AS TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA

O Futuro do Pensamento na Era da Informática

Pierre Lévy
Tradução Carlos Irineu da Costa

AS TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA O Futuro do Pensamento na Era da Informática
Tradução Carlos Irineu da Costa

Um dos principais agentes de transformação das sociedades atuais é a técnica. Ou melhor, as técnicas, sob suas diferentes formas, com seus usos diversos, e todas as implicações que elas têm sobre o nosso cotidiano e nossas atividades. Por trás daquilo que é óbvio, estas técnicas trazem consigo outras modificações menos perceptíveis, mas bastante pervarsivas: alterações em nosso meio de conhecer o mundo, na forma de representar este conhecimento, e na transmissão destas representações através da linguagem. Dentre a grande quantidade de técnicas existentes, Lévy decidiu privilegiar, nesta análise, as técnicas de transmissão e de tratamento das mensagens, uma vez que são as que transformam os ritmos e modalidades da comunicação de forma mais direta, contribuindo para redefinir as organizações. Em um momento dado, a significação e o papel de uma configuração técnica não podem ser separados de um projeto social mais ample que move esta configuração. É importante também compreender o estágio atual da técnicas como resultado de uma série de disputas entre os diversos atores sociais, de projetos rivais constantemente em choque, de novas descobertas imprevistas que podem alterar radicalmente o uso, e portanto o sentido e o destino de um dado objeto “técnico”. Uma certa configuração de tecnologias intelectuais em um dado momento abre certos campos de possibilidades (e não outros) a uma cultura. Quais possibilidades? O que é a técnica, e como influencia os diferentes aspectos de nossa sociedade? Em que medida de indivíduos ou projetos singulares conseguem alterar os usos e sentidos da técnica? A técnica é necessariamente racional e utilitária? Lévy propõe aqui o fim da pretensa oposição entre o homem e a máquina .Ataca também o mito da “técnica neutra”, nem boa, nem má. Mostra como ela está sempre associada a um contexto social mais amplo, em parte determinando este contexto mas também sendo determinada por ele. Desta forma, a técnica torna-se apenas uma dimensão a mais, uma parte do conjunto do jogo coletivo, aquela na qual desenham-se as conexões físicas do mundo humano com o universo. Nosso propósito consiste antes de mais nada em designar as tecnologias intelectuais como um terreno político fundamental, como lugar e questão de conflitos, de interpretações divergentes. Pois é ao redor dos equipamentos coletivos da percepção, do pensamento e da comunicação que se organiza em grande parte a vida da cidade no quotidiano e que se agenciam as subjetividades dos grupos. As mudanças estão ocorrendo em toda parte, ao redor de nós, mas também em nosso interior, em nossa forma de representar o mundo. É urgente que nos equipemos com ferramentas para poder pensar estas mudanças, avaliá-las, discutí-las — em suma, particular ativamente da construção de nossos destinos. E este livro é uma importante ferramenta. Carlos Irineu da Costa

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AS TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA
O Futuro do Pensamento na Era da Informática Introdução Face à Técnica I A METÁFORA DO HIPERTEXTO 1. Imagens do Sentido 2. O Hipertexto 3. Sobre a Técnica Enquanto Hipertexto - O Computador Pessoal 4. Sobre a Técnica Enquanto Hipertexto – A Política das Interfaces 5. O Groupware 6. A metáfora do Hipertexto II OS TRÊS TEMPOS DO ESPÍRITO: A ORALIDADE PRIMÁRIA, A ESCRITA E A INFORMÁTICA 7. 8. 9. 10. 11. Palavra e Memória A Escrita e a História A Rede Digital O Tempo Real O Esquecimento

III RUMO À UMA ECOLOGIA COGNITIVA 12. 13. 14. 15. Para Além do Sujeito e do Objeto As Tecnologias Individuais e a Razão As Coletividades Pensantes e o Fim da Metafísica Interfaces

Conclusão Por uma Tecnodemocracia Bibliografia Geral

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e também os deslocamentos menos visíveis que ocorrem na esfera intelectual obrigam-nos a reconhecer a técnica como um dos mais importantes temas filosóficos e políticos de nosso tempo. mas sim a cenas mídias. aprendizagem são capturados por uma informática cada vez mais avançada. Na época atual. O século XX só elaborou reflexões profundas sobre motores e máquinas operatrizes. apesar de vivermos em um regime democrático. o trabalho. política e projetos culturais misturam-se de forma inextrincável. Entretanto. _________ Pág. Ora. a iluminação elétrica transformavam a forma de viver dos europeus e desestabilizavam os outros mundos.INTRODUÇÃO: FACE À TÉCNICA Novas maneiras de pensar e de conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática. no caso particular das tecnologias intelectuais. dos cidadãos. É para esta reapropriação que desejamos contribuir aqui. os processas sociotécnicos raramente são objeto de deliberações coletivas explícitas. enquanto que a química. o segredo permaneceu bem guardado. Não existe mais fundo sociotécnico. no final de cada capítulo há a menção dos títulos citados ou usados em cada um deles. os avanços da impressão. criação. A incidência cada vez mais pregnante das realidades tecnoeconômicas sobre todos os aspectos da vida social. na verdade. os novos meios de comunicação e de transporte. Hoje em dia. os agenciamentos sociotécnicos constituíam um fundo sobre o qual se sucediam os acontecimentos políticos. Não se pode mais conceber a pesquisa científica sem uma aparelhagem complexa que redistribui as antigas divisões entre experiência e teoria. de meses. e menos ainda de decisões tomadas pelo conjunto. a mecanografia. que a informatização das empresas. Contamos em termos de anos. As próprias bases do funcionamento social e das atividades cognitivas modificam-se a uma velocidade que todos podem perceber diretamente.: 4 1 . leitura. Uma reapropriação mental do fenômeno técnico nos parece um pré-requisito indispensável para a instauração progressiva de uma tecnodemocracia. um conhecimento por simulação que os epistemologistas ainda não inventariaram. dar margem a múltiplos conflitos e negociações onde técnica. Apesar de algumas estratégias poderem cristalizar-se explicitamente em torno de uma inovação técnica. os números entre colchetes remetem à bibliografia geral que está no fim do livro. As relações entre os homens. Emerge. ou antes do debate mediático. ninguém mais acredita no progresso e a metamorfose técnica do coletivo humano nunca foi tão evidente. O ruído dos aplausos ao progresso cobria as queixas dos perdedores e mascarava o silêncio do pensar. este era um caso excepcional [77]1. visão. a própria inteligência dependem. neste final do século XX. somos forçados a constatar o distanciamento alucinante entre a natureza dos problemas colocados à coletividade humana pela situação mundial da evolução técnica e o estado do debate "coletivo" sobre o assunto. audição. Tudo começou a mudar com a revolução industrial. entretanto. Escrita. A filosofia política e a reflexão sobre o conhecimento cristalizaram-se em épocas nas quais as tecnologias de transformação e de comunicação estavam relativamente estáveis ou pareciam evoluir em uma direção previsível. Parece-nos. Uma razão histórica permite compreender esse distanciamento. Na escala de uma vida humana. Alguém talvez objete que a evolução da informática não é muito adequada a qualquer tipo de debate democrático ou a decisões " políticas". mas apesar das análises de Marx e alguns outros. a técnica é uma das dimensões fundamentais onde está em joga a transformação do mundo humano por ele mesmo. militares ou científicos. Além disso. a criação da rede telemática ou a "introdução" dos computadores nas escolas podem muito bem prestar-se a debates de orientação. da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. Tomemos o caso da.

O governo. em um uso moderado da impressão. mas antes de colocar em dia a possibilidade prática de uma tecnodemocracia. há quatro séculos. dos quais nenhum pude ser desprezado. Nada está decidido a priori. na escrita manuscrita do aluno e. nada além de imagens. impediu o governo e a direção da Educação nacional de impor fortes restrições aos construtores de material e aos criadores de programas. Se por um lado conduz a uma revisão da filosofia política. Quanto à formação dos professores. perpetuamente defeituoso. aberto. mas sim um campo de novas tecnologias intelectuais. ao mesmo tempo que são técnicos. A filosofia política não pode mais ignorar a ciência e a técnica. datado e localizado de certas tecnologias intelectuais. como se fosse este o único usa possível de um computador!. pouco adequado aos usos pedagógicos. o que não pode ser feito em alguns anos. o resultado global é deveras decepcionante. Vivemos hoje uma redistribuição da configuração do saber que se havia estabilizado no século XVII coma generalização da impressão. efetivamente.. Uma verdadeira integração da informática (como do audiovisual ) supõe portanto o abandono de um hábito antropológico mais que milenar. os administradores precavidos e os engenheiros criativos sabem perfeitamente (coisa que a direção da Educação nacional parecia ignorar) que as estratégias vitoriosas passam pelos mínimos detalhes "técnicos". quantias consideráveis foram gastas para equipar as escolas e formar os professores. mas antes por complexificação e deslocamento de centros de gravidade. a interpretação ou a objetividade dependem intimamente do usa histórico. ). Não somente a técnica é uma questão política. Uma concepção totalmente errônea da técnica e de suas pretensas "necessidades". Mostrarei que as categorias usuais da filosofia do conhecimento.: 5 . Não se trata aqui. certo ministro quis mostrar a imagem da modernização. limitou-se aos rudimentos da programação (de um certa estilo de programação. portanto. Os dirigentes das multinacionais. Por quê? É certo que a escola é uma instituição que há cinco mil anos se baseia no falar/ditar do mestre. tais como omito. portanto. de profetizar uma catástrofe cultural causada pela informatização. as tecnologias intelectuais contribuem para fazer derivar as fundações culturais que comandam nossa apreensão do real. ao mesmo tempo acompanhando. ou por cenários de programas bem concebidos. Em vez de conduzir um verdadeiro projeto político. fracamente interativo. Foram tiradas lições das muitas experiências anteriores neste assunto? Foram analisadas as transformações em andamento da ecologia cognitiva e os novos modelos de constituição e de transmissão do saber a fim de orientar a evolução do sistema educativo a longo prazo? Não. a ciência... O saber oral e os gêneros de conhecimento fundados sobre a escrita ainda existem. e não obteve. e que são todos inseparavelmente políticos e culturais. conflituoso e parcialmente indeterminado. porque existem muitos deles.informática escolar na França. que somente poderá ser inventada na prática. a teoria. Não se trata aqui. tentarei mostrar neste livro que não há informática em geral. às quais acreditou-se (ou fez-se acreditar) que era necessário "adaptar-se". escolheu material da pior qualidade. nem essência congelada do computador. por outro incita também a revisitar a filosofia do conhecimento. apressaram-se em colocar dentro de sala as primeiras máquinas que chegaram. Mas as "resistências" do social têm bons motivos. usando e desviando a evolução técnica. como veremos em detalhes no caso das interfaces informáticas. Apesar de diversas experiências positivas sustentadas pelo entusiasmo de alguns professores. Seus comandatários parecem não ter entendido que a política e a cultura podem passar polo detalhe de uma interface material. da escrita e da informática como modos fundamentais de gestão social do conhecimento não se dá por simples substituição. mas sim de utilizar os trabalhos recentes da psicologia cognitiva e da _________ Pág. e sem dúvida irão continuar existindo sempre. uma micropolítica em atos. A questão da técnica ocupa uma posição central. e como um todo. é clara. Eles não foram forçados a inventar. Que isto fique clara: a sucessão da oralidade. mas é ainda.. Ao desfazer e refazer as ecologias cognitivas. Durante os anos oitenta. de uma nova "critica filosófica da técnica". Ora.

Daniel Sibony mostrou até que ponto o objeto técnico e mais geralmente a imensa maquinaria do "fazer" contemporâneo encontravam-se impregnados de desejo e subjetividade. Longe de considerar apenas o fato de pertencer à comunidade política ateniense ou romana. Finalmente..: 6 2 . Seguindo esta concepção da inteligência. nem o escravo.. é o mínimo. nem a flor. face ao objeto? São os grupos intersubjetivos? Ou ainda as estruturas. Em seu livro Entre dire et faire [98]. Preconiza-se nesta obra um retomo à grande tradição antiga do cosmopolitismo não somente por razões de simples humanidade. o sábio estóicos e sabia e se desejava cidadão de uma cidade da dimensão do universo. coletivo dinâmico povoado por singularidades atuantes e subjetividades mutantes. possamos aproximar-nos ao mesmo tempo dos seres que as produzem. objetos e coletivos. os delicados mecanismos que as animam. SOBRE O MAU USO DA ABSTRAÇÃO A palavra cosmo-polités. Sem negar a abordagem inteiramente apaixonante tentada por Sibony. _________ Pág. é a uma interrogação sobre as divisões mais fundamentais do ser que nossa reflexão sobre as tecnologias intelectuais irá nos conduzir. mas também em vista de uma plena integração das dimensões técnicas e ecológicas na reflexão e ação políticas. sujeito-objeto que forma o meto e a condição de possibilidade de toda comunicação e todo pensamento. " para abrir-se a possíveis metamorfoses sob o efeito do objeto. Mas é preciso ir mais longe. tão longe do sujeito exangue da epistemologia quanto das estruturas formais dos belos dias do "pensamento 68". nem o astro. muitas vezes deixei a técnica pensar em mim (como fizeram meus ilustres predecessores Lewis Mumford e Gilbert Simondon) ao invés de debruçar-me sobre ela ou criticá-la. irei defender a idéia de um coletivo pensante homens-coisas. A técnica e as tecnologias intelectuais em particular têm muitas coisas para ensinar aos filósofos sobre a filosofia e aos historiadores sobre a história. Quem pensa? É o sujeito nu e monádico. mas sim à idéia de que certas técnicas de armazenamento e de processamento das representações tornam possíveis ou condicionam certas evoluções culturais. A progressão multiforme das tecnologias da mente e dos metas de comunicação pode ser interpretada como um processo metafísico molecular. as utopias que elas trazem atrás de si. Isto não nos conduzirá a qualquer versão do determinismo tecnológico. os sonhos que as precedem. tecendo assim o coletivo misto. ao mesmo tempo em que deixam uma grande margem de iniciativa e interpretação para os protagonistas da historia. persegui o objetivo contrário: mostrar a quantidade de coisas e técnicas que habitam o inconsciente intelectual. misturada. não excluindo nada nem ninguém. as epistemes ou os inconscientes sociais que pensam em nós? Ao desenvolver o conceito de ecologia cognitiva.historia dos processas de inscrição para analisar precisamente a articulação entre gêneros de conhecimento e tecnologias intelectuais. nem o bárbaro. O que acontece com a distinção bem marcada entre o sujeito e o objeto do conhecimento quando nosso pensamento encontra-se profundamente moldado por dispositivos materiais e coletivos sociotécnicos? instituições e máquinas informacionais se entrelaçam no íntirno do sujeito. Que o filósofo ou o historiador devam adquirir conhecimentos técnicos antes de falar sobre o assunto. não ficar preso a um "porto de vista sobre. por sua vez. redistribuindo sem descanso as relações entre sujeitos individuais. impuro. usam e trocam. que significa cidadão do mundo (do cosmos). Quanto valeria um pensamento que nunca fosse transformado por seu objeto? Talvez escutando as coisas. foi cunhada pelos filósofos cínicos e retomada pelos estóicos. as línguas. até o ponto extremo no qual o sujeito do pensamento quase não se distingue mais (mas se distingue ainda) de um coletivo cosmopolita2 composto por dobras e volutas do qual cada porte é. marmoreada ou matizada de subjetividade branca ou rosa e de objetividade negra ou cinza.

Porque aquilo que ligaríamos por setas seriam dimensões de análise. parece-me necessário esclarecer um certa número de idéias sobre a técnica em geral. estes pseudo-atores na realidade são desprovidos de qualquer eficácia e não apresentam simetricamente qualquer ponto de contato para a mínima ação real. laboratórios de antropologia. esta concepção nos proíbe de pensar ao mesmo tempo a técnica e a tecnodemocracia. a qual modifica o estado das forças produtivas. tornando-se autônomos para retornarem e imporem-se sobre o social com a força de um destino cego. toda teoria. e assim por diante. destaca-se um grupo importante que compartilha uma orientação globalmente antitécnica. e logo as ciências estão sitiadas pelas faculdades de teologia. Dominique Janicaud têm em comum a concepção de uma ciência e de uma técnica separadas do devir coletivo da humanidade. Heidegger ou Ellul. Não existe uma "Técnica" por trás da técnica. com ou sem variantes. ta1vez em menor grau. Também não há maior progresso em direção a análises concretas quando se explica o desdobramento da tecnociência pela economia. de sociologia. que a essência do capitalismo é religiosa (Max Weber) ou que a metafísica depende da _________ Pág. Frente a estas abstrações. de historia. a faculdade de filosofia acredita controlar a faculdade de ciências: a verdade das ciências está na metafísica. Estas vagas entidades transhistóricas. Obtêm-se então estes famosos esquemas nos quais a Economia determina a sociedade.Antes de abordar o tema principal deste livro. que é o papel das tecnologias da informação na constituição das culturas e inteligência dos grupos. nem mesmo um "Método" que possam explicar a crescente importância das ciências e das técnicas na vida coletiva. Gilbert Hottois. o qual sabe muito bem que as redistribuições do poder são negociadas e disputadas em todos os terrenos e que nada é definitivo. Pela voz de Heidegger. sociedade. pelas escalas de engenharia. No momento em que dezenas de trabalhos empíricos e teóricos renovam completamente a reflexão sobre a tecnociência não é mais possível repetir. Infelizmente. Podemos imaginar todas as permutações que quisermos nos papéis de sitiados e sitiantes: a técnica ou a religião determinando a economia. Michel Henry e. engrossar a cortina de fumaça que abriga os príncipes modernos de olhares e desencorajar os cidadãos a se informarem e agirem. que por sua vez determina a economia. Nestes últimos anos. inelutável e isolada revela-se não apenas falsa. mas catastrófica. nem "Sistema técnico" sob o movimento da indústria. esta última determinando a metafísica. ou pior: pontos de vista congelados em disciplinas. A técnica encarna. cultura ou ideologia. uma "Racionalidade ocidental". Mas as entras faculdades também querem sua parte. numerosas obras de reflexão sobre este assunto foram publicadas em língua francesa. a imagem da técnica como potência má. Mesmo um diagrama tecido por estrelas entrecruzadas e munido de todos os anéis de retroação desejados ainda seria mistificador. Também não existe um "Cálculo". efetivamente. Entre elas. Ao exprimir uma condenação metal a priori sobre um fenômeno artificialmente separado do devir coletivo e do mundo das significações (da "cultura"). mas apenas indivíduos concretos situáveis e datáveis. ela desarma o cidadão frente ao novo príncipe. de lingüística. A ciência e a técnica representam uma questão política e cultura1 excessivamente importante para serem deixadas a canga dos irmãos inimigos (cientistas ou criticas da ciência) que concordam em ver no objeto de seus louvores ou de suas censuras um fenômeno estranho ao funcionamento social ordinário. É por isto que não há mais sentido em sustentar que a essência da técnica é ontológica (Heidegger). etc. para eles. que é aplicada sob a forma de técnica. que determina a ideologia da qual faz porte a ciência. Husserl. Mesmo com as melhores intenções do mundo. de economia. etc.: 7 . técnica que é hoje objeto de muitos preconceitos. uma "Metafísica". a forma contemporânea do mal. evidentemente ninguém pode negociar nem lutar. Jacques Ellul. explicação ou projeto que faça apelo a estes macroconceitos espetaculares e ocos não pode fazer entra coisa senão despistar.

Nenhuma destas macroentidades ideais pode determinar o que quer que seja porque são desprovidas de qualquer meio de ação. nem a economia. leveduras. nem a religião. Vamos repetir. irreversibilidades. cultura e circunstâncias. nem a filosofia. é possível discernir várias ilhas. Chamaremos de transcendental histórico aquilo que estrutura a experiência dos membros de uma determinada coletividade. enquanto que as novas são denunciadas como bárbaras e contrárias à vida. então o pensamento começa a resvalar. ONTOLÓGICA OU AXIOLÓGICA Não há nenhuma distinção real bem definida entre o homem e a técnica. quer dizer.. a cultura ou o "mundo da vida ". a técnica é apenas a dimensão destas estratégias que passam por atores não humanos. Podemos distinguir. estas tendências longas mantêm-se apenas graças ao trabalho constante de coletividades e pela reificação eventual deste em coisas (eis de novo a técnica!) duráveis ou facilmente reproduzíveis: construções. que estrutura a percepção). em particular se diz respeito à técnica. Mas quando colocamos de um fada as coisas e as técnicas e do outro os homens. ainda que características cognitivas universais sejam reconhecidas para toda a espécie humana. aos refinamentos complicados das alianças e das reviravoltas nas alianças. abstrações. A TÉCNICA PARTICIPA ATIVAMENTE DA ORDEM CULTURAL. geralmente pensa-se que as formas de conhecer. ás artimanhas' do poder e da sedução. É sempre possível introduzir distinções para fins de análise. _________ Pág. que constitui a experiência)e um domínio transcendental (aquilo através de que a experiência é possível. os valores. máquinas. O cúmulo da cegueira é atingido quando as antigas técnicas são declaradas culturais e impregnadas de valores. estruturas imaginárias e formas de conhecer que as fazem parecer aquilo que elas são aos olhos dos membros das diversas sociedades consideradas. rios. montanhas. mas por sua vez estas estabilidades. vento. Transmitem uns aos outros. elas são. os símbolos. textos em papel ou fitas magnéticas. No rio tumultuoso do devir coletivo.: 8 . Uma vez mais. como fez Kant. máquinas. Nem a sociedade. SIMBÓLICA. pigmentos. de pensar. acumulações. plantas. elétrons. por um sem número de metas. por exemplo. carvão. Kant atribuiu esta função de estruturação do mundo percebido a um sujeito transcendental a-histórico e invariável. repetimos. falsear. Em sua Crítica da razão pura.. E tudo isto em circunstâncias infinitamente diversas. a linguagem. reificamos uma diferença de ponta de vista em uma fronteira separando as próprias coisas. mas não se deve tomar os conceitos que acabamos de forjar para certos fins precisos como sendo regiões do ser radicalmente separadas. Os agentes efetivos são indivíduos situados no tempo e no espaço. entre um domínio empírico (aquilo que é percebido. Trocam entre si um número infinito de dispositivos materiais e objetos (eis a técnica!) que transformam e desviam perpetuamente.economia em última instância (marxismo vulgar). uma infinidade de mensagens que eles se obrigam a truncar. Hoje. nem a língua. nem entre a vida e a ciência. correntes marinhas. tais como animais. ou entre o símbolo e a operação eficaz ou a poiésis e o arrazoado. de sentir são grandemente condicionadas pela época. dimensões de análise. A serviço das estratégias variáveis que os opõem e os agrupam. nem mesmo a ciência ou a técnica são forças reais. os seres humanos utilizam de todas as formas possíveis entidades e forças não humanas. estradas. esquecer e reinterpretar de seu próprio jeito. símbolos. Abandonam-se aos jogas de paixões e embriaguez. Uma entidade pode ser ao mesmo tempo objeto da experiência e fonte instituinte. etc. Certamente podemos ressaltar a diferença entre as coisas em sua materialidade utilitária e as narrativas.

Alguém que condena a informática não pensaria nunca em criticar a impressão e menos ainda a escrita. os seres vives ou os processos cognitivos através de uma matriz de tortura informática. Basta que alguns grupos sociais disseminem um novo dispositivo de comunicação. ou dos meios de comunicação e transporte modernos. Os produtos da técnica moderna. Cristovão Colombo descubra a América. suas morais e sua cultura locais. Para citar apenas este exemplo clássico. Isto porque a impressão e a escrita (que são técnicas! ) o constituem em demasia para que ele pense em apontá-las como estrangeiras. de técnicas em geral. estratégias inéditas e alianças inusitadas tornam-se possíveis. sua forma de habitar a terra ). em La Machine Univers [71]. de relações como meto ambiente natural. a mudança técnica é uma das principais forças que intervêm na dinâmica da ecologia transcendental. da impressão. Iniciada no fim do século XVIII. em uma situação histórica dada. e isto não apenas em um plano empírico (todos os fenômenos apreendidos graças aos cálculos. mas que podíamos ainda analisá-la como o modelo termodinâmico através do qual autores como Marx. em poucos séculos. as vias de comunicação e transporte. é ao contrário uma cornucópia de abundância axiológica. seus cantas. o _________ Pág. de comunicarse com seus semelhantes. e a visão européia do homem encontra-se transtornada. hoje. Quando uma circunstância como uma mudança técnica desestabiliza o antigo equilíbrio das forças e das representações. do alfabeto. Ora. Estes eqüilíbrios são frágeis. a criação de animais. O telégrafo e o telefone serviram para pensar a comunicação em geral. etc. Se algumas formas de ver e agir parecem ser compartilhadas por grandes populações durante muito tempo (ou seja. pois. o Estado e a escrita. o mundo pré-colombiano da América está ameaçado de arruinar-se (não somente o império dos Incas. que o computador havia se tornado hoje um destes dispositivos técnicos pelos quais percebemos o mundo. Dentre todas ás transformações fundamentais que afetaram os países desenvolvidos na época atual.: 9 . se existem culturas relativamente duráveis). ou uma caixa de Pandora metafísica. a cidade. a técnica toma parte plenamente no transcendental histórico. ou traduzidos em listagens pela máquina). são importantes fontes de imaginário. Não percebe que sua maneira de pensar. e todo o equilíbrio das representações e das imagens será transformado. A técnica não é sinônimo de esquecimento do ser ou do deserto simbólico. até que uma nova situação se estabilize provisoriamente. a beleza de suas mulheres. Neste sentido. Michel Serres sugeriu em La Distribution [97] que a máquina a vapor era não apenas um objeto. Os servomecanismos concretos e a teoria matemática da informação serviram como suporte para a visão cibernética do mundo. O transcendental histórico está à mercê de uma viagem de barco. mas seus deuses. longe de adequarem-se apenas a um uso instrumental e calculável. A experiência pode ser estruturada polo computador. de dispositivos de comunicação. ressaltemos o desaparecimento do mundo agrícola. entidades que participam plenamente da instituição de mundos percebidos. e mesmo de acreditar em Deus (como veremos mais adiante neste livro) são condicionadas por processas materiais. cada vez mais concebemos o social. como vimos no caso da escrita. e a uma infinidade indeterminada de circunstâncias. e um objeto técnico. o psiquismo. perceptíveis na tela. ou a situação do filósofo. Uma infinidade heterogênea de agentes sociais exploram as novas possibilidades em proveito próprio (e em detrimento de outros agentes). a lista dos objetos que são ao mesmo tempo estruturas transcendentais é infinitamente longa. a agricultura. com seus valores. Nietzsche ou Freud pensavam a historia. isto se deve à estabilidade de instituições. mas igualmente de toda um imenso agenciamento técnico que compreende os relógios. Basta que. mas também em um plano transcendental hoje em dia. de formas de fazer. sabemos que o espaço e o tempo tal como os percebemos e vivemos hoje na Europa ou na América do Norte não resultam apenas de discursos ou de idéias sobre o tempo e o espaço. os procedimentos de cartografia e de impressão. etc. Mais profundamente. a presente mutação antropológica somente pode ser comparada à revolução neolítica que viu surgirem. Eu mesmo tentei mostrar.

das mediações concretas pelas quais a essência calculante da cultura grega teria chegado até nós. a uma estrutura abstrata e separada dos casos do devir histórico: o "cálculo". ou o foi de forma excessivamente alusiva. Nenhuma reflexão séria sobre o devir da cultura contemporânea pode ignorar a enorme incidência das mídias eletrônicas (sobretudo a televisão) e da informática. La Découverte. Uma coisa é certa: vivemos hoje em uma destas épocas limítrofes na qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar a imaginários. precisamente. mas o fazia enquanto sociólogo. quer dizer. ele descobriu que a margem de liberdade neste domínio era muito maior do que geralmente é dito.apagamento da distinção cidade/campo e conseqüente surgimento de uma rede urbana onipresente. modos de conhecimento e estilos de regulação social ainda pouco estabilizados. 1991 _________ Pág. Isto quer dizer que este novo livro seria pura e simplesmente a critica do primeiro? Não. suas realizações e seus usos. de uma nova relação com o cosmos. está relacionada com uma mudança de posição do analista em relação a seu objeto. O autor de La Machine Univers decerto havia desenvolvido um longo e minucioso trabalho de pesquisa sobre a informática. de orientações deliberadas ou de compromissos estabelecidos entre diversas forças antagonistas. do exterior. participou da realização de dois sistemas especialistas3 enquanto engenheiro do conhecimento. como neste livro. pois eu continuo defendendo a maior parte das teses desenvolvidas em La Machine Univers. L'ldéographie dynamique. este problema fundamental infelizmente não foi colocado. As conseqüências a longa prazo do sucesso fulminante dos instrumentos de comunicação audiovisuais ia partir do fim da Segunda Guerra Mundial) e dos computadores ia partir do fim dos anos setenta) ainda não foram suficientemente analisadas. a perspectiva de La Machine Univers era um pouco paradoxal. esta estrutura calculante foi identificada como Ocidente. Desejo apenas sinalizar ao leitor que o trabalho sobre as implicações culturais da informática foi retomado a partir do ponto mais fraca da obra anterior. Paris. o deslocamento das atividades econômicas para o terciário e a influência cada vez mais direta da pesquisa científica sobre as atividades produtivas e os modos de vida. Quanto à segunda ordem de razões. em uma posição de realce. Ao tornar-se um ator da evolução técnica (por pouco que seja). a partir de sua origem grega. e encontra-se ativamente envolvido em diversos projetos de multimídia interativa de suporte informático. Não será encontrada aqui. um certa número de criticas justificadas foram feitas a meu trabalho precedente. um novo imaginário do espaço e do tempo sob a influência dos metas de transporte rápidos e da organização industrial do trabalho. Vivemos um destes raros momentos em que. por isomorfismo ou analogia. indeterminista e antimecanicista nas ordens 3 LÉVY Pierre. Tal como estava descrita em La Machine Univers. sobretudo a critica das teorias formais e tecnicistas do pensamento e do cosmos. Em primeiro lugar. já que. Eu havia instituído a cultura acidental.: 10 . mas sim um ensaia de avaliação das questões antropológicas ligadas ao usa crescente dos computadores: o transcendental histórico ameaçado pela proliferação dos programas. a partir de uma nova configuração técnica. querendo ou não. O autor da presente obra. amplificando-se e endurecendo-se em técnica e depois em informática. Razões de duas ordens diferentes levaram-me a empreender a redação desta obra apenas dois anos após a publicação de La Machine Univers. portanto. Em La Machine Univers. aquele que se refere às transmissões. O problema das traduções. nem uma apologia nem uma critica da informática em geral. Além disso. sobre um tema bastante próximo. As pretensas "necessidades técnicas" na maior parte do tempo são apenas máscaras de projetos. Ora. sua teoria. por outro lado. a evolução técnica parecia obedecer. quer dizer. historiador ou filósofo. ás traduções e ás deformações que modelam o devir social. um novo estilo de humanidade é inventado. Eis aqui portanto um livro sobre as interfaces. restringi minhas reflexões aos computadores. das quais a maior parte não tem nada de "técnica". no plano das idéias. em vez de analisá-la como resultado provisório de uma dinâmica ecológica complexa e do encadeamento contingente de circunstâncias históricas. uma posição "calculante".

cujo programa esboçamos na terceira e última parte deste livro. 1975. em nossa forma de pensar. Colocar em perspectiva. Mas. que por sua vez remete a uma teoria hipertextual da comunicação Não é a primeira vez que a aparição de novas tecnologias intelectuais é acompanhada por uma modificação das normas do saber. oralidade. relativizar as formas teóricas ou criticas de pensar que perdem terreno hoje. Este é o tema principal da ecologia cognitiva. já que. Ao propor uma abordagem ecológica da cognição.: 11 . 1967. os criticas mais radicais e mais eficazes da corrente principal da evolução da informática situaram-se precisamente no terreno da técnica. toda espirito crítico? Muito pelo contrário. De que lugar julgamos a informática e os estilos de conhecimento que lhe são aparentados? Ao analisar tudo aquilo que. longe de limitarem-se a uma simples pintura das novas técnicas de comunicação de suporte informática. veremos que a criação técnica pode ser pensada dentro do modelo da interpretação e da produção de sentido. mas sim seus verdadeiros sujeitos. escrita. as páginas que se seguem entrelaçam sempre um fio reflexivo ao fio descritivo. eu não estava deixando o domínio da critica social ou da interrogação filosófica afirme aproximar do cerne da atividade técnica. Se o devir da cidade contemporânea depende pelo menos tanto da evolução tecnocientífica quanto do resultado das eleições. A tese defendida neste livro refere-se a uma história mais fundamental que a das idéias: a história da própria inteligência. tomaremos uma certa distância em relação às evoluções contemporânea. Os coletivos cosmopolitas compostos de indivíduos. DEBORD Guy. depende da oralidade. instituições e técnicas não são somente meios ou ambientes para o pensamento. informática". é consagrada à informática de comunicação naquilo que ela tem de mais original cm relação ás outras mídias. Buchet-Chastel. A primeira parte deste livro. engenheiros. típico da cultura informática. isto talvez facilite o indispensável trabalho de luta que permitirá abrir-mo-nos a novas formas de comunicar e de conhecer. Paris. Dado isto. com os critérios e os reflexos mentais ligados às tecnologias intelectuais anteriores. os inventores. minha maior esperança é a de contribuir para renovar o debate em andamento sobre o devir do sujeito. como veremos. a história das tecnologias intelectuais condiciona(sem no entanto determiná-la ) a do pensamento. Commission mondiale sur l'environnement et le développement. mantinha ares de necessidade na ordem cultural. BIBLIOGRAFIA CASTORIADIS Cornélius. 1988. "A metáfora do hipertexto". ressituando-as em uma continuidade histórica. L'lnstitution imaginaire de la société.Les publications du Québec. Ao abandonar uma posição de observador externa. eles fazem referência aos imaginários antagonistas da técnica e das relações sociais. biológica e cognitiva. cientistas. Na segunda parte deste livro: " Os três tempos do espírito. descobriremos que apreendemos o conhecimento por simulação. da razão e da cultura.física. _________ Pág. s. Éditions du Fleuve . La Société du spectacle. não estaria eu arriscado a perder ao mesmo tempo toda recuo. Montréal. Paris. empresários e investidores que contribuem para edificar o tecnocosmos onde viveremos daqui em diante são impulsionados por verdadeiros projetos políticos rivais. O que é a comunicação? O que é o sentido? Ao acompanharmos a história do computador pessoal. Le Seuil. Veremos em particular que o hipertexto (cujo conceito será amplamente definido e ilustrado) representa sem dúvida um dos futuros da escrita e da leitura. da escrita e da impressão. à qual pertence a técnica. Notre avenir à tous (Rapport BRUNDTLAND).

Paris. La Puissance du rationel. Le Seuil. Armand Colin. Paris. Paris. 1958.: 12 . HEIDEGGER Martin.Paris 1958. La Barbarie. Gallimard. Aubier. Hachette. La Technique ou l'enjeu du siécle. 1988. 1982. Essais et conférences (trad. número de agasto/setembro 1983. 1977. Paris.D. 1954. Gallimard. Grasset. Paris. HENRI Michel. Paris. Calmann-Lévy. La distribrution. ELLUL Jacques. 1977. Grasset. ELLUL Jacques. 1989. création. 1985. Commentaires sur la société du spectacle. Paris. SIBONY Daniel. penser la technique. mode d'emploi. cognition et culture informatique. Gérard Lebovici. André Préaux).. University of Chicago Press. 1988. Le Signe et la technique. Le Bluffte technologie. 1987. Chicago. ESPRIT. HOTTOIS Gilbert. Paris. Minuit.DEBORD Guy. 1987. The Pursuit of Power Technology: Armed Forces and Society since A. La Machine Univers. 1984. 1000. JANICAUD Dominique. Technique et civilisation. MCNEILL William. SIMONDON Gilbert. Paris. SERRES Michel. Paris. Paris. Paris. La Découverte. ELLUL Jacques. Du mode d'existence des objets techniques. Hermes IV. 1950. _________ Pág. dossiê: La techno-démocratie. MUMFORD Lewis. Aubier. Le Système technicien. LÉVY Pierre. Entre dire et faire.

cada novo lance ilumina com uma luz nova o passado da partida e reorganiza seus futuros possíveis. Se estas idéias são de alguma forma válidas. Sob este aspecto. Ao dizer que o sentido de uma mensagem é uma "função" do contexto. Na abordagem clássica dos fenômenos de comunicação. longe de ser um dado estável. ação e comunicação são quase sinônimos. A circulação de informações é. um novo desenvolvimento podem modificar o sentido que havíamos dado a uma proposição ( por exemplo) quando ela foi emitida. as mensagens e seus significados se alteram ão deslocarem-se de um ator a outro na rede. Os diagramas sistêmicos reduzem a informação a um dado inerte e descrevem a comunicação como um processo unidimensional de transporte e decodificação. frases.. Quando. não aprendemos absolutamente nada de novo sobre a chuva ou o sol. que agimos ao falar. Palavras. e depois em traçar o percurso defluxos informacionais. mas confirmamos um ao outro que mantemos boas relações. cada nova mensagem recoloca em jogo o contexto e seu sentido. A METÁFORA DO HIPERTEXTO 1. Em uma partida de xadrez. Entretanto. sinais ou caretas interpretam. Elas consistem quase sempre em designar um certo número de agentes de emissão e recepção. cada um à sua maneira. precisar. O sentido emerge e se. os interlocutores fazem intervir o contexto para interpretar as mensagens que lhes são dirigidas. já que falamos de assuntos anódinos. é algo que está em jogo. através de mensagens. não se define nada. letras. e que ao mesmo tempo nossa intimidade não ultrapassou um certo grau. transformar o contexto compartilhado pelos parceiros. uma nova interpretação. Após vários trabalhos em pragmática e em microsociologia da comunicação. datado. e de um momento a outro do processo de comunicação.. Não é apenas quando declaramos que "a sessão está aberta". sendo geralmente uma interpretação particular desta _________ Pág. com tantos anéis de retroação quanto se desejar. mas a abordagem complementar segundo a qual a sucessão dos lances constrói pouco a pouco a partida talvez traduza ainda melhor o espírito do jogo. seu comportamento. propomos aqui uma inversão da problemática habitual: longe de ser apenas um auxiliar útil à compreensão das mensagens. ajustar. por exemplo. IMAGENS DO SENTIDO PRODUZlR O CONTEXTO Seria a transmissão de informações a primeira função da comunicação? Decerto que sim. um objeto perpetuamente reconstruído e negociado. um novo comentário. etc. Através de seus atos. A comunicação só se distingue da ação em geral porque visa mais diretamente ao plano das representações. é sempre local. as modelizações sistêmicas e cibernéticas da comunicação em uma organização são no mínimo insuficientes. suas palavras. ou em certas ocasiões excepcionais. em uma situação de comunicação. constrói no contexto.I. O jogo da comunicação consiste em.: 13 . apenas um pretexto para a confirmação recíproca do estado de uma relação. o contexto é o próprio alvo dos atos de comunicação. O diagrama dos fluxos de informação é apenas a imagem congelada de uma configuração de comunicação em determinado instante. a rede das mensagens anteriores e tentam influir sobre ó significado das mensagens futuras. muitas vezes. cada pessoa que participa de uma situação estabiliza ou reorienta a representação que dela fazemos outros protagonistas. A situação sobre o tabuleiro de xadrez em determinado momento certamente permite compreender um lance. conversamos sobre o tempo com um comerciante de nosso bairro. transitório. mas em um nível mais fundamental o ato de comunicação define a situação que vai dar sentido às mensagens trocadas. A cada instante. da mesma forma. já que o contexto.

o que implica uma revisão dos captadores e das informações pertinentes que eles devem recolher. ou então orientar sua atenção para uma certa zona de seu mundo interior. de modelos. Reiteremos aqui a conversão do olhar já tentada para a abordagem macroscópica da comunicação: podemos certamente afirmar que o contexto serve para determinar o sentido de uma palavra. São lances decisivos. de modelos. " Como a palavra "maçã". sensações proprioceptivas. Se o assunto em questão é. diremos que o objetivo de toda texto é o de provocar em seu leitor um certo estado de excitação da grande rede heterogênea de sua memória. isto ativa imediatamente em minha mente uma rede de outras palavras. composição e objetivos das organizações são portanto periodicamente redefinidos. assim como dos mecanismos de regulagem que orientam as diferentes partes da organização rumo a seus objetivos. com um cabo saindo de uma cavidade. neste caso: as imagens e os conceitos ligados à comida e à dietética. Quando ouço uma palavra. ou seja. ficando reduzido a um talo quando o comemos. etc. Selecionados pelo contexto. é ainda mais judicioso considerar que cada palavra contribui para produzir o contexto. "metalances". recoberto por uma pele de cor variável. as palavras "come" e "vitaminas" ativam redes de conceitos. Por exemplo. Ora. comunicação verbal. de lembranças. as imagens e os modelos mentais associados à palavra " maçã " seriam diferentes. traz de volta memórias de bosques normandos de macieiras. se mostra composta de imagens. Mas apenas os nós selecionados pelo contexto serão ativados com força suficiente para emergir em nossa consciência. que outras palavras da frase tiverem ativado ao mesmo tempo. Ora. CLARÕES Os atores da comunicação produzem portanto continuamente o universo de sentido que os une ou que os separa. se podemos falar assim. a palavra " maçã " remete aos conceitos de fruta de árvore. pode estender-se a toda nossa memória. por exemplo. centrada sobre a maçã. as mutações das técnicas de transmissão e de tratamento das mensagens contribuem para redefinir as organizações. de conceitos e de pedaços de discurso. etc. de conceitos. os jogadores não são mais pessoas. de sensações. a granny mais ácida. A palavra maçã está no centra de toda esta rede de imagens e conceitos que. de associação em associação. mas sim elementos de representação. mas também de imagens. Se fosse "a maçã da discórdia" ou a "maçã de Newton". O contexto designa portanto a configuração de ativação de uma grande rede semântica em um dado momento. de sensações.configuração. uma configuração semântica reticular que. Identidade. Serão finalmente selecionados os nós da minirrede. sons. afetos. Desta vez. lembranças. a interação das palavras constrói redes de significação transitórias na mente de um ouvinte. um "lance" no jogo da comunicação. contende uma polpa comestível e caroços. ou ainda disparar a projeção de um espetáculo multimídia na tela de sua imaginação. vemos que ela está mal representada pelos diagramas funcionais dos fluxos de informação. faz surgir o modelo mental de um objeto basicamente esférico. a mesma operação de construção do contexto se repete na escala de uma micropolítica interna às mensagens. Tomando os termos leitor e texto no sentido mais amplo possível. quando nos concentramos meta. a melrose deliciosamente perfumada. Porque transformam os ritmos e as modalidades da comunicação. odores. a situação deriva perpetuamente sob o efeito das mudanças no ambiente e de um processo ininterrupto de interpretação coletiva das mudanças em questão. etc. a golden muitas vezes farinhenta. evoca também o gosto e a consistência dos diversos tipos de maçã. de reprodução. de modelos.: 14 . É nesta metamorfose paralela da organização e de seu ambiente que se baseia o poder instituinte da comunicação. de tortas de maçã. _________ Pág. o que isto quer dizer? Tomemos a frase: "Isabela come uma maçã por suas vitaminas. no joga da interpretação e da construção da realidade. de lembranças.

afetivas. grupos. Ela transformará. disparado pela palavra seguinte. sejam eles humanos. traços de imagens ou de contexto. etc. 2. multimodais. sua composição e seu desenho estão permanentemente em jogo para os atores envolvidos. SEIS CARACTERÍSISTICAS DO HIPERI'EX'TO Cada um em sua escala. chamaremos estes mundos de significação de hipertextos. mas também contribui para construir ou remodelar a própria topologia da rede ou a composição de seus nós. Princípio de multiplicidade e de encaixe das escalas _________ Pág. digitais.Não somente cada palavra transforma. Princípio de heterogeneidade Os nós e as conexões de uma rede hipertextual são heterogêneos. algumas conexões são reforçadas. palavras. Na memória serão encontradas imagens. Mas ao descobrir que ela comia uma maçã " por suas vitaminas". forças naturais de todos os tamanhos. que descreveremos abundantemente na continuação desta seção. e assim por diante. os atores da comunicação ou os elementos de uma mensagem constroem e remodelam universos de sentido. analógicas. A fim de preservar as possibilidades de múltiplas interpretações do modelo do hipertexto. 3. mas esta estabilidade é em si mesma fruto de um trabalho. brilhe por um instante na noite dos sentidos. por exemplo. O sentido de uma palavra não é outro senão a guirlanda cintilante de conceitos e imagens que brilham por um instante ao seu redor. A imensa rede associativa que constitui nosso universo mental encontra-se em metamorfose permanente. Como veremos. propomos caracterizá-lo através de seis princípios abstratos. e depois desaparecerá para abrir espaço para entras constelações. desviamos momentaneamente o núcleo de nossa atenção para n audição de um discurso. n estrutura do hipertexto não dá conta somente da comunicação. modelos. Inspirando-nos em cortas programas contemporâneos. as mensagens serão multimídias. uma imagem global. cada vez que um caminho de ativação é percorrido. palavras. componentes destes objetos. sons. etc. Principio de metamorfose A rede hipertextual está em constante construção e renegociação. ao passo que outras caem aos poucos em desuso. talvez imperceptivelmente. até que uma forma particular.. também têm uma forma hipertextual.: 15 . Em termos gerais. etc. pela ativação que propaga ao longo de certas vias. imagens. diversas sensações. objetos técnicos. o mapa do céu. A reminiscência desta claridade semântica orientará a extensão do grafo luminoso. Quando ouvi Isabela declarar. ou profundas e permanentes como nos casos em que dizemos que "a vida "Ou "uma longa experiência" nos ensinaram alguma coisa. sobretudo. o estado de excitação da rede semântica. Os processos sociotécnicos. sou obrigado a reorganizar uma parte da rede semântica a ela relacionada. eu havia construído uma certa imagem de sua relação com a comida. artefatos. e as conexões serão lógicas. Sua extensão. que não se preocupava com dietética. Ela pude permanecer estável durante um certa tempo. Na comunicação. assim como vários outros fenômenos. etc. O hipertexto é talvez uma metáfora válida para todas as esferas da realidade em que significações estejam em jogo. ao abrir uma caixa de raviólis. O processo sociotécnico colocará em jogo pessoas. com todos os tipos de associações que pudermos imaginar entre estes elementos. l. As reorganizações podem ser temporárias e superficiais quando.

Paris. Não há espaço universal homogêneo onde haja forças de ligação e separação. STILLINGS Neil et al. Des mirois équivoques. Princípio de topologia Nos hipertextos. indefinidamente. 6. DELEUZE Gilles. Cambridge. etc. possui permanentemente diversos centros que são como pontas luminosas perpetuamente móveis. Por exemplo. Prentice Hall. Studies in Ethnomethodology. O HIPERTEXTO MEMEX A idéia de hipertexto foi enunciada pela primeira vez por Vannevar Bush em 1945. La Nouvelle Communication. Princípio de exterioridade A rede não possui unidade orgânica. Freeman and Company. L’Ethnométhodologie. Na constituição da rede sociotécnica intervêm o tempo toda elementos novos que não lhe pertenciam no instante anterior: elétrons. Cambridge. de rizomas. trazendo ao redor de si uma ramificação infinita de pequenas raízes. GUATARRI Félix. tudo funciona por proximidade. ela é o espaço. ou seja. Toronto.H. pode revelar-se como sendo composto por toda uma rede. 1967. 1987. e assim por diante. Harvard University Press. BADDELY Alan. Paris. A rede não está no espaço. caso se trate de um tratado internacional. BIBLIOGRAFIA ANDERSON John R. 1980 GARFINKEL Harold. finas linhas brancas esboçando por um instante um mapa qualquer com detalhes delicados. raios X. COULON Alain..O hipertexto se organiza em um modo "fractal". de caminhas. Le Seuil. ou então será obrigado a modificá-la. 4. Mille Plateux.: 16 . sua composição e sua recomposição permanente dependem de um exterior indeterminado: adição de novos elementos. QUERE Louis. Your memory: a User’s guide. JOHNSON-LAIRD Philip N. qualquer nó ou conexão. para a rede semântica de uma pessoa escutando um discurso. 5. Cognitibve Science. WINKIN Yves (textos organizados e apresentados por). em um célebre artigo intitulado "As We May Think" [62]. Massachusetts. Capitalism et schizophrénie. Minuit. 1985. e depois correndo para desenhar mais à frente outras paisagens do sentido. micróbios. etc. 1982. quando analisado. pode repercutir na vida de milhões de pessoas (na escala da macrorrede social). a dinâmica dos estados de ativação resulta de uma fonte externa de palavras e imagens. New Jersey. saltando de um nó a outro. Princípio de mobilidade dos centros A rede não tem centra. Paris. ou melhor. 1983. An Introduction. PUF. New York. por vizinhança. conexões com outras redes. Em algumas circunstâncias críticas. 2. Engelwood Cliffs. Aubier Montaigne. Mc-graw Hill. ao longa da escala dos graus de precisão. W. Massachusetts. 1982. excitação de elementos terminais (captadores).. Neles. 1987. Mental Models. Cognitive Psychology and its Implications (2ª edição). nem matar interno. Tudo que se desloca deve utilizar-se da rede hipertextual tal como ela se encontra. 1981. o curso dos acontecimentos é uma questão de topologia.. MIT Press. macromoléculas. há efeitos que podem propagar-se de uma escala a outra: a interpretação de uma vírgula em um texto (elemento de uma microrrede de documentos). Paris. Bush era um matemático e físico renomado que _________ Pág. onde as mensagens poderiam circular livremente. Seu crescimento e sua diminuição.

uma espécie de engenharia civil no pois das publicações. uma espécie de Biblioteca de Alexandria de nossos dias. a primeira calculadora eletrônica digital. Nelson persegue o sonho de uma imensa rede acessível em tempo real contendo todos os tesouros literários e científicos do mundo. uma porte fundamental do próprio processo de pesquisa e de elaboração de novos conhecimentos. tece uma trama infinitamente mais complicada do que os bancos de dados de hoje ou os sistemas de informação de fichas perfuradas existentes em 1945. e a ordenação é puramente hierárquica (classes. todos os outros que tivessem sido ligados a ele poderiam ser instantaneamente recuperados. Xanadu. diz Vannevar Bush. desenha trilhas que se bifurcam. O acesso às informações seria feito através de uma tela de televisão munida de alto-falantes. outros permitiriam transformar automaticamente a palavra em texto escrito. enquanto horizonte _________ Pág. que acabavam de ser descobertos naquela época. abrangendo ao mesmo tempo imagens. imagens e textos gravados. seria precisa criar um imenso reservatório multimídia de documentos. Bush reconhece que certamente não seria possível duplicar o processa reticular que embasa o exercício da inteligência. materializam no Memex. e para isto Bush previa em particular a utilização do microfilme e da fita magnética. Bush chegou mesmo a imaginar uma nova profissão. Ora. denominado Memex. Milhões de pessoas poderiam utilizar Xanadu. subclasses. Ela pula de uma representação para outra ao longo de uma rede intrincada. Foi contudo nesta época que Theodore Nelson inventou o termo hipertexto para exprimir a idéia de escrita/leitura não linear em um sistema de informática. Além dos acessos clássicos por indexação. comentar os textos.: 17 . um comando simples permitiria ao feliz proprietário de um Memex criar ligações independentes de qualquer classificação hierárquica entre uma dada informação e uma outra. etc. anotar os comentários. a mente humana não funciona desta forma. para mecanizar a classificação e a seleção por associação paralelamente ao princípio da indexação clássica. através de um simples toque em um botão. Bush retrata o usuário de seu dispositivo imaginário traçando trilhas transversais e pessoais no imenso e emaranhado continente do saber. Na época em que o artigo foi publicado polo primeira vez nosso autor encontrava-se na chefia do organismo encarregado de coordenar o esforço de guerra dos cientistas americanos. Estas conexões. uma calculadora analógica ultra-rápida. Imagina então um dispositivo. ). Certos dispositivos periféricos facilitariam a integração rápida de novas informações. o equivalente ao volume de um móvel de escritório. nos anos trinta. e que tinha desempenhado um papel importante pára o financiamento do Eniac. sob as ordens do Presidente Roosevelt. se interconectar. sons e textos. etc. cuja missão seria a de ordenar redes de comunicação no centro do corpus imenso e sempre crescente dos sons. que ainda não se chamavam hipertextuais. XANADU No início dos anos sessenta. a maior parte dos sistemas de indexação e organização de informações em uso na comunidade científica são artificiais. Tudo isto deveria caber em um ou dois metros cúbicos. para escrever. e os computadores ainda não evocavam os bancos de dados e muito menos o processamento de textos. Desde então. Aquilo que poderíamos chamar de estado supremo da troca de mensagens teria a seu encargo uma boa parte das funções preenchidas hoje pela editoração e o jornalismo clássicos. cada vez que determinado item fosse visualizado. interagir. os primeiros sistemas militares de teleinformática acabavam de ser instalados. A segunda condição a ser preenchida seria a miniaturização desta massa de documentos. Uma vez estabelecida a conexão. cada item é classificado apenas sob uma única rubrica. Ele propõe apenas que nos inspiremos nele. espécie de memória auxiliar do cientista. Por que "As we may think " ? Segundo Bush.havia concebido. Antes de mais nada. filmes e gravações sonoras disponíveis na rede. mas sim através de associações.

a digitalização e a formatação uniforme de informações hoje dispersas em uma infinidade de diferentes suportes pressupõem o emprego de meios materiais avançados. a constituição de hipertextos gigantes supõe um minucioso trabalho de organização. O aprendiz escolhe no menu a opção "animação". portanto. Enfim. de seleção. e depois descobrir seu funcionamento). e isto em função de públicos bastante diversos. o sistema teria indicado os procedimentos a seguir para determinar a natureza exata do defeito. passa a mostrar o interior do carburador em funcionamento. MOTOR! Um aprendiz de mecânico vê surgir na tela à sua frente o esquema tridimensional de um matar. de contextualização.. A peça muda de cor enquanto seu nome — carburador. como a edição de obras de característica enciclopédica em CD-ROM (o compact disc digital). uma voz em off explica o funcionamento interno do carburador. o aprendizado e diversos programas de auxílio ao trabalho coletivo. sendo representados em cores diferentes. O mecânico interrompe o filme e retorna à visão inicial do motor escolhendo a opção "retorno ao início" no menu. os fluxos de gasolina. por exemplo. e há três razões para isto. Ainda que milhares de hipertextos tenham sido elaborados e consultados após as primeiras visões de Vannevar Bush e Theodore Nelson. no domínio da multimídia interativa. Com a ajuda de um cursor comandado por um mouse. escolhe a opção "mostre" e digita no teclado: "o balancim". e o aprendiz pode continuar sua exploração. em vez de começar sua exploração selecionando a imagem de um órgão (o que lhe permitia conhecer o nome deste órgão.ideal ou absoluto do hipertexto. etc.: 18 . tudo. experiências e verificações para determinar com precisão o defeito e consertá-lo. terminando pela demonstração dos reparos a serem efetuados. O jovem mecânico clica outra vez o mouse sobre o carburador. não se sabe ainda como programar bancos de dados acima de uma certa ordem de grandeza. Em segundo lugar. Enquanto o filme é exibido. expõe seu papel na organização geral do motor. até o momento nenhum deles tem a amplitude quase cósmica imaginada por estes pioneiros. cita os possíveis defeitos. Se o aprendiz não tivesse achado o problema após um número estabelecido de tentativas e erros. Eis aqui dois exemplos do que é possível realizar hoje. e esta não é uma dificuldade menor. Se tivesse escolhido a opção "simulação de defeitos" no lugar de "mostre". ainda está para ser inventado? Hoje.. Em 1990. terra realmente ouvido o barulho de um motor com o defeito a ser descoberto. Um filme didático. voltados para domínios bem particulares. já que. Depois disto nosso aprendiz poderia escolher entre alguns testes. em câmera lenta. a relação entre os sintomas e a disfunção do carro. a reunião de muitas competências e sobretudo muito tempo. de forma que seja fácil compreender seus respectivos papéis. teria mostrado no esquema do motor. em um plano estritamente informático.. todos os dados necessários ao funcionamento de um destes _________ Pág. o que equivale a dizer que ela seria extremamente cara. de acompanhamento e de orientação do usuário. Ora. mas sim sistemas de porte modesto. ou quase tudo. possui as competências necessárias no plano da concepção de hipertextos com vocação universal. Em primeiro lugar. por exemplo — aparece na tela. a indexação. em 1990. de ar. eventualmente utilizando seqüências animadas. ele seleciona uma determinada peça do motor. Agora. O balancim é então colorido de maneira a contrastar com o esquema do conjunto do motor. Se ele tivesse decidido "fazer rodar o motor em marcha lenta e escutar". seria uma espécie de materialização do diálogo incessante e múltiplo que a humanidade mantém consigo mesma e com seu passado. etc. não encontramos hipertextos universais. Os algoritmos que são eficazes abaixo de um certa limite para gerir uma grande quantidade de informações revelam-se impotentes para tratar as gigantescas massas de dados implicadas em projetos como Xanadu ou Memex. A peça é então ampliada até ocupar toda a tela. terra assistido a um pequeno filme mostrando um cliente trazendo seu carro à oficina e descrevendo os diversos barulhos estranhos e irregularidades de funcionamento que o fizeram procurar o mecânico. quem.

a diferença entre as construções gregas e as romanas. Enquanto lê a peça de Plauto. O programa pergunta então qual o tema da visita. visita guiada a Roma. os outros devendo ser procurados na biblioteca da universidade. diversos ícones dispostos sobre a tela indicam-lhe as possíveis formas de explorar a civilização romana: períodos. Após ter digitado "as diversões". um mapa de Roma no século II d. mostrando-lhe depois as peculiaridades arquitetônicas do monumento enquanto visitam-no (uma microcâmera havia filmado a maquete do teatro reconstituído). ela escreve "na margem" alguns comentários que serão invisíveis para os próximos leitores. Uma estudante está diante de um terminal de tela grande em uma das salas do Campus. de civilização latina. de Plauto. O nome de cada local colorido está indicado em maiúsculas. Podemos imaginar bancos de dados interativos como este nas diversas especialidades da engenharia ou da medicina. as termas em azul). personagens históricos. cada estudante terá alguma coisa diferente para dividir com os outros: um terá visitado as termas. e ela poderá servir-se delas ou citá-las em um ensaio ou exercício escolar. Perto do teatro de Marcelo há algumas pessoas em trajes romanos: um guia. Graças a uma série de esquemas e planos arquitetônicos comentados pela voz do guia. textos. etc. Depois. porque muitos dos teatros romanos têm o nome de políticos famosos. a não ser que esteja sentada em casa frente a seu microcomputador pessoal. em 1990.C. Um analisador sintático e morfológico assim como um dicionário latim-francês (o "Gaffiot eletrônico") permitem que ultrapasse rapidamente as dificuldades apresentadas pelo texto. mas que poderá encontrar na tela e ampliar na próxima leitura. Após uma série de informações gerais deste tipo. deixa uma marca que lhe permitirá voltar automaticamente à última passagem que leu.. a estudante relê as notas que tomou durante sua visita: os planos arquitetônicos dos teatros romanos. o guia conta-lhe os detalhes da construção do templo de Marcelo. quais são os grandes autores de comédias e tragédias. Abandonando o texto antes que terminasse de lê-lo. Na próxima aula. e suas contribuições à história do teatro. a oeste do campo de Marte. Através deste gesto simples. aterrissando no local precisa que ela havia selecionado. dirigemse para o teatro de Pompeu. andando pelo campo de Marte.. um explicador de latim.. outro terá lide e comentado no Cícero trechos de obras modernas sobre os jogos de circo em Roma. um quiosque de livros. ela descobre. Os sistemas educativos e de documentação que acabamos de descrever não existem ainda sob esta forma. o texto de certas passagens do comentário do guia. os textos marcados com uma estrela estão diretamente disponíveis a partir de Cícero.. Ela escolhe o guia e lhe pede uma introdução geral à arte dramática em Roma. Após ter visitado cinco teatros desta forma. que está marcado com uma estrela. aparece. Todas estas notas são diretamente transferidas pára seus arquivos pessoais de textos e imagens. com os parques indicados em verde. Após ter chamado o programa Cícero. ligado por modem à rede da universidade. A estudante escolhe a visita guiada. o primeiro condensa diversos programas já prontos ou em curso de _________ Pág. porque nota que neste setor há uma forte concentração de teatros: lá se encontram também os teatros de Pompeu e de Balbino. CÍCERO O professor de civilização latina pediu à turma que preparasse o tema de diversões em Roma para a semana seguinte. Nossa estudante decide ler o Anfitrião. os teatros em amarelo e os circo sem vermelho. por exemplo. A jovem latinista clica então sobre o teatro de Marcelo..: 19 . Na bibliografia que seu guia lhe forneceu ou que ela obteve em um dos quiosques de livros que encontrou durante sua visita.sistemas de auxílio ao aprendizado da mecânica de automóveis podem residir em um compact disc com poucos centímetros de diâmetro e rodar em um microcomputador de alta performance.. uma lista bibliográfica de textos antigos ou modernos relacionados ao teatro. nossa estudante desce na cidade.

a existência de um alfabeto e de uma caligrafia comuns à maior parte do espaço europeu. por exemplo. por sua vez. ou a maioria. de segmentação do saber em módulos. a aquisição de informações e a comunicação. A impressão. cabeçalhos. conter uma rede inteira. referências cruzadas. documentos complexas que podem eles mesmos ser hipertextos. Em 1990. muito imediato. É talvez em pequenos dispositivos "materiais" ou organizacionais. A noção de interface. Funcionalmente. não há sumários. em determinados modos de dobrar ou enrolar os registros que estão baseadas a grande maioria das mutações do "saber". na verdade. Mas no momento em que foi inventada. Estes hipertextos avançados possuem um grande número de funções complexas e rodam em computadores grandes ou médios. entretanto. mas cada um deles. Em 1990. Estamos hoje tão habituados com esta interface que nem notamos mais que existe.: 20 . ou do pergaminho. um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. emprego do papel e não do papiro. classificatórios e espaciais sustentam-se uns aos outros no interior de uma estrutura admiravelmente sistemática: não há sumário sem que haja capítulos nitidamente destacados e apresentados. Ao entrar em um espaço interativo e reticular de manipulação. de acesso não linear e seletivo ao texto. a imagem e o som adquirem um estatuto de quase-textos. A terminologia para a denominação de tais sistemas ainda não foi definida. combinando som. pois multiplica as cópias. de associação e de leitura. por sua vez. deixando clara que ele não exclui de forma alguma a dimensão audiovisual. remissão a outras partes do texto. de uma interface padronizada extremamente original: página de título. ALGUMAS INTERFACES DA ESCRITA O hipertexto retoma e transforma antigas interfaces da escrita. Devemos falar de multimídia interativa? De hipermídia? De hipertexto? Escolhemos aqui o termo hipertexto. possibilitou uma relação com o texto e com a escrita totalmente diferente da que fora estabelecida como manuscrito: possibilidade de exame rápido do conteúdo. a construção de bases de dados com acesso associativo. Os nós podem ser palavras. de medo reticular. Os itens de informação não são ligados linearmente. a maior parte dos usos registrados destes sistemas de hipertexto para computadores pessoais estava relacionada à formação e à educação. sem dúvida graças à reforma caligráfica imposta autoritariamente _________ Pág. Porque cada nó pode. se estrutura sobre um grande número de características de interface estabilizadas antes do século XV e que não são óbvias: a organização do livro em códex (páginas dobradas e costuradas juntas) e não em raios. páginas. índice. Existem ainda no comércio uma dezena de programas para computadores pessoais que permitem a seus usuários a construção de seus próprios hipertextos. numeração regular. à primeira vista é sem dúvida um operador quantitativo. intuitivo. imagem e texto. sistemas de hipertexto para o ensina e a comunicação entre pesquisadores estão sendo desenvolvidos experimentalmente em cerca de vinte universidades da América do Norte. Estes programas mais rudimentares permitem. como em uma corda com nós. A impressão. e nem referências precisas a outros livras sem que haja páginas uniformemente numeradas. estende suas conexões em estrela. em algumas décadas. gráficos ou partes de gráficos. O segundo prefigura a realização daquilo que por enquanto é apenas um projeto dirigido pelo professor Bernard Frisher da Universidade da Califórnia em Los Angeles [2]. imagens. da tabuinha de argila.desenvolvimento. Tecnicamente. notas. seqüências sonoras. Mas representa também a invenção. um hipertexto é um tipo de programa para a organização de conhecimentos ou dados. sumários. Todos esses dispositivos lógicos. bem como em várias grandes empresas. de conexões múltiplas a uma infinidade de outros livras graças às notas de pé de página e ás bibliografias. não deve ser limitada às técnicas de comunicação contemporâneas.

Como o computador. Graças a uma modificação na dobradura. _________ Pág. Não se trata de caçar ou de perseguir uma informação particular. reorganizações e invenções relativas à rede de interfaces "livro". pinçam-se aqui e ali algumas frases. e depois. A interface informática. No território quadriculado do livro ou da biblioteca. o livro só se tornou uma mídia de massa quando as variáveis de interface "tamanho" e "massa" atingiram um valor suficientemente baixo. o sumário ou o fichário. — o uso do "mouse" que permite ao usuário agir sobre o que ocorre na tela de forma intuitiva. O agenciamento complexo que o documento impresso constituía continuou a se disseminar e a ramificar após o século XV. precisamos de mediações e mapas como o índice. são particularmente bem adaptados a uma atitude de atenção flutuante.. mas de recolher coisas aqui e ali. O projeto político-cultural de colocar os clássicos ao alcance de todos os leitores em latim não pode ser dissociado de uma infinidade de decisões. Aldo Manucio. é isso. diagramática ou icônica das estruturas de informação e dos comandas (por oposição a representações codificadas ou abstratas). móvel. construídas a partir das páginas de apresentação e dos índices dos livras. — os "menus" que mostram constantemente ao usuário as operações que ele pode realizar. Mas para que o Timeu ou a Eneida coubessem em um volume tão pequeno. com um mínimo de treinamento. A manipulação deve então substituir o sobrevôo. O jornal encontra-se toda em open field. A biblioteca moderna.: 21 . lidos em voz alta no atril. Só podemos nos dar conta realmente do quanto a interface de um jornal ou de uma revista se encontra aperfeiçoada quando tentamos encontrar o mesmo desembaraço num sobrevôo usando a tela e o teclado. e disponível para a apropriação pessoal [11]. ou de interesse potencial em relação à informação. inventou o estreita caractere itálico e decidiu livrar os textos do aparelho critica e dos comentários que os acompanhavam há séculos. encontramos algo que nos atrai. no qual é possível deslocar-se facilmente para achar aquilo que se procura. dando uma primeira idéia. Em vez de dobrar as falhas em dois (in folio). O SUPORTE INFORMÁTICO DO HIPERTEXTO Estes inconvenientes da consulta através da tela são parcialmente compensados por um certa número de características de interfaces que se disseminaram em informática durante os anos oitenta e que poderíamos chamar de princípios básicos da interação amigável: — a representação figurada. nos permitem considerara biblioteca como um tipo de megadocumento relativamente bem sinalizado.. uma foto. com pouquíssima superfície que seja diretamente acessível em um mesmo instante. As manchetes chamam a atenção. o livro torna-se portátil e difunde-se maciçamente. As coleções de fichas classificadas em ordem alfabética. refugos da impressão bem como da biblioteca moderna. Ao contrário. um artigo fisga nossa atenção. por exemplo. sem ter uma idéia preconcebida. O verbo to browse ( "recolher". de repente. cotidiano.. sensoriomotora e não através do envie de um seqüência de caracteres alfanuméricos. mas também "dar uma olhada") é empregado em inglês para designar o procedimento curioso de quem navega em um hipertexto. começou-se a dobrá-las em cita (in octavo).por Alcuíno na época de Carlos Magno (os problemas de padronização e de compatibilidade não datam de hoje). o leitor do jornal realiza diretamente uma navegação a olho nu. o editor veneziano que promoveu o in-octauo.. acorrentados nas bibliotecas. A mutação da impressão em si foi completada por uma transformação do tamanho e peso dos incunábulos. Foi assim que o livro tornou-se fácil de manejar. surgiu no século XV111. O jornal ou revista. por outro fada. nos coloca diante de um pacote terrivelmente redobrado. — à tela gráfica de alta resolução. já quase inteiramente desdobrado. Foi neste reduto ecológico da interação amigável que o hipertexto pôde ser inicialmente elaborado e depois disseminar-se. Na Idade Média os livros eram enormes.

é por sua vez uma interface altamente reticular e "multimídia". thesaurus. reutilizados. legendas. clássicos. onde somente temos acesso direto a uma pequena superfície vinda de outro espaço. sumário. suas imagens. A referência espacial e sensoriomotora que atua quando seguramos um volume mas mãos não mais ocorre diante da tela. nos perdemos muito mais facilmente em um hipertexto do que em uma enciclopédia. em meio as quais não seria possível distinguir mais nada? Algumas pesquisas contemporâneas parecem mostrar que representações de conexões em três dimensões seriam menos embaraçadas e mais fáceis de consultar. Isto se torna a norma. sempre através de pedaços minúsculos. NAVEGAR Partindo de traços tomados de empréstimo de várias outras mídias. Por exemplo. Uma enciclopédia com seu thesaurus. Seria preciso então que cada pequena fração de superfície trouxesse consigo suas coordenadas. A nota de pé de página ou a remissão para o glossário por um asterisco também quebram a seqüencialidade do texto. Pensemos na forma de consultar um dicionário. onde cada palavra de uma definição ou de um exemplo remete a uma palavra definida ao longo de um circuito errático e virtualmente sem fim. Mas quais serão as extensões. evidentemente. os princípios de organização destes mapas de conexões. um novo sistema de escrita.. Leitores laser miniaturizados e telas planas ultraleves tomarão estes hipertextos tão fáceis de consultar na cama ou no metrô quanto um romance policial. uma rede original de interfaces. MAPAS INTERATIVOS Podemos representar de várias maneiras a conectividade de um hipertexto. a tela cobrindo-se de linhas entrecruzadas. Um mapa ou esquema detalhado com legendas já constitui um agenciamento complexo para uma leitura não linear. mas através de técnicas diferentes daquelas imaginadas em 1945. como sempre. dada uma _________ Pág.Realizando o sonho de Vannevar Bush. suas remissões de um artigo a outro. Algumas particularidades do hipertexto (seu aspecto dinâmico e multimídia) devem-se a seu suporte de inscrição ótica ou magnética e a seu ambiente de consulta do tipo "interface amigável". O que. sobre a qual é difícil projetar-se. batizada de navegação. uma metamorfose da leitura. A reação ao clique sobre um botão (lugar da tela de onde é possível chamar um outro nó) leva menos de um segundo. o hipertexto constitui. com seus problemas e limites. feita de uma infinidade de microdispositivos de interface deformados.: 22 . A pequena característica de interface "velocidade" desvia todo o agenciamento intertextual e documentário para outro domínio de uso. as escalas. As possibilidades de pesquisa por palavras-chave e a organização subjacente das informações remetem aos bancos de dados. desviados. então. o meto mais intuitivo. A visualização gráfica ou diagramática é. Eles certamente terão um papel importante na edição e distribuição de quantidades muito grandes de informação sob forma hipertextual. destas bússolas conceituais nas redes de documentos? Um mapa global não estaria arriscado a tornar-se ilegível a partir de uma certa quantidade de conexões. É como se explorássemos um grande mapa sem nunca podermos desdobrá-lo. como que suspensa entre dois mundos. os suportes de registro ótico como o compact disc oferecem uma enorme capacidade de armazenamento em um volume bastante pequeno. bem como um mapa em miniatura com uma zona acinzentada indicando a localização desta fração ( "Você está aqui" ). Inventa-se hoje toda uma interface da navegação. referências cruzadas. portanto. A quase instantaneidade da passagem de um nó a outro permite generalizar e utilizar em toda sua extensão o princípio da não-linearidade. torna o hipertexto específico quanto a isto? A velocidade. O hipertexto também desvia em seu proveito alguns dispositivos próprios da impressão: índice..

Ele consultaria ou modificaria mais freqüentemente a estrutura de seu próprio "novelo de conexões”' do que o do megadocumento. Terra a impressão de estar percorrendo a sua subrede privada. dinâmica. agenciamentos multimidías interativos e sistemas especialistas têm em comum esta característica multidimensional. que as representações planas. medicina. justamente para resolver este problema de construção de Os sistemas especialistas são programas de computador capazes de substituir (ou. é uma tarefa difícil. Mas construir esquemas que abstraiam e integrem o sentido de um texto ou. masque mostram apenas os caminhos disponíveis a partir de um único nó: seja ele o documento de partida. Podemos deixar que o usuário represente apenas o subconjunto do hipertexto que considere pertinente. esta capacidade de adaptação fina ás situações que os tornam algo além da escrita estática e linear. Para. e não a grande rede geral. Os próprios sistemas especialistas podem ser considerados como um tipo particular de hipertexto: uma manta discursiva condensada ou redobrada (a base de conhecimentos) é desdobrada sob mil facetas diferentes pela máquina de inferência de acorda com o problema especifica com a qual se confronta seu usuário. Estudos de ergonomia e de psicologia cognitiva sobre a compreensão de documentos escritos mostram que. Já existem geradores de sistemas especialistas capazes de se conectar de forma simples em hipertextos padrão para microcomputadores. ajudar) um especialista humano no exercício de suas funções de diagnóstico ou aconselhamento. e escalas graduadas sobre uma representação diagramática ou esquemática do hipertexto. tornam-se rede. a "máquina de inferência" aplica as regras aos fatos para chegar a uma conclusão ou a um diagnóstico. para entender bem e memorizar o conteúdo dos textos. Trabalharíamos então com lupas.: 23 4 . produção industrial. O sistema contém. Eis por que estes diferentes modos de representação que utilizam um suporte informático combinam-se facilmente. etc. É possível ainda focalizar detalhadamente a informação mais importante em determinado momento. Esta descrição das soluções imaginadas para orientar o usuário e representar a organização dos caminhas possíveis entre diferentes documentos de um hipertexto está incompleta. Os sistemas especialistas são utilizados em domínios tão diversos quanto bancos. os conhecimentos do especialista humano sobre um domínio em particular a "base de fatos" contém os dados (provisórios) sobre a situação particular que está sendo analisada. de uma configuração informacional complexa. de forma mais geral. seguradoras. Sistemas especialistas muito próximos daqueles que mencionamos aqui auxiliam usuários pouco experientes a orientarem-se no dédalo dos bancos de dados e das linguagens de pesquisa sempre que eles precisam achar rapidamente (sem um longo treinamento prévio) uma informação on line.mesma quantidade. e nela deslocar-se como dentro de um volume. pensa-se também em colocar módulos inteligentes ou pequenos sistemas especialistas em alguns de seus desvios4. a raiz do hipertexto. representando em pontilhado ou em escala menor a informação marginal. O usuário terra a impressão de entrar em uma estrutura espacial. A cada momento. Podemos também construir mapas globais em duas dimensões. As representações do tipo cartográfico ganham hoje cada vez mais importância nas tecnologias intelectuais de suporte informático. de Toulouse às outras cidades quando estivéssemos em Toulouse. _________ Pág. etc. na maior parte dos casos. Imaginemos um mapa das estradas francesas no qual estariam representadas apenas as estradas que levassem de Bordeaux às outras cidades quando estivéssemos em Bordeaux. em uma "base de regras". Estes sistemas especialistas poderiam também fornecer informações mais refinadas àqueles que não se contentassem com uma simples navegação. sistemas de zoom. ajudar a orientar os que se aventuram nas vias tortuosas dos dispositivos hipertextuais ou multimídias. a complexidade visual ficaria assim reduzida ao mínimo necessário. mas dá uma idéia do tipo de solução que se tem em mente em 1990. ou então o documento ativo no momento. é indispensável que os leitores depreendam sua macroestrutura conceitual [49]. Hipertextos.

com dobras. muda de forma.esquemas. um instrumento bem adaptado a uma pedagogia ativa. RÉQUIEM PARA UMA PÁGINA Quando um leitor se desloca na rede de microtextos e imagens de uma enciclopédia. etc. Quanto mais ativamente uma pessoa participar da aquisição de um conhecimento. manipulando volumes. as separações de capítulos e de parágrafos. mapas ou diagramas interativos estão entre as interfaces mais importantes das tecnologias intelectuais de suporte informático. encaixes complicados e variáveis. Os hipertextos podem propor vias de acesso e instrumentos de orientação em um domínio do conhecimento sob a forma de diagramas. É. à gestão de projetos. rudimentares e estáticos. percorrendo com seus olhos as colunas tendo em mente a ordem alfabética. portanto. de operações a coordenar ou de restrições a respeitar. Os sinais de pontuação. se multiplica. nada além de uma existência lógica. deve traçar fisicamente seu caminho nela. mas sim uma ponte de comanda e de observação das metamorfoses _________ Pág. A memória humana é estruturada de tal forma que nós compreendemos e retemos bem melhor tudo aquilo que esteja organizado de acordo com relações espaciais. de fundo falso em fundo falso. estes pequenos amarrotados ou marcas de dobras. calibrada. com gavetas. a encadernação independente da estrutura lógica do texto não têm mais razão de ser. obedecendo por assim dizer ao dedo e ao olho. em sistemas de auxílio à concepção. sem dúvida. não têm. em compensação. uma estrutura complexa esquematizada.: 24 . Na interface da escrita que se tornou estável no século XV e foi sendo lentamente aperfeiçoada depois. Com um ou dois cliques. Não é apenas uma rede de microtextos. graças à sua dimensão reticular ou não linear. a restrição da superfície limitada da tela. O hipertexto informatizado. de redes ou de mapas conceituais manipuláveis e dinâmicos. O hipertexto ou a multimídia interativa adequam-se particularmente aos usos educativos. Os sistemas cognitivos humanos podem então transferir ao computadora tarefa de construir e de manter em dia representações que eles antes deviam elaborar com os fracos recursos de sua memória de trabalho. de várias maneiras. ou aqueles. a posse de uma rica representação esquemática. favorece uma atitude exploratória. depois entra. está perpetuamente em movimento. adaptáveis pelo leitor. Lembremos que o domínio de uma área qualquer do saber implica. os hipertextos deveriam portanto favorecer. quase sempre. Ele se redobra e desdobra à vontade. Os esquemas interativos tornam explicitamente disponíveis. Sobra. a página é a unidade de dobra elementar do texto. de documentos multimídias. Diagramas dinâmicos são empregados em software houses (auxílio à programação). numerada. imóveis. Os volumes da Britannica ou da Universalis são muito pesados. face ao material a ser assimilado. inertes. Cabe àqueles que concebem a interface fazer desta tela não um leito de Procusto. por assim dizer. O hipertexto é dinâmico. um certa detalhe ampliado. um domínio mais rápido e mais fácil da matéria do que através do audiovisual clássico ou do suporte impresso habitual. ele mestra ao leitor uma de suas faces. O formato uniforme da página. Ora. Os esquemas. A dobradura do códex é uniforme. já que são figurados por signos convencionais e não talhados na própria matéria do livro. de programas informáticos. É bem conhecido o papel fundamental do envolvimento pessoal do aluno no processo de aprendizagem. três capítulos sob uma palavra do parágrafo. virando páginas. permite todas as dobras imagináveis: dez mil signos ou somente cinqüenta redobrados atrás de uma palavra ou ícone. mais ela irá integrar e reter aquilo que aprender. do lápis e papel. e assim virtualmente sem fim. Um parágrafo pode aparecer ou desaparecer sob uma palavra. a dobra parasita do papel. Em um contexto de formação. um pequeno ensaio sob uma das palavras destes capítulos. se corta e se cola entra vez de outra forma. mas sim um grande metatexto de geometria variável. a multimídia interativa. diretamente visíveis e manipuláveis à vontade as macroestruturas de textos. à escrita. ou mesmo lúdica.

WA. Interactive Multimedia. octobre 1988. Washigton. rue de la Li berté . décembre 1988. Paris. 1986 (contém a reproduçãodo texto de BUSH Vannevar. Hypertext. dossiê da revista Byte.93526 Saint-Denis Cedex2). Groupware.. 1988. LAMBERT Steve et ROPIEQUET Suzanne (sob a direção de). Cognitive Science and its Applications for Human-Computer Interaction.Daniel. Instruments decommunication évolués. 1983). Microsoft Press. BOORSTIN. BALPE Jean-Pierre et LAUFER Roger (sob a direção de). Hillsdale. CD ROM. "As we may think". GUINDON Raimonde (sob a direção de). 1988. Minuit. hypertextes. The New Papyrus. Deghers. The Discoverers. dossiê da revista Byte. New York. Lawrence Erlbaum. Redmond. Microsoft Press. hypermédias. DELEUZE Gilles. 1986 (1ª edição americana. editado pelo "Groupe Paragraphe" de l'université Paris-VIII (2. Random House. Le Pli. Paris. Redmond. BIBLIOGRAFIA AMBRON Susann et HOOPER Kristina (sob a direção de). 1990. _________ Pág. Les Découvreus. New Jersey.: 25 . originalmente publicado no The Atlantic Monthly em 1945 ). Ao ritmo regular da página se sucede o movimento perpétuo de dobramento e desdobramento de um texto caleidoscópico.do hipertexto. 1988.

Steve Jobs e Steve Wozniac. todos os tipos de movimentos hippies e de contestação faziam confluir idéias. E estes elementos formavam outros tantos membros dispersos. indústrias eletrônicas. a NASA. uma pitoresca comunidade de jovens californianos à margem do sistema inventou o computador pessoal. a blue box. De uma certa forma. Tudo estava ao alcance de suas mãos. todo o prazer estava em construí-los. cada vez mais. tomando nota de idéias. ao redor da universidade de Stanford. No início dos anos setenta. fabricando rádios. refugos de diversas origens e calibres. SOBRE A TÉCNICA ENQUANTO HIPERTEXTOO COMPUTADOR PESSOAL DESORDEM E CAOS: SILICON VALLEY Na metade da década de setenta. empregados nas empresas locais. Bill Gates e Paul Allen. desviaram os computadores da universidade para efetuar os últimos cálculos para seus circuitos. dois destes jovens. mais do que um cenário. Estes computadores não serviam para quase nada. Silicon Valley. dispositivos de telecomunicação e de cálculo eletrônico. em poucos lugares no mundo havia tamanha abundância e variedade de componentes eletrônicos quanto no pequeno círculo radiante. chocados uns contra os outros pelo turbilhão combinatório. uma espécie de auxílio à pirataria. medindo algumas dezenas de quilômetros. jogos de vídeo. excepcionalmente favorável à bricolagem high tech. O campus de Berkeley não ficava muito longe. entre outras. Os membros mais ativos deste grupo tinham o projeto mais ou menos definido de instituir novas bases para a informática e. antes do lançamento do Basic em 1975 por dois outras adolescentes. elas também não tinham linguagem de programação. O nec plus extra era construir seu próprio computador a partir de circuitos de segunda mão. Hewlett-Packard. um pequeno dispositivo digital para telefonar sem pagar. Atari e Intel. este objetivo foi atingido. Ou então pesquisando em revistas de eletrônica. Faziam compras nas lojas de sobras de componentes eletrônicos. Vamos seguir. Continuavam suas pesquisas na biblioteca de Stanford. As máquinas em questão não tinham nem teclado.3. paixões e objetos que iriam fazer com que o conjunto entrasse em ebulição e reagisse. sua capacidade de memória era ínfima e. Milhares de jovens divertiam-se desta forma. Exércitos de engenheiros voluntários. um caldo primitivo onde instituições científicas e universitárias. Evoluíram em uma reserva ecológica. indissoluvelmente material e cognitiva. revolucionar a sociedade. Ambos cresceram em um mundo de silício e de circuitos. antes de perceber que a Máfia estava ficando interessada no assunto e abandonar o jogo. levantando bibliografias. passavam seus fins de semana ajudando os jovens fanáticos por eletrônica que faziam bricolagem nas famosas garagens das casas californianas.. circuitos.: 26 . enquanto eles realizavam sua primeira máquina. era um verdadeiro meio ativo. Poderíamos encontrá-los em um apartamento de São Francisco. nem tela. como exemplo. Lá podiam ser encontrados artefatos informáticos aos milhares: grandes computadores. algumas dezenas de exemplares da blue box foram construídas e os dois Steve ganharam algum dinheiro. componentes. nesta época. Graças a um amigo pertencente a Berkeley. Todas as escolas da região ofereciam cursos de eletrônica.. a paixão pela bricolagem eletrônica se misturava então a idéias sobre o desvio da alta tecnologia em proveito da "contracultura" e a slogans tais como Com-puters for the people (computadores "para o povo" ou "ao serviço das _________ Pág. amplificadores de alta fidelidade e. No território de Silicon Valley. ao mesmo tempo. encontravam-se implantadas. Finalmente. ouvindo as explicações de um pirata telefônico em cantata (gratuito) com o Vaticano. experiências desordenadas de alguma cosmogonia primitiva. arrastados.

Jobs e Wozniac viram-se confrontados a um terceiro problema de interface. idéias de todos os tipos. como tantos outros. estava diretamente gravada em uma memória ROM.pessoas"). No Apple 1. Kentucky Fried Computer. Paul Terrel. mas pediu a Jobs que o montasse. quem fria comprar um computador toda montado? A Byte Shop. tal como foi descrito por Jeffrey Young [115]. Seu proprietário. Fica subentendido que seus membros mais ricos dividiam suas máquinas com os outros e que ninguém tinha segredos para ninguém. Entre todos os grupos da nebulosa underground que trabalhavam para a reapropriação das tecnologias de ponta. Não o objeto definido simplesmente por seu tamanho. primeira loja de informática pessoal. Essa característica da interface implicava uma modificação no significado da máquina: o essencial não era mais montá-la. objetos e conceitos eram retomados. mas sim o complexo de circuitos eletrônicos e de utopia social que era o computador pessoal no fim dos anos setenta: a potência de cálculo arrancada do Estado. Wozniac. e para isto os dois amigos fundaram uma empresa: a Apple. o Homebrew Computer Club. Golemics. aos indivíduos. ) Entre outras coisas. Ainda se fazia bricolagem. Mal haviam decidido seguir este caminho. Este era o lugar para fazer com que os outros admirassem ou criticassem suas últimas realizações. do qual Jobs e Wozniac faziam parte. A interface havia se tornado um componente interno. Na verdade. eram reinterpretados e reempregados ao longo de um ciclo rápido que talvez seja o da invenção. do exército. aceitou o Apple 1. (Quinze anos depois. o da compatibilidade. Foi deste ciclone.: 27 . era um dos mais ativos. idéias e paixões que saiu o computador pessoal. cada elemento suplementar dando um sentido novo aos que o precediam. As reuniões do clube eram no auditório do acelerador linear de Stanford. pessoas. veremos que o computador pessoal foi sendo construído progressivamente. logo após emitidos. Jobs queria vendê-lo. a Apple ainda enfrenta esta questão da compatibilidade. No momento em que Jobs e Wozniac montaram sua sociedade. a primeira versão do Apple 1 não possuía um gravador cassete. deste turbilhão de coisas. o grande sucesso comercial da microinformática era o Altair. já que a versão de Basic que rodava no Apple 1 não era a mesma do Altair. floresciam em Silicon Valley diversas outras empresas de microinformática cujos nomes evocativos estão hoje completamente esquecidos: The Sphere. Afinal. permitindo conexões com outras redes cada vez mais extensas. não o pequeno computador de que os militares já dispunham há muito tempo. mas haviase atingido um novo estágio. e os resultados destas transformações.. introduzindo pouco a pouco agenciamentos inéditos de significação e uso. seguindo o próprio processa de construção de um hipertexto. No Apple2. dos monstros burocráticos que são as grandes empresas e restituída. desenvolvida por Wozniac. transformados pelos agentes febris de um coletivo denso. vendido em peças separadas e cuja primeira versão vinha sem monitor nem teclado. Os programas feitos para um deles não poderiam rodar no outro. interface por interface. enfim. a linguagem de programação (Basic) era uma peça adicional que deveria ser carregada através de um gravador. sendo precisa digitar a linguagem de programação à mão cada vez que o computador era ligado. Resultado: passou a ser possível fazer algo _________ Pág. Em 1975. A segunda interface. uma camada recobrindo a outra. criou um computador dotado de circuitos originais. era o gravador cassete que permitia carregar o Basic. mas sim usá-la. UMA INI'ERFACE APÓS A OUTRA Estudando o caso Apple. programas. abriu em fins de 1975 e procurava produtos para vender. antes de começar a programar qualquer outra coisa. A montagem foi o primeiro principia de interface com os usuários dos novos computadores. Assim que eram construídos.. Trocavam-se e vendiam-se componentes. foi para compensar essa desvantagem através de melhores interfaces com o ser humano que Jobs e Wozniac iniciaram a concepção de um novo computador: o Apple 2. por sua vez.

também podemos considerar um objeto técnico — no caso o computador pessoal — como uma série de jogadas publicitárias mais ou menos bem articuladas umas com as outras. nada além de uma diferença de fluidez ou de distância em relação ao núcleo solidificado do agenciamento técnico. Tudo aquilo que interfaceia conta. _________ Pág. o gabinete. deveria dirigir-se a um público amplo. cada vez menos "duras". estava convencido de que havia um mercado de massa para o computador pessoal. reificadas. ponta de vista. que o computador estava se tornando uma mídia de massa. endurecidas em um objeto. Uma máquina é constituída de camadas sucessivas. Utilizava-se então unidades de leitura de fitas de papel perfurado ou de cassetes. um gabinete e um teclado incorporados. tudo aquilo que se afastasse. Por que esta interface teve um papel tão importante? Para que um computador funcione. Entretanto. pois não perceberam de imediato o significado da microinformática. ou seja. os diversos periféricos não eram nada além de uma fonte de atração ou de publicidade para fazer com que as pessoas utilizassem os circuitos. Além disso. sedimentadas. Se o objeto é realmente um construto de interfaces. ainda que muito pouco. aparentemente cada vez menos "técnicas ". Ou bem estas instruções deviam ser digitadas manualmente (como era o caso no Apple 1). no outono de 1976. Mas quando. Mesmo para os criadores da microinformática quando começaram. A fonte. Foi justamente um periférico que tornou o Apple 2 o maior sucesso da informática pessoal no final dos anos setenta e começo dos oitenta: a unidade de discos desenhada por Wozniac. havia uma conexão que permitia usar uma televisão a cores comum como monitor (tela) do computador. por meio de conexões e traduções. estes suportes de informação eram frágeis e sua leitura muito lenta. um gabinete protetor de plástico rígido e um teclado. preparava a redação de manuais e instruções lisíveis e lançava a primeira grande operação publicitária da empresa na Playboy. terminam fundindo-se ao núcleo rígido da técnica. No exato momento em que decidiu fornecer o Apple 2 com uma fonte. o computador era o circuito básico. era muito menos volumoso e de construção mais simples. estas soluções eram caras demais para o mercado de microinformática. Não fora ainda deixado totalmente para trás o mundo dos adolescentes apaixonados por eletrônica. e isto significava a integração de novas interfaces à máquina: a partir de então. Os computadores de grande porte utilizavam fitas magnéticas ou disquetes. A questão é sempre a de estender.com o computador a partir do momento em que fosse ligado. a rede sociotécnica que passa pela máquina. entre publicidade e dispositivo material. de uma interface com o público? Tanto é assim que. Steve Jobs voltou da primeira exposição de microinformática de Atlantic City. Mas. a uma série de operações de relações públicas com os clientes potenciais. ou então precisavam ser gravadas sobre um suporte que pudesse ser lido pela máquina. Se a Apple quisesse sobreviver. Para os fundadores da Apple. são necessários programas compostos por centenas de instruções. Em sua versão do início de 1976. Jobs procurava encontrar um logotipo sedutor. cuidava da aparência do estande da Apple nas exposições. o Apple 2 possibilitava duas atividades principais: programar em Basic e jogar. Ora. Wozniac transformou os dados do problema ao conceber um circuito de controle para sua unidade de disquetes que continua cerca de dez vezes menus componentes que os circuitos então usados na informática pesada e que. o Apple 2 seria vendido com uma fonte. devido ao custo dos componentes envolvidos na fabricação de unidades de fita magnética ou de disquetes. em 1977. Mas estes suplementos publicitários aos poucos vão sendo integrados à máquina. então não há. Dependendo do. É preciso perdoar os informatas. tudo é engenharia ou tudo é marketing.: 28 . e que se assemelham cada vez mais a jogadas publicitárias. além disso. o que é a publicidade se não a organização de uma relação. da concepção da unidade aritmética e lógica do computador não era realmente informática. invertendo o olhar.

Um processa cumulativo de retroação positiva desencadeou-se e. sem contar com as inúmeras linguagens de programação. Muitas vezes. acessos a redes cada vez mais vastas. as ações desejadas. O usuário tinha sempre à vista os diferentes planos nos quais se desenvolvia seu trabalho. sem o intermédio de códigos abstratos. permitindo a generalização do hipertexto e da multimídia interativa. entre outros. códigos de comandas que precisavam ser decorados. pastas. bastando abrir ou fechar as "janelas" visíveis na tela para passar de uma atividade a outra. Quando Steve Jobs e alguns de seus colaboradores visitaram os laboratórios do Palo-Alto Research Center (PARC) da Xerox. podia-se efetuar diversas operações sobre os objetos selecionados. souberam imediatamente que iriam seguir aquele caminho. as vendas do Apple 2 dispararam. Esta interface de duplo efeito abriu um campo de usos e conexões práticas aparentemente sem limites. Mas os ícones e o mouse não bastam para explicar o relativo sucesso do Macintosh. no teclado. numerosos programadores. A "revolução da informática" havia começado. instrumentos de desenho. assim como a primeira planilha (Visicalc. Simultaneamente. na literatura especializada. da edição e do audiovisual. Numerosas características de interface típicas do Macintosh foram em pouco tempo retomadas por outros fabricantes de computadores e hoje. ÍCONES O surgimento do Apple Macintosh. até que um limite fosse rompido a conexão fosse estabelecida com os circuitos sociotécnicos da educação e do escritório. nos provam isto a contrario. não podemos mais conceber a informática "amigável" sem "ícones" e "mouse". A disponibilidade de uma grande quantidade de programas incitou os amadores a equiparem-se com o computador que os aceitava. através do mouse. um dos primeiros processadores de texto (Apple Writer) para microcomputadores. e viram pela primeira vez como era possível interagir com um computador de forma intuitiva e sensoriomotora. A interface material — o drive de disquetes — permitiu a multiplicação das interfaces lógicas — os programas. tanto aprendizes como mestres. ideogramas (ícones) que representavam documentos. os tempos de leitura e de acesso ás informações tornaram-se também muito menores em relação aos dos outros microcomputadores da época. Fazendo deslizar um pequeno aparelho (o mouse) sobre uma superfície plana. que no entanto incorporavam estas mesmas características. Em vez de ser obrigado a digitar. começaram a produzir programas no e para o Apple 2.: 29 . Sob a direção de Alan Kay. jogos e programas especializadas. Larry Tessler e sua equipe do PARC trabalhavam no desenvolvimento de uma interface informática que simulasse o ambiente do escritório. aos poucos. Graças ao novo periférico.Os disquetes padrão usados no drive do Apple 2 tinham uma capacidade de memória infinitamente superior à das fitas cassete. em 1984. programa de simulação e de tratamento integrado de dados contábeis e financeiros). O pequeno impacto do Star da Xerox e do Lisa da Apple. foi narrada a "cena primitiva" semilegendária que orientou o nascimento da nova máquina. O microcomputador fora composto por interfaces sucessivas. Como resultado. em um processo de pesquisa cega. em 1979. no qual foram negociados. acelerou a integração da informática ao mundo da comunicação. Em 1979 surgiram. Jobs reverteu em proveito da Apple as idéias da Xerox e parte de seu pessoal. em 1990. era possível selecionar. na tela do computador. ou partes de textos e gráficas. _________ Pág. estes mesmos circuitos começavam a se redefinir em função da nova máquina. bastava que o usuário consultasse os "menus" e selecionasse. Apertando os botões do mouse ("clicando").

o preço. de forma que todos os futuros aplicativos utilizassem a mesma interface com o usuário. Em uma rede sociotécnica. rue du Fbg-Poissonniére. Éditions Micro Appli-cation. ela talvez tivesse permanecido como o brinquedo para amadores esclarecidos que parecia ser quando foi lançada. 750 lo Paris. tanto no plano das representações (o nome. seu tamanho.. a partir do exterior e a posteriori. Scott Foresman and Compagny. por exemplo. até o que poderia ser visto como sendo apenas floreios estéticos indignos de uma discussão entre engenheiros. Steve Jobs. Se achegada inesperada das impressoras laser de baixo preço não tivesse redefinido a máquina como elo essencial de uma cadeia de publicação auxiliada por computador. 1987). etc. o desenho dos ícones e das janelas. Os mais ínfimos detalhes. é precisa levar em conta a velocidade de cálculo do computador. tudo foi discutido apaixonadamente pela equipe que concebeu o Macintosh. Entre todas estas características da interface. como os textos e imagens interconectados de um hipertexto. 1989 (edição original: Steve Jobs. BIBLIOGRAFIA YOUNG Jeffrey S. un destin fulgurant. Assim. a forma dos ícones) quanto no dos agenciamentos práticos (o tamanho. desenhando em pontilhado as conexões práticas que poderão ser efetuadas em outras redes sociotécnicas. por sua vez. à elegância de sua concepção e portanto à facilidade de sua fabricação). como em um hipertexto. cada nova conexão recompõe a configuração semântica da zona da rede à qual está conectada.) A largura da tela. sua aparência. passando pelo próprio nome da máquina (o de um tipo de maçã). a independência do teclado. Isto porque cada característica da interface remete ao exterior. foi calculada a partir do formato padrão de uma folha de papel. de forma que textos ou gráficos vistos na tela pudessem ter exatamente a mesma dimensão que teriam quando impressos. New York. redefinem-se e valorizam-se mutuamente. etc. a aventura do Macintosh quase terminou em um fracassa comercial.The Journey is the Reward. _________ Pág. sem esquecer do preço da máquina (que remete. Um outro exemplo: decidiu-se que o Mac conteria em memória ROM (pré-programada) as ferramentas necessárias aos desenvolvedores de programas. o significado de uma máquina. Apesar de todos os esforços daqueles que o conceberam. não seria precisa adquirir novos reflexos a cada vez que se mudasse de programa. 58. um uso imprevisto tinha transformado.: 30 . desde os aspectos aparentemente mais "técnicos". e nos sentiríamos sempre "em casa" usando o Macintosh. Mais uma vez.O Macintosh reuniu outras características de interface que remetem umas ás outras..

alimentados por cartões perfurados e cuspindo listagens em um crepitar infernal. A informática ainda era tida como uma arte de automatizar cálculos. os procedimentos eram iguais. quanto mais se houvesse dominado determinados aplicativos. chamados hoje de groupwares. SOBRE INTERFACES A TÉCNICA ENQUANTO HIPERTEXTOA POLÍTICA DAS DOUGLAS ENGELBART OU A ENGENHARIA DA COLETIVIDADE As idéias que orientaram a construção do Macintosh vinham de longe. e não como tecnologia intelectual. Alguns anos mais tarde. — as conexões associativas (hipertextuais) em bancos de dados ou entre documentos escritos por autores diferentes. Por exemplo. observando os primeiros monstros informáticos entrincheirados em salas refrigeradas. de homens diante de telas falando com as imagens animadas de interlocutores distantes. e também pela Sun Computers na metade dos anos oitenta. ele teve a visão (irreal na época) de coletividades reunidas pela nova máquina. — a possibilidade de manipular. Douglas Engelbart havia trabalhado em um sistema de radar. Apple. sobretudo por intermédio de engenheiros que haviam colaborado no ARC. algumas das idéias de Douglas Engelbart e sua equipe acabaram sendo postas em prática e comercializadas pela Xerox. com a ajuda de um mouse. fosse para apagar uma palavra quando se escrevia.. Como vimos antes. Nos sistemas de cooperação auxiliada por computador desenvolvidos no ARC. — a tela com múltiplas janelas de trabalho. sobre o qual já falamos um pouco. Elas tiveram uma recepção muito fraca na época entre os construtores e vendedores de computadores. — os grafos dinâmicos para representar estruturas conceituais (o "processamento de idéias"). ilustra bem esta noção de micropolítica. mais a aprendizagem dos outros tornava-se rápida e fácil. complexos informacionais representados na tela por um símbolo gráfico. as mesmas representações e os mesmos comandas eram sistematicamente usados em várias aplicações. A micropolítica das interfaces à qual Douglas Engelbart tinha decidido dedicar-se conecta finamente. Desde a metade dos anos cinqüenta. Desta forma. ou trabalhando em silêncio frente a telas onde dançavam símbolos. um dos primeiros dispositivos eletrônicos que implicava uma interação estreita entre um homem e uma tela catódica. Ele era então estimulado a explorar as possibilidades que o sistema lhe oferecia em vez de deixá-las de fada e empregar seus canais habituais. o usuário sentia-se em um mundo familiar mesmo quando executava uma operação pela primeira vez. Douglas Engelbart. por mil canais diferentes.: 31 . — os sistemas de ajuda ao usuário integrados aos programas [2]. fosse para eliminar um objeto gráfico quando se desenhava. _________ Pág. O principia de coerência das interfaces.4. Durante a Segunda Guerra Mundial. Diversas demonstrações públicas de groupwares que reuniam todas estas características de interface foram organizadas no fim dos anos sessenta. diretor do Augmentation Research Center (ARC) do Stanford Research Institute. No ARC foram testados pela primeira vez. uma vez que a experiência adquirida podia ser reempregada. os construtos heteróclitos que os aparelhos eletrônicos constituem (apesar de seu aspecto compacto) e a rede de módulos díspares que compõem o sistema cognitivo do ser humano. Graças a idéias extremamente simples como esta.. tinha imaginado programas para comunicação e trabalho coletivos.

: 32 . É preciso deslocar a ênfase do objeto (o computador. Mas. _________ Pág. assim como a crença na necessidade de uma comunicação com o computador que fosse intuitiva.O objetivo de Douglas Engelbart era o de articular entre si dois sistemas cognitivos humanos através de dispositivos eletrônicos inteligentes. ou justamente por ser engenheiro no sentido pleno da palavra. em vez de abstrata. também chamados de sistemas informáticos. representa um principia estratégico essencial em relação a esta visão a longa prazo. OS EQUIPAMENTOS COLETIVOS DA INTELIGÉNCIA Durante muito tempo. É toda uma ecologia cognitiva já disseminada em nossos alas que será preciso administrar e fazer evoluir sem choques brutais. as futuras equipes de arquitetos cognitivos não irão construir novas cidades em campo aberto para indivíduos maleáveis e sem passado. A futura disciplina estaria encarregada dos equipamentos coletivos da inteligência. dos artigos publicados e conferências proferidas. a extrema atenção às mínimas reações e propostas dos usuários de protótipos. Continuando com a metáfora. para que haja um verdadeiro "aumento". Douglas Engelbart foi um participante ativo do debate sobre os usos sociais da informática [2]. No decorrer de sua prática. A perfeita adaptação das interfaces ás peculiaridades do sistema cognitivo humano. hábitos adquiridos com as antigas tecnologias intelectuais. este ou aquele módulo técnico) para o projeto (o ambiente cognitivo. Muito pelo contrário. rigidamente codificada e desprovida de sentido para o usuário. Segundo ele. para "aumentar" — segundo suas próprias palavras — o funcionamento dos grupos. Apesar da extraordinária penetração dos computadores pessoais e da progressiva transformação da informática em mídia universal. assim como os urbanistas e os arquitetos definem o espaço físico no qual se desenvolve boa parte da vida privada e das atividades sociais. essas camadas técnicas suplementar estornaram os complexas agenciamentos de tecnologias intelectuais e mídias de comunicação. gostaríamos de opor a imagem de um criador envolvido com os equipamentos coletivos da inteligência àquela do especialista em computadores. a ênfase colocada sobre os métodos (lentes e progressivos) para instalar novas tecnologias intelectuais nos grupos de trabalho caracterizam o estilo tecnológico de Douglas Engelbart. A coerência das interfaces. contribuindo para estruturar os espaços cognitivos dos indivíduos e das organizações. deverão levar em conta particularidades sensoriais e intelectuais da espécie humana. Estes arquitetos deverão partir dos modos de interação em vigor mas organizações. contribuíram para "humanizar a máquina". grande número de informatas ainda mantém esta concepção. O principia que acabamos de enunciar. dos quais o principal é a língua. Apesar de ser engenheiro. ele via no computador um instrumento adequada para transformar positivamente. Da mesma forma que Douglas Engelbart. essas interfaces. é precisa acompanhar e dirigir com brandura. os diversos agenciamentos de mídias. o programa. tecnologias intelectuais. metafórica e sensoriomotora. uma espécie de característica de interface elevada ao quadrado. passo a passo a co-evolução dos humanos e das ferramentas. linguagens e métodos de trabalho disponíveis em uma dada época condicionam fundamentalmente a maneira de pensar e funcionar em grupo vigente em uma sociedade. o antigo diretor do Augmentation Research Center talvez tenha esboçado o destino próximo da informática. Ou seja. a rede de relações humanas que se quer instituir). os quais diferem de acorda com os locais e as culturas. No prolongamento de uma longa evolução cultural que começa com as primeiras palavras articuladas pelos neandertais. os informatas consideraram-se especialistas em máquinas. independentemente de uma experimentação continua envolvendo grupos de usuários reais. mais amáveis e mais imbricados ao sistema cognitivo humano. Está fora de questão conceber um groupwares de A a Z. a priori. Ela seduz o usuário em potencial e o liga cada vez mais ao sistema. com a participação dos interessados. práticas que se cristalizaram há séculos em torno de agenciamentos semióticos diversos.

"técnicos puros". Os engenheiros. Algumas poucas instruções suplementares ou um programa projetado de outra forma talvez houvessem economizado milhares de horas de codificação entediante ou de manipulação penosa aos empregados de uma empresa.: 33 . É porque dizem respeito aos humanos que estas viradas na história dos artefatos informáticos nos importam. as representações traduzidas. Cada grande inovação em informática abriu a possibilidade de novas relações entre homens e computadores: códigos de programação cada vez mais. em seus hábitos. Por outro fada. o prazer ou a dificuldade de se trabalhar com um computador. sobre as criticas feitas às versões precedentes. de uma forma ou de outra. comunicação em tempo real. a ecologia cognitiva como um toda. Deveríamos. micro. O virtuosismo técnico só produz seu efeito completo quando consegue deslocar os eixos e os pontos de contato das relações entre homens e máquinas. antes. contanto que se _________ Pág. Mac Paint).Vale a pena repetir que a maior porte dos programas atuais desempenha um papel de tecnologia intelectual: eles reorganizam. O que equivale a dizer que engenheiros do conhecimento e promotores da evolução sociotécnica das organizações serão tão necessários quanto especialistas em máquinas. novos princípios de interfaces. O conhecimento das entranhas de uma máquina ou de um sistema operacional será então usado com o objetivo de tornar o produto final amigável. lá onde se organizam as passagens entre os reinos. reorganizando assim. de forma alguma. O que os distingue é o fato de trabalharem na escala molecular das interfaces. Na falta de uma iluminação genial. transformados. acelerados. Não nos referimos a erros de programação. agenciadores e visionários que ligam seu destino a determinada técnica são movidos por verdadeiros projetos políticos. Na medida em que a informatização avança. redes. os agenciadores de inovações técnicas não estão interessados apenas nas engrenagens complicadas das coisas. no sentido deste termo que estamos tentando definir. seus artefatos e as diversas potências cósmicas que os afetam. As redes informáticas modificam os circuitos de comunicação e de decisão nas organizações. o leque de usos — negociável em maior ou menor grau —. OU O ENGENIJEIRO E O SOCIÓLOGO O fracasso de uma informatização pode estar relacionado a detalhes mínimos. Mas não é por isso que a vertente humana e a vertente objetivada informática deveriam ser entregues a duas profissões diferentes: é no próprio cerne da concepção de um programa ou de um circuito que são decididas as conexões possíveis (os famosos problemas de compatibilidade). o sucesso de alguns programas de microcomputadores deveu-se a certas intuições muito profundas sobre como deveria ser a interface com o usuário para determinado uso (Visicalc. em suas necessidades. que se tentará associar em seguida. pois os danos já terão sido leitos. mas sim a uma incompetência técnica.. Aqueles que lançaram a microinformática ou o groupware não são. a visão de mundo de seus usuários e modificam seus reflexos mentais. considerar os grandes participantes da "revolução da informática" como homens políticos de um tipo um pouco especial. a ecologia cognitiva se transforma... novas habilidades aparecem. a equipe de desenvolvimento pode concentrar sua atenção no conforta do usuário. intuitivos. mas será tarde demais. indiretamente. Separar o conhecimento das máquinas da competência cognitiva e social é o mesmo que fabricar artificialmente um cego (o informata "puro") e um paralítico (o especialista "puro" em ciências humanas). Contrariamente ao que geralmente pensamos. lá onde os elementos constituintes dos homens e das coisas se enlaçam. lá onde os microfluxos são desviados. O CEGO E O PARALÍTICO. certas funções são eliminadas. dissimulados entre as complexidades de um programa.. São antes de tudo movidos pela visão de novos agenciamentos na coletividade mista formada pelos homens.

"especialistas em máquinas".por microrganismos. revoltas. conhecem todas as propriedades do cimenta. Como acordar os futuros informatas para a dimensão humana de sua missão? Somos forçados a constatar que o ensina superior produz hoje. aquela que suscita o envolvimento emocional. Há toda uma dimensão estética ou artística na concepção das máquinas ou dos programas. O desejo e a subjetividade podem estar profundamente implicados em agenciamentos técnicos. sem história. como todos sabem. por equipamentos de silício e de cimenta tanto quanto por humanos. Mesmo sem ser pirata ou hacker. Da mesma forma que ficamos apaixonados por uma moto. apesar disto. Eles trabalharam e viveram em sua dimensão subjetiva. Ao contrário. uniformes. é possível que alguém se deixe seduzir pelos dispositivos de informática. nem psicologia cognitiva. conceberam o computador de outra forma que não um autômato funcional. por forças naturais. Eles intervêm sobre a comunicação. um carro ou uma casa. previsão. concepção. Os grandes atores da história da informática. avaliação. tão arqueológicos em seu gênero quanto aquelas cidades industriais do século XIX. conecta o computador a movimentos culturais. Douglas Engelbart ou Steve Jobs. Talvez a informática vá enfim tornarse uma técnica. O conforto e a performance cognitiva não são as únicas coisas em causa. os criadores de programas e os analistas de sistemas descobrirão a ética que falta à sua jovem profissão. os primeiros agenciamentos técnico-organizacionais informatizados talvez nos pareçam tão estranhos. estimula o desejo de explorar novos territórios existenciais e cognitivos. Os arquitetos estudaram a resistência dos materiais e a mecânica. não encontramos em seu currículo nem pragmática da comunicação. de certos programas de ajuda à criação musical ou gráfica. mas também nos processos de subjetivação individuais e coletivos. Algumas pessoas ou grupos construíram uma parte de suas vidas ao redor de sistemas de troca de mensagens (BBS). presta uma minuciosa atenção às habilidades concretas dos futuros usuários (muitas vezes bem diversas dos métodos prescritos). da programação ou da pirataria nas redes [7. como Alan Touring. A informática não intervém apenas na ecologia cognitiva. maravilhosa ou profética. ficamos apaixonados por um computador. cinza. Ao se aproximar dos etnógrafos e dos artistas. Com o passar dos anos.: 34 . etc. inumanos. Que diríamos de urbanistas que não tivessem nenhuma noção sobre sociologia. 63]. estética ou historia da arte? Entretanto. O engenheiro de conhecimentos não traz sua solução "racional" totalmente pronta para os empregados de uma empresa. sonhos. Retomemos a comparação entre informática e arquitetura ou urbanismo. armazenamento na memória. desprovidas de parques ou _________ Pág.admita que a cidade contemporânea seja povoado por máquinas . um programa ou uma linguagem de programação. na maioria dos casas. a percepção e as estratégias cognitivas de indivíduos e de grupos de trabalho. Mas seus conhecimentos. MÁQUINAS DESEJÁVEIS Uma versão puramente ergonômica ou funcional da relação entre humanos e computadores não daria conta daquilo que está em joga. o informata organiza o espaço das funções cognitivas: coleta de informações. não se limitam à vertente objetiva de sua profissão. ele passa meses em campo. a maioria dos informatas se encontra hoje em situação análoga a esta. ele demonstra um respeito irrestrito à sua experiência. O trabalho de engenharia do conhecimento desenvolvido por certas empresas de inteligência artificial pode servir de guia para repensar a função do informata. decisão. história das técnicas ou estética. Em vez de estruturar o espaço físico das relações humanas e da vida cotidiana.

conectando-o a novos agenciamentos. cada um dos dois termos congelado em sua pretensa essência. Toda criação equivale a utilizar de maneira original elementos preexistentes. transformando a substância das coisas: quer dizer. com seus efeitos de reinterpretação e construção de novos significados. decompor-se em redes de interfaces. de vidro e de silício que era precisa combater. interfaces. o computador emprega a estrutura de um hipertexto. O que é o uso? O prolongamento do caminho já traçado pelas interpretações precedentes. Ao se prolongarem reciprocamente. mas antes situou-se no próprio terreno técnico. Não eram os agenciamentos concretos de metal. atinge o plano da criação.praças. sobretudo após a metade da década de oitenta — com um ambiente operacional desejável. A partir de então. Na realidade. estendendo mais longe o hipertexto. cada nova camada de programa transforma o funcionamento e o significado do conjunto. ao descobrir novas possibilidades. _________ Pág. criação e usa contribuem alternadamente para fazer ramificar o hipertexto sociotécnico. desde a construção de circuitos impressos até o maneja de um simples processador de textos. a ecologia cognitiva que enquadra a vida mental dos indivíduos. foi substituída por um agenciamento instável e complicado de circuitos. por sua vez. ingenuamente. talvez seja menos perceptível. ou. quando Daniel Bricklin e Robert Frankston lançaram a primeira planilha. quer ela seja minúscula ou essencial. dimensões complementares de uma mesma operação elementar de conexão. que o espaço físico. aberto ás explorações. nos informatas que sustentavam. mas ainda assim temos o dever de torná-la habitável. como talvez seja o caso de toda dispositivo técnico complexo. SOBRE O USO Os críticos da informática acreditaram.: 35 . engenheiros como Douglas Engelbart conduziam pesquisas na direção de uma informática da comunicação. maciça e fascinante. subscreveram a idéia errônea de uma essência da informática. centradas em torno de alguma enorme usina invadida por vapores nocivos ou reverberando o estrondo monstruoso dos bate-estacas. Ao mesmo tempo. para não serem ultrapassadas pelos recém-chegados da microinformática. Através de suas criticas. Criação e uso são. Esta dupla face da operação técnica pode ser encontrada em todos os elos da cadeia informática. às conexões com o exterior e ás singularizações. Na medida em que cada conexão suplementar. a parelhos diversos. mas sim as máquinas burocráticas e hierárquicas que os assombravam. E os usos do computador constituem ainda conexões suplementares. o Visicalc. a construção de novos agenciamentos de sentido. cada porte podendo. muito agressivos comercialmente. desde o começo dos anos sessenta. órgãos. Commodores ou Tandys para ter acossa ao Visicalc. camadas de programas. Sonhamos — e talvez por vezes o tenhamos atingido. os clientes comprariam Apples. tanto os computadores quanto as ecologias cognitivas ando estes estavam inseridos. A verdadeira critica não opôs o homem e a máquina. restritiva. do trabalho cooperativo e da interação amigável. que não poderia ser de outra forma. rígida. centralizadora. que a "máquina" era binária. eles reinventaram a microinformática ao permitir aos executivos e aos pequenos empresários que fizessem previsões contábeis e financeiras sem que precisassem programar. A "máquina". Em 1979. Não há usa sem torção semântica inventiva. na verdade. eles usaram o Apple 2. até cerca de 1975. O espaço das interações sensorio-intelectuais. de imediato. A planilha abriu a porta da microinformática ás empresas [29]. entretanto. em um face a face raivoso. Toda usa criativo. As grandes empresas de informática só deram esta guinada vinte anos depois. reinventando assim o significado dos elementos conectados. polo contrário.

e a técnica consiste exatamente nisto. etc. ou no periódico francês Terminal. contraditórias e perpetuamente contestadas. a questát1do bom e do mau (que dependeria "apenas do uso") é portanto coextensiva ao processo técnico. neste joga de desvios. Ele começa com os cientistas. as mediações (os metas. do sujeito que consideramos em determinado instante. será usado de uma forma particular. mas desde o começa sem origem da _________ Pág. ou seja. as coisas. por sua vez. escolheriam objetivos para o melhor ou o pior e procurariam depois metas para realizá-los. Ora. mediatizam desta forma as relações humanas. Ela não pode ser relegada ao último plano. aqueles que supostamente cuidariam apenas dos metas. as interfaces) de todos os tipos se entreinterpretam em relação ás finalidades locais. todas as coisas. Os grandes fabricantes de computadores e as jovens sociedades de microinformática que entraram em choque na virada dos anos setenta e oitenta escreveram. são alternativamente fins e metas. um "meio" qualquer nunca possui um "fim" estável por muito tempo. não nos apercebemos que um circuito impresso já é um "usa". não faz nada além de continuar uma cadeia de usos que prérestringe o dele. um fato inicial ou final que já não seja um usa. mas um único hipertexto. condiciona-o sem contudo determiná-lo completamente. As coisas. para baixo.: 36 . uma interpretação. e que tudo o que conta é o usa que fazemos dela. portanto. riscos financeiros. Um programa resulta de uma utilização específica de um computador e uma linguagem de programação. O uso do "usuário final". na realidade. cada um deles sendo. Eis por que a atividade técnica é intrinsecamente política. Mas foi em terrenos práticos que ela desenvolveu-se em primeiro lugar. elementos objetivos da situação ou dispositivos a serem transformados e destruídos. com os assim chamados profissionais das relações entre as coisas. Estando o usa em toda porte. ao passar de um ator a outro. entre os protagonistas impiedosos de uma tecnopolítica em atos: escolhas técnicas. anti-social. a questão do bom ou mau usa se coloca de maneira singular a cada instante do processo técnico. e ao longa de todas as linhas da grande rede sociotécnica. os técnicos. dos jomalistas ou dos sindicalistas (os pretensos especialistas das finalidades — dos usos — e das relações entre os homens). Não em algum a posteriori do uso. Quer sejam consideradas como naturais ou como frutos da atividade humana. Não há. a conclusão de uma longa cadeia de decisões. ao repetir isto. É verdade que a discussão sobre o valor da informática deu-se sob a forma de artigos ou de livras como os de Norbert Wiener. Ela explodiu pelas revistas de cientistas contestatórios californianos dos anos setenta. de diversos princípios lógicos. Abertamente ou não. em lima região ideal e vazia onde os humanos. dos processas industriais disponíveis. para cima. o usa de uma matéria-prima (o silicone). Vannevar Bush. Um determinado computador cristaliza algumas escolhas entre os usos possíveis de seus componentes. sem que jamais achemos um objeto em estado bruto. através de exemplos. ou Theodore Nelson. ou antes cosmopolítica. seguindo o espectro completo de suas significações e de seus efeitos (e não somente enquanto mercadorias). seguindo inúmeras conexões laterais e rizomáticas. os engenheiros. estratégias comerciais. Esta análise pode ser repetida para todas as escalas de observação.TECNOPOLÍTICA Muitas vezes ouvimos dizer que a técnica em si mesma não é nem boa nem má. alguns capítulos decisivos de uma filosofa concreta da técnica. e assim por diante. A distinção abstrata e bem dividida entre fias e metas não resiste a uma análise precisa do processa sociotécnico no qual. completamente nus. batalhas de imagem. O debate a respeito da natureza opressiva. O fato de poder-mos aprender a usar um computador em vinte minutos ao invés de quarenta dias provavelmente contribuiu mais para a "reapropriação da técnica" do que mil discursos críticos. por sua vez. dos filósofos. ou ao contrário benéfica e amigável da informática nunca ficou confinado ao circulo dos sociólogos. a técnica de um lodo e o usa de outro. O programa. das ferramentas. uma imensa rede flutuante e complicada de usos. tão bem que. separados dos objetos que tecem suas relações e dos metas concretos onde sua vida é constituída.

semelhante à hipotética primeira palavra do hipertexto cultural. começo impossível de ser achado. Chaos Computer Club (sous la direction de Jurgen WIECKMANN). "L'invention de l'ordinateur" in Élements d'histoire des sciences (sous ia direcrion de Michei SERRES). Microsoft Press. Plon. o julgamento ou a interpretação de um texto precedente. Washington. o comentário. BIBLIOGRAFIA AMBRON Sueann et HOOPER Kristina (sous la direction de). Out of the Inner Circle (2e édition ). 1989 (édition originale: Dai Chãos ComputerClub. 1988). LÉVY Pierre. Tempus Book. Bordas. Washington. _________ Pág.. Paris. n° 68. Danger pirates informatiques. "Dix ans de tableur ". LANDRETH Bill. que já é sempre uma narrativa de uma narrativa. Microsoft Press. Paris. 1988. Redmond. Interactive Multimedia. 1984.cadeia dos artifícios. 1989. janvier 1990.: 37 . Reinbek bei Hamburg. dossier de Sciences et vie micron. Rowohlt Verlag GmbH. Redmond.

sucessivamente. clica duas vezes sobre "Compreensão intuitiva". que chama provisoriamente de: "Compreensão intuitiva". _________ Pág. Então. azul). Ela cria uma conexão com apequena demonstração que acabou de programar e que mostra. Tendo localizado o problema: "Qual aparência visual? ". e passa a ocupar o centro da tela. metamorfosea-se em outro ideograma: três traços ondulados representando a água. obtém um trecho das minutas de uma reunião ocorrida em Bruxelas entre a equipe e os funcionários europeus que administram os projetos de educação. Através desta mesma pesquisa. conecta-o a seu argumento.5. uma janela é aberta automaticamente. aproxima o ideograma do fogo de um outro ideograma. ) Para localizar este trecho em um longo documento de quase sessenta páginas. Esta jovem é uma especialista em psicologia do ensino e trabalha em Lyon. antes de metamorfosear-se em ideograma da água. Depois cria um rótulo verde de argumento conectado à posição "Sim". e não inventar novos. (O azul e o vermelho são símbolos de frio e quente em todos os banheiros. A superfície cintilante encontra-se quase que inteiramente recoberta por uma espécie de rede ramificada. tanto quanto possível. Com a ajuda de um cursor comandado por um mouse.. De acordo com a filosofia geral do projeto. mudanças progressivas na cor dos ideogramas seriam mais eficazes que o ato dele piscar. para indicar a mudança de estado ou a proximidade da metamorfose de um objeto. mostrando novos detalhes. cria um novo rótulo vermelho. a este último. o ícone do cubo de gelo pisca em vídeo reverso e depois. indicando portanto uma posição: "Sim". Finalmente. deixando-a livre para desenvolver seu argumento.. intuitivo". A jovem clica na zona dos "problemas de interface".: 38 . Esta porte da rede é ampliada. compreensão. Após ter lido seu conteúdo (pois estava ausente desta reunião). ela também conecta este documento a seu argumento. Ela clica no "ponto de zoom" da janela de trabalho. representando um cubo de gelo. bruscamente. Ela participa de um projeto europeu multidisciplinar envolvendo as tecnologias educativas. O GROUPWARE A jovem manipula um ícone representando uma chama. os pesquisadores devem usar na interface. Ela explica por escrito que. no qual escreve: ". realiza uma pesquisa comas palavras-chave: "símbolos. Rótulos de diversas cores encontram-se interconectados por fios também multicoloridos. que remetem ás diferentes posições que os problemas suscitam. correspondendo a um subproblema. A zona onde os ideogramas interagiam diminui então até ocupar apenas uma área mínima da tela. diversos argumentos representados por etiquetas verdes vêm apoiar ou combater (dependendo da cor da linha) as posições. Após alguns instantes. O objetivo é desenvolver os princípios de uma ideografia informática dinâmica para ensino e formação. e o ícone do gelo passando progressivamente do azul ao vermelho. a fim de facilitar a compreensão intuitiva e evitar aprendizagens inúteis. Um iniciante em uma disciplina científica ou em uma esfera de conhecimento prático deverá ser capaz de adquirir um bom número de informações apenas através da manipulação dos ideogramas que representam os principais objetos de um determinado domínio. metáforas próximas à vida cotidiana. antes de transformar-se em água. a psicóloga decide expor seu argumento. Tendo obtido o trecho que procurava. Ela deseja ainda criar uma conexão com o trecho de seu contrato de pesquisa onde está claramente especificado que eles deverão utilizar sistematicamente os símbolos ambientes da cultura européia. A cada um deles estão conectados vários rótulos azuis. graças ao sistema de hipertexto que permite aos pesquisadores da equipo dialogarem sobre seus projetos.preciso usar cores?" Associa um novo rótulo. e através da observação de suas interações. ela prolonga um fio a partir deste rótulo. Os rótulos vermelhos correspondem aos diversos problemas que a equipe de pesquisa enfrenta. o cubo de gelo piscando sob o efeito da chama. Após terminar a preparação de sua demonstração.

irá propor uma nova posição: monocromático para as duas primeiras fases do projeto. ao planejamento. artigos de revistas. parece interessante explorar a idéia de uma escrita onde a cor desempenhe um papel. A ajuda ao trabalho em equipe representa uma aplicação particularmente promissora dos hipertextos: ajuda ao raciocínio. na área dos problemas de interface. Todos os membros da organização participam da criação e da manutenção deste processo de comunicação. à discussão. não são metas informações que transitam na rede de conversação. porque idéias de pessoas diferentes podem combinar-se de maneira eficaz e criativa ou. além disso. O usuário destes programas para equipes é explicitamente um coletivo. nas margens do Tejo. um informata lisboeta percebe um pequeno aumento de densidade na "rede de discussão racional" da equipe de pesquisa. mas sim atos de linguagem. Estes documentos podem estar ligados. argumento) da "rede de discussão racional". Pedidos e compromissos. consultas e resoluções se entrecruzam e se modificam de forma recorrente nestas redes. Como pensar um sujeito cognitivo coletivo? De quais instrumentos conceituais nós dispomos para apreender a inteligência dos grupos? AS REDES DE CONVERSAÇÕES DE WINOGRAD E FLORES Em uma obra publicada em 1986. eles fazem parte de um projeto que. 55 ]. Portanto. Conecta a este argumento alguns trechos de documentos especificando que a interface de ideografia dinâmica deve ser compatível. etapas do projeto já completadas (demonstrações. bloquearem-se mutuamente. ofertas e promessas. com dois argumentos: primeiro. à criação. em uma versão um pouco menos completa. quanto à cor dos ideogramas. segundo. cria uma posição: "Não". a partir de seu terminal em Genebra. graças à sua habilidade em decodificaras redes de rótulos e suas cores. o problema será resolvido por consenso durante uma de suas reuniões "em carne e osso".. quando cada um dos membros da equipe tiver tido a chance de dar sua opinião e tempo para estudar a configuração das posições e argumentos. Algumas horas depois. no âmbito de um programa oficial de desenvolvimento da tecnologia de programação [47. assentimentos e recusas. blocos de programa informático. Conhecemos muito pouco a forma pela qual são realmente trocadas informações no interior dos grupos. bem como todos os documentos e o programa de demonstração ligados a eles.) encontram-se disponíveis para consulta imediata pelos membros da equipe através de uma simples pesquisa por palavras-chave onde um índice geral de documentos. O Gibis (Graphical Issue Based Information System) foi desenvolvido em 1988 por Michael Begeman e Jeff Conklin. etc. (N. Após ter lido os argumentos da psicóloga de Lyon. tanto quanto possível. cores para a última fase. Ele usa um zoom sobre esta região e descobre imediatamente o novo problema e a posição conectada a ele. posição. é de pesquisa. a qualquer item (problema. à organização.: 39 . entrevistas com usuários ou criadores de sistemas de CAI5. no fim das contas. O groupware que acaba de ser citado está em uso atualmente em Austin. é razoável pensar que a situação do equipamento na Europa terá evoluído em dez anos. do T. Mais tarde o chefe do projeto. ) _________ Pág. Terry Winograd e Femando Flores propuseram uma leitura das organizações enquanto redes de conversações [113]. que comprometem aqueles que os efetuam frente a si 5 Computer Aided Instmction: instrução auxiliada por computador. com o estado atual do equipamento de informática para fins educativos instalado na Europa. seja por inteiro ou apenas em parte.. Texas. Seu argumento diz respeito à grande quantidade de terminais monocromáticos ainda em uso. minutas de reuniões.'Todos os documentos. à argumentação. A elaboração de tecnologias intelectuais não pode ser dissociada da pesquisa empírica em ecologia cognitiva. Quando a discussão estiver suficientemente madura. pelo contrário.

mudamos de assunto. uma contraproposta? O programa verifica o estado da conversa em andamento e alerta os participantes quanto a datas. das diversas técnicas de animação de reuniões até o recurso aos documentos escritos. Reafirmamos nossos argumentos em vez de avaliar em conjunto as provas e justificativas de cada inferência. atraso se eventuais rupturas de promessas. que talvez até o tenham originado. Irá. o debate se dirige para a construção progressiva de uma rede de argumentação e documentação que está sempre presente aos olhos da comunidade. pois fornecem-lhe uma representação gráfica da rede de argumentos. tentar discernir. Quando se trata de pensar. e portanto sempre _________ Pág. ao contrário do que ocorre durante uma discussão oral. como se crescesse por conta própria seguindo uma infinidade de linhas paralelas. Os groupwares. através de que alquimia as coletividades pensam? Certos estudos em psicologia cognitiva. mas sim uma espécie de lenta escrita coletiva. como em um drama teatral. Usamos processos retóricos mais do que raciocínio passo a passo. Os hipertextos de auxílio à inteligência cooperativa garantem o desdobramento da rede de questões. mesmo a troca de textos escritos de forma clássica apresenta alguns inconvenientes. durante sua atividade comunicativa. Nesta perspectiva ecológica. Ele anima e mantém a rede de conversas onde são trocados os compromissos. Ele coordena as ações. as novas possibilidades que poderiam abrir-se à comunidade e ameaçariam reorientar algumas de suas finalidades. em detrimento de seu aspecto semântico. o que muitas vezes provoca mal-entendidos e falsos debates. Seguindo este modelo teórico.mesmos e aos outros. palavras. expandida. o trabalho do dirigente ou do executivo não consiste em "resolver problemas" ou em "tomar decisões" sozinho. Em particular. Contestamos discursos com mais facilidade do que dialogamos. desdramatizada. um assentimento. Durante uma simples troca verbal. o histórico da conversa está sempre disponível. Em particular. Com os groupwares. Em caso de litígio. ao invés de valorizar os discursos das pessoas tomados como um todo. ajudam cada interlocutor a situar-se dentro da estrutura lógica da discussão em andamento. podendo ser manipulada a qualquer momento. encontra-se agora totalmente explicitado e organizado. sendo sistematicamente menos hierarquizados e organizados do que os textos escritos. A ARGUMENTAÇÃO AUXILIADA POR COMPUTADOR Novamente. dessincronizada. Em uma discussão comum. A ligação das idéias a pessoas torna-se nebulosa. posições e argumentos. como o que apresentamos no início deste capítulo. conceber. tomar decisões em conjunto. a estrutura lógica das argumentações não é sempre colocada em evidência. Foi observado que os assuntos abordados nas conversas cotidianas possuem muito menos estrutura. O mesmo ocorre quando dois ou mais autores discutem através de textos intercalados. ao qual outros irão responder sucessivamente. Há bastante tempo existem métodos para remediar este estado de coisas. as promessas devem ser mantidas. de auxílio à concepção e à discussão coletiva. complexo e coerente em defesa de nossas idéias. A primeira preocupação é a de coordenar a ação. é muito difícil compreender e mais ainda produzir uma argumentação organizada. a anulação de uma promessa. o groupware concebido por Winograd e Flores visa sobretudo auxiliar a dimensão pragmática da comunicação nos grupos. Durante uma conversa normal. e que formam o contexto da discussão. Este contexto. A representação hipertextual faz romper a estrutura agonística das argumentações e contraargumentações. podem fornecer-nos indicações preciosas. gerando assim novos circuitos de conversa. Não é mais "cada um na sua vez" ou "um depois do outro". Permitem também a ligação efetiva de cada argumento com os diversos documentos aos quais ele se refere. Estas características estão relacionadas ás deficiências na capacidade da memória humana de curto prazo. sobretudo. ficamos à deriva. ainda que estejam centrados principalmente em indivíduos. cada intervenção aparece como um microacontecimento.: 40 . nós não dispomos de recursos externos para armazenar e reorganizar à vontade as representações verbais e gráficas. Cada um dos atos de linguagem que transita pela rede é rotulado: isso é uma pergunta. É sobretudo por isso que troca-mos generalidades.

Algumas universidades americanas estão experimentando sistemas de hipertexto que permitem aos professores e aos estudantes dividir o conjunto de um corpus de documentos pertinentes. já que. Ele continha também utilitários para desenho. Em qualquer instante. Além disso. os recém-chegados dispunham de um instrumento de formação de valor inestimável. a linha geral de um argumento e os detalhes relativos a uma subproposição em particular. Enfim. os estudantes podem consultar e anotar os trabalhos de seus amigos ou acessar todos os materiais que seu professor utilizou para preparar o curso. esta objetivação do saber comum era concebida como um objeto e um tema de discussão. O manual. uma equipe da universidade do Colorado dirigida por Paul Smolensky completou a construção de um programa de hipertexto especialmente concebido pára a redação e consulta de discursos racionais [49). segundo as palavras de Douglas Engelbart: "Uma comunidade ativa estará constantemente envolvida em um diálogo a respeito do conteúdo de seu manual". um estudante de literatura pode pedir a lista de 6 Em inglês no original.disponível. Um "manual eletrônico" destinava-se a manter o conjunto dos conhecimentos especiais da comunidade atualizado e apresentá-lo de maneira coerente. um novo processo ou uma referência essencial a seus trabalhos. Por exemplo. este manual fornecia a quem o consultasse uma espécie de fotografia do saber que o grupo possuía. se necessário. ordenada e objetivada sobre a tela. já que todos seriam imediatamente informados assim que alguém tivesse descoberto uma nova idéia. talvez mais do que os outros aspectos do groupware. (N. ou a fortiori. o distanciamento intelectual entre os membros da equipe era anulado. analogias. O programa Euclid permite que cada argumento seja representado como uma rede de proposições apoiadas por entidades (provas. ou aquele que consiste em invalidar as premissas do adversário). se determinado grupo de proposições é coerente. De forma a encontrar-se na complexa estrutura conceitual de seu mestre. Assim. tinha uma função de integração. até que se tenha atingido as hipóteses ou fatos derradeiros. Em 1990. Graças ao "journal" de estrutura hipertextual. os comentários tomavam-se públicos. Uma vez que as discussões tivessem sido analisadas em dezenas de questões e de posições. Um "journal"6 continha os trabalhos publicados pelos membros da comunidade (nós estamos no meto universitário). da mesma forma como na Idade Média as glosas que ornavam as margens do texto manuscrito pertenciam ao livro por direito. Euclid oferece a seu usuário um certo número de esquemas de argumentos pré-construídos (como o argumento por analogia. quando um leitor julgava necessário.: 41 . O HIPERTEXTO. Em principio. O groupware talvez tenha inaugurado uma nova geometria da comunicação. hipóteses de trabalho) que são em si mesmas argumentos. é possível descer ainda mais na microestrutura da conversa. que podiam ser lidos e anotados por todos. suas observações a respeito dos trabalhos de seus colegas não ficavam mais confinadas ao exemplar pessoal de uma xerox de artigo. A qualquer momento da redação ou do exame de um argumento. MATERIALIZAÇÃO DO SABER COMUM O groupware elaborado pela equipe de Douglas Engelbart no Stanford Research Institute era mais que um simples programa de auxílio à argumentação e ao diálogo cooperativo. Propõe também ferramentas de visualização da estrutura lógica do discurso. sem se perder. do T-j _________ Pág. Desta forma torna-se possível examinar alternadamente. processamento de textos e diversos catálogos de documentos e de referências pertinentes para o grupo de colaboradores. o programa permite que o usuário saiba se uma dada proposição está apoiada por outra ou simplesmente suposta. programação. O programa pode. enumerar quais as teses que perderão suas bases se determinada proposição for negada. ou indicar as proposições das quais depende a parte essencial da conclusão.

Cognitive Science and its Applications for Human-Computer Interaction. dossiê da revista Byte. "As we may think". décembre 1988. WINOGRAD Terry et FLORES Fernando. "Hypertext". CD ROM. Microsoft Press. Norwood. no domínio das tecnologias intelectuais.: 42 . 1988 (1ª edição americana: Understanding computers and cognition. Washigton. Redmond. ela pode ser objeto de processos de classificação. New Jersey. Uma vez que uma atividade intelectual (neste caso. Aquilo a que chamamos de abstração muitas vezes não é nada mais do que esta colocação em signos de procedimentos — signos que.. a indexação e catalogação das conexões nos hipertextos representam. originalmente publicado no The Atlantic Monthly em 1945 ). 1988. Interactive Multimedia. GUINDON Raimonde (sob a direção de). Lawrence Erlbaum. Guardadas devidas proporções. serão objetos de outras manipulações. WA. LAMBERT Steve et ROPIEQUET Suzanne (sob a direção de). PUF. por exemplo. as palavras-chave: "Victor Hugo" e "epopéia ". octobre 1988. Ablex. the New Papyrus. tradução. "Groupware". agregação e desagregação analítica. 1988. Hillsdale. transformação. _________ Pág. por sua vez. BIBLIOGRAFIA AMBRON Susann. L'Intelligence artificielle en question. objetivada. HOOPER Kristina (sob a direção de). New Jersey.todas as conexões que o professor tiver traçado após uma certa data e cuja descrição inclua. Redmond. um avanço comparável àquele que ocorreu no domínio da matemática quando começou-se a considerar as operações como objetos. dossiê da revista Byte. 1986 (contém a reproduçãodo texto de BUSH Vannevar. a relação) esteja representada de forma declarativa. Microsoft Press. 1986).

A psicologia cognitiva contemporânea usa maciçamente os modelos computacionais e de processamento de dados fornecidos pela informática. devido ao papel das tecnologias intelectuais no processo de redução de devires inalcançáveis ao estado de pequenos signos O termo psicanalítico é traduzido em português como "recalque". os diversos sistemas de representação e notação inventados pelo homem ao longo dos séculos têm por função semiotizar. o typos era o buril. Compreende-se por que Platão atribuía uma superioridade ontológica aos modelos ideais em relação às imagens sensíveis deles derivadas. que é o de refluxo. das forças e engrenagens do mecanismo. sensação e memória que formam o nosso real. marca. A psicanálise extraiu muito dos comerciantes (o "investimento" afetivo). as noções de forma e matéria. dominá-las. Graças a esta capacidade de simular nossas interações com o mundo através de modelos mentais. a própria idéia platônica. são também de origem humilde. usou amplamente a metáfora do campo eletromagnético. reduzir a uns poucos símbolos ou a alguns poucos traços os grandes novelos confusos de linguagem. em vez de perder-se nas coisas. por exemplo. então nossa consciência míope e débil. Não somente os conceitos são nômades. técnicos. possa explicar o fato de que quase sempre pensemos com o auxílio de metáforas. Por exemplo. mas apenas através destas sombras minúsculas que são os signos. Talvez a combinação destas duas características. um único buril iria gerar milhares de moedas [100]. No texto. ligam-se por um número excessivo de fios ao inextricável emaranhado das vivências ou à indizível qualidade do instante: não nos é possível ordená-las. foi desviado de uma técnica mais recente. o autor faz referência a seu outro sentido em francês. etc. compará-las. a espécie humana é dotada de uma habilidade operacional superior à das outras espécies animais. As experiências que temos sobre as coisas misturam-se com imagens em demasia. (N. o dom da manipulação e a imaginação. trabalhadores manuais. poderá finalmente dominar. primeiro. que parecem tão gerais e abstratas. já que. muitas vezes de origem técnica. mas. Em termos de profissões. quando a lava espessa do futuro tiver sido projetada sobre os poucos estados possíveis de um sistema simples e maneável. são empréstimos leitos por Aristóteles a artes que datam do Neolítico: cerâmica e escultura. usados para cunhar as moedas. A psicologia da forma. ) _________ Pág. de pequenos modelos concretos. Uma filosofia do conhecimento nominalista e preocupada com o concreto deveria desconfiar de que todo conceito hipostasia uma imagem ou exemplo particular. geralmente. Além disso. e typos. nossa noção de causalidade passa a mover-se no universo dos choques. a cunha. enquanto atividades cognitivas. dos encanadores (o "recalque"7. podemos antecipar o resultado de nossas intervenções e usar a experiência acumulada. filhos de camponeses. A enumeração dos empréstimos que o pensamento dito abstrato (na verdade metafórico) fez aos modelos técnicos mais cotidianos não terra fim. passando de um território do saber a outro. A evolução biológica fez com que desenvolvêssemos a faculdade de imaginar nossas ações futuras e seu resultado sobre o meio externo. do T.6. A psicologia não constitui exceção a esta disposição natural do espírito humano. Uma vez que as entidades singulares e móveis do concreto tenham sido descoloridas e aplainadas. de acordo com a metáfora. A abstração ou a teoria. A partir do século XVII. Primeiro. A palavra arquétipo vem de archè. toda o encanamento complicado da libido) e dos foguistas (o modelo termodinâmico do funcionamento psíquico). A METÁFORA DO HIPERTEXTO COMO O PENSAMENTO ATINGE AS COISAS A escrita em geral. e isto por dois motivos.: 43 7 . O conceito de conceito. artesãos. têm portanto uma origem eminentemente prática.

Para que as coletividades compartilhem um mesmo sentido. nossas teorias. para abordar o problema de um ponta de vista mais operacional. e portanto é o mesmo que construir um hipertexto. Trabalhar. retificar um _________ Pág. é precisa inverter completamente a perspectiva habitual segundo a qual o sentido de uma mensagem é esclarecido por seu contexto. o groupware ou o hipertexto. O papel dos groupwares é exatamente o de reunir.permanentes e manipuláveis. mede a quantidade de informação através da improbabilidade das mensagens de um ponto de vista estatístico. Como metáfora para pensar o quê ? A comunicação. como se a vida. ESBOÇO DE UMA TEORIA HERMENÉUTICA DA COMUNICAÇÃO Por sua vez. Voltamos. para gradear ou enquadrar a palavra efêmera. se por um lodo o texto é o mesmo para cada um. a construção do senso comum encontra-se exposta e como que materializada: a elaboração coletiva de um hipertexto. que poderão. incitou-os a decodificar signos nos fenômenos. anotações e comentários ás quais eles são vinculados pelas pessoas. O que é a significação? Ou. A escrita. ela inclinou os letrados a ler o mundo como se fosse uma página. enquanto que para você estará formigando de sentidos. tome a significação como centro de suas preocupações. complexificar. assim. dar sentido a um texto é o mesmo que ligá-lo. sem levar em conta seu sentido. pois ela já passou tempo demais sendo representada pelo famoso esquema telefônico da teoria de Shannon. quando muito. a cem comentários. viver. ao contrário. O que conta é a rede de relações pela qual a mensagem será capturada. As ciências humanas. por exemplo. tivesse inventado o alfabeto. conversar fraternalmente com outros seres. O fundamento transcendental da comunicação — compreendida como partilha do sentido — é este contexto ou este hipertexto partilhado. a rede semiótica que o interpretante usará para captá-la. graças à infinidade de modelos concretos inspirados na técnica que povoam nossas narrativas. Diríamos antes que o efeito de uma mensagem é o de modificar. entretanto. a conecto a umas poucas proposições. cruzar um pouco por sua historia. um contexto compartilhado. portanto. não basta que cada um de seus membros receba a mesma mensagem. mas também as redes de associações. conectá-lo a outros textos. Segundo. Para mim. esse texto permanecerá obscuro. e que mal ou bem nos permitem apreender ou interpretar um mundo demasiadamente vasto. em que consiste o ato de atribuir sentido? A operação elementar da atividade interpretativa é a associação. justamente. Por outro lado. não apenas os textos. As tecnologias intelectuais misturaram-se à inteligência dos homens por duas vias.. Mais uma vez. Eu. Você talvez conecte cada palavra de uma certa página a dez referências. Ao mesmo tempo. ao assunto inicial desta primeira parte. necessitam de uma teoria da comunicação que. entre outras coisas. Isto porque. É sabido que pessoas diferentes irão atribuir sentidos por vezes opostos a uma mensagem idêntica. isto significa. poderia também servir como metáfora esclarecedora.: 44 . elaborada nos anos quarenta. serviu por um fada para sistematizar. das tábuas de profecias dos magos da Caldéia à decifração do código genético. além de ser uma ferramenta eficaz para a comunicação e a inteligência coletivas. uma rede hipertextual unificada. muito tempo antes dos Fenícios. capaz de diminuir os riscos de incompreensão. por outro o hipertexto pode diferir completamente. construir uma bagagem de referências e associações comuns. portanto. ser objeto de operações inéditas. antes. É sabido que a teoria matemática da comunicação.

A humanidade. O objeto principal de uma teoria hermenêutica da comunicação não será. nos delimita. BIBLIOGRAFIA SIMONDON Gilbert. uma rede de associações.hipertexto. forma uma interface colorida entre o calor de nossas peles e a rigidez do mundo. E talvez o fato deste tricô de verbos e nomes. dialogam e ecoam mutuamente para além da linearidade do discurso. ". 1989. O vocábulo "texto". mas sim "A modifica uma configuração que é comum a A. A roupa pacientemente tecida nos contém. PUF. Sémantiqne interprétative. criar novas associações em uma rede contextual que se encontra sempre anteriormente dada. através da linguagem e de todos os sistemas simbólicos de que dispõem. espécie falante. O esquema ele1~lentar da comunicação não seria mais "A transmite alguma coisa a B". L’individuation psychique et collective. Os coletivos também casem. contém a antiga técnica feminina de tecer. Paris.D. _________ Pág. nem o receptor. mas sim o hipertexto que é como a reserva ecológica. portanto. uma capa de palavras capaz de abrigá-los da contingência radical que perfura a camada protetora dos sentidos e misturase. C. ser designado por um termo quase têxtil não seja uma coincidência. através do qual tentamos reter o sentido. um texto já é sempre um hipertexto. nem a mensagem. mas sim estas operações moleculares de associação e desassociação que realizam a metamorfose perpétua do sentido. RASTIER François. do futuro. nem o emissor. B. é também a raça que se veste. A metáfora do hipertexto dá conta da estrutura indefinidamente recursiva do sentido. E os principais operadores desta teoria não serão nem a codificação nem a decodificação nem a luta contra o ruído através da redundância. etc. Paris. 1987. insensatos.: 45 . à sua revelia. uma tela de sentidos destinada a reuni-los e talvez a protegê-los dos estilhaços dispersos. Aubier. etimologicamente. o sistema sempre móvel das relações de sentidos que os precedentes mantêm. pois já que ele conecta palavras e frases cujos significados remetem-se uns aos outros.

era precisa portanto resituar a análise das evoluções contemporâneas sob o império da informática na continuidade de uma história das tecnologias intelectuais e das formas culturais que a elas estar ligadas. conservamos ao mesmo tempo os agenciamentos sociais e as representações ligados a suas formas e seus usos. mais rápidos. será dedicada sobretudo a uma descrição geral das técnicas contemporâneas de comunicação e processamento da informação por computador (capitula 9: "A rede digital"). as inscrições de todos os tipos — e em primeiro lugar a própria escrita — desempenham o papel de travas de irreversibilidade. de um edifício ou de uma estrada. Ao conservar e reproduzir os artefatos materiais com os quais vivemos. estas enormes máquinas heteróclitas e desreguladas (estradas. da edição clássica ao audiovisual. Todas estas "antigas" tecnologias intelectuais tiveram. e têm ainda. _________ Pág. um entrelace de historia. PALAVRA E MEMÓRIA Se a humanidade construiu outros tempos. mesmo que pareça-nos tão natural. produzem historia. É também porque cristalizou uma infinidade de informações nas coisas e em suas relações. quanto a teoria. a. metais. escalas. de uma arma. partiremos de dados técnicos para fazer um questionamento sobre a temporalidade social e os modos de conhecimento inéditos que emergem do usadas novas tecnologias intelectuais baseadas na informática (capitulo l0: "O tempo real"). seja sobre o papiro do escriba ou o pergaminho do copista. que abrem esta segunda parte. no bronze ou na argila pela arte do ferreiro ou do oleiro. várias histórias com ritmos diversos. a imagem do hipertexto serviu-nos como metáfora do sentido e como fio condutor para uma análise do processo sociotécnico. através de processas mnemotécnicos. Na primeira. multidões no trabalho ou nas ruas. certos arranjos especiais de continuidades e velocidades. por exemplo. organizações políticas. portanto. Este é o principal objetivo dos capítulos 7 ("Palavra e memória" ) e 8 ("A escrita e a história"). é porque dispõe deste extraordinário instrumento de memória e de propagação das representações que é a linguagem. Mas os hipertextos são apenas um dos aspectos da grande rede digital que dentro em breve irá reunir todos os setores da indústria de comunicação. Da mesma forma. escritas. para selecionar e acumular as novidades. é independente do uso de tecnologias intelectuais. terra. cidades.. Linguagem e técnica contribuem para produzir e modular o tempo.II. Uma organização social pode ser considerada como um dispositivo gigantesco servindo para reter formas. OS TRÊS TEMPOS DO ESPÍRITO: A ORALIDADE PRIMARIA. A próxima parte. parte. línguas. como sua assinatura singular. Para compreender o que está em joga e colocá-la em perspectiva. ateliês. retêm informações em nome dos humanos. Obrigam o tempo a passar em apenas um sentido. impressão. a escrita e os métodos mnemotécnicos das sociedades orais não foram deixados de fada. contanto que nesta organização sejam incluídas todas as técnicas e todas as conexões com o ecossistema físico-biológico que a fazem viver. A partir do momento em que uma relação é inscrita na matéria resistente de uma ferramenta. ou melhor.: 46 . A idéia no entanto não foi a de ficar preso a uma descrição fascinada dos programas e das redes. mais violentos que os das plantas e animais.) secretam. Seja nas mentes. um papel fundamental no estabelecimento dos referenciais intelectuais e espaçotemporais das sociedades humanas Nenhum tipo de conhecimento. As sociedades. toma-se permanente.. Mas se alguns tempos sociais e estilos de saber peculiares estar ligados aos computadores. nesta segunda parte. de forma que pedras. madeira. 7. A ESCRITA E A INFORMÁTICA As possibilidades interativas e os diversos usos dos hipertextos foram expostos na primeira parte deste livro. construtos de fibras ou ossos.

: 47 . ainda muito próxima de suas origens orais. por mais simplistas que pareçam. e como? A MEMÓRIA HUMANA: CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA COGNITIVA Da mesma forma que o raciocínio espontâneo não tem muito a ver com uma "razão" hipotética fixada em sua essência. destaca-se sobre o fundo de um imenso corpus de textos: " os escritos que permanecem". tal como o conhecemos hoje. Muitos milênios de escrita acabarão por desvalorizar o saber transmitido oralmente. Numa sociedade oral primária. Mnemosina ia Memória) tinha um lugar bastante privilegiado na genealogia dos deuses. portanto. já que o oral era um canal habitual da informação. Por exemplo. Hoje em dia apalavra viva. antes de mais nada.ORALIDADE PRIMARIA E ORALIDADE SECUNDÁRIA A presença ou a ausência de certas técnicas fundamentais de comunicação permite classificar as culturas em algumas categorias gerais. do T. nossa memória não se parece em nada com um equipamento de armazenamento e recuperação fiel das informações. já bastante codificados. O que pode ser inscrito na mente. por exemplo. pelo menos aos olhos dos letrados. é essencial para nosso objetivo determinar as características dessa memória. encontra-se muitas vezes identificada com a memória. músico e feiticeiro. de acorda coma psicologia cognitiva contemporânea. Bardos. A escrita suméria. não há apenas uma. Nas sociedades sem escrita. sobre um continuum complexo. O mundo da oralidade primária. pertencente a uma casta especial. Portanto. Mas. ao mesmo tempo poeta. por outro lado. as formas de pensamento ou as temporalidades de uma sociedade. A inteligência. a disjunção "com ou sem escrita" mascara o uso de signos pictóricos. Não deve fazer com que nos esqueçamos que cada grupo social. a produção de espaço-tempo está quase totalmente baseada na memória humana associada ao manejo da linguagem. etc. denota a sabedoria representando uma cabeça com grandes orelhas. A faculdade de construir automatismos sensoriomotores (por exemplo. aprender a andar 8 Griot é um negro africano. sobretudo com a auditiva. a palavra tem como função básica a gestão da memória social. as palavras que "se perdem no vento". apenas podendo ser situado. quase todo o edifício cultural está fundado sobre as lembranças dos indivíduos. funcionalmente distintas. nestas sociedades. Eis por que os dados da psicologia cognitiva contemporânea serão abundantemente mobilizados na seqüência deste livro. em dado instante. Esta classificação apenas nos auxilia a localizar os pólos. estas disjunções são úteis porque chamam a atenção para as restrições materiais. em algumas sociedades paleolíticas (e que portanto são classificadas entre as culturas orais). e não apenas a livre expressão das pessoas ou a comunicação prática cotidiana. mas diversas memórias. omite a diferença entre escritas silábicas e alfabéticas. era mais comum pessoas inspiradas ouvirem vozes (Joana d'Arc era analfabeta ) do que terem visões. oculta a diversidade dos usos sociais dos textos. E. já que era filha de Urano e Gaia (o Céu e a Terra). Na mitologia grega. Como e por que diferentes tecnologias intelectuais geram estilos de pensamento distintos? Passar das descrições históricas ou antropológicas habituais a uma tentativa de explicação requer uma análise precisa das diversas articulações do sistema cognitivo humano com as técnicas de comunicação e armazenamento. situa-se antes de qualquer distinção escrito/falado. Na oralidade primária. (N. encontra-se em situação singular e transitória frente ás tecnologias intelectuais. ) _________ Pág. aedos e griots8 aprendiam seu ofício escutando os mais velhos. e mãe das nove musas: Nas épocas que antecediam a escrita. os elementos técnicos que condicionam. a oralidade secundária está relacionada a um estatuto da palavra que é complementar ao da escrita. Spinoza irá colocá-lo no último lugar dos gêneros de conhecimento. A oralidade primária remete ao papel da palavra antes que uma sociedade tenha adotado a escrita.

não ajuda muito. a lembrança da informação alvo persistia por vinte e quatro horas. A memória de longa prazo. 104]. Não temos. nenhuma dificuldade em encontrá-la instantaneamente. Primeiro. podemos ainda fazer a distinção entre memória de curto prazo e memória de longo prazo. Ficamos pronunciando o número em voz baixa indefinidamente até que tenha sido discado. construir uma representação dele. A estratégia de codificação. ou ao menos que esta não é a estratégia mais eficiente. duas condições devem ser preenchidas. mostraram que quando era pedido a algumas pessoas que decorassem listas de palavras. ou memória de trabalho. As elaborações são acréscimos à informação alvo. esta representação encontrase em estado de intensa ativação no núcleo do sistema cognitivo. aqueles que envolvem a atenção consciente. para graválo. Cada vez que nós procuramos uma lembrança ou uma informação. quando lemos um número de telefone e o anotamos mentalmente até que o tenhamos discado no aparelho. repetindo-as. Conectam entre si itens a serem lembrados. Ela é usada. cujos elementos difeririam somente quanto a seu conteúdo informacional e quanto à força e número das associações que os conectam. as performances eram médias a curto prazo. talvez anos mais tarde? Muitas experiências em psicologia cognitiva parecem mostrar que a repetição. Diversos trabalhos de psicologia cognitiva permitiram detalharas melhores estratégias de codificação [3. uma proposição ou uma imagem que se achem muito longe de nossa zona de atenção. a ativação deverá propagar-se dos fatos atuais até os fatos que desejamos encontrar. por outro fada. está em nossa zona de atenção. mas depois tendia a apagar-se. é usada a cada vez. É impossível ativar todos os nós da rede mnemônica ao mesmo tempo. O problema da memória de longa prazo é o seguinte: como encontrar um fato. ARMAZENAMENTO E PESQUISA NA MEMÓRIA DE LONGO PRAZO Quando uma nova informação ou um novo fato surgem diante de nós. deve existir um caminho de associações possíveis que leve a esta representação. que chamamos de memória declarativa. No momento cm que a criamos. uma representação do fato que buscamos deve Ter sido conservada. isto é. a maneira pela qual a pessoa irá construir uma representação do fato que deseja lembrar. os processos elaborativos ocorrem o tempo todo. ou seja. por exemplo. ou então conectam estes itens a idéias já adquiridas ou anteriormente formadas. quando lhes era sugerido que se lembrassem da lista construindo pequenas histórias ou imagens envolvendo as palavras a serem lembradas. O estudante que esteja preocupado apenas com sua nota no exame oral irá reler sua lição pela décima vez antes de entrar em sala neste dia. Supõe-se que a memória declarativa de longa prazo é armazenada em uma única e imensa rede associativa. neste caso. mobiliza a atenção. mas persistiam por um longo tempo. Certas experiências. No pensamento cotidiano. Mesmo no interior desta última faculdade. ou muito próxima a esta zona. por exemplo. Por outro lodo. A esta segunda estratégia damos o nome de elaboração. Segundo. que lembramos de nosso número de telefone no momento oportuno. já que os recursos da memória de trabalho e dos processas controlados são limitados. O que acontece. parece ter um papel fundamental em sua capacidade posterior de lembrar-se deste fato. A memória de curta prazo. 6. portanto. Quais são as melhores estratégias para armazenar informações na memória de longa prazo e encontrá-las quando precisarmos. A repetição parece ser a melhor estratégia pára reter a informação a curto prazo.: 48 . devemos. por _________ Pág. Para isto. uma informação que há muito tempo não esteja em estado ativo? A ativação mobiliza os elementos mnésicos para os processas controlados.de bicicleta. dirigir um carro ou jogar tênis) parece colocar em joga recursos nervosos e psíquicos diferentes da aptidão de reter proposições ou imagens.

mais fácil será lembrá-la. imediatamente disponíveis. Quando os fatos são interpretados em função de esquemas preestabelecidos. A implicação emocional das pessoas face aos itens a lembrar irá igualmente modificar. Como explicar estes efeitos da elaboração? Ela permite sem dúvida acoplar a informação alvo ao restante da rede através de um grande número de conexões. Esta explicação permite compreender o papel dos esquemas na memória.exemplo.: 49 . É também uma maneira de fazer com que ela se beneficie da densa rede de comunicação que irriga o esquema. idéias ou reflexões pessoais. melhores eram as performances mnemônicas. Quanto mais conexões o item a ser lembrado possuir com os outros nós da rede. Os esquemas ou roteiros estereotipados. portanto. Foi também demonstrado que a quantidade e pertinência das conexões não eram as únicas coisas que contavam nos mecanismos mnemônicos. há muito tempo já foi observado que as testemunhas misturam os latos com suas próprias interpretações. Em particular. Elaborar uma proposição ou uma imagem é. As elaborações envolvendo as causas ou efeitos dos latos evocados em uma frase são mais eficazes de um ponta de vista mnemônico do que elaborações que constróem conexões mais fracas. uma forma de compreender e de memorizar. Nos casos jurídicos. É sabido que retemos melhor as informações quando elas estão ligadas a situações ou domínios de conhecimento que nos sejam familiares. ela é extremamente sensível aos processos elaborativos e à intensidade dos processamentos controlados que acompanham a codificação das representações. quanto mais complexas e numerosas fossem as associações. de forma drástica. _________ Pág. assim como a perguntas. quando lemos um ensaio sobre as tecnologias da inteligência? Juntamos as proposições que encontramos pela primeira vez às proposições encontradas anteriormente no texto. representam na verdade elaborações já prontas. maior será o número de caminhos associativos possíveis para a propagação da ativação no momento em que a lembrança for procurada. INCONVENIENTES DAS DUAS ESTRATÉGIAS DE CODIFICAÇÃO A memória humana está longe de ter a performance de um equipamento ideal de armazenamento e recuperação das informações já que. por exemplo. por exemplo. Quanto mais estivermos pessoalmente envolvidos com uma informação. As informações originais são transformadas ou forçadas para se enquadrar o mais possível no esquema. daquilo que pesquisamos. A ativação de esquemas (espécie de fichas ou dossiês mentais estabilizados por uma longa experiência) durante a aquisição de informações influi positivamente sobre a memória. as distorções são ainda mais fortes. As muitas experiências feitas em psicologia cognitiva sobre este *tema da elaboração mostraram que. ou da informação que resultou de um esforço ativo de interpretação. e isto qualquer que seja a boa fé ou honestidade das testemunhas. Este trabalho elaborativo ou associativo é. É o próprio funcionamento da memória humana que está em jogo aqui. suas performances mnemônicas. Lembramo-nos melhor. A intensidade das associações. Também as associa-mos a proposições — eventualmente contraditórias — de outros autores. como acabamos de ver. a maior ou menor profundidade do nível dos processamentos e dos processas controlados que acompanharam a aquisição de uma representação também desempenham um papel fundamental. indissociavelmente. que descrevem as situações correntes de nossa vida cotidiana. A associação de um item de informação com um esquema preestabelecido é uma forma de "compreensão" da representação em questão. o mesmo que construir vias de acesso à essa representação na rede associativa da memória de longo prazo. sem conseguir distingui-los. parece que temos muita dificuldade para discriminar entre as mensagens originais e as elaborações que associamos a elas.

Os membros das sociedades sem escrita (e portanto sem escola)não são. As conexões entre representações envolverão sobretudo relações de causa e efeito. uma função mnemotécnica. 2. portanto. trazendo uma forte carga emotiva e acompanhadas de música e rituais diversos.AS ESTRATÉGIAS MNEMÓNICAS NAS SOCIEDADES ORAIS Essas lições da psicologia cognitiva sobre a memória nos permitem compreender melhor como sociedades que não dispõem de meios de armazenamento como a escrita. As representações serão ricamente interconectadas entre elas. Finalmente. o cinema ou a fita magnética codificaram seus conhecimentos. aquelas que não possuem os numerosos meios de inscrição externa dos quais dispõem os homens do fim do século XX. o que exclui listas e todos os modos de apresentação em que a informação se encontra disposta de forma muito modular. 3. Não há portanto como opor um "pensamento mágico" ou "selvagem" a um "pensamento objetivo" ou "racional". há poucas possibilidades que outros gêneros de organização das representações possam transmitir conhecimentos de forma duradoura. de forma que eles possam ligá-los a esquemas preestabelecidos. Face ás culturas "primitivas". as danças e os rituais têm.: 50 . As rimas e os ritmos dos poemas e dos cantas. poderíamos apresentar a mesma idéia da seguinte maneira: as representações que têm mais chances de sobreviver em um ambiente composto quase que unicamente por memórias humanas são aquelas que estão codificadas em narrativas dramáticas. "irracionais" porque crêem em mitos. 4. envolvendo diretamente o sujeito e fortemente carregadas de emoção. Acabamos de enumerar algumas das características do mito. muito recortada. e na ausência de técnicas de fixação da informação como a escrita. que muitas vezes emana das sociedades sem escrita ou das que não fazem um usa intenso dela. Dado o funcionamento da memória humana. Isto pode explicar a sensação de "eterno retorno". exatamente como nós fazemos. As proposições farão referência a domínios do conhecimento concretos e familiares para os membros das sociedades em questão. os membros das sociedades orais exploraram ao máximo o único instrumento de inscrição de que dispunham. Dramatização. Simplesmente utilizam as melhores estratégias de codificação que estão à sua disposição. Pode-se melhorar ainda mais a lembrança recorrendo ás memórias musicais e sensoriomotoras como auxiliares da memória semântica. a _________ Pág. Para evitar qualquer viés teleológico. Possuindo apenas os recursos de sua memória de longa prazo para reter e transmitir as representações que lhes parecem dignas de perdurar. Sabemos que existe uma tendência natural a reduzir acontecimentos singulares a esquemas estereotipados. na verdade orais. estamos simplesmente diante de uma classe particular de ecologias cognitivas. personalização e artifícios narrativos diversos não visam apenas dar prazer ao espectador. estas representações deverão manter laços estreitos com "problemas da vida". agradáveis de serem ouvidas. Após um certo tempo. como as narrativas. Quais são as representações que têm mais chances de sobreviver nas ecologias cognitivas essencialmente compostas por memórias humanas? Sem dúvida aquelas que atenderem melhor aos seguintes critérios: 1. Omito codifica sob forma de narrativa algumas das representações que parecem essenciais aos membros de uma sociedade. Eles são também condições sine qua non da perenidade de um conjunto de proposições em uma cultura oral.

hipostasiado em suas idéias os esquemas orais da memória de longa prazo. Nada é transmitido sem que seja observado. de reiteração. mas à forma pela qual as representações e as maneiros de ser continuam a transmitir-se independentemente dos circuitos da escrita e dos meios de comunicação eletrônicos. isto não significa que não haja qualquer consciência de sucessão ou irreversibilidade nas culturas orais. Se o curso das coisas supostamente retoma periodicamente sobre si mesmo. nostalgicamente.personalidade e os atos dos ancestrais se fundem aos tipos heróicos ou míticos tradicionais. Evidentemente. as narrativas se alteram ao sabor das circunstâncias. "eternas". as técnicas transformam-se insensivelmente. um devir sem marcas nem vestígios. Platão teria. Os mitos são tecidos com os fatos e gestos dos ancestrais ou dos heróis. por falta de ponto fixo. imitado. Além do mais. repetido. é porque os ciclos sociais e cósmicos ecoam o modo oral de comunicação do saber. pela roda das gerações. Não há nada de novo sob o sol. A transmissão. Não existe nenhum medo de armazenar as representações verbais para futura reutilização. A PERSISTÉNCIA DA ORALIDADE PRIMARIA A persistência da oralidade primária nas sociedades modernas não se deve tanto ao fato de que ainda falemos (o que está relacionado coma oralidade secundária).: 51 . especulações importantes sobre o caráter cíclico do tempo ocorreram em civilizações que. imitando. nos foram transmitidos oralmente. a ação e a participação pessoais onipresentes contribuem portanto para definir o devir. nos gestos de inúmeras habilidades técnicas. Dominamos a maior porte de nossas habilidades observando. no momento em que uma nova ecologia cognitiva fundada sobre a escrita começava a desestabilizá-los. este estilo cronológico das sociedades sem escrita. mas ninguém sabe medir essas derivas. fazendo. pois a transmissão também é sempre recriação. capturada em uma espécie de devir imemorial. e não estudando teorias na escola ou princípios nos livros. O TEMPO DA ORALIDADE: CÍRCULO E DEVIR A forma canônica do tempo nas sociedades sem escrita é o circulo. a passagem do tempo supõem portanto um incessante movimento de recomeço. As coisas mudam. como na Índia ou na Grécia Antiga. aqueles de que nos servimos em nossa vida cotidiana. Ritos e mitos são retidos. A memória do oralista primário está totalmente encarnada em cantos. de famílias ou de empresas). O que quer dizer: é difícil lembrar-se do especifico e do singular sem reduzi-los a cenários ou formas preestabelecidas. e a maior parte do tempo sob a forma de narrativa (histórias de pessoas. possuíam a escrita. A oralidade primária também está ligada ao devir pela forma "conto" ou "narrativa" que uma parte de seu saber toma. atuado pelas próprias pessoas ou pela comunidade como um todo. Além da mudança sem ponto de referência. A maior parte dos conhecimentos em uso em 1990. no mesmo tempo único e repetitivo. quase intocados. O tempo da oralidade primária é também o devir. neles.. Queremos apenas enfatizar aqui que um certa tipo de circularidade cronológica é secretado pelos atos de comunicação que ocorrem majoritariamente nas sociedades orais primárias. escutado. danças. cada entidade é atuante ou encontra-se personalizada. tradições e conhecimentos empíricos i n grande porte ainda passam por outros canais que não o impresso ou os meios de comunicação audiovisuais. Nestas culturas. Rumores. _________ Pág. qualquer proposição que não seja periodicamente retomada e repetida em voz alta está condenada a desaparecer.

. The Making Of the Homeric Verse: The Collected Papers of Milman Parry. Londres. hoje tem talvez como vocação paradoxal a de reencontrar a força ativa e a magia da palavra. A literatura. MIT Press. 1971. pela qual a oralidade primária desapareceu. Paris. ONG Walter. l et 2. SPERBER Dan. An Introduction. Routledge and Kegan Paul). Antes da Renascença. 1976). trabalho da voz sob o texto. tarefa de reinstituição da linguagem para além de seus usos prosaicos.).: 52 . Alguns aspectos da oralidade sobreviveram nos próprios textos. Mental Models. estilizando assim as discussões orais dos universitários de seu tempo. 1982 (1ª edição inglesa: Knowledge and Social Imagery. Sociologie de la logique ou les Limites de l’éspistémologie. Montréal. São Tomás organizou sua suma teológica sob a forma de perguntas. 1964. Cambridge.). Cognitive Psychology and its Implications (2ª edição). Mc-graw Hill. 1983. Man (N. Massachusetts 1987. Cambridge. Platão. Editions Pandore. mas sim poderes ligados à tal presença viva. STILLINGS Neil et al. Ltée. Orality and Litteracy: the Technologising of the Word. L'Art de la mémoire. 1966). Gallimard. de um gandioso falar desaparecido e no entanto sempre presente quando os verbos surgem. os textos religiosos. vol. 1975 (edição original: The Art of memory. a oralidade sobreviveu paradoxalmente enquanto mídia da escrita. La Galaxie Gutenberg. Londres et New York. Harvard University Press. origem da palavra. Le Geste et la Parole..M. BIBLIOGRAFIA ANDERSON John R. tal sopro. YATES Frances. essa eficiência que ela possuía quando as palavras ainda não eram pequenas etiquetas vazias sobre As coisas ou idéias. Éditions H. BADDELY Alan.H. pessoais. _________ Pág. New York. Paris. Face à l'ére électronique. JOHNSON-LAIRD Philip N. 20. PARRY Adam (ed. Routledge and Kegan Paul. Toronto. respostas e objeções. Albin Michel. brilham repentinamente como acontecimentos do mundo. Londres. 73-89. 1982. Cognitive Science. 1967. The Clarendon Press. MCLUHAN Marshall.H. Galileu e Hume compuseram diálogos. emitidos por alguma potência imemorial e anônima. S. filosóficos ou jurídicos eram quase que obrigatoriamente acompanhados de comentários e de interpretações orais. Finalmente. 1985. 1982. sob a pena de não serem compreendidos.Além disso. Your memory: a User’s guide. BLOOR David. Massachusetts. a literatura.. "Anthropology and Psychology: towards an Epidemiology of Representations". W.. A transmissão do texto era indissociável de uma cadeia ininterrupta de relações diretas. LEROI-GOURHAN André. Oxford. Methuen. Paris. Freeman and Company.

da existência de estoques enquanto se espera a colheita. que significa o campo do agricultor. As formas sociais do tempo e do saber que hoje nos parecem ser as mais naturais e incontestáveis baseiam-se. _________ Pág. instaura a comunicação diferida. O eterno retorno da oralidade foi substituído pelas longas perspectivas da historia. TEMPO DA AGRICULTURA Quando uma comunidade de camponeses semeia o campo. abordamos aqueles que ainda são os nossos modos de conhecimento e estilos de temporalidade majoritários. anuncia o fim de um certo devir sem marcas. TEMPO DA ESCRITA. são instrumentos de madeira parecidos. uma especulação sobre as estações. Esta fixação no espaço é uma garantia de durabilidade. O Nilo banha com a mesma água a cevada e o papiro. retomando textualmente as palavras inscritas. A ESCRITA E A HISTÓRIA Com a escrita. erigindo os muros das cidades e dos templos. as narrativas de seus grandes feitos. A escrita foi inventada diversas vezes e separadamente nas grandes civilizações agrícolas da Antigüidade. aperfeiçoamentos da escrita. A teoria. e a historia. no domínio da. sobre o uso de técnicas historicamente datadas. A agricultura. como se o rei ou o padre estivessem lá em pessoa e para sempre. elemento fundamental daquilo a que chamamos de revolução neolítica. pressupõe uma organização pensada do tempo delimitado. a escrita. de perdas e erros que isto implica. A ESCRITA E O ESTADO Os senhores dos primeiros Estados inscreviam sua nova potência sobre o solo. A pedra fala sempre. É a mesma terra. as façanhas de seus deuses. a relação com o tempo e o espaço que a agricultura havia introduzido na ordem da subsistência alimentar. na verdade. desempenharam um papel essencial no estabelecimento da ciência como medo de conhecimento dominante. está confiando sua vida à terra e ao tempo. pelo contrário. A colheita só irá ocorrer após diversas lunações. Reduplicando a inscrição urbana.: 53 . a enxada primitiva e o cálamo distinguindo-se quase que apenas pelo tamanho. A invenção da agricultura. Caçando ou colhendo. suas leis. é a própria sobrevivência da comunidade que passa a depender da lenta maturação dos grãos no solo. Reproduz. é também a exploração de uma nova relação com o tempo. Veremos finalmente que o alfabeto e a impressão. a escrita pereniza sobre o granito dos santuários ou o mármore das estelas as palavras dos padres e dos reis. obtêm-se imediatamente as presas ou colheita desejadas. O fracasso e o sucesso são decididos na hora. O escriba cava sinais na argila de sua tabuinha assim como o trabalhador cava sulcos no barro de seu campo. todo um sistema do atraso. Mas. inalterável. com a agricultura. A escrita aposta no tempo. ao intercalar um intervalo de tempo entre a emissão e a recepção da mensagem. Da mesma forma. comunicação. Nossa página vem do latim pagus. a lógica e as sutilezas da interpretação dos textos foram acrescentadas ás narrativas míticas no arsenal do saber humano. repetindo incansavelmente a lei ou narrativa. a verdade. e portanto transitórias.8. Compreender o lugar fundamental das tecnologias da comunicação e da inteligência na historia cultural nos leva a olhar de uma nova maneira a razão. ameaçadas de perder sua preeminência na civilização da televisão e do computador. o declínio do tempo nômade. com todos os riscos de mal-entendidos. Não que os homens do paleolítico tenham desconhecido o ato de postergar ou a previsão de eventos a longo prazo.

é novamente precisa reduzir a distância. ordenando-os sobre uma superfície unificada. o poder estatal comanda tanto os signos quanto os homens. de debates. a civilização da escrita acrescenta novas interpretações aos textos. Por exemplo. fornece sua autoridade a pretensos retornos à origem. por exemplo. leis. toda uma tradição da "leitura" havia se constituído no Egito e na Mesopotâmia. cuja intenção permanecerá sempre incerta. nas sociedades orais primárias. a atribuição do sentido passa a ocupar um lugar central no processo de comunicação. Como o exegeta dos aforismos da Pítia. o Estado tenta de todas as maneiras congelar. Os hipertextos do autor e do leitor podem portanto ser tão diferentes quanto possíveis. A leitura leva a conflitos. fixando-os em uma função. seja a recepção de uma palavra profética ou a interpretação de vaticínios de oráculos. O exercício de interpretação tem tanto mais importância quanto mais as escritas em questão são difíceis de decifrar. Da mesma forma. a distância entre o mundo do autor e o do leitor não pára de crescer. A oralidade ajustava os cantos e as palavras para conformá-los ás circunstâncias. regulamentos e cantas. programar. Uma rede potencialmente infinita de comentários. bem como aos interesses e conhecimentos de sua audiência. uma adaptação e uma traição. como tantas vezes _________ Pág.. A comunicação puramente escrita elimina a mediação humana no contexto que adaptava ou traduzia as mensagens vindas de um outro tempo ou lugar. A TRADIÇÃO HERMENÊUTICA A escrita permite uma situação prática de comunicação radicalmente nova. designando-os para um território. empurrando diante de si uma massa de escritos cada vez mais imponente. depósitos e muralhas nas cidades. A escrita serve para a gestão dos grandes domínios agrícolas e para a organização da corvéia e dos impostos. o leitor encontra-se subitamente frente a assuntos de um outro longínquo. a um alta custo. o manuscrito parece secretar espontaneamente seu hipertexto. no céu estrelado. nas sociedades orais primárias. Talvez o único equivalente à leitura de um texto. Feia primeira vez os discursos podem ser separados das circunstâncias particulares em que foram produzidos. como é o caso.. a uma rigidez absoluta.Através da escrita. em peles. não se exercia apenas sobre papéis e tabuinhas. Por estar restrita a uma fidelidade. Transmitido de uma geração a outra. dos sistemas de hieróglifos ou cuneiformes. nas entranhas dos animais. A transmissão oral era sempre. Através dos anais. simultaneamente. Mas não se contenta em servir ao Estado. funda escolas rivais.: 54 . o contador adaptava sua narrativa ás circunstâncias de sua enunciação. diminuir a tensão semântica através de um trabalho de interpretação ininterrupto. de notas e de exegeses ramifica a partir dos livros originais. a mensagem escrita corre o risco de tornar-se obscura para seu leitor. Desde então. os canais de irrigação e as estradas. arquivos administrativos. E é perseguindo o mesmo objetivo que manda construir monumentos. o mensageiro formulava o pensamento daquele que o enviara de com humor e a disposição particulares de seu destinatário. os silos. e que mantém. A simples persistência de textos durante várias gerações de leitores já constitui um agenciamento produtivo extraordinário. signos e presságios. Quando mensagens fora de contexto e ambíguas começam a circular. De geração em geração. uma tradução. mas também sobre uma infinidade de sintomas. represar ou estocar seu futuro e seu passado. à agricultura planificada ou à cidade: ela traduz para a ordem dos signos o espaço-tempo instaurado pela revolução neolítica e as primeiras civilizações históricas. Desde o terceiro milênio antes de Cristo. A atividade hermenêutica. o mundo se oferece como um grande texto a ser decifrado. sem que um intermediário que estivesse presente tanto ás circunstâncias de emissão quanto ás de recepção viesse estabelecer uma conexão viva entre os atores da comunicação. por sinal.

independentes das circunstâncias de sua emissão? Constituiu-se. se desejar praticar a religião ou a forma de viver dos Bororós ou dos Azende (cuja cultura é puramente oral). esta historia que ela desejava anular. Existem realmente mensagens sem memória de sua origem. Vimos que a escrita. a interpretação produz estas diferenças. filiações intelectuais). A leitura é fonte de uma temporalidade paradoxal. colégios invisíveis.aconteceu na Europa após o triunfo da impressão. Em particular. este tempo. aquilo que confiamos a eles. Estas observações sobre as teorias científicas ou filosóficas podem ser estendidas à religião. com o risco de que o hipertexto assim reconstruído tenha muito poucas relações com o dos autores comentados enquanto estavam vivos. Apesar de visor diminuir a distância entre o momento da redação e o da leitura. Por suas características. aquelas que em princípio são independentes dos modos de vida e do lugar geográfico. Há ainda outras razões que ligam a escrita à ascensão do gênero teórico e ao declínio do modo de transmissão e de organização dos conhecimentos através da narrativa. A separação do emissor e do receptor. ao separar as mensagens das situações onde são usados e produzidos os discursos. a interpretação dos escritos tem exatamente a função de revesti-los com um tecido de circunstâncias. que é a transmissão pessoal sobre o fundo de uma experiência compartilhada. o vestígio escrito é literal. alarga o fosso de tempo que tencionava preencher. No seio dessas microculturas. Jack Goody observa que as religiões universalistas. pois no exato momento em que aproxima o hermeneuta da origem do texto. Você pode converter-se ao islamismo ou adotar os princípios do estoicismo em Berlim. você não tem qualquer alternativa a não ser viver com eles. duvidar da possibilidade de satisfazer este programa. Poderíamos dizer o mesmo sobre as sabedorias ou éticas que se apóiam sobre princípios universais e uma argumentação racional. Os sucessores de Averróis não poderão mais ler Aristóteles como seus predecessores. Não sofre as deformações provocadas pelas elaborações. são todas baseadas em textos [43]. Nova Iorque ou Hong Kong. como o estoicismo ou certas formas de budismo: são morais escritas. de experiências e discursos que possa darlhes um sentido. Já que o texto encontra-se isolado das condições particulares de sua criação e recepção. sem tentar compreendê-lo. É um pouco como se a tabuinha de argila. implica a autonomia em relação à tradição. sem conectá-lo a outros elementos de informação. a escrita também suscitou o aparecimento de saberes cujos autores geralmente pretenderam que fossem independentes das situações singulares em que foram elaborados e utilizados: as teorias. O SABER TEÓRICO. Contrariamente ao sinal mnésico. mecanicamente. Por outro lado. sem interpretá-lo. na ciência ou na filosofia. tradições teóricas paradoxais (escolas. constrói-se uma irreversibilidade. independentes de ritos ou narrativas. Mas podemos. a escrita e o armazenamento em geral se aproximam bastante da memória de curto prazo. A ambição teórica transforma estas dificuldades em restrições fecundas. suscita a ambição teórica e as pretensões à universalidade. quando em certo sentido escrevese uma leitura. o pergaminho ou a fita magnética repetissem incansavelmente. Não há risco que os esquemas da grande rede semântica da memória de longo prazo venham a dissolver suas singularidades. ao deitar a exegese sobre o papel. o papiro. tentar-se-á construir discursos que bastem a si mesmos. como Paul Feyerabend[36]. a impossibilidade de interagir no contexto para construir um hipertexto comum são os principais obstáculos da comunicação escrita. A intenção teórica. A escrita é uma forma de estender indefinidamente a _________ Pág.: 55 . Já que. a notação escrita torna muito mais cômoda a conservação e a transmissão de representações modulares separadas. por outro lado. A ORGANIZAÇÃO MODULAR E SISTEMÁTICA DOS CONHECIMENTOS À parte a tradição hermenêutica.

das primeiras contas sobre tabuinhas ás cotações da Bolsa via Minitel. Não existe teoria enquanto gênero de conhecimento socialmente estabelecido sem um uso regular da escrita. por exemplo.memória de trabalho biológica. As tecnologias intelectuais ocupam o lugar de auxiliares cognitivos dos processos controlados. já que estas listas de regras saturam todos os casos possíveis no domínio estudado. enquanto que as crianças. A partir de então os números e as palavras podem ser disposto sem listas e tabelas. Neste caso.. apreenderiam a raciocinar? Na verdade. nos Elementos de Euclides. Das primeiras observações astronômicas dos padres da Suméria ou de Akkad ás séries de números armazenados pelos computadores dos observatórios astrofísicos. enquanto que. séries ordenadas de preceitos do tipo: "se. — não são portanto menos inteligentes nem menos razoáveis que nós. as tecnologias intelectuais de fundamento escriturário permitem a circulação de microrepresentações "livres". assim que aprendiam a ler. as tecnologias intelectuais servem como paliativo para certas fraquezas dos processos automáticos como as heurísticas de raciocínio e os mecanismos esquematizantes da memória de longo prazo. podemos falar de disposição sistemática. A forma hipotético-dedutiva. Com a escrita. os longos encadeamentos de causas e efeitos perdem uma parte de seus privilégios de conectar representações entre si. então. as representações passam a poder ser transmitidas e durar de forma autônoma. as representações perduram em outros formatos que não o canto ou a narrativa. [for encontrado tal sinal]. aqueles que estão longe dos grandes problemas da vida humana e que não perturbam as emoções. Frente à lista "serra. os camponeses de cultura puramente oral não pensavam em classificara lenha separadamente. ao tornarem-se letradas. a disposições "sistemáticas". A encenação da ação. a informática apenas aumenta a quantidade socialmente disponível de informações modulares e fora de contexto. que remete ás sociedade onde a cultura se encontra parcialmente estruturada pela escrita.: 56 . aqueles que envolvem a atenção consciente e dispõem de tão poucos recursos no sistema cognitivo humano.. ou ainda as cadeias de inferências destinadas a encontrar todas as conseqüências de um pequeno número de princípios são outras formas sistemáticas de disposição das representações. a lenha. A partir do momento em que a tarefa da memória não mais se refere somente ás lembranças humanas. a escrita permite transmitir de forma duradoura a prosa e os assuntos prosaicos. RETORNO AO PROBLEMA DA RACIONALIDADE Uma pesquisa realizada no Uzbequistão e no Quirguizistão polo etnólogo Luria no início do século XX.. Encontramos. por exemplo. Os oralistas — preferimos este termo do que analfabetos. Isto quer dizer que as pessoas educadas em culturas orais não possuem lógica. diversos trabalhos de antropologia demonstraram que os indivíduos de culturas escritas têm tendência a pensar por categorias enquanto que as pessoas de culturas orais captam primeiro as situações (a serra. as apresentações "dramáticas " cedem lugar. nos tratados de medicina ou de adivinhação mesopotâmicos. a plaina e o machado pertencem todos à mesma situação de trabalho da madeira). observavam imediatamente que a lenha não é uma ferramenta. _________ Pág. machado". [é preciso fazer tal diagnóstico] ". lenha. Desta forma. trouxe à tona certos efeitos da escrita enquanto tecnologia intelectual. Podemos pensar.. De forma mais geral. Ao invés de estarem mais intimamente conectadas entre si para responder ás restrições da memória de longo prazo humana. não envoltas em uma narrativa. em parte. Com seus bancos de dados de todos os tipos armazenados em memória ótica ou magnética. É sabido que os primeiros usos da escrita na Mesopotâmia eram relacionados com a contabilidade e os inventários dos templos. tendência ainda maior quando passa-mos do manuscrito ao impresso e à medida em que o uso dos signos escriturários torna-se mais intenso e difundido na sociedade. plaina. época na qual a alfabetização estava apenas começando.

tal como ele é estudado e descrito pelos laboratórios de psicologia cognitiva. Aliás. anais. enquanto que os primeiros sistemas de escrita envolviam apenas signos mnemotécnicos mais ou menos fáceis de decifrar. as dinastias e os sonhos. A ordem seqüencial dos signos aparece sobre a página ou monumento. mas sim como um instrumento prosaico adequada para quebrar o charme da tradição épica ou lírica. graças a um imenso trabalho de comparação e de harmonização das tabelas cronológicas. Calendários. Uma educação pela experiência. tendo como objetivo principal a gestão da memória social. Hesíodo e os trágicos.. Segundo autores como Goody. MEMÓRIA E VERDADE Á medida que passamos da ideografia ao alfabeto e da caligrafia à impressão. Em Platão é um conceito. perfeitamente ajustada à suas condições de vida e de aprendizagem (não escolar). Quando o problema da transmissão das narrativas fundadoras é resolvido. Havelock propôs uma interpretação para o nascimento da filosofia baseada na passagem de uma cultura oral para uma cultura escrita. histórico. Havelock e Svenbro. transmitiam. "o" tempo da historia. permitem o nascimento da historia se não como disciplina. O homem "nu". datas. durante inúmeros testes e manipulações. embora não use mais a palavra para exercícios de memória poética. ao menos como gênero literário. Ele quer substituí-lo por seu próprio ensino em prosa e seu estado de espírito "escritural". Quando. As pessoas ou os _________ Pág. ao instaurarem referências fixas. Havelock observa que a justiça de Hesíodo é ainda uma pessoa que age. ordenando em uma lista monótona os anos e as idades. será possível reconstruir. O alfabeto fonético grego teria desempenhado um papel fundamental quanto a isto. HISTÓRIA. sem suas tecnologias intelectuais nem o auxílio de seus semelhantes. iria ser substituída por um ensina onde o treinamento para o exame dialético das idéias terra o papel principal. das observações astronômicas e das indicações das antigas crônicas. esta última. raramente é permitido que eles discutam suas respostas com os vizinhos ou usem papel e lápis para ajudar. Após o triunfa da impressão. mais do que a expressão espontânea das pessoas. uma vez que a obsessão mnemotécnica da oralidade primária mão tem mais objeto. vale a porta lembrar. A acumulação. arquivos. carregando em uma mesma corrente uniforme. graças ao manejo de uma sintaxe e de um vocabulário conceitual estranhas à oralidade primária. o aumento potencialmente infinito do corpus transmissível distendem o círculo da oralidade até quebrá-lo. a forma narrativa perde muito de sua necessidade. Platão rejeita o saber poético de tipo oral que Homero. A desconfiança em relação à escrita exibida no Fedro seria uma negação do projeto fundamental deste escritor. o da fundação racional do discurso. O "pensamento lógico" corresponde a um estrato cultural recente ligado ao alfabeto e ao tipo de aprendizagem (escolar) que corresponde a ele. Repetindo. os reinos e as eras inumeráveis que secretavam seu próprio tempo e se ignoravam soberanamente desde sempre. psicólogos experimentais medem as capacidades de raciocínio e de memória de batalhões de estudantes.apenas praticam uma outra forma de pensar. as características positivas atribuídas à palavra oral no diálogo em questão referemse mais à oralidade secundária do que à oralidade primária. um certa tipo de pensamento racional ou crítico só pode desenvolver-se ao se relacionar com à escrita. ao fazer com que os textos "falassem" realmente. a memória. o tempo tornase cada vez mais linear. sofre e é afetada. recorre espontaneamente a um pensamento de tipo oral.: 57 . retrospectivamente. somente então pode ser colocado. Sócrates certamente é um oralista. a récita dos mitos. A história é um efeito da escrita. em toda sua amplidão. a presta. centrado sobre situações e modelos concretos [58].

ser deduzida do aparecimento desta ou daquela tecnologia intelectual. modo de transmissão dos textos. A nova técnica. construindo do nada ajudados apenas pela razão sem (ou contra) a legitimidade conferida pelo tempo. O saber está lá. o que me nutre e me constitui enquanto ser humano membro desta comunidade. por sua vez. tabelas de números. da historia ou do direito. A objetivação da memória separa o conhecimento da identidade pessoal ou coletiva. Resta dizer que a prosa escrita não é um simples modo de expressão da filosofia. mas simplesmente sugerir que a escrita. não é totalmente nova. agora. disponível. sujeitos de aventuras míticas. Diversos autores pretendem estar recomeçando tudo da estaca zero. comparável. nem por isso se torna uma condição suficiente. A partir de então. Dada a quantidade de livros em circulação. nem sistemas filosóficos e muito menos critica destes sistemas. tal qual se desenvolveu na Europa a partir do método século XV. de forma alguma. um movimento sem velocidade definível. O TEMPO DA IMPRESSÃO: TÁBULAS RASAS E SISTEMAS A impressão transformou profundamente o. não preexistem a ela. como sempre. O declínio da prosa anunciaria também o declínio da relação com o saber que ela condiciona. condiciona a existência destas formas de pensamento. A exigência da verdade. no sentido moderno e crítico da palavra. Um dos melhores e dos mais célebres exemplos quanto a isto é certamente a aventura cartesiana de reconstrução completa do saber após o repúdio de toda herança através da "dúvida metódica". na filosofia cartesiana. Torna-se um objeto suscetível de análise e exame. já que os usos que dela irão fazer os atores concretos situados na história não são determinados com esta aparição. Mais que nunca. das ciências. Segundo Elisabeth Eisenstein [32]. a história pode ser constituída. não há listas de observações. capaz de desenhar uma progressão ou um declínio. e o conhecimento racional oscilaria rumo a uma figura antropológica ainda desconhecida. que era como um rio sem bordas. a exposição escrita se apresenta como auto-suficiente. morta. a memória separa-se do sujeito ou da comunidade tomada como um todo.: 58 . Estaríamos no eterno retorno e na deriva insensível da cultura oral. seria um efeito da necrose parcial da memória social quando ela se vê capturada pela rede de signos tecida pela escrita. Mas trata-se. O destinatário do texto é agora um indivíduo isolado que lê em silêncio. da herança pretensamente ignorada ou rejeitada mostra que a inovação. mas que a partir de agora irá tomar os especialistas do saber com uma acuidade peculiar: a de uma verdade independente dos sujeitos que a comunicam. A história do pensamento não pode. O saber deixa de ser apenas aquilo que me é útil no dia-a-dia. era. Ela os constitui. decerto. impessoal. a impressão inaugura a época das "tábulas rasas" e dos sistemas. a prosa. relativo ao ser. enquanto tecnologia intelectual. não seria mais possível que cada leitor fosse introduzido às suas interpretações por um mestre que tivesse. destronada pelas formas de representação que a informática traz. Sem escrita. A onipresença. contribuiu para romper os elos da tradição. estocado. de um devir secundário. favorece uma preocupação que. são traduzidos pela cultura alfabética grega nascente em idéias ou princípios abstratos e imutáveis. recebido um ensino oral. fruto da dialética do ser e do devir. tanto no plano político quanto no científico e filosófico. Novamente. Se a escrita é uma condição necessária para o projeto racionalista.heróis da oralidade primária. já que estes domínios do conhecimento. é muito mais uma reinterpretação ou _________ Pág. não há datas nem arquivos. Ao devir das sociedades sem escrita. consultável. sucede-se a nova problemática do ser. Seria inclusive fácil mostrar que a escrita teve usos diversos de acordo com as culturas e os períodos históricos. Um devir que traça uma linha aberta. poderia adquirir em breve o mesmo sabor arcaico de beleza gratuita e de inutilidade que a presta tem hoje. tal como os conhecemos hoje. Não pretendemos aqui explicar a filosofia ou a racionalidade através da escrita. não há códigos legislativos. Este tipo de memória objetiva.

Os antigos manuscritos imitavam a comunicação oral (perguntas e respostas. As cronologias começaram a unificar-se. supõe a possibilidade de recortar não somente os objetos e os problemas. Descartes ou Leibniz (este último. Resta lembrar que a relação com a tradição. Não percebemos mais a relação entre este tipo de representação dos conhecimentos e a impressão. discussões contra e a favor). durante a idade clássica européia. a ser exercida. portanto. foram despojados dos comentários. a matéria a ser ensinada encontrava-se especializada. O método cartesiano. digressões. da desordem de detalhes adventícios e notas de escoliastas conduzidas e aumentadas pelas sucessivas cópias até a época moderna. A impressão permitiu que as diferentes variantes de um texto fossem facilmente comparadas. usa freqüente de tabelas. totalmente oposto ao estilo escolástico. Foi somente a partir do século XVI que generalizaram-se as apresentações sistemáticas de uma "matéria" especializada. organizavam-se ao redor do comentário de um grande texto ou propunham trechos selecionados e compilações. Estas apresentações apóiam-se sobre interfaces específicas da impressão das quais já falamos na primeira parte: paginação regular. Decerto que o passado pode ser percebido de for-ma mais clara (e exposto ainda à admiração ou imitação). não se defende aqui a tese de uma determinação estrita do pensamento filosófico pelas técnicas de comunicação. com suas divisões e enumerações. projetada sobre uma tabela. a favor de um novo gênero de apresentação do saber: o método de exposição analítica. morto. o olhar que lançamos sobre ela mudou. Mas nem Descartes nem Leibniz podem ser deduzidos da prensa mecânica inventada por Gutenberg. índice. Mais uma vez. Colocou à disposição do erudito traduções e dicionários. a esta possibilidade de orientar-se em tabelas e índices que nos esquecemos de sua singularidade.: 59 . mas também o saber sobre estes objetos. e não como palavra original que uma cadeia viva terra transmitido até nós. no século XVI. uma árvore ou uma rede. O TEMPO DA IMPRESSÃO: O PROGRESSO Os textos antigos começaram a ser impressos a partir do fim do século XV. sumário. As tecnologias intelectuais são apenas condições de possibilidade. O matemático e filósofo francês Pierre de la Ramée (Ramus) pleiteou. não pode ser separada dos meios fornecidos pela impressão. Estamos hoje tão habituados a este tipo de organização do saber. A vontade de reencontrar o passado em sua pureza. e para evitar qualquer mal-entendido. Nos novos manuais preconizados por Pierre de la Ramée. justamente. O plano geral e a coerência dos grandes monumentos jurídicos. dispositivos suscetíveis de serem interpretados. _________ Pág.um desvio do passado do que uma criação sobre tábula rasa. A crítica histórica e filológica começou. mas agora é como passado terminado. talvez irreversivelmente. cabeçalhos aparentes. Colocou ele mesmo em prática suas idéias quando redigiu suas obras sobre matemática. teórico da catalogação e criador de uma escrita lógica: a característica universal) jamais teriam sido aquilo que foram sem a impressão. novas possibilidades de recombinação e de associações em uma rede de textos incomparavelmente mais extensa e disponível do que no tempo dos manuscritos. diretor da biblioteca de Hanover. filosóficos e científicos da Antigüidade reapareceram. Ora. cortada em frações e depois distribuída pelo livro em função de um plano geral. inclusive sobre os textos sagrados. a impressão oferece. desviados ou negligenciados. sem anacronismo. Pára tal. o "sentido histórico ". dividida de acordo com um plano coerente. esquemas e diagramas. Podemos ver o que ele deve ao método de exposição analítica de Ramus e à imprensa. A filosofia cartesiana ainda depende da impressão de uma outra maneira.

Não se trata de identificar a prensa mecânica com a "ciência" ou o "progresso": no século XVI.H. New York. foram impressos tratados de ocultismo e libelos incitando as pessoas a guerras religiosas. 1982. mais que nunca em usa nos dias atuais em artigos científicos e na prática cotidiana dos laboratórios. Algumas vezes há toda uma rede internacional de correspondentes e de críticos colaborando em edições sucessivas de certo texto religioso ou de uma obra de geografia. No lugar de cópias raras cada vez mais corrompidas. Mc-graw Hill. de tabelas. de esquemas. de dicionários encontra-se a partir de então no centra da atividade cientifica. Passamos da discussão verbal. aliviando assim o peso do presente. 1985. acompanhados por figuras claras. Kepler e Tycho Brahe puderam servir-se de compêndios de observações antigos ou modernas que eram exatos e estavam disponíveis. Cognitive Psychology and its Implications (2ª edição). como sublinha Elisabeth Eisenstein. que fria levar à explosão do saber. W. sem mapas celestes uniformes e detalhados. a astronomia e a cosmologia sem dúvida jamais teriam passado pela revolução que. Por toda a Europa disseminavam-se pranchas anatômicas ou botânicas de boa qualidade. nós já vimos. após duas ou três gerações de cópias. é engatilhado. e a impressão permitia fixar corretamente e difundir em grande escala as novas observações astronômicas. o futuro parece prometer mais luz do que o passado. ainda assim. mapas geográficos cada vez mais confiáveis e tratados de geometria sem erras. Os editores de obras de geografia. a imagem obtida não se parecesse nem um pouco coma do original. Ao mesmo tempo. A arte do desenhista pode ser colocada a serviço de um conhecimento rigoroso das formas. os erros sobrepostos uns aos outros. de gráficos. fez a cultura européia passar "do mundo fechado ao universo infinito". era no mínimo arriscado transmitir graficamente a estrutura de uma flor. podemos sustentar que a invenção de Gutenberg permitiu que um novo estilo cognitivo se instaurasse. Um processo cumulativo. Cunéiformes et hiéroglyohes (catálogo da exposição no Grand Palais). Your memory: a User’s guide. A CIÉNCIA MODERNA E A IMPRESSÃO Boa parte das descobertas astronômicas da Renascença foram feitas sem telescópio. Paris.. segundo a expressar de Alexandre Koyre. à demonstração visual. ANDRÉ-LEICKNAM Béatrice. A impressão transforma esta situação. foi possível dar mais atenção ás descobertas recentes. sido um desenhista excepcional. o toma do progresso adquiriu uma nova importância. A inspeção silenciosa de mapas.: 60 . Freeman and Company. sem a possibilidade de comparar com certeza séries de números. a impressão transformou de maneira radical o dispositivo de comunicação no grupo dos letrados. assim como de tabelas numéricas precisas. Sem o ambiente cognitivo fornecido pela impressão. Toronto. 1982. Mas sobretudo. Éditions de la Reunion des musées nationaux. Efetivamente. O corpus do passado encontra-se definitivamente preservado. era pouco provável que o próximo copista também o fosse.Com a impressão. ZIEGLER Christiane (sob a direção de) Naissance de l’écriture. reflui rumo a sua antigüidade. com nomenclaturas unificadas. para não falar daquilo que se publica hoje! Mas. BIBLIOGRAFIA ANDERSON John R. passou-se a dispor de edições periodicamente melhoradas. geográficas ou botânicas. O passado. O mais comum era que. de historia natural ou de medicina convocavam os maiores talentos. _________ Pág. graças a estes novos instrumentos de visualização. diminuindo a carga da memória. Na época do manuscrito. Mesmo supondo que o autor tivesse. a curva de uma costa ou qualquer elemento da anatomia humana. BADDELY Alan. os computadores. tão característica dos hábitos intelectuais da Idade Média. Graças à impressão.

EISENSTEIN Elisabeth. 1983). Paris. Paris. Paris. 1981. Random House. 1958. Connecticut/Londres. GOODY Jack. 20. HAVELOCK Eric A. Londres/New York.Daniel. 1983. FEYERABEND Paul. HAVELOCK Eric A. Face à l'ére électronique. ILLICH Ivan. Massachusetts. 1986. _________ Pág. Les Découvreurs. L’écriturie. 1979. 1976).. vol. Paris. Aux origines de la civilisation écrite en Occident. Paris. The Muse Learns to Write: Reflections ou Orality and Litteracy from Antiquity to the Present. (Contém uma importante bibliografia sobre a relação entre a oralidade. 1987). Londres. 1988. Sociologie de la logique ou les Limites de l’éspistémologie.. Minuit. Harvard University Press. La Découverte. Massachusetts. 1984. La Raison graphique: la domestication de la pensée sauvage. Paris.. 1967.H. "Anthropology and Psychology: towards an Epidemiology of Representations".M. 1990.) JOHNSON-LAIRD Philip N. Paris. Paris. Éditions H. BOORSTIN. La Logique de l'écriture: aux origines des sociétés hurmaines. Gallimard. Verso. LAFONT Robert (sob a direção de). New York. l et 2. 1989 (edição original: Farewell ro Reason.: 61 . Phrasikleia.. CCI do Ccntre Georges-Pompidou.). Cambridge. Paris. Deghers. Mespotamie. 1986. An Introduction. Harvard University Press. Albin Michel. Routledge and Kegan Paul. Editions Pandore. 1982 (1ª edição inglesa: Knowledge and Social Imagery. Man (N. ABC. Le Geste et la Parole. ONG Walter. l'alphabétisntion de l'esprit populaire. Massachusetts. Orality and Litteracy: the Technologising of the Word. Cambridge. 1987. SANDERS Barry. Le Seuil. STILLINGS Neil et al. Armand Colin. Antropologie de l'écriture. 1964. The Discoverers. The printing Revolution in Early Modern Europe. Paris. BOTTERO Jean. GOODY Jack. a escritura e a cultura. Mental Models. Londres. Paris. ONG Walter. 1982. La Galaxie Gutenberg. New Haven. Yale University Press. Cognitive Science. La Découverte. Montréal. 1986 (1ª edição americana. MCLUHAN Marshall. Adieu la raison. SVENBRO Jesper. 1987. Cambridge/Londres/New York 1983. Methuen. SPERBER Dan. Maspero.BLOOR David. Cambridge. Ltée. Method and the Decay of the Dialogue. 73-89. S. Cambridge University Press. MIT Press. la raison et les dieux. Anthropologie de la lecture en ancienne. LEROI-GOURHAN André.

: 62 . relaciona-se com o último envoltório técnico.9. recobrem e interfaceiam umas com as outras. é heterogênea em relação à rede de interfaces que recobre. programava-se os computadores transmitindo à máquina instruções em código binário através de cartões e fitas perfuradas. ou de outras ciências: matemática. em um certo nível de funcionamento de seus circuitos. a tal ponto que o monitor e o teclado passaram a simbolizar a própria máquina. cobertos por uma nova pele de programas e dispositivos de leitura. tomou-se impensável usar um computador sem tela. invariante e impossível de encontrar. a camada de programa mais exterior. a invenção do computador pessoal veio de fora. longe de serem os exemplares materiais de uma imutável idéia platônica. Um computador concreto é constituído por. uma infinidade de dispositivos materiais e de camadas de programas que se. Com o surgimento das linguagens assembler e sobretudo de linguagens evoluídas como o Fortran.. Partiremos antes das redes e de sua evolução. por sua vez. refluiu para o núcleo de sombra do computador para deixara tarefa das trocas com o mundo exterior a cargo de uma nova camada de programa. foram durante muito tempo consideradas como "periféricos": os primeiros microcomputadores eram vendidos sem os tubos catódicos aos quais estamos habituados hoje. Desde então. Em que um programa de hipertexto ou de desenho é "binário" ? A atividade de programação não é invariante melhor que a pretensa binariedade. Mas. a maioria dos usuários de computadores pessoais nunca escreveu uma linha de código. não apenas se fez independentemente dos grandes fabricantes da área. A REDE DIGITAL O primeiro computador. lógica. Cada casca sucessiva vem do exterior. a última conexão possível. neurobiologia. que podem transformar radicalmente seu significado e uso. em um painel inspirado nos padrões telefônicos. só podia ser pelo prazer de programar. foi esta inovação imprevisível que transformou a informática em um meto de massa para a criação. em 1990. e para programá-lo era precisa conectar diretamente os circuitos. Nos anos cinqüenta. pesava várias toneladas. Binária. o Eniac dos anos 40. comunicação e simulação. Está destinada ao fracasso toda e qualquer análise da informatização que esteja fundada sobre uma pretensa essência dos computadores. cujo usa só generalizou-se no fim dos anos setenta. Ocupava um andar inteiro em um grande prédio. mas acaba por tornar-se porte integrante da máquina. Como tantas outras. mas recolheram-se no interior da máquina. o código binário. mas faz tempo que a maioria dos usuários não mais tem qualquer relação com esta interface. As telas. Não há identidade estável na informática porque os computadores. mas contra eles. a informática? Sem dúvida. O aspeto da informática mais determinante para a evolução cultural e as atividades cognitivas é sempre o mais recente. telecomunicações. imprevisíveis. são redes de interfaces abertas a novas conexões. Os cabos ainda existiam. ou sobre qualquer núcleo central. Aquilo que ontem fora interface torna-se órgão interno. Claro. de significação social ou cognitiva. psicologia cognitiva. por intermédio de cabos. laser. quando se compravam Altairs ou Apples 1 no meto dos anos setenta. _________ Pág. Eis por que nossa análise da informatização não estará fundada sobre uma definição da informática.. Ora. Grande número de inovações importantes no domínio da informática provêm de outras técnicas: eletrônica.

todos os revestimentos. a gravação musicai. maleável. Eis por que a noção de interface pode ser estendida ao domínio da comunicação como um todo e deve ser pensada hoje em toda sua generalidade. através de imagens e sons sintetizados. inquebrável. as funções de armazenamento (bancos de dados. capaz de mudar o estado de um circuito.: 63 .A principal tendência neste domínio é a digitalização. Ora. Uma vez digitalizado. podemos localizar quatro pólos funcionais (cf. de dispositivos de acesso tendem a libertar-se de suas aderências singulares aos antigos substratos. Os imensos bancos de imagens reunidos pelas companhias de produção cinematográfica e televisivas serão indexados e acessíveis a partir de qualquer terminal da mesma forma que os bancos de dados de hoje. a edição. etc. a televisão. mas uma matéria pronta a suportar todas as metamorfoses. O digital é uma matéria. coladas. as telecomunicações e a informática. Estas massas de imagens óticas ou simuladas poderão ser filtradas. a digitalização conecta no centro de um mesmo tecido eletrônico o cinema. É possível (será possível em breve) trabalhar com a imagem e o som. — a transmissão ia rede digital de serviços integrados e as mídias densas como os discos óticos). Discos óticos ou programas disponíveis na rede poderão funcionar como verdadeiros kits de simulação. ). de programas ou de representações audiovisuais (todas as técnicas digitais de ajuda à criação. a imagem animada. a radiotelevisão. Mais que nunca. icônicos ou sonoros tinham cada qual suas próprias particularidades. catálogos de mundos que poderão ser explorados empiricamente. Ou melhor.Estas quatro grandes funções são: — a produção ou composição de dados. etc. Compomos com bits as imagens. _________ Pág. comentada. indexada. No centro da rede digital em formação. a imagem e o som podem tornar-se os pontos de apoio de novas tecnologias intelectuais. o cinema. dos sons ou das imagens (os terminais de recepção "inteligentes"). esquema) que substituirão em breve as antigas distinções fundadas sobre os suportes (tais como a imprensa. As diferentes categorias profissionais envolvidas enfrentavam os problemas de apresentação e contextualização de acordo com tradições próprias. a edição. A codificação digital já é um princípio de interface. — a seleção. textos. É como se o fluido numérico fosse composto por uma infinidade de pequenas membranas vibrantes. O próprio átomo de interface já deve ter duas faces. recepção e tratamento dos dados. a música. Em breve estarão reunidas todas as condições técnicas para que o audiovisual atinja o grau de plasticidade que fez da escrita a principal tecnologia intelectual. agenciamentos nos quais imbricamos nosso pensamento ou nossos sentidos. o telefone. tão facilmente quanto trabalhamos hoje com a escrita. bancos de imagens. O suporte da informação torna-se infinitamente leve. sem uma aprendizagem excessivamente complexa. pode ser decomposta. por exemplo. o rádio. móvel. todas as de formações. ). — finalmente. Todos estes pólos funcionam como complexas de interfaces. sons. Ao progredir. se quisermos. associada no interior de hiperdocumentos multimídias. a codificação digital relega a um segundo plano o tema do material. Os tratamentos físicos dos dados textuais. de passar do sim ao não de acorda com as circunstâncias. de apresentação. ordenada. com a especificidade de seus suportes materiais. que atinge todas as técnicas de comunicação e de processamento de informações. sem necessidade de materiais de custo proibitivo. reempregadas. desviadas para todos os usos heterodoxos ou sistemáticos imagináveis. os problemas de composição. de organização. recomposta. cada bit sendo uma interface. o jomalismo.

DO LADO DA CRIAÇÃO: SONS, IMAGENS, TEXTOS, PROGRAMAS Do lado da criação, podemos distinguir as técnicas relacionadas ao som, à imagem, aos programas e aos textos. O SOM A prática musical foi profundamente transformada pelo trio: seqüenciador, sampler, sintetizador. O sampler permite gravar qualquer timbre e reproduzi-lo em todas as alturas e em todos os ritmos desejados. Assim, o som característico de um instrumento ou de um cantor pode ser usado para tocar um trecho que o instrumentista ou cantor nunca interpretou “realmente”, o que coloca problemas delicados de direitos autorais. Estamos na fronteira da gravação, do processamento e da síntese de som. O seqüenciador é uma espécie de processador de texto musical. Permite ao músico manipular e gravar uma série de códigos digitais que poderão controlar a execução de várias seqüências sonoras sincronizadas em um ou mais sintetizadores. Isto só tornou-se possível em escala de massa graças à interface MIDI, que significa Musical Instrument Digital Interface, norma internacional que permite a qualquer computador controlar uma seqüência sonora em qualquer sintetizador. É o mesmo princípio da pianola. O trabalho do músico no seqüenciador pode ser comparado ao da pessoa furando o rolo que comandará o piano. Ao substituir o piano por sintetizadores com diversas vozes, e o exercício penoso de perfurar o papel pelo uso da interface amigável de um microcomputador e de programas de ajuda à composição, temos uma boa idéia do trabalho que realizam os compositores modernos através dos seqüenciadores. Uma vez seqüenciado, um trecho não precisa mais ser tocado por um intérprete humano, ele é executado diretamente por instrumentos digitais ou sintetizadores. O sintetizador permite o controle total do som, bem diverso daquele que permitiam os instrumentos materiais. Pode-se, por exemplo, passar de forma contínua do som de uma harpa para o de um tambor. É possível programar independentemente timbre, altura, intensidade e duração dos sons, já que estamos lidando com códigos digitais, e não mais com vibrações de um ou mais instrumentos materiais. A conexão do seqüenciador, do sintetizador e do sampler no novo estúdio digital permite reunir em uma só todas as funções musicais: composição, execução e processamento em estúdio multicanal. A Circulação das Interfaces no Começo do Terceiro Milênio. (segue gráfico). É certa que nos falta recuo para avaliar de forma plena todas as conseqüências desta mutação tecnológica sobre as profissões e sobre a economia da música, sobre as práticas musicais e sobre a aparição de novos gêneros. A maior parte dos observadores, entretanto, está de. acorda quanto a ver, no surgimento dos instrumentos digitais que acabamos de descrever, uma ruptura comparável à da invenção da notação ou ao surgimento do disco. A IMAGEM O domínio da imagem também tem passado por Lima evolução espetacular, e em alguns pontos paralela à do som. Ao sampler, por exemplo, corresponderia à digitalização da imagem. Uma vez digitalizada, a foto ou desenho podem ser reprocessada e desviada à vontade, os parâmetros de cor, tamanho, forma, textura, etc. podendo ser. 'modulados e reempregados separadamente. A rato e o vídeo digital de alta resolução tomarão obsoleta, a médio prazo, a fase de digitalização propriamente dita, já que a imagem já estará disponível em formato digital. Antes mesmo desta digitalização integral, o endereçamento digital das imagens permite, hoje, novos
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processas de montagem e sincronização, para a realização de filmes, que se parecem muito com o processamento de textos. O controle independente das variáveis que definem a mensagem icônica é praticado através da síntese de imagem, exatamente como a síntese sonora e pelos mesmos motivos: a separação do suporte físico. Os programas de inteligência artificial que lidam com a estruturação e animação das imagens por objetos poderiam igualmente ser aproximados do principia do seqüenciador. Uma vez definido um roteiro e atores, ou talvez deixando que interagissem apenas objetos-programas, a seqüência animada poderia ser gerada automaticamente. A infografia, que reúne todas as técnicas de tratamento e de criação de imagens, representa certamente algo a mais que uma automatização da pintura ou do desenho. Como a luneta astronômica, o microscópio ou os raios X, a interface digital alarga o campo do visível. Ela permite ver modelos abstratos de fenômenos físicos ou outros, visualizar dados numéricos que, sem isso, permaneceriam soterrados em toneladas de listagens. A imagem digital também é o complemento indispensável da simulação, e sabemos o papel que esta última tem hoje na pesquisa científica. Em alguns decênios, todos os terminais terão interfaces gráficas avançadas. Neste momento mesmo, está nascendo sob nossos olhos uma nova ideografia; algo como uma escrita dinâmica à base de ícones, de esquemas e de redes semânticas. Estamos na fronteira, cada vez mais tênue, entre o domínio da imagem e o da informática, esperando a livre associação das interfaces. O PROGRAMA. Se a informática é o ponto central do mundo contemporâneo das interfaces, ela não deixa de se interfacear seguindo um anel de retroação positiva. Linguagens cada vez mais acessíveis à compreensão humana imediata, gerações de programas, geradores de sistemas especialistas, todos eles tornam a tarefa do informata cada vez mais lógica, sintética e conceitual, em detrimento de um conhecimento das entranhas de determinada máquina ou das esquisitices de certo programa. As tarefas de codificação propriamente dita, o contato com o grão e a textura da "matéria informática" naquilo que ela tem de contingente, afastam-se pouco a pouco, exatamente como nas outras atividades relacionadas à composição. A programação declarativa, o acesso associativo (através do conteúdo e não do endereço físico) aos dados armazenados na memória, linguagens fundadas na lógica ou usando modos até hoje inéditos de representação dos conhecimentos, todas estas novidades introduzidas pela inteligência artificial contêm, em potencial, uma modificação da informática sem dúvida ainda mais radical que a passagem da linguagem de máquina para ó Fortran. Repetindo, é como se os informatas revestissem incansavelmente os computadores de novas interfaces com seu meto ambiente físico e humano: sistemas inteligentes de gerenciamento de bancos de dados, módulos de compreensão de linguagem natural, dispositivos de reconhecimento de formas ou sistemas especialistas de autodiagnóstico... e interfaces de interfaces: telas, e sobre as telas, ícones, botões, menus, dispositivos aptos a conectarem-se cada vez melhor aos módulos cognitivos e sensoriais dos usuários a captar. INVENTAR O HIPERTEXTO E A MULTIMÍDIA INTERATIVA É preciso pensar as mutações do som e da imagem em conjunto com as do hipertexto e da inteligência artificial. Conexões e reinterpretações serão produzidas ao longo de zonas de contato móveis pelos agenciamentos e bricolagens de novos dispositivos que uma multiplicidade de atores realizarão.
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A nova escrita hipertextual ou multimídia certamente estará mais próxima da montagem de um espetáculo do que da redação clássica, na qual o autor apenas se preocupava com a coerência de um texto linear e estático. Ela irá exigir equipes de autores, um verdadeira trabalho coletivo. Pensemos, por exemplo, em todas as competências necessárias para a realização de uma enciclopédia interativa em CD-ROM, desde a expertise nos diferentes domínios que a enciclopédia abrange até os conhecimentos especializados na informática, passando por esta arte nova da "diagramação de tela" interativa. Inventar novas estruturas discursivas, descobrir as retóricas ainda desconhecidas do esquema dinâmico, do texto de geometria variável e da imagem animada, conceber ideografias nas quais as cores, o som e o movimento irão se associar para significar, estas são as tarefas que esperam os autores e editores do próximo século. Os grandes impressores do século XVI eram ao mesmo tempo letrados, humanistas, técnicos, e exploradores de um novo medo de organização do saber e das trocas intelectuais. Devemos imaginar que, 'em relação ás novas tecnologias da inteligência, estamos diante de uma época comparável à Renascença. O ESTOQUE E SUA CIRCULAÇÃO Os processas de composição ou de criação trabalham a partir de estoques: bancos de dados, bancos de "conhecimentos" estruturados para a propagação de inferências, bancos de imagens e efeitos visuais, bancos de efeitos sonoros, bancos de programas... E o estoque é acrescido constantemente por tudo aquilo que os dispositivos de composição produzem: bancos de filmes, bancos de textos e de hipertextos. A massa de dados digitais disponíveis se infla o tempo toda. E quanto mais ela cresce, mais é procrio estruturá-la, cartografá-la, criar uma matriz com estradas expressas e avenidas lógicas; mais as interfaces para a caça eficaz e o garimpo furiosa devem ser aperfeiçoadas. O hipertexto ou o sistema à base de conhecimentos pertencem à reserva, mas são também modos de acesso ao estoque, são tipos de interfaces. Os futuros bancos de conhecimentos em grande escala serão capazes de elaborar as informações que lhes serão confiadas, ou seja, serão capazes de fazer automaticamente algumas conexões pertinentes entre as representações, mais ou menos como se compreendessem seu sentido. Poderão responder ás perguntas baseando-se em um modelo personalizado do cliente, levando em conta ainda a modalidade da pergunta: o usuário quer fatos brutos, quer ser guiado em uma exploração sem idéias preconcebidas, deseja que lhe sejam sugeridas conexões pertinentes... ? Será muito provavelmente graças a técnicas de inteligência artificial que será possível traçar nos hiperbancos de dados estas estradas e caminhos de travessia com ás quais sonhava Vannevar Bush: Podemos imaginar um sistema especialista de pergunta, ativado por uma pessoa em busca de informações, que negociaria sucessivamente com as interfaces inteligentes de diversos bancos de conhecimentos e acabaria trazendo a seu proprietário o resultado destas pesquisas, apresentado de maneira legível e coerente, talvez mesmo com imagens. Fisicamente, estes exércitos de interfaces em permanente reorganização irão circular ao longa de duas vias principais: as mídias de armazenamento densas e a rede digital de serviços integrados (RDSI). As mídias de armazenamento densas são os compact discs digitais( CD-ROM) ou as fitas magnéticas digitais ultracompactas. A capacidade de um CD-ROM (500 megabytes) equivale a 600 disquetes de 800 Kb ou a 25 0. 000 páginas de texto ou 500 livras de 500 páginas. Esta capacidade custa 1/50 do preço do papel, e ocupa um volume infinitamente menor. O acossa direto aos dados através do computador permite todas as consultas e redistribuições imagináveis, em particular a
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de agenciamentos de representações que poderiam circular mete. Podemos aqui imaginar facilmente o desenvolvimento de microinterfaces relacionadas aos principais sentidos e módulos cognitivos humanos: reconhecimento parcial da fala. copiá-los para um texto em francês. nem sobre os gêneros de interação que deveriam. transferir um grande volume de dados informáticos. Por exemplo. A circulação mas redes que precederam a RDSI era restringida pela natureza dos suportes físicos e suas limitações quantitativas. foi gravado em CD-ROM. telas tácteis. A vertente da interatividade. como na enumeração acima. O pesquisador pode perguntar e obterem segundos as ocorrências de um vocábulo na obra de determinado autor. corpus jurídicos e históricos são editados em CD-ROM. comandas da voz ou gestos da mão. em primeiro lugar. Desde 1989. separá-los em um disquete. mas ela funciona apenas em algumas áreas experimentais no mundo. lê-los. um kit de simulação ou um terreno de jogas. de formas culturais. uma telemática "som e luz". uma combinação dos princípios da secretária eletrônica (mas com discriminação dos correspondentes ) e do correio eletrônico (mas com a voz no lugar do texto ).integração com dispositivos interativos.o velho suporte de celulose estará seriamente ameaçado. das origens ao século VII depois de Cristo. a interface lógica pode fazer dele um verdadeira ambiente de trabalho dinâmico. um telefone mais rico. Talvez fosse do lodo das interfaces que o esforça de imaginação devesse concentrar-se inicialmente. Sua parte técnica já foi desenvolvida. etc. um fluxo baixo. OS TERMINAIS INTELIGENTES Haverá duas vertentes de utilização do terminal inteligente. mesas digitalizadoras para desenho ou escrita à mão. conectado a memórias densas fisicamente presentes ou ao estoque disponível na rede. com as quais se articulam numerosos outros efeitos de interface. caracterizada por uma capacidade bem superior. usará a libra ótica. cogitava-se a possibilidade de conectar todos os lares com cinco canais bidirecionais de banda larga. na metade do tamanho de uma fito cassete. transmitir por fax imagens coloridas com alta grau de precisão. Uma conexão portátil permitiria ao assinante receber as mensagens a ele destinadas em qualquer lugar do planeta em que o RDSI possuísse ramificações. acompanhar estas formas. Quais papéis serão devolvidos ás pessoas ou grupos usando a rede? Nós nos contentamos. O disco ótico não se contenta em estocar a informação passivamente. dicionários. desde 1990. Atlas geográficos. estamos frente a um canal tão larga que não se tem ainda idéia do tipo de obras. receber certas cadeias de televisão de alta resolução. O assinante da RDSI poderia. etc. será precisa acrescentar a quantidade e a densidade. Estão também à venda compact discs contende milhares de programas para computadores pessoais. em projetar uma televisão perfeita. A rede do futuro. problema da interface. A RDSI (rede digital de serviços integrados. comandas através do movimento dos olhos. a sociedade Dow Jones oferece discos. Na América do Norte. contende todas as informações financeiras sobre as empresas.: 67 . outras tantas cadeias de rádio de alta fidelidade. Hoje. revisados a cada mês. por enquanto. Quando a consulta ás mídias densas forem tão agradáveis quanto a das revistas a cores sobre papel brilhoso (o que ainda não é o caso). então. Todas estas interfaces estão ou disponíveis ou em _________ Pág. síntese vocal. chamada de RNIS ou rede Numéris na França ) atualmente em serviço tem. toda o corpus da literatura grega. Enciclopédias. Em nossa lista das dimensões pertinentes ao. As futuras fitas magnéticas digitais hiperdensas terão a capacidade de quatro CD-ROMS. O assinante poderia ainda usar os serviços de uma central de recados inteligente. estabelecer a lista de trechos ando a palavra aparece. usar um videofone que transmitiria perfeitamente a voz e o rosto do usuário. imprimi-los. Ai pesquisas sobre a estruturação e as interfaces dos CD-ROMS prosseguem ativamente.

imagens animadas. basta dotar os sistemas especialistas de capacidades de comunicação nas redes e de leitura/escrita nos hipertextos. da TV a cabo e das redes de computadores podem nos ajudar. e das possibilidades que esta abre aos programas de inteligência artificial. O problema. do joga. sons. e audiovisuais suscetíveis de nos interessarem. Os usos contemporâneos do videocassete. sobretudo. Seria o pólo do diálogo. diferentes para cada um de acordo com seus interesses e suas escolhas. tanto quanto possível. Não esta. A seleção. o uso seletivo dos terminais inteligentes viria apoiar todas as funções de composição de textos. sem esquecer certos tipos de composição informática. Estes futuros agentes talvez até possam. O terminal de informática ou a televisão dos anos oitenta lembram. tão naturalmente como hoje nós retiramos eletricidade da rede elétrica. seria possível ensinar um "módulo pessoal" do terminal a procurar. a portabilidade do rádio transistorizado ou do walkman poderiam abrir todo um novo campo de utilizações e apropriações para eles. talvez assim vejamos entidades lógicas ajudarem-se umas ás outras. Poderei consultar meu hipertexto em minha cama. Obteríamos algo como jornais audiovisuais inteiramente personalizados. Da mesma forma que a interatividade. hierarquizar. programas. de dessincronização das escutas. configurações de interfaces. hipertextual ou audiovisual. organizar. poderiam lançar mão da potência de cálculo na rede digital. Para isso. por exemplo. Estes múltiplos modos de interação viriam animar e alimentar dispositivos funcionais caracterizados pela ação mutua e simultânea de usuários e sistemas. como outras utilizações. e de personalização das interfaces informáticas teriam. Grandes telas planas serão penduradas em paredes. Como já vimos quando falamos do papel dos sistemas especialistas nos hipertextos. Estas operações de composição. nos mais falando simplesmente em programar a gravação de seqüências audiovisuais para poder assisti-las oportunamente. assim. todos os tipos de documentos textuais. na rede. por oposição à interação.: 68 . constituiria a segunda vertente de utilização do terminal inteligente. se interrogados por outros agentes ou diretamente por humanos. Cortas tendências atuais de segmentação do público. que um mínimo de padronização ou de compatibilidade entre os sistemas e os materiais tenha sido negociado entre os Estados e as grandes _________ Pág. a imaginar dispositivos de seleção avançados. responder a questões sobre a expertise específica daqueles que eles representam. aqui. já está previsto que "programas agentes" instruídos por seus proprietários filtrarão e classificarão a correspondência de acorda com a prioridade. acorrentados por seu cabo de força. hipertextos. o envie regulamentar de mensagens ou de cópias de relatórios a certos correspondentes. depois. da plasticidade inerente à digitalização. em muitos aspectos. ou fazer anotações em um documento com minha caneta ótica no metrô graças a um pequeno terminal ultraleve. A imagem aqui esboçada faz referência apenas a performances técnicas já realizadas ou em vias de estudo avançado. os livros do século XII: são pesados. agendarão encontros e buscarão informações na rede que sejam suscetíveis de interessar a seu mestre. enormes. A mobilidade c a leveza do livro de bolso. Na próxima geração de groupware. ou em obter dados precisos a partir de questões devidamente formuladas. ou dar conselhos sem "saber" se estão se dirigindo a homens ou programas. é o de aproveitar a quantidade em vez de afogar-se nela. sido levadas ás últimas conseqüências. O quadro não estaria completo se não abordássemos a perspectiva que se esboça no início dos anos noventa nas pesquisas sobre telas planas e ultraleves. iniciando um processo social autônomo no seio de uma ecologia cognitiva composta. Esta recuperação tiraria proveito. Ela supõe. Um grande número de tarefas administrativas poderá ser automatizado. etc. por extrapolação. compactar e formatar os documentos em questão de acorda com as modalidades de interface que mais nos conviessem.fase de estudos. da exploração e do garimpo. que uma conexão do RDSI ligada em local próximo irá alimentar através de microondas. como. sem fio.

Le Seuil. Systèmes experts. Inventing the Future at MIT..: 69 . Paris. ainda que isto custe numerosas camadas de programas de tradução e de interfaces. em proveito da circulação. vers la maitrise technique. Préhistoir et histoire des ordinateurs. 1986. informática e telecomunicações veriam suas fronteiras se dissolverem quase que totalmente. The cognitive computer. BRANDT Stewart.. _________ Pág. O processo de unificação do campo da "comunicação" já é bem antigo. The Computer from Pascal to von Neumann. Princeton University Press. Paris. "L'invention de l'ordinateur" in Élements d'histoire des sciences. 1987. 1987. Bordas. Robert Laffont. création. cognition et culture informatique. 1987. Paris. Viking Peguin Inc. MARCHAND Marie. La Machine Univers. Paris. Histoire de l’informatique. LÉVY Pierre et WEISBERG Jean-Louis. La Découverte. 1972. 1988. TRUNOG NGOC J. os compromissos internacionais já assinados sobre as normas do RDSI e o acordo geral conseguido em torno da interface MIDI (o padrão musical que definimos anteriormente) mostram que uma compatibilidade universal não é totalmente inalcançável. Paris. BRETTON Phillipe. LÉVY Pierre. BIBLIOGRAFIA BONNET A. GANASCIA Jean-Gabriel.multinacionais da eletrônica. 1984. New Jersey. La Recherche en intelligence artificielle (artigos reunidos por Pierre VANDEGINSTE). televisão. LIGONNIÉRE Robert.. Começou recentemente no plano das habilidades e das profissões durante o desenvolvimento da telemática. cinema. LÉVY Pierre. .-P. Addison-Wesley Reading. Paris. DURAND Jean-Pierre. Paris. 1987. sob a direção de Michel SERRES.. na ordem econômica e financeira. La Découverte. da mestiçagem e da metamorfose das interfaces em um mesmo território cosmopolita. Belin. imprensa escrita. Guide de l’informatisation. SCHANK Roger. 1989. Paris. Larousse. Paris. 1987. 1987. New York. Les enjeux de l'intelligence artificielle. HATON J. Ainda que estejamos hoje muito distantes do ideal com relação a isso. Le Seuil. Massachusetts. InterÉditions. L'Ame machine. Com a constituição da rede digital e o desdobramento de seus usos tal como imaginamos aqui. Princeton. Informatique et société. La Grande Aventure du minitel. GOLDSTINE Hermann. 1990.-M.

a informação dita "on line" (isto é. espelhos o mais fiéis possível do estado atual de uma especialidade ou de um mercado. Não se trata tanto de difundir as luzes junto a um público indeterminado. Seria vão procurarmos nele sínteses ou idéias. mas sim de colocar uma informação operacional à disposição dos especialistas. mas sim o conjunto do saber utilizável por um cliente com crédito. da invenção sociotécnica do tempo delimitado e do estoque. Quase dois terços dos dados atualmente armazenados no mundo representam informações econômicas. fluxo tencionado. As possibilidades materiais de armazenamento nunca foram tão grandes. Neste sentido. prazo zero. Os sistemas especialistas não são basicamente feitos para conservar o saber do especialista. graças. Ao contrário da escrita. Sabemos. ao trabalho de acumulação e de conservação realizado pela escrita. A noção de tempo real. O conteúdo do banco de dados é usado. aos bancos de dados. Estes não têm vocação para conter todos os conhecimentos verdadeiros sobre um assunto. aos estilos hermenêuticos e teóricos. mas não é a preocupação com o estoque ou a conservação que impulsiona a informatização. quarto a isto. diretamente acessível) encontra-se geralmente dividida em pequenos módulos padronizados. a informática não reduplica a inscrição sobre o território. Este apenas existe no sistema em seu estado mais recente. o espírito da informática: a condensação no presente. Isto seria desconhecer as principais finalidades da maior parte dos bancos de dados. Dizendo de outra forma. Ocorre que esta informação operacional é essencialmente perecível.10. o mais rápido possível. mas não é lido no sentido próprio da palavra. resume bem a característica principal. na operação em andamento. dos jorna is acessíveis através do Minitel se parece mais corri matas de agências do que com análises profundas de uma situação. sobre um plano cognitivo. Além disso. a não ser em casas especiais. Por analogia com o tempo circular da oralidade primária e o tempo linear _________ Pág. por exemplo. ela serve à mobilização permanente dos homens e das coisas que talvez tenha começado com a revolução industrial. como em uma leitura. ao contrário. O conhecimento de tipo operacional fornecido pela informática está em tempo real. mas sim para evoluir incessantemente a partir do núcleo de conhecimento que este trouxe. já que em princípio toma-se conhecimento apenas daquilo que é procurado. comerciais ou financeiras com características estratégicas. estoque zero. os estados anteriores do conhecimento não são armazenados. A escrita era o eco. faz parte do trabalho de reabsorção de um espaço-tempo social viscoso. À primeira vista poderíamos crer que a informática dá continuidade. capazes de tirar conclusões pertinentes das informações de que dispõem. a maior parte dos bancos de dados são antes espelhos do que memórias. Pelo contrário. transitória. que o texto. O conteúdo atual dos bancos de dados provavelmente nunca será relido ou reinterpretado como o foram os textos dos séculos passados.: 70 . Ele estaria oposto. O TEMPO REAL Qual seria o tipo de tempo secretado pela informatização? A maneira antiga de inscrever os signos era conveniente para o cidadão ou camponês. flexibilidade. de forte inércia. inventada pelos informatas. por exemplo. A informática. as linguagens declarativas permitem que o sistema seja enriquecido ou modificado sem que seja necessário começar tudo de novo. para tomar a melhor decisão. Estes desejam obter a informação mais confiável. O acesso a eles é feito de forma totalmente seletiva e não continua. em proveito de uma reorganização permanente e em tempo real dos agenciamentos sociotécnicos:. O computador e as telecomunicações correspondem ao nomadismo das megalópoles e das redes internacionais. Consideremos o caso dos sistemas especialistas. que podem ser considerados como bancos de dados muito avançados. Não se fabrica um novo programa a cada vez que uma nova regra é atualizada.

A superfície deslizante das telas não retém nada. Em breve. que já estarão esquecidas no dia seguinte. à da sociedade do espetáculo.das sociedades históricas. A perspectiva histórica. a informática assimilaria ao mesmo tempo o ser c a historia na aceleração pura? Esta tendência se juntaria. da instituição escolar e universitária aos grupos de discussão que se reúnem sempre ao redor de associações ou de revistas. mas é precisa pensar nos primeiros séculos da escrita.: 71 . na coexistência e interpretação recíproca dos diversos circuitos de produção e de difusão do saber. anotados. mais rapidamente são produzidas e descartadas as músicas. que signos gravados no barro. podem ser lidos. Como já vimos. brotando das simulações. O devir da oralidade parecia ser imóvel. As utopias negativas que passam por análises da cultura contemporânea em autores como Paul Virilio [109] ou Jean Chcsneaux li 8] estariam confirmadas. como os CD-ROM. comentados. O conteúdo destes compact discs multimídia não é necessariamente efêmero. transmitiriam um dia a ciência. os hipertextos e groupware ainda se encontravam pouco disseminados em 1990. mas apenas parciais. O FIM DA HISTÓRIA? O tempo pontual não anunciaria o fim da aventura humana. hipertextos. ao fazer da lógica um matar. Sem dúvida. quanto mais os computadores as sintetizam. Os suportes de informação de alta densidade. e este não é o menor dos argumentos que podemos colocar contra os defensores da pretensa destruição da cultura e aos alarmistas da modernidadecatástofe. para os inventários logo ultrapassados dos palácios e dos templos. ligadas apenas à rede informático-mediática. evidentemente. tal como a descreveu Guy Debord. Textos literários clássicos. Enfim. e não em amplificar e extrapolar cortas tendências. Mas esta visão pessimista da evolução cultural negligencia diversos fatores fundamentais. nesta época. teria desertado da cultura informático-mediática. e com ela toda reflexão critica. comparados. o da informática deixa crer que vai muito depressa. Em primeiro lugar. grupos de trabalho e nas diversas redes sociais.Seria um retorno ao devir sem vestígios. nela. Ele é a velocidade. os documentos audiovisuais digitalizados poderão ser objeto de um trabalho critica semelhante. livras históricos. poderíamos falar de uma espécie de implosão cronológica. de um tempo pontual instaurado pelas redes de informática. toda explicação possível se torna nebulosa e se apaga. convidam à navegação em textos e imagens de forma bem diversa da encontrada nos bancos de dados clássico. groupwares e novas escritas dinâmicas podem muito bem reintroduzir cortas formas de distância histórica c de trabalho hermenêutico no próprio núcleo da interconexão em tempo real que é intrínseco à informática. por exemplo. composições multimídia. os estilos de comunicação e de elaboração no próprio núcleo da rede digital ainda não. podem ser objeto de pesquisas minuciosas com um luxo de metas fora do alcance das técnicas associadas ao papel. Outros ritmos deformação c difusão dos conhecimentos que não os das mídias e da informática (em breve reunidas em uma única grande rede digital) continuam funcionando. Na Mesopotâmia. . Devemos pensar na imbricação. ainda que não queira saber de onde vem e para onde vai. Inúmeras habilidades e representações ainda são transmitidas c transformadas de forma oral nas famílias. recém-ordenados. Quem poderia ter previsto. se encontram consolidados. sem dúvida reais. o segundo parece engendrar a si mesmo instantaneamente. inassinalável. a escrita tinha permitido o desdobramento de um pensamento do scr. das sociedades sem escrita? Mas enquanto que o primeiro devir fluía de uma forte imemorial. mais chamativas são as imagens. E quanto mais digitais. dos programas e do fluxo inesgotável dos dados digitais. a filosofia ou a opinião pública? _________ Pág. contenta-se em fazer desfilar palavras e imagens espetaculares. mas sim sua entrada em um ritmo trevo que não seria mais o da historia. Ao animar em seus programas os velhos conceitos saídos da escrita. Ao transformar os personagens e os heróis aventureiros da oralidade em conceitos. quando ela apenas era empregada para o recenseamento dos rebanhos. a literatura. reflexivos ou críticos continuam a ser publicados c lidos.

nações. mídia de comunicação de massa. e que numerosas instituições. que a escrita manuscrita ou a impressão. Talvez tenham sempre sido deploradas nos períodos de mudança. a gestão mais prosaica dos homens e das coisas. pois também permite processar e difundir o som e a imagem enquanto tais. A informática não se contenta com a notação musical. por exemplo. acompanhar e guiar seu movimento de forma que venham à tona suas potencialidades mais positivas. Os conhecimentos. uma forma de apagamento das memórias e das singularidades dos lugares. É mais difícil. o significado do tempo real permanece ambíguo. A isto. que foi um dos fias condutores de nosso estuda sobre a oralidade primária e. tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se a própria noção de memória ainda é pertinente. etc. ou mesmo mudanças radicais dos conhecimentos operacionais no centra de uma mesma profissão. tornou-se rapidamente uma. línguas. em algumas décadas. confundindo assim o devir da cultura informatizada com seu balbucios iniciais. ainda mais geral. uma modulação constante. É mesmo possível que não nos apercebamos da existência de novos estilos de saber. A flexibilidade não está _________ Pág.: 72 . Por outro lado.). Podemos sempre lamentar o "declínio da cultura geral". Da mesma forma. este tipo bem peculiar de memória encamada perde suas características tradicionais sob a ação de um duplo processa. ainda que nos limite-mos à rede digital e aos circuitos planetários mais diretamente envolvidos na corrida pela potência. cultura e pensamento estando infelizmente congelados em uma pseudo-essência que não é outra senão a imagem idealista dos bons velhos tempos. Ainda por cima. Entretanto. com o conjunto das tecnologias intelectuais ligadas aos computadores. bastante grosseiros. dentro desta perspectiva. Repito. é tentador identificar certos procedimentos contemporâneos de comunicação e tratamento. estruturas e características culturais possuem. Em primeiro lugar. estas tendências são bastante antigas. nos encontramos na posição de avaliar as formas de conhecimento inéditas que mal acabaram de emergir de uma ecologia cognitiva em vias de formação. escrita. Se pensarmos com instrumentos intelectuais ligados à impressão. por exemplo. talvez. com os reflexos de pessoas singulares. É grande a tentação de condenar ou ignorar aquilo que nos é estranho. acarreta uma variação. poderíamos contrapor que permanecem fortes tendências. que a rede informático-mediática é apenas um dos múltiplos circuitos de comunicação e interação que estimulam a coletividade. ritmos de vida e de reação extremamente longos (Estado. religiões. ao contrário. ela também executa a música. a ascensão das características estratégicas e operacionais das relações sociais. a aceleração das modificações técnicas. Mas isto é apenas o mais visível. devidas sobretudo à informatização. A INFORMÁTICA E A MEMÓRIA Retomemos. torná-lo autoconsciente. estatísticas. Certamente é possível ler nele uma aceleração do ciclo da mercadoria. a. a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos. e que a constituição de um novo tipo de temporalidade social em torno do "tempo real" parece ser uma delas. ó toma da memória. então. escalas. apenas podem ser adquiridos após uma larga experiência e se identificam com os corpos.A INDETERMINAÇÃO E A AMBIGUIDADE DA INFORMÁTICA A informática parece reencenar. a pretensa "barbárie" tecnocientífica ou "a derrota do pensamento". mas também mais útil apreender o real que está nascendo. simplesmente porque eles não correspondem aos critérios e definições que nos constituíram e que herdamos da tradição. com os gestos. compartilhando os valores e o imaginário de uma civilização da escrita. o destino da escrita: usada primeiro para cálculos. No caso da informática.

Também não visa a verdade. ou que a exatidão dos fatos não importa mais. gêneros canônicos nascidos da escrita. quando não se dispunha de quase nenhuma técnica de armazenamento exterior. havia ainda uma estabilidade e unicidade possíveis. Hoje. ou ainda a memória. a separação entre a memória pessoal e o saber não é mais parcial. Por trás da atividade crítica. O modelo não se encontra mais inscrito no papel. em proveito da operacionalidade e velocidade. em certas áreas. Lembrando. no horizonte do conhecimento. ela é em grande parte condicionada pela situação de comunicação fora do contexto próprio à transmissão escrita do saber. mesmo que parcial. n teoria permaneciam.: 73 . Corresponde. da explicação correta. Por outro fada. cedem terreno aos modelos. É desta forma que os modelos são continuamente corrigidos e aperfeiçoados ao longo das simulações. DECLÍNIO DA VERDADE. o livro. Quanto à exigência de verdade objetiva. Na civilização da escrita. O saber informatizado afasta-se tanto da memória (este saber "de cor " ). a exigência de verdade crítica pressupõe a separação parcial do saber e da memória identificadora das pessoas tornada possível pela escrita. o coletivo humano era um só com sua memória. pólos de identificação possível. O que significa o fim da preocupação com a verdade? Certamente não quer dizer que a partir de agora é permitido mentir. A sociedade histórica fundada sobre a escrita caracterizava-se por uma semiobjetivação da lembrança. depois recompostos. A massa de informações armazenadas cresce em um ritmo cada vez mais rápido. e o conhecimento podia ser em parte separado da identidade das pessoas. Disto decorre que. em um sentido estrito. Um modelo raramente é definitivo.relacionada apenas com os processas de produção e os circuitos de distribuição. por exemplo. as duas entidades tendem a estar quase que totalmente dissociadas. Ele apenas será mais ou menos útil. com suas normas de eficiência e o julgamento de pertinência que preside sua avaliação. modularizados. DA OBJETOVIDADE E DA CRÍTICA Esta característica do saber informatizado não é necessariamente condenável. o saber informático não visa manter em um mesmo estado uma sociedade que viva sem mudanças e se deseje assim. um deslocamento do centra de gravidade em algumas atividades cognitivas desempenhadas pelo coletivo social. As teorias. De acordo com sua perspectiva operacional. as da teoria verdadeira. mas roda em um computador. mais ou menos eficaz ou _________ Pág. ao informatizar-se. modificados. como ocorre na oralidade primária. ao que Jean-François Lyotard chamou de pós-modernidade. graças aos sistemas especialistas e a diferentes programas de simulação ou de ajuda à modelagem. nem mesmo "testável". este suporte inerte. Os conhecimentos e habilidades da esfera tecnocientífica e das que dela dependem evoluem cada vez mais rápido. As explicações sistemáticas e os textos clássicos em que elas se encarnam parecem-nos hoje excessivamente fixos dentro de uma ecologia cognitiva na qual o conhecimento se encontra em metamorfose permanente. está cada vez mais difícil para um indivíduo cogitar sua identificação. Um modelo digital normalmente não é nem "verdadeiro " nem "falso". e mais ainda a rapidez e a pertinência das modificações operacionais. o que tornou possível a preocupação com a verdade subjacente. Ora. mobilizados à vontade. em certos aspectos. as condições que tornavam a verdade crítica e objetiva a norma para o conhecimento estão transformando-se rapidamente. os conhecimentos podem ser separados das pessoas e coletividades que os haviam secretado. Ele procura a velocidade e a pertinência da execução. difundidos. multiplicados. com uma teoria. é objetivada a tal ponta que a verdade pode deixar de ser uma questão fundamental. à ciência moderna. o texto. Sob o regime da oralidade primária. com suas normas de verdade e com a atividade crítica que as acompanha. A questão é apenas a de identificar uma mudança de ênfase. a exemplo da teoria ou da hermenêutica. A exigência de reorganização em tempo real visa também os agenciamentos cognitivos pessoais.

as mensagens escritas são cada vez menos recebidas ou interpretadas fora do contexto de sua emissão. ele geralmente é explorado de forma interativa. o rádio e a televisão. uma à qual pudéssemos aderir firmemente. a extensão da teleinformática. intervir na avaliação de um modelo: a facilidade de simulação. Contrariamente à maioria das descrições funcionais sobre papel ou aos modelos reduzidos analógicos. tanto quanto a imitação ou a farsa. repete uma comunicação oral em um colóquio.pertinente em relação a este ou aquele objetivo específico. o modelo informático é essencialmente plástico. provisional. as conexões possíveis com programas de visualização. Esta evolução é ainda mais nítida em relação aos conhecimentos ou habilidades armazenadas sob a forma de modelos digitais já que. mas que iremos lidar com modelos de pertinência variável. Ela responde melhor à pergunta "como?" do que à pergunta "por quê ?". Enfim. A comunicação escrita incita os enunciadores a construir mensagens que sejam o mais independentes possível das circunstâncias particulares de sua emissão e recepção. programas de inteligência artificial podem ser considerados como simuladores de capacidades cognitivas humanas: visão. Não critica-se mais. ou mesmo normativa. Nós vimos que esta restrição teve um papel importante na aceitação do critério objetivo. etc. não há nenhuma tradição conservadora de escrita para frear o movimento. corrigem-se os erros. Como Jean-Louis Weissberg observou tão bem. a rede de transportes cada vez mais densa que recobre o planeta. evolução biológica ou demográfica) ou simplesmente para avaliar de forma menos custos ao interesse de novos modelos. O declínio da verdade crítica não significa. a interconexão em tempo real que caracteriza uma parte crescente dos circuitos sociais de comunicação transformam as condições gerais da enunciação. raciocínio. dotado de uma certa autonomia de ação e reação. Os critérios de pertinência. são cada vez menos concebidas para durar. e de acorda com a velocidade de transformação do saber. O conhecimento por simulação é sem dúvida um dos novos gêneros de saber que a ecologia cognitiva informatizada transporta.: 74 .. Contrariamente à teoria. de auxílio à decisão ou ao ensino. O envio de um texto é cada vez mais seguido de um telefonema. etc. o termo simulação conota hoje esta dimensão interativa.. e isto de forma cada vez mais independente de um horizonte da verdade. que tem como função primária explicar ou esclarecer um fenômeno. _________ Pág. Fatores muito distantes da idéia de verdade podem. mesmo no domínio científico. portanto. neste caso. Programas de projeto auxiliado por computador (CAD) permitem testar a resistência de uma peça mecânica aos choques ou então o efeito na paisagem de um prédio que ainda não foi construído. em particular sob sua forma escrita. mesmo quando a experimentação é possível. Se há cada vez menos contradições. aqui e agora. o telefone. a simulação de modelos digitais seria antes operacional. a velocidade de realização e modificação. O CONHECIMENTO POR SIMULAÇÃO Um modelo digital não é lido ou interpretado como um texto clássico. Os cientistas de todas as disciplinas recorrem cada vez mais a simulações digitais para estudar fenômenos inacessíveis à experiência (nascimento do universo. que a partir de agora qualquer coisa será aceita sem uma análise. O artigo muitas vezes comenta um acontecimento que já foi visto pela televisão. Justamente por isso. Com exceção de certos livras. O surgimento dos programas ditos "planilhas" no rastro da microinformática colocou instrumentos de simulação contábil e orçamentária nos escritórios dos executivos e dos diretores de pequenas e médias empresas. é porque a pretensão á verdade diminui. obtidos e simulados de forma mais ou menos rápida. tomam pouco a pouco o lugar sobre os de universalidade e objetividade. audição. dinâmico. Programas de auxílio à decisão estimulam os dirigentes de empresas ou os generais a simular os efeitos de suas eventuais escolhas sobre um modelo da realidade econômica ou militar antes de optar por uma solução. Ora.

Alguns pesquisadores acreditam que. desde 1990. como a do "aquário". mas também a simulação da interação natural com os sistemas. melhoramos não somente a simulação dos sistemas. Ele adquire um conhecimento por simulação do sistema modelado. já programados. em primeiro lugar. redes de computadores. enquanto que a programação "orientada para objeto" consiste em agenciar as interações de entidades distintas capazes de realizar certas ações e de trocar mensagens urnas com as entras. com todos os ganhos de tempo e benefícios de custo que podemos imaginar. ela agora equivale a agir diretamente sobre aquilo que consideramos. adotando comportamentos de perseguição. podem ser encontrados. por conta própria. de novas moléculas ou de arranjos financeiros podem ser parcialmente transferidos para o modelo. A crescente importância das linguagens "orientadas para objeto" em informática mostra que os computadores são. cada vez mais. depois criam-se várias dezenas de cópias do pássaro padrão para conseguir o comportamento de uma revoada de potes ou de estorninhos. Desta forma. etc. ou ainda modificar seu comportamento. Em seguida. nem ao acúmulo de uma tradição oral. poderíamos dizer que a programação clássica consistia em organizar uma cadeia de operações sucessivas sobre um fluxo de dados. ou do sistema de comunicações que ele pretende instalar. 'dentro de poucos anos. Estes sistemas permitem modelar situações complexas de produção industrial ou de transporte. de seu cash flow. um certo número de objetos e de rotinas básicas para cada área. Assim. como sendo os atores efetivos em um ambiente ou situação dados.: 75 . Há uma enormidade de possibilidades de simulação interativa sendo abertas pela programação "orientada para objeto". bastará fornecer um rateiro e algumas indicações de atuação a objetos-atores "inteligentes" para que eles calculem automaticamente seu filme. Há várias pesquisas seguindo esta via ativamente. Crianças podiam acrescentar ou retirar peixes. a indústria da síntese de imagens de animação já usa princípios da programação com objetos para simular o comportamento de grandes massas de atores na tela. A relação com o modelo não consiste mais em modificar certas variáveis numéricas de uma estrutura funcionalmente abstrata. Basta que o usuário adapte-as a sua situação particular e monte-as para obter uma simulação de sua futura cadeia de produção. considerados como instrumentos de simulação. fuga. Mas o que nos interessa aqui é. Esquematizando. o tempo durante o qual pode permanecer longe do grosso do bando. A manipulação dos parâmetros e a simulação de todas as circunstâncias possíveis dão ao usuário do programa uma espécie de intuição sobre as relações de causa e efeito presentes no modelo. os longos e custosos processos de tentativa e erro necessários para o desenvolvimento de instalações técnicas. sistemas biológicos. etc. fluxos financeiros. as características e os modos de vida de vários "objetos-peixe" foram definidos pelos programadores. UMA IMAGINAÇÃO AUXILIADA POR COMPUTADOR _________ Pág. sua distância em relação aos outros. o benefício cognitivo. Cada objeto se encarrega de calcular. O "aquário" construído pela equipe de Alan Kay para a Apple é uma boa ilustração deste novo caminho da informática. que podia ser observado através da tela do computador. Estes programaspeixe foram em seguida mergulhados no mesmo "aquário". kits de simulação bastante avançados.Entre os programas disponíveis no mercado para microcomputadores. Note-se que o desenvolvimento dos acontecimentos no "aquário" não havia sido programado em nenhum momento. desova. Para além das experiências pedagógicas. que não se assemelha nem a um conhecimento teórico. intuitivamente. observavam as repercussões de suas ações na ecologia do "aquário” [13]. Bibliotecas de programas oferecem. e interagiram espontaneamente de acorda com seu " programa genético". Neste projeto. devoração. etc. Por exemplo. nem a uma experiência prática. programa-se o comportamento etológico do pato ou do estorninho.

a eficiência ganha da verdade. bricolagem mental. só tem validade dentro de um quadro epistemológico relativista. (O que aconteceria se fizéssemos isso ou aquilo?) Tiramos proveito de nossas experiências passadas. O conhecimento por simulação. a. esquecendo que todo modelo é construído para determinado usa de determinado sujeito em um momento dado. uma vitória inesperada dos sofistas sobre o organon de Aristóteles. mas. O problema do teórico era o de produzir uma rede de enunciados auto-suficientes.Como nós já vimos. criaram a hipótese de que o raciocínio humano cotidiano tem muito pouca relação com a aplicação de regras da lógica formal. não passíveis de critica. funciona mais como um módulo externo e suplementar para a faculdade de imaginar. entre os quais Philip Johnson-Laird[58]. que ele "representa " no sentido forte a "realidade ". ) _________ Pág. a escrita permite estender as capacidades da memória a curto prazo. então. Se não. em particular quando a evolução do modelo é visualizada através de imagens em uma tela. identificar-se com um modelo concebido como sendo estável. esta também é a expressão usada para designar a memória RAM dos computadores. sobretudo em sua versão mais formalizada. objetivos. que podemos considerar como uma imaginação auxiliada por computador. Era possível. corresponde antes ás etapas da atividade intelectual anteriores à exposição racional: a imaginação. seu baixo custo e sua facilidade de usa representam. o criador de modelos poderia se deixar levar pela crença de que seu modelo é "verdadeiro”. aderir a ele. difícil e custoso. É isto que explica sua eficácia como tecnologia intelectual. quaisquer que fossem as condições particulares de sua recepção. o conhecimento através de modelos digitais soa como uma revanche de Protágoras sobre o idealismo e o universalismo platônicos. e depois explorem as diferentes possibilidades dentro destas construções imaginárias: A simulação. A informática da simulação e da visualização também é uma tecnologia intelectual. Eis por que o problema do criador de modelos é antes o de satisfazer a critérios de pertinência aqui e agora. Neste sentido. A imaginação é a condição da escolha ou da decisão deliberada. quando o desenvolvimento do modelo digital de um fenômeno era longa. A MEDIDA DE TODAS AS COISAS A simulação toma o lugar da teoria. A teoria. as tentativas e erros. vários cientistas.: 76 . (N. A capacidade de simular o ambiente e suas reações certamente desempenha um papel fundamental para todos os organismos capazes de aprender. Parece mais plausível que as pessoas construam modelos mentais das situações ou dos objetos sobre os quais estão raciocinando. A persistência antinatural do velho hábito cognitivo" teórico" a respeito de representações informáticas era outrora freqüente. O que não impede as simulações de também desempenharem um papel de comunicação ou de persuasão importante. é portanto ao mesmo tempo uma ferramenta de ajuda ao raciocínio muito mais potente que a velha lógica formal que se baseava no alfabeto. o melhor antídoto 9 Em francês. pelo contrário. usando-as para modificar nosso modelo mental do mundo que nos cerca. a proliferação contemporânea dos instrumentos de simulação. do T. Tendo em vista os resultados de numerosas experiências da psicologia cognitiva. Nossa capacidade de simular mentalmente os movimentos e reações possíveis do mundo exterior nos permite antecipar as conseqüências de nossos atos. ainda que ela também estenda a “memória de trabalho”9 biológica. é uma for-ma de apresentação do saber. O modelo digital do qual nos servimos para fazer simulações encontra-se muito mais próximo dos bastidores da atividade intelectual do que a cena teórica. um modo de comunicação ou mesmo de persuasão: A simulação. que pudessem ser interpretados de forma inequívoca e recolher o assentimento. por sinal. sem dúvida.

contra a confusão entre modelo c realidade. Um modelo determinado, entre cem outros que poderiam ter sido criados sem muito esforça, aparece como aquilo que ele é: uma etapa, um instante dentro de um processa ininterrupto de bricolagem e de reorganização intelectual. O conhecimento por simulação, menos absoluto que o conhecimento teórico, mais operatório, mais ligado ás circunstâncias particulares de seu usa, junta-se assim ao ritmo sociotécnico especifico das redes informatizadas: o tempo real. A simulação por computador permite que uma pessoa explore modelos mais complexos e em maior número do que se estivesse reduzido aos recursos de sua imagística mental e de sua memória de curta prazo, mesmo se reforçadas por este auxiliar por demais estático que é o papel. A simulação, portanto, não remete a qualquer pretensa irrealidade do saber ou da relação com o mundo, mas antes a um aumento dos poderes da imaginação e da intuição. Da mesma forma, o tempo real talvez anuncie o fim da história, mas não o fim dos tempos, nem a anulação do devir. Em vez de uma catástrofe cultural, poderíamos ler nele um retomo ao kaïros dos sofistas. O conhecimento por simulação e a interconexão em tempo real valorizam o momento oportuno, a situação, as circunstâncias relativas, por oposição ão sentido molar da história ou à verdade fora do tempo e espaço, que talvez fossem apenas efeitos da escrita. Foi incluído a seguir um quadro que recapitula as idéias principais desta segunda parte. Esta sinopse dos "três pólos do espírito" coloca em evidência uma espécie de eco do polo oral no centro do polo informático-mediático: a imediatez dos efeitos da ação e o fato de que os protagonistas da comunicação partilham um mesmo contexto aproximam as mídias eletrônicas da oralidade. Reencontramos assim, por caminhos diferentes, certas intuições de McLuhan a respeito da "aldeia global". A respeito da "dinâmica cronológica" do pólo informático-mediático, deve ser lembrado que a explosão sugerida pela "pluralidade de devires" e a "velocidade pura sem horizonte" é compensada, até certo ponto, pela unificação mundial realizada na rede informático-mediática, assim como pela emergência de "problemas planetários" de ordem demográfica, econômica e ecológica. O estado de humanidade global, perseguido pelo homem da escrita e da história de diversas formas (impérios, religiões universalistas, movimento das 'Luzes, revolução socialista), é hoje vivenciado pelo homem informático-mediático. Isto não significa nem que todos os grupos sociais que vivem no planeta participem deste tipo de humanidade, nem que a cultura da televisão e do computador possa ser considerada como um final feliz para a aventura da espécie. Os pólos da oralidade primária, da escrita e da informática não são eras: não correspondem de forma simples a épocas determinadas. A. cada instante e a cada lugar os três pólos estão sempre presentes, mas com intensidade variável. Para pegar um exemplo dentre as for-mas do saber, a dimensão narrativa está sempre presente nas teorias é nos modelos; 'a atividade interpretativa está subjacente à maioria das performances cognitivas; enfim, a simulação mental de modelos do ambiente sem dúvida caracteriza a vida intelectual da maior parte dos vertebrados superiores, 'e portanto não esperou a chegada dos computadores para surgir. Poderíamos dizer o mesmo dos "critérios dominantes", dos tipos de temporalidade ou das configurações mnemônicas: as dimensões indexadas em um dado polo estão presentes em toda parte todo o tempo, mas em graus diversos de intensidade e de manifestação explícita. Por que então distinguir três pólos? Porque a utilização de um determinado tipo de tecnologia intelectual coloca uma ênfase particular em certos valores, certas dimensões da atividade cognitiva ou da imagem social do tempo, que tornam-se então mais explicitamente tematizadas e ao redor das quais se cristalizam formas culturais particulares.

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Nestas páginas, não deploramos qualquer tipo de declínio; também não exaltam os pretensos progressos. Por exemplo, no domínio daquilo a que chamamos de "critérios dominantes" ou valores, a "significação" não é nem melhor nem pior que a "eficácia". A vida humana não é possível sem
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qualquer uma delas. O quadra contenta-se em sugerir que a dimensão do sentido está mais estreitamente ligada ás formas da narrativa e do fito, à encarnação da memória em uma pessoa viva, à perspectiva temporal do retomo ou da restauração, etc. Mas isto nada diz sobre a qualidade, boa ou má, de uma significação particular em uma circunstância especifica. Da mesma forma, a eficácia não é nem boa em si, nem indica necessariamente a ausência de uma alma. É possível que haja eficácias cheias de sentido, significações eficazes, e isto naturalmente no bom ou no mau sentido. O quadro apenas coloca em relevo que o critério de eficácia se encontra mais fortemente ligado à simulação, à objetivação quase total da memória, ao tempo real, etc. Como se pode ver, não se trata aqui de dar crédito a uma narrativa simplista e linear da sucessão dos estilos de temporalidade ou dos tipos de conhecimento. O mito e a teoria continuam a coexistir hoje com a simulação. Protágoras ou Montaigne não esperaram os computadores para serem relativistas. Ainda que não estivesse conectado a nenhuma rede telemática, Maquiavel recomendava ao Príncipe que remasse conforme a maré e aproveitasse as ocasiões independentemente de qualquer horizonte histórico. Mais uma ver, quase todas as formas 'de pensar estão presentes em todos os lugares e em cada época. A genética das populações descreveu a grande diversidade de gens em reserva numa dada espécie. Em resposta ás transformações do ecossistema, este ou aquele traço de caráter irá tornar-se majoritário, mas 'sem que, para tanto, sejam eliminados os genes que controlam outras características que poderiam mostrar-se úteis em alguma futura modificação do ambiente. Da mesma forma, as mudanças das ecologias cognitivas devidas, entre outros, à aparição de novas tecnologias intelectuais ativam a expansão de formas de conhecimento que durante muito tempo estiveram relegadas a certos domínios, bem como o enfraquecimento relativo de certo estilo de saber, mudanças de equilíbrio, deslocamentos de centros de gravidade. A ascensão do conhecimento por simulação deve ser entendida de acordo com uma modalidade aberta, plurívoca e distribuída. BIBLIOGRAFIA
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Simulation informatique et création industrielle. Les Chemins du virtuel. sucessivamente. Projeta um tempo contraído sobre o instante pontual. O universo digital anteriormente descrito certamente tem algo de ficção científica realista cognitiva. novos documentos hipertextuais. interfaces e redes de interfaces.VIRILIO Paul. a irredutível multiplicidade do real aos acasos da história. Os agenciamento técnicos passariam a assemelhar-se com os módulos sensoriais humanos que. Não haveria mais dispositivos de “recepção”. ao preço de gastos enormes. Galilée. avril 1989. Dinâmicas culturais. pertencendo à oralidade arcaica. obras multimídia originais. sem fricções nem perdas. funde e bifurca em uma grande rede mista. continuará a irrigar as profundezas da coletividade. cresce e fermenta. Paris. Mesmo se este ideal realizar-se. mas filtram. impura e fervente. Negociantes cavalgando entre os dois mundos. que parece pensar por conta própria. talvez mais do que isto. há grandes possibilidades de que se acentuem a germinação incontrolável e a extensão rizomática da massa de representações discursivas ou icônicas que já ocorrem hoje. número especial des Cahiers du CII. A digitalização permite a passagem da cópia à modulação. se altera e se estraga.: 80 . a utopia técnica se confronta à complexidade dos processos sociais. Paris. seja uma imagem transposta da ecologia cognitiva. tecidos por mil memórias que são as coletividades. Apesar da provável manutenção de estratificações rígidas e privilégios. foram efetivamente organizadas ao redor de alguns instrumentos de comunicação. Assistiu-se ao aparecimento de novas formas sociais _________ Pág. selecionam. como as da Renascença. em alguns poucos segmentos industriais. conecta entre si as informações. sem retardos. os velhos suportes da escrita é da imagem guardarão ainda alguma importância. Sonha hoje com um mundo síncrono. de um groupware a outro. a soma de esforços e de imaginação que será precisa empregar para elaborar. coletividades transversais. Tradutores. as dificuldades que serão encontradas pára padronizar os sistemas. um espaço abolido. Quem ensina e quem aprende? Quem pede e quem recebe? Quem infere a partir de novos dados. É impossível também não subestimar o tempo necessário pára traduzir e codificar o antigo estoque. Por que há muito que o saber se acumula. da mesma forma. modelos digitais de fenômenos complexas. militares ou financeiros. passaremos progressivamente do nível de leitor ao de anotador. a recomposição e a interação. Ainda que processada por novos métodos. em todos os outros lugares continuarão a reinar a desordem e a profusão de Babel. L'Espace critique. 11. também não “recebem”. uma grande parte da herança cultural permanecerá. interpretam e recompõem. compósitos. descobre conexões? Quem percorre incansavelmente a trama labiríntica da rede? Quem simula o que? Indivíduos? Programas agentes? Grupos conectados por groupwares? Operadores de todos os tipos. entretanto. Como a utopia política da qual é uma variante. Instituições. não se improvisará uma nova tradição estética e intelectual em poucos anos. Supondo que à camada de interfaces digitais aqui descrita efetivamente se estabeleça. depois ao de autor. Desejaria a flexibilidade de um hipertexto ou de um modelo digital para estes monstros tardios. WEISSBERG Jean-Louis (sob a direção de). mas sim interfaces para a seleção. Uma infinidade de circuitos informais. pessoais. Ainda que espantosos dispositivos técnicos já estejam prontos para o usa. 1987. passantes. Hierarquias sociais poderão ser marcadas através dos direitos de escrita e dos direitos de anotação e de conexão com os hipertextos ou bancos de conhecimentos mais estratégicos. O ESQUECIMENTO No meio móvel e mal delimitado da rede digital.

Ainda é necessária. Porque a operação da memória não pode ser concebida sem as aparições e supressões que a desagregam. esta profusão de signos.simultaneamente ao de sistemas técnicos. o balé multicolorido que o sol frio dos microprocessadores irradia sobre as telas. Por mais que elas sejam consubstanciais à inteligência dos homens. as simulações. uma memória humana singular para esquecer os dados dos bancos. consiste precisamente em rejeitar a pista ou o armazenamento no passado. _________ Pág. Debruçado sobre seus projetos. portanto. repousando em massas compactas nos discos. Para lato são necessários os grandes conflitos e os projetos que os atores sociais animam. o passado. será preciso esquecê-las. desse fato. não indicam absolutamente nenhuma direção pata a aventura coletiva. esperando apenas um sinal para levantar-se. os discursos entrelaçados dos hipertextos e. cintilando sobre as telas.: 81 . que a moldam de seu interior. combinar-se entre si e propagar-se pelo mundo em ondas inesgotáveis. A revolução industrial do século XIX nos dá um exemplo. será precisa que nos apropriemos das interfaces digitais. metamorfosear-se. o ser viva destrói. esta gigantesca biblioteca de modelos em vias de construção. as tecnologias intelectuais não substituem o pensamento viva. Para inventar a cultura do amanhã. a fim de inaugurar um novo tempo. A subjetividade da memória. Mas os dispositivos materiais em si. Depois disso. reinterpreta as imagens e as palavras daquilo que se toma. muitas vezes deplorável. toda esta imensa reserva não constitui ainda uma memória. Nada de bom será feito sem o envolvimento apaixonado de indivíduos. de programas. transforma. separados da reserva local de subjetividade que os secreta e os reinterpreta permanentemente. seu ponta essencial e vital. O enorme estoque de imagens e palavras ressoando ao longo das conexões. através desta atividade.

. transgredindo as fronteiras tradicionais das espécies e reinos. em nosso caminho. hipertextual. No que diz respeito à razão. ele nos conduz ás paragens tumultuadas das heranças de Kant e Heidegger.: 82 . Entre outros. aderir ãos temas prediletos da meditação heideggeriana. Mas. a multiplicidade e a variabilidade que a pesquisa histórica que fizemos na segunda parte já nos havia sugerido. Fortalecidos por esta aquisição. para deixar o terreno da metafísica. é na verdade possível descrever precisamente como certos tipos de racionalidade emergem. Criticar a concepção de sujeito legada por uma determinada tradição filosófica não nos faz. podemos agora prosseguir nossa pesquisa de forma mais reflexiva: qual a relação entre o pensamento individual. Iremos reencontrar.III. _________ Pág. apresenta-se como uma antítese da abordagem kantiana do conhecimento. que constituem hoje o centro de debates apaixonados: à razão e o sujeito. rizomático. Esta parte termina com uma metodologia adequada para prevenir. homem e técnica. Mas isto não irá remeter-nos à pura e simples contingência das formas de conhecer nem a qualquer relativismo absoluto. de pensar o pensamento: espírito e matéria. etc. Propomos que estas oposições grosseiras entre essências pretensamente universais sejam substituídas por análises moleculares e a cada vez singulares em termos de redes de interfaces. devido a seu interesse pelas misturas e pelos encaixes fractais de subjetividade e objetividade. múltiplo e. e de um "conhecimento por simulação". dois grandes temas filosóficos. RUMO À UMA ECOLOGIA COGNITIVA Concluímos nossa investigação sobre a história das formas. Neste terceira e última seção. entretanto. esboçamos o programa da ecologia cognitiva que se propõe a estudar estas coletividades cosmopolitas. É verdade. e objeto. multicolorido quanto o próprio real. tão heterogêneo. saltando de uma escala a outra. em vez de escolher o caminho vertical. que tanto se preocupa em distinguir aquilo que se refere ão sujeito e o que pertence ão objeto. as instituições sociais e as técnicas de comunicação? Será mostrado que estes elementos heterogêneos articulam-se para formar coletividades pensantes homens-coisas. "arrazoando" um mundo inerte e submisso a seus fins. racional e voluntário. De conhecimento com um paralelo entre certas formas culturais e o uso dominante das tecnologias intelectuais. ficou claro para nós que a cultura informático-mediática é portadora de um certo tipo de temporalidade social: o "tempo real". traçamos um percurso em ziguezague. "ontológico" e vão ão qual nos convida o mestre de Freiburg. indivíduo e sociedade. concordamos com seu questionamento do sujeito consciente. sujeito. os dualismos maciços que tantas vezes nos dispensam de pensar e mais particularmente. Veremos que toda ecologia cognitiva. iremos encontrar. Ao estudar as articulações entre os módulos do sistema cognitivo humano e os diversos sistemas semióticos fornecidos pelas culturas. após uma discussão fundamentada pelas ciências cognitivas. Quanto ão problema do sujeito e de suas relações com o objeto. não inventariado antes da chegada dos computadores.

Estes autores radicalizaram o protomaterialismo empedocleano das misturas. "parasitas". no topo? Quem pensa? Não há mais sujeito ou substância pensante.12. que se opõe à vulgata kantiana segundo a qual o "sujeito transcendental" imporia suas formas a priori sobre qualquer experiência e deteria a chave da epistemologia. com minha língua. PARA ALÉM DO SUJEITO E DO OBJETO A inteligência ou a cognição são o resultado de redes complexas onde interagem um grande número de atores humanos. Em Mille Plateaux [26]. Michel Serres utiliza as mesmas palavras para falar das relações humanas e das coisas do mundo. "eu "não pensaria. e de sua imbricação em uma megassociedade povoada por homens. as assembléias de neurônios ou redes neuronais de todos os "conexionismos" [75] traçam uma figura da mente estilhaçada de forma peculiar. representações. hoje. Ele atinge uma filosofia do conhecimento "objetal". o sujeito coletivo está fundado sobre as coisas e mistura-se a elas. nem " espiritual". o uso da escrita ). do cadáver e dos ossos. transgredindo todas as classificações arborescentes e conectando estratos do ser totalmente heterogêneos. Fora da coletividade. operando em uma escala (média) de observação possível. inversamente. traduções. Serres explora novamente os intermediários e as relações reciprocas entre sujeitos e objetos. a consciência e tudo aquilo diretamente relacionado a ela representam apenas um aspecto menor do pensamento inteligente. nem" material". necessariamente. interceptações. por Gilles Deleuze e Michel Serres. _________ Pág. Mostra como. sistemas de escrita. a prática em vários programas bastante úteis e numerosas conversas com os amigos. o monismo naturalista de um Spinoza ou o pluralismo infinitista de um Leibniz. a mais pertinente para abordar os problemas da cognição. mas "eu" com o grupo humano do qual sou membro. Deleuze e Guattari descrevem os "rizomas" que se estendem sobre um mesmo "plano de consistência". Acrescentemos a isto que um bom número de processos cognitivos são automáticos. biológicos e técnicos. transformam e traduzem as representações. humanos. livros e computadores se interconectam. O pensamento se dá em uma rede na qual neurônios. Em Statues [94]. O pretenso sujeito inteligente nada mais é que um dos micro atores de uma ecologia cognitiva que o engloba e restringe. dissolvido pelo interior. Em O Parasita [93]. Os módulos de Fodor. Um grande número de obras recentes de psicologia cognitiva insiste na pluralidade. que não é. técnicas de transmissão e de dispositivos de armazenamento. aquele que assina este texto não terra sido capaz de redigi-lo. com toda uma herança de métodos e tecnologias intelectuais (dentre as quais. Estas idéias vão de encontro a uma tendência da filosofia francesa que está representada. línguas. O sujeito pensante também se encontra fragmentado em sua base. sem o acesso ás bibliotecas públicas. Não sou "eu" que sou inteligente. através da múmia. toda entidade revela-se como uma rede em potencial. transformações efetuadas sobre mensagens. módulos cognitivos. As multiplicidades e os processos moleculares opõem-se ás forças unificadoras. A consciência é simplesmente uma das interfaces importantes entre o organismo e seu meio ambiente. na multiplicidade de partes de todos os tamanhos e de todos os tipos que compõem o sistema cognitivo humano. Ão ser analisada. desprovido de tecnológicas intelectuais. o objeto nasce do sujeito e como. Qual a imagem que sobressai desta dissolução do sujeito cognitivo em uma microssociedade biológica e funcional na base. Para citar apenas três elementos entre milhares de outros. a sociedade da mente de Minsky. instituições de ensino. Do ponto de vista de uma ciência da mente. fora do controle da vontade deliberada. em ambos os casas trata-se de comunicações. Ainda que os dois domínios encontrem-se habitualmente separados e sejam estudados por ciências diferentes.: 83 .

em parte. à fotografia. devo transformar esta idéia em sons ou em signos escritos para inocular em você o vírus marxista. Finalmente. heterogênea. ENTRE O SUJEITO E O OBJETO Vamos tecer por algum tempo uma metáfora. Imaginemos que as imagens. Os dispositivos técnicos são portanto realmente atores por completo em uma coletividade que já não podemos dizer puramente humana. com uma certa distribuição de representações em uma dada. 65. que mostra através da investigação histórica ou etnográfica como as instituições mais respeitáveis. Por trás de qualquer entidade relativamente estável. em particular. identificar-se. a anunciar seu programa e a apresentar alguns dos seus princípios. aqui. resultado provisório de associações contingentes e heterogêneas. mas cuja fronteira está em permanente redefinição. Estes vírus em particular habitariam o pensamento das pessoas e se propagariam de uma mente a outra por todos os meios de comunicação. à televisão. elas contribuem para formar e estruturar o funcionamento das sociedades e as aptidões das pessoas. Limitamo-nos. elas muitas vezes efetuam um trabalho que poderia ser feito por pessoas como você ou eu. Bruno Latour [64. As noções de singularidade. os fatos científicos mais "concretos" ou os objetos técnicos mais funcionais foram. e objetos pensados. mas esta ciência ainda está para nascer. graças ao cinema. coletivas da cognição. é precisa reconhecê-lo. inerte e vivo. mas também. Ou sobretudo. as redes de Latour ou de Callon [15] não respeitam as distinções estabelecidas entre coisas e pessoas.Anunciando um renovamento da filosofia da natureza. as idéias (que agruparemos sob o termo genérico de representações) sejam vírus. Por exemplo. na realidade. população. 66. e todo ator definirá a si mesmo pela diferença que ele produz. inerte. Tudo que foi capaz de produzir uma diferença em uma rede será considerado como um ator. de interpretação e de historia estão no próprio centro dos últimos desenvolvimentos das ciências físicas. 67] e a nova escola de antropologia das ciências mostraram o papel essencial das circunstâncias e das interações sociais em todos os processas intelectuais. Esta concepção do ator nos leva. que pegamos emprestada de Dan Sperber [101]. Mas diversas correntes científicas contemporâneas redescobriram uma natureza na qual seres e coisas não se encontram mais separados por uma cortina de ferro ontológica. sujeitos pensantes. de. A ecologia cognitiva é o estudo das dimensões técnicas e. concordaremos com Dan Sperber quando este diz que os fenômenos culturais estão relacionados. A ciência clássica excluía do universo físico a historia e a significação para recalcálas nos seres vives. Os trabalhos que nós acabamos de citar certamente nos indicam o caminho a ser seguido. quando se trata de pensamento formal ou científico. Illya Prigogine e Isabelle Stengers [86] tentaram mostrar que não havia uma ruptura absoluta entre um universo físico. O meio ecológico no qual as representações se propagam é composta por dois grandes conjuntas: as mentes humanas e as redes técnicas de armazenamento. então. por causa de uma singular ausência de defesas imunitárias nas mentes masculinas contra este vírus em particular. e o mundo inventivo e colorido dos seres vives. os enunciados. de transformação e de transmissão das representações. Como os rizomas de Deleuze e Guattari. evento. A aparição de tecnologias intelectuais como a escrita ou a _________ Pág. Levando esta metáfora a sério. com uma epidemiologia das representações Uma cultura poderia. que mantém a existência desta entidade. ou mesmo em um único sujeito humano. As máquinas são feitas por homens. submetido a leis. nenhuma substância é aceita por Latour. Nenhuma essência. A imagem de Marilyn Monroe gerou uma epidemia fulminante. a pensar de forma simétrica os homens e os dispositivos técnicos. se eu penso que "a luta de classes é o motor da história".: 84 . até mesmo. ele traz à tona à rede agonística impura.

já citamos os trabalhos desenvolvidos por etnólogos como Jack Goody [43]ou historiadores como Elisabeth Eisenstein [32]. as simulações digitais de fenômenos naturais pressupõem os computadores. que antes não podiam ser conservadas. os sistemas de medidas e de representação foram uniformizados. tanto quanto sobre as representações em si. no entanto. Para explicar a propagação ou a continuidade de tal imagem ou proposição em uma coletividade. Aconteceria o mesmo se as condições da "seleção cultural". das plantas. parece igualmente legítimo colocar a ênfase nos processos dos quais emergem as distribuições de representações. não estamos mais frente a representações tomadas individualmente.: 85 . por exemplo. de um fada. uma massa de informações precisas e numeradas tornaram-se disponíveis. o céu aberto da comunicação. da mesma forma como as propriedades de. de. a sê-lo. — novos processamentos de informação são possíveis. têm. que dogmas e princípios morais sejam isolados de toda e qualquer contexto social. Com as religiões universalistas e a ciência moderna. com as formas de pensar. Porém. mas sim a verdadeiras formas culturais cuja aparição e continuidade dependem de tecnologias intelectuais. e portanto surgem novos tipos de representações. a ecologia cognitiva arrisca-se a negligenciar tudo aquilo que se relaciona. As teses _________ Pág. uma rede de computadores. Enfim. ética. mudassem. seria definida menos por uma certa distribuição de idéias. com o desaparecimento de algumas e o surgimento de outras. A epidemiologia das representações proposta por Dan Sperber é particularmente estimulante porque. Além disso. uso corrente nas ciências cognitivas. a epidemiologia das representações apenas da conta dos conhecimentos declarativos. a ecologia. as gravuras puderam transmitir imagens detalhadas da Terra. maior difusão. de outro. a epidemiologia das representações nos diz muito pouco sobre o pensamento coletivo enquanto tal. Uma cultura. atravessando fronteiras entre objetos e sujeitos. porque apenas esta última permite. Eisenstein colocou em relevo os estreitos laços que unem o nascimento da ciência moderna nos séculos XVI e XVII ão uso maciço da impressão. as comparações sistemáticas de dados com à ajuda de quadros apenas são possíveis coma escrita. q qual devemos fazer constar do programa de pesquisa da ecologia cognitiva. por exemplo. por exemplo. e entre a esfera das representações c o domínio técnico. estáveis que são as representações. Para retomar um vocabulário. uma. Modifica. Ao interessar-se exclusivamente pelas entidades substanciais. um sistema de notação ou a configuração de. as particularidades da memória de longa prazo dos seres humanos irão intervir. portanto. As representações circulam e se transformam em um campo unificado. etc. discretas e. revelar-se por demasiado estreita. Este quadro teórico pode. Graças à invenção de Gutenberg. Se as condições da seleção natural mudarem. então. que não poderia haver uma religião. então. grandes quantidades de listas ou tabelas numéricas (como as cotações diárias da Bolsa) só podem ser mantidas sem muitos erras e largamente propagadas em uma cultura que disponha ao menos da impressão. passam. entre a interioridade dos indivíduos e. As "religiões do livro" estão evidentemente baseadas na escrita. de enunciados e de imagens em uma população humana do que pela forma de gestão social do conhecimento que gerou esta distribuição. No que diz respeito às mutações culturais induzidas pela escrita e pela impressão. falar e agir. ela constrói um ponta causal entre a psicologia e a sociologia. Goody mostrou. cognitiva deveria integrar em suas análises também os conhecimentos procedurais que contribuem muito para a constituição das culturas.informática transforma o meio no qual se propagam as representações. sua distribuição: — algumas representações. universalista sem a escrita. do céu. do corpo humano. é natural pensar que haverá uma modificação no equilíbrio das espécies.

seus quatro netos. A memória coletiva parte do fundador da tribo a seus dois filhos. considerada como um sistema cognitivo. "apesar da continua emergência de novas gerações. de analogia e de argumentação operam sempre nas construções sociais. Explicação. os terapeutas. Para entidades sociais como as instituições. sem dúvida. recorrendo ao interesse de classe e usando a metáfora do reflexo da infra-estrutura na superestrutura. ela coloca em evidência os determinantes sociais da memória. sobre seu modo de comunicação). ou mesmo os períodos históricos. Uma boa parte dos trabalhos antropológicos. Eis por que a memória da coletividade não ultrapassa este ponto no que diz respeito aos ascendentes mais 10 Mary Douglas.: 86 . este esquecimento não se dá por. sociológicos e históricos. aberto e dotado de um mínimo de complexidade possui uma forma de "mente".) para intervir na família. filósofos como Hegel. Comte. Os cálculos sobre os dons e as dívidas em cabeças de gado que são trocados entre as famílias nos casamentos obrigam os Nuers a saberem exatamente quem são seus parentes até a quinta geração. o número de ascendentes deve permanecer constante. parece que. Sua. Marx ou mesmo Nietzsche deram. Ainsi pensent les institutions. Os membros deste povo geralmente se lembram de seus ancestrais de nove a dez gerações.da antropóloga Mary Douglas lançaram alguma luz sobre este último ponta. e depois cria uma falha que engole um grande número de ancestrais”10. Recentemente. estudado por Evans Prichard. Eles partem da hipótese de que as desordens de uma pessoa são sintoma da desordem de sua família. 1989. as possibilidades de aprendizado e de interpretação do sistema familiar como tal são aberras. a recontextualização etc. é no entanto bastante grosseira. Em seu livro Ainsi pensent les institutions [30]. (É certa que poucos de meus leitores serão capazes de voltar tanto tempo atrás na lista de seus ascendentes. adquire uma capacidade de abstração (poder comunicar ao sujeito. Apenas Marx. as nações. tratou este fenômeno histórico de forma analítica e causal. pode ser considerada como um esforço para elucidar mais tarde a questão do pensamento coletivo e das representações sociais. suas reações não estarão mais limitadas a umas poucas respostas estereotipadas. Gregory Bateson [7. por exemplo. O terapeuta utiliza diversas técnicas (o humor. ENTRE O COGNITIVO E O SOCIAL No prolongamento da cibernética. ou a origem institucional dos sistemas de classificação. 65. mas jamais atingiu o caráter diretamente operatório da terapia sistêmica. Na verdade. acaso. A aplicação deste principio aos grupos familiares goza de certo sucesso desde fins dos anos sessenta. Para ilustrar o problema da memória social. Na verdade. Usher. um caráter mais rigoroso a esta intuição de que maneiras de pensar divergentes entre si floresciam no seio de culturas distintas. Paris. p. Inversamente. a antropóloga Mary Douglas abordou o problema por inteiro. ultrapassando a descrição ou a narrativa. a partir do fim do século XIX. que não dispõem da escrita. o paradoxo. Mary Douglas analisa o caso dos Nuers. Supõese que a terapia familiar produza modificações de natureza epistemológica ou cognitiva: o grupo transforma a representação da realidade que ele tinha construído. ela mostra que atividades cognitivas de comparação. mas não mais que isso. O problema é explicar como os Nuers. Não falamos freqüentemente em "espirito do tempo"? Alguns partidos revolucionários não se consideravam como "intelectuais coletivos"? No século XIX. a idéia de um funcionamento coletivo é antiga. familiares [110] tentam modificar as regras de comunicação. após os trabalhos de Gregory Bateson e de sua escola. _________ Pág. de percepção e de raciocínio que prevalecem no seio do grupo em que vive o "paciente designado". fazem para lembrar-se de acontecimentos tão antigos. 8] contribuiu para difundir a idéia de que toda sistema dinâmico. Diversos ancestrais são portanto riscados da lista aos poucos. Ao invés de tratar da doença mental de um indivíduo. ) Mas é preciso também compreender porque os Nuers nunca se lembram de mais de onze ancestrais.

incorporadas à máquina social e que economizam cena quantidade e atividade intelectual dos indivíduos. a informática. uma certa redundância no meio em que ela existe.. 11 Ibidem. As regras jurídicas ou administrativas. a estrutura hierárquica das grandes organizações e suas normas de ação são tipos de memória. evitando que tenhamos que inventá-las por. Um outro exemplo sobre a forma pela qual as instituições comandam a memória pode ser tomado de nossa própria sociedade. sistemas de classificação. Uma vez que são convencionais e historicamente datadas. Este é o motivo pelo qual lembram-se também dos ancestrais mais longínquos. própria. eqüivale a classificar. seus filhos. 'TODA INSTITUIÇÃO É UMA TECNOLOGIA INTELECTUAL Pelo próprio fato de existir. uma vez que as genealogias recentes são geralmente simplificadas em sua estrutura por certas regras de equivalência e. p. uma estrutura social qualquer contribui para manter. Isto não impede. Por isto. os indivíduos apóiam-se constantemente sobre a ordem e a memória distribuídas pelas instituições para decidir. ou um teorema ou retomasse uma linha estendida por um cientista do passado não deixaria seu próprio nome para a posteridade. 65. ela pareça caminhar naturalmente para o ponto que se deseja colocar em destaque. ordenar. Ora a atividade cognitiva também visa produzir uma ordem no ambiente do ser cognoscente. por sinal. Podemos ver que suas instituições políticas.. elas são muitas. Em particular. Eis algo que explicaria por que os esquecimentos e as vertentes mortas da história das ciências são tão freqüentes. metáforas. construir configurações estáveis e periodicidades Com apenas uma diferença de escala. Mary Douglas sugere que. Conhecer.recentes. assim como instituir. O pesquisador que redescobrir uma lei. conta. Este é o motivo pelo qual poucos pesquisadores percorrem este caminho inverso. por razões práticas de ordem econômica. justamente. Embora talvez se aceite que toda instituição seja considerada como uma tecnologia intelectual. analogias. ou ao menos diminuir a quantidade dê barulho e caos. que interpreta ás avessas o "espírito" da instituição científica. raciocinar. e não a voltarem-se para o passado da ciência. e isto coletivamente. prever. Isto leva os cientistas a desenvolverem pesquisas originais e a ressaltar aquilo que seus resultados trazem de novo. seus netos e seus bisnetos. de raciocínio e de tomada de decisão automáticas. conceitos. há portanto uma forma de equivalência entre a atividade instituinte de uma coletividade e as operações cognitivas de um organismo. que precursores ou grandes nomes do passado possam ser chamados para socorrer esta ou aquela reconstrução da história de uma disciplina de forma que. A comunidade científica valoriza a descoberta e funciona de forma competitiva. uma ordem. A cada etapa de nossa trajetória social. se o seu sistema político tivesse sido uma territorialidade hereditária. Todos os que estão situados entre os primeiros ascendentes e os mais recentes desaparecem da memória dos Nuers.: 87 . mas antes o de seu predecessor. _________ Pág. "as coalizões políticas são baseadas na linhagem das quatro gerações originadas pelo ancestral fundador. cada um dos quais funda uma unidade política”11. imagens. A sociedade Nuer é bastante igualitária. alguns deles reteriam linhagens de ancestrais maiores. Esta memória é bastante sólida. a coletividade nos fornece línguas. as duas funções podem alimentar-se uma da outra. econômicas e matrimoniais condicionam suas lembranças coletivas. A cultura fornece um enorme equipamento cognitivo aos indivíduos.) são instituições. a divisão do trabalho. vezes lembradas e citadas. Além disso. O tipo de memória exercido pela comunidade científica depende estritamente de seus objetivos e de seu estilo de controle. arrumar. é claro que as tecnologias intelectuais (a escrita.

já que as metáforas retiradas do domínio extra-social (o corpo. Eles inventam no contexto procedimentos de decisão ou novas partições do real. evidentemente. A DIMENSÃO TÉCNICA DA ECOLOGIA COGNITIVA As coletividades cognitivas se auto-organizam. correntes e navios. um preço excessivo? Quem é cidadão? Onde termina o domínio do sagrado? Na medida em que o conhecimento é. etc. necessariamente. um papel igualmente essencial. os conceitos e as classes de equivalência que permitem reconhecer analogias e identidades são traçados pela cultura. Estradas e carros. O que é justo? Onde começa um salário decente. Certamente. ou aos raciocínios de suas instituições. uma estrutura social não se mantém sem argumentações. reorganizar as classificações aceitas no restante da sociedade é uma das principais vocações da comunidade científica. Mas. recursos minerais. o social pensa nas atividades cognitivas dos sujeitos. Sem dúvida há no mundo gradientes. A escolha destes critérios é. foram verdadeiros aceleradores intelectuais. a cor azul. toda. Nós vimos que as técnicas de comunicação e de processamento das representações também desempenhavam. Simetricamente. Constituir vela classe significa estabelecer limiteis. Mas a atividade cognitiva individual não é o último termo da explicação. influem na forma e na densidade das redes de comunicação.: 88 . não sem alguma dificuldade. Onde começam a Alemanha. As mudanças técnicas desequilibram e recompõem uma coletividade cognitiva cosmopolita. se mantêm e se transformam através do envolvimento permanente dos indivíduos que as compõem. É preciso ainda ampliar as coletividades cognitivas às outras técnicas. Tanto é assim que toda estrutura social só pode manter-se ou transformar-se através da interação inteligente de pessoas singulares. Mas estas coletividades não são constituídas apenas por seres humanos. o casamento à junção das duas partes do corpo. de água e de papel. a modificação dos limites e dos sentidos dos conceitos. histórica e circunstancial. compreendendo ao mesmo tempo homens. Por exemplo. a inteligência? A maior parte do tempo. como já dissemos.OS PROCESSOS SOCIAIS SÃO ATIVIDADES COGNITIVAS Acabamos de ver que as instituições sociais fundam uma boa parte de nossas atividades cognitivas. estes organismos de pedra. "o resultado das atividades cognitivas de pessoas: o governo comparado à cabeça do "organismo" social [91]. mas o recorte estrito de um conjunto supõe a seleção de um ou mais critérios para separar o exterior do interior. animais. pode ser interpretado como um processo cognitivo. E nenhuma fronteira existe à priori. As cidades. A maior porte dos atos dos protagonistas sociais tem como efeito ou como preocupação direta a manutenção ou. De acordo com seus interesses e projetos. e mesmo a todos os elementos do universo físico que as ações humanas implicam. colocar em questão uma parte destas delimitações conceituais. eles deformam ou reinterpretam os conceitos herdados. uma questão de classificação. e mesmo microssocial. Os sujeitos individuais não se contentam apenas em transmitir palavras de ordem ou em dar continuidade passivamente ás analogias de suas culturas. etc. inversamente. velas e ventos reúnem ou separam as culturas. e descontinuidades. plantas. analogias e metáforas que são. os indivíduos contribuem para a construção e a reconstrução permanentes das máquinas pensantes que são as instituições. _________ Pág. Mas grupos ou mesmo indivíduos podem. A agricultura inventada durante o Neolítico ou a indústria que foi desenvolvida na Europa durante os séculos XVIII e XIX foram os pivôs de mutações sociais fundamentais. estes trocadores complexas tecidos por mil artifícios. de carne. nelas. memórias vivas e compósitas. a natureza) retiram suas evidências das próprias estruturas sociais. A ciência não é a única em questão. convencional. em grande parte. processa social.

mas é antes a questão central das interpretações contraditórias e contingentes dos atores sociais. os dispositivos técnicos de comunicação criam redes. Propusemos. O destino da telemática na França nos dá uma _________ Pág. conexões e não como uma essência. Para continuar com nosso exemplo. Uma modificação técnica é ipso facto uma modificação da coletividade cognitiva. diretamente sobre a ecologia cognitiva. Os dispositivos materiais são formas de memória. Mas elas agem. flores. como afirmamos insistentemente na primeira seção. DOIS PRINCÍPIOS DE ABERTURA. elétrons. Cada nova conexão contribui para modificar os usos e significações sociais de uma dada técnica.: 89 . as impressoras laser. É porque este fato fundamental foi muitas vezes negligenciado que grande número de mutações técnicas nas empresas e administrações resultaram em fracassos ou disfunções gravíssimas. evidentemente. o armazenamento ou a transmissão de representações. um exemplo ínfimo. em que cimentam novos agenciamentos entre grupos humanos e multiplicidades naturais tais como ventos. anteriormente. as telecomunicações. Desviei para fins do conforta de leitura uma possibilidade inicialmente destinada ao layout. a tela catódica. Este é. elas são potentes fontes de metáforas e de analogias. encontram-se também cristalizados nos instrumentos de trabalho. plantas ou macromoléculas. novos mundos práticos. etc. os bancos de dados. máquinas e processas de produção são instituições. implicando novas analogias e classificações. há a escrita. transformam as possibilidades e os efeitos concretos do processamento de textos.. é conveniente ter em mente dois princípios de abertura. portanto.. Outro nos lembra que o sentido de uma técnica não se encontra nunca definitivamente estabelecido quando esta é concebida. Esta noção de rede de interfaces será mais amplamente desenvolvida a seguir. em uma máquina para processamento de textos. mesmo quando não tem como objetivo o tratamento de informações. nos métodos. mas um grande número de desvios e reinterpretações minúsculas termina por compor o processo sociotécnico real (não heideggeriano).. Para não trancafiar a ecologia cognitiva nascente em esquemas de pensamento rígidos. esta regra segundo a qual toda instituição poderia ser interpretada como uma tecnologia intelectual porque ela cristalizaria uma partição do real. já que. na medida em que transformam a configuração da rede metassocial. O princípio de interpretação: cada ator. cada um deles é portanto uma tecnologia intelectual. Por exemplo. a impressão. Não satisfeitos em combinar várias tecnologias que se transformam e se redefinem mutuamente. sobre as ecologias cognitivas de forma indireta. Temos nos contentado em analisar superficialmente a mudança dos métodos de produção e a reorganização dos fluxos informacionais. sociais e cognitivos. nas máquinas. desviando e reinterpretando as possibilidades de usa de uma tecnologia intelectual. É o sistema formado por estas múltiplas tecnologias que precisamos levar em conta. mas não tomas medido e levado em consideração a inteligência invisível que as antigas técnicas e as coletividades de trabalho que se construíram sobre elas possuem. Enquanto escrevia estas linhas. o alfabeto. O que equivale a dizer que não podemos considerar nenhuma tecnologia intelectual como uma substância imutável cujo significado e o papel na ecologia cognitiva permaneceriam sempre idênticos. Já que as ferramentas. também. aumentei o tamanho dos caracteres que aparecem em minha tela. animais. Uma tecnologia intelectual deve ser ana1isada como uma rede de interfaces aberta sobre a possibilidade de novas. uma memória. a informática. O princípio da multiplicidade conectada: uma tecnologia intelectual irá sempre conter muitas outras. nem em qualquer momento de sua existência. processas de decisão. atribui a elas um novo sentido. conceitos e até mesmo visão do mundo não se encontram apenas congelados nas línguas. minerais. Inteligência.As técnicas agem. Um defende que uma tecnologia intelectual deve ser analisada como uma multiplicidade indefinidamente aberta.

da lista heterogênea dos agentes captados pelos fundadores das primeiras firmas de microinformática: a linguagem de programação Basic. uma atividade comercial livre. O desenvolvimento do microprocessador foi a "causa" essencial ou determinante do sucesso dos computadores pessoais? Não. a ciência e as grandes empresas. e apesar das tentativas de contrate por parte dos governos.: 90 . o principal usa previsto por seus criadores. o movimento da "contracultura" que estava em seu auge nos Estados Unidos nos anos sessenta. as sociedades de capital de risco em busca de lucros rápidos. novas interpretações podem modificar. O sentido de uma técnica nunca se encontra determinado em sua origem. o computador pessoal não poderia ter sido automaticamente deduzido a partir do microprocessador. Além disso. Motivo polo qual as pranchas entalhadas acabaram predominando sobre os caracteres móveis. publicando não apenas clássicos e obras religiosas. a ideografia chinesa possui milhares deles.ilustração bem conhecida deste principia. interfaces de comunicação concebidas para usuários que não seriam informatas profissionais. por sua vez captando o interesse do público por esta mídia. Gutenberg havia reempregado a prensa de rosca dos vinicultores enquanto que os chineses esfregavam falhas de papel sobre uma prancha recoberta por tinta. Além disso. Também é possível ilustrar nossos princípios de interpretação e de multiplicidade conectada através de um exemplo mais recente. Entre uma cultura e outra. etc. ou mesmo inverter o sentido que prevalecia no instante t. Citemos. Foram publicados essencialmente os clássicos do budismo. Em relação à impressão propriamente dita. como um toda. Mas. competitiva. mas também novidades em todos os domínios da vida cultural. aos mesmos dispositivos de prensagem que a impressão européia. pois não era. a impressão permaneceu quase sempre um monopólio do Estado. a sociedade chinesa usou a imprensa de forma totalmente diferente da sociedade européia. sob o mesmo nome. não se tratava da mesma rede de interfaces que será estabelecida na Europa em fins do século XV. O caso da impressão é particularmente adequada para ilustrar nossos dois princípios. A impressão chinesa não estava conectada á mesma escrita. enquanto que os europeus fundiam caracteres em metal. A aventura da microinformática contribui para colocar novamente em questão o esquema linear das "gerações" de materiais informáticos segundo o qual o progresso seria medido apenas pela velocidade de cálculo. os materiais eram diferentes: os chineses usavam principalmente a cerâmica ou a madeira.. etc. NEM DETERMINISMO. o que obviamente não facilitava as manipulações dos impressores do Império do Centro. a impressão foi. muito mais sólidos. A cada instante t+1. foi apenas um acontecimento entre muitos outros. descentralizada. Os chineses já conheciam a impressão muitos séculos antes da cristandade latina. reinterpretada por certos atores como uma rede muito privada de comunicação interativa. como foi o caso na Europa. O gosto pela troca de mensagens surpreendeu todos os observadores. Na China. Da mesma forma. de forma alguma. novas conexões. Na Europa.. Mas comerciantes de todos os tipos lançaram-se no mercado na "nova comunicação". O microprocessador foi inicialmente construído para guiar mísseis e não para constituir a parte central de um computador pessoal. coma face virada para o alto. esta técnica foi tomada por circuitos de significação e de usa radicalmente diferentes. do taoísmo e a história oficial das dinastias. interpretado e mobilizado a serviço de uma luta contra os gigantes da informática. IBM não deu o mesmo sentido ao _________ Pág. contrariamente ao que ocorreu no Império do Centro. capacidade de memória e densidade de integração dos circuitos. Enquanto que o alfabeto latina possui apenas algumas dezenas de caracteres. As empresas inovadores de Silicon Valley fizeram entrar em cena na história da informática outros atores sociais que não o Estado. A rede estatal e utilitária concebida pela DGT foi desviada. Em 1976. Suas características técnicas não a tornavam forte candidata a tornar-se a primeira atividade industrial mecanizada e padronizada. à mesma metalurgia.

a ecologia cognitiva localiza mil formas de inteligência ativa no seio de um coletivo cosmopolita. nem computador pessoal sem microprocessador). Vemos aqui que os projetos divergentes dos atores sociais podem conferir significados diferentes ás mesmas técnicas. fluidas. seqüencial e padronizada. não há causas e efeitos mecânicos. É claro que não haveria peixes sem água. seqüencial e padronizada. Interações complicadas entre homens e coisas são movidas por projetos. mas o mar não teria que ser. enquanto que o outro desejava conservar o usa dos computadores que prevalecia até então. Este gênero de proposição é . _________ Pág. de julgamento.microprocessador que a Apple. percorrido de individuações auto-organizadoras locais e pontuado por singularidades mutantes.: 91 . Ao desenvolver a idéia de uma ecologia cognitiva. e não de apagá-las. dotadas de sensibilidade. aberto. Há estruturas. É mais ou menos como no domínio biológico: uma espécie não pode ser deduzida de um meio. Certamente. povoado por vertebrados. Em ecologia cognitiva. Elas mesmas fragmentadas e múltiplas. Segundo eles. a atividade cognitiva não é o privilégio de uma substância isolada. Estas dimensões foram gravemente subestimadas por autores como Marshall McLuhan[76] ou Walter Ong [82].. Só é possível pensar dentro de um coletivo. Mas esta posição tem sobretudo o efeito de fazer proliferar as subjetividades. as subjetividades individuais misturam-se às dos grupos e das instituições. poderia ter contido apenas algas e moluscos. Chegamos mesmo. mas as primeiras não irão. Vamos dissipar um último mal-entendido. funda-se sobre a hipótese segundo a qual cada nova mídia reorganiza o sensorium dos indivíduos. sem dúvida.. Mas os efeitos realmente coletivos como os que estão relacionados à recorrência de certos tipos de processamento das representações foram muito mal compreendidos. Chegamos. mas é precisa descrevê-las como são: provisórias. provocaria uma forma de pensar visual. enquanto tais. dinâmico. mas sim ocasiões e atores. obrigatoriamente. São eles. ao contrário. Toda a teoria macluhaniana. a adiantar que os grupos. Elas não descem do céu das idéias. que se polarizaram sobre a relação direta entre os indivíduos e as mídias. os metas de comunicação seriam sobretudo prolongamentos da vista ou do ouvido. não o alistou na mesma rede de alianças. Elas compõem as macrossubjetividades móveis das culturas que as alimentam em retomo. A ecologia cognitiva que tentamos ilustrar aqui deve ser também distinguida das abordagens em termos de estruturas. mas antes resultam de dinâmicas ecológicas concretas. Em nosso exemplo. dinâmicas e sistêmicas das relações entre cultura e tecnologias intelectuais. que devem ser explicados pela interação e interpretação de agentes efetivos. de memória.evidentemente. Inovações técnicas tornam possíveis ou condicionam o surgimento desta ou daquela forma cultural (não haveria ciência moderna sem impressão. sem limites precisos. de episteme ou de paradigmas. por exemplo. não temos de forma alguma a intenção de negar ou rebaixar o papel dos sujeitos na cognição. determinar as segundas. distribuídas. moleculares. necessariamente. ao paradoxo de uma análise imediata das mídias: como a impressão apresenta os signos de forma visual. um dos projetos consistia em fazer do computador um meto de comunicação de massa. apenas a caricatura grosseira de uma análise das relações entre atividade cognitiva e tecnologias intelectuais. assim. NEM ESTRUIURALISMO É preciso insistir nas dimensões coletivas. eram dotados de pensamento (o que não quer dizer: de consciência). nem tampouco emanam dos misteriosos "envios" do ser heideggeriano. Ao contrário de certas correntes das ciências humanas que por muito tempo hipostasiaram "estruturas" misteriosamente atuantes em detrimento de uma subjetividade que foi declarada ilusória ou subordinada. . Os paradigmas ou as epistémaï nada explicam.

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Levar em conta as tecnologias intelectuais permite compreender como os poderes de abstração e de raciocínio formal desenvolveram-se em nossa espécie. nem lápis. sobretudo o tema da razão. desenvolver alguns raciocínios abstratos. Paris. de forma convincente. que repousa sobre o uso de tecnologias intelectuais variáveis no espaço e historicamente datadas.WATZLAWICK Paul.. um certo número de pesquisas desenvolvidas em psicologia cognitiva experimental a partir dos anos sessenta mostraram. Por outro lado. que. e entre estes muitos estudantes de lógica. Entretanto. Parece que apenas levamos em conta. por enquanto. mas sim um efeito ecológico. Diversos trabalhos desenvolvidos em psicologia cognitiva a partir dos anos sessenta mostraram que a dedução ou a indução formais estão longe de serem praticadas espontaneamente e corretamente por sujeitos reduzidos apenas aos recursos de seus sistemas nervosos (sem papel. AS TECNOLOGIAS INTELECTUAIS E A RAZÃO A abordagem ecológica da cognição permite que alguns temas clássicos da filosofia ou antropologia sejam renovados. Muito mais que o conteúdo bruto dos dados. Le seuil. 104]. Concordemos. Como explicar esta irracionalidade natural? Poderíamos dar conta dela através da hipótese da "arquitetura" do sistema cognitivo humano (por analogia com a arquitetura de computadores).. quando separado de seu meio ambiente sociotécnico pelos protocolos experimentais da psicologia cognitiva. A razão não seria um atributo essencial e imutável da alma humana. Une logique de la communication. 58. nem possibilidade de discussão coletiva). Apesar dos estudantes de lógica terem tido uma performance superior aos outros. Experiências sobre a dedução foram realizadas em muitas centenas de pessoas. ainda assim muitos deles se enganaram. sem dúvida. podemos sem dúvida explicar este sucesso fazendo apelo a recursos cognitivos exteriores ao sistema nervoso. a memória de longo prazo disporia de uma enorme capacidade de armazenamento e de restituição pertinente dos conhecimentos. Sem ajudas externas tais como escritas simbólicas (p=>q). se atrapalha com os quantificadores (todos. apesar de tudo. Nesta _________ Pág.. Também não são muito mais hábeis com os raciocínios indutivos (encontrar uma regra geral partindo de casos particulares) ou aqueles relativos ás probabilidades ou estatísticas. O HOMEM IRRACIONAL O que é a racionalidade? Esta é. Nosso sistema cognitivo ofereceria muito poucos recursos aos "processos controlados". diagramas e discussões coletivas diante de um quadro-negro. os humanos parecem não possuir nenhuma aptidão particular para a dedução formal. uma pergunta que pode gerar muitas controvérsias. em sua maioria estudantes ou universitários. tabelas de valores verdade. o ser humano não é racional [40. HELMICK BEAVIN Janet. alguns.: 93 . É possível que não exista nenhuma faculdade particular do espírito humano que possamos identificar como sendo a "razão". nos nossos raciocínios. 1972. nosso humor no momento e a maneira pela qual são apresentados os problemas determinam as soluções que adotamos. aquilo que se enquadra em nossos estereótipos e nos esquemas pre-estabelecidos que usamos normalmente. Como alguns humanos conseguiram. Nossa atenção consciente ou nossa memória de curto prazo poderiam processar apenas uma quantidade mínima de informação a cada vez. com esta definição mínima: uma pessoa racional deveria seguir as regras da lógica ordinária e não contradizer de forma por demais grosseira a teoria das probabilidades nem os princípios elementares da estatística. JACKSON Don. 13.) ) e comete erros em seus silogismos. A maior parte das pessoas tem dificuldade em processar as frases negativas.

É bem possível que novas tecnologias intelectuais. porém são mais econômicos que estes últimos porque estão fisicamente conectados dentro do sistema cognitivo. mas sem que os recursos da atenção e da memória de curto prazo seriam saturados. A teoria das probabilidades só existe há três séculos. se estabilizem. assim como outros automatismos internos. mas que algumas vezes podem revelar-se falsos. ou ao menos muito grosseiros. Uma boa parte daquilo a que chamamos de "racionalidade". ao papel e à codificação escriturária. disparamos um certo número de processos ditos heurísticos. os objetos e os conceitos que nos são úteis no cotidiano. Uma vez que os processos de leitura/escrita e de cálculo tenham sido automatizados através de uma aprendizagem precoce e longa. não recorrem mais à atenção e à memória imediata. utilizamos dispositivos externos (lápis e papel para elaborar a lista de dados de um problema). ou nosso modelo de realidade.memória de longo prazo. Aquilo que retivemos de nossas experiências anteriores pensa por nós. mobilizam muito pouco a memória de curta prazo (a concentração). em vez de levar em conta todos os dados de um problema. A lógica é um destes sistemas de codificação gráfica. que requerem uma atenção contínua. raciocínios que utilizassem a lógica clássica e a teoria das probabilidades. modelos e associações da memória de longo prazo. em particular. Mesmo se nós "conhecemos" os princípios da lógica. nós raramente os seguimos. sistemas de codificação gráfica e processos de cálculo que recorrem a dispositivos exteriores ao sistema cognitivo humano. A memória de curta prazo pode. Estes esquemas seriam como "fichas mentais" sobre as situações. Referimo-nos. auxílios à memória. Ela só foi mais ou menos formalizada há vinte e quatro séculos (um curto lapso de tempo comparado à duração da aventura humana). encontram-se inscritos em nossa memória de longo prazo. é muito mais rápido e econômico recorrer aos esquemas já prontos de nossa memória de longo prazo. delegar uma parte de suas funções à tinta. muito custosos em termos de atenção e de memória de curto prazo. da probabilidade e da estatística (estando estes armazenados em algum lugar da memória de longo prazo). Poderíamos dizer que nossa visão do mundo. buscamos o mesmo alvo que ao seguir uma heurística — a questão continua sendo a de economizar os processas controlados. baseadas na informática. e as estatísticas há duzentos anos. ao autorizar processamentos de informações do mesmo tipo que os realizados pelos "processos controlados". Mas. O que mostra o caráter histórico e provisório de toda definição da racionalidade que se apoiasse sobre estas tecnologias intelectuais. As heurísticas são métodos rápidos que geralmente dão resultado. no sentido mais estrito do termo. etc. Devido a estas hipóteses sobre a arquitetura cognitiva. cálculo. a informação não se encontraria empilhada ao acaso. pois exigiriam que utilizássemos "processos controlados". Por exemplo. por exemplo. AS TECNOLOGIAS INTELECTUAIS EM AUXÍLlO A MEMÓRIA DE CURTO PRAZO As tecnologias intelectuais permitem que algumas fraquezas do espírito humano sejam corrigidas. tomas tendência a reter apenas os mais marcantes ou aqueles que coincidem com situações com que lidamos usualmente. Uma vez ativados os esquemas. Sendo automáticos ou semi. a certas técnicas de inteligência artificial ou de simulação que permitem levar em conta e _________ Pág. equivale ao uso de um certo número de tecnologias intelectuais.: 94 . e estas tornariam "irracionais". automáticos. Usando uma tecnologia intelectual. eis como poderíamos dar conta dos erros de raciocínio sistemáticos constatados pela psicologia cognitiva. em vez de recorrer a um automatismo interno (como a heurística do "mais marcante" ).) ). mas sim estruturada em redes associativas e esquemas. montados no sistema cognitivo através da aprendizagem (leitura/escrita. Dada a arquitetura do sistema cognitivo humano. São passagens ou atalhos em relação aos cânones da racionalidade estrita.

diferenças essenciais entre percepção.: 95 . — No instante seguinte. o paradigma da cognição não é o raciocínio. as extremidades da rede em contato como mundo exterior (os captadores) mudam de estado — As mudanças no estado dos captadores geram. em particular? Rumelhart. Todas as transformações na rede têm. A lógica é. novas tecnologias intelectuais. os sistemas cognitivos são redes compostas por um grande número de pequenas unidades que podem atingir diversos estados de excitação. Não existe apenas uma racionalidade. Se o sistema cognitivo humano realiza seus cálculos estabilizando-se sobre soluções perceptivas e não através do encadeamento correto das inferências. mantendo toda a ambigüidade da palavra. como os sistemas especialistas. e não uma maneira natural de pensar. segundo as teorias conexionistas. seria a ativação de uma pseudopercepção a partir de estímulos internos. as conexões que seriam mais freqüentemente percorridas pelo processo de desestabilização/estabilização seriam reforçadas por ele. a IA clássica ou lógica construiu. até que a rede atinja uma nova situação de equilíbrio. Em particular. causas locais e os efeitos se propagam pelas proximidades. mas sim normas de raciocínio e processos de decisão fortemente ligados ao uso de tecnologias intelectuais. Este estado de equilíbrio global funciona como uma "representação" dos eventos exteriores ao sistema que ocasionaram a modificação do estado dos captadores. a lógica é uma tecnologia intelectual datada. _________ Pág. Não haveria. Para os conexionistas. na verdade. por exemplo. Seu mecanismo típico seria o seguinte: — Em um instante t uma rede se encontra em determinada situação de equilíbrio12 . mas sim a percepção. outras tendências em inteligência artificial. e da atividade científica. em um capítulo apaixonante de Parallel Distributed Processing 12 Estado de equilíbrio. cada nova percepção deixaria vestígios na rede. Mais uma vez. Segundo os conexionistas. que por sua vez são historicamente variáveis. A enorme maioria dos raciocínios humanos não usa regras de dedução formais. mudanças de estado em outras unidades da rede. baseada na escrita. Os pesquisadores da corrente conexionista baseiam-se muito mais no funcionamento do sistema nervoso do que nas regras da lógica formal. os vestígios mnésicos deixados pelas experiências anteriores ia memória delongo prazo). portanto. porém. de "experiência". para o pensamento. A percepção é o conjunto do processo de desestabilização e de re-estabilização da rede. COMO AS TECNOLOGIAS INTELECTUAIS ARTICULAM-SE AO SISTEMA COGNITIVO HUMANO: UMA TEORIA CONEXIONISTA Existem. aprendizagem e memorização. que seriam impossíveis de apreender de forma eficaz somente através das técnicas de grafia e de cálculo sobre o papel. de linhas retas quando se desenha. evidentemente. Esta é a razão pela qual os trabalhos em inteligência artificial baseados unicamente na lógica formal têm poucas chances de chegar a uma simulação profunda da inteligência humana. As unidades apenas mudam de estado em função dos estados das unidades às quais estão conectadas. como explicar que ás vezes façamos verdadeiros raciocínios de acordo com as regras da lógica? Como dar conta da existência de um pensamento abstrato. Smolensky. mas sim uma única função psíquica que poderíamos chamar. Esta simulação utilizaria. por propagação. A imaginação. portanto. Em vez de uma réplica do pensamento vivo. É preciso também observar que. o mesmo que a régua de madeira é para o traçado. — As unidades continuam a modificar os estados umas das outras.visualizar de forma dinâmica e interativa um grande número de fatores. em geral. ou a simulação de modelos mentais. McLelland e Hinton.

mais uma vez o papel das tecnologias intelectuais. como procedemos para resolvê-lo? Em primeiro lugar. O sistema cognitivo se estabiliza em uma fração de segundo na interpretação de uma determinada distribuição de excitação dos captadores sensoriais. construímos uma representação material do problema através de símbolos visuais ou audíveis. Nisto. a de imaginar e a de manipular. A imaginação é a condição da escolha ou da decisão deliberada: o que aconteceria se fizéssemos isto ou aquilo? Graças a esta faculdade. como construímos cabanas de madeira ou barcos. A aptidão para a bricolagem é a marca distintiva do homo faber (ainda que haja apenas uma diferença de grau em relação ás performances dos animais. desta cultura. podemos decompor as operações do pretenso pensamento abstrato de tal forma que. Na verdade. A faculdade de imaginar. A percepção imediata é a habilidade cognitiva básica. Examinemos. desencadeada por estímulos internos. somos exatamente como os outros animais. McLelland e Hinton. então. sem que para isto tenhamos que recorrer a uma cadeia de deduções conscientes. que ao definir-se como espécie fabricadora. deveríamos contabilizar três grandes capacidades cognitivas humanas: a faculdade de perceber. Agenciamos sistemas semióticos da mesma forma como talhamos o sílex. ou de fazer simulações mentais do mundo exterior. A capacidade de simular o ambiente e suas reações tem. não reste mais nenhuma abstração. nós tiramos partido de nossas experiências anteriores. a este respeito. Finalmente. Reconhecemos imediatamente uma situação ou um objeto. O problema é o seguinte: como chegar a conclusões lógicas sem ser lógico. Neste caso. ao fim da análise. certamente. os sistemas semióticos para representar. reordenar e dispor parcelas do mundo que nos cerca de tal forma que elas acabem por representar alguma coisa. uma atividade manipuladora. a pele de animais para as roupas. sem que haja qualquer faculdade especial do psiquismo humano que seja uma "razão"? Segundo Rumelhart. de um ponto de vista conexionista. permitem dar conta de todas as realizações do pensamento dito abstrato. tentam responder a estas perguntas. Este poder de manejar e de remanejar o ambiente irá mostrar-se crucial para a construção da cultura. desta vez. Ela nos permite antecipar as conseqüências de nossos atos. Como era de se esperar. estes autores supõem que apenas a existência de artefatos externos aos sistemas cognitivos humanos torna possível o pensamento abstrato. Enfatizemos. os barcos para navegar. tateante e interpretativa faz com que materiais já existentes penetrem em novos domínios de usa e significação. graças à faculdade de manipulação. dispomos de uma faculdade operativa ou manipulativa que seria muito mais especifica da espécie humana que as anteriores. A combinação destas três faculdades. o princípio desta representação material já se encontra à nossa disposição. em particular daqueles que servem-se de seus membros anteriores para outros fins que não a locomoção).[75]. Smolensky. Vamos examinar uma a uma as três aptidões cognitivas elementares. os entalhes e impressões de sinetes sobre telhas de argila para a escrita. bem como sua articulação com as tecnologias intelectuais. uma vez que _________ Pág. O desenvolvimento de um novo exercício operatório não pode ser dissociado da atividade de reinterpretação de um material preexistente: a madeira para as cabanas. mas. é porque possuímos grandes aptidões para a manipulação e bricolagem que podemos trafegar. Uma vez identificadas as três faculdades elementares.: 96 . por exemplo. é um tipo particular de percepção. a humanidade envolve-se simultaneamente no trabalho do sentido. um papel fundamental para todos os organismos capazes de aprendizagem. variável e historicamente datado. encontramos a solução de um problema simples. Dado um problema como uma multiplicação de dois números de dez dígitos. o pensamento lógico ou abstrato sendo apenas um dos aspectos. A faculdade de percepção ou do reconhecimento de formas é caracterizada por sua grande rapidez. Em cada caso. Ás cabanas servem para abrigar-nos.

também participam deforma _________ Pág. de uma forma imediatamente perceptível. que façam uso de nossas faculdades operativas e perceptivas. ou seja. os sistemas de fichas. É abstrato toda o problema fora de nossas capacidades de manipulação e de reconhecimento imediatos. imóveis. Para serem corretamente efetuadas. o sistema cognitivo introjeta parcialmente os sistemas de representação e os algoritmos operativos cujo uso foi adquirido por ele. estas manipulações de representações devem ser objeto de um aprendizado e treinamento. tabelas. de olhos fechados. ainda que pertençam ao mundo sensível "exterior". etc. e depois acionar o algoritmo de multiplicação que nos foi ensinado. as escritas. utilizar imagens internas de diagramas. olhando em uma tabela.. em todos estes casos.: 97 . os ábacos. figuras ou de mapas para esquematizar um raciocínio ou uma situação complexo. Este medo de representação do espaço permitiu que o marinheiro calculasse mais facilmente sua posição em mares desconhecidos do que o tradicional portulano. Podemos. diagramas. etc. Podemos agora definir a abstração em termos de suas relações com as tecnologias intelectuais. graças a um sistema de símbolos e aos procedimentos que o acompanham. estas representações são concebidas para que nelas se possa efetuar facilmente algumas operações. de soma ou de divisão disponíveis. aprendida. A partir desta decomposição. problemas abstratos ou complexas encontram-se ao alcance da faculdade operativa e da percepção imediata.. efetuamos reconhecimentos rápidos. com a notação por posição. de resolvê-los fisicamente. As tecnologias intelectuais eficazes resultam muitas vezes desta afiança entre a visibilidade imediata (requerendo aprendizagem)e a facilidade de operação. Uma vez traduzidos para os sistemas de signos fornecidos pela cultura. Mas. Pensemos ainda nos mapas geográficos quadriculados em latitudes e longitudes. Vamos "armar a multiplicação". durante esta atividade. visam simbolizar. por exemplo. imaginar que armamos uma operação durante um exercício de cálculo mental ou então dispor mentalmente certas informações em uma tabela de referências cruzadas. Um problema que permanecesse abstrato seria simplesmente insolúvel. É precisa que sejamos capazes de "ver" imediatamente cada uma das microssoluções intermediárias. Nossa destreza em resolver certos problemas. mapas.o aprendemos na escola. de multiplicação possíveis. As tecnologias intelectuais. como signos de escrita. dados por demais numerosos ou difíceis de serem apreendidos diretamente. Graças a sistemas de representações externas.. o problema complexo e abstrato será decomposto em pequenos problemas simples e concretos. problemas abstratos podem ser traduzidos ou reformulados de tal forma que possamos resolvê-los através da execução de uma série de operações simples e concretas. A diferença entre os números árabes e os romanos ilustra bem esta idéia da ligação entre o sistema de notação e os procedimentos que estão ligados a ele. É aqui que entra em joga a terceira faculdade cognitiva: nossa capacidade de "rodar" modelos mentais de nosso ambiente. quadros. posicionar os dois números sobre o papel. podemos imaginar que manipulamos símbolos sensíveis e que. OS SISTEMAS COGNITIVOS SÃO COMBINAÇÕES SUJEITO/OBJETO OU REDES DE INWRFACES COMPOSTAS Graças à simulação de modelos mentais. encadeando atos reais e percepções aos sistemas semióticos fornecidos por nossa cultura. deriva da capacidade. de acorda com os sistemas numéricos. Os números árabes. a faculdade de reconhecimento de forma rápida poderá sempre ser aplicada. como.. diretamente (duas vezes três são. as tabelas de multiplicação. Vale observar que existe um grande número de algoritmos. do mais. em certa parte do ábaco. Os modos de representação. seis) ou indiretamente. qualquer outra atividade. permitem algoritmos para as operações aritméticas muito mais simples que os permitidos pelos números romanos. Uma vez que tenhamos nos exercitado o bastante. Além.

este misto de atividades subjetivas e objetais. É precisa _________ Pág. para perceber isto. como é o caso. os índices e as tabelas. nossa percepção da cidade onde vivemos muda dependendo se costumamos ou não consultar seus mapas. que aprendem. A psicologia contemporânea e a neurobiologia já confirmaram que o sistema cognitivo humano não é uma tábula rasa. por exemplo. A ecologia cognitiva nos incita a revisar a distribuição kantiana dos papéis entre sujeitos e objetos. O ser cognoscente é uma rede complexo na qual os nós biológicos são redefinidos e interfaceados por nós técnicos. institucionais. É nela que fazemos da caligrafia e da leitura lima segunda natureza. ser estendido a toda o equipamento cognitivo fornecido ao indivíduo por sua cultura e pelas instituições das quais ele participa: língua. A distinção feita entre um mundo objetivo inerte e sujeitos-substâncias que são os únicos portadores de atividade e de luz está abolida. Muitas vezes. era em torno do sujeito que girava o problema do conhecimento. semióticos. É pela dimensão objetal que atravessa a cognição que esta se encontra envolvida na historia. esquemas e mapas. Estas tecnologias estruturam profundamente nosso uso das faculdades de percepção. nossa memória e nossos raciocínios. quadros. aqui. conceitos. As criações de novos modos de representação e de manipulação da informação marcam etapas importantes na aventura intelectual humana.: 98 . mesmo. Segundo o filósofo de Königsberg. o próprio Kant comparava-a á revolução copernicana: a partir de então. a própria experiência é organizada pelas categorias do sujeito. O que significa que não há nem razão pura nem sujeito transcendental invariável. Desde seu nascimento. mesmo nos mais cotidianos. o pequeno humano pensante se constitui através de línguas. a desenhar a inclusão e a interseção com batatas. a maioria das técnicas da inteligência em uso em uma dada sociedade. Encarnam uma das dimensões objetais da subjetividade cognoscente. que são exercitadas na manipulação. Kant deu um papel preponderante ás estruturas transcendentais do sujeito cognoscente. As tecnologias intelectuais desempenham um papel fundamental nos processos cognitivos. de manipulação e de imaginação.fundamental no processo cognitivo. E a historia do pensamento não se encontra identificada. A escola surge ao mesmo tempo que a escrita. Construímos automatismos (como o da leitura) que soldam muito estreitamente os módulos biológicos e as tecnologias intelectuais. mas sim com as transformações do processo intelectual em si. Contra o empirismo. sua função ontológica é precisamente a de realizar a fusão íntima de objetos e de sujeitos que permitirá o exercício de uma ou outra versão da "racionalidade". basta pensar no lugar ocupado pela escrita nas sociedades desenvolvidas contemporâneas. variável. que as crianças são ensinadas a usar os dicionários. Os empiristas imaginavam o saber como sendo unicamente modelado polo experiência. Os processos intelectuais não envolvem apenas a mente. de máquinas. Ele abrange objetos e códigos de representação ligados ao organismo biológico pelos primeiros aprendizados. Para qualificar a revolução que estimava ter produzido na filosofa.. O sujeito transcendental é histórico. e interpretação dos signos. com a série dos produtos da inteligência humana. Mas articulamos aos aparelhos especializados de nosso sistema nervoso dispositivos de representação e de processamento da informação que são exteriores a eles. procedimentos de decisão. culturais. Por exemplo.. Sua arquitetura e seus diferentes módulos especializados organizam nossas percepções. Deve. de sistemas de representação que irão estruturar sua experiência. compósito. O mundo exterior supostamente inscrevia suas regularidades na tábula rasa da mente. uma historia muito mais rápida que a da evolução biológica. os métodos para resolver certos problemas são incorporados nos sistemas de representações que a cultura nos oferece. a decifrar ideogramas. colocam em jogo coisas e objetos técnicos complexos de função representativa e os automatismos operatórios que os acompanham. em suma. metáforas. indefinido. de forma muito restritiva. na notação matemática ou nos mapas geográficos.

Les Vues de l'esprit..: 99 . Paris. Image et cognition. Cambridge. Explorations in tbe Microstructures of Cognition (2 vol).. PUF. 1982. Harvard University Press. juin 1985. Freeman and Company. LATOUR Bruno (sob a direção de). Mental Models. 1983. GUINDON Raimonde (sob a direção de). 1987. GARDNER Howard. MIT Press. Hillsdale. 1986. BIBLIOGRAFIA ANDERSON John R.. 1985. Parallel Distributed Processing. RUMELHART David (sob a direção de). Massachusetts. A History of the Cognitive Revolution. Lawrence Erlbaum. An Introduction. Cambridge. 1985. 1989. BADDELY Alan.H. Basic Books. Toronto. DENIS Michel. 1988. JOHNSON-LAIRD Philip N. Massachusetts/Londres. Cognitive Science and its Applications for Human-Computer Interaction. MIT Press. Your memory: a User’s guide. Cambridgc. New York. New York.pensarem efeitos de subjetividade nas redes de interface e em mundos emergindo provisoriamente de condições ecológicas locais. Mc-graw Hill. Cognitive Psychology and its Implications (2ª edição). Cognitive Science. _________ Pág. Massachusetts. n° 14 de la revue Culture technique. MCCLELLAND James. W. The Mind's New Science. STILLINGS Neil et al. New Jersey.

e não como um sistema coerente.: 100 . Cada uma destas instâncias funciona. sede dos "processas primários". a realização de uma espécie de unidade psíquica. Por outro fada.. a mente não forma um toda coerente e harmoniosa. subordinam-se uns aos outros. ou filósofos muito distantes da tradição anglo-saxônica. já haviam percebido. Numerosos filósofos. a psicologia contemporânea realiza hoje na dimensão cognitiva do psiquismo. Além disso. Empregando uma metáfora. Em particular. Realmente. está caduca. ou seja.. o "id". estruturados de acorda com centenas de arquiteturas distintas. Uma é a da modularidade ou da multiplicidade dá mente. transferindo compromissos. de acorda com princípios diferentes. politeísta. a partir de agora. menos ainda como uma substância. o "ego" e o "superego" ) que interagem de forma mais ou menos conflituosa. é constituída de peças e pedaços. como Piaget. competem por recursos limitados. Freud e Jung. não seria absurdo supor uma espécie de linguagem comum ás diferentes partes da mente. A questão da unidade da alma está ligada à do grau de inconsciência das operações mentais. negociando. o caráter estritamente limitado da consciência. supostamente. Hoje em dia. buscam objetivos divergentes. o célebre pesquisador de inteligência artificial do MIT sugere que um crânio humano conteria milhares de computadores diferentes. Propôs. eventualmente agrupados em "agências". Esta imagem da alma humana. A SOCIEDADE DA MENTE De acorda com Marvin Minsky [79]. Mesmo que não concordemos com todas as suas idéias. psicólogos humanistas estranhos ás ciências cognitivas. como Deleuze e Guattari. como. a razão e a atenção consciente remetiam-se indefinidamente umas ás outras. etc. o "id".14. ou ao menos uma tradução possível no idioma da consciência. podem ter dado a entender que a inteligência era um conjunto único e generalizável de habilidades lógico-matemáticas que operariam em todos os _________ Pág. modelos do psiquismo nos quais atuam diversas instâncias (por exemplo. O que a psicanálise realizou no começa do século em relação ávida emocional. Freud mostrou de maneira convincente que uma parte essencial de nossos sentimentos e de nossas motivações é inconsciente. a tese da modularidade ou da multiplicidade heterogênea das funções e das instâncias psíquicas toma-se mais plausível. as diferentes partes da mente não compartilham a mesma "lógica" subjacente. da psiquê. James Hillmann. O psiquismo deve ser imaginado como uma sociedade cosmopolita. a multidão colorida que se esconde por trás de cada pensamento. enquanto que o "ego" seria mais racional. de Platão a Nietzsche. no centra de uma substância única e transparente a si mesma. AS COLETIVIDADES PENSANTES EO FIM DA METAFÍSICA Na filosofia cartesiana. Neste caso. também pleiteiam uma abordagem múltipla. há duas teses que os psicólogos cognitivos prezam que se situam na antítese da imagem cartesiana da alma. competem. e outra a dos limites da introspecção simples. Grandes psicólogos. Pelo contrário. Não haveria nem mesmo um código ou princípio de organização comum a toda o sistema cognitivo. cada um à sua maneira. não conheceria nem a passagem do tempo nem a lógica. se quase toda a vida psíquica encontra-se situada fora da zona de atenção. e psicólogos como William James. desenvolvidos de forma independente ao longa de milhões de anos de evolução. em si. além disso. o acesso direto de uma parte da mente à diversidade das operações mentais seria. o livre-arbítrio. Minsky nos traça um quadra da mente humana no qual milhares de agentes. Por exemplo. se a maior parte das funções psíquicas fossem realizadas sob o controle da consciência.

audição. acreditava na existência de órgãos mentais. não poderia haver uma teoria da aprendizagem comum a todos os domínios. colocar em evidência que um processador de linguagem. deixando outras perfeitamente intactas. Os módulos cognitivos descritos por Fodor funcionam automaticamente. Estas faculdades ou módulos cognitivos não compartilham recursos comuns ao conjunto do sistema cognitivo. os módulos cognitivos especializados são extremamente rápidos. Além disso. pessoas hábeis nas relações interpessoais mas refratárias à geometria. Qualquer julgamento feito sobre o grupo como um toda. sabe-se que danos em zonas limitadas do cérebro podem afetar certas competências mentais. encontramos freqüentemente sábios idiotas. automáticos e muito rápidos. etc. É precisa que nós habituemos a pensar as pessoas como grupos. São auto-suficientes. No caso da faculdade lingüística. em particular. Cada um de nos possui todas estas capacidades. tais como memória. Os módulos perceptivos (visão. lógicomatemático. espacial. devemos. por exemplo. que eles escapam da consciência. Qualquer que seja a mobilização de nossa memória ou atenção consciente. independentes umas das outras. já que não existiria nenhuma razão a priori para que todos os "órgãos da mente" se desenvolvessem da mesma forma. Nós somos incapazes de olhar uma linha impressa como uma seqüência de manchas pretas. Gardner supõe que existam ao menos sete aptidões mentais diferentes. mas em graus diferentes. a competência espacial o geômetra ou o arquiteto. Seria preciso distinguir entre o pensamento lingüístico. Em conseqüência de seu caráter automático. Em primeiro lugar. ) são exemplos destas faculdades autônomas. Jerry Fodor [37] estimou que uma parte importante do sistema cognitivo humano é estruturada por faculdades relativamente independentes umas das outras. pelo contrário. geneticamente determinado. de compreensão de linguagem e da fala realizam suas operações em velocidade máxima e coordenam perfeitamente seus funcionamentos sem que nossa vontade consciente seja mobilizada. A competência lingüística caracteriza o orador ou o escritor. e de acordo com uma pesquisa comparativa sobre as representações da inteligência nas culturas do mundo. "inteligência" ou atenção consciente. Diversas séries de latos. A maior parte dos humanos é capaz de repetir um discurso continua. em muitas culturas. Baseado em certos dados da psicologia cognitiva. portanto. Seguindo Chomsky.: 101 . continuamos a ver e a ouvir da mesma forma. diversos tipos de inteligência são identificados separadamente. numerosas experiências mostraram que somos obrigados a compreender o sentido de uma frase que ouvimos. musical. músicos ignorantes. Acontece o mesmo em relação à leitura. a competência corporal/cinestésica é a do esportista. mas os processos _________ Pág. reconhecer várias inteligências. com apenas um quarto de segundo de defasagem. 40]. A MODULARIDADE DA MENTE Um dos fundadores das ciências cognitivas contemporâneas. Por que o cérebro seria a única entidade do mundo biológico desprovida de estrutura. É impossível considerá-la apenas como barulho. era responsável pela aquisição das línguas assim como pela compreensão e produção dos enunciados lingüísticos. aparelhos visuais ou sistemas de coordenação motora. Por exemplo. Isto significa. Os módulos de audição. Grande número de módulos do sistema cognitivo são. compreendendo aquilo que repete. indiferenciada? Chomsky tentou. entre outros. etc. sem distinção dos indivíduos que o compõem. interpessoal. sociedades. é preciso abandonar toda uma maneira de pensar a cognição. o lingüista Noam Chomsky [19]. Se levarmos esta idéia até suas últimas conseqüências. Somos obrigados a ler. corporal/cinestésico. supondo que Chomsky tenha razão. ninguém é inteligente ou estúpido como um toda.domínios. De acordo com Howard Gardner [39. assim como há corações. Enfim. "encapsulados". Seus resultados podem muito bem chegar até a zona de atenção consciente de nossa mente. Portanto. e intrapessoal. será necessariamente injusto. etc. fora do contrate consciente. vêm apoiar esta tese.

realizados por estes módulos permanecem totalmente opacos para nós, e escapam a qualquer tentativa de controle. A ARQUITETURA COGNITIVA E A CONSCIÊNCIA O que é a consciência? A transparência do espírito a si mesmo? O sentido moral (a ciência sem consciência sendo apenas ruína da alma) ? A resposta da psicologia cognitiva poderia muito bem ser esta: a consciência é o agente responsável pela anunciação parcial da memória de curto prazo. A maior parte dos atores da sociedade da mente se relaciona com outros atores desta sociedade e não com o mundo exterior. Mas somos quase totalmente insensíveis a estas relações entre nossos agentes. Podemos apenas apreender os acontecimentos internos representados em nossa memória de curta prazo. Uma vez que a memória de curta prazo tem, como vimos, recursos limitados, é difícil estar consciente de mais do que duas ou três coisas de cada vez, ou de dirigir nossa atenção consciente a vários eventos ao mesmo tempo. Ora, nosso sistema cognitivo realiza diversas operações simultâneas. Como são externas ao campo de atenção, estas operações são, portanto, inconscientes. Uma vez que escapam da vontade consciente, elas são automáticas. De acordo com o que conhecemos sobre o funcionamento do cérebro e do sistema cognitivo humano como um todo, nenhuma agência da mente, mesmo inconsciente, possui supervisão e controle sobre todas as outras. A consciência onisciente e a vontade onipotente não serão substituídas por nenhum maestro clandestino. Quando dizemos que a maior parte dos processos cognitivos são automáticos, não queremos com isso dizer que o cérebro seria um equivalente formal de uma máquina da Turing. O fato da maior parte dos processos cognitivos serem automáticos não significa que o sistema nervoso seja efetivamente composto por uma infinidade de pequenos computadores de comportamento determinado, incapazes de sair do trilhos de uma programação prévia. Os dispositivos eletrônicos atuais são muito diferentes dos agenciamentos fluidos, contínuos, parcialmente instáveis e indeterminados dos seres vivos. As noções de determinismo e de automatismo são distintas. É porque são autônomos, não controlados, relativamente independentes uns dos outros, que grande número de processos cognitivos podem ser qualificados como automáticos. A mente é, em sua maioria, inconsciente, maquinal, composta por peças e pedaços. A ignorância mútua destas partes assegura a rapidez e independência de certos processamentos, como os da percepção, por exemplo. Este automatismo condiciona, sem dúvida, a sobrevivência de nossos organismos. Certamente é melhor para nós que a maneira pela qual nós enxerguemos ou escutemos não seja função de nosso humor ou de nossas convicções do momento. Como não requerem a interpretação de conhecimentos declarativos, os processos automáticos, ou compilados, não ocupam espaço na memória de trabalho. Liberam-na, assim, para outras tarefas.. Cada um de nós é capaz de manter uma conversa enquanto realiza uma tarefa automática, seja ela fisicamente conectada desde o nascimento, como a visão ou respiração, ou aprendida, como dirigir automóveis. Muitos processos automáticos são dirigidos por dados externos ao organismo. Por exemplo, o som de uma voz humana dispara automaticamente o módulo de reconhecimento e de compreensão da fala, quaisquer que sejam nossas intenções. A maior parte do funcionamento de nossa mente escapa ao nosso controle voluntário. A ECOLOGIA COGNITIVA E O FIM DA METAFÍSICA Acabamos de resumir algumas contribuições da psicologia cognitiva contemporânea. Precisamos, agora, retirar delas as conclusões que interessam à ecologia cognitiva. Todos os
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trabalhos sobre os módulos cognitivos, a sociedade da mente e as inteligências múltiplas nos sugerem que o pensamento está baseado, em grande parte, na articulação de diversos aparelhos automáticos, sobre a operação conflituosa de faculdades heterogêneas. O mecanismo, a inconsciência, a multiplicidade heteróclita, em uma palavra a exterioridade radical encontram-se alojados no próprio cerne da vida mental. A partir disto, não há nenhum absurdo em conceber a participação, no pensamento, de mecanismos ou processos não biológicos, como dispositivos técnicos ou instituições sociais, elas mesmas constituídas de coisas e de pessoas. Não somente é impossível, hoje, fazer do pensamento o atributo de uma substância única e transparente a si mesma, mas também a distinção clara entre subjetividade e objetividade deve ser abandonada. Por um desvio inesperado, a ecologia cognitiva nos faz reencontrar " o fim da metafísica" anunciado por Heidegger. Entretanto, desta vez, a metafísica (ou seja, o fortalecimento de um sujeito livre e voluntário frente a um universo objetivo, reduzido à inércia e aos mecanismos causais) não se apaga em proveito da transcendência de um ser guiando nossos destinos de longe. A ecologia cognitiva substitui as oposições radicais da metafísica por um mundo matizado, misturado, no qual efeitos de subjetividade emergem de processas locais e transitórios. Subjetividade e objetividade pura não pertencem, de direito, a nenhuma categoria, a nenhuma substância bem definida. De um fada, mecanismos cegos e heterogêneos, objetos técnicos, territórios geográficos ou existenciais contribuindo para a formação das subjetividades [26, 47, 48]. De. outro, as coisas do mundo são recheadas de imaginário, investidas e parcialmente constituídas pela memória, os projetos e o trabalho dos homens. Vamos reexaminar o caso da linguagem. É sabidamente difícil girar. sete vezes sua própria língua dentro da boca antes de falar. Ainda que os enunciados lingüísticos que emitamos atinjam, na maior parte do tempo, nossa consciência, o módulo de linguagem é em grande medida involuntário. Como todos sabem desde a vulgarização da psicanálise, "o id fala". Mas "o id fala" em um sentido ainda mais radical do que em Freud ou Lacan. Não são apenas nossas pulsões, recalques e outros complexos que se exprimem através de nossas bocas, mas também gramáticas, dicionários, províncias inteiras com suas expressões idiomáticas e modos de dizer, mas ainda diversas redes sociais ás quais pertencemos... É uma multidão cosmopolita que nos transmite suas "palavras de ordem" e fala por nossa voz. Como outros autores, Michel Serres enfatizou esta dimensão semi-automática, impessoal, da linguagem. Segundo o autor do Parasite, a linguagem farra parte ao mesmo tempo do sujeito, já que nos constitui, e do objeto, devido a seu caráter em grande parte automático, exterior, socialmente compartilhado. A linguagem é um bom exemplo da dimensão social, transpessoal, da cognição. Já vimos que um grande número de processas e de elementos intervêm em um pensamento. Mais uma vez, não há mais paradoxo em pensar que um grupo, uma instituição, uma rede social ou uma cultura, em seu conjunto, "pensem" ou conheçam. O pensamento já é sempre a realização de um coletivo. Sociologia e psicologia possuem apenas diferenças de granulação na observação. Estamos sempre diante do devir de redes heterogêneas. Devemos, simplesmente, apreender a sociedade da mente em outra escala. Tanto em uma quanto na outra, processas cooperativos ou agonísticos semelhantes estão operando. Em ambas, são diversas mensagens que são traduzidas e retraduzidas, transformamse e circulam. O ARGUMENTO DA DESCONTINUIDADE A multiplicidade dos agentes, a descontinuidade e a ausência de fronteiras nítidas dos coletivos humanos não podem servir como argumentos para recusar ao social a possibilidade de
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cognição. As mesmas razões levariam a negar que as pessoas pensam. Os dispositivos cognitivos dos indivíduos não são nem mais substanciais, mais homogêneos e nem mesmo melhor divididos do que os dos grupos. O funcionamento do corpo, o usa de técnicas, os sistemas semióticos fornecidos pela cultura, uma infinidade de acontecimentos e de situações sociais vem confundir as fronteiras de um agenciamento cognitivo pessoal já composto por peças heterogêneas e processas antagônicos. Pensar é um devir coletivo no qual misturam-se homens e coisas. Pois os artefatos têm o seu papel nos coletivos pensantes. Da caneta ao aeroporto, das ideografias à televisão, dos computadores aos complexas de equipamentos urbanos, o sistema instável e pululante das coisas participa integralmente da inteligência dos grupos. Como nos dispositivos cognitivos dos indivíduos, muitos processas sociais são automáticos, maquinais e encapsulados. O secretariado desta organização, o serviço de contabilidade de tal empresa, determinado segmento da burocracia de um ministério funcionam ou deveriam funcionar como máquinas, do ponta de vista daqueles que as utilizam ou enfrentam. Mas uma rede de mensageiros pode ser substituída por um correio eletrônico, um serviço de contabilidade por um programa de computador, etc. Ás máquinas sociais são indiferentemente compostas por homens e artefatos, por animais e potência naturais. Que existam numerosos segmentos não biológicos ou não humanos no coletivo cognitivo não altera absolutamente nada em sua natureza pensante, do ponto de vista funcional que nos interessa aqui. O cérebro é composto por numerosos módulos automáticos. Da mesma forma, o social está recheado de segmentos maquinais. Repetindo, muitas vezes estes segmentos são relativamente independentes uns dos outros, desconectáveis, como uma máquina de fotocópias, um computador, uma central hidrelétrica ou o departamento de uma grande organização. A CONSCIÊNCIA É INDIVIDUAL, MAS O PENSAMENTO É COLETIVO Não é precisa ser consciente para pensar? Pode-se considerar que grupos sejam efetivamente sujeitos cognitivos, enquanto que só pode-mos falar de consciência coletiva enquanto metáfora? Como já vimos, do ponto de vista das ciências cognitivas contemporâneas, a consciência e tudo aqui que se encontra diretamente baseado nela representam um aspecto importante, mas não essencial, da inteligência. A consciência pode ser considerada como uma das interfaces entre o organismo, seu ambiente, e o funcionamento de seu próprio sistema cognitivo. É o sistema de fixação de uma parte da memória de curta prazo, a pequena janela sobre os processas controlados. Estes processas controlados são menos potentes e rápidos que os processos automáticos ou reflexos. Em compensação, oferecem maior flexibilidade. Apresentam uma maior sensibilidade em relação aos objetivos em curso do que os automatismos, que teriam tendência a reagir aos dados em função de conexões inatas ou da experiência passada. Ora, nos grupos, esta flexibilidade e esta sensibilidade pode ser atingidas por outros metas que não a consciência. A deliberação coletiva, a existência de contrapoderes, os mecanismos institucionalizados de temporização poderiam, por exemplo, ocupar o seu lugar. Haveria, então, outros dispositivos que não a consciência para atingir a flexibilidade e as capacidades de negociação com a novidade que caracterizam a inteligência. No social, nada corresponde aos limites drásticos da memória de curto prazo que encontramos nos sistemas cognitivos pessoais, sobretudo após a invenção da escrita. Ora, como nós vimos, parece que a seqüencialidade e o sentimento de unidade associados à vida mental consciente estão intimamente ligados ás restrições que pesam sobre a arquitetura cognitiva do indivíduo humano. Novamente, como os grupos não compartilham estas restrições com os indivíduos, não têm necessidade de consciência para serem inteligentes.

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ou objetos manipuláveis como as falhas de papel. possam ser inteligentes. ponto singular no seio de um dispositivo social e cósmico que a excede por todos os lados.É necessário ainda esclarecer que a linearidade e o sentimento de unidade só valem em uma escala média de introspecção. eu quero. suas paixões ordinárias. pertence apenas a um agenciamento infinitamente complexo que ultrapassa os limites do indivíduo. quase tudo. nem a unidade substancial. devemos dar conta de nossas palavras e de nossos atos enquanto seres conscientes. efeito de rede. como uma espécie de monstruosa unha cultural. ao contrário. á que decisões seguidas por efeitos. a partir do momento em que acordam. deixando assim de fada os moinhos de vento. Será que a metáfora do prolongamento pode ajudar-nos a compreender o papel das tecnologias intelectuais? Será enquanto ferramentas do sistema nervoso. por outro lado. sei. _________ Pág. Ao proclamar "eu penso. o rádio aumentaria a potência de nossos ouvidos. traças determinantes. portanto. não é quase nada. Como uma coisa poderia participar da inteligência? Limitaremos provisoriamente nossa resposta ás tecnologias intelectuais. Mais freqüentemente um simples relê. etc. transformações reais da ecologia cognitiva ou do metassocial cosmopolita irão emanar dela. por natureza inconscientes.). etc. ou o fazemos muito raramente. pode-se ser mais reticente em aceitar que coletivos mistos. Em si. extensões do cérebro.: 105 .. como satélites a seu serviço. Esta ilusão tem sua importância. desta forma. Este erro fecundo. A impressão prolongaria e ampliaria a visão. máquinas complexas como os computadores. os trens de alta velocidade e os canais de irrigação em proveito de sistemas semióticos como as escritas. a consciência funciona precisamente porque se ergue como centro causal e origem das representações. Ora. A consciência. os lápis e os livras impressos. Nem a consciência. Leroi-Gourhan disse que o biface de sílex prolongava a mão. Ainda que nos saibamos efeitos contingentes de redes cosmopolitas. VOCÊS TÊM UMA ALMA AFINAL? Mesmo quando se admite que grupos humanos enquanto tais sejam capazes de cognição. O espírito humano não é uru centra organizador em torno do qual giram tecnologias intelectuais. desprovido de um sol central.. O que parece ser um paradoxo insuperável no papel não perturba de forma alguma o sono da maior parte dos humanos ( que têm muitas outras preocupações) e também não os dissuade de buscar. como o cinzel e o martela nas mãos do escultor. Ainda por cima. e portanto a inconsciência. o funcionamento paralelo. são. Mas esta descrição não é mais procedente se o pensamento está identificado antes com um efeito de coletivo heterogêneo do que com o atributo de uma entidade unificada e senhora de si mesma. a consciência (necessariamente individual) parece ser. eu. esta oscilação entre a ínfima realidade e a grande ilusão. este quase nada que se crê quase tudo e termina por produzir alguma coisa no centrada megarrede (e sobretudo das frágeis redes de consciências. que coisas aparentemente inertes podem fazer parte da inteligência? Teríamos a imagem de instrumentos basicamente passivos comandados por um pensamento humano soberano. e é por isso que podemos dotar de pensamento os coletivos cosmopolitas. ela se apropria e se atribui aquilo que. a multiplicidade das entidades em interação. nem o funcionamento seqüencial são indispensáveis ao pensamento. não nos vivenciamos. eis o que define o papel paradoxal da consciência individual na ecologia cognitiva. englobando coisas e conjuntas naturais. ". McLuhan baseou sua análise das mídias em suas relações com os sentidos. rigorosamente falando. Não é esta uma nova prova da estreiteza do domínio de aplicação da lógica? OBJETOS INANIMADOS. não é nada além de um agenciamento de satélites de todos os tamanhos e todo tipo de composições. No nível neuronal.

Como delimitar claramente o pensamento e aquilo de que ele vive. os sistemas de numeração e de medida. quadros. que fala quase dentro de nós como um autômato? O que é a mente sem a conversação. Em particular. As tecnologias intelectuais estão ainda nos sujeitos. subjetividades transpessoais de grupos. a representação em linhas e em colunas. imaginava a porte do diagrama onde ela iria encaixar-se. cada nó da qual é por sua vez um entrelace indiscernível de partes heterogêneas. escola pública e neurotransmissores.O computador. o cérebro esquerdo (mais analítico e lingüístico). e maneja o florete? E sem o pincel. Ao conectar os sujeitos. as técnicas de comunicação e de representação estruturam a rede cognitiva coletiva e contribuem para determinar suas propriedades. seus pigmentos irisados. meto objeto. ouso do teclado das _________ Pág. de flexionar em todos os sentidos aquilo que recebem de outros. cantigas algorítmicas. de cortar. programas que copiamos. Estas redes são representadas na tela por mapas nos quais rótulos (os nomes dos blocos) estão ligados por setas. TECNOLOGIAS INTELECTUAIS E SUBJETIVIDADE FRACTAL Quem pensa? Uma imensa rede loucamente complicada. através da imaginação e da aprendizagem.: 106 . esculpe. é sabido que o uso do alfabeto impresso faz trabalhar sobretudo. de repetir. do olhar. Assim. objetiva. É claro. o lápis e a tesoura entre o dedos dessa mão? O que é o. Quando deixamos de manter a consciência individual no centro. interporem-se entre eles. grafos. Elas formam. este veículo onipresente. pensamento sem a imagem interior. da carícia. textos que circulam. Mesmo quando eu não estava frente a meu computador. métodos. como este computador sobre minha mesa ou este livro em suas mãos. e assim por diante em uma descida fractal sem fim. a pessoa pensa. produto do coletivo. o lápis e o alfabeto formam micromódulos relativamente coerentes que vêm juntar-se. cuja coerência pode ser mais forte do que algumas conexões intrapessoais. Citando apenas um exemplo clássico. ou ainda o arranjo composto pelo papel. Mas elas também estão entre os sujeitos como códigos compartilhados. oposições lógicas. como podem sê-lo o conhecimento de uma língua natural. seu humor vítreo. mas é porque uma megarrede cosmopolita pensa dentro dela. imagens que imprimimos e transmitimos por via hertziana. a numerosos outros nós semi-independentes de uma rede cognitiva ao mesmo tempo pessoal e transpessoal. escreve. com estes módulos. mais complexa. e constrói. sem limites precisos? Como separar a inteligência da rede orgânica. mais rica. Para escrever aquilo que está sendo lido agora. quase um reflexo. do ocre de Altamira até os pixels das telas? O que é a mente sem linguagem. o papei das interfaces e das conexões de todos os tipos adquire uma importância fundamental. mas sobre certos segmentos do sistema cognitivo humano. pensamos com escritas. quando uma idéia me vinha à mente. usei um programa de hipertexto no qual os nós — blocos de texto — organizam-se em redes em vez de estarem ligados seqüencialmente. a leitura e escrita de ideogramas ou alfabetos. Os atores desta rede não param de traduzir. e portanto sem o globo ocular. meto sujeito. compassos. como nós suplementares. regras. e que se estende em todas as direções. As tecnologias intelectuais situam-se fora dos sujeitos cognitivos. agenciamentos transpessoais. A interiorização das tecnologias intelectuais porte ser muito forte. modos de representação e de visualização diversos. transversais. cidades e neurônios. social à qual ela está acoplada? O que é o espírito sem a mão que desenha e pinta. Subjetividades infrapessoais do gesto. descobrimos uma nova paisagem cognitiva. que pensa de forma múltipla. sistemas de signos e reflexos. Pequenas chamas evanescentes de subjetividade unitária correm na rede como fogos fátuos no matagal das multiplicidades. sem a presença do social e de todos os seus aparelhos de memória? Quase nada. enquanto que as escritas ideográficas também utilizam o cérebro direito (mais global. e tudo aquilo que foi inventado para fazer imagens. as tecnologias intelectuais não se conectam sobre a mente ou o pensamento em geral. ligado ás imagens e ritmos). Mesmo com as mãos vazias e sem nos mexermos.

SERRES Michel. Simon and Schuster. Paris. metaforicizados pelo hábito ou a imaginação. "Gnomon". New York. sem as quais o sujeito não pensaria. New York. Cambridgc. reinterpretados. Les Aventures de la différence. Basic Books. Massachusets. 1986 (edição original: The modularity of Mind. Parallel Distributed Processing. Galilée. La Société de l'esprit. signos brilhando sob o sol de meio dia ou sobre o céu inverso das telas. por sua vez. 1988 (edição original: The Society of mind. subjetivados. Image et cognition. 1983). 1986). MIT Press. Mille Plateux. RUMELHART David (sob a direção de). Paris. GUATTAR Félix.. 1989. O estudo das tecnologias intelectuais permite. Paris. BIBLIOGRAFIA CHOMSKY Noam. New York. Columbia University Press. concretudes duráveis ou acontecimentos fugazes. François Bourin. Galilée. Mas estas coisas do mundo. A History of the Cognitive Revolution. Paris. Munuit. Les Trois Écologies. 1986. 1989. 1989. Cartographies schizoanalytiques. SERRES Michel. FODOR Jerry. New York. e assim por diante. Palavras cochichadas ao crepúsculo. Bordas. Capitalism et schizophrénie. Minuit. GUATTARI Félix. 1989. de coletividades intersubjetivas que as saturaram de humanidade. 1987.máquinas de escrever ou dos computadores. Massachusetts/Londres. imbricados. 1980). GARDNER Howard. O sujeito cognitivo só funciona através de uma infinidade de objetos simulados. colocar em evidência uma relação de encaixamento fractal e recíproco entre objetos e sujeitos. GARDNER Howard.. Cambridge. DELEUZE Gilles. E estas comunidades e sujeitos humanos. Essai sur la psychologie des facultés. MIT Press. são em si produto de sujeitos. que outros ou talvez nós mesmos interiorizaremos novamente. An Essay on Faculty Psychology. então. Minuit. Paris. E é com estes elementos de fora interiorizados. nós introjetamos agenciamentos semióticos dispersos no mundo. carregam a marca dos elementos objetivos que misturam-se inextrincavelmente à sua vida. que criamos novas entidades audíveis ou visíveis. etc. Paris. in Éléments d 'histoire des scierces (sob a direção de Michel Serres). The Mind's New Science. suportes de memória e pontos de apoio de combinações diversas. 1980. Falmmarion. 1985. associados. 1983. _________ Pág. Paris. MCCLELLAND James.: 107 . Statues. Paris. ao longo de um processo em abismo no qual a subjetividade é envolvida pelos objetos e a objetividade pelos sujeitos. Explorations in tbe Microstructures of Cognition (2 vol). Basic Books. Frames of Mind: The Idea of Multiple Intelligence. PUF. GUATARRI Félix. París. 1985 (edição original: Rules and Representations. MINSKY Marvin. InterÉditions. DENIS Michel. La Morularité de l’Esprit. VATTIMO Gianni. Régles et représentations. 1985.

sem acrescentar nada. É sempre questão de conexões. É graças a estas inierfaces digitais/analógicas — os modems — que computadores podem comunicar-se através da rede telefônica. pelo contrário. No momento em que a maioria dos usuários definitivamente não são mais informatas profissionais.: 108 . INTERFACES Falou-se muito em interfaces neste livro. Este vocábulo substitui parcialmente aos de entrada e saída dos sistemas informáticos. Cada nova interface transforma a eficácia e a significação das interfaces precedentes. as perfuradoras de fita ou as impressoras dos computadores dos anos sessenta. retroativamente. compõem hoje a "interface". de estabelecimento de contato entremeios heterogêneos. de reinterpretações. usa-se o termo interface. passar pelas torções. Preferimos colocar em obra e ilustrar o conceito antes de defini-lo. É a operadora da passagem. e outros operadores recolhiam e processavam os resultados do cálculo. A digitadora ou operadora de entrada alimentava a máquina. Lembra ao mesmo tempo a comunicação (ou o transporte) e os processos transformadores necessários ao sucesso da transmissão. A INTERFACE NA INFORMÁTICA Enquanto vocábulo especializado. A análise "em rede de interfaces" de um dispositivo sociotécnico impede a fascinação paralisante. O teclado de um computador foi primeiro considerado como um "dispositivo de entrada". por exemplo. Uma interface homem/máquina designa o conjunto de programas e aparelhos materiais que permitem a comunicação entre um sistema informático e seus usuários humanos. da mesma forma. As interfaces de hoje são eliminadas amanhã (como os leitores de cartões perfurados) _________ Pág. onde nenhum efeito.15. a interface torna-se o ponto nodal do agenciamento sociotécnico. realizando também a transformação inversa. As telas foram vistas por muito tempo como "dispositivos de saída". opaco. Através de uma verdadeira dobradura lógica. Foi desta forma que pudemos perceber um computador como um encaixe. que um leitor de cartões perfurados. a palavra "interface" designa um dispositivo que garante a comunicação entre dois sistemas informáticos distintos ou um sistema informático e uma rede de comunicação. uma rede de interfaces sucessivas. Nesta acepção do termo. da mesma forma como as luzes que piscam. Cada vez mais. Esta época terminou. viradas para o mesmo fada. A "entrada" e a "saída" estavam situadas em lados opostos de uma máquina central. cosmopolita. Aplicamos. de traduções em um mundo coagulado. a interface efetua essencialmente operações de transcodificação e de administração dos fluxos de informação. mas talvez tenha chegado o momento de tratar esta noção em si mesma. A interface mantém juntas as duas dimensões do devir :o movimento e a metamorfose. Para além de seu significado especializado em informática ou química. o termo de interface a todos os dispositivos técnicos que garantissem ó cantata entre uma calculadora eletrônica e seu ambiente exterior. a noção de interface remete a operações de tradução. Ele transforma os sinais binários dos computadores em sinais analógicos aptos a viajar através da linha telefônica clássica. transmutações e reescritas das interfaces. O vocabulário testemunhava sobre a posição que o autômato ocupava no centra do dispositivo sociotécnico. O modem (modulador demodulador) é um exemplo de interface simples. um folheado. misturado. mas deve. quando os problemas sutis da comunicação e da significação suplantam os da administração pesada e do cálculo bruto que foram os da primeira informática. no sentido de interface homem/máquina. nenhuma mensagem pode propagar-se magicamente nas trajetórias lisas da inércia. as duas extremidades juntaram-se e. o deslumbramento do pensamento e da ação pelas essências.

alfabetos. em principio perfeita. livre de códigos abstratos inúteis. estática ou logicizante do computador. diversos programas. das pequenas edições e do jomalismo. a informática. Para continuar com nosso exemplo. 14 O principio Wysiwyg (what you see is what you get) assegura uma conformidade. colocavam um código convencional antes da palavra. Como foram incorporadas a programas de DTP. 13 Foi nos planos do Edvac (Electronic Discrete Variable Computer). ainda hoje. etc. o DTP provocou toda uma reorganização dos circuitos de comunicação das empresas. reduzindo o processa de tentativa e erro. sem que ninguém a houvesse perseguido explicitamente. muitas das antigas habilidades relativas à impressão difundiram-se largamente. os programas de layout e as impressoras laser de baixo custo. A dimensão de envoltórios sucessivos. mediatizará outras relações.ou redescobertas por novas interfaces e assim reintegradas à máquina (interfaces materiais como certos comutadores eletrônicos. de combinação e integração vertical cruza uma outra dimensão. e finalmente melhorando as condições de trabalho na tela. entre o que aparece na tela e o que será impresso fio papel. nem os programas de processamento de textos "amigáveis" estavam previstos nesta época. Cada nova interface permite novas conexões. mas são redes de interfaces totalmente diferentes. No final dos anos setenta. Não é possível deduzir nenhum efeito social ou cultural da informatização baseando-se em uma definição pretensamente estável dos autômatas digitais. a tela catódica. que foram formulados pela primeira vez os princípios fundamentais que constituem.: 109 . Pode-se muito bem dizer que o Macintosh e o Edvac13 são dois computadores. escritas. Muitas destas interfaces agem apenas nas entranhas do computador. já que nem a impressora a laser de baixo custo.. números. a das conexões horizontais. a impressão. Os primeiros programas de processamento de textos. de forma que é impossível prever ou deduzir o que quer que seja para além de uma ou duas camadas técnicas. para assinalar na tela que uma palavra seria impressa em itálico. Ainda que ele represente um dos principais usos da informática no início dos anos noventa. Mas todas contribuem para compor este agenciamento complexo que é a máquina. _________ Pág. redigidos por John von Neumann. A construção do Edvac só foi completada em 1951 [70]. aos hipertextos. processas de trabalho. etc. ou editoração eletrônica ) velo da associação de quatro grandes características de interface: o processamento de textos Wysiwig14. a base da organização interna dos computadores. na forma interpretativa. uma outra sociedade de microdispositivos. Ao abrir novos espaços para a publicação descentralizada. o mouse. Basta que seja conectada uma nova interface ia tela catódica. e no instante t+1 se terá obtido um outro coletivo. que por sua vez vão abrir novas possibilidades. uma nova linguagem de programação. a idéia de DTP se impôs pouco a pouco. Ela contém um grande número de interfaces: línguas. o DTP era inimaginável. transformando na sombra. dificilmente deduzível dos componentes básicos do agenciamento em questão. nem o computador pessoal. etc. Este principio de interface permite ao usuário controlar a aparência da página antes mesmo da impressão. os microcomputadores. sensoriomotores e anatômicos diferentes e não entram nos mesmos agenciamentos práticos com as outras tecnologias. aos sistemas especialistas. Esta análise em termos de rede de interfaces permitiu-nos recusar qualquer visão essencialista. mas sim algo de novo que irá surgir. uma redução de tamanho) à rede de interfaces que constitui o computador no instante t. novas profissões apareceram. era impossível prever o DTP levando-se em conta os computadores dos anos sessenta. o DTP (desktop publishing. instituições. evitando assim surpresas desagradáveis. a máquina de escrever (o teclado). de um exterior indeterminável. que se imbricam com módulos cognitivos. à medida que as interfaces acrescentavam-se umas ás outras. traduzindo. que entrará em novos arranjos sociotécnicos. aos bancos de dados. obteremos ainda outro efeito concreta. Se conectarmos o DTP aos bancos de imagens digitais. enquanto que os programas Wysiwyg simplesmente exibem em itálico na tela a palavra que será impressa em itálico. ou lógicas como a linguagem binária). O sentido de um dispositivo técnico não é a soma dos sentidos de seus componentes. Em 1975. Tomemos uma máquina para processamento de textos.

aquilo que pode ser feito com a interface ou o "conteúdo". os impressores acrescentaram novas camadas lógicas para facilitar o acesso ao texto: sumários. sou aspirado para dentro de uma rede de livros. como será apresentado. Tecnologia intelectual é demasiadamente molar. a página. índices.AS TECNOLOGIAS INTELECTUAIS ENQUANTO REDES DE INTERFACES Ao invés de confinar a noção de interface ao domínio da informática. funcional e lógico que funciona como armadilha. ou o fone. o sistema alfabético encontra-se envolvido sob uma aparência. de utilizações possíveis de uma mídia. um conteúdo também contém.: 110 . estratos de personalidade. as conexões com meus módulos sensoriais e outros estão estreitas a ponta de fazer-me esquecer o dispositivo material e sentir-me cativado apenas pelas interfaces que estão na interface: frases. conectadas. _________ Pág. em uma embalagem particular. pergaminho. o códex. em primeiro lugar. cadeias operatórias. A impressão edificou-se sobre uma rede de interfaces já elaborada: o alfabeto latina. é uma rede de interfaces. das interpretações dos atores sociais. Como se diversos dispositivos vistos de longe. na superfície. o papel. pudessem ter características práticas independentes de suas conexões concretas. Há. Caso se acrescente ou se suprima uma única interface à rede técnica da escrita em um dado momento. tomados como um todo. de acorda com qual caligrafia? Com letras carolíngeas. sem que jamais possamos encontrar uma polpa ou um núcleo de significação. A interface possui sempre pontas livres prontas a se enlaçar.. Depois do triunfo da prensa mecânica. vibratória. A interface condiciona a dimensão pragmática. tabuinha de argila. unificados violentamente sob um concerta. mármore. Por sua vez. A armadilha fechou-se. das modificações da microssociedade que os compõem. Ela abre. historia. O sentido remete sempre aos numerosos filamentos de uma rede. que é a interface visual da língua ou do pensamento. termo tão inadequado. Já que. a letra carolíngea padronizada por Alcuíno no reinado de Carlos Magno. por exemplo. fecha e orienta os domínios de significação. enganchado a meu computador ou minitel. examinando de perto. como vimos. assim como a cebola é composta por cascas sucessivas. Sou captado pela tela. dispositivo de captura. ganchos próprios para se prender em módulos sensoriais ou cognitivos. o próprio principio da escrita. É a interface romana e não a grega ou a árabe. inversamente. mas estas palavras encontramse materializadas. Mas. É unicamente com a condição de descer ao plano molecular das interfaces que poderemos compreender os agenciamentos sociotécnicos dos quais as tecnologias intelectuais tomam parte. música.. tela catódica. A interface é um agenciamento indissoluvelmente material. situações. o pergaminho e ó papel permitiram a invenção do códex. numeração das páginas. papel. apresentadas e valorizadas junto ao leitor por uma rede de interfaces acumulada e polida pelos séculos. de cristais líquidos? Cada suporte permite formas. podemos fazê-la trabalhar na análise de todas as tecnologias intelectuais.. é negociado nas fronteiras. sobre qual material estarão inscritos? Papiro. itálicas. toda a relação com o texto se transforma. 'usos e conexões diferentes da escrita: o papiro requer o ralo. O livro que você segura em suas mãos. Mas este alfabeto romano. O videocassete transforma a relação com a televisão. A esta primeiro característica vem articular-se a do alfabeto fonético (e não a ideografia). imagem. múltipla e reticular das tecnologias intelectuais. onciais? E todos estes caracteres. A interface abre-se para uma descrição molecular. sinais de pontuação. a interface contribui para definir o medo de captura da informação oferecido aos atores da comunicação. ao acaso dos encontros. os fones e o pequeno tamanho dos walkman reinstituem o usa do cassete. O que é um livro? Uma sociedade de palavras? Certamente.

Bifurcações ou associações inesperadas abrem bruscamente novos universos de possibilidades tanto no centro de um agenciamento técnico quanto em um texto. A função reprodutora faz com que se juntem (interfaceia) os dois sexos e constitui o corpo inteiro enquanto meto. abertas. desviar. conectar. apóiam-se umas sobre as outras. passagem. O que passa através da interface? Outras interfaces. Enzimas. duas espécies. aglomerados. cosmopolita. As interfaces são embutidas. Mas o que esta pele envolve? No nível da cabeça. limite e contato. quase que se confundem. articular. transpor. na tinta. Estas entidades pertencem. Tudo aquilo que é tradução.. de anatomia humana e outros artefatos em múltiplos agenciamentos de trabalho. até a última pequena dobra.. filtrar. O interior é composto por antigas superfícies. um trocador. transformação. ferramentas. Tanto é assim que um ator qualquer não tem nada de substancial para comunicar. se entrelaçam. Como no universo simbólico. se há conteúdo. O aparelho circulatório: uma rede de canais. mas de um ponto de vista pragmático todas são condutores deformantes em um coletivo heterogêneo. O sangue. prensados. mas também um agenciamento heterogêneo (um aeroporto. estanque e porosa. trair. transmitir ou parasitar. envolver. sua vocação. desviadas de suas finalidades iniciais.. metabolizar. traduzir. O coração. todas as interpretações técnicas sustentam-se. e não somente as tecnologias intelectuais. amortecer. por sinal. conduzir. em constante reconfiguração. duas ordens de realidade diferentes: de um código para outro. O coletivo sociotécnico é constituído de tal forma que enormes revoluções da ecologia cognitiva giram sobre a ponta aguda de pequenas reformas na sociedade das corsas: Gutenberg passou anos regulando problemas na prensa.. amarrotadas. A essência da técnica está toda nestas ondas alternadas de ramificação e solidificação de redes de interfaces que a história descobre. um veículo. são concebidos precisamente para imbricarem-se o mais intimamente possível com módulos cognitivos. Armas. interpretar. mas sempre outros atores e outras interfaces a captar. Os mais diversos agenciamentos compósitos podem interfacear. Esta é. conservar. o momento de um processo. de articulação entre dois espaços. transportar.. Mais uma vez. difratar. Os pulmões: uma interface entre o ar e o sangue. que se bifurcam. Todas as técnicas. porções. umas pelas outras. prestes a ressurgir. metabólitos. na liga de chumbo e estanho. amplificar.ONTOLOGIA DAS INTERFACES A mesma espécie que refinou ao extremo o mundo das significações cercou-se de um tecnocosmos... eles mesmos conectados por inúmeros (neuro-) transmissores. do mecânico para o humano. sem dúvida. torcidos. devemos imaginá-lo como sendo feito de recipientes encaixados. guerra ou comunicação. diferentes máquinas. O aparelho digestivo: um tubo. a caixa craniana. Pode ser um objeto simples como uma porta. circuitos sensoriomotores. fronteira e local de trocas.. a reinos ou estratos ontológicos distintos. deformar. todos os usos. ou seja. Estes dois aspectos do humano ecoam um ao outro. do analógico para o digital. E isto até o último invólucro. deslocar. Propagação de atividades nas redes transitórias. contribuindo para definir um meto continuamente deformável. mais ou menos visíveis por transparência. deformadas umas nas outras. A noção de interface pode estender-se ainda para além do domínio dos artefatos. é da ordem da interface. A primeira interface de nosso corpo é a pele. podem ser analisadas em redes de interfaces. um transformador. uma cidade). respondem-se ou opõem-se no centro de uma enorme estrutura instável. dobradas.. inscrever. E nesta caixa? O cérebro: uma extraordinária rede de comutadores e de fios entrelaçados. desviar. como os dispositivos de inscrição ou de transmissão. canal ou recipiente para outros indivíduos. um fragmento de atividade humana. um filtro. de tradução. já que interface é "uma superfície de contato.: 111 . _________ Pág.

. Em oposição ás metafísicas com espaços homogêneos e universais. multiplicadas e colocadas em rede pelo impresso. A língua: uma trama infinitamente complicada onde se propagam. puramente relacionais.. mas também a seu possível devir estético ou existencial. esta ontologia da interface. Sempre polifônico e por vezes discordante. vestimentas multiplamente revestidas. indivíduo e sociedade.: 112 . Não iremos tampouco profetizar alguma nova versão do panpsiquismo que nos permitiria afirmar que as coisas pensam. estranhamente conectadas a outras palavras por um ritmo ou rimas. e que portanto não são nem materiais nem espirituais. A própria mensagem é uma movente descontinuidade sobre um canal e seu efeito serão de produzir outras diferenças. colocadas em ressonância por uma voz distendidas ou torcidas por um canto. de canais. a noção de interface nos força pelo contrário a reconhecer uma diversidade. 'mensageiros. autonomizássemos artificialmente determinado gênero de conhecimento. concreções provisórias de interfaces pertencendo geralmente aos dois lados das fronteiras ontológicas tradicionais. a cada passo e tão longe quanto se vá. Sempre intermediários. e portanto tradução. aqui. A teoria das interfaces que tentamos empregar nesta obra evitou que reificássemos. Angelos: o mensageiro. todo conhecimento reside na articulação dos suportes. havia sugerido uma ontologia baseada em acontecimentos. são estas grandes dicotomias que nos impedem de reconhecer que todos os agenciamentos cognitivos concretos são. é porque nenhuma mensagem se transmite tal qual. de intérpretes. questão de lutas e de projetos. ou as representações culturais. no _________ Pág. as definições imutáveis e as pretensas determinações para devolver os seres e as coisas à fluidez do devir. transportadores. em um meto condutor neutro. de forma alguma. redes. os gêneros de conhecimento. As palavras já são interfaces. O corpo como uma imensa rede de interfaces. Ela permite dissolver as substâncias. Se todo processo é interfaceamento. Não precisamos destas unificações maciças para fazer com que as coisas participem do pensamento ou conectar computadores ao cérebro. e de emissários constitui o fundo do devir. RETORNO AO PROBLEMA DO CONHECIMENTO Para que nos serve. redes interligadas é dispersas ao sabor de dinâmicas ecológicas. mas antes deve ultrapassar descontinuidades que a metamorfoseiam. que existe apenas "matéria" e que isto nos autoriza a colocar cérebros em contato com telefones ou computadores. arrepios diversamente perturbados por outras palpitações. Uma pletora indefinida e ruidosa de veículos. é porque quase nada fala a mesma língua nem segue a mesma norma. A seu devir social. constituídos por ligas. ou melhor. Cada instante não é nada além de uma passagem entre dois instantes. de suas conexões. Como na versão conexionista ou neuronal da inteligência. ao contrário. homem e técnica. esta metodologia? Para preparar o terreno para o pensamento do pensamento que é a ecologia cognitiva. eis o coração frisado dos anjos. apesar de todas as suas insuficiências. uma heterogeneidade do real perpetuamente reencontrada. produzida e sublinhada. se dividem e se perdem as fulgurações luminosas do sentido. independentemente de seus suportes. do dispositivo sociotécnico que lhe dá sentido. o método de análise em redes de interfaces revela coletivos heterogêneos abertos a novas conexões. nem objetivos nem subjetivos. na arquitetura da rede. Sob estas entidades instituídas que são as técnicas de comunicação. A teoria da comunicação. mobilizadas. Um mundo molecular e conexionista resistirá melhor ás maciças oposições binárias entre substâncias: sujeito e objeto. de negar a heterogeneidade ou a diversidade do real para jogar tudo sobre um único polo. Ora. Não se trata. tornadas tão leves na ponta dos dedos pelo programa. determinado complexo de representações como se existisse em si. Não iremos alegar. padronizadas. etc.catalisadores. por exemplo. projetadas no espaço visual pela escrita. processos de codificação e decodificação moleculares.

conexões. Mas entre o curso do mundo tal como decorre no grande coletivo cosmopolita dos homens. interfaces. folheados de interfaces possivelmente mais espessos. e os processas cognitivos. conceber um sistema especialista). informações e significações são precisamente efeitos de suportes. proximidades. O que é conhecer? Isto coloca em jogo dobras um pouco mais densas. porque aquilo sobre o que versam as teorias do conhecimento: saberes. Traduzir antigos saberes em novas tecnologias intelectuais equivale a produzir novos saberes (escrever um texto. não existe nenhuma diferença de natureza. amálgamas mais apertados.: 113 . ser representadas de outra forma ou simplesmente viajar guardando ao mesmo tempo sua identidade. Ilusão.. redes conectando sem dúvida mais longamente seus trocadores e seus canais. dos seres vivos e das coisas. A ilusão consiste em crer que haveria "conhecimentos" ou "informações" estáveis que poderiam mudar de suporte.agenciamento das interfaces.. talvez apenas uma fronteira imperceptível e flutuante. compor um hipertexto. _________ Pág.

: 114 . Seu envolvimento em uma via particular resulta de circunstâncias locais. as velocidades de _________ Pág. deformada por inúmeras traduções e interpretações. no grande hipertexto social: na "cultura”. então. É certo que alguns artefatos concretos desempenham um papel fundamental neste ou naquele agenciamento particular de comunicação. foi para reparar uma injustiça. de forma alguma. etc. Resultam de longas cadeias intercruzadas de interpretações e requerem. vida. com cem formatos. Se colocamos a ênfase na tecnologia. de acreditar que "a técnica" como um toda (como se a palavra designasse uma entidade real e homogênea) "determina". As técnicas não determinam nada. os nós. Qual o medo de constituição deste hipertexto? De que forma se ligam às representações? Qual a topologia das redes onde circulam as mensagens? Que tipos de operação os discursos e as imagens produzem. da cultura. compartilhando as aventuras divergentes dos grupos que os abrigam. O estado das técnicas influi efetivamente sobre a topologia da megarrede cognitiva. Mas encontramse. estas metamorfoses. ao contribuir para estruturar as atividades cognitivas dos coletivos que as utilizam. do interpretação talvez contingente dos atores humanos que os cercam e que lhes dão sentido. a comunicação e a cultura. Mas ao definir em parte o ambiente e as restrições materiais das sociedades. as ciências. que sejam interpretadas.CONCLUSÃO POR UMA TECNODEMOCRACIA A TÉCNICA E O GRANDE HIPERTEXTO O conjunto das mensagens e das representações que circulam em uma sociedade porte ser considerado como um grande hipertexto móvel. transformam e transportam? Estas são algumas das perguntas às quais uma ecologia cognitiva deveria poder responder. de representação ou de cálculo. labiríntico. as conexões. elas mesmas. conduzidas para novos devires pela subjetividade em atos dos grupos ou dos indivíduos que tomam posse dela. conectadas a um exterior. sobre o tipo de operações que nela são executadas. terrivelmente parcial. a ecologia cognitiva deve recorrer à tecnologia das ciências. Ao mesmo tempo em que deve mobilizar tudo o que as ciências humanas clássicas têm a dizer sobre as artes. singulares. mil vias e canais. os modos de associação que nela se desdobram. os trocadores e os operadores da grande rede cosmopolita em que se inscrevem as civilizações não são apenas pessoas mas também obras de ante. Assim como não há natureza humana. totalmente imbricados a coletivos humanos. Não se trata. estas torções operadas por máquinas locais. ou forma a "infra-estrutura " do que quer que seja. Não são portanto os membros uniformes de uma mesma espécie "técnica" coligados tendo em vista determinado fim ou a obtenção de certo efeito. muito diferentes uns dos outros. subjetivas. que por muito tempo foram mantidas à distância. elas condicionam o devir do grande hipertexto. 'não há tampouco natureza das coisas. que reinjetam movimento. cada um tem apenas uma visão pessoal dele. Entretanto. Efetivamente. em reorganização permanente e povoados por inúmeros atores. A "técnica" ? Uma poeira de interfaces . Os membros da mesma cidade compartilham grande número de elementos e conexões da megarrede comum.uma multidão heteróclita de simbiotas artificiais. Quando tentamos compreender como pensam e sonham os coletivos. São justamente estas associações indevidas. estaríamos antes diante de sistemas ecológicos abertos. ou funda. para devolver a inteligência as coisas.

tanto através do livro quanto do jornal. A significação e' o papel de uma configuração técnica em um momento dado não podem ser separados do projeto que move esta configuração.transformação e de circulação das representações que dão ritmo a sua perpétua metamorfose.. há tanta interpretação em função do contexto ou da historia na leitura de uma curva traçada por um instrumento de medição quanto na leitura de um clássico chinês ou de um texto sagrado. de interpretações divergentes. É possível. já que.. A situação técnica inclina. se por trás da dinâmica contemporânea. mas sim uma infinidade de razões e de processas interpretativos divergentes. Pois é ao redor dos equipamentos coletivos da percepção. limitados pelo horizonte de sentido de seu século. certos atores singulares conseguirão desviar de seu destino espetacular a grande rede digital para qual convergem progressivamente a informática. das ciências e técnicas se esconderem não mais a razão e a eficácia (quer demos a estes termos um valor positivo ou negativo). Nesta conclusão. se arriscassem. Podemos separar um domínio abençoado onde reinaria a hermenêutica pura de uma zona maldita onde a operação pura teria livre curso. nosso propósito consiste antes de mais nada em designar as tecnologias intelectuais como um terreno político fundamental. a historia das ciência se das técnicas encontra-se inteiramente enrijecida por interpretações e reinterpretações de todos os tipos (como tão bem mostraram. o cinema e a produção musical? Ela irá escapar às visões imediatistas racionalizadoras e utilitárias? Poderemos lançar-nos nela à procura de outras razões que não as do lucra. de direito. sem que a graça do sentido jamais venha tocá-la? Em uma escala microscópica. orientados pelos problemas que perpassam seu coletivo. regida por princípios diferentes daqueles que prevalecem nas outras esferas da vida social. livro. vimos que os projetos. outras belezas que não as do espetáculo? Não haverá respostas positivas para estas perguntas a menos que renunciemos previamente à idéia de uma tecnociência autônoma. Ao longo deste. Gutenberg não previu e não podia prever o papel que a impressão terra no desenvolvimento da ciência moderna. generalizar tal julgamento à tecnociência como um todo. Em que medida certos projetos. _________ Pág. os autores de Elementos de historia das ciências. então não será mais possível. Na escala macroscópica. como lugar e questão de conflitos. excluir a tecnociência da esfera política. explorassem: Atores moldados pela história longa de que são herdeiros. do pensamento e da comunicação que se organiza em grande parte a vida da cidade no cotidiano e que se agenciam as subjetividades dos grupos. no sucesso da Reforma ou. sobre a evolução política do Ocidente. a edição. tanto no plano do conhecimento quanto no da ação. esboçar uma ou duas pistas. Não podemos deduzir o próximo estado da cultura nem as novas produções do pensamento coletivo a partir das novas possibilidades oferecidas pelas técnicas de comunicação de suporte informático. Podemos apenas propor algumas indicações. Uma certa configuração de tecnologias intelectuais em um dado momento abre certos campos de possibilidades (e não outros) a uma cultura: Quais possibilidades? Na maior parte das vezes só descobri-mos isto depois. Esta proposta é libertadora. as telecomunicações. Mas não dita. acreditamos. ou talvez dos projetos rivais que disputam-na e puxam-na em todos os sentidos. pesa. Foi preciso que atores humanos se coligassem. por exemplo. conflitos e interpretações divergentes dos "atores sociais (tanto criadores quanto produtores ou usuários) desempenhavam um papel decisivo na definição das tecnologias intelectuais. a televisão. sob a direção de Michel Serres). pode mesmo interditar. A TECNOCIÊNCIA COMO UM TODO É HERMENÊUTICA.: 115 . Voltamos assim ao toma de nossa introdução.

. metamorfosear. por exemplo: "A exatidão do não-verdadeiro possui uma irresistibilidade própria em toda o domínio da vontade de vontade". Ciência e técnica são farinha do mesmo saco que os processas usuais do coletivo. Heidegger escreveu. é ainda mais evidente para a técnica contemporânea do que para a das sociedades de evolução lenta. as interpretações. torcido em outro usa. Mas não! Falha-se bastante. que são tramadas sob o rótulo da tecnociência. políticas (acessibilidade das matérias-primas. reutilização e desvio. ) quanto sociais (qualificações. em sua esfera própria. estado da legislação a respeito da eventual poluição. 15 In Isabelle Stengers e Judith Schlanger. econômico. de uma imagem. mas esta se confundiria com uma capacidade superior de captar. antes de ter sido submetido à prova do coletivo heterogêneo. patentes. financiamentos. aparelhos de medida e gravação. Isabelle Stengers e Judith Schlanger [92] mostraram que. monopólios do Estado) ou culturais (relações com o público). Les Concepts scientifiques — invention et pouvvoir. O que é o mesmo que dizer que. ou de um dispositivo material só pode ser determinado pelo usa que dele fazemos. passando sem cessar de um registro a outro. _________ Pág... Não são portanto a objetivação. eventualmente. Bruno Latour e a nova escola de sociologia das ciências mostraram que. nenhum avanço técnico é determinado a priori. Quanto às máquinas e aos processas técnicos. Nenhuma técnica tem uma significação intrínseca.A técnica. quer dizer. ausente das outras atividades humanas. Mesmo após aceitas. mas sim a formigante atividade hermenêutica de inúmeros coletivos. 1989. a conexão mecânica entre a causa e o efeito. ainda que o menor dos objetos técnicos já seja algo arrancado do domínio natural. ou o desdobramento cego de um "sistema técnico" pretensamente inumano que melhor qualificam a técnica. Uma inovação técnica só existe se ela faz face de maneira coerente a estas diferentes restrições heterogêneas. La Découverte. Paris. ou do usa precedente. reorganizar. uma inovação técnica constitui uma criação de significações. etc. situação do mercado. de interpretar aquilo que está no núcleo da antropogênese. longe de identificar-se com. um "ser" estável. investimentos.: 116 . Para cada aparelho que faz sucesso (todos reconhecem que é eficaz. da rede complexa onde ela deverá circular e que ela conseguirá. a ciência é infalível e 'a técnica sempre eficaz. ensina. relações sociais implicadas à construção ou utilização da inovação).). membro da comunidade reinterpreta e desvia aquilo que recebe dos outros) ao custo" de um considerável gasto de energia (laboratórios. é um item obrigatório) cem terão sido abortados nas sombras. Michel Callon. Não é possível utilizar sem interpretar. as proposições científicas eram objeto de controvérsias violentas. possuíssem uma qualidade especial. também não se propagam "irresistivelmente". Esta mobilidade. as alianças. estratégias de desenvolvimento da firma.15 E nenhuma destas aquisições de sentido encontra-se previamente garantida. para ser reinterpretado. longe de serem "irresistíveis". em ciência como em outras coisas. UM PENSAMENTO-CÁLCULO? Um dos principais erras de Heidegger e de muitos criticas da tecnociência é o de crer na ciência. cultural. tateia-se sempre. circuitos de publicações. pela interpretação dada a ele pelos que entram em cantata com ele: E os turbulentos operadores da historia das técnicas não param de interpretar e de desviar tudo aquilo de que tomam posse para fins diversos. a "aplicação" automática de uma teoria científica. mesmo a mais moderna. é toda constituída de bricolagem. agir como se as estratégias. é preciso ainda mantê-las (já que cada. se ela consegue adquirir sentido ao mesmo tempo no plano científico. de desviar. O ser de uma proposição. as negociações.. imprevisíveis. mas apenas o sentido que é dado a ela sucessiva e simultaneamente por múltiplas coalizões sociais. Talvez houvesse uma "essência da técnica". "Estas significações remetem tanto a restrições econômicas (custas. aliados diversos.

de tateamentos. campos. Mas Illya Prigogine e Isabelle Stengers [87] recentemente colocaram em seu devido lugar esta imagem enganosa. de dinheiro. graças aos trabalhos da nova escola de antropologia das ciências. um clichê de uma ciência baseada em cálculo. existe efetivamente sob o nome de "ciência" uma visão de conhecimento que não deve ser reduzida a algo que é apenas um aspecto local e momentâneo de seu devir.. Não é a "razão" contra a "vida" ou a "objetividade? contra o "ser". elétrons. um produto.. infalibilidade da ciência moderna é um efeito. O divórcio que pronunciamos rápido demais entre vida. interpretativos quanto aqueles que ocorrem nas outras comunidades. Mas esta pretensa neutralidade. Isto é. ficamos muitas vezes presos à versão de Husserl sobre a pretensa fundação da ciência moderna por Galileu ou aos anátemas de Heidegger contra a ciência que "não pensa". tanto com entidades humanas quanto com não humanas (micróbios. na ciência.. as bibliotecas. quer dizer. Maquiavel ainda não escreveu O Príncipe. personalizados. O que é notável é o enorme esforço que é preciso dispender para estabelecer alguns enunciados neutros e universais. Infelizmente. ). circuitos. ) SOBRE UMA PRETENSA OPOSIÇÃO ENTRE O HOMEM E A MÁQUINA Como a oposição entre o homem e máquina poderia ser tão radical? O recorte pertinente não possa pela sociedade dos humanos de um lado. não-axiológico. e de interpretação. macromoléculas. motores. desta " [. a oposição entre o "mundo da vida" e a “razão" poderia ter alguma consistência. universais. de finura. como em tudo. ] objetividade em virtude da qual a natureza se oferece a nossa representação como um sistema cinético espaço-temporal e de alguma maneira pré-calculável (Heidegger).: 117 . Toda a eficácia de um e a própria natureza do outro se devem a esta interconexão. Nada disso pode favorecer o estabelecimento de uma tecnodemocracia. questões de forças. fatuais. e não que exista um domínio maravilhoso. e a organização garantida pelas instituições de ensino. etc. inumanidade. da ajudados grandes e de uma afiança com um vizinha poderoso. etc. sempre crescente de artefatos. A maior parte os enunciados que circulam na comunidade científica e nos laboratórios são tão incertos. e apenas em alguns domínios. não porque dispõe da força armada. e razão. se ouso dizer. Se não existe tecnociência como potência separada do devir coletivo. de pessoal. no qual a subjetividade a história c os conflitos não ocorressem. ao coletivo que a alimenta. da submissão do povo. de procedimentos complicados. formais. a indústria. de redes mais ou menos sólidas. ciência e meditação ou técnica e sociedade depende de uma versão terrivelmente parcial do processo científico. Ela não está de forma alguma relacionada à essência da ciência.. Se esta imagem fosse correta. e a raça das máquinas de outro. se fosse isto tudo o que a atividade científica tivesse para oferecer. estes cruzamentos. esta aliança de uma espécie animal com um número indefinido. Tal pessoa não é rei porque seu pai mandou estrangular o monarca titular. não. Heidegger ou Michel Henry "acreditam" na ciência como as pessoas da Idade Média acreditavam na realeza do direito divino. circunstanciais. polêmicos. Confundimos o produto acabado ideal e a atividade que tenta desajeitadamente construí-lo e que na maior parte do tempo não o consegue. apesar de um enorme gasto de laboratórios.É verdade que os enunciados científicos tomam ares de serem neutros. etc. ele é rei" pelo direito divino". Este trabalho já se encontra bastante adiantado. mas. transcendente.. aceitos por todos c reproduzidos nos manuais (estabilização por sinal totalmente provisória.. leis universais e mecanismo determinista. estas construções de _________ Pág. Falta realizar para a ciência e a técnica a obra de laicização que Maquiavel realizou para a autoridade política. afinal "a ciência avança". Não se trata unicamente. ao mostrar que ela correspondia apenas a uma etapa da aventura científica. de alianças. objetivos.

ou mais ínfimas. utilidade rentabilidade de seu produto. ferreiros. tinta e papel. ou da liberdade. A CIDADE CONTEMP'ORÁNEA SE ESTENDE À TOTALIDADE DO MUNDO (COSMÓPOLIS) O hormônio que estimula a lactação das vacas foi descoberto em 1920. construídas e mantidas por homens é triturando outros homens. ou da palavra.: 118 . misturado. Chega de nos polarizarmos sobre a oposição fácil. cobaias humanas. grosseira e espetacular entre o homem de corre e a máquina de metal e silicone para que possamos discernir as megamáquinas híbridas. quase totalmente opaco de um lado. Seria também precisa persuadir as administrações que regulamentam a saúde e a agricultura que o hormônio não era nocivo. não totalizável. também existe. seria mais fácil para as indústrias veterinárias pleitear sua causa junto aos europeus. suas tabuinhas de argila seca. armazéns. redes telefônicas e computadores: estes grandes monstros heteróclitos que são as empresas. O que fazer. O que não quer dizer que a máquina seja à melhor amiga do homem. Somas enormes são destinadas a congelar manteiga e fabricar leite em pó. as comunidades e coletivos de todos os tipos. mas com menos vacas. com um processo que permitia fabricar mais leite? Resposta das indústrias veterinárias: fazer a mesma quantidade de leite. turbilhonante. as administrações. e a ordem rígida de um discurso racional no qual se encadeariam de forma lógica os fins e os metas. máquinas de exploração. as universidades. Que novas megamáquinas. etc. ou mais fulgurantes porções de universo. infinitamente diverso. feitas. mas sim o turbilhonamento infinito do real. mais espesso. guardas. _________ Pág. polida. Certamente não é o pretenso sistema técnico que se opõe a esta visão inconsistente dos destinos humanos. Os preços do leite são artificialmente inchados para sustentar os fazendeiros. coletores de impostos andando nas estradas. evidentemente. não é o homem e a tecnologia enlouquecida. a intenção de torná-las rentáveis. os metas sempre subordinados aos fins e os fins em algum céu etéreo da ética. animais. Entretanto. escravos. armas. a Europa atravessa uma enorme superprodução de leite.coletivos híbridos e de circuitos crescentes de complexidade. Graças à engenharia genética. por exemplo. as usinas. Os grupos industriais que financiaram estas pesquisas têm. não sistematizável. mas o real mais maciço. colocando sempre em jogo mais vastas. palavras e estradas de ferro. Para este fim. cantas cuneiformes e exércitos de escribas. incomodativo. ou de Deus. 'foi desenvolvida uma infinidade de testes para verificar a inocuidade da proteína. confundindo as pistas mais claras. regulamentos e privilégios. Fora tal seria precisa convencer os fazendeiros da excelência. Estes testes colocavam em joga numerosos produtos químicos. terras semeadas com cevada. com seus grandes palácios de tijolos envernizados. hierarquias complicadas. Há máquinas de morte e de assujeitamento. mantida. desde a Suméria. máquinas loucas lançadas por humanos contra humanos. O que seria ainda mais vantajosa devido a existência de um incentivo ao abatimento. múltiplo. apropriada. os laboratórios. bois e pequenos animais. ou de uma república das vontades racionais. a máquina mimada. desde sempre ou quase. O Estado. capatazes e canais de irrigação. de pedras e homens. Mas a máquina cotidiana. aparelhagens complexas. não mais que o próprio homem. há pouco tempo tornou-se possível fabricar este hormônio (pudicamente rebatizado de proteína) através de microorganismos. útil. quais agenciamentos mutantes os computadores do futuro irão organizar? O que seria precisa opor. então. Como os fazendeiros e as administrações já haviam sido convencidos nos Estados Unidos. como é sabido.

para construir um outro. já que estão ligados às estabilizações provisórias de múltiplos dispositivos materiais e organizacionais. não fazemos distinção entre as entidades conforme sejam inertes ou vivas. primeiro no Ocidente e depois em toda porte. Relações foram estabelecidas entre homens. Quase nada proíbe que associações de cidadãos do Mercado Comum Europeu tentem influenciar as decisões dos organismos comunitários. Isto ocorreria em detrimento da policultura de subsistência. O objetivo das indústrias farmacêuticas é o de desfazer o agenciamento acima. Requerem. vegetais sofrerão ou lucrarão com esta mudança? Observemos que nada. por exemplo. '' O processa de metamorfose sociotécnica era lenta na maior porte das sociedades do passado. Possui muitas vezes um caráter epidêmico e destruidor para "sistemas técnicos" antigos. É uma dimensão. A partir de soja brasileira.. animais.. Os "valores" são contingentes em um sentido muito profundo. eles vêem nela a lenta da decadência dos valores' aos quais. as separações e as regras.. vacas. Mas a técnica é apenas uma dimensão. portanto. micróbios. as coisas se complicam ainda mais. NEUTRALIDADE DA TÉCNICA? A técnica em geral não é nem boa. uma rede complexa na qual interagem laboratórios farmacêuticos. Quanto mais reconhecermos isto. estavam ligados. ecossistemas). Eis. o porquê de muitos autores identificarem a técnica como umas das causas do mal contemporâneo. recortada pele mente. o terreno de manobras é muito mais vasto que a sociedade. do conjunto do jogo coletivo. proteínas. aquela na qual desenham-se as conexões físicas _________ Pág. nem neutra. alimentos especiais para animais. seus equipamentos.. fabricados industrialmente. nem má.' Em qual terreno estas associações são tramadas ou resolvidas? Na sociedade? Não. já que fabricam mais leite precisam de uma alimentação muito mais abundante e mais rica que a grama das pastagens da Normandia ou da Charente. repetimos. equipamento científico. homens ou coisas. ecossistemas. ás religiões. pequenas (micróbios) ou grandes (paisagens rurais. Entretanto. nem invencível. à custa da floresta primitiva? De qualquer forma. portanto. às instituições. encontra-se sempre intimamente misturada ás formas de organização social.: 119 . que funcionaria a seu favor. O projeto de democracia técnica baseia-se em uma antropologia cosmopolita. sem dúvida. paisagens. A questão está limitada a relações entre humanos? É evidente que não. Como evoluirão os bosques normandos após o abandono das pastagens? Quais espécies animais. de um devir coletivo heterogêneo e complexo na cidade do mundo. seu ritmo acelerou-se há dois ou três séculos.justamente por causa da superprodução. pastagens normandas. estáveis em maior ou menor grau. mas também micróbios. mais nos aproximaremos do advento de uma tecnodemocracia. Um novo processa para fabricar uma proteína coloca em jogo. absolutamente nada força as organizações agrícolas e as instituições européias a aceitar a proposta das industrias veterinárias. plantas. etc. leis. nem necessária. pois a "técnica". Esta nova procura por soja provavelmente provocaria a extensão da monocultura para exportação no Brasil. A democracia deve fazer o mesmo. seus cientistas. recortada peia mente. etc. resultaria em um modificação de paisagens e ecossistemas no continente sul-americano. seus testes e estábulos. Poderíamos chamar este lugar metassocial de a Terra. ás representações em geral. a monocultura de soja em certas regiões do Brasil.. os regulamentos europeus. regulamentos. necessariamente suscetíveis de serem reinterpretados. seus agrotécnicos. É clara que ambas as partes podem ter seus especialistas. A transformação da paisagem rural européia também é certa. uma vez que as vacas tratadas com este hormônio. A ciência moderna não pára de curto-circuitar as fronteiras. fazendeiros. e para as sociedades que se organizaram em torno desses sistemas. capturados e abandonados por uma infinidade de protagonistas.

contribui-se da mesma forma para forjar a cidade do mundo quanto votando. mas somente algumas saídas favoráveis ou desfavoráveis das negociações e conflitos entre agricultores. etc. Mais uma vez descobrimos o alcance político desta discussão: quanto mais "a técnica". aberta à interpretação.. Em compensação. organismos internacionais. empresas. que um amplo espaço permanece aberto à crítica e à intervenção. por sua vez. quanto melhor compreendermos "a essência da técnica". ou na ocasião de desastres ecológicos. mas estas trocas de mensagens foram desviadas pelos vendedores de ilusões cor-de-rosa. universidades. os paradigmas.: 120 . não falta à tecnopolítica nada além de transcorrer também na cena pública. do tempo acelerado. da informação desdobrada. Para aqueles que observam-no dia após dia. quanto no Parlamento ou na rua. de grande rede estatal que era ao ser lançado. conflitos. e em compreender que a instituição contemporânea do social se faz tanto nos organismos científicos e nos departamentos de pesquisa e desenvolvimento das grandes empresas. encenações a serviço de operações de captura. têm toda o interesse em reconhecer nos processas sociotécnicos fatos políticos importantes. Na era do planeta unificado. as tendências a longo prazo. associações diversas. aqui e agora. ele. as macroestruturas são apenas ilusões de ótica retrospectivas. Mas esta produção do coletivo é sempre ambígua. Mas quaisquer que sejam os horrores cometidos pelas armas avançadas. é a coletividade humana que é responsável por tais agressões contra si mesma e contra outras formas de vida. como uma espécie de bode expiatório conceitual. Sobretudo. que por sua vez são apenas produções temporárias de singularidade. fatal. causa do mal ou instrumento privilegiado do progresso para reconhecer nela uma dimensão particular do devir coletivo. insetos. desvios. magicamente. dos conflitos mundializados. macromoléculas. O Minitel francês. toda-poderosa. separada. menos pensaremos que ainda temos poder. Renunciar à imagem falsa de uma tecnociência autônoma. mais se tornará clara que há espaço para uma tecnodemocracia. se merecem seu nome. desaparecem e mutam. classes sociais. As sociedades ditas democráticas. de certa forma. uma responsabilidade sobre as dificuldades que assolam hoje a humanidade. alianças e compromissos aos quais se dedicam os operadores do coletivo. Estados. atmosfera. da destruição de meios de vida tradicionais. não lhe pedir nada em relação aos fins últimos. separada. A partir do momento em que reificamos este ponto de vista em força autônoma podemos atribuir a. Não alimenta nenhuma ilusão quanto a um pretenso _________ Pág. vírus. nos detalhes de seu desenvolvimento. elétrons. se agenciam. Para tornar-se tecnodemocracia. ao menos enquanto potência. laboratórios. Ao lançar o catálogo eletrônico ou trabalhar nas manipulações genéticas. sindicatos. e onde a razão do mais forte nem sempre prevalece. quem não sente que é precisa repensar os objetivos e os metas da ação política? A integração plena das escolhas técnicas no processa de decisão democrática seria um elemento chave da necessária mutação da política. Pelas mesmas razões que não podemos condená-la. As evoluções regulares. foi rapidamente reinterpretado por grande número de usuários como um suporte de troca de mensagens interativa aonde foram inventadas novas formas de comunicar. fatal. ou do estabelecimento de ambientes inumanos. for concebi#1comoautônoma. fias. podemos enfim reconhecer que a dimensão instituinte está presente em toda porte. no geral.do mundo humano com o universo. Já foi possível compreender que. Uma vez que o pretenso "sistema técnico" ou "a técnica" tenham sido novamente imersos no fio do devir coletivo. das mídias triunfantes e da tecnociência multiforme e onipresente.. etc. toda-poderosa e possuidora de uma essência particular. uma vida própria. o processa sociotécnico aparece como uma infinidade de singularidades que se conectam. onde os atores são cidadãos iguais. se destroem. que. jomalistas. não uma entidade exterior e separável que poderíamos culpar por todos os males. é igualmente absurdo incensar a técnica. a tecnopolítica já ocorre nas reinterpretações. não lhe pedir demais. Nenhuma "solução" pode vir da "técnica". polissêmica. significa compreender melhor a natureza deste coletivo e tornar mais provável o advento de uma tecnodemocracia.

La Decouverte. Paris. des concepts nomades.domínio possível do progresso técnico. Le Seuil. PRIGOGINE Illya et STENGERS Isabelle. não se trata tanto de dominar ou de prever com exatidão. WOOLGAR Steve. Bordas. La Science en action. Paris. STENGERS Isabelle et SCHLANGER Judith. De tornar-se responsável. 1988. _________ Pág. todos juntos. 1988. 1989. 1989. 1958. invention et pouvoir. Gallimard. La Science et ses réseaux. Les Microbes. Paris. HElDEGGER Martin. SERRES Michel (sob a direção de). Les Concepts scientifiques. LATOUR Bruno. suivi de Irréductions. LATOUR Bruno. Guerre et paix. Metailié. Fayard. CALLON Michel (sob a direção de ).: 121 . 1989. D'une science à l'autre. 1989. mas sim de assumir coletivamente um certa número de escolhas. Paris. Paris. André Préaux). Paris. Entre te temps et l'éternité. 1989. Éléments d'histoire des sciences. Au nom de la science. 1984. Paris. La Découverte. LATOUR Bruno. BIBLIOGRAFIA ALFONSI Philippe. Paris. Essais et conférences (trad. STENGERS Isabelle (sob a direção de). Paris. La Vie de laboratoire. Barrault-Taii. 1987. La Découverte. O futuro indeterminado que é o nosso neste fim do século XX deve ser enfrentado de olhos abertos.

e que pacientemente releu as sucessivas versões deste livro. agraciandome com suas observações. Minha gratidão. sugeriram-me boas leituras e excelentes idéias. _________ Pág. que incansavelmente respondeu. aos textos com os quais eu abarrotei sua caixa de correspondência. Os silêncios eloqüentes. Agradeço particularmente a Isabelle Stengers. um papel determinante. Charles Halary e Jacques Ajensat. para Dominique. As discussões que prosseguiram no colóquio de Treilles entre os autores de Elements d’historie des sciences (sob a direção de Michel Serres) levaram-me a revisar minha concepção da técnica.: 122 . através de críticas construtivas. enfim.AGRADECIMENTOS Este livro foi concebido e parcialmente redigido enquanto estive como professor convidado no departamento de comunicação da universidade do Quebec em Montreal. cujo suporte jamais me faltou. que fez tudo para facilitar meu trabalho. Gilles “Zenão” Maheu. amigáveis e detalhadas. e depois o estímulo de Bruno Latour talvez tenha desempenhado. Meus colegas de Montreal. neste aspecto.

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