FERVOR DE BUENOS AIRES

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Jorge Luis Borges
– 1923 -

Este livro: Fervor de Buenos Aires é parte integrante da coleção:

JORGE LUIS BORGES – OBRAS COMPLETAS VOLUME 1
1923-1949 Título do original em espanhol: Jorge Luis Borges – Obras Completas 98-3272 Copyright ©1998 by Maria Kodama Copyright ©1998 das traduções by Editora Globo S.A.

1ª Reimpressão-9/98 2ª Reimpressão-1/99 3ª Reimpressão – 12/99
Edição baseada em: Jorge Luis Borges – Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona – Espanha. Coordenação editorial: Carlos V. Frías Capa: Joseph Llbach / Emecé Editores Ilustração: Alberto Ciupiak Coordenação editorial da edição brasileira: Eliana Sá Assessoria editorial: Jorge Schwartz Preparação de textos: Maria Carolina de Araújo Revisão de textos: Flávio Martins, Levon Yacubian, Luciana Vieira Alves e Márcia Menin Projeto gráfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: GraphBox Agradecimentos a Antonio Fernández Ferrer, Maite Celada, Ana Cecilia Olmos, Blas Matamoro, Fernando Paixão, Daniel Samoilovich e Michel Sleiman Agradecimentos especiais a Élida Lois Direitos mundiais em língua portuguesa, para o Brasil, cedidos à EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguaré, 1485

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FERVOR DE BUENOS AIRES Fervor de Buenos Aires Tradução de Glauco Mattoso e Jorge Schwartz

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FERVOR DE BUENOS AIRES .1923 - .

procurava os entardeceres. ser um escritor espanhol do século XVII. Temerosos de uma íntima pobreza. os dois somos devotos de Schopenhauer. agora. das escolas literárias e de seus dogmas. pelo que prometia de algum modo. os arrabaldes e a desdita. Buenos Aires. L. de Stevenson e de Whitman. 18 de agosto de 1969. Pelo que deixava entrever. . cantar uma Buenos Aires de casas baixas e. Fervor de Buenos Aires prefigura tudo o que faria depois. Eu. Mitiguei seus excessos barrocos. tratavam como agora de escamoteá-la sob inocentes novidades ruidosas. limei asperezas. senti que aquele rapaz que em 1923 o escreveu já era essencialmente – que significa essencialmente? – o senhor que agora se resigna ou corrige. B. no decurso desse labor às vezes grato e outras vezes incômodo. por exemplo. Como os de 1969. para o poente ou para o sul. o centro e a serenidade. risquei sentimentalismos e imprecisões e. descobrir as metáforas que Lugones já havia descoberto. Somos o mesmo. Para mim. de chácaras gradeadas. ser Macedonio Fernández. os jovens de 1923 eram tímidos. Naquele tempo. aprovaram-no generosamente Enrique Díez-Canedo e Alfonso Reyes.– PR L G ÓO O Não reescrevi o livro. as manhãs. os dois descremos do fracasso e do sucesso. me propus demasiados fins: arremedar certas fealdades (que me agradavam) de Miguel de Unamuno. J.

A QUEM LER Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz. é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios. Nossos nadas pouco diferem. e eu seu redator. perdoe-me o leitor a descortesia de tê-lo usurpado eu. previamente. .

enternecidas de penumbra e de ocaso e aquelas mais longínquas privadas de árvores piedosas onde austeras casinhas apenas se aventuram. incômodas de turba e de agitação. o Norte e o Sul se desfraldaram – e são também a pátria – as ruas. São para o solitário uma promessa porque milhares de almas singulares as povoam. únicas ante Deus e no tempo e sem dúvida preciosas. Para o Oeste. a perder-se na profunda visão de céu e de planura. abrumadas por imortais distâncias. oxalá nos versos que traço estejam essas bandeiras.A R A S U S As ruas de Buenos Aires já são minhas entranhas. . quase invisíveis de tão habituais. mas as ruas entediadas do bairro. Não as ávidas ruas.

demoramos e baixamos a voz entre as lentas filas de panteões. vento com pássaros que sobre as ramas ondeia. como ao cessar a luz caduca o simulacro dos espelhos que a tarde já foi apagando.se apagarão com ela o espaço. cuja retórica de sombra e de mármore promete ou prefigura a desejável dignidade de ter morrido. Vibrante nas espadas e na paixão e adormecida na hera. o tempo e a morte. milagre incompreensível. a conjunção do mármore e da flor e as pracinhas com frescor de pátio e os muitos ontens da história hoje detida e única. Estas coisas pensei em La Recoleta. Belos são os sepulcros. e quando esta se apague. O espaço e o tempo são formas suas. alma que se dispersa em outras almas. Sombra benigna das árvores. o desnudo latim e as petrificadas datas fatais.L R C L T A E O E A Convencidos de caducidade por tantas nobres certezas do pó. fora um milagre que alguma vez deixaram de ser. só a vida existe. são instrumentos mágicos da alma. Confundimos essa paz com a morte e cremos anelar nosso fim e anelamos o sonho e a indiferença. . embora sua imaginária repetição infame com horror nossos dias.

.no lugar de minha cinza. talvez. ter sentido o círculo da água na secreta cisterna. O odor do jasmim e da madressilva. O SU L De um dos teus pátios ter olhado as antigas estrelas. a umidade – essas coisas são. do banco da sombra ter olhado essas luzes dispersas que minha ignorância não aprendeu a nomear nem a ordenar em constelações. o poema. o silêncio do pássaro adormecido. o arco do saguão.

Tudo – a mediania das casas. Quiçá essa hora da tarde de prata desse sua ternura à rua. que todo imediato passo nosso caminha sobre Gólgotas. Nessa hora em que a luz tem uma finura de areia. cujas cornijas e paredes mostrava cores brandas como o próprio céu que comovia o fundo. aberta em nobre largura de terraço. talvez uma esperança de menina rias sacadas entrou no meu vazio coração com limpidez de lágrima. como um grato declive. fazendo-a tão real como um verso esquecido e recuperado. dei com uma rua ignorada.R A D SC N E ID U E O H C A Penumbra da pomba chamaram os hebreus à iniciação da tarde quando a sombra não entorpece os passos e a vinda da noite se adverte como música esperada e antiga. que toda casa é um candelabro onde as vidas dos homens ardem como velas isoladas. Só depois refleti que aquela rua da tarde era alheia. . as modestas balaustradas e aldravas.

serena e sazonada. acácias – cujas piedosas curvas atenuam a rigidez da impossível estátua e em cuja rede se exalta a glória das luzes eqüidistantes do leve azul e da terra avermelhada. . benfeitora e sutil como uma lâmpada. Com fino brunimento de mogno a tarde inteira tinha-se remansado na praça. como o sonho. grave como gesto de homem enlutado.A PR Ç SA M R ÍN A A N A T A Macedonio Fernández Em busca da tarde fui esquadrinhando em vão as ruas. Todo sentir se aquieta sob a absolvição das árvores – jacarandás. clara como uma fronte. Como se vê bem a tarde do fácil sossego dos bancos! Abaixo o porto anela latitudes longínquas e a profunda praça igualadora de almas se abre como a morte. Já estavam os alpendres entorpecidos de sombra.

os jogadores desta noite copiam antigas vazas: fato que ressuscita um pouco. muito pouco. Dentro há um estranho país: as aventuras do truco e do aceito. Nos lindes da mesa a vida dos outros se detém. Pintados talismãs de papelão nos fazem olvidar nossos destinos e uma criação risonha vai povoando o tempo roubado com as floridas travessuras de uma mitologia caseira. onipotente. . as gerações dos antepassados que legaram ao tempo de Buenos Aires os mesmos versos e as mesmas diabruras. como dom Juan Manuel. e o sete de ouros tilintando esperança.OT U O R C Quarenta naipes deslocaram a vida. a autoridade do ás de espadas. Uma lentidão preguiçosa vai demorando as palavras e como as alternativas do jogo se repetem e se repetem.

não domina seu espaço. o claro círculo. Esta noite. a lua.U PÁ IO M T Com a tarde cansaram as duas ou três cores do pátio. O pátio é o declive pelo qual se derrama o céu na casa. Grato é viver na amizade escura de um saguão. de uma parreira e de uma cisterna. Pátio. Serena. a eternidade espera na encruzilhada de estrelas. . céu canalizado.

A audácia foi costume de sua espada.IN R Ã SE L R L SC IÇ O PU C A Para meu bisavô. . Impôs na planura de Junín término venturoso à batalha e às lanças do Peru deu sangue espanhol. Afrontou montanhas e exércitos. Elegeu o honroso desterro. Agora é um pouco de cinza e de glória. Seu censo de façanhas escreveu em prosa rígida como os clarins belíssonos. o coronel Isidoro Suárez Dilatou seu valor sobre os Andes.

a rosa inalcançável. a que sempre é a rosa das rosas. . a que é peso e fragrância.A R SA O A rosa. a do negro jardim na alta noite. a de qualquer jardim e qualquer tarde. a ardente e cega rosa que não canto. a rosa dos persas e de Ariosto. a que sempre está só. a jovem flor platônica. a rosa que ressurge da tênue cinza pela arte da alquimia. a imarcescível rosa que não canto.

nos pusemos a andar pelas ruas como por uma recuperada herdade. . O temporal foi unânime e aborrecível aos olhares foi o mundo. e nas vidraças houve generosidades de sol e nas folhas luzentes gravou sua trêmula imortalidade o estio. mas quando um arco bendisse com as cores do perdão a tarde. e um odor de terra molhada alentou os jardins.B IR O R C N U A R E O Q IST D A O Ninguém viu a formosura das ruas até que em pavoroso clamor o céu esverdeado desabou em abatimento de água e de sombra.

SA A V Z L A IA Os móveis de mogno perpetuam entre a indecisão do brocado sua tertúlia de sempre. E faz muito tempo suas angustiadas vozes nos buscam e agora estão apenas nas manhãs iniciais de nossa infância. A luz do dia de hoje exalta os vidros da janela vinda da rua de clamor e de vertigem e encurrala e apaga a voz macia dos antepassados. Os daguerreótipos mentem sua falsa cercania de tempo detido num espelho e ante nosso exame se perdem como datas inúteis de embaçados aniversários. .

Não sei se Rosas foi só um ávido punhal como os avós diziam. A imagem do tirano abarrotou o instante. mas grande e umbrosa como a sombra de uma montanha remota e conjecturas e memórias sucederam-se à menção eventual como um eco insondável. alguém. pronunciou o nome familiar e temido. cabe todo o sangue derramado. porque são venais as mortes se as pensamos como parte do Tempo. Hoje o olvido apaga seu censo de mortes. Famosamente infame seu nome foi desolação nas casas. essa imortalidade infatigável que aniquila com silenciosa culpa as raças e em cuja ferida sempre aberta que o último deus haverá de estancar no último dia. creio que foi como tu e eu um fato entre os fatos que viveu na soçobra cotidiana e dirigiu para exaltações e penas . como repreensão carinhosa. idolátrico amor na gauchagem e horror do talho na garganta.R SA O S Na sala tranqüila cujo relógio austero derrama um tempo já sem aventuras nem assombro sobre a decente brancura que amortalha a paixão vermelha do mogno. não clara como um mármore na tarde.

. por humilde que seja. Já Deus o terá esquecido e é menos uma injúria que uma piedade demorar sua infinita dissolução com esmolas de ódio.a incerteza dos outros. Agora o mar é uma longa separação entre a cinza e a pátria. Já toda vida. pode pisar seu nada e sua noite.

A causa verdadeira é a suspeita geral e embaçada do enigma do Tempo. perdure algo em nós: imóvel.FIN L D A O A E N Nem o pormenor simbólico de substituir um três por um dois nem essa metáfora baldia que convoca um lapso que morre e outro que surge nem o cumprimento de um processo astronômico aturdem e solapam o altiplano desta noite e nos obrigam a esperar as doze irreparáveis badaladas. é o assombro ante o milagre de que a despeito de infinitos acasos. . de que a despeito de que somos as gotas do rio de Heráclito.

A O G E Ç U U Mais vil que um lupanar o açougue rubrica como uma afronta a rua. Sobre o dintel uma cega cabeça de vaca reside a algazarra de carne charra e mármores finais com a remota majestade de um ídolo. .

Esta cidade que acreditei ser meu passado é meu porvir.A R B L E R A A D A Guillermo de Torre O arrabalde é o reflexo de nosso tédio. . os anos que vivi na Europa são ilusórios. quadriculadas em quarteirões diferentes e iguais como se fossem todas elas monótonas recordações repetidas de um só quarteirão. salpicava as pedras da rua e divisei na profundeza os naipes de cores do poente e senti Buenos Aires. eu estava sempre (e estarei) em Buenos Aires. O matinho precário. meu presente. Meus passos claudicaram quando iam pisar o horizonte e fiquei entre as casas. desesperadamente esperançado.

Como o Deus dos místicos. repartimos como ladrões o caudal das noites e dos dias. abstrato. o morto ubiquamente alheio não é senão a perdição e ausência do mundo. o morto não é um morto: é a morte. não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba: aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos. ali a calçada onde sua esperança espreitava.R M R E O SO PO Q A Q E R U L U R M R E O T Livre da memória e da esperança. Tudo dele roubamos. de Quem devem negar-se todos os predicados. Até o que pensamos poderia estar pensando ele também. ilimitado. quase futuro. .

Todo o jardim é uma luz aprazível que ilumina a tarde. serras ásperas. O jardinzinho é como um dia de festa na pobreza da terra. Num declive está o jardim. sitiadas por ofegantes singraduras e pelas léguas de temporal e de areia que do fundo do deserto se aglomeram. Cada arvorezinha é uma selva de folhas. . Assediada em vão pelos estéreis morros silenciosos que apressam a noite com sua sombra e o triste mar de inúteis verdores. Yacimientos del Chubut 1922.JA D R IM Valetas. dunas.

o milagre implacável da dor e o assombro do gozo– sempre perdurará. O essencial da vida fenecida –a trêmula esperança. a pátria. a opinião.IN R Ã E Q A Q E SC IÇ O M U L U R SE L R PU C O Não arrisque o mármore temerário gárrulas transgressões à onipotência do esquecimento. Cegamente reclama duração a alma arbitrária quando a tem assegurada em vidas alheias. Tanto avelório bem atribuído está às trevas o mármore não fale o que calam os homens. quando tu mesmo és o espelho e a réplica daqueles que não alcançaram teu tempo e outros serão (e são) tua imortalidade na terra. . os acontecimentos. enumerando com meticulosidade o nome.

quantos heróicos poentes militarão na profundeza da rua e quantas quebradiças luas novas infundirão ao jardim sua ternura. Minhas mãos tocaram as árvores como quem acaricia alguém que dorme e repeti antigos caminhos como se recobrasse um verso esquecido e vi ao espalhar da tarde a frágil lua nova que se achegou ao amparo sombrio da palmeira de folhas altas. antes que volte a reconhecer-me a casa e de novo seja um hábito! . como ao seu ninho o pássaro.AV L A O T Ao cabo dos anos de desterro voltei à casa de minha infância e ainda me é alheio o seu âmbito. Que caterva de céus abarcará entre suas paredes o pátio.

A TE G W F R LO Sempre é comovedor o ocaso por indigente ou charro que seja porém mais comovedor ainda é aquele brilho desesperado e final que enferruja a planície quando o sol último afundou. . Nos dói suster essa luz intensa e distinta. essa alucinação que impõe ao espaço o unânime medo da sombra e que cessa de repente quando notamos sua falsidade. como cessam os sonhos quando sabemos que sonhamos.

. sem base nem propósito nem volume. um sonho das almas. há um instante em que periga desmedidamente seu ser e é o instante estremecido da aurora. Curioso pela sombra e acovardado pela ameaça da aurora revivi a tremenda conjectura de Schopenhauer e de Berkeley que declara que o mundo é uma atividade da mente.A A H C R M N E E Na profunda noite universal que apenas contradizem os postes de luz uma ventura perdida ofendera as ruas taciturnas como pressentimento trêmulo do amanhecer horrível que ronda os arrabaldes desmantelados do mundo. a doutrina anterior assumiu outra forma na aurora e a superstição dessa hora quando a luz como uma trepadeira vai implicar as paredes da sombra. persuadiu minha razão e traçou o capricho seguinte: Se estão alheias de substância as coisas e se esta numerosa Buenos Aires não é mais que um sonho que erigem em compartilhada magia as almas. E já que as idéias não são eternas como o mármore mas imortais como um bosque ou um rio.

.quando são poucos os que sonham o mundo e só alguns notívagos conservam. cinzenta e apenas esboçada. solicito minha casa. a imagem das ruas que definirão depois com os outros. enquanto um pássaro detém o silêncio e a noite gasta. Hora em que o sonho pertinaz da vida corre perigo de quebranto. permaneceu nos olhos dos cegos. hora em que seria fácil a Deus matar de todo Sua obra! Porém de novo o mundo se salvou. A luz discorre inventando sujas cores e com algum remorso de cumplicidade no ressurgimento do dia. atônita e glacial Anã luz branca.

a cidade que canto persiste num lugar predestinado do mundo. pátios e escalará os muros e resplandecerá num rio sagrado. com hospitais e quartéis e lentas alamedas e homens de lábios podres que sentem frio nos dentes. com sua topografia precisa. povoada como um sonho. (E pensar que enquanto brinco com duvidosas imagens. muladares. O brusco sol desgarra a complexa escuridão de templos. cárceres. Ofegante.) . a imaginada urbe que não viram nunca meus olhos entretece distâncias e repete suas casas inalcançáveis. Juntamente amanhece em todas as persianas que olham para o oriente e a voz de um muezim aflige de sua alta torre o ar deste dia e anuncia à cidade dos muitos deuses a solidão de Deus.B N R S E A E Falsa e densa como um jardim calcado num espelho. a cidade que oprimiu uma folhagem de estrelas transborda o horizonte e na manhã cheia de passos e de sonho a luz vai abrindo como ramas as ruas.

O mar no qual se afunda. iguais a luzes no dia. brilha definitiva e desapiedada? Tua ausência me rodeia como a corda à garganta. Desde que te afastaste.A SÊ C U N IA Hei de levantar a vasta vida que ainda agora é teu espelho: cada manhã hei de reconstituí-la. músicas em que sempre me aguardavas. quantos lugares se tornaram vãos e sem sentido. Em que ribanceira esconderei minha alma para que não veja tua ausência que como um sol terrível. . eu terei que quebrá-las com minhas mãos. palavras daquele tempo. Tardes que foram nicho de tua imagem. sem ocaso.

bem sabem minhas penas e minha fraqueza. . Conheço os costumes e as almas e esse dialeto de alusões que todo agrupamento humano vai urdindo. como as pedras e as árvores. o que talvez nos dará o Céu: não admirações nem vitórias mas simplesmente ser admitidos como parte de uma Realidade inegável.SIN E E A G L Z A Haydée Lange Abre-se a cancela do jardim com a docilidade da página que uma freqüente devoção interroga e dentro os olhares não precisam deter-se nos objetos que já estão cabalmente na memória. Não necessito falar nem mentir privilégios. Isso é alcançar o mais alto. bem me conhecem aqueles que aqui me rodeiam.

um tempo caudaloso onde todo o sonhar encontra acolhida. Também está o silêncio nos vestíbulos. Eu sou o único espectador desta rua. diferente dos avaros termos que medem as tarefas do dia. Na côncava sombra vertem um tempo vasto e generoso os relógios da meia-noite magnífica. tempo de largueza d’alma. que farão tremer sob rigidez de asfalto a detida terra viva que oprime o peso das casas. ela morreria. A brisa traz presságios de campo. Em vão a furtiva noite felina inquieta as sacadas fechadas que na tarde mostraram a notória esperança das meninas. feitas de vago medo e de longas linhas. Também advirto estrelas vacilantes. se a deixasse de ver. doçura das quintas.C M H D A IN A A Cheirosa como um mate curado a noite aproxima agrestes lonjuras e desanuvia as ruas que acompanham minha solidão. .) Grandiosa e viva como a plumagem escura de um Anjo cujas asas tapam o dia. (Advirto um longo paredão eriçado de uma agressão de arestas e um farol amarelo que aventura sua indecisão de luz. memórias dos álamos. a noite perde as medíocres ruas.

Vermelhos faíscam os redemoinhos das bruscas fogueiras. Suave como um salgueiral está a noite. . bandeira viva e cega travessura. Toda a santa noite a solidão rezando seu rosário de estrelas esparramadas.A N IT D SÃ JO O O E E O Ã O poente implacável em esplendores quebrou a fio de espada as distâncias. lenha sacrificada que se dessangra em altas labaredas. hoje as ruas lembram que foram campo um dia. A sombra é aprazível como uma lonjura.

.C R A IA E C N S Os pátios e sua antiga certeza. As encruzilhadas escuras que lanceiam quatro infinitas distâncias em arrabaldes de silêncio. os pátios alicerçados na terra e no céu. As janelas com grade da qual a rua se torna familiar como uma lâmpada. As alcovas profundas onde arde em quieta chama o mogno e o espelho de tênues resplendores é como um remanso na sombra. Nomeei os lugares onde se esparrama a ternura e estou só e comigo.

e uma profunda cidade cega de homens que não te viram. A tarde cala ou canta. G. a multidão de tua formosura. Sempre. Em ti está a delícia como está a crueldade nas espadas. *** A despeito de teu desamor tua formosura esbanja seu milagre pelo tempo. Na sala severa se buscam como cegos nossas duas solidões. jóia escura engastada no tempo. Está em ti a ventura como a primavera na folha nova. Já quase não sou ninguém. Sobrevive à tarde a brancura gloriosa de tua carne. . Em nosso amor há uma pena que se parece com a alma. agora. sou tão-somente essa aspiração que se perde na tarde. *** Tu que ontem eras só toda a formosura és também todo o amor.SÁ A O B D S A C. Fora há um ocaso. Alguém descrucifica as aspirações cravadas no piano. *** Agravando a grade está a noite.

eu fui o espectador de tua formosura durante um longo dia. . pensando que de tão nobre profusão de memórias perdurariam escassamente uma ou duas para ser decoro da alma na imortalidade de sua andança.TROFÉU Como quem percorre uma costa maravilhado com a multidão do mar. alvissarado de luz e pródigo espaço. Nos despedimos ao anoitecer e em gradual solidão ao voltar pela rua cujos rostos ainda te conhecem. escureceu minha ventura.

No incerto ocaso a tarde mutilada foi umas pobres cores. O silêncio que habita os espelhos forçou seu cárcere.E T R E E E N A D C R S A clara multidão de um poente exaltou a rua. o ouro último. A mão esfarrapada de um mendigo agrava a tristeza da tarde. O límpido arvoredo perde o último pássaro. . A escureza é o sangue das coisas feridas. a rua aberta como um vasto sonho para qualquer acaso.

A lua nova é uma vozinha do céu. A solidão povoada como um sonho se remansou ao redor do vilarejo. No dormitório vazio a noite fechará os espelhos. Os cincerros recolhem a tristeza dispersa da tarde. . As trêmulas cores se resguardam nas entranhas das coisas. O poente que não se cicatriza ainda lhe dói a tarde.C M S E T R E ID S A PO N A D C O O poente de pé como um Arcanjo tiranizou o caminho. À medida que vai anoitecendo volta a ser campo o vilarejo.

.D SPE ID E D A Entre meu amor e eu hão de levantar-se trezentas noites como trezentas paredes e o mar será magia entre nós. Definitiva como um mármore entristecerá tua ausência outras tardes... firmamento que estou vendo e perdendo. campos de meu caminho. noites esperançadas de olhar-te. Ó tardes merecidas pela pena. Não haverá senão recordações.

cujo nome é o universo. os saxões. O T E Silenciosas batalhas do ocaso em arrabaldes últimos. me engendraram. albas ruinosas que nos chegam do fundo deserto do espaço como do fundo do tempo.. a corrupção e o eco que seremos. sempre antigas derrotas de uma guerra no céu. a mútua noite e a esperada tarde. árvores que se elevam e perduram como divindades tranqüilas. os árabes e os godos que. uma esfinge de um livro que eu tinha medo de abrir e cuja imagem volta nos sonhos.. a espada valorosa de um rei no silencioso leito de um rio.L H S Q E PO IN A U SSO T R E E R O E PE D O PO SC IT R ID R V L A D 1922. sem o saber. a lua sobre o mármore. Walt Whitman. negros jardins da chuva. sou eu essas coisas e as outras ou são chaves secretas e árduas álgebras do que não saberemos nunca? .

como se percebe. terceiro volume. página 293) anota que. Seu erro. que é possível separá-los uns dos outros. a penumbra da aurora tem o nome de penumbra da pomba. O TRUCO. não para indagar a verdade mas para chegar a uma conclusão de antemão resolvida: a justificativa de Rosas ou de qualquer outro déspota disponível. Nesta página de duvidoso valor assoma pela primeira vez uma idéia que sempre me inquietou. do corvo. já denunciado por Parmênides e Zenão de Eléia. se considerar-mos a escassez da população e o caráter quase incestuoso de nossa história. Continuo sendo. De Quincey (Writings. Ao escrever este poema. Sua declaração mais cabal está em "Sentir-se en muerte" (El Idioma de los Argentinos. eu não ignorava que um avô de meus avós era antepassado de Rosas. assim como o espaço de pontos. a do entardecer. Por volta de 1922 ninguém pressentia o revisionismo. Este passatempo consiste em "revisar" a história argentina. 1928) e em “Nueva refutación del tiempo” (Otras Inquisiciones. segundo a nomenclatura judaica.N T S O A RUA DESCONHECIDA. . é postular que o tempo está feito de instantes individuais. ROSAS. O fato nada tem de singular. É inexata a notícia dos primeiros versos.1952). um selvagem unitário.

ÍN IC D E  FE V R D B E O A E (1923) R O E U N S IR S  Prólogo  A quemler  A ruas s L R a ecoleta  O Sul  R desconhecida ua  A Praça San M artín  O truco  U pátio m  Inscrição sepulcral  A rosa B airro reconquistado  Sala vazia R osas  Final de ano A çougue A rrabalde  R orso por qualquer m em orte  Jardim  Inscrição emqualquer sepulcro  A volta A fterglow  A anhecer m B enares A usência  Singeleza  C inhada am  A noite de São João C ercanias  Sábados T roféu E ntardeceres  C pos entardecidos am D espedida .

..google.com/group/Viciados_em_Livros http://groups.google.com/group/digitalsource .L inhas que posso ter escrito e perdido por volta de 1922. N otas http://groups.

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