REVISÕES (diário de passagem) A GRAÇA QU'ISTO (NÃO) TEM Este texto não tem graça, não faz rir

, não põe ninguém bem disposto. Etc. Peço antecipadamente desculpa. Pode abandonar aqui a leitura, portanto. A volubilidade dos nossos dias e a sua inconsistência perante a gravidade do estado do mundo levam as pessoas a procurar no riso a superação dos males. Isto não é novidade alguma: sabe-se que o cómico (despoletador do riso) visa normalmente a solução de uma tensão (através do riso); Aristóteles (Poética), considerava que o cómico consistia no prazer de nos rirmos daquilo que é desagradável ou que tem defeitos; mais de 2.300 anos depois, Freud concebeu o cómico como um meio de obtenção de prazer e de superação da dor; um fenómeno exclusivamente humano, dirigido à inteligência, disse Bergson; e o padre Mário Martins destacou a função moralizadora do cómico, frisando que o riso pode ser prazer e também aprendizagem (isto a propósito da literatura portuguesa de quatrocentos). Serve esta “erudição” para quê? Para evidenciar que não é o riso que está em causa mas o seu uso. O sentimento (talvez não consciente) que a generalidade das pessoas tem da gravidade das suas existências leva à procura, algo desesperada, do riso. A sobrevalorização do riso (do humor, do cómico, etc.), atinge tudo e todos: rimo-nos de uma boa piada, o que é óptimo, mas também nos rimos dos infortúnios dos outros. Tudo tem de ter graça, de outro modo não “entra”. Há programas de anedotas na rádio e na televisão; suplementos humorísticos nos jornais e revistas; na Internet então nem se fala, e os nossos e-mails são invadidos por anedotas e outras matérias cheias de “graça”: em todo o lado confunde-se tudo e todos, e tudo e todos valem o mesmo na sopa requentada da “graça” dos “humoristas”. No meio de uma desgraça humanitária, o repórter vai à caça de uma coisa qualquer que dê vontade de rir. Perde-se o sentido do equilíbrio e da diferença de qualidade. O cómico que temos é cada vez mais o do tipo “fazer cócegas”. Nos anos cinquenta e sessenta, quando o existencialismo filosófico e literário estava no seu auge, o termo absurdo vincou, em termos gerais, o sentimento perante o sem sentido da vida. Para onde alguém se virasse, tudo parecia levar ao nada: nos quotidianos, na vida social, na política. O humor do absurdo no teatro, onde teve autores tão geniais como Ionesco (francês de origem romena) e Beckett (irlandês, de escrita francesa e inglesa), não levava ao riso descontrolado e algo boçal que hoje impera. Mas, para usar expressões que todos conhecemos: “riso amarelo”, ou “murro no estômago”. Era um humor antes de mais dirigido à nossa inteligência, um humor que nos levava a questionar, a nós e aos outros. Não foi, e ainda bem, o único tipo de humor. Mas foi exemplar. Hoje, o que temos de melhor?
Carlos Alberto Machado, escritor camlisbon@yahoo.com