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108 Poemas - Manuel Bandeira

108 Poemas - Manuel Bandeira

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  • A Antônio Nobre
  • A Camões
  • A canção das lágrimas de Pierrot
  • A estrela da manhã
  • A Estrela
  • A fina, a doce ferida
  • A Mário de Andrade ausente
  • A mata
  • A morte absoluta
  • Acalanto de John Talbot
  • Andorinha
  • Arte de amar
  • Auto-retrato
  • Bacanal
  • Balõezinhos
  • Belo belo (1)
  • Belo belo (2)
  • Boi morto
  • Cabedelo
  • Camelôs
  • Canção do vento
  • Canto de Natal
  • Chama e fumo
  • Comentário musical
  • Confissão
  • Consoada
  • Contrição
  • Cotovia
  • Crepúsculo de Outono
  • D. Janaína
  • Debussy
  • Desencanto
  • O Poema desentranhado de uma prosa de Augusto Frederico Schimidt
  • Desesperança
  • Enquanto a chuva cai
  • Epígrafe
  • Epílogo
  • Estrada
  • Estrela da manhã
  • Eu vi uma rosa
  • Evocação do Recife
  • Improviso
  • Irene no céu
  • Letra para uma valsa romântica
  • Louvação a cidade do Rio de Janeiro
  • Lua Nova
  • Maçã
  • Madrigal melancólico
  • Madrigal tão engraçadinho
  • Maísa
  • Mascarada
  • Meninos carvoeiros
  • Minha grande ternura
  • Mulheres
  • Na Rua do Sabão
  • Namorados
  • Não sei dançar
  • Natal sem sinos
  • Natal
  • Neologismo
  • Noite morta
  • Nova poética
  • O anel de vidro
  • O bicho
  • O cacto
  • O exemplo das rosas
  • O impossível carinho
  • O inútil luar
  • O menino doente
  • O rio
  • O súcubo
  • O último poema
  • Oração para Aviadores
  • Os sapos
  • Paisagem noturna
  • Palinádia
  • Pardalzinho
  • Pensão familiar
  • Plenitude
  • Pneumotórax
  • Poema de finados
  • Poemeto erótico
  • Poética
  • Porquinho-da-índia
  • Preparação para a morte
  • Profundamente
  • Quando ontem adormeci
  • Renuncia
  • Ria, Rosa, Ria
  • Satélite
  • Sextilhas românticas
  • Soneto inglês nº 1
  • Soneto italiano
  • Tema e Variações
  • Teresa
  • Testamento
  • Teu corpo
  • Tragédia brasileira
  • Trem de ferro
  • Três idades
  • Tu que me deste o teu cuidado
  • Última canção do Beco
  • Velha chácara
  • Versos de Natal
  • Versos escritos n'água
  • Vou-me embora pra Pasárgada
  • Voz de fora
  • Vulgívaga

A Antônio Nobre

Tu que penaste tanto e em cujo canto Há a ingenuidade santa do menino; Que amaste os choupos, o dobrar do sino, E cujo pranto faz correr o pranto: Com que magoado olhar, magoado espanto Revejo em teu destino o meu destino! Essa dor de tossir bebendo o ar fino, A esmorecer e desejando tanto... Mas tu dormiste em paz como as crianças. Sorriu a Glória às tuas esperanças E beijou-te na boca... O lindo som! Quem me dará o beijo que cobiço? Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso... Eu, não terei a Glória... nem fui bom.

Petrópolis, 3-2-1916.

A Camões
Quando n’alma pesar de tua raça A névoa da apagada e vil tristeza, Busque ela sempre a glória que não passa, Em teu poema de heroísmo e de beleza. Gênio purificado na desgraça, Tu resumiste em ti toda a grandeza: Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça O amor da grande pátria portuguesa. E enquanto o fero canto ecoar na mente Da estirpe que em perigos sublimados Plantou a cruz em cada continente, Não morrerá, sem poetas nem soldados, A língua em que cantaste rudemente As armas e os barões assinalados.

A canção das lágrimas de Pierrot
I A sala em espelhos brilha Com lustres de dez mil velas. Miríades de rodelas Multicores - maravilha! – Torvelhinham no ar que alaga O cloretilo e se toma Daquele mesclado aroma De carnes e de bisnaga. E rodam mais que confete, Em farândolas quebradas, cabeças desassisadas Por Colombina ou Pierrete II Pierrot entra em salto súbito. Upa! Que força o levanta? E enquanto a turba se espanta, Ei-lo se roja em decúbito. A tez, antes melancólica, Brilha. A cara careteia. Canta. Toca. E com tal veia, com tanta paixão diabólica, Tanta, que se lhe ensangüentam Os dedos. Fibra por fibra, Toda a sua essência vibra Nas cordas que se arrebentam. III Seu alaúde de plátano Milagre é que não se quebre. E a sua fronte arde em febre, Ai dele! e os cuidados matam-no. Ai dele! e essa alegria, Aquelas canções, aquele Surto não é mais, ai dele! Do que uma imensa ironia. Fazendo à cantiga louca Dolorido contracanto, Por dentro borbulha o pranto Como outra voz de outra boca:

… socapa... Em vez de beijo um tapa. minha alegria. Minha coragem.. E hoje a minh'alma sombria É como um poço de lástimas.. Pula. Procura o precário ensejo De matar o seu desejo Numa carícia furtiva. "Minha paz. Como se fosse na treva Romper a esfera dos astros!.. E enco ntrando-o Colombina.... O pobre rosto ilumina-se-lhe! Ele que estava de rastros. ." V Corre após a amada esquiva. "Fiz por ver se te podia Amolecer . roubaste-mas.IV "Negaste a pele macia À minha linda paixão E irás entregá-la um dia Aos feios vermes do chão. Se lhe dá. lesta.e não pude! Em vão pela noite fria Devasto o meu alaúde.. e tão alto se eleva..

falsário Virgem mal-sexuada Atribuladora dos aflitos Girafa de duas cabeças Pecai por todos pecai com todos Pecai com os malandros Pecai com os sargentos Pecai com os fuzileiros navais Pecai de todas as maneiras Com os gregos e com os troianos Com o padre e com o sacristão Com o leproso de Pouso Alto Depois comigo Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples Que tu desfalecerás Procurem por toda parte Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã .A estrela da manhã Eu quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhã Ela desapareceu ia nua Desapareceu com quem? Procurem por toda a parte Digam que sou um homem sem orgulho Um homem que aceita tudo Que me importa? Eu quero a estrela da manhã Três dias e três noites Fui assassino e suicida Ladrão. pulha.

Era uma estrela tão alta! Era uma estrela tão fria! Era uma estrela sozinha Luzindo no fim do dia. Vi uma estrela tão fria! Vi uma estrela luzindo Na minha vida vazia. . Porque da sua distância Para a minha companhia Não baixava aquela estrela? Porque tão alta e luzidia? E ouvi-a na sombra funda Responder que assim fazia Para dar uma esperança Mais triste ao fim do dia.A Estrela Vi uma estrela tão alta.

. a doce ferida. Por que ardor pecaminoso Ateou a esta alma perdida A fina. a doce ferida A fina. ... Que no peito sem repouso Me arderá por toda a vida A fina.. a doce ferida Que foi a dor do meu gozo Deixou quebranto amoroso Na cicatriz dolorida. a doce ferida Que foi a dor do meu gozo.A fina. Como uma adaga partida Purge o golpe voluptuoso.

(É sempre assim quando o ausente Partiu sem se despedir: Você não se despediu. assim: À mesa conversarão de uma coisa e outra. Por exemplo. Para outra vida? A vida é uma só. Por isso não sinto agora a sua falta. Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel. Sorrirei sem dizer que em você Profundamente Mas agora não sinto a sua falta. não. você ausentou-se. Meus olhos.A Mário de Andrade ausente Anunciaram que você morreu. Inadvertida para os demais. Virá súbito um dia. Na vida que você viveu. A sua continua. Saberei que não. Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque. Uma palavra lançada à toa Baterá na franja dos lutos de sangue.) Você não morreu: ausentou-se. Sei bem que ela virá (Pela força persuasiva do tempo). meus ouvidos testemunharam: A alma profunda. Alguém perguntará em que estou pensando. Por isso não sinto agora a sua falta. . Direi: Faz já tempo que ele não escreve.

.. levemente. E parece sorrir do delírio geral. . como a atriz de uma pantomima trágica.é que pedem desesperadamente a mesma instante coisa.A mata A mata agita-se. fustigando-a.... revoluteia. contorce-se toda e sacode-se! A mata está hoje como uma multidão em delírio coletivo. escorraçando-a.. à parte. contorce-se toda e sacode-se! A mata hoje tem alguma coisa para dizer.. Ou então .. levemente. levemente. revoluteia. Balouça. Pedirá o fogo para a purificação das necroses milenárias? Ou não pede nada. Só uma touça de bambus. Todos eles sabem o mesmo segredo pânico. Cada galho rebelado Inculca a mesma perdida ânsia. e contorce-se toda. e quer falar e não pode? Ter surpreendido o segredo da terra pelos ouvidos finíssimos das suas raízes? A mata agita-se. Que saberá a mata? Que pedirá a mata? Pedirá água? Mas a água despenhou-se há pouco. E ulula. saciando-a como aos alarves.

. . Morrer sem deixar o triste despojo da carne. um risco. José Aguilar.. In "Poesia Completa e Prosa". em nenhum pensamento. Morrer de corpo e de alma.. Cia. uma sombra.A morte absoluta Morrer.num dia." Morrer mais completamente ainda. Em nenhuma epiderme. A exangue máscara de cera.. Cercada de flores. Banhada de lágrimas Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.felizes! . Completamente. Que apodrecerão . A caminho do céu? Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu? Morrer sem deixar um sulco.Sem deixar sequer esse nome. 1967 . Morrer tão completamente Que um dia ao lerem o teu nome num papel Perguntem: "Quem foi?. Morrer sem deixar porventura uma alma errante. A lembrança de uma sombra Em nenhum coração.

que a teu lado cantarei baixinho. meu filhinho. que te guardo eu. Dorme. O dia não tarda… Vai amanhecer: Como é frio o ar! O anjinho da guarda que o Senhor te deu. .Acalanto de John Talbot Dorme. dorme. pode adormecer pode descansar. sossegado.

minha cantiga é mais triste! Passei a vida à toa.Andorinha Andorinha lá fora está dizendo: . à toa. ... andorinha. à toa!” Andorinha.“Passei o dia à toa.

Só em Deus .Arte de amar Se queres sentir a felicidade de amar. As almas são incomunicáveis. Porque os corpos se entendem. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. A alma é que estraga o amor. . esquece a tua alma. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Não noutra alma. mas as almas não.ou fora do mundo.

Religião ou filosofia. Poeta ruim que na arte da prosa Envelheceu na infância da arte. sem família. Arquitecto falhado. . Mal tendo a inquietação de espírito Que vem do sobrenatural. músico Falhado (engoliu um dia Um piano. mas o teclado Ficou de fora). E em matéria de profissão Um tísico profissional. Pernambuca no a quem repugna A faca do pernambucano.Auto-retrato Provinciano que nunca soube Escolher bem uma gravata. E até mesmo escrevendo crónicas Ficou cronista de província.

....Bacanal “Quero beber! Cantar asneiras No esto brutal das bebedeiras Que tudo emborca e faz em caco. Evoé Momo!” . Evoé Baco! Lá se me parte a alma levada No torvelim da mascarada A gargalhar em doudo assomo.

“O melhor divertimento para as crianças!” E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um [círculo inamovível de desejo e espanto. Nas bancas de peixe. Nas barraquinhas de cereais. .“O melhor divertimento para as crianças!” Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres. E mulheres do povo. e as lavadeiras da redondeza. Os tomatinhos vermelhos. O vendedor infatigável apregoa: . E as criadas das burguesinhas ricas. Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras. Nem as frutas. Vão chegando as burguesinhas pobres. Junto às cestas de hortaliças O tostão é regateado com acrimónia.Balõezinhos Na feira do arrabaldezinho Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor: . Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a [única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável. No entanto a feira burburinha. Nem nada. Fitando com olhos muito redondos Os grandes balõezinhos muito redondos.

de tantas estrelas cadentes. Não quero amar. Não quero ser soldado. Não quero o que a terra só dá com trabalho. Belo belo belo. Tenho o fogo de constelações extintas há milénios. Tenho tudo quanto quero.que foi? passou . . E o risco brevíssimo . Não quero o êxtase nem os tormentos. Tenho tudo quanto quero. As dádivas dos anjos são inaproveitáveis: Os anjos não compreendem os homens. Não quero ser amado. Não quero combater.Belo belo (1) Belo belo belo. .Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples. O dia vem. e dia adentro Continuo a possuir o segredo grande da noite. E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora. A aurora apaga-se.

Belo belo (2) Belo belo minha bela Tenho tudo que não quero Não tenho nada que quero Não quero óculos nem tosse Nem obrigação de voto Quero quero Quero a solidão dos píncaros A água da fonte escondida A rosa que floresceu Sobre a escarpa inacessível A luz da primeira estrela Piscando no lusco-fusco Quero quero Quero dar a volta ao mundo Só num navio de vela Quero rever Pernambuco Quero ver Bagdá e Cusco Quero quero Quero o moreno de Estela Quero a brancura de Elisa Quero a saliva de Bela Quero as sardas de Adalgisa Quero quero tanta coisa Belo belo Mas basta de lero-lero Vida noves fora zero. .

boi morto. Agora é boi morto. Boi morto. enorme. boi morto. boi morto. boi morto! . boi descomedido. Boi morto. a atônita alma. boi morto. O que foi Ninguém sabe. Me sinto a meio submergido Entre destroços do presente Dividido. boi morto. Boi morto. Atônita para jamais. Boi morto. Onde rola. Que o corpo.Boi morto Como em turvas águas de enchente. boi Morto. tão marginais! – Fica a alma. esse vai com o boi morto. Boi espantosamente. sem forma ou sentido Ou significado. subdividido. Árvores da paisagem calma. Convosco – altas. o boi morto.

. .Estavas?. Ó maninha. maninha. .. Tu não estavas comigo!. O macaco me ofereceu cocos.. ó..Cabedelo Viagem… roda do mundo Numa casquinha de noz: Estive em Cabedelo.

têm a língua atada. Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino ingênuo de demiurgos de inutilidades. Alegria das calçadas Uns falam pelos cotovelos: .. E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos da meninice. ."O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho. coitados.." Outros. E dão aos homens que passam preocupados ou tristes uma lição de infância.Camelôs Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão: O que vende balõeszinhos de cor O macaquinho que trepa no coqueiro O cachorrinho que bate com o rabo Os homenzinhos que jogam boxe A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma.. vai buscar um pedaço de banana para eu acender o charuto. Naturalmente o menino pensará: Papai está malu..

de cânticos O vento varria os meses E varria os teus sorrisos..Canção do vento O vento varria as folhas. de folhas O vento varria as luzes. de estrelas.. O vento varria tudo! E a minha vida ficava cada vez mais cheia de tudo . de flores... O vento varria as músicas. E a minha vida ficava cada vez mais cheia de aromas.. O vento varria os frutos O vento varria as flores. E a minha vida ficava cada vez mais cheia de frutos.. O vento varria os aromas.

Canto de Natal
O nosso menino Nasceu em Belém. Nasceu tão-somente Para querer bem. Nasceu sobre as palhas O nosso menino. Mas a mãe sabia Que ele era divino. Vem para sofrer A morte na cruz, O nosso menino, Seu nome é Jesus. Por nós ele aceita O humano destino: Louvemos a glória De Jesus menino.

Chama e fumo
Amor - chama, e, depois, fumaça... Medita no que vais fazer: O fumo vem, a chama passa... Gozo cruel, ventura escassa, Dono do meu e do teu ser, Amor - chama, e, depois, fumaça... Tanto ele queima! e, por desgraça, Queimado o que melhor houver, O fumo vem, a chama passa... Paixão puríssima ou devassa, Triste ou feliz, pena ou prazer, Amor - chama, e, depois, fumaça... A cada par que a aurora enlaça, Como é pungente o entardecer! O fumo vem, a chama passa... Antes, todo ele é gosto e graça. Amor, fogueira linda a arder Amor - chama, e, depois, fumaça... Porquanto, mal se satisfaça, (Como te poderei dizer?...) O fumo vem, a chama passa... A chama queima... O fumo embaça. Tão triste que é! Mas... tem de ser... Amor?... - chama, e, depois, fumaça: O fumo vem, a chama passa...

Teresópolis, 1911.

Comentário musical
O meu quarto de dormir a cavaleiro da entrada da barra. Entram por ele dentro Os ares oceânicos, Maresias atlânticas: São Paulo de Luanda, Figueira da Foz, praias gaélicas da Irlanda... O comentário musical da paisagem só podia ser o sussurro sinfônico da vida civil. No entanto o que ouço neste momento é um silvo agudo de sagüim: Minha vizinha de baixo comprou um sagüim.

Abrir-lhe o incerto coração que chora. mostrar-lhe o fundo intacto de ternura.. . E é num arroubo em que a alma desfalece de sonhá-la prendada e casta e clara. cresce este meu desejo de hora em hora. em minha miséria.. agora embravecida e mansa agora. Mas ela chega... e toda me parece tão acima de mim. Que hesito.. O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.Confissão Se não a vejo e o espírito a afigura... Cuido contar-lhe o mal. Cuido dizer-lhe o amor que me tortura. balbucio e me acobardo.. que eu. pedir-lhe a cura. tão linda e rara..... absorto a aguardo.

. talvez eu tenha medo. ou diga: .Alô. Com cada coisa em seu lugar. A mesa posta. Talvez sorria.) Encontrará lavrado o campo. a casa limpa. (A noite com os seus sortilégios.Consoada Quando a Indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou caroável). iniludível! O meu dia foi bom. pode a noite descer.

Contrição Quero banhar-me nas águas límpidas Quero banhar-me nas águas puras Sou a mais baixa das criaturas Me sinto sórdido confiei às feras as minhas lágrimas rolei de borco pelas calçadas cobri meu rosto de bofetadas Meu Deus valei-me vozes da infância contai a história da vida boa que nunca veio E eu caia ouvindo-a no calmo seio Da eternidade. .

. Sei no espaço de um segundo Limpar o pesar mais fundo.Do mais remoto e perempto Dos teus dias de criança Te trouxe a extinta esperança. Voltei. Meu bico é bem pequenino Para o bem que é deste mundo: Se enche com uma gota de água. De um país que não existe. . no Cais Pousei na Rua da Aurora. . Europa. cotovia! Aonde voaste. te trouxe a alegria.Muito contas. e dos longes Das distâncias. Que isso cabe às cotovias.Os anos não.Alô..Cotovia . Mas sei torcer o destino. Onde foi meu pensamento Em sítios.Líbia ardente. que nunca viste. Por onde andaste. Cítia fria.. .Andei onde deu o vento. Trouxe a perdida alegria.E esqueceste Pernambuco. nem os dias. .. Que saudades me deixaste? .Aurora da minha vida Que os anos não trazem mais! .Voei ao Recife. cotovia! E que outras terras distantes Visitaste? Dize ao triste. França. Bahia. . Distraída? . Voei ao Recife.. aonde alcança Só a asa da cotovia.

.. Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito. .. Consoladora como um divino perdão.o horizonte purpúreo. A sombra casa os sons numa grave harmonia. Um sino plange. Flocos. nos barrancos retortos. Mais negros sobre a alvura unânime da neve. A sua voz ritma o murmúrio Do rio. Um corvo passa e grasna. e isso parece a voz da solidão.. O outono amarelece e despoja os lariços. Altos e espirituais como flechas de igrejas. O sol fundiu a neve. que a luz do poente extática semelha A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos. As grandes mãos da sombra evangélicas pensam As feridas que a vida abriu em cada peito. Apenas há. Os pinheiros porém viçam.Crepúsculo de Outono O crepúsculo cai. As flores morrem.. e deixa esparso no ar O terror augural de encantos e feitiços. E tamanha esperança e uma tão grande paz Avultam do clarão que cinge a serrania. manso como uma benção.. Toda a relva entra a murchar. Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás. e serão breve Todo o verde que a vista espairecendo vejas. A folhagem vermelha Reponta. E essa voz enche o vale.

Janaína Tem muitos amores É o rei do Congo É o rei de Aloanda É o sultão-dos-matos É S. Janaína Vai se banhar. Janaína Princesa do mar Dai-me licença Pra eu também brincar No vosso reinado. Salavá! Saravá saravá D. Janaína Rainha do mar! D. Janaína Princesa do mar D. D. Janaína Sereia do mar D. Janaína De maillot encarnado D.D. Janaína D. .

. para lá. ...... Para cá. Um novelozinho de linha.) Que delicadamente e quase a adormecer o balança .Debussy Para cá. Para cá... para lá.. Oscila no ar pela mão de uma criança (Vem e vai... para lá.. Para cá....O novelozinho caiu. Para cá e... . para lá.Psio.. Para cá. para lá.

de desencanto Fecha meu livro se por agora Não tens motivo algum de pranto Meu verso é sangue . remorso vão Dói-me nas veias amargo e quente Cai gota à gota do coração. volúpia ardente Tristeza esparsa . E nesses versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre Deixando um acre sabor na boca Eu faço versos como quem morre.Desencanto Eu faço versos como quem chora De desalento . Qualquer forma de amor vale a pena!! Qualquer forma de amor vale amar! .

Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de São João E hoje estão para sempre dormindo profundamente. A solidão é o grande sinal de teu destino.Como o céu recebe a companhia das primeiras estrelas. o mistério e o calor dos outros seres te interessam realmente Mas tu está apartado de tudo isso. . porque vives na companhia dos teus desaparecidos. Da poesia com quem ama e quem morre.O Poema desentranhado de uma prosa de Augusto Frederico Schimidt A luz da tua poesia é triste mas pura. O pitoresco. as cores vivas. Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza Naturalmente .

O silêncio é tão largo. astro apagado. Vejo nele a feição fria de um desafeto..Ah. que penosa lassidão em cada músculo. Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra. parado. como dói viver quando falta a esperança! . Temo a monotonia e apreendo a mudança.. angustia. sem objeto. Quando a vida acabar e.... Minha respiração se faz como um gemido. O demônio sutil das nevroses enterra A sua agulha de aço em meu crânio doído. e se mais a aprofundo. Já não entendo a vida.Desesperança Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo. Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento. é tão lento Que dá medo. Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.. Como dói um pesar em cada pensamento! Ah.. Tudo a meus olhos toma um doloroso aspeto: E erro assim repelido e estrangeiro no mundo. Por onde alongue o meu olhar de moribundo. Sinto que a minha vida é sem fim. . Assim deverá ser a natureza um dia.. é tão longo. O ar. Rodar sobre si mesma estéril e vazia... incomoda.

Dos sós.. Dai um brando acompanhamento À canção do meu desencanto. Lavando o tédio dos telhados Que se sentem envelhecer. água que inundas! Ó água amiga das raízes.. ambarino.. O lamento das quedas-d'água! .. As velhas árias funerais. a bom cair! Contenta as árvores! Contenta As sementes que vão abrir! Eu te bendigo. Aprendi na cidade a ouvir Como um eco que vem na aragem A estrugir. . É que na tua voz selvagem. Cai. gris. Minh'alma sofre e sonha e goza À cantilena dos beirais... Quer quando mansamente cais... benfazeja. Que na mudez das terras fundas Às vezes são tão infelizes! E eu te amo! Quer quando fustigas Ao sopro mau dos vendavais As grandes árvores antigas.... Voz de cortante. Meu coração está sedento De tão ardido pelo pranto.ouvir a água escorrer. Ó caro ruído embalador. Volúpia dos abandonados. A chuva aumenta.Enquanto a chuva cai A chuva cai. rugir e mugir. ó bátega chorosa. Indistinto. Torvelinhai. O ar fica mole. Para embalar a minha dor! A chuva cai.. torrentes do ar! Cantai... álgida mágoa. Terno como a canção das amas! Canta as baladas que mais amas. E no monótono matiz Da névoa enovelada bole A folhagem como o bailar.

Veio o mau gênio da vida. abateu.Epígrafe Sou bem-nascido. E dessas horas ardentes Ficou esta cinza fria. Menino. .meu coração ardeu: Ardeu em gritos dementes Na sua paixão sombria. Rompeu em meu coração. veio o mau destino E fez de mim o que quis. In “A cinza das horas” (1917) .. Levou tudo de vencida.. Queimou sem razão nem dó Ah. Turbou.Esta pouca cinza fria. partiu. Fui. como os demais. que dor! Magoado e só.Só! . Depois. feliz. . Rugia e como um furacão.

. E de frescura. E o meu tinha a morta morta-cor Da senilidade e da amargura. compor Um carnaval todo subjetivo: Um carnaval em que só o motivo Fosse o meu próprio ser interior. .a diferença que havia! O de Schumann é um poema cheio de amor. . Quando acabei.. como Schumann.Epílogo Eu quis um dia.O meu Carnaval sem nenhuma alegria!........ e de mocidade.

Nas cidades todas as pessoas se parecem. entre duas voltas do caminho. Até os cães. Nem falta o murmúrio da água. E quanta gente vem e vai! E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar: Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezi nho manhoso. Aqui. Estes cães da roça parecem homens de negócios: Andam sempre preocupados. pela voz dos símbolos. para sugerir. . Interessa mais que uma avenida urbana.Estrada Esta estrada onde moro. Cada criatura é única. não: sente-se bem que cada um traz a sua alma. Que a vida passa! que a vida passa! E que a mocidade vai acabar. Todo o mundo é igual. todo o mundo é toda a gente.

Estrela da manhã Eu quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhã Ela desapareceu ia nua Desapareceu com quem? Procurem por toda a parte Digam que sou um homem sem orgulho Um homem que aceita tudo Que me importa? Eu quero a estrela da manhã Três dias e três noites Fui assassino e suicida Ladrão. falsário Virgem mal-sexuada Atribuladora dos aflitos Girafa de duas cabeças Pecai por todos pecai com todos Pecai com os malandros Pecai com os sargentos Pecai com os fuzileiros navais Pecai de todas as maneiras Com os gregos e com os troianos Com o padre e com o sacristão Com o leproso de Pouso Alto Depois comigo Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de [uma ternura tão simples Que tu desfalecerás Procurem por toda parte Pura ou degradada até a última baixeza Eu quero a estrela da manhã. . pulha.

Tão perto do chão. Tão longe da glória Da mística altura.Eu vi uma rosa Eu vi uma rosa . Tão pura e modesta. Ao sol de meio-dia. Mistério inefável . Estava ali na rosa Sozinha no galho. Em torno. na rua.Sobrenatural Da vida e do mundo. . Toda a natureza Em toda formas e cores E sons esplendia. Sozinha no tempo. No galho? Sozinha No jardim. Dir-se-ia que ouvisse Do arcanjo invisível As palavras santas De outra Anunciação. Tudo isso era excesso.Uma rosa branca Sozinha no galho. A graça essencial. no entanto. Sozinha no mundo.

. Os homens punham o chapéu saíam fumando E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo... Como eram lindos os montes das ruas da minha infância Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame de dr... Fulano de Tal) Atrás de casa ficava a Rua da Saudade..Evocação do Recife Recife Não a Veneza americana Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois . Rua da União. ..) De repente nos longos da noite um sino Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo António! Outra contrariava: São José! Totónio Rodrigues achava sempre que era são José.onde se ia pescar escondido Capiberibe .....onde se ia fumar escondido Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora.Capiberibe Lá longe o sertãozinho de Caxangá Banheiros de palha Um dia eu vi uma moça nuinha no banho Fiquei parado o coração batendo Ela se riu Foi o meu primeiro alumbramento .Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas Totónio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras mexericos namoros risadas A gente brincava no meio da rua Os meninos gritavam: Coelho sai! Não sai! A distância as vozes macias das meninas politonavam: Roseira dá-me uma rosa Craveiro dá-me um botão (Dessas rosas muita rosa Terá morrido em botão.. .

Capiberibe Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas Com o xale vistoso de pano da Costa E o vendedor de roletes de cana O de amendoim que se chamava midubim e não era torrado era cozido Me lembro de todos os pregões: Ovos frescos e baratos Dez ovos por uma pataca Foi há muito tempo.. Meu avô morto... . Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia impregnado de eternidade Recife.Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras Novenas Cavalhadas E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos Capiberibe . Recife brasileiro como a casa de meu avô.... A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros Vinha da boca do povo na língua errada do povo Língua certa do povo Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil Ao passo que nós O que fazemos É macaquear A sintaxe lusíada A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem Terras que não sabia onde ficavam Recife. A casa de meu avô. Recife morto. Rua da União.. Recife bom....

Mas a onda é água que afoga: Tu. és libérrima e exata Como a concha. diáfana. Mas o ar tem limites: Tu. viração Da asa de uma abelha . não. mas de lágrima.Improviso Cecília. . és tão forte e tão frágil Como a onda ao termo da luta. Diáfana. Cecília. quem te pode limitar? Definição: Concha. mas de orelha: Água.Brisa. Ar com sentimento. és. E a matéria mata. és enxuta. Cecília. Mas a concha é excessiva matéria. como o ar.

Irene.Licença. meu branco! E São Pedro Bonacheirão: . .Irene no céu Irene preta Irene boa Irene sempre de bom humor Imagino Irene entrando no céu: . Você não precisa pedir licença.Entra.

Elisa! Ai nem te humaniza O pranto que tanto Nas faces desliza Do amante que pede Suplicantemente Teu amor. pisa! Meu canto.Letra para uma valsa romântica A tarde agoniza Ao santo acalanto Da noturna brisa. Tão indiferente. Mulher diferente. Mais te diviniza. Desumana Elisa! . Se não vens. no entanto. Morro sem consolo. E eu. desdenha. que também morro. Elisa! Ri.

Porque assim sentirei menos O meu despejo de cá. Louvo o santo padroeiro . Logo depois transferida Para o Castelo. não faz mal: Jamais capital nenhuma.) Cidade de sol e bruma. Igualará teu encanto. louvo o Filho E louvo o Espírito Santo. Rio. e de então Descendo as faldas do outeiro. Ó Rio de meus primeiros Sonhos! (A última hora De minha vida oxalá Venha sob teus cé us serenos. Louvo o Padre. empanará teu brilho.Bravo São Sebastião Que num dia de janeiro Lhe deu santa defensão. louvo o Filho E louvo o Espírito Santo. .. louvo o santo De quem este Rio é filho. Avultando em arredores.. Se não és mais capital Desta nação.Louvação a cidade do Rio de Janeiro Louvo o Padre. Subindo a morros maiores Grande Rio de Janeiro! Rio de Janeiro. Louvo a Cidade nascida No morro Cara de Cão. Louvado Deus. agora De quatrocentos janeiros.

Sem medo. de novo a cavaleiro da entrada da barra. Volto a banhar meus olhos no mônstruo incruento das madrugadas. Depois de dez anos de pátio Volto a tomar conhecimento da aurora. O de que preciso É de lua nova . O que eu mais quero.Lua Nova Meu novo quarto Virado para o nascente: Meu quarto. Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir: Hei de aprender com ele A partir de uma vez .Esse sol da demência Vaga e noctâmbula. Sem remorso. Não pensem que estou aguardando a lua cheia . Sem saudade.

.Maçã Por um lado te vejo como um seio murcho Pelo outro como um ventre cujo umbigo Pende ainda o cordão placentário És vermelha como o amor divino Dentro de ti em pequenas pevides Palpita a vida prodigiosa Infinitamente E quedas tão simples Ao lado de um talher Num quarto pobre de hotel.

Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza. O que eu adoro em ti . Sucessiva e renovada a cada momento. . Não é a tua inteligência. (11. O que eu adoro em tua natureza. E a beleza é triste. E meu pai. Não é o teu espírito subtil. Tão ágil. Não é a tua beleza. Nem a tua ciência Do coração dos homens e das coisas. A beleza é um conceito. Não é a irmã que já perdi. Não é a tua graça musical.lastima-me e consola-me! O que eu adoro em ti. Não é o profundo instinto maternal Em teu flanco aberto como uma ferida. tão luminoso. Não é triste em si.Ave solta no céu matinal da montanha. Não é a mãe que já perdi.1920) .6. O que eu adoro em ti. Graça aérea como o teu próprio pensamento. Graça que perturba e que satisfaz. A beleza. Nem a tua pureza. O que eu adoro em ti. é em nós que ela existe.Madrigal melancólico O que eu adoro em ti. é a vida. O que eu adoro em ti. Nem a tua impureza.

você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida. . inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.Madrigal tão engraçadinho Teresa.

A boca de Maísa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios meu deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maísa pode ser marga! Boca da noite(mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)” Cacei imagens delirantes Maísa não podia gostar Cassei o poema Maísa reapareceu depois de longa ausência Maísa emagreceu Está melhor assim? Nem melhor nem pior Maísa não é um corpo Maísa são dois olhos e uma boca Essa é a Maísa da televisão A Maísa que canta A outra eu não conheço não Não conheço de todo Mas mando um beijo para ela. . A boca de Maísa é isto isso e aquilo Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos? Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão.Maísa Um dia pensei um poema para Maísa “Maísa não é isso Maísa não é aquilo Como é então que Maísa me comove me sacode me buleversa me hipnotiza? Muito simplesmente Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto Os olhos de Maísa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos.

que a paixão dos homens (estranha paixão!) Fazia maiores.. Conheço que a vida.. ilusão.Não conheço não. . como fui bela! Tive grandes olhos..Não conheço não.Mascarada Você me conhece? (Frase dos mascarados de antigamente) Você me conhece? .. um mundo Irreal se abria à tua visão! Tu não me escutavas: Perdido ficavas Na noite sem fundo Do que eu te dizia. .. Se eu falava. Diz: não me conheces? .. .Não me lembro não.Ah.Choraste em meus braços . Por mim quantas vezes O sono perdeste E ciúmes atrozes Te despedaçaram! Por mim quantas vezes Quase tu mataste. Quase te mataram! Agora me fitas E não me conheces? . Quase te mataste.Não conheço não.Não conheço não. Conheço que a vida É sonho. Fazia infinitos. A vida é traição. Pois não me conheces? . Era a minha fala Canto e persuasão.

Os carvões caem. carvoeiro! E vão tocando os animais com um relho enorme. Encarrapitados nas alimárias. . Cada um leva seis sacos de carvão de lenha. A madrugada ingénua parece feita para eles. vêm mordendo num pão encarvoado. A aniagem é toda remendada.Eh.Meninos carvoeiros Os meninos carvoeiros Passam a caminho da cidade. Apostando corrida. . ingénua miséria! Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis! -Eh.Eh.) . (Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe.. Pequenina. Os burros são magrinhos e velhos. dobrando-se com um gemido. carvoero! Só mesmo estas crianças raquíticas Vão bem com estes burrinhos descadeirados.. carvoero! Quando voltam. bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados. Dançando.

Pelas pequeninas aranhas. Pelas mulheres que foram desejáveis E deixaram de o ser.Minha grande ternura Minha grande ternura Pelos passarinhos mortos. Pelas mulheres que me amaram E que eu não pude amar. Minha grande ternura Pelos poemas que Não consegui realizar. . Minha grande ternura Pelas gotas de orvalho que São o único enfeite de um túmulo. Minha grande ternura Pelas mulheres que foram meninas bonitas E ficaram mulheres feias. Minha grande ternura Pelas amadas que Envelheceram sem maldade.

E as feias...Mulheres Como as mulheres são lindas! Inútil pensar que é do vestido. eu amo como as criancinhas. És linda como uma história da carochinha.. E depois não há só as bonitas: Há também as simpáticas. E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai (No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau). .. É fraco! fraco! Meu Deus. certas feias em cujos olhos eu vejo isto: Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.. Como deve ser bom gostar de uma feia! O meu amor porém não tem bondade alguma..

. enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam. entesou.Na Rua do Sabão Cai cai balão Cai cai balão Na Rua do Sabão! O que custou arranjar aquele balãozinho de papel! Quem fez foi o filho da lavadeira. muito serenamente. Cai cai balão! Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.. tremia todo e mudava de cor. Como se o enchesse o soprinho tísico do José. E foi subindo.. Bambeava. Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.. Caiu no mar. Cai cai balão! A molecada salteou-o com atiradeiras assobios apupos pedradas.. ... cortou-o com amor.. serenamente. – pequena coisa tocante na escuridão do céu.. Ei-lo agora que sobe... A molecada da Rua do Sabão Gritava com maldade: Cai cai balão! Subitamente. porém. Ele. para muito longe. Comprou o papel de seda.. Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.. Caiu muito longe. Levou tempo para criar fôlego. compôs os gomos oblongos. Não caiu na Rua do Sabão. – nas águas puras do mar alto. para longe. foi subindo....

A moça olhou de lado e esperou.Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada? A moça se lembrava: .Namorados O rapaz chegou-se para junto da moça e disse: . você é engraçada. A meninice brincou de novo nos olhos dela..Antônia. .Antônia.. você parece uma lagarta listada. com a sua cara. . O rapaz concluiu: . ainda não me acostumei com o seu corpo.A gente fica olhando.Antônia. fez exclamações. O rapaz prosseguiu com muita doçura: . você parece louca. A moça arregalou os olhos.

. pai. Tão Brasil! De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil. Abaixo Amiel! E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff. Mistura muito excelente de chás... O japonês também dança maxixe: Acugêlê banzai! A filha do usineiro de Campos Olha co m repugnância Para a crioula imoral.... Que me importa? Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.... Tão Brasil! Ninguém se lembra da política. Mas ela não sabe. já perdi. A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. No entanto o que faz a indecência da outra É dengue nos olhos maravilhosos da moça. Eu já tomei tristeza.. irmãos. É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.. E aquele cair de ombros. Há até a fração incipiente amarela Na figura de um japonês. Perdi a saúde também. . mãe. foi arrumadeira..... Sim. Nem dos oito mil quilômetros de costa.. Mas o cálculo das probalidades é uma pilhéria..Não. Uns tomam etér. outros cocaína. E está dançando com o ex-prefeito municipal. Tenho todos os motivos menos um de ser triste. Esta foi açafata. outros cocaína. hoje tomo alegria. Eu tomo alegria! .Não sei dançar Uns tomam etér. O algodão de Seridó é o melhor do mundo. Eu tomo alegria! Eis aí por que vim a este baile de terça-feira gorda..

os sinos de Santa Luzia. o sinos De quando eu menino. Pelos sinos (sinos Que não ouço). do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem.Natal sem sinos No pátio a noite é sem silêncio. . Sinos do Poço. Bimbalhai meninos. Outros sinos Sinos Quantos sinos! No noturno pátio Sem silêncio. E que é a noite sem o silêncio? A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos Do meu Natal sem sinos? Ali meninos si nos De quando eu menino! Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.

. e que a minha ternura Se torne insexual.. Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos. Ampara a minha fronte. Figuro os olhos teus...pura Como aquela fervente e benfazeja luz .. E tu sonhas.. No teu Natal. O teu busto pendeu como um lírio sem vida. Ó minha amiga. A voz dos sinos. mais do que humana . aceita a carícia filial De minh’alma a teus pés humilhada de rastos. tristes como eles foram No momento final de nossa despedida.Natal Penso em Natal... Tudo é saudade. Componho O ambiente cuja luz os teus cabelos douram... Uma grande saudade Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência. A cadência Do rio.... Evoco-te. na paz divina do Natal. Para a bondade A minh’alma se volta.... E esta saudade é boa como um sonho! E esta saudade é um sonho.

Intransitivo Teadoro. o verbo teadorar. inventei. por exemplo. Mas invento palavras que traduzem a ternura mais funda E mais quotidiana. falo menos ainda. Teodora. .Neologismo Beijo pouco.

Ninguém passa na estrada. Os que ainda vivem e os que já morreram. José Aguilar. O córrego chora.. A voz da noite. Junto ao poste de iluminação Os sapos engolem mosquitos.) In "Poesia Completa e Prosa". 1967.Noite morta Noite morta. Cia. No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras Sobras de todos os que passaram. . mas de outra maior.. (Não desta noite. Nem um bêbado.

salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama: É a vida.Nova poética Vou lançar a teoria do poeta sórdido Poeta sórdido: Vai um sujeito. Mas este fica para as menininhas. O poeta deve ser como a nódoa no brim: Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero. e na primeira esquina passa um caminhão. as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade. Sai um sujeito de casa com a roupa de brim muito bem engomada. as estrelas alfas. Sei que a poesia é também orvalho. .

era vidro e logo se quebrou Assim também o eterno amor que prometeste.Ai de mim .O anel de vidro Aquele pequenino anel que tu me deste. Aquele pequenino anel que tu me deste. porém. De ti conservo no peito a saudade celeste Como também guardei o pó que me ficou Daquele pequenino anel que tu me deste . . Frágil penhor que foi do amor que me tiveste. o despeito que investe Gritando maldições contra aquilo que amou. .era vidro e logo se quebrou Não me turbou.Eterno! era bem pouco e cedo se acabou. .Ai de mim . Símbolo da afeição que o tempo aniquilou.

Não era um gato.O bicho Vi ontem um bicho Na imundice do pátio Catando comida entre os detritos. meu Deus. Não era um rato. Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. . Quando achava alguma coisa. O bicho. O bicho não era um cão. era um homem.

. Quebrou os beirais do casario fronteiro. caatingas.. mesmo para esta terra de feracidades excepcionais. áspero. Evocava também o seco nordeste. automóveis. . Ugolino e os filhos esfaimados. Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia: . Impediu o trânsito de bonde. Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.O cacto Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária: Laocoonte constrangido pelas serpentes. carnaubais. O cacto tombou atravessado na rua.Era belo. Era enorme. intratável. carroças.

Não será insensato pedir a esta rosa que fale? Não vês que ela se dá toda no seu perfume? . pois não encontras palavras para me louvar! Então ele. apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio: .Já não gostas de mim.O exemplo das rosas Uma mulher queixava-se do silêncio do amante: .

O impossível carinho Escuta. eu não quero contar-te o meu desejo Quero apenas contar-te a minha ternura Ah se em troca de tanta felicidade que me dás Eu te pudesse repor .Eu soubesse repor No coração despedaçado As mais puras alegrias de tua infância! .

Faz umas contas... junto dela. Verte na solidão sombria A sua imensa. A Lua. sob os jambolanos. Outra a entretém. ardente e terna. Fala um de compleição raquítica.O inútil luar É noite. Medita. Com outro moço que se cala. E pensativo. mando matar Uma galinha... Ei-lo que saca de um papel. a olhar o anel. Talvez se lembre aqui. ajusta as pontas. Em ampla charpa que a modela. ."Mamãe não avisou se vinha. No largo. Adiante uma senhora magra. coitado! De sua infância. Verte na solidão sombria A sua imensa." E embalde a Lua. Lembra uma estátua de Tanagra.. Presto atenção ao que ele fala: . E.. Procuro a sombra embalsamada. Há no seu rosto uma ânsia.. a sua eterna Melancolia. (Noite. Dormem as sombras na alameda Ao longo do ermo Piabanha.... a conversar: . a sua eterna Melancolia.É de política. Se ela vier. consolo dos humanos! Sombra sagrada!) Um velho se nta-se ao meu lado. E dele um ruído vem de seda Que se amarfanha.. Dobra-o direito. ardente e terna..

.O menino doente O menino dorme. Na mesma cantiga. Sentada ao seu lado A mãezinha canta: . dorme. Morta de fadiga. vai-te embora! “Deixa o meu filhinho. meu benzinho.“Dorme. Se debruça e canta: ... Um vulto de santa... Na mesma voz dela.” E o menino dorme. meu. meu amor.. “Dorme. no ombro dela.“Dodói.. “Dorme. Para que o menino Durma sossegado. Ela adormeceu. . Então.

E se os céus se pejam de nuvens. Como o rio as nuvens são água. Reflecti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas. reflecti-las. . Não temer as trevas da noite.O rio Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Se há estrelas nos céus.

éreis tão bela! e as vossas mãos. A garganta cruel arfava com luxúria. Sem paixão. propinando na treva o absinto dos contatos..O súcubo Quando em silêncio a casa adormecia e vinha ao meu quarto a aromada emanação dos matos. sem escrúpulos .. um por um despojando os fictícios recatos. abrasavam no ardor das volúpias estéreis. sem pudor. Como se enlaça ao tronco a ondulação da vinha. fontes de calefrio. Tudo em vós flamejava em instintiva fúria. deslizáveis astuta.. estreitáveis-me cauta e essa pupila tinha fosforescências como a pupila dos gatos.. . amorosa e daninha. O ventre era um covil de serpentes em cio.

O último poema Assim eu quereria o meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação .

Por amor de S. estes ares Clareai. . Estes montes e horizontes Clareai. Santa Clara. no mau tempo Sustentai Nossas asas. clareai Estes ares. clareai. nossas asas Governai. Francisco. Santa Clara. A salvo de árvores. clareai. todo risco Dissipai. Vosso mestre. Santa Clara. dai-nos sol. Afastai Todo risco. Dai-nos ventos regulares.Oração para Aviadores Santa Clara. de feição. Estes mares. Santa Clara. casas. E penedos. Alumiai Meus olhos na cerração. nosso pai. Santa Clara. Se baixar a cerração.

"Meu ca ncioneiro É bem martelado. Outros. Tudo quanto é vário.. A luz os deslumbra. os sapos. Faço rimas com Consoantes de apoio. Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A fôrmas a forma. Brada em um assomo O sapo-tanoeiro: .A grande arte é como Lavor de joalheiro."Foi!" . Berra o sapo-boi: ."Não foi!"." Urra o sapo-boi: ."Não foi!" . . Clame a saparia Em críticas cépticas: Não há mais poesia."Foi!" . Falam pelas tripas."Foi!" . O meu verso é bom Frumento sem joio. Tudo quanto é belo. Aos pulos. Diz: . sapos-pipas (Um mal em si cabe). Canta no martelo". Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos.Os sapos Enfunando os papos."Meu pai foi rei!".."Não foi!"."Não foi!" . Mas há artes poéticas. Em ronco que aterra. O sapo-tanoeiro. Parnasiano aguado. Saem da penumbra. Ou bem de estatuário."Meu pai foi à guerra!" .

. Sapo-cururu Da beira do rio. No perau profundo E solitário."Não sabe!" .. ."Sabe!". Sem glória."Sei!" . Transido de frio. Longe dessa grita. é Que soluças tu. sem fé. fugido ao mundo. Lá onde mais densa A noite infinita Veste a sombra imensa.. Lá.

Paisagem noturna
A sombra imensa, a noite infinita enche o vale... E lá no fundo vem a voz Humilde e lamentosa Dos pássaros da treva. Em nós, - Em noss’alma criminosa, O pavor se insinua... Um carneiro bale. Ouvem-se pios funerais. Um como grande e doloroso arquejo Corta a amplidão que a amplidão continua... E cadentes, metálicos, pontuais, Os tanoeiros do brejo, - Os vigias da noite silenciosa, Malham nos aguaçais. Pouco a pouco, porém, a muralha de treva Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleve A sombria massa Das serranias. O plenilúnio vai romper...Já da penumbra Lentamente reslumbra A paisagem de grandes árvores dormentes. E cambiantes sutis, tonalidades fugidias, Tintas deliquescentes Mancham para o levante as nuvens langorosas. Enfim, cheia, serena, pura, Como uma hóstia de luz erguida no horizonte, fazendo levantar a fronte Dos poetas e das almas amorosas, Dissipando o temor nas consciências medrosas E frustrando a emboscada a espiar na noite escura, - A Lua Assoma à crista da montanha. Em sua luz se banha A solidão cheia de vozes que segredam... Em voluptuoso espreguiçar de forma nua As névoas enveredam No vale. São como alvas, longas charpas Suspensas no ar ao longo das escarpas. Lembram os rebanhos de carneiros Quando, fugindo ao sol a pino, Buscam oitões, adros hospitaleiros E lá quedam tranqüilos ruminando... Assim a névoa azul paira sonhando... As estrelas sorriem de escutar As baladas atrozes

Dos sapos. E o luar úmido...fino... Amávico...tutelar... Anima e transfigura a solidão cheia de vozes...

Palinádia
Quem te chamara prima Arruinaria em mim o conceito De teogonias velhíssimas todavia vicerais Naquele inverno Tomaste banhos de mar Visitaste as igrejas (Como se temesses morrer sem conhecê-las todas) Tiraste retratos enormes Telefonavas telefonavas... Hoje em verdade te digo Que não és prima só Senão prima de prima Prima-dona de prima - Primeva

Pardalzinho O pardalzinho nasceu Livre. Foram cuidados em vão: A casa era uma prisão. comida e carinhos. essa voou Para o céu dos passarinhos! . Sacha lhe deu uma casa. O corpo Sacha enterrou No jardim. a alma. O pardalzinho morreu. Água. Quebraram-lhe a asa.

. O sol acaba de crestar as boninas que murcharam. Um gatinho faz pipi. Sai vibrando com elegância a patinha direita: . plebeias. dominicais. A tiririca sitia os canteiros chatos. rechonchudas. Gatos espapaçados ao sol. E as dálias.Pensão familiar Jardim da pensãozinha burguesa. Os girassóis amarelo! resistem.É a única criatura fina na pensãozinha burguesa. Com gestos de garçom de restaurant-Palace Encobre cuidadosamente a mijadinha.

Sobe no caule... O sol a pino ofusca e vibra. faz todo galho fecundo E estala na amplidão das ramadas felizes.. Mãe Natureza! Vós que cicatrizais minha velha ferida. Canta em minh'alma absorta um mundo de harmonias. E eu absorvo-o nos sons..Plenitude Vai alto o dia. E tudo isso me vem de vós.. forte como Golias. Entra-me como um vinho acre pelas narinas.. E eu sinto. O furor de criação dionisíaco estua No fundo das rechãs. no flanco das montanhas. O ar é como de forja. Ânsias para a virtude.... fibra a fibra. A força nova e pura Da vida embriaga e exalta. na glória da luz crua E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas Tenho êxtase de santo. E nas artérias sinto O bálsamo aromado e quente das resinas Que vem na exalação de cada terebinto... Vêm-me audácias de herói. Vós que me dais o grande exemplo de beleza E me dais o divino apetite da vida! . E neste curto instante em que todo me exalto De tudo o que não sou... Avassalar-me o ser a vontade da cura. E nunca o sonho humano assim subiu tão alto Nem flamejou mais bela a chama do desejo. Sonho o que jamais pude .. Arde-me na garganta. gozo tudo o que invejo.Belo como Davi. A energia vital que no ventre profundo Da Terra estuante ofega e penetra as raízes.

Trinta e três. tosse. dispneia e suores nocturnos. trinta e três.Respire.O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. .Então.Pneumotórax Febre.. . A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. tosse. ..Não. . hemoptise.Diga trinta e três. Tosse. doutor.. trinta e três. não é possível tentar o pneumotórax? .. A vida inteira que podia ter sido e que não foi.. . Mandou chamar o médico: ..

In "Poesia Completa e Prosa". nada espero. José Aguilar. mas pelo filho: O filho tem mais precisão.Poema de finados Amanhã que é dia dos mortos Vai ao cemitério. Não pelo pai. Pois nada quero. Ajoelha e reza uma oração. O que resta de mim na vida É a amargura do que sofri. . Leva três rosas bem bonitas. E em verdade estou morto ali. Cia. Vai E procura entre as sepulturas A sepultura de meu pai. 1967.

branco e macio É como um véu de noivado.Poemeto erótico Teu corpo é tudo o que brilha Teu corpo é tudo o que cheira Rosa. Teu corpo é tudo o que cheira. . volúpia da água e da chama Teu corpo é tudo o que brilha. flor de laranjeira Teu corpo. Rosal queimado de estio Desfalecido em perfume Teu corpo é a brasa do lume Teu corpo é chama E flameja como à tarde os horizontes É puro como nas fontes a água clara que serpeja. Que em cantigas se derrama. a única ilha no oceano do meu desejo. claro e perfeito Teu corpo de maravilha Quero possuí-lo no leito estreito da redondilha Teu corpo. Teu corpo é pomo doirado. A todo momento o vejo Teu corpo.

director.Poética Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres. etc Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbedos O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare .Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. .

.. Que dor de coração me dava Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão! Levava ele pra sala Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos Ele não gostava: Queria era estar debaixo do fogão.O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada. In “ Estrela da vida inteira” ..Porquinho-da-índia Quando eu tinha seis anos Ganhei um porquinho-da-índia. Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas.

Tudo é milagre. Cada pássaro. menos a morte. infinito. seu vôo. que é o fim de todos os milagres. sua cor. seu canto. Com sua plumagem.Preparação para a morte A vida é um milagre. O espaço. seu aroma. Tudo. infinito. O tempo é um milagre. Com sua forma. Bendita a morte. Cada flor. Cada flor é um milagre. A memória é um milagre. . O espaço é um milagre. Cada pássaro é um milagre. O tempo. A consciência é um milagre.

Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci.Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente. . No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel.Profundamente Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Vozes cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totónio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? .Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? .

Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes e risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Profundamente. .Quando ontem adormeci Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas.Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? . Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? .

. E pede humildemente a Deus que a faça tua doce e constante companheira.. tua desgraça.. Encerra em ti tua tristeza inteira. A vida é vá como a sombra que passa. ela só. e será.. . Então ela será tua alegria. tua ventura.. sem um grito sequer.. Só a dor enobrece e é grande e é pura.Renuncia Chora de manso e no íntimo.. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Procura curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria da tua inconsolável amargura. Sofre sereno e de alma sobranceira..

no frio. A alegre Alegria! . Ria A Guimarães Rosa Acaba a Alegria Dizendo-nos: . Boa conselheira! Por isso me rio De mim para mim. noite e dia! No calor.Ria. rio! E digo-lhes: .Ria. ria! Ria. Rosa.Ria! Velha companheira. Ria. Rio. Como lhe aconselha Essa doce velha Cheirando a alecrim. Rosa. rio.

. Demissionária de atribuições românticas. O astro dos loucos e dos enamorados. Despojada do velho segredo de melancolia.Satélite. Mas tão-somente Satélite. No céu plúmbeo A Lua baça Paira Muito cosmograficamente Satélite. Não é agora o golfão de cismas. Desmitificada. Desmetaforizada. Sem show para as disponibilidades sentimentais! Fatigado de mais-valia. Gosto de ti assim: Coisa em si. Ah Lua deste fim de tarde.Satélite Fim de tarde. .

Mas tão brasileiro.Mas que importa o rouxinol? Frio.. Onde o rouxinol não canta . Onde o rouxinol não canta . Rios do meu Pernambuco. Viva José de Alencar! Paisagens da minha terra... "No lar". nevoeiros da serra Quando a manhã se levanta Toda banhada de sol! Sou romântico? Concedo.Pinhões para o rouxinol! Frio. Nem não posso renegar Peri. sem evasiva. por vício inato. Exibo.. Viva José Casimiro Abreu! Sou assim. Viva. "Meus oito anos". A alma ruim que Deus me deu.Sextilhas românticas Paisagens da minha terra. Ainda hoje gosto de “Diva”. nevoeiros da serra Quando a manhã se levanta Toda banhada de sol! Ai tantas lembranças boas! Massangana de Nabuco! Muribara de meus pais! Lagoas das Alagoas. é fato. Decorei "Amor e medo". Campos de Minas Gerais! . tão pouco índio.

. porém teu abandono..Duros de tantos vãos padecimentos. Que importa? Chora. teu coração incerto. Desde já bem prevejo o exato instante Em que de outro será não teu desejo. Que pensa rão teus peitos imaturos Da minha dor de todos os momentos? Vejo-te agora alheia. Que o não terás. Um dia chorarás. Então eu sentirei muito mais perto De mim feliz. E bem prevejo. Tua nudez! Um dia hei de ir embora Adormecer no derradeiro sono.isenta.Soneto inglês nº 1 Quando a morte cerrar meus olhos duros . . e tão distante: Mais que distante .

. se não me valho de ti. que nunca te deu nada! . tudo .. em que morreste.. que tens a chave dos destinos em que arderam meus sonhos cristalinos feitos cinza que em pranto ao vento espalho também te vi chorar. E não cedeste! Antes. soubeste dar à vida. voz das manhãs cantando pelos sinos.. Também sofreste a dor de ver secarem pela estrada as fontes da esperança. despida e trespassada.à vida. rosa mais alta no mais alto galho: De quem me valerei.Soneto italiano Frescura das sereias e do orvalho. pobre. graça dos brancos pés dos pequeninos.

. Pois vi.. Estar? Ter estado. Sonhei ter sonhado. Em sonho lembrei-me De um sonho passado: O de ter sonhado Que estava sonhando. despertado. Um sonho presente Um dia sonhei. Que tinha sonhado. . Chorei de repente.Tema e Variações Sonhei ter sonhado Que havia sonhado. Ter sonhado o que? Que havia sonhado Estar com você. Que é tempo passado.

.Teresa A primeira vez que vi Teresa Achei que ela tinha pernas estúpidas Achei também que a cara parecia uma perna Quando vi Teresa de novo Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse) Da terceira vez não vi mais nada Os céus se misturaram com a terra E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Criou-me. Mas trago dentro do peito Meu filho que não nasceu.. Não foi de jeito. perdoai! Não faço versos de guerra. Tive uns dinheiros . José Aguilar.. . Um filho!. Tive amores . desde eu menino... Por outras terras andei... 1967. Não faço porque não sei..Testamento O que não tenho e desejo É que melhor me enriquece.. Foram terras que inventei. Para arquiteto meu pai. Mas o que ficou marcado No meu olhar fatigado. Cia.esqueci-os. Vi terras da minha terra. Fiz-me arquiteto? Não pude! Sou poeta menor. Gosto muito de crianças: Não tive um filho de meu.perdi-os. Mas no maior desespero Rezai: ganhei essa prece. Foi-se-me um dia a saúde. Mas num torpedo-suicida Darei de bom grado a vida Na luta em que não lutei! In "Poesia Completa e Prosa".

. É como um véu de noivado.. Rosa.... É puro como nas fontes A água clara que serpeja... Quero possuí-lo no leito Estreito da redondilha. Desfalecido em perfume...... a única ilha No oceano do meu desejo. Rosal queimado do estio. Teu corpo é tudo o que brilha. Teu corpo..Teu corpo de maravilha. branco e macio.. Rosa. Volúpia da água e da chama. flor de laranjeira....... flor de laranjeira. Teu corpo é chama e flameja Como à tarde os horizontes... Teu corpo é a brasa do lume. ...... A todo o momento o vejo..... Teu corpo é pomo doirado.Teu corpo Teu corpo claro e perfeito .. Teu corpo é tudo o que cheira. Teu corpo é tudo o que cheira.. Quem em antigas se derrama. Teu corpo.

Misael não queria escandalo. . Viveram três anos assim. Misael tirou Maria Elvira da vida. Boca do Mato. Podia dar uma surra. Não fez nada disso: mudou de casa. .. manicura. Inválidos. com 63 anos de idade.. Catumbi. onde Misael. uma facada. instalou-a num sobrado no Estácio. dentista. dermite nos dedos. um tiro.prostituída. Rocha. Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita. Dava tudo quanto ela queria. outra vez no Estácio. Bonsucesso. Niterói. uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria. Encantado. Todos os Santos. com sífilis. Rua Clapp. arranjou logo um namorado.Tragédia brasileira Misael. funcionário da Fazenda. vestida de organdi azul. Conheceu Maria Elvira na Lapa. e a polícia foi encontrá-la caída em decubito dorsal.. Rua Marquês de Sapucaí. matou-a com seis tiros. Os amantes moraram no Estácio. Por fim na Rua da Constituição. Rua General Pedra. Catete. privado de sentidos e de inteligência. Vila Isabel. Lavradio. Misael mudava de casa. Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado. Ramos. Olaria.. pagou médico.

...... trem de ferro) Oô... (café com pão é muito bom) Quando me prendero No canaviá Cada pé de cana Era um oficiá Oô.. cerca Ai seu foguista Bota fogo Na fornalha Que eu preciso Muita força Muita força Muita força (trem de ferro. povo Passa ponte Passa poste Passa pasto Passa boi Passa boiada Passa galho Da ingazeira Debruçada No riacho Que vontade De cantar! Oô. bicho Foge. Menina bonita Do vestido verde Me dá tua boca Pra matar minha sede Oô. fumaça Corre.. Vou mimbora vou mimbora Não gosto daqui Nasci no sertão Sou de Ouricuri Oô..Trem de ferro Café com pão Café com pão Café com pão Virge Maria que foi isso maquinista? Agora sim Café com pão Agora sim Voa. Foge.

..Vaou depressa Vou correndo Vou na toda Que só levo Pouca gente Pouca gente Pouca gente. (trem de ferro. trem de ferro) .

Por quê? Relembro. Sorrias tanto. um menino...... estás franzina. Era eu menino e tu menina.. a rir numa gavota.. Ele marcou sobre o teu rosto A imperecível cicatriz: És triste até quando sorris. Havia em ti Graça de instinto.. Teu caro nome abençoei... Oito anos faz que não te via. Porém teu vulto conservou A mesma graça ingênua e fina.. E o teu sorriso foi meu pranto. Como contar-te o que passei? Seguiste alegre o teu destino... Eu. Essa tristeza é que mo diz...Três idades A vez primeira que te vi. A desventua te afeiçoou À tua imagem de menina. Quanta mudança o tempo traz Em sua atroz monotonia! Que é do teu riso de alegria? Foi bem cruel o teu desgosto. Em pobres versos te chorei.. Oito anos faz... E estás delgada. Ao ver-te.. Eras pequena. Já eras moça. nota a nota. Quando te vi segunda vez.. airosa e fina. Meu coração entristeceu. e com que encanto A adolescência em ti se fez! Flor e botão. eras franzina. Sorrias tanto.. . Vejo-e agora. Essa ária como enterneceu O meu olhar cheio do teu.... Já eras moça...

E sentirás o meu cuidado. E foi melhor nunca ter dado: Em te pungido algum espinho. O meu desejo incontentado. Tu que me deste o teu carinho E que me deste o teu cuidado. Há longos anos ele arqueja Em aflitiva escuridão. E sentirás o meu carinho. Acolhe ao peito. Pensa que nesse grito vem O mal de toda a sua vida: Ternura inquieta e malferida Que. Dá-lhe o melhor que ele deseja: Teu grave e meigo coração. ..Tu que me deste o teu cuidado. como o ninho Acolhe ao pássaro cansado. Cinge-a ao teu peito angustiado. Se algum dia Te vier do pobre agravo e mágoa.. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. não dei nunca a ninguém. Sê compassiva e benfazeja. antes. Não te retires ofendida. Atende à sua dor sombria: Perdoa o mal que desvaria E traz os olhos rasos de água. Sê compassiva.

Intacto. Beco das minhas tristezas. És como a vida. Que vêm nas portas do templo De noite se agasalhar. Pede esmolas para os pobres. A pureza das manhãs! Beco das minhas tristezas.. Na primeira voz dos sinos. Mas meu quarto vai ficar. Lapa que tanto pecais! (Mas quando bate seis horas. Para mulheres tão tristes. De paixões sem amanhãs. Das minhas perplexidades (Mas também dos meus amores. Não me envergonhei de ti! Foste rua de mulheres? Todas são filhas de Deus! Dantes foram carmelitas. Pobre. Para mulheres tão negras. Adeus para nunca mais! Vão demolir esta casa. Beco que nasceste à sombra De paredes conventuais. Com seus livros. Quanta luz mediterrânea No esplendor da adolescência Não recolheu nestas pedras O orvalho das madrugadas. Lapa-Lapa do Desterro-. E eras só de pobres quando. . com seus quadros. suspenso no ar! Beco de sarças de fogo. Que graças angelicais!) Nossa Senhora do Carmo. dos meus sonhos). Dos meus beijos. De lá de cima do altar. vim morar aqui.Última canção do Beco Beco que cantei num dístico Cheio de elipses mentais.. Como na voz que anunciava A conceição de Maria. que é santa Pesar de todas as quedas. Não como forma imperfeita Neste mundo de aparências: Vai ficar na eternidade.

Por isso te amei constante E canto para dizer-te Adeus para nunca mais! .

.Velha chácara A casa era por aqui. nos desenganos..... Ouço uma voz que esq ueci: É a voz deste mesmo riacho.. Ah quanto tempo passou! (Foram mais de cinqüenta anos.Mas o menino ainda existe. ..) Tantos que a morte levou! (E a vida.. Onde? Procuro-a e não acho.) A usura fez tábua rasa Da velha chácara triste: Não existe mais a casa. .

Os meus cabelos brancos. amigo verdadeiro. Espelho. Que não morrerá senão comigo. O menino que todos os anos na véspera do Natal Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta. Descobririas o menino que sustenta esse homem.Versos de Natal Espelho. Mestre do realismo exato e minucioso. Os meus olhos míopes e cansados. obrigado! Mas se fosses mágico. Tu refletes as minhas rugas. O menino que não quer morrer. Obrigado. amigo verdadeiro. Penetrarias até ao fundo desse homem triste. 1939 .

deixo ao teu sonho Imaginar como serão. Em lugar de outros é que os ponho. Neles porás tua tristeza Ou bem teu júbilo. Alguma sombra de beleza. Meus pobres versos comovidos! Por isso fiquem esquecidos Onde o mau vento os atirou . Lhes acharás.Versos escritos n'água Os poucos versos que aí vão. talvez.. Tu que me lês. Quem os ouviu não os amou. e. tu que me lês..

Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconsequente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que eu nunca tive E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-d'água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar .Lá sou amigo do rei Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada .

que é como um largo..Voz de fora Como da copa verde uma folha caída treme e deriva à flor do arroio fugidio. Vai beber o pleno ar. abre-te à luz do sol que à alegria convida. Até que te surpreenda a carne dolorida aquela sensação final de eterno frio. na alma das cousas. e enche-te de canções.. E das moitas cheirosas O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos. esquece as mágoas vás na poesia dos campos e deixa transfundir-te. ondeante e misterioso rio. Toda a paisagem canta.. E enquanto lá repousas. ó coração vazio! A asa do vento esflora as camélias e as rosas. alma.. deixa-te assim também derivar pela vida. .

A artistas. E mesmo.... E o cio atroz se me não leva A valhacoutos de canalhas..Este era médico. Se bate. quebrada Do seu colérico arremesso. então como o estremeço! Oh.o orgulho. Aos velhos dou o meu engulho. poeta. É porque temo pela treva O fio fino das navalhas.. a volúpia da pancada! Dar-me entre lágrimas. coquetterie Que inspira. fere a toda a lira. dou dinheiro.. caçôo-os e depeno-os: A canga fez-se para o boi.. Outro.... Estes.. E aos tímidos .. Tudo se me tira. Fui de um. o que os esfrie..Vulgívaga Não posso crer que se conceba Do amor senão o gozo físico! O meu amante morreu bêbado. nem sei mais! Tive em meu leito enciclopédico Todas as artes liberais. E meu marido morreu tísico! Não sei entre que astutos dedos Deixei a rosa da inocência.. Aos fervidos...... Não posso crer que se conceba Do amor senão o gozo físico! O meu amante morreu bêbado. Meu claro ventre nunca foi De sonhadores e de ingênuos! E todavia se o primeiro que encontro.... Um. Dou tudo. Fui de outro. Amanso. Antes da minha pubescência Sabia todos os segredos. E meu marido morreu tísico! .

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