www.portaldetonando.com.br/forum/portal.

php

Esta obra é dedicada as minhas queridas filhas Giulia e Nathalia Beijos do papai

Vou contar a história de quatro corações perdidos, quatro corações que foram açoitados e que neste conto vão se encontrar. Quatro corações que estiveram naquela casa e que nela acharam a paz. Não duvide do poder da casa, pois eu já estive lá, e a força é de impressionar. Ela cura qualquer coração. Não sei se você me entendeu bem, mas eu disse: "qualquer" coração.

Esta noite eu tive um sonho. Um sonho muito estranho. Eu estava de novo com você. Naquele mesmo dia. Naquela mesma chuva. Na mesma briga. Juro por Deus que foi o sonho mais estranho da minha vida.

sem indicação. acabaria dentro de uma clínica novamente. saindo pela porta principal e chegando ao calçamento. Precisava estar em casa nas próximas semanas. Alívio. Correu. Abriu o zíper e apanhou o cartão de visita. Ainda dava tempo de chegar ao trabalho. Que diabos estava fazendo ali. Pavor. a filha do meio. bem verde e florido. Tinha que se controlar. do outro. Olhou novamente para o cartão. Mas e se aquela promessa fosse verdade? E se naquele endereço encontrasse o alívio que buscava? Enxugou uma lágrima que surgira. perdendo tempo com cartões misteriosos. Não podia ficar dando gancho no emprego. com mais lágrimas caindo dos olhos. Sem pedido. usando rapidamente as costas da mão. mais uma vez viu que a mão tremia. Tinha medo de lembrar certas coisas. Com o endereço na parte inferior. mas dava um trabalho terrível. A casa era um sobrado simples. droga! Era ela que cuidava das filhas. não queria ter outra crise no meio da rua. Rosana perdeu a noção de quanto tempo ficou parada daquele lado da rua. Somente com os remédios e com os antidepressivos pesados que ingeria diariamente é que podia continuar andando. procurando uma casa amarela? Colocou as mãos em concha na frente da boca. O endereço batia com o do cartão. Respirava fundo. Subiu no coletivo. Não queria usar o que Alessandra usara dois anos atrás. E se fosse internada de novo? Quem ia ficar com as meninas dessa vez? Alessandra já estava bem crescidinha. cercada de estranhos. Era uma mulher de trinta e oito anos e três filhas para cuidar. Por que estava ali. Sentia a garganta seca. Medo de ter um ataque. encarando a casa. Leu novamente a frase prometendo alívio. do contrário. não de uma promessa num cartão estúpido! . As paredes pintadas de amarelo-ouro. Mas a frase é que apertava o peito. arriscando o emprego? Uma voz calma invadindo sua cabeça repetia que ela estava ali por causa do cartãozinho em sua bolsa. Simplório. com letras finas e impressão preta. Enfrentamentos. Fechou-as e abaixou a cabeça. Nervosismo. liase: O alívio para o coração atormentado está aqui. A formatura de Adriana.Capítulo 1 Rosana olhou para a casa do outro lado da rua. Uma única frase centralizada. Conflitos. Rosana roeu a unha. continuar parecendo normal. Tinha medo de ficar sozinha. A menina pedira um vestido. mas sem prejuízo. Tinha que se controlar. Tremia. amarelo-vivo. Examinava as pessoas da fila que se juntava. Era tudo de que precisava. Estendeu as mãos diante dos olhos. um pouco atrasada. Estava tão nervosa! Quando estendeu o braço para parar o ônibus. Sem nome de ninguém. Precisava de mais dinheiro para atender o pedido da filha. Alívio era tudo de que precisava. Tinha que conter seu nervosismo. Começou a andar apressada. Ainda tremiam. estava chegando. Um pequeno e translúcido e outro um pouco maior e esverdeado. Vasculhou a bolsa até encontrar dois frascos. Deveria entrar na fila? Isso não fora explicado pelo entregador. Olhava para fora. Era ali mesmo. Alívio das lembranças do passado que só existiam para atormentar. Era tudo tão difícil! Rosana enfiou os dedos nos cabelos e abaixou a cabeça até encostar a testa nos joelhos. Maldita casa amarela! Casa duma figa! Precisava de drogas. seguida de um súbito mal-estar. Retirou três comprimidos de cada um e engoliu-os a seco. incontrolável. contrastavam com uma faixa estreita de jardim. No meio do cartãozinho. mas muito bem conservado. Dezoito anos é uma idade difícil para mãe e filha. não estar internada.

Eu não aguento mais essa sua cabeça. Só odiava ficar sozinho. Vilma! Foi esse quarto que deixou minha cabeça assim! Pra que esse quarto. Tinha que apagar. Os soluços vinham. Um homem fraco. Hélio. e isso era problema dela. bêbado. Ela gostava do quarto. Parecia que ele não gostava da filha. Vilma? Pra quê? A mulher colocou mais uma peça de roupa na mala. Ficou quieto olhando para a luz do lustre refletindo no copo de bebida. O choro desvairado. No peito de Vilma brotara uma incerteza. Era toda noite a mesma coisa. Quando o fantasma lhe dava paz e se conseguisse ficar sozinho. Você deixa qualquer um doido. Bebia. Um desespero que não quis dividir com a mulher. enfática e fatalista. falar para Vilma só o faria se sentir menor. Que arrumasse um canto para ficar. Por que isso na sua vida. perdia sempre aquela contenda. Lembrava o rosto de Mariana na ocasião.. Tinha que passar num bar e encher a cara. da esposa mais bonita. O coração parecia vazio daquele amor que durara dezesseis anos e começara a degradar no dia do nascimento da pequena Mariana. Daquelas que fazem a gente perder o sono e ficar horas pensando de madrugada. Ele não sairia dali. pombas! Porque chorava? Tudo culpa daquela desgraça que se abatera em sua vida. Sentouse torto no sofá. na piscina. uma que ele sempre perdia. Sempre. ignorando a pergunta do marido. Tanto sofrimento. que se orgulhava de ganhar.. de vencer. ela teria o quê. O que poucos sabiam é que Hélio era agora dono do coração mais sujo. Para afogar a consciência e tentar manter a cabeça longe daqueles pensamentos. Para que insistir? Fraca daquele jeito nunca conseguiria ser uma atleta. a cada garrafa de uísque ingerida. Amava o marido. Já tinham discutido muito por causa do jeito de ela gostar daquele quarto. Ali na beira da piscina mesmo ele passou o pito. o choro vinha. Era um homem. Logo ele! O bom Hélio! O cara mais invejado da rua. O homem. com os cotovelos apoiados nos batentes para que o corpo e o quarto parassem de oscilar.. do sapato mais caro. O alcoolismo fora despertado dois anos antes. mas a cada madrugada acordada pelos escândalos do marido. Ele. Último lugar. Se estava sozinho. Tinha uma briga ainda mais forte. Lembrou aquele dia. O que ela queria? Tinha falado que a menina não conseguia. oito. Ele não devolvia o mesmo amor. Por que tinha conhecido Vilma? Por quê? Por que não tinha colocado a droga da camisinha? Aquele fruto fraco só poderia ter sido uma provação. parou na porta. Sempre que estava sóbrio a depressão vencia. Uma menina fraca lhe apontando o dedo e o acusando.. Tanto sofrimento. empurrado para camadas inferiores de sentimento. nove anos. Onde já se viu? Me tirar de . Tinha que apagar tudo aquilo da lembrança. Para que tanto sofrimento? Por que Deus deixava o destino armar contra a gente? Hélio saiu do quarto. —Vai você e esse quarto assombrado pros quintos dos infernos. Ela que fosse embora. Deus?! Teria sido tão ruim em vidas passadas? Mereceria tamanha provação? Essas eram as lutas mais leves do inconsciente. Odiava. Aquela era sua casa. Bebia tentando aplacar aquela amargura. O dono do carro mais bonito. Hélio raramente voltava direto para casa. — disse a mulher. Vilma já estava cansada da situação. aquele amor era ferido e removido. Hélio mudara naquela ocasião. Um choque. Por causa do carinho dispensado às estantes entulhadas de passado e gavetas cheias de nostalgia. lá vinham as lembranças de dias ruins. No bar da sala encheu um copo com gim. Parecia um homem louco. Via fantasmas pelos cantos. Bebia para afogar a culpa. Hélio também estava cansado. Inspirou fundo.Capítulo 2 —Vai ser melhor para nós dois.

Nadando.. Foram essas as palavras de incentivo que ele dissera para a menina. Mariana. você é doente. nadando. não nasceu para ganhar. Mariana chorava. poderia estudar alguma coisa e se destacar como engenheira. pelo menos. com cara de reprovação que só ele sabia fazer. Hélio encostou a cabeça no couro do sofá e adormeceu. Aquele mesmo maldito quarto. em prantos. Último lugar. Quando as duas chegaram em casa. Que explicasse porque ela nunca poderia ganhar merda de competição nenhuma. um homem capaz de ferroar com os olhos. Não podia e ponto. investir numa pessoa que não iria para frente? Estava cansado daquilo. Para que gastar dinheiro. Hélio tombou no sofá.. E eu não nasci para passar vergonha.. . Vilma que a consolasse. motivo de tantas brigas! A menina doente tinha ido embora. ele não disse nada.. Lembrava-se da filha na piscina. Correu para o maldito quarto. para que insistir? Se fosse inteligente. médica. sei lá. Ficou olhando. mas seu espectro ainda infernizava a existência do homem. Vilma ficava furiosa nessas ocasiões.casa para passar vexame! Põe na cabeça. Mas nem na escola ia bem.

—Era só o que faltava. pra me dizer que não dá tempo de entregar.. Só fazia aquilo quando estava ficando realmente irritado. Chegava a ficar com medo de falar. Semana passada! E hoje me vem com essa fala mansa. só depois da meia-noite. Acho que tem alguma coisa errada e já são quase sete. Ficava uma fera quando a ponta de uma falha surgia. Ah! Vá te catar! —Se acalma. O sol invadia o escritório bem montado. Um viciado no trabalho. Puta merda. Que se der tempo. Ismael era exigente demais. mas só cai na caixa postal. Augusto! Ferre-se! Se vira para me entregar essa droga. Não tinha coragem de olhar para o chefe. Se isso não estiver aqui até as vinte horas. Ainda vem com neurolingúística. Ontem. Ainda mais numa situação daquelas. Ismael era um perfeccionista. Quem entrasse logo perceberia estar diante de um empresário bem-suce-dido. —Ele quem. E parecia diante de uma agora. —Essa gente dá furo quando você mais conta com eles. Não faz drama. Ele estava no lavabo. eu tinha falado com o Augusto! Avisei na semana passada. Não compro nem mais um litro de pinga de quinta da sua distribuidora! — terminou aos berros. Gisela? Ele quem? —O Ivan. Esse bar tá dando trabalho. Conseguira galgar os degraus da mediocridade. Chegava a gaguejar. Ismael era um trabalhador incansável. Se acalma porque eu nem te contei o que vim contar e você já está quase tendo um ataque. Um investidor nato. E... Se tem mais merda acontecendo. gozando agora de uma posição financeira milhares de vezes mais confortável do que aquela da infância e adolescência. não tinha tanta certeza de não receber o mesmo tratamento na hora de um ataque nervoso daqueles.Capítulo 3 —Vocês prometeram que as bebidas estariam aqui até as sete horas! Eu não posso abrir o bar sem o seu carregamento! Que saco! Gisela até apertou os olhos por causa dos gritos do chefe ao telefone. Gisela não sabia onde colocar as mãos. Mau sinal. Talvez até pegasse alguma .. —Não me interessa. Talvez por isso defendesse a perfeição com tanta gana. —É. quando trazia mais uma notícia ruim justamente no dia da inauguração de outra casa. desligando na cara do fornecedor. —Eu já liguei umas cem vezes para ele. Despedia funcionários num piscar de olhos. Odiava falar com ele quando estava daquele jeito. Ismael. Gisela. tentando contornar com conversinha. desembucha duma vez. Tinha subido na vida fazendo uso de sua garra e tenacidade. Quantos ela já não vira indo embora depois de uma única pisada de bola? Mesmo sendo namorada do chefe. sem esperar resposta. com medo de perder tudo o que conquistara. Desde pequeno. jogando água fria no rosto. E pode cancelar todos os outros pedidos que tenho com você. —Pelo amor de Deus. com móveis finos e arrojados. pode cancelar todo o pedido. Ficou quieto e abaixou a cabeça. Ismael cruzou os braços olhando para a namorada. Sempre tentando fugir da pobreza que o rodeava. essa fala mole. Estava ansiosa. todo trocado que via na frente era poupado para uma empresa qualquer.

Ismael sentou-se em frente ao computador e acionou a agenda eletrônica. Já tenho um abacaxi grosso pra descascar. Ache o responsável e faça essa merda funcionar até as nove. A gente marca outro dia. —E não é só um probleminha no bar. Esse lugar novo parece que dá azar. —Na luz da pista?! O que é que aconteceu com a luz da pista?! — inquiriu. Não vou inaugurar nada. quem iria notar quem estava no comando do bar? O DJ é que não podia faltar. —Não faz isso. Tinha dito pra todo mundo que o Ivan estrearia o bar. —Liga pro Digo. —Eu ligo para o Digo. Gisela levou a mão à testa. Como vou abrir um bar sem um barman? O Ivan é o melhor da noite. Gisela saiu da sala. —Eu não vou inaugurar merda nenhuma. Você mandou convite pra todo mundo. Avisa a quem der tempo.. —Dou um jeito no que tem jeito. Mas ainda tinha o problema da bebida. Sempre. Também. Ismael calculava o estrago. Agora isso. —Vergonha? Que vergonha? A casa tá linda! Só deu problema no bar e na luz da pista. Ma. Tinha esquecido que aquela seria a segunda parte. Gisela torceu para que não fosse o relógiocalculadora prateado. Preciso dessa bebida até as oito. Vou cancelar essa palhaçada. em surpreendente voz baixa. Se aparecer mais tarde. E se o carregamento do Augusto não chegar até as oito.. —Quanto? —Paga o que ele pedir. Gisela anotou na prancheta. O filho da puta do Ivan te ligou? —Não. Mas traz esse cara. Como vou inaugurar uma boate sem bebida? Me explica. Mandei. voltando a erguer a voz. começa dos maiores para os menores. Você sempre dá um jeito. pois fora ela quem lhe dera de presente. Você tem duas horas e vinte minutos.coisa de cima da mesa para quebrar na parede. Ismael. Inauguração é assim: impressionar . Vou dar um jeito. —E a luz? —Se vira com a luz. Ismael esfregou o rosto. Pagaria mais caro. —É. Odeio essa sensação. Com o Ivan eu me viro depois. Se a pista estivesse fervendo. a gente começa outra casa. Azar e dinheiro não combinam. —Tá vendo o que dá confiar nesses estrelinhas? Sempre tomo com esses caras. melhor. Parece castigo. Acho que mandou pra "todo o mundo". só depois de amansar a fera. Vou arrebentar a cara do safado quando ele aparecer. Ele pode quebrar um galho. —Não faz isso. Abrimos às dez. não é pra chegar mais. manda devolver tudo. Gisela. Dá pra inventar um mundo em duas horas. grande coisa. Mas não vou passar vergonha. mas forraria o bar com a melhor bebida. — disse rispidamente. Adiantei uma fortuna para o filho-da-mãe.

depois esperar o retorno do investimento. Ismael sorriu com o cigarro no canto da boca.convidados e imprensa. impecável. A casa chamaria a atenção da mídia especializada. gays e lésbicas. chacoalhando o corpo suado na batida do DJ Zeck. molhado pela garoa. Os convidados. O carro esportivo soltava vapor do capô quente. estavam todos espremidos na pista. pois apenas por esse detalhe não considerava a inauguração um evento cem por cento. Não colocaria mais nenhum litro de coisa alguma em suas casas noturnas. Acionou "Lista de Contatos". Acendeu as luzes da residência. Ligou o computador. repousava uma imponente pick-up Pajero. Fora do baralho. Ismael pensava agora em como suprir a falta do melhor barman da cidade. Ivan estava descartado. Só a imprensa especializada. de toda sorte de classes e afinidades. gente boa é o que não ia faltar. reluzente. Acomodou Gisela no sofá da sala... Ao lado. Estava cansado também. Conseguiria um bom barman. A festa fora um sucesso. Irlanda. Sentou-se à mesa do escritório em casa. Inglaterra. Ismael chegou ao condomínio às seis da manhã. Talvez contratando alguém de fora. Acendeu um cigarro. Somente a falta de Ivan martelava sua cabeça. . Surpreenderia a imprensa. O Augusto que se danasse. Alguém do circuito internacional. amparada em seu ombro. Clubbers e technos. loucos e caretas. Gisela caminhava sonolenta. Traria uma estrela de fora. sarados e preparadas. atravessando a espaçosa garagem em dire-ção à casa. Justamente a parte que mais interessava na inauguração. certamente não tinham notado o barman.

com seu nome e o de Célia grafitados repetidas vezes. Apanhou um tomate vermelho. Leon? Sabe? Risos. Levantou-se do carpete. Era uma artista. A porta do quarto se abriu. Os olhos vermelhos. Leon parou de cantarolar e voltou às gargalhadas. Já era noite. —Cê tem que parar com isso. Cantarolava uma nova canção. né. Apanhou a bolsa ao lado da garota. . Falando. Riu. Tentava ouvir o que Célia dizia. A sala não tinha divisão com a cozinha. Não dá mais. Olhou pela janela. E era só isso que queria em sua cabeça. mas dona de curvas estonteantes. A sala ampla estava bagunçada. Fome. Só assim para se lembrar da canção quando estivesse sã. Pára com isso. Parecia ter dormido uma vida inteira. Cê vai morrer. tu vai dizer que não tem. Célia levava jeito para o grafite. A voz de Célia chegava distorcida aos ouvidos. —Porque você enfiou tudo no rabo.Capítulo 4 —Cê tá bem louca de novo. pelo menos. pichada. estacou quando a gargalhada começou. — disse. —Amanhã. A barriga queimando. Leon. Aquilo deveria matar a larica. A parede de tijolos à vista. Leon. Cantarolava e gravava. Leon se remexeu. —Eu devia te botar na rua. Nada que lhe apetecesse. Não aguento mais. Estava linda. dando ar de loft ao apartamento. Eu não vou ficar aqui aguentando isso. quando eu te pedir a grana para ajudar no aluguel. E sabe por que não tem. Célia. Depois de alguns instantes se arrastou até o gravador portátil ao pé da estante. Ficou silenciosa. Leon! Cê tá me ouvindo? Não vai ter dinheiro por que injetou tudo nas veias. Só tinha mente para a canção que explodia na cabeça e para a sensação distorcida de tempo e espaço. Só podia traduzir os próprios sons e gemidos. Fatiou-o e temperou com um pouco de sal. E era isso que emputecia Célia. Leon acordou. deixando a luz do sol pegar em seus pés. Leon viajava. Leon finalmente apanhou o gravador e o acionou. A voz empapada nos ouvidos. Leon? A garota balançou a cabeça concordando. A cabeça parecia pesar dez vezes mais que o comum. Ficou olhando para Leon. tudo acontecendo quadro a quadro. cara. mas o som chegava embolado aos ouvidos. como que enfeitiçada pela luz que atingia os artelhos. Bateu a porta atrás de si com estrondo. No entanto. O riso não parava. Leon estava sentada debaixo da janela. que andava para lá e para cá na casa. Um desenho artístico. Caiu na gargalhada. Corpo exuberante. Leon. Te colocar numa clínica. e o tempo linear parecia ter se fracionado. a barriga continuava pedindo comida. Célia enfiou as mãos nos cabelos e correu para o quarto. O cabelo curto bagunçado. Olhava para o pé. Estava pronta a refeição. Célia falando. Célia apareceu num vestido florido de tecido leve. Leon. azeite e orégano. batendo a porta e saindo para a rua. Um decote atraente. Não era exatamente magra. Será que se quisesse conseguiria entender? Leon tentou. Sabia que o riso não pararia nos próximos vinte minutos. —Boa viagem. Abriu a geladeira. Os movimentos eram lentos.

Ligou o aparelho e pegou o contrabaixo. Mais notas entusiasmadas. . encostou a cabeça no batente e suspirou. Era isso! Perfeito! Adorava tocar. estranhando o silêncio. Estava perdendo Célia. Sorriu. Começou a tirar as notas. Sorriu novamente. Era boa! Largou o prato de tomate cru e foi até o amplificador ao lado da estante. Foi até o quarto e reparou que Célia não estava. Calças largas. Estava perdendo a última coisa que lhe restava na vida. Depois de cinco minutos. Balançava a cabeça acompanhando a canção. Apanhou o pequeno gravador. O sorriso sumiu. Leon passou a mão no cabelo vermelho bagunçado. Tinha que parar com aquela merda. Aumentou o volume do amplificador. Uma blusinha agarrada ao corpo. Para ser possuida por uma banda expoente. A filha-da-mãe tinha saído sozinha. Uma touca de lã na cabeça. Tinha nascido para aquilo.Sentou no sofá com o prato de tomate no colo. apertou o rewind e em seguida acionou a tecla play. desligou a caixa.

la ligar para ela quando decidiu checar as outras chamadas perdidas. O celular tocando. Aque-lo barulho. Volume alto. Gisela apertou o send. na sala da confortável casa de Ismael.. Se estivesse dormindo naquela cama superconfortável. qualquer canto onde existisse mínima infra-estru-tura para Ismael dar telefonemas ou sentar-se à frente de um computador para extravasar as idéias e organizar a agenda via internet. Do hospital. Encostou o aparelho no peito. O display mostrava "quatro ligações perdidas. —Albert Einstein. Era um workaholic incorrigível. "Hospital Israelita Albert Einstein. O dia prometia ser cheio. Uma coca-cola light. não linha acordado na hora programada. Provavelmente era ele ligando. Depois. Gisela expirou prolongadamente. um tanto chateada e sonolenta. Confortável?! Só o sofá parecia renegar ou desconhecer esse adjetivo. Correu ao rádio-relógio. Estava cansada demais para comer. Os olhos pareciam cheios de areia. Estava no sofá. caiu novamente no sofá. Onde estava? Casa do Ismael. O namorado ia ter um ataque. Só podia ser o Ismael. rápida. O celular tocando insistente. difícil enxergar. talvez. levantar e sair com o carro para o escritório. boa-tarde.". deixando o olhar vagar.Capítulo 5 Gisela acordou às oito da manhã por causa de uma dor danada no pescoço. ora voltava a estática pavorosa. . começou a gravação. Coma alguma coisa. Que era aquilo? Gritou um "au" ao se levantar. lembrando o torcicolo. tinha mais três horas de sono. A agenda estava cheia. Ismael não estava diante do computador. Em que posso ajudar? — tornou a voz cordial de uma telefonista. Olhou para o celular.. não estava no escritório doméstico. Estática. pagaria com a vida por causa de seu incômodo torcicolo. Iria tomar uma ducha e cair na cama. Contudo. quase resmungando. Durma até as onze. Ismael não estava. E o pior. Só depois com o celular tocando em seu ouvido... Ora entrava a voz de um comercial de rádio. No quarto? Subiu até lá. Hospital? Não tinha nenhum amigo médico. Voltando para a sala. Todas do mesmo número. corrida. negra como petróleo. para sua surpresa. Só podia ser um engano. deixava um recado: "Fui trabalhar. Só conseguiu desligar o rádio tirando o conector da tomada. Muito barulho na cabeça. móvel caro e de bom gosto adquirido numa recente visita à Tok & Stok." Ao lado do bilhete. Droga. Duas horas da tarde! Puta que pariu! O Ismael ia ter um treco. O despertador. tinha passado despercebida no seu despertar. Corrigindo? todos os dias ao lado de Ismael eram cheios. O número que surgiu na diminuta tela não era do Ismael. A letra de Ismael. contrastando com a peça de madeira. o pescoço ainda doía. Pelo recadinho gentil. Cama do Ismael. a chave do Astra. aperte send para ligar". fina. naturalmente. Doido da vida. Pensou na mãe. A folha amarela gritante. Olhou em volta. Apanhou o aparelho. Gisela desligou automaticamente. Apertou os olhos e abriu de novo. Onde estava o namorado? Foi direto ao primeiro lugar a procurar. * * * * * Gisela acordou sobressaltada. Ia desligar para falar com o namorado em primeiro lugar quando o número discado começou a chamar. Só então notou aquele post-it largado em cima da baixa mesa de centro. Gisela adentrou o quarto abrindo as cortinas.

—Albert Einstein. Ligaram quatro vezes. —Nenhum nome? —Não.. Agradeceu e desligou. Enquanto discava para o serviço. Só tem o número de vocês aqui. —Vou transferir para a internação. —Tem algum parente internado aqui. Eu queria saber quem foi.. Qual é o nome dela? —Maria Regina Costa Garcia. pode verificar se deu entrada uma mulher com o nome de Ma. É que o telefone de vocês aparece no meu celular quatro vezes. senhora. senhora. Em que posso ajudar? —Olha. tentaram me ligar aí do hospital. —Não tem recado na caixa postal. deixando a água esquentar. É Maria Regina Costa Garcia. Logo. —Quem ligou.. outra voz respondia ao telefone. senhora. Gisela suspirou. senhora. Se ela não chegasse exata-mente naquele instante no escritório ele ia ter um treco. boa tarde. Uma mensagem. Obrigada.. Ligou a ducha. —Internação. —Por favor. senhora. O desenho de um envelopinho na parte superior do display indicava a existência de ao menos uma mensagem na caixa postal. um rapaz. —Sim? —Pode verificar se minha mãe deu entrada nesse hospital? —Posso. Acho difícil ser só uma coincidência. Se a se nhora não sabe quem ligou. Levantou-se e foi ao banheiro. Gisela não precisou aguardar muito. —Não. Nenhuma Maria Garcia. Chamou novamente o número na tela. Acho que não foi engano.aflita... —Assim é difícil ajudar. Começou a se despir com o celular colado no ouvido. — disse a telefonista. boa tarde. enquanto a mulher ouvia o som de um teclado. Não sei como. A . dessa vez. senhora? —Não. —Maria. — murmurou o rapaz. Estou vendo o primeiro e o último nome. Gisela sentiu-se ridícula. Estava agoniada. Quase interrompeu a ligação ao lem-brar-se de Ismael. Garcia. agradecia a Deus por não ser nada com a mãe.. senhora? Sentiu-se ridícula pela segunda vez em menos de cinco minutos. senhora? De qual departamento? —É isso que eu quero explicar. —Não. sem dar chance para a mulher responder. não tenho como transferir a ligação. Aflição faz com que a gente atropele as coisas.. Talvez não fosse uma coincidência. —Oi. Ficou calada esperando a resposta do profissional. —Calma. Mais alguma coisa? —Não. já ouvindo outra gravação de espera. Faria mais uma tentativa. Digitou a senha.

Dormia. agora. —Filha. Sentia um bolo se formar no estômago. imóveis. Sorriu timidamente: só assim para ver aquele viciado no trabalho dormindo um pouco.. entraria na ducha depois. Maldito celular! Estava de calcinha quando desligou e acionou via voz o número do namorado. tá sabendo?! Deixa eu falar com o Ismael agora! —Calma. ele não pode falar agora. sedado. Era impressionante e triste ao mesmo tempo. O chão. —Deus! Fala sério! É o Ismael? O que ele tem? —Ele teve um mal-estar na rua. Ismael estava na enfermaria.voz começou.. —Deus. Gisela fechou o aparelho. em observação. problemas. Era alguém do raio do hospital. Quantas vezes não havia implorado para ele parar um pouco?. Faltava algo debaixo dos pés. Uma voz que não era do Ismael. Um compromisso seguido do outro. Um escravo do próprio império. entrecortado. O que ele teve? Ele está bem? —Ele está precisando da senhora aqui. aos poucos as coisas foram sendo explicadas. Estava lívida. Falaria com o namorado primeiro. —Sim? —Quero falar com o Ismael. Graças! Não era o Ismael aos berros. Telefonemas. Precisava voar para o Einstein. Para sua surpresa. Depois. uma voz calma atendeu. fechou os olhos esperando a bronca. Uma voz calma e de mulher! Filho da mãe! —Alô? —Alô. Tinha pedido para ser trazido ao . Ela tinha perdido a conta. Nunca relaxava.. Ismael era tão obcecado pela gestão ininterrupta de seus negócios que chegava a passar semanas tirando apenas cochilos de uma hora por dia.. Ligamos várias vezes. — exigiu. Gisela enxugou uma lágrima. Quando atendeu. Quem está falando? —Escuta aqui. quem está falando é a mulher dele. O quanto antes. talvez. ao que parecia. Deus do céu! Colocou a roupa às pressas e. Acho melhor a senhora vir para cá o mais rápido possível. mãos trêmulas sobre o rosto. "filha". Graças 2! Não conseguiu entender nada. —Ele não vai poder falar agora. jantar de negócios. não entendendo o que aquela fulana fazia com o telefone do namorado. — respondeu Gisela. Você é a mulher dele? Não conseguiram falar com você? —Não. Uma coisa atrás da outra. ciumenta. Ao chegar. funcionários. dinheiro. O display mostrou "Amor". ao menos isso entendeu. senhora. O namorado tinha passado mal na rua. Para ele parecer normal. foi encaminhada ao setor de cardiologia. mas a senhora estava dormindo. Bebia energéticos de meia em meia hora. o som diminuía. Foi o que ele nos disse. Está precisando de você aqui. —Eu sou enfermeira do Albert Einstein. Quando finalmente um médico veio lhe falar. Chamando. Obcecado pelo trabalho. Sentou-se no vaso sanitário. quando chegou ao Astra não tinha certeza de ter desligado a ducha. nunca tinha tempo para um cinema. filha. Tomava rebites para se manter aceso. Almoço de negócios. —Como assim? Passa o telefone para ele. Só na marra. pedidos. Precisava estar com Ismael.

Não dava um tempo. se não for debelado. deixando a mulher sozinha no corredor. Ismael precisava ficar em observação e também de repouso nos próximos dias. O médico sorriu. falta de ar e desorientação. Era um alucinado pelo trabalho. Fizeram eletro. dizendo que o namorado realmente não parava. Chegou com palpitações. Despediu-se. Um workaholic. Tirar férias. Sem celular. dizendo que era disso mesmo que Ismael estava precisando. O stress é um mal que. Só água de côco e massagens nas costas. Alguma coisa que fizesse diminuir aquela ansiedade. Também foi recomendado que ele começasse acompanhamento por um cardiologista. mata aos poucos. uma taquicardia. Gisela concordou. Um check-up era bastante recomendável. O que deveria acontecer dentro de seis horas. Sem computador. Ismael sofrera um ataque de stress. Lesões de eventos anteriores.Einstein. . aguardando a alta do namorado. Acrescentou informações. Infarto descartado. Precisava descansar. Prometeu que quando fosse liberado o colocaria em bermudões e camisetas e que o obrigaria a visitar algumas praias. mas havia lesões no músculo cardíaco.

a camisa azul e a calça. Só lembranças ruins. tinha arrastado o criado-mudo para o meio do quarto.. A cabeça tinha entrado num transe. um papel. A lembrança vaga do rapaz de rosto pálido lhe entregando o cartão. Os pés juntinhos. enxugando o cabelo. Lembrou o choro desesperado da mulher. Vilma não aceitava o problema da filha. Tirou a gravata ainda enroscada no pescoço. Caminhou encurvado até a janela e fechou a cortina do apartamento.. Sentia medo do maldito quarto! O peito pulando de tanta ansiedade. Não queria entrar. Podia levar aquele quarto inteirinho. Lembrou que não encontraria Vilma na cama. aquela coisa da toalha. começou a latejar. Ficou parado diante do espelho por cerca de cinco minutos. Aquela pressão angustiante. Hélio pousou a mão na maçaneta do quarto da menina. A letra de Vilma. para evitar a incômodo da ressaca. buscando relaxar o corpo. Entrou no quarto de casal. Na porta do quarto da menina. Era melhor assim. curtido. preso com durex. avisado e preparado. Logo estava no corredor. Não se importava com tal destino desde que a cabeça o deixasse em paz. O guarda-roupa estava aberto. ansiava por aquele momento de libertação. O sofrimento tinha chegado no fim. Lábios secos. Limpou um fio de baba que estava grudado no rosto. Estava deitada de costas. Como também tinha ido a filha. Tinha soltado as tripas no carpete. Que horas eram? Levantou-se tonto. na verdade. Pra que tanto circo?! Com Mariana era certo que aconteceria mais cedo do que tarde. Tudinho. amarrados com uma toalha. Lembranças secas. apesar de esconder. Foi ele quem encontrara a menina no chão. olhando para a menina. Por isso que há mais de um ano não punha os pés ali. Não seria mais necessário. Vilma tinha levado um bocado das coisas. cedo ou tarde. Hélio ficara quase um minuto imóvel. não eram os mesmos. Nunca entendera aquilo. Hélio abaixou-se e pegou o cartão. Vilma que viesse pegar o que quisesse. O sol estava incomodando. Sentia calafrios. Sempre que entrava as coisas voltavam à cabeça com mais força. no meio do corredor. Oxalá pudesse levar embora também as lembranças que assombravam seus pesadelos. Na oca-sião. por alguma razão.Capítulo 6 Hélio acordou com o sol batendo no rosto. Não queria lembrar. Tomou uma ducha morna. O corpo estava cansado daquela vida. empapando o colarinho da camisa junto ao couro do sofá com um coquetel desagradável de saliva e suor. Irritantemente fraco. passando a toalha suavemente. subitamente. Não formavam mais um casal. instantaneamente. Mariana. Os músculos doíam. Tinha morrido aos doze anos. Parecia não pensar em nada. Um cheiro azedo. Estava cansado daquela vida. numa madrugada. Desconforto. como se presa a uma cruz invisível. Nada de corridas estressantes ao hospital.. Olhava para o rosto magro. Não iria entrar. já tinham falado um milhão de vezes. exangue. O coração acelerou.. Ela tinha deixado um par de malas no canto da sala para buscar mais tarde. Ela viria retirar as coisas de Mariana. Mariana. pedindo que não mexesse no maldito quarto da filha morta. Lembrança da noite passada. braços estendidos. O calor tinha feito a face transpirar. os médicos não davam esperanças. Foi até o banheiro escovar os dentes. olhos encovados e olheiras profundas. O corpo frio. Sempre sentia o mesmo desconforto quando abria a porta. Um gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Vilma tinha ido embora. Mais dois anos enchendo a cara daquele jeito e iria para baixo da terra. A luz do quarto de casal estava acesa. Tinha deixado o retângulo branco de . aquilo aconteceria a todos. Tinha exagerado na última noite. Desde que ele se entregara ao alcoolismo. Sabia que isso aconteceria mais dia menos dia. dona daquele corpo mirrado. A cabeça ainda girava e. Ele já estava preparado. Hélio tirou a mão da maçaneta.

. Ele tinha dito alguma coisa sobre alívio. O rapaz balbuciara uma coisa em seu ouvido. Um endereço e uma frase.papel cair ali no quarto. Aquele homem jogado na cama. Lágrimas desceram dos olhos em direção aos seus ouvidos quando começou um pranto sentido. Hélio pousou o cartão no peito e fechou os olhos. No meio. Voltar a ser livre. chorando feito criança. Um cartão de visitas. lia-se: O alívio para o coração atormentado está aqui. com letras finas e impressão em tinta preta. Alívio. deixando o tórax subir e descer conforme respirava. a pinga nas idéias. O cartão prometia tudo o que ele queria. tudo tinha dificultado o entendimento naquela hora. Tirar o peso do coração. Tinha entrado no apartamento com o cartão amarrotado na mão. O som alto do bar. daria tudo para ter só um pouco de alívio. mas naquele instante as palavras vinham vivas na memória. Hélio deitou-se na cama e colocou o cartão diante dos olhos. Alívio para o coração.

estagnando e se decompondo a olhos vistos. Mais do que o comum. Um novo ataque. Fora há tanto tempo. até hoje. alto. Iria ensinar ao marido com quantos paus se fazia uma canoa. Maldito dia.Capítulo 7 Rosana estava excitada. Ela. Seria dele aquela tarde. Estava perfeita. Celso não a procurava mais. Espalhou um óleo aromático sobre a pele. vira Celso colocar duas malas no chão. O relacionamento estava estragado. No entanto. se sentir desejada. Iria ter outro também. nas coisas que tinha para contar. Serviria. Não conseguia carregar a culpa sem se drogar. amada. Objeto do desejo de qualquer menininha. Feliz em trair. como já ouvira da boca dos outros. além de Celso. Rosana. mas precisava atirar-se numa tentativa. Celso. Não lhe dava carinhos. Tudo era motivo para brigas e discussões. O marido só fazia evitar. impecável. Quando o som da porta se fechando violentamente chegou aos seus ouvidos. perturbada e passional. de pernas grossas e seios belos. Um homem lhe daria um sorriso quando chegasse. estava com outra mulher. O vapor do banho demorado escapava do banheiro invadindo o quarto de casal. Além da transa ter sido uma porcaria. Um homem estaria interessado nela. O marido movia a boca e ela o escutava dizer que estava indo embora. Cheirou-se. Sentou-se à beira da cama e apanhou um dos vários frascos de comprimidos dispostos sobre o criado-mudo. Agia de modo estranho. O amor tinha acabado. sensual. Era por isso que vivia à base de calmantes. Olhou para a mão em frente ao rosto. Não conversavam mais.. batendo-a atrás de si. meteu-se no vestido vermelho colado às curvas e mirou-se no espelho. Precisava ser de outro homem. Aquele maldito dia de novo. Marco era aluno da academia de ginástica que ela frequentava. mas as lembranças teimavam em reger sua vida. decotado. seria de outro. Celso poderia estar ali. Poxa. sensual. Ele só podia estar envolvido com outra. Moreno. Celso não conversava. Os homens paravam para olhar quando passava na rua. ao menos com as meninas. O marido parecia estar pedindo. Era mais uma vingança do que um desejo. Celso.. sentada na frente do vaso da suite. Um partidão. O único dia que seu corpo fora de outro homem. O barulho das filhas no corredor do apartamento. Rosana sentou-se assustada. esticado. Que não ia . Nunca quisera e até mesmo duvidava de que realmente pudesse fazer aquilo. Os dedos tremiam. magro e malhado. Sentindo a respiração alterada. Distante. As meninas se trancavam no quarto. Queria estar feliz também. apesar de três filhas. Estava à beira de um novo colapso. passado.. E ela iria se vingar. O único dia em que traíra o marido. Meia hora depois. Uma tentação. Um corpo feminino. O coração disparado. Imaginou as mãos de Marco apertando seu corpo. Ao menos um homem na Terra estaria fazendo uso de seu corpo. e a faria se sentir atraente. colocou a lingerie mais sexy. em suas histórias. Um vestido curto. mais do que simples brigas de casais. outras coisas tinham complicado e precipitado tudo. temendo a troca de farpas do casal. Mas era o que faria. mulher. via o resto do vapor que saía do banheiro se desvanecer. lutando contra a embriaguez. Estava acontecendo sempre nos últimos meses. Rosana sentou-se na poltrona do quarto de casal. sempre terminava chorando. Tinha quase certeza de que ele. Rosana levou as mãos aos olhos umedecidos. O corpo bem feito. O coração batia acelerado. Aquele pesadelo de novo.. um vestido vermelho. Que estava deixando a casa. Rosana secou-se vagarosamente. Ela nunca havia traído Celso. Mas ela chegara bêbada. Seria aquilo que queria mesmo? Não tinha certeza. Bêbada e com a meia-calça rasgada. ela era uma mulher atraente! Não tinha nada de errado. nada fora do lugar. Olhando para o chão. Apanhou a bolsa em cima da cama e disparou pela porta. Colocou os cotovelos nos joelhos e apoiou a cabeça nas mãos. não conseguia. Não a olhava nos olhos. Por que o desprezo? Celso não se explicava. Em cima da cama.

Por que ele não desembuchava logo? Detestava homem frouxo. — disse secamente. Quando completou exata-mente uma semana da separação. estaria nervosa também. agarrando e chacoalhando-a violentamente. —O Celso morreu. Você.. Só podia ser mentira. —Que foi. Mas o Otávio dizia que era. a vida de Rosana naufragou no mar dos desesperados. Arrastou-a até o box e a largou debaixo do chuveiro com água fria caindo na cabeça. Que merda era aquela? Mandar o amigo em casa! Para quê? Pegar as meninas? Pegar mais roupas? Rosana deixou a raiva possuir seu corpo e descarregou os cachorros em cima do pobre Otávio. Silêncio. ele não era parente. As meninas estavam tendo uma discussão. A última vez. se virara e saíra pela porta.quebrar sua cara em respeito às meninas.. Aquele instante patético ficara gravado em sua memória e não deixava de visitá-la um dia sequer. Ficou olhando para o amigo do casal em silêncio. Só quando Otávio caiu sentado no sofá com os olhos cheios de lágrimas é que Rosana parou com os gritos. Rosana não sabia por que. Dor no peito. Sempre lembrava a hora em que Celso a deixara no box. Mimava demais as pequenas. mas estou puta da vida com seu amigo. Otávio sabia que eles estavam brigados. Rosana. Era a pior parte. Que não resistira aos ferimentos e que precisavam que um parente fosse lá reconhecer o corpo. A última vez em que vira o marido. Rosana sentiu o ar faltar. com essa tremedeira. A culpa. Otávio abaixou a cabeça e tentou retomar o controle. Eu não sei falar dessas coisas. Otávio.. Otávio não era homem de chorar. Celso quase quebrara a promessa. Tinha alguma coisa errada. Rosana levantou-se da cama. —Fala.. Rosana se lembrava de ter se calado imediatamente e passado a digerir aquele gelo no estômago. mas tivera um acesso de riso naquele instante. Rosana apagou. está me deixando nervosa. Como que arremessada no vácuo. O homem estava nervoso. Odiava gente com tremedeira. Lágrimas surgiram. Dizia que Celso estava no ônibus do acidente. Não era o que ela queria. Desligaram a água fria e. e ele nem conhecia mais ninguém também. Um engano. não poderia poupá-la daquele momento. ajudaram a mãe a se levantar e a se livrar do vestido vermelho ensopado.. Foram as meninas que a encontraram no chuveiro. com dificuldade. que não aparecia.. — desabafou a mulher. Desculpa minha agressividade. pô! —Você veio aqui para defender o cachorro do seu amigo? Se for isso. amigo do casal. Rosana não quis dar ouvidos. Como explicar? Celso deveria estar realmente muito decepcionado para nem procurar as filhas que ele tanto adorava. —Se tivesse que contar o que eu tenho pra contar. Olhou para a porta do quarto. acordando só na manhã seguinte.. Otávio. Isso irritou ainda mais Rosana. Otávio? Nunca te vi assim. chegou ao apartamento. se estivesse no meu lugar. só estando muito perturbado para não vêlas. mas nessas horas.. Não poderia ser verdade. Cada uma delas era tratada como um tesouro. . Desse dia em diante. tremia de tão nervoso. As meninas. sem ponto de apoio. Celso dissera que ficaria fora de casa por uma semana para esfriar as idéias e não cometer uma besteira.. Olhou para o guar-da-roupa sem as peças do marido. pode ir levantando e.. Deu um passo em direção à porta quando as lembranças voltaram. O casamento tinha acabado? Acabado de vez? Rosana chorou muito naquela madrugada. As meninas passaram a semana toda perguntando pelo pai. dar andamento na papelada. Nem para ver as meninas ele apareceu.

Ao vê-la Leon começou: —Que é? Tá com medo de fazer barulho para não acordar a trouxa aqui? —Eu molhei as sandálias. Leon. —Esse papo de novo. —Uma drogada! Porra. Não quero sujar a sala. — Você tem tanta coisa bonita pra dizer.. —Porquê? —Porque você se droga o tempo todo. —Mas tu não tá diminuindo. Seja responsável.. —A gente não fica com ninguém na rua até as duas da manhã. Célia entrou arrumando os cabelos longos e escorridos. Eu consigo. Tá aumentando cada vez mais. o uso. Andou até o amplificador. Você não é só usuária. Esfregou o rosto. —Onde cê tava? —Fui encher a cara. Que palhaçada. — Célia. Fica me discriminando. Leon: é difícil aguentar você. — Leon perdeu a dureza da expressão entregando a decepção. não. Mas você perdeu o controle totalmente. Cê tá parecendo meu pai. Tô de saco cheio de viver com uma drogada dentro de casa. Não dá mais. Dou um ralo danado para nós irmos para frente e você. Algum problema? —Encher a cara? Sozinha? —Que é? Acha que só você pode se drogar nessa casa? Pensei que você fosse a moderninha do pedaço. —É. Leon. A gente nem conversa mais.. Leon. cara! Você vive em função disso.. —Ah. cara. . Levantou-se do sofá. Leon. Célia! —Eu tava precisando dar um tempo. Tirou as sandálias antes de entrar. é! É difícil viver comigo? É isso? Eu sabia! Sabia que você era igualzinha todo mundo! —Ah. —Com quem você estava? —Com ninguém. aceite a verdade.Capítulo 8 Passava das duas da manhã quando Leon ouviu as chaves girando na fechadura. não vista essa roupa de vítima para cima de mim. Vai fazer caso por meia dúzia de cervejas? Leon ficou sem graça. aproximou-se e tocou-lhe o rosto. Leon. Você acha que é fácil viver assim? —O que não é fácil? O que é difícil? —Eu tô cansada. Célia. Com ninguém.. Leon. cara. percebendo que atingira em cheio a parceira. Não dá para tapar o sol com a peneira. você simplesmente não está nem aí. O tempo todo. injustiçada. Eu prometi tentar largar. Célia. vou diminuir a dose. A gente se dava tão bem. Você não se controla. sentando-se derrotada no sofá. — Porra. Beber.. Leon. Leon. Tentar! Eu vou parar. Agora tá todo mundo errado e só você está certa.

Leon. Leon abriu repentinamente a porta e foi ao amplificador. mas isso vai passar. Célia. são os sinais! Sua vida tá virando um zero. Que vida inútil a minha. Só isso tá faltando. Leon tinha que deixar as drogas por conta própria. —Eu sei. Célia! Com aquele bando de doentes! Eu não sou doente! — gritou. —Aceita o tratamento. Leon foi para o quarto e bateu a porta. —Cê queria me internar. vacilante. Para esquecer meu pai. rodeada por estranhos. não sou uma viciada. Você precisa de ajuda profissional. Até tua grana sumiu. Não pára. .. sabia? A pobre coitada da minha mãe.. Leon bateu a porta. —Eu nunca ia te bater. E vou precisar de mais um pouco. Leon. querendo se convencer do que dizia e explicar a situação. —Odeio isso. eu te ajudo pra cacete. não de esporro. fiquei cinco anos sem falar com meu pai. Célia balançou a cabeça reprovando. Odeio. —Pô. Sua banda sumiu.Leon continuou no sofá. Passou a mão no rosto e continuou. Chega. —Leon. A minha vai virar um zero também se eu não der um corte. Sua cabeça estava ocupada demais em me prejulgar. Eu preciso é de ajuda. Abaixou a cabeça e amparou-a com a mão. sozinha de família.. eu acho que consigo. —Passa nada. — Para esquecer você. queria me encher de porrada. Como vai arranjar dinheiro para o aluguel? Esses são os sinais. Só fui no enterro e fiquei olhando de longe. Pára. Célia! Você tá me discriminando! Igualzinho meu pai. Querer me bater. Quando meu pai descobriu que eu gostava de mulher.. Eu não sabia disso. Faz um ano que você entrou nessa piração. Só tô precisando de mais agora.. Eu te amo. Pelos pais. Viver discriminada.. voltando ao tom agressivo. Estva claro que não ia aceitar a ajuda de ninguém. Leon! Chega! Estou sofrendo e não vou sofrer mais. colada à porta. em ficar maquinando um jeito de se livrar da drogada da Leon. — suplicou Célia.. — Só tô precisando mais agora. Leon. Aceita a clínica. A gente dá um tempo até você provar pra mim que largou essa merda. Não ia correr atrás da garota. depois tornou mais calma. —Pára de me chamar de drogada. caralho.. me discriminar. Desplugou o baixo e passou a correia no pescoço. Nem pude assistir o enterro do meu pai como gente.. pra mim chega também. —Dá um tempo o escambau. Os olhos vermelhos não disfarçavam a tristeza. Eu largo essa merda quando eu quiser. eu. —Depois que brigamos. Leon. Já me ofereci para pagar um tratamento para você.. Pelo amor. Leon... Célia. Se pra você chega. — andou até a porta da sala e abriu-a.

a menos inteligente. Um fruto mal gerado. Havia sustentado aquela menina. Fugia do quarto assombrado. não sentira remorso. Não tinha bebido nada. a mais bela. Pelo que via no mapa.. A chegada do bebê acabara com sua vida. Talvez sentisse algo parecido com a sensação de "dever cumprido". Dor. Aquilo só podia significar uma coisa. a mais vulnerável da turma. a melhor. Por que não tinha a melhor filha? Ou ao menos algo de que pudesse se orgulhar? Não sentia culpa em pensar assim. Trafegava em baixa velocidade procurando pelos nomes da rua que tinha encontrado no Guia Quatro Rodas. Depois. Olhou para as etiquetas presas no braço e no tornozelo do bebê. Logo. Varava dia e noite trabalhando. O melhor carro da rua. Não sentira nada. se compraziam das pequenas criaturas que chegavam agitadas e chorosas. Nunca tinha estado ali. de batalhar para ser a primeira em tudo. traçando estratégias. A filha viria para que ele lhe ensinasse as coisas da vida. Ao invés de forte. realizando coisas. esperando para ver a filhinha recém-nas-cida. Os olhos percorreram o bebê nu. facilmente seria a criança mais bela trazida nos braços das enfermeiras. mas aquele era um convite irrecusável. Queria imbuir a filha daquele sentido. era a mais fraca. Ele havia alimentado aquela menina. aquela era assustadoramente pequena. correr. ansioso. abandonando momentaneamente as amargas lembranças. Tinha batalhado duro para cercar-se de status. Sabia que a filha tinha sido um erro. Aquela não era a sua filha. O nome da esposa se repetia. o coração não deixava. Queria era livrar o peito dequela agonia. O melhor salário. estava chegando ao endereço. No primeiro instante Hélio nem deu atenção àquela aberração raquítica e de cabeça grande. com técnicas new age. Hélio estava feliz naquele dia. não sentira culpa. Fraca. Daquela culpa... Putz! Como irritava! A menina era pequena! Toda vez que ela tentava alguma coisa. A certeza de que não existia bebê menor que o seu o inquietava. que não permitia ao corpo gerar força. Em busca de salvação. O peito doeu. Um desses moderninhos. Não se importava. Farol . Um coração defeituoso. A coisinha pequena era a sua filha. Como era pequeno! espantou-se observando o bebê num segundo instante. Abriu os olhos. Os pais ao redor sorriam felizes dos filhos. tinha o direito de ter uma filha decente. O melhor aparelho de som entre os amigos. A garra de um vencedor. Aquela menina sempre estaria à margem. Quando a filha Mariana faleceu. Um homem acima da média. Havia suportado.. Culpava Vilma por ter lhe dado uma filha fraca. A esposa mais bonita. Não poderia ser. Lembrava muito bem o dia em que seu peito de vencedor se partira. O coração doente moldava um corpo raquítico e frouxo em torno de si. Colocaram um bebê pequeno e magro na sua frente. Ele tinha tantos planos. Era avesso a mistérios. os olhos bateram na prancheta amparada no leito do bebê. talvez fosse isso que mais o irritava. a filha. economias e investimentos. Uma filha que nunca seria uma vencedora. Aquela. Possuía o melhor. Achava que tinha algo de errado. como tudo que o rodeava. Ele era um homem especial. A persistência e obstinação. Era pequena. Fugia do passado.. Frio no estômago. como se fosse nato.. uma guerreira como ele. Racional. nem medíocre era.. Os outros pais acotovelavam-se diante do vidro grosso que separava a área de visitas do berçário. Estava em busca de ajuda. O que encontraria? Um consultório de psicologia? Talvez. Hélio tinha fechado os olhos e esperava o farol verde. cansar-se. Leu nitidamente o nome da esposa no papel. Nada podia dar errado. Se a menina puxasse a beleza da mãe. pombas! A dele tinha que ser a maior.. Os segredos da felicidade. Estava na maternidade. grande e saudável. Uma menina pequena. Garganta seca. Mas ainda veriam o que era um bebê lindo. Era a menor. Os olhos de Hélio percorreram os outros leitos de recémnascidos.Capítulo 9 Hélio não conhecia aquele bairro da periferia. nem à média chegava. E ela.

estranhando o excesso de espaço em volta. Hélio atravessou a rua. Que raio de lugar era aquele? Hélio encostou em frente ao muro branco. —Isso aí não é minha filha. Ele não queria o bebé. e a resposta escapou-lhe natural. Acompanhou a numeração. não. não exatamente uma lembrança de culpa. Não suportava olhar para aquele bebê pequeno e fraco. disse que ainda não conseguira vê-la e logo trocou de assunto. Só se tivesse errado de cidade. isso dá pra ver.vermelho. Farol verde.. Não suportava ficar perto de Vilma. faltando apenas um lindo vestido branco no guarda-roupa. Fora um momento ruim. Hélio não se emocionava. Buzinas. de olhos grandes e respiração difícil. Gente amontoada na porta e uma fila que saía pelo portão com quatro ou cinco pessoas aguardando para entrar. Estava praticamente como na noite em que Mariana faleceu. outrora meramente amargas. Não conseguia passar um branquinho na memória do destino nem funcionar como máquina do tempo. Uma casa. Não se parecia com clínica alguma. Hélio abriu os olhos. para entornar litros de bebida destilada e afogar a consciência no mar da embriaguez. —É. Quando a esposa perguntou no quarto sobre a menina. homem. se tornavam cortantes. Hélio olhou para o bebê raquítico. Impacientou-se antes de aguardar um minuto. — respondeu secamente o entrevistado. sentando. Nem de Mariana. as lembranças. falando sozinho. Gente mal educada. Segurou o cartão roto na palma da mão. Casas do outro. Mas a merda era que toda vez que fechava os olhos. nunca se culpara pela sorte da filha. esfregando-lhe na cara o que tinha feito e como havia tratado mal a menina. Calor. —O senhor sabe o que tem lá dentro? —Tem mais gente. Nenhuma placa. Uma casa amarela. Mas que lugar é esse? —É uma casa. A imagem da maternidade era um desgosto. A minha eu ainda estou esperando. Nenhum letreiro. Rodou mais cinco minutos até encontrar a rua. foi embora do hospital. Muro alto e branco de um lado. muito menos hospital. Hélio passou a mão pelo queixo. Um sobrado com pequeno jardim na frente. recebiam a mesma resposta. um homem baixo e de pele morena. o da visita. depois da inesquecível visita. As imagens sempre voltaram. Não tivera coragem de dizer a ninguém que a criancinha chorosa e feia era sua filha. Chegou na última pessoa da fila. A esposa não tirara nada de lá desde o funeral da menina. no jardim. O pesadelo que ele mesmo criara havia erguido um castelo assombrado por um homem imbecil e uma garota doente. O cartãozinho não dizia a cidade. Repulsa. —Essa é a sua menina? — tinha perguntado um pai na ocasião do nascimento. As lembranças machucavam seu coração. No segundo dia. dragavam suas forças e empurravam suas pernas para a beira de um balcão de bar. mostrando exatamente o que tinha acontecido. com um sorriso largo e olhos fixos na criaturinha chorosa no mini leito do berçário. o cemitério. não restava dúvida. Mas a porcaria do álcool não era um corretor de erros.. mais umas oito pessoas enfileiradas. Esperar. Até aquele fatídico dia. Todos que vinham perguntar. encerrado na cova funda com a filha. trajando roupas simples. É. Um mendigo na calçada. diminuindo a velocidade à medida que se aproximava. A culpa surgiria depois de uma visita ao maldito quarto mantido pela Vilma. a seus olhos uma simples casa. tendo de se espremer . Não dá pra ver? Hélio bufou e balançou a cabeça negativamente. Uma rua larga. Engatou a marcha. O endereço era aquele mesmo. Saiu da fila e atravessou o portão. homem de cabelos grisalhos e óculos de armação grossa. Olhava os bracinhos se debatendo.

entre as pessoas que se amontoavam. Com dificuldade alcançou a porta de entrada, mas ali passava uma pessoa de cada vez, e um sujeito grandalhão coordenava a passagem. Hélio se dirigiu a ele. —Por obséquio, o que tem aí dentro? O homem o olhou com atenção. —Quem te mandou aqui? —Eu tenho um cartão. O porteiro olhou para o pedaço de papel na mão do visitante. —Ótimo. Então significa que poderá entrar quando chegar sua vez. —O que tem aí dentro? —Filho, vai para a fila. Quando chegar tua vez tudo será mostrado. Mas vai para a fila. — insistiu o porteiro, calmamente, olhando para as pessoas que queriam passar. — Está bastante agitado hoje. Fica lá fora, por favor, tenha paciência. Hélio, aborrecido e sem respostas, voltou para a calçada. Acendeu um cigarro e encostou-se no muro, logo atrás do antipático homem baixinho e moreno. Coçou o queixo. "Tenha paciência". Paciência era o que menos tinha. Os olhos vagaram pela calçada buscando a porta de um bar. Talvez um gole trouxesse paciência para a espera. Espera por algo que nem conhecia. O que haveria depois da entrada? Não parecia um centro de consultórios. Muita gente simples na fila... não combinava com psicólogos caros. Talvez um curandeiro, um daqueles charlatões que proclamavam rezas e cobravam uns trocados pela boa ação mais um bom dinheiro por um placebo milagroso qualquer. Depois de dez minutos, como a fila não havia avançado um único centímetro, Hélio abandonou o posto, atravessou a rua e entrou no carro. Deu partida, amassou o cartãozinho de visitas e arremessou-o pela janela, saindo em alta velocidade. Estava precisando de uma dose de uísque, não de ficar mofando em frente a uma casa cheia de gente feia e ignorante que não podia dizer o que tinha ali dentro.

Capítulo 10
—Eu estou ficando louca, Samuel. Preciso de alívio. Preciso esquecer tudo para voltar a viver. Eu simplesmente não aguento mais. —Já discutimos isso tantas vezes, Rosana. Você tem que aceitar tudo o que aconteceu e entender que o destino não está nem estava em suas mãos. —Mas é tão difícil, Samuel! Tão difícil conviver com a idéia de que suas filhas são infelizes por sua culpa. Não consigo ficar dez minutos em paz quando percebo tristeza no olharzinho delas. Quando chega o Dia dos Pais, então, é uma tortura, Samuel. Elas não me falam nada, mas os olhos dizem. Eu tento racionalizar, colocar na cabeça que aquele acidente não foi culpa minha, mas não é fácil aceitar que terminei o casamento com um homem maravilhoso e que acabei matando ele. — lamuriou Rosana, baixando a cabeça até os joelhos, escondendo o choro. —Já falamos desse assunto, Rosana. Quem nos garante que ele não estaria naquele ônibus, naquela hora? Quem? Era o ônibus que ele tomava para ir do trabalho para casa, todo dia, no mesmo horário, todo santo dia. Na minha opinião, teria acontecido sem ou com a separação. Rosana enxugou as lágrimas e limpou o nariz que começava a escorrer. Estava no consultório de seu psiquiatra. Há muito não era mais caso para psicólogo. Isso a assustava. Isso a desequilibrava ainda mais. Olhou para a paisagem através da janela do consultório no décimo andar. Um campo verde bem próximo. Talvez um campo de golfe, um parque, não dava para ver dali. —O que eu preciso é de alívio, doutor. Alívio. —Eu vou providenciar alívio para você, Rosana. Não se preocupe. Alívio não será problema. O médico rabiscou no receituário e estendeu o papel para mulher. Chamou o ramal da secretária e passou instruções. Despediu-se da paciente, que deixou a sala. Rosana parou na mesa da secretária. A mulher entregou-lhe três caixas de tarja preta. Rosana meneou a cabeça e, acintosamente, guardou as embalagens na bolsa de couro, saindo do consultório. Chamou o elevador. Estava quieta. Olhos parados. Irritada. Era o único alívio que Samuel poderia providenciar. Mais drogas. Mais remédios. Nenhuma paz. Rosana fez um lanche rápido. A hora do almoço tinha escoado com a ida não planejada ao doutor Samuel. Parou na Casa do Pão de Queijo e pediu um sanduíche Tropical. Não sabia que estava vivendo feliz, pois, preocupada com a loja cheia e a possível demora na feitura do seu pedido, tinha esquecido momentaneamente dos comprimidos e do passado. Era por isso que lutava para continuar empregada. Precisava trabalhar para manter a casa, as filhas. Uma luta, sem dúvida. Mas o trabalho era necessário principalmente para absorver seus pensamentos, alienar seu eu e conserva-la longe do passado. O trabalho era necessário para mantê-la viva. Uma vez, num período de desemprego, Rosana fora parar numa clínica psiquiátrica. A pressão era demais quando ficava em casa o tempo todo, sozinha. Sempre voltavam as recordações. Às vezes, começavam com os momentos felizes da família. Um passeio. Uma estadia na praia. As meninas felizes, correndo com as perninhas cobertas por areia. Porém nunca tardavam os dias ruins. As brigas. O princípio do

fim. Lembrava-se das suspeitas. Sentia que o marido tinha outra. Nunca tivera certeza. Celso se fora. Uma semana sumido. Depois a notícia de sua morte. Uma bomba. Uma bomba porque ela ainda o amava. Amava muito. Celso era o homem da vida dela. E a tristeza era ainda maior porque sabia que ele, apesar da casca estranha que tinha crescido entre o casal, também a amava. Estavam vivendo uma crise. Uma crise conjugal. Mas ela havia cismado com a história de ela ter outra. Talvez nem existisse uma outra, só aquele mal-estar mesmo. Aquela crise. E ela decidiu se vingar dum crime incerto. Decidiu ter outro. Ter outro homem na cama. Outro homem no corpo. Desencadeou a ruína em sua vida, pois voltara para casa bêbada. Rindo. Dizendo asneiras, querendo atingi-lo. Pressionara Celso. O marido saíra de casa para nunca mais voltar. Culpava-se por ter diminuído o pai perante as filhas. Tudo era culpa sua. Tudo! Celso saíra possesso. Dissera que ficaria fora por uma semana até as coisas se assentarem em sua cabeça. Arrumara as malas com rapidez. Mas nem ele nem ela puderam prever a morte no caminho. A morte quando saía do trabalho. Celso morrera sem ver as filhas. Uma semana perdida. Celso morrera sem falar com Rosana. Uma vida perdida. Celso se fora. Uma vida perdida. E por isso Rosana se culpava tanto. Por ter tramado o plano que levaria Celso à morte. Quando ficava desempregada ou de férias, quando não arranjava algo para ocupar completamente a cabeça e a concentração, ela pirava. Ela vivia presa nessa montanha-russa de culpa e remorso. Recebia facadas contínuas no peito. la às lágrimas rotineiramente. Era um suplício. Um martírio. Nem os remédios ajudavam. Nem os mais fortes. Dessa forma, acabou numa clínica, tendo alta com terapia ocupacional, medicação forte e duas visitas por semana ao doutor Samuel. Voltando a trabalhar, as coisas sempre melhoravam. Sempre. Mas os remédios se faziam necessários para manter o controle. Às vezes, mesmo num dia atribulado, as lembranças vinham e a pegavam de jeito, engessando cérebro e músculos. Mesmo com a agenda cheia. Sem consulta prévia ou hora marcada. O descontrole chegava. Em questão de minutos, as mãos começavam a tremer e as lágrimas desciam. Rosana estava desesperada. As crises eram constantes nos últimos dias. O passado parecia cobrar alguma coisa e não queria deixá-la em paz. Rosana estava com medo.

Capítulo 11
Ismael estava quieto. Acabava de ouvir todas as recomendações do médico que o atendera no hospital, prometendo seguir as recomendações. Que iria ver ainda naquela semana um cardiologista. Tinha o rosto abatido e as feições preocupadas. Estava cansado. Tremendamente cansado. Recebia alta. Já eram quase oito da noite. Gisela esperava ao seu lado, ouvindo atentamente os conselhos do doutor. Ismael sabia que ela não daria folga. Ficaria em cima, controlando. Levantaram e foram em direção ao estacionamento. Ismael calado. Lembrando algo. Gisela notou. Sabia que nem que ele tivesse sofrido um ataque cardíaco estaria tão quieto. — O gato comeu sua língua? Ismael sorriu para a namorada. Entrou sem responder, sentando-se no banco de passageiros. Ela apanhou a chave com o guardador de carros e tomou seu lugar. Adorava aquele carro. Cheirinho de novo. Bancos de couro. Um namorado calado. Quando passavam em frente ao estádio do Morumbi, o celular de Ismael tocou. Olhou para a tela de cristal líquido e estendeu o aparelho para a namorada. Gisela atendeu. Era um senhor dizendo que a Pajero não cabia na garagem dele, que estava ficando tarde e perguntando se alguém ia lá apanhar o carro do moço. Gisela anotou o endereço, apoiando um papel no volante e prendendo o celular na orelha com o ombro. Buzinas atrás dela porque a mulher tinha diminuído demais a velocidade. Gisela prometeu arranjar alguém para buscar o veículo. Ligou para o motorista de Ismael, que trabalhava com transporte entre as casas noturnas. Seu Oliveira conhecia o endereço e ficou de arrumar alguém para ir com ele até o local. Devia levar a Pajero para a casa de Ismael. — Eu tive um sonho estranho, Gisela. — disse repentinamente Ismael, cortando a conversa da moça. Surpresa pela ruptura do mutismo, desligou rapidamente para acompanhar o namorado. —Estranho? Estranho como? —Muito estranho. —Tipo, uma luz, um túnel? Viagens após a morte? — perguntou, com um sorriso brincalhão nos lábios. —Não. Sonhei com uma casa. Gisela ficou quieta. Não sabia que o namorado sonhava. Desde quando? Também, depois de milênios, finalmente tinha dormido mais que uma hora inteira seguida; era natural sonhar. —Foi o sonho mais estranho que já tive. —Você vai me desculpar, mas qualquer sonho para você vai parecer estranho, Ma. Você nunca dorme, então nunca sonha. Quando sonha é estranho. É que nem quem não fuma, quando vai fumar um cigarro, de embalo, acha estranho. —Pára de graça, Gisela. — reclamou o homem, voltando a se calar, o olhar perdido para fora e as luzes da cidade refletindo em seu rosto.

Umas molduras velhas na parede. Ter mais. ser o melhor. quieto por um minuto. Um suquinho de maracujá.. Tomar um chazinho de camomila. —Você está indo bem. Uma casa amarela. Gisela. O sol cortando entre os ramos de árvores cheias de folhas verdejantes.. Ser rico.. Quero um pouco de alívio na minha vida. Gisela não viu. Sentiu pena dele. agora quer começar tudo de novo. Ela olhou para o homem sentado no banco ao lado... Sabia que seria . —Se você não quer ir. Um alívio que persigo há anos. Eu tô legal. recortes de jornal. Ismael fechou os olhos e cerrou os punhos. Ismael estava mostrando um lado sensível.. —Era uma casa simples.. Preciso ver o que está acontecendo. O porquê de eu trabalhar tanto? Sabe por que dou esse ralo danado? Você não sabe. Estava visivelmente emocionado. Calmo. Vou te botar na cama. com fotografias. —Antes de ir para casa quero dar uma passada na Nest. Gisela. que rapidamente enxugou-a. O que foi estranho? Ismael pareceu afundar no banco de passageiros. Encontrar paz. Isso não é justo. Se quiser. —É por isso que eu dou um ralo danado. —Para encontrar paz. me chamaram para dentro. — Ismael parou quando os pêlos dos braços arrepiaram-se.. Isso não é recompensa. Ismael continuou: —Sonhei que eu estava numa casa. quase paro na U. diferente. Uma fila. Tem que reservar um tempo do dia para ficar relaxado. tanta paz que eu nem sei explicar. mas até agora parece um sonho normal. Fiquei numa sala cheia de ladrilhos.T. Um ser humano. Inspirou fundo. como se escondesse um segredo. —Para vencer. E ao invés de encontrar paz. E chega de sermão por hoje que eu já tô de saco cheio de nego buzinando no meu ouvido. Vamos para casa. relaxando.. Para ocupar a cabeça e ficar em paz. Não quero nada estragando o nome da casa. senti tanta paz. —O bom e velho Ismael ressurgindo das cinzas. Paz que eu nunca tive. Um segundo atrás estava se abrindo. Desce e pega um táxi. Mas parece que nunca é o bastante. afinal. Diminui um pouco. Então.I. A luz refletindo na pintura viva da casa. Tanta gente querendo entrar. Encontrar alívio. Tão real que me assusta. Um pouco de paz. Não ouviu o que o médico disse? Slow down. — Estranho. É por isso que eu ralo tanto. Depois de um breve silêncio.. acho que é um sobrado. Você tem que relaxar um pouco. ótimo.. Não vai ser um mal-estar à-toa que vai me tirar do controle das coisas. Um jardim na frente.. Gisela não protestou mais. Descolar um hobby. —O negócio é ter muita calma nessa hora.—Conta pra mim o seu sonho. Fechou os olhos e reviu a casa. —Quando eu me sentei na sala daquela casa. cala a boca e conduz para a Nest. Eu só me fodo. —Cê não tá falando sério! Quer ir mesmo na Nest? Eu não acredito. cara! Você está saindo do hospital agora! Quer fazer o que na Nest? —É a minha nova casa. mas uma lágrima desprendia-se do olho direito do namorado. Inaugurada ontem. —Ismael?! Fala sério. Eu nunca tinha visto aquela casa.

Sucesso e trabalho: Ismael adorava aquilo. A casa tinha acabado de abrir as portas. sabia o que eles não queriam. Sabia exatamente o que o cliente queria numa casa noturna e. A repercussão da inauguração tinha sido boa. e uma multidão se amontoava para entrar. Seria mais fácil fazer um camelo passar num buraco de agulha do que Ismael dar o braço a torcer.impossível demovê-lo. . Ismael tinha nascido para aquilo. sobretudo. Vinte minutos depois entravam na Nest.

A data de nascimento acima da data da morte revelava a vida breve da criança doente. Capaz de vomitar ali na frente. que só tinha olhos para o próprio umbigo e para a reputação imbecil que prezava tanto. atrapalhada. tomando fôlego. Recostou-se no carro. Já chorava. Meninas. Hélio suspirou. Postou-se em frente ao túmulo da filha. Caiu de joelhos no caminho estreito e asfaltado. Desembrulhou o segundo presente de aniversário. Lembrava-se do caminho. permitindo que o esforçado leitor não tardasse em . O papai comprou uma blusinha da cor que você mais gosta. Os olhos fechavam e abriam. O sol forte e a bebida faziam-no transpirar. de "melhor da rua". Hélio soluçava.. Fotografias nas lápides. com um papai presente. Encostou a testa na laje azulejada. Minutos de silêncio. meninas. A gente morta. Fazer tudo diferente. o homem esquecia que era indiferente preocupar-se com que o som chegasse em bom volume ao fundo da cova. Preferia então cruzá-lo bêbado. Como queria ser dono de um botão "volta e apaga"! Refazer tudo. Botou-se de joelhos novamente. As flores viçosas e a vela acesa acusavam a presença anterior de Vilma. meninos. O livrinho do bravo príncipe que salva a princesinha das garras da bruxa malvada. Rasgou o primeiro pacote e dele retirou uma caixa de papelão. sofrido. embalando o sono eterno dos sepultos. Pigarreou para melhorar a voz e começou a leitura com uma inflexão pastosa. O setor das crianças. —Feliz aniversário. O livrinho que aparecia no diário de Mariana. para as lápides. Olhou para as cruzes. O livrinho que a menina esperara a vida toda que o pai apanhasse na loja e cuja história o pai lesse para ela. Suor frio na testa. Na sua irracionalidade catapultada pela bebida e na emoção. pouco texto. A criança que morrera esperando por um sorriso daquele homem duro e insensível. O cemitério triste. Mariana. mirou o trajeto e afastou-se do carro. Estava tonto com o desequilíbrio proporcionado pelo efeito da bebida. Mato crescendo entre os jazigos. Não dizia nada. O homem bêbado precisou se concentrar para ver direito as letras. Dar uma chance para menina viver aquela fatia rala e insossa de vida de forma um pouco mais alegre. Aos poucos o choro parou.. O barulho do vento cortando o campo santo. mantendo a coluna flexionada para que a cabeça chegasse perto da portinhola do jazigo. Da criança triste e fraca. Hélio mostrou ao túmulo os embrulhos. — disse o homem. Não podia esquecer. Era um livro infantil. esfregou-o na testa. Infelizmente num ritmo muito mais lento do que o esperado pelo desesperado alcoólatra. Bebês. Não importava se bebia ou não. de capa dura e desenhos fartos. O nome de Mariana em letras negras estampadas no túmulo. A criança que nunca tivera um pai. Apertou os olhos. comprara o mesmo livro. Ergueu os olhos para os portões largos. O álcool estava acabando com sua saúde. Como fizera nos três últimos anos. mais valente. Tirou um lenço do paletó. mesmo assim continuou firme. Encarou demoradamente os dois volumes embrulhados para presente. Dez quadras para baixo no corredor quatorze. Cheio de velas e caixões. O som das árvores farfalhando. Era triste a visão do cemitério.Capítulo 12 Hélio retirou dois pacotes do banco do passageiro. Hélio estendeu o braço pela portinhola do jazigo e depositou o presente em cima do sepulcro cimentado. Sentou e recostou-se no túmulo. uma blusinha cor-de-rosa. O choro saía franco. O estômago indócil revirava. sempre que chegava ali no portão sentia-se mal. A reputação de "bonzão". Mariana. Mariana. de outra forma poderia até desistir antes de chegar à primeira fila. De dentro da caixa.

recolheu a mão e encostou a testa no azulejo marrom. — Sai da escuridão e vamos embora daqui. Contudo. Já limpei o caminho até nosso ensolarado castelo onde te espera o amor e a compreensão. princesinha. e quando o efeito do álcool começava a desvanecer e a emoção abrandar.. A chuva estava chegando. Hélio conhecia de cor o trecho tantas vezes lera o livro nas visitas incertas e nas noites insones no apartamento. Raios riscaram a paisagem. Um trovão roncou demorado. o homem desistia da leitura. dono de um coração machucado. . Hélio calou-se. quando o sol descia no horizonte e o céu começava a banhar-se do negrume da noite. e o homem permaneceu no cemitério até a hora do fechamento dos portões. O pranto voltou. Inconsciente.. nunca seu pedido era atendido. lacrada no fundo do calabouço.. depois de suas espirituosas andanças em busca da amada. quando o príncipe valente. vítima de uma mente estragada e traiçoeira que lhe botara traves nos olhos. Hélio era um homem infeliz. flexionava-se ainda mais e estendia a mão para dentro do jazigo. Não tenhas medo. como se o pranto e o arrependimento lhe atribuíssem poderes mágicos. vem. princesinha! — bradava o pai. impe-dindo-o de enxergar e aproveitar o tesouro mais lindo que a vida pode dar a um homem.alcançar o ponto alto da narrativa. dando voz ao cavaleiro da história. fora de seu alcance. pois eu já matei o dragão e venci a malvada bruxa. o amor incondicional que uma filha dá a um pai. princesinha! Deixa essa cela escura e me dá a mão. capazes de fazer com que sua princesinha realmente o escutasse e que finalmente seu pedido fosse atendido e um dia pudesse arrancá-la daquela clausura e chegar em casa com Mariana. fazendo as vezes do príncipe valente e bradando para que a princesinha acordasse do sono enfeitiçado e se pusesse de pé para ir embora para casa.. sem jamais voltar a ler o desfecho feliz que era legado exclusivo do livrinho infantil. —. devolvendo a filha para Vilma e para o convívio familiar. tomado pela emoção do texto. — declamava repetidamente o homem. vencia a bruxa e encontrava a princesa adormecida. Vem.

A seringa foi ao chão. por pequenas sobras de tintas. que não aceita falha". Não podia chamar ninguém. Fugir daquele para um outro plano. Desapontada com a vida. Facilmente confundida com um moleque. Uma cama de madeira rústica coberta por um lençol encardido no canto do quarto apertado. Deprimida. O que era aquilo escapando da agulha? Sangue? Não parecia. O ar escapou dos pulmões. sentia-se bem. Só a garganta seca e o corpo conspirando. Afundou a cabeça no colchão. Um tapete circular cafona resumia todo o esforço decorativo do ninho de amor. Tirou a correia do baixo do pescoço e depôs o instrumento sobre o chão de tacos. Dor. Leon sentou-se na cama. Voltar para a realidade. Leon buscou a seringa com os olhos. Voltar. Célia que se danasse! Era uma outra! Leon não tinha mais vontade de se preocupar nem consigo própria. Parar de rir. Voltar sem sapatinho de cristal perdido. O braço pendeu à beira da cama. O esguicho se transformou num jato. Leon voltou a olhar para a seringa. atrás do pezinho encantado. não encontravam muitas mãos para dar uma força. derramando o feitiço perverso. Mas. Calças largas. deixara para trás as frescuras também. Relaxou os músculos. Contos de fadas espalhando-se pelas veias. Roupas rasgadas. tornando o quarto mais apertado. Com os trocados derradeiros entrara sozinha num quarto de motel de quinta categoria e comprara uma dose para uma excursão de primeira classe ao Jardim do Éden. O travesseiro estava sussurrando alguma coisa. Sentiase bem assim. Passou a ouvir sua respiração. Levantou-se assustada e . ou princesa. abraçando os joelhos. Blusas para esconder os seios pequenos. Ela levava ao baile. Vontade de rir. Era todo o mobiliário. Tinha sobrado algum feitiço na varinha mágica. Sem príncipe. Para a vida dura. "Vida dura. Tinha certeza de que ainda tinha sobrado alguma coisa. Homossexuais sozinhas não podiam se dar a muitos luxos para se virar. Porque haveria de se preocupar com a aparência do quarto depois de tomar aquele partido? Não tinha mais que se preocupar com Célia. Prestar atenção na água. Leon estava à vontade. Sem alegria. Riu alto. Aumentando de volume. Poderia injetar mais um pouco. Sonho. Era água. Ficou quieta. Vara de condão penetrante. Leon viu o baixo. Fada madrinha maldita. Final infeliz. que chegava à veia. Tinha que ficar quieta. Sem magia. Ainda tinha líquido escapando pela ponta. Falta de ar. A vida praticamente impunha um estilo "largado" aos que "se viravam". como dizia aquela música. Eles chamariam a polícia. Leon riu. Queria apenas submergir. Estava louca! Era isso! Estava louca! Louquinha. Ficar quieta. Leon relaxou e abriu a mandíbula. soltando a tripa de mico. sem demarcar o traseiro. O travesseiro estava tentando lhe contar um segredo. a bem da verdade ela sempre fora despojada. segurando frouxamente a seringa suja de sangue. O instrumento estava ficando molhado. Procurou a varinha de condão. Devia chamar alguém? Não! Era só sua viagem. Ela estava certa. As drogas faziam isso. Fora dos grupos de amigos verdadeiros. As paredes estavam se movendo. Uma cadeira descascada que. Sentia-se bem naquele ambiente. O chão coberto por água. O chão já estava todo molhado. Gostava de viver aquele estilo "largado". entrecortado. Torpor. dizia que um dia fora azul. mas você tinha que voltar sempre antes da meia-noite. garotas interessadas e simpatizantes. Como aquilo podia estar acontecendo? De onde vinha tanta água? A seringa era tão pequenininha. O corpo e a cabeça pedindo. mas a fada madrinha não permitia que o psicoafastamento fosse duradouro. De rir com Célia. Tinha algo escapando da seringa. Faziam. Pedindo para voltar ao baile da Cinderela. Os olhos fixaram-se na seringa.Capítulo 13 Leon estava decidida a realizar a última viagem. Desde que deixara a casa.

tocando o teto empoeirado. Bolhas de ar escapavam pelas narinas. Acumulando-se no quarto. A cama empurrou-a contra a parede. A água estava tão fria! O eco dos pés afundando na água perpetua-va-se nos ouvidos. Desgraça! A porta não abria! Empregou toda sua força. Estava cansada. Estava presa num cômodo cheio d'água. Barulho de gente correndo sobre água. Inspirou desesperada. Viu uma porta. Sem baleia. Sem força. Notou que a água estava no rés-do-chão. Sempre longe. Quando a cabeça parecia prestes a bater contra o teto. Leon desesperou-se. como se fosse o assoalho liquefeito de um novo cômodo. O corpo subiu flutuando. Ele sempre batia na porta depois do pico. O ar acabou e ela voltou para a superfície. Iam chamá-la de drogada e a colocariam numa clínica para dependentes. Não respira. Leon passou a mão na cabeça tentando ajeitar o cabelo. Ninguém ia acreditar. A luz surgia longínqua. Seus pés ainda podiam tocar o chão. Ergueu os lábios. . Puxou todo o ar que pôde. Mergulhou à procura do baixo. mergulhando. pobre menina. O nível do líquido estava subindo com rapidez. Que fossem à merda. Dar queixa no Procon. Agora não dava mais pé. A água estava a poucos centímetros de preencher o quarto completamente. O baixo escorregou e sumiu. O ar faltando. Os pés tinham feito barulho. Aquilo não ia parar? A água subindo. Os pés ficaram gelados. A luz não ficava perto. Ela tinha tombado e agora flutuava na água. Nadou até a porta. para doentes. Queria escapar dali. Leon parecia ter atravessado o teto. Não abriria. tendo de dar dezenas de braçadas até alcançar a porta. Desespero. Iam culpá-la pela inundação. Quando saísse iria dizer umas boas para o gerente. Deveria abrir a porta? Não. uma surpresa. Quem era aquela mulher na porta? —Leon? Encarou a mulher. Um turbilhão de água surgiu no meio do quarto. la morrer! Mais uma vez olhou para cima. para enxergar melhor. dos olhos. Deveria ter um cano rompido debaixo de seu quarto. Agitava pernas e braços para manter-se a tona. mas mantinha-se agitando pés e braços para não afundar novamente. A luz do teto refletia dentro da água límpida. A sombra de uma senhora na contra-luz. Não havia nada a sua volta. Será que a alcançaria? Nadou em direção ao teto. Talvez não a deixassem ir com as mulheres. Porque não batia antes? A água fria avançando. Somente acima da cabeça uma lâmpada oscilava a potência e soltava estalos elétricos fortuitos. Não podia dizer que era culpa da varinha de condão pontiaguda. fazendo barulho. Engoliu água. Como explicar que o quarto estava cheio d'água? Não poderia. Tentou girar. Mergulhou para alcançar a maçaneta. O filho-da-mãe sempre levantava da sepultura para estragar o seu barato. Onde já se viu? Matar os hóspedes afogados! la reclamar. Leon estava com os olhos esbugalhados. Assim que botou os olhos em cima da folha de madeira. Será que tinha gente no corredor? A polícia! Viriam prendê-la. e a cabeça chegara à superfície. Tentou tirar a água do rosto. A força faltando. Água. Teria de esperar pelos homens. burra! Não tem ar. Colocou-o na cama. ouviu um rangido de borboletas enferrujadas. Não respira. tirando o pouco da franja que lhe caia sobre os olhos. Uma baleia cruzou no alto. Eles chamariam a polícia. Deus do céu! A água já tomava metade do quarto.gritou alguém em seu cérebro aditivado. Afastou-a. Tentava normalizar a respiração. Leon fechou os olhos e apoiou a cabeça no joelho. —Leon. Leon saiu da cama. Podia ser seu pai também. Era a cadeira. Só água. Você precisa desta casa. Como fugiria dali? Não tinha escapatória. Passou a mão na boca.. Tirar ar de onde? Engoliu água. Não devia. Não podia deixá-los saber que era uma entendida. Leon parou. Olhos arregalados. Parecia ter saído em outro lugar. Leon queria gritar. Teve que nadar. A cama balançou. Uma outra dimensão. A cadeira bateu no ombro. Pouco ar. Bateu a cabeça no teto. Uma luz azulada. Nada. Estava trancada! Olhou para cima. Abriu-os novamente quando ouviu um baque. eclipsando a luz com o corpo gigante. Leon esfregou o rosto..pegou o instrumento. enchendo os pulmões de oxigênio. Alguém na porta? Não. Mulheres e crianças primeiro! . A porta não abriu. Leon. Nadou na direção da luz.

O vento frio empurrou a blusa de Leon para trás. A altura perfeita. Leon? Não se esqueça. falidos. Só podia ser suor. . Leon apertou o passo. Já podia ver a ponte. Um muro de pedras naturais de cada lado. —Ei. um som agudo criado pelo ar cortando nos metais dos brincos. A touca estava encharcada. ainda. Segurando-se com uma mão só. você precisa vir até a casa. Um homem de sobretudo aproximava-se. Alongou o pescoço. A seringa morta no meio do quarto seco. O baixo nas costas. O cenário perfeito. Pendeu o corpo para frente. Apesar do vento frio e da temperatura amena. Não ia ficar mais ali esperando que alguém surgisse com caridade. transpirava bastante. Garoa fina no topo da cabeça. Suor. Asfalto molhado. virando a cabeça pra cá e pra lá. como se a mãe natureza gentilmente pedisse mais um momento de reflexão. num pulo de cima da ponte? Dezenas. Então seria assim? Lá no fundo do penhasco. Sem intrometidos. O baixo aos seus pés. Nunca se imaginara acabando ali. Abriu os olhos. Passou a mão no cabelo. Estava sentada na cama. As ruas convenientemente desertas. —Você entendeu. Leon pôs a mão sobre o peito. traídos. cara! Espera aí! Leon estremeceu de susto. Leon irritou-se. Leon sentiu-se sugada por um rodamoinho. Apanhou a touca de lã e colocou sobre a cabeça. —Casa? De que casa a senhora está falando? A porta se fechou. preso pela correia que passava pelo peito. Não tinha morrido. massageando-os. Na Garganta dos Perdidos. antecipando o suicídio. tá bom? Para o bem de todos. * * * * * Leon andava rápido. talhados pelo rio que corria quarenta metros abaixo. não pegaria um táxi. Tinha vestido uma blusa larga. filha. Faltava pouco. Foi tragada para o fundo d'água. Tinha andado cerca de uma hora e meia. A queda perfeita.A garota engoliu seco. cara. O coração disparado. Virou com os olhos arregalados. Os fios ensopados. Basta de choro. Tinha que parar com aquilo.. Sem testemunhas. O vento assoviava nas orelhas. Talvez se enquadrasse no quesito "traídos". Leon subiu na murada. Bêbados. Leon sentiu a pele arrepiar. Posso conversar com você? —Cê é retardado? Quase me mata de susto! O homem sorriu. Molhados. Havia muito tinha parado de chorar. Não queria mais ser rejeitada por ninguém. Era um dos limites da cidade. Não queria mais ser discriminada por ninguém. Basta. Pôs o indicador e o polegar sobre os olhos. —Espera aí. Estava vendo coisas demais. Quantas histórias tinha ouvido a respeito de vidas que acabavam ali. Estava na passarela de pedestres da ponte que cruzava o rio. Era hora de dar cabo dos problemas. Sem grana no bolso. demarcado por um abismo. terminando por apertar a base do nariz. acordando num grito.. Quase se largou sem querer. Nuvens de vapor escapavam da boca.

Ao menos. não vou me intrometer na sua decisão. Um cara diferente. No meio. O moço. Um chato na passarela. —Sou uma garota. Parecia um fantasma. Umbral? O homem aproximou-se. Manda ver. Leon pendeu o corpo. —Todo mundo merece uma segunda chance. A garota ainda correu até o fim da ponte. A chance de fazer certo. Leon olhou para a queda escura. manda ver. Teria uma passagem mais tranquila. Só queria te dar uma segunda chance. A garota soltou a mão. soltou a mão.—Você vai se matar mesmo. Bateu os pés na passarela de concreto. Não é isso que te incomoda? Se tivesse essa segunda chance você pularia da ponte? . Mas tinha um sorriso cativante. —Se você tivesse chegado em silêncio já teria a resposta. Sem nome de ninguém. Ouvia um murmúrio perdido na escuridão. Focou o cartão. Talvez um resto de droga ainda brincasse nas artérias. Pendeu o corpo para frente. Leon o apanhou. eu disse casa. fez uma pausa. seria assassinato. na inocência. A gente muda muito quando passa por aquela casa.. — Você é um cara esquisito. Ele realmente tinha dito a palavra "casa"?! —Olha. Leon notou que ele era bem pálido. Era só pular. É uma garota. Chocado o suficiente? Se me dá licença. Nem podia ver o rio. lia-se: O alívio para o coração atormentado está aqui.. na camaradagem. Alívio? Leon ergueu os olhos. Leon. Dono de um rosto muito pálido. —Na verdade.inquiriu o intruso. Uma garota que gosta de garotas. Sexo. —Você está decidido mesmo? — quis saber o intruso. — Desculpe. Uma única frase centralizada. Assim. estendendo-lhe o papel. Uma garota que se droga o tempo todo. não iria para o umbral. tá.. Posso te chamar de Leon? Ela segurou-se na pilastra de metal e olhou para o intrometido. enfiando a mão no sobretudo e sacando um cartão. Mas aí me pediram para visitar a casa. Zonza. Caiu. Leon. o fantasma tinha desaparecido. Teve que concentrar-se para ler. Mas todo mundo merece uma segunda vez. sabia? Leon arrepiou-se toda. —Leonora? Uma menina que gosta de meninas. —Eu já estive em cima desse muro. drogas e rock-'n'. Eu não tinha percebido. Para ter minha segunda chance. tenho um táxi para pegar.roll. se quer ir em frente. Mas ele tinha dito "casa". O homem tinha ido embora mesmo. A mulher em sua viagem . Tentar arrumar. A iluminação pública era precária. —Qual a sua graça? —Leonora. — balbuciou a garota. — o homem olhou para Leon.. daqueles que convidam para uma cerveja e você aceita sem pensar. —Você disse "casa"? —É. — respondeu ele. O vento empurrando sua blusa. em letras finas e pretas.

—Como você se chama? —Pode me chamar de Leon.tinha dito "casa" também. E o senhor? Como é seu nome? —Pedro. Tiro tanta coisa esquisita da água! A Kombi voltou a rodar. Sabia que o vento estava montando um quebra-cabeça. Olhou para o impresso. invadida por uma sensação estranha. Seria aquilo o que diziam ser "esperança"? Um senhor negro e barbudo colocou a cabeça pra fora do veículo. Leon abriu um sorriso agradecido e tornou a olhar para o cartão. Deixou o vento empurrá-la para dentro do veículo. Nem iria perguntar para onde o velho ia. . Uma Kombi cruzando a ponte estacionou ao seu lado. "Alívio para o coração atormentado". —Que cheiro é esse. Iria encontrar a bendita casa. e aquela Kombi era mais uma peça compondo o cenário. Um endereço. rapaz? Quer uma carona? Leon sorriu. Pedro? —É peixe. Sou pescador. menino. Leon estava trêmula. É peixe. —Tá perdido.

no meio do furacão. Gisela já tinha saído e provavelmente se valido de um táxi. Oliveira. Fala demais. No rodapé o endereço. Tô achando que esse homem é doutor. Disse que era muito importante que o senhor fosse nessa casa. Colocou uma roupa e apanhou a chave do Astra. Não era. Preferia mil vezes se recuperar do susto lá. se dera ao luxo de ficar até as oito da manhã na cama. patrão. Porque você não me chamou? —Quis te acordar não. Ismael continuou silencioso. patrão. . Supervisionara o funcionamento do segundo dia da Nest.. O que guardou o carro. Achava graça nas coisas que o patrão dizia. Isso ele parecia ter adivinhado. fazendo a casa funcionar como um relógio suíço. Abriu a porta de acesso à garagem. Tirou um pequeno cartão do bolso da camisa e estendeu ao patrão ao mesmo tempo em que saía com o carro.. Simples e misterioso. ele me estendeu esse cartão. —O.Capítulo 14 Ismael tinha chegado às duas da manhã a casa. Por isso. Oliveira? —Foi o homem que te socorreu ontem. viu a Pajero estacionada. O alívio para o coração atormentado está aqui. a ficar prostrado numa cama. Uma passagem rápida pela cozinha. Oliveira riu. Era isso mesmo que estava escrito. Que ia fazer bem pro seu coração. Aproximou o cartão dos olhos. A Gisela falou que o senhor precisa descansar. um par de torradas e um copo de suco de maracujá. Oliveira tinha dito "casa". "O alívio para o coração atormentado". Mais nada. Passou o cinto de segurança e deu partida no motor. Também se sentia cansado. —Mulher fala demais. Acho que o homem é doutor. Toca para o escritório central. Que casa? Seria a casa que vira no sonho a caminho do hospital? A casa com ladrilhos na sala e jardim na frente? Ismael bufou. Só deixou a casa noturna quando não aguentava mais os protestos de Gisela. O motorista contornou a pick-up e tomou o assento do condutor. Surpreso. —O moço que te acudiu ontem me pediu pra entregar. —Quem te deu isso. Nome de ninguém. Oliveira riu. Ia deitá-lo no console do veículo quando bateu os olhos naquela linha. recostado no veículo. Quando eu fui lá buscar o carro ontem de noite. Como o homem que o socorrera poderia saber do sonho que tivera? Impossível. Mas o corpo de fato pedia um pouco de repouso. Ismael pegou o pedaço de papel desinteressado a princípio. —Tá me cheirando mais a pai-de-santo. patrão. Estava ficando louco. Adivinhado que precisava de alívio para o coração. —Como é? Ele falou que era importante eu ir lá?! —É. Mas aquela frase. Oliveira. Parecia que tinha deixado uma coisa passar despercebida. —Então não vamos perder tempo. Um cartão simples. com o seu Oliveira em pé. Até que um arrepio repentino cruzou seu corpo. Não aguentou muito mais que isso. Estava precisando mesmo de umas férias. Não podia ser.

Tinha que aproveitar. Aquela sensação de alívio. Estendeu a chave do carro para um desconhecido. Passou o dia olhando pela janela.. Gisela.. o barman desaparecido. . Gisela estranhara. Eu tava no meio da rua. Ninguém disse nada. — Ismael ficou arrepiado. Não pensar em trabalho. prometendo chuva. Em seguida. Quando chegava o final do expediente. Dar risadas. O estômago doendo de um jeito que nunca vi. Começaram a jogar um pouco de conversa fora. Cê disse que sonhou com uma casa. —Acho que eu nem sabia o que estava acontecendo. Ismael fez uma pausa.* * * * * Ismael teve um dia atípico. Aliás. Estava furioso. Colocou as mãos na frente da boca. Era o Ivan. —O que você está fazendo aqui? Não quero ver mais sua cara. As feições alteradas. Quanto tempo não fazia aquilo? Olhar para o dia. Gisela até que estava gostando da calma do namorado. aconteceu um lance chato. Desviaram o olhar para ver quem entrava.. Pensei que fosse uma úlcera. —Pô. pedi que me levasse para o hospital. —Que louco. né? A gente nem pensa nas coisas nessas horas. tem que ser muito materialista para se preocupar com carro numa hora dessas! Só pensava em conseguir alguém pra me ajudar. —Você ficou com medo? — perguntou a mulher. eu nem pensava. deixa disso. Contar piadas. abandonando inesperadamente o humor relaxado. Os carros parando. Eu estava lá. indo para um assunto um pouco mais sério. O boy estranhara. Estendi a chave da Pajero. a visão voltou. Um bolo no estômago. Na maior parte do tempo permaneceu calado no escritório. É bem diferente de sonho. Ismael. Para as pessoas. Ismael levantou-se. Tinha até esquecido essa parada. Eu estava com aquelas pessoas. —É mesmo. Lembro que parei o carro. Tudo ficou negro. Vai ver que ele estava precisando daquele susto. Bater papo. Ismael. Some da minha frente. Pô. retirando-o do bolso. Para a cidade. Uma senhora. Nem sei dizer. O movimento da avenida. Lembro que me deu um calor súbito. O namorado gozava de um espantoso bom humor. —Pô. Só assim para vê-lo quieto. Lembrou-se do cartão. —Sonho?. De morrer. A secretária estranhara. As nuvens fechando o céu. — respondeu Ismael ríspido. Parecia que eu estava era lá. Gisela entrou na sala. Fui forçado. la voltar a falar quando foram interrompidos por um toque-toque na porta. Quando alcancei um cara na calçada. —Fala. —Do quê? —Ontem. Nunca deimancada com cliente. foi mal. tudo ficou escuro de novo e só me lembro da casa.. Daí. —Cê pensou que ia morrer? Ele estava com o cartão nas mãos. Um sossega-leão. A calma e a serenidade singular tinham se diluído e se tornado outra coisa.

voltando à poltrona de couro. Fama faz isso com as pessoas.. Não tô aqui para ouvir desculpa esfarrapada de moleque nenhum. —Calma. . Olhava para o carpete caro em que pisava todos os dias. Fiquei passado. Gisela foi fuzilada com um olhar penetrante. aproximando-se de Ismael. Gisela olhava alternadamente para os dois.. Apanhou o envelope e abriu. — Meu pai. Some daqui. cara. porra. Ismael murmurou: —Você podia ter ligado. Meu velho. perder o pai é foda. Tu não passa de um moleque. Já pediu. —Calma. Nem gostava daquela cor. —É o adiantamento que eu tinha feito. Não estava gostando daquilo. —Esfarrapada? Pô. Porra. Cê já me viu trabalhando. Ficaram os três em silêncio por mais de um minuto. moleque. Ismael estava com os olhos vermelhos e tinha perdido a argumentação. —Você ficou tão quieto. Depois de um breve silêncio que tomou a sala. cara. porra. Não ia aparecer na Nest com cara de choro. Não sou moleque coisa nenhuma. — balbuciou Ivan com os olhos baços. vira as costas e some daqui. com à voz sumida. Ismael. some.. cara. Ismael. Ismael ainda encarava Gisela quando Ivan desabafou. A namorada percebeu seus olhos mudarem.. já falou. velho. Calma. Não vou repetir. Dinheiro. —O que é isso? — perguntou a namorada. não estaria aqui para pedir desculpas. Já falei. caralho! — gritou. Você não pode ficar nervoso. cê nem me ouviu.. Tinha medo daqueles olhos verdes. Não te contrato mais. com a mão sustentando os olhos. O namorado não podia passar nervoso. —Não ouvi nem quero ouvir! Já falei. cara. Sou um cara alegre. Isso não se faz. Ivan tirou um embrulho branco do bolso e colocou na mesa do empresário. Ismael acabaria tendo outro ataque. Me desculpa. Um braço cruzado sobre o abdome e o outro dobrado. Ivan tinha abaixado a cabeça. Ivan. Ismael ficou parado em silêncio. Depois a gente conversa. Meu pai. —Não vim porque meu pai morreu. Nem consegui ligar pra ninguém. Se fosse moleque. realmente saindo do sério. —O que não se faz é sumir em dia de inauguração. Vai embora. Gisela andou até a janela. Achei que você fosse profissional. Se veio pedir desculpas. Some. entende? Enterrei meu pai bem no dia. Não tava em clima de festa.Gisela ficou tensa. —Eu não tava com cabeça.. —Lance chato? Lance chato foi eu ter de arrumar um barman de última hora. Ele olhou para Ivan sem palavras. O médico tinha dito. —Vai embora. O rapaz tinha lágrimas. mas eu não estava nem falando direito no dia.. — disse Ismael. Fui na Nest hoje e nem me deixaram passar na porta. Deu as costas e saiu sem se despedir..

Que era patético. Nunca podiam viajar como os amigos da rua. —Acordo todos os dias com essa dor. Ele estava precisando de um abraço. — fez uma pausa. Precisando desabafar. Uma segunda chance. O sol ia indo embora. Hoje Ismael sonhava em poder voltar no tempo e sofrer um ataque de mutismo naquele instante. —É por Ismael assentiu. — O cara perdeu o pai. O pai sempre queria interferir em seus projetos. Cheia de adiamentos.—Queria que eu dissesse o quê. era um derrotado nato. em nossa última briga. mas que jamais conseguiria aquelas coisas. Até com meu pai. Sempre ia contra suas idéias. Quer conversar? Ismael enxugou rapidamente uma lágrima que brotava. Que iria ser um rei. Verdade é veneno nessas horas. Isso passa. causa do pai do Ivan? Gisela ficou calada em frente à janela. Era sempre o mesmo trabalho. que levaria a mãe para conhecer Paris. Daria tudo para uma oportunidade dessas. Essa dor sem fim. Ismael fechou os olhos e se transportou para a antiga garagem do pai. Precisava de amparo. Havia apresentado um monólogo. Ismael ignorou o comentário e reclinou a confortável cadeira presidencial. Fora ali a última briga. Vivia servindo aos outros. Gisela olhou condoída para o namorado. Uma chance de ficar quieto. um conformado. Se era tão bom para discordar de seus planos. Todo santo dia. Ismael. perdendo o controle sobre as lágrimas. —Tudo por culpa dessa minha ambição. Dissera que o pai lhe dava vergonha porque não conseguia sucesso. Essa angústia. boca cerrada. pois dizia que queria um carro do ano. —Eu também perdi meu pai. O mesmo salário suado. respirando fundo. Gisela correu para o namorado. Dissera que nem que precisasse trabalhar dia e noite sem parar nunca ia levar uma vida medíocre como aquela. O pai estava calado. Mostrar para alguém que não era de ferro. Ismael notou que não havia tido uma discussão. E Ismael começara a reclamar da vida que levavam naquela casa. Estava estressado. Muitos problemas de uma vez. —Todos nós perdemos um dia. Dessa minha boca grande.. Não dava para vir mesmo. Basta eu parar um pouco para descansar. As primeiras gotas de chuva chegavam com a noite. Gisela? O cara perdeu o pai. isso quando tinha um. — Ele coçou a sobrancelha. Era um fracassado. Vivia remendando aquela lata de lixo ambulante. Um homem de sucesso. olhos marejados. O Ivan logo vai estar legal. Nunca . porque não moravam numa mansão luxuosa de quatro quartos e piscina para que ele não se preocupasse com aquelas coisas? Jogara na cara do pai. de seus projetos empreendedores. Sempre fui assim. Com essa perda. Batia boca com o pai por tudo. Sempre queria ter razão. —Ele podia ter ligado. Não fazia coisas diferentes. — lamentou. Nunca consegui ficar quieto numa discussão. que esse sentimento toma conta de mim. Voltar no tempo e não dar um pio quando o pai abrisse a boca para criticar sua nova tentativa de empreendimento. Nunca o tinha ouvido falar naquele tom. Gisela sentou-se a sua frente ela notou que ele estava triste. Ao terminar o discurso. Nunca sobrava dinheiro para roupas novas. Cheia de privações. —Você ficou bem balançado. Cobrava do pai uma melhora de vida.. Ismael tinha dezoito anos. andando pra cima e pra baixo em Corcel e Fusca velho. —Pra mim nunca passou. riscando a janela ampla do escritório. Viu o velho Elias mexendo no carro.

mas os olhos deixavam claro que não ignorara. deixando para trás um filho que viveria atormentado por causa de uma briga. Levantou-se repentinamente. Via o caixão descendo à sepultura. O pai nunca mais o criticara. A chuva caindo nervosa. Colocou os cotovelos no tampo da mesa de trabalho e segurou a cabeça. Emudecera. "Alívio". atravessando a elegante recepção e chamando o elevador. escutara cada dardo certeiro. —Aonde você vai? —Vou limpar meu coração. Simplesmente emudecera diante do ataque do filho ingrato. Gisela alcançou o namorado quando a luz e a campainha avisavam que o elevador acabava de chegar. companheira. Desculpas que nunca foram aceitas. beijando os cabelos daquele lutador. A namorada vendo o cartão de visita em sua mão. Olhou para a janela. O pai não dissera uma palavra. Gisela. Os olhar ficou perdido no tampo. —Onde? — Se quiser saber. buscando se controlar. pois quisera o destino que no dia seguinte o maldito carro velho perdesse o controle e se arrebentasse na lateral de um ônibus. Tinha acertado o coração do homem que lhe dera a vida. O pai nunca mais voltara para casa. Ismael disparou pela porta. Um filho que nunca pudera pedir desculpas olhando nos olhos do pai e dizendo que. Ela também chorava. Só voltou ao mundo dos vivos quando os olhos percorreram aquela palavra. Olhos vivos. Nunca o vira chorar. levando o velho Elias para o descanso eterno. Ismael olhou para o cartão. Nunca dera uma chance para que o menino petulante. num cruzamento da vida. lhe pedisse perdão. Gisela tinha nos braços um homem forte soluçando como um bebê. de uma língua selvagem. .vira o pai tão calado. vem comigo. Aquele filho já estava com vontade de pedir desculpas. O pai nunca mais o escutara. Ismael libertou-se dos braços da mulher. contando sobre os fantasmas do passado. o amava verdadeiramente. Estava abstraído. porém sensível. comovida. disperso. apesar da vida dura que levavam. Ouvira cada lança cortante.

Por sorte. mas que certamente contribuiriam para o desenlace. Dar fim à tormenta. Apanhou a coleção de frascos de pílulas e carregou até a mesinha. Ouviu um barulho no corredor. Estava cansada. Estava sem dormir há dias. considerando sua intenção. antes da partida. ou azar. Ela sorriu para si mesma no espelho.. pombas! Ainda mais agora. Teria sim. Tomaria os comprimidos com água e em seguida entornaria duas garrafas miniaturizadas de uísque. Parecia até mais aliviada na certeza de encontrar paz para os pensamentos. Certamente o limbo não deveria ser pior que o inferno. Conseguiriam se virar. Retirou todos e colocou-os dentro de um copo de vidro. Teria sua vingança. e a visão mostrava com clareza um local de paz. Se vingar de sua culpa por ele não ter convivido com as meninas na última semana de vida. Não era isso. Havia tomado uma decisão. Olheiras profundas. Eram mulheres. A mulher ligou o secador de cabelos. Quando terminou. Medo. Rosana respirava fundo. Fez uma pausa com a mão na boca. rosadas e oblongas. Secou o rosto diante do espelho embaçado pelo vapor. O que a incomodava era aquela história de que os suicidas iam para um lugar diferente. O suficiente.Capítulo 15 Rosana saiu do banho prolongado. quando o efeito passava. Voltou para a poltrona e completou o segundo copo com comprimidos. Tinha tido uma visão. O que ainda a segurava era uma dúvida martelando na cabeça. Barulho no corredor. olhos vermelhos e marcados por olheiras cansadas. Provavelmente outra briga das meninas. Drogas inúteis. Rosana fungou e olhou para a porta. Outro para encher de água. Drogas para acalmar a mente. Só podia ser isso. Estavam discutindo de novo. Saiu do banheiro e sentou-se na poltrona ao lado da cama. Tinha tomado uma decisão. Era melhor trancá-la. Não eram as meninas. O primeiro copo era o mais eficaz. levado a cabo mesmo quando não precisava mais. Precisava de mais um. Como faria para virar tudo aquilo goela abaixo? Água. Que a livraria da perseguição incansável do espírito atormentado de Celso. Rosana inclinou-se sobre uma mesinha de frente para a poltrona. Precisavam crescer. no mármore da pia do banheiro encontrou dois copos. Parar com essas coisas de crianças. Elas poderiam entrar durante a execução do plano ou encontrá-la antes do desenlace. pois. A mulher parecia fora de si. Teriam que crescer na marra. Não poderia correr tal risco. O segundo era miscelânea de coisas mais fracas. A maior tinha dezoito anos e conseguiria organizar as duas menores. Se vingar de sua traição. Abriu os frascos e terminou de encher o copo. Rosana passou para a carteia seguinte. Olhar perdido. Estava farta deles. . Sem dúvida seria o suficiente. Iam para uma espécie de limbo. Mãos trêmulas. Como queria que seu único problema fosse essa guerrinha permanente das filhas! Seria tão fácil colocá-las em ordem! Rosana olhou para os copos.. traçado um plano que a livraria daquelas drogas. Ele estava querendo se vingar. Logo os fios secos começaram a esvoaçar. recheado de bolinhas brancas e pequenas. Vozes das meninas. os fantasmas voltavam ainda mais fortes e ferinos. Um para encher de comprimidos. Apanhou uma carteia de comprimidos arranjados pelo doutor Samuel. o copo estava na metade. Não precisaria mais se preocupar com o sofrimento das memórias. Estava achando graça no asseio a que se acostumara. Estava carregado de um coquetel de antidepressivos e calmantes poderosos. enchendo o recinto com o som característico do aparelho. Mortiço. Levantou-se e foi ao criado-mudo.

O que você quer? —Quero que venha aqui na sala. abrindo o mínimo possível a porta do quarto. —Vocês estão brigando de novo? Vocês não dão um tempo? —Vem. O que a filha queria? Na sala. Acompanhou a filha pelo corredor. a filha mais nova. tentando adivinhar o que a mãe pensava. Levou as mãos aos olhos cheios de lágrimas. A hora tinha chegado. Que coincidência terrível! Escolher morrer no dia em que se nasceu! Rosana sentou-se no braço do sofá tentando se conter. A luz foi acesa. Tirou a chave da fechadura e esgueirou-se para o corredor. Rosana trancou o quarto. as filhas não estariam completamente desamparadas. Só um pouquinho. Um amor. poderiam começar um negócio. Tinha investigado a papelada. Passara os últimos dias tão atribulada. mãe. Não conseguiria encher os copos uma segunda vez. Não precisariam se preocupar com isso. a plenos pulmões.. O que queria? Abriu uma brecha e deixou parte do rosto abatido e doente aparecer no corredor. Depois a senhora volta e termina o que estiver fazendo. Era aquele instante ou nunca. a mais velha. Corredor. Talvez até conseguissem o prêmio. Como estavam felizes! Rosana não pôde conter.. Eu vou. Estava muito emocionada. Rosana sentiu-se incapaz de negar um último chamado da filha mais nova. Passou as mãos nos olhos secos. Rosana sentiu o coração disparar mais uma vez. que nem se lembrara que aquele era o dia de seu próprio aniversário. Pelo menos. Estranhou não estar chorando. sala. o seguro de vida da empresa providenciaria auxílio funeral para que as filhas não se aborrecessem com os trâmites. e Rosana viu a saia toda decorada. Na mão de Alessandra. Assim que saiu. A maçaneta girou devagar. Levantou-se. Rosana olhou para a porta. A mais quietinha das três. O inferno é um lugar dentro de sua cabeça. A mulher deslizou a mão pelo roupão até colocar a chave no bolso. Não conseguia se conter nem no trabalho. Precisamos conversar com você. Aline a esperava sorridente. —Tá bom. Aline tinha 14 anos. Talvez não durasse mais um mês na empresa. anjinho. Rosana precisou se apoiar para respirar. A filha estava tão ansiosa que parecia não ter prestado atenção. —Fala. As filhas começaram um parabéns-a-você em conjunto. Era a voz de Aline. Precisamos conversar. Rosana estava . Sua vida era só chorar nos últimos dias. Assim. As mãos pararam de tremer. Sabia que estava chamando a atenção. meu anjo. Um anjinho. O seguro-funeral estava garantido. Tinha alguém ali. —Surpreeesaaaa! — gritaram as três em uníssono. Ainda um bocado mais baixa que a mãe. temendo ser pega antes da ingestão da beberagem fatal. cantando o mais alto que podiam. enquanto Adriana corria para acender as velinhas. O apartamento já estava pago. Estava tudo escuro. mãe. Barulho no corredor. tão perdida. Rosana fechou a porta e colocou o roupão por cima do corpo nu. olhava para cima sorridente. —Mãe! O coração de Rosana disparou. Seria o inferno completo. Preferia aproveitar aquele momento. Me dá um segundo. Tinha filhas tão lindas! Tão adoráveis! Mas não sabiam que ela pretendia morrer.pois esse ela já conhecia. um bolo pequeno.

mas é de coração. sem dar explicações. O peito subia e descia descontrolado. O alívio viria de outro jeito. lavando a cidade lá fora. Não tomaria as drogas. Correu até a mesinha de centro e despejou o conteúdo dos copos dentro do saco. —E a mesada que a senhora libera é muito magrinha. —Pô.. esse foi o maior que conseguimos comprar. mesmo juntando a grana das três. Uma chuva grossa batia nos vidros. O que estava fazendo? O quê? E se amolecesse? Não podia. não contendo a choradeira. correu e trancou-se no quarto. Encos-tou-se contra a parede e deslizou até sentar-se no chão.chorando desbragadamente. — comentou a mais velha.. Rosana cruzou o corredor com uma calça jeans e uma blusa desabotoada. . Não podia! Ergueu os olhos nublados pelo choro e olhou pela janela. — Te disse. Repentinamente. Não pára começar a chorar. Não faria aquilo. — emendou Adriana. desaparecer pela porta da sala. Adri. Pára de chorar. Viram a mãe. Diante do olhar aparvalhado das meninas. mãe. Rosana abraçou a filha. A mãe tá doidinha. — pediu Aline. sem conseguir parar de chorar. Adriana e Aline mostraram a língua para Alessandra. ainda chorando. —O bolo é pequenininho porque a senhora não ensinou nenhuma das filhas a fazer bolo. Rosana apertou as meninas. Correu para o banheiro e tirou o saco de lixo da lixeira. juntando-se ao abraço da mãe e da irmã. — A gente fez isso pára senhora ficar feliz e parar de chorar.

um problema cardíaco incurável. A meio caminho de casa. Qualquer hora dessas faria uma besteira. Mariana sabia disso. Tinha bebido. Vestiu o paletó e deixou a sala de trabalho. Abriu a folha de caderno pautada. não teria encontrado a carta. se afastasse de qualquer prática esportiva por meses. Linhas que tinham acabado com sua vida. A agonia se apoderou de tal forma de sua mente que levantou desesperado da mesa e correu para o carro. Por que não tinham jogado tudo fora? Faria isso. Hélio abaixou a cabeça e abriu o porta-lu-vas. Uma carta-desaba-fo. Um trapo de gente que não conseguia ficar um instante parado. Bastavam dois minutos sem nada pra fazer que as lembranças começavam a brotar. acabaria com o uso da arma. Os médicos tinham sido claros. Não havia como salvar a menina. Se o sofrimento não acabasse com a destruição do quarto. sem nem mesmo pagar a conta. Linhas que tinham tirado seu sossego. atribuía toda a culpa à própria menina e a seu fraco coração. Se tivesse feito na semana em que Mariana falecera. Relâmpagos riscando o negrume celeste. Haveria até períodos de melhora. Seria o fim. Tirou do porta-luvas um papel dobrado em quatro. Um revólver. Mais fortes. Vilma alimentava suas loucuras. escrita em letra delicada e esmerada. Iria para casa acabar com aquilo. ele só via uma saída. Seria sempre uma criança mais fraca que as outras. A tristeza apertando o peito. encostou num dos bares favoritos. se não resolvesse. mas quando assistiu à primeira exibição seu frágil entusiasmo foi extinto para sempre.. Descobriu o objeto metálico. mas aquele inferno era mais forte que ele. Lembrava que antes da alta da maternidade o médico pedira exames. Uma página do diário de Mariana. Certamente não teria botado os olhos nas linhas traçadas pela filha. Letra de criança. Retirou uma peça embrulhada um tecido vermelho aflanelado. Não poderia se esforçar. o desabafo infantil. Gotas grossas de chuva batiam no pára-brisa. mas nunca quando tivesse crises. Faria imediatamente. O céu coberto por nuvens que despejavam água. Um pedaço da vida da filha. quando estava livre para praticar esportes. Precisava de mais. Bastava uma única crise para que a garota fosse para o hospital. Mariana sofria de uma síndrome. Porque tinha entrado naquele maldito quarto? Por quê? A culpa de toda sua agonia era do maldito quarto. Mas era tarde. Todo ano era uma coisa nova que ela e Vilma tramavam.. Deus o livrasse. Depois do cemitério. O dia não fora dos melhores. não terminasse sua agonia. Primeiro. Antes de dar com os olhos no depoimento desesperado. sua lucidez.. Seria a solução definitiva. com o mausoléu doméstico. serviria de estopim para precipitar a falência do músculo que bombeava sangue pelas veias e artérias. Para que ela abandonasse aquelas idéias. Um museu criado por Vilma. A cidade estava escura. Iria pôr um fim no quarto e. Ela não conseguira dar o máximo ou o seu máximo era insuficiente para acompanhar as crianças . Tentara manter a cabeça ocupada. Um relâmpago iluminou o interior do veículo. que seriam uma constante na vida da infante. Bebeu. O consumo alcoólico da tarde tinha perdido o efeito. foi para o escritório. Um esforcinho a mais nessas ocasiões. A libertação da dor. Estacionou em frente ao prédio. empregar algum esforço físico. mas não estava embriagado. Mariana queria ser campeã de natação. Hélio até que esboçara certo interesse a princípio. Até ler aquela folha ele jamais vivera remorso algum. Os olhos vermelhos talvez fossem por causa das lágrimas. Hélio sempre deixou claro à filha sua condição inferior. O ferrão que cravara o veneno em seu corpo. Último lugar. Para quê? Para quê? Sabiam que a menina jamais seria campeã de porcaria nenhuma.Capítulo 16 Hélio chegou ao apartamento após o anoitecer. A enxurrada descia ligeira pela sarjeta. Como um chamado. O que era naquele momento? Um bêbado.. Pareciam mais intensas nos últimos dias.

Dizia que mesmo que juntasse todos os presentes ganhos da mãe. exatamente. morta por garras indefectíveis. sentira um peso saindo das costas quando o fatídico dia chegou. veio a onda de ginástica olímpica. cul-pando-o por sua desgraça. Odiava Vilma e sua filha teimosa. para suprir suas necessidades básicas. Ele não ficara para assistir nem mesmo ao final das competições. Ela. Escrevera ainda ser consciente de que era uma vergonha para o pai. Hélio sempre chorava mais. sempre apertava o papel. e o rostinho de Mariana o ficava encarando. depoimento inocente. Um fantasma que agora sim assombrava seus dias. a favor da filha. Aquela carta o tornava um monstro. Um assassino. Uma decepção. Ele sempre comprava roupas e sapatos. assumia isso. Um monstro maldito. fora incapaz de ser um pai medíocre. Com os que viam seus filhos chegando em primeiro lugar. um peso. Uma criança que pedia desculpas por não poder fazer o pai feliz. Estava então pronto para refazer sua vida. Um tormento. vitoriosos e cheios de sorriso. Mariana havia escrito que esperou a vida toda por um beijo carinhoso. Mas a forma sincera com que Mariana colocava aquela indiferença. dos parentes e dos vizinhos. Era o pai da pior nadadora na piscina. Hélio pensava que tudo ficaria bem. e ela ficava tão feliz! A menina relatava fantasiar que as peças. Por que exigiam que ele passasse vergonha na frente dos outros? Só podia ser uma afronta. Uma criança que chorara escondida no quarto desejando incontáveis vezes que a simples atenção dum simples "boa-noite. Fora. A menina teimava que seria uma ginasta. Enterrara com Mariana toda a tristeza. isso sim. entregues sem embalagem especial. Buscava na memória. que se gabava tanto de ser o melhor em tudo que tinha feito até o dia em que a menina nascera. Ficar sozinho era sempre a pior coisa. não se lembrava de um dia ter ganho um único presentinho do papai. Que pateta! Que saco ter que explicar que aquilo não era para ela. um peso. Rezava para que Vilma nunca as tivesse visto. jamais reuniria valor suficiente para se equiparar a um "eu te amo" que o pai tivesse por ventura lhe declamado. um zero na vida da filha. Ele. Seu lugar era o leito. Tinha vontade de colocar uma arma na cabeça e morrer. A sombra pálida que parecia um fantasma enrolado em vestidos cor-de-rosa. Lágrimas que escorriam. até no cérebro. o desespero o consumia. apesar de ele nunca ter lhe perguntado que cor preferia a sandalinha da Xuxa ou de que cor deveria ser o vestido de aniversário. Fraca em tudo. E de fato tudo correu bem até o dia em que botara os olhos naquelas linhas. Não queria conversar com os outros pais. não as pistas. Aguentando sessões intermináveis de choro. filha" escapasse da boca do pai insensível e chegasse carinhosa a seus ouvidos. Molhado e secado infinitas vezes. em amparar a carente filha. Hélio jamais perguntara mesmo. Ao menos entendia que era uma forma de atenção. toda sua vergonha. eram presentes garimpados e comprados com entusiasmo pelo papai.de sua idade. tinha arrancado a folha do diário de Mariana. como naquele instante. doía. Nunca fizera nada pela menina. A culpa que nunca sentira viera como uma onda represada numa barragem que acabara de ruir. e tudo o que conseguia era dar razão à pobre menina. Tinha inveja deles. Depois da natação. A folha estava ondulada tantas as lágrimas que tinham se deitado sobre as letras. Logo todos se esqueceriam da sombra fraca que vagava atrás dele nas festas e nos encontros de amigos. O pior é que nem nos estudos a menina ia pra frente. O depoimento era simples e sincero. Último lugar. Que vergonha! Lembrava-se do olhar triste que a menina atirara para seu lado. Humilhado demais. por isso. Era o depoimento de uma criancinha perdida e desesperada. Um maldito boa-noite a vida inteira! Nesse trecho da carta. Estava envergonhado demais. cruel e insensível. Com os felizes. apertadas em torno do pescoço pelo próprio pai. Por isso. Não entrava na cabeça oca de Mariana que o esporte não era para ela. Hélio não podia se controlar. Dizia no papel que o pai nunca lhe dera um boa-noite a vida inteira. Nunca se preocupara em agradar Mariana. por um "eu te amo". de criança. Se não se embebedasse. por mais que se esforçasse para acalentar o próprio coração. Tornara-se . Não queria estar ali. feitas de desprezo e frieza.

Mariana mostrara o quanto. quatro. —Vilma. O marido estava muito estranho. Não tinha fantasma nenhum.uma menina calada. A vida toda ruiu. vivendo agora de expediente na empresa de um amigo de infância. Vendeu o carro do ano. Chorava. Só olhando para a esposa. e os entregaria quando ele lhe desse um beijo. Caminhou sem pressa até a portaria. A vida de um monstro. que fora casada por duas décadas com um monstro. Vilma olhou para a porta vazia. Ar-rastou-se até ficar de frente para a porta entreaberta. empacotando tudo. Subiu de elevador. A filha tinha talento para desenhar.. mesmo sem ler o testemunho da filha. colocando as roupas dentro de uma caixa e limpando os olhos vez ou outra. Suicídio. Ela e o papai tomando sorvete. E a facada mais profunda no coração vinha com as linhas finais. para não irritar o pai. coraçõezinhos escapavam. —Eu não estou bêbado. Encontrou na bebida refúgio. Maldito quarto. Pedir perdão. Esse é o tipo de coisa que acaba não passando despercebido. A mulher olhou para o marido parado na porta. para ter lucidez até concluir a tarefa a que se propusera executar. Tudo fora abaixo. Ele era um monstro. Não merecia descobrir. Três. ao menos teria a chance de olhar nos olhos da filha uma última vez. As luzes estavam acesas. Era Vilma. saindo.. Fazendo contas que não levavam a nada. de longe. — disse. Ela não sabia que vivia com um monstro. Não estava bêbado. Vacilante. Dizer que. Desenhos infantis. Não era mais o melhor do pedaço. —Bêbado de novo. Mariana tinha conseguido arruinar aquele homem. Girou a chave. — disse. depois de acompanhar em silêncio a mulher empacotar todas as peças de uma cômoda. Tentando não ficar louco. com os olhos fechados. e ele nunca descobrira. Como um homem poderia viver com aquela culpa? Impossível. Hélio piscou. Nas linhas em que uma menina de doze anos decide pôr fim na própria vida. Você nunca vai mudar. no colo de um homem com uma cabeça grande e um sorriso imenso. Acabaria com o quarto e depois acabaria com a própria vida. Quando lera o diário. Parou em frente à porta. Perdeu o emprego exemplar. Hélio encostou-se na parede. Isso não importava mais. Como fizera o coração parar. Não aguentava mais aquele martírio. Barulhos. Hélio encontrou os desenhos. Coisas caindo. Daria um fim naquelas lembranças. Não aguentava mais aquela tortura. Ela também estava chorando. Andou pelo corredor. Tinha perdido seu pequeno tesouro. mas tinha feito.. Hélio não entendia como ela conseguira. Era uma pessoa cruel. Ela passeando de mãos dadas com o papai. Barulhos no quarto assombrado. Será que Mariana tinha voltado para o acerto de contas? Quem dera.. Tinha uma pasta guardada no guarda-roupa com desenhos feitos para o papai. se ajoelhar. Hélio chorava. mas os desenhos mais lindos em que Hélio já tinha botado os olhos. flutuando. Hélio passara dias chorando. retraída. Da cabeça desproporcional. . Hélio desceu do carro. Hélio empurrou a porta. Talvez até soubesse. O revólver pesando no bolso. Hélio. um bebezinho. Pensando em um milhão de coisas por segundo. Ela. ela não merecia o que ele tinha feito. Hélio ficou imóvel uns cinco minutos. Ela estava desmontando e levando embora o quarto assombrado. apenas entorpecido. procurando não pensar. Tudo que fazia era na tentativa vã de agradar ao genitor. talvez mais. A cabeça zunindo.. deixando a chuva encharcar a roupa..

Hélio voltou para a calçada. Ninguém o impediria de puxar o gatilho. Entrou no carro. . Mudo. Tirou o revólver do bolso. Mais lágrimas desciam pelo rosto que as gotas da chuva. A água encobria todo o vidro do carro. Hélio respirou fundo e apertou os olhos. Para a chuva. Ninguém ao passar pala calçada poderia ver o homem colocando o cano da arma na cabeça.

Hélio reconheceu o trajeto que fizera pela manhã. Barulho de gotas acertando as folhas das roseiras. Os visitantes trocaram novos olhares. num lugar escuro e desconhecido para se juntar a um grupo igualmente desconhecido. A chuva castigava a cidade. Do outro lado da rua. O som da chuva vigorosa tomou-se tudo naquele instante. Não havia luz na frente da casa.Capítulo 17 A Chegada Hélio lutava para enxergar através do vidro embaçado. Gotas grossas se desprendiam das folhas das roseiras. Um facho de luz intensa atingiu os olhos dos visitantes. Alívio para o coração. Reduziu a velocidade e aproxi-mou-se lentamente. Esperavam que se abrisse. Quando voltou o olhar para porta notou os contornos de uma senhora parada na entrada. Hélio cruzou o pesado portão de ferro. Esperança. Uma atmosfera sombria. Hélio viu dois homens e uma mulher de cabelos cacheados. poderia ser tarde demais. havia sim uma pequena fila em frente a casa. Os olhos viram a maçaneta girando. Entender por que tinha surgido em sua vida. depois de fazer força para abri-lo. Buscavam a mesma coisa. Hélio virou o rosto e viu que a mulher precisou proteger os olhos para continuar olhando na direção da luz. o grupo trocou olhares. O ar era sombrio e estranho. sem trégua. Deviam estar se fazendo a mesma pergunta. Assim que ele alcançou a porta. Hesitou. Estranho porque uma pessoa sã jamais deixaria o carro debaixo de tal tempestade. Estavam unidos naquela chuva. Não sabia se tinha alguém lá dentro. Queria entrar e entender o segredo da casa amarela. Respirações aflitas. A porta se abrindo. Os olhos pregados na porta de folha dupla. Um "plec". teria de ir para a chuva e aguardar a porta se abrir. . misturada ao vento. Sabia que se quisesse acabar com aquela agonia. uma Pajero também permanecia estacionada. Para sua surpresa. O revólver deposto no banco de passageiros deixava saber que o plano original não fora de todo descartado. Estavam completamente encharcados. Tinha que desvendar os segredos por trás daquela porta. Em que afetaria seu destino. fazia com que os inúmeros galhos das árvores abraçassem a residência. ansiando pelo instante seguinte. O coração bateu mais rápido quando adentrou a rua. Um rangido. sem dó. Alguém deu um sorriso. Com a chuva e o avançado da hora. Sem demorar. só o barulho do limpador de pára-brisa e gotas grossas contra o capô. A noite parecia ainda mais escura. Em seus ouvidos. Mesmo com a chuva atrapalhando tanto. entre o vai-e-vem do limpador de pára-brisa. uma fila escapando pela calçada era improvável. Aquele cartão viera para lhe dizer alguma coisa. Hélio deixou o Escort e pulou a enxurrada que corria pela sarjeta. um barulho na tranca. Peitos subindo e descendo. Não acreditava em acasos. O jardim verdejante era aguado com abundância. Parou na calçada. Estavam encharcadas. olhando para a misteriosa casa. A mente buscava uma coisa apenas e concluiu que era isso que os estranhos também buscavam. Encostou-se em frente à casa. Do contrário. Barulho de água escorrendo nas calhas. com aquele martírio. Principalmente quando teimava em surgir no bolso da camisa mesmo tendo certeza de que o tinha descartado na última vez em que estivera em frente à casa. Aquela casa tinha alguma coisa. Sabia que seria seu destino. Tinha que fazer a visita antes de dar o passo final. Antes que algum deles abrisse a boca. Quem eram aquelas pessoas? Hélio pensava pouco naquela hora. A chuva. Os vidros embaçados. aguardando que a mesma fosse aberta. Queria só tirar uma dúvida. Estavam unidos naquela noite. Três pessoas amontoadas na soleira da porta.

sentada atrás da menina. Eram todos "estranhos". Notou que ela era linda.. lembro-me daquela mulher. Ele também tinha "estado" ali. Todos tinham sido atraídos.. Só nessa hora o homem notou que aquela pessoa não era um rapazinho.. ocupando a sala principal. Ficaram quietos por mais de um minuto. — disse a visitante ao lado de Hélio. Estava reconfortado. A mulher não estava ali. entalhes aristocráticos. Todos se calaram. Hélio viu pequenas nuvens de vapor despren-derem-se de seu corpo quente. O hall exalava paz. O chão e metade da parede recoberta por ladrilhos multicores.. talvez. Um par de cadeiras estava de costas para o outro. trinta e sete. talvez. A sala era espaçosa. mas sabiam que nada precisavam temer. podem entrar. tinha a pele imaculada. Tinha visto o chão de madeira e a parede recoberta por ladrilhos desbotados. Sabia que era isso . Leon virou-se na cadeira para olhar para a mulher. Encontraram no meio do cômodo quatro cadeiras. Os ocupantes quase encostando as cabeças. Promessa de alívio. A promessa era a cura para o coração atormentado. Era essa toda a mobília sobre o piso de madeira. Olhavam para as paredes recobertas por pequenos porta-retratos. aparentando pouco menos de quarenta anos. —Eu já estive aqui. Era como visitar um lugar onde já haviam estado. Atrás de Hélio estava um homem. Hélio encarou a menina. delicada. outros expunham recortes de jornal. A mulher não estava ali. Não sabiam por que. Poças d'água foram se formando à medida que a chuva abandonava o corpo de cada um. e a touca de lã molhada disfarçava um pouco o rosto. Hélio buscou a anfitriã com os olhos. Estilo antigo. Eu "estive" aqui. uma guitarra. Arre-piou-se. A sala principal era provida de uma escada que conduzia ao piso superior. olhando para as paredes. Os quatro pararam no meio do hall. — disse ela. Era aquele lugar. quer dizer. O blusão emborrachado escondia o corpo feminino. trinta e oito. Aconchegante. Madeira maciça e forro aveludado. mas os olhos buscavam pela resposta. Cada par olhando para uma parede. Enquanto os médicos lutavam para mantê-lo vivo. Fora o que menos se espantara com o comentário tecido pela garota. Ouviam um tilintar. Sentaram-se. deixando claro tra-tar-se de uma construção bem antiga. quando ainda estavam do lado de fora.. — Só não tive coragem de entrar. a tal mulher de cabelos cacheados em quem prestara atenção primeiro. —Eu também vim aqui outro dia. Agora que todos chegaram. Era confortável. Trazia um instrumento com ela.. Mas a promessa no cartão era clara. e uma boca sensual. era uma mocinha. alguns guardavam fotografias. Todos giravam. por um motivo ainda desconhecido. —Comigo foi diferente. pela voz. pois sabia que estava ali por uma razão. dragados até aquele lugar. Eu não vim aqui. Tinha visto os recortes nas paredes. lembrando o rosto quadrado de um rapaz. Ninguém contestou a estranha declaração da menina. eu estive "espiritualmente" aqui. Ismael olhava para os ladrilhos. Ao lado dele. O vulto deu passagem ao grupo. Apesar dos traços duros. —Cadê ela? Ninguém respondeu.—Entrem. filhos. num outro cômodo dessa casa. como que entrando num mundo de sonhos.

Mas sabia que aquela atenção seria apenas um paliativo. Rosana talvez fosse a mais aflita. Tentava não querer adivinhar o que lhe guardava a porta. Começasse a lhes falar sobre alívio. Não se conheciam. Cada um olhando fixamente para a porta a sua frente. Quem a tinha chamado ali? Recebera apenas um cartão. Pareciam embaraçados diante da anfitriã. Esperaria o quanto fosse preciso. Entrara tão nervoso que nem se preocupara em descobrir a respeito de que falavam os recortes. Tomou um gole generoso. Estaria numa clínica psiquiátrica? Estaria num centro espírita? Seria a senhora uma médium? Lembrava-se da palavra. Foi salva por um bolo de aniversário. Hélio assoprou dentro da xícara. Quatro portas. Sabiam o que queriam.que os outros três visitantes procuravam. A paz. Rosana sentiu um arrepio percorrer o corpo. Buscava o remédio definitivo. Por atenção. O coração batia rápido. —Quem terminar. A mente só se concentrava em acabar com aquele chá. sentindo a língua ficar áspera após a queimadura do líquido quente. Queria receber logo o que o cartão prometia.. Num coquetel para os desesperados. Quero que fiquem calmos. Não estavam à vontade. Não quero ninguém com frio na minha casa. Queria viver bem com as filhas. Com medo do remorso. Estava muito longe para ler. Ismael também sentiu um arrepio cruzando a espinha. Afogada num copo de calmantes. O alívio.. Vida que quase tinha ido embora horas atrás. Cada qual sorveu um pouco do líquido quente. Teriam de esperar que a mulher começasse. Qual é seu nome? — interpelou Leon. O quarteto ainda estava tenso. —Dona. Gentilmente a senhora distribuiu as xícaras cheias do líquido quente. Não seria mais uma sombra perdida na desgraça e vergonha. com quatro xícaras altas e fumegantes. Com aqueles que o chamaram aqui. Preocupada com as filhas. Estavam unidos por essa busca. Uma mulher com medo do passado. Precisava retomar a vida. Descobrir para que a casa servia. . —Esse chá é para que relaxem. Calmos para poder entrar em sintonia com o outro lado. Quatro pessoas. Queria acabar logo com o ritual. mas não sabiam o que ela podia oferecer. Com uma traição despropositada. A bebida exalava um aroma adocicado e convidativo. Sua corrente de pensamentos foi cortada quando ouviu passos se aproximando. Os olhares foram de encontro à senhora que sustentava uma bandeja. eriçando seus pêlos. Por essa razão. Foi salva pelo amor das filhas. Queria retomar a vida. Que casa era aquela? —O que vieram buscar está atrás destas portas. Gisela que se acostumasse ao banco de couro da Pajero. Dias. Só assim poderia ser a mãe que as meninas precisavam. Seus olhos foram para um dos recortes de jornal na parede. Para sua porta correspondente. Só assim se perdoaria. Somente naquele instante notaram que cada par de cadeiras dava de frente para um par de portas. Tampouco tinham coragem de iniciar um interrogatório. pode ir. quando a anfitriã se afastava. Com a culpa de as filhas não terem convivido com o pai na última semana de vida. Estava perdida. —Tomem. Prendeu a respiração. até.

Curem seus corações. isso você pode. são poucos que o têm. — Mas o que importa é que cada um de vocês veio aqui para encontrar o amor. Leonora. meu anjo. ouvindo o ar bater contra a palma das mãos. Salvem suas vidas. O que a mulher estava querendo dizer? —. o que tem ali? — perguntou a garota. — É Irene. "agindo". Fechou as mãos diante do rosto. Esta casa não foi feita para trazer ninguém de volta. Sentiu o chá quente no estômago. Irene riu alto e olhou direto nos olhos da menina.. Perdoem. Caminhou diante dos olhos atentos dos três colegas. —Termine seu chá. Nem mais. O peito subia e descia rapidamente.. Nervosismo. Hora de buscar alívio. Tudo poderão fazer. fazer uma boa faxina na alma. Não queiram trazer para cá.. se tentarem. Nem menos. como se quisesse limpar os cantos das pálpebras. colada aos seios devido à água da chuva. Leonora. Não vão desperdiçar esse presente do destino. O líquido parecia acalmá-la. Passou os dedos nos olhos. Voltou caminhando devagar e afagou a cabeça de Leon. Rosana inspirou fundo. não. Só isso não é permitido. Queria ser o primeiro a entrar e o primeiro a sair. Peçam desculpas. . Abriu mais. la acabar logo com aquilo. Respirou fundo e empurrou a madeira. e Rosana voltou a encarar o cômodo escuro. Os quatro ficaram em silêncio vendo a mulher se afastar. As mãos tremendo. Rosana engoliu a última gota da bebida quente. Hélio assoprou mais uma vez o chá. — Se eles perceberem que vocês tentarão trazer alguém de volta... —Termine seu chá. O semblante dos três demonstrava preocupação e ansiedade. Levou a mão trêmula até a maçaneta redonda. Asseguro que atrás daquela porta não tem água.. —Dona Irene. Quem está lá. Cada um de vocês encontrará o tesouro mais precioso de suas vidas atrás dessas portas. está lá. olhando fixamente para a misteriosa porta a sua frente. Le-vantou-se. Ainda sentada. empurrando a touca de lã ainda molhada. Só é proibido mudar o destino de quem está lá.. Um som de ar correndo na pequena fresta oferecida. curvou o corpo e colocou a xícara no chão. Eles pareciam mais nervosos do que ela. Era hora de entrar.. vão perder a chance. Termine seu chá e vá descobrir. não é? Os outros três olharam para a garota vestida de garoto. — Irene fez uma pausa afastando-se um passo. Ajeitou a camisa que vestia. Um quarto escuro. sabem? — A velha passou a mão na ponta do nariz num momento de reflexão e olhar perdido. Desamassou a calça jeans. Lentamente o sorriso esmoreceu. Viver. Olhou para trás e sorriu para os outros. Terá direito a uma segunda chance.. cada um de vocês terá o direito de tentar de novo. Pode encontrar um dia chuvoso. Esta casa foi construída para limpar os corações. Não como tem medo que haja. —Não tem água lá.A mulher virou-se lentamente e sorriu. vocês perderão a chance e talvez nunca mais possam tentar de novo. Poderão mudar..

nem mesmo uma turma em volta de uma mesa branca. cobrindo o carpete da suite. Era uma lâmpada recoberta por tinta azul.Capítulo 18 Rosana Rosana cruzou a porta. Rosana pousou os cotovelos nos joelhos e pendeu a cabeça pra frente. Sentiu uma ligeira falta de ar. irradiando para as costas.. O coração batendo rápido. O gosto daquele chá doce na boca. ela conhecia aquele novo lugar! Um velho lugar. na verdade. Rosana finalmente abriu os olhos. Medo. Ela estava lá. Aquela sensação de que ia cair. Tateou a parede até encontrar um interruptor. que deixava fazer uma claridade fraca. Ao menos não tinha um fantasma ali dentro. em silêncio. Fechou os olhos. Não queria se mover. Parecia até que tinha cochilado e voltado à consciência. aqueles móveis. Estava exausta. não restavam dúvidas. Levantou-se. Parecia que quanto mais quieta ficasse. Tinha que acordar.. Sono.. criando penumbra. Rosana perdeu a noção de quanto tempo ficou naquela posição. Uma luz acendeu. Coisas de que nem se lembrava. O gosto daquele chá na boca.. Se aquilo trouxesse paz. Cansada. sentia uma ligeira corrente de vento acertando seus braços. Marco esperando no ponto de encontro. Naquele dia. Apesar de ter visto que o quarto não possuía outras portas ou janelas. Manteve os olhos fechados. Frio. Respirou fundo pela enésima vez. Esfregou com uma toalha de rosto. muito semelhante à que estivera sentada do lado de fora. O vapor aderido ao espelho. Naquela hora. Não se moveu.. "O" vestido vermelho. Estava naquela posição. Os pelos dos braços se arrepiaram rapidamente. mais em paz se sentiria. Os cabelos caíram. Abriu o armário. evocando espíritos. Só podia ser um pesadelo. Rosana procurou acalmar-se. Só queria descansar um pouco. A respiração foi voltando ao compasso. Medo. Rosana olhou para o próprio corpo. Olhou-se no espelho. Acomodou-se na confortável cadeira. Suas roupas antigas. Uma música encheu os ouvidos. quase inaudível. Mas dentro do quarto parecia muito mais aconchegante. Ficar imóvel. O rosto mais novo. As mãos trêmulas. quando sentiu um calafrio. Rosana não conseguia abrir os olhos. Pôs a mão na boca. quando olhou para a cama. Sentiu um frio crescendo em seu ventre. O suficiente para que ela enxergasse outra cadeira no meio da sala. espantada.. Estava envolta numa toalha. O cômodo estava submerso na mais completa escuridão. Deus! Era o seu quarto. Sentindo o peso do líquido quente no estômago. daquela hora. Toda a confiança que trazia se desvaneceu. O cabelo molhado. Ia fazer o jogo. Foi ao banheiro. No rádio tocava a música daquele dia. Estava tão bom! Tão serena! Uma sensação de paz inundando o corpo. Muito mais novo. Hora de ir ao . Sobre a colcha. Não era mais o mesmo quarto. Naquele quarto. Um sussurro em seu ouvido. subindo para o teto. Sua casa! Seu quarto! Apertou os lábios. Estava sentindo até uma ponta de sono. um vestido vermelho. ia ao menos tentar. Os olhos começaram a pesar. assustada. Recuperou o controle da respiração. Fechou a porta vagarosamente. Como seria possível? Era um sonho muito real. O quarto estava claro. Vapor de um banho quente escapando do banheiro. Parecia estar afundando em níveis de consciência. Ninguém na sala. Estava caindo. Paz. Via diante de si a porta do banheiro aberta. até cravar-se na nuca. Outro sussurro. O que era? alguma brincadeira? Rosana aos poucos se acalmou. Olhos fechados.

Não sabia. Nada mais importava. Olhou de novo para o vestido e depois para Rosana. Celso é quem deveria estar em outro lugar a essa hora do dia. As meninas na escola e ela a caminho de uma tarde de sexo com o amante. —Precisava falar com você antes de fazer o que vou fazer. emocionada. Não se levantou. Não estava aguentando. Hora de trair o marido. —Você não foi trabalhar? —Sai mais cedo. para não saltar da poltrona e pular nos braços do marido. Não trairia o marido. de frente para Rosana. em casa. Suas mãos não tremiam. Era Celso! O marido que não via há anos! Vivo! Precisou se controlar para não dar um grito. Rosana. Olhou demoradamente para Rosana.. pois nunca estivera em casa quando ele chegara naquela tarde para ter aquele encontro. Acho que ficou bom. depois ficou parado um minuto inteiro. mesmo sem saber que rumo a conversa tomaria. . Recostou-se na poltrona e cerrou os olhos. sentindo o cheiro dele. Ficou olhando para o vestido vermelho. Ficou quieta. Não precisava mais daquela lembrança. Precisava vir para casa. Estava péssima. Nunca tinham tido aquela conversa. Fazendo movimentos com a cabeça. Fora sempre isso que seu coração pedira. com ele. —Ah. Ela não tinha ido. Andou até o meio do quarto. Celso sentou-se na cama. Rosana foi chamada de volta à consciência por um barulho na porta. Celso bufou. O que contava é que agora não tinha traído aquele homem. Olhou emocionada para o marido. naquele instante. seu marido. quieta. Celso. Era para isso que estava ali. incrédula. Mas não importava. A boca estava ressecando. mudo. Celso estaria chegando a casa. Que seu coração cobrara durante tantos anos de culpa e remorso. No passado. Rosana fechou os olhos e abaixou a cabeça. O maldito vestido vermelho. Rosana apanhou um roupão e voltou para a poltrona. olhando para o marido. Olhando para o vestido. A mulher em verdade não desgrudara os olhos do rosto do marido que pareciam prestes a saltar da órbitas. Estava ali. Não colocaria aquele maldito vestido. que ainda ocupava a poltrona. passou nervosamente a mão na testa. Celso cruzou a porta e encostou-a atrás de si. olhando para ele. Cabisbaixo. O vestido mais sexy que já comprara na vida. Celso. Cerca de dez minutos depois de cair num sono profundo. encontrando o apartamento vazio.encontro com Marco. tirou os olhos de Rosana e olhou para o vestido. Comprei. Já valia muito estar ali com ele. mas sabia que seus olhos estavam vermelhos. Era para reparar o erro. que retribuiu o olhar. Como o amava! Amara-o a vida inteira! Por que as coisas tinham dado errado? Ela sabia que naquele momento de suas vidas a relação não estava nada bem. Rosana olhou quieta para o marido. A traição que nunca quisera ter cometido. O vestido vermelho continuava em cima da cama. Não vou sair. la colocar para você. Celso. —Vai sair? —Não. Não vestiria aquela peça. Sede. Querendo falar mas não encontrando palavras para começar. Não sairia daquele quarto.. Rosana estava mudando sua vida. —E o vestido? —Estou experimentando.

É melhor assim antes que um de nós faça uma loucura. Mas o que seria? Assim que o homem sentou. —Eu quero dar um tempo. O que estou querendo dizer é que a situação está difícil e às vezes. —Eu sei.. Mas não dá mais. Ele estava espantado com a calma dela. a gente vê o que está acontecendo de errado. Rosana. Isso vinha a sua mente naquele instante. — pediu Rosana. —A gente teve um casamento tão bonito. —Celso? O homem voltou ao quarto. dando um tapinha suave no colchão. Nunca descobrira a decisão prematura porque nunca puderam conversar depois. Apertou os olhos e suspirou. ela nunca mais voltaria a vê-lo com vida. A voz revelava nervosismo e insegurança. andando pelo quarto. ou que as brigas aumentem e acabe um machucando o outro com coisas mais duras que palavras. Eu sei. para as meninas.. você mudou. Lembrava que assim que ele saisse do apartamento. Ele já tinha tomado a decisão de partir. —Eu sou um problema? —Não. . Rosana arrepiou-se. Rosana. mas preciso de um tempo para ficar sozinho. —Não dificulte as coisas agora.. A nossa vida está um problema. A decisão já estava tomada. pigarreou.. deixando-o desconfortável.. Celso. Agira precipitadamente.—Você sabe que a gente não está bem. Ela fora uma burra. Celso viu duas lágrimas descendo pelo rosto da mulher. —Eu sei. Ela apoiou a testa na mão. — disse ele. Não quero cometer nenhuma injustiça. A gente precisa se afastar do problema para enxergar melhor. Quero esfriar a cabeça. As malas feitas! Por isso ele tinha saído tão rápido naquele dia! Ele já tinha tomado a decisão e não importava o que ela fizesse ou deixasse de fazer.. convidando o marido.. Rosana. Nunca conversaram depois porque Celso.. Rosana. precipitado. para mim. Rosana. Celso estava no banheiro. Celso abriu sua parte do guarda-roupa e retirou duas malas prontas. Não quero dar nem um passo errado. mas as coisas estão tão difíceis. Imaginara a cena muito mais difícil. Levantou-se da cama.. Rosana olhou-o profundamente nos olhos. apanhando alguma coisa. tentando deixar o marido a vontade. Depois. passou a mão no rosto do marido. Eu. em tom compreensivo. —Sei que vai ser duro. uma besteira.. — anuiu a mulher. Eu preciso de mais espaço. . Ele estava ali para dizer isso.Seu jeito comigo. — Celso fez uma pausa. quando a gente se afasta e fica quieto num canto. Rosana olhou para as coisas do marido. Celso morreria em uma semana num acidente de trânsito! Levou a mão à boca e arregalou os olhos. —Senta aqui. abaixando a cabeça... Percebe o problema real. Eu mudei. Vai ser duro para você. Nem precisava ter feito o que fizera.

Não vou pedir para você ficar. Se puder. Não vou atrapalhar esse momento de vocês. Mas vê se não some. Celso. Tivemos nossos bons momentos. tanto. cara de quem não tinha entendido nada ou a estava achando uma maluca. A cama em que estava sentada parecia mais uma cadeira do que com um colchão. não. Só uma coisa. quero que parta. Não estamos indo morar no exterior. me liga. Rosana. essa semana inteirinha. mas quero te dizer que você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.. mas já que você vai partir. nem tem ninguém morrendo também. — Acho que as pessoas se cansam umas das outras. Claro que venho ficar com as meninas! —A gente marca até uma hora para você chegar. quando sentir falta.. uma dor trespassando o peito. eu saio. bem à vontade. Ele não estava entendendo o rumo da conversa. Anda de táxi. Celso. Rosana baixou a cabeça. Precisam de um tempo. —Do que você está falando... Rosana sentiu um calor súbito. colocando o indicador diante dos lábios. com a melhor lembrança possível. Celso estava lá. Rosana? A mulher meneou a cabeça. O homem tornou a cabeça. um jogo.— fez a mulher. — ela fez uma pausa.. . — Celso. vocês ficam sozinhos. O tempo passa e. A luz do quarto tomou-se azul. apanhou as malas e foi em direção da porta. esperando. Te quero muito bem.. Ele mesmo era só um espectro. antes de ser tua mulher. — Nova pausa para a mulher secar as lágrimas com a manga do roupão. —Nossa. olhando para ela. olhando para o marido e acarici-ando-lhe a face. Uma vertigem. como você está me pedindo. —Só uma última coisa. me chama. —Não anda de ônibus essa semana. Celso. um calafrio na espinha. Celso levantou. quando cai no batidão do dia-a-dia. Antes que o homem questionasse. Invente um passeio. neste momento. eu sempre te amei tanto. —Ssshhh. —Poxa. Celso. com mais lágrimas descendo pelo rosto. também. Rosana podia ver a parede através do marido. quero que venha todos os dias ficar um pouco com as meninas. Parecia não ver as mudanças a sua volta. Temos nossos problemas. Um excelente marido.. tá bom? — disse ela. Estamos só dando um tempo. A mão da mulher continuava em seu rosto. qualquer coisa. Quanto tempo estaremos juntos aqui. — Não sei para onde você está indo. até parece que você tá me pedindo para ir pra forca. — Não estrague você o meu momento. —Não precisa ser tão rigorosa. Celso.. mas quero que saiba que sempre te achei um excelente pai para as meninas. não sei para onde você vai. as pessoas enjoam umas das outras. eu sou tua amiga. Estou tão confusa quanto você. — Rosana fez uma pausa. Calma. Eu sempre quis estar aqui para ter esse papo com você. —O quê? —Durante essa primeira semana de separação. meu querido.—Ssshhh. Rosana. —Celso. mas aconteceu. Não sei o que aconteceu com a gente. Olha. — Quero que me prometa uma coisa. Rosana. Calma. Celso. não sei quanto tempo a gente vai se ver ainda.

. colocou as malas no chão e encarou a esposa uma última vez.. Antes de desaparecer. Sofrendo o que você sofria. É como se eu estivesse sentindo o que você sentia. — Mas muito obrigado por ter aparecido. Sentiu um alívio indescritível no coração.. Secou o rosto pela enésima vez.—Nada. — murmurou a mulher. Olhou Rosana demoradamente.. parecendo anuviada. junto com o quarto todo. Guardar esses sentimentos não faz bem pra gente. — ele ergueu a mão para enxugar uma lágrima. vendo o marido pela última vez. tirando as malas do chão. Rosana emocionou-se pela milésima vez naquele dia. Estou me sentindo muito bem agora. virou-se.. Celso. Rosana olhava em volta. Agora era ele que tinha os olhos rasos d'água. . — Esse papo. Talvez a descrição mais próxima fosse a sensação de Celso estar removendo um punhal de seu peito. Só estou brincando. Celso.. —Rô. você não pode imaginar o quanto. A gente estava mesmo precisando ter essa conversa. voltou a materializar-se. Pra ninguém.. esse encontro está me fazendo tão bem. Seu homem sumiu no corredor. Celso balançou a cabeça e continuou andando. boa viagem. querido. Sen-tia-se livre de um pesadelo. Livre de uma tormenta.. Também não sei para onde vou. —Boa viagem. chegando ao corredor do apartamento.. abrindo a porta. — murmurou o homem lançando um olhar perdido para o corredor escuro a sua frente. obrigado por ter vindo aqui hoje. Nada..

Tinha certeza. Olhou para a cadeira. Era porque a promessa de alívio era verdadeira. Não tinha visto as feições da mulher naquela ocasião. afundando no estofamento. Cheiro de velório. Estava relaxada. Uma luz fraca. Os olhos mais pesados ainda. Ouviu um sussurro. Pareciam . A sensação de incômodo começou a se dissolver. Um quarto escuro. Medo. "Limpe o coração. aproximou-se de sua porta. Como era possível que já tivesse estado ali? Como? Lembrava-se de dona Irene. O que chegara no carrão importado lhe sorriu.. Ficou parada. Viu um interruptor do outro lado do quarto. Na estranha viagem que tivera sob o efeito das drogas. Uma sensação boa.. olhando em volta. como que apoiando sua decisão e lhe dando força. Mais de três tons diferentes. Era ela quem dissera que Leon precisaria estar ali. Frio.dizia uma delas. Secou os lábios com as costas da mão e. Definitivamente. Quando deu dois passos naquela dire-ção. Brincou Leon entrou. O quarto passava uma sensação estranha. mantendo-o na penumbra. pastosas. talvez já estivesse em outro cômodo. Lembrava-se de uma cadeira no meio do caminho. Leon raspou o tênis contra o chão de tábua. Leon afastou a folha de madeira. Pigarreou. Andou devagar. —Qualquer coisa. O cheiro de flores estagnadas foi desaparecendo. Sua imaginação estava ativa. A luz era calmante. Estava tão relaxada que não conseguiu abrir os olhos. Leon sentia sono. Gostoso. azul. Olhava fixamente para a porta a sua frente. Ouvindo a chuva batendo no telhado do pavimento superior. Sussurrando coisas. inundou todo o quarto. afastadas. A voz. A única água existente pingava eventualmente de sua roupa encharcada.Capítulo 19 Leon Leon respirou fundo ouvindo a mulher fechar a porta. Engoliu o chá todo de uma vez. nada de água. juntamente com o estranho homem de sobretudo que lhe estendera o cartão. sob o olhar velado dos dois homens restantes. A casa cheirava a coisas velhas. era porque nada de mau estava atrás daquela porta. Fechou os olhos. Ajeitou-se na cadeira. acionou-o rapidamente. Arrepiou-se. Pensava naquela casa. Parecia caminhar em um pasto lamacento. Faltava pouco menos da metade do líquido doce e fumegante entre as mãos. eu grito. Sensação de que precisava esperar. com os braços erguidos. O que tinha do outro lado? Uma câmara frigorífica? Deslizou a mão até a maçaneta. Tomou cuidado para não tropeçar. Estava incomodada. Arrepiou-se com o susto. Cheiro de flores mortas. destravando a porta. Ela é quem a salvara. mas era ela. Relaxou o corpo. Alcançando o interruptor. Girou. a porta fechou-se sozinha. O quarto ficou completamente escuro. A garota tocou a mão na madeira da porta. É até apropriado dizer que nem ao menos tinham certeza de que ela ainda permanecia lá. As vozes lentas. Esperar alguém. ". Respirou fundo novamente. em direção ao interruptor. aliviando o frio penetrante causado pela água da chuva que fazia com que a roupa aderisse à pele. Olhou para trás e buscou solidariedade nos olhos dos "colegas". Se fora arrastada de sua cidade a cento e oitenta quilômetros dali. Olhou para a xícara. deixando os olhos se acostumarem à pouca claridade. Caminhou lentamente. As pernas pesadas. Dona Irene não fazia barulho algum na cozinha. Parecia confortável. colocou um pé para dentro e virou-se para os espectadores. As vozes. Cansaço. sumindo. Ficaram os três em silêncio. Vozes.

Leonora. O pai que a afastara da mãe.. A pele arrepiada. Queria entender o que as vozes diziam. era como se tivesse alguém ali. O pai que a afastara de casa depois de descobrir sua predile-ção por pessoas do mesmo sexo. —Você tá me ouvindo.. Estava surpresa. Uma imagem a sua frente. aquela sensação estranha que fica depois de sairmos de um ambiente escuro para a luz direta do sol. Aceitara todo o discurso. Sabia o que estava fazendo ali. deixando o cheiro de flores infestar o nariz. —Eu tô legal. Estava dentro de um carro. empurradas devagar pelo vento. Não era à toa que sentia cheiro de flores de velório. Uma voz forte bem ao seu lado. olhando fixo para o aglomerado de pessoas em torno dos homens que conduziam o caixão. Quem estava do seu lado? Tinha entrado mais alguém no quarto? Abriu os olhos lentamente. misturada ao vento. Leon tirou um Hollywood do bolso e acendeu. O cheiro de flores e velas voltou com clareza. Abafado. —É tão ruim vir nesses lugares. Elas não despregavam. Os vidros salpicados por gotículas d'água. Mesmo sendo um cachorro feito o seu. não é Leon? Leon confusa. não. com uma mão na frente e outra atrás. A garota olhou para o lado. Melhor dizendo. Num. Só me dá licença um instante. Folhas secas estendi-am-se pelo caminho e emitiam o característico murmúrio quando pisadas. De dar-lhe um último tchau. Eu bem sei. Tinha bastante gente. No qual o pai fora enterrado. vinha uma suave garoa. As pálpebras não respondiam. Não tivera peito de enfrentar o velho nem depois de morto.. Eventualmente.fantasmas. tentando abrir os olhos. Eu sei como é. Leon levou a mão à boca. eu te levo. Finalmente os olhos se adequavam à claridade. também conhecido como Mercedes. O momento em que se acovardara e aceitara para ela mesma que sua condição seria dali para frente uma condição marginal. Não tivera peito de aproximar-se e ajudar a carregar o caixão. cara? Cê tá legal? Leon não respondeu. —Perder pai é barra. Leon tragou demoradamente. Estava confrontando o momento mais duro de sua vida. E como naquele dia. estava "no" cemitério. A luz forte incomodava. pois o rapaz no banco do motorista estava visivelmente preocupado. Confusa. a última vez em que botara os olhos no Mercedes fora no enterro. A mãe que não pedira que voltasse para casa. . Leon olhou para o Moça. Estava num cemitério. Que nunca a procurara. mal conseguia molhar o caminho. De tão suave. Onde estava o quarto escuro? —Leon. Uma luz poderosa a deixou cega e confusa por uns instantes.. Devia estar com os olhos arregalados. Leon inspirou. Mexe com a gente. Um amigo gay da adolescência. O pai que a colocara na rua num dia de chuva. descendo do carro e caminhando pela alameda asfaltada. Leonora. Leon lutou contra o sono. Forçou ao máximo. A voz. se quiser ir embora. A memória lhe dizia quem era aquele cara. todo o falatório do pai. se você não tá legal. As árvores balançavam suavemente. Leon olhou para fora do carro. Sabia exata-mente. tão viva.. Lutou contra o sono. espiando da janela o funeral do pai. Eu vou ficar. Era o Moça. O que fazia no carro do Moça? Se não estava enganada. Respirava rapidamente. Girou a manivela para abrir o vidro.. Mercedes. — pediu Leon. Finalmente conseguiu abrir os olhos. estava no carro do Moça.

Não estava preocupada com aquele crápula controlador que arruinara com sua vida e com a da mãe. A mulher também tinha medo de ser colocada para fora de casa. soltando mais uma baforada. e as nuvens mais escuras começavam a dar o ar da graça. Leon sorriu. Nenhum escândalo. O homem que agora não estava mais ali. Arrependimento. assim que o orador terminasse o discurso. Apertou e aproximou-se. Foram tantos ombros e tantos rostos expressando os sentimentos. Dos cafés da tarde. As roupas ainda estavam úmidas da chuva que tomara antes de chegar à casa amarela. Não queria chegar junto do caixão. Estavam a cerca de quarenta metros.. todos olhando para o caixão fechado. Uma mulher triste que só fazia as coisas do lar. Dos beijos. O homem que lhe dera objetivos para a hora de acordar e a hora de dormir. que nem se tornava mais quando um novo condoído se aproximava. Desenho. A mulher não notou de primeira que agora era filha que estava ali do seu lado. Dos agrados no Natal. Depois em vício. silenciosa e com os olhos vermelhos. material caro. Alguém fazia um discurso. Tirou a touca de lã e enfiou-a no bolso traseiro da calça. Sentir o amparo que estava proporcionando para a senhora... Nunca era a ela permitidas novas coisas. Olhou para o cortejo. Leon não o conhecia. Dela não perder uma reunião de pais e mestres. Um vento mais impetuoso soprava os galhos. sempre podada. Leon pôde sentir a gratidão nos olhos da mulher. Queria a mãe. Leon precisou empurrar um senhor alto e gordo para se aproximar. Mas devia a mãe um encontro derradeiro.. parecia realmente preocupado em amenizar o sentimento de perda para os familiares e amigos do advogado. Empurrou mais uma pessoa e finalmente conseguiu estender a mão. Não era isso. ninguém notou a filha lésbica do advogado se misturando aos "normais". Na época. Projetos e pro-jetos engavetados. Dor. Leon alcançou o amontoado de gente. Não quisera se encontrar a mãe. O que não fizera três anos atrás. Leon reparou que a luz do dia estava se modificando. Drogas. Drogas. Misturou-se aos vestidos de preto. Fotografia? Toma essa maquininha aqui que tá bom.O pai era um homem cheio de amigos. Ajeitou o cabelo curto e ruivo com as mãos. Leon nunca mais a tinha visto e estava drogada demais para se importar em aparecer para ver a mãe ou ir ao enterro. De passear à tarde na praça. Choro. Leon cultivara um ódio tremendo dos dois. Dos mimos e cuidados. Leon baixou a cabeça. uma pobre sombra. Não tivera coragem de encontrar com a mãe. mas o homem falava coisas bonitas. A mulher. Curvou- . Queria alcançar a mãe. Advogado. Mas aquela mão fria e pequena repentinamente pare-ceu-lhe muito conhecida. Mas a mãe também definhara com a casa vazia.. O pai não permitiria que a menina voltasse. Morrera deprimida. Deixou a proteção de um túmulo para ganhar o caminho até onde o corpo do pai seria sepultado. Era a filha que estava lá. virou o rosto. Aquele cheiro insistente de flores de cemitério. O pai falecera um ano após a ter colocado fora de casa. A mãe teria de aceitar da mesma forma como se estivesse desistindo de começar um curso de datilografia. Dos abraços. Leon alcançou a mão da mãe. Sabia o que queria fazer. Morrera com um pouco mais de um ano do enterro do velho. A mãe. Conhecia a mãe. Jogou a bituca do cigarro na guia e contorceu a boca. Aulas de línguas? Para quê? Pintura. Que depois se transformou em pena de si mesma. Devia a mãe apoio naquela hora que poderia estar sendo a mais difícil em sua vida. Não se importava em prestar-lhe ou não a última homenagem. Lembrava a mãe tratando-a com muito amor. Angústia. Arrastou o corpo entre a massa de gente que se empoleirava junto ao caixão que começaria a descer em instantes. Drogas. O homem que fora seu companheiro por mais de vinte e cinco anos. Estava ali para um motivo.. O homem que ia faltar. sua mãe. Sentiu frio quando o vento bateu em seu corpo. O que teria acontecido com a mãe depois que ele a tocou para fora de casa? Certamente o pai obrigara a romper com Leon.

e o caixão começou sua descida lúgubre. e Leon também havia dificultado bastante as coisas. A mãe era bonita. a discriminasse como o pai. Só vai fazer mal para ele. Leon não saberia precisar quanto tempo ficou naquele abraço apertado com a mãe. desaparecendo. O mesmo cheiro desde a infância. E a senhora? Tudo bem com a senhora? Dona Tânia olhou para o túmulo do recém-sepultado. O orador se calou. como deve ter perdoado tua mãe.. Perdoa-o no teu coração. estava contente pelo simples fato de estar ali. Não o deixa ir para o lado de lá com tanta raiva no peito.. Leon não sabia o que dizer. voltando aos carros. Tânia olhava para a copa de algumas delas. filha? Leon coçou a cabeça. Podia sentir o coração da mulher batendo contra seu peito. deu um sorriso sem graça e respondeu: —Por aí. deixando mãe e filha a sós. Cedera à pressão daquele homem ruim. Não choravam pelo velho no caixão. Encontrou nela traços tão seus. Não a olhasse nos olhos. mãezinha. Beijou-a no rosto e encarou-a. A mulher abraçou a filha e apertou-a em silêncio. Um choro terno. guardava ali debaixo outros corpos. mãe. Pelos abraços perdidos. forrado com várias placas ao nível do chão. mãe. A mãe certamente teria de ir contra o marido para conseguir tempo e dinheiro sem levantar desconfianças. Pousou o nariz nos fios. Ambas choravam. —Por onde você andou. —Estou bem. — disse a mãe. Choravam por elas mesmas. para você. As árvores balançaram. Leon sentiu-se uma idiota. Dona Tânia tornou a olhar para a filha passando um lenço debaixo dos olhos. encerrando debaixo da terra mais um que terminava o ciclo material. outras histórias. como se lesse seus pensamentos. Choravam por elas mesmas. Estava dentro de um vestido preto que escondia seu peso um pouco acima. Vocês têm de ficar de bem. Tenho andado por aí. sem deixar rastro para ser encontrada em uma busca fácil. . meu anjo. filha. fazendo barulho. Não é tarde. Estava tendo a chance de reparar algo que ela considerava um erro e que não saía da cabeça. A mãe fora apenas uma peça conservada dentro do esquema que o pai montara. —Era só o jeitão dele. Mas agora estava confirmado. A mãe fora proibida de procurá-la. A mãe afagou o cabelo curto da filha.. Leonora. Leon. O chão gramado do cemitério. O cheiro da filha. Não é tarde ainda. —Oh. Tinha tanta saudade! A mãe. As palavras faltaram. Cheiro de amor. Pelo tempo perdido. e Leon voltou a abraçar forte dona Tânia.se e beijou ternamente a mão da adorada mãe. —Seu pai não era ruim. Um vento mais forte passou pelo cemitério. Mas estou bem. Pelos encontros proibidos. Leon enxugou os olhos e encarou a mãe. Tivera medo de que a mãe não aceitasse sua mão. como queria ter estado três anos atrás. tentando se fazer de forte e não chorar mais. As pessoas se afastaram. Agora que você está aqui. A mãe estava passando um mau pedaço. não um choro de desesperados. eu nunca te culpei.. eu estou bem melhor. Leon chegou a sentir os pêlos se arrepiarem.

. mãe.. É difícil entender. e você pode voltar a qualquer dia. —Mãe. mas ele afastou você.. onde estava a Belina do Moça. filha.. foi demais para ele. Voltou a olhar para a mãe que ia para a capela. Ele me rejeitou.. A garota sorriu ao ouvir a mãe se referir a ela como "Leon". voltasse para o lugar de onde tinha vindo. Por que o céu ficava sempre com aquela cor em dia de enterros? —Vê se não some. mãe. Leon ficou quieta. Saudades daquele encontro mágico. —Amava nada. Leon. Leonora. sem chance para um novo encontro. me discriminou. que está perdida. Gritava. se alterava. Leon chamou-a: —Mãe! . ele nunca pediu isso. Me largou na rua. por isso te pôs para fora. com essa "mania". Seu pai era atrasado. viver sua vida. tenta entender. Leon. Nunca me agrediu. Agora aquela casa é minha.. —Mas ele me pôs para fora de casa.. Chuva.Dona Tânia ficou com os olhos cheios d'água novamente. Ele te mandou embora para você seguir a vida que escolheu. —Ele te amava. —Seu pai tinha uma cabeça atrasada. Pensou em pedir que ela se cuidasse. afastou por amor. Seria o último momento em que estaria com a mãe. de alguma forma. filha.. ia ser uma guerra atrás da outra. você conhecia a peça. com as mãos nos bolsos da calça. —Ele sabia que se você ficasse em casa. Ele não pediu para você não amar mulheres. Nunca me deixou fazer um curso. mas lembrou-se da dona Irene comentando alguma coisa. de frente para a mãe. Só então lembrou que não veria mais aquela mulher que tanto amava. Ele me detestava. com essa coisa. —É um jeito de encarar a situação. Quantas vezes tinha pedido aquilo e nunca escutado! Leon enxugou o rosto. Leon balançou a cabeça positivamente. Leon engoliu em seco. mas de algum jeito sei que você não está bem. Dona Tânia segurou o rosto da filha entre as mãos com os olhos cheios de ternura. Foi o jeito dele aceitar a situação. Vem ver sua mãe quando quiser. Dona Tânia abaixou a cabeça e levou um lenço branco aos olhos. Leon olhou pra trás. Leonora... —Não sei o que você anda aprontando. filha. Era tão atrasado que nunca admitiu que eu trabalhasse.. mas também nunca levantou a mão pra mim. você poderia ter seus amores. Essa coisa de você ficar com mulher foi duro até para a mãe. Leon. sua mãe já estaria morta e enterrada... Esse negócio de você amar só mulher. Leon. que dizer pro seu pai. Instantaneamente começou a sentir saudades da mãe. dizendo que esse tipo de aviso era proibido. Que quando.... continuou ouvindo a mãe. não preciso ficar aqui falando.. —Ele te amava. Assim. Ele não te bateu. mesmo eu morrendo de vontade. A mãe se virou na direção da capela. A última vez. Seus olhos continuaram sobre a mulher enlutada que acelerava os passos em busca de cobertura. precisando de mim. Uma gota d'água atingiu seu rosto. agora completamente cinza. Olhou para o céu.. mas era um homem bom. estou tão distante. a qualquer hora. buscando proteção contra as gotas que vinham do céu.

Com os olhos fechados.. caminhando de encontro à capela. Virou-se e correu para a Belina que a esperava. Tinha voltado. — disse a garota. que lhe recebeu com um sorriso. pondo os dedos sobre os lábios e mandando um beijo no ar. —Mãe! — tornou a chamar. ao lado do Moça. Obrigado. intercalando as palavras com beijos carinhosos no couro cabeludo da filha. É isso aí. —Também te amo muiiito. Ficou calada. mãe. olhando muda para a filha. — desabafou a mulher. —Não chora. escapando da chuva que se intensificava. Leon correu e a mãe abriu os braços. cara. pois suspeitava que seria a senha para a passagem para o cômodo de luz azul. via novamente sua mãe. —Te vi com a sua mâmi. enfiando os dedos nos cabelos ruivos da menina. —Eu gostei de ter visto você aqui. pensando em tudo que ouvira da mãe. — Vai em paz. Sorriu. Leon chorava aos prantos. beijando a cabeça da filha. Leonora. Tomou seu lugar no banco de passageiros. Leon enxugou as lágrimas. Leonora. filha. se virando em seguida. Tem que fazer as pazes. querida. Leon não queria dormir. ou todo aquele discurso se encaixava numa tremenda coincidência? Recostou a cabeça no banco. abraçando-a com toda a força. o sono foi maior. Continuou muda. Leon ficou calada. e Moça não parecia a fim de quebrar aquele momento. Apesar da felicidade que infestava seu peito. Te amo muito. Fechou os olhos mais uma vez e permaneceu relaxada. Respirou fundo e deixou o corpo largado na cadeira um instante. em poucos segundos os vidros da Belina se embaçaram. envolvendo a filha. girando a chave no contato e dando partida no motor. E teu pai também estará quando você o perdoar.. Estava viajando há muito tempo. . Leonora. —Tchau. Mas bastou um cochilo de poucos segundos para a luz do dia mudar novamente e Leon se ver dentro do quarto sombrio da casa amarela. Será que ela sabia que o encontro fora uma segunda chance para todos. Leon continuou o choro e não parecia disposta a deixar a mãe. Com a chuva. Posso dizer que agora estou em paz. agarrada à mãe e não querendo largar.Tânia virou-se. Não chora. O tamborilar da chuva na lataria do carro era gostoso. tá? Segue tua vida em paz. Obrigado por ter vindo ver a mamãe. Gostei muito. mas ainda estava cansada. A mulher se voltou mais uma vez. — disse baixinho. filhinha. Nunca duvide disso. Leonora finalmente afroxou o abraço e deixou a mãe se afastar. Leon. com lágrimas nos olhos. — comentou o amigo. A mãe acenou e sorriu.

Aquecido. procurando relaxar o máximo. Conforto. Quando se virou. O liquido doce desceu pela garganta. Estaria num centro espírita ou coisa do gênero? Arrepiou-se com a pergunta. Girou a peça oval até ouvir a fechadura estalar. Por que deveria esperar naquela sala? Pensou até em ficar em pé para não adormecer. Por que estavam ali? Ou melhor. o que seria feito para lhe trazer alívio? Talvez uma psicografia? Nunca acreditara naquelas baboseiras de espiritismo. Os olhos procuraram pela luminosidade de um interruptor.. como se assim pudesse olhar através da madeira antiga e adivinhar o que o esperava do outro lado. formando um bolo morno ao acomodar-se no estômago.. Tocou a maçaneta de ferro frio. Não conseguia se mover. Adentrou e fechou a porta vagarosamente. Chão de taco.. produzindo outro estalo. Estava exausto. Cheiro de mofo.. A água escorria do cabelo. Estava com medo da porta. descendo pelas costas. só existia uma forma de descobrir. Cheiro de sua infância pobre. em cartas ditadas por mortos. O sabor do chá quente na boca teimando no paladar. Tornou a sorver da bebida fumegante para esquentar o corpo. Bebida doce demais! Levantou-se. espíritos? Não sabia dizer. Não parecia um centro espírita. A porta estava aberta. Encarou a porta logo à frente. ficaria mais bonito e agradável do que aquilo ali. Fechou os olhos por um breve momento.Capítulo 20 Ismael Ismael ouviu a porta se fechando. espalhando-se pelo pescoço. Sentia uma brisa fria no rosto. lançando um olhar ligeiro para o homem que restava. Porque parecia pronto para acreditar em tudo agora? Porque algo lhe dizia que era disso que tratava a coisa. voltou a encarar a porta e a se perguntar mentalmente que raio de casa era aquela. Sono. Cerrou os olhos. Os músculos foram se tornando pesados. Ensaiou um sorriso sem graça. Uma cadeira. Contudo. Se demorassem muito ele acabaria dormindo. posto que mentalmente já havia visitado aqueles cômodos? Havia visto a casa com tamanha clareza e nitidez. Relaxou e deixou o corpo se acomodar no assento macio. muito menos nos livros água-com-açúcar da Zíbia Gasparetto. Encontrou algo do outro lado do quarto.. enxergando um quarto escuro. Não podia ver bem. Penumbra. Cansaço.. Se dona Irene quisesse. Caminhou devagar até tocar no ponto verde levemente fluorescente. que assustava. Ismael olhou para as paredes. cuidando para não queimar a língua. Sentou-se na cadeira. Não. mas estava tão bom naquela posição. A sua porta. viu que o homem da fileira de trás olhava diretamente para ele. poderia lhe dar algumas lâmpadas especiais de suas pistas de dança. Afastou a folha de madeira.. Se estava. Escuro.. A menina de cabelos vermelhos tinha desaparecido dentro do cômodo escuro. O que fariam com ele naquela casa? . Do rumo que a coisa tomaria a partir do momento em que cruzasse aquele umbral. por que estava ali de novo. tão aconchegante. Ismael sorriu. A lâmpada parecia ter sido mergulhada em tinta azul. Manteve os olhos fechados. umidade. Sentiu frio por causa da roupa molhada. com se houvesse um corredor de ar. Tomou rapidamente o que restava em pequenos goles. Uma luz fraca encheu a sala. Agradável. Precisava ficar quieto e descansar. O sorriso forçado desapareceu. Encarou a porta e se aproximou. Estava tão bom daquele jeito! A cadeira era tão confortável! Respirou fundo.

Ismael. Não era mais confortável. de repente. Apanhou a garrafa d'água do pai e entornou num copo até a boca. Mas era impossível ouvi-la novamente. Era dura. com a pintura horrorosa. Mesmo de olhos fechados percebeu a luz mudar. Como alguém batendo ferramentas. com um farol quebrado. "Menino". Certamente sua fisionomia não batia com aquela em que o velho pai botara os olhos no último dia. O cara que nunca tinha grana para sair com os amigos. descascada. sob o capô. Olhou para a geladeira e abriu-a. Era um homem. Estava numa cozinha. Ismael procurou manter a calma. Esse era o passatempo do pai. —Filho. Ô filho! Conhecia essa voz. precisando de reforma e funilaria urgente. O menino mais pobre da sala de aula. O peito doendo. que deveria ser o refúgio.. não era possível.. Ainda trêmulo. Parecia perder a consciência. posto que a água escorria pelas bordas. As mãos tocando a toalha plástica e decadente. a pele envelhecera e o olhar vivaz estava mais apagado. O lar. Ismael engoliu a saliva.. —Toma. Uma cadeira feia. Não naquele momento. mas o máximo que conseguia era aquilo. Ismael tinha dezoito anos. Parecia flutuar. Ainda tremia. Era confrontar seus sentimentos mais pesados. pôs as mãos sobre a mesa. — respondeu a voz rouca e turva de Ismael. Era doido para ter um novinho. Respirou fundo. Uma casa feia. Não. Mas a sensação de estar ali era mais forte do que ele. reparando nos olhos fixos do pai. era a voz de seu falecido pai! —Ô filho! Traz uma caneca d'água gelada pro pai. — Ô menino? Não tá ouvindo? — gritou o pai. —Então. Ouviu um barulho as suas costas. ainda da garagem. precisava era ser trocado por um novo urgente. era o lugar por ele mais detestado. repetiu mentalmente Ismael. . Os músculos se tencionaram. O homem levantou a cabeça mergulhada no motor. tentava adivinhar o que o velho Elias pensava. Era com ser jogado de volta a uma tormenta. Chegou à garagem larga e suja de óleo. A voz vindo através da porta. arremessado de volta ao lugar que odiava. exceto em suas memórias. Seus ressentimentos mais obscuros. —Cê tá bem. um do ano. Mãos trêmulas. Carros.... pai. o lugar mais calmo. um Fuscão. A casa pobre.. Olhou para o filho que parecia paralisado. Na ocasião. — Já vou. O velho virou a caneca de uma só vez. Que inventava desculpas ou dizia que não gostava disso ou daquilo na lanchonete. estava lá. pai. Olhou para a cadeira.. pai.. ficar remendando um Corcel velho. pombas! Não podia chorar. O pai mexia no carro. Vivia sujo de graxa. Não podia ter outro infarto. assumindo o posto de mecânico de fim de semana. Fora o que sempre quis. mas estava difícil. O ambiente mudar. nunca um carro novo. Retraiu as pernas. passa pra cá essa caneca d'água. na porta da cozinha. Um carro batido. Então. secando o excesso de água com os pêlos do braço. quase vinte anos mais moço. Uma cadeira com a tinta esmaltada toda descamada. menino? Tá com uma cara! Comeu alguma coisa? —Tô legal. Sair dali. menino.Fechou os olhos. — Sério? — Sério. pai..

daquelas idéias de ser dono de teatro. Na primeira vez em que tiveram aquele encontro. Ismael abaixou a cabeça e inspirou novamente. dono de estúdio de fotografia ou qualquer que fosse o empreendimento da vez.. Toma jeito..Ismael caminhou para perto do Corcel. Estava com ele naquele dia. não a de ter adormecido e agora viver um sonho. moleque? Ainda aturdido. era o de quando tinha dezoito anos! —Cê foi ver aquele negócio do Exército. Gente como a gente tenta e leva tombo e não levanta mais. levanta. cujo maior sonho naquela altura era uma aposentadoria decente. O dia da discussão. menino. colocando as mãos na cintura. Põe uma farda nesse esqueleto e começa a pegar no batente de verdade. Ainda se sentia perdido. —Vou ver. Uma casa estranha. Ismael sentiu os pêlos do corpo arrepiarem-se mais uma vez. Cê ainda quebra a cara e acaba aqui. sonhando com carro do ano e colando cano de escape de "poisé" com massa. Mas é aí que a gente tem que mostrar à que veio. seu monólogo destrutivo que tinha matado antecipadamente um pouquinho do coração e da auto-estima do velho pai. o suficiente para tomar sua cervejinha no final de semana. Estava com o pai. voltar àquele dia e calar a boca. Que o pai insistia em que seria boa coisa. Estava de volta ao lar. não respondeu. pai. sentindo um suor frio brotando na testa. Vou ver. Mas na verdade queria era afastar a cabeça do filho daqueles projetos. menino. E tudo começara com aquele papo do Exército. pra você conhecer o mundo de verdade. O homem vivido que não ganhava o suficiente para realizar o próprio sonho. Ismael respirou fundo e cerrou os lábios. de tarimba e de muito dinheiro. comprar um carro do ano. pai.. A chance de voltar lá. De volta a sua velha casa.. O dia em que dissera barbaridades para o pai.. —Toma jeito de homem. Era sua deixa. A de "estar" lá. não filho. Precisa de estudo. Como era possível? Como é que "estava" ali? Sim. moleque. pensando que um instante atrás estava numa casa. O rosto no espelho. principalmente dinheiro. Se cair. Havia esquecido que ele tinha a mania de ficar pegando no pé dos meninos que colocavam a mão na cintura. A casa do cartãozinho. Olhou para a porta da cozinha. Que coisa é essa agora? De mãozinha na cintura? Endireitou a postura. —Eu acho que você devia se alistar. Lembrava-se. —Eu sei. feito o teu pai. Esse negócio de empresário não é pra gente como a gente. olhando para o pai com um sorriso embaraçado na boca. —Esse negócio de ser empresário não é assim. que tentara lhe dar uma boa vida. Ia fazer bem para você. Abaixou-se perto da porta de motorista do Corcel enquanto o pai tornava a debruçar-se sobre o motor. Estava na casa do pai. Não machucar o homem vivido. Outro susto. O gosto doce da beberagem impregnando sua língua. era aquele o momento em que começara seu sermão. Estava tendo a sonhada segunda chance. —É isso filho.. O estômago quente. Passou a mão no cabelo e voltou a colocá-la na cintura. Um homem que ria da própria sorte e da luta invencível contra a pobreza. Não é fácil ter negócio próprio. Ismael olhou-se no espelho. Ficou de pé. A sensação era essa. Eu . tem que ir ver mesmo.

. daqui uns anos é gerente de agência.. Poxa vida.. Faz uma poupancinha. Eu já vivi a vida. filho. dá com os burros nágua. filho.. seu Elias. filho. quem não quer ser dono do nariz? — perguntou o velho. — redarguiu Ismael. a gente não pode ficar arriscando em jogadas. Sei que você não gosta da vida que leva. erguendo os ombros e estendendo as palmas das mãos na direção do filho. um velho fodido. Vai ser mais maduro. Que tinha dezoito anos. sinceramente comovido. quebra a cara. —Acredito. —Você é esforçado. filho. filho.. menino. Guarda por uns anos. depois. O pai gemeu enquanto apertava um parafuso. eu sei. contínuo. Eu morro de orgulho dos seus planos. —Não. Pobre é assim. Agora você é muito moleque para entender essas coisas. Tinha que botar comida na mesa. que caminhava para a cozinha. Tou falando sério. com piscina. pensei que não acreditasse em mim. Entra pro Exército. Tanto que vou deixar até um presente. sei que cê tem vergonha de andar nesse meu poisé remendado. Mas tem que começar por baixo. Sei que um dia você vai ser gente grande. Sei que você queria uma casa bacana. faz uma faculdade. filho.. confia em todo mundo. —Não. Voltou a olhar para o . — disse o velho. filho. fazer o quê. leite na tua mamadeira. —Daqui uns vinte anos. sem ter onde cair morto. pai. Ismael contornou o carro. filho. O senhor nunca me disse isso. Eu sou um velho burro.. Jamais sonhara que o pai lhe falaria daquele jeito. —Cê tá certo. sem sonho. aí eu acredito que tu possa realizar o que quiser. não precisa se desculpar. Não precisa interfirir. Mas não se envergonha de começar de baixo. filho. deixei pra lá e arrumei um emprego. entra prum banco.. Sem formosura. Realista. Ismael ergueu os olhos para o pai. não dera chance de ele abrir o peito. Cê acha que eu também não tentei as coisas quando era mais moço? Não consegui. — Te dei essa garra. encarando o filho e emudecendo por um instante para valorizar a última sentença. a gente tem que jogar o jogo que está na nossa frente. filho. —Que é isso. passando vontade de um monte de coisa. filho. com conhecimento e dinheiro.. mas eu te dei uma coisa que vale mais que ouro..penso assim. você vai com sede ao pote. Cê tem cabeça.. Pôr comida no prato. Se tu pegar todo trocadinho e meter o carro na frente dos bois. pai. não li livro que nem você leu. No passado. Hoje tu começa contínuo. Guarda teus trocadinhos. filho.. — murmurou Ismael.. Parece que foi ontem que eu tinha o rosto cheio de espinha que nem o seu. eu tinha que ralar muito pra pôr comida no prato da minha mãe e quando pensei que ia ter uma folga. —Poxa. Com isso tu vai longe. para trazer os amigos aqui. O pai levantou o rosto. Um vento morno entrava através das ripas do portão de madeira. Eu também queria ter o meu negocinho.. Parece que eu deitei e quando acordei tava assim. pai. veio você e tua irmã. cê não sabe o quanto. Escuta teu velho. mas quando eu critico é porque sei que não vai dar em nada. ferira-o antes que lhe falasse das coisas da vida. confia na sorte. não contendo o comentário. mas é a vida que eu tenho. É duro alimentar mulher e filhos. Acredito. Desculpa esse seu filho metido a besta. filho. —Vinte anos passa rápido. Sei que tua cabeça é boa. Sei que não posso te comprar uma roupa bacana.

filho. se levasse a cabo. —Isso. filho. mas assim que tomou essa decisão foi obrigado a recuar mais uma vez. Sabia que deveria ter custado um esforço fenomenal do pobre pai. Ouviu os passos do pai que voltava. pensou até em quebrar a regra e falar pro pai sobre o parafuso caído. um presente para o seu futuro. Um parafuso grosso e pesado. — Quando comprei o telefone aqui pra casa. O velho desenrolava o papel com zelo e cerimônia. Não poderia alertar o pai sobre o parafuso. Ouviu um barulho ligeiro. de ferro. um papel enrolado e guardando na lata de cerveja italiana. — Esse papel é para você. se meu amigo estiver certo. Percebeu que a luz do sol que invadia a garagem ganhava um espectro azulado. Ismael estava com os olhos marejados. Os amigos do velho sempre apareciam com uma nova. esse papelzinho terá peso de ouro. não as de alumínio. —Ações?Pra mim? O velho olhou para ele e aquiesceu. Arqueou o corpo próximo ao parafuso. aumentando a bagunça na cozinha do seu Elias. mas no mesmo instante o brilho desapareceu. lá do trabalho.. Montar um escritório de advogado. são ações. uma . para você depois que eu morrer. como se lidasse com uma folha de ouro. Seu Elias puxou com dificuldade. Jamais descobriria que presente era aquele que o pai lhe reservara do qual nunca soubera. seria tragado dali antes que pudesse dar o alerta e jamais terminaria aquele contato com o pai. —O que é isso.. Mas se não alertasse. Que no dia seguinte aquele Corcel perderia o controle e daria contra um ônibus de linha. aumentando a coleção. Uma lata vazia. Apoiou-se na parede. para sua mãe. e o olhar voltou-se para o filho. um dia isso vai valer muito e você pode começar o seu nego-cinho. Latas antigas. Notou um parafuso rolando debaixo do carro e indo encostando na parede. pra mim tá bom esse velho companheiro. Agora sabia o que aquilo significava. me falou que isso é meio uma loteria. pinçando com os dedos. matando mais duas pessoas. Lembrou-se de dona Irene explicando que não podia trazer de volta quem já tinha ido. — completou descendo o capô e batendo na lataria do carro. Devido a emoção do momento.velho Corcel. Ismael ainda respirava descompassadamente. mas um amigo meu. pai? —É um presente. vou te mostrar uma coisa. Ismael sentiu a respiração pesar. Plano de expansão. Aqui diz que eu tenho ações da empresa telefônica. me deram esse comprovante. O pai morreria. azulado como o emitido pela lâmpada do quarto da estranha casa amarela. que nunca me deixa na mão.. Disse que pode levar um tempão.. Latas de cerveja do mundo todo. sem espaço para enfiar tanta latinha. Só agora lembrava que aquele também seria o último dia de vida do pai. Ismael viu o pai trazendo uma latinha de cerveja. o pai morreria. Se um dia a empresa se valoriza. —Olha filho. É só esperar. de uma coleção estranha que tentava organizar. Eu não entendo muita coisa disso. — disse o homem com os olhos brilhantes. mas um dia eu posso até comprar meu carro zero com isso aqui. — Mas seu pai já tá velho para ter essa coisa de querer carro zero. De que parte seria? Do motor? Do freio? Um frio na barriga. uma coisa pesada caindo no chão de barro batido. Certamente. filho.

Um tesouro. agradecido. depois investe. Seu Elias parou no portão antes de fechá-lo e reteve-se fitando longamente o filho. morrendo aos poucos. Pensava que ele nem ligava para o seu futuro. sem conseguir desviar o olhar. Eu sei que você me ama. Nunca recebera tamanha demonstração de carinho por parte do pai. —Que foi. Ismael riu e soltou o pai. Ismael ouviu barulho de vidro. Fica sentado aí. mas isso caía por terra. não sabia deixar as coisas escaparem do peito para a garganta. a boca sem palavras.. Primeiro estuda. Acho que a gente tava precisando desabafar. os olhos brilhantes. filho? —É. retribuiu o olhar carinhoso. Ismael quieto por um instante. né. Era como naquela troca descobrisse um novo pai. Quanto tempo tinham perdido? Uma única conversa amena e tanto carinho e respeito mútuo. A gente precisava se conhecer melhor. filho. Por sua vez. Eu sempre precisei te dizer essas coisas. sempre. Porém.. pai? — perguntou Ismael. —Que é isso.contabilidade. No entanto o pai era um durão... passava a se achar um perfeito idiota. —Senta aí. eu tô muito contente de tu ter aparecido pra essa conversa. —Sabe.. Abraçou o pai forte e beijou-o na face. cê tá me entendendo? A gente não segue em paz. Ismael deixou as lágrimas escorrerem. Eu também te amo pra caramba. senta aí que a gente tem que comemorar. balançou o portão de madeira. filho. O pai pensava nele. . — a gente não fica em paz enquanto não resolve. fechado. filho. Não vai usar esse dinheiro de qualquer modo. — o velho fez uma pausa com a voz embargada. Ismael sempre fora arrogante demais e descontente demais com a situação para entabular conversas amigáveis com o velho. muito emocionado com o desabafo do pai. filhão. A gente vê os outros sofrendo. rompendo o silêncio mágico. cê tem cabeça. Eu vou num pé e volto no outro. Poderiam ter sido muito mais amigos. A gente tem que comemorar. filho. O pai te ama e sempre vai te amar.. O pai sumiu na cozinha de novo. —Eu sei. — respondeu Ismael. Mas espera. depois de passado os últimos instantes. pai. Deixa que eu vou pro senhor.. filho. mas o pai te ama muito. não importa o que aconteça amanhã. pai. pai. Sabe. Ismael continuou sentado no banco improvisado de madeira.. —Não. Muito mais felizes. mas quando acontece uma coisa dessas. leva jeito pra isso. Ismael estava com os olhos vermelhos. olhando o nos olhos por um tempo. Eu sou quietão. O velho Elias pigarreou e secou um dos olhos antes de falar. Achava-se superior. Tinha uma preciosidade parada ali diante dos olhos. filho? Toma jeito de homem! Homem não chora e nem fica dando beijinho em macho. Um pai. Tirar esse bolo de dentro do peito. Preocupava-se com ele. Viu seu Elias surgir na garagem com uma sacola de feira e dois cascos de vidro marrom no interior. a gente não segue em paz. Muito mais companheiros. pode passar o tempo que for. —Vou na venda do Tadeu buscar uma cervejinha.

A mente cansada. A sensação do coração descarregando um peso ruim. Seu Elias fechou o portão e desapareceu debaixo do sol que banhava a rua do lado de fora. — soergueu a sacola num gesto obsequioso —. como quem tem vontade de ficar.O velho Elias sorriu e agitou a sacola. Seu coração estava limpo. —Agora eu preciso ir. Paz. Um arrepio percorrendo seu corpo.. fazendo as garrafas tilintarem. Será que o pai suspeitava do que se passava ali. .. Alívio. Preciso buscar as cervejas. Manteve os olhos fechados. naquela casa pobre. de que aquilo era um novo encontro? Seria possível? Ismael fechou os olhos. Escuridão. Finalmente encontrara o que viera buscar. — repetiu. Em outro assento. Duas lágrimas desceram na escuridão das pálpebras fechadas. O tilintar das garrafas de vidro ecoando em seu ouvido. esperando pelo pai. naquela garagem suja. Alívio. Ismael recostou-se à parede. Sabia que quando abrisse os olhos. não estaria mais ali.. Uma coisa inútil indo embora. Quando abrisse os olhos estaria em outra casa. O pai jamais voltaria. recuperando o controle das emoções. Sabia que poderia esperar o quanto quisesse. Os olhos pesados.. buscar as cervejas..

Deveria sentar. Fechou os olhos por causa da luz azul. A ele restava levantar-se e cruzar a bendita porta ou se pôr dali para fora. Andou em linha reta. Sentiu alguém tocando sua testa. talvez Mariana tivesse vencido uma prova ou duas e chegado muito mais feliz ao final de sua vida. deixando o rosto erguido.. Enfrentaria seus demônios. Cruzara a porta ao lado da que se reservava a ele. Enfrentaria seus medos.. O gosto doce ainda recendia em sua boca. O cartão surgira para isso. Parou junto dela. Dor no joelho. Estava cansado. Soltou a porta. Aquele chá dava sono. Estava ali por uma razão. Tropeçou em alguma coisa. Decididamente não queria o confronto com o revólver calibre trinta e oito. Hélio trocara um olhar rápido com o homem na cadeira a suas costas. Estava sozinho na sala de ladrilhos. Empurrou suavemente a porta. Com sua ajuda. Ao invés de tê-la amparado e a apoiado a fim de torná-la a atleta que a menina sempre sonhara em ser. Mariana? Fora até ali para buscar alívio. Pôs a mão sobre a madeira fria. Um baque surdo. Uma alma penada. Sentar e esperar. Para apresentar uma alternativa. Hélio recostou a cabeça na cadeira. A luz acendeu. contraindo a pele. Fitou a porta a sua frente. Finalmente alcançou o interruptor. Girou.. Leonora fora a segunda a entrar. onde estaria ela? Não ouvia barulhos. O quarto escuro. silvando. Sentia vergonha em admitir. Uma luz azul.. levando ar para dentro da sala. Escuro. Para um confronto diferente. abrindo uma pequena fresta. A porta fechou-se. uma cadeira caída. Um suor frio brotou-lhe na testa. Até que era bem confortável a cadeira. Voltar para o Escort. Ergueu a peça pesada. Buscaria alívio. Três noites assombradas. Hélio aguardava em silêncio. Sentou-se. Suas palavras só chegavam aos ouvidos da pequena para ofender e culpar. O vento cantou. Tocou a parede. O homem duro e insensível que transformara a vida de uma menina problemática numa cruz ainda mais difícil de carregar. Hélio andou até a porta. O coração acelerado. Foi mancando até a cadeira e a ergueu. Foi como se um vento gelado entrasse pela roupa. Para o revólver no banco de passageiro. Respirou fundo. Logo abaixo da lâmpada azul. voltar para a chuva. Recostou-se. Nem o som da chuva entrava. Ao primeiro passo ouviu o ranger das dobradiças e o fio de luz desaparecendo. Teria que entrar e cruzar a sala para acioná-lo. Sentiu um calafrio súbito. O que havia ali? Por que a primeira mulher tardava em sair? E quanto a dona da casa. Três noites mal dormidas. tinha feito o oposto. Fraca. como se ela estivesse selada há anos e o vácuo urgisse em ser preenchido. Os dois ainda demoraram bebericando o chá. O quarto parecia ter isolamento acústico. Então. Hélio colocou-se de pé. Suas palavras só serviam para desencorajar. Não fora o acaso que colocara o cartão em suas mãos. Dona Irene não aparecera mais... E só um personagem o atormentava. Respiração entrecortada. Era isso. Qual fantasma se escondia ali? Só podia se tratar disso. O medo fez com que o homem perdesse o controle da respiração. A casa parecia assombrada de tão quieta. o homem se fora. Afastou a mão assustado. deixando-o sozinho. Mal podia ver as paredes direito.Capítulo 21 Hélio Hélio olhou para o fundo da xícara. mas estava com medo de cruzar a porta. Passou a mão no joelho dolorido. . com seu amor. A penumbra permitia que ele visse um interruptor do outro lado. Afigura dele mesmo refletida no fundo da xícara. Devia estar há mais de dez minutos dentro da sala. Em direção ao interruptor. Estava vazia. Segurou firme na maçaneta. um fantasma. encarando a porta.

Ouviu sussurros. então de onde vinham as vozes?! Empregou toda sua força. Não era atendido. disse uma voz murmurante. As pessoas vestindo roupas cafonas. talvez acabasse cochilando. Mais frases perdidas. De onde tinha vindo aquela gente? Não conhecia aquelas pessoas. Onde estava? Que lugar era aquele? Pessoas vestindo branco. Não poderia estar ali. Hélio passou a mão repetidamente pelo rosto. Afastou-se do berçário. Era como se estivesse anestesiado. olhando ao redor. Atarantado. com uma janela de vidro ampla para que os pais admirassem os recém-nascidos. O que estava fazendo ali? Passou a mão no cabelo. mas não podia. "Não é a piscina". Viu através de uma porta um saguão. santo Deus?! Levantou-se. Hélio teve a impressão de perder o controle sobre os músculos. Estava com sono. As pessoas pareciam se esquecer dele. que começava a tremer. O gosto do chá estava bem mais ameno em sua língua áspera e a quentura que o líquido deixara na barriga havia praticamente deixado de existir. Sabia que ali era o berçário. Porque estava ali. Hélio comprimiu as costas contra o estofado macio no qual se encontrava sentado. Tinha sido demolida. porém incômoda. Mais precisamente. como se tivessem voltado aos anos oitenta.. Balançou o braço. Se a espera fosse demorada. Sentiu o músculo voltar a obedecer. repetiu-se. Estava com medo. Nada incomodando sua mente. Não conseguia se mexer. De quem eram aquelas vozes? "Chamando doutor Wilson. desviando o olhar. De jeito nenhum. Os olhos não obedeciam o seu comando. de repente. protegendo-os da luz branda. Hélio tentou abrir os olhos. Gente sorrindo." "Ela precisa dele em outro lugar. Não era possível. Podia ouvir: "Ela queria ser campeã. Estava errado. Bebês recémnascidos. Aos poucos foi relaxando e retomando a posição confortável. Voltou a olhar para a porta dupla por onde a mulher vestida com roupas cirúrgicas havia passado. —Pois não. despojada. Ninguém ali para tocar-lhe a testa. Não conhecia aquele lugar. Quase bateu contra o balcão da recepção. pois parecia afundar no mar da inconsciência.. numa maternidade. Não era possível. O coração ainda pulsando ligeiro. centro cirúrgico. O coração do homem ainda disparado. Ninguém. Hélio engoliu em seco. lançando um olhar para o sofá onde abrira os olhos. dormindo. Um berçário grande. Estava num hospital. Ouviu choro de crianças. mas não conseguiu. Aquele sofá havia sido uma cadeira dentro da casa instantes atrás. quase escapando do assento.". Queria erguer a cabeça. O tronco projetado todo para frente. Um sofá caro. Como? Nova lembrança o assombrou a ponto de fazer os pêlos do corpo eriçarem. Pôs tanta vontade que quando ergueu a cabeça quase caiu do assento. O que havia no terreno era um imenso hipermercado. Chamando doutor Wilson. Uma sala ao lado com as luzes apagadas. O coração pulava no peito. A respiração voltou ao normal. De que diabos de piscina a voz falava? Mais vozes. atravessando uma porta dupla de vai-e-vem. O medo desapareceu. rejeitassem. Conhecia a maternidade. A garganta seca. Bebês. Olhou ao redor. Alguma coisa lhe dizia que não estava sonhando. o olhar perdido vagando pelas coisas e pelas pessoas. Não tinha entrado numa maternidade.Recompôs-se com rapidez. . simplesmente porque a maternidade não existia mais. Não poderia estar ali. Conforto. Hélio olhou para a recepcionista. Uma mulher com máscara cirúrgica e roupa verde passou apressada. Pânico. Uma casa amarela. Que vozes eram aquelas?! Sabia que não tinha ninguém ali."Hélio perdeu o controle da respiração. Como tinha chegado ali? Estaria sonhando? Não. Estava tonto. Restava esperar. A mão ainda tremia. Estava numa casa havia pouco.chamava a voz murmurante. andou até o meio da sala. Gente sussurrando em volta. Fechou os olhos. Hélio avançava. Hélio ficou paralisado naquela posição. Admirassem ou. Duas ou três pessoas olhando para sua cara. A luz azul tinha desaparecido. senhor. Conhecia o lugar. Esperar. Olhou para a mão. Paz. Coração disparado. Os olhos dançando sobre as coisas. Naquela hora Hélio sentiu um embrulho no estômago. em direção ao saguão.

—Isso mesmo. Estava zonzo. aguardando o parto. Não estava sonhando.—O senhor está bem? Hélio aquiesceu. senhor. Tinha que voltar.. — Hélio coçou a cabeça e olhou demoradamente ao redor. senhor. Ele a levara. Ele se lembrava. Estava com a testa e as mãos geladas. senhor. Tirou o cabelo da testa. mas as palavras não saíram. —Posso ajudar? —Aqui é a maternidade Santa Esperança? —É sim. Hélio estalou os dedos. — É que eu não sou daqui.. . naquela mesma chuva. Sua Vilma tinha chegado à tarde ao hospital. Virou-se no sentido da sala de onde viera. balançando a cabeça. hesitante. nem voltara para o trabalho. Disso ele se lembrava. A queimadura na língua era prova contundente de que "realmente" estava ali. preso num cenário do passado. Hélio sentiu as pernas fraquejarem. sim. — começou. senhor. O senhor está no lugar certo. sob as sobrancelhas arqueadas da recepcionista. a gente não lembra nem simula coisas como uma queimadura na língua. Só podia ser um sonho. Às oito e vinte da noite. —Vilma Maria de Souza? A mulher tornou ao papel. naquele lugar. Hélio moveu a boca. Parou. Em sonho. Chovendo. constrangido. Precisava sentar ou cairia desmaiado no meio do saguão. — Você tem um livro de registro aí. não tem? A mulher assentiu. Retornou. Aquela maternidade tinha sido demolida.. deslumbrado. acho que não deveria estar aqui. Distraidamente comprimiu a língua entre os dentes. A menina nascera à noite. Hélio colocou a mão na boca. Não podia precisar a hora. A língua doendo e ele ali. Voltou a olhar para a recepcionista.. —Tem alguma conhecida internada aqui. e a voz da recepcionista contribuiu para aumentar a palidez do rosto. mas fora depois do almoço. —Pode ver se uma Vilma deu entrada hoje? —Claro. senhor? Esposa? Irmã? Hélio negou. —Da rua Vitória? —É. —É parente dela? Hélio assentiu. Outro arrepio cruzou-lhe o corpo. nervoso. que continuava a observá-lo. Deu entrada às 14 horas. Tremia. —Desculpe esse meu jeito. A língua áspera por causa da queimadura provocada pela ingestão do chá ainda muito quente. só mexendo a cabeça. A língua doendo. Vilma Maria de Souza. —Temos uma Vilma. naquele dia.

Vai fazer bem. Tem um bebedouro a sua direita. um sujeito de cabelos grisalhos e óculos de armação grossa. Levantou os olhos e virouse. Afastado. . As linhas eram aquelas. Seu coração disparou. Estava ansioso por vê-la mais uma vez. moço. Mariana seria colocada ali. Tanto para salvar sua alma quanto a alma da filha Mariana. Bateu os olhos no pulso. os olhos foram direto para o sofá em couro branco onde "surgira" sentado. —Essa é a sua menina? — perguntou ele. Tinha os seus olhos. mas naquele momento buscava algo que lhe confirmasse que aquela era a sua filha. Bebês nos leitos pequeninos. Cuidado. Tinha perguntado as horas mas estava com o relógio. Sempre rejeitara qualquer semelhança. Quando decidira entrar naquela casa. Sabia que estava ali para algo muito maior. Hélio concordou mais uma vez e deu as costas ao balcão. Dois sujeitos cruzando a porta dupla de vai-e-vem. Sorrisos e felicidade. Os olhos eram idênticos aos do pai.. desculpe.. nem percebeu o homem se aproximando. Hélio sorriu. não era semelhante. —Dona. O leito imediatamente a sua frente ainda estava vazio. olhando para os bebês. Não se lembrava de ter percebido isso no nascimento da menina ou em toda sua vida. Oito e vinte. ficando com a face semelhante à da mãe. senhor. Hélio recostou-se ao fundo. mas se alongariam com o passar dos meses. Para isso tomara chuva e abandonara a arma. Sentiu-se um palhaço. Por um breve segundo. terminou com os olhos cheios d'água. Tinha que ficar atrás. O medo dava lugar ansiedade. respirando emocionado. Abaixou a cabeça e apertou os olhos. Então. Ergueu os olhos para a outra ponta do salão. Não estava ao nível deles. A hora em que a filha nascera.. Um homem entrando esbarrou nele jogando-o para dentro da saleta. perdendo a noção do tempo. Hélio tentou um sorriso de agradecimento e retomou o caminho. As pessoas ficam meio bobas mesmo com o nascimento dos filhos. De onde estava. Hélio percebeu que limpavam a criaturinha. Ficou observando através do vidro. vieram em sua direção. Sussurros. numa casa mágica. Seu bebê. Era uma gracinha. com um vidro grosso separando a saleta do berçário. O berçário. com um sorriso largo e olhos fixos na criaturinha chorosa no minileito do berçário.. com medo de chegar muito rápido e estragar tudo. Uma enfermeira cruzou a porta interna do berçário trazendo um bebê enrolado num lençol verde. Hélio sorriu. devido ao parto recente o rosto da filha. mas que horas são? —Oito e vinte. Hélio. encarando a grande abertura na parede. Estava ali em busca de perdão. A calça jeans ainda estava um pouco úmida por causa da chuva recente.—Não se preocupe. Não restavam dúvidas de que realmente estava ali e que poucos minutos atrás estivera numa casa. constrangido. Vozes e alegria. Dois sujeitos que tinha a impressão de conhecer. A menor entre todos os outros bebés. Era a hora. Para isso fora à casa. Sua menina estava chegando. Queria que tudo fosse diferente para ela dessa vez. Era uma menininha. sem despregar os olhos da porta vai-e-vem. não um irmão dos homens que ficavam felizes com suas crias. Pais comentando felizes a chegada dos filhos. Em busca de alívio para o coração sofrido. jamais sonhara ter essa nova chance. pôde entrever pessoas debruçadas de fronte a uma larga vitrine. Com medo de contaminar os outros com seu egoísmo e insensibilidade. Tome uma água. Pôs a mão no peito e virou-se para uma última pergunta. Pensando nessas coisas. reconhecendo nos traços ainda inchados. Pousou a mão na porta e empurrou-a. Considerava-se um monstro. De novo no salão. Colocando o bebé na caminha aquecida para recém-nascidos logo a sua frente. Aproximou-se lentamente. de volta ao salão que deixara instantes atrás. Estava ali em busca de redenção.

Ficou parado ali alguns minutos. ela não vai deixar e ainda vai me passar um pito só por perguntar. como te disse. Vou viajar e não volto a vê-la. Ela sorria. Com um vidro espesso separando os dois. Ele olhou para a menina e se voltou para Hélio. Hélio suspirou fundo. Enxugou as lágrimas e olhou para o homem com um sorriso. Um bebê pequeno. a gente não sabe o dia de amanhã. Ela precisa de oxigénio. Aquele homem. —Senhor. —O senhor tem toda a razão.. mas a doutora que está de plantão hoje. —Essa é a minha filha. os membros raquíticos. mas não dá para eu ficar um pouquinho com ela? Pegá-la no colo um instantinho. o senhor sabe como os médicos são. ficar na incubadora. justamente ela é a chefe da U. Depois de algumas horas. Hélio se viu numa sala pequena. recebia todos com um sorriso. —Olha. Explica que eu vou viajar.. ela é a mais exigente.I. Sabia exata-mente qual era o problema da filha. Não podia ter terminado. — começou a falar atrapalhadamente a enfermeira. Sua filha precisou ser encaminhada para a U. senhor. Sentiu-se triste por esse novo encontro resumir-se a isso. Logo uma enfermeira atendeu. Hélio olhou para a filha no leito. moça. Estava misturado a eles. A pediatra que está no plantão. Hélio. —Poxa.Hélio sentiu um novo arrepio percorrendo-Ihe o corpo... —Só um pouquinho. Precisou dar o nome de Vilma para identificarem a pequena.. Hélio não pediu explicações. enquanto puxava Hélio pelo braço e o conduzia a uma sala imediata ao hall de entrada do berçário... a mais cri-cri. É a mais bonita do berçário. é uma das mais chatas. um pediatra vai conversar amanhã com o senhor e sua esposa. não sabe? Hélio não se deu por vencido e após muita insistência a enfermeira foi ter com a pediatra.I neonatal. Era um dos fantasmas que habitavam seus sonhos. Nunca se esquecera dele. Ela ainda está em observação. Explica para o médico que eu sou o pai.T. eu posso até tentar. Ela é a mais bonita. Eles não deixam ninguém ficar com os bebês nas primeiras horas. mas é que isso não acontece todo dia. Sabia que ela não estava bem. diferente do passado. —Olha. a enfermeira retornou pesarosa. Eu vou fazer uma viagem longa e me ausentar por um bom tempo. —Os médicos não deixam. Era um papai. Hélio não precisou esperar muito até ver a porta se abrindo diante de um olhar surpreso da enfermeira. A enfermeira lhe providenciava um conjunto de roupas verdes enquanto pedia desculpas e não parava de . eu juro. Ela é linda. e pode acontecer de eu não encontrar mais minha filhinha. Outros pais vieram também congratular. Ela precisa ficar lá por enquanto.T. uma das enfermeiras enrolou a pequena Mariana e a retirou do berçário. Queria ao menos tê-la segura do no colo uma vez. por isso achei que nem valeria a pena.. Era um deles. olhando para a mulher que se afastava com a filha. Em poucos instantes. um banco baixo de madeira e um grande cesto plástico repleto de roupa hospitalar suja. Uma observação. Que eu tenho direito.. o senhor me desculpe se fui insistente um segundo atrás. Para onde a filha fora levada? Encontrou uma campainha. com um armário de escaninhos.

Era tão pequenininha! Como não percebera antes o quão valiosa e graciosa fora sua filha? Por que tinha sido tão idiota? Merecera cada instante de agonia em que afundara sua vida nos últimos anos. com cuidado. ela puxou a cadeira para perto da câmara. Estava feliz em poder reviver aquele momento. Hélio entendeu. Antes que Hélio pudesse negar. contente em ao menos permanecer mais um pouco ao lado de Mariana. Ele seguiu a enfermeira pelo berçário. A filha. a enfermeira continuou. Ele fora um completo idiota. explicando que no colo ela não podia ficar mais. podia entrar e segurá-la no colo um pouquinho. Pediu para ficar só mais um pouco junto dela. ele adormeceu ao lado de Mariana. Que culpa tinha aquele serzinho recémnascido? Nenhuma. tentando manter um sorriso no rosto. Quem sabe fosse a primeira vez na vida que quisesse mesmo segurar a menina no colo. Ficou abraçado a ela. Me perdoa. Abaixou até tocar a máscara no ouvido do bebê. Eu te amo muito. Os olhos percorriam o corpinho do bebê adormecido. mas um tonto que te ama muito. Não tire essa máscara enquanto estiver na UTI. —Não encoste em nada. Em seguida foi até uma espécie de câmara e. Hélio entregou sem querer entregar. mas parecia uma eternidade. Como era bom ter a filha nos braços! Hélio percebeu quando uma lágrima des-prendeu-se e bateu no rostinho da menina sem que ela esboçasse reação alguma. A enfermeira depositou o bebê quase sem peso nos braços magros do pai. e os olhos de Hélio pesaram. porque o senhor tinha vindo aqui só para isso. Vendo as lágrimas descendo no rosto do homem. O tempo passou. A mulher lhe indicou uma cadeira. —Minha filha! — exclamou emocionado. Como você sabe? —A médica disse que se fosse o pai da Mariana. Hélio engoliu em seco. E vivê-lo da forma certa. Desejou que todas as pessoas no mundo tivessem aquela oportunidade. apanhou sua filhinha. Mariana. À medida que a enfermeira se aproximava. Enrolou-a num lençol e trouxe-a. . Ajeitou-se na cadeira admirando sua querida filha. tá? Perdoa o papai. A enfermeira retornou e pediu o bebê. A enfermeira tinha dito que seria só um minuto. Hélio levou um tempo para acalmar-se. filhinha. Beijou-a através da máscara cirúrgica. filha. o coração de Hélio batia mais rápido. —O senhor devia ter-me dito que era amigo da médica.falar e gesticular. O papai é um tonto. A oportunidade de uma segunda chance. O homem estava chorando. Apressou-se em enxugar a gota que escorria pela face da filha. —O nome da sua menina vai ser Mariana. cruzando duas portas e duas salas até chegar à UTI neonatal. Sem que percebesse. não é? —É. —Eu te amo. Que a Mariana precisava do senhor.

Beijara-lhe a mãozinha minúscula. Nunca se sentira tão bem na vida. Tapou a boca e o nariz com as mãos. revivendo a experiência. o homem mais magro e baixo.. tinham dado um jeito nas suas coisas. Olhou o chão de madeira.. Estava calma. fechando a porta e caminhando para o meio da sala. Aliviado. como ela mesma deveria estar. Rosana esperou um segundo para que se acostumasse à claridade até abaixar a mão. Tudo no lugar. A paz retinia dentro do peito. mas sem a sombra das feições tensas com as quais chegara à casa. como se mascasse um chiclete inexistente. e a luz vinda da sala principal incomodou seus olhos. mas mais amena. de alguma forma. A garota de cabelos vermelhos e curtos. cacheados. ouvindo as gotas baterem na soleira da porta e no jardim. mas a boca cerrada e os olhos serenos mostravam que havia uma energia diferente emanando de Leonora. Um sorriso brotou nos lábios. Levantou-se e deu três passos até a porta.Capítulo 22 A Volta Quando Rosana abriu os olhos. o homem alto saiu do quarto. Olhou para a mulher do outro lado do salão. Aquelas mulheres com feições absortas também deveriam ter cruzado alguma fronteira e certamente tinham estado em outro lugar. Parecia menos espantada. Hélio estava com a boca seca e movia os maxilares sem descolar os lábios. Como se não lhe faltasse nada. Era isso que importava. Ouviram a quarta porta se abrir. O estômago queimando de faminto. quando percebeu mais uma porta se abrindo. O chão de taco estalava conforme se movia na cadeira. mas o suficiente para um novo suspiro e novo olhar sobre as companheiras de experiência. incrédula. Estendeu a mão diante dos olhos. Viu do outro lado. pensando. Hélio ensaiou um sorriso para a garota de cabelos vermelhos. um milagre e ninguém desejava estragar a sensação do outro. Respirou prolongadamente. Não teve pressa. O coração em paz. Sentia como se tivesse feito exercícios o dia inteiro sem comer um grão de arroz. ornando a cabeça.. No mundo novamente. Durou um segundo. perdido. esfregando a camisa ainda úmida. Parecia que estava caindo em si. estava novamente no cômodo da casa banhado pela luz azul da lâmpada fraca. As duas mulheres com ar de zumbis alegres dando passos lentos sobre o piso de tábua. Um cheiro de pó chegou ao nariz. Estava "passado". Novamente olhava para o nada. Lá fora a chuva ainda caía. O barulho da chuva chegando aos ouvidos. também deixando seu respectivo quarto. Estava com um olhar assombrado. Todos sabiam estar vivendo. Ela também tinha os olhos vermelhos. teriam uma história para contar. teve certeza de que a mão não tremia mais.. um momento mágico. a de cabelos loiros. Tanto ela quanto os outros dois visitantes . Passou a mão no peito. Só sentia tranquilidade. As quatro cadeiras no meio da sala principal. Mesmo com a iluminação precária. Foi recebido com sorrisos pelos confrades. Ismael também levou um tempo para se acostumar com a claridade. Fitou o salão por um instante. Girou a maçaneta. Tinha vivido um milagre. escondendo entre os dedos um sorriso. Sentiu um calor aconchegante percorrendo o corpo. Contente. Os olhos baços e avermelhados não deixavam dúvidas de que ele tinha se emocionado muito. Estivera com Mariana. Todos ali buscavam o mesmo. engrossando o silêncio voluntário do grupo. A cabeça leve. sem nada dizer. Pressionou os lábios com o dedo indicador e o polegar. Rosana deixou o quarto. Rosana ainda estava parada no meio da sala.

— juntou Leon. Ismael retribuiu o abraço do homem. de esperança. — disse Hélio. — disse Rosana. cheio de sentimento.. Ismael lembrou-se de Gisela. —Preciso ir. atravessando a porta pela qual dona Irene tinha deixado a sala. —Não tem ninguém aqui. que viagem! Hélio encarou o homem mais alto. A luz parecia mais fraca do que quando chegaram. Rosana quebrou o momento tenso: —Por que está tão nervosa. gesticulando positivamente com a cabeça. E daí que não se conheciam? Deus! Que experiência! Todos estavam precisando de um abraço. passando as mãos pelas mangas da blusa. podiam sentir os ombros mais leves. Estendeu os braços para o desconhecido e abra-çou-o por um breve instante. —Vai ser difícil. pálida. Naquele momento. Leon abraçou Rosana. A garota andou. quebrando o pesado silêncio. — Nem dá para acreditar. —Meu Deus do céu! — desabafou Ismael. Parecia sintetizar naquele gesto o que ia no peito de todos. Tinha sido a experiência de uma vida. A chave do quarto em seu bolso. Ela pode ter subido. A cozinha está vazia. —Eu nunca vou esquecer esse dia. —Preciso ir. né? — disse a garota de cabelos vermelhos. Cara. Leon pôs a mão na boca duas vezes antes de falar. Foi um suspiro de alívio. do outro lado da rua. todos se olharam e se aproximaram das cadeiras. Tinha deixado as meninas aos prantos e sem explicação. Os homens deixaram os olhos vagar pelas paredes. Os três se olharam mais uma vez. aguardando-o na Pajero. Rosana lembrou-se das filhas. Tinha sido bom para todos. talvez . Ismael deixou um suspiro prolongado. Todos queriam deixar a casa. Leon soltou-se de Rosana e foi em direção à cozinha. — disse. Os homens pararam lado a lado. mas esperavam por dona Irene e a moça de cabelos vermelhos. silenciosa. As paredes pareciam mais escuras. procurando se aquecer. Viram Leon surgir na porta. emocionado demais para se expressar em palavras. Nem comera o bolo de aniversário que as garotas tinham preparado com carinho. e já podiam sentir o benefício que tiraram daquele encontro. Quanto tempo tinha ficado dentro da casa? Estava sem relógio.. Silêncio. A urgência em estar com as filhas cresceu no peito. Leonora? Essa casa é grande.. — Onde está a dona Irene? Preciso agradecer. Notaram que as mãos dela tremiam. com lágrimas nos olhos.pareciam outras pessoas. escapar. Assim que soltou o cara. —Foi tão bom. percebendo os olhos dos outros convergindo para cima dela. A chance almejada por uma multidão de sofredores..

que deveriam estar em desuso fazia muito tempo. Acho que demoramos.. Mas o pouco de claridade proveniente da sala principal mostrava um cenário no mínimo contraditório. — repetiu Hélio. Uma carcomida e ressecada mangueira saía do aparelho.para se deitar enquanto nos esperava. mas ele não funcionaria sem um bujão de gás. tentando fazê-la parar de tremer. a mesma da foto.. — disse Ismael. — confirmou Ismael. mas achou melhor não comentar com ninguém. Hélio engoliu em seco e voltou para a sala. como se ninguém entrasse naquele cômodo há anos. Seja o que for que encontrou atrás daquela porta. —Eu preciso ir embora. sozinho? Ismael meneou a cabeça negativamente. como vocês me explicam isso? — perguntou Leon. mexeu conosco. Viu a senhora de cabelos encaracolados correr atravessando a rua com uma folha de jornal na cabeça. mas essa casa é assombrada. . —Obrigado. A casa escura não convidava a muitos passeios.. mas ela terminava em nada. — murmurou para a casa vazia antes de virar-se e encostar a porta. A manchete dizia: Elis canta na comemoração de noventa e sete anos da médium Irene Proença. Uma cozinha suja e empoeirada. Ismael notara os recortes de jornal emoldurados na parede. A sala principal realmente parecia bem mais escura do que quando entraram. Vai ficar aí. Olhou uma última vez para o salão empoeirado. as mulheres ficariam mais assustadas.. Mudos. não viram? —Vimos.. —Espera. solta no ar. mexeu com você.. —Calma. Ismael aproximou-se da menina. Foi a vez de Ismael e Rosana inspecionarem o cômodo. novamente reunidos na sala principal. talvez fosse filha daquela Irene da foto. ainda tremendo. Sobre a pia. e podia jurar que era. segurando seus braços.. —Então. Aci-onou o interruptor. Tinha a foto de dona Irene segurando a mão da cantora Elis Regina. não parecia ter tudo isso.. Havia um fogão. A dona Irene que os recebera na casa parecia ter no máximo setenta. Os quatro. dona Irene teria no mínimo cento e dezenove anos.. tentando tranquilizar a garota. A chuva batendo na cabeça. moço. Ninguém se habilitou a procurar pela mulher no andar de cima. A luz não acendeu. Ismael despertou dos pensamentos quando ouviu a voz de Leon chamando. — Deixa a menina se acalmar primeiro. perdido no meio da situação. Leonora. mesmo sem ter muita certeza. Uma prateleira velha e igualmente empoeirada fixa à parede. O outro homem entrava num Escort estacionado em frente à casa. quatro xícaras enegrecidas pela poeira. Ismael estava no quintal. Você acabou de passar por uma experiência forte. trocaram um olhar ligeiro. apontando para a cozinha. Tinha lido algo estranho num deles logo após sair da cozinha à espera de Rosana. vocês vão me desculpar.. —Vem. A menina de cabelo vermelho estava parada no meio do jardim olhando para ele. mas a dona Irene. Teias de aranha no teto. —Mas vocês viram ela vindo da cozinha quando trouxe o chá. —Se ela fez o chá nessa cozinha. Se o recorte fosse verdadeiro. Hélio adiantou-se até a cozinha escura. dona Irene...

—Você quer carona? A garota aquiesceu. essa é a Leon. . menina? — perguntou. Gisela. Leon. Leon. Meu carro tá do outro lado da rua. Viu a luxuosa pick-up estacionada do outro lado. essa é Gisela. Eu também tô molhado. Leon ficou um pouco sem jeito. A roupa molhada ia estragar o estofamento. minha namorada.Ismael desceu os três degraus de cimento e caminhou em direção ao portão de ferro. Sorriu em silêncio e tornou a olhar para a garota parada na chuva. Ismael abriu a porta para ela. — disse o homem. Meu nome é Ismael. —Não se preocupa com a água. Ela sentou-se no banco de motorista diante do olhar curioso de Gisela. —Prazer. Ela estava na casa comigo e mais dois. — adiantou o novo amigo. mas sua cara está ótima! Ismael deu partida e saiu com o veículo. —Corre. Você não vai acreditar. Olhando para a porta semicerrada. percebeu que a luz da sala havia se apagado. concluiu que tinha alguém dentro. —Leon. Leon. —Como é o seu nome mesmo. acompanhou o homem. virando e estendendo a mão para a garota. Notou que o quintal escurecera. colocando o baixo no ombro. Por causa dos vidros embaça-dos. Leon ficou mais à vontade. batendo a porta. —Gisela. —Você não vai acreditar. —O aconteceu lá dentro? Eu estava super preocupada.

Pinçou o documento com cuidado. A coleção ela tinha guardado. o que dificultava a transação. o papel já estivesse corroído e imprestável. mas naquele dia o olhar demorou mais no antigo portão de madeira e nas paredes rachadas. Estava ligeiramente amarelado e danificado nas dobras. Demorou até encontrar a lata italiana que tinha visto na mão do pai no encontro recente. Ismael olhou para a velha residência. o valor seria liberado pela companhia telefônica e então ele usaria o dinheiro para realizar o sonho do pai. Talvez. Gisela e Leon dormiam quando ele entrou na Pajero e deixou a propriedade. Saiu para o jardim da casa. e o pai se fora quando tinha dezoito anos. então se desfizera de tudo. que conversara amistosamente com o pai pela última vez. Teria que se desfazer da casa por preço de banana. as ferramentas remanescentes jaziam enferrujadas. Agradeceu a tia e a deixou com a promessa de uma visita em breve. então abriu um sorriso para receber o sobrinho. Falou da coleção de latas de cerveja. Preferiu a caridade. Quantas vezes tinha feito aquilo desde que se mudara? Uma ou duas no máximo. A mãe morrera quando ele ainda era garoto. Segurou o papel como um tesouro e colo-cou-o com cuidado no bolso da camisa. que vira o pai pela última vez. Gostaria que o pai estivesse vivo para ver. Atravessou as tábuas e viu um amontoado de coisas na garagem. naquele quintal ainda de barro batido. Talvez nem mesmo encontrasse o tesouro encerrado na lata tantos anos depois. Estendeu vitoriosa para o sobrinho uma lata desbotada e enferrujada. Iria direto do banco a uma concessionária e compraria um veículo zero quilômetro. penduradas no painel montado pelo velho. sem nunca ter recebido o prometido acabamento. tornou-se hóspede e a mais recente contratada de Ismael. com a frente no reboco. mas não foi correndo para o trabalho. Ismael abriu um sorriso franco e agachou-se ao lado da tia. Ismael descobriu que o instrumento que Leon carregava não era de enfeite. mas talvez ainda valesse alguma coisa.Capítulo 23 A caminho de casa. As latas estavam desbotadas a maioria enferrujada. Ismael só aparecera naquele lugar uma única vez após deixá-lo. Levaria o . Duas horas e meia depois. espiando a luz do sol batendo no gramado. Ismael sempre olhara para aquele cenário e tudo o que sentia era angústia e desejo desesperado de lutar para sair dali. Ele tentou vendê-la mas o imóvel não tinha documentação alguma. e a tia apareceu. Ismael ficou surpreso com o valor obtido com as ações. Demorou um segundo para reconhecê-lo. Ismael chegava à cidade onde crescera sob os cuidados do pai. Ismael na certa deixou transparecer seu aborrecimento. vasculhando as caixas. Ismael conversou uns instantes e perguntou sobre o que fora feito das coisas do pai. Na manhã seguinte. A tia saiu do umbral da porta e foi para a garagem revirar as caixas. Na parede. A garota era uma baixista desempregada. Olhou pelo buraco. mesmo que encontrasse. A casa pobre do pai ficara com uma tia. Passou pelo escritório doméstico e não ligou o computador. ele acordou cedo. Fora ali. pois a tia perguntou o que ele procurava. que antes vivia de favor na casa de uma irmã de igreja. Como Leon não tinha onde ficar na cidade. Tirou a corrente do portão e chamou pela tia. A mulher revelou que esperara uns cinco anos para ver se ele aparecia para reclamar algo. Devia esse cuidado ao velho. Deixou a propriedade com uma tia que não tinha onde morar. Mas surpreendeu-se quando pôs as mãos no vasilhame italiano. Quando foi obrigado a recuperar um documento. A herança que o pai lhe deixara. Dessa vez sentia apenas certa nostalgia. Não queria o dinheiro para ele próprio. Ouviu barulho dentro da casa. Em alguns dias.

o carro que ele nunca conseguira ter. O restante do dinheiro seria dividido entre a tia e um lar de velhinhos que ficava no mesmo bairro.carro para a velha garagem de barro batido e o deixaria lá. . como um presente ao pai.

como hipnotizado. Era um lugar habitado por almas e portais mágicos. Parecia uma casa abandonada. Livre da necessidade do álcool maldito que só fazia estragar sua cabeça. Hélio guardou a arma no porta-luvas. deixando a porta semicerrada. De Vilma. Três malas. Mas contaria que era uma nova mulher. livre dos fantasmas. Agora tinha a lembrança reconfortante dele com a filha na maternidade. Como se tivesse perdido algo. na residência.. Um pouco de descanso. Quem mais acreditaria na história da casa? Nas sensações? No poder da segunda chance? Ninguém mais. Parou o carro quando passava pela mulher de cabelos loiros chacheados. A sala estava escura. tão ansiosa para o reencontro com as filhas. Hélio tocou para o seu apartamento. para levar as boas novas. Hélio deu partida no motor. Um fantasma que não existia mais. Estava exausto. Desabotoou a camisa e tirou os sapatos e as meias. num canto. Jamais contaria para as filhas os detalhes do acontecido. com quem teve uma conversa agradável. Aquele lugar era assombrado. não conseguiu esperar o elevador e subiu os andares pelas escadas. Hélio ficou parado por quase três minutos. Estava felicíssima. Mas ao menos seu coração agora estava limpo. Rosana. Ligou o carro olhando para o homem que descia os degraus. Queria um banho quente para se livrar daquela roupa gelada. Abriu o apartamento. A chuva batendo suavemente no capô. Um lugar abençoado. ele contaria toda a história. Foi até a cozinha. Trocaram telefones para conversar sobre essas coisas quando quisessem.. Será que seria tarde demais para convencer a mulher ficar? Queria mostrar que era um novo homem. que verdadeiramente nunca lhe trouxera conforto. Faltava-lhe a culpa. Sabia que a tinha amado... A mulher o deixaria para sempre.. deixando o líquido escoar pelo ralo. usados para fugir do fantasma de Mariana. Não precisava mais daquele veneno. Sem tremores. Que casa estranha! Que dia estranho! Passou os dedos sobre a têmpora. Hélio tinha sido o primeiro a atravessar o jardim e a deixar a casa. fitando-as. livre dos tormentos. Depois pensaria mais. que tentava se proteger debaixo de uma frágil folha de jornal. Admirou-se quando notou a luz da casa apagar-se fantasmagoricamente. A levaria lá se fosse necessário. E de fato o faziam. Sentou em seu Escort e ficou em silêncio por um momento. havia apenas um jogo de malas com o que restara de seus pertences. Um homem de coração limpo. Ficou olhando para as malas até sentir a boca seca demais. Sentia como se lhe faltasse alguma coisa. Apanhou e desrosqueou a tampa. Um homem que merecia uma segunda chance. A coisa toda a respeito da casa. sem o viço que encontrara quando chegou. Pronto para retomar o controle em sua vida. Tomou o líquido aos goles. Andou vagaroso pelo corredor . Um relâmpago clareou o céu. Quando precisassem reafirmar que aquele dia existira de fato e que cada um tivera verdadeiramente um encontro com o passado. Abriu a torneira e serviu-se de água. Viu uma garrafa de úisque em cima da pia. Entornou a garrafa. Olhou para o imóvel. Hélio girou a chave na fechadura. Deu carona para Rosana. Poderiam tentar mais um filho. Quando ela aparecesse. parando e refletindo.Capítulo 24 Naquela noite inesquecível. Recomeçar. e isso era bom. Seria uma nova mãe.. sem a esposa que amava. Precisa de descanso. Voltou ao corredor tomando cuidado com as malas de Vilma. como de duas pessoas compartilhando um segredo. Tropeçou nas malas de Vilma deixadas na entrada do corredor. sem remédios. apenas instantes de inconsciência. Pressionou o botão chamando o elevador. O apartamento vazio. Precisava molhar a garganta. que permitia cura aos corações atormentados.

meio sem saber o que procurava... Afilha amada estava ali.. papai. pisando suavemente no carpete. Adentrou o quarto infantil. Hélio chegou junto da menina. Le-vantou-se depois de quase dormir naquela posição.. Ela fora uma garota excepcional. —A gente vai para a praia amanhã. Hélio sentiu um disparo elétrico percorrer o corpo. prateleiras que nunca tinha notado antes. Hélio pigarreou. Estava perplexo diante daqueles objetos inesperados.. Para matar saudades.. Tantas medalhas.. Quando quase fechava a porta ouviu uma voz sonolenta chamando: —Papai? Helio teve mais uma vez aquela sensação de choque. Conquistara tudo o que o pai lhe negara antes da visita. Estava envergonhado. Foi impossível não se emocionar. Mariana havia se tornado uma campeã em natação. Fotos. o quarto estava diferente de como o havia deixado antes de sair. Estava mudado. A luz acendeu e feriu seus olhos. após provas na piscina. Parou em frente ao quarto de Mariana. O coração acelerou. Os olhos pesados de sono passavam por cima dos móveis e das coisas da filha. Alguma coisa se mexendo na cama no canto do quarto. acho que é por isso que não consigo dormir de novo.. entrou. —Sou eu. Os olhos ficaram presos à parede. O quarto. Abriu a porta e acendeu a luz. com a praia. Prateleiras diferentes..acarpetado. Finalmente sabia exatamente porque Vilma mantivera o quarto intocado. Livre do tormento. Os olhos arregalados e a respiração entrecortada pareciam a de um homem que se deparava com um tesouro. dando uma última olhada para o quarto. Aquelas prateleiras. Era como se tomasse um choque potente. Havia uma cadeira ao lado da cama. —Papai. Secou o rosto e o nariz. não eram daquele jeito. as prateleiras estavam cobertas de troféus e medalhas. mas envergonhado. De alguma forma sua visita à maternidade havia afetado o destino da filha.. Aquelas fotografias mostravam a ele e Vilma. é você? Hélio aproximou-se. .. Um bracinho escapando do grosso e confortável edredom.. filha. Ajoelhou-se e recos-tou-se à parede. Aproximou-se de uma das paredes para olhar de perto. —Acho que não consigo dormir. Mariana. Prateleiras.. Os desenhos de Mariana. acho que estou morrendo de vontade de nadar. Talvez quisesse matar saudades da menina. Os olhos se encheram de água quando começou a entender.. Fotos em molduras nas paredes. O coração batia tão forte que parecia a ponto de estourar seu peito. Mostrara que o amor vencia as fronteiras do corpo e da alma. Apagou a luz e virou-se para deixar o cômodo. onde Hélio sentou-se com cuidado. Girou a maçaneta e. Hélio não pôde conter a emoção e não pôde segurar as lágrimas.. tive um sonho. Recuou um passo com o braço estendido. com a pequena Mariana nos braços. que logo se juntaram a soluços. deitada em seu quarto. Hélio piscou até recuperar a visão. Desenhos de criança. Um calor indescritível assaltou seu rosto e alastrou-se pelo corpo. as coisas que Vilma insistia em manter em casa. Incontáveis troféus. As medalhas comprovavam isso.. A respiração e o coração aceleraram.. Hélio olhou demoradamente para a parede. Que o afeto e respeito eram capazes de operar verdadeiros milagres.. Os troféus mostravam o resultado do esforço da menina. Desenhos de uma menina feliz com os pais. Os pêlos do corpo eriçados.. de bibelôs antigos. procurando o interruptor. ao invés de bichos de pelúcia empoeirados pelo tempo.. Tentou responder mas a voz não saia. sair-lhe pela garganta. chorando como uma criança. As prateleiras.

— Saia da escuridão e vamos embora daqui. por obra divina. mesmo assim.. —Continua aquela. Já limpei o caminho até nosso ensolarado castelo onde te espera o amor e a compreensão. FIM Fale com o autor: andrevianco@bol.. princesinha! — bradou o valente fidalgo. apanhou o livro na cabeceira. finalmente.. —". como se já tivesse no mais profundo sono. princesinha! Deixa essa cela escura e me dê a mão"... vem.—Me conta uma historinha. de onde você parou ontem. papai? Hélio assentiu com a cabeça. suspirou prolongadamente. Não tenha medo princesinha.. Mariana apanhou a mão de Hélio e virou-se tocando a testa nos dedos entrelaçados. a hora em que o príncipe chega para libertar a princesinha. Vem.. Abaixou-se e beijou-lhe a testa..com. Acalmou-se. — declamou o pai de Mariana. brandindo sua espada heroicamente. no meio de um bocejo. atendia seu chamado e apertava-lhe a mão. — . Em seguida passou a mão sobre o cabelo da filha. pois eu já matei o dragão e venci a malvada bruxa. olhando para a pequena princesinha que. Abriu na página que exibia o cavaleiro em frente à cela do calabouço. esforçando-se para não desatar o aperto de mão.br Visite seu site: www. Hélio tirou uma lágrima que desprendia do olho. — pediu a menina. emocionado.com . Sabia a história de cor. com os olhos fechados.andrevianco.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful