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A invenção do pensamento científico cederj

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A invenção do pensamento científico

Marcos André Reis de Amorim Desde os primórdios da humanidade, a capacidade de criação do homem a serviço da manutenção da espécie é notória, mas, ao se referir à ciência como a vemos no Ocidente, ou seja, sob as ordens da razão e sem a presença de argumentações místicas, religiosas, devemos partir de onde esta trajetória começou: o berço da cultura ocidental, a Grécia antiga, que atinge seu auge na “era clássica”, entre os séculos VI e IV a. C.

Os gregos inventam a razão
São os gregos que iniciam um processo de laicização do discurso sobre a vida, fenômeno esse conhecido como “a passagem do mito ao logos (“razão”)” que dará a luz à filosofia (que por sua vez inventa a ciência). Em seu passado micênico (entre os séculos XX e XI a. C.), vigora o “mito de soberania” (de forma semelhante aos impérios egípcio e da Babilônia, entre outros): os gregos viam em seu rei o produtor de “verdades”, por possuir um status divino, com poderes no mundo sobrenatural e no natural, incluída aí a vida mundana e material da sociedade. Mas no século XI a. C., com a destruição de Micenas por invasores, a Grécia se reorganiza em outros moldes, do poder baseado nas oligarquias até a invenção da democracia, por volta do século VI a. C. Passamos por Homero (século VIII a. C.) e Hesíodo (VII a. C.), dois dos maiores poetas gregos, que conseguiram, pela escrita, organizar o que se sabia das lendas e mitos da crença grega. Quando a tradição oral vira um manuscrito já é possível ver um grau de racionalização nessa transposição organizada por esses poetas, que contam os mitos (que então se tornam “mitologia”) dotados de uma lógica embrionária que culminará nas tragédias (o teatro grego da era clássica) e na filosofia. Chegamos então ao nascimento da filosofia: no século VI a. C., em Mileto, o primeiro filósofo Tales afirma que a água representa o princípio da vida, deslocando assim a verdade baseada no sobrenatural para a esfera da physis (aproximadamente o que chamamos de “natureza”). Agora, na busca do conhecimento da vida, abandona-se o sacerdote com seu acesso privilegiado aos deuses e se passa a responsabilidade para o filósofo, que, por sua vez, busca na própria physis as respostas sobre seu funcionamento. Percebamos esta mudança radical: no discurso da religião, não cabe discussão ou controvérsia; a verdade depende de quem diz, não se o que é dito tem realmente sentido lógico-racional. Com a filosofia, o dito é passível de questionamento, é processo na busca da verdade. Ela não vem pronta da boca do homem divinizado, mas é campo de investigação humana e com a marca de não sair dos limites da physis. Os primeiros filósofos, que historiadores da filosofia resolveram chamar de présocráticos, são também vistos como “cosmólogos”; são chamados também de physicós (“físicos”, batizados assim por Aristóteles), diante de suas pesquisas no campo da Astronomia e dos fenômenos da natureza. A tese dos quatro elementos primordiais (terra, fogo, água e ar), o teorema de Pitágoras, o átomo descrito por Demócrito e outros conceitos importantes foram desenvolvidos nos primeiros tempos da filosofia.

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O ser e o devir
Entre as diversas controvérsias dos primeiros tempos da filosofia, uma se sobressai e nos persegue até os dias de hoje: o que é o movimento, a transformação, o tempo? Se podemos acreditar em verdades absolutas (ou seja, imunes ao tempo, eternas), como lidar com o devir (conceito que representa a mudança e a transformação)? Quando Heráclito de Éfeso afirma que “o homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”, torna-se o maior defensor da ideia de que não há nada na physis que não sofra mutações permanentes. O rio e nós mudamos; a cada milésimo de segundo, não somos mais os mesmos. Mas a questão permanece: como acreditar em alguma característica fixa nas coisas diante de tanta mudança? Um filósofo chamado Parmênides, da cidade de Eleia, produz um pensamento que pretende responder a essa pergunta, e para tanto desqualifica o devir (que considera uma ilusão provocada pelos nossos sentidos), na busca daquilo que permanece, que não muda nem se modifica, aquém e além do movimento e da transformação. Podemos representar esta imutabilidade com o conceito de ser. O ser das coisas é aquilo que nelas se mantém sempre o mesmo. Também podemos chamar de essência. Por exemplo: se acreditarmos que todos os seres humanos são dotados da capacidade de raciocinar, então estamos diante de uma essência que todo homem tem, pois, apesar de todas as nossas transformações, essa característica nos é imutável. Pois está aí mesmo a nossa capacidade de achar a essência das coisas: o uso da razão, que, por sua vez, impediria as emoções, os sentidos, de nos enganar com a visão superficial de que tudo está em devir. Sócrates, Platão e Aristóteles, os mais influentes filósofos da história, optaram pelo caminho aberto por Parmênides e, se hoje acreditamos existir essência de alguma coisa, devemos muito a esses pensadores. A palavra grega aletheia é normalmente traduzida por verdade, mas, num estudo mais minucioso desse termo, podemos dizer des-cobrir, des-velar, ou seja, tirar o véu que cobre a verdade (o ser, a essência). Mas o que cobre a verdade? O devir, que é passageiro, e sua velocidade, que é inebriante, confundiriam o nosso senso lógico-racional. Heráclito e o devir foram duramente criticados pelos socráticos, que, apesar de reconhecerem a existência da mutação eterna na physis, privilegiaram a des-coberta do ser, a única forma de saber o que as coisas são, alcançáveis através de um controle rígido dos sentidos para que a razão possa trabalhar com sua famosa isenção acima de qualquer suspeita. Pode parecer estranho; afinal, como ignorar a força do devir no universo, mas a base da ciência ocidental é a filosofia do ser, e não a do devir. O cientista não está buscando a essência das coisas? Não está à procura de “leis” na natureza? Se, por outro lado, privilegiarmos o devir, vai nos parecer absurdo existir esse tipo de ambição proposta por Parmênides e seus seguidores (des-cobrir o ser), pois até as coisas estariam sofrendo a passagem contínua do tempo e, portanto, correndo o risco de não serem reconhecidas mais como eram. Ficaríamos a perguntar: onde está o objeto que estava a estudar? Transformou-se em outra coisa... A existência de uma suposta essência, que, por sua vez, só pode ser percebida através de uma atitude dita racional, que para funcionar deve controlar nossos ímpetos emocionais, não produz uma visão acerca do mundo? Esta forma é a única maneira correta de saber o que o universo é?

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pensamento. Essa visão perdurou (e talvez ainda viva em nós) durante séculos. de inteligência. os cientistas também) pretendem encontrar é algo que esteja além do que a natureza é capaz de mostrar. seja no objeto que ela procura estar “além” do movimento e da transformação. é possível afirmar que o que os filósofos (pelo menos os socráticos e seus herdeiros. o filósofo e o cientista não estão separados. que são só matéria. a ciência teria que esperar o surgimento de Tales para começar sua história. sua característica essencial. uma espécie de “alma” das coisas. Não é por isso que se afirma que os homens são dotados de inteligência e os outros animais são irracionais? Fundamentar nossa busca em algo imaterial. os gregos acreditavam estar diante daquilo que é o que dá vitalidade ao corpo. dizia existirem a “substância pensante (a alma)” e a “substância extensa (a matéria)” que estariam juntas em nós. humanos. ou seja. seja por causa do uso da razão. no século XVII. ganhando até o reforço do filósofo francês René Descartes. praticamente toda a tradição filosófica até hoje e. Em relação ao espírito (ou alma). enquanto a ciência já as supõe existentes e corre em busca de descrevê-las. podemos dizer que a matéria é dotada de sentidos (sentimentos. Mas não podemos nos esquecer: se a filosofia grega não tivesse inaugurado o uso da razão (ou pelo menos o “seu tipo de razão”). ajudou a criar um dos conceitos mais importantes da filosofia: a metaphysis. Para simplificar. coisa que só vai acontecer mais tarde. A filosofia e a ciência Nestes primeiros tempos. emoções) e a alma é dotada da capacidade de raciocínio. mas não nos outros animais. Já a matéria (ou corpo). o nome já diz: tudo aquilo que é material.A metaphysis Essa questão ser X devir nos remete também às outras dicotomias clássicas da mesma época: razão X sentidos e espírito X matéria. tem massa etc. que. Seguindo essa linha de pensamento. 3 . sem ser algo material. por que não?. quando a filosofia passar a se dedicar mais ao que funda as crenças e verdades.

descrita pelo poeta Hesíodo (século VII a. livro III.) em sua Teogonia (a origem dos deuses). a Matemática não é extraída da natureza. conhecimento. A filosofia do grande Platão atribuía ao estudo da Matemática o valor de uma das mais importantes tarefas humanas. A Gaia Ciência. no comércio. (Friedrich Nietzsche. as sociedades criam uma forma de ver a realidade (ou pelo menos a sua realidade). nas ciências de modo geral. mathēmatikós: aquele que aprecia o conhecimento) um lugar especial em sua filosofia. como se fosse natural a existência de um mundo equilibrado. In: Mito e pensamento entre os gregos. A ágora (praça onde ocorrem as decisões políticas) é criada no centro da cidade. mas para assim constatar nossa relação humana com as coisas. nosso planeta ocupa o centro do universo. aprendizagem. está presente na cultura grega essa tendência. § 246) Como acontece com toda visão de mundo. até onde seja possível. perceberemos que somos herdeiros da produção cultural de nossos antepassados. VERNANT. A astronomia grega se diferencia da de outras civilizações por desenvolver uma representação do cosmos através de esquemas geométricos. ocuparia um espaço no universo de tal forma que sua posição em relação aos outros astros a mantém suspensa e equilibrada. do teorema de Pitágoras e de Platão. de forma que todos os cidadãos possam se reunir para decidir os rumos da sociedade. p. que dá nome à geometria plana. É como se disséssemos “a distância do centro à borda (o raio) é igual para todos”. que mecanicamente regem o funcionamento de tudo. 31b-c e 32a-b. Basta lembrar de Euclides. Jean-Pierre. mas criaram uma Matemática grega – bastante associada à geometria. Essa representação do espaço é simultaneamente aplicada na esfera política e na social quando a democracia prega a igualdade entre os cidadãos: o círculo geométrico tornouse um símbolo da igualdade que se buscava. e essa localização mantém a Terra equilibrada sem ser necessário nada que a sustente. Estrutura geométrica e noções políticas na cosmologia de Anaximandro. que deu à mathematiká (do grego máthēma: ciência. A presença da Matemática na cultura grega aparece por toda parte. e esse ponto de vista acaba por parecer inato. Timeu. diante da proximidade do discurso matemático com a 4 . ou seja. e não uma invenção cultural. mas sim uma intervenção humana sobre ela. ordeiro. Para o pré-socrático Anaximandro. e mais: que visão de mundo está embutida nessa forma de ver a vida? I Vamos começar pela inventividade sem precedentes daquela que se tornou a matriz do modo de pensar ocidental: a Grécia antiga. não na crença de que por essa via conheceremos as coisas. de que Zeus vence seus irmãos. como o dito de Pitágoras que afirma que “todas as coisas são números” ou sua utilização na música (quem não sabe fração não entende o valor do tempo das figuras musicais). PLATÃO. Como foi que isso começou.A “matematização da natureza” Marcos André Reis de Amorim Matemática: introduzir o refinamento e o rigor da Matemática em todas as ciências. organizado. Quero dizer que isso também aconteceu (e acontece) com a presença da Matemática em nossas vidas: ela está por toda parte. C. nas pesquisas de opinião. Os gregos não inventaram a Matemática. na música. diante de nosso hábito de ver as coisas daquela maneira. Desde a crença. Geometricamente. 170-186. assim como os outros planetas. que é dessacralizada na filosofia. Por isso o título deste texto: a matematização da natureza. Mas se agirmos como antropólogos. representantes do caos e da desordem e impõe a ordem ao mundo.

Quando Galileu escreve Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências (1638) e Newton. fez a Matemática repensar seu papel para dar conta de um caráter mais caótico do que se imaginava em relação ao funcionamento da natureza. o que não quer dizer que a Matemática tenha perdido status como parceira da física e da ciência em geral. reforça a visão mecanicista da natureza o filósofo francês René Descartes (1596-1650). III O século XX conheceu uma série de inovações científicas (para resumir. mas também por ter fundado a geometria analítica. o italiano Galileu Galilei (1564-1642). descrita em sua obra Timeu. a teoria da relatividade e a mecânica quântica) que expuseram um universo muito mais arredio à exatidão pretendida pela Física clássica e. por tabela. notadamente às chamadas ciências da natureza. Descartes pretendia trazer o espírito da Matemática. ao somar a álgebra para esse contexto. O pai da Física moderna. afirma em seu livro As leis do caos que o conceito de “lei da natureza” deve ser substituído pela noção de evento e que a visão calcada em verdades absolutas (que outrora imperava na ciência) seja aberta para a de “probabilidades”. quando encontramos a Matemática como elemento primordial nos estudos de Astronomia que romperam com a visão medieval geocêntrica. mas não percamos de vista um ponto crucial: até onde não estamos “matematizando” o universo de que fazemos parte? 5 . que só no século XX encontrou adversário. IV Esperamos ter iniciado aqui uma reflexão sobre o papel da Matemática na formação de nossa visão de mundo. conhecido pelo cogito “penso. logo existo”. que em seus estudos manteve essa visão “matematizada” do mundo. Ilya Prigogine. remete à “perfeição geométrica” da qual o universo é feito. seu Principia – Princípios matemáticos de filosofia natural (1687). para o campo da filosofia. na medida em que se poderia calcular a regularidade com que ocorrem as transformações no mundo físico. deixando aí um importante papel da Matemática com seus cálculos a serviço da estatística na tentativa de compreender a instabilidade presente na natureza. Além dos “pais” da Física moderna. Prêmio Nobel de Química que atualmente tem se encontrado no campo da filosofia da ciência. II Viajando no tempo. sua exatidão e precisão. que muito se deve à filosofia e talvez mais ainda ao desenvolvimento da ciência. que para ele se encontrava de certa forma “perdida” em controvérsias e discussões sem a fim a cerca da verdade das coisas. chegamos até a fundação da Física moderna. soube somar a observação. passível de ser quantificável – visão essa que continuou a fazer sucesso. funda-se a Mecânica clássica. a experimentação e os cálculos matemáticos para abordar os fenômenos da natureza. nos séculos XVI e XVII. Obviamente há um princípio aí subentendido de que a natureza funcionaria como se fosse um relógio.ideia de perfeição – afinal o que seria mais perfeito que um quadrado ou um círculo? E sua astronomia. com a teoria da relatividade de Einstein e a mecânica quântica. sem chegar a uma conclusão. Sua metodologia pressupõe traduzir a natureza através da linguagem matemática. vide seu colega inglês Isaac Newton (1642-1727).

como poderemos verificar nas linhas a seguir. qual a melhor forma de conhecer alguma coisa? Mais do que uma reflexão a respeito do conhecimento. o Racionalismo e o Empirismo Marcos André Reis de Amorim O Renascimento Cultural europeu (séculos XV e XVI) foi um período que também podemos chamar de “renascimento da ciência”. Um simples exemplo é como a Biologia relata certas funções orgânicas através da ideia de aparelho (digestório.). como a Biologia. O mecanicismo Herdeiro do atomismo grego – concepção do mundo como sistema de corpos em movimento. Mas não percamos de vista que o mecanicismo (assim como outros “ismos”). outro é a presença do método cartesiano nos laboratórios. René Descartes e o racionalismo Desde o Renascimento os filósofos vêm rediscutindo a importância da razão para alcançar a verdade. Como uma espécie de continuidade dos avanços do Renascimento. estamos diante de duas concepções de mundo que englobam uma ética e uma moral diante da vida. a Psicologia e até a Sociologia.O mecanicismo. que criou um método de investigação científica que pressupõe uma ordem natural do tipo mecanicista. Sem entrar nos meandros técnicos que a questão contém. afinal. o racionalismo e o empirismo. e ao filósofo e matemático René Descartes. Esses pensadores defendiam a importância da mecânica na explicação dos fenômenos naturais. como Galileu e Newton. o físico Fritjof Capra expõe os prejuízos sofridos pela humanidade provocados por essa visão científica nos últimos séculos. como se a vida material já tivesse seu funcionamento passível de previsibilidade. fez tanto sucesso que até hoje é possível ver a ciência trabalhando dessa maneira. dotado de certa regularidade e exatidão (semelhante a uma máquina). A crença de que o universo é parecido com um relógio. influenciando as mais diversas áreas da ciência. o “pai” do racionalismo. é apenas uma das interpretações possíveis do que a vida pode ser – pois há quem discorde dessa visão: em seu livro Ponto de Mutação. que tem como um de seus principais expoentes o pensador francês René Descartes (1596-1650). filosoficamente falando. Racionalismo e empirismo No debate entre o racionalismo e o empirismo está presente a grande questão da Epistemologia (“filosofia do conhecimento” ou “filosofia da ciência”): é realmente possível conhecer? Se a resposta for afirmativa. que abandonaria a contemplação por uma atitude de intervenção e domínio sobre a natureza. respiratório etc. a Química. foi a “Revolução científica do século XVII” que possibilitou o aparecimento de novas práticas científicas: o mecanicismo. o mecanicismo está associado a grandes cientistas que construíram a Física moderna. 6 . é nesse momento que podemos perceber a decadência da visão escolástica apoiada na filosofia de Aristóteles e a ascensão de uma nova visão do universo. como uma grande máquina -. vamos chamar a atenção para a interpretação da vida que o mecanicismo gerou. que “desmontam peças” (análise) e depois a “remontam” (síntese) para conhecer o objeto em questão. e é nesse clima que ocorre o que denominamos “Revolução científica do século XVII”.

que são atitudes puramente mecânicas. de que nem os céticos poderiam duvidar. então é possível encontrar outras verdades imbatíveis. ou seja. Este é o ponto de partida de sua metafísica: sem pensar não posso saber que existo. era inquestionável: a sua célebre frase “penso. então estão inatas em nós (nasceram conosco. ordem ou dedução: da parte mais simples segue-se uma ordem crescente até o conhecimento dos mais compostos. se Deus pôs em nós a noção de perfeição e tudo mais em nossa mente. dependia-se dessa substância (resRes. ou mais simplesmente como “cogito cartesiano”. que deve obedecer às seguintes etapas: 1. se se tem no pensamento a ideia de perfeição. superior à substância extensa (o corpo). desta forma. Descartes encontra no pressuposto de sua metafísica (o cogito cartesiano). então ela existe. Partindo dessa premissa. já que suas verdades são límpidas e objetivas e. deveria seguir para chegar às verdades objetivas. 2. absolutamente certas.O cogito cartesiano René Descartes começou sua história filosófica como um verdadeiro cético: tudo deve passar pela máquina de duvidar do pensamento. “corpos-máquina” sem dose de pensamento. Deus. O discurso do método. utilizando-se da dúvida junto à razão para chegar a verdades claras e indubitáveis. então. ou seja. senão nunca teria dúvida de nada. 3. Essa alma pensante é inteiramente distinta do corpo. Um “método universal” eficaz. quer dizer. análise: divida o objeto em questão em tantas partes quantas forem necessárias para chegar aos elementos mais simples e certos. por isso. de qualquer ciência. o que não pode ser humano. Seguindo esse raciocínio em seu mais famoso livro. Pergunta: de onde vem a ideia de perfeição (que legitima a verdade indubitável)? De mim próprio não é possível. por sua vez. Descartes rejeita tudo que possa apresentar sombra de dúvida. logo existo” também é conhecida como Cogito ergo sum. evidência: nunca aceite como verdadeiro algo que não seja nítido e indubitável. o que nos faz menosprezar a experimentação ou o qualquer forma de conhecimento que não seja através da razão. Se foi possível chegar ao cogito. existo. a frase “Penso. logo existoComo Descartes escrevia em latim. O método universal A Matemática é a ciência modelo de seu pensamento. de tal forma que a única sentença que sobrevive ao seu ataque questionador é aquela que pensa: se penso. vários de seus conceitos estão nesta língua. diz Descartes. por não terem essa substância. Somente algo perfeito poderia ter criado a perfeição. não têm noção de que estão vivos. Seguindo essa lógica. Ora. 4. só certezas. e mais: quem criou essa ideia de fato existe também. enumeração ou indução: deve-se revisar bem para se certificar de que tudo está claro e nenhuma certeza foi esquecida. afinal as ideias inatas estão na alma e não na matéria. é o pensamento que me dá a noção de estar vivo. A substância pensante é. Deus é o único perfeito que conhecemos. Finalizando: partindo do cogito temos uma certeza inabalável. em latim. descreve uma série de procedimentos que todo pensador. e disso não posso duvidar. o exemplo daquilo que tanto procurava: uma verdade indubitável (aquilo que não há como questionar). pois é dotado da capacidade de raciocinar. os outros seres vivos estão à mercê dos instintos. Dotados apenas da substância material.”. aplicável em qualquer situação e sem prazo de validade. Descartes ergue sua filosofia. outra substância: a res extensa. existindo. não existindo nenhuma verdade inteiramente verdadeira. não foi dada pela cultura). Segue desta forma até chegar a algo que. e foi quem nos colocou na cabeça a possibilidade de buscar a perfeição. servirão de exemplo (inclusive para a Filosofia) para tornar as outras ciências tão exatas quanto às razões matemáticas. Daí extrai a existência e o papel da alma humana e justifica também a presença de Deus (que por sua vez é uma substância absoluta) e sua devida importância como avalista da epistemologia cartesiana. quer dizer “coisa”. o pensamento me faz saber que existo. para ele. Para existir. pensante) que é o pensar. por isso. de qualquer filosofia. que seria. que comprova a 7 . O ser humano é o único que tem consciência de que existe. enquanto os outros seres.

uma. As ideias são como cópias. Estamos habituados a praticar o conhecimento dessa forma. apenas a crença de que. que faz de suas associações mentais (inspiradas nas impressões) um uso local 8 . nada de racional nisso. uma lógica que não tem nada a ver com a natureza. Somos nós que estabelecemos a “razão de ser” dos acontecimentos. . do pensamento (res cogitans). que tinha a impressão de verde. o efeito. mas penso nela. a relação de causa e efeito só pode ter sua inspiração na experiência (de tantas vezes um copo cair e quebrar. Com isso. as substâncias e o racionalismo cartesiano de nada servem para David Hume. as ideias inatas. na impressão que temos de algo. O empirismo se constituiu num um importante contraponto ao racionalismo. não há na mente humana nada que não tenha se originado na percepção. o empirismo afirma que todo conhecimento deriva da experiência – e em particular da experiência dos sentidos. segundo Hume. como o amarelo pode lembrar o ouro) e por causalidade (ao ferimento se segue a ideia de dor: causa. que se refere às impressões que temos dos fenômenos psíquicos atuais. Thomas Hobbes e John Locke e atingindo seu auge com David Hume (1711-1776). ao cair um copo.. A impressão só se dá diante da experiência in loco (quer dizer “ao vivo”): “eu. como a relação “causa e efeito”. A priori. que ele chama de impressão. não têm existência empírica. que se relaciona aos fenômenos psíquicos reproduzidos. a relação causa e efeito que nos parece óbvia porque estamos acostumados com ela. sem quaisquer relações lógicas. agora. apesar de tudo. mais fraca. não é possível conhecer. ou seja. As conexões de ideias são completamente arbitrárias. iniciado na Inglaterra no século XVII com Francis Bacon. descartando a razão como motivador da interpretação de causa e efeito. Todo um “edifício de conhecimento” foi construído pelo Ocidente para satisfizer nossa curiosidade e para que outras “necessidades” fossem atendidas. David Hume e o empirismo Empirismo é algo próximo do que chamamos de “experiência”. Não há. ele se quebrará. que é o filósofo que escolhemos para abordar o assunto. O que se quer dizer é que. o homem é um ser prático e sensível. conectando-se de várias formas: por semelhança (a imagem de um objeto ser parecida com a imagem de outro objeto). Enfim.existência de Deus e menospreza o corpo que se configura como uma substância (res extensa) separada da alma. representações das impressões. os fatos concretos revelados pela experiência sensível (que mais adiante se propagará como ideia) só mostram como eles são. Todas essas “ficções”. O racionalismo só diz respeito à Matemática. Toda a conexão de ideias que fazemos. agora não tenho mais a impressão de verde.outra. às representações: “eu. ao cair. somente a posteriori (ou seja. pois. Para Hume.. e então tenho a ideia de verde”. que não precisa das impressões sensíveis para existir. chega-se à conclusão de que. o caos de puros acasos de que é feita a natureza da vida. mais forte. Duas possibilidades de perceber as coisas: as impressões e as ideias Para Hume. a fim de que uma forma de sobrevivência do homem esteja garantida. quebrará). relembro-a ou a imagino. Esta se subdivide em duas espécies: . às vivências de apresentação atuais. mas nada garante que isso vá realmente acontecer. tenho a impressão de verde”. E as ideias costumam se associar. a dor). o ferimento. de fato. Não existe outra realidade senão a acessível pelos sentidos. após a experimentação) podemos ter argumentos para nossas associações de ideias. que se chama ideia. nada nos diz que devemos relacionar um acontecimento a outro: um copo caindo (“impressão 1”) e se quebrando no chão (“impressão 2”) é associação de ideias que realizamos para impor uma ordem ao mundo. deveriam ser aceitos como são dados. Contudo. O conhecimento ocidental seria uma espécie de “consolo metafísico” para suportar o mistério. por contiguidade (ideias de continuidade entre uma imagem e outra.

que por vezes não se lembra da origem experimental de suas ideias e acha que elas são inatas. como dizia Descartes. 9 . Assim são construídos os costumes de um povo...de forma a obedecer a suas “necessidades (sejam elas culturais ou fisiológicas – se é que é possível saber exatamente quando começa uma e termina a outra)”.

uma crise de percepção. e em especial nossas grandes instituições sociais. O reconhecimento de que é necessária uma profunda mudança de percepção e de pensamento para garantir a nossa sobrevivência ainda não atingiu a maioria dos líderes das nossas corporações nem os administradores e os professores das nossas grandes universidades. Em última análise. Nossos líderes não só deixam de reconhecer como diferentes problemas que estão inter-relacionados. algumas delas até mesmo simples. em Washington. Lester Brown. São problemas sistêmicos. este é o grande desafio do nosso tempo: criar comunidades sustentáveis — isto é. Ela deriva do fato de que a maioria de nós. esses problemas precisam ser vistos exatamente como diferentes facetas de uma única crise. deu uma definição simples. Defrontamo-nos com toda uma série de problemas globais que estão danificando a biosfera e a vida humana de maneira alarmante – que pode logo se tornar irreversível. clara e bela: "uma sociedade sustentável é aquela que satisfaz suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras " (Brown. de fato. porém. 10 . uma série de relatórios anuais editados pelo Worldwatch Institute. Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época. em grande medida. À medida que o século se aproxima do fim. o que significa que estão interligados e são interdependentes. 1981). no nosso pensamento e nos nossos valores. ambientes sociais e culturais onde podemos satisfazer as nossas necessidades e aspirações sem diminuir as chances das gerações futuras. eles também se recusam a reconhecer como as suas assim chamadas soluções afetam as gerações futuras. mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente.Mecanicismo X Sistema holístico Fritjof Capra Crise de percepção Uma das melhores fontes é State of the World. Em resumo. Por exemplo. Hásoluções para os principais problemas de nosso tempo. O conceito de sustentabilidade adquiriu importância-chave no movimento ecológico e é realmente fundamental. concordam com os conceitos de uma visão de mundo obsoleta.C. Mas requerem uma mudança radical em nossas percepções. uma mudança de paradigma tão radical como o foi a revolução copernicana. uma percepção da realidade inadequada para lidarmos com nosso mundo superpovoado e globalmente interligado. que se tornou a característica mais importante da era pós-Guerra Fria. A extinção de espécies animais e vegetais numa escala maciça continuará enquanto o hemisfério meridional estiver sob o fardo de enormes dívidas. o que leva ao colapso das comunidades locais e à violência étnica e tribal. ainda não despontou entre a maioria dos nossos líderes políticos. [Esses relatórios estão sendo traduzidos pela Editora Globo sob o título de Salve o Planeta!]Outras avaliações excelentes podem ser encontradas em Hawken (1993) e em Gore (1992). que é. estamos agora no princípio dessa mudança fundamental de visão do mundo na ciência e na sociedade. do Worldwatch Institute. somente será possível estabilizar a população quando a pobreza for reduzida em âmbito mundial. A escassez dos recursos e a degradação do meio ambiente combinam-se com populações em rápida expansão. Temos ampla documentação a respeito da extensão e da importância desses problemas. E. Essa compreensão. as preocupações com o meio ambiente adquirem suprema importância. D. as únicas soluções viáveis são as soluções "sustentáveis". A partir do ponto de vista sistêmico.

Em seus esforços para apreender essa nova realidade.A mudança de paradigma Na minha vida de físico. poder-se-ia dizer. entre os quais a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares. A crise intelectual dos físicos quânticos na década de 1920 espelha-se hoje numa crise cultural semelhante. Elas levaram Thomas Kuhn à noção de um "paradigma" científico. sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para descrever os fenômenos atômicos. As dramáticas mudanças de pensamento que ocorreram na Física no princípio do século XX vêm sendo amplamente discutidas por físicos e filósofos durante mais de cinquenta anos. a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico. definido como "uma constelação de realizações — concepções. porém muito mais ampla. o que estamos vendo é uma mudança de paradigmas que está ocorrendo não apenas no âmbito da ciência. ecológica. durante as quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o restante do mundo. 1982). a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência. a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza" (Capra. mas não menos importante — a crença em que uma sociedade na qual a mulher é. que dá forma a uma visão particular da realidade. E. na atualidade. foram recompensados com profundas introvisões sobre a natureza da matéria e de sua relação com a mente humana (Capra. O paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por várias centenas de anos. vinte e cinco anos depois da análise de Kuhn. Hoje. por toda parte. Todas essas suposições têm sido decisivamente desafiadas por eventos recentes. em absoluto. está ocorrendo. Esse paradigma consiste em várias ideias e valores entrincheirados. Consequentemente. 1962). mas. a visão do corpo humano como uma máquina. meu principal interesse tem sido a dramática mudança de con­ cepções e de ideias que ocorreu na Física durante as três primeiras décadas do século XX. de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade. que defino como "uma constelação de concepções. 1975). A exploração dos mundos atômico e subatômico colocou-os em contato com uma realidade estranha e inesperada. Seus problemas não eram meramente intelectuais. mudanças de paradigmas ocorrem sob a forma de rupturas descontínuas e revolucionárias. Para analisar essa transformação cultural. os cientistas ficaram dolorosamente conscientes de que suas concepções básicas. 1986). fácil de ser aceita pelos físicos no começo do século. As novas concepções da Física têm gerado uma profunda mudança em nossas visões de mundo: da visão de mundo mecanicista de Descartes e de Newton para uma visão holística. na verdade. reconhecemos a mudança de paradigma em Física como parte integral de uma transformação cultural muito mais ampla. Eles precisaram de um longo tempo para superar essa crise. e — por fim. até mesmo existencial. generalizei a definição de Kuhn de um paradigma científico até obter um paradigma social. — compartilhada por uma comunidade científica e utilizada por essa comunidade para definir problemas e soluções legítimos" (Kuhn. denominadas "mudanças de paradigma". de valores. mas também na arena social. no fim. alcançavam as proporções de uma intensa crise emocional e. De acordo com Kuhn. e ainda está sendo elaborada em nossas atuais teorias da matéria. A nova visão da realidade não era. a crença no progresso material ilimitado. 11 . em proporções ainda mais amplas (Capra. classificada em posição inferior à do homem é uma sociedade que segue uma lei básica da natureza. uma revisão radical dessas suposições. técnicas etc. valores.

Em última análise. para os quais as conexões com o meio ambiente são muito mais vitais. holístico e ecológico. a percepção da ecologia profunda é espiritual ou religiosa. A ecologia rasa é antropocêntrica – centralizada no ser humano. É também essa a essência de uma mudança de paradigma. em última análise. estamos todos encaixados nos processos cíclicos da na­ tureza (e. Essa distinção é hoje amplamente aceita como um termo muito útil para se referir a uma das principais divisões dentro do pensamento ambientalista contemporâneo. 1985. com sua distinção entre ecologia rasa e ecologia profunda. Uma visão holística. além disso. Eventualmente. não precisaremos nos desfazer de tudo. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados. digamos. "A essência da ecologia profunda". A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida. 1991). industriais. A ecologia profunda não separa seres humanos — ou qualquer outra coisa — do meio ambiente natural. p. Ela questiona todo esse paradigma com base numa 12 . Não é. e parece que holístico é um pouco menos apropriado para descrever o novo paradigma. e o fato de que. 1985). Essa distinção entre holístico e ecológico é ainda mais importante quando falamos sobre sistemas vivos. quer falemos a respeito da espiritualidade dos místicos cristãos. de surpreender o fato de que a nova visão emergente da realidade baseada na percepção ecológica profunda é consistente com a chamada filosofia perene das tradições espirituais. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza. as interdependências das suas partes. a ecologia profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos. diz ele. A escola filosófica foi fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess no início da década de 1970. e atribui apenas um valor instrumental. que está rapidamente adquirindo proeminência (Devall e Sessions. ou “de uso". Os dois termos.Ecologia profunda O novo paradigma pode ser chamado de visão de mundo holística. somos dependentes desses processos). de conexidade com o cosmos como um todo. en­ quanto indivíduos e sociedades. da dos budistas. como foi fabricada. Precisamos estar preparados para questionar isoladamente cada aspecto do velho paradigma. se o termo ecológica for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. de uma bicicleta significa ver a bicicleta como um todo funcional e compreender. à natureza. que concebe o mundo como um todo integrado – e não como uma coleção de partes dissociadas. orientados para o crescimento e materialistas. Quando a concepção de espírito humano é entendida como o modo de consciência no qual o indivíduo tem sensação de pertinência. diferem ligeiramente em seus significados. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos. científicos. Portanto. pois. em conformidade com isso. mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes. e assim por diante. a um movimento popular global conhecido como Ecologia Profunda. 74). ou da filosofia e cosmologia subjacentes às tradições nativas norteamericanas (Capra e Stendl-Rast. Pode também ser denominado visão ecológica. torna-se claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda. Uma visão ecológica da bicicleta inclui isso. O sentido em que eu uso o termo ecológico está associado a uma escola filosófica específica e. mas antes de sabermos isso devemos estar dispostos a questionar tudo. "consiste em formular questões mais profundas" (citado em Devall e Sessions. como seu uso afeta o meio ambiente natural e a comunidade pela qual ela é usada. como fonte de todos os valores. mas acrescenta-lhe a percepção de como a bicicleta está encaixada no seu ambiente natural e social — de onde vêm as matérias-primas que entram nela. Há outro modo pelo qual Arne Naess caracterizou a ecologia profunda.

13 . Este texto foi extraído do Capítulo 1 (“Ecologia profunda – um novo paradigma”) da Parte Um (“O contexto cultural”).perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros. Referência Capra. de 1996. p. Daí a referência ao final do século. A teia da vida. O título deste artigo foi criado pelo professor Marcos André Reis de Amorim a fim de se encaixar na organização da disciplina. Fritjof. 2001. com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte. 23-26. São Paulo: Cultrix. do livro A Teia da Vida.

14 . Com o passar do tempo. mas principalmente como as coisas funcionam. Para fazer ciência na Antiguidade era necessário pensar filosoficamente. principalmente os de Platão e Aristóteles. Fazer ciência. Trata-se de uma crise sem precedentes para a Filosofia. Segundo Galileu Galilei (15641642) – um dos fundadores da ciência moderna –. ambos considerados fontes de verdades absolutas. pois eles eram também físicos. quer dizer. Outro progresso importante é a substituição do método antigo da dedução pela indução. contra a autoridade atribuída ao aristotelismo e à fé religiosa. Serão considerados verdadeiros somente os discursos que possam ser comprovados pela experiência. instalaram-se um novo modelo de ciência e um novo modelo de mundo. isto é. coincidia com a dos cientistas. e a filosofia. que precisou reavaliar seus pressupostos e suas metas. Na Idade Média. Todavia. implica não apenas descrever como as coisas são. botânicos. A principal consequência da revolução moderna foi a separação da ciência frente à filosofia. Fazer filosofia era a forma mais refinada de estudar o mundo. como Tales. a ciência é considerada o discurso mais eficaz sobre a realidade. A filosofia foi durante muito tempo. O mundo passa a ser visto como uma espécie de mecanismo cuja estrutura pode ser decifrada através da Matemática. Já foi considerada ciência. astrónomos etc. afinal essa tarefa estava reservada agora para a ciência. a partir do século XVI. Platão ou Aristóteles. ela mesma. Buscando maior autonomia na investigação do mundo. ocorreu um processo de dogmatização. determinando a mudança do modelo geocêntrico (que pressupõe a Terra como centro do sistema do universo) para o sistema heliocêntrico (que coloca o Sol como centro do sistema planetário) é o principal símbolo da passagem da ciência antiga para a ciência moderna. contemplar e refletir dedutivamente. então ao menos a filosofia poderia fazer algo que a ciência não pode fazer: pensar os fundamentos da própria verdade. A ciência assume o posto de expressão máxima da civilização. apenas uma ciência auxiliar. A Filosofia clássica perdeu o lugar de destaque como rainha do saber e passou a ser considerada um obstáculo para o progresso da civilização. Já que não era mais possível dizer a verdade sobre as coisas. A assim chamada ciência moderna surgiu como um ato de resistência contra o dogmatismo. A imagem religiosa que colocava o homem como o máximo da criação começou a ser abalada. mas a rainha de todas as ciências. nem sempre a filosofia teve esse papel subordinado à ciência. e não uma ciência qualquer. Pitágoras. inaugurando o que se chamou revolução científica dos séculos XVI e XVII. químicos. a busca do conhecimento não podia entrar em choque com o Órganon (conjunto de textos aristotélicos) ou com a Bíblia (conjunto de escrituras sagradas). uma coadjuvante na busca do conhecimento. parte-se agora de casos particulares ("em dez experimentos a água ferveu a 100°C") e vai-se ascendendo até as leis de máxima generalidade ("A temperatura de fervura da água é sempre 100°C"). A nova ciência distingue-se da antiga por uma mudança de método e de objetivos.A trajetória epistemológica da Ciência Charles Feitosa Filosofia e ciência: ligações perigosas No século XX. aos poucos a atividade de pensar foi substituída pelo mero comentário aos escritos dos filósofos antigos. A ciência moderna A famosa revolução copernicana. real é tudo aquilo que possa ser medido e quantificado. o discurso mais completo e rico sobre o real. Ao invés de partir de leis gerais (do tipo "todos os homens são mortais") para os casos particulares ("Sócrates é mortal"). A imagem dos primeiros pensadores.

mais recentemente. A relação entre a Filosofia e a ciência muda mais uma vez na era contemporânea. mas têm sua origem na nossa experiência sensível com o mundo. no final do século XIX ocorreu novo processo de dogmatização. embora tenha caído às vezes em posições radicais ao rejeitar como desprovidos de sentido todos os enunciados que não pudessem ser comprovados empiricamente. parecido com aquele contra o qual a ciência moderna havia se oposto. foi publicado nos Estados Unidos um manifesto contra a Astrologia. Entretanto. o "positivismo lógico". por exemplo. Rudolf Carnap (1891-1970) e o jovem Ludwig Wittgenstein (1889-1951). até mesmo na ciência. assinado por 186 renomados cientistas. história etc. mas se tornar um saber do saber. O objetivo da Filosofia passa a ser então ajudar a evitar que o erro irrompa no trabalho do cientista. mas a retificação dos mesmos" (Crítica da Razão Pura [1781]. na obra do filósofo inglês John Locke (1632-1704). Em 1975. a Filosofia começou a se tornar epistemologia (do grego episteme = ciência). O século XX assistiu à emergência de "epistemologias alternativas". onde há dogmatização aparecem também os atos de resistência ou os movimentos de desdogmatização. ou seja. incluindo arte. entre 15 . Thomas Kuhn. o filósofo alemão Kant estabeleceu que filosofia não deve mais produzir saber. e. mas sim mostrar que há sempre um aspecto irracional em tudo que o homem faz. Essa transformação se manifesta. Essas novas "teorias do conhecimento" não pretendem mais denunciar ou alertar a ciência contra o perigo da irracionalidade. de autoridade e até de razões estéticas. mas de relativizar a sua pretensa supremacia. VII). A questão da Filosofia não é mais buscar o conhecimento da verdade. só que dessa vez em torno dela mesma. A proposta agora não é simplesmente servir. a partir do trabalho de filósofos como Moritz Schlick (1882-1936). Na esteira do positivismo surge. Introdução. quer dizer. como que lembrando a ele que seu discurso não está totalmente livre de ideologias políticas. responsável por inúmeros avanços tecnológicos. no início do século XX. como "ser". que defende a tese de que as revoluções científicas se dão às vezes de forma incomensurável. um crítico radical das noções de real ou razão absolutos. A assim chamada "Filosofia analítica" tornouse uma das vertentes mais importantes do pensamento contemporâneo e contribuiu para esclarecer a ambiguidade de certos termos filosóficos. A ciência arroga para si a pretensão de ser a única forma de descrição neutra e objetiva do real.Na modernidade. uma corrente filosófica em torno do filósofo francês Augusto Comte (1798-1857). autor de A Formação do Espírito Científico (1938). instaurando uma espécie de "tribunal da razão". quer dizer. Um pouco mais tarde. de crença. mas por força do acaso. Teorias alternativas sobre a Ciência Se a ciência moderna surgiu como um protesto contra a autoridade das velhas doutrinas. Começa a crescer uma crença na infalibilidade do método científico (assim como antes acreditava-se na infalibilidade papal). Um exemplo de epistemologia alternativa é a análise do filósofo austríaco Paul Feyerabend acerca do Estranho caso da Astrologia. inclusive à arte e à religião. ele realiza uma investigação sobre a natureza das ideias na nossa mente. autor de A Estrutura das Revoluções Científicas (1963). religião. mas fazer um ruído incômodo – como um zumbido – no ouvido do cientista. mas buscar a verdade do próprio conhecimento. sociais e culturais. Entre os expoentes dessa nova tendência estão o filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962). "que tem por fim não o aumento dos nossos conhecimentos. defendendo que o método científico deva ser estendido a todos os campos da atividade humana. No seu Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690). como na modernidade. teoria do conhecimento científico. que defendiam então como única tarefa da Filosofia a análise da linguagem científica. "substância" ou "qualidade". Não se trata de diminuir o valor da ciência. a reflexões excêntricas sobre a ciência. afirmando que elas não são inatas (não nascemos com elas). Surge o positivismo. não apenas pela razoabilidade da argumentação.

escrever cartas. matemáticos. uma ciência menos rigorosa e mais alegre. a crença em um real absoluto e a imagem do homem como um "animal racional" (ver capítulo 6. mas denunciar tanto a prepotência de certos setores da ciência moderna como a crença ingênua da sociedade na sua imparcialidade. a ciência também não é a máxima manifestação da cultura.. Até os teólogos católicos medievais procediam de forma mais cuidadosa na investigação das heresias. o mundo não é estático e homogêneo e a racionalidade não é necessariamente a parte mais nobre do homem. Talvez não sejam os clones. será preciso também repensar a imagem que temos do ser humano. A questão que envolve a clonagem não é. mais vital. 106). os monstros desviantes. não bastará apenas organizar protestos. Só com um outro modelo de homem. muitos deles confessaram em entrevistas à BBC de Londres nunca terem estudado Astrologia. A ciência pensa? O objetivo de Feyerabend não era defender a Astrologia. que "a ciência não pensa". menos calculista e mais afetiva. a saber. mas sim num profundo preconceito e arrogância. 112). Por fim. segundo o filósofo austríaco: "conheciam a matéria. Ainda segundo o autor.físicos. talvez seja a sua perpetuação como ser empenhado em controlar racionalmente a natureza à sua volta e a natureza que há dentro de si. Embora isso tudo seja muito importante. a ser construído no futuro. químicos. do acesso aos fundos de financiamento e dos privilégios de mutilação que desfruta. 16 . cit. é que poderemos também construir uma outra ciência. é o próprio cidadão que deve supervisionar o trabalho da ciência. é preciso mencionar uma posição ainda mais radical do que a das chamadas "epistemologias alternativas". enfim. p. Para Heidegger. mas essas possibilidades estão sendo encobertas e extintas em função da hegemonização do discurso científico. mas sim nós mesmos. por isso. e ainda não nos demos conta disso. existem muitas outras possibilidades de existir no mundo. Exercer um pensamento crítico significa não deixar que a última palavra fique com os experts mas sim com os que estão mais diretamente interessados: os cidadãos. além de 18 ganhadores do Prêmio Nobel. Devem examinar se a teoria científica é merecedora da exclusiva autoridade teórica. p. contas. item 1). mas talvez seja exatamente o contrário. como se acredita. expunham corretamente suas doutrinas e argumentavam contra elas utilizando todas as informações de que dispunham na época" (A Ciência em uma Sociedade Livre[1978]. os métodos curativos não científicos não resultam superiores com mais frequência" (op. mas não é capaz de investigar seus próprios pressupostos. ou se. Se quisermos impor limites à ciência. a ameaça do fim do homem. conheciam os adversários. fundar comissões de ética e organizações não-governamentais. O homem pode muito mais do que simplesmente conhecer e raciocinar. pelo contrário. em uma entrevista de 1969 para uma tevê alemã. Feyerabend desvela o caráter autoritário da declaração pública dos cientistas ao mostrar que ela não se baseia em argumentos ou no conhecimento detalhado da matéria por parte dos signatários. Comissões de não especialistas "devem analisar caso por caso a segurança dos reatares nucleares e ter acesso a todas as informações de interesse. A ciência moderna é capaz de fazer cálculos. medições. pois. Heidegger explode de vez com as relações perigosas entre Filosofia e Ciência na era contemporânea ao afirmar provocativamente.

desde a descoberta do fogo e a invenção da roda? Pela história constatamos as variadas técnicas agrícolas. Se é antigo o anseio humano de tornar o mundo inteligível. podemos perceber a relação entre o orvalho da noite e as gotículas que aparecem na garrafa retirada da geladeira. identificavam inúmeras doenças e seu tratamento. diversos povos já sabiam como fazer flutuar embarcações. sistemas de irrigação. antes da ciência da Biologia. porém. que podem ser submetidas à experimentação. capazes de produzir técnicas surpreendentes. Por exemplo. de maneira que o novo saber ampliou a capacidade humana de agir sobre a natureza e transformá-la. São objetivas porque a ciência é uma instituição social em que as atividades de cada cientista. Vejamos melhor o que significam essas características gerais. o conhecimento que resulta do bom senso. unificando um grande número de fatos que pareciam díspares. outras por dedução ou indução. a partir do bom senso. os Estados sabiam como administrar os bens públicos. já havia oficinas de metalurgia e tingimento. de habitação ou vestimenta. As civilizações constituíram seu conhecimento e sua técnica. Ao afirmarmos que a ciência é conquista recente da humanidade. de modo a serem confirmadas ou rejeitadas. Ou seja. preciso e com maior objetividade. 17 . Ou seja. que permite alcançar um conhecimento sistemático. estão sujeitas à critica dos demais. uma vez que é inevitável reconhecer as inumeráveis con­ quistas técnicas das civilizações. Nesse caso. marcadas pela nossa sensibilidade ou idiossincrasias. E em nenhum momento podemos desprezar o refi­ namento de certos saberes. Isso é possível porque os cientistas trabalham com hipóteses testáveis.O “mito do cientificismo” e o “mito da neutralidade científica” Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins Características do conhecimento científico Trataremos o conceito de ciência como se configurou a partir da Idade Moderna. em que tipo de conhecimento se baseavam os povos antes da Idade Moderna. Uma vez confirmadas. portanto. as ciências da natureza são formas de conhecimento relativamente recente. antes da ciência da Física. Posteriormente. sofre limitações por ser muitas vezes impreciso. de pastoreio. a ciência é constituída por corpos de conhecimento organizado cujas investigações sistemáticas estão empiricamente fundamentadas pelo controle dos fatos. de construção inteligente do habitat humano. descobrir que a respiração é uma forma de combustão. enfim. como construir palácios. A ciência aspira pela objetividade ao tentar superar as conclusões subjetivas. o que realmente mudou a partir do século XVII? O novo método científico inaugurou uma forma de investigação muito mais rigorosa. aquedutos. porque surgiram no início do século XVII. antes da economia. pelo uso espontâneo da razão e da imaginação. De fato. as explicações científicas são formuladas em enunciados gerais (as leis) capazes de distinguir e separar certas propriedades e descobrir relações entre outras. fragmentário e quase sempre preso a interesses práticos imediatos. quando Galileu estabeleceu os novos métodos de investigação da Física e da Astronomia. a pergunta que nos vem à mente é a seguinte: afinal. antes da Química. com enorme repercussão sobre a tecnologia. como membro de uma comunidade intelectual. às vezes por ensaio e erro. outras ciências aprimoraram seus métodos.

desse mito se pode concluir que "saber é poder". com o filósofo francês Augusto Comte. além de fazer esquecer que a relação do ser humano com a natureza não deve ser de dominação. a ciência torna precisos seus conceitos. a arte e a filosofia. mas permanece em todas elas o ideal da sistematização e da lógica rigorosa.relacionar o movimento da Lua. A confiança total na ciência pressupõe apenas a racionalidade científica. as trajetórias de projéteis e a subida de líquidos em tubos delgados. Também os pensadores da Escola de Frankfurt.. como Horkheimer e Adorno. lá onde se pensava existirem apenas as luzes da razão. para ser examinado como um mundo mecânico e causal.. Esse rigor aumenta com a aplicação da Matemática — que transforma qualidades em quantidades — e a utilização de instrumentos de medida. A objetividade da ciência também decorre da sua linguagem rigorosa.. Os críticos desse exagerado otimismo acusam o cientificismo de ser responsável por uma visão distorcida tanto da natureza quanto do ser humano. sagrados. Por consequência. Era inevitável que se criasse uma aura em torno desse saber e desse poder. Os mitos da ciência Nos últimos quatro séculos. fazendo surgir. que nem todas as ciências atingem a precisão da Mecânica. sempre que os critérios da razão instrumental passam a interferir nos domínios da vida afetiva.). É bem verdade. Enquanto na conversa do dia a dia usamos termos vagos. tem como consequência a tecnocracia. O mito do especialista. O mito do cientificismo À medida que a ciência se mostrou capaz de explicar os fenómenos de maneira mais rigorosa. agora despojado de seus aspectos míticos. consideradas formas "menores" de conhecimento. minimizou-se a importância dos demais modos de compreensão da realidade. veremos adiante. O filósofo alemão Max Weber (1864-1920) percebeu que a formalização da razão. 18 . segundo a qual apenas o técnico competente é capaz de decisão.). mas de harmonia (. criticaram a predominância da razão instrumental e controladora — responsável por reduzir a atuação humana ao campo da eficácia. tendo em vista o ren­ dimento e a eficácia. ao fazer previsões capazes de transformar o mundo passou a ser vista como conhecimento superior. Esses mitos atingem a sociedade como um todo — tanto os leigos como os cientistas —. algumas regiões "nebulosas": os mitos da ciência.. fruto do cientificismo. Essa valorização da ciência começou com a celebração de seus primeiros sucessos práticos e atingiu seu ápice no século XIX. fundador do positivismo (.). o bom senso da vida cotidiana. como se ela fosse a única resposta às perguntas que fazemos (como se todas as perguntas tivessem respostas. onde o conhecimento científico não se irmana com a sabedoria sempre haverá riscos de opressão. Ora. como o mito... ou seja. evitando ambiguidades.). as intuições da vida afetiva. a ciência e a tecnologia foram capazes de alterar a face do mundo. fazendo com que ciência e técnica se desviem de sua destinação humana (. com mudanças tão radicais como nunca se teve notícia antes. as marés.. que se maravilha com o rigor do saber e a eficácia da técnica. a religião. caminha ao lado do desencantamento do mundo.

não há como sustentar a neutralidade da ciência. sabemos que não é bem assim: a humanidade corre riscos diante do "aprendiz de feiticeiro" incapaz de discutir os fins a que se destinam suas pesquisas. alimenta a corrida armamentista e exige o constante desenvolvimento da ciência e da tecnologia no campo militar. Em decorrência. cabe ao cientista a responsabilidade social de indagar sobre os fins a que se destinam suas descobertas. não caberia ao cientista discutir o uso político de suas des­ cobertas. Se podemos reconhecer os benefícios do progresso. servem a determinados valores e não a outros. desde há muito. que as pesquisas científicas não sofrem influência social ou política e visam apenas ao conhecimento "puro" e desinteressado. uma vez que a produção científica não se realiza fora de um determinado contexto social e político. As indagações éticas se estendem a inúmeros outros campos. a utilização de células-tronco para fins terapêuticos tem despertado a esperança para o tratamento de doenças até então incuráveis. assim. A bomba atómica não pode ser apenas o resultado do saber sobre a energia atômica nem da simples técnica de produzir explosão. à democracia formal em vez de à democracia participativa. à liberdade individual e à eficácia económica em vez de à libertação humana. aos direitos civis e políticos sem qualquer relação dialética com os direitos sociais. aos interesses dos ricos em vez de aos direitos dos pobres. da "indústria da guerra". econômicos e culturais" (Hugh Lacey). trata-se de um saber e de uma técnica que dizem respeito à vida e à morte de seres humanos. porque seus procedimentos e produtos podem ser verificados com isenção pela comunidade científica. No entanto. O rigor do método permite atingir alto grau de objetividade. desejosas de subvencionar os trabalhos que mais lhes interessem e que nem sempre estão focados na saúde e no bem-estar das pessoas. sem alegar isenção. muitos pensam que a ciência é um saber neutro. 19 . Por considerar a atividade científica à margem das questões históricas. Essa ambiguidade se reflete em inúmeros setores. Se esta última vem carregada de temores. que. Não é em nome do progresso que as tribos indígenas têm sido sistematicamente expulsas dos seus territórios? Ou que as florestas são devastadas e substituídas por pastos? Ou que a produção de alimentos básicos é desprezada pelo prevalecimento do agronegócio das monoculturas para exportação? "No momento atual. por exemplo. à utilidade em vez de ao fortalecimento da pluralidade de valores. que justifica as ilusões e os preconceitos dos povos "civilizados" ao se julgarem superiores aos "menos desenvolvidos". por exemplo. na discussão sobre a clonagem de animais e a possibilidade de essa técnica ser aplicada aos seres humanos. O cientista se ocuparia com a descrição dos fenómenos – e não com juízos de valor. refletindo-se. as práticas de controle da natureza estão nas mãos do neoliberalismo. As altas cifras destinadas às pesquisas exigem o apoio financeiro de instituições públicas e privadas. Ainda que seus procedimentos metodológicos busquem a objetividade. nem por isso deixamos de indagar sobre os valores do indivíduo "urbano e civilizado" que sofre de solidão e é vítima de desconfortos como a poluição ambiental. Isso nos leva a questionar o mito do progresso. É o caso. ou seja. ao mercado em vez de ao bem-estar de todas as pessoas. à propriedade particular e ao lucro em vez de aos bens sociais. Diante dessas questões. Servem ao individualismo em vez de à solidariedade.O mito da neutralidade científica A ciência é um tipo de saber capaz de superar a subjetividade do próprio cientista e os preconceitos do senso comum.

MARTINS. 1992. Maria Lúcia de Arruda. 1992. Este texto é trecho do capítulo 12 (“O conhecimento científico”) da primeira parte (“O que é ciência”) (Aranha. 172-174). Martins.Referência ARANHA. São Paulo: Moderna. 20 . Temas de Filosofia. O título foi criado pelo professor Marcos André Reis de Amorim para se encaixar na organização do curso. Maria Helena Pires. p.

apesar do Dr. Eles se tornam objeto de pesquisa e não mais de revelação. Mas nenhum genocídio foi perpetrado para fazer uma teoria científica triunfar. Por exemplo. que busca unidade e coerência em sua representação do mundo sob seus mais diversos aspectos. São as paixões que utilizam a ciência para sustentar sua causa. esse conflito entre o universal e o local. Nada causa tanta destruição quanto a obsessão de uma verdade considerada absoluta. quanto o resultado. uma teoria que evolui. tanto o espírito quanto o produto são importantes na ciência. o sinal que prova infalivelmente a conclusão a que eles não imaginam ser possível deixar de subscrever. ou melhor. mais do que das respostas que lhe foram dadas. e mesmo de serem indivíduos perigosos que não hesitam em descobrir e utilizar meios de destruição e de coerção terríveis. Tal procedimento frequentemente vai de encontro à tendência natural do espírito humano. entre o eterno e o provisório reaparece periodicamente em certas polêmicas. talvez sejam mais convenientes que a febre e a subjetividade para tratar de certos assuntos humanos. São acusados de não possuírem coração nem consciência. Há alguns anos os cientistas vêm sendo objeto de censura. Já sabem que devem se contentar com o parcial. que utiliza os mesmos argumentos já usados por Huxley e Wilberforce. Frankenstein e do Dr. por escritores ou por camponeses. E.Contra o dogmatismo na ciência e na vida François Jacob Uma época ou uma cultura caracteriza-se mais pela natureza das questões que coloca do que pela extensão de seus conhecimentos. sejam compostas por cientistas ou por agentes de seguro.. De fato. por mais embaraçoso que seja. imagem exata de uma "realidade" que estaria a postos apenas esperando o momento de ser revelada. Tanto a aceitação da mudança. Exagera-se sua importância. Nada é mais perigoso que a certeza de ter razão. Ter ajudado na destruição da ideia de uma verdade intangível e eterna talvez seja uma das mais valiosas contribuições da metodologia científica. Podese censurar o entusiasmo ocasional de alguns cientistas na defesa de suas ideias. Pois não é somente o lucro que faz com que os homens se matem. É a história das tentativas de colocar novas questões. da ideologia correta. pois não são as ideias da ciência que engendram as paixões. Todos os massacres foram realizados por virtude. Este diálogo de surdos opõe eternamente os que recusam uma visão universal e imposta do mundo e os que não podem viver sem ela. o primado da crítica. Há muito tempo os cientistas renunciaram à ideia de uma verdade última e intangível. mas uma história. A ciência não leva ao racismo e ao ódio. com o objetivo de reconstruir aquilo que eles querem que seja não um mito. da política idônea. em nome da religião verdadeira. 21 . do nacionalismo legítimo. Todos os crimes da história são consequência de algum fanatismo. A frieza e a objetividade.. em nome do combate a Satã. as catástrofes da história têm sido fruto mais da atuacão de padres e de políticos que de cientistas. a que coloca os partidários da criação contra os da evolução. de não se interessarem pelo resto da humanidade. com o provisório. Os outros procuram incansavelmente nesta mesma natureza traços de acontecimentos que frequentemente não foram deixados.) É preciso que fique claro para cada pessoa que nenhum sistema explicará o mundo em todos os seus aspectos e detalhes. frequentemente apontadas como características condenáveis dos cientistas. Ao contrário do que frequentemente se pensa. de colocar as antigas questões de maneira nova. Strangelove. no mais ínfimo detalhe da natureza. a submissão ao imprevisto. É também o dogmatismo. (. por mais novo que seja. É o ódio que lança mão da ciência para justificar seu racismo. Agassiz e Gray. por padres ou por políticos. E. em suma. A proporção de pessoas imbecis e sem caráter é uma constante presente em todas as amostras de uma população. Os primeiros sempre encontram. por esse questionamento incessantemente remanejado durante quatro séculos. Este livro (A lógica da vida) é uma história das questões formuladas a respeito da hereditariedade. assiste-se à gradual transformação da maneira de considerar a vida e o ser humano.

1989. Rio de Janeiro: Graal. 22 . A lógica da vida. François.Referência JACOB.

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