Arquivo Upado por MuriloBauer - FileWarez

A História do Historiador

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ISBN: 85-86087-??-?

Tereza Aline Pereira de Queiroz Zilda Márcia Grícoli Iokoi

A História do Historiador

PUBLICAÇÕES FFLCH/USP

1999

Helena G.087-54-8 1. Historiografia 3. Zilda Márcia Gricoli II.usp.: 818-4593 Editor responsável Prof. História 2. Rodrigues Capa Joceley Vieira de Souza Revisão Autoras / Simone Zaccarias Montagem Charles de Oliveira / Marcelo Domingues .FileWarez 4 Copyright 1999 Aline Pereira de & IOKOI. Zilda Márcia Gricoli Iokoi. 1999. Zilda Maria Grícoli QUEIROZ. Tereza da Humanitas/FFLCH/USP & IOKOI. Tereza Aline Pereira A História do Historiador / Tereza Aline Pereira de Queiroz. Milton Meira do Nascimento Coordenação editorial e Diagramação M. CDD 901 HUMANITAS PUBLICAÇÕES FFLCH/USP e-mail: editflch@edu. Historiadores I.Grícoli. Zilda M.Arquivo Upado por MuriloBauer . sem autorização prévia dos detentores do copyright SERVIÇO DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO DA FFLCH/USP FICHA CATALOGRÁFICA: MÁRCIA ELISA GARCIA DE GRANDI CRB 3608 Q 42 Queiroz. 116 p ISBN 85-86. Pereira de É proibida a reprodução parcial ou integral.br Tel. QUEIROZ. Dr. Título. – São Paulo: Humanitas / FFLCH/USP. Tereza A. Iokoi.

................... 87 Bibliografia ...................... 13 As Idades Médias ....................................................................... 53 A Modernidade .........................................................................................................................................................FileWarez 5 SUMÁRIO Introdução .............. 69 O Historiador Contemporâneo ...... 37 As Idades Modernas ........................................... 113 .Arquivo Upado por MuriloBauer ......... 7 As Antigüidades ..............................................................................................

” Agostinho. mais ampla. Passado e memória dão conteúdo. suscita a visão imaginária. o econômico. A história de si mesmos é também a história da vinculação com determinado tempo e espaço. 6. De Trinitate. Embora a individualidade se elabore dentro de uma dinâmica. com bases . isso não torna todos os homens historiadores. xi.. mais difusa. IX.) uma certa realidade que o espírito conheceu através dos olhos e que foi transmitida à memória. onde se relacionam o vivido e o concebido. É justamente da tradução dessas histórias através de narrativa coerente. com as estruturas da cultura.INTRODUÇÃO 7 INTRODUÇÃO “Quando eu evoco um arco. não ficcionais.. identidade e espessura a todos os humanos. (. Por mais isolado que se encontre um grupo. todos estão imbuídos de um passado. elaborada a partir de elementos concretos. imbricada com o social. A história pessoal de cada um inevitavelmente terá raízes numa história externa. de uma memória e de uma história. uma comunidade ou mesmo um só indivíduo. cheio de beleza e simetria. nem sempre perceptível no plano da consciência individual.

na leitura da documentação. ao qual o historiador dará forma para que ele se transforme em história. Apesar de o indivíduo existir na história. Pelo simples fato de participar de um passado realizado no presente. Aline Pereira de & IOKOI. Neste sentido a memória é documento e não produto final. criando uma imagem do passado. ou memorialista. cada século reelaborou a história grega dentro de suas perspectivas e possibilidades. tampouco o historiador expressará uma subjetividade ilimitada na sua captação do passado. Tereza Tereza A. mas aquele que ao indagar capta o sentido da construção de uma memória social no tempo. por exemplo. Pereira de & IOKOI. na abordagem. o herói sempre precisou de um momento adequado para demonstrar sua habilidade e. O historiador não será guardião da memória individual. Nos limites entre a “consciência possível” e a “consciência real” próprias e de seu tempo. . o exercício do poder de uns sobre os outros. não será ele o objeto principal do historiador. No entanto. Assim como o conteúdo da história não é o indivíduo isolado. a construção mental e física do mundo. QUEIROZ. Zilda Maria Grícoli num múltiplo e complexo inter-relacionamento entre tempo. com um grupo e com idéias por este concebidas. no processo de reflexão convertido em texto. incapaz de ser exorcizado” ou seja. os encontros entre diferentes estão na base daquilo que Virginia Woolf definia como “fantasma imenso e coletivo. Mesmo em períodos onde se privilegiou uma história de heróis. seu trabalho expressará uma historicidade intrínseca na escolha de temas. de pertencer ou se projetar num determinado grupo social. que se ocupará o historiador. de uma identificação com um objetivo suprapessoal.Grícoli. nesta condenação do historiador ao presente situa-se a eternidade de um passado que nunca se esgota. Zilda M. teria sido escrita por Heródoto e ponto final. a história da Grécia. o passado. espaço e a expressão dos grupos humanos.8 QUEIROZ. foi impossível caracterizar a heroicidade isoladamente. o historiador busca no passado a consciência de seu próprio tempo. As relações interpessoais. principalmente. Paradoxalmente. Caso contrário.

ocorre o inverso. de ciclos. O tempo jamais é único no estudo da história. Pode até mesmo não existir. no século IV a. de épocas. em Aztlán. é possível a uma sociedade conceber o mundo sem passado. foi Timeu da Sicília. que é eterna. Dependendo de suas crenças. No Egito. há deuses que significam o próprio tempo.INTRODUÇÃO 9 Devemos considerar também que nem sempre o termo historiador foi utilizado para identificar aquele que se ocupa do passado.C. o tempo existe na esfera do humano. num eterno presente em que passado e futuro se fundem. Pessoas com os mais diferentes perfis e formações desempenharam funções de destrinchar. diante da necessidade de organizar seu pensamento. na antigüidade. No século V. um tempo contínuo. seu entendimento. fora da divindade. predomina então uma idéia do não-tempo divino que interpenetra o cotidiano. sem imperfeito ou mais-que-perfeito. organiza esse tempo em função de fatos. que introduziu um sistema numérico estabelecendo uma correlação entre as crônicas das diversas cidades-estados. Tampouco existiu uma profissão ou uma carreira de historiador em todos os tempos e todas as sociedades. sem fraturas. na China. a cada momento e a cada espaço. pode ter uma predominante qualitativa ou quantitativa. é desigual e particular a cada sociedade.. dado que cada uma estabelecera uma cronologia a partir das listas de dignatários que a cada ano as governavam. por exemplo. forjadora de uma forte estrutura conceptiva no ocidente. de estruturas. . cria medidas e categorias de tempo. na Índia. tendo em vista as mais variadas preocupações e múltiplas percepções de tempo. O historiador. É físico e metafísico. Na cultura do cristianismo. Com isto acrescenta uma noção de tempo diversa daquela vivida pelas comunidades. falar ou escrever sobre o passado. refletir.

Em virtude da crença numa determinada idéia do tempo – cíclico. com os quatro Tetzcatlipocas nos quatro cantos do espaço. judaico-cristã por excelência. de progressão contínua. como um rio que flui. a esta concepção liga-se uma idéia intrínseca de progresso. o presente torna-se uma experiência na alma. Em 1830. por exemplo. Na visão linear. na idéia de nascimento.10 QUEIROZ. de totalização e de finalidade. Hegel propõe a seus alunos a construção de uma história filosófica plena de necessidade. que evocaria “a manifestação do processo absoluto do Espírito em seus mais elevados aspectos: a marcha gradual através da qual a humanidade atingiria sua verdade e tomaria consciência de . Tereza Tereza A. a história assume o papel de mestra. excluindo a noção de ruptura. Para Einstein espaço e tempo formam um contínuo quadridimensional. o futuro existe como expectativa psíquica. como a areia da ampulheta – o narrador da história buscará seus conteúdos e o próprio espírito da narrativa de maneiras diversas. de propósito divino. com a percepção de Albert Einstein de que as indicações de tempo eram sempre relativas à posição do observador. dois fatos simultâneos podem ser vistos tanto simultaneamente como numa seqüência temporal. a ênfase recairá no processo de aperfeiçoamento do mundo até atingir seu ponto culminante representado por seu próprio fim. num outro plano de conjectura. como uma cobra mordendo seu próprio rabo. Se baseada no eterno retorno. pois conhecendo o passado descortina-se um futuro sem surpresas. o tempo comum é passageiro e sem sentido e cessará no momento em que a alma se unir com Deus – o fora do tempo. QUEIROZ. exatamente como os astecas haviam concebido o deus Omotéotl. Zilda M. desintegração e renascimento. assim. Pereira de & IOKOI. o passado é uma imagem memorial da alma. meio e fim assegurados. criando o espaço e o tempo simultaneamente. como o ritmo das estações.Grícoli. no cíclico. Zilda Maria Grícoli Santo Agostinho atribuiria ainda ao tempo cristão uma nuance psicológica. com um início. A noção personalizada do tempo de Agostinho coincide. ou linear. Aline Pereira de & IOKOI.

a ausência quase total ou a detratação e estigmatização dos elementos que não partilhavam desse poder – artesãos. descontinuidades e descompassos. Para ele.) Os princípios dos espíritos dos povos (Volksgeist).. com as características determinadas de suas éticas coletivas. camponeses. Ele se eleva na história a uma totalidade transparente a si mesma e traz a conclusão. crianças. constituiriam as configurações desta marcha gradual (. escravos.” Nada mais distante da prática histórica das últimas décadas do século XX. dessa individualidade relacionada com o todo. as ideologias do poder religioso que muitas vezes emprestaram suas estratégias para o poder temporal. de sua religião. os povos históricos. nos auxilia a . estão na base deste trabalho. na série necessária de sua sucessão definidas apenas como momentos do único Espírito universal: graças aos homens. No interior do discurso histórico poderemos perceber as injunções do poder na escolha dos temas evocados. A partir de uma pré-história da história na antigüidade grega e romana até a contemporaneidade observaremos quão variável foi o papel da história e do historiador nas sociedades. doentes –. de despotismos e imperialismos. que por vezes só travestem a própria continuidade. incapacitados. uma análise suscinta das idéias que nortearam as diversas construções do passado elaboradas pelos historiadores no ocidente. índios. mulheres. as descontinuidades. Observaremos quão útil pode ser o passado na criação de mitos destinados à mobilização de povos para a guerra e a conquista. de culturas hegemônicas. desocupados. que leva em conta diferenças. de sua ciência.INTRODUÇÃO 11 si. Também a análise da vida pessoal. de sua arte.. de sua constituição. mas também de um senso de libertação e justiça através do conhecimento e da consciência de um estar no mundo eivado pela dinâmica do passado. à criação das nações e nacionalidades. e dos móveis particulares que guiam os historiadores mencionados no corpo do trabalho. Estas diferenças.

políticas e culturais. Zilda Maria Grícoli vislumbrar a importância maior ou menor desta especialização do saber nos diferentes tempos e espaços. Tereza Tereza A.Grícoli. QUEIROZ. Zilda M. Aline Pereira de & IOKOI. sobretudo. . a enunciar uma história dos historiadores. bem como suas funções ideológicas.12 QUEIROZ. Pereira de & IOKOI. Mas.

primordial. quase nunca interpretado com o distanciamento próprio à racionalidade ocidental.. padrões téxteis. para um sentido de enraizamento. A memória coletiva dos ancestrais era narrada por homens sábios para toda a coletividade.. ainda podiam ser vistos poetas . Antes da história havia as lendas. na África. inseriam-se numa totalidade sem distinções entre a “história”.” Sacerdote egípcio falando com Solon. A sofisticação intrínseca à construção dos passados míticos é enorme. falantes e vãs. as cosmogonias. Hoje em dia. a “literatura”. elementos arquitetônicos. rituais. na Albânia. a “geometria”. A importância dos narradores na sociedade. O passado. danças. contribuía com medidas e parâmetros. pinturas. de identidade dos grupos.. que nada sabem do passado. a “religião” ou os afazeres cotidianos da vida. ainda encontramos comunidades onde os velhos detêm a memória de acontecimentos ocorridos no século XV ou mesmo antes. há poucas décadas. certezas e temores. Estas narrativas tinham uma ligação profunda também com o não verbal.AS ANTIGÜIDADES 13 AS ANTIGÜIDADES “Vocês gregos são apenas crianças. cerâmicos etc.

”.C. 470 . Aline Pereira de & IOKOI.14 QUEIROZ.348 a. Estão aí presentes. Assim. 484 a. abrandar os lapsos entre duas ações consecutivas. quando gregos cultos se lembram do tempo em que a história era preservada pela memória do povo. identidade. Heródoto (c. portanto. Zilda M. de vilarejo a vilarejo. cheio-vazio. Esta história escrita. a relação entre opostos norteia as narrativas míticas. direito-esquerdo.. . QUEIROZ. as noções de memória. A idéia do vazio para o cheio. Deus criou o céu e a terra. quando os deuses não haviam sido concebidos. quando a morte não havia nascido.c. mas antes dela deveria existir o grande vazio sobre o qual a Bíblia nada fala.425 a. da seqüência de atos. No Phaedrus de Platão (428 a. que fariam esmorecer a memória e suas faculdades críticas. da vontade de preservação dos diferenciais. pois na época as obras não vinham com denominação – seu desejo de expor suas pesquisas (historíé) para impedir que os feitos de gregos e bárbaros se apagassem da memória. aliás. que tendem a horizontalizar um discurso.). no entanto. não é de imediato aceita sem resistências. portanto.C..C.) declara no início de suas Histórias – este título. a terra era informe e vazia. Sócrates lamenta a expansão do texto escrito e da leitura. Pereira de & IOKOI. A relação interno-externo. mesmo entre as elites e os intelectuais.395). principalmente as razões de terem entrado em conflito. quando a terra não havia nascido.Grícoli. Tereza Tereza A. estabelecer laços. do antes para o depois. Ago- . .C. alto-baixo. humano-divino. narravam epopéias evocativas de uma tradição homérica. mas que encontramos no texto de uma pirâmide egípcia: “quando o céu não havia nascido. Zilda Maria Grícoli que. é posterior. quando o homem não havia nascido. serão algumas das formas da mitologia adotadas pelo discurso histórico escrito. A nostalgia da tradição oral pode ser sentida na época de Tucídides (c. seqüência de acontecimentos e confrontação entre opostos como apresentadas pela tradição mítica. da detecção dos momentos de mudança.

C. Hecateu chega à conclusão de que as tradições históricas vigentes na Grécia tinham algo de ridículo e deveriam ser discutidas. com pouca ênfase ou nenhuma nas correspondências entre universo e humanidade. O registro escrito grego. 540 a. como a judaica. caldeus e fenícios. Situada na costa da Ásia Menor. esta nova história escrita. “de ontem ou ante-ontem” e que a idéia de compilar histórias era ainda mais recente. num momento que corresponde também a uma mudança de atitude nas indagações e explicações sobre o mundo. ao implicar uma desconfiança frente à memória e à oralidade comum. como analisa Jean Pierre Vernant em Mito e pensamento entre os gregos. já fora concebida antes de Heródoto. Mileto era um dos maiores centros comerciais internacionais na época e. Esta tentativa de distinção. privilegiará uma elite alfabetizada. Por outro lado. a um ensaio de afastamento em relação às tradições legendárias e mitológicas pela chamada escola jônica de filósofos. é relativamente tardio quando comparado com o de outras culturas.). o historiador judeu Josephus ironizava a crença de que os mais antigos fatos estariam ligados aos gregos e que estes fossem a única fonte da verdade. centrados no mundo da ação. diz ainda que os próprios gregos estavam cientes de que os egípcios.C. .C. Este processo de separação do mito e do fato concreto é semelhante àquele ocorrido no âmbito da passagem do pensamento mítico à razão e à construção da pessoa. sua origem e natureza. público alvo desta nova memória. teriam preservado a memória das tradições mais anti- .AS ANTIGÜIDADES 15 ra.). 900 a. Por volta do ano 80. para não falar dos judeus. nas Genealogias de Hecateu de Mileto (c. Após suas viagens pelo Egito e Pérsia. O Pentateuco data de c. no entanto. portanto.480 a. separando as esferas do sagrado e do profano. no entanto. considerava que a história grega era muito recente. aberta a contactos muito diversos.C. O aristocrata Hecateu cresce durante os primeiros tempos da ocupação persa (a partir de 546 a. na verdade.

Num estudo publicado em 1980 sobre a representação do outro na obra de Heródoto – a questão do outro é fundamental na historiografia da segunda metade do século XX. como você verá mais adiante – o historiador francês François Hartog considera que a associação das narrativas das Histórias com as musas demonstraria que a obra deveria então ser vista em . protegido. mas inevitavelmente acabou por estar sempre presente numa espécie de raiz de uma árvore genealógica fantasmagórica dos historiadores.16 QUEIROZ. acusado de mentiroso.43 a. de dependência em relação a uma autoridade. As informações de que dispomos são indiretas e por vezes tidas como fictícias. no entanto.. perdoado. Muito pouco sabemos sobre Heródoto. Aline Pereira de & IOKOI. parece ter sido criado na época helenística. a Grécia continental e a Itália do sul. QUEIROZ.).C) era considerado legendário e não histórico. Apesar de não ser o primeiro e nem o único. Nascido em Halicarnasso por volta de 480 a. Foi exilado em Samos. Hoje em dia conhecemos as Histórias de Heródoto divididas em nove livros – cada um correspondendo a uma musa. Tereza Tereza A. louvado.C. Josephus argumentava também que os gregos não tinham um sentido do passado enraizado e que um acontecimento como a guerra de Tróia (c. com eqüidade.C. Em vista disso. ao transformá-lo em “pai da história”. é a figura de Heródoto que assombra o imaginário dos historiadores de todas as épocas. 1250 a. Zilda M. tratado com condescendência. Heródoto foi tripudiado. conheceu a região do mar Negro. Este formato. ou em Pella na Macedonia ou em Atenas mesmo.C. tornou-se cidadão de Thourioi na Itália do sul. mas segundo tradições diversas teria morrido em Thourioi. entre o fim das guerras médicas e o início da guerra do Peloponeso. . O republicano Cícero (106 a. viajou pelo Oriente Médio. acabou por despertar em todos um sentido de filiação. Zilda Maria Grícoli gas. Pereira de & IOKOI. sobretudo no Egito.Grícoli. Parece ter vivido algum tempo em Atenas. Viveu numa época atormentada. imitado.

classificar e medir costumes. líbios. mesmo próximo. Com fontes orais ao interrogar pessoas com quem se encontrava. babilônios. enquanto que os demais narram principalmente as guerras médicas. de um lado reforça o mito fundador de Heródoto como modelo dos historiadores e de outro aponta para o caráter ficcional da obra. massagetas. A escrita da história nascia então sob o signo da guerra. eu nada falarei sobre isso”. edifícios. persas. rios. portanto mentirosa. pois o Heródoto historiador durante muito tempo foi associado a esta parte da obra. via seu próprio passado. Registra depoimentos conflitantes. egípcios. não hesita em transcrevê-las. em que Heródoto é louvado pela novidade de seu empreendimento e sobretudo por suas fábulas. mares. eu os conheço. O mesmo sentimento surge num comentário de Voltaire. 125) reitera as acusações de falsidade e acusa ainda Heródoto de philobárbaros – admirador dos bárbaros – e traidor da Grécia. Voltaire une duas tradições contraditórias. Mais tarde. Mostra-se discreto em relação a mistérios religiosos – “sobre a metempsicose há gregos (os pitagóricos) que defendem certas idéias.46-49 . Plutarco (c. caminhos – ver com os próprios olhos era então considerado mais importante do que o ouvir com os próprios ouvidos – e também com textos e inscrições.. indica o que prefere e deixa ao leitor sua escolha final. monumentos. com a experiência visual obtida nas viagens ao observar. Documenta as crenças populares. por exemplo. reporta-se a Tucídides. em 1768. que não acreditava na possibilidade de se escrever uma história do passado. . Heródoto trabalhou com um material diverso e enorme. A tradição de que a obra de Heródoto é fabulosa. citas. em contraponto com o Heródoto viajante – dicotomia hoje superada pela semântica histórica. a maneira como o povo egípcio. Embora desconfie de muitas de suas informações. esculturas. Os primeiros quatro livros das Histórias falam dos não gregos – lídios.c.AS ANTIGÜIDADES 17 proximidade com a poesia e a ficcão. etc. santuários.

ao descrever os usos e costumes de cada país. Por se tratar de uma obra que iria também ser lida para o público aparecia como uma grande novidade. Tereza Tereza A. nos presságios. Heródoto acredita nos oráculos. Quanto ao espaço. A história. é confusa. crônicas locais e inscrições. atestam o êxito e a popularidade da obra lida em Atenas. Corinto. nunca trabalhou para o governo e não poupa críticas aos próprios atenienses. passa por vezes abruptamente de uma série de acontecimentos para outra. A geografia é fundamental para toda a obra. não pode ser considerado como um tradutor oficial deste poder. Zilda Maria Grícoli A história grega é construída com testemunhos orais. as formas de poder dos não gregos. Heródoto faz da Grécia o centro do mundo em relação às outras terras. grandes deslocamentos marcam as Histórias. é tolerante em relação às diferenças. um egípcio não é um persa. Há até mesmo uma anedota em que Tucídides ainda criança acaba chorando de emoção ao ouvir Heródoto. daí frases como “o Egito é a dádiva do Nilo” etc. ao mesmo tempo em que diferencia um bárbaro de outro. QUEIROZ. Pereira de & IOKOI.18 QUEIROZ. no entanto. . Por outro lado. Aline Pereira de & IOKOI. Nesse sentido também. Zilda M. A história nascia também sob o signo da prosa. a segunda quando ainda era criança.Grícoli. reforça a idéia da diferenciação entre o grego e o bárbaro. ainda sem muita definição. indo e voltando no tempo. Tebas e Olímpia. deveria oscilar entre estória e história. No todo. A vontade dos poderosos aparece como uma determinante na engrenagem da história. A cronologia geral da obra. embora discutíveis. mas o Destino prevalece sobre tudo e sobre todos. Algumas fontes. não consegue apreender claramente as transformações advindas com o tempo na história dos povos. O modelo épico ainda se encontra na base da narrativa e o historiador ainda não existe como profissão. que não é um cita etc. Apesar de ter sido apontado como um instrumento de propaganda do poder de Atenas. A primeira invasão da Grécia pelos persas ocorrera pouco antes de Heródoto nascer.

A obra não foi acabada. Para escapar à pena de morte. provavelmente foi aluno de Anaxágoras. refugiou-se durante vinte anos na Trácia.c. Tucídides considera esta guerra a mais importante de toda a história. Não utiliza nenhuma data. É o historiador do presente e da Grécia. morrendo logo depois. mesmo diante das guerras persas ou da guerra de Tróia. objetivo e científico. mas. A História da guerra do Peloponeso – a luta entre Esparta e Atenas – cobre o período do início da guerra (431 a.470 .C. Para ele os gregos antigos deveriam viver como os bárbaros seus contemporâneos.C. O passado e o mundo além de suas fronteiras lhe parecem completamente destituídos de interesse. Enxergava nela um embate direto entre sistemas políticos e desempenhos políticos. Voltou a Atenas em 404 a. por ocasião da anistia imposta pelos espartanos. entre modos de vida irrenconciliáveis.) até 411 a. . Foi eleito estratego em 424 a.395 a. O artifício cronológico usado por Tucídides é o da divisão da ação em invernos e verões. o que torna o conhecimento do passado grego e do bárbaro inúteis.C.) como o sucessor de Heródoto. o século XIX tornar-se-á o século da história positivista. foi acusado de traição.C. Nascido num meio aristocrático. não cronológica. dos sofistas Gorgias e Antiphon. como não pôde impedir a tomada de Amphipolis pelo espartano Brasidas. Tucídides detesta o passado. O tempo é construído de uma maneira lógica. a atual divisão em oito livros tampouco corresponde à composição original. da história somente do passado que será considerado um grande modelo a ser seguido.C. Paradoxalmente. talvez assassinado por seus inimigos políticos.. com a queda dos 400. onde sua família explorava minas de ouro.AS ANTIGÜIDADES 19 Tradicionalmente considera-se Tucídides (c. tentando superar a confusão causada pelos diferentes calendários das cidades gregas. como Heródoto. Comandou uma expedição naval de Atenas na Trácia..

Um dos tradutores de Tucídides. Ao contrário de Heródoto. não dos Estados. não somente versões múltiplas dos fatos. “Assim. onde a verdade fosse exposta. Ecos de Tucídides permeiam as obras de Machiavel e de Nietszche.20 QUEIROZ. Pereira de & IOKOI. a história tenderá a se repetir. com um estrito encadeamento de fatos políticos e militares. útil para aqueles “que queiram entender claramente os acontecimentos que tiveram lugar no passado e que (a natureza humana sendo o que é) mais dia menos dia. Seu objetivo – escrever uma história do presente para o futuro. de informantes com os quais mantinha contacto em várias cidades e do testemunho pessoal do autor. tendo em vista a imutabilidade da natureza humana. diante da documentação. das viagens realizadas pelo próprio Tucídides na Itália. Aline Pereira de & IOKOI. pensador do poder absoluto. QUEIROZ. Considera que os fatos ocorrem em virtude dos interesses e das paixões dos homens. considerava-o “o maior historiógrafo político” jamais visto. descarta totalmente a idéia de destino. mas que a história não pode afetar a natureza humana. no entanto. Utiliza discursos para expor opiniões contraditórias e antíteses como a do interesse e do direito. quase que da mesma forma. . A moral guia a vida privada. Zilda Maria Grícoli A documentação básica advém de textos transcritos (paz de Nicias). Num estilo denso e sóbrio. Tereza Tereza A. serão repetidos no futuro. tenta revelar as razões e a psicologia das partes envolvidas no conflito entre atenienses e espartanos e. não consegue deixar de imprimir suas próprias idéias filosóficas e preferências políticas no decorrer da narrativa.Grícoli. Tucídides considerava que a inteligência seria o único instrumento passível de ser utilizado para o entendimento da história. Zilda M. queria uma história sem estórias. o filósofo Thomas Hobbes (15881679). execrar outras. de um curso da história. o que supõe que a natureza humana pode moldar a história. a vontade de poder atua como força motriz do mundo. na Sicília e no Peloponeso. pretende ser imparcial. de adorar algumas personagens.

o Jovem para uma expedição contra seu irmão Artaxerxes II. Sua vontade era a de ser um continuador de Tucídides.C. retirase numa propriedade doada pelos espartanos. contra os persas na Ásia Menor. mas o espírito de seus escritos é diverso. Encara como uma tragédia a deterioração moral do mundo grego em guerra. Tucídides constrói uma história contemporânea perene. Traduzem o clima de desarvoramento e desintegração política das cidades gregas. freqüentou os sofistas e foi aluno de Sócrates. portanto. 430 a. centrado na natureza humana. Xenofonte (c.C. no en- . com a elaboração da história do presente. . a superioridade de suas instituições e de sua cultura. Prossegue. Por volta de 367 a. A desintegração progressiva da democracia no século IV e o aumento dos encargos para os ricos fazem com que as críticas ao regime se tornem constantes entre os próprios atenienses. Agesilas. e desligado da história da natureza. É um historiador engajado politicamente com limites de tolerância mais estreitos em relação a Heródoto. Como chefe de mercenários lutou ao lado do rei de Esparta. Mesmo considerando os argumentos contra a expansão ateniense. mas segue uma trilha política totalmente diversa. e em Anabase narra a expedição dos Dez Mil.AS ANTIGÜIDADES 21 Tucídides está do lado de Atenas e Péricles e a história da guerra do Peloponeso é uma obra plena de suas paixões. a justiça ou a nobreza de exercer seu poder sobre outros.C.. instantânea. é anistiado e volta para Atenas.C. A hostilidade à democracia faz com que Xenofonte entre para um exército de mercenários gregos recrutados por Ciro. as discussões sobre o direito. Seu mundo é fechado.c. nunca vacila em defender a causa de Atenas. aristocrata e rico como Tucídides. imune ao processo histórico e ao exterior.).352 a. Acredita. Nas Helenicas estende a narrativa de 411 a 362 a. Após 394 a.C. Banido de Atenas e despojado de seu bens acaba lutando contra Tebas e os próprios atenienses. Após a derrota de Cunaxa conduziu a retirada dos Dez Mil..

De Filisto de Siracusa – que se ocupa das cidades gregas do ocidente e da Sicília. de sua naturalidade sem retórica. plena de espaço.Grícoli. Isto se explica pelo seu menor brilho. QUEIROZ. etnografia. Em seus livros chamam atenção seus conhecimentos militares e a tradução do gostos e das preocupações da aristocracia da época.C. Em geral. Da época alexandrina restaram narrativas sobre as conquistas e descrições das terras invadidas.22 QUEIROZ. que retomam a etnografia de Heródoto. fluem desveladamente sua parcialidade mas também uma tradução menos intelectualizada da representação do mundo dos que partilhavam do poder. que elabora a história dos impérios assírio e meda e dos reis da Pérsia até 395. companheiro de Alexandre. a pretensa objetividade de Tucídides está ausente. sua paixão pela caça. Aline Pereira de & IOKOI. talvez o mais importante historiador do século IV. o que choca o imaginário europeu com sua idealização das virtudes atenienses. Pereira de & IOKOI. geografia. descreve a Índia como Heródoto fizera com o Egito. Da subjetividade de Xenofonte. Zilda Maria Grícoli tanto. Com a perda da liberdade. IV a. Restam fragmentos de vários autores da época. Nearco (séc. das explicações desconcertantes que atribui aos fatos. De Teopompo. pela sua falta de “objetividade”. Zilda M. animais e homens imaginários. mas talvez também pelo fato de ter tomado o partido de Esparta contra Atenas. de inteligência histórica. cor local. as cidades gregas integram-se ao império de Alexandre. diferenças. e também uma Indica com relatos fabulosos e descrições de plantas. que os deuses têm um enorme papel no desenrolar dos acontecimentos. ao mesmo tempo em que fala dos estranhos costumes dos povos que conhecera. para louvar seu senhor Felipe da Macedônia escreveu uma obra caudalosa e barroca de cinqüen- . pelos cavalos. De Ctesias. de uma certa desconexão intrínseca ao seu texto.). a historiografia o descreve desfavoravelmente em relação a Tucídides. protegido de Alexandre. aos reinos de seus sucessores e finalmente ao império romano. anedotas. Tereza Tereza A. ausentes na obra de Xenofonte.

Gália. Políbio (c.). portanto. até 146 a. Amigo de Scipião Emiliano.120 a. é minha intenção de historiador colocar diante dos leitores uma visão geral. assim. continua prevalecendo o presente como tema historiográfico e de maneira cada vez mais clara e aberta impera o elogio do poder. conheceu vários políticos e teve acesso a arquivos. . Políbio faz a apologia do poder de Roma.. são mui distintas daquelas de Heródoto. 202 a. introduzindo assim um elemento pessoal determinante – não mais a guerra. Espanha. era um admirador incondicional dos romanos – “que homem seria tão indiferente ou preguiçoso a ponto de não querer saber como e sob que forma de governo quase todo o mundo habitado se submeteu ao governo único dos romanos. Suas viagens. à superioridade da constituição romana e à capacidade desse povo. como uma sobre a guerra na Numancia e um tratado de tática foram perdidas. foi um dos primeiros escritores a deplorar a corrupção moral existente em Roma. Restaram os quarenta livros de suas Histórias. a cidade ou o império. grego de origem..C. mas com referências a épocas anteriores.C. mas de alguém identificado com as idéias hegemônicas de Roma.C.AS ANTIGÜIDADES 23 ta e oito livros. Não mais incursões de um homem isolado em mundos diversos. Apesar de grego. pisando num terreno “universal” – “Há analogia entre meu plano da história e o maravilhoso espírito da idade de que me ocupo. compreendendo o período de 220 a. Sua hegemonia dever-se-ia à moral. No geral. Várias obras que têm por base suas experiências... e acompanhou Scipião em suas campanhas contra Cartago e Numância.a fortuna fez todos os assuntos humanos convergirem para um só e mesmo fim. e é mais velada nas histórias de Alexandre de Ptolomeu e Aristóbulo. No entanto. o que se tornaria um tema corrente durante mais de seis séculos.” . em menos de cinqüenta e três anos ?”.. permaneceu dezesseis anos em Roma como refém. . Viajou pela Itália. mas o líder. A louvação a Alexandre transborda nos escritos de historiadores como Calístenes de Olinto.C.

entre 1450 e 1700. A força romana era irresistível e seria um crime qualquer rebelião contra ela. Nascido em Cheronéia. e também o construtor de uma grande síntese. Plutarco ocupa um lugar singular pela repercussão que terá durante séculos no ocidente. as decisões tomadas por assembléias e as revoluções políticas. pragmática – narrando as ações dos estadistas ou chefes militares. Para termos uma idéia. Aline Pereira de & IOKOI. Estabelece que as causas determinantes dos acontecimentos não são fatos imediatos. Estuda os regimes políticos para situar o regime romano entre os outros e fazer o elogio de sua constituição. o historiador deve sempre escolher um começo. mas já imersos na cultura romana. Pereira de & IOKOI. lastreada pela geografia e iluminada pela filosofia. Entre os escritores de origem grega. suas obras tiveram 62 diferentes edições. Segundo diz. e para o Egito. Dividiu a maior parte de seu tempo entre suas funções . o individualismo domina –. na Beócia. Políbio representa um exemplo acabado de historiador trabalhando para o poder. Zilda M. porque a verdade deveria prevalecer sobre a forma literária. nunca a fortuna havia obtido tal triunfo como o do estabelecimento do Império Romano. não deixa de atribuir um papel importante à personalidade dos grandes homens e ao próprio destino. onde conheceu políticos e intelectuais. Para Políbio a história deve ser universal – como o domínio romano –. a organização militar e o poder econômico. Tereza Tereza A. dado que cada regime seria uma espécie de organismo vivo sujeito às leis biológicas.24 QUEIROZ. uma causa. por volta do ano 46. Ao estudar o mecanismo das instituições. QUEIROZ.Grícoli. a concebe como matéria isolada da eloqüência. Políbio pretende estabelecer leis que seriam úteis para prever o futuro. A posteridade viu em Políbio uma noção racionalista da história – o pensamento precede a ação. das religiões. mas sim o conjunto das instituições. Zilda Maria Grícoli Ciente do papel utilitário que a história poderia desempenhar nesta sociedade expansionista. para explicar o que diz. num período recente –. viajou para Roma. da erudição ou da poesia. Apesar disso. fundamentada nas experiências política e militar.

Apesar de não se considerar historiador – distingue biografia e história –. Foi um dos ídolos de Montaigne: “Plutarco. as Vidas paralelas – biografias de homens ilustres organizadas em pares. entre outros. nas práticas divinatórias e na justiça da Providência. Considerada um genero literário privilegiado. eis o meu homem”. Demóstenes e Cícero. a moderação e o bom senso. A subserviência ao poder. como o porquê dos velhos lerem melhor de longe do que de perto. de obter suas informações somente através de livros.AS ANTIGÜIDADES 25 de arconte em Cheronéia e a de sacerdote de Apollo em Delfos. a história encontrou um terreno favorável. Plutarco é eclético. ainda tênue na Grécia. durante séculos Plutarco serviu de fonte e de inspiração para os historiadores. ao criarem um quadro moral idealizado dos “grandes homens” como Alexandre e César. considera como grandes virtudes a piedade. Os remanescentes de seus inúmeros escritos estão reagrupados em duas obras. haverá um deslocamento temporal acentuado para o passado e espacialmente a história do mundo será a história de Roma. Embora os historiadores romanos não sejam menos subjetivos. As vidas paralelas. centram a história em torno de personalidades e subsidiam o individualismo e a heroicidade presentes durante séculos na historiografia política. que bem retratam o ócio da paz romana. o porquê da existência de um rosto na face da lua e muitos outros. moralista. expresso numa vasta produção. torna-se uma constante. A produção biográfica de Plutarco deriva de uma longa tradição de anedotas e de reminiscências mais ou menos históricas que remonta aos tempos de Xenofonte e Platão. de não ter qualquer gosto pela pesquisa de documentos. acreditando na imortalidade da alma. um grego e um romano. animada por um . Morreu por volta do ano 120. Em relação à história grega haverá mudanças. com exceção de quatro – e as Obras Morais – uma miscelânea de escritos sobre assuntos os mais variados. Numa sociedade conservadora como a romana. Grande analista da psicologia humana.

apresenta a conquista romana como um feito do povo romano e não só das famílias aristocráticas. remontam às origens troianas e se estendem até a guerra da Istria (178-177). Embora não tivesse escrito nenhuma obra histórica.C. irá refletir sobre o papel da história na política e sobre as formas que deveria assumir.). ao longo de sua obra. como um instrumento de propaganda anti-cartaginesa. Durante a segunda guerra púnica surgem anais em prosa. No século III.149 a. Já no século IV a. em versos. da história dos povos conquistadores e daquela dos homens ilustres era um instrumento funda- .. Coriolano. Tereza Tereza A.43 a. Remontando às fundações de Roma. louvando o heroísmo e a superioridade moral de Roma.26 QUEIROZ. as guerras púnicas fundamentam um tipo de história épica como o Bellum punicum de Nevio. a tradição oral era forte. Zilda Maria Grícoli ideal patriótico. Cícero. o grande pontífice escrevia num album. As famílias tradicionais guardavam recordações de seus antepassados.C. A tradição dos analistas sobrevive durante séculos. que misturava mitologia grega e história romana.C. A questão da memória parece ter tido sempre importância para os romanos. não escritores.) os vê apenas como cronistas. No século II.Grícoli. Nas Origens remonta à fundação de Roma e desenvolve sua história até o presente. Zilda M. uma tábua embranquecida.C. Canções épicas narravam as vidas de heróis como Rômulo. os acontecimentos diários. QUEIROZ. . Para ele o conhecimento da história nacional.C. que vê na história uma atividade apropriada à velhice e à aposentadoria. Esta produção patriótica toma impulso com Catão (234 a. os Anais de Ennio. Aline Pereira de & IOKOI. . os Horácios e Curiácios e muitos outros. Pereira de & IOKOI. a forma da história podia ser mais importante que seu conteúdo. Cícero (106 a. os primeiros analistas como Fabio Píctor e Cincio Alimento escreviam em grego. as imagens preservavam rostos e as inscrições funerárias exaltavam os feitos dos mortos.

Enriquecido pela prática da corrupção no posto de governador da África Nova (Numídia) em 46 a.C. embora seja um gênero retórico. com uma base cronológica. É uma fonte de exemplos morais e pode dar uma estrutura de discernimento para o estadista. destacando o relato dos fatos com suas causas e conseqüências e as imbricações entre as ações humanas e os azares da fortuna. Para isto então torna-se necessário o respeito a uma ordem cronológica. além de situar todos numa tradição. de quem é partidário incondicional. fica no entanto sem qualquer futuro político após a morte de César em 44 a. 86 a. a paixão e o comprometimento político basearão a obra do historiador Salústio (c. Cícero concebe uma história ideal baseada na veracidade e na imparcialidade.C .C. O contemporâneo.35 a. Para Salústio o trabalho como historiador foi um prolongamento de sua vida política. Cícero atribui à história um caráter utilitário. pretende demonstrar a ruína progressiva do regime aristocrático instaurado após a derrota dos Gracos.). Com a Conjuração de Catilina. a Guerra de Jugurtha e as Histórias. retorna no ano seguinte pela intermediação de César. Em suas obras critica a vida ativa – tão elogiada por Cícero – e enaltece a nobreza e a . Excluído do Senado em 50 a. Na base da história romana estaria uma luta secular entre o patriciado e a plebe. assentada na geografia. Em suas obras destila seus ódios e convicções.. Decide então tornar-se historiador. julga importante tecer o retrato moral e cívico dos grandes homens.. Findo o cesarismo só restava a decadência dos tempos em que vivia. preferindo as narrativas do contemporâneo. pois possui uma verdade objetiva e que são necessários métodos para chegar a esta verdade.C. das quais só restam fragmentos. Insiste em dizer que a história não é epopéia e nem poesia.AS ANTIGÜIDADES 27 mental para os estadistas e oradores. Investe contra a busca de um passado remoto.C. por adultério com a filha de Sila.

uma escolha deliberada de alguns episódios em detrimento de outros para criar o efeito desejado. O patriotismo do reino de Augusto fará com que também a história se transforme. do passado. a este tempo ideal contrapõe a Roma contemporânea. idade de ouro estóica. a relação das pessoas com suas origens e seu meio social para explicar suas condutas. QUEIROZ. vivacidade. o que denuncia seu platonismo. Há. a justiça. interpreta. das descrições exóticas. Zilda Maria Grícoli dignidade do espírito. Seu trabalho reitera uma concepção de história profundamente associada à experiência. ao vivido. Sua grande precisão nos temas – o maior episódio de que se ocupa cobre apenas dez anos – reproduz-se também na análise minuciosa. . em que a virtude. Pereira de & IOKOI. escravizada pela oligarquia detentora de magistraturas e riquezas. A Guerra de Jugurtha também trata da história contemporânea. a frugalidade reinavam tanto na paz como na guerra. uma diferença de fundo entre Salústio e Tito-Lívio (c. Seus discursos caracterizam as personagens importantes. painéis descritivos da geografia.10 A. poço de todos os vícios. 64 a. autor de uma . Tereza Tereza A. à brevidade do discurso. uma ênfase no peso da personalidade na condução dos acontecimentos. na explicação daquilo que conhece como testemunha.Grícoli. assentada na demagogia. É um texto todo permeado por uma violência concentrada e retratos bem lavrados das personagens. Zilda M.). Aline Pereira de & IOKOI. portanto. Para além da pintura do caráter de Jugurtha. mas ver as causas sob os efeitos das ações.C. à língua densa e difícil. descrevem sistemas políticos. deixa entrever a inquietação de Roma após a revolução dos Gracos.28 QUEIROZ. Salústio é inevitavelmente comparado a Tucídides no que tange à forma. Nas duas obras há dramaticidade. Em Catilina faz a apologia do passado. preparam os acontecimentos. da etnografia. À medida que narra.D. dos tempos gloriosos dos inícios da república. Para Salústio cabia ao historiador não somente narrar.

Tampouco quer fazer uma história universal. são geralmente caracterizados através de discursos. estabelecidas provavelmente a posteriori. encarnando os interesses supremos da pátria. A base de sua história é a vida. A história seria uma manifestação do espírito ético romano. heróico. o burguês. Tito-Lívio rompe com a história em moda na sua época. em fontes secundárias. e suas paixões. político. constrói o retrato de um romano ideal. . com gravidade. dominando cada período. Mas é tão pessimista quanto Salústio no que concerne ao presente. Não é o homem experiente. o homem romano é o bem mais precioso da nação. justo. em tons dramáticos ou épicos. negando-se a tratar de temas alheios à história romana. representa um outro tipo de personagem. dando os grandes exemplos. os guias do povo. a história contemporânea de Salústio.AS ANTIGÜIDADES 29 história de Roma (Ab urbe condita libri) em cento e quarenta e dois livros. uma figura una que corresponde à unidade do império e contribui para sua propaganda. de suas origens até o ano 9 a. diplomata ou militar que no fim da vida resolve fazer história. Fundamentada numa pesquisa livresca. outras vezes se contradiz fragorosamente –. a obra expressa um sentido de grandeza provavelmente vivo na mente dos romanos. Os grandes homens seriam os instrumentos da história.C. Os cento e quarenta e dois livros nos chegaram divididos em décadas. republicano e sedentário TitoLívio procura as causas da grandeza de Roma na moral romana. Por outro lado. passíveis de serem controladas pelos princípios tácitos aceitos por todos para a conduta individual e coletiva. convencido de estar cheio de razão. Movido por um patriotismo exacerbado e não por uma convicção política determinada como Salústio. mas sim nacional. sem um espírito crítico agudo – muitas vezes Lívio cita fontes contraditórias e somente aponta o que lhe parece mais plausível. política e coletiva. trabalhador. a grandeza estava no passado.

memórias. Afinal. é prudente etc. é bravo. particularmente. a concórdia. a moderação. num crescimento de Roma como manifestação de uma vontade divina. Não pertencia a qualquer seita filosófica.C. Legado de Tibério na Germânia.30 QUEIROZ. é belo. respeitava a religião e via nela um meio para manter a ordem e a disciplina entre o povo. Na base de seus escritos. está a louvação dos primeiros césares – César. haviam praticado todas as virtudes: a piedade em relação aos deuses. é culto. . Zilda M. é bem nascido. Tito-Lívio proclama o conservadorismo e a moral ecoando o programa de regeneração do mundo romano de Augusto. não concentram todo o poder sobre o devir histórico. porém. É o grande continuador da missão regeneradora de Augusto.Grícoli. Suas Historiae tentam descrever toda a história do mundo greco-romano desde a guerra de Tróia e inserir a história de Roma na história universal. após tantas provações. Achava natural que. Zilda Maria Grícoli Sem participar da vida pública é um dos primeiros historiadores do gênero intelectual de gabinete. acreditava na importância da Fortuna no desenrolar da história e. os grandes homens. os romanos fossem senhores do universo. 19 a. a fé. anais. a historiografia tendeu por outro lado a se diluir em gêneros menores. a prudência. Este aparece como um herdeiro predestinado de Augusto. QUEIROZ. absolutos e coletivos que levam os povos à decadência. Tereza Tereza A. Após a monumentalidade de Lívio. a clemência.31 A. é virtuoso. Aline Pereira de & IOKOI. Veleio Patérculo (c. biografias. Augusto e Tibério – e uma panfletagem rasgada do próprio Tibério. .) é de novo um homem de ação que se engaja na construção do passado romano. pois existem também mecanismos invisíveis. no entanto. Pereira de & IOKOI. determinantes. A produção laudatória terá vários seguidores. fez uma brilhante carreira militar antes de se tornar o historiador do imperador. Veleio acredita que a causa da grandeza dos césares reside numa conjunção do sobrenatural com a virtude.D.

entrou na carreira administrativa durante o governo de Vespasiano. Uma das características mais interessantes nos retratos humanos criados por . Sua grande eloqüência já era notória antes de se dedicar à história. levar em conta detalhes mínimos que podem indicar a essência de uma pessoa ou de uma época. Os Anais tratam do passado não vivido pelo autor. as Histórias e os Anais. pela discórdia. rápido. O historiador deve comparar.AS ANTIGÜIDADES 31 ensaios. Tácito objetiva fazer uma obra moral. Originário do meio eqüestre e possivelmente provincial. A história deve proceder a uma análise moral. o reino dos júlios-cláudios: Tibério. procônsul da Ásia (110 . não se presta a floreios oratórios como em Tito-Lívio.120). as Histórias da contemporaneidade. avaliar as mudanças. Diálogo dos oradores. transmite violência. em sua obra transparece uma obsessão pela tirania. inquietação. Vida de Agrícola e a Germânia precedem suas obras propriamente históricas. um desejo de liberdade de expressão e de restauração do poder da palavra. 55 . É um grande leitor de almas complexas. as deformações da alma humana quando pressionada por circunstâncias externas.113). de uma forma compacta. dando um tom totalmente diverso em relação à historiografia praticada até então. foi cônsul (97). da crueldade e do deboche da época. quer salvar as virtudes do esquecimento. de povos estrangeiros – como os germanos. brutalidade. diante da miséria. quase sem verbos. amargura. Para Tácito a história não é um campo para louvações pessoais. execrar os vícios. Em meio a este panorama destaca-se a obra de Tácito (c. não é uma lição política como em Tucídides e Políbio. Sua filosofia da história é totalmente pessimista. – Calígula e Cláudio – Nero. analisar. das guerras civis de 69 e do reinado dos flavianos. Seu estilo conciso. A explicação dos fatos deve ser mais completa e extensa do que a narração dos fatos.

Estas personagens também se modificam sob as circunstâncias. e procura decifrar o quanto há de vontade e liberdade naquele processo. Acredita na intervenção dos deuses no processo histórico. a obra de Tácito será muito valorizada na Europa. quando as reflexões sobre a tirania são freqüentes. brada contra o servilismo de cronistas como Veleio Patérculo. centrada em tragédias. Tereza Tereza A. econômicos e sociais da história – analisa as relações entre os desmandos dos imperadores e o déficit nas finanças públicas. Aline Pereira de & IOKOI. Zilda Maria Grícoli Tácito é que nunca se repetem – Cláudio é fraco e inerte. QUEIROZ.Grícoli. Da mesma forma são analisados os sentimentos coletivos: o medo e a fraqueza do Senado ao aclamar Tibério. Sua obsessão pela violência e as regiões mais sombrias da psique faz dele um companheiro de historiadores cristãos tão diversos como Agostinho e Gregório de Tours. desequilibrado. A partir do século XVI. atravessa as mais aterrorizantes tragédias sem agir e sem compreender o que se passa. pessoais e coletivas. ambiciosa. mais decidida. extravagante. o incêndio do Capitólio etc. Pereira de & IOKOI. a apatia do povo após o principado de Augusto. com sede do impossível e do extraordinário. a crise do ano 33 – é certo que constrói uma história dramática. Nero é um louco romanesco. manipulado por suas mulheres e seus libertos. Messalina tem sede de escândalo e luxúria. principalmente.1540) dizia que Tácito ensinava muito bem as pessoas a viverem sob o jugo das tiranias. é mais viril. os motins militares. o saque de Cremona. mas ataca a superstição.32 QUEIROZ. os rompantes de violência popular no teatro. Embora não fosse alheio aos mecanismos coletivos. ao mesmo tempo em que ensinava aos tiranos como . Guicciardini (1483 . Zilda M. Agripina pende para o crime. Tácito utilizou fontes orais e escritas para construir sua história. a tristeza dos soldados diante de seus companheiros mortos. ouvia os rumores do Senado e os das ruas e consultava arquivos oficiais e crônicas divergentes.

120). os livros. ao contrário do hábito de carregar a pesquisa nos tempos mais próximos. Restaram as Vidas dos doze Césares (c. Obedecendo a uma ordem cronológica. originário da ordem eqüestre.c. dedicouse à carreira administrativa. A maior parte de sua obra. na adivinhação. Muito já se escreveu sobre o tacitismo de Machiavel. Apesar disso.140) e Amiano Marcelino (330 . Seus contemporâneos o vêem como um gramático. Suetonio elabora as biografias dos doze primeiros césares romanos. Sobre os homens ilustres (c. 391). Sua paixão era a pesquisa. foi perdida. mas também uma concepção dinástica de poder. mantém a crença na religião tradicional.AS ANTIGÜIDADES 33 fundar suas tiranias. a escrita. utilizava fontes orais para escrever seus trabalhos. De grande erudição. Na época de transição entre a historiografia antiga e a medieval destacam-se Suetonio (75 . De gramáticos e retóricos e uma Vida de Terêncio. Além de pesquisar em livros e arquivos. . como o cristianismo. Sua proximidade com a história pode ser detectada principalmente pela massa de documentação presente nas biografias.c. 113). nenhum julgamento de valor muitos silêncios e nenhuma visão de conjunto. os Doze Césares fizeram uma longa carreira no ocidente. embora haja pouca crítica. considerado o último historiador da antigüidade por ser pagão. onde chega a trabalhar como secretário de Adriano. A opção pela biografia subentende sua convicção no poder pessoal sobre a história. amigo de Plínio. suas funções fazem com que tenha acesso a arquivos e documentos secretos. Mesmo assim não quer ser considerado historiador. Suetonio. prefere se estender mais sobre a reconstituição das vidas dos mais antigos. e desconfia profundamente dos cultos orientais. incluindo uma enciclopédia de história natural. mas o nome deste e muito menos seu espírito não estão presentes. o que lhes dá um tom anedótico e escandaloso muito acentuado. Os Doze Césares tratam do mesmo período estudado por Tácito.

estabelecendo-se depois em Antioquia. convencer. De 353 a 360 trabalhou com Ursicino. Zilda M. a escrita de Amiano. venerável. era oficial militar. participando da luta contra o rei Sapor da Pérsia. centrada na saga deste povo eleito pelos deuses e a Fortuna para dominar o mundo. A obra abrange desde o período do advento de Nerva (96) até a morte de Valente (378) em trinta e um livros. A crítica contemporânea. Não tem uma posição anti-cristã absoluta. das obras teatrais.34 QUEIROZ. basear-se em documentos. Por Deus e sua Divina Providência. ao mesmo tempo em que canta as virtudes do universalismo imperial romano. começou sua carreira na guarda do Palatino.Grícoli. da oratória. Em 363 fica sob o comando do imperador Juliano. contrária aos germanos. ater-se à veracidade. mãe dos deuses. tem se preocupado em indagar qual seria o público da história na antigüidade. negar o fantástico. fecha um ciclo da história romana ufanista. Flagrante de anacronismos em sua exaltação do agora inexistente. Amiano diz querer ser historiador imparcial. Suas pesquisas e a transposição de suas experiências resultaram numa obra altamente patriótica. Iniciava-se agora a saga dos outros eleitos. o último historiador antigo. Nasceu em Antioquia em 330. santa. procurar um meio termo entre vícios e virtudes para retratar os governantes. diz ser a virtude mais importante do que paganismo ou cristianismo. Ao contrário da poesia. Para compilar o material de sua História foi para Roma. integrando um corpo do séquito imperial que realizava missões nas províncias. Evocaremos aqui alguns resultados de sua pesquisa. no entanto. na linha de Políbio. Vivendo em pleno período da desintegração do Império. Pereira de & IOKOI. de fundo belicista. a história não era um genêro elaborado para ser ouvido. Aline Pereira de & IOKOI. Amiano faz a apologia da Roma eterna. Zilda Maria Grícoli Amiano Marcelino. laudatória das façanhas de um Juliano sábio e herói. QUEIROZ. de uma ideologia exangue. Por outro . os trezes primeiros perdidos. notadamente Alberto Momigliano. base da liberdade e da sabedoria. Tereza Tereza A. plena dos fatos que considera dignos de memória.

deveria haver leituras públicas das obras. mas que com o tempo devem ter caído em desuso.C. Tácito como aristocrata deveria ter mais penetração na alta sociedade do que Suetonio. os historiadores não formavam um grupo profissional e nem mesmo um grupo distinto dentro da sociedade.AS ANTIGÜIDADES 35 lado. mas muito fragmentários. .C. Tibério queimou as obras do historiador Cremutius Cordus. a filosofia e os costumes determinavam a conduta dos homens. vários romanos ocupavam cargos políticos. Entre os séculos III a. Dispomos de alguns indícios sobre a disponibilidade de algumas obras no mercado. militares ou administrativos. Sabemos também da existência de resumos de obras para o grande público. simples cavaleiro. há uma documentação esparsa sobre leituras de obras históricas. e IV A. a de compreender o porquê da existência da história em sociedades onde ela não fazia parte da educação formal e onde a religião. portanto. Vários historiadores gregos viveram no exílio. A história. seria uma atividade marginal ou complementar à vida das pessoas. Na medida em que Roma. no século V a. a história e o poder andavam juntos. A isto se acrescenta que na antigüidade não havia uma distinção clara e universalmente aceita entre história e ficção. o que leva a pensar que a história pode ser uma disciplina perigosa. Na base de todas as indagações estaria uma grande incógnita. Augusto não tolerava historiadores fora de uma linha oficial. que acabou se suicidando.D. há fontes sobre as relações entre historiadores e governantes. teria lido alguns trechos de seu livro em público. Temos alguma documentação sobre as personagens que leram obras históricas – Brutus lendo Políbio.. porém. Amiano.. por volta de 392. mas estas deveriam ser desiguais. Segundo Momigliano. Momigliano acredita que no princípio. Cláudio lendo Tito-Lívio etc. sua existência nas bibliotecas públicas do império. Sabemos que Tucídides escrevia para ser lido.

dialética – ou no quadrivium – aritmética.) No sentido místico. Pau- . cuja combinação forma um só ser existente. retórica. A noção de história universal liga-se aos judeus cristianizados. De natura rerum. que compõem a estrutura básica da educação e nem o historiador tenha se profissionalizado.. a História. a desintegração política e econômica do império romano e a ruptura de seu quadro geográfico estão na base do surgimento de uma nova história e de um novo historiador.” Isidoro de Sevilha.. que se compõem do céu e da terra. A institucionalização do cristianismo como religião de estado em 313. (. o mundo é propriamente o signo do homem. geometria –. Embora a história não esteja enquadrada no trivium – gramática. como S. com um grande H. Pois da mesma maneira que aquele é constituído de quatro elementos. este igualmente se compõe de uma mistura de quatro humores. astronomia.AS IDADES MÉDIAS 37 AS IDADES MÉDIAS “O mundo é o conjunto de todas as coisas. será um elemento primordial na composição da identidade do homem cristão. No momento em que seguidores de Cristo. música.

transformam sua crença. continuação do Testamento nacional. os fatos se legitimam automaticamente e se amoldam sempre a uma explicação de ordem sobrenatural. Numa linha reta. a oratória e a discussão intelectual. variados. A própria expansão do império romano seria um desígnio de Deus para facilitar posteriormente o trabalho apostólico.Grícoli. não devemos confundir verdade com objetividade. até então nacional. A subjetividade presente na historiografia antiga assumirá contornos diversos. sem reviravoltas cíclicas. Uma imagem comum nas catedrais góticas francesas é a da seqüência de reis judeus e reis franceses. por exemplo. numa seqüência infinita. Zilda M. Pereira de & IOKOI. Uma história linear com começo – a Criação –. em uma religião universal. seria necessária uma purificação para que tudo renasça. QUEIROZ. . a Igreja se apresentará como fiadora da ação de Deus na história.38 QUEIROZ. A verdade da história poderá ser utilizada no momento de decisões. esta palavra passa a ter um peso muito grande na maneira de refletir sobre o mundo. Zilda Maria Grícoli lo. o historiador. absorvendo a ideologia política do império. no poder exercido por Melchisedec ou no procedimento da passagem do poder de Cristo para S. As teorias do poder divino do papa e do imperador documentam-se nos exemplos da história. da tomada de atitudes políticas. dão margem ao surgimento desta história universal. No entanto. Aline Pereira de & IOKOI. Nos primeiros séculos do cristianismo ocidental. olhando para a frente. meio – a Encarnação – e fim – o Juízo Final. Ordenada. em conformidade com outros padrões. Pedro. Num mundo organizado por Deus. Na medida em que cristãos estão imbuídos da verdadeira verdade. Assim o Novo Testamento. como o de legitimar o poder. Assim muitos concebem a história cristã. mas que utilizam ainda uma arma dos pagãos. de Deus até o mais obscuro dos príncipes. historiará as batalhas e as conquistas dos apóstolos em terras estrangeiras. A verdade do passado terá fins utilitários. não mais conquistas militares. Outros se voltarão para uma experiência do tempo ordenada por cadências regulares – a cada mil anos. Tereza Tereza A.

no entanto. Conscientes das transformações operadas pelo cristianismo no mundo. acentua-se a diferenciação entre história “antiga” e contemporânea. Apoiada na astronomia e na matemática. sua ciência. homens ligados à Igreja ou a administração dos reis eram responsáveis pela catalogação de fatos geralmente políticos. que. – considerados importantes durante o ano nos anais. que favorecia uma comunidade ao estabelecer uma ancienidade. Estas listas fundam uma pseudolinhagem episcopal e legitimam o bispo como pai dos fiéis. Ecos da historiografia antiga. o conhecimento do tempo. a Salústio. militares e extraordinários – passagem de cometas. História passa a ser um termo empregado diante de uma visão geral e recuada dos fatos. para o contemporâneo. escritores que se referem ao passado e historiadores dos quinze pri- . As histórias de santos também podiam ocultar um propósito legitimista. era considerada uma ciência cristã. A noção de tempo tornando-se primordial. tomarão um aspecto religioso. Uma inovação é a dos textos hagiográficos – história dos santos.AS IDADES MÉDIAS 39 nesse sentido. analistas. a Tito-Lívio por exemplo. Além disso dispomos de inúmeros Anais e Crônicas. a presença de uma cronologia minuciosa passa a ser de praxe. narrativas sobre milagres. Por outro lado. permeiam esta nova história. tentam explicá-las à luz da religião. Podemos constatar também uma enorme variedade de gêneros históricos desde os primeiros séculos da Idade Média. uma história para determinados locais. alusões a Tácito. As crônicas implicam uma maior amplitude cronológica e também uma análise dos acontecimentos no âmbito de desígnios políticos e religiosos. milagres etc. será uma testemunha da presença de Deus no mundo. Uma reflexão sobre todos os cronistas. trata o passado numa perspectiva bem diversa. a cronografia. que estabelecia datas e computos. sobre o translado e a descoberta de relíquias ou listas episcopais.

por exemplo. Jerônimo traduz do grego para o latim a Cronica de Eusébio de Cesaréia (265 . Eusébio tratava do passado longínquo. QUEIROZ. argumenta que. tendo sido secretário do papa Damásio e fundador de inúmeros conventos. Aline Pereira de & IOKOI. Tereza Tereza A. e a atualiza até sua época. foi preceptor do filho do imperador Constantino. suas ligações com o poder – Constantino oficializa o cristianismo no império – e a paixão de neófito se confundem em seu trabalho. era inconcebível pensar na felicidade pessoal e que a única atitude digna e cristã seria a do celibato. A tentativa de interpretar a história humana numa perspectiva cristã já se manifesta no panfleto de Lactâncio (c. diante do horror das invasões de “bestas ferozes” – os germanos – ao império romano. 341 . 325) sobre a Morte dos perseguidores. no celibato. das disputas . Nesta obra. buscou na pregação.Grícoli. Zilda M. considerado o pai da história eclesiástica. Nos limitaremos a alguns exemplos nos quais a intenção de escrever uma história é mais definida. Pereira de & IOKOI. panfletos.430). Convertido ao cristianismo em 300. Jerônimo (c. S.420) atribuirá à história um papel decisivo na vida pessoal de cada um e no próprio cristianismo. Zilda Maria Grícoli meiros séculos do cristianismo seria muito extensa. cartas. importantíssimo na definição da ideologia e das funções da história medieval – na Cidade de Deus defende a teoria de que a queda de Roma era apenas uma pequena amostra dos infinitos e universais poderes divinos – não será considerado como historiador. onde o tempo presente é sempre avaliado em função da missão cristã. as formas de vida cristã. no eremitismo. da vingança divina contra os perseguidores da Igreja.340). no aconselhamento. numa carta a uma de suas amigas romanas que desejava se casar.40 QUEIROZ. Aristocrata convertido por volta de 366. Agostinho (354 . assim. Com uma sólida formação clássica. deixou uma produção enorme em livros. da luta contra perseguidores e heréticos. onde anuncia a vitória do Ponte Mílvio com violência. Assim. 260 c.

em sua História Sagrada pretende descrever a história do mundo desde a criação até o ano 400 para instruir os ignorantes e convencer os cultos. Jerônimo traça um quadro completo do desenvolvimento da Igreja. Seus prefácios e comentários sobre os livros das Escrituras objetivam melhor elucidar fatos. a pedido daquele. Seu maior empreendimento foi a tradução para o latim e revisão crítica da Bíblia (Vulgata). também pensará na história como um amplo painel. foge das invasões germânicas e refugia-se em Hippo. 390 -?). Durante séculos este trabalho. A História contra os pagãos (415 . os historiadores tendem a traduzir uma visão de mundo mais localizada. seu livro é um exaustivo catálogo dos males da humanidade. Discípulo de Agostinho. no século XII. Malchus. datas e seus encadeamentos. um suplemento histórico à Cidade de Deus. Sulpício Severo (c.417) objetiva provar que o cristianismo não fora responsável pela queda de Roma. bem como o de Eusébio. a “autoridade”. 360 . Hilarion. dão o tom para as biografia santas medievais. um padre espanhol que. e não a retórica. e que. fundamental nas obras medievais. servirão de subsídio para a escrita de crônicas universais como a de Otto de Freising. Paulo Orósio (c. numa nova lingua- . enumerando todas as grandes personagens desta história. As Vidas dos anacoretas Paulo de Tebas. escreveu vários trabalhos ligados à defesa da ortodoxia e.AS IDADES MÉDIAS 41 doutrinais e da sintonia entre a pax romana e o cristianismo. focada num cotidiano mais limitado. ao analisar a história humana evidencia-se um desígnio providencial. detectados desde os mais antigos impérios do mundo. Com a divisão do antigo império em reinos germânicos. considerada por pagãos e mesmo veladamente pelos cristão como uma obra de padrão literário execrável. 420) originário da Aquitânia. em 414.c. utilizando uma enorme documentação e poucos discursos. No Dos homens ilustres. a citação. se impunha.

pouco antes de sua morte. QUEIROZ. Martinho até 591. Gregório tenta desvendar pontos obscuros. escritos de seus contemporâneos Venancio Fortunato. as agora perdidas Historia de Renatus Profuturus Frigeridus e a Historia de Sulpicius Alexander. É o caso da História dos Francos de Gregório de Tours e da História dos lombardos de Paulo Diácono. em 397. como o da primeira . Gregório deplora a inexistência de um homem capaz de escrever sobre os acontecimentos atuais e decide assumir esta tarefa. a carta do papa Gregório aos flagelados da peste de 590 em Roma. Insere a transcrição de uma série de documentos originais. a perspicácia de observação. suas fontes forçosamente serão outras. Sulpicio Severo e Ferreolo e muitos outros. como a carta enviada a bispos por ocasião da fundação do convento de Santa Radegunda em Poitiers. começa a narrativa nos dias da Criação. Gregório de Tours (c. na autoridade e na discussão desta autoridade. Zilda Maria Grícoli gem. a participação pessoal em vários acontecimentos. Cita Virgílio e Salústio. Os outros nove livros da história dos francos relatam os acontecimentos desde a morte de S. Mas também as fontes orais e o testemunho ocular. de fato. o texto do tratado de Andelot assinado entre os reis Guntram e Childeberto II em 587. vidas de santos e de mártires.594). servirão de subsídio à narrativa. A presença desta documentação demonstra o espírito que anima a escrita da história de Gregório. Aline Pereira de & IOKOI. Jerônimo e Orósio e mais seu conhecimento da Bíblia. Zilda M. de Adão até a morte de S. embora se digam herdeiros de Tácito ou da historiografia antiga. Além de descrever. Inspirado por Eusébio. bispo de Tours.Grícoli. 539 . Tereza Tereza A. descende de uma família romana senatorial integrada ao reino franco. cartas de Sidonio Apolinário e de S. A partir do livro II. quando começa a mencionar os reis francos. sete respostas a esta carta. uma história baseada no documento. vai além.42 QUEIROZ. Avito. e outros. No prefácio da História dos francos. Pereira de & IOKOI. No livro I cobre 5596 anos da história da humanidade. Martinho de Tours.

no seu estilo simples. a história será uma das expressões da cultura religiosa de Beda (673 . menos conciso que o clássico. tratados de gramática. Sem enunciar qualquer julgamento. Gregório. Um dos aspectos mais cativantes desta história dos francos é a linguagem. ao contrário de muitos historiadores antigos. ao visual. .735). No século VII. Muito criticado por não mais seguir os padrões antigos. As fúrias encarnadas em Fredegonda. nunca saiu da Gália. a luxúria e a volúpia sanguinária dos merovíngios. A História do povo e da igreja dos anglos (731) – da conquista de Júlio César em 73 até o presente – e a Vidas dos abades. e uma cronologia universal calculada pela era cristã e fundamentada em estudos astronômicos. e no romance gótico. as intrigas. pinta com precisão os horrores. Logo. Apesar de se preocupar em ler nos acontecimentos os signos da intervenção divina no mundo. dois trabalhos de história. dito o Venerável. renascerão na historiografia romântica do século XIX. órfão. Educado tanto pela leitura das obras cristãs como clássicas aí existentes. é justamente neste latim falado. escreveu comentários bíblicos. com treze anos fixou-se na abadia beneditina de Yarrow e daí não mais saiu até sua morte. através de uma investigação minuciosa. as misérias de Brunhilda. Aos sete anos de idade.AS IDADES MÉDIAS 43 vez que um líder franco se transforma em rei. da visão de mundo de sua época. pode descrever com minúcia cenas que jamais seriam consideradas dignas de nota pela historiografia antiga. Seu horizonte é fechado. Gregório escreve como deveria falar. com as Narrativas dos tempos merovíngios de Augustin Thierry. numa distante região da atual Inglaterra dominada pelos anglo-saxões. foi ele encaminhado a um convento. uma versão expurgada do De rerum natura de Isidoro de Sevilha. está atento ao real. que podemos desvendar inúmeros traços da mentalidade.

curas. é Eginhardo (c. o Piedoso e seus filhos o leva a prudentemente se afastar da política. Tereza Tereza A. cometas. Zilda M. “Como as leis da história exigem. utilizando tanto testemunhos escritos como orais e mesmo arqueológicos. É neste momento de sua vida que decide escrever uma biografia de Carlos Magno. o maravilhoso e os milagres estão presentes no texto. Pereira de & IOKOI. a crítica moderna constata uma grande precisão nos fatos arrolados em sua história. Descarta o que não lhe parece adequado e não se contenta em somente arrolar o material utilizado. Assim. trabalhei honestamente para transmitir o que pude aprender das fontes. posteriormente admitido na escola palatina de Carlos Magno. Aline Pereira de & IOKOI. O conflito entre Luiz. Procura sempre reunir a maior documentação possível sobre todos temas. em Aachen. de formação religiosa. para a instrução da posteridade”. e posteriormente conselheiro de seu filho Lotário. são apontadas como intervenções diretas de Deus no mundo. mas também as lendas. o Piedoso.840). Apesar das dificuldades que deve ter tido em reunir sua documentação. Escrevendo como cristão. Nascido numa família aristocrática. tempestades. Ingressa na política no reinado de Luiz. em 828. Por outro lado. Um outro tipo de historiador. . Beda representa bem tanto a dinâmica da cultura anglo-saxônica como a cultura eclesiástica quase profissional que dominará a Europa por séculos. QUEIROZ. foi secretário e amigo pessoal de Carlos Magno até a morte deste em 814. 770 . Em 830. Para isto estabelece uma intensa correspondência no sentido de obter cópias ou originais de manuscritos. mas em fundi-lo num todo coerente.Grícoli. que possam ser interessantes ou edificantes para seus leitores. Beda informa seus leitores sobre as fontes que utilizara e o tratamento a elas concedido.44 QUEIROZ. as crenças populares. e. Zilda Maria Grícoli No prefácio de sua história eclesiástica. foi educado na abadia de Fulda. mas trabalhando para o poder temporal. não somente a história dos povos que colonizam a ilha e da igreja é narrada. uma das estrelas da chamada renascença carolíngia.

a biografia de Augusto. Há também um outro aspecto a ser considerado nesta imitação. Gall (c. mosteiros. Trata-se de uma obra com um caráter mais mítico. Colocam suas personagens numa espécie de camisa de força.c. e de dispor de documentação para o período anterior. Eginhardo define suas metas: escrever sobre a vida pública de Carlos Magno e descrever sua vida cotidiana. Na medida em que a cultura cristã assume formas e conteúdos próprios e mais definidos no ocidente. trata-se de uma obra surpreendente pelo seu estilo. e também por ter como motivo um tema não religioso. Apesar desta proximidade. talvez porque a história edificasse. Este será um procedimento comum durante vários séculos. particularmente. Além da biografia cortesã.AS IDADES MÉDIAS 45 retira-se na abadia de Selingenstadt. legendário. 912). porém. as diferenças de sensibilidade acabam por aflorar.z Algumas vezes deliberadamente. No todo. para camuflar a verdade e proteger seu senhor. concisão. seguindo fielmente os moldes da Vida dos doze Césares de Suetonio e. comunida- . parece haver um certo abandono da literatura latina profana. sobre o qual quase nada se sabe. quando este estava com quarenta e nove anos de idade. A Vita Caroli é um panegírico do imperador. No prefácio da Vita Caroli. de sedes episcopais. no entanto. os autores copiam a seqüência de temas e mesmos os comentários dos autores latinos. eventualmente derivada das lendas populares sobre o imperador. Além da vida de Carlos Magno. 840 . deixou cartas e obras hagiográficas. Apesar disso. recheada de anedotas saborosas. ao escrever de memória. a época é pródiga em histórias eclesiásticas locais. Uma outra biografia de Carlos Magno seria escrita mais tarde pelo chamado monge de S. Aproveitava o fato de ter sido uma testemunha ocular dos dois aspectos da existência do imperador a partir de 791. considerada imprópria. as obras históricas não teriam sido afetadas por estas restrições. Eginhardo cometerá uma série de imprecisões.

966). Zilda M. QUEIROZ. Tereza Tereza A. monge de S. deão da colegial de S. A história continua a ter grande importância para a consciência cristã. é mais ampla. no entanto. Rémi de Reims.1050) – santa que atrai milhares de peregrinos. escritas por religiosos mais ou menos obscuros. no caminho de S. o Venerável (c. talvez explique esta ausência ao formular um outro cálculo do tempo. Bertin do abade Fulcuino (m. Assim 1033. Alexis (1040). e os textos das Histórias do monge Raul Glaber.1156): “boas ou más. 1092 . e econômicos ao propagandear os milagres de santos locais e atrair peregrinos: vida de Sta. Quentin. a História do mosteiro de S. Adémar de Chabannes. o curto. Aline Pereira de & IOKOI. Eulália (881). a do monge Hermann. entre outras. a do bispo Othon de Freising. Pereira de & IOKOI. dentro de uma cadência temporal religiosamente marcada. Os méritos das obras históricas são definidos no livro Das Maravilhas do abade de Cluny. cobrindo o período de 888 a 995. segundo Georges Duby. Há ainda a História dos normandos de Dudo. vida de S. e não 1000. a partir de 980 torna-se uma crônica da aristocracia da Aquitânia. 990). parece ter passado quase despercebido em vários anais e crônicas contemporâneos. todas as ações produzidas no mundo. políticos. Legério (950 1000). talvez findos por volta de 1048. Inúmeras são as cronografias universais como a de Reginono de Prum (906). Nada ou quase nada é dito sobre a data nos anais de Benevento. seria o outro milênio. Zilda Maria Grícoli des. . de Reichenau – retomando a divisão agostiniana de seis épocas do mundo –. Mas se nós as ignoramos. A Cronica do religioso de Angoulême. pela vontade ou pela permissão de Deus. abade de Cluny. Assim a História da Igreja de Reims de Flodoardo (894 . as Histórias de Richer. relativo à morte de Cristo. um outro milenio. devem servir à glória e à edificação da Igreja. servem a propósitos piedosos. nos de Verdun e outros.46 QUEIROZ. Pedro. O cronista Raul Glaber. cobrindo a história do povo franco.Grícoli. A produção de vida de santos também é considerável. O ano mil. vida de S. em sua obra dedicada a Odilon. vidas de Santa Foi (1000 . Tiago –.

Não mais preso a uma estrutura monástica ou episcopal. certamente. tinha conhecimentos de retórica.AS IDADES MÉDIAS 47 como podem contribuir para a louvação de Deus e a edificação da Igreja?” A partir dos séculos XI-XII. de dispor de toda uma base religiosa de conhecimentos. Os deslocamentos para o oriente motivados pelas cruzadas dão margem ao surgimento de um outro tipo de história. mas geralmente de formação religiosa.1189) contrata clérigos para escrever a história de seus predecessores. e que passa a trabalhar a soldo para a aristocracia para escrever suas genealogias. É o caso de Lambert d’Ardres. parente distante desse senhor. que entre 1201 e 1206 termina sua História dos condes de Guines “à gloria dos altos senhores de Guines e de Ardres”. Dizia-se “mestre”. e elabora o Roman de Rou (c. Surge assim um novo tipo de produtor da história. Uma série de crônicas familiares. por volta de 1226. que ajuda a popularizar as lendas do rei Arthur na França. que nela também vêem uma ocasião para cantar suas glórias e legitimar seus direitos. de Geoffrey de Monmouth (c. analisado por Georges Duby. narrando a história dos duques da Normandia. traduz a Historia Regum Britanniae. cânone de Bayeux no século XII. de biografias individuais de grandes personagens laicos e de histórias nacionais podem ser encontradas. com bases em fontes latinas.1219). o Marechal (c. a escrita da história passa a ser utilizada com maior freqüência pelos poderes laicos. o conde de Pembrocke.1154). 1145 . algumas vezes míticas. além. apesar de clérigo. Wace. 1175). também sacerdotes. da poesia antiga e das produções literárias corteses contemporâneas. no entanto. . era casado e tinha filhos. 1100 . o escritor é contratado pelo filho de Guilherme. Assim Henrique II da Inglaterra (1133 . regente da Inglaterra durante a minoridade de Henrique III. Lambert era um clérigo que servia no castelo de Ardres. Um anônimo encarrega-se da biografia de Guilherme.

muito preciso. narra a história de toda a vizinhança e da aristocracia normanda. QUEIROZ. do lado dos poderosos. Ao contrário. marechal da Champagne e um dos chefes da quarta cruzada. Escreve por meio de círculos geográficos e cronológicos sucessivos. acaba seguindo estas personagens pela Inglaterra. que transformou os cristãos desta cidade em . 1213) e Robert de Clari.Grícoli. O beneditino Guibert de Nogent (1053 . próxima da epopéia. nas crônicas de Geoffroy de Villehardoiun (c. são as cruzadas que definitivamente consolidam a história laica na Idade Média. para ser considerado totalmente verossímil. é trabalho de um profissional. Pereira de & IOKOI. escritas.48 QUEIROZ.1143). em versos. Sua História da guerra santa.c. Um peregrino de Évreux. acaba abarcando um espaço geográfico bem mais amplo. A Historia eclesiastica do monge Orderico Vitale (c. na base de sua narrativa está a vontade de justificar o porquê da mudança de rumo da quarta cruzada para Constantinopla. vê a cruzada de cima. Aline Pereira de & IOKOI. Zilda M. 1075 . que tem por fonte seu próprio testemunho ocular dos acontecimentos. alheiado da grande política. muito lógico. que em princípio deveria contar a história da abadia de Saint-Evroul en Ouche.1192). populares e canções. a partir de Gesta anonimos.1124) escreve sobre a primeira cruzada em seu Gesta Dei per francos. Zilda Maria Grícoli mais heróica. Villehardouin. Ambrósio. companheiro de Ricardo Coração de Leão. Paradoxalmente. Tereza Tereza A. 1150 . Clari dá o testemunho do combatente comum. além de construir sua história. narra a Terceira Cruzada (1188 . Partindo dos documentos de que dispunha a abadia. Ambos participaram da quarta cruzada. Assim. mas o resultado das duas obras é bastante diverso. nos fins do século. sem ter sido testemunho direto. Seu relato da Conquista de Constantinopla tende a ser muito claro. utilizando todos os tipos de fontes disponíveis. orais. subordinado a chefes que o mantêm ignorante da razão de seus movimentos. a partir do ponto fixo que é a abadia. a Itália do Sul e o oriente das cruzadas.

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infiéis. Sem mentir abertamente, escamoteia a verdade sobretudo através de seus silêncios. Além da história oriental, surge uma outra vertente, nacional. A afirmação das monarquias nacionais fará com que a história submeta-se gradativamente ao serviço da política. O abade de S. Denis, Mathieu de Vendôme, no século XIII organiza a reunião de um vasto material de notícias necrológicas dos reis de França, há séculos redigidas pelos monges; traduzida em francês a partir de 1274, esta compilação foi o ponto de partida das Grandes crônicas de França, cuja redação prossegue até Luiz XI. Na História de S. Luiz (1309) de Joinville (c. 1224 - 1317), senescal da Champagne, há uma fusão da hagiografia com a história das cruzadas. Escrita sob encomenda para a rainha Joana de Navarra, após a canonização de Luiz IX, a obra pretende edificar seus leitores através das “santas palavras” e dos “bons ensinamentos” do grande rei. Admirador e amigo de Luiz IX, Joinville não poupa anedotas que enalteçam sua figura, misturando o concreto e o maravilhoso. Narra sem preocupação com um encadeamento lógico de fatos ou idéias. No século XIV, a guerra dos Cem Anos fornecerá o material para a história nacional e política. Escrita em francês, o espírito cavalheresco e as proezas militares ocupam o primeiro plano. Dos cronistas da guerra, o mais considerado é Jean Froissart (c. 1337 - c. 1400), que, apesar de ser um clérigo de origem burguesa, admira a aristocracia e seu modo de vida. Froissart desde jovem trabalhará para a nobreza; vai para a corte da Inglaterra, onde cai nas boas graças da rainha, sua compatriota Felipa de Hainaut, com um pequeno ensaio historiográfico sobre os fatos ocorridos desde 1356. Freqüenta a alta sociedade inglesa, partindo depois para a Escócia e a Itália, onde teria conhecido Petrarca em 1367. Com a morte da rainha, fica sob a proteção do duque Venceslau de Luxembourgo, e conti-

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QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoli

nua seu trabalho de historiador. Com base em informações pessoais escreve sobre a atualidade, mas tenta buscar um início para seu texto nos anos entre 1325 e 1356, utilizando como fonte a crônica de João, o belo. Em 1388, vai para o sul para obter informações para sua história e conhecer a corte do conde de Foix, o famoso Gaston Phébus. De volta a Paris continua sua crônica, volta para Inglaterra, e daí em diante nada mais se sabe de sua vida. Dos quatro livros de suas Crônicas, o primeiro era bastante favorável à Inglaterra, e por isso foi corrigido mais tarde, quando Froissart se aproxima do círculo de Guy de Chatillon. A partir daí, seu texto pende para a França e os Valois. No terceiro livro, escrito já na velhice, mostra uma certa independência de julgamento. Froissart já encarna um historiador diferente de Villehardouin ou Joinville. Não escreve para manter viva a memória dos grandes acontecimentos de sua vida. Escreve profissionalmente como defensor dos aristocratas. Não participa dos acontecimentos que relata, e seu objetivo é o de agradar a nobreza que compra seus livros, e seus protetores que aí vêem seus nomes em destaque. Sua história tem um tom romanesco, era também poeta. Os temas de suas crônicas poderiam servir também para epopéias cavalherescas: as proezas, as festas, os torneios, as grandes aventuras, a audácia dos mercenários ou dos nobres, como Aymerigot Marcel ou Du Guesclin, e os perigos da guerra dos Cem Anos vividos nas grandes batalhas como as de Crécy ou Poitiers. A guerra dos Cem Anos dará emprego a muitos outros historiadores. A luta interna na França, entre armagnacs e borguinhões, fará com que cada lado contrate seus próprios cronistas, encarregados de expor as visões adequadas a seus senhores. Huizinga dirá que os cronistas borguinhões “encenam um sonho”.

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Dentro da cronologia tradicional, Felipe de Commynes (1447 - 1511) representaria o limite entre o medieval e o moderno. Suas Memórias, escritas entre 1489 e 1498, expressam um maior cuidado no estabelecimento de laços entre os acontecimentos e um julgamento mais ácido sobre os homens; não são mais uma invocação das virtudes tradicionais e nem elogio ou panegírico. Em seu prólogo ao arcebispo de Viena, Commynes define o objetivo de seu livro: “escrever o que eu soube e conheci dos fatos do rei Luiz XI”. Diz ter observado em seu herói coisas boas e más, e portanto não quer mentir. Commynes nasceu na Flandres. Seu pai era governador de Cassel e bailio de Gand. Destinado à vida militar, integrou desde cedo a corte de Felipe, o Bom, ficando depois a serviço do conde de Charolais, Carlos, o Temerário. Neste momento foi testemunho das primeiras lutas entre Luiz XI e a casa da Borgonha. Pouco depois muda de lado e, a partir de 1472, se torna confidente do rei, de quem recebe a senhoria de Argenton em troca de terras que possuía na Borgonha. Até a morte de Luiz XI participa de todos os acontecimentos a seu lado. Cai em desgraça por um tempo com a morte do rei, mas acaba se reconciliando com Carlos VIII; com ele parte para a Itália, onde é enviado como embaixador a Veneza. As Memórias exploram os grandes desígnios da política. O aspecto exterior dos acontecimentos não interessam a Commynes; observa, analisa, pesa, julga, compara a partir do interior dos acontecimentos. Enquanto moralista e cristão, permite-se tecer considerações gerais sobre a natureza humana e o príncipe ideal. Como vemos, a escrita da história na maioria dos casos continua a ser um trabalho paralelo a outros. Monges cumprem funções religiosas e fazem história, homens de estado trabalham para o governo e fazem história, outros são poetas e retóricos

No século XII. os autores são modestos – só querem relatar.Grícoli. a partir do século XII. ingênuos. Aline Pereira de & IOKOI. a história não era ensinada nas escolas. sobretudo. acabam por ofuscar os mais dignos labores históricos. das novas formalizações da vida. não é negligenciável o papel que a história e a hagiografia medievais desempenham na criação de uma mitologia política e religiosa no ocidente. e maus escritores. o sorriso do anjo de Reims. é inimaginável o valor que as obras medievais. o fervor de Bernardo. Zilda Maria Grícoli e fazem história. QUEIROZ. admitindo que os contemporâneos viam mais longe do que os antigos. o sentido da história está presente. Há um outro aspecto que também devemos considerar. Bernard Guenée invoca razões contingentes para esta situação. Além disso.52 QUEIROZ. Na verdade. podem ter para o historiador do século XX. Tereza Tereza A. é difícil atribuir aos analistas-cronistas-historiadores um lugar preeminente. frases como “a verdade é filha do tempo” e “somos anões em pé nos ombros de gigantes” (autores antigos e cristãos) são ditas naturalmente. pois se acham indignos de esclarecer a vontade divina. Zilda M. da profundidade e amplitude dos debates filosóficos e místicos ortodoxos e heréticos. quanto mais espontâneos. melhores fontes se tornam!!! . E. No entanto. confusos. Diante da diversidade. As inquietações de Abelardo.. as mais canhestras. Pereira de & IOKOI.. mesmo admitindo esta mediocridade. Os cronistas seriam intelectualmente medíocres. servia apenas de auxiliar na exegese dos textos sagrados. das expressões plásticas do românico e do gótico. o rigor sistemático de Aquino.

atribuem uma coerência à sua obra histórica. xii. sorte – e. no século XVII.AS IDADES MODERNAS 53 AS IDADES MODERNAS “Quando Tales estima ser o conhecimento do homem muito difícil ao homem. O Discurso sobre a história universal (1681) é uma defesa da história providencialista contra seus detratores. entre 1670 e 1680. Ensaios. ensina-lhe que o conhecimento de qualquer outra coisa é impossível. Bossuet decide se dedicar à história no momento em que está se ocupando da formação do delfim. sua luta contra os protestantes. acredita que mais do que ninguém os reis devem encarnar os valores morais do cristianismo. literalmente como providência divina na obra de Bossuet (1627 . a função de chefe da igreja galicana. Ordenado sacerdote em 1652. A questão da fatalidade estará presente sob outros nomes – fortuna. A providência divina não se aposentará nos séculos ditos modernos.” Montaigne. como Richard Simon que publicara uma História crítica do Velho Testamento – . foi levado à pregação por S. acaso. Vicente de Paula. II. Seus depois publicados Sermões e Orações fúnebres.1704). sua condição de preceptor do delfim.

os protestantes e os quietistas. Bossuet representa a continuidade da história sacralizada. O próprio Machiavel em seu poema “Da ambição” diz ter sido o mundo criado por Deus para benefício do homem.54 QUEIROZ. Devemos considerar. que deseja submeter Deus às leis da natureza. pelo qual este imperador conce- . que mesmo objetivando um acordo entre antigüidade e moral cristã. tradicionalmente. da fortuna e outros seres sobrenaturais. QUEIROZ. Bossuet elabora um aparato crítico para a abordagem do fato histórico: para os grandes acontecimentos diz ser necessário o estudo das causas longínquas. dos móveis imediatos e dos resultados através de uma busca no tempo remoto e da distinção de povos dominantes e homens extraordinários. Do ponto de vista prático. estaria submetido à ordem de Deus. Zilda M. Zilda Maria Grícoli submetendo os textos sagrados a uma exegese profana – e contra Spinoza. este Deus. e verdades consagradas passam a ser discutidas ou desmentidas. através de si mesmo ou através dos céus. que também outras questões se acrescentam às tradicionais. Se. visa também ressaltar a utilidade da história como mestra de preceitos morais e políticos. os impérios.1457). Na parte relativa aos impérios explica como todos serviram aos desígnios de Deus. é o caso de Lorenzo Valla (1407 . Por outro lado. Caem por terra os temas intocáveis. no entanto. Tudo. Bossuet revigora o providencialismo como plataforma política. Em sua última versão (1700) aparece dividido em três partes: as épocas. permitindo o triunfo da Igreja. Tereza Tereza A. Diante dos conflitos da igreja galicana com o papa. Aline Pereira de & IOKOI. mesmo aquilo que aparece sob uma forma anárquica. Pereira de & IOKOI. a continuidade da religião. continuaria a fazer prevalecer seus desígnios nos fenômenos da natureza e também na esfera humana. desmascara a farsa do texto denominado “doação de Constantino”. a história será favorecida pelo sistema de imprensa de Gutenberg. isto não significa que Deus tenha desaparecido para os demais historiadores.Grícoli.

e da exaltação dos governantes. Boccacio (1313 . sem santas). uma “humanização” da história tenderá a prevalecer. Neste sentido.AS IDADES MODERNAS 55 dera autoridade suprema sobre a Igreja e a Itália ao papa Silvestre I (314 . Petrarca inova. De temperamento melancólico. por razões principalmente de ordem política. onde a complexidade da experiência comunal deu margem à criação de idéias políticas particularistas ou universalistas.335). em seu Viri illustres (Homens ilustres). provido que sejam antigas as considera dignas de crédito. não será inocente. As obras históricas de Petrarca (1304 . de uma restauração do império romano. Durante sua vida viajou constantemente pela Flandres. muitas vezes encarregado de missões políticas. no entanto. romanos principalmente. Isto nos leva à Itália do norte principalmente. Pede ao passado que sirva de consolo para o presente. França e Itália. . dos historiadores antigos. da tradição. pelo fato de seus trabalhos históricos terem sido elaborados por vontade própria e não sob encomenda de alguma autoridade.1375). Suas Mulheres ilustres (105 biografias de mulheres da antigüidade. A historiografia será apenas mais uma das expressões da consciência cívica. ao comentar as grandes personagens romanas. elimina qualquer elemento que ameace seu quadro ideal. segue os passos de Petrarca. isto fez com que vivesse em Avignon e freqüentasse a universidade de Montpellier. principalmente utilizando as idéias de Tito-Lívio. não critica suas fontes. refugia-se numa história idealizada de Roma para fugir da atualidade. Mas. Em geral. mas com um espírito diverso. os usos do passado. publicadas por volta de 1362. pois sente a necessidade de viver numa pátria. do chauvinismo geralmente.1374) traduzem com precisão suas aspirações no sentido da criação de uma unidade italiana. mas imbuídas de um voluntarismo humano. seriam a contrapartida dos “homens ilustres”. antes de estudar Direito em Bologna. do nacionalismo local. Seu pai e a família haviam sido exilados pelos guelfos negros em 1312. No todo. tem os pés no presente. em sua maioria gregas e romanas.

que alguns voltam a escrever em latim e não mais em língua nacional. abre caminho para o gênero histórico “vida dos artistas”. além do mais. Boccaccio não se atém só ao passado ao retomar a tradição da biografia dos grandes homens do presente. que normalmente apareciam nas histórias locais. com fins propagandísticos bem marcados e com um agudo cuidado estilístico próprio a seduzir o leitor.56 QUEIROZ. Zilda Maria Grícoli Petrarca queria exaltar a grandeza militar e política de Roma. passa a morar em Florença. O objetivo de se igualar a TitoLívio é tão grande. Tácito. QUEIROZ.1444). Enfatiza a política e as circunstâncias gerais – geográficas. A história volta a se ligar à retórica. a primeira obra considerada como história humanista é a História florentina de Leonardo Bruni (1369 . os grandes autores antigos e alguns obscuros. Tereza Tereza A. a partir de 1415. e. ignorando a intervenção da providência. ao passo que Boccaccio quer agradar seu público com anedotas. estratégicas – como substrato da história. A chamada história humanista será produzida por homens ligados ao governo. Bruni nasceu em Arezzo. que pretende ser uma história universal. 1275 . foi secretário do papa. suas obras históricas se diluem numa vasta produção literária de maior peso.1348). como a de Giovanni Villani (c. os mitos. De casibus virorum ilustrium. Aline Pereira de & IOKOI. Na Itália. Pereira de & IOKOI. As fontes que utilizam são semelhantes. ao mesmo tempo. a retórica muitas vezes toma o lugar de uma . Sua história de Florença abandona todas as explicações lendárias. tanto na Itália como na França. onde desempenha diversas funções públicas.Grícoli. desconhecido de Petrarca. consagrado com Vasari no século XVI. Petrarca e Boccaccio utilizam a história como moralistas. estudou Direito. Na Vida de Dante não parte de um molde pré-estabelecido pela tradição literária e. entra na bibliografia de Boccaccio. Em outra obra. Zilda M. utiliza fontes medievais como Gregório de Tours e Paulo Diácono. os milagres. Fortemente marcado pela leitura dos autores da antigüidade. em 1405.

pela geografia. numa perspectiva geométrica que define seu papel histórico. Para estes. o que também resulta numa abundância de relatos de pequenos acontecimentos e ausência de visão de conjunto. Bruni terá seus seguidores em Poggio (1380 . faz sua apologia. Contratavam então letrados.1459). por exemplo. Florença é o lugar ideal. conselheiro em Florença de 1453 a 1458. caso se estendesse para o próximo ano. escravo do poder. concentra-se mormente na história interna da cidade e. as contigências econômicas desaparecem e são travestidas em motivos elevados. através de uma releitura da história local. a que resiste aos planos hegemônicos dos inimigos. em Accolti (1415 . No todo.1506) e Pietro Bembo (1470 . Florença é a campeã das comunas. É o típico exemplo de historiador propagandista. A exemplo de Florença. a salvaguardar a estabilidade da Itália e os princípios republicanos. Em se tratando de uma cidade construída pelo comércio e o artesanato como Florença. também chanceler. a partir daí. a predestinada pela sua tradição histórica.1497). todas as cidades italianas passaram a produzir uma história local. deixa uma lacuna irreparável.1466). sua vocação para a liberdade. Accolti. promovidas pelo governo. para promover suas cidades. em sua história florentina. . chanceler da república em 1459. Bruni segue uma cronologia anual. concebido segundo um plano racional. que também escreve uma história florentina. Governantes e intelectuais comprovavam pelo exemplo florentino o quanto poderia ser útil uma panfletagem erudita. Assim. o que prevalece é a vontade de louvar ao máximo a família e Lorenzo de Médici. em Scala (1430 . além de nem sempre acabar o relato de um fato.1547) em Veneza. Sabellicus (1436 .AS IDADES MODERNAS 57 visão crítica de personagens e situações. era um súdito fiel dos Médici. alguns até nascidos fora do local. a escrita da história era praticamente uma continuidade de suas funções públicas.

embora em 1526 tivesse também sido nomeado bispo de Nocera por Clemente VII. Benedetto Giovio. a história do pai de seu patrão. Zilda Maria Grícoli Bembo é um humanista considerado. Paulo estudou medicina em Pádua e Pavia. transformava os elogios em insultos e fazia com que linhagens inteiras desaparecessem da história. fazia inúmeras entrevistas. Em suas obras misturava altas doses de elogio a seus clientes. e é nesta qualidade que escreve a sua Historiarum Ferdinandi regis Aragoniae. cobrando altos honorários. em 1516 já pratica medicina em Roma. Protegido do papa Leão X.1552). enaltecendo sem limites o poderio militar veneziano e calando sobre qualquer atitude política que pudesse prejudicar a imagem da república. emitia juízos sobre todos. Mais do que historiador era uma espécie de repórter e jornalista. Entre 1434 e 1447.Grícoli. contratado pelo Conselho dos Dez para continuar a obra de Sabellicus. irmão do historiador de Como. Ele próprio se oferecia. caso não pagassem. Uma figura curiosa é a de Paulo Giovio (1483 . Valla viveu como secretário e leitor da corte do rei Afonso de Nápoles. registra todos os tipos de acontecimentos. QUEIROZ. Zilda M.58 QUEIROZ. mais tarde. a quem dedicara uma obra sobre história contemporânea. acaba nomeado professor da universidade romana. Giovio não esperava ser contratado para escrever a história de cidades e de famílias governantes. nomeado cardeal em 1539. Começou em 1531 a Rerum Venetarum Historiae. A partir daí trabalha principalmente como historiador. Apesar de tudo seus escritos possuem um tom moral . Tereza Tereza A. A história que Lorenzo Valla (1407 . ao mesmo tempo em que insinuava detalhes picantes e comprometedores que fariam as alegrias do grande público. seguia passo a passo o desenrolar das batalhas. conhecia todos. foi secretário do papa Leão X e. onde. Aline Pereira de & IOKOI. sem espírito crítico. Veneziano de origem.1457) escreve para Nápoles também serve aos interesses dinásticos locais. Pereira de & IOKOI. de família aristocrática.

1527) consegue a patronagem dos Medici para escrever uma história de Florença. por exemplo. Interessa-se por Castruccio por ter sido ele capaz de ao menos tentar forjar um estado – a formação de um estado era uma obsessão em Machiavel. Quando faltam dados que documentem a vida do tirano. recopia autores anteriores. Agatocles. condottiere do século XIII. terrível para com os inimigos e infiel com todos os outros. Mostra-se indignado com Machiavel por ter sido tão patriota em seus textos. e este encargo tinha uma função bastante pragmática. a produção histórica é menos original. como Blondus. em seus escritos digressões – ainda que vagas – sobre a história da civilização. O mais significativo são os ecos de suas teorias na compreensão do processo histórico . Uma de suas maiores dificuldades foi a de conciliar a dedicatória com o estudo da lenta escravização de Florença aos Médici. Resume sua personagem dizendo que era bom para seus amigos. então. a inserção dos fatos históricos em grandes mo- .AS IDADES MODERNAS 59 bem acentuado. na história de Florença. percebe que as histórias locais não mais tinham sentido diante dos sinais de alargamento do mundo. Entre 1519 e 1521. elaborada por volta de 1520. Castruccio torna-se uma criança abandonada – porque não devia pertencer a nenhuma família aristocrática – e depois um homem sem mulher e nem filhos – porque não deveria fundar uma dinastia. Villani e Simonetta. introduz. Utiliza muito o historiador antigo Diodoro em sua história do tirano de Siracusa. Por outro lado. como a descoberta da América. carregou o livro com documentação e reduziu ao máximo os comentários. Na biografia do tirano de Luca Castruccio Castracani. No conjunto da obra de Machiavel. Para evitar constrangimentos. Machiavel busca materializar suas idéias políticas numa pessoa. Como este. Sua situação pessoal era então muito difícil. tanto moral como financeiramente. não hesita em tomar emprestado traços de biografias antigas. Machiavel (1469 .

numa primeira história da Itália tratada como um todo. como político hábil. autor das Vidas dos mais excelentes pintores. Ao contrário de Machiavel não se interessa pela filosofia da história. Além . Aline Pereira de & IOKOI. sem pretender com isso realizar uma obra histórica de conjunto. como ele também fora funcionário público. da imprecisão de muitos dados. Tereza Tereza A. o pragmatismo. talvez o mais conhecido hoje em dia seja Vasari (1511 . que poderiam ser transmitidos aos leitores mediante a apresentação das biografias individuais de cada artista.60 QUEIROZ. escultores e arquitetos – de Cimabue a Tiziano. “tentei distinguir entre o bom. suas anedotas sobre os pintores. de sua visão da arte desvinculada da sociedade. Dos historiadores do século XVI. foi empregado por Cosimo de Médici. mas com o estudo da realidade. Zilda M. o papel da Fortuna. o melhor e o máximo”. aperfeiçoamentos. e sua crença totalmente a-histórica de que a natureza humana é sempre igual. como arquiteto no Palazzo Vecchio. QUEIROZ.154O). Pintor e arquiteto. Considera que o inevitável declínio das artes pode ser sustado pelo esforço humano. diria que a época de ouro italiana fora a de Lorenzo de Médici. mas. Zilda Maria Grícoli vimentos gerais e naturais. O historiador e amigo de Machiavel. Acredita basicamente que o tempo vai melhorando a arte. Vasari se ocupa da vida dos artistas. reitera que seu propósito é didático. em 1555. onde concebia cerimônias elaboradas e grandes decorações para as festas da família. Pereira de & IOKOI. Apesar da parcialidade de seus julgamentos. vê progressos. Machiavel dizia que a decadência podia ser detida pela virtú. não poupara críticas à tirania de Lorenzo de Médici. considerando-o responsável pela ruína do Estado.Grícoli. Na dedicatória que faz a Cosimo. Francesco Guicciardini (1483 . verídicas ou não. Seguindo uma ordem cronológica. estão integradas ao imaginário de qualquer estudioso da arte. não deixou que fosse publicada enquanto vivo. uma realidade vista com a maior parcialidade possível.1574). Mais tarde. Sua primeira história de Florença data de 1509.

das idéias e das letras. das crenças. que em suas Pesquisas sobre a França. leitor de Plínio. abordando a evolução dos costumes. escrevem em latim.AS IDADES MODERNAS 61 disso. formulou alguns conceitos para os historiadores da arte: o de distinção entre o que é boa arte e arte ruim.1621) – galicanos. de estabelecimento de relações entre as obras. os historiadores também estão à serviço da política. o culto dos grandes homens. é publicada uma História da Alemanha. Tito-Lívio e pela história humanista italiana. Beatus Renanus (m. examina as origens das instituições francesas e os progressos da autoridade real. a numismática.1617). de julgar as obras pelos padrões e conhecimentos disponíveis na época de sua produção e pelos mais altos padrões estabelecidos pela crítica contemporânea. e se voltam para a filologia. Tácito e Tito-Lívio. as intenções do artista. de Paul Émile em 1500 – ou a história imediata – Historia mei temporis. e a tradição de sua época. o advogado Etienne Pasquier (1529 . a crença numa finalidade pedagógica e moral da história.1615). as histórias gerais da França – De rebus gestis francorum. defensores dos direitos da coroa francesa. do estadista católico Jacques Auguste de Thou (1553 . Evidencia-se o fato de que todos aqueles que se ocupam da história têm uma outra formação e que esta atividade é uma .1547). utiliza textos antigos em altoalemão com um grande sentido da crítica. que estudam o direito francês em nome do interesse nacional contra os ultramontanistas e os jesuítas –. onde o humanista de Selestat. da sedimentação dos estados modernos e dos patriotismos. atribuem historicidade ao direito romano. Na Alemanha. animam as biografias do historiógrafo oficial de Carlos IX e Henrique III. Uma outra corrente é a dos eruditos que empreendem a catalogação das “antigüidades”. assim Pierre-Pithou (1539 . Girard de Haillan.1596) e seu irmão François (1543 . Na França. Por outro lado. patriotas. Fascinados pela Antigüidade. em 1531.

mas somente do princípio de autoridade. O interesse do classicismo pelo permanente e o universal faz com que a história seja vista como o domínio do contingente e do particular. surge um ensaio Do pouco de certeza que há na história. Jean de Bolland. no entanto. O espírito científico prevalece sobre a erudição – sob seu signo era vista a história. com as Acta sanctorum. como os Monumentos da monarquia francesa (1729 . com as Acta santorum ordinis S. editadas a partir de 1668 sob a direção de Mabillon – que introduz a “diplomática” – e os trabalhos de dom Bernard de Montfaucon. Em 1668.62 QUEIROZ. continua. a ser útil na formação dos futuros reis de França.1662) a história seria incapaz de qualquer progresso por ser um conhecimento livresco. QUEIROZ. autor das Antigüidades gaulesas e francesas até Clóvis (1599). para citarmos apenas alguns centros de erudição religiosa. Pereira de & IOKOI. Segundo Pascal (1623 . É o caso do jesuíta de Liége. sua obra situa-se numa corrente patriótica cuja expressão mais triunfante tomará forma na história do século XIX.Grícoli. Colbert funda a Pequena Aca- . a epigrafia. É importante também o trabalho do oratoriano Richard Simon (n. A erudição dos séculos XVI e XVII engloba a arqueologia. classificadas dia a dia. ao contrário das ciências físicas não depende nem do raciocínio. Também Claude Fauchet. Aline Pereira de & IOKOI. era magistrado antes de ser nomeado historiógrafo de França por Henrique IV. A indiferença à história parece ser uma marca do século XVII.1650) despreza a história em nome da metafísica e da física. nem da experiência. Zilda M. Benedictis. Descartes (1596 . que marca o início da exegese bíblica crítica. Em 1663.1638). dos beneditinos de S. coletânea de vidas de santos. Maur. dependente da memória. Tereza Tereza A. a numismática e a filologia e seus praticantes eram denominados “antiquários”.1733). Zilda Maria Grícoli entre outras. Considerada inútil em geral. seguindo o calendário. como a jurisprudência ou a teologia. o trabalho dos eruditos na compilação de documentos antigos será importante. Por outro lado.

Século de Luiz XIV e Ensaio sobre os costumes. Voltaire diz que seu objetivo “é sempre .1755). a geografia. Kant (1724 . aparecem as primeiras obras sobre o mundo árabe. David Hume (1711 .” No século XVIII. composto pelas instituições políticas. Voltaire. tem um “espírito geral”. os filósofos fazem obra de historiadores.1783) dizia que a história era o último dos conhecimentos sem a filosofia. com membros religiosos e laicos. Ecos do colonialismo. A integração de outros povos no horizonte histórico faz com que Fenelon (1651 . partindo do princípio de que cada civilização forma um todo original. a religião e os costumes. que em 1716 se transforma na Academia Real de Inscrições e Belas Letras. à arqueologia e à lingüística. como a de Turgot (1750) e Condorcet (1790). escritas por missionários e viajantes. Nestes círculos eruditos. em 1714. publica Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e da sua decadência. Voltaire (16941778) realiza a História de Carlos XII.Montesquieu (1689 .1794) acreditam num progresso da humanidade em direção a um ideal. a Pérsia. D’Alembert (1717 . e cujo objetivo é a publicação de “memórias” consagradas à história. a cada século. Esses filósofos com pele de historiadores verão o passado com outros olhos. a vida econômica. em 1734. escreva.1776) escreveu uma história da Inglaterra . Montesquieu quer explicar “a história pelas leis e as leis pela história”. algumas obras deixam de ter o título história para se denominarem “progresso do espírito humano”. a Índia e a China.AS IDADES MODERNAS 63 demia.1804) e Condorcet (1743 . não pinta nada com verdade. É de Voltaire a expressão “filosofia da história” (1756).1715). Um pintor que ignore il costume. que “o ponto mais necessário e mais raro para um historiador é que saiba exatamente a forma de governo e o detalhe dos costumes da nação sobre a qual escreve a história. As primeiras filosofias modernas da história também tomam forma no século XVIII.

a História do declínio e queda do Império romano (1776 . Zilda Maria Grícoli o de observar o espírito do tempo. A mudança de atitude frente ao fato e à concepção de história será absorvida pela historiografia do século XIX. como historiador. os filósofos dão à história elementos para que se afirme triunfante no século XIX. não as ações de um só homem. diz pretender no Século de Luiz XIV “pintar à posteridade. Gibbon viveu muito tempo em Lausanne na casa de um erudito calvinista. Conheceu Voltaire e do iluminismo sua obra expressa uma filosofia da história e tendências anti-eclesiásticas e profanas. . tem horror aos crimes e às loucuras da humanidade. quer esclarecer o leitor e não sobrecarregar sua memória. através de um crítica cética de lendas e autores eclesiásticos. seu estudo sobre as origens do cristianismo – responsável pelo grande êxito da obra – foi trabalhado como um tópico de história profana. escrevendo com o intuito de divulgar suas idéias. atacam as formas tradicionais da religião e concebem a importância do fato histórico em relação com suas teses. Muitos historiadores do iluminismo conseguem se liberar da camisa de força do Estado e da Igreja. O inglês Edward Gibbon (1737 .64 QUEIROZ. as noções de história cultural e universal. QUEIROZ. A história deixa de ser assimilada à erudição.Grícoli. Tereza Tereza A. ao detalhe factual inútil.”. Montesquieu diz que Voltaire. por isso renuncia a uma história narrativa. na verdade. escrevia como um monge para seu convento. Apesar de admirar os grandes homens. é ele que dirige os grandes acontecimentos da história. De origem aristocrática. uma metodologia. O século da história e também do historiador.1788). Aline Pereira de & IOKOI. a crítica racionalista. Zilda M. Pereira de & IOKOI. Introduzindo a dúvida. mas o espírito dos homens no século mais esclarecido que jamais houvera”. Os que continuavam na dependência do governo eram criticados.1794) produz uma obra clássica sobre a antigüidade. ao antiquarismo e passa a desempenhar um importante papel na educação e no cotidiano das pessoas.

deveria haver um professor de história especial. transforma-se num mecanismo imprescindível para a compreensão do mundo e dos homens. não havia sido escrita. Passado esse rápido momento. desde a Idade Média. A Convenção (1792 . daí. o historiador se profissionaliza e passa a encarnar a consciência da nação. A Revolução abre os arquivos públicos.95) estabelece que. encarregado de fazer com que seus alunos “repousassem deliciosamente seus olhares sobre os acontecimentos memoráveis que lhes libertaram”.AS IDADES MODERNAS 65 Tudo se historiza. a destruição sistemática dos monumentos franceses. Esta mudança radical liga-se profundamente ao próprio momento histórico da Europa. Diante disso. num primeiro momento. apêndice do conhecimento humano. Fenelon – passam a ser encenados no teatro. A Revolução é sentida por todos os franceses como uma ruptura. Os revolucionários queriam acabar com tudo o que fosse passado. com salas montadas com objetos referentes a cada século da história francesa. esta entidade milenar baseada num fluxo natural do tempo. Já em 1789. ensinando dez horas por semana. Seu fundamento é a Revolução Francesa. a história não será ensinada nas . De matéria secundária. atraiu multidões ávidas por conhecer os estilos de vida do passado. principalmente religioso. A criação por Alexandre Lenoir do Museu dos Monumentos Franceses. para a terceira sessão de suas Escolas Centrais. substituindo os temas antigos. da monarquia ou da igreja. dos objetos que formalizavam o tempo. as mais diversas pessoas viram o interesse que o passado podia apresentar na educação dos cidadãos. Os contra-revolucionários dizem que a revolução fora um atentado à história. senhoriais. Esta história na verdade ainda estava se fazendo. temas da história francesa – Carlos IX. eclesiásticos.

junto com outros Ideólogos – o grupo de filósofos que abandona a metafísica em proveito das ciências do homem. destacando a análise da linguagem. de “um curso de bibliografia” e de várias cadeiras no Colégio de França. como diz Volney (1757 .1820). Em 1807. numa carta. Napoleão fala do projeto de criação de “uma escola especial de história”. membro do comitê de instrução pública sob o Diretório (1795). QUEIROZ. No programa de ensino dos liceus napoleônicos. Pereira de & IOKOI. a falta de regras e de recurso na administração” do passado. da gramática e da lógica. do reconhecimento de seu valor . na medida em que ainda não existe uma especialização na matéria. em contraste com a época do Consulado. Uma história oficial. Zilda M. Napoleão (1769 . Tereza Tereza A. Acha absurdo que nas escolas sejam dadas aulas sobre as guerras púnicas e não sobre a guerra da América.Grícoli. mesmo na época napoleônica não aparecem manuais diversos daqueles que vinham sido produzidos há vários séculos. como o de Le Ragois. das artes e dos costumes. Volney já ensina história na Escola Normal. Em 1812. A grande virada. Zilda Maria Grícoli escolas primárias por medo que as crianças possam “contrair medos e preconceitos”. O professor de história nasce do improviso. no ano III. Mas. No entanto.66 QUEIROZ. Aline Pereira de & IOKOI.1821) quer historiadores capazes de mostrar “a desordem perpétua das finanças. a origem dos impérios com as causas de seus progressos e de suas decadências” e também “as regras da ciência crítica”. onde “se gozam dos benefícios derivados da união das leis. da época de Luiz XIV. no sentido de uma ampla aceitação da história pelo grande público. da administração e do território”. onde estudam jovens de 15 a 17 anos. apresentando uma série de fichas com as histórias dos reis de França. o jovem Guizot (1787 1874) ensinava na Sorbonne “o trabalho comparado das leis. a história é matéria obrigatória nos primeiros e segundos anos de Humanidades.

AS IDADES MODERNAS 67 primordial na escolaridade. a estética européia medieval à clássica. metafísica e poética. privilegia a interioridade. o individualismo ao universalismo. e de uma mudança no enfoque da história será empreendida pelos historiadores chamados românticos. idealista. no âmbito político esse individualismo será traduzido em idéia nacional. Romantismo é um conceito utilizado para caracterizar uma certa visão de mundo. artística e política começa a tomar forma em fins do século XVIII. . a espiritualidade. cuja expressão intelectual. Contrapondo a sensibilidade e o idealismo filosófico ao racionalismo e ao empirismo da ilustração.

publica o Gênio. monarquista. as pessoas disputam a tapas os exemplares.1848). Militar. pois a única imagem que irá deixar é a de uma geração vencida. tudo começa com o êxito retumbante do Gênio do Cristianismo (1802) de Chateaubriand (1768 . De volta à França. Rousseau é um dos primeiros a articular a sensibilidade romântica diante do mundo. Um ano depois o autor era admitido na diplomacia pelo próprio Napoleão. Será este o seu legado aos que virão” Walter Benjamin – Sobre o Conceito de História. Chateaubriand vê sua carreira interrompida pela Revolução. para a história. Na França.A MODERNIDADE 69 A MODERNIDADE “Nossa Geração teve que pagar para saber. uma apologia da religião estritamente de acordo com os desígnios de Napoleão de reconciliação da Igreja com o Estado. Mas. . em 1802. viaja para a América e depois para a Inglaterra. depois da leitura se convencem de que o cristianismo “é delicioso”. 1940. uma inspiração para a arte e um modelo para a sociedade. Chateaubriand vê na religião católica um alicerce da civilização. como diz Mme. Hamelin em suas lembranças. No dia em que é lançado.

pelos movimentos de seu coração. para ele a encarnação do gênio alemão.” Em seu livro não ataca os filósofos. trazido de fora. Augustin Thierry (1795 . Chateaubriand. Chateaubriand coloca Deus como uma garantia para a manutenção da ordem social. Chateaubriand apresenta com a exaltação e magnificência de uma sinfonia. Deus mal aparece no livro.Grícoli. pela experiência.. QUEIROZ. mas ao contrário.. Apesar de não ser propriamente um historiador. O que Goethe (1749 . das contradições de sua época. a força dos primeiros franceses. com espírito empírico.1832) esboçara no seu ensaio sobre a Catedral de Strasburgo (1773). mas doutor em história.) um exemplar dos Mártires (de Chateaubriand).1856) narra: “em 1810 (. suas obras foram fundamentais para despertar em muitos a vocação pela história. mas os exalta fazendo de Voltaire e Rousseau dois homens imbuídos dos fantasmas do cristianismo. O século XVIII havia apresentado o cristão como um ridículo. atinge o leitor pela emoção. Aline Pereira de & IOKOI. não provar que o cristianismo é excelente porque vem de Deus. partindo do real. O tempo era um elemento criador e a história possui uma objetividade absoluta. “era preciso pegar o caminho inverso. Como diz. ignorado pelos cultos. A visão tradicional de que a beleza só poderia ser clássica desabava por completo. Vê no cristianismo uma filosofia histórica do progresso. em realidade. Zilda Maria Grícoli As páginas que comparam as grandes catedrais góticas com as florestas primitivas da França expressam uma arrebatadora visão onírica do passado. . Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI. concebe a apologia cristã não partindo de Deus. que pertence a este século e ainda compartilha muitas de suas idéias. é o plano de encontro entre o tempo e a eternidade. da pátria. Consciente da insegurança do mundo diante da quebra das hierarquias. Deus não era arquiteto como na Idade Média. mas. que quebra o eterno retorno. Zilda M. mas que ele vem de Deus porque é excelente.70 QUEIROZ. que tem um nítido sentido do antes e do depois – exatamente como Voltaire via a história.

o bárbaro. serão temas privilegiados. Se os primeiros momentos do romantismo são anti-revolucionários. Após a restauração de 1815. tu signore e tu maestro”. O historiador liberal é o porta-voz da burguesia. O estudo da história torna-se uma questão de Estado e historiadores como Guizot. andando de um lado para outro da sala.. como Dante à Virgílio: Tu duca. tem por missão afirmar o valor e legitimar a nova classe detentora do poder... história da burguesia conquistadora. eu repetia em voz alta e batendo os pés no chão: “Faramond ! Faramond ! nós combatemos com a espada !. Em 1832..A MODERNIDADE 71 circulou na escola. logo haverá um fusão entre Revolução e romantismo convergindo para o estudo da história nacional. o gótico. A impressão que me causou o canto de guerra dos francos tinha algo de elétrico. para a captação da cor local. inicia uma catalogação sistemática de todas as fontes da memória nacional e a publicação dos Documentos inéditos relativos à história da França. caminham pelas vias deste século. Estes querem apagar a Revolução.” Este momento de entusiasmo foi decisivo para minha vocação futura.. o passado nacional. em suas primeiras inspirações.. Cousin serão nomeados ministros. Thiers. Os historiadores românticos serão liberais e a Idade Média. não existe ninguém que não deva lhe dizer. a história torna-se o campo de luta entre liberais e conservadores. Eis aqui minhas dívidas para com o escritor genial que abriu e que denomina o novo século literário. . A história liberal. “uma pesquisa integral do passado”.. ao mesmo tempo que pretende criar uma identidade nacional. Guizot (1787 . o encontraram na fonte de seus estudos.. em diferentes sentidos. ministro da instrução pública. o corte num contínuo histórico. enquanto os liberais ansiavam pela integração dessa ruptura no presente e também numa relação com o passado. Todos aqueles que.1874). Eu saí do lugar onde estava sentado e.

Aline Pereira de & IOKOI. Esta história nos apresentará exemplos de conduta e este interesse de simpatia que procuramos em vão nas aventuras deste pequeno número de personagens privilegiados que sozinhos ocupam a cena histórica. Nossas almas ligar-se-ão ao destino das massas de homens que viveram e sentiram como nós. em 1833.” Assim. e suas misérias serão mais tocantes do que aquelas dos reis despossuídos. Tereza Tereza A. após ter sido secretário de Saint-Simon e colaborado em jornais liberais. percorre toda a França – tendo como assistente Viollet-le-Duc. a mais instrutiva. o . a mais grave. Thierry publica A verdadeira história de Jacques Bonhomme. Prosper Merimée (1803 . publicado na Alemanha. seguindo o êxito dos Monumenta Germaniae historica. o historiador não deve ser o porta-voz dos grandes. da desigualdade de classes. Augustin Thierry. O progresso das massas populares para a a liberdade e o bem estar nos parecerá mais imponente que a marcha dos fazedores de conquistas.Grícoli. A melhor parte de nossos anais. evocando as diferentes formas de servidão do campesinato francês desde a época da invasão romana até seus dias. a história nacional. Pereira de & IOKOI. do povo. não se tornará um político. futuro responsável pelas grandes restaurações de igrejas. nomeado inspetor dos monumentos históricos. Em 1820.72 QUEIROZ. falta-nos a história dos cidadãos. Zilda M. a Revolução havia construído uma sociedade de vinte e cinco milhões de cidadãos vivendo sob a mesma lei.1870). diz que no lugar das antigas ordens. mas vê na política. Em 1840. mas sim aquele que se interroga sobre os sentimentos e os movimentos do povo. ainda está por ser escrita. Zilda Maria Grícoli em suas palavras. QUEIROZ. castelos e cidades medievais – para efetuar um levantamento das riquezas arqueológicas francesas. Em 1850. iniciando uma série de estudos e ensaios sobre as artes da idade média. a história popular. no momento pós-revolucionário um impulso para sua dedicação à missão de escrever história: “A história da França tal como foi feita pelos historiadores modernos não é a verdadeira história do país. Merimée “descobre”assim as igrejas românicas.

fiel à Luiz Felipe. na década de 20. Numa outra dimensão. diante do triunfo burguês quer congelar a história con- . embaixador em Londres. ministro do interior. o livro de história apresentava uma narração dos fatos e em seguida os comentários do autor. onde em seus cursos celebrava a Revolução como a batalha decisiva da história francesa. acha que o historiador deve narrar e pintar ao mesmo tempo. conduzida e encarnada pela burguesia. uma desenvolvida pelo Estado e a outra pelo comércio e indústria. contribuiu para aumentar a miséria dos trabalhadores e instigar uma crescente oposição. A Narrativa baseia-se na teoria da luta de raças – entre galoromanos e germanicos – como motor da história do desenvolvimento nacional. a luta de raças antecederia a luta de classes. Guizot. Dizia então “que a luta das diversas classes de nossa sociedade preencheu nossa história. da educação pública. no governo. dirá que 1789 e 1830. Antes disso. Tradicionalmente. A Revolução de 1789 foi sua explosão mais geral e mais poderosa. Thierry acha falsa essa divisão que separa “os fatos daquilo que constitui sua cor e sua fisionomia individual”.” Mas. No Ensaio sobre a história do terceiro estado. Sua política. que favorecia a grande burguesia nacional.A MODERNIDADE 73 Ensaio sobre a história da formação e dos progressos do Terceiro Estado. livro que reafirma o gosto do público pela Idade Média. uma comparação das burguesias inglesa e francesa. durante a Monarquia de Julho será o chefe do partido da Resistência. a leitura do Ivanhoé de Walter Scott resultará numa mudança no estilo da escrita da história para Thierry. Na Narrativa dos tempos merovíngios (1824). fora professor de história na Sorbonne. distingue no passado a existência de uma massa popular. em 1840 substitui Thiers no ministério dos Assuntos Estrangeiros e se torna o verdadeiro chefe do governo. o texto reflete as leituras de Chateaubriand e Scott. serão a revanche da conquista franca. enquanto movimentos populares.

Nela vê uma consciência explícita da luta de classes como motor da história. em que as pedras se animam e se espiritualizam na mão dos artistas. O princípio de “humanidade que se cria”. considerava. neles desenvolve suas idéias democráticas laicas. para estudar a formação. o desenvolvimento e a decadência das nações que. Zilda Maria Grícoli tra os perigos do “quarto estado”. Nesta obra.74 QUEIROZ. Marx será um atento leitor da historiografia romântica burguesa francesa. após ter sido um aluno brilhante.Grícoli.1874). Aline Pereira de & IOKOI.1744). idealizada. Pereira de & IOKOI. filho de um impressor. é encarregado do curso de história antiga na Escola Normal Superior. Entre 1847 e 1853 publicou os sete volumes da História da Revolução Francesa. em 1847 – pouco antes da revolução de 48 – que todos os interesses haviam sido satisfeitos e que a luta de classes havia terminado. Nomeado chefe da sessão histórica dos Arquivos Nacionais (1831). volta-se para o passado nacional e elabora sua enorme História da França. É um apaixonado pela filosofia da história de Victor Cousin. neles cria uma idade média romântica. tempo da infância da França. das origens à morte de Luiz XI. O grande astro da historiografia burguesa será Jules Michelet (1798 . aparecem entre 1833 e 1844. Tereza Tereza A. um trabalho profun- . o sistema jurídico e a linguagem. passariam por três fases sucessivas: idade dos deuses. é de Vico. interior. da união da religião e do povo sofredor e de suas lutas. tendo rompido com o catolicismo. dos heróis e dos homens. Seus cursos no Colégio de França atraíam multidões. apoiando-se na filologia. da alma nacional”. Herder e sobretudo Vico (1668 . obrigatoriamente. do “grande movimento progressivo. de quem traduz os Princípios de uma ciência nova sobre a natureza comum das nações (1725). Nascido num meio popular. cujos seis primeiros volumes. Zilda M. utilizado por Michelet. QUEIROZ. Vico critica o racionalismo cartesiano e utiliza um método comparativo. em cada uma destas fases é possível colocar em paralelo o modo de governo. Michelet.

E. como Lucien Febvre gostava de lembrar. de todas as classes e de todos os partidos. destituído de suas funções oficiais. Como Thierry. Para Michelet o nome da França é Revolução. acha que a França ainda não possui uma história e que a escrita desta história. Para Michelet. da revolução de 1830: “Esta obra laboriosa de quase quarenta anos foi concebida a partir de um momento. O historiador é um sacerdote com poder de ressuscitar os mortos. de classe. é a França”. econômicos. A nação é o quadro e o resultado essencial de sua busca. “a ressurreição total da vida” é uma missão. que passam a falar através de seus livros. Michelet explica sua paixão arrebatada pela história e pela França como uma obra da política. Mas é Roland Barthes quem capta Michelet com sutileza. a vida é que era tudo. como acreditava “o pobre Montesquieu”. guardem bem uma coisa. de Luiz XI a Luiz XVI. não tivesse dentro de mim a alma e a fé do povo. para criar uma história total. do raio de Julho. fez-se uma grande luz e eu vislumbrei a França”.A MODERNIDADE 75 damente passional e ao mesmo tempo minuciosamente documentado: “eu não poderia compreender os séculos monárquicos se antes. Georges Lefebvre considera que um gênio como Michelet não podia deixar nem método. sobre esta terra vocês só tem um amigo verdadeiro. tal homem”– e todos os aspectos da vida passada. de um encolhimento de seus horizontes. A geografia. É necessário entregar-se totalmente a esta tarefa imortal. imaginação e argúcia: “Tudo para . nem programa de pesquisa e nem discípulos. acima de tudo. liberdade não é um conjunto de garantias jurídicas. o povo – “tal pátria. o homem. continua a publicação dos volumes relativos à história da França. Nestes dias memoráveis.” Após 1851. o historiador deve buscar na mais ampla documentação. após Michelet a história sofre de uma considerável perda de vigor. antes de tudo. todas imbuídas de um espírito de polêmica política. “Franceses de todas as condições. dos conflitos políticos.

não se tratava mais de construir uma nação através do livro de história. Com a queda do Segundo Império e a proclamação da Terceira República. sagrada mas laica. Esta será a tarefa dos professores de história nas últimas décadas do século XIX até 1914. O presente... nem antes e nem depois. o ensino da história fora ou seria considerado a tal ponto imprescindível e redentor. do momento da evolução histórica. feito à imagem das ciências naturais. Este homem que deixou uma obra enciclopédica feita de um discurso ininterrupto de sessenta volumes declara-se a todo momento “ofuscado. para agora explicar a situação da França... a Terceira República. Lavisse constrói uma história linear da França. fraco. baseado nos determinismos da raça. em 1870. e do manual Lavisse. QUEIROZ. mas sim de preparar a juventude para a recuperação concreta desta nação. a divulgação de uma idéia republicana de pátria. Hippolyte Taine (1828 . lido por todas as crianças francesas nas escolas públicas. como um veneno sagrado. O historiador e o professor de história viverão seus dias de glória absoluta na França após a derrota de Sedan e a perda da Alsácia e da Lorena. No âmbito do grande público e da educação cívica. Zilda Maria Grícoli ele é enxaqueca. aí adota seu método. autor de uma História da França. do meio geográfico e social.1922). com base nas batalhas e na heroicidade daqueles que sacrificaram sua vida pela pátria.”.Michelet tem enxaquecas históricas.. crítico literário.Grícoli.. Entre 1876 e 1896. Aline Pereira de & IOKOI... Zilda M. será empreendida pelo historiador Ernest Lavisse (1842 . composta entre 1892 e 1911. Tereza Tereza A. “.1893). mas também como um objeto possuído. filósofo e historiador.Estar doente da história é não apenas constituir a história como um alimento. vazio. histórica mas científica. sofredor.. Pereira de & IOKOI. que antes lhe havia servido para explicar as manifestações artísticas.76 QUEIROZ. Nunca. é considerado como o ápice da história fran- . havia buscado as causas da guerra de 70 e da Comuna na obra As origens da França contemporânea.

de Lavisse.A MODERNIDADE 77 cesa e todos os períodos anteriores são considerados em relação com o presente. Povos e Civilizações. O historiador é agora um profissional. é publicada a Introdução aos estudos históricos de Charles-Victor Langlois e Seignobos. a disciplina histórica ainda não tinha total autonomia universitária. fazer com que cada um se projete nessa grandiosidade. a pesquisa histórica deveria ter um caráter científico. por exemplo –. dirigem grandes coleções – História da França. Para os metódicos. Encontrava-se na linha do cientificismo histórico de Taine e de Fustel de Coulanges (1830 . Seus princípios estão expostos no manifesto de Gabriel Monod escrito para o lançamento de sua Revista histórica. História geral de A. Até 1880. de L. Em 1898.1889) para quem a história podia ser uma ciência. a maior de todas as missões. na organização dos trabalhos na profissão. São criadas então uma licença específica para o ensino de história e um grande número de cátedras universitárias. o país de maior ação civilizatória de todos os tempos. Os historiadores positivistas participam ativamente nas reformas do ensino superior. o manual por excelência da história positivista. distante de qualquer especulação filosófica. inculcar uma adoração pela pátria que impulsionará os jovens à sua defesa e à retomada da Alsácia e da Lorena. Charles Seignobos (1854 . Sagnac. alheia ao meio social do historiador que a elabora. e no manual de Langlois e Seignobos. Rambaud. esta objetividade seria produto da aplicação de técnicas rigorosas no inventário das fontes. visando a uma objetividade absoluta. ocupam cadeiras nas novas uni- .1942) é encarregado de um curso de pedagogia das ciências históricas. pois se ligava à filosofia ou às humanidades literárias. na crítica dos documentos. A escola dita metódica ou positivista desenvolve-se na França durante a III República. Halphen e Ph. em 1876. A França aparece como um soldado de Deus. Em 1890. segundo Lavisse. Cabe aos professores de história. mas jamais uma filosofia da história.

é necessário comparar com outros documentos da época para estabelecer um fato particular..Grícoli.quando todos os documentos forem descobertos. QUEIROZ. as filosofias da história de Hegel e Comte. por dedução ou analogia. fazer a análise do conteúdo e a crítica positiva da interpretação para ter certeza do que o autor quiz dizer. finalmente. datas. Feito isso. A história seria apenas “o trabalho de documentos”. para determinar o valor de palavras e frases. reagrupar fatos isolados em quadros gerais – sociais. seqüências de fatos e datas. estes documentos seriam limitados apenas aos escritos voluntários – cartas. para a escola metódica não são considerados documentos. de erudição. os sítios arqueológicos ou testemunhos involuntários. do documento. manuscritos diversos. o progressismo racionalista e o finalismo marxista. institucionais – e. retomar as informações da crítica de erudição.. correspondências. purificados e colocados em ordem. lugares – fazer uma ficha de tudo e passar à crítica interna. Pereira de & IOKOI. decretos. visando a constituição de uma história científica. “a história será constituída. Tereza Tereza A. por exemplo. Langlois e Seignobos. Esta parte de hermenêutica recorre à lingüística. registrar e classificar esse material e passar à crítica externa. Aline Pereira de & IOKOI. Analisar as condições nas quais o documento é produzido e fazer a crítica negativa para controlar os dizeres do autor..” . O historiador primeiro deve fazer um inventário do material disponível – “heurística”–. como manuais de confissão. descartam o providencialismo de Bossuet. Esta consiste em encontrar a fonte do documento. salvar. atrás dos quais o historiador se apaga. a história-literatura de Michelet. descobrir sua autenticidade pela paleografia. ligar os fatos entre si e preencher as lacunas da documentação levando o historiador a arriscar algumas generalizações ou interpretações. ele se iluda de que está desvendando algum mistério. enumerar seus pontos principais – nomes.78 QUEIROZ. Zilda Maria Grícoli versidades e elaboram os manuais para as escolas primária e secundária com galerias de heróis. sem que. Zilda M. no entanto. canções etc.

do país etc. em meados do século XIX. Nas primeiras décadas do século XIX. e estritamente considerada. Nas Idéias sobre a filosofia da história da humanidade (1784 1791) postula que a história é um estudo dos tipos de civilizações humanas. e do outro. de suas culturas. de suas línguas. o romantismo alemão confundiu-se com o nacionalismo e a luta política pela unificação. que considera o direito como uma emanação popular. Os professores devem ser especialistas num deteminado assunto e assumirem capítulos concernentes às suas especializações nas grandes obras de história universal. de onde se desprende a alma popular. jovens pesquisadores com pesquisas modestas. Estava instaurado o regime universitário da cátedra. secular. Apesar de este ter sido o modelo histórico predominante na França até 1930. cientificamente. para ele tudo o que existe era produto do clima.1803) ao dizer que “toda perfeição humana é nacional. que também via no gênio nacional alemão as origens do direito. e os de Friedrich Karl Savigny. história e indivíduo. individual”. O filósofo Herder (1744 . fundia as noções de pátria. o manual de Langlois e Seignobos sugere que deva haver eruditos de um lado. erudi- . Com este espírito são elaborados trabalhos sobre a história do direito. sua origem não é francesa.A MODERNIDADE 79 Diante de trabalho tão complexo. por meio delas constroem teses gerais. como uma contra-posição ao romantismo e ao idealismo de Hegel. escrevendo pequenas monografias. como os de Karl Friedrich Eichhorn (1781 .1854). por exemplo. A tentativa de aniquilamento das filosofias da história originou-se na Alemanha. das circunstâncias temporais aliadas a virtudes nacionais e seculares. A busca de um passado comum que justifique a superação dos particularismos políticos é intensa na Alemanha. sob a tutela dos grandes professores universitários que analisam essas monografias e.

na Prússia. passava pelos gregos e romanos e terminava com os povos germânicos-cristãos. Apesar de acreditar no poder da razão. e seu sistema visa a permitir que todo o Universo seja pensado. foram sobre o espírito do judaísmo e do cristianismo. em 1818. A história expressaria o movimento do espírito. Tereza Tereza A. que descreve a história da consciência desde o “aqui e agora” até o saber absoluto. funda em Frankfurt uma sociedade de estudos alemães antigos. dado que o mundo seria um espelho do espírito. Aline Pereira de & IOKOI. assim. teria inícios no oriente. em 1819. Protegido da monarquia prussiana. Zilda Maria Grícoli tos concentram seu saber em dicionários especializados. O Estado aparecia no centro desta história universal em que a razão tiraria partido do instinto coletivo para fazer avançar a humanidade nos caminhos da perfeição. neste sentido. Menos individualista que os românticos. é também um homem de fé. é publicada a partir de 1826. substituindo Fichte. Esta história no entanto seria racional. Este será o tema da Fenomenologia do Espírito (1807). a realização da liberdade. reunindo as fontes alemãs entre 500 e 1500. . postula que no desenvolvimento histórico e do espírito haveria sempre um progresso. acredita que o indivíduo se funde inteiramente no espírito do universo. As primeiras reflexões de Hegel (1770 . e a dialética seria a “alma motriz da história”. Retoma o providencialismo cristão e descarta o acaso. o Barão von Stein. A história é também um terreno de especulação para os filósofos. considera o Estado o objetivo final absoluto. considera que o problema fundamental é o da realização da humanidade em nós e da humanidade na história. Pereira de & IOKOI. a série dos Monumenta.1831). Hegel pretendia forjar novos conceitos aptos a traduzirem a vida histórica do homem e sua existência num povo ou numa história. QUEIROZ. ministro de Frederico Guilherme III. A história universal representaria o progresso na “consciência de liberdade”.80 QUEIROZ. o presente seria sempre o objeto da história. Zilda M. pois a razão governa o mundo.Grícoli. ao assumir a cátedra de filosofia em Berlim.

lutam contra César (antítese). construia-se uma história da filosofia baseada numa conexão entre os diferentes sistemas e não somente em vidas dos filósofos. baseado no estudo dos estilos e não dos artistas.. “os jovens hegelianos”. ele é também a atividade pela qual volta a si. toma o poder (tese). Segundo esta definição. Nas Lições sobre a filosofia da história diz que “o espírito tem em si mesmo o seu centro. Hegel formou vários historiadores idealistas como Baur (1792 . não existe unidade fora dele. se produz assim.. Ao historiador da filosofia não caberia julgar. mas ele a encontra. Pela primeira vez.” História do espírito e do universo são a mesma coisa. A refutação de um sistema por outro seria própria ao desenvolvimento da filosofia: “O desenvolvimento da árvore é a refutação da semente. . mas compreender e justificar cada um dos sistemas. A integração da dimensão do tempo como categoria de inteligibilidade feita por Hegel é uma manifestação da importância assumida pela história no século XIX. Karl Marx. como a História da filosofia. antítese. entre os quais aquele que mais se debruçou sobre seu pensamento.”. a flor refuta as folhas mostrando que não são a existência suprema e verdadeira da árvore. seus inimigos. ele é o julgamento de sua própria natureza.1860) e Zeller (1814 .A MODERNIDADE 81 Estas teorias Hegel aplicaria em suas obras históricas. síntese. mas este não poderia ter chegado a existir sem as etapas precedentes. se faz o que é em si. os mais diversos. O idealismo absoluto de Hegel não distingue o sujeito do objeto.1908).1768) para a história da arte. César triunfa e se impõe como único governante (síntese). ele é em si e consigo. Tese.O espírito sabe-se a si mesmo. Hegel retoma para a filosofia o projeto de Winckelmann (1717 . podemos dizer que a história universal é a representação do espírito em seu esforço para adquirir o saber daquilo que é. ambiciosos. correspondendo assim às circunstâncias históricas. ambicioso. o ser do conhecer. César. Em história política: no fim da república romana. A flor acaba sendo refutada pelo fruto. além de ter sido intelectual que estimulou amplos setores da juventude.

reparação. Erick Fromm. Leopold von Ranke (1795 . Leo Loventhal. Zilda Maria Grícoli O romantismo alemão.Grícoli. e seus últimos representantes Marcuse. restabelecimento da harmonia perdida. Georg Lukács acabam de se extinguir. A aspiração do grupo a uma organização nacional judaica os afasta do nacionalismo político. que só será realizado no final do século XIX. Zilda M. Em contrapatida ao hegelianismo e ao romantismo. a configuração histórico-cultural da formação da Europa Central e a ausência de projeto de unificação alemã. Ernest Bloch e Walter Benjamin. A cultura judeo-alemã aparece com Heine e Marx. independente de quem a estuda. “objetivas” ou “positivas”. baseava-se na utopia libertária. Para ele o historiador não deve “julgar o passado nem instruir seus contemporâneos. Freud e Kafka. o historiador escapa a qualquer tipo de condicionamento social. sobreviveu apenas no exílio. o historiador deve . permitiu que ali se constituísse um outro paradigma mais anarquizante especialmente com Martim Buber. considera o marxismo demasiadamente articulado com a sociedade industrial. Ernest Bloch. negando as origens alemãs (Scholem) ou a identidade judaica (Lukács). QUEIROZ. como uma cultura da diáspora. estes pensadores contraditoriamente vivem com orgulho esse sincretismo (Landauer) ou pelo dilaceramento (Kafka). por exemplo. mas simplesmente dar conta do que se passou”. entretanto. literatura ou filosofia do século XX. portanto é absolutamente imparcial. Tereza Tereza A. não sem deixar profundas marcas na ciência. bebendo no messianismo judaico os elementos questionadores tanto do individualismo como da articulação dos indivíduos na idéia de nação. Um pouco esquecida especialmente depois da maré nazista. restituição. Pereira de & IOKOI. a história existe em si. Evidentemente.1886) nega as filosofias da história “especulativas”. Gershon Scholem ou Leo Lowenthal. não haveria qualquer relação entre o sujeito – o historiador – e seu objeto – o fato histórico. Franz Rosenzweig.82 QUEIROZ. Unidos pela idéia polissênica que significa redenção. “subjetivas” e “moralizadoras” em prol de fórmulas “científicas”. Aline Pereira de & IOKOI.

Bockel. estudou teologia. Para ele. Apesar disso insiste sobre a influência de Deus sobre a história e a continuidade das duas nações que estuda. Fichte. um dos períodos que ilustraria a vontade de Deus sobre os grandes acontecimentos. Ranke é convidado a lecionar na recémfundada universidade de Berlim. Ranke pertence a uma família de pastores alemães protestantes. escreve sua primeira obra. toda e qualquer reflexão é inútil e prejudicial.A MODERNIDADE 83 registrar os fato passivamente. onde havia uma infinidade de documentos venezianos. a história era uma maneira de se conhecer Deus. Guilherme de Humboldt desejava então transformá-la no maior centro cultural da Alemanha. ao historiador cabe apenas reunir os fatos. trabalha muito nesse período lendo os historiadores italianos e os autores do fim da Idade Média. gramática e filologia na Universidade de Leipzig e busca uma utilidade para esta ciência fora da antigüidade. Desse período resultam a História do papado – onde destaca a importância das nações depois da queda de Roma e a impotência da Igreja a impor seus sonhos de soberania nacional – e a História da revolução sérvia – em que . onde já se atém à sua fórmula de apenas narrar os fatos. Savigny. Já como professor. Publicado. Ranke decide continuar suas pesquisas sobre o século XVI italiano e parte para Viena. volta-se então para a história moderna. sobre os povos romanos e germânicos. Em 1824. Só assim pode-se chegar ao conhecimento da verdade. baseados em inúmeros documentos e a narrativa histórica deve então se organizar a partir destes fatos. que por pouco não se tornara pastor. onde havia uma grande massa de estudantes. Schleiermacher. todos a serviço da Prússia e de uma Alemanha nova. Ranke decide nesta época estudar história moderna. torna-se professor de história em Frankfurt-sobre-o Oder. nela trabalhavam Niebuhr. Entre 1816 e 1825. a quem muito admirava. como um espelho reflete uma imagem. desviando-se um pouco dos autores latinos e principalmente de Tucídides. seu livro desperta interesse no meio universitário.

QUEIROZ. representa o historiador já inserido num quadro universitário. Burckhardt tenta captar o renascimento em sua individualida- . Zilda Maria Grícoli demonstra a comunidade de civilizações que une os povos romanos e germânicos em oposição ao destino histórico dos eslavos oprimidos pelo sistema imperial oriental. em que explica a história européia contemporânea e a verdade das teses prussianas. obra marcante na afirmação autônoma da história da cultura. Em 1865 havia recebido um título de nobreza por seu trabalho como historiador. ao mesmo tempo em que mantém firme uma tradição da história política. incapazes de afastar os muçulmanos e de conseguir uma independência nacional.1897). religiosamente providencial. mas sim uma continuidade cristã. autor da Civilização do renascimento na Itália (1860). Em Berlim inicia a publicação do Historische Politische Zeitschrift – jornal de história política. Morre em Berlim. A revolução de 30 o faz voltar à Alemanha. Ranke é um exemplo da penetração do cientificismo na história. factual. Tereza Tereza A. sua imparcialidade apenas desnuda a enlevo da burguesia diante do que considerava progresso. mas não vê como Hegel um progresso nesta sucessão. Seus discípulos ocuparam todas as mais importantes catédras de história na Alemanha. que soube encampar a riqueza da antigüidade. onde percebe que sua vocação de historiador é um mandato de Deus.Grícoli. Zilda M. Com um fundo hegeliano e sua admiração incontida pelo classicismo. mas sem resultados concretos. sobretudo. em 1886. passa três anos na Itália. e. Aline Pereira de & IOKOI. Entre seus alunos.84 QUEIROZ. É Jacob Burckhardt (1818 . Prosseguiu como professor da universidade de Berlim e como pesquisador e autor de livros até o fim da vida. um se tornaria mais famoso do que o próprio Ranke. Continua a pensar na ordem divina presidindo a sucessão de épocas e de nações dominantes. Encara a vitória da Prússia sobre a França em 1870 como uma corroboração de sua tese sobre a ascensão e queda das nações. voltada para a defesa das teses do governo vigente. A partir de 1828. Por outro lado. Pereira de & IOKOI.

1797) Reflexões sobre a Revolução na França (1790).1881). cada um dentro da especificidade de seu país de origem e de seu momento. História da Inglaterra a partir de James II (1849 1861). recheada de fatos. francesa. impregnados de paixão política e cientificismo. Ranke.A MODERNIDADE 85 de. mítica. industrial – e também pela penetração da máquina e das produções derivadas das ciências no cotidiano abria caminho para que fossem pensados métodos de análise do passado.francesa. embora só visse decadência no século XIX. anti-iluminista e anti. muito popular em sua época. opondo-se ao utilitarismo e ao materialismo. onde insiste sobre o papel dos gênios na história. as revoluções industrial e francesa dão margem a uma historiografia romântica. Thomas Carlyle (1795 . formula suas considerações a partir do presente e procura provar que a salvação da Inglaterra nunca esteve na revolução ou no despotismo. Macaulay. antiindustrialista. Na Inglaterra. Macaulay. Michelet. . Embora aparentemente contraditórios. e Thomas Macaulay. fazendo dele uma época de ouro forjadora do futuro. conservadora. exemplificada nas obras de homens políticos como Edmund Burke (1729 . A aceleração do tempo provocada pelas Revoluções – americana. tanto a paixão como o cientificismo convergiram para a escrita de uma história política. batalhas e grandes nomes. mas sim num governo parlamentar liberal. História da Revolução Francesa (1837) e Heróis e culto dos heróis (1841). e na geração seguinte Lavisse. respondem a um imperativo de compreensão das mudanças do presente que torna o especialista em pensar a história em um elemento ativo dentro da sociedade.

O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 87 O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO “Nada é mais real do que nada. reinstaura-se um campo de debates com conseqüências de longo prazo. No manifesto de 1848. A Dialética da Natureza de Hegel é substituída pela constituição da noção de necessidade especialmente a partir das análises da escassez e da abundância. modo de produção. A partir de noções abertas como formação econômico-social. quando Karl Marx escreve um manifesto que ganha dimensões de uma bomba. consciência de classe.” Samuel Beckett A grande revolução para o historiador contemporâneo vem da Alemanha. Marx reorganiza o pensamento de David Ricardo sobre o valor de uso e o valor de troca e nele insere o valor do trabalho não pago. extraído do trabalhador na medida em que se define o salário pela média do tempo gasto socialmente na . que debruçados sobre conceitos de preço e lucro justificam as noções de valor agregados apenas ao capital. e nos Manuscritos estabelece-se um novo rumo para a história e os historiadores. A história e a luta de classes. Os estudos sobre economia política permitem encontrar o sentido dos interesses restritos dos economistas clássicos. mas não extraídos do trabalho.

A classe que se forma nesse processo é o proletariado. No desenvolvimento do capitalismo o homem perde o sentido do trabalho enquanto criação. Recuperase a noção de revolução constituída pela burguesia e inclui-se o sentido de superação. Em A Ideologia Alemã. foi organizada a partir de estudos esparsos em três volumes. Em Grundisses recupera dimensões cotidianas das experiências humanas e desenvolve com muita precisão o método hipotético analítico. o trabalho parcelar aliena e compartimenta o trabalhador à lógica da produção. nomeados marxistas. refere-se à luta de classes e ao sentido da práxis revolucionária. dialoga tanto com os jovens hegelianos. QUEIROZ. Exercício primoroso é realizado em 18 Brumário. Evidentemente a ordem estabelecida aos estudos permite um bom entendimento do sistema capitalista em seus três tempos: produção. por Karl Kautisky. de 1914 a 1918. A mercadoria se humaniza e o homem é coisificado. Os seguidores. circulação e realização do valor. Após a . entretanto. O Capital. Estabelece um combate aberto contra o idealismo e termina por destacar com muita força o papel da economia no desenvolvimento da história humana. ou seja. que para libertar-se deve se apropriar daquilo que é tomado pelo capitalista libertando-se a si e a sociedade como um todo. Zilda M. o processo de acumulação. Sua obra mais citada. Zilda Maria Grícoli produção de uma mercadoria. A contribuição mais significativa.Grícoli. Tereza Tereza A. Dedica-se a entender a sociedade da necessidade e projeta como devir o reino da liberdade. onde não haveria estado nem classes sociais. onde estuda os conflitos entre as classes sociais na França de 1848 e o golpe de Luiz Bonaparte. seria um fator decisivo na mudança de rumo da construção da história. foram inicialmente os economistas entusiasmados com as possibilidades de mensuração abertas pela crítica da economia política. Pereira de & IOKOI. Este novo modo de pensar a história espalha-se como um fio de pólvora e os debates em torno da revolução ampliam-se para toda a Europa. A primeira guerra mundial. como com os socialistas românticos ou utópicos que propunham uma alteração moral na relação entre os proprietários e os trabalhadores.88 QUEIROZ. Aline Pereira de & IOKOI.

desprovidos desses níveis de propriedade. A oposição ao relativismo será concebida na idéia de que o conhecimento histórico se constitui por determinações sociais que lhe atribuem um caráter de classe. das desigualdades e das diferenças existentes entre os donos dos meios de produção e dos que. mas como elementos norteadores da reflexão no entendimento das estruturas sociais.E.Burns em História e Escritos Históricos de 1937. encaminhando-se para a descoberta dos conflitos mediados por necessidades subjetivas e objetivas das relações entre o ser e o existir. da missão civilizadora do ocidente contra os bárbaros. O problema da verdade passa a ser explicado de modo distinto do universo da idéias. Os funcionalistas e liberais norte-americanos aderiram prontamente aos postulados do presentismo. Marx ao questionar a dialética hegeliana define a História como luta entre as classes sociais. A tendência relativista se espraia com maior vigor depois da segunda guerra mundial. dando ao presentismo outras centralidades móveis e articuladas não no sentido do relativismo niilista. a História? O pensamento . da história-batalha. tornaram-se vendedores de sua força de trabalho. ou seja. do progresso. e especifica os interesses de classe como elemento central no entendimento dos conflitos sociais.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 89 carnificina perpetrada pelas nações envolvidas no conflito mundial. especialmente J.Robinson em A nova História publicado em 1912 em Nova York e H. mesmo tendo sido realizada a expansão dos impérios coloniais britânicos e franceses ficava impossível cultuar os mitos da sacralidade do Estado nação. do herói nacional. especialmente no combate aos postulados do pensamento marxista e na relativização das lutas que se abriram entre as classes naquele período.H. Deve-se ainda perguntar se o político e o estatal contêm a verdade dessa realidade.

Para Marx a única possibilidade de apreensão do real se dá pela práxis. pela prática social na medida em que esta só é compreensível se forem articulados os conhecimentos teórico/filosóficos com a crítica radical da prática social. sentido e obra. o pensamento dialético. Tereza Tereza A. Teoria e prática em uma noção essencial no pensamento de Marx. Ela já o é na filosofia e pela filosofia. deixando o espírito da crítica radical. a ação prática se desmentem a si mesmos. sua realização. o conceito de superação em Marx comporta uma crítica da síntese hegeliana acabada. e superação do homem coisificado pela divisão social do trabalho que alienou o homem criador que pode ser reencontrado. Deste modo. Aline Pereira de & IOKOI.90 QUEIROZ. o tempo histórico. sistemático e abstrato. ou seja. os meios de trabalho e sua organização e se desenvolvem por meio de técnicas e da divisão social do trabalho. qual seja. Em que consiste para Marx a superação da Filosofia? Ela difere da superação da religião pois é mais complexa. A superação da religião consiste em seu desaparecimento. ao mesmo tempo que o fim da alienação filosófica. os conceitos e abrindo a um projeto de ser humano integral. a religião deve e pode ser vencida. Zilda Maria Grícoli marxista considera que a verdade do político encontra-se no social e que apenas as relações sociais permitem compreender e explicar as formas políticas. pois. na qual o movimento dialético. Na medida em que elas se constituem como relações vivas e ativas. Pereira de & IOKOI. ou seja. QUEIROZ. a superação. Conhecê-las e desvender o seu significado pressupõe a apreensão do real e a quebra tanto do relativismo como das verdades individuais. e a transfe- . A superação da filosofia compreende. o homem deve também empreender a superação do político. Essa teoria dialética da realidade e da verdade não pode separar-se de uma prática. possuem uma base material.Grícoli. Para Marx. Desaparece o lado especulativo. Zilda M. Deste modo. Ela comporta a superação do Estado. que deve ser reapropriação da integralidade do humano enquanto razão.

Mais precisamente. O grupo de Ernest Labrousse na França criou uma escola econométrica de grande importância. elas desembocam na democracia. travando com elas violentas batalhas nem sempre vitoriosas e se redefinindo num campo . mas que paulatinamente foi sendo assimilada pelos supostos positivistas e pelas análises estruturalizantes.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 91 rência para as relações sociais organizadas das funções por ele açambarcadas. substituindo a coerção que o Estado exerce sobre os homens. esta passa a ser decodificada como alienação inicial e fundamental do ser humano. Para Marx. raiz de toda a alienação. Ao longo da segunda metade deste século o esgotamento das formas estruturais foi sendo sentida como dilema da investigação histórico-social e também do enrijecimento estatista da política definida para o bloco soviético no pós-guerra. e procuraram reencontrar os desafios postulados no século XIX e desviados pelos conflitos e interesses do século XX. No período inicial deste século. o rompimento com a alienação política permite a recuperação da racionalidade imanente às relações sociais em razão dos conflitos. Em ambos os casos. Ela mostra a gênese do pensamento filosófico que se desenvolve como já foi apontado neste texto. mas a democracia só vive senão lutando para manter-se e superandose em direção a uma sociedade liberta do Estado e da alienação política. os historiadores se debruçaram em busca das subjetividades. No que se refere ao entendimento da religião. os pensadores marxistas enrijeceram a dialética propugnada por Marx e desenvolveram análises macroestruturais da economia e da demografia redefinindo o sentido materialista desses pressupostos. A gestão social das coisas são centrais na superação do conceito hegeliano do Estado. a democracia contém o segredo da verdade de todas as formas políticas. no terreno das lutas sociais. afirma Henri Lefebvre na Sociologia de Marx.

especialmente a Liga Spartakista. Deve-se perguntar. Zilda Maria Grícoli específico. François Simiand (1873-1935). A crítica radical desse sistema fez com que ele explodisse retirando-lhe o método (Lógica e dialética). do homem individual). discípulo de Durkheim e entusiasta da estatística como técnica de estudo das ciências sociais. Para outros. ou porque lhes dispensam seus apoios. Aline Pereira de & IOKOI. elaboradas pelos filósofos. Na europa central e oriental desenrolavamse acontecimentos que encontrariam eco posterior no ocidente. denuncia na história positivista sua tendência a exagerar a importância dos fatos. a lógica e a coerência). O socialismo francês da época. Pereira de & IOKOI. nos dizeres de Henri Lefebvre. Os socialistas alemães sofrem um duro golpe. misturando . as representações (do mundo. esta tendência toma forma nos trabalhos de Henri Hauser. e os Bolcheviques passam a governar um grande país – a Rússia. na Rússia realizavam-se duas revoluções inesperadas: a de fevereiro. ou melhor. Em 1903. Tereza Tereza A. que inaugura a cadeira de história econômica na Sorbonne.Grícoli.92 QUEIROZ. A razão humana. ou porque os filósofos se manifestaram contra os senhores do momento. sua capacidade organizativa) e a razão filosófica (o discurso. dirigida pelas facções burguesas anti-aristocráticas e a de outubro. e os conceitos (totalidade. do individualismo dos heróis e da cronologia. da sociedade. QUEIROZ. Zilda M. No ocidente. Em meio aos acontecimentos da guerra. negatividade e alienação). O hegelianismo pretendeu ser o sistema filosófico perfeito dessa díade. sempre mantiveram certa relação com os combates da vida política. onde se encontra a verdade da filosofia? As idéias filosóficas. cuja direção introduziu na cena histórica o partido proletário revolucionário. a história econômica parecia ser uma opção à exaltação do político. se manifesta por dois caminhos contraditórios e inseparáveis: a razão de Estado (a lei. as primeiras inquietações frente à história positivista começam a manifestar-se antes mesmo da guerra. ao se perder na busca das origens. Henri Sée e na tese de Paul Mantoux (1906) sobre a revolução industrial no século XVIII. deste modo.

são contestados primeiro pelos integrantes da Revue de Synthèse de Henri Beer. partir de 1920. com mais de 100. Seignobos. com nascimento. Na França. Ao mito do progresso. através da História socialista da revolução francesa. com o título O declínio do Ocidente. representa o sentimento de aniquilamento dos alemães do pós-guerra. do marxismo ao “populismo” de Michelet. obras de artes. “os homens são os escravos da vontade da história. a escola metódica. Spengler. Seus integrantes. no momento da derrota alemã. os mais diversos são comparados e justapostos a cada página. em que culturas. dirigida por Jaurès (1859 . que ocupam postos importantes nas universidades. aponta para novos caminhos.1956) e Marc Bloch . Sagnac e outros herdeiros de Lavisse. positivista. países. a uma entidade homogênea. Ao contrário do pontilhismo positivista. começa a ser atacada sistematicamente em várias frentes. Da mesma forma. fundada em 1929 por Lucien Febvre (1878 . Louis Halphen. comparando cada cultura a um todo orgânico. maturidade e decadência. O declínio representa uma orgia da síntese. períodos.1936). Oswald Spengler (1880 . Na Alemanha. publicado em 1918. opõe uma concepção cíclica da história. Sobretudo. atribui um caráter nitidamente pessimista ao presente e formula uma teoria das catástrofes. e seu discurso ideológico. nos anos 30. a reabilitação de Robespierre feita por Albert Mathiez (1874 . que até 1933 flertou com os nazistas. “a humanidade é uma grandeza zoológica”. os órgãos auxiliares executivos de um destino orgânico”.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 93 várias tendências.1932) surge como uma versão diversa da história republicana dantonista.000 exemplares vendidos. crescimento. obtém um enorme sucesso. pelos integrantes da revista Annales d’histoire economique et sociale.1914). inicia antes da guerra um Esboço de uma morfologia da história universal. que nada tem de imparcial como proclamava. que tivera uma formação mais científica do que humanista. Ph.

desde Heródoto. que se mostra por fenômenos comuns. que ensinavam na Universidade de Strasburgo. a história historizante é extremamente prudente. a sociologia de Durkheim (1858 1917). que: a atenção dada somente a documentos escritos. o privilégio atribuído pela história historizante aos fatos políticos. nascido numa família burguesa judia. a ênfase no fato. provocando uma renovação sem precedentes nesta disciplina. Aline Pereira de & IOKOI. com a publi- . Bloch e o grupo dos Annales condenam na história tradicional. sociais e culturais. voluntários. por exemplo –. a lingüística. Zilda Maria Grícoli (1886 . diplomáticos. também passa pela Escola normal superior e pela Sorbonne. num tempo curto – uma batalha. a filologia. por exemplo. contribuem com seus aportes conceituais e metodológicos à discussão histórica. Pela primeira vez. caía por terra a tirania do político. a antropologia.1918). na Escola normal superior e na Sorbonne.Grícoli. a psicologia. As novas ciências humanas. por eles chamada historizante. Febvre. e que se manifestam num tempo longo – a cultura do trigo. onde estuda nas universidades de Leipzig e Berlim. sendo a história “dos vencidos de 1870”. O fato de o historiador ser agora um profissional dentro de um quadro universitário permitirá a concepção de pressupostos metodológicos derivados de uma discussão intelectual coletiva. Febvre fizera seus estudos de história em Nancy e depois em Paris. indo depois para a Alemanha. Zilda M. não se arrisca a interpretações e descarta qualquer tentativa de síntese. QUEIROZ. não se engaja em debates. séries estatísticas – e os testemunhos involuntários que muito dizem sobre as atividades humanas. Tereza Tereza A. repetitivos.1944). a economia. militares em detrimento dos fatos econômicos. negligenciando os documentos não escritos – vestígios arqueológicos. a geografia de Vidal de la Blache (1845 .94 QUEIROZ. A problemática do presente foi formulada de modo instigador pelo italiano Benedetto Croce em 1919. no fato singular. Pereira de & IOKOI. ao invés de apreender a vida das sociedades. Bloch.

combatendo sua separação em campos de conhecimento distintos. Para Croce. Procurando contudo definir a história como uma arte especial. uma vez que o artista retrata o possível e o historiador o que realmente aconteceu. por estabelecer a polêmica entre o singular e o universal. Collingwood em sua Idéia de História considera a proposição presentista formulada pelo italiano. apontando ser ele singular e universal simultaneamente. coloca o tempo presente como engendrador dos enigmas a serem revelados pelo trabalho analítico do historiador e a projeção do devir como enunciador do projeto a ser transformado em ação. Relaciona num todo a história e a filosofia. a distinção entre a arte e a história está no pensamento. Retomando os elementos constitutivos do pensamento de Dilthey e Simmel. Na Lógica (1909) Croce demonstra com maior clareza sua oposição aos positivistas quando discorre longamente sobre o juízo de valor.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 95 cação do ensaio A história reduzida ao conceito geral de arte. hierarquicamente colocados. Trata de reordenar as polaridades entre o vivido e o concebido como níveis de apreensão do real a serem capturados pela consciência. e. Croce destaca dois níveis de intervenção do historiador: a intuição e o sentido individual. chave na distinção entre história e ciência. Considerando a história como autoconhecimento do espírito vivo. Descarta simultaneamente o sentido objetivista dos positivistas e a possibilidade de um caráter descomprometido do historiador que não pode se referir ao passado senão motivado pelos dilemas do presente. para além do possível. que seus registros e sentido estejam presentes no seu vivido. Ao conceber a arte como intenção pura e o pensamento como revelador do real. . atribui ao historiador a tarefa de fazer vibrar os acontecimentos. polemiza com o sentido universal do conhecimento histórico e com as formas enciclopedistas de armazenar de modo definitivo os conhecimentos sobre o passado. central no desenvolvimento do ofício do historiador. ou seja.

e confere à história a propriedade do atual porque está sempre em relação – por mais longínquo que seja o passado a que se referem os fatos – com uma necessidade atual. base- . ele se refere “à necessidade prática na qual todo o juízo histórico se baseia. Zilda M. uma situação atual. Rejeitando a historiografia francesa. a história positivista também recebe golpes. Estimulado por essa dimensão o historiador passa a considerar as temporalidades históricas como objeto de reflexão e a epistemologia do história pôde ser definida e formulada. Croce formula postulados gerais sobre o sentido transitório e mutável do conhecimento. Tereza Tereza A. utiliza um método comparativo à la Spengler.Grícoli. Na Teoria da História. Introduzindo o subjetivismo relativista. Collingwood divulga estas idéias entre os anglo-saxões sendo duramente criticado pelos marxistas. mas execrada pelos historiadores profissionais. Toynbee. Os objetivos e métodos da investigação propugnados como objetividades científicas pelos positivistas sofrem clivagens de crítica e a idéia de interesses do presente na recuperação do passado põe abaixo a veracidade inquestionável dos acontecimentos. QUEIROZ. Pereira de & IOKOI. Aline Pereira de & IOKOI.96 QUEIROZ.1975) e dos “relativistas”. O presentismo de Croce é um marco nos debates teóricos sobre a natureza da história e os fundamentos teóricos filosóficos deste campo do conhecimento.. de Arnold Toynbee (1889 . Na Inglaterra. “com um pé no presente e outro no passado”. decide durante a primeira guerra ser um Tucídides dos tempos modernos. “presentistas”. uma vez que ele atribui ao historiador o poder de criar uma imagem histórica sob influência dos interesses e motivos atuais. Zilda Maria Grícoli O presentismo de Croce inaugura orientações de novos procedimentos no trabalho do historiador e do professor de história e remete-os à busca do significado do presente e à formulação de problemas para tornar o conhecimento inteligível. cuja obra é célebre e conhecida do grande público..” Defendendo o “espírito de partido”o historiador defrontase diretamente com o problema dos juízos históricos.

a Índia e o Extremo-Oriente. Charles Oman. ser estimulada por grandes homens. debruçaram-se sempre sobre as experiências. construtiva. Toda civilização nasce de uma resposta a um desafio. o Islão. como fora dela – originais e instigantes. coexistindo e não em necessária sucessão. jamais passiva como queria Ranke. a União Soviética e seus satélites. Assim. Guy Bourdé e Hervé Martin. mas fatalmente entra em decadência. amplas unidades históricas num longo tempo e num amplo espaço.1950). Em 1935. sobre os marginais. contestam os pressupostos de Ranke para a história.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 97 ando-se em fontes de segunda mão. Acreditam que o historiador tem sempre uma atitude ativa. Os “presentistas” ingleses. Toynbee e sua teoria da decadência se afiguram sobretudo como uma resposta à desintegração do Império Britânico no século XX. apontam o cientificismo como uma escolha ideológica. por ser a maneira como o historiador apreende e relaciona uma série de acontecimentos. que a história jamais pode ser puramente objetiva. pode fracassar ou não. as civilizações aparecem como entidades fechadas. No Um estudo da história (1930 . em As escolas históricas. Perry Anderson. seu irmão Benedict e Edward Thompson são exemplos de uma fértil historiografia marxista que não se submeteu aos modelos estruturais nem ao presentismo desprovido de bases histórico-empíricas. em 1939. Os marxistas ingleses vivenciaram de modo diferente a teoria das classes e a concepção de história. vêem em Toynbee uma prefiguração do estruturalismo nas ciências humanas. . Cristopher Hill. George Rudé. geralmente de ordem natural. que cada geração projeta na história suas próprias visões. afirma em seu livro Sobre a escrita da história. Mas. nos anos 30 e 40. no século XX. Matrizados pela tradição empírico-prática. e produziram reflexões históricas – tanto na academia. passa depois a se desenvolver. Carl Becker afirma que cada século reinterpreta o passado da maneira que melhor lhe convém. haveria cinco civilizações: o Ocidente. assim como Spengler.

Collingwood. Estas buscas de rompimento com o positivismo. considerando que o historiador produz um tipo de conhecimento tão válido como o das ciências naturais. é sobretudo na França que a definição de novos rumos para a história foi decisiva na produção historiográfica de várias gerações. que o pensamento histórico é uma atividade da imaginação. através de uma escolha deliberada dos fatos. contrário ao positivismo. Agostinho olhava para a história romana sob o ponto de vista de um cristão primitivo. que são interpretadas com base em documentos variados. um testemunho. Zilda M. Em A idéia da história (1946). Zilda Maria Grícoli O grande teórico idealista. QUEIROZ. válido num certo momento e se transforma quando mudam os métodos históricos e os enfoques: “S. Gibbon sob o ponto de vista de um inglês do século XVIII. Pereira de & IOKOI.98 QUEIROZ. Collingwood não é absolutamente cético. é uma forma especial de pensamento”. um ensaio de filosofia da história. Tillemont sob o ponto de vista de um francês do século XVII. Suas visões da filosofia e história.1952). orgânica. Não há sentido em perguntar qual é o ponto de visto correto. seja através do idealismo ou de uma abertura às outras ciências humanas. Apesar de relativista. Aline Pereira de & IOKOI. da escola inglesa é R. Tereza Tereza A. Mommsen sob o ponto de vista de um alemão do século XIX. bem como o interesse pela estética e pelo idealismo hegeliano. tendo por finalidade o auto-conhecimento humano.Grícoli. onde as estruturas prevaleçam sobre os fatos. com enorme influência inclusive no Brasil.G. “A história. como a teologia ou a ciência natural. O grupo dos Annales de Febvre e Bloch desde os primeiros tempos pretende construir uma história total. Collingwood ressalta que o historiador descreve o passado em função do presente. não significa o desaparecimento total da história política tradicional. cujo objeto são as ações humanas no passado. fazem com que freqüentemente seja comparado a Benedetto Croce (1866 . embora estes não desa- . Cada um dos pontos de vista é o único possível para o homem que o adotou”. Mas.

tendo em vista a complexidade dos fatos humanos. como mudança perpétua. do eterno retorno. Profundamente sensível ao histórico. Explora a história espiritual. dado que não deveria haver especializações. mas uma exploração global em todos os campos – etnologia. a história deve ser feita através de uma multiplicidade de documentos e de técnicas. a dimensão psicológica do ser humano. seu objeto são os homens. sem dúvida. É o que proclama no texto que escreve em 1941.” Diante disso. à mudança. das origens e seus anacronismos. onde um anacronismo atribui o sentido de incrédulo. o grupo dos Annales descarta os mitos da natureza humana imutável. sua higiene. Por isso insiste em dizer que o historiador deve ter uma formação sólida e ao mesmo tempo variada. até nos mais delicados mecanismos de seu corpo. mais tarde publicado sob o título Apologia para a história ou O trabalho do historiador. “A atmosfera onde seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração. folclore etc. “O homem também mudou muito: em seu espírito e. livre pensador e racionalista a Rabelais. .” A história é uma ciência dos homens no tempo. os quadros sociais. igualmente.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 99 pareçam. abre um enorme campo de conhecimento ao articular as bases econômicas. dá atenção às evoluções mais lentas e significativas e não somente ao tempo curto dos fatos fechados em si. Onde sente o cheiro de carne humana. as diferentes maneiras de pensar e ver o mundo. sua alimentação. religiosa e cultural de maneira inovadora. Duas obras magistrais que concretizam esse novo espírito são Os reis taumaturgos (1923) de Marc Bloch. sabe que lá está sua presa. para Bloch desaparece a noção de ciências auxiliares da história. com as sensibilidades.” Este tempo. Sua atmosfera mental transformou-se profundamente. “O bom historiador se parece com o ogro da lenda. uma análise da dimensão sobrenatural atribuída ao poder real e O problema da incredulidade no século XVI – a religião de Rabelais (1942) de Lucien Febvre. Para Bloch. para Bloch é tanto contínuo. lingüística. a história não é a ciência do passado.

trocar experiências.Grícoli. Afirma que os historiadores devem se encontrar em congressos. Naquele período pode-se encontrar fenômenos equivalentes na historigrafia latino-americana. Aline Pereira de & IOKOI. Argentina. o tema fundamental é o da civilização contra a barbárie. A história não é um trabalho somente de erudição. diz Bloch. Oliveira Vianna. dentro do tempo. mas inclusive a ação no presente. Tereza Tereza A. Zilda Maria Grícoli A ignorância do tempo passado comprometeria não só o conhecimento do presente. Zilda M. A história deve ser verdade e o historiador deve ser aquele que busca o verdadeiro e o justo. na França. QUEIROZ. costumes. os ritmos da conjuntura na produção e no comércio. toma forma uma obra de história econômica. especialmente no rechaço da língua. Esboço do movimento dos preços e das rendas na França no século XVIII (1933) e Crise da economia francesa no fim do antigo regime e no início da Revolução (1944) de Ernest Labrousse abrem o caminho da história quantitativa. feito a quatro paredes. serem atuais. A Europa projeta sobre o mundo uma noção eurocêntrica. que reconstitui séries e médias representativas da evolução econômica e social. raça e forma de governo. próxima em alguns aspectos. mais especialmente no México. Ao longo da primeira grande guerra. Também nos anos 30. destinada a se projetar sobre o planeta. Através do fato econômico era atribuída uma nova coerência à história colonial. no trabalho e no nível de vida. não cabe ao historiador julgar. No entanto. estabelecer quais seriam os problemas dominantes de sua época. mas compreender com ética. na se- . ancorados no presente. Pereira de & IOKOI. Peru e Brasil. cuja mensagem central é a defesa da idéia de uma raça superior no novo continente.100 QUEIROZ. simbiose de aperfeiçoamento obtido pelos mais diferentes contributos no paraíso tropical. Na América Latina Sarmiento escreve Facunto. mas não totalmente inserida na corrente dos Annales. A Raça Cósmica formada pelo melhor de todas as raças existentes. valores religiosos.

Emilia Viotti escreve Da Senzala à Colônia e . Já na década de 1940. Assim. Caio Prado Junior desenvolve um amplo processo de pesquisa orientado pela teoria de Marx e através do materialismo dialético procura encontrar o “Sentido da colonização” especialmente criticando a teoria dos ciclos econômicos. responsável pela organização do patriarcado rural. quase invisíveis. que introduz um sentido sociológico para o contributo do negro na formação cultural brasileira e mesmo no desenvolvimento do patriarcalismo e do paternalismo. e Sérgio Buarque de Holanda que realiza um magistral trabalho de síntese da idéia de Brasil no ensaio Raízes do Brasil.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 101 qüência de Nina Rodrigues e de Oliveira Lima também insiste na idéia de uma raça a ser constituída a partir de integração nacional. História Econômica do Brasil e a Revolução Brasileira são marcos fundamentais nessa trajetória. do valor do trabalho. Ainda entre os historiadores marxistas deve-se destacar o esforço teórico de Fernando Novaes no entendimento do caráter exógeno das determinações econômicas e sociais no Brasil com seu trabalho Portugal e Brasil no comércio do Atlântico e Jacob Gorender O Escravismo Colonial. aos professores de história e aos historiadores cabe o desenvolvimento do senso de ordem. Trata-se de um texto que analisa o caráter isolacionista e individual da colonização do Brasil. Formação do Brasil Contemporâneo. Já contrariando os estudos estruturalizantes. pelas relações de compadrio e de favor e de fato pelo que considerou ser a síndrome do homem cordial. de uma história que se move lentamente. dos determinismos raciais e geográficos demonstrando a complexidade da recuperação histórica de um país marcado por rupturas superficiais. das generosidades do estado e mesmo da restauração da noção de paraíso tropical. de imigração européia e mesmo de educação controlada pelo estado. Na década de 1930 dois trabalhos destacam-se na crítica ao positivismo de base racial: Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre.

Nesse mesmo período Fernand Braudel redimensiona os estudos sobre o papel do dinheiro no mundo mediterrâneo. que morreu aos vinte e seis anos. ainda na década de 1930. feiras. especialmente quando o próprio Braudel chega com a missão francesa na formação da Universidade de São Paulo. iniciara estudos sobre o pensamento de Marx e com ele desenvolvia um profundo processo analítico sobre a formação social peruana retomando as análises sobre o império incaico e dele derivando pesquisas sobre o campesinato do país para descobrir o sentido histórico das unidades produtivas socializantes na tradição daqueles grupos. através dos negócios que se realizavam através de rotas terrestres. Em Novaes e Viotti. QUEIROZ. o cotidiano e a cultura brasileiros. o empirismo é o eixo central de comprovação ou negação da historiografia estruturalizante do período. ao volume entitulado Siete ensaios de interpretación de la realida peruana de Jose Carlos Mariátegui. Zilda M. na Terceira Internacional.102 QUEIROZ. Aline Pereira de & IOKOI. . nos ares da nova história. Finalmente. Essa preocupação se explicita contra a maré exatamente quando. Tereza Tereza A. financistas. o que para o autor demandava um processo orgânico dos revolucionários em consonância com a mística andina. definia-se um sentido excludente entre os níveis concretos e subjetivos. A partir das proposições de tempo longo. Assim. cada um com procedimento diferenciado do outro.Grícoli. Zilda Maria Grícoli Da Monarquia à República – Momentos Decisivos. médio e curto ele desvenda os múltiplos processos de intercâmbio que envolveu os vários países do ocidente e do oriente. Pereira de & IOKOI. Destaque deve ser feito no Peru. marítimas e de rios envolvendo mercadores. reúne utopia e religiosidade que são para o autor elementos de expressão da rebeldia do povo andino. Maria Odila Leite da Silva Dias e Carlos Guilherme Mota recuperam. A influência francesa para a formação dos historiadores profissionais brasileiros afasta-os de seus parceiros latino-americanos. Este escritor genial. cientistas e interesses econômicos. juntamente com Levy Strauss e Pierre Monbeig.

o que mostra sua mudança de perspectiva.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 103 As missões alemã e italiana. A revista. representam um segundo momento do grupo. Civilisations. Do encontro com Febvre. a história dos Annales se impõe definitivamente. na história econômica e na demografia histórica. O Mediterrâneo na época de Felipe II e o de Pierre Goubert. os historiadores aprofundam sua busca de sentido da história total. Roma. Febvre e Fernand Braudel (1902 . após completar seus estudos de história. Beauvais e os beauvaisis nos séculos XVII e XVIII –. o grupo dos Annales publica um conjunto de obras centradas na territorialidade – cujos trabalhos pioneiros são os de Braudel. Sociétés. Após a segunda guerra. se transforma num estudo que tem por centro o próprio Mediterrâneo. desde 1946. Lucien Febvre e Braudel assumem também a direção da 6a. professor do Departamento de História entre 1935 e 1937 na Universidade de São Paulo. onde descobre o Mediterrâneo. desde seus primeiros esboços em 1929 até a publicação da versão final em 1966. Braudel. Seu horizonte geográfico se alarga com o trabalho sobre Civiliza- . presentes nos primeiros anos de formação da USP.1985). sua intenção de fazer uma tese sobre a política mediterrânica de Felipe II. sessão da Escola Prática de Altos Estudos em Paris. Economies. de Dubrovnik à Veneza. Madrid e outros centros. passa a se chamar Annales. Em 1948. Diante da avalanche de pequenos e grandes fatos do presente. nos grandes espaços e na longa duração. Com a morte de Bloch. considerados como centralidades no processo civilizatório pretendido pelas elites cafeicultoras paulistas. segue para a Argélia como professor. A obra de Braudel sobre o Mediterrâneo estender-se-á por toda a sua vida. fuzilado pelos alemães. Levanta a documentação em vários arquivos da área. Durante as décadas de 50 e 60. um assunto tradicional. na estrutura. Novamente a guerra seria decisiva na escolha dos caminhos do historiador. não produziram as determinações dos franceses.

de suas instituições. em sua tese sobre o Mediterrâneo.. do Colégio de França. O segundo tempo é o da história social dos grupos. rápidas. Uma história com oscilações breves. Zilda Maria Grícoli ção material.104 QUEIROZ. espanhol e turco.. cíclico. a demografia. não na dimensão do homem.. as oscilações de preços etc. dos homens que vivem nas planícies do Languedoc. as mudanças nos sítios urbanos e no traçado das rotas terrestres e marítimas. a dimensão dos mercados. a paz de CateauCambresis. províncias. da história estrutural. concebe várias formas de tempo. professor da Escola de Altos Estudos. etc.. onde se avalia o comércio.. nervosas”. do Egeu. Tereza Tereza A.Grícoli. os mecanismos monetários. da longa duração da geografia. do Adriático. ou durações: o de uma história factual da política e do indivíduo.. economia e capitalismo – séculos XV a XVIII. QUEIROZ. atacados pela malária das águas estagnadas. Braudel torna-se um historiador . Zilda M. representaria o de uma “história quase imóvel”. uma agitação superficial. biológicas. da economia e. privilegiado em seus trabalhos. é a história da rivalidade entre os impérios. Aline Pereira de & IOKOI. Lepanto etc. O tempo geográfico tocaria a própria eternidade não fosse pelas variações climáticas. mas do indivíduo. como diretor dos Annales. onde os ventos e as correntes impõem o ritmo da vida. dos habitantes das montanhas e seus costumes ancestrais nas cadeias do Atlas. Braudel. o tempo longo. dos Apeninos. as distâncias. Ao longo de sua carreira. diretor de tese de inúmeros alunos. da ação e dos acontecimentos como a abdicação de Carlos V. da Campania. o de uma história do tempo conjuntural. a expansão do ouro e da prata americanos no Mediterrâneo. interdecenal. finalmente. Pereira de & IOKOI. populações. e dos homens da beira do mar Negro. do Taurus etc. Ao refletir sobre a dialética do tempo e do espaço.. publicado na década de 70. Este tempo longo. da força militar. No terceiro tempo encontramos “uma história tradicional.

reconhece-se a narrativa histórica como central. voltará a ter grande interesse pela história. Deste grupo. em Estética. Embora não se definisse como um . Uma outra tentativa de fusão da história com a filosofia também data desse período. da defesa do devir e do planeta. mas o sentido do reencontro da humanidade do homem. Aberta a todas as ciências sociais. à etnologia e ao estruturalismo de LéviStrauss. A separação entre o homem trabalho e o homem criador de cultura é para Benjamin um dilema do mundo moderno e sua reversão deve significar também a reversão de todos os elementos da dominação. que. à sociologia de Gurvitch. à demografia de Sauvy. principalmente a partir dos anos 60. Para ele. Muitos historiadores e filósofos marxistas reuniram-se em torno do que se convencionou chamar de Escola de Frankfourt. Benjamin. procura dimensionar as relações entre o vivido e o concebido especialmente quando demonstra que nas sociedades de consumo de massa o que se encontra é a estética e não o estilo. é preciso libertar o homem de suas institucionalidades. busca a história total. da ecologia. A relação do historiador com a obra de arte e sua dimensão documental reintroduz o sentido das subjetividades nos comportamentos humanos e a necessária recuperação deste nível na história. fiel à Bloch e Febvre. Pensadores como Theodor Adorno. pela estética e pelos elementos centrais da cultura. A Segunda Grande Guerra foi inteiramente reveladora dos dilemas abertos e das indefinições a serem superadas. expressa na obra de arte e nos valores da vida. Horkeiheimer e Benjamin procuraram romper com a história projeto e passaram a ressaltar as subjetividades expressas pela arte.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 105 muito conhecido também do grande público. Com objetivos claramente anti-políticos esses intelectuais procuraram encontrar não os nexos do poder. uma vez que elas impedem a liberdade e a criação. Braudel considera a história como um campo muito flexível e. cujo fim trágico os unifica. sobrepõem-se contra a rebeldia para manter a ordem estabelecida e os processos de controle já firmados.

1984). e sim apenas um trabalho sobre documentos. apesar de situá-las na longa duração. para ele importa a coerência interna dos sistemas conceituais e a passagem de um sistema a outro. fazem parte de um sistema global de adestramento destinado a formar “corpos dóceis”. o que teria levado às “ciências do homem”. Entre o estruturalismo representado especialmente por Louis Althusser e a hermenêutica. mas como um material que deve ser recortado. . da verdade e do corpo”. Foucault objetiva constituir um método de análise do ser humano em sociedade na atualidade. a própria história não mais seria memória do passado. destruíra o saber analítico organizado em “representações” para submeter os conhecimentos às leis de suas evoluções. QUEIROZ. mas como um observador exterior que analisa o discurso como esfera autônoma.106 QUEIROZ. a obra de Michel Foucault (1926 . Foucault privilegia as rupturas bruscas. Para Foucault. evolução e influências devem ser aposentados. sua palavra-chave torna-se genealogia. Tendo em vista que estas ditas ciências do homem estariam prestes a desaparecer. sempre determinadas no tempo e no espaço. uma esfera “analítico interpretativa”do “poder. na economia. Aline Pereira de & IOKOI. Zilda M. a objetividade sendo falsa e a subjetividade enganosa. o século XIX. ao introduzir a idéia de “tempo histórico”. restaria estabelecer a genealogia das práticas que fizeram do homem atual aquilo que é. na educação. Pereira de & IOKOI.Grícoli. Zilda Maria Grícoli praticante das ciências humanas. Tereza Tereza A. históricas. encerra uma reflexão sobre a história e causou muita polêmica entre os historiadores a partir dos anos 60. assim os sistemas repressivos de Vigiar e punir dizem respeito a tudo mais que existe na sociedade. Conceitos como tradição. e a emergência de novas estruturas sobre as antigas. exterior aos Annales e crítica do estruturalismo. as descontinuidades. Para Foucault.”. Contrário à história tradicional das continuidades. Cada discurso possuiria uma conexão com “um conjunto de regras anônimas. os documentos não mais são considerados como reflexos do passado.

-L. um trabalho etnológico no passado de uma aldeia cátara no século XIII. história quantitativa. J. É o caso de História das populações francesas e suas atitudes diante da vida desde o século XVIII (1948) de Philippe Ariès. As diferentes visões e manifestações da vida e do mundo. Solé. como em Os amores camponeses do século XVI ao XIX (1975) de J. M. Além dos trabalhos sobre economia. por exemplo – começam a surgir trabalhos mais qualitativos. dão margem a inúmeros estudos elaborados por Philippe Ariès. Lebrun. voltados para uma antropologia histórica. nos quadros de uma região ou época – Os camponeses do Languedoc do século XV ao XVIII (1966) de Emmanuel Le Roy Ladurie ou Os homens e a morte no Anjou nos séculos XVII e XVII (1971) de F. que inaugura uma série de trabalhos sobre a medicina e as doenças na história. dos comportamentos coletivos diante destes e de outros fenômenos como a doença. do outro. a contracepção. o prazer. Léonard e Os médicos na França do oeste no século XIX (1976) e muito outros. O amor no ocidente na época moderna (1976) de J. a história dos oprimidos. do sentimento da morte. tornam-se cada vez mais presentes como objeto de estudo do historiador.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 107 As polêmicas e a busca de novas metodologias colocam a história em primeiro plano e fazem com que a produção historiográfica francesa do pós-guerra seja imensa. demografia histórica. Pierre Chaunu. A aproximação com a etnologia está presente também nos trabalhos de Jacques Le Goff e Pierre Vidal-Naquet. natalidade. próximos àqueles do historiador holandês J. atraindo para a história o leitor comum. Laget entre muitos. Daí o grande êxito em vários países de Montaillou (1975) de Le Roy Ladurie. fecundidade. . o estudo do corpo doente e saudável – assim. Os estudos de população voltam-se para a história da família e da sexualidade. como o da infância. Temas antes poucos explorados. Huizinga no Outono da Idade Média (1919). Flandrin. da gravidez.

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Nos anos 70, os historiadores dos Annales, atentos ao pensamento de Lévi-Strauss e de Michel Foucault, partem para a exploração das estruturas mentais, uma região nebulosa entre a organização social e a ideologia, o consciente e o inconsciente. Surge então um terceiro momento dos Annales, bastante próximo às teses de Bloch, mas situado no presente, carregado com outros aportes e ingredientes, que é o momento da “história nova”, da “história das mentalidades”, coincidindo com o pós-maio de 68. O historiador Michel Vovelle, autor de Piedade barroca e descristianização na Provença no século XVIII (1978) diz que a escola dos Annales sai do porão e sobe até o sótão. Com as mentalidades, os livros de história se transformam em best-sellers e os historiadores chegam ao grande público, não somente através da imprensa, mas também da mídia eletrônica. O termo história nova surge em 1978 e faz polêmica. Aspirando “à mais global e coerente das visões sintéticas da história”, como dizem Pierre Nora e Jacques Le Goff, o historiador deve partir de hipóteses, submetendo-as à verificação e as moldando de acordo com estas. O historiador constrói seu objeto de análise através dos documentos de diversas naturezas que podem ou não responder à sua interrogação – por exemplo, existiria um espírito maternal na idade média, ou isto é uma invenção recente ? Em função da pergunta, o historiador interpreta seus documentos, utilizando-se de todas as técnicas possíveis – fotos aéreas, informática etc.– e todos os documentos – escritos, orais, arqueológicos, artísticos, o folclore, a festa etc. Do marxismo, a nova história herda as amplas periodizações e a análise estrutural do social; para Guy Bois, a história global seria apenas uma novo nome para modo de produção ou formação econômica e social. Os temas são tratados em séries – por exemplo, as variações de um culto de santo desde a idade média até o século XX – em grandes espaços, analisando grandes conjuntos com organização social e econômica coerentes e representações homogêneas – por exemplo, a vasta Civilização do ocidente me-

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dieval de Jacques Le Goff, ou O tempo das catedrais de George Duby. Estas obras são escritas mediante uma releitura de fontes conhecidas, portanto dizem respeito a novas indagações e não a novas descobertas; nelas os silêncios também podem ser significativos; não caberia mais ao historiador ler somente o que é dito, mas prestar atenção também no que é omitido – este é o ponto de partida das Três ordens ou imaginário do feudalismo de Georges Duby. A questão do imaginário abriu todo um novo campo de pesquisas para a história. O imaginário abrangeria um campo muito vasto da experiência humana, em temas como a curiosidade pelo desconhecido, a consciência do corpo, a angústia da morte, as festas, a loucura, o erotismo, os sonhos, as relações entre insconsciente e cultura e muitos outros. Le Goff atesta ao caráter indefinido do termo e a dificuldade no estabelecimento de fronteiras entre imaginário e representação – tradução mental da percepção de uma realidade externa –, imaginário e simbólico – relação de um objeto com um sistema de valores subjacente, histórico ou ideal – e imaginário e ideológico – o quadro conceitual organizador da sociedade; embora não seja apenas representação, simbolismo ou ideologia, o imaginário teria implicações com os três conceitos. Além disso, em imaginário existiria imagem – iconográficas e também imagens mentais. Para Le Goff, no cerne do imaginário medieval estaria o tema do “maravilhoso” – os ogros, os mortos que voltam do purgatório, o passado mítico das dinastias nobres e muitos outras expressões; como diz, “estudar o imaginário de uma sociedade é penetrar no fundo de sua consciência e de sua evolução histórica. É ir à origem e à natureza profunda do homem, criado à “imagem de Deus”. A nova história dos anos 70 traz então à tona outras problematizações e outros temas para a história, dentro de um padrão multidisciplinar. O próprio caráter vago de alguns de seus conceitos – Le Goff diz explicitamente que “a atração fun-

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damental da história das mentalidades é seu caráter vago”– levaria a uma produção historiográfica das mais diversificadas – mitos, corpo, sentimentos, mas também política e religião. Os resultados da nova história, de fato, penderam mais para uma pluralização dos tempos e dos objetos nas décadas de 60 a 80, do que para a construção da “história total”. Se os Annales negligenciaram a história política cara aos positivistas, percebe-se nos últimos anos a retomada do político; não mais como o era no século XIX, mas num sentido mais amplo, também simbólico e antropológico, como nos trabalhos de Maurice Agulhon, Pierre Nora, René Rémond, e também Le Goff e Duby. Outra tendência das últimas décadas tem sido a do estudo do presente ou do passado recentíssimo, através da incorporação da memória à história e da transformação da memória em objeto histórico. Não mais necessitando estar morto para existir historicamente, o passado se amplia na oralidade e não somente em seus vestígios materiais tradicionais. Por outro lado, as questões relativas aos limites do conhecimento histórico, seu caráter, a questão dos anacronismos conceituais, das relações entre história e discurso, da indissolubilidade dos laços entre história e historiador (como advoga Henri Marrou, no seu Do conhecimento histórico, 1959), entre outras, continuam polêmicas nas últimas décadas. Em 1971, Paul Veyne, historiador da antigüidade, em Como se escreve a história, refuta as pretensões da história de se tornar ciência, mesmo com uma metodologia positivista, marxista ou estruturalista, e considera que desde Heródoto e Tucídides não teria feito qualquer progresso. Para Veyne a história trata de acontecimentos humanos que, como num romance, seriam simplificados e organizados; o conhecimento histórico teria como base o particular e não um estabelecimento de leis como na física ou na economia. Seu interesse está na narrativa, que tem por base o verdadeiro, o que aconteceu – daí sua vantagem so-

portanto não pode se dizer objetivo. às leis do inconsciente e do meio social a que pertence o historiador. que deveria ser efetuada através de técnicas como a análise estrutural dos textos. mas uma operação complexa. está inserido no quadro das instituições. Com uma formação pluridisciplinar em filosofia. o método do historiador deve depender de uma sabedoria. De . Para Certeau. psicanálise e semiótica. é ideológico. portanto. para cada época. Distanciado dos conceitos universais – “falsos porque fluidos” –. Certeau nega a pretensão do historiador em enunciar o real. forjar conceitos adequados aos fatos interpretados. e. mas tem uma função social. de um período. Podemos perceber que tanto a inserção da história como a do historiador no plano da educação e no plano social não são recentes. derivada do conhecimento dos textos e da captação das regularidades. Michel de Certeau considera a história como um conhecimento a serviço do presente. não das leis. Ao contrário do desengajamento e do ceticismo de Veyne. A consciência dos condicionamentos da história seria uma exigência de sua cientificidade. o historiador não vive fora do mundo. ao silêncio. os “métodos históricos” seriam práticas de iniciados dentro de um grupo e de submissão a uma hierarquia e ao reconhecimento. o historiador deve se ater a seres e acontecimentos únicos e.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 111 bre o romance –. o saber histórico. discute a natureza da história – uma divisão entre presente e passado própria ao ocidente e às suas relações com a morte – em A escrita da história (1975). na medida em que todos os discursos acabam por se referir a uma retaguarda oculta. isto faz com que a história esteja “estritamente configurada pelo sistema onde é elaborada. quando mais não fosse por seus silêncios que ocultam relações de poder. mas de forma mutilada e lacunária. A história não seria uma ressurreição do vivido. aos documentos caberia fazer e responder as perguntas. de uma experiência. história.” Com este texto a história do historiador se fecha. Para Veyne.

escritores em dificuldades financeiras. QUEIROZ.Grícoli. Aline Pereira de & IOKOI. aposentados. própria a velhos. prazeirosa. monges reclusos. dentro de um sistema educacional. O historiador deixa de ser um diletante. . para ser o professor. Zilda Maria Grícoli uma atividade marginal. perdido no mundo da erudição. Tereza Tereza A. Zilda M. o especialista. propagandistas políticos.112 QUEIROZ. erudita. Pereira de & IOKOI. da sociedade. assume no século XIX seus contornos atuais. E faz a história do presente.

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Helena G.HUMANITAS PUBLICAÇÕES FFLCH/USP e-mail: editflch@edu. Rodrigues autoras e Simone Zaccarias Charles de Oliveira/Marcelo Domingues Humanitas Livraria – FFLCH/USP 11.5 x 19 cm 16 x 22 cm Bookman Old Style 11/15 BernharMod 14 miolo: off-set branco 75 g/m2 capa: cartão branco 180g/m2 Impressão da capa Impressão e Acabamento Número de páginas Tiragem Gráfica – FFLCH/USP 116 500 A HISTÓRIA DO HISTORIADOR (TEXTOS DE APOIO N.br Título Coordenação editorial. 2) .usp. Diagramação e Capa Revisão Montagem Divulgação Mancha Formato Tipologia Papel M.

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