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SODRE, Muniz - Por Um Conceito de Minoria

SODRE, Muniz - Por Um Conceito de Minoria

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POR UM CONCEITO DE MINORIA
Muniz Sodré (UFRJ)
Há algo em comum entre as reações aos festejos dos 500 anos do Brasil, as manifestações de Seattle, Davos, Sydney, Montreal, Gênova, o Fórum Mundial de Porto Alegre e outros eventos contra o neoliberalismo, Banco Mundial, Alca e FMI: a voz e ação de minorias. Esta palavra tem como ponto de partida um sentido de inferioridade quantitativa, é o contrário de maioria. Trata-se de noção importantíssima para a clássica democracia representativa. Na democracia, diz-se, predomina a vontade da maioria. É verdade, mas é um argumento quantitativo. Qualitativamente, democracia é um regime de minorias, porque só no processo democrático a minoria pode se fazer ouvir. Minoria é, aqui, uma voz qualitativa. Eu disse primeiramente “voz”. É um significado subsumido, por exemplo, no modo como os alemães entendem maioridade e menoridade. Em Kant, maioridade é Mündigkeit, que implica literalmente a possibilidade de falar. Münd significa boca. Menoridade é Unmündigkeit, ou seja, a impossibilidade de falar. Menor é aquele que não tem acesso à fala plena, como o infans. Ora, a noção contemporânea de minoria - isto que aqui se constitui em questão refere-se à possibilidade de terem voz ativa ou intervirem nas instâncias decisórias do Poder aqueles setores sociais ou frações de classe comprometidas com as diversas modalidades de luta assumidas pela questão social. Por isso, são considerados minorias os negros, os homossexuais, as mulheres, os povos indígenas, os ambientalistas, os antineoliberalistas, etc. O que move uma minoria é o impulso de transformação. É isso que Deleuze e Guattari inscrevem no conceito de “devir minoritário”, isto é, minoria não como um sujeito coletivo absolutamente idêntico a si mesmo e numericamente definido, mas como um fluxo de mudança que atravessa um grupo, na direção de uma subjetividade não capitalista. Este é na verdade um “lugar” de transformação e passagem, assim como o autor de uma obra é um “lugar” móvel de linguagem. Avancemos, pois, nessa direção e experimentemos o conceito de minoria como um lugar. O que é ser lugar? Diferentemente de espaço abstrato, lugar é localização de um corpo ou de um objeto, portanto é espaço ocupado. Assim, dizemos que território é o espaço afetado pela presença humana, portanto um lugar da ação humana. Mas essa localização não é necessariamente física, pode ser a propriedade comum de um conjunto de pontos geométricos de um plano ou do espaço. Aí, então, nossa referência não é mais topográfica, mas topológica - a lógica das articulações do lugar. Topologicamente, lugar é uma configuração de pontos ou de forças, é um campo de fluxos que polariza as diferenças e orienta as identificações. Lugar “minoritário” é um topos polarizador de turbulências, conflitos, fermentação social. O conceito de minoria é o de um lugar onde se animam os fluxos de transformação de uma identidade ou de uma relação de poder. Implica uma tomada de posição grupal no interior de uma dinâmica conflitual. Por isso, pode-se afirmar que o negro no Brasil é mais um lugar do que o indivíduo definido pura e simplesmente pela cor da pele. Minoria não é, portanto, uma fusão gregária mobilizadora, como a massa ou a multidão ou ainda um grupo, mas principalmente um dispositivo simbólico com uma intencionalidade ético-política dentro da luta contra-hegemônica. Um partido político, um sindicato não se entendem como minorias, ainda que sejam de oposição ao regime dominante, porque ocupam um lugar na ordem jurídico-social instituída.

à maneira de Lênin e Gramsci. mas resta determinar o seu status atual na luta contra-hegemônica. De um modo geral. Por exemplo. campanhas pela internet) são os principais recursos de luta atualmente.O grupo dito minoritário não é institucionalizado pelas regras do ordenamento jurídico-social vigente. Estratégias discursivas . diante da legitimidade institucional e diante das políticas públicas.Uma minoria luta pela redução do poder hegemônico. a minoria vive desse eterno recomeço. isto é. o que de algum modo esvaziaria a possível ação no nível das instituições da sociedade global.Estratégias de discurso e de ações demonstrativas (passeatas. manifestos. Nos Estados Unidos. mas em princípio sem objetivo de tomada do poder pelas armas. pelo reconhecimento societário de seu discurso. 2005. REFERÊNCIA: PAIVA. Mesmo quando já existe há muito tempo. É precisamente isso que Lênin e Gramsci chamam de “hegemonia”. Trata-se. Nas tecnodemocracias ocidentais. revistas. Se entendemos. hegemonia como dominação por consenso. invasões episódicas. jornais. Comunicação e cultura das minorias. . isto é. das relações concretas gerais e abertas da população. Afirma Hobbes (livro X do Leviatã) que nenhuma dominação é possível sem o consentimento do dominado. pode ser considerado “vulnerável”. Donde sua luta por uma voz. um grupo como o dos curdos (Iraque). mesmo numeroso e antigo. a mídia é um dos principais "territórios" dessa luta. São Paulo: Paulus. É no capítulo da reinvenção das formas democráticas que se deve inscrever o conceito de minoria. essa noção de minoria tem florescido à sombra da crise contemporânea do espaço público. Luta contra-hegemônica . a minoria apresenta-se sempre in statu nascendi. constitui-se minoria ativa no interior do território nacional iraquiano. cada vez mais desidentificado com a esfera estatal. de uma tomada de posição contra-hegemônica. 4. programas de televisão.Do ponto de vista de sua identificação social. Raquel. portanto. os negros já puderam ser caracterizados como minoria. a minoria aparece como conceito de um lugar onde se produz um fluxo de discursos e ações com o objetivo de transformar um determinado ordenamento fixado no nível de instituições e organizações. Alexandre (Orgs.). na mesma medida em que a sociedade (as instituições oficiais articuladas com o Estado) se afasta do social. minoria é uma recusa de consentimento. é uma voz de dissenso em busca de uma abertura contra-hegemônica no círculo fechado das determinações societárias. isto é. 2. Identidade in statu nascendi . na condição de uma entidade em formação que se alimenta da força e do ânimo dos estados nascentes. Vulnerabilidade jurídico-social . Há até mesmo o risco de que as ações minoritárias possam ser empreendidas apenas em virtude de sua repercussão midiática. Por isso. 3. gestos simbólicos.2 Quais as características básicas de uma minoria? 1. Pois bem. BARBALHO.

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