A última dúvida A natureza da razão contém o princípio da dúvida.

Imediatamente partir da determinação de que algo é, inevitavelmente produz-se o contraponto deste ser, o que não é. Aquilo que a razão cria como ponto de partida para sua análise traz consigo, na iminente bifurcação do pensamento, um par que corresponde à sua sombra, aquilo que lhe falta, aquilo que representa sua incompletude, fazendo do pensamento racional um paradoxo infinito que consiste em procurar atingir a verdade absoluta se valendo de seu próprio contraponto, a irracionalidade. Ora, definir racionalmente o ser de uma maneira absoluta requer a negação da racionalidade, pois se algo é absoluto assim o é por nunca haver sido submetido à lâmina segregadora da razão. Ao conceber a própria idéia de racionalidade, ao se auto-analisar, a razão não escapa de sua própria natureza e termina assim por duvidar da própria veracidade. Pois bem, sendo este um texto que se vale da racionalidade para desenvolver-se, chego agora ao último estágio possível nesta condição. A dúvida que finalmente se apresenta diante da razão ao iluminar a si própria e produzir seu próprio contraponto é a concepção da possibilidade outra: a de que a verdade poderia também ser evidenciada através da irracionalidade, ou seja, através da fé. Por sua vez, analisando a natureza da fé, a razão se depara com uma verdade absoluta, algo que é absoluto em si próprio por seguir um princípio que não dá margem à dúvida. É completo em si. Diante da dúvida entre ela própria e a fé, a razão entra em colapso, pois a racionalidade que se propõe a chegar à verdade absoluta acaba tendo que optar por uma das verdades que a dúvida inevitavelmente lhe apresentará, abandonando a outra possibilidade. Portanto, só se chega à verdade absoluta através da razão se esta adotar a fé como princípio. Se a razão permanece com a razão tem-se a eterna dúvida. O abandono da razão pela razão a transforma em fé, em eterna e absoluta certeza.

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