cOlecão •• primeiros

20 ••• • passos
Carlos Rodrigues Brandão
'"
O QUE E
-
EDUCAÇAO
editora brasiliense
Cupyright © hy Carlos Rodrigues Brandão, 1981
Nenhuma parte desta publicação pode gravada,
annazenada cm sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer
sem aUlorização prévia da editora.
Primeira edição, 198 t
49
3
reimpressão, 2007
Revisão: José E. Andrade e Lúcia S. Nicolai
Caricatura. .. : Emílio Damilli
Capa: /23 (antigo 27) Artistas Gráficos
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Brandão, Carlo"
O que é educação / Carlos Rodrigues Brandão.
São Paulo: Brasiliense, 2007. - - (Coleção primeiros
passos; 20)
49" reimpr. da 1. ed. de 1981.
ISBN 85-11-01020-3
I. Educação I. Título. H. Série.
Índices para catálogo sistemático
I. Educação 370'
editora brasiliense S.3.
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ÍNDICE
Educação? Educações: aprender com o
índio .............. .
Quando a escola é a aldeia ...... .
Então, surge a escola .......... .
Pedagogos, mestres-escola e sofistas.
A educação que Roma fez, e o que ela
ensina ................ _ ........... .
Educação: isto e aquilo, e o contrário
de tudo ..... _ ..................... .
Pessoas versus sociedade: um dilema que
oculta outros ....................... '.
Sociedade contra Estado: classe e educação
A esperança na educação. _ ..
- Indicações para leitura. , ......... , .... .
••
.. .. '
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EDUCAÇÃO? EDUCAÇÕES:
APRENDER COM O ÍNDIO
Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é:
a coragem minha. Buriti quer todo o azul. e não se
aparta de sua água - carece de espelho. Mestre não
é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.
João Guimarães Rosa/Grande Sertão: Veredas
Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua,
na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos
todos nós envolvemos pedaços da vida com ela:
para aprender, para ensinar, para aprender-e-
-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para
conviver, todos os dias misturamos a vida com
a educação. Com uma ou com várias: educação?
Educações. E já que pelo menos por isso sempre
achamos que temos alguma coisa a dizer sobre
a educação que nos invade a vida, por que não
8
Carlos Rodrigues Brandiío
começar a pensar sobre ela com o qúe uns índios
uma vez escreveram?
Há muitos anos nos Estados Unidos, Virgínia
e Maryland assinaram um tratado de paz com
os r ndios das Seis Nações. Ora, como as promes-
sas e os símbolos da educação sempre foram
muito adequados a momentos solenes como
aquele, logo depois os seus governantes mandaram
cartas aos índios para que enviassem alguns de
seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes
responderam agradecendo e recusando. A carta
acabou conhecida porque alguns anos mais tarde
Benjamin Franklin adotou o costume de divulgá-Ia
aqui e ali. Eis o trecho que nos interessa:
" .. . Nós estamos convencidos, portanto, que
os senhores desejam o bem para nós e agrade-
cemos de todo o coração.
Mas aqueles que são sábios reconhecem que dife-
rentes nações têm concepções diferentes das coisas
e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos
ao saber que a vossa idéia de educação não é
a mesma que a nossa_
.. . Muitos dos nossos bravos guerreiros foram
formados nas escolas do Norte e aprenderam toda
a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para
nós, eles eram maus corredores, ignorantes da
vida da floresta e incapazes de suportarem o frio
e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar
o inimigo e construir uma cabana, e falavam a
o que é Educação
nossa I/ngua muito mal. Eles eram, portanto,
totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros,
como caçadores ou como conselheiros.
Ficamos extremamente agradecidos pela vossa
oferta e, embora não possamos aceitá-Ia, para
mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres
senhores de Virg/nia que nos enviem alguns dos
seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que
sabemos e faremos, deles, homens."
De tudo o que se discute hoje sobre a educação,
algumas das questões entre as mais importantes
estão escritas nesta carta de índios. Não há uma
forma única nem um único modelo de educação;
a escola não é o único lugar onde ela acontece
e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não
é a sua única prática e o professor profissional
não é o seu único praticante.
Em mundos diversos a educação existe dife-
rente: em pequenas sociedades tribais de povos
caçadores, agricultores ou pastores nômades;
em sociedades camponesas, em países desenvol-
vidos e industrializados; em mundos sociais sem
classes, de classes, com este ou aquele tipo de
conflito entre as suas classes; em tipos de socie-
dades e culturas sem Estado, com um Estado
em formação ou com ele consolidado entre e
sobre as pessoas.
Existe a educação de cada categoria de sujeitos
de um povo; ela ex iste em cada povo, ou entre
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Carlos Rodrigues Brandão
povos que se encontram. Existe entre povos
que submetem e dominam outros povos, usando
a educação como um recurso a mais de sua domi·
nância. Da família à comunidade, a educação
existe difusa em todos os mundos sociais, entre
as incontáveis práticas dos mistérios do aprender;
primeiro, sem classes de alunos, sem livros e
sem professores especialistas; mais adiante com
escolas, salas, professores e métodos pedagógicos.
A educação pode existir livre e, entre todos,
pode ser uma das maneiras que as pessoas criam
para tornar comum, como saber, como idéia,
como crença, aquilo que é comunitário como
bem, como trabalho ou como vida. Ela pode
existir imposta por um sistema centralizado de
poder, que usa o saber e o controle sobre o saber
como armas que reforçam a desigualdade entre
os homens, na divisão dos bens, do trabalho,
dos direitos e dos símbolos.
A educação é, como outras, uma fração do
modo de vida dos grupos soc.iais que a criam .
e recriam, entre tantas outras invenções de sua
cultura, em sua sociedade. Formas de educação
que produzem e praticam, para que elas reprodu·
zam, entre todos os que ensinam-e-aprendem,
o saber que atravessa as palavras da tribo, os
códigos sociais de conduta, as regras do trabalho,
os segredos da arte ou da religião, do artesanato
ou da tecnologia que qualquer povo precisa para
reinventar, todos os dias, a vida do grupo e a
o que é Educação
de cada um de seus sujeitos, através de trocas
sem fim com a natureza e entre os homens, trocas
que existem dentro do mundo social onde a
própria educação habita, e desde onde ajuda a
explicar - às vezes a ocultar, às vezes a inculcar -
de geração em geração, a necessidade da exis-
tência de sua ordem.
Por isso mesmo - e os índios sabiam - a edu-
cação do colonizador, que contém o saber de
seu modo de vida e ajuda a confirmar a aparente
legalidade de seus atos de domínio, na verdade
não serve para ser a educação do colonizado.
Não serve e existe contra uma educação que ele,
não obstante dominado, também possui como
um dos seus recursos, em seu mundo, dentro de
sua cultura.
Assim, quando são necessários guerreiros ou
burocratas, a educação é um dos meios de que
os homens lançam mão para criar guerreiros
ou burocratas. Ela ajuda a pensar tipos de homens.
Mais do que isso, ela ajuda a criá-los, através
de passar de uns para os outros o saber que os
constitui e legitima. Mais ainda, a educação parti-
cipa do processo de produção de crenças e idéias,
de qualificações e especialidades que envolvem
as trocas de símbolos, bens e poderes que, em
conjunto, constroem tipos de sociedades. E esta
é a sua força.
No entanto, pensando às vezes que age por
si próprio, livre e em nome de todos, o educàdor
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12 Carlos Rodrigues Brandão
imagina que serve ao saber e a quem ensina mas,
na verdade, ele pode estar servindo a quem o
constituiu professor, a fim de usá-lo, e ao seu
trabalho, para os usos escusos que ocultam também
na educação - nas suas agências, suas práticas
e nas idéias que ela professa - interesses polí-
ticos impostos sobre ela e, através de seu exercício,
à sociedade que habita_ E esta é a sua fraqueza.
Aqui e ali será preciso voltar a estas idéias,
e elas podem ser como que um roteiro daqui
para a frente. A educação existe no imaginário
das pessoas e na ideologia dos grupos sociais e,
ali, sempre se espera, de dentro, ou sempre se
diz para fora, que a sua missão é transformar
sujeitos e mundos em alguma coisa melhor, de
acordo com as imagens que se tem de uns e outros:
" .. _e deles faremos homens". Mas na prática
a mesma educação que ensina pode deseducar:
e pode correr o risco de fazer o contrário do que
pensa que faz, ou do que inventa que pode fazer:
"_ .. eles eram, portanto, totalmente inúteis"_
••
•• ••
QUANDO A ESCOLA É A ALDEIA
A educação existe onde não há a escola e por
toda parte podem haver redes e estruturas sociais
de transferência de saber de uma geração a outra,
onde ainda não foi sequer criada a sombra de
algum modelo de ensino formal e centralizado_
Porque a educação aprende com o homem a
continuar o trabalho da vida. A vida que trans-
porta de uma espécie para a outra, dentro da
história da natureza, e de uma geração a outra de
viventes, dentro da história da espécie, os princí-
pios através dos quais a própria vida aprende
e ensina a sobreviver e a evoluir em cada tipo
de ser_
Os bichos do mundo aprendem de dentro para
fora com as armas naturais do instinto. Mas a
isto eles acrescentam maneiras de aprender de
fora para dentro, convivendo com a espécie,
14 Carlos Rodrigues Braruiiio
observando a conduta de outros igua is de seu
mundo e experimentando repetir muitas vezes
essas condutas da espécie, por conta própria.
Entre os que nos rodeiam de perto ou de longe,
não são raros os bichos cujos pais da prole criam
e recriam situações, para que o treino dos filhotes
faça e repita os atos da aprendizagem que garante
a vida, como a mãe que um dia expulsa com
amor o filho do ninho, para que ele aprenda
a arte e a coragem do primeiro vôo.
O homem que transforma, com o trabalho
e a consciência, partes da natureza em invenções
de sua cultura, aprendeu com o tempo a trans·
formar partes das trocas feitas no interior desta
cultura em situações sociais de aprender·ensinar·
-e-aprender: em educação. Na espécie humana
a educação não continua apenas o trabalho da
vida. Ela se instala dentro de um domínio propria·
mente humano de trocas: de símbolos, de inten·
ções, de padrões de cultura e de relações de poder.
Mas, a seu modo, ela continua no homem o traba-
lho da natureza de fazê-lo evoluir, de torná-lo
mais humano. ~ esta a idéia que Werner Jaeger
tem na cabeça quando, num estudo sobre a edu·
cação do homem grego, procura explicar o que
ela é, afinal:
"A natureza do homem, na sua dupla estrutura
corpórea e espiritual, cria condições especiais
para a manutenção e tranimissão da sua forma
o que é Educação
Na aldeia africana o "velho" ensina às crumças o saber
da tribo.
particular e ,exige organizações físicas e espirituais,
ao conjunto das quais damos o nome de educação.
Na educação, como o homem a pratica, atua
a mesma força vital, criadora e plástica, que espon-
taneamente impele todas as espécies vivas à conser·
vação e à propagação de seu tipo. E nela, porém,
que essa força atinge o seu mais alto grau de inten-
sidade, através do esforço consciente do conheci-
mento e da vontade, dirigida para a consecução
de um fim."
IS
16
Carlos Rodrigues Brandão
Quando um povo alcança um estágio complexo
de organização da sua sociedade e de sl,la cultura;
quando ele enfrenta, por exemplo, a questão
da divisão social do trabalho e, portanto, do
poder, é que ele começa a viver e a pensar como
problema as formas e os processos de transmissão
do saber. É a partir de então que a questão da
educação emerge à consciência e o trabalho de
educar acrescenta à sociedade, passo a passo, os
espaços, sistemas, tempos, regras de prática,
tipos de profissionais e categorias de educandos
envolvidos nos exercicios de maneiras cada vez
menos corriqueiras e menos comunitárias do
ato, afinal tão simples, de ensinar-e-aprender.
No entanto, muito antes que isso aconteça,
em qualquer lugar e a qualquer tempo - entre
dez indios remanescentes de alguma tribo do
Brasil Central, no centro da cidade de São Paulo -
a educação existe sob tantas formas e é praticada
em situações tão diferentes, que algumas vezes
parece ser invisivel, a não ser nos lugares onde
pendura alguma placa na poria com o seu nome.
Quando os antropólogos do começo do século
sairam pelo mundo pesquisando "culturas primi-
tivas" de sociedades tribais das Américas, da Asia,
da África e da Oceania, eles aprenderam a descre-
ver com rigor praticamente todos os recantos
da vida destas sociedades e culturas. No entanto,
quase nenhum deles usa a palavra educação,
embora quase todos, de uma forma ou de outra,
o que é Educação
descrevam relações cotidianas ou cerimônias
rituais em que crianças aprendem e jovens são
solenemente admitidos no mundo dos adultos.
De vez em quando, aparece, perdido num
mar de outros conceitos, o de educação, como
quando Radcliffe-Brown - um antropólogo inglês
que participa da criação da moderna Antropologia
Social - lembra que, entre os andamaneses, um
grupo tribal de ilhéus entre Burma e Sumatra,
para se ajustar a criança à sua comunidade Hé
preciso que ela seja educada". Parte deste pro-
cesso consiste em a criança e o adolescente apren-
derem aos poucos a caçar, a fabricar o arco e
flecha e assim por diante. Outra parte envolve
a aqu isição de "sentimentos e disposições emocio-
'. nais" que regulam a conduta dos membros da
tribo e constituem o corpo de suas regras sociais
de moralidade.
Quando os antropólogos pouco falam em
educação, eles pouco querem falar de processos
formalizados de ensino. Porque, onde os andama-
neses, os maori, os apaches ou os xavantes pra-
ticam, e os antropólogos identificam processos
sociais de aprendizagem, não existe ainda nenhuma
situação propriamente escolar de transferência
do saber tribal que vai do fabrico do arco e flecha
à recitação das rezas sagradas aos deuses da tribo.
Ali, a sabedoria acumulada do grupo social não
"dá aulas" e os alunos, que são todos os que
aprendem, "não aprendem na escola".' Tudo
17
18 Carlos Rodrigues Brandão
o que se sabe aos poucos se adquire por viver
muitas e diferentes situações de trocas entre
pessoas, com o corpo, com a consciência, com
o corpo-e-a-consclencia. As pessoas convivem
umas com as outras e o saber flui, pelos' atos
de quem sabe-e-faz, para quem não-sabe-e-aprende.
Mesmo quando os adultos encorajam e guiam
os momentos e situações de aprender de crianças
e adolescentes, são raros os tempos especialmente
reservados apenas para o ato de ensinar.
Nas aldeias dos grupos tribais mais simples,
todas as relações entre a criança e a natureza, guia-
das de mais longe ou mais perto pela presença de
adultos conhecedores, são situações de apren-
dizagem. A criança vê, entende, imita e aprende
com a sabedoria que existe no próprio gesto
de fazer a coisa. São também situações de aprendi·
zagem aquelas em que as pessoas do grupo trocam
bens materiais entre si ou trocam serviços e signi-
ficados: na turma de caçada, no barco de pesca,
no canto da cozinha da palhoca, na lavoura fami-
liar ou comunitária de nos grupos de
brincadeiras de meninos e meninas, nas cerimônias
religiosas.
Emile Durkheim, um dos. principais sociólogos
da educação, explica isto da seguinte maneira:
"Sob regime tribal, a caracterlstica essencial da
educaçaõ reside no fato de ser difusa e adminis-
trada indistintamente por todos os elementos
o que é Educação
do clã. Não há mestres determinados, nem inspe-
tores especiais para a formação da juventude:
esses papéis são desempenhados por todos os
anciãos e pelo conjunto das gerações anteriores."
As meninas aprendem com as companheiras
de idade, com as mães, as avós, as irmãs mais
velhas, as velhas sábias da tribo, com esta ou
aquela especialista em algum tipo de magia ou
artesanato. Os meninos aprendem entre os jogos
e brincadeiras de seus grupos de idade, aprendem
com os pais, os irmãos-da-mãe, os avós, os guer-
reiros, com algum xamã (mago, feiticeiro), com
os velhos em volta das fogueiras. Todos os agentes
desta educação de aldeia criam de parte a parte
as situações que, direta ou indiretamente, forçam
iniciativas de aprendizagem e treinamento. Elas
existem misturadas com a vida em momentos
de trabalho, de lazer, de camaradagem ou de
amor. Quase sempre não são impostas e não é
raro que sejam os aprendizes os que tomam a seu
cargo procurar pessoas e situações de troca que
lhes possam trazer algum aprendizado. Assim,
entre os Wogeo, da Nova Guiné, de acordo com
o depoimento de um antropólogo:
"Onde é necessário aprender habilidades especiais
as crianças estão, em regra geral, ansiosas por
saber o que os seus pais conhecem. O orgulho
do trabalhador e o prestigio do bom artesão
19
20 Carlos Rodrigues Brandão
dominam sua vida e elas necessitam de muito
pouco est/mulo para procurá-los por si mesmas_"
o saber da comunidade, aquilo que todos conhe-
cem de algum modo; o saber próprio dos homens
e das mulheres, de crianças, adolescentes, jovens,
adultos e velhos; o saber de guerreiros e esposas;
o saber que faz o artesão, o sacerdote, o feiticeiro,
o navegador e outros tantos especialistas, envolve
portanto situações pedagógicas interpessoais, fami-
liares e comunitárias, onde ainda não surgiram
técnicas pedagógicas escolares, acompanhadas
de seus profissionais de aplicação exclusiva. Os
que sabem: fazem, ensinam, vigiam, incentivam,
demonstram, corrigem, punem e premiam. Os que
não sabem espiam, na vida que há no cotidiano,
o saber que ali existe, vêem fazer e imitam, são
instruídos com o exemplo, incentivados, treinados,
corrigidos, punidos, premiados e, enfim, aos
poucos aceitos entre os que sabem fazer e e(lsinar,
com o próprio exercício vivo do fazer. Esparra-
madas pelos cantos do cotidiano, todas as situações
entre pessoas, e entre pessoas e a natureza -
situações sempre mediadas pelas regras, símbolos
e valores da cultura do grupo - têm, em menor
ou maior escala a sua dimensão pedagógica. Ali,
todos os que convivem aprendem, aprendem,
da sabedoria do grupo social e da força da norma
dos costumes da tribo, o saber que torna todos
e cada um pessoalmente aptos e socialmente
o que é Educação
reconhecidos e legitimados para a convlvencia
social, o trabalho, as artes da guerra e os ofícios
do amor.
"Os meninos observam os homens quando fazem
arcos e flechas; o homem os chama para perto
de si e eles se vêem obrigados a observá-lo. As
mulheres, por outro lado, levam as meninas para
fora de casa, ensinando-as a conhecer as plantas
boas para confeccionar cestos e a argila que serve
para fazer potes. E, em casa, as mulheres tecem
os cestos, costuram os mocassins e curtem a
pele de cabrito diante das meninas, dizendo-lhes,
enquanto estão trabalhando, que observem cuida-
dosamente, para que, quando forem grandes,
ninguém as possa chamar de preguiçosas e igno-
rantes. Ensinam-nas a cozinhar e aconselham-
-nas sobre a busca de bagas e outros frutos, assim
como sobre a colheita de alímentos. "
Em todos os grupos humanos mais simples,
os diversos tipos de treinamento através das trocas
sociais, que socializam crianças e adolescentes,
incluem, entre outras, estas situações pedagógicas:
• o treinamento direto de habilidades corporais,
por meio da prática direta dos atos que condu-
zem o corpo ao hábito;
• a estimulação dirigida, para que o aprendiz
faça e repita, até o acerto, os atos de saber
21
22 Carlos Rodrigues Brandão
e habilidade que ignora;
• a observação livre e dirigida, do educando,
dos procedimentos daqueles que sabem;
• a correção interpessoal, familiar ou comuni-
tária, das práticas ou das condutas erradas,
por meio do castigo, do rid(culo ou da admoes-
tação'
• a assistência convocada para cerimônias rituais
e, aos poucos (ou depois de uma iniciação),
o direito à participação nestas cerimônias
(solenidades religiosas, danças, rituais de pas·
sagem);
• a inculcação dirigida em situações de quase-ensi-
no, com o uso da palavra e turmas de ouvintes,
dos valores morais, dos mitos histórico-religiosos
da tribo, das regras dos códigos de conduta.
Assim, tudo o que é importante para a comuni-
dade, e existe como algum tipo de saber, existe
também como algum modo de ensinar. Mesmo
onde ainda não criaram a escola, ou nos intervalos
dos lugares onde ela existe, cada tipo de grupo
humano cria e desenvolve situações, recursos
e métodos empregados para ensinar às crianças,
aos adolescentes, e também aos jovens e mesmo
aos adu Itos, o saber, a crença e os gestos que os
tornarão um dia o modelo de homem ou de mulher
que o imaginário de cada sociedade - ou mesmo
de cada grupo mais específico, dentro dela -
idealiza, projeta e procura realizar. De duas tribos
r
o que é Educação'
vizinhas de pastores do deserto, é possível que
se dê franca importância a um artifício pedagógico,
em uma delas, como o castigo corporal, por exem-
plo, ou a atemorização de crianças, e ele seja
simplesmente rejeitado na outra. Mas em uma e
na outra, como em todas do mundo, nunca as
pessoas crescem a esmo e aprendem ao acaso.
O que vimos acontecer até aqui, formas vivas
e comunitárias de ensinar-e-aprender, tem sido
chamado com vários nomes. Ao processo global
que tudo envolve, é comum que se dê o nome
de socialização. Através dela, ao longo da vida,
cada um de nós passa por etapas sucessivas de
inculcação de tipos de categorias gerais, parciais
ou especializadas de saber-e-habilidade. Elas fazem,
em conjunto, o contorno da identidade, da ideo-
logia e do modo de vida de um grupo social.
Elas fazem, também, do ponto de vista de cada
um de nós, aquilo que aos poucos somos, sabemos,
fazemos e amamos. A socialização realiza em sua
esfera as necessidades e projetos da sociedade,
e realiza, em cada um de seus membros, grande
parte daquilo que eles precisam para serem reco-
nhecidos como "seus" e para existirem dentro dela.
Ora, no interior de todos os contextos sociais
coletivos de formação do adulto, o processo
de aqU1s1çao pessoal de saber-crença-e-hábito
de uma cultura, que funciona sobre educandos
como uma situação pedagógica total, pode ser
chamado (com algum susto) de endoculturação.
23
24
Carlos Rodrigues Brandão
Dentro de sua cultura, em sua sociedade, aprender
de maneira mais ou menos intencional (alguns
dirão: "mais ou menos consciente"), através do
envolvimento direto do corpo, da mente e da
afetividade, entre as incontáveis situações de
relação com a natureza e de trocas entre os ho-
mens, é parte do processo pessoal de endocul-
turação, e é também parte da aventura humana
do "tornar-se pessoa".
Vista em seu vôo mais livre, a educação é uma
fração da experiência endoculturativa. Ela apa-
rece sempre que há relações entre pessoas e
intenções de ensinar-e-aprender. Intenções, por
exemplo, de aos poucos "modelar" a criança,
para conduzi-Ia a ser o "modelo" social de adoles-
cente e, ao adolescente, para torná-lo mais adiante
um jovem e, depois, um adulto. Todos os povos
sempre traduzem de alguma maneira esta lenta
transformação que a aquisição do saber deve
operar. Ajudar a crescer, orientar a maturação,
transformar em, tornar capaz, trabalhar sobre,
domar, polir, criar, como um sujeito social, a obra,
de que o homem natural é a matéria-prima.
Não é nada raro que tanto na cabeça de um
índio quanto na de um de nossos educadores
ocidentais, a melhor imagem de como a educação
se idealiza seja a do oleiro que toma o barro
e faz o pote. O trabalho cuidadoso do artesão
que age com tempo e sabedoria sobre a argila
viva que é o educando. A argila que resiste às
o que é Educação
mãos do oleiro, mas que se deixa conduzir por
elas a se transformar na obra feita: o adulto edu-
cado. Quando o educador pensa a educação,
ele acredita que, entre homens, ela é o que dá
a forma e o polimento. Mas ao fazer isso na prática,
tanto pode ser a mão do artista que guia e ajuda
o barro a que se transforme, quanto a forma que
iguala e deforma.
i: bom separar agora algumas palavras usadas
até aqui e que serão ainda trabalhadas mais adiante.
Tudo o que existe transformado da natureza pelo
trabalho do homem e significado pela sua cons-
ciência é uma parte de sua cultura: o pote de barro,
as palavras da tribo, a tecnologia da agricultura,
da caça ou da pesca, o estilo dos gestos do corpo
nos atos do amor, o sistema de crenças religiosas,
as estórias da história que explica quem aquela
gente é e de onde veio, as técnicas e situações
de transmissão do saber. Tudo o que existe dispo-
nível e criado em uma cultura como conhecimento
que se adquire através da experiência pessoal
com o mundo ou com o outro; tudo o que se
aprende de um modo ou de outro faz parte do
processo de endoculturação, através do qual
um grupo social aos poucos socializa, em sua
cultura, os seus membros, como tipos de sujeitos
sociais.
Ora, a educação é o território mais motivado
deste mapa. Ela existe quando a mãe corrige o
filho para que ele fale direito a I íngua do grupo,
,
2S
26 Carlos Rodrigues Brandiío
ou quando fala à filha sobre as normas sociais
do modo de "ser mulher" a li. Existe também
quando o pai ensina ao filho a polir a ponta da
flecha, ou quando os guerreiros saem com os
jovens para ensiná-los a caçar. A educação aparece
sempre que surgem formas sociais de condução
e controle da aventura de ensinar-e-aprender.
O ensino formal é o momento em que a educação
se sujeita à pedagogia (a teoria da educação).
cria situações próprias para o seu exercício, produz
os seus métodos, estabelece suas regras e tempos,
e constitui executores especializados. ~ quando
aparecem a escola, o aluno e o professor de quem
começo a falar daqui para frente.
••
•• ••
ENTÃO, SURGE A ESCOLA
Mesmo em algumas sociedades primitivas,
quando o trabalho que porduz os bens e quando o
poder que reproduz a ordem são divididos e
começam a gerar hierarquias sociais, também
o saber comum da tribo se divide, começa a se
distribuir desigualmente e pode passar a servir
ao uso político de reforçar a diferença, no lugar
de um saber anterior, que afirmava a comunidade.
Então é o começo de quando' a sociedade
separa e aos poucos opõe: o que faz, o que se
sabe com o que se faz e o que se faz com o que
se sabe. Então é quando, entre outras categorias
de especialidades sociais, aparecem as de saber
e de ensinar a saber. Este é o começo do momento
em 'que a educação vira o ensino, que inventa
a pedagogia, reduz a aldeia à escola e transforma
"todos" no educador .
28
Carlos Rodrigues Brandão
o que é que isto significa? Significa que, para
além das fronteiras do saber comum de todas as
pessoas do grupo e transmitido entre todos livre
e pessoalmente, para além do saber dividido
dentro do grupo entre categorias naturais de
pessoas (homens e mulheres, crianças, jovens,
adultos e velhos) e transferido de uns aos outros
segundo suas linhas de sexo ou de idade, por
exemplo, emergem tipos e graus de saber que
correspondem desigualmente a diferentes cate-
gorias de sujeitos (o rei, o sacerdote, o guerreiro,
o professor, o lavrador). de acordo com a sua
posição social no sistema político de relações
do grupo_ Onde todos aprendem para serem
"gente" I lIadulto", "um dos nossos" e, meio a
meio, alguns aprendem para serem "homem"
e outros para serem "mulher", outros ainda come-
çam a aprender para serem "chefe", "feiticeiro",
"artista", "professor", "escravo". A diferença
que o grupo reconhece neles por vocação ou por
origem, a diferença do que espera de cada um deles
como trabalho social qualificado por um saber,
gera o começo da desigualdade da educação de
"homem comum" ou de "iniciado", que cada
um deles diferentemente começa a receber.
Uma divisão social do saber e dos agentes e
usuários do saber como essa existe mesmo em
sociedades muito simples. Em seu primeiro plano
de separação - o mais universal - numa idade
sempre próxima à da adolescência, meninos e
I
o que ti Educação
meninas são isolados do resto da tribo. Em alguns
casos convivem entre iguais e com adultos por
períodos de reclusão e aprendizagem que envolvem
situações de ensino forçado e duras provas de
iniciação. Todo o trabalho pedagógico da forma-
ção destes jovens é conduzido por categorias de
educadores escolhidos entre todos para este tipo
de ofício, de que os meninos saem jovens-adultos
e guerreiros, por exemplo, e as meninas, moças
prontas para a posse de um homem, uma casa
e alguns filhos.
Nas suas formas mais simples, estas situações
pedagógicas de ensino especializado que apressa
o adulto que há no jovem podem ser muito breves.
Podem envolver pouco mais do que momentos
provocados de convivência intensificada entre
grupos de adolescentes e grupos de adultos.
Depressa eles são devolvidos ao grupo social
e, quase sempre, depois de cerimônias públicas
de iniciação (os ritos de passagem), são reconhe-
cidos, pela posição que o grupo lhes atribui e
pelo saber que lhes reconhece, como homens
e mulheres aptos e legítimos para a vida do adulto
da tribo.
Outras vezes este período de aprendizagem-sepa-
rada é muito ~ a i s longo, muito mais diversificado
e, por certo, muito mais próximo dos modelos
de agências e procedimentos de ensino que temos
na cabeça quando pensamos em educação. Em
sociedades tribais da Libéria e de Serra Leoa,
-
29
30 Car/cs Rodrigues Brandão
na África, há tipos de escolas para os meninos
(as escolas "Poro") e para as meninas (as escolas
"Sande"). De tribo para tribo os meninos estudam
por períodos que vão de ano e meio a oito anos.
Estudam, convivem entre si e com seus mestres,
e treinam. Divididos de acordo com seus grupos
de idade (como em nossas "séries"), eles aprendem
as crenças, as tradições e os costumes culturais
da tribo, além do saber dos ofícios de guerra e
paz. A escola Poro leva em conta diferenças indivi-
duais e, com o trabalho docente de diferentes
professores-especialistas, forma novos especialistas.
Se um menino ·demonstra talentos para o trabalho
do fabrico de tecidos, de couro, para o exercício
da dança, ou para os ofícios da medicina tribal,
ele acrescenta estes treinos e estudos ao corpo
comum do programa por que passa com todos
os outros companheiros de idade.
Entre grupos de pescadores da Nova Zelândia
e do Arquipélago da Sociedade, existem "casas
de ensino", verdadeiras unil(ersidades em escala
indígena, onde toda a sabedoria da cultura é
ensinada aos jovens de ambos os sexos por profes-
sores-sacerdotes. Durante a metade do ano estas
"casas" permanecem abertas e, por todo o dia,
oferecem cursos com alguma teoria e muita prá-
tica sobre pelo menos os seguintes assuntos:
genealogia, tradições e história, princípios de
crença e cultos r.eligiosos, magia, artes da nave-
gação, agricultura, dança, literatura. O programa
o que é Educação
de ensino divide a "Mand(bula Superior", onde
os jovens aprendem com os sacerdotes os segredos
do sagrado, da "Mandíbula Inferior", relacionada,
com os assu ntos terrenos.
Em um 'segundo plano, mais restrito e mais
marcadamente político, diferentes categorias de
meninos e meninas recebem o saber especializado
que há em uma "educação de minorias privile-
giadas", destinadas por herança aos cargos de
chefia. Assim acontece, por exemplo, entre quase
todos os grupos originais do Havaí, onde os nobres
e outros jovens selecionados de antemão para
postos futuros de poder sobre os outros passavam
por verdadeiros cursos superiores de estudos
que lhes tomavam quase todo o tempo da adoles-
cência e da juventude. A tribo que mais adiante
submeterá a eles a chefia comunitária - o trabalho
social de dirigir - atribuirá a eles como um direito,
e exigirá deles como um dever, o saber especia-
lizado do chefe. E o próprio tempo prolongado
de estudo, treino e teste, muito mais do que o
de todos os outros meninos, vale como um ates-
tado social de diferenças entre o chefe e os outros,
dado pela educação. "
Mesmo os grupos que, como os nossos, dividem
e hierarquizam tipos de saber, de alunos e de usos
do saber, não podem abandonar por inteiro as
formas livres, familiares e/ou comunitárias de
educação. Em todos os cantos do mundo, primeiro
a educação existe como um inventário amplo
31
32
Carlos Rodrigues Brandão
de relações interpessoa is diretas no âmbito fami-
liar: mãe-filha, pai-filho, sobrinho-irmão-da-mãe,
irmão-mais-velho-irmão-caçula e assim por diante.
Esta é a rede de trocas de saber mais universal
e mais persistente na sociedade humana. Depois,
a educação pode existir entre educadores-edu-
candos não parentes - mas habitantes de uma
mesma aldeia, de uma mesma cidade, gente de
uma mesma linguagem - semi-especializados
ou especialistas do saber de algum ofício mais
amplo ou ·mais restrito: artesão-aprendiz, sacer-
dote-iniciado, cavaleiro·escudeiro, e tantos outros.
Até aqui o espaço educacional não é escolar.
Ele é o lugar Ja vida e do trabalho: a casa, o
templo, a oficina, o barco, o mato, o quintal.
Espaço que apenas reúne pessoas e tipos de ativi-
dade e onde viver o fazer faz o saber.
Em todo o tipo de comunidade humana onde
ainda não há uma rigorosa divisão social do tra-
balho entre classes desiguais, e onde o exercício
social do poder ainda não foi centralizado por
uma classe como um Estado,· existe a educação
sem haver a escola e existe a aprendizagem sem
haver o ensino especializado e formal, como um
tipo de prática social separada das outras. E
da vida.
Mesmo nas grandes sociedades .-çivilizadas do
passado - como na Grécia e em Roma, com que
vamos nos encontrar um pouco mais adiante -
um sistema pedagógico controlado por um poder
o que é Educação
externo a ele, atribuído de fora para dentro a uma
hierarquia de especialistas do ensino, e destinado
a reproduzir a desigualdade através da oferta
desigual do saber, é uma conquista tardia na
história da cultura.
Em nome de quem os constitui educadores,
estes especialistas do ensino aos poucos tomam
a seu cargo a tarefa de assumir, controlar e recodi-
ficar domínios, sistemas, modos e usos do saber
e das situações coletivas de distribuição do saber.
Onde quer que apareça e em nome de quem venha,
todo o corpo profissional de especialistas do
ensino tende a dividir e a legitimar divisões do
conhecimento comunitário, reservando para o seu
próprio domínio tanto alguns tipos e graus do
saber da cultura, quanto algumas formas e recursos
próprios de sua difusão.
Assim, aos poucos acontece com a educação
o que acontece com todas as outras práticas
sociais (a medicina, a religião, o bem-estar, o
lazer) sobre as quais lÍTTl dia surge um interesse
político de controle.' Também no seu interior,
sistemas antes comunitários de trocas de bens,
de serviços e de significados são em parte contro-
lados por confrarias de especialistas, mediadores
entre o poder e o saber.
Os estudos mais recentes da História têm indi-
cado que a palavra escrita parece ter surgido em
sociedades-estado enriquecidas e com um poder
muito centralizado, como entre os egípcios ou
33
34 Carlos Rodrigues Brandão
entre os astecas. Ela teria aparecido primeiro
sendo usada pelos escribas, para fazer a contabi·
lidade dos bens dos reis e faraós. Só mais tarde
é que foi usada também pelos poetas para cantarem
as coisas da aldeia e de sua gente. Assim também
a educação. Por toda a parte onde ela deixa de
ser totalmente livre e comunitária (não escrita)
e é presa na escola, entre as mãos de educadores
a serviço de senhores, ela tende a inverter as
utilizações dos seus frutos: o saber e a repartição
do saber. A educação da comunidade de iguais
que reproduzia em um momento anterior a igual·
dade, ou a complementariedade social, por sobre
diferenças naturais, começa a reproduzir desigual·
dades sociais por sobre igualdades naturais, começa
desde quando aos poucos usa a escola, os sistemas
pedagógicos e as "leis do ensino" para servir ao
poder de uns poucos sobre o trabalho e a vida
de muitos. Onde um tipo de educação pode tomar
homens e mulheres, crianças e velhos, para torná·
·Ios todos sujeitos livres que por igual repartem
uma mesma vida comunitária; um outro tipo
de educação pode tomar os mesmos homens,
das mesmas idades, para ensinar uns a serem
senhores e outros, escravos, ensinando·os a pensa·
rem, dentro das mesmas idéias e com as mesmas
palavras, uns como senhores e outros, como
escravos.
Nas sociedades primitivas que nos acompa-
nharam até aqui, a educação escolar que ajuda
o que é Educação
a separar o nobre do plebeu parece ser um ponto
terminal na escala de invencão dos recursos huma·
nos de transferência do s ~ b e r de uma geração a
outra. Também nas sociedades ocidentais como a
nossa - sociedades complexas, sociedades de clas·
ses, sociedades capitalistas - a educação escolar é
uma invenção recente na história de cada uma. Da
maneira como existe entre nós, a educação surge
na Grécia e vai para Roma, ao longo de muitos
séculos da história de espartanos, atenienses
e romanos. Deles deriva todo o nosso sistema
de ensino e, sobre a educação que havia em Atenas,
até mesmo as sociedades capitalistas mais tecnolo·
gicamente avançadas têm feito poucas inovações.
Talvez estejam, portanto, entre os seús inven-
tos e escolas, algumas das respostas às nossas
perguntas.
••
•• ••
3S
PEDAGOGOS, MESTRES-ESCOLA
E SOFISTAS
Todas as grandes sociedades ocidentais que,
como Atenas e Roma, emergiram de seus bandos
errantes, de suas primeiras tribos de clãs de pasto-
res ou camponeses, aprenderam a lidar com a
educação do mesmo modo como qualquer outro
grupo humano, em qualquer outro tempo. Tal
como entre os índios das Seis Nações, os primei-
ros assuntos e problemas da educação grega foram
os dos oHcios simples dos tem'pos de paz e de
guerra. O que se ensina e aprende entre os primei-
ros pastores, mesmo quando eles começaram
rusticamente a enobrecer, envolve o saber da
agricultura e do pastoreio, do artesanato de subsis-
tência cotidiana e da arte. Tudo isso misturado,
sem muitos mistérios, com os princípios de honra,
de solidariedade e, mais do que tudo, de fideli-
dade à polis, a cidade grega onde começa e acaba
o que é Educação
a vida do cidadão livre e educado. Esta educação
grega é, portanto, dupla, e carrega dentro dela
a oposição que até hoje a nossa educação não
resolveu. Ali estão normas de trabalho que, quando
reproduzidas como um saber que se ensina para
que se faça, os gregos acabaram chamando de
tecne e que, nas suas formas mais rústicas e menos
enobrecidas, ficam relegadas aos trabalhadores
manuais, livres ou escravos. Ali estão normijS
de vida que, quando reproduzidas como um
saber que se ensina para que se viva e seja um
tipo de homem livre e, se possível, nobre, os
gregos acabaram chamando de teoria. Este saber
que busca no homem livre o seu mais pleno desen-
volvimento e uma plena participação na vida da
polis é o próprio ideal da cultura grega e é o
que ali se tinha em mente quando se pensava
na educação.
De tudo o que pode ser feito e transformado,
nada é para O grego uma obra de arte tão perfeita
quanto o homem educado. A primeira educação
que houve em Atenas e Esparta foi praticada
entre todos, nos exercícios coletivos da vida,
em todos os cantos onde as pessoas conviviam
na comunidade. Quando a riqueza da polis grega
criou na sociedade estruturas de oposição entre
livres e escravos, entre nobres e plebeus, aos
meninos nobres da elite guerreira e, mais tarde,
da elite togada é que a educação foi dirigida.
Por alguns séculos, mesmo para eles, ainda não
37
38 Car/os Rodrigues Brandiio
havia a escola.
Das relações familiares diretas até a convivência
entre jovens, segundo os seus grupos de idade,
ou entre grupos de meninos educandos e um
velho educador, entre os gregos sempre se conser-
vou a idéia de que todo o saber que se transfere
pela educação circula através de trocas interpes-
soais, de relações física e simbolicamente afetivas
entre as pessoas. Assim, a pederastia acaba sendo
considerada em Esparta como a forma mais pura
e mais completa de educação entre homens livres
e iguais. Em toda a Grécia a formação do nobre
guerreiro apenas desenrola ao longo dos anos
u ma seqüência de trocas entre um mestre e seus
discípulos.
Aquilo que a cultura grega chama com pleno
efeito de educação - paideia - dando à palavra
o sentido de formação harmônica .do homem
para a vida da polis, através do desenvolvimento
de todo o corpo e toda a consciência, começa
de fato fora de casa, depois dos sete anos. Até
lá a criança convive com a sua criação, convi-
vendo com a mãe e escravos domésticos.
Para além ainda do que entre os sete e os catorze
anos aprende com o mestre-escola, a verdadeira
educação do jovem aristocrata é o fruto do lento
trabalho de um ou de poucos mestres que acom-
panham o educando por muitos anos.
Em Atenas, por volta do VI século A.C., a edu-
cação deixa de ser uma prática coletiva, de estilo
o que é Educação
militar, destinada apenas à formação do cidadão
nobre. Até então, mesmo no apogeu da demo-
cracia grega, a propriedade é restritamente
comunal; pertence aos cidadãos ativos do Estado.
O poder pertence aos estratos mais nobres destes
cidadãos ativos, e a vida e o trabalho colocam
de um lado os homens livres, senhores e, de outro,
os escravos ou outros tipos de trabalhadores
manuais expulsos do direito do saber que existe
napaideia.
Durante muitos séculos os "pobres" da Grécia
aprenderam desde criança fora das escolas: nas
oficinas e nos campos de lavoura e pastoreio.
Os meninos "ricos" inicialmente aprenderam
também fora da escola, em acampamentos ou
ao redor de velhos mestres. Além das agências
estatais de educação, como a Efebia de Esparta,
que educava o jovem nobre-guerreiro, toda a
educação fora do lar e da oficina é uma empresa
particular, mesmo quando não é paga. Particular
e restrita a muito pouca gente.
Apenas quando a democratização da cultura
e da participação na vida pública colocam a neces-
sidade da democratização do saber, é que surge
a escola aberta a qualquer menino livre da cidade-
-estado. A escola primária surge em Atenas por
volta do ano 600 A.C_ Antes dela havia locais
de ensino de metecos e rapsodistas que aos inte-
ressados ensinavam "a fixar em símbolos os negó-
cios e os cantos". Só depois da invenção da escola
39
40
Carlos Rodrigues Brandão
de primeiras letras é que o seu estudo é pouco
a pouco incorporado à educação dos meninos
nobres. Assim, surgem em Atenas escolas de
bairro, não raro "lojas de ensinar", abertas entre
as outras no mercado. Ali um humilde mestre-
-escola, "reduzido pela miséria a ensinar", leciona
as primeiras letras e contas. O menino escravo,
que aprende com o trabalho a que o obrigam,
não chega sequer a esta escola. O menino livre
e plebeu em geral pára nela. O menino livre e
nobre passa por ela depressa em direção aos lugares
e aos graus onde a educação grega forma de fato
o seu modelo de "adulto educado". Citação
de Sólon, legislador grego:
"As crianças devem, antes de tudo, aprender a
nadar e a ler; em seguida, os pobres devem exer-
citar-se na agricultura ou em uma indústria qual-
quer, ao passo que os ricos devem se preocupar
com a música e a equitação, e entregar-se à filo-
sofia, à caça e à freqüência aos ginásios."
Esta concepção Xenofonte, historiador, poeta,
filósofo e militar grego, criticaria quase dois
séculos depois:
"Só os que podem criar os seus filhos para não
fazerem nada é que os enviam à escola; os que não
podem, não enviam."
o que é Educaçã,
Pequenas imagens gregas de te"acota retratam o escravo
pedagogo conduzindo para a escola a criança.
41
42 Carlos Rodrigues Brandão
A educação do jovem livre vai em direção à
teoria, que é o saber do nobre para compreender
e comandar, não para fazer, curar ou construir.
Durante toda a antigüidade a única disciplina
técnica (entendida como a de uma formação
que aponta para um ofício determinado) é a
medicina. Não há outras escolas coletivas de
ensino técnico para o preparo de arquitetos,
engenheiros ou agrimensores, por exemplo. Tal
como ferreiros ou tecelões, eles aprendem de
maneira simples e direta, na oficina e no tra-
balho, através do convívio com algum velho
artífice.
Diferenças de saber de classe dos educandos
produziram diferenças curiosas entre os tipos
de educadores da Grécia antiga. De um lado,
desprezíveis mestres-escola e artesãos-professores;
de outro, escravos pedagogos e educadores nobres,
ou de nobres. De um lado, a prática de instruir
para o trabalho; de outro, a de educar para a
vida e o poder que determina a vida social.
De todos estes adultos trans'missores de saber
vale a pena falar do pedagogo. Pequenas estatuetas
de terracota guardam a memória dele. Artistas
gregos representaram esses velhos escravos -
quase sempre cativos estrangeiros - conduzi ndo
crianças a caminho da escola de primeiras letras .•
E por que eles e não os mestres que nas escolas
ensi navam? Porque os escravos pedagogos -
condutores de crianças - eram afinal seus educa-
o que é Educação
dores, muito mais do que os mestres-escola. Eles
conviviam com a criança e o adolescente e, mais
do que os pais, faziam a educação dos preceitos
e das crenças da cultura da polis. O pedagogo
era o educador por cujas mãos a criança grega
atravessava os anos a caminho da escola, por
caminhos da vida.
Nos primeiros tempos, mais do que filósofos
ou matemáticos, os gregos foram guerreiros,
músicos e ginastas. Assim, mais do que jurídica
ou científica, a educação do cidadão livre era
ética e artística (no pleno sentido que estas duas
palavras possuíam na paideia grega), dentro de
uma cultura pouco acostumada a separar a verdade
da beleza. Mais tarde, sob a influência de Sócrates
e Epicuro (um sujeito feio e outro doentio) é que
a educação começa a ser pensada como formadora
do espírito. Por muitos e muitos séculos ela aponta
para a harmonia que existe na beleza do corpo
(e a destreza para a luta) ao lado da clareza da
mente (e a fidelidade à polis dos cidadãos livres).
Mesmo no nível da cultura letrada dos nobres,
a civilização clássica não conservou sempre um
único modelo ou estilo de saber, logo, de educação.
Ela oscilou entre duas formas de algum modo
antagônicas: a filosófica, cujo tipo dominante
pode ser Platão, e a oratória (retórica), cujo tipo
dominante pode ser I sócrates.
Depois de constitu í das as classes de homens
livres que regem a democracia dos gregos sobre
43
44 Carlos Rodrigues Brandão
a divisão do trabalho e a instituição do regime
escravagista, para os seus adolescentes a educação
coletiva não é uma atividade voluntária ou um
direito de berço. E um dever imposto pela polis
ao livre. Porque o seu exercício modela não um
homem abstrato, sonho de poetas, mas o cidadão
maduro para o serviço à comunidade, projeto
do político. A "obra de arte" da paideia é a pessoa
plenamente madura - como cidadão, como militar,
como político - posta a serviço dos interesses
da cidade·comunidade. Assim, o ideal da educação
é reproduzir uma ordem social idealmente conce-
bida como perfeita e necessária, através da trans-
missão, de geração a geração, das crenças, valores
e habilidades que tornavam um homem tão mais
perfeito quanto mais preparado para viver a cidade
a que servia. E nada poderia haver de mais precio·
so, a um homem livre e educado, do que o próprio
saber e a identidade de sábio que ele atribui ao
homem.
Depois de haver conquistado a cidade onde
vivia o filósofo Estilpão, Demétrio Poliorceto
pretendeu indenizá·lo pelos preju ízos materiais
que sofrera por causa da pilhagem. Quando pediu
que fizesse o inventário do que lhe pertencera
e fora destru ído, Estilpão respondeu que nada
havia perdido do que era seu, porque não lhe
haviam roubado a sua cultura - ",,,6 "" - dado
que ainda conservava a eloqüência e o saber.
O formador de jovens, o educador, o filósofo·
o que é Educação
·mestre como Sócrates, Platão e Aristóteles,
reúnem à sua volta os seus alunos, em suas escolas
superiores. A escola filosófico·iniciática de
Pitágoras, que interna educandos, cria regras
próprias de conduta e lhes absorve boa parte
do tempo da juventude, antecede a Academia
de Platão, o Liceu de Aristóteles e a Escola de
Epicuro. Mas são os filósofos sofistas os que
democratizam o ensino superior, tornando:O
remunerado e, portanto, aberto a todos os que
podem pagar. Após a longa crise de tirania por
volta do VI século A.C., a vida social de Atenas
possibilita a participação de todos os cidadãos
livres, e isto recoloca a questão do preparo do
homem para o exercício da cidadania, a questão
de aprender para legislar e para estar de algum
modo presente nas assembléias de representação
pol ítica. Os sofistas transformam a educação
superior em um tempo de formação do orador,
onde a qualidade da retórica tem mais valor do que
a busca desinteressada da verdade, exercício
dos nobres dos períodos anteriores.
Aos poucos até Aristóteles e Alexandre Magno,
muito depressa durante a Civilização Helenística,
a educação clássica passa por algumas mudanças:
1) ela vai do cultivo aristocrático do corpo e
da mente, com vistas à formação do nobre guer·
reiro e dirigente, à habilitação do cidadão livre,
comum, para a carreira pol ítica; 2) ela vai de um
domínio do "saber desinteressado", de fundo
4S
46
Carlos Rodrigues Brandão
artístico-musical, para o literário, daí para o
retórico, o livresco e o escolar (de aprender a
sabedoria para aprender a informação); 3) ela
vai das agências de reprodução restrita do saber
de nobres, entre nobres, para o saber disponível,
à venda em escolas pagas que educam da criança
ao adulto.
Com o tempo a educação clássica deixa de ser
um assunto privado, posse e questão da comuni-
dade dos nobres dirigentes, e passa a ser questão
de Estado, pública. Aristóteles exige do Imperador
leis que regulem direitos e controlem o exercício
da educação. Atrás das tropas de conquista de
Alexandre Magno, os gregos levam as suas escolas
por todo o mundo. Elas são, mais do que tudo,
o meio de impedir que a distância da Pátria de
origem ameace perder-se a cultura do vencedor
entre os costumes e o saber dos vencidos.
Como seria possível fazer uma síntese dos
princípios que orientaram toda a educação clássica
criada pelos gregos? Ela foi sempre entendida
como um longo processo pêlo qual a cultura
da cidade é incorporada à pessoa do cidadão.
Uma trajetória de· amadurecimento e formação
(como a obra de arte que aos poucos se modela),
cujo produto final é o adulto educado, um sujeito
perfeito segundo um modelo idealizado de homem
livre e sábio, mas ainda sempre aperfeiçoável.
Assim, a educação grega não é dirigida à criança
no sentido cada vez mais dado a ela hoje em
o que é Educação
dia. De algum modo, é uma educação contra a
criança, que não leva em conta o que ela é, mas
olha para o modelo do que pode ser, e que anseia
torná-Ia depressa o jovem perfeito (o guerreiro,
o atleta, o artista de seu próprio corpo-e-mente)
e o adulto educado (o cidadão político a serviço
da polis).
Esta educação humanista de uma sociedade
que deixa ao escravo e ao artesão livre o trabalho
de fazer, desdenha a técnica e olha para "o homem
todo", formado de aprender a teoria e praticar
o gesto que constroem o saber e o hábito do
homem livre. Em seu pleno sentido, é uma edu-
cação ética cujo saber conduz o sábio a viver,
com a sua própria vida, o modelo de um modo
de ser idealizado, tradicional, que é missão da
paideia conservar e transmitir.
, Finalmente, os gregos ensinam o que hoje esque-
cemos. A educação do homem ex iste por toda
parte e, muito mais do que a escola, é o resultado
da ação de todo o meio sociocultural sobre os
seus participantes. E o exercício de viver e convi-
ver o que educa. E a escola de qualquer tipo
é apenas um lugar e um momento provisórios
onde isto pode acontecer. Portanto, é a comu-
nidade quem responde pelo trabalho de fazer
com que tudo o que pode ser vivido-e-aprendido
da cultura seja ensinado com a vida - e também
com a aula - ao educando.

••

••
47
A EDUCAÇÃO QUE ROMA FEZ,
E O QUE ELA ENSINA
Os primeiros latinos foram camponeses aos
poucos enriquecidos e, alguns, tornados nobres
na Península Itálica. Ali aconteceu como em
tantas outras partes do mundo. Classes sociais
que com o tempo chegaram a ser "privilegiadas"
e separaram a direção do trabalho do próprio
exercício do trabalho, separando com isso as
forças produtivas mentais d.as físicas, desem-
penharam antes funções úteis. Primeiro, entre
os romanos, o trabalho é entre todos e o saber
é de todos. Os primeiros reis de Roma punham
com os súditos as mãos no arado e lavravam
a terra.
Como entre os índios, como nos tempos de
origem dos povos gregos, a educação dos campo-
neses latinos é comunitária e existe difusa em
todo o meio social. Muito mais do que na Grécia,
o que é Educação
a educação da criança é uma tarefa doméstica.
Na aurora da história do poder de Roma, ela foi
uma lenta iniciação da criança e do adolescente
nas tradições consagradas da cultura, e servia à
consagração da tradicional idade quase venerada
de um modo camponês de vida, simples e austero.
A criança começava a aprender em casa, com
os mais velhos, e quase tudo o que aprendia era
para saber e preservar os valores do mundo dos
"mais velhos", dos seus antepassados.
Essa educação doméstica busca a formação
da consciência moral. O adulto educado que ela
quer criar é o homem capaz de renúncia de si
próprio, de devotamento de sua pessoa à comu-
nidade. São as virtudes do campesinato de todos
os tempos e lugares, o que dirige a primitiva
educação de Roma, que exalta em verso e prosa
a austeridade, a vida simples, o amor ao trabalho
como supremo bem do homem, e o horror ao
luxo e à ociosidade. Ao contrário do que aconteceu
cedo em Atenas, em Roma não há de início
qualquer tipo de cuidado com a pura formação
física e intelectual do cidadão ocioso, ocupado
com pensar, governar e guerrear. A educação
de uma comunidade dedicada ao trabalho com
a terra foi durante séculos uma formação do
homem para o trabalho e a vida, para a cidadania
da comunidade igualada pelo trabalho.
Quando o mundo romano de camponeses enri-
quece com os excedentes da terra e das pilhagens
49
50 Carlos Rodrigues Brandão
de outros povos, quando opõe classes sociais
e inventa o Estado, ele ainda defende a criança
de ser entregue cedo a alguma forma de educação
estatal, militarizada, fora do lar. Entre os romanos
os primeiros educadores de pobres e nobres são
o pai e a mãe. Mesmo os mais ricos, senhores
de escravos, não entregam a um servo·pedagogo
ou a uma governanta o cuidado dos filhos. Quando
o menino completa, aos 7 anos, o aprendizado
cheio de afeição que recebe da mãe, ele passa
para o pai, que não divide sequer com o mestre-
-escola o direito de educá-lo, ou seja, de formar
a sua consciência segundo os preceitos das crenças
e valores da classe e da sociedade.
Em Roma, portanto, ao contrário do que vimos
acontecer em Atenas e principalmente em Esparta,
a família prolonga o poder de socializar o cidadão
e, através dela, a sociedade civil estende o alcance
do seu modelo em toda uma primeira educação
da criança. A partir de Homero, no alvorecer
da história grega, o ideal da paideia é o herói
da polis. Na educação romana o modelo ideal
é o ancestral da família, depois o da comunidade.
Quando uma nobreza romana enriquecida
com a agricultura e o saque abandona o trabalho
da terra pelo da política, e cria as regras do Império
de que se serve, aquele primitivo saber comu-
nitário divide-se e força a separação de tipos,
níveis e agências de educação. Quando há livres
e escravos, senhores e servos, começa a haver
I
o que é Educação 51
um modelo de educação para cada um, e limites
entre um modelo e outro.
Aos poucos a educação deixa de ser o ensino
que forma o pastor, o artífice ou o lavrador e,
nas suas formas mais elaboradas, prepara o futuro
guerreiro, o funcionário imperial e os dirigentes
do Império. O sistema comunitário de base peda-
gógica familiar compete com outros. Aos poucos
aparece a oposição entre o ensino de educar,
dos pais, dos mestres-pedagogos. que convivem
com os educandos e os acompanham, prolon-
gando com eles o saber que forma a consciência
e que é a sabedoria; e o ensino de instruir, do
mestre-escola que monta no mercado a loja de
ensino e vende o saber de ler-e-contar como uma
mercadoria.
O ensino elementar das primeiras letras apareceu
em Roma antes do IV século A.C. Um tipo de
ensino que podemos identificar com o secundário
surgiu na metade do século III A.C. e o ensino
que hoje em dia chamaríamos de superior, univer-
sitário, apareceu pelo século I A.C. Mas, durante
quase toda a sua história, o Estado Romano
não toma a seu cargo a tarefa de educar, que ficou
deixada à iniciativa particular, mas já não mais
comunitária, como ao tempo em que os reis
aravam a terra. Só depois do advento do Cristia-
nismo, por volta do século IV D.C., é que surge
e se espalha por todo o I mpério a schola publica,
mantida pelos cofres dos municipios.
52
Carlos Rodrigues Brandiio
Nos tempos do domínio de Augusto e de Tibé-
rio, a criança, educada em casa pelos pais, aprendia
depois dos 7 anos as primeiras letras na escola
(loja de ensino) do ludimagister. Aos 12 anos ela
estava pronta para freqüentar a escola do gramma-
ticus e, a partir dos 16, a do lector. Na sua forma
mais simples esta é a estrutura de educação que
herdamos e conservamos até hoje.
Do lado de fora das portas do lar, a educação
latina enfim separa em duas vertentes o que se
pode aprender. Uma é a da oficina de trabalho
para onde vão os filhos dos escravos, dos s e r v o ~
e dos trabalhadores' artesãos. Outra é a escola
livresca, para onde vão o futuro senhor (o diri-
gente livre do trabalho e do Estado) e o seu media-
dor, o funcionário burocrata do Estado ou de
negócios particulares.
Esta educação de escola, que os romanos criam
em Roma copiando a forma e alguma coisa do
espírito dos gregos, espalham primeiro pela Penín-
sula Itálica e depois por todo O mundo que con-
quistam na Europa, na Asia e no Norte da Africa.
Do mesmo modo como o sacerdote, o educador
caminha atrás dos passos do general. A educação
do conquistador invade, com armas mais pode-
rosas do que a espada, a vida e a cultura dos
conquistados. A educação que serve, longe da
Pátria, aos filhos dos soldados e funcionários
romanos sediados entre os povos vencidos, serve
também para impor sobre eles a vontade e a
o que é Educação
visão de mundo do dominador.
Plutarco descreveu como Roma usou a educação
para "domar" os espanhóis dominados:
"As armas não tinham conseguido stlbmetê-Ios
a não ser parcialmente; foi a educação que os
domou."
.a
••••
53
EDUCAÇÃO: ISTO E AQUILO,
E O CONTRÁRIO DE TUDO
Ora, uma outra maneira de se compreender
o que a educação é, ou poderia ser, é procurar
ver o que dizem sobre ela pessoas como legisla-
dores, pedagogos, professores, estudantes e outros
sujeitos um tanto mais tradicionalmente difíceis
de entender, como filósofos e cientistas sociais.
Nos dois dicionários brasileiros mais conhecidos
a educação aparece definida assim:
"Ação e efeito de educar, de desenvolver as facul-
dades f(sicas, intelectuais e morais da criança e,
em geral, do ser humano; disciplinamento, ins-
trução, ensino ". (Dicionário Contemporâneo da
Língua Portuquesa, Caldas Aulete)
"j!\ção exercida pelas gerações adultas sobre as
gerações jovens para adaptá-Ias à vida social;
trabalho sistematizado, se!etivo, orientador, pelo
T
I
o que é Educação
qual nos ajustamos à vida, de acordo com as
necessidades ideais e propósitos dominantes'
ato ou efeito de educar; aperfeiçoamento integraí
de todas as faculdades humanas, polidez, cortesia. "
(Pequeno Dicionário Brasileiro de Ungua Portu-
guesa, Aurélio Buarque de Hol/anda)
Um pouco mais adiante vamos ver que o miolo
de cada uma d_Bstas definições de dicionário pende
para um dos lados em gue se recortam as maneiras
de explicar o que a educação é e a Que serve.
Na nlema da Lei" a coisa não muda muito. Ao
pretenderem estabelecer os-fins da educacão no
país, nossos legisladores, pelo menos em teoria,
garantem para todos o melhor a seu respeito. Eles
falam sobre o que deve determinar e controlar o
trabalho pedagógico em todos os seus graus e
modalidades. De certo modo falam a respeito de
uma educação idealizada, ou falam da educacão
através de uma ideologia (ver O que é ideologia,
desta mesma coleção):
"Art. 1 ~ O ensino de 1 ~ e 2 ~ graus tem por objeti-
vo geral proporcionar ao educando a formação neces-
sária ao desenvolvimento de suas potencialidades co-
mo elemento de auto-realização, preparação para o
trabalho e para o exercício consciente da cidadania".
(Lei 5.692, de 11 de agosto de 1971)
ss
56 Carlos Rodrigues Brandão
Mas, do outro lado do palco, intelectuais, educa-
dores e estudantes fazem e refazem todos os dias
a crítica da prática da educação no Brasil. Eles
levantam questões e afirmam que, do Ministério
à escolinha, a educação nega no cotidiano o que
afirma na lei. Não M liberdade no país e a edu-
cação não tem tido papel algum nos últimos
anos para a sua conquista; não há igualdade entre
os brasileiros e a educação consolida a estrutura
classista que pesa sobre nós; não há nela nem
a consciência nem o fortalecimento dos nossos
verdadeiros valores culturais.
Um grupo de estudantes candidatos à direção
da UNE resume parte desta crítica e reclama
para a luta estudantil itens que, com alguma
variação de linguagem, quase poderiam caber
nas "leis do ensino",
"Os homens discriminados como negros, velhos,
crianças, homossexuais, mulheres ... descobrem
que, nestes anos todos de dominação, a força
imensa que mexeu e transformou a face do planeta
nasce de cada oprimido, de cada explorado, de
cada homem, de cada mulher. Descobrem a origem
e o fim de toda a atividade humana: o próprio
homem.
"Corações e mentes se abrem para uma nova
vida. Irrompe uma nova consciência.
"A percepção -ampla e profunda das ações e rela-
o que é Educação
ções entre os homens é inerente e inseparável
de qualquer trabalho de produção, veiculação
ou discussão cultural.
"E buscar todos os meios para que todo esse
trabalho floresça, para que toda essa força con·
tida venha à tona, é função nossa, das entidades
estudantis.
"Criar condições para que, através da manifes·
tação de todos, possamos perceber os anseios,
as contradições de cada um, do homem e de toda
a sociedade.
"Ampliar as idéias sobre o trabalho cultural.
Abranger o homem, as suas relações, as discri·
minações raciais, sexuais, etárias, a moral, o poder,
a dominação.
"Romper os limites, soltar a cabeça, as mãos,
os pés, o corpo para a realidade inquieta, questio-
nadora.
"Destruir as regras do jogo.
"Subir no palco e invadir os camarins do mundo.
Assumir o papel de agentes da História. Repre-
sentar a vida." (Voz Ativa - Cultural)
Sem rodeios as "leis do ensino" no país garan-
tem que:
"Art. 41. A educação constitui dever da União, dos
Estados, do Distrito Federal, dos Territórios, dos Mu-
nicípios, das empresas, da família e da comunidade
em geral, que entrosarão reCursos e esforços para
promovê-Ia e incentivá-Ia.
57
58
Carlos Rodrigues Brandão
Parágrafo único. Respondem, na forma da soli-
dariamente com o Poder Público, pelo cumprimento
do preceito constitucional da obrigatoriedade escolar,
os pais ou responsáveis e os empregadores de toda
natureza de que os mesmos sejam dependentes.
Art. 42. O ensino nos diferentes graus será minis-
trado pelos poderes públicos e, respeitadas as leis que
o regulam, é livre à iniciativa particular.
Art. 43. Os recursos públicos destinados à educa-
ção serão aplicados preferencialmente na manuten-
ção e desenvolvimento do enSino oficiai, de modo que
se assegurem:
a) maior número possível de oportunidades edu-
cacionais:
b) a melhoria progressiva do ensino, o aperfeiçoa-
mento e a assistência ao magistério e aos ser-
viços de educação;
c) o desenvolvimento c·,entífico e tecnológico".
(Lei 5.692, de 11 de agosto de 1971)
Mas,·se entre o pensado e o vivido há diferenças,
as pessoas do país -protestam e cobram, de quem
faz a lei, que pelo menos ela seja cumprida: que
haja liberdade na educação e, através dela, que a
escola exista para todos e seja distribuída por
igual entre todos. Assim, os docentes
reunidos num Encontro Nacional de Assoclaçoes
escreveram o seguinte no documento final:
o que é Educação
"O regime politico e o modelo socioeconômico
impostos nos últimos anos à Nação Brasileira
produziram danos marcantes na qualidade do
ensino de nossas escolas, seja pela repressãq pol i-
tico-ideológica que se abateu sobre toda a comu-
nidade, seja pelo caráter flagrantemente antidemo-
crático de suas leis e decretos, que se refléte
na elaboração e modificação ilegítimas de regi-
mentos e estatutos das Universidades.
nA palitica educacional implantada levou à
progressiva desobrigação do Estado com o custeio
da Educação, e à expansão do ensino privado.
Assim, a educação está aberta à ação dos empre-
sários do ensino, sujeita às leis da iniciativa privada,
sendo negociada comO mercadoria entre as partes
interessadas em vender e comprar, o que revela
o caráter elitista do atual processo educacional
no Brasil." (Boletim Nacional das Associações
de Docentes; n? 31
A fala do poder que constitui .a educação no
país propõe o exercício de uma prática idealizada.
A fala dos praticantes da educação, os educadores,
faz então a critica dadistânciá que há entre a
promessa ea realidade. Faz mais, denuncia a alte-
ração para pior das próprias leis que dizem o que
é e como deve ser a Educaçaã no Brasil.
Não há apenas idéias opostas ou iqel8s diferentes
a respeito da Educação, sua essência:e seus fins.
Há interesses econômicos, políticos qUe se proje-
tam também sobre a Educação. Não é raro que
59
60 Carlos Rodrigues Brandão
aqui, como em toda parte, a fala que idealiza
a educação esconda, no silêncio do que não diz,
os interesses que pessoas e grupos têm para os
seus usos. Pois, do ponto de vista de quem a
controla, muitas vezes definir a educação e legislar
sobre ela implica justamente ocultar a parcialidade
destes interesses, ou seja, a realidade de que eles
servem a grupos, a classes sociais determinadas,
e não tanto lia todos", "à Nação", "aos brasi·
leiros". Do ponto de vista de quem responde
por fazer a educação funcionar, parte do trabalhp
de pensá-Ia implica justamente desvendar o que
faz com que a educação, na realidade, negue e
renegue o que oficialmente se afirma dela na lei
e na teoria.
Mas a razão de desavenças é anterior e, mesmo
entre educadores, ela tem alguns fundamentos
na diferenca entre modos de compreender o que
o ato de ~ n s i n a r afinal é, o que o determina e,
finalmente, a que e a quem ele serve.
.-
••••
PESSOAS "VERSUS"
SOCIEDADE: UM DILEMA
QUE OCULTA OUTROS
Quando alguém tenta explicar o que são estes
nomes e o que eles misturam: educação, escola,
ensino, a fala que explica pode pender para um
lado ou para o outro de uma velha discussão.
Uma discussão ontem quente, hoje em dia inútil,
a não ser quando serve para revelar o que se
esconde por detrás de pensar a educação desta
maneira ou daquela.
De acordo com as idéias de alguns filósofos
e educadores, a educação é um meio pelo qual
o homem (a pessoa, o ser humano, o indivíduo,
a criança, etc.) desenvolve potencialidades biopsí·
quicas inatas, mas que não atingiriam a sua perfei·
ção (o seu amadurecimento, o seu desenvolvi·
mento, etc.) sem a aprendizagem realizada através
da educação. Pode até ser que haja formas próprias
62
Carlos Rodrigues Brandão
de auto-educação, mas é de suas práticas interativas
(interpessoais), coletivas, que se está falando
quando se escreve um livro sobre "Filosofia da
Educação" por exemplo_ Assim como a própria
sociedade é um corpo coletivo formado da indi-
vidualidade das pessoas que a compõem, e assim
como o seu fim é a felicidade de seus membros
a quem todas as suas instituições devem servir,
assim também a educação, como idéia (a defi-
nição, a "filosofia"). deve ser pensada em nome
da pessoa e, como instituição (a escola, o sistema
pedagógico) ou como prática (o ato de educar),
deve ser realizada' como um serviço coletivo que
se presta a cada indivíduo, para que ele obtenha
dela tudo o que precisa para se desenvolver
individualmente.
Muitas vezes, entre os que pensam assim, a
dimensão subjetiva da educação é ressaltada
e, não raro, toma conta de todo o espaço em
que o seu processo está sendo pensado. Não
importa considerar sob que. condições sociais
e através de que recursos e procedimentos exter-
nos a pessoa aprende, mas apenas a pensar o
ato de aprender do ponto de vista do que acontece
do educando para dentro.
"A Educação não é mais do que o desenvolvimento
consciente e livre das faculdades inatas do ho-
mem." (Sciacca);
"A Educação é o process(iJ externo de adaptação
o que é Educação
superior do ser humano, fisica e mentalmente
desenvolvido, livre e consciente, a Deus, tal como
se manifesta no meio intelectual, emocional e
volitivo do homem". (Herman Horse);
"O fim da Educação é desenvolver em cada indi-
viduo toda a perfeição de que ele seja capaz."
(Kant);
,,{ toda a espécie de formação que surge da
influência espiritual." (Krieck).
Quando a Enciclopédia Brasileira de Moral e
Civismo, editada pelo Ministério de Educação
e Cultura, define educação. pensando talvez
expressar uma idéia consensual, ela de fato repete
o ponto de vista das definições anteriores. Ve-
jamos:
"Educação. Do latim 'educere', que significa
extrair, tirar, desenvolver. Consiste, essencial-
mente, na formação do homem de caráter_ A
educação é um processo vital, para o qual con-
correm forças naturais e espirituais, conjugadas
pela ação consciente do educador e pela vontade
livre do educando. Não pode, pois, ser confundida
com o simples desenvolvimento ou crescimento
dos seres vivos, nem com a mera adaptação do
individuo ao meio. { atividade criadora, que visa
a levar o ser humano a realizar as suas potencia-
lidades fisicas, morais, espirituais e intelectuais.
Não se reduz à preparação para fins exclusiva-
63
64 Carlos Rodrigues Brandão
mente utilitários, como uma profissão, nem para
desenvolvimento de caracteristicas parciais da
personalidade, como um dom artistico, mas
abrange o homem integral, em todos os aspectos
de seu corpo e de sua alma, ou seja, em toda a
extensão de sua vida sensivel, espiritual, inte-
lectual, moral, individual, doméstica e sociál,
para elevá-Ia, regulá-Ia e aperfeiçoá-Ia. É processo
continuo, que começa nas origens do ser humano
e se estende até à morte. "
Se voltarmos às duas definições de dicionários
brasileiros de algumas páginas atrás, veremos que
a da Enciclopédia concorda mais com a primeira
do que com a segunda. Uma enfatiza o que acon-
tece da pessoa para dentro; a outra o que acontece
dela para fora, em direção à sociedade onde vive
e de que aprende.
A meio caminho entre um lado e outro, algumas
propostas lembram que aquela formação do
ser humano, segundo as s u a ~ próprias potencia-
I idades e através de seu próprio esforço, é o resul-
tado de um trabalho intencional, deliberado -
aquilo que faz da educação a parte mais motivada
da endoculturação, como eu disse várias páginas
atrás. Esta ação dirigida ao educando procede
de um educador, de uma agência de educação, ou
do que existe de educativo no meio sociocultural.
"Educação é um sentido de valorização individual
o que é Educação
e organizado, variável em extensão e profundidade
para cada individuo e processado pelas riquezas
culturais." (Kerschensteiner);
"É a influência deliberada e consciente exercida
sobre o ser maleável e inculto, com o propósito
de formá-lo. " (Cohn).
Um pouco ma is perto dos que nos esperam
do outro lado desta aparente história de "ovo-e-
-galinha", estão alguns estudiosos da educação
que consideram que não só a pessoa, individual-
mente, mas alguma coisa indicada como "a civili-
zação", "o meio social" Ou lia sociedade" deve
ser o destino do homem educado:
"Podemos agora definir de modo mais precioso
o objeto da educação.- é guiar o homem no desen-
volvimento dinâmico, no curso do qual se consti-
tuirá como pessoa humana - dotada das armas
do conhecimento, do poder de julgar e das virtudes
morais - transmitindo-lhe ao mesmo tempo
o patrimônio espiritual da nação e da civilização
às quais pertence e conservando a herança secular
das gerações." (Maritain);
' ~ Educação é a organização dos recursos bioló-
gicos individuais, e das capacidades de compor-
tamento que tornam o indiv(duo adaptável ao
seu meio fisico ou social. " (Wil/iam James).
Procuremos refletir um pouco sobre tudo
6S
66 Carlos Rodrigues Brandão
isto. Ao discutir os ideais da educação entre os
gregos, Werner Jaeger lembra uma coisa muito
importante. Não é sempre e não são todos os
povos e homens que consideram a educação
apenas como o que vimos até aqui. Na verdade
esta é uma maneira de "imaginar" característica
da nobreza de todos os povos em que ela existiu,
em todos os tempos. E próprio de elites separadas
do trabalho produtivo - ou dos intelectuais
que pensam o mundo por elas, e para elas . ~
propor como educação a formação da persona-
I idade humana através do conselho sistemático
e da direção espiritual.
Esta crítica, do mesmo modo como algumas
feitas nos primeiros capítulos, aqui, procura
separar o que a educação é, de fato, dQ que as
pessoas dizem dela. Jaeger não entra no mérito
da veracidade de algumas idéias sobre a educação.
Afinal, quem poderia negar que a educação deve
servir ao homem, deve servir para educá·lo, torná-lo
melhor, desenvolver nele tudo. o que tem, e tudo
a que tem direito? Quero insistir em que muitas
vezes o que se critica em quem apresenta a edu-
cação, tal como ela apareceu até aqui, não é o
que foi dito, mas o que ficou oculto: a) ou porque
quem disse não sabe de onde vem a educação,
o que ela é em cada mundo rea\1 e o que faz; b) ou
porque quem disse sabe, mas explica a educação
justamente para negar a sua origem, os seus meca-
n ismos e os seus usos. Como é poss ível compreen-
o que é Educação
der alguma coisa que se passa entre relações sociais
de categorias de homens, que educa transmitindo
de uns a outros crenças e valores sociais, que serve
tanto a igualar quanto a diferenciar as pessoas
de acordo com projetos de usos do saber situados
fora dos sonhos do educador, sem pensá-Ia dentro
dos mundos reais onde acontecem as trocas tam-
bém reais entre os homens, verdadeiros homens
de carne e osso, situados de um lado e do outro
da educação?
Na verdade, quem descobriu que na prática
o "fim da educação" são os interesses da socie-
dade, ou de grupos sociais determinados, através
do saber que forma a consciência que pensa o
mundo e qualifica o trabalho do homem educado,
não foram filósofos do passado ou cientistas
sociais de hoje. Esta é a maneira natural dos
povos primitivos, com quem estivemos até há
pouco, tratarem a educação de suas crianças,
mesmo quando eles não sabem explicar isto com
teorias compl icadas.
Os índios e os camponeses 'realizam, no modo
como ensinam o que é importante para alguém
aprender, a consciência de que o saber que se
transmite de um ao outro deve servir de algum
modo a todos. Mas o que Werner Jaeger diz é que
justamente nas formações sociais mais desenvol-
vidas, onde por sobre o trabalho de muitos aparece
a elite dominante de uns poucos, surge com o
tempo a idéia de uma educação que deve servir
67
68
Carlos Rodrigues Brandão
a alguns homens individualmente, desvinculada
da idéia de que eles existem dentro de grupos
ou mundos sociais, e a seu serviço. Esta maneira
de compreender para que serve a educação é'
decorrência de um "esquecimento", ou de uni
ocultamento de que, afinal, por mais louvável
que seja, a educação é uma prática social entre
outras.
Entre os gregos, vimos que a educação dos
jovens nobres, que viviam do trabalho de escravos
estrangeiros e que, quando adultos, participavam
da direção da cidade, procurava desenvolver
o corpo e a inteligência para formar homens
fortes e sábios destinados à defesa e à pol ítica
da comunidade. O que à distáncia poderia parecer
a formação do ocioso era, na verdade, uma apren·
dizagem feita durante um longo período de ócio
nobre (separação do trabalho braçal), para a
formação do homem político. A educação grega
e, depois, a de Roma preocupavam-se em formar
o cidadão e eram, portanto, educações da e para
a comunidade. '
No mundo ocidental, é depois do advento
e da difusão do Cristianismo que aparecem idéias
sobre a educação que isolam o saber da sociedade
e o submetem ao destino individual do cristão.
O homem que aprende busca na sabedoria a
perfeição que ajuda à salvação da alma. Mas não
é o Cristianismo Primitivo quem sugere a "edu-
cação humanista", de que os cursos de "humani-
o que é EducUfão
dades" que houve no Brasil até há pouco tempo
são o melhor exemplo. Foi necessário que, a partir
de Roma, o Estado cristianizado e as elites de
sua sociedade tomassem posse da mensagem
cristã de militáncia e salvação, fazendo dela parte
de sua ideologia. Tornando-a o repertório de sím-
bolos e valores pelos quais representavam,o mundo,
representavam-se nele e, assim, legitimavam,
com as palavras originalmente dirigidas a pobres
e deserdados, a sua posição de domínio econômico
e de hegemonia pol ítica sobre eles.
Foi então preciso o advento de uma nobreza
plenamente separada do trabalho produtivo e,
cada vez mais, até mesmo do trabalho político -
entregue nas mãos de intelectuais mediadores
de seus interesses - para que surgisse uma classe
de gente capaz de representar o mundo quase
fora dele. Esta elite ociosa e seus intelectuais
sacerdotes, filósofos e artistas puderam imaginar
como "puras" a vida, a arte, a ciência e até mesmo
a educação.
Ela começa a representar realmente alguma
coisa (pensa, faz pensar, constrói sistemas de
pensamento) sem representar coisa alguma de real;
sem conseguir explicar mais, para si própria e para
as outras classes, o que são de fato os homens,
o mundo e as relações concretas entre o mundo
e os homens. Ora, é a partir deste universo de
idéias puras que a educação afinal é pensada como
o exercício do educador sobre a alma do educando,
69
70
Carlos Rodrigues Brandão
com o propósito de purificá-Ia do mal que existe
na ignorância do saber que conduz à salvação.
Da Antigüidade decadente à Idade Média, da
Idade Média ao Renascimento (um tempo da
História rico em redefinições da idéia de edu-
cação) e do Renascimento à Idade Moderna,
foi preciso esperar muitos séculos para que de
novo os brancos civilizados aprendessem a repen-
sar a educação como os índios. E uma nova
maneira de definir a educação como uma prática
social cuja origem e destino são a sociedade e a
cultura, foi formulada com muita clareza pelo
sociólogo francês Emile Durkheim.
Ele sacode a poeira de um assunto que só
aos poucos foi recolocado na Europa de seu tempo, .
nos últimos anos do século passado. Se o fim
da educação é desenvolver no homem toda a
perfeição de que ele é capaz, que "perfeição"
é esta? De onde é que ela procede? Quem a define
e a quem serve? Por que, afinal, ideais de perfeição
são tão diversos de uma cultura para outra? E
falso imaginar uma educação que não parte da
vida real: da vida tal como existe e do homem
tal como ele é. E falso pretender que a educação
trabalhe o corpo e a inteligência de sujeitos soltos,
desancorados de seu contexto social na cabeça
do filósofo e do educador, e que os aperfeiçoe
para "si próprios", desenvolvendo neles o saber
de valores e qualidades humanas tão idealmente
universais que apenas exjstem como imaginação
o que é Educação
em toda parte e não existem como realidade (como
vida concreta, como trabalho produtivo, como
compromisso, como relações sociais) em parte
alguma.
O que existe de fato são exigências sociais de
formação de tipos concretos de pessoas na e para
a sociedade. São, portanto, modos próprios de
educar - por isso, diferentes de uma cultura
para outra - necessários à vida e à reprodução
da ordem de cada tipo de sociedade, em cada
momento de sua história. Não se trata de dizer
que a educação tem, também, de modo abstrato
e muito amplo, um compromisso com a "cultura",
com a "civilização", ou que ela tem um vago
"fim social". O que ocorre é que ela é inevita-
velmente uma prática soCial que, por meio da
inculcação de tipos de saber, reproduz tipos de
sujeitos sociais.
"A educação é a ação exercida pelas gerações
adultas sobre as gerações que não se encontram
ainda preparadas para a vida social; tem por objeto
suscitar e desenvolver na criança certo número
de estados flsicos, intelectuais e morais recla-
mados pela sociedade polltica no seu conjunto
e pelo meio especial a que a criança, particular-
mente, se destina." (Durkheim)
Entre muitas outras, esta é uma maneira socio-
lógica de compreender a educação. Depois de
71
72 Carlos Rodrigues Brandão
Durkheim (que, por- sua vez, aprendeu isso com
outros cientistas anteriores e, quem sabe?, com
alguns índios) inúmeros sociólogos, antropólogos,
filósofos e educadores começaram a formular
pontos de vista semelhantes. Não é que eles tives·
sem a proposta de uma "nova educação", menos
abstrata e desancorada do que a "Educação Huma-
nista" que criticavam. O que eles buscaram fazer
foi esclarecer mais e mais como a sociedade e a
cultura são e funcionam, na realidade. Como,
portanto, a educação existe dentro delas e funciona
sob a determinação de exigências, princípios e
contro les socia is.
••
.. . .,
SOCIEDADE CONTRA ESTADO:
CLASSE E EDUCAÇÃO
A idéia de que não existe coisa alguma de social
na educação; de que, como a arte, ela é "pura"
e não deve ser corrompida por interesses e contro-
les sociais, pode ocultar o interesse pol ítico de
usar a educação como uma arma de controle, e
dizer que ela não tem nada a ver com isso _ Mas
o desvendamento de que a educação é uma prática
social pode ser também feito numa direção ou
noutra e, tal como vimos antes, pode se dividir
em idéias opostas, situadas de um lado ou do
outro da questão.
Vamos por partes, portanto. Até aqui chegamos:
a educação é uma prática social (como a saúde
pública, a comunicação social, o serviço militar)
cujo fim é o -desenvolvimento do que na pessoa
humana pode ser aprendido entre os tipos de
saber existentes em uma cultura, para a formação
74 Carlos Rodrigues Brandâo
de tipos de sUJeitos, de acordo com as necessi·
dades e exigências de sua sociedade, em um
momento da história de seu próprio desenvol-
vimento. Não procurei inventar uma nova defi-
nição, porque delas acho que já há demais.
Procurei reunir as idéias correntes entre 'os que
concebem a educação como Durkheim.
Assim, dos dois historiadores da educação de
cujos livros aprendi quase tudo o que disse sobre
Grécia e Roma, um deles dirá o seguinte:
"Primeiro que tudo, a educação não é uma proprie-
dade individual, mas pertence por essência à comu-
nidade. O caráter da comunidade imprime-se
em cada um dos seus membros e é no homem . ..
muito mais que nos animais, fonte de toda a
ação e de todo o componamento. Em nenhuma
parte o influxo da comunidade nos seus membros
tem maior força que no esforço constante de
educar, em conformidade com o seu próprio
sentir, cada nova geração." (Werner Jaeger).
Toda a estrutura da sociedade está fundada
sobre códigos sociais de inter-relação entre os
seus membros e entre eles e os de outras socie-
dades. São costumes, princípios, regras de modos
de ser às vezes fixados em leis escritas ou não. "A
educação é, assim, o resultado da consciência
viva duma norma que rege uma comunidade
humana, quer se trate da família, duma classe
o que é Educaçâo
ou duma profissão, quer se trate dum agregado
mais vasto, como um grupo étnico ou um Es-
tado." Como outras práticas sociais constitu-
tivas, a educação atua sobre a vida e o crescimento
da sociedade ·em dois sentidos: 1) no desenvol-
vimento de suas forças produtivas; 2) no desen-
volvimento de seus valores culturais. Por outro
lado, o surgimento de tipos de educação e a sua
evolução dependem da presença de fatores sociais
determinantes- e do desenvolvimento deles, de
suas transformações. A maneira como os homens
se organizam para produzir os bens com que
reproduzem a vida, a forma de ordem social
que constroem para conviver, o modo como
tipos diferentes de sujeitos ocupam diferentes
posições sociais, tudo isso determina o repertório
de idéias e o conjunto de normas com que uma
sociedade rege a sua vida. Determina também
como e para quê este ou aquele tipo de educação
é pensado, criado e posto a funcionar.
Quando são transformados a "maneira", a
Hforma" e o limado" de que falei acima, tanto
as idéias quanto as normas, os sistemas e os méto-
dos de um tipo de educação são modificados.
Ao fazer a sua crítica, IOmile Durkheim pergun-
tava a pensadores da educação que considerava
ilustres, mas ingênuos: que "perfeição" é essa?
"Mas, que se deve entender pelo termo perfeição?"
Ele quer perguntar o seguinte: quem afinal esta-
belece os ideais e os princípios da educação?
75
76
Carlos Rodrigues Brandão
Uns e outros são universais? Existiram para todos
os povos em todos os tempos, de uma mesma
. ' ,
maneira, pelo fato de que e sempre a
a "essência do homem"? Pode ou deve eXistir
uma espécie de "educação universal"? Durkheim
conclui que não. E conclui que o ponto fraco
das idéias pedagógicas que avaliou está na crença
ilusória (ilusória sempre, ou algumas vezes mal-
-intensionada?) de que há, ou deveria haver,
uma "educação ideal, perfeita, apropriada a todos
os homens, indistintamente".
Até aí tudo bem. Assino embaixo. Mas será
que não poderíamos fazer a Durkheim, leitor,
a pergunta que ele fez aos outros? Quando fala
de sociedade e, mesmo, de sociedades concretas,
do que está falando? Que tipo de soc!edades,
regidas por que modos e mecanismos Internos
de produção de bens, de serviços, de poder e
de idéias entre os seus integrantes? Ele respon-
deria com segurança: "cada uma"; cada tipo de
sociedade real, histórica, cria .e impõe o tipO de
educação de que necessita. E arremataria:
"Na verdade, porém, cada sociedade, considerada
em momento determinado de seu desenvolvi-
mento, possui um sistema de educação q.ue
impõe aos indivíduos de modo geralmente ITreSIS-
t(vel. E uma ilusão acreditar que podemos educar
nossOs filhos como queremos . .. Há, pois, a cada
momento, um tipo regulador de educação do qual
r
o que é Educação
não nos podemos separar sem vivas resistências,
e que restringem as velocidades dos dissidentes. "
No entanto, o que é "cada sociedade consi-
derada em um momento determinado de seu
desenvolvimento"? E preciso reforçar algumas
perguntas e fazer outras. Afinal, "eada socie-
dade" existe e funciona como um todo orgânico
e harmônico, fundado sobre a igualdade entre
todos e o consenso de todos? Dentro dela, em
posições especiais de privilégio, de hegemonia
e de controle sobre outros, não existirão classes
sociais capazes de impor uma educação que fazem
criar e existir? Para seu uso próprio e por sobre
outras classes e grupos socia is (mais do que "em
nome deles"), não há, em determinadas socie-
dades concretas, classes e grupos, às vezes muito
minoritários, que resolvem por sua conta como
será e para quê servirá a "educação oficial"?
Ou, perguntando de outra maneira, já que cada
tipo de sociedade - a "tribal" de índios Gê
do Brasil Central; a chinesa após a
socialista; a indiana do V século A.C.; a da
Alemanha medieval ou mesmo a de uma aldeia
de camponeses, dentro dela; a portuguesa colon ia-
lista do século XVII; a do Brasil "pós-64" -
inventa e faz a sua educação ou as suas educações,
nos sistemas mais oficiais, mais organizados em
projetos e programas pedagógicos, são pensados
a partir das idéias fundamentais de todos os tipos
77
78
Carlos Rodrigues Brandão
de pessoas? As mesmas escolas servem ao operário,
ao engenheiro e ao capitalista imobiliário do mes-
mo modo (como as leis brasileiras de ensino garan-
tem que sim e os professores críticos garantem q u ~
não)? Uma educação ensina o saber da "comunI-
dade nacional" a todos, para os mesmos usos so-
ciais, e segundo os mesmos direitos individuais de
todas as categorias de seus "adultos educados"?
Ora entre os que colocam "sociedade e cultura"
no me'io da questão da educação, alguns pesquisam
e apenas reconhecem que ela é, na cultura, uma
prática social de reprodução de categorias de saber
através da formação de tipos de sujeitos educados.
Outros projetam e defendem a necessidade deste
ou daquele tipo de educação para este ou aquele
tipo de sociedade. .
Entre estes últimos, um pensamento mUito
corrente hoje em dia é o de que a educação é um
dos principais meios de realização de mudança
social ou, pelo menos, um dos recursos de adapta-
ção das pessoas a um "mul)do em mudança".
Este modo de imaginar tende a ser dominante
atualmente. Mas ele não fazia sentido para gregos
e romanos e nem mesmo para os portugueses
e missionários que tentaram educar nosSOS antepas-
sados durante a Colônia.
A idéia de que a educação não serve apenas
à sociedade, ou à pessoa na sociedade, mas à
mudança social e à formação conseqüente de
sujeitos e agentes na/da mudança social, pode
.
r o que é Educação
não estar escrita de maneira direta nas "leis do
ensino". Afinal, as leis quase sempre são escri-
tas por quem pensa que nem elas nem o mun-
do vão mudar um dia. Mas as suas conseqüên-
cias podem aparecer indiretamente. Por exem-
plo, na Lei 5.692, conhecida como Lei de Dire-
trizes e Bases da Educação Nacional e já citada
neste livro, os fins da educacão acrescentam
a formação para o trabalho, ou enfatizam este
objetivo do ato de ensinar, mais do que as leis
anteriores:
"O ensino de I? e 2? graus tem por objetivo ge-
rai proporcionar ao educando a formação neces-
sária ao desenvolvimento de suas potencialida-
des como elemento de auto-realização, prepara-
ção para o trabalho e para o exercício conscien-
te da cidadania".
Quando a idéia de educacão vem associada à
de adaptação para alguma coisa externa à pes-
soa, e que se transforma, a proposta pode ser for-
mulada assim: "Educação é preparação da crian-
ça para uma civilização em mudança" (Kilpatrik),
ou assim:
"Em uma sociedade dinâmica como a nossa, só
pode ser eficaz uma educação para a mudança. Es-
ta (educação! consiste na formação do espírito
isento de todo dogmatismo, que capacite a pes-
79
80 Carlos Rodrigues Brandão
soa para elevar·se acima da corrente dos acon·
tecimentos, ao invés de arrastar·se por eles."
(Mannheim)
Um outro nome para a educação pode ser até
mesmo sugerido, quando se constata, por exemplo,
que o rumo e a veloCidade das transformações
do mundo moderno exigem cada vez mais, de
todos os homens, uma constante reciclagem
de conhecimentos e uma contínua readaptação
a um mundo que, afinal, ainda é sempre o mesmo
e já é sempre um outro.
"A Educação Permanente é uma concepção dialé·
tica da educação, como um duplo processo de
aprofundamento, tanto da experiência pessoal
quanto da vida social, que se traduz pela parti·
cipação efetiva, ativa e responsável de cada sujeito
envolvido, qualquer que seja a etapa de existência
que esteja vivendo. . .. O primeiro imperativo
que deve preencher a Educação Permanente
é a necessidade que todos nós temos de sempre
aperfeiçoar a nossa formação profissional. Num
mundo como o nosso, em que progridem ciência
e suas aplicações tecnológicas cada dia mais, não
se pode admitir que o homem se satisfaça durante
toda a vida com o que aprendeu durante uns
poucos anos, numa época em que estava profun·
damente imaturo. Deve informar·se, documen·
tar·se, aperfeiçoar a sua destreza, de maneira a
o que é Educação
81
82 Carlos Rodrigues Brandão
se tornar mestre da sua práxis. O dom(nio de
uma profissão não exclui o seu aperfeiçoamento.
Ao contrário, será mestre quem continuar apren-
dendo." (Pierre Furter)
Não será estranho que, aqui e ali, a proposta
de uma educação apareça armada do poder de
realizar, ela própria, o trabalho de transformar
a sociedade. Quando este tipo de proposta consi-
dera a educação como uma entre outras práticas
sociais cujo efeito sobre as pessoas cria condições
necessárias para a realização de transformações
indispensáveis, a sugestão é aceitável e rea lista.
Nada se faz entre os homens sem a consciência
e o trabalho dos homens, e tudo o que tem o
poder de alterar a qualidade da consciência e
do trabalho, tem o poder de participar de sua
práxis e de ser parte dela. No entanto, quando a
educação é imaginada - agora pelo utopista
social - como o único ou principal instrumento
de qualquer tipo de transformação de estruturas
políticas, econômicas ou culturais, sem que haja
a lembrança de que ela própria é determinada
por estas estruturas, esta'11os diante de pequeno
acesso de "utopismo pedagógico".
"Se educaçaã é transformação de uma realidade,
de acordo com uma idéia melhor que possu(mos,
e se a educação só pode ser de caráter social,
resultará que pedagogia é a ciência de trans-
o que é Educação
formar a sociedade." (Ortega V Gasset)
Associar "educação" a "mudança" não é novi-
dade. Tem sido um costume desde pelo menos
as primeiras décadas do século. Mas só um pouco
mais tarde, quando pol íticos e cientistas come-
çaram a chamar a "mudança" de "desenvolvi-
mento" (desenvolvimento social, socioeconômico,
nacional, regional, de comunidades, etc.), é que foi
lembrado que a educação deveria associar-se a
ele também. Este foi o momento de uma transição
importante. Antes de se difundirem pelo mundo
idéias de mudança e de necessidade de mudança
social, a educação era pensada como alguma coisa
que preserva, que conserva, que resguarda justa-
mente de se mudarem, de se perderem, as tradi-
ções, os costumes e os valores de "um povo",
"uma cultura" ou "uma civilização". Antes de se
inventarem pol(ticas de desenvolvimento, a edu-
cação era prescrita como um direito da pessoa,
ou como uma exigência da sociedade, mas nunca
como um investimento. Um investimento como
outros, como os de saúde, transporte e agricultura.
A educação deixa finalmente de ser vista como
um privilégio, um direito apenas, e deixa também
de ser percebida como um meio apenas de adapta-
ção da pessoa à mudança que se faz sem ela, e
que apenas a afeta depois de feita.
Pessoas educadas (qualificadas como "mão-de-
-obra" e motivadas enquanto "sujeitos ·do proces-
so") são. agentes de mudança, promotores do
83
84 Carlos Rodrigues Brandão
desenvolvimento, e é para torná-los, mais do que
cultos, agentes, que a educação deve ser pensada
e programada. Não é raro que em alguns países
se defenda então que as propostas básicas da
educação venham quase prontas do Ministério
do Planejamento para o da Educação.
"A Educação é hoje considerada como um fator de
mudanças: um dos principais instrumentos de inter-
venção na realidade social com vistas a garantir a
evolução econômica e a evolução social e dar conti-
nuidade à mudança no sentido desejado . ..
"Salienta-se, no entanto, um aspecto em que
a educação representa investimento a curto prazo:
é quando ela desempenha função de forma-
ção de mão-de-obra. Ao lado da formação da
personalidade, da preparação necessária de cada
cidadão para assumir as obrigações sociais e polf-
ticas, a educação desempenha a tarefa de preparar
para o trabalho, e influi substancialmente na
criação de novos quadros de mão-de-obra com
capacidades técnicas adequadas' aos novos proces-
sos produtivos que o desenvolvimento introduz
criando novos mercados de trabalho." (SAGMACS
- educação e planejamento)
111 nvestimento",
para o trabalho",
quadas". .. são os
momento em que
"mão-de-obra", Ilpreparação
"capacidades técnicas ade-
nomes que denunciam o
os interesses pol íticos de
o que é Educação
emprego de uma força de trabalho "adequa-
damente qualificada" misturam a educação antiga
da oficina com a da escola, reduzem o seu compro-
misso aristocrata com a "pura" formação da
personalidade e inscrevem o ato de educar entre
as práticas pol ítico-econômicas das "arrancadas
para o desenvolvimento". Arrancadas que, nas
sociedades capitalistas são de modo geral estra-
tégias de reorganização de toda a vida social,
de acordo com projetos e interesses de reprodução
do capital. De multiplicação dos ganhos das em-
presas capitalistas.
Esta é a crítica que tem sido feita por cientistas
e educadores que, sem deixarem de reconhecer
com Durkheim que a educação existe na socie-
dade, dentro da cultura, procuram compreender
como ela existe a í e sob que condições é prati-
cada contra o homem ou a seu favor.
Ora, às veses mais útil do que comprar e discu-
tir o conteúdo de estilos diferentes de definições
ou propostas de tipos de educação, é procurar
ver de onde eles vêm. Quem diz, em nome de
quem e para quê?
A variação da maneira como o triângulo edu-
cação-ensino-escola tem sido formulado no Brasil
pelas pessoas que possuam o poder direto ou
indireto de determinar como ele vai existir, dá
o que pensar. Até há alguns anos atrás o universo
da educação estava dividido por aqui tal como
na Grécia e em Roma, há muitos séculos. As
8S
86 Carlos Rodrigues Brandiio
crianças filhas de pais "das boas famílias" iam
às escolas, mesmo que por poucos anos. As escolas
. eram particulares, "abertas" por professores
avulsos ou pelas ordens religiosas. Eram pagas,
algumas custavam caro e as poucas crianças pobres
que aprendiam "de graça" aprendiam nos arfa·
natos ou nos anexos dos colégios religiosos.
Os escravos e os filhos dos deserdados da for·
tuna - lavradores livres, artistas pobres, artesãos -
aprendiam "no ofício". Rara vez um deles alisava
com o traseiro magro o banco de madeira de
alguma eséola, razão por que o país tinha, até há
poucos anos, um dos maiores índices de analfa-
betismo em.todo o mundo.
Havia, portanto, duas educações em curso. Uma
era a da escola, destinada aos filhos das "gentes
de bem". Ali, fora o ensino de primeiras letras, ha-
via cursos, sempre não profissionalizantes, que en-
sinavam Latim, Grego, Literatura e Música para os
que chegavam até depois dos estudos primários.
Mesmo nas três primeiras décadas deste século,
até entre os mais ricos eram raras as pessoas que
faziam algum curso superior. Havia poucas facul-
dades isoladas e a nossa universidade mais anti-
ga, a de São Paulo, só tem 60 anos.
Outra era a da oficina, misturada com a da
vida, destinada pelos ossos do ofício aos filhos
"da pobreza". Analfabetos "de pai e mãe", mas
excelentes lavradores, mineradores, pedreiros,
carapinas, ourives, ferreiros, estes homens "rudes",
o que é Educação
porque "sem cultura", de acordo com a visão
das elites, mas sábios do saber que faz o trabalho
produtivo, fizeram a riqueza e as obras do pa ís
e de cada uma de suas cidades.
"Mestre carapina, conhecido na história da cidade,
queria dizer carpinteiro, mas sua atividade não
se circunscrevia apenas a este of/cio. Eram enge-
nheiros práticos: estes escravos calculavam a
construção de um sobrado fi o construiam. Isto
ocorreu até a metade do século passado com
sobrados que chegam até nossos dias e foram
construidos por esteS engenheiros (toda a parte
de taipa, armação do telhado de grande dimen-
são), sendo que os engenheiros graduados só
chegavam na fase final para terminar a construção.
A velha Igreja do Carmo foi feita só por 'mestres
carapinas', como muitos outros prédios cujos
construtores podem ser identificados ainda hoje. "
(Celso Maria de Mello Pupo, sobre a cidade de
Campinas, em São Paulo)
Nas primeiras décadas deste século, pol íticos
e educadores liberais trouxeram idéias novas para
a educação no país. Entre outras coisas eles come-
çaram a falar de uma escola mais dirigida à vida
de todo dia e mais estendida a todas as pessoas,
ricas ou pobres. A "luta pela democratização
do ensino" resultou na escola pública. Resultou
no reconhecimento pai ítico do direito de estudar
87
88 Carlos Rodrigues Brandão
para todas as pessoas, através de escolas gratuitas,
de ensino leigo, oferecido peio governo.
Há quem diga que isto foi o resultado de um
confronto entre "liberais" e "conservadores"
na pol(tica, um confronto que invadiu a questão
da educação. De um lado ficaram os que falavam
em nome das elites agrárias tradicionalistas e
acostumadas a padrões ultrapassados de dom(nio
pai (tico. De outro lado ficaram os que falavam
em nome das novas elites capitalistas, atentas
a novos tempos e problemas que batiam nas
portas do mundo e do Brasil. No entanto, o que
eu quero ressaltar é que esses pol (ticos e educa·
dores liberais - alguns deles sem dúvida lúcidos
e bem·intencionados - ao pregarem idéias de
uma educação voltada para a vida, a mudança,
o progresso, a democracia, traduziam ao mesmo
tempo o imaginário democrático de seu tempo
e, por outro lado, o projeto polltico que servia
aos interesses de novos donos do poder e da eco·
nomia. E, tal como aconteceu em outros setores
da sociedade brasileira, as i"novações propostas
para a educação propiciaram novos tipos de usos
pai (ticos de todo o aparato pedagógico, adaptan·
do·o à realidade de novos tempos e a novos mode·
los de controle do exercício da cidadania e de
preparação de "quadros" qualificados para o
trabalho das fábricas. Indústrias que primeiro
o capital brasileiro e, depois, o internacional,
comeÇaram a semear pelo país.
o que é Educação
Como tipos de intelectuais (educadores, filó'
safas, legisladores, cientistas sociais) constitu ídos
e sustentados, direta ou indiretamente, pelos novos
donos do poder, quase todos os militantes de
uma nova educação souberam lutar com entu·
siasmo por torná·la mais aberta e democrática
por dentro e por fora, sem saber muitas vezes
que as suas idéias apenas consolidavam outros
projetos pai (ticos para a educação. Eles subs·
titu íam outros intelectuais, aqueles cujas idéias
pedagógicas serviram aos interesses pol(ticos
dominantes de outros tempos, e que não tinham
mais lugar nem poder, porque eram as idéias
que traduziam os interesses de preservação de
um tipo de ordem social inadequada no Brasil,
diante das mudanças aos poucos havidas nas
relações de produção de bens e de poder.
Por uma porta os filhos dos pobres começam
a entrar nas escolas públicas. Por outra o pa ís
ingressa enfim em tempos de transferência do
capital da agricultura para a indústria, e de poder
e pessoas do campo para a cidade. Então pai íticos
e educadores começam a chamar a atenção para a
evidência de que, mesmo nas escolas públ icas, o
ensino escolar era inadequado. Não servia para
preparar o cidadão para a vida nem para preparar
o trabalhador para o trabalho, em qualquer um
dos seus níveis. Quando as exigências de ordem
e trabalho do capital redefiniram aos poucos
a vida e o trabalho, a idéia de que, além de uma
89
90
Carlos Rodrigues Brandão
vaga "personalidade do educando", a educação
tinha compromissos para com a vida social e o
trabalho produtivo passou a figurar entre leis
e projetos de escolarização no país.
Este progressivo ingresso da criança pobre
nas salas das escolas, associado a uma redefinição
do ensino escolar em direção ao trabalho produ·
tivo, não fez mais do que trazer para dentro
dos muros do colégio a divisão anterior entre o
aprender·na·oficina para o trabalho subalterno
e o aprender·na·escola para o trabalho dominante.
Algumas pesquisas de sociólogos americanos,
realizadas desde a década de 50, confirmam que,
mesmo nos Estados Unidos, o filho do operário
estuda para ser o operário que acaba sendo, e
o filho do médico para ser médico ou engenheiro.
Apesar de ser, também lá, um projeto teórico
de reprodução da igualdade, a educação da socie·
dade capitalista avançada reproduz na moita e
consagra a desigualdade social, sem esquecer
de fazer alarde em festa de formatura quando
algum filho de operário consegue sair formado
da Faculdade de Engenharia.
Em um dos mais importantes estudos elabora-
dos sobre o assunto, dois franceses, Christian Bau-
delot e Roger Establet, demonstram que a escola
capitalista francesa superpõe ao sistema oficial de
ensino - aquele que é proclamado como demo-
craticamente aberto a todos - uma divisão entre
duas redes "heterogêneas ... opostas ... antagô-
o que é Educação
nicas". lO claro que esta oposição real, que existe
sob uma unidade proclamada, não é oficialmente
aceita. Não é reconhecida como existente e deter·
minante do sistema pedagógico francês pelos seus
ideólogos. Mas é através do que separa e de como
separa quem entra e quem sai das escolas que a
educação capitalista cumpre a sua função de
reproduzir e consagrar a desigualdade, afirmando
que existe como um instrumento democrático
de produção da igualdade social através do acesso
ao saber.
Uma rede é a de tipo PP, primário·profissional,
limite dos estudos para os filhos do povo desti·
nados, também por ela, aos padrões do trabalho
operário. Outra rede é a de tipo 55, secundário·
·superior, destinada aos filhos dos ricos, enviados,
também por ela, às pontes·de·comando do trabalho
"superior",
Então, esta educação que incorpora o povo
ao ensino oficial, que arranca o menino proletário
da oficina e o deseja pelo menos por alguns anos
na escola, será a educação que serve a ele? Que
serve pelo menos também a ele?
Este é o momento de voltarmos juntos, leitor,
a algumas páginas do começo desta conversa
sobre ensinar·e·aprender. O tipo de formação
social onde nós vivemos não é como o de uma
pequena aldeia tribal, embora haja muitas delas
em nosso mundo. Não é sequer, como na Grécia,
de onde saiu o modelo de nossa educação, o
91
92 Carlos ROdrigues Brandão
lugar da polís, onde pelo menos nos melhores
tempos vigora a democracia de todos os cidadãos
livres, mesmo que ela seja sustentada pelo traba-
lho dos escravos. Vivemos aqui, hoje, dentro de
uma ordem social regida por um sistema amplo
e muito complexo de relações de produção entre
tipos de meios e produtores, que se costuma
chamar de modo de produção capitalista. Embora
possa ser fatigante e parecer agressivo, é muito
pouco real pensar, seja a educação, seja quase
tudo o mais que acontece por aqui, sem levar
em conta que são tipos de trocas regidos pela
oposição entre o capital e o trabalho.
Ora, por toda parte, em sociedades como a
nossa, grupos nacionais ou estrangeiros, que
repartem entre si a propriedade e o controle
direto dos meios de produção dos bens de que
se nutrem as pessoas e seu mundo, concentram
entre si o poder de constituírem, em seu proveito,
o tipo de Estado que, por sua vez, reproduz ser-
viços e normas de segurança, de propriedade,
de direito, de saúde e até de educação, serviços
e normas que servem em conjunto para manter
coesa e, se possível, em relativa paz a ordem
social de que se nutre o capital, ou seja, aquela
ordem em que ele se multiplica.
Esta é uma afirmação comum hoje em dia entre
os que pensam sobre a educação sem se iludirem
com as condições de sua existência real. 10 também
uma crítica que se confirma a todo momento,
o que é EduCtlção
inclusive por meio de dados estatísticos. Ela não
vale só para um país de economia pobre e depen-
dente como o nosso, situado, como diriam os
economistas, "na periferia do sistema capitalista".
Vale também para os países de economia desen-
volvida, os da "metrópole" do sistema.
Em um estudo sobre "a educação como processo
social", o norte-americano Wilbur Brookover
concluiu que em seu país a educação: a) tem o seu
controle situado em mãos "de elementos conserva-
dores da sociedade"; b) é dirigida de modo a
impedir mudanças significativas, "exceto nas áreas
em que os grupos dominantes desejam a mudança";
c) na melhor das hipóteses, pode atuar como
um agente interno de mudanças sociais, não como
um agente externo, ou seja, capaz de provocar
por sua conta mudanças significativas; d) não é
acreditada como criadora de um possível "mundo
melhor", a não ser quando "outras forças também
operam como agências de mudanças".
Dentro de um tipo de ordem social assim divi-
dida, a educação (como tantas outras coisas da
vida e dos sonhos de todos os homens) perde
a sua dimensão de um bem de uso e ganha a de
'um bem de troca. Ela não vale mais pelo que é
e pelo que representa para as pessoas. Não é mais
um dom do fazer que existe no ensinar o saber
que é um outro dom de todos e que a todos
serve. A educação vale como um bem de mercado,
e por isso é paga e às vezes custa caro. Vale como
93
94 Carlos Rodrigues Brandão
um instrumento cujos segredos se programam
nos gabinetes onde estão os emissários dos interme-
diários dos interesses pol,ticos postos sobre a edu-
cação. Esta é a sua dupla dimensão de valor
capitalista: a) valer como alguma coisa cuja posse se
detém para uso próprio ou ,de grupos reduzidos,
que se vende e compra; b) valer como um instru-
mento de controle das pessoas, das classes sociais
subalternas, pelo poder de difusão das idéias de
quem controla o seu exercicio.
Então, o que parece inacreditável faz parte
da própria lógica do modo como a. educação
existe na sociedade desiguat. Quando. pensada
como uma "filosofia" ou uma. "política de edu-
cação", ela se apresenta juridiCamente como
um bem de todos, de que o· estado assume a
responsabilidade de distribuição em nome de
todos. Mas sequer as pessoas a quem a educação
serve, em principio, são de algum modo consul-
tadas sobre como ela deveria ser. A educação
que chega à favela, chega prqnta na escola, no
livro e na lição. Os pais favelados dos alunos
são convocados a matricular os seus filhos, como
se aquilo fosse um posto de recrutamento. Não
são convocados, por exemplo, a debaterem com
os professores como eles pensam que a escola
da favela poderia ser uma verdadeira agência
de serviços à sua gente. Mesmo que fossem, as
suas idéias por certo não sairiam do caderno
de anotações da diretoria. Mas não são só os
o que é Educação
9S
A autoridade do mestre na educação dita democrática
96 Carlos Rodrigues Brandíio
pais e as crianças faveladas os que não têm direitos
de pensa r na educação da favela. Mesmo os cida-
dãos ricos e letrados não tem poder algum sobre as
idéias que determinam a educação de seus filhos,
e a imensa massa dos próprio educadores da linha
de frente do trabalho pedagógico (professores,
diretores de escola, orientadores, supervisores
educacionais) têm o poder do exercício da repro-
dução das idéias prontas sobre a educação e dos
conteúdos impostos à educação. Mas não têm nem
o direito nem o poder de participarem das decisões
pol ítico-pedagógicas sobre a educação que prati-
cam. Elas estão reservadas aos donos do poder
pol ítico e às pequenas confrarias de intelectuais
constituídas como seus porta-vozes pedagógicos.
Poucos espaços de trabalho social são hoje, tão
pouco comunitários e democratizados entre
os seus diferentes praticantes, como a educação.
E, em qualquer tipo de ordem social, quanto
mais a educação autoritária e classicista é expressão
de um poder autoritário de ü m ~ sociedade classista,
tanto mais ela procura apresentar-se como uma
prática humanamente legitima, exercida em nome
de. leis legítimas e "para o bem de todos". A
ideologia que fala através das leis, decretos e
projetos da educação autoritária nega acima de
tudo que ela seja uma pedagogia contra o ho-
mem - contra a verdadeira liberdade do homem
através do saber, liberdade que existe através
da verdadeira igualdade entre os homens.
o qUe é Educação
Por isso há "leis do ensino" que afirmam com
fé de oficio os valores de uma suposta democracia
feita através da educação. e que é a alma dos
conteúdos de seu ensino. Estas afirmações teóricas
ocultam o fato real de q.ue o exercício desta
educação consagra a deSigualdade que deveria
destruir. Afirmar como idéia o que nega como
prática é o que move o mecanismo da educacão
autoritária na sociedade desigual. .
••
fi •••
97
A ESPERANÇA NA EDUCAÇÃO
Se a educação é determinada fora do poder
de controle comunitário dos seus praticantes,
educandos e educadores diretos, por que parti·
cipar dela, da educação que existe no sistema
escolar criado e controlado por um sistema pol í·
tico dominante? Se na sociedade desigual ela
reproduz e consagra a desigualdade social, deixan·
do no limite inferior de seu mundo os que são para
ficar no limite inferior do mundo do trabalho
(os operários e filhos de operários), e permitindo
que minorias reduzidas cheguem ao seu limite
superior, por que acreditar ainda na educação?
Se ela pensa e faz pensarem o oposto do que é,
na prática do seu dia a dia, por que não forçar
O poder de pensar e colocar em prática uma outra
educação?
A resposta mais simples é: "porque a educação
o que é Educação
é inevitável". Uma outra, melhor seria: "porque
a educação sobrevive aos sistemas e, se em um
ela serve à reprodução da desigualdade e à difusão
de idéias que legitimam a opressão, em outro pode
seryir à criação da igualdade entre os homens
e à pregação da liberdade". Uma outra ainda pode·
ria ser: "porque a educação existe de mais modos
do que se pensa e, aqui mesmo, alguns deles
podem servir ao trabalho de construir um outro
tipo de mundo".
"Reiventar a educação" é uma expressão cara
a Paulo Freire e aos seus companheiros do Instituto
de Desenvolvimento e Ação Cultural. De algum
modo eles a aprenderam na África, trabalhando
como educadores junto a educadores de países
como a Guiné·Bissau e as ilhas de São Tomé
e Príncipe, que se haviam tornado independentes
de Portugal e tratavam de reinventar, mais do que
só a educação, a sua própria vida social. O mais
importante nesta palavra, "reinventar", é a idéia
de que a educação é uma invenção humana e,
se em algum lugar foi feita um dia de um modo,
pode ser mais adiante refeita de outro, diferente,
diverso, até oposto. Muitas vezes um dos esforços
mais persistentes em Paulo Freire é um dos menos
lembrados. Ao fazer a crítica da educação capi·
talista, que ora chamou também de "educação
bancária", ora de "educação do opressor", ele
sempre quis desarmá·la da idéia de que ela é maior
do que o homem. De que as pessoas são um pro·
99
100
Carlos Rodrigues Brandão
duto da educação, sem que ela mesma seja uma
invenção das pessoas, em suas culturas, vivendo
as suas vidas. E le sempre quis livrar a educação de
ser um fetiche. De ser pensada como uma reali-
dade supra-humana e, por isso, sagrada, imutável
e assim por diante. Ao contrário do que acontece
com os deuses, para se crer na educação é preciso
primeiro dessacralizá-Ia. 10 preciso acreditar que,
antes, determinados tipos de homens criam deter·
minados tipos de educação, para que, depois,
ela recrie determinados tipos de homens. Apenas
os que se interessam por fazer da educação a arma
de seu poder autoritário tornam-na "sagrada"
e o educador, "sacerdote". Para que ninguém
levante um gesto de critica contra ela e, através
dela, ao poder de onde procede.
Por isso, muitas páginas atrás comecei falando
sobre ensinar-e-aprender como alguma coisa que
começa com os bichos (quem sabe com as plantas,
com os seres "brutos" do Universo?) e que, entre
nós, homens, existe por tQda parte. Procurei
corrigir a visão estreita de que a educação se
confunde com a escolarização e se encontra só
no que é "formal", "oficial", "programado",
"técnico", "tecnocrático". Se em algumas pági·
nas falei dela como um entre outros instrumentos
de desigualdade e alienação, em outras imaginei-a
como uma aventura humana.
A educação ex iste em toda parte e faz parte
dela existir entre opostos. O que vimos juntos,
o que é Educação
Nas ''zonas libertadas" durante as lutas contra o colonia-
lismo, uma escola na Guine-Bissau.
leitor, acontecer na Grécia, repete-se mil vezes
em mil tempos de outros mundos sociais. Entre
10l
102 Carlos Rodrigues Brandão
sujeitos igualados pelo trabalho comum e o saber
comunitário, também a educação pertence do
mesmo modo a todos e, se existe diferente para
alguém, é para especializar, para o uso de todos,
o seu saber e o seu trabalho. Mais do que poder,
portanto, ela atribui compromissos entre as
pessoas.
Quando o fruto do trabalho acumula os bens
que dividem o trabalho, a sociedade inventa
a posse e o poder que separa os homens entre
categorias de sujeitos socialmente desiguais. A
posse e o poder dividem também o saber entre os
que sabem e os que não sabem. Dividem o trabalho
de ensinar tipos de saber a tipos de sujeitos e
criam, para o seu uso, categorias de trabalhadores
do saber·e·do·ensino.
E a partir da í que a educação aparece como
propriedade, como sistema e como escola. O
controle sobre o saber se faz em boa medida
através do controle sobre o quê se ensina e a
quem se ensina; de modo que, através da educação
erudita, da educação de elites ou da educação
"oficial", o saber oficialmente transforma·se em
instrumento político de poder. Ele abandona
a communitas de que fez parte um dia e ingressa
na estrutura dos aparatos de controle. O "processo
grego" se repete então: a educação da comu·
nidade, a escola, a oposição entre a educação-de·
·educar e a educação·de·instruir, a passagem da
aprendizagem coletiva para o ensino particular,
o que é Educação
o controle do Estado. Em primeiro lugar, em
algum tempo ela existe difusa no meio social
de que todos participam e é ativamente exercida
nos diferentes círculos naturais da sociedade:
a família, o clã, o grupo de idade, o grupo de
socius. Mais adiante a educação especializa·se
sob a égide da escola, mas a escola particular
do mestre avulso ainda é uma extensão da sacie·
dade civil. Mais tarde ainda, a própria educação
escolar cai sob o poder de decisão do Estado
que, quando autoritário e classista, exerce a edu·
cação para o controle da sociedade civil da comu·
n idade de todos. '
Onde surgem interesses desiguais e, depois,
antagônicos, o processo educativo, que era uni·
tário, torna·se partido, depois, imposto. Há edu·
cações desiguais para classes desiguais; há interesses
divergentes sobre a educação, há controladores.
Grupos desiguais não só participam desigualmente
da educação - dos nobres, dos funcionários,
dos artesãos - como são também por ela desti·
nados desigualmente ao trabalho: para dirigir,
para executar, para produzir.
Mas, assim como a vida é maior que a forma,
a educação é maior que o controle formal sobre
a educação. Alguns pesquisadores têm descoberto
hoje o que existe há milênios. Por toda parte
as classes subalternas aprenderam a criar e recriar
u ma cultura de classe - mesmo quando aprovei·
tando muitos elementos dominantes que lhes
103
104 Carlos Rodrigues Brandão
foram impostos como idéias ou como práticas -
e também formas próprias de educação do povo.
As oficinas de que falei aqui e ali são um exemplo
que vem da antigüidade até nossos dias. Mas podem
não ser o melhor exemplo.
O que existe na verdade nas comunidades de
subalternos é a preservação de tipos de saber comu-
nitários e de meios comunitários de sua transfe-
rência de uma geração para outra. Como sempre
se faz a história da educação erudita e formal
quando se discute o que é educação, sempre se
deixa de lado este seu outro lado. A margem
da vida dos dominantes, dos escravos aos bóias·
·frias de hoje, os subalternos souberam criar,
dentro dos limites estreitos em que sempre lhes
foi permitido "criar" alguma coisa sua, os seus
modos próprios de saber, de viver e de saber.
Eles inventaram os seus códigos de trocas no
interior da classe e entre classes.
Sempre que possível, criaram formas peculiares
de solidariedade para dentro da classe, e de resis-
tência e manipulação para fara dela. Elaboraram
as suas crenças e valores de representação do
mundo, mesmo quando observando a escrita
da ideologia dos seus senhores. Constru íram estilos
e tecnologias rústicas dirigidos aos seus usos
do cotidiano. Inventaram rituais sagrados e profa-
nos. Tudo isso a que se dá o nome de "Cu Itura
Popular", e que às vezes se vê da academia como
um amontoado de coisas pitorescas, faz parte
o que é Educação
de sistemas populares de vida e de representação
da vida, e tem uma lógica e densidade de que
apenas levantamos o primeiro véu, depois de
tantas pesquisas.
Pois todo este trabalho tradicional de classe
que sustenta um modo próprio de vida subalterna
é sustentado por formas próprias e muitas vezes
popularmente muito complexas de saber. E susten·
tado ta mbém por sistemas próprios de repro-
dução do saber popular, que implicam não apenas
em relações simples. como as de um pai lavrador
com um filho aprendiz, mas também em redes
e estruturas pedagógicas de que desconhecemos
quase tudo. Isto é evidente em muitas situações:
na Capoeira da Bahia, nas confrarias populares
de Foliões de Santos Reis, numa quadrilha de
pivetes ou numa equipe rústica de construtores
de casas.
Estes modos próprios de uma educação dos
subalternos têm um teor político de que pouco
se suspeita. Assim como a educação do sistema
dominante possui o valor pai ítico dos serviços
que presta aos que a controlam, enquanto ensina
desigualmente aos que a recebem, assim também
as formas próprias de educação do povo servem
a ele como redes de resistência a uma plena invasão
da educação e do saber "de fora da classe".
A própria maneira como uma população de
favelados se relaciona com a escola pode ser um
bom exemplo disso. Quando há escola pública
105
106 Carlos Rodrigues Brandão
na favela, os pais mandam os filhos para ela.
Quando não há, as "comissões de bairro" lutam
para que haja. Mas quem envia os filhos não se
compromete com a escola. Os esforços de profes·
sores e diretores para que haja um maior inter·
câmbio entre "a escola" e "a comunidade" resul·
tam quase sempre em fracasso. Quando em alguma
favela a coisa dá resultado; às vezes o secretário
da educação vai visitar e, se possível, leva a TV
Globo. O descompromisso dos adultos para com
a escola pública não é devido à falta de tempo.
Muitos destes pais gastam o corpo, o tempo e o
dinheiro por meses a fio nos preparos do "bloco
do bairro", ou da "escola de samba". Eles fazem
assim porque tratam a escola "do governo" como
tratam as suas outras agências: o posto de saúde,
a delegacia, a agência de bem·estar social. Tratam
como locais para serviços de emergência e, ao
mesmo tempo, como postos invasores de um tipo
de domínio de classe indesejável. Se tratam a
educação dos seus filhos como coisa que se passa
"no mundo dos brancos", é porque têm também
as suas formas próprias, tradicionais, de repro·
dução do saber. Por isso tratam o "bloco" e a
"escola de samba" como coisa sua, de seu mundo.
Sem o saber que existe na fala, mas cheios do
saber que existe na prática, os subalternos criam
e recriam a sua própria educação. E ela não existe
só para difundi[ o saber, mas para reforçar o
resistir. Alguns estudos de antropólogos franceses
o que é Educação 107
na Africa, confirmados por outros feitos, por
brasileiros, aqui no Brasil, demonstram como
existe uma sábia arma de resistência popular
justamente naquilo que nos acostumamos a despre·
zar, por ver como "tradicional", lIatrasado" I
"primitivo". A aparente "primitividade" do pobre
contra a invasão sobre ele da "modernidade"
do senhor é um meio popular avançado de lutar
por manter e recriar uma identidade própria
de subalterno (de índio, de negro, de colonizado,
de escravo, de camponês). de manter o seu próprio
saber e as suas próprias redes de educação.
Quando em alguma parte setores populares
da população começam a descobrir formas novas
de luta e resistência, eles redescobrem também
velhas e novas formas de "atualizar" o seu saber,
de torná·lo orgânico. Criam por sua conta e risco,
ou com a ajuda de agentes·educadores eruditos,
outras formas de associação, como os sindicatos,
os movimentos populares, as associações de mora·
dores. Estes grupos, que geram outros tipos de
mestres entre as pessoas do povo, geram também
outras situacões vivas de aprendizagem popular.
Eu não tenho dúvidas em afirmar que é entre
as formas novas de participação popular, nas
brechas da luta política, que, hoje em dia, surgem
as experiências mais inovadoras de educação no
Brasil. Os professores tradicionais e OS tecnocratas
da pedagogia são cegos para elas, mas é ali que
as propostas mais avançadas de "educação e vida",
108 Carlos Rodrigues Brandão
"educação na prática", etc., são criadas e testadas.
Mais do que isso, em algumas partes do país
comunidades populares tentam inventar agora
tipos de escolas comunitárias que antecipariam,
em uma plena democracia, o exercício de uma
"educação como prática da liberdade". Aquela
que, sendo sustentada economicamente pelo poder
público, fosse política e pedagogicamente contro-
lada pelas comunidades onde se exercesse.
De outra parte, mesmo nos setores eruditos
da educação oficial, é preciso compreender que
ela existe em muito mais situações do que dentro
do sistema e na sala de au la. Ao lado das i no-
vações pedagógicas que provocam a reinvenção
do trabalho escolar, a mesma relação de opostos
sobreexiste entre a formal idade da estrutura
e a permanente oposição que fazem a ela as inú-
meras pequenas communitas de sujeitos envol-
vidos, de um modo ou de outro, com o sistema
de educação.
De um lado, os próprios professores que traba-
lham como educadores (como sujeitos de suas
diversas categorias de especialistas), nas escolas,
colégios e universidades, aprendem. a se organ izar
também como categorias políticas e profissionais
de trabalhadores da educação. As associações
de tipos de especialistas do ensino e, mais ainda,
as associações de categorias de docentes são o
resu Itado do desenvo Ivimento da consciência
pol ítica do educador.
o que é Educação
De outro lado, os alunos criam e recriam as
suas unidades de organização, os seus grêmios,
grupos de arte e cultura. Quem poderia esquecer
que as experiências de Educação Popular e de
Cultura Popular no Brasil foram iniciadas dentro
dos primitivos serviços de Extensão Universitária,
como o da Universidade Federal de Pernambuco,
onde nasceu O Método Paulo Freire de Alfabeti-
zação, ou como os Movimentos de Cultura Popular
e os Centros Populares de Cultura, vinculados
ao movimento estudantil e às suas unidades de
mobilização?
Só os formalistas pedagógicos podem enxergar
educação apenas dentro dos sistemas restritos
da pedagogia (que, aliás, até hoje não se sabe
ao certo se é uma ciência, uma prática especia-
lizada ou uma teoria de educação, ou, quem
sabe, nada disso).
Somente eles poderiam discutir, como questões
da educação, problemas de método, de operacio-
nalidade curricular, de programação sistemática
e assim por diante. Instrumentos úteis, sem dúvida,
mas pequenas algemas de controle quando empre-
gados sem a crítica do lugar e do sentido de tudo
isso. Só o educador "deseducado" do saber que
existe no homem e na vida poderia ver educação
no ensino escolar, quaRdo ela existe solta entre
os homens e na vida. Quando, mesmo ao redor
da escola e da universidade, ela está no sistema
e na oposição a ele; na sala de aula em ordem,
109
110 Carlos Rodrigues Brandão
e no dia de greve estudantil; no trabalho rigoroso
e persistente do professor-e-pesquisador e, ao
mesmo tempo, no trabalho político do profes-
sor-militante.
Esta é a esperança que se pode ter na educação.
Desesperar da ilusão de que todos os seus avanços
e melhoras dependem apenas de seu desenvolvi·
menta tecnológico. Acreditar que o ato humano
de educar existe tanto no trabalho pedagógico
que ensina na escola quanto no ato pai ítico que
luta na rua por um outro tipo de escola, para
um outro tipo de mundo.
E é bem possível que até mesmo neste "outro
mundo", um reino de liberdade e igualdade busca·
do pelo educador, a educação continue sendo
movimento e ordem, sistema e contestação. O
saber que existe solto e a tentativa escolar de
prendê-lo num tempo e num lugar. A necessidade
de preservar na consciência dos "imaturos" o
que os "mais velhos" consagraram e, ao mesmo
tempo, o direito de sacudir. e questionar tudo
o que está consagrado, em nome do que vem
pelo caminho.
••
.. . .,
INDICAÇÕES PARA LEITURA
Para quem tiver fôlego e coragem há dois livros
importantes a respeito da idéia de educação entre
os gregos (de onde veio a nossa, através de
e sobre a educação na Antigüidade Clássica. Um e
o Paideia - a formação do homem grego, de
Werner Jaeger (Herder) e o outro, a
da Educação na Antigüidade, de
Marrou (Herder/EDUSP). Ainda sobre hlstorla
da educação a Editora Pedagógica e Universitári.a
publicou Educação e Sociedade na PnmelTa Rep!!-
blica. Trpta-se de um estudo sobre a educaçao
brasileira escrito por Jorge Nagle. Finalmente,
um livro simples e muito útil é a História da
Pedagogia, publicado pela Cia. Editora Nacional
e escrito por René Hubert.
• • •
Quem quiser conhecer o pensamento de um
dos principais educadores brasileiros deve ler
os trabalhos de Fernando de Azevedo, publicados
112 Carlos Rodrigues Brandão
pela Melhoramentos e pela Cia. Editora Nacional.
Leia especialmente: A Educação na Encruzilhada e
Novos Caminhos e Novos Fins. Vale a pena ler
também a sua Sociologia da Educação.
* * •
Ainda sobre a abordagem sociológica da edu-
cação, existem alguns livros que são coletâneas
de vários autores. Um deles, publicado há algum
tempo, mas ainda atual, é Educação e Sociedade,
organizado por Luis Pereira e Maria Alice Foracchi
e publicado pela Cia. Editora Nacional. Alguns
artigos históricos sobre a educação, a sociedade
e a cultura, como um de Durkheim, foram reunidos
neste livro. A mesma editora tem uma longa
série de livros sobre educação. Vale a pena ler
Democracia e Educação, de John Dewey, um dos
livros essenciais para se compreender o movimento
da Escola Nova no Brasil. De modo geral, todos
os livros de Anísio Teixeira, outro educador
dos tempos de renovação da pedagogia no Brasil,
podem ser lidos. São também publicados pela
mesma editora.
• • •
A ·Editora Vozes tem uma das melhores coleções
de livros sobre educação. Trata-se de Educação
e Tempo Presente. Destaco dela os três livros
de Pierre Furter: Educação e Reflexão, Educação
e Vida e Educação Permanente e Desenvolvimento
Cultural. Na mesma linha de pensamento, existe
o que é Educação
o Educação e Ideologia, de Sinésio Bacchetto.
Dois outros livros de leitura simples e de um bom
poder de explicação de questões básicas da edu-
cação em nosso tempo são: Fenomenologia da
Educação, do argentino Gustavo Cirigliano e
Pedagogia de nosso Tempo, de Ricardo Nassif.
Outra abordagem sociológica da educação brasi-
leira foi realizada por Ângelo Domingos Salvador,
em Cultura e Educação Brasileira. Resta ainda
da coleção o desafiante estudo de Ivan IIlich,
Sociedade sem Escolas. Da mesma editora há
um pequeno livro bastante útil, escrito por Suzana
Albornoz Stein: Por uma Educação Libertadora.
• * *
113
Alguns estudos sobre a universidade brasileira.
A Universidade Temporã, publicado Ed. Civili-
zação Brasileira, de Luis Antônio Cunha, de
quem todos os outros livros podem ser lidos
sem susto e com um grande proveito, especial-
mente Educação e Desenvolvimento Social no
Brasil. A Universidade Brasileira em Busca de
sua Identidade, de Maria de Lourdes de A. Fávero,
publicado pela mesma coleção Educação e Tempo
Presente, da Vozes. Sobre o movimento estudantil,
além dos seus próprios escritos, há uma pesquisa
que não pode a ~ i x a r de ser lida. !: o estudo de
José Augusto Guilhon Albuquerque, Movimento
Estudantil e Consciência -Social na América Latina,
publicado pela Paz e Terra.
* • *
114
Carlos Rodrigues Brandão
Sobre questões relativas a educação e ideo-
logia, -entre os livros mais recentes quero destacar
três: Prática Educativa e Sociedade, de Jether
Pereira Ramalho, da Editora Zahar, Ideologia
e Hegemonia, de Niuvênius Junqueira Paoli,
da Editora Cortez e, finalmente, Paulo Freire
e o Nacionalismo-Desenvolvimentista, de Vanilda
Paiva, publicado pela Civilização Brasileira.
• • •
De modo geral são muito úteis e cobrem uma
ampla gama de quest'ões os livros publicados pela
Editora Cortez (antiga Cortez e Moraes). Essa edi-
tem lançado estudos recentes sobre ques-
toes concretas da educação brasileira.
Dentro da linha em que a educacão foi discu-
tida aqui há muitos outros livros. Três de acesso
fácil são os escritos por Pedro Benjamin Garcia:
Educação - Modernização ou Dependência, por
Cláudio L. Salm: Escola e Trabalho e por María
Teresa Nidelcoff: Uma Escola para o Povo. O
primeiro é da Livraria Francisco Alves e os dois -
últimos da Brasiliense. Lauro de Oliveira Lima I
tem' vários livros publicados e todos eles são
introduções desafiadoras às questões quentes
da educação no Brasil: ler pelo menos O Impasse
na Educação, da Vozes, Tecnologia, Educação
e. Democracia, da Civilização Brasileira e Escola
*" *" *
o que é Educação
no Futuro, da Editora Encontro.
Absolutamente essencial é ° livro de Demerval
Saviani, Educação Brasileira, Estrutura e Sistema,
da Editora Saraiva.
• • •
A mesma Editora Brasiliense lançou em 1980
talvez o mais inteligente e também o mais moti-
vante (e desafiador) livro sobre a educação, pa-
ra quem queira fazer sobre ela uma leitura de in-
trodução crítica. Trata-se de Cuidado, Escola!, es-
crito pela equipe do Instituto de Desenvolvimen-
to e Ação Cultural, fundado por Paulo Freire.
• • •
Há uma série de livros a respeito de Educação
Popular e entre eles é indispensável a leitura
de pelo menos livros de Paulo Freire. Os
dois primeiros: Educação como Prática da Liber-
dade, editado pela Paz e Terra, e Pedagogia do
Oprimido, da mesma editora. Entre os mais recen-
tes, não perder Cartas de Guiné-Bissau. Outras
cartas de Pau lo F reire estão em A Questão Pol (-
tica da Educação Popular, que editei pela Brasi-
liense. Ler ainda o excelente Educação Popular
e Conscientização, da Vozes, escrito pelo uru-
guaio Julio Barreiro. Não perder, ainda, Vivendo
e Aprendendo, da equipe do IDAC e publicado
pela Brasiliense. Sobre a própria história da edu-
cação popular no Brasil, é importante ler: Edu-
cação Popular e Educação de Adultos, de Vanilda
115
1
116
Carlos Rodrigues Brandiío
Pereira Paiva, editado pela Loyola; Estado e
Educação Popular, de Celso Rui Beisiegel, da
Pioneira; e, finalmente, Pol/tica Educação
Popular, de Sílvia Maria Manfredi, publicado
pela Símbolo.
• • *
Até aqui falei apenas sobre livros de história
e crítica sociológica da educação. Mas sobre
questões de pedagogia e de psicologia aplicada
à educação existe uma relação bastante maior.
Entre os livros de acesso mais fácil estão todos
os publicados pela Cia. Editora Nacional. Vale
a pena procurar também uma entre outras revistas
especializadas, como a Revista Brasileira de Estu·
dos Pedagógicos, publicada pelo INEP (Instituto
Nacional de Estudos Pedagógicos). do Ministério
da Educação e Cultura. O próprio MEC edita
ainda uma outra revista importante: Educação.
• • •
Revistas sobre educação existem muitas. Uma
abordagem sociológica está em Educação e Socie-
dade, do CEDES, distribuída pela Editora Cortez.
Em outra direção, dirigida ao professor, existe
Sala de Aula, publicada pelo Centro de Estudos
Anísio Teixeira.
••
•• ••
Sobre o autor
Nasci no Rio de Janeiro em abril de 1940. Vivi ali 26 anos e ali,
Um dia, me formei psicólogo na PUC. Mas eram temposem que co-
meçávamos a criar movimentos e centros de cultura popular. Parti-
cipei intensamente de tudo aquilo e o que vivi então teve mais in-
fluência sobre minhas idéias e práticas posteriores do que meu pró-
prio curso. Porque queria ser mais um educador e um pesquisador
do que propriamente um psicólogo, fui viver primeiro em Brasília e
depois, por vários anos, em Goiânia. Faz 10 anos que estou em
Campinas e na UNICAMP. Em 1967 ingressei como professor na
vida universitária, primeiro em Brasilia (UnB), depois em Goiâ-
nia (UFG) e agora em Campinas. Tornei-me antropólogo primeiro
por conta própria e depois. ,através de cursos na UnS e na USP.
Dedico-me hoje a estudos, aulas e pesquisas de Antropologia So-
cial. mas desde 1963 nunca deixei de participar do debate,extra-
universitário dos movimentos e experiências de educação e cultura
popular. Tudo o que escrevi até hoje, fora a poesia que me persegue
desde a adolescência, são os meus relatórios de pesquisas de Antro-
pologia ou os livros entre a didática e a militância, dirigidos a edu-
cadores.
Livros publicados pela Brasiliense: Os Deuses do Povo - Uma
introdução às religiões. Diário de Campo - Antropologia como
Alegoria. Educação como Cultura, Educação Popular. Identidade
e Etnia. Pesquisa Participante. A Questão Polttica da Educação
Popular. Repensando a Pesquisa Participante e pela coleção Pri-
meiros Passos, O que é Educação. O qúe é Folclore e O que é Méto-
do Paulo Freire.
Caro leitor:
As opiniões expressas neste livro são as do autor,
podem não ser as suas. Caso você ache que vale a
pena escrever um outro livro s6bre o mesmo tema,
nós estamos dispostos a estudar sua publicação
com o mesmo título como "segunda visão·· .
••
• •••

Carlos Rodrigues Brandão

EDUCAÇAO

'" O QUE E

editora brasiliense

Cupyright © hy Carlos Rodrigues Brandão, 1981 Nenhuma parte desta publicação pode _~er gravada, annazenada cm sistemas eletrônicos, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem aUlorização prévia da editora.
Primeira edição, 198 t 49 reimpressão, 2007
3

Revisão: José E. Andrade e Lúcia S. Nicolai Caricatura... : Emílio Damilli Capa: /23 (antigo 27) Artistas Gráficos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Brandão, Carlo" Rodrigue.~ O que é educação / Carlos Rodrigues Brandão. São Paulo: Brasiliense, 2007. - - (Coleção primeiros passos; 20) 49" reimpr. da 1. ed. de 1981. ISBN 85-11-01020-3

ÍNDICE

I. Educação I. Título. H. Série.

rnn_
Índices para catálogo sistemático I. Educação 370'

'711

editora brasiliense S.3.
Rua Airi, 22 - TalUapé - CEP 033 HI-OlO - São Paulo - SP Fone/Fax: (Oxxl [) 6198-t48f' www.editorabrasiliense.com.c

Educação? Educações: aprender com o 7 índio .............. . 13 Quando a escola é a aldeia ...... . 27 Então, surge a escola .......... . Pedagogos, mestres-escola e sofistas. 36 A educação que Roma fez, e o que ela ensina ................ _........... . 48 Educação: isto e aquilo, e o contrário de tudo ..... _..................... . 54 Pessoas versus sociedade: um dilema que oculta outros ....................... '. 61 Sociedade contra Estado: classe e educação 73 A esperança na educação. _.. 98 - Indicações para leitura. , ......... , .... . 111

livraria brasiliense 5.3.
Av. Azevedo, 484 - Tiltuapé - CEP 03308-000 - São Paulo - SP Fone/Fax: (Oxx 11) 6197-0054 li vrariasbrasiliense@editorabrasiliense.com.br

..••..

'

EDUCAÇÃO? EDUCAÇÕES: APRENDER COM O ÍNDIO

Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo o azul. e não se
aparta de sua água - carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. João Guimarães Rosa/Grande Sertão: Veredas

Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. Com uma ou com várias: educação? Educações. E já que pelo menos por isso sempre achamos que temos alguma coisa a dizer sobre a educação que nos invade a vida, por que não

8

Carlos Rodrigues Brandiío

o que é Educação
nossa I/ngua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-Ia, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virg/nia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens."
De tudo o que se discute hoje sobre a educação, algumas das questões entre as mais importantes estão escritas nesta carta de índios. Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor profissional não é o seu único praticante. Em mundos diversos a educação existe diferente: em pequenas sociedades tribais de povos caçadores, agricultores ou pastores nômades; em sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados; em mundos sociais sem classes, de classes, com este ou aquele tipo de conflito entre as suas classes; em tipos de sociedades e culturas sem Estado, com um Estado em formação ou com ele consolidado entre e sobre as pessoas. Existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo; ela ex iste em cada povo, ou entre

9

começar a pensar sobre ela com o qúe uns índios uma vez escreveram? Há muitos anos nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os rndios das Seis Nações. Ora, como as promessas e os símbolos da educação sempre foram muito adequados a momentos solenes como aquele, logo depois os seus governantes mandaram cartas aos índios para que enviassem alguns de seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes responderam agradecendo e recusando. A carta acabou conhecida porque alguns anos mais tarde Benjamin Franklin adotou o costume de divulgá-Ia aqui e ali. Eis o trecho que nos interessa:

".. .Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração. Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa_ .. .Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a

a educação é um dos meios de que os homens lançam mão para criar guerreiros ou burocratas. entre tantas outras invenções de sua cultura. Por isso mesmo . A educação é. Da família à comunidade.a educação do colonizador. entre todos. os segredos da arte ou da religião. bens e poderes que. entre as incontáveis práticas dos mistérios do aprender. Formas de educação que produzem e praticam. o saber que atravessa as palavras da tribo. as regras do trabalho. do trabalho. através de trocas sem fim com a natureza e entre os homens. como saber. livre e em nome de todos. como crença. para que elas reprodu· zam. na verdade não serve para ser a educação do colonizado. através de passar de uns para os outros o saber que os constitui e legitima. salas. A educação pode existir livre e. em conjunto. Ela ajuda a pensar tipos de homens. e desde onde ajuda a explicar . mais adiante com escolas. professores e métodos pedagógicos. em seu mundo.iais que a criam . dos direitos e dos símbolos. como outras. que usa o saber e o controle sobre o saber como armas que reforçam a desigualdade entre os homens. e recriam. constroem tipos de sociedades. Não serve e existe contra uma educação que ele. todos os dias. como trabalho ou como vida. a educação participa do processo de produção de crenças e idéias. sem livros e sem professores especialistas. ela ajuda a criá-los. sem classes de alunos. de qualificações e especialidades que envolvem as trocas de símbolos. do artesanato ou da tecnologia que qualquer povo precisa para reinventar.e os índios sabiam . às vezes a inculcar de geração em geração. a necessidade da existência de sua ordem. usando a educação como um recurso a mais de sua domi· nância. a vida do grupo e a . aquilo que é comunitário como bem. os códigos sociais de conduta. pode ser uma das maneiras que as pessoas criam para tornar comum. Existe entre povos que submetem e dominam outros povos. Mais ainda. Mais do que isso. Ela pode existir imposta por um sistema centralizado de poder. dentro de sua cultura. como idéia. o educàdor 11 povos que se encontram. em sua sociedade. uma fração do modo de vida dos grupos soc. primeiro. pensando às vezes que age por si próprio. No entanto. quando são necessários guerreiros ou burocratas.10 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação de cada um de seus sujeitos. também possui como um dos seus recursos. entre todos os que ensinam-e-aprendem. trocas que existem dentro do mundo social onde a própria educação habita. a educação existe difusa em todos os mundos sociais. na divisão dos bens. Assim. que contém o saber de seu modo de vida e ajuda a confirmar a aparente legalidade de seus atos de domínio.às vezes a ocultar. E esta é a sua força. não obstante dominado.

dentro da história da natureza. Mas na prática a mesma educação que ensina pode deseducar: e pode correr o risco de fazer o contrário do que pensa que faz. .interesses políticos impostos sobre ela e. na verdade. ali. dentro da história da espécie. e elas podem ser como que um roteiro daqui para a frente. eles eram. os princípios através dos quais a própria vida aprende e ensina a sobreviver e a evoluir em cada tipo de ser_ Os bichos do mundo aprendem de dentro para fora com as armas naturais do instinto. A vida que transporta de uma espécie para a outra. Aqui e ali será preciso voltar a estas idéias. A educação existe no imaginário das pessoas e na ideologia dos grupos sociais e. ou do que inventa que pode fazer: "_ . de dentro. Mas a isto eles acrescentam maneiras de aprender de fora para dentro. portanto. de acordo com as imagens que se tem de uns e outros: " . suas práticas e nas idéias que ela professa ..nas suas agências. através de seu exercício.. a fim de usá-lo. para os usos escusos que ocultam também na educação . ou sempre se diz para fora.12 Carlos Rodrigues Brandão imagina que serve ao saber e a quem ensina mas. onde ainda não foi sequer criada a sombra de algum modelo de ensino formal e centralizado_ Porque a educação aprende com o homem a continuar o trabalho da vida. sempre se espera. totalmente inúteis"_ QUANDO A ESCOLA É A ALDEIA •••• •• A educação existe onde não há a escola e por toda parte podem haver redes e estruturas sociais de transferência de saber de uma geração a outra. à sociedade que habita_ E esta é a sua fraqueza. ele pode estar servindo a quem o constituiu professor. convivendo com a espécie. e ao seu trabalho. _e deles faremos homens". que a sua missão é transformar sujeitos e mundos em alguma coisa melhor. e de uma geração a outra de viventes.

que essa força atinge o seu mais alto grau de intensidade. para que ele aprenda a arte e a coragem do primeiro vôo. como a mãe que um dia expulsa com amor o filho do ninho. por conta própria.14 Carlos Rodrigues Braruiiio o que é Educação IS observando a conduta de outros igua is de seu mundo e experimentando repetir muitas vezes essas condutas da espécie. "A natureza do homem. O homem que transforma." . a seu modo. porém. para que o treino dos filhotes faça e repita os atos da aprendizagem que garante a vida. através do esforço consciente do conhecimento e da vontade. ao conjunto das quais damos o nome de educação. que espontaneamente impele todas as espécies vivas à conser· vação e à propagação de seu tipo. Na educação. Ela se instala dentro de um domínio propria· mente humano de trocas: de símbolos. num estudo sobre a edu· cação do homem grego. Na espécie humana a educação não continua apenas o trabalho da vida. ela continua no homem o trabalho da natureza de fazê-lo evoluir. E nela. ~ esta a idéia que Werner Jaeger tem na cabeça quando. afinal: Na aldeia africana o "velho" ensina às crumças o saber da tribo. criadora e plástica. de inten· ções. com o trabalho e a consciência. na sua dupla estrutura corpórea e espiritual.exige organizações físicas e espirituais. como o homem a pratica. dirigida para a consecução de um fim. de torná-lo mais humano. cria condições especiais para a manutenção e tranimissão da sua forma particular e . aprendeu com o tempo a trans· formar partes das trocas feitas no interior desta cultura em situações sociais de aprender·ensinar· -e-aprender: em educação. não são raros os bichos cujos pais da prole criam e recriam situações. partes da natureza em invenções de sua cultura. Mas. de padrões de cultura e de relações de poder. atua a mesma força vital. procura explicar o que ela é. Entre os que nos rodeiam de perto ou de longe.

é que ele começa a viver e a pensar como problema as formas e os processos de transmissão do saber. sistemas. afinal tão simples. De vez em quando. "não aprendem na escola". os espaços. tipos de profissionais e categorias de educandos envolvidos nos exercicios de maneiras cada vez menos corriqueiras e menos comunitárias do ato. É a partir de então que a questão da educação emerge à consciência e o trabalho de educar acrescenta à sociedade. entre os andamaneses. Porque. muito antes que isso aconteça. a questão da divisão social do trabalho e. um grupo tribal de ilhéus entre Burma e Sumatra. nais" que regulam a conduta dos membros da tribo e constituem o corpo de suas regras sociais de moralidade. aparece. a sabedoria acumulada do grupo social não "dá aulas" e os alunos. eles aprenderam a descrever com rigor praticamente todos os recantos da vida destas sociedades e culturas. quando ele enfrenta. No entanto. Quando os antropólogos pouco falam em educação. Parte deste processo consiste em a criança e o adolescente aprenderem aos poucos a caçar. de ensinar-e-aprender. Quando os antropólogos do começo do século sairam pelo mundo pesquisando "culturas primitivas" de sociedades tribais das Américas. em qualquer lugar e a qualquer tempo .entre dez indios remanescentes de alguma tribo do Brasil Central. de uma forma ou de outra. Ali. perdido num mar de outros conceitos. embora quase todos. tempos. que são todos os que aprendem. que algumas vezes parece ser invisivel. do poder. . os apaches ou os xavantes praticam.16 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação descrevam relações cotidianas ou cerimônias rituais em que crianças aprendem e jovens são solenemente admitidos no mundo dos adultos. passo a passo. não existe ainda nenhuma situação propriamente escolar de transferência do saber tribal que vai do fabrico do arco e flecha à recitação das rezas sagradas aos deuses da tribo. por exemplo.la cultura. no centro da cidade de São Paulo a educação existe sob tantas formas e é praticada em situações tão diferentes. portanto. como quando Radcliffe-Brown . o de educação. a não ser nos lugares onde pendura alguma placa na poria com o seu nome.' Tudo 17 Quando um povo alcança um estágio complexo de organização da sua sociedade e de sl. da Asia. eles pouco querem falar de processos formalizados de ensino. os maori. No entanto.lembra que. Outra parte envolve a aqu isição de "sentimentos e disposições emocio'. e os antropólogos identificam processos sociais de aprendizagem. onde os andamaneses.um antropólogo inglês que participa da criação da moderna Antropologia Social . da África e da Oceania. para se ajustar a criança à sua comunidade Hé preciso que ela seja educada". a fabricar o arco e flecha e assim por diante. quase nenhum deles usa a palavra educação. regras de prática.

com o corpo. As pessoas convivem umas com as outras e o saber flui. Emile Durkheim. um dos. com as mães. direta ou indiretamente. os guerreiros." As meninas aprendem com as companheiras de idade. as irmãs mais velhas. São também situações de aprendi· zagem aquelas em que as pessoas do grupo trocam bens materiais entre si ou trocam serviços e significados: na turma de caçada. os avós. nas cerimônias religiosas. a caracterlstica essencial da educaçaõ reside no fato de ser difusa e administrada indistintamente por todos os elementos "Onde é necessário aprender habilidades especiais as crianças estão. Os meninos aprendem entre os jogos e brincadeiras de seus grupos de idade. principais sociólogos da educação. Não há mestres determinados. com os velhos em volta das fogueiras. da Nova Guiné. feiticeiro). são situações de aprendizagem. de camaradagem ou de amor. nos grupos de brincadeiras de meninos e meninas. explica isto da seguinte maneira: "Sob regime tribal. pelos' atos de quem sabe-e-faz. Mesmo quando os adultos encorajam e guiam os momentos e situações de aprender de crianças e adolescentes. com o corpo-e-a-consclencia. com a consciência. entre os Wogeo. A criança vê. de acordo com o depoimento de um antropólogo: 19 o que se sabe aos poucos se adquire por viver muitas e diferentes situações de trocas entre pessoas. ansiosas por saber o que os seus pais conhecem. forçam iniciativas de aprendizagem e treinamento. Quase sempre não são impostas e não é raro que sejam os aprendizes os que tomam a seu cargo procurar pessoas e situações de troca que lhes possam trazer algum aprendizado. Assim. com algum xamã (mago. são raros os tempos especialmente reservados apenas para o ato de ensinar.18 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação do clã. os irmãos-da-mãe. todas as relações entre a criança e a natureza. guiadas de mais longe ou mais perto pela presença de adultos conhecedores. em regra geral. com esta ou aquela especialista em algum tipo de magia ou artesanato. as avós. no barco de pesca. Elas existem misturadas com a vida em momentos de trabalho. imita e aprende com a sabedoria que existe no próprio gesto de fazer a coisa. Nas aldeias dos grupos tribais mais simples. nem inspetores especiais para a formação da juventude: esses papéis são desempenhados por todos os anciãos e pelo conjunto das gerações anteriores. entende. na lavoura familiar ou comunitária de mandi~ca. no canto da cozinha da palhoca. aprendem com os pais. para quem não-sabe-e-aprende. O orgulho do trabalhador e o prestigio do bom artesão . as velhas sábias da tribo. de lazer. Todos os agentes desta educação de aldeia criam de parte a parte as situações que.

o saber que ali existe. demonstram. o saber que torna todos e cada um pessoalmente aptos e socialmente "Os meninos observam os homens quando fazem arcos e flechas. o saber que faz o artesão. treinados. em casa. ninguém as possa chamar de preguiçosas e ignorantes. punem e premiam. incentivados. vigiam. Esparramadas pelos cantos do cotidiano. as artes da guerra e os ofícios do amor. até o acerto. estas situações pedagógicas: • o treinamento direto de habilidades corporais. da sabedoria do grupo social e da força da norma dos costumes da tribo. acompanhadas de seus profissionais de aplicação exclusiva. símbolos e valores da cultura do grupo . que socializam crianças e adolescentes. vêem fazer e imitam. assim como sobre a colheita de alímentos.20 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação reconhecidos e legitimados para a convlvencia social. todos os que convivem aprendem. são instruídos com o exemplo. adultos e velhos. As mulheres. dizendo-lhes. 21 dominam sua vida e elas necessitam de muito pouco est/mulo para procurá-los por si mesmas_" o saber da comunidade. aprendem. em menor ou maior escala a sua dimensão pedagógica. enfim. levam as meninas para fora de casa. enquanto estão trabalhando. o trabalho. aos poucos aceitos entre os que sabem fazer e e(lsinar. Os que não sabem espiam. incluem. o sacerdote. de crianças.têm. o feiticeiro. entre outras. incentivam. aquilo que todos conhecem de algum modo. que observem cuidadosamente. " Em todos os grupos humanos mais simples. para que o aprendiz faça e repita. Os que sabem: fazem. E. na vida que há no cotidiano. Ensinam-nas a cozinhar e aconselham-nas sobre a busca de bagas e outros frutos. por meio da prática direta dos atos que conduzem o corpo ao hábito. os atos de saber . premiados e. punidos. por outro lado. quando forem grandes. ensinam. familiares e comunitárias. e entre pessoas e a natureza situações sempre mediadas pelas regras. envolve portanto situações pedagógicas interpessoais. com o próprio exercício vivo do fazer. Ali. os diversos tipos de treinamento através das trocas sociais. jovens. corrigidos. ensinando-as a conhecer as plantas boas para confeccionar cestos e a argila que serve para fazer potes. o saber próprio dos homens e das mulheres. onde ainda não surgiram técnicas pedagógicas escolares. as mulheres tecem os cestos. o saber de guerreiros e esposas. o navegador e outros tantos especialistas. corrigem. costuram os mocassins e curtem a pele de cabrito diante das meninas. adolescentes. o homem os chama para perto de si e eles se vêem obrigados a observá-lo. • a estimulação dirigida. para que. todas as situações entre pessoas.

dos mitos histórico-religiosos da tribo. O que vimos acontecer até aqui. formas vivas e comunitárias de ensinar-e-aprender. nunca as pessoas crescem a esmo e aprendem ao acaso. projeta e procura realizar. do rid(culo ou da admoestação' • a assistência convocada para cerimônias rituais e. 23 e habilidade que ignora. ao longo da vida. e existe como algum tipo de saber. fazemos e amamos.ou mesmo de cada grupo mais específico. também. em uma delas. dos valores morais. dentro dela idealiza. A socialização realiza em sua esfera as necessidades e projetos da sociedade. a crença e os gestos que os tornarão um dia o modelo de homem ou de mulher que o imaginário de cada sociedade . aos poucos (ou depois de uma iniciação). • a observação livre dirigida. o processo de aqU1s1çao pessoal de saber-crença-e-hábito de uma cultura. De duas tribos . Ao processo global que tudo envolve. • a inculcação dirigida em situações de quase-ensino. dos procedimentos daqueles que sabem. por exemplo. é comum que se dê o nome de socialização. com o uso da palavra e turmas de ouvintes. Ora. das práticas ou das condutas erradas. o direito à participação nestas cerimônias (solenidades religiosas. pode ser chamado (com algum susto) de endoculturação. aos adolescentes. rituais de pas· sagem). recursos e métodos empregados para ensinar às crianças. no interior de todos os contextos sociais coletivos de formação do adulto. Mesmo onde ainda não criaram a escola. como em todas do mundo. por meio do castigo. familiar ou comunitária. do educando. existe também como algum modo de ensinar. que funciona sobre educandos como uma situação pedagógica total. em conjunto. Elas fazem. e ele seja simplesmente rejeitado na outra. Através dela. das regras dos códigos de conduta. ou nos intervalos dos lugares onde ela existe. grande parte daquilo que eles precisam para serem reconhecidos como "seus" e para existirem dentro dela. danças. tudo o que é importante para a comunidade. em cada um de seus membros.r 22 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação' vizinhas de pastores do deserto. como o castigo corporal. da ideologia e do modo de vida de um grupo social. o contorno da identidade. e também aos jovens e mesmo aos adu Itos. cada um de nós passa por etapas sucessivas de inculcação de tipos de categorias gerais. tem sido chamado com vários nomes. parciais ou especializadas de saber-e-habilidade. e realiza. Mas em uma e na outra. do ponto de vista de cada um de nós. Elas fazem. sabemos. aquilo que aos poucos somos. o saber. • a correção interpessoal. cada tipo de grupo humano cria e desenvolve situações. é possível que se dê franca importância a um artifício pedagógico. e Assim. ou a atemorização de crianças.

i: bom separar agora algumas palavras usadas até aqui e que serão ainda trabalhadas mais adiante. ela é o que dá a forma e o polimento. transformar em. trabalhar sobre. a obra. a educação é o território mais motivado deste mapa. mas que se deixa conduzir por elas a se transformar na obra feita: o adulto educado. quanto a forma que iguala e deforma. em sua sociedade.24 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação mãos do oleiro. a educação é uma fração da experiência endoculturativa. para torná-lo mais adiante um jovem e. Ela aparece sempre que há relações entre pessoas e intenções de ensinar-e-aprender. Todos os povos sempre traduzem de alguma maneira esta lenta transformação que a aquisição do saber deve operar. por exemplo. de aos poucos "modelar" a criança. tudo o que se aprende de um modo ou de outro faz parte do processo de endoculturação. as palavras da tribo. orientar a maturação. o estilo dos gestos do corpo nos atos do amor. entre as incontáveis situações de relação com a natureza e de trocas entre os homens. a melhor imagem de como a educação se idealiza seja a do oleiro que toma o barro e faz o pote. é parte do processo pessoal de endoculturação. um adulto. Ela existe quando a mãe corrige o filho para que ele fale direito a Iíngua do grupo. a tecnologia da agricultura. e é também parte da aventura humana do "tornar-se pessoa". como tipos de sujeitos sociais. entre homens. Quando o educador pensa a educação. os seus membros. A argila que resiste às . as técnicas e situações de transmissão do saber. Intenções. polir. tanto pode ser a mão do artista que guia e ajuda o barro a que se transforme. . ele acredita que. Ora. como um sujeito social. de que o homem natural é a matéria-prima. depois. Não é nada raro que tanto na cabeça de um índio quanto na de um de nossos educadores ocidentais. da mente e da afetividade. criar. através do envolvimento direto do corpo. Tudo o que existe disponível e criado em uma cultura como conhecimento que se adquire através da experiência pessoal com o mundo ou com o outro. Tudo o que existe transformado da natureza pelo trabalho do homem e significado pela sua consciência é uma parte de sua cultura: o pote de barro. Ajudar a crescer. 2S Dentro de sua cultura. para conduzi-Ia a ser o "modelo" social de adolescente e. tornar capaz. as estórias da história que explica quem aquela gente é e de onde veio. Mas ao fazer isso na prática. o sistema de crenças religiosas. domar. em sua cultura. aprender de maneira mais ou menos intencional (alguns dirão: "mais ou menos consciente"). da caça ou da pesca. O trabalho cuidadoso do artesão que age com tempo e sabedoria sobre a argila viva que é o educando. através do qual um grupo social aos poucos socializa. Vista em seu vôo mais livre. ao adolescente.

entre outras categorias de especialidades sociais. que afirmava a comunidade. quando o trabalho que porduz os bens e quando o poder que reproduz a ordem são divididos e começam a gerar hierarquias sociais. Então é o começo de quando' a sociedade separa e aos poucos opõe: o que faz. Este é o começo do momento em 'que a educação vira o ensino. cria situações próprias para o seu exercício. A educação aparece sempre que surgem formas sociais de condução e controle da aventura de ensinar-e-aprender. também o saber comum da tribo se divide. estabelece suas regras e tempos. ou quando os guerreiros saem com os jovens para ensiná-los a caçar. Existe também quando o pai ensina ao filho a polir a ponta da flecha.26 Carlos Rodrigues Brandiío ou quando fala à filha sobre as normas sociais do modo de "ser mulher" a li. O ensino formal é o momento em que a educação se sujeita à pedagogia (a teoria da educação). . SURGE A ESCOLA •••• •• Mesmo em algumas sociedades primitivas. começa a se distribuir desigualmente e pode passar a servir ao uso político de reforçar a diferença. que inventa a pedagogia. ENTÃO. produz os seus métodos. o aluno e o professor de quem começo a falar daqui para frente. reduz a aldeia à escola e transforma "todos" no educador . e constitui executores especializados. o que se sabe com o que se faz e o que se faz com o que se sabe. ~ quando aparecem a escola. Então é quando. aparecem as de saber e de ensinar a saber. no lugar de um saber anterior.

como homens e mulheres aptos e legítimos para a vida do adulto da tribo. alguns aprendem para serem "homem" e outros para serem "mulher".28 Carlos Rodrigues Brandão o que ti Educação meninas são isolados do resto da tribo. para além do saber dividido dentro do grupo entre categorias naturais de pessoas (homens e mulheres. meninos e I . de que os meninos saem jovens-adultos e guerreiros. pela posição que o grupo lhes atribui e pelo saber que lhes reconhece. a diferença do que espera de cada um deles como trabalho social qualificado por um saber. depois de cerimônias públicas de iniciação (os ritos de passagem). gera o começo da desigualdade da educação de I lI "homem comum" ou de "iniciado". "professor". moças prontas para a posse de um homem. estas situações pedagógicas de ensino especializado que apressa o adulto que há no jovem podem ser muito breves. meio a meio. emergem tipos e graus de saber que correspondem desigualmente a diferentes categorias de sujeitos (o rei. uma casa e alguns filhos. jovens. o sacerdote. por certo. que cada um deles diferentemente começa a receber. de acordo com a sua posição social no sistema político de relações do grupo_ Onde todos aprendem para serem "gente" adulto". Em sociedades tribais da Libéria e de Serra Leoa. Todo o trabalho pedagógico da formação destes jovens é conduzido por categorias de educadores escolhidos entre todos para este tipo de ofício. A diferença que o grupo reconhece neles por vocação ou por origem. por exemplo. o lavrador). adultos e velhos) e transferido de uns aos outros segundo suas linhas de sexo ou de idade. são reconhecidos. Em seu primeiro plano de separação . por exemplo.o mais universal . quase sempre. "um dos nossos" e. outros ainda começam a aprender para serem "chefe". Em alguns casos convivem entre iguais e com adultos por períodos de reclusão e aprendizagem que envolvem situações de ensino forçado e duras provas de iniciação. Uma divisão social do saber e dos agentes e usuários do saber como essa existe mesmo em sociedades muito simples. e as meninas. Nas suas formas mais simples. crianças. Outras vezes este período de aprendizagem-separada é muito ~ais longo.numa idade sempre próxima à da adolescência. muito mais próximo dos modelos de agências e procedimentos de ensino que temos na cabeça quando pensamos em educação. o professor. muito mais diversificado e. "escravo". - 29 o que é que isto significa? Significa que. Depressa eles são devolvidos ao grupo social e. para além das fronteiras do saber comum de todas as pessoas do grupo e transmitido entre todos livre e pessoalmente. o guerreiro. Podem envolver pouco mais do que momentos provocados de convivência intensificada entre grupos de adolescentes e grupos de adultos. "feiticeiro". "artista".

Estudam. A escola Poro leva em conta diferenças individuais e. ou para os ofícios da medicina tribal. existem "casas de ensino". além do saber dos ofícios de guerra e paz. forma novos especialistas. onde os nobres e outros jovens selecionados de antemão para postos futuros de poder sobre os outros passavam por verdadeiros cursos superiores de estudos que lhes tomavam quase todo o tempo da adolescência e da juventude. Se um menino ·demonstra talentos para o trabalho do fabrico de tecidos. muito mais do que o de todos os outros meninos. Durante a metade do ano estas "casas" permanecem abertas e. para o exercício da dança. há tipos de escolas para os meninos (as escolas "Poro") e para as meninas (as escolas "Sande"). tradições e história. Divididos de acordo com seus grupos de idade (como em nossas "séries"). Em todos os cantos do mundo. convivem entre si e com seus mestres. primeiro a educação existe como um inventário amplo 31 na África. Assim acontece. dado pela educação. onde os jovens aprendem com os sacerdotes os segredos do sagrado. De tribo para tribo os meninos estudam por períodos que vão de ano e meio a oito anos. destinadas por herança aos cargos de chefia. A tribo que mais adiante submeterá a eles a chefia comunitária . como os nossos. o saber especializado do chefe. dança. verdadeiras unil(ersidades em escala indígena. familiares e/ou comunitárias de educação. oferecem cursos com alguma teoria e muita prática sobre pelo menos os seguintes assuntos: genealogia. " Mesmo os grupos que. da "Mandíbula Inferior". ele acrescenta estes treinos e estudos ao corpo comum do programa por que passa com todos os outros companheiros de idade. diferentes categorias de meninos e meninas recebem o saber especializado que há em uma "educação de minorias privilegiadas". não podem abandonar por inteiro as formas livres. Entre grupos de pescadores da Nova Zelândia e do Arquipélago da Sociedade. vale como um atestado social de diferenças entre o chefe e os outros.eligiosos. com o trabalho docente de diferentes professores-especialistas. dividem e hierarquizam tipos de saber. onde toda a sabedoria da cultura é ensinada aos jovens de ambos os sexos por professores-sacerdotes. E o próprio tempo prolongado de estudo. Em um 'segundo plano. agricultura. magia. princípios de crença e cultos r. artes da navegação. mais restrito e mais marcadamente político. relacionada. as tradições e os costumes culturais da tribo. eles aprendem as crenças.30 Car/cs Rodrigues Brandão o que é Educação de ensino divide a "Mand(bula Superior". O programa .atribuirá a eles como um direito. treino e teste. por todo o dia. e treinam. por exemplo. literatura. de couro. entre quase todos os grupos originais do Havaí. com os assu ntos terrenos. de alunos e de usos do saber.o trabalho social de dirigir . e exigirá deles como um dever.

Espaço que apenas reúne pessoas e tipos de atividade e onde viver o fazer faz o saber. e onde o exercício social do poder ainda não foi centralizado por uma classe como um Estado. cavaleiro·escudeiro.· existe a educação sem haver a escola e existe a aprendizagem sem haver o ensino especializado e formal. com que vamos nos encontrar um pouco mais adiante um sistema pedagógico controlado por um poder . Depois. reservando para o seu próprio domínio tanto alguns tipos e graus do saber da cultura. sistemas antes comunitários de trocas de bens. de serviços e de significados são em parte controlados por confrarias de especialistas. Os estudos mais recentes da História têm indicado que a palavra escrita parece ter surgido em sociedades-estado enriquecidas e com um poder muito centralizado. quanto algumas formas e recursos próprios de sua difusão. Mesmo nas grandes sociedades . Até aqui o espaço educacional não é escolar.como na Grécia e em Roma. pai-filho. de uma mesma cidade.' Também no seu interior. sistemas. todo o corpo profissional de especialistas do ensino tende a dividir e a legitimar divisões do conhecimento comunitário.32 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação externo a ele. o quintal. gente de uma mesma linguagem . Esta é a rede de trocas de saber mais universal e mais persistente na sociedade humana. como um tipo de prática social separada das outras. atribuído de fora para dentro a uma hierarquia de especialistas do ensino. estes especialistas do ensino aos poucos tomam a seu cargo a tarefa de assumir. Em todo o tipo de comunidade humana onde ainda não há uma rigorosa divisão social do trabalho entre classes desiguais. irmão-mais-velho-irmão-caçula e assim por diante. mediadores entre o poder e o saber. Onde quer que apareça e em nome de quem venha. E da vida.-çivilizadas do passado . e tantos outros. o bem-estar. e destinado a reproduzir a desigualdade através da oferta desigual do saber. controlar e recodificar domínios. a educação pode existir entre educadores-educandos não parentes . o mato. Assim. é uma conquista tardia na história da cultura. Em nome de quem os constitui educadores.semi-especializados ou especialistas do saber de algum ofício mais amplo ou ·mais restrito: artesão-aprendiz.mas habitantes de uma mesma aldeia. o lazer) sobre as quais lÍTTl dia surge um interesse político de controle. o barco. a oficina. sobrinho-irmão-da-mãe. como entre os egípcios ou 33 de relações interpessoa is diretas no âmbito familiar: mãe-filha. aos poucos acontece com a educação o que acontece com todas as outras práticas sociais (a medicina. o templo. sacerdote-iniciado. a religião. modos e usos do saber e das situações coletivas de distribuição do saber. Ele é o lugar Ja vida e do trabalho: a casa.

sobre a educação que havia em Atenas. portanto. entre as mãos de educadores a serviço de senhores. Também nas sociedades ocidentais como a nossa . a educação escolar que ajuda •••• •• . uns como senhores e outros. a educação surge na Grécia e vai para Roma. para torná· ·Ios todos sujeitos livres que por igual repartem uma mesma vida comunitária. ao longo de muitos séculos da história de espartanos.a educação escolar é uma invenção recente na história de cada uma. Assim também a educação. algumas das respostas às nossas perguntas. Só mais tarde é que foi usada também pelos poetas para cantarem as coisas da aldeia e de sua gente. para ensinar uns a serem senhores e outros. começa a reproduzir desigual· dades sociais por sobre igualdades naturais. Nas sociedades primitivas que nos acompanharam até aqui. Onde um tipo de educação pode tomar homens e mulheres. A educação da comunidade de iguais que reproduzia em um momento anterior a igual· dade. sociedades capitalistas . ensinando·os a pensa· rem. Da maneira como existe entre nós. crianças e velhos. ela tende a inverter as utilizações dos seus frutos: o saber e a repartição do saber.sociedades complexas. até mesmo as sociedades capitalistas mais tecnolo· gicamente avançadas têm feito poucas inovações. para fazer a contabi· lidade dos bens dos reis e faraós. entre os seús inventos e escolas. 3S entre os astecas. um outro tipo de educação pode tomar os mesmos homens. por sobre diferenças naturais. atenienses e romanos. ou a complementariedade social. escravos. Talvez estejam. dentro das mesmas idéias e com as mesmas palavras. Ela teria aparecido primeiro sendo usada pelos escribas. das mesmas idades. começa desde quando aos poucos usa a escola. Por toda a parte onde ela deixa de ser totalmente livre e comunitária (não escrita) e é presa na escola. Deles deriva todo o nosso sistema de ensino e. sociedades de clas· ses. como escravos.34 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação a separar o nobre do plebeu parece ser um ponto terminal na escala de invencão dos recursos huma· nos de transferência do s~ber de uma geração a outra. os sistemas pedagógicos e as "leis do ensino" para servir ao poder de uns poucos sobre o trabalho e a vida de muitos.

aos meninos nobres da elite guerreira e. se possível. os gregos acabaram chamando de teoria. da elite togada é que a educação foi dirigida. Esta educação grega é. Quando a riqueza da polis grega criou na sociedade estruturas de oposição entre livres e escravos. nada é para O grego uma obra de arte tão perfeita quanto o homem educado. envolve o saber da agricultura e do pastoreio. aprenderam a lidar com a educação do mesmo modo como qualquer outro grupo humano. ainda não 37 PEDAGOGOS. mais do que tudo. os primeiros assuntos e problemas da educação grega foram os dos oHcios simples dos tem'pos de paz e de guerra. de fidelidade à polis. de suas primeiras tribos de clãs de pastores ou camponeses. nobre. em todos os cantos onde as pessoas conviviam na comunidade.o que é Educação a vida do cidadão livre e educado. Este saber que busca no homem livre o seu mais pleno desenvolvimento e uma plena participação na vida da polis é o próprio ideal da cultura grega e é o que ali se tinha em mente quando se pensava na educação. e carrega dentro dela a oposição que até hoje a nossa educação não resolveu. Ali estão normas de trabalho que. Tudo isso misturado. emergiram de seus bandos errantes. quando reproduzidas como um saber que se ensina para que se viva e seja um tipo de homem livre e. nos exercícios coletivos da vida. do artesanato de subsistência cotidiana e da arte. entre nobres e plebeus. os gregos acabaram chamando de tecne e que. em qualquer outro tempo. como Atenas e Roma. Tal como entre os índios das Seis Nações. mesmo quando eles começaram rusticamente a enobrecer. mais tarde. MESTRES-ESCOLA E SOFISTAS Todas as grandes sociedades ocidentais que. A primeira educação que houve em Atenas e Esparta foi praticada entre todos. nas suas formas mais rústicas e menos enobrecidas. a cidade grega onde começa e acaba . de solidariedade e. De tudo o que pode ser feito e transformado. Por alguns séculos. dupla. mesmo para eles. com os princípios de honra. quando reproduzidas como um saber que se ensina para que se faça. ficam relegadas aos trabalhadores manuais. O que se ensina e aprende entre os primeiros pastores. sem muitos mistérios. Ali estão normijS de vida que. livres ou escravos. portanto.

de estilo . a propriedade é restritamente comunal. Para além ainda do que entre os sete e os catorze anos aprende com o mestre-escola. convivendo com a mãe e escravos domésticos. mesmo no apogeu da democracia grega. Durante muitos séculos os "pobres" da Grécia aprenderam desde criança fora das escolas: nas oficinas e nos campos de lavoura e pastoreio. a verdadeira educação do jovem aristocrata é o fruto do lento trabalho de um ou de poucos mestres que acompanham o educando por muitos anos.38 Car/os Rodrigues Brandiio o que é Educação militar. Em Atenas. Só depois da invenção da escola 39 havia a escola. como a Efebia de Esparta. a educação deixa de ser uma prática coletiva. O poder pertence aos estratos mais nobres destes cidadãos ativos. mesmo quando não é paga. pertence aos cidadãos ativos do Estado. através do desenvolvimento de todo o corpo e toda a consciência. Aquilo que a cultura grega chama com pleno efeito de educação .do homem para a vida da polis. em acampamentos ou ao redor de velhos mestres. Apenas quando a democratização da cultura e da participação na vida pública colocam a necessidade da democratização do saber. Em toda a Grécia a formação do nobre guerreiro apenas desenrola ao longo dos anos u ma seqüência de trocas entre um mestre e seus discípulos. que educava o jovem nobre-guerreiro. é que surge a escola aberta a qualquer menino livre da cidade-estado. por volta do VI século A. entre os gregos sempre se conservou a idéia de que todo o saber que se transfere pela educação circula através de trocas interpessoais. Além das agências estatais de educação. começa de fato fora de casa. segundo os seus grupos de idade. Até então.dando à palavra o sentido de formação harmônica . Das relações familiares diretas até a convivência entre jovens. depois dos sete anos.C. a pederastia acaba sendo considerada em Esparta como a forma mais pura e mais completa de educação entre homens livres e iguais. ou entre grupos de meninos educandos e um velho educador.. toda a educação fora do lar e da oficina é uma empresa particular. senhores e. Assim. de outro. Particular e restrita a muito pouca gente.C_ Antes dela havia locais de ensino de metecos e rapsodistas que aos interessados ensinavam "a fixar em símbolos os negócios e os cantos". destinada apenas à formação do cidadão nobre. Até lá a criança convive com a sua criação. de relações física e simbolicamente afetivas entre as pessoas. e a vida e o trabalho colocam de um lado os homens livres. Os meninos "ricos" inicialmente aprenderam também fora da escola. A escola primária surge em Atenas por volta do ano 600 A. os escravos ou outros tipos de trabalhadores manuais expulsos do direito do saber que existe napaideia.paideia .

não chega sequer a esta escola. e entregar-se à filosofia. poeta. O menino livre e nobre passa por ela depressa em direção aos lugares e aos graus onde a educação grega forma de fato o seu modelo de "adulto educado". Citação de Sólon. leciona as primeiras letras e contas. não raro "lojas de ensinar". à caça e à freqüência aos ginásios. historiador. O menino livre e plebeu em geral pára nela. abertas entre as outras no mercado. "reduzido pela miséria a ensinar"." Pequenas imagens gregas de te"acota retratam o escravo pedagogo conduzindo para a escola a criança. os que não podem. os pobres devem exercitar-se na agricultura ou em uma indústria qualquer." Esta concepção Xenofonte. antes de tudo. . Assim. filósofo e militar grego. em seguida. que aprende com o trabalho a que o obrigam. legislador grego: "As crianças devem. Ali um humilde mestre-escola. O menino escravo. ao passo que os ricos devem se preocupar com a música e a equitação. surgem em Atenas escolas de bairro. 41 de primeiras letras é que o seu estudo é pouco a pouco incorporado à educação dos meninos nobres.40 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educaçã. criticaria quase dois séculos depois: "Só os que podem criar os seus filhos para não fazerem nada é que os enviam à escola. não enviam. aprender a nadar e a ler.

Por muitos e muitos séculos ela aponta para a harmonia que existe na beleza do corpo (e a destreza para a luta) ao lado da clareza da mente (e a fidelidade à polis dos cidadãos livres). os gregos foram guerreiros. cujo tipo dominante pode ser Platão. eles aprendem de maneira simples e direta. por exemplo. mais do que os pais. logo. Durante toda a antigüidade a única disciplina técnica (entendida como a de uma formação que aponta para um ofício determinado) é a medicina. De um lado. músicos e ginastas.42 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação dores. de outro. escravos pedagogos e educadores nobres. muito mais do que os mestres-escola. e a oratória (retórica). Pequenas estatuetas de terracota guardam a memória dele. Mais tarde. a prática de instruir para o trabalho. O pedagogo era o educador por cujas mãos a criança grega atravessava os anos a caminho da escola.eram afinal seus educa- . não para fazer. sob a influência de Sócrates e Epicuro (um sujeito feio e outro doentio) é que a educação começa a ser pensada como formadora do espírito. mais do que filósofos ou matemáticos. por caminhos da vida. De um lado.• E por que eles e não os mestres que nas escolas ensi navam? Porque os escravos pedagogos condutores de crianças . curar ou construir. Mesmo no nível da cultura letrada dos nobres. através do convívio com algum velho artífice. de outro. De todos estes adultos trans'missores de saber vale a pena falar do pedagogo. desprezíveis mestres-escola e artesãos-professores. na oficina e no trabalho. cujo tipo dominante pode ser Isócrates. dentro de uma cultura pouco acostumada a separar a verdade da beleza. Ela oscilou entre duas formas de algum modo antagônicas: a filosófica. que é o saber do nobre para compreender e comandar. Artistas gregos representaram esses velhos escravos quase sempre cativos estrangeiros .conduzi ndo crianças a caminho da escola de primeiras letras . a de educar para a vida e o poder que determina a vida social. Assim. de educação. Não há outras escolas coletivas de ensino técnico para o preparo de arquitetos. Eles conviviam com a criança e o adolescente e. Diferenças de saber de classe dos educandos produziram diferenças curiosas entre os tipos de educadores da Grécia antiga. engenheiros ou agrimensores. ou de nobres. Nos primeiros tempos. Depois de constitu ídas as classes de homens livres que regem a democracia dos gregos sobre 43 A educação do jovem livre vai em direção à teoria. faziam a educação dos preceitos e das crenças da cultura da polis. Tal como ferreiros ou tecelões. mais do que jurídica ou científica. a educação do cidadão livre era ética e artística (no pleno sentido que estas duas palavras possuíam na paideia grega). a civilização clássica não conservou sempre um único modelo ou estilo de saber.

o Liceu de Aristóteles e a Escola de Epicuro. portanto. para a carreira pol ítica. Demétrio Poliorceto pretendeu indenizá·lo pelos preju ízos materiais que sofrera por causa da pilhagem. para os seus adolescentes a educação coletiva não é uma atividade voluntária ou um direito de berço.posta a serviço dos interesses da cidade·comunidade. o ideal da educação é reproduzir uma ordem social idealmente concebida como perfeita e necessária. A "obra de arte" da paideia é a pessoa plenamente madura . aberto a todos os que podem pagar. que interna educandos. tornando:O remunerado e. de fundo 4S a divisão do trabalho e a instituição do regime escravagista. 2) ela vai de um domínio do "saber desinteressado". através da transmissão. E um dever imposto pela polis ao livre. das crenças. Platão e Aristóteles.. Estilpão respondeu que nada havia perdido do que era seu. exercício dos nobres dos períodos anteriores. O formador de jovens. a vida social de Atenas possibilita a participação de todos os cidadãos livres. sonho de poetas. o educador. Porque o seu exercício modela não um homem abstrato. a questão de aprender para legislar e para estar de algum modo presente nas assembléias de representação pol ítica. Aos poucos até Aristóteles e Alexandre Magno.C. projeto do político. muito depressa durante a Civilização Helenística.44 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação ·mestre como Sócrates. comum. à habilitação do cidadão livre.como cidadão. como militar. cria regras próprias de conduta e lhes absorve boa parte do tempo da juventude. antecede a Academia de Platão. Quando pediu que fizesse o inventário do que lhe pertencera e fora destru ído. em suas escolas superiores. onde a qualidade da retórica tem mais valor do que a busca desinteressada da verdade. mas o cidadão maduro para o serviço à comunidade. e isto recoloca a questão do preparo do homem para o exercício da cidadania. E nada poderia haver de mais precio· so.. com vistas à formação do nobre guer· reiro e dirigente.6 "" . valores e habilidades que tornavam um homem tão mais perfeito quanto mais preparado para viver a cidade a que servia. Assim. de geração a geração.dado que ainda conservava a eloqüência e o saber. A escola filosófico·iniciática de Pitágoras.". o filósofo· . a um homem livre e educado. do que o próprio saber e a identidade de sábio que ele atribui ao homem. porque não lhe haviam roubado a sua cultura . Depois de haver conquistado a cidade onde vivia o filósofo Estilpão. Mas são os filósofos sofistas os que democratizam o ensino superior. Os sofistas transformam a educação superior em um tempo de formação do orador. como político . reúnem à sua volta os seus alunos. Após a longa crise de tirania por volta do VI século A. a educação clássica passa por algumas mudanças: 1) ela vai do cultivo aristocrático do corpo e da mente..

é a comunidade quem responde pelo trabalho de fazer com que tudo o que pode ser vivido-e-aprendido da cultura seja ensinado com a vida . Portanto. E a escola de qualquer tipo é apenas um lugar e um momento provisórios onde isto pode acontecer.ao educando. Esta educação humanista de uma sociedade que deixa ao escravo e ao artesão livre o trabalho de fazer. o artista de seu próprio corpo-e-mente) e o adulto educado (o cidadão político a serviço da polis). . o modelo de um modo de ser idealizado. pública. que não leva em conta o que ela é. a educação grega não é dirigida à criança no sentido cada vez mais dado a ela hoje em ••• ••• . para o literário. mais do que tudo. E o exercício de viver e conviver o que educa. o meio de impedir que a distância da Pátria de origem ameace perder-se a cultura do vencedor entre os costumes e o saber dos vencidos. mas olha para o modelo do que pode ser. desdenha a técnica e olha para "o homem todo". De algum modo. Assim. tradicional. daí para o retórico. o atleta. Com o tempo a educação clássica deixa de ser um assunto privado. mas ainda sempre aperfeiçoável. formado de aprender a teoria e praticar o gesto que constroem o saber e o hábito do homem livre. entre nobres. Uma trajetória de· amadurecimento e formação (como a obra de arte que aos poucos se modela). que é missão da paideia conservar e transmitir. Elas são. cujo produto final é o adulto educado. é uma educação contra a criança. Atrás das tropas de conquista de Alexandre Magno. é uma educação ética cujo saber conduz o sábio a viver. os gregos ensinam o que hoje esquecemos. um sujeito perfeito segundo um modelo idealizado de homem livre e sábio. para o saber disponível. muito mais do que a escola.46 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação dia.e também com a aula . é o resultado da ação de todo o meio sociocultural sobre os seus participantes. com a sua própria vida. o livresco e o escolar (de aprender a sabedoria para aprender a informação). e passa a ser questão de Estado. 47 artístico-musical. posse e questão da comunidade dos nobres dirigentes. A educação do homem ex iste por toda parte e. 3) ela vai das agências de reprodução restrita do saber de nobres. Em seu pleno sentido. e que anseia torná-Ia depressa o jovem perfeito (o guerreiro. Finalmente. os gregos levam as suas escolas por todo o mundo. Como seria possível fazer uma síntese dos princípios que orientaram toda a educação clássica criada pelos gregos? Ela foi sempre entendida como um longo processo pêlo qual a cultura da cidade é incorporada à pessoa do cidadão. à venda em escolas pagas que educam da criança ao adulto. Aristóteles exige do Imperador leis que regulem direitos e controlem o exercício da educação.

ocupado com pensar. alguns. E O QUE ELA ENSINA Os primeiros latinos foram camponeses aos poucos enriquecidos e. e servia à consagração da tradicional idade quase venerada de um modo camponês de vida. desempenharam antes funções úteis. com os mais velhos. tornados nobres na Península Itálica.as físicas. Ao contrário do que aconteceu cedo em Atenas. Os primeiros reis de Roma punham com os súditos as mãos no arado e lavravam a terra. em Roma não há de início qualquer tipo de cuidado com a pura formação física e intelectual do cidadão ocioso. Como entre os índios. A educação de uma comunidade dedicada ao trabalho com a terra foi durante séculos uma formação do homem para o trabalho e a vida. Na aurora da história do poder de Roma.o que é Educação a educação da criança é uma tarefa doméstica. simples e austero. Muito mais do que na Grécia. de devotamento de sua pessoa à comunidade. a educação dos camponeses latinos é comunitária e existe difusa em todo o meio social. Essa educação doméstica busca a formação da consciência moral. para a cidadania da comunidade igualada pelo trabalho. e o horror ao luxo e à ociosidade. Quando o mundo romano de camponeses enriquece com os excedentes da terra e das pilhagens 49 A EDUCAÇÃO QUE ROMA FEZ. e quase tudo o que aprendia era para saber e preservar os valores do mundo dos "mais velhos". governar e guerrear. dos seus antepassados. Primeiro. Ali aconteceu como em tantas outras partes do mundo. como nos tempos de origem dos povos gregos. O adulto educado que ela quer criar é o homem capaz de renúncia de si próprio. Classes sociais que com o tempo chegaram a ser "privilegiadas" e separaram a direção do trabalho do próprio exercício do trabalho. ela foi uma lenta iniciação da criança e do adolescente nas tradições consagradas da cultura. São as virtudes do campesinato de todos os tempos e lugares. separando com isso as forças produtivas mentais d. a vida simples. o trabalho é entre todos e o saber é de todos. que exalta em verso e prosa a austeridade. o amor ao trabalho como supremo bem do homem. A criança começava a aprender em casa. . o que dirige a primitiva educação de Roma. entre os romanos.

nas suas formas mais elaboradas. aos 7 anos.C. durante quase toda a sua história. dos pais. portanto. através dela. o aprendizado cheio de afeição que recebe da mãe. fora do lar. ele ainda defende a criança de ser entregue cedo a alguma forma de educação estatal.. Quando uma nobreza romana enriquecida com a agricultura e o saque abandona o trabalho da terra pelo da política. dos mestres-pedagogos. aquele primitivo saber comunitário divide-se e força a separação de tipos. e o ensino que hoje em dia chamaríamos de superior. o funcionário imperial e os dirigentes do Império. Quando há livres e escravos. e cria as regras do Império de que se serve. que convivem com os educandos e os acompanham.50 Carlos Rodrigues Brandão de outros povos.C. por volta do século IV D. o ideal da paideia é o herói da polis. Mas. Mesmo os mais ricos. senhores de escravos. militarizada. prepara o futuro guerreiro. como ao tempo em que os reis aravam a terra. a família prolonga o poder de socializar o cidadão e. Na educação romana o modelo ideal é o ancestral da família. não entregam a um servo·pedagogo ou a uma governanta o cuidado dos filhos. senhores e servos. começa a haver I o que é Educação um modelo de educação para cada um. que ficou deixada à iniciativa particular. ao contrário do que vimos acontecer em Atenas e principalmente em Esparta. níveis e agências de educação. Quando o menino completa. de formar a sua consciência segundo os preceitos das crenças e valores da classe e da sociedade. ou seja. e o ensino de instruir. universitário.C. que não divide sequer com o mestre-escola o direito de educá-lo. Só depois do advento do Cristianismo. apareceu pelo século I A. o Estado Romano não toma a seu cargo a tarefa de educar. a sociedade civil estende o alcance do seu modelo em toda uma primeira educação da criança.C. depois o da comunidade. Entre os romanos os primeiros educadores de pobres e nobres são o pai e a mãe. O sistema comunitário de base pedagógica familiar compete com outros. o artífice ou o lavrador e. Um tipo de ensino que podemos identificar com o secundário surgiu na metade do século III A. Aos poucos aparece a oposição entre o ensino de educar. é que surge e se espalha por todo o Império a schola publica. quando opõe classes sociais e inventa o Estado. A partir de Homero. e limites entre um modelo e outro. O ensino elementar das primeiras letras apareceu em Roma antes do IV século A. ele passa para o pai. mantida pelos cofres dos municipios. prolongando com eles o saber que forma a consciência e que é a sabedoria. Em Roma. mas já não mais comunitária. 51 . Aos poucos a educação deixa de ser o ensino que forma o pastor. no alvorecer da história grega. do mestre-escola que monta no mercado a loja de ensino e vende o saber de ler-e-contar como uma mercadoria.

Outra é a escola livresca. a partir dos 16. a vida e a cultura dos conquistados. Do mesmo modo como o sacerdote.52 Carlos Rodrigues Brandiio Nos tempos do domínio de Augusto e de Tibério. A educação que serve. Esta educação de escola. o educador caminha atrás dos passos do general. educada em casa pelos pais. Na sua forma mais simples esta é a estrutura de educação que herdamos e conservamos até hoje. para onde vão o futuro senhor (o dirigente livre do trabalho e do Estado) e o seu mediador. Aos 12 anos ela estava pronta para freqüentar a escola do grammaticus e." •••• . o funcionário burocrata do Estado ou de negócios particulares. Do lado de fora das portas do lar. A educação do conquistador invade. aos filhos dos soldados e funcionários romanos sediados entre os povos vencidos. Uma é a da oficina de trabalho para onde vão os filhos dos escravos. serve também para impor sobre eles a vontade e a o que é Educação visão de mundo do dominador. dos servo~ e dos trabalhadores' artesãos. Plutarco descreveu como Roma usou a educação para "domar" os espanhóis dominados: 53 "As armas não tinham conseguido stlbmetê-Ios a não ser parcialmente. a educação latina enfim separa em duas vertentes o que se pode aprender. com armas mais poderosas do que a espada. a criança. a do lector. aprendia depois dos 7 anos as primeiras letras na escola (loja de ensino) do ludimagister. que os romanos criam em Roma copiando a forma e alguma coisa do espírito dos gregos. espalham primeiro pela Península Itálica e depois por todo O mundo que conquistam na Europa. longe da Pátria. foi a educação que os domou. na Asia e no Norte da Africa.a .

ou poderia ser. como filósofos e cientistas sociais. Eles falam sobre o que deve determinar e controlar o trabalho pedagógico em todos os seus graus e modalidades. pedagogos. de desenvolver as faculdades f(sicas. professores. nossos legisladores. do ser humano.692. polidez. intelectuais e morais da criança e. estudantes e outros sujeitos um tanto mais tradicionalmente difíceis de entender. ou falam da educacão através de uma ideologia (ver O que é ideologia.T I o que é Educação qual nos ajustamos à vida. cortesia. E O CONTRÁRIO DE TUDO Ora. De certo modo falam a respeito de uma educação idealizada. de acordo com as necessidades ideais e propósitos dominantes' ato ou efeito de educar. em geral. Na nlema da Lei" a coisa não muda muito. preparação para o trabalho e para o exercício consciente da cidadania". 1 ~ O ensino de 1 ~ e 2 ~ graus tem por objetivo geral proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de auto-realização. Ao pretenderem estabelecer os-fins da educacão no país. trabalho sistematizado. (Dicionário Contemporâneo da Língua Portuquesa. se!etivo. pelo menos em teoria. Caldas Aulete) "j!\ção exercida pelas gerações adultas sobre as gerações jovens para adaptá-Ias à vida social. uma outra maneira de se compreender o que a educação é. (Lei 5. de 11 de agosto de 1971) . garantem para todos o melhor a seu respeito. aperfeiçoamento integraí de todas as faculdades humanas. ensino ". Nos dois dicionários brasileiros mais conhecidos a educação aparece definida assim: "Ação e efeito de educar. desta mesma coleção): "Art. instrução. pelo Um pouco mais adiante vamos ver que o miolo de cada uma d_Bstas definições de dicionário pende para um dos lados em gue se recortam as maneiras de explicar o que a educação é e a Que serve. Aurélio Buarque de Hol/anda) ss EDUCAÇÃO: ISTO E AQUILO. disciplinamento. " (Pequeno Dicionário Brasileiro de Ungua Portuguesa. orientador. é procurar ver o que dizem sobre ela pessoas como legisladores.

descobrem que. possamos perceber os anseios. as mãos. "Criar condições para que. 41. não há nela nem a consciência nem o fortalecimento dos nossos verdadeiros valores culturais. as discri· minações raciais. "E buscar todos os meios para que todo esse trabalho floresça. dos Estados. para que toda essa força con· tida venha à tona. do outro lado do palco. mulheres. não há igualdade entre os brasileiros e a educação consolida a estrutura classista que pesa sobre nós. etárias. velhos. dos Municípios. educadores e estudantes fazem e refazem todos os dias a crítica da prática da educação no Brasil. homossexuais.. da família e da comunidade em geral. "A percepção -ampla e profunda das ações e rela- . veiculação ou discussão cultural.. 57 Mas. de cada explorado. das entidades estudantis. sexuais. do Ministério à escolinha. das empresas. o corpo para a realidade inquieta. "Ampliar as idéias sobre o trabalho cultural. quase poderiam caber nas "leis do ensino". Irrompe uma nova consciência. Eles levantam questões e afirmam que. a dominação. questionadora. do homem e de toda a sociedade. "Os homens discriminados como negros. Um grupo de estudantes candidatos à direção da UNE resume parte desta crítica e reclama para a luta estudantil itens que. a moral. Não M liberdade no país e a educação não tem tido papel algum nos últimos anos para a sua conquista. intelectuais." (Voz Ativa . do Distrito Federal. de cada homem. "Subir no palco e invadir os camarins do mundo. as suas relações. Abranger o homem. "Destruir as regras do jogo. o poder. a educação nega no cotidiano o que afirma na lei. nestes anos todos de dominação. soltar a cabeça. crianças. é função nossa. "Corações e mentes se abrem para uma nova vida. A educação constitui dever da União. a força imensa que mexeu e transformou a face do planeta nasce de cada oprimido. as contradições de cada um. de cada mulher. dos Territórios. que entrosarão reCursos e esforços para promovê-Ia e incentivá-Ia. através da manifes· tação de todos. "Romper os limites. os pés.56 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação ções entre os homens é inerente e inseparável de qualquer trabalho de produção.Cultural) Sem rodeios as "leis do ensino" no país garantem que: "Art. com alguma variação de linguagem. Representar a vida. Descobrem a origem e o fim de toda a atividade humana: o próprio homem. Assumir o papel de agentes da História.

de 11 de agosto de 1971) Mas. denuncia a alteração para pior das próprias leis que dizem o que é e como deve ser a Educaçaã no Brasil. Os recursos públicos destinados à educação serão aplicados preferencialmente na manutenção e desenvolvimento do enSino oficiai. Assim.58 Carlos Rodrigues Brandão Parágrafo único. O ensino nos diferentes graus será ministrado pelos poderes públicos e. os pais ou responsáveis e os empregadores de toda natureza de que os mesmos sejam dependentes. políticos qUe se projetam também sobre a Educação. o que revela o caráter elitista do atual processo educacional no Brasil. Art. as pessoas do país -protestam e cobram. que pelo menos ela seja cumprida: que haja liberdade na educação e. solidariamente com o Poder Público. Há interesses econômicos. através dela. pelo cumprimento do preceito constitucional da obrigatoriedade escolar. sujeita às leis da iniciativa privada. na forma da I~i. de quem faz a lei. a educação está aberta à ação dos empresários do ensino. seja pelo caráter flagrantemente antidemocrático de suas leis e decretos." (Boletim Nacional das Associações de Docentes.·se entre o pensado e o vivido há diferenças. seja pela repressãq pol itico-ideológica que se abateu sobre toda a comunidade.entífico e tecnológico". A fala dos praticantes da educação. nA palitica educacional implantada levou 59 à b) a melhoria progressiva do ensino. de modo que se assegurem: a) maior número possível de oportunidades educacionais: o que é Educação "O regime politico e o modelo socioeconômico impostos nos últimos anos à Nação Brasileira produziram danos marcantes na qualidade do ensino de nossas escolas. é livre à iniciativa particular. Art. Assim. 43. os educadores. (Lei 5. que se refléte na elaboração e modificação ilegítimas de regimentos e estatutos das Universidades. Não há apenas idéias opostas ou iqel8s diferentes a respeito da Educação. Não é raro que . os docentes universitár~os reunidos num Encontro Nacional de Assoclaçoes escreveram o seguinte no documento final: progressiva desobrigação do Estado com o custeio da Educação. que a escola exista para todos e seja distribuída por igual entre todos. Respondem.a educação no país propõe o exercício de uma prática idealizada. c) o desenvolvimento c·.692. o aperfeiçoamento e a assistência ao magistério e aos serviços de educação. e à expansão do ensino privado. Faz mais. 42. respeitadas as leis que o regulam. sendo negociada comO mercadoria entre as partes interessadas em vender e comprar. faz então a critica dadistânciá que há entre a promessa ea realidade. n? 31 A fala do poder que constitui . sua essência:e seus fins.

do ponto de vista de quem a controla. a fala que explica pode pender para um lado ou para o outro de uma velha discussão. hoje em dia inútil. a não ser quando serve para revelar o que se esconde por detrás de pensar a educação desta maneira ou daquela. os interesses que pessoas e grupos têm para os seus usos. o que o determina e. mesmo entre educadores. no silêncio do que não diz. PESSOAS "VERSUS" SOCIEDADE: UM DILEMA QUE OCULTA OUTROS •••• . escola. o indivíduo. a classes sociais determinadas. muitas vezes definir a educação e legislar sobre ela implica justamente ocultar a parcialidade destes interesses. negue e renegue o que oficialmente se afirma dela na lei e na teoria. parte do trabalhp de pensá-Ia implica justamente desvendar o que faz com que a educação. etc. ensino. finalmente. Do ponto de vista de quem responde por fazer a educação funcionar. a que e a quem ele serve. mas que não atingiriam a sua perfei· ção (o seu amadurecimento. o seu desenvolvi· mento. a realidade de que eles servem a grupos. e não tanto lia todos". "aos brasi· leiros". a fala que idealiza a educação esconda.) desenvolve potencialidades biopsí· quicas inatas. ou seja.- Quando alguém tenta explicar o que são estes nomes e o que eles misturam: educação. De acordo com as idéias de alguns filósofos e educadores. o ser humano. a educação é um meio pelo qual o homem (a pessoa. Pode até ser que haja formas próprias . "à Nação". etc. Mas a razão de desavenças é anterior e. ela tem alguns fundamentos na diferenca entre modos de compreender o que o ato de ~nsinar afinal é. na realidade.) sem a aprendizagem realizada através da educação. Uma discussão ontem quente. a criança. Pois. como em toda parte.60 Carlos Rodrigues Brandão aqui.

que visa a levar o ser humano a realizar as suas potencialidades fisicas. deve ser realizada' como um serviço coletivo que se presta a cada indivíduo. mas apenas a pensar o ato de aprender do ponto de vista do que acontece do educando para dentro. pensando talvez expressar uma idéia consensual. a Deus. pois. coletivas. na formação do homem de caráter_ A educação é um processo vital.{ toda a espécie de formação que surge da influência espiritual. Consiste. Vejamos: "Educação. assim também a educação. ela de fato repete o ponto de vista das definições anteriores. { atividade criadora. (Herman Horse). a "filosofia"). entre os que pensam assim. morais. desenvolver. conjugadas pela ação consciente do educador e pela vontade livre do educando. emocional e volitivo do homem". Muitas vezes. "O fim da Educação é desenvolver em cada individuo toda a perfeição de que ele seja capaz. ser confundida com o simples desenvolvimento ou crescimento dos seres vivos. . o sistema pedagógico) ou como prática (o ato de educar). para que ele obtenha dela tudo o que precisa para se desenvolver individualmente. não raro. Não importa considerar sob que. define educação. espirituais e intelectuais. editada pelo Ministério de Educação e Cultura. que significa extrair.62 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação superior do ser humano. Não se reduz à preparação para fins exclusiva- 63 de auto-educação. como idéia (a definição. Do latim 'educere'. livre e consciente. para o qual concorrem forças naturais e espirituais. como instituição (a escola. a dimensão subjetiva da educação é ressaltada e. que se está falando quando se escreve um livro sobre "Filosofia da Educação" por exemplo_ Assim como a própria sociedade é um corpo coletivo formado da individualidade das pessoas que a compõem. Quando a Enciclopédia Brasileira de Moral e Civismo. e assim como o seu fim é a felicidade de seus membros a quem todas as suas instituições devem servir." (Sciacca). fisica e mentalmente desenvolvido.. "A Educação não é mais do que o desenvolvimento consciente e livre das faculdades inatas do homem. essencialmente. Não pode. "A Educação é o process(iJ externo de adaptação . condições sociais e através de que recursos e procedimentos externos a pessoa aprende. deve ser pensada em nome da pessoa e." (Kant)." (Krieck). tal como se manifesta no meio intelectual. toma conta de todo o espaço em que o seu processo está sendo pensado. nem com a mera adaptação do individuo ao meio. tirar. mas é de suas práticas interativas (interpessoais).

Uma enfatiza o que acontece da pessoa para dentro. A meio caminho entre um lado e outro. " (Cohn). em todos os aspectos de seu corpo e de sua alma.transmitindo-lhe ao mesmo tempo o patrimônio espiritual da nação e da civilização às quais pertence e conservando a herança secular das gerações. algumas propostas lembram que aquela formação do ser humano. intelectual. mas alguma coisa indicada como "a civili- 6S mente utilitários. a outra o que acontece dela para fora. zação". Procuremos refletir um pouco sobre tudo "Educação é um sentido de valorização individual ." (Maritain). é o resultado de um trabalho intencional.é guiar o homem no desenvolvimento dinâmico. do poder de julgar e das virtudes morais . " Se voltarmos às duas definições de dicionários brasileiros de algumas páginas atrás. de uma agência de educação. Esta ação dirigida ao educando procede de um educador. e das capacidades de comportamento que tornam o indiv(duo adaptável ao seu meio fisico ou social. mas abrange o homem integral. "o meio social" Ou lia sociedade" deve ser o destino do homem educado: "Podemos agora definir de modo mais precioso o objeto da educação. "É a influência deliberada e consciente exercida sobre o ser maleável e inculto.dotada das armas do conhecimento. ou do que existe de educativo no meio sociocultural. individualmente. como eu disse várias páginas atrás. individual. Um pouco ma is perto dos que nos esperam do outro lado desta aparente história de "ovo-e-galinha". em direção à sociedade onde vive e de que aprende. espiritual. segundo as sua~ próprias potenciaI idades e através de seu próprio esforço. estão alguns estudiosos da educação que consideram que não só a pessoa. doméstica e sociál. no curso do qual se constituirá como pessoa humana .64 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação e organizado. " (Wil/iam James). para elevá-Ia. que começa nas origens do ser humano e se estende até à morte.. deliberado aquilo que faz da educação a parte mais motivada da endoculturação. variável em extensão e profundidade para cada individuo e processado pelas riquezas culturais. em toda a extensão de sua vida sensivel. como uma profissão. moral. '~ Educação é a organização dos recursos biológicos individuais." (Kerschensteiner). como um dom artistico. nem para desenvolvimento de caracteristicas parciais da personalidade. regulá-Ia e aperfeiçoá-Ia. com o propósito de formá-lo. É processo continuo. ou seja. veremos que a da Enciclopédia concorda mais com a primeira do que com a segunda.

não é o que foi dito. mas o que ficou oculto: a) ou porque quem disse não sabe de onde vem a educação. E próprio de elites separadas do trabalho produtivo . que serve tanto a igualar quanto a diferenciar as pessoas de acordo com projetos de usos do saber situados fora dos sonhos do educador. Os índios e os camponeses 'realizam. b) ou porque quem disse sabe. no modo como ensinam o que é importante para alguém aprender. quem poderia negar que a educação deve servir ao homem. Não é sempre e não são todos os povos e homens que consideram a educação apenas como o que vimos até aqui. situados de um lado e do outro da educação? Na verdade. Na verdade esta é uma maneira de "imaginar" característica da nobreza de todos os povos em que ela existiu. Werner Jaeger lembra uma coisa muito importante. através do saber que forma a consciência que pensa o mundo e qualifica o trabalho do homem educado. Afinal. Como é poss ível compreen- . onde por sobre o trabalho de muitos aparece a elite dominante de uns poucos. sem pensá-Ia dentro dos mundos reais onde acontecem as trocas também reais entre os homens. procura separar o que a educação é. dQ que as pessoas dizem dela. torná-lo melhor. Jaeger não entra no mérito da veracidade de algumas idéias sobre a educação. verdadeiros homens de carne e osso. do mesmo modo como algumas feitas nos primeiros capítulos. e para elas . aqui. que educa transmitindo de uns a outros crenças e valores sociais. o que ela é em cada mundo rea\1 e o que faz. os seus mecan ismos e os seus usos. Esta é a maneira natural dos povos primitivos. Mas o que Werner Jaeger diz é que justamente nas formações sociais mais desenvolvidas. desenvolver nele tudo. Ao discutir os ideais da educação entre os gregos. o que tem. em todos os tempos.66 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação der alguma coisa que se passa entre relações sociais de categorias de homens. mesmo quando eles não sabem explicar isto com teorias compl icadas. ou de grupos sociais determinados. e tudo a que tem direito? Quero insistir em que muitas vezes o que se critica em quem apresenta a educação.ou dos intelectuais que pensam o mundo por elas. surge com o tempo a idéia de uma educação que deve servir 67 isto. a consciência de que o saber que se transmite de um ao outro deve servir de algum modo a todos. quem descobriu que na prática o "fim da educação" são os interesses da sociedade. de fato. tal como ela apareceu até aqui. Esta crítica. tratarem a educação de suas crianças. mas explica a educação justamente para negar a sua origem. com quem estivemos até há pouco. deve servir para educá·lo. não foram filósofos do passado ou cientistas sociais de hoje.~ propor como educação a formação da personaIidade humana através do conselho sistemático e da direção espiritual.

a arte. desvinculada da idéia de que eles existem dentro de grupos ou mundos sociais. é a partir deste universo de idéias puras que a educação afinal é pensada como o exercício do educador sobre a alma do educando. cada vez mais. o mundo e as relações concretas entre o mundo e os homens. O homem que aprende busca na sabedoria a perfeição que ajuda à salvação da alma. Mas não é o Cristianismo Primitivo quem sugere a "educação humanista". uma apren· dizagem feita durante um longo período de ócio nobre (separação do trabalho braçal). e a seu serviço. Esta elite ociosa e seus intelectuais sacerdotes. ' No mundo ocidental. que viviam do trabalho de escravos estrangeiros e que. a ciência e até mesmo a educação. participavam da direção da cidade. assim. Tornando-a o repertório de símbolos e valores pelos quais representavam. por mais louvável que seja. filósofos e artistas puderam imaginar como "puras" a vida. faz pensar. para a formação do homem político. O que à distáncia poderia parecer a formação do ocioso era. na verdade. depois. legitimavam. representavam-se nele e. para si própria e para as outras classes.para que surgisse uma classe de gente capaz de representar o mundo quase fora dele. afinal. de que os cursos de "humani- . A educação grega e. constrói sistemas de pensamento) sem representar coisa alguma de real. Entre os gregos. procurava desenvolver o corpo e a inteligência para formar homens fortes e sábios destinados à defesa e à pol ítica da comunidade.o mundo. fazendo dela parte de sua ideologia. ou de uni ocultamento de que. com as palavras originalmente dirigidas a pobres e deserdados. a educação é uma prática social entre outras.68 Carlos Rodrigues Brandão o que é EducUfão dades" que houve no Brasil até há pouco tempo são o melhor exemplo. 69 a alguns homens individualmente. Esta maneira de compreender para que serve a educação é' decorrência de um "esquecimento". Foi necessário que. Foi então preciso o advento de uma nobreza plenamente separada do trabalho produtivo e. sem conseguir explicar mais. quando adultos. o que são de fato os homens. até mesmo do trabalho político entregue nas mãos de intelectuais mediadores de seus interesses . o Estado cristianizado e as elites de sua sociedade tomassem posse da mensagem cristã de militáncia e salvação. a sua posição de domínio econômico e de hegemonia pol ítica sobre eles. Ela começa a representar realmente alguma coisa (pensa. a de Roma preocupavam-se em formar o cidadão e eram. é depois do advento e da difusão do Cristianismo que aparecem idéias sobre a educação que isolam o saber da sociedade e o submetem ao destino individual do cristão. vimos que a educação dos jovens nobres. portanto. educações da e para a comunidade. a partir de Roma. Ora.

O que existe de fato são exigências sociais de formação de tipos concretos de pessoas na e para a sociedade. modos próprios de educar . se destina. desenvolvendo neles o saber de valores e qualidades humanas tão idealmente universais que apenas exjstem como imaginação "A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social.necessários à vida e à reprodução da ordem de cada tipo de sociedade. por meio da inculcação de tipos de saber. Se o fim da educação é desenvolver no homem toda a perfeição de que ele é capaz. intelectuais e morais reclamados pela sociedade polltica no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança. Depois de . São. de modo abstrato e muito amplo. reproduz tipos de sujeitos sociais. foi formulada com muita clareza pelo sociólogo francês Emile Durkheim." (Durkheim) Entre muitas outras. 71 com o propósito de purificá-Ia do mal que existe na ignorância do saber que conduz à salvação. . tem por objeto suscitar e desenvolver na criança certo número de estados flsicos. diferentes de uma cultura para outra . com a "civilização". em cada momento de sua história. E falso pretender que a educação trabalhe o corpo e a inteligência de sujeitos soltos. O que ocorre é que ela é inevitavelmente uma prática soCial que. desancorados de seu contexto social na cabeça do filósofo e do educador. um compromisso com a "cultura". esta é uma maneira sociológica de compreender a educação. Da Antigüidade decadente à Idade Média. foi preciso esperar muitos séculos para que de novo os brancos civilizados aprendessem a repensar a educação como os índios. que "perfeição" é esta? De onde é que ela procede? Quem a define e a quem serve? Por que. como compromisso.70 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação em toda parte e não existem como realidade (como vida concreta. da Idade Média ao Renascimento (um tempo da História rico em redefinições da idéia de educação) e do Renascimento à Idade Moderna. particularmente. nos últimos anos do século passado. ou que ela tem um vago "fim social". como trabalho produtivo.por isso. Ele sacode a poeira de um assunto que só aos poucos foi recolocado na Europa de seu tempo. e que os aperfeiçoe para "si próprios". como relações sociais) em parte alguma. portanto. Não se trata de dizer que a educação tem. E uma nova maneira de definir a educação como uma prática social cuja origem e destino são a sociedade e a cultura. afinal. ideais de perfeição são tão diversos de uma cultura para outra? E falso imaginar uma educação que não parte da vida real: da vida tal como existe e do homem tal como ele é. também.

pode ocultar o interesse pol ítico de usar a educação como uma arma de controle.. antropólogos. menos abstrata e desancorada do que a "Educação Humanista" que criticavam. filósofos e educadores começaram a formular pontos de vista semelhantes. pode se dividir em idéias opostas. Não é que eles tives· sem a proposta de uma "nova educação".. O que eles buscaram fazer foi esclarecer mais e mais como a sociedade e a cultura são e funcionam. Vamos por partes. A idéia de que não existe coisa alguma de social na educação. tal como vimos antes. o serviço militar) cujo fim é o -desenvolvimento do que na pessoa humana pode ser aprendido entre os tipos de saber existentes em uma cultura.••.72 Carlos Rodrigues Brandão Durkheim (que. a educação existe dentro delas e funciona sob a determinação de exigências. ela é "pura" e não deve ser corrompida por interesses e controles sociais. SOCIEDADE CONTRA ESTADO: CLASSE E EDUCAÇÃO . na realidade. Até aqui chegamos: a educação é uma prática social (como a saúde pública. de que. a comunicação social. e dizer que ela não tem nada a ver com isso _ Mas o desvendamento de que a educação é uma prática social pode ser também feito numa direção ou noutra e. portanto. Como. quem sabe?.. portanto.sua vez. como a arte. princípios e contro les socia is. para a formação . com alguns índios) inúmeros sociólogos. situadas de um lado ou do outro da questão. por. aprendeu isso com outros cientistas anteriores e.

a forma de ordem social que constroem para conviver. Assim. Por outro lado.. 2) no desenvolvimento de seus valores culturais. que se deve entender pelo termo perfeição?" Ele quer perguntar o seguinte: quem afinal estabelece os ideais e os princípios da educação? . criado e posto a funcionar. em um momento da história de seu próprio desenvolvimento. duma classe as idéias quanto as normas. IOmile Durkheim perguntava a pensadores da educação que considerava ilustres. assim. o modo como tipos diferentes de sujeitos ocupam diferentes posições sociais. Determina também como e para quê este ou aquele tipo de educação é pensado. como um grupo étnico ou um Estado. a educação atua sobre a vida e o crescimento da sociedade ·em dois sentidos: 1) no desenvolvimento de suas forças produtivas. quer se trate dum agregado mais vasto. A maneira como os homens se organizam para produzir os bens com que reproduzem a vida.74 Carlos Rodrigues Brandâo o que é Educaçâo ou duma profissão. O caráter da comunidade imprime-se em cada um dos seus membros e é no homem . Ao fazer a sua crítica. tanto 75 de tipos de sUJeitos. . de acordo com as necessi· dades e exigências de sua sociedade. Em nenhuma parte o influxo da comunidade nos seus membros tem maior força que no esforço constante de educar. fonte de toda a ação e de todo o componamento.e do desenvolvimento deles. tudo isso determina o repertório de idéias e o conjunto de normas com que uma sociedade rege a sua vida. Não procurei inventar uma nova definição. princípios. Toda a estrutura da sociedade está fundada sobre códigos sociais de inter-relação entre os seus membros e entre eles e os de outras sociedades." (Werner Jaeger). a Hforma" e o limado" de que falei acima. dos dois historiadores da educação de cujos livros aprendi quase tudo o que disse sobre Grécia e Roma. São costumes. a educação não é uma propriedade individual. o surgimento de tipos de educação e a sua evolução dependem da presença de fatores sociais determinantes. muito mais que nos animais. em conformidade com o seu próprio sentir. quer se trate da família. "A educação é. mas ingênuos: que "perfeição" é essa? "Mas. cada nova geração. porque delas acho que já há demais. regras de modos de ser às vezes fixados em leis escritas ou não." Como outras práticas sociais constitutivas. o resultado da consciência viva duma norma que rege uma comunidade humana. Procurei reunir as idéias correntes entre 'os que concebem a educação como Durkheim. um deles dirá o seguinte: "Primeiro que tudo. os sistemas e os métodos de um tipo de educação são modificados. de suas transformações. Quando são transformados a "maneira". mas pertence por essência à comunidade.

a portuguesa colon ialista do século XVII. mais organizados em projetos e programas pedagógicos. maneira. são pensados a partir das idéias fundamentais de todos os tipos 77 Uns e outros são universais? Existiram para todos os povos em todos os tempos. e que restringem as velocidades dos dissidentes. classes e grupos. de serviços. a da Alemanha medieval ou mesmo a de uma aldeia de camponeses. cada tipo de sociedade real.C.. possui um sistema de educação q. E arremataria: "Na verdade. a pergunta que ele fez aos outros? Quando fala de sociedade e. já que cada tipo de sociedade . não há. em posições especiais de privilégio. de hegemonia e de controle sobre outros. a cada momento. pelo fato de que e sempre a m~m. pois. às vezes muito minoritários. o que é "cada sociedade considerada em um momento determinado de seu desenvolvimento"? E preciso reforçar algumas perguntas e fazer outras. uma "educação ideal.a "tribal" de índios Gê do Brasil Central. nos sistemas mais oficiais. em determinadas sociedades concretas. apropriada a todos os homens. cada sociedade. a indiana do V século A. cria . dentro dela. "eada sociedade" existe e funciona como um todo orgânico e harmônico. não existirão classes sociais capazes de impor uma educação que fazem criar e existir? Para seu uso próprio e por sobre outras classes e grupos socia is (mais do que "em nome deles"). Até aí tudo bem. ou deveria haver. porém. Afinal. ' . perfeita..76 Carlos Rodrigues Brandão r o que é Educação não nos podemos separar sem vivas resistências.ue ~e impõe aos indivíduos de modo geralmente ITreSISt(vel. E uma ilusão acreditar que podemos educar nossOs filhos como queremos . histórica. mesmo. de poder e de idéias entre os seus integrantes? Ele responderia com segurança: "cada uma". a do Brasil "pós-64" inventa e faz a sua educação ou as suas educações. Assino embaixo. de sociedades concretas. " No entanto. ou algumas vezes mal-intensionada?) de que há. de uma mesma . Mas será que não poderíamos fazer a Durkheim.a a "essência do homem"? Pode ou deve eXistir uma espécie de "educação universal"? Durkheim conclui que não. . um tipo regulador de educação do qual . E conclui que o ponto fraco das idéias pedagógicas que avaliou está na crença ilusória (ilusória sempre. regidas por que modos e mecanismos Internos de produção de bens. perguntando de outra maneira. leitor. que resolvem por sua conta como será e para quê servirá a "educação oficial"? Ou. do que está falando? Que tipo de soc!edades. indistintamente". Há. considerada em momento determinado de seu desenvolvimento. a chinesa após a revoluçã~ socialista.e impõe o tipO de educação de que necessita. fundado sobre a igualdade entre todos e o consenso de todos? Dentro dela.

pode . Este modo de imaginar tende a ser dominante atualmente. . A idéia de que a educação não serve apenas à sociedade. mas à mudança social e à formação conseqüente de sujeitos e agentes na/da mudança social. a proposta pode ser formulada assim: "Educação é preparação da criança para uma civilização em mudança" (Kilpatrik). ou à pessoa na sociedade. só pode ser eficaz uma educação para a mudança. Mas ele não fazia sentido para gregos e romanos e nem mesmo para os portugueses e missionários que tentaram educar nosSOS antepassados durante a Colônia. ou enfatizam este objetivo do ato de ensinar. Mas as suas conseqüências podem aparecer indiretamente. ao engenheiro e ao capitalista imobiliário do mesmo modo (como as leis brasileiras de ensino garantem que sim e os professores críticos garantem qu~ não)? Uma educação ensina o saber da "comunIdade nacional" a todos. conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e já citada neste livro. Afinal. na cultura. uma prática social de reprodução de categorias de saber através da formação de tipos de sujeitos educados. preparação para o trabalho e para o exercício consciente da cidadania". Por exemplo. Esta (educação! consiste na formação do espírito isento de todo dogmatismo. e segundo os mesmos direitos individuais de todas as categorias de seus "adultos educados"? Ora entre os que colocam "sociedade e cultura" no me'io da questão da educação. Entre estes últimos. e que se transforma. os fins da educacão acrescentam a formação para o trabalho.78 Carlos Rodrigues Brandão r o que é Educação não estar escrita de maneira direta nas "leis do ensino". Outros projetam e defendem a necessidade deste ou daquele tipo de educação para este ou aquele tipo de sociedade.692. . ou assim: "Em uma sociedade dinâmica como a nossa. mais do que as leis anteriores: "O ensino de I? e 2? graus tem por objetivo gerai proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de auto-realização. as leis quase sempre são escritas por quem pensa que nem elas nem o mundo vão mudar um dia. na Lei 5. pelo menos. um dos recursos de adaptação das pessoas a um "mul)do em mudança". um pensamento mUito corrente hoje em dia é o de que a educação é um dos principais meios de realização de mudança social ou. alguns pesquisam e apenas reconhecem que ela é. Quando a idéia de educacão vem associada à de adaptação para alguma coisa externa à pessoa. para os mesmos usos sociais. que capacite a pes- 79 de pessoas? As mesmas escolas servem ao operário.

que o rumo e a veloCidade das transformações do mundo moderno exigem cada vez mais. tanto da experiência pessoal quanto da vida social. qualquer que seja a etapa de existência que esteja vivendo. ainda é sempre o mesmo e já é sempre um outro. não se pode admitir que o homem se satisfaça durante toda a vida com o que aprendeu durante uns poucos anos.80 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação 81 soa para elevar·se acima da corrente dos acon· tecimentos. em que progridem ciência e suas aplicações tecnológicas cada dia mais. numa época em que estava profun· damente imaturo.. por exemplo. afinal. como um duplo processo de aprofundamento. O primeiro imperativo que deve preencher a Educação Permanente é a necessidade que todos nós temos de sempre aperfeiçoar a nossa formação profissional. de todos os homens." (Mannheim) Um outro nome para a educação pode ser até mesmo sugerido. Num mundo como o nosso. . uma constante reciclagem de conhecimentos e uma contínua readaptação a um mundo que. "A Educação Permanente é uma concepção dialé· tica da educação. Deve informar·se. aperfeiçoar a sua destreza. quando se constata. ao invés de arrastar·se por eles. documen· tar·se. ativa e responsável de cada sujeito envolvido. de maneira a . que se traduz pela parti· cipação efetiva. .

de se perderem. "Se educaçaã é transformação de uma realidade. que conserva. a educação era prescrita como um direito da pessoa. as tradições.82 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação formar a sociedade. e tudo o que tem o poder de alterar a qualidade da consciência e do trabalho. resultará que pedagogia é a ciência de trans- inventarem pol(ticas de desenvolvimento. a educação era pensada como alguma coisa que preserva. quando pol íticos e cientistas começaram a chamar a "mudança" de "desenvolvimento" (desenvolvimento social. um direito apenas. sem que haja a lembrança de que ela própria é determinada por estas estruturas. Ao contrário. Mas só um pouco mais tarde. será mestre quem continuar aprendendo. ou como uma exigência da sociedade. esta'11os diante de pequeno acesso de "utopismo pedagógico". econômicas ou culturais. O dom(nio de uma profissão não exclui o seu aperfeiçoamento. ela própria. socioeconômico. e deixa também de ser percebida como um meio apenas de adaptação da pessoa à mudança que se faz sem ela. tem o poder de participar de sua práxis e de ser parte dela. nacional. Nada se faz entre os homens sem a consciência e o trabalho dos homens. Antes de se 83 se tornar mestre da sua práxis. o trabalho de transformar a sociedade. como os de saúde. que resguarda justamente de se mudarem. No entanto. Tem sido um costume desde pelo menos as primeiras décadas do século. é que foi lembrado que a educação deveria associar-se a ele também. Quando este tipo de proposta considera a educação como uma entre outras práticas sociais cujo efeito sobre as pessoas cria condições necessárias para a realização de transformações indispensáveis. a proposta de uma educação apareça armada do poder de realizar. Pessoas educadas (qualificadas como "mão-de-obra" e motivadas enquanto "sujeitos ·do processo") são. e que apenas a afeta depois de feita." (Ortega V Gasset) Associar "educação" a "mudança" não é novidade.). A educação deixa finalmente de ser vista como um privilégio. regional. os costumes e os valores de "um povo". Este foi o momento de uma transição importante. agentes de mudança. quando a educação é imaginada . Um investimento como outros. e se a educação só pode ser de caráter social. de comunidades. aqui e ali. de acordo com uma idéia melhor que possu(mos. "uma cultura" ou "uma civilização". a sugestão é aceitável e rea lista." (Pierre Furter) Não será estranho que. Antes de se difundirem pelo mundo idéias de mudança e de necessidade de mudança social. mas nunca como um investimento. transporte e agricultura. etc. promotores do .agora pelo utopista social .como o único ou principal instrumento de qualquer tipo de transformação de estruturas políticas.

a educação desempenha a tarefa de preparar para o trabalho. Esta é a crítica que tem sido feita por cientistas e educadores que." (SAGMACS . em nome de quem e para quê? A variação da maneira como o triângulo educação-ensino-escola tem sido formulado no Brasil pelas pessoas que possuam o poder direto ou indireto de determinar como ele vai existir. Ora. Arrancadas que. "Salienta-se. . mais do que cultos. sem deixarem de reconhecer com Durkheim que a educação existe na sociedade. reduzem o seu compromisso aristocrata com a "pura" formação da personalidade e inscrevem o ato de educar entre as práticas pol ítico-econômicas das "arrancadas para o desenvolvimento".. às veses mais útil do que comprar e discutir o conteúdo de estilos diferentes de definições ou propostas de tipos de educação. de acordo com projetos e interesses de reprodução do capital. agentes. Não é raro que em alguns países se defenda então que as propostas básicas da educação venham quase prontas do Ministério do Planejamento para o da Educação. De multiplicação dos ganhos das empresas capitalistas.educação e planejamento) 111 nvestimento". há muitos séculos. Ilpreparação para o trabalho". Até há alguns anos atrás o universo da educação estava dividido por aqui tal como na Grécia e em Roma. "mão-de-obra". é procurar ver de onde eles vêm. procuram compreender como ela existe a í e sob que condições é praticada contra o homem ou a seu favor. dá o que pensar. As 8S desenvolvimento. que a educação deve ser pensada e programada. Ao lado da formação da personalidade. no entanto.84 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação emprego de uma força de trabalho "adequadamente qualificada" misturam a educação antiga da oficina com a da escola. Quem diz. são os nomes que denunciam o momento em que os interesses pol íticos de . "capacidades técnicas adequadas". .. da preparação necessária de cada cidadão para assumir as obrigações sociais e polfticas. e é para torná-los. "A Educação é hoje considerada como um fator de mudanças: um dos principais instrumentos de intervenção na realidade social com vistas a garantir a evolução econômica e a evolução social e dar continuidade à mudança no sentido desejado . um aspecto em que a educação representa investimento a curto prazo: é quando ela desempenha função de formação de mão-de-obra. nas sociedades capitalistas são de modo geral estratégias de reorganização de toda a vida social. dentro da cultura. e influi substancialmente na criação de novos quadros de mão-de-obra com capacidades técnicas adequadas' aos novos processos produtivos que o desenvolvimento introduz criando novos mercados de trabalho.

ferreiros. só tem 60 anos. algumas custavam caro e as poucas crianças pobres que aprendiam "de graça" aprendiam nos arfa· natos ou nos anexos dos colégios religiosos. Eram engenheiros práticos: estes escravos calculavam a construção de um sobrado fi o construiam. mesmo que por poucos anos. Literatura e Música para os que chegavam até depois dos estudos primários. Isto ocorreu até a metade do século passado com sobrados que chegam até nossos dias e foram construidos por esteS engenheiros (toda a parte de taipa. Os escravos e os filhos dos deserdados da for· tuna . até entre os mais ricos eram raras as pessoas que faziam algum curso superior.86 Carlos Rodrigues Brandiio o que é Educação porque "sem cultura". Uma era a da escola. Havia poucas faculdades isoladas e a nossa universidade mais antiga. Eram pagas. a de São Paulo. que ensinavam Latim. portanto. . sobre a cidade de Campinas. em São Paulo) Nas primeiras décadas deste século.lavradores livres. Mesmo nas três primeiras décadas deste século. Havia. ourives. A velha Igreja do Carmo foi feita só por 'mestres carapinas'. Resultou no reconhecimento pai ítico do direito de estudar 87 crianças filhas de pais "das boas famílias" iam às escolas. misturada com a da vida. destinada pelos ossos do ofício aos filhos "da pobreza". artistas pobres. queria dizer carpinteiro. havia cursos. mineradores. pol íticos e educadores liberais trouxeram idéias novas para a educação no país. Analfabetos "de pai e mãe". artesãos aprendiam "no ofício". como muitos outros prédios cujos construtores podem ser identificados ainda hoje. fora o ensino de primeiras letras. estes homens "rudes". razão por que o país tinha. Outra era a da oficina. "Mestre carapina. eram particulares. carapinas. sendo que os engenheiros graduados só chegavam na fase final para terminar a construção. A "luta pela democratização do ensino" resultou na escola pública. sempre não profissionalizantes. destinada aos filhos das "gentes de bem". Rara vez um deles alisava com o traseiro magro o banco de madeira de alguma eséola. Grego. " (Celso Maria de Mello Pupo. Ali.todo o mundo. pedreiros. mas sua atividade não se circunscrevia apenas a este of/cio. fizeram a riqueza e as obras do pa ís e de cada uma de suas cidades. um dos maiores índices de analfabetismo em. Entre outras coisas eles começaram a falar de uma escola mais dirigida à vida de todo dia e mais estendida a todas as pessoas. mas sábios do saber que faz o trabalho produtivo. de acordo com a visão das elites. ricas ou pobres. mas excelentes lavradores. As escolas . conhecido na história da cidade. "abertas" por professores avulsos ou pelas ordens religiosas. armação do telhado de grande dimensão). duas educações em curso. até há poucos anos.

adaptan· do·o à realidade de novos tempos e a novos mode· los de controle do exercício da cidadania e de preparação de "quadros" qualificados para o trabalho das fábricas. traduziam ao mesmo tempo o imaginário democrático de seu tempo e. o que eu quero ressaltar é que esses pol (ticos e educa· dores liberais . a democracia. a mudança. porque eram as idéias que traduziam os interesses de preservação de um tipo de ordem social inadequada no Brasil. De outro lado ficaram os que falavam em nome das novas elites capitalistas. cientistas sociais) constitu ídos e sustentados. mesmo nas escolas públ icas. legisladores. Eles subs· titu íam outros intelectuais. e que não tinham mais lugar nem poder. o projeto polltico que servia aos interesses de novos donos do poder e da eco· nomia. a idéia de que. sem saber muitas vezes que as suas idéias apenas consolidavam outros projetos pai (ticos para a educação. diante das mudanças aos poucos havidas nas relações de produção de bens e de poder. oferecido peio governo. o ensino escolar era inadequado. De um lado ficaram os que falavam em nome das elites agrárias tradicionalistas e acostumadas a padrões ultrapassados de dom(nio pai (tico. tal como aconteceu em outros setores da sociedade brasileira. Indústrias que primeiro o capital brasileiro e.alguns deles sem dúvida lúcidos e bem·intencionados . Quando as exigências de ordem e trabalho do capital redefiniram aos poucos a vida e o trabalho. Há quem diga que isto foi o resultado de um confronto entre "liberais" e "conservadores" na pol(tica. . um confronto que invadiu a questão da educação. através de escolas gratuitas. as i"novações propostas para a educação propiciaram novos tipos de usos pai (ticos de todo o aparato pedagógico.ao pregarem idéias de uma educação voltada para a vida. e de poder e pessoas do campo para a cidade. Por outra o pa ís ingressa enfim em tempos de transferência do capital da agricultura para a indústria. No entanto. atentas a novos tempos e problemas que batiam nas portas do mundo e do Brasil. aqueles cujas idéias pedagógicas serviram aos interesses pol(ticos dominantes de outros tempos. o progresso.88 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação Como tipos de intelectuais (educadores. Não servia para preparar o cidadão para a vida nem para preparar o trabalhador para o trabalho. filó' safas. E. por outro lado. de ensino leigo. depois. Por uma porta os filhos dos pobres começam a entrar nas escolas públicas. em qualquer um dos seus níveis. quase todos os militantes de uma nova educação souberam lutar com entu· siasmo por torná·la mais aberta e democrática por dentro e por fora. pelos novos donos do poder. o internacional. Então pai íticos e educadores começam a chamar a atenção para a evidência de que. comeÇaram a semear pelo país. além de uma 89 para todas as pessoas. direta ou indiretamente.

Em um dos mais importantes estudos elaborados sobre o assunto. limite dos estudos para os filhos do povo desti· nados. de onde saiu o modelo de nossa educação. aos padrões do trabalho operário.uma divisão entre duas redes "heterogêneas . sem esquecer de fazer alarde em festa de formatura quando algum filho de operário consegue sair formado da Faculdade de Engenharia. leitor. Não é reconhecida como existente e deter· minante do sistema pedagógico francês pelos seus ideólogos. opostas .. embora haja muitas delas em nosso mundo. não fez mais do que trazer para dentro dos muros do colégio a divisão anterior entre o aprender·na·oficina para o trabalho subalterno e o aprender·na·escola para o trabalho dominante. primário·profissional. O tipo de formação social onde nós vivemos não é como o de uma pequena aldeia tribal. associado a uma redefinição do ensino escolar em direção ao trabalho produ· tivo. a algumas páginas do começo desta conversa sobre ensinar·e·aprender.. Outra rede é a de tipo 55. mesmo nos Estados Unidos. Mas é através do que separa e de como separa quem entra e quem sai das escolas que a educação capitalista cumpre a sua função de reproduzir e consagrar a desigualdade.. a educação tinha compromissos para com a vida social e o trabalho produtivo passou a figurar entre leis e projetos de escolarização no país. Algumas pesquisas de sociólogos americanos. será a educação que serve a ele? Que serve pelo menos também a ele? Este é o momento de voltarmos juntos.. também por ela. secundário· ·superior.90 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação nicas". Christian Baudelot e Roger Establet.aquele que é proclamado como democraticamente aberto a todos . antagô- Então. o . a educação da socie· dade capitalista avançada reproduz na moita e consagra a desigualdade social. destinada aos filhos dos ricos. afirmando que existe como um instrumento democrático de produção da igualdade social através do acesso ao saber. que arranca o menino proletário da oficina e o deseja pelo menos por alguns anos na escola. às pontes·de·comando do trabalho "superior". um projeto teórico de reprodução da igualdade. Apesar de ser. 91 vaga "personalidade do educando". não é oficialmente aceita. também por ela. como na Grécia. também lá. o filho do operário estuda para ser o operário que acaba sendo. confirmam que. dois franceses. realizadas desde a década de 50. demonstram que a escola capitalista francesa superpõe ao sistema oficial de ensino . e o filho do médico para ser médico ou engenheiro. Uma rede é a de tipo PP. lO claro que esta oposição real. Não é sequer. que existe sob uma unidade proclamada. esta educação que incorpora o povo ao ensino oficial. enviados. Este progressivo ingresso da criança pobre nas salas das escolas.

Dentro de um tipo de ordem social assim dividida. por sua vez. Ela não vale mais pelo que é e pelo que representa para as pessoas. Esta é uma afirmação comum hoje em dia entre os que pensam sobre a educação sem se iludirem com as condições de sua existência real. Em um estudo sobre "a educação como processo social". A educação vale como um bem de mercado. a educação (como tantas outras coisas da vida e dos sonhos de todos os homens) perde a sua dimensão de um bem de uso e ganha a de 'um bem de troca. d) não é acreditada como criadora de um possível "mundo melhor". Ora. ou seja. de direito. de propriedade. Vale como 93 lugar da polís. de saúde e até de educação. 10 também uma crítica que se confirma a todo momento. dentro de uma ordem social regida por um sistema amplo e muito complexo de relações de produção entre tipos de meios e produtores. "exceto nas áreas em que os grupos dominantes desejam a mudança". serviços e normas que servem em conjunto para manter coesa e.92 Carlos ROdrigues Brandão o que é EduCtlção inclusive por meio de dados estatísticos. a não ser quando "outras forças também operam como agências de mudanças". Embora possa ser fatigante e parecer agressivo. aquela ordem em que ele se multiplica. . que se costuma chamar de modo de produção capitalista. seja quase tudo o mais que acontece por aqui. sem levar em conta que são tipos de trocas regidos pela oposição entre o capital e o trabalho. Ela não vale só para um país de economia pobre e dependente como o nosso. Vale também para os países de economia desenvolvida. ou seja. que repartem entre si a propriedade e o controle direto dos meios de produção dos bens de que se nutrem as pessoas e seu mundo. "na periferia do sistema capitalista". se possível. situado. é muito pouco real pensar. Vivemos aqui. onde pelo menos nos melhores tempos vigora a democracia de todos os cidadãos livres. em seu proveito. grupos nacionais ou estrangeiros. hoje. por toda parte. pode atuar como um agente interno de mudanças sociais. concentram entre si o poder de constituírem. c) na melhor das hipóteses. mesmo que ela seja sustentada pelo trabalho dos escravos. capaz de provocar por sua conta mudanças significativas. e por isso é paga e às vezes custa caro. os da "metrópole" do sistema. reproduz serviços e normas de segurança. em sociedades como a nossa. o tipo de Estado que. Não é mais um dom do fazer que existe no ensinar o saber que é um outro dom de todos e que a todos serve. em relativa paz a ordem social de que se nutre o capital. como diriam os economistas. b) é dirigida de modo a impedir mudanças significativas. o norte-americano Wilbur Brookover concluiu que em seu país a educação: a) tem o seu controle situado em mãos "de elementos conservadores da sociedade". seja a educação. não como um agente externo.

Esta é a sua dupla dimensão de valor capitalista: a) valer como alguma coisa cuja posse se detém para uso próprio ou . A educação que chega à favela. pelo poder de difusão das idéias de quem controla o seu exercicio. "política de educação". pensada como uma "filosofia" ou uma. Quando. Os pais favelados dos alunos são convocados a matricular os seus filhos. chega prqnta na escola. Mesmo que fossem.ticos postos sobre a educação. o que parece inacreditável faz parte da própria lógica do modo como a. em principio. de que o· estado assume a responsabilidade de distribuição em nome de todos. educação existe na sociedade desiguat.94 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação 9S um instrumento cujos segredos se programam nos gabinetes onde estão os emissários dos intermediários dos interesses pol. no livro e na lição. ela se apresenta juridiCamente como um bem de todos. Então. são de algum modo consultadas sobre como ela deveria ser. das classes sociais subalternas. que se vende e compra. por exemplo. Não são convocados.de grupos reduzidos. b) valer como um instrumento de controle das pessoas. como se aquilo fosse um posto de recrutamento. as suas idéias por certo não sairiam do caderno de anotações da diretoria. a debaterem com os professores como eles pensam que a escola da favela poderia ser uma verdadeira agência de serviços à sua gente. Mas não são só os A autoridade do mestre na educação dita democrática . Mas sequer as pessoas a quem a educação serve.

Mas não têm nem o direito nem o poder de participarem das decisões pol ítico-pedagógicas sobre a educação que praticam. e que é a alma dos conteúdos de seu ensino. 97 pais e as crianças faveladas os que não têm direitos de pensa r na educação da favela. fi • • • •• . Afirmar como idéia o que nega como prática é o que move o mecanismo da educacão autoritária na sociedade desigual. quanto mais a educação autoritária e classicista é expressão de um poder autoritário de üm~ sociedade classista. Estas afirmações teóricas ocultam o fato real de q. Mesmo os cidadãos ricos e letrados não tem poder algum sobre as idéias que determinam a educação de seus filhos. Poucos espaços de trabalho social são hoje. exercida em nome de. diretores de escola. A ideologia que fala através das leis. leis legítimas e "para o bem de todos". decretos e projetos da educação autoritária nega acima de tudo que ela seja uma pedagogia contra o homem .96 Carlos Rodrigues Brandíio o qUe é Educação Por isso há "leis do ensino" que afirmam com fé de oficio os valores de uma suposta democracia feita através da educação. . e a imensa massa dos próprio educadores da linha de frente do trabalho pedagógico (professores. tanto mais ela procura apresentar-se como uma prática humanamente legitima. orientadores. E. liberdade que existe através da verdadeira igualdade entre os homens. como a educação. supervisores educacionais) têm o poder do exercício da reprodução das idéias prontas sobre a educação e dos conteúdos impostos à educação.contra a verdadeira liberdade do homem através do saber. Elas estão reservadas aos donos do poder pol ítico e às pequenas confrarias de intelectuais constituídas como seus porta-vozes pedagógicos.ue o exercício desta educação consagra a deSigualdade que deveria destruir. tão pouco comunitários e democratizados entre os seus diferentes praticantes. em qualquer tipo de ordem social.

pode ser mais adiante refeita de outro.o que é Educação é inevitável". alguns deles podem servir ao trabalho de construir um outro tipo de mundo". e permitindo que minorias reduzidas cheguem ao seu limite superior. aqui mesmo. na prática do seu dia a dia. trabalhando como educadores junto a educadores de países como a Guiné·Bissau e as ilhas de São Tomé e Príncipe. ora de "educação do opressor". O mais importante nesta palavra. Muitas vezes um dos esforços mais persistentes em Paulo Freire é um dos menos lembrados. deixan· do no limite inferior de seu mundo os que são para ficar no limite inferior do mundo do trabalho (os operários e filhos de operários). até oposto. que ora chamou também de "educação bancária". por que não forçar O poder de pensar e colocar em prática uma outra educação? A resposta mais simples é: "porque a educação . da educação que existe no sistema escolar criado e controlado por um sistema pol í· tico dominante? Se na sociedade desigual ela reproduz e consagra a desigualdade social. em outro pode seryir à criação da igualdade entre os homens e à pregação da liberdade". melhor seria: "porque a educação sobrevive aos sistemas e. diverso. ele sempre quis desarmá·la da idéia de que ela é maior do que o homem. por que acreditar ainda na educação? Se ela pensa e faz pensarem o oposto do que é. diferente. mais do que só a educação. educandos e educadores diretos. se em um ela serve à reprodução da desigualdade e à difusão de idéias que legitimam a opressão. que se haviam tornado independentes de Portugal e tratavam de reinventar. "reinventar". Ao fazer a crítica da educação capi· talista. De que as pessoas são um pro· 99 A ESPERANÇA NA EDUCAÇÃO Se a educação é determinada fora do poder de controle comunitário dos seus praticantes. Uma outra. "Reiventar a educação" é uma expressão cara a Paulo Freire e aos seus companheiros do Instituto de Desenvolvimento e Ação Cultural. por que parti· cipar dela. se em algum lugar foi feita um dia de um modo. Uma outra ainda pode· ria ser: "porque a educação existe de mais modos do que se pensa e. a sua própria vida social. é a idéia de que a educação é uma invenção humana e. De algum modo eles a aprenderam na África.

Por isso. imutável e assim por diante. A educação ex iste em toda parte e faz parte dela existir entre opostos. "oficial". sagrada. Nas ''zonas libertadas" durante as lutas contra o colonialismo. 10 preciso acreditar que. Para que ninguém levante um gesto de critica contra ela e. existe por tQda parte. "sacerdote". "programado". em suas culturas. Procurei corrigir a visão estreita de que a educação se confunde com a escolarização e se encontra só no que é "formal". para se crer na educação é preciso primeiro dessacralizá-Ia. Se em algumas pági· nas falei dela como um entre outros instrumentos de desigualdade e alienação. repete-se mil vezes em mil tempos de outros mundos sociais. leitor. através dela. "técnico". determinados tipos de homens criam deter· minados tipos de educação. para que. vivendo as suas vidas. em outras imaginei-a como uma aventura humana. acontecer na Grécia. Ao contrário do que acontece com os deuses. depois. ao poder de onde procede. com os seres "brutos" do Universo?) e que. O que vimos juntos. ela recrie determinados tipos de homens. homens. entre nós. por isso. sem que ela mesma seja uma invenção das pessoas. antes. uma escola na Guine-Bissau.100 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação 10l duto da educação. De ser pensada como uma realidade supra-humana e. Apenas os que se interessam por fazer da educação a arma de seu poder autoritário tornam-na "sagrada" e o educador. muitas páginas atrás comecei falando sobre ensinar-e-aprender como alguma coisa que começa com os bichos (quem sabe com as plantas. Entre . Ele sempre quis livrar a educação de ser um fetiche. "tecnocrático".

antagônicos. Mas. depois. há interesses divergentes sobre a educação. ' Onde surgem interesses desiguais e. o seu saber e o seu trabalho. portanto. a escola. assim como a vida é maior que a forma. imposto. da educação de elites ou da educação "oficial". dos funcionários. há controladores. o grupo de socius. a passagem da aprendizagem coletiva para o ensino particular. Quando o fruto do trabalho acumula os bens que dividem o trabalho. para produzir. a educação é maior que o controle formal sobre a educação. O "processo grego" se repete então: a educação da comu· nidade. o clã. a própria educação escolar cai sob o poder de decisão do Estado que. através da educação erudita. como sistema e como escola. que era uni· tário. Há edu· cações desiguais para classes desiguais. Alguns pesquisadores têm descoberto hoje o que existe há milênios. é para especializar. Grupos desiguais não só participam desigualmente da educação . exerce a edu· cação para o controle da sociedade civil da comu· n idade de todos. . a sociedade inventa a posse e o poder que separa os homens entre categorias de sujeitos socialmente desiguais. Mais tarde ainda. o processo educativo. em algum tempo ela existe difusa no meio social de que todos participam e é ativamente exercida nos diferentes círculos naturais da sociedade: a família. o saber oficialmente transforma·se em instrumento político de poder. Ele abandona a communitas de que fez parte um dia e ingressa na estrutura dos aparatos de controle. de modo que. se existe diferente para alguém. para o seu uso.102 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação o controle do Estado. para o uso de todos. torna·se partido. Em primeiro lugar. Dividem o trabalho de ensinar tipos de saber a tipos de sujeitos e criam. quando autoritário e classista. O controle sobre o saber se faz em boa medida através do controle sobre o quê se ensina e a quem se ensina. a oposição entre a educação-de· ·educar e a educação·de·instruir. categorias de trabalhadores do saber·e·do·ensino. também a educação pertence do mesmo modo a todos e. depois. Por toda parte as classes subalternas aprenderam a criar e recriar u ma cultura de classe .como são também por ela desti· nados desigualmente ao trabalho: para dirigir. E a partir da í que a educação aparece como propriedade. o grupo de idade.dos nobres. A posse e o poder dividem também o saber entre os que sabem e os que não sabem. dos artesãos . mas a escola particular do mestre avulso ainda é uma extensão da sacie· dade civil. Mais do que poder.mesmo quando aprovei· tando muitos elementos dominantes que lhes 103 sujeitos igualados pelo trabalho comum e o saber comunitário. para executar. Mais adiante a educação especializa·se sob a égide da escola. ela atribui compromissos entre as pessoas.

104 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação de sistemas populares de vida e de representação da vida. e que às vezes se vê da academia como um amontoado de coisas pitorescas. E susten· tado ta mbém por sistemas próprios de reprodução do saber popular. enquanto ensina desigualmente aos que a recebem. nas confrarias populares de Foliões de Santos Reis. As oficinas de que falei aqui e ali são um exemplo que vem da antigüidade até nossos dias. Eles inventaram os seus códigos de trocas no interior da classe e entre classes. dentro dos limites estreitos em que sempre lhes foi permitido "criar" alguma coisa sua. Estes modos próprios de uma educação dos subalternos têm um teor político de que pouco se suspeita. A margem da vida dos dominantes. Sempre que possível. os seus modos próprios de saber. faz parte . O que existe na verdade nas comunidades de subalternos é a preservação de tipos de saber comunitários e de meios comunitários de sua transferência de uma geração para outra. assim também as formas próprias de educação do povo servem a ele como redes de resistência a uma plena invasão da educação e do saber "de fora da classe". dos escravos aos bóias· ·frias de hoje. numa quadrilha de pivetes ou numa equipe rústica de construtores de casas. e de resistência e manipulação para fara dela. os subalternos souberam criar. mas também em redes e estruturas pedagógicas de que desconhecemos quase tudo. de viver e de saber. Constru íram estilos e tecnologias rústicas dirigidos aos seus usos do cotidiano. e tem uma lógica e densidade de que apenas levantamos o primeiro véu. Como sempre se faz a história da educação erudita e formal quando se discute o que é educação. sempre se deixa de lado este seu outro lado. Quando há escola pública 105 foram impostos como idéias ou como práticas e também formas próprias de educação do povo. depois de tantas pesquisas. Pois todo este trabalho tradicional de classe que sustenta um modo próprio de vida subalterna é sustentado por formas próprias e muitas vezes popularmente muito complexas de saber. Assim como a educação do sistema dominante possui o valor pai ítico dos serviços que presta aos que a controlam. Isto é evidente em muitas situações: na Capoeira da Bahia. Mas podem não ser o melhor exemplo. criaram formas peculiares de solidariedade para dentro da classe. A própria maneira como uma população de favelados se relaciona com a escola pode ser um bom exemplo disso. como as de um pai lavrador com um filho aprendiz. Tudo isso a que se dá o nome de "Cu Itura Popular". Inventaram rituais sagrados e profanos. Elaboraram as suas crenças e valores de representação do mundo. mesmo quando observando a escrita da ideologia dos seus senhores. que implicam não apenas em relações simples.

de camponês). que. Sem o saber que existe na fala. mas cheios do saber que existe na prática. como postos invasores de um tipo de domínio de classe indesejável. o tempo e o dinheiro por meses a fio nos preparos do "bloco do bairro". Eu não tenho dúvidas em afirmar que é entre as formas novas de participação popular. surgem as experiências mais inovadoras de educação no Brasil. Eles fazem assim porque tratam a escola "do governo" como tratam as suas outras agências: o posto de saúde. se possível. de seu mundo. Quando não há. geram também outras situacões vivas de aprendizagem popular. Estes grupos. ou com a ajuda de agentes·educadores eruditos. Mas quem envia os filhos não se compromete com a escola. os subalternos criam e recriam a sua própria educação. por brasileiros. Tratam como locais para serviços de emergência e. outras formas de associação. por ver como "tradicional". nas brechas da luta política. é porque têm também as suas formas próprias. de escravo. de negro. lIatrasado" I 107 na favela. A aparente "primitividade" do pobre contra a invasão sobre ele da "modernidade" do senhor é um meio popular avançado de lutar por manter e recriar uma identidade própria de subalterno (de índio. ao mesmo tempo. confirmados por outros feitos. Criam por sua conta e risco. Quando em alguma favela a coisa dá resultado. tradicionais. mas para reforçar o resistir. de torná·lo orgânico.106 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação na Africa. os movimentos populares. ou da "escola de samba". Os professores tradicionais e OS tecnocratas da pedagogia são cegos para elas. mas é ali que as propostas mais avançadas de "educação e vida". como os sindicatos. as "comissões de bairro" lutam para que haja. a agência de bem·estar social. Por isso tratam o "bloco" e a "escola de samba" como coisa sua. as associações de mora· dores. aqui no Brasil. de manter o seu próprio saber e as suas próprias redes de educação. de repro· dução do saber. demonstram como existe uma sábia arma de resistência popular justamente naquilo que nos acostumamos a despre· zar. Se tratam a educação dos seus filhos como coisa que se passa "no mundo dos brancos". de colonizado. os pais mandam os filhos para ela. Muitos destes pais gastam o corpo. hoje em dia. às vezes o secretário da educação vai visitar e. Alguns estudos de antropólogos franceses "primitivo". que geram outros tipos de mestres entre as pessoas do povo. eles redescobrem também velhas e novas formas de "atualizar" o seu saber. Os esforços de profes· sores e diretores para que haja um maior inter· câmbio entre "a escola" e "a comunidade" resul· tam quase sempre em fracasso. E ela não existe só para difundi[ o saber. Quando em alguma parte setores populares da população começam a descobrir formas novas de luta e resistência. leva a TV Globo. . O descompromisso dos adultos para com a escola pública não é devido à falta de tempo. a delegacia.

ou como os Movimentos de Cultura Popular e os Centros Populares de Cultura. Ao lado das inovações pedagógicas que provocam a reinvenção do trabalho escolar. a mesma relação de opostos sobreexiste entre a formal idade da estrutura e a permanente oposição que fazem a ela as inúmeras pequenas communitas de sujeitos envolvidos. Instrumentos úteis. de programação sistemática e assim por diante. Quando. os alunos criam e recriam as suas unidades de organização. nas escolas. grupos de arte e cultura. Aquela que. fosse política e pedagogicamente controlada pelas comunidades onde se exercesse.. uma prática especializada ou uma teoria de educação. são criadas e testadas. As associações de tipos de especialistas do ensino e. quem sabe. até hoje não se sabe ao certo se é uma ciência. as associações de categorias de docentes são o resu Itado do desenvo Ivimento da consciência pol ítica do educador. mas pequenas algemas de controle quando empregados sem a crítica do lugar e do sentido de tudo isso. etc. quaRdo ela existe solta entre os homens e na vida. com o sistema de educação. aprendem. 109 "educação na prática". mesmo nos setores eruditos da educação oficial. como o da Universidade Federal de Pernambuco. é preciso compreender que ela existe em muito mais situações do que dentro do sistema e na sala de au la. onde nasceu O Método Paulo Freire de Alfabetização. vinculados ao movimento estudantil e às suas unidades de mobilização? Só os formalistas pedagógicos podem enxergar educação apenas dentro dos sistemas restritos da pedagogia (que. em algumas partes do país comunidades populares tentam inventar agora tipos de escolas comunitárias que antecipariam. como questões da educação. em uma plena democracia. colégios e universidades. aliás. na sala de aula em ordem. o exercício de uma "educação como prática da liberdade". sem dúvida. mesmo ao redor da escola e da universidade.108 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação De outro lado. mais ainda. a se organ izar também como categorias políticas e profissionais de trabalhadores da educação. Mais do que isso. Quem poderia esquecer que as experiências de Educação Popular e de Cultura Popular no Brasil foram iniciadas dentro dos primitivos serviços de Extensão Universitária. Somente eles poderiam discutir. Só o educador "deseducado" do saber que existe no homem e na vida poderia ver educação no ensino escolar. De um lado. . problemas de método. nada disso). sendo sustentada economicamente pelo poder público. de operacionalidade curricular. ou. ela está no sistema e na oposição a ele. de um modo ou de outro. De outra parte. os seus grêmios. os próprios professores que trabalham como educadores (como sujeitos de suas diversas categorias de especialistas).

Trpta-se de um estudo sobre a educaçao brasileira escrito por Jorge Nagle.. publicados . em nome do que vem pelo caminho. um reino de liberdade e igualdade busca· do pelo educador. Desesperar da ilusão de que todos os seus avanços e melhoras dependem apenas de seu desenvolvi· menta tecnológico. Finalmente. através de Roma~ e sobre a educação na Antigüidade Clássica. A necessidade de preservar na consciência dos "imaturos" o que os "mais velhos" consagraram e. E é bem possível que até mesmo neste "outro mundo". a educação continue sendo movimento e ordem.a publicou Educação e Sociedade na PnmelTa Rep!!blica. sistema e contestação. INDICAÇÕES PARA LEITURA Para quem tiver fôlego e coragem há dois livros importantes a respeito da idéia de educação entre os gregos (de onde veio a nossa. Um e o Paideia . • • • . no trabalho rigoroso e persistente do professor-e-pesquisador e. Editora Nacional e escrito por René Hubert. O saber que existe solto e a tentativa escolar de prendê-lo num tempo e num lugar. para um outro tipo de mundo.. a Histór~a da Educação na Antigüidade.a formação do homem grego. Acreditar que o ato humano de educar existe tanto no trabalho pedagógico que ensina na escola quanto no ato pai ítico que luta na rua por um outro tipo de escola.110 Carlos Rodrigues Brandão e no dia de greve estudantil. ao mesmo tempo. Quem quiser conhecer o pensamento de um dos principais educadores brasileiros deve ler os trabalhos de Fernando de Azevedo. e questionar tudo o que está consagrado. ao mesmo tempo. Ainda sobre hlstorla da educação a Editora Pedagógica e Universitári.••. no trabalho político do professor-militante. Esta é a esperança que se pode ter na educação. publicado pela Cia. de Werner Jaeger (Herder) e o outro.. o direito de sacudir. de Henrl·lre~~e Marrou (Herder/EDUSP). um livro simples e muito útil é a História da Pedagogia.

A Universidade Brasileira em Busca de sua Identidade. organizado por Luis Pereira e Maria Alice Foracchi e publicado pela Cia. A mesma editora tem uma longa série de livros sobre educação. Sociedade sem Escolas. Da mesma editora há um pequeno livro bastante útil. Editora Nacional. de Maria de Lourdes de A. Movimento Estudantil e Consciência -Social na América Latina. Alguns artigos históricos sobre a educação. existem alguns livros que são coletâneas de vários autores. foram reunidos neste livro. há uma pesquisa que não pode a~ixar de ser lida. todos os livros de Anísio Teixeira. de Ricardo Nassif. especialmente Educação e Desenvolvimento Social no Brasil. em Cultura e Educação Brasileira. * * • Ainda sobre a abordagem sociológica da educação. Civilização Brasileira. Fávero. publicado pela Paz e Terra. Na mesma linha de pensamento. Dois outros livros de leitura simples e de um bom poder de explicação de questões básicas da educação em nosso tempo são: Fenomenologia da Educação. São também publicados pela mesma editora. De modo geral. podem ser lidos. Trata-se de Educação e Tempo Presente. * • * . Editora Nacional. de quem todos os outros livros podem ser lidos sem susto e com um grande proveito. Vale a pena ler também a sua Sociologia da Educação. de John Dewey. Outra abordagem sociológica da educação brasileira foi realizada por Ângelo Domingos Salvador. publicado pela mesma coleção Educação e Tempo Presente. Educação e Vida e Educação Permanente e Desenvolvimento Cultural. de Sinésio Bacchetto. Um deles. outro educador dos tempos de renovação da pedagogia no Brasil. Resta ainda da coleção o desafiante estudo de Ivan IIlich. mas ainda atual. Destaco dela os três livros de Pierre Furter: Educação e Reflexão. a sociedade e a cultura. A Universidade Temporã. Sobre o movimento estudantil. existe Alguns estudos sobre a universidade brasileira. de Luis Antônio Cunha. !: o estudo de José Augusto Guilhon Albuquerque.112 Carlos Rodrigues Brandão o que é Educação o Educação e Ideologia. como um de Durkheim. é Educação e Sociedade. da Vozes. publicado Ed. escrito por Suzana Albornoz Stein: Por uma Educação Libertadora. • * 113 pela Melhoramentos e pela Cia. além dos seus próprios escritos. Vale a pena ler Democracia e Educação. publicado há algum tempo. do argentino Gustavo Cirigliano e Pedagogia de nosso Tempo. Leia especialmente: A Educação na Encruzilhada e Novos Caminhos e Novos Fins. um dos livros essenciais para se compreender o movimento da Escola Nova no Brasil. * • • • A ·Editora Vozes tem uma das melhores coleções de livros sobre educação.

115 ° • • • • • • De modo geral são muito úteis e cobrem uma ampla gama de quest'ões os livros publicados pela Editora Cortez (antiga Cortez e Moraes). é importante ler: Educação Popular e Educação de Adultos. Estrutura e Sistema. da Editora Saraiva. ainda. A mesma Editora Brasiliense lançou em 1980 talvez o mais inteligente e também o mais motivante (e desafiador) livro sobre a educação. Educação e. por Cláudio L. para quem queira fazer sobre ela uma leitura de introdução crítica. Os dois primeiros: Educação como Prática da Liberdade. escrito pelo uruguaio Julio Barreiro. Ideologia e Hegemonia. Salm: Escola e Trabalho e por María Teresa Nidelcoff: Uma Escola para o Povo. livro de Demerval Absolutamente essencial é Saviani. Tecnologia. da Vozes. não perder Cartas de Guiné-Bissau. Essa edit~ra tem lançado estudos recentes sobre questoes concretas da educação brasileira. Ler ainda o excelente Educação Popular e Conscientização. Não perder.Modernização ou Dependência. Outras cartas de Pau lo Freire estão em A Questão Pol (tica da Educação Popular. editado pela Paz e Terra. o que é Educação no Futuro. fundado por Paulo Freire. Sobre a própria história da educação popular no Brasil. finalmente. da equipe do IDAC e publicado pela Brasiliense.114 Carlos Rodrigues Brandão Sobre questões relativas a educação e ideologia. de Niuvênius Junqueira Paoli. Lauro de Oliveira Lima tem' vários livros publicados e todos eles são introduções desafiadoras às questões quentes da educação no Brasil: ler pelo menos O Impasse na Educação. da Editora Encontro. de Vanilda Paiva. da Editora Cortez e. de Vanilda *" *" * . Escola!. Democracia. da Civilização Brasileira e Escola I Há uma série de livros a respeito de Educação Popular e entre eles é indispensável a leitura de pelo menos algu~s livros de Paulo Freire. publicado pela Civilização Brasileira. Educação Brasileira. da Vozes. O primeiro é da Livraria Francisco Alves e os dois últimos da Brasiliense. Trata-se de Cuidado. escrito pela equipe do Instituto de Desenvolvimento e Ação Cultural. • • • Dentro da linha em que a educacão foi discutida aqui há muitos outros livros. que editei pela Brasiliense. da Editora Zahar. Três de acesso fácil são os escritos por Pedro Benjamin Garcia: Educação . e Pedagogia do Oprimido. Paulo Freire e o Nacionalismo-Desenvolvimentista. da mesma editora. de Jether Pereira Ramalho. Vivendo e Aprendendo. Entre os mais recentes. -entre os livros mais recentes quero destacar três: Prática Educativa e Sociedade.

Uma introdução às religiões. são os meus relatórios de pesquisas de Antropologia ou os livros entre a didática e a militância. publicada pelo Centro de Estudos Anísio Teixeira.1 116 Carlos Rodrigues Brandiío Pereira Paiva. A Questão Polttica da Educação Popular. mas desde 1963 nunca deixei de participar do debate. Repensando a Pesquisa Participante e pela coleção Primeiros Passos. Um dia. Tudo o que escrevi até hoje. Uma abordagem sociológica está em Educação e Sociedade. Vivi ali 26 anos e ali. finalmente. existe Sala de Aula. dirigida ao professor. Porque queria ser mais um educador e um pesquisador do que propriamente um psicólogo. co- • • * Até aqui falei apenas sobre livros de história e crítica sociológica da educação.Antropologia como Alegoria. Diário de Campo . dirigidos a educadores. • • • Revistas sobre educação existem muitas. Vale a pena procurar também uma entre outras revistas especializadas. •••• •• Caro leitor: As opiniões expressas neste livro são as do autor. . distribuída pela Editora Cortez. Participei intensamente de tudo aquilo e o que vivi então teve mais influência sobre minhas idéias e práticas posteriores do que meu próprio curso. Em 1967 ingressei como professor na vida universitária. Pol/tica Educação Popular. primeiro em Brasilia (UnB). Educação Popular. e. fora a poesia que me persegue desde a adolescência.extrauniversitário dos movimentos e experiências de educação e cultura popular. Em outra direção. do Ministério da Educação e Cultura. Dedico-me hoje a estudos. publicado pela Símbolo. O próprio MEC edita ainda uma outra revista importante: Educação. editado pela Loyola. Educação como Cultura. nós estamos dispostos a estudar sua publicação com o mesmo título como "segunda visão·· . do CEDES. de Celso Rui Beisiegel. por vários anos. Caso você ache que vale a pena escrever um outro livro s6bre o mesmo tema. Tornei-me antropólogo primeiro por conta própria e depois.através de cursos na UnS e na USP. da Pioneira. de Sílvia Maria Manfredi. Faz 10 anos que estou em Campinas e na UNICAMP. Sobre o autor Nasci no Rio de Janeiro em abril de 1940. aulas e pesquisas de Antropologia Social. publicada pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos). Editora Nacional. Identidade e Etnia. em Goiânia. me formei psicólogo na PUC. Mas sobre questões de pedagogia e de psicologia aplicada à educação existe uma relação bastante maior. depois em Goiânia (UFG) e agora em Campinas. O qúe é Folclore e O que é Método Paulo Freire. Pesquisa Participante. como a Revista Brasileira de Estu· dos Pedagógicos. Livros publicados pela Brasiliense: Os Deuses do Povo . •• • ••• . Mas eram temposem que meçávamos a criar movimentos e centros de cultura popular. podem não ser as suas. Entre os livros de acesso mais fácil estão todos os publicados pela Cia. O que é Educação. Estado e Educação Popular. fui viver primeiro em Brasília e depois.

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