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MATÉRIA ORIGINAL NA REVISTA

STATUS, 1981

“Meu nome é Keith Oliver Durban. Alto (1,84m), moreno (queimado pelo sol do Havaí), cabelos castanhos (ondulados), olhos verdes (sonhadores) e medidas físicas mais perfeitas do que as do último Mister Universo. Sou cidadão norte-americano, filho de um baronet cujo nome não vem ao caso. Fui expulso da ClA, em 1965, por ter abusado de minhas prerrogativas e mandado bala em alguns diplomatas e espiões rivais (à revelia dos meus superiores) quase provocando uma guerra mundial, que seria a última. Passei dez anos da minha vida num combate tremendo, às vezes correndo atrás do perigo, às vezes o perigo correndo atrás de mim. No ano passado, eu e a morte continuávamos empatados e, aproveitando a decisão dos inspetores da CIA, resolvi abandonar a mesa do jogo. Graças a Deus (e às recompensas financeiras recebidas durante as minhas incursões pela espionagem internacional) fiquei razoavelmente rico; então, aos 34 anos, retirei-me para esta ilha de Aloana, no coração do Havaí. Sou o único residente, em companhia de minhas seis noivas (uma para cada dia da semana -descanso aos domingos), e do crioulo Jeremias, eunuco e mestre de Kendô e Karatê. Agora que me aposentei, meu sonho é pescar arenques e barracudas, esquecido de tudo e de todos, nesta encantadora ilha do Pacífico. Mas acontece que ...” Acontece que o homem que responde por K.O. Durban não tem um metro e oitenta e quatro, muito menos físico de Mister Universo. Não mora numa ilhota paradisíaca do Havaí, mas num prédio de pilotis amarelos em Copacabana. A sala parece ter sido congelada há pelo menos 15 anos, e só uma TV em cores a identifica com 1981. Uma mesa cercada por livros que se desmancham, velhos scripts, e esquemas, mapas, enciclopédias e recortes.

Histórias por cigarros
K O. Durban é apenas um dos 19 pseudônimos de Hélio do Soveral, “cidadão de Setúbal, Portugal, viúvo, escritor, autodidata", segundo seu curriculo. Já assinou também como Allan Doyle, Tony Manhattan, Louis Brent, Ell Sov, Clarence Mason, Sigmund Gunther, Alexeya Rubenitch, Frank Rougler, F. Kirkland, Stanley Goldwin, W. Tell, John Key, Luiz de Santiago e Irani de Castro. Criou uma das obras mais volumosas da indústria cultural brasileira, com mais de 200 livros publicados. Com 14 anos, Soveral descobriu que podia ganhar dinheiro contando. histórias. No Rio, reunia uma platéia atenta quando, sem dinheiro para pagar a entrada, parava na calçada do Cinema Popular, o "cinepoeira", e contava histórias com o título do filme em cartaz. Cobrava em fósforos e cigarros que vendia, em um botequim conhecido, pela metade do preço. Com o que conseguia, ia ao

“Popular” para ver se as histórias eram parecidas com as que contava. “Nunca dava certo. Eram sempre diferentes”. Hélio do Soveral já contou suas histórias praticamente de todas as formas e mídias que cruzaram seu caminho. Em 1936, escreveu e desenhou O Mistério da Casa de Campo, que acredita ser uma das primeiras histórias em quadrinhos policial brasileira. Soveral incursionou ainda pela pintura figurativista e pela carreira de ator, interrompida com O Mártir do Calvário. por sinal, sua estréia. Participou da "época de ouro" do rádio brasileiro, a partir de 1937, com As Aventuras de Durban, primeira das histórias seriadas, sobre um detetive americano radicado no Brasil. Desde 1958 é ele quem escreve o Teatro do Mistério, há 22 anos no mesmo horário na Rádio Nacional do Rio. Quando substituem por futebol, "chovem" cartas reclamando. Já perdeu a conta, mas deve ter escrito cerca de mil peças de 50 minutos para o Teatro do Mistério, estreladas pelo sóbrio inspetor Marques, da Polícia Judiciária, "uma entidade que não existia na época, e hoje existe. Gozado. não é? Só que a que eu montei é mais perfeita do que a que eles montaram depois". Fez teatro e cinema: quatro chanchadas escritas por ele foram estreladas por Oscarito, entre 1944 e 1948, inclusive a célebre Esse Mundo É Um Pandeiro. Fora isso, teve diversos roteiros filmados, no início dos anos 50, como uma comédia com Colé, um policial com Elvira Pagã e Milagre de Amor, encenado por Fada Santoro. “Um drama lacrimogênio que me faz chorar hoje, pois recebi só a metade dos direitos autorais". Carlos Imperial lhe daria outro calote em 1976, quando seu roteiro para um filme policial acabou transformado em uma bobagem a que chamaram Esquadrão da Morte. Soveral entrou com processo judicial contra Imperial, que ameaçou dar-lhe “dois tiros na cara". Para a TV carioca criou, em 1968, a novela A Mansão dos Vampiros, estrelada pelo galã Mário Gomes (então Mário Márcio).

Bagunçando os organismos
Soveral gosta mesmo é de escrever livros. Em todos os gêneros: espionagem, mistério, humor, terror, ficção científica. Está tentando reeditar na íntegra A Revolução dos Leucócitos, encurtado pela Editora Monterrey por falta de espaço e receio. Afinal, trata-se da história de um espermatozóide anarquista, que fecundava uma mulher e bagunçava toda a hierarquia política de seu organismo.

"A Civilização Brasileira achou muito ingênuo. A Record, muito agressivo. Agora está com a Codecri. Eu perco por ser desalinhado, independente". A Revolução dos Leucócitos fazia parte de uma coleção de 13 novelas produzidas para a série Spectre. Soveral assinava como o “russo” Ell Sov. Escreveu ainda a série Pânico, a Coleção Monterrey, dois faroestes para a Vecchi e 53 pockets de 77Z (imitação baratíssima de James Bond), além de uma série infantil, de sucesso, para a Edições de Ouro. Gostoso mesmo, Soveral acha que foi escrever a série K. O. Durban, que também está tentando reeditar. A primeira edição - em livros de bolso - vendeu bem, uns 60 mil por número. "Mas, para um público que não tinha condições de apreender o espírito satírico de K.O., suas ironias. Além disso, os livros tinham uma carga de informações enorme, já que pesquisava muito sobre cada país, cada região em que as aventuras se passavam." KO (“Nocaute”) Durban foi criado, em 1965, para fazer frente à espiã de maior sucesso da própria Editora Monterrey - Brigite Montfort: "Desde o início é gozação”. Escrito na primeira pessoa, K. O. faz observações como: "Eu sabia que não me acertariam, sou o herói da história". Ou: "Talvez aquele processo de passar mensagens secretas não fosse o mais seguro, mas era o mais usado em histórias de espionagem." KO Durban passava vexames incríveis. Chegou a ser crucificado pelas ruelas de Jerusalém. Mentia para as mulheres. Chorava por causa delas. Ficava de fogo. Mas era um herói, e não trabalhava para qualquer um. "Se a história ameaçar apenas a segurança de um governo, seja ele capitalista ou socialista, nada feito! Cada um que se cuide. Eu cuidarei apenas da proteção da humanidade", era uma dos seus princípios. Uma vez chegou a ser contratado por 13 serviços secretos ao mesmo tempo, em regime de "vaquinha". K. O. dava tudo por uma aventura. Enfrentava as barras mais pesadas. Sóbrio como um gentleman, divertia-se como um adolescente, e sempre cercado de mulheres. Garantiu um encontro entre Kossigin e Johnson em Moscou. Descobriu o segredo dos UFOs na Amazônia. Evitou que um ministro chinês (general Pei Tin-ho) fosse assassinado em Pequim. Adiou a guerra de 1967 no Oriente Médio. Eliminou um futuro ditator do Haiti. Promoveu uma guerra libertação em Chipre. Aniquilou o Quarto Reich à beira do Lago Ipacaraí no Paraguai. Evitou que um Boeing kamikaze acabasse com Nova Iorque...

Uma banana para o mundo
Você viajou muito Soveral? "Muito. Da sala para o escritório, do escritório para a sala." Você não conhece nenhuma das cidades que descreveu? "Só a minha terra, Portugal. Da última vez que fui, visitei a Espanha. Queria ir a Paris, Itália, Inglaterra, mas não tinha dinheiro." Politicamente, K.O. não deixa dúvidas: é anarquistaromântico. A bandeira oficial de Aloana é um par de braços sobre o fundo branco, dando uma banana para o resto do mundo. Tinha alguma simpatia por Mao-Tsé-Tung. Apoiou Israel em 67, mas condenou o sionismo ortodoxo. Assassinos de Estudantes, que se passa na Tchecoslováquia, foi escrito sob o impacto da morte de Édson Luís no restaurante Calabouço, em 1968, no Brasil. "Qualquer semelhança com acontecimentos ou pessoas reais, vivas ou mortas, civis ou militares, é mera coincidência. A Tcheco-Eslováquia, neste caso, também não tem nada a ver com o peixe; a luta pela liberdade é universal", dizia no livro. Contra os Vampiros de Angola termina com um manifesto anticolonialista. Claro, foi proibido em Portugal, nos tempos de Salazar. "Nocaute" Durban só se mexia abastecido de scoth, especialmente Old Parr. "Aquilo é um licor ...", diz o autor. Mas faz tempo que Soveral não vê uma garrafa. As mulheres sobravam em suas mãos a cada aventura, fazendo seu sangue correr "pelos canais competentes". Suas noivas eram escolhidas a dedo pelos quatro cantos do mundo - uma alemã (Gerda Ofenbach), uma africana (M'Bata), uma chinesa (Pétala de Lótus), uma pele-vermelha (Filha de Búfalo), uma espanhola (Consuelo) e uma brasileira (Jandira), mulata e burrinha. Lindas e deliciosas, mulheres de todo o mundo não resistiam ao calor de seus olhos verdes. Ninfomaníacas, como Nina Vladimirina, russa, dançarina do Crazy Horse, em Paris. "Em suas garras perfumadas, eu tinha perdido dez quilos de peso" (Contra o Dragão Vermelho). Comunistas fanáticas, como outra russa, Tatiana Borodaia, "que come, dorme e respira na companhia de um único homem: Lenine!" (Desencontro em Moscou). Ou instáveis, como a alemã Helga Schultz. “Eu tenho que fazê-las agressivas, estranhas, justamente para depois KO dominá-las", justifica Soveral. Só de uma mulher, KO Durban não gostou: sua arquiinimiga durante os oito primeiros livros da série, a Senhora do Mundo, Rainha Puríssima do Nada. Mary Roosevelt, que desde que perdeu o noivo para a própria mãe, passou a cultivar profundo desprezo pela humanidade. Tentou oito vezes, através de seu Exército do Suicídio Coletivo, provocar um

conflito mundial. Seu trono era cercado de cortinas de veludo e soldados vestidos de negro. Vestia uma máscara de jade no rosto. E só a máscara. A Senhora do Mundo chegava, oferecia cigarros Abdullah ao herói, a quem contava detalhes de seus planos e sempre o convidava a juntar-se a ela no comando do Exército do Suicídio Coletivo. Durban era o único homem do mundo que ela desejava. Mas KO nunca cedia e acabava destruindo seus planos apocalípticos, até que ela ressurgia na próxima aventura, e assim por diante.

Quanto às suas próprias mulheres, Hélio do Soveral não tem nada a esconder, e até as cita como parte integrante de seu curriculum: “1943 - Em Franca (SP) viveu algum tempo com uma jovem aprendiz de prostituta, apelidada Chininha, numa pensão da Rua do Comércio ( ...) Em agosto, de regresso ao Rio, ficou noivo de uma garota biruta chamada Nilce, cujo pai era

alcoólatra. Depois de escandalizar a vila onde moravam, desfez o noivado. E não se arrependeu disso. 1945 - Casou-se com dona Celina Celeste Gramiani, mineira de Juiz de Fora. Foi um casamento por amor, e muito feliz. 1976 - Falecimento da esposa, episódio que o deixou profundamente traumatizado. 1978 - Em junho, ligou-se a uma mulata chamada Luzia, que também usava o nome de guerra “Lucia". 1981 - Continua firme com a Luzia, depois de alguns desentendimentos, logo sanados...”

Imaginar é viver
"Foi uma bela época da minha vida escrever o K.O. Ali eu soltava tudo. Me vingava de inimigos. Claro que eu queria ter uma ilha deserta no Havai. A gente não pode ter, então extravasa os desejos no livro. O KO é um pouco eu." Para a capa dos livrinhos, o pintor Benício se inspirou em Sean Connery." Chega Otacílio D'Assunção Barros, editor de quadrinhos da Vecchi. Vem acertar detalhes sobre um roteiro de terror para a revista Spektro. Soveral quer fazer outro, sobre discos voadores. Otacílio, 25 anos, tenta explicar que não é bom desgastar seu nome. Soveral, 61 anos, insiste. Afinal, imaginar uma história, qualquer história, é mais importante. Para quem tem Conan Doy1e e Allan Poe como inspiradores supremos, imaginar e deduzir mistérios é viver. (Sua filha chama-se Anabeli, pelos fluidos de Anne Bell Lee, um suave poema de Poe). No apartamento velho e alugado, Hélio do Soveral sonha e faz sonhar, nos ônibus, nos banheiros, nas fábricas e nas escolas noturnas. O anonimato não o incomoda. Hoje, ele sorri, com os olhos verdes e cansados, e uma pontinha de orgulho anarquista: "Sempre fui autodidata e independente. Nunca tive professor, nem patrão."

Fotos: Marcelo Jesuino

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