A loucura do trabalho Dejours Primeiro livro de Christophe Dejours editado no Brasil em português. A primeira edição francesa é de 1980.

As re-edições francesas trazem muitas atualizações (rodapés) que não foram acrescentados nas re-edições brasileiras. Dejours é médico, psiquiatra e psicanalista. Dirige o laboratório de Psicologia do Trabalho no CNAM – Centre National d’Arts et Métiers – em Paris. Introdução Relações trabalho-saúde - considerações históricas: O objeto inicial de Dejours é a psicopatologia do trabalho. Ele pretende pôr em discussão "aquilo que, no enfrentamento do homem com sua tarefa, põe em perigo sua vida mental". Partindo da psicopatologia do trabalho francesa, que tem trabalhos importantes nos anos 50, Dejours vai enfocar as vivências subjetivas do trabalho, sempre diferenciadas e irredutíveis umas às outras, que dão conta das experiências concretas dos trabalhadores. Ele inicia seu livro narrando sintaticamente a história da saúde dos trabalhadores, e chama a atenção que os avanços em saúde do trabalhador só se dão por uma luta perpétua dos trabalhadores por sua saúde, pois as melhorias das condições de trabalho e saúde foram conseguidas sempre desta forma. Dejours divide a história da saúde dos trabalhadores em três momentos. 1 - Século 19, período de desenvolvimento do capitalismo industrial Neste período o importante para o trabalhador era a luta pela sobrevivência, dada às péssimas condições de trabalho existentes. O ambiente de trabalho se caracterizava pela falta de higiene, esgotamento físico, acidentes de trabalho dramáticos, subalimentação,tudo isso gerando alta morbidade (muitas doenças) e alta mortalidade (muitas mortes decorrentes de acidentes e doenças do trabalho). O tempo esperado de vida era muito mais curto que o de hoje. O sofrimento característico dessa época foi descrito na literatura com o nome de miséria operária. Como resposta a essa situação surge o movimento higienista, que vai tratar da insalubridade pública, fazendo sentir a necessidade das leis sanitárias: ele trata do que diz respeito às epidemias, aos hospitais, aos cemitérios, etc. O enfoque do higienista é altamente moralizante: propõe soluções para restabelecer a ordem moral e, sobretudo, a autoridade da família, necessária para a formação de operários disciplinados. Esta é também a época dos grandes alienistas de, como Esquirol e Pinel.

que é o aparelho mental. e partidos políticos. Surgem preocupações com dispositivos de segurança para máquinas perigosas. a semana de 40h e as férias pagas são aprovadas em 1936. e fazem com que o corpo apareça como principal ponto de impacto dos prejuízos do trabalho. Com a guerra a mão de obra fica gravemente desfalcada e ocorrem progressos em torno da jornada de trabalho. leis relacionadas a direitos de aposentadoria e outras. especialmente as exigências de tempo e ritmo de trabalho. prevenir as doenças profissionais e as intoxicações por produtos industriais. os parasitas. O Estado é chamado a intervir e surgem (na Europa) leis relacionadas à higiene e segurança do trabalho. A separação radical entre trabalho intelectual e trabalho manual. busca neutralizar a atividade mental dos operários. Na França. é aos próprios operários que se devem as principais melhorias materiais da condição operária. A reivindicação principal é a redução da jornada de trabalho. os gases e os vapores. e. os produtos industriais. imposta pelo taylorismo. associações. corpo fragilizado pela privação de seu protetor natural. "não é o aparelho psíquico que aparece como primeira vítima do sistema. Assim. sem obstáculos. As lutas operárias neste período histórico tinham essencialmente dois objetivos: o direito à vida (ou à sobrevivência) e à construção da liberdade de organização (sindical e política) necessária para estas lutas." A classe operária se organiza constituindo sindicatos. Esse segundo período caracteriza-se pela revelação do corpo como ponto de impacto da exploração."Mas a medicalização do controle social não seria suficiente. Essa modalidade de organização do trabalho surge como uma nova tecnologia de submissão. corpo explorado.Da primeira guerra mundial a 1968. Já houve alguma conquista com relação ao direito de viver e podem aparecer outras reivindicações . designados e estigmatizados. O alvo da exploração seria o corpo e só o corpo. De 1914 a . As performances exigidas são novas. progressivamente. isto é. entregue. 2 . onde os trabalhadores são numerosos (grandes empresas) e onde o trabalho tem um valor econômico estratégico (setores de ponta ou centros vitais da economia nacional). indenização por acidentes de trabalho. A preocupação principal é com a proteção do corpo: "Salvar o corpo dos acidentes. ou que corre o risco de tornar-se doente. mas sobretudo o corpo dócil e disciplinado. Corpo sem defesa. A periculosidade das máquinas. da medicina do trabalho e da indenização pelos problemas decorrentes do trabalho. os vírus e as bactérias são. gerando exigências fisiológicas até então desconhecidas. Consegue avanços onde ele é mais poderoso. as poeiras tóxicas." Após a primeira guerra. de fato. Corpo doente portanto." A discussão do taylorismo merece grande atenção da parte de Dejours. ao engenheiro de produção e à direção hierarquizado do comando. o movimento operário tenta obter melhorias da relação à saúde-trabalho.

pressão. faz nascerem amplas discussões sobre o objetivo do trabalho. Denuncia-se o taylorismo como produtor de sofrimento psíquico.. químicas. palavra de ordem fundamentalmente original. parasitas.. A reestruturação das tarefas.. o ambiente biológico (vírus. Dejours refere-se a maio de 68 como uma data representativa na história da relação de saúde trabalho. altitude. "Greves selvagens e greves de operários não qualificados eclodem espontaneamente. poeiras. Com o desenvolvimento do setor terciário as tarefas escritório tornam-se cada vez mais numerosas. A palavra de ordem da redução da jornada de trabalho deu lugar à luta pela melhoria das condições de trabalho. pela higiene e pela prevenção de doenças. e as características antropométricas do posto de trabalho." (o livro foi publicado em 1980) Há o reconhecimento da necessidade de levar em conta as reivindicações qualitativas da classe operária. vibração. Já o sofrimento mental resulta da organização do trabalho. as condições de . fungos). bactérias. No centro do discurso de maio de 68 encontramos a luta contra a sociedade de consumo alienação. como alternativa para Organização Científica do Trabalho. nuclear etc). A luta pela sobrevivência dá lugar à luta pela saúde do corpo. Elas rompem a tradição reivindicativa e marcam a eclosão de temas novos: mudar a vida. ambiente químico (produtos manipulados.1968. vapores de higiene. (. pelo menos até a atual crise econômica. A luta pela saúde do corpo conduzia a denúncia das condições de trabalho. de segurança. Emerge o tema da relação de saúde mental-trabalho como tema de reflexão das organizações operárias e dos trabalhos científicos. Essas críticas vêm não apenas dos operários mas também do patronato. inclusive pelos estudantes. irradiação. como modo de organização do trabalho desumanizante. A isso se somam as vozes dos operários e dos trabalhadores do setor terciário e das indústrias de processo (petroquímica. etc). cimenteiras. 3 . O trabalho foi reconhecido como causa principal da alienação. A sensibilidade às cargas intelectuais e psicossensoriais de trabalho prepara o terreno para as preocupações com a saúde mental. e acentua a dimensão mental do trabalho industrial. fumaças etc). pela segurança.Após 1968. Por condições de trabalho entende-se o ambiente físico (temperatura. A luta pela sobrevivência condenava a duração excessiva do trabalho. é progressivamente o tema das condições de trabalho que se depreende das reivindicações operárias na frente pela saúde. Surge aí uma nova preocupação com a saúde mental. barulho. sobre a relação ao homem-tarefa.) que mergulha patronato e o Estado numa verdadeira confusão. gases tóxicos. muitas vezes à margem das iniciativas sindicais.

numa linha de pensamento aparentada do behaviorismo. temerário. Para fazer frente a esse medo. de literalmente “ir para baixo da ponte”. Em psicopatologia do trabalho. uma vez que o sofrimento operário é mal conhecido tanto pelos que estão fora da fábrica. Para ele haveria uma negação da doença na medida em que ela traz consigo ameaças graves de ser colocado à parte. Dejours termina a Introdução dizendo que seu projeto é difícil. as relações de poder. Dejours não busca de explicar o comportamento. qualifica uma orientação da direção do prazer. para estudar as ideologias defensivas. Nesta análise. gestos. cadencias e comportamentos produtivos. fala inicialmente do subproletariado: a população que ocupa as favelas. acentuou-se os comportamentos humanos. a população da periferia das grandes cidades. ritmos."Por organização do trabalho designamos a divisão do trabalho. o sistema hierárquico. ou não consegue levantar da cama. como pelos próprios operários. tomando então como exemplo o caso da população de conjuntos habitacionais franceses (semelhante a grupos favelados). Dejours descreve as características das ideologias defensivas. as questões de responsabilidade etc. Livre.As estratégias defensivas. conteúdo da tarefa a (na medida em que ele dela deriva). O sofrimento preocupa no que ele tem de empobrecedor. Dejours descreve a reticência maciça dessa . de perder a inserção social que ainda se tem. que estão ocupados em seus esforços para garantir a produção. quando leva à anulação de comportamentos livres. mas os efeitos (psicodinâmicos) da imposição de atos diversos: movimentos. Capítulo 1 . Por comportamento livre entende um padrão comportamental que contém uma tentativa de transformar a realidade circundante conforme o desejo do próprio sujeito. as modalidades de comando. Dejours quer elucidar o trajeto que vai do comportamento livre ao comportamento estereotipado.” A psicopatologia do trabalho. Dejours. que tem uma situação de saúde muito precária. Ele descreve uma ideologia defensiva relacionada à vivência dessa população em relação à doença. a população pobre não admite estar doente até o limite em que não pode mais trabalhar. Assim se explicaria um comportamento insólito: o de só aceitar buscar tratamento médico quando a doença já se tornou muito grave. Essa população se caracteriza pelo não trabalho e pelo subemprego. ou seja. mais que um estado.

coisas que se prefere não saber. como a dos trabalhadores da construção civil. um grande risco de cair mais fundo na miséria.têm sempre um caráter vital. . mas também da família dos vizinhos". a ideologia defensiva torna-se obrigatória. somente o corpo que trabalha. assustam. . ocultar uma ansiedade particularmente grave. o corpo trabalhador da mulher são aceitos. recusas regras de segurança). devem obter a participação de todos os interessados. o corpo só pode ser aceito no "silêncio dos órgãos". mecanismos de defesa elaborados por um grupo social particular. .população em falar da doença e do sofrimento. que relaciona a doença à preguiça e vagabundagem. . aquele que não contribui ou que não partilha do conteúdo da ideologia é excluído. Esta observação é de grande .são dirigidas para a controlar a ansiedade produzida pelo reconhecimento de perigos reais e não contra a angústia proveniente de conflitos intra-psíquicos. e os torna impotentes.para serem funcionais. o corpo produtivo do homem. é antes de tudo um problema de ânimo. Dejours descreve então o que ele chama de ideologia da vergonha. A doença. para essa população. "Sarar. que gera medos específicos. Calar a dor é controlar a angústia. e principalmente o hospital. Há uma concepção coletiva da doença. substitui os mecanismos de defesa individuais. tenta-se esconder o fato dos outros. Para o homem a doença corresponde sempre à "vergonha" de parar de trabalhar. Para que a doença seja admitida é preciso que esta tenha atingido uma gravidade tal que impeça de manter a atividade de trabalho.Para esta população. para serem operatórias.Para manter a coerência do mecanismo é preciso evitar as consultas médicas.são coletivas. O hospital pode fazer descobrir coisas muito graves. As ideologias defensivas têm como características: . Quando se chega a admitir a doença ele vivida como vergonhosa sendo dadas para ela numerosas justificativas. no subúrbio. . Nestes casos a defesa vai contra a organização do trabalho. que passa freqüentemente pela perda do emprego.são específicas. . necessário.são funcionais e têm por objetivo mascarar. como se fosse preciso se desculpar. que vive uma situação assustadora comum a todos desse grupo específico. o medo das conseqüências da doença." Sarar é principalmente não sofrer. e tanto mais aceitos quanto menos se tiver necessidade falar deles. devem apresentar uma certa coerência (resistência as proteções médico sanitárias. própria desse meio. recusar cuidados. . Neste mesmo livro.Parar de trabalhar significa. domesticar a dor. . Dejours vai descrever também ideologias defensivas profissionais .E há uma relação clara entre doença e não-trabalho. . "Quando se está doente.

"A individualização. porque ela anula as defesas coletivas. a uma diferenciação do sofrimento de um trabalhador e de outro. Pode até colocá-los em oposição uns aos outros: "Ultrapassado pelas cadências. o prêmio por produção.importância clínica." Face ao trabalho por peças. os operários são confrontados um por um. paradoxalmente. ao prêmio por produção. Dejours descreve alguns momentos ou situações em que os operários conseguem produzir algumas resistências coletivas contra o tempo. como padrão. ou de certos trabalhos de informática ou de bancos. através da anulação dos chamados "tempos mortos". permitindo compreender por que um indivíduo isolado de seu grupo social se encontra brutalmente desprovido de defesas face à realidade com a qual ele é confrontado. Ao eleger um modo operatório mais rápido como aquele a ser seguido por todos. o operário está só. nem obra coletiva. as cadências e a . Não há mais lugar praticamente para as defesas coletivas. a OCT isola cada operário dos demais. o operário que 'atrasa' atrapalha os que estão atrás dele na corrente dos gestos produtivos. o que tem sido menos comentado. Além disso. dando o exemplo do trabalho repetitivo como aquele da linha de produção. Dejours contrapõe os mecanismos de defesa individuais. o ritmo. porque ela apaga as iniciativas espontâneas. cuja organização é rígida e domina não somente a vida durante as horas de trabalho. à aceleração das cadências. A Organização Científica do Trabalho expropria o saber operário.. individualmente e na solidão. Refere-se ao trabalho taylorizado. como é o caso da construção civil ou da pesca marítima. mesmo se ela é antes de tudo uniformizante. Na organização taylorista não há mais tarefa comum. mas também o tempo fora do trabalho. a OCT opera uma redução da dimensão psicológica e mental do trabalho. o sofrimento que a organização do trabalho (taylorizado) engendra exige respostas defensivas fortemente personalizadas. No entanto esses momentos de redução de ritmo de trabalho são na realidade uma etapa do trabalho durante a qual agem operações de regulagem destinadas a assegurar a continuidade da tarefa e a proteção da vida mental do trabalhador. A estes mecanismos de defesa que são coletivos. e anula a liberdade de invenção.” pela própria estrutura desta organização do trabalho. busca também. Por causa do fracionamento da coletividade operária. às violências da produtividade. porque ela quebra as responsabilidades e o saber.. sem modulações individuais. por exemplo . a individualidade conduz. anular a variedade de modos operatórios de uma mesma atividade. A proposta da Organização Científica do Trabalho (OCT) tem por objetivo o aumento da produtividade." O trabalho por peças." Apesar de toda essa violência.

não há somente uma contaminação. nos fins de semana ou nas férias.Que sofrimento? Dejours observa no discurso dos trabalhadores 2 sofrimentos fundamentais que produzem 2 sintomas: a insatisfação e a ansiedade (ou medo). isto é. emergem uma vivência e um sofrimento que podemos tentar esclarecer. repartida de equilibrada em função das aptidões e do cansaço do trabalhador por intermédio da programação intelectual espontânea do trabalho. Neste edifício hierarquizado. Esses sentimentos se condensam numa vivência depressiva dominada pelo cansaço. mas antes uma estratégia. o corpo obedecia ao pensamento. Mas. Longe do trabalho. a falta de qualificação e de finalidade do trabalho. destinada a manter eficazmente a repressão aos comportamentos espontâneas que marcariam uma brecha no condicionamento produtivo. seja quando necessitam de licenças de saúde ou um outro afastamento temporário . o lugar do desejo do prazer. O trabalho repetitivo ataca violentamente em a dimensão psíquica: "para o operário-artesão prétayloriano. . portadora de uma injunção despersonalizante. Capítulo 2 . Esse cansaço não se origina a só dos esforços físicos.organização do trabalho. o operário mantém-se vigilante para não deixar apagar o condicionamento mental e o comportamento produtivo duramente aprendido. o lugar da atividade cognitiva e intelectual . Mais difícil que a manutenção da própria performance produtiva. O sistema Taylor age. é a fase de treino que a precede. Assim. seja tirando férias. mas do esforço de realizar uma tarefa anulando seu conteúdo significativo. de alguma maneira. quer em relação ao sujeito quer em relação ao objeto. que por sua vez era controlado pelo aparelho psíquico. modulada. Nada é mais penoso do que a adaptação a uma tarefa repetitiva nova. é sobretudo individualmente cada operário deve se defender dos efeitos penosos da organização do trabalho . dotado de uma história personalizada. por subtração do estágio intermediário. na linha de produção." Dejours descreve ainda como conseqüência a contaminação do tempo fora do trabalho pelas estruturas que o trabalhador foi obrigado a produzir para se defender. No discurso dos trabalhadores repete-se o tema da indignidade operária: tarefas desinteressantes sentimento de inutilidade. e a organização do trabalho. tudo se passava como se o trabalho físico. a atividade motora. da imaginação e dos afetos. fosse regulada. Isso explica por que alguns trabalhadores recusam-se a parar de trabalhar." "Do choque entre um indivíduo.

Ser colocado em postos de trabalho mais duros ou tranqüilos. (Se fulano é psicólogo. Esse outro a quem o trabalhador se dirige é tanto exterior e real quanto interiorizado. mais a divisão do trabalho é acentuada. Não se pode esquecer aí o salário que contém numerosas significações tanto concretas quanto abstratas. quanto mais a organização do trabalho é rígida. O investimento narcísico só pode se renovar graças ao investimento objetal e vice-versa." "Da análise do conteúdo significativo do trabalho é preciso reter a antinomia entre satisfação e organização do trabalho. menor é o conteúdo significativo do trabalho e menores as possibilidades mudá-lo. "O sofrimento começa quando a relação homem-organização do trabalho está bloqueada. Do mesmo modo. mais ou menos valorizados. em relação às lutas atuais ou latentes. a significação da tarefa em relação a uma profissão e o estatuto social implicitamente ligado ao posto de trabalho determinado. Para cada trabalhador essa dialética do objeto é específica e única. tem significação em relação a fábrica.O conteúdo significativo do trabalho em relação ao sujeito. econômica e política. Entra em consideração no conteúdo significativo do trabalho em relação ao objeto a produção como função social. Mesmo se o engajamento pessoal no objetivo social da produção não é possível. não há jamais neutralidade dos trabalhadores em relação ao que eles produzem. refere-se à dificuldade prática da tarefa a. O homem procura transformar o trabalho aproximando o trabalho daquilo que pode lhe trazer mais satisfação. A tarefa pode veicular mensagens simbólica para alguém. quando o trabalho rígido. isto é. Responder a um não implica necessariamente responder simultaneamente ao outro. isso se torna muito difícil gerando grande cansaço. Observe-se que o essencial da significação do trabalho é subjetivo e apenas uma parte dessa relação é consciente. quando o trabalhador usou o máximo de suas faculdades intelectuais. quando o trabalhador usou de tudo que dispunha de saber e de poder na organização do trabalho e quando ele não pode mais mudar a tarefa. um objeto." . (. os significados do trabalho afetam as relações sociais e familiares do trabalhador. o sofrimento aumenta. psicoafetivas.. isto é: quando foram esgotados os meios de defesa contra a exigência física. o que isso me diz dele?) O conteúdo significativo do trabalho em relação ao objeto refere-se aos investimentos simbólicos e materiais destinados a um outro. Correlativamente.) A certeza de que o nível atingido de insatisfação não pode mais diminuir marca o começo do sofrimento. de aprendizagem e de adaptação.. Via de regra.

de contraintes carga de trabalho . em francês. etc. A carga de trabalho tem componentes de carga física. Mas não é avaliada a relação do trabalhador com seu trabalho. do grupo emana. . a insatisfação reaparece. as tarefas prescritas e as principais exigências do posto de trabalho." Dejours se refere aqui a uma relação sutil entre as características ergonômicas do trabalho e a economia psicossomática dos trabalhadores. a colocação de um assento regulável . a intensificação de iluminação. um trabalho de alta exigência física pode ser agressivo. exigências da tarefa . do mesmo modo a exigência de alta responsabilidade. problemas. E. em muitos casos. em francês. Esta carga resulta de um confronto do trabalhador com a tarefa que deve ser analisado levando-se em conta os componentes subjetivos e as estruturas de personalidade destes trabalhadores. Para evitar equívocos na avaliação da vivência subjetiva do trabalho pode-se recorrer às vivências subjetivas coletivas. em geral.também chamadas.também chamadas. como a melhoria da posição do trabalhador no posto de trabalho. Dejours afirma que "a discordância vivências subjetivas-estado de saúde é observada sobretudo na economia individual de um sujeito. de astreintes) A insatisfação em relação ao conteúdo significativo da tarefa engendra um sofrimento cujo ponto de impacto é. uma certa carga de trabalho. Muitas vezes. para os trabalhadores. após um alívio momentâneo. o alívio trazido pela correção ergonômica . etc. uma vivência subjetiva coletiva que envolve as variações individuais. a atenuação do barulho. Se. em oposição ao sofrimento resultante do conteúdo ergonômico da tarefa." Esse conteúdo pode ser conhecido numa análise (ergonômica) do posto de trabalho em que se estuda o ambiente físico. que incide sobre o corpo. em primeiro lugar no corpo (doenças conseqüentes de uma desorganização psicossomática). Se estas necessidades são desrespeitadas podem surgir sintomas. O alívio da carga de trabalho permite a intensificação da produtividade. de carga psicomotora e também de carga psíquica.O sofrimento proveniente do baixo conteúdo significativo do trabalho é bem conhecido. Em geral tais análises geram resultados positivos e pontuais. "Mas existe um outro componente da insatisfação totalmente desconhecido: a aquele que resulta da inadequação da relação homem-conteúdo ergonômico do trabalho. antes de tudo.é recuperada pela organização do trabalho. mental.por exemplo. As exigências da tarefa representam. A vivência subjetiva do trabalho pode não acompanhar as melhorias objetivas implantadas. para alguns. Ao contrário. para outros pode ser equilibrador.

Para falar do medo Dejours apresenta um exemplo da indústria química. independente da vontade do trabalhador. grades de proteção em lugares altos.. Freqüentemente o risco é coletivo. O risco é coletivo na maioria das situações de trabalho em que vários operários colaboram na mesma tarefa. O assunto nesse capítulo é o medo. Contra esse medo e a impressão dolorosa de que ele deve ser. que responde a aspectos concretos da realidade e exige sistemas defensivos específicos.. Assim para estudá-las é preciso procurar pelos sinais indiretos. capacetes. um conceito que não é psicanalítico. Em todos estes casos. De qualquer maneira ha um risco residual que não é completamente eliminado pela organização do trabalho e que deve ser assumido individualmente.Capítulo 3 . seja devido à limitação dos investimentos necessários e que seja por que o risco o suas manifestações são mal conhecidos. Algumas categorias profissionais são expostas a riscos relacionados a integridade física. gera uma carga de trabalho psíquica inerente ao trabalho perigoso. É o caso da construção civil. Mas esse perigo real tem repercussões a nível mental. O medo está presente em todos os tipos de ocupação profissional..Trabalho e medo.). Mesmo se o risco é combatido por medidas e regras de segurança. que são justamente esses sistemas defensivos. os trabalhadores elaboram defesas específicas. podendo ocasionar acidentes que envolvem vários trabalhadores.. quase sempre temos uma prevenção incompleta. . bem ou mal. da pesca em alto-mar. assumido individualmente. os riscos estão relacionados ao corpo do indivíduo.. Quando essas defesas são muito eficazes praticamente não se encontra mais nenhum indício de medo no discurso do trabalhador. O risco é muitas vezes inerente ao trabalho. Existem medidas de proteção chamadas de "equipamentos de proteção individual" (máscaras. Dejours observa que são eficazes apenas as medidas de proteção chamadas de "proteções coletivas". Nestas indústrias como outras existem riscos para a integridade física que são freqüentemente estudados. O problema do medo do trabalho surge desta oposição entre a natureza coletiva e material do risco residual e a natureza individual e psicológica da prevenção a cada instante de trabalho. dos trabalhos em profundidade etc.) e "equipamentos de proteção coletiva" (sistemas de exaustão para todo um ambiente. botas.

com os trabalhadores. Dejours volta a apontar as características da ideologia defensiva repetindo as características que já haviam sido mencionadas no capítulo 1: a pseudoinconsciência do perigo. Capítulo 4 . O perigo existe. a exclusão daqueles que não participam de sistema defensivo e a necessidade. Capítulo 5 .Um contra exemplo: a aviação de caça.Mas. O essencial da ansiedade deverá então ser assumido individualmente. não ha grande possibilidade de se produzirem defesas coletivas. Dejours vai descrever como uma situação de alto risco pode ser prazerosa e relaciona isso às condições específicas de personalidade daqueles que procuram essa ocupação. Nesta ocupação existe um comportamento insólito conhecido como resistência dos trabalhadores as normas de segurança. em algumas situações não se observa o medo através de nenhuma expressão direta. Para falar de sinais indiretos do medo de Dejours vai dar o exemplo da ideologia ocupacional defensiva que se observa no caso da construção civil. o valor funcional da ideologia defensiva em relação à produtividade. Neste caso. Dejours analisa esse comportamento como uma fachada que pode se desmanchar e deixar emergir uma ansiedade imprevista e dramática num momento de desafio. Neste capítulo. com as chefias. O trabalhador se comporta como se ignorasse ou desprezasse o risco. .. O trabalho na linha de montagem com na produção por peças e metas predefinidas também gera medo.A exploração do sofrimento. com supervisão. em que haja uma divisão de tarefas. Nesta situação adquirir uma habilidade é extremamente custoso. de um trabalho feito em equipe. para sua elaboração. Deve-se então procurar pelos sinais indiretos do medo. Diz Dejours: "é o que alguns psicólogos chamam de resistência a mudanças!" Como relação de trabalho considera-se todos os laços humanos criados pela organização do trabalho: relações com a hierarquia. Estes são absolutamente necessários. Após haver adquirido um certo hábito e um certo controle de seu posto de trabalho os trabalhadores apegam-se a estes hábitos de modo não perder tais vantagens através de uma mudança qualquer. E. mas os trabalhadores não parecem ter medo. no setor de serviços é freqüentemente dessas relações de trabalho que se origina o medo. o caráter coletivo do sistema defensivo. como não há trabalho feito em grupo. A vivência do medo existe mas encontra-se contida pelos mecanismos de defesa. A situação de trabalho por produção é completamente impregnada pelo risco de não acompanhar o ritmo imposto e "perder o trem".

As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor. A telefonista transforma-se na artesã do seu próprio condicionamento. onde a frustração alimenta a disciplina . . Além dos casos já tratados nos capítulos anteriores Dejours traz neste capítulo o sofrimento das telefonistas e o sofrimento dos trabalhadores da indústria petroquímica. Quanto mais ela se enerva. os comportamentos condicionados não apenas são conseqüências da organização do trabalho. o sofrimento resulta da organização do trabalho robotizante. No caso dos trabalhos repetitivos. a telefonista tem interesse de orientar esse energia para uma adaptação à tarefa. No caso das telefonistas o sofrimento proveniente da insatisfação pode ser usado para aumentar a produtividade. Esta agressividade vai ser explorada pela organização do trabalho." No caso da irritação contra o assinante desagradável a única maneira de livrar-se dele é reduzir o tempo da comunicação. são utilizados especificamente para aumentar o ritmo de trabalho.De uma geral.base do comportamento condicionado discutido no capítulo 2. que ela é favorável à produção. por intermédio de um retorno contra si mesma. Impedida de encontrar uma saída direta. que expulsa o desejo próprio do sujeito. essa agressividade é voltada contra si mesma. mas os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. Na discussão da ideologia defensiva. Dejours já afirmou que ela é funcional. é implantado um círculo vicioso. O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento em si mesmo. empurrar o interlocutor para desligar mais depressa. mas estruturam toda a vida externa ao trabalho. pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. De maneira que a única saída para agressividade é trabalhar mais depressa . No caso da indústria petroquímica o medo pode ser a engrenagem determinante da organização do trabalho. Devido a um processo que transforma agressividade em culpa. No caso das telefonistas. Diversos aspectos da organização do trabalho produzem na telefonista uma irritação. mais se sente agressiva e mais deve intensificar auto-repressão. a doença física só pode ser prejudicial à produção e à rentabilidade da empresa. Dejours descreve assim o destino dessa agressividade: "Diante da necessidade de respeitar a realidade. contribuindo para submeter os trabalhadores aos critérios da produtividade O sofrimento mental pode ser um intermediário necessário à submissão do corpo. assim como a tensão e o nervosismo. A frustração e agressividade resultantes. Mas com relação ao sofrimento psíquico não se observa essa mesma relação.

o sofrimento é razoavelmente bem controlado pelas estratégias defensivas. podem ser utilizadas pela organização do trabalho para aumentar a produtividade. Mudanças freqüentes para diferentes postos de trabalho. e que podem se repetir. provocado pela organização do trabalho. por sua vez. proveniente da prática. são em geral mantidos dentro da tolerância do coletivo de trabalho. Dejours afirma que o medo serve à produtividade. uma das propostas das atuais tecnologias de gestão (polivalência). A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos. O medo partilhado cria uma verdadeira solidariedade na eficiência. que não se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem. na abordagem psicopatológica da organização do trabalho. os níveis de exigência. Dejours pretende mostrar agora como funcionam os sistemas de defesa colocados em prática para conter e sofrimento. Mas pode acontecer que um trabalhador. esse saber pragmático tem lacunas que produzem um grande mistério sobre o andamento da produção. uma vez que ninguém pode saber tudo com mesmo grau de competência." Com raras exceções não se observa nenhuma doença mental caracterizada como conseqüência do trabalho. por exemplo. A punição sistemática é a exclusão imediata do trabalho. a qualquer incidente no desenvolvimento do processo de produção. Mesmo intenso. Tendo descrito situações diversas de sofrimento psíquico não reconhecido. As estratégias defensivas. . A questão é saber se a exploração do sofrimento pode ter repercussões sobre a saúde dos trabalhadores. Quando o trabalhador é mudado de função. Quando ocorrem descompensações. pois ainda não conhece os macetes. tem mais medo.A organização do trabalho e a doença. veremos que o trabalho deve assegurar uma verdadeira "assepsia mental". pois esse tipo de atmosfera de trabalho faz com que os operários estejam especialmente sensíveis e atentos para qualquer anomalia. Por estes exemplos mostra que o ritmo de trabalho. isoladamente. O saber teórico das chefias técnicas também deixa lacunas e os operários sabem disso. é que a exploração mental seja fonte de mais-valia nas tarefas desqualificadas cuja reputação é de serem estritamente manuais. não consiga manter os ritmos de trabalho ou manter seu equilíbrio mental. O medo aumenta com a ignorância. Capítulo 6 . para impedir que se transforme em patologia. O risco diz respeito a todo mundo. Se acrescentarmos a esse mecanismo de exclusão certas técnicas de seleção de pessoal. essas são detectadas através dos critérios de rendimento na produção.Embora haja um saber o operário importante. Dejours dá dois exemplos. do mesmo modo que podemos observar a exploração da força física. "Talvez o mais insólito. um do trabalho na indústria eletrônica outro da fábrica de automóveis Renault. tende a aumentar o medo.

Problemas crônicos de uma vida mental sem saída. mantidos pela organização do trabalho. sem substrato orgânico. Deve-se levar em consideração três componentes da relação homem-organização do trabalho: a fadiga. Duas soluções são possíveis: largar o trabalho. a consolidação de uma fratura ou da cura de uma intoxicação aguda.Forçosamente a saída será individual. trocar de posto ou de empresa. ou pela persistência anormal de um sintoma que apareceu depois do acidente. A consulta médica termina por disfarçar o sofrimento mental: é o processo de medicalização em que se procura não somente deslocamento do conflito homem-trabalho para um terreno mais neutro. mas também a desqualificação do sofrimento mental. O sofrimento mental e a fadiga são proibidos de se manifestarem numa fábrica. A organização do trabalho pode favorecer o surgimento de uma descompensação. ou seja. através do acidente. ou faltar freqüentemente ao trabalho. a virilidade e o desafio ao medo teriam mostrado. Por isso o trabalhador deverá apresentar um atestado médico. e a organização do trabalho como correia de transmissão de uma vontade externa. Convencido da . adquirida muito antes engajamento na produção. O estudo de numerosos casos clínicos mostra que esta síndrome atinge freqüentemente os operários da construção civil e os trabalhadores com tarefas perigosas. em geral. da estrutura de personalidade. Muitas vezes esses sintomas subjetivos impedem o retorno ao trabalho. em última instância. A estrutura de personalidade pode explicar a forma sob a qual a aparece a descompensação e seu conteúdo. sua impotência para proteger o operário. As descompensações psicóticas e neuróticas dependem. Mas não é suficiente para explicar o momento em que essa descompensação surge. após a cicatrização de uma ferida. Só a doença mental é admissível. que se opõe aos investimentos das pulsões e às sublimações. Essa síndrome aparece. Dejours apresenta exemplos de relações entre o trabalho e as possibilidades da clínica psicoterápica. o sistema frustração e agressividade reativa. Se a psicoterapia progride isso acarretará como conseqüência a perda do emprego. Dejours afirma que a exploração do sofrimento pela organização do trabalho não cria doenças mentais específicas. A coragem. Refere-se também ao caso da "síndrome subjetiva pós-traumática”. Não existem psicoses do trabalho nem neuroses do trabalho. tem provavelmente um efeito que favorece as descompensações psiconeuróticas. Uma das questões que aborda á relativa ao modo como a necessidade do paciente de manter uma ideologia defensiva ativa pode impedir a o tratamento psicoterápico. A referência à ideologia defensiva das profissões da construção civil permite estabelecer uma explicação psicopatológica: tudo se passaria como se o acidente comprovasse a ineficácia da ideologia ocupacional. que faz com que o aparelho mental perca sua versatilidade. Caracteriza-se por uma grande variedade de problemas funcionais. que deixa sem saída uma parte importante de energia pulsional. que geralmente é acompanhado por uma receita de remédios.

de seu determinismo antes de tudo sócio-profissional e não psicoafetivo. Seu sentido e significado não podem ser desvelados pela história passada do sujeito. Dejours vai ainda tratar deste capítulo do modo como a impossibilidade de lidar com sofrimento no trabalho pode acarretar o aparecimento de uma doença psicossomática. Contra uma angústia do trabalho. enfrentar individualmente o perigo. Conclusões Hipótese do livro : a organização do trabalho que exerce sobre homem uma ação específica de impacto sobre o aparelho psíquico. a partir de então. os operários elaboram estratégias defensivas fazendo com que o sofrimento não seja imediatamente identificável.realidade do risco e excluído da ideologia ocupacional. na natureza das condições e da organização do trabalho. provavelmente. Para ele a organização do trabalho pode ser causa de uma fã agilização sua má ética na medida em que ela pode bloquear os esforços do trabalhador para adequar o modo predatório as necessidades de sua estrutura mental. ao contrário. Tarefas taylorizadas – produzem a síndrome subjetiva da fadiga nervosa e a síndrome de contaminação pelos comportamentos condicionados quando a relação organização do trabalho é favorável ao invés de ser conflituosa é porque pelo menos uma das duas condições seguintes é realizada: . quando a relação homem trabalho é bloqueada. O trabalho repetitivo cria insatisfação e o trabalho perigoso cria medo. A impossibilidade de analisar essa síndrome resulta. no trabalho. Somente uma doença mental caracterizada permitiria a aquisição de um status de invalidez. O sofrimento de natureza mental começa quando o homem. já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-lo mais conforme as suas necessidades fisiológicas e a seus desejos psicológicos. ele fica mascarado por uma ideologia defensiva de profissão. assim como contra a insatisfação. Mas recusar-se a retomar o trabalho por ansiedade ou medo equivaleria à demissão sem indenização nem pensão. residem. Nessas condições compreende-se que o trabalhador acidentado recuse energicamente retomar o trabalho. isto é. o trabalhador acidentado deverá.

do ritmo de trabalho e do modo operatório é. deixada ao trabalhador. os mecanismos de defesa empregados contra ele. ou melhor. motoras ou psico-sensoriais da tarefa estão de acordo com as necessidades do trabalhador.. . . Desalienação como proposta de transformação social.as exigências e intelectuais. em parte. em alguns casos se revelam propícios a produtividade.O conteúdo do trabalho é fonte de uma satisfação sublimatória: situação rara onde a concepção do conteúdo. O sofrimento. de tal maneira que o simples exercício da tarefa está na origem de uma descarga e de um prazer de funcionar.

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