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DOCX_Fim do pós-modernismo

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O Pós-modernismo morreu; mas o que foi esse movimento, idéia dominante da década? por Edward Docx in Prospect, 21/08/11
O Pós-modernismo morreu; mas o que foi esse movimento, idéia dominante da década? por Edward Docx in Prospect, 21/08/11

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21/08/2011

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O pós-modernismo morreu; mas o que foi esse movimento, ideia dominante da década?
Edward Docx

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Tenho boas notícias. Em 24 de setembro poderemos declarar oficialmente que o pós-modernismo morreu. Como eu sei isso? Porque esta é a data em que o Museu Victoria and Albert de Londres inaugura a “primeira ampla retrospectiva” do mundo: “Pós-modernismo – Estilo e Subversão 1970-1990” Espere um pouco, ouço você gritar. Como eles sabem? E o que é o pós-modernismo, afinal? Eu nunca o compreendi. Como ele pode ter acabado? Você não está sozinho. Se há uma palavra que confunde, irrita e exaure a todos nós, é o pósmodernismo. E mesmo assim, se compreendido adequadamente, o pós-modernismo é inteligente, engraçado e fascinante. De Madonna a Lady Gaga, de Paul Auster a David Foster Wallace, sua influência esteve por toda a parte e continua. Ele foi a ideia dominante da nossa época. Então do que se trata? Bem, a melhor forma de começar a entender o pós-modernismo é em referência ao que veio antes: o modernismo. Diferentemente do Iluminismo ou do romantismo, o pós-modernismo evoca o movimento que ele pretende derrubar. Dessa forma, o pós-modernismo pode ser visto como uma germinação atrasada de uma semente mais velha, plantada por artistas como Marcel Duchamp, durante o auge do modernismo nos anos 20 e 30. Assim, se modernistas como Picasso e Cezanne se concentravam no desenho, na maestria, na obra única, então os pós-modernistas, como Andy Warhol e Willem de Kooning, estavam preocupados com a colagem, o acaso, a repetição. Se modernistas como Virginia Woolf desfrutava da profundidade e da metafísica, pós-modernistas como Martin Amis preferiam a superfície e a ironia. No que diz respeito aos compositores, modernistas como Bela Bartok foram hieráticos e formalistas, e pós-modernistas como John Adamns foram brincalhões e interessados na desconstrução. Em outras palavras, o modernismo preferia o estilo connoisseur, tendiam a ser europeus e lidavam com o universal. O pós-modernismo preferiu a comunidade e os Estados Unidos, e abraçou tantas circunstâncias quanto o mundo continha. Os primeiros pós-modernistas se concentraram num movimento de grande força que buscou quebrar com o passado. Uma permissividade nova e radical foi o resultado. O pós-modernismo foi uma revolta de grande energia, um conjunto de práticas críticas e retóricas que buscaram desestabilizar as pedras fundamentais do modernismo: a identidade, o progresso histórico e a certeza epistemológica. Acima de tudo, era uma forma de pensar e fazer que buscava retirar o privilégio do ethos de qualquer um para negar o consenso de gosto. Como todas as grandes ideias, foi uma tendência artística que cresceu para assumir significado social e político. Como disse o filósofo egípcio-americano Ihab Hassan, passou por esse período “uma grande vontade de desfazer, afetando o corpo político, o corpo cognitivo, o corpo erótico, a psique individual, todo o reino do discurso no Ocidente.” O pós-modernismo surgiu primeiramente como um termo filosófico no livro “A Condição Pós-Moderna” (1979), do pensador francês Jean-François Lyotard. Lyotard bebeu na ideia de Wittgenstein do “jogo de linguagem”, que apontava que diferentes grupos de pessoas usam a mesma linguagem de formas diferentes, o que por sua vez pode fazer com que elas vejam o mundo de formas bem diversas. Então, por exemplo, o padre pode usar a palavra “verdade” de uma forma bem diferente da do cientista, que por sua vez entenderia o termo de uma forma diferente da do artista. Dessa maneira, a noção de uma visão única e ampla do mundo – uma narrativa dominante – desaparece. Portanto, argumenta Lyotard, todas as narrativas existem juntas, lado a lado. E esta confluência de narrativas é a essência do pós-modernismo. Infelizmente, 75% do resto das coisas escritas sobre o movimento são incoerentes, contraditórias ou emblemáticas do lixo que consumiu o mundo acadêmico da linguística e da filosofia “continental” durante muito tempo. Mas nem tudo. Há dois pontos importantes. Primeiro, o pós-modernismo é um ataque não só à narrativa dominante, mas também ao discurso social dominante. Toda arte é filosofia e toda filosofia é política. E o confronto epistemológico do pós-modernismo, a ideia de desprivilegiar qualquer significado, levou portanto a alguns ganhos reais para a humanidade. Como antes você estava na tarefa de desafiar o discurso dominante,

você também estava na tarefa de dar voz a grupos até então marginalizados. E a partir daqui é possível ver como o pós-modernismo ajudou a sociedade ocidental a entender a política da diferença e portanto rever as injustiças miseráveis que ignorava até então. O segundo ponto é ainda mais profundo. O pós-modernismo tinha um alvo mais ambicioso do que simplesmente pedir uma reavaliação das estruturas de poder: ele dizia que todos nós somos nada mais do que agregados dessas estruturas. Ele defende que nós não podemos nos distanciar das demandas e identidades que esses discursos nos conferem. Adeus, Iluminismo. Até mais, romantismo. Em vez disso, o pós-modernismo sustenta que nós nos movemos por uma série de coordenadas em vários mapas – classe, gênero, sexual, étnica – e que essas coordenadas são na verdade nossa única identidade. Não há nada mais. Este é o principal desafio que o pós-modernismo trouxe para o grande banquete de ideias humanas porque mudou o jogo da auto-determinação para um de alter-determinação. Mas aqui chegamos à questão mais complexa de todas: como nós sabemos que o pós-modernismo acabou e por quê? Vejamos as artes, a linha de frente. Não é que o impacto do pós-modernismo tenha diminuído ou desaparecido. Em vez disso, o pós-modernismo está sendo substituído como o discurso dominante e agora está assumindo seu lugar na paleta artística e intelectual ao lado de outras grandes ideias. Todos esses movimentos informam sutilmente nossas imaginações e a forma como criamos e interagimos. Por quê? Porque estamos ficando cada vez mais confortáveis com a ideia de sustentar duas ideias irreconciliáveis em nossas cabeças: a de que nenhum sistema de significados pode ter o monopólio da verdade, mas que ainda temos que nos render à verdade do sistema de significados que escolhemos. Talvez a melhor forma de explicar o motivo desse desenvolvimento é usar minha própria forma de arte: o romance. O pós-modernismo informou a literatura desde que eu estou vivo. De fato, a forma como eu escrevi este artigo – misturando conscientemente um tom formal e informal – deve-se a duas ideias: o estilo alto e o estilo baixo coexistem por motivos de criar momentos de surpresa ou insight. Mas o problema é o que podemos chamar de paradoxo pós-moderno. Durante algum tempo, à medida que o comunismo entrou em colapso, a supremacia do capitalismo ocidental parecia melhor desafiada utilizando as táticas irônicas do pós-modernismo. Ao longo do tempo, entretanto, uma nova dificuldade emergiu: como o pós-modernismo ataca tudo, uma sensação de confusão começou a crescer até que, nos últimos anos, se tornou onipresente. Uma falta de confiança nos princípios e estética da literatura permeou a cultura e poucos se sentiram seguros ou hábeis o suficiente para distinguir o lixo do que não era. E assim na ausência de qualquer critério estético, tornouse mais e mais útil acessar o valor das obras de acordo com os lucros que elas geravam. Então, paradoxalmente, chegamos a um momento em que a literatura propriamente dita ficou ameaçada, primeiro pelo credo artística do pós-modernismo e depois pelo resultado não intencional desse credo: a hegemonia do mercado. E há um paradoxo paralelo na política e na filosofia. Se nos desprivilegiamos todas as posições, não podemos acreditar em nenhuma, não podemos portanto participar da sociedade e assim, de fato, um pós-modernismo agressivo se torna indistinguível de uma espécie de conservadorismo inerte. A solução pós-moderna não serve mais como uma resposta ao mundo em que hoje nos encontramos. Como seres humanos, nós admitidamente não queremos que nos reste apenas o mercado. Mesmo bilionários querem coleções de arte. O diálogo entre o artista e o público está portanto mudando novamente, acelerado pela ascensão da era digital e em paralelo a ela. Certamente, a internet é a coisa mais pós-moderna do planeta. A consequência imediata no Ocidente parece ter sido criar uma geração mais interessada em redes sociais do que na revolução social. Mas, se olharmos por trás disso, encontraremos um efeito reverso secundário – uma ansiedade por algum tipo de autenticidade offline. Nós desejamos ser recompensados pela grosseria de nosso consumo, a falsidade de nossa atitudização. Se o problema para os pós-modernistas era que os modernistas haviam dito o que eles deveriam fazer, então o problema para a atual geração é o oposto: ninguém nos disse o que fazer. Esse desejo crescente por autenticidade está por toda a nossa volta. Podemos vê-lo na especificidade do movimento de alimentos locais. Podemos reconhecê-lo em campanhas de publicidade, como da Jack Daniel's, que sofre para retratar não a rebelião, mas a autenticidade. Podemos identificá-lo na forma que as marcas estão tentando se interessar pela ética. Os valores voltaram a ser importantes. Indo ainda mais profundamente, podemos ver uma apreciação crescente por aqueles que se destacam no que fazem, o escultor que sabe esculpir, o escritor que de fato sabe escrever. Jonathan Franzen é o

grande exemplo aqui: um escritor elogiado universalmente porque evita as evasões de gênero e as estratégias pós-modernas, e em vez disso tenta dizer algo inteligente e autêntico e bem escrito sobre seu próprio tempo. Não se trata apenas da história, afinal de contas, mas de como a história é contada. Essas três ideias, da especificidade, dos valores e da autenticidade, estão em conflito com o pósmodernismo. Nós estamos entrando numa nova era. Vamos chamá-la de Era da Autenticidade e ver como continuamos. (“Pós-modernismo: Estilo e Subversão 1970-1990”, estará em cartaz no Museu Victoria and Albert de 24 de setembro a 15 de janeiro de 2012) (Edward Docx é jornalista e escritor. Seu terceiro livro “The Devil's Garden” acaba de ser publicado.) Tradução: Eloise De Vylder

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