Gilberto Freyre: da Casa-Grande ao Sobrado

Gênese e Dissolução do Patriarcalismo Escravista no Brasil Algumas Considerações

Mário Maestri

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Sumário

1. Casa-Grande & Senzala: A Formação do Patriarcalismo Brasileiro........................................................... 1.1. A revolução conservadora de Casa-grande & senzala .................................................................. 1.2. Cultura, meio e raça: a invenção do português........................................................................... 1.3. Meio, raça e cultura: a invenção do índio .................................................................................... 1.4. Meio, raça e cultura: a invenção do judeu ................................................................................... 1.5. Meio, raça e cultura: a invenção do negro ................................................................................... 1.6. Meio, raça e cultura: a invenção do brasileiro............................................................................. 2. Sobrados e Mucambos: A Dissolução do Patriarcalismo Brasileiro ............................................................... 2.1. Sobrados e mucambos: continuidade e superação............................................................................ 2.2. Reafirmação da natureza do judeu................................................................................................ 2.3. Reafirmação da natureza do índio ................................................................................................ 2.4. Sobrados e mucambos: a ciência racista de Gilberto Freyre ........................................................... 2.5. A agonia do patriarcalismo escravista .......................................................................................... 2.6. O paraíso escravista ........................................................................................................................ 2.7. Sobrados e mucambos: o fim de uma era...........................................................................................

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O autor é doutor em história pela UCL, Bélgica, e professor do Programa de Pós-Graduação em História da
UPF. E-mail: maestri@via-rs.net

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1 Casa-Grande & Senzala: A Formação do Patriarcalismo Brasileiro

1.1 A revolução conservadora de Casa-grande & senzala
Em 1933, com 33 anos, Gilberto Freyre publicava Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal, expansão de sua tese de sociologia, apresentada dez anos antes na Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Colúmbia – Social life in Brazil in the middle of the 19th century.1 Consagrado quase imediatamente, o livro transformou-se em interpretação semi-oficial do Brasil e certamente na obra nacional de maior repercussão. Em 2003, a 47ª edição de Casa-grande & senzala contou com apresentação respeitosa de Fernando Henrique Cardoso, autor de estudo sobre o escravismo sulino que participara, décadas antes, de campanha acadêmica contra a obra prefaciada.2 Casa-grande & senzala constitui livro de poucas e ralas idéias, não raro espichadas ao absurdo, sobretudo nas edições ampliadas, por escritor de mão santa. Apesar das fontes e temas inovadores, seu sucesso não se deveu à démarche metodológica, ao material antropológico, à apresentação histórica radicais. Atualmente, o livro sustenta-se principalmente como peça literária e depoimento cultural sobre a época de sua produção. Gilberto Freyre garantiu-se meio século de incessantes homenagens e recompensas que, a bem da verdade, estendem-se ainda a sua descendência, precisamente por ter proposto solução funcional e orgânica à profunda enrascada

ideológica em que as elites brasileiras encontravam-se metidas em inícios dos anos 1930. Em 1889, a República proclamara a igualdade, ao menos formal, dos brasileiros, fossem filhos dos latifundiários ou de seus trabalhadores. Introduzida no Brasil nos anos 1870, a propalada minoridade natural dos homens “negros” e “de cor”, defendida pelo “racismo científico” contribuíra na República para a justificação do domínio político oligárquico das elites brancas. A retórica racista republicana mostrara-se igualmente operacional ao apoiar a importação maciça de braços europeus para preencher os vazios deixados nos eitos do café, inicialmente pelo esgotamento demográfico da população escravizada e, a seguir, pela abolição da escravatura. O nascimento do Brasil A revolta dos marinheiros negros, em 1910; a fundação do PCB e o Tenentismo, nos anos 1920; a Revolução de 1930, etc. registraram o ingresso das classes sociais em um palco nacional em formação. As justificativas próprias a uma ordem rural, oligárquica e regionalizada chocavam-se com as necessidades das novas classes dominantes de gestão política e ideológica de nação industrial que começava a ser construída a passos largos. Em inícios dos anos 1930, fortalecidos pelo domínio fascista da Itália e pela ascensão nazista na Alemanha, o determinismo geográfico e climático e o “racismo científico” vaticinavam um destino de inevitáveis fracassos para o Brasil, devido ao seu clima tropical e à sua população mis-

1 FREYRE, Gilberto. Prefácio à 1ª. Edição. FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sobre [sic] o regime da economia patriarcal. 47. ed. rev. São Paulo: Global, 2003. p. 48. 2 Cf. CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional: o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul. São Paulo: Difel, 1962.

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cit.] o Brasil constituirá sem lugar a dúvidas. VIANNA. Ensaios de anthropologia brasiliana. encontram explicação na história social e econômica do brasileiro – na monocultura. à moins qu’il ne retourne.]. op.. p. de Arthur de Gobineau. do solo e da população brasílica. 9 Cf. meio e raça: a invenção do português Freyre não rompeu com o discurso dominante. em oposição radical às qualidades climáticas e pedológicas excepcionais dos USA.. 1959. 4 “[. Apud VIANNA. Casa-grande [. _______. Alves. p. 7 Cf. Essas idéias estapafúrdias. São Paulo. LAPOUGE.. p. o melhoramento de sua qualidade “eugênica” através de escancaramento à imigração européia que impusesse ao País população branca e mestiça de branca. Retomando a lição de Roquete Pinto7.78. 1911.”8 De forma igualmente inovadora. as outras duas causas. um imenso estado negro.2 Cultura.. como é provável. Casa-grande & senzala..op. o colonizador português – segundo Freyre. cit.. 6 REYRE. 10 Cf. CUNHA. 4 ed.. Procurando fazer da necessidade virtude. Os sertões: campanha de Canudos. do sul dos USA até. Casa-grande [. sem tradição agrícola – fora obrigado a substituir a de- 3 Cf. 8 REIRE. ressaltava a profunda determinação do passado brasileiro pelo escravismo. 97. a menos que não retorne. op. São suscetíveis de correção ou de controle.. p. transformar o País. para apresentar uma interpretação sobre a realidade nacional inspirada nas visões de mundo das elites nordestinas e profundamente funcional aos novos tempos “nacionais”. no latifúndio [.. op. p. lembrava que a população nacional decaída não era produto da miscigenação mas de condições sociais e de meios perversos.. eram moeda corrente entre as elites em momento em que o operariado ensejava as primeiras e frágeis interpretações da sociedade nacional. da. Georges Vacher de Lapouge [1854-1936] pontificara sobre o Brasil: “[. 5 Cf. Evolução do povo brasileiro.. a “arianização” do País.3 Na esteira do Essai sur l´inégalité des races humaines. Georges Vacher de. Raça e assimilação. FREYRE. eventualmente. id. com sensível percepção. em 1896. Rio de Janeiro: Francisco Alves. Evolução do povo brasileiro. São Paulo: CEM. [1932]. propôs a dominância de um clima e de um solo profundamente desfavoráveis ao desenvolvimento brasileiro.10 Apenas devido à pobreza do clima. cit.]. Falando das dificuldades do Brasil. à la barbárie”. no mínimo. inverteu engenhosamente os pressupostos racistas e determinista geográfico e climático. daqui a um século. a partir de visões unitaristas e universalistas. que apontou como responsáveis pelo sucesso econômico que jamais bafejara o Brasil. porém. Freyre afirmava: “A pobreza de cálcio do solo brasileiro escapa quase de todo ao controle social [... Paris: Aillaud. 2 ed... Lês sélections sociales. onde vicejara idêntica sociedade patriarcal. E. 4 . Autores como Oliveira Vianna e Euclides da Cunha5 propunham como única solução possível da desqualificação racial brasileira.. et c´est probable.]. à barbárie [. 1933. Oliveira. ib. ROQUETTE-PINTO. no regime de trabalho escravo. Na sua leitura do passado. p.]”4. Oliveira.]. 97.cigenada e afro-descendente. em Les sélections sociales. latifundiária e escravocrata. que justificavam a desigualdade social através da desigualdade natural dos homens. corr. 1933... Era necessário estudar a história nacional para compreender. a existência de vasto espaço geográfico e social americano.. id. Rio de Janeiro: José Olímpio. cit. Freyre levantava-se contra essa verdadeira pena “de morte” lançada contra “o brasileiro porque” era “mestiço e o Brasil porque” estava “em grande parte em zona de clima quente”. propondo. explicar e. de 1853-5.. isto é.] le Brésil constituera sans doute d’ici un siècle um immense état nègre. São Paulo: Companhia Editora Nacional.. 105.9 1. 185. ib. E.6 Sua interpretação sobre a formação social brasileira tinha rasgos aparentemente revolucionários.30.

p. climáticas e geológicas a imporem a dura solução colonial. p. a obra e seu criador seriam também cobertos de homenagens e recompensas pelo Estado português salazarista. apesar das suas qualidades atávicas. p. concluía a enunciação axiomática.15 Portanto. ib.. hibridismo reforçado pela posterior ocupação muçulmana da península. ib. p. psíquicas e raciais únicas para a vida em clima quente: “Ao contrário da aparente incapacidade dos nórdicos. Id.. 322. escravista e latifundiária..”12 O super-homem lusitano Freyre propunha que outros “europeus. estes brancos... Para Freyre. consumindo-lhe em curtas horas o difícil capital de instalação. para não deixar dúvidas sobre a obrigatoriedade “natural” da solução escravista e latifundiária. de mesologia e de cultura”. para o sociólogo de Apipucos. afirma. sem outra praga. nas “condições físicas de solo e de temperatura. de clima áspero para o europeu e grandes extensões de terra?”17 Maldita saúva Para Freyre. ainda que menos do que 11 12 13 14 15 16 17 Id. a seguir. Na primeira pessoa do plural. nem dano. “As condições físicas da parte da América que toucou aos portugueses exigiam dele um tipo de colonização agrária e escravocrata.sejada exploração comercial da nova colônia por colonização agrícola e sedentária.73. ib. um pouco como o sorvete exposto ao sol. ib. Assim sendo. dólico-louros habitantes de clima frio. Id. ao contrário. p. metade europeu – corrigiu prontamente o pernambucano.. ib.322-3. p. devido ao clima sufocante. teria vencido o colono lavrador.”16 E. a raça. puros... ib. uma magnífica civilização moderna. como o Brasil.74. O português não”13.]. Id. é que os portugueses têm revelado tão notável aptidão para se aclimatarem em regiões tropicais. o clima e a fauna impediam definitivamente a exploração camponesa e livre do Brasil. devido às “felizes predisposições de raça. Portugal” seria “antes África do que Europa”. produto da inversão de grandes capitais e de energias privadas..72. Id. não seriam causas históricas econômicas e sociais mas.74. portanto.. também o lusitano dissolvia-se ao empreender esforço físico no meio agreste e cálido. o português possuiria predisposições culturais. que a propriedade camponesa jamais tivera qualquer possibilidade real de sucesso no país: “Mas essas doações pequenas teriam dado resultado em País.. devorando-lhe a pequena propriedade do dia para a noite. fundando. nas terras inóspitas tropicais americanas. metade africano. o esforço penoso de muitos meses”... – À exceção do português. Na época da publicação de Casa-grande & senzala. Id. “A saúva sozinha. para colonizar a América o “meio e as circunstâncias exigiriam o escravo”.. ib. Realidade que se teria consolidado devido ao hibridismo milenar da população lusitana. exigindo rendição incondicional do frágil antagonista imaginário por ele construído: “Tenhamos a honestidade de reconhecer que só a colonização latifundiária e escravocrata teria sido capaz de resistir 5 .285.14 Por essas e outras boutades filo-lusitanas. sob forma de pergunta.. o homem nórdico. Porém.. o lusitano conseguira vencer “as condições de clima”. Segundo o autor pernanbucano.” E.11 Portanto. ao primeiro contato com a América equatorial sucumbiriam ou perderiam a energia colonizadora [. produto de meio e civilização. p. Freyre pontificava seguro: “Mas nenhum nos disse até hoje que outro método de suprir as necessidades do trabalho poderia ter adotado o colonizador português no Brasil. era um axioma do “racismo científico” perneta que a “raça européia” definhasse em região tropical. Id.

e amp. mesmo quando indecentemente explícita. e não ainda a agrícola. MAESTRI. era trabalho desdenhado [sic] pelos homens – caçadores. Sua interpretação desse fenômeno influenciaria fortemente as ciências sociais brasileiras.. na moradia e. 164. ib. o português não podia mourejar nas Américas. do africano feitorizado. se..aos obstáculos enormes que se levantaram à civilização do Brasil pelo europeu”. Segundo Freyre.. pequenas glebas no sul do Brasil.] praticado por algumas tribos menos atrasadas. por si só. Jean. a ignorância sumária da feliz experiência camponesa no meridião do Brasil.. afirma o sociólogo: “[.] era nômade. Montanhas que furam as nuvens! A colonização polonesa em Áurea. 2001. obrigando. Passo Fundo: EdUPF. assim.. por sua natureza racial e cultural. Entretanto. pelo trabalho duro. frutificavam.. era necessário encontrar trabalhador capaz de garantir a transposição da civilização ocidental ao Novo Mundo. Para Freyre. o esforço português teria fracassado totalmente ao se mostrar o americano “molengão” inveterado. iniciada no distante ano de 1824.. na América portuguesa. 2. 19 Cf. p.21 Contribuição que se daria. por determinações sobretudo culturais. o tupi mostrara-se definitivamente imprestável à produção sistemática – “A enxada é que não se firmou nunca na mão do índio [.. não é um caso isolado. incapaz de aplicar-se ao trabalho sistemático. ou a inadequação do meio americano à pequena propriedade. com sucesso.3 Meio. devido a essa realidade social. através dos serviços prestados por ela aos portugueses no campo. uma das grandes traves de sustentação da interpretação do sociólogo. sistemático e feitorizado no agreste meio brasílico. ib. etc. O processo discursivo de Freyre assenta-se sistematicamente no desconhecimento sumário da evidência histórica. Portanto. mantendo-se ainda em inúmeros manuais escolares e no superficial conhecimento brasileiro sobre o passado. 2002. havia mais de cem anos que camponeses alemães.] a cultura americana [. Thaís Janaína.. pescadores e guerreiros – e entregue às mulheres [. p. sempre de acordo com o autor pernambucano.... Porto Alegre: Globo. Passo Fundo: EdiUPF. desmentia a pretensa incapacidade do europeu ao esforço físico em região quente e agreste. conforme ele. entre outros: ROCHE. WENCZENOVICZ.20 Logo. A colonização alemã e o Rio Grande do Sul. sobretudo. 323. à introdução. visto ser difícil explicar a inadaptabilidade racial do homem da terra ao próprio meio geoclimático americano. as americanas teriam ficado “diminuídas” “na sua domesticidade pelo serviço de campo” – talvez por não tocarem piano como as sinhás dos engenhos! – “tanto quanto os homens nos hábitos de trabalho regular e contínuo pelo tipo de vida nômade”... ed. que o pouco de lavoura [.. 163. “Da cunhã é que nos veio o melhor da cultura indígena”. Freyre dedica-se a justificar as razões que teriam inviabilizado a escravização ampla e continuada do homem ameri- cano pelo colonizador lusitano..18 Enquanto o sociólogo pontificava sobre o fracasso do camponês hipotético no passado. a de floresta. italianos. rev. trabalhando sob temperaturas no verão no mínimo iguais às da zona da mata pernambucana. poloneses. ela. 1910-1945. 20 Id. O que não teria impedido a grande contribuição da mulher americana à formação da sociedade e da família brasileira.. raça e cultura: a invenção do índio Durante o longo capítulo “O indígena na formação da família brasileira”. 21 Id. Portanto. Mário. 6 . onde apenas as mulheres plantavam. p. 1969. no doce e 18 Id.]”. Procedimento facilitado por interpretação sociológica dos fenômenos comumente à margem do tempo e do devir históricos. 1. ib. no mundo real. Os senhores da Serra: a colonização italiana no Rio Grande do Sul.]”.19 Em Casa-grande & senzala.

Essencial ao nascimento da sociedade brasileira. 132. Também no último caso. Freyre propunha: “Vê-se que. e não o indivíduo de raça diversa ou de cor diferente”. ib. o Brasil se formaria.24 No combate e no extermínio do nativo americano pelo colonizador. Gobineau propusera de forma pioneira..] a vida mais sedentária e regular da mulher dotando-a de uma sexualidade superior à do macho. a ausência de preconceito racial teria se incorporado à “natureza” social brasileira. SARAIVA. as relações inter-raciais seriam exemplares no Brasil: “Nem as relações sociais entre as duas raças. Vetor da prática colonial lusitana.]. Freyre refere-se longamente à situação do judeu em Portugal. ib. vivia em calor sexual jamais saciado por macho de fome erótica “reduzida” devido à vida “nômade” e “guerreira”. 306... 269.26 É outra tese central de Casa-grande & senzala que. Projeto estatal nascido da escassa população colonial. priapismo é qualquer coisa semelhante à “excitação sexual excessiva”. Na comprovação dessa proposta. ib. oportunistas e interessados. para nosso bom sociólogo. Id. 91 Id. nega e minimiza. esse movimento de miscigenação seria facilitado pela inexistência de preconceito de raça entre os portugueses. fato histórico apresentado com singular leviandade: “Facilitou [sic] aliás D. historicamente habituado à miscigenação. ao contentar sexualmente uma “índia” eternamente insatisfeita.quente aconchego da rede. p. fenômeno que. para Freyre. “[. ainda mais. a super-excitação sexual das raças negra e amarela. ao fecundar e.22 Para os não informados. ib. Empurrando nessa direção. 170.. aguçaram-se nunca na antipatia ou no ódio [. fogosidade e boa vontade. 27 Um rosário de crimes antijudeus que se desdobraria na sucessão de violências contra o cristão-novo de judeu. 2001. José Hermano..23 Assim sendo. 21. Freyre via apenas e somente oposição de fé: “É o infiel que se trata como inimigo no indígena. Portugal: Europa-América. Suavizou-as aqui o óleo lúbrico da profunda miscigenação [.. mas sobretudo na rede.. em uma desproporção que talvez explique o priapismo de muitas em face dos brancos”. como com relação aos mouros.. conhecido rosário de sofrimentos infringidos diretamente pelo Estado ou indiretamente por uma plebe galvanizada por clérigos e nobres fanáticos. Cf. foi grande a mobilidade em 22 23 24 25 26 27 sentido vertical.4 Meio.25 1. 7 .. fecundando a nova “civilização”. a militância genésica lusitana seria facilitada pelo fato de que a nativa. p.. O supermacho português Atavicamente atraído pela mulher de “cor”.]”. Id. “estável” e “produtiva”. o homem lusitano se teria aplicado com desbragado afinco ao embarrigamento de uma nativa que se entregava a ele com singular ardor. raça e cultura: a invenção do judeu Portanto. por razões óbvias. nascida sobretudo da ampla fusão racial que conhecera nos séculos anteriores à própria chegada à América. 231. p.. após a conversão forçada. a conquistadora e a indígena. determinada em dezembro de 1496. Manuel I aos cris- Id. ib. p.. a natureza do colonizador português teria sido providencial.. confundindo-se no casamento origens étnicas diversas”. o “índio” brasílico não fora apenas molengão na enxada. o português tenha militado quando muito contra a diferença de “religião” e jamais contra a diversidade de “raça”. ao fecundar a terra. fogueado na sua fome sexual pelo clima abrasivo. História concisa de Portugal. em oposição ao resto da América. através da história.. em geral. p.. com relação aos judeus. p. pela Coroa. ed. Id. Portanto.. “despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza de raça”. e não apenas quando da ocupação muçulmana da Lusitânia.

Assim sendo. FREYRE. Lisboa: Hugin. p. De acordo com sua interpretação. 285 e 4.]”..] para horror à atividade manual [..tão-novos a naturalização. Freyre empreende verdadeira recapitulação das teses anti-semitas. 305 32 Id.29 Conforme Freyre. portanto. ib.. Brasil: colônia de banqueiros. ao modo da historiografia chauvinista lusitana. Mendes Drumond.. ao mesmo tempo. cit. 8 . cit.. Isabel M. de 1934. 305. reação para lá de normal contra seres somíticos e execráveis.]”. p. 20-5. implementadas pelas classes feudais dominantes. agrária a sua formação nacional depois pervertida pela atividade comercial dos judeus [. apenas a discriminação e repressão reiteradas. que via invariavelmente um judeu ardiloso e malévolo emboscado atrás de cada tropeção do passado brasileiro. impediram a integração plena e doce dessas comunidades à nacionalidade portuguesa. vampiros insaciáveis de uma pobre população inerme... Casa-grande & senzala. Sem qualquer respeito à informação histórica.30 Seres indelicados Segundo Freyre.. 310. 29 Cf. a culpa era do judeu: “Concorreram os judeus em Portugal [... em Portugal contra mouros e judeus surgiu apenas “quando a maioria [cristã] se apercebeu de que sua tolerância estava sendo abusada. ib. a aristocratização de seus nomes de família [. definida como limitada... ib. BARROSO. Pelo menos pelos judeus”.. prestaram-se os judeus de Portugal aos mais antipáticos papéis de exploração dos pequenos pelos grandes”. 30 REYRE.”35 Os pequenos produtores urbanos e rurais de origem moura e judaica constituíram parte essencial da frágil burguesia lusitana.]”. a reação. São Paulo: CEN. contra “semelhante exclusivismo era natural que se levantassem ódios econômicos. 1936.33 Se o lusitano explorava o cativo.34 A esquisita tese da perda da tradição agrária portuguesa era também explicada como resultado da contaminação hebréia: “Com relação a Portugal. Se o ibérico desdenhava o trabalho manual. 35 Id. p. 33 Id. autor de Brasil: colônia de banqueiros. Vivendo não raro havia séculos no país. Em Casa-grande & senzala. a culpa era do israelita hispânico: “De modo que para o pendor português para viver de escravos parece ter concorrido o sefardim”. p.R. Gustavo. 309. ib. o esforço desesperado do sociólogo em adaptar os acontecimentos históricos às suas visões tortas ensejou momentos de anti-semitismo explícito dignos do imaginoso Gustavo Barroso [1888-1959]. ela deveu-se apenas e somente à “reconhecida” – para ele – sem-cerimônia do israelita para com os pruridos e sensibilidades nacionais lusitanos..31 “Em essência – declara o sociólogo – o problema do judeu em Portugal foi sempre um problema econômico criado pela presença irritante de uma poderosa máquina de sucção [sic] operando sobre a maioria do povo [. 307..]. ib. Mouriscos e cristãos no Portugal quinhentista: Duas culturas e duas concepções religiosas em choque. tratando-se de questões de dinheiro com os cristãos”.. se houve alguma crispação racial em Portugal... 5 ed. 31 Id.].. como vimos.. op.. Em virtude daquela ética ou moralidade dupla.. ou seja. deve-se salientar que seus começos foram todos agrários.. 1999. e. p. 34 Id. p. 28 BRAGA.. Casa-grande [. op. fortíssimas nos anos trinta.28 No relativo à situação do judeu em Portugal. os “judeus haviam se tornado antipáticos menos pela sua abominação religiosa do que pela falta completa de delicadeza de sentimentos. p.32 Definitivamente. apresenta como boa a moeda racista furada da incapacidade natural do judeu ao trabalho produtivo rural e urbano. Uma defesa dos valores nacionais compreensível. p.. 308.

de cunho culturalista e racista. p. vigorosa do negro [. sua predisposição como que biológica para a vida nos trópicos. tão brilhante como sinuosa. sobretudo. 9 . dedicado por “natureza” à exploração usurária do “cristão” era construção da Idade Média. pois plenamente agrícola. por outro. sua narrativa traça sem cessar o perfil de africano psíquica e biologicamente destinado à escravidão tropical. Como sugerira natureza “anacrônica” para o “brasil”.. solo. Foi preciso substituí-lo pela energia moça.. “Às exigências do novo regime de trabalho. o índio não correspondeu.. por expressar as necessidades ideológicas das classes proprietárias dominantes no País.. fora apenas devido à sua superioridade! Ao menos diante do “índio”! Essa construção apologética. o agrário. aproxima a força do “negro” à força do animal de trabalho.. secundando o discurso culturalista: “Pode-se juntar. diante da incompatibilidade do português e..]”. a aquisição de caracteres determinados pelo clima. 40 Cf. 38 Id. tesa. São Paulo: Atenas. imagens e caricaturas de judeus doentes e miseráveis a de aves de rapinas e animais roedores para fixar visualmente as suas macabras elucubrações sobre semi-homens com atributos de predadores.39 A interpretação de Freyre das razões da escravidão colonial possuía fortíssimo atrativo.. 370.. manteve-se de pé. devido à ignorância absoluta das evidências e conhecimentos históricos. com maestria literária. etc. ib. Soterrava-se aparentemente a explicação tradicional de cunho aristotélico do cativeiro nascido da inferioridade racial40 sob a proposta da substituição do braço americano parido pela superioridade cultural e biológica africana. p. p. A visão “racista científica” da especialização “geográfica” do ser humano apoiava-se na teoria da transmissão biológica de caracteres adquiridos.” “Sua energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical”. 377.5 Meio. cenário onde práticas culturais perversas aderidas e transmitidas biologicamente através dos séculos. muitas vezes com perverso refinamento. Segundo Freyre. requentada pelo anti-semitismo tardio europeu. mático e duro em meio agreste e região quente. vertente agressiva do “socialismo dos bobos”.”37 Descrição de fazer Jeinrich Himmler contorcer-se de gozo! 1.. Não raro. cultura. ib. p. Se o negro havia sido inferiorizado. delineia natureza verdadeiramente “escrava” para o “negro”. Aristóteles. capaz de suportar o trabalho siste36 Id. sem papas à língua. 39 Id. para Gilberto Freyre. raça e cultura: a invenção do negro Assim. sociológicos e antropológicos da época sobre as civilizações africanas e a escravidão do americano e. não sobraria outro braço que o africano. esse sim. a mímica em constantes gestos de aquisição e de posse. a essa superioridade técnica e de cultura dos negros. “de afetar a raça”. 1957..]”!38 É comum que a proposta de especialização biológica apresente-se.Socialismo dos bobos A proposta do judeu incapaz de esforço produtivo. as mãos em garras incapazes de semear e de criar. envolvendo-se em uma tristeza de introvertido. Um africano fonte exaurível de “reservas extraordinárias de alegria e de robustez animal [.36 A iconografia nazista sobrepôs. Freyre traçou. 229 e 163. por um lado. sobretudo no viés nazista. “Técnicos da usura. portanto. do nativo americano. Política. tais se tornaram os judeus em quase toda parte por um processo de especialização quase biológica que lhes parece ter aguçado o perfil no de ave de rapina. 305... era capaz de plasmar o indivíduo e. plasmaram no judeu perfil e garras do predador sempre pronto a esfolar o cristão inocente. 37 Id. ib. ib. Ainda que Freyre proponha que essa vocação nascesse de maior nível cultural.

MAESTRI. 45 Cf. Paraguai. “Ainda assim o Brasil é dos países americanos onde mais se tem salvo da cultura e dos valores nativos”. p.. Mário.44 Era. entre eles. à abertura e limpeza das clareiras nas matas e responsabilizando-se as mulheres pelas demais tarefas do cultivo e da colheita. etc. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. 2003. em cabal demonstração de que qualquer ser humano verga-se ao trabalho produtivo sistemático. cit. 44 Cf. caso tivesse objetivamente se dado. ao impedirem qualquer valorização camponesa apoiada em braço europeu naturalmente inabilitado ao trabalho nos trópicos. Mato Grosso. a escravidão do nativo americano mantivera-se até mesmo além da Abolição. no uso corrente e geral de línguas nativas. No restante. em geral de forma associada. E isso não apenas no relativo ao mundo banto. de conhecimento das ciências sociais da época que. em serviço de transporte. as práticas agrícolas americanas e africanas igualavam-se tendencialmente. a divisão sexual nas sociedades domésticas ensejava que o homem caçasse. se teriam masculinizado nas práticas agrícolas! A grande superioridade da horticultura banto e africana em relação à americana não era devido ao trabalho masculino. no contexto de incessante repressão.8.. op. e açucareira. Florence & MAESTRI. gasta em passar como coisa ou besta das mãos de um a outro senhor. as doenças adquiridas ao contato dos brancos [. Bolívia. 1978. 227 . p. ib.. lembra Freyre. se acompanhamos a visão de Freyre. Guatemala.]”. 10 . onde. 1994. Africanas que. 231. como no mundo tupi-guarani.43 Conservação da cultura e dos valores nativos no Brasil que se comprovaria.. sob o duro chicote do feitor.. pescasse e guerreasse. São Paulo: Companhia das Letras. é claro. MONTEIRO. caso se apoiasse em braço cultural e biologicamente capaz de suportar o esforço em terra 41 Cf. etc. as culturas e a civilização da terra que colonizara.. em especial. a produção agrícola africana era igualmente tarefa essencialmente feminina. o próprio Freyre lembrou que a razão profunda da transição do braço americano ao africano fora dizimação do “brasil” escravizado. Porto Alegre: EdUFRGS. John Manuel. ali onde faltaram capitais para importar o custoso cativo africano – Maranhão.41 Genocídio americano Em um quase descuido. que permitia àqueles horticultores trabalhar com instrumentos de ferro. Rarefação populacional que impediu a alimentação sistemática e ininterrupta da expansão da economia colonial. Mário A linguagem escravizada.Na periferia da economia colonial.6 Meio. às práticas horticultoras. “em trabalho. raça e cultura: a invenção do brasileiro O esquema construído por Freyre era simples. o português mostrava-se como o único europeu capaz de transportar a civilização ocidental aos trópicos. enquanto a mulher dedicava-se. –. contribuindo os homens.”42 Constatação histórica que se chocava com a proposta paradoxal de que nenhum colonizador como o português pactuara e conservara. Uma população literalmente gasta. Ela nascia do amplo domínio da metalurgia do ferro – tarefa masculina –.45 1. de forma tão ampla. “O trabalho sedentário e contínuo. Pará. ainda. diversos tipos de enxada. sementeira inesgotável de trabalhadores escravizados introduzidos no Brasil.. entre outras tarefas.] foram dando cabo dos índios [. em geral. em abusos. CARBONI. A agricultura africana nos séculos XVI e XVII no litoral angolano. como ocorre habitualmente em outras nações como o Peru. mantiveram-se e mantém-se valores culturais americanos. 42 FREYRE.. 43 Id. com o seu braço escravizado. também itinerantes. Produto de meio híbrido e de séculos de miscigenação. São Paulo: Expressão Popular. Também na África. como no mundo tupi. O clima e o solo americanos agrestes exigiam necessariamente a exploração latifundiária e escravista.

. ao trabalho duro. p.. Terra e clima rústicos que determinaram que essa sociedade nascesse necessariamente latifundiária e escravista. não raro.. “Quanto à miscibilidade. termo de que Freyre se serve amiúde para descrever a escravidão brasileira. ib. ao mando. excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. 11 . Nascido da transigência-adaptação entre amos e cativos. Casa-grande [. de ser racialmente impróprio ao desenvolvimento. Com o uso criativo do único material humano capaz de realizar a empreitada – o português. cultural e biologicamente destinado ao esforço pesado em clima tropical e meio florestal. O português femeeiro inveterado iniciara nas Américas civilização concluída e sintetizada em seus detalhes em torno da casa-grande pelo indolente engenheiro nordestino. 116. se não os senhores de fato. necessariamente latifundiária e escravista.e clima inóspitos.]”. a copulação voraz do português com mulheres nativas e africanas.. 435. 114. cit. destinado. os escravizados eram os grandes privilegiados. mais pai-protetor do que patrão-explorador do negro escravizado.. op. Assim. p... pelo nascimento. sem negar a ciência racista de então e reafirmando a hierarquia social da época. os valores ocidentais teriam sido aclimados na América... dos modernos. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor [.46 Doce escravidão Freyre definiu o passado brasileiro como “processo de equilíbrio de antagonismos” entre os quais “o mais geral e o mais profundo” era o existente entre “o senhor e o escravo”. biológica e culturalmente. promovia “o brasileiro”. 110. ensejando relações essencialmente patriarcais. Porém. se as condições do meio impunham caráter despótico à organização social. no tipo talvez “ideal do homem moderno para os trópicos.. teria contribuído para produzir sociedade essencialmente patriarcal onde. p. Id. o negro. 70... gerando sociedade patriarcal embebida nos princípios da transigência racial e social. Id. ib.].] salientamos a doçura nas relações de senhores com escravos domésticos. propôs que essa contradição fora amorte- cida pelas “condições de confraternização e de mobilidade social peculiares ao Brasil”. portanto. o americano fora deslocado no duro trabalho da plantação escravista pelo africano.] que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas [.47 No mesmo sentido. Id. com o africano. destinado ao trabalho –. lógica... ib. tendência atávica e exacerbada pelo clima.. europeu com sangue negro ou índio a avivar-lhe a energia [. destinado. ib. nenhum povo colonizador. talvez maior no Brasil do que em qualquer outra parte da América. p. a ordem patriarcal teria primado pela doçura. a ausência no lusitano de preconceitos de raça e de cor e sua tendência atávica à miscigenação desbragada abrandaram as trocas entre escravizadores e escravizados. ao contrário dele.]”.. nascido para o mando.. “[.”49 A conclusão geral de Freyre era. p.. ensejou a fundação e aclimatação da civilização luso-ocidental nas ingratas terras da América que lhe couberam..50 46 47 48 49 50 FREYRE.48 Incentivada pela falta de braços. Inabilitado à produção agrícola sistemática. O encontro feliz do português. Id.

o próprio autor ensaiou explicação. Ou melhor. São várias e complexas as razões do insucesso relativo de Sobrados e mucambos. Sobrados e mucambos impõe-se sobretudo como descrição envolvente do universo abordado. o livro conheceria uma segunda edição. Em verdade. Em 1980. quinze anos após seu lançamento. ed. Apenas em 1951. animal e máquina” e “Em torno de uma sistemática da miscigenação no Brasil patriarcal e semipatriarcal”. em seus rasgos genéticos e estruturais. enquanto sua continuação seguia. introduzindo capítulos novos nas edições sucessivas. da crise da sociedade escravista. 1990. do século XIX. 1936. 405 p. fica clara a indigência analítico-categorial da obra. sobretudo de cunho metodológico. tradição oral. foi e é ainda mais radical. 52 FREYRE.52 Para profissionais e amadores. conclusão tardia e bastante estranha aos dois primeiros volumes da tríade. Entretanto. sobre o início do fim de um mundo. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre e da monarquia para a república. tais como “Raça. num verdadeiro aprofundamento da indigência metodológica já explicitada em Casa-grande & senzala. classe e religião”. [1959] 4. o que não ocorreria com as duas obras seguintes da trilogia. essa obra supera o clássico inaugural do sociólogo pernambucano. O pouco sucesso de público de Ordem e progresso. Casa-grande & senzala segue sendo trabalho isolado. e até certo ponto segue ainda nos nossos dias. Gilberto. Mesmo ao leitor menos atento. Casa-grande & senzala seria livro “carismático”. bastante impressionista. sobretudo urbano. Sobrados e mucambos foi livro de escasso sucesso. Possivelmente. Em muitos sentidos. em Casa-grande & senzala. açucareira e patriarcal nordestina. Sobrados e mucambos não apenas prossegue como retoma. em relação à Casa-grande & senzala. dezenas de edições e múltiplas traduções. São Paulo: Nacional. São Paulo: Record. Sobrados e mucambos: decadência do patriarchado rural no Brasil. folclore. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano51 é uma história sobre o início do fim do mundo. Casa-grande alcançou. reafirma e afina diversas afirmações axiológicas propostas ou esboçadas em Casa-grande & senzala. rapidamente. Em Sobrados e mucambos. Gilberto. Hiato que o autor procurou superar. empacada.2 Sobrados e Mucambos: A Dissolução do Patriarcalismo Brasileiro 2. arquivos pessoais. no prefácio à sexta edição de Sobrados e mucambos. que Freyre se propusera a descrever. Freyre tenta inutilmente traduzir conceitualmente as descrições quase pictóricas que traça do mundo escravista. “Escravo. iconografia. entre elas encontra-se o fato de que a segunda grande obra de Freyre explicitou poderosamente o lado pior e o lado melhor da visão do autor sobre a antiga formação social brasileira.1 Sobrados e mucambos: continuidade e superação Publicado em 1936. apresentada na obra introdutória. latifundiária. papéis de velhos 51 FREYRE. apoiada no uso imaginoso de diversidade de fontes primárias sequer imaginada pelas ciências sociais da época: diários. isto é. sobre a pouca receptividade dessa sua criatura. Há continuidade umbilical entre as duas obras. 12 .

“antropologês” e “economês”. anúncios de jornais. Igual destaque merece a proposta do necessário estudo das línguas faladas na Colônia e no Império. no relativo ao texto e às notas. retomadas e aprofundadas de Casa-grande & senzala. que seria aprofundado de forma magistral. entre os quais destaca-se a sua preocupação com a história da arquitetura. 7. XXX. nas suas últimas e tardias contorções. a liberdade quase indecente quanto às fontes. 9. Na primeira pessoa.54 Senhores de hoje e de ontem Sobrados e mucambos constitui sentido e poderoso elogio à sociedade escravocrata nordestina. Freyre constrói igualmente Sobrados e mucambos.. em boa parte. não raro concluídos após longas digressões sobre assuntos tangenciais à questão tratada. op. Rio de Janeiro: Record. merendar. A harmônica correspondência entre um texto literalmente desbragado e a interpretação erotizante do passado brasileiro gerara algumas das mais perfeitas páginas da literatura brasileira. É como se a narrativa seguisse o mesmo passo lento do mundo patriarcal apresentado em seus estertores. em Sobrados e mucambos. Florestan. FREYRE. é exemplo excelente dessa produção sociológica em construção que tinha como grande paradigma o rigor metodológico. negros boleeiros de fraque e pés descalços. Proposta que permaneceu domínio dos estudos lingüísticos. elogio produzido por escritor e pensador genial. desdobrando-se como sociólogo. e ao senhor de engenho. constituíam agressão direta a uma sociologia analítica que. historiador. decadência do patriarcalismo rural e desenvolvimento urbano. em especial. 277 et passim. depoimentos de viajantes. social e ideologicamente identificado com uma civilização que se esvaía. procurava assegurar-se respeitabilidade científica em boa parte por meio de linguagem e narrativa tecnocráticas. de Florestan Fernandes. aos temas e às técnicas de narração. dominada por preciosismos vocabulares e retidão sintática na qual são comuns hipercorreções. Gilberto. 197. Em Sobrados e mucambos. servindo-se de linguagem conscientemente recheada de “africanismos. São Paulo: Museu Paulista. 218. Sobrados e mucambos constrói-se com incessantes e longas citações da documentação. Revolução nas ciências sociais Casa grande & senzala impusera-se. apresentado como magnífico Prometeu da civilização luso-brasileira. Próximo à memorialística. p. sinhás rechonchudas. cit.engenhos. plebeísmos” – budum. A função social da guerra na sociedade tupinambá. não sendo até hoje verdadeiramente retomada pelas ciências sociais nacionais. inhaca.. Freyre define o mundo dos grandes escravistas.53 Linguagem que se adapta – como chinelo usado ao pé do velho dono – à descrição saudosa e intimista que empreende do começo do fim de um mundo pleno de aristocratas ranzinzas. sobretudo quanto à colocação pronominal. teses de escolas de medicina. pela qualidade excepcional e revolucionária da linguagem. inventários post-mortem. em especial. também de forma pioneira. antropólogo e lingüista. e as influências que exerceram no português do Brasil. diante de seus olhos tristes. sendo muito raro que uma história geral do Brasil possua um capítulo dedicado à questão. familismo. à linguagem. abrem-se parênteses na ação discursiva. literatura oitocentista. etc. e nordestinos. 13 . Uma linguagem sensual e desabusada. em geral. FERNANDES. Sobrados e mucambos: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil. papa-jantares. 1952. documentação notarial. Sobrados [. bacharéis de cartola. como espécie de paraíso para sempre 53 FREYRE. pretalhada. XXX. jamais modernizadas. 203. ed. etc. A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá. inovadores recortes temáticos do passado brasileiro. 2. nos anos 1950-60. Nessa narrativa fluvial. molecotes. 1996. em geral. 199.]. anúncios de cativos fujões. amerindianismos. a precisão conceitual e a aridez narrativa. Em 1980. catinga. 54 Cf. Na obra. Freyre definiu depreciativamente essa linguagem como “sociologês”. ranzinza – e plena de manipulações livre do léxico – columinzinho.. empreendera.

de sexo. sociológica e antropológica. registra as superstições. e muito tangencialmente. ao discutir suas fontes. ib. as lendas.perdido. p. com freqüência generalizadas como tendências sociológicas: “Raras as casas com lençóis de cama sujos ou encardidos. o que faria apenas. sinhozinhos. como se banhavam. serve-se das suas recordações pessoais. op. Açúcar: algumas receitas de doces e bolos dos engenhos do Nordeste.... o sociólogo refere-se apenas muito rapidamente aos depoimentos e memórias de cativos. aquelas onde faltasse dona de casa ou mucama vigilante. 1988. sobretudo dos senhores.. 224. como em Casa-grande & senzala. as idiossincrasias. A luta pela superação das inevitáveis deformações de ótica analítica Cf. Como recém-assinalado.”57 Freyre lembra que crescera “ouvindo histórias da negrinha Isabel e aprendendo palavrões com o malungo Severino e ouvindo da negra velha Felicidade. de raça. ib. das casas-grandes rurais e. cit. 198.]. FREYRE. p. apesar de escrever há quatro décadas da Abolição. e certamente ácido. há poucas décadas da Abolição. refere-se à sua “meninice de neto de gente.. além de patriarcal. A contradição entre autor e narrador é determinação essencial nas ciências sociais. Freyre referira-se apenas en passant aos velhos cativos entrevistados nos engenhos nordestinos que visitou. velho e quase caduco.. XXX. 55 No prefácio à sexta edição. relata como viviam. certos da boa obra do depositário. p. Rio de Janeiro: José Olympio. etc. o sociólogo guardou-se de propor o registro sistemático do depoimento direto. Id. Nesse empreendimento quase sagrado. 1939. Com emoção e carinho. com sobreviventes.. outrora escrava de minha avó materna [. Já em Ca55 56 57 58 59 60 sa-grande. como o casarão de Noruega do Capitão-Mor Manuel Tomé de Jesus quando já viúvo. p. Mário José. das histórias ouvidas na meninice de velhos trabalhadores domésticos.. em Sobrados e mucambos.60 Explicar essa lacuna como devida ao mero esquecimento seria cometer grave injustiça para com a enorme sensibilidade do pernambucano em descobrir fontes não exploradas pelas ciências sociais brasileiras da época. E isso apesar de abundarem iniciativas semelhantes nos USA. dos protagonistas que haviam “sofrido” o passado que narrava. dos sobrados urbanos do século XIX.”58 Porém. FREYRE. Cf. Depoimentos de escravos brasileiros.. Freyre não empreendeu a coleta direta do depoimento dos milhares de ex-cativos ainda vivos antes e após a publicação de Casa-grande & senzala e Sobrados e mucambos. ib. Sobrados [. de nacionalidade. XXX.. só mesmo. como amavam. Id. Na narrativa histórica. talvez. nos engenhos e sobrados de familiares e conhecidos. ou relatadas por confidentes ilustres.. no tardio Ordem e progresso.56 Em Sobrados e mucambos são comuns narrativas com cheiro e gosto de futricas senhoriais sobre vizinhos e parentes malquistos. É mais pertinente supor que a única voz profunda e sentida que queria fazer ouvir sobre o passado que se esvaía era a dos senhores de engenho e grandes escravistas. de menino e adolescente.. o autor deve preocupar-se com que o narrador sobreponha-se a suas idiossincrasias de berço.]”. São Paulo: Ícone. Id. de escravos [sic] ou de servos [sic] nascidos nos dias da escravidão [. MAESTRI FILHO. em época em que viviam ainda dezenas de milhares de homens e mulheres que haviam sofrido o cativeiro. 14 . como bebiam. principalmente. certamente de seu conhecimento. as crenças. sinhás. rural.. Esse fato assumiria ainda maior gravidade ao tratar o século dezenove e a crise final da escravidão. Livros de receitas Suficientemente sensível para recolher antigos livros de receitas59. na convivência doméstica ou familial. consciente do caráter necessariamente divergente da palavra dos antagonistas sociológicos dos “heróis” da sua hagiografia histórica.] suas experiências dos dias antigos.

“que fomos os sadistas. 299. olhava complacente os negros que voltavam do eito para a senzala.. o “nós” singular do autor chega a fundir-se com o “nós” plural.113-4: traduzimos. de longe. Freyre jamais assume a ótica narrativa daqueles que embalaram. p. com menor ou maior violência. 15 . Paris: Gallimard. que fusiona o narrador e o leitor putativo. personagens plurais e plurilíngües como os protagonistas que povoaram numerosos a história da antiga formação social brasileira. na forma e no conteúdo. mais numerosas no mundo reconstruído.devido ao olhar subjetivo do autor é ainda mais determinante quando anima.. por seus senhores. Cf. Uma opção metodológica que se materializa igualmente na erotização extremada das relações sociais escravistas que nega radicalmente o trabalho e a resistência do trabalhador escravizado como vetores da construção do mundo relatado. como veremos a seguir. o moleque maltratado. ib. o judeu injuriado são o “outro”. FREYRE. que tiraram bicho-de-pé ou foram possuídas. o elemento ativo na corrupção da vida de família” e os outros. as costas curvadas por um dia de trabalho estafante. na varanda da casa-grande. Ao falar de “nossas avós coloniais”. do bacharel pernóstico da plutocracia açucareira nordestina. quanto à classe.61 Em Casa-grande & senzala e Sobrados e mucambos. “nos deu de comer”. Em Sobrados e mucambos. por meio da voz do narrador. o texto aponta “automaticamente” as sinhazinhas da casa-grande e jamais as cativas da senzala de dentro e de fora. Definitivamente. à raça e ao sexo. Esthétique et théorie du roman. Necrológico sensível O sensível necrológico de Freyre principalmente do mundo senhorial escravista nordestino – são poucas as referências ao patriarcalismo no Id. Freyre traduziu. do ponto de vista exclusivo do filho macho enfezado. Em Casa-grande & senzala. jamais abrem uma fresta grossa através da qual se vislumbre e se materialize a real pulsação da vida na senzala. as mais de um milhar de páginas de texto e de notas das duas versões finais das obras magnas de Freyre. 432. nos mucambos e nos porões e sótãos dos sobrados do Brasil escravista. 1999. o narrador oculto e o narrador explícito de Freyre descrevem a formação e a agonia da família patriarcal brasileira sob a escravidão de um ponto de vista único e quase exclusivo. o cativo estafado.”64 A idéia do descendente do morador da casa-grande como leitor natural da narrativa fixa a subalternização permanente. balançando-se na rede com apenas um pé apoiado no chão.62 Nós – brancos e proprietários São inúmeras e “normais” as referências à “escrava ou sinhama que nos embalou”. O índio caçado. p. op. que “nos transmitiu” “a primeira sensação completa de homem”. Id. cit. a negra violada. maiores ou menores. sempre. do morador da senzala que jamais se eleva ao status de protagonista de mundo que plasmou com seu trabalho e luta. Em Casa-grande e Sobrados. BAKHTINE. fez o elogio pungente da dissolução desse mundo diante das novas classes dominantes em ascensão. p.. que deram de mamar. ib. com maestria. da “mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-pé”.. pelo autor-narrador. p.63 Freyre divide o mundo que constrói entre o “nós”. para a linguagem sociológica destrambelhada de sua época. ao qual o narrador se refere. do patriarca safado. Mikhail. os “moleques e mulatas” que teriam sido “o elemento passivo. Casa-grande. a visão de mundo do engenheiro que.. “nos deu de mamar”. tão ricas em detalhes intimistas sobre os fatos das salas e alcovas das casas-grandes e dos sobrados. nas casas-grandes e sobrados. Nessas duas narrativas. 367. Jamais veste realmente a 61 62 63 64 pele do cativo rural labutando no eito doloroso do açúcar ou perambulando pelas ruas atrás do serviço que lhe permitia completar o ganho a ser entregue ao escravizador.

etc. do paladar. do pênis. do gesto. trinta anos após 65 Cf. não raro com a tradicional rudeza dos plebeus apenas enobrecidos.].50. MAESTRI. do sapato. como o grande demiurgo do maravilhoso novo mundo capitalista que se propunha ter nascido das cinzas da escravidão decrépita. etc. 515. Sobrados [. Como já lembrado. o mato é maior! Trabalho e resistência escrava no Rio Grande do Sul. é certo. da magia. processo de legitimação facilitado. Nesse trabalho. op. Entre eles. dos senhores. portanto. p. 237.. alcançaram tensão poucas vezes repetidas três décadas mais tarde. Temas exóticos apresentados como inovação radical da “nova” historiografia francesa. cit. o ficcionista abre amplo espaço às classes subalternizadas. Sobrados e mucambos foi livro inovador em inúmeros campos. Deus é grande. p. em geral. que começou apenas a obter o reconhecimento merecido no fim do milênio passado. nesse ciclo. 2002. descendente direta daquele universo. Mário. Porém.. CEM-RS. da cultura. 1997. 146. as páginas de Freyre sobre a vida quotidiana. da vida quotidiana. envolvidas na glorificação do cafeicultor. Sobrados [.. MAESTRI. em forma apologética.. Sobrados e mucambos constitui lamentação pungente que reconstrói.. do pé. do mulato e do negro.. cit.]. que o sociólogo tenha despertado a má-vontade. Luz e sombras : ensaios de interpretação marxista. Na obra. ao contrário do sociólogo. História íntima Ao aprofundar e radicalizar algumas propostas esboçadas em Casa-grande & senzala. ainda que não as transforme. etc. em eixo da saga encenada. e do plantador do Oeste paulista. seu irmão mais velho. Escritas nos anos 1930. sobretudo das classes senhoriais. – para o autor “história íntima do brasileiro”68 – e a visão da dominância do consenso interclassista sobre a resistência servil na escravidão colonial. precursor. instância axial daquele trabalho.. destacam-se duas grandes démarches metodológicas contemporâneas: a proposta de uma história da sexualidade. Florestan Fernandes: o olhar de um socialista revolucionário sobre a revolução burguesa no Brasil. temos que reconhecer. quando a oligarquia rural. ou. aponta explicitamente como uma das razões do fim da civilização patriarcal a hegemonia da produção escravista cafeicultora do Centro-Sul. 68 FREYRE. p. op. Passo Fundo: EdiUPF. jamais. do abraço.67 Sobrados e mucambos é livro. como a história do gosto. 67 Cf. pela crise da compreensão das ciências sociais como explicitação das razões tendenciais profundas das sociedades pretéritas. 16 .Sul e no Centro-Sul e o discurso sobre os mucambos e seus habitantes ocupa lugar menor no livro – explica o fato de que Sobrados e mucambos supere definitivamente Casa-grande & senzala. p. que desqualifica devido ao caráter que define pejorativamente como “industrial”. no qual José Lins do Rego constringe a alma dos leitores ao descrever ficcionalmente a agonia do mundo dos desapiedados engenheiros diante da voracidade dos engenhos centrais. Porto Alegre: EdUFRGS. devido ao rigor da “escravidão industrial” e o caráter desapiedado de “senhores pobres” ou com “fortuna apenas no começo. 66 FREYRE. cada vez mais alquebrado pelo passar dos anos nas suas generalizações sociológicas. o livro constitui uma espécie de correspondência sociológica do maravilhoso ciclo da cana-deaçúcar. em todos os sentidos. e o conseqüente prestígio de visões subjetivistas e irracionalistas do passado.65 A louvação de Freyre em Sobrados e mucambos do mundo escravista nordestino foi concluída. Seus minuciosos painéis abordam aspectos múltiplos e não raro inesperados. de forma ainda mais desabusada. sobretudo das ciências sociais paulistas. o sociólogo pernambucano refere-se a cativos do Nordeste que temiam ser vendidos para as “fazendas de São Paulo” e as “minas” do Brasil Central. 178. em especial. cenários da civilização que dominou três séculos do passado brasileiro.”66 Compreende-se. era escorraçada do centro do cenário político e social brasileiro por interesses industrialistas que recentemente inauguravam o novo reinado.

10.. FREYRE. um elogio. “velhacaria”. 19.]. a proposta de Sobrados e mucambos da dominância da acomodação dos escravizadores e escravizados.serem longa e imaginosamente explorados em Sobrados e mucambos. associadas comumente a conceitos e expressões semanticamente negativas. são quase obsessivas as referências aos judeus.] foi possível ao africano. proposta em Casa-grande & senzala. p. Jacob. Para Freyre.2 Reafirmação da natureza do judeu Em Sobrados e mucambos. ib. comunicar ao senhor brasileiro o gosto por muitos dos seus valores". prosseguem numerosas as referências anti-semitas do trabalho anterior.. ligados aos de religião ou de raça perseguida [. No mesmo sentido. 494. geográfico e climático”. quando muito. São Paulo: Ática. da resistência melíflua com que o oprimido em geral se defende sutil e femininamente do opressor. etc. é hoje limpidamente dominante na historiografia da escravidão. “parasita” incapaz de trabalho “produtivo”. Nesse sentido. 20. 69 70 71 72 73 74 Id. “[. p. “parasita”.. com destaque para o “determinismo racial. cit. rapidamente e em geral sob uma ótica culturalista. orientada por “interesses comerciais. dedicando. 34.]. “gatunice”.] quase sempre terem sido os escravos revoltados contra seus senhores. 490. sua vontade até no que diz respeito aos gostos e concepções mais íntimas do senhor: “[.. os grandes princípios interpretativos de Casa-grande & senzala. quando muito. sobretudo quando da análise da contribuição de hebreus à formação social brasileira..70 Um desdobramento dessa ótica analítica é a também despreocupação de Freyre – igualmente forte na historiografia contemporânea – com a resistência do trabalhador escravizado. Id. 103..71 Nesse aspecto. reafirma-se que também no Brasil teria imperado o “horror tradicional e ‘canônico’” geral do judeu. p. cit.. 305. A escravidão reabilitada. Sobrados e mucambos foi escrito e publicado em meados dos anos 1930.. em geral “colados” aos estereótipos anti-semitas então e hoje correntes – “comerciante”. Freyre retoma. com freqüência. 526. 35.74 Em Sobrados e mucambos. 1990. Casa-grande [. ciências sociais adjetivadas por ele como “sectárias” e “rígidas” e “comunista-marxista”. “intermediário”.. 17 . 40 et passim. 33.. o cativo terminava impondo. No mesmo sentido. nas páginas iniciais do livro. Sobrados [. negros da África – principalmente os de áreas tocadas pela influência maometana – e não crioulo ou ‘brasileiros’”. quando as visões irracionalistas anti-semitas eram consagradas pelo poder ascendente da Alemanha nazista. como vetor da construção de passado escravista consensual e feliz. mordendo incessantemente os calcanhares expostos de sua louvação das elites nordestinas.. Sobrados [.]. no Norte. cit. O sociólogo cita igualmente sem maiores explicações espécie de conspiração historiográfica realizada por “historiadores judeus mais ou menos apologéticos de sua raça” e a “maçonaria” ou “sociedade secreta” internacional. ib.. é igualmente atual seu encanzinamento contra as ciências sociais marxistas que o perseguiram sempre. 13. em geral.69 Fato que se dá comumente sem que os epígonos contemporâneos do velho mestre reconheçam a filiação... 7. apesar da imensa documentação que possuía sobre o tema.]”. p. op. principalmente brasileira e norte-americana. 12. “magnata”. e não raro aprofunda.. FREYRE. op. oblíquo e envergonhado a ele. “usura”.. tema igualmente recorrente do anti-semitismo nos anos 1930.. op.73 Freyre retoma a proposta de judeu “errante” e “apátrida”. 11. p. tratada. do passado... da astúcia. Cf. “esperteza”. de fisiologia determinada pela vocação natural à exploração alheia. Freyre refere-se a pretensas organizações conspirativas judaicas nacionais e internacionais. através da diplomacia.72 2. Especialmente. GORENDER. 290. Id.

Apesar disso. entre outros: MAESTRI..]. no contexto da também defendida incapacidade do português de forcejar fisicamente em regiões quentes. sem vacilação. cit. Freyre repete. fenômeno que antecedeu e.. A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. Id. para a “aventura comercial”. SCHWARTZ. p. retoma-se sem variações a tese de Casa-grande & senzala do homem americano incapaz do trabalho agrícola sistemático e do autogoverno em comunidades não-tribais. 18 . VAINFAS. de claro corte racista. principalmente nos manuais escolares. 2. São Paulo: Companhia das Letras. op. na defesa da qual Moysés Vellinho distinguiu-se no Rio Grande do Sul77. teriam aberto – “claros enormes no mato virgem e levantaram engenhos.78 Em Sobrados e mucambos. Moysés Vellinho e as virtudes da raça branca.. ed. MAESTRI. MAESTRI. finalmente. como o “português dessa primeira fase da formação do Brasil”. à qual associa. como todo o bom escravista português de então. o judeu. MONTEIRO. 197-203. cit. nos anos 1560-70. naquele trabalho. p. São Paulo: Companhia das Letras. escravizadas nos primeiros anos da colonização. 2. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. novamente. o início da importação sistemática de africanos escravizados. longuíssimas considerações. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial.]. que o orientaria. para levantar engenhos. onde seus cativos abriam “claros enormes no mato virgem”. outros fenômenos. 1994. em Casa-Grande & senzala. Sobrados [. em Sobrados e mucambos e em outras obras. Mário.3 Reafirmação da natureza do “índio” A inadaptabilidade cultural do brasil ao esforço produtivo sistemático e sua incapacidade 75 76 77 78 de autogovernar-se foram teses germinais de Casa-grande & senzala. Tese essa que domi- FREYRE. especialmente a primeira proposta mantém ainda hoje vasto status historiográfico. comumente apresentadas sob viés culturalista. Sobre a escravidão do americano. citada pelo próprio Freyre. com um sentido profundo de permanência a animar-lhe o esforço”. casas-fortes. segundo o sociólogo. não teria realizado obra igual a “Duarte Coelho e dos seus colonos” que. 13. São Paulo: Companhia das Letras. no Brasil colonial não teria sido “um grande criador de riqueza e de vida nacionais ou subnacionais”. Ronaldo. Deus é Grande [. [século XVI]. deitando “raízes na terra”.. destinado ao desaparecimento ou à absorção forçada. financiou. Portanto. Essa tese esdrúxula permitiu que Freyre “contornasse” a necessária referência à constrangedora destruição das comunidades americanas do litoral.à “terra”. Os senhores do litoral : conquista portuguesa e genocídio tupinambá no litoral brasileiro. Mário. que comprova ad nauseam a contribuição judaica na formação da classe dos grandes engenheiros nordestinos. como lhe é contumaz. ao contrário. 1988.. sempre.76 É claro o esforço de Freyre em realizar faxina étnica que absolvesse a classe dos engenheiros nordestinos do pecado nefando de ter suas raízes genéticas conspurcadas pelo cruzamento com famílias de “cristão-novos de judeu” portuguesas. op. ao abordar a época imperial. 1995. atualmente desprovidas de qualquer status científico.. Porto Alegre: UFRGS. A explicação da inadaptabilidade do “americano” ao trabalho sistemático e à autodeterminação proposta pelo autor tornava o nativo anacronismo histórico. ib. 1995. freqüentemente. Em torno dessas propostas. tornaria a escravidão do africano – “um homem [..] tropical” – necessidade para o desenvolvimento da América lusitana. fortalezas”. Nesse sentido. Cristão-novos de judeus que escaparam numerosos das perseguições da Inquisição no Reino para virem para o Brasil.. documentação conhecida e. Nesse aspecto. o que. a proposta do empecilho “climático” da colonização européia do norte do Brasil. o “judeu” não teria tido “essa grandeza de criador. John Manuel.75 Para o sociólogo. 12. Um esforço que violenta explicitamente toda a farta informação histórica disponível. p.. Freyre teceu. ver. o que é ainda mais paradoxal..

Id.]. em tal conflito. ib. Comumente. p. p.. ib... Id. adaptar-se. importando da Holanda tudo que era comida [. ib. o empenho dos mesmos ameríndios em repudiarem o trabalho agrário como próprio só dos verdadeiros negros..4 Sobrados e mucambos: a ciência racista de Gilberto Freyre A proposta da adaptabilidade relativa do português ao mundo tropical. p. como assinalado. Id. criar condições novas e especiais de vida.79 Freyre prossegue explícito sobre a incapacidade do americano ao trabalho produtivo sistemático: “Daí. de se fixarem em esforços demorados e sedentários. p. no contexto de ordem social mais complexa que a “tribal”. p. circunscrevendo claramente a visão dualista do sociológico: “Que reagiam contra essa dominação através do que um marxista chamaria ‘luta de classes’ e que a outros tem se afigurado ‘luta de raças’ ou de ‘culturas’ quando na realidade.. 362. incapazes como eram. atra- 79 80 81 82 83 84 85 FREYRE. tese axial na proposta do autor do efeito apaziguador da miscigenação racial nas contradições de classe e de raça no Brasil: “Nem a colonização portuguesa do Brasil [.. para transigir. em relação ao homem do resto da Europa. o problema encarado na sua crua realidade forçou os administradores portugueses do Brasil a modificarem a idéia de administração das aldeias ou vilas indígenas pelos próprios indígenas [.82 2.”84 Portanto. Sobre o não-estabelecimento de colonos europeus no Nordeste... enquanto os já habituados aos excessos de tutela paternal dos Jesuítas e de outros padres eram simples crianças grandes tão incapazes de se administrarem a si próprios como os criados à sombra feudal daquelas casas-grandes [.”80 No mesmo sentido.. sem maiores variações de forma e conteúdo: “Sem a plasticidade do português. 542.].. parece ter se exprimido a interpenetração de vários antagonismos e nunca um só.] de colonos europeus [.81 Uma incapacidade que se aprofundaria quando o americano conhecia a autoridade paternal ou despótica do europeu: Os indígenas recém-atraídos à sociedade portuguesa e à cultura cristã não tinham a capacidade para se governarem [. geográficos e raciais são retomados sem variações na continuação de Casa-grande & senzala... p. são associados a explicações de cunho culturalista.. 361.”83 Há também continuidade linear na defesa de imensa abertura racial da cultura lusitana. sem aquele seu jeito único.] se fez sobre outra base: a da importância capital ser a do status religioso e não a do de raça...]. essa espécie de trabalho repugnou desde cedo ao nomadismo dos nativos desta parte da América. os princípios deterministas climáticos. a do status político e não a do de cor. sem dúvidas. Na verdade. o holandês viveu aqui uma vida artificialíssima.. ib.. Id.. maravilhoso. 366. p. 361. 155.]... Id..]. Freyre escreve: “[.] sob condições de clima mais favoráveis aos brancos que as do Norte do Império. 504... é tese retomada de Casa-grande & senzala..]”... etc.”85 É clara a tentativa do autor de superação das contradições postas por suas interpretações.]”. teriam as alterações técnicas importado em maior substituição de trabalhadores escravos por homens livres e até na introdução [. ib.na igualmente a superficial cultura sociológica e histórica nacional sobre o passado brasileiro. 19 . ib... não economiza palavras sobre a incapacidade dos homens nativos de auto-administrarem-se. que teria sido intransigente apenas na questão religiosa. “Em geral.... economicista.. Id. Sobrados [. e dentro de leis de terra ou de propriedade menos favoráveis aos latifúndios [. 155..

que permite circunscrever.vés de relativização e negação parcial do proposto. quando o voto feminino praticamente era desconhecido na América Latina. alargam-lhes as ancas [. Id.. as diferenciações físicas. p. para as coisas do “lar”. sociais e culturais.. ib. 103. a “divergência” e a “diversidade” culturais nascidas de especialidade natural dos sexos. “sexo”.. ou antes. entre os “homens” e as “mulheres”. em criatura franzina. como já era habitual na época.. A mulher conservadora Para Freyre. em grande parte. ao lado de alma feminina. o físico e a especialização natural ensejariam divergências de intelecto e de sensibilidade entre homens e mulheres. com maior precisão. para reafirmar e radicalizar.]”. inovadora e criadora. ou seja.. ib.87 Para o sociólogo.... para ele escassas nas sociedades primitivas.. ib. outro mais estável – evidentemente se prende ao físico da mulher-mãe: mais sedentário [. a visão racista do autor. defendendo.]”. no interior delas.] para melhor ajustamento de sua figura aos interesses do sexo dominante e da sociedade organiza86 87 88 89 90 Id. não raro.. p. Surpreendentemente. explicitamente. p. não propunha claramente hierarquia de raças e sexo. seriam sobretudo produto da cultura machista e patriarcal: “O domínio de um sexo pelo outro afasta-se dessa tendência. Id. sensual [. 97.] convém a extrema especialização ou diferenciação dos sexos”86. a longa digressão de Freyre sobre a diferenciação de gênero dá-se inicialmente em sentido revolucionário. parece tão fora de dúvidas quanto existirem diferenças semelhantes entre as raças”. a existência de “di- 20 . nascida da exploração e dominação masculina e patriarcal. no mesmo capítulo. Outra característica de Casa-Grande e Sobrados é a contradição entre afirmações.. Essa vacilação metodológica é patente no capítulo “A mulher e o homem”. entre as “raças”: “Que existem entre os sexos diferenças mentais de capacidade criadora e de predisposição para certas formas de atividade ou de sensibilidade. Id.. “dança”. 128. das notas e da bibliografia empreendida quando das diversas reedições. Assim. dos fatores econômicos. após negar.. para o cuidado das crianças. da sobre o domínio exclusivo de uma classe. o fenômeno parece dever-se à enorme ampliação do texto. 93.. p. Id.. abruptamente. que a comprimem.. amolecem. conservadora e sedentária.. devido precisamente à especialização biológica. ib. Sobrados e mucambos foi escrito em meados de 1930. o autor afirma natureza masculina.89 Portanto. 106. essa visão revolucionária é corrigida.. Uma “diferença” também presente. conforme a “moderna” visão racista da época.88 No mesmo capítulo. A conclusão peremptória sobre a “diferenciação” de raça e de sexo circunscreve plenamente a visão racista de Freyre que. etc. Nesses anos. de uma mulher dotada naturalmente para a “cozinha”. Assim sendo... não haveria dúvidas: [.. calcada em visão materialista extremada de construção históricocultural das diferenças de sexos.] a especialização de tipo físico e moral da mulher. para a figura comum ou única da mulher-homem ou do homem-mulher e acentua de tal modo a diferença de físico entre os sexos [. com raças superiores e inferiores. Além da assinalada fragilidade analítica. principalmente. neurótica. p. não haveria dúvidas quanto à diferenciação psíquica e cultural nascida da diversa fisiologia humana masculina e feminina: “O fato cultural dessa divergência entre os sexos – um mais militante. Freyre propõe sobre a questão: “À exploração da mulher pelo homem [.] resulta. o negado. tão das sociedade primitivas. vicejavam as teorias sobre a “hierarquia” ou “diferença” entre as “raças” humanas e.90 Idéias ainda vigentes no Brasil na visão de um “negro” naturalmente predisposto para a “música”.. de uma raça e de um sexo. ib. empreendedora.

cit. as qualidades superiores cabiam. cit. –. o que dava.. etc. ib. dissociação circunstancial. 21 . aqui e ali. Oliveira Vianna propunha em Raça e assimilação. através deles.. p.. do norte europeu. cores regionais diversas conforme as condições físicas da terra. que apenas o “fanatismo feminista ou certa mística comunista-marxista” eram – segundo o sociólogo de Apipucus – capazes de “negar”.. por Oliveira Vianna. pensamento lógico. resistência ao trabalho.. aos homens brancos.. em face das experiências colonizadoras da África. FREYRE. os grupos formados por etnias de raça nórdica parecem revelar sensível 91 92 93 94 95 96 Id. Freyre retoma igualmente a visão da determinação da fisiologia do homem pelo meio. tendência à afetividade. e. intelectual do qual Freyre tenta. sempre se manteria a “diferença” tendencial relativa em favor dos brancos e dos homens. etc. em sua obra. ocorreriam profundas “diferenças entre os sexos” e “entre as raças”. sobre a fisiologia e a psique humana plasmassem os indivíduos e. No caso dos negros. qualquer coisa.. como por viverem nas florestas. de solo e de configuração de paisagem ou de clima e não apenas as culturais.. propriamente ditas. das várias raças. nascidas de “imposições biológicas”. Sobre a especialização climática do europeu.. defendia: “Em face das revelações da ciência contemporânea.. segundo Freyre. os povos do Norte terminaram mais verdes.]”. já que. 28. 103. Id. mas não de conteúdo. Uma diferença defendida por Freyre. a proposta da “transmissão biológica de caracteres adquiridos”. ib. Id. daí. ib. enquanto negros e índios teriam atributos variados. p. entre homens e mulheres. nos fatos.. comumente determinadas pelo meio. e parte integrante da bibliografia inicial de Casa-grande e Sobrados: “Com efeito. propõe: “Tomaram também com o tempo essas raças. p.. clássico do racismo brasileiro. Nessa especialização natural. sobretudo – capacidade de mando.. Como assinalamos. p.] nos inclinamos a acreditar em diferenças psíquicas entre as raças. propunha que as influências do clima. de meio social. A mesma hierarquia diferencial ocorreria.” Extremando e parodiando. 353. 28. Id. do mesmo modo que entre os sexos. ainda garantindo-se as mesmas condições de existência e formação. Oliveira Vianna. como acabamos de ver. 377. de 1932. no mesmo.. Uma visão igualmente abraçada. no final. op. base da teoria racista de Gobineau. comungava com o mesmo no relativo aos pressupostos básicos da ciência racial. por que continuar a contestar que haja diferença no ponto de vista da mentalidade e do caráter entre o negro e o índio. para além das “circunstâncias de formação social”.94 Ao falar na diferenciação regional da população do Brasil. com variações de ênfase.. do solo. predispondo-os a especializações culturais que não implicariam necessariamente em superioridade ou inferioridade de inteligência. apresentada em Casa-grande & senzala.96 Ou seja. entre esses dois tipos e os tipos brancos [. Mas nem todas as diferenças seriam removíveis pela estandardização social ou cultural dos dois sexos e. nos anos 1920. se sua pureza biológica resistisse à miscigenação. op. terminassem por “afetar a raça”. etc. Sobrados [. se possível. 49. p.ferenças” naturais entre “raças” e “sexos”.92 O Grande Pai Branco Sobre as raças. porém não tão excelentes. mais aquosos!95 Assim sendo.91 incompatibilidade com os climas de tipo tropical. Casa-grande […]. da Austrália e da América. enquanto os do Pantanal. principalmente os equatoriais”.93 Em Sobrados e mucambos. é claro. na mesma obra.. FREYRE.]. ib. p. Freyre pontifica sobre as diferenças naturais entre “raças” e “sexos”: [. o grande patriarca no Brasil do destrambelhado arianismo. dos seus caracteres psíquicos.

e na centúria seguinte. do branco. a historiografia brasileira prosseguiria fixada no mundo rural. em geral. 1978. identifica esse momento escatológico da velha formação social brasileira normente com a perda da hegemonia política. essas duas tendências individualistas. C. Alvenaria burguesa : breve história da arquitetura residencial de tijolos em São Paulo a partir do ciclo econômico liderado pelo café. segundo o local em que teria se processado. São Paulo: Perspectiva. do engenheiro. diante do poder do Estado. 2. pelo “pobrado” do “burguês” urbano. ed. na apresentação do senhor branco como o grande demiurgo da sociedade nacional: No Brasil. Nos séculos XVI. nas Minas Gerais. com epicentro verdadeiramente glorioso no Nordeste açucareiro. Contribuição ao estudo da evolução urbana do Brasil. Nestor Goulart. 1968. em especial. “em alguns pontos”. Carlos A. teriam se unido no homem patriarcal. criador ou organizador dos valores mais característicos de nossa diferenciação social ou nacional. A dissolução do patriarcalismo se materializaria sobretudo no deslocamento não apenas simbólico da casa-grande rural pelo sobrado urbano. com importantes inflexões desse processo. necessariamente latifundiário e escravista. 22 . por décadas. diante da máquina. do cativo. diante da mulher. o grande protagonista da segunda parte da trilogia do autor sobre a civilização brasileira.. etc. – Nestor Goulart Reis Filho. questão não suficientemente tratada nem mesmo em Ordem e progresso. do campo. Os momentos iniciais ocorreriam no século XVII. diante do mulato. com base no estudo do sobrado senhorial. não raro imprecisas e jamais exclusivamente determinantes. 1987. em 1808.98 Freyre não estabelece correspondência entre a crise do patriarcalismo e a crise da escravatura. cultural.97 2. em Pernambuco. de raça e de sexo. determinada pela “modernização” e “reeuropeização” do Brasil. 1500-1720. como “uma quase maravilha de acomodação” dos fortes antagonismos entre classes e raças. levantada com a ajuda da contribuição rústica. e no engenho e na casa-grande. imprescindíveis ao projeto colonizador. amp. para descrever esse processo. essa última descrita por Freyre. esse processo teria ensejado a gênese e a consolidação da civilização patriarcal latifundiária e escravista brasileira. 103. Quadro da arquitetura no Brasil. sobretudo nordestinos. As razões do fenômeno seriam igualmente variadas. São Paulo: Nobel. 1989.5 A agonia do patriarcalismo escravista Freyre propôs em Casa-grande & senzala a aclimatação lusitana do mundo ocidental aos trópicos. diante da cidade. LEMOS. Ao contrário. Como veremos a seguir. 6. São Paulo: Perspectiva. Essa civilização magnífica teria seu coração no mundo nordestino rural. e o fim do tráfico transatlântico de cativos 1850. teria sua objetivação paradigmática na superação da “casa-grande”. ib. Esse criador foi principalmente o colonizador branco ou apenas manchado [sic] de sangue ameríndio ou africano. Cozinhas. Carlos A. se destacariam a dissolução da autoridade do patriarca rural. exceção de uma plêiade de historiadores da arquitetura. do homem. rev. Apesar do caráter germinal desse estudo. investigação que resultou em valiosíssima contribuição à história da vida urbana do Brasil escravista do século XIX. Carlos Lemos.Uma visão geral histórica que Freyre sintetiza. econômico do patriarca rural. diante do bacharel. Entre elas. ed. diante do jovem. epicentro do mundo familiar. racial e sexual lusitana. Freyre situa o início dessa superação em data variável. E. geridos no contexto da forte transigência cultural. São Paulo: Pioneira. necessária e compulsória de americanos e africanos. XVII e XVIII. LEMOS. O autor propõe igualmente a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro. terceiro e tardio tomo da trilogia. Dissolução que. econômica e social dos grandes escravistas do 97 Id. Freyre empreende. p. etc.C. do homem velho. – que retomaram com criatividade a lição do pernambucano. para ele. nos fatos imprecisa. 98 REIS FILHO. O grande tema de Sobrados e mucambos é precisamente o início da dissolução da civilização dos grandes escravistas patriarcais..

trabalham quase nada. O autor explica que.. refinados e. sua indiferença era tal que confundia-se [sic] às vezes com crueldade”.]. MATTOSO. 1982. “por sua própria vontade. Nesse sentido. Para ela. os proprietários mais pobres de “engenhocas” “procuravam tirar todo o proveito do seu capital-homem.. como quilombolas. uma lenta e inexorável dissolução de mundo superior em sociedade inferior. esses “sentimentos. sobretudo nordestino... em especial. Daí fazendas onde os senhores davam apenas aos escravos feijão cozido com angu. deixa passar o reconhecimento que.. 23 . vestem. constitui exemplo excelente dessa modernização do paraíso escravista de Freyre. Sobrados [. e dos produtores de cana-de-açúcar. alojados e alimentados. rebelam-se quase apenas por inadaptação psicológica e cultural à escravidão. a imensa maioria da população escravizada. o senhor patriarcal no Brasil limitava-se a dispensá-los àqueles escravos ou servos que considerava uma espécie de pessoas de casa: mães-pretas. Freyre empreende defesa praticamente incondicional da excelência e superioridade relativa das condições gerais de existência dos trabalhadores escravizados do mundo rural nordestino.Nordeste. p. espécie de senhores de seus senhores. não para procurar abrigo nas matas.. publicada inicialmente na França. [. diante das duras condições de existência nas pequenas propriedades.99 E. a superação do patriarcalismo escravista não abriu caminho a um mundo novo. particularmente pela historiografia norte-americana e brasileira especializada. A visão do sociólogo pernambucano é antimoderna. um bocado de toucinho. potenciados. como falsos libertos.]. 494. esse casos seriam exceções que comprovariam o bom tratamento recebido nos grandes engenhos. ao falar do bom tratamento concedido pelos escravizadores a seus trabalhadores. Como referido. Ser escravo no Brasil. Ao contrário. os trabalhadores produtivos. Freyre concede que alguns cativos trabalhassem duro e fossem mal vestidos. Kátia de Queiros. 99 FREYRE. malungos. a sua liberdade jurídica. como sabemos..6 O paraíso escravista Para alicerçar sua proposta de fim de mundo.] Pelos outros.”101 Porém. fugiam de seus escravizadores. na acepção plena da palavra. Sobrados [. p. ou nas cidades. mucamas. onde os cativos são praticamente amos de seus amos. normalmente. isto é. onde o trabalhador escravizado obteria conquista ontológica. moram e comem otimamente. partiam à procura do éden escravista. explica o sociólogo. eram.. as viúvas doceiras que tendo um escravo só. 178. ainda que relativa. os outros. Leitura apologética entrecortada por algumas poucas descrições de cunho realista que não chegam a matizar a sugestão de paraíso perdido.. Ao contrário. Entretanto. São Paulo: Brasiliense. seriam retomados. 2. jerimum ou abóbora cozida [. praticam seus costumes sem travas. as padarias onde o trabalho era longo e duro”. generalizados para a escravidão como um todo. com indiscutíveis perdas de qualidade principalmente no que diz respeito às relações sociais e interpessoais. 101 FREYRE.100 No cenário escravista que constrói. 100 Cf..]. apresentados como verdadeiros privilegiados. profundamente conservadora. Segundo ele. em geral. A obra quase fantasiosa da historiadora greco-francesa Kátia de Queiroz Mattoso – Ser escravo no Brasil –. os cativos super-explorados deixavam “os donos de engenhoca.]. os grandes cenários e démarches meto- dológicos dessa apresentação piedosa de Freyre do escravismo patriarcal. dinâmico e moderno. saudosista. que os esgotavam de trabalho. engenhos com muito negro. faziam-no trabalhar por três. com localização conhecida nos “engenhos grandes com a fama de paternalmente bons [. e não seduzidos por ninguém”. especialmente a partir dos anos 1980. se trataria de percurso histórico tendencialmente decadentista.

”103 O que sugeriria. cit. lhe daria afagos! “A última capacidade faltava ao senhor pobre. Em “pedra e cal”. propondo que os proprietários de pequenas posses eram comumente seres hiper-humanos. Nesse sentido. 283. não deixando assim dúvidas 24 . que os cativos fugissem das grandes propriedades para as pequenas. de comportamento superpatriarcais. “de modo geral.. p. a “habitação” era “protetora”. às vezes.cit. a mesma alimentação.”108 Segundo Freyre. Para Freyre. p. em ternuras verdadeiramente paternais.. cit. os escravos pescavam peixes e crustáceos. elemento melhor nutrido que o negro ou mestiço livre e que o branco pobre de mucambo ou palhoça do interior ou das cidades”.. ib. porque os trabalhos em comum. sobretudo. nem mel de furo. 288. reafirma a proposta que: “Os escravos também são mais bem tratados nas pequenas fazendas do que nas grandes. 103 Id. segundo essa interpretação paradoxal.. mamão) e melaço. deveria escapar cada noite da casa-grande para tentar arranjar uma boca-livre com seus cativos nas senzalas!110 O autor generaliza suas afirmações fantasiosas. “embora com característicos [sic] de prisão”. 179 106 Id. Em outras situações. o hiperpatriarcalismo nasceria de auto-afirmação psicológica do “senhor pobre” que. p. “melhor nutrido que o branco da casa senhorial” que. devido aos hábitos alimentares de origem africana. op. também “de modo geral”. propõe o sociólogo. ib. seriam “superiores” às próprias “habitações de trabalhadores rurais na França!”.”107 Visão levada ao paroxismo por Kátia Mattoso. Sobrados [. historiografia contemporânea da escravidão..”102 Registre-se que. incapaz de dar carne-seca ao negro. noites de se sambar até de manhã.p.. p. apesar de indicar as pequenas unidades produtivas como espaço de exploração economicamente despótica dos cativos pelos senhores.. limão.109 Uma proposta que não explica por que os cativos fugiam continuamente dos grandes e pequenos engenhos e.]. 51. 105 Id.105 A alimentação era simplesmente “farta”. no contexto das propostas do autor. Vidinha pra lá de boa! Em certos casos... ib. cuja afirmação de poder patriarcal sob a forma de padrinho extremava-se. o cativo das senzalas e dos sobrados e o próprio “negro de mucambo menos desafricanizado”. carne-seca.. frutas locais (banana. ib. comumente “casas de pedra e cal.. os mesmos divertimentos fazem desaparecer quase toda diferença entre escravo e senhores. laranja.. décadas mais tarde: “[. 110 Loc. 287. 109 FREYRE. nem cachaça.106 Mesmo que pudesse “ser sempre a mesma ou variar pouco”. Ser escravo […].. Próximo à costa ou aos rios.. 104 Id. tese igualmente retomada pela 102 Id. p. Freyre aponta igualmente em outra direção. milho.. por que os homens livres não iam de joelhos pedir para serem escravizados nesses centros escravistas de mesa farta e rica... com janela e alpendre”. p. “não faltava nunca”. 282 107 Id. segundo a tradição oral.”104 Freyre é também claro na sua proposta sobre a excelência da moradia dos cativos no escravismo nordestino. o cativo teria sido. op. eram. As “senzalas de engenho”. super-exploração quase necessária devido à baixa acumulação propiciada.179 108 MATTOSO. ib.] o trivial do escravo continha farinha de mandioca... das quais decorria crescer o afilhado escravo em situação cultural quase igual à dos filhos [. 118-9.às vezes fartura de mandioca e de milho. cachaça cheirosa.]. ib. tal comportamento devia-se à grande proximidade entre escravista e escravizados.. “embora com aparência rude”. p. como não faltavam também nunca. caça.

Freyre volta à carga.. costumes e hábitos” – sempre de acordo com Freyre. p.] estar satisfeito com sua vida de escravo.. mas sobretudo para seus trabalhadores feitorizados. não raro desapiedada. 116 Id. 285. animais de almanjarra.]. do arroz. p. e o branco com água na boca. de todos os elementos da sociedade patriarcal brasileira.. o cativo se rebelaria apenas quando se quebrava o pacto ou acordo implícito estabelecido entre ele e o proprietário. comandada por “homens ávidos de fortuna rápida. com o seu estado de escravos ou de servos. a frustração e revolta do cativo seria fato singular..117 Assim sendo. substituída a seguir por escravidão industrial. não é de se admirar que o trabalhador escravizado fosse homem feliz: “O negro com quem Saint-Hilaire conversou em Minas Gerais. p.. o mais bem nutrido. no Brasil. tratados paternalmente pelos senhores. “que impressionaram os observadores estrangeiros mais penetrantes e mais objetivos nos seus reparos sobre condições de vida e de alimentação” que teriam parecido a muitos deles “superiores às dos operários ou camponeses europeus e livres” da época..cit. 118 Id. p. à “saúde” e.. e que confessou [.. ib. já que o senhor patriarcal da casa-grande e do sobrado praticaria igualmente uma larga “tolerância para seus ritos.. parece que deve ser considerado limpidamente representativo ou típico dos escravos de sua época.sobre o proposto: “[.] autoriza-nos a generalizar ter sido o escravo de casa-grande ou sobrado grande.].”111 Definitivamente. p. sempre que tratado paternalmente por senhor cuja superioridade social e de cultura ele reconhecesse. 113 Id. “À despersonalização das relações entre senhores e escravos é que principalmente se deve atribuir a insatisfação da maioria dos africanos ou descendentes de africanos. ao perder o canavial a primazia para o eito do café. etc. os cativos começaram a conhecer exploração. p... comple- 25 . p. “evidentemente a maioria da população escrava da época colonial e dos primeiros decênios do Império”. do algodão.”114 Para Freyre. 114 Id. ao impor-se a usina sobre o engenho. com milho ou angu. 524. 117 Id.”115 No contexto dessa escravidão feliz. ib. e após pelo trabalho livre.. de eito ou de tração [.. isto é. enfastiado. 112 Loc. no Brasil. 525. é que muitos dos negros os renegavam. 283... nas cidades e nas fazendas escravistas do Sudeste. considerando-se as excepcionais condições de existência conhecidas pelos últimos à sombra das paternais senzalas e dos cheirosos canaviais. ib. com pirão de mandioca [. a decadência da sociedade escravista patriarcal. uma vida de deixar o negro gordo. “Quando os brancos fracassavam como pais sociais de seus escravos negros para os tratarem como simples 111 Id.. faminto! A proteção acordada ao cativo pelo senhor referia-se ao “corpo”. ib. constituiria hecatombe de civilização não apenas para os amos. 525. e nem sempre por senhores de antigo feito patriarcal”. Ao se afastar o cativo de seu senhor. no mínimo saudoso de sua terra e sua gente deixados no além-mar: “São várias as evidências de que o escravo africano ou descendente de africano. devido à ruptura das práticas gerais paternalistas... “os extremos – senhor e escravo – que outrora formavam uma só estrutura econômica ou social.”116 Seriam esses cativos do mundo patriarcal. Nutrido com feijão e toucinho.. agora no que se refere ao cativo africano. ib. 524. para quem ficasse com dúvida. 523.112 Gordo e feliz Nesse contexto geral... ib.”113 E. 115 Id.118 Nesse novo contexto. foi indivíduo mais ou menos conformado com seu status.. ib.. 523. logicamente à “psique”.

socorreu-os na velhice e na doença. p..121 Bebendo à exaustão e com gosto o cálice da apologia. um pouco confuso. as visões de mundo dos escravistas nordestinos. 123 Id. O grande desastre Uma degradação social e existencial que atingiria. ib. com imenso virtuosismo e cabotinismo. agora “trabalhadores livres”. sempre segundo o sociólogo pernambucano. cit. “[.. privado da proteção patriarcal da Casa-grande. olhando através dos tempos.. talvez inconscientemente. sem jamais ter alcançado conhecê-lo em primeira pessoa. pelo menos. nesse novo mundo sem a escravidão.] só depois do descalabro da abolição”. não só necessário como vantajoso para senhores e escravos. garantida pelo escravizador que o agasalhara. p. talvez. 51. agora o negro e a negra livres encontravam-se nas cidades. quando patriarcal. op. em Casa-grande & senzala. se deparasse.. em plena escravidão. consigo mesmo. ladrão... capoeira. p. 124 Idem.. para os quais os cativos viviam como privilegiados e a Abolição fora.”120 Uma decadência que se projetou igualmente sobre a vida cultural e a independência pessoal do homem e da mulher “degradados” de escravos à situação de homens livres. alimentara e protegera fartamente.119 Então.”123 Em Sobrados e mucambos. mais prudência. Freyre transcreveu.] desfeito [. sob a autoridade despótica e insensível do Estado. “quase sem remédio.. após 1888. sua maior exacerbação. op. tornaram-se metades antagônicas ou. um pouco assustado. op. Casa-grande […]. 390.. 153. sem assistência e sem amparo das casas-grandes”.”124 Era como se. o sociólogo registra e comenta.]. Sobrados […]. tese já esboçada. p. 109. 524.”122 Portanto. definiu a Abolição como uma verdadeira agressão ao cativo: “[. maior sabedoria. um pouco perplexo. quando da Abolição. com relação a culturas e a populações consideradas por eles inferiores”.. propondo e defendendo. os antigos cativos... proporcionou-lhes aos filhos oportunidades de acesso social... p. em linguagem sociológica e narrativa histórica. a ordem e o mundo que tanto amou. cit. ib. “infelizmente” livres. cit. Então. em emocionado elogio aos escravistas. O terror da burguesia dos sobrados.] o patriarcalismo que até então amparou os escravos. que se estendeu “com igual intensidade aos negros e pardos já agora desamparados da assistência patriarcal das casas-grandes e privados do regime alimentar das senzalas. 26 . 121 Id. 120 Id.. Freyre já propusera que tamanho fora o equilíbrio social e racial da sociedade patriarcal que. prostituta e até assassino. os cativos conheceram a situação de miséria da população livre pobre. 122 FREYRE. ib. passaram a penar.. p. o negro cativo viu-se reduzido para todo o sempre à mesma condição terrível conhecida pelos irmãos negros e mestiços. Se nos “séculos anteriores.tando-se em algumas de suas necessidades e em vários dos seus interesses. o estudo em que escravista norte-americano. para todos. pensando. em 1829.]. 179. indiferentes umas ao destino das outras”. houvera. 119 Id.] e dos grandes senhores patriarcais. igualmente. muito “ex-escravo”. alimentou-os com certa largueza. um pouco maravilhado.. tornou-se malandro de cais... sobretudo nas cidades. mais agudo senso de contemporização da parte das autoridades civis [. “degradado [sic] pela liberdade e pelas condições de vida no meio urbano. sistematizara sociologicamente a tese de que a escravidão seria necessária e positiva para escravizadores e escravizados: “Parecia-lhe o sistema escravocrático. Casa-grande [. no qual. um grande roubo e uma grande perda... sempre que soubessem se entender e se completar [. sem a proteção da casa-grande e do sobrado.

129 Id.. nos fins do século XVIII e nos começos do XIX.. fez que ele.. da do industrial.127 Por muito tempo.. p.. segundo Freyre.. onde ocorreria uma “considerável invasão das atividades industriais e até mercantis por gente nobre mais afoita em desembaraçar-se do preconceito ruralista”. em São Luiz. não foi tão simples. e [.7 Sobrados e mucambos: o fim de uma era Em Sobrados e mucambos. em Salvador. nas “áreas mais europeizadas” do Brasil. [. substituído nas cidades pelo poder superpatriarcal [. abrindo maior espaço para os “súditos” e os “cidadãos”. foi a casa urbana... p. ib. depois do semi-rural.. 19. 128 Id.. p.] começos do século XIX – era na própria imprensa brasileira que se esboçava a glorificação da figura do comerciante. de economia. se despedaçasse aos poucos”. para ele. Esse “declínio do patriarcado”. segundo ele. o processo iniciara já em “fins do século XVIII”. 132 Id.] – não só do Bispo como do Regente....2... 281.130 A nova tendência. para. ib... de cultura”.. a Bahia teria escapado a essa influência. 355...]. semi-urbano. “primeiro do rural.”132 Essa transição devera-se à “compressão do patriarcado rural por um conjunto poderoso de circunstâncias desfavoráveis à conservação do seu caráter latifundiário e. nem a ascensão da burguesia tão rápida. de organização de família. que sofreu europeização mais rápida e nem sempre no melhor sentido”. se realizaria em ritmos e tempos diversos. como que 125 Id.. teria deslocado o poder político e econômico para os novos senhores: “[. Segundo o sociólogo. contido ou comprimido no espaço físico como no social. ib. 268.. Ou do Estado [. “O drama da desintegração do poder. “Não tendo Salvador. Freyre propõe-se a descrever uma lenta crise do poder do patriarca rural.]. afinal. por algum tempo quase absoluto. p. o sobrado burguês. ib.. 131 Id. 302..”128 Uma “das mais ostensivas alterações na organização social do País. 126 Id. se industrializado na sua economia e se mecanizado nas suas indústrias com a mesma rapidez de São Luís do Maranhão.. em São Paulo e novamente no Recife”. agora sob a forma de trapicheiros e de outras figuras de comerciantes [. p. ib. nos inícios do século XIX. urbano”. 275. na primeira metade do século XIX.. João" fora “precisamente o declínio do poder patriarcal familial. conservou sua aristocracia de sobrado um sentido de vida patriarcal [. do pater familias rural. determinando seu modo de viver: “Depois da chegada do Príncipe Regente.”125 Porém. 126 A “reeuropeização" se manifestaria “na área mineira do século XVIII. superado.]. desde a chegada ao Rio de Janeiro de D. no contexto da nova sociedade urbana.. 289. do Imperador.. p. fazer-se sentir principalmente no Rio de Janeiro. através das diversas regiões do Brasil escravista. ib. p. 305.. não raro com avanços e retrocessos.. 208. p. ib. ib. como já assinalado. “outrora quase ausentes”. conheceríamos a objetivação e subjetivação de novos segmentos 27 .”131 Uma hegemonia em consolidação que se apoiava igualmente no crescente prestígio político e ideológico das classes urbanas e burguesas ascendentes: “[... do Rei e... no Brasil.133 Com o eclipse do pater familias. 127 Id. é muito vacilante sua periodização desse processo que... sociologicamente.]. da do artista [.] toda força econômica do Império estava passando de novo a mãos de portugueses. 130 Id. ou individualistas.”129 Modificações que penetrariam no seio da organização da família senhorial brasileira.] mais característico. p. pelo burguês citadino. que se aceleraria. feudal. 133 Id. ib. teria originado formas “particularistas.] mais rígido.

. – facilitado pela emergência de ”outras figuras de homem […]: o médico. os dos primeiros decênios do século XIX. p. etc. 153. 138 Id. ib.137 “Com a ascensão social e política desses homens de vinte e trinta anos.] período de diferenciação profunda –. 135 Id. ib. a mulher. Freyre fala de “máquinas” “enchendo as cidades”. sobre o cavalo a vapor”. da mulher pelo homem. p. o operário. 87. no Brasil da primeira metade do século XIX. o mestre-régio. ib. já que diminuíam “a importância tanto do escravo como do senhor. São jornais. numa “inundação medonha” que reduziria “o sistema patriarcal brasileiro. entre nós. o jovem. 142 Id. no campo. p. 22.” Eram máquinas que vinham revolucionar as cidades e os campos. mais doença. ib.. anunciando o fim da antiga ordem. 139 Id.... elevando-se juridicamente e moralmente.. a primeira metade do século XIX.”139 Nesse novo 134 Id. o chefe de política. pai sociológico e protetor – propõe Freyre. seria a algoz do trabalhador escravizado.sociais – o menino.. reunindo agora centenas de cativos em imensas unidades produtivas onde a nova dimensão das explorações tornava o produtor escravizado verdadeiro desconhecido daquele que fora por séculos seu proprietário. o processo. ib.. p.”136 Uma superação do patriarca rural e também de geração. 136 Id. 491.. o intelectual. 389. “outrora mantidos em equilíbrio à sombra dos engenhos ou das fazendas e estâncias latifundiárias”.. já antigo. com o filho e o escravo.. de ordem e de paz.141 Uma hecatombe que se teria dado sob os olhos de todos... o juiz. 82. da família pelo chefe. […]. ib. do indivíduo pela família. o ocaso do patriarca rural seria sobretudo o momento da radicalização das oposições de classe e raça: “[.. cujos anúncios fazem tremer nas bases todo o sistema escravocrático e patriarcal […]. ib. o presidente de província.142 Uma máquina que. 137 Id. 140 Id.. e.. o diretor de colégio. do escravo pelo proprietário: e mais individualismo – da mulher. ib. ensejando que se radicalizassem e se extremassem “os antagonismos de cultura européia e de cultura africana ou cultura indígena”. libertando-se da excessiva autoridade patriarcal. p. por sua vez. “quase pelo meio”. como de pobres por ricos. Mais velhice desamparada. não era necessariamente signo de progresso: “[. 122.138 Para o sociólogo. p. menos absorção do filho pelo pai. do menino.135 Também decadência A ascensão de novos protagonistas que. que até os princípios do século XIX fora um culto quase religioso […]”.. do negro – ao mesmo tempo que mais prostituição. p. baseado antes sobre o trabalho humano que sobre o animal. “o sistema casa-grande-senzala” partiu-se. Tanto do proprietário branco como do servo negro”..] nas principais áreas do País.. os “novos sistemas de família e de sociedade teriam de basear-se sobre a mecânica. de tolerância e de justiça”. segundo Freyre. aguçou-se.. foi diminuindo o respeito pela velhice. devido a sua “política de urbanização e de centralização.. tudo segundo Freyre.140 Um dos principais vetores dessa “revolução” seria o maquinismo. a restos de naufrágio”. apoiada pelo próprio Pedro II. “Nunca uma revolução se fez mais escandalosamente à vista de todo o mundo do que essa. 28 . p.”134 “[…] a figura da mulher foi.]. de africanos e indígenas por portadores exclusivistas de cultura européia [. mais miséria. 534. sobre o carvão. 122. p.... 141 Id. de opressão não só de escravos ou servos por senhores. menos patriarcalismo. ib. […]. contexto. Nesse novo mundo tecnológico.

.146 Uma integração que ensejaria igualmente transferência de poder. e mais do que 143 Id.. p. 586.” “Dentro de uma sociedade patriarcal e até feudal. “A casa-grande.]. registro vivo para Freyre de transigência já constitutiva da essência da formação brasileira. isso. não só para o burguês intelectual – o bacharel ou doutor às vezes mulatos – como para o militar – o bacharel da Escola Militar e da Politécnica.. feudal e capitalista. Destacamos. p. negróide. 573. entre os dois grandes antagonismos: o senhor e o escravo. ao mesmo tempo. tornavam-se maiores as oportunidades de ascensão social. para os mestiços urbanos... não feneceu. certamente em forma menos completa e perfeita. como foi o Brasil durante o tempo quase inteiro da escravidão […]. ib. escravista.. patriarcal.. ib. ib. no mínimo sobre suas imensas fazendas... ib.143 Novos protagonistas A nova individualização das categorias sociais. em vários casos. [. de forma profundamente não unívoca. tão grande nas cidades como nas fazendas. p. as categorias sociais que utiliza.. 529.. 147 Id. antagonismos entre os extremos.144 Porém. mas fortaleceu-se o império político. dentro de uma sociedade rural e patriarcal que procurava integrar-se pelo equilíbrio. em especial. p. a seu modo. no novo contexto. nas cidades. a mesma máquina chegava à cidade e ao campo. Seu caráter arbitrário explicita-se facilmente na necessidade do sociólogo de manipular.. representou. sobretudo nordestino. […]. ib. quase sempre branca. “[. sobretudo quando mulato e livre. da aristocracia rural.. o senhor de terras.Porém. A crise do poder da oligarquia agrária é afirmação vazia de conteúdo.145 Desde os últimos tempos coloniais que o bacharel e o mulato vinham se constituindo em elementos de diferenciação. o brasileiro branco das elites. As máquinas teriam permitido a “negros e mulatos livres” participarem da “revolução técnica” dos inícios do XIX. e do mulato bacharel. racial e cultural. manteve seu poder absoluto. social e econômico do campo sobre a cidade. 145 Id.] ao mesmo tempo que se acentuavam os antagonismos. pelo que os sociólogos modernos chamam acomodação. como “oportunidades de se elevarem socialmente”. abrindo-lhe.. Até a década de 1930. 146 Id.. A confusão conceitual do autor sobre o caráter da antiga formação social brasileira é quase hilária: “Em suas formas a organização brasileira foi predominantemente feudal – embora um tanto capitalista desde o início […]. as tensões de raça e de classe eram novamente “amaciadas” devido à tendência à transigência sexual. para os escravos e para os filhos de escravos [. Através do século XIX.. 148 Id.] a transferência de poder.. 585. Processo registrado na ascensão político-social do mulato. dos segmentos brancos rurais. ib. e muito além da própria República Velha. ou de soma considerável de poder. entre nós. 353.. 144 Id. segundo as necessidades da narrativa. determinava que as contradições de raça e de classe não sofressem mais a branda solução dos velhos patriarcas. em geral. novos espaços de promoção como trabalhador especializado. p. completada pela senzala. não raro pelo casamento permitido pelo crescente prestígio do título ou função. mas de seu descendente sociológico e biológico. também agora. O bacharel de 29 .”147 A apresentação sociológica de Freyre da agonia do patriarcalismo e gênese da nova ordem burguesa e urbana é um verdadeiro castelo de cartas que não rege qualquer movimento crítico. o Brasil seria. afastadas geográfica e socialmente da proteção da casa-grande. não mais do português. sem qualquer rigor. E a miscigenação. 153.”148 Portanto. verdadeira maravilha de acomodação que o antagonismo entre o sobrado e o mucambo veio quebrar ou perturbar”. amaciou. p. para emancipar o cativo do trabalho pesado.

. 149 Id. Modernização sem mudança: a indústria açucareira em Pernambuco. melhorassem relativamente. São Paulo: Brasiliense. etc. SCHWARTZ. o desenvolvimento do mercado livre de trabalho. nessa época. 1820-1920. 1977.. ao contrário do proposto pelo autor. Os últimos anos da escravatura no Brasil. 1977. ed. São Paulo: Ática. na época incontornáveis. 2001. 152 Cf. Em todos os sentidos. quase socialmente revolucionário: “Era o desaparecimento do chafariz. da água carregada por escravo. e amp. GORENDER. 30 .152 São várias as razões da melhoria relativa das condições de existência dos cativos nos cafezais..150 Um processo que Freyre apontou como carregado de conteúdo renovador. Rio de Janeiro: Paz e Terra. MAESTRI. 1988. por apenas deterem capital monetário. O Cativo e o sobrado: arquitetura urbana erudita no Brasil escravista: o caso gaúcho.]. a “ladinização” da população escravizada. Toda uma revolução técnica que assumiria aspectos de renovação não só da economia como da organização social e da cultura brasileira. no século XIX. MAESTRI Mário. o encarecimento do preço do cativo. ao modo do século XIX. do excremento conduzido por negro. Stuart B. Sobrados [.. em boa parte por questões técnicas. usurários..] nesses escravos de ganho. 151 FREYRE. No mesmo sentido. rev. Rio de Janeiro: Paz e Terra. essencialmente do braço escravizado.cartola foi apenas e principalmente um “preposto citadino” dos “proprietários rurais”. e não decaíssem. no século XIX. COSTA. A servidão negra.. O que determinou que as condições gerais de existência do trabalhador escravizado nos cafezais do Centro-Sul. DEAN. p. 1988. Jacob. ed. dependentes da produção rural e do trabalho escravizado.. a comerciantes. A revolução que não houve A proposta de Freyre da invasão das cidades e campos pela maquinaria é outra elucubração radicalmente fantasiosa. Stanley J. CONRAD. 541. à iluminação. 1550-1835. “Grande parte da riqueza patriarcal e já burguesa do Rio de Janeiro como de Salvador. a produção rural brasileira foi dominada essencialmente pelo braço do produtor direto. no que se refere aos meios de transportes. o maior desenvolvimento das forças produtivas materiais. uma outra clara comprovação da dominância. das ruas iluminadas a azeite. Emília Viotti da. EISENBERG. São Paulo: Livraria Ciências Humanas. rentistas. 1975. como o autor demonstra genialmente. As cidades do Brasil até quase a Abolição primaram pela profunda rusticidade. ib.”151 Por outro lado. Porto Alegre: Mercado Aberto. Apenas a ligeireza categorial de Freyre permite tratar de burgueses homens que viviam nas cidades. Brasília-INL. 1850-1888.”149 A mesma ligeireza que permite definir como capitalistas. é bom relembrar que as fontes e praticamente toda a historiografia da escravidão registraram a singular dureza das condições de trabalho nos engenhos açucareiros.. A decadência das condições de existência no “escravismo industrial” do Centro-Sul constitui afirmação sem qualquer base historiográfica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. p. do Recife ou de São Luís do Maranhão estava [. Campinas: Universidade Estadual de Campinas. além mesmo do início do século XX. do campo sobre a cidade. 1988. ao abastecimento. [. Mário. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial.. etc. ao saneamento. 1840-1910. 1982. Passo Fundo: EdiUPF. o crescimento do movimento abolicionista. STEIN. alugados pelos seus senhores como se fossem cavalos de carro ou bestas de transporte. A grandeza e decadência do café no vale do Paraíba. desde os inícios de sua instalação. 150 Cf. Warren. que dependeram. 5. O primeiro grande movimento de modernização urbana no Brasil deveu-se precisamente à exigência da transferência dos cativos urbanos para as fazendas cafeicultoras do Centro-Sul. 1961. em relação à produção açucareira: um trabalho objetivamente menos penoso. Rio Claro: um sistema brasileiro de grande lavoura. 2.].. 501. desempenhando o maquinismo um papel muito secundário na produção rural brasileira. em relação às explorações açucareiras daquela e das centúrias anteriores. Peter L. escravizado e a seguir livre. Da senzala à colônia. O escravismo colonial. São Paulo: Companhia das Letras. etc.

Freyre chega a propor que o “trote inglês”. “Do desenvolvimento da máquina não se consegue separar.] para a invenção de máquinas destinadas à substituição ou à superação do cavalo e. a “revolução industrial” brasileira dos séculos XVIII...].... da mula [.. A indigência do autor no relativo à história econômica registra-se igualmente na confusa explicação das razões da introdução da máquina. ib.153 Portanto. 490. não o “trabalho” – e seu custo –... a máquina surgiria no Brasil para minorar o sofrimento do trabalhador escravizado e do … animal de tração! “Com o começo de generalização do uso da máquina é que verdadeiramente principiou a liberação do negro. 490.]. cit. para ele. do burro.154 Encerrado nessa visão.. mas o “esforço” humano e animal. o motivo moral ou o estímulo sentimental. à sombra do cavalo. de acordo com a pretensão daqueles materialistas históricos mais rígidos na sua ‘interpretação econômica’ da História”. por longo tempo explorado entre nós com uma crueldade que chegou a impressionar mal os estrangeiros mais benevolentes [.” 153 FREYRE. 31 . da escravidão e da servidão. para ele nascido do impulso moral para poupar as montarias.. e se tornou possível a valorização do animal... p. para ele nascida da vontade de poupar. 154 Id.como a “escravidão industrial”. XIX e inícios do XX proposta por Freyre não possui correspondência nos sucessos históricos. op. seria um dos precursores da revolução industrial! “De modo que no ‘trote inglês’ [. Sobrados [. a partir de movimento de consciência moral.. p.]”.] o primeiro passo de estímulo moral ou sentimental [. como desprezível ou insignificante.

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