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Fronckiwiak e Richter - Poética do Devaneio e da imaginação criadora em Gastom Bachelard

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I Seminário Educação, Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais, 5 a 7 de setembro de 2005

A poética do devaneio e da imaginação criadora em Gaston Bachelard1
Ângela Cogo Fronckowiak* Sandra Richter**

Um pouco de história2 O Grupo de Pesquisa Estudos Poéticos da Unisc, Universidade de Santa Cruz do Sul (RS), foi constituído em 2000 com o lançamento do edital Programa de Apoio à Implantação de Grupos de Pesquisa (PROGRUPE), que visa incentivar a criação de grupos a partir da articulação de áreas afins de estudo dos docentes da Universidade. Para isso, durante dois anos, o edital faculta aos professores créditos destinados exclusivamente à pesquisa. O grupo, hoje vinculado ao CNPq, tem como coordenador o prof. Dr. Norberto Perkoski, do Departamento de Letras, atual coordenador do Mestrado em Letras da Unisc, e a participação das professoras Sandra Richter, do Departamento de Educação, e Ângela Cogo Fronckowiak, também do Departamento de Letras. A grande característica do grupo – o que nos aproximou e nos mantém unidos – é nossa paixão por falar, rir, brigar, discutir, ler, sonhar e não se furtar a viver as crises desencadeadas pela aparente inutilidade das ínfimas coisas que caracterizam o ato poético. O primeiro projeto do grupo foi A poética do devaneio e da imaginação criadora, por meio do qual estudamos, durante três anos,3 a obra de Gaston Bachelard (1884-1962), procurando apreender o processo do pensamento do filósofo francês, voltado para a fenomenologia da leitura poética. Em Bachelard, o devaneio proporcionado pelas imagens poéticas advém quando essas emergem na consciência como um produto direto do coração, da alma. O método fenomenológico
Este texto foi apresentado no Seminário Educação, Imaginação e Linguagens Artístico-Culturais, promovido pelo PPGE/ GEDEST (Grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão em Educação Estética) da Unesc, entre os dias 5 e 7 de setembro de 2005, cujo principal objetivo foi congregar pesquisadores interessados pelo tema da imaginação, divulgando o trabalho dos grupos de pesquisa que já desenvolvem estudos em torno dessa temática. * Mestre em Teoria da Literatura, professora do Departamento de Letras da Unisc e integrante do grupo de pesquisa Estudos Poéticos (CNPq) da Unisc. ** Doutoranda em Educação/ UFRGS, membro do GEARTE/ UFRGS, professora do Departamento de Educação da Unisc e integrante do grupo de pesquisa Estudos Poéticos (CNPq) da Unisc. 2 A primeira e a segunda parte deste texto foram proferidas pela professora Sandra Richter. 3 O Grupo de Pesquisa Estudos Poéticos obteve prorrogação para esse projeto em 2002.
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na Educação. na extensão (em escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental. 5 a 7 de setembro de 2005 bachelardiano se constitui a partir do par repercussão/ ressonância. na Literatura Infantil e na Arte. na unidade do ser maravilhado. desse modo. que é lida. cientista. Os encontros têm uma sistemática engendrada no estudo da obra bachelardiana: cada encontro é organizado em torno de um tema (nesses seis anos foram mais de 120 temas). enquanto epistemólogo. em silêncio. os integrantes do grupo diversificam seus estudos no Mestrado em Letras. todas as quintas-feiras. O estudo teórico da obra de Bachelard e seu ''emprego'' na consecução dos Encontros com a Poesia têm auxiliado o grupo a sistematizar uma proposta para a experimentação da linguagem poética em diferentes âmbitos: na continuidade dos encontros das quintas-feiras. o grupo comenta suas ressonâncias. na graduação.I Seminário Educação. Em seguida. a princípio. Em linhas gerais. funcionários e comunidade. ouvida. cantada e repercutida pelos participantes. cada pessoa que deseja ''diz'' a sua poesia: aquela que repercutiu em sua alma e. com professores e monitores. passaram também a integrar as seleções letras de canções da MPB que são ouvidas antes da leitura de ''viva voz'' das poesias. com o público da 3ª idade) e na pesquisa com a infância. Esse aprofundamento. o par opera quando o maravilhamento proporcionado por uma imagem poética potencializa. nem explicações teóricas. que orienta a seleção dos poemas a serem lidos pelos participantes. desde 1999. Tal alegria e paixão compartilhamos com alunos. as ressonâncias. o aprofundamento de sua própria existência. matemático) quanto o noturno (amante e leitor voraz de poesia) – perseguiu em sua obra as contradições do viver. O último encontro de cada semestre é constituído apenas de uma seleção musical. professores. Há dois anos. atingindo. Atualmente. Ele ousou enfrentar os paradoxos impostos pelo vivido. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. que recusava com veemência e frieza o papel das imagens no raciocínio e na . leva o devaneador ao desejo e à alegria múltipla de falar. gerando a repercussão. incognoscível em sua integridade. nos Encontros com a poesia. apenas devaneios desencadeados pelo tema e pelas diferentes abordagens dadas a ele na seleção poemática. Não há análise. O próximo objetivo do grupo será o de agregar imagens plásticas à cada seleção. Um pouco de Bachelard Bachelard – tanto o diurno (químico. depois.

a questão da complexidade das interações infantis não provém dos aspectos observáveis e conhecidos dos materiais/ objetos. Para o filósofo. p. 80-81). Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais.I Seminário Educação. Nesse sentido. 5 a 7 de setembro de 2005 experimentação científica e. Esse duplo viver foi reunido e abarcado pela constante referência à infância: aquela que não pode se superar senão ao negar radicalmente sua ''ingenuidade''. ao pensamento abstrato que guia a criação concreta. a constituição em si mesma de planos diferenciados de profundidade que a conduzem ao extremo da sensibilidade. p. a imaginação reveste-se de importância vital na formação. o desenho. O poder criador da imaginação é sua adesão a uma materialidade. 8). estabilizam a imagem pelo pensamento'' (BACHELARD. juntarei a tudo que amo no mundo. essa síntese do não figurativo e do figurativo” (BACHELARD. aquela que funde sujeito e objeto. São a totalidade de pensamento e de imagem. é a abstração que orienta a criação e a invenção. para conservar melhor o poder do devaneio poético na infância. para ele. sob pena de esterilizar toda a imaginação – isto é – toda seiva que requer suas possibilidades de abstrair. 4 “. enquanto em processo. na linguagem específica de cada fazer. essa encarnação do homem inteligente na natureza resistente. a imaginação dinamiza o ato de conhecer em seu poder constitutivo do ser humano – enquanto pensador e sonhador – essencialmente criador porque capaz de pôr em movimento idéias e imagens para investigar o real. o objeto. Por isso. a vontade de olhar alia-se a uma imaginação inventiva que prevê uma perspectiva do oculto. pois. p. mas que também não pode deixar desaparecer a maneira direta da criança que foi. tornando a visão aguçada. Tentemos apreender essa junção do abstrato e do concreto. também. uma perspectiva das trevas interiores da matéria'' (BACHELARD. Me fazem pensar e sonhar ao mesmo tempo. ''para além do panorama oferecido à visão tranqüila. Um dos aspectos chaves do pensamento de Bachelard reside em sua afirmação de que. 1994 81). Os sentidos produzem sentidos pela vontade de olhar para o interior das coisas. 4 . .. mas do envolvimento subjetivo daquele que se entrega por inteiro às imagens que extrai dessa interação. para quem as imagens poéticas são fontes insubstituíveis de saúde do ser. naquela criança curiosa que penetra as imagens materiais. o conceito: ''as sínteses me encantam. 1990. Criamos em afinidade e empatia com ela.. 1994. mas de uma curiosidade agressiva porque inspetora. convém não infantilizar a razão. No contexto bachelardiano. penetrante. a pintura. enquanto filósofo sonhador. provocando. Já não se trata de uma curiosidade contemplativa e passiva. Abrem o pensamento pela imagem.

Do mesmo modo. pois a maior liberdade concedida aos homens é a de sonhar. No livro A poética do devaneio. O imaginário que forja uma realidade deformando as imagens primeiras. 85. mas o sonho que libera as faculdades propulsoras do imaginário.5 Bachelard afirma que um excesso de infância é o germe de um poema. uma infância que. A realidade pode e deve ser ultrapassada pelo imaginário. ciente de sua responsabilidade formadora. 1996. o acontecimento poético – que pode emergir do encontro entre criança e adulto. se esse presente não se apresenta exuberante.I Seminário Educação. realiza ao interagir com o presente exuberante da infância de nossos alunos. só possui uma existência real quando a iluminamos em sua existência poética. Um pouco de poesia6 Quando nos dispomos a pensar que nossa ação educadora exige a disponibilidade 5 6 se temos produzido excessos que possam permitir surpresa e encantamento. Isso nos faz indagar infância. de sonhar nossa Cf. que somos seres livres. carregado de tensão ou fuga. é a partir do devaneio. E. pesado. Não o sonho noturno. BACHELARD. . se temos tido a coragem. Fala apresentada pela professora Ângela Cogo Fronckowiak. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. é tarefa sim do educador. aquelas que nos são dadas pela percepção. São Paulo: Martins Fontes. segundo Bachelard. Bachelard nos ajuda a compreender que a beleza intrínseca da poesia advém do valor humano impregnado às palavras pelos poetas. É necessário que ele viva criativamente as possibilidades que o passado redivivo. entre corpo e mundo – exige de docentes e educadores a coragem de reinventar a si mesmos. A poética do devaneio. ainda hoje. matéria resgatada no discurso por meio da memória. na extrema liberdade concedida ao devaneador. Para ele. Muito mais do que metodologias e métodos. proporcionado pelo poético. criança e criança. as imagens de infância realizadas por um poeta remetem a um núcleo de infância que permanece em nós. embora apareça como história toda vez que a contamos. reinvenção que passa pela experiência de imaginar-se e fazer-se. 5 a 7 de setembro de 2005 A imaginação criadora se materializa no devaneio. Gaston. buscar meios para transformá-la. a dimensão poética exerce sua função estética emancipadora quando o educador percebe com imaginação as imagens infantis que as produções de nossa cultura são capazes de plasmar. enquanto educadores. Para nós. foram os primeiros responsáveis por nossa liberdade na infância. Os devaneios. p.

permanece como uma simpatia de abertura para a vida. sonoras. 29. uma particular e outra municipal. levávamos nossas singularidades: tintas. 7-20. Essas brincadeiras as encantavam. permite-nos compreender e amar as crianças como se fôssemos os seus iguais numa vida primeira. mais ainda que na sua realidade. de um modo muito semelhante. pincéis. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. p. papéis e uma seleção de textos musicais. 85) O trecho ilustra o que temos aprendido com as crianças nesses dois últimos anos. no qual Bachelard diz: Uma infância potencial habita em nós. nós a revivemos em suas possibilidades. a partir de empiria. visuais e culminavam com a seleção corpo: tudo em mim. agora com o objetivo de procurar responder.. 47. 2004. Ângela Cogo. Com a pesquisa Poesia e infância: a pedagogia poética de Georges Jean. ainda assistemáticos. (p. à imaginação criadora e à linguagem da poesia na infância escolar.I Seminário Educação. E tudo isso porque um dos sentidos que demos ao estudo de Bachelard. adivinhas e demonstravam especial apreço pelo jogo com as palavras da poesia. 8 Cf. infância e experiência poética na escola: janela de mim. elas brincavam com parlendas. foi o de tentar pensar o espaço destinado ao acontecimento poético.7 buscamos um diálogo entre as obras de Gaston Bachelard e Georges Jean e iniciamos. aliás. exercício de estar juntas. paralelamente. ainda em 2003. Elas nos têm levado a sentir o mesmo de outro modo e. No ano de 2004. Literatura. demos continuidade ao projeto. gustativas. Santa Cruz do Sul. Para esses encontros. Sonhamos tudo o que ela poderia ter sido. Signo. folclóricos e poéticos. denominada Eu janela de mim. principalmente quando a leitura oralizada dos textos era realizada de maneira intencionada. Desafiadas. FRONCKOWIAK. jul. As crianças nos têm feito reviver nossa “história” de infância no exercício da “lenda” de nossa imaginação poética. Temos sonhado a criança que fomos e reencontrado aquela que nos sonhou.8 No decorrer desses momentos.. que abrangia as sensações táteis. é impossível não lembrar um trecho da obra A poética do devaneio. n. v. Lisnéia B. sonhamos no limite da história e da lenda. no momento em que entregamos o relatório final do projeto A poética do devaneio e da imaginação criadora. financiada pelo edital FAP – Fundo de apoio à pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) e que obteve bolsas BIC/ FAPERGS e PUIC/ Unisc. 7 . percebemos a abertura das crianças para os jogos vocabulares e sonoros. então. que aspectos seriam mais valorizados Pesquisa coordenada pela professora Ângela Cogo Fronckowiak. (./ dez. argila caneta. 5 a 7 de setembro de 2005 para o exercício do poético enquanto reinvenção de nós mesmos. SCHRAMMEL. contato semanal com crianças de quatro a seis anos de duas escolas de Educação Infantil da região do Vale do Rio Pardo/ RS. olfativas. Quando vamos reencontrála nos nossos devaneios.) Essa infância.

qual era a amplitude de sua consciência fonológica em relação aos poemas ouvidos. vampiros. paralelismo e anáfora. 13). etc. visitas semanais a duas escolas de Educação Infantil. rima. aspectos apontados por Gaston Bachelard como intrínsecos ao devaneio poético. Infelizmente. 5 a 7 de setembro de 2005 pelas crianças ainda não alfabetizadas nos textos poéticos. realizamos. quais sejam aliteração. No contato semanal com as crianças nas escolas. Então. p.I Seminário Educação. buscando. escola particular da cidade de Santa Cruz do Sul e iniciamos um novo contato com as crianças da educação infantil do Colégio Gaspar Silveira Martins. mas ainda desconhecíamos até que ponto elas percebiam os jogos rímicos. priorizando a leitura de poemas. naquele ano. onomatopéia. A escolha da temática se definiu no contato com as crianças e em virtude do fascínio que exerce sobre elas. ou seja. líamos os poemas procurando atender a uma ''metodologia'' fundamentada na experiên cia vivida no ano de 2003. metro. também da rede particular da cidade de Venâncio Aires. com isso. junto com uma bolsista de iniciação científica. envolvendo seres como bruxas. experiência oportunizada pela leitura/ audição da poesia e que faculta ao leitor encontrar ''um não meu que me permite viver minha confiança -eu de estar no mundo'' (BACHELARD. Para a seleção Seres extraordinários. a crianças da mesma faixa etária (quatro a seis anos). a partir dos seguintes critérios: discurso predominante. Como afirmou um dos meninos: ''eu gosto porque tenho medo''. Nessa nova etapa. Convém explicitar que. 1988. privilegiamos poemas autorais e adequados à infância. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. optamos por selecionar textos poéticos que apresentassem abordagens diferenciadas sobre o tema escolhido. não foi possível manter a pesquisa na escola municipal por motivos alheios à nossa vontade. Além disso. proporcionar à criança a possibilidade de encontrar aquele poema que lhe fosse mais significativo. após intensa coleta de poemas. chegamos a 31 títulos. fantasmas. Nessa mesa. cujo tema era Seres extraordinários. supúnhamos que a audição regular de poemas levava os pequenos a experimentar a repercussão e a ressonância. continuamos realizando os encontros com as crianças da Escolinha de Arte. extensão. figuras de efeito sonoro. Na escolha. assonância. A hipótese era a de que a rima se apresentava como fator fundamental para a iniciação à fruição da linguagem poética por crianças que não lêem. tentamos manter com as crianças . comentaremos apenas alguns (poucos) resultados encontrados no que se refere à ressonância poética e à percepção da rima. Mantendo o plano engendrado pelo grupo para os Encontros com a poesia. espantalhos.

com um conjunto de 13 poemas e continuamos os encontros privilegiando apenas a leitura desses. inclusive. desse universo poético. havia aqueles cuja leitura era mais desejada pelo grupo e outros que tinham especial . verificamos que os poemas em prosa e os de versos brancos (sem rima) foram totalmente negligenciados por elas. cotejando as duas seleções. 2) repetir a leitura oral dos poemas quantas vezes fossem solicitadas pelas crianças. a cada novo encontro. Numa observação preliminar. 6) evitar expor as crianças a um tempo superior do que uma hora de audição poemática. Desse modo. pois. esse aspecto já confirma a hipótese de que a rima possui relevância para a iniciação das crianças não alfabetizadas na fruição da linguagem poética. elas se cansassem e manifestassem fadiga e inquietação corporal por permanecerem praticamente na mesma posição. os poemas que já haviam sido lidos em encontros anteriores e dos quais as crianças pediam repetição. havendo. Essa constatação fez com que.I Seminário Educação. verificamos que. mesmo sendo de escolas distintas. praticamente convergiram. a experiência anterior contribuiu para que chegássemos a algumas conclusões vinculadas aos modos de apresentação de poemas a crianças dessa faixa etária. após a leitura. É interessante perceber que as escolhas das crianças. caso as fizessem. 5) manter sempre a mesma pessoa lendo para cada grupo e. Quando as crianças já conheciam toda a seleção – os 31 poemas percebemos que. Foram elas: 1) ler poemas de forma livre. o que facilitou a tarefa de eliminar alguns textos. a partir da seleção inicial. Outro fator digno de menção é o fato de já podermos notar na predileção das crianças uma simpatia por textos de rimas mais evidentes. era comum que. tempos e espaços. 5 a 7 de setembro de 2005 a sistemática dos encontros adultos. do mesmo modo que os adultos. Ficamos. de acordo com o desejo e a disponibilidade dos pequenos. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. Essa prática veio a se mostrar infrutífera. então. alguns eram mais solicitados que outros. sentando com elas em círculos e ''brincando'' de poesia. fôssemos realizando uma triagem. declarações explícitas das crianças sobre quais poemas preferiam. Assim. finalmente. Depois de realizada mais uma série de encontros de leitura semanal. na medida em que as crianças não vivenciam. e destacássemos os textos que mais eram solicitados por elas. em nenhum momento explicitada às crianças. acompanhando o grupo em outras atividades que estivessem realizando e ouvir as manifestações orais que as crianças fizessem. 4) introduzir novos poemas da seleção a cada encontro. dentre os 13 poemas que compunham a seleção final. durante os Encontros com a poesia infantil. 3) ler bem.

É importante reforçar que a ''entrevista'' foi cutada sem nenhum constrangimento às crianças.I Seminário Educação. um primeiro ponto. PAES. Em Esse poema integra a seqüência poemática intitulada ''Quatro historinhas de horror'' (cf. de forma indireta. 9 .9 Na análise do texto. Agora. de que poemas de versos brancos (sem rima) e em prosa poética não foram priorizados. em relação às rimas. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. José Paulo. a pequena rede tecida pela rima é reforçada por outros elementos singulares. Rio de Janeiro: Salamandra. podemos constatar que. Todas as crianças que viveram o processo durante o ano realizaram a entrevista individual e sua transcrição confirma que praticamente todas se lembraram de. 5 a 7 de setembro de 2005 significado para determinadas crianças em particular. Nossa intenção foi a de checar se as respostas dadas pelas crianças na ''en trevista'' tinham relação com o que estávamos percebendo na prática. já referido. vejamos o poema mais solicitado pelas crianças das duas escolas: 2 Era uma vez um vampiro tão bem-educado. em relação às rimas. podendo ou não apresentar outros sons idênticos. As questões foram as seguintes: 1) Entre todas as poesias que eu leio. mas tão bem-educado. É isso ali: poemas adulto-infanto-juvenis. tem alguma que você quer que eu leia agora? 2) Há mais alguma? 3) E você gostaria que eu dissesse alguma outra? 4) Por que você lembra mais dessas poesias? 5) Há alguma coisa que você queira me dizer sobre as poesias? Comentando os resultados obtidos na pesquisa. Entretanto. uma conversa individual com as crianças. 1984. um poema. que toda vez que sugava o sangue de uma pessoa não esquecia de dizer: “Muito obrigado”. pelo menos. quais eram os poemas que elas mais gostavam e aqueles que elas lembravam. Esse fato nos motivou a realizar. quando não o disseram de cor. 10 As rimas externas consoantes são aquelas que apresentam identidade sonora entre consoantes e vogais em toda a sua extensão e as rimas toantes possuem identidade sonora de vogal tônica. antes de encerrarmos os encontros. o poema '' possui apenas uma rima externa consoante:10 educado/ 2'' obrigado. pois a exe seqüência de questões propostas motivava-as à interação. é possível observar. mas nunca em toda a extensão da rima. em que perguntávamos. fazendo-as expressar suas preferências de modo livre e descontraído.

no início. Ao ser indagado sobre se os poemas o levavam a desejar dizer alguma coisa. Na verdade.. ou no fim de vocábulos. por sua vez.d]. Quando eu vou na luz apagada. é interessante pensar esse contato a partir da idéia de que ele faculta a repercussão.I Seminário Educação. Além dos aspectos estruturais expostos. há alta carga de sonoridade no poema. [s. fazendo parte de suas vidas. frases ou versos seguidos. aspectos destacados como alquimia verbal poética por Georges Jean. eu pego minha lanterna e lembro dos poemas''. há necessidade de brincar o poema e de explorar suas possibilidades sonoras. pois. 99) e que aponta para o fenômeno como ''a repetição de uma mesma letra (vogal ou consoante) ou de uma mesma sílaba (ou som). usando-as a fim de satisfazer. Nesse sentido. as crianças costumavam imitar o som vocal e a expressão corporal do vampiro. Em segundo lugar. o som característico do vampiro: o [sss] está representado na aliteração11 de [z]. ele disse que com os poemas ''as crianças aprendem a não ter medo de monstro. Lisboa: Instituto Piaget. mas não idênticas (. está a temática hilária: o vampiro que aparentemente adere às regras de comportamento. é importante ressaltar o desejo e a necessidade das crianças de envolverem todo seu corpo com o poema. no meio. [s]. A audição de um poema por uma criança permite que ela crie suas próprias imagens a partir da palavra viva: vida projetada pelos poetas e lida pela viva voz do Convém explicitar que estamos entendendo a aliteração no sentido que lhe dá Trevisan (2001. sua vontade. à medida que as crianças conversam e brincam motivadas pelo poema. mas não apenas isso.) que apresentam conformidade fonética apenas entre as vogais tônicas'' (TAVARES. Na escola da poesia. está relacionada a ''seqüência de vozes e sílabas semelhantes. eu ainda tenho. p. levantando as mãos e curvando o corpo para assustar uns aos outros. por exemplo. Também o som nasal [m] auxilia essa percepção. Georges.12 Ao final da leitura desse poema. 2002. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. tão insistentemente cobradas das crianças (observem que há reiteração do sintagma ''tão bem -educado''. legítimo. Isso é perfeitamente perceptível na resposta de um dos meninos da Escolinha de Arte à última pergunta de nossa ''entrevista''.. mesmo que educadamente. 217).'' A assonância. 5 a 7 de setembro de 2005 primeiro lugar. o que contribui para sua apreensão semântica. p. A instrumentação verbal. ele ultrapassa o jogo de palavras e passa a se tornar significativo. 12 JEAN. Para elas. a poesia no corpo e na imaginação. mas já passou. conotando a densidade lúgubre e apavorante desse ser. 11 . aspecto que Georges Jean destacou em seu livro Na escola da poesia. exposto no paralelismo do segundo verso) e as subverte em benefício próprio. eu tinha muito medo de monstro. Quando eu tinha três anos. são o valor inquestionável do texto poético na Educação Infantil.

A poética do devaneio. É isso ali: poemas adulto-infanto-juvenis. nos acalantos.. O profissional que inicia a criança na poesia precisa ser atento e perspicaz. além de serem atividades lúdicas. Artigo submetido à apreciação da comissão editorial da revista Educação em Revista em janeiro de 2005. 7-20. as suas faltas. FRONCKOWIAK. Ainda e sempre há poesia. v. que a poesia pulou junto no seu pular corda. Ainda e sempre há poesia. [s. JEAN. Lisboa: Instituto Piaget. gostaríamos de dividir com vocês. Esse profissional não esqueceu. As crianças nos sinalizam. Com isso. a cada momento. José Paulo. 1990./ dez. com a poesia.I Seminário Educação. 2. Por que não deixar que elas nos falem por meio do poético? Referências Bibliográficas BACHELARD. Lisnéia. Literatura. 5 a 7 de setembro de 2005 educador. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. São Paulo: Martins Fontes. porque o poema só chega à criança por intermédio da voz adulta. Lisnéia B.47. 13 . as delícias e os dissabores do seu estar no mundo. cantou junto na monotonia monocórdica das cantigas com que foi ninado. em cada gesto. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. rodou junto no seu fazer a roda. Ângela. a ponto de reconhecer que os jogos com palavras. na sua linguagem. em sua memória e em sua imaginação. Isso porque sabe [. ______. São Paulo: Martins Fontes. Rio de Janeiro: Salamandra. Georges. chegamos a um ponto delicado e de suma importância. jul. 1994. em cada fala e em cada brincadeira que joga o som das palavras. PAES. Em análise. a crença de que a prática e a vivência da leitura poética deva estar sempre presente no espaço escolar. estarem abertas e aptas a aprenderem no movimento que. Na escola da poesia. 1988. A terra e os devaneios do repouso.Esse professor não considera a poesia uma ''atividade'' difícil para crianças de 0 a 6 anos. ed. Signo. anima seus corpos e sua imaginação. Cf. p. Gaston. Santa Cruz do Sul. nas brincadeiras e nas canções do cotidiano infantil. SCHRAMMEL. Ângela Cogo.d]. Artigo submetido à apreciação do comitê avaliador da revista Educação em Revista. 29. 2004 ______. jogou junto no seu jogo de escolher. ______. 1983.] que a poesia já faz parte da vida das crianças e está presente nos brincos. SCHRAMMEL. FRONCKOWIAK. os seus desejos. também professores. O direito de sonhar. também são atividades que permitem à criança expressar.13 Para finalizar. n. infância e experiência poética na escola: janela de mim..

Hênio Último da Cunha. Secretaria Municipal da Cultura. Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais. A poesia: uma iniciação à leitura poética. 2. 2001. Teoria Literária. . ed. TREVISAN.I Seminário Educação. Uniprom. Belo Horizonte: Itatiaia: 2002. Armindo. Porto Alegre: Secretaria Municipal da Educação. 5 a 7 de setembro de 2005 TAVARES.

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