A palavra arquitetônica

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Renato Leão R e g o
(ORGANIZAÇÃO E TRADUÇÃO)

A palavra

arquitetônica

Editora

Arte & Ciencia

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©1999, by Editora Arte & Ciência
Coordenação Editorial Henrique Villibor Flory Editor e Projeto Gráfico Aroldo José Abreu Pinto Diretora Administrativa Luciana Wolff Zimermann Abreu Editoração Eletrônica Marcela Cristina de Souza Capa Jefferson Cortinove Revisão Letizia Zini Antunes Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Biblioteca de F.C.L. - Assis - UNESP) P154 A palavra arquitetônica/ Renato Leão Rego. (organização e tradução) -- São Paulo: Arte & Ciência, 1999. 96p.; 21 cm Vários autores ISBN 85-86127-88-4 1. Arquitetura – Ensaios Críticos. 2. Arquitetura contemporânea. 3. Arquitetura Moderna 4.Crítica de Arquitetura I. Rego, Renato Leão. CDD - 720.1 - 724.9

Índice para catálogo sistemático:
1. Arquitetura: Ensaios críticos 2. Arquitetura moderna: Século XX: Crítica 720.1 724.9

Editora Arte & Ciência Rua dos Franceses, 91 – Bela Vista São Paulo – SP - CEP 01329-010 Tel/fax: (011) 253-0746 Na internet: http://www.arteciencia.com.br

A Ninha .

..... Alvar Aalto.................... Adolf Loos....07 As belas-artes................................................. Alvar Aalto ............ Adolf Loos.............................................67 Regras para quem constrói nas montanhas......... 91 ............................ Frank Lloyd Wrigh ........ Mies van der Rohe...........................................................................85 Arquitetura e natureza.................................. Mies van der Rohe.83 Estamos no ponto crítico dos tempos: a arte de construir como a expressão de decisões espirituais..............................61 O princípio do revestimento..................................... Frank Lloyd Wright ...... Mies van der Rohe..............73 Sobre o significado e a tarefa da crítica................... Adolf Loos............................................75 A arte de construir e o espírito da época.....23 Forma e desenho........................ Louis Kahn. Mies van der Rohe ......17 A responsabilidade do arquiteto................. Le Corbusier................Sumário Crítica de arquitetura e arquitetura................... 77 Os novos tempos....... 19 O espírito novo em arquitetura........47 Sobre um pobre homem rico........................ 87 A destruição da caixa.... Renato Leão Rego........................................

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no plural. a arquitetura contemporânea. Pensar a arquitetura já é julgá-la. há muito conhecidos de publicações estrangeiras. Pauta-se. discurso e crítica. Tamanha liberdade não é paralisante? A menos que a sintonia voluntária com um destes ‘modelos’ ou a aceitação do ecletismo estabeleçam e fomentem a criação da nova arquitetura. Os textos aqui apresentados com um fim meramente didático. Arquiteturas. negação. marca sem dúvida alguma da arquitetura do século XX. pela ausência de um paradigma comum. traçar conexões. refutar impropriedades. passou a espelhar uma certa incerteza nos rumos que tomaria aquela contestação já formalizada em alguns dos seus projetos da segunda metade do nosso século. apresentam formas e métodos diferentes. A arquitetura. Ou não? A arquitetura conforma. o olhar crítico que estabeleceu então as bases do projeto. Resgatar tais posturas é amadurecer a crítica a elas dirigida. inovação e muita revisão. No panorama que a produção arquitetônica nos apresenta hoje vemos. estabelecer origens e só assim alumiar o percurso que chega até nossos dias. trazem. O que faremos dependerá do nosso juízo com relação às experiências passadas. entre a herança do movimento moderno. sob forma variada de manifesto. como nos 8 . na ambivalência e tolerância de padrões e valores distintos.CRÍTICA DE ARQUITETURA E ARQUITETURA O tempo em que escrevo estas linhas está marcado pela pluralidade estética. ou deveria conformar. depois da falência ineludível de cânones até então poderosos.

A crítica. o contexto. que. por sobre a funcionalidade vazia. do objetivo pretendido. A arquitetura a caminho Convenho que para se aprender arquitetura se faz necessário conhecê-la e experimentá-la no corpo e no espírito. como qualquer outro aspecto da experiência. Como reconhecemos estar ante critérios do nosso tempo? Este fim de século inseriu no lugar da expressão ‘espírito do tempo’. ao processo cognoscitivo dos meios específicos do labor arquitetônico a questão do juízo. em toda sua amplitude e nos seus diversos paradigmas. habitantes. Associamos. por conseguinte. ela é ora História ora Manifesto: realidade e desejo. A arquitetura experimentada estará pois aberta à análise. em seguida. desse modo. Debruçada sobre a cultura e a comunicação. 9 . mediata ou imediatamente. e esta análise não deixará de passar fundamentalmente pela descomposição da arquitetura em elementos que a configuram. tão cara aos ‘modernos’. E é necessário apreendê-la. visitantes. atribui valores à obra arquitetônica ao considerar. a arquitetura tem buscado outras estratégias. deve ser capaz de sublinhar a conformação arquitetônica do espírito de cada tempo – não só como memória mas como projeto. o espírito do seu tempo. a fazermos as mesmas interrogações com um pronome relativo: o que é essa arquitetura?. a partir do ‘espírito’ do lugar. força nós. se tal divisão houver. naquela referida análise. uma operação presente em qualquer ato de criação e essencial à compreensão da obra. do julgamento. O que é a arquitetura? O que é a arquitetura contemporânea? O arquiteto ao menos lida com estas questões ao acercar-se do projeto e.A palavra arquitetônica disseram grandes arquitetos. o que é essa arquitetura contemporânea? A posição relativa pode nos trazer a compreensão do estágio atual do processo criativo em arquitetura e fornecer parâmetros à compreensão do que se busca. espectadores. outras dramaturgias. Assim. em parceria com a narrativa historiográfica da arquitetura ao longo da vida do homem.

os mundos da reflexão teórica e da experiência. J. inclusive. os seus meios e o seu funcionamento. nunca deixariam de estabelecer o “aliciente para modificar a teoria e ajustar indefinidamente a prática”. Theoretical considerations concerning architectural design and its basic teaching. sensações produzidas por referências arquitetônicas visuais. ora a absorve. que há de conter. 2. de cada homem: são. as razões e a significância que concernem à obra analisada. paralelos e tangentes.ed. não publicado. que atuarão como referentes e desencadeantes daquela ação. e somente desse modo. A crítica de arquitetura na cultura moderna tem tido um papel equivalente ao da crítica de arte. 2 1 10 . da sua construção as intenções arquitetônicas. Lisboa: Estampa. p. Desse modo. Madrid: ETSAM. que se tornou intrinsecamente necessária à produção e afirmação da arte por conta da ‘comunicabilidade não-imediata da obra’: elas desempenham a função mediadora entre o discurso do artista e a fruição do seu trabalho. deverá traçar um prolongamento da obra de arte que. a experiência do seu projeto. Na extensão da definição de Argan. as instâncias. numa espécie de ‘psicologia’ do projeto. distantes ou próximos por vazios de correspondência ou conflitos. como a professa Giulio Carlo Argan.Renato Leão Rego a pauta. que o desejo de transformar o meio com sentido é aliviado por imagens afetivamente apreendidas. o papel da crítica de arquitetura pode vir a assumir o caráter de instrumento didático. Nesta condição. a partir da esfera artística. proceARGAN. vai associá-la a outras atividades não-artísticas e até mesmo não-estéticas. Estas ‘imagens’ mobilizadoras do fazer arquitetônico advêm do conteúdo sedimentado no imaginário do homem. aportações teóricas da arquitetura poderão recolher a experiência completa da arquitetura. G.128. Arte e crítica de arte. da sua cultura os termos em que ora a reflete. a crítica. instâncias mentais armazenadas de toda sorte.2 Já foi dito. em geral. C. reflexivo-verbais e contemplativas. SEGUÍ DE LA RIVA. na medida mesma em que esclarece do objeto construído o ponto de partida do projetista e o processo genético.1 Sendo da sua competência reinseri-la no sistema geral da cultura.

Até aqui estou tratando de dizer que da arquitetura. sociais e históricos. segundo a qual o valor da obra era atributo só do seu dado visual puro. absorvidas de situações ou ambientes. Percursos A efetiva validade do pensamento exposto alinha-se com a abrangência pedagógica do olhar crítico lançado por Lionello Venturi ao considerar. da arquitetura uma realização periodicamente moderna. credita à tarefa de historiador um juízo de valor. que reduzem o estudo dos fenômenos artísticos à descrição de suas características diferenciais. do pensamento do artista e de seus contemporâneos. A crítica de Venturi tomava então um sentido de abertura rumo a fatores culturais. Venturi4. artistas ou não. fatores que participam da gênese da obra pelo fomento e constituição do imaginário do artista. cabe deixar manifestar-se uma postura crítica fundamental e. que concorrerão no processo criativo. VENTURI. Lisboa: Edições 70. e a exerceu servindo-se dos documentos existentes. Haveria então uma dis3 4 Idem. obrigatória frente ao seu objetivo ulterior: o projeto da arquitetura. fazendo confluir história e crítica da arte. L. ibidem. História da crítica de arte. a validade dos seus princípios. alargando então o universo da crítica da ‘pura visualidade’. a prática dos seus meios ao extrair do velho o novo. por meio da experiência das suas realizações e da formação do imaginário do arquiteto. s.A palavra arquitetônica dentes de figuras ou coisas. por que não. retidas da comunicação e da leitura. o olho crítico depreenderá de todas as formas experimentadas pela arquitetura a implicância da sua existência. em geral excluídos do âmbito puramente estético. como ocorre com os esquemas ou constantes formais da teoria de Wölfflin.3 Ativada a ação destas imagens retidas no exercício criativo.d. na régua da sua crítica. 11 . da construção uma arte.

op.149. operada pela criatividade do artista. sob a forma de cultura dada.5 Para além da pesquisa de Venturi. em parte. intenções no campo da arte. por meio daquilo que unia as personalidades criadoras de cada período: o sujeito da obra não parte do nada. que se torna relevante na produção contemporânea da arte. É. O procedimento da iconologia em seu envolvimento culturalizante deu vazão. cit. e os seus elementos constitutivos. sem dúvida.Renato Leão Rego tinção entre a síntese da obra de arte. ed. que podem separar-se dela. uma vez que para ele “a criatividade não está isolada. significava naturalmente fazer a história daquilo que de ‘crítico’ se reconhecia no seu procedimento artístico”. E. 12 . funde-se à cultura que o próprio artista faz fazendo arte. presente na obra seja pela sua reafirmação. PANOFSKY. trabalho que se enquadrava no plano dos significados. O ‘gosto’ do artista e do coletivo ao qual pertence. já histórica. além dos aspectos e problemas apenas próprios da arte. seja ainda pelo seu avesso. Trata-se da historicidade do fazer artístico. é o papel da cultura específica de cada artista: uma cultura que incide na construção da obra e. p. O problema ora levantado por Venturi. A imaginação do artista não trabalha no vazio. Estudios sobre iconología. de uma tradição que seu ambiente lhe oferece. ao sentido que jaz no sistema das formas que cada artista faz depreender da sua experiência do mundo 5 6 ARGAN. Madri: Alianza. mas de um modo historicamente concreto. 1976.. 2. estes elementos. que podem encontrar-se em outras obras e que não se identificam com a própria arte: de natureza variada. a ponto de englobar problemas cognoscitivos. das suas idéias. sobre o reservatório de ‘imagens’ assimiladas. assumem uma característica comum frente à criação da obra de arte. religiosos ou morais. coincide com a da época e do lugar. pela tradição das imagens. esta noção que leva Argan a afirmar que “fazer a história da cultura dos artistas. mas de um universo experimentado. nem é isolável da vida do homem”. preferências. que compreendem da técnica ao ideal. Erwin Panofsky6 relacionou a investigação no plano das estruturas formais – significantes – com a ‘Filosofia das formas simbólicas’ de Ernst Cassirer. a revolta da negação.

como a crítica de Renato De Fusco. em projeto talvez. da sua poética. dois processos entrelaçados.57. experiências passadas. instrumentos mais que do seu trabalho. que propõe entender globalmente os fenômenos arquitetônicos mediante uma ligação entre a arquitetura e a experiência geral da cultura moderna.ed. material que o artista interessado reunira e talvez seja utilizado. 9 ARGAN. um período. obras já feitas e reproduções antigas e modernas. 13 . uma crença religiosa ou filosófica. Historia de la crítica desde Viollet-Le-Duc a Persico. tema e conteúdo. distantes. A existência prática do fazer chamará de volta ao presente. Talvez sirvam não à obra em curso. recíprocos. 1976..8 Indo ao amontoado de documentos reunidos então pelo historiador. como nos diz Argan. As imagens criadas pelo artista agora pesava também pelo que conotam ou dizem dos valores simbólicos imanentes a uma época. Barcelona: GG. La idea de arquitectura. as bases futuras para um estudo estruturalista. p. DE FUSCO.9 É o artista alguém que faz e tem uma técnica. Estabelecem-se. estabelecida por uma ‘estético-crítica’. Cf. O significado intrínseco àquelas imagens Panofsky vai encontrá-lo indagando os pressupostos que revelam a atitude básica de uma nação. à urgência do que se tem de fazer. temas e motivos artísticos em face dos contextos particulares de culturas e períodos históricos. Voltamos ao mundo 7 8 ARGAN. desse modo.. que certamente tem uma ordem. cit. porque pressupõe um projeto e uma série de atitudes processuais. A ordem do fazer impõe recuperações mnemônicas ao movimento da imaginação. talvez não. anotações.7 o que faz do trabalho do historiador uma ‘síntese recriativa’ e uma ‘investigação arqueológica’.17. esquecidas ou quase. op. uma classe. São.A palavra arquitetônica real e cristaliza na obra: trata-se de uma história dos sintomas culturais que faz reconhecer os significados dos simbolismos das imagens. mas a outra. Panofsky devolvia à obra de arte a unidade desmembrada entre forma. op. p. cit. 2. R. qualificados inconscientemente pela personalidade e condensados na obra. nos vemos no ‘ateliê interior’ do artista e aí encontraremos um pouco de tudo: esboços. simultâneos.

sim. contexto. Lisboa: Presença. Revendo hoje os vários desdobramentos da metodologia da historiografia da arte (fenomenologia.11 10 11 Ibidem. M. livremente escolhidas pelo arquiteto. como uma virtualidade aberta à obra que se faz. 135. relativamente ao presente”. 14 . como horizonte de referência de sua temática. embora uma busca ávida de significação – participando o receptor no universo criado pela obra – tenha superado a busca até então exclusivista dos seus valores expressivos. A imagem.Renato Leão Rego das imagens experimentadas pelo nosso artista. TAFURI. é indiferente – com um contexto simbólico criado por obras precedentes. Teorias e história da arquitetura. 2. Transpondo a discussão para o campo da arquitetura. a semiologia continuou a revelar dimensões até então ocultas ou sutilmente inscritas na obra. contaminada por associações ou combinações ingênuas com outras imagens latentes na memória. no processo da ‘interpenetração criadora’. na qual toda experiência passada permanece. p. então citada e recitada até. Os rumos desta linha de pesquisa certamente se bifurcarão no ponto em que insistir nos signos gravados pelo artista na obra será crítica da ideologia e explorar o significado que tais signos possuem na vida ulterior da obra será registrar a interpretação do observador a modo de uma ‘estética da recepção’. p. quaisquer que sejam os campos de abrangência da sua pesquisa – texto. semiologia). de uma cultura estruturada e dirigida pelo empenho operativo.28-34. 1988. adentrando o campo do epistémê foucaultiano. é desta experiência que trata Manfredo Tafuri ao escrever que “qualquer nova obra de arquitetura nasce em relação – de continuidade ou de antítese. metatexto – foi ficando cada vez mais claro que a história da arte é.10 Mais moderna. estruturalismo. é o documento de uma cultura: a de um significante ao qual se podem atribuir outros significados. pelo que não tem qualquer importância a continuidade ou afastamento histórico desse horizonte.ed. história da cultura.

fomentadas por uma racionalidade supra-individual. Para uma crítica de arquitetura. Deparamo-nos aqui com a tarefa de reencadear circunstância passada – experiência – e antecipação que a obra. abstrata e universal. mais complexa. deixam de prevalecer sobre os aspectos sensíveis. No nosso caso. (Cabe um parêntesis aqui para incluir o esforço de Jorge Glusberg em propor a crítica de arquitetura como um ‘sistema de sistemas’). vai fazer presente. vemos que aquelas características formais. concluiremos que a análise da arquitetura terá como objetivo não um levantamento abstrato prêt-à-porter e sim a projeção de uma orientação poética precisa.A palavra arquitetônica Se por um lado o que saiu diretamente do forno da fabulação não se caracteriza propriamente por um nexo lógico límpido. A caminho da arquitetura Reconhecido o golpe contra a ‘estética cartesiana’ desferido em tempos pós-modernos. movediça. de cunho abstrato-geométrico e teor anti-naturalista e antihistórico. abarcar pela estrutura da qual a obra é a tecitura. sua leitura deve ser entendida como processo técnico que flagra o sentido colocado mais ou menos conscientemente no seu texto.12 Tendo em mente como referência a crítica operativa apresentada por Tafuri. à qual se agrega um projeto para o porvir. 12 GLUSBERG. São Paulo: Projeto. 1986. o seu sentido. que se sobrepôs à demarcação da modernidade. pelo outro esta obra não se cifra a um caos de sensações. Entendendo-se a arte como linguagem. funcionais e materiais – para. J. na reconstrução da construção que engendrara o artista. mas é organização formal onde as sensações experimentadas se fundiram e se disciplinaram. antecipada nas suas estruturas e resultante de análises históricas. é fundamental extrair do objeto arquitetônico todas as instâncias – estéticas e simbólicas. 15 . não sendo discurso mas sim expressão. emocionais e individuais da experiência artística que vêm retratando a socialidade heterogênea. recobrando aquela correlação implícita de passado e futuro que menciona Argan quando afirma que cada invenção nasce da crítica do passado. quando realizada.

cidade e natureza. No fundo das aparências. tomados do passado alheio. acantonado nos ângulos. Uma certa ausência de projeto favoreceu um repertório eclético de estilos. em busca de si própria.Renato Leão Rego As teorias do lugar arroladas a partir dos anos 60. intensifica-se. Arquitetura no presente. fragmentação alçada à categoria de elemento ritual. Historicismo romântico. esquinas e detalhes que renderão a melhor fotografia. Org. 1996. São Paulo: Empresa das artes. São Paulo: Perspectiva. 1994. representaram as tentativas de superar o utopismo moderno. Difrata-se por entre nossa sociedade narcísica. a contradição. A fragmentação da experiência e sua tradução estética. daí assistirmos uma série de revivalismos indiscriminados. sem critérios seletivos. 1993 15 MAFFESOLI. Petrópolis: Vozes. In: rquitetura. sobressaía aí a arquitetura como ‘lugar simbólico’ reclamado em práticas que recorriam à experiência da história (da arquitetura. sem esquecer que a ela pertencia também o episódio do movimento moderno. Nem sempre esta atitude dialética se fez valer. Território da arquitetura. O. à disposição do usuário como mercadorias em equivalência na vitrine. da cidade. GREGOTTI. M. ecletismo como sincretismo de linguagens. o relativismo são conceitos que caracterizam o epistema contemporâneo. ainda que teorias da linguagem e questões de comunicação fossem a ordem do dia. Sua proposição conciliava modernização e tradição. da cultura). um modo de agir animado por e pelo que é intrínseco. contextualismos de todos os matizes. renovação e preservação. já ensaiada na estética das vanguardas. Destacando Vittorio Gregotti13 e a afirmação do projeto como intenção. formas e técnicas. 13 16 . da sua identidade. numa espécie de ‘memória sem memória’. o pluralismo. A ambigüidade. como argumenta Otíllia Arantes14. depurando a racionalidade moderna da sua dimensão instrumental e ideológica. 14 ARANTES. a ‘correspondência’ do contexto e formas abertas são detectados como parte do ‘vitalismo estético polimorfo’ vigente. V. balizado pela fenomenologia via Argan e pelo estruturalismo de Lévy-Strauss. permeada pelo que Michel Maffesoli15 chama de placet futile. Cf. 2ed.:IABDN. sem resvalar na redução da arquitetura a mero significante. uma questão de história.

estou dizendo aqui que entre realismo e crítica pode ser possível uma atitude sintônica com o reconhecimento da complexidade social deste tempo. hoje. uma espécie de reencantamento. sua interferência no sítio. hedonismo consensual. que não tento ressuscitar nenhum tipo de utopia que postulara o expediente do movimento do moderno. lançar um outro argumento. Nostalgias à parte. Retomando a conclusão deste texto – a consideração da parceria história e crítica como instrumentos projetuais –. É nessa ambiência (para usar uma palavra da moda) que a construção do espaço. fina celebração dos sentidos. ao se tratar de uma construção. lição do passado a ser experimentada no futuro Marília. Mencionei no início a compreensão da arte como atividade histórica de Lionello Venturi porque. uma vez que esta se define por uma certa ‘ordem’. ‘religação’ mística. Entre descontrução e construção. recorre à sensação. Renato Leão Rego 17 . sintetizadas no projeto. sabendo ele desviar-se de bricolagens e pastiches primários. histórias portanto. já na conclusão.A palavra arquitetônica centrado sobre o que é da ordem da proximidade. conduzir-se como ordem que dispensa a norma. Permitam-me. sua contraprova pode vir do programa estabelecido pelo regionalismo crítico. 1998. o lugar a ser ocupado por ela. por exemplo. apreender as lições do passado e os avanços tecnológicos do presente. como as de Álvaro Siza. segundo o qual a desordem deve apenas subjacer à criação. na condição de paisagem antrópica. cai-se numa teia que liga o arquiteto. dispõe efeitos. A arquitetura se dá como acontecimento. de Valéry. esclarecida na articulação racional dos seus elementos. o cenário atual que se monta é um jogo de formas. A arte de projetar anda se conformando em apreender a fragmentação da experiência. procede por sedução. sem objeto particular. sujeito que soma as experiências da arquitetura.

s. Alvar AAlto. seus trabalhos e seus programas se situam em outros planos. Barcelona: GG. manifestação humana por excelência. (editor).d. e a inquietude que os atormenta – se são tradicionais ou modernos – é ociosa e tão vã como a que distingue a arte realista da abstrata. resumidamente. o que não significa que não possa se libertar e inovar. dando a este termo uma acepção tão ampla que compreenda a sociedade. mais que dois gêneros de arte – de um lado. enquanto que. os homens e tudo que os rodeia. pelo contrário. Publicado em Fleig. Os estilos históricos se opõem à invenção. deve-se desenvolver com a mesma liberdade que as belas-artes. A esta arte se contrapõe a arte não figurativa. trata-se de copiar ou não a Natureza. Obras 1963-1970. nas belasartes. pois a arte. a cidade e os costumes. sem jamais separar-se dela. se designa como realismo os quadros que representam. a Natureza. não pode ser dividida deste modo. Quanto à expressão arquitetônica. não deve fazê-lo jamais. deve aproximar-se da Natureza. Quanto aos arquitetos.Alvar Aalto AS BELAS-ARTES 1 os ambientes mais distintos de uma sociedade não se conhecem. Em arquitetura a postura é diferente. naturais. onde as formas surgem de concepções abstratas. com o máximo de exatidão possível. permanecendo porém ligada ao homem e às suas exigências. Esta distinção é superficial. K. A arquitetura não pode se livrar das contingências humanas. 1 . ou como se queira chamá-la. Há milênios a arte tem estado ligada à Natureza e ao homem. N 18 .

e sim analisar os fenômenos profundos que provocaram a renovação das concepções artísticas. para o mesmo objetivo. como na arquitetura. 19 . uma orientação nova surgiu. Na pintura e na escultura. mantendo o homem no centro de suas inquietações. mas não posso me alongar nisto. Mas não se deve considerar somente sua aparência.A palavra arquitetônica Todas as tendências apontam. em suma. As artes devem-se inspirar no princípio da “expressão livre”.

como parte de um todo maior onde se concentram a vida das pessoas e o conjunto de suas necessidades vitais. não pode-se resumir ao estudo dela. A Finlândia é tão grande quanto a Alemanha. No norte. É um ato mais complexo. O próprio urbanismo. imitando o que se faz em outros lugares. espaço de sobra e a interferência entre cidade e paisagem não apresenta os problemas que existem em outras bandas. No entanto. (editor). Alvar A Alto.Alvar Aalto A RESPONSABILIDADE DO ARQUITETO 1 A organização de um interior depende não só das formas ou das cores da habitação. ainda que a palavra relacione esta ciência com a cidade. 1 20 . cujas incidências têm origens longínquas e cujas raízes se situam na arte de construir as cidades. não se extrai muita vantagem desta situação. É verdade que não é fácil construir uma cidade nova no meio de uma Natureza intacta. s. Publicado em Fleig. Obras 1963-1970. a disposição dos espaços é mais fácil de se tratar que nos países de grande densidade da Europa central.d. quando se podiam aproveitar estas excelentes ocasiões para moldar as construções por meio da incorporação racional da arquitetura numa paisagem organizada. Um país como a Finlândia tem tendência a confinar-se em certo provincianismo. as zonas periféricas e a paisagem devem ser incorporadas a ele. então. 1957. como não é freqüente que se pro. esta região meio selvagem onde nasci. Há. a cidade mais mal construída que conheço. K. mas tem só quatro milhões de habitantes. Barcelona: GG. contexto do qual é impossível abstrair-se. nos nossos dias ainda existe a moda de imitar Hollywood.

que seus contornos. quais são. A vida humana é feita ao mesmo tempo de tradição e de renovação. me perguntaram se as cidades européias não caíram de moda. Oportunamente nestes dias.A palavra arquitetônica ponha a um arquiteto: eis aqui um bosque e lá um lago – construa uma cidade para 20. ainda seguem os antigos traçados. pelo qual entendiam um arquiteto encarregado exclusivamente do urbanismo. Não acho que se deva ser tão radical. apesar das numerosas destruições e reconstruções. se bem todos comam. não estão superadas. e não percebemos que a implantação de certas cidades remonta a esses tempos. uma região da Europa onde outrora acamparam as legiões romanas. Para um país como a Alemanha. inabitáveis até. mesmo sendo ele arquiteto. uma cidade semelhante parece muito pequena. as suas premissas? Por que o ser humano está entregue à servidão de trabalhar. mas no norte resulta bastante importante. certamente. Falo aqui. pois as cidades implicam tal complexidade de problemas que se deve excluir a idéia de que possam ser resolvidos por um só funcionário. Perguntaram-me também se cada cidade finlandesa dispunha de um perito. em Munique. a habitação é primordial. Poderia esperar-se. Este funcionário existe. A harmonia da construção é um dos maiores segredos da vida. graças a intervenções conscientes. Uma certa continuidade evita os inconvenientes das rupturas muito bruscas. é possível manter nas cidades vegetação suficiente para que se torne agradável viver nelas. nem todos possuem um abrigo. Depois de construída uma cidade. Assim. tarefa sem dúvida difícil. e se não seria melhor só construir cidades novas. para o homem. pois.000 habitantes. Mas. Não se podem rechaçar os valores tradicionais com o pretexto de que se devem substituir as coisas antigas por aquisições novas. 21 . mas não é o ideal. comer e abrigar-se? Os animais. porém realizável. sem morada não há civilização. é impossível modificá-la essencialmente. Isto demonstra a perenidade da fisionomia urbana e a continuidade dos estabelecimentos. então. que o público se interessasse por estas questões e que as melhores forças se empregassem em criar as bases para que as construções se integrassem harmoniosamente no contexto urbano.

portanto. devemos desenvolver tipos de arranha-céus onde a vida se aproxime ao máximo à da casa unifamiliar. que não puderam impedir seu crescimento. É evidente que o homem vive duas vidas distintas: a vida coletiva e a privada. estas duas instâncias se dão tão mal quanto o 22 . E considerou liquidada a idéia de limitá-las a 150. o governo chegou à conclusão de que os intercâmbios intelectuais. o isolamento de cada família. só podiam acontecer em uma grande cidade. independente dos vizinhos. cada intenção de quem as habita. A sorte das cidades européias escapou aos urbanistas e prefeitos. as justas proporções? Devemos viver junto da vegetação ou temos de nos amontoar para facilitar os contatos intelectuais? Penso que as duas soluções são necessárias e viáveis. o resultado dos projetos russos Depois de vários anos de discussões. A partir deste momento. Temos de construir casas nas quais cada um se sinta em seu lar.000 habitantes.000. Pois seja qual for o tipo de vida que nos reserva o futuro. não oferecem a intimidade que convém à vida privada. Qual foi. Onde estão. quando centenas de satélites girarem ao nosso redor. fontes de bem-estar. elas deixam de ter alma e de ser governáveis. a família será sempre a célula humana natural. ou o amontoamento nas cidades? Ninguém sugeriu a solução ideal.Renato Leão Rego Qual será a verdadeira solução? Uma casinha em um grande parque.000 habitantes. pois não é fácil construir um prédio que possua as vantagens da proximidade com a Natureza. As casas com fachada de vidro e as sacadas onde se pode ver mexer cada dedo. tivesse preferido menos. mas duvido ter sido inteiramente bem sucedido. Devemos prever vilas ou arranha-céus? O ideal seria viver em um arranha-céu com as vantagens de uma casa unifamiliar. no meu prédio da Interbau. Este urbanista limitava a extensão das cidades a 150. Lembro-me que um dia a URSS encarregou um arquiteto de fazer plantas de cidades que correspondessem ao regime. tentei essa experiência. uns 60. além de um milhão de habitantes. então. Em Berlim. e esta questão mal encontrará sua resposta. Mas como temos necessidade das duas vantagens.

Os móveis. recordemos as tendas dos povos nômades. os vegetais ofereceram o material para o mobiliário e as instalações das civilizações primitivas. de todas as formas. Disse há pouco que as formas eram a expressão dos valores morais. mas o princípio se mantém. A indústria. pois simbolizam os prados verdes e as flores de um mundo perdido pelo homem que vive nas grandes cidades. sua disposição.A palavra arquitetônica sonho e o trabalho. e o ambiente da casa é o seu cenário. comprovação que será endossada por qualquer pessoa sensata. a cada um. A alma do homem só aspira a um pouco mais de luz. com um pouco de “esprit”. evitar aquilo. As formas. As casas que construímos têm que garantir. em nossos interiores. As formas muito rebuscadas são hipocrisias que ninguém vai preferir atendo-se aos princípios do bem-estar. A vida é. No princípio. são uma reminiscência da Natureza. em nossos dias. Apoiando-se nas regras da dignidade e da conduta. auxilia o homem quando quer se instalar convenientemente. O esnobismo se distancia das exigências fundamentais. lhes oferecem o urbanismo. Quando a decoração ou o ornamento dominam. isto indica que a casa não mantém o contato conveniente com a Natureza. preferir isto. a arquitetura. É assim como chego ao aspecto exterior da casa. ainda que diversas. ao mesmo tempo. com seus produtos racionais e úteis. 23 . deve ser o invólucro de uma existência moral digna do homem. As soluções poderão diferir entre si. tragédia e comédia. expressões da dignidade humana. sua vida privada de um modo absoluto. Os tecidos determinaram as atitudes. os tecidos e as cores devem ser adaptados ao desenrolar dos acontecimentos cotidianos. as pessoas poderão se beneficiar do bem-estar que. assim como os trajes e os gestos. ainda que seja impossível para mim definir o que se deve fazer ou não fazer. que os tecidos. Poderia lembrar. A arquitetura não é uma decoração superficial. Penso que a vida grata num interior é uma necessidade fundamental baseada mais na ética que na estética. são mais o resultado da atitude pessoal que da imitação dos estilos. o equipamento interior e todas as aquisições do nosso tempo.

tem conseguido alcançar.Na atmosfera pura do cálculo voltamos a encontrar certo espírito de clareza que animou o passado imortal. comovendo-nos. Surgem objetos novos. Conferencia na Sorbonne em 12 de junho de 1924. 2. Reina a precisão. as bases puramente humanas da emoção. depois de muitas guinadas e caminhos opostos. A economia manda. 24 . recordações. pura e homogênea. já formulada. E talvez será então que tomaremos consciência de que esta nova arquitetura. perturbando nossos costumes. temerários. Vou começar fazendo desfilar diante de seus olhos uma série de fatos. Começou outra época. desconfiança. assombrosos. por outra parte. técnica absolutamente nova. assim condicionada. tentar mostrar que a arquitetura da época moderna tem abandonado suas vacilações. no mais fundo de nós mesmos. medo. que possui a técnica sã e poderosa capaz de sustentar uma estética. por prescrições profundas. 1 . animados de grandeza. a preguiça domina nossos atos e nossos pensamentos: pesadumes. nesta noite. é passível de grandeza e capaz de acrescentar um novo elo na linha das tradições que funda no passado. 1. as bases essenciais de nossa sensibilidade. timidez.inércia. Invencivelmente somos atraídos a um novo eixo. estética que é o extrato de uma época totalmente renovada e que.Le Corbusier O ESPÍRITO NOVO EM ARQUITETURA 1 Senhoras e senhores. Queria. No entanto.

um tal contrário. Vocês acabam de ver na tela uma série heteróclita de imagens. esta série. surpreendente em todo caso. 4. sempre fortemente comovidos.A palavra arquitetônica 3. Por todas as partes surgem interrogações. uma falta de união. lhes doeu na alma: parece. assombroso encontrar. Testemunhos do desejo de conhecer. constitui o marco de nossa vida. chocante ao extremo. Sinais de inquietação. 5. Dos novos fatos se desprende uma poesia violenta e radiante. no nosso tempo. que é em outra parte onde devemos buscar o aprendizado. e estamos em um momento em que a cada dia se propõem tais inovações perturbadoras. e levam nosso espírito a admitir. 25 . no coração de uma obra tão perfeitamente ordenada. aspira a satisfações desinteressadas. Seu coração. parecem chocantes. sem dúvida. magnífico. A matéria está em nossas mãos. a bem dizer uma tal contradição: divergência total entre as linhas mestres do navio e sua decoração interior. com toda naturalidade. uma tal antinomia. dos chamados decoradores especialistas. as salas dos castelos de Fontainebleau e Compiègne. depois viram o salão deste mesmo navio que. Também viram. por exemplo. as primeiras são a obra científica dos engenheiros. Em todos os continentes começa um imenso trabalho. cheias de valores diversos. que lhes deve ter parecido algo notável. deslocadas. busca a emoção muito além da obra utilitária. Um século de ciência conquistou meios poderosos e desconhecidos até então. que pertencem a outra época: comparem-nas com o que. constitui o espetáculo quase cotidiano de nossa experiência. Presságios de atos que querem ser concisos e claros. O coração tenta conciliar os fatos brutais com os padrões profundos e íntimos da emoção. Vocês viram antes o navio “Paris”. no mínimo. diante dos milênios. de fato. a outra. contrastes tão surpreendentes que ficamos transtornados e. sempre um coração de homem. Este século do aço é novo. na seqüência. O homem está desejando. Este espírito se comunica de povo em povo e o progresso desencadeia suas conseqüências. assim como a galeria Colonna de Roma obras célebres.

lhes mostrei interiores de bancos americanos: são de tal pureza. diria até inquietação. de tal precisão. nos Alpes. era porque compreendíamos o que a envergadura de tais trabalhos. um poeta. No ano passado visitei. sobretudo. de tal conveniência que estamos perto de achá-los belos. O homem que mobília assim seu escritório é o mesmo que concebeu estes interiores de bancos. pelo seu próprio estado de espírito: acostumados a conceber e executar obras de puro cálculo.. revelaram-se incapazes de imaginar. do talento e da ousadia. da invenção. o lógico e o prático. por exemplo. até uma armadura de guerreiro. se esquecem das regras da estética!” Eram totalmente diferentes de nós dois.Renato Leão Rego Mas em nossas escolas só se dá aos alunos um ensino baseado nestas obras de outro tempo: assim se compreende facilmente o mal-estar que reina nos espíritos e o absoluto estado de crise em que nos encontramos. num canto. na “Bankers Magazine”. certamente. estes homens. de repente. as 26 . E. que publica suas obras. tapeçarias. E nesta foto se vê uma ambiente mobiliado com baús Renascimento e. não achou nada melhor que publicar o interior do seu escritório de trabalho. se achávamos maravilhoso seu dique. num campo diferente do seu. que parece estar animado pela lógica e por uma grande clareza de espírito: no entanto. uma imensa mesa Luís XIII com enormes pés torneados e esculpidos. talvez dissessem que estávamos loucos. A seguir. este senhor acrescentou um convite aos leitores para que o visitassem e. Foram projetados por um arquiteto. a fim de atraí-los. alabarda em punho. ao esforço combinado da razão. Um amigo me acompanhava. Mais uma coisa. poderia trazer como transformações radicais. Aqueles homens não nos levaram a sério. obras de lógica pura! Aí está o desacordo. Tentamos explicar que. trasladada às cidades. que manuseiam o positivo. os trabalhos de um dique imenso. uma das coisas mais subjugantes para quem tem a possibilidade de se entusiasmar: sem dúvida o lugar é grandioso. este dique será. mas o efeito produzido se deve.. tivemos o azar de comunicar nosso entusiasmo aos engenheiros que nos acompanhavam pela obra: tudo o que conseguimos foi riso e piadas. uma das obras mais belas da técnica moderna. certamente muito talentoso. exclamaram: “Mas vocês estão querendo destruir as grandes cidades!. são uns bárbaros!.

Somente um olhar lançado à história vai nos permitir captar tal mudança. o sistema coerente das leis da física. que nascera das leis do universo. Participamos de uma vida rápida. jamais foi tão grande o abismo que separa a antiga sociedade da sociedade maquinista em que vivemos. as características precisas e unitárias deste espírito novo são o mais universais e humanas que podem e. que passa por cima de todos os costumes e tradições e que se difunde pelo mundo inteiro. baseada no cálculo. na vida dos povos. devemos refletir. marcando a transição de uma forma de pensar a outra. mais forte que tudo. vivemos um transtorno. no entanto. repito. penosa. impondo suas conseqüências à nossa existência e forçando nosso espírito a um determinado sistema de pureza. de um espírito novo. Estamos diante de um acontecimento novo. De fato. Mal o percebemos. transformaram-se em homens de outro tempo. temos a impressão de que isto pode ser sempre assim. se vêem. dura. Na verdade.A palavra arquitetônica conseqüências de sua própria atividade. somos. Diante deste fosso. neste momento. Sem medir muito exatamente os feitos. distinta em todo caso. O nosso século e o século anterior opõem-se a 400 séculos anteriores: a máquina. indivíduos revolucionados. erigiu. mas não temos a sensação. e somos obrigados a fazer uma revisão total de valores se quisermos tentar ver claro na atual situação e chegar a constatar que alcançamos um conceito diferente daquele que podiam ter nossos pais e nossos avós. se quisermos chegar a apreciar que a vida que levamos é radicalmente oposta. do que foi a vida das gerações que nos precederam. frente às divagações possíveis do nosso espírito. parar e tentar ver o que nos cabe resolver para começarmos a criar o mecanismo verdadeiramente atual da nossa existência. apressada. que cada dia se torna talvez um pouco mais difícil. modificou o marco de nossa vida: abriu-se um fosso entre duas gerações. de que estamos completamente revolucionados com respeito ao período anterior. certos momentos em que a curva espiritual encontra seu ponto de inflexão. muitas vezes estressante. de uma deter27 .

por aberturas de meio ponto. A arquitetura românica caracteriza-se. um caos geral. como a arquitetura. nos damos conta. denotando o uso de formas de geometria primária. Permitam-me. acabavam de misturar-se com povos antigos. tomar como exemplo a Idade Média. Estamos no outono. com os séculos de distância necessários. Vocês poderão constatar que o espírito humano age não só sobre as obras puramente humanas. a cidade era composta por prismas simples. tradição de cultura antiga. ninguém mediu a reviravolta.Renato Leão Rego minada cultura a outra totalmente diferente. revelando uma estética completamente diferente. mais tarde. escolhendo as essências das árvores cujas características plásticas estejam dentro de num determinado sistema do espírito. mas inclusive no que se vem chamando de natureza. Se há um campo onde este fato é flagrante é o da arquitetura. de formas muito complicadas. contudo. Na época românica. moldando as paisagens. num belo dia. como sabem. que se seguiu ao período românico. quando passa o tempo.. Foi uma revolução considerável. Mal passado um século. novos povos. A transição aconteceu – não se pode dizer bem a data precisa – deu-se entre o ano 1000 e o 1200: homens vindos de todas as partes. modificando radicalmente tudo o que havia existido até então. a um sistema bem distinto. Três séculos depois. a cidade e a paisagem tinham se transformado. plantam-se jardins: nos últimos dias plantei dois. sem alardes.. oferecendo ao olhar um aspecto radicalmente oposto. eis que se passou. que intervieram modos de pensar e atuar. A natureza moldada pelo homem alia-se às casas que ele cons- 28 . entre as formas desenvolvidas nas casas. no momento em que se produzia. até chegar a conferir à paisagem uma atitude muito precisa. pois oferece testemunhos característicos que escaparam aos rigores do tempo. dominava a horizontal: a geometria mais pura se afirmava em todas as partes. para confirmar o que digo. por sua vez conseqüência de toda a cultura antiga. E esta mudança atingiu muito mais do que geralmente se imagina.

manifestadas pelas geometria. Não quero dizer com isto que a cultura da Idade Média fosse bárbara. em todo caso. obras onde a geometria possa realizar tudo o que é capaz de realizar. 29 . Pois este é o surpreendente exemplo de um espírito que se cultiva pouco a pouco e que se depura até o ponto de buscar os procedimentos que lhe permitam realizar obras de pura geometria ou. com o telhado sobre o muro primitivo: pouco a pouco. pelo contrário. mais ou menos normalmente. Aí. quando a geometria é todo-poderosa. O que quis mostrar é que se estabelece uma hierarquia entre os diferentes estados de espírito. entre os distintos sistemas do espírito. Daí deduzirei que. Mostrarei que a ascensão até a geometria se traduz no aspecto desta obra humana que se estende desde a casa até o lugar. até que. etc. Você conhecem a casa tal como ela nasceu. E não são só os climas que ditam a forma do lugar. enquanto que até este momento a composição se perdia nos pedaços oblíquos dos telhados. em um passado turvo e que se encontrava nos começos do seu desenvolvimento. as casas no campo unem-se num mesmo espírito. mas que estava arraigada em fatos ainda bárbaros. enquanto que a cultura antiga.A palavra arquitetônica trói. Isto. inclusive contra as justas reivindicações da razão. os telhados se escondem atrás de um ático cuja missão é mascarar uma obliqüidade que inoportunamente contradizia o princípio ortogonal da composição. evolui numa busca cada vez mais declarada da horizontal. que são a linguagem da arquitetura e que se expressam em sua maior perfeição no sistema ortogonal. mansardas. alcança a todo-poderosa horizontal. porque para mim é uma certeza (e demonstrarei) que o espírito se manifesta pela geometria. Esta situação no Renascimento denota. esta aspiração do espírito rumo ao definido e à pureza. num período de claridade intelectual como o Renascimento. a horizontal que no alto arremata a composição com uma linha categórica. permito-me afirmá-lo. é que o espírito progrediu com relação ao tempo de barbárie anterior. ou seja as proporções. nota-se que os modos de cultivo determinam aspectos profundamente diferentes da paisagem. e que alguns talvez sejam superiores a outros. havia chegado a importantes conclusões. pelo menos. Viajando por vários países.

nossas tentativas de depuração de idéias e de construção de um sistema coerente do espírito. o espírito se cultiva e se depura. através de sucessivas etapas da arquitetura. quando se nega tudo. e estes ataques se acentuam. você nos chateia!” Se já estão cansados de ouvir falar do maquinismo. e devemos ressaltar com entusiasmo esta aquisição. estimando que era este o fenômeno novo. estamos de posse de um meio ortogonal nunca possuído por época alguma. Este espírito de geometria é certamente a coisa mais preciosa que hoje pode nos interessar. Esta noite devo precisar. A Espírito Novo. os meios desenvolvem-se e tornam-se cada vez mais precisos e poderosos: detectamos um meio que nos dá o ortogonal e a geometria pura. movimento de jovens. já a conhecemos. desbordantes. graças à invenção do concreto armado. um meio que nos permitirá utilizar a geometria como elemento capital da arquitetura. 30 . então em plena potência: fonte de profundas invenções. quando fundamos a Esprit Nouveau com dois amigos – Ozenfant e Dermeé – . sem medida. “Maquinismo – dizem – você sempre fala da mesma coisa. sobretudo. ato violento de revolta e novo contato com os elementos da plástica. o acontecimento da época. Por último. estávamos diante do fenômeno cubista. Em 1920. Não podíamos fazer mais que nos ocupar do maquinismo. o valor e a importância inigualável da geometria. representava com esplendor este período da vida entre os 20 e 30 anos. Mas. um sistema construtivo. o futurismo se entregava a estados de ânimo insensatos. no momento atual da evolução. Junto ao cubismo. pois ela nos permitirá abordar obras de alta arquitetura. por outra parte. tinha por programa atualizar.Renato Leão Rego Mas hoje dispomos dos meios para continuar magnificamente esta ascensão à geometria. entusiastas. se possível. quando não se acredita em nada que não se tenha comprovado. que nos traz o mecanismo ortogonal mais puro. você nos fere os ouvidos. o dadaismo. é prova da fabulosa rapidez com que as idéias se implantam: quando empreendemos. Agora nos atacam. Acontece que. num meio tumultuoso. neste momento. o reconhecimento deste espírito é um fato bastante novo.

O que um homem faz primeiro é estabelecer o ortogonal diante de si. depois. da máquina fumegante. para toda uma série de investigações que se seguiu. pôr em ordem. para instalar-se num mundo humano que não seja o meio da natureza antagonista.A palavra arquitetônica baseando-nos na atual transformação da sociedade. éramos novos. O homem só trabalha sobre geometria. os elementos pelos quais pode se emocionar. ver claro. do martelo pilão. encontrou o modo de medir o espaço por meio de coordenadas sobre três eixos perpendiculares. a lei da economia que é o meio pelo qual se guia todo trabalho moderno. finalmente. depois desta vitória da razão. afirmo. e sim. o que vêem aparecer aos seus olhos senão um imenso pôr-em-ordem? Luta contra a natureza para dominála. também chegamos a precisar as condições em que se desenvolvia o maquinismo. Esta classificação que havíamos empreendido foi útil. que esta geometria é. Não queríamos admirála mais. falando com propriedade. para se acomodar. Os trilhos são de um paralelismo absolu31 . ao contrário. Mas não nos esqueçamos que saímos de um período – o final do século XIX – de reação contra a ordem. da máquina devoradora de homens. de ordem geométrica. manifesta-se pela ordem: quando vocês saem de trem de Paris. do estado social. para classificar. sua própria linguagem. Este fenômeno de ordem é tão inato que podemos até estranhar ter que falar dele. diante da máquina metralhadora. estabelecemos que o homem vive. e de reação terrível: não se queria ordem. queríamos classificar os acontecimentos para oferecer ao nosso coração. queríamos chegar a aprender a lição da máquina. penso eu. a fim de abandonála depois ao seu simples papel. Constatamos que o maquinismo está baseado na geometria e. O homem. o de servir. somente podíamos encontrar gente que gritava de satisfação ou de indignação diante do tumulto da máquina. estimá-la. o fato de organizar a nova vida sobre o fenômeno da ordem é uma criação que remonta a alguns poucos anos. querendo dizer com isto que a ordem é uma modalidade da geometria e que o homem só se manifesta pela ordem. ajustar. nós. de fato. em uma palavra. Naquele momento. de medo ante esta violenta instigação à ordem que trazia a máquina. um mundo nosso. só de geometria.

e me dá a impressão de um capricho sem objetivo.Renato Leão Rego to. Sua presença se traduz no fato de que. que sou simplesmente um ser ativo. verticais. em um diálogo entre Sócrates e Fedro. sob o reinado do ângulo reto. conseqüentemente. que no próprio nascimento. volta. unese. Paul Valéry conseguiu. apresentando-se sob um aspecto acidental. etc. o trabalho humano somente existe sob a forma de retas. as pontes. converte-se em um geômetra e cria sobre a geometria. Não obstante. determinante na estética e. respondendo: “Parece-me que tracei uma linha de fumaça. o que desenharias? Qual seria teu gesto inicial?” E Fedro pega um pedaço de carvão e risca no muro. Valéry segue um pensamento bastante desconcertante. surge imediatamente uma vontade: se tivessem-me dito que traçasse algo numa parede. quando o homem atua e quer fazer segundo sua vontade. que está feita de quatro ângulos retos. os canais. que não sou filósofo. sem mais significação que a liberdade do meu gesto no raio do meu braço. como poeta. parece-me que teria traçado uma cruz. “Se te dissesse que pegasses um pedaço de giz ou carvão – disse Sócrates – e desenhasses na parede. no momento em que os olhos se abrem à luz. enrola-se em si mesma. os taludes são a realização de desenhos geométricos. as barragens. na arquitetura. sem fim. Para mim. no entanto. porque sua lira não está afinada neste tom: sentiu e traduziu admiravelmente muitas das coisas muito profundas e muito puras que o arquiteto sente ao criar.” Não se admitirá sem estranheza que tal seja o gesto inicial de um homem. vai. que é uma perfeição que 32 . dizer coisas sobre a arquitetura que um profissional não saberia formular. Em um livro intitulado Eupalinos ou o arquiteto. a este respeito persiste a confusão. E é assim como se traçam as cidades e como se fazem as casas. numa paisagem que é ato da natureza. O fato de reconhecer neste ângulo um valor decisivo e capital já é uma afirmação de ordem geral muito importante. toda esta criação urbana e suburbana que se desenvolve ao longo dos campos mostra que. sem princípio. horizontais. os viadutos. parece que este gesto primeiro não pode ser vago.

francamente traçados com uma nitidez tão grande. adquirindo pouco a pouco um instrumental formidável. mais humano. tão pura que se mostrava nítida aos nossos olhos.” Elie Faure dizia-me certo dia: “Por que uma ponte é tão emotiva?” Reconhecemos então que. através das imagens desenhadas na lousa. nunca tínhamos vivido um período de tal geometria. se pensamos no passado. ao mesmo tempo. de geometria humanamente pura. chamadas de satisfações de ordem matemática. discos. como é o caso atual. por entre a suavidade das matas. de fato. pelo cálculo. o princípio essencial de suas atuações. numa humanidade ocupada quase exclusivamente com a geometria. encontra seus ‘padrões’: a lei da geometria. suficientemente pura a nossos olhos: tudo. Acredito que.. a ponte era a única feita totalmente de geometria. porque nos quatro ângulos retos tenho dois eixos. descobre inconscientemente. e chegamos assim a admitir que. até agora. mais simples. como um cristal. retângulos. Lançada sobre a caprichosa sinuosidade do rio. dos desprendimentos de terra ou das encrespadas massas de rochas. círculos. Mostrei-lhes. baseada na geometria. que o homem.A palavra arquitetônica traz em si algo divino e que é. mais poderoso. Um pouco mais adiante. jamais vimos tão claramente formas. O homem que pratica a geometria e que trabalha segundo a geometria pode então atingir este nível de satisfações superiores. Paul Valéry também parece chegar a esta conclusão. delegando-o à máquina que. um ato de posse do meu universo. encontra depois conscientemente. cintila firme e voluntária entre o tumulto que a cerca. É a vontade humana escrita numa obra humana. apoio das coordenadas com as quais posso representar e medir o espaço. a ponte. é geometria. ao nosso redor. Chega a sentir tanto mais o divino quanto mais renuncia ao trabalho de suas mãos pesadas. entre as obras humanas de todos os tempos. Sócrates diz da geometria: “Não conheço nada mais divino. nos surpreenderá ver que vivemos num mundo de geometria quase pura. ângulos. pode executar com toda a eficácia as concepções do seu espírito. se tentamos imaginar o que era.. as artes e o pensamento não podem manter-se distantes deste fenômeno geométrico e matemático. tão 33 .

Pitágoras. estamos diante de uma reação violenta. em tempos que. ódio e protesto contra a máquina. oposição. última onda como a reação romântica do final do século XIX. Será substituída por um conjunto de realizações plásticas novas que. estou convencido. bem entendido. conseqüentemente. no campo da pintura. Os próprios grandes matemáticos. A pintura. estas queixas não têm outro efeito que fazer-nos perder tempo – as coisas seguem seu rumo. a de imitação. se viram obrigados a dar-se mentalmente estes deleites. enquanto que nós os temos cotidianamente ao alcance das mãos. ao fenômeno da geometria na arquitetura. em grande parte. a pintura até agora considerada normal. Desde então. precedendo as demais artes porque é um ofício mais facilmente realizável – não digo em concepção. No campo das artes. a pintura já havia expressado através do cubismo esta tendência ao espírito geométrico e às satisfações de ordem matemática. Não diria que o público acompanhou o movimento. Hoje. que absorvem por si só todas as curiosidades de ordem representativa – e que. esferas puras. pode-se dizer que estamos preparados para admitir uma arte formada. e sim materialmente – e porque sua evolução é mais rápida que a da arquitetura. Copérnico e tantos outros. suas linhas. E. que só pode ser conseqüência de meios definitivamente adquiridos. permitida. vão livrá-la do interesse que podia ter desde o ponto de vista representativo – aludo ao cinema e à fotografia. suas massas. pois. pela outra. os esforços que continuam o cubismo empurram cada vez mais neste sentido. por elementos geométricos e orientada aos deleites matemáticos. choque com retrocesso. por uma parte. da proporção e das qualidades de ordem matemática que aí se encontrarem. já nos permitem começar a 34 . O maquinismo nos deu um imagem absolutamente nova do nosso mundo. imagem que os outros séculos não podiam adotar. não poderá reinar exclusivamente. ao contrário. por um indispensável nexo de união sensível com nosso meio ambiente. estamos de novo em estado de protesto contra coisas que serão fatalmente nossas. Chegamos.Renato Leão Rego categórica: cilindros. farão que só possa viver das relações existentes entre suas cores. o fenômeno da geometria intervirá cada vez mais.

arquitetura pelo outro. A casa procede diretamente do fenômeno do 35 . Pierre Jeanneret. A arquitetura atual se ocupa da casa. na intenção de falar somente de coisas que conheço bem e. para certos espíritos. Trabalho do engenheiro por um lado. Mas vou falar meramente da casa. uma machine à habiter. uma máquina destinada a dar-nos uma ajuda eficaz para a rapidez e a exatidão no trabalho. a necessidade tipo. pois.A palavra arquitetônica formulá-lo porque os meios existem. mas somente há pouco tempo é utilizado e admitido correntemente por todos. Certo. Tudo o que concerne às finalidades práticas da casa o engenheiro já o proporciona. logicamente. assim. que é um pretexto mais que suficiente para formular leis e regras da arquitetura. Estudar a casa para o homem comum. para homens normais e correntes. Abandona o palácio. simplesmente digo que.) Estamos acostumados a buscar o fenômeno arquitetônico exclusivamente no estudo dos palácios. que. de base ortogonal. por tomar exemplos dos meus trabalhos e de meu sócio. evidentemente. feito para nos seduzir. convertido em usual e à disposição de todos. ao espírito de beleza. uma máquina diligente e atenta para satisfazer as exigências do corpo: comodidade. e finalmente o lugar onde a beleza existe e aporta ao espírito a calma indispensável. a casa deve oferecer o sentimento da beleza. A casa tem duas finalidades. É. o que diz respeito à meditação. deste meio que é o concreto armado. repito. porque contém um princípio fundamental do nosso prazer estético. Coisa que não teria acontecido há quinze ou vinte anos porque não dispúnhamos. Este meio. é recuperar as bases humanas. ou seja. de maneira indiscutível. procede elementarmente do ângulo reto. ‘plano’. o concreto armado existe há uns sessenta anos. em primeiro lugar. a escala humana. é. a função tipo. é o lugar útil à meditação. evitar possíveis erros. à ordem reinante (e que será o suporte daquela beleza). será da arquitetura. está. a emoção tipo. Depois. não pretendo que a arte seja um prato para todo o mundo. (Peço desculpas pelo que vou dizer. representam uma certa proposição. da casa normal e corrente.

pois. é a única solução que se pode adotar. como já disse. enquanto conservamos imutável nosso tamanho de 1. e isto pela razão bem simples de que a casa. uma necessidade. estudar janelas. que tudo se remete ao homem. consagrou-se à magnificência exterior. somente grandes vãos abertos a jardins ou a pátios internos. fatalmente. Há que se fazer. prodigiosamente enriquecidos. sobretudo. brutal. O antropocentrismo. os meios para se construir uma casa à escala humana estão totalmente mudados. contrariamente ao nosso. é. em suma. só interessa a nós mesmos e mais que qualquer outra coisa. igrejas dos papas. o único meio de se ver claro no problema atual da arquitetura e que permite uma revisão total dos valores. ou seja. palácios dos senhores. revisão indispensável depois de um período que é. Estamos no começo de uma nova forma: é ela o que vamos tentar expressar. Nos tempos dos romanos. estudar portas. Chegou-se a construir edifícios com portas de 12 e de 3 metros de altura – são tão inadequadas umas quanto outras. em uma palavra. a casa é uma caixa na qual abrem-se portas e janelas. assim. portanto. relaxaram-se as medidas legais. Mas. período brilhante que veio a se romper ante o maquinismo. o maquinismo. é. uma revisão dos elementos da arquitetura. uma revisão das medidas. O grande vão era a passagem de 36 . É necessário. Acabo de afirmar que portas e janelas são determinantes da arquitetura – não é um paradoxo e podemos comprová-lo estudando a história da janela. as casas de Pompéia nos mostram que não havia. a casa se adapta a nossos gestos: é a concha do caracol. nos encontramos frente a um fenômeno novo. ou quase. a culminação de quase seis séculos de cultura pré-maquinista. portas e janelas são elementos da arquitetura. ou seja. até o ponto em que nada do que nos chegou do passado é de alguma utilidade e uma estética nova está se experimentando.80m.Renato Leão Rego antropocentrismo. opostos aos costumes. janelas. que seja feita à nossa medida. a última onda do Renascimento. criou-se pouco a pouco um código de medidas arbitrárias. o novo contato com a escala humana. Remeter tudo à escala humana constitui. e que.

A seguir. mas fazer um buraco em um muro era de uma grande dificuldade: era preciso construir sobre este buraco. a melhor escala humana. toda estética arquitetônica deriva de um simples ato prático. como se vê nas catedrais. Com o descobrimento do arco ogival e dos sistemas de arcobotante. realizou-se mais tarde a janela gótica. As janelas. fazem-se casas tipo em série. para a passagem do homem. Nos nossos países. a nova casa de várias plantas apresentará uma fachada com aspecto de uma enorme malha. que parece perfeita. deixando-se entre eles um certo vazio e a casa construída antes com paredes de pedras já não se constrói mais do que com estes pilares. constituída pelos pilares e pelas vigas de concreto ar37 . Assim pois. a altura de uma planta. as janelas eram pequenas. o concreto armado. Não me detenho na janela pós 1900. não podiam alargar-se de modo útil porque seria necessário fazer vergas muitos longas. o clima e um conceito diferente da vida doméstica reclamavam outra coisa. que já não se encontram nas construções desde Luís XIV. como o arco não podia ser muito grande. ao ponto de permitir supor que já não se alterará mais. Assim as janelas continuaram pequenas. e vai se ver modificada por um novo fenômeno técnico. mas. ou arcos que acabariam levantando demais os tetos. e. o desaparecimento dos montantes. conseqüência de uma arquitetura de gesso e papelão surgida dos palácios da Grande Exposição. de 15 a 20cm de seção e separados uns 5m em média. no reinado de Luís XVI. é de se destacar. até este momento.A palavra arquitetônica luz e. Mas agora a casa pode ser construída com estes pilares de concreto armado que vocês já conhecem. ficava impossível superar determinada largura porque seria necessário elevar demais o arco – os pés-direitos acabariam desmedidos. bastante adequadas à escala humana. finalmente. no entanto. na casa. Haussmann. de difícil realização. O Renascimento viu surgir as janelas com montantes de pedras que permaneceram integralmente iguais até nossos dias. porém multiplicaram-se. em suas obras de Paris. a cada dia. falta de razões sérias. havia também a porta. fixa a forma e a dimensão de uma janela que tem direito de cidadania em qualquer parte. estas janelas se tornam. salvar a abertura. que permitiu ganhar largura.

fisiologicamente. e que coloco em discussão. que esta janela tem. senão para iluminar as paredes? E isto não é uma obviedade. já não têm razão de existir. muros de cidades. Sem dizer uma sagacidade. E é assim que me posiciono diante de um quadro arquitetônico singularmente transtornado. fatalmente surgiu um problema. tem também outras conseqüências práticas na disposição das habitações. já que permite iluminar as paredes laterais. é uma realidade arquitetônica profunda. a da luz – se está a gosto na luz. o plano no qual foi aberta: duas zonas de sombra inundam a metade do cômodo. ilumina menos as paredes laterais e não ilumina. se conservo vazio todo o espaço disponível. de fortalezas. Coloco. entendia-se pelo termo umas paredes e um telhado – eram as partes determinantes da casa. Se uma janela normal ilumina a parede em frente. uma parede tinha diferentes funções: servia para se defender dos malfeitores. a argamassa não apareceu até 38 . Deduzo.) Daí pode-se deduzir todo tipo de conseqüências. diga-se de passagem. Tinham de ser grossas. mas o que tento ressaltar é a força de um fenômeno antropocêntrico. uma vantagem. quer dizer de argamassa. antes de tudo. porque tinham outra função. pergunto. Para que. quando se falava de casas. Uma vez desaparecida esta primeira finalidade. capital. posto que foi dado vazio? Para que serve uma janela. Antes. (E. encher este espaço. Pelo contrário. lhe é superior. sobretudo porque não se dispunha de aglomerante de forte aderência. ainda sem conclusões. que passei a investigar. podemos afirmar que as paredes e os telhados já não existem. igual em área a uma grande janela vertical. de casas. o homem em seu meio. Neste momento. que deixam entre si vazios totais.Renato Leão Rego mado. em absoluto. fisiológica. perguntando-me o que ele necessita para ter sensações agradáveis. de modo que se possa chegar a um sistema lógico e defensável. Foi assim que cheguei a admitir que uma janela corrida. tudo isto repousava sobre uma noção de defesa. as paredes permaneceram. já que eram feitas com pedras que dificilmente se uniam. então. a de suportar os pavimentos. obtenho a sensação arquitetônica primordial. Tentarei explicar o que vocês poderão tomar como uma piada. (Aplausos) Até 1900.

mas ao interior da casa. tenho o direito de dizer que a parede está suprimida. a parede já está constituída só por uma fina membrana de tijolos ou qualquer outro produto que forme um fechamento. fazer paredes grossas para faze-las suficientemente sólidas. Eis aí um fenômeno novo em arquitetura. que levou à criação do concreto armado. o que antes era um elemento portante converteu-se em um simples recheio. o único meio de evacuar as águas da chuva. 39 . não se dispunha mais que de barro. Antes. há que se construir a cobertura em forma de concha. absolutamente impermeáveis. A técnica moderna nos conduz ainda a outras conseqüências. O telhado inclinado era. uma superfície de concreto pode evacuar as águas da chuva já não ao exterior. em seguida se pensa em fazer paredes menos grossas. Quando surgem os cimentos artificiais. do calor ou dos intrusos. atentando que uma parede fina. No entanto. logo fez considerar a própria supressão dos muros portantes. é mais eficaz que uma parede única e grossa. Se muitos construtores têm falhado nas coberturas em terraço é porque o abordaram mal. desde o final do século XIX. Mas hoje. misturando velhos princípios com novos procedimentos. mas a mantenho categoricamente. Mas esta tentativa. em terraço. poderia fazer. já não tenho que utilizar espessuras enormes e grandes áreas de parede. levando as coisas ao absurdo. duplicada por uma segunda membrana no interior. Sei que fazendo esta afirmação vou suscitar dúvidas. que acarretavam um sistema estético determinado. paredes de papel: a solidez do edifício não se importaria. porém dupla.A palavra arquitetônica o final do século XIX. antes. as chuvas eram captadas por calhas: não havia outro sistema. Não tenho mais que tampar o intervalo entre dois pilares para defender-me do frio. aglomerantes mais duros que a pedra. Graças aos materiais modernos. Com os pilares empregados hoje em dia. o cimento Portland permite fazer coberturas planas. pois. argila ou cal magra para juntar bem ou mal as pedras ou as lascas: era preciso. os telhados eram constituídos por uma armação de madeira. sem dificuldade e sem perigo.

Mas. No entanto. o calor desprendido por 1. às minhas custas.200 espectadores. as telhas. o calor se expandirá em todo o imóvel. como um enorme ebulidor: o vapor subia em nuvens até o céu! Entre a camada de neve e as telhas. quer dizer. Chamado para construir uma casa a 1. a água e a neve formavam um bloco compacto de gelo. Penso que esta experiência é uma experiência tipo. construindo. Só o frio reinava. A calha. até a cobertura. por volta de meia noite. -20o! Sob a camada de neve.000m de altitude. no beiral do telhado. fora da parede. tive que chegar a estudar o encadeamento dos fenômenos e constatar que uma inovação técnica traz consigo uma série de conseqüências consideráveis e inesperadas. num clima muito duro com fortes nevadas.. Sob as telhas. e também a neve. a introdução da calefação central tem conseqüências muito mais graves. sob a capa de neve.Renato Leão Rego Este é um aperfeiçoamento importante. 20o de frio.200 lugares. portanto uma borda intransponível para a água que jorrava deste imenso telhado: os 40 . uma verdadeira experiência de laboratório. em um dia. a calefação cessava seus efeitos. introduzimos a calefação central. um grande cinema de 1. e eu as experimentei. 20 ou 30o de calor. a água tinha impregnado as telhas. escorriam milhares de litros de água.. uma camada de neve de mais de meio metro de espessura. estava cheia de gelo. de área grande. por cima. formando estalactites de gelo penduradas nas calhas e arrancando-as. imediatamente a água que escorria sobre a telha ou a ardósia se congela. Ou seja. Mas no ângulo da parede exterior com o telhado. a calefação central expelia do interior uma massa de ar quente. Minha cobertura à noite fumaçava. a parte inferior da camada de neve em contato com o telhado começará a derreter-se e a água escorrerá sobre as telhas. A este calor acrescentava-se. pois raramente as condições são tão limpas. uma muralha de gelo. na parte baixa do telhado o efeito do calor cessa (pensem que o frio alcança às vezes –18o). Minha sala de projeção. estava coberta por um telhado sobre o qual se acumulava. As casas do Alto Jura têm estufas de cerâmica que expandem um suave calor em cada pavimento: se. Fora. por desgraça. no alto da parede. no interior. na mesma altitude.

impulsionadas inclusive pelas condições técnicas essenciais do problema. em direção ao interior. posto que aí estão. e que estes fatores atuam profundamente sobre a estética. autorizadas a partir de agora. A partir daí. num país inteiro. quando digo que já não há telhados. me vejo obrigado a buscar uma nova estética. não convexo. Se esta é a única solução nos casos mais difíceis. que tranqüiliza a consciência e permite seguir adiante: com uma razão técnica que confirma o espírito em seus direitos e o tranqüiliza. esta estética precisa se acomodar em bases seguras: quais podem ser? A fisiologia das sensações nos dá um ponto de partida útil. não se deu a razão técnica que satisfaz o espírito. seguindo a lei dos vasos comunicantes. estamos certos de que esta solução é a solução tipo para todos os casos. podemos então admitir as belezas da geometria. Por conseguinte. a supressão dos telhados e sua substituição por terraços. Esta fisiologia das sensações é a reação de nossos sentidos frente a um fenômeno ótico. com a impossibilidade de congelar. formando um excelente isolante contra o frio. a água deve ser evacuada ao interior por meio de condutores situados sob a influência do calor da casa e. Há uns quinze anos fundou-se na Alemanha um liga para a difusão das coberturas de terraço: as achavam bonitas. Conclusão lógica desta experiência tipo: o telhado deve ser em côncavo. nem paredes. do ortogonal. esteticamente falando. desde que a calefação central tenha sido instalada na casa. tentem perceber as implicâncias estéticoarquitetônicas que teria. A cobertura submetida à intempérie deve ser côncava e evacuar suas águas no interior. e passaram à sala de cinema! Dilúvio ao longo das paredes. por conseguinte. Mas não se afrontara o problema pelo lado justo. no interior.A palavra arquitetônica milhares de litros de água. Diante destas várias 41 . A neve permanece tranqüilamente amontoada sobre o terraço. Para poder ser formulada. Meus olhos transmitem aos meus sentidos o espetáculo que lhes é oferecido. encontraram sua saída mais além da primeira linha de telhas.

atuam claramente sobre nosso sistema sensorial. Diz-se que pela garra se reconhece o leão.Renato Leão Rego linhas que traço na lousa. desde o ponto de vista espiritual. ao que os artistas têm feito e escolhido sempre. que traz conseqüências plásticas imperativas e que leva. que se estabelece uma preferência e que se retorna. chegaremos a fazer uma seleção: tal linha quebrada é desagradável. que é a chave da harmonia e da proporção. às vezes. nascem outras tantas sensações diferentes: diante de uma linha quebrada ou contínua. trata-se de resolver o problema da unidade. vivemos em coabitação efetiva com as formas puras da geometria. A conseqüência será o emprego de formas de geometria pura. São formas que foram geradas pela geometria. em outros termos. graças ao maquinismo. Saibamos que estamos numa época em que. a transformações estéticas radicais: depois. Queria que aferissem como se concretiza a composição da obra arquitetônica e como o fenômeno geométrico da arquitetura desemboca na precisão. estas formas terão para nós um atrativo considerável. até o sistema cardíaco se vê influenciado. e isto por duas razões: em primeiro lugar. Disse que a questão técnica precede e é a condicionante de tudo. trazem em si a perfeição. Acompanhemos as repercussões sobre nossa sensibilidade destas sensações fisiológicas. segundo. pela primeira vez. e cada vez que encontramos uma forma perfeita experimentamos uma grande satisfação. tal sistema de linhas incoerentes nos afeta. tal sistema de linhas rítmicas nos equilibra. Os traçados reguladores servem para resolver o problema da unidade. um leão tem todos os seus órgãos feitos de tal maneira que existe 42 . verificamos uma vez mais que a geometria é onipotente. formas que chamamos de perfeitas. irremediavelmente. logo perceberão que se faz uma escolha. Neste campo de linhas e formas que satisfazem nossos sentidos. a umas linhas e a umas formas que satisfazem nossos sentidos. tal linha contínua é agradável. sentimos as sacudidas ou a suavidade da linhas que observamos.

A palavra arquitetônica

nele uma harmonia. Uma obra arquitetônica deve possuir os mesmos níveis de harmonia, pela garra deve-se reconhecer o leão. Quais são os fatores emotivos de uma arquitetura? O que o olho vê. O que vê o nosso olho? Vê superfícies, formas, linhas. Trata-se, pois, de criar a todo custo na obra arquitetônica o determinante essencial da emoção, quer dizer, as formas excitantes que a constituem, que a animam, que estabelecem entre si relações apreciáveis, que proporcionem as sensações. Aí exatamente está a invenção arquitetônica: relações, ritmos, proporções, condições da emoção, máquina de emocionar. Só o talento atua aqui. Eis aqui como se estabelece o caráter emotivo da arquitetura: primeiro, o cubo geral do edifício lhes toca básica e definitivamente, é a sensação primeira e forte. Vocês abrem nele uma janela ou uma porta: imediatamente surgem relações entre os espaços assim determinados; a matemática está na obra. Pronto, isto é arquitetura. Falta polir o trabalho introduzindo a unidade mais perfeita, ajustando a obra, regulando os diversos elementos: intervêm os traçados reguladores. O traçado regulador foi muito empregado em certas grandes épocas, ao menos pelo que dizem excelentes historiadores da arte; isto é o que tenho lido, em particular, na admirável história da arquitetura de Choisy, que diz o suficiente para despertar em nós o gosto pela unidade. Os traçados reguladores haviam caído em desuso neste último período: trata-se pois de tornar a lançar mão deste meio tão útil e de ver por que caminho se chega ao traçado regulador. Certa vez escrevi um capítulo sobre o traçado regulador: um ano mais tarde recebia uma carta de um colega de Amsterdam, homem de grande valor, que tinha pelas costas uma carreira gloriosa de precursor. Em sua carta me dizia que sempre fizera traçados reguladores; ao mesmo tempo, me enviava seu livro. Aí encontrei traçados contra os quais, pelo que me diz respeito, sou obrigado a levantar-me. Dá, por exemplo, uma fachada com torres acopladas; seu traçado regulador está formado por uma rede de diagonais pelas quais chega a fazer passar (não é difícil) todos os pontos da sua
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Renato Leão Rego

construção: já não se trata de um traçado regulador, é uma tela; de acordo com este pensamento, todos os bordados de ponto cruz estariam feitos com traçado regulador; o verdadeiro traçado regulador é o que chega a unificar, em suas características, tal elemento em relação ao conjunto, uns fragmentos em relação aos outros, que chega a revelar a relação matemática suscetível de animar regularmente todos os elementos da obra. Indicarei rapidamente um ou dois, para tentar objetivar este método que deve, de fato, conservar o máximo realismo e não cair nunca no palavrório nem, sobretudo, na ilusão dos gráficos eruditos. (Demonstração na lousa, impossível de reproduzir sem a figura.) Vocês vêm como chego a enlaçar os elementos principais com os elementos secundários mediante uma relação geométrica sensível e autêntica. Para se chegar a estes traçados reguladores não existe uma fórmula única, fácil de se aplicar; a bem dizer, é uma questão de inspiração, de verdadeira criação; tem que se encontrar a lei geométrica que está em potência em uma composição, que a regula e determina; em um dado momento revela-se ao espírito e unifica tudo; então acontecem alguns deslocamentos, algumas retificações; uma harmonia perfeita reina, no fim, em toda a composição. Para terminar, deixem-me dizer ainda algumas palavras sobre uma das características determinantes da arquitetura atual. Quero falar da cornija, que neste momento apresenta um problema grave e desencadeia posições antagônicas. Do mesmo modo que não há paredes, nem telhado, chega-se quase normalmente a formular este princípio heróico, onerado de conseqüências: já não é possível a cornija. Nem parede, nem telhado, nem cornija, resultado inquietante de uma evolução técnica. Que conseqüências estéticas, pois! Suprimir o valor da cornija é infligir um importante transtorno aos hábitos adquiridos e isto já me custou muitos protestos, mais ou menos justificados. Mas, desde o ponto de vista estético, o único que me interessa definitivamente, admitir que a cornija deva ser eliminada é aportar um elemento capital à redação de um
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novo código da arquitetura. Na origem, a cornija respondia a uma idéia: suportar algo. A cornija primitiva no telhado que avançava a parede que o sustentava, princípio elementar que encontramos em todas as construções primitivas; depois, com o desejo de faze-lo melhor, se sustentaram as vigas em balanço com mísulas de pedras; em seguida, colocouse sobre as mísulas uma pedra horizontal sobre a qual se fizeram apoiar as vigas do telhado: tinha nascido a cornija. Nasceu. Mas também vai desenvolver-se e converter-se no elemento principal de toda arquitetura: a cabeça, em certo modo, órgão sentimental. A cornija, como as ‘ordens’, toma o valor de um postulado. Impossível destroná-la sem uma razão válida! De repente, surge um procedimento novo que suprime o telhado: manter a cornija se converte num paradoxo; já não é desenhada pelas mãos de um arquiteto, pelas mãos de um construtor. Mas, dizem, a cornija protege a fachada. É, no entanto, um elemento caro de se fazer e estamos, por sorte ou desgraça, em uma época que obriga a buscar soluções mais econômicas. Filosoficamente, a economia é uma aspiração elevada. Assim pois a cornija já não tem razão de ser, posto que bastará fazer com cimento uma aresta viva, nítida como a borda de uma tigela, que enviará as águas da chuva em direção ao deságüe central da cobertura. E nego, até novo aviso, a eficácia da pretendida proteção que a cornija exerce sobre as paredes: a chuva cai mais ou menos obliquamente, para que queremos uma cornija que proteja 2 ou 3m de fachada de um arranha-céu de 200m? Para que uma cornija, mesmo em uma casa de dois andares?2 Eliminar a cornija, atualmente, é desembocar em uma conseqüência estética considerável e verdadeiramente revolucionária. O fato de eliminá-la e poder explicar esta eliminação logicamente, o fato de construir bem, de não fazer uma construção que seja incô2 Restam, no entanto, dois fenômenos por vencer: 1) o da porosidade das argamassas geralmente empregadas, e sua opacidade: a água da chuva, no decorrer das horas, filtra-se lentamente de cima abaixo, formando uma ‘baba’ momentânea muito feia, que desaparece com o primeiro raio de sol. Mas por que limitar-se a argamassas que imitam pedra e não admitir os esmaltes brilhantes sobre os quais este fenômeno de porosidade não se produz? 2) Talvez se produza um efeito de sifão por cima da aresta aguda do coroamento, em favor do plano vertical da fachada. Estudamos um coroamento de ferro laminado, perfil nítido e decisivo da casa contra o céu, e que serve de para-sifão.

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Desejo que esta simplicidade seja. por definição. O simples é o resultado da economia.Renato Leão Rego moda. vai dar um golpe ao que ainda se chama de ‘artes decorativas’. 46 . mas. Chegamos a uma conclusão de ordem estética que é o aspecto simples. da relação matemática. acho que a Exposição das Artes Decorativas. mas esta simplicidade exige em troca uma grande exatidão construtiva. um pouco irremissível. a cristalização. não se ganhou nada. é a síntese do complicado. a coisa nítida. a pureza. se se propõe provocar este deleite de ordem matemática que é. A este respeito. do rico. como tentei dizer no início desta conferência. que apresente avarias. dura talvez. É um comprimido. Seria desolador ver-nos fracassar na moda do simples. sobretudo requer o aporte da proporção. A grande arte é simples. a concentração. Mas não nos esqueçamos jamais – e terminarei com isto – que se o simples é grande e digno é porque. se é a pobreza o que se expressa sob estas novas modalidades. Assim. a arte decorativa é um resto velho do passado que já não tem razão de subsistir ante uma renovação tão completa do nosso estado mental. Já não estamos em um tempo que possa digerir a arte decorativa. tudo bem. Logo estaremos fartos dos encantos um tanto obsessivos e fúteis da decoração e nos veremos diante do único problema que poderá nos seduzir. Por todas as partes se vêem coisas simples e nos extasiamos dizendo: é simples! Se é uma simplicidade que resulta de uma grande complexidade e de uma grande riqueza. ao contrário. E este é mais ou menos o senão que nos ameaça. uma precisão de intenção e um rigor de raciocínio absolutos. o traçado regulador. se esta simplicidade não for mais que uma moda. uma das aspirações mais lícitas do nosso caráter de espírito moderno. como se expressava antes sob as modalidades complicadas da decoração. do complexo. a cristalização de uma infinidade de pensamentos e de meios. representa uma das conquistas mais características da arquitetura atual. e dou a esta última palavra o mais alto valor. que será aberta no próximo ano. porque tem o mais belo significado. a supressão da cornija e do telhado conduzem à simplicidade. as grandes coisas são simples. não se fez nenhum progresso.

matemática. Chegaremos a traçados novos das cidades: quer se trate de Paris. que é a única razão de ser de uma arquitetura de época. digo. E aqui também. o urbanismo que bate à porta com pancadas fortes. 47 . por mais esforço que custe. Da mesma forma que a pintura. cidades novas. o urbanismo. que será o dono dos destinos arquitetônicos. (Aplausos. do mesmo modo a arquitetura. um estado de espírito de época requer de nós concentração. Moscou ou Roma.) Terminarei esta conferência oferecendo aos seus olhos fotografias destinadas a objetivar as idéias que acabo de expressar. o único guia possível será o espírito de geometria. sacudindo todas as torpezas pela potência e rapidez com que se impõe o acontecimento moderno. repito. O urbanismo se dedicará à grande cidade e não irá construir novas cidades em países novos e desconhecidos: está feito para ser aplicado ao estado atual das cidades atuais. Londres. por radical que deva ser o transtorno. o urbanismo. que se pauta pela excelência das relações. que poderão estar tão bem intra-muros como extra-muros. por meio de muitas guinadas. sobre traçados geométricos. que é a coisa eminente sem a qual a arquitetura não tem sentido. se dirige a tais destinos. será o lugar da geometria pura. É este espírito de ordem geométrica. A este respeito. violência contra nós mesmos. vai nos proporcionar. estas capitais deverão transformar-se totalmente sobre seu próprio meio.A palavra arquitetônica mas tal como pode criá-la o estado de espírito a que nos terão conduzido o maquinismo e suas inevitáveis conseqüências.

branco e ouro. “Então – perguntou o jovem arquiteto – qual é a disciplina. Artigo publicado na Revista “Architectural Desing” em abril de 1961.Louis Kahn FORMA E DESENHO 1 Um jovem arquiteto formulou-me esta pergunta: “Sonho com espaços maravilhosos. tratando de fixar o sonho. A natureza – a natureza física – é comensurável. feitos de um material contínuo.” Volte ao Sentimento. A Ordem. tudo o que se faz obedece às leis da natureza. O Pensamento é o Sentimento mais a presença da Ordem. As emoções e a fantasia não têm medida. No Sentimento está a Psique. Aprendi que uma boa pergunta tem mais valor que a mais brilhante das respostas. Entretanto. sem começo nem fim. espaços que surgem e se desenvolvem fluidamente. afaste-se do Pensamento. não tem Von1 . feitora de toda a existência. Para se expressar através da música ou da arquitetura deve recorrer a meios comensuráveis como a composição e o desenho. não têm linguagem. Por que quando traço a primeira linha sobre o papel. O homem é sempre maior que suas obras porque nunca pode expressar completamente suas aspirações. e os sonhos de cada um são distintos. 48 . A primeira linha sobre o papel já é uma limitação. Esta é uma pergunta que se relaciona com o comensurável e o incomensurável. A primeira linha sobre o papel já é uma medida do que pode ser expressado de fato. ele acaba desmerecido?” É uma pergunta interessante. qual é o ritual que pode nos acercar à psique? Porque é nesta aura sem matéria nem linguagem onde sinto que o homem verdadeiramente é.

de modo que esta vontade psíquica possa ser mais cabalmente expressada? Esta é minha segunda pergunta. determinados espaços arquitetônicos. Mas preveni o meu interlocutor de que contar só com o Sentimento e ignorar o Pensamento significa não realizar. do lugar. igualmente o é para o artista. profunda ou não. Os sonhos trazem implícitos a vontade de ser e o desejo de expressar essa vontade. A Forma não tem nada a ver com as condições circunstanciais. abstratamente. digamos. A forma não tem figura nem dimensão. ou “o lar”. o Desenho pertence ao designer. caracteriza uma harmonia de espaços adequada a certa atividade do homem. A Forma é impessoal. origem do que uma coisa quer ser. O Pensamento é inseparável do Sentimento. Então.” Quando o sentir pessoal transcende a Religião (não em uma religião. “uma casa”. Desenhar é um ato circunstancial. Por exemplo. Esta Vontade de Ser está na Psique. Tudo o que queremos criar tem seu princípio. A Forma é o “quê”. ‘colher’ (o conceito de colher) caracteriza uma forma que possui duas partes inseparáveis – o cabo e o receptáculo côncavo – enquanto que uma colher implica um desenho específico feito em prata ou madeira. da capacitação. O Desenho é o “como”. depende do dinheiro de que se dispõe. de que maneira o Pensamento pode participar da criação.A palavra arquitetônica tade de Ser. Reflita então sobre o que caracteriza. exclusivamente. A compreensão é combinação do Pensamento e do Sentir num momento em que a mente se encontra em uma relação mais estreita com a psique. porque o conhecimento pessoal não chega a expressar o pensamento de forma abstrata. Em arquitetura. os conceitos “casa”. Isto que é verdade para o cientista. do cliente. mas na essência da religião) e o Pensamento nos leva à Filosofia. no sentimento. grande ou pequena. a mente se abre à compreensão. Compreensão da virtual vontade de ser de. Disse o jovem arquiteto: “Viver e não realizar é intolerável. Este é o começo da Forma. A Forma implica uma harmonia de sistemas. um sentido de Ordem e do que individualiza uma existência. “Casa” é o conceito 49 . Prefiro a palavra Ordem em lugar de Conhecimento.

Nossos vastos sistemas educacionais. As escolas começaram com um homem. com uns poucos que. que de sua habilidade para desenhar “uma casa”. mas o espírito dos seus primórdios se esqueceu. “O lar” é a casa e seus ocupantes. ignoravam que eram estudantes. Em câmbio. todo sistema de escolas que seguiu aquele princípio não teria sido possível se o próprio princípio não estives50 . O cliente para quem se desenha uma casa diz ao arquiteto as superfícies de que necessita. Isto é desenho. os corredores com seus armários e o resto das dependências estão dispostos pelo arquiteto em busca de uma resposta supostamente funcional que não exceda os limites métricos e orçamentários rigidamente impostos pelas autoridades. surgiram destas pequenas escolas. ainda que agradáveis. Imagino a escola como um meio ambiente constituído por espaços nos quais pode-se estudar satisfatoriamente. Estes últimos. é uma interpretação condicionada destes espaços. agora institucionalizados. que não sabia que era um mestre. No entanto. refletindo sobre o que se falara e sobre o útil que lhes tinha sido a presença daquele homem. O arquiteto cria espaços a partir destas indicações. discutindo suas experiências. sob uma árvore.Renato Leão Rego abstrato de espaços convenientes para se viver neles. “O lar” varia de acordo com o ocupante. A aparição da escola era inevitável porque formava parte dos desejos do homem. Desta maneira o desenho reflete sua fidelidade à Forma. desejaram então que seus filhos também escutassem a um homem semelhante. sem configuração nem dimensão. As salas uniformes. por sua vez. Na minha opinião. Estas escolas. “uma casa”. Os locais que hoje requerem nossas instituições são estereotipados e pouco sugestivos. Logo se construíram os espaços necessários e apareceram as primeiras escolas. são pobres de arquitetura porque não refletem o espírito daquele homem que ensinava debaixo da árvore. “Casa” é portanto uma forma mental. o valor de um arquiteto depende mais de sua capacidade de apreender a idéia de “casa”. Uma casa criada desta maneira para uma família determinada deve possuir a qualidade de servir também a outra família. que é um ato determinado pelas circunstâncias.

A palavra arquitetônica se em harmonia com a natureza do homem. Mas Escola – o espírito Escola. Na escola como reino dos espaços aptos para o estudo. Podemos contribuir para o engrandecimento de nossas instituições brindando-lhes nosso modo de sentir esta inspiração mediante a arquitetura que lhe oferecemos. o hall de entrada – que para a instituição é só uma área de x metros quadrados por aluno – se converteria em um generoso espaço do tipo Partenón. Se estes espaços fossem também utilizados nas horas de aulas. oferecendo assim a oportunidade de intercâmbio e de estudo. É provável que a vontade de ser da escola existisse antes mesmo que circunstância do homem sob a árvore. As classes deveriam refletir seu uso através da variedade espacial e não manter uma semelhança de dimensões de tipo familiar. é o que a instituição espera de nós. Reflita então sobre o significado de escola. Nele se encontram todo seu espírito e toda sua riqueza. os rapazes se reuniriam com as moças e poderiam discutir as aulas dos professores. não é o mesmo quando se encontra em uma grande habitação junto com 51 . de dimensões mais amplas. A instituição é a autoridade que nos expõe as necessidades às quais devemos responder. um desenho específico. se transformariam em verdadeiras salas de aula. Isto é o que distingue o arquiteto do mero desenhista. eles se converteriam em lugares de reunião. propriedade dos estudantes. e não só nos intervalos. abertos aos jardins. Nestes lugares. em contraste com o de uma escola ou instituição. porque uma das maiores qualidades do mestre que ensinava sob a árvore era a de reconhecer a individualidade de cada homem. e é nele que constantemente devemos buscar inspiração para resolver nossas necessidades atuais. Os corredores. que convidaria os alunos a entrar. Uma escola. Neste sentido viriam a ser classes de propriedade dos alunos. a essência da vontade de ser – é o que o arquiteto deve expressar por meio do seu desenho. rodeado por pouca gente. Um mestre ou um aluno que se encontra numa habitação diante de uma chaminé. É bom para a mente voltar aos primórdios porque o começo de toda atividade estável do homem é o seu momento mais maravilhoso.

Além disso. O espaço é forte e dá o tom. No primeiro dia falei diante da congregação usando uma lousa. limitado pelo círculo exterior. Das discussões do ministro com os homens que o cercavam deduzi que o aspecto formal. O refeitório pode estar no sótão. O eterno Questionamento do por quê acontece tudo. obriga o arquiteto a inteirar-se do que a Escola quer ser. Este tipo de espaços é capaz de produzir novas idéias para o programa de ensino. ainda que o tempo que se permaneça ali seja pequeno? O momento de descanso da refeição não é também parte do ensino? Enquanto estou sozinho. para uma melhor vinculação entre o mestre e o aluno. tomar consciência da forma Escola. baseia-se no Questionamento. claro que de modo algum era o desenho que eu sugeria. A compreensão do que caracteriza os espaços ideais para uma escola. que continha o espaço destinado à escola. Isto era a expressão da forma da igreja. Eu tinha que chegar a compreender que vontade de ser e que ordem de espaços expressava o Questionamento. dentro do qual coloquei um sinal de interrogação. se converteria no muro que a cercava. para uma maior vitalidade no desenvolvimento da instituição. quer dizer. Digamos que este seria o santuário. não seu desenho. na qual se originava o Questionamento. 52 . destinada àqueles que não desejassem penetrar no santuário. Rabisquei um quadrado central. Esbocei um diagrama na lousa com a intenção de que servisse como esquema da Forma da igreja. Em volta do galeria rabisquei um corredor.Renato Leão Rego muitas pessoas. Estava claro que a Escola. falando sobre elas. por parte do instituto de ensino que a demanda. e da variedade de iluminação natural e de orientação relativa dos recintos e o jardim. escrevendo no meu escritório. tenho sensações das mesmas coisas diferentes das que tinha quando. O circundei com uma galeria. o conceito de que cada pessoa é um indivíduo distinto sugere também a necessidade da variedade de espaços. me dirigia há poucos dias a um grupo numeroso em Yale. Neste mesmo sentido gostaria de me referir a uma Igreja Unitária. a concepção formal da atividade Unitária.

as classes. O jardim tem uma parede e o aluno pode estar do lado de fora. No espaço central situavam-se o santuário e a galeria. não estabelecido. como agora elas se encontravam num bloco independente. sendo necessário duplicar seu número. alguns insistiram em que o santuário devesse ficar completamente separado da escola. para quem não quiser passar pela galeria. até que os interesses particulares de cada um dos membros do comitê começaram a minar a rígida geometria em que se baseava. perdiam o poder de evocar seu objetivo religioso e intelectual. A varanda dá para o jardim. dirigindo-se à capela com um gesto. cujos ângulos estavam ocupados por salas maiores. e coloquei então o auditório num lugar à parte e o conectei com a escola mediante uma pequena circulação. que no momento não descreverei. Ajustar-se à circunstância é justamente o papel que compete ao desenho. Minha primeira solução foi uma figura completamente simétrica: um quadrado. nos efeitos de água e outros artifícios conhecidos? Não se trata mais do lugar de um ritual inspirado que poderia expressar-se pelo gesto de um aluno que passa perto da Capela. possui uma galeria para quem não deseja entrar. No começo a idéia agradou a todos. de modo que 53 . Eu o aceitei. considerarei por um momento o significado da Capela numa universidade. com a separação. e que. Voltemos à Igreja Unitária. nos vidros coloridos. exigia várias salas próximas ao santuário. por sua vez. Este significado radica nos mosaicos. A galeria. está rodeada por uma varanda.A palavra arquitetônica Com relação a isto. não chegavam a cumprir sua função. Este lugar. Trata-se pois de um rito inspirado. provisoriamente. depois que um bom mestre lhe tenha mostrado o verdadeiro sentido da dedicação ao trabalho? O aluno nem sente necessidade de entrar. depois da cerimônia. O desenho tinha uma disposição muito similar à do diagrama que tinha esboçado na lousa. para quem preferir não passar por ela. Mas a premissa original da escola ao redor do santuário se mantinha. As classes formavam a periferia do edifício. Durante uma discussão com os membros do comitê. e é a base da forma Capela. Além disso. Logo perceberam que a hora do cafezinho.

A arquitetura tem limites. por meio de seus olhos e suas reações. nem considerar as imagens tais como as conhecemos na vida real. expressa uma reação frente à natureza e. Porque foi um grande artista. Não tem por que responder aos problemas da gravidade. O arquiteto cria espaços. Um escultor também pode moldá-las quadradas. Mesmo um espaço concebido para permanecer às escuras deve ter luz suficiente – proveniente de alguma misteriosa abertura – que nos mostre quão escuro de fato é. É claro que não falo das áreas minúsculas que servem espaços maiores. É a criação de espaços que evocam o sentimento do seu uso adequado. os modifica. Ainda que a pintura e a escultura tenham um belo papel no reino da arquitetura. Não cria espaços. Um pintor pode conceber quadradas as rodas de um canhão para expressar a futilidade da guerra. sobre os aspectos comensuráveis e incomensuráveis do nosso trabalho e de suas limitações. nos ilustra a natureza do homem. Quando tocamos os muros invisíveis dos seus limites é quando conhecemos melhor o que eles contêm. Pode-se dizer que a arquitetura não consiste simplesmente em cobrir as áreas determinadas pelo cliente. pássaros que não podiam voar.Renato Leão Rego voltamos a agrupá-las ao redor do santuário. Giotto foi um grande pintor. O desenho final difere do primeiro. todas elas são regidas por disciplinas distintas. cachorros que não podiam correr e homens mais altos que as portas. Para o compositor. 54 . O escultor modifica o espaço com objetos que também são expressão das suas reações diante da natureza. Quero dizer mais alguma coisa sobre a diferença que existe entre forma e desenho. assim como a arquitetura o tem nos reinos da pintura e da escultura. Cada espaço deve ser definido pela sua estrutura e pelo caráter de sua iluminação natural. Como pintor. Um pintor tem destas prerrogativas. sobre a concepção. pintou céus diurnos de cor negra. a folha de música é um registro visível do que ele ouve. mas a forma se mantém. O projeto de um edifício deve – do mesmo modo – poder ser lido como uma harmonia de espaços iluminados. Mas um arquiteto deve fazê-las redondas.

supomos. está finalizado. A psique se expressa por meio do sentimento e do pensamento. de beleza incomparável. A luz artificial é apenas um breve momento estático da luz. Do mesmo modo. o caso da distância até as estrelas mais distantes. um edifício tem de começar em uma aura incomensurável e concretizar-se por meio do comensurável. já que na natureza física tudo é passível de medida. quando se encontrar na etapa do desenho.A palavra arquitetônica Um espaço arquitetônico deve revelar. porque a escolha da estrutura é sinônimo da escolha da luz que dá forma a este espaço. Um grande edifício deve começar com o incomensurável. O que não acontecerá se ele estiver moldado dentro de uma estrutura maior concebida para um espaço maior. dos sistemas construtivos e de cálculo. também poderemos medir. É uma dama de bronze. de novo. a única maneira de chegar a ser concretiza-se através do comensurável. O resultado é sempre inferior ao espírito de ser. e ao final deve ser de novo incomensurável. O que é incomensurável é o espírito psíquico. a evidência de sua formação. O desenho. Neste momento é como se o desenhista fosse a própria natureza física. É preciso respeitar as leis. O desenho – fazer coisas – constitui um ato comensurável. É a única maneira de construirmos. mesmo o que ainda não se mediu. A Vontade de Ser homem se concretiza na existência por meio das leis da natureza e da evolução. Mas sabemos que tem corpetes de 15 andares porque não se vê o 55 . depois submeter-se a meios comensuráveis. no fim. o edifício passa a ser algo vivo. até que. por si mesmo. e eu acredito que permanecerá para sempre incomensurável. que algum dia. o espírito de ser do edifício ocupa então seu lugar. evoca qualidades que são. incomensuráveis. é a luz da noite e nunca pode se igualar aos matizes criados pelas horas do dia e pelas maravilhas das estações. Tomemos por exemplo o bela torre de bronze erguida em Nova York (por Mies van der Rohe). enquanto demonstração da quantidade de tijolos. Eu penso que uma rosa quer ser uma rosa. Intuo que a Vontade de Ser psíquica invoca a natureza para realizar-se naquilo que quer ser.

Estes desenhos de janela. “Um belo edifício – disse-me -. mas também é uma inimiga. aquilo que faria dela um objeto contra o vento expresso com beleza. Deste modo. parede e proteção de sol e chuva mostrarão ao homem comum a forma de vida em Angola. um homem famoso. Estou construindo um edifício na África. as colunas superiores que dançam como fadas. não imaginava que podia ser bonito um edifício tão grande. Saímos juntos num dia chuvoso. a fidelidade à forma terminaria por fazer-se bela. assim como a natureza expressa a diferença entre o musgo e o junco. Vi por lá muitas cabanas construídas por nativos. É assim que começou o programa: o diretor. A luminosidade é insuportável. Mas voltei muito impressionado com a inteligência que aqueles homens demonstraram ao resolver os problemas do sol. coisa que se pode conseguir por meio de um teto-sombreiro solto e separado da cobertura impermeável por um espaço de aproximadamente 1. Mais tarde veio até a Filadélfia ver o edifício que eu tinha projetado para a Universidade da Pennsylvânia. evita-se o contraste causado pelas manchas de luz e sombra que projetaria qualquer treliçado disposto diante da janela. todas as pessoas parecem negras quando observadas à luz. Percebi que a cada janela deve opor-se uma parede livre para receber a luz do dia e que esta parede deve ter uma abertura ao céu. A concepção da forma de uma torre deveria ser mais expressiva das forças implícitas nela. Também pude perceber a efetividade do uso da brisa como isolante. e as de baixo. num lugar bem próximo ao Equador. da chuva e do vento. a hora da sesta se descarrega como um trovão. a parede modifica a luminosidade e não anula a visão. Não há arquitetos entre eles. E ainda que a primeira tentativa de desenho tendesse a ser feia. crescendo loucamente. me ouviu falar em Pittsburgh. A luz é necessária. Que área tem?” 56 . A base deste edifício deveria ser mais larga que a parte superior. na Califórnia. além disso.80m. ou seja. Com o sol implacável a pino. não tem as mesmas dimensões porque não são a mesma coisa. Estou projetando um original laboratório de pesquisa em San Diego.Renato Leão Rego contraventamento.

e podia sentir a vontade de ser e sua apreensão na forma dos espaços que eu sugeria. do outro lado do mesmo corredor. A única diferença entre o espaço de trabalho de um homem e de outro é o número colocado nas suas portas. ao mesmo tempo.” Este foi o começo do programa das áreas. Este corredor é. Livre das restrições de um programa ditatorial. entrelaçados com outros espaços sem nome para maior expansão do ambiente geral. elevadores. Os laboratórios podem caracterizar-se como uma arquitetura de ar depurado e áreas adaptáveis. quartos para animais. Meu edifício para Pesquisas Médicas da Universidade da Pennsylvânia incorpora a concepção de que os laboratórios científicos são essencialmente escritórios e que deve existir uma separação entre o ar que se respira e o ar viciado que se deve eliminar. foi uma grande experiência participar no projeto de um programa de desenvolvimento de espaços.140 m2. Quis dizer que qualquer pessoa versada em humanas. Isto só foi possível porque o diretor era um homem com um senso único do entorno como fonte de inspiração. 57 . A mesa de mogno e o tapete correspondem à arquitetura dos Escritórios. o veículo de escape do ar nocivo e de abastecimento de ar respirável. escritórios colocados sobre galerias e espaços para reuniões e descanso.A palavra arquitetônica “10. mas também das pessoas em geral. sem precedentes. As plantas comuns de laboratórios colocam as áreas de trabalho de um lado do corredor público e as escadas. pode contribuir para conformar este ambiente mental de investigação capaz de conduzir às grandes descobertas científicas. dutos e outros serviços. ciências ou artes.” “É mais ou menos o que precisamos. Mas disse mais alguma coisa que se converteu na Chave de toda a ambientação espacial: que a pesquisa médica não é um produto exclusivo da medicina ou das ciências físicas. O que no princípio foi só a necessidade de laboratórios e seus serviços incluiu depois jardins enclausurados.

Renato Leão Rego Desenhei para a Universidade três torres-escritório. Agora. independentemente das sub-torres de evacuação de ar viciado. do mesmo modo que um martelo. cujo fechamento estaria formado por vidros sustentados por montantes de cristal. expressa o caráter do laboratório de pesquisas. até que se pudesse tirar dele uma boa foto. Este desenho. Observava seus movimentos múltiplos. em diferentes níveis. e me permitiu compreender que a grua é só uma prolongação do braço humano. A grua se convertera em um amigo e um estímulo à concepção de uma forma nova. com pisos de mármore. 58 . ar infeccioso e gás nocivo. calculando por quanto tempo aquela ‘coisa’ dominaria o lugar e o edifício. Estas uniões representariam as estações dentro da abertura maior. aquele monstro que humilhava meu edifício fazendo-o parecer fora de escala. com cabos de aço inoxidável entrelaçados como eras para ajudar o vidro e os montantes contra o vento. Comecei então a pensar em elementos de 100 toneladas elevados por gruas ainda maiores. cujas uniões seriam como esculturas em ouro e porcelana e guardariam habitações. contudo. nas quais cada homem pode trabalhar em sua especialidade. cada escritório destas torres tem sua própria sub-torre escada e uma sub-torre de evacuação para ar isótopo. Estes grandes elementos constituiriam somente as partes de uma coluna composta. estou contente com esta experiência porque me fez ver o significado da grua no desenho. Um edifício central que reúne as três torres principais abriga a área de serviços que. Este edifício central tem aletas para absorver o ar puro. Detestava aquela grua pintada chamativamente. nas plantas comuns. O braço de 61 metros da grua levantava elementos de 25 toneladas e os colocava no lugar como se fossem palitos de fósforo. Um dia visitei o lugar enquanto se erguia a estrutura préfabricada do edifício. está usualmente colocada do outro lado do corredor. produto da consideração do uso particular destes espaços e dos serviços que requerem.

A arquitetura do Viaduto representaria um conceito completamente novo do movimento da rua. Os portos são as entradas gigantescas destinadas a expressar a arquitetura do freio. As ruas intermediárias são como canais que precisam de cais. que limitam áreas. A casa comunal da aldeia deu lugar à prefeitura. que já não é um lugar de reunião. Acredito ter chegado o momento de se fazer uma distinção entre a arquitetura do Viaduto para o automóvel e a arquitetura das atividades humanas. colocá-la estrategicamente em relação ao centro. onde se podem receber e atender os visitantes ilustres. A tendência a combinar as duas arquiteturas num mesmo desenho confundiu o sentido do planejamento e da tecnologia. onde brincam as fontes. onde podem se reunir em grupos as sociedades que mantêm nossos ideais democráticos. e o planejamento do novo crescimento das cidades não deve ser visto como um ato agradável. Esta posição estratégica em volta do centro da unidade constitui uma proteção lógica contra a destruição da cidade pelo automóvel. mas sim de emergência. no centro da cidade. Estes terminais da arquitetura do Viaduto teriam garagens no seu centro. os problemas do automóvel e da cidade implicam em uma guerra. Mas sinto a Vontade de Ser deste lugar na praça porticada. onde novamente se encontram o jovem e a moça. O automóvel alterou por completo a forma da cidade. quer ser um edifício (um edifício com um espaço subterrâneo destinado às tubulações para evitar interrupções do trânsito quando elas necessitem ser reparadas). prédios de apartamentos e lojas na periferia. Em certo sentido. A distinção entre as duas arquitetura – a arquitetura do Viaduto e a das atividades do homem – poderia dar lugar a uma 59 . Neste ponto deve-se desenhá-la com maior cuidado e. hotéis. As avenidas de acesso rápido.A palavra arquitetônica As instituições das cidades podem ser enobrecidas pelo poder dos seus espaços arquitetônicos. Estes rios precisam de portos. são como rios. e centros comerciais no nível da rua. Distinguiria os movimentos staccato de arranco e freada do ônibus da arrancada do carro. A arquitetura do viaduto inclui a rua que. A arquitetura do Viaduto chega à cidade desde áreas exteriores. a custo alto.

constitui uma fonte constante de estímulo. 60 . larga na parte superior e estreita em baixo. No final da conferência me pediram um comentário. O Desenho também pode induzir a concepção da Forma. teriam uma disposição e um caráter cheios de sentido. Isto implicava futuras árvores e terra fértil e começo de vida. Esta interação. pareceu-me que os belos trabalhos que mostrava estavam fora do contexto e sem arranjo. Não desejo que daquilo que eu disse se deduza um sistema de pensamento e trabalho que leve rigidamente da concepção da Forma à do Desenho. A cidade teria forma. Os edifícios ainda existentes. semelhantes aos raios de uma estrela.Renato Leão Rego lógica do crescimento e a uma postura empresarial razoável. Senti-me impelido a ir à lousa e a desenhar no centro uma torre de água. porém agrupados em volta do aqueduto. Rabisquei aquedutos que se espraiavam da torre. em arquitetura. No entanto. um arquiteto da Índia fez uma conferência na Universidade sobre os excelentes novos trabalhos de Le Corbusier e sobre os seus próprios. Recentemente.

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pois tudo o que empreendia prosperava. Um dia.Adolf Loos SOBRE UM POBRE HOMEM RICO 1 uero lhes contar de um pobre homem rico. Foi à casa do homem rico. envernizadores. Sei bem que ela não virá. o fazia com energia. 62 . uma mulher fiel que. E assim aconteceu. Tinha dinheiro e bens. muito diferente.” Era um homem de muito vigor.” O arquiteto não deixou que o dissessem duas vezes. uma mulher fiel e filhos. neste mesmo dia. Mas. Ela deve se instalar e habitar minha casa como um rei. Mas hoje a situação é muito. O gasto não importa. o livrava das preocupações que traziam os negócios. fez vir um exército de assentadores de parquê. arte entre minhas quatro paredes. Qualquer adventício pode apresentar o cartão de visita e o seu mordomo lhe abrirá de par em par. Mas as preocupações deles são afugentadas por uma grande fada. de um bando de filhos. jogou fora todos os seus móveis. com um beijo na testa. Assim. Seus amigos o adoravam. Era costumeiro nos seus negócios. recorreu a um famoso arquiteto. Mas vou a sua procura. pelos quais o invejaria o trabalhador mais pobre. Artigo publicado no “Neues Wiener Tagblatt” em 26 de abril de 1900. 1 Q . estucadores. o que pegava. que teria causado a inveja do mais pobre dos seus trabalhadores. a arte. E o que é a arte para você? Nem sequer de nome a conhece. disse este homem a si mesmo: “Você tem dinheiro e bens. você é feliz? Sabe que há pessoas que necessitam de tudo o que lhe invejam. dizendo a ele: “O senhor me ponha arte. Mas você ainda não recebeu a arte em sua casa.

assim como eu censuraria qualquer um que afirmasse ter desenhado uma sala tendo usado apenas uma das minhas maçanetas. se atribuía os móveis que aí se encontravam 63 . bem guardado a arte entre as quatro paredes do homem rico. tapeceiros. no entanto. Se deleitava com a arte com enorme fervor. seu pé se afundava em arte quando andava pelos tapetes. talheres. comentados e explicados para servir de modelo às cópias. estes ambientes não são meus. E não se tratava das artes arquitetônicas vulgares. E o mereciam. encanadores. apoiava sua cabeça em arte quando cansado a apoiava nas almofadas. O homem rico era mais do que feliz. Estas eram palavras nobres e conseqüentes. instaladores.A palavra arquitetônica pedreiros. Lá na frente. cortava o seu boeuf à l’oignon com energia redobrada. seus cômodos foram retratados. sentava-se sobre arte quando se sentava em uma poltrona. Cada objeto tinha seu lugar adequado e estava ligado aos demais por umas combinações maravilhosas. Elogiavam-no. O arquiteto não tinha esquecido de nada. móveis e tecidos estavam combinados da maneira mais refinada. no canto. em cada prego estava expressa a individualidade do proprietário. Porque. E. tudo havia sido combinado por ele. Cinzeiros. Pegava arte quando pegava a maçaneta. que talvez empapelara sua sala com papel pintado por Walter Crane e que. entalhadores. e zás!. interruptores. Parede. As revistas de arte glorificavam o seu nome como um dos primeiros no reino dos mecenas. recusava todos os elogios modestamente. sem se notar. não. (Um trabalho psicológico cuja dificuldade qualquer um reconhecerá). O arquiteto. Certo entalhador. apesar disto. invejavam-no. Cada recinto constituía uma determinada sinfonia de cores. Desde que seu prato também havia sido decorado com motivos artísticos. em cada forma. há uma estátua de Charpentier. havia prendido. dizia ele. empacotado. do mesmo modo eu não posso dizer que estes ambientes tenham sido concebidos por mim. em cada ornamento. Onde quer que olhasse havia arte. Mais do que feliz passeava pelos novos cômodos. arte em tudo e por tudo. tudo. absolutamente nada. pintores de paredes. pintores e escultores.

Para a menor caixinha havia um lugar definido. desde então. A casa era cômoda mas. ao nosso homem rico. As campainhas elétricas das suas salas também foram providas de trechos de Wagner e Beethoven e todos os profissionais da crítica de arte elogiavam sobremaneira o homem que havia aberto um novo domínio para “a arte nos artigos de uso. o arquiteto vigiou a forma como atuavam para que não incorressem em nenhum erro. Mas não se pode esconder que ele procurava passar o menor 64 . Na companhia não lhe deram a mínima.” Como se pode imaginar. distraidamente. Logo se deu conta de que devia estudá-la. esgotante demais. Por isso. Onde as artes aplicadas tinham conseguido tais triunfos. Uma grande parte do seu tempo ele dedicou. Tinha pensado em tudo antecipadamente. Já disse quão feliz era ele. O arquiteto tinha agido bem com ele. Fez uma solicitação à companhia de bondes. Esta idéia preocupava demais o homem rico. para a cabeça. Ainda não davam suficiente acolhida a idéias modernas. todas estas melhorias fizeram ao homem ainda mais feliz. Mas aconteceu que. De quebra. se avergonhava até o fundo da sua negra alma ao inteirar-se destas palavras. depois desta divagação. feito intencionalmente para ela. O homem rico se esforçava. Quando apanhado um objeto. não podia ficar atrás a música aplicada. Cada objeto tinha seu lugar preciso. deixou um livro que tinha na mão na gaveta destinada aos jornais. Havia muito o que memorizar. lhe permitiram pavimentar. Voltemos. por sua conta. Ou que bateu a cinza do charuto naquele buraco da mesa destinado ao candelabro. só ao estudo da sua casa.Renato Leão Rego por tê-los projetado e executado ele mesmo. a área em frente à sua casa de modo que todo veículo estivesse obrigado a passar diante dela ao ritmo da Marcha de Radetzky. o adivinhar e buscar o antigo lugar que lhe correspondia não tinha fim e certa ocasião teve o arquiteto que consultar os desenhos dos detalhes para voltar a encontrar o lugar de uma caixa de fósforos. nas primeiras semanas. pela qual tentava que seus veículos utilizassem o motivo de sinos de Parsifal no lugar de sons sem sentido.

não esmorecer! Uma vez. Desta vez se sentia totalmente inocente.A palavra arquitetônica tempo possível em casa. A poltrona grande! Seu pai sempre descansara nela. de vez em quando. Mas o arquiteto não percebeu a alegria do dono. “Ontem”. O velho relógio! E os quadros! Mas a arte o exige! Antes de tudo. senhor arquiteto. esqueceu-se? As sapatilhas. de vez em quando. Logo chegou o arquiteto para comprovar se tudo estava em ordem e dar respostas a questões difíceis. O senhor está estragando todo o ambiente com essas duas horríveis manchas de cor. As sapatilhas tinham sido confeccionadas fielmente de acordo com o desenho original do arquiteto. quem lhe censuraria por acudir novamente ao café. davam saudade. Dirigiram-se ao quarto onde o homem rico pôde voltar a calçar as sapatilhas. Tinha descoberto algo muito esquisito e empalideceu: “Mas que sapatilhas o senhor está usando!”. Entrou na sala. Tirou rapidamente as sapatilhas e se alegrou tremendamente de que o arquiteto não achara insuportáveis também suas meias. O dono veio contente ao seu encontro pois tinha muitas perguntas a fazer. Mas. celebrara seu aniversário. Já havia feito tantos. É que. E respirou aliviado. O dono olhou seu calçado bordado. Ou você poderia viver em uma galeria? Ou estar sentado meses inteiros em ‘Tristão e Isolda’? Enfim. Os meus me encheram de presentes. queri- 65 . “mas para o quarto. A mulher e os filhos o encheram de presentes. exclamou com voz penosa. ao restaurante ou aos amigos e conhecidos para reunir forças para estar em sua casa? Imaginara outra coisa. As coisas lhe agradaram demais e lhe deram uma alegria cordial. trovejou o arquiteto. Pensava em muitas coisas velhas pelas quais tinha tido tanto carinho e que. Mandei chamá-lo. “comemorei meu aniversário. começou timidamente. a arte requer sacrifícios. O senhor não se dá conta?” O dono da casa compreendeu imediatamente. se quer descansar um pouco de tanta arte. Os olhos se umedeciam. Por isso replicou com ar de superioridade: “Mas. o senhor mesmo as desenhou!” “Certamente!”.

para ele já não existiam mais pintores. Uma idéia. devir e desejar. o senhor não pode comprar nada mais!” “E se meu neto me der um trabalho do jardim de infância?” “Pois o senhor não pode aceitá-lo!” O dono da casa estava estupefato. Ninguém podia proporcionar-lhe alegria.” Então produziu-se uma mudança no homem rico. Viu sua vida futura. “Experimente pendurá-lo em algum lugar. O senhor não vê que não há lugar para mais nada? O senhor não vê que. Para ele já não se criava mais nada. Ele sentia: Agora devo aprender a vagar com meu próprio cadáver. permitiu se replicar o dono da casa. já a tinha. Estava podado do futuro viver e respirar. uma idéia!: “E se quisesse comprar-me um quadro da Secessão?”. Experimente o senhor colocar um novo quadro. para que nos aconselhe sobre qual é a melhor maneira de dispor os objetos. Coisas que não foram desenhadas por mim. Nenhum dos seus podia lhe dar seu retrato. perguntou triunfante.” A cara do arquiteto se alargava visivelmente. mais ofícios manuais.Renato Leão Rego do senhor arquiteto. Certo: Completo! Acabado! 66 . Não fiz o bastante permitindo o Charpentier? A estátua que rouba toda a fama do meu trabalho! Não. Mas ainda não se dava por perdido. para cada quadro que eu lhe pendurei. no muro? Não pode deslocar um só quadro. Então estalou: “Como lhe ocorre deixar-se presentear com alguma coisa! Eu não lhe desenhei tudo? Eu não pensei em tudo? O senhor não precisa de mais nada. profundamente desgraçado. O homem feliz se sentiu de repente profunda. “ainda vou poder comprar-me alguma coisa!” “Não. o senhor não pode! Nunca mais e nada mais! Só me faltava esta. Deveria passar sem desejos diante das lojas da cidade. eu compus uma moldura na parede. O senhor está completo.” “Mas”.

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Conceber esta armação é a segunda missão do arquiteto. tanto na humanidade como no indivíduo. E nesta ordem se desenvolveu o pensamento arquitetônico. A manta é o detalhe arquitetônico mais antigo. Os tapetes são aconchegantes e cômodos. com freqüência. Artigo publicado no “Neue Freie Presse” em 4 de setembro de 1898. mas as paredes. Logo apareceram também as paredes. não estão de acordo com a finalidade própria do edifício. Buscava cobrir-se. Tanto o tapete como a tapeçaria requerem uma armação construtiva que os mantenha sempre na posição adequada. escolhem depois alguma 1 P . lógico e real que se deve seguir na arte de construir. 68 . A solidez e a produção exigem materiais que. para dar proteção lateral. Mas com tapetes não se pode construir uma casa. proteção e calor durante o sono. Há arquitetos que trabalham de outro modo. O que ficar entre as paredes são os espaços. A humanidade também aprendeu a construir nesta mesma ordem. mas não são igualmente adequados a todos os fins. Este espaço poderia ser resolvido colocando-se um deles no chão e pendurando outros quatro de modo que formassem as quatro paredes. A princípio era feita de peles ou de produtos da arte textil. Este é o caminho correto. O homem buscava abrigo das inclemências do tempo. para estes espaços. Esta coberta devia ser estirada em algum lugar se quisessem abrigar toda uma família. Estabeleçamos que o arquiteto tenha a missão de fazer um espaço aconchegante e cômodo. E. Sua fantasia não forma os espaços.Adolf Loos O PRINCÍPIO DO REVESTIMENTO 1 ara o artista todos os materiais são igualmente valiosos. Primeiro foi o revestimento.

69 . que. quando as coisas iam mal.A palavra arquitetônica forma de revestimento que lhes pareça adequada. E a arte não tem nada a ver com a falsificação. estavam lilvres de tais sentimentos. este efeito vem dado pelos materiais e pela forma. seguindo com estes edifícios. com seu olho espiritual. seja somente medo ou espanto como na prisão. e o que vale para o palácio Pitti vale também para o palácio Farnese. que. que eram obrigados a prostituir sua arte para favorecer os interesses do populacho. E. O que vale para o campanário de São Estevão vale também para o palácio Pitti. Isso é arte pelo caminho empírico. Os outros arquitetos desta época. Quem ousa faze-lo é marcado pelo mundo como falsificador. Mas o artista. Certamente quem teve de suportar grandes tormentos foi o pobre Ferstel. salvo poucas exceções. com a mentira. os espaços que quer criar. procurava consolo construindo com terracota. Porque as formas resultam da utilidade e da fabricação de cada material. chegaríamos aos nossos dias e nos encontraríamos diante da arquitetura do nosso Ring. Só a alguns o destino permitia encontrar um proprietário que pensasse em coisas grandes e outorgasse ao artista a liberdade de trabalhar a seu gosto. porém limpos. O efeito que quer criar sobre o espectador. mas já não seria uma obra de arte. A torre da catedral de Santo Estevão de Viena podia ser feita de concreto e colocada em qualquer outro canto. Seus caminhos são cheios de espinhos. O mais feliz de todos eles com certeza foi Schmidt. temor a Deus como na igreja. Cada material tem sua própria linguagem formal e nenhum deles pode assumir a forma de outro. surgiram com o material e através dele. respeito ao poder do Estado como no palácio. Um tempo triste para a arte. piedade como diante de um monumento fúnebre. no último instante. o arquiteto. sensação de comodidade como em uma casa ou alegria como em um bar. Nenhum material permite intromissões em seu rol de formas. Depois dele veio Hansen. sente primeiro o efeito que quer alcançar e vê depois. um tempo triste para os poucos artistas que havia entre os arquitetos de então. foi obrigado a revestir com concreto partes inteiras da fachada da sua universidade.

Deste princípio do revestimento eu formulo também uma lei perfeitamente determinada que chamo de lei do revestimento. Mas. o espaço aconchegante coberto totalmente com tapetes não é uma imitação? As paredes não estão feitas de tapetes? Claro que não. das tapeçarias nas paredes ou dos painéis de madeira. dos cântaros de papier marché! Em Viena está florescendo uma nova primavera. o revestimento é mais antigo que a construção. Como já mencionei no início. jamais quiseram mostrar-se como tais. a imitação e a arte do sucedâneo. apenas querem deixar bem claro seu significado como revestimento da superfície da parede. Que ninguém se assuste. como o efeito da pintura colorida das estátuas. Sim. As leis. Estes tapetes só querem ser tapetes e não paredes de pedra. O princípio do revestimento. caracterizam uma evolução. Cumprem sua finalidade segundo o princípio do revestimento. Quando os materiais usados para revestir não 70 . o solo está recém adubado! Mas. anonimamente. se estende também à natureza. os velhos mestres nunca precisaram de leis. arautos da imitação.Renato Leão Rego Isto mudou? Dispensem-me de responder esta pergunta. termo cunhado por Semper. a árvore com uma casca. Certo. como a pintura a óleo sobre a madeira. Hoje já se recobrem as fachadas com desembaraço e se penduram as “pedras portantes” com justificação artística. ainda mais que então. O homem está revestido com uma pele. produtores da falsa marchetaria. dizem. na arquitetura. pode ter motivos higiênicos – o caso das peças esmaltadas no banheiro para proteger a superfície da parede. Onde o roubo fosse coisa desconhecida. seria desnecessário impor leis que o castigassem. Acerquem-se. As bases do revestimento são diversas. nem por sua cor nem por seu desenho. sob a cornija principal. e outras vezes tem uma finalidade concreta. já que a coisa não lhe parecia suficientemente limpa -. do acochambre-você-mesmo-a-janela-de-sua-casa. de modo que o arquiteto de sucedâneos já não tem mais necessidade de sentir-se discriminado. Ainda domina. Assim como é proteção contra a inclemência do tempo. Nos últimos cinco anos encontra-se inclusive gente que se fez defensora desta tendência em arquitetura – um após o outro. aço ou pedra.

Quando estamos no campo 71 . a primeira e a segunda classes não estariam pintadas de verde. a pintam com cores puras. a verdadeira noção do elegante. Para uma cidade como Viena. a esquadria das janelas. no qual a imitação é o único motivo de decoração da madeira. Mas acredito que chegou a hora de estabelecê-la. no primeiro andar. Então fizemos uma aposta de que levaríamos um certo número de pessoas diante do edifício e. esta frase teria que dizer: pode-se pintar a madeira com qualquer cor. Na idade média pintavam a madeira. cujo conselho de exposições decidiu pintar todo o madeiramento do seu pavilhão ‘como mogno’. eles são os únicos objetos de madeira que estampam cores puras. havia dois apartamentos. ambos inquilinos hipotéticos. por sua conta. Certa vez provei a um colega.A palavra arquitetônica eram imitações. sem chamar a atenção deles para a diferença das janelas. menos com uma – cor de madeira. seguindo os padrões de beleza daqui. fossem pintados como mogno. A imitação da madeira é naturalmente uma invenção do nosso século. de vermelho gritante. Em um edifício. ainda que funda e enterrada. de azul. de um modo drástico. branco por dentro e verde por fora. já que a terceira é cor de madeira. Todos apontaram a janela pintada de madeira como casa do João. De outro modo. que originalmente eram marrom. na companhia de bondes. Ao inquilino de um deles ocorreu pintar. no Barroco e no Rococó. ainda lúcidos. Mas. esta frase é muito atrevida. Já que os bonde. perguntaríamos em qual dos apartamentos lhes parecia morar o João e em qual morava o Conde Fulano de Tal. Nossos camponeses. em nosso povo cochila. em geral. não fazia falta nenhuma lei contra eles. Tal lei diz assim: a possibilidade de que o material revestido se confunda com o revestimento deve ser excluída em todos os casos. Eu me atrevo a dizer que qualquer veículo – sobretudo os da linha elétrica – me agrada mais com cores puras que. e no Renascimento. esta noção inconsciente. os trens e em geral toda construção de vagões provêm da Inglaterra. Parece que aqui há pessoas que acham isso elegante. Para casos particulares. Desde então meu colega só as pinta de branco. de branco.

não cito nomes. isso sim enfurecia aqueles santos. Poderia se pensar que dizer tamanha evidência é desnecessário. mas há pouco me chamaram a atenção para um edifício cuja parede estucada estava pintada de vermelho e com o desenho de juntas brancas. Mas o princípio do revesti72 . Mas a bronca dessa boa gente não se dirigia à pintura em si. Um material de revestimento pode conservar sua cor natural quando o material revestido também é desta cor. acho que mereço o agradecimento deles. em vez de imitar madeira nobre. Aplicado aos estucadores. Se. ) sem ter que colorir a madeira que cobre. E assim. como tecidos. telas. A tão querida decoração de cozinhas imitando pedras também se encaixa aqui. o princípio do revestimento diria o seguinte: o estuque pode resolver qualquer ornamento menos um – a imitação da construção de tijolo aparente. Em Viena. todos os materiais que servem para revestir uma parede. Viraram a cara e davam a impressão de que nunca usáramos a pintura a óleo. papéis. Eu posso revestir um metal com outro metal através do fogo ou galvanizando-os. Provavelmente estes senhores são da opinião de que seus móveis e trabalhos de madeira com seus falsos veios eram tidos como de madeira nobre. É uma pena que em alguns lugares se comece a imitar o gosto da nossa comissão de exposições. com este ponto de vista. Em uma palavra. ou as treliças verdes diante de uma parede recém pintada de branco. elas também recebiam pintura a óleo. Mas que os móveis ingleses ousassem luzir suas cores com tanta franqueza e liberdade. Desse modo eu posso pintar o aço negro com betume. Ainda se lembra da indignação moral da indústria artística do sucedâneo quando os primeiros móveis pintados a óleo chegaram da Inglaterra. posso cobrir uma madeira com outra (tornejado.Renato Leão Rego vibramos com o portão ou a cerca verde. E daqui também se pode entender por que as meias de malha que usam nossas bailarinas têm um efeito tão antiestético. quando se utilizava madeiras brancas. não podem representar nunca nem pedras nem tijolos. marchetaria. a roupa de malha pode estar tingida de qualquer cor. menos cor de carne. etc.

vocês. A alma humana é algo demasiado alto e sublime para que possam enganá-la com seus truques e recursos. com todos os sentidos. a aço pode ser betumado. é certo. imitadores e arquitetos de sucedâneos. bem alto os melhores efeitos: os pobres olhares acreditarão e as tomarão como de verdade. estão equivocados. uma vez mais. Só dispõe de cinco sentidos para diferenciar o autêntico do falso. na melhor marchetaria pintada “como autêntica”. Assim. com o mesmo fervor. Pintem no teto de madeira bem. lá está o seu reino. por um lado. Sem dúvida há pessoas que acreditam – as fábricas conhecem bem sua clientela. Vê. começa o seu domínio. Nosso corpo miserável está. pintado a óleo ou galvanizado. imitam o pavimento do terraço (mosaico) e. por outro. em seu poder. Mas a psique divina não acreditará em sua falácia. Mas não. A oração da pobre camponesa chegará com mais força e mais rápido ao céu se é feita em uma igreja construída com material autêntico que se feita. já não alcança mais.A palavra arquitetônica mento proíbe que mediante uma pintura se imite o material que há por baixo dela. Mas. imitam tapetes persas. 73 . entre paredes de gesso pintadas com mármore. E lá onde o homem. pura pintura a óleo. Também merecem ser mencionados aqui as placas de cerâmica refratária e de pedra artificial que. vocês estão equivocados. mas nunca tapado com cor de bronze. ou seja com uma cor metálica.

no entanto. busque o fundamento da forma. é um palhaço. já que são parte da substância que advém da sabedoria dos seus antepassados.Adolf Loos REGRAS PARA QUEM CONSTRÓI 1 NAS MONTANHAS ão construa de modo pitoresco. por sua origem e formação. lhe corresponde. Artigo publicado no anuario Schwarzwald’Schen Schulanstalten” . nem menos. mas sim na chuva e na neve. O trilho se desprende da trilhadora. O advogado vienês que só fala em dialeto com o camponês há de deixar de existir. Ainda que seja na montanha. as montanhas e o sol produzam este efeito. horizontal. O homem que se veste de modo pitoresco não é pitoresco. enquanto o templo dos hússares se incorpora à paisagem harmoniosamente. Fale com os camponeses na sua língua. O camponês não se veste pitorescamente e. Tampouco se submeta intencionalmente a um nível inferior àquele que. A planície exige uma disposição arquitetônica vertical. Deixe que os maciços. há que se empregá-la sempre assim: aperfeiçoada. Preste atenção às formas que constrói o camponês. Construa tão bem quanto possa. 1913 74 . O observatório dos Habsburgo estraga o bosque vienês. o é. As montanhas. Nem mais. Se os avanços da técnica têm permitido o aperfeiçoamento da forma. Não se sobreesforce. A obra humana não deve competir com a obra divina. Não pense na cobertura. Mas. E por isso constrói nas montanhas o telhado 1 N . Assim pensa o camponês.

Só estão permitidas aquelas transformações no modo de construir tradicional que signifiquem melhorias. Nas zonas montanhosas a neve não deve deslizar-se quando ela quer. Nós também temos que criar a cobertura mais plana possível de acordo com nossas condições técnicas. então. do contrário conserve os sistemas tradicionais. Não tema que lhe pichem por não ser moderno.A palavra arquitetônica mais plano que lhe permitem seus conhecimentos técnicos. ainda que tenha milhares de anos. e sim quando o camponês o desejar. Por isso o camponês tem de subir ao telhado sem que haja o menor perigo à sua vida e. Se dá bem com pontes treliçadas. A natureza só pode suportar a sinceridade. mas se distancia dos arcos dos arcos góticos com pináculos e seteiras. 75 . Seja sincero. se dá melhor com a gente que a mentira que caminha ao nosso lado. Pois a verdade. tirar a neve.

pois acredito que sem tal esclarecimento não poderá haver crítica verdadeira. As obras de arte têm uma vida própria. e se pedirá da crítica aquilo que ela não está apta a responder. A verdadeira crítica está. Juízos equivocados não são esperados no curso natural dos fatos? A crítica é assim tão fácil? A verdadeira crítica não é tão rara quanto a verdadeira arte? Gostaria. Para que se expressem. Não são acessíveis a todos. no fim. no 6. Esta é a obrigação do crítico. Aí a crítica encontra sua escala de medida. N 1 . 14. Outra obrigação da crítica diz respeito à graduação de valores. Isto não é fácil.Mies van der Rohe SOBRE O SIGNIFICADO E A 1 TAREFA DA CRÍTICA ão receiem que eu vá contribuir à longa sucessão de reprovações e ataques. a serviço do valor. ter contato com ele. 76 . 1930. contudo. Para tanto é necessário posicionar-se em relação ao objeto a ser examinado. Publicado em Das Kunstblatt” . de chamar sua atenção para os pré-requisitos básicos de qualquer crítica. deve-se abordá-las em seus próprios termos. A crítica é o exame de um feito com relação a seu significado e valor.

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Só assim podem se tornar símbolos do seu tempo. no 1. ao ver tais edifícios. as basílicas romanas e também as catedrais da Idade Média são menos o trabalho individual de personalidades que criações de toda uma época. Por esta razão. A arte de construir é sempre o espírito de uma época apreendido no espaço. Até então deverá permanecer um caos de forças confusas. totalmente impessoais. mas sim a particularidade de que os templos antigos. 1924 78 . São representativos do espírito da sua época. Nunca foi de outro modo. 4. Vemos freqüentemente excelentes arquitetos fracassarem porque o trabalho deles não satisfaz o espírito da sua N 1 . nada mais. pela sua própria natureza. Este é o seu significado. Quem pergunta. Deve-se entender que toda arte de construir nasce da sua própria época e só pode se manifestar ocupando-se de tarefas vitais com os meios do seu próprio tempo. até mesmo o talento artístico mais forte fracassará. Aí. é um esforço inútil usar conteúdos e formas de edifícios primitivos hoje. Só quando esta verdade simples for claramente reconhecida. Por esta razão.Mies van der Rohe A ARTE DE CONSTRUIR E O 1 ESPÍRITO DA ÉPOCA ão são as realizações arquitetônicas dos tempos primitivos que fazem seus edifícios nos parecer tão significativos. estará efetivamente direcionado o esforço pelos fundamentos de uma nova arquitetura. uma questão como a natureza da arte de construir é de importância decisiva. Publicado em Der Quer Schunitt”. quais os nomes ou o que a personalidade fortuita dos seus construtores queria dizer? Estes edifícios são.

Nosso tempo é nada patético. Se isto é plenamente assumido. Se compararmos o peso pesado do aqueduto romano com a agilidade de uma grua moderna. É a essência o que importa. Apesar de nossa compreensão da vida ter se tornado mais profunda. Até mesmo o grandiloqüente gesto dos românticos nada significa para nós. É aqui que o grande marca do nosso tempo aparece. sem mencionar o nome dos seus construtores. Os métodos de produção industrial vão exercer sua influência. Nossas obras de engenharia são exemplos típicos. os edifícios do nosso tempo demonstrarão a grandeza de que nosso tempo é capaz. teremos noção de quanto nossa forma e expressão diferem daquelas de então. estas estruturas mostram os meios técnicos que teremos de empregar no futuro. Os êxitos decisivos em todas as áreas são de ordem objetiva e seu autores. Observadores distantes caem no mesmo velho erro quando responsabilizam a época por tais tragédias. extensos complexos industriais e pontes importantes surgem com uma destreza natural imensa. A objeção de que são apenas estruturas funcionais é irrelevante. Toda a energia da nossa era está direcionada ao laico. são diletantes. reco79 . na maioria. ou as volumosas construções abobadadas com a impetuosa falta de gravidade das recentes estruturas de concreto armado. apesar do seu enorme talento.A palavra arquitetônica época. Em última instância. O individual se torna cada vez menos importante – seu destino não nos interessa mais. Se rejeitarmos todos os pontos de vista românticos. Questões de natureza comum são de interesse capital. uma vez que percebemos. desconhecidos. Não se pode ir adiante enquanto se olha para trás. As demandas do nosso tempo por realismo e funcionalidade devem ser satisfeitas. não apreciamos os grandes gestos mas sim a racionalidade e o realismo. e só um tolo diria o contrário. não construiremos catedrais. Os esforços dos místicos continuarão esporádicos. seu vazio formalista. Ademais. e não se pode ser o instrumento do espírito da época se se vive no passado. por trás dele. Diques gigantescos. já que o entusiasmo com que concordam com a coisa errada é irrelevante.

nos nossos dias. Não precisamos de paradigmas. A finalidade de um edifício é o seu verdadeiro significado. As nossas construções somente serão arquitetura quando. Os edifícios de todas as épocas atenderam propósitos. A cada época. Este é a regra e não a exceção. Determinava sua forma sagrada ou profana. A finalidade do edifício sempre foi decisiva (e o caracterizava). diferentes no tipo e no caráter.Renato Leão Rego nheceremos que as estruturas de pedra da antigüidade. também. de novo. não podemos nos valer de nenhum deles. Aqui. Aqueles sugestivos métodos artesanais. e alguns bastante concretos. Não sendo nunca o método de trabalho que tem tal valor e sim o próprio trabalho. 80 . as construções de tijolo e concreto dos romanos e as catedrais medievais foram incríveis proezas da engenharia – e pode-se estar certo de que o primeiro edifício gótico foi tido. no seu entorno românico. Acredita-se sempre que o artesanato é melhor e atribui-se a ele um valor ético inato. tornarem-se instrumentos do espírito da nossa época. (E aqui. Ambos são equívocos. contudo. satisfazendo sua finalidade. são os historiadores quem recomendam uma forma antiquada. Nossa histórica educação não tem clareado nossa visão destas coisas. assim como seus meios. seu material e sua técnica. como um corpo estranho. por isso sempre confundimos efeito e causa. O próprio artesanato não é mais que um método de trabalho e uma forma de economia. Até mesmo a linguagem ritual dos templos e catedrais é o resultado de um propósito. eles confundem forma com essência). As pessoas que têm apreço pelo essencial (e cuja profissão é ocupar-se com antigüidades) sempre tentam ressaltar os resultados de épocas passadas como paradigmas para o nosso tempo e recomendam velhos métodos de trabalho como meio para o sucesso artístico. outra vez o mesmo erro. o propósito da edificação modifica sua linguagem. Isto contribui para a crença de que os edifícios existem para o bem da arquitetura. provam que eles sequer têm noção das inter-relações do novo tempo. Estes propósitos eram.

Demandam gente criativa. (faria um grande serviço à humanidade) reconheceria por este exemplo a imensidão de possibilidades que os métodos de produção industrial oferecem. Isto clama o fim dos trabalhos manuais: não podemos mais salvá-los. Quem quer que tenha a coragem de afirmar que ainda podemos sobreviver sem a indústria deve prová-lo. e eles são mais importantes que toda essa bobagem histórica. gente que enxergue longe. velhos meios e métodos de trabalho têm. para nós. somente valor histórico. mas podemos aperfeiçoar os métodos industriais até o ponto em que obtenhamos resultados comparáveis ao artesanato medieval. São raros os verdadeiros artesãos ainda vivos na Alemanha. Minha receptividade à beleza do trabalho manual não me impede de reconhecer que o artesanato como forma de produção da economia está morto. Nossas necessidades têm assumido tamanhas proporções que não podem mais ser atendidas com meios artesanais. estou acostumado a trabalhos artesanais. Esta eterna preocupação com o passado é nossa ruína. Se alguém dedicasse somente um porcento a mais de cuidado para melhorar a má encadernação do livro. não podemos comparar imperfeições e hesitações iniciais com uma cultura do artesanato altamente amadurecida. Trazer isto à tona é nossa tarefa. Como estamos apenas na fase inicial do desenvolvimento industrial. Ela nos impede de cumprir a tarefa à mão da qual só pode surgir uma arquitetura suprema. O que realmente importa é algo totalmente distinto. Eles começam sua campanha com papel que foi produzido por máquinas. Tenhamos em mente que todas aquelas teorias sobre o artesanato foram formuladas por estetas sob o clarão da luz elétrica. seu trabalho pode ser adquirido somente por pessoas muito ricas. impresso por máquinas e encadernado por elas. Velhos conteúdos e formas.A palavra arquitetônica Como nasci numa velha família de canteiros. A necessidade de apenas uma única máquina abole o artesanato como um sistema econômico. A vida nos enfrenta diariamente com novos desafios. que não tenha medo de resolver cada tarefa sem preconceito de fio a pavio e que não pense excessivamente nos resultados. e não só como observador da estética. O resultado é simplesmente um 81 .

como também não está conectado a materiais específicos. um excelente material de construção. mais idéias ao invés de mais materiais atingiriam a meta. Ao invés de simplesmente desenvolver uma residência que satisfaça seu objetivo . Esta é a essência de nossa dedicação – e este ponto de vista ainda nos isola de muitos. a forma não é a meta e sim o resultado de nosso trabalho. certos conceitos de casa e cômodos levam a resultados impossíveis. Em ambos casos. hoje. considerando-os como materiais totalmente equivalentes. Em muitos casos. Até da maioria dos mestres da arquitetura moderna. para nós. Até mesmo do ponto de vista da segurança contra incêndio isto não se justifica. Nós não resolvemos problemas de forma mas problemas de construção. edifícios de escritórios e estruturas comerciais praticamente exigem soluções compreensivas. também. em muitos casos. muito simples e claros. Toda tarefa representa um novo desafio e leva a novos resultados. É um absurdo parecido com revestir uma estrutura de concreto armado com uma manta. claras. Muito do conceito da edificação não está.) Os propósitos de nossas obras são. mas isto não nos impede de usar. é difícil entender porque se deveria então fechá-lo com paredes maciças de pedra e dar-lhe a aparência de uma torre. 82 . O mesmo se aplica ao edifício residencial.Renato Leão Rego subproduto. preso às velhas formas e conteúdos. e estas só podem ser invalidadas se repetidamente tentamos adaptar estes edifícios a atitudes e formas antiquadas. estes materiais correspondem melhor aos propósitos hodiernos.alguns a tomam como um objeto que demonstra ao mundo até onde chegou seu proprietário no reino da estética.a saber: organizar a moradia . e o concreto armado provou ser. Se já se constrói um edifício com aço. vidro e concreto. Aí. na maioria. então eles conduzirão a significativas soluções arquitetônicas. metal e vidro. (O aço se aplica hoje em arranha-céus como esqueleto estrutural. Mas nos une com todas as disciplinas da vida moderna. Estamos muito familiarizados com o charme das pedras e dos tijolos. Arranha-céus. Basta reconhecê-los e formulá-los.

83 . As velhas imagens-comuns devem desaparecer e no seu lugar surgirão residências que são funcionais em todos os aspectos. O mundo não se tornou mais pobre quando a carruagem foi substituída pelo automóvel. a insolação.A palavra arquitetônica Uma residência deve servir somente à moradia. O lugar. o programa dos cômodos e os materiais de construção são fatores essenciais para o projeto de uma casa. A edificação deve ser formada de acordo com estas condições.

não queremos superestimar a mecanização. não nos dizem nada. nós as tomaremos como fato. fatal. O que é decisivo é somente o modo como nos posicionaremos diante destes dados. 1 . isto não é uma questão de valor espiritual. 5. Até mesmo as novas condições sócio-econômicas. indistinto. não são nem piores nem melhores que outros tempos. Mas.Mies van der Rohe OS NOVOS TEMPOS 1 Os novos tempos são um fato: existem. não de valores. Devemos estabelecer novos valores e apontar metas básicas a fim de obter novos critérios. 1930 84 . consiste em estabelecer condições para que o espírito possa existir. Publicado em Die Form” . quer digamos sim ou não a eles. São um simples dado e. espiritualmente. Igualmente. Pois o significado e a justificativa de cada época. E o que é decisivo é exatamente esta questão de valores. Por isso não me demorarei em descrever os novos tempos e apontar suas relações e esclarecer sua estrutura básica. Apontar a centralização ou a descentralização no planejamento urbano é uma questão prática. em si mesmo. É aqui que começam os problemas do espírito. O que importa não é “o que” mas somente o “como”. Se construímos em pavimentos ou térreo. Todas estas coisas seguem seu caminho cego. no 15. a padronização e a estandardização. inclusive os novos tempos. em aço ou em vidro. O que produzimos e os meios pelos quais o fazemos.

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quantidade em qualidade. 1928 86 . transforma matéria em força. suas incumbências e seus meios são pré-requisitos necessários para o trabalho do arquiteto. na verdade. 39. mais e mais chega aos mais remotos ermos. Consciência do mundo e consciência da humanidade são os resultados. somente é entendida como um processo vital. Publicado em Innendekoration”. Um conhecimento da época. O tráfego cresce. no 6. tudo está a seu serviço. A tecnologia pressupõe o conhecimento das leis naturais e trabalha com suas forças. A 1 . O aproveitamento torna-se lei. uma expressão da habilidade do homem ao posicionar-se e ao dominar seu entorno. O uso mais efetivo da força é introduzido deliberadamente. O mundo encolhe mais e mais. Estamos no ponto crítico dos tempos. A tecnologia traz com ela atitudes econômicas. a arte de construir é sempre a expressão espacial de decisões espirituais.Mies van der Rohe ESTAMOS NO PONTO CRÍTICO DOS TEMPOS: A ARTE DE CONSTRUIR COMO 1 A EXPRESSÃO DE DECISÕES ESPIRITUAIS arte de construir não é o objeto de uma especulação inteligente. A economia começa a ditar as regras.

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escolha um que tenha características que o distinga: árvores.1 Primeiro.Discurso `a Association of Federal Architects”. O estilo da coisa. individualidade.2 Em todo caso. Deixe sua forma em paz. 1938. a associação arquitetônica acentua o caráter da paisagem. maio. Tudo isto quer dizer distanciar-se da cidade. Escolha aquele no ponto mais difícil – escolha o lugar que ninguém quer – mas. Construa. desde aquele ponto. com o ideal de uma arquitetura orgânica como guia.Frank Lloyd Wright ARQUITETURA E NATUREZA Minha receita para uma casa moderna: primeiro. O estilo é um subproduto do processo e resulta do homem ou da mente em atividade. Publicado na Revista The Architectural Records”. um estudo da natureza dos materiais que você escolheu usar e das ferramentas que você empregará. as qualidades características que satisfaçam seu propósito. sem perder nada daquilo que você vira antes da casa construída. . Qual é a razão para você querer construir aí? Descubra. portanto. e muito mais. Segundo. contemple o entorno até descobrir o que é charmoso. em ambos. uma imperfeição de qualquer tipo aos olhos do empreendedor. parado num ponto deste lugar. ignorando noções preconcebidas de estilos. o que é arquitetura? É a vasta coleção de tantos edifícios que têm sido construídos para agradar o gosto 1 2 . 88 . será o homem – é dele. Então. reuna estas qualidades para atender seu propósito de modo que a imagem daquilo que você criar tenha integridade ou se adeqüe naturalmente. buscando descobrir. 1914. então. tudo aquilo que lhe parecera charmoso. Se a arquitetura é correta. um bom lugar. sua casa de modo que você ainda possa ver.

A palavra arquitetônica

diferente de vários senhores da humanidade? Penso que não. Não, eu acho que arquitetura é vida, ou, pelo menos, é a própria vida tomando forma e, por isso, é o registro mais verdadeiro da vida como ela foi no passado, como é hoje ou como será então. Assim, penso ser a arquitetura um Grande Espírito. Não pode ser somente algo que consista de edifícios construídos pelo homem na terra...hoje na maioria simplesmente empilhados ou prestes a ser...A arquitetura é aquele grande espírito criativo vivo que, de geração em geração, age, persiste, cria, de acordo com a natureza do homem e suas circunstâncias, conforme mudem. Isto é arquitetura de fato.3 Assim, fazer de uma residência uma completa obra de arte, por si mesma expressiva e bela, intimamente ligada à vida moderna e apropriada para se viver nela, acomodando livre e agradavelmente as necessidades individuais dos residentes enquanto entidade harmoniosa, incorporando na cor, no padrão e na natureza as demandas da utilidade e, ainda, uma expressão deles no seu aspecto – esta é a grande oportunidade americana na arquitetura. Autênticos fundamentos para uma cultura autêntica. Uma vez fundada, tornar-se-á uma nova tradição: um largo passo à frente daquela moda imposta quando uma residência era um composto de ambientes isolados: cômodos para conter meras agregações de mobília, faltando conforto e utilidade. Uma entidade orgânica, este edifício moderno, quando comparado à insensata e antiga agregação de partes. Seguramente, temos aqui o mais alto ideal de unidade enquanto uma solução mais íntima para expressão de uma vida no seu próprio entorno. Uma coisa ao invés de muitas; uma grande coisa ao invés de uma coleção de coisas pequenas.4 Nenhum edifício verdadeiramente italiano parece incomodado na Itália. Todos estão contentes com o ornamento e a cor que naturalmente carregam. As pedras e as árvores naturais e as encostas ajardinadas concordam com eles. Onde quer que os ci.Publicado em Wrigth, F. Ll. An Organic Architeture: The Architeture of Democracy. Londres: London Humphries & Co. , 1939. 4 . Publicado em Wright, F. Ll. Ausgfuhrte Bauten und entwurrfe. Berlim: Wasmuth, 1910.
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Renato Leão Rego

prestes cresçam, lá, como o toque da mão de um mágico, tudo se resolve numa composição harmoniosa e completa. O segredo deste charme inefável seria procurado em vão no ar rarefeito da escolástica ou nos ateliês de qualquer das pedantes belas-artes. Faz parte da própria terra, como um punhado úmido e doce dela. Tão simples que, para as cabeças modernas, treinadas na ginástica intelectual do gosto “cultivado”, pareceria de pouca importância. Tão perto do coração está que é quase universalmente ignorado, sobretudo pelos estudiosos. Quando pegamos a estrada, nos atraem flores de uma cor viva incomum ou de uma aparência charmosa. Tomados por elas, aceitamos generosamente sua graça perfeita. Mas, procurando o segredo deste charme inefável, descobrimos que as flores, cujo apelo mais óbvio chamou primeiro nossa atenção, são nativas, intimamente ligadas à textura e ao tipo da folhagem que há sob ela. Descobrimos a conformidade entre a forma daquelas flores e o sistema no qual as folhas estão dispostas no galho. Daí somos levados a perceber uma maneira característica de crescimento e a descobrir um tipo resultante de estrutura que primeiro tomou forma nas raízes escondidas na terra cálida, sempre úmida pela cobertura de humo. A estrutura – como agora podemos observar – estende-se do geral ao particular, chegando assim às flores, que nos atraem, revelando, em suas linhas e forma, a natureza da estrutura que as sustenta. Temos aí algo orgânico. Lei e ordem são o princípio da graça e da beleza completas. A beleza é a expressão de condições fundamentais na linha, na forma e na cor, fiéis àquelas condições e parecendo existir para completá-las de acordo com algum desenho original inspirado. 5

5 . Publicado em Wright, F. Ll. Ausgfuhrte Bauten und entwurrfe. Berlim: Wasmuth, 1910.

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para vocês. com este grande problema arquitetônico. Você pode ver lá. emoldurando-o. Havia sentido esta necessidade de elementos bem cedo na minha carreira. Veja. Você perceberá o sentido do salão se construindo – um espaço não enclausurado. seja lá onde você encontrará a primeira expressão verdadeira da idéia de que o espaço interno é a realidade do edifício. você agora pode . Encontrei a abertura natural que procurava quando (depois de uma grande briga) finalmente empurrei as torres das escadas para além dos cantos do edifício principal. como lidei. mas mais ou menos livre para se revelar. tornando-se mais aparente um pouco mais tarde na Igreja Unitária: talvez. o espaço interior abrindo-se ao exterior.Frank Lloyd Wright A DESTRUIÇÃO DA CAIXA 1 cho que. auto-portantes. a qual chamamos de arquitetura orgânica. desaparecendo. Na Igreja Unitária. Você verá esta sensação crescendo. Na Igreja Unitária é onde eu penso tê-la alcançado. transformando-as em elementos individuais. vários elementos livres relacionados ao invés de paredes que o encerram. como você pode perceber. esta idéia de que a realidade de um edifício não se reduzia mais a paredes e cobertura. a arquitetura de hoje. 1952. de fato. Publicado em The Junior Chapter of American Institut of Architects”. comecei a tentar destruir a caixa pela primeira vez em 1906 – no projeto do Edifício Larkin. Aflorou então este senso de liberdade. você notará as paredes. na Igreja Unitária. Vai ver reunidos em torno deste interior. naquele tempo. conscientemente. o exterior penetrando. que se tornou. 1 A 92 . Aí a coisa começou a acontecer.

se você fizesse dela um edifício. sei o suficiente de engenharia para saber que nos ângulos externos de uma caixa não é onde estaria o apoio mais econômico.. Mas. uma vez que agora fazem parte 93 . mas também liberação do interior em direção ao exterior (o que se sente na Igreja Unitária e em outros edifícios que construí). Ambos são novos elementos estruturais. Este sentido primitivo de abrigo é o que uma arquitetura de qualidade sempre deve ter. Por quê? Bem. Mas. a uma certa distância de cada canto em todos os lados é onde. fui educado como um deles na Universidade de Wiscosin. acima de tudo. a sensação de abrigo estendido. a tradicional caixa edifício. você agora tem um novo sentido da construção de edifícios através do balanço e da continuidade. Se. invariavelmente. está sua caixa: uma grande abertura nela. Ao invés de construção de pilares e vigas. Aqui.A palavra arquitetônica propor elementos de vários tipos para delimitar o ambiente e agrupálos em torno do espaço interior sem aquela sensação de encaixotálo. quando você lança apoios nestes pontos você cria um pequeno balanço nas extremidades que encurta a distância entre pilares e deixa a esquina livre ou aberta na medida que você escolher.. Aí você pode notar (mais ou menos) o que faz o aluno de arquitetura de quase todas as nossas escolas. ou aberturas pequenas se você preferir. o mais importante é. Infelizmente. Certo? Alguma coisa não se ajusta à nossa profissão liberal de caráter democrático. Concorda? Agora. Os cantos todos desaparecem se você preferir por aí deixar entrar ou sair espaço. Nunca quis ser um engenheiro. você denota não só proteção de cima. em um edifício. Não. Agora devo tentar mostrar a você por que a arquitetura orgânica é a arquitetura da liberdade democrática. suponhamos. expandido. que dá o indispensável sentido de proteção ao mesmo tempo em que libera a visão do homem para além das paredes. se encontrariam os pontos de apoio mais econômicos. uma coisa essencialmente anti-individual. claro. então você possui o segredo importante de deixar o espaço interior manifestar-se. O que você tem aí agora é um contêiner quadrado.

a coluna é feito uma parte do teto: continuidade. Você pode aperfeiçoar a imagem da liberdade com aqueles quatro planos. já se foi. Mas. porém. A velha idéia de um edifício. São planos de apoio separados. e algo na natureza da planta ou dos materiais aparece naturalmente como possibilidade. clássica. em todo o mundo. alguns do quais podendo ser encurtados. As colunas são projetadas para ficar em pé e sustentar o teto. olhou? Por que não? Porque a caixa sempre tinha uma cornija no topo. Agora – para seguir adiante – no Edifício Johnson. mas um abrigo que não esconde nada quando. se olha para fora. Estas paredes laterais deslocadas tornam-se algo independente. Vamos lá. a circunscrição da caixa morreu. ela fica realçada como uma esplêndida sensação de abrigo. ou ocasionalmente eliminados. Sim. Esta cornija era o elemento que fazia da sua caixa convencional. Estes planos auto-portantes sustentam a cobertura. e sim. Nesta pequena alteração do pensamento. Você está vendo o céu e sentindo a liberdade do espaço. de qualquer modo. Algo se transforma. não mais paredes que encerram o ambiente. Deste ponto em diante podemos falar. É uma forma de abrigo que realmente causa a sensação do exterior entrando ou do interior estendendo-se para fora. mais clássica. você não tem nenhuma sensação de encerramento em qualquer dos ângulos. estendidos ou perfurados. Tudo antes destes pensamentos libertadores de balanço e continuidade 94 . ao invés de arquitetura clássica. como você vê. você tem agora uma amplitude que é realmente a liberação deste espaço interior ao exterior: liberdade onde antes existia aprisionamento. então.Renato Leão Rego da arquitetura. Vou adiante: se esta liberação funciona no plano horizontal. E a cobertura? Elevada. por que não funcionaria no plano vertical? Ninguém nunca olhou para o céu lá em cima através do ângulo superior da caixa. Era adicionada aos lados para que a caixa não parecesse tanto uma caixa. superiores ou laterais. desde dentro. tudo o que se vê hoje desta liberação radical do espaço é a janela de canto. de arquitetura orgânica. reside a essência da mudança arquitetônica da caixa para o plano livre e a nova realidade que é o espaço ao invés da matéria.

um implemento para caracterizar a liberdade do indivíduo? Penso que sim. Eu o realizei! Naturalmente. O espaço agora pode entrar ou sair de onde há vida. ao menos aqui está o nascimento genuíno de um pensamento. Agora. eu pensava ter algo grandioso nas mãos. Se tivessem conhecido o que eu estou tentando descrever aqui. sempre acontece alguma coisa quando você é desproporcionadamente arrogante. Tenho tido um tempo tão curioso. Pensava freqüentemente: bem. interessante. Bem. sempre sobre pilares. Arrogante. voltando às minhas próprias experiências: depois do edifício do Templo Unitário. controverso. e mais. como disse. lembro-me bem. as escolas há muito teriam ensinado estes princípios a você. A suspeita está sempre pronta. a vida toda. Apanhei um pequeno livro que eu acabara de receber do embaixador japonês nos Estados Unidos. Eu a escutei muito. é que eu tenho brigado. era a construção pilar e viga: superimposição de uma coisa sobre a outra e repetição de laje sobre laje. tornei-me cada vez menos tolerante e. não é aquele senso. nesta batalha que eu mesmo me tornei controverso. Seja como for. como um profeta devesse se sentir. Por isso a arquitetura orgânica é a arquitetura na qual você sente e vê tudo isto acontecer como uma terceira dimensão. Chamava-se O livro do Chá.A palavra arquitetônica tiveram efeito. pelo fim da cavilosa velha caixa. espaço como um componente dela. seria a palavra certa. intolerável. ou sensação de arquitetura. imagino eu. este senso de espaço (espaço vivo pela terceira dimensão). E agora? Estabeleceu-se um uso natural do vidro consoante com esta nova liberdade espacial. de um sentimento e de uma oportunidade nesta era da máquina. Este é o meio moderno. você não teria de pensar muito sobre isto hoje. acredito. Se você recusa este sentido liberado da construção você não está jogando fora aquilo que é mais caro à nossa vida humana e mais promissor como um novo campo para a verdadeira expressão artística criativa em arquitetura? Haverá algo mais? Por tudo isto. 95 . Certo dia fui para o meu estúdio em Taliesin para descansar. Muito chato que os gregos não saibam deste novo uso do aço e do vidro como uma terceira dimensão. de que falara. Estava me sentindo. suponho.

espere aí: Laotze o disse... recomecei a raciocinar.bem.. Bem. Pensei.” Curioso! Jamais o havia visto antes.obrigado.. Até que.por um ou dois dias andei desiludido comigo mesmo: sentia alguma coisa parecida a uma vela sendo arriada. Mas. Ao virar as páginas. me sentindo bem. arrogância intocada .. 96 .. Bem.ora.Renato Leão Rego escrito por Okakura Kakuzo. eu o construi.. Me pergunto quantos de vocês o leram. Mal podia acreditar no que lia e o reli inúmeras vezes. Aí me reergui e tenho passado bem desde então. de repente dei de topo com isto: “A realidade da edificação não consiste nas quatro paredes e o teto.. Sim. e sim no espaço entremeio onde se vive. coisas que ele disse quinhentos anos antes de Cristo. naquele livrinho eu encontrei citações do grande poeta-profeta Laotze.

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