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MOTTA, R.P.S. Desafios e possibilidades na apropriação de cultura política pela historiografia

MOTTA, R.P.S. Desafios e possibilidades na apropriação de cultura política pela historiografia

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30fo.

2 Rodrigo Patto Sá Motta
ORGANIZAÇÃO

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Joo9

Culturas Políticas na História:
Novos Estudos

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U.F.M.G.• BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA

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NÃo DANIFIQUE ESTA ETIQUETA

ARC(VMSNTVM Belo Horizonte 2009

J ~"> . fI: I sobre cultura política na historiografia..lC í não havia bases sólidas para apoio..f. )"\J( I. permitindo a identificação de uma cartografia política da atuação do Partido em Belo Horizonte.lÁ. j~ ' .. além de ter contribuído para formação de identidade policial própria. . linguagem e imaginário são essenciais para compreender as ações políticas. \ (..:tJ. à hegemonia do paradigma culturalista.) J.J 'I . beneficiadas por cursos ministrados na pós-graduação em História na UFMG que suscitaram questões e debates estimulantes. por vezes espinhoso.J..\ 0. l . :3 C) 1 Contribuições significativas ao debate teórico sobre cultura política têm sido publicadas por historiadores e cientistas sociais brasileiros: Gomes (2005).. ) ) " . que.) -t '~ .. Desconhecia que. O trabalho sinaliza para a correlação existente entre a instância política e a dimensão cultural..J> 1(3 a? "'~? . mas então havia poucos trabalhos ('L~C'.em textos que são hoje bastante conhecidos e que servem de base para a l0''. . .J' ( .. '~r/~\ . Rodrigo Patto Sá Motta ~ ~C o G ? o .0 )1'"' L r 'f'l ro. Autores como Serge Berstein e Jean-François Sirinelli ) 1 -O vinham fazendo uso da categoria para estudar a história política francesa. Rosângela Assunção analisa o imaginário anticomunista dos policiais do DOPS/ MG entre as décadas de 1930 e 1960.' 2) ~ n ~ ()':. crenças.. Em outros momentos a política. Publiquei. Considerando o imaginário como um dos elementos constituidores da cultura política. (.-::c lA)C\. o Q0Y'C .. de modo que (p. em 1996. um texto contendo as primeiras refleRodrigo Patto Sá Motta xões sobre o tema.. o foco retoma para a cultura comunista.. no capítulo 9.. Um dos objetivos.q.1(''1 '~. v. 1996)1 hoje me parece ingênuo. no contexto pós-Segunda Guerra. lançando mão da literatura que pude encontrar.JJJ I 1[\('"\ t. ao escrevê-Ia.. O interesse por cultura política começou por volta de 1995. ( (. I " 'C. \ q/' l ('I.)':'/l I' .') maioria das reflexões dos historiadores brasileiros engajados no debate.( .00 ')j ~ ~ '\ (\ . em estudo que privilegia a atuação do PCB em Belo Horizonte. I ~. ~ '(.> 2 (í' &" ~.~ d~L.~.. em que se expressaram traços da cultura política dos comunistas. .. Dutra (2001). .. sob influência das novas correntes historiográficas.l~-':' 1992. Kuschnir e Carneiro (1999). ) ~W' .:~ ) -o Y ç:-J .. a economia ou fatores sociológicos assumiram o papel '" o« -c .-C \ I lf"'\ l C'V j . sobretudo no Brasil. A estrutura ramificada do PCB. Vinha de pesquisas sobre história política em vertente mais "clássica" e desejava renovar horizontes. um grupo de historiadores franceses estava empenhado na apro.. atitudes... principalmente. Krischke (1997).v .(( 01 D \! ~ C I 'v . conferiu sentido e legitimou as ações repressivas contra os "inimigos subversivos"..) :: Fj.~i)' " 'f. ..J '.. produziu relação diferenciada com o espaço urbano.U' 'P r. quando buscava estabelecer um quadro conceitual para estrutura r minha tese de doutorado. T.r::/ eol~ <:. em que questões como valores. No último texto da coletânea... APRESENTAÇÃO 'I" ~ I "i.: ~ r W ' Este texto é baseado em reflexões acumuladas nos últimos dez anos..." . e Rennó (1998).1tQ. CAPÍTULO 1 Desafios e possibilidades na apropriação de cultura política pela historiografia U. . priação do conceito. Rosângela Assunção se inspira nas discussões teóricas em torno da categoria cultura política para compreender o comportamento dos policiais do DOPS mineiro.i.( .~ COmRaquel Pereira.•.·~ '~ 2 ~'?\ .uJ. com células e comitês instalados em diversos pontos da cidade.J c\ ()~ rI c c)'-" G '[o 1. é precisamente oferecer aos estudantes uma porta de entrada a esse universo conceitual. " . A atuação do Partido criou espaços de entretenimento que se tornaram também cenários da luta política.. -.0_ ":. A força de atração exercida por cultura política em anos recentes deve-se.•. O texto analisa as estratégias de mobilização do Partido Comunista para ocupar espaços físicos na cidade. pelos menos desde 1. . O texto (Motta.

Assim. os debates tomarão feições babélicas. provavelmente na acepção apresentada há pouco. CL Gomes (1996).e quase sempre sem a preocupação de definir seu significado . arrogantemente. 14 15 . também. o mais preciso não é falar em dinâmica. Em seus usos iniciais. igualmente inapropriadamente. sobretudo o desejo de mostrar-se atualizado. que permite uma abordagem culturalista dos fenômenos relacionados às disputas pelo poder. hoje um clássico. '~-~i . Há muitos incentivos ao usá-Io..em situações em que o mais adequado seria usar termos como idéias políticas. Em se tratando do paradigrna culturalista. Tornou-se conceito da moda. a política não poderia ser exceção. Nesse trabalho.( 1:( ~.. portanto é normal admitir a existência de mais de um significado aceitável para a mesma expressão. Como tudo tem sido explicado pela influência dos fatores culturais. Nos dias atuais é muito influente a percepção de que a cultura determina o desenrolar dos acontecimentos. Não se trata de almejar. Os conceitos são quase sempre polissêrnicos. Em que pese a sugestão de cautela no uso do conceito. a exposição se centrará na discussão dos aspectos problemáticos elo uso de cultura política. uma cultura política para uma nação considerada em 2 Cultura Política circulou entre 1941 e 1945. ou apenas em forma inferior e incompleta. mas nem sempre há preocupação com rigor e clareza na sua utilização. Mas para verificar tal hipótese seria necessário empreender outras pesquisas. No último caso. Antes. a compreensão de que alguns povos possuem cultura política. inculcá-Ia nos povos e sociedades ignaros. como estratégia para alcançar melhor inserção no mercado acadêmico ou na mídia. com possibilidades instigantes de alargar nossos horizontes ele conhecimento e compreensão. às vezes até de períodos de tempo mais precisos."). o conceito implicava certa hierarquização. de 1835. Um deles foi Alexis de Tocqueville. não há dúvida que cultura política envolve um campo conceitual muito fértil. Se cada um usar os conceitos corno bem lhe aprouver. tem sido mobilizado até por políticos profissionais e organizações sociais. há concepções mais consistentes e precisas. mas também nas potencialidades que ele oferece. a expressão é mobilizada . na busca por precursores. mas tinha relação com os hábitos e costumes daquele povo. no livro A Democracia na América. num sinal da força crescente de seu apelo. Como entendiam que cada povo tinha sua própria Kultur e que alguns eram culturalmente superiores.!li de explicação última para os processos históricos. Tal insight seria aproveitado e desenvolvido por cientistas sociais do século XX. investigar a eventual contribuição da historiografia e filosofia alemãs do século XIX. mas hoje a cultura ocupa esse lugar. o pensador francês desenvolveu a idéia de que a força da organização política dos norte-americanos derivava não somente das instituições. Parece-me ser este o sentido do termo cultura política que figurava no título da conhecida revista do Estado Nov02: constituir. e sim em permanências e mudanças lentas. Encontramos o uso da expressão cultura política no Brasil antes de ter se tornado conceito das ciências sociais. O conceito tem sido cada vez mais utilizado pela mídia e. pairava o suposto de que nos casos de ausência era necessário desenvolver a cultura política. ou movimento da história. graças ao uso generalizado. para situar a discussão e esclarecer a maneira como ele será apropriado neste texto. são mais avançados. *** r~:. Em outros casos. Daí outra motivação para escrever este texto: a percepção de que cultura política corre o risco de banalização. da mesma forma como décadas atrás se pensava que a economia ou os interesses sociais ofereciam a chave para compreender a dinâmica da história. o papel de censor dos conceitos ou guardião da pureza dos significados. que desenvolveram o conceito Kuluu. a categoria tem servido apenas de rótulo novo para conteúdo antigo. Valeria a pena. fala-se em cultura política de épocas. enquanto existem usos inadequados e/ou confusos. serão necessárias breves referências às origens do conceito. A preocupação tem base na convicção de que para haver inteligibilidade na discussão acadêmica são necessários clareza e algum rigor no uso de conceitos e categorias. Muitas vezes. porém. como décadas (a cultura política da década de 1920 . sobretudo nas ciências humanas e sociais. responsáveis por elaborar o argumento de que o funcionamento dos sistemas políticos dependeria de fatores culturais. A categoria cultura política foi construída no século XX. discursos políticos ou hábitos políticos.. enquanto outros ainda não a têm. seria razoável supor que esse pensamento implicasse a existência de uma cultura política correlata. 2001:393-426). Entretanto. . O número de interessados por cultura política aumentou muito nos últimos anos e transbordou os estreitos limites do universo acadêmico. mas seus formuladores retiraram inspiração de autores que escreveram em períodos anteriores. o que ele chamou "hábitos do coração" (Formisano. fugindo ao escopo deste trabalho. daí o caráter sedutor de cultura política. Por isso. com cada interlocutor usando linguagem diferente e ninguém se entendendo.

ou seja.DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTUHA POLÍTICA PELA HISTORIOGRAFIA RODRIGO PATIO sÁ MOTIA estágio infantil. a convicção dos revolucionários de que estavam frente a uma conspiração para destruir a liberdade tinha raizes "laboriosamente fincadas na cultura política anglo-norte-americana". a presença de uma cultura política." eles 'I. mas importa enfatizar que cultura política é pensada em termos de espaço nacional (alemão. pois eles apontavam a complexidade do fenômeno" e a presença de situações híbridas. Não é possível alongar-me na explicação do modelo de Almond e Verba. Nesse campo.3 Influenciados pelas pesquisas da antropologia.). Dado que cultura política teve seu primeiro desenvolvimento acadêmico nos Estados Unidos. tolerância. sobre o real potencial explicativo de cultura política. A motivação dos autores a discutir o tema era compreender melhor a origem dos sistemas políticos democráticos. em seu livro As origens ideológicas da Revolução Americana. pois a verdadeira cultura política democrática demandaria tempo para ter consolidados seus valores básicos (pluralismo. com óbvias implicações etnocêntricas. pois tais processos ajudariam na formação da cultura cívica. 1963:13). italiano. ainda inconcluso. Recomendavam aos países em atraso investir na modernização industrial no desenvolvimento da educação. os intelectuais do PCB usaram o termo para expressar a intenção de atuar na formação e disseminação de valores políticos comunistas. sentimentos e tradições.of psychological orieruation. correspondia ao estágio superior e à meta a ser alcançada pelos povos em atraso na corrida para a democracia. etc. Curiosamente. mas principalmente da psicologia. Questionando a fragilidade das explicações tradicionais. culminando num esquema que as resumia a três tipos básicos: cultura política paroquial. Tampouco achavam que se tratava de questão simples a exportação do modelo democrático para as regiões periféricas ao mundo ocidental. Como decorrência.Revista Mensal de Cultura Política. s. confiança nas instituições entre outros). Desejava-se. A última. ficando implícita a superioridade de seu modelo em vista das outras opções disponíveis.i ~. Como foi comum ao longo do século XX. e quando em combinação com estruturas políticas democráticas dava origem à cultura cívica. Political attitudes and democracy tions (1963). ficaram célebres os trabalhos de Gabriel Almond e Sidney Verba. 5 e 0. que tem gerado contendas aguerridas entre entusiastas e céticos (Formisano. sob influência das teorias de modernização em voga nos Estados Unidos no período pós-Segunda Guerra. Desde então se iniciou um debate acirrado nas ciências sociais. O esquema teórico proposto pela dupla não era tão simplório como muitas vezes se pensa. sociedades em que vigoravam simultaneamente dois ou mesmo os três tipos de cultura politica." 3 O título completo é The Civic Culture. o que levou à criação de modelos de desenvolvimento aplicáveis em escala global. em meio ao debate das ciências sociais norte-americanas. propuseram o termo sub-cultura política. forjar uma cultura política para um povo inculto.1:' :~. inglês. entendiam que a compreensão das ações políticas demandava enfoque capaz de entender a influência de valores. naturalmente. cultivá-Ia. para enquadrar casos em que mais de uma cultura política convivia no mesmo espaço. incapaz de auto-governo. Criaram uma complexa tipologia para enquadrar as diferentes formas de cultura política. que em referência ligeira menciona a influência de uma cultura política anglo-americana sobre os colonos que se rebelaram e construíram a nova nação. ir~~ :~~'. advertiam. . tais democracias eram exemplos a serem seguidos pelos povos ainda não bafejados pela sorte ou virtude. eram democracias sólidas e estáveis. alguns cientistas sociais começaram a formular a hipótese de que democracias estáveis demandavam cidadãos com valores e atitudes políticas internalizadas. Provavelmente. Exatamente por isso. sobretudo os EUA. que circulou entre 1947 e meados dos anos de 1950. Segundo Bailyn (2003:143). não é de espantar que historiadores desse país estivessem entre os primeiros a fazer uso da categoria. 2001). após o fim do Estado Novo e o fechamento da revista Cultura Política. Porém. Um dos pioneiros foi Bernard Bailyn. não havia como garantir resultados positivos. os historiadores se apropriaram de mais essa construção teórica das ciências sociais. principalmente no livro The Civic Culture. cultura política da sujeição e cultura política participativa. o Partido Comunista apropriou-se do termo ao adotá-lo como subtítulo de sua mais importante publicação teórica: Problemas . Outro motivador para tais estudos era a preocupação de fortalecer o campo "democrático" num contexto de disputa com o bloco socialista. partindo da percepção da insuficiência dos paradigmas iluministas que viam o homem como ator político racional. tratando-se de encontrar explicações para a origem das diferenças e elaborar roteiros seguros para que todos chegassem lá. 6 I . touiard social objects) (Almond e Verba. moderação.. publicado originalmente em 1967. talvez. 4 A def nição que usam para cultura enfatiza a dimensão psicológica: "Aqui devemos salientar que empregamos o conceito de cultura de acordo em apenas um de seus muitos significados: o de orientação psicológicafrente aos objetos sociais" (Rere we can only stress that we employ the concept of culture in only one of its many meanings: that. in five na". O conceito cultura política ganhou estatuto acadêmico e as primeiras reflexões sistemáticas nos anos de 1950 e 1960. Ponto de partida: a concepção de que as sociedades ocidentais.

notam-se movimentos convergentes de várias disciplinas. Rémoncl.:. Nessa época exerciam maior força de atração pesquisas privilegiando processos econômicos e sociais. 19 18 'r . não é um elemento entre outros cla paisagem política. O fato é que estudos dedicados a fenômenos históricos de natureza política têm se avolumado. No capítulo que escreveu para a coletânea. A coletânea Por uma História Política. trabalhando em instituições como a Fondation Nationale des Sciences Politiques (e o Instituto de Estudos Políticos de Paris) e sob a liderança informal de René Rémoncl. e que resume a singularidade do comportamento de um povo. Como já foi dito. cada vez mais interessadas pelos encontros e influências mútuas entre cultura e política. nos anos 1980 e 1990. 10 Vale a pena investigar melhor os meios de 'transmissão que permitiram essa apropriação. O conceito não está ausente do trabalho.DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORIOGRAFlA RODRIGO PATTO SÁ MUITA Entretanto. rapidamente.. Um dos propósitos desse livro. Além da própria história política: história das idéias. Uma dessas vias pode ter sido o livro da historiadora norte-americana Lynn Hunt. a historiografia mais dinâmica estava pouco interessada em estudar os fenômenos políticos. ambas escritas por Rémond. que está prestes a ocupar.F. na íntegra: "Enfim. inclusive a cultura política. 1996). em postura contrastante com o posterior investimento e importância que conferiria ao conceito. guerra. mas aparece apenas em referências breves. Por uma História Política (Rémond. O conceito passou a ser efetivamente apropriado pelos historiadores. um lugar proporcional ao vazio que ela acaba de preencher. principalmente na introdução e na conclusão do livro. e também para situar os estudos de cultura política nesse processo. Porém. No período recente. a partir do chamado (talvez mal chamado) retorno dato) política(o).'? mas ao contrário dos cientistas sociais dos EUA . Rémond e seu grupo desejavam ocupar lugar proeminente na hora do "retorno". 1996:35e 450). e "O que se chama às vezes de cultura política. Sirinelli. organizou uma coletânea que é verdadeiro manifesto do retorno da política." Alguns historiadores do grupo seguiram por essa senda e desenvolveram o conceito. Uma das categorias de análise utilizadas por Hunt foi exatamente cultura política.H Ele prenuncia que cultura política. que tradicionalmente foi pouco receptivo à história política. para ficar apenas em alguns exemplos. Há textos sobre eleições. era mapear os novos estudos que vinham sendo feitos na área. entre outros. conceito novo. intelectuais. Nada mais justo. cultura política. a noção de cultura política. e significativamente. dedicado aos partidos políticos. dada a grande influência dos franceses sobre a história praticada no Brasil. 7 Para um balanço sobre as maneiras como a Antropologia tem pesquisado a política.muito influenciados pela sociologia e a psicologia . partidos. era marcar posição num momento em que a história política voltava a posição de destaque na historiografia francesa. ver Kuschnir (2007). e cultura política muitas vezes tem ocupado papel-chave na renovação das abordagens. publicada originalmente em 1988. O propósito do livro. na reflexão e explicação dos fenômenos políticos. e apresenta uma definição da categoria mais próxima de modelos tradicionais. aliás. 9 Eis as passagens do texto. "gênio de um povo''). mídia. é factível conjecturar. Porém. biografia. Praticantes da história política numa fase em que ela estava desprestigiada e fora de moda. é referência importante para compreender os caminhos trilhados pela "nova" história política.o grupo francês tem sua maior fonte de inspiração na antropologia. É certo que esses autores tiveram como ponto de partida a contribuição norte-americana. a ênfase nas tendências historiográficas daquele país é justificada. aqui Berstein entende cultura política como fenômeno integrante da ideologia. tendo entre seus colaboradores justamente Sirinelli e Berstein. e as possibilidades de renovar a história política a partir do uso do novo conceito foram pouco aproveitadas. de 1984.' '1:. história cultural. antropologia' e ciência política. Berstein e Sirinelli pertencem a grupo que se desenvolveu à margem da influência dominante dos Annalles sobre a historiografia francesa. tendia a ocupar lugar de destaque em futuros trabalhos. principal mente trabalhos de S. mas o fizeram a partir de diversa apropriação de cultura política. mostrando as possibilidades disponíveis aos interessados. É importante mencionar que esses historiadores são externos ao movimento dos A nnalles . associando-a à configuração nacional ("ethos de uma nação". pois diz respeito mais à historiografia francesa que à de outros países. em que pese a existência de casos como o de Bailyn. entre os textos do livro não há um capítulo para cultura política. na historiografia francesa aparecem no início dos anos 1990 algumas reflexões que lançam mão de cultura política. por sinal. é um poderoso revelador cio ethos de uma nação e cio gênio de um povo" (Rémond. história do livro e da leitura. sobretudo os franceses. Serge Berstein também menciona. em que se enfatiza o uso de fontes e abordagens inovadoras. implica continuidade na longuíssima duração". 8 t. . durante o período de implantação de cultura política nas ciências sociais o grosso da corporação dos historiadores demonstrou pouco interesse pela categoria.'. A idéia de retorno da política pode ser mistificadora. Na fase compreendida entre os anos 1950 e 1970. para além da já mencionada intenção de marcar posição. Porém. Berstein e J. notável estudo sobre a Revolução Francesa e que encontrou boa acolhida na França. de cujo conceito de I~ lli.

aceitas sem contestação por todos ou mesmo pela maioria. e ao chamá-Ias de sub-culturas. Importa realçar que a categoria representações está sendo entendida no sentido de "re-apresentar uma presença (sensorial. tomando por base duas críticas principais ao modelo original norte-americano: primeiro. A discussão será retomada adiante. A França estaria vendo o fim da característica que a distinguia dos outros países centrais: o fato de ser dividida e conflagrada por culturas políticas rivais. Na conclusão de um de seus trabalhos mais recentes. além de necessário. perceptiva) ou fazer presente alguma coisa ausente. a versão no singular (cultura política nacional) e a versão no plural (culturas políticas disputando e tentando ocupar o mesmo espaço). por exemplo. mais ainda.1It. discursos. entre outras. aqui. fica difícil imaginar ~j :E~ . Partindo do que já foi dito até aqui. nesse ponto. com base em enfoque de sentido amplo. construir uma conceituação para cultura política. Aliás. Esse país foi marcado por grandes controvérsias e momentos de polarização aguda. monarquia uersus república. Uma definição adequada pará cultura política. Penso que não há razão para opor os dois modos de aplicar o conceito. Berstein adotou posição mais nuançada sobre o tema. mas por ora diria que as duas maneiras são válidas e. Eles formularam outra forma de conceber cultura política. mitos. poderia ser: conjunto de valores. os historiadores franceses preferem enfatizar as diferenças existentes dentro de um mesmo espaço nacional. assim como fornece inspiração para projetos políticos direcionados ao futuro. lii Esse argumento crítico não é inteiramente justo. Berstein admite. a predominância de algumas delas. O investimento que tais autores têm feito nessa vertente "pluralista" do conceito guarda estreitas relações com a história política francesa. Nos albores do século XXI.1988:354). Almond e Verba entendiam que em muitos países prevalecia uma mescla entre as 3 culturas politicas. evidentemente influenciada pelos autores já mencionados. rejeitaram suas implicações etnocêntricas. como a cultura republicana na França dos anos iniciais do século XX. socialista. que parecem representar o mesmo fenômeno.'! Ao contrário. tradições. mas vale a pena correr o risco na tentativa de aprofundar o debate. Assim. em determinados contextos. é possível. linguagem. e socialismo versus liberalismo. memória. deixando de atacar o ponto principal: o esquematismo da tríade proposta peta dupla de cientistas sociais norte-americanos. Não obstante enfatize a necessidade de tratar as culturas políticas sempre no plural. Num quadro de disputas acirradas. isto é. e mobilizam. práticas e representações políticas partilhado por determinado grupo humano. a coletânea Cultures polítíques en France. Nesse texto. Dessa forma. privilegia-se o estudo das culturas políticas comunista. 2000:46)Y Dessa maneira. de modo que deixava de ser exceção e se aproximava do modelo de cultura política dos outros países desenvolvidos. a crítica de Berstein visa a um tema secundário. em alguns casos chegam a ser complementares. pois. como vimos. inevitavelmente. ou tentar enquadrar as diversas experiências nacionais na tipologia de Almond e Verba (cultura paroquial. em que não há consensos políticos básicos e os grupos se engalfinham em torno de projetos mutuamente excludentes. tida como excessivamente generalista ao atribuir a todo um povo as características de uma mesma cultura politica. cultura da sujeição ou cultura participativa). ao falar num processo de aproximação entre as culturas políticas na direção de consensos nacionais. a partir de um olhar que privilegia a "pluralidade das culturas políticas" (Ber~tein.DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORlOGRAFIA RODRlGO PATIO sÁ MOTIA cultura se apropriaram. segundo. Creio que. ao invés de procurar por uma cultura política específica de cada povo. que expressa uma identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado. A proposição é polêmica e. não fica clara a distinção estabelecida por esse autor entre cultura política e família política. re-apresentar como presente algo que não é diretamente dado aos sentidos" (Falcon. pois ficava implícita na teorização de Almond e Verba a superioridade da cultura política cívica (ou democrática). em diferentes momentos. opondo. portanto. contemplam-se 20 21 . representações configuram um conjunto que inclui ideologia. não vai agradar a todos os interessados. imaginário e iconografia. conservadora (tradicionalista). entendiam ser inadequada a perspectiva nacional. 11 a existência de referências políticas coletivas. Berstein deixa entrever uma oposição menos rígidaem relação à conceituação ao estilo norte-americano. quer dizer.1999:396). que pretende resumir toda a gama do fenômeno das culturas políticas a apenas três formas essenciais. que Berstein chama de famílias políticas. símbolos. vocabulários e uma 12 Na maneira como a categoria representações é apropriada tanto questões referentes à cognição quanto à imaginação. o país caminharia para um quadro de virtual consenso básico em torno dos valores liberal-democráticos. liberal. republicana. implicitamente está sendo admitida a existência de uma cultura política nacional. partindo da constatação de que a exceção francesa já não existiria mais (Berstein. os trabalhos inspirados em Berstein e Sirinelli buscam identificar as diferentes culturas políticas que integram e disputam um mesmo espaço nacional. considerada etapa superior e referência a ser seguida pelos povos ainda presos a formas "atrasadas" de organização política.

bem como o desenrolar dos eventos-chave a eles relacionados.. ou uma espécie de "via de mão-dupla". ~grande aceitação social..i..•. como se estivessem encerradas em si mesmas e imunes ao contato com as outras. e sugere algumas reflexões que passo a abordar de maneira mais pormenorizada: • As variadas formas de manifestação das culturas políticas podem ser mais bem observadas em dimensão comparativa. como fenômeno estruturado e reproduzido ao longo do tempo. ~alores defendidos pelas concorrentes. sobretudo quando eles encontram p. não obstante alguns casos possam ser classificados como de longa duração (a exemplo de republicanismo. que reside exatamente em revelar como certos comportamentos políticos são influenciados por elementos arraigados na cultura de um grupo.. clara linha de determinação. e Q Iv C pelo controle do Estado. confirmando o sentido de pertencimento a um grupo.'JptC l('Ly ~22·(' -'" . . a existência de vetores sociais responsáveis pela reprodução das culturas políticas.. estamos diante de algo que envolve a ligação dos indivíduos a li a t .. o outro.). demonstram maior rigidez e dificuldade para se reciclar correm sério risco de esclerosar-se e perder densidade social. foi importante a ação política de determinadas personagens. " liberalismo e socialismo). I 'O XJ >< /V'rC: 23 . • Restringir os estudos de cultura política ao tema das representações pode empobrecer a compreensão do fenômeno. cultura política só pode existir na duração.. A essa lista vale agregar outros vetares de socialização.possuam características antitéticas.". As ações influenciam as representações.. Influenciados por tais representações.DESAFIOS E POSSIB!UDADES NA APROPRlAÇÃO DE CULTURA POLíTICA PELA HISTORlOGRAFlA RODRIGO PATTO sÁ MOTTA rica cultura visual (cartazes.. e que também atuam na sua constituição. _<. a reprodução no tempo das culturas políticas demanda a realização de práticas reiterativas.r/c Q.•• são infensas à ação do tempo..... elas podem adaptar-se às muU C Ó danças experimentadas pelas sociedades ao longo do tempo. ou pela força da tradição. e às vezes agem movidos por paixões que cegam. =i (~. partidos e sindicatos.. que ficam mais visíveis quando comparadas com o diferente. como tem acontecido em alguns casos (Berstein. Embora sejam adversanas. por exemplo. Porém.' rJ \. ( 1'. bandeiras."'1 \Úv -vd Ci . e com freqüência ~ () ( . pois as ações e práticas por elas ensejadas. como a repetição de rituais e cerimônias. como se houvesse entre as duas dimensões uma. 'r. De fato. às vezes elas se deixam influenciar por ç ('. instituições educacionais. que tornam " . De maneira semelhante. passageiras.. e também garantem sua reprodução através de práticas rituais. emblemas.\. algumas implicam distorção maior da realidade. . e a participação em eventos e manifestações que servem para selar o compromisso dos aderentes. admitir a importância do comparativismo não implica aceitar o olhar que hierarquiza as culturas políticas e tenta enquadrá-Ias em chave evolucionista. J . como as Igrejas. os homens orientam suas ações.. com seus heróis e mártires. para configurar uma cultura política seria preciso pelo menos a média duração. são igualmente importantes. elas são inevitavelmente incompletas e imperfeitas. quando lidamos com categoria que pressupõe que as escolhas políticas dos indivíduos são determinadas por filiação a grupos e/ou a tradições. são determinantes para suas escolhas e ações. caricaturas. e as disputas são resolvidas à base do confronto.. É colocando em contraste culturas políticas diversas que melhor visualizamos suas características e peculiaridades. paixão política ou sentimentos como o medo.'I-< ~ ~ ~ S: • As diferentes culturas políticas não devem ser encaradas como realidades estanques. Na acepção usada aqui. . concorrent~s na dispu~a . das ações de seus inspiradores originais e dos aderentes posteriores. Para a construção dos grandes mitos históricos que fazem parte das culturas. corporações militares.1999:394-395). '::básicas que lhes garantem a identidade. as representações.._.x y)~ . como periódicos e livros.determinados temas obsoletos e trazem à tona novos problemas. Como sabemos.j V l. Embora mantendo as características não d ('. I. etc. mitos. Nada mais natural. e também adicionar a importância dos veículos de disseminação impressos.. seguindo sugestiva análise de Serge Berstein (desenvolvendo argumento original de Almond e Verba). as culturas políticas f. ou os diferentes modos como os grupos figuram o mundo. Assim. pois os homens agem a partir de apreensões da realidade. para sua formação. O melhor é considerar a existência de relações de mútua determinação. Nos casos de famílias e Igrejas. Por isso. não há lugar para o efêrnero. Mas não se deve opor práticas e representações. As que C • É importante considerar. no entanto. o vasto patrimônio que conforma as culturas políticas depende. devido a interesse. em que não são possíveis soluções negociadas. Parece inadequado usar cultura política tendo como referência situações efêrneras. Porém... cinema. fotografia. Se formos usar a tipologia de Fernand Braudel. Por outro lado. que nelas se inspiram e buscam forma. O valor explicativo do conceito reside em mostrar como as ações políticas podem ser determinadas por crenças. C n f7l • % ~~ <i:_ O . como família. pois se perde a força do conceito. O trabalho com tal tipo de conceituação traz uma série de questões e implicações.• 9 2> gl /~ t {\- L_'-.~.0Y\. a tendência de um grupo a resolver de maneira conciliatória e pragmática seus conflitos é mais bem compreendida quando se observa o comportamento diverso de outros diante de situações semelhantes.pelo espaço púb~co.

A adesão política. aqueles identificados com discursos regionais. como o peronismo. nesses casos. de modo que a escolha política pode revelar. Trata-se de representação que significa delegação.j 1 I' . tão importantes quanto esses. devido à comum motivação de compreender os impactos gerados pelos encontros entre cultura e política. Significativamente. socialismo. decorre. i ~ ~~ f 5· . etc. que interferem em sua formação para além da dimensão política. às vezes concorrentes na luta pelo papel de principal representante do grupo. o uso de símbolos e outras manifestações de linguagem visual em suas campanhas.. Ora. • O conceito pode ser aplicado a espaços sociais diferenciados. e algumas mal se adaptam ao formato partidário. símbolos e os valores morais do grupo.'. é importante esclarecer uma confusão freqüente. essa análise. Há a opção. pode ser usada para tentar evidenciar uma cultura política tipicamente francesa. e também nas suas imagens visuais. pois é tentador resumir as culturas políticas às formações partidárias.~ . para os que se aventuram no campo da história cultural do político é preciso atenção para não confundir. por exemplo. de manter cultura política para designar a coletividade nacional e usar-se sub-cultura para os diferentes grupos em disputa no interior do espaço nacional. Portanto. os desprezíveis inimigos). a exemplo do que ocorreu na União Soviética com o realismo socialista. que parece correta.~. ao menos em parte. etc. enquanto outros enfatizam a cultura política singular de cada grupo nacional. como no mecanismo eleitoral por meio do qual os cidadãos escolhem pessoas para representáIas no parlamento. há pessoas que se identificam com determinada cultura política mas não com os . É comum. que pode ser definida como o conjunto de ações de determinado Estado ou agente político direcionadas à cultura. ao mesmo tempo convivendo com culturas ou sub-culturas que disputam esse espaço nacional. É possível admitir a existência de padrões culturais coletivos a um povo. no singular e no plural. na verdade. Por isso a opção de alguns autores em pensáIas sempre em formato plural. i 'I I :1 ~ ~ • t ~ l 'i :1 1 1'1 11 !ii~ .~ ih Obviamente. que se deva falar na existência de uma cultura política medieval. Porém. seria polarizada demais para permitir o surgimento de cultura política nacional. Aqui há um ponto de convergência também. e são usados propositadamente com tal fim. 2" li ~ r ~ r~ . por exemplo. No entanto. iconografia.[ ~'". Mas em que pese a existência desses "pontos de encontro".). que impediram o estabelecimento de consensos coletivos. seria a presença de sub-culturas fortes. A política francesa. mitos. por exemplo. dividindo o mesmo espaço social. J~~~ '. que não está sendo considerado aqui. . ~1 . apesar de suas divergências. • Estudos de cultura política possuem forte convergência com as pesquisas dedicadas às diversas formas de manifestação das representações políticas" (imaginário. O fato de Marc Bloch ter mostrado a importância da crença nos poderes taumatúrgicos dos monarcas na Europa medieval não significa.I 24 2S ~H I . cujo traço maior. imaginário político com cultura política. Mais importante é perceber que não há incompatibilidade entre os dois modos de conceber cultura política. entre os partidos políticos.! j 11·. e nessas publicações muitas pessoas encontraram motivação para identificar-se e aderir. mitologias. e que podem. tanto os ligados às grandes tradições (liberalismo. necessariamente. em contraste com outros países. 1 ~ II ~ 1: tes em função do pertencimento comum. também. . Nos textos dos livros e jornais. as maiores objeções ao modelo no singular podem ser usadas em sentido contrário. da identificação aos valores defendidos pelo grupo. ~ ~ il '. As culturas políticas são construções que transcendem as instituições partidárias. etc. nem toda história cultural do político implica o uso da categoria cultura política.~V '~1. porque algumas culturas políticas servem de inspiração para autoridades estatais criarem suas políticas culturais. considerando-os indignos ou infiéis à tradição. mas isso não implica sempre a filiação a alguma cultura política.Partidos nela inspirados.. argumentam. a fidelidade aos pais ou à religião. há outro sentido possível para representação política. • Deve-se tomar cuidado para evitar outro tipo de confusão possível quando se trabalha nesse terreno: cultura política não é sinônimo de política cultural. no caso de alguns países. Quanto aos partidos. i(t~ ti" '. nelas inspirados e motivados a tentar colocar em prática os respectivos projetos políticos.iij ~i~·t . É verdade.BIBLIOTECA DESAflOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HlSTORlOGRAFIA RODRJGO PAITO sÁ MOITA . Penso que não é fundamental discutir a adequação ou não do termo sub-cultura. ~. E comum ver culturas políticas dando origem a diversas formações partidárias. belicosas e resistentes a qualquer compromisso mútuo.) quanto. Os impressos são veículo fundamental na divulgação e disseminação dos valores das diferentes culturas políticas. uma cultura política brasileira. o seu melhor argumento é que a França caracterizou-se por disputas e conflitos agudos. política cultural e cultura política são coisas distintas. 0 ~ ~ J. socialismo.! grupos sociais mais abrangentes. carregar algumas características semelhan- 1" -:t. o modo pluralista e a perspectiva nacional. servindo para designar desde coletividades reunidas à volta de projetos específicos de ordenamento da sociedade (liberalismo.rL1JilCH/UFMG .). desfilam heróis (e. para comunicar mensagens aos eleitores. Quando parte dos historiadores franceses critica a suposta existência de uma cultura política comum a seu país.:: " . até grupos nacionais ou mesmo regionais. muitas vezes elas dão origem à organização de partidos. 13 r t~:.

na história de partidos de esquerda encontram-se. independentemente de serem ou não leituras corretas do pensamento de Marx. Mas é preciso cautela para evitar os excessos generalizantes. Essa é uma das razões para a descoberta dos trabalhos de Antonio Crarnsci. cruzam as diferentes classes sociais e atraem pessoas de origens diversas. de modo que as culturas políticas de esquerda atraem aderentes da mais diversa origem social. e alguns intelectuais de filiação marxista passaram a questionar os modelos economicistas. que associa o fenômeno à estrutura de classes. é possível combinar as duas possibilidades e estudar as relações entre grupos sociais específicos P. Williams. mas também muitos pontos de tensão e eventuais choques. disputando entre si os corações e as mentes dos trabalhadores. como os operários ou os trabalhadores. ocupando um lugar na "superestrutura". quanto a R. ou à cultura política popular. deve ser considerada a pluralidade da esquerda. como enriquece a nossa compreensão do fenômeno. O tema é complexo e demanda mais reflexões. comportamentos e valores políticos idênticos. As culturas políticas mais sólidas. Utilizando o conceito na segunda acepção apontada. é constituído por uma pluralidade de leituras e apropriações dos textos do fundador. que tradicionalmente colocava a cultura em posição secundária. E. ideologia ocupou lugar proeminente na superestrutura imaginada pelo filósofo alemão. como Edward Thompson e Raymond Williams. determinadas culturas políticas. na prática. e. e não fugirei ao risco de oferecer contribuição ao debate. Nesses estudos. como comunismo. O conceito tem duas acepções principais. aos jovens e mesmo aos pequenos proprietários e. com que escamoteia a sua dominação e garante a obediência dos grupos dominados. laicismo). embora possua uma série de valores comuns (igualdade. principalmente em Aformação da classe operária inglesa (1987) e Costumes em comum (1998). porém. uma cultura política compartilhada. o marxismo oficial perdeu credibilidade nos meios acadêmicos. Por outro lado. por exemplo. ao atribuir a todo um grupo social. ideologia significa falsa consciência e implica o mascaramento da realidade. O marxismo tradicional reconhecia a existência e a importância da cultura e da ideologia. Nos anos de 1960. fazem apelos dirigidos a grupos específicos. de novo. espera-se encontrar entre o mesmo grupo social valores políticos comuns. Pode-se dizer que muitas das culturas políticas 26 27 . a liberal. algumas mais e outras menos fiéis. o melhor exemplo seriam os laços entre trabalhadores e esquerda. mas. dirigindo-se às mulheres. o fato é que as versões deterministas deram o tom dominante ao marxismo durante muito tempo. risco é semelhante ao enfrentado pelos trabalhos sobre a cultura política de determinado povo ou nação: a mesma tendência a um olhar generalizante. Thompson. que tende a desconsiderar as peculiaridades internas ao grupo estudado. Daí a existência de estudos dedicados à cultura política operária. O i H No caso de E. para ficar em apenas alguns exemplos. Na segunda acepção. Estudos que enfatizam o potencial agrega dor das representações podem oferecer mais consistência. elas eram submetidas aos ditames da estrutura classista da sociedade. O problema com esse tipo de abordagem é que ele pode levar a uma generalização abusiva. Trata-se de uma relação em que há algumas áreas de convergência. a socialista. O "marxismo". Outros autores marxistas deram contribuição significativa aos estudos sobre a cultura. ideologia significa um conjunto de idéias que dá forma a determinados projetos políticos e impele à luta pela conquista do poder. ou seja. 14 Pode ser atribuída à influência marxista a existência de uma vertente peculiar de apropriação do conceito cultura política. notadamente as de esquerda. É verdade que algumas delas. que. Naturalmente. à vasta e indefinida categoria povo. Outro ponto fundamental para discutir as relações entre marxismo e as pesquisas sobre cultura política é a categoria ideologia. ideologia não apenas é compatível com cultura política. O campo e a cidade na história e na literatura (1989) e Marxismo e literaura (1979). Mas há momentos em que as organizações de esquerda fazem chamados mais amplos. em alguns casos permanece. embora nem sempre explicitado. às vezes. com trabalhos renovadores e questionadores dos cânones do marxismo tradicional. republicanisrno ou fascismo. Trata-se do processo através do qual a classe dominante constrói uma falsa representação da realidade. e aí teríamos a ideologia fascista. de fato. é fragmentada em grupos com culturas próprias.DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRJAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HlSTORJOGRAFIA RODRIGO PATTO sÁ MOTTA • Questão de fundamental importância são as relações polêmicas existentes entre os estudos de cultura política e a tradição marxista. Conceito central na tradição marxista. dependente das estruturas econômico-sociais. Assim. cultura política assume lugar de proeminência. universalismo. na verdade. à classe trabalhadora por exemplo. Os estudos que colocam ênfase no fator cultural desenvolveram-se num quadro de declínio da influência do paradigma marxista. etc. Porém. pois há grupos de trabalhadores mais propensos a se deixar sensibilizar por apelos da direita. pois não supõem coincidência entre classe e política. o suposto de que ela é determinada pelo fator sócio-econômico. fruto de vivência social e interesses coletivos. cujas reflexões ofereceram compreensão mais sofisticada sobre o papel da cultura. No primeiro caso. casos de forte identificação entre grupo social e projeto político.

republicana e liberal. No caso do Brasil há experiências políticas singulares. Para uma perspectiva diferente.!:'j ~. religião) e a adesão a valores (moral.:.2000). é porque há uma verdadeira. e apenas recentemente começaram a ser exploradas pela historiografia brasileira. . como a socialista e a comunista. que defende o uso da categoria populismo. . Teria o PT originado uma cultura política própria? Seja qual for a resposta. enquanto cultura política implica a suposição que pessoas aderem a certas representações da realidade capazes de oferecer compreensão do mundo. aplicada a grupos nacionais. Sem a intenção de opor à escolha racional um paradigma culturalista. indo além da tradicional ênfase no interesse e na adesão a idéias como fatores motivadores. que a ciência seria capaz de desvendar. Estudos inspirados por esse campo conceitual permitem uma compreensão mais rica e sofisticada do comportamento político. tanto em abordagens restritas ao Brasil. quanto incorporando olhares comparativos. Podem ser estudadas. As possibilidades abertas pelo enfoque nas culturas políticas são amplas e férteis.1. Como já foi dito. isso não significa negar a ocorrência de manipulação e logro em outras instâncias do jogo político. armadas com representações fragmentárias e distorcidas. em que trilhas precisam ser abertas e os resultados são incertos. I consistentes possuem ideologia. nação. que vale a pena abordar pelo prisma de cultura política. vale a pena ressaltar. não dizendo respeito apenas à política. A partir desse enfoque é grande o elenco de pesquisas a serem realizadas. 15 É importante ressalvar que existem intérpretes do marxismo mais sofisticados. Seriam bem-vindas mais incursões de historiadores nesse terreno. tais pesquisas ajudariam a demonstrar as peculiaridades a distinguir republicanismo de liberalismo. cuja peculiar militância política inspirou o uso da expressão petismo. que com muita freqüência passam despercebidas. Há desde caminhos mais tranqüilos a serem percorridos. e perceber que a cultura política transcende e vai além da ideologia. o logro. Mas é importante não resumir uma coisa à outra. as culturas comunista. Um tema que poderia ser explorado é o da conciliação. heróis) e ao evocar a fidelidade a tradições (família." Se existe uma falsa consciência. Já ideologia no sentido de falsa consciência é mais difícil de ser combinada com a fundamentação teórica de cultura política. para muitos traço marcante da cultura brasileira de maneira geral. ela também pode ser revelada. se a realidade é ocultada pela ideologia. A tradição trabalhista. por exemplo. ao mesmo tempo fornecendo identidades à que se filiar. em tal acepção ideologia enfatiza a manipulação. tomando como inspiração a matriz "pluralista". a outras opções mais arriscadas. líderes). estudos com enfoque na cultura política ajudam a avançar esse debate. em que a presença de cultura política seria mais fácil de demonstrar. a maneira mais fértil de encarar a questão . Mas.de que culturas políticas. honra. Primeiro. Nesse sentido. o enfoque pluralista não é incompatível com o uso de cultura política no singular.p" ":'1" '1"" " 'r DESAFros E POSSIBILIDADES NA APROPRlAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORJOGRAFIA RODRrGO PATTO SÁ MOTTA . Nos dois últimos casos. medos). Entendida como falsa consciência. ao mobilizar sentimentos (paixões. Entre os seguidores atuais de Marx há tanto os que negam validade ao conceito de ideologia entendida como falseamento quanto os que mantêm a convicção sobre o caráter ilusório de certas representações ideológicas. . patriotismo). mas admitindo que em outros casos elas têm correspondência com o reaL Sobre esse debate conferir Eagleton (1997). 28 ')0 . Voltarei à 17 Angela de Castro Gomes (2005:33-41) foi pioneira na abertura dessa trilha de investigação sobre o trabalhisrno. que questionam as versões simplificadoras de ideologia e propõem análises mais complexas das relações entre mistificação e realidade. *** ~li·~. entendida como um sistema de idéias que constitui o seu cerne. os estudos dedicados às culturas políticas revelam outras dimensões explicativas para os fenômenos políticos. j ilF t: . valores (moral. solidariedade). por exemplo." Segundo. }. Toda a força da categoria cultura política reside na percepção de que parte das pessoas adere menos pela concordância com as idéias e mais por identificar-se com os valores e as tradições representadas pelo grupo. ideologia pode excluir a possibilidade . seria necessário perceber a influência sobre o petismo de culturas de esquerda precedentes. porque pode levar à pressuposição da existência de verdade única. Alguns estudos tentaram caracterizar a cultura política brasileira com base no suporte teórico-metodológico da ciência política (Carvalho. esperanças... medo). honra. conservadora. ver Fortes (2007:63-83). as Esta afirmação não implica a aceitação dos pressupostos discussão sobre representação e verdade adiante. mas ainda assim filiadas ao real. a fidelidade a tradições (família.a meu juízo. 16 relativistas." Outro caso interessante é o do Partido dos Trabalhadores. como a força dos sentimentos (paixões. concorram entre si para a conquista de aderentes em meio aos diversos grupos sociais. configuraria uma cultura política? Na contramão da perspectiva que enfatiza o caráter populista do trabalhismo. representações (mitos. ':~ 1\1 r :~~:i::" IM!.

A existência de episódios de intensa violência política e estranhos ao modelo conciliatório. que entre nós se materializou em arranjos políticos de perfil modernizante-conservador. José Honório Rodrigues também abordou a questão. com menos violência e ódio. e sim postergados para um futuro indefinido. é mais fácil passar de um regime à outro. à busca de soluções de compromisso que evitem o caminho de rupturas radicais fica mais visível quando o olhar é comparativo. calcada na recusa a definições rígidas e no horror aos conflitos. viabilizada por aliança reunindo forças de esquerda e direita. conciliadoras e integrativas (DaMatta. para além da institucionalidade política tradicional (Carvalho. ao dizer que os brasileiros são efetivamente menos cruentos que outros povos. discussão já clássica no pensamento político. elogiando a capacidade de contemporização dos brasileiros no episódio do 15 de novembro de 1889. violência extralegal com o uso de mecanismos legais. que fez escola. 30 31 . No caso brasileiro há outros temas a explorar. menores traumas a administrar. como os laços frágeis entre povo e cidadania. De fato. seria evidência dos limites à disposição dos grupos dominantes em transigir e negociar. os resultados instigam à reflexão. o Estado Novo e a estratégia getulista de integração de tendências aparentemente opostas. há terreno mais fácil para abrir caminho à mudança. fragilidade das instituições e partidos. que trouxeram à arena pública a presença de grupos populares. mas podemos enfatizar o período de 1930 a 1970. em resposta às punições aos militares pelo governo Alfonsín). na Argentina houve pouco espaço para compromisso entre os grupos rivais: expurgos dramáticos no serviço público. Porém. e com isso evitar novos traumas (pense-se nos levantes dos caras-pintadas na Argentina. Gilberto Freyre já havia feito referências ligeiras ao tema da conciliação. por exemplo. portanto. responsáveis por fechar aos setores subalternos os espaços de participação política. encontramos a manifestação de tendências conciliatórias em vários momentos e episódios de nossa história. ou não haveria um pouco de auto-exclusão No prefácio à segunda edição do livro. 1959:9). em que os dois países viram-se às voltas com situação semelhante: conflitos entre esquerda e direita. vendo na conciliação essencialmente um estratagema das elites para excluir o povo e tentar convencê-lo de que é pacífico e ordeiro por natureza. matanças maciças de parte a parte e golpes sanguinários. Colocando em contraste o Brasil com países como Estados Unidos e Argentina. ou punir culpados e com isso desestruturar os grupos que tomaram parte na repressão? Qual o melhor caminho para superar o autoritarismo e consolidar a democracia? Evidentemente. Antes dele. alguns problemas tendem a não ser resolvidos. evitando rupturas bruscas. em que a anistia significou realmente esquecimento e perdão. a presença de tradição conciliadora não basta para caracterizar uma cultura política.'? Seria o caso de restringir a explicação à ação nefasta das elites.DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORIOGRAFIA RODRIGO PATTO SÁ MOTTA análises de Roberto DaMatta são particularmente interessantes. a ascensão de Lula e do PT ao poder. o melhor é perdoar. como a Balaiada ou Canudos. No que tange ao período ditatorial. chama a atenção a maneira como o embate escravidão X abolição foi resolvido nos dois países: com a guerra civil.!" A força da tradição conciliatória no Brasil talvez seja uma razão para o comtismo ter encontrado tantos adeptos no país. moderadoras. enquanto na Argentina vários chefes foram julgados e condenados. No Brasil houve repressão e expurgos. Embora procure denunciar o logro implicado na conciliação. Essa é uma das principais razões porque a transição política no Brasil foi mais suave e menos dramática para os militares envolvidos com a repressão. A divisa "ordem e progresso" é síntese perfeita do espírito conciliador. Em que pesem as semelhanças. gerou "guerra de saliva". ao defender que a lógica relacional é marca central da cultura brasileira. mas com perspectiva mais critica e menos otimista. nem exclui a possibilidade de perceber a existência de outras formas de participação na vida coletiva. de maneira lenta e negociada. 1997). a transição pós-autoritária. Uma digressão: a conciliação à brasileira traz mais vantagens ou desvantagens? Considerando o saldo positivo. menos ainda negando a existência de violência política no Brasil. que. o modo como foi implantada a República em 1889. em que as lideranças políticas do velho e do novo sistema acomodaram-se com poucos choques. os resultados da crise de 1964. em que o processo foi liderado pelo Príncipe português. Ressalve-se que não se está dizendo que as nossas ditaduras são melhores do que as deles. olhando pelo outro prisma. Rodrigues (1982) atenua um pouco seu argumento. que são evitados em favor de ações gradativas. mas os regimes autoritários temperaram perseguição com cooplação. Com a Argentina há várias possibilidades de comparação. a seu ver uma manifestação mais de sabedoria do que de apatia (Freyre. reveladora da capacidade de evitar conflitos em busca de mudanças com estabilidade. intervenções militares e períodos ditatoriais. entre eles: o próprio surgimento do país independente. o que seria uma tolice. nos EUA. O recurso à conciliação. bem o sabemos. 2000). 18 19 Ressalte-se: concordar com tal linha de análise não implica a aceitação de teses racistas ou idéias sobre uma espécie de incapacidade inata dos brasileiros. em vez da guerra civil. no Brasil. Rodrigues não nega sua presença marcante na história hrasileira. No primeiro caso.

e vale a pena tentar aplicar o conceito a outras regiões. . I>. Naturalmente. malandros e heróis (1981). necessariamente. ou seja. iconografia) que não implicam. 11. e sua maior ou menor capacidade de persuadir as pessoas a identificarem-se e a agirem de acordo com tais construções. idéias. Em alguns casos. estamos na presença de uma distorção. E. Creio que a ancoragem mais segura para viabilizar a aplicação de cultura política a períodos recuados não será encontrada nas concepções de Berstein. e a identificação com os pais foi fator determinante na escolha. . Alguns autores têm defendido a existência de uma cultura política carioca (Motta. Abrem-se.~I'. Primeiro: a tendência a absolutizar a determinação cultural dos fenômenos políticos. 1999). i' i! "H " I l " 'I i: i': também? Outra questão a merecer reflexões: a modesta participação popular na política institucional tem sido pontuada por explosões de fúria e momentos de mobilização. abole a própria história. Um casal de comunistas. Pode-se afirmar que são estudos de história cultural do político. bem como os desafios ainda a enfrentar para dar solidez ao seu aparato teórico-metodológico. podem ser lembrados: a Revolta da Vacina. tanto mais problemática para o historiador porque tal tipo de leitura. o mundo europeu (e sua área de influência) a partir do século XVIII.t·: a ' *** . Além dos episódios do século XIX já referidos. Alguns dos principais autores a teorizarern sobre o tema tiveram em mente a história contemporânea quando definiram cultura política. mas por cidadãos com direito a participar dos negócios públicos.. desprezando outros fatores como o interesse e a escolha individual. pode empobrecer. destaque-se a possibilidade de exagerar uma linha de interpretação conservadora da história. em que se viram saques ao comércio em algumas cidades. será possível compreender melhor as representações políticas construídas pelas elites desses estados. retirado das experiências do autor na coleta de testemunhos orais. do tipo que aderiu dos pés à cabeça à cultura comunista. mesmo não se configurando a existência efetiva de culturas políticas regionais. para construir bases mais sólidas para o uso do conceito. as inúmeras quebras de bondes e ônibus no decorrer do século XX. ill! I ~:! •.•. Um dos desafios é investir nas discussões sobre' como aplicar o conceito a períodos da história anteriores ao mundo contemporâneo." Na lista dos riscos que o trabalho com cultura política traz. mas pode trazer conclusões interessantes.111!!. mas nem sempre há a presença de culturas políticas. cabe aos pesquisadores de tais temas e períodos investir na discussão teórica. sobretudo. é preciso tentar explicar por que o padrão de fraca atuação política é pontilhado de ocasionais picos participativos." do povo.. 21 'I 32 33 l .[.: . alguns autores têm utilizado cultura política para períodos históricos anteriores. mas está presente também o elemento da adesão. com a entronização do conceito de que o Estado deve corresponder aos desejos ~. ao invés de enriquecer.:' '. mas numa tentativa de adaptar a tipologia de Almond e Verba. como a Roma antiga (Flower. se ela for encarada de maneira absoluta. por exemplo.: '"I'. ~. 20 Roberto DaMatta propõe uma interpretação interessante para os "quebra-quebras".~:'" !'t:~ . !!1: }I I. mas apenas um manteve-se fiel até à morte. mas invariavelmente sem explicitar o modo como estão se apropriando do conceito. ~. 2006) por exemplo. . " 'I i i ! i I ! !ii A última parte deste texto é dedicada a discutir os riscos que o trabalho com a categoria cultura política implica.iT 11:. da escolha. composto não mais por súditos.' I' i]1 Í!" DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORlOGRAFIA RODRlGO PATTO sÁ MOITA . no limite. Dois deles tornaram-se também comunistas. é interessante mencionar que pesquisas sobre culturas regionais podem abrir um bom filão de análise. nosso conhecimento. E a razão é que nessa fase há transformações na dinâmica política. ou os caras-pintadas em 1992. mas. . como Minas Gerais. A categoria supõe que as pessoas tomam parte movidas por fatores culturais. i!i!! " . Para finalizar a discussão sobre as possibilidades nos estudos de cultura política. assim." ':. i'li !. a disputar a atenção de indivíduos e grupos sociais na cena pública. !!! ~jl~. .~' .1 I' I" I. Na pior hipótese. . trata-se de análises sobre representações políticas (linguagens. principalmente por meio dos conceitos de cultura paroquial e cultura da sujeição. as condições para que projetos. Seja como for. compreender por que tais momentos são tão intensos como fugazes. valores e representações políticas ganhem forma e constituam culturas políticas. na qual nada muda e tudo é eterna repetição.:r' i. a campanha popular pelas Diretas-já em 1984. a existência de cultura política. A abordagem cultural é valiosa por mostrar que os indivíduos agem movidos por outras influências além do interesse e do cálculo racional. a mobilização popular de 1962-64. teve três filhos. Se a política é presa à tradição e arraigada à cultura.. É debate polêmico.i. :rr 'I ii'. que tem duas implicações.20 a reação popular ao suicídio de Getúlio Vargas em 1954. em Carnavais. podemos ser tentados a enxergar uma história imóvel. São Paulo ou Rio Grande do Sul. não há dúvida. Outro problema é a possibilidade de incorrermos numa espécie de reducionismo culturalista.'I I~" I' d. Não obstante. Se o argumento estiver correto. Um exemplo. f~'{'.

2002:44-45). eivada de relativismo radical. No campo político. enquanto outras produzem versões mais próximas da realidade.) não é incompatível com a prova: a projeção do desejo. A não ser na vertente eurocêntrica do conceito. as culturas políticas resultam da imbricação entre práticas e representações.. através de séries eleitorais históricas. Também poderia ser averiguada a fidelidade de determinadas regiões a certos valores políticos.ê" Por exemplo. Um trabalho muito interessante foi realizado por Putnam (1996) para estudar a cultura política italiana. pairando acima e fora da dinâmica social. o terceiro não aderiu ao comunismo. Não é verdade: algumas são mais distorcidas. Tal tendência está relacionada a certo modo de encarar os laços entre representações e realidade. estudar as representações basta para alguns autores. então. sem solução visível: a questão ela realidade e da verdade.omunismo. Por isso.. pois leva à conclusão de que qualquer representação é aceitável. ela implicaria a existência de culturas políticas frágeis no país. como pensam os cépticos: no máximo poderíamos compará-Ias a espelhos deformantes. esse pode ser um traço da cultura: política brasileira: frágil cidadania. o Brasil não teria cultura política.. e que na verdade persegue a teoria do conhecimento desde suas origens.am as representações como uma espécie de fenômeno etéreo. e ao mesmo tempo interferem no seu desenrolar. Vejamos um deles: o temor ao c. abrindo caminho a golpes de Estado e a regimes autoritários. 22 Evitando tanto o relativismo quanto o cientificismo ingênuo. Enfim. freqüentemente desproporcional à força efetiva dos revolucionários. As representações estão calcadas na realidade. em comparação com a situação em outros estados da federação. é um dado a ser considerado em futuras pesquisas. Outro desafio para os historiadores interessados é a necessidade de investir mais na discussão sobre metodologias de pesquisa. a maneira mais fértil de encarar as relações entre realidade e representações é reconhecer a interdependência das duas esferas. o real só existe enquanto representação. Nessa vertente. O conhecimento (mesmo o conhecimento histórico) é possível" (Ginzburg. Mas a construção [. se as imagens da baixada santista ou do Recife como bastiões "vermelhos" nos anos 1940-1960. Como disse antes. tampouco em pesquisar os impactos que produzem na realidade. pouco enraizadas e com adesão superficial. perceber os laços intrincados que as atam de maneira forte. Essa discussão remete a uma polêmica que não é possível aprofundar aqui. sem preocupar-se em distinguir as mais próximas da realidade ou as mais fantasiosas (às vezes pura falsificação). e o olhar sensível a apenas uma das esferas é empobrece dor. a vida concreta. estão em diálogo com o mundo social. como acreditam os positivistas. 22 "As fontes não são nem janelas escancaradas. pois todas são parciais. Na historiografia recente. A análise da distorção específica de qualquer fonte implica já um elemento construtivo. fontes quantitativas podem servir para testar hipóteses correntes sobre comportamentos políticos supostamente calcados na tradição. Mas o relativismo radical deve ser evitado. testando. se é possível representar ou não o mundo. a famosa moderação dos mineiros poderia ser verificada a partir elos resultados eleitorais para disputas majoritárias. e como todas as representações são igualmente incapazes de revelar a verdade todas são válidas. às vezes falsas. Poderiam ser avaliados e contrastados os resultados obtidos por candidatos afinados com discursos (e imagens) políticos moderados ou radicais.DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORJOGRAFIA RODRIGO PATIO sÁ MOTIA Porém. correspondem à realidade eleitoral. seria politicamente "inculto". há muitos desafios. A aplicação da categoria cultura política ao Brasil merece reflexões cuidadosas. para que se possa dimensionar adequadamente as formas de manifestação de cultura política no Brasil. não é incompatível com os desmentidos infligidos pelo princípio de realidade.. mas as possibilidades que se descortinam à nossa frente são bastante instigantes. os trabalhos sobre cultura política têm privilegiado o uso ele fontes qualitativas. sem o qual não há pesquisa. nem muros que obstruem a visão. por exemplo. 23 34 35 . Segunda observação sobre o reducionismo culturalista: há estudos que enfoc. arquivados nos tribunais eleitorais. em vista dos argumentos sobre a suposta fragilidade dos laços entre os brasileiros e a política. pouco envolvimento da população com a coisa pública. sobretudo se combinados com boas análises qualitativas. De qualquer forma. Mas a utilização de dados quantitativos pode trazer bons resultados. Em suma. problemas e polêmicas envolvidos nas pesquisas sobre o fenômeno da cultura política. Nesse terreno pode-se tirar bom proveito das pesquisas e dos métodos desenvolvidos por cientistas políticos. Assim. há inúmeros exemplos para ilustrar situações em que representações imprimem rumo à realidade. essa constatação não tira a legitimidade da aplicação da categoria à história do nosso país. fazendo com que os riscos implicados no trabalho com esse campo conceitual valham a pena. Mais uma possibilidade: usar os resultados das pesquisas de opinião realizadas pelo menos desde os anos de 1950 na tentativa de encontrar padrões estáveis de comportamento e valores políticos. A seguir tal linha de pensamento. para a qual. embora tivesse relações com os pais tão boas quanto os irmãos .

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