Paulo Bauler FRAGMENTOS PÓS-MODERNOS

Uma Poética Da Pós-Modernidade
Rio de Janeiro 2003

Faça o que faça, a vida é ficção, / E formada de contradições...

[William Blake]

Não pode haver mundo, nem haveria distinções se tudo fosse igual. Parece que as diversidades constituem a harmonia na espécie humana.
[Qorpo-Santo]

As the Aposttle was shown a mixed bundle of beasts in his vision, So shall my book, dear friend, offer you clean and unclean.
[Johann Wolfgang Goethe]

Imaginação rigorosa é a mola mestra da atividade criadora. O mundo da “realidade” não passa de uma criação da imaginação imperfeitamente rigorosa. A imaginação que o estabeleceu endureceu e petrificou-se no curso de milênios, a ponto de não sabermos mais da origem imaginária do mundo da “realidade”.
[Vilém Flusser]

Sem poesia não há nenhuma realidade.
[FriedrichSchlegel]

Evoé, Vênus!
[Manuel Bandeira]

O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.
[Machado de Assis]

Make it new.
[Ezra Pound]

It’s a long, long, long, long way…
[Caetano Veloso]

A poesia deve ser a derrocada do intelecto.
[André Breton]

Leitor: Está fundado o Desvairismo.

[Mario de Andrade]

A poesia deve ser uma festa do intelecto.
[Paul Valéry]

Aquele que escreve em sangue e fragmentos não quer ser lido, Quer ser aprendido de cor...
[Friedrich Nietzsche]

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Um dos muitos modos de prefácio...

O leitor do qual espero alguma coisa deve ter três qualidades. Deve ser calmo e ler sem pressa. Não deve intrometer-se, nem trazer para a leitura a sua “formação”. Por fim, não pode esperar na conclusão, como um tipo de resultado, novas propostas de escrita ou de leitura. Não prometo verdades teóricas, nem novo texto de estudo para universitários, admiro muito mais a natureza cheia de força daqueles que estão prontos para atravessar todo o caminho, desde as profundezas do empírico até as alturas dos problemas culturais autênticos, e novamente, destas para as entranhas dos regulamentos mais áridos, e dos programas didáticos arranjados. Mesmo satisfeito por ter subido, ofegante, uma montanha bem alta e tendo recebido lá em cima a alegria da vista mais livre, nunca poderei satisfazer os amigos de regulamentos neste trabalho. Bem vejo chegar um tempo em que gente séria, a serviço de uma formação totalmente renovada e purificada, trabalhando em conjunto, vão se tornar de novo os legisladores da educação cotidiana – a que leva à referida formação. Provavelmente deverão elaborar novos regulamentos e programas. Mas como está longe este tempo! E o que não vai acontecer até lá! Talvez encontre-se entre ele e o presente a dissolução do ensino universitário, ou pelo menos uma reformulação tão ampla das assim chamadas universidades, que seus antigos regulamentos e programas parecerão, aos olhos da posteridade, sobras do tempo das palafitas. O trabalho se destina aos leitores calmos, a pessoas que ainda não estão comprometidas com a pressa vertiginosa de nossa época rolante, e que ainda não sentem um prazer idólatra quando se atiram sob suas rodas, portanto a gente que ainda não se acostumou a estimar o valor de cada coisa segundo o ganho ou a perda de tempo. Ou seja – a muito poucos. Esses, porém, “ainda tem tempo”, a eles é permitido, sem que fiquem envergonhados, procurar a reunião dos momentos mais frutíferos e mais fortes de seus dias, a fim de refletir sobre o futuro de nossa formação acadêmica, eles podem até acreditar que chegam à noite de modo vantajoso e digno, quer dizer: na meditatio generis futuri. Uma pessoa assim ainda não desaprendeu a pensar enquanto lê, ainda compreende o segredo de ler nas entrelinhas, sim, ele esbanja tanto, que ainda reflete sobre o que foi lido – talvez muito após ter largado o livro. E, contudo, não para escrever uma resenha ou um novo livro, mas apenas assim, para refletir! Esbanjador leviano! Você é o meu leitor, pois será calmo o suficiente para seguir um longo caminho com o autor, cujas metas ele mesmo não pode ver, nas quais deve acreditar honestamente, para que uma geração posterior, talvez distante, veja com os olhos o que só tateamos às cegas e dirigidos apenas pelo instinto. Se o leitor, em contrapartida, achar que só é necessário um pulo ligeiro, um ato bem-humorado, se considerar que se alcança tudo o que é essencial com uma nova legislação decretada

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pelo Estado, então devemos temer que ele não tenha chegado a entender nem o autor, nem o problema propriamente dito. Por fim, dirige-se ao leitor a terceira e mais importante exigência: a de que ele não se intrometa de modo algum, à maneira do homem moderno, e não traga para a leitura a sua “formação”, algo como uma medida, como se com isso possuísse um critério para todas as coisas. Desejamos que ele seja suficientemente formado para pensar em sua formação de modo restrito e até desdenhoso. Então lhe seria permitido abandonar-se com total confiança à condução do escritor que, justamente, só ousa falar do não-saber e do saber do não-saber. Antes de tudo, o leitor não quer recorrer a nada além de um sentimento forte e agitado do que é específico em nossa barbárie presente, daquilo que nos distingue, como bárbaros do século vinte e um, diante de outros bárbaros. Assim, com este livro na mão, ele procura os que são movidos por um sentimento semelhante. Deixem-se encontrar, solidários, em cuja existência eu acredito! Perdidos de si mesmos, que sofrem, em si mesmos, a dor da corrupção de uma alma brasileira... Contemplativos, cujos olhos são incapazes de escorregar de uma superfície para a outra com uma espiada cheia de pressa... Altivos, que Aristóteles celebra por atravessarem a vida hesitando e sem ação, a não ser que uma grande missão e uma grande obra os reclame... A vocês faço meu apelo. Não se escondam, só desta vez, na caverna de sua reclusão e de sua desconfiança... Pensem que este livro é destinado a ser arauto... Se vocês mesmos aparecerem no campo de batalha, em sua própria armadura, quem ainda cobiçará olhar para o arauto que os convocou?...

Friedrich Nietzschei

Velas de Navegação Estética
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A pós-modernidade – o livro parte dessa concepção – é um fato. É um fenômeno da cultura, não uma idéia, uma vanguarda, com a qual pretendem, progressistas, liberais, ou revolucionários, modificar o mundo da arte ou da política. Como fenômeno, a pós-modernidade compreende um espaço – e espaço ampliado – em que se desenvolve, ou se retrai, uma multiplicidade incomensurável de possibilidades artísticas, culturais, sociais, etc., que buscam fixar moradia, cada qual a seu próprio modo, em um contexto de fragmentação de todas as utopias, ideologias, escolas, absolutos de todo gênero. De Platão a Marx, passando por Hegel, e a popularidade atual de Nietzsche bem o comprova, o pensamento unívoco, a retórica da totalidade, a pregação do sistema filosófico como justificador das ações e criações humanas desabaram por terra. A cultura desmantelou-se, fragmentou-se, não como de ordinário vem se concebendo, por uma ação desconstrutivista subjetiva, que se animasse ou se movimentasse pela determinação consciente de pensadores, de artistas, de homens de cultura enfim. Isto é apenas um dos seus efeitos. A Tecnologia, que retira do humano o domínio do Sistema Ordenador da sociedade do século que ora se inicia – mas que ao mesmo tempo concede amplas possibilidades de realização de desejos – é ela a força motriz desse fenômeno. Daí que se instauram, na nova sociedade desse início de milênio, novas divisões e conflitos de classes não tanto econômicas, ao menos nas medidas até aqui verificadas, mas em volta à produção e distribuição de poder, que antecede a produção e distribuição de riqueza. Tanto no que concerne à dicotomia Velha Ordem/Velha Economia versus Nova Ordem/Nova Economia, como aos múltiplos fragmentários conflitos que se sucedem em progressão geométrica na base piramidal da sociedade: tribo, “eu”, “outro”, são categorias que – e mesmo por conta de reformulação de identidades, individuais e sociais – estão aí a exibir conflitos ao interior dos microcosmos de poder como nunca dantes se conheceu. Trava-se, aos subterrâneos da sociedade pós-moderna, batalhas cotidianas que, se nem a todos é dado ser sujeito, a elas todos nós de um modo ou de outro nos sujeitamos. Por outro lado, o desdobramento do Poder Cultural em Poder Social e Econômico é novidade da pós-modernidade, que rompe definitivamente com a simples equação Poder Econômico = Poder Social. Fragmentada a Cultura – fragmentado está o Poder. Organizada a Cultura a partir de uma Lógica Informacional, duas são as fontes de poder: informação e capacidade de gerenciamento informacional: ou seja, o poder – e assim a cultura – vai se medindo por gigabites... Das concepções humanistas, metafísicas – que justificavam a ciência por ela mesma, e que centralizavam no Humano o seu desenvolvimento, no mais das vezes em função de perspectivas éticas – à substituição do elemento científico nuclear, o saber, pela informação, aprofunda e expande a divisão de trabalho iniciada com a revolução industrial, no século XVIII, alterando substancialmente o conceito de ciência e, com isso, os seus elementos orbitais: ciência, na pós-modernidade, é informaçãofragmento, com valor de uso e, conseqüentemente, com valor de troca. De um saber filosófico, metafísico, que elevava o humano aos mais nobres ideais, eis que a ciência se transforma em mercadoria. Ao centro, a mãe de todas as ciências, a Informática, dado que é esta que lida com a informação, ainda em seus primeiros albores. Nesse

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processo, a informação passa a criar uma linguagem própria (com uma concepção lingüística a que se tem dado pouca atenção nesses seus primeiros vagidos), uma metodologia a ela apropriada, e uma objetivação do pensamento – e da arte – de modo a configurar o mundo, o humano e todas as suas ações e relações, como um sistema computacional, em que tudo se faz traduzir por bits, uma moeda de troca informacional, que exprime valor e substância útil. Ou seja, tudo se reduz, ou é redutível, à linguagem de um sistema que opera à revelia do humano, e que, em nome do indivíduo, em tudo a este reduz em humanidade. A antiga divisão de trabalho, articulada às mais modernas concepções de sua especialização – é conclusão até bastante natural – força uma fragmentação não apenas do pensamento e da atividade artística (imaginário), mas da própria relação social. A atividade acadêmica – é claro – segue os passos da sociedade do seu tempo. Morre o antigo catedrático, o clínico-geral do Saber; pululam os mestres do pequeno conhecimento, aceita-se a ignorância das causas se resultam bem sabidos os efeitos parciais de um pequeno fragmento-causa sobre um dado espaço-fragmento do saber informacional. A desconexão cultural entre os partícipes da atividade intelectual é então conseqüência que de ordinário se impõe. Saber mais do que o seu espaçofragmento exige é avançar fronteiras bem demarcadas pela boa gestão dessa nova mercadoria, caracterizada como bit-informação, expressão pós-moderna para uma nova moeda de troca, e que se localiza no centro nuclear de todo o conjunto de itens econômicos (consumo) que pressupõem valor de uso. As informações, elevadas ao patamar superior da ciência, coroadas ao centro da criação, manejadas segundo a racionalidade de um sistema avesso às inutilidades (e que acabam, afinal, por negá-la em sua essência), transitam pelo sistema operacional de um ciberespaço absolutamente livre de compromissos umas com as outras senão na temporalidade e no dado espaço em que se fazem necessárias, no momento mesmo em que são convocadas a exibirem seu valor de uso. Corta-se aqui de um texto, cola-se acolá, em um outro – que jamais seriam supose to de se unirem umas, desunirem outras – fragmentos que se encontram e se desencontram na exata medida de sua utilização no efeito desejado. Se há um saber do sistema, este não pertence ao campo das concepções humanas: que cada um saiba apenas o que lhe cabe, segundo a sua especialização, é condição necessária à paz social, ao progresso, e à harmonia informática. Contribua cada qual com seus fragmentos, e se fará feliz o mundo... Em contrapartida, fragmenta-se a personalidade individual nos tantos cotidianos exercícios de fragmentação a que os indivíduos se obrigam no (s) mundo (s) em que se inserem. E a tecnologia, nisso, não desaponta: oferece permanentemente a cada faceta fragmentada da personalidade, os seus brinquedos. Da indústria de entretenimento aos eletrodomésticos, do acesso aos fragmentos culturais – o que possibilita a todos um nível básico democrático de cultura, no sentido mass-media de pulverização de uma antiga, e decadente, erudição – até ao consumo inocente de pornografia (o sexo utilitário, matéria-prima industrial, modo de produção que se articula à vontade de poder, à vontade de prazer, que se articulam ao desejo de consumir seja lá o que for), a individualidade se amplia em exercícios fragmentários de existências, partícipes de histórias das humanidades, livres de compromissos com uma História-modelo, com uma História da Espécie Humana, seja com o belo, seja com a idéia.

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O indivíduo humano, o “eu” pluralizado pelas múltiplas personas sociais que a ampliação fragmentária de utilização tecnológica lhe põe ao alcance e disposição pela Máquina/Sistema, acaba por desenvolver nesse “eu” antes unívoco, e singular em cada qual, uma extraordinária capacidade de exercitar-se em tantas múltiplas personas, até originariamente contraditórias, tornando o paradoxo um modo natural de estar no mundo. Muito mais importante, a capacidade de ampliar em muitos modos o ver, o crer e o saber, a realidade do mundo em que se insere. E daí, por conseguinte, a capacidade de ampliar o imaginário, social e individual, em muitos modos de imaginar. Na pós-modernidade toda informação é útil – importa apenas utilizá-la a tempo e espaço que não se lhe deixe perder a inalienável liberdade de associação e/ou de desassociação, onde seu único requisito de existência a conduza: seu valor de uso. Informação, bit computacional, fragmento, indivíduo são, na pós-modernidade, parentes de uma mesma família: importa seu valor utilitário e sua liberdade de ir e vir, de permanecer fragmento, indivíduo, informação, bit computacional: dependentes apenas da necessidade, sempre passageira, em exprimir-se como valor de uso, mercadoria, enfim. Mas é evidente que esta é uma das faces da moeda: pois a ampliação do espaço em que transitam, pela pluralização desses todos fragmentos, acabam por produzir – por movimento motor posto em funcionamento – um afastamento progressivo dos seus antigos centros, de tal modo que acaso e imaginário passam a ter um papel extremamente relevante para a ampliação das possibilidades, de um lado, de satisfação de desejos; de outro, de utilização de cada potencial informacional. A vida social rompe – definitivamente, talvez – com a estática das relações humanas, do “eu” com o “outro”, tanto quanto do “eu” com os “outros”, aos muitos modos desse “eu”, como ainda do múltiplo “eu” com cada qual dos múltiplos “outros”. A vida cultural, por conseguinte, não pode ser vista e vivida senão como processo, como um fluir, como uma fruição. E a literatura, a arte em geral, se necessita manter-se articulada à vida e à cultura, não o será senão como procedimento, como modo processual/procedimental de ler, escrever e pensar o mundo. Pois é justo através de procedimentos que a arte une e desune fragmentos no desiderato de construção do in-construído, de criação do in-criado. Procedimento é ação, não revelação do existente; procedimento é criação, construção do inexistente. Ou seja, lá se foi o tempo de se revelar – fragmento a fragmento – o puzzle da existência em qualquer nível: é a hora do mosaico tipo lego, em que a peça-fragmento a que por necessidade se unirá outra peça-fragmento, via acaso, via imaginário, criam a figura – em permanente devir – a que o antigo puzzle fazia estática, imutável, dotada de generalidade e coerção social. É hora, pois, de a Literatura voltar-se à autêntica liberdade de criar – e abandonar tanto a obrigação de criar (vanguarda) quanto o medo de criar (tradição). A Poesia deve voltar ao comando das coisas. A proposta de autor busca trabalhar, portanto, esses diversos plurais, fragmentários/elementos da pós-modernidade, a partir da única estética possível de fazê-lo – a que possui as mesmas características do objeto analisado: fragmento, informação, individuação, imaginário, muitos modos de ver, a presença da máquina, etc., a partir de identificação de elementos anteriores à eclosão desse fenômeno que, se

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não lhe deram causa direta, pontuam, com indubitável intensidade, cada qual em seu aspecto próprio, todo um percorrer de trilhas que desembocaram, como uma vasta rede pluvial, no oceano da pós-modernidade. Alguns fragmentos são em si, metodológicos; são – eles mesmos – velas de navegação necessárias a singrar os mares da estética fragmentarista, aos ventos – ora calmos, ora nervosos – da pós-modernidade. Cabe ao leitor içá-las, ou recolhê-las, ao sabor das próprias ítacas, ao prazer das próprias penélopes. A linguagem imagética, a confundir signo e símbolo – e que, por linguagem, autoriza arriscar dizer das possibilidades futuras da lingüística em recuperar o espaço que se vai lentamente perdendo à semiologia – vai se tornando elemento comum de diálogo e de compreensão de um mundo antes feito só à mão dos conceitos verbais. O livro, na aceitação da imagem como uma especificidade, em seus discursos cotidianos, da pós-modernidade, como um elemento que se desdobra para além da antiga simbologia, busca – e ao entremear a textualidade fragmentária com imagens comuns ao discurso que se desenvolve a partir de uma recepção também fragmentária – estabelecer modos plurais de recepção, que possam como lego/fragmentos – lego/palavras e lego/imagens, lego/conceitos – construir, em decorrência específica a esse procedimento, muitos modos de ler, qual seja, afinal, a base que se acredita de cristalina compreensão do que seja esse fenômeno denominado pós-modernismo. Não há, na convicção do autor, outra maneira de coletar elementos/fragmentos teóricos para a construção de discursos – e quanto mais polifônicos melhor – que tratem da pós-modernidade para muito além das meras posições contra/a favor/mais ou menos com que muitos autores, mercê de um discurso unívoco, que parte do princípio de que se fala o que se sabe, obrigam-se a falar de um fenômeno do qual ainda muito pouco se sabe, como se sabido fosse. Não pode ser outro o caminho retórico, e estético, não podem ser outros os elementos de análise, não pode ser outra a atitude do que pretende examinar a pósmodernidade: trazer à baila tudo o que com ela se relaciona, e deixar – pois é assim mesmo o seu modo próprio de animar a sua fragmentária composição – que cada necessidade de utilização dê o valor de uso que cada fragmento merecer; que cada acaso acontecido aos imaginários de quem avança nos textos, imagens e entre-textos, possa resultar em qualquer interessante e bela união entre os fragmentos desses legos, que será sempre individual, de cada leitor, singular, e que mesmo jamais se repetirá em outras leituras. Como resulta compreensível do que se anotou quanto à natureza processual da existência fragmentária, das uniões e desuniões entre fragmentos, toda essa movimentação se dá por idas e vindas, tanto por linhas como por espirais, retas e curvas, dribles e chutes a gol, defesas, enfim, em tantas formulações geométricas quantas as possibilidades de uso os convidarem. A investigação, pois, não poderia adotar outro procedimento: como realizar uma narrativa só linear, na construção de uma teoria pré-concebida, quando o que se busca é conhecer o desconhecido, quando se busca criar novos espaços teóricos para um fenômeno que não resulta diretamente de uma idealização de vanguarda, mas de toda uma pluralidade de concepções de ver o mundo, que ao longo dos séculos vêm despontando aqui e ali, se acumulando ao longo de gerações, até a sua eclosão barulhenta nesses inícios de milênio? Realizar a retórica da univocidade é evadir-se – e

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não importa quantos elementos descritivos se colecione, nem quanto de contestação se acumule contra a prática da pós-modernidade – é arredar-se, como num jogo de quente e frio, é gelar as possibilidades de conhecer, e fazer conhecer, um pouco mais disso que a cada dia parece tornar-se ainda muito maior que nós todos. Por ser um mosaico em lego, que se constrói ainda com o imaginário, a transmitir uma linguagem sub/supra jacente ao texto, a provocar uma amplitude de pensamento que livre das amarras de uma só textualização, muitos fragmentos pegarão de surpresa o leitor. Mas o efeito, inclusive estético, que se busca, quando obtido, certamente o recompensará. Por outro lado, uma linguagem subjetiva própria às textualizações escolhidas (procedimental/e do imaginário), obriga cada fragmento a aguardar sua vez de entrar em cena, não sendo de aceitar-se a imposição desse fato como decorrência de opção obrigatória por apenas um dos muitos possíveis casamentos lógicos de causa e efeito, quando o que se pretende é justo obter-se o efeito (inclusive, mas não só, estético) que possibilite ao leitor criar os seus próprios liames, dar a cada fragmento escolhido o valor de uso que ele mesmo lhe atribuir: pois é este um dos modos preferenciais do sistema próprio à pós-modernidade que se assiste, segundo a utilização informacional esboçada acima, e que se reflete – a olhos vistos – na vida cotidiana de cada um de nós. Dadas as claras concepções esboçadas no texto, espera-se resulte pacífico que não move o autor qualquer pretensão de vanguarda teórica da literatura, da arte, ou da cultura, pois que mero coletor de elementos, um servente em seu carrinho de mão, a reunir tantos materiais quanto úteis aos que, por competência e talento que lhes sejam próprios, estejam aptos à construção dos respectivos prédios teóricos. Se algum mérito este livro pretende atribuir-se é o de valorização do espaço poético como elemento de solução, ou, ao menos, de alívio, para as mazelas e tensões, inclusive teóricas, que estão a nos deixar inseguros no dia-a-dia dessa pósmodernidade que, com aspecto de moda passageira, vai a cada espasmo ocupando maior espaço nas práticas e nas histórias das artes e das literaturas, das ciências e das culturas, das nossas próprias vidas cotidianas. E, no entanto, sendo o humano um animal poético – confissão de fé no seu ofício – o autor faz-se parceiro e amigo da pós-modernidade em busca dos mistérios da sua poesia. Sobre as concepções poéticas que o livro anuncia, ainda fragmentariamente, têm a única finalidade de ajudar o leitor, e nisso se faz epistemologia, e epistemologia única e necessária aos fenômenos intelectivos e sensíveis que possibilita – embora aqui e ali se avance por soluções de efeito estético, tanto quanto a convidar o leitor à parceria do texto silencioso – o acesso àquela parte do texto em que, e aqui se trata de profunda convicção do autor, em verdade se encontrará A Poesia; pois que seja esse texto teórico tal qual o texto poético: não o reduto, forma ou essência, do que seja a poesia; mas a ela o seu convite. Os perigos da pós-modernidade, que nos vem assombrando a todos, ainda mais nos angustiam porque ela trava seus combates mais acirrados no espaço poético da sensibilidade e do imaginário, espaço próprio aos campos de Orfeu e das Nove Musas, e aos modos de transformá-los em cyberespaços de indivíduos reduzidos a bits informáticos ou, quem sabe, baterias de energia, tal qual em Matrix, o filme. Só a

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Poética, no que ela se identifica com a infinitude, poderá nos iluminar a vencer essas novíssimas dificuldades. De resto, como é próprio aos mosaicos feitos de peças de lego, o objeto de contemplação se encontra sempre mais para lá... O que se oferece é a exploração desses fragmentos da pós-modernidade, de modo a enfrentar as dificuldades criadas pelas suas práticas de pluralidade fragmentária, com as grandiosidades todas, possibilitadas justamente pelo exercício consciente dessas práticas de pluralidade fragmentária. Mas uma poiética da pluralidade fragmentária só se aprecia, e aproveita, os seus eventuais méritos, no seu exercitamento, na fecunda parceria de fragmentos por vezes tão díspares; ou, como já se disse acima, not supose to... dialogarem. Este, quando se consiga o resultado desejado, será o maior mérito do livro. Mérito maior do leitor que avançar daí. Até pode ser que ao final de cada leitura, por cada leitor, os fragmentos se deixem ordenar, classificar, que sempre o será aos modos fragmentários que os motivou e que, sobretudo, lhes serviu de estrutura estético-literária. Afinal, a proposta basilar do autor é – em essência e aparência, motivação e exercício – a apresentação de uma estrutura textual, contextualizada e contextualizante, de natureza estético-literária. E como as próprias Histórias da Humanidade, desconhecendo de onde viemos e para onde vamos, corajosamente suspensos na assustadora corda cósmica sem princípio ou fim, este livro trabalha com a perspectiva, ainda fragmentarista, de que o texto próprio à pós-modernidade é sempre to be continued...

FRAGMENTOS PÓS-MODERNOS
(uma poética da pós-modernidade)
I celebrate myself, And what I assume you shall assume, For every atom belonging to me as good belongs to you.
[Walt Whitman, 1855]

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...pós-modernos, fragmentados e fragmentários... ...carnavalizados...

[René Magritte,1989]

...O Homem é Um Animal Poético...
No ofício de recolher, cada qual, nossos próprios fragmentos, e sabendo-nos estrelas de uma escuridão ancestral, temos fé e imaginação... Se nos reunimos em constelações humanas, se nos damos outros nomes, nômades, às nossas tantas tribos (ainda) primitivas, em igual já sabemos que algumas estrelas do céu logo se apagarão... Em igual, alguns dos nossos brilhos se apagam... Por que seguir recolhendo, melancolicamente, fiapos de luz, enquanto, éons em nós, novas estrelas já anunciam a vez de nascer? Aos escuros dos entre luzes, há mais claridade. Aguardando que nossos modos de ver se apercebam... Que toda luz é sempre um fragmento de luz...

...O Homem é Um Animal Poético...
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Há uma novíssima safra literária (romances, novelas, ensaios, hipertextos, poemas, líricas & músicas, filmes, vídeo-clips, etc.) da Pós-Modernidade, ligada à Nova Economia, vale dizer, à Nova Tecnologia, motor disso que chamam Globalização (ainda em estado de globalizamento), que estão, por inclusão do elemento virtual, a aproximar realidade e ficção, confundindo-as, desordenando as cartas desses dois baralhos (e afinal parecem ainda tão idênticos os signos...)...

[The Wachovski Brothers, 2000]

... Que está a provocar que não mais se identifique qual a origem da informação transmitida à zona central do cérebro, se real se imaginária, qual dos lados deverá processá-la... Sim, isso é um perigo... Uma transação acelerada entre os dois gomos do cérebro pode significar, a uma, que assim estamos ampliando o uso da nossa capacidade cerebral para além dos usuais 5%; a duas, que – e isso seja como for ocorrerá – o humano está a transcender o humano...

…going back to the monkey, going to destruction, ou back/going to the future, to the superman, uma espécie de nietzsche movido a tecnologia fragmentariamente dispersa?…
A sociedade humana desses inícios do século XXI nos aponta para realidades fragmentárias – o humano disperso em tantos outros humanos desiguais... Na pós-modernidade temos um quadro ampliado de realidades obscuras que só uma apreensão a passos livres, e por particularidades, parece indicar-nos as possibilidades de ampla apreensão cognitivaii. Tanto no campo das ciências quanto no das artes...

…backing to the pré-socratic times: backing to the postfuture?…
Impactos tais que os das imagens de aviões de passageiros sendo lançados, por guerrilheiros do arcaico, contra as torres do World Trade Center, no imaginário ocidental, obrigarão à plena aceitação de uma unicidade maniqueísta, que já se ia aos seus estertores – em direção aos tempos postmatrix? O mundo, a natureza, a cultura, nós mesmos, individualmente considerados, somos entes ficcionais, somos o fruto privilegiado das nossas mais ousadas ficções: a

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construção do humano e de tudo o que humanamente nos cerca... O espaço infinito em que transitamos, espaço em permanente devir, é o espaço do humano... Sendo o humano que constrói A Totalidade um humano ficcional, qualquer totalidade nascerá, manter-se-á e resultará sempre em ficção... A construção de uma Totalidade é a vontade máxima de poder no humano...

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Sendo o espaço da ficção um espaço humano em permanente devir, portanto necessariamente fragmentário quando flagrado em estática parcialidade, resulta daí que somos sempre em estado de fragmento – particularidades múltiplas reunidas em totalidades ficcionais e em permanente estado de movimentação... A retórica da totalidade, ou integralidade, será sempre uma retórica de ordenação de fragmentos... Mera ordenação ficcional de fragmentos fictícios – por um ser ficcionalmente estabelecido – eis o que é a retórica da unicidade... O século XXI, com a pós-modernidade, se inicia com o reconhecimento dessas ficções, dessas fragmentariedades, ora em dispersão... Sim, tal os átomos em dispersão...

...tudo o que é sólido desmancha no ar...iv
A compreensão de que os pensamentos, fruto da vida material, se agrupam como Ideologia, engendrando sistemas de idéias dominantes, e daí ao fim do mito iluminista da neutralidade científica, foi só um pequeno passo para o pensamento dos séculos XIX e XX, mas um passo gigantesco para a cultura ocidental desde que um platonismo

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unívoco (embora Sócrates) enterrou o sonho pré-socrático das várias perspectivas (fragmentárias) do mundo...

[Capa: Eunice Duarte, 1969]

Foi a compreensão da natureza ideológica das idéias que desvelou a farsa da reta razão do mundo – razão humana, bem entendido – segundo a qual as civilizações e com elas as organizações sociais possam refletir a Idéia, o Absoluto, em todo o seu esplendor, como resultado das boas ações humanas, especialmente dos seus governantes: de que nos bastaria traduzir materialmente os processos ideais de relações sociais para chegarmos à sociedade perfeita... Isto significou também o fim de todas as utopias... Este fim da utopia, ou seja, a recusa das idéias e das teorias que ainda se serviam de utopias para indicar determinadas possibilidades históricosociais, podemos hoje concebê-lo, em termos bastante precisos, também como fim da história; isto é, no sentido (e este é precisamente o tema sobre o qual os convido a discutir) de que as novas possibilidades de uma sociedade humana e de seu ambiente não podem mais ser imaginadas como prolongamento das velhas, nem tampouco serem pensadas no mesmo continuum histórico (com o qual, ao contrário, pressupõem uma ruptura)...v Utopia é idéia absoluta e absolutista, e jamais construída por uma razão neutra: é um elemento de limitação do pensamento e das ações humanas; de estagnação da criatividade; de favorecimento daqueles que em seu nome determinam os rumos da cultura, justificados por arbitrários “fundamentos” das organizações sociais... A descoberta do funcionamento da ideologia, por Marx e Nietzsche, um tanto incipiente no século XIX, em face das análises d’O Capital e d’A Vontade de Poder (e das proposições políticas dos socialismos e seus contrapontos) é entre todas essas, e mesmo contra estas, a de maior relevância filosófica, pois é justamente essa reflexão

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que vai transformar o pensamento do mundo ocidental no sentido de liberação das consciências para uma série de formulações ditas modernas, até às pós-modernas, que só seriam possíveis com o desmantelamento do aparato ideológico, em todos os níveis, que pesava sobre os indivíduos como sendo As Verdades Absolutas e Suas Distorções... Em conseqüência, estavam soltas as peias dos Imaginários...

I don’t care what they say I won’t stay In a world without love
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Tanto Marx quanto Nietzsche estavam por demais convicto do atomismo de Demócrito, segundo o qual, no mundo, todas as coisas são combinações de átomos que se movem no vazio, em obediência à dura necessidade (elemento comum ao homo economicus e à fatalidade, à vontade de poder)... E foi essa noção de necessidade material que, de um lado, propiciou nossa percepção de que todo pensamento é pensamento necessário à vida material, e, de outro, o de que seria a organização das necessidades que levaria o humano à utópica sociedade sem classes... O problema é que de qualquer organização das necessidades sempre resulta, por conseqüência mesmo dessa organização – hoje bem o compreendemos – novas necessidades, em novos pensamentos a serem organizados, em eterno devir de organizações, em sempre reciclado absolutismo filosófico, ou: O Sorriso de Hegel...

[Gerome Ragni, Jim Rado&Galt MacDermont, Hair, 1979]

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Toda utopia, por seu racionalismo exacerbado, por dogmático e não crítico, de que resulta jamais se colocar em dúvida, produz intolerância... A utopia, como modelo de construção de um futuro melhor, sacrifica uma geração de humanos por outra, sucessiva e permanentemente, de modo que condena todas ao infortúnio e à infelicidade... vii Por que, porém, foi escolhida a história do poder, e não, por exemplo, a da religião, a da poesia?... É que os homens são inclinados a adorar o poder. Mas não pode haver dúvida de que a adoração do poder é uma das piores espécies de idolatrias humanas, uma relíquia dos tempos da jaula, da servidão humana... A adoração do poder nasceu do medo...viii A ação política não deve ser revolucionária, não deve visar à reconstrução total da sociedade, de resto imprevisível; deve resultar de paulatinas transformações de suas partes...ix Curiosamente, se a interpretação marxista do mundo e suas propostas políticas reduziram-se ao mesmo absolutismo filosófico, o próprio embate ideológico que se sucedeu acabou por laborar no sentido da morte de todas as ideologias, como instituidoras de verdades absolutas... O modo moderno de pensar do século XX já compreendia, dir-se-ia talvez melhor, ainda aceitava, que a organização social e, conseqüentemente, a formalização da cultura que lhe é própria, estava intimamente vinculada ao exercício do poder institucionalizado, poder apropriado, material e ideologicamente, ao conjunto dos indivíduos que compõe a sociedade humana. E que a cultura de um povo, a organização da cultura desse povo, seus cânones e suas relações culturais, suas invenções e respectiva aceitação ou repúdio estivessem, é claro, em razão direta desse poder socialmente organizado... O pós-modernismo é o fenômeno que decorre da paulatina liberação de amarras tais que essas à afirmação de culturas tribais e mesmo individuais...

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[Capa: Equipe Hemus, 1976]

A compreensão dialética, desde Heráclito e Hegel, até Marx, ganha em Nietzsche sua dimensão mais aperfeiçoada, verdadeiro coup de grâce nas idealizações utópicas: o humano é um processo, um permanente caminhar para o além-do-humano... À noção marxista de que vivemos a pré-história da humanidade Nietzsche contrapõe, aperfeiçoando-a, a conclusão de que a cultura - como conseqüência dos que a fazem ainda é humana, demasiada humana... no mesmo sentido do que, talvez, dirá um filósofo do futuro da cultura dos super-homens, que já estão a caminho: super-humana, demasiado super-humana...

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A ordem de desenvolvimento dos pensamentos, em que se funda a crítica de Popper, desde os de Hegel aos de Marx, e que se inicia em Platão, o primeiro inimigo da sociedade aberta popperiana, é justamente o sentido de uma ordenação dos modos de ver e saber da comunidade humana, ordenação essa que se coloca a partir de uma unidade lógica em direção a uma totalidade (ou integralidade)... A formação fragmentária do pensamento pré-socrático, como parte do confederalismo grego, e de sua democracia, em que o sentido do mundo se construía a partir das individualidades, em contraposição ao pensamento romano de exaltação da nacionalidade e da cidadania, ou seja, do indivíduo como um ser agregado ao Estado, o modo clássico grego de ver o mundo possibilitava a percepção inequívoca de variadas verdades, como fragmentos de uma verdade maior, de uma totalidade sempre inatingível, de apreensão retórica, portanto, impossível... Desde o atomismo de Demócrito, como na compreensão do movimento, de processo em Heráclito, mas especialmente na idéia de αταραξια, a tranqüilidade da alma atingível apenas por uma consciência profunda de ser, enquanto indivíduo

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absolutamente livre e independente, na convicção de que os átomos também se movem por contingência da vontade: linha de pensamento que Nietzsche retomará para formular sua idéia primeira de fatalidade – a mesma necessidade de Demócrito (superável pela pulsão – vontade de poder em Nietzsche/ princípio do prazer em Freud) – que Marx absorveu... Comparando a filosofia da natureza de Epicuro com a filosofia da natureza de Demócrito, Marx reconhece que na base de ambas se encontram os mesmos princípios: no mundo todas as coisas são combinações variadas de átomos que se movem no vazio...x ...e que Lênin desdenhou... Toda a sociedade será um único escritório e uma única fábrica, com igualdade de trabalho e igualdade de salário... Pois quando todos tiverem aprendido a administrar e administrarem de fato autonomamente a produção social, realizarem autonomamente o registro e o controlo sobre os parasitas, os fidalgotes, os vigaristas e os outros “depositários das tradições do capitalismo”... A necessidade de observar as regras simples, fundamentais, de toda a convivência humana se tornará muito depressa um hábito...xi A liberdade não é conceito oposto, mas articulado à necessidade... A liberdade é o motor da vida, é a inteligência que a engendra, condição essencial de toda coisa viva... Pois é com ela, a liberdade – agindo sobre e de acordo à necessidade, que os átomos se reúnem em seres vivos e os aperfeiçoam...

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No sentido de liberdade (relações necessidade/pulsão/vontade), e não apenas nesse, o fragmentarismo da pós-modernidade vem a ser uma (ainda claudicante) retomada dos modos pré-socráticos de saber e de viver o mundo: a possibilidade de apreensão, diálogo e aceitação a partir dos muitos modos de ver, ler e saber a realidade do mundo... Se no princípio era O Verbo, linguagem divina, universal, linguagem de uma cosmológica metainteligência, O Verbo fez-se carne humana, e do verbo-carne a carne (matéria) fez-se linguagem humana, e da linguagem humana fez-se a cultura humana...

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O Universo é, ao menos para nós humanos, a máxima expressão material pensável d’O Verbo, ponto convergente do sagrado e do profano, fiéis, agnósticos, e ateus... Não importa sob quais proposições pensemos ou expliquemos o Universo Infinito e Misterioso: só com o verbo se o fará, numa cultura em que a tradição se impõe pela palavra...

A natureza ficcional da cultura se realiza a partir da linguagem, do discurso verbal, primária (oral, escrito, gestual) ou secundariamente, por transliteração (musical e

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imagética), modo privilegiado de transmissão de experiências e conhecimentos, tradição e tradução cultural... A fala iletrada favorecera o discurso descritivo da ação; a pós-letrada alterou o equilíbrio a favor da reflexão. A sintaxe do grego começou a adaptarse a uma possibilidade crescente de enunciar proposições, em lugar de descrever eventos. Este foi o traço fundamental do legado do alfabeto à cultura pós-alfabética. Uma conclusão tão radical é de molde a enfrentar resistências em três diferentes níveis. Ela propõe que tanto a lei como a ética, tais como hoje as entendemos, querendo dizer estruturas verbalizadas que definem princípios e descrevem suas aplicações, vieram à existência como resultado de uma mudança na tecnologia da comunicação. Aquilo que as precedeu era da ordem da praxe, mas que do âmbito dos princípios; incorporava-se em forma de hábito social e se comemorava por meio da fala ritmada. As sociedades préalfabéticas não eram imorais, mas, no sentido conceitual, eram amorais. Os filósofos moralistas por certo não vão apreciar uma tal conclusão – nem a subseqüente, de que a filosofia, como uma disciplina intelectual, é uma invenção pós-alfabética: em suma, a conclusão de que muito da história da chamada filosofia grega dos primórdios não é uma história de sistemas de pensamento e sim a de uma busca de uma linguagem fundamental em que algum sistema pudesse exprimir-se. Os idealistas tampouco acharão fácil conciliar-se com uma interpretação histórica a qual, de fato, não apenas afirma que “o meio é a mensagem”, isto é, o conteúdo do que se comunica é regido pela tecnologia utilizada, mas também assevera que essa mesma tecnologia pode ter uma função causal na determinação do modo como pensamos...xii

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Assim como o verbo humano não se esgotou nos sons e nas imagens primitivas, também não se esgota na escrita conceitual: o verbo humano encontra-se em permanente devir de linguagens...

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Em Assim falou Zaratrusta – especialmente, pois que isso ocorre ao longo de toda a obra de Nietzsche, a dicotomia arte-filosofia é neutralizada pelo projeto de fazer da poesia o meio de apresentação de um pensamento filosófico não conceitual e não demonstrativo... Um pensamento emancipado, portanto, da razão... Assim falou Zaratrusta é um livro daquele e para aquele que, “onde pode adivinhar, detesta inferir”, daquele e para aquele que pensa ter pouco valor o que precisa ser provado, daquele e para aquele que admira a potência do “grande estilo”: “a potência que não tem mais necessidade de prova, que desdenha agradar, que dificilmente dá resposta, que não sente testemunhas por perto, que vive sem se dar conta de que existe oposição a ela, que repousa em si, fatalista, uma lei entre leis”... Com sua forma poético-dramática, Zaratrusta é a realização do projeto wagneriano, tal como Nietzsche o havia interpretado no primeiro período de sua filosofia, ou, mais precisamente, aparece em continuidade com o que Nietzsche dizia, em Richard Wagner em Bayreuth, sobre o modo como Wagner lida com a música e o mito... Tal como pensa Nietzsche nessa época, a missão singular de Wagner teria sido reintroduzir o mito no mundo e libertar a música enfeitiçada, fazê-la falar, através de sua força dramática... O gênio poético de Wagner está no fato de ele pensar por acontecimentos visíveis e sensíveis, e não por conceitos, isto é, em pensar por mitos, que exprimem uma representação do mundo por uma série de fatos, de atos... Sentindo que o primeiro perigo, quando os heróis e deuses dos dramas tivessem de se exprimir por palavras, era que essa linguagem verbal despertasse o homem teórico, Wagner forçou a linguagem a voltar a seu estado de origem, em que ela não pensa por conceitos, em que ela ainda é poesia, imagem, sentimento...

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Em Assim falou Zaratrusta, a forma poética de filosofar tem como ápice o eterno retorno, pensamento trágico que só pode ser adequadamente enunciado através do canto, da palavra poética...xiv

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O Eterno Retorno, a mais alta fórmula de afirmação até hoje atingidaxv tem como forma de expressão poética o ditirambo dionisíaco (greco-latino) em que a palavra, apolínea, se deixa vencer, por embriaguez, pela música dionisíaca... Mas por que o Zaratrusta , um livro, seria música?... Porque realiza o projeto nietzschiano de fazer a escrita atingir a perfeição da música... Música da qual Nietzsche disse um dia, aproximando-se de Wagner e de Schopenhauer, ser arte superior: “Comparada com a música, toda comunicação por palavras é vergonhosa; as palavras diluem e brutalizam; as palavras despersonalizam; as palavras tornam o incomum comum”. xvi Em Assim falou Zaratrusta, Nietzsche – Ecce Homo! – busca ir ainda mais longe do que permite o uso dos seus ditirambos dionisíacos: Nietzsche busca realizar em livro tal qual Wagner o fazia em ópera... O ditirambo sinfônico!... Em minha hipótese, considerar o Zaratrusta canto significa dizer que nele a palavra canta pela própria musicalidade da palavra... Não será isso o que indica Ecce homo quando, ao dizer que o Zaratrusta é música, explicita essa idéia – em um sentido que evidencia o quanto Nietzsche já está distante do privilégio que Schopenhauer dá à música em sentido estrito... E da fundamentação metafísica que apresenta para isso, que determinou a concepção de O nascimento da tragédia, afirmando que ele implica o renascimento da arte de ouvir; que é a eloqüência tornada música... Pelo retorno da linguagem à natureza da imagem? E não estará essa idéia em continuidade com as afirmações de Nietzsche de que escrever é dançar com a pena... ...De que o maior desejo de um filósofo é ser um bom dançarino?...xvii Daí porque a expressão: eu não creio em um Deus que não dança, refletindo uma estratificação, uma formalização demasiada de Deus, que nos chega praticamente incólume até os 60, quando o movimento hippie aproxima a divindade dialogando com a fé a partir da idéia de paz e amor, na apologia da alegria de viver, da vida em natureza, da autenticidade nas relações humanas...xviii

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Matéria que ideologiza, matéria que engendra a sua própria superação, o humano constrói sua cultura a partir de ficções que realiza, para si e para as suas relações

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materiais de poder: com a natureza (interna e externa) e com os seus semelhantes (natural e socialmente considerados)... O humano, social e, portanto, culturalmente considerado, é, tanto em sua individualidade quanto em sua dimensão cultural, uma ficção... Ou seja, psicológica e socialmente construído, constituído, e a partir da sua natureza primária, por elementos de natureza ficcional...

... O Homem é Um Animal Poético ...
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Porque o humano é ficcional, assim se formam, em inquestionável decorrência, todas as suas categorias institucionais: pessoalidade, sociabilidade, culturalidade, desde o ser individual, ao ser social, ao ser econômico e ao ser político, e aos muitos possíveis modos do seu ser literário... Porque o humano é ficcional assim se define, por construção literária, sua própria identidade, tanto individual, quanto natural e cultural... Porque o humano se define por construção literária, assim também se define, ainda por construção ficcional, toda a cultura em que se insere, como sujeito e objeto dessa mesma cultura...

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Ainda por construção literária se formam os Estados: ficções que se institucionalizam a partir de si mesmas. O Estado nada mais é, pois, e também, uma ficção, (como, aliás, estabelecido pela Arte do Direito, a saber, uma ficção, no âmbito desta, jurídica)... Assim, por via de conseqüência lógica, as suas normas, normas jurídicas, por derivarem de um Estado Ficção, pouco importando sua legitimidade, ou mesmo legalidade, possuem natureza ficcional... Daí que, para a sua correta hermenêutica, há sempre que considerar este aspecto, que é da sua essência mesma, tanto na formulação de uma teoria geral quanto para sua hermenêutica: como um modo de interpretação que se junta aos modos: literal, gramatical, sistemático, teleológico e crítico, em autêntica interpretação ficcional – interpretação literária – dos muitos modos do Direito... O que se dizer então das demais ciências humanas?... O que dizer então da Teoria Literária?... ...Para Bachelard existem três instâncias que, em seqüência, concorrem para formar um saber disciplinar, isto é, oficializar, normatizar, tornar discursivo um conhecimento: a impressão primeira, a geometrização e a abstração... A primeira instância é a percepção sensorial, o contato primeiro com o fenômeno, o momento em que o fato se revela, e apresenta-se como interessante, passível de mensuração e/ou estudo. Nesse instante só se possui a

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impressão do acontecimento... A instância segunda, denominada geométrica, pode ser definida como o procedimento de organização racional de uma primitiva ordenação casuística, caótica, fenomenológica: tornar Geométrica a representação, isto é, delinear os fenômenos e ordenar em série os acontecimentos decisivos de uma experiência. É a classificação, a medida necessária para que se possa repetir, ou representar, artificialmente o fenômeno. Dão-se nomes, medem-se os fenômenos, define-se o sistema. É a instância descritiva... Mas essa geometrização aparente, com o tempo, tornase insuficiente, sendo necessário, pois, procurar o porquê, no nível abstrato: o pensamento científico é então levado para construções mais metafóricas que reais... É a libertação do saber discursivo; o escape das fórmulas pela necessidade de se ir além da linguagem para só então retornar a ela. O nível abstrato – entre-lugar imaginário – é detectado naquilo que modifica a geometrização, que já então se mostra insuficiente. A pergunta de Bachelard é a sua própria tese:” por que não considerar a abstração como o objetivo do espírito científico?”. ...Todo saber adquirido é saber prestes a ser superado. O único estado plausível é o da transformação do conhecimento: ninguém pode arrogar-se o espírito científico enquanto não estiver seguro, em qualquer momento da vida do pensamento, de reconstruir todo o próprio saber... Para a reconstrução desse saber – fotografia de uma geometrização momentânea – importa estabelecer uma psicologia do aprendizado científico, que implica, em última instância, analisar a base afetiva da necessidade do conhecimento: devemos levar em conta interesses diferentes que, de certa forma, constituem-lhe a base afetiva. ...O não querer desfazer-se do conhecimento conquistado, a resistência à transformação e à abstração, é definido como “obstáculo epistemológico”, instinto conservativo de base afetiva. A psicanálise dos motivos instintivos e irracionais é o processo de purificação espiritual que permite atingir o real objeto científico – a abstração: “psicanalizar o interesse, derrubar qualquer utilitarismo, por mais disfarçado que seja, por mais elevado que se julgue, voltar o espírito do real para o artificial, do natural para o humano, da representação para a abstração (...) tornar claramente consciente e ativo o prazer de estimulação espiritual na descoberta da verdade (...) modelar o cérebro com a verdade (...). No estado de pureza alcançado por uma psicanálise do conhecimento, a ciência é a estética da inteligência”. ...Não tem interesse para a ciência uma experiência que confirma a realidade: mas sim a que a desconfirma. A experiência científica é, portanto, uma experiência que contradiz a experiência comum. A experiência comum não é de fato construída... O conhecimento, portanto, caracteriza-se justamente pela construção. Ele é edificado sobre outro conhecimento que ou ampara o novo ou por ele é transformado:

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...“quando o espírito se apresenta à cultura científica, nunca é jovem. Aliás, é bem velho, porque tem a idade de seus preconceitos. Aceder à ciência é rejuvenescer espiritualmente, é buscar uma brusca mutação que contradiz o passado”...xx

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O Cinema, ao comunicar por imagens, tenta criar uma outra linguagem, não propriamente uma metalinguagem (senão como estágio primário de formação de sua própria semântica, quem sabe uma sintaxe, quiçá uma gramática)... Uma linguagem que busca ampliar, articulando linguagens com/para o visual, pensado e comunicado, os horizontes de interpretação do mundo... Tudo eleva a crer que o Verbo não esgotou, ainda, os seus mistérios... Talvez não seja tão ousado (ou profano) dizer que a fragmentação, com suas muitas linguagens (polifonia) é uma estratégia do Verbo e sua civilização...

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Dada a necessidade de uma interpretação ficcional de todos os elementos da cultura, temos que os discursos verbais correspondentes, não apenas a essa mesma interpretação, como ainda à própria constituição do fenômeno cultural, forçoso admitir, possuem, em sua natureza essencial discursiva, a qualidade de discurso literário, ou seja, discurso apto à transmissão material, poética do pensamento, tanto quanto à transmissão espiritual, poética do imaginário...

...O Homem é um Animal Poético...
El Correo Gallego / O Correo Galego ... a súa capacidade para artellar historias, perfectamente compatible co fragmentarismo elusivo, máis denotativo que connotativo, das súas primeiras entregas ... www.elcorreogallego.es/periodico/20010531/Revistas_das_Letras/ N38980.asp - 22k Los Andes On Line ... incluso de autoría. Todos los lenguajes que tienen que ver con el fragmentarismo, el minimalismo, la deconstrucción… Y aunque yo provengo de otra generación ... www.losandes.com.ar/2001/0418/suplementos/cultura/nota21856_1.htm - 32k -

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Quando se aponta a natureza ficcional da antropologia cultural, especialmente no que respeita aos insuspeitos trabalhos de descrição etnográfica de uma dada cultura, de que todas as descrições do tipo são meras interpretaçõesxxi, mais ou menos superficiais, mais ou menos densas, está a se considerar o fato de que o intérprete realiza um trabalho necessariamente ficcional/literário, e que, não por acaso, encontra na imaginação o seu mais eficiente instrumento de aproximação com o real... Quanto às diferenças existentes entre o discurso literário strictu sensu, e o discurso de interpretação antropológica, ambos oriundos da imaginação, decorrem essas diferenças muito mais por conta tanto das condições de suas respectivas criações, e conseqüentemente dos muitos modos de olhar, enfoques de prismas (e, naturalmente, engenho e arte), do que naquilo que poderiam divergir quanto a serem ambos construtores de ficto, de serem ambos “fabricações” do real... Literatura (estrito senso) e Antropologia, e pouco importa que cada qual à sua maneira, discursos de interpretação do mundo, revelação ficcional do mundo humano já antes, e pelo próprio humano, ficcionalmente constituído...

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Não apenas todos os discursos possuem a mesma natureza ficcional, como também a própria constituição da cultura pelos humanos que a integram, desde a sua origem, é fruto de uma fabricatio humana, (interpretações ficcionais do mundo pelos nativos de qualquer cultura)... mais ou menos superficiais, mais ou menos densas, de acordo com o estágio de complexidade dessa cultura...

...O Mundo é sempre um mundo aos muitos modos da Interpretação Humana... ...Viver – o humano – é viver interpretando... ...Viver – o humano – é viver interpretado... O humano tudo fabrica, o humano por tudo é fabricado... O humano é um processo, um processo literário (poético) de interpretação permanente...
Os humanos são processos cotidianos de transformação das interpretações que não tiveram um início, processos de transformação das interpretações que possivelmente não terão um fim, e cujo escopo só pode ser – independentemente de isto ser possível ou não – as infinitas interpretações do Verbo da Vida em direção aos muitos modos das eternidades...

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Cada interpretação cultural é sempre uma das possíveis interpretações ficcionais de muitas interpretações anteriores, ainda ficcionais, do mundo; ficcionalmente vivenciada por alguma dada comunidade humana, e a partir de ritos e signos ficcionalmente instituídos, que possibilitam a sua singularização (aldeia ficcional) em relação às demais, a saber, uma identidade humana (nacionalidade) também ficcionalmente estabelecida... Mesmo quando a arte é uma imitação (enquanto interpretação) da vida, a vida, tal como os humanos a vivem, só é possível como uma imitação vivida, vívida, discursiva, (e ainda enquanto interpretação) da arte (pré-verbal) de constituir ficções sobre esta mesma vida...

...Toda A Arte, toda A Filosofia e toda A Ciência são potências da Poesia...
O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo...xxii

A Poesia é o verdadeiro real absoluto. Isto é a essência da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro...xxiii A roda, que não existe na natureza, é tão fantástica quanto o lobisomem... A magia é a potência da imaginação. Cria formas e imagens não existentes. Estes seres podem ser centauros, hidras, sereias ou esfinges. Mas também podem ser artefatos e máquinas, cujo modelo não se encontra na realidade...xxiv

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Tudo é interpretação: tudo nasce como imaginação, tudo se realiza como ficção; tudo é, pois, antes, Poesia, depois, Literaturas...
Imaginação - é o que os tempos pós-modernos estão a exigir nesta virada de milênio em que já se fabrica humanos e super-humanos ficcionais, tanto na possibilidade de clonagem de seres humanos quanto, e principalmente, na construção de humanos digitais, partícipes de uma humanidade virtual...

[Josef Rusnak e Ravel Centeno Rodriguez, 1999]

O cinema vem pouco a pouco se tornando o posto mais avançado de uma interpretação literária da realidade humana – filmes que estão a desvelar, para um público cada vez maior, as relações de poder a que se submetem os indivíduos em geral... Filmes que apontam para novas reflexões a respeito da própria condição humana, construindo novíssimas interpretações para conceitos tão ancestrais quanto, por exemplo, o que seja alma, o que seja o corpo e seus sentidos, o que sejam o natural, o real, o artificial, o imaginário, o que seja o humano, o que sejam o tempo e o que seja o espaço... Sob a alegoria fantástica de filmes como The Truman’s Show, Matrix, Being John Malkovitch, The Thirteenth Floor, Artificial Inteligence, por exemplo, há toda uma interpretação pós-moderna de mundo que, ao mesmo que contextualizá-los, literaturizá-los segundo uma novíssima articulação de elementos tecnológicos e existenciais da pós-modernidade, está a construir novos modos de ver, ler, crer e saber o humano e seu mundo relacionados ao processo pós-moderno de fabricação de novos fictos culturais, e que está a exprimir uma realidade pós-tecnológica divinizada, que tenta responder às problematizações geradas pela inserção do humano em um mundo de infinitas possibilidades tecnológicas, humanidade pouco a pouco submetida ao

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deus Virtualis, senhor absoluto de um universo virtual, para muito além de todos os big brothers que afligiam a modernidade... Pois agora não se trata mais da simples inserção de máquinas primitivas num mundo humano, até então apenas moderno... Mas da adaptação progressiva da mente humana aos reclamos da perfeição virtual, num pós-racionalismo, num pósiluminismo, que faz o panoptikon de Benthamxxv, nos parecer jogo de amarelinha...

[Giorgio de Chirico, Família do pintor, 1926]

Filmes como Show de Truman, Clube da Luta, Quero Ser John Malkovich, 13o. Andar, Magnólia e entre nós, Cronicamente Inviável, são filmes nitidamente pós-modernos, no sentido de que apresentam a crítica, tanto temática quanto estética, de uma sociedade humana organizada sob um olhar unívoco, e por isso totalizador, numa ótica piramidal unitária do mundo, como ainda porque propõem, através de uma releitura da condição humana, um modus de olhar que convida o humano a superar as misérias e os conflitos que vem se acirrando nesses tempos pós-modernos...

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Exercícios da imaginação tecnológica, o hipertexto, e sua principal reflexão – a ainda incipiente web-literatura – são desdobramentos necessários de uma reconstrução fragmentária do mundo que, no bojo da pós-modernidade, busca uma ampliação das possibilidades humanas, tanto nas artes quanto nas ciências, na medida em que pluraliza as possibilidades de manifestação, criação e comunicação, dos muitos modos de ver existentes na cultura...

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Não há mais como tentar recuperar um Humanismo fundando-se na idéia de Humanidade, em seu sentido de categoria absoluta, como referencial mistificador de uma unidade essencial de toda a espécie humana (como se possível um sistema de essências universais redutor das contingências diversificadas)... Já vimos que essa e qualquer outra unidade essencial absoluta, por sua natureza – sempre ficcional, já suficientemente esclarecido – são próprias às ideologias que as animam... ...Talvez até se possa, ou se deva, aqui e ali, aceitar o humanismo – termo e conceito –, aos apelos da boa fé, no sentido que lhe deram Marleau-Ponty e outros, um humanismo que ainda ofereça espaço para a resistência à opressão e uma necessária recomendação de tolerância, compreensão e generosidadexxvi, enquanto um dos conceitos passíveis de contraposição à brutalidade escravocrata, dos que atentam contra a liberdade e a dignidade de cada qual de todos os indivíduos, na aceitação dos muitos modos de saber e viver, já se contrapondo à sua apropriação por eventuais grupos de poder... Quando, na pós-modernidade, se fala em Humanidade, fala-se das Humanidades, fala-se dos humanos em construção, do humano plural, do humano liberto das amarras do (s) outro (s), um humano que é ainda e sempre seu próprio outro...

A Poesia e a Literatura são as fontes primordiais da nossa humanidade e da nossa civilização. Deverão regê-las também...
Talvez mesmo se possa falar de um humano pós-histórico, um humano em processo de superação para um além-do-humano a-histórico, ao qual deverá ceder seu antigo lugar... Talvez até mesmo, e assim como o próprio deus nietzschiano esteja nietzschianamente morto, o humano, também nietzschianamente considerado, já o esteja; e o que vemos seja apenas o reflexo de estrelas que já cederam seu brilho ao caos...

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Talvez, na pós-modernidade, black super-men já estejam a caminho, como na cena final de Matrix, o filme...

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A palavra “super-homem” para designar um tipo de suprema perfeição em contraste com homens “modernos”, com homens “bons”, com cristãos e demais nihilistas; uma palavra que, na boca de Zaratrusta, aniquilador da moral, dá muito que pensar, foi quase só entendida, por todos os lados, com suma ingenuidade, no sentido daqueles valores cujo contrário foi justamente revelado na figura de Zaratrusta: isto é, como tipo “idealístico” de uma espécie superior de homens, meio santos, meio gênios...xxviii Como se prestou, essa concepção de super-homem em Nietzsche, a tantos distintos papéis! De ícone nazista a homem de aço, um superman mantenedor da ordem social, a alegoria é apropriada agora, em Matrix, como desmistificador dessa mesma ordem social, e mesmo seu algoz: herói da superação de um estágio de submissão, como um ícone de liberdade e plenitude, para uma possível livre existência pós-tecnológica... Matrix sugere que a ordem social até o advento da pós-modernidade, idade crítica da idade anterior (e alguém já definiu a pós-modernidade como um conflito de gerações), seja a mesma que a da sua ficção, criada como metáfora crítica aos sistemas sociais unívocos, que mantêm os indivíduos escravizados aos seus interesses de autoalimentação... Nesse diapasão a queda da Matrix seria uma metáfora da festejada desconstrução que muitos consideram a própria definição da pós-modernidade... Talvez o reino da liberdade, o reino do super-homem nietzschiano seja exatamente deixar-se ser, o humano – super-humano – ser só poético...

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O escritor analítico observa o leitor, como ele é; a partir disso faz seu cálculo e ajusta a máquina, para produzir nele o efeito correspondente. O escritor sintético constrói e produz para si um leitor, como ele deveria ser, não o pensa morto e inerte, mas vivo e reagente. Faz com que aquilo que inventou lhe surja gradualmente ante os olhos, ou o seduz para que ele mesmo o invente.

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Não quer produzir sobre o leitor nenhum efeito determinado, mas estabelece com ele o sagrado relacionamento da mais íntima sinfilosofia ou simpoesia...xxix

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Se com as palavras é que explicamos o mundo, e ainda com elas é que sabemos o que se passa nesse mundo, jamais vencemos a distância que separa esse saber, por mais completo e complexo que se faça, do simples ato de ver, ou seja, entre um conhecimento científico, que se estabelece pelo conceito, e o conhecimento sensível, desse mundo que se expõe, e se impõe, a todos nós, sem que dele possamos nem nos alienar nem apreender em sua/nossa plenitude cognitiva...

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O modo como vemos todas as coisas, e assim as pessoas, tanto no mundo da natureza quanto no da sociedade, sempre guarda estreita relação seja com aquilo que pensamos que sabemos, seja com aquilo que pensamos que acreditamos...

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Se a Literatura busca revelar, desvelar, explicar, enfim, narrar e interpretar o mundo, através das palavras, proporcionando-nos assim o progressivo conhecimento desse mundo, o texto cinematográfico busca expandir essas narrativas e interpretações ao lugar dos sentidos contidos nessas mesmas narrações e interpretações, demonstrandoas sensivelmente. Assim fazendo o cinema busca, então, reduzir a distância entre conhecimento conceitual e conhecimento factual... O cinema não apenas transmite a realidade textual de que se origina, mas – e é o que lhe proporciona estabelecer-se a si mesmo como um novo texto em igual original – o cinema cria os seus próprios modos de narrar e interpretar o mundoxxxi.

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Conseqüentemente, cria também seus próprios modos de ser visto, de ser lido, correspondentes a esses modos próprios de narrativa e interpretação... Os modos de ver tanto a vida quanto o filme, os modos de ler tanto o livro quanto o filme, não escapam ao fato inarredável de que tudo o que vemos está ligado ao que sabemos ou ao que acreditamos, ou seja, às nossas ciências ou às nossas crenças. Portanto, esses modos de ler o filme possuem a sua especificidade decorrente de ser uma narrativa correspondente a uma interpretação original do mundo, com sua pletora de signos, seu modus faciendi específico, e a especificidade dos saberes e crenças de cada um dos que o lêem, dos que o vêem... Claro está que, se os modos de ver o mundo encontram-se em relação direta com os saberes e os credos de cada qual, em igual medida encontram-se os seus diversos modos de fazer o mundo, aos modos próprios de cada qual... Os modos de fazer o livro/filme/quadro não escapam aos respectivos modos de ver o mundo, em maior ou menor medida, de acordo com o poder de cada qual em impor à obra seu modo próprio de ver, desde seus autores/roteiristas, editores/produtores, diretores, atores, cinegrafistas, o público a que se dirigem, as instituições, e assim por diante... Se o modo como vemos as coisas, as pessoas e os fatos da vida decorre do sistema de conhecimento e de crenças em cada indivíduo, assim como de uma dada cultura, há ainda um terceiro elemento que constitui o nosso modo próprio de ver: a imaginação... Embora o imaginário, a fantasia, o sonho, qualidades da imaginação, ainda careçam de muitas explicações, oscilando a sua compreensão em meio a uma diversidade de outros fatores, dos quais dependeria, negando-lhes, portanto, condição autônoma (percebidos como, por exemplo, um meio para a perfeição, ou de contrariedade à ordem das coisas, ou ainda como invenção ou inspiração, ou mesmo como mera expressão de desejos reprimidos), fato é que, ao menos no que concerne aos modos de ver, a imaginação se constitui em elemento de formação desses muitos modos de ver o mundo, desses muitos modos de fazer o mundo, desses muitos modos de ler o mundo assim na literatura (arte literária strictu sensu), como no cinema, na pintura, etc. Os modos como vemos as coisas, as pessoas, os fatos do mundo, decorrem do que sabemos, do que cremos e do que imaginamos... A imaginação sugere uma mediação entre o que sabemos que é e o que acreditamos que seja, que possa ser ou vir a ser... Embora eventualmente a imaginação possa identificar-se com o saber e o crer, ela normalmente deve a sua existência a um estado intermediário, entre o que chamamos de ficção e o que se impõe como realidade, que nos proporciona, desigualmente, em função apenas de cada qual de nós, muitos determinados e pessoais modos de ver: a saber, o fato de que possuímos, cada qual de nós, em maior ou menor

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grau, aqui não importa, nossos próprios e pessoais modos de imaginar, de fantasiar, de sonhar, que nos modifica inteiramente, de uns a outros, singularizando-nos (e aos outros), em conseqüência das infinitas possibilidades de articulação desses infinitos modos de ver o mundo...

[René Magritte, A chave dos Sonhos, 1997]

Os muitos modos de ver o mundo, toda leitura, toda interpretação do mundo, ciências e crenças, decorrem dos caracteres ideológicos adquiridos no embate sócio-cultural; a imaginação, sendo infensa às diversas realidades do mundo, talvez seja justamente aquela condição do humano que mais diretamente venha a refletir aquilo que chamamos de livre arbítrio, que mais intrinsecamente venha a constituir-se em exercício de todas as liberdades humanas, como origem primeira de toda a condição de liberdade...

[Pink Floyd, The Dark Side Of The Moon,1973]

A verdadeira aceitação, assim como as rupturas e rasuras das realidades naturais e sociais de que o humano participa, só se tornam possíveis a partir do livre exercício da imaginação...

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Só no terreno do imaginário é que nos reconhecemos livres, que nos sabemos livres, que nos cremos livres... Só no imaginário é que podemos transitar inteiramente livres...

[Capa: Rogério Méier, 1989]

O saber se inicia pela Poesia, visto ser o modo poético do humano o que lida com a matéria do imaginário, da intuição vital, lida com o pré e o meta verbal, com os infinitos silenciosos, lida com os espaços vazios do conhecer... A Poesia possui dupla linguagem... A linguagem escrita, que nos proporciona as chaves para o portal do conhecimento vital intuitivo; e a linguagem própria à substância incogniscível, do imaginário, correspondente a esse vital intuitivo... A linguagem secreta do humano cosmológico, do humano que se considera à imagem e semelhança da energia criadora de todas as coisas... Um novo saber, seja místico, científico ou estético, nasce, sempre e necessariamente, das lidas do humano com os espaços vazios dos entretextos, das inter-letras, das entrelinhas, dos entretantos, das pausas entre os discursos todos, tanto os discursos das coisas, os discursos materiais, quanto os discursos dos humanos, os discursos verbais...

*
A aventura poética, a exploração dos espaços vazios da realidade tem muito da compreensão da relevância dos espaços vazios entre os átomosxxxii na formação da matéria...

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Uma diferença profunda, porém, separa os atomistas de todos os filósofos gregos anteriores e posteriores. Que diferença é esta? Entre um átomo e outro, há o vazio ou o vácuo, que é o não-ser como algo real, existente. Assim, pela primeira vez, um grego, admitindo o vácuo, afirma que o espaço é real sem ser corporal. Dessa maneira, será mais correto dizer que para os atomistas a phýsis são os átomos e o vácuo. O pleno (o átomo) e o vazio são os princípios constitutivos de todas as coisas...xxxiii

*
Necessidade ou casualidade , o que importa mesmo é (mesmo antes que as motivações) o fato de que a união dos átomos não elimina a ausência de matéria nos entre textos da organização material... Mas não serão os entre textos os próprios mentores da organização dos átomos?... Ou seja, não se encontrarão exatamente neles o que chamamos de energia espiritual criadora? Se Deus está em todas as coisas observáveis, com muito mais razão não nos parece estar naquelas infinitas imensidões não observáveis? Esta é a razão porque a fé não se explica... Pois fé é poesia, é ler em uma linguagem meta-imaginária, que só se permite revelar aos olhos de ler nos espaços invisíveis, inaudíveis, de quem se permite aceitar os alfas e os ômegas da infinitude poética...
xxxiv

A fé é a mais perfeita leitura da mais perfeita linguagem poética...

*
A intuição, chave primeira do portal da imaginação, nasce lá fora, nos espaços vazios, vazios apenas porque não-observáveis, vazios apenas porque plenos de uma linguagem imaterial, pré-verbal... A intuição nasce do encontro da energia criadora, antes e para além de nós, com a energia vital em nós... Aquela energia vital concentrada no âmago do que percebemos como o mais profundo mistério da existência, o mistério da vida... E é nesses encontros que residem tanto a matéria da poesia, quanto a poesia da matéria... Tanto quanto o mistério de toda a poesia, que sempre está muito mais allá...

Enfim vamos percebendo que o humano além-do-humano é a prova literária mais que perfeita de que o humano é um animal poético...
Não é senão pela capacidade, a saber, capacidade poética, de intuir, imaginar, fantasiar, pela capacidade de lidar com os “espaços vazios” do imaterial, de exercer a liberdade como potência criadora do universo, que se constrói, ou se reconstrói, o humano, a natureza, as civilizações, a própria humanidade...

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EXTREMO
Ultrapassei o teus limites, última testemunha da noite, quintessência dos nomes e das cores, desespero dos espaços vazios incendiados pelos longos janeiros que articulas na penugem dos pêssegos. Sou límpido e táctil como um vaso destilado da vida, nesta margem, neste extremo que busca o manancial inesgotável e derradeiro.xxxv É da intuição, não da razão, que nasce toda a nossa noção, pública ou particular, do que seja a autêntica liberdade... Liberdade, liberdade: cuja essência está na natureza, em toda a vida, que age, como Bergsonxxxvi apontou, como potência psíquica criadora, não apenas em nós, mas em todo um universo que existe em permanente processo de ser, sendo... Tão livre quanto imprevisível...

*
A máxima aristotélica segundo a qual o homem é um animal político não diferencia ainda o humano das demais espécies animais: mesmo um símio e um golfinho são animais políticos... Afinal, a seu modo, que espécie não age e não se organiza e não se situa como “polis”, o bando (tal qual tribo), politicamente? A polis humana avança pelo exercício do imaginário para além de si mesma... A polis humana se constrói e as suas maiores conquistas materiais pelo exercício da poesia... É a visão poética do mundo, uma visão aberta do fenômeno humano tanto quanto da sua cultura e da sua sociedade (por conseguinte, de sua arte e da sua ciência), que nos proporcionou avançar por terrenos inexplorados até o século XX... É a compreensão de que todos os avanços humanos de até então ocorreram no preenchimento dos espaços vazios do imaginário presentes na tessitura e/ou textualidade das culturas humanas, e que resultaram em ampliação proporcional dessa mesma tessitura e/ou textualidade...

*
O pós-modernismo, e seu método privilegiado de exploração de possibilidades – o fragmentarismo, resulta justamente de um reconhecimento das infinitas ordens de

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idéias presentes nos entretextos e nos entre-tecidos sociais/culturais, ainda inexplorados, ainda desconhecidos de um mundo que se impôs construtivista só a partir dos tecidos e textos já postos na cultura (fosse para negá-los, fosse para afirmálos) em função de ideologias dominantes ou em processo para a dominação... A exploração dos espaços vazios intertexto/tessitura do silêncio, a abordagem poética, que liga, pelo imaginárioxxxvii, os diversos fragmentos do textualmente/tessituramente conhecidos, proporciona uma comunicação entre esses fragmentos de modo a não apenas afirmá-los como unidades verdadeiras, mas, muito especialmente, compreender a unidade totalizada como algo feito tanto de texto/tecido quanto de espaço imaginário, sendo esta unidade percebida como uma realidade infinita, que em si humanamente inesgotável, e de impossível apreensão/compreensão se não comunicada por ótica e linguagem do imaginário em parceria com aquela de representação conceitual...

...O pensamento é, por natureza, livre; e só o grau de imaginário nele contido é capaz de atestar a sua idoneidade...
...Tudo o mais são sombras de platônicas cavernas...

Talvez eu escreva, em parte, para preencher com outros sonhos aquele espaço destinado a Deus, que se esvaziou (dentro de mim), porque esse espaço é, afinal, um espaço para sonhar...xxxviii

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*
O fragmentarismo, que nos pré-socráticos pressupunha uma apreensão da realidade (material, ética e estética) do mundo, por passos e por partes, dado o reconhecimento da impossível apreensão in totum, esta que própria ao pensamento teológico (crença), é o modo que proporciona estranhamentos, ou noções de vazio, que obrigam o observador/leitor ao exercício ativo da razão/imaginação à maior apreensão da realidade material, científica e, particularmente, artística. Compor por fragmentos é acentuar o conteúdo onírico do mundo material, possibilitando o conhecimento ou a contemplação para além do que o só texto anuncia... É insistir no fato de que toda realidade, científica ou artística, é passível de textualização, não apenas pela descrição e pelo conceito, mas, sobretudo, pela imaginação, através de um diálogo e uma linguagem que lhe são próprios...

*
É possível textualizar o não-textualizável... simplesmente convidando o leitor/observador à leitura dos espaços vazios entre(inter)textos... É o que se obtém quando se constrói uma disposição fragmentária de intertextos...

[Capa: Ulisses Wensell, 1975]

Numa etapa da civilização em que amiúde se flagra o fato de que tudo, mesmo em nome de categorias platônicas ou aristotélicas, se reduz ao λογος sofista (ρετορικο ς), o fragmentarismo retoma a noção de verdade na contra-face do discurso retilíneo, no ponto de convergência entre o real e o ideal, entre discurso e materialidade, só accessível pela via do imaginário, por suas possibilidades de apreender, a um só tempo, a parte (o texto) e o todo (o inter-texto), a linha e a entrelinha, o múltiplo e o unívoco possíveis...

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*
No fragmentarismo idéia e realidade se conciliam no discurso, na constituição de uma linguagem que as convida permanentemente ao diálogo, como um modo pósmoderno de retomada do conceito de verdade...

xxxix

*
A julgar do que nos restou salvo da violência das univocidades ao longo dos primeiros séculos da era cristã, talvez a primeira obra literária de natureza fragmentarista, retomando a perspectiva da pluralidade, ironizando as verdades unívocas, mantendo-se firme e fiel à visão pré-socrática do mundo, tenha sido os Diálogos dos Mortos, a sátira menipéia de Lukiano de Samósata (séc. II d. C.; depois Luciano, pelos romanos... xl)... Fragmentarista heróico, em plena era de consolidação da univocidade romana, Lukiano de Samósata, um grego sob o Império Romano, ironiza os próceres da Unidade Grega, ao tempo em que os declara, satiricamente, mortos, talvez no sentido da inutilidade dos seus galardões, talvez por conta da decadência do Estado Grego... É pelo recolhimento dos seus despojos fragmentários que Lukiano de Samósata monta a sua sátira; pela abolição das noções de tempo e de espaço, prática bem de acordo à percepção e à textualização fragmentaristas; é pela sua despreocupação em formatar seu discurso ao gosto das explicações retilíneas de racionalização simplória; é pela convicção pessoal de que realmente fazia literatura independentemente dos padrões canônicos de época; é pelo modo fragmentarista de colecionar experiências a

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construir um texto em que a lógica do real ficcional (imaginação) se sobrepõe à lógica do ficcional real (ideologia)...xli

xlii

Em forma e conteúdo os Diálogos dos Mortos, ultrapassando as eras, se contata à pósmodernidade como um vaticínio (de vate) literário, como a mostrar que em toda a literatura, em toda a obra de arte, é a poesia, o poeta (de profeta) que permanece no etéreo eterno a aguardar tempos cada vez mais plenos de compreensão... Em Lukiano de Samósata, o que menos importa para a análise da linhagem estética, que nos ajuda a esclarecer as nebulosas perspectivas da pós-modernidade, é seu óbvio parentesco com os temas da Divina Comédia, de Dante; ou como inaugurador de um dialogismo, de um múltiplo dialogal, que só em Dostoievski, com seu romance polifônico, irá se aprimorar e transformar em modelo estéticoxliii; ou mesmo seu aprimoramento, ou sua referência para aquilo que, presente até hoje em textos dos mais diversos gêneros literários, denominou-se de sátira menipéia, denominação que se deve a Menipo de Gádara [séc. II a.C.]; ou mesmo os ensinamentos técnicos (na linha dos modos socráticos) de construção dialogal presente em seus textos... O importante em Lukiano de Samósata é sua natureza fragmentarista, presente no discurso que só se apresenta visível em sua grandeza quando visto sob essa perspectiva, sob uma perspectiva para além da “facilidade textual” com que renegam, os próceres da linearidade, os textos só aparentemente “fáceis” da atualidade pósmoderna... O importante em Lukiano, como em toda textualização fragmentária, é a sua retórica do silêncio, no caso, contraposta ao riso (o riso amargo da comédia), o silêncio que se lê com as lentes do imaginário, leitura de linhas e entrelinhas...

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...Não se pode deixar de conectar a sátira menopéia à cosmovisão carnavalesca na literatura, nas propostas de Bakhtin quanto ao romance polifônico de Dostoievski xliv, estendendo ambas, menipéia e carnavalização aos exercícios – arte e cultura – da pósmodernidade... A Menipéia e a carnavalização, atravessando a Idade Média, impõe-se no Renascimento, e chega à era moderna com Dostoievski em sua máxima expressão, atravessando toda a modernidade, desde Mário de Andrade, em Macunaíma, aos realismos fantásticos como Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, e bem presente ao longo de toda obra de Jorge Amado...

[Capa: Vera Café, 1997]

A carnavalização permite a Dostoievski ver e mostrar momentos do caráter e do comportamento das pessoas que não poderiam revelar-se no curso normal da vida. É especialmente profunda a carnavalização do caráter de Fomá Fomítch: este já não coincide consigo mesmo, já não é igual a si mesmo, não lhe cabe uma definição unívoca e conclusiva, ele antecipa em grande medida os futuros heróis de Dostoievski...xlv Na pós-modernidade a carnavalização se torna parte integrante da vida social quanto da arte e da cultura, como um forte elemento – e muito especialmente – das práticas brasileiras, gerando inclusive o termo brasileiração para designar, entre povos do primeiro mundo, um tipo carnavalizado de tratar os temas políticos, econômicos e culturaisxlvi...

A carnavalização acirra-se na pós-modernidade...

xlvii

...A carnavalização é um dos fundamentos da pós-modernidade... ...Muito especialmente da macunaímica vocação brasileira para tudo aquilo que atualmente se junta e anima sob a rubrica satírica dos pós-modernismos...

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A idéia de carnavalização, que Bakhtin apresentaria em seu livro Problemas da Poética de Dostoiévski, já se exibia, também mercê da cultura brasileira, no poema Bacanal, de Manuel Bandeira, que abre o seu livro Carnaval, exibindo o poder de antecipação de conceitos teóricos da poesia brasileiraxlviii, o que levou Gilberto Mendonça Teles a afirmar, peremptoriamente, ter sido Manuel Bandeira um precursor dessa idéia de carnavalizaçãoxlix... De fato, em que pesem as considerações de ordem puramente teórica de Bakhtin, os elementos do conceito já estavam bem firmes na literatura brasileira da fase heróica do nosso modernismo, tal qual se observa, por exemplo, nos losangos coloridos à arlequim da capa do livro Paulicea Desvairada de Mario de Andrade... Note-se a correlação de idéias do desvairismo de Mariol com o Bacanal de Bandeira...

li

Porque é mesmo que a idéia de carnaval/carnavalização, algo tão próprio às raízes, à alma e aos modos de ser brasileiro, poderiam deixar de ser anunciado a priori pela poesia brasileira?... Se o Brasil era o país do carnaval, era o país da carnavalização dionisíaca...

BACANAL
Quero beber! cantar asneiras No esto brutal das bebedeiras Que tudo emborca e faz em caco... Evoé Baco! Lá se me parte a alma levada No torvelim da mascarada, A gargalhar em doudo assomo... Evoé Momo!

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Lacem-na toda, multicores, As serpentinas dos amores, Cobras de lívidos venenos... Evoé Vênus! Se perguntarem: Que mais queres, Além de versos e mulheres?... – Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!... Evoé Baco! O alfanje rútilo da lua, Por degolar a nuca nua Que me alucina e que eu não domo! Evoé Momo! A Lira etérea, a grande Lira!... Por que eu extático desfira Em seu louvor versos obscenos. Evoé Vênus! lii

[Terry Gilliam, Tom Stoppard, Charles McKown, Brazil,o filme,1985]

*
O inter (ou entre, prefira-se) texto, o espaço vazio entre as textualidades aponta para a existência do nada, tal qual o pressupunham alguns dos pré-socráticos, e, muito especialmente, que é no espaço vazio que se encontra, à plenitude poética, a verdade textual...

Em realidade, porém, nada sabemos, pois no abismo está a verdade...liii 44

Um turbilhão de todos os tipos de formas separou-se do Todo...liv

[Sem indicação de capista]

O nada existe tanto quanto o “alguma coisa”... lv A palavra é o meio do Espírito para multiplicar-se no Nada...lvi

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lvii

A leitura de espaços vazios, a leitura poética, o intertexto, o entrelinhas, enfim, a leitura do texto fragmentário corresponde ao conteúdo metafísico das palavras gregas πιστις (boa-fé de quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir – o meta-texto) e αληθ ης (as verdades ocultas – no texto), também presente no Novo Testamento (repreensão de Jesus aos escribas e fariseus que exaltavam a literalidade – dos textos sagrados).

A textualização fragmentária convida a uma compreensão poética, a par e para além, da apreensão material e conceitual da obra, incentivando o leitor/observador a buscar as verdades para além da só literalidade, a fim de compreendê-las como fruto de um conjunto de discursos, como a resultante de uma pluralidade de afirmativas, as quais, reduzidas a uma retórica unívoca, sempre restam submersas...

*
O texto fragmentariamente realizado tem como corolário a possibilidade de contemplar várias vozes textuais, tanto quanto vários olhos de leitura, abordando o objeto de um ponto de vista prismático, obrigando-se, tanto autor quanto leitor, à compreensão do fato de que nenhum texto pressupõe verdade unívoca, mas uma

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pluralidade de verdades, algumas inaccessíveis, bem como atentos para o fato de que há muitos modos de ver e ler o mesmo fato, o mesmo objeto, o mesmo fenômeno...

[Capa: Claudia Zarvos. Foto: Márcia Ramalho, 2000]

De autores soberanos e leitores subservientes ao texto, numa relação monologal que muitas vezes impede o prazer da leitura, um conjunto de fragmentos permite que se formem múltiplas parcerias com leitores da mais variada perspectiva intelectual, que no jogo lúdico de aceitar ou repelir esta ou aquela formação textual, de refletir ponto a ponto em busca de uma inteireza que se encontra sempre mais para lá, propiciando tornarem-se também autores, que se aliam a outros textos, como leitores que participam de outros textos, fragmentários ou não, como co-autores, na medida em que sabem navegar pelos espaços vazios dos entre-textos, dos entre-livros, das todas entreliteraturas…

Se qualquer fragmento pode eventualmente conter fragmentos de verdade, é no entre-texto que esses fragmentos, essas verdades eventuais, se exibem, como fragmentos correspondentes aos muitos modos de ver e ler e saber, como verdades fragmentárias, e se aperfeiçoam no espírito do leitor, que apreende texto e contexto, e que assim aprende a navegar os oceanos invisíveis da infinitude imaginária...

*
O método fragmentarista também é um modo de conhecimento do mundo tanto quanto de cada indivíduo... Nesse sentido, é também um método de ensino e de autodidatismo... Com certeza, o modo mais leve e mais prazeroso de o aluno manifestar seus conhecimentos, e buscar outros, com a mesma naturalidade que tem ao brincar…

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Tome cada qual de um caderno e vá-se registrando o dia a dia de seus pensamentos, das suas leituras, cada qual das idéias que ex-surgem das reflexões ou falas de cada qual, e se terá, seis meses a um ano após, uma radiografia intelectual/sensitiva, e mesmo emocional da individualidade, ponto de partida para uma reflexão aprofundada a partir de si mesmo, para sua própria revisão de conceitos, para o desenvolvimento de suas capacidades, e para a ultrapassagem de idéias que não lhe aproveitam, de preconceitos e reações pavlovianas que lhe obstaculizam o aprendizado de si e do mundo... Que se exercite o método fragmentarista durante o ano letivo dos alunos, e que se questione às provas finais não o que o aluno sabe sobre tal e qual ponto do programa, mas que se dê a ele a oportunidade de mostrar, fragmentariamente o que sabe… Pois é mais que óbvio que o interesse despertado sobre tais e quais aspectos disciplinares, e a gratificação do seus esforços – em nada importa a medida – se articulará diretamente à gratificação da sua individualidade… Só o interesse, que se articula à necessidade e à vontade, forma alunos livres para o aprendizado teórico de si e do mundo que lhe cerca…

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A só aparente facilidade do texto fragmentado, a que aludem seguidamente os críticos da pós-modernidade, resulta apenas da dificuldade desses mesmos críticos em lidarem com as autênticas relações de semelhança... O discurso fragmentado busca realizar, literária, estética, retórica e textualmente, a semelhança entre verbo e vida... O grau de aparente veracidade do discurso unívoco nada mais é que fruto de uma reprodução de relações artificiais de similitude que, sob a capa de absoluta correspondência igualitária, em verdade oculta o permanente deslocar-se, vida e mundo, entre os muitos modos de saber, ver, viver, verbalizar...

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Se, de um lado, é bastante comum em nome da pós-modernidade (e do texto fragmentário) a utilização fácil de conceitos, que transitam superficialmente por tudo sem nenhuma contribuição efetiva, na crítica de um Giddenslviii, por exemplo, por outro lado é nítida a ampliação de fronteiras teóricas, a ampliação do diálogo e, sobretudo na abordagem empírica, a ampliação do divertimento que – basta ver o seu aproveitamento pela mídia – tudo isso a que chamam pós-modernidade vem causando… Para a Literatura, a pós-modernidade – e et pour cause – o fragmentarismo, alarga sobremaneira as fronteiras da sua soberania…

*
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O fragmentarismo possibilita – e mesmo exige – uma atividade dialogal, de expansão polifônica, entre concepções até antagônicas, muitas vezes constituindo alianças paradoxais entre uma pluralidade de modos de ver e saber o mundo, que acaba por proporcionar aos leitores um encontro com verdades teóricas, às vezes até comezinhas, que só fragmentariamente podem se constituir... A contribuição do fragmentarismo para a democratização dos discursos (polifonia) e para a aceitação do outro (relativização), é uma contribuição para o desenvolvimento da boa-vontade existencial… Não há porque distinguir, para os mochos fins a que se propõem os céticos, entre a superficialidade de práticas ditas pós-modernas e as todas superficialidades de antigas práticas ditas modernas... É a mesma fenomenologia, que dispensa em ambas maiores esclarecimentos... É difícil compreender como um homem (Herder, 1744) capaz de escrever quarenta volumes de trabalhos diversos, todos faiscantes de talento e ciência, não teria a capacidade precisa para compor uns oito ou dez volumaços sobre uma só matéria, dentro de uma só ordem de idéias... A pretendida virtude do que se poderia chamar integralismo literário, não fala sempre em favor de quem a possue... Diz muito bem Heinrich Landsmann: ...quanto maior é o gênio, tanto mais sensível se lhe torna o que há de fragmentário na natureza humana, que muitas vezes não chega à consciência de uma criatura vulgar: motivo porque semelhantes entes não podem propriamente chamar-se naturezas incompletas... A inteligência comum sabe arranjar comodamente o mundo por todos os lados, até onde sente o prazer ou a necessidade de ter uma compreensão do mundo, mas sem dúvida só – até onde!... Quando pois esta inteligência doméstica e cotidiana mete-se a fazer obras de arte, a mediocridade mostra-se então expedita, e a mediocridade é sempre larga e inteira, nunca fragmentária...lix

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Quando João Gilberto Noll afirmou, por exemplo, que não consegue deter-se a ver um filme com muita historinha, está a discorrer sobre uma necessidade típica da leitura pós-moderna: a presença de uma fragmentação que abra a percepção para além do texto unívoco... Sem, no entanto, é claro, cair no conto do vigário de um dinamismo superficial que ele considera típico de thrillers, do mero congestionamento da ação, preferindo, pois, certos esboços que não levam a nada...

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João Gilberto Noll sugere que se desconstrua a narrativa de histórias mais ou menos contínuas para a composição de seqüências dispersas de cenas estáticas, destinadas a induzir nos leitores um “êxtase”, pelo qual, mesmo por um pequeno instante, exponha o fundo escuro” lx (prefiro chamá-lo chiaroscuro)... ...”Para que mais e mais maneiras de externar a mesma merda se o mundo carece não de uma linguagem mas de um fato tão ostensivo na sua crueza que nos cegue nos silencie e nos liberte da tortura da expressão, é isso, pronto!”... lxi

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São fundamentos da escrita fragmentária: A apresentação aberta de fenômenos para os quais ainda se tem pouca compreensão, na medida em que os conhecimentos já postos são insuficientes ao convencimento do espírito – medida de cada qual, naturalmente... A apresentação linear dos fenômenos muitas vezes escamoteia, em sua univocidade, algumas das verdades neles contidas, por isso que impedem a ampliação da consciência na medida em que embaraça a atividade especulativalxii... A provocação de estados imaginativos que levem à percepção ou compreensão dos fenômenos para além da sua mera tessitura conceitual, desconstruindo uma pretensa unidade histórica (de puzzle a lego) com o fim de alcançar-lhes as “kundalínicas” energias constitutivas... A ampliação da apreensão de uma realidade (científica ou artística) que jamais se desnuda por completo no discurso textual, mas que se oculta, misteriosamente, nos espaços vazios inter-textos, sempre só passível de relativa apreensão, via imaginário... O estabelecimento, tanto quanto possível, de um discurso prismático, que contemple os muitos modos de ver e ler a realidade humana e/ou natural (artística e/ou cientificamente colocada)... O desnudamento do fato poético sempre presente em qualquer realidade, mormente a textual, independentemente da sua forma e de seu conteúdo... A compreensão de que qualquer totalidade é uma totalidade possível, buscada através do diálogo entre os diversos fragmentos que a compõe, em face da impossibilidade humana de ser senão fração de qualquer totalidade a que se queira referir... A busca incessante da totalidade, que se processa através de séries fragmentárias que se vão conectando, não como um quadro pré-determinado, como num jogo de puzzle, de uma totalidade retórica que delimita artificialmente as fronteiras do conhecimento, mas como uma aventura para além dessas totalidades artificiais, para o desconhecido,

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como num jogo de lego, em que o se dar às mãos das partes fragmentárias amplie as correntes da percepção em direção ao desconhecido... A apresentação paulatina dos fragmentos, porque exibindo as respectivas essências, proporciona, em processos mentais de adição e supressão de característicos – que ocorre silenciosamente na mente do leitor – que se chegue à essência de uma possível totalidade que relacione todos os temas... A textualização do que mais interessa dizer, a tematização do que mais interessa saber, na busca literária dos fenômenos que se pretende observar... A poesia dos objetos e dos discursos...

*
Os modos fragmentaristas de ler são também as únicas ferramentas do espírito a compreender – ver, ler, saber, viver – a silenciosa narrativa mitológica, quando em quase nada importa a exatidão lógica dos conceitos e formas, estes sempre meras referências à generalização primeira dos mitos, para cuja adoração faz-se necessária a compreensão individual singularizada (aproximação com o real e o imaginário individual)... Uma primeira questão se desdobra da ilusão de que a leitura seja corolário da escrita e de que antes dos sumérios, com suas tabulas de barro, a experiência da leitura não existia. Basta lembrar as cavernas de Lescaux ou Altamira para poder admitir-se que há mais que imagens avulsas, há uma narratividade naquelas representações e portanto, uma leitura que as precede. Por trás das imagens dos bisões e cervos há uma narrativa mitográfica lxiii que só imaginariamente podemos suplementar...lxiv

*
Em muitos casos, e a atualidade do texto de Heródoto – que já por fragmentarista é também fundadora da noção pós-moderna de Histórias – bem o comprova, só fragmentariamente se constrói um texto que corresponde à necessidade de fazê-lo acompanhar a pluralidade fática ou fenomenológica... Pode ser que, no final, os fragmentos se deixem ordenar, mas dentro do espírito fragmentário que os motivou e, na verdade, lhes serviu de estrutura estético- literárialxv...

*
As principais críticas ao texto herodótico (fantasista e sem ordenação rigorosa de tempo e espaço) são fruto de uma visão superada da arte e ciência históricas, na medida em que a inclusão de fenômenos mitológicos em sua História nos proporciona

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ler a um só tempo fato e fantasia, real e imaginário, tal qual se processava nas mentes do seu tempo – nada mais próprio ao texto histórico... A falta de rigor linear-normativo, quanto às noções de espaço e tempo, do texto fragmentário de Heródoto não é – como acusam seus críticos, e mesmo aceitam alguns dos seus admiradores – devido ao fato de que as noções científicas de espaço e tempo ainda não se tinham apresentado ao espírito humano na época de Heródoto... lxvi , mas resultante do método fragmentarista de saber o mundo, adotado pelo préplatonismo... lxvii

Uma leitura mais literária dos diálogos socráticos, não apenas em Platão, mas em Xenofonte, e muitos outros que adotaram o métodolxviii, nos leva à convicção de que muito pouco tem o socratismo com o platonismo, aproximando-se muito mais Sócrates do pré-socratismo do que do idealismo unívoco de Platão, que o platonismo exaltou em detrimento da sua estéticalxix, ainda muito pouco conhecida... Ou seja, em Platão o diálogo socrático é apenas método dialogal-polifônico (ética e estética) de busca da verdade... Mas a verdade unívoca é que ele mesmo é apropriado de modo absolutista (talvez animados com o absolutismo reacionário de A República) pelos seguidores de Platão, orientados pelo conteúdo “educativo”lxx dos diálogos, e de tal modo que acaba por negar a “revolução permanente” do espírito socrático... Bakhtin segue ainda mais fundo na apreciação, liberta de oficialismos filosóficos, do dialogismo socrático, especialmente mercê de sua percepção essencialmente literária dos escritos de Platão, observando suas bases carnavalizantes em seus discursos sobre a(s) verdade (s)... O “diálogo socrático” não é um gênero retórico. Ele medra em base carnavalesco-popular e é profundamente impregnado da cosmovisão carnavalesca, sobretudo no estágio socrático oral de seu desenvolvimento... A princípio, já na fase literária de seu desenvolvimento, o “diálogo socrático” era quase um gênero memorialístico: eram recordações das

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palestras reais proferidas por Sócrates, anotações das palestras memorizadas, organizadas numa breve narração... Mas muito breve, o tratamento artístico livre da matéria quase liberta totalmente o gênero das suas limitações históricas e memorialísticas e conserva nele apenas o método propriamente socrático de revelação da verdade e a forma exterior do diálogo registrado e organizado em narrativa... É esse caráter criativo livre que observamos nos diálogos socráticos de Platão... lxxi É preciso ler e reler a obra socrático-platônica, leitura e re-leitura às lentes só literárias, a perceber a natureza libertária dos diálogos platônicos, sem deixar margem a dúvidas quanto à oposição do discurso socrático, mesmo e muito claramente tal qual se encontram em Platão, aos lineares, retilíneos e unívocos discursos dos oficialismos todos... O gênero se baseia na concepção socrática da natureza dialógica da verdade e do pensamento humano sobre ela. O método dialógico de busca da verdade se opõe ao monologismo oficial que se pretende dono de uma verdade acabada, opondo-se igualmente à ingênua pretensão daqueles que pensam saber alguma coisa... A verdade não nasce nem se encontra na cabeça de um único homem; ela nasce entre os homens, que juntos a procuram no processo de sua comunicação dialógica...

Sócrates se denominava “alcoviteiro”: reunia as pessoas, colocando-as frente a frente em discussão, de onde resultava o nascimento da verdade...lxxii

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Todo texto é, engenharia e arquitetura, de origem fragmentária... Fragmentos que se aprisionam uns aos outros, que se disfarçam as diversidades em meio a uma retórica linear sempre arbitrária, à moda sofística, à maneira das artes advocatícias... Na retórica linear a narrativa se faz unívoca pelo ocultamento da natureza polifônidofragmentária das verdades, textuais e contextuais, do Livro da Vida humana... Um livro de fragmentos é como o Tao Te Kinglxxiii a convidar a todos ouvirem a Poesia presente em todas as coisas...

A poesia é feita de pequeninos nadas...

lxxiv

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Teremos ganho muito a favor da ciência estética se chegarmos não apenas à intelecção lógica mas à certeza imediata da introvisão de que o contínuo desenvolvimento da arte está ligado à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco...lxxv

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No exercício do fragmentarismo também é preciso não perder de vista uma busca renovada da (inexprimível) Totalidade (o Tao), para que a fragmentação seja bem apreendida... E para que sempre se evite a imposição ideológica de uma retórica que possa nos impor qualquer parte por quaisquer desses muitos todos tolos que rastejam por aí...

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A arte da interpretação se aproxima de uma atividade fisiológica nãohumana: a lenta e salutar digestão bovina, que o “homem moderno” teria completamente desaprendido... Um crítico é um leitor que rumina. Ser-lhe-ia, portanto, necessário ter vários estômagos...lxxvi O fragmentarismo é também, aos seus muitos modos de ler, método de saber/interpretar próprio à pós-modernidade: enquanto processo de mastigação de verdades unívocas, por ruminação progressiva e implacável dos seus múltiplos fragmentos postos em seus lugares, e a tanto está sempre convidando os leitores dos seus textos de fragmentos, na medida em que permite a pausa intertextual necessária à essa atividade crítica...

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As concepções socráticas da natureza dialógica da verdade se assentavam na base carnavalesco-popular do gênero do “diálogo socrático” e determinavam-lhe a forma, mas nem de longe encontravam sempre expressão no próprio conteúdo de alguns diálogos...lxxvii O conteúdo adquiria freqüentemente caráter monológico, que contradizia a idéia formadora do gênero... lxxviii Nos diálogos do primeiro e do segundo período da obra de Platão, o reconhecimento da natureza dialógica da verdade ainda se mantém na própria cosmovisão filosófica, se bem que em forma atenuada. Por isso, os diálogos desse período ainda não se convertem em método simples de exposição das idéias acabadas (com fins pedagógicos) e Sócrates ainda não se torna o “mestre”... ...Mas no último período da obra de Platão isso já se verifica: o monologismo do conteúdo começa a destruir a forma do diálogo socrático... ...Mais tarde, quando o gênero do “diálogo socrático” passa a servir a concepções dogmáticas do mundo já acabadas de diversas escolas filosóficas e doutrinas religiosas, ele perde toda a relação com a cosmovisão carnavalesca e se converte em simples forma de exposição da verdade já descoberta, acabada e indiscutível, degenerando completamente numa forma de perguntas-respostas de ensinamento de neófitos (catecismo)... lxxix

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Curioso notar como tantos autores da atualidade venham, há tanta tinta e papel, já agora a gigabits, combatendo a univocidade, o positivismo, a linearidade do pensamento imperial, com discursos, retóricas e estéticas, próprios à Linguagem Imperial... Talvez porque a polis literária seja governada pela polis política...

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Há, como em todas as épocas, novíssimos modo de fazer literatura no ar polifônico da pós-modernidade: contar/cantar o mundo inside/outside of us... Porque afinal estamos todos desconstruindo-nos em vez de simplesmente contar/cantar o mundo inside/outside of us?...

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Cabe observar que a cosmovisão carnavalesca também desconhece o ponto conclusivo... É hostil a qualquer desfecho definitivo: aqui todo fim é apenas um novo começo, as imagens carnavalescas renascem a cada instante...
lxxx

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Se o pós-modernismo é filho do modernismo (que sofreu no passado as mesma espécie de crítica temerária que hoje sofre o primeiro), herdeiro daquele individualismo mundano exacerbado que então dividia a filosofia e a teologia alemãs dos finais do século XIX, inícios do XX [o modernismo era cego para tudo o que não é o eu ou não serve ao seu eulxxxi], como o novo que vai saindo de dentro do velho (ou o velho de dentro do novo) como diz Gilberto de Mendonça Teles das experimentações de Manuel Bandeira, feito por dentro da linguagem poéticalxxxii, isso não se faz aos “pouquinhos, humildemente, quase a pedir licença, como Irene entrando no céu”lxxxiii, mas a partir de uma nova ruptura, a desconstruçãolxxxiv, ao mesmo tempo em que se espalha, numa autêntica explosão de vanguardas, pela cultura (saber) e pela sociedade (viver), constituindo toda uma fenomenologia que lhe é própria e que, bem ao contrário dos experimentalismos e vanguardas da modernidade, vem se processando em um ritmo muito mais veloz do que tem podido absorver não só as teorias literárias, mas as próprias obras de literatura... E que ocupa seus principais espaços, a construção pós-moderna, nas artes imagéticas, cinema, televisão, clips publicitários,etc., e nas ligadas à informática, os sites internet e a web-literatura...

São, talvez, por múltiplos, por polifônicos, como mil polvos de mil braços, algo assim como muitos novos renascendo de uns poucos velhos heróicos... As vanguardas modernistas buscavam a ruptura como instante (horizontalização periódica da cultura), a retomar a caminhada a partir do novo elemento conquistado... Na pós-modernidade, a ruptura, como desconstruçaão é o cotidiano, é o procedimento polifônico de um processo que não se resolve jamais, na grande explosão da vida unívoca que deixou tudo aos fragmentos da pluralidade... Na pós-modernidade, primeiro como uma super-horizontalização permanente da cultura, nivelação (por cima e/ou por baixo) de todas as possibilidades sociais, intelectuais e artísticas, aos mesmos patamares, cada fragmento busca a ampliação e a sobrevivência, em que

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qualquer totalidade é sempre aliança temporária, nunca um permanente estado unitário... Por segundo, como conseqüência da primeira fase, a pluralidade como tônica segue desconstruindo horizontalizações e verticalizações, para que cedam espaço a direções estelares... Na pós-modernidade a tribo/polis/estado da Grécia pré-alexandrina substitui-se ao estado-império da Roma Imperial... A Cidade-Estado da Grécia clássica se justificava a partir do indivíduo, da cidadania grega; bem ao contrário, no Império Romano a cidadania só se justificava a partir do Estado... Daí que, numa era a plenitude, o desenvolvimento do homem grego (a Paidéia), a essência da cidade grega; noutra, Roma, era o Império, o Estado Romano, o que importava construir e desenvolver...

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Meu partido, é um coração partido E as ilusões estão todas perdidas... Os meus sonhos foram todos vendidos Tão barato que eu nem acredito, eu nem acredito Que aquele garoto que ia mudar o mundo (Mudar o mundo) Freqüenta agora as festas do grand monde Meus heróis morreram de overdose Meus inimigos estão no poder Ideologia, eu quero uma pra viver O meu prazer agora é risco de vida Meu sex and drugs não tem nenhum rock’n’roll Eu vou pagar a conta do analista Pra nunca mais ter que saber quem eu sou Pois aquele garoto que ia mudar o mundo (Mudar o mundo) Agora assiste a tudo em cima do muro Meus heróis morreram de overdose Meus inimigos estão no poder Ideologia Eu quero uma pra viverlxxxv

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A pós-modernidade, a partir de uma consciência plural e fragmentária do mundo, amplia desmesuradamente as possibilidades do Mercado, com uma ampliação do Consumo como nunca antes vista, na medida em que as partes-fragmentos (tribos, indivíduos) exigem itens de consumo próprio, e muito especialmente na medida em que as possibilidades combinatórias inter-fragmentos (tribos/indivíduos) multiplicam o “self” em tantos outros em um mesmo consumidor, e a “trieb” (pulsão, vontade de poder) em vontade de consumir...

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– Ao fim de todas as coisas! (Max levanta o copo e bebe). Sabem como sei que
é o fim do mundo? Porque tudo já foi feito. Todo tipo de música, todos os governos... Todos os cortes de cabelo, todos os sabores de chiclete... Todo tipo de cereal... Sabem como é?... Comno vamos sobreviver outros mil anos? Estou dizendo... Acabou-se... Esgotamos tudo...lxxxvi

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A necessidade de expressar-se, de exprimir-se, cada indivíduo e as suas muitas... ...múltiplas personas, cada tribo e todas as suas multiplicadas inter-relações, necessidades essas tradicionalmente sufocadas até o advento da pós-modernidade, ganha, nesta, instrumentos de realização (e não só tecnológicoslxxxvii ) que conduzem, por exemplo, ao hipertexto, à web-literatura...

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Trava-se nos céus da pós-modernidade um novo combate ideológico representado pelo embate entre o que se usa chamar de Nova Economia e o ancién regime da economia capitalista, esta desenvolvendo em direção à concentração, aquela – como um remédio eficaz ao que Marx chamou de carregar em si as sementes da própria destruição – para a pluralização econômica e, por conseguinte social e política... É claro que a arte literária não pode permanecer imune aos reflexos desses embates pós-modernos... Por isso que as concepções teóricas e estéticas acabam por se constituírem como expressão da antiga ou da nova sociedade ocidental... Et por cause, mas, é claro, não só por issolxxxviii, seja a pós-modernidade, seja o fragmentarismo, são conceitos que, fenômenos do pensamento e da cultura, ainda carecem de reconhecimento pela cultura institucional... lxxxix

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Et por cause, ainda, os principais textos existentes a respeito da pós-modernidade, ignorando seus aspectos Literários (lato senso), se apegam ao modernismo, ou ao marxismo, em estranhíssimas alianças canônicas (se não fossem essas alianças parte do fenômeno que ignoram), para combater o pós-modernismoxc, buscando negar-lhe o sentido, a fenomenologia, de fase autônoma da cultura, quando não lhe adjetivam de contrafação, dando-lhe, até mesmo, contornos de contravenção. Ou seja, a um tempo confrontação e contrafação, esquecendo-se que o que confronta é sempre contrafação para o confrontado... Aliás, tal qual se fez contra o modernismo em seus primórdios (o que, para os fins do presente texto, é o mais significativo)... Quanto ao sentido do termo (pós-modernismo), talvez só haja concordância em afirmar que o “pós-modernismo” representa alguma espécie de reação ao “modernismo” ou de afastamento dele. Como o sentido de modernismo também é muito confuso, a reação ou afastamento conhecido como “pós-modernismo” o é duplamente. O crítico literário Terry Eagleton (1987) tenta definir o termo da seguinte maneira: Talvez haja consenso quanto a dizer que o artefato típico é travesso, auto-ironizador e até esquizóide; e que ele reage à austera autonomia do alto modernismo ao abraçar impudentemente a linguagem do comércio e da mercadoria. Sua relação com a tradição cultural é de pastiche irreverente, e sua falta de profundidade intencional solapa todas as solenidades metafísicas, por vezes através de uma brutal estética da sordidez e do choque.xci Não se pode negar ao pós-modernismo seu status de fenômeno autônomoxcii: Nas últimas duas décadas, “pós-modernismo tornou-se um conceito com o qual lidar, e um tal campo de opiniões e forças políticas conflitantes que já não pode ser ignorado.“A cultura da sociedade capitalista avançada”, anunciam os editores de PRECIS 6 (1987), “Passou por uma profunda mudança na estrutura do sentimento”. A maioria, acredito, concordaria com a declaração mais cautelosa de Huyssens (1984): O que aparece num nível como o último modismo, promoção publicitária e espetáculo vazio, é parte de uma lenta transformação cultural emergente nas sociedades ocidentais, uma mudança da sensibilidade para a qual o termo “pós-moderno” é na verdade, ao menos por agora, totalmente adequado. A natureza e a profundidade dessa transformação são discutíveis, mas transformação ela é. Não quero ser entendido erroneamente como se afirmasse haver uma mudança global de paradigma nas ordens cultural, social e econômica; qualquer alegação dessa natureza seria um exagero. Mas, num importante setor da nossa cultura, há uma notável mutação na sensibilidade, nas práticas e nas formações discursivas que distingue um conjunto pós-

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moderno de pressupostos, experiências e proposições de um período precedente.xciii Ao que o pós-modernismo, pós-modernamente carnavalizado, pós-modernamente polifônico, dar-se-á, certamente, por satisfeito... Há alguns que desejam que retomemos ao classicismo e outros que buscam que trilhemos o caminho dos modernos. Do ponto de vista destes últimos, toda a época tem julgada a realização da “plenitude do seu tempo, não pelo ser, mas pelo vir-a-ser.xciv

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O que se percebe, de um modo geral, entre os autores favoráveis à pós-modernidade que nos chegam da Europa e dos Estados Unidos, a pós-modernidade é vista o mais das vezes como um fenômeno estético especialmente delimitado, próprio aos espaços da arquitetura, das artes plásticas, da publicidade, ponta de lança da sociedade de consumo, fenômeno de uma sociedade capitalista da fase pós-industrial... Quanto aos parâmetros estéticos próprios a uma possível literatura da pósmodernidade nada ou quase nada foi feito, a julgar pelo que consta dos poucos textos até aqui editados no Brasil... xcv Muito pouco ou nada se fez em teoria literária aplicável à pós-modernidade que não se resuma ao conceito de desconstrução... A teoria literária há que trazer a si os resultados, tanto empíricos quanto teóricos, das práticas interdisciplinares: por exemplo, encontramo-nos numa época em que os gêneros perdem ou confundem as suas fronteiras...xcvi, uma característica própria à pósmodernidade, que segue a quebra do discurso unívoco para dar lugar à coexistência teórica entre os muitos modos de saber... Faz-se pós-modernismo, à espera de delineamento teórico, quando se abre espaços textuais para autores das mais diversas tendências, diálogo plural de polifonias, especialmente na prática atual – e, aliás, a prática fragmentarista deste texto bem o exercita – de textualizar os autores por suas próprias palavras, em vez de fazer-se porta-voz dos autores, seu interpretador ... xcvii

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...A mim mesmo eu canto e celebro E ao que eu celebro e canto Venham também vocês celebrar cantar Que há em mim o mesmo exato átomo O mesmo exato átomo que em tudo e todos há...xcviii

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...O diálogo de Platão representa, segundo Aristóteles, um novo gênero artístico, uma manifestação intermédia entre a poesia e a prosa. É fora de dúvida que isto se refere em primeiro lugar à forma, que é a de um drama espiritual em linguagem livre. Mas, segundo a opinião de Aristóteles sobre as liberdades que Platão se permite na maneira de tratar o Sócrates histórico, devemos supor que era também no tocante ao conteúdo que Aristóteles considerava o diálogo platônico uma mescla de poesia e prosa, de ficção e realidade...xcix

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A Globalização é o processo – jamais de desfragmentação – de harmonia fragmentário-planetária, em que a extrema pluralidade humana não será apequenada com as retóricas da similitude… Se as diferenças entre as múltiplas folhas de inúmeras mangueiras são desprezadas pelas suas semelhanças com “a folha de mangueira”, no humano não se abolirá singularidades que nos encerrem a todos n’O Humano... Qual de nós será mais humano?... Quem mais semelhante?... Se buscarmos, humanos, nas palavras de Jesus, sermos perfeitos como nosso Pai... Decerto haveremos de manter nossa presença, vivificando-a, em cada qual dos nossos fragmentos... O ‘globalizamento’ atual nada mais ainda é que a manipulação dos nossos todos fragmentos sociais, nossos seres fragmentários, uma ‘desfragmentação’ segundo os hard(and soft)wares dos donos, ou dos que se apoderaram dos computadores...

Eu desconfio de todos os sistematizadores e os evito. A busca de um sistema é uma falta de integridade...
c

A racionalidade a qualquer custo, a vida brilhante, fria, circunspecta, consciente, sem instinto, em oposição aos instintos, não tem sido mais do que uma forma de doença, uma outra forma de doença – e de modo algum um retorno à “virtude”, à “saúde”, à felicidade...Ter que combater seus instintos – esta é a fórmula para a décadense: enquanto a vida é ascendente, a felicidade e o instinto são uma só coisa...ci

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A Literatura encontra, no Hipertexto, como Web-Literatura, uma possibilidade de ampliação da arte literária tanto no sentido da apreensão das possibilidades de imaginário (provocando uma comunicação mais larga entre imaginários), quanto na utilização dialogal entre textos de linguagem transparente (comunicação objetiva) com textos de linguagem densa ou opaca (comunicação subjetiva; ou literária), na diferenciação clássicacii, entre arte e ciência, entre signos de distintas procedências culturais, inclusive suas respectivas linguagens idiomáticas...

Ao articular links de diversas procedências e orientações, o hipertexto, a web-literatura funda uma comunicação entre imaginários para além das possibilidades imaginativas registradas nos conteúdos textuais, comunicação nem oral nem escrita, uma autêntica linguagem do imaginário, cujo método de apreensão pressupõe textos-fragmentos, de um lado, e percepção poética, de outro, como uma ponte entre autores/leitores e os respectivos textos linkados... www.pw.org/mag/wittig.htm Sei como quero a minha lápide: uma simples, pequenina palavra gravada em um pedaço de mármore leitoso – “Boo!”... ...neste epitáfio se contém inteiramente a essência do que é a comédia do ato de escrever, dessa nossa conspiração “instantânea”, nosso truque, nossa beleza, nosso sonho impossível... fazer falar um objeto inanimado, através de letras gravadas em pedra ou tinta, ou de traços numa tela, para uma pessoa que se encontra ausente... ciii

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Quanto mais se mostra o fragmento, mas a totalidade ganha em apreensão...

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As aspas, o ponto de exclamação, a palavra informal no ambiente formal, a rapidez com que cada palavra pode ser lida, o tamanho da palavra e

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os espaços adjacentes... ...não fosse pela literatura eletrônica, esses detalhes poderiam me iludir...civ A literatura eletrônica tem proporcionado a muitos de nós avançar na abordagem da materialidade do ato de escrever... A E-lit (literatura eletrônica) está revolucionando a aparência e o funcionamento do texto, levando-nos a repensar coisas já estabelecidas, reaproximando-nos de aspectos da história da literatura que têm estado obscurecidos nesses dois últimos séculos pelo instrumental de todo o aparato da literatura romântico-industrial... Muito do que coloco sobre a E-lit é visto como um ataque da literatura eletrônica contra a cultura da tinta-e-papel... olhos atentos, vejo a “e-lit” como mais uma etapa normal da longa história literária... cv

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A webliteratura, como havia de ser natural, acaba provocando uma revisão de conceitos teóricos que não deixam de abranger toda a Literatura, e não apenas no que diz respeito à criação desse novo gênero literário... ...A retomada de uma idéia de Marcel Duchamps quanto à ação do acaso no processo de criação artística é um dos aspectos dessa contribuição, aliás bem ao sabor da pósmodernidade... A idéia de vanguarda também se modifica: não se busca mais novos sentidos, temas, nem mesmo técnicas: são os procedimentos que se busca explorar na busca do novo... Pois, compreendida a vida como um processo, qual procedimento artístico se fará correspondente às novas e sucessivas etapas da cultura, se tanto as atuais, as que aguardam serem vencidas?... La herramienta de las vanguardias... es el procedimiento... Para una visión negativa, el procedimiento es un simulacro tramposo del proceso por el que una cultura establece el modus operandi del artista; para los vanguardistas, es el único modo que queda de reconstruir la radicalidad constitutiva del arte. En realidad, el juicio no importa... La vanguardia, por su naturaleza misma, incorpora el escarnio, y lo vuelve um dato más de su trabajo... Entendidas como creadoras de procedimientos, las vanguardias siguen vigentes, y han poblado el siglo de mapas del tesoro que esperan ser explotados. Constructivismo, escritura automática, ready-made, dodecafonismo, cut-up, azar, indeterminación. Los grandes artistas del

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siglo XX no son los que hicieron obra, sino los que inventaron procedimientos para que las obras se hicieran solas, o no se hicieran. ¿Para qué necesitamos obras? ¿Quién quiere otra novela, otro cuadro, otra sinfonía?... ¡...como si no hubiera bastantes ya!cvi

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O controle da máquina, da tecnologia que possibilita e vai ampliando infinitamente as possibilidades plurais da sociedade, especialmente sua mais recente expressão literária, o hipertexto, ainda se encontra em mãos de uma Velha Economia, que controla os bens primários de produção, o que resulta em um controle severo da intertextualização, a saber, das possibilidades de que o hipertexto, e a literatura web , possam transitar livres, dos produtores de texto aos seus tantos possíveis consumidores... O controle dos meios de transmissão da informação individual, da produção intelectual e artística, vai ao encontro da Velha Economia, a impedir a literatura web de alçar os altos vôos a que está destinada... Em verdade, a WebLiteratura, que deve ser compreendida em seus modos mais amplos, para além da especificidade da linguagem escrita, a incluir toda transmissão cultural, na pluralidade das suas manifestações, oral-escrita-imagética, diz respeito à ambiência literária: o espaço do computador como um ambiente, uma sala de cultural, um centro de cultura, onde se pode freqüentar todo tipo de manifestação artística... A ambiência cultural da webliteratura ainda está em seus primórdios: só a distância tecnológica nos impede ainda de ler um livro, assistir um filme, ver uma escultura ou uma pintura, assistir uma conferência, etc., tal qual na realidade física. A ficção literária e cinematográfica já aponta para essa futura realidade virtual em filmes como Disclosure.cvii

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A literatura imagética, o cinema, especialmente, em nada prejudica a literatura escrita na medida em que, e até por ser dela consumidor, co-produtor e divulgador, realidade ficcional (filme) e sua absorção e transmissão conceitual (escrita) são e sempre serão interdependentes, como atividades mentais que se complementam... A linguagem imagética, que a pós-modernidade vem cada vez mais ampliando e desenvolvendo, desde a publicidade, o vídeo-clip, o gibí, o cartum, etc., uma linguagem imagética de que os hieróglifos e os ideogramas são corolários, se produz não apenas no nível primário de leitura, modo de linguagem transparente, meramente comunicativo, como no nível artístico, de linguagem densa...cviii Junte-se uma série de cartazes, sem qualquer texto, e as disponha à visão (leitura) do outro, que certamente esse outro terá a oportunidade de saber (ler), seja no nível da

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simples comunicação, seja no nível da experiência artística, o que se está a dizer (texto)...

Cada qual de nós tem sua própria coleção de imagens...
As imagens de cada qual são classificadas ainda ao modo próprio de cada qual... A coleção de imagens de cada qual traduz pensamentos de acordo com o repertório de cada qual, assim quanto à expressão seja também quanto à recepção de novas imagens, que lhe chega cotidianamente, como convite à reformulação permanente tanto da sua disposição quanto da formulação de novos pensamentos...

*
A “leitura virtual” formatada pelo texto eletrônico é indiciada pelos elementos de sua organização. No texto eletrônico, a abundância de informação e a quantidade de conexões possíveis propicia uma atitude de leitura fragmentária; o leitor faz “zappings”, ou seja, pula de um texto para outro lendo aos pedaços. A leitura no monitor não é linear, pois o texto é organizado para que a informação seja encontrada de maneira funcional, de tal forma que só se leia aquilo que é buscado. Por isso, esta prática de leitura é baseada na atenção flutuante ou no interesse potencial em relação à informação; o leitor/navegador recolhe fragmentos de informação (daí o uso do verbo inglês browse, para designar o processo de quem lê o hipertexto. Prática de leitura semelhante é desempenhada pelo espectador de televisão, que com o controle remoto “zapeia” de um canal a outro...cix A leitura do texto literário constitui-se como atualização dos sentidos do texto, promovida pela ação ativa e criadora do leitor, configurando um processo de comunicação fundado em um texto potencial, e em pontos de indeterminação, ou vazios, que o leitor atualiza e preenche. Tais vazios conduzem a atividade participativa do leitor e direcionam suas projeções imaginativas, guiando-o na atividade de constituição de sentidos do texto... A produção midiática, ao contrário, oferece-se como um sitema “tagarela” que ocupa todos os espaços da linguagem. No entanto, o excesso de informações velozmente produzidas não pode impedir que, em silêncio, cada indivíduo inscreva sua percepção das imagens que se oferecem ao olhar. Ao fechamento discursivo, contrapõe-se a abertura do silêncio, espaço por excelência do exercício da leitura. Embora os meios de comunicação de massa e a comunicação eletrônica alterem completamente o jogo, observa-se que os mesmos princípios podem reger a educação do leitor, do espectador de filmes e do “navegante” na internet...cx

*
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Mas uma imagem só vale mais que mil palavras quando essas palavras nada significam ou quando possui tessitura poética suficiente à produção do poema ainda irrealizado... Pois é a palavra, consciente ou inconscientemente mentalizada, que nos proporciona comunicar o vínculo poético entre nós e a realidade observada ou imaginada...

cxi

Quero acrescentar algumas palavras sobre a minha arte do estilo. O sentido de todo o estilo outro não é, por certo, senão este: comunicar por meio de sinais um estado de ânimo, uma última tensão do pathos, com o ritmo próprio e consoante. E, considerando que a variedade dos estados de ânimo é em mim extraordinária, tenho muitas possibilidades de estilo, a maior diversidade de estilos de que um homem jamais pôde dispor. É autêntico todo aquele estilo que comunica realmente um íntimo estado de ânimo, o que não engana sobre os sinais, sobre o ritmo dos sinais, sobre os gestos; todas as leis do estilo são formas do gesto.

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O estilo bom em si é pura loucura, puro “idealismo”, como o “belo em si”, o “bom em si”, a “coisa em si...”cxii

*
Pré-socratismo, fragmentarismo, pós-modernismo, hipertexto, são elos da mesma corrente estética que se vai constituindo em gigantesco renascimento artístico do ocidente... Os muitos modos do humano contemplar e criar obras de arte... A liberação das energias criativas do humano, aprisionadas em retóricas unívocas, talvez resultantes das respectivas etapas da civilização, estas que vinham impedindo o livre trânsito multiplicador do ser poético em nós... A nova retórica da Grande Totalidade Planetária, a estratégia da Globalização, pressupõe a fragmentação dos mercados tanto quanto das tessituras e textos (literários) porquanto totalidades menores hão que ser fragmentadas para a sua posterior reinclusão nos mercados, tessituras e textos globais... Outra Globalização, a Grande Multiplicidade Planetária, seria a articulação desses fragmentos todos, sem hierarquização, respeitadas, por naturais, as sobreposições eventuais, sempre transitórias, sempre enquanto processos e seus procedimentos...

*
Se o poeta não busca a Eternidade, a Totalidade Incompletável... Que poeta é ?... E se não busca, fragmento a fragmento, expandir a sua poesia para além da Totalidade préconcebida, que poesia terá?...

* I’ve nothing to say and I’m saying it… *
O poeta é um canário preso às grades-versos de uma gaiolapoema: só o verbo, som e imagem, do seu canto é livre-poesia...
cxiii

*
A existência se passa em um rolo de imagens que se desdobra continuamente, imagens capturadas pela visão e realçadas ou moderadas pelos outros sentidos, imagens cujo significado (ou suposição de significado) varia constantemente, constituindo uma linguagem feita de imagens traduzidas em

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palavras e de palavras traduzidas em imagens, por meio das quais tentamos abarcar e compreender nossa própria existência... As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, mensagens e alegorias. Ou talvez sejam apenas presenças vazias que completamos com o nosso desejo, experiência, questionamento e remorso. Qualquer que seja o caso, as imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos...cxiv As sombras na parede da caverna de Platão, os letreiros de néon em um país estrangeiro cuja língua não falamos...

A escrita que os antigos sumérios acreditavam poder ler nas pegadas dos pássaros sobre a lama do rio Eufrates, as figuras mitológicas que os astrômonos gregos identificavam na concatenação dos pontos assinalados por estrelas distantes, o nome de Alá que o fiel vislumbrou num abacate aberto e no logotipo dos artigos esportivos da Nike... o bilhete rasgado de um quadro de avisos e realojado em uma pintura de Tàpies, o rio de Heráclito que é também o fluxo do tempo, as folhas de chá no fundo de uma xícara na qual os sábios chineses acreditam poder ler nossas vidas, o vaso estilhaçado do Sahib Lurgan que quase se recompleta por inteiro diante dos olhos incrédulos de Kim... tudo isso oferece ou sugere, ou simplesmente comporta, uma leitura limitada apenas pelas nossas aptidões...cxv

*
O que agora está provado, foi outrora somente imaginado...
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cxvi

Como saber se cada pássaro que cruza os caminhos do ar não é um imenso mundo de prazer, vedado por nossos cinco sentidos?... cxvii

Um Poder somente faz um Poeta – Imaginação A Divina Visão...

cxviii

*
Se a natureza e os frutos do acaso são passíveis de interpretação, de tradução em palavras comuns, no vocabulário absolutamente artificial que construímos a partir de vários sons e rabiscos, então talvez esses sons e rabiscos permitam, em troca, a construção de um acaso ecoado e de uma natureza espelhada, um mundo paralelo de palavras e imagens mediante o qual podemos reconhecer a experiência do mundo que chamamos real...cxix A Voz de alguém clamando no Deserto PRINCÍPIO 1º Que o Gênio Poético é o verdadeiro Homem, e que o corpo ou forma visível do Homem é derivada do Gênio Poético. Da mesma maneira que as formas de todas as coisas se originam do seu Gênio, que pelos antigos era chamado um Anjo & Espírito & Demônio. PRINCÍPIO 2º Como todos os homens são semelhantes na forma visível, Então (e com a mesma infinita variedade) todos são semelhantes no Gênio Poético...cxx

...O Homem é um Animal Poético...
“Em um enigma cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida?” Refleti por um momento e respondi: “A palavra xadrez”cxxi Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito... Pois o homem encerrou-se em si mesmo, a ponto de ver tudo pelas estreitas fendas da sua caverna...cxxii

*
A imagem limita e aprisiona a mente ao fragmento do real apreendido... Já as palavras, essas nos convidam a acrescentar-lhes outras, em direção a novos sentidos... Outros conceitos... Para um além-do-objeto... A imagem é finitude, a palavra é infinita... Mas uma não vive sem a outra... No fragmentarismo, a aproximação textual com cada objeto é também uma maior aproximação com a sua imagem e com as palavras que lhe somam significações...

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A estética fragmentarista é, portanto, a arte de retomar o mistério ainda contido no objeto, que remonta às origens de sua criação, e que aponta para as suas infinitas possibilidades ainda inexploradas...

Resgatar o silêncio é o papel dos objetos...

cxxiii

Toda boa história é, está claro, uma imagem e uma idéia, e quanto mais elas estiverem entremeadas melhor terá sido a solução do problema...
cxxiv

A poesia é um fragmento perfeitamente formado de um edifício inexistente...
cxxv

O fragmentarismo resgata o silêncio presente nas relações dos objetos entre si, como espaço intertextual, ao tempo em que deixa-os “falarem” por si mesmos, sem que uma articulação imposta por uma consciência imperial emudeça suas próprias vozes... Não era necessariamente como uma tentativa de não comunicarcxxvi que Stéphane Mallarmé apresenta “em desespero”, a página em branco, que Eugène Ionesco decreta em suas peças que “o mundo impede que o silêncio fale”, que Beckett põe em cena um ato sem palavras, que John Cage compõe uma música chamada “silêncio” e que Pollock “pendura na parede de um museu uma tela coberta de espirros mudos...” Eram tentativas de comunicar, mas exatamente no silêncio das coisas, a morada poética do objeto de arte... O fragmentarismo respeita os silêncios do mundo tanto quanto, por não traduzi-los, ou melhor, não ordená-los, em discurso linear que preencha miseravelmente esses silêncios com falas unívocas... Não tenho certeza de nada, a não ser da santidade dos afetos do coração e da verdade da imaginação – o que a imaginação capta como beleza deve ser verdade – tenha ou não existido antes...cxxvii

*
En la época inmediatamente posterior a Bach se compuso ocasionalmente usando el azar, con dados... lo hicieron Mozart, Haydn, Carl Phillip, Emmanuel Bach, entre otros... El ingreso de la personalidad del artista, de su sensibilidad y las complicaciones políticas del yo...tarda un siglo en agotarse.... El gran mecánico Schöemberg le da una vuelta de tuerca a la profesionalización del músico, preparando la entrada de un nuevo tipo de artista: el músico que no es músico, el pintor que no es pintor, el escritor que no es escritor...

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Ya en 1913 Marcel Duchamp había hecho un experimento en el mismo sentido, de determinar las notas por azar, pero sin ejecutarlo; consideraba la realización "muy inútil"...

¿para qué hacer la obra, una vez que ya se sabe cómo hacerla?...
John Cage ... (um músico norte americano cuya obra es uma mina inesgotable de procedimientos...) ...justifica el uso del azar diciendo que "así es posible una composición musical cuya continuidad está libre del gusto y la memoria individuales, y también de la bibliografía y las 'tradiciones' del arte"....(...lo que llama "bibliografía" y "tradiciones del arte" no es sino el modo canónico de hacer arte, que se actualiza con lo que llama "el gusto y la memoria individuales"...) El vanguardista crea un procedimiento propio, un canon propio, un modo individual de recomenzar desde cero el trabajo del arte... ...Lo hace porque en su época, que es la nuestra, los procedimientos tradicionales se presentaron concluidos, ya hechos, y el trabajo del artista se desplazó de la creación de arte a la producción de obras, perdiendo algo que era esencial... ...San Agustín dijo que sólo Dios conoce el mundo, porque él lo hizo... ...Nosotros no, porque no lo hicimos... ...El arte entonces sería el intento de llegar al conocimiento a través de la construcción del objeto a conocer; ese objeto no es otro que el mundo.... ...El mundo entendido como un lenguaje... No se trata entonces de conocer sino de actuar. Y creo que lo más sano de las vanguardias, de las que Cage es epítome, es devolver al primer plano la acción, no importa si parece frenética, lúdica, sin dirección, desinteresada de los resultados... ...Tiene que desinteresarse de los resultados, para seguir siendo acción... El procedimiento de las tablas de elementos, que usa Cage, podría servir para cualquier arte... En la pintura, habría que hacer tablas de formas básicas, de colores, de tamaños, y usar algún método de azar para ir eligiendo cuáles actualizar en el cuadro... Cualquier arte... ...La literatura también, por supuesto... ...Al compartir todas las artes el procedimiento, se comunican entre ellas: se comunican por su origen o su generación... Y, al remontarse a las raíces, el juego empieza de nuevo... ...El procedimiento en general, sea cual sea, consiste en remontarse a las raíces...cxxviii A poesia é uma fabricação – no significado originário grego da palavra – importando menos a obra que o ato de fabricá-la, por meio do qual o próprio espírito se eleva e se aperfeiçoa...cxxix

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El arte que no usa un procedimiento, hoy día, no es arte de verdad. Porque

lo que distingue al arte auténtico del mero uso de un lenguaje es esa radicalidad...cxxx

cxxxi

O resgate intelectual do fragmentarismo pré-socrático, ora em plena expansão pósmoderna, já vinha no bojo dos primórdios da modernidade, desde Novalis e Schlegel, passando por Nietzsche, cuja influência dos pré-socráticos é notória, do mesmo modo que na arte moderna, e pode-se captá-lo ainda, aqui e ali, ao longo das histórias

literárias, em muitos autores que sem abandonar a retórica da linearidade propuseram uma literatura do gênero...

Existem fragmentos que se tornaram fragmentos, e fragmentos natos...
cxxxii

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*
Os Cantos inferem a interpenetração de estruturas, a interpenetração de temas e motivos. O básico: a dialética entre os métodos de montagem ou princípios do ideograma com a idéia de metamorfose (Ovídio). Por isso, nos mesmos Cantos, passa-se muitas vezes, como de flash a flash, de um tema, assunto, mote ou alusão para outro, heterogêneo, rompendo-se assim com os cânones tradicionais da linearidade. Na estrutura referencial dominante, interpolam-se também a Odisséia e a Divina Comédia, além da mitologia grega, Virgílio e trechos da história da China, dos Estados Unidos e da Itália.

cxxxiii

O documentário alia-se, no mesmo sentido de montagem, às narrativas, pensamentos, invocações, descrições: a collage de fragmentos de textos históricos com cartas, mensagens, documentos burocráticos, transcrição de outros autores. Em paralelo, não apenas a reprodução dos ideogramas chineses e das passagens em grego, como inúmeros trechos ou fragmentos e expressões em diversas línguas estrangeiras. E mais o enjambement freqüente, a separação das palavras, a alteração de nomes próprios, os desenhos, traços, figuras geométricas. Continuando: a freqüente despontuação, os recursos de sincopar, o uso da visualidade das palavras e dos sinais de pontuação. A justaposição dos objetos torna-os mutuamente inteligíveis, sem a interposição conceitual. Enfim, essa épica hors concours mescla versos e linhas, poemas “poéticos” e poemas prosaicos. Na superfície, a impressão de um caos intencional; no fundo, a versão sintético-ideográfica de como acionar o pensamento...cxxxiv

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cxxxv

A matéria-prima tanto do surrealismo quanto do cubismo é a mesma matéria-prima do fragmentarismo: a tentativa de chegar a uma narrativa de provocação do imaginário, que só pode ser reconhecida e lida através do diálogo razão=imaginação... Um convite à parceria poética, a fazer do leitor artista da contemplação... Co-produtor do poema...

Pode-se caracterizar outra coisa que indivíduos?... Não há indivíduos que contêm em si sistemas inteiros de indivíduos?... cxxxvi Toda autonomia é originária, é originalidade, e toda originalidade é moral, originalidade do homem integral. Sem ela não há energia da razão, nem beleza da alma...cxxxvii A literatura é o fragmento dos fragmentos; escreve-se a mínima parte do que acontece e do que se diz, e do que se escreve pouquíssimo perdura...cxxxviii

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Linguagem
Falão-se os montes Falão-se as fontes Falão-se as feras Falão-se as pedras! - Todos se falão! Falão-se os gatos Falão-se os sapos Falão-se as aves Falão-se...as traves! - Todos se falão! Falão-se os broncos Falão-se os troncos Falão-se os peixes Falão-se os feixes! - Todos se falão! Falão-se os rios Falão-se... os frios Falão-se os ares Falão-se os mares! - Todos se falão! Falão-se os galos Falão-se as redes Falão-se os lagos Falão-se as...sedes Falão-se as cassas Falão-se os bixos Falão-se as massas! Falão-se os nixos! - Todos se falão! - Todos se falão! Falão-se as pennas Falão-se as scenas Falão-se as cazas Falão-se as brazas! - Todos se falão! Falão-se as vinhas Falão-se as pinhas Falão-se os livros Falão-se os bilros! - Todos se falão! Falão-se os barros Falão-se os jarros Falão-se as faxas Falão-se as taxas! - Todos se falão! Relação naturalcxl Derribada c’o vento – de pedras cêrca, De tantos humanos – similhantemente, Como dellas, talvez fosse – igual perca!... Saber tão grande, - não m’é dado á mente! Relacionado tudo – como está, Sempre saibamos – forma mysterioza, A nós homens – só admirar compete; Á Natureza – só variar – agrada!cxli Relações naturais de acordo a natureza das coisas, e não relações sociais absurdas, que as violentavam, eram essas as primeiras reflexões de Qorpo-Santo.... Mas isso não quer dizer, absolutamente, que tudo se resumia a um retorno à natureza rousseauniana, a apologia do bom selvagem... Ao contrário, Qorpo-Santo tinha exata noção da força caótica da natureza em relação ao humano, como, aliás, o final do poema Relação Falão-se os sernes Falão-se os vermes Falão-se as flautas Falão-se as pautas! - Todos se falão! Falão-se os tigres Falão-se os livres Falão-se os tactos Falão-se os fatos! - Todos se falão! Falão-se os matos Falão-se os ratos Falão-se as fibras Falão-se as tigras! - Todos se falão!cxxxix

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Natural bem o sugere e a peça As Relações Naturaiscxlii deixará muito mais claro adiante... Não era a arbitrária substituição das relações naturais por relações sociais, só aparentemente racionais (teoria ficcional da cultura), pois que as percebia, estas, igualmente caóticas, tão absurdas quanto, em sua constituição e exercício (conforme ele mesmo sentia à própria pele, especialmente pela experiência kafkiana em tentar provar, perante a justiça, a sua sanidade mental, peticionando e submetendo-se a exames médicos, até mesmo em lugares tão distantes da antiga Porto Alegre, como o Rio de Janeiro, publicando sua saga judiciária em sua Ensiqlopèdia... Qorpo-Santo se colocava muito mais como um observador, primeiro, das relações humanas – naturais e sociais – para, então, delinear-lhes, e delinear-lhes esteticamente, os modos e as formas, o que só lhe parecia possível pela ascese espiritual, pela superação de ambas, pela divinização literária do seu ser, pela elevação da sua natureza humana para além da própria natureza, para além da própria sociedade, que percebia ser absurda, demasiado absurda... Para um além do humano-absurdo seguia o pensamento de Qorpo-Santo... Do outro lado do mundo, um filósofo faria dessa idéia um dos mais firmes pilares da sua novíssima filosofia... Não por acaso também considerado louco; não por acaso também só melhor compreendido aos cem anos depois... Tal qual Nietzsche, Qorpo-Santo tinha absoluta convicção intelectual e artística do seu gênio, e, portanto, do seu fazer literário, por experimentá-lo corajosamente em si, na solidão de si mesmo, ao realizar a terrível opção – literária – de tornar-se o que se tornou: guerreiro e sacerdote de uma fé, a fé literária, decorrente de ter-se literariamente elevado a matéria densa pensante (por isso “Qorpo-“) aos céus da criação – alimentado pelos “Reis do Universo”cxliii e ao próprio Criador – (por isso que “-Santo”)... FÉcxliv Por fé qe tenho – nada temo, Quando falo, quando esqrevo! A Deus pedi, E esqrevi: Jamais – por meus lábios – êrros, Qonsenti, Senhôr – qe eu profira! Ou qe minha língua pronuncie Juizo, qe á qonviqção – fira! Para Qorpo-Santo, se a natureza e as relações naturais que dela decorrem possuem suas próprias razões de – variar, a realidade sócio-humana, impondo-se à realidade natural, o faz sem nenhuma razão lógica, gerando, com isso, a absurdidade, o regresso ao invés do progresso...

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Para Qorpo-Santo, a realidade moral é pura ficção, circo, absurdo, pantomina, irrealidade, imaginação, teatro de variedades... São ação e discurso desconexos, não apenas “fora” das relações naturais, mas mesmo absurdamente “contra” as relações naturais... Estas, no entanto, seguem fazendo o seu trabalho... As pessoas assim colocadas são, pois, meras marionetes de “espíritos” (uma explicação literária do absurdo) que agem nas mentes dos indivíduos, provocando-os o agir e o falar de acordo com as suas – “espirituais” – vontades... Por isso, hoje são umas; amanhã, outras... Ora um general fala como criança, ora uma criança fala como um general... Tão lindas as aranhas Tão belas, tão ternas Pois caem do teto E não quebram as pernas!cxlv Para pintar a estética da absurdidade, e não por uma aceitação formal de um moralismo realista próprio à segunda metade do século dezenove, o teatro de QorpoSanto contrapõe dois discursos dramáticos: como se o primeiro, empostado, moralizante, próprio do teatro realista então em voga, pareceria O Bem; e, o segundo, representado pela movimentação cênica sugerida em seus textos, pertencente à farsa, ao baixo cômico, ao circence, à comédia de costumes, que faria a glória de um Martins Pena na década de 1840, por exemplo, seria tido como O Mal... Mas essa é uma percepção ainda superficial e ligeira da sua estética teatral... Absolutamente: Qorpo-Santo não deixa pedra sobre pedra... Ambos são O Mal, no sentido de que ambos são caóticos, absurdos... Nenhum movimento há em Qorpo-Santo que não seja o delineamento radical das absurdidades da própria existência humana, premida entre suas condições naturais e morais, ambas igualmente desconexas da ação e do discurso humanos, tal qual, e isso é o menos relevante à análise literária da sua obra, observa no contexto social com o qual está literariamente envolvido...cxlvi Minhas obras esqritadas Não podem ser censuradas! Pois estão relacionadas Qom as qouzas enxergadas! Delas são – fiel retrato, Qual de fotografia – acto!cxlvii

A obra de arte literária se explica pela sua estética... O fato biográfico apenas subsidia a compreensão textual, morfológica. E jamais decide a sua gênese...
Se há uma aparente “facilidade” na escritura do teatro de Qorpo-Santo, como se a ação dramática, se desenvolvendo a partir de quadros “desconexos”, resultasse de um “espontaneísmo” do autor, fato é que isto decorre de uma necessidade estética, ao modo de desenhar, literariamente, as mesmas relações humanas, caóticas, que em sua existência, já literariamente radicalizada, estavam, ainda literariamente, a se exibir

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perante seus olhos literários... A vergastar a sua carne (qorpo) e a sua consciência (santo), “literaturizadas”... Por isso que, na só aparente simplicidade do seu poema CENSURA, mantendo o clima de absurda comicidade, a personagem Qorpo-Santo declara à praça dos apressados censores que a sua obra, absurda, é tal qual (fiel retrato) a absurda realidade humana... Para Qorpo-Santo o “desconexo” é o mote principal da ação humana. Absurdas são as relações sociais, em que as pessoas (pessoas virtuais, em verdade) agitam-se em atos e falas (vida e discurso), ora como se uns, ora como se outros... Vivendo uma série inesgotável de situações fragmentadas, não apenas desconectadas de qualquer realidade, mas, na maior parte das vezes, contraditórias, negando a si mesmas, em relacionamentos sociais tão caóticos quanto absurdos... Os humanos como meras marionetes de uma existência sem qualquer sentido lógico... .

A obra de Qorpo-Santo aponta também o descompromisso moral das relações naturais, caprichosas em sua essência... Daí a “simplória naturalidade” da sua escritura, necessária às convicções estéticas que obteve no exercitamento do seu ofício literário, em que fez da própria existência o palimpsesto sobre o qual redigiu seus primeiros rascunhos... Personagem de si mesmo, seu qorpo, submetido às absurdidades das relações naturais na sociedade humana, torna-se santo, torna-se texto literário... Pois só de uma perspectiva de um personagem-autor, de um qorpo-santo, é que poderia realizar uma obra literária suficientemente pura a traduzir em arte as absurdidades que flagrava no contexto natural (material) e moral (ideológico) da existência humana... Nele, como em todo artista de gênio, é a obra que explica a vida... O teatro de Qorpo-Santo é, sim, a contraposição de um discurso moralista do realismo de época, ao discurso circence da ópera bufa... Ma não para exaltar um e negar o outro,

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nem mera opção formalista maniqueísta de bem/mal... Porque ambos eram absurdos, o teatro de Qorpo-Santo é a exibição absurda do absurdo da comédia humana, a representação dramática dessa absurdidade, desnudando tanto a pretensão realista de aproximação com o real, realismo de época, como a própria comédia de costumes, ao lhe inserir (contrapor) o componente da ridícula (novamente absurda) aparente cientificidade do discurso de moral positivista que, no final das contas, é o que acaba prevalecendo no espírito dos espectadores dessas comédias... Qorpo-Santo negava gregos e troianos, no teatro assim na vida, inclusive porque nisto reside o fato (conseqüência, não causa, de sua literatura) de pilhar-se um “desempatotado”, tal qual já se disse, alhures, de um Cruz e Souza, por exemplo... O real humano, drama ou comédia, é, para Qorpo-Santo, falso, caótico, absurdo... Mais dado ao regresso que ao progresso, como proclama o absurdo criado de Mateus e Mateusa... O absurdo ganha, portanto, voz... Não como um elemento do sensato, mas como um diálogo do absurdo com o absurdo... Pois se tudo se mostra absurdo, que linguagem, que retórica, senão as do absurdo, farão com que o seu texto ganhe consistência literária, na medida que parceiro da absurdidade em que se envolvem todas as relações humanas? Nada de acaso, nada de “espontaneísmo”... Qorpo-Santo criou uma sua própria linguagem dramática, linguagem necessária e suficiente à representação das próprias idéias literárias... Idéias essas que o levaram, com urgência e heroísmo, à condição de pensador e inventor de estética literária... E que, houvesse sido contemplada em sua época, talvez antecipasse a modernidade: o que nos aproxima da relevância da Literatura para o progresso geral das cidades... Tudo em Qorpo-Santo parece fugir à reta razão quando se trata de estabelecer um fio condutor linear de seus pensamentos: quando já vamos acreditando haver decifrado seus códigos de escritura e representação, quando aprisionamos uma linha de idéias na esperança de haver desvendado o seu sistema estético, eis que outra ordem possível de conclusões surge, como se do nada, fazendo desabar, como num passe de mágica, todo o edifício arduamente construído... Isto é que é o seu fragmentarismo. Que se observem as interessantes conclusões a que se poderá chegar, a partir de uma análise semiológica das funções das personagens de Qorpo-Santo, especialmente quanto à metafórica presença do criado Inesperto, de As Relações Naturais... Será algo distinto do papel reservado ao que aparece à cena final de Mateus e Mateusa, o Barrios? Ou se aproximaria mais do Ministro, de Hoje Sou Um; E Amanhã Outro, na medida em que ambos “esquecem”, temporariamente, suas respectivas posições hierárquicas? O provável é que, em ambas as peças Qorpo-Santo, aproximando-se da sátira menipéia carnavalizante, desloca o eixo da narrativa, polifonicamente, em várias personas: a do ministro conselheiro, do escritor Impertinente, do sábio Qorpo-Santo e até mesmo do criado Inesperto, na cena macunaímica em que lança pedaços de carne humana à sanha antropofágica da fêmea primeva: a comicidade esconde, aqui, a tragédia humana...

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cxlviii

O discurso moralista é, em toda a obra de Qorpo-Santo, absurdo: absurdo por inoportuno, absurdo por inconveniente, absurdo por despropositado, absurdo por inesperto. Fato é que o espetáculo torna risível ambos os discursos moralistas, tanto o da ordem dita moral (Hobbes) quanto o da ordem natural (Rousseau). Qualquer interpretação (e encenação) das peças de Qorpo-Santo não pode deixar de considerar esses elementos de máxima força na construção do seu teatro... do absurdo.da existência humana... Absurdidade esta que viria ser, muito mais tarde, o ponto de partida filosófico para toda a literatura existencialista, de Sartre a Camus...

Fosse o observador da realidade, natural e social, que o rodeava, fosse o artista, QorpoSanto adotava o método fragmentarista (mais uma absurdidade reveladora), daí a sua

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Ensiqlopèdia, à melhor estirpe pré-socrática, e mesmo socrática, ultrapassando, por todas absurdas em sua univocidade, as dialéticas propostas pelo ordenamento unitário e absolutista do mundo das idéias, tanto quanto da natureza e da sociedade, que fizeram das dogmáticas de Platão, Hegel e Marx os mais poderosos inimigos da sociedade aberta... Abri-me em qualquer parte; E lerás coisa que farte!cxlix

O título sob o qual Qorpo-Santo reúne a sua obra, Ensiqlopèdia sugere uma leitura dos enciclopedistas franceses, no que tinham de libertário, e de disposição da cultura como enumeração de fragmentos, todos igualmente relevantes, cuja importância se atribui de uma perspectiva da necessidade do conhecimento, para a qual deve contribuir o leitor, idéias centrais de qualquer boa enciclopédia... O epíteto que se lhe segue, Ou Seis Mezes De Huma Enfermidade!, mote a um só tempo irônico e sarcástico, segue a insistente linha da absurdidade literária, pois, numa só aparente concordância com sua fama de doente mental, está a demonstrar, pelo seu conteúdo, qual era a sua doença: era o modo de Qorpo-Santo declarar, e o confessar, que, durante seis meses (e fora muito modesto nisso) sofrera da aguda febre literária, a que acomete os que se entregam tão radicalmente, corpo e alma, ao seu fazer literário, e de dizer: Eis a doença!... A uma totalidade formal e materialmente disposta em Unidade, como seria, por exemplo, o livro em formato tradicional, reunindo os temas em seu contexto próprio, com destaque individualizado, Qorpo-Santo preferiu a miscelânea jornalística, o almanaque, o magazine, a enciclopédia mundana, em que a totalidade de sua obra

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literária se esparrama fragmentariamente em meio a toda uma série de preocupações não propriamente estéticas... Ao enumerar os seus volumes, se os denomina de livros (de 1 a 9), e anote-se que possuem todos os mesmos frontispícios, é para fazer ver que o seu trabalho se qualifica como literatura... Na forma própria ao livro que inventa: livro de conteúdo fragmentário, e fragmentado, a tratar de uma realidade fragmentária, e fragmentada... Por isso é que nem o moralismo (ou teatro realista) de suas personagens, nem as relações naturais (comédia de costumes) podem representar, em termos absolutos, o mal e/ou o bem: ambos os caminhos levam a humanidade aos sítios do absurdo exatamente quando tomados aos modos absolutistas... Em ambas, o caos... Daí sua estética impiedosamente fragmentarista: tanto as relações sociais desconectadas das relações naturais eram absurdas, quanto as relações naturais desconectadas das relações sociais igualmente o eram... Para demonstrar essa absurdidade, esse caos, esse mundo aos pedaços, nada mais apropriado que uma estética radical da absurdidade... Quanto ao aparente simplismo da obra de Qorpo-Santo, há que se lhe seguir a indicação de tratar-se de obra aberta, até aí um antecipador, e complementar-lhe a aventura do seu texto conforme as respectivas velas de navegação estética... A estética se define a partir do estilo/tema próprio do autor de obra literária, em que sempre se há de seguir a concepção aristotélica de que forma é condição de conteúdo... Para um conteúdo tão fragmentariamente, tão radicalmente absurdo, uma forma, um discurso ao mesmo tempo tão fragmentariamente quanto radicalmente absurda, em todos os seus elementos...

[Capa: Renata Barros, 1995]

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Se a Ensiqlopèdia é construída como uma colcha de retalhos, algo assim como as atuais agendas dos adolescentes pós-modernos (que são a um só tempo agendas, diários, álbuns de figurinhas, enfim, registro de tudo o quanto lhes faça a cabeça), é porque Qorpo-Santo percebe que o tudo que se passa no mundo compondo a vida humana, possui igual relevo, igual força motriz, sendo descabida a hierarquização dos elementos vitais, assim do humano quanto da natureza e da sociedade... Para Qorpo-Santo, como para a pluralidade pós-moderna, um poema é tão importante quanto uma receita culinária... Uma petição judicial é tão significativo quanto um rol de cuidados com a saúde...

Uma peça teatral guarda as mesmas proporções que um código de conduta para os jornalistas... Assuntos que se dispõem, fragmentariamente, sem hierarquia gráfica, pelos seus vários livros... Que, afinal, visto como Literatura (lato senso), como poética, todo fato é fato literário, tudo é poesia...

*
Na pós-modernidade, tanto quanto já o fazia Qorpo-Santo, o mundo, a vida, a natureza, o humano, a própria sociedade, são percebidos e compreendidos em sua especificidade fragmentária, sem hierarquização... ...O Todo, Deus, mediado, em Qorpo-Santo, pelos Reis do Universo, aloca em tudo e em todos, os espíritos, as energias vitais... Estes sopram como os ventos através dos humanos, fazendo-os serem, hoje, uns, e amanhã, outros, à semelhança da teoria dos átomos desordenados de Demócrito e Epicuro: Qorpo-Santo não explica se ao inteiro acaso...

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Todos somos fragmentos em movimento, movimentos ao acaso, constituindo-nos por um processo permanente de união e desunião com os demais fragmentos... Por isso, todos somos iguais... For every atom belonging to me as good belongs to you...cl Átomos, conjuntos mutáveis de átomos, a nos esbarrar, fundir, desgarrar, num ir e vir incessante de espíritos, mesmo que alguns tenham se feito carne... O que se constitui em inexorável impossibilidade de agir conforme qualquer ordenamento absolutista, sem que isso nos condene eternamente ao sofrimento, ao desprazer, às relações absurdas e injustas...

Hoje Sou Um; E Amanhã Outro
MINISTRO - Primeiramente,saiba V.M. de uma grande descoberta no Império do Brasil, e que se tem espalhado por todo o mundo cristão, e mesmo não cristão! Direi mesmo – por todos os entes da espécie humana! O REI (muito admirado) – Oh! Dizei; falai! Que descobriram - é erro!? MINISTRO - É cousa tão simples, quanto verdadeira: 1a. – Que os nossos corpos não são mais que os invólucros de espíritos, ora de uns, ora de outros; que o que hoje é Rei como V.M. ontem não passava de um criado, ou vassalo meu, mesmo porque senti em meu corpo o vosso espírito, e convenci-me, por esse fato, ser então eu o verdadeiro Rei, e vós o meu Ministro! Pelo procedimento do Povo, e desses a quem V.M. chama conspiradores – persuadi-me do que acabo de ponderar a V.M. 2a. Que pelas observações filosóficas, este fato é tão verídico, que milhares de vezes vemos uma criança falar como um general; e este como uma criança.cli Aos conjuntos mutáveis de átomos Qorpo-Santo acrescenta a idéia de conjuntos voláteis de voluntariedade alheia, e dá-lhes o nome de espírito, que compõem, em permanente transação, o espírito de cada indivíduo... À noção de espírito como vontade plural, como voluntariedade, a explicar a variedade comportamental do humano, e para além das concepções místicas (de alma como unidade, como motor de reencarnações) que se encontra em Qorpo-Santo, vem se juntar a idéia de mundo enquanto Sistema, e vida humana enquanto unidade energética (que também em Matrix, o filme, se observa), presentes no filme 13º Andarclii, da novíssima safra cinematográfica da pós-modernidade... A correspondente exata do pensamento de Qorpo-Santo quanto aos espíritos que habitam a mente humana encontra-se no filme indicado ao Oscar 2000, Quero Ser John Malkovitch (Being John Malkovich)cliii, em que várias pessoas “freqüentam” o corpo/espírito da personagem-título, fazendo-o agir ora como uns, ora como outros...

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A história de Quero Ser John Malkovich (nome do conhecido ator que o interpreta, alusão pós-moderna à idéia de representação, de interessantes significados), pode ser vista como uma explicitação, uma demonstração fenomenológica das idéias de QorpoSanto, em sua peça: Hoje Sou Um; Amanhã, Outro... Até a metáfora principal do filme, o títere,corresponde exatamente ao objeto da fala da personagem de QorpoSanto, o Ministro, que fala como conselheiro do Rei... Qorpo-Santo ataca dois aspectos: as pessoas como títeres de espíritos, e o fato de que os pensamentos não são propriamente pensamentos pessoais, como reflexo da mente individual (ideologia)... Idéias que respeitam à formação da consciência individual, da disfunção entre a personalidade e os seus atos, do fato de que um general às vezes fala como criança; de que uma criança às vezes fala como general... Qorpo-Santo é muito claro quando usa o verbo habitar para definir essa presença “alheia” na consciência individual, exatamente como o faz Charlie Kaufman, no “Manual do Hospedeiro Humano, O Ciclo da Vida do Hospedeiro Humano Conhecido como Lester”, livro utilizado pelas personagens do filme, que buscam a imortalidade transferindo-se para a mente de John Malkovich... Habitar a mente de outrem, esta é precisamente a alegoria principal sobre a qual o filme elabora sua ficção: algo totalmente absurdo, em meados do século XIX, QorpoSanto brinca com a aparente absurdidade dos seus pensamentos, tanto quanto com a absurdidade do pensamento de época... Ao centro, sempre, o fato ficcional... Não é por acaso que, no filme, se consulta um tal Manual do Hospedeiro Humano: tivéssemos nós acesso “ficcional” a este curioso livro, quem sabe constataríamos que, dele, talvez mesmo em sua “bibliografia”, constasse alguma referência à obra de Qorpo-Santo? Será que Lester e Qorpo-Santo seriam consciências ocupadas por esses tais Reis do Universo, de que nos fala a peça Hoje Sou Um; Amanhã. Outro...? Algo assim, como uma forma democrática e pluralista de coabitação tanto espiritual quanto natural...

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Quero Ser John Malkovich, e 13º Andar (habitação sucessiva de personagens, do real ao virtual) são alegorias típicas de uma era pós-moderna: Qorpo-Santo anunciara-lhes já em 1866... Que bem exemplificam o caráter profundo e extenso da obra de arte, que há de sempre ser lida, assim a literatura (estrito senso) quanto o cinema, aos seus muitos modos de ler e saber...

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Bob Dylon previu algumas fragmentações de pensamento, de imagens e da própria sociedade...

cliv

Bob Dylan não mistura apenas álbum a álbum ou canção a canção, com ele é verso a verso; você passa para um mundo diferente em cada verso seguinte... clv Ele fazia um quadro do que acontecia à sua volta. Para mim ele é o Picasso do Rock’n’Roll... clvi

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Há um tempo para desconstruir... E há um tempo para selecionar, dentre os materiais da desconstrução, o que servirá a novas construções... Na pós-modernidade, todos os materiais (fragmentos) se aproveitam...

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clvii

Ficção de um indivíduo (algum Monsieur Teste às avessas) que abolisse nele as barreiras, as classes, as exclusões, não por sincretismo, mas por simples remoção desse velho espectro: a contradição lógica; que misturasse todas as linguagens, ainda que fossem consideradas incompatíveis; que suportasse, mudo, todas as acusações de ilogismo, de infidelidade; que permanecesse impassível diante da ironia socrática (levar o outro ao supremo opróbrio: contradizer-se) e o terror legal (quantas provas penais baseadas numa psicologia da unidade!). Este homem seria abjeção de nossa sociedade: os tribunais, a escola, o asilo, a conversação, convertê-loiam em um estrangeiro: quem suporta sem nenhuma vergonha a contradição? Ora este contra-herói existe: é o leitor de texto; no momento em que se entrega a seu prazer. Então o velho mito bíblico se inverte, a confusão das línguas não é mais uma punição, o sujeito chega à fruição pela coabitação das linguagens, que trabalham lado a lado: o texto de prazer é Babel feliz Se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque foram escritas no prazer (este prazer não está em contradição com as queixas do escritor). Mas e o contrário? Escrever no prazer me assegura – a mim, escritor – o prazer do meu leitor? De modo algum. Esse leitor, é mister que eu o procure (que eu “drague”), sem saber onde ele está. Um espaço de fruição fica então criado. Não é a “pessoa” do outro que me é necessária, é o espaço:

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a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo...clviii

*
O fragmentarismo, formulação estética capaz de acolher os muitos modos de ver e saber o mundo, sempre esteve presente no pensamento desde que, seguramente, foi o modo inicial do humano compor o seu discurso da realidade e do seu pensamento, do seu sentimento de perplexidade e de desejo de conhecimento... Agora, na pósmodernidade, faze-se revival, eclode como necessário ao atual estágio da civilização... A cultura contemporânea é, essencialmente uma cultura-mosaico. Compreendê-la com maturidade implica em dominar os seus fragmentos. Isto significa que ela não se dá como um todo. E não se dando como um todo, ela decreta a morte da visão de conjunto. Não podemos pensá-la da mesma maneira pela qual pensávamos a Idade Média ou o Renascimento. Sua heterogeneidade arrasta consigo um experimentalismo incessante e um relativismo permanente. Se a Idade Média ou O Renascimento eram, graças aos seus pontos centrais de referência (o teocentrismo na primeira e o humanismo no segundo), um macrocosmos analisável, a cultura contemporânea enfeixa um volume móvel e contraditório de microcosmos. A universalidade que buscávamos no todo das culturas anteriores, nós a encontramos hoje em cada fragmento capaz de conter o sentido ou o selo do nosso tempo. O império do fragmento tem as suas conseqüências. Num plano geral de metodologia, ele nos obriga a meditar as manifestações tópicas e particulares da realidade. Ele nos leva a evitar os conceitos extensivos e absolutos e a assumir um tipo de reflexão baseada nas condições peculiares dos acontecimentos no seu curso presente e imediato. Esse império antepõe a idéia de pesquisa à idéia de formulação sistemática. Viveríamos assim na idade do ensaio, em que o pensamento age por dedução, a partir de experiências parciais, conforme a natureza também parcial do seu objeto de análise. Não temos, por isso, diante de nós a configuração global da cultura, mas culturemas ou cápsulas que podem resumir a significação da época inteira. E o fundamento maior dessas contradições, na cultura-mosaico, está em que qualquer ideologia, concepção ou projeto só se efetivaria concretamente, indo de etapa a etapa de experimentação, de teste a teste, de fragmento a fragmento. Se desejássemos impor qualquer uma delas em bloco e de vez, perderíamos a capacidade racional do ensaio e as converteríamos em místicas irracionais, em verdadeiras profecias que esperamos se cumpra contra tudo e contra todos...clix Mas todo discurso material unívoco, que se resume em interpretação unilateral do mundo, imposta – e aceita – conforme seu maior ou menor grau de convencimento,

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seja ideológico, seja autoritário pura e simplesmente, peca ainda pelo simples fato de que, dada limitação do humano em interpretar, mesmo em interpretar-se, toda interpretação sempre será de veracidade duvidosa, seja ela unitária, seja múltipla. Ou não haveria O Mistério... A linearidade e a univocidade, no fragmentarismo, são discursos próprios aos silêncios textuais... O fragmentarismo permite que se ouça o discurso da Totalidade, o discurso do Tao, da totalidade que é inapreensível pela univocidade só material, cuja linearidade, tais quais as correntes magnéticas da Terra, os sons das esferas, o cosmos em que o humano se insere, é uma linearidade de eterno devir de mundo, humano e cultura... No fragmentarismo, A Totalidade existe no mar de silêncio em que navegam os fragmentos, no silencioso fluir próprio de todas as coisas, como um fluxo poético da cultura... Tal qual o fluir poético do Kosmos... O Tao da Terra... O constante devir poético do próprio humano... O poético devir do humano, o fluir poético do mundo, o fluxo permanente da cultura em direção à Poesia... ...Quem, por maior que seja, autor ou leitor, se arrogará sua absoluta apreensão, a sua total mimesis?... O Mistério se revela, para nós humanos, em fragmentos de tempo tanto quanto em fragmentos de matéria, em fragmentos de espaço...

Em matéria de arte, toda ela, que – et pour cause – podemos denominar, lato sensu, A Poética, toda interpretação linear e unívoca será sua negação, a negação do Mistério que necessariamente encerra, que necessariamente faz de uma obra de arte o que ela é...A sua Poesia...

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Se a Poesia é o que faz de uma obra uma obra de arte, já que é ela que se assemelha ao Mistério, toda interpretação é fazer retornar, por negação do misterioso, do poético, uma obra de arte, ao seu elemento puramente material... O fato artístico, fato poético, todo ele, é jamais interpretável senão pelo que se contém na obra... Pela sua capacidade – objeto de arte – de nos remeter diretamente ao terreno do Mistério, sem que para isso tenhamos que ser intermediados seja pelo racional, seja pelo irracional, seja pelo pensamento exato, seja pelo pensamento delirante ou absurdo... ...Algo assim como estar diante de um simples cálice... Um santo graal Toda obra de arte hierarquizada de acordo as diversas interpretações do mundo segue, pouco a pouco, perdendo a seiva da sua concepção original, para tornar-se algo estritamente material, sem o condão energético que a elevou, originariamente, ao Mistério... A estratificação hierárquica da obra é um estabelecimento artificial de uma concepção de perfeição que, até por humana – raça que não possui título de propriedade sobre o Mistério – é sempre simulacro da Perfeição, esta, a autêntica, só apreensível por lampejos da Poesia... Mais grave: que se harmoniza com o humano, via inspiração, independentemente de erudição, cultura, educação, bom senso, moralidade, etc... As palavras, enquanto signos de representação, haverão de se aproximar, mas uma aproximação por semelhança, e o mais que possa, ao significado (já por natureza tão distantes entre si – missão de exatidão impossível) a revelar o seu objeto tal qual se encontra no mundo, seja dos fatos, dos sentimentos ou das idéias... Por isso que, (e daí a impossível semelhança/similitude nas traduções literárias), significantes e significados (e não apenas os significantes) são vários e distintos entre os diversos povos e línguas... O acesso ao Mistério se dá segundo cada qual dos povos que os criaram (significantes) e os percebem (significados)clx... Freedom não é o mesmo que Liberdade... Love nunca será o mesmo que L’amour... Saudade é verso de uma estrofe só... A similitude (correspondência quase exata) entre significantes e significados, em linguagem transparente, impede o acesso ao Mistério, conectando apenas a parte materialmente apreensível, sempre simplória, dos objetos comunicados... A comunicação está para a linguagem da mesma forma que a reprodução está para a sexualidade. Na comunicação, as palavras e os conceitos interagem com o intuito de reprodução e circulação, sem jamais copular. Inteligência artificial, assexuada, in-sexuada, equivalente à inseminação artificial. Máximo de reprodução, mínimo de sexo. Ao inverso, o êxtase poético da linguagem corresponde à fase libertina de uma sexualidade sem reprodução (a linguagem poética se exaure em si

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mesma e não se reproduz, assim como o pensamento, cuja continuidade, por esse motivo, jamais é assegurada).clxi

Parece-me que Magritte dissociou a semelhança da similitude, joga esta contra aquela. A semelhança tem um “padrão”: elemento original que coordena e hierarquiza a partir de si todas as cópias, cada vez mais fracas, que podem ser tiradas. Assemelhar significa uma referência primeira que descreve e classifica. O similar se desenvolve em séries que não têm começo nem fim, que é possível percorrer num sentido ou em outro, que não obedecem a nenhuma hierarquia, mas se propagam de pequenas diferenças em pequenas diferenças. A semelhança serve à representação, que reina sobre ela; a similitude serve à repetição, que corre através dela. A semelhança se ordena segundo o modelo que está encarregada de acompanhar e de fazer reconhecer; a similitude faz circular o simulacro como relação indefinida e reversível do similar ao similar...clxii Hierarquização de semelhanças, descrições e classificações não significam, em hipótese alguma, hierarquização positiva dos objetos de arte, pois é sempre de Arte que se está a considerar... Nesta, as semelhanças ocorrem em mais de um plano... Objetos, fatos, pensamentos, sentimentos... Cujos “padrões” são, pelo Mistério, inatingíveis... A semelhança já nasce tanto da diferença, quanto dessa noção de inatingibilidade de identidade absoluta (apropriação) com o Mistério... A similitude, simulacro que se convida à repetição, estabelece artificial identidade ocultando, assim, as diferenças intrínsecas, o que justifica os modelos, em especial, os positivismos...

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A semelhança – tal como é usada na linguagem cotidiana – é atribuída às coisas que possuem ou não natureza comum. Diz-se: ‘parecidos como duas gotas d’água’, e diz-se, com a mesma facilidade, que o falso se parece com o autêntico. Esta pretensa semelhança consiste em relações de similitude, distinguidas pelo pensamento que examina, avalia e compara. Tais atos do pensamento se efetuam com uma consciência que não vai além das similitudes possíveis: a essa consciência, as coisas revelam apenas seu caráter de similitude. A semelhança se identifica com o ato essencial do pensamento: o de parecer. O pensamento parece tornar-se aquilo que o mundo lhe oferece e restituir aquilo que lhe é oferecido, ao mistério no qual não haveria nenhuma possibilidade de mundo nem de pensamento. A inspiração é o acontecimento onde surge a semelhança. A arte de pintar – não concebida como mistificação mais ou menos inocente – não seria capaz de enunciar idéias nem exprimir sentimentos: a imagem de um rosto que chora não exprime a tristeza, do mesmo modo que não enuncia uma idéia de tristeza, pois idéias e sentimentos não possuem nenhuma forma visível. A arte de pintar – que merece verdadeiramente se chamar arte da semelhança – permite descrever, pela pintura, um pensamento suscetível de se tornar visível. Este pensamento compreende exclusivamente as figuras que o mundo oferece aos nossos olhos: pessoas, cortinas, armas, astros, sólidos, inscrições, etc. A semelhança reúne espontaneamente essas figuras numa ordem que evoca diretamente o mistério. A descrição de um tal pensamento não suporta a originalidade. A originalidade ou a fantasia só trariam fraqueza e miséria. A precisão e o encanto de uma imagem da semelhança dependem da semelhança e não de um modo fantasioso de descrever. ‘O como pintar’ a descrição da semelhança deve se limitar unicamente em dispor as tintas sobre uma superfície, de tal modo que o aspecto efetivo delas se distancie e deixe aparecer uma imagem da semelhança. Uma imagem da semelhança mostra tudo o que ela é, quer dizer, uma reunião de figuras onde nada é subentendido. Querer interpretar – a fim de exercer não sei que falaciosa liberdade – é desconhecer uma imagem inspirada substituindo-lhe uma interpretação gratuita que pode, por sua vez, ser o objeto de uma série sem fim de interpretações supérfluas. Uma imagem não deve ser confundida com um aspecto do mundo nem com alguma coisa de tangível. A imagem de um pão com geléia não é alguma coisa de comestível e, inversamente, tomar um pão com geléia e expô-lo num salão de pintura não muda em nada seu aspecto efetivo, que seria tolo acreditar capaz de deixar aparecer a descrição de um pensamento qualquer. A mesma coisa acontece, diga-

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se de passagem, com as tintas dispostas, por vezes atiradas, sobre uma tela por prazer ou por uma utilidade particular. A inspiração oferece ao pintor aquilo que é preciso pintar: a semelhança que é um pensamento suscetível de tornar-se visível pela pintura – por exemplo, um pensamento cujos termos são um pão com geléia e a inscrição ‘isto não é um pão com geléia’ ou ainda, um pensamento constituído por uma paisagem noturna sob um céu ensolarado. ‘De direito’ tais imagens evocam o mistério, enquanto, ‘de fato’ somente, o mistério seria evocado pela imagem de um pão com geléia solitária ou pela imagem de uma paisagem noturna sob um céu estrelado. Entretanto, todas as imagens que contradizem o ‘senso comum’ não evocam , necessariamente, ‘de direito’ o mistério. A contradição pode derivar apenas de um modo de pensar cuja vitalidade depende de uma possibilidade de contradizer. A inspiração não depende de uma boa ou má vontade. A semelhança é um pensamento inspirado que não se preocupa de se harmonizar com um modo de pensar ingênuo ou erudito. Ela se opõe necessariamente tanto à razão quanto ao absurdo. É com palavras que os títulos são dados às imagens. Mas essas palavras deixam de permanecer familiares ou estranhas quando nomeiam convenientemente as imagens da semelhança. É preciso inspiração para dizê-las e ouvi-las...clxiii

clxiv

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo, sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões...

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Das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas...clxv Se por um lado, a invenção do conceito, surgindo a partir da palavra escrita, deu partida ao poderoso motor da civilização ocidental, desde os gregosclxvi, multiplicando em progressão cultural mais que geométrica as possibilidades de descobertas e invenções de todo gênero, artísticas, filosóficas e científicas, de outro tornou plausível o encobrimento das diferenças... ...da singularidade, vista então, enquanto ser anti-conceitual, como inimiga da sociedade organizada... A pós-modernidade é fruto de múltiplas tentativas de descerrar os véus da objetividade conceitual, as ilusões das verdades unívocas... ...de provar, talvez pecaminosamente, os muitos frutos proibidos: as muitas verdades das múltiplas ilusões... No bojo dessa reavaliação conceitual, é claro, emerge o primitivismo – então marginalizado como magia – que amordaçado e manietado pela atividade conceitual...pelo estabelecimento da semelhança como elemento organizador da cultura... Uma idéia geral, uma idéia invisível, superior e perfeita, no mais nobre estilo Platão-Hegel, que, a bem da verdade, não se encontra nas proposições estéticas de Magritte em sua busca pela semelhança, muito ao contrário, pois que este estava bem atento (o suficiente para combatê-las) à transformação/substituição paulatina das semelhanças em/pelas similitudes... ...Nietzsche já havia observado esses perigos da invenção do conceito de semelhança, ela mesma, já o identificando com o estabelecimento desta como similitude filosófica... ...Toda palavra torna-se logo conceito quando justamente não deve servir, eventualmente como recordação, para a vivência primitiva, completamente individualizada e única, à qual deve seu surgimento, mas ao mesmo tempo tem de convir a um sem-número de casos, mais ou menos semelhantes, isto é, tomados rigorosamente, nunca iguais, portanto, a casos claramente desiguais. Todo conceito nasce por igualação do não igual. Assim como é certo que nunca uma folha é inteiramente igual a uma outra, é certo que o conceito de folha é formado por arbitrário abandono dessas diferenças individuais, por um esquecer-se do que é distintivo, e desperta então a representação, como se na natureza além das folhas houvesse algo, que fosse “folha”, eventualmente uma folha primordial, segundo a qual todas as folhas fossem tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas, pintadas, mas por mãos inábeis, de tal modo que nenhum exemplar tivesse saído correto e fidedigno como cópia fiel da forma primordial...

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...e especialmente suas implicações no terreno de formação ideológica do discurso unívoco... ...Denominamos um homem “honesto”; por que ele agiu hoje tão honestamente? – perguntamos. Nossa resposta costuma ser: por causa de sua honestidade. A honestidade! Isto quer dizer, mais uma vez: a folha é a causa das folhas. O certo é que não sabemos nada de uma qualidade essencial, que se chamasse “a honestidade”, mas sabemos, isso sim, de numerosas ações individualizadas, portanto desiguais, que igualamos pelo abandono do desigual e designamos, agora, como ações honestas; por fim, formulamos a partir delas uma ‘qualitas occulta’ com o nome: “a honestidade”. A desconsideração do individual e efetivo nos dá o conceito, assim como nos dá também a forma, enquanto que a natureza não conhece formas nem conceitos, portanto também não conhece espécies, mas somente um X, para nós inaccessível e indefinível. Pois mesmo nossa oposição entre indivíduo e espécie é antropomórfica e não provém da essência das coisas, mesmo se não ousamos dizer que não lhe corresponde: isto seria, com efeito, uma afirmação dogmática e como tal tão indemonstrável quanto seu contrário...clxvii

A maior parte das coisas boas no cinema acontece por acidente...

clxviii

Tanto na vida material quanto nas artes todas, o fragmentarismo larga sua função apenas metodológica para constituir-se em prática social e artística... O fragmentarismo é a única maneira, com todas as ressalvas que o paradoxo aponta, “unitária” de se perceber a realidade e a alma de nossos tempos... Hoje, mais que nunca, em todas as histórias das humanidades ocidentais, desde os présocráticos, fervilham, ao mesmo nível das relevâncias, seja a que título for, os muitos modos de ver e de ler o mundo, muito especialmente as escritas todas, as que o humano inscreve de múltiplas formas em sua própria humanidade...

Pentimentar: pensar/sentir/saber/agir por fragmentos é dançar ao som dos
próprios múltiplos sons ubíquos do Espírito... Os fragmentos que nos chegam através dos sonhos, das emoções, do imaginário, são, em princípio, fragmentos natos... A razão muitas vezes nos convida à fragmentação no sentido da análise, da ampliação do conhecimento das partes, da decomposição de uma dada totalidade... São fragmentos que se tornam tais...

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clxix

As fragmentações (classificações, desconstruções) são metodológicas... Pois o mundo, natural ou humano, opera por intercambiação fragmentária...

clxx

A totalização é apenas um momento de união fragmentária... É pressuposto ideológico, ou processo, caminhada progressiva em direção à infinitude... Nos sistemas unívocos, tal como ocorre nos computadores, objetos e fatos e idéias são arquivos que fragmentam o programa inicial na medida mesmo em que são regularmente utilizados... As periódicas operações de desfragmentação, que tornam à

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integralidade do sistema, são apenas momentos de inanição, de estática... Pois tão logo se retorne à dinâmica da ação, assim se vão outra vez fragmentando, soltando-se do sistema, objetos e fatos e idéias... Pois se a vida, se considerarmos tempo e espaço humanos, é fragmentária e fragmentada, viver, o humano, na plenitude das suas potencialidades, e enquanto sujeito da própria existência, proprietário da própria vida, é fragmentar-se e fragmentar... A atividade humana de desfragmentação, assim da realidade quanto do discurso, é uma atividade religiosa, um ato de oração... Só Deus, na sua integralidade originária, será Unidade, Totalidade... Mas a ubiqüidade de Deus é dom presente em toda fragmentação, em cada qual dos seus fragmentos...

clxxi

– No estudo Eliot e a poética do fragmento, Ivan Junqueira(2000) aponta que ao assimilar suas multiformes influências, Eliot desenvolveu um sutilíssimo processo de globalização literária. Filtrando, metabolizando e integrando mediante complexas operações mimético-metamórficas o passado oriental sânscrito, certas pulsações gregas e latinas, certas flores da França desde a Provença até Mallarmé, Dante também e toda a multiforme floração da poesia inglesa, Eliot promoveu uma revitalização e eliotização de todo esse passado clássico. Neste processo de transformação e de síntese estilística (buscando e desenvolvendo a sua marca de fábrica, Eliot nada mais fez, segundo Junqueira, do que ratificar a sua crença de que a poesia é um continuum destinado a preservar e reviver ( e transformar, eu diria) a herança legada pelos estratos literários de épocas anteriores. Na visão de Eliot, como conseqüências do exposto, mesmo no poeta mais original poderemos amiúde descobrir que não apenas o melhor, mas também as passagens mais individuais de sua obra, podem ser aquelas em que os poetas

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mortos, seus ancestrais, revelam mais vigorosamente sua imortalidade. (Citado por Junqueira, 2000, p. 111). O passado está vivo, contido no presente e o envolvendo também. Os antepassados, através de suas formas estéticas consagradas, escoram as ruínas emocionais do poeta, e povoam o mundo da perpétua solidão e negritude. Talvez possamos dizer que no processo de criação do poema, tochas se acendem convocando à luz da linguagem os ancestrais do poeta com os quais ele se identifica. Os mortos emergem das profundezas tumulares do inconsciente do artista e iluminam a vida e dão forma e consistência ao poema. As palavras se movem, a música se move (...). As palavras após a fala alcançam o silêncio. Apenas pelo modelo, pela forma. Podem as palavras ou a música alcançar O repouso, como um vaso chinês que ainda se move Perpetuamente em seu repouso. Não o repouso do violino, enquanto a nota perdura. Não apenas isto, mas a coexistência, Ou seja, que o fim precede o princípio, E que o fim e o princípio sempre estiveram lá Antes do princípio e depois do fim. E tudo é sempre agora. A quase totalidade da poesia de Eliot caracteriza-se pela experiência da fragmentação, da multiplicidade descontínua de matrizes composicionais, do desenvolvimento assimétrico das partes isoladas (Junqueira, op.cit., p.111). Essas partes podem se reunir numa espécie de todo, contidas e enfeixadas no organismo poemático maior. Eliot escreve que essa é uma das maneiras pelas quais a sua mente parece operar, do ponto de vista poético, ou seja, realizando fragmentos poéticos em separado, e depois estudando a possibilidade de fundilos num conjunto, fazendo uma espécie de todo...clxxii

*
Todo texto filosófico é, por primeiro, prosa poética. Demócrito Heráclito, Platão, Hegel, Rousseau, Thoreau, Marx, Sartre, Nietzsche, Freud, Jung, Reich, Marcuse, enfim, o que primeiro assombra em seus textos é a poética presente em suas entrelinhas... Portanto, e por primeiro, a filosofia é um fato poético; por segundo, a poesia é também o modo de conhecimento do mundo... A poesia é o sopro divino no barro de todas as epistemologias... O fragmentarismo esconde, por detrás das suas aparentes “facilidades”, o fato de ser pensamento, com as dificuldades inerentes ao pensar; e sentimento, com as dificuldades inerentes ao sentir... Razão e Emoção aliadas no exercício poético de galgar a infinitude...

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O século vinte encontrou diante de si, herdado do século que o precedeu, um problema fundamental – o da conciliação da Ordem, que é intelectual e impessoal, com as aquisições emotivas e imaginativas dos tempos recentes. É impossível resolver este problema, como querem os integralistas franceses, pela supressão de um dos seus termos. É igualmente impossível resolve-lo aceitando a predominância da emoção sobre a razão, porque, aceite esta predominância, desaparece a ordem, e o problema está por resolver. Evidentemente que há só uma solução: o levar a personalidade do artista ao abstrato, para que contenha em si mesma a disciplina e a ordem. Assim a ordem será subjetiva e não objetiva. Tornar a imaginação abstrata, tornar a emoção abstrata, é o caminho.clxxiii

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clxxiv

No texto unívoco, o leitor escapa (e assim o autor) de ter que percorrer toda a linha de raciocínio a chegar à conclusão, ao fim do texto... Tal qual nas novelas de horário nobre, a perda de uma parte, por preguiça ou incompreensão, não acarreta a perda do texto, ou da proposta, ou da conclusão, do fim, pois logo que se o retoma, o que importa mesmo é o final feliz...

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clxxv

No fragmentarismo, tal qual nos seriados e casos especiais, a perda de um episódiofragmento da série acarreta a perda daquela conclusão, daquele fim, daquela proposta, seu final, que tanto pode ser feliz ou infeliz... O que se ganha, então, são (in)conclusões... Mas...não será assim a vida humana?... A Humanidade é feita de fragmentos que buscam completudes: as vidas humanas, nossos corpos e almas, que nós tentamos, quase sempre em vão, e salvo por uns poucos momentos de eterno, juntar como um modelo de armar... A Poesia é a única inteligência desse puzzle: por isso que são muitos os modos legopoéticos de nos sabermos humanos...

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clxxvi

Há uma nova pergunta no ar, nesses inícios do século XXI: somos tantas personas que, afinal, quais mesmo somos nós? Desde já algo parece indubitável: somos estados fragmentários de consciências...

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Desmaterializado pelo movimento facetado, o espaço cubista não é em verdade tanto um espaço espiritualizado como um espaço intelectualizado, na tônica racional de áreas sistemática e logicamente superpostas. Naturalmente, isso não lhe tira o caráter emocional. Embora na fase analítica as obras cubistas já tenham perdido os traços mais violentos da influência africana, permanecem no ritmo geral os abruptos contrastes e a fragmentação. Conseqüentemente, o teor expressivo dessas obras é inquieto e conflitante... Na obra de Jackson Pollock (1912-1956), pintor americano da chamada ‘arte informal’ (action painting), as características de inquietação e de conflito são aprofundadas e acompanhadas ainda de uma maior desmaterialização. Em lugar de qualificações intelectuais ressalta o caráter emocional da obra; ela é intensamente carregada de emoção. Não há nela qualquer referência nem a figuras humanas nem a objetos nem a paisagens. Tampouco se identificam sequer superfícies ou volumes. Falta, portanto, qualquer dado físico que possua extensão, peso ou densidade. Os elementos que constituem as configurações de espaço de Pollock são unicamente linhas. Segmentos lineares. Segmentos retorcidos. Às vezes esses segmentos se acompanham, às vezes se superpõem, se retomam, se entrelaçam, inflam, afinam, e subitamente cessam. Tudo isso acontece de modo veloz, descontínuo, explosivo, sem uma pausa e sem crescimento rítmico. A agitação visual parece quase romper os limites do quadro. Temos uma imagem que se assemelharia à trajetória de fragmentos

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movidos e acelerados no espaço, quais incontáveis estrelas cadentes que cruzassem um espaço a um só tempo...clxxvii

Erram quando afirmam que o pós-modernismo, com a máxima de que a cultura está aos pedaços, é só uma bobagem... O pós-modernismo está vinculado ao ajuste globalizante do mundo, com a horizontalização dos povos, com a correção política, com a democratização terra-a-terra das diversas expressões regionais... O desconstrutivismo pós-modernista tem, como toda exaltação de vanguarda artística, afinal se adequado às propostas mais gerais da sociedade, balizada pelo mercado e, por isso, fugindo às propostas teóricas originais, configurando apenas momentofragmento(s) fenomenológico(s) da(s) pós-modernidade(s)... Mas que ninguém se iluda: trabalhamos todos para alimentar a Máquina que, aos enquantos ainda chamamos Humanidade... Desconstruimos, fragmentamos, singularizamos, particularizamos, individualizamos, mas... De tempos em tempos A Máquina se clicka a janela de desfragmentação... Quem sabe para nós, brasileiros, uma boa marretada poética na cultura luso-colonialbrasileira, e/ou demais luso-colonial-estrangeiras, ou talvez melhor dizendo, nos arremedos de cultura brasileira e estrangeiras – todas estas muito bem postas, obrigado – fazendo-as aos pedaços, aos pedaços pós-modernos, até que nos seria muito útil... Pós-modernos ou não, é bom poder criar infantilmente e livremente usar os retalhos guardados ao fundo dos baús do Sótão (sem que nos reprimam nossos pais... ) A pós-modernidade nos convida a enfrentar as zonas obscuras das univocidades, das totalidades, para fazer crescer os infantilismos da nossa humanidade... Por outro lado, esse negócio de que está tudo aos pedaços na arte e na cultura do primeiro mundo nos põe todos de volta ao mesmo barco... Enfim, para nós, brasileiros, qualquer perspectiva pós-moderna será, no âmbito da arte&cultura, sempre atraente...

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Coleciono fragmentos por saber que a minha mente é fragmentária, que só apreendo uma realidade fragmentada... O pós-modernismo é um fragmentarismo... É a modesta aceitação da nossa vocação artística e cultural, a plena aceitação da impossibilidade de se construir um modelo único, integral, que apreenda, enfim, toda a gama de experiências e percepções, fazendo justiça a todas... Por isso mesmo ando a colecionar meus fragmentos, sem nenhuma organicidade, depositando-os, um a um, só conforme vão sendo colhidos à medida que reflito sobre os objetos... Portanto, o primeiro não é o primeiro, o segundo não é o segundo, nem o terceiro será o terceiro... Confesso que nada sei dos inícios, que nada sei dos meios, que nada sei dos finais... Isso é da essência do fragmentarismo, cuja origem remonta à visão de Demócrito quanto aos átomos...clxxix Fragmentarismo, porque o Absoluto (Platão, Hegel) não existe ou, no mínimo, é inapreensível pelo humano. É uma ficção. Nós que lhe damos existência. A diferença da filosofia fragmentarista (Demócrito, Heráclito), segundo a qual Razão, Emoção, Sexualidade, apreendem-se de um mundo fragmentário e em constante devir, para a filosofia do Absoluto, A Idéia, estão sempre à espera de seus proprietários, seus donos... Os humanos têm guerreado e destruído a fim de se apropriarem da Idéia, do Absoluto, e assim imporem suas vontades (de poder) aos demais. Quanto aos fragmentos, bem, os fragmentos desdenham encoleiramentos... Os fragmentos não têm donos porque é impossível reuni-los a todos e, especialmente, aprisioná-los no Conceito Geral... Sendo cada indivíduo um conjunto de fragmentos de si, a um só tempo sistema peculiar de fragmentos, fragmentos de infinitas possibilidades de combinações, esse sistema de fragmentos torna-se a identidade fragmentária de cada qual, de impossível imitação, tais como as digitais... ...O fragmentarismo é incompatível com a hierarquização dos saberes... Só a Poesia, que nos envolve como o éter envolve a Terra, alcança o não-sabido... Se nós somos as peças de um puzzle, somos as peças do puzzle poético de Deus...

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O Tempo segue o Espaço. Tempo é fragmento. O Ontem, o Hoje, o Amanhã, não são absolutos nem relativos... São fragmentos que se medem à medida de cada ser humano... Na diversidade do nosso ser fragmentário, cada qual dos nossos fragmentos vive o tempo segundo sua própria contagem... Portanto, para alguns dos nossos fragmentos ainda é ontem; para outros, só o hoje tem existência real; e há aqueles que já vivem o amanhã... Exercer, cada ser humano, o seu próprio tempo particular fragmentário é libertar-se das coleiras dos proprietários do Tempo Absoluto, é viver sem violentar seu tempo particular, sem agredir seu corpo-espaço fragmentário...

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– Mas nenhuma arte soube exprimir tudo o que temos de sexy quanto nossa música. A música popular do Brasil é a voz instintiva do nosso desejo. Nossos autores mais representativos – Roberto Silva, Assis Valente, Jorge Benjor, Tim Maia – se distribuem por nossa história como vetores espalhados pela coreografia de um corpo no cio. Nossos grandes estilistas – Cyro Monteiro, Lulu Santos, Carmem Miranda, Nação Zumbi, Orlando Silva, Racionais MC’s – são vozes da nossa carne. E nossos maiores inventores – Villa-Lobos, Antonio Carlos Jobim, Dorival Caymmi, Ary Barroso e João Gilberto – parecem ter inventado não só nossa música e nosso ritmo, mas nossa sensibilidade e nosso corpo. A alma é um luxo posterior. Pode ser que essa prioridade simbólica da música entre nós seja mesmo resultado histórico da interação ritual entre a religião, o trabalho e a festa – ou simplesmente a forma mais feliz de uma arte que soube como nenhuma outra acompanhar os movimentos de nossos músculos ao caminhar. Nossa música aderiu a nosso corpo como um bronzeador.

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Sempre preocupado com as relações entre a cultura e o corpo, Nietzsche escreveu, sem saber, boa parte de sua obra eleogiando o Brasil enquanto pensava estar comentando Bizet: o Brasil foi o único país do mundo a incorporar e irradiar com uma vitalidade sempre renovada todas as lições do que Euclides da Cunha descreveu como “a linha fulgurante do trópico” – e essa lição nos veio embalada pela música. Toda nossa antropologia, por isso, deveria começar com um atabaque e terminar com um banquinho e um violão.clxxx

clxxxi

O brasileiro, o brasileiro é o povo mais musical do mundo, embora não saiba se dar valor... Eles não gostam de ser brasileiro... Disfarçam... É preciso não trocar o sentido das coisas... Não confundir povo, o povo... Não confundir nem com público, nem com massa... É importante... A massa é a massa... O público se enfeita todo, vai para a sala de concertos com cara de quem está entendendo tudo... É preciso notar a diferença... A massa é horizontal, o público é vertical, o povo, pelo menos o povo brasileiro é di-a-gonal, é por isso que eu gosto do povo... É por isso que a minha música é popular, popular... Porque eu cuido muito mais do aspecto diagonal do que do horizontal ou do vertical... clxxxii

*
Copacabana. Milhares de corpos em toda parte. Na realidade, um único corpo, imensa massa de carne ramificada, todos os sexos confundidos. Um único pólipo humano expandido, impudico, um único organismo onde todos têm a mesma cumplicidade dos espermatozóides no fluxo seminal...

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De algum modo, a indiferenciação da cidade e da praia leva a cena primitiva diretamente à praça pública. O ato sexual é permanente, mas não no sentido do erotismo nórdico: ele está na promiscuidade epidérmica, na confusão dos corpos, dos lábios, das bundas, das ancas – um único ser fractal disseminado sob a membrana do sol... Esse hiper-organismo humano faz pensar no outro imenso indivíduo orgânico, o maior do mundo, no Canadá, feito de 45.000 álamos, na confusão de suas raízes, todos participando do mesmo caminho telúrico – a floresta constituindo um único ser vegetal. Os corpos brasileiros constituem do mesmo modo uma espécie de ser único, vivos da mesma vida, penetrados pelos mesmos fluidos, vibrando pelas mesmas paixões. Que estatuto social ou político pode haver para um ser dessa ordem? clxxxiii Comentário: Isso é o que se pode chamar de visão franco-primitivista (embora, que não se negue, amorosa – l’homme naturellement bon...– do nosso povo (Brazil? C’est bizarre!)...clxxxiv Do nosso Brasil... Pluralidade, polifonia, singularidade fragmentada para o primeiro mundo, massa, univocidade, conjunto vegetal, raiz, para nós brasileiros... Em compensação... O Brasil: será o melhor protótipo da cultura Lego que se anuncia como universal... Amontoado de fragmentos de civilizações que poderão ser reunidos ao bel-prazer de cada um... Situado dessa forma na vanguarda das tendências mundiais da cultura, vai-se tornar um dos faróis da criação artística planetária... Será de bom-tom visitá-lo em busca de inspiração...

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Vai-se falar do “Brasil-mundo” como uma corrente estética, um sistema de valores, um modelo social feito de barbárie assumida, prazer e regozijo ilimitados, mestiçagem sofisticada e violência crua...clxxxv

Lego: O grande Jogo que caracterizará todo o século XXI: montagem sob medida, para si próprio, de civilizações, culturas, obras de arte, roupas, cozinhas, substitutos amorosos, etc...clxxxvi

O Brasil tem tudo para vir a ser a futura Matriz do Mundo PósModerno...
clxxxvii

O Brasil é o metrônomo da Humanidade...

clxxxviii

A pós-modernidade brasileira – por isso mesmo talvez a mais claramente observável – vive a um só tempo sua dupla face construção/desconstrução em direção a suas futuras reconstruções – que já o primeiro mundo busca resolver – em todos os campos da cultura. Não é irrelevante que o termo brasileirizaçãoclxxxix indique, para esses outros povos, um estado de coisas carnavalizado...

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cxc

As nossas vivências, prática social e cultural, aliadas às nossas próprias reflexões, sejam talvez mais aptas ao estabelecimento das premissas e desdobramentos teóricos, do que seja o fenômeno da pós-modernidade, do que o pensamento menos flexível dos povos de cultura mais solidamente estruturada, ou só aqui e ali carnavalizadas...

cxci

A prática da carnavalização encontra, na pós-modernidade, seu ápice, desde as práticas sociais polifônicas às personificações fantasistas e seus clowns que as práticas sociais brasileiras exibem, ora alegremente, ora em suas mazelas, em nosso dia a dia... Pluralismo... Multiplicidade... Raças, cores, credos, sexos, etc...são, por princípio, tão bons quanto legítimos... O pós-modernismo abre as compotas das represas ideológicas para que as águas puras das nossas possibilidades fragmentárias corram soltas... E livremente se encontrem... Se desencontrem... Se reencontrem...

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Toda utopia pressupõe o puzzle pré-concebido, em que os humanos se espremem nas limitadas paredes das masmorras ideológicas... Juntarmos e desjuntarmos e rejuntarmos os nossos fragmentos em legos... Eis o que é avançar a inteligência humana para além das estrelas...

Capa: Gustavo Meyer, 1995

Construir em Lego os fragmentos pós-modernos é fazer, dos antigos jugos, jogos lúdicos... Singulares jogos lúdicos... Toda vida é prazerosa... Ou será apenas sobrevivência... Subserviências... Por isso o pós-modernismo caminha em todas as possíveis direções, tanto de tempo quanto de espaço... Tanto matéria quanto idéia – O Espírito e sua ubiquidade... No aqui-do-humano, e no além-do-humano...

Capa: Deco, 1997

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O pós-modernismo coloca, pela primeira vez nas histórias das humanidades, para além dos pré-socráticos, para mais além das concepções anarquistas, e para além das concepções de vanguarda, as possibilidades sociais de realização dos imaginários individuais sem que disso resulte nem a segregação, nem a dominação, nem o conflito... É um antimodelo que incorpora modelos fragmentados... Por isso, por essa libertação dos imaginários, o pós-modernismo vai ampliando as capacidades humanas, tanto as advindas da natureza quanto as já desenvolvidas pela cultura... As possibilidades científicas e artísticas decorrentes são ainda inimagináveis... O pós-modernimo é ainda um reconhecimento da legitimidade dos desejos humanos... É mesmo a libertação dos desejos humanos que estiveram, por séculos, aprisionados em edifícios ideológicos... Pouco a pouco, sob os escombros dessas ideologias, escapam fragmentos... Nossos próprios fragmentos... a necessitar de cuidados, a maioria...

cxcii

A busca de correção política, outro princípio pós-moderno, é a aceitação consciente das múltiplas possibilidades do humano ser... O lego pós-moderno é a união progressiva de fragmentos em direção ao infinito e desconhecido puzzle de Deus... A totalidade invisível e inconcebível pela natureza humana... Tentar impor à sociedade humana um jogo de armar em que as peças são os humanos (por natureza, fragmentários) é arrogar-se o papel de divindade... unir paulatinamente os blocos-fragmentos que são os humanos, em suas múltiplas possibilidades, por natureza variáveis, é reconhecer em nós as infinitas possibilidades de caminharmos, mãos coligadas, em direção ao espaço e tempo infinitos... A Totalidade Infinita se faz dos nossos todos finitos fragmentos... E talvez nem mesmo esses nossos todos fragmentos sejamos assim tão finitos: pois que ainda se nos apresentam infinitas, incomensuráveis as nossas todas possibilidades combinatórias, nossos eternos retornos... A pós-modernidade pode também ser compreendida, ainda historicamente, como uma continuidade de algo que se inicia nos primeiros sorrisos da modernidade – Schlegel, Novalis, Poe, Baudelaire, Whitman – e das vanguardas modernistas todas, inclusive

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nossa Semana de 22 – até o existencialismo de pós-guerra (Sartre e Camus), acirrandose na geração beat americana, e no movimento hippie, para afinal eclodir pelos idos da década de 1980, em todas as artes... Indisciplinado, fragmentado, múltiplo, veloz e incendiado como um ninho de vespas em erupção...

Capa: José Roberto Aguilar e Gabriela Favre, 2001

No romance, seguindo a tradição pela linearidade na Literatura, embora o assombroso Ulisses de James Joycecxciii, o pós-modernismo se apresenta como mais um experimentalismo: livros como Zero, de Ignácio de Loyola Brandão (com méritos singulares), PanAmérica, de José Agrippino de Paula, e Balada da Infância, de Antonio Torres, por exemplo, são livros que pressupõem o fragmentarismo como técnica narrativa, sem que – e a julgar pelas obras posteriores – os autores tenham realizado uma opção estética em direção à ampliação dessas então novas possibilidades...

Capa: Rafael Siqueira, 1982

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Falando sobre o fragmentarismo, enquanto método de criação literária, Affonso Romano de Sant’Anna narra que Machado de Assis mereceu severa crítica de Guimarães Rosa, segundo o qual o autor de Dom Casmurro utilizava o método como “facilidade”, pensamento ainda hoje muito comum entre autores que se aferram à univocidade de discurso em que, afinal, foram formados – Adquiri certeza quase absoluta, de que ele, antes mesmo de compor seus livros, ia anotando: pensamentos, frases, etc. em livro ou em cadernos especiais, espécie de surrão ou alforje, de onde sacava, aos punhados, ou pinçava, um a um, os elementos de reserva que houvessem resistido ao tempo conservando-se bem. Ao que Affonso Romano de Sant’Anna, como bom poeta, aduziu, entre parênteses: Processo aliás muito louvável. Tanto quanto o hábito de compulsar dicionários (outra técnica fragmentarista, adotada por Mallarmé, aduzo eu) visível em Machado de Assis... Diz Affonso em sua defesa da técnica fragmentarista machadiana: Quanto à observação de que Machado tinha um “surrão ou alforje”, onde ia jogando frases e anotações que usava posteriormente, é relevante mostrar que este foi também o método usado por Rosa, conforme as fichas que deixou, onde anotações já feitas sobre flora e fauna eram posteriormente encaixadas na narrativa em construção. Este é um recurso comum nos escritores. Vão jogando em pastas anotações aleatórias ou sistemáticas que, de repente, recobram vida... Ignácio de Loyola, por exemplo, confessou que este foi o processo que usou para a narrativa fragmentada de seu conhecido “Zero”... cxciv Mas há algumas particularidades que merecem atenção: em primeiro, não se pode dizer propriamente de Rosa que tenha adotado o método fragmentarista, a julgar pelo texto... Guimarães Rosa usou sim, uma técnica (muito comum entre os escritores), de ir coletando material na medida em que a obra vai germinando em sua intenção literária; uma coisa é ir coletando material a preparar o texto em formação, encaixe que qualquer estudante realiza em seu dia a dia de trabalhos escolares... Outra, bem distinta, é reunir, aleatoriamente, um material disperso, mais ou menos, em termos formais, desconectados entre si, autênticos fragmentos de realidade ficcional (não há aqui contradição entre os dois termos, pelo que já se disse, mas podemos também usar realidade (re)ficcionável) para que, da sua reunião posterior se componha um texto imprevisível, impensado enquanto se os reunia... A primeira, de natureza estritamente técnica, parte de um discurso unívoco já estabelecido de antemão, traduzindo-se em mera ilustração desse discurso prédeterminado (era o que Guimarães Rosa fazia)... Já a segunda, bem ao contrário, provoca no autor a elaboração de um texto que fornecido pelo processo de coleta de material, num deixar-se levar por processos inconscientes de elaboração intuitiva, de seguir os passos de uma realidade em princípio inapreensível pela razão pré-ordenada...(sim, este é um método fragmentarista de criação)...

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Já o mérito maior de Inácio Loyola Brandão – por isso mesmo, e até onde se sabe, o autor brasileiro, dentre nossos escritores mais consagrados pelo público e pela crítica, que inaugura a pós-modernidade brasileira no romance – adotou o fragmentarismo como método e como estética, mantendo a estrutura fragmentária do material coletado, independentemente de ter lançado mão ou não daquela técnica tradicional entre os autores de todos os tempos... Por isso Zero, seu belo romance, também um livro que consagrado por crítica e público como uma das jóias da literatura brasileira, especialmente pela sua estrutura épica, há obrigatoriamente de ser reconhecido como o primeiro (estranhamente ainda o único a vir à luz, pela imprensa especializada em canonizações) grande romance da pós-modernidade literária no Brasil... Registre-se – entretanto – que Zero é, afora o mérito de ser o primeiro livro brasileiro inteiramente, radicalmente concebido numa estética pós-modernista, em que o fragmentarismo se impôs desde a sua concepção, um livro que ainda ensaia os primeiros passos à criação de uma reconhecida literatura brasileira pós-moderna... Afinal, percebe-se claramente em Zero uma forte retórica unívoca, guiada por um autor experimentado em unificar (como em seus melhores escritos) todo o material disponível em uma só direção, tanto ética quanto em estética... Deliciosa, note-se, a expressão de Affonso em seu texto: Inácio Loyola confessou... O pós-modernismo e seus métodos, infelizmente, têm sido vistos como um balbuciar literário, nas raias da facilidade literária, em que os territórios demarcados da Literatura restam miscigenados, de traços fronteiriços despistados... Pouco a pouco a crítica especializada começa a investigar sua fenomenologia, e a adivinhar-lhe as possibilidades... Os americanos, dizem, vão a Disneylândia para sentir que fora dali sua vida é real. O pós-modernismo está ancorado aqui: na insustentável leveza de não crer nem na realidade nem na ficção. Nesse desvão descrente passeiam os simulacros ofertados pelos mass media, os modelos computacionais, a tecnociência – nova ordem na qual a simulação do romance pela sua destruição ainda é subversiva porque invoca clownescamente, se não verdades, ao menos possibilidades atravessadas pelo absurdo, o que é sempre inquietante. Não é outro o motivo da generosa acolhida que essa literatura teve entre os jovens...cxcv O pós-modernismo não é, ele mesmo, um movimento de vanguarda de uma juventude mimada, tresloucada... O pós-modernismo é um fato cultural, um fenômeno que resulta de um determinado estágio da cultura e seus efeitos se sentem em todos os níveis sociais e, muito especialmente, nas camadas menos favorecidas, em que há tantos centros irradiadores de atividade cultural quanto possibilidades “tribais” de “fazer moda”, o que já é em si uma novidade nas histórias das civilizações... Daí a dificuldade não apenas de fixar-lhe os contornos, seus parâmetros teóricos, quanto de estabelecer sobre ele qualquer crítica que não lhe condene especialmente os efeitos, mas os seus princípios... O pós-modernismo é feito de fragmentos que escorregam como os sabonetes...

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Mas de um modo geral, o pós-modernismo ainda é considerado mero experimentalismo (se realizado por escritores canonizados), quando não como um convite ao absurdo, como dizem seus críticos mais conservadores (quando exercido por autores que não freqüentam a boa e velha ordem literária, naturalmente), ávidos por defender a boa e velha literatura, aos mesmos tons de superficialidade e arrogância reacionárias, à esquerda e à direita, infelizmente tão comuns numa cultura ainda por se libertar de um modo ainda binário, maniqueísta, colonizado, estratificado, de ver o mundo, com as lentes unívocas das esferas de poder das ideologias “literárias” dominantes... ...Criação permanente, pesquisa permanente, pensamento permanente, ou literatura permanente – eis o que é o fragmentarismo... O fragmentarismo literário não é desconstrução textual, mas metodologia integrante do processo de re-construção do discurso, necessário e correspondente à etapa da pósmodernidade... Tanto os Diálogos de Platão quanto o Novo Testamento, dois dos principais verbos fundadores da civilização ocidental possuem, em verdade, natureza de texto fragmentário... Tanto no que respeita à sua realização textual, quanto nas respectivas proposições filosóficas e religiosas... Em que se faz necessário algo mais que a mera leitura de palavras ordenadas em frases... Só uma perspectiva estético-literária é capaz de elucidar essa fragmentação e articulá-la aos seus “edifícios inexistentes”cxcvi, para uma leitura renovada de suas palavras... Especialmente no que se refere às articulações entre o pré-socratismo, socratismo e o platonismo... Na pós-modernidade, nenhuma das contradições até aqui laboradas pelos filósofos possui, excludente das demais, natureza fundadora das relações humanas... Um Novo Conceito de Livro:

A poesia de Oswald de Andrade põe um novo conceito de livro. Seus poemas dificilmente se prestam a uma seleção sob o critério da peça antológica. Funcionam como poemas em série. Como partes menores de um bloco maior: o livro. O livro de ideogramas. Daí que, desde o Pau-Brasil,

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passando pelo Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, até as Poesias reunidas O. Andrade (título que parodia certa sigla de Indústrias Reunidas...), o layout tipográfico das coletâneas oswaldianas sempre tivesse tido grande importância. Para isso contribuíram os desenhos de Tarsila e do próprio autor e os “achados” que são as capas: a do Pau-brasil uma bandeira brasileira com a divisa mudada para Pau-Brasil; a do Primeiro caderno, uma capa de caderno de curso primário, com florões inscritos dos nomes dos Estados brasileiros e outras garatujas infantis. As ilustrações de Oswald para este segundo livro ligam-se intimamente a seu contexto, e é uma pena que, numa edição de tiragem comercial como a presente, não se possa reproduzir integralmente o plano original dessa obra. O livro de poemas de Oswald participa da natureza do livro de imagens, do álbum de figuras, dos quadrinhos dos comics. Sua atualidade neste particular é espantosa. Ainda há pouco, o crítico inglês John Willett, do corpo redatorial de The Tmes Literary Supplement, fazendo um balanço das relações entre artes visuais(pintura gráfica) e literatura, salientava: ...parece que estamos no limiar de uma revolução no que respeita à maneira pela qual exprimimos nossos pensamentos; estamos nos libertando das “limitações da prosa linear” e começando a aprender “como manipular a informação e a própria linguagem através de técnicas absolutamente novas”; estamos fadados a “desenvolver um modo menos restrito de escrever livros e transmitir informações e nele o uso de símbolos e o layout bidimensional na página deverão desempenhar um papel importante”; “a nova acuidade pública para a imagética visual, que a televisão estimulou, significa que uma combinação de palavras e ilustrações é hoje congenial para o leitor”; “que aspecto irá ter o livro parcialmente diagramático do futuro, com sua linguagem condensada e sua exata colocação de palavras e proposições na página?” Para chegar a estas considerações, Willett passara em revista as tendências da atual literatura de vanguarda, incluindo, ademais, um retrospecto das fontes históricas do fenômeno, tais como, de um lado, os exemplos de poetas-pintores (Maiakovski) e pintores-poetas (Klee), e, de outro, a tradição vitoriana de livros ilustrados (as estórias de Alice de Lewis Carroll), onde “o livro tornouse impensável sem suas figuras”, isto sem esquecer as remotas origens da escrita pictográfica.... Ao invés de embalar o leitor na cadeia de soluções previstas e de inebria-lo nos estereótipos de uma sensibilidade de reações já codificadas, esta poesia, em tomadas e cortes rápidos, quebra a morosa expectativa desse leitor, força-o a participar do processo criativo... A técnica de montagem -, este recurso que Oswald hauriu nos seus contatos com as artes plásticas e o cinema... De apelo ao nível de compreensão crítica do leitor, que está implícito no procedimento básico da sintaxe oswaldiana... É o efeito que se encontra também nos poemas lacônicos da fase madura de Bertolt Brecht, a fase que começa em 1939 com os poemas escritos no exílio (em basic German, segundo o próprio Brecht):

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Hollywood Toda manhã, para ganhar meu pão Vou ao mercado, onde se compram mentiras. Cheio de esperança Alinho-me entre os vendedores. Walter Jens observa que, em composições dessa natureza, o poeta “trabalha preferentemente com reduções, com rarefações e abreviaturas estilísticas, de uma tal audácia, que o contexto omitido compensa a dimensão escrita do texto”; seu método consistiria em “enfileirar frases justapostas, entre as quais o leitor, para compreender o texto, deve inserir articulações”. E Anatol Rosenfeld, descrevendo essa poesia à luz do Verfremdungseffrekt (“efeito de alienação”), característico do teatro brechtiano, diz: “O choque alienador é suscitado pela omissão sarcástica de toda de toda uma série de elos lógicos, fato que leva à confrontação de situações aparentemente desconexas e mesmo absurdas. Ao leitor assim provocado cabe a tarefa de restabelecer o nexo”... Pois os poemas-comprimidos de Oswald, na década de 20, dão um exemplo extremamente vivo e eficaz dessa poesia elítica de visada crítica, cuja sintaxe nasce não do ordenamento lógico do discurso, mas da montagem de peças que parecem soltas...cxcvii

*
É sempre necessário compreender que o pós-modernismo não se esgota na exploração do imaginário, no manuseio do absurdo e do delírio, pois que apenas o torna possível na medida em que liberta o artista do discurso estético unívoco e linear, e sempre positivista (no que este tem de restrição às demais possibilidades discursivas), para inseri-lo de volta ao mundo das percepções fragmentárias... Todas as críticas ao pós-modernismo desconsideram suas possibilidades estéticas porque partem de uma retórica que pressupõe uma unidade do mundo (relações sonho/realidade), de uma organização sócio-cultural que reflete essa unidade, e que hierarquiza a criação menos pelas obras (pois a maioria delas renegada quando produzidas) e muito mais pela estratificação da cultura em hierarquias piramidais... A livre articulação das várias vozes da cultura tem por escopo principal respeitar a polifonia a partir do seu articulador textual, em que cada qual das vozes dialógicas se apresenta em igual nível de importância – dado que são muitos os modos de ver os temas, os que são objeto de apresentação teórica fragmentária – apenas destacados em função das articulações estético-textuais e da relevância que possam ter, aqui e ali, para as proposições teóricas do texto...

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Capa: Federico Spitale, 1968

A polifonia, para ser bem absorvida, deve escapar às marcas hierárquicas e canônicas que levem o leitor a antecipar o eventual valor do texto em função do autor citado – em prejuízo de uma livre leitura e, portanto, valoração particular, personalíssima – fazendo cair por terra a aceitação de uma estética polifônica (daí a remessa das notas de citação para o final do trabalho)... Observar moldes textuais que colidam com as proposições estético-literárias do autor é atender a uma estética da univocidade que, ao menos para os fragmentaristas, já perdeu o seu vigor... Ora, em Literatura jamais se pode perder de vista o prazer do texto, que parte antes de tudo da perspectiva do seu autor... Se há, pela sua especificidade, um gênero tese, e/ou dissertação, e a pós-modernidade convida também a essa investigação teórica, retórica e estilística, estética e temática, buscar novas formas de apresentação textual é obrigação de ordem literária... Normas técnicas que imponham a univocidade não devem nem podem – mormente na Literatura (arte e ciência necessariamente combinadas) – impedir as experimentações ou, melhor, as adequações que a vida cultural da contemporaneidade convida todos a buscar... A realização dos textos não pode ser medida à luz de regras e ordenamentos textuais, mas pela funcionalidade das técnicas justificadamente empregadascxcviii... Aliás, essa tendência já vem, pouco a pouco, se tornando prática aceita se considerarmos, por exemplo, as teses de doutoramento de Luiz Antonio Assis Brasil à PUC-RS (romance) [Luiz Antonio Assis Brasil, 1999] e a de Érico Braga Barbosa Lima [Lima, 26.03.02], à PUC-Rio (texto de teatro)...

*
Para a retórica unívoca, o imaginário do “outro”, o imaginário da pluralidade, é sempre e apenas delírio... Absurdidades... De nenhum valor de troca, seja científica, seja, por conseguinte desse pensamento hierarquizante, estética...

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O pós-modernismo não é uma idéia de vanguarda, não é um modo pré-estabelecido como ideal estético, ao contrário, o pós-modernismo é a naturalidade de todas as vanguardas, é a eliminação mesma da própria idéia de vanguarda e também de experimentação artística: o pós-modernismo é apenas um fato – e fato sempre, desde sempre, pulsante no interior da cultura – cujas origens remonta à uma visão fragmentária do mundo e ao estar no mundo munido desses fragmentos... ...Aceitando-se ser fragmentário, o humano aceita-se, enfim, viver fragmentariamente... Na impossibilidade de eliminar os espaços vazios de compreensão do mundo e de si, o humano passa a aceitá-los como condição inarredável (e por isso naturalmente dispostos à imaginação) de toda a (humana) existência... O exercício do imaginário liberta, ainda, o humano, por levar-nos reconhecer a impossibilidade de impô-lo aos outros como modelo... Nem a nós mesmos, muito menos aos outros... Ou seja, o reconhecimento de que há muitos modos de viver, ver e ler o mundo... Seja em si, seja no outro... Muitos modos de ver, de crer, de saber, de imaginar... Eis o que são as novas tentativas pós-modernas de libertação do humano dos modelos utópicos imaginados os quais, por definição, não se transferem aos demais imaginários, e só se exercitam como irrealidade...cxcix Os perigos da anestesia dos imaginários nesses tempos pós-modernos, encontra-se, paradoxalmente, no exercício permanente da fragmentação do Discurso pelos canais de mídia, e mesmo pela atividade de “zapping” no controle remoto das televisões domésticas...cc

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A essência de um doce prazer nunca pode ser aviltada...

cci

Na Grécia Clássica, o prazer, o desejo, eram atributos naturais do indivíduo, para cujo gozo deviam se adestrar, educarem-se, como parte da paidéia (a educação do homem grego), como parte indissociável da arete (excelência física e moral)ccii e em nome dos princípios universais que amparam o direito do indivíduo de gozar a vida, independentemente das razões da polis, como em Arquíloco: Se nos afligirmos com a maledicência do povo, não desfrutamos o prazer da vida...cciii Ou em Mimnermo: Sem a loira Afrodite não há vida nem przer! Preferia estar morto – se tivesse de não gozar dela mais...cciv No Império Romano, sociedade que privilegiava o Estado sobre os indivíduos, o Estado Romano, como condição e medida dos seus cidadãos, o prazer é visto como inimigo perigoso, que afasta o homem do reto caminho da adoração do princípio coletivo, como em Sênecaccv: O prazer habitualmente se esconde e procura as trevas, fica nas vizinhanças das casas de banho, das saunas e dos lugares que temem a polícia; é mole, não tem força, é úmido de vinhos e perfumes, pálido ou pintado, embalsamado com ungüentos como um cadáver... Na pós-modernidade se recupera o princípio da separação entre prazer individual e obrigação social, anterior à era platônica e ao fortalecimento jurídico do Estado Grego...

A palavra triebccvi, do alemão: vontade, com a qual Nietzsche construiu a sua tese do humano como vontade de poder funcionava, especialmente em meio à juventude, como similar para tesão... Em verdade, a expressão vontade de poder foi criada com essa conotação de tesão pelo poder... É muito provável que Nietzsche a escolheu ainda com essa conotação erótica...

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Freud, do círculo pessoal de Nietzsche, desenvolveu toda a sua teoria da sexualidade, sua concepção de libido e da sexualidade como fator determinante do comportamento humano, a partir de uma feliz compreensão da trieb nietzscheana...

O tipo e o grau da sexualidade de um homem atingem os cumes mais altos do seu espírito...
ccvii

Il commence bien à mourir qui abandonne son désir...

ccviii

O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal...

ccix

A satisfação nos protege até mesmo de resfriados. Uma mulher que se sabe bem vestida se resfria alguma vez?... ccx O entendimento humano muito deve às paixões... É pela sua atividade que nossa razão se aperfeiçoa; só procuramos conhecer porque desejamos usufruir... E é impossível conceber porque aquele que não tem desejos ou temores dar-se-ia ao trabalho de raciocinar... ccxi Segundo o evangelista João, lembra Paulo Coelhoccxii, o primeiro dos milagres de Jesus foi a transformação da água em vinho para a alegria – e a dança de Eros – dos convivas de uma festa de casamento... Portanto, eu também não creio, com/sem Nietzsche, em um Deus que não dança...ccxiii

A princípio só se falou pela poesia, só muito tempo depois é que se tratou de raciocinar...
ccxiv

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O pós-modernismo é um fato, um fenômeno de uma civilização em forte expansão pluridimensional: adotá-lo, ou criticá-lo, como modelo teórico unívoco é alhear-se do seu estudo, que só pode seguir-lhe as múltiplas direções... No pós-modernismo, como em todo fato cultural, sua interpretação comporta uma diversidade de interpretações... A novidade é que a pós-modernidade manuseia essas diversas interpretações culturais sem hierarquizações e sem abandonar a ótica do prisma... A visão prismática, na aceitação dos diversos modos de ver, permite a coexistência de diversos saberes, mesmo opostos, mesmo paradoxais... Eis dois outros elementos fundamentais aos estudos da literatura, da arte pós-moderna: prisma e paradoxo... Que se juntam ao fragmentarismo e à libertação do desejo... Ao imaginário e à conscientização do inconsciente... A pós-modernidade não elimina o discurso unívoco, a retórica da linearidade... Apenas que não lhe concede o galardão de racionalidade necessária... Nem o hierarquiza sobre o discurso fragmentário, este muito mais eficiente a conhecer a poesia dos fatos e dos objetos... A, por isso, mais eficiente a conhecer os fatos e os objetos... A linearidade da retórica e a univocidade de pensamento são conquistas da inteligência que prosseguem em seu curso necessário, mas como uma exploração de um dos caminhos possíveis, uma das muitas possíveis aventuras do pensamento na ambição de ampliar-se em direção à totalidade infinita... Um caminho que só se faz útil quando incorpora a presença desafiadora dos espaços vazios da realidade poética... Quando se permitem fragmentações sem perda de substância discursiva... O que se pode fazer enquanto filosofia e poesia estão separadas, está feito, perfeito e acabado. Portanto é tempo de unificar as duas...ccxv O homem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que deseja transmitir. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele também, muitas vezes, faz uso de sinais ou imagens não estritamente descritivos...ccxvi

ccxvii

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O que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós...ccxviii Uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto “inconsciente” mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. E nem podemos ter esperanças de defini-la ou explicá-la. Quando a mente explora um símbolo, é conduzida a idéias que estão fora do alcance da nossa razão... A imagem de uma roda pode levar nossos pensamentos ao conceito de um sol “divino” mas, nesse ponto, nossa razão vai confessar a sua incompetência: o homem é incapaz de descrever um ser “divino”... Quando, com toda a nossa limitação intelectual, chamamos alguma coisa de “divina”, estamos dando-lhe apenas um nome, que poderá estar baseado em uma crença, mas nunca em uma evidência concreta... ...O humano nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo...ccxix Não importa que instrumentos ele empregue; em um determinado momento há de chegar a um limite de evidências e de convicções que o conhecimento consciente não pode transpor... Além disso, há aspectos inconscientes na nossa percepção da realidade. O primeiro deles é o fato de que, mesmo quando os nossos sentidos reagem a fenômenos reais, a sensações visuais e auditivas, tudo isto, de certo modo, é transposto da esfera da realidade para a da mente... Dentro da mente estes fenômenos tornam-se acontecimentos psíquicos cuja natureza extrema nos é desconhecida (pois a psique não pode conhecer sua própria substância)...ccxx Há, ainda, certos acontecimentos de que não tomamos consciência... permanecem, por assim dizer, abaixo do limiar da consciência... aconteceram, mas foram absorvidos subliminarmente, sem nosso conhecimento consciente.
ccxxi

ccxxii

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A unidade da consciência é algo precário e que pode ser facilmente rompido... ccxxiii Não resta dúvida de que, mesmo no que chamamos “um alto nível de civilização”, a consciência humana ainda não alcançou um grau razoável de continuidade. Ela ainda é vulnerável e suscetível à fragmentação...ccxxiv

*
Olhamos para o céu quando a Terra envolta em trevas, e o que vemos? Fragmentos... Fragmentos e mais fragmentos da Luz... Aos céus claros dos dias, vemos a unicidade solar... Mas já sabemos que este é só o sol mais próximo dos muitos modos solares... Que este é ainda um dos muitos fragmentos da Luz... Já podemos olhar ao interior do nosso sol em atividade, e o que vemos? Fragmentos, átomos solares em múltipla atividade... .Já podemos olhar na escuridão cósmica, e o que vemos? Intensa atividade de fragmentação... O Kosmos fala por fragmentos... Só a energia que o sustenta é unívoca, infinita, ubíqua... Pois o texto Cosmogâmico é em torno e ao interior do texto que se vê... Só os silêncios do poema nos permitem a Sua aproximação...

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O Globo: Na nova edição de “Convite à filosofia”, há uma sugestão para que os alunos comparem o Mito da Caverna, de Platão, com o filme “Matrix”. Como elementos da cultura popular podem ser usados no ensino da filosofia? Marilena Chauí: Eles devem servir para fazer paralelos e reflexões da produção contemporânea. No primeiro “Convite à filosofia” eu usei a literatura brasileira para fazer esses paralelos. Professores amigos meus sugeriram que eu usasse algo mais próximo do cotidiano dos estudantes na nova edição do livro. Por conta disso estou ouvindo toda a produção atual de rap. Quero usar as letras das músicas para tratar de ética e política...ccxxv

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Se o fragmentarismo é a técnica estética de buscar-se a totalidade possível, o fragmentarista é o que fornece as pistas para esse possível... O leitor deve, nessa leitura, usar os trajes próprios à essa aventura: A Poética... A simples leitura de fragmentos já é um exercício artístico formidável: buscar a Totalidade “sentida” pelo autor... Ou insinuada... Até mesmo para que o leitor/observador, em parceria, ao texto una seus próprios fragmentos... Seus múltiplos sentidos, ritmos e sentimentos...

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De um passado que se faz distante ecoa um verso que fiz adolescente, parodiando uma canção dos Beatles (Eleanor Rigby, de Lennon e McCartney): Under my thumb/you will find a lot of things... then you’ll find... you’ll find me... Fragmentos de mim... Não será assim com todo o humano que se vai?... Não são fragmentos de vida, o que nos ocorre na hora definitiva? Átomos de pantimento em jogo lúdico – aproveitando/adaptando uma expressão original de Lillian Hellman – À medida que o tempo passa, a tinta velha em uma tela muitas vezes se torna transparente. Quando isso acontece, é possível ver em alguns quadros, as linhas originais: através de um vestido de mulher surge uma árvore, uma criança dá lugar a um cachorro e um grande barco não está mais em mar aberto. Isso se chama PENTIMENTO, porque o pintor se arrependeu, mudou de idéia. Talvez se pudesse dizer que a antiga concepção, substituída por uma imagem ulterior, é uma forma de ver, e ver de novo, mais tarde... ccxxvi Cujo sentido aproveito para representar a dialética do pensamento e sentimento a múltiplos tempos, e ainda lhe acrescentar o significado de explosão, derivada de uma multiplicidade de modos de ver, que resulta dessa união dialogal: átomos que circulam aos ventos sociais, polifonias que se encontram anonimamente, indivíduo e sociedade, e se tornam cultura. Pantimento é pan-poesia...

Tropicália ou Panis Et Circenses, não é por acaso que assim se titula o discomanifesto do Tropicalismo, reunindo os artistas da música popular brasileira, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão e Os Mutantes, um trabalho musical que inclui desde o tango/bolero de Vicente Celestino, ao frevo de João Antonio Wanderley, composições de Capinam, Tom Zé e Torquato Neto, tudo sob o arranjo e a regência do gênio de Rogério Duprat, um trabalho que, curiosamente, navega por caravelas outras que as de Pedro Álvares Cabral: Las Três Carabelas, em versão de João de Barros, referência direta àquelas outras, as de Cristóvão Colombo (Santa Maria, Pinta e Niña), que o conduziram à descoberta da América...

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Imagine-se o triplo golpe com que o Tropicalismo atinge as univocidades todas... A uma, o nacionalismo ufanista da ditadura militar... Em seguida, os diversos seguimentos de ação ideológica e política de cunho radical, então submetidos à divisão ideológica do mundo, num tempo em que qualquer referência positiva a América e aos americanos era tida como traição às esquerdas brasileiras organizadas... Enfim, ao espírito luso-colonizador dos diversos estamentos de poder da cultura brasileira...ccxxvii

A Tropicália, como autêntica overture da pós-modernidade brasileira, forma-se a partir das propostas estéticas lançadas pelo Movimento Modernista, por um lado, mais especificamente como um desdobramento do Manifesto Pau-Brasil, na medida em que absorve, mas de um modo mais explícito, antropofagicamente, elementos de cultura européia, e norte-americana, sem deixar de exaltar o nativo nacional como sua pièce de rèsistence – o índio brasileiro – aproximando-se, embora de um outro modo, da exaltação dos mitos indígenas, realizada pelo Movimento Antropofágico, de Oswald e Mário de Andrade e de Raul Bopp (Cobra Norato)...
De outra vertente, o Movimento da Bossa Nova, que já miscigenava o jazz americano à cultura musical brasileira, João Gilberto à frente, embora, no dizer do próprio Caetano Veloso a Tropicália tenha sido o movimento que nos anos 60 virou (desconstrução pós-moderna, pode-se acrescentar) a tradição musical popular brasileira, e a bossa nova, segundo ele sua mais perfeita tradução, pelo avesso... ccxxviii A Tropicália, no melhor sentido semanista, e no ainda mais eficiente antropofagismo cultural, exaltando radicalmente o elemento humano mais primitivo nativo das terras brasileiras, incorporando os elementos literários e musicais de todas as vertentes da cultura brasileira, do luso ao negro, do europeu ao norte-americano, especialmente as miscigenações já realizadas no interior da cultura brasileira, consegue, a um só tempo, incorporar essas todas vertentes, inclusive as interpretações relativas às conquistas da modernidade, como, por exemplo, os ideais libertários, contra todas os preconceitos limitadores do humano... Sem, no entanto, reduzir essa força unificadora a qualquer estereótipo (univocidade) apropriável por eventuais setores da sociedade que o tentem fazer... A Tropicália, pós-modernismo à vista, tornou-se o principal fator de desarticulação (desconstrução) de uma identidade baseada, seja na noção de nacionalidade, com as agruras de época tão conhecidas, seja com o olhar redutor de uma elite sócio-política mistificadora, e redutora, das reais virtudes do humano brasileiro... Um brasileiro musical, um brasileiro inteligente, um brasileiro plural, fundado na noção do elemento terra brasileira, na harmonia entre humano e natureza, o índio hiper-civilizado, um brasileiro pau-brasil, enfim, liga as vanguardas presentes na Semana de Arte Moderna às da Tropicália, da modernidade à pós-modernidade... A identidade cultural do que é o ser brasileiro ensaiava seus novos passos (ainda modernistas), quando talvez essa identidade já estava se tornando um elemento de redução do humano a dimensões por demais despiciendas (pós-modernistas), num mundo que então, hoje bem o sabemos, caminhava aos passos sorrateiros de uma globalização, mais que econômica, cultural... Não será mérito maior da cultura brasileira essa pluralidade e antropofagia a partir da vida do humano sobre a sua terra? Não será ainda muito mais civilizado (e

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civilizatório) o processo cultural que se conduz especialmente pela música enquanto seu discurso literário (Theory) mais cultural?

Ilustração de Arnaldo Baptista, 1999.

Música jamais excludente dos sons do humano sobre a terra, ao contrário, aglutinadora e miscigenadora dos vários elementos das mais diversas culturas?... Enquanto os demais discursos, pretendendo-se reais, ignorando serem tanto quanto fictos de interpretação, ainda estavam a gaguejar linguagens prontas de outras culturas, e como discursos prontos, prontos a aplicá-los, sem mediação antropofágica, como interruptor das luzes de um próprio modo brasileiro de pensar, interpretar e reinventar o mundo?... Ignorando que a cultura brasileira possui a mesma invejável virtude que tem feito a glória da cultura norte-americana, e ainda muito mais rica de possibilidades, fruto de nossa capacidade de miscigenação, a capacidade de absorver e incorporar as todas as conquistas culturais das diversas aldeias, desde as mais primitivas às mais ricas?...

Foto: Mara Fernandes, 1997.

Se a música popular vem se tornando a ponta de lança nesse processo de re-construção do discurso cultural brasileiro, o que se tem a fazer é ampliar essas interpretações através dos diversos outros discursos da cultura, muito mais importando realizá-la enquanto cultura de um novo mundo, mais justo, mais harmonioso, mais pacífico e,

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por que não dizer, mais prazeroso, mais musical, do que, propriamente, identificá-la, aos polegares luso-brasileiros, nos institutos félixpachecos dos globalizamentos...

Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento...
Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, composição vencedora do Festival da Record de 1967, título que não participa da sua letra, e com a qual o compositor pretendeu expressar a consciência de alegria imediata na fruição das coisas... Porque a alegria imediata de fruição das coisas é dos mais autênticos dos elementos da cultura brasileira... Que nós todos, nos dias difíceis de um hoje que se anuncia póstecnológico, de racionalismo galopante, devemos – e não há nenhum motivo, mesmo aqui e sempre, para deixar de dizê-lo – procurar cultivar...

Se sermos um nos deixa tristes, por que não sermos uns?...
Talvez seja essa vivenciação das multiplicidades, individual e coletiva, vocação pós-moderna, a melhor tradução do que é esse ser brasileiro... Especialmente num mundo em que o sol se reparte em “crimes” pós-modernos...

ccxxix

MANGUEBEAT, MANGUETOWN, AFROCIBERDELIA: ou,
A PÓS-MODERNIDADE NA BOCA DO POVO...
Dado empírico: de uma mistura de estilos e sons surge em Recife uma movimentação cultural pós-moderna que se instala (violentando a perversa tradição luso-colonialbrasileira de imposição unidirecional, de cima para baixo, alheio às ricas possibilidades de troca multidirecional e oxigenação cultural), como um movimento popular fundado numa polifonia de raízes locais, mesclada à polifonia popular de mídia especialmente norte-americana... Dado empírico do que seja a pós-modernidade, vocação brasileira...

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Ilustração: Helder, 1993.

A impressionante (e necessária) invasão dos homens-caranguejos (aspectos ficcionais e políticos do manguebit) No texto Arqueologia do Mangue,o jornalista Renato Lins relata que certa vez encontrava-se com alguns amigos em um bar bastante freqüentado na época no Recife, não sabe ao certo se o ano era 1991 ou 92, quando chegou o até então conhecido como Chico França numa mesa repleta de cervejas e deu o seguinte depoimento:”mixei uma batida de hi-hop com o groove do maracatu e ficou bem legal. Vou chamar essa mistura de Mangue”. No entanto, num outro artigo, Renato L. explica que o percurso musical de Chico Science iniciou mais cedo. Nos inícios dos anos 80, “o garoto Francisco França ganhava uns trocados durante o dia fazendo ‘biscates’ na vizinhança, para garantir a entrada nos bailes funkies dos finais de semana. Seus ídolos eram James Brown, Sugar Hill Gang, Kurtis Blown. Grand Máster Flash e outros grandes nomes da Black Music”. Em 1984, Chico passou a integrar a Legião Hip Hop, uma das principais gangues de dança das ruas do Grande Recife. Sua primeira aventura como músico ocorreu três anos mais tarde numa banda chamada Orla Orbe que teve uma curta existência. No final da década, passou a integrar o grupo Loustal, cujo o nome era uma homenagem ao quadrinista francês Jacques de Loustal. Nesse grupo, Chico já começava a dar mostras das suas potencialidades para a criação de novos sons, propondo mesclar um rock ao estilo dos anos 60 com elementos do soul, do funk e do hip-hop. Segundo Renato L., neste momento: “Francisco França já começava a se transformar em Chico Science, o cientista dos ritmos, o rei das alquimias sonoras”. “Cascos, cascos, cascos

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Multicoloridos, cérebros, multicoloridos Sintonizam, emitem, longe Cascos, cascos, cascos Multicoloridos, homens, multicoloridos Andam, sentem, amam Acima, embaixo do mundo Cascos, cascos, cascos Imprevisibilidade de comportamento O leito não-linear segue Pra dentro do universo Música quântica?”ccxxx A resposta para essa pergunta revela a face mais curiosa e menos conhecida do Manguebit. Para inventar uma cena, os ideólogos do Mangue já tinham à disposição exemplos históricos, como o próprio movimento punk. Há de se convir, no entanto, que seria muito fácil tocar um projeto cultural numa metópole pós-moderna como Londres do que numa cidade pós(?)-coronelista como Recife. Mas a coisa aconteceu. E aconteceu da forma mais fantástica que poderia ter acontecido. A cena Mangue não foi criada apenas como uma crítica objetiva ao sistema e as estruturas de poder (o que ocorre sem dúvida, e num momento posterior até de forma mais explícita). Ela partiu de um delírio ficcional feito para história em quadrinhos, de uma criação gráfica elaborada pelos artistas Helder Aragão (hoje conhecido como DJ Dolores) e Hilton Lacerda que na época formavam a dupla Dolores & Morales. Tal como Kafka em A Metasmorfose ou como Arrigo Barnabé em Clara Crocodilo, a trama dos quadrinhos contava uma história absurda, na qual os indivíduos de uma localidade estavam se transformando em homens-caranguejos. Como? Os próprios quadrinhos narram a causa da metamorfose: “O relatório da OMS apontou o verdadeiro motivo dessas transformações. Segundo a respeitada instituição, tudo começou quando uma grande fábrica de cerveja resolveu se instalar sobre o aterro de um manguezal. A água utilizada no fabrico da bebida estava contaminada com resíduos tóxicos, provenientes da baba do caranguejo. 8O referido crustáceo decápode produziu tal substância por ficar exposto aos raios ultra-violeta do sol, sem protetor. Além disso, a afrociberdelia levou a população a movimentar-se de maneira tal, que findou por condensar e dimensionar esses ingredientes”. Mais absurdo parece impossível. No entanto, as idéias para alimentar tal delírio partiram de uma outra ficção que tinha como base uma dura realidade dos manguezais: o ciclo do caranguejo. Tal ciclo foi narrado de uma forma impressionante pelo geógrafo Josué de Castro – muito mais conhecido por sua obra de cunho humanista e político (Geografia da Fome tornou-se um clássico para os estudos sociais) – no romance Homens e Caranguejos: “os mangues do Recife são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita para o homem com tudo para bem servi-lo, o mangue foi feito essencialmente para o caranguejo. Tudo aí é, ou está para ser caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros

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resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela, cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fabricando com a lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado, o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber seus cascos até que fiquem limpos como um copo e com sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a do corpo de seus filhos. São duzentos mil indivíduos, duzentos mil cidadãos feitos de carne de caranguejos.O que o organismo rejeita volta como um detrito para a lama do mangue para virar caranguejo outra vez”.ccxxxi

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Está claro que o fragmentarismo é uma estética (que já pressupõe uma ética), uma epistemologia, que já supõe uma lógica... O fragmentarismo é ainda uma παιδευµα, no sentido de que é uma ciência, um saber, uma articulação singular e polifônica do conhecimento, aos muitos modos de ler o mundo, de maneira que o próximo homem (ou geração) possa encontrar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos...ccxxxii

Capa: Eugênio Hirsch, 1977

O Ulisses de Joyce é o grande exemplo de articulação entre o Todo e o Múltiplo: como deve ser o discurso fragmentarista, em que a totalidade apresenta-se, como fato poético, oculto aos olhos que presos somente no texto-tema. Os muitos discursos de Joyce aparecem em Ulisses fragmentados, desencontrados, como fluxos de narrativa do inconsciente e da memória viva, alternando informações do cotidiano e de erudição, em que a pluralidade dos elementos da vida humana se encontra e se desencontra sem qualquer hierarquização... Acolhendo os muitos modos de ler o mundo, o escritor

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irlandês carnavaliza o tema épico de Ulisses e fragmenta os discursos (ao interior mesmo dos monólogos de suas personagens, tal qual a fragmentada polifonia da vida interior de qualquer um) à maneira polifônica de apresentar as suas muitas estórias, tematizadas a partir de uma leitura (e transliteração) nem linear nem unívoca do clássico de Homero...ccxxxiii A cidade, heroína maldita de toda a sua obra, lhe parece um labirinto, de onde sua personagem Stphen Dedalus precisa escapar, assim como o mitológico Dédalo escapara do labirinto de Creta. Era a idéia central de “Ulisses”, concluído em Paris, em 1921, editado pela jovem americana Sylvia Beach, especialista em obras de vanguarda. Mas a censura está vigilante: as autoridades americanas queimam quinhentos exemplares, as inglesas inutilizam outro tanto. Só em 1933 o livro será liberado... A ação de “Ulisses” transcorre em Dublin num único dia, 16 de junho de 1904...A linguagem utilizada por Joyce, que vai do poema à ópera, do sermão à farsa, contém não apenas termos usuais – da prosa clássica à mais grosseira gíria - , mas também elementos criados pelo escritor com base em seus conhecimentos de latim, grego, sânscrito e uma vintena de idiomas modernos...Na organização dos vários estilos e das múltiplas formas literárias, Joyce segue a técnica do monólogo interior: o fluxo da memória e do inconsciente de personagens que pensam em voz alta, revelando assim toda a complexa trama da existência, Em verdade, estabelecendo um paralelismo com a “Odisséia” de Homero (Século VIII a.C.), Joyce cria uma grande viagem experimental ao mundo de hoje, obtendo vigorosa síntese de suas descobertas científicas, seus problemas raciais, religiosos, estéticos, sexuais... ccxxxiv

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O fragmentarismo contempla a possibilidade de cada pensamento, com seus sentimentos subjacentes, torne-se mais consciente, mais saber, na medida em que também promove uma aproximação com o real fragmentário por um humano fragmentário... Pois é lógico que não se obterá senão parcela ínfima de conhecimento (sempre fragmento) se não se considera as diversas partes que transitam em torno o fragmento de realidade, sobre o qual se tenta discernir... O fragmentarismo contempla a possibilidade de cada pensamento ser expresso por seu correspondente humano pensante, que a retórica da linearidade inviabiliza por sua necessidade de costurar fragmentos arbitrariamente selecionados, linearizando o ilinearizável, a partir de uma retórica pré-estabelecida pelo autor em função do seu relacionamento com as demais vozes (em geral cânones sociais, artísticos, culturais...)... Que se obriga assim podá-los, resumi-los, interpretá-los, transliterá-los (os fragmentos), com evidente perda (por vezes até à emasculação) da manifestação intelectual original... A boa e velha “citação”, in casu, prossegue cumprindo melhor esse papel, proporcionando aos leitores separar joios de trigos conforme suas próprias experiências intelectivas. Mas que não se iludam os apressados: tudo há de convidar à atividade dialogal, multidialogal, pluridialogal... O autor será, então, e ainda, um

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articulador dessas plurivocidades todas, juntando-se a elas em suas próprias vozes, em direção, que até pode ser unívoca e linear na intenção, se o que se busca é um melhor caminho para o conhecimento (sempre pleno de pluralidades fragmentárias), desde que daí não resulte desfragmentação, nem do discurso nem, muito menos, do tema (seja no real, seja no ideal). Afinal, se o autor (pensador) que se resume já o disse, como melhor se exprimia a sua percepção conceitual, qual motivo suficientemente forte para substituí-lo em dizer?... Ao preservar-se a originalidade de pensamento de cada tese no discurso, apenas juntando-se a elas novos fragmentos em igual originários, fazemo-nos todos, autores e leitores, parceiros na grande aventura do conhecimento... Jamais servos, ou papagaios, de palavras alheias... Obras tais que essas últimas, podem ter lá o seu valor; mas que não se substituam jamais às perplexidades – e nos basta o convite às múltiplas respostas – obtidas na lógica fragmentarista... Em se tratando de teoria da arte, é mesmo uma pretensão inominável...

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O mundo é um e múltiplo. O mundo é a vontade de poder. Pode-se suspeitar, de acordo com isso, que também a vontade de poder é um e múltiplo... O um, como teológica e metafisicamente fundante, é recusado por Zaratrusta. Ele denomina “malvadas todas essas doutrinas do um” Também o um não é, para Nietzsche, de modo algum, “o simples”. “Tudo o que é simples é meramente imaginário, não é ‘verdadeiro’, nem é um, nem é redutível a um... A multiplicidade acede ao primeiro plano. Só uma multiplicidade pode ser organizada em unidade. Trata-se, no múltiplo organizado, de “quanta de poder”, se, pois, o único mundo não é nada mais que vontade de poder... A vontade de poder é a multiplicidade das forças em combate umas com as outras... O mundo de que fala Nietzsche revela-se como jogo e contrajogo de forças ou de vontades de poder. Se ponderamos, de início, que essas aglomerações de “quanta” de poder ininterruptamente aumentam e diminuem, então só se pode falar de “unidades” continuamente mutáveis, não, porém, da unidade. Unidade é sempre apenas organização, sob a ascendência, a curto prazo, de vontades de poder dominantes... ccxxxv

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As teses pós-modernas, as teses fragmentaristas, como é próprio da Teoria Literária da Cultura, se provam no processo mesmo em que são colocadas, em que existem como processo e procedimento, nas ficções que formam a vida humana... 1001 usos para um barômetro Engenhosidade de um aluno supera expectativa do mestre

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Ilustração: Cruz, 2002

Algum tempo atrás, recebi um chamado de um colega que me pediu para arbitrar uma questão referente à avaliação de uma pergunta de prova. Ao que parecia, ele estava a ponto de dar zero a um aluno numa questão de Física, mas o estudante alegava que merecia nota máxima e que queria ganhar um dez mesmo, mas que não ganharia porque o sistema de ensino era uma armação contra os alunos. Dirigi-me ao escritório desse meu colega e li a questão, que dizia simplesmente: “Mostre como é possível determinar a altura de um arranhacéu com a ajuda de um barômetro.” (que, como se sabe, é um instrumento que mede a pressão atmosférica.) A resposta do aluno: “Leve o barômetro até o topo do prédio, amarre nele uma longa corda e vá baixando-o até a rua. Depois puxe-o de volta e meça o comprimento da corda, que será igual à altura do edifício”. Bem, é uma resposta interessante, mas será que o rapaz deveria receber pontos por ela? Argumentei que ele até merecia, já que respondeu à questão completa e corretamente. Por outro lado, se recebesse a nota máxima, isso contribuiria para aumentar seus pontos gerais no curso de Física. Um alto número de pontos certificaria que o estudante é bom em Física, mas a resposta dada pelo aluno não confirma isto. Com estas considerações em mente, sugeri que se desse a ele uma outra chance. Achei natural que meu colega concordasse – mas me surpreendi quando o aluno topou a parada. Agindo nos termos do acordo, dei ao estudante seis minutos para responder à questão, com a advertência de que a resposta deveria comprovar algum conhecimento de Física. Ao final de cinco minutos, o sujeito ainda não tinha escrito nada. Perguntei-lhe então se queria desistir, já que eu tinha uma aula para dar em seguida, mas ele disse que não desistiria. Contou-me que tinha tantas respostas para o problema que estava apenas pensando em qual seria a melhor. Desculpei-me por tê-lo interrompido e pedi que prosseguisse. No minuto seguinte, ele rapidamente escreveu sua resposta: “Leve o barômetro até o topo do edifício e incline-se no telhado, deixando cair o aparelho até o chão, e meça o tempo de queda com um cronômetro. Então, calcule a altura do prédio usando a fórmula S = metade de ‘g’ (aceleração da gravidade) vezes o tempo ao quadrado”.

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Diante disso, perguntei ao meu colega professor se ele se dava por satisfeito. Ele cedeu e dei ao rapaz quase a nota máxima. No entanto, ao deixar o escritório, lembrei-me de que o estudante havia mencionado ter outras respostas para o problema e fui lhe perguntar quais eram. Ele respondeu que existem muitas maneiras de determinar a altura de um prédio usando um barômetro. Num dia ensolarado, por exemplo, poder-se-ia medir a altura do barômetro, o comprimento da sua sombra, o comprimento da sombra do prédio e – valendo-se de uma simples regra de três – calcular a altura da construção. Pedi mais outra solução e ele veio com um método extremamente básico, mas funcional. Pegaria o barômetro e subiria as escadas do prédio, marcando verticalmente na parede a altura do instrumento, subindo a cada marca. Quando chegasse ao telhado do edifício, bastaria contar as marcas e multiplicar pela altura do barômetro. Um método bem direto. Depois disso, ele apresentou uma solução mais sofisticada, em que penduraria o barômetro num fio e o faria oscilar como um pêndulo. Com isso, determinaria o valor de ‘g’ no térreo e depois em cima do prédio. Pela diferença entre os dois valores de ‘g’, a altura do arranha-céu poderia, a princípio, ser calculada. O estudante concluiu, sempre brilhante, que se não estivesse limitado a soluções para o problema que usassem conhecimentos de Física, poderia levar o barômetro até o escritório do zelador do prédio e dizer para ele: “Sr. Zelador, tenho aqui um lindo barômetro de alta qualidade. Se o senhor me disser a altura deste edifício, eu lhe darei o barômetro de presente”. Neste ponto não agüentei e perguntei ao estudante se ele realmente não sabia a resposta correta do problema. Ele admitiu que sim, mas que já estava de saco cheio com os professores tentando ensiná-lo como deveria raciocinar e usar seu pensamento crítico, em vez de lhe mostrarem a estrutura fundamental do tema e deixá-lo livre para encontrar soluções originais e criativas. Assim, ele decidiu dar esta sacaneada no mestre.ccxxxvi

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A pós-modernidade abre a caixa de pandora da sexualidade humana ao reconhecimento das múltiplas possibilidades de relacionamento e prazer sexual, sem que disso resulte qualquer transtorno às relações sociais... Só o reconhecimento do humano como um ser fragmentário, jamais unívoco, permite o livre fluir das sexualidades humanas... No conjunto de tantos fragmentos que formam o indivíduo, dão-se as mãos aqueles tais que encontram ressonância nos de outrem, este como uma individualidade em igual fragmentária... Assim os relacionamentos se formam, se conformam, se deformam e se abandonam, ou mesmo se estabilizam, na medida mesma dessas relações fragmentárias... A conseqüência é que a sexualidade, considerada apenas em si, desprende-se do núcleo para a periferia das relações sociais...

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ccxxxvii

A fuga do mundo moderno assume uma forma diferente na obra de Francesco Clemente. Em vez de escapar para um passado idealizado (tornado mais simples para os neo-expressionistas italianos pela existência de uma herança artística praticamente irresistível), Clemente voltou-se para o seu interior. Ele mistura as tradições ocidentais com as orientais – especialmente da arte e filosofia hindus – para criar obras que sugerem a experiência do mundo como uma extensão do ego. Clemente emprega motivos de fontes tão diversas quanto o cristianismo, o tarô, a alquimia e astrologia, mas seu tema recorrente é a sua própria face e corpo, muitas vezes com ênfase nos orifícios físicos. Grande parte da obra expressa uma sexualidade andrógina, autoerótica e polimorfa, que evidencia ao seu interesse por ioga tântrica. Sol da meia-noite (fig. acima), por exemplo, é cheio de símbolos, com múltiplas camadas, que representam uma espécie de transcendência espiritual pelo sexo. Três figuras entrelaçadas, uma delas com os olhos vendados, são circundadas por um mar de olhos que também sugerem vaginas. Talvez seja uma referência a uma lenda hindu do deus Indra, que foi punido por uma indiscrição sexual e teve o corpo coberto com marcas do yoni, ou vagina, que depois se transformariam em olhos. Porém aí, cada uma apresenta uma pequena vela. Quando as pequenas embarcações partem para lugares desconhecidos, parecem assumir a forma de um conhecimento inspirado sexualmente e que emana das figuras centrais...ccxxxviii Erotismo e pornografia, enquanto ética maniqueista, vêm apagando as suas mútuas fronteiras, no pós-modernismo, na medida em que o exercício das preferências sexuais em nada mais determina a ética sócio – ora fragmentários – individual... Na pós-modernidade o livre curso de fragmentos sexuais em cada um, salvo os perigos da violência (que faz do sexo mero instrumento, como uma arma, descaracterizando-o como atividade sexual), e dos estados patológicos obsessivos (violência ideológica que também descaracteriza a atividade), inclui-se tão somente na esfera individual de cada qual... Na pós-modernidade, a exploração dos limites da sexualidade individual, fragmentos do Eros Absoluto, abre caminho para a separação entre sexo e Estado, entre sexo e Religião, entre sexo e Moral... Estabelecendo que vingue, afinal, a inata autenticidade das múltiplas fronteiras estéticas (o que pressupõe múltiplas éticas)... Tanto quanto as múltiplas fórmulas de comércio sexual, se considerarmos as possibilidades que o

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cinema vem apontando, via desenvolvimento de uma realidade virtual, para além ainda mais das pornowebs... – Diga, alguma vez se ligou? Fez uma viagem eletrônica? – Não... não... – Um cérebro virgem. Ótimo. Vamos começar bem. Diga o que sabe sobre isso. – Só o que eu li. O FBI aperfeiçoou isto para substituir o microfone no corpo. Agora vendem no mercado negro. – Exatamente. Esta conversa não está acontecendo. – Pode crer. – Ótimo. – Então, me dá o gravador? – Dou um a preço de custo. Ganho com “software”. – Clips, hein? – Certo, certo. – Olha, quero que saiba exatamente do que estamos falando... Não é “como na TV, mas melhor”... Isto é a vida real... É uma parte da vida de alguém. Pura, sem cortes... direto do córtex cerebral. Você está fazendo... Está vendo, ouvindo, sentindo. – Que tipo de coisas? – O que quiser. Quem você quiser ser. Se quer esquiar da sua sala, pode. Mas alguém como você se quer esquiar vai a Aspen. Não está interessado nisso. Quer o que não pode fazer. O fruto proibido. – Entrar numa loja com um magnum .357 com a adrenalina bombeando. Ou... Vê aquele cara com uma bela garota? Não gostaria de ser ele durante vinte minutos? – Sim... – Você pode, sem manchar a sua aliança. – Parece bom (coçando a aliança) – Consigo o que você quiser. Só tem que falar comigo e confiar, está bem? Porque sou seu confessor. Seu psiquiatra.Sou sua ligação com o comutador de almas. Sou o Mágico. O Papai Noel do subconsciente. Diga, pense e pode ter. Quer uma garota? Duas garotas? Não sei qual é sua curiosidade. Quer um cara? Quer ser uma garota? Pense nisso. Ser uma garota. Ver como é. Talvez queira que uma mulher o amarre. Tudo é possível...(...) – Vai ser uma grande noite, não sente? Pode-se ganhar grana, vender sonhos (referindo-se a “clips”, fitas de um gravador que se liga diretamente ao cérebro, através de uma “rede” de cabeça, proporcionando ao “ligado” viver, como se realidade seja, com todas as ações e reações físicas e mentais da pessoa “gravada” em atividade real) – É pornografia... ( Macey, seriamente contrariada) – Isso é ignorância. Vendo experiências. Faço um serviço humanitário. Talvez salve vidas. – Queria ver isto... (irônica)

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– Todos devem fazer algo proibido. Somos assim. Mas agora o risco é muito grande. A rua é um campo de batalha. Sexo mata. Você põe a “rede” e consegue o que precisa. Quase como a realidade e mais seguro. – É pornografia. Você vende a “rede-viciados”. – Você está muito severa...e isso é falso. Meus clientes são profissionais. Alguns são até celebridades... ccxxxix A pornografia institucionalizada, a pornografia de violência, a pornografia de estados obsessivos, que se incrementa no bojo da pós-modernidade, é em verdade uma reação ao livre curso das sexualidades...

ccxl

É uma velha sexualidade tentando ainda fixar os limites de uma univocidade que não aceita perder o império das velhas dicotomias... É uma velha economia sexual versus uma nova economia sexual...

ccxli

A pornografia institucionalizada mantém, através de mixagens de imagens bizarras com simples manifestações fragmentárias de sexualidade natural, com nomenclaturas tais que “sick sex”, “sin sex”, “insane sex”, etc., que o sexo siga envolto pelos véus da culpa e da marginalidade, mesmo da para-ilegalidade (e aqui não se fala, é óbvio, das violências sexuais, que têm muito de violência e raro ou nada de sexual (sexo como instrumento do abuso de poder...)... Como um modo de sustentação de uma moralidade que, na pós-modernidade, se vai fazendo cansada... De outro lado, matérias de revista, tanto femininas quanto masculinas, dão uma aura de normalidade a exercícios sexuais que, em última análise, leva o sexo para a fria ração das motivações que não correspondem necessariamente aos anseios individuais, como receitas de bolo de aniversário...

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Enfim, são fragmentos de sexualidade que se vão afastando do eixo de uma antiga sexualidade exemplar, que pressupunha uma identidade sexual única entre todos os múltiplos indivíduos, identificados apenas pela razão carnal...

De toda maneira, pouco a pouco o erotismo vai incorporando a si elementos que eram de domínio exclusivo da pornografia...

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No lugar de tratar a sexualidade como um aspecto altamente especializado da experiência humana, uma força em ação na vida das pessoas em certos momentos, Freud mostra sua infiltração, fazendo de uma teoria da sexualidade uma precondição para entender o que poderia ser eminentemente não-sexual... O não-sexual torna-se uma versão particular do que Freud chama de “sexualidade alargada”ccxlii. Essas reversões desconstrutivas, que dão um lugar privilegiado ao que fora considerado marginal, são responsáveis por muito do impacto revolucionário da teoria freudiana. Tornar aquele singular monstro, Édipo, no modelo do amadurecimento normal, ou estudar a sexualidade normal como perversão – uma perversão instintiva – é um procedimento que até hoje não perdeu sua força de escândalo. O exemplo mais geral da desconstrução de Freud é certamente o deslocamento das oposições hierárquicas entre o consciente e o inconsciente...ccxliii “É essencial abandonar a supervalorização da propriedade de ser consciente, antes que seja possível formar qualquer visão correta da origem do que é mental... o inconsciente é a esfera maior, que inclui dentro de si a esfera menor do consciente. Tudo o que é consciente tem um estágio inconsciente preliminar, enquanto o que é inconsciente pode

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permanecer naquele estágio e, ainda assim, exigir ser visto como tendo valor pleno de um processo psíquico. O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica... ccxliv

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Sou poeta Apenas poeta Nada mais que poeta Quando jogo meus dados Quando lanço meus dardos Quando me faço de galo Quando me fazem de pato Quando falo, quando talho Sou poeta Apenas poeta Nada mais que poeta Quando me firo nos cios Quando me ardo de amor Quando dos altos me grito Quando me faço menor Quando sou caminho Quando sou dor Sou poeta Apenas poeta Nada mais que um poeta Tudo mais é contradança Tudo mais é peripécia...ccxlv

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DISCIPLINA SEM DISCIPLINA Uma das constatações recentes de Jonathan Culler segundo a qual “one of the most dismaying features of theory today is that it is endless” (Culler, 1997, 15), em princípio expressão de desalento diante do cenário expansivo e indomável das práticas teóricas complexas e difíceis no terreno dos estudos da literatura, no último esforço de atualização ensaiado pelo autor, transforma-se paradoxalmente em animado convite ao divertimento e ao prazer: enjoy! Como se explica esse inesperado otimismo, contrariando não só a costumeira sisudez e certo pessimismo cultural na área, mas também a reação usual de desconforto face a uma disciplina (des) caracterizada pela imensa diversidade de seus interesses e sem muita certeza quanto aos conteúdos e formas de seus objetos de investigação e , muito menos, quanto à própria relação que deveria ter com estes? A publicação de Literary Theory, em 1997, na série “A Very Short Introduction”, da Oxford University Press, apresenta-se declaradamente como introdução acessível a uma ampla variedade de temas e termos da reflexão contemporânea sobre questões centrais acerca do fenômeno literário.

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Nos estudos literários e culturais circula hoje menos o termo teoria da literatura. Usamos com muito mais freqüência apenas teoria, ou “just plain theory”, como diria Culler (Culler, 1997,1). Neste sentido, não se privilegia uma teoria singular, mas acentuamos a condição da teoria como prática ao mesmo tempo específica e geral, “something you do or don’t do” (1997,1). Para Culler, theory nos estudos literários não corresponde à investigação da natureza da literatura ou a métodos analíticos produzidos especialmente para uma análise de textos literários individuais, ainda que estes façam parte dela. O seu projeto não se limita a textos literários e suas possíveis marcas de distinção, mas, entre outros, procura até argumentos para tentar explicar as inexplicáveis razões da alegria que motiva as nossas preocupações com literatura. A sua pergunta “what is involved in treating things as literature in our culture?” remete ainda à convicção de que o termo literatura corresponde a um rótulo institucional que nos permite esperar que os resultados dos esforços investidos na leitura tenham pelo menos alguma forma de valor (Culler, 1997,22). É nesta perspectiva ampla que precisamos entender esse seu programa teórico: “It’s a body of thinking and writing whose limits are exceedingly hard to define” (1993,3). Este novo gênero em desenvolvimento – que, citando Richard Rorty, “is neither the evaluation of the relative merits of literary productions, nor intellectual history, nor moral philosophy, nor epistemology, nor social prophecy, but all of these mingled together in a new genre” – é endossado por Culler, então, pelo acento sobre a palavra sem adjetivação específica. Teoria, nesta perspectiva, é vista como gênero a partir da forma de seu estudo: for a da própria matriz disciplinar (1987, 8). Transformações na esfera epistemológica, estética e política facilitaram também a emergência efetiva do estudo das literaturas das mais diversas minoridades. As discussões sobre essas formas de expressão literária – por exemplo, black, hispânico, afro-americano, nativo, gay, - colocam hoje problemas complexos para os vínculos entre identidades culturais de grupos particulares, seja com a tradição, seja com o programa liberal da celebração da diversidade cultural e do “multiculturalismo” (1997, 131) Theory – “as we call it” – representa, por um lado, uma atividade especificamente acadêmica, mas dentro da universidade se comporta de forma transdiciplinar, porque desafia fronteiras em função das quais se legitima normalmente a estrutura universitária. De modo geral, as disciplinas reinvindicam o direito de julgar trabalhos que se situam no interior de seus limites específicos, mas Culler enfatiza, ao contrário, que “in practice, theory contests the right of psychology departments to control Freud’s texts, of philosophy departments to control Kant, Hegel, and Heidegger” (1997, 96). No final dos anos 1990 o nome theory, que duas décadas batizava timidamente esse novo gênero mestiço por falta de outras opções mais convincentes, institucionalizou-se em sua mais recente publicação, ainda que Culler mantivesse, curiosamente, um título tradicional: Literary Theory (1997)

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No pequeno compêndio de imensa circulação, o autor radicaliza as suas convicções hipotéticas anteriores ao reforçar a idéia de um gênero particular – uma disciplina sem disciplina – referido a obras que desafiam e reorientam o pensamento em esferas distintas dos campos de saber de sua aparente pertença. Esse tipo de explicação, que circunscreve a teoria como atividade cujos efeitos práticos se manifestam além do seu território de origem, parece captar a situação geral de grande parte dos discursos teóricos a partir dos anos 1960, mas de modo específico, e com mais pertinência, os discursos teóricos nos estudos da literatura quando estes passaram a ser elaborados explicitamente fora do seu berço disciplinar, mas apropriados por este à medida que as suas análises da linguagem, da mente, da história ou da cultura ofereceram perspectivas persuasivas para solucionar problemas textuais e culturais percebidos dentro do seu próprio espaço (1997, 3). ¨Theory in this sense is not a set of methods for literary study but na unbounded group of writings about everything under the sun, from the most technical problems of academic philosophy to the changing ways in which people have talked about and thought about the body” (1997,4). Uma das marcas deste tipo de pensamento transformado em theory emerge, deste modo, nas formas revisionistas da reflexão sobre tópicos alienados do seu berço disciplinar. Em outras palavras, trata-se de um modo de entender a atividade teórica como elaboração de molduras novas e adequadas para um pensamento sobre discursos em geral. A teorização equivale, nesta visão, à elaboração de um conjunto de discursos indomáveis, ou nas palavras de Culler, à escrita de um livro de textos não encadernáveis, que crescem sem parar em função das próprias críticas a concepções vigentes, por causa das contribuições de novos pensadores à teoria e por causa da redescoberta de obras antigas invisíveis ou negligenciadas em seu tempo...ccxlvi

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É no cinema que a pós-modernidade mais exibe as múltiplas facetas da realidade, tempo e espaço fragmentados, em contraposição aquela visão unitária em vias de superação... E o faz com tamanha contundência que torna claro o formidável confronto de forças que ocorre ao interior da civilização ocidental: pluralidade ou univocidade, eis a pós-moderna questão... Em Show de Truman, assistimos a uma brilhante metáfora para o caráter ficcional de qualquer realidade que se mostra unívoca, linear: esta só é possível enquanto vida despida de livre-arbítrio, enquanto vida artificial, vida que não é vivida de acordo com a natureza de cada qual, mas como um pastiche do que seja o acidentado caminhar da vida individual, tal qual a social... Show de Trumam (The Truman Show) também exibe a vontade de poder dos absolutistas em criar o tipo de vida perfeita, iluminista, em que as mazelas da vida são evitadas através de uma organização que, se subtrai essas mazelas, leva com elas a própria existência humana...

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Viver a vida real é sempre atravessar os escuros portais do futuro a cada instante, em que a absoluta ausência de riscos acaba por eliminar a seiva vital do humano...

ccxlvii

Em Show de Truman, mais que a clonagem do humano é a própria vida que é clonada, vida criada artificialmente, vida virtual, em que o humano – real – passa a transitar por uma virtualidade, temporal e espacial, como um modelo de vida perfeita...

ccxlviii

Show de Truman mostra um modelo de vida perfeita em que o humano, a começar pelo sucesso – valor absoluto para os mundanos telespectadores – vive um conto de fadas pós-moderno: alcançando a vida perfeita, protegido e admirado pela sociedade, na medida em que se faz personagem, personagem que se substitui ao humano...

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Sujeito que se faz objeto... Acaba por escolher correr os riscos da fragmentária e polifônica vida humana... Show de Truman é um golpe radical nos absolutismos, na regulação só racional da vida, quando se mostra que qualquer vida estabelecida na perfeição dos absolutos será sempre menos vida que a vivência fragmentária, imperfeita – no filme, representada pelos telespectadores do show – que, afinal, tem as vidas livres para, ao menos, trocar de canal... Não há mesmo qualquer vantagem em se substituir a uma vida cotidiana, pessoal, a uma vida em que o sucesso, sempre ligado a uma visão linear e unívoca das experiências, torna impessoal, artificial, a existência... Em que o humano se faz objeto social, em que o indivíduo perde a sua condição de sujeito das suas próprias histórias... Essa é outra das lições da pós-modernidade, em que a marginalidade se torna a opção natural dos que, conscientes das ilusões da Razão Unívoca, desejam viver suas existências pluralizadas...

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Em Matrix, embora a retórica unívoca, e uma estética de fundo que desatenta, alheia ao fragmentarismo como uma condição (própria à pós-modernidade) da abertura dos sistemas organizaçionais que, em essência, prega (de resto esplendidamente), pode-se dizer que se coloca no limiar da passagem da modernidade para a pós-modernidade: de um lado, o combate acirrado do Sistema Unívoco, Absoluto, Estatal; de outro a busca de libertação individual e do social como um conjunto fragmentário de individualidades... Matrix, o filme, acerta em preparar o caminho para o início da condição pós-moderna, retrato das grandes batalhas que vão se travando no mundo pós-moderno, a destruição do Sistema Absoluto... mas ainda repousa nas fronteiras do que a realidade pósmoderna vem apresentando de passagem dessa dissolução dos poderes unívocos para a construção de uma realidade fragmentária... Embora, naturalmente, as respectivas mazelas, univocidade versus fragmentariedade, ainda dêem o tom dessa vida em devir... Afinal, o fragmentarismo é um dos muitos modos de ler, assim a univocidade, e a inteligência humana acaba por exercer tal qual as necessidades... E não será isso mesmo o pós-modernismo? Que importa a retórica da univocidade, ou se bem posta aos fragmentos, se, afinal, recebemos todas as inteirezas como partes de uma verdade sempre maior, sempre mais para allá?...

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A seguinte imagem da posição do homem na sociedade (ou da sociedade enquanto conjunto de homens) é possível: tecido que vibra com informações que pulsam. Tal tecido pode ser imaginado como sendo composto de fios que transportam mensagens (“canais” ou mídia). Em seguida é preciso imaginar que tais fios se cruzam de diversas maneiras, e que informações se represam e misturam em tais pontos de cruzamento. Tais

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nós podem ser chamados “emissores e receptores”, ou “espíritos”, ou “intelectos”, ou com denominação que dependerá da preferência de quem aplica tais etiquetas. Quem conseguir tal feito de imaginação (o qual é fácil somente à primeira vista) terá elaborado modelo útil para a orientação na crise que nos engloba...ccxlix

* MATRIX, o filme
Para muitos Matrix é só um filme de ficção científica, nos estritos moldes dos filmes do gênero, nada mais. Com efeito, essa é a primeira leitura que se usa fazer. Pois se trata de uma história que mistura noções de tempo, a ação se passa entre um tempo presente (virtual) e um tempo futuro (real); noções de espaço, espaço real e espaço virtual; domínio, controle e utilização das máquinas pelos humanos; e domínio, controle e utilização dos humanos pelas máquinas; transferência de humanos entre duas realidades distintas: da realidade da vida material à realidade da vida virtual e vice-versa; e, como se não bastasse, a possibilidade do apocalipse, a extinção da espécie humana e da sua cultura. Nesse teor, o filme repete elementos já explorados em toda uma série de filmes de ficção científica, elementos dentre os quais se pode destacar os mais óbvios...

ccl

Primeiro, no que respeita ao superdesenvolvimento das máquinasccli, que resulta na criação e aperfeiçoamento de uma inteligência artificial, de toda uma geração de robots e cérebros eletrônicos que acabam se sublevando contra os humanos... Ou seja, a arquetípica equação criatura versus criador, de Adão e Eva, os desobedientes, a Lúcifer, o anjo rebelde, de Frankstein ao supercomputador de 2001-Uma Odisséia no Espaço, essa sublevação mitológica encontra-se presente em todas as culturas, desde a

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tradição greco-romana aos mitos orientais, e a filmografia a respeito, como não poderia deixar de ser, é pródiga em exemplos... Em Matrix, o filme, a identificação da desobediência como um mal que acaba levando o humano à inversão psicológica de retorno ao estado da natureza, e, assim, ao fim da cultura, e conseqüentemente, do que constitui o ser humano, é transferida para a máquina, agora inteligente, ou seja, humanizada, no mesmo rol de preocupação de preservação e sobrevivência do humano e sua cultura. Nesse sentido, Matrix se insere nessa linhagem de tramas sobre a desobediência. No caso, desobediência da máquina, um dos elementos mais explorados pela filmografia de ficção científica... A desobediência da máquina em Matrix não é o mesmo que a desobediência humana, fato também já muito explorado pelos filmes do gênero, maravilhosamente explorado em 2001 – Uma Odisséia no Espaço, desde que o Iluminismo apontou a razão como o centro gerador dos valores humanos em direção a realização dos seus ideais de cultura e civilização: reunindo todo o conhecimento já conquistado pelo humano, detentora de um raciocínio lógico-racional limpo das impurezas da mente humana – sujeita a variações psicológico-emocionais – a máquina sobrepõe-se aos humanos como a única inteligência munida de instrumentais necessários a realizar, à plenitude, os ideais humanos de ordem e progresso e, portanto, de felicidade social, que os próprios humanos aspiram... Na filmografia de ficção científica em geral a criatura rebela-se contra o criador mas é em seu nome, e para ele, criador, que essa rebelião, essa “desobediência” se realiza. Não importa aqui a questão ideológica de quem programa na máquina esses ideais. A máquina é imune a ideologias, por constituir-se em razão pura, ela mesma corrige os eventuais desvios ideológicos dos seus programadores. Toda a inteligência da ética de Platão a Santo Agostinho, de Thomas Morus a Kierkegaard, de Kant a Marx, reduzida a apenas alguns micro-segundos de atividade cerebral da inteligência artificial... Em Matrix, curiosamente, a máquina não se rebela em nome da razão humana, mas em seu próprio nome, máquina desligada do humano, em nome da razão mecânica, a instalar um programa de mundo que lhe seja próprio e suficiente à sua sobrevivência e desenvolvimento. Ou seja, A Máquina, essa filha que o humano fez sem mãe, como definiu Apollinaire, se substitui ao pai humano como ser vivo, substituindo, inclusive, blasfêmia das blasfêmias, a Natureza, na edificação de uma Natureza Artificial, em que ela, A Máquina, em diabólica inversão, gera sua própria mãe-natureza artificial e transita como sumo pontífice da criação... Matrix, o filme, trata de um determinismo mecanicista para muito além dos determinismos propostos pelos filósofos mais delirantes, pelos mais ferrenhos adversários daquilo que Popper chamou de sociedade aberta... A sobrevivência material do humano e da sua mater natura, então, e embora em estado letárgico, estabelece-se apenas, e provavelmente enquanto não se encontra outra, como fonte de energia, como baterias necessárias ao funcionamento do maquinário... A forma

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humana dos machine-men sugere, metaforicamente, a manifestação, na estrutura social, de um estado de coisas que, se ainda humano e natural, vai-se encaminhando em sua mesma direção, na substituição de humano e natureza por máquina e mundo artificial...

cclii

Há um aspecto apolíneo relevante – presente tanto em Matrix como em 2001 – Uma Odisséia no Espaço – a partir da transferência, e aperfeiçoamento, da razão humana à máquina: o surgimento espontâneo e progressivo dos “defeitos” humanos, ou seja, que resultam do desejo, do princípio de prazer, no caso, dos desejos da só razão, dos desejos gerados na razão artificial, no incomensurável prazer de realizar ao máximo os ideais de perfeição para os quais foi programada – e bem dotada... Dois defeitos inesperados da razão, em Matrix: a ambição de poder e a crueldade pela insensibilidade, pela desconsideração do sofrimento alheio, tornam-se os motivos principais de atuação da máquina no mundo. Se na mesma trilha da razão sádica, a máquina é a exacerbação do princípio de prazer só apolíneo ccliii, de outro lado também é o máximo corolário do leit motiv nietzschiano: num mundo em que os humanos são demasiado humanos, a máquina, em sendo, também ela, uma fatalidade, é a mais pura, isenta ou imune àquilo que lhe obstaculiza – especialmente a rebeldia dos instintos – a mais autêntica vontade de poder... Seria aos modos estabelecidos em Matrix que o super-homem, o além do humano, resultaria da passagem do estado da natureza ao estado da humanidade e, daí, ao estado da maquinaria? Veremos, ao seu tempo, que o humano mantém suas esperanças, e luta...

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Se o estado de maquinaria em Matrix, a exemplo dos mais recentes filmes de ficção científica, com base no progresso e na vulgarização da informática, é um estado digital, a vida humana, sendo vivida no interior da máquina, a mente humana transformada em chip de computador, um modo virtual de ser, isto não é, ao contrário do que aponta a maioria dos filmes do naipe, um estado de plenitude em que todos os desejos humanos se realizam independentemente dos valores que encerram... Ao contrário, Matrix não vê no estado maquinário, na realidade virtual, nada mais que o acorrentamento do humano à máquina, em que os desejos realizáveis são apenas os que a própria máquina constrói, ou permite, à sua própria razão lógica...

ccliv

O que é mais assustador em Matrix é o que, com um mínimo de reflexão, nos obriga à aceitação da paródia do filme com a informatização da vida humana: os humanos digitais vivem à imagem e semelhança dos humanos materiais, numa sociedade que em nada difere da sociedade humana atual... Com sua organização social fundada no poder, no econômico, na redução do humano a peça de engrenagem sistêmica, na repressão das individualidades, na mediocridade, com as fantasias digitalizadas pelas drogas, com suas esquerdas e direitas estabelecidas em padrões incomunicáveis, com cada qual em seus exatos, intransitivos, especializados, ortodoxos, uniformes, maniqueístas, nossos artificiais modos de ser, de viver as respectivas metades, sem nunca as preencher... O humano é, e leia-se aí também o humano tal e qual a natura mão lhe desenhou, em sua singularidade, para o Estado-Máquina, um vírus à semelhança daqueles que interferem no perfeito funcionamento dos computadores, devendo, por isso, ser esvaziado do seu sentido destrutivo do sistema perfeito, de uma ordem cosmológica

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fundada na fria razão ordenadora... No caso específico de Matrix, o filme, através de uma mimese de objetivação metafórica, forçando-o a uma vida virtual, e só não aniquilado por completo na medida em que seu corpo material abastece, por metabolismo energético, a própria máquina, que o pretende substituir, numa referência explícita ao que serve a humanidade em nós, num mundo em que se vai cada vez mais transformando humanos em números de série, senão a só energia ainda necessária a manter ligado o machine-man... Em Matrix a máquina atinge o seu ápice de poder: a robotização do humano pela transformação deste em um ser meramente digital, em um humano apenas virtual, um brinquedo de computador, um desejo de realização vital que só lhe é franqueada numa realidade fora do mundo, uma espécie de sexo seguro, em que o artificial, pela provocação sensorial ainda que incompleta, (trans) veste-se de material a iludir que é vida... Existência virtual em nada se confunde com o exercício do imaginário, com a liberação da imaginação humana... Aqui, o imaginário é substituído pelo programa, pelas exatas etapas pré-estabelecidas, pela aceitação das regras dos fabricantes, que se caracterizam justamente pela imutabilidade, pela proibição taxativa de adulterá-las... Imaginar para além do que é licenciado constitui sempre infração que sujeita os responsáveis às penas da machine-law... Uma parábola friamente aterrorizante, aos mais atentos, na linhagem dos filmes que vêem na inteligência artificial aquilo que Arthur Koestler chamou de O Fantasma da Máquina, que só aliviada pela persistência do humano em sobreviver... Em Matrix, o filme, há toda uma fascinante parafernália de equipamentos, de supercomputadores a programas de aptidão, física e intelectual, obtida em minutos pela mera exposição da mente humana; insetos de metal, inseridos no corpo humano, para vigilância de seus movimentos; monstros de metal, à semelhança de polvos juliovérnicos, a envolver e perfurar a nave dos heróis humanos; armas e equipamentos de combate, das mais variadas, obtidos num estalar de dedos; uma superchocadeira em que são cultivados e utilizados como baterias todos os humanos; enfim, tudo ao melhor estilo das ficções científicas... A técnica de triller, em que a movimentação feérica desses elementos se faz impressionante, levando à identificação dos leitores/espectadores com os heróis, ou, ao contrário, ao seu desinteresse em imaginar-se em tais e quais situações, se, de um lado prende a atenção, de outro dificulta a apreensão imediata, pelos respectivos imaginários, dos vários discursos que se desenvolvem na tela, e assim à leitura aos muitos modos de ler o filme... É justamente na necessidade impreterível de aplicar-se o espectador aos muitos modos de ver o filme que reside o desafio maior do leitor de cinema: sendo especialmente uma arte de representação do movimento, há o leitor/espectador que movimentar, dinamizar, acelerar os motores do seu imaginário de modo a apreender pari passo o

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discurso imagético que se lhe propõe ao entendimento (e ao diálogo), desde o texto da narrativa cinematográfica ao contexto em que essa narrativa, melhor dir-se-ia, pósmodernamente, essas narrativas, ocorrem... O cerne ficcional dessa bela obra cinematográfica, e que lhe dá título, a Matrix, é um superprograma de computador produzido pelo Estado-Máquina, em que cabe toda a humanidade, em sua intensa humana atividade... Para muitos seria só mais um interessante filme de ficção científica, que aponta para os perigos da máquina, somente vencida pela superioridade final do humano, através da sua superioridade mental, a saber, a vitória da inteligência natural do humano sobre as forças da inteligência artificial da máquina, que em nada se relacionaria com a vida real, a vida mesma, o cotidiano e os sonhos pessoais de cada um... Muito ao contrário do que possam supor os que arredam o imaginário, os que levam consigo ao cinema apenas saberes e crenças já estereotipados, os que se postam passivamente frente às telas, à espera apenas de que o filme confirme (ou obtenha informar, objetivamente, novos) estereótipos, toda a retórica cinematográfica de Matrix, em meio aos múltiplos instrumentos ficcionais de pontuar, de expor, mesmo de vaticinar, fala de um cotidiano progressivamente desumanizado, não propriamente pelos defeitos humanos, mas pelas qualificações outorgadas ao fora do humano a resolver os problemas gerados pelos defeitos humanos... Matrix fala da transferência de poder do humano para o desumano... ...Como fonte absoluta de soluções para os problemas gerados pela desumanidade.... Fala do dia a dia das pessoas comuns, desatentas de que as aparentes facilidades geradas pela aplicação do princípio da máquina às suas vidas, e à vida das sociedades, coloca em cena a desumanidade crescente das suas vidas, vidas que se vão fazendo vidas virtuais, tanto quanto das vidas reais ao seu redor, vidas que se vão fazendo cada vez menos humanas, em suas todas desumanidades....

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A criação dos super-heróis é contemporânea do crescimento das grandes cidades... Revelando que os maiores problemas do mundo atual são oriundos das megalópoles... O interessante é notar que os super-heróis possuem características similares, bem ao gosto da cultura de massas para a qual foram criados... As revistas em quadrinhos criaram o Super-Homem e centenas de outros, enquanto o cinema, com recursos tecnológicos cada vez mais impressionantes, vem os difundindo... Escondidos por trás de máscaras, eles são ora humanos disfarçados em super-heróis (Batman), ora superseres disfarçados de humanos (Super-Homem)cclv O enorme sucesso do Super-Homem é explicado pela identificação do público com esse herói, diante do qual “o anônimo indivíduo massificado projeta seus anseios inconscientes e projeta sua impotência”..cclvi

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Mas os super-heróis, na pós-modernidade, vão se transferindo para a alma dos indivíduos... Já não basta o processo de identificação psicológica com o seu superherói: na pós-modernidade o indivíduo vive seu super-herói, virtualmente, através dos jogos eletrônicos... Não comungam com os outros as aventuras super-heróicas, mas são eles mesmos os super-heróis, num isolamento da fantasia, numa entropia do heróico que vem em muitos casos gerando estados obsessivos de isolamento superheróico... Já os heróis eletrônicos, os heróis dos videogames, crescem tanto porque já não se trata de se identificar com o herói. Agora qualquer um pode ser o herói. Basta apertar um botão para voar, bater, tomar decisões etc. E, se morrer, basta começar de novo...cclvii
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A leitura de Matrix como um filme do gênero ficção científica é apenas um modo parcial de ver, um modo limitado de ler os seus termos... Há outras necessárias leituras... Há muitos outros modos de ler... Entre os muitos modos de ler Matrix, um deles é colher do filme um discurso de valorização espiritual da civilização oriental, em confronto com o discurso de valorização material da civilização ocidental, dos quais decorreria, na primeira, uma ênfase no ser e, na segunda, no ter... O indivíduo humano, no ocidente, a par do alto grau de sofisticação na produção e consumo de bens, se mostra progressivamente frágil em conseqüência da mecanização da vida humana, em função de uma busca desenfreada de realização material, representada pelo consumo de bens e pela conseqüente exaltação da libido... Essa fragilidade resultaria do esvaziamento do humano em si, da sua identificação com a máquina pela aceitação plena de uma existência por ela, ou através dela, preenchida, em todos os seus aspectos, com as suas ilusórias virtudes, suas virtudes de máquina, resultando no perigo sempre presente de uma sublevação que acabasse por transformar a vontade de poder do humano em vontade de poder da máquina, reduzido o humano a um humano virtual, preso a um sistema de tal modo racionalizado (maquinado), que o esvaziaria completamente das qualidades que lhe garantem a condição de humanidade... De um mundo virtual colocado à disposição do humano, para satisfação imediata dos seus instintos, dos mais primários aos mais sofisticados, à transformação da vida humana em vida digital, pode ser um passo subseqüente dos mais plausíveis... A substituição de uma vida espiritual por uma vida só material, da plena submissão ao poder impessoal, da busca por uma economia total de esforços, e daí ao crescimento desequilibrado dos aspectos só materiais da vida, à submissão total do humano à máquina, e/ou ao sistema mecanicista que em seus princípios repousa, calando no humano material a sua essência humana, é ainda uma hipótese das mais plausíveis, de que as utopias totalitárias do século XX iam se servindo, sem que ali esgotassem, os tontos totalitários, as estratégias de redução do humano a mera aparência, já agora

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muito provavelmente animados com a progressiva informatização da sociedade, o controle social que ela possibilita, a impessoalidade do exercício de poder que dela resulta... Tal e qual o mundo da matrix... Matrix, também num outro sentido, a um outro modo de ler, realiza a sua crítica ao só materialismo de um modo de viver ocidental, exatamente no que poderia ser entendido como sua exaltação... A exaltação do armamento, os efeitos especiais que arregalam os olhos da alma adolescente quando se coloca à disposição dos heróis uma estante surgida repentinamente do nada, com todo tipo de armas, as cenas de combate, tudo parece indicar uma exaltação do objeto arma... E no entanto em Matrix, bem à necessidade de observar o leitor/espectador um outro modo de ver, as armas de fogo pertencem ao mundo das máquinas, ao mundo virtual, e se os heróis delas se utilizam isso se deve ao fato de que é no mundo virtual que se travam as batalhas pela libertação... É o humano real, o humano da natureza, este é o humano que invade a matrix a derrotar os machinemen e mostrar aos quase-humanos digitais que há vida humana fora da máquina... O culto às armas de fogo, à eficiência dos aparatos bélicos ocidentais é um culto a objetos, um culto ao fora de si, humano, ele se torna parte de uma filosofia da máquina... O culto oriental à alma humana, ao universo interior do humano, fonte humana do divino, aponta para uma superioridade do modo de ser oriental inclusive no enfrentamento desses objetos fora de si, no caso, o aparato bélico e informacional da matrix, tal como de todas as matrizes, sejam informáticas, sejam políticas, sejam culturais...

cclviii

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Em Matrix, a superioridade do ser sobre o ter é bem manifesta no quadro de lutas marciais orientais que se desenrola durante toda a ação, representação explícita da superioridade dessas artes – que têm como pedra filosofal o eu interior do guerreiro – não apenas sobre as suas correspondentes ocidentais, mesmo ainda sobre a só aparente superioridade das tecnologias presentes nos armamentos ocidentais... Entre a força guerreira do humano, originando-se do divino, fundando-se no divino coração humano, e a força bélica da máquina – nascida do humano que se separa do divino, por isso menos humano, por isso alienado das energias que movem o seu dasein, por isso um humano que se separa do humano, um quase humano, aparência de humano, aquele que se desliga da essência humana – a vitória será, em meio a toda sorte de provações, será sem dúvida a vitória do humano que mantém em si a chama espiritual que o liga eternamente às fontes primordiais da Criação... Matrix, o filme, expressa isso admiravelmente bem, quando das suas cenas finais... Apesar de todo armamento pesado utilizado nas cenas de combate, é com a força espiritual ensinada na arte marcial oriental, o encontro com o próprio eu interior, primeiro mandamento samurai, que a vitória final dos heróis é conquistada... A arte kung-fu, que tem sido comercialmente muito explorada em produções de mero entretenimento juvenil, ganha em Matrix o seu galardão... Pois embora, e ainda pela exuberância dos efeitos especiais, as lutas se desenvolvam ao longo de toda a extensão do filme – o que pode levar ao modo de ver Matrix como os demais filmes do gênero, de exibição impressionista da violência – o filme também a estes deplora na medida em que aponta para o fato de que não é a maestria na prática da arte guerreira que conduz à vitória, pois essa maestria só é obtida, sendo a prática mero meio para alcançá-la, por algo que lhe é anterior, que lhe é superior: a força do espírito humano... Neo, o principal herói de Matrix, segue perdendo todos os combates que trava com seus algozes até que reúne toda a força do espírito humano em si, e não apenas os vence, e não apenas a matrix é destruída, como obtém a transcendência, justamente a transcendência presente nas filosofias orientais de libertação... Matrix é sim, um filme de ficção científica, mas não apenas um filme de ficção científica; Matrix é sim, um filme de arte kung-fu, mas não só um filme de arte kungfu... Os modos de ver a realidade, vítimas da disparidade entre modos de ser diversos, e contraditórios, usualmente resolvidos, na vida humana, pelo confronto e pela submissão de um pelo outro, indivíduo versus sistema, natureza versus maquinaria, inteligência humana versus inteligência artificial, razão versus emoção, poder versus submissão, ser versus ter, enfim, tudo o que resulta dos conflitos de interesses ao interior da sociedade humana, para os quais os sistemas políticos tradicionais têm sido apenas paliativos: é, em relação a essa questão fundamental do que é o humano, de como devem ser os modos humanos de estarmos no mundo, de o que seja

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verdadeiramente a realidade humana, que Matrix se impõe não só como arte cinematográfica de primeira grandeza, mas como o filme que abre o milênio, que anuncia o milênio, que aponta para a vastidão de possibilidades tecnológicas já ao alcance do poder do humano sobre o planeta... Senão o maior, um dos maiores manifestos de vanguarda política que se tem notícia na história da filmografia universal, Matrix é uma original metáfora pós-moderna dos males derivados dos excessos da ordem organizacional, sistêmica, pós-positivista/pósracionalista, na mais pura linhagem anarquista, à Thoreau, sem que desse combate ao Leviatã, no entanto, resulte qualquer saudosismo ou regresso ao bom selvagem rousseauniano... Fruto dos anos 90, década de afirmação do princípio da mediocridade obediente, enquanto se procedia a uma revisão das conquistas filosóficas, e respectivos conceitos, advindos da década de 60, exercidas à plenitude na década de 70, quando se os depurou, Matrix se integra a esse processo de revisão, mas aos modos de um pósmodernismo amadurecendo, em que se afloram os muitos modos de ver e ler o mundo, a sociedade, a natureza, o humano, na pororoca dos principais afluentes presente à boca das águas mais grossas que se encontram frente ao oceano das idéias libertárias... O núcleo filosófico de Matrix é a questão da essência da natureza humana, da realidade do ser, que vem contrapondo filosofias desde a mais remota antiguidade, e que se desdobra em inúmeras outras questões: da liberdade versus segurança, determinismo versus livre-arbítrio, aceitação do acaso versus afirmação da necessidade, e assim por diante... Nesse seu sentido maior, Matrix se afirma como um dos mais belos discursos sobre a liberdade humana...

cclix

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O humano subjugado pelo sistema mecanicista é o humano esgotado de ideologias, num mundo em que as antes disponíveis em nada resultaram senão em mais decepção, em mais dominação, seja pela riqueza, seja pelo poder, seja pelo processo de recusálas ou de obtê-las... O humano esgotado de ideologias, sem se fazer sujeito desse esgotamento, é o humano à mercê de uma vida digitalizada pelos dedos ágeis da lógica mecanicista, segundo a qual organiza o seu viver, segundo a qual aceita ser controlado e limitado em suas múltiplas possibilidades de ser humano... O humano subjugado pelo sistema mecanicista é um humano virtual, no sentido próprio do termo, qual seja, aquele que tem as qualidades do ser, mas não o seu exercício...

cclx

O humano submetido ao humano virtual violenta a humanidade em si, as possibilidades do seu ser plural, do seu ser contraditório, mesmo paradoxal, do seu ser/fazer poético, de ser conforme a complexidade do aparato físico e espiritual de que é possuidor... E para que? Para tornar-se um arremedo de humano, rebaixado ainda menos que à condição animal, porque o animal ainda o continua sendo, enquanto na hipótese o humano nada é, apenas virtualmente mantendo as suas potencialidades vitais de pluralidade, pois que limitado, organizado o seu exercício, ao serviço de algo tão intangível quanto eram inatingíveis as utopias que o moviam no passado, algo de que se esquece a motivação, se é que algum dia se soube, conscientemente humana... Por tudo isso Matrix é ainda um filme político, um manifesto de vanguarda, com a discrição própria dos tempos pós-modernos, em que as questões geradas a partir das revoluções da década de 60 ainda calam ao fundo da alma sem respostas definitivas... Na pós-modernidade, a exaltação dos discursos tanto quanto as retóricas filosóficas, incomodam mais do que indagam ou afirmam, incomodam a alma humana como um sonho que se perdeu, como uma história de amor que não deu certo, como algo que dói ao menor sopro, e que se resolve pela aceitação de uma ordem vigente que, afinal,

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aparentemente os incorpora... A aceitação do mundo tal qual ele é, pois que nunca se acredita que será tal qual ele deve, ou tal qual ele pode ser... Atente-se, pois, que é no contexto do humano que Matrix clama pela permanência das forças espirituais como condição da própria humanidade... O combate à nova utopia, a utopia da máquina; pelo enfrentamento ao injusto... A necessidade de ser, tanto quanto do existir; pela transcendência humana das condições inumanas de uma existência de rala humanidade... A persistência na luta histórica do humano por uma libertação das amarras materiais, origem das nossas mazelas, mas sem descuidar da energia divina na natureza, ou a natureza divina do humano... Na identificação persistente daquilo que subrepticiamente periga nos separar da natureza e, especialmente, da natureza humana... Nossa própria Razão! Na necessidade em manter em si, mesmo a partir dos cotidianos, os valores que, afinal, são a própria razão de ser do progresso dos sistemas e das máquinas... Pois é óbvio que o computador que digita o humano não é o mesmo que o humano que digita o computador... ...Por mais que o sistema de computadores se valha da energia dos dedos humanos, como humanos desprovidos de humanidade, em sua própria digitação... O super-herói pós-moderno, humanizado, destruidor do super-vilão, o superprograma Matrix, liberta o humano para viver de conformidade com a pluralidade infinita das possibilidades humanas, que é a libertação, pela riqueza do seu imaginário, pela força do seu espírito, pela energia do seu corpo material, pela inteligência divina de que é dotado, a viver tudo o que sua mente sonha viver... Nunca preso a uma realidade virtual, transformado em chip humano, mas no mundo real, no mundo da natureza que herdamos e nos cumpre preservar e desenvolver... Todo o aparato mecânico das máquinas nada mais é que um prolongamento do corpo material, feito para libertar o humano da ignorância, e das limitações perante a ordem física... Servi-la, valorizá-la acima do humano, é inverter o caminho natural das coisas, no pior sentido que o retorno do civilizado ao primevo das cavernas, agora elevada (ela, a caverna, não ele, o humano) em caverna tecnológica, aos incomensuráveis modos daquela outra caverna famosa... Se em Matrix, o filme, de um lado, o que se destrói é a Matriz Organizacional, a organização digital imposta pela máquina, sem que se resolva o impasse de uma humanidade ainda virtual (no sentido de que ainda não se faz exercício das qualidades de que é dotada, numa denúncia alegórica de como se deve interpretar a sociedade organizada em moldes sistêmicos), de outro, presente na última cena do filme, em que o herói voa à maneira do antológico superman, a esperança de que, pouco a pouco, os humanos passem ao outro lado, ao mundo do real, libertem-se do comando lógico dos sistemas, e passem a viver na integridade do seu ser, aquele mesmo dos guerreiros orientais, da arte cavalheiresca do arqueiro zen, ao mesmo dos super-homens de Nietzsche: pois, se virtual, demasiado virtual, o ainda humano é, Matrix, o filme, se faz mais outra das belas pontes para o além desse humano virtual...

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Matrix, o filme, deve ser visto, deve ser lido como um filme político, em seus dotes panfletários... Como um filme de filosófica linhagem anarquista, um filme de contestação de um sistema organizado à só razão lógica das máquinas e matemáticas, de alijamento dos dotes espirituais da humanidade, de cerceamento do pleno exercício das várias potencialidades de que o humano é generosamente provido... Matrix é também um filme sobre a sociedade humana que se aliena do conhecimento de si e das coisas, vendo e vivendo a partir das suas sombras projetadas de uma realidade que lhe é não só negada pela escravidão à máquina, como distorcida pelas parcas condições de visibilidade que todo um sistema de maquinaria (e sua mídia), logra obter sobre as consciências... Avançando os tradicionais textos do gênero, a obra não apenas combate todos leviatãs, mas ainda a violência sem direção espiritual, tão comum no mundo de hoje, ambos, aparência de humano e aparência de guerreiro, duas faces da mesma moeda leviatânica, que não só emitida pelo Estado... Ainda nesse sentido, Matrix, para muito além dos olhos do Big Brother, do romance de George Orwell, vai ao encontro de alguns autores muito presentes na década de 60, seja repensando Rousseau, seja revendo Aldous Huxley, seja aceitando Hermann Hesse, sempre no exercício de preservação de uma herança cultural que ainda não obteve seus definitivos cânones... Para além de Thoreau, outro autor de presença marcante na década de 60, o neoanarquismo proposto pelos jovens The Wachowski Brothers não se resolve com o abandono da sociedade organizada, ou com vistas à formação de uma sociedade alternativa, tão veemente pleiteada por diversos seguimentos de contestação dos anos 70... Afinados com esses inícios de terceiro milênio, os jovens autores de Matrix propõem uma luta sem trégua no interior do próprio sistema... Cientes de um processo de globalização tecnológica inevitável, conscientes de que mister se faz libertar o humano em cada um de nós... Um humano cada vez mais cerceado, em sua natureza, por uma lógica numérica que nos resume todos a meros trabalhadores/consumidores... Estabulados em cartões de ponto e de crédito... Contas bancárias... Estatísticas e perfis de consumidor... Cada vez mais à mercê de toda uma parafernália eletrônica que nos transforma a todos, desindividualizando-nos, em humanos digitais... Em seres virtuais... Em gado de corte à alimentação da antropofágica e insaciável máquina organizacional e sua lógica insensível às peculiaridades, às singularidades de cada ser humano... Seu sistema implacável de redução das nossas várias potencialidades individuais a um denominador comum que, de tão comum, comum acaba deixando de ser... Pois que comum arbitrário, comum abstrato, comum apenas ideologizado, sem que essa ideologia das aparências, autêntica ideologia do nada, seja resultado de qualquer reflexo da nossa vida material autêntica, desgrudada que se faz das necessidades vitais próprias do estado de humanidade... Matrix, o filme, propõe que nos tornemos super-humanos, supermen, que nos libertemos e que libertemos o próximo, pois que só assim a assustadora perspectiva do new apocalipse, a destruição da humanidade de dentro para fora, do interior para o exterior, pelo esgotamento do humano na espécie, poderá vir a ser afastada... Amor, amizade, lealdade, livre arbítrio, coragem, fraternidade, determinação, enfim,

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Humanidade Plena, são os ingredientes básicos desse grave discurso de alerta quanto aos perigos da desumanização crescente de nossa organização social, resultante do que se anuncia, no subsistema globalização, como a Idade Tecnológica da história da humanidade, talvez, o fim da história, ou o fim de todas as histórias, das quais viveríamos hoje seu último e definitivo capítulo...

cclxi

São muitos os pós-modernos modos de ver e ler, modos de ver o filme Matrix, modos de ler o filme Matrix, modos de viver o filme Matrix. Em que a pós-modernidade vai substituindo retóricas do Absoluto por muitos modos de responder... Aos muitos polifônicos modos de perguntar...

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No verdadeiro cinema, meu companheiro, uma coisa não se soma à outra para formar uma terceira. Não há todo; só partes...
cclxii

A verdadeira poesia está em relação muito mais estreita com o que de melhor há na música, na pintura e na escultura, do que com qualquer parte da literatura que não seja verdadeira poesia...
cclxiii

Dos cérebros inteligentes brota a tolerância; emissões medíocres, ressentidas, emitem intolerância. Intolerância=raios beta. Ser dadivoso e criativo=raios tetra. cclxiv Não somos filhos de um pedaço de estrela que esfriou?cclxv

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Beautiful Maíra

cclxvi

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Dis-cursus é, originalmente, a ação de correr para todo lado, são idas e vindas, “démarches”, “intrigas”. Com efeito, o enamorado não pára de correr na sua cabeça, de empreender novas diligências e de intrigar contra si mesmo. Seu discurso só existe através de lufadas de linguagem, que lhe vêm no decorrer de circunstâncias ínfimas, aleatórias. Podemos chamar essas frações de discurso de figuras. Palavra que não deve ser entendida no sentido retórico, mas no sentido ginástico ou coreográfico; enfim, no sentido grego: οχηµα, não é o “esquema”; é, de uma maneira muito mais viva, o gesto do corpo captado na ação, e não contemplado no repouso: o corpo dos atletas, dos oradores, das estátuas: aquilo que é possível imobilizar do corpo tensionado. Assim é o enamorado apressado por suas figuras: ele se debate num esporte meio louco, se desgasta como o atleta; fraseia como o orador; é captado, siderado num desempenho, como uma estátua. Afigura é o enamorado em ação...cclxvii

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Na pós-modernidade há filmes que buscam, estrategicamente, não apenas reafirmar uma retórica da linearidade unívoca, positivista, mas muito especialmente a compreensão da Máquina como algo humano, para além da humanidade, máquina humanizada, que, em última análise apenas reage humanamente ao ambiente “desumano” a que serve, numa inversão de papéis que afinal acaba por tornar a máquina mais humana que o humano, em dupla denúncia das matrizes organicistas... O super vilão, por mais que disfarce, torna ao lugar comum da restrita reta razão que habita...

cclxviii

Nas máquinas que exigem o direito de existir, independentemente de seu uso exclusivo de ampliação dos nossos sentidos, para a qual foram construídas: a humanização da máquina convida, por um processo psicológico de infantilização do humano, à aceitação da lógica pós-mecanicista (e ainda pós-positivista) pela exploração de uma

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fragilidade piegas que afinal a justifique e aceite – essa lógica do sistema mecanicista, bem evidente... Em Blade Runnercclxix, um robô feminino (o que ainda imprime outras significações...) é salvo pelo herói (após a eliminação do robô masculino que lhe “ama”...); em Inteligência Artificialcclxx, um menino programado para exercer o papel de “filho”, ganha sentimentos humanos que o fazem carente de afeto e atenção maternais...

cclxxi

Há os filmes que atenuam os riscos da filosofia da máquina, da matriz organizacional, pressupondo o fato de que os mais espertos – contando com a sorte é claro, e com o apoio de humanos pelo fato de que a Máquina, humanizada por conta do humano que a controla, sempre tem lá as suas falhas – acabam por sustentar o seu progresso pessoal com base na ilimitada fraternidade (limitada à fraternidade tribal, e ao caso excepcional, bem entendido) humana... Mesmo que seja para só uma única oportunidade de contemplação da grandeza, como em Gattaca...

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Na contemporaneidade muitos filmes vêm sendo concebidos numa estética inteiramente pós-moderna, rompendo definitivamente com a narrativa linear e unívoca tradicional: esses filmes adotam uma narrativa fragmentarista aliada a uma percepção fragmentária das suas categorias, tais como as de tempo e espaço, essência e aparência, o ser e nada, a fala e o silêncio, etc... Em Cronicamente Inviável, faz-se um retrato doloroso do Brasil: personagens e histórias se entrecruzam fazendo-se acompanhar de seus respectivos, díspares, modos de ver o mundo, num quadro fragmentário do que seja A Ética e as respectivas relações sociais... Uma pluralidade de modos de ver, viver, saber o mundo, transitam ao interior da sociedade brasileira sem que nenhuma Ordem Social intrínseca comande as suas ações... Relações puramente individuais são a tônica do viver em sociedade...

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Vive-se aos pedaços... Novamente Gonçalves Dias: viver é lutar... Os mais fracos tombam a cada relação com o mais forte... Deixando claro que ao interior da sociedade brasileira existem subsistemas, de natureza tribal, que não se subordinam senão às regras que lhes são próprias...

cclxxii

Um retrato pós-moderno – nu e cru – da pós-moderna realidade brasileira, em que por baixo da aparente organicidade ainda sustentada pelos canais de mídia, toda uma polifônica pluralidade de ações e intenções se impõe como o mundo real que em nada se deixa comandar pelas suas equivalentes institucionais... Para uma retórica do real fragmentado, uma retórica textual e estética fragmentada... O resultado faz desse filme o original de um veio estético que nele obtém, quanto à denunciação da violência a que estamos submetidos todos, a um grau de realismo nunca antes exibido em telas brasileiras, decorrente muito especialmente a estética fragmentarista e pós-moderna escolhida... Cronicamente Inviável enterra de vez o mito do homem cordial, de Sérgio Buarque de Holanda, expressão tomada a Ribeiro Couto, já descordializada por Cassiano Ricardo, embora nem tanto quanto o deviacclxxiii... A expressão do título, alcançando dois sentidos, anuncia a impossibilidade de textualizar a realidade segundo a retórica da univocidade, da linearidade, senão possível em sua textualização fragmentária...

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Há quatro filmes importantes saindo agora, sobre a mesma tragédia social das periferias: “O invasor”, de Beto Brant, “Estação Carandiru”, de Hector Babenco”, “Cidade de Deus”, de Fernando Meireles e Kátia Lund, e “O Homem do ano”, de José Henrique Fonseca”.

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Caricatura: André Mello, 16.04.02.

Os quatro filmes mostram esse novo mundo que cresce como um câncer à nossa volta e do qual só queremos distância e segurança. Mas os cineastas estão esfregando em nossa cara estas “cisjordânias do lixo”, estas Faixas de Gaza mortas, estes “talibãs que surgem de suas frestas”. No filme “O invasor” já dá para sentir seu impacto raiando como um sol negro sobre nós. “O invasor” é excepcional pela maneira de ver esse mundo “sujo” que subitamente invade a tranqüila sordidez de uns burgueses criminosos. Neste filme não se retratam mais os pobres como uma espécie de “decadência” dos ricos, como se os excluídos fossem seres “aquém” de nosso conforto. Não há mais a idéia de “proletários” ou de “infelizes” ou de “explorados”. Eles nos mostram o “Insolúvel”, perplexos com o mistério da miséria. Eles não sabem o que fazer com isso, eles não se comprazem mais na denúncia de uma injustiça. Eles estão diante de uma espécie de Pós-Miséria. Isso. A “pós-miséria” está gerando uma nova cultura, se é que esta palavra se aplica à vida esmagada tentando existir.cclxxiv Em Amores Perros (Amores Brutos), outro filme na mesma esteira estética, pósmoderna, desses inícios de século XXI, a utilização mais cautelosa da estética fragmentarista acaba por diluir um pouco a caracterização de uma sociedade urbana tão violenta quanto a nossa, fotografada em Cronicamente Inviável... Mas não tanto, mercê de uma técnica em que também se entrecruzam histórias e personagens, que rompa a tradicional narrativa linear e unívoca... Não tanto que faça da sua leitura de um mundo cão [metáfora para pessoas interagindo como perros (Amores Perros) nessa referência pós-moderníssima ao documentário Mondo Cane]cclxxv qualquer coisa de menos expressivo nesse contexto de uma estética (e de uma ética) da pósmodernidade... É típico do discurso imagético a fragmentarização estética da realidade e seu discurso, na composição da narrativa por seleção de fragmentos que sinalizem o sentido desejado com a só apresentação das imagens...

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A linguagem imagética é a linguagem discursiva do imaginário, desde a coleta de material oriundo dos sonhos às demais narrativas do inconsciente, tendo em vista que é sempre fragmentariamente que se expressam...

cclxxvi

Linguagem imagética, expressão do inconsciente, a formação de uma linguagem do imaginário... Tudo parece conduzir ao fato de que a retórica da fragmentação é o modo próprio de se expressar por imagens... O que, afinal, corresponde à nossa percepção fragmentária do mundo, dada a seleção natural, física, que a nossa mente realiza na apropriação das imagens sobre as quais desenvolve seu pensamentocclxxvii...

cclxxviii

A natureza fragmentária da narrativa por imagens já se observava desde os tempos do cinema mudo, em que se insere, por exemplo, a maestria de um Sergei Eisenstein, de O Encouraçado Potemkincclxxix, em manusear fragmentos da realidade revolucionária soviética, aos filmes de natureza essencialmente documentária, nos quais se desejava

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produzir um efeito estético, artístico, para além da mera exposição fática, de filmes como Berlim, Sinfonia da Metrópolecclxxx, de Walther Ruttmann, a Baraka – um mundo através das palavrascclxxxi, de Ron Fricke...

Baraka exibe o fato de que é no silêncio, nos espaços vazios do texto, no caso, imagético, que a força poética da imagem se apresenta com maior energia... A poesia se exprime, em Baraka, não propriamente porque contida, em estado bruto, na imagem, mas porque a sua seleção e montagem, ao qual se acresce, aqui e ali, efeitos derivados de técnicas cinematográficas, fazem com que as imagens recolhidas falem, cantem... Baraka é um cântico em que a pluralidade do mundo da natureza, em que o humano por destinação se encontra inserido, e não a univocidade de uma retórica exclusivamente humana, externa ao fragmentário mundo biológico, é que realiza o discurso poético... As palavras de Baraka são, enfim, as palavras tão silenciosas quanto ocultas no cenário grandioso do planeta Terra... A natureza, em Baraka, fala... E tem seus próprios modos (imagéticos) de expressar Beleza e Grandiosidade... Basta que o leitor, ao ler as suas imagens, lhe acompanhe os discursos, levante as escamas que lhe cobrem o imaginário...

*
Outro filme que, bem à maneira de Matrix, constrói a metáfora de uma desconstrução da Univocidade, embora sem a explicitude deste, sem a sua riqueza metafórica, e mantendo ainda, paradoxalmente, a própria unidade como salvaguardada, é Clube da Luta: com efeito, se ao final do filme o herói vê desabarem os prédios que simbolizam o Sistema, em nua metáfora pós-anarquista, é com a solução de uma das personalidades que habitam seu caráter e sua mente que isso acontece, já como uma

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censura à pluralidade típica de uma manifestação pós-moderna, em que a personalidade fragmentada é a lei...

cclxxxii

Clube da Luta (Fight Glub) é, além da metáfora desconstrutivista, uma metáfora da violência que assombra a sociedade pós-moderna... O filme apresenta dois aspectos da violência urbana: a divisão da personalidade, pela necessidade do ser múltiplo, com a vulgarização, e institucionalização, da briga, da luta, da violência como cotidiano aceitável pelo ser humano, por ser parte indissociável da sua existência... Assim, aceitar a violência como um modo próprio de o humano estar no mundo... A metáfora da desconstrução pós-moderna – não sem uma boa dose de ironia – está presente em Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry), filme em que Woody Allen ironiza o mote pós-moderno da desconstrução/fragmentação, tornando a principal personagem, Harry Block, fora de foco no plano de visão própria e dos que o encontram... Sugerirá, talvez, o fato de que cada determinado “eu” exercido em um certo momento só é percebido por seu correspondente “o outro” parceiro de singularidade?...

cclxxxiii

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O nome do protagonista já é uma brincadeira, pois harry em inglês pode significar atormentar, afligir, e block é o verbo bloquear. Harry Block é um indivíduo atormentado por um bloqueio. O último termo também pode significar o substantivo bloco. Daí a idéia de que o protagonista é um ser dividido em segmentos, apresentando os episódios da sua vida como peças de um quebra-cabeça – que todavia não se encaixam... O protagonista transforma episódios da sua vida em livros, que ao longo do filme são apresentados como blocos paralelos. Essas janelas narrativas, nas quais o real se alterna com o fictício – há momentos em que um se funde com o outro – podem ser vistas como o meio com que o protagonista lê a própria vida, nas suas relações com os outros, e as exterioriza através da ficção. O escritor faz, portanto, uma leitura de si mesmo, em diversas etapas da sua vida, partindo em uma jornada em busca de uma redenção, ou melhor, resignação. Para uma apresentação analítica do filme, ele também será desconstruído: as janelas narrativas serão delineadas e observadas enquanto projeções de uma leitura pessoal. A idéia de desconstrução é aplicada em vários níveis, tanto no modo de apresentação das seqüências quanto em questões temáticas, como sexo, religião e psicanálise. E se em Desconstruindo Harry a fragmentação está presente não só na forma como também no conteúdo, uma tentativa de interpretação também deveria ser desconstrutora, porque o filme se nos apresenta como um todo coerente e passível de ser desmontado. Como afirma uma personagem ao final do filme, as obras de Harry (e, por extensão, as de Allen), quando desconstruídas, revelam uma felicidade geral, maior, que paira sobre as pequenas melancolias...cclxxxiv A mesma questão da pluralidade de “eus” numa só pessoa, consciência que chega na pós-modernidade em função das diversas facetas de personalidade exercidas em distintas situações, individuais e sociais, que a vida pós-moderna acirra (e que no passado era entendida como uma anomalia psicológica pura e simplesmente, nos passos da afirmação de uma visão só unitária do mundo) essa mesma questão Woody Allen já havia ironizado em Zeligcclxxxv, em que a personagem principal, tal qual camaleão, segue alterando sua forma física e sua conseqüente personalidade conforme muda de ambiência, como se fosse utilizando suas plúrimas personas à medida das necessidades de seu plúrimo estar no mundo... Metáfora típica de uma plena vivenciação pós-moderna, a transformação camaleônica deriva do exercício de várias personas conforme as atividades da vida cotidiana: para cada atividade, uma dada personalidade... A fragmentação, mercê da tecnologia cinematográfica, é mesmo a matéria-prima do cinema, que trabalha sobre uma realidade fragmentária, com técnicas fragmentárias, para uma narrativa também fragmentária... Mas o fragmentarismo na arte cinematográfica da pós-modernidade ganha foros de tecnologia estética, sendo assumida como o modo natural de se fazer cinema... Se levarmos em consideração o filme Stardust Memories (Memórias), veremos que desde 1980 tínhamos um Woody Allen preocupado em trabalhar com uma estética e uma narrativa de cunho

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nitidamente fragmentaristas, como um antecipador desse processo típico da pósmodernidade no cinema... No cinema da pós-modernidade o fragmentarismo casual da respectiva tecnologia é transformado em fragmentarismo necessário à respectiva arte... No primeiro estágio o cinema tentaria suprir a fragmentariedade com técnicas lineares de narração; o cinema pós-moderno acentua e explora artisticamente essas todas fragmentações...

Clones

cclxxxvi

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A disseminação da violência por todos os quadrantes da sociedade (e, mais do que parece, da cultura), em todos os níveis, sem distinção de gentes e sem fronteiras delimitadas, é a pior das conseqüências que se seguem à fragmentação do modo de viver unívoco desses tempos pós-modernos... Clube da Luta é a metáfora da aceitação da violência como cotidiano, da incorporação da violência ao modo natural de estar no mundo dito civilizado... A uma horizontalização da sociedade segue-se a horizontalização da cultura: na pósmodernidade as marginalidades ganham voz... Daí que o cinema cada vez mais vai exibindo o modus vivendi típico de tribos inteiras de indivíduos alheios aos ordenamentos morais, políticos e jurídicos próprios de uma civilização calcada na verticalidade de sua estrutura social... Em conseqüência, tanto a violência específica do interior dessas tribos, como a violência geral que decorre da ainda muito precária articulação desses múltiplos modos de viver no plano genérico da sociedade, é exibida nas telas como sendo o cotidiano urbano e o imaginário contemporâneo desse humano notadamente precário e inseguro... Nesse sentido, as liberdades conquistadas no advento do pós-modernismo se voltam contra os libertos, num círculo vicioso de violência e insegurança... Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, é fundamentalmente uma ficção pós-moderna: uma alegoria da violência e da amoralidade... Um filme que trabalha admiravelmente bem a narrativa fragmentária, sem que lhe falte os ingredientes de aventura e de heroísmo típicos dos tradicionais filmes de ação...

cclxxxvii

Como depois se fez em Amores Perros, a fragmentação de Pulp Fiction é apenas técnica, sem que se reflita na concepção do tema, sem que interfira no sentido linear da história, mantendo-se assim, muito embora a pluralidade de personagens e situações, a univocidade de conteúdo como nas novelas tradicionais... O que faz de Pulp Fiction um filme da pós-modernidade, além do formato gibi, de narrativa fragmentária, desprezando tanto a univocidade quanto a linearidade retóricas,

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é a impressionante exibição de violência já nas fronteiras da violência surda, silenciosa, de películas que começam a aparecer mais recentemente... Ainda a violência plastificada de Hollywood, mas em tal quantidade – só exibida antes talvez, e a menos tinta, em Taxi Driver, de Martin Scorsese (1976) – que realiza uma aproximação, do leitor de cinema, com a materialidade de uma violência cotidiana que não costumava (na só modernidade) freqüentar a mente das pessoas na abordagem cinematográfica até então mais superficial dos fatos... Por outro lado, o tratamento do tema transita por aquilo que se chamou de pop art, uma das principais semeeiras da arte pós-moderna, aproximando o espectador das personagens e suas histórias, relacionando-o diretamente com as situações, ao mesmo que chocando, emocionandoo com as suas aventuras e desventuras, bem ao modo das antigas novelas seriadas... Os diálogos, em Pulp Fiction, feitos de textos especialmente longos, em que despontam temas do cotidiano das pessoas comuns – outra das características da pósmodernidade – não cansam, ao contrário, aproximam ainda mais o espectador, introduzindo-o em um mundo de violência a que normalmente se furtaria... Essa sutil aproximação espectador/violência, mediada por situações, por extremamente verossímeis, do cotidiano, propicia levantar o véu de uma violência – e violência acachapante - que sempre está mais próxima do que normalmente se acredita...

cclxxxviii

A violência da pós-modernidade ainda teria muito mais a exibir-se através da exploração de situações do cotidiano e da aproximação da violência de um modo que, se ultrapassa a simples verossimelhança para atingir em cheio o espectador, apaga as fronteiras com que se costuma separar a violência do “outro” com a segurança do “eu”... Esse é exato o caso do filme austríaco Funny Games (no Brasil, Violência Gratuita), de Michael Haneke (1997), em que essa aproximação da violência com situações do cotidiano, criam no espectador, mais do que uma sensação tradicional de verossimelhança, uma sensação de verdade factual, algo típico da pós-modernidade, que pode ser traduzida com uma frase simples: isto realmente está acontecendo... Ou, posto de outra maneira: a arte da pós-modernidade não mais imita a vida; a arte da

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pós-modernidade cria a vida... E a vida pós-moderna é ainda mais violenta do que as mentes ainda adormecidas acreditam seja a violência da vida pós-moderna... Pois na vida pós-moderna as imagens se objetivizam, tornam-se coisas reais... Na pós-modernidade vão assim se dissolvendo as antigas fronteiras entre ficção e realidade...

Capa: Jacob Levitineas, 1982

Chega-se, enfim, à era de libertação dos imaginários...
O despregar dos imaginários do seu eixo tradicional de referência intelectual – e, por conseqüência ético – torna a todos estrangeiros não apenas do meio-ambiente social no qual se integram (poder-se-á sugerir: se desintregam), e muito especialmente, estrangeiros de si...

Capa: Infante do Carmo, s/d.

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O pessimismo é, então, o princípio filosófico que assombra a pós-modernidade, um pessimismo tão terrível e assustador que a única reação possível é ignorá-lo... Sobreviver é a palavra de ordem da pós-modernidade... Sobreviver, quando “o outro” – um desconhecido – e o “eu” – qual? – são categorias que pertencem a uma selva humana onde coisa e carne se equivalem, onde o humano se faz insignificante, não mais perante uma divindade onipotente, como no desespero barroco, mas perante um “outro” qualquer, tão ou mais insignificante, que lhe pode interromper seu processo particular de sobrevivência... Essência e existência, realidade e ficção, ação e imaginação, e assim por diante, tudo se faz coisa, e coisa despregada umas das outras, em que a absurdidade não é mais que outra palavra-coisa...

*
...– Só que está tudo invertido. Claro que as previsões são erradas para evitar o pânico. Agora Kelvin sabe e quer avisar a esposa e filha a tempo. O problema não é fugir do mundo da antimatéria... ...mas recuperar a comunicação. (......................................................................................................................) ...– Onde parei? – Problema de comunicação entre a matéria e a antimatéria... – Exato. Como se estivesse num buraco negro. Muito forte, a força da gravidade. Silêncio total... – Horas? – Quê? – Que horas são? – Oito e pouco. – Já? (beija a vítima no rosto...) – Adeus, bela! (...e joga a vítima “al mare”...) – Por quê? O horário era às nove... Ela ainda tinha quase uma hora... – Primeiro, estava incômodo navegar assim... (com a vítima posta, por ele mesmo, entre os dois, junto ao leme que manejava...)... – ...e segundo, estou com fome... – Isso é verdade (e adernam o barco em busca de outra residência costeira)... ...................................................................................................................... – ...Quando Kelvin supera a força da gravidade acontece que um universo é real, mas o outro é ficção. – Como pode? – Era uma espécie de modelo de projeção no ciberespaço. – E cadê seu herói? Realidade, ou só na ficção? – Mas a ficção é real, não é? – Como assim? – Bem, a gente vê nos filmes.

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– Claro. – Ela é tão real quanto a realidade que vemos. – Besteira. – Por quê?cclxxxix

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ccxc

A declaração de Michael Moore ganhador do Oscar 2003, na categoria melhor documentário, de que preferia o seu gênero à ficção, pontuando que de ficção se tratava a guerra dos EUA contra o Iraque, guerra fictícia, feita por um presidente fictício, por motivos fictícios, tem referências muito mais profundas do que notaram os comentaristas na imprensa mundial, que a receberam apenas como uma manifestação contra a guerra. A ficcionalização da realidade é talvez o maior mal desse início de milênio pós-moderno. A mesma desatenção ocorreu na interpretação crítica de um filme que foi visto apenas como uma surpresa de bilheteria decorrente de um tipo novo de publicidade, a super divulgação boca a boca, hoje computador a computador pela malha sem peias da web. Trata-se de A Bruxa de Blair, muito especialmente A Bruxa de Blair 2. A primeira bruxa, um filme feito a custo de curta-documentário de estudantes, com técnica de documentário, com um tema de realização de documentário, e um discurso narrativo de telejornal de programa sensacionalista. A segunda bruxa, não por acaso com direção de um reconhecido diretor de documentários, Joe Berlinger, que jamais

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dirigira um filme de ficção, ficcionaliza o tema do filme precedente (sendo por sua vez um documentário fictício de outro documentário fictício, então traduzido à inteira ficção), mas de um modo a mostrar - e aí está toda a relevância do filme - a confusão que vai se processando na mente das personagens, que passam a não mais distinguir entre ficção e realidade. Confusão essa a que são convidados a participar os espectadores, a escolher as cenas do que é o real vista sob dois ângulos: o da mente das personagens (que seria, em princípio, a ficção - tanto das personagens como do próprio filme em si, dado que os espectadores vêem exatamente o que as personagens vêem) e as gravadas em câmeras de vigilância (que seriam, em princípio, o real - para as personagens tanto quanto para os espectadores). Mas como tudo se passa num ambiente ficcional - um filme de horror - a próprias câmeras de vigilância, parte integrante desse contexto, passam a sofrer da mesma síndrome da dúvida, aquela questão da verossimilhança inerente a toda obra de ficção. Ou seja, a qualidade do real própria às câmeras de vigilância, utilizadas como prova em processo judicial, menina dos olhos dos telejornais, a exibir imagens daquilo que aconteceu, daquilo que está acontecendo, nas imagens ao vivo, diretamente do palco dos acontecimentos, essa qualidade do real é posta em cheque. Afinal, qual o mais real? O que a mente vê? Ou o que a máquina vê? O que o olho humano vê, ou o que o olho da máquina vê?

ccxci

O noticiário policial da nossa sociedade pós-moderna nos tem dado conta de uma avalanche de crimes que eram exceção da exceção na cultura do século XX: filhos que assassinam os pais, avós, e parentes que os criam e vice-versa. É que na pós-modernidade o lar é o primeiro ambiente, não mais do real, mas o lar é o primeiro ambiente do ficcional. A televisão, do noticiário às telenovelas, passando pela publicidade, finalmente conseguiu impor-se à mente humana como algo mais real que a realidade, porque uma realidade buscada, desejada por todos, aceita pela sociedade como o referencial máximo do ser social. Quem não está, por si ou seus protótipos, ou pelos bens que se agregam à personalidade (e esses merecem todo um capítulo à

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parte), na televisão primeiro (esta apenas porque o primeiro canal de veiculação social), em toda a mídia, em seguida, simplesmente não existe para a sociedade, e tudo o que a ele se refere é desimportante no jogo social. Ou seja, quem não está na mídia não está no mundo. Então, todo o processo de ficcionalização do humano e do seu espaço de vivenciação, que advêm dos processos de ideologização dos séculos anteriores até desembocar em uma sociedade pós-moderna pluri-ideologizada, com os afrouxamentos morais antes plantados na personalidade, ainda ideologicamente decorrentes dessa pluralidade de “morais”, de “ideologias”, propicia uma pulverização de um sistema moral, em seus princípios básicos, comum a todas as sociedades anteriores. Se tudo é ideologia, se tudo é modo de pensar, se tudo é mídia, afinal onde pode encontrar-se o princípio de realidade senão no cadinho de ficções transmitidas pela mídia aos pontos centrais do cérebro? E se na mídia tudo aponta para o princípio do prazer inerente ao ficcional-ideologizado, dos filmes, telenovelas e chamamentos ao consumo, sempre em oposição ao princípio da dor inerente ao real-ideologizado, dos tele-jornais (pois todos sabemos que a notícia é sempre um prisma do fato) às misérias ainda presentes nos mesmos filmes, nas mesmas telenovelas, nos mesmos chamamentos ao consumo quando vistos pelo ângulo dos que vivem uma vida mesquinha, de impossível comparação com os seres sorridentes da mídia e que afinal são mesmo tão reais. O resultado é que tudo o que lá está posto, de um modo ou de outro, seja ao formato-ficção, seja ao formato-realidade, visto sob a perspectiva de uma mente desideologizada, justamente pelo excesso de ideologização, acaba por tornar-se a única realidade, o referencial de todos, de todas as demais mentes com as quais interagem todos e cada qual dos indivíduos. Se o que não está na mídia não está no mundo, em tudo o que está, ficcionalmente posto, na mídia, se resume a única realidade tão palpável quanto possível. E a ficcionalização da vida social acaba por ocasionar a ficcionalização da vida individual. E a ficcionalização da própria vida é o maior crime que o humano comete contra a sua humanidade, contra a sua, tanto quanto legítima, vontade-de-poder. São as sombras de uma vida ficcional, lançadas sobre a claridade de uma vida natural, que escurecem os corações e mentes dos humanos, sejam os de vontade de poder a realizar, sejam os de vontade de poder em realização. E são essas mesmas sombras que confundem arte e vida ficcionalizada. Que fazem de todos artistas fictícios. Pois o humano, descomprometido com o fazer artístico, fazendo da arte meio de existir no real-ficcional, inverte o processo inerente a toda arte que é o de livrar-se, em seu fazer-se, das ficções ideologizadas das mídias de todo gênero, e a tal medida que cria - e sem criação não há nenhuma arte - de átomos a cosmos, uma abordagem da realidade para mais adiante, um conhecimento do humano e seu ambiente natural mais profundo e mais sofisticado. E nessa ficcionalização da realidade artística, em que todos refletem uma arte já posta e re-posta à exaustão, e a confundem com o simples ato de criação artística, a tal

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ponto de acreditarem-se artistas, a única chancela do que seja arte ou não desenfoca-se do ambiente artístico para o ambiente de mídia. E o próprio ambiente artístico, contaminado pelas necessidades da mídia, invadido pela barbárie do tudo-é-arte, acaba por resolver-se em nada é arte. Exaltada a forma conhecida, contra a essência desconhecida; privilegiada a copiação contra a criação; a novidade contra o novo; a fórmula (formato) contra a forma; enfim, todo o processo de criação artística contémse em “chips” e “softwares”, que pouco a pouco se transferem do modo de pensar da máquina ao modo de pensar humano pela mídia de uma cultura “formatizada” e formatizada pluri-ideológicamente segundo suas plúrimas ficções. Se as corredeiras desse processo de ficcionalização foram aceleradas numa cultura que mixou ideologias com realidades, a viagem psicodélica produzida pelas drogas com a viagem psicológica produzida pela publicidade, sua Iguaçu é a dificuldade que uma civilização construída sobre os alicerces de uma vontade de poder (inerente à psique humana e ideologizada a partir de uma nobreza da dor) tem em promover a realização do princípio do prazer através de um mesmo processo de ideologização: a vontade de poder, que na sociedade pós-moderna tudo ideologiza,que tudo ficcionaliza, acaba sendo ela mesma vítima das suas artimanhas, ideologizandose e ficcionalizando-se, contaminando o leito subterrâneo de seus nutrientes mais caros, o instinto da violência primeva antes de tudo. A mente humana, confundindo realidade ficcional (mental, psicológica) com realidade material (da physis), a partir da cotidiana confusão entre real e ficcional por mentes infantilizadas pela egotrip das drogas ou pela egotrip das publicidades (do mero consumo de bens multicoloridos ao perigoso consumo de ideologias multifacetadas), acaba por praticar atos de violência real como se estivesse praticando atos de violência ficcional, um instantâneo da vida mental materializando-se no realficcionalizado. No instante seguinte, porém, o real toma as rédeas do ficcional, sem que a vida tenha making off e muito menos arquivo de cenas deletadas, como nos dvds... Esse processo de ficcionalização do real é talvez o maior desafio da pósmodernidade à mente humana, disparando um processo de desintegração física e psicológica sem precedentes nas histórias das barbáries de todo gênero. E se o núcleo dessas mazelas é mesmo a ficcionalização da realidade, talvez o único antídoto eficaz de superá-las seja o pensamento poético: pois a poesia, sendo fenômeno que a mente busca no além de si, a integrar-se com as verdades do universo infinito em que se inclui, jamais ficcionaliza. A poesia, descortinando sem normatizar, esclarecendo sem informar, supera a vontade dicotômica de poder e nos integra a todos no - tão infinito quanto natural - processo de caminhar para o além-do- ideológico e do ideologizável, para o além-do-fictício, para o além-do-ficcionalizado, para o além-do-ficionalizável. Se, de um lado, a pós-modernidade traz à tona a pluralidade das vontades-depoder, impostas pelas violências todas, tanto físicas (no material) quanto ideológicas (no mental), de outro - e pelos mesmos vieses de pluralização mental - convida-nos a

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todos buscar, no entendimento poético das realidades, material e mental, o animal poético que o humano é, que o além-do-humano ainda será.

* O homem é o lobo do homem

ccxcii

Foto da capa: Pedro Lobo, 2001

Nietzsche havia retirado de Shopenhauer – e explorado filosoficamente – a idéia do mundo como vontade... Mas deixara o pessimismo shopenhaueriano, em suas profundezas, de lado... Afinal, a concepção de um super-homem não se coaduna com uma idéia de limitação da plenitude... Mas Shopenhauer, quando anota a expressão homo homini lupus, não vê no “outro” o lobo, mas no próprio “eu” atormentado pelo desejo, pela vontade material... Bem ao contrário da noção anti-rousseauniana de Hobbes, para quem os Estados se criavam com a finalidade de prover o homem de segurança contra os avanços do “outro”, ambos naturalmente maus... A felicidade então, para Schopenhauer, aproxima-se da pregação oriental de superação do “eu”, o segundo caminho do Tao, a sublimação, o elevar-se acima dos desejos humanos...(e há bastante disso em Nietzsche, na concepção do super-homem...)...

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O pessimismo de Schopenhauer decorre da impossibilidade, como decorrência da civilização, do humano sobrepujar o estado de materialidade que o fizesse alcançar a plenitude... A pós-modernidade recoloca o problema schopenhaueriano na medida em que corresponde a uma ampliação dos espaços de atuação do “outro”...A um mesmo tempo em que as fronteiras de exercício individual são ampliadas, gerando, com isso, a necessidade de um esforço ainda maior de cuidados nas relações sociais... O “eu” torna-se objeto de opressão do “outro” de um modo nunca antes imaginado... Não tanto pelas ameaças de violência física, cuja ampliação ainda decorrem do mesmo estado, mas muito especialmente pelas possibilidades concretas e cotidianas de violência psicológica, pela ampliação das fronteiras do “outro”, ainda mercê das desconstruções éticas e ideológicas, decorrentes da pós-modernidade... O “outro”, na pós-modernidade, torna-se imprevisível... Não há parâmetro de comportamento – e, portanto, de segurança relacional – que possa assegurar – que embora ainda precária – a antiga via de diálogo entre mais ou menos iguais... A fragmentação comportamental que se segue à fragmentação moral (ideológica) ainda mais torna precário o equilíbrio das relações individuais na medida em que também essa fragmentação proporciona uma pluralização dos desejos na exata medida em que se amplia, por seu turno, o imaginário de cada um, o rol de possibilidades dos imaginários culturais e sociais em face da singularidade... O “eu” separou-se – parece que definitivamente – do “outro”... E a única precária via dialogal sustenta-se no relacionamento tribal... Se considerarmos que a pós-modernidade ainda proporcionou uma ampliação, uma pluralização do “eu” – o “eu” se reconhece como “eus”; e ao “outro” sempre como “outros” – temos então que as preocupações de Schopenhauer – e ainda a síntese nietzscheana da vontade de poder e do super-homem – tornam-se ainda de muito maior complexidade... De um “outro”, lobo de um “eu”, de Hobbes, a justificar a perda de liberdade em prol dos ganhos da segurança, a um “eu”, lobo do “eu”, de Schopenhauer; a exigir a sublimação desse “eu” em direção a um “outro eu”, com que Nietzsche constrói seu super-homem, chega-se, na pós-modernidade, à constatação de que há muitos mais “eus” a superarem-se, e ainda tantos mais “outros” a temer... Na pós-modernidade o homem lobo do homem transforma-se em o homem alcatéia do homem... Tanto no sentido hobbesiano da expressão, quanto – para ainda maior pessimismo – na concepção que lhe atribui Schopenhauer... Talvez mesmo a pós-modernidade acabe por apontar que a expressão mais adequada aos tempos das neo-tribos seja...

...homo homini hyaena...
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A declaração de Michael Moore ganhador do Oscar 2003, na categoria melhor documentário, de que preferia o seu gênero à ficção, pontuando que de ficção se tratava a guerra dos EUA contra o Iraque, guerra fictícia, feita por um presidente fictício, por motivos fictícios, tem referências muito mais profundas do que notaram os comentaristas na imprensa mundial, que a receberam apenas como uma manifestação contra a guerra. A ficcionalização da realidade é talvez o maior mal desse início de milênio pós-moderno. A mesma desatenção ocorreu na interpretação crítica de um filme que foi visto apenas como uma surpresa de bilheteria decorrente de um tipo novo de publicidade, a super divulgação boca a boca, hoje computador a computador pela malha sem peias da web. Trata-se de A Bruxa de Blair, muito especialmente A Bruxa de Blair 2. A primeira bruxa, um filme feito a custo de curta-documentário de estudantes, com técnica de documentário, com um tema de realização de documentário, e um discurso narrativo de telejornal de programa sensacionalista. A segunda bruxa, não por acaso com direção de um diretor de documentários que jamais dirigira um filme de ficção, ficcionaliza o tema do filme precedente (sendo por sua vez um documentário fictício de outro documentário fictício, então traduzido à inteira ficção), mas de um modo a mostrar - e aí está toda a relevância do filme - a confusão que vai se processando na mente das personagens, que passam a não mais distinguir entre ficção e realidade. Confusão essa a que são convidados a participar os espectadores, a escolher as cenas do que é o real vista sob dois ângulos: o da mente das personagens (que seria, em princípio, a ficção - tanto das personagens como do próprio filme em si, dado que os espectadores vêem exatamente o que as personagens vêem) e as gravadas em câmeras de vigilância (que seriam, em princípio, o real - para as personagens tanto quanto para os espectadores). Mas como tudo se passa num ambiente ficcional - um filme de horror - a próprias câmeras de vigilância, parte integrante desse contexto, passam a sofrer da mesma síndrome da dúvida, aquela questão da verossimilhança inerente a toda obra de ficção. Ou seja, a qualidade do real própria às câmeras de vigilância, utilizadas como prova em processo judicial, menina dos olhos dos telejornais, a exibir imagens daquilo que aconteceu, daquilo que está acontecendo, nas imagens ao vivo, diretamente do palco dos acontecimentos, essa qualidade do real é posta em cheque. Afinal, qual o mais real? O que a mente vê? Ou o que a máquina vê? O que o olho humano vê, ou o que o olho da máquina vê?

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O noticiário policial da nossa sociedade pós-moderna nos tem dado conta de uma avalanche de crimes que eram exceção da exceção na cultura do século XX: filhos que assassinam os pais, avós, e parentes que os criam e vice-versa. É que na pós-modernidade o lar é o primeiro ambiente, não mais do real, mas o lar é o primeiro ambiente do ficcional. A televisão, do noticiário às telenovelas, passando pela publicidade, finalmente conseguiu impor-se à mente humana como algo mais real que a realidade, porque uma realidade buscada, desejada por todos, aceita pela sociedade como o referencial máximo do ser social. Quem não está, por si ou seus protótipos, ou pelos bens que se agregam à personalidade (e esses merecem todo um capítulo à parte), na televisão primeiro (esta apenas porque o primeiro canal de veiculação social), em toda a mídia, em seguida, simplesmente não existe para a sociedade, e tudo o que a ele se refere é desimportante no jogo social. Ou seja, quem não está na mídia não está no mundo. Então, todo o processo de ficcionalização do humano e do seu espaço de vivenciação, que advêm dos processos de ideologização dos séculos anteriores até desembocar em uma sociedade pós-moderna pluri-ideologizada, com os afrouxamentos morais antes plantados na personalidade, ainda ideologicamente decorrentes dessa pluralidade de “morais”, de “ideologias”, propicia uma pulverização de um sistema moral, em seus princípios básicos, comum a todas as sociedades anteriores. Se tudo é ideologia, se tudo é modo de pensar, se tudo é mídia, afinal onde pode encontrar-se o princípio de realidade senão no cadinho de ficções transmitidas pela mídia aos pontos centrais do cérebro? E se na mídia tudo aponta para o princípio do prazer inerente ao ficcional-ideologizado, dos filmes, telenovelas e chamamentos ao consumo, sempre em oposição ao princípio da dor inerente ao real-ideologizado, dos tele-jornais (pois todos sabemos que a notícia é sempre um prisma do fato) às misérias ainda presentes nos mesmos filmes, nas mesmas telenovelas, nos mesmos chamamentos ao consumo quando vistos pelo ângulo dos que vivem uma vida mesquinha, de impossível comparação com os seres sorridentes da mídia e que afinal são mesmo tão reais. O resultado é que tudo o que lá está posto, de um modo ou de outro, seja ao formato-ficção, seja ao formato-realidade, visto sob a perspectiva de uma mente desideologizada, justamente pelo excesso de ideologização, acaba por tornar-se a única realidade, o referencial de todos, de todas as demais mentes com as quais interagem todos e cada qual dos indivíduos. Se o que não está na mídia não está no mundo, em tudo o que está, ficcionalmente posto, na mídia, se resume a única realidade tão palpável quanto possível. E a ficcionalização da vida social acaba por ocasionar a ficcionalização da vida individual. E a ficcionalização da própria vida é o maior crime que o humano comete contra a sua humanidade, contra a sua, tanto quanto legítima, vontade-de-poder. 180

São as sombras de uma vida ficcional, lançadas sobre a claridade de uma vida natural, que escurecem os corações e mentes dos humanos, sejam os de vontade de poder a realizar, sejam os de vontade de poder em realização. E são essas mesmas sombras que confundem arte e vida ficcionalizada. Que fazem de todos artistas fictícios. Pois o humano, descomprometido com o fazer artístico, fazendo da arte meio de existir no real-ficcional, inverte o processo inerente a toda arte que é o de livrar-se, em seu fazer-se, das ficções ideologizadas das mídias de todo gênero, e a tal medida que cria - e sem criação não há nenhuma arte - de átomos a cosmos, uma abordagem da realidade para mais adiante, um conhecimento do humano e seu ambiente natural mais profundo e mais sofisticado. E nessa ficcionalização da realidade artística, em que todos refletem uma arte já posta e re-posta à exaustão, e a confundem com o simples ato de criação artística, a tal ponto de acreditarem-se artistas, a única chancela do que seja arte ou não desenfoca-se do ambiente artístico para o ambiente de mídia. E o próprio ambiente artístico, contaminado pelas necessidades da mídia, invadido pela barbárie do tudo-é-arte, acaba por resolver-se em nada é arte. Exaltada a forma conhecida, contra a essência desconhecida; privilegiada a copiação contra a criação; a novidade contra o novo; a fórmula (formato) contra a forma; enfim, todo o processo de criação artística contém-se em “chips” e “softwares”, que pouco a pouco se transferem do modo de pensar da máquina ao modo de pensar humano pela mídia de uma cultura “formatizada” e formatizada pluriideológicamente segundo suas plúrimas ficções. Se as corredeiras desse processo de ficcionalização foram aceleradas numa cultura que mixou ideologias com realidades, a viagem psicodélica produzida pelas drogas com a viagem psicológica produzida pela publicidade, sua Iguaçu é a dificuldade que uma civilização construída sobre os alicerces de uma vontade de poder (inerente à psique humana e ideologizada a partir de uma nobreza da dor) tem em promover a realização do princípio do prazer através de um mesmo processo de ideologização: a vontade de poder, que na sociedade pós-moderna tudo ideologiza,que tudo ficcionaliza, acaba sendo ela mesma vítima das suas artimanhas, ideologizando-se e ficcionalizando-se contaminando o leito subterrâneo de seus nutrientes mais caros, o instinto da violência primeva antes de tudo. A mente humana, confundindo realidade ficcional (mental, psicológica) com realidade material (da physis), a partir da cotidiana confusão entre real e ficcional por mentes infantilizadas pela egotrip das drogas ou pela egotrip das publicidades (do mero consumo de bens multicoloridos ao perigoso consumo de 181

ideologias multifacetadas), acaba por praticar atos de violência real como se estivesse praticando atos de violência ficcional, um instantâneo da vida mental materializando-se no real-ficcionalizado. No instante seguinte, porém, o real toma as rédeas do ficcional, sem que a vida tenha making off e muito menos arquivo de cenas deletadas... Esse processo de ficcionalização do real é talvez o maior desafio da pósmodernidade à mente humana, disparando um processo de desintegração física e psicológica sem precedentes nas histórias das barbáries de todo gênero. E se o núcleo dessas mazelas é mesmo a ficcionalização da realidade, talvez o único antídoto eficaz de superá-las seja o pensamento poético: pois a poesia, sendo fenômeno que a mente busca no além de si, a integrar-se com as verdades do universo infinito em que se inclui, jamais ficcionaliza. A poesia, descortinando sem normatizar, esclarecendo sem informar, supera a vontade dicotômica de poder e nos integra a todos no - tão infinito quanto natural - processo de caminhar para o além-do- ideológico e do ideologizável, para o além-do-fictício, para o além-do-ficcionalizado, para o além-do-ficionalizável. Se, de um lado, a pós-modernidade traz à tona a pluralidade das vontades-de-poder, impostas pelas violências todas, tanto físicas (no material) quanto ideológicas (no mental), de outro - e pelos mesmos vieses de pluralização mental - convida-nos a todos buscar, no entendimento poético das realidades, material e mental, o animal poético que o humano é, que o além-dohumano ainda será.

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O filósofo não tem idéias, o filósofo não produz ou vende idéias: o filósofo descortina a poesia do mundo. O cientista traduz a filosofia em ciência, o político traduz a filosofia em ideologia. Mas só o poeta é apto a compreender a filosofia, a descortinar a poesia na ciência e na política. Tanto quanto a sua ausência, as mazelas e misérias das idéias filosóficas. Se desde os pré-socráticos sempre coube aos poetas essa compreensão da filosofia, a pós-modernidade que desacredita sistemas filosóficos - obriga sermos todos poetas.

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O Universo é feito de átomos. De cada conjunto de átomos. Cada átomo é núcleo do Universo. Cada grupo de átomos é núcleo de núcleos do Universo. O Universo é feito de infinitos núcleos. Por isso que o Universo é infinito em eterna contração, em eterna expansão. O Universo se contrai quando seus núcleos se anulam ou são anulados pelos demais. O Universo se expande quando seus núcleos se expandem ou são expandidos pelos demais. Portanto, a cada núcleo absorvido por cada núcleo conjunto de núcleos, o universo se contrai até à explosão, até à extinção de todo o conjunto de núcleos. E a cada núcleo aliado, sem se extinguir, à formação de conjunto nuclear de núcleos, o Universo se expande: assim as idéias, as matérias, o pensamento e a ação. Assim cada qual de nós, e nossos conjunto de núcleos, partícipes do mundo, somos Universo em expansão. A contração do Universo, assim tanto quanto do mundo, é voraz: a cada indivíduo perdido, a cada indivíduo que se cede ao conjunto de indivíduos desprezada a sua individualidade, mais se acelera a contração - até sua extinção total - de todo o mundo, tanto quanto de todo o Universo. Eros versus Thanatos, eis o que é o Juízo Final.

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Dante Alighieri é sem dúvida, um grande poeta. Ser um grande poeta perante a arte humana não é necessariamente um grande poeta perante a Poesia. Dante tinha o pecado do orgulho, de resto um pecado comum cultivado pelos florentinos. Mandar Sócrates para o inferno é o maior dos seus atos de orgulho. A inteligência é um dom de Deus. A busca da verdade é a busca de Deus. É a busca da Poesia. É verdade que Dante buscou a Poesia em sua Divina Comédia. Mas buscou-a a partir de catecismos que lhe eram anteriores. Sócrates buscou-a a partir de suas dúvidas. Dante parte de um conhecimento de Deus; Sócrates parte de uma dúvida de Deus. Se o conhecimento é limitado, por humano, qualquer conhecimento é orgulhoso; a dúvida é a busca humilde, de quem se sabe precário, de quem reconhece a verdade como algo que lhe é superior, como algo que está para além de suas humanas forças, como algo que necessita da participação de todos para encontra-la.

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Primeiro, eu odiei o papel de vilão. E tudo fiz para fazer o papel de herói. E quanto mais eu fazia o papel de herói, mais eu era o vilão, e todos me apontavam os gestos: lá vai o vilão. A certa altura, desisti de fazer o herói, quis ser o vilão. Ainda ouço os ecos das vozes lá fora: lá vai o herói. Depois que enjoei de ser herói ou vilão, me esqueceram: bom-dia, homem comum.

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A oposição conceitual entre Segurança e Liberdade, oposição acirrada pelas linhagens filosóficas herdadas de Hobbes e Rousseau, é falsa na medida em que sempre funciona a partir de oposições políticas e, portanto, ideológica. Na pós-modernidade, quando a pluralidade cultural, comportamental por conseqüência, aponta no sentido da mais ampla liberdade individual, ao mesmo que multiplica conflitos de interesses geradores de estados individuais de insegurança, essa oposição conceitual perde inteiramente sua razão de ser. Segurança é condição de Liberdade. Sem estar, ou sentir-se seguro, a ninguém é dado o pleno exercício das suas faculdades e potencialidades que caracterizam o estado de liberdade individual. Um novo conceito de Segurança implica necessariamente em pluralização de ambos os conceitos para além da perversa dicotomia que, afinal, maniqueíza situações do mundo real submetendo-as aos ideologismos de plantão.

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Os conceitos ideológicos são “chips” nos cérebros informatizados de humanos-autômatos. Automatizados por uma cultura que veda o livre-pensar e o livre-existir a partir mesmo das mais comezinhas relações individuais.

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Michel Foucault vislumbrou a importância dos conflitos de interesses nas relações pessoais, desde os núcleos mais primários da nossa existência, tentando elaborar uma microfísica do poder. Não progrediu muito: é que as relações de poder na base cultural, por cotidianas, costumam ser mais fortes e intransponíveis que as de ordem macro-cultural.

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Uma vez instalados os chips conceituais, sejam de que natureza forem – arte e cultura – de um lado abre-se caminho para o preconceito e os falsos conflitos de interesses (conflitos ideológicos de interesses); de outro, submetemse as individualidades aos centros emissores de ideologias – mídia e hierarquia – cuja resistência pelo “sistema” mental do indivíduo é punida desde a cotidiana microfísica do poder – grupos familiares e comunitários – na medida em que os demais sistemas individuais automatizados pelos respectivos “chips” reagem a todo estranhamento isolando, ou mesmo agredindo, física ou moralmente, qualquer que tente escapar aos modos comportamentais ou mentais determinados pela equalização programada nos demais “chips”. As ideologias são passadas aos chips cerebrais pelos respectivos centros emissores tal qual ondas de rádio são emitidas aos respectivos aparelhos receptores. Isso obriga os indivíduos a estarem sempre em dia com os centros emissores de ideologias, seja acompanhando as expressões de mídia, seja cumprindo as emissões hierárquicas. Sem contar as periódicas desfragmentações e scandisks, e mesmo os downloads necessários aos corretos setups e procedimentos – arte e cultura.

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O Diretor de Cinema é, no mundo pós-moderno que ora se inicia, o genuíno intelectual dessa era. Acabou-se o tempo dos bacharéis e literatos, dos romancistas e filósofos. Senhores absolutos do Espírito Ficcional, mediador das relações psicológicas entre realidade e ficção, os diretores de cinema são os mentores, mestres e menestréis das coisas que são. São os que traduzem Arte e Cultura – das plásticas às falas, das engenharias às fotografias – em fatos. São os que filtram e distribuem ideologias – e as re-elaboram – tanto no sentido da manutenção como no da transformação dos pensamentos dominantes. Nenhum autor de ficções, em todos os séculos passados, teve à sua disposição tamanho aparato artístico, cultural e tecnológico nem tantas mentalidades ao seu manuseio intelectual. Por tudo isso, os diretores de cinema vão se tornando, oráculos e profetas, os anunciadores e modeladores de futuros.

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Aceitação da antropofagia, realização pós-antropofágica, eis o que são os antropófagos eróticos.

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...A palavra trieb, do alemão: vontade, com a qual Nietzsche construiu a sua tese do humano como vontade de poder funciona, especialmente em meio à juventude, como similar para tesão... Em verdade, a expressão vontade de poder foi criada com essa conotação de tesão pelo poder... Nietzsche a escolheu ainda com essa conotação erótica...

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...Freud, do círculo de Nietzsche, desenvolveu toda a sua teoria da sexualidade, sua concepção de libido e da sexualidade como fator determinante do comportamento humano, a partir de uma feliz compreensão da trieb nietzscheana...

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...Aquele que deseja mas não age, cultiva a peste... [William Blake] * Não me surpreende que nosso Senhor Jesus Cristo apreciasse a companhia de pecadores
e de prostitutas; depois de tudo, é justo o que me agrada também... [Goethe]

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...Só a poesia contém a chave libertadora das retrancas tanto da razão quanto da alma enquanto emanação da carne. E dos grilhões da matéria, principalmente. Na linguagem poética, todo o código erótico...

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...A estrada do sofrimento leva à escravidão. A estrada do prazer leva à libertação. Fazer Belo todo o prazer, eis nossa mais nobre missão...

*
...Um tropel de idéias desordenadas agitou-se-lhe, confundiu-se-lhe no cérebro excitado; o raciocínio ausentou-se, venceu o desejo, triunfou a sugestão da CARNE. Sentou-se rápido à beira da cama, sem largar a môça, puxou-a para si, cingiu-a ao peito, segurou-lhe a cabeça com a mão esquerda, e, nervoso, brutal, colou-lhe a bôca, na bôca, achatou os seus bigodes ásperos de encontro aos lábios macios dela, bebeu-lhe a respiração. Lenita tomou-se de um sentimento inexplicável de terror, quis fugir, fêz um esfôrço violento para desenlaçar-se, para soltar-se. Era o mêdo do macho, êsse terrível mêdo fisiológico que, nos pródromos do primeiro coito, assalta tôda a mulher, a tôda fêmea.

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Baldado intento! Retinha-na os braços robustos de Barbosa: em suas faces, em seus olhos, em sua nuca os beijos dêle multiplicavam-se: êsses beijos ardentes, famintos, queimavam-lhe a epiderme, punham-lhe lava candente no sangue, flagelavam-lhe os nervos, torturavam-lhe a carne. Cada vez mais fora de si, mais atrevido, êle desceu à garganta, chegou aos seios túmidos, duros, arfantes. Osculou-os, beijou-os, a princípio respeitoso, amedrontado, como quem comete um sacrilégio; depois insolente, lascivo, brutal como um sátiro. Crescendo em exaltação, chupou-os, mordicou-lhe os bicos arreitados. - Deixe-me! Deixe-me! Assim não quero! Implorava, resistia Lenita, com voz quebrada, ofegando, esforçando-se por escapar, e prêsa, todavia, de uma necessidade invencível de se dar, de se abandonar. De repente fraquearam-lhe as pernas, os braços descaíram-lhe ao longo do corpo, a cabeça pendeu-lhe, e ela deixou de resistir, entregou-se frouxa, mole, passiva. Barbosa ergueu-a nos braços possantes, pô-la na cama, deitou-se junto dela, apertou-a, cobriu-lhe os seios macios com o peito vasto, colou-lhe os lábios nos lábios. Ela deixava-o fazer, inconsciente, quase em delíquio, mal respondendo aos beijos frementes que a devoravam. E corria o tempo. Barbosa não podia prestar fé ao que se estava dando. Descrente de mulheres, divorciado da sua, gasto, misantropo, êle abandonara o mundo, retirara-se com seus livros, com seus instrumentos científicos, para um recanto selvagem, para uma fazenda do sertão. Abandonara a sociedade, mudara de hábitos, só conservara, como relíquias do passado, o asseio, o culto do corpo, o apuro despretensioso do vestir. Levava a vida a estudar, a meditar: ia chegando ao quietismo, à paz de espírito de que fala Plauto, e que só se encontra no convívio sincero, sempre o mesmo, dos livros, no convívio dos ausentes e dos mortos. E eis que a fatalidade das cousas lhe atira no meio do caminho u’a mulher virgem, môça, bela, inteligente, ilustrada, nobre, rica. E essa mulher apaixona-se por êle, força-o também a amá-la, cativa-o, aniquila-o. Faz mais: contra a expectativa, tornando realidade o improvável, o absurdo, vem ao seu quarto, interrompe-lhe o sono, entrega-se-lhe... Êle a tem entre os seus braços, lânguida, mole, reída de desejos; aperta-a, beija-a.. E...nada mais pode fazer! Não que o detenham preconceitos, receio de conseqüências; não tem preconceitos, já não receia conseqüências. O que o detém é um esgotamento nervoso de momento, uma impossibilidade física inesperada. Debalde procura na concentração da vontade o tom da fibra nervosa, o robustecimento do organismo... Sente o ridículo da posição, desespera, tem as mãos frias, banha-se em suor, chega a chorar. Afastou-se de Lenita, dementado, louco, escalavrando o peito com as unhas. - Não posso! não posso! exclamou, ululou desatinado.
Deu-se uma inversão de papéis: em vista dessa frieza súbita, dêsse esmorecimento de carícias, cuja causa não podia compreender, nem sequer suspeitar;

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no furor do erotismo que a desnaturava, que a convertia em bacante impúdica, em fêmea corrida, Lenita agarrou-se a Barbosa, cingiu-o, enlaçou-o com os braços, com as pernas, como um polvo que aferra a preia; com a bôca aberta, arquejante, úmida, procurou-lhe a bôca; refinada instintivamente em sensualidade, mordeu-lhe os lábios, beijou-lhe a superfície polida dos dentes, sugou-lhe a língua... E o prazer que ela sentia revelava-o na respiração açodada; no hálito curto, quente; era um prazer intenso; frenético, mas... sempre incompleto, falho.

Barbosa, arquejante, tinha ímpetos de levantar-se, de tomar uma pistola, de arrebentar o crânio. Pouco a pouco operou-se uma reação. Sentiu Barbosa que menos agitado lhe circulava o sangue, que um calor doce se lhe expandia pelos membros, que o desejo físico se despertava, dominante, imperativo. Recobrou-se de vez da passageira fraqueza, achou-se forte, potente, varão. Com ímpeto irresistível do macho em cio, mais ainda, do homem que se quer desforrar de uma debilidade humilhosa, retomou o papel de atacante, estreitou a môça nos braços, afundou a cabeça na onda sedosa e perfumada de seus cabelos que se tinham soltado... - Lenita! - Barbosa!
E um beijo vitorioso recalcou para a garganta o grito dorido da virgem que deixara de o ser...

Depois foi um tempestuar infrene, temulento, de carícias ferozes, em que os corpos se conchegavam, se fundiam, se unificavam; em que a carne entrava pela carne; em que frêmito respondia a frêmito, beijo a beijo, dentada a dentada. Dêsse marulhar orgânico escapavam-se pequenos gritos sufocados, ganidos de gôzo, por entre os estos curtos das respirações cansadas, ofegantes. Depois de um longo suspiro seguido de um longo silêncio. Depois a renovação, a recrudescência da luta, ardente, fogosa, bestial, insaciável. Pela frincha da janela esboçou-se um rastilho de luz tênue... [Júlio Ribeiro]

*
Quem vê, Senhora, claro e manifesto

O lindo ser de vossos olhos belos, 189

Se não perder a vista só com vê-los, Já não paga o que deve a vosso gesto. Este me parecia preço honesto; Mas eu, por de vantagem merecê-los, Dei mais a vida e alma por querê-los, Donde já me não fica mais de resto. Assi que alma, que vida, que esperança, E que quanto for meu, é tudo vosso; Mas de tudo o interesse eu só o levo; Porque é tamanha bem-aventurança O dar-vos quanto tenho e quanto posso, Que quanto mais vos pago, mais vos devo.... [Luis de Camões]

*
...Na Grécia Antiga, o prazer, o desejo, eram atributos naturais do indivíduo, para cujo gôzo deviam todos adestrarem-se, educarem-se, como parte da paidéia (a educação do homem grego)... ...Na Roma Clássica, sociedade que privilegiava o Estado sobre os indivíduos, o Império Romano como condição e medida dos seus cidadãos, o prazer é visto como inimigo perigoso, que afasta o homem do reto caminho...

...O prazer habitualmente se esconde e procura as trevas, fica nas vizinhanças das casas de banho, das saunas e dos lugares que temem a polícia; é mole, não tem força, é úmido de vinhos e perfumes, pálido ou pintado,
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embalsamado com ungüentos como um cadáver. (Sêneca)
...pois o prazer erótico é o inimigo nº 1 de toda sociedade organizada com base na obediência dos indivíduos aos poderes constituídos desde o Estado às microorganismos sociais... Quem ama desobedece, infringe, desconsidera qualquer regra que o afasta do objeto do seu desejo...

*
...para chegar ao fundo do êxtase em cujo gozo nos perdemos devemos sempre identificar seu limite imediato: o horror. Não só a dor dos outros ou a minha própria dor, se aproximando do momento em que o horror me inundará, podem permitir-me alcançar um estado de felicidade beirando o delírio, como também não existe nenhuma forma de repugnância em que eu não consiga discernir uma afinidade com o desejo. Isso não significa que o horror se confunda sempre com a atração, mas, se não consegue inibi-lo, destruí-lo, o horror fortalece o desejo. O perigo paralisa, mas, se não for excessivamente forte, pode excitar o desejo. Só alcançamos o êxtase na perspectiva – mesmo que longínqua – da morte, daquilo que nos destrói...

[georges bataille]
*

...Ninguém chega ao fim da vida sem ter visto indeferida mais da metade dos seus desejos. [do Talmude]...

*
...Tudo que foi um desejo torna-se um fato – mas quando não mais o desejamos. [Proust]... 191

*
...é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado da severa vontade de prover os meios de sua execução. [Ortega y Gasset]

*
...Todas as coisas que mais desejo, que mais se agitam dentro de mim, todas as coisas que eu mais desejo são tão esquivas que quando as vejo estão no fim.

[Gilberto Mendonça Teles]
*
...E assim, baqueio do desejo ao gozo, E no gozo arfo, a ansiar pelo desejo. [Goethe]

*
...Il commence bien à mourir qui abandonne son désir [1611)

*
...Não deixes de colher os frutos Que a vida te oferece. Corre A todos os festins e escolhe As copas que forem maiores. Não creias que Deus leve em conta Os nossos vícios e virtudes. Nunca desprezes qualquer coisa Que te possa fazer feliz... 192

[Omar Khayyam]

*
...Todo aprendizado parte do desejo, do interesse específico de cada um... ...É a partir do interesse lúdico numa certa atividade que se pode desenvolver todo aprendizado, toda educação. O atual sistema educacional parte do aprendizado do rebanho, como um todo, sem se importar com a evolução dos desejos e interesses dos educandos... ...De uma prancha de surf, dos interesses de um surfista, de sua atividade lúdica em surfar, se pode desenvolver um aprendizado tão largo que se pode alcançar o conhecimento de anatomia e medicina, por exemplo, a partir de um interesse progressivo no funcionamento do corpo que surfa... Na pós-modernidade vai-se compreendendo que sem amor e desejo não há prazer, e sem prazer não há interesse. Interesse é o material básico com que se faz a ponte para o conhecimento. É no genuíno interesse que se manifesta o dom em cada um de nós. As organizações sociais promovem constantemente falsos interesses, assassinando os dons individuais. Na pós-modernidade que ainda dá seus primeiros passos vai-se compreendendo que parceria sexual, poder político, dinheiro, sucesso, ainda não resultam do fiel exercício dos dons individuais...

*
Quando a sociedade humana puder organizar-se, na pluralidade que a pós-modernidade promete, a partir dos sons (dons) de cada um dos seus indivíduos, seus respectivos ritmos e melodias, promovendo apenas que fluam em harmonia, aí sim, a Terra será Música das Esferas...

*
...O desejo é a mola da razão...

*
...O tipo e o grau da sexualidade de um homem atingem os cumes mais altos do seu espírito... 193

...O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal... ...A satisfação nos protege até mesmo de resfriados. Uma mulher que se sabe bem vestida se resfria alguma vez?... ...Eu não creio em um Deus que não dança... [Nietzsche]

*
...Quando um homem não pode mais amar e não pode mais sentir e o desejo definhou e o coração está dormente então tudo o que ele pode fazer é dizer: Assim é Tenho que agüentar isso e esperar Isso é uma pausa, quão longa não sei, no meu próprio ser... [D.H.Lawrence]

*
...o entendimento humano muito deve às paixões... é pela sua atividade que nossa razão se aperfeiçoa; só procuramos conhecer porque desejamos usufruir... e é impossível conceber porque aquele que não tem desejos ou temores dar-se-ia ao trabalho de raciocinar...[Rousseau]

*
O mistério da sexualidade é um grão de poeira cósmica perante o mistério do Amor. Assim está inscrito nO Sorriso de Eros...

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*
...E, no entanto, o pós-modernismo gera a possibilidade de um encontro plural de culturas, de modo que seja o planeta integrado na pluralidade de raças, credos, éticas, estéticas, economias, e assim por diante... Que por sua vez gera uma globalização pósmoderna, e não essa, ainda só moderna, que anda pelos congressos, tanto à esquerda quanto à direita... Causando todo tipo de desintegração, justamente porque é ainda difícil livrar-se a cultura dessas perspectivas unitárias, maniqueístas, ideologizadas, enquanto o mundo real, já fragmentado, em que nos reconhecemos, nos flagrando ao mesmo tempo enquanto pessoas pluralizadas, em situações de variedade muitas vezes de natureza (vistas "unitariamente"), contraditórias, mesmo paradoxais...

Capa: Marta Strauch c/ ilustração de Gustave Doré, 1997

ccxciii

Para um projeto saudável, pós-moderno, de globalização não pode permanecer intacto o processo maniqueísta do contra ou a favor em blocos... Em blocos unitários, dialeticamente organizados, ideologizados, aos velhos absolutos hegelianos... Essa dialética não existe como realidade do mundo, senão como apreensão fetichizada desse mesmo mundo... Deus e o Diabo na Terra do Sol não se nos apresentam senão em fragmentos espalhados... Nas culturas periféricas, em acelerado processo de pulverização... O dito popular de que o diabo mora nos detalhesccxciv, repete uma noção ancestral ligada à organização do poder, que identifica a fragmentação com O Mal... O mundo da natureza, plural e isento de ética, é, nesse conceito, O Mal... Por isso, a teoria unitária do mundo ainda caminha por aí, desde quando se impunha a necessidade de uma ação "celestial", O Um, O Bem, na cultura, a fim de que o estado de natureza fosse superado...

195

As relações entre o pluralismo fragmentário e o Absoluto se resolvem mais ou menos como a parábola dos Evangelhos: trata-se de dar a césar o que é de césar, e a Deus o que é de Deus... No pensamento oriental esse confronto não ocorre... Há a idéia de Unidade, o Taoccxcv, mas essa unidade é tão distante quanto inaccessível delineá-la senão como ação cosmogâmica, tão invisível e tão fundamental como o ar que respiramos... E tão Ética quanto a Crítica da Razão Prática de Kant...ccxcvi

*
Anda ocorrendo um combate terrível, feroz entre uma Nova Ordem Cultural e especialmente Econômica (fragmentária, pós-moderna, desideologizada, plural, de natureza grega) e uma Velha Ordem (ideologizada, unitária, ainda "moderna", hierarquizada, de natureza romana)... As guerras, na pós-modernidade, estão sendo transferidas para o interior da sociedade civil, para o cotidiano das pessoas, em que, independentemente das razões, motivações, ideologias, individuais ou coletivas, cada indivíduo (sem distinção de qualquer natureza) encontra-se no front... Bem ao contrário das antigas guerras feitas entre Estados-Nações, com seus generais e soldados... Onde cada soldado do lado contrário encontra-se placidamente sentado na poltrona ao lado... Onde já não importa tanto se luta por uma causa ou pelo automóvel... Gonçalves Dias nunca foi tão atual, nesse tempo das tribos: Não chores, meu filho/Não chores que a vida/É luta renhida/Viver é lutar... Aliás, esse é um dos fortes indicadores de que a pós-modernidade não é projeto ou modelo, mas um fato que vem se processando na sociedade e na cultura independentemente de chef-d’écoles... Há símbolo mais dramático aos escuros da pós-modernidade – do seu processo de desconstrução – que a tragédia do World Trade Center?... Os monolitos da Univocidade desabando pela ação fragmentária de um punhado de suicidas, mesmo em nome de uma outra univocidade, de uma das fragmentadas tribos em que se divide sua fragmentada religião?... E que ironia a retaliação ser feita com bombas de fragmentação... Nosso atraso em perceber esse fenômeno, em todas as áreas da arte, do pensamento e do conhecimento, certamente nos tem levado ao atraso em resolver os conflitos dele decorrentes... Corremos cotidianamente o risco de estarmos produzindo (salvo a produção isolada de indivíduos alheios aos Sistemas de Saber Institucionalizado), arte e conhecimento

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tidos como verdades estabelecidas, de rápido e inevitável desaparecimento... De nossas soluções teóricas todas estarem sendo superadas na medida mesmo da sua produção... Na pós-modernidade não se trata mais de substituir ideologias por outras, mas de criar esteticamente com as estéticas todas que aí estão, postas ao longo de todas as histórias... Garantindo-nos a sobrevivência de todas, inclusive as de natureza "unitária", autoritária, esvaziando-se dela, por simples contraposições fragmentaristas, o seu autoritarismo ainda presunçoso e pretensioso...

ccxcvii

Autoritarismo esse que, poder pretensioso em globalizar-se, vai apagando da mente humana, em escala global – esse o perigo de todos os perigos da pós-modernidade e suas fragmentações – pelo abuso imagético das mídias de todo gênero, pela informatização social tendo como únicos parâmetros lucro & poder, filhos bastardos da vontade de poder, vai apagando da mente humana, por um processo de clonagem mental, a capacidade de raciocínio e de articulação lógica do mundo e, por induzimento e estabulamento, a capacidade de livre imaginação. É falso, pois, afirmar que a contrapartida para o aniquilamento da capacidade de pensar em bilhões de seres humanos seja a ampliação da capacidade de imaginar: se é verdade, como afirmou Vico em Scienza Nuova, que a imaginação é tanto mais forte quanto mais fraco for o uso da razão, a ausência absoluta de pensamento lógico só pode conduzir à ausência absoluta de poder imaginativo na medida em que ambos partem de uma fonte comum: a inteligência humana em sua movimentação dialética.

197

E se, ainda com Vico, a arte poética trabalha com sentimentos e paixões, distante das reflexões, raciocínios e pensamentos construídos logicamenteccxcviii, impedidos paulatinamente, pela soberba da máquina, de pensar, só nos resta a nós humanos que não deserdamos da humanidade, dois caminhos: aceitar sem medo os muitos modos da pós-modernidade, lendo e montando esses legos, na articulação lógica do que se tem a articular... ...e ampliar o mais que possamos os espaços poéticos oferecidos pela livre imaginação. Pois a Poesia sempre será a condição primeira de toda humanidade, fonte primeira de toda a nossa liberdade. Supondo que há ouvidos para ouvir, que há homens capazes e dignos de um pathos igual ao nosso, e que não faltam seres a quem tudo isto se possa comunicar. O meu Zaratustra, por exemplo, está hoje ainda buscando tais homens; ah!, terá ainda que buscá-los muito tempo! Requerse valor bastante para saber ouvir. Até então ninguém haverá capaz de compreender a arte que nesse livro abundantemente empreguei: ninguém pôde jamais ser tão pródigo em recursos artísticos novos, inéditos, criados expressamente... Ignorava-se antes de mim do que era capaz a língua (...), do que era capaz, de maneira geral, a linguagem. A arte do grande ritmo, o grande estilo do discurso para exprimir os intentos altos e baixos das paixões sublimes e sobre-humanas, fui eu quem os descobriu; com um ditirambo, como aquele do terceiro Zaratustra, Os Sete Selos, voei mil vezes mais alto que tudo quanto até hoje se chamou poesia...ccxcix

198

ccc

Tentei escrever o PARAÍSO Não se mova Deixe falar o vento esse é o paraíso

ccci

199

Uma pena que os poetas hajam usado o símbolo e a metáfora e ninguém aprendesse nada com eles por seu falar em figuras.
cccii

[In] Conclusão:

Como os leitores hão de ter reparado, inúmeros textos e imagens haviam de ter presença obrigatória no contexto dessa Dissertação; no entanto, dados os prazos acadêmicos, será sempre impossível proceder a um completo diálogo, necessariamente tão honesto quanto sereno e profícuo, com todos os textos que tanta afinidade encerram com as perspectivas teóricas aqui colocadas... A par de uma necessária articulação estética, pesou também, na decisão de deixar para outra oportunidade um sem número desses diálogos, coletados em pesquisas e reflexões ao longo do curso de Mestrado, o fato de ainda não estarem, alguns deles, inteiramente amadurecidos para o autor destes Fragmentos – talvez apareçam em meio aos esboços teóricos de uma futura tese de doutoramento, talvez em fascículos específicos – bem como o fato de que as propostas dessa Dissertação, de natureza estético-literária, não pretendem esgotar a coleta de elementos para uma poética da pós-modernidade – aliás, por si só inesgotável – pois, sobretudo, tinham por escopo maior a apresentação de uma estética textual compatível com o material coletado, adequada ao fenômeno da pós-modernidade. Ou seja: para um fenômeno polifônico uma estética da polifonia – isso foi o que mais se pretendeu apresentar... De outro lado, como já ficou claro, com o apoio de Aira, a dissertação alinha-se com a perspectiva de que o texto, ainda mais quando contextual, é texto em construção...

200

A identidade dessas contextualizações com a interdisciplinaridade dá-lhe o caráter teórico do que vem se chamando Teoria (Theory) – que para a Dissertação é nada mais nada menos que Teoria Literária como, e para dizer o mínimo, articuladora das demais ciências humanas – Disciplina Sem Disciplina, nos moldes estabelecidos em texto de Culler, apresentado pela Professora Heidrun Krieger Olinto... E, tal qual ali em boa hora apresentado, necessariamente endless... Deve-se também alertar que o autor buscou privilegiar os diálogos havidos no transcorrer do seu curso de Mestrado, desde os ensinamentos e pesquisas havidos: com o Professor Gilberto Mendonça Teles sobre Gêneros Literários, Dialogismo, Poética Grega, Modernismo e Vanguardas Literárias; com a Professora Eliana Yunes, sobre Teoria da Leitura, Cinema, e Imaginário, aos seus métodos socráticos de lecionar; sobre Antropologia Cultural e Modernismo, com os Professores Júlio Diniz e Santuza Naves; com a Professora Pina Coco, sobre a vida e a obra de Qorpo-Santo; bem como sobre Interdisciplinaridade, WebLiteratura e Pós-Modernidade com o Professor Reinaldo Laddaga... Também foram privilegiadas algumas questões objeto de trocas teóricas havidas com os meus colegas de Pós-Graduação, especialmente quanto às minhas propostas fragmentaristas: Érico Braga Barbosa Lima, Henrique Rodrigues, Roberto Azoubel e José Francisco da Gama e Silva... Pois se nenhuma pretensão de fazer-se vanguarda, se nenhuma aleivosia de fazer-se arauto ou intérprete da pós-modernidade, o texto dissertativo buscou manter-se fiel à convicção de uma linha teórica que admite os muitos modos de saber, na mais pura tentativa de aproximação poética de um fenômeno que, e disto inteiramente consciente este autor, por tudo o que restou comprovado em texto/contexto, só admite a estética, o dis-cursus [no sentido que lhe deu Barthes em seus Fragmentos De Um Discurso Amoroso] poético que adotou... Quanto à estética poética, na busca de serem também estes todos fragmentos, fragmentos de um polifônico discurso amoroso (por isso mesmo sempre exposto ao risco das críticas hieráticas), é que este autor espera ter reservado para si, ainda que menor, algum mérito eventual... A rigor a rigor, a Dissertação não trabalha propriamente com a noção tradicional de autoria, outra das concepções desconstruídas pela pós-modernidade, aproximando-se levemente, mantidas todas as distâncias e cautelas, do que apontam tanto Vilém Flusser quanto os adeptos do Dogma, a escola escandinava de cinema que não credita os seus diretores... Sem sentir-se habilitado, nem animado, a proposições tais que essas, o autor da Dissertação considera-se, e a todos os que trabalham com textualizações do gênero, um poiético, compreendido o conceito na pluralidade polifônica do teórico e do poético, em engenho e arte, em ética e estética, como arranjador, ou articulador, das múltiplas vozes poiéticas que lhe foi dado perceber...

201

…to be continued secula seculorem…

Eis a Poiética!

202

NOTAS:

203

i

Friedrich Nietzsche, 1872/2000: Cinco prefácios para cinco livros não escritos, em livre (pouca) adaptação. Essa previsão científica vai ao encontro da ficção, tanto nos disquetes de aprendizagem de Matrix, o filme, quanto no super-homem de Nietzsche: Implantes neurais oferecerão aumento de memória e pacotes de informações completos, como um idioma inteiro ou o conteúdo deste livro apreendido em minutos. Tais seres humanos se parecerão pouco conosco.[Stephen Hawking, O Universo Numa Casca de Noz, 2001: 167.].
ii

iii

Personagem Darth Vader, de Guerra nas Estrelas, filme de George Lucas, 1977. Interessante notar que essa personagem, comandante de robôs, representa o Império, traduzindo o aspecto escuro da força unívoca, sistêica e organizadora dos totalitarismos mecanicistas. iv Karl Marx/Friedrich Engels, Manifesto Comunista,1848/1977:24. v Herbert Marcuse, O Fim da Utopia, 1969: 13.
vi

Da canção World Without Love, de Johm Lennon&Paul MacCartney (v. Signografia), interpretada originalmente por Peter & Gordon, nos anos 60 com grande sucesso. vii V. Popper, K.R., Conjecturas e Refutações (O Progresso do Conhecimento Científico), 1963/ 1972: 394.
viii
ix

Karl Raimund Popper, A Sociedade Aberta E Seus Inimigos. 1945/1974: 279. Karl Raimund Popper, A Miséria do Historicismo, 1957/1980: 35/43. x Nikolai Lápine, O Jovem Marx, 1983: 49. xi Vladimir Ilitch Ulianov, dito Lênin, O Estado e A Revolução, 1918/1979: 291.
xii xiii xiv
xv

Eric A. Havelock, A Revolução da Escrita na Grécia, 1982/1996: 16/17. Paulo Bauler (lírica)&Reinaldo Vargas (música), 1999. Partitura elaborada por Rodolpho da Silva.

Roberto Machado, Zaratrusta, tragédia nietzschiana, 1997: 23/4. Friedrich Nietzsche, Ecce-homo, 1888/1ªed.1908/1979:121. Roberto Machado, Zaratrusta, tragédia nietzschiana, 1997: 25. Roberto Machado, Zaratrusta, tragédia nietzschiana, 1997:25/6.

xvi xvii xviii

Ver as óperas-rock: Godspell, filme de David Greene (direção) com roteiro dele com John-Michael Tebelak, música e letras de Stephen Schwartz, 1973; Jesus Cristo Superstar, filme com direção Norman Jewison e Robert Stigwood, com roteiro de Melvyn Bragg e Norman Jewison, a partir do livro homônimo de Tim Rice, com música de Andrew Lloyd Webber e lírica de Tim Rice, 1973; e Hair, filme de Milos Forman (direção), com roteiro de Michael Weller, numa adaptação da peça homônima de Gerome Ragni e James Rado, com música de Galt MacDermont, 1979. xix O homem por primeiro constrói o ficcional que se faz sua realidade primeira; só depois é que constrói o real, que se faz sua ficção última: Como os primeiros motivos que fizeram o homem falar foram paixões, suas primeiras expressões foram tropos. A primeira a nascer foi a linguagem figurada e o sentido próprio foi encontrado por último. Só se chamaram as cousas pelos seus verdadeiros nomes quando foram vistas sob sua forma verdadeira. A princípio só se falou pela poesia, só muito tempo depois é que se tratou de raciocinar. [Jean-Jacques Rousseau, Ensaio sobre a origem das línguas, 1781/1962: 434. (grifei)
xx
xxi

Érico Braga Barbosa Lima, Em Busca do Abstrato (Bachelard), 15.08.97. Clifford Geertz, A Interpretação das Culturas, 1989: 25. Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos, 1912 /1977: 204. Friedrich von Hardenberg, dito Novalis, Fragmentos de Novalis,1992:69

xxii xxiii xxiv
xxv

Paulo Leminski, Metamorfose, uma viagem pelo imaginário grego, 1998:59. Katia Muricy, Os Olhos do Poder, in O Olhar, 1988/2000: 482/5. xxvi James Clifford, A Experiência Etnográfica – Antropologia e Literatura no século XX, 1998:166.
xxvii

Cena de Superman, o filme,de Richard Donner (direção) & Mario Puzo (argumento e roteiro) e David Newman, Leslie Newman e Robert Benton (roteiro), 1978.
xxviii xxix
xxx

Friedrich Nietzsche, Ecce-homo, 1888/1ªed.1908/1979:76.

Friedrich Schlegel, Conversa Sobre A Poesia e Outros Fragmentos, 1800 /1994:91. Sem indicação de capista xxxi O que levou alguns a acreditar numa linguagem só imagética como capaz de superar a Babel: Multiplicidade das línguas, unicidade da linguagem cinematográfica – O fato da língua é múltiplo por definição: existe um grande número de línguas diferentes. Se os filmes podem variar consideravelmente de um país para outro, em função das diferenças socioculturais de representação, não existe, todavia, linguagem cinematográfica própria a uma comunidade cultural. É o motivo pelo qual o tema de “esperanto visual” se desenvolveu, principalmente na época do cinema mudo... [ Michel Marie, Cinema e Linguagem, in A Estética do Filme, Jacques Aumont e outros, 1995: 177.]. Mas, é claro, assim como o cinema mudo precisou da palavra, tal esperanto não seria uma linguagem de surdos... xxxii Tal como nesse diálogo do filme Mulholland Falls (O preço da traição), de Lee Tamahori (direção), Pete Dexter (roteiro e história) e Floyd Mutrux (história), de 1996:

-

-

Sabia que o átomo é , acima de tudo, espaço vazio? Nunca pensei nisso. ...Quase totalmente vazio, com minúsculos fragmentos de matéria. ...Já que o Universo é feito de átomos, tudo o que vemos e tocamos, o chão sob os nossos pés... é feito quase totalmente de espaço vazio. Só não afundamos nele porque as partículas de matéria giram a tal velocidade...que dão a impressão de solidez. Na verdade, o chão está girando...bem embaixo dos nossos pés. Está sentindo? Então não passamos de espaço vazio. Exato! E essas minúsculas partículas de matéria...tão pequenas que ninguém jamais as viu...jamais...contêm energia bastante...para destruir esta casa, uma cidade inteira...todos os habitantes da Terra... (Fiel reprodução das legendas cuja autoria, aliás, não costuma ser creditada pelas empresas responsáveis. O que vem a ser inexcusável, especialmente se levarmos em consideração a generosidade com que os filmes creditam todos os que concorreram para a realização da obra de arte cinematográfica). Marilena Chauí, Introdução À História da Filosofia 1 – Dos Pré-Socráticos A Aristóteles, 2002: 121. V. Jacques Monod, O acaso e a necessidade, 1976.

xxxiii
xxxiv

xxxv
xxxvi

Gilberto Mendonça Teles, 1978, 38. Ver Henry Bergson, La Evolución Creadora [1907], apud Teofilo Urdanoz, OP, Historia de la Filosofia, 1978. xxxvii Para o aprofundamento dessa identidade entre pensamento poético e imaginação ver João Ricardo Moderno, Estética da Contradição, 1997, págs. 132 e segs.
xxxviii xxxix
xl

Salman Rushdie, Os Versos Satânicos, 1998: contra-capa.

Sem indicação de capista. Ver a inscrição grega do seu nome na capa. O alfabeto grego arcaico não possuia o “c”, com duplo som; tinha o “k” (kapa) e o “s” (sigma). A “tradução” muito provavelmente vem da mesma fonte Imperial que se faz em Portugal; o que faz pensar que o português talvez seja a mais romana das línguas... Língua e Império da Univocidade... Daí porque o brasileiro vem, com seus muitos modos de soar os múltiplos sons da nossa terra tropical, “helenizando” (Diz-se assim dada a intensa musicalidade do grego antigo, em comparação às línguas românicas) a língua portuguesa em direção a uma futura alforria gramatical. xli Os estudiosos vêm retomando a questão da distinção entre a ciência e a ideologia, ultrapassado o mito da neutralidade científica, aceito o fato ficcional inerente a ambas, a partir do conceito de cultura obtido através de uma antropologia cultural: quaisquer que sejam os rumos que tomem os acontecimentos, as forças determinantes não serão inteiramente sociológicas ou psicológicas, mas parcialmente culturais – isto é, conceptuais. Forjar um arcabouço teórico adequado para a análise de tais processos tridimensionais é a tarefa do estudo científico da ideologia – uma tarefa que foi apenas iniciada. (grifei). Propõe-se, então, uma noção de “estratégia” para lidar com as sobreposições que ocorrem entre uma e outra: As obras críticas e imaginativas são respostas a questões apresentadas pela situação nas quais elas surgem. Não são apenas respostas, mas respostas “estratégicas”, “estilizadas”. Existe uma diferença no estilo ou na estratégia, se alguém responde “sim” num tom que significa “Graças a Deus” ou num tom que implica um “Coitado de mim!”. Assim, eu proporia uma distinção inicial entre “estratégias” e “situações”, através da qual nós pensássemos sobre...qualquer obra crítica ou imaginativa...como a adoção de várias estratégias para englobar situações...(Kenneth Burke, The Philosophy of Literary Form)(nota no original). Ou seja, identificando “estratégia” com “estilo”, a antropologia cultural torna ao seu berço literário, como ramo puro e simples da Teoria Literária, o que parece ser inexorável a partir da noção de “ficto” como razão primeira de todo fato cultural. A noção de ficção, o conceito de estilo, categorias próprias à teoria literária, faz retornar antigas fronteiras aos domínios da Literatura, tal qual no período pré-socrático... Como tanto a ciência quanto a ideologia são “obras” críticas e imaginativas (isto é, estruturas simbólicas), parece mais fácil alcançar uma formulação objetiva tanto das diferenças marcantes entre elas como da natureza da sua relação de uma para com a outra partindo de um tal conceito de estratégias estilísticas do que de uma preocupação nervosa com a posição comparativa epistemológica ou axiológica das duas formas de pensamento.( Clifford Geertz, A Inbterpretação das culturas, 1989: 202). Restrição faço apenas à assertiva que busca “uma formulação objetiva” que a meu ver sempre resultarão infrutíferas como, de resto, em todo fato literário – sempre de natureza subjetiva, ou de dupla (senão mais) nacionalidade...
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xliii

Sem indicação de arte de capista. Mikhail Bakhtin, Problemas da Poética de Dostoievski, 1929/1997: 113. xliv Bakhtin: 163
xlv
xlvi

Bakhtin: 165. Laddaga, 2001.1.

xlvii

Nesse sentido, o pós-modernismo é também um pós-carnavalismo: revistas dependuradas em jornaleiros expõem nudez de corpos e relações sexuais; sexualidade carnavalizada, preferências sexuais de famosos ou quase-famosos, expostas como se anunciassem receitas culinárias; moralismo às avessas, a moral da carnavalização, em que uma recentíssima obra de arte cinematográfica, sobre a vida de um matemático destacado com o Prêmio Nobel, teve sua indicação ao Oscar 2002 contestada pela imprensa em geral porque não teria mencionado um traço eventual da sua sexualidade [do filme Mente Brilhante]; sátira menipéia, carnavalização macunaímica em expressões de uso corrente como me engana que eu gosto, lei de Gerson, etc; carnavalização macunaímica em que, e de todos os quadrantes,

macunaímas, de um povo macunaímico, nem sempre pacíficos, reclamam sua parte nesse carnavalizado latifúndio pósmoderno. Alegoria típica de tempos pós-modernos, o clown tem sido adotado pelo povo para protestar contra o descumprimento das promessas político-administrativas dos eleitos (o conhecido nariz redondo e vermelho dos palhaços de circo sobreposto aos narizes dos manifestantes). Um povo clown que pouco ou nenhum valor dá às descobertas e invenções, arte e ciência, realizadas por sua gente, logo apropriadas pelas cortes do primeiro mundo. Clowns macunaínicos e suas troupes, esta parece ser a auto-imagem dos povos do terceiro mundo, inclusive o nosso. Em que o lazer se desloca entre a infantilização dos adultos e a carnavalização da infância, mesmo quando se trata de futebol, do próprio carnaval, tudo circo, dos reality shows aos circos das fórmulas um. Mesmo o terrível vilão, de George Orwell, o Big Brother, carnavalizado em voyeurismo despudoradamente coletivizado. Mas, é claro, esses são apenas alguns modos de ver da verve macunaínica brasileira, e há toda uma pletora de elementos positivos da nossa carnavalização que acentuam os oximoros da cultura brasileira. Ver Roberto DaMatta, Carnavais, Malandros e Heróis: Para Uma Sociologia do Dilema Brasileiro, 1997. Para uma interpretação do conceito em Bakhitin, Robert Stam, Bakhtin – Da teoria literária à cultura de massa, 1992:89. xlviii O Carnaval de Bandeira é de 1924; o livro de Bakhtin é de 1929. xlix Gilberto Mendonça Teles, 26.03.02.
l li lii liii
liv

Mário de Andrade, Paulicéia Desvairada, 1921/1987: 59. Sem indicação de capista. Manuel Bandeira, Carnaval, 1924/1993: 156.

Demócrito, de Abdera, 370 a.C. in Gerd Bornheim (org.), Os Filófosofos Pré-Socráticos, s/d: 112. idem:114 lv idem:113
lvi lvii
lviii

Paul Valéry, in Hugo Friedrich, Estrutura da Lírica Moderna, 1978:184.

Paulo Bauler (lírica e música)&Ricardo Barroso (música), 1999. Partitura elaborada por Rodolpho da Silva. Luis Carlos Fridman, Vertigens Pós-Modernas, 2000: 14. lix Tobias Barreto, 1925
lx
lxi

Reinaldo Laddaga, Introducción A Un Lenguage Invertebrado, 2000: 158 idem: 160. lxii A crise da univocidade no pós-modernismo não é apenas fruto dos novos modos políticos, com o fim das utopias, a compreensão das ideologias, etc.: Da segunda lei da termodinâmica à teoria da catástrofe, de René Thom; do simbolismo químico às lógicas não-denotativas; da teoria dos quanta à física pós-quântica; do uso do paradigma cibernético-informático no estudo do código genético ao ressurgimento da cosmologia de observação; da crise Weltanschuung newtoniana à recuperação da noção de “acontecimento”, “acaso” na física, na biologia, na história, o que temos é a crise de uma noção central nos dispositivos de legitimação e no imaginário modernos: a noção de ordem. E com ela assistimos à rediscussão da noção de “desordem”, o que por sua vez torna impossível submeter todos os discursos (ou jogos de linguagens) à autoridade de um meta-discurso que se pretende a síntese do significante, do significado e da própria significação, isto é, universal e consistente. [Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna, 1979/2000: X/XI.
lxiii

Braga, J.L. et alli. (1995). A encenação dos sentidos: Mídia, cultura e política. Rio de Janeiro: Diadorim./ Ong, W.J. (1987). Oralidad y escritura: Tecnologias de la palabra. México: Fondo de Cultura Económica. [Referências bibliográficas da autora]
lxiv lxv
lxvi

Eliana Yunes (Puc-Rio), Leitura, A Complexidade do Simples: Do Mundo à Letra e de Volta ao Mundo, 2000:76.

Gilberto Mendonça Teles, A Escrituração da Escrita, 1996: 186 Vítor de Azevedo, Estudo Crítico in História, de Heródoto, 2001:41.

lxvii

Prefiro o termo, numa perspectiva só literária, privilegiando aspectos estéticos, dado que são perceptíveis, tanto no método socrático quanto no texto de Platão, mais pré-socratismo do que sonha a vã filosofia dos filósofos... lxviii Bakhtin:109 lxix Werner Jaeger, Paidéia, 1979:466 lxx Edgar Wind, por exemplo, procura demonstrar que a sujeição das artes, especialmente da poesia, às razões do Estado em As Leis e A República, não devem ser entendidas com as perspectivas do mundo moderno, pois visavam a educação dos gregos. Seria apenas uma “advertência de Platão”... Mas é claro que, estando o mundo moderno muito mais próximo do mundo Romano, que ainda mais radical que o Grego nessas questões, não há como defender Platão de sujeitar a Poesia ao Estado, confrontando, no sentido de substitui-la, a Paidéia grega... (Wind, A Eloqüência dos símbolos, 1983/1997) lxxi Bakhtin: 109 (grifei em negrito).
lxxii
lxxiii

Bakhtin:109/10 (grifo do original. Há que se admitir que esse livro, traduzido e retraduzido, é propriamente intraduzível. As máximas curtas que o compõem destinavam-se, aparentemente, a servir de tema para meditação. Seria inútil procurar atribuir-lhes um sentido único, ou até um sentido relativamente definido. Essas fórmulas tinham valor pelas múltiplas sugestões que se

podiam encontrar nelas. Tinham uma ou várias significações esotéricas – atualmente indiscerníveis... [Marcel Granet, O Pensamento Chinês, 1934/1997: 304.].
lxxiv

Expressão de Manuel Bandeira referindo-se ao fazer poético, exaltado por Gilberto Mendonça Teles em estudo crítico para Manuel Bandeira: Libertinagem – Estrela da Manhã, 1998:132. Também publicado em Teles, A Escrituração da Escrita, 1996:248.
lxxv

Friedrich Nietzsche, in Duda Machado, Friedrich Nietzsche – Breviário de Citações ou para conhecer Nietzsche, 2001:9.
lxxvi

Nietzsche (no prólogo à Genealogia da Moral), e Schlegel (em seus Fragmentos Críticos): in Maria Cristina Franco Ferraz, ”Das Três Metamorfoses”: Ensaio de Ruminação, 2000: 43. lxxvii Bakhtin:110 (grifo do original). lxxviii [grifei] lxxix Bakhtin: 110 (grifei) lxxx Bakhtin: 167 (grifo original) lxxxi Safranski, Heidegger – um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, 2000: 44 lxxxii Teles,1996: 191, 192, 240. lxxxiii idem, 240. lxxxiv É curiosa a posição de Affonso Romano de Sant’Anna a respeito da desconstrução; usando o exemplo de Duchamp, sugere que, reação modernista ao pós-modernismo, se desconstrua a desconstrução: A chamada pós-modernidade falou muito em “desconstrutivismo" e tachou Duchamp de “desconstrutivista”. Então, usando o mesmo veneno como remédio (similia similibus curantur) lhes digo: é necessário desconstruir Duchamp. Affonso Romano de Santa’Anna, O xeque-mate de Duchamp, 2002. Ora, Affonso, não seria melhor aceitar a pós-modernidade e ocuparmo-nos todos, mais até do que com a reconstrução, mas com as muitas reconstruções? Que, aliás, na maioria dos casos seriam construções? Não seria mais interessante, e mesmo mais rico, para nós brasileiros, a aceitação dos muitos modos? Especialmente se considerarmos que a univocidade brasileira, como num funil invertido, pinga gotas no oceano e esse oceano arrisca esguichar? Não seria melhor tirar o funil? E permitir que os mares se juntem aos céus nos horizontes do amanhecer?
lxxxv

Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, Ideologia, 1987.(adaptei formato p/ o texto). Esse rock típico dos anos 80 mostra bem o vazio ideológico típico da pós-modernidade.
lxxxvi

Do filme Strange Days (Estranhos Prazeres), Kathryn Bigelow (Direção) e James Cameron&Jay Cocks (Roteiro), 1995. lxxxvii Costume antiqüíssimo, a tatuagem, que vinha resistindo ao tempo como uma marca de marinheiros, sugere várias ordens de idéia: a de liberdade das regras da urbis; a expressão de verve aventuresca (força e coragem) de quem se lança aos mares da vida; e, mais diretamente, a dupla manifestação de propriedade corporal e de expressão pessoal. Ganha, na pós-modernidade, uma multidão de adeptos como uma necessidade, face à despersonalização, desindividualização promovida pela massificação da sociedade pós-industrial, levando os indivíduos a usarem seu corpo como espaço. lxxxviii Pois o pós-modernismo ganha terreno nos Estados Unidos e suas manifestações são, equivocadamente, consideradas estratégias de colonização – pós-colonização? lxxxix Basta compulsar os principais dicionários de filosofia publicados entre nós: André Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, 1990/99; José Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia, 1994/2001 e Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia, 1971/2000. xc Sobre essas concepções ver: David Harvey, Condição Pós-Moderna, 2000: 324/6; Terry Eagleton, As ilusões do pósmodernismo,1998: 127/8;
xci
xcii

Harvey: 19 Reinaldo Laddaga, 2001.2 David Harvey: 45.

xciii xciv
xcv

David Harvey: 326 Ver, como exemplo, Signografia; o que foi possível adquirir nas boas livrarias, no período de preparação do Curso de Mestrado. xcvi Eliana Yunes, 26.03.2002.
xcvii xcviii xcix c

Marília Rothier Cardoso, 26.03.02. Walt Whitman, 1855/1985, em livre tradução. Werner Jaeger, 1936.

Nietzsche, in Duda Machado, 2001: 128. Nietzsche, in Duda Machado: 130 cii Gilberto Mendonça Teles, 1989.
ci

ciii

Rob Wittig, 2001.2.

civ cv cvi
cvii

Wittig, 2001.2. Rob Wittig, 2001.2.

Aira, 1998. Filme da Warner Bros, de 1994, dirigido por Barry Levinson, baseado na obra de Michael Crichton. Neste filme a personagem de Michael Douglas percorre ambientes virtuais tal qual estivesse em ambientes reais. cviii Gilberto Mendonça Teles, 1989: 17/20
cix cx cxi cxii cxiii cxiv cxv cxvi cxvii cxviii cxix
cxx

Márcia Lisboa Costa de Oliveira, A Leitura E As Miragens do Virtual, 1999: 42. Oliveira: 44. Luís de Camões, 1595. Nietzsche, 1908/1979:80/1. John Cage, apud Boudewijn Buckinx, O Pequeno Pomo, 1998: 136. Alberto Manguel, Lendo Imagens, 2001: 21. Manguel, 2001: 22. William Blake, in Blake &Lawrence, 2001: 33 In Manguel:22. William Blake, 2001: 63.

Alberto Manguel, 2001, 22. Blake, 2001: 17 cxxi Jorge Luis Borges, apud Manguel: 58. cxxii William Blake, O Casamento do Céu e do Inferno [1793], 2000: 37.
cxxiii cxxiv cxxv
cxxvi

Samuel Beckett, in Manguel, 2001: 36. Henry James, in Manguel: 16.

Paul Valéry, in Hugo Friedrich, 1978: 185. Como afirma Manguel ( 2001, 43).

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cxxviii

John Keats, 1817, in Manguel, 2001: 288. César Aira, 1998 (grifei e destaquei) cxxix Da poiética (aqui colocada como teoria do fazer literário) de Paul Valéry in Friedrich, 1978: 164. cxxx Aira, 1998. cxxxi Ver site www.poesia.com
cxxxii
cxxxiii

Cf. Schlegel O Dialeto dos Fragmentos [1874/1823], 1997: 233. Capa de Victor Burton, sobre retrato de Ezra Pound (detalhe) de Philip Caroll.

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José Lino Grünewald, Ezra Pound: Uma Dialética de Formas, 1986:16/7. Pablo Picasso: Mulher em uma Poltrona (1913 – Óleo sobre tela, 150 x 100 cm. Assinado e datado. Coleção da Sra. Ingeborg Pudelko, Florença. In Mestres da Pintura – Picasso, 1977: 47.
cxxxvi cxxxvii cxxxviii cxxxix

Schlegel et alii, Athenäum1997: 90. Schlegel, Conversa sobre a poesia e outros fragmentos, 1794/1823, 1994: 117. Johann Wolfgang von Goethe, Maximas Y Reflexiones [1829], 1974: 387

Jozè Joaqim de Qampos Leão Qorpo-Santo. A Ensiqlopèdia, ou Seis Mezes de Huma Enfermidade – Livro I (Poezia e Proza), 1877: 71/2. cxl Os fragmentos que se seguem são excertos de Qorpo-Santo e a Pós-Modernidade, [Paulo Bauler, in Revista Escrita, no prelo].
cxli
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Qorpo-Santo, 1877: 15. In Qorpo-Santo: Teatro Completo, fixação do texto, estudo crítico e notas por Guilhermino Cesar, 1980: 65/86. cxliii A referência aos Reis do Universo em Hoje Sou Um; E Amanhã Outro, quando o Ministro descreve as qualidades do próprio Qorpo-Santo ao seu Rei, é uma pérola de ironia e sátira. / Ao contrário do que muitos afirmam, Qorpo-Santo não é aí megalômano, mas apenas ri de si mesmo, estatuindo para si qualidades obviamente exageradas como núcleo de comicidade e absurdo dessa sua peça. É gozação de si mesmo, ironizando-se e satirizando-se, pura utilização do exagero como elemento ficcional do absurdo, que já estaria claro quando na fala: “que esse homem viveu em um retiro por espaço de um ano ou mais, onde produziu numerosos trabalhos sobre todas as ciências, compondo uma obra de 400 páginas...”(o mesmo número de páginas da Ensiqlopedia). No entanto, quando o Ministro acrescenta que “Ainda não é tudo, Senhor! Esse homem era durante esse tempo de jejum, estudo e oração – alimentado pelos Reis do Universo, com exceção dos de palha!”, é verdadeiramente comprar o absurdo por realidade continuar acreditando na

megalomania do autor. E Qorpo-Santo certamente daria boas risadas de alegre satisfação em ver essa miscigenação de elementos provocar o resultado que, afinal, buscava. Tal confusão justifica sua obra da vida absurda. Essa, inclusive, parece ser a sua maior diversão. Alguns de seus poemetos, inclusive, tocam o tema das confusões que provoca. cxliv Esse poema consta da última página, do último Livro, o de n.9 da Ensiqlopèdia, fechando, pois, a sua obra escrita. Curiosamente, mas não por acaso, esta última página encerra-se com quatro poemas dispostos em forma de cruz. Este, ao braço esquerdo da cruz. cxlv Poemeto muito popular em Porto Alegre. cxlvi Basta anotar que, em Mateus e Mateusa, o confronto absurdo, circense, que transcorre durante toda a peça, encontra seu desfecho num discurso – igualmente absurdo – moralizante, feito por um...criado, e que só aparece no final! Cujo nome, Barriôs, muito provavelmente tenha sido inspirado ou num homônimo ditador bufão de El Salvador, escorraçado do poder e fuzilado em sua época, ou num advogado com quem Qorpo-Santo andava às turras... Isso deixa claro, portanto – e aqui se mostra a exata proporção de aplicação do método biográfico – a intenção estética de registrar, ainda esteticamente, a absurdidade do discurso moralizante. cxlvii A referência à identidade entre a sua escritura e a arte da fotografia nesse poema, igualmente reforça, mais do que aparentemente nega, a concepção propositadamente absurda de toda a sua obra. Sua afirmação aqui corresponde a um alerta aos seus censores no sentido de que – achem absurda quanto quiserem a sua literatura – não pode ser censurada, porque ela é tão absurda quanto a realidade o é... qual de fotografia – ato! Portanto, se querem reclamar da feiúra da foto, a culpa não é do fotógrafo... Ou, em outras palavras, se querem reclamar do absurdo das suas comédias, a culpa não é do “comediante”. / Outro poema inscrito ao crucifixo do final da obra (nota IX acima). / Observe-se que o poema em tela é justo colocado à parte superior do crucifixo, onde se situa, simbolicamente, a cabeça do crucificado. Sob o sugestivo título de Censura. cxlviii Capa do filme(vídeo) Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade (direção), 1969. cxlix Essas observações, cristalizadas na sentença destacada, dizem respeito não apenas às técnicas de teatro, mas, especialmente pela liberdade explicitamente concedida por Qorpo-Santo aos produtores e diretores teatrais, para alterar seus textos de acordo com as suas eventuais necessidades. Antecipando, de certa forma, aquele desprendimento do texto pregado, por exemplo, por um Antonin Artaud. Homem de teatro, Antonio Carlos de Sena anotou (v. Assis Brasil, Luiz Antonio de. Qorpo-Santo:entrevista...) que essa liberdade, acompanhada das demais informações dos textos, não constituía uma precariedade do autor como criador, mas uma invenção inovadora ao estreito relacionamento entre texto e montagem, cujo exemplo mais notório são as palavras finais do livro em que reuniu as suas comédias: “As pessoas que comprarem e quiserem levar à cena qualquer das minhas comédias podem; bem como fazer quaisquer ligeiras alterações, corrigir alguns erros e algumas faltas, quer de composição, quer de impressão, que a mim, por inúmeros estorvos, foi impossível”. Ler essa mensagem com olhos de vulgo é desconsiderar que um texto de poeta sempre há que ser lido com poesia... É exercer, o leitor, sua prerrogativa de fazer-se aquilo que Nelson Rodrigues apelidou de idiota da objetividade... cl Walt Withman, Leaves of Grass, 1855.
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Qorpo-Santo, Hoje Sou Um; E Amanhã Outro, in Teatro Completo,1980:108. Filme de Josef Rusnak (direção e roteiro) Ravel Centeno-Rodriguez (roteiro), 1999. cliii Filme de Spike Jonze (direção) e Charlie Kaufman (roteiro), 2000. cliv Capa do vídeo Bob Dylan, Bob Dylan – The 30th Anniversary Concert Celebration, Radio Vision International/ Sony Music, 1993.
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Depoimento de Bruce Springsteen para a História do Rock’n’Roll, 2002, vol.4. Depoimento de Bona Vox (idem). clvii Última página do último livro da Ensiqlopedia, ou Seis Mezes de huma enfermidade, de Qorpo-Santo, em forma de cruz, alusão à sua febre literária e ao processo de crucificação social que sofreu.
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Roland Barthes, O Prazer do Texto, 1973/1999: 7/9..

Mário Chamie, A Linguagem Virtual, 1976: 116/7. No verbo de Jorge Luis Borges: Alfred North Whitehead escreveu que, entre as muitas falácias, há a falácia do dicionário perfeito – a falácia de pensar que, para cada percepção dos sentidos, para cada asserção, para cada idéia abstrata, pode-se encontrar um equivalente, um símbolo exato, no dicionário. E o próprio fato de as línguas serem diferentes nos faz suspeitar que isso não exista. [Esse Ofício do Verso, 2000: 86].
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clxiv

Jean Baudrillard, Cool Memories II – crônicas 1987-1990, 1996: 83. Michel Foucault, Isto Não É Um Cachimbo,1989: 60/1. René Magritte, in “orelha” de Foucault, Michel: 1989. Desenho de René Magritte in Isto não é um cachimbo, de Michel Foucault, 1973/1988: 87. Friedrich Nietzsche, Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral [1873]. In Os Pensadores, vol. XXXII, 1974:

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56.
clxvi

V. Eric A. Havelock, A Revolução da Escrita na Grécia. 1982/1996. Nietzsche, 1873/1974 clxviii John Ford, apud Peter Bogdanovich, Afinal, Quem Faz Os Filmes, 2000: 10.
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clxix

Do livro infantil de Fernanda Lopes de Almeida (texto e roteiro das ilustrações) e Fernando de Castro Lopes (ilustrações), O Equilibrista, 1987: 2 clxx Idem, O Equilibrista: 3. clxxi Idem,O Equilibrista: 27..
clxxii
clxxiii

José Francisco da Gama e Silva, 2001.1. Fernando Pessoa, Sobre o Romantismo, in Obras Em Prosa, 1986: 292. clxxiv Almeida & Lopes, O Equilibrista: 30. clxxv Idem, idem: 31. clxxvi Idem, idem: 32.
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clxxviii

Fayga Ostrower, Criatividade e Preocesso de Criação, 1987: 122. Capa do filme (vídeo) de Peter Weir (direção) &Tom Schulman, Sociedade dos Poetas Mortos, 1989. clxxix Paulo Bauler, Delírio Antropofágico, in Ghesas de Eros, 2000: 324.
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clxxxi

Sérgio Augusto de Andrade, A Cultura Sexy do Brasil, 2002: 23. Capa do filme (Vídeo) Villa-Lobos-Uma Vida de Paixão , de Zelito Vana (produção e direção) e Joaquim Assis (roteiro), 2001.
clxxxii clxxxiii clxxxiv clxxxv clxxxvi clxxxvii clxxxviii
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Fala de Heitor Villa-Lobos, no filme de Zelito Viana & Joaquim Assis, 2001. Jean Braudrillard, Cool Memories III – fragmentos 1991-1995, 2000:84/5. Paulo Bauler, Delírio Antropofágico, in Ghesas de Eros, 2000: 606. Jacques Attali, Dicionário do Século XXI, 2001: 85. Jacques Attali: 249. Paulo Bauler, Delírio Antropofágico, 2000: 651.

Fala de Heitor Villa-Lobos, no filme de Zelito Viana & Joaquim Assis. Reinaldo Laddaga, 2001.2. cxc Foto Richard Romero; produção Cácia Scudino. cxci Foto Imago, produzida no projeto Lambe-Lambe, Carnaval de Olinda, 96. cxcii Bárbara Kruger. Sem título (Não seremos mais vistas nem ouvidas). 1985. Nove litografias coloridas com fotolinografia e silkscreen: 52x52 cada. Apud Eleanor Heartney, Pós-Modernismo, 2002. Este é um bom exemplo de diálogo imagético nas artes plásticas. cxciii Uma obra como o Ulisses de Joyce é extremamente escandalosa e subversiva em sua crítica do mito burguês do significado imanente. Como protótipo de todos os textos antiauráticos – reciclagem mecânica de um documento sagrado -, Ulisses pulveriza essa mitologia arrasando as distinções entre elevado e baixo, sagrado e profano, passado e presente, autenticidade e derivação, e o faz com toda a demótica vulgaridade da mercadoria. Franco Moretti mostrou como Ulisses torna mercadoria a própria forma do discurso, reduzindo a ideologia burguesa do “estilo singular” a uma circulação contínua e despropositada de códigos empacotados sem privilégio metalingüístico, uma polifonia de fórmulas verbais escrupulosamente “imitadas”, completamente hostil à “voz pessoal”. [Terry Eagleton, A Ideologia da Estética, 1990/1993: 271.].
cxciv cxcv
cxcvi

Affonso Romano de Sant’Anna, Rosa versus Machado, 22.12.2001 (grifei).

Jair Ferreira dos Santos, Barth, Pynchon e outras absurdetes (o pós-modernismo na ficção americana), 1995: 70/1. Paul Valéry, apud Hugo Friedrich: 185.

cxcvii
cxcviii

Haroldo de Campos, Uma Poética da Radicalidade, 1981: 17, 18, 34, 35. Cf. Todorov, em ensaio sobre a poiética em Lessing: A presença ou a ausência de um elemento no texto é determinada pelas leis da arte que se pratica. Portanto, uma tese literária jamais poderá seguir ordenamento que não lhe atenda suas todas possíveis singularidades. Não apenas de natureza científica (estrito senso), mas ainda em suas peculariedades poiéticas e estéticas. [Tzvetan Todorov, Os gêneros do discurso, 1980: 29/30. cxcix Jean Paul Sartre, O Imaginário, 1940/1996: 246.
cc

Para as mazelas da “explosão vídeo” na pós-modernidade, ver Gilbert Durand, O Imaginário-Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem, 1999: 117/20. cci William Blake, in Tudo que vive é sagrado, 2001: 37. ccii Werner Jaeger, Paideia, 1936: 153/5 e 223. cciii Jaeger: 143. cciv Jaeger: 153 ccv Embora a manifestação anti-erótica, Sêneca, que amava Epicuro, devia estar cumprindo obrigação política... O que bem demonstra a dicotomia Estado/Indivíduo em Roma: Mas o que Sêneca teve a liberdade de escrever, não teve de viver... A filosofia libertou-o, mas como era um famoso senador do povo romano, ele venerava o que rejeitava, fazia o que condenava, adorava o que desprezava... [Benjamin Farrington,A Doutrina de Epicuro, 1968: 147. ccvi V. Paulo César de Souza, Notas do Tradutor, in Além do Bem e do Mal-Prelúdio-Prelúdio a uma filosofia do futuro, de Netzsche,1992: 216.

ccvii

Nietzsche, Além do Bem e do Mal-Prelúdio a uma filosofia do futuro, 1992: 69. Anônimo,1611 ccix Nietzsche, Além do Bem e do Mal, 1992: 80. ccx [Nietzsche, idem. ccxi Rousseau, Ensaios Sobre A Origem Das Línguas: 434 ccxii In Maktub, coluna diária do escritor no jornal Folha de São Paulo. ccxiii O discurso de Nietzsche em seu Anticristo é, no entender do autor, reflexo dos mesmos sentimentos anti-religiosos de um Joyce, por exemplo. Já a obra de Wilhelm Reich, considerado em sua época uma espécie de anticristo, com as mesmas críticas a uma certa cristianização, não vê oposição alguma entre o pensamento cristão e a natural alegria de viver. ccxiv Jean-Jacques Rousseau, Ensaio Sobre A Origem Das Línguas, in Obras, 1962: 434.
ccviii

ccxv ccxvi
ccxvii

Friedrich Schlegal, 1997: 158.

Carl Jung, Chegando ao Inconsciente, 1961: 20. Pintura Navajo em areia representando o mito do Coiote, que rouba o fogo dos deuses para dá-lo ao homem. Na mitologia grega, Prometeu também rouba o fogo dos deuses para o homem, tendo sido, por isso, acorrentado a uma rocha e torturado por uma águia [Nota da ilustração do ensaio de Joseph L. Henderson, Os mitos antigos e o homem moderno, em Carl G. Jung, 1964:114].
ccxviii ccxix
ccxx

Carl Jung, 1961: 20.

Senão pela sua poesia, como conhecimento inconsciente de sua inteligência emocional - acrescento. Carl Jung, 1964/1997: 21.

ccxxi
ccxxii

Carl Jung: 23. Muitos precursores da psicanálise moderna, fotografados em 1911, no Congresso de Psicanálise de Weimar, Alemanha. A indicação numérica identifica algumas das personalidades mais conhecidas. Apud Carl Jung: 26. A mim a foto inspira reflexões sobre os uns e os múltiplos, sobre a multiplicidade de pensamento, a pluralidade do conhecimento, sob uma aparente univocidade... A univocidade é uma fotografia (estática) se comparada à percepção fragmentária que, como um filme (dinâmica). ccxxiii Carl Jung: 25
ccxxiv ccxxv
ccxxvi

Carl Jung: 25.

Marilena Chauí, Entrevista a O Globo de 09.04.2002. Lílian Hellman, Pentimento – Um Livro de Retratos, 1980: Intróito. ccxxvii Raimundo Faoro, Os Donos do Poder, 1977. ccxxviii Caetano Veloso, Verdade Tropical, 1997: 17. ccxxix CD Caetano Veloso, sem indicação de foto ou arte.
ccxxx ccxxxi

CD Da Lama ao Caos, Chico Science & Nação Zumbi (Chaos, 1993).

Roberto Azoubel, A impressionante (e necessária) invasão dos homens-caranguejos (aspectos ficcionais e políticos do manguebit), 2000.2. ccxxxii Ezra Pound, ABC da Literatura, 1990: 161. ccxxxiii Qual é o estilo de James Joyce? Essa aflitiva reificação da linguagem, com todo o seu esculpir flaubertiano sobre materiais verbais inertes, é exatamente o que permite o radicalismo bakhitiniano de Joyce, seu impactar dialógico, carnavalesco, de uma língua com outra – tanto quanto em Finnegans Wake uma sabotagem política profunda da significação fixa acontece através dos movimentos de um significante promíscuo, que, como a forma mercadoria, continuamente nivela e iguala identidades para poder permuta-las de modos fantasticamente novos. O mecanismo da troca, ou o espaço do valor de troca, é aqui o trocadilho ou o significante múltiplo, em cujo espaço, como no caso da mercadoria, os significados mais chocantemente disparatados podem se combinar. É nesse sentido que Joyce, para usar uma expressão de Marx, permite à história progredir “pelo seu lado ruim”, partindo, à moda de Brecht, das más novidades e não das boas velharias. [ Terry Eagleton, 1990/1993: 271.]. ccxxxiv Nota do Editor brasileiro de James Joyce, Ulisses, 1977: 852. ccxxxv Wolfgang Müller-Lauter, A Doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche, 1997: 74/5.
ccxxxvi
ccxxxvii

Calandra, 1964/Teixeira, 2002. (V.Signografia). Francesco Clemente, Sol da meia-noite, 1982. ccxxxviii Eleanor Heartney, Pós-modernismo, 2002: 20/1.
ccxxxix
ccxl

Diálogos do filme Strange Days (Estranhos Prazeres), de Bigelow e Cameron&Cocks, 1995. Ver tb. nota 75. Site Internet ccxli Idem ccxlii Three Essays on Theory of Sexuality, vol. 7, p.134 [Nota de Jonathan Culler]. ccxliii Jonathan Culler, Sobre a Desconstrução – teoria e crítica do pós-estruturalismo, 1982/1997: 185. ccxliv The Interpretation of Dreams, vol. 5, pp 612-13 [Nota de Jonathan Culler (Ver nota 215 acima) , no ponto assinalado no texto].

ccxlv

Nada mais que poeta. In Kama Antropofágyka, Paulo Bauler, 2002.

ccxlvi
ccxlvii

Heidrun Krieger Olinto, Discursos Transculturais, 1999: 50/3. Sem indicação de arte da capa; o que merece severa crítica por apropriação de autoria pela Editora. ccxlviii Filme (DVD) de Peter Weir (direção) e Andrew Nicol (roteiro), 1998.
ccxlix ccl
ccli

Vilém Flusser, Ficções Filosóficas, 1998: 129.

Filme da dupla de irmãos, com o nome artístico de The Wachowski Brothers (direção e roteiro), 1999. No momento, os computadores têm a vantagem da velocidade, mas não mostram sinal de inteligência. Isso não surpreende, já que nossos computadores atuais são menos complexos do que o ‘cérebro’ de uma minhoca – uma espécie que não se destaca por seus dotes intelectuais... Mas os computadores obedecem àquela que é conhecida como Lei de Moore: suas velocidade e complexidade dobram a cada 18 meses... Trata-se de um desses crescimentos exponenciais que, sem dúvida, não podem continuar para sempre. Entretanto, ele provavelmente continuará até que os computadores atinjam uma complexidade semelhante à do cérebro humano. Há quem afirme que os computadores nunca poderão exibir uma inteligência verdadeira – seja isso o que for. Mas parece-me que, se moléculas químicas muito complexas podem agir em seres humanos para torna-los inteligentes, circuitos eletrônicos igualmente complexos podem também fazer os computadores atuar de forma inteligente. E se forem inteligentes, eles poderão supostamente projetar computadores com complexidade e intelig~encia ainda maiores... [Stephen Hawking, 2001: 165/7.]. cclii Cena do filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick (direção e roteiro) e Arthur C. Clark (livro e roteiro), 1968.
ccliii ccliv

Para uma análise da razão sádica apolínea ver PAGLIA, Camille. Personas Sexuais (Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson), 1990: 222/33. Queenboro Bridge, NY: Fotografia de Spenser Tunick, artista presente na 25ª Bienal de São Paulo, como parte de sua programação, na atividade de fotografar o humano, agora brasileiro, em estado de natureza, em contraste com o espaço urbano. Tunick já viajou quatro continentes fotografando populares nus no espaço urbano. Matéria jornalística no Segundo Caderno do jornal O Globo de 21.03.02. cclv Quando criado, o Super-Homem possuía como uma de suas características a força de levantar dez vezes o seu peso (a formiga foi a referência, disseram os criadores Joe Shuter e Jerry Siegel). Algumas décadas depois já aparecia realizando proezas incríveis, como o transporte de asteróides... (Do texto original. V. nota final a esse texto.). cclvi Martin Cezar Feijó. O Que É Herói. São Paulo: Brasiliense,1995 (nota do autor do texto). cclvii In A Figura do super-herói, de Henrique Rodrigues Pinto (Trabalho apresentado à prof.ª Denise Moreira na disciplina Prática de Ensino II do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 22 de junho de 1999). cclviii Eugen Herrigel: 1975/1991. Sem indicação de capista. cclix George Woodcock: 1977/1985. Sem indicação de capista.
cclx

Charles Chaplin (Carlitos) (direção, roteiro e música), Tempos Modernos, 1936/2001. Último filme mudo de Chaplin (ele não fala mas utiliza efeitos sonoros e até participa de um número musical), in Rubens Ewald Filho, Guia de Filmes DVDnews, 2001. cclxi Filme de Nicholas Meyer (direção) e Edward Hume (roteiro), 1983. cclxii Arnaldo Jabor, A Invasão das Salsichas Gigantes e Outros Escritos, 2001: 166.
cclxiii
cclxiv

Ezra Pound, A Arte da Poesia ,1991: 149. Jorge Mautner, Fragmentos de Sabonete e Outros Fragmentos, 1995: 47. cclxv Mautner, 1995: 45.
cclxvi cclxvii
cclxviii

Bauler (lírica) & Vargas (música), Beautiful Maíra, 1999. Partitura elaborada por Rodolpho da Silva.

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, 1977/2000: 13/4. Gattaca – A Experiência Genética (Gattaca), 1997, filme escrito e dirigido por Andrew Niccol. cclxix Blade Runner, O Caçador de Andróides: filme de Ridley Scott (direção) e Hampton Fancher & David Peoples (roteiro), 1982/2001 (DVD) cclxx A.I.Inteligência Artificial (A.I Artificia Intelligence) filme de Steven Spielberg (roteiro e direção), Ian Watson (história) e Brian Aldiss (conto), 2001. cclxxi A. I.- Inteligência Artificial ( A.I. – Artificial Intelligence), filme de Steven Spielberg (roteiro e direção), baseado em história de Ian Watson e no conto de Brian Aldiss, segundo produção original de Stanley Kubrick.
cclxxii
cclxxiii

Cronicamente Inviável, 2001, filme de Sérgio Bianchi (direção e roteiro) e Gustavo Steinberg (roteiro). A expressão é do escritor Ribeiro Couto, em carta dirigida a Alfonso Reyes e por este inserta em sua publicação Monterey. Não pareceria necessário reiterar o que já está implícito no texto, isto é, que a palavra “cordial” há de ser tomada, neste caso, em seu sentido exato e estritamente etimológico, senão tivesse sido contrariamente interpretada em obra recente de autoria do Sr. Cassiano Ricardo onde se fala no homem cordial dos aperitivos e das “cordiais saudações”, “que são fechos de cartas tanto amáveis como agressivas”, e se antepõe à cordialidade assim entendida o “capital sentimento” dos brasileiros, que será a bondade e até mesmo certa “técnica da bondade”, “uma bondade mais envolvente, mais política, mais assimiladora”. [Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 1936/1995: 204/5].

A expressão “técnica da bondade” de Cassiano sugere uma certa política da malandragem brasileira que, nesses tempos pós-modernos, vem sendo substituída pela violência moral ou explícita.
cclxxiv
cclxxv

Nas periferias, a pós-miséria cria um outro país. Crônica de Arnaldo Jabor, no jornal O Globo de 16.04.02. Perro (de Amores Perros, v. nota seg.), em português cão. Mondo Cane (Mundo Cão), um documentário que fez época ali pelos idos finais dos anos 60, inícios dos 1970, em que se exibia a natureza em sua brutalidade animal (cito de memória). cclxxvi Amores Perros (Amores Brutos), 2000, filme de Alejandro Gonzales Iñárritu (direção) e Guillermo Arriaga Jordan (roteiro). cclxxvii Essa atividade imagética fragmentária da mente humana foi estudada (e desenvolvida artisticamente como método terapêutico e científico) pela psiquiatra Nise da Silveira para o estudo da patologia esquizofrênica: O ATELIER DE PINTURA era inicialmente apenas um setor de atividade entre vários outros setores da Terapêutica Ocupacional, seção que estava sob minha responsabilidade no Centro Psiquiátrico Pedro II. Mas aconteceu que desenho e pintura espontâneos revelaram-se de tão grande interesse científico e artístico que esse atelier cedo adquiriu posição especial. Era surpreendente verificar a existência de uma pulsão configuradora de imagens sobrevivendo mesmo quando a personalidade estava desagregada. Apesar de nunca haverem pintado antes da doença, muitos dos freqüentadores do atelier, todos esquizofrênicos, manifestavam intensa exaltação da criatividade imaginária, que resultava na produção de pinturas em número incrivelmente abundante, num contraste com a atividade reduzida de seus autores fora do atelier, quando não tinham mais nas mãos os pincéis.Que acontecia? Nas palavras de Fernando estaria possivelmente a resposta:“Mudei para o mundo das imagens. Mudou a alma para outra coisa. As imagens tomam a alma da pessoa”. Nise da Silveira, Imagens do Inconsciente, 1981: 13.
cclxxviii

Maria Célia Teixeira Eles dizem, eles fazem. Rio de Janeiro: In BIS, Caderno de Cultura do jornal Tribuna da Imprensa, ed. 13.03.02. cclxxix O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potiomkin) [1925], filme de Sergei M. Eisenstein. Em 1948 e também em 1958 uma seleção de críticos internacionais de cinema escolheram O Encouraçado Potemkin como o maior filme de todos os tempos. É o tipo de filme que é exibido no início de qualquer curso de cinema. A cena em que as tropas do czar descem a Escada de Odessa matando homens, mulheres e crianças em seu caminho é a mais famosa cena da história do cinema. Mas, O Encouraçado Potemkin é muito mais do que um documento histórico, e, mesmo atualmente, com o avanço das técnicas de filmagem muito além daquelas disponíveis na época de Eisenstein, o filme permanece uma experiência fantástica e irresistível. Este é o trabalho mais influente do homem que é considerado o mais importante diretor da História do Cinema. cclxxx Berlim – Sinfonia da Metrópole (Berlin – Die Sinfonie der Grosstadt), 1927, filme de Walther Ruttmann (direção) e Karl Mayer (argumento). cclxxxi Baraka – Um mundo através das palavras (Baraka), 1992, filme de Ron Fricke (direção, roteiro, edição e fotografia) e Genevieve Nicholas & Constantinte Nicholas (roteiro). O curioso no título do DVD brasileiro Um mundo através das palavras é que o filme nos trás uma sucessão de imagens sem qualquer palavra escrita ou oral. Terá o tradutor brasileiro errado na titulação da obra ou terá sido uma alusão ao poder narrativo da imagem? cclxxxii Clube da Luta (Fight Glub), 1999, filme de David Fincher (direção) e Jim Uhls (roteiro), baseado no livro [1996/2000] homônimo de Chuck Palahniuk. (DVD) cclxxxiii Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry) [1997], filme de Woody Allen (direção, roteiro e atuação).

cclxxxiv
cclxxxv

Henrique Rodrigues Pinto, Desconstruindo Allen, 2000. Zelig [1983], filme de Woody Allen (direção, roteiro e atuação).

cclxxxvi
cclxxxvii

Bauler & Vargas, 1999. Partitura elaborada por Rodolpho da Silva Pulp Fiction (Pulp Fiction – Tempo de Violência), 1994, de Quentin Tarantino (direção, histórias e roteiro) e Roger Avary (histórias). cclxxxviii Funny Games (Violência Gratuita), 1997, de Michael Haneke (direção e roteiro).
cclxxxix
ccxc

Diálogo de Violência Gratuita, Haneke: 1997. A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project), 1999, de Daniel Myrick & Eduardo Sanchez (Roteiro, direção e montagem). ccxci A Bruxa de Blair 2, O Livro das Sombras (Book of Shadows: Blair Witch 2), 2000, de Joe Berlinger (roteiro e direção) e Dick Beebe (roteiro).
ccxcii

Arthur Schopenhauer (Bryan Magee, História da Filosofia, 1999: 139), é o autor dessa frase famosa e muito atribuída a Hobbes devido ao princípio filosófico deste para a formação do Estado. ccxciii Ilustração de Gustave Doré em The Rime of the Ancient Mariner (informação da edição) ccxciv Antigo provérbio alemão, cf. Paulo Coelho, em Brida, 1990: 180. ccxcv Tao é um estado de consciência. Ele começa onde a mente acaba. Não possuímos conceito algum para traduzi-lo, simplesmente porque o ocidental desconhece esse estado. A palavra Tao é constituída de duas imagens: “cabeça” e “caminhar”. Como cabeça, podemos entender algo relativo à consciência; como caminhar, ir deixando o caminho para trás. O Tao é este estado de “consciência dinâmica”. Nele você está em relação consciente com a vida. E participa dela sem perguntas ou respostas preconcebidas. A própria vida se faz presente... King em chinês significa

“livro” e Te, “ponte”. Em última análise, Tao Te King significa “O livro que leva ao contacto com o infinito, com o indivizível, com o absurdo, à finalidade última”. Pedro Tornaghi, in Lao Tse, Tao Te King, 1989: 9/10. [Muito particularmente, neste trabalho utilizo – o que me parece apropriado – o termo Tao como A Totalidade Infinita, o eterno caminhar assim do humano como das estrelas, tudo o que há e o que não há, no sentido de O Cheio e O Vazio em eterno processo...] ccxcvi Por se mover num mundo de emblemas e atribuir uma realidade plena aos símbolos e às hierarquias de símbolos o pensamento chinês orienta-se para uma espécie de racionalismo convencional ou escolástico. Mas, por outro lado é movido por uma paixão empiricista que o predispôs a uma observação minuciosa do concreto, e que sem dúvida o levou a observações frutíferas. Seu maior mérito é nunca haver separado o humano e o natural e ter sempre concebido o humano pensando no social. A idéia de lei não se desenvolveu e, por conseguinte, a observação da natureza ficou entregue ao empirismo, e a organização da sociedade ao regime dos compromissos. Mas a idéia de Regra, ou melhor, a noção de Modelos, permitindo aos chineses conservarem uma concepção flexível e plástica da Ordem, não os expôs a imaginar, acima do mundo humano, um mundo de realidades transcendentais. Inteiramente impregnada de um sentimento concreto da natureza, sua Sabedoria é decididamente humanista... [Marcel Granet, O Pensamento Chinês, 1968/1997: 210]. Marcel Granet aderiu ao postulado de Voltaire sobre uma China “racional”; nenhum preconceito teológico impelia os chineses a “imaginar que o Homem compunha sozinho, na natureza, um reino misterioso”; por isso, “nada os (havia impedido) de edificar toda a sua sabedoria sobre uma psicologia de espírito positivo”. [Vadime Elisseeff, in Marcel Granet: 10]. ccxcvii Foto, sem indicação de autoria, in Gerald Thomas, A Primeira Guerra do Século XXI (Relato de uma Testemunha), setembro de 2001. ccxcviii João Ricardo Moderno, Estética da Contradição, 1997, pág. 132.
ccxcix ccc
ccci

Nietzsche, Ecce Homo, 1908: 81/2

Omar Káyyám, Rubáyát de Omar Kháyyám, versão de Octavio Tarquinio de Sousa, 1951: 37. Ezra Pound, Os Cantos, 1934/1986: 837. cccii Ezra Pound, Os Cantos, 1934/1986: 833.

SIGNOGRAFIA:
…to be continued...
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