Hirdes A, Kantorski,LP

EABILITAÇÃO REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL: OBJETIVOS OBJETIVOS, PRINCÍPIOS E VALORES PSYCHOSOCIAL REHABILITATION: SYCHOSOCIAL EHABILITA
ALUES PRINCIPLES AND VALUES OBJECTIVES,

Alice Hirdes* Luciane Prado Kantorski**

RESUMO: Este artigo trata de resgatar na literatura o referencial da reabilitação psicossocial e reabilitação psiquiátrica enfatizando seu conceito, objetivos, princípios e valores. Ressalta-se aproximações e diferenças entre tratamento e reabilitação psicossocial, destacando-se esta última como um processo que engloba a tecnologia de ajuda às pessoas com severas desabilidades psiquiátricas a alcançar melhores níveis de funcionamento na comunidade. Palavras-Chave: Prática profissional; psiquiatria;reabilitação; saúde mental. ABSTRACT: ABSTRACT: This article aims to recover from the literature the theoretical basis about psychosocial and psychiatric rehabilitation, highlighting their concepts, objectives, and values. The similarities and differences between psychosocial treatment and psychosocial rehabilitation have been stressed. Rehabilitation has been pointed out as a process that includes a technology for helping people, suffering from severe psychiatric disabilities, to reach better levels of living in the community. Keywords: Professional practice; psychiatrics; rehabilitation; mental health.

INTRODUÇÃO
concepções teóricas de autores como Anthony, Cohen e Danley1 Farkas2, Liberman3, Pitta4, Pratt et al.5, Saraceno6, entre outros, objetiva-se analisar o referencial da reabilitação psicossocial - valores, princípios e objetivos e o diferencial estabelecido entre tratamento e reabilitação. Não é objeto deste estudo a descrição das inúmeras técnicas reabilitativas propostas por seus autores. O presente estudo abrange obras do período de 1990 a 2004, a partir de referencial teórico nacional e internacional. Segundo a Declaração de Consenso em Reabilitação Psicossocial7, reabilitação psicossocial é um processo que facilita a oportunidade para indivíduos que são prejudicados, inválidos ou dificultados por uma desordem mental - alcançarem um ótimo nível de funcionamento independente na comunidade. Isso implica ambos os indivíduos - profissionais e usuários melhorando competências e introduzindo mudanças ambientais para criar uma vida com a melhor qualidade possível para pessoas que experimentaram uma desordem mental ou têm uma deterioração mental que produz um certo grau de inaptidão.

No presente artigo, através de um resgate das

Reabilitação psicossocial aponta para prover o ótimo nível de funcionamento de indivíduos e sociedades e a minimização de incapacidades e desvantagem física ou mental (disabilities e handicaps), acentuando escolhas individuais em como viver prosperamente na comunidade7. De acordo com esse documento, a reabilitação psicossocial, previamente considerada como prevenção terciária, evoluiu em um conceito, um corpo de conhecimentos de modos de organizar serviços e métodos sujeitos à validação empírica, e está preocupada com a prevenção/redução das desabilidades associadas com desordens mentais e de comportamento. É particularmente útil para ser empregada em cuidado na comunidade, ainda que a maioria de suas técnicas e terminologias seja de alguma maneira associada ao cuidado hospitalar. Isto se deve ao fato de ter sido inicialmente praticado no asilo, em grandes hospitais mentais. Seus métodos incluem modos de organizar serviços para maximizar continuidade do cuidado, tratamento e intervenções compreensivas com indivíduos, aumentando capacidades e reduzindo tenR Enferm UERJ 2004; 12:217-21. • p.217

centros de atenção psicossocial. Presenciamos excelentes projetos de reabilitação psicossocial sendo desenvolvidos. de cada momento. a cidade. políticas específicas voltadas para a área e. qualidade de cuidado e garantia de qualidade de vida. Via de regra. também. Os princípios. Na prática. de preservação ou resgate da história das pessoas.reabilitar o contexto. que a cronificação do psicótico não resulta necessariamente da doença. Talvez este seja o único setting onde não haja a constante preocupação de desinstitucionalizar . autoajuda. na concepção de Saraceno6. que colocaram em dúvida a certeza da evolução desfavorável de determinadas patologias. uma vez que necessita da articulação de várias instâncias. profissionalização. Mostra. revelar-se-á a concretude das ações dos trabalhadores em saúde mental. Da sua observância. a oportunidade para pôr em prática a reabilitação dentro do setting real da vida das pessoas. tendo como setting a rua. Nesse processo estão entendidos a desinstitucionalização como também. participação educacional e promoção de esforços para fortalecer serviços. o habitar do usuário. Assim. e Leff e Vaughn) retomados por Saraceno6. mas de outras variáveis nas quais se pode realizar intervenções. D ISCUTINDO PSICOSSOCIAL A EABILITAÇÃO R EABILITAÇÃO processo complexo. entre outros. enquanto muitos profissionais “esperam” eternamente as condições ideais que às vezes não chegam nunca. A segunda razão deve-se às demandas dos pacientes ainda hospitalizados e ao crescimento dos direip. pela comunidade psiquiátrica internacional. políticos. os serviços que trabalham na perspectiva da reforma psiquiátrica se intitulam reabilitadores. sobretudo. Ciompi e Muller. como a esquizofrenia. e Harding e col. Tsuang e col. a desospitalização. Consideramos este como o melhor laboratório para o desenvolvimento de práticas reais e contextualizadas. Deveria ser um empreendimento em comum. Em virtude da reabilitação psicossocial apontar para a redução de estigma e preconceito e visar promover eqüidade e oportunidade. parece não encontrar eco nas práticas idiossincráticas.. administradores. Saraceno 6 faz referência às intervenções extramuros que têm seu foco centrado na farmacologia e na psicoterapia. e sobretudo nos serviços que trabalham sob a égide da reforma psiquiátrica. outros. A terceira razão para a cultura reabilitativa está relacionada à evolução dos conhecimentos psiquiátricos. capacitação técnica dos profissionais. Essas variáveis ligadas a contextos microssociais (família. Outros trabalhos (Brown e col. onde o interesse pela vida e reabilitação das pessoas transcende as limitações de estrutura física. familiares e pelos próprios pacientes. seus proponentes estão empenhados na organização. Isso vem corroborar que esta é uma prática de articulação. Através do exposto. com o conseqüente reconhecimento desses direitos por técnicos. podemos observar a amplitude do campo de atuação e as diversas instâncias nas quais a reabilitação psicossocial necessita intervir e se consolidar. legislação. Huber e col.. desde o advento das discussões sobre desinstitucionalização. O crescente interesse pela reabilitação. mais freqüentemente. que. 12:217-21. objetivos e valores que orientam o trabalho de reabilitação psicossocial. pesquisa e desenvolvimento dos sistemas existentes. criativos e envolvidos. Uma crítica que explicite as contradições e promova a sua superação.Reabilitação psicossocial são excessiva. no qual profissionais e usuários combinam para transformar os papéis sociais de receptores do serviço7. a razão primeira do interesse pela reabilitação nasce de uma necessidade de entretenimento extramanicomial6. para habilitar a uma ótima participação econômica e social e evitar recaída. unidades psiquiátricas em hospitais gerais. A reabilitação psicossocial consiste em um tos dos doentes mentais. objetivos e pressupostos da reforma psiquiátrica orientam as práticas nos serviços. expansão de serviços. iniciados há 20 anos. Estes estudos demonstram. aparentemente fáceis num primeiro olhar. Pensamos que a crítica deva estar presente independente do setting. Da mesma maneira. às vezes. corroboram o papel do contexto familiar no decurso das psicoses. realizadas nas instituições totais para diferentes settings : hospitais-dia. comunidade) apontam para estratégias de manejo ambiental. fazem de cada lugar. 8-12. nos últimos 10 anos. como demonstram os estudos desenvolvidos por diversos autores1-5. Não é incomum encontrarmos a simples transposição das práticas tão condenadas. . Saraceno6 cita os estudos epidemiológicos de Bleuler. O discurso. organização familiar e suporte. deve-se de maneira direta ou indireta a três fatores: a diminuição dos pacientes internados em hospitais psiquiátricos. existem princípios. muito se tem falado sobre reabilitação psicossocial. a partir dos anos 60 em todo o mundo6.218 • R Enferm UERJ 2004. entendendo-se que esse flui na sua totalidade para a nãoinstitucionalização. distantes das estratégias propostas pelo modelo psiquiátrico biomédico.

Kantorski. Recordam que no passado a reabilitação psiquiátrica era considerada somente após a conclusão do tratamento.LP Algumas produções2. Ressalte-se que. ao invés da tecnologia de reabilitação. considerar como estão relacionados com os objetivos da reabilitação R Enferm UERJ 2004. um dos mais recentes acréscimos em reabilitação psiquiátrica diz respeito ao desenvolvimento do conceito de recuperação. o tratamento identifica sintomas e possíveis causas. Anthony. a origem histórica da reabilitação é o desenvolvimento de recursos humanos. na cura. também.5 compreendem valores como atitudes gerais que influenciam o comportamento profissional de diferentes maneiras. Ressaltam também que o diagnóstico de reabilitação identifica as habilidades presentes e necessárias e o suporte ambiental. reabilitação vocacional. para a mesma prática. E ambos. a principal modalidade de ajuda está apta para a combinação de farmacoterapia e terapia individual ou em grupos. enquanto o tratamento está baseado em uma variedade de teorias causais que determinam a natureza da intervenção. Na análise das distinções entre tratamento e reabilitação. atingir a máxima integração comunitária. ao descreverem as diferenças entre tratamento e reabilitação. E. algumas vezes providos pelo mesmo profissional. são empregados dois termos reabilitação psiquiátrica e reabilitação psicossocial. Apontam para a necessidade de os trabalhadores de reabilitação psiquiátrica terem esses valores articulados porque eles estão embutidos nos modelos (projetos) dos programas e nas estratégias dos serviços.5. Objetivos são diretrizes para os serviços andarem de mãos dadas com os valores da reabilitação psiquiátrica. entendem que a missão da reabilitação é promover o funcionamento e satisfação em ambientes específicos. enquanto o tratamento está focado na redução de sintomas. enquanto o tratamento se origina nas teorias psicodinâmicas e na medicina voltada para o cuidado do corpo1.219 . autores1 ressaltam que deverão ser feitas distinções entre tratamento e reabilitação para uma efetiva contribuição para as necessidades das pessoas com desabilidades psiquiátricas. reabilitação física.5. considerada como uma alternativa quando o tratamento falhava. Em virtude de muitas condições serem de longa duração. Cohen e Farkas1. Na opinião de Pratt et al. sobrepostos e complementares um a outro. a atingir a mais alta possibilidade de qualidade de vida. o foco da reabilitação está no presente e futuro enquanto o tratamento foca o passado. tem-se o consenso universal de que os serviços de reabilitação psiquiátrica são designados para ajudar pessoas com doença mental severa a: alcançar recuperação. na revisão dos cinco valores da reabilitação psiquiátrica descritos a seguir. tratamento e reabilitação. o presente e futuro. pessoas com doenças mentais severas e profissionais não utilizavam a expressão cura. educação especial e abordagens de aprendizagem. Mas para uma pessoa com uma longa história de doença mental. Apontam que as técnicas de tratamento e reabilitação são realizadas no mesmo programa ou em programas separados na mesma instituição. Na revisão de Pratt et al. a intervenção da reabilitação pode ocorrer independente da teoria causal. o tratamento está baseado em psicoterapia e farmacoterapia. adotaremos os dois conceitos como sinônimos.Hirdes A. para muitas condições. recuperação significa cura. Pratt et al. Para Pratt et al.5. Entretanto. A combinação de objetivos e valores de ajuda determina os princípios orientadores dos serviços. Atualmente. ou ainda. Entretanto. Os objetivos da reabilitação psiquiátrica representam os objetivos dos serviços que executam a reabilitação psiquiátrica. a intervenção da reabilitação está baseada no diagnóstico de reabilitação e compreende o desenvolvimento de habilidades e incremento de suporte. • p. terapia centrada no cliente. recuperação se refere à reformulação de aspirações de vida e eventual adaptação à doença1. o conceito e a importância de recuperação de doenças mentais severas é aceito e reconhecido por muitos setores e representa a promessa de esperança para o futuro. que o staff que provê os serviços de reabilitação é selecionado para o treinamento do uso de técnicas terapêuticas e não para a habilidade da tecnologia de reabilitação psiquiátrica. Anthony. Que em muitos settings. Salientam a importância de. ou desenvolvimento de insights terapêuticos. Entendemos a reabilitação psicossocial como um conceito mais amplo do que a terminologia reabilitação psiquiátrica sugere. Observam que no presente muitos programas de reabilitação psiquiátrica se utilizam de técnicas de tratamento. para fins deste estudo.5 para identificar as idéias sugeridas por muitos autores sobre os objetivos da reabilitação psiquiátrica. Cohen e Farkas1 assinalam que o tratamento e a reabilitação são procedimentos que idealmente deverão ocorrer em seqüência ou simultaneamente.5 com o título de reabilitação psiquiátrica utilizam essa terminologia como sinônimo de reabilitação psicossocial. E tais objetivos são aqueles pelos quais os serviços de reabilitação psiquiátrica deverão lutar para alcançar para os seus clientes. 12:217-21.

o mesmo não ocorre na aplicação dos princípios. avaliação e resultado5. Reabilitar pode ser entendido. para um paciente com intensa dificuldade decorrente de sua doença. CONSIDERAÇÕES FINAIS Compreendemos que os projetos terapêuticos individualizados. Assim como a constante avaliação das práticas. é sensível no respeito individual.Reabilitação psicossocial psiquiátrica. Pitta4 entende que as variáveis que estão relacionadas e determinam os resultados da reabilitação podem ser distribuídas em dois extremos: no micro e no macro. é otimista em consideração ao melhoramento e eventual recuperação de pessoas com doença mental severa que estão sob os seus cuidados. Os princípios orientadores da reabilitação psiquiátrica compreendem um conjunto de normas que podem ser aplicadas em situações específicas.220 • R Enferm UERJ 2004. O profissional de reabilitação psiquiátrica: acredita que todas as pessoas têm o direito da autodeterminação. e Hirdes e Kantorski17 entendem que as práticas da vida cotidiana se constituem como essenciais para a reabilitação psicossocial. introduzem saltos qualitativos que se inserem na vida cotidiana das pessoas. o relacionamento interpessoal. A autonomia passa a ser entendida como a capacidade de um indívíduo gerar normas. isto é. se está aberto 24h ou 12h. esta superação só se faz concreta e possível se os profissionais assumirem outras posições nos settings. Entretanto. para Kinoshita13. Isso corrobora que as variáveis que influem na melhora ou piora dos pacientes não são as técnicas em si. 12:217-21. como um conjunto de . segundo Pratt et al. não se trata de confundir autonomia com auto-suficiência nem com independência. o tratamento e a reabilitação são perspectivas indissociáveis e deveriam ocorrer com a mesma equipe. Entretanto. serviços coordenados. na mesma instituição. acredita na dignidade e valor de todos os seres humanos. assume que todas as pessoas têm capacidade de aprender e crescer. o partilhar de experiências vividas aparecem como um estilo de trabalho de um dos primeiros serviços de saúde mental do país. normalização e serviços comunidade-baseado.5. para atingir os objetivos. em situações clínicas e para a sistematização da prática de reabilitação psiquiátrica. O nível macro está relacionado à organização do serviço. Essas normas. Esses princípios são instrumentos importantes para providenciar orientação no diaa-dia. que contornam as ações. cultural e diferenças étnicas de cada consumidor. Assim. é bastante delicado e difícil estabelecer laços com pessoas diferentes e lugares desconhecidos. Na visão dessa autora. integração tratamento/reabilitação. e refletem os valores nesse campo. preferência e escolha. assim como para que as abordagens terapêuticas específicas possam contextualizar-se. treinamento de habilidades. faz-se necessário esclarecer que. O autor entende que. Para Goldberg14. conforme as diversas situações que enfrente. ações práticas que modifiquem as condições concretas de vida. Os princípios da reabilitação psiquiátrica são os seguintes: individualização de todos os serviços. Depois pela capacidade de elaborar projetos. independente de quais forem. ordens para a sua vida. à continuidade. Hirdes15. estão funciop. na doença. indiferente aos graus de impairment. O respeito. modificações ambientais e suporte. ao vínculo real estabelecido entre pacienteprofissional e ao tempo gasto nessa relação. foco vocacional. pois profissionais de diferentes settings comumente priorizam princípios diferentes. mas devem responder aos objetivos propostos. a sua relação com a comunidade e a satisfação de seus usuários e profissionais. Esses diferenciais. estas são as variáveis que determinam se as técnicas. podem se manuseadas pelos profissionais de reabilitação psiquiátrica sempre em face de situações que envolvam decisões importantes. focalizar os pontos fortes. os serviços e as pessoas (profissionais) que neles trabalham. como um processo de restituição contratual do usuário. O micro está relacionado à afetividade. assim como os programas reabilitativos. Os autores entendem que a repriorização é comumente uma resposta para a diferença real existente entre settings e situação única. A contratualidade do usuário estará determinada primeiramente pela relação estabelecida com os próprios profissionais que o atendem. de modo que a subjetividade do sujeito possa enriquecer-se. nando ou não. mas o programa. com vistas a ampliar a sua autonomia. disability ou handicap. apesar de os objetivos e valores serem compartilhados universalmente. abordagem holística. não devem ser encarados como processos meramente normativos. sendo muitas vezes essa a forma como se apresentam os locais e profissionais.16. a validação da identidade dos usuários. o acolhimento. incluindo a participação em todas as decisões que afetam suas vidas. avaliação situacional. acessíveis e contínuos. A diferenciação entre tratar pessoas com sua subjetividade aparece como um diferencial importante em relação à centralização no tratamento. participação com a família e foco orientado na identificação. máximo envolvimento de clientes. o escutar o outro.

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