MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UFMT UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO PRÓ-REITORIA DE ENSINO E GRADUAÇÃO INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA E CIÊNCIA POLÍTICA CIÊNCIAS SOCIAIS BACHARELADO 2010/1 RAFAELLA DE PAULA FIUZA

O impacto do Conceito de Cultura sobre o Conceito de Homem

Resenha crítica do texto estudado em sala de aula , ministrado pelo professor Flávio Luiz Tarnovski.

Cuiabá MT / Junho de 2011.

Referências Bibliográficas: GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas . Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1989. (Cap.2 O impacto do Conceito de Cultura sobre o Conceito de Homem )

Os conceitos de homem e cultura são conceitos muito discutidos, não apenas pelos antropólogos, mas também por homens comuns, sociólogos, biólogos, etc. Clifford Geertz é um dos autores que também discute esse tema. Em seu livro A interpretação das Culturas, separa um capítulo para discutir a relação entre os conceitos de Homem e Cultura. Para conseguir fazer essa relação ele apresenta às posições antagônicas a idéia de homem que ele defende, definindo posteriormente sua concepção de homem e sua relação com a cultura. Ele começa com um pequeno diálogo entre a obra O Pensamento Selvagem, de Lévi-Strauss, onde o autor expõe a idéia de que a explicação científica não é apenas uma a redução do complexo ao simples, mas sim a troca de um complexo por outro mais complexo ainda. Se tratando do estudo do homem, pode-se transformar esse pensamento substituindo o simples por complexos mantendo a clareza da sua simplicidade. Geertz diz, chega-se à possibilidade de substituir o enredado, mas incompreensível, pelo enredado, mas compreensível , a partir das conclusões de LéviStrauss. Ou seja, através da ordenação da simplicidade, é possível fazer esse estudo do homem de maneira a compreendê-lo cada vez mais. Durante o período do Iluminismo, a discussão sobre o conceito de homem girou em torno da simplicidade. Para o iluminista, o homem e a natureza formavam uma coisa só. Essa natureza seria regularmente, organizada, invariante e, novamente, simples. Eles acreditavam na idéia de que todos os homens teriam o mesmo cerne, independente dos sistemas em que os mesmos estivessem inseridos. Suas características culturais seriam irrelevantes na definição de sua natureza, e ao invés de contribuir, teriam o papel de obscurecer o que seria verdadeiro no homem e poderiam ser retiradas a qualquer momento. Já para a Antropologia Moderna, não existem homem não modificado s. Não é possível se despir dessa máscara que seria a cultura quando assim convier. A cultura não é apenas uma questão de indumentária ou aparência, como Geertz expõe, não se pode descartá-la. Seria como imaginar os bastidores do teatro como ele coloca. Como se fosse possível trocar a bagagem cultural que trazemos, adquiridos através dos aspectos culturais, e simplesmente trocar por outros, como se realmente fosse algo descartável. Essas tentativas de entender o homem, para Geertz se baseiam no que ele chama de concepção estratigráfica, onde os fatores que compõe o homem (biológico, psicológico, social e cultural) seriam completos em si mesmo e irredutíveis. Tirando -se

a cultura, se encontrariam as regularidades estruturais e funcionais da organização social. Depois, tirando-se o social teríamos aquilo que ele chama de necessidades básicas. Logo abaixo do social, encontra-se o psicológico. Sem ele seria possível encontrar o Homem, fundamentalmente anatômico, fisiológico e neurológico, o que, dentro dessa concepção, seria o homem genérico. A concepção estratigráfica de estudar o homem baseia-se na busca por universais culturais, uniformidades empíricas as quais relacionadas com os outros níveis considerados mais importantes, e através de coisas parecidas seria possível entender o que é o homem. Para que seja possível que essa concepção estratigráfica seja possível de ser alcançada é preciso cumprir três proposições. Primeiramente, é preciso que os universais propostos sejam substanciais, ou seja, é necessário que todas as sociedades possuam os mesmos conteúdos, quando se trata desses universais, o que já torna inviável a primeira proposição, pois não se pod e dizer que todas as culturas têm, por exemplo, o casamento como máxima universal da reprodução. O universal mais concreto que existe é dizer que o universal da cultura é ser diferente. A segunda proposição diz que esses universais precisam estar em consonância com os quatro níveis da concepção estratigráfica, o que é difícil de ser conseguido, pois não é fácil conciliar cultura, social, psicologia e biologia. Já a terceira condição é que esses universais possam ser tidos como essenciais, mas voltando ao casamento, seria o mesmo que dizer que o casamento seria necessário para alguma cultura onde nem ao menos se sabe da existência do casamento, como a instituição que vemos em nossa sociedade. Mas, por que é necessário encontrar os universais culturais do homem? Será que através desses universais será possível entender realmente o homem? E a maneira como eles são buscados? Talvez pode ser que nas particularidades culturais dos povos nas suas esquisitices - sejam encontradas algumas das revelações mais instrutivas sobre o que é ser genericamente humano . Mas ao fugir das particularidades, os antropólogos podem estar deixando escapar questões que podem ser extremamente relevantes. Através da estrutura do homem, em sua individualidade é possível chegar às universalidades do homem, se é que elas existem. Na busca da integração entre o homem e a cultura, deve-se entender que a cultura é mais do que alguns padrões complexos de comportamento, mas um conjunto de mecanismos de controle para governar o comportamento humano através de uma simbologia cultural que estará lá quando o indivíduo nascer e ainda estará lá quando ele morrer, tendo ele a modificado ou não. Ou seja, a cultura é algo inerente ao homem, está em sua natureza ser um ser cultural, é um instrumento para a convivência em sociedade. Essa concepção se opõe a idéia de um ponto zero, onde a evolução humana teria atingido sua máxima e só então a cultura teria sido inserida. Essa idéia do ponto zero é um tanto quanto complicada de ser imaginada, visto que

imaginar um homem sem cultura é pensar em um monstro, e não um ser genérico, assim como Geertz coloca. O homem de hoje é diferente dos seus antecessores, não só por causa da cultura, mas também da biologia. A cultura e a biologia caminharam juntas pra a existência do Homo sapiens como ele é hoje. Sua capacidade de aprender tudo sobressai sobre sua capacidade de aprender alguma coisa apenas. O homem não é restritivo. Por mais que seja biologicamente semelhante é a cultura na qual ele está inserido que determina quem ele será. Por exemplo, uma criança nascida nos Estados Unidos, mas criada por uma família brasileira, terá mais características culturais do Brasil do que dos Estados Unidos, portanto, o fato dele ser americano, dele possuir características biológicas daqueles que lá vivem, é relevante, mas o fato de outra cultura ser sua base cultural interferirá no que ele acredita, no homem que ele será. Isso também serve para mostrar que a cultura possui o principal papel de orientação na evolução do homem. Um fator relevante a respeito dessa percepção de que a cultura orienta o homem é a linguagem. O ser humano nasce com as condições biológicas que proporcionam a fala, mas a língua que ele aprenderá não é inata, não é inerente ao homem. Sobre isso Geertz afirma Nossa capacidade de falar é inata certamente, nossa capacidade de falar inglês, porém, é sem dúvida cultural . Portanto, não existe uma natureza humana independente da cultura. Seria o mesmo que imaginar que os meninos-lobos são o exemplo de homem genérico, que buscava o iluminismo. Sendo assim, uma posição possível a respeito desse assunto, um ponto de vista conciliador, como pretende Geertz, da relação entre homem e cultura é não descartar os universais culturais e nem as particularidades das diversas culturas. Há uma relação intrínseca entre as duas posições. É possível encontrar esses universais através das particularidades. A cultura nos moldou como somos, e ainda o faz, mas de maneira distinta, conjunta e individualmente. Portanto, além de cada cultura ser única, cada indivíduo dentro d essa cultura também o é, mas de uma forma ou de outra, esse indivíduo é, acima de tudo, um ser cultural. Sem os homens certamente não haveria cultura, mas de forma semelhante e muito significativa, sem cultura também não haveria os homens .

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