideia de que há total liberdade na manifestação entre os contraentes.

enquanto uma ou outra renunciar expressamente. ambas as partes devem ter mais uma vez os mesmos direitos. Tampouco. pois o critério econômico age de maneira preponderante no mais das vezes. 3. não seja a justiça . O que Engels pretende demonstrar é que o casamento. nem com a forma como se chega a essa livre vontade. teceu lúcidas considerações sobre o instituto. que ambas as partes também durante o casamento devem estar uma perante a outra com os mesmo direitos e deveres. 276-277). t. que se passa a reproduzi-las: Os nossos juristas acham certamente que o progresso da legislação vai tirando em medida crescente às mulheres qualquer razão de queixa. E a lei também nada pode fazer contra o facto de a situação económica do operário o obrigar a renunciar mesmo às últimas aparências de igualdade de direitos. da Propriedade Privada e do Estado”. para os materialistas. E dentro da duração do contrato de trabalho.. significa que. a pressão que exerce sobre a outra parte – a real posição económica de ambas – isso não interessa à lei. p. p. que o casamento. atente a critérios meramente formais de manifestação de vontade. a completa liberdade de no contrair casamento somente poderá verificar-se com carácter geral quando a eliminação da produção capitalista e das relações de propriedade por ela criadas tiver afastado todas as considerações económicas secundárias que hoje ainda exercem uma influência tão poderosa na escolha do cônjuge. em segundo lugar. segundo Engels (1985. A lei e o jurista não se preocupam com o que se passa por trás dos bastidores jurídicos. onde decorre a vida real. que não permite com que as pessoas escolham as outras analisando meramente as diversas aptidões.. [. Em relação ao casamento.] Esta argumentação tipicamente jurídica é precisamente a mesma com que o burguês republicano radical ataca e cala o proletário. t. O poder que a diferente posição de classe dá a uma parte. A solução para o problema. Afora os exemplos práticos. a lei. 285): Assim. o condicionamento afluente da base. Os modernos sistemas civilizados de leis reconhecem cada vez mais.84 Friedrich Engels (1985. ainda. Há. no sistema capitalista. considera-se inteiramente satisfeita desde que os interessados declarem formalmente no protocolo que é de sua livre vontade. Mas vale como assumido de livre vontade logo que a lei equipara no papel as duas partes. na obra “A Origem da Família. O contrato de trabalho deveria ser algo assumido de livre vontade por ambas as partes. mesmo a mais avançada. para ser válido. tem de ser um contrato assumido de livre vontade por ambas as partes e. É que então já não ficará qualquer outro motivo além da inclinação recíproca. outra questão que cabe atentar é que a categoria da totalidade concreta não significar negar a existência da justiça ou meramente reduzi-la ao plano ideológico. 3. em primeiro lugar.

[. numa só estrutura. a homenagem de usar seu nome. mas.]” (LUMIA. os códigos da sua dominação.. portanto. é justamente nesse corpo teórico que ela ganha conteúdo. Porém. Que Justiça é esta. “não contêm em si nenhum valor de verdade. p. Justiça é Justiça Social. p.. Além disso. houve uma segunda confusão. a religião etc. 114-115.. proclamada por um bando de filósofos idealistas. Onde está a Justiça no mundo? –. Pelo contrário. mesmo com a sua inerente autonomia relativa. esta coisa degradada. seja mais um dos instrumentos de libertação social. pois a justiça não pode ser entendida como uma ideologia em essência. conforme aponta Roberto Lyra filho (1982. onde fica a Justiça verdadeira? Evidentemente. há avanços e recuos. que não importam. o aspecto jurídico representa a articulação dos princípios básicos da Justiça Social atualizada. 120-121): O processo social. nem é nos princípios ideais. que a classe e grupos dominantes invocam para tentar justificar as normas. no sentido de que é nele que se realiza progressivamente. Primeiramente. não é cá. não são mais nadas do que superestruturas [. pergunta-se. nem lá. quebras do caminho. antes de tudo: é atualização dos princípios condutores. as leis. todavia não a compreende. . entretanto. elas não seriam ideologias. para levar à criação duma sociedade em que cessem a exploração e opressão do homem pelo homem. Podendo. em maior ou menor grau).. Isto é a negação da Justiça. O Direito concreto tem a potência de fazer as ligações necessárias para que as formas jurídicas possuam algum significado além do ideológico. em tópico intitulado “A justiça como ideologia”. mas sim mentiras. p. o Direito não chega a negar a justiça. segundo padrões de reorganização da liberdade que se desenvolvem nas lutas sociais do homem. vaga. lei e Direito é que se divorciam com freqüência. sem progredir). Dotado do véu ideológico. deixando que estes devorem o povo? A Justiça não é. fazendo uma má leitura do conceito marxiano de ideologia. 2006. evidentemente. apesar de tudo. nessa ordem. pois o rio acaba voltando ao leito. uma negação que lhe rende. não é nas leis (embora às vezes nela se misture. bem como sabe a elas observar. sendo sabedora das necessidades vitais dos homens. estávamos até hoje parados. que depois a entregam a um grupo de “juristas”. conceder contorno e conteúdo para que o Direito.] Direito e Justiça caminham enlaçados. Nas palavras de Márcio Bilharinho Naves (Apud WYNE. e que. Dentro do processo histórico. embora a existência de visões ideológicas dela. e que tem a capacidade de conhecer a sua íntima essência. 141). [.. caso as ideologias não portassem nenhum elemento de verdade.].. 2003. Quando falamos em Justiça. 67: “o conhecimento dos mecanismos de 45 Giuseppe Lumia (2003). a História. metafísica. de forma imprecisa): a Justiça real está no processo histórico. seguindo em frente e rompendo as represas. A justiça verdadeira é aquela que concebe os indivíduos em suas condições reais de existência. é claro. a moral. de que é resultante. administrador ditatorial ou juiz formalista jamais pensou em dizer que o “direito” deles não está cuidando de ser justo. abstrata. é um processo de libertação constante (se não fosse. abstratos (embora às vezes também algo dela ali se transmita. emergindo nas lutas sociais. pois nenhum legislador prepotente. não estamos referindo àquela imagem ideológica da Justiça ideal. são ideologias. os costumes. apontou que o Direito.85 objeto do Direito45.

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funcionamento da ideologia jurídica é condição essencial para que as massas trabalhadoras possam formular uma estratégia que permita a ultrapassagem efetiva do domínio do capital”. Com esteio na totalidade concreta, a luta do jurista é dada dentro e fora do Direito. Fora dele, em consonância com a matriz intelectual seguida, e, dentro dele, para que os sentidos normativos não ilustrem apenas uma ideia grandiosa, mas que permita a concretização desse ideal. Portanto, merecem eco as palavras de Roberto Lyra Filho (1982, p. 35):

Somente uma nova teoria realmente dialética do Direito evita a queda numa das pontas da antítese (teses radicalmente opostas) entre direito positivo e direito natural. Isto, é claro, como em toda superação dialética, importa em conservar os aspectos válidos de ambas as posições, rejeitando os demais e reenquadrando os primeiros numa visão superior. Assim, veremos que a positividade do Direito não conduz fatalmente ao positivismo e que o direito justo integra a dialética jurídica, sem voar para nuvens metafísicas, isto é, sem desligar-se das lutas sociais, no seu desenvolvimento histórico, entre espoliados e oprimidos, de um lado, e espoliadores e opressores, de outro.

Na mesma linha de envergadura situam-se as palavras de Tarso Genro (1988, p. 24-25), ao encarar o Direito sob o prisma da categoria da totalidade concreta:

Só a categoria da totalidade, dialeticamente compreendida, pode tirar o jurista da enrascada jusnaturalista e positivista, porque só ela pode ensinar a compreender a “natureza” do homem, como produto de muitas e complexas determinações, e a própria norma jurídica como instância de uma dominação já revelada, objetivamente, no processo de expropriação da força de trabalho do produtor. A dominação do todo sobre as partes, a compreensão do simples como integrante de uma complexidade, o entendimento de um composto isolado como um simples relativamente a um composto maior e mais complexo, a percepção do singular e do universal como integrantes de uma particularidade e mesmo a visualização do particular, como momento de revelação da universalidade e da singularidade, abrem caminho para uma compreensão verdadeiramente científica do mundo, porque estas são as relações e interações estabelecidas pelo próprio mundo objetivo, independentemente da nossa vontade.

Assim, o Direito concreto é, dirão, puro idealismo. Quase um devaneio de um materialismo cada vez mais fraco, que não tem mais capacidade de angariar vozes e influenciar a academia com bom tom. Ainda que passível de tais críticas, é, ao menos até então, o ramo teórico e metodológico que se propõe a compreender a realidade em suas profundeza e complexidade, bem como de efetuar reais transformações tanto no Direito como na justiça, de modo a torná-los concretos.

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CONCLUSÃO

No processo contínuo de descoberta a que todos os seres humanos estão sujeitos, uma mesma realidade pode se apresentar – e ser absorvida – por ângulos variados. Na apreensão do todo, incluem-se tanto os objetos de difícil compreensão, que necessitam um detóur, pois não são captados ou compreendidos à primeira vista, como as representações, que são criadas em um contato inicial. Estas, podendo, inclusive, ser transmitidas por herança histórico-cultural. Ocorre que, na apreensão desta realidade o indivíduo não se posiciona de plano instigando, e buscando a essência dela como se fosse o seu objeto perene. O trato do homem com a natureza, e com os demais elementos objetivos, busca apenas a persecução de objetivos próprios, o que as representações. Trata-se, em um primeiro momento, portanto, de um aprendizado “prático-sensível”. A imagem imediata criada pelo sujeito cognoscente, através da sua atividade prático-sensível, nem sempre corresponde à realidade. Assim sendo, o mundo tal qual aparece ao homem é pseudoconcreto, tendo como elemento típico as representações cotidianas, presentes no pensamento comum, que são formas essencialmente ideológicas de reprodução da realidade. O pensamento dialético-materialista parte da representação, do facilmente constatável, para chegar ao núcleo oculto. Nada mais é do que uma atividade fenomenológica, em que se parte do fenômeno para a essência. A apreensão do fenômeno e da essência constitui o conceito, e é o caminho para a desconstrução do pensamento pseudoconcreto. A realidade, para o materialismo histórico, não é somente a essência ou o fenômeno, mas sim a totalidade, a junção de ambos. Para chegar até a essência é necessário captar a sua lei de desenvolvimento. Embora não seja tarefa simples, existem conceitos que auxiliam na missão. A existência de um mundo pseudoconcreto demonstra a possibilidade de surgimento da ideologia, que é um elemento tipicamente superestrutural, uma vez que reflete de maneira invertida a base material. A ideologia é uma ilusão, tendo em vista que é constituída por ideias que os indivíduos que a possuem ignoram ou desconhecem a força que as impulsionaram. Na história, a ideologia dominante será sempre a

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ideologia da classe dominante, que pode precisar ou não delas para justificar determinada supremacia de classe. A ideologia é produzida e reproduzida através de diversos aparelhos ideológicos do Estado. O Direito é um deles, sendo que a norma jurídica, que é a sua forma aparente, não raro está dotada de ideologias, o que possibilita a existência de uma ideologia jurídica. Somente é possível se falar em ideologia jurídica em razão dos vínculos que são estabelecidos entre os elementos superestruturais. O Direito é um aparelho ideológico que tem como objetivo regulamentar as relações sociais que são travadas, representando o produto do conflito e consenso de diversos grupos e classes. A forma que o Direito irá assumir poderá variar na história, entretanto, a partir do desenvolvimento do capitalismo, este ramo do conhecimento experimentou os fenômenos das codificações, inclusive com o surgimento da teoria do poder constituinte, assumindo as Constituições grau hierárquico de organização jurídica aos Estados. Uma das formas de operacionalização da ideologia do Direito é através da função harmonizadora. O Direito, tendo a capacidade de reproduzir de maneira fiel a base social, por vezes assim procede, sendo que para manter a harmonia do ordenamento jurídico, suaviza os institutos que meramente descrevem institutos ligados aos interesses da classe dominante. A harmonização pode se dar em dois âmbitos distintos. O primeiro deles, o interno, é quando duas ou mais normas portam conteúdo ontologicamente conflitivo, todavia, estão presentes em concomitância como forma de uma equilibrar a existência da outra. Ainda, há a harmonização externa, quando duas ou mais normas estão colidindo, sendo que uma de maior abrangência harmoniza a contradição, dentre do ordenamento jurídico, sendo que o foco principal é estabelecer coesão em relação a uma demanda socialmente reprimida. A ideologia atua harmonizando o Direito tanto no seu ramo público como no privado, embora se tenha repisado as críticas palavras de Miaille (1994) acerca da dicotomia. Os exemplos referidos foram pinçados na ordem econômica da Constituição brasileira, bem como no Código Civil vernáculo. Havendo, ainda, um caso prático, veiculando decisum prolatado pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça, como forma de demonstrar a harmonização externa.

. contudo. e que contribuirá para demonstrar que o marxismo é um campo teórico que. Por derradeiro. neste momento. Espera-se. pede-se a vênia para reporta-se. chega ao seu ponto final.89 Perpassando uma das funções da ideologia no ordenamento jurídico. Já se encaminhando para as linhas finais do estudo. sendo eles que tem a capacidade de criar e modificar o seu ambiente material e espiritual. que o impede de ser um instrumento de libertação social. que se tenha efetuado uma mínima contribuição à perpetuação do materialismo histórico como esperança de uma sociedade justa e igualitária. tendo o Direito como instrumento de luta para alcançar estes objetivos. sem saber ao certo o seu alcance e a sua profundidade. proferidas na apresentação brasileira de sua obra “Crítica da Ideologia Jurídica”: Trata-se de uma abordagem inspirada no pensamento de Marx. que. o que pode resultar em um Direito despido dos idealismos e das ideologias. entende-se que o trabalho colaborou ao menos à formação de uma consciência interdisciplinar. Ele nasceu e morrerá (se um dia isto ocorrer) por vontade dos indivíduos que vivem em sociedade. às palavras de Óscar Correas (1995. uma vez que o Direito não é autopoiético. De seu êxito ou de seu fracasso. sintetizando a voluntas do estudo. serei responsável: permitir-me-ei.8). melhor do que qualquer outro. p. asseverou-se a necessidade de estabelecimento dos vínculos necessários para o conhecimento do objeto de análise. pode explicar – e criticar – o direito moderno. Acredito que ele apresente algumas páginas originais e espero. literalmente. uma última interdisciplinaridade é estabelecida visando correlacionar a categoria da totalidade concreta e o Direito. a serviço de um sistema social que condena a metade do mundo à miséria. o entusiasmo de acreditar que seja bem recebido. fervorosamente. Com isso. nem enlamear sua vida. É a certeza do caminho correto – e da verdade – que guiou este estudo. no entanto. que tenha alguma influência em juristas que não desejam colocar os seus conhecimentos.

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