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[Economia/Artesanato

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T APETE DE ARRAIOLOS OU T APETE DO TIPO ARRAIOLOS.
SABE QUAL É A DIFERENÇA?
Texto Ângela Mendes Fotografia Aminah Nunes

Talvez não saiba, mas a produção de tapetes do tipo Arraiolos não é exclusiva da típica vila alentejana. Impulsionada pela expansão portuguesa no mundo, lugares tão distantes como o Brasil têm grandes comunidades de tapeteiras, e até mesmo no norte da Europa há seguidores deste tipo de artesanato. Mais recentemente, e em consequência da abertura do mercado europeu à Republica Popular da China, o mercado foi inundado por um sem número de tapetes que podem ser confundidos com os tapetes feitos em Arraiolos. Resultado? A crise instalou-se entre as tapeteiras, tornando-se urgente regulamentar o sector antes que deixem de ser manufacturados os verdadeiros tapetes na região.

1 Tapeteira dobra-se sobre a tela cozendo um tapete que levará aproximadamente seis meses a concluir. 2 Meadas de lã de cores que tradicionalmente fazem parte dos padrões dos tapetes de Arraiolos.

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Há aproximadamente duas décadas, cerca de 90% da população feminina da região de Arraiolos dedicava a sua vida a cozer tapetes. Sentadas em pequenas cadeiras de madeira, dobravam-se durante horas a fio sobre a tela, que se ia preenchendo de cores conforme o padrão escolhido. Esta é uma empreitada lenta. Uma tapeteira, considerada média, cose à volta de um metro e meio quadrado por mês. Por exemplo, uma carpete de sala com dois metros por três (seis metros quadrados) levará, em média, quatro meses a concluir.

faixas etárias. Apesar de mal pago, a produção caseira desde sempre se apresentou como um complemento ao orçamento das famílias. Para as idosas, era um complemento das parcas reformas, para as jovens mães uma possibilidade de trabalhar em casa e olhar pelos seus filhos ao mesmo tempo, e até para as jovens uma maneira de rentabilizar as férias e os tempos livres, o que lhes permitia avançar nos estudos. A base da economia local foi-se perdendo e com o tempo, a perda dos postos de trabalho será agravada também pela perda de

daria 240€ por metro quadrado. Se for vendido a menos de 240€, ou estão a fugir aos impostos ou estão a perder a sua margem de lucro. Mesmo tendo em atenção os clientes e o momento de crise que vivemos, os preços nunca se podem afastar dessa quantia. A não ser que estejamos a enganar o cliente, comprando “tapetinhos” estrangeiros e vendendo-os como se fossem de Arraiolos”.

“O T apete de Arraiolos é um produto manufacturado de alto valor, apesar de as tapeteiras ganharem mal e de o preço pago por metro quadrado praticamente não ter evoluído nos últimos 15 anos.”
Com a proliferação da venda de Tapetes do Tipo Arraiolos a preços abaixo do custo, as tapeteiras foram perdendo o trabalho, já que deixaram de ser apelativas para os agentes económicos. Segundo Avelino Pé-Leve, “muitas estão nos POC’s das Câmaras seis meses, e vão de novo para o desemprego. Estariam melhor se estivessem a coser tapetes, e gostariam de o fazer, mas os agentes económicos não as deixam. Não lhes dão trabalho. È mais fácil comprar os tapetes já feitos. Até fiscalmente é tudo muito melhor e não precisam de ter pessoas para preparar o trabalho e passar aquela fase difícil de fazer os “quartos”, que são os desenhos e todo o restante processo. É um enorme trabalho do início ao fim. É mais fácil comprá-los já feitos por uma “bagatela” e vendê-los dizendo que são de Arraiolos. A realidade é esta, custa-me dizer isto”. A FALTA DE CERTIFICAÇÃO E O DECLÍNIO DO SECTOR Em 2002, um deputado do PCP, Joaquim Miranda, debruçou-se sobre esta matéria e apresentou na Assembleia da República um proposta de Lei com vista à certificação dos tapetes produzidos em Arraiolos, lei essa que foi rejeitada. “A Lei só protegia os produtores aqui da região. E existem em Lisboa e Porto grandes empresas a lidar com os tapetes de Arraiolos, apesar de não serem cá feitos, que não beneficiavam com esta lei. O que é certo, é que têm um grande peso e a lei não passou”, esclarece o presidente do CATA. Mais tarde, o PS voltou a pegar na lei, reformulando a proposta para fazer com que esta tivesse uma abrangência a nível nacional, o que levou à aprovação por unanimidade por parte de todos os partidos. “A lei inicialmente

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Hoje em dia, o sector diminuiu drasticamente, segundo Avelino Pé-Leve, Presidente do Centro de Apoio às Tapeteiras de Arraiolos (CATA): “Há 20 anos atrás, mais ou menos 90% do sector feminino fazia tapetes e vivia deles, era um posto de trabalho normal. Os outros 10% laboravam aqui e ali noutros trabalhos, mas hoje em dia acontece o contrário. Haverá talvez 10% a viver dos tapetes e o resto a fazer outros trabalhos. Muitas nem estão empregadas, e as outras estão empregadas temporariamente numa situação precária”.

conhecimento. Desde cedo que as jovens aprendiam com as suas mães a coser os tapetes. Se estes deixarem de fazer parte do quotidiano das suas casas, a arte acabará por cair no esquecimento. A ABERTURA DE MERCADOS E A CRISE COMERCIAL A entrada de Portugal na União Europeia abriu caminho à entrada de mercadorias vindas do exterior. Isso permitiu a chegada a Arraiolos de tapetes produzidos noutras partes do mundo, onde a mão-de-obra é mais barata, como é o exemplo da China ou do Brasil. Estes produtos começaram a invadir o mercado silenciosamente, impondo-se pelo preço e muitas vezes sendo vendidos como obras produzidas na região. OT apete de Arraiolos é um produto manufacturado de alto valor, apesar de as tapeteiras ganharem mal e de o preço pago por metro quadrado praticamente não ter evoluído nos últimos 15 anos. O metro quadrado, segundo Avelino Pé-Leve, “deveria vender-se a 200€+IV o que A,

“Esta é uma empreitada lenta. Uma tapeteira, considerada média, cose à volta de um metro e meio quadrado por mês. Por exemplo, uma carpete de sala com dois metros por três (seis metros quadrados) levará, em média, quatro meses a concluir.”
Numa região onde o emprego é um bem escasso, o declínio do sector afectou todas as

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pretendia proteger a região de Arraiolos, mas rectificaram-na e aprovaram-na assim: o centro é em Arraiolos, mas podem abrir delegações em qualquer parte do País. Com esta alteração, a lei foi aprovada por todos. Mas esse é o fundamento que, para mim e para as pessoas de cá, derrota tudo”. Apesar de ter sido aprovada, a lei continua por aplicar. No entanto, e na opinião do Presidente da Direcção do CA A, é preferível que assim seja. T “Imaginemos que a lei já está em funcionamento. Quando abrir uma delegação em Lisboa e no Porto, é razão suficiente para as pessoas daquela região já não comprarem os tapetes em Arraiolos. Já podem comprar na sua zona um tapete certificado, que tem garantias de seguro ou garantias de heranças. Com essas condições todas, virão a Arraiolos fazer o quê?”. Com este cenário, o sector do turismo é também seriamente afectado. “O que estava aqui em questão, era arranjar uma maneira das pessoas virem comprar a Arraiolos, o que seria positivo para esta região se desenvolver”, sublinha Avelino Pé-Leve. A SOLUÇÃO EXISTE, APENAS NÃO É ACEITE POR TODOS. Para Avelino Pé-Leve, o problema da contrafacção dos tapetes e da importação do estrangeiro tem uma solução fácil e económica: a certificação. “A solução passa por haver qualquer coisa que diferencie os tapetes feitos em Arraiolos dos feitos na China ou no Brasil, e até mesmo, dos

feitos noutros pontos do país. O cliente precisa de saber que está de facto a comprar um tapete, que é feito ali naquela zona e com as técnicas tradicionais.” Com esta ideia em mente é formado o CATA – Centro de Apoio às Tapeteiras de Arraiolos – uma associação sem fins lucrativos. Esta associação criou um certificado que garante esta distinção. “Cada tapete tem uma certificação própria, e o que é importante, o nome da tapeteira que o fez ou das tapeteiras. Se existirem duvidas, é possível verificar quem fez o tapete e ter a certeza que correspondem aos critérios de certificação“.

COMO IDENTIFICAR UM TAPETE DE ARRAIOLOS Tenha em atenção as franjas: num tapete genuíno, as cores usadas no debruado das franjas são as três cores dominantes do padrão do Tapete. Um Tapete de Arraiolos é feito com lã de alta qualidade e por isso pesada. Ao deixar-se cair no chão, o tapete não se dobra, fará antes uma espécie de onda, uma vez que é produzido com material de alta densidade. Tenha em atenção o factor preço/ qualidade. Um tapete, vendido abaixo dos preços mencionados acima, apresenta uma grande probabilidade de não ser produzido em Arraiolos. Se quiser ter a certeza do que está a comprar, procure um produto certificado pelo CATA.

“A solução passa por haver qualquer coisa que diferencie os tapetes feitos em Arraiolos dos feitos na China ou no Brasil, e até mesmo, dos feitos noutros pontos do país. O cliente precisa de saber que está de facto a comprar um tapete, que é feito ali naquela zona e com as técnicas tradicionais.”
Esta solução aparece como uma alternativa à lei que demora a entrar em vigor e principalmente como medida de protecção do trabalho das tapeteiras e dos clientes, que desta forma podem ter a certeza do que estão a comprar. No entanto, esta medida tem sido difícil de aplicar, uma vez que encontrou a resistência dos agentes económicos e, principalmente, a dificuldade que é mobilizar as tapeteiras da Região. “Para proteger as tapeteiras, o CATA tem

3 Padrão típico de um tapete de Arraiolos. Os tapetes de Arraiolos são constituídos por “quartos” e o padrão é tradicionalmente simétrico.

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vários tipos de sócios, singulares, empresas e tem as sócias tapeteiras. Mas estamos a passar por uma grande crise. As outras duas associações acabaram por fechar portas e muitos ficaram na defensiva e não se colabora”. “È difícil encontrar um consenso”, esclarece Avelino Pé-Leve, acrescentando ainda que “o Certificado pretende proteger as tapeteiras da região. O que acontece, é que há poucas pessoas activas a cozer tapetes, logo certificam-se poucos tapetes. Os tapetes à venda em Arraiolos feitos cá são poucos. Se 10% do sector é que pode estar a trabalhar, os outros 90% não têm trabalho...”.

A proliferação do certificado do CATA não evitaria a venda de tapetes produzidos no exterior, mas permitiria ao cliente fazer uma escolha consciente entre comprar mais barato ou comprar um produto original. O que falta então para que a certificação do CATA se generalize? Segundo Avelino Pé-Leve, basta que os interesses partidários deixem de estar acima dos interesses locais. Com a aprovação expressa de todos os partidos à Lei 7/2002, apesar desta ainda não estar em vigor, o poder local deixou de poder tomar medidas proteccionistas contra esta “nacionalização”

de um produto tradicionalmente produzido em Arraiolos. “Politicamente funciona assim, há uma lei e ela é defendida, mas depois nem isso acontece. E se nem isso acontece, há que apoiar uma organização local, regional, que atinja o mesmo fim”. Apesar do apoio logístico atribuído ao CATA pela Câmara Municipal, fica por fazer, na opinião do Presidente da Associação, um trabalho de fundo capaz de projectar a imagem dos Tapetes de Arraiolos e principalmente de os proteger de agentes económicos, que tendo em vista o lucro fácil, destroem a economia basilar de uma região. [P]

CERTIFICADO DE ORIGEM E SELO DE CONTROLO Promovido pelo CATA, este Certificado é uma prova de autenticidade do Tapete de Arraiolos. Para que um tapete possa ser acompanhado deste documento, terá de passar um processo de avaliação que comprova as características e a origem do mesmo. Os critérios utilizados para esta avaliação, centram-se no emprego das técnicas tradicionais utilizadas pela tapeteira e também pela comprovação da naturalidade e residência da mesma. Só é dado o privilégio de certificação às tapeteiras que pertençam a freguesias num raio de aproximadamente 3.5 kms da Vila de Arraiolos.

O CERTIFICADO DE ORIGEM É UM DOCUMENTO NUMERADO E INCLUI A SEGUINTE INFORMAÇÃO: - As características do Tapete, Painel, ou outro; - O nome da (s) Tapeteira (s) e assinatura (s) desta (s) ou de um parente, em caso de falecimento; - A assinatura/Selo Branco do CA A - Centro T de Apoio às Tapeteiras de Arraiolos. O Selo de Controlo é afixado por detrás de um dos cantos do tapete e terá a numeração igual à do respectivo Certificado de Origem, servindo para evitar as imitações de Tapetes Certificados em nome do CATA.

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