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Kathrin Buhl e Claudia Korol - Criminalizacao Dos Protestos e Mov Sociais

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AlGuns eiXos interpretAtivos soBre os
movimentos soCiAis e A repressão do
protesto soCiAl no CHile

Raúl Zarzuri Cortés91

introdução

A repressão, que na defnição da Real Academia da Língua Espanhola con-
siste no “ato, ou conjunto de atos, ordinariamente a partir do poder, para conter,
deter ou castigar com violência atuações políticas ou sociais” (RAE, 2002), tem
sido um fato recorrente na análise do desenvolvimento das mobilizações e lutas
das organizações populares na América Latina.
No caso particular do Chile, os fatos repressivos a que têm sido submeti-
dos os movimentos populares vêm de longa data. Talvez a máxima expressão dessa
situação sejam os fatos acontecidos a partir do golpe militar do ano de 1973 que dá
origem à ditadura militar que governará o Chile autoritariamente durante 17 anos.
Desde os primeiros tempos da ditadura a repressão foi caracterizada pelas detenções
realizadas tanto pela polícia civil como militar. Em 1977 sofre um forte aumento
afetando mais de um milhão de pessoas (ROJAS, s.f.)92. Cifra que tende a decair
depois desse ano, mas se mantém superior aos quinhentos mil detidos por ano. Esse
número aumenta nos anos 80, particularmente a partir de 1983, quando têm início
os protestos nacionais que levarão ao surgimento de um forte movimento popular
antiditadura que minará, de alguma maneira, o poder político do general Pinochet e
da Junta Militar e conduzirá ao plebiscito de 1988 e às eleições de 1989, perdidas por
Pinochet, dando passo à “recuperação da democracia” no Chile.
O período, chamado inicialmente de “transição para a democracia”, pode ser
caracterizado como uma fase de forte desmobilização social e de falta de protagonis-
mo por parte dos movimentos sociais no país. Mas é preciso assinalar também que
se assistia – particularmente desde o início do novo século – a uma construção in-
cipiente de novas formas de ação coletiva, as quais começam a apresentar caracterís-

91 RaÚL ZaRZuRi CORTÉS Sociólogo, Mestre em antropologia e desenvolvimento (uCHiLE). Professor
da Escola de Sociologia da universidade academia de Humanismo Cristão (uaHC) e pesquisador do Centro de
Estudos Socioculturais (CESC) na área de estudos culturais e culturas juvenis. dirigiu diversos projetos de pes-
quisa e publicou diversos artigos e livros sobre culturas juvenis urbanas, televisão e mídia.
92 inclui apenas detenções realizadas pelas polícias, excluindo as realizadas pelos organismos de inteligência de
caráter político ou as invasões de domicílio efetuadas pelas forças armadas.

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ticas novas que, necessariamente, não constituem o que classicamente se denomina
como movimentos sociais. Portanto, podemos afrmar que houve um deslocamento
das formas orgânicas coletivas tradicionais no sentido daquilo que alguns autores
chamam de redes ou coletivos, expressões mais de acordo com as realidades de par-
ticipação em nosso país, onde os jovens aparecem como um ator relevante.
Cabe assinalar que, quando falamos de deslocamento, referimo-nos a uma
série de fatos no âmbito mundial que emergem durante o século XIX e possibilita
a emergência do movimento social mais característico ou clássico. Estamos nos
referindo ao “movimento operário”, o qual, no bojo das mudanças ocorridas nos
anos 1960, foi deslocado pelo que se conhece como “Novos Movimentos Sociais”,
que no fm dos anos 1980 e princípio dos anos 1990 abre passagem aos “Novíssi-
mos Movimentos Sociais” (FEIXA; SAURA Y COSTA, 2002). Esse deslocamento
se manifesta também no motor que os movimenta. Dessa forma, para alguns,
passamos de reivindicações situadas no aspecto econômico e em transformações
macrossocietárias (típicas do movimento operário) às reivindicações de caráter
cultural, que alguns chamam de lutas pela identidade (LARAÑA, 1994). Para
outros, estamos em presença de uma volta às questões estruturais matizadas de
questões culturais (FEIXA; SAURA Y COSTA, 2002).
Por outra parte, atualmente e para o caso particular do Chile, a repressão não se
reveste necessariamente de aspectos tão opressivos, com as características que se ma-
nifestaram durante a ditadura93, mas nos vemos diante de um novo tipo de repressão
que vamos denominar “repressão simbólica”. Levada a cabo pelos meios de comunica-
ção, principalmente a televisão e a imprensa escrita, ela tem contribuído para que cer-
tos sujeitos e suas ações reivindicativas sejam vistos como novos “bárbaros ou mons-
tros sociais”. E contribui também para que a violência, ou certo tipo dela – utilizada
pelos movimentos para se fazerem visíveis, dados os processos de invisibilização que
se instalaram, ou melhor, se perpetuaram desde a ditadura –, apareça ou seja lida como
uma “violência sem sentido”, construindo uma alteridade marcada pelo estigma.
Estes elementos que assinalamos serão trabalhados com maior profundi-

dade a seguir.

i. AlGuns elementos do ConteXto pArA
entender os movimentos soCiAis no CHile

É preciso mencionar que os movimentos sociais têm se manifestado na
sociedade chilena desde meados do século XIX, até o seu pleno desenvolvi-

93 a exceção é constituída pela perseguição a que se tem visto submetido o povo mapuche, particularmente seus
dirigentes, os quais têm sido fustigados, perseguidos e acusados de terroristas. isso levou o Estado chileno a aplicar
a lei antiterrorista, atitude que tem sido criticada pelos organismos internacionais de direitos humanos.

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mento com o movimento operário no século XX. Mas é só nos anos 1960 que
se configura um tipo de ação coletiva, que está de acordo com as definições
mais modernas de movimento social e que vai adquirindo força partir dos
anos 1970 como forma de enfrentar e resistir aos embates da ditadura que se
instala. Uma das características relativas aos movimentos sociais é a sua recon-
figuração, particularmente na liderança, o que produz algumas mudanças, ao
serem substituídos os atores mais político-partidários por outros atores mais
sociais, em um quadro de desarticulação das estruturas político-partidárias
que davam embasamento à ação coletiva dessa época.
É preciso assinalar que o forte movimento social popular que se orga-
niza timidamente a partir de 1973 atinge a “maturidade” no início da década
de 1980 e se torna fortemente visível ao se iniciarem os protestos em 198394,
gerando um espaço de participação inédita durante a ditadura militar, sendo
rapidamente cooptado pelos partidos políticos95, que vêem a possibilidade de
iniciar negociações políticas com a ditadura militar, do mesmo modo em que
se tenta integrar outros setores sociais, como os estratos médios, afastando os
movimentos sociais da condução política. Essa questão se fará mais manifesta
e pode ser interpretada como retirada e invisibilização, a partir da chegada da
democracia com os governos da concertação. Instala-se então um discurso
centrado no pacto, no simulacro democrático que requer a desmobilização do
movimento popular, questão que é aceita para resguardar a incipiente demo-
cracia que começava a ser construída sob a tutela militar, e que é consagrada
na Constituição de 1980.

O período de pós-ditadura foi, comparativa e paradoxal-
mente, de uma notável ausência de protagonismo dos Movimentos
Sociais. Em parte porque, como explicita o próprio tom sociológico
da pretendida transição à democracia, uma condição fundamental
da nova etapa foi o traspasso do protagonismo a atores institucionais,
depositários de uma racionalidade prudente e realista que garantisse
tanto a estabilidade política como a governabilidade dos processos
sociais. A política chegou a ser então um subsistema auto-referente
(Cousiño-valenzuela) que se fecha restritivamente em torno ao as-
pecto representativo-parlamentar (villalobos 1997; vicuña) (UR-
RUTIA, GANTER Y ZARZURI, 2000, p. 8).

94 Há que recordar que os protestos nacionais que começam em 1983 não são organizados por partidos políticos,
mas por organizações sindicais, particularmente as pertencentes aos trabalhadores na mineração do cobre, que
foram e são os trabalhadores melhor remunerados do Chile.
95 a exceção a esta lógica talvez seja o partido Comunista que desenvolve uma estratégia de enfrentamento
político, mas ao mesmo tempo militar, com a intenção de combinar negociação política com acumulação de forças
e expressões de luta armada.

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É preciso anotar, no tocante a este ponto, que os movimentos foram in-
visibilizados pela ditadura militar, e com a chegada dos governos da concerta-
ção tampouco houve espaço para eles. Em muitos casos primaram as visões mais
funcionalistas, que viam esse tipo de ação com uma forte carga anômica, como
no caso das análises de Tironi y valenzuela (1987) nos anos 198096. Assim, os
movimentos sociais foram considerados disfuncionais para a construção da in-
cipiente democracia e devem recuar, dando passagem aos partidos políticos para
a administração e condução da democracia. Como apontam Urrutia, Ganter y
Zarzuri (2000), este tipo de postura encontrou resistência em setores com discur-
sos políticos radicalizados, os quais vão apelar para o caráter de confrontação que
caracteriza precisamente os movimentos sociais.
Os anos 1990 vão se caracterizar pela forte desmobilização social, fruto da
retirada dos movimentos sociais. Não obstante, começa a se instalar um espaço de
mobilização em relação a determinadas “datas emblemáticas”, as quais resgatam
em categorias de memória fatos e situações particulares. São exemplos: o 11 de
setembro, dia do golpe militar de 1973, ou o dia do jovem combatente, que recorda
a morte dos irmãos vergara Toledo, ou o 12 de outubro, dia do Descobrimento da
América, que se lê como data recordatória da dominação dos povos indígenas pe-
los colonizadores europeus. Instala-se, então, um espaço de ritualismo combativo,
no qual os jovens vão ser os principais protagonistas, seja nas universidades ou em
determinados setores populares de Santiago e de outras regiões.
Destacam-se também, no início dos anos 1990, ações que serão protago-
nizadas por organizações político-militares que haviam nascido na época da di-
tadura e mantêm atividades de luta armada, tratando de mesclá-las com ações
político-sociais, o que não encontra acolhida na população, mas sim em alguns
jovens. Esses referenciais foram: a Frente Patriótica Manuel Rodríguez Autônoma
(FPMR-A), o Movimento de Esquerda Revolucionária Exército Guerrilheiro do
Povo (MIR-EGP) e especialmente o MAPU Lautaro por meio de seu grupo mili-

96 Para o caso do funcionalismo, o surgimento dos movimentos sociais se realiza a partir das “tensões originadas
no desenvolvimento desigual dos vários subsistemas de ação que constituem um sistema social ou uma sociedade
moderna diferenciada” (RiECHMaNN Y FERNÁNdEZ BuEY, 1994, p. 17). Portanto, induz-se que há desor-
ganização social no sistema social, o que leva ao desenvolvimento de respostas individuais diante dessas tensões
estruturais. Por isso é que alguns autores consideram o movimento social como uma espécie de terapia diante da
ansiedade das mudanças produzidas por essas situações de transformação. dessa forma, os movimentos sociais
aparecem conformados por massas integradas por atores irracionais, cegos e selvagens (TuRNER Y KiLLiaN,
1986. in: LaRaÑa, ENRiQuE, 1998), desenvolvendo formas de comportamento desviado, que se apartam da
norma, questionando-a, transformando-se em fenômenos divergentes dessas normas. a ênfase desse enfoque está,
então, em considerar as normas como fruto da organização social e, portanto, as condutas sociais devem se ajustar
a essas normas, e, na medida em que se produzem fssuras, como as que poderiam ser provocadas pelos MS, estas
são catalogadas como condutas desviadas. Esta é precisamente a leitura que Tironi e Valenzuela realizam dos mo-
vimentos sociais no Chile dos anos 1980 e lhes restam validade, principalmente por seu caráter “desorganizado”,
para ser considerados protagonistas da construção da democracia, quando precisamente haviam sido eles os que
tinham conseguido construir, por meio das lutas implementadas, a possibilidade de acesso à democracia.

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ciano, o Movimento Juvenil Lautaro (MJL), os quais se manifestam especialmente
nas datas comemorativas.

A historiadora Tamara Conteras aponta, a respeito desse período, a morte
de pelo menos 26 militantes desses grupos e o encarceramento de aproximada-
mente outros 45 que se autodenominam “presos políticos em democracia”, no que
foi denominado o “Cárcere de Alta Segurança” (CAS).
Assim é que desde a chegada à Democracia até o ano 1994
registraram-se 26 caídos em diversas circunstâncias. Estes 25 homens
e uma mulher eram militantes ativos das organizações FPMR, MIR,
ML, MIR-EG-PPL97. Nesse mesmo contexto, em 20 de fevereiro de
1994 é inaugurado o Cárcere de Alta Segurança (CAS), com 45 presos
políticos que são transferidos para lá. A Anistia Internacional confrma
que durante o traslado os prisioneiros são torturados e maltratados.

Assim, embora os anos 1990 possam ser caracterizados como de uma “rela-
tiva passividade” da ação social, a chegada do novo século traz com ela um pro-
cesso que tende a reverter essa situação. E serão precisamente os jovens que darão
o sinal para a mobilização, ao se iniciarem a partir de 2001 as primeiras mobi-
lizações estudantis com o chamado “mochilaço”. Foi quando vários milhares de
estudantes secundaristas saíram às ruas para protestar contra o abusivo custo do
passe escolar, questão que estará na ante-sala das grandes mobilizações de 2006 e
que darão origem a uma série de mobilizações sociais no país.
Por outra parte, é preciso assinalar que a desmobilização dos movimen-
tos sociais provoca a emergência de novos tipos de ação coletiva, as quais se
caracterizarão por estarem estreitamente ligadas a objetos reivindicativos, o
que se observa particularmente na nova conjuntura a partir do ano 2000. Em-
bora hoje em dia se assista ao que se poderia chamar de “situação de efer-
vescência social”, o que levou à proliferação de mobilizações e de conflitos
sociais, é preciso considerar que são episódicos, apesar da grande força com
que se desenvolveram em alguns casos. Podem ser citadas, por exemplo, as
mobilizações dos inadimplentes agrupados na Associação Nacional de Deve-
dores Habitacionais (ANDHA), os quais se tornaram visíveis nos últimos anos
graças a suas ações espetaculares contra as autoridades governamentais; o
movimento dos trabalhadores terceirizados, particularmente da empresa na-
cional do cobre (Codelco), que puderam mobilizar milhares de trabalhadores
conseguindo incluir temas centrais como “salário digno ou ético” e renegociar

97 Nomes completos e o detalhamento das datas em que se produziram essas mortes estão em
http://www.nodo50.org/kaminalibre/extramuros/caidos.htm.

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seus contratos incorporando-se às unidades de trabalhadores contratados; os tra-
balhadores da saúde, por melhorias salariais e de infra-estrutura de atendimento;
a reconfguração do movimento estudantil universitário, desaparecido em meados
dos anos 1990, que tem se somado atualmente às mobilizações dos estudantes se-
cundaristas na interpelação da nova Lei Geral de Educação (Lege), que pretende
substituir a Loce, agregando pontos particulares mais reivindicativos, questão que
se manifesta nos diferentes objetivos perseguidos pelos estudantes de universi-
dades públicas e privadas, por exemplo.
Uma menção à parte é a mobilização dos estudantes secundaristas que
em 2006 “inauguram” as mobilizações sociais, embora seja preciso dizer que elas
começaram timidamente já no início do novo século. Paradoxalmente, esse é um
ator pouco valorizado pela sociedade chilena. Um ator secundário que, em ter-
mos estritos, ainda não é um cidadão pleno, que em termos biológicos está en-
trando na juventude (para outros, adolescência) ou já está nessa etapa, ou seja, a
meio caminho para a idade adulta, mas que executa uma série de mobilizações
com sentido de país, criticando duramente o sistema educacional imperante sob
uma lógica de livre mercado. Uma das particularidades dessas mobilizações é que
supôs a convergência com outros atores: professores, procuradores, trabalhadores,
convertendo as mobilizações em uma questão transversal à sociedade chilena.
No entanto, no início dessas mobilizações, não faltaram autoridades de
governo e meios de comunicação que tentaram minimizá-las, tratando de cons-
truir uma imagem de criancinhas, infantilizando-os e tratando-os como pouco
maduros e, portanto, considerados como não atores, não sujeitos, e pouco dignos
de ser levados em consideração nas conversações sobre os problemas nacionais.

ii. - movimentos soCiAis, repressão
e CriminAlizAção

Ninguém ignora que hoje em dia se assiste, cada vez com maior força, à im-
plementação de medidas de caráter punitivo com a fnalidade de criminalizar uma
série de problemas sociais que, por óbvios, são deixados de lado ou invisibilizados,
para apoiar um certo discurso que se instalou na sociedade associado à (in)segu-
rança cidadã. Isso levou certos setores a solicitar – e paradoxalmente esta é uma
solicitação transversal – cada vez mais “mão dura” com a delinqüência, por exemplo,
ou com qualquer manifestação que rompa os marcos normativos da sociedade chi-
lena, com o discurso de que isso põe em perigo a “saúde da sociedade” ou o funcio-
namento normal do sistema social (BAUMAN, 2005). Dessa forma, vemos emergir
um discurso com um forte conteúdo higienista, de pureza e controle social que nos
leva diretamente ao tema da (des)ordem.

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Aqueles que aparecem como objeto predileto e causa dessa desordem e, por
que não dizer, da contaminação ou da sujeira que começa a se instalar em nossa
sociedade, são particularmente os pobres, os jovens e as ações reivindicativas. São
manifestações causadas pela precariedade das situações (políticas, econômicas, cul-
turais ou sociais) que os sujeitos que participam desse tipo de ação têm que en-
frentar. Assim, aparecem aos olhos dos “higienistas e buscadores da pureza” como
transgressores de qualquer ordem, incontroláveis. Conseqüentemente, são sujeitos
que podem ser classifcados como “sujos”, “agentes contaminadores” enquanto se
estruturam como sujeitos ilógicos – transgressores –, já que não se encontram nos
lugares em que se supõe que deveriam estar, segundo os buscadores da pureza e da
ordem. Isso faz com que provoquem e deixem a descoberto a fragilidade normativa
existente, uma vez que ultrapassaram as fronteiras estabelecidas, com convite ou
sem ele, convertendo-se em agentes perigosos para a ordem social.
Portanto, assiste-se à construção de um sujeito que pode ser rotulado como
“descartável”, ou, melhor dizendo, como um “sujeito residual”, e de um Estado e
sociedade – ou certa parte dela – que tenta se proteger desse sujeito instalando mais
políticas de controle e mais prisões. Isso supõe uma análise de parte de certos esta-
mentos do país, que entendem que a única forma de contenção desses segmentos
sociais transgressores (jovens, pobres, trabalhadores precarizados, entre outros) é a
construção de um Estado cada vez mais forte em suas políticas de controle social.
Um Estado penal, policial, de segurança que, de alguma forma, tenta isolar fsica-
mente a esses “refugos da sociedade” (wACQUANT, 2001).
Um dado não menos importante nesse processo é que, atualmente, o Estado
tem que enfrentar, no âmbito do resguardo da ordem – uma de suas funções princi-
pais –, um discurso no qual aparece com essa capacidade reduzida. Aparece também
como incapaz de dar proteção contra as inseguranças que se apresentam, questão
que possibilita a construção de um discurso relacionado com a perda de autoridade
por parte do Estado.

Uma pergunta surge de tudo isso: Qual é a forma que o Estado, ou melhor,
certo tipo de Estado, tem para recuperar sua legitimidade, sua autoridade? A respos-
ta mais simples é apelar para a proteção, instalando um discurso protetor, que anda
de mãos dadas com políticas repressivas mais duras. É o que leva à criminalização
de certos setores da população. Para isso é preciso implementar grandes campanhas
contra a delinqüência e a violência e aplicar medidas que, em outro momento, se-
riam consideradas excepcionais, mas que agora passam a ser vistas como normais,
como é o caso da redução da maioridade penal.
Cabe reiterar que esta implementação vem precedida de um discurso de mão
dura, que pode ser visto como uma rogativa de certos setores da sociedade – espe-
cialmente de direita, mas também de pobres que foram impregnados pelo discurso

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da segurança cidadã – para que o Estado atue com mais repressão. Um paradoxo, pois
são precisamente esses setores de direita que querem um Estado menor, menos in-
trusivo, mas parece – e aqui concordamos com wacquant (2001) – que o objetivo de
envolver o Estado em políticas mais agressivas é a tentativa de ocultar, com esse tipo de
medidas, a deterioração social trazida pela implementação de fortes políticas econômi-
cas de tipo neoliberal, que deixaram ao desamparo vastos setores da população.

2.1. Alguns aspectos gerais

Há que assinalar que a repressão dirigida aos “movimentos sociais” no Chile
tem estado focada principalmente em detenções nos protestos de massa, como
demonstram os quadros seguintes, e que, em termos de volume, corresponde a
detenções na rua sob a acusação de “desordem na via pública” ou “destruição na
via pública”. Os mais afetados têm sido sempre os jovens e não outros atores so-
ciais. Pode-se afrmar que, no que se refere à maioria das detenções realizadas,
os detidos são libertados após algumas horas e, no caso de menores, os pais são
avisados e os devolvem às suas casas.
No quadro a seguir pode-se apreciar o que mencionamos anteriormente
relativamente a outros dois atores que se mobilizaram durante os últimos três
anos: referimo-nos aos trabalhadores terceirizados da Codelco e aos trabalhadores
da saúde, onde há menos detenções.

trabalhadores da Codelco

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mobilização de trabalhadores da saúde

No que diz respeito aos trabalhadores terceirizados da Codelco, resulta inte-
ressante analisar as poucas detenções em relação ao outro sujeito que se mobilizou
nestes últimos anos: os estudantes secundaristas. Nas mobilizações realizadas pelos
trabalhadores, em muitos casos eles usaram violência como mecanismo para se faze-
rem ouvir, realizando bloqueios de estradas e incendiando veículos, como a queima
de ônibus de transporte de pessoal, ou o descarrilamento de um trem. No entanto, a
“repressão” a este setor, entendida como detenções, não teve a força que se manifes-
tou contra os estudantes secundaristas.
É preciso observar que as mobilizações dos estudantes são altamente mas-
sivas, ao contrário do que ocorre com outros atores mobilizados, em que há mais
presença de adultos.

mobilização estudantil

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Por outro lado, é preciso assinalar
que as mobilizações estudantis foram mais
prolongadas no tempo. Isso foi observado
em 2006 e também se constata atualmente.
Às mobilizações estudantis pouco a pouco
foram se somando outras organizações
como o Colégio de Professores, que estão
participando há mais de um mês e parece
que vão continuar por mais algum tempo.
São dois os casos que serão anali-
sados nesta parte. O primeiro tem relação
com a situação do povo mapuche, que tem
reivindicado com maior força uma série de
exigências associadas a seu reconhecimento
como povo e demandas sobre terras origi-
nárias, o que acarretou sobre eles uma forte
repressão e violações aos direitos humanos,
constatadas por organismos internacionais.
O segundo corresponde às mobilizações re-
alizadas pelos jovens secundaristas do Chile e a construção, por parte da impren-
sa, do que se denomina “repressão simbólica”, que se acentuou – e isso é apenas
uma hipótese – com a entrada em vigor da nova lei de responsabilidade juvenil,
que reduz a idade penal dos jovens para 14 anos, precisamente a idade em que eles
se encontram na educação secundária.

2.2. o caso do povo mapuche

Como aponta a Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH),
em sua missão internacional sobre a repressão ao povo mapuche, este tem sido
sistematicamente vulnerado em seus direitos e se encontra à margem do processo
democrático que está vivendo a sociedade chilena.
Em geral, pode-se dizer que o povo mapuche tem vivido uma sorte de ex-
clusão permanente em relação ao resto da sociedade chilena, acentuada por uma
aberta discriminação que faz com que viva à margem da sociedade, do país. Isso é
reforçado pela forte idéia de eles se considerarem diferentes dos chilenos, visto que
como dizem: “são outro povo” “outra nação”, porque têm uma história, um idioma.
Apesar disso, o Estado chileno tem tentado integrá-los, ao longo dos últimos dois
séculos, por meio de políticas “genocidas”, “de extermínio” e “de repressão”, que
perseguiam a perda de identidade como etnia.

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Diante dessa situação foram sendo geradas formas de resistência que se
manifestam, preferentemente, na volta às raízes, valorizando a sua cultura, espe-
cialmente para os mapuche que nasceram na cidade; na realização de trabalho
comunitário, nas ocupações de terras, etc. Dessa forma, para os mapuche a política
– “sua política” – é a reconstrução de seu povo, de sua nação, a recuperação da
terra, do idioma, da religião, de sua cultura, etc., e por isso esses são aspectos cen-
trais em sua prática política.

A resposta do Estado chileno tem sido principalmente repressiva, cri-
ando uma política criminal que tenta desmantelar o protesto social gerado por
este povo, desrespeitando, dessa maneira, direitos básicos dos indivíduos. Como
mostra o referido informe:

A violação dos direitos individuais de pessoas mapuche,
como resultado da política criminal orquestrada em resposta à
situação de confito social que experimenta o Sul do Chile, torna
particularmente patentes essas margens. A perseguição crimi-
nal de comportamentos, tipifcados como delitos, cometidos no
marco do protesto social mapuche, provocou um número incon-
tável de processos contra indivíduos mapuche sob a legislação
penal ordinária. Também tem levado a uma intervenção gene-
ralizada das forças policiais na vida cotidiana das comunidades,
deixando para trás graves conseqüências sociais e contribuindo
para reforçar pautas históricas de discriminação e estigmatiza-
ção das pessoas que pertencem a esse povo. Durante os últimos
anos, com a radicalização do protesto, essa política repressiva
intensifcou-se com a aplicação de regimes penais especiais
para a perseguição e sanção dos supostos responsáveis de atos
de protesto sociais violentos, incluindo a aplicação da legisla-
ção especial antiterrorista. Líderes tradicionais e ativistas ma-
puche foram condenados a graves penas de prisão por ameaças
ou atentados contra a propriedade, associados a reivindicações
de terras indígenas, sob regimes processuais de exceção regula-
mentados na Lei Antiterrorista. Outros casos similares têm sido
julgados conforme outros regimes penais especiais, como os
da Lei de Segurança do Estado, ou sob a jurisdição militar. En-
quanto isso, os defensores e defensoras dos direitos humanos,
vinculados aos acusados em casos relativos ao protesto social

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mapuche, ou comprometidos com a defesa dos fns legítimos
desse protesto, têm vivido um clima de crescente perseguição
por parte das instituições chilenas (FIDH, 2006, p. 4).

Sendo assim, assiste-se a uma série de situações de arbitrariedade jurídi-
ca que prejudica fortemente o povo mapuche, particularmente pela aplicação
da lei antiterrorista, o que veremos a seguir.
Seria preciso assinalar que, no que se refere ao tema de detenções em
situações de protesto, o número “não é signifcativo estatisticamente”, no to-
cante, por exemplo, às detenções praticadas na repressão aos jovens estudantes
secundaristas, como se pode ver no quadro seguinte, mas é signifcativo no
nível simbólico.

mobilização Causa mapuche

2.2.1. A aplicação da lei antiterrorista

Outro ponto a ser analisado, referente ao povo mapuche, é o uso da lei an-
titerrorista que, desde os anos 1990 até hoje, tinha sido utilizada particularmente
para reprimir grupos que optaram pela luta armada, cujo caso paradigmático é
o do Movimento Juvenil Lautaro. Posteriormente, a lei foi empregada no início
do novo século na repressão à luta do movimento mapuche, sendo aplicada a
dirigentes e não-dirigentes. Na opinião de organismos de direitos humanos in-
ternacionais, a lei não pode ser adotada nesse caso por transgredir convênios
internacionais de direitos humanos, pois precisamente viola as garantias proces-
suais fundamentais. É preciso anotar que essa lei foi aplicada principalmente a
delitos contra a propriedade ou suspeitas de associação ilícita, questões que não

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constituem um perigo direto para a vida, para a liberdade, nem para a integri-
dade física, ou de violência extrema, objeto dessa lei.
Isto tem levado a longas detenções prévias aos julgamentos, à utilização de
“testemunhas sem rosto”, o que viola o devido processo e as fortes condenações
com privação da liberdade, o que se pode ver no seguinte quadro.

Quadro: lista de líderes e ativistas mapuche condenados ao amparo da
lei 18.319 que defne as condutas terroristas e fxa suas penalidades: nome do
condenado; causa; sentença; pena de prisão, juizado.

As mais emblemáticas, entre as arbitrariedades cometidas pela aplicação da
lei antiterrorista, são exemplifcadas nos casos dos longko Aniceto Norín e Pascual
Pichún, autoridades tradicionais das comunidades de Norín (Lorenzo Norín) e
Temulemu (Antonio Ñirripil), respectivamente. Eles foram condenados a cinco
anos e um dia de prisão por suposta responsabilidade em um delito de “ameaça
terrorista” relacionada com o incêndio da Fazenda Nancahue e de sua casa de mo-
radia, que pertencia a um ex-ministro dos governos da concertação, na comuna de
Traiguén (IX Região) em dezembro de 2001.

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É preciso mencionar que no fnal desse ano vivia-se um forte protesto ma-
puche na vIII e na IX regiões, o que, como assinala o informe do FIDH (2006),
gerou atos contra a propriedade de empresários agrícolas e forestais, tendo sua
máxima expressão nesse incêndio. A Fazenda Nancahue está localizada em “ter-
ras antigas” que pertenceram tradicionalmente ao povo mapuche, mas foram
arrebatadas juridicamente em fns do século XIX, fcando nas mãos de lati-
fundiários chilenos. Esses longkos, juntamente com a ativista da causa mapuche
Patricia Troncoso, foram absolvidos em 2004 dos delitos terroristas. No entanto,
essa medida foi revertida pela Corte Suprema e eles foram novamente submeti-
dos a processos, sendo posteriormente condenados.
Outro caso é o denominado Poluco Pidenco, que afetou construções de
propriedade da empresa forestal Mininco S.A., como relata o informe da FIDH:

[...] o processo judicial seguido contra os
imputados no caso Poluco Pidenco revestiu-se
de características similares ao caso dos longko
na aplicação da legislação antiterrorista chilena:
prisão preventiva prolongada; segredo durante a
etapa de investigação; e uso extensivo da fgura
das testemunhas protegidas ou “sem rosto”. No
curso do processo, a defesa denunciou uma série
de irregularidades que, em sua opinião, limitaram
substantivamente a capacidade processual de
seus defendidos. Particularmente denunciou-se
que as provas apresentadas durante o julgamento
diferem substancialmente daquelas apresentadas
durante a investigação; a omissão da valoração
da prova apresentada pela defesa durante o julga-
mento sem que fosse desestimada; os pagamentos
realizados a algumas das testemunhas protegidas
que participaram no julgamento; a falta de impar-
cialidade do tribunal julgador, que copiou um dos
considerandos da sentença de um caso julgado
anteriormente pelo mesmo tribunal; e a falta de
um recurso adequado de revisão da sentença con-
denatória 132, entre outros (FIDH, 2006, p. 41).

Estes casos levaram a comunidade internacional a se pronunciar, deixan-
do de manifesto os níveis de perseguição que sofreram as comunidades mapu-
che e seus dirigentes:

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Esta perseguição penal conduziu a processos e condenações
que, por seu elevado número, por suas relevantes conseqüências sociais
e por afetar quase exclusivamente a indivíduos mapuche, deixam dúvi-
das razoáveis sobre a compatibilidade da política penal existente com os
objetivos de proteção dos direitos humanos e de resolução de confitos
sociais no marco de uma sociedade democrática (FIDH, 2006, p. 42).

Juntamente com o que já foi descrito, é preciso agregar outro elemento: a
violência exercida pelas forças policiais que são denunciadas. Entretanto, depois de
identifcadas as pessoas que atuaram nessas ocasiões, o julgamento é feito em tribu-
nais militares e não cíveis como corresponderia, fcando impunes os denunciados.

iii. - A repressão simBÓliCA. A Construção de
umA “AlteridAde monstruosA” e de
umA “violÊnCiA sem sentido”

Embora a definição de repressão se refira geralmente a situações em que
as forças policiais ou repressivas – que podem ser militares ou civis – exercem
uma ação persecutória a sujeitos que se “manifestam contra”, e que conduzem
a ações repressivas de tipo físico, como as detenções, também há outro tipo
de repressão que pode ser ainda mais perigosa, que se instala na forma de
imaginário ou representação social, construindo as percepções e opiniões dos
cidadãos comuns e correntes. Isto é possível em razão da forte penetração que
têm os atuais meios de comunicação, especialmente a televisão.
No caso do Chile, quase 80% da população se informa a partir dos no-
ticiários da televisão que é, portanto, um meio muito relevante na construção
de imaginários. Da mesma forma que a imprensa escrita, é claro, ainda que
em menor medida para um setor significativo para o qual o custo de com-
prar diários e revistas é muito alto. Então a imprensa começa a elaborar um
tipo de discurso que constrói certos sujeitos e demandas, que se apresentam
como perigosos para a ordem social ou para as políticas de consenso instala-
das. Assim, passam a denominar certos sujeitos e suas ações como “perigosos”,
“anárquicos”, “contrários à ordem social”, “subversivos”, entre outros termos.
Tais rotulagens atuam como estigma sobre os sujeitos que, em muitos casos,
são construídos como indesejáveis socialmente. Por outro lado, as ações em
que há “violência” são vistas como ações sem sentido, construindo-se a idéia
de que toda violência é uma “violência sem sentido”.

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3.1. sobre a violência nas mobilizações e o seu sentido:
o caso da criminalização dos jovens na mídia

A respeito deste ponto, é preciso dizer que, no caso da televisão, estudos realizados
pelo Conselho Nacional de Televisão mostram que o tema da violência, a partir do con-
ceito de segurança cidadã associado à delinqüência, ocupa o segundo lugar nas notícias
dos telejornais no Chile. Destaca-se, além disso, a “existência de uma tendência geral de
incluir o tema de segurança cidadã dentro das ‘primeiras notícias’, estruturando assim a
agenda informativa dos canais” (CNTv, 2006). Este é um indicador interessante na hora
de analisar o que se vê na televisão, ainda mais considerando que as pessoas se infor-
mam mais nesse meio que nos meios escritos, como já havíamos mencionado. Então, é
evidente que há uma forte presença da violência na televisão. Por outro lado, a imprensa
escrita tem desenvolvido um estranho interesse pelos jovens, particularmente a partir de
sua relação com a violência, o que não condiz com a quantidade de fatos violentos que os
jovens cometem, descontando, é claro, os fatos catalogados como delituosos.
Por outra parte, observando-se o trabalho realizado pelo Centro de Estudos
Socioculturais (Cesc), no que concerne ao acompanhamento de notícias escritas, para
monitorar a forma como a imprensa aborda o tema dos jovens, pode-se assinalar que,
no ano de 2006, de um total de 3.37798 notícias analisadas, constatou-se que apenas
5% remetiam a situações de violência, o que é uma porcentagem sufcientemente baixa
para atribuir aos jovens ou catalogá-los de violentos, como tem feito a imprensa.
Assim, no tocante às mobi-
lizações protagonizadas pelos estu-
dantes secundaristas no ano de 2006,
dando origem ao que se chamou de
“revolução pingüim”, a cobertura
midiática das primeiras semanas es-
teve marcada por uma apresentação
do caráter violento, eludindo o fundo
do assunto: as demandas por melhor
educação. Essa imagem teve que ser
modifcada quando as manifestações
foram ganhando a simpatia da popu-
lação. Inicialmente, foi enfatizado o
número de detidos nos incidentes
“violentos” que se produziram nas

98 O CESC vem realizando um acompanhamento da imprensa desde 2005, que é divulgado por meio do boletim
de análise mensal Jóvenesadiario, que pode ser acessado pela internet em www.cesc.cl. Essa análise não é exaus-
tiva, uma vez que só concerne às notícias publicadas na Região Metropolitana, correspondente a todos os diários
e revistas que aí circulam. Não obstante, é bastante representativa no nível nacional.

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primeiras marchas de secundaristas. O protesto estudantil foi construído pela im-
prensa como um confito de rua e “vandálico“, como espaço de violência e de de-
sordem; não como expressão válida contra um sistema educacional que legitima
a segmentação de classe e que distribui diferencialmente a qualidade da educação
de acordo com a renda, não permitindo a mobilidade social, questão promovida e
validada pelo governo e certos setores da sociedade.
A imprensa, tanto escrita como televisiva, tratou de subtrair validade ao mo-
vimento publicando frases como “a grande maioria (dos escolares) desconhecia as
propostas que seriam apresentadas ao ministério” ou concentrando-se – como já
dissemos – na violência que se converteu no fo condutor das informações publi-
cadas sobre os jovens. No entanto, com o passar dos dias e semanas, a visão da im-
prensa teve que começar a variar, questão que chama a atenção para entender como,
em um curto lapso de tempo, um protesto, catalogado como um ato vandálico, pas-
sou a ser considerado uma expressão válida, quase de veneração, por esses jovens
que conseguiram instalar o debate sobre a educação no Chile, apresentar demandas
concretas e mudar a agenda da presidenta Bachelet.
Estes exemplos indicam algumas coisas interessantes no momento de ana-
lisar a relação entre mídia, jovens e violência. Como assinala Juris (2006), a violência
é um extraordinário ícone simbólico, utilizado tanto pelos jovens como pelos meios
de comunicação. Estes últimos, diz o autor, usam a violência para captar audiência
ou, como aponta Júris lendo Glitin (1980) e Hall (1974), as imagens de confronto
violento empregadas pelos meios servem para descontextualizar as performances
violentas e inseri-las novamente em certas narrativas hegemônicas, que a única coisa
que fazem é marginalizar, neste caso os jovens, mas também outros atores, como
criminosos e desviados. Dessa forma, possibilitam a realização de um exercício re-
interpretativo da violência, no qual ela é lida como uma “violência sem sentido”,
pelo que, seguindo Juris, os meios atuam de certa forma como fltros ideológicos a
serviço da hegemonia dominante. Por outro lado, a diminuição das notícias sobre
a violência demanda fatos mais violentos e espetaculares, constituindo-se assim um
círculo vicioso que não tem fm, com os meios demandando cada vez mais violência
para poder vender e atingir altos índices de audiência.
Portanto, a visibilização da violência e seus associados (delito, delinqüên-
cia, crime, etc.) por parte dos meios nada mais fazem senão objetivar o medo na
sociedade, o qual “se projeta em uma minoria, a dos portadores do medo e da
suspeita” (BONILLA Y TAMAYO, 2007). Assistimos então à construção de uma
alteridade que é vista primeiro como estranha e depois como monstruosa, de-
satando uma onda de “pânico moral”, particularmente porque o medo a esse outro
(os jovens violentos) é o medo de não poder controlar uma alteridade. Ou seja,
teme-se aquilo que não se pode controlar, o que de acordo com Baumann (2001) –

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que segue Lévi Strauss – implica a adoção de três possíveis estratégias: a primeira
é a assimilação, ou seja, o aniquilamento do outro como alteridade; a segunda é
a expulsão, vomitar as alteridades rebeldes, e portanto isolá-las e excluí-las e, por
último, simplesmente a eliminação. Tudo isso nos leva, como Bonilla y Tamayo
(2007) nos indicam, a uma “criminalização midiática” de certo tipo de sujeitos.

3.2. para compreender a violência juvenil:

a chamada violência performativa

Jefey S. Juris (2006) tem interessante artigo baseado em suas experiências
de trabalho de campo realizado em Gênova, no marco das manifestações antiglo-
balização. Acompanhando os militantes do Black Block (Bloco Negro), que se ca-
racterizavam pelas táticas de ação direta, que esse autor denomina violência per-
formativa, aponta, relativamente à violência – citando Antón Block –, que esta não
deveria ser defnida a priori como algo irracional ou sem sentido, mas que haveria
que “considerá-la como uma forma mutante de interação e comunicação, como um
padrão cultural de ação signifcativa historicamente desenvolvida” (BLOCK, 2000,p.
24, in JURIS 2006, p. 188). Assim, Juris vê a violência como uma forma de interação
social mediante a qual se vai construindo realidade com os modelos culturais dis-
poníveis; e segundo outro autor como Riches (1986, in JURIS, 2006), a violência se
caracteriza por possuir componentes prático-instrumentais que tentam modifcar o
entorno social e componentes simbólico-expressivos que “enfatizam a comunicação
e a dramatização de importantes idéias e valores sociais”, mesmo sendo a diferença
entre esses dois componentes apenas de grau (JURIS, 2006, p. 188).
Portanto, a violência performativa é vista por Juris como uma representação
de rituais simbólicos que se manifestam de forma violenta, como um mecanismo
de comunicação e de expressividade cultural, mediante o qual os participantes
nesses rituais tentam fazer efetiva a transformação social mediante um confronto
de tipo simbólico. Confronto que se dá no que se denomina de performances vi-
olentas, em que a violência adquire dimensões de espetaculosidade icônica com
a utilização de uma linguagem não-verbal. Assim, a violência performativa é um
recurso com que contam esses grupos de limitados recursos (materiais), que se
refere a uma economia de recursos no nível simbólico (a violência), que é utilizada
dentro de uma luta simbólica. Talvez por isso a violência contra certos “ícones
do sistema capitalistas” (bancos, transnacionais, etc.) seja a forma mais atraente e
econômica de conseguir uma vitória no nível simbólico contra o poder hegemôni-
co, e de se fazer visível na mídia. Encontramo-nos diante do que o autor chama de
“guerras midiáticas de interpretação simbólica”, nas quais os jovens,

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levam a cabo performances violentas espetaculares, em parte
para ganhar acesso aos meios de comunicação comerciais que bus-
cam constantemente histórias e imagens sensacionais. As formas
cotidianas e rotineiras de protesto não são notícia, enquanto que as
imagens icônicas de carros em chamas e batalhas de rua entre mani-
festantes mascarados e corpos policiais militarizados são retrans-
mitidas na mesma hora através das redes globais de comunicação
(JURIS, 2006, p. 190).

Desse modo, a violência pode ser vista como uma forma de visibilidade e de
presença, no marco de certo ritualismo expressivo no qual a performance adquire
relevância. Segundo Rodrigo Díaz (2002) – que acompanha o antropólogo Max
Gluckman –, a ritualização pode ser entendida como comportamentos convencio-
nais e estilizados que segregam e/ou se distinguem em um sistema hierárquico de
posições e relações, particularmente nas sociedades simples, e também nas com-
plexas, que ajudam a compreender as ações sociais. No entanto, Díaz assinala que
Gluckman, infuenciado por Durkheim, colocou demasiada ênfase na estrutura de
status, posições e papéis para um desempenho “correto” na sociedade (os aspectos
normativos e a ritualização domesticada) em prejuízo de outros usos, que têm as
características de ser situacionais e que não estão apegados às normas e regras
(ritualização selvagem), como seria, neste caso, o uso da violência ou talvez em um
exemplo menos complexo, a tatuagem – como indica Diaz –, que segrega mas ao
mesmo tempo identifca e integra, pelo qual essa prática emite muitas mensagens
além do simples ato de tatuar-se. Essa questão deve ser considerada quando nos
vemos diante de recurso da violência por parte de certos jovens. Assim, pode-se
afrmar que o ato de ritualização está “confgurado por ações simbólicas que se-
gregam e integram, que expressam algo e que as interpretações possíveis desse
algo geram tensões, estão em confito [...]” (2002, p. 26).
Dessa maneira, como assinala Díaz, a ritualização pode ser situada no âm-
bito da performance (como um de seus casos singulares). Isto porque os rituais
não são apenas redes de ações simbólicas que emitem mensagens, mas são tam-
bém uma construção social da realidade que nos remete a hábitos e técnicas cor-
porais. Ambos, performance e ritualização, articulam-se pela criação da presença
(recriação e um ato de fazer presentes situações já vividas que podem reforçar e
alterar disposições). A performance pode ser entendida então como um “ato que
descreve certas ações que estão transcorrendo, executada em lugares específcos,
testemunhada por outros ou pelos mesmos celebrantes: é uma ação que focaliza
essa presença enquanto ato de criação […]” (DÍAZ, 2002, p. 27), mas é um ato

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que também traz campos discursivos preexistentes como as convenções de gênero,
tradições, tensões políticas e sociais, etc. Então não é apenas um “repetir”, mas é
um repetir em um “presente performativo” que não está fechado, mas aberto e,
portanto, possibilita a interpelação desses campos discursivos existentes.
Portanto, os grupos vão se fazendo visíveis por meio da performance, prati-
cando e criando um ato de presença que pode ser entendido também como uma
“cerimônia defnitória”, assinala Díaz. Assim,

a qualidade distintiva das cerimônias defnitórias é que se de-
senrolam ali onde um grupo, por exemplo, um bando, sofre de crise
de invisibilidade, de inexistência, de marginalidade, de inferioridade
estrutural, de domínio e de desconhecimento por uma sociedade ou
por outro grupo mais poderoso. Por isso constituem estas cerimônias
“dramas simbólicos”: não são meras representações de condições e
formas de vida, mas aludem a agentes criativos auto-performativos,
que elaboram, organizam e recriam práticas, discursos, crenças, va-
lores e atitudes, memórias e projetos políticos e culturais para se fa-
zerem visíveis e existentes (2002, p. 36).

Então, a partir desses atos performativos ritualizados que (re)criam dramas
simbólicos, os jovens são capazes de transtornar a ordem normativa no plano cul-
tural-simbólico, mais que no político-social, constituindo-se estes atos performa-
tivos em um tipo de poder: como atos de “reinvocação e resistência”, que apelam
à criação e à imaginação de um futuro desejado. Portanto, dramatizam as identi-
dades dos grupos, pelo que não é possível, ou não se pode concluir que, ao realizar
estas performances, os grupos sejam efetivamente assim. No fundo, instalam a
necessidade de reconhecimento e do direito à diferença.

ConClusão

Para fnalizar, cabe assinalar que atualmente instalou-se um discurso que
domina o que poderíamos chamar de cultura pública. Referimo-nos à “política
do medo cotidiano” que leva à instauração de uma política repressiva e de con-
trole social, seja na repressão das manifestações ou na construção de mais presí-
dios e no aumento das penas, ou, como estamos assistindo nestes momentos, à
redução da idade de discernimento para os delitos cometidos por certo tipo de
jovens. Dizemos certo tipo porque não são todos os jovens, pois “casualmente”
são jovens de setores populares e pobres, por exemplo.

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Resumidamente, poder-se-ia dizer que o tema da insegurança é um pro-
blema complexo, no qual a mídia desempenha um papel relevante, pois insiste
em tratar diferentes problemas, em particular aqueles associados à perda da se-
gurança, os quais passam a fazer parte da agenda pública. Dessa forma, podemos
dizer que os meios irromperam agressivamente na nossa cotidianidade como
sujeitos, incidindo em nossa visão de mundo, conformando assim uma cultura
midiática, pela qual se infuencia o pensamento da cidadania e sua concepção
da realidade. Dessa maneira, a consciência coletiva vai se nutrindo de notícias
que mostram parcial e seletivamente os fatos sociais, políticos e econômicos que
ocorrem na realidade nacional e internacional, constituindo-se os meios nos
aparelhos de representação que constroem o discurso social da insegurança.
Um exemplo disso são as construções que se fazem dos jovens, dos po-
bres, dos mapuche, ou das mobilizações originadas em reivindicações econômi-
cas, políticas ou culturais, o que denota uma alta discriminação e baixa tolerân-
cia dos meios para com certos segmentos de nossa sociedade. Portanto, o olhar a
partir dos espaços de poder foi construindo certos imaginários que em nada aju-
dam a entender este tipo de situação, mas pelo contrário, a partir da construção
de certos estereótipos divulgados pela mídia, e, porque não dizer, por certos
estamentos da sociedade, nada mais fazem senão estigmatizar esses setores, que
vão se convertendo em perfeitos estranhos para segmentos relevantes de nossa
sociedade. Isso não provocaria problemas, já que todos podemos ser e somos
estranhos em algum sentido, mais ainda em nossas grandes cidades. O problema
ocorre quando esses estranhos são adjetivados como perigosos, violentos, de-
linqüentes, terroristas, entre outras coisas. Dessa maneira, são enquadrados sob
o eixo do desvio ou da inadaptação social e, portanto, situam-se esses sujeitos
e certas práticas como questionáveis para a ordem social imperante por serem
subversivas e fonte de perigo e risco.
Isso tem provocado a instalação de uma série de “barreiras de contenção”
para alcançar níveis de segurança, entre elas: tentativas de criminalizar o grafte,
a detenção por suspeita, que embora esteja derrogada ainda se aplica especial-
mente aos jovens de setores populares, agora sob denominação de “controle de
identidade”. E também a instauração da nova lei de responsabilidade, que reduz
a idade dos adolescentes como sujeitos que têm discernimento para 14 anos,
questões que nos levam a perguntar se não estamos assistindo à construção de
um Estado penal.

Por outra parte, há que assinalar que em nosso país não podemos dizer que
haja movimentos sociais no sentido clássico do conceito. O mais parecido à concep-
ção clássica é o movimento ou organização que têm os mapuche (embora eles talvez
reneguem o conceito). Então, o que é que temos? O que existe são organizações dedi-

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cadas a temáticas específcas que não chegam a se constituir em movimentos sociais.
Esta tem sido uma característica dos atuais processos de mobilização no país. Portanto,
para analisar os movimentos sociais, é preciso voltar ao conceito ou categoria que está
sendo utilizada, já que existe a impressão de que, pelo menos para o caso do Chile, a
defnição mais tradicional não dá conta das novas formas de manifestação que ocor-
rem na sociedade civil nestes momentos. O caso emblemático é a mobilização dos
estudantes secundaristas em 2006 ou a atual mobilização de pessoas por causa da de-
cisão do Tribunal Constitucional que proibiu a distribuição da pílula do dia seguinte.
Da mesma maneira, temos assistido nos últimos anos a uma série de mo-
bilizações, algumas com certas características nacionais, mas que estão restritas
a espaços mais localizados de luta, sem nenhuma coordenação com outros es-
paços. Talvez o único caso reivindicativo destacado – que paradoxalmente foi
levado a cabo por jovens – foi a mobilização dos estudantes secundaristas que
ressaltaram o tema da qualidade da educação e também chamaram a atenção
sobre certos encraves deixados pela ditadura militar nessa área, tal como a Lei
Orgânica Constitucional de Educação (Loce).
Por outra parte, vale mencionar que as últimas mobilizações de caracterís-
ticas sindicais estiveram restritas a espaços reivindicativos próprios. É verdade que
levantaram demandas de caráter nacional, como o caso da renda mínima, que foi
adotada pela igreja e levada ao plano ético para demandar e discutir um “salário
ético”. Também as reivindicações por uma melhor educação de qualidade, que so-
mou outras organizações ao tema (pais e procuradores, colégio de professores), mas
que se diluíram quando foram “capturadas” pela institucionalidade – como acon-
teceu também com o “salário ético” – sem gerar novas mobilizações ou demandas
sobre estes aspectos (há alguns vislumbres). Então, o que se assiste são lutas reivin-
dicativas mais particulares, como o caso dos trabalhadores terceirizados do cobre,
o das “salmoneiras” ou os inadimplentes, os quais, uma vez que suas demandas são
aceitas ou entram em processo de negociação, recuam, constituindo-se em uma mo-
dalidade de mobilização que submerge e emerge em determinados momentos.
Estas mobilizações são tão particulares que não têm comunicação com outros es-
paços de demandas sociais; não há nenhum grau de coordenação ou apoio. Isso pode ser
visto, por exemplo, na luta dos trabalhadores terceirizados do cobre, dos trabalhadores
nas empresas de produção de salmão, ou na própria luta dos mapuche no Sul, que não
se conectam com outros processos reivindicativos. Agora, haveria que assinalar que no
momento atual não se conta com um grande espaço de agrupamento sindical, como foi
a Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) em outras épocas, pois esta se diluiu em
pequenas forças sindicais com reivindicações particulares. Isso é bom ou ruim? Nem
sim, nem não, mas põe de manifesto as novas formas de organização e de construção de
participação política e de agenciar movimentos.

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Isso debilita os processos de constituição de organizações de movimento
mais duradouras. Parece que isso é uma constante que começa a acontecer; por-
tanto, um dado a ser considerado, pois já não se pode esperar que se estruturem
fortes movimentos à usança clássica, mas sim lutas mais de caráter micropolítico.
No entanto, essa situação que poderia ser lida como uma perda de ca-
pacidade da sociedade civil de manifestar-se, a partir do que se conheceu como
movimentos sociais no Chile, pode e deve ser lida em outro registro, pois pre-
cisamente as expressões de movimentos sociais de caráter mais sustentado já
não se articulam necessariamente com conteúdos chamados de “classicamente
políticos” como ocorreu no nosso país até o fm dos anos 1980.
De fato, estamos diante de um cenário em que emergem temáticas antes
invisibilizadas, como os direitos étnicos e das minorias sexuais, as tentativas ao
mesmo tempo integradoras e contraculturais dos jovens, as lutas contra a dis-
criminação de gênero e a destruição do meio ambiente, entre outras práticas
discursivas que representam exercícios micropolíticos de produção da realidade
social com alto grau de mobilização, ainda que seja preciso mencionar que são
esporádicas ou episódicas99.
No tocante ao tema da repressão no Chile, embora já não tenhamos vi-
olações fagrantes aos direitos humanos, salvo no caso do povo mapuche, que
sistematicamente tem sido perseguido mediante leis repressivas herdadas da di-
tadura, ainda há muito que avançar no resguardo dos temas das liberdades de
expressão, especialmente pelo alto número de detenções em manifestações de rua
que afetam principalmente os jovens, mas que não imobilizam as ações coletivas.
Por outro lado, a maior preocupação teria que ser focada no que se denomi-
nou de “repressão simbólica”, que emana de discursos de governo e dos meios de co-
municação, construindo imagens de certos tipos de atores sociais e ações reivindica-
tivas como simples rupturas de grupos minoritários, desorganizados, incivilizados e
inclinados à violência. A uma violência sem sentido, negando espaço ao protesto de
rua, ferramenta de luta ou de visibilização dos setores mais postergados.
A respeito deste ponto, Zarzuri y Contreras (2005) dizem que a tradição de pro-
testo de rua se remonta bem atrás na história social do Chile com as passeatas e explosões
sociais que expressam sua força eruptivo-vulcânica de maneira periódica ao longo do
século XX. Trata-se de uma tradição de um setor da sociedade. Recorrer à violência
para se manifestar revela uma relação confituosa entre o Estado, as elites dominantes
e os setores populares. Sua expressão mais radical de resistência cultural foi o levante

99 Em 23 de abril, como produto da decisão do tribunal constitucional que declarou como ilegal a dis-
tribuição por organismos públicos da pílula do dia seguinte, produziram-se marchas que conseguiram, no
caso de Santiago, congregar 15.000 pessoas, coisa que não é possível fazer com convocatórias no registro
da política mais tradicional.

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social composto pelos três fenômenos clássicos de violência: o motim urbano, o levante
mineiro e o bandoleirismo rural. Portanto, se fzéssemos um percurso cronológico na
história social do Chile, identifcaríamos uma seqüência de protestos sociais com diver-
sas intensidades no uso da violência por parte dos manifestantes e também por parte da
polícia, na maioria dos governos republicanos do século XX100. Nas palavras de Sala-
zar (1990), “[...] as passeatas da classe popular chilena tiveram, desde o século XvIII, a
mesma freqüência tectônica que as insurreições e malocas (invasões) mapuche diante da
dominação hispânica” (ZARZURI & CONTRERAS, 2005, p. 34).
Por último, o atual cenário de “efervescência social” – recorrendo ao ve-
lho cientista político argentino, José Nun – pode ser visto como a “rebelião do
coro”, ainda incipiente, mas que começa a demonstrar que o privilégio de ter
contato com os deuses, tal como sucedia na tragédia grega aos que estavam na
parte central do palco, hoje em dia começam a ser questionados. Aparece o coro,
que na tragédia grega estava relegado a ser um ator secundário, a ser invisível, já
que seus integrantes eram meros acompanhantes dos heróis. Desta forma, o coro
começa a querer desempenhar papéis centrais. Por isso, parece que atualmente
assistimos à rebelião do coro.

BiBlioGrAFiA

• ALWIN OYARZÚN, José. Ombudsman y derechos indígenas en América

Latina: estudio comparativo sobre el marco comparativo institucional. San José de
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cultural juvenil. Ediciones Centro de Estudios Socioculturales (CESC), Santiago
de Chile, 2005.

100 Para mencionar apenas alguns: seqüência de greves operárias de 1903 a 1907; Greve operária de Magalhães 1919;
acontecimentos em prédios públicos de San Gregorio 1921 e La Coruña 1925; assalto à FECH e julgamento aos
subversivos na década de 1920; levante camponês de Ranquil em 1935; greve da “chaucha” (greve contra o aumento
do custo do transporte que gerou manifestações violentamente reprimidas. Chaucha era a denominação da moeda que
equivalia à tarifa do transporte naquele momento N.da T.) em 1949; Seqüência de greves nacionais da década de 1950 e
sua culminação na explosão social de abril de 1957; acontecimentos do povoado de José María Caro em 1960; aconteci-
mentos da pampa irigoyen em 1969; seqüência de violações aos direitos humanos e ações de resistência à ditadura entre
1973 e 1989; violência política exercida por organizações político-militares durante a década de 1990. Gabriel Salazar
(1990) realiza uma tipologia de ações de violência política popular nas quais inclui incidentes, concentrações, marchas,
invasões, greves, paralisações, manifestações, agressão, ataque armado, sabotagem, enfrentamento e rebelião.

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Tradução: Beatriz Cannabrava

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mÉXiCo

A CriminAlizAção
do protesto soCiAl no mÉXiCo

Pablo Romo Cedano 101

introdução

O presente documento é resultado do trabalho de uma jovem equipe de cola-
boradores e colaboradoras da área de pesquisa de Serviços e Assessoria para a Paz (Sera-
paz) agrupados no Observatório da Confituosidade Social no México102 (OCSM).
Graças ao seu trabalho e às observações que recebemos de diversos atores sociais em
confito e de instâncias da sociedade civil e a partir da publicação do Reporte sobre la
Criminalización de la Protesta em abril passado, foi possível chegar a este documento
para o seminário “Criminalização da pobreza, repressão aos movimentos e lutas soci-

101 PaBLO ROMO CEdaNO, Observatório do Confito Social no México. Serviços e assessoria para a Paz, a. C.
Maio 2008.
102 Cf. ; P. Romo, El Observatorio de la Confictividad Social en México como instrumento
para la transformación positiva de confictos, in:, M. atilano uriarte, Los retos del México actual. Centro de Promo-
ción y Ecuación Profesional “Vasco de Quiroga”, a. C. México, jul. 2007.

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ais na América Latina”, realizado de 18 a 20 de junho de 2008 em São Paulo: Criminali-
zação do Protesto Social no México.
A criminalização do protesto social é um fenômeno que se estende no país e
que está sendo documentado e denunciado por muitas organizações sociais e civis,
chamando a atenção do resto da sociedade. Nos últimos meses incrementaram-se
as ações para pôr em evidência essa política de atuação por parte das autoridades
dos poderes da República em seus diferentes níveis de governo. A Rede Nacional
de Organismos Civis de Direitos Humanos “Todos os direitos para todas e todos”
iniciou uma campanha nacional intitulada “Protestar é um direito, reprimir é um
delito”, que tem como objetivo ressaltar o incremento de violações aos direitos hu-
manos contra líderes sociais, homens e mulheres que exercem os seus direitos de
reivindicar e protestar103. Por outra parte, dezenas de organizações sociais se re-
uniram formando uma frente social ampla, a Frente Nacional contra a Repressão
(FNCR), para denunciar a prática constante das autoridades de deter, encarcerar
e torturar dirigentes sociais. A FNCR trabalha com muito afnco pela liberdade
de todos os presos políticos do país que somam várias centenas104. Nesse mesmo
sentido a Liga Mexicana de Direitos Humanos (LIMEDH) elaborou um docu-
mento de denúncia muito importante que registra a repressão como política de
Estado que, particularmente nos últimos anos, vem se incrementando105.
O conjunto das denúncias põe em relevo não a novidade da criminalização
do protesto social, que já nos tempos do priismo* era vivida cotidianamente, mas
particularmente as condições de deterioração dos direitos humanos que tiveram
os sexênios denominados de “transição”, a partir do ano 2000. A criminalização
do protesto nos últimos anos se desenvolve em um contexto de militarização do
país em nome do combate ao narcotráfco, versão mexicana da luta contra o ter-
rorismo em muitos países do mundo106.
A criminalização do protesto está contida também no desenvolvimento
das reformas estruturais que se iniciaram no fnal dos anos 1980, a partir dos
governos neoliberais, e que estão sendo implementadas nesta segunda fase. Es-
sas reformas estruturais de segunda geração107 estão modifcando as leis tra-
balhistas; as de aposentadoria e pensões; as que normatizam o rádio e a televisão,

103 Os diferentes grupos membros estão redigindo informes a respeito. Cf. Centro de derechos Humanos de la Mon-
taña, Tlachinollan. Guerrero: donde se castiga la pobreza y se criminaliza la protesta, Tlapa, jun. 2008.
104 Existem várias listas dos presos que estão em cárceres mexicanos. Cf. php?article24>, e .
105 disponível em: .
* Época em que o país era governado pelo Partido Revolucionário institucional – PRi (N. da T.).

106 Cf. SERaPaZ, informe anual 2006. Observatorio de la Confictividad Social en México, México, 2007.
107 a primeira geração das reformas aconteceu nos anos 1980 e 1990; consistiram na privatização da maioria das
empresas paraestatais, no controle do gasto público, na redução do orçamento social, na aplicação de aumentos
tributários e outras ações mais.

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particularmente com o desenvolvimento da digitalização; as leis que regulam
a produção petroleira e as possibilidades de privatização de certos espaços da
extração do petróleo; as leis que normatizam a produção de energia elétrica.
Também as leis que se adéquam aos tratados internacionais de segurança108 e
luta antiterrorista, por meio das reformas judiciais.
Em nome do “combate ao narcotráfco” e da “luta antiterrorista”, o país se
converte em um campo de batalha onde os verdadeiros criminosos permanecem
impunes e os líderes sociais são perseguidos, criminalizados, encarcerados res-
pondendo a processos judiciais freqüentemente absurdos109.
Para elaborar esta apresentação foi examinada a documentação que o Ob-
servatório da Confituosidade Social no México elabora dia-a-dia há dois anos
e meio, com uma recopilação de cerca de dois mil confitos sociais no país. Da
mesma forma, obteve-se informação de várias instâncias da sociedade civil e de
organizações sociais.

Agradecemos à Fundação Rosa de Luxemburgo Stifung por sua con-

tribuição a esta pesquisa.

pontos de partida

A criminalização do protesto social está contida fundamentalmente em um
âmbito econômico cada vez mais complexo e difícil para aqueles de menos posses. O
governo federal dá continuidade a política econômica neoliberal impulsionando re-
formas estruturais muito importantes, tais como a privatização parcial da indústria
energética; a abertura comercial do setor agropecuário de grãos básicos; a entrada
de sementes e produtos transgênicos; a privatização da previdência social; a fexibili-
zação das leis trabalhistas (precarização); a mercantilização de recursos naturais e a
instalação de megaprojetos em comunidades indígenas e rurais pobres do país. Por
outra parte, implementou uma reforma fscal que implicou uma série de aumen-
tos nos preços de bens e serviços, bem como em várias tarifas públicas e forçou as
classes médias a pagar um novo imposto que as grandes companhias sonegam.
Como conseqüência das políticas econômicas, mantém-se a tendência de
aprofundamento dos graves problemas de iniqüidade e pobreza que o país está
vivendo, castigando mais os pobres, as mulheres e os povos indígenas. De acordo

108 Os acordos contidos na aspan (aliança para a Segurança e Prosperidade na américa do Norte), e no
Plano Mérida.
109 Tal como os casos de ignacio del Valle sentenciado a 67 anos de prisão por crimes que notoriamente não
cometeu, no contexto dos fatos repressivos de San Salvador atenco, Estado do México. Outro caso é o de
Flavio Sosa e Horacio Sosa, detidos por crimes, os quais um ano e meio depois um juiz federal qualifcou
como inexistentes. No tempo em que permaneceram na prisão, foram submetidos a torturas, transferidos de
um presídio a outro, passando pelo de segurança máxima do país.

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com as Nações Unidas, o México registra uma das maiores desigualdades no mun-
do, ao situar-se em 103.º lugar entre 126 nações estudadas, onde 10% da população
concentra 40% da renda. Contando, além disso, com o nada honroso fato de que
um mexicano seja o homem mais rico do mundo110. Sessenta por cento dos mexi-
canos vivem em situação de pobreza sem poder satisfazer as mínimas necessidades
básicas; e nesse grupo as mulheres representam mais de 60%. Muitos mexicanos
saíram do país para sobreviver. De fato, 24 milhões de pessoas que vivem nos Es-
tados Unidos são de origem mexicana. As remessas do estrangeiro enviadas pelos
mexicanos são a segunda fonte de recursos do país (mais de 23 bilhões de dólares
anuais), apenas inferiores aos recursos do petróleo e maiores que os do turismo.
Nos últimos meses as cifras decresceram em razão da crise econômica nos Estados
Unidos. Os pobres fnanciam os mais pobres e dão suporte à economia: 80% das
remessas se destinam à manutenção das famílias, 6%, à educação e 3%, à moradia.
No entanto, a migração tem sido a principal causa de ruptura do tecido social co-
munitário em povoados e comunidades indígenas. Muito recentemente, algumas
se converteram em fornecedoras de mão-de-obra, como é o caso das comunidades
tzotziles e tzeltales de Chiapas.
Houve uma queda nas expectativas de crescimento econômico. Os pilares
da estabilidade macroeconômica mexicana nos últimos anos têm sido basica-
mente o crescimento dos EUA, o alto preço do petróleo e as remessas de tra-
balhadores nos EUA.

Os Estados Unidos estão vivendo uma forte desaceleração econômica que
afeta as economias mundiais. Essa crise é conseqüência, segundo especialistas, de
uma crise na indústria da construção causada pela especulação fnanceira no ramo
hipotecário. A esta crise se agregam a crise energética e a especulação no mercado de
futuros dos energéticos. México é um dos primeiros países a se ressentir dessas crises
desencadeadas pela dependência econômica dos Estados Unidos. Durante o primeiro
trimestre de 2007, perderam-se no México 180 mil empregos, enquanto a infação,
nos cinco primeiros meses de 2007, atingiu os 4,1%, diante dos 2,2% registrados no
mesmo período de 2006. Da mesma forma, a Comissão Econômica para a América
Latina (Cepal) registra este ano para o México uma queda de 16 posições em com-
petitividade internacional111. Passados 15 anos da frma do Tratado de Livre Comér-
cio (TLCAN), os benefícios não chegaram à maioria da população. Sobre os danos
provocados por esse acordo, podemos dizer que cresceu a dependência comercial,

110 Refere-se a Carlos Slim, dono de empresas de telefonia e diversos meios de comunicação em vários países da
américa Latina (N. da T.).
111 CEPaL. La inversión Extranjera en américa Latina y el Caribe. 2007.

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fnanceira, tecnológica, alimentar, energética, política e militar do México para com
os Estados Unidos. Da mesma forma, aprofundou-se nosso subdesenvolvimento de
acordo com índices nutricionais, educativos e de desigualdade socioeconômica e re-
gional. Dado que o crescimento estadunidense será muito baixo em 2008, entre 1.5%
e 2%, espera-se que o crescimento do México não passe de 2,7%, cifra insufciente para
criar emprego, segundo os especialistas.
O México registra uma deterioração muito grave dos recursos naturais e
dos sistemas ambientais. Multiplicam-se os problemas de acesso, abastecimen-
to, potabilidade e distribuição de água. Os desastres “naturais”, cada vez mais
freqüentes, produzem situações de retrocesso econômico muito severo em vas-
tas regiões do país, como no ano passado em Tabasco, onde as perdas materiais
chegaram a vários bilhões de pesos112.
Nesse contexto, os confitos sociais se multiplicaram e, segundo o informe
do Observatório, existe uma tendência ao seu crescimento tanto em número
como em intensidade113.

Ao analisar os confitos sociais que estão acontecendo no México nos últimos
anos, encontramos três momentos no processo do confito que, embora não sejam
compartimentos estanques, podem nos ajudar a classifcá-los metodologicamente.

1. A primeira fase pode ser caracterizada por uma tendência à negação da
interlocução e à invisibilização dos confitos sociais por parte das autoridades e
dos meios de comunicação respectivamente, bem como pelo não-reconhecimento
da legitimidade dos atores sociais em confito. Nesta fase têm início as mobiliza-
ções sociais pela outra parte em confito, agrupam-se os elementos que compõem
o ator social, afna-se a demanda e começam a ser estabelecidas as bases estratégi-
cas para alcançar o objetivo.

2. A segunda fase se caracteriza pelo escalonamento social da confituosi-
dade no qual se geram formas de enfrentamento mais radicais. Isso se dá como
conseqüência da negação da interlocução e da invisibilização do confito.

3. O terceiro momento se dá a partir do fechamento dos canais de diálogo
e o escalonamento no enfrentamento. Aí gera-se uma tendência de resposta por
parte do Estado com repressão e judicialização, que tem por objetivo o desgaste
dos movimentos.

112 Nos últimos meses, elaboramos um documento de diagnóstico mais amplo com o grupo Paz com democracia,
intitulado “chamado à nação”, em que analisamos de maneira mais profunda o contexto nacional. Cf. www.serapaz.org.mx/paginas/Llamamiento%20a%20la%20nacion%20mexicana.pdf>.
113 Observatorio de la Confictividad Social en México. Op. cit., 2007.

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Esta ação espiral (negação – invisibilização – não-reconhecimento – esca-
lada do enfrentamento – repressão) está reforçada por uma estrutura de leis que
favorecem a ação da repressão praticada pelas autoridades, que se transforma
em uma política sistemática exercida pelo Estado e por uma estrutura de cons-
trução de opinião pública que justifca a política repressiva.
É preciso dizer que ao longo do documento entendemos como confito
social, no marco teórico que adotamos no Observatório da Confituosidade So-
cial no México é :

“um processo de interação contenciosa entre atores sociais que partilham
orientações cognitivas, mobilizados com diversos graus de organização e que
atuam coletivamente de acordo com expectativas de melhoria, de defesa da situ-
ação preexistente ou propondo um contraprojeto social”.

o sujeito Ator Criminalizado

O protesto social está protagonizado, na maior parte dos casos, por setores po-
bres ou empobrecidos que enfrentam o Estado como contraparte. Na maioria dos ca-
sos que o Observatório pode obter como amostra, os atores sociais em confito são os
camponeses e camponesas, os trabalhadores e trabalhadoras no comércio informal, os
operários e operárias e os setores dos bairros pobres urbanos114. De tal maneira que a
criminalização do protesto tem um rosto claro defnido basicamente na classe pobre115.
Dentro deles, os povos indígenas têm um protagonismo relevante com cerca de 12%
dos casos de confito no país, como mostra o seguinte gráfco (gráfco 1):

114 O Centro de Refexión y acción Laboral, a. C., documenta em seus informes como está se dando a femini-
zação da exploração no âmbito do trabalho, particularmente da maquila (linha de montagem) e como gera graves
violações aos direitos trabalhistas Cf. .
115 O pesquisador Roberto Hernández do CidE afrma que “70% dos presos nas penitenciárias do país cometeram
furtos menores sem violência [...] investimos valiosos recursos públicos para castigar a pobreza, e assim agravar
a situação de suas famílias, enquanto que a maioria dos delinqüentes perigosos está em liberdade”. Cf. R. Hernán-
dez. Memorando. El objetivo de la reforma de los juicios orales. CidE, 30 abr. 2006.

gráfco 1

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O gráfco 2 mostra os atores que se enfrentam com o governo segundo os
dados do Observatório da Confituosidade Social. vale dizer que 67% dos casos de
confito registrados em 2007 são contra o Estado.

É importante mencionar que 70% dos casos apontados tendo por contra-
partida o Estado não têm com ele uma interlocução real. Ou seja, o confito não é
processado com a sua contraparte.
Neste processo de confituosidade que chega à repressão, as mulheres e os in-
divíduos dos povos indígenas são focalizados de maneira prioritária, por seu signif-
cado simbólico e de reprodução da luta ou da exemplaridade da ação. O caso de San
Salvador Atenco, localidade mexicana onde as mulheres detidas (em 2002) e alguns
homens sofreram abusos sexuais por parte de elementos da polícia no transporte até
o local de detenção, mostra como o corpo humano, particularmente o das mulheres,
é “objeto de disputa” e “espaço de repressão”. O informe da Relatora Especial Yakin
Ertürk, do sistema das Nações Unidas, sustenta que os altos níveis de violência contra

gráfco 2

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a mulher no México são, ao mesmo tempo, conseqüência e sintoma da generalização
da discriminação e da desigualdade por motivos de gênero. A isso se unem outros
tipos de discriminação, por origem nacional, etnia ou condição socioeconômica que
vão associados a uma falta de acesso eqüitativo à proteção do Estado. Por isso alguns
grupos de mulheres – sobretudo as migrantes, as pobres e as indígenas – são par-
ticularmente vulneráveis à violência116. O caso da jornalista Lydia Cacho exemplifca
claramente como a repressão tem um componente patriarcal quando se trata de mu-
lheres adversárias ou em confito, castigando não apenas a dissidência, mas também
o fato de ser mulher117. Ernestina Ascencio, Adelaida Amayo e Susana Xocohua, em
Zongolica, veracruz, são outros exemplos, neste caso sendo vitimadas por militares.
Os casos em que militares são estupradores, assassinos, provocadores têm se
multiplicado nos últimos meses, como detalharemos mais adiante. Alguns exemplos
conhecidos são as violações ocorridas durante tumultos na localidade de Castaños, em
Coahuila; o estupro de valentina Rosendo Cantú e Inés Fernández Ortega de Acatepec
em Ayutla de los Libres, em Guerrero, e os ataques à população civil indefesa de Nocu-
pétaro, em Michoacán. A própria Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH)
emitiu nas últimas semanas várias recomendações à Secretaria da Defesa Nacional
(Sedena) para os casos de abusos e violações aos direitos humanos118.
Consideramos que é importante deixar registrado que freqüentemente o
sujeito criminalizado é o que mostra mais vulnerabilidade e que é facilmente in-
visibilizado119. Abordemos esta espiral do enfrentamento e vejamos alguns casos
exemplares de confitos que, de alguma maneira, irão sustentando a refexão.

1. não os vejo nem os escuto

Quando, pela primeira vez na história da longa presidência do PRI120, um
grupo de deputados atreveu-se a interromper com gritos e cartazes o Informe
Presidencial para o Congresso, o Presidente Carlos Salinas de Gortari afrmou em
entrevista que “não os vejo nem os escuto”. O discurso presidencial seguiu sem in-
terrupções e foi transmitido pelos meios como se nada tivesse acontecido. Muito

116 Cf. Yakin Ertürk. integración de los derechos humanos de la mujer y la perspectiva de género: la violencia
contra la mujer. Misión a México. informe E/CN.4/2006/61/add.4 del 13 de enero de 2006. Vale a pena con-
siderar que os Estados mais marginalizados do país (Guerrero, Chiapas, Oaxaca, Veracruz e Hidalgo) são os que
contam com maiores recursos naturais e têm altos índices de migração e confituosidade social.
117 O pesquisador Roberto Hernández do CidE afrma que “70% dos presos nas penitenciárias do país cometeram
furtos menores sem violência [...] investimos valiosos recursos públicos para castigar a pobreza, e assim agravar
a situação de suas famílias, enquanto que a maioria dos delinqüentes perigosos está em liberdade”. Cf. R. Hernán-
dez. Memorando. El objetivo de la reforma de los juicios orales. CidE, 30 abr. 2006.

118 Ver adiante.
119 Cf. .
120 Nos informes do Observatório aprofundamos muito mais esse aspecto. Cf. informe 2006 e informe 2007.

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pouca gente no país teve conhecimento de que existiu esse grupo de deputados
que interrompeu o Informe do Governo na Câmara. Foram ignorados e invisibili-
zados pelos meios e pela autoridade.
Da mesma maneira, durante anos, a guerra suja no país foi ignorada e “não
existiu”121. A mesma coisa aconteceu com o massacre de estudantes em Tlatelolco,
Cidade do México, de indígenas em wolonchán, Chiapas ou de ativistas em Made-
ro, Chihuahua, e tantos outros: foram negados, invisibilizados e desconhecidos.
Falar de invisibilização é falar da ação decidida, consciente e autoritária que o
Estado, ou uma de suas partes, gera diante de certos atores sociais que lhe são incô-
modos ou francamente antagônicos. O Estado ignora-nega deliberadamente o ator
ou suas demandas, deslegitimando sua interlocução ou aquilo que pede-exige.
A negação pela via da invisibilização na mídia ou pela não-interlocução da au-
toridade é um modo de fazer política, em que tanto os concessionários dos meios de
comunicação como as autoridades atuam de comum acordo com o fm de eliminar os
adversários. Essa negação é o primeiro degrau do processo de criminalização.
Em muitas ocasiões esta prática política funciona. É uma política dis-
suasória, que inibe as ações e busca incidir fundamentalmente no ânimo das pes-
soas: “você não existe e sua voz não vale”. Ou ainda, “a luta está terminada mesmo
antes que você a inicie”, “suas demandas são absurdas” e “de pouco interesse para
o conjunto social”. E o que é pior: fortalecendo a discriminação, o racismo, o
machismo e enaltecendo o status social: “não ouvem porque você é pobre”, “você
não tem valor porque é mulher”, “você é índio, por isso sua palavra não conta”;
ninguém os vê ou escuta.

O Observatório da Confituosidade Social no México documentou que 70%
dos casos de confito no país têm como contraparte servidores públicos do Estado.
A negação como prática é um dos instrumentos mais freqüentemente usados por
autoridades de qualquer tipo para “resolver” confitos. O caso dos assassinatos
de mulheres é eloqüente, pois as autoridades, ante sua incompetência ou cum-
plicidade para resolver esses crimes, invisibilizam-nos, negam-nos e proclamam
que “são solucionados”. No primeiro semestre de 2008 já foi registrado o mesmo
número de mulheres mortas que em todo o 2007122.
Segundo o constatado pelo Observatório, a negação política termina por
desintegrar uma grande parte dos protestos sociais, manifestados com formas

121 a “ditadura perfeita”, período de 72 anos em que o Partido Revolucionário institucional governou, de maneira
ininterrupta, até o ano 2000.
122 Há que agregar, neste sentido, que no México 50% das mulheres, isto é, uma de cada duas, foram ou são víti-
mas de agressões físicas, psicológicas, sexuais ou de outro tipo, e 30% desses casos acontecem desde o noivado.
Cf. informe inmujeres. dinámica de las relaciones en el noviazgo en mujeres estudiantes de bachillerato, México,
2008. disponível em: .

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pacífcas de confronto com baixo perfl (denúncia pública, marcha, comício). Os
protagonistas destas expressões, freqüentemente dissolvidas, não estão consolida-
dos como atores sociais fortes e seguros. Internamente, os atores sociais se vêm
frustrados diante da incapacidade de encontrar canais de interlocução, em que
sua palavra tenha alguma incidência em relação a suas necessidades ou interesses
afetados, e acaba por se desmobilizar, gerando frustração ou apatia. Em outros
casos, os atores ou movimentos, continuam buscando outras formas mais efetivas
de enfrentamento que, estas sim, permitam que reivindiquem suas demandas. A
esses casos nos referimos na próxima parte do documento.
A negação política, assim entendida, inclui não só a negação da interlocução
com a autoridade, o não-reconhecimento do ator em confito, mas também a in-
visibilização que os meios de comunicação realizam ao não mostrarem certo tipo
de notícias relacionadas com a mobilização social ou com o confito.
Muitos já documentaram essa prática de invisibilização adotada pelos
meios de comunicação123. É fácil saber quando o telejornal e seu controlador
(e sua posição em relação à autoridade) estão a favor da manifestação: aumen-
tam o número dos participantes, exaltam os líderes e sua probidade, enumeram
ponto por ponto as reivindicações pretendidas pelos peticionários, assinalam o ex-
traordinário comportamento dos manifestantes pela limpeza e, é claro, a civilidade
no exercício do direito de reivindicar. Quando o telejornal – o dono da concessão
(e sua correlação com a autoridade) – é contra uma determinada manifestação:
fala dela ressaltando o caos no trânsito que provocou, e não a agenda que está
sendo exigida; fala da corrupção dos líderes, dos desmandos que se produziram, da
sujeira deixada pelos “revoltosos” e pelos “baderneiros”, e de como é triste a “utiliza-
ção” de pessoas “ingênuas” ou “ignorantes”. Os meios de comunicação constroem
para sua audiência um imaginário que facilita ou impede a corrente de solidariedade
para com os atores sociais. O exemplo clássico é o desastre natural, quando o meio
de comunicação constrói rapidamente um imaginário para a audiência, mostrando
uma vítima, em geral uma criança ou uma mulher sozinha ou abandonada. Esse
imaginário é aproveitado pelo controlador do meio que o apresenta com expressões
de solidariedade da audiência. Faz a mesma coisa com atores sociais em confito,
apoiando ou injuriando, mostrando solidariedade ou repúdio.
Os casos de San Salvador Atenco e Oaxaca são muito claros nesse sentido.
No primeiro, as Tvs pró-ofciais repetiram insistentemente, até cansar, a imagem
de alguns jovens moradores batendo em um policial, com isso generalizando a

123 O especialista em meios de comunicação, Jenaro Villamil, tem realizado muitos trabalhos a esse respeito, do
mesmo modo que o ex-legislador Javier Corral.

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conduta de toda a população. A reação foi um contundente repúdio contra os
moradores de San Salvador Atenco, um “linchamento midiático contra o movi-
mento de protesto”. No caso da rebelião de Oaxaca em 2006, grupos de mulheres
tomaram várias emissoras de rádio e a partir daí mudaram a opinião dos ouvintes:
informaram e animaram o movimento rebelde. As conseqüências foram claras,
milhares de pessoas saíram às ruas para apoiar e expressar sua solidariedade com
aqueles que tinham feito barricadas e mobilizações nas ruas124.
Por isso, afrmamos que os meios de comunicação de massa desempenham
um importante papel catalisador, precipitando ou inibindo processos, legitiman-
do-os ou não, e como criador de solidariedade na dinâmica dos confitos sociais.
As autoridades sabem disso e os utilizam.
Certamente existem outros fatores de conjuntura que permitem que os
confitos sejam visíveis, e por isso é que os atores sociais têm que estar atentos para
encontrar a pertinência da visibilidade, saber situar-se. Por exemplo, em 2006, no
contexto do Fórum Mundial da Água realizado na Cidade do México125, centenas
de pequenos confitos relativos a problemas em torno da questão de água foram
visibilizados pela mídia e puderam ter outro nível de interlocução com as autori-
dades que em outros momentos não haviam tido.
Por outro lado, são interessantes as cifras reveladas pelo Observatório no que
se refere aos protagonistas em confitos e sua maneira de transformá-los. Mostram
que em 2007 menos de 20% dos casos de confitos sociais tendo como contraparte
o Estado entrou em algum processo de negociação ou transformação positiva. Isto
é, apenas um de cada cinco confitos que têm como contraparte alguma instância
de governo, ou algum funcionário público, encontra um caminho institucional.
Na maioria dos casos que puderam ser documentados pelo Observatório, o Estado
intervém de maneira impositiva, ou seja, com mecanismos legais, mas sem diálo-
go com a contraparte. O uso da política como instrumento de governo é afastado e
dá lugar à judicialização dos processos confituosos ou o diferimento de respostas.
A repressão mediante as forças da ordem pública tem sido usada de maneira con-
siderável, representando a terceira forma mais recorrente de intervenção diante de
confitos de caráter social, como veremos mais adiante.
Diferentemente dos sindicatos que contam com uma forte estrutura insti-
tucional para a negociação com o Estado e para ter visibilidade na mídia, os mo-
vimentos sociais não-orgânicos e os atores emergentes – como os coletivos, os

124 informes completos sobre os dois casos são: os elaborados pela Comissão Civil internacional de Observação pelos
direitos Humanos (http://cciodh.pangea.org/index_4atenco.html ) e o informe elaborado por Roberto Garretón, auspiciado
pela Obra diakónica alemã, publicado por SERaPaZ, 2008. Cf. . Revisar também os informes da
anistia internacional.
125 O portal ofcial na internet é: .

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grupos não tradicionais ou pouco articulados – são mais facilmente invisibilizados
pelos meios de comunicação e negados pelas autoridades. Os atores sociais que
contam com uma estrutura orgânica mais sólida, tais como as organizações tra-
balhistas ou sindicatos, são, com freqüência, mais facilmente reconhecidos como
interlocutores válidos pelo Estado e pela sociedade em geral126.
Particularmente, os sindicatos tradicionais, provenientes do corporativis-
mo da segunda metade do século XX, e alguns sindicatos independentes contam
com mecanismos institucionais para exercer pressão ante a contraparte empre-
sarial, como a greve, e ademais possuem signifcativa capacidade de mobilização
e organização para pressionar as autoridades127. Da mesma forma, estas estrutu-
ras operárias contam com recursos próprios que podem sustentar lutas com mais
fôlego, do que aquelas que não têm recursos de emergência para contingências de
luta. É por isso que essas instâncias sociais têm maior interlocução com as autori-
dades e é menos fácil sua invisibilização. No entanto, muitas greves de mineiros,
de professores e de construtores em 2006 e 2007 foram negadas pelas autoridades e
invisíveis para a mídia. Outro fator importante dessas estruturas corporativas são
a corrupção e o paternalismo freqüentes em seu funcionamento.
Um confito muito signifcativo nesse sentido é o protagonizado pelas viú-
vas de Pasta de Conchos, em Coahuila, onde um grupo de mulheres valentes de-
manda à companhia e ao seu dono o resgate de seus esposos presos na mina onde
trabalhavam. Esta luta é muito signifcativa por muitos motivos. Um deles é que
as estruturas sindicais patriarcais fzeram muito pouca coisa para defender com
fatos concretos o direito das mulheres de resgatar seus maridos da mina. Em se-
gundo lugar, o fato de as mulheres exigirem o resgate ao dono da companhia, um
dos maiores milionários do mundo, o Sr. Germán Larrea. Este confito é invisível
para os meios, talvez porque são mulheres as protagonistas da demanda. É pre-
ciso ter presente que 31,3% dos trabalhadores estão sindicalizados, dos quais 8,2%
são mulheres e 23,1%, homens, enquanto dos 68,7% restantes, a maior parte não
sindicalizada, são compostos por mulheres.
Outra forma de negação do ator social é a falta de canais orgânicos ou ins-
titucionais entre autoridades e a sociedade, bem como a falta de confança nas ex-
istentes. As estruturas autoritárias do passado não foram reformadas e permane-
cem funcionando na atual administração federal e nas estatais. As instâncias de
administração e procuração de justiça no país têm, em geral, pouco ou nenhum

126 a exceção é o sindicato mineiro, onde existe uma luta frontal desenvolvida a partir da própria empresa e da
Secretaria do Trabalho contra os líderes do sindicato.
127 Vale a pena aprofundar-se no tema com os informes do Centro de Refexão Laboral (Cereal). /Cf. redtdt.org.mx/wwwf/informes/2008/informe%20cereal%2008.pdf>.

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crédito128. No entanto, cabe assinalar que a criação do Instituto Federal de Acesso
à Informação Pública (IFAI) e seus similares nos Estados pode ser considerado um
avanço no que se refere à possibilidade de acesso à informação129.
Os espaços de participação cidadã são pobres, escassos e, em muitos casos,
cooptados pelas autoridades. Existe uma cultura de corrupção e de cumplicidade
que impede ou freia a crítica construtiva e a criação de espaços para a refexão e
elaboração de Políticas Públicas130. É muito ilustrativo o fato de, no verão de 2006,
o Centro de Direitos Humanos Frei Francisco de vitória (CDHFv) ter organizado
com centenas de organizações civis uma série de reuniões para as quais foram
convidados os então candidatos à Presidência da República, com o propósito de
discutir a participação da sociedade civil na criação de Políticas Públicas do Es-
tado mexicano. O objetivo era os candidatos reconhecerem publicamente que a
sociedade civil também tem o direito de gerar políticas públicas. O atual chefe do
Executivo federal cancelou sua participação, negando com fatos o direito de as
instâncias da sociedade civil gerarem políticas públicas. vale agregar, para ilustrar
melhor, que poucos meses depois de assumir a Presidência da República cancelou
o espaço de participação de organizações de direitos humanos que elaboravam o
Plano Nacional de Direitos Humanos131. Para concluir, no fm de maio deste ano
de 2008, o encarregado do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Direitos Humanos retirou-se do cargo, supostamente por gerar espaços
de participação nos quais organizações civis e sociais auxiliavam na elaboração de
políticas de direitos humanos132.
Um exemplo ainda mais claro da falta de uma relação inclusiva, de
reconhecimento de atores sociedade-governo, pode ser encontrado na
implementação dos mecanismos de consulta estabelecidos pelo Convênio
169 da Organização Internacional do Trabalho e na última Declaração dos
Povos Indígenas, que se referem à consulta aos povos indígenas sobre suas
terras, territórios e bens naturais aí contidos. As leis mexicanas obri-
gam a levar em consideração, mediante uma consulta pública, a popula-

128 Estudos recentes mostram que são muito poucos os cidadãos que recorrem ao Ministério Público para apresentar
uma denúncia. Só 23% formulam uma queixa ante o Ministério Público e uma porcentagem muito reduzida consegue
consigná-la perante um juiz. Cf. Roberto Hernández. La Reforma Judicial, CidE, 2006. Segundo o informe dirigido
por Luis de la Barreda, México: atlas delictivo del foro común 1997 – 2006, do instituto Ciudadano de Estudios
sobre inseguridad, a. C. 2008, afrma que apenas uma de cada cinco vítimas de algum delito o denuncia.
129 No entanto, o Estado de Querétaro, em abril de 2008, recuou em seu processo de abertura e transparência, reduzindo
seu instituto Estatal a uma instância que, em vez de exigir informação, simplesmente recomenda que seja outorgada.
130 Cf. OaCNudH. diagnóstico sobre la situación de los derechos Humanos en México, México, 2006
131 ainda que o espaço exista, foi cancelada a real participação de instâncias reconhecidas para propor algo sobre
o tema ao governo federal.
132 amerigo incalcaterra jamais reconheceu publicamente que o governo mexicano tenha solicitado sua saída,
nem o governo mexicano aceitou publicamente o fato de ter pedido sua saída por solicitação das Nações unidas.
O fato é que ele foi embora sem motivo aparente, deixando inconcluso o trabalho de articulação entre algumas
autoridades e instâncias da sociedade civil e social.

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ção indígena-camponesa, da qual querem expropriar terras, normalmente
no interesse da construção de macroprojetos industriais nessa região. No
entanto, realiza-se todo tipo de artimanha para enganar a população em
processos jurídicos, como a mudança de uso do solo, privando-a do mais
elementar direito à informação. Busca-se estabelecer, a todo custo, uma
submissa relação clientelista com a população, por meio de mecanismos
como a compra de votos e a simulação de assembléias agrárias. Em muitas
ocasiões a necessidade econômica e as carências da maior parte da popula-
ção obrigam os atores a trocar bens por subsistência, votos por cestas bási-
cas, água potável por concessões, etc. É preciso recordar que atualmente no
México existem 25,9 milhões de famílias, das quais 2,4 milhões de famílias
monoparentais são encabeçadas por mulheres. A partir do Observatório da
Conflituosidade Social no México podemos inferir que as mulheres par-
ticipam de modo significativo nos conflitos relacionados à demanda de
necessidades básicas, à defesa dos recursos naturais e do território, e à luta
contra a impunidade (45,37%).
Assim é o caso do confito gerado pelo projeto hidrelétrico “La Parota” em
Guerrero. Aí, com base na compra de votos e simulação de assembléias agrárias,
pretendeu-se realizar a mudança de uso do solo ejidal133

, que é requerida para a
expropriação das terras em que se planeja construir a represa. Até a presente data
são três os processos que cancelam as resoluções de supostas assembléias agrárias,
nas quais nem sequer se havia informado a população sobre as questões mais bási-
cas do projeto. Há vários anos foi constituído na região um movimento social a
favor da defesa da terra, denominado “Conselho de Ejidos e Comunidades Oposi-
toras a La Parota” (Cecop), que enfrentou esses mecanismos e planos do Governo
Federal e do Estadual reivindicando seu direito à consulta, à informação e em
defesa dos recursos naturais dessa zona134.
Em uma situação similar em Zimapán, Hidalgo, mentiu-se aos “ejidata-
rios” da zona em que se pretende realizar um depósito confnado de lixo tóxico,
dizendo-lhes que se tratava de uma usina de reciclagem que traria empregos para
a região. Apenas depois da construção da maior parte da infra-estrutura da obra
é que se descobriu do que realmente se tratava. Isso gerou o “Movimento Cívico
Todos Somos Zimapán”, que tem lutado para evitar uma obra que atenta contra
seu já reduzido direito à saúde135.

133 artigo 6.º do Convênio 169 da OiT.
134 O ejido é uma forma de propriedade da terra estabelecida na Constituição de 1917, que estabelece o direito de
usufruto da mesma, mas a propriedade é da Nação.
135 Neste movimento liderado por homens, a maior parte das pessoas que participam são mulheres.

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Situações similares ocorreram em diferentes partes do país, como no pro-
jeto eólico de La venta, em Oaxaca; em Paso de la Reina, em Oaxaca; no Cajón,
Nayarit e outros tantos, nos quais o Estado, por intermédio de seus funcionários,
costuma estar mancomunado com interesses econômicos de grandes empresas
transnacionais, sem considerar a vontade dos moradores da zona onde se realiza o
projeto. As autoridades negam a existência dos atores que lutam contra os mega-
projetos e a imprensa os invisibiliza conseguindo sua “inexistência midiática”136.

O caso é o mesmo para leis federais e estaduais. Nunca se consulta previa-
mente a população, ou pelo menos com os interessados, salvo quando se trata de
grandes empresas. As conhecidas Reformas Estruturais foram sendo aprovadas
uma a uma sem consultas e em clara contradição com a vontade da maioria da
população. No México não se reconhece o direito do povo de plebiscitar uma lei
ou um projeto137

. Não existe o referendo como mecanismo popular de controle
dos acordos de cúpula. Em 2007, as reformas realizadas à Lei do Instituto de
Seguridade e Serviços Sociais aos Trabalhadores do Estado (ISSSTE) não foram
objeto de consulta, nem sequer aos da referida instituição, que eram os implicados
diretos. Geraram-se em todo o país, como resposta, movimentos de repúdio e
centenas de milhares de “amparos”138

contra a modifcação legal139

. A modif-
cação constitucional do status da empresa Pemex é um caso atípico, pois há algu-
mas semanas foi iniciado um movimento civil muito amplo que culminou com a
ocupação simbólica das câmaras de legisladores resultando em um pacto com os
partidos para iniciar um processo de debates com especialistas por 71 dias140
.

Antes de chegar ao fm deste primeiro passo do processo de criminalização,
vale a pena dizer que os povos indígenas com maior protagonismo ou visibilidade em
confitos sociais, segundo as cifras do Observatório em 2007, foram: Choles, Zoques,
Tlapanecos, Nahuas, Purépechas, Mixtecos, Zapotecos, Tojolabales, Mixes, Trikis,
Tzeltales y Tzotziles. O seguinte gráfco (gráfco 3) mostra esse protagonismo.

136 Há muita informação disponível sobre o particular. Vale a pena ver um vídeo de sua própria perspectiva que
está disponível em: . Também elaboraram um
material fílmico ganhador de um “ariel” chamado Zimapan, história de um confnamento, elaborado por Juan
Manuel Sepúlveda em 2007.
137 Somente no distrito Federal existe esta possibilidade mediante a lei de participação cidadã publicada em 17
de maio de 2004.
138 O amparo é um recurso legal semelhante ao habeas corpus de alguns países da américa Latina.
139 Em 22 de março de 2007, a maioria integrada por deputados do PaN, PRi, PVEM, Panal e alternativa (313
votos) aprovou a nova lei do iSSSTE, que contempla a criação de um novo sistema de pensões, aumenta a idade
para a aposentadoria, constitui uma Caixa de poupança pública (Pensionissste) com vigência de apenas três anos,
e promete sanear as fnanças da instituição. até dezembro de 2007 havia sido interposto cerca de um milhão de
amparos (habeas corpus) contra a lei.
140 O fórum se chama “análise Constitucional das iniciativas de Reforma Energética” que está sendo discutido
no Senado.

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vejamos alguns casos menos conhecidos que podem exemplifcar o que
foi exposto até agora no que se refere à criminalização do protesto social e como
se fabricam delitos sempre que se quer, como nos casos apresentados, dos quais
participam elementos do exército.

Frente em defesa da Água em Cuautla

A Frente em Defesa da Água de Morelos (FDAM) tem travado nos últimos
anos uma forte luta em defesa da água, particularmente em Cuautla nesse Estado.
Ao longo de 2007 essa luta intensifcou-se contra a construção de um posto de
gasolina. O posto da companhia Milenium 3000 apresentava mais de 50 anomalias
e irregularidades detectadas pelos próprios moradores, que as denunciaram às au-
toridades, enfatizando que causaria grande dano ao manto aqüífero que abastece
80% da população de Cuautla. O posto foi construído a 350 metros do poço de
água “El Calvario” e no início de janeiro de 2007 os ativistas Jonathan González
Suárez, Noe Neri e Silvia Espinosa de Jesús denunciaram os riscos de contamina-
ção da água que poderiam ser causados pelos tanques subterrâneos da empresa.
A primeira resposta das autoridades municipais e do Estado foi negar a
validade das demandas dos moradores, acusando-os de ignorantes, que “não
conhecem regras ambientais”. Diante da insistência dos moradores em revisar a
licença de construção do local ou de localizar o posto em outro lugar, o confito
cresceu: as autoridades negaram interlocução com os moradores, enquanto tra-
tavam com a empresa construtora e com seu dono, Rafael Anguiano Aranda. A
imprensa local, próxima dos interesses da empresa, ou comprada por ela, quali-
fcou os moradores nos mesmos termos, negando-lhes o direito de réplica a suas

gráfco 3

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acusações. No dia 4 de maio de 2007 policiais municipais e estaduais irrompe-
ram em uma manifestação, dissolvendo-a. Nesse mesmo dia, correu o rumor de
que existiam ordens de detenção contra os líderes do protesto.
A estratégia de difundir rumores de “ordens de detenção”, que por
princípio são secretas para que possam ser cumpridas141

, é utilizada como
mecanismo para amedrontar e dissuadir os participantes das manifestações de
continuar a exercer o seu direito de protestar ou reivindicar.
Tanto a imprensa como as autoridades iniciaram uma campanha de des-
prestígio contra o movimento e a favor da empresa de combustíveis. A emis-
sora de rádio local disse, durante semanas, que os ativistas eram agitadores que
pouco estavam interessados na ecologia e que seu interesse era desestabilizar
o governo estadual. Acusaram-nos de estar relacionados com outros grupos
sociais “perigosos” ou “subversivos”.
Em 10 de outubro de 2007, de regresso de um fórum realizado em
Guadalajara, o Tribunal Latino-americano da Água142

, em que denuncia-
ram os atropelos sofridos pelo seu movimento em defesa da água, os ativistas
Jonathan González Suárez, Silvia Espinosa de Jesús e Noe Neri sofreram um
acidente no qual o motorista do veículo que chocou com o deles fugiu. Na
ocasião perderam a vida os dois primeiros. No dia 30 de outubro, elemen-
tos da polícia preventiva municipal detiveram com violência Margarito Neri
Gutiérrez e Gualberto Noé Neri Hernández, pai e flho, acusados de ameaçar
uma ofcial de justiça.

O confito foi reprimido e a partir de então o posto está funcionando.
No fundo, o confito permanece, pois as autoridades não atacaram de maneira
alguma as raízes do problema.

o movimento em prol do melhoramento do Agro Guanajuatense

O Movimento em Prol do Melhoramento do Agro Guanajuatense (MPMAG)
data do ano de 1999. Desde esse período os camponeses integrantes da agrupação
empreenderam ações buscando apoio governamental, sobretudo para o subsídio
às altas tarifas elétricas. Esse movimento tem fortes articulações com outras orga-
nizações camponesas, particularmente no Estado de Chihuahua.

141 Quando a detenção é ordenada pela autoridade judicial, ou seja, uma vez que o Ministério Público já exerceu
a ação penal, o juiz pode ordenar a detenção do provável responsável de um delito. a ordem de detenção deve
ser dada por escrito por um juiz criminal, fazendo específca referência à pessoa à qual se refere: nome completo,
delito. O juiz só pode ditar uma ordem de detenção quando o delito de que é acusada uma pessoa for daqueles aos
quais corresponde uma pena privativa da liberdade e que existam dados que acreditem o corpo do delito e que
tornem provável a responsabilidade do sujeito contra o qual se exerce a ação criminal. a ordem de detenção deverá
ser secreta até ser cumprida.
142 disponível em: .

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Em 2007 o movimento adquiriu novo realce pelo fato de ter demanda-
do tarifas mais justas para a energia elétrica e nos subsídios para os campone-
ses usuários do serviço. No entanto, os funcionários do Estado não intervieram
porque, presumivelmente, se tratava de um assunto de particulares com a em-
presa, a Comissão Federal de Eletricidade (CFE). Cabe dizer que a empresa é
paraestatal federal.

Os camponeses, ao não se sentirem ouvidos pelas autoridades, iniciaram o
confronto e realizaram marchas, comícios e outras formas de pressão para serem
atendidos e para que a imprensa tornasse visível sua agenda. A resposta das autori-
dades do Estado de Guanajuato foi a detenção do líder local do movimento, Rubén
vázquez, acusado de delitos políticos.
Diante da detenção de seu líder, os camponeses organizados trocaram sua
principal demanda, de subsídios por sua liberdade. Rubén vázquez foi libertado
poucos dias depois, mas não se cumpriram as demandas dos camponeses no to-
cante a sua agenda.

Em 14 de março do presente ano, foi assassinado o dirigente da organiza-
ção Agrodinâmica Nacional, Armando villareal Martha, principal promotor dos
protestos contra o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN), e
articulado com o MPMAG.

O terror, a ameaça de prisão e a troca de presos são fatores importantes de
desmobilização de grupos camponeses em muitos Estados do país.

Casos de vítimas do processo de militarização no país

Há poucas semanas a Comissão Nacional de Direitos Humanos emitiu oito
documentos (Recomendações) que se referem justamente à forma como atuam e-
lementos do exército no presumido “combate ao narcotráfco”. São oito casos exem-
plares de muitos que certamente devem existir e que ninguém se atreve a denunciar.
Copio boa parte da síntese que a própria CNDH realiza de suas recomenda-
ções. O leitor atento perceberá o modus operandi repetitivo, sem importar se estão
tratando com criminosos ou não. Já de saída criminalizam-se e culpam-se os civis.
Nas narrações aparece a forma em que operam não apenas os maus elementos do
exército, mas todo um mecanismo que aceita com normalidade a tortura, as detenções
arbitrárias, os maus-tratos, etc., sem nada fazer, nem levantar denúncias judiciais.

santiago de los Caballeros

O processo de militarização do país está fazendo com que se criminalize a
população sem motivo nenhum. Esta situação está gerando tensões, medo e uma

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situação de sentimento de perseguição. Há que recordar que a presença do Exército
nas ruas do país responde a um estado de extrema exceção, que nada tem a ver com
a legalidade ou com a Constituição.
Em 26 de março de 2008, aproximadamente às 21 horas, na comunidade de
“Santiago de los Caballeros”, município de Badiraguato, Estado de Sinaloa, elemen-
tos militares dispararam suas armas de fogo contra o veículo Hummer H2, onde se
encontraram Zenón Alberto Medina López (30 anos), Manuel Medina Araujo (29
anos), Edgar Geovanny Araujo Alarcón (28 anos), Irineo Medina Díaz (53 anos),
Miguel Ángel Medina Medina (31 anos) e wilfredo Ernesto Madrid Medina (22
anos). Foram mortos os quatro primeiros e ferido o último. O motivo alegado foi
que eles não reduziram a velocidade em um bloqueio militar. A CNDH emitiu a
recomendação 036/08 por esse caso143
.
Os senhores Celso Eleazar Pérez Peña e Jaime Olivas Rodríguez foram deti-
dos arbitrariamente por elementos do exército no dia 26 de março de 2008 quan-
do circulavam em um quadrimotor na estrada de terra a caminho de “Santiago de
los Caballeros”, município de Badiraguato, Sinaloa. Eles foram retidos deitados de
bruços no chão por aproximadamente sete horas depois da detenção sem que fosse
estabelecida sua causa legal144
.

reynosa, tamaulipas

Em 17 de fevereiro de 2008, atendendo a uma informação jornalística, a
CNDH iniciou uma investigação que concluiu com a verifcação de violações aos
direitos humanos por parte de elementos do exército. Os fatos violadores desses
direitos se referem: ao uso excessivo da força pública e das armas de fogo; viola-
ção do direito à vida e à integridade e segurança pessoal; à legalidade e segurança
jurídica; e ao exercício indevido da função pública por parte de elementos da Se-
cretaria da Defesa Nacional, em agravo dos senhores Sergio Meza varela e José
Antonio Barbosa Ramírez.

A síntese da Recomendação assinala que os servidores públicos agregados
à Secretaria da Defesa Nacional excederam-se no uso da força pública e das armas
de fogo, no dia 16 de fevereiro de 2008, “quando, no momento em que tentaram
deter a marcha do veículo marca Chrysler Dodge Sebring, duas portas, conver-
sível, de cor verde, capota cor bege, modelo 1998, placas 884 GGS, do Texas, Es-
tados Unidos da América, acionaram suas armas disciplinares em direção ao au-
tomóvel citado, o que privou da vida o senhor Sergio Meza varela. De acordo com
os relatórios médicos de autópsia da Procuradoria Geral de Justiça de Tamaulipas,

143 CNdH. Recomendação 036/2008, julho 2008.
144 idem

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a mencionada pessoa faleceu em conseqüência de disparo de projétil de arma de
fogo. Além do mais, o senhor José Antonio Barbosa Ramírez foi ferido por projétil
de arma de fogo, como foi declarado no relatório médico prévio de lesões feito
para o senhor José Antonio Barbosa Ramírez, datado de 16 de fevereiro de 2008,
emitido por um perito médico forense da Procuradoria Geral de Justiça do Estado
de Tamaulipas, sem que existisse justifcativa alguma, pois os passageiros do citado
veículo não portavam armas de fogo, o que constituiu um abuso de poder contra
os governados e se traduziu em uma clara violação de seus direitos humanos”145
.

Huetamo, michoacán

Elementos do exército assassinaram o menor víctor Alfonso de la Paz Or-
tega quando realizavam um operativo no contexto do “combate ao narcotráfco”.
Segundo a CNDH, os elementos do Exército mexicano “transgrediram o direito à
vida e violaram o que estabelecem os Artigos: 14, parágrafo segundo, da Constitui-
ção Política dos Estados Unidos Mexicanos, 6.1 do Pacto Internacional de Direi-
tos Civis e Políticos, 4.1 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, 6.1 e
6.2 da Convenção sobre os Direitos da Criança, e 3.o da Declaração Universal de
Direitos Humanos, e os números 4, 9 e 20 dos Princípios Básicos sobre o Emprego
da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Encarregados de Fazer Cumprir
a Lei, relacionados com o direito à vida, em agravo do menor víctor Alfonso de la
Paz Ortega, que faleceu no lugar dos acontecimentos, bem como de Juan Carlos
Peñaloza García, que não apenas foi ferido a golpes por pessoal militar, mas colo-
cado em grave risco de também perder a vida, por encontrar-se acompanhando o
menor morto violentamente146
.
Estes fatos aconteceram apesar das medidas cautelares solicitadas pela
própria Comissão para a proteção das vidas e direitos dos moradores da região.

tanhuato, michoacán

Em 7 de outubro de 2007, o senhor Antonio Paniagua Esquivel foi ata-
cado por elementos do exército mexicano em atentado contra a sua propriedade
(invasão de domicílio, danos e roubo), sendo vítima de tortura, tratamento cruel
e/ou degradante, detenção arbitrária, violação ao direito à integridade e segu-
rança pessoal, e à legalidade e segurança jurídica. Os fatos ocorreram aproxi-
madamente às cinco horas, no município de Tanhuato, no Estado de Micho-
acán. Segundo relata a CNDH em sua Recomendação 033, elementos do 37.º

145 CNdH. Recomendação 035/2008, México, julho 2008.
146 CNdH. Recomendação 034/2008, México, julho 2008.

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157

Batalhão de Infantaria do Exército MEXICANO, lotados na Base de Operações
Mistas de Zamora, Michoacán, introduziram-se em seu domicílio sem ordem
judicial, danifcaram seu imóvel, subtraíram objetos de valor, detiveram-no ar-
bitrariamente e lhe causaram lesões mediante procedimentos de torturas, entre
os quais colocaram uma toalha em seu rosto, jogaram água, sentindo que se
afogava; e que houve um momento em que colocaram em seus genitais um tubo,
sentindo choques elétricos, para posteriormente colocá-lo à disposição do agente
do Ministério Público da Federação, onde foi iniciada a averiguação prévia AP/
PGR/MICH/LP/214/2007, sob o argumento de posse de armas147

.

Chauz, municipio de la Huacana, michoacán

No dia 21 de agosto de 2007, às 22 horas, segundo a Recomendação 032/2008,
“o senhor Jesús Picazo Gómez se encontrava fora da casa de sua tia, localizada em
Uruapan, Michoacán, quando cinco elementos do Exército mexicano, comanda-
dos por um tenente, perguntaram seu nome e endereço. Além disso, solicitaram-
lhe seu título de eleitor e, ao constatarem que era morador da localidade de Chauz,
município de La Huacana, Michoacán, detiveram-no, subtraíram-lhe uma pul-
seira tipo escrava, um relógio, três anéis, uma corrente, uma medalha e a quantia
de $3,000.00 (três mil pesos). Em seguida o jogaram no chão dando-lhe pontapés
por todo o corpo, vendaram-lhe os olhos e, posteriormente, transferiram-no para
a Zona Militar de Uruapan, Michoacán, onde o despiram e lhe puseram uma bolsa
de tecido na cabeça, jogaram-no no chão e lhe amarraram mãos e pés, atirando
água em sua cara, enquanto o golpeavam no abdome. Permaneceu despido du-
rante toda a noite em um pequeno quarto”. A narração prossegue e agrega que,
“aproximadamente, às oito horas de 22 de agosto de 2007, o senhor Jesús Picazo
Gómez foi levado a um quartel militar, na cidade de México, e nesse lugar foi exa-
minado por um médico. Depois disso, alguns elementos militares continuaram a
golpeá-lo e a jogá-lo contra a parede, enquanto lhe mostravam umas fotografas
e lhe perguntavam por algumas pessoas. Entretanto, ao responder que não as
conhecia, começaram a meter-lhe a cabeça num tonel cheio de água e, ao mesmo
tempo, lhe davam choques elétricos no estômago. Algum tempo depois o transfe-
riram para a agência do Ministério Público da Federação em Morelia, Michoacán,
com o argumento de que presumidamente portava duas armas de fogo, três quilos
de maconha, 30 gramas de perinol e vários cartuchos”. A Recomendação agrega
que, aproximadamente às três horas de 25 de agosto de 2007, diversos elementos
do Exército mexicano se apresentaram no domicílio do senhor Santos Picazo Car-

147 CNdH. Recomendación 033/2008, México, julho 2008.

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ranza, localizado no Rancho El Chauz, município de La Huacana, Michoacán, e
presumidamente seis deles entraram de forma violenta na sua moradia, revistando
toda a casa. Além disso, atiraram no chão sua flha menor DOPG, apesar de estar
grávida, e apontaram suas armas à esposa, chamada María Delia Gómez Parra, por
ter defendido sua descendente. Ademais, no dia seguinte os mencionados mili-
tares fotografaram e gravaram vídeos de toda a casa, automóveis e família148
.

naco, sonora

A Comissão Nacional de Direitos Humanos em sua Recomendação 031/2008
relata que, no dia 3 de agosto de 2007, elementos militares que se encontravam per-
correndo as imediações do município de Naco, no Estado de Sonora, detiveram três
pessoas que estavam indo trabalhar em um rancho: Mario Alberto Sotelo Estrada,
Filomeno Guerra Flores e Fausto Ernesto Murillo Flores. Este último desapareceu a
partir dessa detenção e as outras duas pessoas foram transferidas para o Ministério
Público da Federação na cidade de Agua Prieta, Sonora. Agrega a Recomendação
que, em 4 de agosto de 2007, foi encontrado o cadáver do senhor Fausto Ernesto
Murillo Flores em um local denominado “La Morita”, à altura do km 28 da rodovia
Cananea-Agua Prieta, Sonora, cujo corpo se encontrava golpeado e com lesões que
provavelmente lhe provocaram a morte149
.

Colonia José maría morelos e pavón em morelia, michoacán

No dia 13 de junho de 2007, segundo a Recomendação 031/2008 da CNDH,
o senhor Óscar Cornejo Tello “encontrava-se em uma casa situada no bairro José
María Morelos y Pavón em Morelia, Michoacán, acompanhado de dois menores,
assistindo a um flme. Nesse momento, perceberam que elementos do Exército
mexicano estavam rompendo os vidros da porta que divide a cozinha e os quar-
tos e em seguida gritaram: ‘abre a porta, flho da puta’. Tendo o ofendido aberto
imediatamente, 15 elementos militares ingressaram no domicílio, jogando-o ao
chão e começaram a lhe bater e perguntar se ele era o tal ‘chino güenses’. O ofen-
dido respondeu que não e ante tal negativa os elementos do instituto armado lhe
taparam a cara com uma peça de roupa, a molharam e lhe deram choques elé-
tricos nos testículos; inclusive lhe puseram a mesma peça de roupa no pescoço
para cortar-lhe a respiração. Os referidos golpes duraram aproximadamente
30 minutos, durantes os quais recebeu pontapés, tapas e socos e utilizaram um

148 CNdH. Recomendação 032/2008, México, julho 2008.
149 CNdH. Recomendação 031/2008, México, julho 2008.

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quadro que estava no imóvel para feri-lo. Que devido ao ofendido não ter de-
clarado o que queriam, os elementos militares optaram por levá-lo a uma espécie
de ronda por diferentes partes da cidade para, posteriormente, transferi-lo à 21.ª
Zona Militar; que o anterior pode ser identifcado pelo ofendido, pois, ao chegar
à referida guarnição, descobriram-lhe a cara; que nesse traslado algemaram suas
mãos provocando-lhe feridas no pulso e imobilidade na mão direita; que durante
o tempo que esteve na citada Zona Militar pôde escutar a conversa entre dois
elementos militares, na qual um deles afrmava ‘já fzemos cagada’ e outro mencio-
nava ‘é preciso atirar-lhe a bomba’. Posteriormente transferiram-no às instalações
da Procuradoria Geral da República, pondo-o à disposição da Agência Terceira
do Ministério Público Federal, os quais ao ver a gravidade dos ferimentos que
apresentava levaram-no a um médico. Só no dia 15 de junho de 2007, quando
teve a oportunidade de depor diante do representante social da Federação, pôde
conhecer a declaração da base de operações mistas, onde constava que foi detido
em um veículo branco, de marca Seat, por volta de uma hora da manhã com
armamento, um distintivo com as insígnias da Agência Federal de Investigação,
umas algemas, coldres para pistolas, uma calça preta tipo comando, um par de
botas e um uniforme tipo militar camufado. Ele declarou que isso era contrário
à verdade, mas, apesar disso, foi levado para o Centro de Readaptação Social
‘Lic. David Franco Rodríguez’.
Da mesma forma, da investigação realizada se infere que, posterior ao arbi-
trário e conseqüentemente ingresso ilegal ao domicílio onde se encontrava o ofen-
dido por elementos do Exército mexicano, este foi vítima de sofrimentos físicos,
consistentes em golpes, pontapés, tapas, socos e choques elétricos nos testículos,
em tapar-lhe a cara com uma peça de roupa molhada com a intenção de impedir
que respirasse normalmente, e inclusive amarrá-lo pelo pescoço com a mesma
peça, tudo isso com a intenção de que confessasse se era o ‘chino güences’, o que,
sem dúvida, traduz-se em atos de tortura”150
.

sonoyta, sonora

Em sua Recomendação 029/2008 a CNDH relata que, “em 7 de junho de 2007,
aproximadamente às 19h30min, o senhor José Fausto Gálvez Munguía se encontrava
com outras pessoas na base do cerro de ‘La Lesna’, localizado na fronteira com os Esta-
dos Unidos da América. Nesse momento, chegaram dois veículos do Exército mexi-
cano com pessoal que gritava que era da 40.ª Zona Militar e lhes apontara as armas
perguntando quem era seu chefe e onde se encontrava a maconha e que ‘iam fodê-lo’

150 CNdH. Recomendação 030/2008, México, julho 2008.

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e inclusive ‘matá-lo’. Eles explicavam aos elementos militares que a razão de estar nesse
lugar era porque estavam esperando um ‘pollero’151

que os passaria para a cidade de
Phoenix, o que motivou que um dos soldados lhe desse um pontapé nas costelas e
gritasse ‘você está mentindo cornudo’. ‘Está esperando droga para passar, diga quem é
seu patrão e onde está ou eu vou te foder.’ Foi então que outro dos elementos militares
agarrou-o pelos cabelos e ordenou a um a que chamava de cabo: ‘leva ele pro carro que
este cornudo aí vai cantar’. Nesse momento, os elementos militares dispararam suas
armas ao lado das cabeças das pessoas que o acompanhavam. Trataram de sacar-lhe
informação, mas por ignorá-la não pôde responder a suas perguntas, motivo pelo qual
um militar, de nome SP1, deu-lhe um soco na boca; que o desceram da caminhoneta,
lhe vendaram os olhos, o arrastaram pelo chão. Foi quando lhe meteram um tubo na
boca e o obrigaram a beber um líquido com sabor a álcool com o propósito de afogá-
lo; que, por causa da quantidade, esteve vomitando; lhe meteram nas unhas das mãos
e pés uns pedaços de madeira que mexiam para fazê-lo sofrer, até que lhe arrancaram
as unhas. Mesmo assim, sangrando pelo nariz e ferido, os militares o abandonaram
inconsciente e que despertou entre às 11 e 12 da noite moribundo, e foi auxiliado por
uma pessoa que o levou ao hospital” 152
.

2. o confito escalonado

Poucas semanas depois de seu levante em armas, os zapatistas enfrentaram
severas críticas por parte de alguns meios de comunicação em virtude do uso
de “passa-montanha”.153

A resposta que deram foi muito simples: “tivemos que
colocar passa-montanhas para ser alguém, pois quando não o usávamos éramos
simplesmente os índios de sempre e ninguém prestava atenção em nós”.
Como já mencionado, os atores sociais que se encontram em uma situação de
confito recorrem a diferentes formas de manifestação para tornar visíveis suas de-
mandas. Tais formas de manifestação, inicialmente, são normalmente apegadas ao
marco normativo contemplado pela lei como formas de liberdade de expressão – a
estas nos referimos como formas institucionais de enfrentamento social. No entanto,
a maioria dessas formas são estratégias de confrontação de perfl muito baixo que
não exercem pressão sufciente, a não ser em caso de grupos muito numerosos. Os
meios de comunicação não as considera relevantes e são invisíveis, e as autoridades
freqüentemente não consideram seus participantes como interlocutores signifcati-
vos e portanto os negam. As formas de enfrentamento mais usadas são a denúncia

151 Também chamados de “coiotes” ou “gatos”, são trafcantes de pessoas e agenciadores de mão-de-obra ilegal
na fronteira do México com os Estados unidos (N. da T.).
152 CNdH. Recomendação 029/2008, México, julho 2008.
153 Gorro de lã que deixa de fora apenas os olhos (N. da T.).

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pública, em algum meio de comunicação ou diretamente perante a sociedade civil,
com cartazes ou panfetos; as marchas, os comícios e as demandas legais.
Diante da negação das autoridades e a invisibilização dos meios, os movi-
mentos sociais mudam sua dinâmica recorrendo a formas de expressão de suas
demandas que se localizam na fronteira do marco normativo. A estas formas de
confrontação mais diretas com o Estado denominaremos de formas não-institu-
cionais de enfrentamento social.
O uso de algumas delas, como os bloqueios a certas estradas, tornou-se mais
recorrente pelos atores sociais em confito. Outras, como o enfrentamento físico, a
retenção física de autoridades, a invasão de instalações ou o protesto armado, são
normalmente separadas da legitimidade do contexto social que as acompanha e
do que se trata de reivindicar, sendo catalogadas pelo Estado como delitos graves
que são castigados. Neste sentido, os dirigentes sociais que encabeçam os movi-
mentos deixam de ser considerados interlocutores válidos e são perseguidos como
delinqüentes. Por exemplo, o caso dos dirigentes da Assembléia Popular dos Po-
vos de Oaxaca, que um dia dialogavam de forma civilizada com a mais alta auto-
ridade política do país e no dia seguinte foram detidos como criminosos e presos
em presídios de segurança máxima.
Compreendendo que o confito social é na verdade um processo e não
um evento que surge de repente, é evidente que um ator social buscando reivin-
dicar suas demandas utiliza várias estratégias de enfrentamento ao Estado, de-
pendendo da dinâmica com a qual o confito se vai desenvolvendo. A utilização
dessas diferentes estratégias, por sua vez, muda os diferentes momentos e ritmos
de confrontação que se dão com o Estado e infui, de alguma maneira, no tipo
de resposta que ele dá. Portanto, o confito pode chegar a níveis de enfrenta-
mento mais direto, em função da interação que existiu entre os atores ao longo
do processo, gerando, assim, aquilo que entendemos como escalonamento de
um confito. Esse é o caso dos estudantes da Escola Normal de Ayotzinapan, em
Guerrero. Eles iniciaram o movimento com comícios e uma marcha e, pouco
a pouco, escalonaram o confronto para se fazerem visíveis e gerarem uma cor-
relação de forças com seus interlocutores, realizando um plantão diante do Con-
gresso do Estado e depois tomando o posto de cobrança de pedágio da rodovia
Cuernavaca – Acapulco.

Normalmente, ao ir se escalonando, um confito vai se tornando mais com-
plexo, deixando no percurso do seu processo presumíveis delitos, demandas legais
e acusações. Em certos casos de confronto o Estado toma prisioneiros como reféns
para negociar sua libertação em troca da desmobilização do processo social de
protesto. Freqüentemente se vê que, quando um movimento social em confito
escalona seu enfrentamento, o Estado vai tomando reféns e ameaça com prisões e
encarceramentos para “baixar o tom do movimento”.

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Segundo dados do Observatório da Confituosidade, a maior parte dos
atores sociais recorre, em um primeiro momento, para exigir suas demandas, a
formas de enfrentamento institucional não-violentas. Mais de 60% das estratégias
de confronto utilizadas por atores sociais são institucionais.
No entanto, excepcionalmente também existem certos grupos de atores so-
ciais que tendem mais ao enfrentamento físico, principalmente diante de confitos
internos ou com outras agrupações da mesma tendência. Esse é o caso das disputas
territoriais dos concessionários de transporte, entre simpatizantes ou militantes de
partidos políticos e alguns grupos camponeses e sindicais.
O seguinte gráfco (gráfco 4) mostra quais são as estratégias de enfrenta-
mento que os atores sociais adotam em seus confitos.

A política de negação do ator por parte de autoridades e a invisibilidade são
elementos fundamentais para que os atores sociais em confito sintam a necessidade
de escalonar sua expressão de confronto. Ou seja, os movimentos sociais que estão
mobilizados por alguma demanda e não se sentem atendidos mudam suas estraté-
gias de enfrentamento para colocar-se em um nível diferente em relação à autori-
dade. Ao elevar o “tom”, o enfrentamento se torna mais visível e mais vulnerável à
crítica dos meios e do uso da mídia para criminalizar seu protesto.

gráfco 4

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Assim, no processo de confrontação com o Estado, a maior parte dos con-
fitos sociais no país recorre, em primeira instância, à denúncia pública para exigir
suas demandas. Posteriormente, organizam uma marcha ou comício para exigir in-
terlocução e, apenas quando não são ouvidos, acorrem aos bloqueios como método
de pressão. Até esse momento costumam ter alguma resposta por parte do governo,
ainda que freqüentemente não seja favorável, tanto no conteúdo como na forma.
Desse modo, o movimento necessita demonstrar sua força com formas de enfrenta-
mento ainda mais diretas, que o legitimem pelo menos como interlocutor represen-
tativo e válido diante do Estado, e seja contemplado.
A radicalização é parte do processo de uma errática ou nula interlocução com
os representantes do Estado, e as expressões mais combativas do movimento ganham
espaço ao ver que não as atendem e as difamam. No interior do movimento social
acontecem com certa freqüência fssuras entre a liderança moderada e propensa ao
diálogo, e a liderança radical e combativa. Esta fase do confito é usada pelas autori-
dades e aguçada pela mídia para qualifcar os radicalizados de “ultras”, “intransigentes”,
“membros de organizações armadas”, “terroristas”, “desestabilizadores”, etc. Enquanto
isso, a autoridade busca corromper, comprar ou chantagear o grupo moderado.
Do mesmo modo, é nessa etapa que em alguns confitos aparecem os que pro-
vocam pancadaria, os “porros” (grupos de arruaceiros), os infltrados, que iniciam o
trabalho de intimidação, espionagem e desestabilização das lideranças, aguçando as
contradições internas e provocando o enfrentamento físico. As acusações internas de
“traição” e de “vendido” são utilizadas para quebrar a luta. As ameaças são freqüentes,
sobretudo contra as mulheres, e os “incidentes de segurança” se multiplicam. As mu-
lheres, com maior freqüência que os homens, são seguidas até em casa. As portas das
casas de alguns ativistas são pichadas com inscrições ameaçadoras. As “mensagens”
que vêm das autoridades, mais que de busca de diálogo, são de ameaça.
Nessa fase aparecem com freqüência as dissidências, as expressões de outros
parceiros que pedem o contrário. Por exemplo, em Zimapán, Hidalgo, onde apare-
ceu um pequeno grupo impulsionado por autoridades do Estado e fnanciado pela
empresa que constrói o local para o despejo de resíduos tóxicos. Esse grupo de mo-
radores de Zimapán, camponeses e pessoas pobres, apóia decididamente as ações da
empresa e se enfrenta, primeiro verbalmente, e depois a golpes contra seus pares que
lutam pela saúde da comunidade e pela não-construção do lixão tóxico154

. Outro
exemplo é o confito pela defesa da terra contra a construção da grande represa “La
Parota”. A empresa elétrica (CFE) e o governo do Estado de Guerrero apóiam o
sector de camponeses que são a favor do megaprojeto e os fnanciam para enfren-

154 No dia 1.º de maio infltrados em uma marcha bateram em Crescencio Morales, um dos dirigentes do movi-
mento “Todos somos Zimapán”, ,até produzir nele uma fratura de crânio.

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tar os opositores. Nas escolas e universidades se vêem, com muita freqüência, gru-
pos de arruaceiros fnanciados e apoiados pelas autoridades educativas batem nos
estudantes que se manifestam. Também são apoiados pelas mesmas autoridades os
setores “ultras” que “radicalizam o movimento” e facilitam a criminalização midiáti-
ca e real dos atores peticionários.
vamos ilustrar com um caso de confito o que dissemos nesta segunda parte.

Comunidade de santa Ana Xalmimilulco, puebla,
contra a empresa ecotérmica de oriente

Durante o mês de abril de 2007, moradores da comunidade Santa Ana
Xalmimilulco, município de Huejotzingo, Puebla, exigiram o fechamento de-
finitivo da empresa Ecotérmica de Oriente dedicada ao manejo de resíduos
biológico-infecciosos, em virtude dos danos que produz ao meio ambiente e à
saúde dos habitantes.

Graças aos protestos, o forno da indústria foi fechado. Entretanto, no dia
26 de abril o presidente auxiliar de Santa Ana Xalmimilulco, Óscar Juárez Macuitl,
denunciou que, embora o forno já não funcionasse, a empresa continuava operan-
do sem a licença ambiental correspondente, o que constitui uma violação à Lei de
Proteção ao Ambiente e ao Equilíbrio Ecológico do Estado de Puebla. Apesar da
denúncia, as autoridades estaduais e as ambientais federais ignoraram a situação.
Em 8 de maio de 2007, cerca de 500 habitantes da comunidade se reuniram
para realizar um bloqueio na rodovia México–Puebla com a fnalidade de pressionar
o Governo Estadual e a Procuradoria Federal de Proteção do Meio Ambiente (Pro-
fepa) para que a empresa fosse fechada. Inclusive as aulas foram suspensas em Santa
Ana para que todos os estudantes comparecessem ao fechamento da estrada.
Ao tentar realizar o bloqueio, houve um enfrentamento entre elementos da
polícia estadual e os manifestantes. Os primeiros empregaram gases lacrimogê-
neos para dispersar o grupo e cassetete para golpear os líderes. Como conseqüên-
cia da repressão seis manifestantes fcaram feridos e uma pessoa idosa foi detida,
da qual foi pedida, juntamente com os demais detidos, uma averiguação prévia
por sua provável responsabilidade nos delitos de ataque a funcionário público e
depredação de vias públicas.

No dia seguinte, como protesto pela agressão sofrida, os moradores de
Santa Ana decidiram suspender as aulas em todas as instituições da comunidade.
Sobre isso, o secretário de Educação Pública, Darío Carmona García, declarou
que foi oferecida uma denúncia ministerial contra “quem for responsável” pela
obstrução do serviço educativo.

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Por sua parte, o delegado da Procuradoria Federal de Proteção ao Ambiente
em Puebla, Rubén Pedro Rodríguez Torres, declarou aos meios de comunicação
locais que já havia sido fechado o forno da indústria Ecotérmica de Oriente, mas
que o restante das instalações podiam continuar em funcionamento, pois não foi
constatado que produzissem dano ambiental. Confrmou que existiam “algumas
irregularidades” dentro da empresa, uma das quais consistia em não contar com
a licença correspondente para operar o incinerador, mas esclareceu que isso não
implicava o fechamento defnitivo da empresa.
Até hoje se mantém o estigma público, estimulado pelos meios de comuni-
cação locais, de que os habitantes de Santa Ana são “agitadores” e que “há crimi-
nosos infltrados em seus protestos”.

3. A repressão e o estigma de ser criminoso

wilfrido Robledo, um dos responsáveis pela repressão em Atenco, Estado
do México, declarou aos meios de comunicação, poucos dias depois dos fatos, que
os manifestantes de Atenco não tinham dado alternativa para solucionar o con-
fito. Por isso é que a polícia “foi obrigada a intervir”.
Diante do escalonamento do confito, o Estado costuma obter a legitimação
requerida ante a sociedade em seu conjunto, para evitar os altos custos políticos do
uso da Força Pública. Utiliza a perspectiva, geralmente negativa, dada pelos meios
de comunicação à visibilidade que fnalmente “conseguiram” os movimentos e, em
maior ou menor tempo, dependendo dos ritmos da oportunidade política, repri-
me os movimentos com um menor custo, evitando um impacto mais forte nas
urnas das eleições seguintes.

Com muita freqüência existe um “timing”, ou cálculo político, da pertinên-
cia da repressão que é realizada pelo Estado em diferentes momentos, dependendo
do custo político que implique termos da legitimação da ação. Em 2006, por exem-
plo, houve duas repressões com visibilidade na mídia. Uma delas, a repressão em
Atenco, que durou um dia só, foi baseada no fato de que o movimento continuava
articulado e muito ativo, apesar de ser um movimento triunfante. A outra, em
Oaxaca, demorou meses para ser realizada diante de um cenário nacional em que
o governo necessitava urgentemente de legitimidade, em razão dos questionamen-
tos às recém-realizadas eleições, e com uma importante representação de profes-
sores pertencentes à seção 22 da CNTE.
Se a repressão ainda não é oportuna, isto é, politicamente rentável, a aposta
é em processos de confrontação mais longos e de menor intensidade, sob a pre-
missa de dividir e enfrentar. Nesses casos, ignoram-se os movimentos ou comu-

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nidades com lideranças empoderadas e com dirigentes com plena capacidade de
enfrentamento, ao mesmo tempo em que se busca cooptar uma parte deles com
diferentes ofertas de poder político ou econômico. Dessa forma, trata-se de que os
movimentos se desgastem lentamente e diminuam a atenção no confito que têm
com o Estado, para terminar em um enfrentamento entre seus membros.
Isso deixa os movimentos sumamente vulneráveis diante de ataque de gru-
pos provocadores ligados ao governo ou, em casos mais extremos, a grupos para-
militares Nesses casos, no fnal da confrontação, os acontecimentos sempre serão
qualifcados pelo Estado como frutos de um confito intercomunitário, alheio à
responsabilidade governamental. Isso tem cobrado muita força nos últimos anos.
Dependendo do custo político que esteja disposto a pagar pela repressão,
em função da efetividade dos fns de desmobilização que se propõe, o Estado uti-
liza diferentes tipos de repressão. O gráfco 5 mostra quais são os atores governa-
mentais aos quais se enfrentam os atores sociais.

A repressão massiva é aplicada a numerosos grupos de pessoas. Tem uma
maior visibilidade e isso eleva o custo político. Geralmente é mais difícil de con-

gráfco 5

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trolar, pois confronta livremente as forças policiais com os movimentos soci-
ais. Isso permite atos de maior brutalidade que costumam gerar violações aos
direitos humanos, cuja responsabilidade individual se oculta no confronto entre
grupos. Assim foram os casos de Atenco e Oaxaca em 2006. Normalmente não
há distinção das pessoas que são reprimidas e representa um altíssimo custo
humano para os movimentos.
Por outro lado, a repressão seletiva é dirigida contra líderes ou indivíduos
estrategicamente selecionados de um movimento ou organização. A repressão
seletiva pode operar ainda com mais sigilo por meio do desaparecimento de
membros de movimentos ou organizações e cuja responsabilidade oculta não é
reconhecida pelo Estado. É o caso dos desaparecidos do Exército Popular Revo-
lucionário (EPR), Gabriel Alberto Cruz Sánchez e Edmundo Reyes Amaya, no
ano passado. Para exigir sua apresentação com vida, o confito foi escalonado
com estratégias de enfrentamento mais radicais, que conseguiram um impor-
tante espaço na mídia, antes nunca visto no país. A repressão seletiva pode atin-
gir seu objetivo ao descabeçar ou desarticular completamente um movimento,
mas pode também encrespar os ânimos, provocando reações mais duras de dife-
rentes grupos da população, chegando a ser contraproducente para o Estado.
O fundamental a ser considerado é que a forma de repressão exercida
pelo Estado sempre obedecerá a sua necessidade de legitimidade por parte da
opinião pública e da população em geral. E essa legitimidade está diretamente
relacionada com a imagem fabricada de “criminosos” dos atores que protestam.
Os movimentos com estruturas sólidas como os sindicais, que reivindi-
cam, sobretudo, demandas trabalhistas, têm sido reprimidos nos últimos anos,
porém com menor energia que outros setores mais débeis. Organizações ar-
madas como o EPR ou inclusive o Exército Zapatista de Libertação Nacional
(EZLN) tiveram necessidade de gerar uma estrutura sumamente forte a partir
da sua linha militar para evitar essas ações.
Por outro lado, os movimentos mais inorgânicos são reprimidos com
mais facilidade e deslegitimados ante a opinião pública, como grupos violentos
que atentam contra a segurança e a ordem pública. Como não têm uma estrutura
capaz de responder embates dessa classe, gera-se uma paralisação da solidarie-
dade e reduzem-se os custos políticos do governo.
Não é trivial que a maior parte dos casos de confituosidade social no
país reivindique demandas trabalhistas; segundo nossos dados, representam em
torno de 30% dos confitos no país. Isso mostra, por um lado, a ausência da par-
ticipação democrática mais importante existente no México, a trabalhista, mas
também o espaço que é mais legitimado socialmente como válido em seu en-
frentamento com o Estado. No entanto, a maior parte dos confitos trabalhistas

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em que o Estado intervém não é encabeçada por organismos de estruturas fortes
e reconhecidas, como sindicatos, e difcilmente chegam a algum tipo de acordo.
Existem diferentes mecanismos pelos quais a força pública reprime, fa-
zendo este jogo de manter a imagem de maior legitimidade possível diante da
sociedade civil, quando precisa. Por ordem da visibilidade que lhes é dada como
mais ou menos legítimos, citamos aqui alguns deles:
As estratégias de confrontação mais reprimidas em 2007, segundo os da-
dos do Observatório da Confituosidade Social no México, são aquelas em que
há algum tipo de enfrentamento físico. O gráfco 6 mostra claramente as estra-
tégias mais reprimidas. O leitor atento descobrirá que estão organizadas em dois
grupos: um conjunto de estratégias que não têm contato físico e um segundo em
que a expressão física é maior.

A) O ator social se manifesta com formas institucionais ou não-institu-
cionais. A polícia é enviada para conter. O ator enfrenta fisicamente a polícia.
A polícia reprime.

gráfco 6

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Esse tipo de repressão é comum diante de muitas marchas que se deseja im-
pedir ou desviar e costuma ser apresentado como uma falta de controle do movi-
mento sobre seus integrantes. Por isso, tem um baixo custo político para o Estado e
é utilizado com certa freqüência. Novamente se apresentam os membros do movi-
mento como pessoas violentas, diante das quais o comando policial intervém com
o pretexto de não permitir agressões contra a autoridade que representam. Esse
tipo de estratégia de contenção restringe os objetivos da manifestação dos movi-
mentos e normalmente é utilizada como uma provocação que leva à repressão e ao
desprestígio, no caso de os movimentos morderem a isca.
Chega um operativo com a função de desalojar um grupo que atenta con-
tra a propriedade privada ou alguma forma de interesse público, como vias de
circulação. O ator social confronta o operativo; a polícia reprime. Esse tipo de re-
pressão se mostra para a sociedade civil como mais legítimo em comparação com
as outras e, por isso mesmo, o custo político que gera é mais fácil de ser manejado
pelo Estado, porque é apresentada superfcialmente em função da defesa de um
bem ou direito público. Nesses casos, podem ser apresentadas facilmente imagens
que contribuam para deslegitimar o ator social, por seu modo de operação em
determinado momento, sem nada considerar, é claro, do processo anterior.
Por exemplo, a repressão realizada contra a população de San Salvador
Atenco em 2006 foi desse tipo, na qual os meios de comunicação desempe-
nharam um papel importante apresentando repetidamente as agressões prévias
aos policiais do município e do Estado. Depois disso, o Estado sentiu-se com
a capacidade plena de introduzir a força pública com ordem de realizar uma
repressão brutal, o que foi feito.

B) O ator social se manifesta com formas não institucionais, tais como
bloqueios, ocupação de instalações ou detenção de autoridades. A polícia che-
ga imediatamente para reprimir.
Neste outro tipo de repressão o Estado pode pagar um custo político
maior por sua intervenção e se apresentar como incapaz de negociar, ineficaz
e inclusive inepto diante de um maior número de grupos da sociedade civil.
Apesar disso, ao escudar-se em sua função fundamental de manter a ordem
pública e a segurança social da população, advogando por terceiros prejudica-
dos, pode desprestigiar gravemente as dinâmicas de ação do movimento que
reprime, apresentando-o como um grupo que atenta contra a segurança e o in-
teresse público. Costuma ser apresentado como negativo para os movimentos
sociais que são caracterizados como delinqüentes.
O ator social se manifesta institucionalmente. A polícia chega imediata-
mente para reprimir. É o modelo de repressão de mais baixa legitimidade por

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parte do Estado. Mostra um governo intolerante, incapaz de fazer acordos e de
ter respostas sumamente violentas contra a liberdade de expressão da popula-
ção. É um governo que viola os direitos humanos e isso chega a gerar pressão
tanto interna como internacional. Muitas vezes é invisibilizado pelos meios de
comunicação de massa, a partir de critérios de interesse político, mas, no caso
de um alto nível de agressividade, termina por aparecer facilmente.

C) Outra estratégia do Estado para confrontar os movimentos, em combinação ou
não com a repressão, é a que tem sido chamada de judicialização. Consiste em colocar os
movimentos sociais em longos processos legais, com intuito de um desgaste interno dos
movimentos e que deixam os atores sociais em uma situação de profunda desvantagem
em termos de recursos, tanto econômicos como profssionais, para enfrentar seu confito.
E, mesmo quando têm a capacidade de levar o processo a bom termo, o resultado pode ser
claramente inclinado a favor do Estado, em virtude da corrupção de autoridades.
Esse é o caso do processo contra a jornalista Lydia Cacho, que denunciou
em seu livro Los demonios del Edén uma rede de prostituição e pornografa in-
fantil, na qual se encontram implicados poderosos empresários e autoridades do
governo que foram expostos à luz pública com provas claras de corrupção e tráfco
de infuências. No entanto, Lydia Cacho obteve uma sentença negativa por parte
da Suprema Corte de Justiça que foi baseada na suposição de que a população não
pode compreender as sofsticadas decisões do poder judicial, em que se é incapaz
de fazer justiça sobre algo que a qualquer um resultaria evidente.
A judicialização também é muito utilizada pelo Estado como um método de
repressão mais sutil, de aparência legal. É utilizado para paralisar os movimentos
em processos criminais, fabricando presos políticos, fazendo com que o movimento
tenha que mudar a prioridade de seus esforços para a libertação de seus membros
encarcerados, perdendo assim grande parte da capacidade de manobra que tinham
no princípio. É esse o caso dos detidos em San Salvador Atenco a raiz da invasão da
polícia em maio de 2006, cujos processos judiciais paralisaram o movimento, que
agora tem que enfrentar uma luta diante de sentenças de 67 anos contra seus líderes.
O Centro de Direitos Humanos da Montanha Tlachinollan (CDHMT) documentou
em seu último Informe 73 processos legais contra líderes sociais, 75 ordens de de-
tenção e 44 inquéritos abertos. Isso signifca mais de duzentas ações penais contra
líderes sociais, apenas no que foi documentado pelo CDHMT em Guerrero.
O Centro de Direitos Humanos “Fray Bartolomé de Las Casas”, em seu re-
cente Informe sobre a situação dos Direitos Humanos em Chiapas, dedica seu
capítulo 2.º ao tema da criminalização, enfocando-a partir dos mecanismos de
controle, particularmente o processo de judicialização155
.

155 Centro de direitos Humanos “Fray Bartolomé de Las Casas”. informe sobre a situação dos direitos Humanos
em Chiapas, México, jul. 2008, Cap. 2. Em seu anexo ii documenta uma série de casos que considera como parte
da criminalização do protesto em Chiapas (p. 139-145).

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O restante do desgaste dos movimentos é gerado a partir das próprias condições
precárias em que se encontram as populações lá onde eles mais surgem. Assim, o Esta-
do os margina a um processo no qual não podem manter uma luta de longo fôlego, sob
condições tão fortes de necessidade social que são as que geram a maior parte dos confitos.
A corrente se rompe, defnitivamente, no elo mais fraco, aquele em que as pessoas são mais
capazes de levantar a voz no confronto a partir dos movimentos, porque têm pouca coisa
a perder. Mas é também por meio dessa necessidade que o Estado atua para cooptar seus
membros e os isola em um processo de desgaste mais acelerado que, ao longo do tempo e
sem um processo de desenvolvimento alternativo, é incapaz de manter.
Isso pode ser visto facilmente no fato de que os Estados nos quais nossos dados
registram mais confitos (Gráfco 7) são precisamente aqueles em que existe um maior
índice de marginação social e pobreza. São também Estados com alto índice de presença
indígena, grupo social historicamente excluído e marginalizado em nosso país. Os cinco
Estados que apresentam esse maior nível de marginação – Chiapas, Guerrero, Oaxaca, Hi-
dalgo e veracruz – são precisamente os de maior índice de confituosidade, salvo o Estado
do México e o Distrito Federal. No norte do país, Chihuahua, único Estado de elevada
população indígena, se destaca pelo número de confitos.
De um total de 151 confitos com pelo menos uma contraparte indígena
registrados pelo Observatório da Confituosidade Social no México, cerca da
metade se localiza em Chiapas (47%), 21% em Oaxaca e 6% em Guerrero.
Igualmente, é nesses territórios que há, coincidentemente, uma maior
presença de recursos naturais estratégicos, de que o Estado pretende se apropriar
para a utilização em seu interesse e das empresas transacionais, o que relaciona
esta forma de intervir nos confitos a outros processos de interesse econômico de
tendência principalmente neoliberal.

gráfco 7

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Quando nos perguntamos quais são as demandas mais reprimidas, e con-
sultamos os dados do Observatório, constatamos que os confitos trabalhistas e os
que pedem infra-estrutura e serviços são os mais reprimidos. vale a pena assinalar
que a luta contra a impunidade é uma demanda muito notada e que é freqüente-
mente reprimida pelas autoridades. A seguir, apresentamos no Gráfco 10 os con-
fitos mais recorrentemente reprimidos.

gráfco 8

gráfco 9

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gráfco10

gráfco11

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Da mesma forma, o Gráfco 11 mostra claramente os atores mais reprimi-
dos. A maneira de abordar os setores não permite ver o conjunto de atores in-
dígenas que protesta e é reprimido, mas as cifras obtidas pelo Observatório nos
permitem afrmar que constitui 12% do total, ou seja, um pouco mais do que a
porcentagem representada pelo conjunto dos Povos Indígenas.
vejamos alguns casos de repressão ocorridos em 2007. Obviamente os ca-
sos mais conhecidos e dos quais se falará com mais profundidade neste fórum são
os de Oaxaca e o de San Salvador Atenco, de 2006.

movimento de estudantes não Aceitos

Um grupo de estudantes não admitidos no Instituto Politécnico Nacional,
reunidos no Movimento de Estudantes não Aceitos (MENA)156

, demandavam
perante as autoridades da Secretaria de Educação Pública e do próprio Instituto a
reconsideração de seus casos e mais vagas nos cursos. Em uma de suas manifes-
tações, no dia 7 de agosto de 2007, foram desalojados pela polícia preventiva, com
um saldo de nove detidos.

Este caso é um pouco diferente dos outros, pois as autoridades educativas atu-
aram com muito mais rapidez no processo de repressão. Passaram da negação de in-
terlocução e da invisibilização à repressão direta em um prazo muito curto. Os detidos
foram acusados dos delitos de seqüestro, dano em propriedade alheia, motim e viola-
ção da Lei Federal de Armas de Fogo e Explosivos. Posteriormente, foram acrescenta-
das outras acusações, tais como obstrução ao acesso a instalações e roubo.
Essas imputações foram negociadas quando os estudantes se reagruparam
e continuaram com suas demandas, acrescentando agora a liberdade dos detidos.
A negociação consistiu em que os nove detidos seriam libertados sem acusações,
sempre e quando os estudantes desistissem das mobilizações e de suas petições de
matrícula no Instituto Politécnico Nacional. A negociação foi feita, os estudantes
se desmobilizaram e fcaram sem escola para continuar seus estudos. Ou seja, a
judicialização fez parte do processo de desmobilização.

escola normal de Ayotzinapa em Guerrero

O confito dos professores da Escola Normal rural de Ayotzinapa, em Guerrero,
é outro dos casos que consideramos emblemático, pois reivindica demandas histori-
camente negadas pelas autoridades do Estado de Guerrero e foi invisibilizado pelos
meios de comunicação. Esse confito, iniciado a 11 de novembro de 2007, repete o

156 Para mais informação sobre este movimento cf. miento-de-estudiantes-no.htm>.

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caminho dos demais movimentos, desde a negativa de interlocução até a negociação,
passando pela consabida repressão. Nessa ocasião, a repressão não foi realizada apenas
por elementos da polícia local ou estadual, mas também por corpos policiais federais,
insinuando a presença de grupos radicais e facilitando a criminalização do processo.
O movimento de estudantes agrupados na Federação de Estudantes Cam-
poneses Socialistas do México (FECSM) reivindicava em sua agenda três pontos:
a permanência do sistema de internato, a licenciatura em educação primária e a
criação de 75 novas vagas para professores de educação primária. O confito foi
sendo escalonado na medida em que os peticionários não eram atendidos pelas
autoridades. Sofreu uma brutal repressão, no dia 29 de novembro, quando um
contingente de policiais estaduais e federais (PFP) agrediu uma manifestação que
jovens professores realizavam no posto de pedágio, nos arredores da cidade de
Acapulco, sendo detidas 56 pessoas. várias fcaram feridas, uma delas gravemente.
No dia 18 de dezembro foram aceitas as primeiras demandas citadas acima, menos
a criação das 75 novas vagas para professores. Na negociação que pôs fm pelo me-
nos a esta etapa do confito, um dos pontos da minuta foi a devolução dos veículos
apreendidos pelos estudantes, e se estabelecia que o governo impulsionaria a “de-
sistência da ação penal” contra os manifestantes detidos.

Ayutla de los libres, en Guerrero

No dia 17 de abril, em Ayutla de los Libres, estado de Guerrero, Manuel Cruz
victoriano, Orlando Manzanarez Lorenzo, Natalio Ortega Cruz, Raúl Hernández
Abundio e Romualdo Santiago Enedina, integrantes da Organização do Povo Indí-
gena Me´phaa (OPIM), defensores de direitos humanos, foram detidos em um blo-
queio policial-militar em cumprimento de uma ordem de detenção contra eles pelo
homicídio de Alejandro Feliciano García no dia 1.º de janeiro de 2008. Até pouco
antes dessa detenção, a investigação desse homicídio, que de acordo com denúncias
anteriores da OPIM foi obra de um grupo paramilitar ao que a vítima pertencia,
estava completamente parada. Foram expedidas as ordens de detenção contra os
cinco integrantes da OPIM poucas horas depois da exumação do corpo da vítima
e no contexto da ofensiva do governo do Estado de Guerrero contra a organização
indígena. O Processo pode levar vários anos para ser concluído e, enquanto isso,
os defensores de direitos humanos permanecem na prisão, apesar das modifcações
legais que asseguram a presunção de inocência até prova em contrário.

Altamirano, Chiapas

Mais de quatro mil militantes e simpatizantes dos partidos do Trabalho,
Convergência, verde Ecologista e Ação Nacional, em sua maioria indígenas, mar-

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charam na cabeceira do Altamirano, Chiapas, no dia 30 de dezembro de 2007,
para exigir a anulação das eleições municipais. A ganhadora do pleito, segundo
a contagem do Instituto Estatal Eleitoral foi Heidy Pino Escobar, do PRI. Os in-
conformados exigiram a formação de um Conselho Municipal, pois asseguravam
que durante o processo eleitoral houve compra de votos a favor dessa candidata.
No transcurso da marcha foram registrados enfrentamentos com integrantes do
PvEM e do PRI em Altamirano, Chiapas. No fnal do protesto, policiais estaduais
detiveram umas vinte pessoas e dispersaram a manifestação com gases. Os mani-
festantes foram libertados poucas horas depois.

mazatlán villa de Flores, oaxaca

A associação civil Mie Nillu Mazateca, que opera a emissora comunitária Ra-
dio Nandia no povoado de Mazatlán villa de Flores, em Oaxaca, sofreu vários atos
de provocação e repressão por sua posição política. Já no dia 24 de agosto de 2006
um grupo de pessoas, fliadas ao PRI, supostamente enviadas pelo governador de Oa-
xaca, Ulises Ruiz, apoderou-se do equipamento de transmissão e agrediu fsicamente
os operadores. Nesse mesmo dia, a energia elétrica foi cortada pelas mesmas pessoas
que os haviam agredido anteriormente. Ao chegar à central de energia, essas pessoas
ameaçaram o pessoal da rádio Nandia, que teve que se retirar. No dia seguinte, não foi
possível entrar na rádio, pois a fechadura havia sido violada. Dois dias depois, 26 de
agosto, integrantes da rádio tentaram entrar nas instalações, mas não tiveram sucesso,
pois as mesmas pessoas que os provocaram anteriormente, com armas em mãos e
ameaçando atirar, impediram a entrada dos integrantes à rádio. Por tudo isso, a rádio
comunitária Nandía teve que suspender suas transmissões. Nos últimos meses reini-
ciaram-se as provocações, e por diversos meios, tanto intimidativos como judiciais
tem-se tentado fazer com que a rádio comunitária Nandía seja fechada.

4. Conclusões

No enfrentamento movimentos-Estado, são cada vez mais reduzidas as
condições para as saídas negociadas. Por um lado, o Estado está cada vez menos dis-
posto a fazer concessões substantivas aos movimentos sociais e trata de justifcar seu
endurecimento qualifcando-os de extralegais e ilegítimos, de não ser interlocutores
válidos que mereçam ser incorporados por meio da pressão a qualquer que seja o
tipo de negociação-acordo.

Por outro lado, um número signifcativo de movimentos sociais está cada vez
menos disposto a ceder diante da decisão vertical ou diante do prejuízo e despojo
que sofrem. É freqüente que as mobilizações sociais resultem insufcientes e até
contraproducentes para pressionar a classe política e os governos em favor de uma

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solução negociada. Nessas circunstâncias, este número signifcativo de movimentos
sociais promove cada vez menos uma política de aproximação, de diálogo e de ne-
gociação estratégica com o governo.
Ao mesmo tempo, a disputa e as reacomodações no seio da classe política não
deixam claro quem é o interlocutor válido para os acordos. E, dentro dos movimen-
tos, a multiplicidade de lideranças ou a pressão das bases radicalizadas relativiza o
papel das direções políticas como interlocutores para a negociação.
Constata-se que cada vez há maior participação das mulheres nos movimen-
tos sociais. Muitas vezes em séria tensão com os homens, seus companheiros. Da
mesma forma, a presença indígena nos movimentos sociais e o protagonismo das
organizações indígenas é um fato muito relevante e representa 12% do total de atores
que estão mudando, com toda a clareza, a agenda social em seu conjunto.
O espaço de negociação é utilizado pelo Estado para inviabilizar os confitos
estratégicos, e pelos movimentos como um recurso tático para ganhar força. Por
isso, a margem de negociação está se tornando frágil e estreita. As mesas de diálogo
estão tendendo a se converter em mesas táticas, nem de fundo nem estratégicas,
ou em espaços para resolver transitoriamente confitos trabalhistas, organizacionais
ou muito locais. Ainda é prematuro qualifcar o caso concreto do Exército Popular
Revolucionário-Governo Federal.

Existe todo um processo de enfrentamento, por parte do governo, contra os mo-
vimentos sociais, que aposta no desgaste paulatino destes últimos e que se inicia com a
invisibilização e termina com a repressão ou judicialização dos confitos. Esse processo
está baseado na mesma estrutura de relação sociedade civil-governo mantida historica-
mente com partidos de Estado e mecanismos clientelistas e corporativistas, que o situa
em uma política de Estado independentemente do partido que estiver no governo.
Para poder responder à criminalização que existe atualmente no Estado me-
xicano é preciso, entre outras coisas:

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• Impulsionar uma abertura de co-responsabilidade participativa para a

sociedade civil, com intuito de transformar esses mecanismos. Isso implica, entre
outras coisas, explorar novos mecanismos para transformar confitos, acudindo a
instâncias especializadas da sociedade civil; acudir a organizações de direitos hu-
manos civis e públicas; documentar com maior precisão as violações aos direitos
humanos; dar maior protagonismo a setores invisibilizados no interior dos próprios
movimentos, como as mulheres e os indígenas.

• Os movimentos sociais devem se preparar para estratégias mais complexas

de ação, que incluam medidas de segurança para evitar e prevenir a repressão.

• Os movimentos sociais devem assumir em suas agendas as reivindicações

de gênero não como assuntos táticos, mas como elementos substantivos de consti-
tuição. Da mesma forma, devem assumir a inclusão em sua visão de país a todos os
setores sociais, um dos quais o constituído pelos povos indígenas, reconhecendo sua
própria especifcidade e agenda.

• Manter a articulação entre os diversos setores e movimentos sociais como

parte da estratégia de defesa diante da criminalização promovida pelo Estado.
• Gerar processos de sensibilização e aproximação com os meios de comuni-
cação, bem como criar e enriquecer mecanismos alternativos de comunicação.

* * *

Acrônimos

AI

Anistia Internacional,

ASPAN

Acordo para a Segurança e prosperidade da América do Norte

CECOP

Conselho de Ejidos e Comunidades Opositoras à Parota

CEPAL

Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe

CEREAL

Centro de Refexão Laboral, A. C.

CDHFv

Centro de Direitos Humanos “Fray Francisco de vitoria”, A. C.

CDHFBLC

Centro de Direitos Humanos “Fray Bartolomé de Las Casas”, A. C.

CDHMT

Centro de Direitos Humanos da Montanha Tlachinollan

CFE

Comissão Federal de Eletricidade

CIDE

Centro de Investigação e Docência Econômicas, A. C.,

CNTE

Coordenadoria Nacional de Trabalhadores da Educação

EPR

Exército Popular Revolucionário

EZLN

Exército Zapatista de Libertação Nacional

FECSM

Federação de Estudantes Camponeses Socialistas do México

FNCR

Frente Nacional Contra a Repressão

FDAM

Frente em Defesa da Água de Morelos

IFAI

Instituto Federal de Acesso à Informação Pública

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ISSSTE

Instituto de Serviços e Segurança Social para os Trabalhadores do Estado

LIMEDH

Liga Mexicana pelos Direitos Humanos

MPMAG

Movimento Pró Melhoramento do Agro Guanajuatense

MENA

Movimento de Estudantes Não Aceitos

OACNUDH

Ofcina do Alto Comissariado das Nações para os Direitos Humanos

OIT

Organização Internacional do Trabalho

OCSM

Observatório da Confituosidade Social no México

OPIM

Organização do Povo Indígena Me´phaa

PAN

Partido Ação Nacional

PEMEX

Petróleos Mexicanos

PGR

Procuradoria Geral da República

PRI

Partido Revolucionário Institucional

PRD

Partido da Revolução Democrática

PROFEPA

Procuradoria Federal de Proteção do Meio Ambiente

PvEM

Partido verde Ecologista do México

SERAPAZ

Serviços e Assessoria para a Paz A. C.

SEDENA

Secretaria da Defesa Nacional

SNTE

Sindicato Nacional de Trabalhadores a Educação

TLCAN

Tratado de Livre Comércio da América do Norte

Bibliografa

livros e artigos em livros

CACHO, Lydia. Los Demonios del Edén. México. Grijalbo. 2004

CARDARSO LORENZO, Luis Pedro. Fundamentos teóricos del conficto so
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trumento para la transformación positiva de confictos”, en ATILA
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páginas da internet consultadas

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http://espora.org/comitecerezo/spip.php?article24 ,

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Comisión Nacional de Derechos Humanos. Recomendación 036/2008.

México. Julio 2008.

Comisión Nacional de Derechos Humanos. Recomendación 035/2008

México. Julio 2008.

Comisión Nacional de Derechos Humanos. Recomendación 034/2008

México. Julio 2008.

Comisión Nacional de Derechos Humanos Comisión Nacional de Derechos
Humanos. Recomendación 033/2008 México. Julio 2008.

Comisión Nacional de Derechos Humanos. Recomendación 032/2008

México. Julio 2008.

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Comisión Nacional de Derechos Humanos. Recomendación 031/2008

México. Julio 2008.

Comisión Nacional de Derechos Humanos. Recomendación 030/2008

México. Julio 2008.

Comisión Nacional de Derechos Humanos. Recomendación 029/2008

México. Julio 2008.

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Tradução: Beatriz Cannabrava

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