1

Eduardo José Fagundes Barreto
João Tavares Pinho
Geraldo Lúcio Tiago
Gonçalo Rendeiro
Manoel Nogueira
Wilma de Araújo Gonzalez
Tecnologias de Energias Renováveis
Soluções Energéticas para a Amazônia
Sistemas Híbridos
Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
1ª Edição
Brasília
Ministério de Minas e Energia
2008
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2
Ministro de Minas e Energia
Edison Lobão
Secretário Executivo
Márcio Zimmermann
Secretário de Energia
Josias Matos de Araújo
Diretor do Programa Luz para Todos
Hélio Morito Shinoda
Diretor Nacional do Projeto pnud bra 99/011
Programa de Erradicação da Exclusão da Energia Elétrica
Jeová Silva Andrade
Coordenador da Região Norte
Aurélio Pavão de Farias
Coordenador de Universalização
Manoel Soares Dutra Neto
Coordenação Técnica
Eduardo José Fagundes Barreto
Assessoria de Comunicação do Programa Luz para Todos
Lucia Mitico Seo
Jose Renato Penna Esteves
Unidade e Gestão de Projetos – Projeto pnud bra 99/011
Antonio João da Silva – Coordenador Técnico
Eder Júlio Ferreira
Manoel Antonio do Prado
Novembro, 2008
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3
Tecnologias de Energias Renováveis
Soluções Energéticas para a Amazônia
Coordenador Geral:
Eduardo José Fagundes Barreto
Autores:
Eduardo José Fagundes Barreto
João Tavares Pinho
Geraldo Lúcio Tiago
Gonçalo Rendeiro
Manoel Nogueira
Wilma de Araújo Gonzalez
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4
Ideorama Design e Comunicação Ltda.
www.ideorama.com.br
Projeto Gráfco e Diagramação
Sílvio Spannenberg
Aline Weirich de Paula
Carolina Farion
Gustavo Aguiar
Capa
Sílvio Spannenberg
Revisão de Textos
Alexandre Gonçalves
Bárbara Fernandes
Produção Gráfca
Rafael Milani Medeiros
Dados internacionais de catalogação na publicação
Bibliotecária responsável: Mara Rejane Vicente Teixeira
Tecnologias de energias renováveis : sistemas híbridos, pequenos aproveitamentos
hidroelétricos, combustão e gasifcação de biomassa sólida, biodiesel e óleo vegetal in
natura / Eduardo José Fagundes Barreto … [et al.].
Brasília : Ministério de Minas e Energia, 2008.
156 p. : il. ; 21 × 30cm. – ( Soluções energéticas para a Amazônia )
isbn 978-85-98341-06-4
Inclui bibliografa.
1. Energia – Fontes alternativas – Brasil. 2. Recursos energéticos – Brasil.
I. Barreto, Eduardo José Fagundes. II. Brasil. Ministério das Minas e Energia. III. Série.
cdd ( 22ª ed.) 333.79
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Sumário
Apresentação .................................................................................................. 9
Prefácio .......................................................................................................... 11
1 Sistemas Híbridos ........................................................................................ 16
Conceitos Básicos ................................................................................................17
Energia Solar Fotovoltaica ...................................................................................18
Energia Eólica .....................................................................................................23
Grupos Geradores ...............................................................................................25
Sistema de Armazenamento ................................................................................26
Sistema de Condicionamento de Potência ............................................................28
Sistemas Híbridos ...............................................................................................29
Projeto de Sistemas Híbridos ...............................................................................31
Instalação de Sistemas Híbridos ..........................................................................32
Operação e Manutenção de Sistemas Híbridos .....................................................33
Segurança em Sistemas Híbridos .........................................................................33
Análise Econômica Aplicada a Sistemas Híbridos ..................................................34
Sistemas Instalados e Experiências Adquiridas na Amazônia .................................35
Modelos de Gestão e Regulação...........................................................................37
2 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos ................................................... 40
Introdução ..........................................................................................................41
Distribuição da população na Amazônia Legal ......................................................41
O atendimento de eletricidade às comunidades isoladas .......................................42
O atendimento às comunidades isoladas ..............................................................43
As µCH e mCH ....................................................................................................49
O estado da arte das µCH e mCH .........................................................................50
Turbinas Hidráulicas ................................................................................................. 50
Turbinas Convencionais.................................................................................................52
Turbinas não convencionais ..........................................................................................53
Geradores ................................................................................................................. 57
Reguladores de Velocidade e Sistemas de Controle e Automação ......................... 58
Barragens .................................................................................................................. 59
Barragens móveis ...........................................................................................................60
Alguns projetos de μCH desenvolvidos na região amazônica .................................62
Projeto µCH Canaã ................................................................................................... 62
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6
Projeto Cachoeira do Aruã ....................................................................................... 64
Projeto µCH Novo Plano ........................................................................................... 65
Projeto µCH Jatoarana .............................................................................................. 66
Modelos de gestão para unidades de geração em comunidades isoladas ................67
Comentários fnais ..............................................................................................68
Agradecimentos ............................................................................................................69
3 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida ................................................. 70
Caracterização da Geração na Amazônia ..............................................................71
Princípios para Uso de Biomassa como Combustível .............................................72
Conversão Energética da Biomassa .......................................................................... 72
Reagentes com misturas ricas e pobres – Razão de Equivalência ........................... 74
Calor de Reação e Poder Calorífco .......................................................................... 74
Combustão dos Líquidos e Sólidos .......................................................................... 75
Caracterização da Biomassa para Fins Energéticos................................................76
Determinação do Poder Calorífco Superior (pcs) e Poder Calorífco Inferior
(pci) e Análise Elementar ........................................................................................ 76
Análise Imediata, Teor de Voláteis, Umidade, Carbono Fixo, Cinza; Descrição
dos Métodos ............................................................................................................. 77
Caracterização Energética de Algumas Espécies Amazônicas ................................ 77
Pré-tratamento da biomassa ................................................................................78
Secagem .................................................................................................................... 78
Torrefação de Biomassa ............................................................................................ 78
Briquetes ................................................................................................................... 78
Péletes ....................................................................................................................... 79
Trituração .................................................................................................................. 79
Processos de Conversão Energética da Biomassa ..................................................79
Ciclos a Vapor ........................................................................................................... 79
Consumo de Biomassa de uma Planta a Vapor..........................................................80
Central com Gasifcação ........................................................................................... 81
Características da Biomassa para Uso num Gasifcador de Extração por Baixo
(Downdraft) ....................................................................................................................81
Sistema de Limpeza .......................................................................................................82
Especifcação de uma Planta de Potência ..............................................................82
Localização e Quantifcação da Biomassa ................................................................ 82
Dimensionamento da Carga a Ser Atendida pela Planta ......................................... 83
Curva de Carga ...............................................................................................................84
Procedimento de Cálculo de Carga .............................................................................84
Pré-dimensionamento de uma central a vapor ....................................................... 84
Impactos Ambientais e Formas de Mitigação ........................................................85
Métodos e Modelos para Avaliação dos Impactos Ambientais ............................... 85
Avaliação dos Impactos de uma Usina Termoelétrica a Biomassa .......................... 86
Impacto no Ciclo de Carbono – Emissões Evitadas .................................................. 86
Viabilidade Econômica ........................................................................................86
Os Métodos ............................................................................................................... 87
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7
Conclusão sobre a viabilidade Econômica do Projeto ...............................................89
Métodos Determinísticos ............................................................................................87
Métodos não Determinísticos .....................................................................................88
Resultados Concretos ..........................................................................................89
Centrais Térmicas a Vapor ........................................................................................ 89
Concepção do Projeto ...................................................................................................90
Gestão .............................................................................................................................91
Localização do Projeto Marajó .....................................................................................89
Centrais Térmicas a Gasifcação ............................................................................... 91
Localização do Projeto Genipaúba ..............................................................................91
Resultados .......................................................................................................................92
Sustentabilidade.............................................................................................................91
Computacional ....................................................................................................94
Software CicloRank v1.0 .......................................................................................... 94
Software ComGás v1.0 ............................................................................................. 94
4 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura ............................................................... 96
Alternativas Renováveis de Energia a Partir da Biomassa: Soluções Energéticas
para a Amazônia ............................................................................................... 97
Biodiesel no Brasil ..............................................................................................100
ime: Pesquisas de Ponta na Área de Produção de Biocombustíveis ........................104
Prospecção de Processos ......................................................................................... 105
Análise do óleo vegetal ............................................................................................ 106
Pré-tratamento do óleo ........................................................................................... 107
Degomagem e neutralização do óleo vegetal bruto com fuxo de ar ...................... 108
Acidez do óleo de dendê ........................................................................................... 108
Produção de biodiesel .............................................................................................. 110
Reação de transesterifcação – rota etílica – Catálise Homogênea ........................ 110
Escala Bancada ..............................................................................................................110
Lavagem ..........................................................................................................................112
Secagem do biodiesel ....................................................................................................112
Reação de transesterifcação – rota etílica – Catálise Heterogênea ....................... 112
Escala Bancada ..............................................................................................................112
Reação de transesterifcação – Aumento de escala .................................................113
Usina piloto de biodiesel ..............................................................................................114
Óleo Vegetal in Natura em Motores de Combustão Interna .................................. 116
Introdução ..........................................................................................................116
Uso de Óleo Vegetal in Natura em Motores ............................................................ 117
Propriedades Físico-Químicas dos Óleos Vegetais que Infuenciam o
Funcionamento dos Motores Diesel ......................................................................... 118
Propriedades que Infuenciam a Quantidade de Energia Gerada ........................... 119
Kit de Conversão ............................................................................................................120
Motor Elsbett .................................................................................................................120
Motores com pré-câmara de combustão ....................................................................120
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8
Desempenho do Grupo Gerador MWM D225-4 e Multi Fuel 4RTA-G da MAS com
óleo de dendê in natura .......................................................................................121
Motor Veicular – Cristalização do óleo de dendê in natura .................................... 122
Uso do óleo de dendê refnado – oleína .................................................................. 123
Desempenho do Grupo Gerador MWM D229-6 com óleo de dendê in natura ....... 123
Experiências de Eletrifcação Rural Utilizando Óleo Vegetal como Combustível –
Projetos implantados na Amazônia .......................................................................... 123
Conclusão ...........................................................................................................124
Referências Bibliográfcas ................................................................................. 126
Sistemas Híbridos ..................................................................................................... 126
Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos ............................................................. 135
Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida ......................................................... 139
Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura .......................................................................... 141
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9
Apresentação
O Programa Luz para Todos, maior programa de eletrifcação rural já feito no Brasil, já realizou,
desde a sua criação em novembro de 2003, até outubro de 2008, mais de um milhão e oitocentas
mil ligações domiciliares em todo o País, correspondendo a mais de nove milhões de benefciados
na zona rural brasileira. Essas ligações foram realizadas essencialmente por extensão de rede
convencional.
Na Região Amazônica, as longas distâncias, os obstáculos naturais, as difculdades de acesso
e a baixa densidade populacional difcultam o atendimento de grande parte da população pelo
sistema convencional de distribuição. Por outro lado, o atendimento alternativo, com sistemas
térmicos a diesel, muito utilizados na Região, apresenta custos elevados associados à operação
e manutenção e à logística de distribuição do combustível.
Para vencer as difculdades de eletrifcar as comunidades rurais isoladas da Amazônia, o
Ministério de Minas e Energia – mme promoveu, no âmbito do Programa Luz para Todos, com
o apoio de recursos fnanceiros não reembolsáveis do Fundo Multilateral de Investimentos do
Banco Interamericano de Desenvolvimento – fumin/bid, uma série de atividades destinadas ao
desenvolvimento e implantação de projetos de geração de energia elétrica de pequeno porte e a
capacitação de profssionais, principalmente das concessionárias da Região, para a implantação
de soluções energéticas alternativas a partir de fontes renováveis de energia.
Entre essas atividades se destaca a produção da presente coleção, denominada Soluções
Energéticas para a Amazônia, constituída de 5 volumes, que abordam as seguintes tecnologias de
geração de energia renovável: i) Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos; ii) Sistemas Híbridos; iii)
Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura; iv) Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida; v) uma versão
resumida de todas as tecnologias descritas anteriormente, intitulada Tecnologias de Energias
Renováveis.
O uso dessas tecnologias a partir de recursos locais disponíveis na Amazônia, principalmente
a biomassa e os pequenos aproveitamentos hidroelétricos, tem sido pouco considerado por um
conjunto de questões relacionadas à cultura das concessionárias, sedimentada na extensão de
rede elétrica, ou à falta de informação quanto à viabilidade técnica e econômica das tecnologias
relacionadas a esses potenciais. As iniciativas para viabilizar o uso dessas alternativas, no hori-
zonte de médio e longo prazos, requerem ações imediatas.
Entretanto, soluções energéticas alternativas para a Amazônia devem ser buscadas, não para
substituir o atendimento convencional, mas principalmente como complemento, pelo menos até
o tempo em que a maturidade tecnológica se revele para as concessionárias da Região. Além da
energia, essa geração apresenta grandes perspectivas para a renda local, com o aproveitamento
de recursos da região, a fm de diversifcar a matriz energética e também reduzir os custos de
transporte de combustíveis.
Soluções energéticas estruturadas a partir da disponibilidade local de energia primária podem
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ser uma alternativa viável e sustentável para eletrifcar essas áreas. Para isso, este Ministério
tem trabalhado em diversas frentes, desde a realização de projetos-piloto com tecnologias reno-
váveis para o atendimento de comunidades da Região Amazônica, até a realização de cursos de
capacitação em tecnologias renováveis, apropriadas para a Região, para as concessionárias e
outros interessados.
Assim, essa iniciativa do mme, de difundir o conhecimento sobre tecnologias de geração de
energia alternativas para atendimento de comunidades isoladas, busca construir o alargamento
de opções para o futuro, prestigiando o conhecimento das opções locais. É outro enfoque, com-
plementar às soluções concretas posta em marcha pelo Programa luz para todos – LpT.
Ministério de Minas e Energia
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Prefácio
A Amazônia é um desafo desde que foi descoberta pela civilização européia. Primeiramente
sob o domínio da coroa espanhola, assenhoreada de quase toda Hylea pelo Tratado de Tordesi-
lhas, foi conquistada, ao longo dos séculos xvi a xviii, em mais uma das memoráveis epopéias
portuguesas. Fato registrado, sob protesto, pelo padre jesuíta Samuel Fritz, alemão, missionário
da Igreja espanhola na América, que em sua saga pelo Amazonas, desde a província de Quito a
Belém do Pará, buscou proteger as missões espanholas que se estendiam até as barras do Rio
Negro. Reclamou os direitos da igreja e coroa espanhola junto ao governador do Maranhão e
Grão-Pará, contra os excessos dos portugueses, “que como verdaderos piratas de los rios que
pertencian ao domínio de Castilha, llevabán cautivos y hacian esclavos á cuantos índios encon-
traban...”
1
. Em sua viagem cartografou o grande rio e seus tributários, mapa de grande valor,
primeiramente reproduzido pelos ingleses
2
.
Paul Marcoy
3
, viajante francês, em famoso périplo pelo Amazonas em meados do século XIX,
ao dar com a aparência triste e desolada das cidades ribeirinhas abandonadas, e com o impacto
do colonizador sobre o nativo e a natureza, opina que as conquistas portuguesas e espanholas
lançaram nos países subjugados e nos seus povoados os germes da destruição e não as semen-
tes da vida. Mais, nas suas palavras: que “a regeneração desse belo país é tarefa acima das suas
forças e que um futuro virá na forma de uma migração européia, abundante de gênio e vigor
natural”.
Esqueceu-se Marcoy que Espanha e Portugal são parte do gênio e vigor natural do Velho
Continente?
Euclides da Cunha viajou pelo Purus e outros rios importantes da planície Amazônia; legou-nos
brilhantes relatos
4
do que viu e do que sentiu. Contradizendo Marcoy, desfa vigorosa e poética
narrativa sobre a migração nordestina para os confns do Acre, designando-a como uma seleção
natural invertida, na qual todos os fracos, todos os inúteis, todos os doentes e todos os sacrif-
cados, eram expedidos a esmo, como o rebotalho das gentes, impelidos pelas grandes secas de
1879–1880, 1889–1890, 1900–1901, para ocupar a vastíssima, despovoada, quase ignota Amazônia,
o que equivalia a expatriá-los dentro da própria pátria. A intervenção governamental se resumia
à tarefa expurgatória para livrar os grandes centros urbanos. Segundo ele, “os banidos levavam a
missão dolorosíssima e única de desaparecerem. E não desapareceram. Ao contrário, em menos
1 O diário do Padre Samuel Fritz, organizado por Renan Freitas Pinto. Editora da Universidade do Amazonas. Manaus, 2006
2 A frota espanhola que, entre outras coisas, levava o mapa para a Espanha, foi atacada e aprisionada por navios ingleses
em 1708. Rodolfo Garcia. Introdução. O diário do Padre Samuel Fritz, organizado por Renan Freitas Pinto. Editora da
Universidade do Amazonas. Manaus, 2006
3 Viagem pelo Rio Amazonas. Editora da Universidade Federal do Amazonas. Manaus, 2006.
4 Um Clima Caluniado, in Amazônia – Um Paraíso Perdido. Editora Valer Universidade Federal do Amazonas. Manaus, 2003.
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12
de trinta anos, o Estado que era uma vaga expressão geográfca, um deserto empantanado, a
estirar-se, sem lindes, para sudoeste, defniu-se de chofre, avantajando-se aos primeiros pontos
do nosso desenvolvimento econômico.”
Fazendo coro a Euclides da Cunha podemos então dizer que conquistamos a Amazônia, e da
forma mais surpreendentemente possível, talvez sem precedentes na história da humanidade.
Demos seguimento à saga portuguesa.
Desses tempos para cá muitas coisas aconteceram e muitos conhecimentos foram aos poucos
revelados: a importância da foresta para o equilíbrio climático do planeta hoje é incontestável;
a riqueza dos produtos da foresta abre um sem-número de oportunidades; inegável o valor
ecológico e econômico da Hylea, que desperta cobiças globais.
A planície amazônica – toda a bacia do Solimões com seus mais importantes afuentes Purus,
Javari, Juruá, e parte do Amazonas com seus tributários – permanece ainda pouco tocada, com
exceção das grandes cidades, principalmente Manaus. A expansão do capitalismo para a fronteira
amazônica transfgurou a região, hoje conhecida como o Arco do Desmatamento. Revelam-se,
portanto, duas Amazônias: de um lado, a urbana, igual a qualquer grande centro do Sul-Sudeste,
e a rural do capital, produtora de excedentes; de outro lado, a rural, tradicional, de subsistência,
oriunda daquela ocupação relatada por Euclides da Cunha, ainda detentora de conhecimentos
herdados dos nativos, isolada da civilização e ainda teimosamente sobrevivente. É sobre esses
últimos que devemos voltar nossos esforços. A Amazônia que nos espera, portanto, é talvez
mais complexa. Nossa missão é preservá-la, explorando-a com toda a inteligência legada pela
civilização. A primeira tarefa é oferecer dignidade àqueles que a dominaram: minimizar seus
sofrimentos e assegurar uma vida com o melhor da civilização: educação e saúde públicas de
boa qualidade. A eletrifcação dessas comunidades rurais isoladas é fundamental para trazer
suas populações para a contemporaneidade do mundo, e esse é o papel desempenhado pelo
Programa Luz para Todos.
Nesse ponto devemos admitir que toda nossa rica cultura de prestação de serviços de energia,
baseada na extensão da rede convencional do sistema interligado e todas as regras impostas pela
legislação para garantir a qualidade do serviço e o equilíbrio econômico fnanceiro da concessão,
podem não servir para a Amazônia isolada.
De igual modo, o atendimento convencional realizado com sistemas térmicos a diesel não
é conveniente, seja pela sinalização dada de contradizer, em plena Amazônia, a consciência
universal de restrição ao uso de combustíveis fósseis, seja pela cristalização de interesses, cada
vez mais difíceis de serem demovidos. Sem mencionar os custos econômicos e os problemas
logísticos dessa alternativa.
A imensidão do território e a sua descontinuidade imposta pelos rios, igapós, igarapés, forestas
e outros acidentes geográfcos e o tempo, que se conta em dias, não em horas, exigirá a quebra
de paradigmas no setor elétrico: a descentralização do serviço. A grandeza do território deverá
ser enfrentada de forma fragmentada, aproveitando as disponibilidades locais e diversifcada de
energéticos. A resposta mais adequada poderá ser o uso de tecnologias renováveis adaptáveis às
condições locais: pequenos aproveitamentos hidroelétricos, energia solar, resíduos de biomassa
sólida para caldeiras e turbinas a vapor, produção de óleo vegetal in natura, biodiesel e etanol
para uso motores de combustão interna.
Todavia, a resposta tecnológica atende apenas a um lado do problema. O outro, bem mais
complexo, se refere ao uso da energia e à gestão de cada unidade de geração descentralizada.
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Novamente nos deparamos com a necessidade de um modelo que aparentemente contradita
com o regime de concessão dos serviços públicos. Esta necessita de escala, simplicidade e
uniformidade das suas operações, que são fundamentais para manter suas tarifas em um nível
suportável pelos seus usuários.
Talvez a resposta para esse desafo possa ser encontrada num programa complementar de
estímulo à cooperação nessas comunidades. Difícil, mas não impossível. O uso produtivo da energia
poderá estar associado à formas de gestão que possa vir a facilitar o serviço da concessionária
nessas áreas remotas. Apoiar vigorosamente o benefciamento de espécies da Região que pode
assentar frmemente o homem, principalmente os mais jovens, nas áreas rurais, ajudando a conter
a migração para os grandes centros, talvez até mesmo inverter o processo migratório.
Contudo, todas essas conjecturas podem de nada valer se legítimos representantes dos
amazônidas não participarem ativamente das soluções. Por certo, pesquisadores com muitos
anos de serviço em campo, labutando com comunidades isoladas e com larga experiência em
tecnologias alternativas, serão fundamentais para apontar as melhores soluções.
Por isso que o Ministério de Minas e Energia buscou a cooperação desses profssionais, com
suas expertises, desde o Edital do CT-Energ, 2003, que objetivava identifcar respostas tecno-
lógicas aos desafos colocados. Posteriormente, parte dos projetos aprovados nesse Edital foi
apoiada pelo Fundo Multilateral de Investimentos – fumin, da Cooperação Técnica atn/mt
6697-br, realizada entre o mme e o bid, para identifcar modelos de gestão adequados e sus-
tentáveis para os projetos.
Posteriormente, nasceu também no mme, em 2006, o Projeto Soluções Energéticas para a
Amazônia, concebido no transcorrer da implantação dos projetos-pilotos aprovados no Edital
do CT-Energ, 2003. A idéia consistia basicamente em usar recursos do Japan Special Fund – jsf
da Cooperação Técnica atn/jf-6630-br, realizada entre o mme e o Banco Interamericano de
Desenvolvimento – bid, para capacitar profssionais do setor elétrico, de universidades e de
outras instituições relacionadas, para a elaboração e execução de projetos descentralizados com
energias renováveis para atendimento de comunidades isoladas da Amazônia.
As tecnologias escolhidas foram aquelas que ofereciam condições para o atendimento desse
objetivo, preferencialmente que devessem apresentar os seguintes atributos: simplicidade,
confabilidade, robustez e baixo custo de manutenção e produção em escala. As tecnologias foram:
i) sistemas híbridos, com a combinação de energia eólica, solar fotovoltaica e grupo-gerador
diesel; ii) pequenos aproveitamentos hidroelétricos com turbinas de baixa queda; iii) queima de
resíduos de biomassa em caldeira/turbina a vapor e iv) produção e de biodiesel e de óleo vegetal
in natura para uso em motores de combustão interna. Posteriormente, achamos por bem incluir
gasifcação de biomassa sólida, que se ainda não madura para geração de eletricidade, apresenta
potencial para outros aproveitamentos, inclusive para produção de frio.
O Projeto Soluções Energéticas para a Amazônia foi executado, por meio de Cartas de Acordo
com o mme, por professores/pesquisadores da Universidade Federal da Pará – ufpa; da Uni-
versidade Federal de Itajubá-Unifei; da Universidade Federal do Amazonas – ufam, esta última
tendo contado com a fundamental colaboração do Instituto Militar de Engenharia – ime. A escolha
dessas instituições se deveu à experiência dos seus pesquisadores na implantação de projetos com
energias renováveis no interior da Amazônia, inclusive no âmbito do Edital CT-Energ, 2003.
Os resultados desse projeto são conhecidos: realização de dois cursos de capacitação para
cerca de 400 profssionais, um básico (40h), realizado simultaneamente nas noves capitais da
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Amazônia Legal, e um avançado (160h), realizado nas universidades acima citadas. Esses treina-
mentos foram realizados entre novembro de 2007 e maio de 2008, ambos apoiados por manuais
de elaboração de projetos nas tecnologias acima citadas, também preparados no âmbito dessa
cooperação técnica.
O último produto dessa bem sucedida cooperação técnica é a presente coleção de livros
“Soluções Energéticas para a Amazônia”, sendo que quatro deles representando um conjunto
de tecnologias e um volume com a síntese das tecnologias apresentadas: i) Sistemas Híbridos;
ii) Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos; iii) Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida;
iv) Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura; e v) Tecnologias de Energias Renováveis. Espera-se que
esses livros se constituam como referência para o setor elétrico, principalmente quando se for
dada a necessária atenção ao atendimento de comunidades isoladas.
Para fnalizar, gostaria de agradecer a todos aqueles que colaboraram ativamente com a exe-
cução desse projeto, primeiramente, os professores/pesquisadores que meteram a mão na massa,
verdadeiros artífces: João Tavares Pinho, que coordenou o tema sistemas híbridos e Gonçalo
Rendeiro e Manoel Nogueira que coordenaram combustão e gasifcação de biomassa, e suas
respectivas equipes, todos da ufpa; Geraldo Lúcio Tiago, da Unifei, que embora não sendo da
Amazônia, juntamente com sua equipe desenvolveu alguns projetos bem sucedidos de pequenos
aproveitamentos hidroelétricos na região e Antonio Cesar Pinho Brasil Jr. e Rudi Van Els, da UnB,
que também contribuíram nessa área com seus conhecimentos em turbinas hidrocinéticas; José
de Castro Correia, da ufam, que com o providencial apoio da profª Wilma de Araújo Gonzalez
e equipe, do ime, coordenaram o tema produção de biodiesel e de óleo vegetal in natura para
uso em motores de combustão interna.
Ao professor Roberto Zilles, da usp, responsável por um dos mais bem sucedidos projetos
do CT-Energ,2003, que aceitou fazer a revisão técnica do livro Sistemas Híbridos, trabalho que
executou com entusiasmo desinteressado. E ao professor Gutemberg Pereira Dias, pela dispo-
sição em discutir todos os assuntos referentes às tecnologias em pauta, em especial o uso de
biocombustíveis em motores de combustão interna; ele também procedeu a uma revisão técnica
das publicações que trataram desse tema.
No mme esse projeto contou com o frme apoio de Antonio João da Silva, que, arrisco dizer,
sem ele não teria sido possível. Esteve presente desde a concepção e acompanhou todo o processo
de execução, sempre buscando apresentar as soluções quando o projeto encontrava difculdades
no seu cumprimento. Mobilizou toda a sua equipe para viabilizar o projeto: Eder Julio Ferreira
e Manoel Antonio do Prado, sempre trabalhando com muita diligência, e a Manuela Ordine
Lopes Homem Del Rey, Alessandro Ferreira Caldeira e Samuel da Silva Lemos, pela presteza e
competência no apoio.
Devemos agradecimentos ainda a Armando Cardoso, Assiz Ramos e Roberto Flaviano Amaral,
sempre muito solícitos para o atendimento de demandas do projeto, e a Marcelo Zonta, que na
execução de uma das suas partes mais difíceis, a capacitação simultânea de 370 profssionais nas
nove capitais da Amazônia, gentilmente cedeu parte da sua equipe, que acabou por contribuir
de forma decisiva para o sucesso do evento: Carla Segui Scheer, que ajudou com muita efciência
a coordenação dos trabalhos, Aron Costa Falek, Elane da Cunha Muiz Caruso e Luis Henrique
dos Santos Bello.
Ainda um agradecimento muito especial a Lucia Mitico Seo e José Renato Esteves Júnior,
sempre dispostos a discutir assuntos do projeto, principalmente quando se tratava das propostas
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de arte das publicações.
Por fm, sinceros agradecimentos a Dr. Helio Morito Shinoda, Diretor do Programa Luz para
Todos, e demais integrantes da equipe.
No bid, os agradecimentos vão para Dr. Ismael Gílio, especialista setorial, que acreditou
no projeto, apesar de todas as difculdades por que passamos, e também à sua fel escudeira,
Marília Santos.
As opiniões constantes neste prefácio, bem como aquelas expressas nos livros desta coleção,
são de exclusiva responsabilidade dos seus autores.
Eduardo José Fagundes Barreto
Coordenador
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16 Tecnologias de Energias Renováveis 16 Tecnologias de Energias Renováveis
1 Sistemas Híbridos
Soluções Energéticas para a Amazônia
João Tavares Pinho (Coordenador)
Claudomiro Fábio Oliveira Barbosa
Edinaldo José da Silva Pereira
Hallan Max Silva Souza
João Tavares Pinho
Luis Carlos Macedo Blasques
Marcos André Barros Galhardo
Wilson Negrão Macêdo
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17 Sistemas Híbridos
Conceitos Básicos
Sabe-se que a energia é um insumo fundamental para o desenvolvimento da sociedade. Atual-
mente, o homem está cada vez mais dependente de energia, pois com sua inteligência desenvolveu
maneiras para acomodar suas necessidades e desejos, utilizando-se das mais variadas formas de
energia para tal. O que nos primórdios da humanidade dependia quase que exclusivamente da
força bruta do homem – caçar, plantar, colher, pescar, transportar construir – com o passar do
tempo foi adequado ao uso de máquinas e serviços baseados na transformação da energia. Hoje,
o homem caça usando armas diversas, planta e colhe com tratores, pesca com barcos velozes e
multifuncionais, transporta e constrói com veículos e engrenagens movidas a energia. A depen-
dência, portanto, da energia cresce em diversifcação e em intensidade em todo o mundo.
O uso da energia deve, entretanto, ser atrelado ao tipo de recurso energético disponível, sua
viabilidade técnica e econômica, além dos impactos ambientais associados ao seu aproveitamento.
Qualquer que seja a tecnologia aplicada, em maior ou menor grau, produzirá algum tipo de rejeito
ou impacto ambiental. Os efeitos nocivos ao meio ambiente e ao homem quase sempre não
são contabilizados nas análises econômicas dos projetos de geração de energia. Durante muito
tempo, a lógica foi produzir bens e atender necessidades sem dar importância à vida.
São diversos os tipos de recursos energéticos, todos eles direta ou indiretamente dependentes
da fonte primária de energia da Terra – o Sol. Fontes de energia ditas renováveis, solar e eólica,
por exemplo, ou não-renováveis como os combustíveis fósseis, podem e devem ser utilizadas
de forma única ou combinada (sistemas híbridos) para melhorar a qualidade de vida do homem.
A opção por qualquer alternativa, ainda que viável técnica e economicamente, passa pelo res-
peito ao meio ambiente, aos costumes e à cultura dos envolvidos. No Brasil, a maior parte da
energia consumida é proveniente do petróleo e seus derivados, o que contribui para o aumento
da poluição atmosférica e de doenças respiratórias, incremento do efeito estufa e dispêndio de
divisas para aquisição do mesmo. A matriz energética brasileira também agrega um percentual
importante associado à energia produzida em sua maior parte pelas grandes hidrelétricas e
diversas termelétricas espalhadas pelo País. Este benefício, contudo, não atinge grande parte da
população brasileira, especialmente no norte do País, onde as linhas de transmissão passam por
sobre vilarejos sem expressão econômica, deixando seus moradores às escuras, desassistidos,
sem perspectivas de crescimento como cidadãos.
Outras formas de energia abundantes no Brasil podem ser utilizadas para, pelo menos, miti-
gar o isolamento social e econômico de municípios e pequenos consumidores distantes da rede
integrada nacional e não atendidos pelas concessionárias de energia elétrica. A energia de fontes
solar, eólica, hídrica, térmica, biomassa e outras estão disponíveis no Brasil e precisam ter seu
uso incentivado através de políticas públicas que fortaleçam seu desenvolvimento. Esperar que
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18 Tecnologias de Energias Renováveis
apenas uma das fontes citadas resolva o problema de energia no País é irreal, porém o apro-
veitamento da disponibilidade local de cada uma delas pode trazer contribuição signifcativa à
matriz energética brasileira. Esta já é uma realidade em países desenvolvidos, como Alemanha,
Espanha, Estados Unidos, onde as fontes renováveis respondem por parcela considerável na
produção de energia.
A produção e o uso de energia não podem deixar de lado, entretanto, os cuidados com as
questões ambientais. Diversos fóruns internacionais têm discutido questões como o efeito
estufa, destino de rejeitos radiativos, poluição de cursos d’água, degradação do solo pelo uso
de agrotóxicos, aparecimento de novas doenças, destruição de forestas, etc. Estes problemas
ainda hoje são de difícil quantifcação, porém suas conseqüências danosas e, às vezes irreversí-
veis, precisam ser mais bem consideradas.
Energia Solar Fotovoltaica
O aproveitamento da energia solar para produção direta de eletricidade teve início há pouco
mais de 160 anos quando, em 1839, o cientista francês Edmond Becquerel descobriu o efeito
fotovoltaico, ao observar, em um experimento com uma célula eletrolítica (dois eletrodos metálicos
dispostos em uma solução condutora), que a geração de eletricidade aumentava quando a célula era
exposta à luz. A partir daí, foram estudados os comportamentos de diversos materiais expostos
à luz até o ano de 1954, quando Daryl Chapin, Calvin Fuller e Gerald Pearson desenvolveram a
primeira célula fotovoltaica (FV) de silício, com efciência de 6%, capaz de converter energia solar
em eletricidade sufciente para alimentar equipamentos elétricos. No ano de 1958, iniciou-se a
utilização de células FV em aplicações espaciais e até hoje essa fonte é reconhecida como a mais
adequada para essas aplicações.
Desde então, a evolução do mercado FV vem sendo bastante intensa, tornando comuns apli-
cações em sistemas domésticos, sinalização marítima, eletrifcação de cercas e outros. Em 2004,
foi fnalizado o projeto do maior sistema FV do mundo, o parque solar da Bavária, Alemanha, de
10 MWp de potência instalada. Dentre os principais países produtores de células fotovoltaicas
no mundo, destacam-se: Japão, Alemanha e Estados Unidos (eua).
O Japão foi o líder na produção de células e módulos fotovoltaicos durante o ano de 2006,
com cifras de 920 MW e 645 MW, respectivamente (fgura 1.1). A produtora japonesa Sharp se
mantém líder, com a produtora alemã Q-cells em segunda posição, seguida da Kyocera, Sanyo
Electric e Mitsubishi Electric. Essas cinco companhias somaram 60% do total de produção de
células em 2006. Apesar de o Japão ainda liderar a produção de células, é a Alemanha que lidera
a demanda fotovoltaica, seguida do Japão e eua. Essa demanda se deve basicamente à utilização
de sistemas fotovoltaicos conectados à rede elétrica, que corresponde à principal aplicação de
geração de energia elétrica com sistemas fotovoltaicos nos países desenvolvidos.
O aproveitamento solar fotovoltaico passa inicialmente pelo conhecimento dos fatores
que infuenciam na disponibilidade do recurso e na caracterização desse recurso. No dia-a-dia
observa-se o movimento aparente do Sol numa direção que vai de leste a oeste, ou simplesmente
o nascer e o pôr-do-sol. Notam-se também as variações que ocorrem na duração dos dias e das
noites em diferentes épocas do ano em algumas regiões. Os movimentos que a Terra realiza
são muitos; sendo os mais conhecidos o de rotação, que tem duração de aproximadamente
um dia, e o de translação, que dura aproximadamente 365 dias (fguras 1.2 e 1.3). Dentre as
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19 Sistemas Híbridos
conseqüências diretas desses movimentos podem ser citadas as diferentes durações do dia
e da noite em diferentes regiões do globo e as estações do ano: primavera, verão, outono e
inverno. Outros fatores como as variações irregulares são determinantes na quantidade do
recurso solar disponível de uma dada localidade.
Figura 1.1 – Produção de células fotovoltaicas, em MW por país. [photon international, 2007].
Figura 1.3 – A Terra e o Sol nas posições dos solstícios e dos equinócios
Figura 1.2 – Órbita da Terra em torno do Sol: posição da terra com relação ao sol nos solstícios e equinócios
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20 Tecnologias de Energias Renováveis
O efeito fotovoltaico é defnido como a conversão direta de luz em eletricidade. Os seus funda-
mentos baseiam-se na teoria do diodo de junção pn, e os elementos que constituem o dispositivo
conversor são chamados de fotoelementos.
Se uma junção pn for exposta a fótons com energia maior que a da banda proibida, ocorrerá
a geração de pares elétron-lacuna. Se isto acontecer na região onde o campo elétrico é diferente
de zero, as cargas serão aceleradas, gerando assim uma corrente através da junção; esse desloca-
mento de cargas dá origem a uma diferença de potencial à qual chama-se de efeito fotovoltaico.
Se as duas extremidades do “bloco” de silício forem conectadas a um circuito externo, haverá
uma circulação de elétrons (fgura 1.4).
Figura 1.4 – Processo de conversão fotovoltaica
Devido à baixa tensão e corrente de saída em uma célula fotovoltaica, agrupam-se várias células
formando um módulo, para que se obtenham tensões úteis na prática. O arranjo das células nos
módulos pode ser feito conectando-as em série e/ou em paralelo. Para garantir maiores níveis de
potência, corrente e/ou tensão, os módulos podem ser associados em série e/ou paralelo, dependendo
dos valores desejados. Uma associação de módulos dá origem a um gerador ou arranjo FV.
Dentre os fatores que infuenciam as características da célula, a irradiância e a temperatura
são os mais importantes. Baixos níveis de irradiância reduzem a corrente gerada sem causar
redução considerável à tensão, enquanto que altos valores de temperatura da célula reduzem a
tensão em maiores proporções que aumentam a corrente, deslocando assim o ponto de máxima
potência para a esquerda.
O dispositivo responsável pela conversão da luz incidente em eletricidade é denominado de
célula fotovoltaica. Os materiais empregados na sua construção são elementos semicondutores,
sendo, em escala comercial, a maioria fabricada de silício, devido a três fatores principais: o silí-
cio não é tóxico, é o segundo elemento mais abundante na natureza (o primeiro é o oxigênio), e
possui uma tecnologia consolidada devido à sua utilização predominante no ramo da microele-
trônica. A fgura 1.5 mostra a participação das principais tecnologias utilizadas comercialmente
na confecção de células e módulos fotovoltaicos.
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21 Sistemas Híbridos
A maioria dos materiais utilizados na conversão fotovoltaica são cristalinos, caracterizando-se
por terem uma estrutura de átomos que se repete. Atualmente, o silício ainda é o material mais
utilizado na produção de células FV, podendo ser encontrado nas formas monocristalina, mul-
ticristalina ou policristalina, e amorfa.
Todas as tecnologias acima citadas são mais bem descritas a seguir:
Células de Silício Monocristalino: são atualmente as mais utilizadas comercialmente. O 1.
silício é o segundo material mais abundante na crosta terrestre e células fabricadas com
esse material não apresentam problemas ambientais causados pela combinação dos
seus elementos constituintes. Apresentam elevada vida útil.
As células de silício monocristalino são desenvolvidas a partir de um único cristal.
Comercialmente, a efciência dessas células já atinge valores próximos a 16%. As
desvantagens estão relacionadas com o alto custo de produção, devido ao processo
construtivo, e ao alto consumo de energia nos processos de fabricação. Acredita-se que
novas tecnologias empregadas na fabricação do silício possam alterar esse quadro.
Células de Silício Poli ou Multicristalino: são constituídas de diversos cristais em contato 2.
entre si, dispostos de maneira não alinhada. Esse procedimento visa reduzir custos de
fabricação, embora haja uma pequena perda de efciência. Os avanços tecnológicos
vêm reduzindo bastante as diferenças de custo e efciência entre as células mono e
policristalinas, sendo essas diferenças atualmente pouco perceptíveis.
Células de Silício Amorfo: não apresentam qualquer ordenamento na estrutura dos 3.
átomos. Seus custos de material são reduzidos se comparados às células anteriores,
porém apresentam efciência também reduzida, com o máximo valor comercial
atingindo 10%.
Células de Arseneto de Gálio (GaAs): têm estrutura similar à do silício, apresentando 4.
Figura 1.5 – Participação das principais tecnologias utilizadas comercialmente na confecção de células e módulos
fotovoltaicos [photon international, 2007]
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22 Tecnologias de Energias Renováveis
efciência ligeiramente superior. Ideais para utilização em sistemas com concentração,
são pouco utilizadas em escala terrestre, principalmente devido ao complexo processo
de produção envolvido, resultando em custos muito elevados.
Células de Disseleneto de Cobre-Índio ( 5. cis): são compostas por um material
policristalino, podendo captar uma larga faixa do espectro solar. No entanto, o gasto de
material é maior do que no silício amorfo, devido à presença do Índio. Essa tecnologia
pode ocasionar contaminação ambiental devido à combinação de seus elementos.
Apresentam efciências máximas laboratoriais de 19,2% e comercias da ordem de 14%.
Células de Telureto de Cádmio (CdTe): também são compostas por arranjos 6.
policristalinos. Os riscos ambientais apresentados são mínimos, porém apresentam
difculdade no processo de dopagem. Atingem efciências máximas laboratoriais da
ordem de 16,5% e comercias da ordem de 11%.
A respeito da tecnologia de produção de eletricidade utilizando-se o efeito fotovoltaico, pode-se
separar o mercado em dois principais setores: o silício cristalino ( monocristalino e o policristalino)
e o silício amorfo. A fgura abaixo ilustra três painéis correspondentes às tecnologias cristalina
e amorfa:
Figura 1.6 – Módulos FV fabricados comercialmente a partir de células de silício (a) monocristalino, (b) policristalino e (c) amorfo
a b c
Em localidades sem o atendimento elétrico convencional, os módulos fotovoltaicos constituem uma
alternativa viável quando comparada com a extensão da rede elétrica, diesel e outras fontes.
Os sistemas fotovoltaicos conectados à rede elétrica são mais efcientes, econômicos, em
média 40% mais baratos, e de maior durabilidade que os sistemas fotovoltaicos autônomos,
pois não neces sitam de sistemas de armazenamento. Atualmente, os sistemas de fornecimento
de eletricidade isolados vêm se tornando cada vez mais padronizados e fexíveis. Isso se deve,
basicamente, à semelhança cada vez maior entre as características elétricas de atendimento
dos sistemas convencionais (rede elétrica) e as características de atendimento dos sistemas
destinados a localidades isoladas. Um exemplo prático desse desenvolvimento está justamente
na utilização de sistemas fotovoltaicos interligados a minirredes isoladas para o atendimento
de pequenas comunidades, fornecendo energia diretamente no barramento CA, semelhante ao
que acontece nos grandes centros urbanos.
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23 Sistemas Híbridos
Energia Eólica
Em sistemas híbridos do tipo fotovoltaico-eólico-diesel a energia eólica, assim como a energia
solar, desempenha papel fundamental para o bom desempenho do sistema. O conhecimento de
suas características, desde as mais fundamentais até as mais particulares, é de extrema impor-
tância para garantir um projeto bem dimensionado, a escolha de equipamentos adequados para
cada situação, bem como para uma correta instalação.
As características do vento, seus conceitos básicos e suas formas de circulação na atmosfera
terrestre são temas fundamentais e de grande importância para o estudo da energia eólica como
fonte de geração de eletricidade. Os ventos são resultantes do movimento do ar na atmosfera, e
são originados, basicamente, pelo aquecimento heterogêneo da superfície terrestre pela radiação
solar e pelo movimento de rotação da Terra. São classifcados como gerais e locais; os primeiros
sopram sobre a atmosfera e os últimos sopram próximo à superfície.
A velocidade de vento, parâmetro mais importante no estudo da conversão eólio-elétrica,
varia com a altura, sendo essa variação nula na superfície do solo, mais acentuada em alturas
próximas à superfície, pouco signifcativa a alturas próximas a 150 m, e nula a aproximadamente 2
km sobre o solo. O fenômeno de variação da velocidade de vento com a altura é denominado de
perfl vertical de vento. Esta variação pode ser extrapolada, conhecendo-se a velocidade de vento
a uma altura qualquer, a fm de se obter o novo valor de velocidade a uma altura diferente, através
de dois modelos, conhecidos como perfs da lei de potência e logarítmico do vento (fgura 1.7).
Figura 1.7 – Perfl vertical de vento
A primeira etapa no estudo da energia eólica para conversão em eletricidade é a avaliação do
potencial eólico. A avaliação é iniciada com a medição dos parâmetros de interesse. Instrumentos
de medição como anemômetros, sensores de direção de vento, termômetros e barômetros são
utilizados para medição, respectivamente, de velocidade e direção de vento, temperatura e pressão
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24 Tecnologias de Energias Renováveis
atmosférica. A umidade relativa do ar, medida por higrômetros, apesar de não infuenciar dire-
tamente no aproveitamento eólico, é avaliada para a determinação de infuências indiretas.
De posse dos dados medidos, a avaliação é normalmente realizada através de modelos pro-
babilísticos. Valores médios, desvio padrão e funções de distribuição são utilizados para avaliar
o comportamento do potencial eólico. A distribuição de Weibull é o modelo probabilístico mais
utilizado para representar as curvas de freqüência de velocidade do vento.
A potência disponível no vento é proporcional ao cubo da velocidade de vento. Outros parâ-
metros de importância são a densidade do ar e a área varrida pelas pás do rotor eólico. O coe-
fciente de potência é um fator limitante da potência efetivamente aproveitada por um sistema
eólico, e representa a parcela de potência do vento que pode efetivamente ser aproveitada por
uma turbina eólica. Seu máximo teórico é defnido pelo limite de Betz (16/27, ou 0,593), porém
alcança valores menores na prática. Se consideradas as demais perdas envolvidas no processo
de conversão, como as perdas aerodinâmicas, mecânicas e elétricas, o coefciente de potência
pode ser igualado à efciência global de conversão.
Os aerogeradores são os equipamentos responsáveis pela conversão eólio-elétrica. O rotor
eólico é o componente mais característico de um aerogerador. Uma das classifcações típicas de
aerogeradores é aquela dada em função da direção de seu eixo de rotação em relação ao vento.
Atualmente, os aerogeradores mais comuns são aqueles de eixo horizontal. Os componentes
principais de aerogeradores de eixo horizontal, além do rotor eólico e suas pás, são os eixos de
baixa e alta velocidade, sistema de multiplicação, sistema de orientação, mecanismos de controle,
e gerador elétrico. A nacele, também conhecida por gôndola, é o compartimento responsável pelo
abrigo, proteção e sustentação de todos os componentes do aerogerador, com exceção do rotor.
A torre tem como função básica o suporte do rotor e demais componentes do aerogerador, bem
como sua localização em uma altura adequada para o melhor aproveitamento da potencialidade
eólica disponível (fgura 1.8).
1- Grua de manutenção
2- Gerador
3- Sistema de refrigeração
4- Unidade de controle
5- Sistema de multiplicação
6- Eixo principal
7- Sistema de bloqueio do rotor
8- Pá
9- Cubo do rotor
10- Cone
11- Suporte das pás
12- Nacele
13- Sistema hidráulico
14- Amortecedor
15- Anel de orientação
16- Freio
17- Torre
18- Sistema de orientação
19- Eixo de alta velocidade
Figura 1.8 – Algumas partes constituintes de um aerogerador. Fonte: gamesa, 2007
O desempenho dos aerogeradores é normalmente determinado em função de sua curva de potên-
cia, que determina os valores de potência disponíveis na saída do aerogerador, para cada faixa de
velocidade de vento. Os principais valores de velocidade de vento de uma curva de potência são
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25 Sistemas Híbridos
a velocidade de partida, a mínima para que o rotor saia de seu estado de repouso inicial e inicie
a geração de energia; a velocidade nominal, aquela na qual a potência nominal do aerogerador é
extraída; e a velocidade de corte, na qual o movimento do rotor eólico é interrompido, protegendo-o
contra danos estruturais. Outra forma de se determinar o desempenho de aerogeradores é através
do fator de capacidade, que indica o real rendimento de um aerogerador, considerando todas as
perdas no processo de conversão. O fator de capacidade é a razão entre a energia efetivamente
gerada por um aerogerador e sua potência nominal, considerando-se um período de tempo qual-
quer. Quanto maior o fator de capacidade, melhor o desempenho do aerogerador.
Figura 1.9 – Conceitos relacionados a um rotor eólico
Sistemas eólicos podem ser instalados em terra (onshore) e no mar (offshore), e podem ser a única
fonte de geração em um sistema isolado, estar conectados ao sistema interligado, confgurando
o que se conhece como geração distribuída, ou ainda compor, com outras fontes de geração,
um sistema híbrido isolado.
Os impactos ambientais de sistemas eólicos podem ser considerados de pequena escala.
O visual é basicamente comum a todas as fontes de geração, o sonoro é bastante reduzido se
comparado a outras fontes de ruídos, e a ocupação de áreas está sendo minimizada com a ins-
talação de sistemas no mar. Outros impactos, típicos de sistemas eólicos, mas que vêm sendo
bastante minimizados com o passar do tempo, são os desvios de rotas migratórias e mortes de
aves, morcegos e insetos, e a interferência eletromagnética, causada pela refexão ou distorção
de ondas eletromagnéticas emitidas por sistemas de transmissão de sinais.
Grupos Geradores
Os grupos geradores são máquinas muito utilizadas para o fornecimento de energia elétrica.
Dentro da região amazônica, eles são bastante aplicados para atender a localidades situadas em
zonas rurais e em lugares isolados do sistema interligado nacional.
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26 Tecnologias de Energias Renováveis
Na maioria das vezes, a operação de um grupo gerador é feita através da inserção de combus-
tível no motor de combustão interna, que pode ser do tipo otto ou diesel, e ao iniciar a partida
esse motor aciona o eixo de um gerador elétrico fornecendo tensão nos seus terminais.
Figura 1.10 – Esquema de combustão para o motor de quatro tempos [http://mea.pucminas.br/ricardo/pos/Aula_01.pdf, 2007]
A fácil aquisição desse maquinário, principalmente por apresentar uma ampla faixa de potência
comercialmente disponível, o preço de aquisição menor quando comparado com outras fontes
de energia (eólica, solar), além de sua robustez o torna atrativo para atendimento de localidades
isoladas.
Dependendo do porte dos grupos geradores, existirá a necessidade ou não da utilização
de unidades de supervisionamento e controle em corrente alternada (usca), onde o operador
poderá realizar a partida e parada da máquina além de monitorar as grandezas elétricas tais
como tensão, corrente, freqüência.
A desvantagem em utilizar grupos geradores está no fato de que o custo de operação e
manutenção é elevado, além de a logística para a obtenção do combustível ser onerosa. Outro
fator está relacionado com a poluição do meio ambiente, tanto no transporte e armazenamento
do combustível com possibilidade de vazamentos do material como no funcionamento do grupo
gerador através da emissão de gases poluentes para a atmosfera.
Os grupos geradores podem ser utilizados em conjunto com outras fontes de energia, carac-
terizando assim os denominados sistemas híbridos.
Atualmente, além de essas máquinas operarem em sua maioria com o diesel, existe grande inte-
resse por parte do governo em realizar adaptações nos motores para que eles passem a funcionar
com a utilização de biodiesel, contribuindo assim para a diminuição dos impactos ambientais.
Sistema de Armazenamento
A natureza das fontes renováveis solar e eólica é intrinsecamente variável no tempo, dependendo
dos ciclos diários, das estações do ano e das variações aleatórias da atmosfera. Como conseqüência
disso, são muitos os momentos nos quais a potência elétrica que pode ser entregue pela parte
renovável difere, por excesso ou por défcit, da qual é demandada por uma determinada aplicação.
No caso particular dos sistemas híbridos de produção de eletricidade, o correto fornecimento
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27 Sistemas Híbridos
elétrico da aplicação exige, portanto, poder armazenar energia nos momentos em que a produção
excede a demanda, para utilizá-la em situação inversa. Denomina-se de sistema de armazenamento
ao componente do sistema que se encarrega de realizar tal função. Historicamente, o sistema
de armazenamento mais utilizado em sistemas híbridos é aquele constituído de acumuladores
eletroquímicos (ou baterias) de chumbo-ácido.
Uma bateria é constituída de duas ou mais células conectadas em série. Uma célula básica
é formada de dois eletrodos. Comumente um é chamado de eletrodo positivo e o outro de ele-
trodo negativo.
Normalmente, a tensão nominal de uma célula situa-se entre 1,2 e 3,6 V. Dessa forma, é comum
a utilização de várias células conectadas em série para formar uma combinação com tensão
nominal mais elevada. A tensão nominal de uma bateria é assim defnida pelo número de células
conectadas em série, vezes a tensão nominal de uma única célula. As células são integradas e
conectadas em série com somente um conjunto de terminais. Um exemplo bem conhecido é a
bateria usada para partida, iluminação e ignição de automóveis, em que 6 células são conectadas
em série, porém vendidas como um bloco de 12 V.
As baterias podem ser classifcadas, quanto à disponibilidade de carga, como primárias (ou não
recarregáveis) e secundárias (ou recarregáveis). Dentre os tipos de baterias primárias podem ser
citadas as pilhas, não recarregáveis, e a maioria das baterias usadas em relógios e brinquedos ele-
trônicos. Com relação às baterias secundárias, as baterias automotivas são as mais conhecidas.
Existem diversos tipos de baterias recarregáveis disponíveis comercialmente, e suas caracterís-
ticas variam em função da sua forma construtiva e dos elementos que as compõem. Com relação
ao eletrólito que as compõem, podem ser classifcadas basicamente por abertas e seladas.
As baterias abertas são aquelas onde o nível de eletrólito deve ser periodicamente verifcado,
devendo trabalhar na horizontal. Nas seladas, o eletrólito é confnado no separador ou sob a
forma de gel. São usualmente conhecidas como “livres de manutenção”. Baterias de Pb-Ácido
utilizam em suas grades ligas de Pb-Ácido, de modo a reduzir a perda de água decorrente da
eletrólise da água, durante o processo de carga.
Em relação ao tipo de utilização, as mais comuns são as automotivas, estacionárias, tração e
fotovoltaicas. A seguir são apresentadas as principais características de cada uma delas:
Automotivas: Projetadas para regimes de carga e descarga rápidos com elevadas taxas Š
de corrente (> 3I
20
) e reduzidas profundidades de descarga, da ordem de 30% (partida).
Como característica principal desse tipo de bateria destaca-se a baixa resistência aos
ciclos de carga e descarga;
Estacionárias: Projetadas para permanecer em futuação e ser solicitadas Š
ocasionalmente (backup). Além disso, podem operar com regimes de carga elevados.
Dentre as principais características destacam-se a moderada resistência ao processo de
ciclagem e o baixo consumo de água;
Tração: Projetadas para operar com ciclos profundos e freqüentes e regime de descarga Š
moderados. Suas principais características são: alta resistência a ciclagem, alto consumo
de água e manutenção freqüente;
Fotovoltaicas: Projetadas para ciclos diários rasos com taxas de descarga reduzidas Š
(descargas profundas esporádicas, da ordem de até 80%). Como características
principais destacam-se a resistência ao processo de ciclagem e a pouca manutenção.
Diferentes tipos de baterias recarregáveis, passíveis de serem usadas nas aplicações autônomas
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28 Tecnologias de Energias Renováveis
de fornecimento de energia elétrica, são constantemente disponibilizados pelo mercado (Ni-Fe,
Ni-Zn, Zn-Cl). Entretanto, a disponibilidade do mercado reduz a possibilidade de escolha dos
tipos que podem ser empregados em sistemas isolados, tais como os sistemas híbridos. Dessa
maneira, as baterias de chumbo-ácido (Pb-Ácido) e níquel-cádmio (Ni-Cd) tornaram-se algumas
das poucas opções para os projetistas e, portanto, as mais usuais. O preço das últimas é, para a
mesma quantidade de energia, da ordem de quatro ou cinco vezes superior ao das primeiras.
Assim, a questão econômica associada à disponibilidade do mercado fez com que a maioria
dos acumuladores utilizados nos sistemas fotovoltaicos, eólicos, ou híbridos, sejam constituídos
de baterias recarregáveis de chumbo-ácido.
As condições de operação variam consideravelmente de acordo com a localização, tipo de
aplicação, padrão da carga, geradores instalados e a estratégia de operação empregada. Os
parâmetros mais importantes para classifcação das condições de operação são as correntes de
carga e descarga, temperatura, e o perfl do estado de carga ao longo do ano.
Para se obter bancos de baterias mais robustos deve-se associar várias baterias de menor
capacidade em série e/ou paralelo de modo a se obter o tamanho do banco desejado. Para a
composição do banco de baterias, vários aspectos devem ser considerados, dentre os quais se
destacam: a escolha adequada da tensão do banco de baterias e o correto dimensionamento dos
cabos usados na transferência de energia da e para a bateria.
Figura 1.11 – Infuência do dimensionamento do gerador e da bateria nos parâmetros PDe, e D: (a) diminuindo o tamanho do
gerador e aumentando o acumulador, e (b) aumentando o tamanho do gerador e diminuindo o tamanho do acumulador
Sistema de Condicionamento de Potência
O sistema de condicionamento de potência é composto por equipamentos cuja função principal
é otimizar o controle geração/consumo visando ao aproveitamento ótimo dos recursos, aliado à
qualidade e continuidade na entrega da energia ao usuário. Assim como as baterias, alguns com-
ponentes do sistema de condicionamento de potência são essenciais para o bom desempenho
de sistemas híbridos. Os principais equipamentos são os controladores de carga, inversores de
tensão, retifcadores, conversores, transformadores e diodos.
O controlador de carga é um equipamento normalmente associado ao arranjo fotovoltaico,
responsável por gerenciar os processos de carga (sentido arranjo FV – bateria) e descarga (sentido
bateria – carga) das baterias, contribuindo, assim, para a preservação da vida útil das mesmas.
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29 Sistemas Híbridos
Os controladores devem ser utilizados com os tipos de baterias para os quais foram projetados,
ou ser ajustados para cada tipo, no caso daqueles que permitem o ajuste de seus parâmetros
(setpoints) por parte do usuário. O controle é normalmente desenvolvido através de dois métodos,
o liga/desliga, mais simples, e o de tensão constante, no qual a regulação dos níveis de carga
da bateria é realizada de forma otimizada. Com relação à forma como desconectam o arranjo
FV das baterias, os controladores são classifcados pelos métodos paralelo (shunt) e série. As
características mais importantes de controladores de carga a serem consideradas na etapa de
dimensionamento são a sua capacidade (A) e a sua tensão de operação (V
CC
).
O retifcador de tensão é responsável pela conversão da potência dos aerogeradores e grupos
geradores a diesel que estão conectados no barramento CA para uma potência CC, seja para
carregar baterias, seja para suprir eventualmente alguma carga CC. Aerogeradores de pequeno
porte são normalmente acompanhados por retifcadores de tensão que, por sua vez, são usual-
mente combinados com um sistema de controle de carga.
O inversor de tensão converte a corrente contínua, proveniente dos equipamentos de geração
e armazenada pelas baterias, em corrente alternada, sendo também conhecido como conversor
CC
-
CA. Sua utilização é fundamental devido à maior facilidade de se encontrar no mercado
equipamentos eletro-eletrônicos de uso fnal que operam em corrente alternada. Dentre as
características principais dos inversores estão as suas tensões de operação de entrada (CC) e
saída (CA), freqüência, potência nominal, capacidade de surto, efciência e forma de onda de
saída, que pode ser de três tipos: quadrada, quadrada modifcada e senoidal.
O conversor CC
-
CC é um equipamento que ajusta um valor de tensão CC diferente do fornecido
pelo sistema de geração/armazenamento, ou quando se deseja obter vários valores de tensão a
partir de uma única entrada. Os conversores CC
-
CC podem elevar a tensão (boost) ou baixá-la
(buck). Este equipamento pode conter um sistema seguidor de ponto de máxima potência, muito
utilizado com o objetivo de se obter a máxima potência disponível do arranjo FV.
O diodo de bloqueio é um dispositivo eletrônico utilizado em sistemas FV, cuja função é evitar
que os módulos FV atuem como carga para as baterias em períodos de indisponibilidade de gera-
ção, e que módulos operando em condições normais injetem correntes elevadas em um grupo de
módulos em condições anormais de funcionamento. Já o diodo de passagem evita que, em uma
associação em série, um módulo operando em condições anormais (devido a um defeito de fabri-
cação ou condições de sombreamento, por exemplo) infuencie negativamente no desempenho do
arranjo como um todo. Os diodos de bloqueio devem ser dimensionados e instalados de acordo
com a capacidade do arranjo FV, o diodo de passagem, por sua vez, é normalmente fornecido por
alguns fabricantes de módulos, já vindo instalado na caixa de conexões do módulo.
Transformadores também podem estar presentes em sistemas híbridos, estando normalmente
instalados entre o aerogerador e o retifcador de tensão, e sua função é adequar os níveis de
tensão CA do sistema.
Demais acessórios presentes em sistemas híbridos são equipamentos elétricos gerais, como
cabos, disjuntores, chaves e conectores, entre outros.
Sistemas Híbridos
As fontes de energia renováveis solar (fotovoltaica), eólica, hídrica (mch e pch) e biomassa
constituem alternativas reais para geração de eletricidade em áreas isoladas. Há áreas onde mais
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30 Tecnologias de Energias Renováveis
de uma fonte renovável se destaca, podendo ser combinadas em um único sistema, defnindo o
conceito de sistema híbrido de energia, ou simplesmente, sistema híbrido – aquele que utiliza
mais de uma fonte que, dependendo da disponibilidade dos recursos, deve gerar e distribuir
eletricidade, de forma otimizada e com custos mínimos, a uma determinada carga ou a uma rede
elétrica, isolada ou conectada a outras redes.
A utilização dos sistemas híbridos teve seu início na década de 1970, frente à crise do petróleo
(1973). Atualmente, a utilização desses sistemas volta-se também com a questão ambiental.
Diversos são os tipos de sistemas híbridos em utilização no mundo. Dentre esses, destacam-
se como principais: eólico-diesel; fotovoltaico-diesel; fotovoltaico-eólico-diesel; fotovoltaico-
eólico. Salienta-se que a combinação das fontes renováveis busca explorar satisfatoriamente a
complementaridade entre ambas ao longo do tempo.
Os sistemas híbridos podem ser classifcados: quanto à Interligação com a rede elétrica con-
vencional – isolado ou interligado; quanto à prioridade de uso das fontes de energia – baseado
no recurso não renovável ou no renovável; quanto à confguração – série, chaveado ou paralelo;
e quanto ao porte – micro, pequeno, médio ou grande.
Figura 1.12 – Sistema híbrido isolado
As principais vantagens desses sistemas incluem: utilização dos recursos locais; modularidade;
pouca necessidade de manutenção; geração descentralizada; reduzido nível de emissão de gee,
entre outros. Por outro lado, como principais desvantagens, destacam-se: recursos precisam ser
favoráveis para geração de eletricidade; investimento inicial bastante elevado; necessidade de
um sistema de armazenamento de energia, geralmente baterias.
As estratégias de operação utilizadas pelos sistemas híbridos são semelhantes e visam, prin-
cipalmente, a um atendimento contínuo e de qualidade, como também à redução do consumo
de óleo combustível.
A maioria dos sistemas híbridos está instalada em locais remotos, de difícil acesso e, espe-
cialmente, com falta de mão-de-obra qualifcada para operá-los. Isso justifca a automatização e
monitoração remota ou local desses sistemas, o que assegura a redução nos custos operacionais
e a maior confabilidade.
Outro instrumento que também visa reduzir custos operacionais, bem como permitir maior
controle do consumo por parte do usuário, é a implementação do sistema pré-pago de energia,
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31 Sistemas Híbridos
ou seja, o pré-pagamento (compra antecipada, semelhante à da telefonia celular) pelo serviço
de eletricidade.
Com relação aos impactos proporcionados pelos sistemas híbridos, os mesmos apresentam
características mais benéfcas do que prejudiciais, especialmente por se tratarem de sistemas
de pequeno a médio porte, baseados nos recursos renováveis.
Nos sistemas híbridos, como em qualquer outro sistema elétrico, o uso racional da energia é um
fator muito importante, dada especialmente a limitação de geração e a intermitência das fontes pri-
márias. Portanto, a adoção de equipamentos elétrico-eletrônicos efcientes e o esclarecimento dos
usuários sobre como utilizar a energia elétrica são ações fundamentais para um uso mais racional.
Ultimamente, a procura de maior efciência global dos sistemas híbridos motiva estudos da
inserção de outras formas de geração nos mesmos. A biomassa (especialmente na Amazônia) e
a célula a combustível destacam-se nesse aspecto.
Projeto de Sistemas Híbridos
A primeira etapa para o projeto de um sistema híbrido é a análise do recurso disponível para
aproveitamento das energias solar e eólica no local da futura implantação do sistema, como
também a identifcação e a avaliação preliminares das áreas potenciais para a instalação dos
sistemas de geração e distribuição de energia elétrica. Os passos para a avaliação dos recursos
energéticos naturais (solar e eólico) de uma determinada localidade seguem a partir de uma
avaliação preliminar, identifcando áreas onde os aproveitamentos solar e eólico são poten-
cialmente viáveis. Dentre as formas de avaliação preliminar destacam-se: a consulta em atlas
eólicos e solarimétricos; a consulta em programas computacionais destinados a estimativas de
potenciais baseados em medições de estações meteorológicas próximas; a obtenção dos dados
de estações meteorológicas de localidades próximas.
O segundo passo do levantamento é realizado com a visita ao local para a observação de
indicadores naturais, medições pontuais no período da visita, a obtenção de informações com os
moradores sobre as características meteorológicas locais e a avaliação da acessibilidade ao local.
Por último, tendo o indicativo preliminar de bom potencial para aproveitamento das energias
solar e/ou eólica, o passo seguinte se dá com a instalação de sensores de medição (anemôme-
tros, anemoscópios, piranômetros, barômetros, termohigrômetros), normalmente realizados em
torres, sob a forma de estação meteorológica.
Após o levantamento dos recursos solar e eólico disponíveis na localidade, a análise do potencial
para aproveitamento dos mesmos para geração de energia elétrica é uma etapa imprescindível
para um criterioso estudo de viabilidade técnica de empreendimentos que utilizem as fontes
solar e eólica. Caso constatada a viabilidade preliminar, a disponibilidade de dados confáveis
em um período satisfatório e bem analisados passa a ser fundamental para garantir a elabora-
ção de projetos dimensionados de forma tal que apresentem relação ótima entre a participação
de cada uma das fontes no sistema híbrido. No dimensionamento do sistema leva-se em conta
uma série de fatores como o custo da energia gerada, confabilidade, efciência e facilidade de
manutenção, entre outros.
Torna-se também importante avaliar a logística de abastecimento de combustível para a
localidade, pois em muitas estratégias de operação de sistemas híbridos faz-se o uso de grupos
geradores (como os acionados por motores a diesel) atuando como complementação ao sistema
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32 Tecnologias de Energias Renováveis
renovável, visando ao aumento da confabilidade do suprimento de energia elétrica.
Avaliado o recurso energético disponível, e se preliminarmente constatada a viabilidade da
instalação de sistemas de geração no local, a etapa seguinte é a elaboração do projeto. O primeiro
passo no desenvolvimento do projeto do sistema de geração é a análise da demanda, ou seja, a
verifcação dos tipos de cargas que serão atendidas pelo sistema, assim como seus regimes de
utilização e considerando ainda as perdas envolvidas no sistema e a demanda reprimida, para,
a partir daí, iniciarem as etapas: de escolha da estratégia de operação do sistema híbrido; de
dimensionamento das fontes de geração consideradas, ou seja, o dimensionamento do sistema
solar-eólico-diesel e de seus sistemas complementares (armazenamento, condicionamento de
potência); bem como dos sistemas de controle e proteção e da minirrede de distribuição de
energia elétrica. Feita a escolha dos equipamentos/dispositivos do sistema híbrido, realiza-se
a análise de desempenho dos mesmos inseridos no sistema e o balanço energético resultante
entre produção e demanda de energia elétrica.
Uma boa estratégia de operação do sistema híbrido visa garantir aos usuários do sistema
de geração um atendimento confável e de qualidade, minimizando simultaneamente os seus
custos de implantação e de operação e manutenção. Para essa otimização, é necessário realizar
diferentes combinações de confgurações, estratégias de despacho e períodos de atendimento
da minirrede, para buscar a estratégia de operação, dependendo da aplicação, mais adequada
ao sistema híbrido a ser implantado em determinada localidade.
Instalação de Sistemas Híbridos
Com relação à instalação de sistemas híbridos, verifca-se uma relativa independência entre seus
sistemas e subsistemas (geração, armazenamento, condicionamento de potência e distribuição
de energia) durante o processo até as conexões fnais. O compromisso básico a ser estabelecido
é a busca pela instalação dos subsistemas o mais próximo possível entre si (redução de custos e
de perdas), seguindo para isso técnicas de instalação apropriadas.
Os módulos fotovoltaicos, sob a forma de arranjos (ligações série/paralelo), devem ser insta-
lados em locais onde não sejam expostos a nenhuma situação de sombreamento durante o ano e
de insegurança. Os locais ainda devem permitir o acesso fácil a uma eventual manutenção. Para
maximizar a captação da radiação solar média ao longo do ano, a orientação (norte – hemisfério
sul e sul – hemisfério norte) e a inclinação (latitude local) dos arranjos precisam ser seguidas
conforme técnicas de instalação.
Os aerogeradores e suas torres (treliçada, autoportante ou tubular) devem ser instalados em
áreas com dimensões apropriadas e que não possuam obstáculos, naturais ou não, em seus arre-
dores que possam causar interferência prejudicial ao fuxo de vento que atinge o rotor eólico.
Quando se pensa em mais de um aerogerador (parque eólico), além da preocupação com os
obstáculos do entorno há também a preocupação com o efeito esteira causado pelos próprios
rotores dos aerogeradores. Para mitigar esses efeitos prejudiciais, distâncias mínimas entre os aero-
geradores e os obstáculos, ou entre os próprios aerogeradores, o posicionamento do rotor eólico
a uma determinada altura, entre outras técnicas de instalação, necessitam ser adotados.
Os grupos geradores a diesel e demais acessórios devem ser instalados em uma edifcação
própria (casa de força), a qual abriga também outros equipamentos pertencentes aos subsistemas
de armazenamento e condicionamento de potência.
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33 Sistemas Híbridos
A casa de força deve contemplar um projeto estrutural que suporte os esforços mecânicos
solicitados pelos equipamentos, ter boa ventilação e isolação acústica, entre outros itens.
Referindo-se ao subsistema de armazenamento, as baterias não devem ser instaladas diretamente
sobre o solo, ou em locais úmidos. Geralmente utiliza-se um armário em ferro com prateleiras de
madeira para o condicionamento das baterias (banco de baterias – ligação série/paralelo).
Os controladores de carga, inversores de tensão e retifcadores são normalmente instalados
nas paredes ou em local específco da casa de força, sempre o mais próximo possível das baterias
e dos equipamentos de geração. Pontos de operação, quando disponíveis nesses equipamentos,
devem ser ajustados conforme o projeto.
Para preservar todos os equipamentos do sistema híbrido, fornecer segurança às pessoas junto
ao sistema elétrico, bem como realizar eventuais manobras como estratégias de operação, fazem-
se necessários a instalação e uso de disjuntores e/ou chaves seccionadoras. Salienta-se que, para
uma boa qualidade de instalação, o cabeamento do sistema híbrido precisa ser bem projetado.
A minirrede de distribuição de energia deve ser instalada seguindo as técnicas de instalação
dos seus componentes principais: transformadores, cabos condutores, chaves seccionadoras,
postes, luminárias, pára-raios de distribuição, aterramento, cruzetas, isoladores e conectores.
Operação e Manutenção de Sistemas Híbridos
Para o funcionamento de qualquer sistema híbrido de energia deve-se levar em consideração a
operação e manutenção correta dos equipamentos envolvidos desde a geração, passando pelo
sistema de distribuição até as unidades consumidoras.
Através da realização de um plano de manutenção e operação, além das recomendações
feitas pelos fabricantes dos equipamentos e a capacitação dos operadores, é possível fazer o
sistema operar de forma confável e com segurança para os equipamentos bem como para os
consumidores.
Muitas das tarefas relacionadas com a operação podem ser automatizadas, tais como a
partida e parada do grupo gerador, chaveamento de disjuntores, carga e descarga das baterias,
dentre outros.
Na parte da manutenção, as tarefas podem ser simples, desde a limpeza dos módulos foto-
voltaicos com um pano macio, a podagem de árvores para que não toquem nos cabos elétricos
da rede, até tarefas como inspeção das partes girantes dos grupos geradores, troca de óleo
lubrifcante do transformador, inspeção dos cabos e da torre do aerogerador.
Segurança em Sistemas Híbridos
A segurança é um aspecto ao qual se deve ter especial atenção para os sistemas híbridos de gera-
ção de energia suprindo minirredes, porque várias são as fontes e os equipamentos envolvidos e,
portanto, deve-se redobrar os cuidados. Um sistema híbrido, por exemplo, eólico-fotovoltaico-
diesel, necessita, além de parâmetros para segurança da vida de pessoas e animais, de procedi-
mentos de segurança para os sistemas de geração, condicionamento e distribuição de energia
elétrica, a fm de garantir o funcionamento adequado das instalações, redução das perdas de
energia e preservação contra danos aos bens e ao ambiente.
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34 Tecnologias de Energias Renováveis
Quando se faz uso ou se manuseiam sistemas com energia elétrica é extremamente impor-
tante obedecer às normas básicas de segurança. Ainda que os níveis de tensão e corrente sejam
considerados baixos, não se devem subestimar os danos que a eletricidade pode trazer ao ser
humano, sendo o mais grave os causados pelo choque e o arco elétrico. Logo, deve-se estar em
alerta sobre os perigos associados à eletricidade, de forma que sejam controlados ou elimina-
dos desde a fase de projeto e na execução das tarefas ao instalar, operar ou manter um sistema
elétrico.
Também é muito importante que sejam adotadas medidas de segurança nas instalações elé-
tricas dos usuários do sistema, assim como a educação destes para o uso adequado e seguro da
eletricidade, uma vez que ainda não possuem costume com a mesma.
Em todos os tipos de sistemas híbridos de geração de energia, os procedimentos de implantação,
operação e manutenção devem ser executados apenas por pessoas devidamente treinadas para
tal, utilizando-se dos equipamentos de proteção individual (epi) apropriados para cada função ou
coletivos (epc), dependendo da situação. Também se recomenda que esses procedimentos sejam
feitos sempre por pelo menos duas pessoas, facilitando o socorro, caso necessário. Nas atividades
realizadas, devem-se evitar os improvisos, tais como: bypass de equipamentos de segurança e
controle; ligações com materiais fora dos padrões de segurança (exposição de emendas de cabos,
ou sua inadequada isolação, cabos com bitolas inadequadas); uso de ferramentas inadequadas.
Cartazes com orientações e placas de sinalização nas usinas ou casas de força, ou mesmo
afxados nos equipamentos, descrevendo os riscos potenciais e os procedimentos a serem
seguidos, devem ser dispostos em locais de fácil visibilidade. Manuais básicos de segurança,
operação e manutenção também devem estar disponíveis nas usinas, para uso dos responsáveis
pelo sistema. Estojos de primeiros socorros e de combate a incêndios devem ser disponibilizados
aos usuários.
É importante também que sejam observadas as normas técnicas vigentes; que seja realizado
um correto dimensionamento dos sistemas de aterramento e proteção elétrica; e, ainda, que
seja realizada uma vistoria constante em todas as instalações que compõem o sistema híbrido,
seguindo um plano de operação e manutenção, a fm de manter a segurança nas mesmas.
Análise Econômica Aplicada a Sistemas Híbridos
A análise econômica aplicada a sistemas híbridos é utilizada para se avaliar a viabilidade eco-
nômica do empreendimento, garantindo um possível retorno do investimento realizado, ou
simplesmente para se determinar a opção mais viável dentre as fontes de geração disponíveis.
O correto estudo de viabilidade econômica, além das características particulares do sistema de
geração, passa pela utilização mais adequada das fguras de mérito econômico.
O diagrama de fuxo de caixa apresenta, sob a forma gráfca, as receitas e despesas de cada
alternativa, ordenadas por períodos. Tais receitas e despesas podem ser apresentadas através de
seus reais valores no momento de cada desembolso, como também podem ser trazidas ao presente,
levadas ao futuro, ou ainda atualizadas. Estes conceitos defnem o valor temporal do dinheiro e
são de fundamental importância para a elaboração de estudos de viabilidade econômica.
O horizonte de planejamento e a taxa mínima de atratividade do projeto são indicadores
importantes para se analisar o tempo e a taxa de retorno esperadas pelo empreendimento.
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35 Sistemas Híbridos
Dentre os indicadores fnanceiros mais difundidos na engenharia econômica estão o valor
presente líquido (vpl), o índice benefício/custo (ibc), o retorno adicional sobre o investimento
(roia), a taxa interna de retorno (tir) e o tempo de retorno de investimento (payback). Eles
podem ser utilizados, isoladamente ou em conjunto, no estudo de viabilidade econômica, cada
um com suas características particulares. O método do vpl, um dos mais utilizados, é um método
simples, porém criterioso, por considerar o valor temporal do dinheiro. O ibc auxilia no cálculo
do retorno adicional sobre o investimento; porém, isoladamente não fornece uma estimativa real
de rentabilidade. O roia fornece a estimativa real de rentabilidade de um investimento; porém,
não indica com precisão os riscos envolvidos na análise. A tir indica conjuntamente o retorno
esperado e o risco de um projeto, mas suas soluções são trabalhosas e não são aplicáveis a todos
os casos. Por fm, o payback é um indicador de fácil interpretação, mas não considera fuxos de
caixa após o instante do retorno de investimento.
Os custos associados a sistemas híbridos podem ser divididos em custos de despesa e custos
de receita. Os custos de receita estão normalmente associados ao lucro obtido com a venda da
energia gerada, ou a uma eventual economia resultante da redução no consumo de combustível
ou de outras taxas. Já os custos de despesa podem ser relacionados aos custos de investimento
inicial, custos de operação e manutenção (o&m) e custos de reposição de equipamentos.
Os custos de despesa estão divididos em custos de investimento inicial, que correspondem a
custos de projeto, de aquisição e transporte de materiais e equipamentos, e de instalação; custos
de o&m, que compreendem custos fxos anuais, relacionados ao pagamento de operadores,
aos gastos com combustível, com as leituras e envio de faturas, aos procedimentos periódicos
de manutenção preventiva e corretiva, dentre outros; e custos de reposição de equipamentos,
que referem-se às substituições dos componentes principais do sistema, devido ao fm de suas
vidas úteis.
Sistemas fotovoltaicos e eólicos são caracterizados por apresentarem custos de investimento
mais elevados, e custos de operação e manutenção baixos. Sistemas diesel-elétricos apresentam
comportamento inverso, apresentando baixos custos de investimento inicial e elevados custos de
operação e manutenção. Com relação aos custos de reposição, as baterias são os equipamentos
de sistemas híbridos que requerem substituições mais constantes, devido à vida útil mais curta
que a dos demais componentes do sistema.
Determinados todos os custos envolvidos, o valor presente líquido anualizado do projeto,
que na engenharia também é conhecido como custo do ciclo de vida anualizado, é dividido pela
energia consumida pela carga para se determinar o custo da energia do sistema. Este custo
pode indicar o valor mínimo de tarifa a ser cobrado para que o sistema gere lucros, ou pode ser
comparado ao custo da energia de outras tecnologias de geração para se determinar aquela que
é a mais viável.
Sistemas Instalados e Experiências Adquiridas na
Amazônia
Desde 1994, estudos, simulações e instalações de sistemas híbridos em pequenos aglomerados
populacionais dispersos e semi ou totalmente isolados têm sido realizados na região amazônica
por instituições nacionais e internacionais.
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36 Tecnologias de Energias Renováveis
Nos últimos 14 anos foram seis sistemas híbridos instalados e um atualmente em processo de
implantação, a saber: (1996) fotovoltaico-diesel de Campinas/AM; (1997) fotovoltaico-eólico de
Joanes/PA; (1998) eólico-diesel de Praia Grande/PA; (1999/2007) eólico-diesel de Praia Grande/
PA; (2001) fotovoltaico-diesel de Araras/RO; (2003) fotovoltaico-eólico-diesel de São Tomé/PA;
e (2008) fotovoltaico-eólico-diesel de Sucuriju/AP.
Tecnicamente, a seleção dessas vilas para a implantação dos sistemas híbridos baseou-se na
avaliação objetiva e equilibrada do potencial das fontes solar e eólica, da acessibilidade do local,
da disponibilidade de área apropriada para instalação e da disponibilidade de óleo diesel.
A carga do tipo residencial (televisores, refrigeradores, ferro de passar, lâmpadas incandes-
centes e fuorescentes etc.) predomina na demanda total de eletricidade das vilas. Dentre estas
cargas, os eletrodomésticos correspondem a mais de 70%. Quanto aos tipos de cargas de ilu-
minação, destacam-se as lâmpadas fuorescentes, fuorescentes compactas e as incandescentes
de várias potências.
O perfl de carga das localidades é bem semelhante, com a demanda máxima sempre ocor-
rendo nas primeiras horas do anoitecer (18h00 às 21h00), decorrentes das entradas de cargas
comumente usadas neste período (lâmpadas e televisores, por exemplo), enquanto que as
menores demandas ocorrem no período da manhã, através da utilização de cargas eventuais
(ferro de passar, máquina de lavar etc.).
Os custos operacionais dos sistemas híbridos são inferiores comparados aos de um sistema
unicamente a diesel. A redução decorre da penetração da geração renovável e do hibridismo das
fontes de energia, o que agrupa os benefícios de cada subsistema de geração.
Todavia, constata-se ainda o elevado custo do kWh gerado, em comparação com a tarifa média
cobrada na região para o atendimento convencional. Isso se deve ao elevado custo de aquisição
dos “geradores renováveis” (importados). O desenvolvimento de equipamentos com tecnologia
nacional de baixo custo poderá amenizar esse quadro.
Dentre os problemas de qualidade de energia enfrentados pelos sistemas híbridos, destacam-
se como os principais: distorções harmônicas (utilização de cargas não lineares, por exemplo,
lâmpadas PLs, refrigeradores, televisores); desbalanceamento de potência nas fases; afundamen-
tos de tensão (elevada corrente de surto devida ao acionamento de motores elétricos); quedas
de tensão (principalmente, nos fnais de rede); variação de freqüência (sistema diesel-elétrico
operando – falta de controle tensão/freqüência apropriado); descontinuidade no fornecimento
(intermitência das fontes renováveis, aliada à falta de recursos fnanceiros sufcientes para a
compra de óleo diesel).
Com relação aos impactos ambientais, os mesmos são insignifcantes. Isso pode ser eviden-
ciado por nenhuma manifestação de descontentamento com o ruído por parte dos moradores
próximos dos sistemas; atração visual que se tornaram os sistemas híbridos com os aerogeradores
e suas grandes torres; pequeno espaço físico utilizado pelos sistemas, que não ocasiona perda
de espaço para outras fnalidades. Na fauna, até o presente momento, não há nenhum impacto
signifcativo, com exceção de duas ocorrências de colisão de urubus contra os aerogeradores
dos sistemas híbridos de São Tomé e Tamaruteua.
Dentre os impactos socioeconômicos, destacam-se: substituição total ou parcial das mais
diversas fontes de energia elétrica; crescimento populacional das vilas; aumento de atividades
comerciais de comércios/bares, padarias, armazéns, entre outros; aumento na renda familiar.
Visitas de pessoas, grupos nacionais e estrangeiros de pesquisa interessados nas experiências
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37 Sistemas Híbridos
adquiridas com os sistemas híbridos e o crescimento acentuado da carga instalada e de UCs
confguram-se como outros impactos.
Referindo-se à gestão desses sistemas, dois modelos são utilizados. Em um, os moldes admi-
nistrativos são delineados pela própria concessionária local, a qual é a única responsável pelo
gerenciamento do sistema, determinando as estratégias de operação, manutenção e aplicando
as tarifas pelo serviço de energia elétrica prestado (Campinas e Joanes). O outro modelo tem
seus arcabouços sustentados por uma administração realizada pelas próprias comunidades
(associação comunitária), em parceria com as prefeituras municipais e, temporariamente, com
o agente executor do projeto (Praia Grande, Tamaruteua e São Tomé). Com relação à captação
dos recursos (tarifação pelo serviço de energia), em Praia Grande aplicam-se taxas mensais,
cujos valores variam de acordo com o número de equipamentos eletro-eletrônicos instalados
nas UCs. Em São Tomé e, recentemente, em Tamaruteua (revitalização), destaca-se o sistema
de pré-pagamento de energia. Araras é a exceção dos modelos expostos, gestão feita por um
produtor independente de energia (pie-guascor).
Problemas operacionais devidos principalmente à falta de manutenção e ao crescimento
demasiado da demanda comprometeram o funcionamento dos sistemas híbridos de Campinas
e Joanes.
Por fm, a má gestão também se faz presente em alguns sistemas, caso de Praia Grande e
Tamaruteua (antes da revitalização), onde tais sistemas, após períodos satisfatórios de operação (3
e 4 anos, respectivamente), entraram em processo de falência operacional devido basicamente à:
escassez de recursos fnanceiros captados para manutenção; aplicação de manutenção inadequada
por pessoas não especializadas; quase nenhuma participação das prefeituras municipais.
Modelos de Gestão e Regulação
Os problemas de gestão de sistemas com fontes intermitentes suprindo minirredes estão intima-
mente associados com a sustentabilidade dos mesmos e a questões de ausência de regulamenta-
ção. No atual contexto, onde o próprio caráter intermitente das fontes, associado a uma cultura
de utilização pouco racional da carga, favorece situações de descontinuidade no atendimento,
a administração destes sistemas por parte da concessionária é um risco grande, uma vez que
falhas no atendimento podem resultar em onerosas penalidades à concessionária.
Partindo do cenário atual, onde a maioria dos sistemas híbridos instalados no Brasil é de
caráter experimental, o primeiro problema de gestão a ser solucionado insere-se na realidade
das comunidades onde os sistemas pilotos foram instalados: sistema inicialmente sem a fgura
de um responsável legal, que deve manter-se através de esforços da própria comunidade, com
participação de órgãos governamentais, não-governamentais, universidades e outros, bem como
da própria entidade executora do projeto, quando for o caso.
Neste caso, modifcações na forma de gerir o sistema devem ser providenciadas. A primeira
ação proposta é a formação de uma comissão gestora na comunidade, atuando de forma con-
junta para gerir e administrar o sistema, buscando sua sustentabilidade. Tal comissão deve
incluir, entre outros participantes, os operadores do sistema, outros membros da comunidade,
necessariamente de grupos distintos, representantes da administração municipal e técnicos
especialistas dos agentes executor, fnanciador e colaborador do projeto, mesmo que façam
parte da comissão temporariamente.
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38 Tecnologias de Energias Renováveis
Dentre os atributos da comissão gestora, destacam-se: a defnição de planos estratégicos; o
esclarecimento das limitações de geração do sistema híbrido; a educação da comunidade quanto
ao uso racional da energia elétrica; o estabelecimento de parcerias com instituições diversas; a
avaliação do valor da tarifa pelo serviço; a avaliação dos tipos de setores que terão prioridade no
serviço; a capacitação, por parte dos agentes externos, dos membros da comunidade que com-
põem a comissão gestora; o envolvimento da comunidade no processo de instalação/expansão
do sistema; o atendimento das unidades consumidoras desassistidas; e o acompanhamento e
fscalização do sistema de eletrifcação.
Estas ações constituem-se em importante passo para garantir a sustentabilidade do sistema.
Porém, em casos onde os critérios de atendimento devam ser compatíveis com os atualmente
verifcados na legislação do setor elétrico, os modelos de gestão que sigam as diretrizes aqui
apontadas por si só não garantem a sustentabilidade de um sistema híbrido. Surge a necessidade
da proposta por modelos regulatórios que tornem a legislação adequada à realidade de sistemas
com as características de sistemas híbridos suprindo minirredes.
Os modelos regulatórios propostos são centrados em três pontos: a inserção de subsídios ao
sistema; a fexibilização do período de atendimento; e a defnição de um sistema de tarifação
adequado.
A inserção de subsídios faz-se necessária devido à discrepância atualmente verifcada entre
o custo da energia gerada por sistemas híbridos e o custo de tarifas praticadas pelas concessio-
nárias nacionais, principalmente no atendimento a consumidores de baixa renda, casos típicos
de comunidades isoladas. A proposta é pela criação de um benefício, em moldes similares aos
da Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis (ccc), que privilegiem os sistemas isolados,
independentemente da fonte de geração. O benefício substituiria, então, a ccc, sendo criada
uma Conta de Geração de Energia (cge).
A fexibilização do horário de atendimento, já um anseio de concessionárias que operam
sistemas termelétricos isolados, seria aplicada a casos específcos, onde o perfl dos morado-
res seja condizente com a fexibilização, e onde a localidade disponha de recursos renováveis
moderados, com o atendimento ininterrupto resultando em custos muito elevados, associados
ao superdimensionamento dos sistemas de geração e armazenamento. Algumas características
desta fexibilização, já encontradas em forma de minuta de resolução, são: potência nominal
inferior a 300 kW para o sistema de geração; fornecimento de energia elétrica observando um
total mínimo de seis horas diárias, divididas no máximo em dois períodos diários; e fornecimento
de energia em período reduzido, não aplicável para localidades que já possuam serviço público
essencial ou de interesse da coletividade. A proposta é pela simples adequação desta minuta
para a realidade de sistemas híbridos, onde, por exemplo, os períodos de atendimento podem
ser distintos entre várias unidades consumidoras, uma vez que tecnologias de medidores eletrô-
nicos permitem tal facilidade, além do fato de, em sistemas renováveis, o custo para manter o
sistema operando para atender apenas uma unidade não ser proibitivo como no caso de unidades
geradoras termelétricas.
Sistemas de tarifação adequados a sistemas híbridos suprindo minirredes possuem dois pontos
principais: a utilização de tecnologia de medição adequada e a limitação do uso da energia por
parte do consumidor. Com relação ao primeiro ponto, a proposta é pela adoção de sistemas
pré-pagos de medição, visando à redução dos custos operacionais. Estes sistemas agregam as
principais vantagens do sistema de medição convencional à maior simplicidade operacional do
sistema de cobrança de taxas fxas. Quanto à limitação do uso da energia, a proposta é pelo
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39 Sistemas Híbridos
estabelecimento de faixas de consumo para cada comunidade, com base no recurso renovável
disponível e na energia demandada pela carga. Períodos de recursos renováveis escassos seriam
associados à maior limitação no uso da energia, com a geração diesel-elétrica impedindo que
essa redução seja muito drástica. Em contrapartida, em períodos de recursos fartos a limitação
seria pouco signifcativa. Propõe-se ainda a divisão dos consumidores por classes, com aqueles de
maior consumo, como os estabelecimentos comerciais, compondo uma classe com maior limite
de consumo, enquanto que aqueles de menor consumo compõem outra classe, com menores
limites. Todas as características descritas podem ser associadas a medidores eletrônicos, que
seriam responsáveis pelos cortes por tempo ou por excedente de demanda, alertas ao usuário,
entre outras funções.
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40 Tecnologias de Energias Renováveis 40 Tecnologias de Energias Renováveis
2 Pequenos Aproveitamentos
Hidroelétricos
Soluções Energéticas para a Amazônia
Geraldo Lúcio Tiago Filho (coordenador)
Ângelo Stano Júnior
Antônio Brasil Júnior
Jason Tibiriçá Ferrari
Helmo Lemos
Caroline Fernandes Nunes
Camila Fernandes Nunes
Juliana Sales Moura
Luis Henrique de Faria Alves
Rodrigo Ramos
Rudi Van Els
Frederico Leite
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41 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Introdução
O uso da energia elétrica para o meio rural é um dos processos mais importantes a serem incen-
tivados no Brasil, pois a eletrifcação é fundamental para a implementação de programas de
desenvolvimento, além de ser um fator-chave para aumentar a produtividade no campo e para
melhorar as condições de trabalho e de vida.
A eletrifcação de comunidades isoladas deve ser um processo humano, social, econômico e
ambiental em cujo contexto devem estar inseridos a sociedade e o meio ambiente, que são formadas
por indivíduos, famílias, vizinhos e diversos grupos sociais e espécies que, por sua vez, têm seus
interesses e suas necessidades quanto à educação, saúde e disposição ao trabalho, às atividades
produtivas, geração de renda e melhoria da sua qualidade de vida e desenvolvimento social.
Entretanto, em se tratando da região da Amazônia Legal, os desafos para o atendimento de
uma população extremamente dispersa ao longo das calhas dos rios, apresentam-se extrema-
mente grandes, principalmente no que se refere à operação e manutenção da sustentabilidade
da unidade geradora.
Diante do grande potencial existente na região, as microcentrais (µCH) e as minicentrais (mCH)
hidrelétricas podem vir a ser uma boa opção para o atendimento dessas comunidades.
Esse capítulo procura mostrar a tecnologia existente que envolve esse tipo de empreendi-
mento e apresenta alguns casos concretos desenvolvidos na região.
Distribuição da população na Amazônia Legal
De acordo com estimativas do ibge, em 2004 a população da Amazônia Legal, com uma área
correspondente a 59% do território brasileiro, compunha-se de aproximadamente 12,34% da
população do País, ou seja, em torno de 22 milhões de pessoas, cuja distribuição ocorre de forma
heterogênea, com grande concentração populacional nas capitais e bastante pulverizada no
interior, em localidades distribuídas em áreas de difícil acesso. De acordo com o grau de pressão
exercida pela atividade humana sobre o ambiente, as áreas ocupadas podem ser:
Áreas com baixa pressão ambiental, geralmente ocupadas por terras indígenas e Š
povoamentos dispersos, localizados principalmente em Roraima, no norte do Pará,
noroeste do Amapá, no sudeste do Amazonas e no Acre;
Áreas com elevada pressão ambiental, ocupadas por povoamentos infuenciados pela Š
fronteira agrícola e de exploração mineral e de madeira, como a Amazônia central, o
oeste de Rondônia e o centro-sul do Pará.
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42 Tecnologias de Energias Renováveis
Além do Maranhão, também fazem parte da Amazônia Legal os Estados do Tocantins e do Mato
Grosso, sendo que nesses dois últimos há uma forte pressão sobre o ambiente, principalmente
devido às atividades agrícolas, com a plantação da soja e a criação de gado.
O atendimento de eletricidade às comunidades
isoladas
A energia é fator primordial para a humanidade, constituindo-se num dos pilares para que se
possa obter desenvolvimento social e econômico e para alcançar a qualidade de vida desejável
a qualquer ser humano.
É de fundamental importância conceber o fornecimento da energia elétrica na totalidade
de seu uso, considerando sua inserção num contexto social, econômico e ambiental, de forma
racional, prudente e equilibrada, e ao mesmo tempo, que permita alavancar o desenvolvimento
sustentável da comunidade e, conseqüentemente, da Amazônia Legal e do País.
O plano de gestão energética deverá ser participativo e sustentável, sendo necessário criar
estratégias que suportem esse crescimento proporcionado pela energia elétrica e o benefício
advindo do uso produtivo da energia.
No Brasil, convencionalmente, o sistema de transmissão e distribuição é caracterizado por
dois sistemas distintos:
Interligado Š – o mais importante, é caracterizado pela geração concentrada em grandes
centrais, principalmente hidrelétricas, interconectadas a um sistema de transmissão
construído de forma a atender os grandes centros consumidores do País. Esse sistema
corresponde a 96,7 % da capacidade instalada e atende 98% do mercado de energia do
Brasil.
Isolado Š – com apenas 3,13% da capacidade instalada, é de predominância térmica e
está distribuído na região amazônica, onde uma parte da população está concentrada
em alguns centros urbanos e os demais moradores em pequenos núcleos habitacionais
dispersos ao longo das margens das calhas dos rios.
Vê-se que o mercado do sistema interligado é mais atraente do que o do isolado. Além disso, os
altos custos para construção das extensões das linhas; as difculdades para a transposição dos
acidentes geográfcos (grandes áreas de foresta, áreas alagadas, grandes rios) o alto nível de
dispersão dessas áreas; e a baixa demanda por energia levam, muitas vezes, ao desinteresse por
parte das concessionárias ao atendimento adequado a essas comunidades.
De acordo com Di Lascio (2006), o censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografa e
Estatística, em 2000, indicou que o número de habitações sem o atendimento de energia elé-
trica na Amazônia era de 770 mil, o que resultaria numa população em torno de 3,8 milhões de
pessoas. Dessas, calcula-se que aproximadamente 615 mil residências estariam em condições de
serem atendidas via “extensão de redes”, o que deixa um saldo de 155 mil residências. Segundo o
autor, desse total, 55 mil encontram-se extremamente isoladas, ou reunidas em duas ou três casas
que poderão ser supridas preferencialmente por sistemas fotovoltaicos. As 100 mil habitações
restantes estariam distribuídas em vilarejos, de 4 a 100 residências, onde o mais adequado será
o atendimento por uma unidade geradora, cuja energia deverá ser distribuída por minirredes.
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43 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
O gráfco apresentado na fgura 2.2 mostra, por Estado, o número de habitações sem atendimento
de energia elétrica da Amazônia Legal. Embora o menor número encontre-se no Amazonas e em
Roraima, o desafo de atendê-los é ainda maior.
O atendimento às comunidades isoladas
A despeito da grande disponibilidade hídrica, a topografa pouco acidentada, a baixa declivi-
dade e as grandes dimensões dos rios e a baixa demanda per capita têm inibido ou inviabilizado
a implantação de unidades de µCH e mCH na região amazônica. Entretanto, sítios localizados
nas bordas da Amazônia Legal mostram-se propícios à implantação dessas pequenas unidades
de geração, tais como os mostrado nos mapas mostrados na fgura 2.3.
Figura 2.1 – Sistema brasileiro de distribuição de energia elétrica: sistema isolado e sistema interligado
Figura 2.2 – Domicílios não atendidos por energia elétrica nos estados da Região Norte. Fonte: abradee (apud Rodrigues 2006)
0
50
100
150
200
250
300
350
400
450
MA PA RO AC TO AM RR
400
255
116
45
40
25
8
m
i
l
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44 Tecnologias de Energias Renováveis
a
b
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45 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
c
d
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46 Tecnologias de Energias Renováveis
e
f
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47 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
g
h
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48 Tecnologias de Energias Renováveis
i
Figura 2.3 – Campos propícios à implantação de µCH e mCH na Amazônia Legal: (a) Acre; (b)Amapá, (c) Amazonas, (d)
Maranhão; (e) Mato Grosso, (f) Pará; (g) Rondônia (h) Roraima; (i) Tocantins
Embora a biomassa e os recursos hídricos sejam predominantes na região amazônica, a maioria
das comunidades isoladas, quando supridas por energia elétrica, o são por geradores diesel, mais
fáceis de serem instalados. Nestes casos é comum que o grupo gerador seja de propriedade pri-
vada, individual ou comunitária, cujos proprietários o adquirem e o administram juntamente com
a minirrede, se existente. Na maioria das vezes a capacidade de geração destas unidades está
entre 5 e 50 kW, com o combustível comprado por atravessadores que o transportam e oferecem
em barcaças, praticando custos abusivos. Aqueles que dispõem de recursos de transporte podem
comprar o combustível na sede do município, porém, muitas vezes, o custo do transporte anula
a economia feita.
Outro agravante é o fato de que, por falta de informação e de mão-de-obra qualifcada nas
comunidades, a maioria desses geradores encontra-se em estado de conservação precário, resul-
tando em baixas efciências e alto consumo de combustível. De acordo com Di Lascio (2006),
alguns desses geradores , quando bem conservados, apresentam um consumo de óleo diesel
de 350 g/kWh, mas, quando mal conservados, podem chegar a um consumo de combustível
próximo de 500 g/kWh. Ao se considerar o custo do combustível praticado na região, chega-se
a valores da ordem de R$0,77 a R$2,00 o kWh gerado.
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49 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
As µCH e mCH
Conforme mostra a fgura 2.4, uma central hidrelétrica é composta por um sistema de captação e de
adução da água até o grupo gerador que transforma a energia hidráulica disponibilizada em eletrici-
dade. Essa é transmitida até o ponto de consumo e/ou de interligação, através de cabos elétricos.
equação 2.1
Figura 2.4 – Componentes principais de centrais hidrelétricas de pequeno porte. Fonte: Manual olade (1992)
No Brasil, de acordo com a Resolução aneel Nº 394, de 4 de dezembro de 1998, são classifcadas
como pequenas centrais hidrelétricas os aproveitamentos hidroenergéticos que tenham potência
superior a 1 MW e igual ou inferior a 30 MW e área total do reservatório igual ou inferior a 3,0
Km
2
, determinado pelo nível da água referente à cheia com o tempo de recorrência de 100 anos.
Entretanto, a Resolução aneel Nº 652 de 2003 ampliou o limite da área do reservatório para até
13 km
2
, desde que verifcada a seguinte relação:
S
reservatório
≤ —– ≤ km
P
H
P [kW] e H [m].
Contudo, se for levada em conta a Portaria Nº 136, de 6 de outubro de 1987, do Departamento
Nacional de Água e Energia Elétrica (dnaee), e a Resolução Nº 394 da aneel, sugere-se que as
PCHs sejam classifcadas de acordo com a potência, conforme mostra a tabela 2.1, onde está
acrescida a classe da picocentral hidrelétrica (πCH), já em uso em alguns países.
Classifcação Sigla
Faixa de potência KW
dnaee aneel Proposta cerpch
Picocentral Hidrelétrica* πCH Até 5 - Até 5
Microcentral Hidrelétrica μCH De 5 até 100 - De 5 a 100
Minicentral Hidrelétrica mCH De 100 até 1000 - De 100 a 1000
Pequena Central Hidrelétrica PCH De 1000 até 10000 1 a 30 000 1 a 30.000
(*) classifcação não ofcial, proposta pelo cerpch
Tabela 2.1 – Classifcação das PCHs, segundo a Resolução Nº 394 da aneel e Portaria Nº 136 do dnaee
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50 Tecnologias de Energias Renováveis
Porém, levando-se em conta que, a princípio, as PCHs devem ser empreendimentos com baixos
impactos ambientais e, para efeito de crédito de carbono no mecanismo de desenvolvimento
limpo previsto pelo Protocolo de Quioto, elas devem apresentar a relação de 4 km
2
/kW, sugere-se
que a área do reservatório para as µCH e mCH não deva ultrapassar essa relação, ou seja:
Onde S
RES
[km
2
], Q [m
3
/s]
O estado da arte das µCH e mCH
A indústria nacional está qualifcada e bem aparelhada para fornecer todos os equipamentos
elétricos e hidromecânicos para as centrais hidrelétricas, principalmente para as µCH e mCH,
como comportas, condutos, válvulas, turbinas hidráulicas, geradores, reguladores de velocidade,
sistemas de controle, comando, de automação e de supervisão das centrais.
A fgura 2.5 mostra a vista geral de dois grupos geradores: o primeiro, da pch do Alto Jaurú,
de 15 mW de potência; e o segundo, de 800 kW, da pch Luiz Dias.
S
RES
≤ , . Q
,
≤ km
equação 2.2
equação 2.3
Figura 2.5 – Grupo Gerador: (a) PCH Alto Jaurú: a excitatriz, o gerador, a caixa espiral da turbina e a válvula borboleta; (b)
PCH Luiz Dias, a excitatriz, o gerador, o volante de inércia, o regulador de velocidade óleo hidráulico e a caixa espiral da
turbina hidráulica.
Turbinas Hidráulicas
Basicamente, as turbinas hidráulicas são classifcadas como de ação e de reação, conforme a
tabela 2.3, a seguir, onde estão resumidas as principias características das turbinas, que são
classifcadas em função da rotação específca, n
qa
, determinada pela relação:
n
qa
= 3.n.—
Q
0,5
H
0,75
Onde: n [rpm]; Q [m
3
/s] e H [m].
As tabelas 2.2 e 2.3 apresentam os diferentes tipos de turbinas convencionais e não conven-
cionais para as µCHs e mCHs fabricadas no Brasil, cujos campos de aplicação são apresentados
nas fguras 2.13 e 2.14.
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51 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Também é possível distribuir os diferentes tipos de turbinas em diagramas que mostrem os tipos
de máquinas que melhor se adaptam às condições de queda e de rotação específca, conforme
apresentado no diagrama da fgura 2.6.
TIPO Nome
Rotação Específca
n
qa
Vazão Q
[m
3
/s]
Queda
H[m]
Potência
kW
η
máx
AÇÃO
Pelton
Nº jatos N
qa
0,05 a 0,8 30 a 500 0,1 a 1.000 70 a 91 1 4 a 30
2 6 a 42
Francis
Tipo N
qa
0,01 a 10 2 a 150 1 a 1.000 80 a 93
Lenta 60–180
Normal 150–260
Rápida 260–350
REAÇÃO
Hélice 260–800
0,8 a 25
2 a 40 5 a 1.000 88 a 93
Kaplan
300 a 800 Tubular
1 a 30
Bulbo
Tabela 2.2 – Campo de aplicação das turbinas hidráulicas convencionais para µCH e mCH.
TIPO Nome
Rotação
Específca
n
qa
Vazão Q
[m
3
/s]
Queda
H[m]
Potência
kW
η
máx
Ação Turgo* 60 a 260 0,01 a 4 5 a 250 5 a 1.000 85 a 90
REAÇÃO
Michell-Banki 45 a 180 0,01 a 1,2 1 a 50 1 a 150 65 a 82
Bomba
Funcionando
Como Turbina
– BFT**
60 a 180 0,015 a 0,2 5 a 100 1 a 80 65 a 80
Gerador
periférico **
300 a 800 1 a 30 2 a 30 25 a 200 90 a 93
* não fabricada no Brasil; ** em fase experimental.
Tabela 2.3 – Principais características – turbinas hidráulicas não convencionais para µCH e mCH.
Figura 2.6 – Diagrama de Cordier: campo
de aplicação das turbinas hidráulicas em
função da sua rotação específca e queda
disponível. Fonte:Souza (1999).
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52 Tecnologias de Energias Renováveis
Turbinas Convencionais
Conforme mostrado nas tabelas 2.2 e 2.3, as turbinas hidráulicas convencionais normalmente
aplicadas em centrais hidrelétricas de uma maneia geral são: a Pelton, a Francis, a Hélice e a
Kaplan, e que estão apresentadas nas fguras 2.7 a 2.10. Conforme mostram os gráfcos das fguras
2.13 e 2.14, estas atendem praticamente a todo o campo de aplicação das µCH e mCH.
Figura 2.7 – Rotor Francis: a) lento; b) normal; c) rápido.
a
a
a
b
b
b
c
Figura 2.8 – Rotor de turbina Kaplan: (a) vista frontal; (b) vista lateral.
Figura 2.9 – Turbina Kaplan “S” com acoplamento do gerador: (a) e (b) Turbina “S” fabricação Haker – SC, Brasil.
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53 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Turbinas não convencionais
Como tipos de turbinas não convencionais têm-se: a Turgo – ainda não fabricada no Brasil –, a
Michell-Banki, a Bomba Funcionando como Turbina (bft) e a axial com gerador periférico, ainda
experimental, mostradas nas fguras 2.11 e 2.12. Estas turbinas atendem a pequenos potenciais,
cujos campos de aplicação também estão plotados nos gráfcos das fguras 2.13 e 2.14.
a
a
a
b
b
b
Figura 2.10 – Turbina Bulbo: (a) com rotor de pás móveis, gerador interno, a montante, sendo inspecionada na fábrica; (b)
tipo tubular com acoplamento do gerador a jusante, em operação.
Figura 2.11 – Turbinas Hidráulicas desenvolvidas pela Unifei: (a) Michell-Banki e (b) Bomba Funcionando como Turbina – BFT
Figura 2.12 – Roda Pelton: (a) Grupo gerador com roda Pelton, fabricação Alterima (no primeiro plano vê-se um grupo
gerador com turbina Michell-Banki – Unifei); (b) roda Pelton.
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54 Tecnologias de Energias Renováveis
Figura 2.13 – Campo de aplicação das principais turbinas de ação para µCH e mCH com potência até 1000 kW, de fabricação
brasileira
Figura 2.14 – Campo de aplicação das principais turbinas de ação para µCH e mCH com potência até 1000 kW, de fabricação
brasileira
Turbinas para quedas muito baixas e Hidrocinéticas
Recentemente, têm-se apresentado propostas para aproveitamentos de baixíssimas quedas, tais
como a turbina axial com gerador periférico, desenvolvida por uma pequena indústria nacional,
e que atende de 10 a 200 kW, com desníveis de até 3 metros, mostrada na fgura 2.15 (a). Há
também as turbinas hidrocinéticas, que utilizam a energia cinética das correntezas dos cursos
d’água e são adequadas para atender a pequenas cargas, de algumas centenas de Watts até 10
kW, como a de fuxo cruzado com pás helicoidais, com a turbina Gourlov, apresentada na fgura
2.15(b), e a desenvolvida pela Universidade de Brasília, apresentada na fgura 2.16.
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55 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
a
c
a
b
d
b
Turbinas hidráulicas com técnicas alternativas
Além dos tipos clássicos apresentados, em áreas mais remotas do País há diversos pequenos
fabricantes que fornecem grupos geradores constituídos por turbinas hidráulicas e sistemas
Figura 2.15 – (a)Turbina Hidráulica para baixíssimas quedas, tipo axial, com gerador periférico, Turbo-Silva; (b) turbina
hidrocinética tipo fuxo-cruzado, tipo Gourlov.
Figura 2.16 – Turbina Hidrocinética, desenvolvida pela Universidade de Brasília: (a) vista frontal; (b) vista lateral; (c)
instalada num curso d’água em Correntinas; (d) montada sobre estrutura futuante. Fonte: UnB
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56 Tecnologias de Energias Renováveis
de controle desenvolvidos e fabricados por processos alternativos, com tecnologias bastante
rudimentares, porém robustas e de baixo custo, como a turbina Indalma apresentada na fgura
2.17, que tem sido comercializada na região Norte do País e tem alcançado sucesso relativo junto
aos seus usuários.
a
a
b
b
Figura 2.17 – Turbina tipo Indalma: (a) vista lateral; (b) vista frontal.
Há ocasiões em que os fabricantes destes tipos de turbinas costumam desenvolver tecnologias
singulares e interessantes, tal como o uso da técnica da “argila perdida”, que é utilizada para a
construção da caixa espiral da turbina. Essa técnica constitui-se no seguinte: tendo o rotor da
turbina e o seu tubo de sucção em uma plataforma de concreto, faz-se o desenho da caixa espi-
ral no seu entorno. Sobre o desenho da espiral, utilizando-se de argila, molda-se a caixa espiral
em torno do rotor. Ao longo do barro moldado, constrói-se uma armadura, feita com ferros de
construção de pequenos diâmetros e em forma de malha. Sobre essa malha lança-se o concreto
até que toda a espiral no entorno do rotor esteja completada. Tendo aguardado o tempo de cura,
uma vez o concreto seco, abre-se a válvula na entrada da caixa espiral, fazendo com que a água
entre na caixa espiral, forçando a saída da argila. Assim que toda a argila tenha saído, a turbina
fca pronta para operar. A fgura 2.18 apresenta um esquema desse tipo de tecnologia.
Figura 2.18 – Construção da caixa espiral pelo método “argila-perdida”: (a) molde em barro com armadura de ferro; (b)
turbina com a caixa espiral já concretada.
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57 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Geradores
Os geradores disponíveis no mercado brasileiro podem ser classifcados basicamente em dois
tipos: síncronos ou assíncronos.
Os geradores síncronos podem ser:
De baixa velocidade, que normalmente são acionados por um motor ou por uma turbina Š
hidráulica e se caracterizam fsicamente por ter pólos salientes, um grande diâmetro e
pequeno comprimento axial (fgura 2.20a).
De alta velocidade, também chamados de turbogerador, que normalmente são Š
utilizados em centrais termoelétricas.
Geradores com velocidade muito baixa exigem grande número de pares de pólos, resultando
em máquinas com dimensões maiores, o que aumenta os custos, sendo pouco aplicados em
µCH e mCH.
No caso de haver impedimento para adequar a rotação da turbina com a rotação síncrona do
gerador, costuma-se, em µCH e mCH, especifcar geradores com no mínimo 600 rpm. Em apro-
veitamentos com quedas muito baixas torna-se muito difícil assumir uma rotação síncrona para a
turbina acima deste valor. Neste caso recomenda-se utilizar os multiplicadores de velocidade do
tipo correia e polia ou caixa de transmissão mecânica. Entretanto, o uso desses dispositivos costuma
resultar em perdas mecânicas e no aumento no trabalho de manutenção do grupo gerador.
O gráfco da fgura 2.19 mostra os geradores elétricos síncronos disponíveis no mercado em
função da potência e do número par de pólos (rotação síncrona).
Figura 2.19 – Potências disponíveis para µCH e mCH de geradores síncronos em função do número de pares de pólos. Fonte:
Tiago Filho (2003)
Os geradores síncronos necessitam produzir suas próprias excitações (fgura 2.20b) ou recebê-las
de um sistema dedicado (excitação estática). Atualmente, tem-se adotado a excitatriz estática
do tipo “brushless”, cuja manutenção é quase nula.
Já em centrais de porte muito pequeno, como as picocentrais hidrelétricas (πCH), costuma-se
utilizar geradores de corrente contínua ou os alternadores de ímãs permanentes, que podem ser
com armadura rotativa ou com o campo rotativo, como os apresentados na fgura 2.21.
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58 Tecnologias de Energias Renováveis
Reguladores de Velocidade e Sistemas de Controle e Automação
Os reguladores de velocidade, tradicionalmente, são fabricados do tipo óleo-hidráulico e forne-
cidos pelos próprios fabricantes da turbina (fguras 2.22a e 2.22b). Mais recentemente também
foram desenvolvidos reguladores eletrônicos de carga, muito utilizados em πCHs, que através
de uma carga de lastro mantém a freqüência da rede constante. A fgura 2.22 (c) apresenta um
destes reguladores.
a b
Figura 2.20 – Gerador: (a) vista do rotor e extrator de um gerador de uma PCH; (b) excitatriz.
a
b c
Figura 2.21 – Geradores elétricos para πCH e µCH: (a) gerador de corrente contínua; (b) alternador com armadura rotativa;
(c) alternador com campo rotativo
c
a
d
b
e
Figura 2.22 – Regulador
de Velocidade: (a) óleo
hidráulico, para uma
turbina Pelton; (b)
esquema do circuito
de um regulador óleo
hidráulico para uma
turbina Pelton;(c) painel
de controle de uma
πCH; (d) regulador
eletrônico trifásico; (e)
carga de lastro. Fonte:
Manual olade (1992)
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59 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Em projetos mais recentes de centrais hidrelétricas, prevê-se a automatização parcial ou total
da central.
A automatização em µCH e mCH, basicamente, é composta por um clp (Controlador Lógico
Programável) cuja função lógica monitora a freqüência com a qual a energia está sendo gerada
e comanda a ação do servomecanismo do regulador de velocidade de rotação do grupo gerador,
além de comandar a sua partida e a parada que, por sua vez, também pode ser feita manual-
mente, por iniciativa do operador.
O clp também pode ter outras funções, tais como atuar nos demais processos e sistemas da
central, como na subestação, na tomada d’água, nos serviços auxiliares.
Além disso, esse tipo de sistema permite a implantação de um sistema de supervisão do
grupo gerador, de forma a monitorar todos os parâmetros importantes da sua operação, como
a vazão turbinada, a pressão na entrada da turbina, a potência gerada, a intensidade e tensão
da corrente, temperatura dos mancais, posição de manobra das válvulas, dentre outros, sendo
também um meio para o monitoramento remoto da central.
Barragens
As barragens têm como função reter a água de forma a conduzi-la ao sistema de adução da central
hidrelétrica, além de implicar uma obra estratégica para prover recursos para o uso múltiplo da
água. Para a sua construção podem-se utilizar diferentes materiais, tais como madeira, terra,
pedra e concreto em diversas concepções, tal como mostrado nas fguras 2.23 a 2.25.
a
a
b
b
Figura 2.23 – Barragem de terra homogênea: (a) pch Palmeiras; (b) pch Piau
Figura 2.24 – Barragem de enrocamento – pch Machado Mineiro: (a) vista de jusante; (b) vista de montante
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60 Tecnologias de Energias Renováveis
O mais comum é utilizar barragens de terral e rocha, quando a obra é do tipo não galgável, e
concreto, quando a obra é do tipo galgável. Entretanto, devido ao alto custo dos materiais, houve
um aumento de popularidade das barragens feitas com concreto compactado a rolo (ccr). Esse
tipo de técnica alia a resistência do concreto à praticidade de construção das barragens de terra
e de rocha.
Barragens móveis
Em se tratando de rios com baixas declividades, onde por diferentes motivos há a necessidade
de se manter a água dentro da calha do rio, ou se deseja aumentar a altura da barragem e con-
trolar o nível da água no reservatório, pode-se utilizar as “barragens móveis”. Essas podem ser
construídas na forma infável feitas com borracha, conforme mostram as fguras 2.26 (a) e 2.26
(b), ou na forma basculante, como apresentado nas fguras 2.27 (a) e 2.27 (b).
a b
Figura 2.25 – (a) Barragem de concreto; (b) barragem de pedra argamassada
a b
Figura 2.26 – Barragem de borracha infável – fabricante Bridgestone: (a) instalada sobre um vertedor; (b) instalada sobre o
leito de um curso d’água
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61 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Com o objetivo também de aumentar o nível do reservatório e garantir segurança à estrutura em
condições de vazões extremas, há fabricantes que sugerem o uso de “barragens” ou “comportas
fusíveis”.
Como o próprio nome diz, esse tipo de obra funciona como um “fusível” contra as enchen-
tes. Sua operação só ocorre em condições extremas, quando a vazão de cheia ultrapassa o seu
valor nominal. Neste caso a comporta (ou barragem) móvel tomba, abrindo uma passagem extra
sobre a soleira do vertedor, onde a comporta está instalada, aumentando a sua capacidade de
vertimento. Desta forma garante-se a segurança da barragem e das populações que porventura
estejam localizadas a jusante da obra (fguras 2.28a, 2.28b e 2.28c).
a b
Figura 2.27 – Barragens móveis: (a) operada por meio de colchões infáveis; (b) operada por pistão óleo-hidráulico
a
b c
Figura 2.28 – Comporta-fusível, fabricação hydroplus
®
: (a) esquema em perspectiva; (b) Instaladas na barragem st-herbot,
na França; (c) sobre o vertedor de uma barragem
Esse tipo de solução permite diminuir custos na construção da barragem, além de aumentar o
comprimento do vertedor, diminuir a altura da lâmina d’água sobre o vertedor, aumentar o nível
do reservatório já implantado e, conseqüentemente, quando desejável, aumentar a capacidade
de um reservatório e a potência da central.
Em centrais de baixas quedas, as barragens móveis podem ser utilizadas para controlar o nível
d’água do reservatório, por exemplo, ou fazer com que a água permaneça confnada no interior
da calha do rio, mesmo por ocasião das cheias.
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62 Tecnologias de Energias Renováveis
Alguns projetos de μCH desenvolvidos na região
amazônica
A seguir são apresentados algumas experiências sobre implantação de µCHs na região Norte
do País.
Projeto µCH Canaã
Esse projeto tinha como meta implantar uma µCH no rio Roosevelt, na comunidade denominada
Assentamento Canaã, no município de Pimenta Bueno, ao sudeste do Estado de Rondônia.
A comunidade é formada por 55 famílias, assentadas pelo incra, em uma área vizinha à
reserva indígena dos “Cintas-Largas”.
Previa-se construir a µCH na margem esquerda do rio Roosevelt. Não haveria barragem,
apenas um espigão para conduzir a água ao sistema adutor. A queda disponível era de 12 metros
e previa-se, numa primeira fase, gerar 60 kW.
Infelizmente, o projeto não logrou êxito devido à intransigência e a falta de espírito público
do proprietário da terra, que não autorizou a sua construção. Ficou a experiência do contato
com a comunidade, o conhecimento das difculdades pelas quais elas estão sujeitas e a neces-
sidade de prover meios para que uma população desassistida como essa possa alcançar melhor
qualidade de vida. A fgura 2.29 mostra alguma situação encontrada na comunidade e o arranjo
proposto para a µCH.
a
c
b
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63 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
A A
EL. 271,40 m
1
,
5
0

x

1
,
8
0
1
,
0
0
2
,
0
0
2
,
1
0
0
,
8
0

x

0
,
4
0
1
,
7
0
1
,
5
0

X

1
,
8
0
1
,
0
0
1
,
5
0

X

1
,
8
0
1
,
0
0
3,00x1,20
1,00
Almoxarifado
Subestação Elevadora
0
,
8
0
2
,
1
0
Banho
0
,
8
0
2
,
1
0
Painel 1
Bloco de Ancoragem
BA02
Figura 2.29 – Projeto µCH Canaã: (a) Rio Roosevelt seção da tomada d’água; (b) e (c) grupo gerador diesel para atendimento
individual; (d) arranjo da µCH Canaã; (e) arranjo da casa de máquinas – vista em planta
d
e
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64 Tecnologias de Energias Renováveis
Projeto Cachoeira do Aruã
Trata-se de um projeto que, também com recurso do CT-Energ e do Ministério de Minas e Energia,
teve como objetivo implantar um projeto-piloto de geração descentralizada em comunidades
isoladas na região amazônica de forma a implantar uma gestão comunitária que permitisse a
auto-sufciência do empreendimento.
A µCH, de 50 kW, foi implantada no rio Aruã, numa comunidade distante 14 horas de barco de
Santarém, no centro-sul do Estado do Pará. A função foi atender as famílias residentes, uma escola,
uma bomba hidráulica para recalcar água ao reservatório de distribuição à comunidade e duas uni-
dades produtivas que foram implantadas pelo projeto. As referidas unidades produtivas eram uma
ofcina moveleira e uma central de congelamento de polpa de frutas, que tinham como objetivo
permitir o uso produtivo da energia geada pela µCH e gerar renda à comunidade. As fguras 2.30,
2.31 e 2.32 apresentam características da comunidade de Aruã, bem como aspectos da µCH.
Figura 2.30 – Atendimento à comunidade de Aruã: (a) linha de transmissão e distribuição; (b) escola atendida pelo projeto;
(c) habitação atendida pelo projeto
Figura 2.31 – Aspectos da µCH Cachoeira do Aruã: (a) barragem e tomada d’água; (b) casa de máquinas; (c) grupo gerador e
quadro elétrico
Figura 2.32 – Usos produtivos da energia: (a) unidade moveleira; (b) congelador de polpa de frutas;(c) bombeamento para o
sistema de distribuição de água potável
a
a
a
b
b
b
c
c
c
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65 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Figura 2.33 – Antigas condições da µCH Novo Plano: (a) tubulação forçada e casa de máquinas; (b) grupo gerador; (c) “quadro
elétrico” da central
a b c
Dos dois projetos em que se previam a mobilização e organização da população para a implan-
tação de um sistema de gestão comunitário que desse auto-sufciência à unidade geradora, esse
foi aquele em que se conseguiu o maior índice de sucesso. Para tanto, o projeto contou com
a colaboração da Fundação Winrock e com a ong Alegria, cujo apoio foi fundamental para o
sucesso do projeto.
Projeto µCH Novo Plano
Esse projeto foi desenvolvido junto à comunidade Novo Plano, localizada no município de Chu-
pinguaia, no Estado de Rondônia. Com uma potência instalada de 55 kW, prevê-se o atendimento
de 40 famílias da comunidade.
Trata-se de um projeto de repotenciação de uma µCH já existente, construída pelos próprios
moradores, que atendia apenas três moradias e encontrava-se em péssima condição de manu-
tenção, conforme pode ser visto na fgura 2.33.
a
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66 Tecnologias de Energias Renováveis
b c
Figura 2.34 – Projeto µCH Novo Plano: (a) arranjo físico; (b) novo conduto forçado; (c) turbina hidráulica tipo Francis
Figura 2.35 – Projeto µCH Jatoarana: (a) barragem de terra com vertedor lateral; (b) casa de máquinas; (c) canal de adução,
escavado em terra sem revestimento; (d) turbina hidráulica tipo Indalma; (e) linha de transmissão; (f) habitação sendo atendida
O projeto de repotenciação previu a construção de uma nova tomada d’água, a troca dos con-
dutos forçados e do grupo gerador e um aumento substancial na potência gerada. A fgura 2.34
mostra alguns aspectos da central repotenciada.
Esse projeto contou com grande cooperação da comunidade e, durante sua construção, a
maior difculdade encontrada foi a grande freqüência de chuva na região.
Projeto µCH Jatoarana
O projeto µCH Jatoarana foi desenvolvido para atender duas comunidades: a de Nova Olinda e a de
Santa Luzia, no município de Belterra, a 140 km de Santarém, na região central do Estado do Pará.
Com a potência de 55 kW, ele é responsável pelo atendimento de 40 famílias, cujas habitações
estão espalhadas em pequenas aglomerações ao longo de 8 km.
A fgura 2.35 apresenta diversos aspectos técnicos da µCH.
a
d
b
e
c
f
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67 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
Figura 2.36 – Modelo Prisma – gestão comunitária de unidades geradoras em comunidades isoladas, estruturadas em
produtor independente de energia – pie. Fonte: Oliver (2005)
Modelos de gestão para unidades de geração em
comunidades isoladas
Os projetos apresentado no item anterior fzeram parte de um programa do Ministério de Minas e
Energia de disseminação da tecnologia na região amazônica para desenvolver modelos de gestão
comunitária participativa que dêem auto-sustentabilidade às unidades de geração implantadas
em comunidades isoladas.
A princípio os modelos de gestão consistem em: organizar a comunidade em uma associa-
ção, o governo ou outro agente responsável pelo desenvolvimento social, implantar a unidade
geradora a ser registrada na aneel e repassada em comodato à associação.
Modelo Prisma Š : a associação se torna produtor independente e assina um PPA e
outro contrato de o&m com a concessionária local. Os recursos obtidos com a venda
da energia e com o serviço de o&m são utilizados para a operação e manutenção
da unidade geradora. Parte da energia entregue à concessionária é consumida em
instalações produtivas, como ofcina moveleira, congelamento de polpas de frutas,
ou outras atividades às quais a comunidade seja vocacionada. A renda obtida com
essas atividades gera mais receita que, por sua vez, permite pagar à concessionária
pela energia consumida e, com o restante, obter meios para alcançar a melhora na sua
qualidade de vida. Esse modelo está, em parte, sendo testado na comunidade de Aruã, e
pode ser visualizado na fgura 2.36.
Modelo autoprodução Š : No princípio segue o mesmo procedimento do modelo anterior,
com a diferença que a associação seria registrada na aneel como um autoprodutor
que venderia apenas parte da energia à concessionária, o sufciente para atender às
habitações. A outra parte da energia seria consumida pelas instalações produtivas que
gerariam empregos e renda à comunidade, aumentando o valor agregado aos produtos
da comunidade. Esse modelo, observado na fgura 2.37, infelizmente não pôde de ser
implantado devido ao fato do impedimento à construção da µCH Canaã.

Serviços O&M e
Assist. Comercial
(Contrato Serviços)
Prestação de Contas
(Termo de Parceria)
Investimento Inicial
Concessionária
OSCIP/PIE
Consumidores
Energia
(PPA)
$
$
Energia
(Contrato de Adesão)
Poder Público
$
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68 Tecnologias de Energias Renováveis
Comentários fnais
Com os trabalhos desenvolvidos na Amazônia Legal, na implantação de quatro projetos-pilotos,
onde três lograram sucesso, observou-se que o fornecimento de energia elétrica por si só, sem
uma fase preliminar de planejamento de estudos que possibilite identifcar, reunir e integrar os
recursos diversos que podem ser aproveitados, preservados e potencializados, não é sufciente
para se alcançar tal desenvolvimento.
O fornecimento de um sistema de geração de energia elétrica em comunidades isoladas
deve conter um plano de gestão participativo e sustentável, e devem-se criar estratégias que
dêem suporte ao crescimento proporcionado pela chegada da energia elétrica que benefciem
os indivíduos, gerando renda através do uso produtivo da energia.
Em se tratando de µCH e mCH, a região amazônica mostra-se bastante propícia. A tecnologia
envolvida nesse processo é totalmente dominada pela indústria nacional e, o mais importante,
pela indústria local. Porém, as condições locais, de rios caudalosos e com pequenas declividades
em sua maioria, impõem soluções que ainda não se encontram em estágio adequado no Brasil, o
que pode difcultar a implantação dessas µCH e mCH, ou destiná-las apenas à regiões do entorno
Figura 2.37 – Modelo de gestão comunitária participativo, para auto-sustentabilidade de unidades geradoras em
comunidades isoladas, estruturada em autoprodutor de energia – ape
Poder Público
$ Investimento Inicial
$ O & M
$ Receita
$ Tarifa
$ Renda
$

O

&

M

R
e
d
e
$

P
P
A
$ Receita
$

I
n
v
e
s
t
i
m
e
n
t
o
s
Energia consumo próprio Energia excedente
Planta μCH
OSCIPE
APE
O&M
Rede
Atividade
Produtiva
Trabalho
Venda
PPA
Concessionária
Distribuição
Consumidor
Melhoria da
qualidade
de vida
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69 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos
da bacia amazônica, onde a topografa mostra-se mais adequada.
Além disso, é de fundamental importância conceber o fornecimento da energia elétrica na
totalidade de seu uso, considerando sua inserção num contexto social, econômico e ambiental,
de forma racional, prudente e equilibrada, e ao mesmo tempo, que permita alavancar o desen-
volvimento sustentável da comunidade e, conseqüentemente, à região e ao País.
É nosso dever apontar as possíveis soluções e os meios de alcançá-las; à população das comu-
nidades isoladas compete defnir o seu desejo de mudança e se organizar e trabalhar para isso.
Meios existem, é necessário desejar as mudanças e colocá-las em prática.
Agradecimentos
Agradecemos à Secretaria de Energia do Ministério de Minas e Energia, ao Programa Luz Para
Todos e ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – pnud por terem acreditado
no trabalho do cerpch, proporcionando os meios para o desenvolvimento dos projetos pilotos
apresentados e dessa bibliografa. A experiência adquirida foi e será muito importante para o
desenvolvimento das atividades do centro, bem como para as comunidades envolvidas.
Agradecemos aos parceiros envolvidos nos projetos, como a Fundação Winrock Comunidade
Alegria, cuja participação foi fundamental para o sucesso dos mesmos.
Agradeço à equipe do cerpch, que foi solidária no desenvolvimento dos projetos e na ela-
boração do guia, do livro e deste capítulo, dos quais são co-autores.
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70 Tecnologias de Energias Renováveis 70 Tecnologias de Energias Renováveis
3 Combustão e Gasifcação
de Biomassa Sólida
Soluções Energéticas para a Amazônia
Gonçalo Rendeiro (Coordenador)
Manoel Fernandes Martins Nogueira (Editor)
Augusto César de Mendonça Brasil
Daniel Onofre de Almeida Cruz
Danielle Regina da Silva Guerra
Emanuel Negrão Macêdo
Jorge de Araújo Ichihara
Co-autores:
André Augusto Azevedo Montenegro Duarte
Antonio Geraldo de Paula Oliveira
Hendrick Maxil Zárate Rocha
Robson Evilácio de Jesus Santos
Sergio Aruana Elarrat Canto
Wilson Negrão Macêdo
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71 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
Caracterização da Geração na Amazônia
Havia, no início de 2006, 294 sistemas isolados em operação autorizados pela Agência Nacional
de Energia Elétrica (aneel). A sua distribuição espacial era a seguinte:
Na região Norte: 288; Š
No Estado de Mato Grosso: 32; Š
Nos Estados de Pernambuco, Bahia, Maranhão e Mato Grosso do Sul: 4. Š
Tomados em conjunto, estes sistemas cobrem quase 50% do território nacional, consomem
aproximadamente 2% da energia elétrica utilizada no País e representam a mesma proporção
do pib. Cabe ressaltar que, além dos 294 sistemas isolados autorizados, existem centenas de
sistemas isolados em operação sem autorização, mesmo quando pertencentes a concessionárias,
e outras tantas centenas de localidades sem atendimento.
Os sistemas isolados mais importantes, do ponto de vista da dimensão do consumo, são
os que atendem as capitais da região Norte (Manaus, Porto Velho, Macapá, Rio Branco e Boa
Vista), com exceção de Belém, que está integrada ao sistema interligado nacional. Estes sistemas
representam cerca de 80% da carga total dos sistemas isolados.
Nos sistemas de Manaus, Porto Velho e Macapá, a geração de eletricidade provém de sis-
temas hidrotérmicos. Em Rio Branco, o atendimento era puramente térmico, situação que foi
alterada ao fnal de 2002, com a interligação ao sistema de Porto Velho em 230 kV. O sistema
que atende Boa Vista e parte do interior do Estado de Roraima passou a ser suprido, a partir de
julho de 2001, com importação de energia da Venezuela, por meio da interligação ao sistema da
hidrelétrica de Guri em 230 kV naquele país vizinho.
A grande maioria dos sistemas do interior dos Estados da região Norte é suprida por unidades
dieselelétricas de pequeno porte. Contudo, existe, também, um parque hidrelétrico composto
por pequenas centrais hidrelétricas (pchs), totalizando cerca de 42 MW de potência instalada
em 22 usinas nos Estados de Rondônia, Roraima e Mato Grosso. Este parque será expandido
com a instalação, até o fnal de 2006, de 14 novas pchs, adicionando mais 110 MW à potência
desses sistemas.
Até recentemente, a geração nos sistemas isolados possuía um certo arcabouço legal, ainda
que insatisfatório. A mudança processada nessa legislação, durante o processo de privatização,
revogou itens, o que conduziu à situação atual de completo vácuo legal, contribuindo para a
desestabilização e insolvência dos agentes, a aceleração do desequilíbrio e, com o fm das con-
cessões, a obsolescência do parque gerador.
Os principais agentes que operam nos sistemas elétricos isolados do País são a Eletrobrás e
Eletronorte com suas respectivas subsidiárias, os governos dos Estados do Amapá e Roraima, as
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72 Tecnologias de Energias Renováveis
concessionárias privadas celpa e cemat do Grupo Rede, e alguns produtores independentes.
A Eletronorte é controladora das subsidiárias Manaus Energia (Mesa), responsável por 89,5%
da energia distribuída no Estado do Amazonas (a grande maioria na capital, Manaus) e proprietária
da usina hidrelétrica (uhe) Balbina e usinas termelétricas (utes) Mauá, Aparecida e Electron; e a
Boa Vista Energia (Bovesa), que responde por 84% da energia distribuída no Estado de Roraima
(essencialmente na capital, Boa Vista).
A Eletronorte é supridora dos sistemas isolados das capitais do Amapá, através da uhe Coa-
racy Nunes e ute Santana; de Roraima, através de importação da empresa venezuelana Edelca
e ute Floresta; do Acre, através das utes Rio Branco e Rio Acre; e de Rondônia, através da uhe
Samuel e ute Rio Madeira.
A Eletrobrás é controladora da Eletronorte e das empresas concessionárias distribuidoras
federalizadas que operam em sistemas isolados, Companhia Energética do Amazonas (Ceam),
Centrais Elétricas de Rondônia (Ceron) e Companhia de Eletricidade do Acre (Eletroacre). A
Ceam é suprida parcialmente pela Mesa e possui pequenas centrais termelétricas (pcts). A
Ceron possui pchs e pcts.
Os governos dos Estados do Amapá e Roraima são controladores da Companhia de Eletrici-
dade do Amapá (cea) e Companhia de Eletricidade de Roraima (cer), respectivamente. A cer é
suprida parcialmente pela Bovesa.
Os principais produtores independentes de energia (pies) que suprem os sistemas isolados
possuem as seguintes usinas:
ute Š s El Paso Amazonas, El Paso Rio Negro e BK, no Estado do Amazonas;
ute Š s Termonorte I e II consórcio CS Participações/El Paso, no Estado de Rondônia;
ute Š Barro Vermelho SoEnergy, no Estado do Acre;
celpa Š : 38 sistemas com 75 MW efetivos, e cemat: 34 sistemas com 87 MW efetivos,
SoEnergy: 55 sistemas com 77 MW.
Há diversas PCHs de produtores independentes no Estado de Rondônia. O produtor independente
Guascor supre diversas localidades no interior dos Estados de Rondônia, Acre e Pará, enquanto
que o produtor independente Rovema, atende a localidades no interior de Rondônia.
Princípios para Uso de Biomassa como Combustível
Dois são os processos de conversão da energia contida na biomassa que são abordadas neste
livro: combustão e gasifcação. Ambos os processos consistem da reação dos componentes da
biomassa com ar. A combustão ocorre com excesso de oxigênio enquanto que a gasifcação
ocorre com falta de oxigênio. Excesso ou falta é com relação a uma quantidade de referência
denominada quantidade de ar estequiométrica. Este capítulo apresentará os conceitos básicos
das reações de combustão e gasifcação e ensinará a quantifcar as massas de combustível e ar
requeridos para esses processos, bem como o poder calorífco dos combustíveis e a temperatura
adiabática da reação.
Conversão Energética da Biomassa
É uma reação química de oxidação de materiais combustíveis. Os reagentes, geralmente o oxigênio
do ar e um hidrocarboneto, colidem entre si causando a sua destruição. Os elementos químicos
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73 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
resultantes dessa destruição se recombinam formando novas espécies químicas denominadas
de produtos. Essa destruição seguida de recombinação numa região espacial específca libera
calor e eventualmente emite luz. Resumindo, a combustão é uma reação química exotérmica
entre um combustível e um comburente, usualmente o oxigênio, para liberar calor, formando
como produto um grupo de espécies diferente dos reagentes.
Todo processo de combustão somente ocorre na fase gasosa. Um processo de combustão de
gases pode ser exemplifcado pela reação abaixo. Nela o gás metano reage com o oxigênio puro
(o oxigênio contido no ar vem acompanhado com nitrogênio. Para cada átomo de O
2
recolhido
no ar, vem acompanhando 3,76 átomos de N
2
).
CH

kmol
volume
+ O

+ kmol
+ volumes
+ H

O
+ kmol
+ volumes

CO


kmol

volume
equação 3.1
equação 3.2
Nessa reação, os reagentes são o metano e o oxigênio, que reagem entre si formando os produtos
CO
2
e H
2
O liberando o calor de reação. Note que para essa reação acontecer, são necessárias
quantidades exatas de átomos envolvidos. Para cada átomo de carbono, é preciso que tenhamos
dois átomos de oxigênio para formar CO
2
e para cada dois átomos de hidrogênio é preciso for-
necer um átomo de oxigênio para formar uma molécula de água. Essa reação com quantidades
de combustível e oxidante nas quantidades exatas é denominada de reação estequiométrica.
A quantidade de oxidante numa reação estequiométrica depende do combustível e é obtida a
partir do balanço de átomos dos reagentes e dos produtos.
Processos de combustão e gasifcação na presença de oxigênio puro só se justifcam para
plantas de grandes potências devido ao custo de separar o oxigênio do ar do nitrogênio. Nos
outros casos utiliza-se o oxigênio do ar, que possui o inconveniente de para cada molécula de
oxigênio trazer consigo 3,76 moléculas de nitrogênio, que é um inerte.
A presença de nitrogênio reduz a temperatura da chama e conseqüentemente a tempera-
tura dos gases resultantes da combustão, pois absorve o calor liberado pela reação para elevar
sua temperatura. Sem a presença de nitrogênio, a temperatura da chama pode ultrapassar os
2.000°C, capaz de derreter as paredes da câmara de combustão. A desvantagem da presença
do nitrogênio é que a altas temperaturas ele se dissocia e se associa com o radical oxigênio livre
formando NO. NO reage com oxigênio do ar formando ozônio, que é um poluente. Processos
de combustão normalmente usam ar.
Para o caso de combustão com ar, é preciso defnir a razão ar-combustível.
massa de ar
massa de combustível
λ = ———————————
Essa é a razão ar-combustível estequiométrica. Este texto adotará que se mais ar for adicionado
do que o ar estequiométrico, a mistura será pobre (por enquanto se paga somente pelo combus-
tível) e ocorrerá λ > λ
est
. Se menos ar for adicionado à combustão que o requerido pela reação
estequiométrica, a mistura reagente será denominada rica e terá λ < λ
est
. Reagentes pobres e ricos
terão diferentes produtos como será visto na próxima seção. Diferentes combustíveis possuem
diferentes razões ar-combustível.
miolo síntese.indd 73 19/12/2008 16:52:31
74 Tecnologias de Energias Renováveis
Reagentes com misturas ricas e pobres – Razão de Equivalência
Quando os reagentes possuem misturas ricas ou pobres, a composição dos produtos é diferente
dos produtos de uma reação estequiométrica (CO
2
, H
2
O e N
2
).
Numa mistura pobre, existe excesso de oxigênio. Supondo não existir dissociação, o excesso
de oxigênio não tem com quem reagir e passa pela chama como se fosse um inerte e aparece
nos produtos. Então os produtos de uma mistura pobre serão CO
2
, H
2
O, N
2
e O
2
.
Numa mistura rica, existe falta de oxigênio. Supondo não existir dissociação, falta oxigênio
para reagir com todo o carbono e hidrogênio disponíveis, propiciando a formação de CO e H
2
.
Então os produtos de uma mistura rica serão CO
2
, H
2
O, N
2
, CO e H
2
.
No processo de gasifcação, busca-se converter o combustível em CO e H
2
, e é indesejável
produzir CO
2
e H
2
O. Assim sendo, esse projeto é feito em falta de oxigênio, excesso de combus-
tível, caracterizando que os reagentes são uma mistura rica. Esses processos geralmente operam
com 30% da quantidade de ar estequiométrico.
Razão de equivalência é defnida como a razão combustível-ar dos reagentes pela razão
combustível-ar em condição estequiométrica. Essa defnição é válida tanto na base molar quanto
na base mássica. Alguns autores preferem utilizar a razão de equivalência defnida como razão
ar-combustível utilizada nos reagentes pela razão ar-combustível na condição estequiométrica.
Este texto adotará a primeira defnição. Então razão de equivalência é:
equação 3.3
equação 3.4
N
comb
N
ar
Φ = —–——–– = —————
—–—–
N
comb
N
ar est
—–—–
m
comb
m
ar
—–—–
m
comb
m
ar est
—–—–
Onde N
comb
e N
ar
são os números de moles do combustível e do ar na mistura que estão sendo
empregados e (N
comb
/N
ar
)
est
é a razão combustível-ar estequiométrico. Nesta defnição de Φ > 1,
a mistura é rica e se Φ < 1, a mistura é pobre.
Processos de combustão utilizam Φ de aproximadamente 0,95 enquanto processos de gasi-
fcação utilizam Φ em torno de 3.
Calor de Reação e Poder Calorífco
Calor de reação é defnido como a quantidade de calor liberado durante a reação estequiométrica
de combustão até que o produto alcance a mesma temperatura do reagente. Exemplifcando,
considere um recipiente a pressão constante cheio de metano e oxigênio com razão ar-metano
igual à estequiométrica e temperatura 298 K. Iniciando a combustão (talvez com uma centelha),
a temperatura sobe até alcançar o máximo possível (por exemplo, 1700 K). Como o exterior do
recipiente está a 298 K, calor é removido e a temperatura no seu interior baixa, e depois de certo
tempo, o produto da combustão no interior do recipiente entra em equilíbrio com o meio externo
a 298 K. A quantidade de calor removido é denominada calor de reação.
Para quantifcar o calor de reação utiliza-se a primeira Lei da Termodinâmica, que estabelece,
no caso de processo a pressão constante, que a energia liberada é igual à variação de entalpia
entre produto e reagentes.
Q
R
= H
produto
- H
reagente
miolo síntese.indd 74 19/12/2008 16:52:31
75 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
Onde N
i
é o número de moles da espécie “i” contida na mistura e H = ∑ N
i
. h
i
n


é a entalpia molar dessa
espécie na temperatura da mistura (kJ/mol). O número de moles de cada espécie é obtido da
reação estequiométrica e a entalpia molar é a soma da entalpia de formação a temperatura de
298 K e da entalpia sensível que a mistura possui a certa temperatura.
Poder calorífco é defnido como o calor de reação, com o sinal invertido e na base mássica.
pcs é calculado utilizando a quantidade de calor extraído da reação química, de maneira que a
água no produto condensa e fca na fase líquida. Se a temperatura do reagente e do produto for
298 K a 1 atm, necessariamente a água nos produtos estará na fase líquida. Então nesse caso,
esse será o pcs.
equação 3.5
equação 3.6
equação 3.7
H = ∑ N
i
. h
i
n


Onde Q
R
é o calor de reação, H
produto
e H
reagente
são respectivamente as entalpias do produto e do
reagente. Essas entalpias podem ser quantifcadas pela expressão
PCS = ———– [kJ ∕ kg de combustível]
- Q
R
PM
comb
pci é calculado com uma quantidade menor de calor extraído do que a extraída para quantifcar o
pcs, de maneira que a água nos produtos permaneça na fase vapor. O pci é calculado subtraindo
da energia liberada na reação pela quantidade de energia liberada durante a condensação, con-
forme descrito na equação 3.7:
PCI = PCS - ——— .h
lv
m
H

O
m
comb
Combustão dos Líquidos e Sólidos
A combustão de um combustível líquido em uma região acontece realmente na forma gasosa. Isto
quer dizer que quem reage liberando calor é o gás, não o líquido. Portanto, um líquido infamável
normalmente só entrará em combustão acima de uma temperatura, do seu ponto de fulgor e na
presença de uma fonte quente para iniciar a reação. Iniciada a reação ela se auto-mantém.
Ponto de fulgor é a menor temperatura na qual um líquido libera vapor ou gás em quantidade
sufciente para formar com o ar atmosférico uma mistura infamável. Abaixo dessa temperatura,
o líquido não evaporará com rapidez sufciente para sustentar o fogo caso a fonte de ignição
seja removida.
A combustão de sólidos consiste em três fases relativamente distintas: Secagem – Quando é
retirada a umidade do combustível através da evaporação da água incorporada ao combustível
sólido. Depois, os gases infamáveis do sólido começam a ser liberados através de um processo
chamado Pirólise, onde a mistura desses voláteis com oxigênio provoca a ignição, sendo a energia
produzida na forma de calor e luz. O fogo normalmente é visível nesta fase. Gasifcação – Após,
ocorre todo o processo de volatilização do sólido, o material carbonizado gaseifca formando
CO, CH
4
, H
2
, que reage com o oxigênio numa reação exotérmica, tendo como produtos CO
2
+
H
2
O + Calor.
miolo síntese.indd 75 19/12/2008 16:52:32
76 Tecnologias de Energias Renováveis
equação 3.8
equação 3.9
Caracterização da Biomassa para Fins Energéticos
Para poder avaliar a capacidade energética de uma biomassa é preciso fazer a caracterização
energética da mesma. Essa caracterização é feita com três grupos de procedimentos: determi-
nação do poder calorífco, a análise elementar e a análise imediata.
A determinação do poder calorífco quantifca a energia contida na biomassa, com a determina-
ção do seu poder calorífco superior e inferior. A análise elementar quantifca os percentuais, em
massa, dos elementos C, H, O, N, S e cinzas contidas na biomassa. A análise imediata determina
os teores de umidade, voláteis, carbono fxo e cinzas contidas na biomassa.
Determinação do Poder Calorífco Superior (pcs) e Poder Calorífco
Inferior (pci) e Análise Elementar
Os ensaios de determinação do poder calorífco superior são realizados obedecendo à norma
nbr 8633 (Determinação do Poder Calorífco), na qual é medido o poder calorífco superior em
base seca da biomassa. Para este ensaio, pode ser utilizada uma bomba calorimétrica digital.
O poder calorífco superior de uma biomassa também pode ser determinado com a ajuda
dos resultados da análise elementar. É possível fazer o relacionamento do pcs de uma biomassa
com a quantidade de ligações químicas envolvendo seus elementos. Assim sendo, conhecendo
a fração mássica dos componentes da biomassa, é possível calcular o pcs. A equação (3.8) é um
exemplo desse tipo de correlação. Em 2007, não havia correlações específcas para espécies
amazônicas.
PCS ¬ 43/,!m
c
- !669,4
Onde m
c
é a fração mássica de carbono na biomassa combustível seca, e o pcs é obtido em kJ/
kg de biomassa seca.
O poder calorífco inferior (pci) pode ser obtido através da equação (3.9):
PCI
u
= ( - a) . PCS - . ( - a) . h . h
lv(°C)
- a . h
lv(°C)
Onde pcs: poder calorífco inferior (kJ/kg de biomassa úmida); pcs: poder calorífco superior (kJ/
kg de biomassa seca); a: teor de umidade da biomassa (massa base úmida); h: teor de hidrogênio
na biomassa (massa base seca); h
lv
(25°C): entalpia de vaporização da água a 25°C (kJ/kg), igual
a 2442 kJ/kg.
Para o pci ser calculado através da equação (3.9), é preciso conhecer os teores de umidade
e de hidrogênio da biomassa que será utilizada como combustível. Quanto maior o teor de umi-
dade, menor será o pci, implicando que menor energia poderá ser extraída da biomassa. Se o
teor de umidade da biomassa for acima de 0,7 não ocorrerá combustão. Biomassas estocadas
em pátios abertos possuem o seu teor de umidade entre 0,4 e 0,55. Biomassas que tenham sido
secas têm o seu teor de umidade entre 0,08 e 0,12.
O teor de hidrogênio da biomassa seca é obtido em laboratório através de um ensaio deno-
minado análise elementar. Esse ensaio fornece os percentuais mássicos dos elementos “C”, “H”,
“O”, “N”, “S” e “cinzas” da biomassa. Um resultado típico da análise elementar pode ser visto
na tabela 3.1.
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77 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
Análise Imediata, Teor de Voláteis, Umidade, Carbono Fixo, Cinza;
Descrição dos Métodos
Determinação do Teor de Umidade de Biomassas
Para a determinação do teor de umidade, utiliza-se a norma nbr 8112 (Análise Imediata), sendo
que as amostras devem ser preparadas conforme a nbr 6923 (Amostragem e Preparação da
Amostra). 500g de amostra de biomassa com granulometria inferior a 19 mm são colocados numa
estufa previamente aquecida a 105°C até que a massa da amostra permaneça constante.
Determinação do Teor de Voláteis de Biomassas
Expressa a quantidade mássica dos componentes da biomassa que primeiramente entram em
combustão. Esses componentes, os voláteis, são hidrocarbonetos que são vaporizados da bio-
massa e facilmente entram em combustão. O teor de voláteis é defnido como a fração em massa
da biomassa que volatiliza durante o aquecimento de uma amostra padronizada e previamente
seca, em atmosfera inerte, até temperaturas de aproximadamente 850°C num forno mufa, por
7 (sete) minutos (nbr 8112 – Análise Imediata).
Determinação do Teor de Cinzas de Biomassas
Os procedimentos para determinação do teor de cinzas de amostras de biomassa são baseados
na nbr 8112 (Análise Imediata). As cinzas são resultantes da combustão dos componentes orgâ-
nicos e oxidação dos inorgânicos em um forno mufa, sob rígido controle de massa, temperatura,
tempo e atmosfera. Um grama de biomassa já sem umidade e voláteis é colocado num cadinho
e levado ao interior do forno. Sua temperatura é então elevada para 710°C e, nessa condição,
fca por uma hora.
Determinação do Teor de Carbono Fixo de Biomassas
Os procedimentos para cálculo do teor de carbono fxo em base seca, de amostras de biomassa,
são baseados na nbr 8112 (Análise Imediata).
Caracterização Energética de Algumas Espécies Amazônicas
A tabela 3.2 abaixo mostra alguns resultados de caracterização de espécies de biomassa exis-
tentes na Amazônia.
Espécie
C H N S O Cinzas
38,24
59
46
4,40
7,2
6
0,80
-
0,8
0,06
-
-
35,50
32,7
46
21
1,1
1,2
Casca de arroz
Pinheiro
Caroço de açaí
Tabela 3.1 – Resultado da análise elementar de algumas espécies vegetais em percentual mássico
População H/C aproximadamente 1,5 e de O/C de aproximadamente 0,6
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78 Tecnologias de Energias Renováveis
PCS
[MJ/kg]
Carbono
Fixo [%]
Teor de
Voláteis [%]
Teor de
Cinzas [%]
Massa
Especifica
a Granel
[kg/m³]
Densidade
Energética
[MJ/m³]
ID Nome Comercial
20,70
19,76
17,51
19,84
20,44
18,98
19,91
17,34
19,35
19,16
22,22
16,18
20,28
21,10
20,21
19,91
20,14
22,01
18,67
16,55
18,69
19,41
19,72
20,11
19,70
19,84
19,97
19,85
16,65
19,31
22,22
19,88
20,49
18,92
20,55
19,99
20,79
19,85
20,20
19,53
19,59
19,14
19,87
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
32
33
34
35
36
37
38
39
40
41
42
43
78,7
89,9
70,0
81,6
79,6
81,3
85,6
72,9
80,6
79,4
77,7
76,1
71,0
75,9
84,6
90,9
86,7
78,4
70,6
76,2
78,5
79,6
82,0
82,4
83,2
84,9
93,9
78,4
76,2
84,1
79,4
82,6
80,9
82,0
79,7
76,9
70,1
80,1
82,8
74,8
78,0
81,8
82,6
0,4
0,0
14,9
1,3
0,0
0,9
0,2
9,9
2,9
1,1
1,6
5,9
1,9
1,7
0,1
0,1
0,1
0,2
4,7
4,2
3,2
0,4
0,2
0,2
0,7
0,3
0,8
1,8
6,1
0,7
0,6
1,8
0,9
1,0
1,0
4,1
8,4
0,3
1,7
2,9
2,3
0,6
0,7
250
290
280
265
250
267
259
298
200
240
220
240
240
260
249
250
270
220
282
200
200
200
230
373
200
230
220
250
230
237
210
280
280
250
300
313
222
230
250
230
200
240
200
5175
5732
4904
5258
5109
5068
5158
5168
3871
4598
4889
3883
4867
5485
5032
4977
5438
4842
5264
3310
3737
3883
4536
7503
3940
4563
4394
4962
3830
4576
4667
5568
5737
4729
6165
6257
4615
4564
5049
4491
3918
4592
3974
20,9
10,1
15,1
17,2
20,3
17,8
14,2
15,2
16,6
19,5
20,7
18,0
27,1
22,5
15,3
9,1
13,3
21,4
24,7
19,6
18,3
20,0
17,8
17,4
16,0
14,8
5,4
19,7
17,6
15,3
20,0
15,6
18,2
17,1
19,3
19,1
21,5
19,6
16,7
22,3
19,8
17,6
16,8
Acapú
Andiroba
Angelim
Angelim Pedra
Angelim vermelho
Bambu
Breu
Buchas trituradas de dendê
Cacho seco de amêndoa
Caroço de açaí
Casca de amêndoa
Casca de palmito
Cascas de castanha do Pará
Cascas de nozes
Cedro
Copaíba
Cumaru
Falso Pau-Brasil
Fibra de coco
Fibra de dendê
Garapa
Jatobá
Louro-Faia
Maçaranduba
Mandioqueira
Marupá
Melancieiro
Mogno
Palmito
Pau-marfim
Pau-preto
Pequiá
Pracuuba
Quaruba
Quenga de côco
Resíduo de favadanta
Resíduo de uncária
Roxinho
Sucupira
Talo de uncária
Tanimbuca
Tatajuba
Tauari
Tabela 3.2 – Caracterização energética de algumas espécies amazônicas, ebma, ufpa, 2004
Pré-tratamento da biomassa
A biomassa a ser utilizada como combustível tanto na combustão direta como na gasifcação, na
maioria das vezes não pode ser usada na forma em que se encontra disponível, necessitando de
algum tratamento mecânico para sua efcaz utilização. Dentre os tratamentos mecânicos usuais,
dependendo do custo fnal do combustível e da energia gerada por ele, pode-se utilizar:
Secagem
O processo de secagem é realizado por evaporação e é uma operação na qual a água contida em
uma biomassa é diminuída pela remoção dessa água. Durante a secagem é necessário o forneci-
mento de calor para evaporar a umidade da biomassa. Este processo, de fornecimento de calor de
uma fonte quente para a biomassa úmida, é que promoverá a evaporação da água do combustível.
Uma vez que a biomassa é colocada em contato com ar quente, ocorre uma transferência do calor
do ar à biomassa sob o efeito da diferença de temperatura existente entre eles. Simultaneamente,
a diferença de pressão parcial de vapor d’água existente entre o ar e a superfície da biomassa
determina uma transferência de matéria para o ar. Esta última se faz na forma de vapor de água.
Uma parte do calor que chega à biomassa é utilizada para vaporizar a água.
Torrefação de Biomassa
A torrefação pode ser defnida como um processo de pré-carbonização, o qual se desenvolve jus-
tamente na fase endotérmica da pirólise, entre 250 e 300°C. Nestas condições a hemi-celulose é
degradada, sendo removida a umidade, o ácido acético, frações de fenol e outros compostos de baixo
poder calorífco. Deste processo, resulta um material intermediário entre a biomassa e o carvão,
com altos rendimentos energéticos. O objetivo fundamental da torrefação é concentrar a energia
da biomassa em um produto formado em curto tempo, baixas taxas de aquecimento e temperaturas
moderadas, permitindo reter os voláteis de maior poder calorífco no próprio produto.
Briquetes
Quando pequenas partículas de materiais sólidos são prensadas para formar blocos de forma
defnidas e de maior tamanho, o processo é denominado de briquetagem. Através deste processo,
os fnos de materiais diversos, subprodutos do benefciamento industrial, são convertidos em
produtos de maior valor comercial. Neste trabalho será dada maior ênfase aos briquetes de carvão
vegetal, denominado “carvão ecológico”. No nível de comparação, observa-se que o briquete
tem poder calorífco superior ao da lenha, que está em torno de 3.000 kcal/kg e densidade três
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79 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
vezes maior que o carvão in natura, mantendo o mesmo poder calorífco.
Péletes
Os péletes são fontes de energia renováveis e pertencentes à classe da biomassa. O pélete é
um composto 100% natural, com elevado poder calórico devido à reduzida umidade. Os péletes
podem ser produzidos de várias formas, a partir das limpezas das forestas e dos desperdícios
das indústrias de madeiras, serrações, carpintarias. Esses resíduos devem ser recolhidos, secos,
triturados e moídos. Esse pó de madeira ou serragem é depois comprimido nas chamadas pele-
tizadoras (máquinas para fazer péletes) obtendo assim a forma fnal. Tal como a lenha, os péletes
são considerados uma energia renovável.
Trituração
A trituração é um pré-requisito para vários processos de reaproveitamento de produtos, dentre
os quais se destaca a utilização da biomassa para fns energéticos. Este processo torna-se neces-
sário quando se visa à redução de tamanho a dimensões abaixo de 5–20 mm, proporcionando
melhor alimentação na fornalha com aumento signifcativo da área do combustível. O processo
de trituração pode ser feito de diversas maneiras: compressão, impacto por compressão, des-
gastes nas arestas (“nibbling”), impacto, abrasão, raspagem (“shredding”), sendo que a forma e
distribuição do produto variam com o tipo de biomassa e o tipo de equipamento utilizado. A
energia necessária para o processamento de uma trituração é proporcional à nova superfície
específca obtida, portanto, quando se desejam dimensões reduzidas, há aumento considerável
de tempo e da potência gastos, o que infui nos custos.
Processos de Conversão Energética da Biomassa
Ciclos a Vapor
Os ciclos térmicos de potência são utilizados para converter energia térmica em trabalho, podendo
usar água ou gases como fuidos de trabalho. Quando utilizando água, estes são denominados
de ciclos a vapor ou ciclo Rankine. O rendimento destes ciclos depende diretamente da condição
do vapor que é gerado na caldeira. Quanto
maior for a pressão e a temperatura do vapor,
mais efciente é o ciclo devido à elevação da
diferença entálpica do vapor entre a entrada
e a saída da turbina ou máquina a vapor.
Aumentando a pressão e a temperatura
do vapor, mais robusto é o equipamento e,
por conseguinte mais elevado seu preço.
Os principais equipamentos que compõem
um ciclo a vapor são: gerador de vapor (cal-
deira), superaquecedor, turbina ou máquina
a vapor, condensador, pré-aquecedores de
água e/ou ar e bombas de alimentação de
água da caldeira. A fgura 3.1 apresenta de
forma esquemática o ciclo a vapor.
Figura 3.1 – Esquema de um ciclo a vapor
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80 Tecnologias de Energias Renováveis
Observando a fgura 3.1, o funcionamento do ciclo é descrito a seguir. A biomassa é queimada
na câmara de combustão da caldeira. O calor liberado na combustão é transferido para a água,
na fase líquida, que está revestindo as paredes da câmara de combustão. Recebendo o calor da
combustão, a água passa da fase líquida para a gasosa, tornando-se vapor. O vapor de água é
coletado na saída superior da caldeira, escoa por uma serpentina imersa nos gases residuais, e
a alta temperatura, da câmara de combustão. Esse equipamento denomina-se superaquecedor.
Na saída do superaquecedor, os gases residuais são enviados para a chaminé e o vapor para a
turbina. O vapor, ao entrar na turbina, está na sua temperatura e pressão mais altas. Esse vapor
é injetado contra as pás de uma turbina de maneira similar à que o ar incide nas pás de um cata-
vento, fazendo girar o eixo da turbina, que por sua vez está acoplada a um gerador elétrico. A
transformação de energia térmica em mecânica na turbina reduz a energia do vapor, reduzindo
sua temperatura e pressão.
O ciclo é fechado colocando um condensador após a turbina. Esse condensador recebe o
vapor de água que sai da turbina, retira seu calor condensando-o e tornando-o líquido, mas
à alta temperatura (aproximadamente 60°C). O condensador transfere o calor do vapor para
água do sistema de resfriamento, que eleva sua temperatura em uma dezena de graus mas sem
mudar de fase. O calor da água de resfriamento é lançado na atmosfera seja por uma torre de
resfriamento ou lançando a água quente em reservatórios de água como rios e lagos. Após sair
do condensador, a água do ciclo de vapor, fgura 3.1, passa por uma bomba centrífuga onde sua
pressão é elevada para a pressão de trabalho da caldeira, fechando o ciclo.
A fgura 3.1 apresenta um ciclo a vapor com turbina, mas esse ciclo, seja aberto ou fechado,
pode ser utilizado com motores alternativos, denominados de máquinas a vapor. Diferentemente
das turbinas a vapor, na máquina a vapor o vapor é injetado dentro de um cilindro com o êmbolo
no seu ponto morto superior, deslocando o êmbolo para o ponto morto inferior num processo
de expansão que faz girar o eixo ligado ao gerador. O restante do ciclo é o mesmo.
A defnição da efciência energética de uma central térmica a vapor é a razão entre a energia
elétrica produzida no gerador pela energia da biomassa que alimenta a caldeira, na mesma uni-
dade de tempo. Essa defnição está expressa na equação (3.10).
equação 3.10
W
elet
m
bio
. PCI
bio
η
ctv
= —————
η
ctv
: Efciência da central térmica a vapor
O rendimento total esperado de uma planta a vapor com um motor a vapor situa-se numa
faixa de 13% a 28%. Centrais a vapor com turbinas possuem seu rendimento entre 20% e 30%.
Consumo de Biomassa de uma Planta a Vapor
O consumo específco de vapor de máquinas a vapor na sua condição nominal (máquina tra-
balha na sua condição de maior efciência) varia entre 15 a 20 kg/h de vapor para cada 1 kW de
eletricidade produzido no gerador. Por razões construtivas, estes equipamentos não admitem
pressões de entrada superiores a 18 atm e estão disponíveis no mercado brasileiro para potências
não superiores a 250 kW.
O consumo específco de vapor de turbinas a vapor está na faixa de 8 a 20 kg/h de vapor para
cada 1 kW de potência fornecida pelo gerador. Elas são fabricadas no Brasil desde 5 kW até 60
MW. Estas turbinas são projetadas para admitir pressões do vapor de entrada na faixa desde 8
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81 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
até 60 atm e pressões do vapor na saída desde 0,1 atm. O consumo específco de vapor de uma
turbina pode ser calculado usando a equação (3.11).
equação 3.11

H
i
. η
turb
. η
ger
m
vapor
W
elet
CE
vapor
= —–––– = —–––––––—––
CE
vapor
: Consumo específco de vapor, em kg/kWh; m
vapor
: Consumo de vapor (kg/s); W
elet
: Potência
elétrica disponível nos bornes do gerador (kW); H
i
: Salto entálpico do vapor na turbina (kJ/kg), o
qual é a variação da entalpia do vapor entre a entrada e a saída da turbina; η
turb
: Efciência mecânica
da turbina; η
ger
: Efciência do gerador (leva em consideração as perdas elétricas e mecânicas).
As caldeiras disponíveis no mercado brasileiro operam com rendimento na faixa de 85%.
Uma caldeira operando a 21 atm e sendo alimentada com biomassa com 50% de umidade, para
um consumo médio de 1 kg/h de biomassa, irá produzir 4 kg/h de vapor gerado. Finalmente,
uma central a vapor, operando a 21 atm e consumindo biomassa com 50% de umidade, terá um
consumo específco de 2 a 5 kg/h de biomassa para 1 kW produzido.
Central com Gasifcação
Aqui será tratado de gasifcadores de leito fxo tipo extração por baixo (ou Downdraft; ver fgura
3.2). Escolhido por sua capacidade de produzir gás com menos alcatrão que outros modelos de
gasifcadores de leito fxo, como o de extração por cima (ou updraft), o que o torna preferencial
para o uso com motores de combustão interna. É preciso lembrar que a tecnologia de gasifcadores
ainda está em desenvolvimento e possui muitas limitações, embora experiências demonstrem
que ela pode ser útil e econômica em várias aplicações.
Características da Biomassa para Uso num Gasifcador de Extração por Baixo (Downdraft)
Gasifcadores exigem que a sua biomassa de alimentação tenha uma especifcação própria, que
depende do projeto do gasifcador. Como estes combustíveis diferem muito em suas propriedades
químicas, físicas e morfológicas, terão diferentes exigências do método de gasifcação. Por isso
é necessário conhecer as propriedades da biomassa disponível e em muitos casos processá-la e
adaptá-la às exigências do gasifcador.
Figura 3.2 – Gasifcador Downdraft
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82 Tecnologias de Energias Renováveis
Sistema de Limpeza
Partículas sólidas podem ser abrasivas e, misturadas ao alcatrão, podem ser responsáveis pelo
entupimento de válvulas, tubulações e travamento de partes móveis. Devido a isto, estes con-
taminantes são altamente indesejáveis ao fnal do processo de gasifcação, exigindo assim um
sistema de limpeza após a saída dos gases do gasifcador. Um sistema de gasifcação para ser
utilizado com motores de combustão interna deve emitir um gás com no máximo 10 mg/Nm³
de alcatrão e particulado.
Os primeiros passos para a produção de um gás limpo é a escolha do tipo de gasifcador que
minimize a quantidade de alcatrão e particulados a serem removidos. O segundo passo é deter-
minar a seqüência de remoção dos contaminantes para a instalação seqüencial dos separadores
de acordo com as necessidades de utilização dos gases. É necessário remover o alcatrão, a água
e os particulados na ordem correta e na temperatura ideal a tornar o processo efciente. Se os
gases são imediatamente resfriados, o carvão residual junto à água e ao alcatrão serão removidos,
mas é necessário tomar precauções com a remoção desses resíduos, pois os mesmos formarão
um único tipo de material que poderá entupir válvulas e tubulações.
Se os particulados são removidos primeiramente a uma temperatura superior ao ponto de
condensação do alcatrão (~300°C), os outros contaminantes poderão ser extraídos separadamente
de maneira mais efciente. O alcatrão seria retirado em segundo lugar (sendo condensável a apro-
ximadamente 150°C) e, por último, seria retirada a água a uma temperatura média de 30–60°C.
Uma relação entre temperatura e cada operação de limpeza pode ser observada na fgura 3.3.
Figura 3.3 – Relação esquemática de temperatura do gás para remoção de contaminante
Especifcação de uma Planta de Potência
Localização e Quantifcação da Biomassa
No Estado do Pará o setor madeireiro gera uma quantidade signifcativa de resíduos em função
do baixo rendimento dos processos de desdobro, benefciamento e laminação da madeira
processada. São produzidos mais de seis milhões de metros cúbicos de resíduo por ano. Deste
volume, em torno de 3,61 milhões de metros cúbicos têm potencial de aproveitamento para
geração de energia.
Considerando a implantação de usinas a vapor, os resíduos produzidos no Estado do Pará com
possibilidade de aproveitamento representam um potencial em torno de 160 MW médio. Este
potencial encontra-se distribuído nos municípios do Estado nas diversas empresas madeireiras,
que geralmente estão localizadas próximas aos núcleos urbanos. Considerando a demanda máxima
dos municípios e a disposição geográfca dos potenciais geradores, esta geração poderá ter uma
penetração considerável em algumas regiões do Estado, principalmente nas regiões isoladas do
setor elétrico, contribuindo para um signifcativo deslocamento do diesel que hoje predomina
na geração elétrica destas localidades isoladas.
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83 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
A quantifcação da disponibilidade de resíduos na biomassa só pode ser possível se estiverem
disponíveis os seus parâmetros energéticos. Essa caracterização é feita com a medição do poder
calorífco superior, dos teores de voláteis, cinzas e carbono fxo, dos teores de carbono, hidrogê-
nio, oxigênio, nitrogênio e densidade a granel. A boa qualidade de uma biomassa será auferida
pela comparação do resultado do produto do pci vezes sua massa específca aparente. Este
valor é conhecido como “densidade energética”. A umidade e a forma geométrica são também
parâmetros infuentes na qualidade. Quanto menores esses parâmetros, mais interessantes sua
utilização no processo de combustão direta.
Dimensionamento da Carga a Ser Atendida pela Planta
Dentre as informações mais relevantes para se avaliar a magnitude do sistema que atenderá
cada localidade em particular, pode-se mencionar:
O número de edifcações; Š
População residente; Š
População futuante (em caso de regiões com turismo sazonal, por exemplo); Š
Quais as atividades socioeconômicas existentes na região (extrativismo, pesca, Š
agricultura);
Quais os tipos de consumidores existentes (comercial, industrial ou residencial); Š
Localização e tipo de clima existente. Š
Figura 3.4 – Localização das madeireiras e suas respectivas disponibilidades dos potenciais anuais de geração de energia
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84 Tecnologias de Energias Renováveis
Procedimento de Cálculo de Carga
Para calcular a carga de um equipamento ou de um conjunto de equipamentos numa residência,
devemos, antes de tudo, conhecer a potência de cada equipamento. Inicialmente deve-se procurar
nos manuais dos fabricantes dos equipamentos tais informações. Em seguida, devemos fazer os
cálculos da seguinte forma:
Para um equipamento: potência do equipamento (W) × número de horas utilizadas durante
o dia, dividido por 1000;
P×t

C
unitária
= —–––– [kWh]
equação 3.12
P: Potência do equipamento em Watts; t: Período de tempo que o equipamento é utilizado durante
o dia (hora); C: Carga diária de energia que o equipamento consome em kWh.
Curva de Carga
A curva de carga representa a demanda em quilowatt a cada hora. A curva de carga para a
comunidade isolada em questão é apresentada na fgura 3.5.
Figura 3.5 – Curva de carga da comunidade tomada como exemplo, obtida para o período de 24 horas, segundo o cenário de
consumo de energia elétrica
Pré-dimensionamento de uma central a vapor
A concepção de projeto desta natureza recai inicialmente no conhecimento prévio do tipo,
natureza, sazonalidade e custo do combustível a ser utilizado, no critério de escolha da máquina
térmica (turbina ou máquina alternativa) e caldeira e no suprimento e nível de potência a ser
disponibilizada pela planta.
Com relação à escolha da máquina térmica, esta recai no conhecimento prévio da curva de
consumo específco do vapor por cada kWh gerado, pressões e qualidade do vapor de entrada
e saída, temperatura do vapor na entrada. A não utilização do ciclo fechado implica em perdas
signifcativas de água, por conseguinte, aumenta os custos com os produtos químicos utilizados
no tratamento da água de alimentação.
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85 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
Impactos Ambientais e Formas de Mitigação
Este capítulo faz uma abordagem sobre como avaliar os impactos ambientais, e as respectivas ações
mitigadoras, de usinas termelétricas a biomassa em substituição às termelétricas a diesel.
Inicialmente, o capítulo enquadra as exigências legais para avaliação dos impactos ambientais
de usinas termelétricas. A seguir ao enquadramento legal são abordadas algumas defnições
gerais e conceituais. Após as defnições e conceitos, são apresentadas algumas metodologias
de avaliação dos impactos ambientais. Na seqüência, é feita uma breve explicação das emissões
evitadas de gases de efeito estufa da utilização de biomassa como fonte renovável de energia.
Ao fnal do capítulo propõe-se um roteiro de avaliação de impactos ambientais de uma usina
termelétrica a biomassa, através de listas de impactos e possíveis ações mitigadoras.
Métodos e Modelos para Avaliação dos Impactos Ambientais
Há vários métodos para avaliação de impactos ambientais. Os métodos podem ser quantitativos
ou qualitativos. Nos métodos quantitativos, os impactos ambientais são avaliados numerica-
mente com valores e unidades, enquanto os métodos qualitativos avaliam por hierarquizações,
tais como “nulo”, “pouco”, “signifcativo”, “muito”.
Método Espontâneo (ad-hoc) consiste na reunião de especialistas de áreas de conhecimento
diferentes. Os impactos ambientais e as medidas mitigadoras são identifcados pelo especialista
de cada área através de opinião emitida para todos os outros especialistas. Em seguida, há uma
rodada para cada área de conhecimento em que cada especialista emite sua opinião sobre a
área em questão.
Listas de controle (Check Lists) são listas e tabelas que correlacionam os ambientes e os
respectivos impactos. Há alguns tipos de listas de acordo com a complexidade desejada para
avaliação dos impactos ambientais:
Listas simples relacionam os impactos diretos. Essas listas não são muito elaboradas e não
identifcam impactos secundários.
Listas descritivas são mais elaboradas que as listas simples, pois identifcam as fontes gera-
doras dos impactos, mas não especifcam a importância do impacto. Podem conter indicações
numéricas com valores ou hierarquias.
Listas comparativas estimam as magnitudes dos impactos adotando valores comparativos
entre as alternativas ao empreendimento. A comparação pode indicar a melhor alternativa, ou
pode fornecer uma boa base para a tomada de decisão.
Listas de controle escalar é uma evolução das listas comparativas adotando valores compa-
rativos entre os impactos ambientais, permitindo a comparação entre os impactos. Os valores,
atribuídos por especialistas, podem ir de um mínimo de 0 a um máximo de 3, por exemplo,
indicando os níveis de impacto ambiental.
Listas de controle ponderáveis são aquelas em que são atribuídos pesos aos impactos
ambientais, permitindo a maior ou menor importância de um fator em relação a outros. Os
valores e pesos são atribuídos por especialistas, mas pode-se aplicar questionário à população
afetada para refnamento dos pesos.
Matrizes são métodos simples, mas de grande potencial para avaliação da interação entre
os impactos. As matrizes podem ser qualitativas ou quantitativas, a exemplo das listas citadas
acima. Nas matrizes, as ações estão associadas aos efeitos ambientais, contendo as respectivas
magnitudes e importâncias (notas e pesos). As ações são apresentadas na horizontal (linhas da
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86 Tecnologias de Energias Renováveis
matriz) e os efeitos na vertical (colunas da matriz). O modelo de matriz mais conhecido e utilizado
em avaliação de impactos ambientais se chama Matriz de Leopold.
Os modelos são utilizados para prever os impactos ambientais, e assim simular vários cenários
com as opções e alternativas dos empreendimentos. Dentre os modelos de simulação mais uti-
lizados, podemos citar: Modelo de qualidade do ar (dispersão atmosférica), Modelo de propagação
de ruídos e Modelos de qualidade da água.
Avaliação dos Impactos de uma Usina Termoelétrica a Biomassa
Para análise das medidas mitigadoras dos impactos ambientais de uma usina termelétrica a
biomassa (com ciclo a vapor ou gasifcação) é necessário identifcar os impactos em duas fases
distintas:
Impactos ambientais da construção da usina. Š
Impactos ambientais da operação da usina. Š
Como descrito nos itens anteriores, a avaliação dos impactos ambientais e as propostas de ações
mitigadoras devem ser apresentadas de acordo com uma metodologia ou roteiro. Sugerimos neste
texto, portanto, listas simples dos impactos ambientais e suas possíveis medidas mitigadoras,
tanto durante a construção quanto na operação de uma usina termelétrica a biomassa.
Impacto no Ciclo de Carbono – Emissões Evitadas
Sem dúvida, o maior impacto global de uma usina termelétrica a biomassa é a substituição de
um combustível fóssil (diesel) por um combustível renovável (biomassa). Tal substituição afeta,
sobretudo, as emissões dos gases de efeito estufa. Dentre os principais gases de efeito estufa,
os mais conhecidos são o CO
2
, CH
4
e NO
x
. Segundo o Protocolo de Quioto, as emissões de gases
provenientes de biomassa não são contabilizadas como contribuição aos gases de efeito estufa,
já que o carbono emitido foi fxado em uma planta durante o processo de fotossíntese e, sendo
assim, poderá voltar a ser fxado novamente.
Portanto, a substituição de combustíveis fósseis por biomassa em usinas termelétricas resulta
em um impacto ambiental global positivo, conhecido como emissões evitadas de carbono. Ou
seja, ao utilizar biomassa em termelétricas, as emissões dos gases de efeito estufa são mínimas
(levando em conta todo o ciclo de vida da biomassa). Comparativamente às emissões de uma
termelétrica a diesel, um kWh gerado por uma usina termelétrica a biomassa deixa de contabi-
lizar cerca de 1,02 kg de CO
2
, para efeito do Protocolo de Quioto. Isso signifca que 3.000 kg de
biomassa úmida utilizada para geração de energia elétrica correspondem a 1.000 kg de emissões
evitadas de CO
2
.
Viabilidade Econômica
A conclusão quanto à viabilidade ou não de um empreendimento, em especial aos do tipo em
estudo, que integram e interagem aspectos específcos e técnicos de engenharia com implicações
e repercussões econômicas, fnanceiras, geopolíticas, sociais e ambientais intensas, não pode ser
limitada apenas no seu contexto de exeqüibilidade técnica na implantação (dimensionamento
da planta, execução e montagem das obras civis e dos equipamentos). Os estudos de viabilidade
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87 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
devem aprofundar na análise de sustentabilidade do empreendimento.
A sustentabilidade é a condição de que algo possa ser sustentável (ou auto-sustentável). Exis-
tem inúmeros enfoques, visões, princípios e maneiras de se conceituar e defnir esta condição,
como por exemplo, nos aspectos ambiental, social, fnanceiro, econômico, técnico, energético,
ecológico, ou mesmo em uma visão holística, a qual contemplaria, pelo menos em tese, todos
estes aspectos, mas de maneira conjunta e integrada. As distintas visões apresentam posturas
e, conseqüentemente, resultados muitas vezes antagônicos ou confitantes entre si.
Os Métodos
A Engenharia Econômica possui, em seu escopo conceitual, vários métodos para se proceder à
análise e defnir valores e/ou indicadores. Embora não seja consensual, a seguir será apresen-
tada uma divisão em três grandes grupos que englobam os principais métodos existentes na
literatura, os quais podem ser adotados de maneira isolada (não recomendável por ser muito
restritiva) ou de forma conjunta ou integrada, obtendo-se resultados advindos de dois ou mais
métodos simultaneamente.
Métodos Determinísticos
Utilizam modelos (os fuxos de caixa) e baseiam-se na aplicação do princípio da causalidade de
maneira rígida e até extremada, supondo que das mesmas causas, em circunstâncias iguais, sejam
produzidos sempre os mesmos efeitos. Enfm, são métodos que fornecem uma única resposta
para cada modelo.
Payback Š : objetiva calcular quanto tempo o empreendedor ou investidor necessitará
para recuperar o capital fnanceiro ou recursos ($) que investiu no empreendimento.
Existem dois tipos: simples e descontado.
Š Valor presente líquido (vpl): objetiva calcular a soma algébrica de todos os valores
existentes no Fluxo de Caixa, sejam os com sinais positivos (entradas, receitas ou
benefícios) quantos negativos (saídas, despesas ou custos), incluindo o investimento
inicial, todos já descontados, ou seja, aplicando-se uma taxa de desconto.
Š Taxa interna de retorno (tir): objetiva defnir a taxa de desconto com a qual o Valor
Presente Líquido (vpl) é nulo, ou seja, que taxa de desconto faz como que a soma
algébrica de todos os valores descontados seja igual a zero. Existem alguns aplicativos
computacionais, como o excel da Microsoft, que possuem mecanismos ou macros que
efetuam o cálculo da tir, mas o método matemático que o norteia ou no qual se baseia
é a de interação, que, de maneira geral, pode ser entendido como a convergência para
um valor pré-determinado.
Š Valor anual uniforme (vau): Caracteriza-se pela transformação de todos o valores
monetários do fuxo de caixa (modelo) de tal forma que se obtenha uma série uniforme
(constante) de valores, valores estes que se constituem, em verdade, no saldo líquido
(receitas ou entradas menos custos ou saídas) de cada período. Como nos estudos
de viabilidade geralmente se utiliza a periodicidade anual, embora se possa ou deva
eventualmente adotar outra (como a mensal, para projetos de curto prazo), o método
recebe o nome de valor anual.
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88 Tecnologias de Energias Renováveis
Métodos não Determinísticos
São desdobramentos, aprofundamentos, aperfeiçoamentos, refnamentos ou derivações dos
modelos utilizados pelos métodos determinísticos, porém admitindo de maneira mais oscila-
tória, dúbia ou imprecisa alguns componentes como as incertezas e a utilização de princípios
estocásticos ou probabilísticos, o que minimiza a rigidez da relação causa e efeito, produzindo a
existência ou a possibilidade de existência de mais de uma resposta, ou seja, mesmo utilizando um
único método num mesmo modelo podem ser defnidos vários indicadores de mesma natureza
e calculados distintos valores para o mesmo empreendimento. Podem existir várias respostas.
Enfoque sob Análise de Sensibilidade
Na análise de sensibilidade é estudado o efeito que a variação de uma determinada variável
(ou dado ou componente) de entrada pode ocasionar no resultado. Sua operação consiste em
manterem-se as grandezas de todas as variáveis constantes, excetuando-se uma, a que está sendo
analisada, calculando-se com distintas entradas uma série de resultados. Refaz-se o procedimento,
desta vez alterando-se a grandeza de outra variável, e a que havia sido testada anteriormente
passa a ser tratada como as demais, ou seja, mantendo-se constante, obtendo-se outra série de
dados. Pauta-se no princípio econômico ceteris paribus, termo latino que pode ser traduzido como
“todos os demais constantes” ou ainda “todos os demais se mantêm constantes”.
Teoria dos Jogos
Esta teoria se iniciou na primeira metade do século xx, através dos estudos pioneiros do mate-
mático húngaro John Von Neumann, professor de Princeton (usa), e, com a colaboração decisiva
do economista Oskar Morgenstern, se consolidou como uma disciplina de grande relevância da
matemática. Ela se pauta nas decisões dos indivíduos (os jogadores) e apropria o conceito de que
o resultado do jogo depende do conjunto de decisões tomadas, sustentando- se no Teorema de
MinMáx (mínimo e máximo).
Simulação de Monte-Carlo
O Método de Monte-Carlo é, basicamente, uma técnica ou um algoritmo para estabelecer
uma amostragem de números aleatórios ou pseudo-aleatórios e, desta amostragem, efetuar
tratamentos estatísticos utilizando-se de princípios bayesianos ou estocásticos que simularão
as respostas e os graus de probabilidades de suas ocorrências.
Árvores de Decisão
Utiliza-se de modelos (fuxos de caixa) cuja representação gráfca é diferente da tradicional,
pois no mesmo modelo representa não só a seqüência dos eventos de um determinado empre-
endimento, mas também as alternativas de realização de outros projetos excludentes entre si,
mediante a avaliação de cada um destes simultaneamente através do cálculo dos distintos vpl’s
em momentos ou tempos também diferentes. Pode ser entendido, de maneira bem simples,
como um modelo cuja representação gráfca possibilita um estudo sistemático e racional de
várias alternativas excludentes simultaneamente.
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89 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
Conclusão sobre a viabilidade Econômica do Projeto
Quanto aos métodos adotados, as premissas fundamentais quanto à viabilidade são:
Payback: tempo de retorno do investimento calculado seja menor ou igual a uma expectativa
do investidor ou a um tempo considerado compatível pelo segmento;
Em condições reais, para o tipo de investimento em tela, ou seja, as plantas para produção
de energia com biomassa, pode-se, no estágio do estudo, defnir um tempo razoável de Payback
entre 5 e 8 anos, que corresponde a uma faixa de aproximadamente 20% a 30% do horizonte
do projeto.
vpl: o Valor Presente Líquido, em unidade monetária ($), tem de ser positivo, e não somente
isto, deve estar acima de uma grandeza razoável para que remunere o risco e o trabalho do inves-
tidor, ou seja, tem um piso ou patamar mínimo, que pode ser estabelecido como um percentual
do investimento inicial.
tir: a Taxa Interna de Retorno tem de ter uma grandeza maior do que a tma (Taxa Mínima
de Atratividade), que seria uma expectativa mínima, expressa não em ($), como na vpl, mas
sim em percentual. A grandeza da tma é bastante elástica e depende de muitos fatores. No
contexto econômico atual ela está, na maioria dos setores e empreendimentos, futuando
próximo a 18% ao ano.
A análise pode e deve prosseguir, trabalhando-se com valores pesquisados ou estimados,
calculado o vpl, e procedendo-se aos seguintes cálculos:
vpl ÷ kW = R$/kW – defnirá o resultado por capacidade instalada, que deverá ser comparado
a uma grandeza para referência sobre a viabilidade, caso a caso.
vpl ÷ kWh = R$/kWh – defnirá o resultado em preço da energia gerada, que deverá ser com-
parado à tarifa praticada pela concessionária ou a preços de mercado de venda de energia para
referência sobre a viabilidade, caso a caso. Pode-se ainda, dependendo do resultado, arbitrar ou
defnir a que nível ou grau pode futuar ou modifcar este preço, chegando a um preço mínimo
que pode ser vendida a energia excedente, para se tornar mais competitiva no mercado, mas
mantendo ainda a viabilidade do empreendimento, ou seja, conseguindo um vpl positivo.
Resultados Concretos
Centrais Térmicas a Vapor
Localização do Projeto Marajó
A Comunidade de Santo Antônio, localizada na Ilha de Siriri, no município de Breves, na Ilha do
Marajó (ver fgura 3.6), possuía em 2001 11 famílias ribeirinhas que tinham sua fonte de renda
voltada ao desdobro da madeira, agricultura e pesca. A única fonte de energia elétrica até então
utilizada era um pequeno grupo gerador a diesel de 3,2 kVA, que fornecia energia elétrica para
a serraria e para as residências de forma precária e em períodos não muito longo devido ao alto
custo do óleo diesel e sua difculdade de obtenção.
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90 Tecnologias de Energias Renováveis
Concepção do Projeto
O projeto consiste numa usina de geração de energia elétrica utilizando como combustível resí-
duo de biomassa com potência de 200 kW. Agregada à usina, uma fábrica de extração de óleo
vegetal e uma fábrica de gelo com câmara frigorífca. Ver fgura 3.7. Esse arranjo foi concebido
para tirar proveito da demanda reprimida de produtos como gelo, serviços de conservação a frio,
óleo vegetal e energia frme e de qualidade.
A usina de geração de energia consiste de uma caldeira famo-tubular que queima resíduo de
biomassa para gerar vapor. O vapor aciona uma turbina que move o gerador elétrico. A fábrica
de extração de óleo vegetal com capacidade de esmagar 100 kg/h de polpa é composta de estufa
de secagem, cozinhador a vapor, prensa, decantador, fltro prensa e tanque de armazenamento.
A fábrica de gelo tem capacidade para produzir 10 ton/dia de gelo em escamas e a câmara fri-
gorífca é de 60 m
3
.
Figura 3.7 – Estágio atual do projeto
Figura 3.6 – Mesoregiões do Estado do Pará. Localização do Projeto Marajó: S 01° 47,658’ W 50° 19,343’
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91 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
Gestão
Modelo de Gestão: está em fase de constituição uma pessoa jurídica na forma de cooperativa,
denominada Cooperativa Multiprodutos de Santo Antônio (cmsa), com objetivo social de indús-
tria, comércio e serviços de energia elétrica, gelo, conservação a frio, óleos vegetais e produtos
forestais.
Centrais Térmicas a Gasifcação
Localização do Projeto Genipaúba
A usina é parte de um arranjo produtivo local (apl) localizado em Genipaúba, uma comunidade
remanescente de quilombo, ofcialmente reconhecida em 2002. Genipaúna faz parte do município
de Abaetetuba que, por sua vez, integra a mesorregião do nordeste do Pará. Segundo levan-
tamento feito pelo Programa Raízes, em 2003, na fase de implantação do projeto, Genipaúba
tem em torno de 280 habitantes, divididos em quarenta e sete famílias. A comunidade está
organizada e é representada no projeto pela Associação dos Remanescentes de Quilombos das
Ilhas de Abaetetuba (arquia).
Figura 3.8 – Localização da comunidade de Genipaúba
Sustentabilidade
Deve-se levar em consideração que o apl é composto por um complexo com duas unidades com
funções distintas, mas interdependentes, de tal forma que uma unidade garanta a sustentabilidade da
outra. O sistema ainda não entrou em operação, difcultando análises aprofundadas, mas é possível
traçar uma análise de sustentabilidade da usina de gasifcação com base em fatores conhecidos.
Como a alimentação dos motores do ciclo diesel é feita com gás de síntese, pode-se considerar
como um sistema bi-combustível, uma vez que usa gás e uma complementação de 20% de óleo
diesel. Esta confguração oferece a possibilidade de poder manter o sistema operando somente
com diesel, caso a biomassa esteja inacessível, ou o gasifcador esteja em manutenção. O aspecto
negativo é manter a dependência de combustível fóssil, mesmo que em menor quantidade do que
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92 Tecnologias de Energias Renováveis
um sistema convencional. Por outro lado, por ser diesel, o sistema é conhecido, tem facilidade
de encontrar mão-de-obra e contar com uma grande rede de serviços e suprimentos. Caso a
unidade de benefciamento funcione 8 horas por dia, pode-se prever um consumo de 19,2 litros/
dia de diesel. A obtenção é simples, pode ser feita na rede de distribuição comercial da sede do
município, em Abaetetuba, que está a 15 minutos por barcos da comunidade. Um aspecto negativo
será o desembolso e a dependência.
O suprimento majoritário de biomassa serão os caroços de açaí resultantes do despolpamento
na usina de benefciamento. Considerando que a unidade de despolpamento está a poucos
metros da usina de gasifcação e não haverá dispêndio com transporte, o custo total torna-se
praticamente zero.
É grandemente favorável o uso de uma biomassa nativa, abundante, que faz parte da cultura
local, e que serão usados os frutos rejeitados (o que por si só garante um suprimento pratica-
mente inesgotável), mas deve-se atentar para a dependência do suprimento de biomassa com a
safra do açaí, que ocorre na região entre os meses de agosto a dezembro, tornando prudente a
silagem da biomassa para enfrentar os períodos de entressafra, para gerar energia para manter
a câmara frigorífca em funcionamento. Caso ocorra a carência de biomassa, existe a alternativa
de usar outra biomassa abundante no período, como os rejeitos do manejo dos açaizais, feitos
nesta época do ano.
O consumo teórico de biomassa pelo gasifcador é de 20 kg/h. Embora não seja recomendá-
vel o funcionamento intermitente do gasifcador. Para efeito de cálculo considere-se um regime
de operação de 8 horas contínuas; então o consumo diário deverá ser de 160 kg por jornada de
trabalho.
Resultados
A infra-estrutura idealizada para a usina de gasifcação foi implantada, carecendo de obras
complementares na unidade de benefciamento de açaí para viabilizar o pleno funcionamento
do complexo (fgura 3.9 A e B).
Figura 3.9 – Vista do Complexo. Na fgura A vê-se o prédio da usina de gasifcação ao fundo; à direita a usina de benefciamento
de açaí; e em primeiro plano um dos postes de madeira implantados. Em B tem-se uma visão geral da implantação do complexo.
A B
O prédio está edifcado como mostra a fgura 3.10, abrigando o gasifcador e grupo gerador;
nota-se um engenhoso sistema de estocagem e secagem de biomassa construído na cobertura
do prédio.
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93 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
A
A
B
B
Figura 3.10 – Planta da usina de gasifcação
Figura 3.11 – Planta baixa e perspectiva da usina de gasifcação- Vistas da fachada do prédio onde se vê a escada de acesso
ao silo de secagem (A e B)
Figura 3.12 – A: Deposito de secagem de biomassa, com cobertura móvel para proteger da chuva; B: Duto de ligação do silo
com o gasifcador
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94 Tecnologias de Energias Renováveis
A usina aloja o gasifcador e o grupo gerador projetado especifcamente para este fm e conta
com ambientes internos arejados para permitir a rápida dispersão dos gases, além de espaço
sufciente para a realização dos trabalhos de operação e manutenção; a cisterna está no exte-
rior do prédio (fgura 3.11). O sistema de gasifcação foi testado com sucesso durante três horas
aproximadamente, no momento da entrega técnica. Os equipamentos instalados estão com a
seguinte especifcação técnica.
Especifcações Técnicas
1.Equipamento: Sistema de Gasifcação de Biomassa
Projeto de referência: cgpl, Combustion Gasifcation and Propulsion Laboratory, Department of
Aerospace Engineering, Indian Institute of Science, Bangalore – India
Modelo: Topo aberto, co-corrente.
Dimensões do sistema – (l × a × p)(m): 2,5 × 2,5 × 3,4 Peso 3000 kg
2. Dados de Operação
Gases produzidos: CO: 20 + 1%; ch
4
: 2,0 + 0,5%; h
2
: 20 + 1%; co
2
: 12 + 1% e N
2
Nível de alcatrão e particulado no gás após resfriamento e limpeza: <100 ppm
Poder Calorífco do gás 4,6 MJ/kg
Capacidade de Geração
Elétrica: 20 kWe
Produção de gás: 50m
3
/h
Carga Parasítica: 3,5 kWe
Biomassa
Consumo:
20kg/h
Umidade máxima:
15%.
Tamanho Máximo:
60 × 25 × 25 mm
Taxa de
rejeito:
4:1
Tipo: Qualquer bio-resíduo sólido de massa específca aparente maior que 250 kg/
m
3
, conteúdo de cinzas menor do que 5%
Efciência a Conversão Biomassa Para Gás 80 %
Percentual de Substituição de Diesel > 80 %
Consumo de água 5.0 m
3
/h
3.Grupo-
gerador
Motor
Ciclo-
Diesel
Potência 45cv
(1800 rpm)
Marca- mwm
Modelo-
229/3
Alternador síncrono Potência 40kVA Marca-Negrini
Tipo-
Ate
Computacional
Software CicloRank v1.0
Este modelo de simulação foi desenvolvido para uma dada confguração de fuxograma corres-
pondente ao sistema de potência de um ciclo a vapor. A formulação da análise energética de
cada um dos componentes do ciclo foi baseada nas leis da termodinâmica (ver fgura 3.13).
Software ComGás v1.0
Esta ferramenta foi criada para realizar simulações em equilíbrio químico de processos de com-
bustão e gasifcação de maneira fácil e rápida. O programa é composto por uma janela principal
dividida em quatro partes, onde o usuário tem total autonomia para introduzir os dados e sele-
cionar as opções de sua preferência para obter os resultados desejados (fgura 3.14).
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95 Combustão e Gasifcação de Biomassa Sólida
Figura 3.13 – Janela principal do Ciclo Rank
Figura 3.14 – Janela principal do programa ComGás v1.0
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96 Tecnologias de Energias Renováveis 96 Tecnologias de Energias Renováveis
4 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Soluções Energéticas para a Amazônia
Wilma Araújo Gonzalez (Coordenadora)
Eduardo José Fagundes Barreto
José de Castro Correia
Marcos Danilo de Almeida
Rodrigo Otávio Lopes de Souza
Cláudia Maria Campinha dos Santos
Claudia Rosemback Machado
Nilson Belo Mendonça
Ernani Pinheiro de Carvalho
Juliana da Rocha Rodrigues
Raquel Medeiros da Silva
Evandro Luiz Dall’Oglio
Paulo Teixeira de Sousa Jr
Vaniomar Rodrigues
Pedro Paulo Nunes
Nídia Maria Ribeiro Pastura
Luiz Eduardo Pizarro Borges
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97 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Alternativas Renováveis de Energia a Partir da Biomassa:
Soluções Energéticas para a Amazônia
O uso de óleos vegetais como combustíveis substituindo o diesel, seguindo a mesma lógica do Pro-
Álcool, começou a ser discutida pelo governo federal em 1975, sob a coordenação do Ministério da
Agricultura, dando origem ao Pro-Óleo – Plano de Produção de Óleos Vegetais para Fins Energé-
ticos. Desde então, diversos estudos foram realizados para aplicação de óleos vegetais “in natura”
ou de misturas ao petrodiesel em motores de ignição por compressão (gonzalez, 2003).
O grande aumento no consumo de energia proveniente de combustíveis fósseis observado,
sobretudo no último século, junto com o aumento nos preços, forçou muitos países nos últimos
trinta anos a procurar fontes alternativas de energia e melhorar o consumo energético.
A busca por alternativas às fontes tradicionais de produção de energia abre caminho para um
novo mercado no País. Ainda em seus primeiros passos, mas com imenso potencial, a geração
por aproveitamento da irradiação solar (fotovoltaica), a força dos ventos (eólica) e a biomassa
têm no Brasil o cenário ideal para desenvolver-se. Além disso, a necessidade de um marco regu-
latório para sistemas isolados corrobora esta procura, especifcamente em Energia Renovável a
partir de óleos vegetais.
O desenvolvimento e o aprimoramento de tecnologias para a eletrifcação com biomassa,
bem como para o fornecimento de energia limpa em todos os setores, incluindo o transporte,
possui importância fundamental para melhorar o padrão de vida das populações excluídas.
Essas tecnologias permitem ao mesmo tempo a substituição de usos tradicionais da biomassa
(lenha para cozinhar e executar outras atividades no meio rural) por formas mais efcientes de
sua conversão.
Segundo o Ministério das Minas e Energia (mme, 2005), o mapa da exclusão elétrica no País
revela que as famílias sem acesso à energia estão majoritariamente nas localidades de menor
Índice de Desenvolvimento Humano (idh) e nas famílias de baixa renda (cerca de 90% têm
renda inferior a três salários mínimos). Na Amazônia, o índice de eletrifcação rural ainda é muito
baixo, com percentuais de não-atendimento superiores a 80% das propriedades rurais (rocha
& silva, 2005).
O grande desafo consiste em suprir as necessidades energéticas de sistemas isolados; defnir
qual o modelo adequado para as comunidades, que leve em consideração a logística, as ques-
tões ambientais, as questões sócio-econômicas, a gestão, o consumo e o preço atual do diesel
na região Amazônica.
Sabe-se que para os motores tipo Diesel várias soluções foram aventadas, ressaltando-se
como principais a utilização do próprio etanol em mistura com explosivo conveniente e o apro-
veitamento dos óleos vegetais. Devido aos riscos decorrentes do uso de substâncias explosivas,
que com o tempo poderiam se separar do etanol e concentrar-se nos tanques de combustível
dos veículos, foi escolhida a alternativa da utilização do óleo vegetal, que por sinal já havia sido
sugerida pelo próprio Diesel em 1912.
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98 Tecnologias de Energias Renováveis
No aproveitamento do óleo vegetal para substituição do diesel, três linhas distintas são
possíveis.
Utilização direta do óleo vegetal puro ou em mistura com o diesel do petróleo. Esta 1ª)
linha, embora sendo a de menor custo de obtenção do combustível, trazia problemas de
ajuste de características físicas para empregos nos motores existentes, além do que, os
produtos da combustão seriam diferentes, podendo comprometer as partes metálicas
do motor, bem como pelo fato de lançar novos poluentes na atmosfera, possivelmente
bastante tóxicos.
Transesterifcação, transformando os triglecerídeos naturais do óleo vegetal em 2ª)
monoésteres do etanol ou do metanol. Nesta linha melhoravam-se as propriedades
físicas do combustível aproximando-as às do diesel, com o custo não muito elevado;
trazia, entretanto as seguintes desvantagens:
consumo elevado de álcool etílico ou metílico, numa proporção de 3 moléculas para •
cada molécula de triglecerídeo;
geração de uma quantidade muito elevada de glicerina, que teria, assim, que •
encontrar uma aplicação em grande escala;
persistia o problema de ser um combustível novo, exigindo talvez alguma adaptação •
do motor e trazendo ainda os inconvenientes já citados, de corrosão de partes
metálicas do motor e liberação na atmosfera de novos poluentes com grau de toxidez
alto como ácidos e aldeídos;
T 3ª) ransformação de óleo em uma mistura de hidrocarbonetos o mais semelhante possível
ao diesel, através de uma degradação térmica ou catalítica dos triglecerídeos que
constituem o óleo vegetal. Sob o ponto de vista da qualidade do combustível, esta
é a linha que melhor atenderia ao problema. Não haveria necessidade de nenhuma
modifcação ou adaptação dos motores, bem como não teríamos nenhum problema
novo de corrosão ou poluição, uma vez que o combustível seria idêntico, em sua
natureza, ao já utilizado. Trazia, entretanto, como grande inconveniente o elevado custo
do processo.
Uma das possibilidades de atendimento a estas necessidades como fonte de energia renovável é
através do uso óleos vegetais como biocombustível, quer pelo uso “in natura” ou transformado
quimicamente pelo processo de transesterifcação e/ou esterifcação ou por craqueamento.
Biodiesel é um combustível biodegradável derivado de fontes renováveis, que pode ser obtido
por diferentes processos, tais como a transesterifcação ou a esterifcação.
O biodiesel é também um combustível renovável, ambientalmente correto, constituído de
uma mistura de ésteres metílicos ou etílicos de ácidos graxos, obtidos da reação de esterifcação
de ácidos carboxílicos ou transesterifcação de qualquer triglicerídeo com um álcool de cadeia
curta, metanol ou etanol. Pode ser produzido a partir de gorduras animais ou de óleos vegetais,
existindo dezenas de espécies vegetais no Brasil que podem ser utilizadas, tais como mamona,
dendê (palma), girassol, colza, babaçu, amendoim, pinhão manso e soja, dentre outras.
O biodiesel é uma evolução na tentativa de substituição do óleo diesel mineral por um óleo
oriundo de biomassa. Os biocombustíveis são combustíveis naturais, não tóxicos, biodegradáveis
e renováveis que apresentam uma queima limpa, sendo, portanto, ótimos substitutos do diesel
do petróleo. A tabela 4.1 mostra as características físico-químicas do biodiesel de várias espécies
vegetais e do óleo diesel convencional.
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99 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Portanto, o biodiesel substitui total ou parcialmente o óleo diesel de petróleo em motores
ciclo diesel, automotivos (de caminhões, tratores, camionetas, automóveis, etc.) ou estacionários
(geradores de eletricidade, calor, etc.). Pode ser usado puro ou misturado ao diesel em diversas
proporções. A mistura de 2% de biodiesel ao diesel de petróleo é chamada de B2 e assim suces-
sivamente, até o biodiesel puro, denominado B100.
A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (anp) defne o biodiesel como
um combustível para motores a combustão interna com ignição por compressão, renovável e
biodegradável, derivado de óleos vegetais ou de gorduras animais, que possa substituir parcial
ou totalmente o óleo diesel de origem fóssil.
Tabela 4.1 – Características físico-químicas do biodiesel. Fonte: neto et al (2002)
Características
Poder calorífico (Kcal/Kg)
Ponto de névoa (°C)
Índice de cetano
Densidade a 20°C (g/cm
3
)
Viscosidade a 37,8 (cSt)
Inflamabilidade (ºC)
Ponto de fluidez (°C)
Destilação a 50%
Destilação a 90%
Corrosividade ao cobre
Teor de cinzas (%)
Teor de enxofre (%)
Cor (ASTM)
Resíduo de carbono
Origem do biodiesel
Mamona
9046
-6
nd
0,919
21,6
208
-30
301
318
0
0,01
0
1,0
0,09
Babaçu
9440
-6
65
0,886
3,9
nd
nd
291
333
0
0,03
nd
0
0,03
Dendê
9530
6
nd
0,8597
6,4
nd
nd
333
338
0
0,01
nd
0,5
0,02
Algodão
9520
nd
57,5
0,875
6,0
184
-3
340
342
0
0,01
0
1,0
nd
Piqui
9590
8
60
0,865
5,2
186
5
334
346
0
0,01
0
1,0
0,01
Óleo Diesel
10824
1
45,8
0,849
3,04
55
Nd
278
373
£2
0,014
0,24
2,0
0,35
As características físicas e químicas do biodiesel são semelhantes entre si, independentemente
de sua origem, isto é, tais características são quase idênticas, e independem da natureza da
matéria-prima e do agente de transesterifcação, se etanol ou metanol. A tabela 4.2 apresenta
as propriedades complementares ao biodiesel em comparação ao óleo diesel comercial.
Características
Características químicas apropriadas
Ambientalmente benéfico
Menos poluente
Economicamente competitivo
Reduz aquecimento global
Economicamente atraente
Regionalização
Propriedades Complementares
Livre de enxofre e compostos aromáticos, alto número de cetanos, ponto de
combustão apropriado, excelente lubricidade, não tóxico e biodegradável.
Nível de toxicidade compatível ao sal ordinário, com diluição tão rápida quanto a
do açúcar (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).
Reduz sensivelmente as emissões de (a) partículas de carbono (fumaça), (b)
monóxido de carbono, (c) óxidos sulfúricos e (d) hidrocarbonetos policíclicos
aromáticos.
Complementa todas as novas tecnologias do diesel com desempenho similar e
sem a exigência da instalação de uma infra-estrutura ou política de treinamento.
O gás carbônico liberado é absorvido pelas oleaginosas durante o crescimento, o
que equilibra o balanço negativo gerado pela emissão na atmosfera.
Permite a valorização de subprodutos de atividades agro-industriais, aumento na
arrecadação regional de ICMS, aumento da fixação do homem no campo e de
investimentos complementares em atividades rurais.
Pequenas e médias plantas para produção de biodiesel podem ser implantadas em
diferentes regiões do País, aproveitando a matéria-prima disponível em cada local.
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100 Tecnologias de Energias Renováveis
A obtenção industrial de biodiesel tem sido realizada em fase homogênea e em presença de
catalisadores básicos fortes como hidróxidos, metóxidos e etóxidos tanto de sódio quanto de
potássio, visto que estes catalisam a reação obtendo-se conversões a biodiesel em torno de 100%.
Estes catalisadores a base de sódio e potássio possuem a vantagem de ter um valor comercial
baixo. O maior número de pesquisas na área de biodiesel tem por objetivo otimizar as condições
reacionais do processo feito em fase homogênea e/ou heterogênea utilizando diferentes álcoois
e catalisadores. Nesse contexto, alguns trabalhos de relevância são considerados.
De um modo geral, biodiesel foi defnido pela “National Biodiesel Board” dos Estados Unidos
como o derivado mono-alquil éster de ácidos graxos de cadeia longa, proveniente de fontes
renováveis como óleos vegetais ou gordura animal, cuja utilização está associada à substituição
de combustíveis fósseis em motores de ignição por compressão (motores do ciclo Diesel).
Biodiesel no Brasil
Embora o desenvolvimento de combustíveis alternativos no Brasil date do início do século
passado, um apoio efetivo para pesquisas em biodiesel somente ocorreu na década de 1960. A
motivação para estas pesquisas estava associada com considerações estratégicas e de segurança
nacional do governo militar, sobretudo em comunidades isoladas em regiões de fronteira, onde
o fornecimento de diesel era difícil por razões logísticas, justifcando então uma produção local
do combustível. Também era necessário estabelecer alternativas ao petróleo.
Nas décadas de 70 e 80, em resposta ao desabastecimento de petróleo, o governo criou,
além do amplamente conhecido proálcool, o Plano de Produção de Óleos Vegetais para Fins
Carburantes (pro-óleo), elaborado pela Comissão Nacional de Energia, através da Resolução
nº 007, de 22 de outubro de 1980. Previa a regulamentação de uma mistura de 30% de óleo
vegetal ou derivado no óleo diesel e uma substituição integral em longo prazo. No escopo deste
programa de governo, foi proposta, como alternativa tecnológica, a transesterifcação ou alco-
ólise de diversos óleos ou gorduras oriundos da atividade agrícola e do setor extrativista. Neste
contexto, destacam-se os estudos da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (cetec),
em parceria com o Ministério da Indústria e Comércio, da ufc, e da Unicamp realizados pelas
equipes dos professores Expedito Parente e Ulf Schuchard, respectivamente. Muita pesquisa foi
realizada durante esse período, resultando na solicitação da primeira patente internacional de
biodiesel por cientistas brasileiros. No entanto, com a queda do preço do petróleo, o biodiesel
foi abandonado em 1986, mas, mesmo após o fm do pro-óleo como programa de governo, as
pesquisas em biodiesel continuaram sendo realizadas por pesquisadores brasileiros.
Características
Características químicas apropriadas
Ambientalmente benéfico
Menos poluente
Economicamente competitivo
Reduz aquecimento global
Economicamente atraente
Regionalização
Propriedades Complementares
Livre de enxofre e compostos aromáticos, alto número de cetanos, ponto de
combustão apropriado, excelente lubricidade, não tóxico e biodegradável.
Nível de toxicidade compatível ao sal ordinário, com diluição tão rápida quanto a
do açúcar (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).
Reduz sensivelmente as emissões de (a) partículas de carbono (fumaça), (b)
monóxido de carbono, (c) óxidos sulfúricos e (d) hidrocarbonetos policíclicos
aromáticos.
Complementa todas as novas tecnologias do diesel com desempenho similar e
sem a exigência da instalação de uma infra-estrutura ou política de treinamento.
O gás carbônico liberado é absorvido pelas oleaginosas durante o crescimento, o
que equilibra o balanço negativo gerado pela emissão na atmosfera.
Permite a valorização de subprodutos de atividades agro-industriais, aumento na
arrecadação regional de ICMS, aumento da fixação do homem no campo e de
investimentos complementares em atividades rurais.
Pequenas e médias plantas para produção de biodiesel podem ser implantadas em
diferentes regiões do País, aproveitando a matéria-prima disponível em cada local.
Tabela 4.2 – Propriedades Complementares Atribuídas ao Biodiesel em Comparação ao Óleo Diesel Comercial
Fonte: neto et al (2002)
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101 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Esta situação permaneceu inalterada até a década de 1990, quando os países europeus, segui-
dos por muitos outros, motivados por questões ambientais e de incertezas no fornecimento de
petróleo, começaram a utilizar o biodiesel. Em 2002 o Ministro de Ciência e Tecnologia do Brasil
criou uma rede de instituições para estudar a produção e o uso do biodiesel produzido através
da reação de transesterifcação do óleo de soja com etanol. Em janeiro de 2003, após sua posse,
o governo Lula estabeleceu um Comitê Interministerial (CI) para o biodiesel, com a incumbência
de analisar a possibilidade de produção e uso do biodiesel no Brasil. O CI realizou uma série
de audiências públicas com instituições públicas e privadas de todo o País, relacionadas com a
cadeia produtiva do biodiesel (pesquisas, realização de testes, produção industrial, agricultura,
dentre outras) e também com o parlamento federal e estadual de muitos Estados. As principais
conclusões destas audiências foram as seguintes:
O biodiesel pode contribuir favoravelmente para minimizar muitos problemas 1.
fundamentais no Brasil, como a geração de empregos e renda (inclusão social); a
redução na poluição ambiental, reduzindo custos para o sistema público de saúde;
mitigação das desigualdades regionais e redução da importação de petróleo.
O biodiesel é utilizado em muitos países industrializados. A motivação comum reside na 2.
redução da poluição ambiental e na dependência do petróleo.
O Brasil realizou avanços na tecnologia para biodiesel desde a década de 1970. Entretanto, 3.
estes avanços foram discretos e não harmonizados. O Brasil pode produzir biodiesel
por muitas rotas tecnológicas e matérias primas, que podem ser ajustadas à diversidade
regional do País, de tal forma que todas as regiões podem ser envolvidas na produção de
biodiesel, contribuindo para a redução das desigualdades regionais brasileiras.
Com base nestas conclusões o CI elaborou as seguintes recomendações:
A imediata inclusão do biodiesel na agenda ofcial do governo, enviando um sinal 1.
positivo para a indústria do biodiesel;
A redução das desigualdades regionais e a inclusão social devem ser o princípio 2.
orientador do Programa Nacional para Produção e Uso do Biodiesel;
Autorizar ofcialmente o uso de biodiesel no Brasil. O CI considerou este fato uma 3.
etapa importante para tornar o País um possível benefciário do mercado de créditos de
carbono (como um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto);
Realizar testes reconhecidos e certifcados (em motores veiculares e estacionários) e 4.
atividades de pesquisas e desenvolvimento em parceria com a indústria automobilística,
os Estados da Federação e outros países;
Executar estudos técnicos para produção agrícola de matérias-primas viáveis 5.
economicamente em nível nacional;
Elaborar normas, regulamentos e padrões de qualidade para o biodiesel de acordo com 6.
seus diferentes usos;
Implementar políticas públicas (para fnanciamentos, assistência técnica e extensão rural 7.
e para permitir pesquisas) dirigidas para aumentar a efciência na produção de biodiesel;
Evitar subsídios para o biodiesel e sua cadeia produtiva para prevenir distorções ao 8.
longo do tempo. Permitir incentivos fscais para alcançar sustentabilidade econômica,
social e ambiental na cadeia produtiva do biodiesel.
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102 Tecnologias de Energias Renováveis
Figura 4.1 – Tributação Estadual sobre Biodiesel e Diesel. Fonte: GT Biodiesel mme, 2006.
Para a implementação de todas estas recomendações foi criada uma Comissão Executiva Intermi-
nisterial (cei) subordinada diretamente à Presidência da República. Também foi criado um Grupo
Diretor (GD) subordinado ao Ministro de Minas e Energia. Em 2004, o GD apresentou e obteve a
aprovação de um plano de trabalho para implementar o biodiesel no Brasil. Desde então muitas
leis e regulamentações foram propostas e adotadas para colocar o plano em prática.
Existem alguns aspectos da legislação brasileira para o biodiesel que devem ser destacadas
para mostrar que este programa difere daqueles implantados em outros países e também do
proálcool anteriormente implementado no Brasil. A Lei 11116 (de maio de 2005) e o Decreto
5297 (de 06 de dezembro de 2004) isentam produtores de biodiesel do pagamento do ipi e regu-
lamentam a redução das alíquotas de pis/pasep e cofns, estabelecida em 0,6763. Incrementos
na redução foram estabelecidos com valores dependentes do tipo de matéria-prima utilizada, se
a matéria-prima for obtida da agricultura familiar e da região na qual foi produzida. Os maiores
incentivos acumulam-se para biodiesel produzido de óleos de palmáceas e de mamona, obtidos
nas regiões Norte, Nordeste ou semi-árido do País e adquiridos da Agricultura Familiar. Sob tais
condições não é necessário o pagamento de pis/pasep e cofns – um incentivo equivalente a
R$218,00/m
3
do biocombustível. Os valores para a tributação Federal e Estadual nas diferentes
regiões no Brasil podem ser observados na fgura 4.1.
Alíquota Padrão
(Biodiesel)
17%
18%
17%
15%
13%
12%
Alíquota do diesel
Após um ano de amadurecimento, foi lançado o Programa Nacional de Produção e Uso de Bio-
diesel (pnpb) em sessão solene no Palácio do Planalto, no dia 4 de dezembro de 2004, sendo
o seu principal objetivo garantir a produção economicamente viável do biocombustível, tendo
como tônica a inclusão social e o desenvolvimento regional.
A principal ação legal do pnpb foi a introdução de biocombustíveis derivados de óleos e gor-
duras na matriz energética brasileira pela Lei nº 11.097, de 13 de janeiro de 2005. Esta lei prevê
o uso opcional de B2 até o início de 2008, quando passará a ser obrigatório. Entre 2008 e 2013,
poderão ser usadas blendas com até 5% de biodiesel, quando o B5 será obrigatório. Finalmente, a
Resolução Nº 3, de 23 de setembro de 2005, do Conselho Nacional de Política Energética, obriga
os produtores e importadores de óleo a adquirir todo o biodiesel produzido por companhias
ou associações agraciadas com o Selo de Combustível Social a partir de 1º de janeiro de 2006.
Este biodiesel deve ser adquirido em leilões públicos controlados pela anp (Agência Nacional
de Petróleo e Biocombustíveis), mostrando que com este Programa de Biodiesel a intenção do
governo é evitar as falhas observadas no proálcool, notadamente a concentração da produção
nas mãos de poucos e somente em algumas regiões do País.
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103 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Tabela 4. 3 – Produção de biodiesel – B100 por Estados – 2005 a 2007 (m
3
). Fonte: anp/srp. Nota: (m
3
) = metro cúbico.
No Brasil a produção de biodiesel em escala industrial começou após a introdução de biocom-
bustível de óleos e gorduras na matriz energética brasileira, tema inserido na Lei nº 11.097, de 13
de janeiro de 2005. E já no primeiro ano, em 2005, teve uma produção de 736 m
3
, aumentando
para 399.243 m
3
em 2007 (tabela 4.3).
Tabela 4.4 – Capacidade Autorizada de Plantas de Produção de Biodiesel no Brasil até 08/05/2008. Nota: Capacidade anual
limitada de acordo com licença ambiental de operação vigente. Data da última atualização: 08/05/2008. 300 dias de operação
Estado
Bahia
Ceará
Goiás
Maranhão
Mato Grosso
Minas Gerais
Pará
Paraná
Piauí
Rio Grande do Sul
Rondônia
São Paulo
Tocantins
Total
Produção 2005 (m
3
)
-
-
-
-
-
44
510
26
156
-
-
-
-
736
Produção 2006 (m
3
)
4.238
1.956
10.108
-
13
311
2.421
100
28.604
-
-
21.251
-
69.002
Produção 2007 (m
3
)
69.297
47.348
110.638
23.509
12.857
138
3.717
12
30.474
42.696
99
35.684
22.773
399.243
A capacidade autorizada de plantas de biodiesel no Brasil em maio de 2008 chegou a 2.833.610 m
3
e
o número de plantas com autorização para produção de biodiesel pela anp foi de 53 (tabela 4.4).
Estado
Mato Grosso
São Paulo
Rio Grande do Sul
Goiás
Bahia
Tocantins
Ceará
Maranhão
Piauí
Paraná
Pará
Minas Gerais
Rondônia
Rio de Janeiro
Total
Número de Plantas de
Produção de Biodiesel
19
8
4
3
2
2
2
1
1
3
2
3
2
1
53
Capacidade de
Produção Anual (m3)
713.598
555.872
532.200
259.800
208.500
116.100
108.720
108.000
81.000
57.000
34.500
21.720
18.600
18.000
2.833.610
miolo síntese.indd 103 19/12/2008 16:52:54
104 Tecnologias de Energias Renováveis
A partir do dia 1º de julho de 2008 o percentual de mistura obrigatória de biodiesel ao óleo
diesel comercializado aumentou de 2% para 3%. A decisão foi tomada pelo Conselho Nacional
de Política Energética (cnpe). A resolução foi publicada no Diário Ofcial da União (Resolução
nº 2 de 13 de março de 2008).
Considerando a extensão e a localização geográfca do Brasil, tem-se três vantagens com-
parativas importantes. A primeira é a diversidade de clima, o que permite administrar de forma
mais fexível o risco climático. O segundo aspecto é a exuberância de sua biodiversidade, o que
signifca que o Brasil necessita exercitar opções de novas alternativas associadas à agricultura
de energia – selecionando aquelas que lhe forem mais convenientes – ao invés de depender,
incondicionalmente, de uma única espécie, como é o caso da Europa ou dos Estados Unidos.
Finalmente, o Brasil detém um quarto das reservas superfciais e sub-superfciais de água doce, o
que permite o desenvolvimento de culturas irrigadas, na superveniência de condições climáticas
desfavoráveis (Plano Nacional de Agroenergia, 2005).
Ime: Pesquisas de Ponta na Área de Produção de
Biocombustíveis
O uso de Energias Renováveis para Atendimento de Comunidades Isoladas Não-atendíveis por
Rede Elétrica Convencional poderia ser uma solução para a região Amazônica. No entanto,
implantar um projeto nesta região é um desafo.
Partindo dessa premissa, em 2004 foi iniciado o projeto “Geração de energia a partir de ole-
aginosa da Amazônia para atendimento à comunidade isolada”, fnanciado pelo mme/ct-energ/
cnpq/pnud/bid, tendo como estratégia:
Utilizar os conhecimentos existentes em fontes renováveis de energia no ime/dct/eb/md
como base para o desenvolvimento e defesa da Amazônia.
0%
20%
40%
60%
80%
100%
2001
hidrogena
craqueamento
transesterica
reforma
0%
20%
40%
60%
80%
100%
1971–1980 1981–1990 1991–2000
hidrogenação
craqueamento
transestericação
reforma
Figura 4.2 – Fontes Renováveis de Energia – ime
Usar a logística do Exército Brasileiro na região Amazônica para implementação do projeto.
O acesso à comunidade foi sempre realizado através do Comando Militar da Amazônia – cma.
A equipe contou com apoio do cigs/cma, através da disponibilização de embarcações do tipo
“voadeira”, além de pessoal para auxiliar nas missões e de equipamento de segurança.
Promover a capacitação de recursos humanos e fomentar a pesquisa de alto nível em áreas
de interesse estratégico para a Defesa Nacional, em áreas importantes, principalmente em
regiões de fronteira.
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105 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Executar este projeto-piloto multidisciplinar através de parcerias entre os cursos de pós-
graduação de Química, Mecânica, Elétrica e Cartografa do Instituto, com as instituições da
Amazônia cigs/cma, embrapa, fucapi, fapeam, sect-am e ufpa.
Este projeto possibilitou o desenvolvimento de inúmeras pesquisas, em escala de bancada,
scale-up e instalação de uma usina piloto de biodiesel. A metodologia proposta neste projeto-
piloto utilizando energia renovável para atendimento a comunidades isoladas considerou:
estudo locacional para defnir a matéria-prima e o local onde seria instalada a usina de i)
biodiesel;
instalação da unidade de produção de biodiesel; ii)
escolha da comunidade isolada considerando a logística; iii)
necessidade de localização georreferenciada dos benefciários; iv)
conhecimento mais apurado da carga dos benefciários; v)
conhecimento da capacidade de pagamento dos benefciários; vi)
mapeamento do potencial da comunidade para geração de emprego e renda; vii)
escolha do local a ser instalado o sistema de geração e a rede elétrica. viii)
Prospecção de Processos
A geração de energia a partir de biomassa pode ser feita por vários processos empregando óleo
vegetal, resíduos de biomassa, efuentes, subprodutos e/ou co-produtos de processos, sempre
com a intenção de agregar valor à cadeia produtiva (fgura 4.3).
A apresentação das pesquisas e produtos desenvolvidos e/ou em desenvolvimento serão
apresentados por:
tecnologias de produção do biodiesel; a.
tecnologias de aproveitamento da glicerina; b.
tecnologias de aproveitamento do sabão; c.
tecnologias de aproveitamento da biomassa para produção de biocatalisador; d.
tecnologias de aproveitamento da biomassa para produção de carvão ativo; e.
Figura 4.3 – Cadeia Produtiva de aproveitamento de Biomassa
miolo síntese.indd 105 19/12/2008 16:52:55
106 Tecnologias de Energias Renováveis
Análise do óleo vegetal
A análise da matéria-prima é fundamental para se defnir o procedimento e o processo para pro-
dução de um biocombustível. De acordo com a anp, para que se consiga produzir um biodiesel
que atenda às especifcações, deve-se utilizar como insumo um óleo vegetal com, no máximo,
1% de acidez. Portanto, a primeira etapa para a produção de biodiesel, independentemente do
tipo de óleo vegetal, é analisar a matéria-prima através da determinação da acidez.
Através desta determinação será possível defnir o tipo de pré-tratamento desta matéria
prima e/ou o processo de produção do biocombustível que poderá ser a transesterifcação por
catálise básica e/ou ácida (homogênea ou heterogênea) e/ou a esterifcação dos ácidos graxos
livres, conforme mostra a fgura 4.4.
Óleo Bruto
Acidez
A < 1%
Transestericação
direta
Catalisador
básico
1% < A < 5%
Neutralização
da acidez e
transestericação
Catalisador
básico
6% < A < 20%
Estericação e
transestericação
Catalisador
ácido e básico
A > 20%
Estericação e
transestericação
simultâneas
Catalisador
ácido
Figura 4.4 – Esquema para defnição do processo, A= acidez
Além do tipo de catalisador, se ácido ou básico, ele pode ainda ser homogêneo e heterogêneo.
Na catálise homogênea, o catalisador e o substrato estão na mesma fase. Como exemplos de
catalisadores ácidos temos HCl, H
2
SO
4
; e de catalisadores básicos os hidróxidos, carbonatos e
alcóxidos de Na ou K. Já na catálise heterogênea, o catalisador e o substrato não estão na mesma
fase, o que permite facilmente a separação do catalisador após a reação. Como exemplos de
catalisadores heterogêneos podem ser citados os ácidos zircônia-alumina dopada com tungs-
tênio e os básicos CaO, Ca(OMe)
2
, Ba(OH)
2
, Mg(OH)
2
, CaCO
3
. Portanto, a comparação entre
os catalisadores homogêneos (líquidos) e heterogêneos (sólidos) serve para ajudar na escolha
do catalisador mais adequado para o processo a ser estudado. As vantagens e desvantagens de
cada tipo de catalisador estão apresentadas na tabela 4.5.
miolo síntese.indd 106 19/12/2008 16:52:55
107 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Pré-tratamento do óleo
A partir da análise do óleo vegetal descrita acima, o pré-tratamento do óleo bruto pode ser
defnido. Este pode envolver as etapas de degomagem, neutralização, lavagem, com medidas
de acidez antes e depois do processo (fgura 4.5).
Figura 4.5 – Pré-tratamento do óleo bruto
Tabela 4.5 – Vantagens e desvantagens do uso de catalisadores homogêneos e heterogêneos
Adaptado de Palestra Prof. Dr. Ulf Schuchardt, unicamp
Catalisadores Homogêneos
Básicos ou alcalinos facilmente manipuláveis;
Menos corrosivos que os catalisadores ácidos homogêneos;
Número maior de etapas na produção de biodiesel;
Maior produção de resíduos provenientes da neutralização
do catalisador, da purificação do produto e recuperação da
glicerina.
Catalisadores Heterogêneos
Podem ser utilizados na transesterificação de óleos vegetais
que possuem altos teores de ácidos graxos;
Redução significativa do número de etapas de purificação;
Possibilita a reutilização do catalisador;
Evita a corrosão da planta;
Facilita a purificação da glicerina;
Requer maior tempo de reação e temperaturas elevadas;
Plantas industriais mais sofisticadas.
Óleo
Neutralização
Degomagem
Lavagem
Óleo
Acidez < 1
Goma
A etapa de degomagem visa remover do óleo bruto os fosfatídeos, proteínas e substâncias
coloidais, que reduzem a quantidade de álcali durante a subseqüente neutralização e as perdas
nas outras fases do processo.
Alguns processos foram avaliados variando-se as quantidades de óleo e as concentrações das
soluções, para otimizar, defnir a melhor metodologia e verifcar sua viabilidade para implantação
industrial. Os processos avaliados foram:
Degomagem e neutralização com ácido fosfórico a 85% e solução de hidróxido de sódio 1.
20% a frio.
Degomagem e neutralização com ácido fosfórico a 85% e solução de hidróxido de sódio 2.
20% a quente.
miolo síntese.indd 107 19/12/2008 16:52:56
108 Tecnologias de Energias Renováveis
Neutralização com álcool etílico P.A. 3.
Degomagem total. 4.
Degomagem e neutralização com fuxo de ar. 5.
Entre estes métodos, o mais promissor foi o de degomagem e neutralização com fuxo de ar,
adaptado do processo reportado por Franz Kaltner. Este processo, descrito a seguir, está sendo
usado, em rotina, na unidade-piloto de biodiesel, instalada no Campo Experimental da Embrapa
de Rio Urubu, ceru (Rio Preto da Eva, AM).
Degomagem e neutralização do óleo vegetal bruto com fuxo de ar
Inicialmente, é determinado o índice de acidez do óleo, usando o método descrito no Manual
de Biodiesel (mme). Em seguida, aquecer o óleo até 60°C e adicionar uma solução de NaOH
10% correspondente a quantidade sufciente para neutralizar os ácidos graxos livres presentes
no óleo. Aquecer novamente até a temperatura de 75°C e injetar lentamente ar para facilitar
a granulação da borra. Desligar então o aquecimento e adicionar lentamente uma solução de
NaCl a 10%, em quantidade corresponde a 15% do peso do óleo, sob agitação. Parar a agitação
e adicionar em intervalos de 10 minutos uma quantidade de água correspondente a 15% do peso
do óleo, a temperatura ambiente. Repetir este procedimento duas vezes. Separar a água / borra
por decantação, lavar pelo menos mais três vezes com água aquecida a temperatura de 60°C,
separando a água após cada adição. Em seguida secar o óleo por evaporação.
Acidez do óleo de dendê
Os óleos vegetais, especialmente os produzidos a partir de oleaginosas típicas do Norte e
Nordeste do País, possuem elevada acidez. No caso específco do dendê, destaca-se como
variável importante a acidez do óleo. Esta cultura exige que se disponha de uma indústria de
processamento da produção (unidade de extração de óleo) o mais próximo possível da planta-
ção. Tal exigência faz-se devido à necessidade de ordem técnica, uma vez que os frutos devem
ser processados até 24 horas, no máximo 48 horas, após a colheita, com riscos acentuados de
perda da qualidade do óleo causado por processos enzimáticos de deterioração e aumento da
acidez do óleo. Ocorre um processo de hidrólise dos triacilglicerídios (óleo vegetal) que leva ao
aumento do teor de ácidos graxos livres (fgura 4.6), que são facilmente saponifcáveis, devido à
reação com uma solução quente de hidróxido de sódio produzindo o correspondente sal sódico
do ácido carboxílico, isto é, o sabão.
O
O
O
R
O
R
R
O
O
OH
OH
OH
R
O
OH
água + + 3 3
Figura 4.6 – Processo de Hidrólise
Para defnição de um local para instalação de uma usina de biocombustível, especifcamente na
Amazônia, deve-se mapear a região (estudo locacional) e considerar as questões de logística.
miolo síntese.indd 108 19/12/2008 16:52:56
109 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Por exemplo, o Campo Experimental da Embrapa em Rio Urubu, município de Rio Preto da Eva,
Embrapa Amazônia Ocidental, cpaa, foi a região apontada como aquela que respondia às questões
supracitadas para instalação de uma usina-piloto de biodiesel. Esta região possuía uma plantação
de 412 ha de palma e uma usina de extração de óleo de palma e palmiste, de modo que o tempo
de colheita e de processamento para extração do óleo poderia ser o menor possível. A fgura 4.7
mostra a localização da usina de extração de óleo de dendê (Imagem ccd-cibers2; cena/ponto
172/103; de composição R3, G4, B2), localizada no Campo Experimental da Embrapa, ceru.
Figura 4.7 – Localização da usina de extração de óleo de dendê em ceru.
Figura 4.8 – Índice de Acidez do Óleo de Palma Bruto
Um estudo realizado no ime acompanhou a evolução da acidez do óleo bruto in natura em inter-
valos tempo pré-fxados, como mostra a fgura 4.8. Observa-se que após 60 dias há um aumento
progressivo do índice de acidez do óleo de palma, provavelmente devido à sua oxidação e/ou a
presença/formação de ácido livre pela presença de umidade. O uso de óleo bruto nestas condi-
ções de acidez, se produzido por catalise básica, poderia formar sabão e danifcar os motores.
4,9 4,9
5,2
5,4
6,2
7,5
0
1
2
3
4
5
6
7
8
30 60 90 120 150 180
dias
I
.
A

(
m
g

K
O
H
/
g

ó
l
e
o
)
miolo síntese.indd 109 19/12/2008 16:52:57
110 Tecnologias de Energias Renováveis
Produção de biodiesel
A transesterifcação alcalina é, de longe, o processo mais usado para a produção de biodiesel.
Trata-se de um processo simples e de domínio público. O problema, no entanto, é o custo e a ef-
ciência da etapa de separação das fases após a reação e a purifcação dos produtos e co-produtos
(principalmente para o caso do etanol) para que se atenda às especifcações previstas pela anp.
É importante, portanto, concentrar esforços no desenvolvimento, na melhoria dos processos e
dos equipamentos utilizados na separação de fases e purifcação.
Além das questões relativas ao pré-tratamento, em que a acidez do óleo bruto é um fator
importante para a escolha do processo, o tipo de catalisador e as vantagens e desvantagens
relativas à escolha do álcool devem ser consideradas.
Na tabela 4.6 são destacadas algumas questões relativas ao álcool.
Etanol
Vantagens
Origem renovável
Produção nacional
Não tóxico
Desvantagens
Deve ser álcool desidratado
Processo de separação da glicerina mais
complexo, o que implica maior investimento
para purificação do biodiesel
Metanol
Vantagens
Menor custo
Separação imediata da glicerina
Pode ser produzido a partir do gás de síntese
Desvantagens
Tóxico
O Brasil é importador deste álcool
Por questões de segurança, não deve ser usado em
processos de produção de biodiesel em comunidade isolada
Tabela 4.6 – Vantagens e desvantagens relativas ao tipo do álcool. Adaptado de Palestra Prof. Dr. Ulf Schuchardt, unicamp
Reação de transesterifcação – rota etílica – Catálise Homogênea
Escala Bancada
O procedimento de produção de biodiesel via transesterifcação alcalina, rota etílica, é apresen-
tado no fuxograma da fgura 4.9.
miolo síntese.indd 110 19/12/2008 16:52:57
111 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Matéria Prima Catalisador
NaOH ou KOH
Metanol
ou Etanol
Excesso
de álcool
recuperado
Fase
Pesada
Fase
Leve
Resíduo
Glicérico
Glicerina
Puricada
Biodiesel
Preparação da
matéria-prima
Reação de
transestericação
Separação
de fases
Desidratação
do álcool
Recuperação do
Álcool da glicerina
Destilação
da glicerina
Recuperação do
Álcool dos Ésteres
Puricação
dos Ésteres
Figura 4.9 – Processo de produção de biodiesel
O teste catalítico para produção de um biocombustível de referência foi realizado em um balão de
fundo chato de três bocas com juntas esmerilhadas. Um condensador foi acoplado para manter
refuxo constante. O reator foi imerso em um banho de óleo de silicone para uma melhor troca
térmica, neste com um termômetro no banho de silicone para acompanhamento da temperatura,
como mostrado na fgura 4.10.
Figura 4.10 – Aparelhagem de refuxo usada nas reações homogêneas
miolo síntese.indd 111 19/12/2008 16:52:57
112 Tecnologias de Energias Renováveis
Após a degomagem e neutralização do óleo vegetal, prepara-se separadamente a solução de
catalisador (etóxido de sódio) a quente e só então adiciona-se ao óleo, também quente, contido
no balão. A quantidade de catalisador (NaOH) utilizada fca em torno de 1% em relação ao peso
do óleo, o teor álcool pode variar com razões molares álcool/óleo entre 9:1 e 5:1; normalmente
uma razão molar de 6:1 (equivalente a 100% de excesso de álcool) é usada na reação. O sistema
é deixado sob refuxo, em torno de 75°C, durante uma hora. Após esse tempo, transfere-se o
efuente reacional para um funil de separação onde se inicia o processo de lavagem, que será
detalhado no próximo passo.
Lavagem
A literatura apresenta vários métodos de lavagem. O objetivo é sempre evitar perda de biodiesel
para a fase aquosa, o que pode ocorrer devido à formação de emulsões, agravada pela formação
de sabões durante a reação ou ainda por excesso de água de lavagem ou de agitação. Um primeiro
método que pode ser usado consiste na adição de glicerina seguida de duas lavagens com água
a 60°C. Este processo evita a formação de emulsão.
Um segundo método consiste em lavar o produto reacio-
nal com água quente a 60°C por duas vezes. Este processo
forma emulsão se a mistura for agitada.
Um terceiro método consiste em lavar o produto a tempe-
ratura ambiente com uma solução diluída de ácido acético e
água na primeira lavagem e duas outras lavagens com água.
A separação da primeira lavagem ocorre com formação de
três fases distintas, sendo a inferior composta por água
contendo acetato de sódio, a intermediária composta majo-
ritariamente por glicerina e a superior por biodiesel. Neste
processo não ocorre a formação de emulsão, mas ocorre o
arraste de cerca de 10 a 30% de biodiesel na fase rica em
glicerina (fgura 4.11).
Secagem do biodiesel
Após a separação da glicerina por decantação, em escala de bancada, o biodiesel pode ser seco
com a adição de sulfato de sódio anidro e seco, que por sua vez é separado por centrifugação.
Alternativamente, o biodiesel pode ser seco por aquecimento a 130°C (ou a 100°C sob vácuo)
por 30 minutos.
Reação de transesterifcação – rota etílica – Catálise Heterogênea
Escala Bancada
Para os testes via catálise heterogênea devem ser usados reatores de aço inox tipo autoclave
(Parr) com agitação mecânica ou magnética. Reatores tipo Parr de capacidade de 100 mL e 300
mL (fgura 4.12) são adequados para este fm.
As reações com catálise heterogênea normalmente são conduzidos a temperatura, pressão e
razão álcool:óleo mais elevadas. Valores comuns na literatura são 200°C de temperatura, pressão
entre 5 e 10 bar e razão molar álcool:óleo entre 6:1 e 15:1. A quantidade de catalisador varia entre
3 e 20% em relação ao peso de óleo.
Figura 4.11 – Lavagem do biodiesel.
miolo síntese.indd 112 19/12/2008 16:52:58
113 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Em muitos procedimentos a pressão do sistema corresponde à pressão de vapor do álcool. Alguns
resultados obtidos a 200°C e pressão endógena são mostrados na tabela 4.7
Figura 4.12 – Reatores do tipo Parr utilizados nos testes catalíticos.
Catalisador
zircônia sulfatada dopada (Fe, Mn)
zircônia sulfatada
zircônia sulfatada
36%H3PW12O40/SiO2
Razão álcool/óleo
15:1
15:1
15:1
15:1
% Conversão (RMN)
75
00
00
86
T (h)
5
5
12
5
Tabela 4.7 – Testes catalíticos realizados a proporções álcool:óleo (15:1)
A infuência da pressão pode ser observada ao se comparar o resultado obtido com o catalisador
de zircônia sulfatada na reação com óleo de palma que foi realizada a 200° C, sob pressão de 50
bar, com rendimento de 90,3%.
Reação de transesterifcação – Aumento de escala
Os sistemas em escala de bancada apresentam várias limitações, principalmente na agitação e
no controle de temperatura. O aumento de escala serve a dois propósitos: confrmar os resulta-
dos obtidos em escala de banca em condições mais próximas das condições industriais e gerar
amostras em maior quantidade para testes e análises mais completos.
O aumento de escala dos processos de produção de biodiesel foi realizado em reatores-piloto
multipropósito com capacidades de 20L e 50L do Instituto Nacional de Tecnologia, int. Estes
reatores apresentavam uma série de limitações e inadequações ao processo e foram substituídos
por um sistema batelada projetado para permitir a execução de todas as etapas de produção
do biodiesel num único equipamento. A tecnologia usada neste reator foi gerada no Instituto
Militar de Engenharia, ime, assim como o desenvolvimento do projeto de uma primeira unidade,
em aço inox, móvel, de 50L de capacidade (fgura 4.13).
O procedimento defnido para esta unidade é basicamente o mesmo defnido em escala de
bancada, sofrendo apenas algumas modifcações. A abordagem de projeto privilegiou a simpli-
cidade e o baixo custo, evitando-se o uso de componentes mais caros, como itens de controle
miolo síntese.indd 113 19/12/2008 16:52:58
114 Tecnologias de Energias Renováveis
e automação normalmente encontrados em unidades
industriais. Em contrapartida, a unidade necessita de
um pouco mais de assistência humana para funcionar.
Cabe destacar que a unidade pode inclusive ser usada
para recuperar e secar o etanol utilizado em excesso.
As maiores vantagens desta unidade são a sua sim-
plicidade, baixo custo e robustez. Estas características
fazem com que este tipo de unidade seja ideal para
utilização em comunidades isoladas (fgura 4.13).
Usina-piloto de biodiesel
A usina de biodiesel foi instalada em ceru, onde existe
uma plantação de 412ha de dendê, uma usina de extra-
ção de óleo e uma comunidade de funcionários da
Embrapa/cpaa, além de uma escola.
O vapor e a bacia de decantação de rejeitos utiliza-
dos pela usina-piloto de biodiesel são da unidade de
extração de óleo de dendê (fgura 4.14). Cabe destacar
que a caldeira da unidade é alimentada com os rejeitos
da própria unidade.
Figura 4.13 – Unidade móvel de produção de
biodiesel
Figura 4.14 – Unidade de extração de óleo de dendê (ceru/Embrapa-cpaa)
miolo síntese.indd 114 19/12/2008 16:52:59
115 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Figura 4.15 – Unidade de 1.000 litros por batelada (ceru/Embrapa)
A unidade é completa, sendo projetada para executar todas as etapas do processo de produ-
ção, do pré-tratamento do óleo bruto até o acabamento do biodiesel, incluindo a recuperação
e secagem do álcool.
Apesar de executar todas as etapas descritas acima, a unidade é bem simples e robusta. Em
termos de controle, existem apenas indicações básicas de temperatura e pressão, sem nenhuma
automação. O controle é todo manual, com o operador tendo que atuar no acionamento de todos
os equipamentos (bombas, agitadores, válvulas, trocadores de calor).
Cabe destacar como diferencial o fato de a unidade possuir um sistema completo de recu-
peração e secagem do etanol utilizado em excesso. A secagem é feita com auxílio de um leito
de peneira molecular, material adsorvente com grande capacidade para retenção de água. Este
material é regenerado no local e pode ser utilizado por inúmeros ciclos.
Em condições ideais, esta usina pode produzir até três bateladas por dia, ou seja, até 3.000 litros
de biodiesel por dia. Esta produção poderia gerar energia elétrica para suprir as necessidades do
ceru, da comunidade local e ainda algumas comunidades de Rio Preto da Eva.
miolo síntese.indd 115 19/12/2008 16:53:00
116 Tecnologias de Energias Renováveis
Óleo Vegetal in Natura em Motores de Combustão Interna
Introdução
A possibilidade de utilização de óleos vegetais puros como combustível de motores de ciclo
diesel é conhecida desde a fase de desenvolvimento do motor, havendo registros de utilização
de óleo de amendoim em experimentos realizados pelo Dr. Rudolf Diesel no ano de 1911. A partir
desta época têm sido realizados estudos para viabilizar técnica e economicamente o uso de óleos
vegetais como fonte de energia renovável.
Desde a década de 70 experimentos vêm sendo realizados principalmente na Alemanha,
demonstrando que é possível obter-se uma operação confável com óleo vegetal não transfor-
mado, mesmo em motores diesel convencionais. Para isto, é necessário que o óleo vegetal seja
aquecido para diminuir sua viscosidade e que cada ciclo de funcionamento do motor deve começar
com diesel, passar para óleo vegetal após alguns minutos (quando o motor já estiver quente), e
operar os minutos fnais também com diesel para “lavar” o sistema injetor e impedir que resíduos
de óleo vegetal esfriem dentro da bomba injetora e, principalmente, nos bicos injetores.
Motores com injeção indireta (pré-câmara) também são recomendáveis para esta aplicação
por serem mais tolerantes ao óleo vegetal.
Em princípio considera-se que a utilização de óleos vegetais em motores estacionários, como
nos grupos geradores, é menos problemática do que em motores automotivos, por operarem
com rotação constante e baixa e por serem sujeitos a menores variações de carga ao longo da
operação. Além disto, nos motores estacionários os inconvenientes relacionados à utilização de
dois combustíveis, como mencionado anteriormente, são muito menos signifcativos do que nos
motores automotivos. Portanto, ao contrário dos motores automotivos, a utilização de motores
estacionários para suprimento de energia elétrica a comunidades isoladas estaria prevista para
locais de difícil acesso ao diesel, e conseqüentemente com maior justifcativa econômica para o
uso do óleo vegetal como combustível.
Segundo Di Lascio (2004), para adequar o refno do petróleo à realidade nacional, a coluna
de destilação das refnarias foi redistribuída para produzir maior quantidade de diesel, com
características (mais leve e menos viscoso) para facilitar a combustão nos motores veiculares.
Portanto, estes motores diesel passaram a ser produzidos sem pré-câmara, com injeção direta,
tornando-se inadequados para uso direto de óleo vegetal in natura. Em conseqüência, o uso
de óleos vegetais in natura diretamente em motores diesel de injeção direta passou a ter os
seguintes problemas: i) aparecimento de resíduos de carbono no interior dos cilindros, câmara
de combustão, especialmente nas proximidades das válvulas de descarga, comprometendo a
normalidade de funcionamento das mesmas e do próprio motor; ii) entupimento dos bicos inje-
tores, sobretudo quando o óleo vegetal tem alto índice de insaturação, o que o predispõe para
as reações de polimerizações; iii) diminuição do rendimento do motor e aumento conseqüente
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117 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
do consumo, resultantes do insufciente índice de cetano, inerente às características dos óleos
vegetais; iv) necessidade de regulagem especial no sistema de injeção do motor para cada tipo de
óleo vegetal; v) diminuição do tempo de troca do óleo do carter, especialmente quando este for
de alta taxa de aditivação; vi) diminuição da vida útil do motor, especialmente quando alimentado
com óleo de elevado índice de ácidos graxos livres; e vii) emissões de produtos tóxicos, onde se
incluem a acroleína e certas substâncias orgânicas, resultantes de uma combustão incompleta.
Atualmente, o uso de óleo vegetal in natura em motor de combustão interna volta a ser
frmemente considerado, principalmente devido às emissões de gases de efeito-estufa e à ele-
vação consistente dos preços do petróleo. Alguns fatores relevantes deverão trazer profundas
modifcações no mercado de energia. Esses fatores são relacionados por Kaltner:
A evolução das tecnologias de produção agrícola que permitem a utilização de seus Š
produtos com vantagens econômicas e ambientais como matéria-prima em processos
industriais, em substituição a insumos não renováveis.
A necessidade de implantação de programas de produção auto-sustentáveis (emissão Š
zero), que satisfaçam as necessidades atuais sem diminuir a oportunidade das gerações
futuras, em atendimento ao Protocolo de Kyoto.
A previsão de que a produção mundial de petróleo atingirá o pico entre os anos de Š
2004 e 2008. A partir daí, as reservas mundiais começarão a declinar, conforme estudo
publicado no livro Hubbert’s Peack – The Impending World Oil Shortage, de Kenneth S.
Deffeys, editado pela Princeton University Press/2001. Como o mercado de petróleo
tem crescimento de 2% ao ano, a confrmação desta premissa infuenciará fortemente o
mercado de produtos agrícolas que tenham aplicação como substituto de petróleo.
A necessidade de utilização de óleos diesel com baixíssimos teores de enxofre, por Š
questões ambientais, exigem a adição de aditivos para melhorar a qualidade de
lubrifcação do combustível. Dentre os aditivos pesquisados, os derivados de óleos
vegetais são os de mais baixo custo, e já fazem parte da formulação de diversos óleos
diesel premium vendidos no mercado.
A necessidade de eletrifcação de comunidades isoladas, cujo atendimento não tem Š
viabilidade econômica, seja pela distância da rede ou pelo custo de transporte de óleo
diesel.
Uso de Óleo Vegetal in Natura em Motores
Os principais problemas identifcados com o uso de óleo vegetal in natura são:
difculdade de partida a frio devido à viscosidade dos óleos vegetais, que é até 10 (dez) i)
vezes maior que a viscosidade do óleo diesel na temperatura de referência;
ponto de fusão elevado; ii)
formação de gomas nos bicos injetores; iii)
decomposição de componentes da bomba injetora, devido à acidez do óleo; iv)
formação de depósitos de carvão na câmara de combustão, nos cilindros e nas válvulas. v)
A formação de goma e carbonização é decorrente da existência de ácidos graxos insaturados
nos óleos vegetais. Quando esses óleos são submetidos às altas temperaturas da câmara de
combustão, há formação de polímeros. Por exemplo, óleos brutos do tipo soja, algodão, canola
e girassol não são adequados para uso como combustível em motores diesel, pois possuem na
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118 Tecnologias de Energias Renováveis
sua composição alto teor (percentagem) de ácidos graxos insaturados, como oléico, linoléico e
linolênico, que possuem, respectivamente, uma ligação dupla, duas duplas e três duplas, con-
forme apresentado na tabela 4.8.
Existe também a difculdade de partida a frio devido à viscosidade dos óleos vegetais, que é
até 10 vezes maior que a viscosidade do óleo diesel na temperatura de referência. O ponto de
fusão do óleo vegetal in natura é mais elevado, sendo necessário, portanto, reduzir a formação de
gomas nos bicos injetores. Ocorre também a formação de polímeros quando este óleo in natura
é submetido às altas temperaturas na câmara de combustão. Portanto, óleos brutos com grau de
insaturação (soja, algodão, colza, girassol) não são adequados para operação como combustíveis
in natura em motores diesel.
Ácidos (%)
Láurico
Mirístico
Palmítico
Esteárico
Araquídico
Behênico
Lignocérico
Oléico
Linoléico
Linolênico
Erúcico
Tipos de Óleos
Algodão
<0,1
0,4–2,0
17,0–31,0
1,0–4,0
<0,7
<0,5
<0,5
13,0–44,0

0,1–2,1
<0,5
Amendoim
<0,4
<0,6
6,0–16,0
1,3–6,5
1,0–3,0
1,0–5,0
0,5–3,0
35,0–72,0
13,0–45,0
<0,3
<0,3
Canola

<0,2
2,5–6,5
0,8–3,0
0,1–1,2
<0,6
<0,2
53,0–70,0
15,0–30,0
5,0–13,0
<5,0
Girassol
<0,4
<0,5
3,0–10,0
1,0–10,0
<1,5
<1,0
<0,5
14,0–35,0
55,0–75,0
<0,3
<0,5
Soja
<0,1
<0,5
7,0–14,0
1,4–5,5
<1,0
<0,5

19,0–30,0
44,0–62,0
4,0–11,0

Tabela 4.8 – Composição química de alguns óleos vegetais
Uma das soluções encontradas para melhorar a utilização de óleo vegetal in natura como
combustível é fazer um pré-tratamento e/ou refno dos óleos brutos, de modo que alguns pro-
blemas possam ser minimizados. A neutralização, a degomagem e o pré-aquecimento do óleo
vegetal bruto podem ser alguns dos procedimentos usados como pré-tratamento para eliminar
os problemas na bomba injetora e para reduzir os depósitos de carvão. Outra possibilidade é
a injeção do óleo vegetal aquecido, o que eliminaria o problema da viscosidade e do ponto de
fusão (franz kaltner).
Propriedades Físico-Químicas dos Óleos Vegetais que Infuenciam o
Funcionamento dos Motores Diesel
As propriedades do óleo vegetal, descritas a seguir, infuenciam no funcionamento e na dura-
bilidade do motor.
i) viscosidade, medida da resistência interna ao escoamento de um líquido, é fundamental
para a qualidade de atomizacão do óleo no bico injetor;
ii) índice de cetano, que defne o poder de auto-infamação e de combustão do óleo;
signifca que um número de cetano baixo gera defciência na lubrifcação do motor;
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119 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
iii) ponto de infamação, temperatura em que um óleo queima durante um período mínimo
de 5 segundos;
ponto de ebulição iv) , temperatura em que o óleo passa do estado líquido para o gasoso;
ponto de névoa v) , temperatura inicial de cristalização do óleo;
índice de iodo vi) , expressa o grau de insaturação do óleo;
índice de acidez vii) , expressa a acidez livre no óleo;
índice de peróxido viii) , expressa o grau de oxidação do óleo;
ix) nº Conradson – ccr, que expressa os resíduos de carbono, depositados durante a
queima do combustível;
x) fltrabilidade, que expressa a difculdade com que o óleo é fltrado antes da injeção no
motor;
xi) teor de gomas, que expressa a quantidade de gomas formadas pela polimerização dos
componentes insaturados do óleo durante a combustão.
Propriedades que Infuenciam a Quantidade de Energia Gerada
Massa especifca: A massa especifca do óleo diesel é ~ 10% menor que os óleos i.
vegetais, e o poder calorífco do óleo diesel é ~ 12% maior. Isso faz com que, na prática,
o número de calorias por unidade de volume seja praticamente igual.
Poder calorífco: O volume de combustível consumido pelo motor operando com óleo ii.
vegetal é aproximadamente 2% maior ao consumido na operação com óleo diesel.
Para operar motores diesel com óleos vegetais in natura existe a necessidade da adoção dos
seguintes procedimentos: i) reduzir a viscosidade; ii) utilizar óleos com baixo índice de iodo e alto
índice de cetano; iii) reduzir o depósito de carbono nos bicos injetores (menor ccr); iv) melhorar
a fltrabilidade na bomba padrão de combustível do motor.
Portanto, o óleo vegetal ideal para funcionamento como substituto de óleo diesel deveria ter
índice de cetano maior que 40 e índice de iodo menor que 25.
Outra questão importante está relacionada à obtenção do óleo vegetal, isto é ao processo de
extração, que pode ser por solvente ou por prensagem. O tipo de prensagem depende da quan-
tidade de matéria-prima a ser processada. Pode ser utilizada prensa do tipo manual, geralmente
hidráulica, como a prensa mecânica do tipo “expeller”, de parafuso contínuo.
Recentemente, Almeida verifcou o potencial de algumas oleaginosas nativas da Amazônia,
incluindo a questão da sazonalidade, quer para uso de óleo in natura quer para produção de
biodiesel por rota etílica (Almeida, M.D., 2007), de forma a ajudar na escolha da matéria-prima,
na defnição do processo de geração de biocombustíveis, juntamente com a logística, de modo
que possa ser assegurado o suprimento contínuo.
Desta forma, o uso do óleo vegetal in natura em motor de combustão interna, ciclo diesel,
obedece aos mesmos princípios do uso do diesel para a geração de energia elétrica. Existem
diversas tecnologias que adaptam tais motores para a queima de combustíveis renováveis.
Atualmente, as tecnologias que utilizam óleo vegetal in natura em motor de combustão interna
com algum sucesso são: i) motores com pré-câmara de combustão, do Centre de Coopération
Internationale en Recherche Agronomique pour le Développement – cirad; ii) motores com kit
de conversão; iii) motor Elsbett, equipamento alemão especialmente desenvolvido para queimar
óleo vegetal.
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120 Tecnologias de Energias Renováveis
Motores com pré-câmara de combustão
Na Europa são fabricados vários modelos de motores diesel com pré-câmara. O cirad desenvolveu
um kit para tornar esses motores capazes de funcionar com óleo vegetal in natura. A cabeça do
pistão é recortada e recebe uma placa refratária para aumentar a temperatura da combustão. São
introduzidos mais sensores de temperatura na pré-câmara, melhorando a efciência da queima.
Também são acrescentados no circuito do combustível uma segunda bomba e um segundo fltro
para incrementar a pureza do combustível. A existência desta pré-câmara torna mais suportável
o uso de óleos vegetais de qualidade inferior, que devem sempre manter um elevado padrão de
limpeza com a retirada prévia de sabões e impurezas.
Kit de Conversão
A utilização de óleos vegetais in natura como combustível em motor diesel requer uma série
de ajustes e modifcações no motor. Existem diversos fornecedores no mercado europeu que
fornecem kits para adaptação de motores. O kit básico é composto de: i) tanque de óleo vegetal
com serpentina p/ aquecimento e sensor /indicador de temperatura; ii) bomba auxiliar de água
p/ sistema de refrigeração e tubulação de interligação do radiador com serpentina do tanque;
iii) válvula termostática multivia para reversão da operação óleo diesel/óleo vegetal; iv) sensor
de temperatura do motor; v) tubulação de óleo vegetal; vi) eliminador de ar; vii) comando
computadorizado de controle do funcionamento com óleo diesel/óleo vegetal, que monitora: a
temperatura de injeção do óleo vegetal; a temperatura do motor; a viscosidade do óleo vegetal;
a reversão do funcionamento para óleo vegetal após motor e combustível atingirem a tempe-
ratura especifcada; reversão do funcionamento para óleo diesel com programação temporizada
no fnal da operação, para limpeza das tubulações e bomba injetora.
O sistema funciona da seguinte maneira: a energia térmica da água de circulação do motor
deve ser reutilizada para pré-aquecer o tanque do óleo vegetal; este será aquecido na admissão do
motor, quando sua viscosidade se aproxima ao valor da viscosidade do óleo diesel a temperatura
ambiente; a injeção do combustível é ajustada; o óleo vegetal é fltrado para evitar entupimentos;
o motor parte e opera com o óleo diesel inicialmente; em seguida há um período de transição em
que o óleo vegetal se mistura ao diesel e, posteriormente, somente o óleo vegetal é utilizado como
combustível. No Brasil, Cenbio também vem procurando desenvolver este tipo de equipamento.
O uso de óleo in natura vem sendo avaliado em diversos motores no Brasil, em diferentes
condições de acordo com a matéria-prima utilizada.
Motor Elsbett
Para viabilizar o uso de óleo vegetal em motores diesel de injeção direta, em 1982, o alemão
Ludwig Elsbett introduziu algumas modifcações no sistema de injeção e, principalmente, na
cabeça do cilindro, com a implementação de um recipiente onde a explosão passou a ocorrer.
Esses motores de tecnologia Elsbett ainda existem no mercado, com capacidade de até 140 HP.
Eles são adequados para tarefas onde a demanda requerida não tenha grande variação e esteja
sempre próxima da potência nominal do equipamento. Segundo Kaltner, esses motores têm
excelente desempenho operando com óleos vegetais neutralizados.
No início da década de 90, algumas modifcações foram implementadas no motor Elsbett,
que o tornaram mais robusto, com maior efciência e maior potência. A dms manteve a cavidade
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121 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
no cilindro, acrescentou um segundo bico injetor em cada cilindro, uma segunda bomba de com-
bustível com mais um fltro acoplado e, principalmente, passou a refrigerar o motor com óleo
lubrifcante, permitindo aumentar a temperatura do refrigerante de 100°C para 120°C, facilitando
a combustão e aumentando a efciência do sistema, que passou a produzir 1 kWh com apenas
0,28 gramas de óleo vegetal.
Mesmo no caso dos motores Elsbett e dms (hoje ams), o óleo vegetal deve ser de boa qua-
lidade para não danifcar o sistema de injeção e permitir uma queima mais efciente. Assim, na
utilização de óleos vegetais com acidez elevada, o impacto do aumento do custo do combustível
vegetal devido ao processo de refno deve ser cuidadosamente avaliado, pois pode inviabilizar
economicamente o sistema.
No Brasil, o Programa Trópico Úmido fnanciou um equipamento Elsbett para o projeto de
extração de óleo vegetal na comunidade do Roque, no Alto Juruá; esse motor apresentou problema
devido à qualidade do óleo vegetal; ultimamente tem funcionado continuamente com diesel.
Desempenho do Grupo Gerador MWM D225-4 e
Multi Fuel 4RTA-G da MAS com óleo de dendê in
natura
A Embrapa Amazônia Ocidental desenvolveu pesquisas no sentido de viabilizar motores ciclo
diesel utilizando óleo de dendê (conhecido também como óleo de palma) como combustível,
com apoio fnanceiro do cnpq e Sudam. O enfoque foi o desenvolvimento de pesquisas para
viabilizar o uso do óleo vegetal nos motores do ciclo diesel. Foram usados três diferentes motores
para os testes, sendo o primeiro um motor veicular de uma Kombi, o segundo um grupo gerador
mwm D225-4 instalado na comunidade de Boa União (Presidente Figueiredo – AM) e por fm um
grupo gerador Multi Fuel 4RTA-G da mas, que serve à usina de extração de óleo da Embrapa. Os
grupos geradores mwm não necessitaram de ajuste para a operação com este óleo vegetal. De
acordo com o estudo realizado, o óleo de dendê é um excelente substituto para o óleo diesel,
basta que se aumente a pressão nos bicos injetores para diminuir o acúmulo de resíduos de car-
bono na descarga do motor. A comparação de algumas propriedades do óleo diesel e do dendê
é apresentada na tabela 4.9.
Poder Calorífico
Superior (Kcal/ kg)
10.700
9.450
Ponto de Fulgor (°C)
42
(mínimo para diesel
marítimo=60°C)
344
Óleo
Diesel
Dendê
Viscosidade a
37,8°C (cSt)
3,6
(faixa especifi-
cada: 1,6 a 6,0 cSt)
38
Densidade 20/4°C
0,83
0,91
Índice de Cetano
60
(mínimo
especificado = 45)
42
Tabela 4.9 – Comparação de alguns índices do óleo diesel e do dendê.
Com o funcionamento do motor mwm foi observada a diminuição da carbonização; quando foi
aumentada a pressão nos bicos injetores, ocasionando limpeza e troca de fltros conforme manual
de manutenção próprio para motor a diesel, o que é observado na fgura 4.16.
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122 Tecnologias de Energias Renováveis
Com o aumento da pressão nos bicos, foi verifcada também a ausência de ésteres no óleo
lubrifcante. Portanto, o aumento da pressão resultou em melhor combustão do óleo de dendê
(fgura 4.17).
R
e
s
í
d
u
o
s
(
g
r
a
m
a
/
h
o
r
a
/
c
a
b
e
ç
o
t
e
)
Pressão nos bicos (bar)
0
180 200
0,05
0,1
0,15
0,2
0,25
Figura 4.16 – Infuência da pressão nos bicos injetores na formação de resíduos
Figura 4.17 – Infuência da pressão nos bicos injetores na formação de éster
Í
n
d
i
c
e

d
e

É
s
t
e
r
Pressão nos bicos (bar)
0
180 220
0,05
0,1
0,15
0,2
0,25
Dos dois motores utilizados, o de melhor desempenho foi o grupo-gerador mwm. Durante o
período de desenvolvimento do projeto, este motor operou 4.000 horas gerando energia elétrica.
Foi o mais longo período de funcionamento dentre os motores testados, sendo que este foi o
que apresentou melhores resultados. O grupo gerador ams não apresentou um desempenho
adequado com a utilização do óleo bruto de dendê.
Motor Veicular – Cristalização do óleo de dendê in natura
O óleo de dendê possui alto teor de estearina, portanto, ocorre normalmente a cristalização do
óleo com a variação da temperatura ambiente. Para resolver este problema a Embrapa criou, junto
com a Netzsch do Brasil, um protótipo de separador de fases do óleo de dendê, que tem como
base de funcionamento a fltragem e prensagem a frio. Este processo se baseia na diferença dos
pontos de fusão ácidos graxos palmítico, esteárico, oléico e linoléico, que constituem 98% do
óleo de dendê. Os ácidos palmítico e esteárico são saturados, tendo pontos de fusão acima de
62°C. O resfriamento lento do óleo bruto causa a cristalização destes ácidos, que são separados
através do fltro-prensa na temperatura de 17°C. A fração de oleína obtida que corresponde aos
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123 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
ácidos insaturados é então separada por fracionamento natural do óleo de palma, que consiste
em operações de resfriamento e fltração sem uso de aditivos químicos. Os ácidos insaturados,
oléico e linoléico apresentam pontos de fusão abaixo de 16,3°C. A tabela 4.10 mostra os resultados
para o processo de separação da oleína e da estearina (prensagem e fltragem a frio).
Tabela 4.10 – Processos de separação da oleína e da estearina - Prensagem e fltragem a frio
Adaptado Embrapa CPAA, Embrapa ctaa, Agropalma e (Moretto & fett, 1989)
Ácido Graxo
Palmítico
Esteárico
Oléico
Linoléico
T. fusão (°C)
62,90
70,10
16,30
5,00
Estearina(%)
59,53
5,00
26,30
6,50
Oleína (%)
95,5
4,40
41,9
11,8
Uso do óleo de dendê refnado – oleína
Para evitar o problema de cristalização em motores veiculares, especifcamente um motor diesel
de uma Kombi, foi usada somente a oleína como combustível. Nas condições em que foi utilizado,
este óleo apresentou custo menor quando comparado ao diesel.
Desempenho do Grupo Gerador MWM D229-6 com óleo de dendê in
natura
O funcionamento de um grupo gerador diesel convencional foi avaliado utilizando-se óleo de
palma bruto (óleo de dendê) como combustível. O grupo gerador tinha potência de 76kVA/60kW,
com motor mwm D229-6 de injeção direta. Os testes tiveram a duração total de 400 horas. Os
problemas encontrados na operação com óleo vegetal foram:
Necessidade de troca mais freqüente do óleo lubrifcante; 1.
Acumulação de partículas na bomba injetora e carbonização das câmaras de combustão 2.
e bicos injetores, causando perda gradual de potência ao longo dos ensaios, todavia
reversível com limpeza.
Projeções indicaram que, devido aos maiores custos de manutenção, o óleo vegetal seria van-
tajoso em relação ao diesel apenas em localidades onde este custasse no mínimo 25% a mais
que o óleo vegetal. O diferencial requerido pode ser maior do que isto e depende das condições
específcas. Uma análise global destes ensaios e de outros similares reportados indica que é
possível se operar com óleo vegetal a níveis de manutenção semelhantes ao diesel. Para isto é
necessário que alguns parâmetros de qualidade do óleo vegetal sejam mais controlados do que
se exige na comercialização normal do óleo bruto. Também, o emprego de motores de injeção
indireta seria desejável, na medida de sua disponibilidade.
Experiências de Eletrifcação Rural Utilizando Óleo Vegetal como
Combustível – Projetos implantados na Amazônia
Alguns projetos-pilotos foram implantados conforme apresentado na tabela 4.11.
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124 Tecnologias de Energias Renováveis
A produção de 100 kWh de energia representa um consumo médio de 25 kg de óleos vegetais
(por hora de funcionamento do sistema). Isto signifca que um sistema de 100 kWh operando 6
horas por dia, 365 dias /ano, consumirá aproximadamente 55.000 kg ou 62.000 litros.
Como a maior parte das oleaginosas nativas tem safra defnida, em torno de 4 meses, todo este
óleo tem de ser produzido neste período, o que aumenta o tamanho da instalação de extração
e cria custos adicionais de armazenagem. Este é possivelmente o maior problema da utilização
de espécies nativas.
Portanto conclui-se que o óleo de dendê pode ser uma das matérias-primas com potencial
para ser substituto do óleo diesel. No entanto, vários fatores contribuem para a sua escolha como
fonte de matéria-prima renovável, dentre elas o tipo de motor e a logística. Destaca-se ainda
que o acúmulo de resíduos de carbono na descarga do motor mwm utilizando óleo de dendê
como combustível foi sensivelmente diminuído com o aumento da pressão dos bicos injetores.
No entanto, este óleo bruto no motor dms, tecnologia elsbet, apresentou performance inade-
quada. Já em motores veiculares pode ser usada somente a oleína ou se adicionar aditivos para
minimizar a cristalização.
Conclusão
O custo para universalizar a Amazônia em conformidade com o modelo atual - sistemas isolados
térmicos a combustível fóssil, sustentado por um forte subsídio – pode ser muito oneroso para
o País. O custo de geração de energia dos sistemas de geração existentes é viabilizado pela
Conta de Consumo de combustível – ccc, que para 2006 chegou a 4,5 bilhões de reais. Esse
valor é aproximadamente 25% superior ao montante de R$ 3,6 bilhões aprovado para 2005.
Atualmente, os sistemas isolados de Manaus (AM) representam em torno de 44% da ccc; os
de Porto Velho (RO) e de Rio Branco (AC), 23%. O restante da conta é distribuído nos sistemas
isolados de outros Estados
1
.
Esse modelo não é sustentável e não deve servir de exemplo para que os serviços de energia
elétrica cheguem a toda a Amazônia. Os custos serão cada vez maiores, cristalizando interesses,
cada vez mais difíceis de serem demovidos. Ademais, os sistemas de controle e a efciência de todo
o sistema serão ainda mais afetados, dadas a pequena dimensão e a grande quantidade de equi-
pamentos de geração que deverão estar sob a responsabilidade das concessionárias da região.
Dessa forma, faz-se necessário construir um modelo diferente, de menor custo para a socie-
dade brasileira e mais efciente. Esse modelo deverá abordar os seguintes aspectos: i) tecnologia;
ii) gestão; iii) regulamentação diferenciada; iv) uso produtivo da energia.
1 Aneel. Boletim Semanal nº 207, 2 a 8 de fevereiro de 2006
Local de Implantação
Vila Boa Esperança – Moju – PA
Vila Soledade – Moju – PA
Alto Solimões – AM
Com. Boa União, Pres. Fig.– AM
Tipo de motor
Elsbett
Convencional com kit
Elsbett
Convencional sem kit
Produção do óleo
Comunidade
Agropalma
Comunidade
Embrapa
Óleo vegetal
Dendê
Dendê
Andiroba
Dendê
Tabela 4.11 – Projetos-pilotos implantados na Amazônia
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125 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura
Esse trabalho se propôs a abordar apenas o aspecto tecnológico, especifcamente relativo a
motores de combustão interna para utilização de biocombustíveis. No caso da planície amazô-
nica, rica em oleaginosas, tanto a opção de uso de biodiesel quanto a de óleo vegetal in natura
devem ser consideradas.
Contudo, os empecilhos com relação a essa tecnologia devem ser relatados. Primeiro, existem
poucos projetos signifcativos no Brasil para geração de energia elétrica, que dispõem de dados
sobre os comportamentos dos motores. Essa insufciência se deve, sobretudo, à inexistência de
um mercado de óleo para essa fnalidade. Um dos poucos projetos, o da Embrapa Amazônia,
testou três motores diferentes com óleo de dendê, com mais de 4 mil horas. É necessário lembrar
que essa instituição possui milhares de hectares plantados com essa oleaginosa.
Apesar da insufciência de dados sobre o uso de biocombustíveis no Brasil em motores esta-
cionários, sabe-se, a partir de experiências internacionais, quais os aspectos mais relevantes
que devem ser considerados para equacionar o problema. A questão se resume, por um lado, a
tecnologias confáveis e que possam ser produzidas com facilidade, e por outro, à garantia da
matéria-prima – o combustível primário.
Do ponto de vista da tecnologia, são três as opções a serem consideradas: primeiro, a queima
de óleo vegetal in natura; segundo, a produção e queima do biodiesel; e terceiro, a queima do
etanol.
Com relação à queima do óleo vegetal in natura, basicamente são três as tecnologias a serem
consideradas: kits de conversão, motores com pré-câmara de combustão e motores ams. Os
kits de conversão já são fabricados no Brasil, normalmente por encomenda, por manufaturas
não especializadas.
Motores com pré-câmara são fabricados pelo cirad, e utilizados em escala nas ilhas francesas
do Pacífco. Não existem projetos no Brasil com essa tecnologia.
Motores ams são fabricados na Alemanha, em uma versão melhorada do motor Eslbett.
Um motor ams foi utilizado numa experiência pela Embrapa Amazônia. Contudo, os resultados
obtidos com um motor mwm com kit de conversão foram melhores, utilizando o mesmo tipo
de óleo vegetal.
Para a produção de biodiesel, são duas as rotas tecnológicas: a transesterifcação, com a variante
esterifcação, ou o craqueamento. As duas rotas têm relativa complexidade para serem utilizadas
em pequena escala em comunidade rural da Amazônia. No Brasil, a Ecirtec e a Tecbio produzem
pequenos reatores, que também podem ser manufaturados sob encomenda em fabricantes não
especializados. Quanto às torres de craqueamento, não se conhecem fabricantes especializados
no Brasil; também essas unidades são fabricadas sob encomenda.
Projetos de queima de biodiesel, além da difculdade para a produção desse combustível,
também esbarram nas mesmas difculdades apontadas acima para queima de óleo vegetal
in natura: inexistência de fornecimento regular da matéria-prima – o óleo vegetal. No Brasil,
existe um montador de grupos-geradores a diesel que adapta motores Scania para a utilização
de biodiesel – a Maquigeral.
O Brasil tem uma indústria consolidada de fabricantes de usina de etanol. Porém, todos fabri-
cam equipamentos de grandes dimensões, para atender ao mercado de fabricantes de açúcar
e álcool. Fabricação de micro-destilaria normalmente é realizada sob encomenda por pequenas
indústrias.
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126 Tecnologias de Energias Renováveis
Referências Bibliográfcas
Sistemas Híbridos
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Eduardo José Fagundes Barreto João Tavares Pinho Geraldo Lúcio Tiago Gonçalo Rendeiro Manoel Nogueira Wilma de Araújo Gonzalez

Tecnologias de Energias Renováveis
Soluções Energéticas para a Amazônia Sistemas Híbridos Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura

1ª Edição Brasília Ministério de Minas e Energia 2008

1

Ministro de Minas e Energia Edison Lobão Secretário Executivo Márcio Zimmermann Secretário de Energia Josias Matos de Araújo Diretor do Programa Luz para Todos Hélio Morito Shinoda Diretor Nacional do Projeto pnud bra 99/011 Programa de Erradicação da Exclusão da Energia Elétrica Jeová Silva Andrade Coordenador da Região Norte Aurélio Pavão de Farias Coordenador de Universalização Manoel Soares Dutra Neto Coordenação Técnica Eduardo José Fagundes Barreto Assessoria de Comunicação do Programa Luz para Todos Lucia Mitico Seo Jose Renato Penna Esteves Unidade e Gestão de Projetos – Projeto pnud bra 99/011 Antonio João da Silva – Coordenador Técnico Eder Júlio Ferreira Manoel Antonio do Prado Novembro, 2008

2

Tecnologias de Energias Renováveis Soluções Energéticas para a Amazônia Coordenador Geral: Eduardo José Fagundes Barreto Autores: Eduardo José Fagundes Barreto João Tavares Pinho Geraldo Lúcio Tiago Gonçalo Rendeiro Manoel Nogueira Wilma de Araújo Gonzalez 3 .

– ( Soluções energéticas para a Amazônia ) isbn 978-85-98341-06-4 Inclui bibliografia.ideorama. Série. Brasília : Ministério de Minas e Energia. Recursos energéticos – Brasil.].) 333. biodiesel e óleo vegetal in natura / Eduardo José Fagundes Barreto … [et al. I.com. 1. pequenos aproveitamentos hidroelétricos. . www.br Projeto Gráfico e Diagramação Sílvio Spannenberg Aline Weirich de Paula Carolina Farion Gustavo Aguiar Capa Sílvio Spannenberg Revisão de Textos Alexandre Gonçalves Bárbara Fernandes Produção Gráfica Rafael Milani Medeiros Dados internacionais de catalogação na publicação Bibliotecária responsável: Mara Rejane Vicente Teixeira Tecnologias de energias renováveis : sistemas híbridos. 2008.Ideorama Design e Comunicação Ltda. 156 p.79 4 . III. 21 × 30cm. Eduardo José Fagundes. Barreto. combustão e gasificação de biomassa sólida. Brasil. cdd ( 22ª ed. 2. II. Energia – Fontes alternativas – Brasil. Ministério das Minas e Energia. : il.

...........................35 Modelos de Gestão e Regulação................................33 Análise Econômica Aplicada a Sistemas Híbridos ........................... 11 1 2 Sistemas Híbridos .................................................................................................................................................................60 Alguns projetos de μCH desenvolvidos na região amazônica ............................................25 Sistema de Armazenamento .................................................................................................................................................62 Projeto µCH Canaã ................... 16 Conceitos Básicos ............................17 Energia Solar Fotovoltaica .................................23 Grupos Geradores .......................................................................................................................................................................................................43 As µCH e mCH ............................................................................................................33 Segurança em Sistemas Híbridos ..................................................................................................................................... 58 Barragens ..........................34 Sistemas Instalados e Experiências Adquiridas na Amazônia .............. 59 Barragens móveis .......................................26 Sistema de Condicionamento de Potência ........................................... 40 Introdução ........49 O estado da arte das µCH e mCH ........................50 Turbinas Hidráulicas ....................................................................................32 Operação e Manutenção de Sistemas Híbridos ............................................................................................................................................................................................................................................................... 50 Turbinas Convencionais.............................................................................37 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos ..........................................................53 Geradores ........................................................41 Distribuição da população na Amazônia Legal .............................. 62 5 ...............................28 Sistemas Híbridos ..31 Instalação de Sistemas Híbridos ..... 57 Reguladores de Velocidade e Sistemas de Controle e Automação ................................................................................................................................29 Projeto de Sistemas Híbridos ...........................................................................................................................................................................41 O atendimento de eletricidade às comunidades isoladas..........................................18 Energia Eólica ............................................................42 O atendimento às comunidades isoladas ...................................................................................................................................................... 9 Prefácio .......................................................................................52 Turbinas não convencionais .....Sumário Apresentação .........................................................................................................................................................................................................................................................

............................................................................................................................................................................................................................................................... 77 Caracterização Energética de Algumas Espécies Amazônicas ............................ 78 Péletes .....69 Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida ......................................................................................................................... 87 6 ....................82 Localização e Quantificação da Biomassa ........................................... 66 Modelos de gestão para unidades de geração em comunidades isoladas .................................76 Determinação do Poder Calorífico Superior (pcs) e Poder Calorífico Inferior (pci) e Análise Elementar . 83 Curva de Carga ............. 79 Consumo de Biomassa de uma Planta a Vapor.......................................................................................................................84 Procedimento de Cálculo de Carga ..........................................................................................................................................79 Ciclos a Vapor ........................................................................85 Métodos e Modelos para Avaliação dos Impactos Ambientais ..................................................................................................... 85 Avaliação dos Impactos de uma Usina Termoelétrica a Biomassa ....................................................................... 78 Torrefação de Biomassa .......................................................................... 75 Caracterização da Biomassa para Fins Energéticos........................................................................................................................ 70 Caracterização da Geração na Amazônia ........................................................................84 Pré-dimensionamento de uma central a vapor ......................................... 79 Processos de Conversão Energética da Biomassa .................................................................... Teor de Voláteis................................................................ 82 Dimensionamento da Carga a Ser Atendida pela Planta . 84 Impactos Ambientais e Formas de Mitigação .....68 Agradecimentos ............................... 77 Pré-tratamento da biomassa ........................ Descrição dos Métodos .....................................................................................................................................................80 Central com Gasificação .......................................................78 Secagem ....................................................................................... 65 Projeto µCH Jatoarana ..........................................71 Princípios para Uso de Biomassa como Combustível ................................................... 64 Projeto µCH Novo Plano................................................. 81 Características da Biomassa para Uso num Gasificador de Extração por Baixo (Downdraft) ...... 86 Impacto no Ciclo de Carbono – Emissões Evitadas.......... 76 Análise Imediata......................................................................................................................... Umidade............................................................... 74 Calor de Reação e Poder Calorífico ...... 79 Trituração .. 78 Briquetes ........3 Projeto Cachoeira do Aruã ..................................................... 74 Combustão dos Líquidos e Sólidos ...............72 Conversão Energética da Biomassa ........................................... Cinza.....................................................................................67 Comentários finais ................................................................................................................................................ 86 Viabilidade Econômica ...........................................................................................................................................................81 Sistema de Limpeza ................................................................. Carbono Fixo..................................................................................................................................................................................... 72 Reagentes com misturas ricas e pobres – Razão de Equivalência ................................................86 Os Métodos.........................................................................................82 Especificação de uma Planta de Potência................................................................

.........87 Métodos não Determinísticos .............112 Reação de transesterificação – Aumento de escala ...................................................................................................... 107 Degomagem e neutralização do óleo vegetal bruto com fluxo de ar ................................................. 117 Propriedades Físico-Químicas dos Óleos Vegetais que Influenciam o Funcionamento dos Motores Diesel................................................................. 97 Biodiesel no Brasil ......................................120 Motores com pré-câmara de combustão.................120 4 Conclusão sobre a viabilidade Econômica do Projeto..........................................91 Resultados.......................................................112 Secagem do biodiesel ........... 89 Concepção do Projeto .................................................................................................................89 Centrais Térmicas a Vapor ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ 110 Reação de transesterificação – rota etílica – Catálise Homogênea ....................................................................................................112 Reação de transesterificação – rota etílica – Catálise Heterogênea................. 110 Escala Bancada ....................................89 Centrais Térmicas a Gasificação ..............................................................................................................................................................94 Software CicloRank v1.......................................................................... 108 Acidez do óleo de dendê................90 Gestão ..................100 ime: Pesquisas de Ponta na Área de Produção de Biocombustíveis ...... 119 Kit de Conversão .............................................110 Lavagem ...................................................................................................................................0 ...............................113 Usina piloto de biodiesel .................................................................................................................................................................................................................. 96 Alternativas Renováveis de Energia a Partir da Biomassa: Soluções Energéticas para a Amazônia............................................................... 108 Produção de biodiesel .....116 Uso de Óleo Vegetal in Natura em Motores ....................................................................................................89 Métodos Determinísticos ............................................................0 ........................................................... 118 Propriedades que Influenciam a Quantidade de Energia Gerada ........... 94 Software ComGás v1.....................................................114 Óleo Vegetal in Natura em Motores de Combustão Interna ....................................................................................................................................................................... 112 Escala Bancada ...................................91 Computacional ........................................................................................................88 Resultados Concretos .............................................................................................................................. 116 Introdução .................................................................................Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura ........... 94 7 .............92 Sustentabilidade.......................................................................................91 Localização do Projeto Marajó ..................... 106 Pré-tratamento do óleo .............................................................................................................................................................................................................. 91 Localização do Projeto Genipaúba ........................................................................................................................................................................................120 Motor Elsbett ...................................... 105 Análise do óleo vegetal .................................................................104 Prospecção de Processos .................................................................................................................................................................................................

141 8 ....................................... 123 Experiências de Eletrificação Rural Utilizando Óleo Vegetal como Combustível – Projetos implantados na Amazônia ........... 139 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura .............Desempenho do Grupo Gerador MWM D225-4 e Multi Fuel 4RTA-G da MAS com óleo de dendê in natura ....................................................................................................................................................................................................... 123 Conclusão ...............................................................121 Motor Veicular – Cristalização do óleo de dendê in natura .............................................................. 126 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos ............................................................................................................................................................................................... 135 Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida ......... 126 Sistemas Híbridos ................................................................................................. 122 Uso do óleo de dendê refinado – oleína ........................................124 Referências Bibliográficas .......... 123 Desempenho do Grupo Gerador MWM D229-6 com óleo de dendê in natura ..................

os obstáculos naturais. as dificuldades de acesso e a baixa densidade populacional dificultam o atendimento de grande parte da população pelo sistema convencional de distribuição. v) uma versão resumida de todas as tecnologias descritas anteriormente. ou à falta de informação quanto à viabilidade técnica e econômica das tecnologias relacionadas a esses potenciais. constituída de 5 volumes.Apresentação O Programa Luz para Todos. denominada Soluções Energéticas para a Amazônia. mas principalmente como complemento. principalmente das concessionárias da Região. O uso dessas tecnologias a partir de recursos locais disponíveis na Amazônia. Além da energia. desde a sua criação em novembro de 2003. requerem ações imediatas. apresenta custos elevados associados à operação e manutenção e à logística de distribuição do combustível. com sistemas térmicos a diesel. com o apoio de recursos financeiros não reembolsáveis do Fundo Multilateral de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento – fumin/bid. já realizou. não para substituir o atendimento convencional. As iniciativas para viabilizar o uso dessas alternativas. Na Região Amazônica. iv) Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida. para a implantação de soluções energéticas alternativas a partir de fontes renováveis de energia. até outubro de 2008. Entre essas atividades se destaca a produção da presente coleção. muito utilizados na Região. pelo menos até o tempo em que a maturidade tecnológica se revele para as concessionárias da Região. no horizonte de médio e longo prazos. Soluções energéticas estruturadas a partir da disponibilidade local de energia primária podem 9 . essa geração apresenta grandes perspectivas para a renda local. o atendimento alternativo. no âmbito do Programa Luz para Todos. Por outro lado. principalmente a biomassa e os pequenos aproveitamentos hidroelétricos. ii) Sistemas Híbridos. maior programa de eletrificação rural já feito no Brasil. tem sido pouco considerado por um conjunto de questões relacionadas à cultura das concessionárias. Para vencer as dificuldades de eletrificar as comunidades rurais isoladas da Amazônia. a fim de diversificar a matriz energética e também reduzir os custos de transporte de combustíveis. Essas ligações foram realizadas essencialmente por extensão de rede convencional. o Ministério de Minas e Energia – mme promoveu. com o aproveitamento de recursos da região. Entretanto. intitulada Tecnologias de Energias Renováveis. correspondendo a mais de nove milhões de beneficiados na zona rural brasileira. uma série de atividades destinadas ao desenvolvimento e implantação de projetos de geração de energia elétrica de pequeno porte e a capacitação de profissionais. soluções energéticas alternativas para a Amazônia devem ser buscadas. sedimentada na extensão de rede elétrica. iii) Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura. que abordam as seguintes tecnologias de geração de energia renovável: i) Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos. as longas distâncias. mais de um milhão e oitocentas mil ligações domiciliares em todo o País.

até a realização de cursos de capacitação em tecnologias renováveis. essa iniciativa do mme. É outro enfoque. desde a realização de projetos-piloto com tecnologias renováveis para o atendimento de comunidades da Região Amazônica. Para isso. este Ministério tem trabalhado em diversas frentes. busca construir o alargamento de opções para o futuro. de difundir o conhecimento sobre tecnologias de geração de energia alternativas para atendimento de comunidades isoladas. complementar às soluções concretas posta em marcha pelo Programa luz para todos – LpT. Ministério de Minas e Energia 10 . para as concessionárias e outros interessados. Assim. prestigiando o conhecimento das opções locais.ser uma alternativa viável e sustentável para eletrificar essas áreas. apropriadas para a Região.

Fato registrado. Manaus. Editora da Universidade do Amazonas. sob protesto. 11 . e com o impacto do colonizador sobre o nativo e a natureza. Rodolfo Garcia. A intervenção governamental se resumia à tarefa expurgatória para livrar os grandes centros urbanos.. 1889–1890. desde a província de Quito a Belém do Pará. que em sua saga pelo Amazonas. foi atacada e aprisionada por navios ingleses em 1708. alemão. 1900–1901. organizado por Renan Freitas Pinto. todos os doentes e todos os sacrificados. para ocupar a vastíssima. desfia vigorosa e poética narrativa sobre a migração nordestina para os confins do Acre. Paul Marcoy 3 . despovoada. Ao contrário. Reclamou os direitos da igreja e coroa espanhola junto ao governador do Maranhão e Grão-Pará. Segundo ele. levava o mapa para a Espanha. Manaus. o que equivalia a expatriá-los dentro da própria pátria. abundante de gênio e vigor natural”. em mais uma das memoráveis epopéias portuguesas. E não desapareceram. 2006 3 Viagem pelo Rio Amazonas. Primeiramente sob o domínio da coroa espanhola. organizado por Renan Freitas Pinto. designando-a como uma seleção natural invertida. Introdução. Manaus. eram expedidos a esmo. ao longo dos séculos xvi a xviii. impelidos pelas grandes secas de 1879–1880.Prefácio A Amazônia é um desafio desde que foi descoberta pela civilização européia.” 1. llevabán cautivos y hacian esclavos á cuantos índios encontraban. “que como verdaderos piratas de los rios que pertencian ao domínio de Castilha. 2006 2 A frota espanhola que. em menos 1 O diário do Padre Samuel Fritz. primeiramente reproduzido pelos ingleses 2. 4 Um Clima Caluniado. nas suas palavras: que “a regeneração desse belo país é tarefa acima das suas forças e que um futuro virá na forma de uma migração européia. opina que as conquistas portuguesas e espanholas lançaram nos países subjugados e nos seus povoados os germes da destruição e não as sementes da vida. missionário da Igreja espanhola na América. Em sua viagem cartografou o grande rio e seus tributários. como o rebotalho das gentes. Esqueceu-se Marcoy que Espanha e Portugal são parte do gênio e vigor natural do Velho Continente? Euclides da Cunha viajou pelo Purus e outros rios importantes da planície Amazônia. Editora da Universidade do Amazonas. todos os inúteis. em famoso périplo pelo Amazonas em meados do século XIX. 2003. 2006. O diário do Padre Samuel Fritz. assenhoreada de quase toda Hylea pelo Tratado de Tordesilhas. buscou proteger as missões espanholas que se estendiam até as barras do Rio Negro. Contradizendo Marcoy. entre outras coisas. quase ignota Amazônia. contra os excessos dos portugueses. Manaus. legou-nos brilhantes relatos 4 do que viu e do que sentiu. ao dar com a aparência triste e desolada das cidades ribeirinhas abandonadas. Editora Valer Universidade Federal do Amazonas. mapa de grande valor.. pelo padre jesuíta Samuel Fritz. na qual todos os fracos. viajante francês. Editora da Universidade Federal do Amazonas. “os banidos levavam a missão dolorosíssima e única de desaparecerem. in Amazônia – Um Paraíso Perdido. foi conquistada. Mais.

isolada da civilização e ainda teimosamente sobrevivente. e da forma mais surpreendentemente possível. a resposta tecnológica atende apenas a um lado do problema. seja pela cristalização de interesses. que desperta cobiças globais. Juruá. A imensidão do território e a sua descontinuidade imposta pelos rios. com exceção das grandes cidades. definiu-se de chofre.de trinta anos. A planície amazônica – toda a bacia do Solimões com seus mais importantes afluentes Purus. avantajando-se aos primeiros pontos do nosso desenvolvimento econômico. aproveitando as disponibilidades locais e diversificada de energéticos. Revelam-se. florestas e outros acidentes geográficos e o tempo. a consciência universal de restrição ao uso de combustíveis fósseis. um deserto empantanado. hoje conhecida como o Arco do Desmatamento. exigirá a quebra de paradigmas no setor elétrico: a descentralização do serviço. de outro lado. talvez sem precedentes na história da humanidade. Todavia. resíduos de biomassa sólida para caldeiras e turbinas a vapor. explorando-a com toda a inteligência legada pela civilização.” Fazendo coro a Euclides da Cunha podemos então dizer que conquistamos a Amazônia. Nossa missão é preservá-la. em plena Amazônia. biodiesel e etanol para uso motores de combustão interna. não em horas. O outro. Nesse ponto devemos admitir que toda nossa rica cultura de prestação de serviços de energia. a rural. A Amazônia que nos espera. e a rural do capital. e parte do Amazonas com seus tributários – permanece ainda pouco tocada. produtora de excedentes. a estirar-se. é talvez mais complexa. Demos seguimento à saga portuguesa. A eletrificação dessas comunidades rurais isoladas é fundamental para trazer suas populações para a contemporaneidade do mundo. inegável o valor ecológico e econômico da Hylea. principalmente Manaus. igual a qualquer grande centro do Sul-Sudeste. o atendimento convencional realizado com sistemas térmicos a diesel não é conveniente. duas Amazônias: de um lado. e esse é o papel desempenhado pelo Programa Luz para Todos. A primeira tarefa é oferecer dignidade àqueles que a dominaram: minimizar seus sofrimentos e assegurar uma vida com o melhor da civilização: educação e saúde públicas de boa qualidade. produção de óleo vegetal in natura. ainda detentora de conhecimentos herdados dos nativos. A grandeza do território deverá ser enfrentada de forma fragmentada. para sudoeste. sem lindes. podem não servir para a Amazônia isolada. Javari. De igual modo. igarapés. a riqueza dos produtos da floresta abre um sem-número de oportunidades. se refere ao uso da energia e à gestão de cada unidade de geração descentralizada. portanto. tradicional. bem mais complexo. o Estado que era uma vaga expressão geográfica. baseada na extensão da rede convencional do sistema interligado e todas as regras impostas pela legislação para garantir a qualidade do serviço e o equilíbrio econômico financeiro da concessão. seja pela sinalização dada de contradizer. cada vez mais difíceis de serem demovidos. Sem mencionar os custos econômicos e os problemas logísticos dessa alternativa. energia solar. Desses tempos para cá muitas coisas aconteceram e muitos conhecimentos foram aos poucos revelados: a importância da floresta para o equilíbrio climático do planeta hoje é incontestável. 12 . oriunda daquela ocupação relatada por Euclides da Cunha. É sobre esses últimos que devemos voltar nossos esforços. de subsistência. A expansão do capitalismo para a fronteira amazônica transfigurou a região. A resposta mais adequada poderá ser o uso de tecnologias renováveis adaptáveis às condições locais: pequenos aproveitamentos hidroelétricos. a urbana. portanto. igapós. que se conta em dias.

realizado simultaneamente nas noves capitais da 13 . com suas expertises. Esta necessita de escala. simplicidade e uniformidade das suas operações. da Universidade Federal de Itajubá-Unifei. Os resultados desse projeto são conhecidos: realização de dois cursos de capacitação para cerca de 400 profissionais. Por isso que o Ministério de Minas e Energia buscou a cooperação desses profissionais. O uso produtivo da energia poderá estar associado à formas de gestão que possa vir a facilitar o serviço da concessionária nessas áreas remotas. Apoiar vigorosamente o beneficiamento de espécies da Região que pode assentar firmemente o homem. para a elaboração e execução de projetos descentralizados com energias renováveis para atendimento de comunidades isoladas da Amazônia. da Cooperação Técnica atn/mt 6697-br. ajudando a conter a migração para os grandes centros. por professores/pesquisadores da Universidade Federal da Pará – ufpa. Posteriormente. Talvez a resposta para esse desafio possa ser encontrada num programa complementar de estímulo à cooperação nessas comunidades. nasceu também no mme. realizada entre o mme e o Banco Interamericano de Desenvolvimento – bid. para capacitar profissionais do setor elétrico. confiabilidade. labutando com comunidades isoladas e com larga experiência em tecnologias alternativas. O Projeto Soluções Energéticas para a Amazônia foi executado. As tecnologias foram: i) sistemas híbridos. solar fotovoltaica e grupo-gerador diesel. desde o Edital do CT-Energ. em 2006. A idéia consistia basicamente em usar recursos do Japan Special Fund – jsf da Cooperação Técnica atn/jf-6630-br. inclusive no âmbito do Edital CT-Energ. com a combinação de energia eólica. principalmente os mais jovens. que são fundamentais para manter suas tarifas em um nível suportável pelos seus usuários. da Universidade Federal do Amazonas – ufam. talvez até mesmo inverter o processo migratório. 2003. preferencialmente que devessem apresentar os seguintes atributos: simplicidade. que objetivava identificar respostas tecnológicas aos desafios colocados. por meio de Cartas de Acordo com o mme. 2003.Novamente nos deparamos com a necessidade de um modelo que aparentemente contradita com o regime de concessão dos serviços públicos. esta última tendo contado com a fundamental colaboração do Instituto Militar de Engenharia – ime. que se ainda não madura para geração de eletricidade. iii) queima de resíduos de biomassa em caldeira/turbina a vapor e iv) produção e de biodiesel e de óleo vegetal in natura para uso em motores de combustão interna. Por certo. realizada entre o mme e o bid. pesquisadores com muitos anos de serviço em campo. achamos por bem incluir gasificação de biomassa sólida. 2003. Difícil. ii) pequenos aproveitamentos hidroelétricos com turbinas de baixa queda. de universidades e de outras instituições relacionadas. A escolha dessas instituições se deveu à experiência dos seus pesquisadores na implantação de projetos com energias renováveis no interior da Amazônia. mas não impossível. robustez e baixo custo de manutenção e produção em escala. todas essas conjecturas podem de nada valer se legítimos representantes dos amazônidas não participarem ativamente das soluções. apresenta potencial para outros aproveitamentos. Posteriormente. para identificar modelos de gestão adequados e sustentáveis para os projetos. um básico (40h). As tecnologias escolhidas foram aquelas que ofereciam condições para o atendimento desse objetivo. inclusive para produção de frio. parte dos projetos aprovados nesse Edital foi apoiada pelo Fundo Multilateral de Investimentos – fumin. serão fundamentais para apontar as melhores soluções. Posteriormente. nas áreas rurais. Contudo. concebido no transcorrer da implantação dos projetos-pilotos aprovados no Edital do CT-Energ. o Projeto Soluções Energéticas para a Amazônia.

que. da Unifei. sendo que quatro deles representando um conjunto de tecnologias e um volume com a síntese das tecnologias apresentadas: i) Sistemas Híbridos. a capacitação simultânea de 370 profissionais nas nove capitais da Amazônia. em especial o uso de biocombustíveis em motores de combustão interna. sem ele não teria sido possível. que com o providencial apoio da profª Wilma de Araújo Gonzalez e equipe. ii) Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos. E ao professor Gutemberg Pereira Dias. Esses treinamentos foram realizados entre novembro de 2007 e maio de 2008. que coordenou o tema sistemas híbridos e Gonçalo Rendeiro e Manoel Nogueira que coordenaram combustão e gasificação de biomassa. gostaria de agradecer a todos aqueles que colaboraram ativamente com a execução desse projeto. do ime. que também contribuíram nessa área com seus conhecimentos em turbinas hidrocinéticas. iv) Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura. verdadeiros artífices: João Tavares Pinho. Aron Costa Falek. ele também procedeu a uma revisão técnica das publicações que trataram desse tema. responsável por um dos mais bem sucedidos projetos do CT-Energ. arrisco dizer. sempre trabalhando com muita diligência. que aceitou fazer a revisão técnica do livro Sistemas Híbridos. principalmente quando se tratava das propostas 14 . realizado nas universidades acima citadas. sempre buscando apresentar as soluções quando o projeto encontrava dificuldades no seu cumprimento. e v) Tecnologias de Energias Renováveis. sempre muito solícitos para o atendimento de demandas do projeto. Elane da Cunha Muiz Caruso e Luis Henrique dos Santos Bello. José de Castro Correia. sempre dispostos a discutir assuntos do projeto. que acabou por contribuir de forma decisiva para o sucesso do evento: Carla Segui Scheer. Esteve presente desde a concepção e acompanhou todo o processo de execução. que na execução de uma das suas partes mais difíceis. Alessandro Ferreira Caldeira e Samuel da Silva Lemos. e um avançado (160h). Ao professor Roberto Zilles. Geraldo Lúcio Tiago. coordenaram o tema produção de biodiesel e de óleo vegetal in natura para uso em motores de combustão interna.Amazônia Legal. Assiz Ramos e Roberto Flaviano Amaral. os professores/pesquisadores que meteram a mão na massa. da usp. Ainda um agradecimento muito especial a Lucia Mitico Seo e José Renato Esteves Júnior. e a Marcelo Zonta. todos da ufpa. Mobilizou toda a sua equipe para viabilizar o projeto: Eder Julio Ferreira e Manoel Antonio do Prado. da UnB. e Rudi Van Els. trabalho que executou com entusiasmo desinteressado. ambos apoiados por manuais de elaboração de projetos nas tecnologias acima citadas.2003. O último produto dessa bem sucedida cooperação técnica é a presente coleção de livros “Soluções Energéticas para a Amazônia”. pela disposição em discutir todos os assuntos referentes às tecnologias em pauta. e a Manuela Ordine Lopes Homem Del Rey. da ufam. No mme esse projeto contou com o firme apoio de Antonio João da Silva. e suas respectivas equipes. Devemos agradecimentos ainda a Armando Cardoso. que embora não sendo da Amazônia. Para finalizar. também preparados no âmbito dessa cooperação técnica. principalmente quando se for dada a necessária atenção ao atendimento de comunidades isoladas. primeiramente. pela presteza e competência no apoio. iii) Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida. juntamente com sua equipe desenvolveu alguns projetos bem sucedidos de pequenos aproveitamentos hidroelétricos na região e Antonio Cesar Pinho Brasil Jr. gentilmente cedeu parte da sua equipe. Espera-se que esses livros se constituam como referência para o setor elétrico. que ajudou com muita eficiência a coordenação dos trabalhos.

e demais integrantes da equipe. que acreditou no projeto. Eduardo José Fagundes Barreto Coordenador 15 . bem como aquelas expressas nos livros desta coleção. Diretor do Programa Luz para Todos. especialista setorial. apesar de todas as dificuldades por que passamos. Marília Santos. Ismael Gílio. os agradecimentos vão para Dr. Por fim.de arte das publicações. e também à sua fiel escudeira. sinceros agradecimentos a Dr. No bid. As opiniões constantes neste prefácio. Helio Morito Shinoda. são de exclusiva responsabilidade dos seus autores.

1 Sistemas Híbridos Soluções Energéticas para a Amazônia João Tavares Pinho (Coordenador) Claudomiro Fábio Oliveira Barbosa Edinaldo José da Silva Pereira Hallan Max Silva Souza João Tavares Pinho Luis Carlos Macedo Blasques Marcos André Barros Galhardo Wilson Negrão Macêdo 16 Tecnologias de Energias Renováveis .

Conceitos Básicos
Sabe-se que a energia é um insumo fundamental para o desenvolvimento da sociedade. Atualmente, o homem está cada vez mais dependente de energia, pois com sua inteligência desenvolveu maneiras para acomodar suas necessidades e desejos, utilizando-se das mais variadas formas de energia para tal. O que nos primórdios da humanidade dependia quase que exclusivamente da força bruta do homem – caçar, plantar, colher, pescar, transportar construir – com o passar do tempo foi adequado ao uso de máquinas e serviços baseados na transformação da energia. Hoje, o homem caça usando armas diversas, planta e colhe com tratores, pesca com barcos velozes e multifuncionais, transporta e constrói com veículos e engrenagens movidas a energia. A dependência, portanto, da energia cresce em diversificação e em intensidade em todo o mundo. O uso da energia deve, entretanto, ser atrelado ao tipo de recurso energético disponível, sua viabilidade técnica e econômica, além dos impactos ambientais associados ao seu aproveitamento. Qualquer que seja a tecnologia aplicada, em maior ou menor grau, produzirá algum tipo de rejeito ou impacto ambiental. Os efeitos nocivos ao meio ambiente e ao homem quase sempre não são contabilizados nas análises econômicas dos projetos de geração de energia. Durante muito tempo, a lógica foi produzir bens e atender necessidades sem dar importância à vida. São diversos os tipos de recursos energéticos, todos eles direta ou indiretamente dependentes da fonte primária de energia da Terra – o Sol. Fontes de energia ditas renováveis, solar e eólica, por exemplo, ou não-renováveis como os combustíveis fósseis, podem e devem ser utilizadas de forma única ou combinada (sistemas híbridos) para melhorar a qualidade de vida do homem. A opção por qualquer alternativa, ainda que viável técnica e economicamente, passa pelo respeito ao meio ambiente, aos costumes e à cultura dos envolvidos. No Brasil, a maior parte da energia consumida é proveniente do petróleo e seus derivados, o que contribui para o aumento da poluição atmosférica e de doenças respiratórias, incremento do efeito estufa e dispêndio de divisas para aquisição do mesmo. A matriz energética brasileira também agrega um percentual importante associado à energia produzida em sua maior parte pelas grandes hidrelétricas e diversas termelétricas espalhadas pelo País. Este benefício, contudo, não atinge grande parte da população brasileira, especialmente no norte do País, onde as linhas de transmissão passam por sobre vilarejos sem expressão econômica, deixando seus moradores às escuras, desassistidos, sem perspectivas de crescimento como cidadãos. Outras formas de energia abundantes no Brasil podem ser utilizadas para, pelo menos, mitigar o isolamento social e econômico de municípios e pequenos consumidores distantes da rede integrada nacional e não atendidos pelas concessionárias de energia elétrica. A energia de fontes solar, eólica, hídrica, térmica, biomassa e outras estão disponíveis no Brasil e precisam ter seu uso incentivado através de políticas públicas que fortaleçam seu desenvolvimento. Esperar que

Sistemas Híbridos

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apenas uma das fontes citadas resolva o problema de energia no País é irreal, porém o aproveitamento da disponibilidade local de cada uma delas pode trazer contribuição significativa à matriz energética brasileira. Esta já é uma realidade em países desenvolvidos, como Alemanha, Espanha, Estados Unidos, onde as fontes renováveis respondem por parcela considerável na produção de energia. A produção e o uso de energia não podem deixar de lado, entretanto, os cuidados com as questões ambientais. Diversos fóruns internacionais têm discutido questões como o efeito estufa, destino de rejeitos radiativos, poluição de cursos d’água, degradação do solo pelo uso de agrotóxicos, aparecimento de novas doenças, destruição de florestas, etc. Estes problemas ainda hoje são de difícil quantificação, porém suas conseqüências danosas e, às vezes irreversíveis, precisam ser mais bem consideradas.

Energia Solar Fotovoltaica
O aproveitamento da energia solar para produção direta de eletricidade teve início há pouco mais de 160 anos quando, em 1839, o cientista francês Edmond Becquerel descobriu o efeito fotovoltaico, ao observar, em um experimento com uma célula eletrolítica (dois eletrodos metálicos dispostos em uma solução condutora), que a geração de eletricidade aumentava quando a célula era exposta à luz. A partir daí, foram estudados os comportamentos de diversos materiais expostos à luz até o ano de 1954, quando Daryl Chapin, Calvin Fuller e Gerald Pearson desenvolveram a primeira célula fotovoltaica (FV) de silício, com eficiência de 6%, capaz de converter energia solar em eletricidade suficiente para alimentar equipamentos elétricos. No ano de 1958, iniciou-se a utilização de células FV em aplicações espaciais e até hoje essa fonte é reconhecida como a mais adequada para essas aplicações. Desde então, a evolução do mercado FV vem sendo bastante intensa, tornando comuns aplicações em sistemas domésticos, sinalização marítima, eletrificação de cercas e outros. Em 2004, foi finalizado o projeto do maior sistema FV do mundo, o parque solar da Bavária, Alemanha, de 10 MWp de potência instalada. Dentre os principais países produtores de células fotovoltaicas no mundo, destacam-se: Japão, Alemanha e Estados Unidos (eua). O Japão foi o líder na produção de células e módulos fotovoltaicos durante o ano de 2006, com cifras de 920 MW e 645 MW, respectivamente (figura 1.1). A produtora japonesa Sharp se mantém líder, com a produtora alemã Q-cells em segunda posição, seguida da Kyocera, Sanyo Electric e Mitsubishi Electric. Essas cinco companhias somaram 60% do total de produção de células em 2006. Apesar de o Japão ainda liderar a produção de células, é a Alemanha que lidera a demanda fotovoltaica, seguida do Japão e eua. Essa demanda se deve basicamente à utilização de sistemas fotovoltaicos conectados à rede elétrica, que corresponde à principal aplicação de geração de energia elétrica com sistemas fotovoltaicos nos países desenvolvidos. O aproveitamento solar fotovoltaico passa inicialmente pelo conhecimento dos fatores que influenciam na disponibilidade do recurso e na caracterização desse recurso. No dia-a-dia observa-se o movimento aparente do Sol numa direção que vai de leste a oeste, ou simplesmente o nascer e o pôr-do-sol. Notam-se também as variações que ocorrem na duração dos dias e das noites em diferentes épocas do ano em algumas regiões. Os movimentos que a Terra realiza são muitos; sendo os mais conhecidos o de rotação, que tem duração de aproximadamente um dia, e o de translação, que dura aproximadamente 365 dias (figuras 1.2 e 1.3). Dentre as

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Tecnologias de Energias Renováveis

Figura 1.1 – Produção de células fotovoltaicas, em MW por país. [photon international, 2007].

conseqüências diretas desses movimentos podem ser citadas as diferentes durações do dia e da noite em diferentes regiões do globo e as estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Outros fatores como as variações irregulares são determinantes na quantidade do recurso solar disponível de uma dada localidade.

Figura 1.2 – Órbita da Terra em torno do Sol: posição da terra com relação ao sol nos solstícios e equinócios

Figura 1.3 – A Terra e o Sol nas posições dos solstícios e dos equinócios

Sistemas Híbridos

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ocorrerá a geração de pares elétron-lacuna.4 – Processo de conversão fotovoltaica Devido à baixa tensão e corrente de saída em uma célula fotovoltaica. Se uma junção pn for exposta a fótons com energia maior que a da banda proibida. para que se obtenham tensões úteis na prática. e possui uma tecnologia consolidada devido à sua utilização predominante no ramo da microeletrônica. em escala comercial. Os materiais empregados na sua construção são elementos semicondutores. as cargas serão aceleradas. Se as duas extremidades do “bloco” de silício forem conectadas a um circuito externo. O dispositivo responsável pela conversão da luz incidente em eletricidade é denominado de célula fotovoltaica. Figura 1. Dentre os fatores que influenciam as características da célula. agrupam-se várias células formando um módulo. devido a três fatores principais: o silício não é tóxico. Para garantir maiores níveis de potência. e os elementos que constituem o dispositivo conversor são chamados de fotoelementos. enquanto que altos valores de temperatura da célula reduzem a tensão em maiores proporções que aumentam a corrente. Baixos níveis de irradiância reduzem a corrente gerada sem causar redução considerável à tensão. A figura 1. deslocando assim o ponto de máxima potência para a esquerda. a maioria fabricada de silício. gerando assim uma corrente através da junção.4). 20 Tecnologias de Energias Renováveis . Os seus fundamentos baseiam-se na teoria do diodo de junção pn.O efeito fotovoltaico é definido como a conversão direta de luz em eletricidade. a irradiância e a temperatura são os mais importantes. Uma associação de módulos dá origem a um gerador ou arranjo FV. os módulos podem ser associados em série e/ou paralelo. esse deslocamento de cargas dá origem a uma diferença de potencial à qual chama-se de efeito fotovoltaico. Se isto acontecer na região onde o campo elétrico é diferente de zero. haverá uma circulação de elétrons (figura 1. sendo. corrente e/ou tensão. dependendo dos valores desejados. O arranjo das células nos módulos pode ser feito conectando-as em série e/ou em paralelo. é o segundo elemento mais abundante na natureza (o primeiro é o oxigênio).5 mostra a participação das principais tecnologias utilizadas comercialmente na confecção de células e módulos fotovoltaicos.

sendo essas diferenças atualmente pouco perceptíveis. 4. porém apresentam eficiência também reduzida. com o máximo valor comercial atingindo 10%. Comercialmente. multicristalina ou policristalina. e amorfa. As células de silício monocristalino são desenvolvidas a partir de um único cristal.5 – Participação das principais tecnologias utilizadas comercialmente na confecção de células e módulos fotovoltaicos [photon international. caracterizando-se por terem uma estrutura de átomos que se repete. dispostos de maneira não alinhada.Figura 1. a eficiência dessas células já atinge valores próximos a 16%. As desvantagens estão relacionadas com o alto custo de produção. o silício ainda é o material mais utilizado na produção de células FV. apresentando Sistemas Híbridos 21 . Células de Arseneto de Gálio (GaAs): têm estrutura similar à do silício. Acredita-se que novas tecnologias empregadas na fabricação do silício possam alterar esse quadro. Esse procedimento visa reduzir custos de fabricação. 2. 3. Todas as tecnologias acima citadas são mais bem descritas a seguir: 1. Os avanços tecnológicos vêm reduzindo bastante as diferenças de custo e eficiência entre as células mono e policristalinas. devido ao processo construtivo. 2007] A maioria dos materiais utilizados na conversão fotovoltaica são cristalinos. Apresentam elevada vida útil. Células de Silício Amorfo: não apresentam qualquer ordenamento na estrutura dos átomos. O silício é o segundo material mais abundante na crosta terrestre e células fabricadas com esse material não apresentam problemas ambientais causados pela combinação dos seus elementos constituintes. Atualmente. Células de Silício Monocristalino: são atualmente as mais utilizadas comercialmente. Seus custos de material são reduzidos se comparados às células anteriores. embora haja uma pequena perda de eficiência. podendo ser encontrado nas formas monocristalina. Células de Silício Poli ou Multicristalino: são constituídas de diversos cristais em contato entre si. e ao alto consumo de energia nos processos de fabricação.

2% e comercias da ordem de 14%. Células de Disseleneto de Cobre-Índio (cis): são compostas por um material policristalino. pode-se separar o mercado em dois principais setores: o silício cristalino ( monocristalino e o policristalino) e o silício amorfo. Atingem eficiências máximas laboratoriais da ordem de 16. podendo captar uma larga faixa do espectro solar. pois não necessitam de sistemas de armazenamento. (b) policristalino e (c) amorfo Em localidades sem o atendimento elétrico convencional. 5. No entanto. Os sistemas fotovoltaicos conectados à rede elétrica são mais eficientes. Atualmente. resultando em custos muito elevados.eficiência ligeiramente superior. e de maior durabilidade que os sistemas fotovoltaicos autônomos. Os riscos ambientais apresentados são mínimos. Ideais para utilização em sistemas com concentração. os sistemas de fornecimento de eletricidade isolados vêm se tornando cada vez mais padronizados e flexíveis. diesel e outras fontes. 6. A figura abaixo ilustra três painéis correspondentes às tecnologias cristalina e amorfa: a b c Figura 1. fornecendo energia diretamente no barramento CA. em média 40% mais baratos. 22 Tecnologias de Energias Renováveis . Isso se deve. devido à presença do Índio. à semelhança cada vez maior entre as características elétricas de atendimento dos sistemas convencionais (rede elétrica) e as características de atendimento dos sistemas destinados a localidades isoladas. A respeito da tecnologia de produção de eletricidade utilizando-se o efeito fotovoltaico. Essa tecnologia pode ocasionar contaminação ambiental devido à combinação de seus elementos. principalmente devido ao complexo processo de produção envolvido. Apresentam eficiências máximas laboratoriais de 19. o gasto de material é maior do que no silício amorfo. Um exemplo prático desse desenvolvimento está justamente na utilização de sistemas fotovoltaicos interligados a minirredes isoladas para o atendimento de pequenas comunidades. semelhante ao que acontece nos grandes centros urbanos.5% e comercias da ordem de 11%.6 – Módulos FV fabricados comercialmente a partir de células de silício (a) monocristalino. os módulos fotovoltaicos constituem uma alternativa viável quando comparada com a extensão da rede elétrica. porém apresentam dificuldade no processo de dopagem. são pouco utilizadas em escala terrestre. Células de Telureto de Cádmio (CdTe): também são compostas por arranjos policristalinos. econômicos. basicamente.

respectivamente. e nula a aproximadamente 2 km sobre o solo. bem como para uma correta instalação. é de extrema importância para garantir um projeto bem dimensionado. parâmetro mais importante no estudo da conversão eólio-elétrica. sendo essa variação nula na superfície do solo. de velocidade e direção de vento. assim como a energia solar.7 – Perfil vertical de vento A primeira etapa no estudo da energia eólica para conversão em eletricidade é a avaliação do potencial eólico. pelo aquecimento heterogêneo da superfície terrestre pela radiação solar e pelo movimento de rotação da Terra. temperatura e pressão Sistemas Híbridos 23 . os primeiros sopram sobre a atmosfera e os últimos sopram próximo à superfície. Figura 1.7). seus conceitos básicos e suas formas de circulação na atmosfera terrestre são temas fundamentais e de grande importância para o estudo da energia eólica como fonte de geração de eletricidade. termômetros e barômetros são utilizados para medição. a fim de se obter o novo valor de velocidade a uma altura diferente. Instrumentos de medição como anemômetros. e são originados. O conhecimento de suas características. sensores de direção de vento. basicamente.Energia Eólica Em sistemas híbridos do tipo fotovoltaico-eólico-diesel a energia eólica. O fenômeno de variação da velocidade de vento com a altura é denominado de perfil vertical de vento. A avaliação é iniciada com a medição dos parâmetros de interesse. através de dois modelos. conhecendo-se a velocidade de vento a uma altura qualquer. desde as mais fundamentais até as mais particulares. As características do vento. varia com a altura. conhecidos como perfis da lei de potência e logarítmico do vento (figura 1. Esta variação pode ser extrapolada. a escolha de equipamentos adequados para cada situação. mais acentuada em alturas próximas à superfície. desempenha papel fundamental para o bom desempenho do sistema. A velocidade de vento. Os ventos são resultantes do movimento do ar na atmosfera. São classificados como gerais e locais. pouco significativa a alturas próximas a 150 m.

Eixo de alta velocidade Figura 1.Eixo principal 7.Sistema hidráulico 14.8 – Algumas partes constituintes de um aerogerador. medida por higrômetros. com exceção do rotor.Sistema de refrigeração 4. Outros parâmetros de importância são a densidade do ar e a área varrida pelas pás do rotor eólico. sistema de multiplicação. para cada faixa de velocidade de vento. Os componentes principais de aerogeradores de eixo horizontal.8). é o compartimento responsável pelo abrigo. são os eixos de baixa e alta velocidade.Cone 11.Torre 18. A umidade relativa do ar. A nacele. Se consideradas as demais perdas envolvidas no processo de conversão. é avaliada para a determinação de influências indiretas.Sistema de multiplicação 6.Sistema de orientação 19. O coeficiente de potência é um fator limitante da potência efetivamente aproveitada por um sistema eólico. e gerador elétrico. Uma das classificações típicas de aerogeradores é aquela dada em função da direção de seu eixo de rotação em relação ao vento.593). desvio padrão e funções de distribuição são utilizados para avaliar o comportamento do potencial eólico. O rotor eólico é o componente mais característico de um aerogerador.Sistema de bloqueio do rotor 8. além do rotor eólico e suas pás. 2007 O desempenho dos aerogeradores é normalmente determinado em função de sua curva de potência. apesar de não influenciar diretamente no aproveitamento eólico. proteção e sustentação de todos os componentes do aerogerador.Suporte das pás 12. A distribuição de Weibull é o modelo probabilístico mais utilizado para representar as curvas de freqüência de velocidade do vento.Cubo do rotor 10. 1. A torre tem como função básica o suporte do rotor e demais componentes do aerogerador. a avaliação é normalmente realizada através de modelos probabilísticos. A potência disponível no vento é proporcional ao cubo da velocidade de vento. Os principais valores de velocidade de vento de uma curva de potência são 24 Tecnologias de Energias Renováveis . Seu máximo teórico é definido pelo limite de Betz (16/27.Unidade de controle 5. mecanismos de controle. Os aerogeradores são os equipamentos responsáveis pela conversão eólio-elétrica. que determina os valores de potência disponíveis na saída do aerogerador. porém alcança valores menores na prática. ou 0. o coeficiente de potência pode ser igualado à eficiência global de conversão.Gerador 3.Anel de orientação 16. De posse dos dados medidos. Fonte: gamesa. bem como sua localização em uma altura adequada para o melhor aproveitamento da potencialidade eólica disponível (figura 1.Amortecedor 15.Grua de manutenção 2. mecânicas e elétricas.Freio 17.atmosférica.Pá 9. sistema de orientação. e representa a parcela de potência do vento que pode efetivamente ser aproveitada por uma turbina eólica. como as perdas aerodinâmicas. também conhecida por gôndola. Valores médios.Nacele 13. os aerogeradores mais comuns são aqueles de eixo horizontal. Atualmente.

e podem ser a única fonte de geração em um sistema isolado. e a interferência eletromagnética. Grupos Geradores Os grupos geradores são máquinas muito utilizadas para o fornecimento de energia elétrica. mas que vêm sendo bastante minimizados com o passar do tempo. na qual o movimento do rotor eólico é interrompido. considerando todas as perdas no processo de conversão. eles são bastante aplicados para atender a localidades situadas em zonas rurais e em lugares isolados do sistema interligado nacional. causada pela reflexão ou distorção de ondas eletromagnéticas emitidas por sistemas de transmissão de sinais.9 – Conceitos relacionados a um rotor eólico Sistemas eólicos podem ser instalados em terra (onshore) e no mar (offshore). Outra forma de se determinar o desempenho de aerogeradores é através do fator de capacidade. com outras fontes de geração. e a ocupação de áreas está sendo minimizada com a instalação de sistemas no mar. estar conectados ao sistema interligado. Figura 1. a velocidade nominal. ou ainda compor. O fator de capacidade é a razão entre a energia efetivamente gerada por um aerogerador e sua potência nominal. protegendo-o contra danos estruturais. configurando o que se conhece como geração distribuída. Dentro da região amazônica. Os impactos ambientais de sistemas eólicos podem ser considerados de pequena escala. o sonoro é bastante reduzido se comparado a outras fontes de ruídos. Quanto maior o fator de capacidade. típicos de sistemas eólicos. são os desvios de rotas migratórias e mortes de aves. considerando-se um período de tempo qualquer. um sistema híbrido isolado.a velocidade de partida. Outros impactos. que indica o real rendimento de um aerogerador. morcegos e insetos. a mínima para que o rotor saia de seu estado de repouso inicial e inicie a geração de energia. melhor o desempenho do aerogerador. O visual é basicamente comum a todas as fontes de geração. Sistemas Híbridos 25 . e a velocidade de corte. aquela na qual a potência nominal do aerogerador é extraída.

das estações do ano e das variações aleatórias da atmosfera. 2007] A fácil aquisição desse maquinário. Atualmente. além de a logística para a obtenção do combustível ser onerosa. que pode ser do tipo otto ou diesel. existirá a necessidade ou não da utilização de unidades de supervisionamento e controle em corrente alternada (usca). tanto no transporte e armazenamento do combustível com possibilidade de vazamentos do material como no funcionamento do grupo gerador através da emissão de gases poluentes para a atmosfera. Sistema de Armazenamento A natureza das fontes renováveis solar e eólica é intrinsecamente variável no tempo.10 – Esquema de combustão para o motor de quatro tempos [http://mea. e ao iniciar a partida esse motor aciona o eixo de um gerador elétrico fornecendo tensão nos seus terminais. dependendo dos ciclos diários. o correto fornecimento 26 Tecnologias de Energias Renováveis . Os grupos geradores podem ser utilizados em conjunto com outras fontes de energia. principalmente por apresentar uma ampla faixa de potência comercialmente disponível.pdf. freqüência. existe grande interesse por parte do governo em realizar adaptações nos motores para que eles passem a funcionar com a utilização de biodiesel. além de sua robustez o torna atrativo para atendimento de localidades isoladas. caracterizando assim os denominados sistemas híbridos. A desvantagem em utilizar grupos geradores está no fato de que o custo de operação e manutenção é elevado. por excesso ou por déficit. Outro fator está relacionado com a poluição do meio ambiente. o preço de aquisição menor quando comparado com outras fontes de energia (eólica. Dependendo do porte dos grupos geradores.br/ricardo/pos/Aula_01. No caso particular dos sistemas híbridos de produção de eletricidade. solar). Figura 1. onde o operador poderá realizar a partida e parada da máquina além de monitorar as grandezas elétricas tais como tensão. Como conseqüência disso.pucminas. são muitos os momentos nos quais a potência elétrica que pode ser entregue pela parte renovável difere. contribuindo assim para a diminuição dos impactos ambientais. corrente.Na maioria das vezes. além de essas máquinas operarem em sua maioria com o diesel. a operação de um grupo gerador é feita através da inserção de combustível no motor de combustão interna. da qual é demandada por uma determinada aplicação.

e a maioria das baterias usadas em relógios e brinquedos eletrônicos. Uma célula básica é formada de dois eletrodos. Normalmente. As baterias abertas são aquelas onde o nível de eletrólito deve ser periodicamente verificado. não recarregáveis. Dessa forma. A tensão nominal de uma bateria é assim definida pelo número de células conectadas em série. Š Tração: Projetadas para operar com ciclos profundos e freqüentes e regime de descarga moderados. Baterias de Pb-Ácido utilizam em suas grades ligas de Pb-Ácido. São usualmente conhecidas como “livres de manutenção”. Denomina-se de sistema de armazenamento ao componente do sistema que se encarrega de realizar tal função. As baterias podem ser classificadas.2 e 3. portanto. as mais comuns são as automotivas. durante o processo de carga. devendo trabalhar na horizontal. passíveis de serem usadas nas aplicações autônomas Sistemas Híbridos 27 . As células são integradas e conectadas em série com somente um conjunto de terminais. iluminação e ignição de automóveis. Existem diversos tipos de baterias recarregáveis disponíveis comercialmente. Além disso. vezes a tensão nominal de uma única célula. para utilizá-la em situação inversa. Suas principais características são: alta resistência a ciclagem. Comumente um é chamado de eletrodo positivo e o outro de eletrodo negativo. Š Estacionárias: Projetadas para permanecer em flutuação e ser solicitadas ocasionalmente (backup). Com relação às baterias secundárias. podem ser classificadas basicamente por abertas e seladas. poder armazenar energia nos momentos em que a produção excede a demanda. Como característica principal desse tipo de bateria destaca-se a baixa resistência aos ciclos de carga e descarga. A seguir são apresentadas as principais características de cada uma delas: Š Automotivas: Projetadas para regimes de carga e descarga rápidos com elevadas taxas de corrente (> 3I20) e reduzidas profundidades de descarga. Š Fotovoltaicas: Projetadas para ciclos diários rasos com taxas de descarga reduzidas (descargas profundas esporádicas. o eletrólito é confinado no separador ou sob a forma de gel. as baterias automotivas são as mais conhecidas. Diferentes tipos de baterias recarregáveis. de modo a reduzir a perda de água decorrente da eletrólise da água. Um exemplo bem conhecido é a bateria usada para partida. podem operar com regimes de carga elevados. tração e fotovoltaicas. Dentre os tipos de baterias primárias podem ser citadas as pilhas.6 V. da ordem de até 80%). Nas seladas. alto consumo de água e manutenção freqüente. em que 6 células são conectadas em série. Em relação ao tipo de utilização. e suas características variam em função da sua forma construtiva e dos elementos que as compõem. Como características principais destacam-se a resistência ao processo de ciclagem e a pouca manutenção. estacionárias.elétrico da aplicação exige. Uma bateria é constituída de duas ou mais células conectadas em série. porém vendidas como um bloco de 12 V. Dentre as principais características destacam-se a moderada resistência ao processo de ciclagem e o baixo consumo de água. quanto à disponibilidade de carga. Historicamente. como primárias (ou não recarregáveis) e secundárias (ou recarregáveis). da ordem de 30% (partida). Com relação ao eletrólito que as compõem. a tensão nominal de uma célula situa-se entre 1. é comum a utilização de várias células conectadas em série para formar uma combinação com tensão nominal mais elevada. o sistema de armazenamento mais utilizado em sistemas híbridos é aquele constituído de acumuladores eletroquímicos (ou baterias) de chumbo-ácido.

Zn-Cl). aliado à qualidade e continuidade na entrega da energia ao usuário. para a preservação da vida útil das mesmas. eólicos.de fornecimento de energia elétrica. a disponibilidade do mercado reduz a possibilidade de escolha dos tipos que podem ser empregados em sistemas isolados. As condições de operação variam consideravelmente de acordo com a localização. ou híbridos. dentre os quais se destacam: a escolha adequada da tensão do banco de baterias e o correto dimensionamento dos cabos usados na transferência de energia da e para a bateria. temperatura. portanto.11 – Influência do dimensionamento do gerador e da bateria nos parâmetros PDe. O preço das últimas é. e (b) aumentando o tamanho do gerador e diminuindo o tamanho do acumulador Sistema de Condicionamento de Potência O sistema de condicionamento de potência é composto por equipamentos cuja função principal é otimizar o controle geração/consumo visando ao aproveitamento ótimo dos recursos. Figura 1. Dessa maneira. Os parâmetros mais importantes para classificação das condições de operação são as correntes de carga e descarga. Para se obter bancos de baterias mais robustos deve-se associar várias baterias de menor capacidade em série e/ou paralelo de modo a se obter o tamanho do banco desejado. a questão econômica associada à disponibilidade do mercado fez com que a maioria dos acumuladores utilizados nos sistemas fotovoltaicos. transformadores e diodos. Os principais equipamentos são os controladores de carga. responsável por gerenciar os processos de carga (sentido arranjo FV – bateria) e descarga (sentido bateria – carga) das baterias. 28 Tecnologias de Energias Renováveis . geradores instalados e a estratégia de operação empregada. Entretanto. assim. contribuindo. para a mesma quantidade de energia. vários aspectos devem ser considerados. e D: (a) diminuindo o tamanho do gerador e aumentando o acumulador. tais como os sistemas híbridos. Ni-Zn. conversores. as mais usuais. da ordem de quatro ou cinco vezes superior ao das primeiras. Para a composição do banco de baterias. e o perfil do estado de carga ao longo do ano. Assim como as baterias. sejam constituídos de baterias recarregáveis de chumbo-ácido. as baterias de chumbo-ácido (Pb-Ácido) e níquel-cádmio (Ni-Cd) tornaram-se algumas das poucas opções para os projetistas e. alguns componentes do sistema de condicionamento de potência são essenciais para o bom desempenho de sistemas híbridos. inversores de tensão. O controlador de carga é um equipamento normalmente associado ao arranjo fotovoltaico. tipo de aplicação. padrão da carga. são constantemente disponibilizados pelo mercado (Ni-Fe. retificadores. Assim.

Sistemas Híbridos As fontes de energia renováveis solar (fotovoltaica). eólica. As características mais importantes de controladores de carga a serem consideradas na etapa de dimensionamento são a sua capacidade (A) e a sua tensão de operação (VCC). em corrente alternada. por exemplo) influencie negativamente no desempenho do arranjo como um todo. sendo também conhecido como conversor CC-CA. Já o diodo de passagem evita que. entre outros. O diodo de bloqueio é um dispositivo eletrônico utilizado em sistemas FV. os controladores são classificados pelos métodos paralelo (shunt) e série. e que módulos operando em condições normais injetem correntes elevadas em um grupo de módulos em condições anormais de funcionamento. que pode ser de três tipos: quadrada. um módulo operando em condições anormais (devido a um defeito de fabricação ou condições de sombreamento. Demais acessórios presentes em sistemas híbridos são equipamentos elétricos gerais. estando normalmente instalados entre o aerogerador e o retificador de tensão. Os diodos de bloqueio devem ser dimensionados e instalados de acordo com a capacidade do arranjo FV. mais simples. ou ser ajustados para cada tipo. em uma associação em série. disjuntores. hídrica (mch e pch) e biomassa constituem alternativas reais para geração de eletricidade em áreas isoladas. já vindo instalado na caixa de conexões do módulo. por sua vez. por sua vez. Dentre as características principais dos inversores estão as suas tensões de operação de entrada (CC) e saída (CA). Transformadores também podem estar presentes em sistemas híbridos. é normalmente fornecido por alguns fabricantes de módulos. são usualmente combinados com um sistema de controle de carga. proveniente dos equipamentos de geração e armazenada pelas baterias. Sua utilização é fundamental devido à maior facilidade de se encontrar no mercado equipamentos eletro-eletrônicos de uso final que operam em corrente alternada. O conversor CC-CC é um equipamento que ajusta um valor de tensão CC diferente do fornecido pelo sistema de geração/armazenamento. Com relação à forma como desconectam o arranjo FV das baterias. eficiência e forma de onda de saída. seja para carregar baterias. O inversor de tensão converte a corrente contínua. Os conversores CC-CC podem elevar a tensão (boost) ou baixá-la (buck).Os controladores devem ser utilizados com os tipos de baterias para os quais foram projetados. quadrada modificada e senoidal. muito utilizado com o objetivo de se obter a máxima potência disponível do arranjo FV. Há áreas onde mais Sistemas Híbridos 29 . chaves e conectores. potência nominal. e sua função é adequar os níveis de tensão CA do sistema. como cabos. cuja função é evitar que os módulos FV atuem como carga para as baterias em períodos de indisponibilidade de geração. no qual a regulação dos níveis de carga da bateria é realizada de forma otimizada. Aerogeradores de pequeno porte são normalmente acompanhados por retificadores de tensão que. o diodo de passagem. seja para suprir eventualmente alguma carga CC. O retificador de tensão é responsável pela conversão da potência dos aerogeradores e grupos geradores a diesel que estão conectados no barramento CA para uma potência CC. ou quando se deseja obter vários valores de tensão a partir de uma única entrada. o liga/desliga. capacidade de surto. freqüência. e o de tensão constante. no caso daqueles que permitem o ajuste de seus parâmetros (setpoints) por parte do usuário. O controle é normalmente desenvolvido através de dois métodos. Este equipamento pode conter um sistema seguidor de ponto de máxima potência.

sistema híbrido – aquele que utiliza mais de uma fonte que. principalmente.de uma fonte renovável se destaca. dependendo da disponibilidade dos recursos. chaveado ou paralelo. entre outros. a utilização desses sistemas volta-se também com a questão ambiental. pequeno. a uma determinada carga ou a uma rede elétrica. fotovoltaico-diesel. deve gerar e distribuir eletricidade.12 – Sistema híbrido isolado As principais vantagens desses sistemas incluem: utilização dos recursos locais. especialmente. e quanto ao porte – micro. o que assegura a redução nos custos operacionais e a maior confiabilidade. Isso justifica a automatização e monitoração remota ou local desses sistemas. quanto à prioridade de uso das fontes de energia – baseado no recurso não renovável ou no renovável. necessidade de um sistema de armazenamento de energia. com falta de mão-de-obra qualificada para operá-los. de difícil acesso e. definindo o conceito de sistema híbrido de energia. destacam-se: recursos precisam ser favoráveis para geração de eletricidade. de forma otimizada e com custos mínimos. é a implementação do sistema pré-pago de energia. Outro instrumento que também visa reduzir custos operacionais. ou simplesmente. a um atendimento contínuo e de qualidade. médio ou grande. fotovoltaico-eólico-diesel. geralmente baterias. Figura 1. pouca necessidade de manutenção. Os sistemas híbridos podem ser classificados: quanto à Interligação com a rede elétrica convencional – isolado ou interligado. As estratégias de operação utilizadas pelos sistemas híbridos são semelhantes e visam. A maioria dos sistemas híbridos está instalada em locais remotos. Por outro lado. investimento inicial bastante elevado. reduzido nível de emissão de gee. 30 Tecnologias de Energias Renováveis . podendo ser combinadas em um único sistema. quanto à configuração – série. isolada ou conectada a outras redes. bem como permitir maior controle do consumo por parte do usuário. Dentre esses. frente à crise do petróleo (1973). Salienta-se que a combinação das fontes renováveis busca explorar satisfatoriamente a complementaridade entre ambas ao longo do tempo. Atualmente. fotovoltaicoeólico. destacamse como principais: eólico-diesel. como principais desvantagens. Diversos são os tipos de sistemas híbridos em utilização no mundo. modularidade. A utilização dos sistemas híbridos teve seu início na década de 1970. como também à redução do consumo de óleo combustível. geração descentralizada.

a consulta em programas computacionais destinados a estimativas de potenciais baseados em medições de estações meteorológicas próximas. tendo o indicativo preliminar de bom potencial para aproveitamento das energias solar e/ou eólica. a obtenção dos dados de estações meteorológicas de localidades próximas. Projeto de Sistemas Híbridos A primeira etapa para o projeto de um sistema híbrido é a análise do recurso disponível para aproveitamento das energias solar e eólica no local da futura implantação do sistema.ou seja. a procura de maior eficiência global dos sistemas híbridos motiva estudos da inserção de outras formas de geração nos mesmos. Torna-se também importante avaliar a logística de abastecimento de combustível para a localidade. medições pontuais no período da visita. como em qualquer outro sistema elétrico. Por último. especialmente por se tratarem de sistemas de pequeno a médio porte. semelhante à da telefonia celular) pelo serviço de eletricidade. Após o levantamento dos recursos solar e eólico disponíveis na localidade. sob a forma de estação meteorológica. anemoscópios. os mesmos apresentam características mais benéficas do que prejudiciais. pois em muitas estratégias de operação de sistemas híbridos faz-se o uso de grupos geradores (como os acionados por motores a diesel) atuando como complementação ao sistema Sistemas Híbridos 31 . a adoção de equipamentos elétrico-eletrônicos eficientes e o esclarecimento dos usuários sobre como utilizar a energia elétrica são ações fundamentais para um uso mais racional. termohigrômetros). A biomassa (especialmente na Amazônia) e a célula a combustível destacam-se nesse aspecto. piranômetros. O segundo passo do levantamento é realizado com a visita ao local para a observação de indicadores naturais. Dentre as formas de avaliação preliminar destacam-se: a consulta em atlas eólicos e solarimétricos. dada especialmente a limitação de geração e a intermitência das fontes primárias. Caso constatada a viabilidade preliminar. barômetros. Portanto. Nos sistemas híbridos. o pré-pagamento (compra antecipada. Os passos para a avaliação dos recursos energéticos naturais (solar e eólico) de uma determinada localidade seguem a partir de uma avaliação preliminar. No dimensionamento do sistema leva-se em conta uma série de fatores como o custo da energia gerada. eficiência e facilidade de manutenção. entre outros. normalmente realizados em torres. a análise do potencial para aproveitamento dos mesmos para geração de energia elétrica é uma etapa imprescindível para um criterioso estudo de viabilidade técnica de empreendimentos que utilizem as fontes solar e eólica. identificando áreas onde os aproveitamentos solar e eólico são potencialmente viáveis. a disponibilidade de dados confiáveis em um período satisfatório e bem analisados passa a ser fundamental para garantir a elaboração de projetos dimensionados de forma tal que apresentem relação ótima entre a participação de cada uma das fontes no sistema híbrido. baseados nos recursos renováveis. o passo seguinte se dá com a instalação de sensores de medição (anemômetros. o uso racional da energia é um fator muito importante. como também a identificação e a avaliação preliminares das áreas potenciais para a instalação dos sistemas de geração e distribuição de energia elétrica. a obtenção de informações com os moradores sobre as características meteorológicas locais e a avaliação da acessibilidade ao local. Com relação aos impactos proporcionados pelos sistemas híbridos. Ultimamente. confiabilidade.

bem como dos sistemas de controle e proteção e da minirrede de distribuição de energia elétrica. devem ser instalados em locais onde não sejam expostos a nenhuma situação de sombreamento durante o ano e de insegurança. condicionamento de potência e distribuição de energia) durante o processo até as conexões finais. a verificação dos tipos de cargas que serão atendidas pelo sistema. minimizando simultaneamente os seus custos de implantação e de operação e manutenção. o posicionamento do rotor eólico a uma determinada altura. verifica-se uma relativa independência entre seus sistemas e subsistemas (geração. assim como seus regimes de utilização e considerando ainda as perdas envolvidas no sistema e a demanda reprimida. a qual abriga também outros equipamentos pertencentes aos subsistemas de armazenamento e condicionamento de potência. estratégias de despacho e períodos de atendimento da minirrede. para buscar a estratégia de operação. distâncias mínimas entre os aerogeradores e os obstáculos. realiza-se a análise de desempenho dos mesmos inseridos no sistema e o balanço energético resultante entre produção e demanda de energia elétrica. Instalação de Sistemas Híbridos Com relação à instalação de sistemas híbridos. a etapa seguinte é a elaboração do projeto. Os locais ainda devem permitir o acesso fácil a uma eventual manutenção. além da preocupação com os obstáculos do entorno há também a preocupação com o efeito esteira causado pelos próprios rotores dos aerogeradores. autoportante ou tubular) devem ser instalados em áreas com dimensões apropriadas e que não possuam obstáculos. O primeiro passo no desenvolvimento do projeto do sistema de geração é a análise da demanda. ou seja. iniciarem as etapas: de escolha da estratégia de operação do sistema híbrido. em seus arredores que possam causar interferência prejudicial ao fluxo de vento que atinge o rotor eólico. Feita a escolha dos equipamentos/dispositivos do sistema híbrido. ou seja. para. o dimensionamento do sistema solar-eólico-diesel e de seus sistemas complementares (armazenamento. Uma boa estratégia de operação do sistema híbrido visa garantir aos usuários do sistema de geração um atendimento confiável e de qualidade. entre outras técnicas de instalação. O compromisso básico a ser estabelecido é a busca pela instalação dos subsistemas o mais próximo possível entre si (redução de custos e de perdas). e se preliminarmente constatada a viabilidade da instalação de sistemas de geração no local. é necessário realizar diferentes combinações de configurações. visando ao aumento da confiabilidade do suprimento de energia elétrica. seguindo para isso técnicas de instalação apropriadas. de dimensionamento das fontes de geração consideradas. a partir daí. 32 Tecnologias de Energias Renováveis . mais adequada ao sistema híbrido a ser implantado em determinada localidade. Os aerogeradores e suas torres (treliçada. Os módulos fotovoltaicos. Quando se pensa em mais de um aerogerador (parque eólico). Para maximizar a captação da radiação solar média ao longo do ano.renovável. Os grupos geradores a diesel e demais acessórios devem ser instalados em uma edificação própria (casa de força). a orientação (norte – hemisfério sul e sul – hemisfério norte) e a inclinação (latitude local) dos arranjos precisam ser seguidas conforme técnicas de instalação. naturais ou não. Para essa otimização. Avaliado o recurso energético disponível. armazenamento. condicionamento de potência). sob a forma de arranjos (ligações série/paralelo). ou entre os próprios aerogeradores. Para mitigar esses efeitos prejudiciais. necessitam ser adotados. dependendo da aplicação.

chaves seccionadoras. eólico-fotovoltaicodiesel. até tarefas como inspeção das partes girantes dos grupos geradores. Segurança em Sistemas Híbridos A segurança é um aspecto ao qual se deve ter especial atenção para os sistemas híbridos de geração de energia suprindo minirredes. postes. inversores de tensão e retificadores são normalmente instalados nas paredes ou em local específico da casa de força. fazemse necessários a instalação e uso de disjuntores e/ou chaves seccionadoras. as baterias não devem ser instaladas diretamente sobre o solo. além das recomendações feitas pelos fabricantes dos equipamentos e a capacitação dos operadores. Os controladores de carga. Operação e Manutenção de Sistemas Híbridos Para o funcionamento de qualquer sistema híbrido de energia deve-se levar em consideração a operação e manutenção correta dos equipamentos envolvidos desde a geração. aterramento.A casa de força deve contemplar um projeto estrutural que suporte os esforços mecânicos solicitados pelos equipamentos. tais como a partida e parada do grupo gerador. Geralmente utiliza-se um armário em ferro com prateleiras de madeira para o condicionamento das baterias (banco de baterias – ligação série/paralelo). Um sistema híbrido. Salienta-se que. bem como realizar eventuais manobras como estratégias de operação. Pontos de operação. Na parte da manutenção. A minirrede de distribuição de energia deve ser instalada seguindo as técnicas de instalação dos seus componentes principais: transformadores. inspeção dos cabos e da torre do aerogerador. isoladores e conectores. por exemplo. carga e descarga das baterias. para uma boa qualidade de instalação. Sistemas Híbridos 33 . desde a limpeza dos módulos fotovoltaicos com um pano macio. as tarefas podem ser simples. fornecer segurança às pessoas junto ao sistema elétrico. Muitas das tarefas relacionadas com a operação podem ser automatizadas. chaveamento de disjuntores. dentre outros. redução das perdas de energia e preservação contra danos aos bens e ao ambiente. portanto. de procedimentos de segurança para os sistemas de geração. luminárias. devem ser ajustados conforme o projeto. o cabeamento do sistema híbrido precisa ser bem projetado. Através da realização de um plano de manutenção e operação. deve-se redobrar os cuidados. cruzetas. a podagem de árvores para que não toquem nos cabos elétricos da rede. além de parâmetros para segurança da vida de pessoas e animais. Para preservar todos os equipamentos do sistema híbrido. a fim de garantir o funcionamento adequado das instalações. cabos condutores. é possível fazer o sistema operar de forma confiável e com segurança para os equipamentos bem como para os consumidores. Referindo-se ao subsistema de armazenamento. sempre o mais próximo possível das baterias e dos equipamentos de geração. condicionamento e distribuição de energia elétrica. ou em locais úmidos. passando pelo sistema de distribuição até as unidades consumidoras. entre outros itens. pára-raios de distribuição. ter boa ventilação e isolação acústica. troca de óleo lubrificante do transformador. quando disponíveis nesses equipamentos. porque várias são as fontes e os equipamentos envolvidos e. necessita.

assim como a educação destes para o uso adequado e seguro da eletricidade. cabos com bitolas inadequadas). levadas ao futuro. e. O diagrama de fluxo de caixa apresenta. ainda. ou mesmo afixados nos equipamentos. sendo o mais grave os causados pelo choque e o arco elétrico.Quando se faz uso ou se manuseiam sistemas com energia elétrica é extremamente importante obedecer às normas básicas de segurança. operação e manutenção também devem estar disponíveis nas usinas. que seja realizada uma vistoria constante em todas as instalações que compõem o sistema híbrido. ordenadas por períodos. ou ainda atualizadas. operar ou manter um sistema elétrico. ligações com materiais fora dos padrões de segurança (exposição de emendas de cabos. seguindo um plano de operação e manutenção. as receitas e despesas de cada alternativa. Logo. a fim de manter a segurança nas mesmas. dependendo da situação. os procedimentos de implantação. Estes conceitos definem o valor temporal do dinheiro e são de fundamental importância para a elaboração de estudos de viabilidade econômica. garantindo um possível retorno do investimento realizado. para uso dos responsáveis pelo sistema. como também podem ser trazidas ao presente. É importante também que sejam observadas as normas técnicas vigentes. Manuais básicos de segurança. devem-se evitar os improvisos. Também se recomenda que esses procedimentos sejam feitos sempre por pelo menos duas pessoas. facilitando o socorro. uma vez que ainda não possuem costume com a mesma. Nas atividades realizadas. devem ser dispostos em locais de fácil visibilidade. Análise Econômica Aplicada a Sistemas Híbridos A análise econômica aplicada a sistemas híbridos é utilizada para se avaliar a viabilidade econômica do empreendimento. O horizonte de planejamento e a taxa mínima de atratividade do projeto são indicadores importantes para se analisar o tempo e a taxa de retorno esperadas pelo empreendimento. de forma que sejam controlados ou eliminados desde a fase de projeto e na execução das tarefas ao instalar. descrevendo os riscos potenciais e os procedimentos a serem seguidos. sob a forma gráfica. passa pela utilização mais adequada das figuras de mérito econômico. uso de ferramentas inadequadas. que seja realizado um correto dimensionamento dos sistemas de aterramento e proteção elétrica. ou simplesmente para se determinar a opção mais viável dentre as fontes de geração disponíveis. operação e manutenção devem ser executados apenas por pessoas devidamente treinadas para tal. Também é muito importante que sejam adotadas medidas de segurança nas instalações elétricas dos usuários do sistema. O correto estudo de viabilidade econômica. deve-se estar em alerta sobre os perigos associados à eletricidade. Cartazes com orientações e placas de sinalização nas usinas ou casas de força. Tais receitas e despesas podem ser apresentadas através de seus reais valores no momento de cada desembolso. tais como: bypass de equipamentos de segurança e controle. além das características particulares do sistema de geração. ou sua inadequada isolação. Em todos os tipos de sistemas híbridos de geração de energia. não se devem subestimar os danos que a eletricidade pode trazer ao ser humano. Estojos de primeiros socorros e de combate a incêndios devem ser disponibilizados aos usuários. Ainda que os níveis de tensão e corrente sejam considerados baixos. utilizando-se dos equipamentos de proteção individual (epi) apropriados para cada função ou coletivos (epc). caso necessário. 34 Tecnologias de Energias Renováveis .

Sistemas fotovoltaicos e eólicos são caracterizados por apresentarem custos de investimento mais elevados. ou a uma eventual economia resultante da redução no consumo de combustível ou de outras taxas. mas suas soluções são trabalhosas e não são aplicáveis a todos os casos. A tir indica conjuntamente o retorno esperado e o risco de um projeto. a taxa interna de retorno (tir) e o tempo de retorno de investimento (payback). que compreendem custos fixos anuais. Já os custos de despesa podem ser relacionados aos custos de investimento inicial. porém. O ibc auxilia no cálculo do retorno adicional sobre o investimento. Sistemas Instalados e Experiências Adquiridas na Amazônia Desde 1994. cada um com suas características particulares. aos gastos com combustível. isoladamente ou em conjunto. estudos. custos de operação e manutenção (o&m) e custos de reposição de equipamentos. que referem-se às substituições dos componentes principais do sistema. que correspondem a custos de projeto. O roia fornece a estimativa real de rentabilidade de um investimento. Sistemas Híbridos 35 .Dentre os indicadores financeiros mais difundidos na engenharia econômica estão o valor presente líquido (vpl). é um método simples. de aquisição e transporte de materiais e equipamentos. apresentando baixos custos de investimento inicial e elevados custos de operação e manutenção. porém criterioso. e custos de operação e manutenção baixos. simulações e instalações de sistemas híbridos em pequenos aglomerados populacionais dispersos e semi ou totalmente isolados têm sido realizados na região amazônica por instituições nacionais e internacionais. que na engenharia também é conhecido como custo do ciclo de vida anualizado. não indica com precisão os riscos envolvidos na análise. Este custo pode indicar o valor mínimo de tarifa a ser cobrado para que o sistema gere lucros. Por fim. por considerar o valor temporal do dinheiro. é dividido pela energia consumida pela carga para se determinar o custo da energia do sistema. custos de o&m. o valor presente líquido anualizado do projeto. isoladamente não fornece uma estimativa real de rentabilidade. Os custos de despesa estão divididos em custos de investimento inicial. Os custos de receita estão normalmente associados ao lucro obtido com a venda da energia gerada. devido à vida útil mais curta que a dos demais componentes do sistema. Os custos associados a sistemas híbridos podem ser divididos em custos de despesa e custos de receita. o payback é um indicador de fácil interpretação. ou pode ser comparado ao custo da energia de outras tecnologias de geração para se determinar aquela que é a mais viável. mas não considera fluxos de caixa após o instante do retorno de investimento. Sistemas diesel-elétricos apresentam comportamento inverso. relacionados ao pagamento de operadores. o índice benefício/custo (ibc). no estudo de viabilidade econômica. Determinados todos os custos envolvidos. as baterias são os equipamentos de sistemas híbridos que requerem substituições mais constantes. Eles podem ser utilizados. um dos mais utilizados. com as leituras e envio de faturas. dentre outros. e de instalação. e custos de reposição de equipamentos. aos procedimentos periódicos de manutenção preventiva e corretiva. porém. devido ao fim de suas vidas úteis. O método do vpl. Com relação aos custos de reposição. o retorno adicional sobre o investimento (roia).

) predomina na demanda total de eletricidade das vilas. pequeno espaço físico utilizado pelos sistemas. destacam-se: substituição total ou parcial das mais diversas fontes de energia elétrica. destacamse como os principais: distorções harmônicas (utilização de cargas não lineares. da acessibilidade do local. armazéns. Visitas de pessoas. nos finais de rede). fluorescentes compactas e as incandescentes de várias potências. aumento na renda familiar. ferro de passar. entre outros. (1997) fotovoltaico-eólico de Joanes/PA. Quanto aos tipos de cargas de iluminação. e (2008) fotovoltaico-eólico-diesel de Sucuriju/AP. A carga do tipo residencial (televisores. Na fauna. grupos nacionais e estrangeiros de pesquisa interessados nas experiências 36 Tecnologias de Energias Renováveis . afundamentos de tensão (elevada corrente de surto devida ao acionamento de motores elétricos). crescimento populacional das vilas. através da utilização de cargas eventuais (ferro de passar. por exemplo. O perfil de carga das localidades é bem semelhante. variação de freqüência (sistema diesel-elétrico operando – falta de controle tensão/freqüência apropriado). televisores). por exemplo). constata-se ainda o elevado custo do kWh gerado. em comparação com a tarifa média cobrada na região para o atendimento convencional. padarias. Todavia. com a demanda máxima sempre ocorrendo nas primeiras horas do anoitecer (18h00 às 21h00). a saber: (1996) fotovoltaico-diesel de Campinas/AM. (1998) eólico-diesel de Praia Grande/PA. que não ocasiona perda de espaço para outras finalidades. lâmpadas PLs. refrigeradores. atração visual que se tornaram os sistemas híbridos com os aerogeradores e suas grandes torres. Dentre os impactos socioeconômicos. enquanto que as menores demandas ocorrem no período da manhã.). a seleção dessas vilas para a implantação dos sistemas híbridos baseou-se na avaliação objetiva e equilibrada do potencial das fontes solar e eólica. não há nenhum impacto significativo. Isso se deve ao elevado custo de aquisição dos “geradores renováveis” (importados). os eletrodomésticos correspondem a mais de 70%. aumento de atividades comerciais de comércios/bares. destacam-se as lâmpadas fluorescentes. até o presente momento. o que agrupa os benefícios de cada subsistema de geração. da disponibilidade de área apropriada para instalação e da disponibilidade de óleo diesel. (2003) fotovoltaico-eólico-diesel de São Tomé/PA. Com relação aos impactos ambientais. A redução decorre da penetração da geração renovável e do hibridismo das fontes de energia. lâmpadas incandescentes e fluorescentes etc. O desenvolvimento de equipamentos com tecnologia nacional de baixo custo poderá amenizar esse quadro. refrigeradores. desbalanceamento de potência nas fases. Isso pode ser evidenciado por nenhuma manifestação de descontentamento com o ruído por parte dos moradores próximos dos sistemas. descontinuidade no fornecimento (intermitência das fontes renováveis. Dentre estas cargas. os mesmos são insignificantes. máquina de lavar etc. decorrentes das entradas de cargas comumente usadas neste período (lâmpadas e televisores. quedas de tensão (principalmente. com exceção de duas ocorrências de colisão de urubus contra os aerogeradores dos sistemas híbridos de São Tomé e Tamaruteua. Os custos operacionais dos sistemas híbridos são inferiores comparados aos de um sistema unicamente a diesel. (1999/2007) eólico-diesel de Praia Grande/ PA. (2001) fotovoltaico-diesel de Araras/RO. Tecnicamente.Nos últimos 14 anos foram seis sistemas híbridos instalados e um atualmente em processo de implantação. aliada à falta de recursos financeiros suficientes para a compra de óleo diesel). Dentre os problemas de qualidade de energia enfrentados pelos sistemas híbridos.

favorece situações de descontinuidade no atendimento. aplicação de manutenção inadequada por pessoas não especializadas. modificações na forma de gerir o sistema devem ser providenciadas. em parceria com as prefeituras municipais e. Em São Tomé e. temporariamente. respectivamente). associado a uma cultura de utilização pouco racional da carga. representantes da administração municipal e técnicos especialistas dos agentes executor. uma vez que falhas no atendimento podem resultar em onerosas penalidades à concessionária. após períodos satisfatórios de operação (3 e 4 anos. cujos valores variam de acordo com o número de equipamentos eletro-eletrônicos instalados nas UCs. onde o próprio caráter intermitente das fontes. universidades e outros. Referindo-se à gestão desses sistemas. Em um. onde a maioria dos sistemas híbridos instalados no Brasil é de caráter experimental. o primeiro problema de gestão a ser solucionado insere-se na realidade das comunidades onde os sistemas pilotos foram instalados: sistema inicialmente sem a figura de um responsável legal. os operadores do sistema. dois modelos são utilizados. Por fim. que deve manter-se através de esforços da própria comunidade. bem como da própria entidade executora do projeto. Sistemas Híbridos 37 . Modelos de Gestão e Regulação Os problemas de gestão de sistemas com fontes intermitentes suprindo minirredes estão intimamente associados com a sustentabilidade dos mesmos e a questões de ausência de regulamentação. caso de Praia Grande e Tamaruteua (antes da revitalização). destaca-se o sistema de pré-pagamento de energia. entraram em processo de falência operacional devido basicamente à: escassez de recursos financeiros captados para manutenção. A primeira ação proposta é a formação de uma comissão gestora na comunidade. No atual contexto. em Praia Grande aplicam-se taxas mensais. necessariamente de grupos distintos. outros membros da comunidade. buscando sua sustentabilidade. Tamaruteua e São Tomé). Partindo do cenário atual. a administração destes sistemas por parte da concessionária é um risco grande. onde tais sistemas. em Tamaruteua (revitalização). a má gestão também se faz presente em alguns sistemas. Problemas operacionais devidos principalmente à falta de manutenção e ao crescimento demasiado da demanda comprometeram o funcionamento dos sistemas híbridos de Campinas e Joanes. a qual é a única responsável pelo gerenciamento do sistema. mesmo que façam parte da comissão temporariamente. entre outros participantes. não-governamentais. atuando de forma conjunta para gerir e administrar o sistema. Tal comissão deve incluir. O outro modelo tem seus arcabouços sustentados por uma administração realizada pelas próprias comunidades (associação comunitária). com participação de órgãos governamentais. quase nenhuma participação das prefeituras municipais. quando for o caso. Araras é a exceção dos modelos expostos. manutenção e aplicando as tarifas pelo serviço de energia elétrica prestado (Campinas e Joanes). recentemente. Neste caso. os moldes administrativos são delineados pela própria concessionária local. Com relação à captação dos recursos (tarifação pelo serviço de energia). com o agente executor do projeto (Praia Grande.adquiridas com os sistemas híbridos e o crescimento acentuado da carga instalada e de UCs configuram-se como outros impactos. gestão feita por um produtor independente de energia (pie-guascor). financiador e colaborador do projeto. determinando as estratégias de operação.

sendo criada uma Conta de Geração de Energia (cge). além do fato de. Algumas características desta flexibilização. visando à redução dos custos operacionais. a proposta é pelo 38 Tecnologias de Energias Renováveis . então. e a definição de um sistema de tarifação adequado. já um anseio de concessionárias que operam sistemas termelétricos isolados. O benefício substituiria.Dentre os atributos da comissão gestora. o custo para manter o sistema operando para atender apenas uma unidade não ser proibitivo como no caso de unidades geradoras termelétricas. onde o perfil dos moradores seja condizente com a flexibilização. onde. não aplicável para localidades que já possuam serviço público essencial ou de interesse da coletividade. destacam-se: a definição de planos estratégicos. Quanto à limitação do uso da energia. fornecimento de energia elétrica observando um total mínimo de seis horas diárias. com o atendimento ininterrupto resultando em custos muito elevados. seria aplicada a casos específicos. que privilegiem os sistemas isolados. em casos onde os critérios de atendimento devam ser compatíveis com os atualmente verificados na legislação do setor elétrico. são: potência nominal inferior a 300 kW para o sistema de geração. casos típicos de comunidades isoladas. A proposta é pela simples adequação desta minuta para a realidade de sistemas híbridos. A flexibilização do horário de atendimento. o atendimento das unidades consumidoras desassistidas. Com relação ao primeiro ponto. Estes sistemas agregam as principais vantagens do sistema de medição convencional à maior simplicidade operacional do sistema de cobrança de taxas fixas. a avaliação do valor da tarifa pelo serviço. associados ao superdimensionamento dos sistemas de geração e armazenamento. Os modelos regulatórios propostos são centrados em três pontos: a inserção de subsídios ao sistema. a flexibilização do período de atendimento. e fornecimento de energia em período reduzido. e o acompanhamento e fiscalização do sistema de eletrificação. o esclarecimento das limitações de geração do sistema híbrido. independentemente da fonte de geração. em sistemas renováveis. dos membros da comunidade que compõem a comissão gestora. a capacitação. A proposta é pela criação de um benefício. a educação da comunidade quanto ao uso racional da energia elétrica. A inserção de subsídios faz-se necessária devido à discrepância atualmente verificada entre o custo da energia gerada por sistemas híbridos e o custo de tarifas praticadas pelas concessionárias nacionais. a proposta é pela adoção de sistemas pré-pagos de medição. o envolvimento da comunidade no processo de instalação/expansão do sistema. por exemplo. Estas ações constituem-se em importante passo para garantir a sustentabilidade do sistema. o estabelecimento de parcerias com instituições diversas. Sistemas de tarifação adequados a sistemas híbridos suprindo minirredes possuem dois pontos principais: a utilização de tecnologia de medição adequada e a limitação do uso da energia por parte do consumidor. uma vez que tecnologias de medidores eletrônicos permitem tal facilidade. principalmente no atendimento a consumidores de baixa renda. Surge a necessidade da proposta por modelos regulatórios que tornem a legislação adequada à realidade de sistemas com as características de sistemas híbridos suprindo minirredes. e onde a localidade disponha de recursos renováveis moderados. os períodos de atendimento podem ser distintos entre várias unidades consumidoras. os modelos de gestão que sigam as diretrizes aqui apontadas por si só não garantem a sustentabilidade de um sistema híbrido. divididas no máximo em dois períodos diários. em moldes similares aos da Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis (ccc). Porém. a avaliação dos tipos de setores que terão prioridade no serviço. por parte dos agentes externos. já encontradas em forma de minuta de resolução. a ccc.

com base no recurso renovável disponível e na energia demandada pela carga. Sistemas Híbridos 39 . em períodos de recursos fartos a limitação seria pouco significativa.estabelecimento de faixas de consumo para cada comunidade. Em contrapartida. com aqueles de maior consumo. Todas as características descritas podem ser associadas a medidores eletrônicos. entre outras funções. com a geração diesel-elétrica impedindo que essa redução seja muito drástica. com menores limites. Propõe-se ainda a divisão dos consumidores por classes. Períodos de recursos renováveis escassos seriam associados à maior limitação no uso da energia. alertas ao usuário. que seriam responsáveis pelos cortes por tempo ou por excedente de demanda. enquanto que aqueles de menor consumo compõem outra classe. compondo uma classe com maior limite de consumo. como os estabelecimentos comerciais.

2 Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos Soluções Energéticas para a Amazônia Geraldo Lúcio Tiago Filho (coordenador) Ângelo Stano Júnior Antônio Brasil Júnior Jason Tibiriçá Ferrari Helmo Lemos Caroline Fernandes Nunes Camila Fernandes Nunes Juliana Sales Moura Luis Henrique de Faria Alves Rodrigo Ramos Rudi Van Els Frederico Leite 40 Tecnologias de Energias Renováveis .

Esse capítulo procura mostrar a tecnologia existente que envolve esse tipo de empreendimento e apresenta alguns casos concretos desenvolvidos na região. ocupadas por povoamentos influenciados pela fronteira agrícola e de exploração mineral e de madeira. às atividades produtivas. com uma área correspondente a 59% do território brasileiro. têm seus interesses e suas necessidades quanto à educação. no norte do Pará. em 2004 a população da Amazônia Legal. em se tratando da região da Amazônia Legal. apresentam-se extremamente grandes. Entretanto. além de ser um fator-chave para aumentar a produtividade no campo e para melhorar as condições de trabalho e de vida. famílias. Š Áreas com elevada pressão ambiental. De acordo com o grau de pressão exercida pela atividade humana sobre o ambiente. geração de renda e melhoria da sua qualidade de vida e desenvolvimento social. Diante do grande potencial existente na região. o oeste de Rondônia e o centro-sul do Pará. A eletrificação de comunidades isoladas deve ser um processo humano. em torno de 22 milhões de pessoas. Distribuição da população na Amazônia Legal De acordo com estimativas do ibge. localizados principalmente em Roraima. que são formadas por indivíduos. cuja distribuição ocorre de forma heterogênea. Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 41 . noroeste do Amapá. econômico e ambiental em cujo contexto devem estar inseridos a sociedade e o meio ambiente. pois a eletrificação é fundamental para a implementação de programas de desenvolvimento. saúde e disposição ao trabalho. vizinhos e diversos grupos sociais e espécies que. geralmente ocupadas por terras indígenas e povoamentos dispersos. no sudeste do Amazonas e no Acre. social.Introdução O uso da energia elétrica para o meio rural é um dos processos mais importantes a serem incentivados no Brasil. em localidades distribuídas em áreas de difícil acesso. por sua vez.34% da população do País. ou seja. como a Amazônia central. compunha-se de aproximadamente 12. as áreas ocupadas podem ser: Š Áreas com baixa pressão ambiental. principalmente no que se refere à operação e manutenção da sustentabilidade da unidade geradora. as microcentrais (µCH) e as minicentrais (mCH) hidrelétricas podem vir a ser uma boa opção para o atendimento dessas comunidades. os desafios para o atendimento de uma população extremamente dispersa ao longo das calhas dos rios. com grande concentração populacional nas capitais e bastante pulverizada no interior.

cuja energia deverá ser distribuída por minirredes. É de fundamental importância conceber o fornecimento da energia elétrica na totalidade de seu uso. o sistema de transmissão e distribuição é caracterizado por dois sistemas distintos: Š Interligado – o mais importante. econômico e ambiental. Esse sistema corresponde a 96. conseqüentemente. 55 mil encontram-se extremamente isoladas. grandes rios) o alto nível de dispersão dessas áreas. Dessas. em 2000. onde o mais adequado será o atendimento por uma unidade geradora. 42 Tecnologias de Energias Renováveis . considerando sua inserção num contexto social. da Amazônia Legal e do País. constituindo-se num dos pilares para que se possa obter desenvolvimento social e econômico e para alcançar a qualidade de vida desejável a qualquer ser humano. principalmente hidrelétricas. Vê-se que o mercado do sistema interligado é mais atraente do que o do isolado. de 4 a 100 residências. também fazem parte da Amazônia Legal os Estados do Tocantins e do Mato Grosso. sendo que nesses dois últimos há uma forte pressão sobre o ambiente. ou reunidas em duas ou três casas que poderão ser supridas preferencialmente por sistemas fotovoltaicos. com a plantação da soja e a criação de gado.Além do Maranhão. principalmente devido às atividades agrícolas. calcula-se que aproximadamente 615 mil residências estariam em condições de serem atendidas via “extensão de redes”. é caracterizado pela geração concentrada em grandes centrais. O atendimento de eletricidade às comunidades isoladas A energia é fator primordial para a humanidade. desse total. prudente e equilibrada. o censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Segundo o autor. as dificuldades para a transposição dos acidentes geográficos (grandes áreas de floresta.7 % da capacidade instalada e atende 98% do mercado de energia do Brasil. O plano de gestão energética deverá ser participativo e sustentável. Além disso.13% da capacidade instalada. o que deixa um saldo de 155 mil residências. sendo necessário criar estratégias que suportem esse crescimento proporcionado pela energia elétrica e o benefício advindo do uso produtivo da energia. ao desinteresse por parte das concessionárias ao atendimento adequado a essas comunidades. de forma racional. interconectadas a um sistema de transmissão construído de forma a atender os grandes centros consumidores do País. indicou que o número de habitações sem o atendimento de energia elétrica na Amazônia era de 770 mil. é de predominância térmica e está distribuído na região amazônica. onde uma parte da população está concentrada em alguns centros urbanos e os demais moradores em pequenos núcleos habitacionais dispersos ao longo das margens das calhas dos rios. e ao mesmo tempo. e a baixa demanda por energia levam. As 100 mil habitações restantes estariam distribuídas em vilarejos. que permita alavancar o desenvolvimento sustentável da comunidade e. convencionalmente.8 milhões de pessoas. muitas vezes. No Brasil. Š Isolado – com apenas 3. o que resultaria numa população em torno de 3. os altos custos para construção das extensões das linhas. áreas alagadas. De acordo com Di Lascio (2006).

Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 43 . o desafio de atendê-los é ainda maior. Entretanto. sítios localizados nas bordas da Amazônia Legal mostram-se propícios à implantação dessas pequenas unidades de geração. a topografia pouco acidentada. Fonte: abradee (apud Rodrigues 2006) O gráfico apresentado na figura 2.2 – Domicílios não atendidos por energia elétrica nos estados da Região Norte. por Estado.Figura 2. tais como os mostrado nos mapas mostrados na figura 2.3. O atendimento às comunidades isoladas A despeito da grande disponibilidade hídrica.2 mostra.1 – Sistema brasileiro de distribuição de energia elétrica: sistema isolado e sistema interligado 450 400 350 300 mil 250 200 150 100 50 0 400 255 116 45 MA PA RO AC 40 TO 25 AM 8 RR Figura 2. o número de habitações sem atendimento de energia elétrica da Amazônia Legal. Embora o menor número encontre-se no Amazonas e em Roraima. a baixa declividade e as grandes dimensões dos rios e a baixa demanda per capita têm inibido ou inviabilizado a implantação de unidades de µCH e mCH na região amazônica.

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Tecnologias de Energias Renováveis

g h Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 47 .

muitas vezes. resultando em baixas eficiências e alto consumo de combustível. (i) Tocantins Embora a biomassa e os recursos hídricos sejam predominantes na região amazônica. Aqueles que dispõem de recursos de transporte podem comprar o combustível na sede do município. (e) Mato Grosso. Na maioria das vezes a capacidade de geração destas unidades está entre 5 e 50 kW. alguns desses geradores . Nestes casos é comum que o grupo gerador seja de propriedade privada. De acordo com Di Lascio (2006). 48 Tecnologias de Energias Renováveis . por falta de informação e de mão-de-obra qualificada nas comunidades. quando mal conservados. porém. quando supridas por energia elétrica. mais fáceis de serem instalados. se existente. mas. (b)Amapá. (d) Maranhão. com o combustível comprado por atravessadores que o transportam e oferecem em barcaças. a maioria das comunidades isoladas. apresentam um consumo de óleo diesel de 350 g/kWh. (f) Pará.77 a R$2. (g) Rondônia (h) Roraima.i Figura 2. quando bem conservados. cujos proprietários o adquirem e o administram juntamente com a minirrede.00 o kWh gerado.3 – Campos propícios à implantação de µCH e mCH na Amazônia Legal: (a) Acre. chega-se a valores da ordem de R$0. Outro agravante é o fato de que. o são por geradores diesel. o custo do transporte anula a economia feita. a maioria desses geradores encontra-se em estado de conservação precário. individual ou comunitária. podem chegar a um consumo de combustível próximo de 500 g/kWh. (c) Amazonas. praticando custos abusivos. Ao se considerar o custo do combustível praticado na região.

1 (*) classificação não oficial.1. segundo a Resolução Nº 394 da aneel e Portaria Nº 136 do dnaee Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 49 . de acordo com a Resolução aneel Nº 394. determinado pelo nível da água referente à cheia com o tempo de recorrência de 100 anos. e a Resolução Nº 394 da aneel. Essa é transmitida até o ponto de consumo e/ou de interligação.4. Figura 2. conforme mostra a tabela 2. se for levada em conta a Portaria Nº 136. Entretanto. Contudo. do Departamento Nacional de Água e Energia Elétrica (dnaee).4 – Componentes principais de centrais hidrelétricas de pequeno porte. a Resolução aneel Nº 652 de 2003 ampliou o limite da área do reservatório para até 13 km2. desde que verificada a seguinte relação: P Sreservatório ≤ —– ≤ H P [kW] e H [m]. de 4 de dezembro de 1998.1 – Classificação das PCHs. já em uso em alguns países.0 Km2.000 km equação 2. Classificação Picocentral Hidrelétrica* Microcentral Hidrelétrica Minicentral Hidrelétrica Pequena Central Hidrelétrica Sigla πCH μCH mCH PCH Faixa de potência KW dnaee Até 5 De 5 até 100 De 100 até 1000 De 1000 até 10000 aneel 1 a 30 000 Proposta cerpch Até 5 De 5 a 100 De 100 a 1000 1 a 30. proposta pelo cerpch Tabela 2. uma central hidrelétrica é composta por um sistema de captação e de adução da água até o grupo gerador que transforma a energia hidráulica disponibilizada em eletricidade.As µCH e mCH Conforme mostra a figura 2. Fonte: Manual olade (1992) No Brasil. sugere-se que as PCHs sejam classificadas de acordo com a potência. através de cabos elétricos. são classificadas como pequenas centrais hidrelétricas os aproveitamentos hidroenergéticos que tenham potência superior a 1 MW e igual ou inferior a 30 MW e área total do reservatório igual ou inferior a 3. onde está acrescida a classe da picocentral hidrelétrica (πCH). de 6 de outubro de 1987.

≤ km Onde S RES [km2]. turbinas hidráulicas. o gerador. da pch Luiz Dias. levando-se em conta que.75 H equação 2. onde estão resumidas as principias características das turbinas. condutos. sistemas de controle. reguladores de velocidade. o volante de inércia. a seguir.5 – Grupo Gerador: (a) PCH Alto Jaurú: a excitatriz.14. principalmente para as µCH e mCH. as turbinas hidráulicas são classificadas como de ação e de reação. para efeito de crédito de carbono no mecanismo de desenvolvimento limpo previsto pelo Protocolo de Quioto. . da pch do Alto Jaurú. nqa. válvulas.13 e 2. a caixa espiral da turbina e a válvula borboleta.3 Onde: n [rpm]. Figura 2. a excitatriz. de 800 kW. que são classificadas em função da rotação específica. ou seja: SRES ≤ . As tabelas 2. conforme a tabela 2. cujos campos de aplicação são apresentados nas figuras 2. sugere-se que a área do reservatório para as µCH e mCH não deva ultrapassar essa relação. o regulador de velocidade óleo hidráulico e a caixa espiral da turbina hidráulica. de automação e de supervisão das centrais.Porém. Q [m3/s] e H [m].2 e 2. a princípio. (b) PCH Luiz Dias. Turbinas Hidráulicas Basicamente.2 O estado da arte das µCH e mCH A indústria nacional está qualificada e bem aparelhada para fornecer todos os equipamentos elétricos e hidromecânicos para as centrais hidrelétricas. o gerador. de 15 mW de potência.n. determinada pela relação: Q0. as PCHs devem ser empreendimentos com baixos impactos ambientais e.5 mostra a vista geral de dois grupos geradores: o primeiro.—0. geradores. Q [m3/s] equação 2.3 apresentam os diferentes tipos de turbinas convencionais e não convencionais para as µCHs e mCHs fabricadas no Brasil.5 nqa = 3. e o segundo. 50 Tecnologias de Energias Renováveis . A figura 2. como comportas. elas devem apresentar a relação de 4 km2/kW.3. Q . comando.

2 1 a 30 Queda H[m] 5 a 250 1 a 50 5 a 100 2 a 30 Potência kW 5 a 1.TIPO Nome Pelton Rotação Específica nqa Nº jatos 1 2 Tipo Nqa 4 a 30 6 a 42 Nqa 60–180 150–260 260–350 Vazão Q [m3/s] 0.05 a 0.3 – Principais características – turbinas hidráulicas não convencionais para µCH e mCH.000 80 a 93 Hélice REAÇÃO Kaplan Tubular Bulbo 260–800 300 a 800 0.8 Queda H[m] 30 a 500 Potência kW 0.6.000 ηmáx 70 a 91 AÇÃO Francis Lenta Normal Rápida 0.6 – Diagrama de Cordier: campo de aplicação das turbinas hidráulicas em função da sua rotação específica e queda disponível.2 – Campo de aplicação das turbinas hidráulicas convencionais para µCH e mCH. TIPO Ação Nome Turgo* Michell-Banki Bomba Funcionando Como Turbina – BFT** Gerador periférico ** Rotação Específica nqa 60 a 260 45 a 180 60 a 180 300 a 800 Vazão Q [m3/s] 0.015 a 0.01 a 1.01 a 10 2 a 150 1 a 1. Tabela 2. Também é possível distribuir os diferentes tipos de turbinas em diagramas que mostrem os tipos de máquinas que melhor se adaptam às condições de queda e de rotação específica.000 1 a 150 1 a 80 25 a 200 ηmáx 85 a 90 65 a 82 65 a 80 90 a 93 REAÇÃO * não fabricada no Brasil.1 a 1. Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 51 . Figura 2.8 a 25 2 a 40 1 a 30 5 a 1. Fonte:Souza (1999).2 0.000 88 a 93 Tabela 2. ** em fase experimental.01 a 4 0. conforme apresentado no diagrama da figura 2.

e que estão apresentadas nas figuras 2. (b) vista lateral.7 a 2. Brasil.2 e 2. a Figura 2.13 e 2.8 – Rotor de turbina Kaplan: (a) vista frontal. Conforme mostram os gráficos das figuras 2. b a b Figura 2. c) rápido.10. 52 Tecnologias de Energias Renováveis .Turbinas Convencionais Conforme mostrado nas tabelas 2. a Hélice e a Kaplan. b c a Figura 2. a Francis. as turbinas hidráulicas convencionais normalmente aplicadas em centrais hidrelétricas de uma maneia geral são: a Pelton.9 – Turbina Kaplan “S” com acoplamento do gerador: (a) e (b) Turbina “S” fabricação Haker – SC.7 – Rotor Francis: a) lento. estas atendem praticamente a todo o campo de aplicação das µCH e mCH.3. b) normal.14.

12 – Roda Pelton: (a) Grupo gerador com roda Pelton.12. a b Figura 2.10 – Turbina Bulbo: (a) com rotor de pás móveis. cujos campos de aplicação também estão plotados nos gráficos das figuras 2.14. a Michell-Banki. sendo inspecionada na fábrica. gerador interno. a montante.13 e 2. Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 53 .a b Figura 2. em operação.11 e 2. mostradas nas figuras 2. Estas turbinas atendem a pequenos potenciais. ainda experimental. a Bomba Funcionando como Turbina (bft) e a axial com gerador periférico. fabricação Alterima (no primeiro plano vê-se um grupo gerador com turbina Michell-Banki – Unifei). (b) tipo tubular com acoplamento do gerador a jusante. Turbinas não convencionais Como tipos de turbinas não convencionais têm-se: a Turgo – ainda não fabricada no Brasil –. (b) roda Pelton.11 – Turbinas Hidráulicas desenvolvidas pela Unifei: (a) Michell-Banki e (b) Bomba Funcionando como Turbina – BFT a b Figura 2.

Figura 2.13 – Campo de aplicação das principais turbinas de ação para µCH e mCH com potência até 1000 kW. de fabricação brasileira Turbinas para quedas muito baixas e Hidrocinéticas Recentemente. que utilizam a energia cinética das correntezas dos cursos d’água e são adequadas para atender a pequenas cargas. desenvolvida por uma pequena indústria nacional. e a desenvolvida pela Universidade de Brasília. com a turbina Gourlov. como a de fluxo cruzado com pás helicoidais. Há também as turbinas hidrocinéticas. de algumas centenas de Watts até 10 kW. e que atende de 10 a 200 kW. de fabricação brasileira Figura 2. tais como a turbina axial com gerador periférico.14 – Campo de aplicação das principais turbinas de ação para µCH e mCH com potência até 1000 kW.15 (a). apresentada na figura 2. com desníveis de até 3 metros.16.15(b). mostrada na figura 2. têm-se apresentado propostas para aproveitamentos de baixíssimas quedas. apresentada na figura 2. 54 Tecnologias de Energias Renováveis .

a b c d Figura 2. tipo Gourlov. (c) instalada num curso d’água em Correntinas.15 – (a)Turbina Hidráulica para baixíssimas quedas. Turbo-Silva.16 – Turbina Hidrocinética. em áreas mais remotas do País há diversos pequenos fabricantes que fornecem grupos geradores constituídos por turbinas hidráulicas e sistemas Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 55 . tipo axial. desenvolvida pela Universidade de Brasília: (a) vista frontal. (b) vista lateral.a b Figura 2. (b) turbina hidrocinética tipo fluxo-cruzado. com gerador periférico. (d) montada sobre estrutura flutuante. Fonte: UnB Turbinas hidráulicas com técnicas alternativas Além dos tipos clássicos apresentados.

abre-se a válvula na entrada da caixa espiral. utilizando-se de argila. como a turbina Indalma apresentada na figura 2.de controle desenvolvidos e fabricados por processos alternativos.18 apresenta um esquema desse tipo de tecnologia. Assim que toda a argila tenha saído. que tem sido comercializada na região Norte do País e tem alcançado sucesso relativo junto aos seus usuários. fazendo com que a água entre na caixa espiral. com tecnologias bastante rudimentares. Sobre o desenho da espiral. Sobre essa malha lança-se o concreto até que toda a espiral no entorno do rotor esteja completada. forçando a saída da argila. 56 Tecnologias de Energias Renováveis . uma vez o concreto seco. A figura 2. Essa técnica constitui-se no seguinte: tendo o rotor da turbina e o seu tubo de sucção em uma plataforma de concreto. feita com ferros de construção de pequenos diâmetros e em forma de malha. que é utilizada para a construção da caixa espiral da turbina. Ao longo do barro moldado.17 – Turbina tipo Indalma: (a) vista lateral. (b) turbina com a caixa espiral já concretada. faz-se o desenho da caixa espiral no seu entorno.17. a Figura 2. molda-se a caixa espiral em torno do rotor. a b Figura 2. porém robustas e de baixo custo. a turbina fica pronta para operar. (b) vista frontal.18 – Construção da caixa espiral pelo método “argila-perdida”: (a) molde em barro com armadura de ferro. b Há ocasiões em que os fabricantes destes tipos de turbinas costumam desenvolver tecnologias singulares e interessantes. tal como o uso da técnica da “argila perdida”. constrói-se uma armadura. Tendo aguardado o tempo de cura.

Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 57 . um grande diâmetro e pequeno comprimento axial (figura 2. Figura 2. Geradores com velocidade muito baixa exigem grande número de pares de pólos. que normalmente são utilizados em centrais termoelétricas. em µCH e mCH.Geradores Os geradores disponíveis no mercado brasileiro podem ser classificados basicamente em dois tipos: síncronos ou assíncronos. que normalmente são acionados por um motor ou por uma turbina hidráulica e se caracterizam fisicamente por ter pólos salientes. Entretanto. o uso desses dispositivos costuma resultar em perdas mecânicas e no aumento no trabalho de manutenção do grupo gerador. tem-se adotado a excitatriz estática do tipo “brushless”. cuja manutenção é quase nula. sendo pouco aplicados em µCH e mCH. Fonte: Tiago Filho (2003) Os geradores síncronos necessitam produzir suas próprias excitações (figura 2. como as picocentrais hidrelétricas (πCH). Atualmente.20b) ou recebê-las de um sistema dedicado (excitação estática). também chamados de turbogerador. Os geradores síncronos podem ser: Š De baixa velocidade.19 mostra os geradores elétricos síncronos disponíveis no mercado em função da potência e do número par de pólos (rotação síncrona). Em aproveitamentos com quedas muito baixas torna-se muito difícil assumir uma rotação síncrona para a turbina acima deste valor. No caso de haver impedimento para adequar a rotação da turbina com a rotação síncrona do gerador.21. O gráfico da figura 2.19 – Potências disponíveis para µCH e mCH de geradores síncronos em função do número de pares de pólos. resultando em máquinas com dimensões maiores. Š De alta velocidade. como os apresentados na figura 2. que podem ser com armadura rotativa ou com o campo rotativo. o que aumenta os custos. costuma-se. especificar geradores com no mínimo 600 rpm.20a). costuma-se utilizar geradores de corrente contínua ou os alternadores de ímãs permanentes. Já em centrais de porte muito pequeno. Neste caso recomenda-se utilizar os multiplicadores de velocidade do tipo correia e polia ou caixa de transmissão mecânica.

21 – Geradores elétricos para πCH e µCH: (a) gerador de corrente contínua. Fonte: Manual olade (1992) c d e 58 Tecnologias de Energias Renováveis . a b Figura 2. muito utilizados em πCHs.(c) painel de controle de uma πCH.a Figura 2. A figura 2. Mais recentemente também foram desenvolvidos reguladores eletrônicos de carga.22 (c) apresenta um destes reguladores. que através de uma carga de lastro mantém a freqüência da rede constante. (b) alternador com armadura rotativa.22a e 2.20 – Gerador: (a) vista do rotor e extrator de um gerador de uma PCH.22 – Regulador de Velocidade: (a) óleo hidráulico. (d) regulador eletrônico trifásico.22b). (e) carga de lastro. são fabricados do tipo óleo-hidráulico e fornecidos pelos próprios fabricantes da turbina (figuras 2. b a b c Figura 2. (b) excitatriz. (c) alternador com campo rotativo Reguladores de Velocidade e Sistemas de Controle e Automação Os reguladores de velocidade. para uma turbina Pelton. tradicionalmente. (b) esquema do circuito de um regulador óleo hidráulico para uma turbina Pelton.

de forma a monitorar todos os parâmetros importantes da sua operação. além de comandar a sua partida e a parada que.23 – Barragem de terra homogênea: (a) pch Palmeiras. Além disso. tais como madeira. O clp também pode ter outras funções. sendo também um meio para o monitoramento remoto da central. nos serviços auxiliares. (b) vista de montante Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 59 . como a vazão turbinada. tal como mostrado nas figuras 2. pedra e concreto em diversas concepções. basicamente. a potência gerada. Para a sua construção podem-se utilizar diferentes materiais. temperatura dos mancais. a intensidade e tensão da corrente. A automatização em µCH e mCH. prevê-se a automatização parcial ou total da central. (b) pch Piau b a b Figura 2. por iniciativa do operador. é composta por um clp (Controlador Lógico Programável) cuja função lógica monitora a freqüência com a qual a energia está sendo gerada e comanda a ação do servomecanismo do regulador de velocidade de rotação do grupo gerador.24 – Barragem de enrocamento – pch Machado Mineiro: (a) vista de jusante. na tomada d’água. além de implicar uma obra estratégica para prover recursos para o uso múltiplo da água. a Figura 2.Em projetos mais recentes de centrais hidrelétricas.25.23 a 2. posição de manobra das válvulas. dentre outros. também pode ser feita manualmente. tais como atuar nos demais processos e sistemas da central. por sua vez. a pressão na entrada da turbina. terra. esse tipo de sistema permite a implantação de um sistema de supervisão do grupo gerador. como na subestação. Barragens As barragens têm como função reter a água de forma a conduzi-la ao sistema de adução da central hidrelétrica.

(b) barragem de pedra argamassada b O mais comum é utilizar barragens de terral e rocha. e concreto.27 (a) e 2. quando a obra é do tipo galgável. conforme mostram as figuras 2. ou na forma basculante. a b Figura 2. Esse tipo de técnica alia a resistência do concreto à praticidade de construção das barragens de terra e de rocha. ou se deseja aumentar a altura da barragem e controlar o nível da água no reservatório.26 – Barragem de borracha inflável – fabricante Bridgestone: (a) instalada sobre um vertedor.a Figura 2. houve um aumento de popularidade das barragens feitas com concreto compactado a rolo (ccr). como apresentado nas figuras 2. devido ao alto custo dos materiais. onde por diferentes motivos há a necessidade de se manter a água dentro da calha do rio. quando a obra é do tipo não galgável.27 (b).26 (b).26 (a) e 2. (b) instalada sobre o leito de um curso d’água 60 Tecnologias de Energias Renováveis . Barragens móveis Em se tratando de rios com baixas declividades. Essas podem ser construídas na forma inflável feitas com borracha.25 – (a) Barragem de concreto. pode-se utilizar as “barragens móveis”. Entretanto.

diminuir a altura da lâmina d’água sobre o vertedor. além de aumentar o comprimento do vertedor. por exemplo. Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 61 . (c) sobre o vertedor de uma barragem Esse tipo de solução permite diminuir custos na construção da barragem.28 – Comporta-fusível.28a. (b) Instaladas na barragem st-herbot. aumentar a capacidade de um reservatório e a potência da central. a ® b c Figura 2. 2. na França. (b) operada por pistão óleo-hidráulico Com o objetivo também de aumentar o nível do reservatório e garantir segurança à estrutura em condições de vazões extremas.27 – Barragens móveis: (a) operada por meio de colchões infláveis.28b e 2.28c). conseqüentemente. Desta forma garante-se a segurança da barragem e das populações que porventura estejam localizadas a jusante da obra (figuras 2. onde a comporta está instalada. aumentando a sua capacidade de vertimento. Neste caso a comporta (ou barragem) móvel tomba. há fabricantes que sugerem o uso de “barragens” ou “comportas fusíveis”. aumentar o nível do reservatório já implantado e. fabricação hydroplus : (a) esquema em perspectiva. quando a vazão de cheia ultrapassa o seu valor nominal. Como o próprio nome diz. esse tipo de obra funciona como um “fusível” contra as enchentes.a b Figura 2. ou fazer com que a água permaneça confinada no interior da calha do rio. as barragens móveis podem ser utilizadas para controlar o nível d’água do reservatório. abrindo uma passagem extra sobre a soleira do vertedor. quando desejável. mesmo por ocasião das cheias. Em centrais de baixas quedas. Sua operação só ocorre em condições extremas.

apenas um espigão para conduzir a água ao sistema adutor. gerar 60 kW. Projeto µCH Canaã Esse projeto tinha como meta implantar uma µCH no rio Roosevelt. A comunidade é formada por 55 famílias. ao sudeste do Estado de Rondônia. A figura 2. Previa-se construir a µCH na margem esquerda do rio Roosevelt. Não haveria barragem. Infelizmente. o conhecimento das dificuldades pelas quais elas estão sujeitas e a necessidade de prover meios para que uma população desassistida como essa possa alcançar melhor qualidade de vida. no município de Pimenta Bueno. na comunidade denominada Assentamento Canaã.29 mostra alguma situação encontrada na comunidade e o arranjo proposto para a µCH.Alguns projetos de μCH desenvolvidos na região amazônica A seguir são apresentados algumas experiências sobre implantação de µCHs na região Norte do País. numa primeira fase. a b c 62 Tecnologias de Energias Renováveis . A queda disponível era de 12 metros e previa-se. que não autorizou a sua construção. Ficou a experiência do contato com a comunidade. assentadas pelo incra. em uma área vizinha à reserva indígena dos “Cintas-Largas”. o projeto não logrou êxito devido à intransigência e a falta de espírito público do proprietário da terra.

50 X 1.d 1.80 x 0.80 2.10 0. (b) e (c) grupo gerador diesel para atendimento individual.00x1.80 2.00 0.70 e Figura 2.10 A A 3.10 Subestação Elevadora Almoxarifado Banho 1.00 1. (d) arranjo da µCH Canaã.20 1.29 – Projeto µCH Canaã: (a) Rio Roosevelt seção da tomada d’água.50 x 1.80 1.40 1.50 X 1.40 m Painel 1 0.00 2.80 1. (e) arranjo da casa de máquinas – vista em planta Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 63 .80 1.00 2.00 Bloco de Ancoragem BA02 EL. 271.

(b) congelador de polpa de frutas. A µCH.32 apresentam características da comunidade de Aruã.30.Projeto Cachoeira do Aruã Trata-se de um projeto que. A função foi atender as famílias residentes. que tinham como objetivo permitir o uso produtivo da energia geada pela µCH e gerar renda à comunidade.32 – Usos produtivos da energia: (a) unidade moveleira. no centro-sul do Estado do Pará. (c) grupo gerador e quadro elétrico a b c Figura 2. bem como aspectos da µCH. a b c Figura 2. 2. uma escola. (b) escola atendida pelo projeto. (b) casa de máquinas. de 50 kW. também com recurso do CT-Energ e do Ministério de Minas e Energia. numa comunidade distante 14 horas de barco de Santarém.31 – Aspectos da µCH Cachoeira do Aruã: (a) barragem e tomada d’água. As figuras 2. As referidas unidades produtivas eram uma oficina moveleira e uma central de congelamento de polpa de frutas. foi implantada no rio Aruã. uma bomba hidráulica para recalcar água ao reservatório de distribuição à comunidade e duas unidades produtivas que foram implantadas pelo projeto. (c) habitação atendida pelo projeto a b c Figura 2.(c) bombeamento para o sistema de distribuição de água potável 64 Tecnologias de Energias Renováveis . teve como objetivo implantar um projeto-piloto de geração descentralizada em comunidades isoladas na região amazônica de forma a implantar uma gestão comunitária que permitisse a auto-suficiência do empreendimento.30 – Atendimento à comunidade de Aruã: (a) linha de transmissão e distribuição.31 e 2.

prevê-se o atendimento de 40 famílias da comunidade. a b c Figura 2. (c) “quadro elétrico” da central a Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 65 .33 – Antigas condições da µCH Novo Plano: (a) tubulação forçada e casa de máquinas.Dos dois projetos em que se previam a mobilização e organização da população para a implantação de um sistema de gestão comunitário que desse auto-suficiência à unidade geradora. Trata-se de um projeto de repotenciação de uma µCH já existente. (b) grupo gerador. conforme pode ser visto na figura 2. localizada no município de Chupinguaia. Para tanto. cujo apoio foi fundamental para o sucesso do projeto. esse foi aquele em que se conseguiu o maior índice de sucesso. que atendia apenas três moradias e encontrava-se em péssima condição de manutenção. construída pelos próprios moradores. no Estado de Rondônia. o projeto contou com a colaboração da Fundação Winrock e com a ong Alegria.33. Projeto µCH Novo Plano Esse projeto foi desenvolvido junto à comunidade Novo Plano. Com uma potência instalada de 55 kW.

(c) canal de adução. (b) casa de máquinas. a 140 km de Santarém. A figura 2. cujas habitações estão espalhadas em pequenas aglomerações ao longo de 8 km. durante sua construção. Com a potência de 55 kW. (d) turbina hidráulica tipo Indalma.35 apresenta diversos aspectos técnicos da µCH. (f) habitação sendo atendida 66 Tecnologias de Energias Renováveis .b c Figura 2. escavado em terra sem revestimento. ele é responsável pelo atendimento de 40 famílias.34 mostra alguns aspectos da central repotenciada.35 – Projeto µCH Jatoarana: (a) barragem de terra com vertedor lateral. (e) linha de transmissão. (c) turbina hidráulica tipo Francis O projeto de repotenciação previu a construção de uma nova tomada d’água.34 – Projeto µCH Novo Plano: (a) arranjo físico. A figura 2. a b c d e f Figura 2. Projeto µCH Jatoarana O projeto µCH Jatoarana foi desenvolvido para atender duas comunidades: a de Nova Olinda e a de Santa Luzia. Esse projeto contou com grande cooperação da comunidade e. no município de Belterra. a troca dos condutos forçados e do grupo gerador e um aumento substancial na potência gerada. na região central do Estado do Pará. (b) novo conduto forçado. a maior dificuldade encontrada foi a grande freqüência de chuva na região.

em parte. Š Modelo Prisma: a associação se torna produtor independente e assina um PPA e outro contrato de o&m com a concessionária local. Š Modelo autoprodução: No princípio segue o mesmo procedimento do modelo anterior. Investimento Inicial OSCIP/PIE Prestação de Contas (Termo de Parceria) Poder Público $ Energia (PPA) $ Serviços O&M e Assist. obter meios para alcançar a melhora na sua qualidade de vida. Os recursos obtidos com a venda da energia e com o serviço de o&m são utilizados para a operação e manutenção da unidade geradora. Esse modelo. A princípio os modelos de gestão consistem em: organizar a comunidade em uma associação. e pode ser visualizado na figura 2. sendo testado na comunidade de Aruã. com o restante. com a diferença que a associação seria registrada na aneel como um autoprodutor que venderia apenas parte da energia à concessionária.Modelos de gestão para unidades de geração em comunidades isoladas Os projetos apresentado no item anterior fizeram parte de um programa do Ministério de Minas e Energia de disseminação da tecnologia na região amazônica para desenvolver modelos de gestão comunitária participativa que dêem auto-sustentabilidade às unidades de geração implantadas em comunidades isoladas. como oficina moveleira. Fonte: Oliver (2005) Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 67 . ou outras atividades às quais a comunidade seja vocacionada. implantar a unidade geradora a ser registrada na aneel e repassada em comodato à associação. permite pagar à concessionária pela energia consumida e.36. estruturadas em produtor independente de energia – pie. observado na figura 2. Parte da energia entregue à concessionária é consumida em instalações produtivas. o suficiente para atender às habitações. infelizmente não pôde de ser implantado devido ao fato do impedimento à construção da µCH Canaã. por sua vez. A outra parte da energia seria consumida pelas instalações produtivas que gerariam empregos e renda à comunidade. A renda obtida com essas atividades gera mais receita que. Esse modelo está.36 – Modelo Prisma – gestão comunitária de unidades geradoras em comunidades isoladas. Comercial (Contrato Serviços) Energia (Contrato de Adesão) Concessionária Consumidores $ Figura 2. congelamento de polpas de frutas. aumentando o valor agregado aos produtos da comunidade.37. o governo ou outro agente responsável pelo desenvolvimento social.

Em se tratando de µCH e mCH. Porém. impõem soluções que ainda não se encontram em estágio adequado no Brasil. a região amazônica mostra-se bastante propícia. reunir e integrar os recursos diversos que podem ser aproveitados. preservados e potencializados. ou destiná-las apenas à regiões do entorno 68 Tecnologias de Energias Renováveis . na implantação de quatro projetos-pilotos. de rios caudalosos e com pequenas declividades em sua maioria. o mais importante. as condições locais. estruturada em autoprodutor de energia – ape Comentários finais Com os trabalhos desenvolvidos na Amazônia Legal. e devem-se criar estratégias que dêem suporte ao crescimento proporcionado pela chegada da energia elétrica que beneficiem os indivíduos.37 – Modelo de gestão comunitária participativo. observou-se que o fornecimento de energia elétrica por si só. A tecnologia envolvida nesse processo é totalmente dominada pela indústria nacional e. não é suficiente para se alcançar tal desenvolvimento. pela indústria local. gerando renda através do uso produtivo da energia. O fornecimento de um sistema de geração de energia elétrica em comunidades isoladas deve conter um plano de gestão participativo e sustentável. o que pode dificultar a implantação dessas µCH e mCH. sem uma fase preliminar de planejamento de estudos que possibilite identificar. onde três lograram sucesso. para auto-sustentabilidade de unidades geradoras em comunidades isoladas.Poder Público $ Investimento Inicial Energia excedente Planta CH $O&M Energia consumo próprio OSCIPE APE $I e im es t nv $ Receita PPA PP A de $ M Re s nto Concessionária O&M Rede $ O & $ Receita Atividade Produtiva Venda Distribuição $ Tarifa Consumidor $ Renda Trabalho Melhoria da qualidade de vida Figura 2.

e ao mesmo tempo. é necessário desejar as mudanças e colocá-las em prática. Meios existem. conseqüentemente. onde a topografia mostra-se mais adequada. bem como para as comunidades envolvidas. que foi solidária no desenvolvimento dos projetos e na elaboração do guia.da bacia amazônica. considerando sua inserção num contexto social. Pequenos Aproveitamentos Hidroelétricos 69 . Além disso. é de fundamental importância conceber o fornecimento da energia elétrica na totalidade de seu uso. ao Programa Luz Para Todos e ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – pnud por terem acreditado no trabalho do cerpch. A experiência adquirida foi e será muito importante para o desenvolvimento das atividades do centro. proporcionando os meios para o desenvolvimento dos projetos pilotos apresentados e dessa bibliografia. à região e ao País. Agradecemos aos parceiros envolvidos nos projetos. econômico e ambiental. prudente e equilibrada. É nosso dever apontar as possíveis soluções e os meios de alcançá-las. cuja participação foi fundamental para o sucesso dos mesmos. Agradeço à equipe do cerpch. Agradecimentos Agradecemos à Secretaria de Energia do Ministério de Minas e Energia. à população das comunidades isoladas compete definir o seu desejo de mudança e se organizar e trabalhar para isso. do livro e deste capítulo. de forma racional. como a Fundação Winrock Comunidade Alegria. que permita alavancar o desenvolvimento sustentável da comunidade e. dos quais são co-autores.

3 Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida Soluções Energéticas para a Amazônia Gonçalo Rendeiro (Coordenador) Manoel Fernandes Martins Nogueira (Editor) Augusto César de Mendonça Brasil Daniel Onofre de Almeida Cruz Danielle Regina da Silva Guerra Emanuel Negrão Macêdo Jorge de Araújo Ichihara Co-autores: André Augusto Azevedo Montenegro Duarte Antonio Geraldo de Paula Oliveira Hendrick Maxil Zárate Rocha Robson Evilácio de Jesus Santos Sergio Aruana Elarrat Canto Wilson Negrão Macêdo 70 Tecnologias de Energias Renováveis .

com importação de energia da Venezuela. Este parque será expandido com a instalação. existe. a aceleração do desequilíbrio e. Nos sistemas de Manaus. Š No Estado de Mato Grosso: 32. a partir de julho de 2001. com exceção de Belém. Cabe ressaltar que. de 14 novas pchs. as Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 71 . A mudança processada nessa legislação. Em Rio Branco. além dos 294 sistemas isolados autorizados. até o final de 2006. O sistema que atende Boa Vista e parte do interior do Estado de Roraima passou a ser suprido. Rio Branco e Boa Vista). no início de 2006. Tomados em conjunto. Bahia. que está integrada ao sistema interligado nacional. Até recentemente. um parque hidrelétrico composto por pequenas centrais hidrelétricas (pchs). o atendimento era puramente térmico. Os principais agentes que operam nos sistemas elétricos isolados do País são a Eletrobrás e Eletronorte com suas respectivas subsidiárias. Roraima e Mato Grosso. existem centenas de sistemas isolados em operação sem autorização. e outras tantas centenas de localidades sem atendimento. do ponto de vista da dimensão do consumo. Contudo. Porto Velho e Macapá. com a interligação ao sistema de Porto Velho em 230 kV. por meio da interligação ao sistema da hidrelétrica de Guri em 230 kV naquele país vizinho. a geração nos sistemas isolados possuía um certo arcabouço legal. Os sistemas isolados mais importantes. Porto Velho. revogou itens. a obsolescência do parque gerador. estes sistemas cobrem quase 50% do território nacional. A grande maioria dos sistemas do interior dos Estados da região Norte é suprida por unidades dieselelétricas de pequeno porte. com o fim das concessões. durante o processo de privatização. Maranhão e Mato Grosso do Sul: 4. mesmo quando pertencentes a concessionárias. A sua distribuição espacial era a seguinte: Š Na região Norte: 288. situação que foi alterada ao final de 2002. contribuindo para a desestabilização e insolvência dos agentes. são os que atendem as capitais da região Norte (Manaus. consomem aproximadamente 2% da energia elétrica utilizada no País e representam a mesma proporção do pib. ainda que insatisfatório. totalizando cerca de 42 MW de potência instalada em 22 usinas nos Estados de Rondônia. a geração de eletricidade provém de sistemas hidrotérmicos. 294 sistemas isolados em operação autorizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (aneel).Caracterização da Geração na Amazônia Havia. Š Nos Estados de Pernambuco. Macapá. o que conduziu à situação atual de completo vácuo legal. os governos dos Estados do Amapá e Roraima. Estes sistemas representam cerca de 80% da carga total dos sistemas isolados. também. adicionando mais 110 MW à potência desses sistemas.

5% da energia distribuída no Estado do Amazonas (a grande maioria na capital. Os governos dos Estados do Amapá e Roraima são controladores da Companhia de Eletricidade do Amapá (cea) e Companhia de Eletricidade de Roraima (cer). Ambos os processos consistem da reação dos componentes da biomassa com ar. A Eletrobrás é controladora da Eletronorte e das empresas concessionárias distribuidoras federalizadas que operam em sistemas isolados.concessionárias privadas celpa e cemat do Grupo Rede. O produtor independente Guascor supre diversas localidades no interior dos Estados de Rondônia. através das utes Rio Branco e Rio Acre. responsável por 89. respectivamente. Os principais produtores independentes de energia (pies) que suprem os sistemas isolados possuem as seguintes usinas: Š Š Š Š utes El Paso Amazonas. do Acre. e de Rondônia. Centrais Elétricas de Rondônia (Ceron) e Companhia de Eletricidade do Acre (Eletroacre). SoEnergy: 55 sistemas com 77 MW. El Paso Rio Negro e BK. A combustão ocorre com excesso de oxigênio enquanto que a gasificação ocorre com falta de oxigênio. A Ceam é suprida parcialmente pela Mesa e possui pequenas centrais termelétricas (pcts). bem como o poder calorífico dos combustíveis e a temperatura adiabática da reação. através da uhe Samuel e ute Rio Madeira. através da uhe Coaracy Nunes e ute Santana. Princípios para Uso de Biomassa como Combustível Dois são os processos de conversão da energia contida na biomassa que são abordadas neste livro: combustão e gasificação. Aparecida e Electron. e cemat: 34 sistemas com 87 MW efetivos. no Estado do Amazonas. Há diversas PCHs de produtores independentes no Estado de Rondônia. ute Barro Vermelho SoEnergy. A Eletronorte é controladora das subsidiárias Manaus Energia (Mesa). enquanto que o produtor independente Rovema. Conversão Energética da Biomassa É uma reação química de oxidação de materiais combustíveis. Este capítulo apresentará os conceitos básicos das reações de combustão e gasificação e ensinará a quantificar as massas de combustível e ar requeridos para esses processos. Os elementos químicos 72 Tecnologias de Energias Renováveis . geralmente o oxigênio do ar e um hidrocarboneto. A Ceron possui pchs e pcts. celpa: 38 sistemas com 75 MW efetivos. utes Termonorte I e II consórcio CS Participações/El Paso. no Estado de Rondônia. atende a localidades no interior de Rondônia. e alguns produtores independentes. no Estado do Acre. através de importação da empresa venezuelana Edelca e ute Floresta. que responde por 84% da energia distribuída no Estado de Roraima (essencialmente na capital. de Roraima. A Eletronorte é supridora dos sistemas isolados das capitais do Amapá. e a Boa Vista Energia (Bovesa). Os reagentes. Manaus) e proprietária da usina hidrelétrica (uhe) Balbina e usinas termelétricas (utes) Mauá. Excesso ou falta é com relação a uma quantidade de referência denominada quantidade de ar estequiométrica. Companhia Energética do Amazonas (Ceam). Boa Vista). colidem entre si causando a sua destruição. Acre e Pará. A cer é suprida parcialmente pela Bovesa.

resultantes dessa destruição se recombinam formando novas espécies químicas denominadas de produtos. Processos de combustão e gasificação na presença de oxigênio puro só se justificam para plantas de grandes potências devido ao custo de separar o oxigênio do ar do nitrogênio. a combustão é uma reação química exotérmica entre um combustível e um comburente. é preciso definir a razão ar-combustível. pois absorve o calor liberado pela reação para elevar sua temperatura. Todo processo de combustão somente ocorre na fase gasosa. para liberar calor. A desvantagem da presença do nitrogênio é que a altas temperaturas ele se dissocia e se associa com o radical oxigênio livre formando NO.76 moléculas de nitrogênio. massa de ar λ = ——————————— massa de combustível equação 3. A presença de nitrogênio reduz a temperatura da chama e conseqüentemente a temperatura dos gases resultantes da combustão. Se menos ar for adicionado à combustão que o requerido pela reação estequiométrica. a temperatura da chama pode ultrapassar os 2.76 átomos de N2). capaz de derreter as paredes da câmara de combustão. Reagentes pobres e ricos terão diferentes produtos como será visto na próxima seção. vem acompanhando 3. Nos outros casos utiliza-se o oxigênio do ar. CH + HO + O  CO kmol + kmol kmol + kmol  volume + volumes  volume + volumes equação 3. que é um inerte. é preciso que tenhamos dois átomos de oxigênio para formar CO2 e para cada dois átomos de hidrogênio é preciso fornecer um átomo de oxigênio para formar uma molécula de água. são necessárias quantidades exatas de átomos envolvidos.2 Essa é a razão ar-combustível estequiométrica. Sem a presença de nitrogênio. Nela o gás metano reage com o oxigênio puro (o oxigênio contido no ar vem acompanhado com nitrogênio.000°C. usualmente o oxigênio. a mistura será pobre (por enquanto se paga somente pelo combustível) e ocorrerá λ > λest. formando como produto um grupo de espécies diferente dos reagentes. NO reage com oxigênio do ar formando ozônio. Para cada átomo de O2 recolhido no ar.1 Nessa reação. A quantidade de oxidante numa reação estequiométrica depende do combustível e é obtida a partir do balanço de átomos dos reagentes e dos produtos. que reagem entre si formando os produtos CO2 e H2O liberando o calor de reação. Um processo de combustão de gases pode ser exemplificado pela reação abaixo. Diferentes combustíveis possuem diferentes razões ar-combustível. Resumindo. que é um poluente. Essa reação com quantidades de combustível e oxidante nas quantidades exatas é denominada de reação estequiométrica. que possui o inconveniente de para cada molécula de oxigênio trazer consigo 3. Para o caso de combustão com ar. Para cada átomo de carbono. Essa destruição seguida de recombinação numa região espacial específica libera calor e eventualmente emite luz. a mistura reagente será denominada rica e terá λ < λest. os reagentes são o metano e o oxigênio. Este texto adotará que se mais ar for adicionado do que o ar estequiométrico. Note que para essa reação acontecer. Processos de combustão normalmente usam ar. Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 73 .

busca-se converter o combustível em CO e H2 . Assim sendo. N2 e O2 . A quantidade de calor removido é denominada calor de reação. Nesta definição de Φ > 1. caracterizando que os reagentes são uma mistura rica. considere um recipiente a pressão constante cheio de metano e oxigênio com razão ar-metano igual à estequiométrica e temperatura 298 K. Calor de Reação e Poder Calorífico Calor de reação é definido como a quantidade de calor liberado durante a reação estequiométrica de combustão até que o produto alcance a mesma temperatura do reagente. Processos de combustão utilizam Φ de aproximadamente 0. Então os produtos de uma mistura pobre serão CO2 . o excesso de oxigênio não tem com quem reagir e passa pela chama como se fosse um inerte e aparece nos produtos. existe excesso de oxigênio. Alguns autores preferem utilizar a razão de equivalência definida como razão ar-combustível utilizada nos reagentes pela razão ar-combustível na condição estequiométrica. que estabelece. Razão de equivalência é definida como a razão combustível-ar dos reagentes pela razão combustível-ar em condição estequiométrica. Esses processos geralmente operam com 30% da quantidade de ar estequiométrico. No processo de gasificação. no caso de processo a pressão constante.3 Onde Ncomb e Nar são os números de moles do combustível e do ar na mistura que estão sendo empregados e (Ncomb/Nar)est é a razão combustível-ar estequiométrico. a composição dos produtos é diferente dos produtos de uma reação estequiométrica (CO2 . que a energia liberada é igual à variação de entalpia entre produto e reagentes. o produto da combustão no interior do recipiente entra em equilíbrio com o meio externo a 298 K. H2O. Para quantificar o calor de reação utiliza-se a primeira Lei da Termodinâmica. Iniciando a combustão (talvez com uma centelha). Exemplificando. a mistura é rica e se Φ < 1. Numa mistura rica.Hreagente equação 3. propiciando a formação de CO e H2 . 1700 K). calor é removido e a temperatura no seu interior baixa. Como o exterior do recipiente está a 298 K. N2 . e depois de certo tempo. H2O e N2). Supondo não existir dissociação. Essa definição é válida tanto na base molar quanto na base mássica. excesso de combustível. a temperatura sobe até alcançar o máximo possível (por exemplo.4 74 Tecnologias de Energias Renováveis . QR = Hproduto . existe falta de oxigênio. Supondo não existir dissociação. H2O. esse projeto é feito em falta de oxigênio. e é indesejável produzir CO2 e H2O. Este texto adotará a primeira definição. Então os produtos de uma mistura rica serão CO2 . CO e H2 . Numa mistura pobre. falta oxigênio para reagir com todo o carbono e hidrogênio disponíveis.Reagentes com misturas ricas e pobres – Razão de Equivalência Quando os reagentes possuem misturas ricas ou pobres. a mistura é pobre. Então razão de equivalência é: Ncomb mcomb —–—– —–—– Nar mar Φ = —–——–– = ————— Ncomb mcomb —–—– —–—– Nar est mar est equação 3.95 enquanto processos de gasificação utilizam Φ em torno de 3.

5 n — Onde Ni é o número de moles da espécie “i” contida na mistura e. . tendo como produtos CO2 + H2O + Calor. Depois. Ponto de fulgor é a menor temperatura na qual um líquido libera vapor ou gás em quantidade suficiente para formar com o ar atmosférico uma mistura inflamável. CH4 . Poder calorífico é definido como o calor de reação. O número de moles de cada espécie é obtido da reação estequiométrica e a entalpia molar é a soma da entalpia de formação a temperatura de 298 K e da entalpia sensível que a mistura possui a certa temperatura.6 pci é calculado com uma quantidade menor de calor extraído do que a extraída para quantificar o pcs. um líquido inflamável normalmente só entrará em combustão acima de uma temperatura. conforme descrito na equação 3. de maneira que a água no produto condensa e fica na fase líquida. hi é a entalpia molar dessa H = ∑ Ni espécie na temperatura da mistura (kJ/mol). Gasificação – Após. que reage com o oxigênio numa reação exotérmica. do seu ponto de fulgor e na presença de uma fonte quente para iniciar a reação. não o líquido. A combustão de sólidos consiste em três fases relativamente distintas: Secagem – Quando é retirada a umidade do combustível através da evaporação da água incorporada ao combustível sólido.hlv mcomb equação 3. pcs é calculado utilizando a quantidade de calor extraído da reação química. os gases inflamáveis do sólido começam a ser liberados através de um processo chamado Pirólise. sendo a energia produzida na forma de calor e luz.QR PCS = ———– [kJ kg de combustível] PMcomb equação 3. hi equação 3. onde a mistura desses voláteis com oxigênio provoca a ignição. Então nesse caso.7 Combustão dos Líquidos e Sólidos A combustão de um combustível líquido em uma região acontece realmente na forma gasosa. Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 75 . necessariamente a água nos produtos estará na fase líquida. de maneira que a água nos produtos permaneça na fase vapor.——— . Abaixo dessa temperatura. Portanto. Iniciada a reação ela se auto-mantém.7: mH O PCI = PCS . H2 . Isto quer dizer que quem reage liberando calor é o gás. o líquido não evaporará com rapidez suficiente para sustentar o fogo caso a fonte de ignição seja removida. O pci é calculado subtraindo da energia liberada na reação pela quantidade de energia liberada durante a condensação. esse será o pcs. Essas entalpias podem ser quantificadas pela expressão n — H = ∑ Ni . Hproduto e Hreagente são respectivamente as entalpias do produto e do reagente.Onde QR é o calor de reação. com o sinal invertido e na base mássica. Se a temperatura do reagente e do produto for 298 K a 1 atm. o material carbonizado gaseifica formando CO. ocorre todo o processo de volatilização do sólido. O fogo normalmente é visível nesta fase.

Esse ensaio fornece os percentuais mássicos dos elementos “C”. Assim sendo. menor será o pci. pcs: poder calorífico superior (kJ/ kg de biomassa seca). na qual é medido o poder calorífico superior em base seca da biomassa. hlv( °C) . “H”.Caracterização da Biomassa para Fins Energéticos Para poder avaliar a capacidade energética de uma biomassa é preciso fazer a caracterização energética da mesma.8 Onde mc é a fração mássica de carbono na biomassa combustível seca. “O”. PCS .9). O teor de hidrogênio da biomassa seca é obtido em laboratório através de um ensaio denominado análise elementar. O poder calorífico inferior (pci) pode ser obtido através da equação (3. com a determinação do seu poder calorífico superior e inferior. O. pode ser utilizada uma bomba calorimétrica digital. carbono fixo e cinzas contidas na biomassa.9): PCIu = ( ..a . Essa caracterização é feita com três grupos de procedimentos: determinação do poder calorífico. Em 2007. implicando que menor energia poderá ser extraída da biomassa.08 e 0. h . S e cinzas contidas na biomassa. Biomassas estocadas em pátios abertos possuem o seu teor de umidade entre 0. a: teor de umidade da biomassa (massa base úmida). “N”. A análise elementar quantifica os percentuais.a) .7 não ocorrerá combustão. PCS = . Para este ensaio. A equação (3. conhecendo a fração mássica dos componentes da biomassa. não havia correlações específicas para espécies amazônicas. Se o teor de umidade da biomassa for acima de 0.4 e 0. Para o pci ser calculado através da equação (3.8) é um exemplo desse tipo de correlação. Um resultado típico da análise elementar pode ser visto na tabela 3. igual a 2442 kJ/kg. Biomassas que tenham sido secas têm o seu teor de umidade entre 0. é possível calcular o pcs. O poder calorífico superior de uma biomassa também pode ser determinado com a ajuda dos resultados da análise elementar. 76 Tecnologias de Energias Renováveis .12.55. a análise elementar e a análise imediata.1. hlv(25°C): entalpia de vaporização da água a 25°C (kJ/kg). hlv( °C) equação 3. A análise imediata determina os teores de umidade. h: teor de hidrogênio na biomassa (massa base seca).a) . é preciso conhecer os teores de umidade e de hidrogênio da biomassa que será utilizada como combustível. em massa. Quanto maior o teor de umidade.9 Onde pcs: poder calorífico inferior (kJ/kg de biomassa úmida). mc . ( . N. equação 3. voláteis. e o pcs é obtido em kJ/ kg de biomassa seca. “S” e “cinzas” da biomassa. É possível fazer o relacionamento do pcs de uma biomassa com a quantidade de ligações químicas envolvendo seus elementos. A determinação do poder calorífico quantifica a energia contida na biomassa. Determinação do Poder Calorífico Superior (pcs) e Poder Calorífico Inferior (pci) e Análise Elementar Os ensaios de determinação do poder calorífico superior são realizados obedecendo à norma nbr 8633 (Determinação do Poder Calorífico). H. dos elementos C.

sendo que as amostras devem ser preparadas conforme a nbr 6923 (Amostragem e Preparação da Amostra). O teor de voláteis é definido como a fração em massa da biomassa que volatiliza durante o aquecimento de uma amostra padronizada e previamente seca.5 e de O/C de aproximadamente 0.8 S 0. são baseados na nbr 8112 (Análise Imediata). Determinação do Teor de Carbono Fixo de Biomassas Os procedimentos para cálculo do teor de carbono fixo em base seca.1 1. por 7 (sete) minutos (nbr 8112 – Análise Imediata). sob rígido controle de massa. são hidrocarbonetos que são vaporizados da biomassa e facilmente entram em combustão. Sua temperatura é então elevada para 710°C e.2 abaixo mostra alguns resultados de caracterização de espécies de biomassa existentes na Amazônia. até temperaturas de aproximadamente 850°C num forno mufla. Teor de Voláteis. Umidade.2 6 N 0.2 População H/C aproximadamente 1. utiliza-se a norma nbr 8112 (Análise Imediata).7 46 Cinzas 21 1. Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 77 .6 Tabela 3.50 32. em atmosfera inerte. 500g de amostra de biomassa com granulometria inferior a 19 mm são colocados numa estufa previamente aquecida a 105°C até que a massa da amostra permaneça constante. os voláteis.1 – Resultado da análise elementar de algumas espécies vegetais em percentual mássico Análise Imediata. Determinação do Teor de Cinzas de Biomassas Os procedimentos para determinação do teor de cinzas de amostras de biomassa são baseados na nbr 8112 (Análise Imediata). temperatura.06 - O 35. nessa condição.40 7.Espécie Casca de arroz Pinheiro Caroço de açaí C 38. Carbono Fixo. tempo e atmosfera. fica por uma hora. Cinza. Determinação do Teor de Voláteis de Biomassas Expressa a quantidade mássica dos componentes da biomassa que primeiramente entram em combustão. Um grama de biomassa já sem umidade e voláteis é colocado num cadinho e levado ao interior do forno. Caracterização Energética de Algumas Espécies Amazônicas A tabela 3. As cinzas são resultantes da combustão dos componentes orgânicos e oxidação dos inorgânicos em um forno mufla. Esses componentes.24 59 46 H 4. de amostras de biomassa. Descrição dos Métodos Determinação do Teor de Umidade de Biomassas Para a determinação do teor de umidade.80 0.

3 energia gerada por ele. Através deste processo.1 76.72 Louro-Faia uma fonte quente para a biomassa úmida. subprodutos do beneficiamento industrial. pode-se utilizar: da 86.3 230 4564 38 19.1 250 4977 16 19.91 Copaíba dependendo do custo final do combustível e13.9 71.9 1. Dentre os tratamentos mecânicos usuais.8 220 4394 27 19. 40 41 Talo de uncária Tanimbuca Tatajuba 19.14 22.0 250 4729 34 18.1 1.1 na combustão direta como na gasificação.8 200 3974 43 19.1 15. 17.2 4.65 Palmito Uma parte do calor que chega à biomassa é utilizada para vaporizar a água.84 20.0 81.55 evaporação e é 76.51 19.8 81.49 Pracuuba tamente na fase endotérmica da pirólise.6 84.9 8 17. Este processo.76 17.9 2. Deste processo.7 200 25 19. 28 19.9 0.70 Mandioqueira do ar à biomassa sob o efeito da diferença de temperatura existente0. baixas taxas de aquecimento e temperaturas Roxinho da biomassa em um produto formado em 16.9 0.41 Jatobá mento 17.8 2.9 0.4 93.0 1.7 1.2 0.1 90.2 200 3310 O processo de secagem é realizado16.1 249 5032 Secagem 19 18 Falso Pau-Brasil Fibra de coco 21.22 Casca de amêndoa 12 Casca de palmito 16.16 19.9 9 19.69 Garapa uma biomassa é diminuída pela remoção dessa 20.1 82.8 250 4962 determina uma transferência de matéria para o ar.9 encontra disponível.44 18.31 22. são convertidos em produtos de maior valor comercial.0 1.4 24.67 84. frações de fenol e outros300 compostos de baixo 79.8 14.7 formar blocos de forma para 16. denominado “carvão ecológico”.0 15. 9.2 operação na qual a água contida em por uma 20 Fibra de dendê 18.11 Maçaranduba Uma vez que a biomassa é colocada em contato com ar quente.6 4.5 1.9 0.4 70.21 algum tratamento Cedro mecânico para sua eficaz utilização.9 10.4 200 3883 22 de calor para evaporar a umidade da biomassa. resulta um material intermediário entre a biomassa e o carvão.7 89.6 81.3 entre eles.35 Cacho seco de amêndoa Pré-tratamento da biomassa 20.0 15.8 237 210 280 4576 4667 5568 Torrefação de Biomassa A torrefação pode ser definida como um processo de pré-carbonização.1 270 5438 17 Cumaru 20. O objetivo fundamental da torrefação é concentrar a 4615 com altos rendimentosuncária energia 19. No nível de comparação.91 Carbono Fixo [%] 20. 36 19. 14. ufpa. que está em torno de 3.2 373 7503 24 20. os finos de materiais diversos.2 Teor de Voláteis [%] 78.7 250 5049 39 20.7 76.0 0.34 Buchas trituradas de dendê Tabela 3.01 18.20 Sucupira moderadas.3 10 Caroço de açaí 19.4 0. Esta78.1 79.14 19. Nestas condições a hemi-celulose é 17.6 0. de fornecimento de calor de 19.4 82. observa-se que o briquete tem poder calorífico superior ao da lenha.5 70.4 82.4 222 37 20.2 230 4536 23 19.92 Quaruba degradada.2 80. Simultaneamente.55 Quenga de côco 19.1 0.ID Nome Comercial PCS [MJ/kg] 20. o ácido19.6 0.79 Resíduo de energéticos. permitindo reter os voláteis de maior poder calorífico no próprio produto.6 80.9 4.84 Marupá a diferença de pressão parcial de vapor d’água existente entre o ar e a superfície da biomassa 5.2 6.53 22.3 17.2 – Caracterização energética de algumas espécies amazônicas. Neste trabalho será dada maior ênfase aos briquetes de carvão vegetal.6 79.70 19.8 78.7 220 282 4842 5264 19.98 19.6 1.4 77.87 definidas e de maior tamanho.9 230 4563 26 19.6 74.3 85. 230 30 31 32 Pau-marfim Pau-preto Pequiá 19.0 6165 35 20. Durante a secagem é necessário o forneci78.7 0. entre 250 e 300°C.0 83.10 Cascas de nozes maioria das vezes não pode ser usada na forma em que75.9 280 5737 33 20.6 76.59 19.4 última se faz na forma de vapor de água. o processo é denominado de briquetagem.1 1.3água.6 5.85 curto tempo.8 1. é que promoverá a evaporação da água do combustível.6 0.3 acético.5 79. necessitando de se 15 20.7 260 5485 14 21.6 prensadas 0.28 A biomassa a ser utilizadado Pará combustível 27.6 230 4491 3918 4592 Briquetes 42 19.0 14.9 70.6 0. 2004 16. o qual se desenvolve jus18.7 0.000 kcal/kg e densidade três 78 Tecnologias de Energias Renováveis .2 Massa Especifica a Granel [kg/m³] 250 290 280 265 250 267 259 298 200 240 220 240 Densidade Energética [MJ/m³] 5175 5732 4904 5258 5109 5068 5158 5168 3871 4598 4889 3883 1 2 3 4 5 6 7 Acapú Andiroba Angelim Angelim Pedra Angelim vermelho Bambu Breu 15.1 3830 29 16.5 3.2 72.9 9.97 Melancieiro 19.0 0. ebma.0 79.7 11 22.6 2.2 200 3737 21 18.3 20. na tanto 22.3 0.9 240 4867 13 Cascas de castanha como 20.6 Teor de Cinzas [%] 0.4 0.3 0.1 8.7 78. ocorre uma transferência 3940 do calor 16.18 18.3 17.7 82.1 17.88 15.2 20.85 Mogno 17.8 82.1 313 6257 poder calorífico.99 Resíduo de favadanta 21.6 80.22 19.7 1.0 200 240 Quando pequenasTauari partículas de materiais sólidos são82.8 84. sendo removida a umidade.

por conseguinte mais elevado seu preço. podendo usar água ou gases como fluidos de trabalho.1 – Esquema de um ciclo a vapor forma esquemática o ciclo a vapor. superaquecedor. os péletes são considerados uma energia renovável. Trituração A trituração é um pré-requisito para vários processos de reaproveitamento de produtos. A energia necessária para o processamento de uma trituração é proporcional à nova superfície específica obtida.vezes maior que o carvão in natura. a partir das limpezas das florestas e dos desperdícios das indústrias de madeiras. Processos de Conversão Energética da Biomassa Ciclos a Vapor Os ciclos térmicos de potência são utilizados para converter energia térmica em trabalho. secos.1 apresenta de Figura 3. portanto. Quanto maior for a pressão e a temperatura do vapor. quando se desejam dimensões reduzidas. Tal como a lenha. Este processo torna-se necessário quando se visa à redução de tamanho a dimensões abaixo de 5–20 mm. Aumentando a pressão e a temperatura do vapor. Péletes Os péletes são fontes de energia renováveis e pertencentes à classe da biomassa. Os principais equipamentos que compõem um ciclo a vapor são: gerador de vapor (caldeira). triturados e moídos. Quando utilizando água. impacto por compressão. O pélete é um composto 100% natural. há aumento considerável de tempo e da potência gastos. Os péletes podem ser produzidos de várias formas. proporcionando melhor alimentação na fornalha com aumento significativo da área do combustível. desgastes nas arestas (“nibbling”). turbina ou máquina a vapor. O rendimento destes ciclos depende diretamente da condição do vapor que é gerado na caldeira. mais robusto é o equipamento e. o que influi nos custos. estes são denominados de ciclos a vapor ou ciclo Rankine. pré-aquecedores de água e/ou ar e bombas de alimentação de água da caldeira. impacto. mantendo o mesmo poder calorífico. abrasão. carpintarias. Esses resíduos devem ser recolhidos. O processo de trituração pode ser feito de diversas maneiras: compressão. Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 79 . serrações. sendo que a forma e distribuição do produto variam com o tipo de biomassa e o tipo de equipamento utilizado. com elevado poder calórico devido à reduzida umidade. raspagem (“shredding”). condensador. Esse pó de madeira ou serragem é depois comprimido nas chamadas peletizadoras (máquinas para fazer péletes) obtendo assim a forma final. A figura 3. mais eficiente é o ciclo devido à elevação da diferença entálpica do vapor entre a entrada e a saída da turbina ou máquina a vapor. dentre os quais se destaca a utilização da biomassa para fins energéticos.

O ciclo é fechado colocando um condensador após a turbina. seja aberto ou fechado. que eleva sua temperatura em uma dezena de graus mas sem mudar de fase. O restante do ciclo é o mesmo. Recebendo o calor da combustão. pode ser utilizado com motores alternativos. Diferentemente das turbinas a vapor. Esse vapor é injetado contra as pás de uma turbina de maneira similar à que o ar incide nas pás de um catavento. na mesma unidade de tempo. Centrais a vapor com turbinas possuem seu rendimento entre 20% e 30%. deslocando o êmbolo para o ponto morto inferior num processo de expansão que faz girar o eixo ligado ao gerador. A transformação de energia térmica em mecânica na turbina reduz a energia do vapor.Observando a figura 3. está na sua temperatura e pressão mais altas. reduzindo sua temperatura e pressão.10). Na saída do superaquecedor. tornando-se vapor. na fase líquida. estes equipamentos não admitem pressões de entrada superiores a 18 atm e estão disponíveis no mercado brasileiro para potências não superiores a 250 kW. fechando o ciclo. O calor da água de resfriamento é lançado na atmosfera seja por uma torre de resfriamento ou lançando a água quente em reservatórios de água como rios e lagos. escoa por uma serpentina imersa nos gases residuais. da câmara de combustão. mas à alta temperatura (aproximadamente 60°C). Essa definição está expressa na equação (3. Elas são fabricadas no Brasil desde 5 kW até 60 MW. mas esse ciclo. que por sua vez está acoplada a um gerador elétrico. que está revestindo as paredes da câmara de combustão.1. a água do ciclo de vapor. Esse condensador recebe o vapor de água que sai da turbina. PCIbio equação 3. ao entrar na turbina.10 ηctv: Eficiência da central térmica a vapor O rendimento total esperado de uma planta a vapor com um motor a vapor situa-se numa faixa de 13% a 28%. Welet ηctv = ————— mbio . fazendo girar o eixo da turbina. denominados de máquinas a vapor. os gases residuais são enviados para a chaminé e o vapor para a turbina.1 apresenta um ciclo a vapor com turbina. O calor liberado na combustão é transferido para a água. passa por uma bomba centrífuga onde sua pressão é elevada para a pressão de trabalho da caldeira. figura 3. A figura 3. na máquina a vapor o vapor é injetado dentro de um cilindro com o êmbolo no seu ponto morto superior. O condensador transfere o calor do vapor para água do sistema de resfriamento. a água passa da fase líquida para a gasosa. retira seu calor condensando-o e tornando-o líquido. Após sair do condensador. Consumo de Biomassa de uma Planta a Vapor O consumo específico de vapor de máquinas a vapor na sua condição nominal (máquina trabalha na sua condição de maior eficiência) varia entre 15 a 20 kg/h de vapor para cada 1 kW de eletricidade produzido no gerador. A definição da eficiência energética de uma central térmica a vapor é a razão entre a energia elétrica produzida no gerador pela energia da biomassa que alimenta a caldeira. o funcionamento do ciclo é descrito a seguir. Por razões construtivas.1. Estas turbinas são projetadas para admitir pressões do vapor de entrada na faixa desde 8 80 Tecnologias de Energias Renováveis . O vapor de água é coletado na saída superior da caldeira. O consumo específico de vapor de turbinas a vapor está na faixa de 8 a 20 kg/h de vapor para cada 1 kW de potência fornecida pelo gerador. Esse equipamento denomina-se superaquecedor. A biomassa é queimada na câmara de combustão da caldeira. O vapor. e a alta temperatura.

terá um consumo específico de 2 a 5 kg/h de biomassa para 1 kW produzido. o qual é a variação da entalpia do vapor entre a entrada e a saída da turbina. Hi: Salto entálpico do vapor na turbina (kJ/kg). que depende do projeto do gasificador. mvapor CEvapor = —–––– = —–––––––—–– Welet Hi . mvapor : Consumo de vapor (kg/s).até 60 atm e pressões do vapor na saída desde 0. operando a 21 atm e consumindo biomassa com 50% de umidade. para um consumo médio de 1 kg/h de biomassa. Como estes combustíveis diferem muito em suas propriedades químicas. o que o torna preferencial para o uso com motores de combustão interna. O consumo específico de vapor de uma turbina pode ser calculado usando a equação (3.2 – Gasificador Downdraft Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 81 .11).2). terão diferentes exigências do método de gasificação. Por isso é necessário conhecer as propriedades da biomassa disponível e em muitos casos processá-la e adaptá-la às exigências do gasificador. ver figura 3. embora experiências demonstrem que ela pode ser útil e econômica em várias aplicações. Características da Biomassa para Uso num Gasificador de Extração por Baixo (Downdraft) Gasificadores exigem que a sua biomassa de alimentação tenha uma especificação própria. como o de extração por cima (ou updraft). ηturb .11 CEvapor: Consumo específico de vapor. uma central a vapor. Finalmente. ηger equação 3. em kg/kWh. Escolhido por sua capacidade de produzir gás com menos alcatrão que outros modelos de gasificadores de leito fixo. irá produzir 4 kg/h de vapor gerado. Figura 3. Central com Gasificação Aqui será tratado de gasificadores de leito fixo tipo extração por baixo (ou Downdraft. Welet: Potência elétrica disponível nos bornes do gerador (kW). físicas e morfológicas. ηger: Eficiência do gerador (leva em consideração as perdas elétricas e mecânicas). ηturb: Eficiência mecânica da turbina. Uma caldeira operando a 21 atm e sendo alimentada com biomassa com 50% de umidade. É preciso lembrar que a tecnologia de gasificadores ainda está em desenvolvimento e possui muitas limitações. As caldeiras disponíveis no mercado brasileiro operam com rendimento na faixa de 85%.1 atm.

podem ser responsáveis pelo entupimento de válvulas. Este potencial encontra-se distribuído nos municípios do Estado nas diversas empresas madeireiras. É necessário remover o alcatrão. Considerando a demanda máxima dos municípios e a disposição geográfica dos potenciais geradores. esta geração poderá ter uma penetração considerável em algumas regiões do Estado.3 – Relação esquemática de temperatura do gás para remoção de contaminante Especificação de uma Planta de Potência Localização e Quantificação da Biomassa No Estado do Pará o setor madeireiro gera uma quantidade significativa de resíduos em função do baixo rendimento dos processos de desdobro. exigindo assim um sistema de limpeza após a saída dos gases do gasificador. beneficiamento e laminação da madeira processada. estes contaminantes são altamente indesejáveis ao final do processo de gasificação. pois os mesmos formarão um único tipo de material que poderá entupir válvulas e tubulações. São produzidos mais de seis milhões de metros cúbicos de resíduo por ano. Deste volume. 82 Tecnologias de Energias Renováveis .61 milhões de metros cúbicos têm potencial de aproveitamento para geração de energia. que geralmente estão localizadas próximas aos núcleos urbanos. Devido a isto. misturadas ao alcatrão. por último. mas é necessário tomar precauções com a remoção desses resíduos. O segundo passo é determinar a seqüência de remoção dos contaminantes para a instalação seqüencial dos separadores de acordo com as necessidades de utilização dos gases. Uma relação entre temperatura e cada operação de limpeza pode ser observada na figura 3. Considerando a implantação de usinas a vapor. Se os particulados são removidos primeiramente a uma temperatura superior ao ponto de condensação do alcatrão (~300°C). Um sistema de gasificação para ser utilizado com motores de combustão interna deve emitir um gás com no máximo 10 mg/Nm³ de alcatrão e particulado. contribuindo para um significativo deslocamento do diesel que hoje predomina na geração elétrica destas localidades isoladas. tubulações e travamento de partes móveis. Os primeiros passos para a produção de um gás limpo é a escolha do tipo de gasificador que minimize a quantidade de alcatrão e particulados a serem removidos. O alcatrão seria retirado em segundo lugar (sendo condensável a aproximadamente 150°C) e.3. em torno de 3. a água e os particulados na ordem correta e na temperatura ideal a tornar o processo eficiente. os outros contaminantes poderão ser extraídos separadamente de maneira mais eficiente. seria retirada a água a uma temperatura média de 30–60°C. os resíduos produzidos no Estado do Pará com possibilidade de aproveitamento representam um potencial em torno de 160 MW médio. o carvão residual junto à água e ao alcatrão serão removidos. Figura 3.Sistema de Limpeza Partículas sólidas podem ser abrasivas e. Se os gases são imediatamente resfriados. principalmente nas regiões isoladas do setor elétrico.

Dimensionamento da Carga a Ser Atendida pela Planta Dentre as informações mais relevantes para se avaliar a magnitude do sistema que atenderá cada localidade em particular. Š Localização e tipo de clima existente.Figura 3.4 – Localização das madeireiras e suas respectivas disponibilidades dos potenciais anuais de geração de energia A quantificação da disponibilidade de resíduos na biomassa só pode ser possível se estiverem disponíveis os seus parâmetros energéticos. nitrogênio e densidade a granel. Este valor é conhecido como “densidade energética”. oxigênio. dos teores de voláteis. Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 83 . Quanto menores esses parâmetros. A boa qualidade de uma biomassa será auferida pela comparação do resultado do produto do pci vezes sua massa específica aparente. População residente. dos teores de carbono. mais interessantes sua utilização no processo de combustão direta. Š Quais os tipos de consumidores existentes (comercial. agricultura). pode-se mencionar: Š Š Š Š O número de edificações. População flutuante (em caso de regiões com turismo sazonal. cinzas e carbono fixo. Quais as atividades socioeconômicas existentes na região (extrativismo. hidrogênio. pesca. por exemplo). industrial ou residencial). A umidade e a forma geométrica são também parâmetros influentes na qualidade. Essa caracterização é feita com a medição do poder calorífico superior.

natureza. sazonalidade e custo do combustível a ser utilizado. Inicialmente deve-se procurar nos manuais dos fabricantes dos equipamentos tais informações. A não utilização do ciclo fechado implica em perdas significativas de água. devemos.5. C: Carga diária de energia que o equipamento consome em kWh. Em seguida. 84 Tecnologias de Energias Renováveis . aumenta os custos com os produtos químicos utilizados no tratamento da água de alimentação.12 P: Potência do equipamento em Watts. dividido por 1000. Com relação à escolha da máquina térmica. conhecer a potência de cada equipamento. Curva de Carga A curva de carga representa a demanda em quilowatt a cada hora. devemos fazer os cálculos da seguinte forma: Para um equipamento: potência do equipamento (W) × número de horas utilizadas durante o dia. obtida para o período de 24 horas. por conseguinte. Figura 3. pressões e qualidade do vapor de entrada e saída. A curva de carga para a comunidade isolada em questão é apresentada na figura 3. P×t Cunitária = —–––– [kWh] equação 3.Procedimento de Cálculo de Carga Para calcular a carga de um equipamento ou de um conjunto de equipamentos numa residência. esta recai no conhecimento prévio da curva de consumo específico do vapor por cada kWh gerado. temperatura do vapor na entrada. antes de tudo. t: Período de tempo que o equipamento é utilizado durante o dia (hora). no critério de escolha da máquina térmica (turbina ou máquina alternativa) e caldeira e no suprimento e nível de potência a ser disponibilizada pela planta.5 – Curva de carga da comunidade tomada como exemplo. segundo o cenário de consumo de energia elétrica Pré-dimensionamento de uma central a vapor A concepção de projeto desta natureza recai inicialmente no conhecimento prévio do tipo.

enquanto os métodos qualitativos avaliam por hierarquizações. Essas listas não são muito elaboradas e não identificam impactos secundários. Podem conter indicações numéricas com valores ou hierarquias. indicando os níveis de impacto ambiental. mas não especificam a importância do impacto. podem ir de um mínimo de 0 a um máximo de 3. mas de grande potencial para avaliação da interação entre os impactos. Listas de controle escalar é uma evolução das listas comparativas adotando valores comparativos entre os impactos ambientais. A seguir ao enquadramento legal são abordadas algumas definições gerais e conceituais. são apresentadas algumas metodologias de avaliação dos impactos ambientais. há uma rodada para cada área de conhecimento em que cada especialista emite sua opinião sobre a área em questão. Os valores. “muito”.Impactos Ambientais e Formas de Mitigação Este capítulo faz uma abordagem sobre como avaliar os impactos ambientais. tais como “nulo”. Matrizes são métodos simples. mas pode-se aplicar questionário à população afetada para refinamento dos pesos. através de listas de impactos e possíveis ações mitigadoras. Há alguns tipos de listas de acordo com a complexidade desejada para avaliação dos impactos ambientais: Listas simples relacionam os impactos diretos. Em seguida. Os métodos podem ser quantitativos ou qualitativos. As ações são apresentadas na horizontal (linhas da Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 85 . é feita uma breve explicação das emissões evitadas de gases de efeito estufa da utilização de biomassa como fonte renovável de energia. o capítulo enquadra as exigências legais para avaliação dos impactos ambientais de usinas termelétricas. as ações estão associadas aos efeitos ambientais. e as respectivas ações mitigadoras. Listas descritivas são mais elaboradas que as listas simples. Método Espontâneo (ad-hoc) consiste na reunião de especialistas de áreas de conhecimento diferentes. pois identificam as fontes geradoras dos impactos. Listas comparativas estimam as magnitudes dos impactos adotando valores comparativos entre as alternativas ao empreendimento. A comparação pode indicar a melhor alternativa. Nos métodos quantitativos. permitindo a maior ou menor importância de um fator em relação a outros. por exemplo. Após as definições e conceitos. Listas de controle ponderáveis são aquelas em que são atribuídos pesos aos impactos ambientais. atribuídos por especialistas. As matrizes podem ser qualitativas ou quantitativas. “pouco”. a exemplo das listas citadas acima. permitindo a comparação entre os impactos. contendo as respectivas magnitudes e importâncias (notas e pesos). Listas de controle (Check Lists) são listas e tabelas que correlacionam os ambientes e os respectivos impactos. Na seqüência. os impactos ambientais são avaliados numericamente com valores e unidades. Métodos e Modelos para Avaliação dos Impactos Ambientais Há vários métodos para avaliação de impactos ambientais. “significativo”. Os impactos ambientais e as medidas mitigadoras são identificados pelo especialista de cada área através de opinião emitida para todos os outros especialistas. Nas matrizes. Os valores e pesos são atribuídos por especialistas. de usinas termelétricas a biomassa em substituição às termelétricas a diesel. Ao final do capítulo propõe-se um roteiro de avaliação de impactos ambientais de uma usina termelétrica a biomassa. ou pode fornecer uma boa base para a tomada de decisão. Inicialmente.

000 kg de biomassa úmida utilizada para geração de energia elétrica correspondem a 1. já que o carbono emitido foi fixado em uma planta durante o processo de fotossíntese e. os mais conhecidos são o CO2 . a substituição de combustíveis fósseis por biomassa em usinas termelétricas resulta em um impacto ambiental global positivo. execução e montagem das obras civis e dos equipamentos). CH4 e NOx. a avaliação dos impactos ambientais e as propostas de ações mitigadoras devem ser apresentadas de acordo com uma metodologia ou roteiro. portanto. um kWh gerado por uma usina termelétrica a biomassa deixa de contabilizar cerca de 1. Os estudos de viabilidade 86 Tecnologias de Energias Renováveis . Impacto no Ciclo de Carbono – Emissões Evitadas Sem dúvida. Š Impactos ambientais da operação da usina. as emissões de gases provenientes de biomassa não são contabilizadas como contribuição aos gases de efeito estufa. ao utilizar biomassa em termelétricas. conhecido como emissões evitadas de carbono. poderá voltar a ser fixado novamente. e assim simular vários cenários com as opções e alternativas dos empreendimentos. Ou seja. Portanto. Dentre os principais gases de efeito estufa. Sugerimos neste texto.02 kg de CO2 . financeiras. para efeito do Protocolo de Quioto. O modelo de matriz mais conhecido e utilizado em avaliação de impactos ambientais se chama Matriz de Leopold. tanto durante a construção quanto na operação de uma usina termelétrica a biomassa. Dentre os modelos de simulação mais utilizados.000 kg de emissões evitadas de CO2 . Modelo de propagação de ruídos e Modelos de qualidade da água. sobretudo. sendo assim. listas simples dos impactos ambientais e suas possíveis medidas mitigadoras. que integram e interagem aspectos específicos e técnicos de engenharia com implicações e repercussões econômicas. em especial aos do tipo em estudo. o maior impacto global de uma usina termelétrica a biomassa é a substituição de um combustível fóssil (diesel) por um combustível renovável (biomassa). Comparativamente às emissões de uma termelétrica a diesel. Avaliação dos Impactos de uma Usina Termoelétrica a Biomassa Para análise das medidas mitigadoras dos impactos ambientais de uma usina termelétrica a biomassa (com ciclo a vapor ou gasificação) é necessário identificar os impactos em duas fases distintas: Š Impactos ambientais da construção da usina. Isso significa que 3.matriz) e os efeitos na vertical (colunas da matriz). Tal substituição afeta. Como descrito nos itens anteriores. Os modelos são utilizados para prever os impactos ambientais. Viabilidade Econômica A conclusão quanto à viabilidade ou não de um empreendimento. não pode ser limitada apenas no seu contexto de exeqüibilidade técnica na implantação (dimensionamento da planta. sociais e ambientais intensas. podemos citar: Modelo de qualidade do ar (dispersão atmosférica). as emissões dos gases de efeito estufa. geopolíticas. as emissões dos gases de efeito estufa são mínimas (levando em conta todo o ciclo de vida da biomassa). Segundo o Protocolo de Quioto.

ou mesmo em uma visão holística. como o excel da Microsoft. Métodos Determinísticos Utilizam modelos (os fluxos de caixa) e baseiam-se na aplicação do princípio da causalidade de maneira rígida e até extremada. no saldo líquido (receitas ou entradas menos custos ou saídas) de cada período. mas de maneira conjunta e integrada. os quais podem ser adotados de maneira isolada (não recomendável por ser muito restritiva) ou de forma conjunta ou integrada. em seu escopo conceitual. em verdade. Embora não seja consensual. vários métodos para se proceder à análise e definir valores e/ou indicadores. receitas ou benefícios) quantos negativos (saídas. Existem dois tipos: simples e descontado. a qual contemplaria. técnico. aplicando-se uma taxa de desconto. nos aspectos ambiental. que possuem mecanismos ou macros que efetuam o cálculo da tir. Existem alguns aplicativos computacionais. sejam produzidos sempre os mesmos efeitos. todos estes aspectos. que. Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 87 . obtendo-se resultados advindos de dois ou mais métodos simultaneamente.devem aprofundar na análise de sustentabilidade do empreendimento. como por exemplo. A sustentabilidade é a condição de que algo possa ser sustentável (ou auto-sustentável). econômico. embora se possa ou deva eventualmente adotar outra (como a mensal. a seguir será apresentada uma divisão em três grandes grupos que englobam os principais métodos existentes na literatura. princípios e maneiras de se conceituar e definir esta condição. social. ou seja. Como nos estudos de viabilidade geralmente se utiliza a periodicidade anual. visões. em circunstâncias iguais. energético. de maneira geral. conseqüentemente. pelo menos em tese. despesas ou custos). mas o método matemático que o norteia ou no qual se baseia é a de interação. todos já descontados. supondo que das mesmas causas. para projetos de curto prazo). resultados muitas vezes antagônicos ou conflitantes entre si. ecológico. sejam os com sinais positivos (entradas. Š Taxa interna de retorno (tir): objetiva definir a taxa de desconto com a qual o Valor Presente Líquido (vpl) é nulo. valores estes que se constituem. Os Métodos A Engenharia Econômica possui. As distintas visões apresentam posturas e. ou seja. o método recebe o nome de valor anual. financeiro. Enfim. são métodos que fornecem uma única resposta para cada modelo. incluindo o investimento inicial. Š Valor presente líquido (vpl): objetiva calcular a soma algébrica de todos os valores existentes no Fluxo de Caixa. Existem inúmeros enfoques. pode ser entendido como a convergência para um valor pré-determinado. Š Valor anual uniforme (vau): Caracteriza-se pela transformação de todos o valores monetários do fluxo de caixa (modelo) de tal forma que se obtenha uma série uniforme (constante) de valores. que taxa de desconto faz como que a soma algébrica de todos os valores descontados seja igual a zero. Š Payback: objetiva calcular quanto tempo o empreendedor ou investidor necessitará para recuperar o capital financeiro ou recursos ($) que investiu no empreendimento.

mesmo utilizando um único método num mesmo modelo podem ser definidos vários indicadores de mesma natureza e calculados distintos valores para o mesmo empreendimento. efetuar tratamentos estatísticos utilizando-se de princípios bayesianos ou estocásticos que simularão as respostas e os graus de probabilidades de suas ocorrências. desta amostragem. como um modelo cuja representação gráfica possibilita um estudo sistemático e racional de várias alternativas excludentes simultaneamente. excetuando-se uma. Enfoque sob Análise de Sensibilidade Na análise de sensibilidade é estudado o efeito que a variação de uma determinada variável (ou dado ou componente) de entrada pode ocasionar no resultado. Árvores de Decisão Utiliza-se de modelos (fluxos de caixa) cuja representação gráfica é diferente da tradicional. pois no mesmo modelo representa não só a seqüência dos eventos de um determinado empreendimento. se consolidou como uma disciplina de grande relevância da matemática. através dos estudos pioneiros do matemático húngaro John Von Neumann. mediante a avaliação de cada um destes simultaneamente através do cálculo dos distintos vpl’s em momentos ou tempos também diferentes. e a que havia sido testada anteriormente passa a ser tratada como as demais. Podem existir várias respostas. desta vez alterando-se a grandeza de outra variável. Pode ser entendido. de maneira bem simples. produzindo a existência ou a possibilidade de existência de mais de uma resposta. ou seja. uma técnica ou um algoritmo para estabelecer uma amostragem de números aleatórios ou pseudo-aleatórios e. a que está sendo analisada. mas também as alternativas de realização de outros projetos excludentes entre si. calculando-se com distintas entradas uma série de resultados. aprofundamentos. ou seja. e. obtendo-se outra série de dados. Refaz-se o procedimento. aperfeiçoamentos. Teoria dos Jogos Esta teoria se iniciou na primeira metade do século xx. basicamente. 88 Tecnologias de Energias Renováveis . Simulação de Monte-Carlo O Método de Monte-Carlo é. porém admitindo de maneira mais oscilatória. dúbia ou imprecisa alguns componentes como as incertezas e a utilização de princípios estocásticos ou probabilísticos.se no Teorema de MinMáx (mínimo e máximo). Pauta-se no princípio econômico ceteris paribus. professor de Princeton (usa). termo latino que pode ser traduzido como “todos os demais constantes” ou ainda “todos os demais se mantêm constantes”. refinamentos ou derivações dos modelos utilizados pelos métodos determinísticos. Ela se pauta nas decisões dos indivíduos (os jogadores) e apropria o conceito de que o resultado do jogo depende do conjunto de decisões tomadas. mantendo-se constante. sustentando. Sua operação consiste em manterem-se as grandezas de todas as variáveis constantes.Métodos não Determinísticos São desdobramentos. o que minimiza a rigidez da relação causa e efeito. com a colaboração decisiva do economista Oskar Morgenstern.

flutuando próximo a 18% ao ano. mas sim em percentual. em unidade monetária ($). localizada na Ilha de Siriri. possuía em 2001 11 famílias ribeirinhas que tinham sua fonte de renda voltada ao desdobro da madeira. que deverá ser comparado a uma grandeza para referência sobre a viabilidade. no estágio do estudo. trabalhando-se com valores pesquisados ou estimados. que fornecia energia elétrica para a serraria e para as residências de forma precária e em períodos não muito longo devido ao alto custo do óleo diesel e sua dificuldade de obtenção. e procedendo-se aos seguintes cálculos: vpl ÷ kW = R$/kW – definirá o resultado por capacidade instalada. vpl: o Valor Presente Líquido. conseguindo um vpl positivo. na Ilha do Marajó (ver figura 3. pode-se. vpl ÷ kWh = R$/kWh – definirá o resultado em preço da energia gerada. que corresponde a uma faixa de aproximadamente 20% a 30% do horizonte do projeto. agricultura e pesca. A análise pode e deve prosseguir. Resultados Concretos Centrais Térmicas a Vapor Localização do Projeto Marajó A Comunidade de Santo Antônio.6). as plantas para produção de energia com biomassa.2 kVA. chegando a um preço mínimo que pode ser vendida a energia excedente. para o tipo de investimento em tela. ou seja. tem um piso ou patamar mínimo. caso a caso. que seria uma expectativa mínima. A única fonte de energia elétrica até então utilizada era um pequeno grupo gerador a diesel de 3. as premissas fundamentais quanto à viabilidade são: Payback: tempo de retorno do investimento calculado seja menor ou igual a uma expectativa do investidor ou a um tempo considerado compatível pelo segmento. Em condições reais. ou seja. mas mantendo ainda a viabilidade do empreendimento. que deverá ser comparado à tarifa praticada pela concessionária ou a preços de mercado de venda de energia para referência sobre a viabilidade. arbitrar ou definir a que nível ou grau pode flutuar ou modificar este preço. ou seja. calculado o vpl. No contexto econômico atual ela está. tem de ser positivo. no município de Breves. definir um tempo razoável de Payback entre 5 e 8 anos. Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 89 . A grandeza da tma é bastante elástica e depende de muitos fatores. que pode ser estabelecido como um percentual do investimento inicial. como na vpl. para se tornar mais competitiva no mercado. tir: a Taxa Interna de Retorno tem de ter uma grandeza maior do que a tma (Taxa Mínima de Atratividade). dependendo do resultado. na maioria dos setores e empreendimentos.Conclusão sobre a viabilidade Econômica do Projeto Quanto aos métodos adotados. caso a caso. expressa não em ($). e não somente isto. deve estar acima de uma grandeza razoável para que remunere o risco e o trabalho do investidor. Pode-se ainda.

Figura 3. Esse arranjo foi concebido para tirar proveito da demanda reprimida de produtos como gelo.6 – Mesoregiões do Estado do Pará. decantador.Figura 3. óleo vegetal e energia firme e de qualidade. uma fábrica de extração de óleo vegetal e uma fábrica de gelo com câmara frigorífica. Agregada à usina. prensa.658’ W 50° 19.343’ Concepção do Projeto O projeto consiste numa usina de geração de energia elétrica utilizando como combustível resíduo de biomassa com potência de 200 kW. filtro prensa e tanque de armazenamento.7 – Estágio atual do projeto 90 Tecnologias de Energias Renováveis . A fábrica de extração de óleo vegetal com capacidade de esmagar 100 kg/h de polpa é composta de estufa de secagem.7. A fábrica de gelo tem capacidade para produzir 10 ton/dia de gelo em escamas e a câmara frigorífica é de 60 m3 . Localização do Projeto Marajó: S 01° 47. serviços de conservação a frio. O vapor aciona uma turbina que move o gerador elétrico. A usina de geração de energia consiste de uma caldeira flamo-tubular que queima resíduo de biomassa para gerar vapor. cozinhador a vapor. Ver figura 3.

Segundo levantamento feito pelo Programa Raízes. de tal forma que uma unidade garanta a sustentabilidade da outra. Genipaúna faz parte do município de Abaetetuba que. pode-se considerar como um sistema bi-combustível. com objetivo social de indústria. em 2003.8 – Localização da comunidade de Genipaúba Sustentabilidade Deve-se levar em consideração que o apl é composto por um complexo com duas unidades com funções distintas. Figura 3. uma vez que usa gás e uma complementação de 20% de óleo diesel. mesmo que em menor quantidade do que Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 91 . ou o gasificador esteja em manutenção. Genipaúba tem em torno de 280 habitantes. O aspecto negativo é manter a dependência de combustível fóssil. gelo. na fase de implantação do projeto. A comunidade está organizada e é representada no projeto pela Associação dos Remanescentes de Quilombos das Ilhas de Abaetetuba (arquia). oficialmente reconhecida em 2002. integra a mesorregião do nordeste do Pará. uma comunidade remanescente de quilombo. Como a alimentação dos motores do ciclo diesel é feita com gás de síntese. O sistema ainda não entrou em operação. conservação a frio. dificultando análises aprofundadas. Esta configuração oferece a possibilidade de poder manter o sistema operando somente com diesel. mas interdependentes. denominada Cooperativa Multiprodutos de Santo Antônio (cmsa). divididos em quarenta e sete famílias. mas é possível traçar uma análise de sustentabilidade da usina de gasificação com base em fatores conhecidos.Gestão Modelo de Gestão: está em fase de constituição uma pessoa jurídica na forma de cooperativa. caso a biomassa esteja inacessível. por sua vez. Centrais Térmicas a Gasificação Localização do Projeto Genipaúba A usina é parte de um arranjo produtivo local (apl) localizado em Genipaúba. óleos vegetais e produtos florestais. comércio e serviços de energia elétrica.

tem facilidade de encontrar mão-de-obra e contar com uma grande rede de serviços e suprimentos. Embora não seja recomendável o funcionamento intermitente do gasificador. Um aspecto negativo será o desembolso e a dependência. e em primeiro plano um dos postes de madeira implantados. o custo total torna-se praticamente zero. Resultados A infra-estrutura idealizada para a usina de gasificação foi implantada. pode ser feita na rede de distribuição comercial da sede do município. abrigando o gasificador e grupo gerador. para gerar energia para manter a câmara frigorífica em funcionamento. existe a alternativa de usar outra biomassa abundante no período. Considerando que a unidade de despolpamento está a poucos metros da usina de gasificação e não haverá dispêndio com transporte. Caso ocorra a carência de biomassa. 92 Tecnologias de Energias Renováveis . em Abaetetuba. Em B tem-se uma visão geral da implantação do complexo. É grandemente favorável o uso de uma biomassa nativa. nota-se um engenhoso sistema de estocagem e secagem de biomassa construído na cobertura do prédio. Por outro lado. o sistema é conhecido. O suprimento majoritário de biomassa serão os caroços de açaí resultantes do despolpamento na usina de beneficiamento.9 A e B). Para efeito de cálculo considere-se um regime de operação de 8 horas contínuas. Caso a unidade de beneficiamento funcione 8 horas por dia. como os rejeitos do manejo dos açaizais. pode-se prever um consumo de 19. então o consumo diário deverá ser de 160 kg por jornada de trabalho. abundante. tornando prudente a silagem da biomassa para enfrentar os períodos de entressafra. por ser diesel. feitos nesta época do ano. O prédio está edificado como mostra a figura 3. Na figura A vê-se o prédio da usina de gasificação ao fundo. que faz parte da cultura local.9 – Vista do Complexo.10. O consumo teórico de biomassa pelo gasificador é de 20 kg/h. que está a 15 minutos por barcos da comunidade.2 litros/ dia de diesel. A B Figura 3. mas deve-se atentar para a dependência do suprimento de biomassa com a safra do açaí. que ocorre na região entre os meses de agosto a dezembro.um sistema convencional. A obtenção é simples. carecendo de obras complementares na unidade de beneficiamento de açaí para viabilizar o pleno funcionamento do complexo (figura 3. e que serão usados os frutos rejeitados (o que por si só garante um suprimento praticamente inesgotável). à direita a usina de beneficiamento de açaí.

12 – A: Deposito de secagem de biomassa. B: Duto de ligação do silo com o gasificador Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 93 . com cobertura móvel para proteger da chuva.Vistas da fachada do prédio onde se vê a escada de acesso ao silo de secagem (A e B) A B Figura 3.10 – Planta da usina de gasificação A B Figura 3.Figura 3.11 – Planta baixa e perspectiva da usina de gasificação.

13). O programa é composto por uma janela principal dividida em quatro partes.11).6 MJ/kg Elétrica: 20 kWe Capacidade de Geração Produção de gás: 50m3 /h Carga Parasítica: 3. no momento da entrega técnica.Equipamento: Sistema de Gasificação de Biomassa Projeto de referência: cgpl. ch4 : 2. Indian Institute of Science. Tamanho Máximo: 60 × 25 × 25 mm Taxa de rejeito: 4:1 Biomassa Tipo: Qualquer bio-resíduo sólido de massa específica aparente maior que 250 kg/ 3 m . a cisterna está no exterior do prédio (figura 3.mwm Marca-Negrini Modelo229/3 TipoAte Computacional Software CicloRank v1.5%.4 2.14). Dados de Operação Peso 3000 kg Gases produzidos: CO: 20 + 1%. h2 : 20 + 1%.A usina aloja o gasificador e o grupo gerador projetado especificamente para este fim e conta com ambientes internos arejados para permitir a rápida dispersão dos gases.5 × 3. Os equipamentos instalados estão com a seguinte especificação técnica. A formulação da análise energética de cada um dos componentes do ciclo foi baseada nas leis da termodinâmica (ver figura 3. Software ComGás v1.5 × 2. Department of Aerospace Engineering. O sistema de gasificação foi testado com sucesso durante três horas aproximadamente. Combustion Gasification and Propulsion Laboratory. conteúdo de cinzas menor do que 5% Eficiência a Conversão Biomassa Para Gás 80 % Percentual de Substituição de Diesel > 80 % 3 Consumo de água 5. Especificações Técnicas 1. onde o usuário tem total autonomia para introduzir os dados e selecionar as opções de sua preferência para obter os resultados desejados (figura 3. Bangalore – India Modelo: Topo aberto. co2: 12 + 1% e N2 Nível de alcatrão e particulado no gás após resfriamento e limpeza: <100 ppm Poder Calorífico do gás 4.Grupogerador Motor Alternador CicloDiesel síncrono Potência 45cv (1800 rpm) Potência 40kVA Marca.0 Esta ferramenta foi criada para realizar simulações em equilíbrio químico de processos de combustão e gasificação de maneira fácil e rápida. co-corrente. 94 Tecnologias de Energias Renováveis .0 m /h 3. além de espaço suficiente para a realização dos trabalhos de operação e manutenção.5 kWe Consumo: 20kg/h Umidade máxima: 15%. Dimensões do sistema – (l × a × p)(m): 2.0 Este modelo de simulação foi desenvolvido para uma dada configuração de fluxograma correspondente ao sistema de potência de um ciclo a vapor.0 + 0.

0 Combustão e Gasificação de Biomassa Sólida 95 .14 – Janela principal do programa ComGás v1.Figura 3.13 – Janela principal do Ciclo Rank Figura 3.

4 Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura Soluções Energéticas para a Amazônia Wilma Araújo Gonzalez (Coordenadora) Eduardo José Fagundes Barreto José de Castro Correia Marcos Danilo de Almeida Rodrigo Otávio Lopes de Souza Cláudia Maria Campinha dos Santos Claudia Rosemback Machado Nilson Belo Mendonça Ernani Pinheiro de Carvalho Juliana da Rocha Rodrigues Raquel Medeiros da Silva Evandro Luiz Dall’Oglio Paulo Teixeira de Sousa Jr Vaniomar Rodrigues Pedro Paulo Nunes Nídia Maria Ribeiro Pastura Luiz Eduardo Pizarro Borges 96 Tecnologias de Energias Renováveis .

mas com imenso potencial. Ainda em seus primeiros passos. 2005). que por sinal já havia sido sugerida pelo próprio Diesel em 1912. que com o tempo poderiam se separar do etanol e concentrar-se nos tanques de combustível dos veículos. A busca por alternativas às fontes tradicionais de produção de energia abre caminho para um novo mercado no País. O desenvolvimento e o aprimoramento de tecnologias para a eletrificação com biomassa. seguindo a mesma lógica do ProÁlcool. ressaltando-se como principais a utilização do próprio etanol em mistura com explosivo conveniente e o aproveitamento dos óleos vegetais. diversos estudos foram realizados para aplicação de óleos vegetais “in natura” ou de misturas ao petrodiesel em motores de ignição por compressão (gonzalez. Devido aos riscos decorrentes do uso de substâncias explosivas. Segundo o Ministério das Minas e Energia (mme. bem como para o fornecimento de energia limpa em todos os setores. Desde então. Na Amazônia. O grande desafio consiste em suprir as necessidades energéticas de sistemas isolados.Alternativas Renováveis de Energia a Partir da Biomassa: Soluções Energéticas para a Amazônia O uso de óleos vegetais como combustíveis substituindo o diesel. O grande aumento no consumo de energia proveniente de combustíveis fósseis observado. Sabe-se que para os motores tipo Diesel várias soluções foram aventadas. começou a ser discutida pelo governo federal em 1975. dando origem ao Pro-Óleo – Plano de Produção de Óleos Vegetais para Fins Energéticos. as questões sócio-econômicas. possui importância fundamental para melhorar o padrão de vida das populações excluídas. junto com o aumento nos preços. as questões ambientais. com percentuais de não-atendimento superiores a 80% das propriedades rurais (rocha & silva. especificamente em Energia Renovável a partir de óleos vegetais. a força dos ventos (eólica) e a biomassa têm no Brasil o cenário ideal para desenvolver-se. o consumo e o preço atual do diesel na região Amazônica. foi escolhida a alternativa da utilização do óleo vegetal. forçou muitos países nos últimos trinta anos a procurar fontes alternativas de energia e melhorar o consumo energético. Além disso. o índice de eletrificação rural ainda é muito baixo. 2003). Essas tecnologias permitem ao mesmo tempo a substituição de usos tradicionais da biomassa (lenha para cozinhar e executar outras atividades no meio rural) por formas mais eficientes de sua conversão. incluindo o transporte. a geração por aproveitamento da irradiação solar (fotovoltaica). sobretudo no último século. sob a coordenação do Ministério da Agricultura. 2005). o mapa da exclusão elétrica no País revela que as famílias sem acesso à energia estão majoritariamente nas localidades de menor Índice de Desenvolvimento Humano (idh) e nas famílias de baixa renda (cerca de 90% têm renda inferior a três salários mínimos). a gestão. Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 97 . que leve em consideração a logística. definir qual o modelo adequado para as comunidades. a necessidade de um marco regulatório para sistemas isolados corrobora esta procura.

exigindo talvez alguma adaptação do motor e trazendo ainda os inconvenientes já citados. com o custo não muito elevado. trazia problemas de ajuste de características físicas para empregos nos motores existentes. tais como a transesterificação ou a esterificação. Nesta linha melhoravam-se as propriedades físicas do combustível aproximando-as às do diesel. bem como não teríamos nenhum problema novo de corrosão ou poluição.No aproveitamento do óleo vegetal para substituição do diesel. A tabela 4. dentre outras. os produtos da combustão seriam diferentes. entretanto as seguintes desvantagens: • consumo elevado de álcool etílico ou metílico. através de uma degradação térmica ou catalítica dos triglecerídeos que constituem o óleo vegetal. metanol ou etanol. Biodiesel é um combustível biodegradável derivado de fontes renováveis. colza. uma vez que o combustível seria idêntico. ao já utilizado. • geração de uma quantidade muito elevada de glicerina. embora sendo a de menor custo de obtenção do combustível. esta é a linha que melhor atenderia ao problema. como grande inconveniente o elevado custo do processo. Sob o ponto de vista da qualidade do combustível. que encontrar uma aplicação em grande escala. além do que. Esta linha. podendo comprometer as partes metálicas do motor. existindo dezenas de espécies vegetais no Brasil que podem ser utilizadas. dendê (palma). que pode ser obtido por diferentes processos. constituído de uma mistura de ésteres metílicos ou etílicos de ácidos graxos. quer pelo uso “in natura” ou transformado quimicamente pelo processo de transesterificação e/ou esterificação ou por craqueamento. sendo. Trazia. girassol. que teria. não tóxicos. assim. babaçu. Uma das possibilidades de atendimento a estas necessidades como fonte de energia renovável é através do uso óleos vegetais como biocombustível.1 mostra as características físico-químicas do biodiesel de várias espécies vegetais e do óleo diesel convencional. Não haveria necessidade de nenhuma modificação ou adaptação dos motores. 1ª) Utilização direta do óleo vegetal puro ou em mistura com o diesel do petróleo. possivelmente bastante tóxicos. ótimos substitutos do diesel do petróleo. 98 Tecnologias de Energias Renováveis . três linhas distintas são possíveis. pinhão manso e soja. numa proporção de 3 moléculas para cada molécula de triglecerídeo. portanto. tais como mamona. O biodiesel é uma evolução na tentativa de substituição do óleo diesel mineral por um óleo oriundo de biomassa. trazia. transformando os triglecerídeos naturais do óleo vegetal em monoésteres do etanol ou do metanol. em sua natureza. biodegradáveis e renováveis que apresentam uma queima limpa. obtidos da reação de esterificação de ácidos carboxílicos ou transesterificação de qualquer triglicerídeo com um álcool de cadeia curta. bem como pelo fato de lançar novos poluentes na atmosfera. O biodiesel é também um combustível renovável. • persistia o problema de ser um combustível novo. Pode ser produzido a partir de gorduras animais ou de óleos vegetais. entretanto. 3ª) Transformação de óleo em uma mistura de hidrocarbonetos o mais semelhante possível ao diesel. de corrosão de partes metálicas do motor e liberação na atmosfera de novos poluentes com grau de toxidez alto como ácidos e aldeídos. amendoim. ambientalmente correto. 2ª) Transesterificação. Os biocombustíveis são combustíveis naturais.

tais características são quase idênticas. (b) monóxido de carbono.) ou estacionários (geradores de eletricidade.2 apresenta as propriedades complementares ao biodiesel em comparação ao óleo diesel comercial.24 2.875 6. automóveis.8 0. A Agência Nacional de Petróleo.4 nd nd 333 338 0 0.35 9046 -6 nd 0. se etanol ou metanol. e independem da natureza da matéria-prima e do agente de transesterificação.9 nd nd 291 333 0 0. Pode ser usado puro ou misturado ao diesel em diversas proporções.01 0 1. O gás carbônico liberado é absorvido pelas oleaginosas durante o crescimento.09 Viscosidade a 37.8597 6. excelente lubricidade. tratores.01 nd 0.919 21. etc. Características Características químicas apropriadas Propriedades Complementares Livre de enxofre e compostos aromáticos.03 Dendê 9530 6 nd 0. Características Mamona Poder calorífico (Kcal/Kg) Ponto de névoa (°C) Índice de cetano Densidade a 20°C (g/cm ) 3 Origem do biodiesel Babaçu 9440 -6 65 0.01 0 1.03 nd 0 0.865 5. etc. Pequenas e médias plantas para produção de biodiesel podem ser implantadas em diferentes regiões do País. Complementa todas as novas tecnologias do diesel com desempenho similar e sem a exigência da instalação de uma infra-estrutura ou política de treinamento. o biodiesel substitui total ou parcialmente o óleo diesel de petróleo em motores ciclo diesel.04 55 Nd 278 373 £2 0.014 0. Nível de toxicidade compatível ao sal ordinário.6 208 -30 301 318 0 0. ponto de combustão apropriado.). camionetas. alto número de cetanos. denominado B100.8 (cSt) Inflamabilidade (ºC) Ponto de fluidez (°C) Destilação a 50% Destilação a 90% Corrosividade ao cobre Teor de cinzas (%) Teor de enxofre (%) Cor (ASTM) Resíduo de carbono Tabela 4.Portanto.01 0 1. renovável e biodegradável. calor. não tóxico e biodegradável. (c) óxidos sulfúricos e (d) hidrocarbonetos policíclicos aromáticos.849 3. que possa substituir parcial ou totalmente o óleo diesel de origem fóssil. Reduz sensivelmente as emissões de (a) partículas de carbono (fumaça).0 0.5 0. A tabela 4.1 – Características físico-químicas do biodiesel.886 3. até o biodiesel puro. derivado de óleos vegetais ou de gorduras animais.5 0.0 nd Piqui 9590 8 60 0.0 184 -3 340 342 0 0. Fonte: neto et al (2002) As características físicas e químicas do biodiesel são semelhantes entre si. o que equilibra o balanço negativo gerado pela emissão na atmosfera. independentemente de sua origem. A mistura de 2% de biodiesel ao diesel de petróleo é chamada de B2 e assim sucessivamente. Permite a valorização de subprodutos de atividades agro-industriais. com diluição tão rápida quanto a do açúcar (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).0 0. aumento na arrecadação regional de ICMS. isto é. aproveitando a matéria-prima disponível em cada local.2 186 5 334 346 0 0. Ambientalmente benéfico Menos poluente Economicamente competitivo Reduz aquecimento global Economicamente atraente Regionalização Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 99 . aumento da fixação do homem no campo e de investimentos complementares em atividades rurais. automotivos (de caminhões.02 Algodão 9520 nd 57.01 Óleo Diesel 10824 1 45. Gás Natural e Biocombustíveis (anp) define o biodiesel como um combustível para motores a combustão interna com ignição por compressão.0 0.

Neste contexto. sobretudo em comunidades isoladas em regiões de fronteira. a transesterificação ou alcoólise de diversos óleos ou gorduras oriundos da atividade agrícola e do setor extrativista. O gás carbônico liberado é absorvido pelas oleaginosas durante o crescimento. aumento na arrecadação regional de ICMS. proveniente de fontes renováveis como óleos vegetais ou gordura animal. No entanto. um apoio efetivo para pesquisas em biodiesel somente ocorreu na década de 1960. o Plano de Produção de Óleos Vegetais para Fins Carburantes (pro-óleo). De um modo geral. o que equilibra o balanço negativo gerado pela emissão na atmosfera. Estes catalisadores a base de sódio e potássio possuem a vantagem de ter um valor comercial baixo. O maior número de pesquisas na área de biodiesel tem por objetivo otimizar as condições reacionais do processo feito em fase homogênea e/ou heterogênea utilizando diferentes álcoois e catalisadores. Economicamente competitivo Reduz aquecimento global Economicamente atraente Complementa todas as novas tecnologias do diesel com desempenho similar e sem a exigência da instalação de uma infra-estrutura ou política de treinamento. em resposta ao desabastecimento de petróleo. e da Unicamp realizados pelas equipes dos professores Expedito Parente e Ulf Schuchard. justificando então uma produção local do combustível. de 22 de outubro de 1980. Previa a regulamentação de uma mistura de 30% de óleo vegetal ou derivado no óleo diesel e uma substituição integral em longo prazo. além do amplamente conhecido proálcool. em parceria com o Ministério da Indústria e Comércio. elaborado pela Comissão Nacional de Energia. da ufc. as pesquisas em biodiesel continuaram sendo realizadas por pesquisadores brasileiros. biodiesel foi definido pela “National Biodiesel Board” dos Estados Unidos como o derivado mono-alquil éster de ácidos graxos de cadeia longa. mas. Nas décadas de 70 e 80.aromáticos. mesmo após o fim do pro-óleo como programa de governo. metóxidos e etóxidos tanto de sódio quanto de potássio.2 – Propriedades Complementares Atribuídas ao Biodiesel em Comparação ao Óleo Diesel Comercial Fonte: neto et al (2002) A obtenção industrial de biodiesel tem sido realizada em fase homogênea e em presença de catalisadores básicos fortes como hidróxidos. com a queda do preço do petróleo. A motivação para estas pesquisas estava associada com considerações estratégicas e de segurança nacional do governo militar. resultando na solicitação da primeira patente internacional de biodiesel por cientistas brasileiros. através da Resolução nº 007. aumento da fixação do homem no campo e de investimentos complementares em atividades rurais. destacam-se os estudos da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (cetec). alguns trabalhos de relevância são considerados. foi proposta. Permite a valorização de subprodutos de atividades agro-industriais. Muita pesquisa foi realizada durante esse período. No escopo deste programa de governo. como alternativa tecnológica. respectivamente. o governo criou. cuja utilização está associada à substituição de combustíveis fósseis em motores de ignição por compressão (motores do ciclo Diesel). Pequenas e médias plantas para produção de biodiesel podem ser implantadas em diferentes regiões do País. Nesse contexto. Também era necessário estabelecer alternativas ao petróleo. aproveitando a matéria-prima disponível em cada local. visto que estes catalisam a reação obtendo-se conversões a biodiesel em torno de 100%. 100 Tecnologias de Energias Renováveis . o biodiesel foi abandonado em 1986. Biodiesel no Brasil Embora o desenvolvimento de combustíveis alternativos no Brasil date do início do século passado. Regionalização Tabela 4. onde o fornecimento de diesel era difícil por razões logísticas.

após sua posse. produção industrial. enviando um sinal positivo para a indústria do biodiesel. Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 101 . 6. como a geração de empregos e renda (inclusão social). Autorizar oficialmente o uso de biodiesel no Brasil. O biodiesel pode contribuir favoravelmente para minimizar muitos problemas fundamentais no Brasil. Com base nestas conclusões o CI elaborou as seguintes recomendações: 1. A motivação comum reside na redução da poluição ambiental e na dependência do petróleo. que podem ser ajustadas à diversidade regional do País. realização de testes. regulamentos e padrões de qualidade para o biodiesel de acordo com seus diferentes usos. Entretanto. Permitir incentivos fiscais para alcançar sustentabilidade econômica. O Brasil pode produzir biodiesel por muitas rotas tecnológicas e matérias primas. O CI realizou uma série de audiências públicas com instituições públicas e privadas de todo o País. 8. relacionadas com a cadeia produtiva do biodiesel (pesquisas. reduzindo custos para o sistema público de saúde. 7. Implementar políticas públicas (para financiamentos. dentre outras) e também com o parlamento federal e estadual de muitos Estados. de tal forma que todas as regiões podem ser envolvidas na produção de biodiesel. 3. quando os países europeus.Esta situação permaneceu inalterada até a década de 1990. o governo Lula estabeleceu um Comitê Interministerial (CI) para o biodiesel. Realizar testes reconhecidos e certificados (em motores veiculares e estacionários) e atividades de pesquisas e desenvolvimento em parceria com a indústria automobilística. O biodiesel é utilizado em muitos países industrializados. começaram a utilizar o biodiesel. A redução das desigualdades regionais e a inclusão social devem ser o princípio orientador do Programa Nacional para Produção e Uso do Biodiesel. 2. A imediata inclusão do biodiesel na agenda oficial do governo. estes avanços foram discretos e não harmonizados. contribuindo para a redução das desigualdades regionais brasileiras. com a incumbência de analisar a possibilidade de produção e uso do biodiesel no Brasil. 5. Evitar subsídios para o biodiesel e sua cadeia produtiva para prevenir distorções ao longo do tempo. O Brasil realizou avanços na tecnologia para biodiesel desde a década de 1970. Em 2002 o Ministro de Ciência e Tecnologia do Brasil criou uma rede de instituições para estudar a produção e o uso do biodiesel produzido através da reação de transesterificação do óleo de soja com etanol. As principais conclusões destas audiências foram as seguintes: 1. agricultura. Executar estudos técnicos para produção agrícola de matérias-primas viáveis economicamente em nível nacional. Em janeiro de 2003. social e ambiental na cadeia produtiva do biodiesel. Elaborar normas. 3. os Estados da Federação e outros países. assistência técnica e extensão rural e para permitir pesquisas) dirigidas para aumentar a eficiência na produção de biodiesel. seguidos por muitos outros. motivados por questões ambientais e de incertezas no fornecimento de petróleo. a redução na poluição ambiental. 2. O CI considerou este fato uma etapa importante para tornar o País um possível beneficiário do mercado de créditos de carbono (como um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto). 4. mitigação das desigualdades regionais e redução da importação de petróleo.

quando passará a ser obrigatório. mostrando que com este Programa de Biodiesel a intenção do governo é evitar as falhas observadas no proálcool.Para a implementação de todas estas recomendações foi criada uma Comissão Executiva Interministerial (cei) subordinada diretamente à Presidência da República. sendo o seu principal objetivo garantir a produção economicamente viável do biocombustível. 2006. Após um ano de amadurecimento. do Conselho Nacional de Política Energética. Entre 2008 e 2013.6763. Nordeste ou semi-árido do País e adquiridos da Agricultura Familiar. obtidos nas regiões Norte. de 23 de setembro de 2005.1. Em 2004. a Resolução Nº 3. Desde então muitas leis e regulamentações foram propostas e adotadas para colocar o plano em prática. foi lançado o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (pnpb) em sessão solene no Palácio do Planalto. 102 Tecnologias de Energias Renováveis . o GD apresentou e obteve a aprovação de um plano de trabalho para implementar o biodiesel no Brasil. de 13 de janeiro de 2005. Finalmente. A principal ação legal do pnpb foi a introdução de biocombustíveis derivados de óleos e gorduras na matriz energética brasileira pela Lei nº 11. Esta lei prevê o uso opcional de B2 até o início de 2008. Este biodiesel deve ser adquirido em leilões públicos controlados pela anp (Agência Nacional de Petróleo e Biocombustíveis). Também foi criado um Grupo Diretor (GD) subordinado ao Ministro de Minas e Energia. Incrementos na redução foram estabelecidos com valores dependentes do tipo de matéria-prima utilizada. quando o B5 será obrigatório.1 – Tributação Estadual sobre Biodiesel e Diesel. no dia 4 de dezembro de 2004. tendo como tônica a inclusão social e o desenvolvimento regional. Sob tais condições não é necessário o pagamento de pis/pasep e cofins – um incentivo equivalente a R$218. notadamente a concentração da produção nas mãos de poucos e somente em algumas regiões do País.097. Alíquota Padrão (Biodiesel) Alíquota do diesel 17% 15% 17% 18% 13% 12% Figura 4. A Lei 11116 (de maio de 2005) e o Decreto 5297 (de 06 de dezembro de 2004) isentam produtores de biodiesel do pagamento do ipi e regulamentam a redução das alíquotas de pis/pasep e cofins.00/m3 do biocombustível. Os maiores incentivos acumulam-se para biodiesel produzido de óleos de palmáceas e de mamona. Existem alguns aspectos da legislação brasileira para o biodiesel que devem ser destacadas para mostrar que este programa difere daqueles implantados em outros países e também do proálcool anteriormente implementado no Brasil. Fonte: GT Biodiesel mme. poderão ser usadas blendas com até 5% de biodiesel. Os valores para a tributação Federal e Estadual nas diferentes regiões no Brasil podem ser observados na figura 4. estabelecida em 0. obriga os produtores e importadores de óleo a adquirir todo o biodiesel produzido por companhias ou associações agraciadas com o Selo de Combustível Social a partir de 1º de janeiro de 2006. se a matéria-prima for obtida da agricultura familiar e da região na qual foi produzida.

956 10.610 m3 e o número de plantas com autorização para produção de biodiesel pela anp foi de 53 (tabela 4.000 81.610 Tabela 4. Nota: (m3) = metro cúbico. 300 dias de operação Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 103 .833.638 23.243 Tabela 4. Data da última atualização: 08/05/2008.500 21.500 116.000 57.509 12.000 2.800 208.3). E já no primeiro ano. aumentando para 399.108 13 311 2. em 2005. teve uma produção de 736 m3 .833.696 99 35.600 18.4).297 47.720 18.604 21. Fonte: anp/srp. 3 – Produção de biodiesel – B100 por Estados – 2005 a 2007 (m3).200 259.002 Produção 2007 (m3) 69.474 42.598 555.000 34. tema inserido na Lei nº 11.684 22. Estado Mato Grosso São Paulo Rio Grande do Sul Goiás Bahia Tocantins Ceará Maranhão Piauí Paraná Pará Minas Gerais Rondônia Rio de Janeiro Total Número de Plantas de Produção de Biodiesel 19 8 4 3 2 2 2 1 1 3 2 3 2 1 53 Capacidade de Produção Anual (m3) 713.348 110.238 1.No Brasil a produção de biodiesel em escala industrial começou após a introdução de biocombustível de óleos e gorduras na matriz energética brasileira.243 m3 em 2007 (tabela 4. Nota: Capacidade anual limitada de acordo com licença ambiental de operação vigente.4 – Capacidade Autorizada de Plantas de Produção de Biodiesel no Brasil até 08/05/2008.251 69.100 108.097.421 100 28.857 138 3.720 108.717 12 30. Estado Bahia Ceará Goiás Maranhão Mato Grosso Minas Gerais Pará Paraná Piauí Rio Grande do Sul Rondônia São Paulo Tocantins Total Produção 2005 (m3) 44 510 26 156 736 Produção 2006 (m3) 4.872 532. A capacidade autorizada de plantas de biodiesel no Brasil em maio de 2008 chegou a 2.773 399. de 13 de janeiro de 2005.

o Brasil detém um quarto das reservas superficiais e sub-superficiais de água doce. tendo como estratégia: Utilizar os conhecimentos existentes em fontes renováveis de energia no ime/dct/eb/md como base para o desenvolvimento e defesa da Amazônia. incondicionalmente. principalmente em regiões de fronteira. tem-se três vantagens comparativas importantes. 2005). No entanto. 104 Tecnologias de Energias Renováveis . A primeira é a diversidade de clima. Partindo dessa premissa.2 – Fontes Renováveis de Energia – ime hidrogenação hidrogena transesteri ca cação craqueamento reforma 2001 Usar a logística do Exército Brasileiro na região Amazônica para implementação do projeto. Considerando a extensão e a localização geográfica do Brasil. A resolução foi publicada no Diário Oficial da União (Resolução nº 2 de 13 de março de 2008). como é o caso da Europa ou dos Estados Unidos. o que permite administrar de forma mais flexível o risco climático. o que significa que o Brasil necessita exercitar opções de novas alternativas associadas à agricultura de energia – selecionando aquelas que lhe forem mais convenientes – ao invés de depender. Finalmente. implantar um projeto nesta região é um desafio. através da disponibilização de embarcações do tipo “voadeira”. além de pessoal para auxiliar nas missões e de equipamento de segurança. Promover a capacitação de recursos humanos e fomentar a pesquisa de alto nível em áreas de interesse estratégico para a Defesa Nacional. O acesso à comunidade foi sempre realizado através do Comando Militar da Amazônia – cma.A partir do dia 1º de julho de 2008 o percentual de mistura obrigatória de biodiesel ao óleo diesel comercializado aumentou de 2% para 3%. na superveniência de condições climáticas desfavoráveis (Plano Nacional de Agroenergia. o que permite o desenvolvimento de culturas irrigadas. Ime: Pesquisas de Ponta na Área de Produção de Biocombustíveis O uso de Energias Renováveis para Atendimento de Comunidades Isoladas Não-atendíveis por Rede Elétrica Convencional poderia ser uma solução para a região Amazônica. de uma única espécie. 100% 80% 60% 40% 20% 0% 1971–1980 1981–1990 1991–2000 Figura 4. financiado pelo mme/ct-energ/ cnpq/pnud/bid. A equipe contou com apoio do cigs/cma. A decisão foi tomada pelo Conselho Nacional de Política Energética (cnpe). O segundo aspecto é a exuberância de sua biodiversidade. em 2004 foi iniciado o projeto “Geração de energia a partir de oleaginosa da Amazônia para atendimento à comunidade isolada”. em áreas importantes.

com as instituições da Amazônia cigs/cma. v) conhecimento mais apurado da carga dos beneficiários. e. tecnologias de aproveitamento do sabão. tecnologias de aproveitamento da glicerina. Elétrica e Cartografia do Instituto. Prospecção de Processos A geração de energia a partir de biomassa pode ser feita por vários processos empregando óleo vegetal.3 – Cadeia Produtiva de aproveitamento de Biomassa Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 105 . sect-am e ufpa.Executar este projeto-piloto multidisciplinar através de parcerias entre os cursos de pósgraduação de Química. vi) conhecimento da capacidade de pagamento dos beneficiários. b. viii) escolha do local a ser instalado o sistema de geração e a rede elétrica. d.3). iv) necessidade de localização georreferenciada dos beneficiários. vii) mapeamento do potencial da comunidade para geração de emprego e renda. tecnologias de produção do biodiesel. tecnologias de aproveitamento da biomassa para produção de carvão ativo. em escala de bancada. tecnologias de aproveitamento da biomassa para produção de biocatalisador. Figura 4. c. A metodologia proposta neste projetopiloto utilizando energia renovável para atendimento a comunidades isoladas considerou: i) estudo locacional para definir a matéria-prima e o local onde seria instalada a usina de biodiesel. sempre com a intenção de agregar valor à cadeia produtiva (figura 4. efluentes. iii) escolha da comunidade isolada considerando a logística. embrapa. subprodutos e/ou co-produtos de processos. resíduos de biomassa. A apresentação das pesquisas e produtos desenvolvidos e/ou em desenvolvimento serão apresentados por: a. Mecânica. scale-up e instalação de uma usina piloto de biodiesel. Este projeto possibilitou o desenvolvimento de inúmeras pesquisas. fapeam. ii) instalação da unidade de produção de biodiesel. fucapi.

carbonatos e alcóxidos de Na ou K. e de catalisadores básicos os hidróxidos. independentemente do tipo de óleo vegetal.4.5. Portanto. Ba(OH)2 . a comparação entre os catalisadores homogêneos (líquidos) e heterogêneos (sólidos) serve para ajudar na escolha do catalisador mais adequado para o processo a ser estudado. o catalisador e o substrato estão na mesma fase. CaCO3 . 106 Tecnologias de Energias Renováveis . A= acidez Além do tipo de catalisador. Como exemplos de catalisadores ácidos temos HCl. o que permite facilmente a separação do catalisador após a reação. no máximo. Através desta determinação será possível definir o tipo de pré-tratamento desta matéria prima e/ou o processo de produção do biocombustível que poderá ser a transesterificação por catálise básica e/ou ácida (homogênea ou heterogênea) e/ou a esterificação dos ácidos graxos livres. Já na catálise heterogênea.4 – Esquema para definição do processo. Portanto. 1% de acidez. As vantagens e desvantagens de cada tipo de catalisador estão apresentadas na tabela 4. Mg(OH)2 . Como exemplos de catalisadores heterogêneos podem ser citados os ácidos zircônia-alumina dopada com tungstênio e os básicos CaO. conforme mostra a figura 4. deve-se utilizar como insumo um óleo vegetal com. H2SO4. para que se consiga produzir um biodiesel que atenda às especificações. é analisar a matéria-prima através da determinação da acidez. De acordo com a anp. Óleo Bruto Acidez A < 1% 1% < A < 5% 6% < A < 20% A > 20% Transesteri cação direta Neutralização da acidez e transesteri cação Esteri cação e transesteri cação Esteri cação e transesteri cação simultâneas Catalisador básico Catalisador básico Catalisador ácido e básico Catalisador ácido Figura 4. se ácido ou básico. ele pode ainda ser homogêneo e heterogêneo. a primeira etapa para a produção de biodiesel. Ca(OMe)2 .Análise do óleo vegetal A análise da matéria-prima é fundamental para se definir o procedimento e o processo para produção de um biocombustível. Na catálise homogênea. o catalisador e o substrato não estão na mesma fase.

da purificação do produto e recuperação da glicerina. Tabela 4. para otimizar. Alguns processos foram avaliados variando-se as quantidades de óleo e as concentrações das soluções. proteínas e substâncias coloidais. Degomagem e neutralização com ácido fosfórico a 85% e solução de hidróxido de sódio 20% a quente. Plantas industriais mais sofisticadas. 2. Menos corrosivos que os catalisadores ácidos homogêneos. Número maior de etapas na produção de biodiesel. o pré-tratamento do óleo bruto pode ser definido. Este pode envolver as etapas de degomagem. Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 107 . definir a melhor metodologia e verificar sua viabilidade para implantação industrial. Catalisadores Heterogêneos Podem ser utilizados na transesterificação de óleos vegetais que possuem altos teores de ácidos graxos. unicamp Pré-tratamento do óleo A partir da análise do óleo vegetal descrita acima. Os processos avaliados foram: 1. que reduzem a quantidade de álcali durante a subseqüente neutralização e as perdas nas outras fases do processo. neutralização. Facilita a purificação da glicerina. Possibilita a reutilização do catalisador. com medidas de acidez antes e depois do processo (figura 4.5). Evita a corrosão da planta. Ulf Schuchardt. lavagem.Catalisadores Homogêneos Básicos ou alcalinos facilmente manipuláveis. Degomagem e neutralização com ácido fosfórico a 85% e solução de hidróxido de sódio 20% a frio. Óleo Degomagem Neutralização Goma Lavagem Óleo Acidez < 1 Figura 4.5 – Pré-tratamento do óleo bruto A etapa de degomagem visa remover do óleo bruto os fosfatídeos.5 – Vantagens e desvantagens do uso de catalisadores homogêneos e heterogêneos Adaptado de Palestra Prof. Maior produção de resíduos provenientes da neutralização do catalisador. Dr. Redução significativa do número de etapas de purificação. Requer maior tempo de reação e temperaturas elevadas.

separando a água após cada adição. sob agitação.A. adaptado do processo reportado por Franz Kaltner. Repetir este procedimento duas vezes. com riscos acentuados de perda da qualidade do óleo causado por processos enzimáticos de deterioração e aumento da acidez do óleo. especificamente na Amazônia. que são facilmente saponificáveis. ceru (Rio Preto da Eva. devido à reação com uma solução quente de hidróxido de sódio produzindo o correspondente sal sódico do ácido carboxílico. descrito a seguir. especialmente os produzidos a partir de oleaginosas típicas do Norte e Nordeste do País. em quantidade corresponde a 15% do peso do óleo. isto é.3. Neutralização com álcool etílico P.6). a temperatura ambiente. é determinado o índice de acidez do óleo. na unidade-piloto de biodiesel. aquecer o óleo até 60°C e adicionar uma solução de NaOH 10% correspondente a quantidade suficiente para neutralizar os ácidos graxos livres presentes no óleo.6 – Processo de Hidrólise Para definição de um local para instalação de uma usina de biocombustível. em rotina. Degomagem e neutralização com fluxo de ar. o sabão. após a colheita. usando o método descrito no Manual de Biodiesel (mme). Tal exigência faz-se devido à necessidade de ordem técnica. uma vez que os frutos devem ser processados até 24 horas. 5. No caso específico do dendê. 108 Tecnologias de Energias Renováveis . deve-se mapear a região (estudo locacional) e considerar as questões de logística. instalada no Campo Experimental da Embrapa de Rio Urubu. Em seguida. possuem elevada acidez. O R O R O O R O O O OH + 3 água 3 R OH + OH OH Figura 4. AM). destaca-se como variável importante a acidez do óleo. Desligar então o aquecimento e adicionar lentamente uma solução de NaCl a 10%. Parar a agitação e adicionar em intervalos de 10 minutos uma quantidade de água correspondente a 15% do peso do óleo. Este processo. Acidez do óleo de dendê Os óleos vegetais. Ocorre um processo de hidrólise dos triacilglicerídios (óleo vegetal) que leva ao aumento do teor de ácidos graxos livres (figura 4. Entre estes métodos. lavar pelo menos mais três vezes com água aquecida a temperatura de 60°C. Degomagem total. Esta cultura exige que se disponha de uma indústria de processamento da produção (unidade de extração de óleo) o mais próximo possível da plantação. no máximo 48 horas. está sendo usado. Degomagem e neutralização do óleo vegetal bruto com fluxo de ar Inicialmente. o mais promissor foi o de degomagem e neutralização com fluxo de ar. 4. Em seguida secar o óleo por evaporação. Aquecer novamente até a temperatura de 75°C e injetar lentamente ar para facilitar a granulação da borra. Separar a água / borra por decantação.

Embrapa Amazônia Ocidental.7 mostra a localização da usina de extração de óleo de dendê (Imagem ccd-cibers2. foi a região apontada como aquela que respondia às questões supracitadas para instalação de uma usina-piloto de biodiesel. município de Rio Preto da Eva. ceru.4 5 4 3 2 1 0 30 60 90 dias 120 150 180 Figura 4.7 – Localização da usina de extração de óleo de dendê em ceru. localizada no Campo Experimental da Embrapa. Um estudo realizado no ime acompanhou a evolução da acidez do óleo bruto in natura em intervalos tempo pré-fixados.2 4.8 – Índice de Acidez do Óleo de Palma Bruto Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 109 . G4.9 4. se produzido por catalise básica. B2). cpaa. Esta região possuía uma plantação de 412 ha de palma e uma usina de extração de óleo de palma e palmiste. poderia formar sabão e danificar os motores. provavelmente devido à sua oxidação e/ou a presença/formação de ácido livre pela presença de umidade. Figura 4. A figura 4. Observa-se que após 60 dias há um aumento progressivo do índice de acidez do óleo de palma.Por exemplo. 8 7 6 I. de composição R3. cena/ponto 172/103.8.A (mg KOH/g óleo) 7. de modo que o tempo de colheita e de processamento para extração do óleo poderia ser o menor possível.5 6. como mostra a figura 4. o Campo Experimental da Embrapa em Rio Urubu.2 5.9 5. O uso de óleo bruto nestas condições de acidez.

portanto. concentrar esforços no desenvolvimento. Trata-se de um processo simples e de domínio público.9. não deve ser usado em processos de produção de biodiesel em comunidade isolada Tabela 4. o que implica maior investimento para purificação do biodiesel Metanol Vantagens Menor custo Separação imediata da glicerina Pode ser produzido a partir do gás de síntese Desvantagens Tóxico O Brasil é importador deste álcool Por questões de segurança. Na tabela 4. no entanto.6 – Vantagens e desvantagens relativas ao tipo do álcool. unicamp Reação de transesterificação – rota etílica – Catálise Homogênea Escala Bancada O procedimento de produção de biodiesel via transesterificação alcalina. 110 Tecnologias de Energias Renováveis . rota etílica. Etanol Vantagens Origem renovável Produção nacional Não tóxico Desvantagens Deve ser álcool desidratado Processo de separação da glicerina mais complexo. o processo mais usado para a produção de biodiesel. na melhoria dos processos e dos equipamentos utilizados na separação de fases e purificação. é apresentado no fluxograma da figura 4. Além das questões relativas ao pré-tratamento. Adaptado de Palestra Prof. É importante.6 são destacadas algumas questões relativas ao álcool. O problema. em que a acidez do óleo bruto é um fator importante para a escolha do processo. o tipo de catalisador e as vantagens e desvantagens relativas à escolha do álcool devem ser consideradas. de longe. Ulf Schuchardt. é o custo e a eficiência da etapa de separação das fases após a reação e a purificação dos produtos e co-produtos (principalmente para o caso do etanol) para que se atenda às especificações previstas pela anp.Produção de biodiesel A transesterificação alcalina é. Dr.

10. O reator foi imerso em um banho de óleo de silicone para uma melhor troca térmica. como mostrado na figura 4.Matéria Prima Preparação da matéria-prima Catalisador NaOH ou KOH Metanol ou Etanol Reação de transesteri cação Fase Pesada Separação de fases Desidratação do álcool Fase Leve Recuperação do Álcool da glicerina Excesso de álcool recuperado Recuperação do Álcool dos Ésteres Destilação da glicerina Puri cação dos Ésteres Resíduo Glicérico Glicerina Puri cada Biodiesel Figura 4. neste com um termômetro no banho de silicone para acompanhamento da temperatura.10 – Aparelhagem de refluxo usada nas reações homogêneas Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 111 .9 – Processo de produção de biodiesel O teste catalítico para produção de um biocombustível de referência foi realizado em um balão de fundo chato de três bocas com juntas esmerilhadas. Figura 4. Um condensador foi acoplado para manter refluxo constante.

o teor álcool pode variar com razões molares álcool/óleo entre 9:1 e 5:1. transfere-se o efluente reacional para um funil de separação onde se inicia o processo de lavagem.11). que por sua vez é separado por centrifugação. A quantidade de catalisador (NaOH) utilizada fica em torno de 1% em relação ao peso do óleo. As reações com catálise heterogênea normalmente são conduzidos a temperatura. em escala de bancada. Um segundo método consiste em lavar o produto reacional com água quente a 60°C por duas vezes. A quantidade de catalisador varia entre 3 e 20% em relação ao peso de óleo. a intermediária composta majoritariamente por glicerina e a superior por biodiesel. Este processo forma emulsão se a mistura for agitada. Neste processo não ocorre a formação de emulsão.12) são adequados para este fim. que será detalhado no próximo passo. O sistema é deixado sob refluxo. o biodiesel pode ser seco por aquecimento a 130°C (ou a 100°C sob vácuo) por 30 minutos. pressão entre 5 e 10 bar e razão molar álcool:óleo entre 6:1 e 15:1. Um primeiro método que pode ser usado consiste na adição de glicerina seguida de duas lavagens com água a 60°C. Após esse tempo. prepara-se separadamente a solução de catalisador (etóxido de sódio) a quente e só então adiciona-se ao óleo. Alternativamente. normalmente uma razão molar de 6:1 (equivalente a 100% de excesso de álcool) é usada na reação. contido no balão. Valores comuns na literatura são 200°C de temperatura. durante uma hora. também quente. pressão e razão álcool:óleo mais elevadas. Um terceiro método consiste em lavar o produto a temperatura ambiente com uma solução diluída de ácido acético e água na primeira lavagem e duas outras lavagens com água. sendo a inferior composta por água contendo acetato de sódio. Este processo evita a formação de emulsão. mas ocorre o arraste de cerca de 10 a 30% de biodiesel na fase rica em glicerina (figura 4. Reatores tipo Parr de capacidade de 100 mL e 300 mL (figura 4.Após a degomagem e neutralização do óleo vegetal. o que pode ocorrer devido à formação de emulsões. Reação de transesterificação – rota etílica – Catálise Heterogênea Escala Bancada Para os testes via catálise heterogênea devem ser usados reatores de aço inox tipo autoclave (Parr) com agitação mecânica ou magnética. A separação da primeira lavagem ocorre com formação de três fases distintas. 112 Tecnologias de Energias Renováveis . Lavagem A literatura apresenta vários métodos de lavagem. agravada pela formação de sabões durante a reação ou ainda por excesso de água de lavagem ou de agitação. o biodiesel pode ser seco com a adição de sulfato de sódio anidro e seco. Figura 4. em torno de 75°C. Secagem do biodiesel Após a separação da glicerina por decantação.11 – Lavagem do biodiesel. O objetivo é sempre evitar perda de biodiesel para a fase aquosa.

7 – Testes catalíticos realizados a proporções álcool:óleo (15:1) A influência da pressão pode ser observada ao se comparar o resultado obtido com o catalisador de zircônia sulfatada na reação com óleo de palma que foi realizada a 200° C. ime. evitando-se o uso de componentes mais caros. de 50L de capacidade (figura 4. Alguns resultados obtidos a 200°C e pressão endógena são mostrados na tabela 4. Em muitos procedimentos a pressão do sistema corresponde à pressão de vapor do álcool.12 – Reatores do tipo Parr utilizados nos testes catalíticos. com rendimento de 90.7 Catalisador zircônia sulfatada dopada (Fe.3%. em aço inox. sob pressão de 50 bar.Figura 4. assim como o desenvolvimento do projeto de uma primeira unidade. móvel. sofrendo apenas algumas modificações. Estes reatores apresentavam uma série de limitações e inadequações ao processo e foram substituídos por um sistema batelada projetado para permitir a execução de todas as etapas de produção do biodiesel num único equipamento. A abordagem de projeto privilegiou a simplicidade e o baixo custo. O aumento de escala serve a dois propósitos: confirmar os resultados obtidos em escala de banca em condições mais próximas das condições industriais e gerar amostras em maior quantidade para testes e análises mais completos. int. principalmente na agitação e no controle de temperatura. A tecnologia usada neste reator foi gerada no Instituto Militar de Engenharia. como itens de controle Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 113 . Reação de transesterificação – Aumento de escala Os sistemas em escala de bancada apresentam várias limitações.13). O aumento de escala dos processos de produção de biodiesel foi realizado em reatores-piloto multipropósito com capacidades de 20L e 50L do Instituto Nacional de Tecnologia. O procedimento definido para esta unidade é basicamente o mesmo definido em escala de bancada. Mn) zircônia sulfatada zircônia sulfatada 36%H3PW12O40/SiO2 Razão álcool/óleo 15:1 15:1 15:1 15:1 % Conversão (RMN) 75 00 00 86 T (h) 5 5 12 5 Tabela 4.

Cabe destacar que a caldeira da unidade é alimentada com os rejeitos da própria unidade. As maiores vantagens desta unidade são a sua simplicidade.e automação normalmente encontrados em unidades industriais.14). além de uma escola. uma usina de extração de óleo e uma comunidade de funcionários da Embrapa/cpaa. Em contrapartida. onde existe uma plantação de 412ha de dendê.14 – Unidade de extração de óleo de dendê (ceru/Embrapa-cpaa) 114 Tecnologias de Energias Renováveis . a unidade necessita de um pouco mais de assistência humana para funcionar. Estas características fazem com que este tipo de unidade seja ideal para utilização em comunidades isoladas (figura 4.13 – Unidade móvel de produção de biodiesel Figura 4. Usina-piloto de biodiesel A usina de biodiesel foi instalada em ceru. baixo custo e robustez. Figura 4. O vapor e a bacia de decantação de rejeitos utilizados pela usina-piloto de biodiesel são da unidade de extração de óleo de dendê (figura 4. Cabe destacar que a unidade pode inclusive ser usada para recuperar e secar o etanol utilizado em excesso.13).

da comunidade local e ainda algumas comunidades de Rio Preto da Eva. do pré-tratamento do óleo bruto até o acabamento do biodiesel.000 litros por batelada (ceru/Embrapa) Em condições ideais.000 litros de biodiesel por dia. A secagem é feita com auxílio de um leito de peneira molecular. Em termos de controle. até 3. incluindo a recuperação e secagem do álcool. material adsorvente com grande capacidade para retenção de água. Apesar de executar todas as etapas descritas acima. Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 115 . O controle é todo manual. a unidade é bem simples e robusta. existem apenas indicações básicas de temperatura e pressão. Cabe destacar como diferencial o fato de a unidade possuir um sistema completo de recuperação e secagem do etanol utilizado em excesso. esta usina pode produzir até três bateladas por dia.15 – Unidade de 1. trocadores de calor). com o operador tendo que atuar no acionamento de todos os equipamentos (bombas. válvulas. ou seja. sem nenhuma automação. Este material é regenerado no local e pode ser utilizado por inúmeros ciclos.A unidade é completa. agitadores. Esta produção poderia gerar energia elétrica para suprir as necessidades do ceru. Figura 4. sendo projetada para executar todas as etapas do processo de produção.

como nos grupos geradores. principalmente. ii) entupimento dos bicos injetores. passar para óleo vegetal após alguns minutos (quando o motor já estiver quente). o uso de óleos vegetais in natura diretamente em motores diesel de injeção direta passou a ter os seguintes problemas: i) aparecimento de resíduos de carbono no interior dos cilindros. nos motores estacionários os inconvenientes relacionados à utilização de dois combustíveis. sobretudo quando o óleo vegetal tem alto índice de insaturação.Óleo Vegetal in Natura em Motores de Combustão Interna Introdução A possibilidade de utilização de óleos vegetais puros como combustível de motores de ciclo diesel é conhecida desde a fase de desenvolvimento do motor. são muito menos significativos do que nos motores automotivos. com características (mais leve e menos viscoso) para facilitar a combustão nos motores veiculares. Portanto. demonstrando que é possível obter-se uma operação confiável com óleo vegetal não transformado. ao contrário dos motores automotivos. Em princípio considera-se que a utilização de óleos vegetais em motores estacionários. Para isto. a coluna de destilação das refinarias foi redistribuída para produzir maior quantidade de diesel. comprometendo a normalidade de funcionamento das mesmas e do próprio motor. iii) diminuição do rendimento do motor e aumento conseqüente 116 Tecnologias de Energias Renováveis . estes motores diesel passaram a ser produzidos sem pré-câmara. Além disto. e conseqüentemente com maior justificativa econômica para o uso do óleo vegetal como combustível. o que o predispõe para as reações de polimerizações. com injeção direta. A partir desta época têm sido realizados estudos para viabilizar técnica e economicamente o uso de óleos vegetais como fonte de energia renovável. havendo registros de utilização de óleo de amendoim em experimentos realizados pelo Dr. tornando-se inadequados para uso direto de óleo vegetal in natura. Rudolf Diesel no ano de 1911. Motores com injeção indireta (pré-câmara) também são recomendáveis para esta aplicação por serem mais tolerantes ao óleo vegetal. para adequar o refino do petróleo à realidade nacional. mesmo em motores diesel convencionais. a utilização de motores estacionários para suprimento de energia elétrica a comunidades isoladas estaria prevista para locais de difícil acesso ao diesel. é necessário que o óleo vegetal seja aquecido para diminuir sua viscosidade e que cada ciclo de funcionamento do motor deve começar com diesel. e operar os minutos finais também com diesel para “lavar” o sistema injetor e impedir que resíduos de óleo vegetal esfriem dentro da bomba injetora e. como mencionado anteriormente. por operarem com rotação constante e baixa e por serem sujeitos a menores variações de carga ao longo da operação. especialmente nas proximidades das válvulas de descarga. Em conseqüência. é menos problemática do que em motores automotivos. Desde a década de 70 experimentos vêm sendo realizados principalmente na Alemanha. nos bicos injetores. Portanto. Segundo Di Lascio (2004). câmara de combustão.

conforme estudo publicado no livro Hubbert’s Peack – The Impending World Oil Shortage. Deffeys. e já fazem parte da formulação de diversos óleos diesel premium vendidos no mercado. v) formação de depósitos de carvão na câmara de combustão. resultantes de uma combustão incompleta. o uso de óleo vegetal in natura em motor de combustão interna volta a ser firmemente considerado.do consumo. os derivados de óleos vegetais são os de mais baixo custo. onde se incluem a acroleína e certas substâncias orgânicas. a confirmação desta premissa influenciará fortemente o mercado de produtos agrícolas que tenham aplicação como substituto de petróleo. em substituição a insumos não renováveis. A formação de goma e carbonização é decorrente da existência de ácidos graxos insaturados nos óleos vegetais. cujo atendimento não tem viabilidade econômica. editado pela Princeton University Press/2001. pois possuem na Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 117 . Esses fatores são relacionados por Kaltner: Š A evolução das tecnologias de produção agrícola que permitem a utilização de seus produtos com vantagens econômicas e ambientais como matéria-prima em processos industriais. e vii) emissões de produtos tóxicos. iii) formação de gomas nos bicos injetores. que satisfaçam as necessidades atuais sem diminuir a oportunidade das gerações futuras. óleos brutos do tipo soja. algodão. principalmente devido às emissões de gases de efeito-estufa e à elevação consistente dos preços do petróleo. exigem a adição de aditivos para melhorar a qualidade de lubrificação do combustível. as reservas mundiais começarão a declinar. Dentre os aditivos pesquisados. Alguns fatores relevantes deverão trazer profundas modificações no mercado de energia. canola e girassol não são adequados para uso como combustível em motores diesel. Quando esses óleos são submetidos às altas temperaturas da câmara de combustão. por questões ambientais. Como o mercado de petróleo tem crescimento de 2% ao ano. inerente às características dos óleos vegetais. que é até 10 (dez) vezes maior que a viscosidade do óleo diesel na temperatura de referência. há formação de polímeros. especialmente quando alimentado com óleo de elevado índice de ácidos graxos livres. em atendimento ao Protocolo de Kyoto. de Kenneth S. v) diminuição do tempo de troca do óleo do carter. Š A necessidade de eletrificação de comunidades isoladas. Uso de Óleo Vegetal in Natura em Motores Os principais problemas identificados com o uso de óleo vegetal in natura são: i) dificuldade de partida a frio devido à viscosidade dos óleos vegetais. devido à acidez do óleo. Š A necessidade de implantação de programas de produção auto-sustentáveis (emissão zero). iv) necessidade de regulagem especial no sistema de injeção do motor para cada tipo de óleo vegetal. especialmente quando este for de alta taxa de aditivação. vi) diminuição da vida útil do motor. resultantes do insuficiente índice de cetano. Š A previsão de que a produção mundial de petróleo atingirá o pico entre os anos de 2004 e 2008. seja pela distância da rede ou pelo custo de transporte de óleo diesel. Por exemplo. iv) decomposição de componentes da bomba injetora. nos cilindros e nas válvulas. A partir daí. Atualmente. Š A necessidade de utilização de óleos diesel com baixíssimos teores de enxofre. ii) ponto de fusão elevado.

0 <0. Ácidos (%) Algodão Láurico Mirístico Palmítico Esteárico Araquídico Behênico Lignocérico Oléico Linoléico Linolênico Erúcico <0. O ponto de fusão do óleo vegetal in natura é mais elevado. óleos brutos com grau de insaturação (soja.0 <1.0–35. girassol) não são adequados para operação como combustíveis in natura em motores diesel.8 – Composição química de alguns óleos vegetais Uma das soluções encontradas para melhorar a utilização de óleo vegetal in natura como combustível é fazer um pré-tratamento e/ou refino dos óleos brutos.1–2. portanto.0 17.8–3.0 1.5 – 19.0 13.0–70. Existe também a dificuldade de partida a frio devido à viscosidade dos óleos vegetais.0–30.0 1.0 1. a degomagem e o pré-aquecimento do óleo vegetal bruto podem ser alguns dos procedimentos usados como pré-tratamento para eliminar os problemas na bomba injetora e para reduzir os depósitos de carvão.0 <0.5 <1.3 Tipos de Óleos Canola – <0.3–6.0–75.0–44.0 35.0 44. que define o poder de auto-inflamação e de combustão do óleo. medida da resistência interna ao escoamento de um líquido.0–10. i) 118 Tecnologias de Energias Renováveis .0–5.0–31. reduzir a formação de gomas nos bicos injetores.0–62.2 53.0 – Tabela 4. algodão.0–16. uma ligação dupla. descritas a seguir.2 2. Ocorre também a formação de polímeros quando este óleo in natura é submetido às altas temperaturas na câmara de combustão.0–3. duas duplas e três duplas.6 6. que possuem.0 <0. viscosidade. Portanto. ii) índice de cetano.5 <0.4–5. sendo necessário.sua composição alto teor (percentagem) de ácidos graxos insaturados. o que eliminaria o problema da viscosidade e do ponto de fusão (franz kaltner).1–1.2 <0.0–4.3 <0. respectivamente.0–13.0 4.0–14.0 15.1 0. é fundamental para a qualidade de atomizacão do óleo no bico injetor. significa que um número de cetano baixo gera deficiência na lubrificação do motor.0 <0.1 <0.4 <0.4 <0. Outra possibilidade é a injeção do óleo vegetal aquecido.5 Amendoim <0.7 <0.0 Girassol <0.8. influenciam no funcionamento e na durabilidade do motor.0 <0.0 0.1 <0.5–3.5 14. como oléico.5 7.0 5.0–45.6 <0.5 1. linoléico e linolênico.5 0.0 55.0–10.0 0. Propriedades Físico-Químicas dos Óleos Vegetais que Influenciam o Funcionamento dos Motores Diesel As propriedades do óleo vegetal.5 3.5 Soja <0. de modo que alguns problemas possam ser minimizados.0 <5.0 – 0.0 1.0 1.0–30.5 13. que é até 10 vezes maior que a viscosidade do óleo diesel na temperatura de referência.5 <1.0–11. colza.3 <0.0–72. A neutralização. conforme apresentado na tabela 4.5–6.4–2.

Poder calorífico: O volume de combustível consumido pelo motor operando com óleo vegetal é aproximadamente 2% maior ao consumido na operação com óleo diesel. Propriedades que Influenciam a Quantidade de Energia Gerada i. Para operar motores diesel com óleos vegetais in natura existe a necessidade da adoção dos seguintes procedimentos: i) reduzir a viscosidade. equipamento alemão especialmente desenvolvido para queimar óleo vegetal. expressa a acidez livre no óleo. temperatura em que um óleo queima durante um período mínimo de 5 segundos.. ii. que expressa os resíduos de carbono. O tipo de prensagem depende da quantidade de matéria-prima a ser processada. o número de calorias por unidade de volume seja praticamente igual. temperatura inicial de cristalização do óleo. vi) índice de iodo. depositados durante a queima do combustível. na definição do processo de geração de biocombustíveis. Atualmente. Almeida verificou o potencial de algumas oleaginosas nativas da Amazônia. incluindo a questão da sazonalidade. na prática. que expressa a quantidade de gomas formadas pela polimerização dos componentes insaturados do óleo durante a combustão.D. de parafuso contínuo. Desta forma. expressa o grau de oxidação do óleo. Recentemente.iii) ponto de inflamação. 2007). M. isto é ao processo de extração. ii) utilizar óleos com baixo índice de iodo e alto índice de cetano. que expressa a dificuldade com que o óleo é filtrado antes da injeção no motor. do Centre de Coopération Internationale en Recherche Agronomique pour le Développement – cirad. expressa o grau de insaturação do óleo. Outra questão importante está relacionada à obtenção do óleo vegetal. de forma a ajudar na escolha da matéria-prima. o óleo vegetal ideal para funcionamento como substituto de óleo diesel deveria ter índice de cetano maior que 40 e índice de iodo menor que 25. e o poder calorífico do óleo diesel é ~ 12% maior. como a prensa mecânica do tipo “expeller”. Massa especifica: A massa especifica do óleo diesel é ~ 10% menor que os óleos vegetais. ii) motores com kit de conversão. o uso do óleo vegetal in natura em motor de combustão interna. Pode ser utilizada prensa do tipo manual. quer para uso de óleo in natura quer para produção de biodiesel por rota etílica (Almeida. v) ponto de névoa. Existem diversas tecnologias que adaptam tais motores para a queima de combustíveis renováveis. ix) nº Conradson – ccr. Portanto. xi) teor de gomas. x) filtrabilidade. vii) índice de acidez. obedece aos mesmos princípios do uso do diesel para a geração de energia elétrica. de modo que possa ser assegurado o suprimento contínuo. temperatura em que o óleo passa do estado líquido para o gasoso. Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 119 . Isso faz com que. iv) ponto de ebulição. juntamente com a logística. viii) índice de peróxido. iii) motor Elsbett. ciclo diesel. as tecnologias que utilizam óleo vegetal in natura em motor de combustão interna com algum sucesso são: i) motores com pré-câmara de combustão. geralmente hidráulica. iii) reduzir o depósito de carbono nos bicos injetores (menor ccr). iv) melhorar a filtrabilidade na bomba padrão de combustível do motor. que pode ser por solvente ou por prensagem.

Motor Elsbett Para viabilizar o uso de óleo vegetal em motores diesel de injeção direta. este será aquecido na admissão do motor. O sistema funciona da seguinte maneira: a energia térmica da água de circulação do motor deve ser reutilizada para pré-aquecer o tanque do óleo vegetal. vi) eliminador de ar. São introduzidos mais sensores de temperatura na pré-câmara. que o tornaram mais robusto. esses motores têm excelente desempenho operando com óleos vegetais neutralizados. na cabeça do cilindro. Também são acrescentados no circuito do combustível uma segunda bomba e um segundo filtro para incrementar a pureza do combustível. Cenbio também vem procurando desenvolver este tipo de equipamento. A existência desta pré-câmara torna mais suportável o uso de óleos vegetais de qualidade inferior. em seguida há um período de transição em que o óleo vegetal se mistura ao diesel e. Segundo Kaltner. Kit de Conversão A utilização de óleos vegetais in natura como combustível em motor diesel requer uma série de ajustes e modificações no motor. Esses motores de tecnologia Elsbett ainda existem no mercado.Motores com pré-câmara de combustão Na Europa são fabricados vários modelos de motores diesel com pré-câmara. iii) válvula termostática multivia para reversão da operação óleo diesel/óleo vegetal. A dms manteve a cavidade 120 Tecnologias de Energias Renováveis . a reversão do funcionamento para óleo vegetal após motor e combustível atingirem a temperatura especificada. o alemão Ludwig Elsbett introduziu algumas modificações no sistema de injeção e. No início da década de 90. Existem diversos fornecedores no mercado europeu que fornecem kits para adaptação de motores. para limpeza das tubulações e bomba injetora. o óleo vegetal é filtrado para evitar entupimentos. que devem sempre manter um elevado padrão de limpeza com a retirada prévia de sabões e impurezas. em 1982. iv) sensor de temperatura do motor. a viscosidade do óleo vegetal. o motor parte e opera com o óleo diesel inicialmente. O cirad desenvolveu um kit para tornar esses motores capazes de funcionar com óleo vegetal in natura. principalmente. reversão do funcionamento para óleo diesel com programação temporizada no final da operação. algumas modificações foram implementadas no motor Elsbett. ii) bomba auxiliar de água p/ sistema de refrigeração e tubulação de interligação do radiador com serpentina do tanque. a temperatura do motor. em diferentes condições de acordo com a matéria-prima utilizada. a injeção do combustível é ajustada. que monitora: a temperatura de injeção do óleo vegetal. O kit básico é composto de: i) tanque de óleo vegetal com serpentina p/ aquecimento e sensor /indicador de temperatura. com maior eficiência e maior potência. posteriormente. somente o óleo vegetal é utilizado como combustível. A cabeça do pistão é recortada e recebe uma placa refratária para aumentar a temperatura da combustão. melhorando a eficiência da queima. vii) comando computadorizado de controle do funcionamento com óleo diesel/óleo vegetal. Eles são adequados para tarefas onde a demanda requerida não tenha grande variação e esteja sempre próxima da potência nominal do equipamento. com a implementação de um recipiente onde a explosão passou a ocorrer. No Brasil. v) tubulação de óleo vegetal. O uso de óleo in natura vem sendo avaliado em diversos motores no Brasil. com capacidade de até 140 HP. quando sua viscosidade se aproxima ao valor da viscosidade do óleo diesel a temperatura ambiente.

8°C (cSt) 3. o que é observado na figura 4.9 – Comparação de alguns índices do óleo diesel e do dendê. acrescentou um segundo bico injetor em cada cilindro.9. O enfoque foi o desenvolvimento de pesquisas para viabilizar o uso do óleo vegetal nos motores do ciclo diesel. que serve à usina de extração de óleo da Embrapa. passou a refrigerar o motor com óleo lubrificante. o segundo um grupo gerador mwm D225-4 instalado na comunidade de Boa União (Presidente Figueiredo – AM) e por fim um grupo gerador Multi Fuel 4RTA-G da mas.450 0.700 42 (mínimo para diesel marítimo=60°C) 344 60 (mínimo especificado = 45) 42 0.28 gramas de óleo vegetal. Assim. o óleo de dendê é um excelente substituto para o óleo diesel. o Programa Trópico Úmido financiou um equipamento Elsbett para o projeto de extração de óleo vegetal na comunidade do Roque. facilitando a combustão e aumentando a eficiência do sistema. Mesmo no caso dos motores Elsbett e dms (hoje ams). esse motor apresentou problema devido à qualidade do óleo vegetal. ultimamente tem funcionado continuamente com diesel.91 Tabela 4. sendo o primeiro um motor veicular de uma Kombi.0 cSt) 38 Dendê 9. Óleo Poder Calorífico Superior (Kcal/ kg) Diesel 10. Desempenho do Grupo Gerador MWM D225-4 e Multi Fuel 4RTA-G da MAS com óleo de dendê in natura A Embrapa Amazônia Ocidental desenvolveu pesquisas no sentido de viabilizar motores ciclo diesel utilizando óleo de dendê (conhecido também como óleo de palma) como combustível. Os grupos geradores mwm não necessitaram de ajuste para a operação com este óleo vegetal. A comparação de algumas propriedades do óleo diesel e do dendê é apresentada na tabela 4. Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura 121 . ocasionando limpeza e troca de filtros conforme manual de manutenção próprio para motor a diesel. De acordo com o estudo realizado. principalmente. que passou a produzir 1 kWh com apenas 0. pois pode inviabilizar economicamente o sistema. no Alto Juruá.6 a 6.16.83 Ponto de Fulgor (°C) Índice de Cetano Densidade 20/4°C Viscosidade a 37. na utilização de óleos vegetais com acidez elevada. basta que se aumente a pressão nos bicos injetores para diminuir o acúmulo de resíduos de carbono na descarga do motor. quando foi aumentada a pressão nos bicos injetores.6 (faixa especificada: 1. permitindo aumentar a temperatura do refrigerante de 100°C para 120°C. o impacto do aumento do custo do combustível vegetal devido ao processo de refino deve ser cuidadosamente avaliado.no cilindro. Com o funcionamento do motor mwm foi observada a diminuição da carbonização. com apoio financeiro do cnpq e Sudam. uma segunda bomba de combustível com mais um filtro acoplado e. o óleo vegetal deve ser de boa qualidade para não danificar o sistema de injeção e permitir uma queima mais eficiente. No Brasil. Foram usados três diferentes motores para os testes.

o aumento da pressão resultou em melhor combustão do óleo de dendê (figura 4.2 0.05 0 180 220 Pressão nos bicos (bar) Figura 4. que tem como base de funcionamento a filtragem e prensagem a frio. Os ácidos palmítico e esteárico são saturados. que constituem 98% do óleo de dendê. Durante o período de desenvolvimento do projeto. A fração de oleína obtida que corresponde aos 122 Tecnologias de Energias Renováveis .25 Resíduos (grama/hora/cabeçote) 0.17).16 – Influência da pressão nos bicos injetores na formação de resíduos Com o aumento da pressão nos bicos. foi verificada também a ausência de ésteres no óleo lubrificante. O resfriamento lento do óleo bruto causa a cristalização destes ácidos. oléico e linoléico. sendo que este foi o que apresentou melhores resultados. que são separados através do filtro-prensa na temperatura de 17°C. Motor Veicular – Cristalização do óleo de dendê in natura O óleo de dendê possui alto teor de estearina. Portanto. Este processo se baseia na diferença dos pontos de fusão ácidos graxos palmítico.05 0 180 200 Pressão nos bicos (bar) Figura 4. esteárico.000 horas gerando energia elétrica. O grupo gerador ams não apresentou um desempenho adequado com a utilização do óleo bruto de dendê. o de melhor desempenho foi o grupo-gerador mwm.15 0. portanto.1 0. Para resolver este problema a Embrapa criou.0.2 0.15 0. Foi o mais longo período de funcionamento dentre os motores testados. 0. um protótipo de separador de fases do óleo de dendê.25 Índice de Éster 0.17 – Influência da pressão nos bicos injetores na formação de éster Dos dois motores utilizados. tendo pontos de fusão acima de 62°C. ocorre normalmente a cristalização do óleo com a variação da temperatura ambiente. junto com a Netzsch do Brasil. este motor operou 4.1 0.

ácidos insaturados é então separada por fracionamento natural do óleo de palma, que consiste em operações de resfriamento e filtração sem uso de aditivos químicos. Os ácidos insaturados, oléico e linoléico apresentam pontos de fusão abaixo de 16,3°C. A tabela 4.10 mostra os resultados para o processo de separação da oleína e da estearina (prensagem e filtragem a frio).
Ácido Graxo Palmítico Esteárico Oléico Linoléico Oleína (%) 95,5 4,40 41,9 11,8 Estearina(%) 59,53 5,00 26,30 6,50 T. fusão (°C) 62,90 70,10 16,30 5,00

Tabela 4.10 – Processos de separação da oleína e da estearina - Prensagem e filtragem a frio Adaptado Embrapa CPAA, Embrapa ctaa, Agropalma e (Moretto & fett, 1989)

Uso do óleo de dendê refinado – oleína
Para evitar o problema de cristalização em motores veiculares, especificamente um motor diesel de uma Kombi, foi usada somente a oleína como combustível. Nas condições em que foi utilizado, este óleo apresentou custo menor quando comparado ao diesel.

Desempenho do Grupo Gerador MWM D229-6 com óleo de dendê in natura
O funcionamento de um grupo gerador diesel convencional foi avaliado utilizando-se óleo de palma bruto (óleo de dendê) como combustível. O grupo gerador tinha potência de 76kVA/60kW, com motor mwm D229-6 de injeção direta. Os testes tiveram a duração total de 400 horas. Os problemas encontrados na operação com óleo vegetal foram: 1. Necessidade de troca mais freqüente do óleo lubrificante; 2. Acumulação de partículas na bomba injetora e carbonização das câmaras de combustão e bicos injetores, causando perda gradual de potência ao longo dos ensaios, todavia reversível com limpeza. Projeções indicaram que, devido aos maiores custos de manutenção, o óleo vegetal seria vantajoso em relação ao diesel apenas em localidades onde este custasse no mínimo 25% a mais que o óleo vegetal. O diferencial requerido pode ser maior do que isto e depende das condições específicas. Uma análise global destes ensaios e de outros similares reportados indica que é possível se operar com óleo vegetal a níveis de manutenção semelhantes ao diesel. Para isto é necessário que alguns parâmetros de qualidade do óleo vegetal sejam mais controlados do que se exige na comercialização normal do óleo bruto. Também, o emprego de motores de injeção indireta seria desejável, na medida de sua disponibilidade.

Experiências de Eletrificação Rural Utilizando Óleo Vegetal como Combustível – Projetos implantados na Amazônia
Alguns projetos-pilotos foram implantados conforme apresentado na tabela 4.11.

Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura

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Local de Implantação Vila Boa Esperança – Moju – PA Vila Soledade – Moju – PA Alto Solimões – AM Com. Boa União, Pres. Fig.– AM

Óleo vegetal Dendê Dendê Andiroba Dendê

Produção do óleo Comunidade Agropalma Comunidade Embrapa

Tipo de motor Elsbett Convencional com kit Elsbett Convencional sem kit

Tabela 4.11 – Projetos-pilotos implantados na Amazônia

A produção de 100 kWh de energia representa um consumo médio de 25 kg de óleos vegetais (por hora de funcionamento do sistema). Isto significa que um sistema de 100 kWh operando 6 horas por dia, 365 dias /ano, consumirá aproximadamente 55.000 kg ou 62.000 litros. Como a maior parte das oleaginosas nativas tem safra definida, em torno de 4 meses, todo este óleo tem de ser produzido neste período, o que aumenta o tamanho da instalação de extração e cria custos adicionais de armazenagem. Este é possivelmente o maior problema da utilização de espécies nativas. Portanto conclui-se que o óleo de dendê pode ser uma das matérias-primas com potencial para ser substituto do óleo diesel. No entanto, vários fatores contribuem para a sua escolha como fonte de matéria-prima renovável, dentre elas o tipo de motor e a logística. Destaca-se ainda que o acúmulo de resíduos de carbono na descarga do motor mwm utilizando óleo de dendê como combustível foi sensivelmente diminuído com o aumento da pressão dos bicos injetores. No entanto, este óleo bruto no motor dms, tecnologia elsbet, apresentou performance inadequada. Já em motores veiculares pode ser usada somente a oleína ou se adicionar aditivos para minimizar a cristalização.

Conclusão
O custo para universalizar a Amazônia em conformidade com o modelo atual - sistemas isolados térmicos a combustível fóssil, sustentado por um forte subsídio – pode ser muito oneroso para o País. O custo de geração de energia dos sistemas de geração existentes é viabilizado pela Conta de Consumo de combustível – ccc, que para 2006 chegou a 4,5 bilhões de reais. Esse valor é aproximadamente 25% superior ao montante de R$ 3,6 bilhões aprovado para 2005. Atualmente, os sistemas isolados de Manaus (AM) representam em torno de 44% da ccc; os de Porto Velho (RO) e de Rio Branco (AC), 23%. O restante da conta é distribuído nos sistemas isolados de outros Estados1. Esse modelo não é sustentável e não deve servir de exemplo para que os serviços de energia elétrica cheguem a toda a Amazônia. Os custos serão cada vez maiores, cristalizando interesses, cada vez mais difíceis de serem demovidos. Ademais, os sistemas de controle e a eficiência de todo o sistema serão ainda mais afetados, dadas a pequena dimensão e a grande quantidade de equipamentos de geração que deverão estar sob a responsabilidade das concessionárias da região. Dessa forma, faz-se necessário construir um modelo diferente, de menor custo para a sociedade brasileira e mais eficiente. Esse modelo deverá abordar os seguintes aspectos: i) tecnologia; ii) gestão; iii) regulamentação diferenciada; iv) uso produtivo da energia.
1 Aneel. Boletim Semanal nº 207, 2 a 8 de fevereiro de 2006

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Tecnologias de Energias Renováveis

Esse trabalho se propôs a abordar apenas o aspecto tecnológico, especificamente relativo a motores de combustão interna para utilização de biocombustíveis. No caso da planície amazônica, rica em oleaginosas, tanto a opção de uso de biodiesel quanto a de óleo vegetal in natura devem ser consideradas. Contudo, os empecilhos com relação a essa tecnologia devem ser relatados. Primeiro, existem poucos projetos significativos no Brasil para geração de energia elétrica, que dispõem de dados sobre os comportamentos dos motores. Essa insuficiência se deve, sobretudo, à inexistência de um mercado de óleo para essa finalidade. Um dos poucos projetos, o da Embrapa Amazônia, testou três motores diferentes com óleo de dendê, com mais de 4 mil horas. É necessário lembrar que essa instituição possui milhares de hectares plantados com essa oleaginosa. Apesar da insuficiência de dados sobre o uso de biocombustíveis no Brasil em motores estacionários, sabe-se, a partir de experiências internacionais, quais os aspectos mais relevantes que devem ser considerados para equacionar o problema. A questão se resume, por um lado, a tecnologias confiáveis e que possam ser produzidas com facilidade, e por outro, à garantia da matéria-prima – o combustível primário. Do ponto de vista da tecnologia, são três as opções a serem consideradas: primeiro, a queima de óleo vegetal in natura; segundo, a produção e queima do biodiesel; e terceiro, a queima do etanol. Com relação à queima do óleo vegetal in natura, basicamente são três as tecnologias a serem consideradas: kits de conversão, motores com pré-câmara de combustão e motores ams. Os kits de conversão já são fabricados no Brasil, normalmente por encomenda, por manufaturas não especializadas. Motores com pré-câmara são fabricados pelo cirad, e utilizados em escala nas ilhas francesas do Pacífico. Não existem projetos no Brasil com essa tecnologia. Motores ams são fabricados na Alemanha, em uma versão melhorada do motor Eslbett. Um motor ams foi utilizado numa experiência pela Embrapa Amazônia. Contudo, os resultados obtidos com um motor mwm com kit de conversão foram melhores, utilizando o mesmo tipo de óleo vegetal. Para a produção de biodiesel, são duas as rotas tecnológicas: a transesterificação, com a variante esterificação, ou o craqueamento. As duas rotas têm relativa complexidade para serem utilizadas em pequena escala em comunidade rural da Amazônia. No Brasil, a Ecirtec e a Tecbio produzem pequenos reatores, que também podem ser manufaturados sob encomenda em fabricantes não especializados. Quanto às torres de craqueamento, não se conhecem fabricantes especializados no Brasil; também essas unidades são fabricadas sob encomenda. Projetos de queima de biodiesel, além da dificuldade para a produção desse combustível, também esbarram nas mesmas dificuldades apontadas acima para queima de óleo vegetal in natura: inexistência de fornecimento regular da matéria-prima – o óleo vegetal. No Brasil, existe um montador de grupos-geradores a diesel que adapta motores Scania para a utilização de biodiesel – a Maquigeral. O Brasil tem uma indústria consolidada de fabricantes de usina de etanol. Porém, todos fabricam equipamentos de grandes dimensões, para atender ao mercado de fabricantes de açúcar e álcool. Fabricação de micro-destilaria normalmente é realizada sob encomenda por pequenas indústrias.

Biodiesel e Óleo Vegetal in Natura

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