Chapter 9 O Sonho da Unifica¸˜o ca

H´ alguns anos atr´s, Stephen Hawking disse que talvez o fim da f´sica a a ı te´rica estivesse pr´ximo. Eu acho que ele estava se referindo aos reo o centes sucessos na tentativa de unificar a f´sica dentro de um unico ı ´ sistema descritivo. Parece uma afirmativa bastante provocativa. O que vocˆ acha disso, tendo gasto uma vida tentando unificar certos aspectos e da f´ ısica? Eu gastei uma vida nisso, e por toda a vida vi pessoas acreditando que a resposta estava logo ali na esquina. Mas nunca funcionou. Eddington pensava que com a mecˆnica quˆntica tudo seria simples, e a a fez suposi¸˜es sobre tudo, porque pensava que tudo era simples, mas co pensou errado. Einstein pensava que tinha uma teoria unificada nas m˜os, mas n˜o sabia nada sobre n´cleos, e obviamente n˜o podia adia a u a vinhar. Hoje existem v´rias coisas que ainda n˜o s˜o compreendidas, a a a e mesmo assim as pessoas acham que est˜o pr´ximas da resposta. Mas a o eu acho que n˜o. (Richard Feynman em Superstrings. A Theory of a Everything?, P.C.W. Davies e J. Brown, Cambridge 1995)

445

446

9.1

As Quatro Damas da Cria¸˜o ca

O que uma bola rolando ladeira abaixo tem a ver com um avi˜o voando, a um girosc´pio em movimento, ou a orbita da Terra em torno do Sol? o ´ Simples: tratam-se de movimentos mecˆnicos e portanto podem ser a todos descritos a partir da mesma equa¸˜o ca F = ma Imagine se para cada um desses fenˆmenos existisse uma lei f´ o ısica diferente! A segunda lei de Newton os unifica sob a mesma categoria. Sendo assim, tudo que temos a fazer ´ escrever corretamente para cada e um deles a express˜o de for¸a do lado esquerdo desta equa¸˜o e resolvˆa c ca e la, para conhecermos tudo sobre o movimento. Agora, o que um raio de luz tem a ver com a emiss˜o de part´ a ıculas beta por n´ cleos radiativos, ou com a atra¸˜o da Lua pela Terra? A u ca luz ´ um fenˆmeno eletromagn´tico, part´ e o e ıculas beta s˜o emitidas por a n´ cleos pela a¸˜o da intera¸˜o fraca, e a Lua ´ atra´ pela Terra atrav´s u ca ca e ıda e da a¸˜o da for¸a gravitacional. Aparentemente esses s˜o fenˆmenos ca c a o cujas origens f´ ısicas s˜o completamente desconexas. Ou ser´ que eles a a podem ser unificados em um n´ mais fundamental? ıvel Todos os fenˆmenos da Natureza s˜o provocados por apenas quatro o a intera¸˜es: a forte, a eletromagn´tica, a fraca, e a gravitacional, assim co e listadas em ordem de intensidade decrescente. Pr´tons e nˆutrons deno e tro de n´ cleos s˜o mantidos juntos pela intera¸˜o forte. A intera¸˜o u a ca ca fraca ´ a respons´vel pelos processos de decaimento beta nos n´ cleos e a u atˆmicos. Uma ma¸˜ que cai ou um planeta que se move respondem a o ca `

CAP´ ITULO 9 - O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜

447

a¸˜o da for¸a gravitacional. Uma onda eletromagn´tica que se propaga, ca c e como a luz ou ondas de r´dio, ou as rea¸˜es qu´ a co ımicas que ocorrem dentro dos neurˆnios nos nossos c´rebros s˜o devidas a intera¸˜es eletroo e a co magn´ticas. E assim por diante. Um fato importante a ser lembrado e ´ que dessas quatro intera¸˜es somente a gravitacional tem um car´ter e co a universal, ou seja, atua sobre toda a mat´ria, independentemente da e carga, ou qualquer outra propriedade. A intera¸˜o eletromagn´tica, ca e por exemplo, tem sua origem na carga el´trica, e portanto n˜o atua e a sobre part´ ıculas neutras, como por exemplo os nˆutrons. e Mas, porque a Natureza escolheu quatro, e n˜o cinco, ou trˆs, ou a e dez, intera¸˜es fundamentais? Ou ainda, porque n˜o somente uma? co a Imagine se pud´ssemos descrever essas quatro intera¸˜es como orie co gin´rias de uma unica entidade f´ a ´ ısica; uma unica intera¸˜o ou for¸a ´ ca c ´ fundamental da qual todos os fenˆmenos da Natureza derivariam. E o o sonho da unifica¸˜o! ca Os f´ ısicos acreditam que de fato esta unifica¸˜o j´ existiu durante ca a os primeiros instantes do Universo. Na medida em que este foi se expandindo e se resfriando ap´s o Big Bang, as intera¸˜es fundamentais o co foram se separando umas das outras. Como veremos abaixo a a¸˜o ca entre corpos que interagem via uma ou mais dessas for¸as se d´ atrav´s c a e de determinadas part´culas. Por exemplo, a intera¸˜o eletromagn´tica ı ca e entre duas cargas ocorre via uma “troca” de f´tons, que s˜o os “meno a sageiros” do campo eletromagn´tico. O fato de que as quatro for¸as e c estiveram unificadas no in´ do Universo estabelece uma interessante ıcio conex˜o entre a Cosmologia e a F´ a ısica de Part´ ıculas, e nos leva a questionar se as condi¸˜es do Universo ap´s o Big Bang poderiam ser reproco o

448 duzidas em aceleradores de part´ ıculas na Terra! Falaremos mais sobre isso na se¸˜o 9.4. A tabela abaixo, parcialmente compilada do interesca sante livro de James Trefil, 1001 Things Everyone Should know about Science(1001 Coisas Sobre Ciˆncia que Todos Deveriam Saber) e (Doubleday 1992), resume a evolu¸˜o do Universo em seus primeiros ca 10 bilh˜es de anos. Mais a direita, entre parˆnteses, s˜o mostradas as o e a temperaturas do Universo em cada momento. 10−43 segundos - separa¸˜o da gravita¸˜o das outras for¸as (1032 ca ca c
o

C) ca 10−36 segundos - intera¸˜o forte se separa (1029 o C) 10−10 segundos - intera¸˜es fraca e eletromagn´tica se separam (1016 co e

o

C) 10 microssegundos - part´ ıculas s˜o formadas (1014 o C) a 3 minutos - forma¸˜o de n´ cleos de atomos leves (1010 o C) ca u ´ 500 mil anos - atomos s˜o formados (105 o C) ´ a 100 milh˜es de anos - quasares s˜o formados (104 o C) o a 10 bilh˜es de anos - estrelas e gal´xias s˜o formadas (102 o C) o a a

O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ . e os Discursos sobre duas novas Ciˆncias de 1638. os modelos te´ricos devem o . Foi Galileu e quem introduziu a id´ia de modelo. 9. Na medida em que o Universo foi se resfriando. Seus dois grandes ca e trabalhos foram o Di´logo sobre os dois Principais Sistemas do Mundo. que na medida do poss´ a ıvel. 449 Nos primeiros instantes ap´s o Big Bang as quatro intera¸˜es fundamentais da Nao co tureza estavam fundidas em uma s´.CAP´ ITULO 9 . o elas se separaram. Antes de Galileu n˜o a existia ciˆncia. na concep¸˜o moderna do termo. Galileu pagou um e ca pre¸o alto por ter desafiado o mito aristot´lico. a “ciˆncia” oficial. imc e e posta pela Inquisi¸˜o durante toda a Idade M´dia. onde a linguagem da f´ e ısica deve ser a matem´tica e. a de 1632.2 Newton: Unifica¸˜o do C´u com a Terra ca e Newton nasceu no ano em que Galileu morreu.

no que poss´ for. Objetos celestes se movem de acordo com as mesmas leis que governam a simples queda de uma ma¸˜ na superf´ da Terra. abaixo transcritas do livro de Pierre Lucie (F´ ısica B´sica. o movimento dos planetas em torno do Sol. o Newton por sua vez costumava dizer que se conseguira enxergar t˜o a longe ´ porque havia subido sobre ombros de gigantes como Galileu. a Gravita¸˜o e ca Universal de Newton unifica a f´ ısica do C´u com a f´ e ısica da Terra. . onde a primeira grande unifica¸˜o da f´ ca ısica ´ feita. e ´ no Livro III onde ele e e e aplica as leis de movimento ao sistema solar. e resultou no Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. e O m´todo cient´ e ıfico iniciado por Galileu foi levado ao seu extremo por Newton. o Regra 2 .450 ser testados em experimentos de laborat´rio. devem ser cone ıvel sideradas como pertencentes a todos os corpos em geral. e ´ etc. Campus 1979): a a Regra 1 . ca ıcie A obra de Newton ´ dividida em trˆs livros. incluindo o movimento da Lua.N˜o se devem admitir outras causas dos a fenˆmenos naturais al´m das verdadeiras e suficientes para o e explicar os fenˆmenos.As qualidades dos corpos. ` ıvel Regra 3 .Os efeitos de mesma natureza devem ser sempre atribu´ ıdos a mesma causa. E neste livro onde Newton enuncia as suas Regras para o estudo da Filosofia Natural. o problema das mar´s. que s˜o suscet´ a ıveis de acr´scimo ou decr´scimo e que pertencem a todos os core e pos com os quais ´ poss´ experimentar. Mecˆnica 1. De fato.

Tendo tido uma educa¸˜o religiosa. Ela teve tamb´m um profundo efeito sobre o pr´prio Newca e o ton. Esse Ser infinito governa tudo. deseja. constr´i. sejam elas metaf´ o ısicas ou f´sicas.CAP´ ITULO 9 . dos planetas e dos ca a cometas s´ pode ser obra de um Ser todo-poderoso e ino teligente. o aceita.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 451 Tivesse Newton enunciado essas regras com cem anos de antecedˆncia. N˜o consegui ainda deduzir dos fenˆmenos a raz˜o das a o a propriedades da gravita¸˜o e n˜o finjo hip´teses. ama. d´. n˜o tem lugar na Filosofia Expea rimental. . se encoleriza. porque tudo que se diz de Deus procede da coma para¸˜o com as coisas humanas. hoje com 300 anos. (Pierre o ca Lucie. ca ´ E isso o que eu tinha a dizer de Deus e suas obras constituem o objeto da Filosofia Natural. . . . Campus 1979) a a . . e fala-se que Ele se e alegra. . n˜o como a alma do a mundo. as proposi¸˜es s˜o deduzidas dos co a fenˆmenos e a seguir generalizadas por indu¸˜o. . e certamente teria virado torresmo em alguma fogueira! A teoria da gravita¸˜o de Newton. mas como Senhor de todas as coisas. F´ ısica B´sica. . ou mecˆnicas. A domina¸˜o ca de um Ser espiritual ´ obra de Deus. Nessa Filosofia. causa grande ca admira¸˜o. ı a ou de qualidades ocultas. fabrica. . . odeia. escreveu ao final da obra: ca Essa ordena¸˜o admir´vel do Sol. Pois tudo ca a o o que n˜o se deduz dos fenˆmenos ´ uma hip´tese: e as a o e o hip´teses. Mecˆnica 1.

a corrente el´trica gera no u e espa¸o um campo magn´tico. o ponteiro da b´ssola se move.3 Maxwell: Unifica¸˜o da Eletricidade com o Magca netismo ´ e com a Otica F´ ısica A segunda grande unifica¸˜o da f´ ca ısica ocorre com Maxwell. c e O experimento de Faraday demonstra a mesma conex˜o. E a varia¸˜o temporal ım˜ e ca do fluxo magn´tico atrav´s do circuito que gera a corrente. mas de a maneira oposta: um fio formando um circuito fechado atrav´s do qual e ´ se faz mover um ´ a. sendo a sua velocidade constante e igual a c. tendo como principais predecessores o inglˆs Michael Faraday e o dinamarquˆs Chrise e tian Oersted. Nas equa¸˜es de Maxwell. Ou seja. gera uma corrente el´trica. A partir da´ tudo passa a ser uma quest˜o o e ı a ´ de comprimento de onda! Otica e eletromagnetismo passam assim a ser . pilhas c grandes e uma pequena b´ssola.452 9. eletricidade ´ ent˜o co co e a unificada ao magnetismo. e pode ser realizado em casa com um peda¸o de fio. Ou seja. Mais espetacular ainda ´ o fato de que a e partir dessas equa¸˜es deduz-se que campos eletromagn´ticos podem co e se propagar como uma onda. a luz entra para a categoria dos fenˆmenos eletromagn´ticos. Passando uma corrente el´trica pelo u e fio. a velocidade da luz. Esses dois ultimos descobriram conex˜es entre a eletri´ o cidade e o magnetismo. Maxwell e e formalizou essas descobertas em linguagem matem´tica. O famoso experimento de Oersted ´ muito e simples. escrevendo um a conjunto de quatro equa¸˜es. uma obra de arte conhecida na f´ co ısica por equa¸˜es de Maxwell.

co 9. do que o ´ feita a mat´ria? Pr´tons e nˆutrons possuem estrutura interna.CAP´ ITULO 9 . part´ ca e ıculas emitidas por n´cleos radiativos podiam ser detectadas com facilidade.4 Part´ ıculas Elementares: A Ducha C´smica o A descoberta da estrutura atˆmica com seus pr´tons. A mecˆnica quˆntica a a abriu caminho para novas unifica¸˜es. O advento a da mecˆnica quˆntica levou a descoberta de uma enormidade de novos a a ` fenˆmenos e a uma compreens˜o muito mais profunda sobre os proceso a sos de intera¸˜o entre part´ ca ıculas na Natureza. E esses objetos. o o e e com o fenˆmeno da radioatividade. Ao final da primeira d´cada. s˜o por a sua vez simples ou tamb´m possuem alguma estrutura interna? Existe e uma part´ ıcula fundamental da qual toda a mat´ria deriva? e A descoberta da radioatividade na virada do s´culo XX atraiu a e aten¸˜o de muitos cientistas. nˆutrons e el´trons.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ regidos pelas mesmas leis. ou e e o e seja. s˜o constru´ a ıdos de objetos mais simples. Este segundo ponto ´ particularmente importante. u Um fato estranho que logo atraiu a aten¸˜o dos f´ ca ısicos da ´poca era que e os aparelhos de detec¸˜o registravam a presen¸a de part´ ca c ıculas mesmo quando n˜o havia fontes radioativas por perto! De onde estariam vindo a essas part´ ıculas? Experimentos mostraram que em qualquer lugar elas . e (2) o atomo n˜o ´ o constituinte elementar da ´ a e mat´ria. deixaram claro duas coisas: (1) o o a ´tomo n˜o ´ indivis´ a e ıvel. 453 Essas s˜o as duas grandes unifica¸˜es da F´ a co ısica Cl´ssica. e tem sido e e debatido por cientistas desde os tempos de Dem´crito: afinal.

O padre-cientista ent˜o imaginou que o unico lugar de onde a a ´ misteriosa radia¸˜o poderia estar vindo era do espa¸o. Conc a tudo. Wulf ent˜o sugeriu que o experimento o a poderia ser realizado de dentro de bal˜es. Caltech. do California Institute of Technology (Instituto Tecnol´gico da Calif´rnia). ningu´m ainda conhecia a natureza dessa radia¸˜o. No in´ e ca ıcio pensou-se que os raios c´smicos eram part´ o ıculas gama de alta energia. sugeriu que a suposta radia¸˜o gama o o ca era origin´ria das rea¸˜es de fus˜o que ocorrem nas estrelas. Ou seja. e a 5 mil metros ca o ela ´ cerca de 5 vezes maior do que ao n´ e ıvel do mar. Ele mediu esta radia¸˜o misteriosa do alto da a ca torre Eiffel em Paris e verificou que havia mais radia¸˜o do que era esca perado. a o mas entre 1911 e 1912 o austr´ ıaco Victor Hess fez v´rias medi¸˜es a a co altitudes de at´ 5 mil metros. a co a . que a grandes altitudes devo eriam registrar radia¸˜o ainda mais intensa. Hess concluiu que a Terra ´ constantemente bombardeada por part´ e ıculas que vˆm do e espa¸o. a origem ca c da radia¸˜o misteriosa era extraterrestre! Assim foram descobertos os ca hoje chamados raios c´smicos. ca Wulf n˜o foi corajoso o suficiente para subir em bal˜es ele mesmo.454 estavam presentes. e que s˜o fortemente atenuadas pela atmosfera terrestre. Robert Millikan. mesmo quando os detectores eram blindados! Em 1910 um f´ ısico (e tamb´m padre jesu´ chamado Theodor Wulf e ıta) descobriu algo not´vel. O padre estava certo! Acima de 1000 e metros a radia¸˜o c´smica se torna muito intensa.

essas part´ e ıculas decaem em outras gerando uma verdadeira ducha: s˜o os raios c´smicos.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ . Skobeltzyn pensou que a e se livraria assim dos indesej´veis el´trons. Aplicando ent˜o um campo magn´tico. onde a presen¸a da part´ a c ıcula ´ e acusada por um rastro deixado ao longo de sua trajet´ria. e os supostos raios gama arrancavam el´trons das suas paredes intere nas. 455 A Terra ´ permanentemente bombardeada por “part´ e ıculas extraterrestres” altamente energ´ticas. Ele resolveu colocar seu detector de part´ ıculas entre os p´los de um ´ a para se livrar dos el´trons que eram proo ım˜ e duzidos quando os supostos gamas atingiam as paredes do detector. Quando atingiam o detector. Al´m das trao e . a o Em 1923 um passo decisivo foi dado por Dmitry Skobeltzyn trabalhando em Leningrado. O detector utilizado era uma a e cˆmara de Wilson (veja Painel XVII). Lembre do cap´ ıtulo um que um campo magn´tico desvia a trajet´ria e o de part´ ıculas carregadas como o el´tron.CAP´ ITULO 9 . que acabavam por mascarar a observa¸˜o das part´ ca ıculas extraterrestres. Ao penetrarem na atmosfera.

Contudo.456 jet´rias dos el´trons de que Skobeltzyn queria se livrar. havia alguns o e tra¸os quase retos indicando a presen¸a de part´ c c ıculas altamente energ´ticas. Skobeltzyn continuou ainda achando que se tratava e de el´trons arrancados das paredes do detector pelos raios c´smicos. e o .

A inven¸˜o de Wilson foi utilizada nos o e ca primeiros experimentos de detec¸˜o de part´ ca ıculas subatˆmicas. Durante esses experimentos Wilson notou a forma¸˜o e a ca de tra¸os no vapor de agua. . Ele sabia que os tra¸os estavam se formando em c ´ c torno de “alguma coisa”. Pelo seu invento o Wilson recebeu o Prˆmio Nobel de F´ e ısica de 1927. ele decidiu construir uma cˆmara que pudesse encher com vapor de o a a ´gua. deixando a ca ´ a assim um desenho da sua trajet´ria no c´u. o g´s se resfriava produzindo uma a n´voa dentro da cˆmara. A fim de reproduzir certos efeitos em o o laborat´rio. em Cambridge. Posteriormente ele repetiu os experimentos atravessando a part´ ıculas alfa e beta pelo aparelho. na Inglaterra.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ XVII ˆ A CAMARA DE WILSON 457 O princ´ ıpio de funcionamento da cˆmara de Wilson ´ semelhante ao efeito que leva a e os avi˜es que voam muito alto deixarem um rastro no c´u. Era a primeira o vez que part´ ıculas subatˆmicas se tornavam “vis´ o ıveis”. o Charles Wilson era um jovem f´ ısico que estudava fenˆmenos atmosf´ricos em o e um observat´rio meteorol´gico em 1894. que ele concluiu se tratar de part´ ıculas carregadas que atravessavam a cˆmara. Aqueles rastros aparecem o e devido ` condensa¸˜o de vapores de agua em torno da turbina do avi˜o. A cˆmara continha um pist˜o com o qual ele controlava a press˜o dentro dela. a a a Ao expandir subitamente o volume do recipiente. confirmando as suas previs˜es.CAP´ ITULO 9 . Os experimentos foram realizados no Laborat´rio Cavendish.

Estava assim fundada ca o a F´ ısica de Part´ ıculas. teve uma id´ia: colocou uma folha de chumbo atravessada na cˆmara a fim e a de frear essas part´ ıculas de alta velocidade. Era a primeira observa¸˜o do p´sitron. Uma part´ e a a e ıcula de antimat´ria e ´ idˆntica a uma de mat´ria. e poderiam assim ser melhor defletidas pelo campo magn´tico. O resultado foi outro momento m´gico da hist´ria da f´ e a o ısica. e Este n˜o ´. a dire¸˜o da for¸a co ca c de Lorentz ´ determinada pelo sinal da carga: F = qv × B. Portanto. Cada part´ e ıcula de mat´ria possui sua contrapartida de ane timat´ria. um nome muito feliz. Ou seja. A existˆncia do p´sitron havia sido prevista teoricamente e e o em 1927 pelo f´ ısico britˆnico Paul M. sendo a unica diferen¸a entre elas a carga e e e ´ c el´trica. o homem que inventou a a mecˆnica quˆntica relativ´ a a ıstica. Uma delas tem Lembre do Cap. O p´sitron ´ uma das part´ o e ıculas que formam a chamada antimat´ria. e 1 . ´ de fato a hist´ria da f´ e e o ısica de part´ ıculas. Com isso ele esperava que as part´ ıculas emergindo do outro lado da folha tivessem uma velocidade menor. o resultado de Anderson foi outro grande triunfo das f´ ısicas te´rica e experimental! o A f´ ısica de part´ ıculas se desenvolveu enormemente. ca a a e ou seja. e grande parte da hist´ria da f´ o ısica neste s´culo. As part´ ıculas foram defletidas em uma dire¸˜o contr´ria ` dos el´trons. porque sugere que ana e timat´ria seja algo contr´rio ` mat´ria. aluno de Millikan no Caltech. Mas havia algo bizarro: o raio da trajet´ria revelava uma part´ o ıcula com a mesma massa que a dos el´trons. convenhamos. Centenas de part´ ıculas foram descobertas. 1 que para dire¸˜es fixas dos vetores v e B.458 Em 1930 Carl Anderson. Dirac. elas eram na verdade carregadas positivamente1 . tratava-se de uma esp´cie de “el´tron e e e positivo”.

.CAP´ ITULO 9 . um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas F´ ısicas (CBPF).O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 459 um significado especial para n´s brasileiros. o p´ o ıon. f´ ısico brasileiro. que est´ associado a ao nome de Cesar Lattes.

Eds. trabalhando nos Estados Unidos. Criou na Universidade de S˜o Paulo (USP) um laboa rat´rio para o estudo da radia¸˜o c´smica.800 metros de altitude nos montes Pirineus. A repercuss˜o internacional do trabalho de Lattes resultou no Brasil na cria¸˜o a ca do Centro Brasileiro de Pesquisas F´ ısicas (CBPF). e recebeu v´rios prˆmios e honrarias. 2 . e participou da cria¸˜o da Universidade o ca o ca de Campinas. na Bol´ ıvia. e a partir da sua an´lise confirmou a a existˆncia do m´son-π. CBPF (1999). ou simplesmente Cesar Lattes. Deu v´rias outras contribui¸˜es importantes para a f´ a co ısica. e a partir dos tra¸os deixados pudessem ca o c ser identificadas. tendo contudo recusado o posto. A. a descoberta do m´son π e outras hist´rias.600 metros o a de altitude no Monte Chacaltaya. A id´ia era de que part´ e ıculas da radia¸˜o c´smica penetrassem nas chapas. Durante meae e dos dos anos 50. marcando o in´ da f´ o ıcio ısica de aceleradores. Sua carreira cient´ ıfica teve enormes repercuss˜es para o o desenvolvimento da f´ ısica no Brasil. Posteriormente Lattes expˆs chapas fotogr´ficas a 5. e o Caruso. Marques e A. hoje um dos institutos de pesquisa do Minist´rio da Ciˆncia e Tecnologia. Primeiramente eles expunham chapas fotogr´ficas altamente sens´ a ıveis a 2. Seu trabalho mais importante foi feito com Giuseppe Occhialini e Cecil Powell durante a d´cada de 40 sobre part´ e ıculas elementares. localizado no Rio de Janeiro.460 PAINEL XVIII VIDA E OBRA DE CESAR LATTES2 Cesare Mansueto Giulio Lattes. na Calif´rnia. Troper. F. a e Veja o livro Cesar Lattes. ´ curitibano nascido e a 11 de julho de 1924. Lattes foi convidado a substituir Enrico Fermi na chefia do Instituto de F´ ısica da Universidade de Chicago. A participa¸˜o de Lattes tamb´m foi decisiva para o e e ca e sucesso dos primeiros experimentos que produziram essas part´ ıculas no laborat´rio o Lawrence Berkeley.

de duas maneiras poss´ co ıveis: na primeira 3 quarks se combinam. e S = 3/2 significa que os trˆs spins s˜o e a paralelos. o e Os l´ptons s˜o considerados part´ e a ıculas elementares. como pr´tons e o nˆutrons3 . Quarks possuem spin 1/2. de modo que o spin total da part´ ıcula formada ser´ 1/2 ou 3/2. como o p´ o e a ıon. N´s j´ vimos um tipo de classifica¸˜o seo a ca gundo o spin. e portanto tamb´m e s˜o f´rmions. H´drons s˜o a e a a formados por combina¸˜es de quarks. Ao contr´rio. Qualquer que seja a combina¸˜o. com S = 1 e o (spins paralelos) ou S = 0 (spins antiparalelos). A segunda op¸˜o ´ a combina¸˜o de um quark e ca e ca com um antiquark. ou seja. S = 1/2 significa que dois dos trˆs quarks a e possuem spins antiparalelos. e os h´drons . Cada quark possui um antiquark associado. ` a part´ ıcula formada neste caso ´ um m´son. como a carga e a massa. o Brasil (ainda) ´ nosso! N´s vamos co e o chegar l´! a Part´ ıculas s˜o classificadas de acordo com seus atributos f´ a ısicos. que n˜o a possuem estrutura interna. Quanto a sua massa.de massa intermedi´ria. no cap´ ıtulo trˆs. e e Uma tendˆncia mais atual ´ classificar os l´ptons como aquelas part´ e e e ıculas que n˜o sentem a intera¸˜o forte. a e e p´sitrons e neutrinos. a uni˜o de 3 quarks resulta ca a sempre em um f´rmion. os m´sons .CAP´ ITULO 9 . como el´trons.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 461 Mas. a ca 3 . e neste caso o resultado ´ um b´son. e a o as part´ ıculas s˜o divididas em l´ptons . o que isso tudo tem a ver com a unifica¸˜o das quatro inca tera¸˜es fundamentais? Calma. De acordo com a massa. os m´sons e h´drons n˜o s˜o a e a a a elementares. mas sim formados a partir de part´ ıculas ainda menores chamadas de quarks. e aquelas com spin inteiro s˜o b´sons.part´ a ıculas pesadas. Part´ e ıculas com spin semi-inteiro s˜o a f´rmions.as mais leves.

M´sons s˜o formados por um a e a quark e um antiquark. e portanto s˜o b´sons. Mas. a unidade fundamental de e carga. m´sons e h´drons. e portanto s˜o b´sons. Considere um h´dron como o pr´ton. O a o spin do pr´ton. e a e M´sons s˜o formados por um quark e um antiquark. ou seja. Ele possui spin 1/2 e carga +e. H´drons s˜o formados a o a a por trˆs quarks. Para 3 quarks se combinarem e dar origem a um pr´ton com o carga igual a e. L´ptons s˜o part´ e e a e a ıculas elementares. uma . H´drons e a a o a s˜o formados por trˆs quarks e portanto s˜o f´rmions. a e a e Existe outra coisa importante a ser dita acerca dos quarks. de acordo com o que foi dito acima. como explic´-la em termos da carga dos quarks? E o a um fato que e ´ a carga elementar.462 Resumindo: part´ ıculas s˜o classificadas de acordo com sua massa a em l´ptons. ou seja. a carga de cada um deles deveria ser e/3. e portanto s˜o f´rmions. deriva da como bina¸˜o dos spins de dois quarks que se alinham antiparalelamente e ca se anulam. ou seja. e com rela¸˜o a ca ` ´ carga do pr´ton. n˜o possuem estrutura interna. restando apenas o spin de 1 quark.

quarks n˜o podem ser classificados como tal.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 463 fra¸˜o da carga elementar. Quarks ligam-se entre si ca e u trocando gl´ ons. o f´ton. at´ hoje. Ele possui spin 1 e carga ca e o zero. Mas ca qual o mecanismo? As express˜es matem´ticas o a F =G mM 1 qQ ou F = r2 4π 0 r 2 simplesmente descrevem a dependˆncia funcional da for¸a com as mase c sas (ou cargas) e a distˆncia entre os objetos interagentes. a e a Nos referimos a esta situa¸˜o como o confinamento dos quarks. Ou seja. Acontece que. os “blocos fundamentais” da mat´ria a e e e e s˜o os f´rmions. nada est´ sendo afirmado a respeito do a mecanismo de repuls˜o (ou atra¸˜o). Quarks ca s´ existem confinados. que forma toda a e e mat´ria4 . Quando dizemos por exemplo que cargas el´tricas se repelem de e acordo com a lei de Coulomb. e n˜o podem ser observados isoladamente. quarks deveriam ca ser classificados como l´ptons. o a Chegamos portanto a uma conclus˜o importante: como os quarks a s˜o f´rmions. e Vamos agora examinar um importante b´son fundamental: o quano tum da radia¸˜o eletromagn´tica. os f´rmions. Mas. n˜o existe uma unica part´ a e a ´ ıcula da qual toda a mat´ria deriva. Elas nos a Aqui uma observa¸˜o importante: de acordo com a sua massa. nunca uma part´ ca e ıcula foi observada com tal valor de carga. caso contr´rio a carga elementar a n˜o seria elementar! A maneira de contornar o problema ´ dizer que a e os quarks nunca podem ser observados separadamente. a ca a A part´ ıcula “mensageira” da intera¸˜o forte ´ o gl´on. eles est˜o sempre “grudados” uns nos outros formando m´sons e h´drons. mas uma “categoria”.CAP´ ITULO 9 . se classificarmos os l´ptons como part´ e e ıculas que n˜o sentem a intera¸˜o forte. Assim. e os l´ptons tamb´m. O mesmo ocorre com os planetas: a ca o Sol atrai a Terra de acordo com a lei da gravita¸˜o de Newton. u 4 .

etc. 9. Nada afirmam sobre como a intera¸˜o se propaga de um objeto ca ao outro. c . m´gnons. uma carga el´trica interage com outra carga el´trica. o f´ton ´ uma o o e esp´cie de mensageiro da intera¸˜o eletromagn´tica. via troca de f´tons. chamadas de W +. Veja como essa e ca e id´ia ´ interessante. Ou seja. Aqui entram os b´sons. que ´ e a e o a tamb´m s˜o part´ e a ıculas de intera¸˜o dentro da mat´ria. trocando part´ ıculas de campo. e e e a atraindo ou repelindo. onde as intera¸˜es ene co tre atomos. cargas. ou distˆncias c a variam. mas tamb´m as intera¸˜es entre objetos materiais! Nesta e co perspectiva. N˜o s´ a mat´ria ´ feita de part´culas fundaa o e e ı mentais.5 Unifica¸˜o Eletrofraca ca A intera¸˜o eletrofraca unifica as intera¸˜es eletromagn´tica e fraca. ı e a no caso da intera¸˜o forte s˜o os gl´ons os mensageiros de campo. No caso do campo gravitacional a part´cula ´ o gr´viton. ca co e A chamada teoria eletrofraca foi alcan¸ada por Sheldon Lee Glashow. e no ca a u caso da intera¸˜o fraca existem 3 part´ ca ıculas mensageiras.464 dizem de quanto a for¸a varia quando as massas. Segundo a mecˆnica quˆntica dos campos o a a eletromagn´ticos. el´trons e spins se d´ atrav´s de fˆnons. ca e As outras intera¸˜es fundamentais tamb´m possuem suas part´ co e ıculas associadas. tudo o que existe s˜o part´ a ıcula: f´rmions interagindo com e f´rmions atrav´s de b´sons formam tudo o que existe! No cap´ e e o ıtulo seis vimos algo semelhante na mat´ria condensada. W − e Z 0. e possui um aspecto unificador poderoso: uma e e part´ ıcula carregada interage com outra part´ ıcula carregada.

No Brasil. contudo. A baixas energias. esta equivalˆncia entre as ine o e tera¸˜es eletromagn´tica e fraca deixa de existir (dizemos que h´ uma co e a quebra de simetria). como por exemplo no processo de decaimento de um nˆutron em um pr´ton. A teoria eletrofraca de Glashowe o Weinberg-Salam postula que a altas energias as intera¸˜es eletromagn´tica co e e fraca s˜o equivalentes. tornam-se os b´sons W ± e Z 0 . Nesta situa¸˜o a ca as part´ ıculas mensageiras da intera¸˜o seriam part´ ca ıculas sem massa. est´ associado a propostas que foram importantes para o a desenvolvimento da teoria eletrofraca. a o . e as part´ ıculas mensageiras. e Um exemplo de processo envolvendo o b´son W − ´ o decaimento o beta de um nˆutron em um pr´ton.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 465 Abdus Salam e Steven Weinberg. um dos fundadores e do CBPF. partes de uma mesma teoria. o nome de Jos´ Leite Lopes.CAP´ ITULO 9 . que a altas energias n˜o possuem massa. que foram agraciados com o Nobel de 1979.

tendo recebido o t´ ıtulo de Ph. onde trabalhavam na ´poca Wofgang e Pauli e Albert Einstein. Em 1958 realizou importante trabalho sobre a natureza da intera¸˜o fraca. Foi professor da Universidade de Orsay. Weinberg e Salam.D em 1946. a convite de J. com Lattes. entre 1964 e 1967.466 PAINEL XIX ´ VIDA E OBRA DE JOSE LEITE LOPES Jos´ Leite Lopes. Nascido no Recife no dia 28 de outubro de 1918. Oppenheimer. na Fran¸a. com C´sar Lattes. Atualmente ´ Pesquisador Titular do Centro Brasileiro de Pesquisas F´ e ısicas. onde permaneceu at´ c e 1985. e e ingressou no Curso de F´ ısica da Faculdade Nacional de Filosofia. fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas F´ ısicas. para logo depois retornar a ` Princeton como pesquisador.R. onde v´rios resultados ca a foram confirmados posteriormente na teoria de Glashow. Retornou ` a Fran¸a em 1970 a convite da Universidade de Estrasburgo. . Em 1949. do Rio de Janeiro em 1940. e depois diretor c do Instituto de F´ ısica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. ´ um dos nomes mais importantes da e e e ciˆncia do Brasil no s´culo XX. Em 1944 seguiu para os Estados Unidos para fazer o doutoramento na prestigiada Universidade de Princeton.

o equivalente a bilh˜es de eletrono volts. mas atrav´s dos seus produtos de decaia e mento mostradas a seguir: W ± → e± + ν . Em f´ o expressar as massas das part´ ıculas n˜o em unidade de massa (kg). mas a em unidade de energia (eV).O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 467 A teoria eletrofraca faz diversas previs˜es.CAP´ ITULO 9 . Nesta unidade. as part´ ıculas acima s˜o aproximadaa mente 100 vezes mais pesadas que o pr´ton! Veja que coisa estranha: o o decaimento de um nˆutron em um pr´ton envolve uma part´ e o ıcula men´ sageira que ´ 100 vezes mais pesada que o pr´prio nˆutron! E a equie o e valˆncia entre massa e energia descoberta por Einstein que d´ origem e a a esse tipo de coisa. a teoria eletrofraca prevˆ os seguintes valores para as massas das part´ e ıculas da intera¸˜o: ca mW c2 = 82 GeV mZ c2 = 93 Gev onde ‘GeV’ significa gigaeletronvolts. o quadrado da velocidade da luz. A vantagem de se expressar a massa de uma part´ ıcula em unidades de energia reside no fato de que o valor obtido nos d´ diretaa mente uma id´ia da energia necess´ria para produz´ em laborat´rio. Para isso basta multiplicar a massa da part´ ıcula por c2 . As primeiras evidˆncias da existˆncia das part´ e e ıculas W ± e Z 0 apareceram em 1983 em experimentos realizados no CERN por um time de cientistas liderados pelo f´ ısico italiano Carlo Rubbia. As part´ ıculas n˜o a s˜o detectadas diretamente. entre as quais os valores o ısica de part´ ıculas ´ costume e das massas dos b´sons W ± e Z 0 . e a ı-la o Em termos de unidades de massa.

468 Z 0 → e+ + e− Dos resultados experimentais eles obtiveram os seguintes valores de massa para os b´sons da intera¸˜o eletrofraca: o ca mW c2 = 80. tamb´m a o e .6 ´ E Poss´ ıvel Recriar o Universo em um Laborat´rio? o Part´ ıculas elementares podem ser criadas em m´quinas chamadas acela eradores de part´culas. 6 Gev Bingo! Os resultados experimentais est˜o de pleno acordo com as prea vis˜es da teoria eletrofraca de Glashow-Weinberg-Salam. 8 ± 2. e sua estrutura interna ´ revec e lada. e a c e e a part´ ıcula literalmente se despeda¸a. 9. e Carlo ca co e Rubbia embolsando o Estocolmo de 1984. Em um acelerador. Um acelerador possui algumas semelhan¸as com ı c um simples tubo de televis˜o. part´ ıculas altamente energ´ticas s˜o lan¸adas contra alvos. no experimento de Carlo Rubbia um feixe de pr´tons foi acelerado a uma energia de 270 GeV e feito colidir o com um feixe de antipr´tons (a antipart´ o ıcula do pr´ton). Resultado: o unifica¸˜o das intera¸˜es fraca e eletromagn´tica confirmada. A id´ia ´ que ao colidir com o alvo. 7 GeV mZ c2 = 92. Desse modo teorias sobre part´ ıculas elementares e suas intera¸˜es co podem ser testadas. onde el´trons s˜o emitidos de um filaa e a mento e acelerados por uma tens˜o el´trica atrav´s do tubo at´ atina e e e gir a tela do aparelho. Por exemplo. 9 ± 1.

operam acima de 1 GeV e ´ produzem part´ ıculas elementares. Colis˜es o de pr´tons e nˆutrons com energias dessa ordem s˜o capazes de liberar o e a m´sons π. e a partir deles tenta descobrir a estrutura interna das part´ e ıculas que colidiram.CAP´ ITULO 9 . Os de baixa energia produzem feixes de e part´ ıculas entre 10 e 100 MeV e s˜o em geral utilizados em estudos a de rea¸˜es nucleares ou espalhamento. O projeto de um acelerador depende do uso a que ele se destina. Aceleradores de m´dia energia co e operam na faixa de 100 a 1000 MeV (1000 MeV = 1 GeV). de acordo com sua energia. Tais a ca u aceleradores s˜o em geral usados no estudo da natureza desta intera¸˜o.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 469 270 GeV. Eles s˜o classificados. a ca Aceleradores de alta energia. a part´ e ıcula associada ` intera¸˜o forte nos n´ cleos. E mais ou menos como quebrar um . Com essa energia o pr´ton e o antipr´ton se despeda¸aram o o c deixando “escapar” os b´sons W ± e Z 0 previstos pela teoria eletrofraca. o A f´ ısica de part´ ıculas estuda os produtos de colis˜es entre part´ o ıculas altamente energ´ticas. em aceleradores de a baixa. m´dia ou alta energia. por sua vez.

cheios de pecinhas e engrenagens delicadas. o rel´gio se despeda¸a. Em aceleradores eletrost´ticos as part´ a ıculas s˜o aceleradas em um a unico est´gio. Com este acelerador foi produzida a primeira rea¸˜o de desinca tegra¸˜o nuclear mostrada abaixo: ca p +7 Li →4 He +4 He Os primeiros aceleradores eletrost´ticos evoluiram para os chamaa dos geradores de Van de Graaff. Os chamados aceleradores c´clotron apresentam uma al´ a ı ternativa. e tentamos a a adivinhar como elas estavam montadas e funcionando no rel´gio antes o da pancada ser dada! Part´ ıculas carregadas s˜o aceleradas quando atravessam diferen¸as a c de potencial el´trico. e a e cada volta recebe um acr´scimo de energia cin´tica atrav´s de um pee e e queno aumento de uma diferen¸a de potencial eletrost´tico. quebraremos somente o mostrador. e feixes de ´ ıons com energias na faixa de dezenas a centenas de MeV. desse modo c a alcan¸ando energias da ordem de MeV. Com uma pancada mais forte. ele gerava potenciais da ordem de 800 kV. al´m do mostrador quebraremos tamb´m e e os ponteiros. Essa tece o e o nologia tem produzido aceleradores que operam acima de 20 milh˜es o de volts. onde um eletrodo ´ continuamente e carregado at´ produzir tens˜es el´tricas de milh˜es de volts. c o c Catamos ent˜o as delicadas pecinhas espalhadas pelo ch˜o. O primeiro acelerador eletrost´tico foi constru´ e a ıdo em 1932 por Cockcroft e Walton. Mas se batermos com muita for¸a. A part´ ıcula carregada ´ acelerada em um anel circular.470 daqueles rel´gios su´cos. o ı¸ Se dermos uma pancada fraquinha. Em um acelerador deste tipo a c .

Atualmente e c´ ıclotrons podem acelerar part´ ıculas a energias da ordem de 500 MeV. principalmente devido a a ` constru¸˜o do magneto. ca . Esta f´rmula o mostra que para aumentarmos a energia da part´ ıcula temos que aumentar o raio de sua orbita. B o valor do campo magn´tico.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 471 part´ ıcula orbita dentro de uma esp´cie de cˆmara circular dividida em e a duas metades.CAP´ ITULO 9 . a energia cin´tica da part´ a e ıcula ser´ dada por: a q 2 B 2 R2 T = 2m onde q ´ a carga da part´ e ıcula. Este ganho de energia ocasiona um aumento do raio da orbita da part´ ´ ıcula. Na orbita a ´ de raio m´ximo. R o e raio da ´rbita m´xima. Uma m´quina de 1 GeV teria um custo absurdo. cujo valor m´ximo depender´ das caracter´ a a ısticas da m´quina. Um campo magn´tico ´ aplicado perpendicularmente ao e e plano da cˆmara de modo a curvar a trajet´ria da part´ a o ıcula. Alternativas tiveram que ser encontradas. Uma voltagem el´trica ´ aplicada no hiato que separa as duas metades. de modo e e que a cada volta da part´ ıcula ela recebe um aumento de energia cin´tica. Obviamente aumentar as dimens˜es do acelerador significa auo mentar o tamanho do magneto utilizado para mantˆ-la. e consequentemente as dimens˜es do acel´ o erador. ´ necess´rio que a tens˜o el´trica seja e a a e aplicada em exato sincronismo com o movimento da part´ ıcula. e Para que o mecanismo funcione. e m ´ a massa da part´ o a e ıcula.

as part´ ıculas nos s´ ıncrotrons possuem uma trajet´ria com raio fixo. Su´ca. e Part´ ıculas s˜o injetadas no anel de um acelerador s´ a ıncrotron atrav´s e de um acelerador linear. em sincronia com o movimento. Ao inv´s de um unico magneto. Os dois principais aceleradores deste tipo atualmente no mundo est˜o no CERN. Ao contr´rio dos c´ a ıclotrons. part´ ıculas carregadas s˜o aceleradas em trajet´rias cira o culares antes de colidirem. como no caso dos e c´ ıclotrons. localizado em Genebra. e no FERMILAB (Fermi Naı¸ . A energia da part´ co ıcula ´. Os chamados s´ ıncrotrons vieram solucionar (parcialmente) o problema. o e ´ um acelerador s´ ıncrotron utiliza v´rios magnetos que desviam a orbita a ´ da part´ ıcula em se¸˜es. Nos aceleradores c´ ıclotrons. O raio da orbita aumenta com a energia da part´ ´ ıcula.472 . que ´ um laborat´rio conjunto de v´rios pa´ a e o a ıses europeus. As primeiras m´quinas apareceram no in´ a ıcio dos anos 50 e podiam gerar feixes de part´ ıculas com v´rias centenas de a MeV. aumentada a cada volta atrav´s da aplica¸˜o de um campo e ca el´trico em um hiato.

nos Estados Unidos. Part´ o ıculas s˜o injetadas no a anel do acelerador com uma energia de 26 GeV. cerca de 1000 f´ ısicos de mais de 200 pa´ e. e pode a acelerar part´ ıculas a estonteantes energias de 1000 GeV. O diˆmetro do anel ´ de a e 2. ou 1 TeV (= terael´tronvolts = trilh˜o de el´tronvolts). e atravessa a fronteira entre a Su´ca e a Fran¸a. N˜o s´ a energia do acelerador ´ exuberante. quando ıses em completa opera¸˜o. O acelerador do CERN ´ chamado de SPS (Super Proton Synchrotron). consome cerca de 60 megawatts de eletricidade.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 473 tional Accelerator Laboratory) em Chicago.CAP´ ITULO 9 . ca Nos s´ ıncrotrons o raio da trajet´ria da part´ o ıcula acelerada ´ fixo. o O acelerador do FERMILAB possui um diˆmetro de 2 km. ca . Foi no CERN ı¸ c que a teoria da intera¸˜o eletrofraca foi confirmada experimentalmente. mas todos os a o e n´ meros ligados a atividade cient´ u ` ıfica que ali se desenrola: s˜o mais de a 2000 empregados. O anel de um e s´ ıncrotron ´ seccionado em v´rios campos magn´ticos que mantˆm as part´ e a e e ıculas em suas trajet´rias.2 km. e Ele acelera pr´tons a energias de 400 GeV. Ele ´ conhecido como um e a e e tevatron.

parceiro do f´ton). Cerca de 1013 pr´tons por minuto circulam dentro de tubos de a¸o inox com diˆmetro o c a de cerca de apenas 10 cm. em uma regi˜o ´ a ınfima do espa¸o. Devido as altas energias alcan¸adas. O acelerador opera abaixo do ch˜o. Essas m´quinas operar˜o com energias na faixa e o a a de TeV e v´rias previs˜es te´ricas poder˜o ser verificadas.474 o suficiente para alimentar uma cidade com 175 000 habitantes. como por a o o a exemplo. o squarks. o Z-ino. a existˆncia de um verdadeiro zool´gico de novas part´ e o ıculas com massas entre 400 GeV e 1 TeV: o selectron. Acima dele existe uma rodovia para a facilitar o deslocamento de um lado ao outro do anel. Nada menos que 2000 magnetos s˜o utilizaa dos na opera¸˜o do feixe. a situa¸˜o c ca do Universo no momento da sua cria¸˜o. ca Espera-se que entre em funcionamento no CERN uma nova gera¸˜o ca de aceleradores at´ 2005: o LHC (Large Hadron Collider). O primeiro ser´ utilizado em experimentos a de colis˜o do tipo pr´ton-antipr´ton. estes ca experimentos visam “recriar” o Universo em um laborat´rio de f´ o ısica. o W± -ino e o e o glu´ ıno. Em outras palavras. o fotino (f´rmion massivo e neutro. e o segundo em experimentos do a o o tipo el´tron-p´sitron. Santo Deus! Nessas m´quinas. e o NLC e (New Lepton Collider). espera-se nesses ` c experimentos produzir. part´ a ıculas ser˜o aceleradas e feitas colidir umas a contra as outras. e revelar a estrutura das intera¸˜es fundamentais tais como elas eram co h´ 15 bilh˜es de anos atr´s! a o a .

estudo das propriedades de pol´ ımeros. etc. engenheiros e t´cnicos brasileiros. e e . Quando acelerados em ´rbitas e e o circulares. Exemplos de aplica¸˜es s˜o estudos o co a de processos de corros˜o e fadiga em estruturas met´licas. O acelerador ´ um anel armazenador de el´trons. Esta e ca ı radia¸˜o ´ utilizada para a investiga¸˜o das propriedades f´ ca e ca ısicas de diferentes tipos de materiais.CAP´ ITULO 9 . no estado de S˜o Paulo. el´trons emitem um tipo de radia¸˜o chamada de luz s´ncrotron. O LNLS ´ o unico laborat´rio deste tipo no Hemisf´rio Sul.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ PAINEL XX ´ O LABORATORIO NACIONAL DE LUZ S´ INCROTRON 475 O Brasil tamb´m possui um acelerador s´ e ıncrotron. semicondutores. e n˜o em F´ e a ısica de Part´ ıculas. Ele foi inteiramente e ´ o e projetado. que ´ utilizado na pesquisa e em Mat´ria Condensada. e a as primeiras discuss˜es a respeito do projeto de sua constru¸˜o foram realizadas no o ca Centro Brasileiro de Pesquisas F´ ısicas. desenvolvido e ´ operado por cientistas. a n´ ıvel atˆmico e molecular. O LNLS (Laborat´rio o Nacional de Luz S´ ıncrotron) localiza-se em Campinas. estudo de catalisadores para a ind´ stria petroqu´ e u ımica. estudo de propriedades a a magn´ticas de novos materiais.

Por um lado. em uma escala cosmol´gica. e como resultado obteve n˜o s´ as equa¸˜es a o co de Einstein da gravita¸˜o. A despeito de sua elegˆncia e consistˆncia interna. A tentativa a e a de concilia¸˜o entre a mecˆnica quˆntica e a relatividade geral tem sido ca a a o “ganha-p˜o” de muita gente inteligente pelo mundo afora. Mas a gravita¸˜o possui outros problemas fundamentais que est˜o ca a deixando os f´ ısicos “carecas”. mas at´ a e agora sem sucesso. esta teoria est´ necessariamente incoma e a pleta. A raz˜o ´ que ela nada diz sobre efeitos quˆnticos5 . que afirma que vivemos em um mundo quadridio 5 Talvez porque Einstein fosse um forte opositor ` teoria quˆntica! a a . As primeiras tentativas apareceram de fato poucos anos ap´s a publica¸˜o da relatividade geral por Einstein em 1916.7 Gravita¸˜o: outra Pedra no Caminho! ca Os f´ ısicos acreditam que a intera¸˜o gravitacional se separou das outras ca for¸as quando o Universo tinha apenas 10−43 segundos de idade. Um o ca matem´tico alem˜o chamado Theodor Kaluza reformulou a teoria de a a Einstein em 5 dimens˜es (4 espaciais e 1 temporal) ao inv´s de 4 (3 o e espaciais e 1 temporal). o existe a teoria de Einstein da relatividade geral. mas tamb´m as de Maxwell do eletromagca e netismo! O problema da teoria de Kaluza ´ que ela vai de encontro a e ` pr´pria relatividade. N˜o ´ c a e dif´ perceber que as energias envolvidas a esta altura da vida do Uniıcil verso est˜o completamente al´m da capacidade de qualquer acelerador a e de part´ ıculas que possa ser constru´ na Terra! Estima-se em 1019 GeV ıdo a energia necess´ria para tornar vis´ a unifica¸˜o da gravita¸˜o com a ıvel ca ca as outras for¸as (lembre que o mais potente acelerador no momento ´ c e o do FERMILAB com seus “meros” 103 GeV).476 9.

a . de a e 10−32 metros! A teoria de Kaluza-Klein foi na ´poca considerada uma mera curiosidade matem´tica.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 477 mensional e n˜o pentadimensional! Em 1926 o f´ a ısico sueco Oscar Klein veio com uma sa´ no m´ ıda ınimo estranha.CAP´ ITULO 9 . Ele disse que n´s n˜o percebemos a suposta “quinta dimens˜o” postulada na teoo a a ria de Kaluza simplesmente porque ela est´ dobrada (ou compactada) a sob a forma de um tubo com o diˆmetro incrivelmente pequeno. mas muito criativa.

Al´m do e a e e e j´ conhecido el´tron.a suprema teoria da mat´ria. e os outros: o strange. At´ 1995. e trˆs neutrinos. o charm. A detec¸˜o n˜o ´ feita diretamente. exceto o top. t´cnicos e engenheiros. o botton o e e o top. uma delas a podendo ser um top quark.478 PAINEL XXI ˜ O MODELO PADRAO O modelo te´rico que descreve as fam´ o ılias de part´ ıculas elementares existentes e suas intera¸˜es ´ conhecido entre os f´ co e ısicos como o Modelo Padr˜o. cinco dos seis quarks haviam sido detectados em experimentos e com aceleradores. muito maior do a e que a massa das outras part´ ıculas. Os a e e a u e quarks tamb´m aparecem em n´ mero de seis. o tau. A descoberta do top quark foi de tremenda importˆncia. A cada colis˜o. e de onde ela aparece? O top quark aparece de colis˜es entre pr´tons e antipr´tons que s˜o acelerados o o o a uns contra os outros. O top foi finalmente produzido no FERMILAB por um time de centenas de cientistas. e a propor¸˜o dos eventos que indicam a sua presen¸a ca c em rela¸˜o a todos os outros ´ somente de um para v´rios bilh˜es! As part´ ca e a o ıculas criadas deixam tra¸os de suas trajet´rias. o top quark pode ajudar a esclarecer e co e uma quest˜o ainda muito mais fundamental. e possuem nomes esquisitos: o up. Existem ao todo seis l´ptons. O modelo prevˆ que a a e e e os trˆs neutrinos associados ao el´tron. os outros l´ptons s˜o: o m´on. As part´ a ıculas de mat´ria s˜o os l´ptons e os quarks. ao m´ on e ao tau n˜o possuem massa de e e u a repouso (do mesmo modo que o f´ton). mas atrav´s dos proca a e e dutos de decaimento do top. porque confirmou as a previs˜es do Modelo Padr˜o. e u o down. que s˜o analisadas por programas de c o a computadores que tentam “garimpar” a presen¸a do top. Al´m disso. os f´ ısicos come¸am a ter raz˜es para acreditar que o c o Modelo Padr˜o n˜o ´ . c A despeito de seu sucesso. e que ainda n˜o sabemos responder: a a porque afinal de contas a massa existe. A descoberta contou e com a participa¸˜o de v´rios brasileiros vinculados ao Laborat´rio de Altas Energias ca a o (LAFEX) do Centro Brasileiro de Pesquisas F´ ısicas. refor¸ando nossas id´ias sobre os elementos constituo a c e intes da mat´ria e suas intera¸˜es. O ano de 1998 pode vir a ser lembrado como o . que formam pr´tons e nˆutrons. A raz˜o para isso ´ a sua massa.ainda . dezenas de part´ a ıculas s˜o criadas.

a massa de repouso do el´tron ´ de 500 mil ca e e eV).1 eV (para efeitos de compara¸˜o. .01 e 0.CAP´ ITULO 9 . Mas como para cada el´tron existem 600 milh˜es de neutrinos (neste exato e o momento vocˆ est´ sendo atravessado por trilh˜es deles!) uma pequena massa de e a o 0. Esta massa seria somente algo entre 0.1 eV seria suficiente para explicar uma boa parte da massa “invis´ ıvel” do Universo (a chamada mat´ria escura.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 479 aquele em que esta cren¸a foi por terra .e com ela o Modelo Padr˜o! Em junho deste c a ano. Essas descobertas recentes e e jogam nova luz e injetam novo animo na F´ ˆ ısica de Part´ ıculas. ou dark matter. pesquisadores americanos e japoneses apresentaram evidˆncias experimentais e de que neutrinos podem ter massa. em inglˆs).

o movimento de uma ameba. A hist´ria come¸a. mas como c pequenas cordas vibrantes. que est´ claramente em cone a traste com todas as teorias f´ ısicas at´ ent˜o formuladas em termos de e a part´ ıculas localizadas. os f´ c ısicos (pelo menos grande parte deles) seguem firmes na cren¸a de que um dia isso ser´ poss´ c a ıvel. O que se entende por uma teoria de tudo ´ uma teoria que aglutinasse e em um s´ princ´ o ıpio todas as for¸as da Natureza. ex-diretor do FERMILAB. Nesta pretens˜o. contudo. Como afirmou Leon c Lederman. quando Gabrielle Veneziano estudava a intera¸˜o ca forte entre h´drons produzidos em aceleradores. E preciso entender que tal teoria n˜o necessariamente a seria capaz de reproduzir ou prever detalhes experimentais de sistemas f´ ısicos particulares. Essa id´ia.480 9. contudo. com o trabalho principalmente de John Schwartz e Michael Green a id´ia de representar a mat´ria como core e . ıcio o c no final dos anos 60. Para explicar dados a experimentais. como por exemplo. A f´ ısica te´rica teria ent˜o chegado de fato ao seu objetivo supremo: uma o a ´ teoria de tudo. inicialmente n˜o chamou muito a aten¸˜o. esta unifica¸˜o deveria ser exca pressa por uma simples f´rmula matem´tica que vocˆ poderia usar na o a e sua camiseta! Indica¸˜es de que tal superteoria poderia ser de fato formulada co apareceram somente no in´ dos anos 80. Veneziano propˆs um modelo em que as part´ o ıculas n˜o a eram vistas como pequenos objetos localizados no espa¸o.8 Teorias de Tudo A despeito das enormes dificuldades em se formular uma teoria que unifique as for¸as da Natureza. A a ca partir dos anos 70. tudo o que existe seria derivado de um unico princ´ a ´ ıpio.

CAP´ ITULO 9 . Ou seja. A Theory of Everything?. mas de pequenas cordas que oscilam? Edward Witten (Instituto de Pesquisas Avan¸adas de Princeton) c . a part´ a ıcula mensageira do campo gravitacional. Brown Superstrings. Tal ´ a teoria e de supercordas (ou superstrings). Cada uma dessas maneiras pode ser vista como um tipo de part´ ıcula diferente. tudo no mundo passou a ser visto a a . ou algo assim? e John Schwartz (Professor de F´ ısica do Caltech) .C. a teoria chamou a aten¸˜o de ca grandes nomes da f´ ısica te´rica contemporˆnea.W. Controversa. Nesta teoria part´ ıculas s˜o represena ´ tadas pelos modos de vibra¸˜o dessas cordas. o gr´viton outro. ca e a Ent˜o n˜o devemos mais pensar no mundo como feito de part´ a a ıculas. O que seriam essas cordas? Devemos imaginar part´ ıculas como el´trons ou quarks como feitas de cordas que existem dentro delas? See riam an´is. principalmente por incluir o gr´viton. etc. compilados do livro de P. o a o Para terminar esse cap´ ıtulo (e o livro!) transcrevemos o depoimento de algumas figuras centrais envolvidas no problema. dividindo as opini˜es. Quando pensamos em part´ ıculas.Bem. eu expressaria isso um pouco de forma diferente. Davies e J.Certo. E como se cada part´ ca ıcula fosse uma “nota musical” em um instrumento de cordas. o el´tron ´ um modo normal e e de vibra¸˜o da corda. e ainda cheia de dificuldades conceituais. um quark ´ um outro.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 481 das vibrantes ganhou for¸a e se transformou no esquema de unifica¸˜o c ca mais promissor j´ alcan¸ado pelos f´ a c ısicos. Uma corda pode vibrar e oscilar de maneiras diferentes. devemos lembrar que desde o advento da mecˆnica quˆntica.

N˜o sabemos as previs˜es da teoria. esta “Teoria de Tudo”. que tenho obje¸˜es a esta terminologia que ´ frequentemente co e usada. a A teoria de supercordas se transformar´ em uma Teoria de Tudo? a Michael Green (Professor de F´ ısica. a o e n˜o sabemos nem mesmo as perguntas que devem ser feitas. um pouco “borrado”. Tea nho a impress˜o de que ao compreendermos a teoria de uma maneira a mais profunda.482 como um pouco incerto. vocˆ tem o u e direito de tentar.Deixe-me dizer que ´ porque entendemos t˜o pouco da estrutura e a da teoria.Em nosso campo temos o direito de fazer o que ´ o bem entendermos. Na teoria de cordas. Queen Mary College .Londres) . N˜o temos que temer nada.Prˆmio Nobel e de F´ ısica de 1965) . essas part´ ıculas “borradas” s˜o substitu´ a ıdas por pequenas cordas. Se vocˆ faz a hip´tese que tudo o e o pode ser incorporado em um n´ mero muito pequeno de leis. Vocˆ acha que temos o direito de supor que a Natureza ´ unificada e e que existem f´rmulas matem´ticas que podem conter toda a realidade? o a Richard Feynman (Professor de F´ ısica do Caltech . e portanto ´ infinitamente menor do que e um ´tomo. Acho que a denomina¸˜o “Teoria de Tudo” ´ neste momento ca e uma afirmativa de que ela pode vir a responder quest˜es importantes o em f´ ısica de part´ ıculas. e experimentos podem e . quest˜es ser˜o levantadas. E s´ uma hip´tese. Qual o tamanho dessas cordas? A corda que corresponde ao el´tron possui cerca de somente 10−33 e cent´ ımetros de comprimento. porque se algo sai errado a vocˆ simplesmente compara com experimentos. e provavelmente n˜o ter˜o reo a a a spostas.

mas o e ca em geral n˜o ´ uma quest˜o de estar certo ou errado. Quando eu era mais jovem. O que vocˆ n˜o gosta na teoria? e a Eles n˜o calculam nada. e resistiam de uma maneira ou de outra. N˜o existe perigo nisso. Vocˆ acha que a f´ e ısica te´rica est´ degenerando em filosofia? o a Pode ser que a f´ ısica te´rica esteja degenerando. e portanto eu serei tamb´m est´ pido em dizer que e u isso tudo n˜o tem sentido. Eles n˜o checam suas id´ias. Acho que estamos come¸ando a chegar ao final da linha c para a f´ ısica de part´culas. u e que n˜o foi capaz de aceitar a mecˆnica quˆntica. a a Um dos problemas acerca dos testes experimentais dessas id´ias ree centes. Se a Natureza a e a possui ou n˜o uma formula¸˜o ultima. Sei que outros homens foram est´pidos a ca u dizendo coisas assim.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 483 lhe dizer se vocˆ est´ certo ou n˜o. mas n˜o sei em que. pelo menos no que diz respeito aos aceleı radores. simples. Agora eu sou um a a a velho. unificada e bela. Por co . Costuram a a e explica¸˜es para qualquer coisa que discorde de experimentos.CAP´ ITULO 9 . e pareciam est´ pidas ao dizerem que certas id´ias estavam erradas . eu notava que v´rias pessoas mais velhas n˜o conseguiam entender id´ias a a e novas muito bem.como Einstein. Eu serei de fato muito est´ pido porque tea u nho a forte sensa¸˜o que isso tudo n˜o faz o menor sentido! N˜o posso ca a a fazer nada. o a Deixe-me dizer uma coisa primeiro. ´ uma a ca ´ e quest˜o em aberto que eu n˜o sei responder. Pode ser e a a a que haja perigo psicol´gico. e elas parecem malucas para mim. se vocˆ investir muito em uma dire¸˜o. mesmo sabendo o perigo que corro com este ponto de vista. e parea e cem que v˜o na dire¸˜o errada. ´ que a teoria sugere que a unifica¸˜o ocorre somente a energias e ca muito altas. e essas s˜o id´ias novas.

e n˜o o desejo de fazer a teoria concordar com a os experimentos. Estamos novamente atravessando outro daqueles momentos em que nossas id´ias sobre a Natureza encontraram seus limites. part´ ıculas elementares s˜o representadas por diferentes modos a de vibra¸˜o de cordas com comprimentos incrivelmente pequenos. e precisar˜o e a ser aprimoradas em todos os n´ ıveis: a n´ ıvel fundamental. e mesmo quando a gigantes da ciˆncia contemporˆnea se enfrentam. Chegamos ao fim do livro. da ordem de ca 10−33 cm . muito do que ´ dito e a e est´ baseado em uma cren¸a ´ a c ıntima e irredut´ ıvel.484 exemplo. mas porque n˜o 7? As equa¸˜es ´ que deveriam decidir quantas dimens˜es a co e o devem ser compactadas. Bem. As quest˜es acima mostram claramente o que na fronteira da F´ ısica n˜o existe certo ou errado. o Modelo Padr˜o para as part´ a ıculas elementares e suas intera¸˜es ter´ que ser alco a . a teoria requer 10 dimens˜es. Na teoria de cordas. Sim. isso ´ poss´ o e ıvel matematicamente. pode ser que seja poss´ o ıvel “enrolar” 6 dimens˜es.

no. 3. Antimat´ria. Alu´ Neves Fagundes. e ca precisar´ ser revista se confirmadas recentes observa¸˜es de que o Unia co verso acelera na medida em que se expande. ao contr´rio do que prevˆ a e esta teoria.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ 485 terado. A F´ ısica ´ uma deusa que se alimenta de novas id´ias e. e 1. As Surpresas da Intera¸˜o Luz e Mat´ria. 19. vol. 51. 9. O que ´ a M´quina Tokamak. . a Onde saber mais: deu na Ciˆncia Hoje. 7. vol. Carlos A. 9. p. e no neutrino. A Mat´ria Indivis´vel. no. Encontrada a Part´cula Z: Confirma-se a Teoria das Intera¸˜es Eletrofracas.CAP´ ITULO 9 . no. de Ara´jo e Jos´ R. a Acreditem. p. Feynman e a F´sica no Brasil. 9. Ronald Cintra Shellard. 8. vol. Rios ca e u e Leite. Finalmente. 16. e 3. Juan Alberto Mignaco e Ronald Cintra Shellard. 5. Morre Dirac. vol. o Big a ca o Bang. 74. como teria e e dito certa vez Max Plank. 5. vol. 7. p 54. 1. e 2. ou mesmo substitu´ se for comprovada a existˆncia de massa ıdo. e ı 3. vol. F´sica de Altas Energias: H´ Espa¸o para o Brasil?. as vezes novas id´ias s˜o aceitas n˜o porque ` e a a elas convencem a todos. Jos´ Leite Lopes. A Mat´ria Superaquecida e Supercomprimida. 4. ı co Ronald Cintra Shellard. Juan Alberto Mignaco. 5. mas porque aquelas pessoas que discordam ´ eventualmente envelhecem e morrem. no. 38. Cid B. 42. h´ muita poesia nisso. p. Guido Beck. ı e 6. A n´ intermedi´rio. p 9. o Pai da Antimat´ria. 33. aceita por d´cadas como “A Teoria” de forma¸˜o do Universo. no. 14. 2. e a ısio 8. 2. p. 72. vol. E atrav´s deste debate angustie ado e fascinante que os segredos da Natureza v˜o sendo desvendados. 72. no. no. vol. 27. ı a c vol. os modelos da mat´ria condensada ıvel a e s˜o esfacelados e v´rios fenˆmenos (como a supercondutividade a altas a a o temperaturas) n˜o possuem explica¸˜o satisfat´ria. Bertulani. . 26. p. p. e . no.

36. 34. 13. E. Natale e ı Marcelo M. 15. no. p.P. El´tron em Velocidade M´xima. Ramiro Muniz e Roberto Lobo. Ronald Cintra Shellard e S´rgio ı ı e L´o. 20. p. 34. Os Neutrinos Pesados. 23. 14. Gilvan Augusto Alves. A Assimetria do Universo: por que Existe mais Mat´ria do que Antie mat´ria?. 9. Do El´tron ao Quark Top. 9. p. 20. 25. 24. . 32. 22. 147. Victor O. Neutrinos: Part´culas Onipresentes e Misteriosas. Cesar Lattes.H. e a no. 19. no. 12. e 18. Bertuloni. e 13. no. 138. 17. 34. Leandro de Paula e Miriam Gandelman. Adriano A. no. no. vol. no. p. p. 3. 113. Energias Extremas no Universo. 8. ue no. vol. vol. Aldo Craievich e Daniel Ugarte. no. vol. Supercordas. vol. 22. vol. Jo˜o Carlos dos Anjos. no. p. A Origem dos Raios C´smicos: Finalmente uma Pista. 11. c˜ ı 38. a 11. Carlos A. 22. 24. em Busca da Teoria Final. vol. 48. Neutrino. p. 23. Adriano A. 20. vol. Moacyr e Henrique Gomes e Souza. 131. Micheline Nussenzvieg. Ronald Cintra Shellard. 73. Gil da Costa Maro ´ ques. p. vol. Natale. e e 19. Oscar J. p. 2. Ciˆncia e Sabedoria. p. Neutrinos Solares. vol. 16. p. 18. 24. no. p. p. Carlos Ourivio Escobar e Ronald Cintra Shellard. Neutrinos. 25. Alberto Santoro. A Massa do Neutrino e suas Conseq¨ˆncias. no. p. 21. p. Eboli e Ely Silva. p. Mod´stia. Rivelles. 19. p. e ı ı 132. 10. 46. no. Marcia Begalli e Maria Elena Pol. Novas Part´culas no Horizonte da F´sica. 25. 13. 52. vol. no. vol. vol. 151. 26. vol. 4. 22. Guzzo. 148. e ı 131. Shibuya. 9. 142. 108. 112. O El´tron Revela o Invis´vel. no. Radia¸ao de S´ncrotron. vol. 24. 46. 50. no. vol. M´son Pi: o In´cio da F´sica de Altas Energias. 10. 30.486 no.

uma unica intera¸˜o fundamental.como o p´ o e e ıon. Essas ca a part´ ıculas foram detectadas experimentalmente em 1983 pela equipe do italiano Carlo Rubbia. L´ptons e a e e s˜o part´ a ıculas leves. fraca e forte . as quatro intera¸˜es func co damentais . Cada part´ o ıcula ´ representada por um modo normal de vibra¸˜o e ca destas cordas.como a pr´tons e nˆutrons.Cap´ ıtulo Nove 487 Uma parte dos f´ ısicos te´ricos se dedica a tentar construir uma teoria o unificada das for¸as da Natureza. o magnetismo e a otica f´ ´ ısica. trabalhando no CERN. At´ agora as tentativas de e unifica¸˜o total falharam. O exemplo mais simples ´ o caso do f´ton. A detec¸˜o experimenca tal do p´ ıon nos raios c´smicos. e a da intera¸˜o forte e a ca o gl´ on. Acredita-se que ´ ca esta unifica¸˜o existiu durante os primeiros 10−43 s de vida do Universo. e o e e A part´ ıcula do campo gravitacional ´ o gr´viton. e podem ser observados e o separadamente. que ´ o mensageiro do campo eletromagn´tico. Esta teoria. e a sua produ¸˜o em laborat´rio teve a o ca o importante participa¸˜o do f´ ca ısico brasileiro Cesar Lattes. ao contr´rio. s´ existem em estado de confia o namento. Essas part´ ıculas se combinam para formar os h´drons . e Maxwell unificou a e eletricidade. Jos´ Leite Lopes. Nesta teoria os e ca objetos fundamentais da mat´ria n˜o s˜o part´ e a a ıculas. ca . Em tal teoria.gravitacional. a O sonho da unifica¸˜o permanece. possui v´rias dificuldades conceitua ais e tem recebido duras cr´ ıticas de importantes f´ ısicos contemporˆneos. Os objetos e co mais simples que formam a mat´ria s˜o os l´ptons e os quarks. teve importante participa¸˜o na chamada teoria eletrofraca. A f´ ısica de part´ ıculas estuda os constituintes fundamentais da mat´ria e suas intera¸˜es.O SONHO DA UNIFICACAO ¸˜ Resumo . contudo.derivariam de e um unico princ´ ´ ıpio. como o el´tron e o p´sitron. A teoria de supercordas apareceu durante a ca d´cada de 70 como um esquema promissor de unifica¸˜o. no momento. As intera¸˜es co entre objetos materiais se d˜o via part´ a ıculas de campo. eletromagn´tica. a Newton unificou a ‘f´ ısica do C´u’ com a da Terra. Id´ias de unifica¸˜o de a c c e ca fenˆmenos aparentemente diferentes j´ foram realizadas na f´ o a ısica cl´ssica. As part´ ca ıculas de campo da intera¸˜o eletrofraca s˜o chamadas W + . As intera¸˜es eletromagn´tica e fraca foram unificadas por u co e Glashow. e os m´sons . Salam e Weinberg. W − e Z 0 . com comprimentos infinitamente menores do que o diˆmetro de um a pr´ton. Os quarks.CAP´ ITULO 9 . em suspense. ca quando ent˜o as for¸as come¸aram a se separar. f´ e ısico brasileiro. mas pequenas cordas.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful