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Globalizacao e Crise: o sistema capitalcrático ultrapassa o limite da exploração do trabalho.

Globalizacao e Crise: o sistema capitalcrático ultrapassa o limite da exploração do trabalho.

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Valcionir Correa - doutorado
Globalização e crise [tese] :o sistema capitalcrático ultrapassa o limite da exploração do trabalho / 2010 - Teses - Acervo 277930
CORRÊA, Valcionir. Globalização e crise : o sistema capitalcrático ultrapassa o limite da exploração do trabalho. 454 f. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política, Florianópolis, 2010
Número de Chamada: CETD UFSC PSOP 0371
Valcionir Correa - doutorado
Globalização e crise [tese] :o sistema capitalcrático ultrapassa o limite da exploração do trabalho / 2010 - Teses - Acervo 277930
CORRÊA, Valcionir. Globalização e crise : o sistema capitalcrático ultrapassa o limite da exploração do trabalho. 454 f. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política, Florianópolis, 2010
Número de Chamada: CETD UFSC PSOP 0371

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O Estado, em termos dos ajustes neoliberais, mostra-se não como intermediador entre
capital e trabalho, mais sim como um profícuo administrador e defensor do capital para o
desalento dos trabalhadores. Isso pode ser comprovado ao observarmos os dados levantados e
aqui apresentados; são alguns exemplos que ilustram, e ao mesmo tempo comprovam, o
importante papel do Estado, sob o domínio do poder do capital, que aqui se vem conceituando
de sistema capitalcrático. A reciprocidade entre capital e Estado se dá de forma indissociável.
O capital investe em seus representantes para gerir o Estado em favor dele e, uma vez aqueles
estando nos poderes executivo, legislativo e judiciário das esferas municipal, estadual e
nacional, os seus representantes perpetuam, por meio da legalização imoral, a acumulação
privada em detrimento do público que compõe a verdadeira classe produtora, composta pelos
trabalhadores. Os seguintes dados demonstram alguns exemplos de investimentos privados
considerados legais pela Justiça Eleitoral nas candidaturas para o parlamento e o poder
executivo.

Como escreve Marx e Engels (1974, p. 95):

Sendo portanto o Estado a forma através da qual os indivíduos de uma classe
dominante fazem valer os seus interesses comuns e na qual se resume toda a
sociedade civil de uma época, conclui-se que todas as instituições públicas têm o
Estado como mediador e adquirem através de uma forma política. Daí a ilusão de
que a lei repousa sobre a vontade e, melhor ainda, sobre uma vontade livre,
desligada da sua base concreta. O mesmo acontece com o direito que é por sua vez
reduzido à lei. [sic]

Tendo em vista muitos projetos em tramitação no Congresso que tratavam do
funcionamento dos planos de saúde privados, esse setor injetou 757% a mais em relação às
eleições de 2002 e com esse investimento ajudou a dobrar a sua bancada corporativa de 17
para 31 para defesa de seus interesses nas eleições de 2006. (PINHO; NAVARRO, 2007) As
62 empresas de planos de saúde doaram juntas, legalmente, R$ 7,2 milhões para campanha de
deputados e senadores eleitos e não-eleitos. Como exemplo, financiaram parte das campanhas
de 29 deputados federais e dos senadores Álvaro Dias (PSDB-PR) e Francisco Dornelles (PP-

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RJ). Segundo esses dados, os demais ramos da economia seguem a mesma lógica, de forma
geral o volume doado abertamente subiu significativamente em relação às eleições de 2006,
“contrariando a expectativa de que a eleição após o escândalo do mensalão seria mais
modesta.” (PINHO; NAVARRO, 2007) Pelo contrário, “A campanha do presidente Lula, por
exemplo, recolheu 133% a mais em 2006.” (PINHO; NAVARRO, 2007) Após a posse desses
parlamentares, a metodologia segue o seu rito normal. “Dos 29 federais eleitos que receberam
doações do ramo, 9 integram comissões que tratam de assuntos relevantes para os planos -
seis estão na Comissão de Seguridade Social e três na Comissão de Defesa do Consumidor.
Quatro participaram, em 2003, da CPI dos Planos de Saúde, criada para investigar as
empresas.” (PINHO; NAVARRO, 2007) O funcionamento do princípio da reciprocidade
entre o capital e o Estado resulta nessa indissociabilidade que conflui/converge/resulta em leis
em favor do capital. Como exemplos típicos disso, o

Campeão de doações do ramo na Câmara, com R$ 363,2 mil, Dr. Nechar (PV-SP)
votou contra o projeto que tornava obrigatório o pagamento de despesas de
acompanhantes para crianças e idosos na Comissão de Seguridade Social.
Médico eleito deputado, Dr. Ubiali (PSB-SP) trabalha contra a cobrança de
impostos como PIS e Cofins de cooperativas médicas. A Federação das Unimeds
doou R$ 178 mil a ele.
A disputa das empresas pelos planos de saúde do funcionalismo público chegou ao
legislativo. O deputado Barbosa Neto (PDT-PR) fez parecer em comissão pela
suspensão dos convênios dos ministérios e autarquias federais com o fundo de
autogestão GEAP, defendendo a contratação dos planos por licitação. O senador
Álvaro Dias defende o mesmo. A Unimed do Paraná fez doações para os dois
congressistas. Foram R$ 50 mil para o deputado, e R$ 400 mil para o senador.
(PINHO; NAVARRO, 2007)

Outros ramos da economia investem em seus representantes no poder político do
Estado. A empresa de telecomunicações Oi foi a maior financiadora do Partido dos
Trabalhadores, do qual é presidente de honra o atual presidente da República. Segundo estes
jornalistas, “um dos principais acionistas privados da Oi e maior interessado na compra da
Brasil Telecom, o grupo Andrade Gutierrez, foi também o maior financiador do PT em 2006”.
(SOUZA; ZANINI, 2008) A construtora mineira doou R$ 6,4 milhões para o PT investir em
suas candidaturas. Além desse montante, doou mais 1,52 milhões para financiar diretamente a
reeleição de Lula. E, em segundo lugar, o Banco Santander entrou com a contribuição de R$
3,23 milhões. (SOUZA; ZANINI, 2008)

Para que a Oi possa comprar a BrT é preciso um decreto presidencial mudando a
legislação. O governo apoia a venda da BrT. Na semana passada, os controladores
da Oi acertaram o preço de compra da outra tele por R$ 4,8 bilhões. Os grandes
mentores do projeto e principais negociadores foram os empresários Sérgio
Andrade, [da construtora] Andrade Gutierrez, e Carlos Jereissati, do grupo La Fonte.
(SOUZA; ZANINI, 2008)

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Os personificadores do capital não gostam de correr risco algum, e por isso investem
em todas as frentes possíveis para garantir êxito na lucratividade. Apesar de o PT receber a
maior fatia de investidores nas eleições, o PSDB também recebeu contribuições significativas.
“O PSDB recebeu R$ 3,1 milhões, menos da metade da contribuição dada aos petistas. A
construtora, contudo, doou R$ 1,5 milhão para o candidato tucano à Presidência, Geraldo
Alckmin, praticamente a mesma quantia destinada a Lula.” (SOUZA; ZANINI, 2008) No
cômputo geral, a “soma do que foi dado ao PT e a Lula, a Andrade Gutierrez contribuiu com
R$ 7,92 milhões. A vice-líder, a Vale, doou, por meio de suas subsidiárias, R$ 6,65 milhões.
Em terceiro lugar, ficou a construtora Camargo Corrêa, com R$ 5,5 milhões.” (SOUZA;
ZANINI, 2008) Para não pesar muito a consciência, o atual dirigente do Partido dos
Trabalhadores disse “com razão” que “as doações são corretas e registradas na Justiça
Eleitoral. E admite que a maior parte das contribuições recebidas em 2006 foi empregada na
campanha de reeleição de Lula.” (SOUZA; ZANINI, 2008) Do mesmo lado, o banqueiro
Daniel Dantas, da Empresa Opportunity, e ex-controlador da BrT, atualmente sendo acusado
pela Polícia Federal por corrupção, em processo nos EUA, movido pelo Citibank, através dos
advogados da Opportunity, “denuncia a Oi por ter corrompido integrantes do PT no governo
para que a lei fosse alterada para permitir a compra da BrT. Por isso, a Oi teria investido
(mais de R$ 10 milhões) na Gamecorp, do filho do presidente Lula, Fábio Luiz Lula da Silva,
o Lulinha.” (SOUZA; ZANINI, 2008) Segundo Cabral e Zanini, “O governo insinua haver
relação promíscua da oposição com os banqueiros, mas é o PT o partido que
proporcionalmente mais tem recebido doações do setor financeiro.” (CABRAL; ZANINI,
2008) Os jornalistas informam que

Segundo dados da prestação de contas dos partidos ao TSE, o PT recebeu, em 2006
(último dado disponível), 19,26% de suas doações de bancos. Foram R$ 8,33
milhões de um total de R$ 43,23 milhões que entraram nos cofres do partido. O
setor bancário foi o segundo maior doador para a sigla em 2006, perdendo apenas
para as empreiteiras, que doaram R$ 12,47 milhões. (CABRAL; ZANINI, 2008)

O BMG, banco sobre o qual anteriormente mostrou-se a lucratividade, beneficia-se
com seus investimentos seguros. Suposto banco credor de empréstimos no valor de R$ 29,2
milhões para o caixa dois do PT, “teria lucrado R$ 209,8 milhões - seis vezes mais - em um
conjunto de seis operações realizadas com a Caixa Econômica Federal de venda de carteiras
de empréstimos feitos a aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro
Social)”, afirma Salomon (2005). Entre o período de dezembro de 2004 e setembro de 2005,

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[...] o BMG recebeu da Caixa R$ 1,094 bilhão pelas seis operações. Os aposentados
e pensionistas deviam ao BMG, nessas carteiras de empréstimos, R$ 935,2 milhões.
A diferença, de R$ 158,8 milhões, foi paga ao BMG como remuneração por
captação de clientes. Além disso, o banco teria recebido mais R$ 51 milhões em
decorrência do cálculo do saldo devedor das carteiras. (SALOMON, 2005).

Os valores realmente são muito altos enquanto que as mazelas sociais aumentam dia após dia.
A Caixa Econômica, sendo um banco público, poderia fazer essas operações com os
aposentados e pensionistas do INSS, mas, devido aos interesses do capital e dos seus
representantes no Estado, a lucratividade da operação foi transferida à absorção privada.
Outro detalhe importante é que, segundo Salomon, “a Caixa já desembolsou R$ 1,09 bilhão,
incluindo o ágio pago ao BMG, mas vai demorar três anos para cobrar os empréstimos dos
aposentados e pensionistas. Ou seja, enquanto o BMG já lucrou R$ 209 milhões, a Caixa vai
levar até 2008 para lucrar R$ 346 milhões”. (SALOMON, 2005) Assim, é dessa forma que o
Estado funciona em favor do capital, como funciona o sistema capitalcrático em favor dos
personificadores do capital, gestores do capital, e contrário aos interesses da classe
trabalhadora.

Se, por um lado, os personificadores do capital e seus representantes políticos no
Estado usufruem dos benefícios do sistema capitalcrático, por outro, as contradições
sistêmicas revelam o seu lado mais perverso, a miséria humana e a degradação ambiental.

3.6 A GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL DO CAPITAL E A EXPLORAÇÃO
UNIVERSAL: OS CONTORNOS FINAIS DO SISTEMA CAPITALCRÁTICO

Durante sua ascensão histórica, o sistema capitalista concedia avanços democráticos
formais a determinados países-metrópoles ou a certo segmento populacional nacional, dando
ares de que o desenvolvimento econômico era seguido de avanços democráticos no que dizia
respeito aos direitos sociais, civis e individuais. Mas com sua globalização, tal sistema mostra
seu lado perverso, com o autoritarismo do poder econômico como poder político, e finalmente
mostra o que sempre foi: um sistema capitalcrático.
Florestan Fernandes, em seu livro A revolução burguesa no Brasil (2002), disse que a
revolução ocorrida nos países centrais seria uma combinação de transformação capitalista e
dominação burguesa. E isso não necessariamente ocorreria nos países de capitalismo
dependente, apenas importaria padrões estruturais e dinâmicas essenciais do capitalismo e que
nos países periféricos ocorreria de acordo com suas especificidades histórico-sociais que
“excluem qualquer possibilidade de ‘repetição da história’ ou de ‘desenvolvimento
automático’ dos pré-requisitos do referido modelo democrático-burguês.” (FERNANDES,

143

2002, p. 1746) Ao contrário, nos países periféricos, com suas especificidades entre eles, o que
ocorre “é uma forte dissociação pragmática entre desenvolvimento capitalista e democracia;
ou, usando-se uma notação sociológica positiva: uma forte associação racional entre
desenvolvimento capitalista e autocracia.” (FERNANDES, 2002, p. 1746-1747)
Mais adiante Fernandes escreve: “O que sugere que a Revolução Burguesa na periferia
é, por excelência, um fenômeno essencialmente político, de criação, consolidação e
preservação de estruturas de poder predominantemente políticas, submetidas ao controle da
burguesia ou por ela controláveis em quaisquer circunstâncias” (2002, p. 1749). Diz ainda que
todas as burguesias nacionais da periferia e as burguesias das nações capitalistas centrais e
hegemônicas possuem interesses econômicos e políticos e querem “manter a ordem, salvar e
fortalecer o capitalismo, impedir que a dominação burguesa e o controle burguês sobre o
Estado nacional se deteriorem
.” (FERNANDES, 2002, p. 1749, grifo do autor).
Nesse momento, em que o capital se conclui como um império mundial, como disse
Mészáros (2002), suas contradições não podem mais ser jogadas para baixo do tapete nem
podem mais ser lançadas para o futuro, como sempre foi sua estratégia durante a ascensão
histórica nesses cinco séculos de expansão. As contradições que carregava consigo,
atualmente, se revelam em crise social e ambiental de abrangência mundial. O capital, sob o
comando do capital financeiro móvel, livre para circular no mundo, pode explorar cada parte
em todas as partes, sem qualquer constrangimento legal, uma vez que está salvaguardado
pelos Estados hegemônicos que garantem essa sua fluidez libertina. É a primeira vez na
história que um sistema imperial submete toda a humanidade sob seu comando, configurando-
se como um Sistema Capitalcrático. Durante sua expansão, quando explorava outros países,
conseguia atender aos povos de origem suas reivindicações e direitos sociais e políticos,
configurando-se para eles como um sistema representativamente democrático, enquanto para
os explorados era um sistema autoritário, que recebia os contornos de ditadura com suas
variantes sangrentas tais como as da América Latina, fascistas e nazistas, usando o
desenvolvimento desigual e combinado tal qual escreve Marx. Mas, neste momento, o sistema
começa a revelar as suas contradições entre progresso econômico, insatisfação política e
degradações humana e ambiental devido ao processo de precarização levado a efeito pela
superexploração imposta pela concorrência mundial entre personificadores do capital.
Portanto, as degradações humana e ambiental são consequentes do produtivismo necessário
da ordem de reprodução sociometabólica do sistema do capital, e resultam na ruína da
natureza e dos seres humanos.

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Como prova de que o Estado é a base política de salvaguarda do sistema do capital,
neste momento da crise estrutural o Estado o preserva, transferindo seus recursos à iniciativa
privada para garantir a realização do lucro. Como prova cabal disso, mostra a verdadeira face
desse modo de produção com incentivo ao consumismo, diminuição do Imposto sobre
Produtos Industrializados (IPI), com a salvação de banqueiros, com aumento do trabalho,
incentivo à produção de mercadorias e à sua circulação. Hoje, tornado global por meio dos
monopólios transnacionais, o Sistema Capitalcrático mostra-se maior do que o Estado-nação,
e este a serviço daquele. Os efeitos disso podem ser observados quando se percebe muitos
Estados sucumbindo aos ditames dos monopólios econômicos empresariais mundiais,
transferindo recursos da sociedade para o capital privado. Nesse sentido, o sistema se mostra
com sua verdadeira face, a de um sistema capitalcrático, com o poder, portanto, não
emanando do povo, mas do capital, com seus legítimos representantes políticos encravados
nas esferas do Estado, nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Nessa fase, chega-se ao
que Lênin denominou de a etapa superior do capitalismo, o tempo dos monopólios. (LÊNIN,
1979) Salienta-se que o poder não pode ser tratado somente como um fenômeno político, mas
primeiramente econômico, por ele ter sua materialidade na gestão e na apropriação da
produção econômica social.

3.6.1 O Livre Mercado Mundial: o ideal burguês da configuração universal do
capitalismo enquanto um sistema capitalcrático

O ideário liberal tem como premissa a liberdade de mercado sem a interferência do
Estado. Isso é o que se anuncia, mas não é o que acontece na prática. As teorias políticas e
econômicas percebem a importância do papel do Estado na economia, sem o qual não teria
êxito. Na verdade, a proposta da economia liberal é político-econômica e o sistema
econômico só pode funcionar enquanto um sistema político também. É facilmente observável
na história do sistema capitalista a importância do Estado na regulação e financiamento das
ações econômicas, bem como seu papel crucial nos momentos de crises econômicas cíclicas,
quando serve para legislar enquanto um sistema político e injetor de recursos financeiros à
reprodução ampliada do capital. Para se compreender esse fenômeno, lembre-se do Estado
Keynesiano, Estado Wilsoniano, Estado-Previdência ou Estado de Bem-Estar Social (Welfare
State). Em cada momento econômico, há uma reciprocidade na forma do agir do Estado que
lança e se utiliza de inúmeros mecanismos de controle para garantir a ordem social, seja pela
sua eficiência de intervenção na ordem pública e política, na economia ou se utiliza de

145

mecanismos de seletividade (OFFE, 1984) e de assistência conduzida pelas políticas sociais
tendo como base o Estado assistencial, evitando assim a convulsão social e dando garantia ao
contínuo processo de produção e reprodução ampliada do capital.
De certa forma há um consenso sobre esse Estado assistencial, já que, numa primeira
análise, o Estado de Bem-Estar, no campo da assistência, deve garantir “tipos mínimos de
renda, alimentação, saúde, habitação, educação, assegurados a todo o cidadão, não como
caridade, mas como direito político” (WILENSKY apud BOBBIO et al., 1993, p. 416). Na
ordem política, o Estado Assistencial usa do seu próprio aparato jurídico, político,
administrativo e coercitivo, por meio de seu papel legal de poder estar armado, bem como da
sua força para conter ou manter a reprodução social e do sistema. É relevante para uma
análise social observarmos o importante papel do Estado a serviço do modo de produção
econômica em vários aspectos no transcorrer da consolidação do sistema capitalista e de sua
manutenção enquanto uma economia política a serviço da burguesia.
Com o mercado tornado global, o sistema capitalista revela uma proeza incógnita.
Durante sua ascensão história, para justificar e ampliar seu domínio, o capital sempre arrogou-
se a si como legítimo tutelador da democracia, e essa era vista como ideal de organização
política e social. Durante sua expansão, apesar das longas lutas imperiais, conseguiu
dissimular suas intenções e oferecia ideologicamente aos demais países o modelo europeu-
ocidental de sociedade democrática, com prosperidade promovida pelo livre mercado (Adam
Smith), pelo ideário político liberal (Hobbes, Locke, Montesquieu), que convergiriam para a
paz perpétua (Kant) em um pacto social feito entre as nações tendo como resultado final da
História a configuração do Estado Humano Universal Religioso (Hegel). Portanto, defendia
como unidade indissolúvel o livre mercado e o Estado democrático de direito como formas
ideais de produção econômica e organização política, respectivamente, que deveriam ser
incorporadas por todas as nações. Os defensores da ordem acreditavam que as soluções
podiam ser buscadas na diplomacia das relações internacionais com a construção de um
Estado pacífico universal por meio de um contrato social entre as nações. Os defensores desse
modelo não percebiam as consequências negativas do modo de produção capitalista na sua
ascensão histórica e no alargamento do seu domínio; duas grandes guerras mundiais foram
travadas, bombas de dizimação total sobre Hiroshima e Nagazaki foram explodidas e
genocídios de povos autóctones (índios americanos e africanos) foram executados para
submeterem ao seu comando composto indissociavelmente pelo poder econômico e político.
Mas, ideologicamente, conseguiram sempre dissimular essas contradições no transcorrer do
processo de sua autoexpansão, apesar de convulsões sociais que constantemente se insurgiam.

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O imperativo autoritário do modo de produção capitalista foi escamoteado e encoberto
pela pseudodemocracia defendida pelo poder econômico e na ideia de que todos alcançariam
os patamares de desenvolvimento e consumo dos europeus e norte-americanos. Já grande
parcela da população não consegue perceber os perigos e riscos que toda a humanidade vive,
caminhando à beira do abismo por conta de um sistema que ameaça sua própria existência na
destruição do meio ambiente, da oikos13

, da casa da humanidade.
Herbert Marcuse, partindo da análise da racionalização que o capital desenvolveu para
a administração da produção e distribuição econômicas, no estágio que a sociedade industrial
atingiu, destacou importantes efeitos ideológicos desenvolvidos pela forma de produção
capitalista, e enfatizou principalmente a dimensão política que decorre simultaneamente da
economia e a unidimensionadade construída nos indivíduos por meio da padronização de
modelo de consumo e de ser. Segundo ele, a ideologia construída paralisou a crítica e tornou,
em geral, a sociedade humana sem oposição ao capitalismo. Ainda mais, “Nós nos
submetemos à produção pacífica dos meios de destruição, à perfeição do desperdício, a ser
educados para uma defesa que deforma os defensores e aquilo que estes defendem”
(MARCUSE, 1982, p. 13).

O conceito democracia aparecerá entre aspas, porque se entende que, sob o sistema do
capital, a democracia não é possível de se realizar e o que se diz de democrático não passa de
uma pseudodemocracia. Na etimologia desse conceito tem-se do grego demo (povo) e cracia
(poder). Portanto, seria o poder emanando do povo, mas isso não é o que acontece e a
democracia se torna inviável e irrealizável dentro do sistema do capital, apenas recebe alguns
pontos de realidade nos países hegemônicos. Entende-se que o sistema do capital é um
sistema capitalcrático, ou seja, uma capitalcracia que corresponde ao poder que emana do
capital e que se torna real e social pela mediação do Estado. O poder do capital atua em
diversas frentes, por exemplo, por meio de grandes somas para financiamento de campanha
dos seus representantes no poder Executivo, Legislativo e na subserviência do Judiciário
perante o capital. Este, uma vez dominando politicamente a estrutura do Estado, consegue
manter seu poder estruturalmente por já ter, a priori, o poder econômico que é estrutural de
todas as sociedades nacionais e que, atualmente, se torna global.
No atual contexto do neoliberalismo, quando os capitalistas e seus intelectuais
orgânicos defendem o afastamento do Estado na regulação do mercado, deixando-o livre para
sua autoregulação, no conceito mais conhecido de Estado Mínimo, isso não passa de um

13

Oikos, eco, tradução de sua origem grega; casa. Dela derivam economia (administração da casa) e ecologia

(estudo da casa).

147

mecanismo ideológico de camuflar sua dependência ainda maior em relação ao Estado-nação
para manter seu sucesso e sua perpetuação. Isso é possível perceber, hoje em dia, com a crise
financeira, que já está sendo considerada maior do que a que ocorreu no ano 1929. Segundo
alguns analistas, essa crise mostra os limites históricos do capitalismo em suas crises finais.
Após o aumento da acumulação tornado possível com as privatizações feitas por governos
nacionais, o sistema concentrou riquezas e mostrou o acirramento de suas contradições
estruturais. E, para salvar o sistema financeiro e o capitalismo, o governo dos Estados Unidos
injetou 980 bilhões de dólares nos bancos, bem como muitos Estados da União Europeia estão
estatizando as instituições bancárias, alinhando-se na mesma política econômica. Trata-se do
antigo e conhecido esquema de privatização dos lucros e socialização dos prejuízos, como
historicamente vem sendo feito.

O capital não faz concessão à democracia, a não ser que seja do seu próprio interesse.
O que é possível são alguns espaços de participação do povo em pequenas decisões, em
alguns interstícios ou porosidades do tecido político e social, mas não se configura um
sistema democrático, porque estão por trás da defesa dos princípios democráticos interesses
maiores, superiores aos do povo, como por exemplo a acumulação ou a lucratividade privada
do capital. O fato de haver alguma participação do povo não torna o sistema democrático,
apenas uma democracia ilusória, que deve ser diuturnamente sustentada pelo poder
hegemônico que a associa ao capitalismo, como a que se tornou slogan de Busch para invadir
o Iraque e derrubar o ditador Sadam Hussein. Era tudo em nome da “democracia”. Valeria
usar a expressão de Lênin: “democracia sim, mas para quem?” (LÊNIN, 1979). Portanto, o
sistema não admite a democracia substantivamente, apenas torna-a formal e ilusória
ideologicamente para perpetuar seu poder de mando nos destinos sociais e humanos. Exemplo
claro disso, recentemente na história de nosso país, foi o período da Ditadura Civil-Militar e a
vitória de Collor de Mello para presidente que, em ambos os casos, tiveram sucessos como
legítimos representantes da capitalcracia.
Na atualidade, em âmbito mundial, para ilustrar o que se afirma no período da
globalização econômica, justificando-se em nome da democracia, o poder do capital
estadunidense invadiu o Iraque, assassinou o ditador Sadam Hussein, dizimou seus
correligionários, matou milhares de civis e destruiu e pilhou extensivamente suas construções
físicas e obras históricas e culturais. Porém, a “inteligência mundial” sabia que não era a
democracia que estava sendo defendida, mas, simplesmente, o poder do capital que se utilizou
de subterfúgios argumentativos e ideológicos e mentiras com provas propositadamente
construídas para atacar o país, independentemente da negativa da ONU. A verdade era que os

148

EUA apenas queriam ter a supremacia sobre a reserva petrolífera daquele país, como ficou
bem demonstrado no documentário Fahrenheit 9/11, do diretor estadunidense Michel Moore,
finalizado em 2004, e com a recente declaração de Bush, justificando-se como tendo sido
enganado com informações inverídicas por sua agência de informações secretas. Ou seja, o
Iraque não possuía qualquer arma nuclear. No documentário de Moore fica explícito que por
trás do discurso de libertar os povos dos regimes ditatoriais e potenciais ameaças nucleares
estava a prosaica proteção dos interesses das indústrias petrolíferas norte-americanas que
objetivavam a instalação de um oleoduto na região. Concluindo, o interesse econômico foi
camuflado por meio da pseudodefesa dos ideais democráticos e o capital posa, para perpetuar
sua dominação, como um legítimo portador e defensor da democracia, viabilizado pelos
personificadores do capital e pelos personificadores políticos desse sistema na classe
capitalista estadunidense que se apropriou do Estado.
No sistema capitalcrático, quem tem maior representação política para gerir os
destinos de um país ou de todos os Estados-nação são os personificadores do capital, como
Marx se referia a estes, que pertencem à classe burguesa, ou os capitalistas, que, com o poder
econômico, alcançam o poder político e elegem seus representantes nos três poderes liberais:
executivo, legislativo e judiciário. Portanto, é o econômico que é a infraestrutura onde se dão
as relações de produção que fundamentam uma sociedade, e a partir dele, surgem as
instituições de organização política da sociedade. No caso do Império do Capital, é o Estado-
nação, com uma materialidade no econômico que se configura na unidade econômica e
política, que dialeticamente conserva o status quo por meio da coerção e do consenso,
alinhando-se aos interesses do Capital. Esse poder imperial vem em detrimento da classe
trabalhadora que é, de fato, a verdadeira classe que produz as riquezas e os bens sociais, como
Marx descobriu ao se aprofundar nos estudos da economia política, o que vinha sendo velado
principalmente pela filosofia idealista alemã, tendo em Hegel seu mais legítimo representante:

A minha investigação desembocava no resultado de que tanto as relações jurídicas
como as formas de Estado não podem ser compreendidas por si mesmas nem pela
chamada evolução geral do espírito humano, mas se baseiam, pelo contrário, nas
condições materiais de vida cujo conjunto Hegel resume, seguindo o precedente dos
ingleses e franceses do século XVIII, sob o nome de “sociedade civil”, e que a
anatomia da sociedade civil precisa ser procurada na economia política. [...] O
resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos
meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da vida, os homens
contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade,
relações de produção que correspondem a uma determinada fase de
desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações
de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se
levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas
formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o

149

processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do
homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que
determina a sua consciência. (MARX, 1977, p. 301)

A divisão do trabalho implica contradição entre o indivíduo singular e o interesse

coletivo de todos os indivíduos:

É precisamente esta contradição entre o interesse particular e o interesse colectivo
que faz com que o interesse colectivo adquira, na qualidade de Estado, uma forma
independente, separada dos interesses reais do indivíduo e do conjunto e tome
simultaneamente a aparência de comunidade ilusória, mas sempre sobre a base
concreta dos laços existentes em cada conglomerado familiar e tribal, tais como
laços de sangue, língua, divisão do trabalho em larga escala e outros interesses; além
dos interesses das classes já condicionadas pela divisão do trabalho, que se
diferenciam em qualquer agrupamento deste tipo e entre as quais existe uma que
domina as restantes. Daqui se despreende que todas as lutas no seio do Estado, a luta
entre a democracia, a aristocracia e a monarquia, a luta pelo direito de voto, etc.,
etc., são apenas formas ilusórias que encobrem as lutas efectivas das diferentes
classes entre si [...]; depreende-se igualmente que toda a classe que aspira ao
domínio, mesmo que o seu domínio determine a abolição de todas as formas sociais
antigas e do domínio em geral, como acontece com o proletariado, deve antes de
tudo conquistar o poder político para conseguir apresentar o seu interesse próprio
como sendo o interesse universal, actuação a que é constrangida nos primeiros
tempos. (MARX; ENGELS, 1974, p. 39-40)

O que se afirma, comprova-se empiricamente com facilidade. Logo após a posse de
Collor na presidência, a recém-promulgada Constituição Federal, de 03 de outubro de 1988,
foi paulatinamente modificada para a total abertura da economia nacional ao capital
financeiro internacional. Fala-se em total abertura porque se entende que o neoliberalismo
significa o fim de qualquer regulamentação ou constrangimento imposto pelo Estado-nação
que impeça a livre circulação do capital, principalmente para aqueles países que, desde o
início do capitalismo, foram anexados ou integrados ao sistema pelo colonialismo e o
neocolonialismo. E, também, vale lembrar que a abertura da economia brasileira ao capital
internacional vem sendo feita desde a vinda da Coroa Portuguesa, quando esta abriu os seus
portos às nações amigas, como à Inglaterra; durante a Independência do Brasil; no Estado
Novo de Getúlio Vargas, e, principalmente, na Ditadura Civil-Militar (1964-1985), levada a
cabo exclusivamente para a desregulamentação da economia ao capital industrial estrangeiro.

O programa global da equipe econômica destinava-se a racionalizar a economia pela
concentração do capital nas indústrias mais eficientes e o estímulo à penetração do
capital multinacional mais moderno e produtivo. Ia-se assim ao encontro das
premissas da Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento no tocante aos
efeitos benéficos do investimento multinacional: a melhor maneira de desenvolver o
Brasil era transformá-lo em área prioritária do investimento estrangeiro. (ALVES,
1989, p. 76)

150

Em síntese, a macroeconomia política neoliberal não tolera qualquer obstáculo à sua
realização do lucro no comércio internacional e nem à produção da mais-valia em nações que
possuem força de trabalho barata e com pouca organização sindical, incapazes de resistir às
mudanças e com matéria-prima em abundância. Portanto, essas regras são para ser
incorporadas pelos países de capitalismo dependente, na conceitualização definida por
Florestan Fernandes (1975) e, dessa forma, manter a supremacia dos estados hegemônicos
que continuam ditando as regras do “livre” comércio internacional na Organização do
Mercado Mundial (OMC).

Com a globalização e o neoliberalismo se dá de vez a configuração do sistema do
capital enquanto um Sistema Capitalcrático.
Ou seja, o neoliberalismo, que demonstra a
longevidade do liberalismo, esclarece de vez as verdadeiras relações entre economia e política
nas formas que adquirem o Capital e o Estado-nação na atualidade. Portanto, é o poder total
do capital sem quaisquer amarras que se autovaloriza, por subsumir de vez o trabalho mundial
e, por meio dele, o homem e a natureza, sem se preocupar com as consequências que traz aos
destinos humanos, à fruição da liberdade humana e à indissociabilidade entre o homem e a
natureza, a qual está sendo dilacerada, como se presencia na crise ambiental. Essa é sua
grande contradição, enquanto se autonomiza cada vez mais na autovalorização, ao mesmo
tempo, destrói sua própria fonte onde há seu processo de valorização pela extensão e
aprofundamento da exploração do trabalho em nível mundial, refletindo no aniquilamento dos
trabalhadores e do meio ambiente.
O sistema capitalcrático caracteriza-se pela ascensão que se configura na globalização
e consolidação da unidade entre Capital, por meio das grandes corporações, e o Estado, por
meio das instituições internacionais, como força expressiva que se envolve diretamente para
dar as condições necessárias e infraestruturais ao processo de acumulação do capital enquanto
um império global. Nesse sentido, poder econômico e político se unificam de vez nessa fase
do capitalismo financeiro monopolista e de forma contundente, dando os contornos do que
aqui se define de capitalcracia14

, ou seja, forma de governo em que a soberania é exercida
pelo capital;
governo do capital; sistema econômico e político cujas ações tendem aos
interesses dos personificadores do capital em detrimento dos interesses sociais.
O poder do
capital que tutela as decisões políticas, contrariamente ao que deveria ser, um poder do povo
(democracia) ou poder da sociedade (sociocracia). O poder do capital se institucionaliza por
meio da política formal, camuflado ideologicamente de democracia, porém destituído

14

Capitalcracia ou Kaputcracia, composta de capital + cracia (do grego, poder) e Kaput (cabeça, res do indo-

europeu).

151

substantivamente de qualquer conteúdo democrático, é apenas democracia formal e não
substantiva, ou seja, a monopolização do poder econômico simultaneamente enquanto poder
político.

O Sistema Capitalcrático, que se estabelece no âmbito da estrutura, funciona enquanto
uma estrutura que articula os três poderes liberais artificialmente, formalmente e
pseudodivididos e que atua em diversas áreas para priorizar a acumulação do capital. A crise
atual mostra bem o seu poder. Após toda a defesa dos personificadores do capital e de seus
ideólogos, que exigiam a desregulamentação da economia, portanto, o afastamento da função
reguladora do Estado, a que eles definiram como Estado Mínimo, como se vê nessa crise
financeira, revela o que sempre eles tendem a esconder, o importante papel do Estado para
salvaguardar a acumulação capitalista. O Estado Mínimo defendido significava diminuir o
Estado de bem-estar social, as políticas públicas sociais de toda ordem, e a privatização de
tudo. Ou seja, estado mínimo para as maiorias e Estado máximo para os poucos detentores do
capital. Daí a proposta de o capital administrar questões fundamentais da sociedade, como
saúde, educação, previdência, e, também, tomar para si a extração dos minérios e dos recursos
naturais de tudo, como fez o entreguista Fernando Henrique Cardoso quando presidente.
Prova disso pode-se ver agora, em qualquer jornal televisivo, quando os banqueiros,
acionistas e grandes empresários que estão ameaçados pela perda dos altos lucros querem que
o Estado, portanto, toda a sociedade, evite os seus prejuízos com a diminuição dos lucros,
socializando a quebradeira. Mas, quando estes mesmos se enchem de lucros, nada é dividido.
Os Estados Unidos deram o exemplo da falência do discurso ao injetar US$ 850
bilhões para salvar as instituições privadas, assim como outros governos de países europeus,
ao estatizarem instituições falidas. Por outro lado, segundo Grajew, a ONU estimou que
“aproximadamente US$ 150 bilhões anuais seriam necessários para atingir os Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio (ODM)”, (GRAJEW, 2008) os quais seriam “acabar com a
fome e reduzir drasticamente a pobreza, as mazelas sociais e a degradação ambiental”, até
2015. (GRAJEW, 2008) Conforme o autor, nem a metade desses recursos ainda foi
arrecadada, indicando com isso que as metas não serão atingidas. Portanto, afirma o autor que
“Não há carência de idéias nem ausência de recursos para acabar com as mazelas sociais e
proporcionar uma vida digna a todos os habitantes do planeta e assegurar o desenvolvimento
sustentável às futuras gerações. O problema é a falta de vontade política da maioria dos
governantes.” (GRAJEW, 2008) Apesar disso não se tratar de vontade, mas de interesse de
classes, essa avaliação mostra justamente que quem tem o poder econômico tem o poder
político de estabelecer as prioridades nas quais os governos devem investir. O que se vê é que

152

sempre é priorizada a acumulação privada em detrimento do social. O Estado neste momento
mostrou de forma explícita a sua função enquanto garantidor do establishment, sob o controle
das elites econômicas, que se tornam elites governantes, e das ordens corporativas.
O papel forte do Estado como política formal para salvaguardar o capital existirá
enquanto existir o sistema do capital, porém contrariamente ao que defende Ellen Wood
(2003), de que seja possível se contrapor ao capital e ao governo de classe investindo na luta
pela democracia. Segundo a autora, é necessário combater o sistema capitalista com o
fortalecimento da democracia no seu interior. Porém, sabe-se que não é a democracia que
pode combater o capitalismo, mas o socialismo, como ela mesma defende. A autora escreve:

O objetivo principal dessa crítica foi a transformação da idéia socialista, de uma
aspiração a-histórica, num programa político baseado nas condições históricas do
capitalismo. Meu próprio ponto de orientação ainda é o socialismo, mas as
oposições e resistências são de um tipo diferente e exigem crítica específica. Se
existe hoje um tema unificador entre as várias oposições fragmentadas, é a aspiração
à democracia. Então, a segunda parte explora o conceito de democracia como
desafio ao capitalismo e o faz criticamente, ou seja, acima de tudo do ponto de vista
histórico. (WOOD, 2003, p. 21)

Apesar desse equívoco, possivelmente decorrente do contexto histórico vivido pela
autora, Wood contribui com algumas ideias interessantes sobre o Estado e seu vínculo estreito
com o Capital para garantir o seu processo de acumulação:

O capital foi capaz de estender seu alcance econômico para muito além das
fronteiras de qualquer nação-Estado. O capital precisa do Estado para manter a
ordem e garantir as condições de acumulação, e, independentemente do que tenham
a dizer os comentadores a respeito do declínio da nação-Estado, não há evidência de
que o capital global tenha encontrado um instrumento mais eficaz. Mas, exatamente
porque o alcance econômico do capital se estende para além de todas as fronteiras
políticas, o capital global necessita de muitas nações-Estados para criar as condições
necessárias de acumulação. (WOOD, 2003, p. 8)

Como escreveu Lukács (2007, p. 64), “[...] é necessário lutar contra a democracia
formal e sua ideologia. A ideologia da democracia formal é atualmente empregada, cada vez
mais, para servir como disfarce à reação e ao fascismo”.
O conceito de democracia nunca foi suficientemente esclarecedor sem ser adjetivado,
isso já demonstra dificuldade enquanto um conceito com força explicativa. Ao ser necessário
colocar um adjetivo vê-se que o conceito não dá conta da realidade e não tem força analítica
suficiente. Daí o uso recorrente de qualidades ou extensões para dar poder explicativo:
democracia formal; democracia representativa; democracia popular, democracia populista;
democracia substantiva, democracia radical, democracia liberal, democracia social;
democracia participativa; democracia restrita e democracia ampliada. Tudo isso nos leva a

153

considerar que a democracia é irrealizável dentro do Sistema do Capital, ela só pode ser
realizada na sociedade comunista, como Marx havia analisado, porque para ser uma forma
livre de participação deve nascer da gestão econômica social dos produtores livremente
associados.

Como aqui esclarece Florestan Fernandes (1981, p. 15):

Na verdade, a chamada ‘defesa da democracia’ somente modificou o caráter e a
orientação do fascismo, evidentes na rigidez política do padrão de hegemonia
burguesa, no uso do poder político estatal para evitar ou impedir a transição para o
socialismo, na tecnocratização e militarização das ‘funções normais’ do Estado
capitalista, em uma era na qual ele se converte no ‘braço político armado’ da grande
empresa corporativa e na retaguarda de um sistema mundial de poder burguês.

Fernandes chega a afirmar que o sistema capitalista se caracteriza como um fascismo
no contexto da América Latina. “O fascismo, em si mesmo, é uma força muito moderna e
seus objetivos mais recentes estão relacionados com o ‘desenvolvimento com segurança’, um
desdobramento da interferência das potências capitalistas hegemônicas e das empresas
multinacionais com vistas a garantir a estabilidade política na periferia”. (FERNANDES,
1981, p. 16). Como ele diz, tendências fascistoides e fascistas em diferentes tipos de
composição do poder, mas que “o elemento propriamente fascista apareça como conexão
política [...] seja de uma dominação autocrática de classe, seja do Estado burguês
autocrático”. (FERNANDES, 1981, p. 18). Pode-se dizer que se trata de uma plutocracia, ou
seja, influencia dos ricos na sociedade e no governo.

154

4 REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA, FLEXIBILIZAÇÃO E PRECARIZAÇÃO DO
TRABALHO NO BRASIL NO PERÍODO NEOLIBERAL (1990-2005)

Este capítulo tem por objetivo expor conhecimentos acerca da reestruturação produtiva
e flexibilização do trabalho, bem como correlacionar esse processo com o da precarização do
trabalho a que estão submetidos milhões de trabalhadores brasileiros e que se amplia em
escala mundial promovida pela globalização neoliberal. A precarização resultante é
comprovada por vários indicadores, constituídos com dados de estatísticas oficiais e outras
fontes secundárias. Suas consequências negativas imediatas para a classe trabalhadora advêm
da intensificação da exploração do trabalho nesse período de neoliberalismo no Brasil,
momento em que o sistema capitalcrático se torna um império mundial, revelando sua
contradição fundamental, ou seja, o progresso econômico que resulta no aniquilamento dos
indivíduos e na ameaça de extermínio da humanidade por meio da depredação do meio
ambiente.

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